Palavras do editor
A obra A Beleza Artística do Alcorão foi publicada pela Adhunik Prokashoni pela primeira vez em 1997, e sua segunda edição foi publicada em 2001. Há cerca de três meses, o senhor tradutor trouxe-nos a obra para a publicação de sua terceira edição. Tendo adquirido do tradutor os direitos de tradução, estamos publicando sua terceira edição.
Assim como o autor será recompensado pelo Deus Todo-Poderoso por apresentar este Alcorão, revelado por Allah, por meio de um estilo literário incomparável, ele também se tornou imortal aos olhos da atual comunidade muçulmana. Ao mesmo tempo, seu tradutor também permaneceu envolto na rede da gratidão por oferecer esta extraordinária obra aos falantes da língua bengali.
A Khairun Prokashoni também permaneceu envolta na rede da gratidão por oferecer esta obra.
Ao publicar esta obra, a Khairun Prokashoni continua cumprindo a promessa que fez à nação de oferecer-lhe boas obras.
Editor
Breve apresentação do autor
Nome e ascendência: Seu nome é Sayyid. Qutb é o título de sua linhagem. Seus antepassados vieram da Península Arábica e começaram a viver em um lugar chamado Musa, no norte do Egito. Seu pai chamava-se Haji Ibrahim Qutb. Sua mãe chamava-se Fatima Husayn Uthman. Ela era uma mulher extremamente devota e temente a Allah. Sayyid Qutb nasceu na casa paterna, na sexta-feira, 20 de janeiro de 1906. Era o filho mais velho. O segundo era Muhammad Qutb. Depois, havia três irmãs: Hamida Qutb, Amina Qutb; o nome da terceira irmã não é conhecido.
Vida acadêmica: conforme o desejo de sua mãe, ele memorizou o sagrado Alcorão (hifz) ainda na infância. Depois, foi matriculado na escola primária da aldeia. Naquela época, havia uma lei segundo a qual, se alguém quisesse que seu filho estudasse na Universidade de Al-Azhar, no Egito, primeiro deveria fazê-lo memorizar o Alcorão. Como seus pais desejavam ardentemente que seu filho mais velho, Sayyid, estudasse em Al-Azhar, fizeram dele um hafiz do Alcorão. Mais tarde, seu pai, Musa, deixou a aldeia e passou a morar em Helwan, nos arredores do Cairo, onde o matriculou na madrasa Tajhiziyyatu Darul Ulum. Essa madrasa só aceitava alunos que, depois de se formarem ali, desejassem ingressar na Universidade do Cairo. Em 1929, ele concluiu o curso nessa madrasa com distinção e ingressou em Darul Ulum do Cairo, atualmente chamada Universidade do Cairo. Em 1933, formou-se em Letras nessa universidade e obteve o diploma em Educação. Naquela época, esse diploma comprovava que o rapaz era extremamente talentoso.
Vida profissional: depois de obter o diploma na universidade, foi nomeado professor na própria instituição. Após lecionar com sucesso durante algum tempo, foi nomeado inspetor escolar subordinado ao Ministério da Educação. Esse era um cargo muito respeitado no Egito. Em 1949, o próprio Ministério da Educação o enviou aos Estados Unidos para obter um diploma superior de pesquisa na área da educação. Após dois anos de estudos e pesquisas, retornou ao país em 1951. Durante sua permanência nos Estados Unidos, observou a situação deplorável da sociedade materialista e passou a acreditar firmemente que somente o Islã poderia, em sentido literal, conduzir a sociedade humana ao bem-estar.
Depois, ao retornar ao país, começou a realizar um amplo estudo e uma extensa pesquisa sobre o Islã. Dessa pesquisa resultaram “A representação do Dia da Ressurreição no Alcorão” e “A beleza artística do Alcorão”.
Adesão ao movimento islâmico: assim que retornou dos Estados Unidos, examinou os objetivos, as finalidades e o programa do movimento islâmico chamado Irmãos Muçulmanos e, considerando-os satisfatórios, tornou-se membro do grupo. Em julho de 1952, foi eleito membro do comitê central de trabalho dos Irmãos Muçulmanos. A partir de então, dedicou-se integralmente ao movimento islâmico. Em 1954, foi publicada uma revista dos Irmãos Muçulmanos sob a direção editorial de Sayyid Qutb. Contudo, apenas dois meses depois, o governo do coronel Nasser a fechou.
Prisão e punição: começaram as prisões e as torturas dos líderes e membros dos Irmãos Muçulmanos. Sayyid Qutb estava entre os presos. Sayyid Qutb foi mantido em várias prisões e submetido a torturas desumanas. Seu colega, o senhor Yusuf al-Azam, escreveu: “Uma montanha de torturas foi imposta sobre ele. Queimavam-no com fogo, soltavam cães contra ele, deixando-o dilacerado; às vezes despejavam sobre sua cabeça água extremamente quente e, outras vezes, água extremamente fria. Também era torturado com pontapés, socos, golpes de vara e outros meios, mas permanecia firme na fé e na certeza, destemido. — (O mártir Sayyid Qutb, página 30)”
Em 13 de julho de 1955, realizou-se uma farsa sob o pretexto de um julgamento, e ele foi condenado a quinze anos de trabalhos forçados. As torturas o deixaram tão doente e debilitado que ele não pôde sequer comparecer ao tribunal. Depois de cumprir um ano da pena de trabalhos forçados, o governo de Nasser propôs-lhe que seria libertado caso pedisse perdão por meio dos jornais. A resposta que esse homem de fé deu à proposta servirá, através dos tempos, como um farol para os militantes do movimento islâmico. Ele disse:
Fico surpreso com essa proposta justamente porque não consigo entender como um opressor pode pedir a um oprimido que peça perdão. Juro por Allah! Mesmo que algumas palavras de pedido de perdão pudessem me salvar da forca, não estou disposto a pronunciá-las. Quero chegar à presença de Allah de tal maneira que Ele esteja satisfeito comigo e eu esteja satisfeito com Ele.
Libertação da prisão: em meados de 1964, o presidente do Iraque, Abdus Salam Arif, visitou o Egito e recomendou a libertação de Sayyid Qutb. Como resultado, ele foi libertado da prisão, mas mantido em prisão domiciliar. Durante os longos dez anos em que esteve preso, escreveu o mundialmente famoso tafsir “À Sombra do Alcorão”.
Segunda prisão e martírio:
Antes que se passasse um ano, ele foi novamente preso sob a acusação de tentar tomar o poder. Juntamente com seus quatro irmãos, foram presas vinte mil pessoas, entre as quais havia cerca de setecentas mulheres.
Em seguida, após um julgamento meramente formal, ele e dois de seus companheiros foram condenados à forca, e a sentença foi executada na segunda-feira, 29 de agosto de 1966. (Inna lillahi wa inna ilayhi raji’un).
Obras escritas por Sayyid Qutb
(a) Obras de pesquisa:
(1) Fi Zilal al-Qur’an (6 volumes)
(2) At-Taswir al-Fanni fi Zilal al-Qur’an (A beleza artística do Alcorão)
(3) Mashāhid al-Qiyāmah fi al-Qur’ān (As cenas da Ressurreição retratadas no Alcorão)
(4) Al-Adālat al-Ijtimā‘iyya fil-Islām (O Islã e a justiça social)
(5) As-Salām al-‘Ālamī wal-Islām (A paz mundial e o Islã)
(6) Dirāsāt Islāmiyya (Escritos islâmicos)
(7) Ma‘rifat al-Islām war-Risāliyya (O conflito entre o Islã e o capitalismo)
(8) Nahwa Mujtama‘ Islāmī (O modelo social do Islã)
(9) Mu‘allim fit-Tarīq (O caminho da revolução da sociedade islâmica)
(10) Hādhā ad-Dīn (O Islã como sistema de vida)
(b) Poesia e poemas
1. Kafilatur Raqiq (poesia)
2. Hulmul Fajri (poesia)
3. Al Shatiyyul Majhul (poesia)
(c) Romances:
1. Ashwaq (Espinhos)
2. Tiflun Minal Qaria (O menino da aldeia)
3. Madinatul Mashur (A cidade mágica)
(d) Para crianças e adolescentes:
1. Qasasud Diniah (Histórias dos profetas)
(e) Outros:
1. Muhimmatuch Cha’ir fil Haiat (A verdadeira missão do poeta na vida)
2. Al-Atiaful Arbaa (As ideias de quatro irmãos)
3. América Alati Raaitu (A América que vi)
4. Kitab wa Chakhsiat (Livros e personalidades)
5. An-Naqdul Adabi, Usuluhu wa Manahijuhu (Princípios e métodos da crítica literária)
Em nome de Deus, o Misericordioso, o Misericordiador
Dedicatória
Minha respeitável mãe! Dedico esta obra a você.
Minha querida mãe! Uma lembrança ainda brilha intensamente em minha memória: a cada mês de Ramadã, o recitador vinha à nossa casa e recitava o Alcorão. E você passava horas ouvindo atentamente, em êxtase, por detrás da cortina. Quando eu começava a gritar como uma criança, você fazia um sinal para que eu ficasse quieto. Então eu também me juntava a você para ouvir o Alcorão, embora naquela época não fosse capaz de compreendê-lo. Mas as pronúncias literais ficavam gravadas em minha mente. Depois, quando aprendi a andar segurando sua mão, você me matriculou na escola primária da aldeia. Seu grande desejo era que Allah abrisse meu coração para memorizar Sua Palavra. Certamente, Allah me concedeu a dádiva de uma bela recitação, para que eu pudesse frequentemente sentar-me diante de você e recitá-la. Memorizei o Alcorão inteiro. Uma parte do seu orgulho se realizou.
Minha querida mãe! Hoje você está além do meu alcance e do meu toque. Mas aquela sua imagem ainda permanece viva em minha memória. Ainda não consegui esquecer a maneira como, sentada em casa junto ao rádio, você ouvia a recitação do recitador. A lembrança do belo e puro semblante que você assumia enquanto ouvia a recitação, e do efeito que ela produzia em sua mente e em seu coração, ainda hoje permanece viva em meu coração.
Ó minha mãe, que me deu à luz! Aquele seu inocente menino é hoje um jovem adulto. Hoje dedico, em seu nome, o fruto dos seus esforços. Que Allah faça descer sobre seu túmulo uma paz semelhante ao orvalho da manhã e mantenha protegido também o seu filho.
Seu filho
Sayyid Qutb
Palavras do tradutor
Você deseja compreender o Alcorão? Reconhece que o Alcorão é um milagre vivo, uma fonte de poder hipnotizante? Você lê o Alcorão, é verdade, mas ele não consegue atraí-lo por completo; por quê? Neste Alcorão há histórias que fazem até os contos de fadas parecerem inferiores, imagens que nenhum artista conseguiu pintar até hoje, melodias e acordes de dor cuja ressonância envolve todo o mundo da música — você já teve contato com tudo isso? Caso contrário, leia esta obra sobre o Alcorão, de Sayyid Qutb. Ela lhe dará a orientação para um novo horizonte. Abrirá diante de você as portas de todos os mistérios do Alcorão. Você se perderá na infinitude e nas profundezas insondáveis do Alcorão. Nenhuma força poderá trazê-lo de volta daquela profunda cidade encantada.
Sayyid Qutb era um pesquisador e pensador islâmico; é por essa identidade que o mundo islâmico o conhece. Mas quantos sabem que ele era um literato de alto nível da literatura árabe moderna e um imortal mestre da narrativa? Além disso, era versado em temas como as artes, as belas-artes, as artes plásticas e decorativas. Por isso, ele contemplou o Alcorão sob diferentes perspectivas. Durante sua prisão, pesquisou o Alcorão por horas a fio, dia após dia. Por um lado, era um hafiz do Alcorão; por outro, o árabe era sua língua materna, e ambos esses aspectos lhe serviram de apoio em seu trabalho de pesquisa. Ele próprio disse:
Na minha opinião, é uma imensa graça de Allah para uma pessoa insignificante que, quando comecei a refletir sobre o Alcorão, Ele abriu para mim todas as portas da misericórdia e me aproximou tanto do espírito do Alcorão que parecia que o próprio Alcorão havia aberto para mim todas as portas de suas verdades e mistérios. — (Da introdução original de À Sombra do Alcorão)
Esta valiosa obra é tocada pela literatura em cada uma de suas páginas; é uma sequência de palavras entrelaçadas. Sua linguagem é tão elevada e rica que, anteriormente, decidi três vezes traduzi-la e desisti. Não tive coragem. Ainda assim, não consegui conter o desejo de traduzi-la. Por fim, na quarta tentativa, implorei humildemente a graça do Deus Todo-Poderoso e empreendi esta grande tarefa. Embora o trabalho avançasse à velocidade de uma formiga, pelo toque da misericórdia do Misericordioso chegou à sua conclusão. Não afirmo ter conseguido preservar inteiramente aquele elevado padrão literário, mas não cometi deliberadamente nenhuma falha ao apresentar diante de vocês, palavra por palavra, aquilo que o autor quis transmitir. Ainda assim, há algo a dizer: em primeiro lugar, não sou um grande alim. Além disso, pode-se dizer que praticamente não tenho conhecimento da literatura árabe moderna; e, para completar, sou um homem fraco, cujos companheiros diários são os erros e as falhas. Portanto, é possível que, ao realizar este trabalho, eu também tenha cometido algum erro em algum ponto, do qual ainda não esteja ciente. Se algum servo de Allah notar algum erro desse tipo, peço-lhe a gentileza de chamar minha atenção, e tentarei corrigi-lo numa revisão posterior, se Allah quiser.
Por fim, elevo uma oração, com a cabeça curvada, perante a presença divina: que Ele conceda ao autor desta obra uma elevada posição no Paraíso. Que Allah também perdoe este humilde tradutor, o editor e os leitores, e lhes conceda a graça de se reunirem com o autor no Paraíso. Suplico ainda que, assim como fez com o autor, Allah abra também para nós todas as portas dos mistérios de Seu Alcorão sábio. Amém.
Respeitosamente
Muhammad Khalilur Rahman Mumin
Sumário
Tema
Palavras do autor
Como encontrei o Alcorão?
Primeiro capítulo
O poder cativante do Alcorão
A conversão de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ao Islã
O episódio de Walid ibn al-Mughira
A fonte do poder cativante do Alcorão
A principal força motriz para aceitar o Islã
Onde está a fonte do poder hipnótico do Alcorão?
Segundo capítulo
Pesquisa e exegese do Alcorão
A exegese na época dos Companheiros e dos tabi’un
Terceiro capítulo
Imagens artísticas
Expressar a ideia em linguagem compreensível
Quadros psicológicos
Quadros humanos
Quadros de catástrofes ocorridas
Quadros de acontecimentos alegóricos
1. A história dos proprietários do jardim
2. A história dos proprietários de dois jardins
Quadros de acontecimentos reais
1. Hadrat Abraão (que a paz esteja com ele) e Hadrat Ismael (que a paz esteja com ele)
2. O dilúvio de Hazrat Noé (A.S.)
O quadro do Dia da Ressurreição
Cenas de paz e castigo
Quarto capítulo
Imaginação e representação
Quinto capítulo
A composição artística do Alcorão
Tipos de composição artística
Sexto capítulo
A melodia e o ritmo do Alcorão
Primeiro estado
Segundo estado
Pausa no final das frases e rima final
Sétimo capítulo
Elementos da imagem corânica
Um aspecto sutil da composição artística
Duração da imagem corânica
Imagem longa
Capítulo oitavo
Contexto: o propósito e o objetivo dos acontecimentos narrados no Alcorão
1. Reconhecimento da revelação e da missão profética
2. Uma única e mesma religião
3. Fé em Allah
4. Todos os profetas e mensageiros transmitiram o mesmo chamado
5. A conexão entre as religiões de cada profeta e mensageiro 6. O sucesso dos profetas e mensageiros e a destruição dos mentirosos
7. A veracidade das boas-novas e da advertência
8. A descrição das bênçãos concedidas aos profetas e mensageiros
9. Advertir os filhos de Adão contra a inimizade de Satanás
10. Algumas outras razões
Nono capítulo
A prova de que os relatos do Alcorão seguem os objetivos religiosos
Brevidade e विस्तारamento da narrativa
Descrição da conclusão e do desfecho
A combinação religiosa e artística na narração das histórias
A forma artística da narrativa
Décimo capítulo
Características artísticas da narrativa
Variedade da narração
Desvendamento súbito do mistério
Pausa entre cenas
4. Representação de cenas por meio de acontecimentos
Imagem das emoções e dos sentimentos
A marca da personalidade na narrativa
1. Um líder de natureza inquieta
2. Uma personalidade de coração bondoso e tolerante
3. Hazrat Yusuf (a.s.)
4. Hazrat Adam (a.s.)
5. O episódio de Hazrat Sulayman (a.s.)
Capítulo onze
A natureza humana
1. A natureza humana
2. O crente de fé frágil
3. A pessoa de natureza oportunista e ardilosa
4. O covarde medroso
5. A pessoa que provoca riso e gracejo
6. Humano apenas na aparência
7. Ávido por elogios
8. Oportunista
9. Estranhamente arrogante
10. Covarde desavergonhado
11. Hipócrita fraco
12. Cheio de desculpas e objeções
13. Trapaceiro tolo
14. Causador de desastres
15. Fascinados pelo encanto da vida mundana
16. Pessoas obstinadas e de natureza inflexível
17. Grupo autocrático
18. Seja verdade ou mentira, eles inevitavelmente discutirão
19. Avarentos
20. Contradição entre o interior e o exterior
21. Aquele que se arrepende quando está à beira da morte
22. Pessoas de pouca inteligência
23. Verdadeiro crente
24. Pobre, porém satisfeito com pouco
25. Aquele que teme a Deus
26. Verdadeiro servo de Deus
27. Generoso e liberal
28. Paciente
29. Aquele que dá preferência ao outro irmão
30. Aquele que controla a ira e perdoa os outros
Doze capítulos
Argumentação inspirada pela sabedoria
A expressão simples e direta do Alcorão
A questão do tawhid (monoteísmo)
A ressurreição após a morte
O estilo narrativo do Alcorão
Conclusão]
Outra característica do estilo narrativo do Alcorão
Apêndice 1
Apêndice 2
Ordem da revelação das suratas do Alcorão
Palavras do autor
Como encontrei o Alcorão?
Antes de começar este livro que agora você tem em mãos, é necessário contar um acontecimento relacionado a ele. Enquanto este livro estava guardado na minha memória, sem possuir uma forma definida, não havia grande necessidade de narrar esse acontecimento. Quando ele foi para a mesa da gráfica a fim de ganhar existência, o acontecimento também deixou de estar limitado ao meu íntimo. Agora é necessário que ele seja revelado.
Eu era muito pequeno naquela época. Tinha acabado de começar a ler o Alcorão, mas compreender seu significado ou decifrar seu conteúdo estava além da minha capacidade. Além disso, era impossível abarcar, dentro dos limites do meu conhecimento, seu conteúdo elevado. Ainda assim, senti uma forte atração por ele. Durante a recitação, muitos acontecimentos surpreendentes surgiam na tela da minha mente. Essas imagens eram simples e sem cor. Mesmo assim, eu as imaginava repetidamente, com grande interesse. Esse processo continuou por muito tempo e me proporcionava alegria.
Entre essas imagens simples, uma daquelas que ficaram profundamente gravadas na minha mente surgia diante de mim assim que eu recitava o versículo a seguir.
(Árabe**********)
Entre as pessoas, há quem adore Allah estando à margem. Se obtém algum benefício terreno, inclina-se para ele; mas, se é submergido por alguma provação, vira o rosto. Na verdade, perde tanto neste mundo quanto na Outra Vida. (Surata Al-Hajj: 11)
Se eu apresentasse esta imagem imaginária diante de alguém, ele não deveria rir. Assim que ouvia este versículo, uma imagem desse tipo surgia em minha memória. Naquela época, eu vivia numa aldeia. Via um homem rezando sobre uma colina no meio do vale, ao lado da aldeia, mas ele não conseguia permanecer no topo estreito daquela colina: ela tremia continuamente. Poderia desmoronar a qualquer momento. Eu observava aquela situação de longe e, em meu íntimo, ficava maravilhado e tomado de emoção.
Uma das muitas imagens imaginárias que flutuavam em minha mente se tornava evidente ao recitar o versículo abaixo. O versículo é:
(Árabe**************)
E recite-lhes a história daquele a quem concedemos os Nossos sinais, mas que deles se afastou e os abandonou. Então Satanás o seguiu, e ele passou a fazer parte dos extraviados. Se tivéssemos querido, tê-lo-íamos elevado em dignidade; porém, ele se inclinou para a terra e se entregou à satisfação dos desejos de sua própria nafs. Seu estado é como o de um cão: se o atacas, ele põe a língua para fora e ofega; e, se o deixas, também mantém a língua para fora. (Surata Al-A’raf: 175–176)
Eu não compreendia o significado nem o sentido deste versículo. Mas, assim que o recitava, uma imagem surgia no espelho de minha mente. Eu via um homem aproximar-se de mim, com a boca aberta, a língua para fora e ofegando. Ficava olhando fixamente para ele. Porém, não conseguia entender por que ele agia daquela maneira. Mesmo assim, não ousava aproximar-me dele. Eu gostava muito de milhares de imagens desse tipo. Por isso, sentia uma intensa atração pela recitação do Alcorão e percorria os confins da imaginação à procura dessas imagens.
Aquele período passou junto com minhas doces fantasias e minha infantilidade. Agora, com o passar do tempo, deparei-me um pouco com o conhecimento e a realidade. Tentei compreender alguns livros de tafsir por meu próprio esforço e com a ajuda de meus professores. Mas é profundamente lamentável que, durante a bela, doce e majestosa recitação do Alcorão, eu não volte o olhar para aquilo que fazia na infância. Será que o Alcorão de hoje é diferente daquele Alcorão da minha infância? Será que não há absolutamente nenhuma relação entre eles? Talvez aquilo fosse o encanto das interpretações inventadas.
Mesmo depois de consultar várias exegeses do Alcorão, tive a impressão de que ainda restava alguma lacuna. Então me dediquei a tentar compreender o Alcorão diretamente a partir do próprio Alcorão. Por mais surpreendente que pareça, foi então que encontrei aquele Alcorão amado e belo. Aquela imagem atraente e encantadora voltou a surgir diante de mim. A única diferença era que ela já não era tão simples como antes; havia sofrido alguma transformação decorrente da maturidade da compreensão. Então percebi que não se tratava de uma imagem, mas de uma metáfora. Ela fora descrita apenas para facilitar a compreensão do Alcorão. Na realidade, não era o reflexo de um acontecimento real. Isso, porém, não significa que fosse algo irreal.
Alhamdulillah! Dessa vez, comecei a estudar com plena atenção. De repente, surgiu em minha mente a ideia de apresentar ao público as imagens que eu estava contemplando, para que as pessoas pudessem tirar algum proveito delas. Assim, em 1939, por meio da revista chamada «Al-Muqtataf», foi publicado um estudo sobre «Algumas imagens do Alcorão e sua beleza artística».
Ali demonstrei que todas as imagens que Allah, o Senhor dos mundos, traçou no Alcorão não poderiam ser reproduzidas por nenhuma câmera colorida nem pelo pincel de qualquer artista. Trata-se de uma imagem misteriosa e fascinante. Ali também afirmei que seria possível escrever um livro independente sobre esse tema.
Depois, alguns anos se passaram. Enquanto isso, as imagens corânicas começaram a exercer uma influência intensa sobre minha mente. Continuei encontrando beleza artística em toda parte do Alcorão. Então pensei em tratar o tema de maneira completa e abrangente, algo sobre o qual ninguém havia ainda pegado na pena. Com esse objetivo, concentrei-me profundamente no estudo do Alcorão e tentei reunir dele aquelas imagens sutis. Apesar disso, às vezes o ritmo do trabalho acabava se tornando lento.
Por fim, invocando o nome de Allah, comecei a compilação. Meu trabalho consistia em reunir as imagens artísticas do Alcorão e lançar luz sobre seu estilo de composição e sua beleza artística. Não tinha qualquer intenção de realizar uma análise lexical do Alcorão nem uma discussão jurídica islâmica.
À medida que avançava, um novo mistério se revelou diante de mim. Observei que as imagens traçadas no Alcorão não eram algo separado de suas outras discussões e partes. Tampouco ocupavam uma posição independente. Pelo contrário, todo o modo de expressão do Alcorão constitui o fundamento artístico das cenas e das imagens. A única exceção são as determinações da lei islâmica. Então, em vez de me concentrar em reunir as imagens, voltei minha atenção para descobrir seu propósito essencial e seu princípio; depois, decidi expor esse princípio e sua explicação — algo que ninguém havia sequer abordado até então.
Quando terminei o trabalho de compilação, pareceu-me que o Alcorão havia surgido em minha mente sob uma nova forma. Encontrei um Alcorão como nunca antes havia encontrado. Antes, o Alcorão já me parecia belo, mas sua beleza se apresentava de modo fragmentado e disperso. Agora, toda a beleza parecia visível de forma contínua. Era como se estivesse fundada sobre uma base especial, na qual existiam relações surpreendentes e raras, que eu jamais havia compreendido. Eu nunca sequer havia sonhado com isso; ninguém jamais o havia imaginado.
Se Allah me conceder êxito em apresentar essas cenas e imagens do Alcorão de modo a atender devidamente às exigências de minhas concepções, pensamentos e consciência, isso será a medida do pleno sucesso deste livro.
Primeiro capítulo
O poder hipnótico do Alcorão
Às vésperas da revelação do Alcorão, o próprio Alcorão hipnotizou os árabes com seu poder fascinante. Aqueles cujo coração Ele abriu para o Islã de Allah, bem como aqueles cujas mentes e olhos haviam sido velados, também foram influenciados pelo efeito hipnótico deste Alcorão, embora não tenham podido obter dele qualquer benefício. Contudo, havia algumas personalidades — como a honrada Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), esposa do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele), seu escravo alforriado — entre outras. Além deles, aqueles que aceitaram o Islã nos primeiros tempos não o fizeram por terem ficado deslumbrados com o poder e a força do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), pois ele ainda não possuía tamanha força e poder. Pelo contrário, na base da aceitação do Islã por eles estava a atração mágica do Alcorão.
O episódio da aceitação do Islã por Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e o episódio da influência exercida sobre Walid ibn al-Mughira reconhecem e comprovam ambos a afirmação acima: o poder hipnótico do Alcorão é extremamente intenso. Ele influenciava não apenas os crentes, mas também os incrédulos.
A aceitação do Islã por Umar (que Allah esteja satisfeito com ele)
A respeito da aceitação do Islã por Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Ata e Mujahid transmitiram um relato que Ibn Ishaq compilou de Abdullah ibn Abi Najih. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:
Naquele dia, eu ainda estava muito distante do Islã e costumava permanecer embriagado pelo consumo de vinho. Tínhamos um ponto de reunião onde os coraixitas costumavam se reunir. Naquele dia, fui procurá-los, mas não encontrei ninguém ali. Pensei em ir à casa de algum vendedor de vinho; talvez pudesse encontrá-los lá. Mas também não encontrei nenhum deles ali. Então decidi ir à Mesquita Sagrada e realizar a circumbulação. Fui até lá e vi o honrado Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ocupado em oração. Ele estava orando voltado para a Síria. A Caaba ficava entre ele e a Síria. Ele estava em pé entre o Canto Negro e o Canto Iemenita, realizando a oração. Ao vê-lo, pensei: “Esta noite, vou escutar secretamente o que ele recita.” Ao vê-lo, pensei: “Esta noite, vou escutar secretamente o que ele recita.” Novamente pensei que, se me aproximasse para escutar, seria descoberto. Então vim pelo lado do Hatim e permaneci silenciosamente sob o tecido que cobria a Caaba. Entre mim e ele não havia outro esconderijo além do tecido da Caaba. Quando ouvi a recitação do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ocorreu em mim uma espécie de transformação. Comecei a chorar e, como consequência, tive a felicidade de aceitar o Islã.
Há outro relato de Ibn Ishaq: certo dia, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) partiu com a espada desembainhada para assassinar o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) vivia numa casa, ao sopé do monte Safa, com alguns Companheiros. Havia ali cerca de quarenta homens e mulheres. No caminho, encontrou-se com Naim ibn Abdullah. Este lhe perguntou: “Umar, aonde vais?” Umar revelou-lhe seu propósito. Naim disse: “Quanto à inimizade contra os Banu Abd Manaf, cuide primeiro de sua própria irmã Fatima e de seu cunhado Said ibn Zayd. Eles se tornaram muçulmanos.” Então o honrado Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até lá e viu Khabbab (que Allah esteja satisfeito com ele) ensinando-lhes a leitura do Nobre Alcorão.
Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) entrou diretamente pela porta e agarrou seu cunhado Saíde. Golpeou sua própria irmã Fátima na cabeça, deixando-a ensanguentada. Depois de algum tempo de discussão, quis ver o que eles estavam recitando. Então recitaram para ele alguns trechos da surata Ta-Ha. Quando lhe recitaram alguns trechos da surata Ta-Ha, ele comentou: “Que palavras excelentes!”. Em seguida, foi até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), abraçou o Islã e foi agraciado. (Sira de Ibn Hixam)
O ponto central de todas as narrações sobre esse assunto é um só: Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) buscou refúgio sob a proteção do Islã depois de ler ou ouvir alguns trechos do Alcorão. Nós ouvimos ou relatamos esse acontecimento, mas não se chama a atenção para o fato de que a base da transformação de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi o poder de atração e a irresistível força hipnótica do Alcorão.
O episódio de Ualide ibne Mugira
Ualide ibne Mugira foi influenciado depois de ouvir alguns trechos do Alcorão Sábio. Ao ver isso, os coraixitas começaram a dizer uns aos outros que ele havia se tornado muçulmano. Ualide era uma pessoa nobre e respeitada entre os coraixitas. Abu Jahl foi enviado até ele para que declarasse seu ódio e sua hostilidade ao Alcorão, a fim de que os coraixitas fossem influenciados por suas palavras. Ualide começou a dizer: “O que devo dizer sobre o Alcorão? Juro por Allah! Tenho mais conhecimento de poesia e de versos do que vocês, mas não há nenhuma semelhança entre eles e o Alcorão que ouvi de Muhammad. Juro por Allah! O que lhe é revelado é extraordinariamente belo e cativante, e é revelado em linguagem eloquente. Ele despedaça tudo o que se apresenta diante dele. Veio para vencer, não veio para ser derrotado.”
Ao ouvir isso, Abu Jahl disse: “Enquanto você não desprezar o Alcorão, seu povo permanecerá descontente com você.” Ualide disse: “Dê-me algum tempo para refletir.” Então declarou: “Isto é uma magia evidente. Não vedes que aquele que entra em contato com ela é separado de sua família e de seus amigos? (Há um relato detalhado sobre isso na Sira de Ibn Hixam e no Tafsir de Ibn Kathir. — O autor.)
A esse respeito, foi dito no Alcorão:
(Árabe**************)
Ele refletiu e tomou uma decisão. Que pereça! Como tomou sua decisão? (Repito:) que pereça! Como tomou sua decisão! Depois observou, franziu a testa e fez uma expressão de desagrado. Em seguida, deu as costas e disse, cheio de arrogância: “Isto não é senão magia transmitida de geração em geração.” (Surata Al-Muddaththir: 18–24)
Esta é a declaração daquele homem que nutria hostilidade contra o Islã. Ao chegar à presença de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), seu coração e sua cabeça se curvaram sem que ele percebesse, mas, quando voltou para junto de seus amigos e parentes, a rebeldia voltou a se manifestar, para que pudesse preservar sua honra e prestígio. Isso prova quão intensa é a força de atração do Alcorão, capaz de superar até mesmo a magia.
Agora reflita: o Alcorão influenciou tanto Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) quanto Walid ibn al-Mughirah. Contudo, havia entre suas condutas uma diferença como a existente entre o céu e a terra. Como Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) temia a Allah, Allah abriu seu coração para o Islã. Por outro lado, o orgulho, a arrogância e o fascínio pela liderança afastaram Walid ibn al-Mughirah do Islã.
A citação das palavras dos incrédulos apresentada no Alcorão Sagrado também é uma prova do poder hipnótico do Alcorão.
(Árabe***********)
Não escuteis o Alcorão e, quando ele for recitado, começai a fazer barulho; talvez assim sejais vitoriosos. (Surata Há-Mim Sajda: 26)
Também aqui se manifesta o poder hipnótico do Alcorão. Eles temiam que, se as pessoas pudessem ouvir este Alcorão adequadamente, ou se o escutassem com atenção, seu efeito inevitavelmente recaísse sobre os ouvintes e eles se tornassem seus seguidores. Por isso, era necessário fazer barulho, para que ninguém pudesse ouvir o Alcorão de manhã e à noite e ficar fascinado por ele. Na verdade, o Alcorão também os atraía continuamente. Porém, somente aqueles que possuíam, ainda que em mínima medida, o temor de Allah conseguiram sair dos limites da jahiliyyah. Se eles não fossem influenciados por ele, ou não temessem ser influenciados, por que então se esforçaram tanto, sem necessidade, contra o Alcorão? Isso prova quão intensa e irresistível é a atração deste Alcorão.
O Alcorão apresenta de maneira admirável as declarações dos incrédulos coraixitas, as quais eles usavam para voltar as costas ao Alcorão.
(Árabe***********)
Eles dizem: “Isto não passa de lendas dos antigos, que ele mandou escrever. Elas lhe são ditadas de manhã e à noite.” (Surata Al-Furqan: 5)
(Árabe************)
(Ao ouvirem a palavra de Allah, eles dizem:) “Se quiséssemos, também poderíamos dizer algo assim. Isto não passa de histórias dos tempos antigos.”
(Árabe************)
(Este Alcorão) não passa de sonhos confusos. Antes, são palavras inventadas por ele; (não), antes, ele é um poeta. (Surata Al-Anbiya: 5)
(Árabe*********)
Ó Mensageiro, dize-lhes: (se sois verdadeiros,) trazei dez suratas semelhantes a estas.
(Árabe***********)
(Ou então) trazei uma surata semelhante a esta. (Surata Al-Baqara: 23)
Mas eles não foram capazes de produzir sequer uma surata para enfrentar esse desafio — quanto mais dez. Na verdade, eles nem sequer aceitaram o desafio. Contudo, após a morte do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), alguns miseráveis chegaram a reivindicar a profecia, mas o seu destino não foi bom. Ninguém deu qualquer importância a essa insensatez.
Às vésperas do convite do Mensageiro (que a paz esteja com ele) ao Islã, o impacto do Alcorão sobre aqueles, entre os seguidores dos profetas anteriores, que eram verdadeiramente sábios e piedosos foi extremamente intenso. Assim, tiveram a ventura de encontrar abrigo sob a sombra do Alcorão. Sobre esses afortunados, foi dito:
(Árabe************)
Encontrareis, entre todas as pessoas, os judeus e os idólatras como os mais ferrenhos inimigos dos muçulmanos; e encontrareis como os mais próximos dos muçulmanos em amizade aqueles que dizem ser cristãos. Isso porque, entre os cristãos, há sábios e ascetas que não são arrogantes. Ao ouvirem o que foi revelado ao Mensageiro, vereis os seus olhos transbordarem de lágrimas, pois reconheceram a verdade. E dizem ainda: “Ó nosso Senhor, cremos; portanto, inscreve-nos entre os submissos.” (Surata Al-Ma’idah: 82–83)
A intensa ânsia de conhecer cuja imagem foi apresentada surgiu unicamente por meio da audição do Alcorão. Mais ainda: ao ouvirem o Alcorão, lágrimas escorreram de seus olhos sem que se dessem conta. Assim, puderam defrontar-se com a verdade. Não há dúvida de que o convite e o ensinamento da verdade que o Alcorão deseja transmitir não poderiam, de modo algum, realizar-se sem o seu efeito próprio. Em outra passagem, o Alcorão diz:
(Árabe*************)
Aqueles que já possuem conhecimento, quando o Alcorão é recitado diante deles, prostram-se com o rosto por terra, em humildade. E dizem: “Glorificado e sublime é o nosso Senhor! Certamente, a promessa do nosso Senhor será cumprida.” (Surata Bani Isra’il: 107–108)
A cena do temor a Allah ao ouvir o Alcorão também é apresentada no versículo a seguir:
(Árabe**********)
Allah revelou a melhor mensagem — isto é, o Alcorão —, coerente e repetidamente recitada. Por meio dela, arrepiam-se aqueles que temem seu Senhor. Em seguida, sua pele e seus corações se enternecem diante da lembrança de Allah. (Surata Az-Zumar: 23)
Fica claramente evidente, a partir dos versículos acima, que o Alcorão contém uma influência que inevitavelmente afeta quem o lê ou ouve. Ele agita os corações e enche os olhos de lágrimas. Assim que ouve o Alcorão, aquele que deseja aceitar a fé inclina a cabeça em submissão. Até mesmo aquele que está imerso na incredulidade e na obstinação é afetado pelo Alcorão quando o ouve; porém, considera-o magia e o rejeita. Proíbe as pessoas de ouvi-lo. Ainda assim, não ousa desafiar o Alcorão.
A origem do poder encantatório do Alcorão
A questão agora é: como o Alcorão derrotou os árabes e como exerceu uma influência tão poderosa sobre os crentes e os incrédulos?
Os sábios que adquiriram especial competência para compreender o Alcorão e se dedicaram a escrever sobre suas características tentaram responder a essa questão tanto quanto puderam. Alguns eruditos discutiram-na de outra maneira, sem nada dizer sobre a harmonia e as relações entre os temas corânicos. O Alcorão também anunciou acontecimentos que ocorreriam nos anos seguintes. Além disso, lançou luz sobre a natureza do universo, a criação do ser humano e outros assuntos. Ora, essas características foram amplamente descritas no Alcorão e são sinais de sua grandeza e excelência. Mas o que dizer das pequenas suratas nas quais não foram mencionadas normas da Lei Islâmica? Ou daquelas em que não foi apresentada nenhuma descrição do mundo invisível nem transmitido qualquer conhecimento sobre o mundo terreno? Embora essas pequenas suratas não tenham tratado coletivamente de todos os assuntos — como ocorre em muitas suratas do Alcorão —, ainda assim, no início da revelação do Alcorão, elas fascinaram os árabes. Foi por meio dessas suratas que surgiu uma agitação em seu mundo intelectual e uma intensa atração por sua beleza. É preciso reconhecer que o efeito mágico dessas pequenas suratas era tão intenso e irresistível que o ouvinte não podia deixar de ficar encantado. Por meio da influência de suas próprias características, o Alcorão foi capaz de atrair crentes e incrédulos para sua esfera de influência. O Alcorão foi o principal responsável por aqueles que alcançaram a felicidade ao aceitar o Islã. Não há como negar que uma pequena surata do Alcorão, ou mesmo uma parte dela, transformou o rumo de suas vidas.
É claro que, depois que o Islã alcançou sua plenitude, além do Alcorão, certos costumes, comportamentos e atividades externas também contribuíram para que algumas pessoas aceitassem o Islã. Contudo, no caso dos afortunados crentes do período inicial, o único fator que atuou em sua fé foi o Alcorão, e nada mais.
A principal força motriz para aceitar o Islã
Depois que o Islã se desenvolveu de forma plena e completa, as pessoas aceitaram o Islã por terem sido influenciadas de diversas maneiras. Por exemplo:
(1) Algumas pessoas aceitaram o Islã influenciadas pela prática e pelo caráter do Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) e dos nobres Companheiros.
(2) Aqueles que haviam aceitado o Islã anteriormente davam prioridade à religião acima de tudo e suportavam toda espécie de sofrimento, dificuldades e perseguições unicamente pela satisfação de Allah; algumas pessoas aceitaram o Islã influenciadas por essa atitude.
(3) Algumas pessoas aceitaram o Islã pensando que Muhammad (que a paz esteja sobre ele) e seus companheiros eram poucos em número, mas que, ainda assim, nenhuma superpotência conseguia derrotá-los; isso não poderia ser possível de modo algum sem a ajuda e a proteção de Allah.
(4) Algumas pessoas aceitaram o Islã quando este foi estabelecido como Estado e a justiça e a equidade islâmicas foram implementadas, algo que jamais haviam visto antes.
As pessoas aceitaram o Islã por muitas outras razões semelhantes. Entretanto, uma das principais foi o apelo tocante e a atração encantadora do Alcorão. Isso contribuiu de forma singular durante o período inicial do Islã.
Onde está a fonte do poder hipnótico do Alcorão?
É preciso refletir sobre uma questão: até então, a sharia ainda não estava completa; não havia informações sobre o mundo invisível; tampouco se havia falado de maneira contundente sobre a vida e o mundo; o Alcorão ainda não oferecia nenhuma orientação prática; e apenas uma pequena parte do Alcorão estava disponível para a tarefa de convocação ao Islã. Ainda assim, ali estava contida a fonte de um poder mágico e hipnótico. Sob sua influência, eles foram obrigados a dizer:(Árabe***************)
Isto não passa de magia transmitida de geração em geração.
O episódio de al-Walid ibn al-Mughira, que desejou aceitar o Islã, mas acabou não o fazendo, é narrado na surata al-Muddaththir. Na sequência da revelação, esta surata ocupa a terceira posição. A surata al-‘Alaq e a surata al-Muzzammil foram reveladas antes dela. Se observarmos atentamente, veremos como essas suratas influenciaram al-Walid ibn al-Mughira; que magia havia nelas que o deixou tão perturbado?
Quando estudamos essas pequenas suratas reveladas em Meca, não encontramos nelas o menor indício de qualquer lei da sharia ou de qualquer assunto mundano. É verdade que, na surata al-‘Alaq, há uma breve menção ao mistério da criação humana. Diz-se ali que o ser humano foi criado a partir de um coágulo de sangue. Além disso, também foram feitas profecias sobre os anos seguintes. Por exemplo, na surata ar-Rum foi feita uma profecia sobre a vitória dos persas. A questão agora é: onde está, no Alcorão, aquilo que al-Walid chamou de magia depois de refletir profundamente?
A resposta é que a parte do Alcorão à qual al-Walid deu o nome de magia estava, evidentemente, além das normas da sharia e de qualquer conhecimento mundano. Não havia ali nenhum tema sobre o qual ele pudesse fazer algum comentário. É verdade, porém, que, mesmo sem se esforçar para adquirir a crença islâmica e a espiritualidade, ele foi capaz de compreender seus sutis mistérios.
Agora, vejamos com atenção a respeito da surata al-‘Alaq, a primeira a ser revelada. Ao examinarmos cuidadosamente os primeiros 15 versículos, veremos que suas palavras são semelhantes às empregadas pelos poetas e literatos da época da jahiliyyah, com as quais todos os árabes estavam familiarizados; contudo, em seus escritos, eles reuniam muitas palavras e frases sem harmonia. Muitas vezes, não havia rima nem contexto em suas composições. Mas será que o caso da surata al-‘Alaq é semelhante?
De modo algum. Pelo contrário, nela há uma maravilhosa combinação de harmonia e significado. Cada afirmação é a personificação da alta literatura. E, no entanto, trata-se de versículos revelados logo no início. Nela se diz: “Lê”. Mas isso deve ser feito em nome de Allah, o Sublime e Honrado. A palavra “Iqra”, ou “lê”, tem por objetivo a recitação ou o estudo do Alcorão. É por isso que é necessário mencionar o nome de Allah: Ele convoca precisamente em Seu próprio nome. Um dos nomes atributivos de Allah é “Rabb”, que significa Sustentador. Por isso, Ele ordenou a leitura para que se recebam sustento e formação. Estas palavras estão na linguagem de Allah:
(Árabe***********)
Lê em nome do teu Senhor, que te criou.
Era o início da pregação islâmica. Por isso, como explicação de Rabb, foi escolhida uma palavra relacionada com o começo da vida. Isto é, Ele é um ‘Rabb’, (Árabe*****)que criou.
(Árabe***********)— Ele criou o ser humano a partir de ‘alaq. Em outras palavras, iniciou a vida humana a partir de um coágulo de sangue. Que começo pequeno e simples.
Mas, sendo Allah Rabb, ou seja, Senhor, Ele é também o Khāliq (Criador) e sumamente benevolente. Por isso, transforma gradualmente uma pequena massa de carne em um ser humano completo. E a natureza humana é tal que, quando algo lhe é ensinado, ela tem capacidade para aprender. Por isso foi dito:
(Árabe*************)
Lê o Alcorão; o teu Senhor é extremamente misericordioso. Ele ensinou por meio da pena. Ensinou ao ser humano aquilo que ele não sabia. (Sura Al-Alaq: 305)
Vejam como, em um versículo, é descrito de maneira tão bela o processo de conduzir o ser humano do início à perfeição. O período entre o nascimento e a morte é apresentado sucessivamente. Assim, o pensamento e o instinto natural do ser humano respondem a esse chamado.
A exigência da razão e da consciência era refletir sobre isso: o que ele era e aonde chegou no presente. Mas, lamentavelmente, nem sequer isso acontece.
(Árabe************)
Verdadeiramente, o ser humano transgride, porque se considera livre de necessidades (isto é, esqueceu-se de seu princípio e de seu fim). (Al-‘Alaq: 6–7)
Tendo-se esquecido por causa de seu orgulho e arrogância, ele é advertido com palavras que combinam advertência e repreensão:
(Árabe***********)
Sem dúvida, eles serão reconduzidos ao seu Senhor. (Surata Al-‘Alaq: 8)
Enquanto se discute a rebeldia e a arrogância do ser humano, isso é mencionado para completar o retrato: eles não são rebeldes apenas por si mesmos, mas também tentam tornar os outros rebeldes.(Árabe***********)
Viste aquele que impede um servo de Allah quando ele se põe de pé para orar? (Surata Al-‘Alaq: 9–10)
Impedir alguém de realizar a oração é uma ação extremamente abominável. Essa ação abominável torna-se ainda mais grave quando aquele que ora permanece firme no caminho da orientação e tenta despertar nos outros o temor de Allah.
(Árabe***********)
Viste se ele está na senda reta ou ordena a piedade. (Surata Al-Alaq: 13)
Pense: o ser humano está desatento a tudo. Ele nem sequer sabe como nasceu nem onde será o seu fim.
(Árabe************)
Viste se ele desmente e dá as costas? Não sabe ele que Deus vê tudo? (Surata Al-Alaq: 13-14)
Em seguida, foram admoestados:(Árabe*************)
De modo algum! Se ele não desistir, certamente o arrastarei pela mecha dos cabelos — uma mecha mentirosa e pecadora. (Al-Alaq: 15-16)
Aqui, as palavras foram escolhidas de tal maneira que a própria palavra expressa sua dureza. Se, em lugar de uma palavra, fosse empregada uma palavra sinônima, ela não transmitiria, no sentido, tanta dureza quanto a expressa pela outra palavra. Essa palavra dá a entender que um homem, de pé num lugar elevado, segura firmemente um punhado de cabelos de alguém, enquanto este desce rapidamente. O significado dessa palavra é arrastar, com um puxão, um rebelde ou arrogante desde um lugar elevado, segurando-o pelos cabelos da testa, fazendo-o cair ao chão e arrastando-o. Enquanto é arrastado, naturalmente ele continua gritando e pedindo ajuda a seus companheiros. Como o próprio Deus disse:(Árabe*********)— Portanto, que ele chame seus companheiros. E(Árabe*******) eu chamarei os guardiões do Inferno.
Ao ouvirem isso, os ouvintes imaginam que talvez, naquele dia, irrompa um confronto entre os guardas do Inferno e os companheiros daquele homem. Trata-se de uma cena imaginária que cobre o mundo da imaginação. O Mensageiro permanece firme em sua posição e continua cumprindo a missão da Mensagem. Ele não se importa se alguém rejeita sua Mensagem e lhe vira as costas. Foi declarado:
(Árabe*************)
Nunca te deixes influenciar pelas palavras dele; prostra-te e aproxima-te de Mim. (Surata Al-Alaq: 19)
Este foi um início vigoroso do chamamento islâmico. Embora, à primeira vista, as frases desta surata possam parecer desordenadas, elas são organizadas e interligadas. Esta é a primeira surata do Alcorão cujo estilo de exposição torna evidente seu aspecto de harmonia interna. Agora, observemos a segunda surata em ordem de revelação, conhecida como Surata Al-Muzzammil. É possível, naturalmente, que os primeiros versículos da Surata Al-Qalam tenham sido revelados antes dela. De qualquer modo, assim que ouviu os seguintes versículos da Surata Al-Muzzammil, Ualide classificou o Alcorão como magia:
(Árabe****************)
No dia em que a terra e as montanhas tremerem, e as montanhas se tornarem montes de areia movediça. Enviamos a vós um Mensageiro como testemunha sobre vós, assim como enviamos um Mensageiro ao Faraó. Mas o Faraó desobedeceu ao Mensageiro, e então o castigamos com um castigo severo. Como, pois, vos protegereis, se negardes aquele dia que fará das crianças anciãos? Naquele dia, o céu se fenderá. Sua promessa certamente será cumprida. (Surata Al-Muzzammil: 14–18)
Esses versículos apresentam uma cena aterradora do Dia da Ressurreição. Trata-se de uma cena tão terrível que não apenas os seres humanos, mas toda a criação estará submetida a ela. Entre as criaturas, a terra e as montanhas são as mais duras e pesadas. Naquele dia, elas tremerão e serão reduzidas a pedaços, e ninguém será detido sem culpa. Somente serão detidos aqueles a quem Mensageiros foram enviados e cuja mensagem lhes chegou. Além disso, todas as provas e evidências terão sido plenamente apresentadas.
Foi dito aos incrédulos de Meca: o Mensageiro enviado a vós não é um mensageiro novo nem o primeiro; ele é como os mensageiros que foram enviados ao Faraó e a outros semelhantes a ele. E vossa pompa, vosso poder e vossa autoridade certamente não são maiores que os do Faraó. Até mesmo o Faraó foi submetido a um castigo severo. Quereis, então, também ser mergulhados em semelhante castigo? Quando o prazo da terra chegar ao fim, como vós, que persistis na incredulidade, escapareis da punição de Allah? Naquele dia, ao verem o horror, até as crianças envelhecerão de preocupação. O céu se fenderá, e a terra e as montanhas tremerão. Nenhuma criatura permanecerá protegida do horror desta cena terrível. Quando a imagem dessa calamidade se refletir na imaginação, ninguém poderá deixar de ser afetado. O próprio coração humano testemunha que esta promessa de Allah é uma promessa destinada a ser cumprida, não havendo lugar algum para dúvida quanto à sua realização. Portanto, o sensato é seguir o caminho de Allah enquanto ainda há tempo. Seguir o caminho de Allah é muito mais fácil do que trilhar a estrada daquela terrível catástrofe.
O episódio da conversão de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) já foi narrado anteriormente. Ali, vimos que ele se inclinou ao Islã depois de ler ou ouvir alguns versículos do início da Surata Ta-Ha. A Surata Ta-Ha ocupava o 45.º lugar na ordem de revelação. A seguir, são mencionadas, em ordem, todas as suratas que foram reveladas antes dela:
(1) Surata Al-Alaq
(2) Surata Al-Muzzammil
(3) Surata Al-Muddaththir
(4) Surata Al-Qalam
(5) Surata Al-Fatiha
(6) Surata Al-Lahab
(7) Surata At-Takwir
(8) Surata Al-A‘la
(9) Surata Al-Layl
(10) Surata Al-Fajr
(11) Surata Ad-Duha
(12) Surata Al-Inshirah
(13) Surata Al-Asr
(14) Surata Al-Adiyat
(15) Surata Al-Kawthar
(16) Surata At-Takathur
(17) Surata Al-Ma’un
(18) Surata Al-Kafirun
(19) Surata Al-Fil
(20) Surata Al-Falaq
(21) Surata An-Nas
(22) Surata Al-Ikhlas
(23) Surata An-Najm
(24) Surata Abasa
(25) Surata Al-Qadr
(26) Surata Ash-Shams
(27) Surata Al-Buruj
(28) Surata At-Tin
(29) Surata Al-Quraysh
(30) Surata Al-Qariah
(31) Surata Al-Qiyamah
(32) Surata Al-Humaza
(33) Surata Al-Mursalat
(34) Surata Qaf
(35) Surata Al-Balad
(36) Surata At-Tariq
(37) Surata Al-Qamar
(39) Surata Al-A’raf
(40) Surata Al-Jinn
(41) Surata Yasin
(42) Surata Al-Furqan
(43) Surata Al-Fatir
(44) Surata Al-Maryam
(45) Surata Ta-Ha [Para consultar a lista da ordem de revelação das suratas restantes, veja o Apêndice 2. —Tradutor]
Todas as suratas mencionadas acima foram reveladas em Meca. Contudo, alguns versículos dessas suratas foram revelados em Medina. Desta vez, lancemos um olhar geral sobre as suratas mencionadas; não é possível aqui examiná-las da mesma maneira como examinamos o episódio de Walid. Queremos apenas discutir brevemente que tipo de encanto está contido nessas suratas, sob cuja influência os que vieram antes aceitaram o Islã. Naquela época, a aceitação do Islã por Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) não havia aumentado o poder do Islã, nem o Islã se encontrava em uma posição vitoriosa.
Ao refletirmos profundamente sobre essas suratas, torna-se claro para nós que a maioria das características mencionadas pelos especialistas para explicar a dignidade e a grandeza do Alcorão está ausente nas suratas em questão. Mesmo que se suponha que a Surata Al-Fatir descreva o mistério da criação humana, e que uma discussão semelhante também apareça na Surata At-Tariq, ainda assim é preciso admitir que ali não há discussão sobre assuntos mundanos, nem o menor vestígio de qualquer norma da Sharia. Mas está estabelecido que, nas demais suratas, fora as que estão sendo discutidas, esses assuntos são tratados de maneira bela e atraente, sejam elas suratas mequenses ou medinenses.
Queremos, ainda que por algum tempo, elevar-nos acima do lugar, do tempo e do contexto (no que diz respeito à santidade da religião do Alcorão Sagrado e ao objetivo e à importância do convite ao Islã) e tentar compreender a beleza artística e o mistério do Alcorão Sagrado, que possuem a dignidade de princípios fundamentais — algo tão eterno e perene quanto o próprio Alcorão. Essa beleza artística torna o Alcorão independente de tudo o mais. Assim, a importância e o objetivo religiosos alcançam sua plenitude e avançam em direção ao destino almejado.
Vejamos agora sob que perspectiva as pessoas têm contemplado, até hoje, a beleza artística do Alcorão.
Segundo capítulo
Estudo e tafsir do Alcorão
Na época da revelação do Alcorão, os incrédulos e politeístas que viviam na Arábia, atraídos por sua beleza artística, às vezes chamavam este Alcorão de poesia e, outras vezes, de magia. Contudo, não podemos afirmar com segurança qual era, para eles, o critério da beleza artística. Sabemos muito bem, porém, que eles foram profundamente influenciados pelo Alcorão. Não há dúvida de que, no momento de sua revelação, ele atuou como uma magia tanto sobre o grupo dos crentes quanto sobre o dos incrédulos. Alguns, influenciados por essa magia, tornaram-se muçulmanos. Outros, embora presos em sua rede encantadora, conseguiram escapar dela. Depois, ambos os grupos expressaram suas reações. Mas ninguém conseguiu dizer claramente qual parte do Alcorão os havia submetido à sua influência mágica. Há uma narração transmitida por Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): “Quando ouvi o Alcorão, algo mudou dentro de mim, por causa do que comecei a chorar e acabei aceitando o Islã.” Em outra narração de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), consta: “Eu disse: quão importantes são estas palavras e quão grande é a sua magnificência.”
Walid ibn al-Mughira negou tanto o Alcorão quanto o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Não só isso: ele também nutria uma intensa hostilidade contra o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Ainda assim, estas palavras saíram de sua boca:
Por Deus! Há doçura no Alcorão. Parece ser uma palavra eterna. Conquista tudo. Nada que seja mais elevado e digno pode ser melhor do que ele.
Walid ibn al-Mughira disse ainda:
Há no Alcorão uma influência mágica. Não vedes como ele separa uma pessoa de seus parentes e companheiros?
O próprio Alcorão dá testemunho da reação que se produz no interior dos crentes após recitarem esta Palavra:
(Árabe*************)
Com isso — isto é, com a recitação do Alcorão — os pelos daqueles que temem seu Senhor se eriçam sobre a pele, e seus corpos e corações se entregam inteiramente à lembrança de Allah. (Surata Az-Zumar: 23)
A respeito daqueles que são do Povo do Livro e dos crentes, foi dito:
(Árabe**********)
Quando o Alcorão é recitado diante daqueles que receberam conhecimento anteriormente, eles caem prostrados, com a cabeça inclinada, e dizem: “Glorificado e exaltado seja nosso Senhor. A promessa de nosso Senhor certamente se cumprirá.” Eles caem ao chão, com o rosto por terra e chorando, e sua humildade aumenta ainda mais. (Surata Bani Isra’il: 107–109)
Por outro lado, os incrédulos coraixitas, firmes em sua incredulidade e obstinação, disseram:
(Árabe**********)
E dizem: “Isto não passa de histórias dos antigos, que lhe são recitadas de manhã e à noite.” (Surata Al-Furqan: 5)
Havia em Meca um desventurado chamado Nadhr ibn Harith. Quando o Mensageiro (que a paz esteja com ele) recitava o Alcorão para as pessoas na mesquita, ele começou a contar em árabe lendas e histórias persas. Seu objetivo era impedir que as pessoas ouvissem o Alcorão. Mas esse desejo não se realizou. Ainda assim, os coraixitas incrédulos não desistiram dessa prática; pelo contrário, disseram:
(Árabe************)
“Não escuteis este Alcorão; quando ele for recitado, fazei algazarra, para que talvez possais sair vitoriosos.”
Eles sempre diziam e faziam esse tipo de coisa em relação ao Alcorão. Mas uma pergunta ainda permanece: como se manifesta a beleza artística do Alcorão? Tudo o que os incrédulos tiveram oportunidade de ouvir do Alcorão, por serem falantes de árabe, foi suficiente para influenciar suas mentes e corações. Depois, aceitaram o Islã dizendo “Labbaik”; ou então deram as costas e fugiram. É importante observar que, no campo das artes, isso é natural.
A exegese na época dos Companheiros e dos Seguidores
Se observarmos o período posterior à revelação do Alcorão, veremos que os ilustres Companheiros fizeram a exegese de muitas passagens do Alcorão por meio de diversas narrações, transmitidas diretamente pelo Mensageiro (que a paz esteja com ele) a respeito do conteúdo e da linguagem do Alcorão. Muitos entre os Companheiros explicaram alguns versículos com grande temor. Outros se abstiveram da interpretação e da análise, considerando a exegese do Alcorão um pecado. Diz-se, inclusive, a respeito de Sa’id ibn al-Musayyib (que Allah tenha misericórdia dele) que, quando lhe pediam a explicação de alguma passagem do Alcorão, ele dizia: “Não quero dizer nada sobre a exegese do Alcorão.”
Muhammad ibn Sirin (que Allah tenha misericórdia dele) disse: “Quando perguntei a Hadrat Ubaydah (que Allah esteja satisfeito com ele) algo sobre o Alcorão, ele respondeu: ‘Temei a Allah e segui o caminho reto; somente alcançarão a salvação aqueles que procuram saber com que propósito o Alcorão foi revelado.’”
Hisham ibn Urwa ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: nunca ouvi meu pai fazer a exegese do Alcorão. [Fazrul Islam — Dr. Ahmad Amin.]
Da discussão acima, depreende-se que a maioria dos Companheiros não tinha qualquer interesse pela exegese e análise do Alcorão. Por isso, em sua época, a exegese e a análise do Alcorão não alcançaram o nível desejado.
Quando, após a era dos Companheiros, chegou a era dos tabi’un, a exegese e a análise do Alcorão alcançaram uma extensão um pouco maior que antes. Contudo, seu método consistia em explicar um versículo por meio de uma frase ou palavra semelhante, para que seu sentido geral pudesse ser compreendido. Por exemplo:(Árabe**********)— sobre este versículo, costumavam fazer a seguinte exegese(Árabe**********): isto é, não sejas alguém que nutre a intenção de cometer pecado. Da mesma forma, fizeram a exegese de(Árabe**********): na época da jahiliyyah, quando alguém pretendia viajar, realizava um sorteio com duas flechas. Em uma delas estava escrito: “faz isto”, e na outra: “não faças isto”. De olhos fechados, escolhia uma flecha e agia conforme sua indicação. Neste versículo, Allah proibiu essa prática. Alguns também narraram a ocasião da revelação ou o contexto do versículo. Além disso, ao fazer a exegese, tornou-se costume entre eles narrar algumas histórias dos judeus e dos cristãos.
No final do segundo século da Hégira, a ciência da exegese expandiu-se. Porém, em vez de tomar como objeto a descrição da beleza artística do Alcorão, nela passaram a predominar a história, a gramática, a filosofia e a lógica. Assim, perderam a oportunidade que tiveram de identificar a beleza artística do Alcorão.
Entre os muta’akhkhirun, o ilustre Zamakhshari conseguiu compreender em certa medida o aspecto da beleza artística do Alcorão. Por isso, avançou um pouco nesse campo. Assim, ele escreveu, ao explicar(Árabe**********)— quando a ira de Moisés (que a paz esteja com ele) se aplacou: “É possível que Moisés (que a paz esteja com ele) tenha se irado por causa de tudo aquilo que eles haviam feito durante sua ausência. Voltando-se para seu povo, disse: ‘O que estais fazendo?’ Depois dessas palavras, lançou ao chão as tábuas escritas da Torá e começou a puxar seu irmão pela barba em sua direção.”
Ainda assim, pode-se dizer que Zamakhshari não alcançou pleno sucesso nessa tarefa. Isso porque se percebe pouca profundidade em sua descrição e apresentação.
Para interpretar adequadamente este versículo, é preciso recorrer à imaginação. Pode-se imaginar a raiva como uma pessoa: alguém que fala e depois permanece calado; que de fato incita Moisés (que a paz esteja com ele), mas permanece nos bastidores. Parece que a verdadeira beleza se limita a imaginar a raiva sob forma humana. Zamakhshari certamente teve essa percepção, mas não conseguiu expressá-la. Tudo o que disse ficou confinado aos limites de sua época.
Zamakhshari fez a exegese da surata Al-Fatiha da seguinte maneira: “Quando o servo, ao louvar seu Criador e Protetor, diz, compreende-se que todo louvor pertence exclusivamente a Ele. Em seguida, volta-se para essa Essência e diz, isto é, o Senhor e Soberano de todos os mundos. Nada está fora do alcance de Sua soberania e de Seu cuidado. Depois diz: o Benfeitor dos pequenos e dos grandes, e de todas as nações e espécies. Desse modo, essa pessoa adquire o incentivo para voltar-se para Allah.”
Quando ele diz(Árabe**********)— Ele é o Senhor do Dia do Juízo. Ao chegar a este ponto, emocionado, ele se entrega completamente àquela Essência e, dependendo unicamente dela para obter ajuda e assistência, diz:(Árabe**********)— Somente a Ti adoramos e somente de Ti pedimos ajuda.
Entre os sentimentos percebidos no estudo da Surata Al-Fátiha, há um excelente esforço para dar forma concreta à composição artística. Esta surata é uma das primeiras a adotar o estilo utilizado no Alcorão Sagrado para criar continuidade no ritmo e na disposição temática.
Muitos exegetas tentaram analisar os diversos trechos do Alcorão Sagrado em que se encontram esse tipo de ritmo e composição. Mas não obtiveram absolutamente nenhum êxito nesse assunto. O máximo que conseguiram fazer foi identificar os trechos em que havia composição e semelhança semelhantes. No entanto, não puderam formular nenhum princípio a esse respeito. Naturalmente, até mesmo para realizar isso tiveram de trabalhar arduamente.
Restam os eruditos que discutem sobre a retórica e a inimitabilidade do Alcorão. Esperava-se que, nesse campo, talvez fossem além dos exegetas e tivessem capacidade para explicar a composição artística do Alcorão e sua beleza; contudo, limitaram-se a ocupar-se de debates inúteis.
Por exemplo: a discussão sobre se a composição retórica se encontra nas palavras ou nos significados. Entre eles havia alguns eruditos que conheciam profundamente as regras e os princípios fundamentais da ciência da retórica. Com base neles, tentaram descrever a beleza artística do Alcorão. Às vezes, isso chegou a ultrapassar os limites da paciência.
Agora, observe a descrição da beleza de uma pequena passagem do Alcorão. Eis o que foi dito:
(Árabe*************)
Se pudesses ver! Os culpados, de cabeças baixas, diante de seu Senhor. (Surata As-Sajdah: 12)
Os que rejeitam o Islã serão levantados no Dia da Ressurreição em extrema humilhação e desonra; este versículo é um retrato vivo disso. Assim que o versículo é recitado, surge diante dos olhos a imagem de um criminoso que, em estado de extrema baixeza e vileza, permanece de cabeça baixa. Diante de quem ele está? Diante do próprio Allah, Senhor dos mundos. Isso não é mera imaginação, mas algo que parece real e visível. Agora reflita um pouco: acerca de todos os versículos desse tipo, a explicação da balagha resume-se a uma única observação: neste versículo, a palavra (***) (“tu verás”) é uma forma de tratamento direto. Em princípio, o tratamento direto é dirigido a uma pessoa determinada, mas muitas vezes também é dirigido a uma pessoa indeterminada. Por exemplo, pode-se dizer: “Fulano é uma pessoa muito má. Se você o honrar, ele o humilhará; e, se você o tratar bem, ele se comportará com grosseria para com você.”
Não se pode determinar uma pessoa específica para esse tipo de diálogo. O objetivo da afirmação não é dizer que, se você agir dessa maneira, ele também agirá assim. Pelo contrário, o objetivo é mostrar que, quando alguém é tratado dessa forma, é isso que se receberá em retribuição. A palavra é usada na forma de tratamento direto justamente porque não se refere a uma pessoa específica. Há inúmeros exemplos desse tipo no Alcorão. Também neste versículo, (Árabe**********)ela foi apresentada na forma de tratamento direto para expressar generalidade. Fica claro que a situação dos criminosos será extremamente lastimável. Trata-se de algo tão evidente que não há lugar para qualquer dúvida. Por isso, ao se mostrar aquela situação aterradora, não se especificou ninguém. Ao contrário, está incluído nesse tratamento direto todo aquele que for apto a contemplá-la.
Nos versículos seguintes, os eruditos da ciência da eloquência (balagha) tornaram complexa a vívida imagem apresentada pelo tema, tal como fizeram ao explicar os versículos mencionados anteriormente. Por fim, os especialistas em balagha encerram sua exposição afirmando que este versículo fala do destino doloroso dos criminosos, expresso da maneira mais sublime possível.
Também se pode considerar a perspectiva deles ao explicar outros versículos do Alcorão Sagrado. Por exemplo, pode-se discutir a explicação dos versículos que retratam a Ressurreição, o Paraíso e o Inferno. É dito:
(Árabe**********)
Será soprado o Trombeta, e todos os que estiverem nos céus e na terra cairão inconscientes, exceto aqueles que Allah quiser. Depois, será soprado novamente o Trombeta; então, imediatamente, eles se levantarão e ficarão olhando.
(Árabe***********)
No dia em que moverei as montanhas, tu verás a terra como uma planície aberta. Em seguida, reunirei todos; ninguém ficará de fora, nem dos primeiros nem dos últimos. (Surata Al-Kahf: 47)
(Árabe**************)
Os habitantes do Inferno chamarão os habitantes do Paraíso e dirão: “Dai-nos um pouco da comida ou da bebida que Allah vos concedeu.” Os habitantes do Paraíso responderão:
“Allah proibiu ambas essas coisas aos incrédulos.” (Surata Al-A‘raf: 5)
Nos versículos acima, surgem algumas imagens completas, extremamente angustiantes e comoventes. Os olhos as veem, os ouvidos as escutam e elas deixam sua marca no fundo do coração. Mas o que é surpreendente é que os estudiosos da retórica dirão apenas que acontecimentos futuros foram expressos com palavras no passado, para que se entenda que já aconteceram.
Entre os sábios que defenderam a retórica e a inimitabilidade do Alcorão, houve um predecessor de Allama Zamakhshari que demonstrou grande habilidade e êxito em todos esses assuntos. Ele pode ser considerado um investigador rigoroso nessa área. Trata-se de Abd al-Qahir al-Jurjani. Sem dúvida, a obra “Dala’il al-I‘jaz”, que ele escreveu, é um livro de grande importância sobre o tema. É lamentável, porém, que todo o livro esteja repleto de discussões relacionadas às palavras e aos significados do Alcorão, o que torna muito difícil para o público em geral aprender com ele. Ainda assim, pode-se dizer que ele se sobrepõe a todos os sábios que escreveram sobre esse assunto. Mesmo nos tempos atuais, ninguém conseguiu igualá-lo nessa área.
Apresentamos exemplos do quanto Abd al-Qahir al-Jurjani avançou em sua investigação sobre a beleza artística do Alcorão, embora, para deles tirar proveito, o leitor precise de grande paciência e perseverança. Isso porque, quando se discutiam a lógica e a teologia especulativa na literatura, era justamente esse método de explicação e exposição que se seguia. Abd al-Qahir al-Jurjani escreveu:
“A descrição da beleza e da feiura de uma passagem só é possível quando alguém possui uma compreensão verdadeira da construção e do ritmo da frase. Vocês sabem que, quando as pessoas recitam este versículo:(Árabe**********)— a velhice deixou marcas em minha cabeça (Surata Maryam: 4) —, a beleza daquela passagem depende unicamente da recitação. Nada mais é necessário. Mas a realidade não é essa. A reação que se produz no ouvinte assim que ele escuta este versículo não depende unicamente da recitação. A verdadeira razão é que, quando um substantivo é colocado como sujeito numa frase, a regra geral exige que ele receba o ḍamma. Contudo, na realidade, ele não é o sujeito. Se, depois desse substantivo, vier outro substantivo a ele relacionado, este será o verdadeiro sujeito do verbo. Em outras palavras, como o verbo é relacionado ao primeiro substantivo por causa do segundo, estabelece-se uma harmonia entre os dois substantivos. Por exemplo:
(Árabe*************)
Há muitas outras frases desse tipo, nas quais a ação verbal é relacionada à sua causa, e não ao verdadeiro agente. Pois estamos plenamente conscientes de que o verdadeiro agente da ação (****) é (****), embora, aparentemente, (****) pareça ser o agente. Do mesmo modo, no outro exemplo, o verdadeiro agente de (****) é (***), o verdadeiro agente da ação (***) é (***), e o verdadeiro agente de (****) é (****). Em todas essas frases, a ação verbal foi relacionada a um substantivo que, na realidade, não é o agente dessa ação. A beleza manifestada nos exemplos do trecho citado só foi possível porque a ação verbal foi relacionada a um substantivo que, aparentemente, não é o agente. Se, em vez disso, ela tivesse sido relacionada ao verdadeiro agente, dizendo-se: (Árabe**********) então a verdadeira beleza teria desaparecido. Se alguém perguntar qual é a razão do desaparecimento da beleza, a resposta será: (Árabe**********) a beleza geral existente na frase não está contida na frase (****). O significado da primeira frase é que toda a cabeça ficou branca; não restou nenhuma parte que não estivesse branca. Entretanto, esse significado não é compreendido na segunda frase; dela se entende que uma parte da cabeça ficou branca, mas não a cabeça inteira. Da mesma forma, se fosse dito: (Árabe**********) então se entenderia que a casa inteira ardeu em chamas. Porém, a frase não transmite que alguma parte da casa pegou fogo, nem que toda a casa foi tomada pelo fogo e completamente destruída. Outro exemplo no Nobre Alcorão é este nobre versículo:
(Árabe**********)
Fizemos a terra fender-se e fizemos as fontes brotar.
Neste versículo, (****) é, na realidade, o objeto da palavra (***) (****), mas, aparentemente, a palavra (***) foi transformada em objeto (***) . Do mesmo modo, no versículo anteriormente mencionado, (***) foi especificado como o agente de (***). Por meio desse tipo de alteração, geralmente se cria abrangência; da mesma forma, nesta frase também foi apresentada uma abrangência semelhante. Entende-se que a terra inteira foi fendida e que fontes foram criadas em todos os lugares. A frase poderia ser formulada assim: (***) ou também assim: (Árabe**********) mas, desse modo, o objetivo não é plenamente alcançado. O verdadeiro objetivo é transmitir que as fontes estão brotando em diferentes lugares da terra. (Dalā’il al-I‘jāz, al-Jurjānī)
Que Allah Todo-Poderoso tenha misericórdia de Abdul Qāhir al-Jurjānī. Não há dúvida de que ele conseguiu compreender o verdadeiro significado, mas não pôde expressar tudo em palavras.(Árabe**********) e (Árabe**********) a beleza artística contida entre as duas frases é, sob a perspectiva da ciência da eloquência, exatamente aquilo que ele escreveu. Contudo, além disso, há outro aspecto da beleza artística: provocar rapidamente uma comoção no mundo do pensamento, o que é expresso pela palavra (***). Aparentemente, os cabelos brancos foram relacionados à cabeça, de modo que se espalhariam por toda ela. Do mesmo modo, no caso de (***) ou de fender-se, encontra-se rapidez, que toca profundamente a mente e a consciência humanas e produz nelas um forte impacto.
É tão claro quanto a luz do dia que, para provocar uma comoção no mundo do pensamento,(Árabe**********) a frase é mais significativa e poderosa. Isso porque os cabelos brancos foram relacionados à juventude, embora, na realidade, a juventude não esteja presente nela. É justamente aí que reside a fonte principal da beleza. Como prova disso, temos a frase (***). A beleza nela contida é semelhante à do versículo anteriormente mencionado do Alcorão. Na verdade, nesse versículo observam-se dois tipos de beleza.
Em primeiro lugar, obtém-se beleza ao relacionar a juventude aos cabelos grisalhos.
Em segundo lugar, obtém-se beleza ao relacionar os cabelos grisalhos à cabeça.
Esses dois tipos de beleza complementam-se mutuamente. Sem um deles, jamais será possível revelar plenamente a beleza do versículo.
Abdul Qahir al-Jurjani (que Deus tenha misericórdia dele) chegou até aqui e parou. Não pôde avançar mais. Aparentemente, parece que esse era todo o seu objetivo. Pois não se encontra nada além disso em sua exposição. Cada época possui um estilo próprio de língua e literatura. Não podemos esperar que ele ultrapasse o estilo de sua época.
Para dizer a verdade, até o presente, os serviços prestados pelos sábios a respeito da exegese e da inimitabilidade do Alcorão chegaram a um limite determinado e aí permaneceram. Não puderam avançar mais. Havia também certos aspectos de análise e verificação da antiga língua e literatura árabes. Qualquer obra era avaliada à luz desses aspectos. Não se avançou além disso a ponto de analisar a obra como um todo e identificar suas características e sua singularidade. O mesmo ocorreu com a eloquência corânica. Hoje, em vez de fazer dela um objeto de análise, deve-se fazer dela um objeto de discussão abrangente. Assim, os sábios que se dedicaram à eloquência fizeram o seguinte: tomaram todas as palavras, ritmos e formas de composição do Alcorão como objeto de estudo da eloquência. Depois, empenharam-se ao máximo para provar que todo o Alcorão está repleto de eloquência e pureza de expressão.
Os ilustres sábios que se dedicaram ao estudo da eloquência do Alcorão não chegaram nem perto de suas características gerais. Embora tenham tentado, de forma fragmentada, determinar a beleza artística do Alcorão, isso não produziu resultado algum. Como já expliquei anteriormente, os esforços daqueles sábios dedicados à eloquência eram inteiramente preliminares e incompletos.
A palavra final sobre este assunto é que os sábios da eloquência não conseguiram alcançar, na literatura árabe nem no Nobre Alcorão, esse limite em que se encontram as características gerais. É lamentável que a identificação e a descrição das importantes características artísticas do Nobre Alcorão continuem até hoje envoltas em mistério. Considerou-se indispensável adotar um novo método para a lição e o estudo deste Livro milagroso, discutir o assunto com base em princípios gerais a fim de chamar a atenção para sua beleza artística e oferecer explicações e análises dos aspectos miraculosos extraídas dos próprios temas singulares do Nobre Alcorão.
É preciso lembrar que a característica de que este magnífico Livro é portador não se limita a uma parte específica; ao contrário, estende-se igualmente por todo o Livro. Até mesmo a forma de descrever todos os propósitos e objetivos é una e uniforme. Quer o objetivo seja dar boas-novas, advertir sobre o castigo de Deus, narrar um acontecimento passado, descrever algo que ocorrerá no futuro, transmitir uma palavra de consolo para tranquilizar alguém, convidar à aceitação da fé, orientar sobre como viver neste mundo, retratar algo para torná-lo compreensível, descrever um objeto perceptível pelos sentidos, apresentar um exemplo concreto do mundo interior, ou descrever algo metafísico — seja qual for o caso — não há diferença fundamental entre a descrição e o estilo de expressão.
Há um fio condutor presente em todas as descrições do Glorioso Alcorão. Foi precisamente para demonstrá-lo que escrevemos este livro. Denominei esse fio condutor de “imagem artística”.
Terceiro capítulo
Imagem artística
A imagem é uma característica especial do Alcorão Sagrado. Ela é um meio de gravar o propósito do Alcorão no coração. Por meio da imagem, a representação imaginária de assuntos não expressos e incompreensíveis é refletida no espelho da mente. Essas imagens, artisticamente retratadas, influenciam a vida e as ações. Isso ocorre porque o assunto imaginado então se corporifica em sua verdadeira forma e se apresenta diante dos olhos. O homem morto transforma-se em homem vivo e fica diante dos olhos.
Na imagem, descrições, testemunhos e acontecimentos aparecem diante dos olhos em forma de cenas, criando animação na vida e nas ações. Se diálogos e linguagem forem acrescentados, ela se manifesta como um ator vivo. Tudo isso se reflete naquela tela ou cortina que fica sobre o palco. O ouvinte ou leitor fica tão absorto que, ainda que por um breve instante, esquece que está sendo recitada a Palavra de Allah, na qual tais exemplos foram apresentados apenas para serem compreendidos. Pelo contrário, ele então contempla diretamente todos os acontecimentos. As cenas vão mudando uma após outra. Ele começa a sentir que aquilo não é apenas uma imagem, mas o próprio reflexo da vida.
Quando se retratam os pensamentos secretos do cérebro, os estados psicológicos e a natureza do comportamento humano, tudo é expresso apenas por meio de algumas frases sem vida. Não há nelas qualquer revestimento de cor, nem sai de sua boca qualquer som ou frase. Ainda assim, não temos dificuldade para compreender o milagre e o assombro do Alcorão. O Alcorão está repleto de retratos bem-sucedidos e de analogias desse tipo sobre diversos assuntos. Onde quer que se encontre algum dos propósitos que mencionamos pouco antes, ele o apresenta à sua própria maneira e estilo — como assuntos antigos, exemplos humanos, a revisão do curso de acontecimentos ocorridos, a representação das cenas do Dia da Ressurreição, a descrição visual da paz do Paraíso e do castigo do Inferno, ou a descrição de debates, entre outros. Isso não foi feito apenas para tornar atraente o estilo de expressão do Alcorão. Trata-se de um método específico e especial do Alcorão, que podemos chamar de método da representação.
Tentaremos discutir amplamente o significado da imagem, para que se compreenda qual é o alcance e os limites da imagem artística no Alcorão. Uma imagem pode ser desenhada com o auxílio de pincéis e cores, mas também pode ser desenhada com o auxílio do pensamento e da meditação. Do mesmo modo, por meio das melodias da música, pode-se realizar a expressão plena de uma imagem. Às vezes, frases, palavras, o estilo da leitura e elementos relacionados também são utilizados como recursos da imagem. Quando uma imagem desse tipo surge diante de nós, nós a apreciamos com os olhos, os ouvidos, o pensamento, a consciência, a mente e tudo o mais em conjunto.
É necessário lembrar uma coisa: as imagens corânicas não foram desenhadas com esboços e cores; ao contrário, foram criadas com a vida e o mundo dos seres humanos. São imagens que emanam da consciência e dos sentimentos. Os significados tornam-se as cores da imagem e se refletem na mente humana.
Agora apresentaremos alguns exemplos disso.
Expressão do pensamento em linguagem compreensível
1. O objetivo era esclarecer que, no Dia da Ressurreição, nenhuma queixa ou pedido dos incrédulos será aceito perante Allah, e eles não poderão entrar no Paraíso. A aceitação deles e sua entrada no Paraíso não passam de uma vã esperança. Para esclarecer isso, foi pintado um quadro belíssimo.
(Árabe**************)
Aqueles que consideraram falsos os Meus versículos e se ensoberbeceram diante deles não terão abertas as portas do céu, nem entrarão no Paraíso até que o camelo passe pelo buraco da agulha. (Surata Al-A’raf: 40)
Assim que lê ou ouve este versículo, duas imagens surgem diante do leitor. Uma é a imagem das portas do céu se abrindo; a outra é a imagem de um camelo robusto esforçando-se para passar pelo orifício de uma agulha. Para tornar compreensível uma questão complexa e incompreensível, ela foi apresentada por meio de uma imagem familiar. Isso não apenas produz uma ideia na mente das pessoas, mas manifesta-se como uma imagem real e concreta.
2. Allah, o Altíssimo, deseja esclarecer que, no Dia da Ressurreição, destruirá as boas obras dos incrédulos de tal maneira que parecerá que elas jamais existiram. A frase seguinte retrata isso de forma belíssima:
(Árabe***********)
Voltarei minha atenção para as obras que praticaram e as reduzirei a partículas de poeira dispersas. (Surata Al-Furqan: 23)
Ao ler este versículo e pensar nas partículas de poeira dispersas, o leitor vê surgir em sua mente a imagem da inutilidade das obras que praticaram.
3. No versículo a seguir, também é apresentada uma imagem semelhante:
(Árabe**************)
O exemplo das obras daqueles que não creem na existência de seu Senhor é como o das cinzas sobre as quais sopra um vento impetuoso num dia de tempestade de poeira. Eles não terão em suas mãos parte alguma do que adquiriram. (Surata Ibrahim: 18)
Por meio do exemplo de um dia de tempestade de poeira, é apresentada uma imagem tão comovente que cada pessoa pode ver, com os olhos da imaginação, uma rajada violenta espalhando e levando tudo consigo, de modo que nada mais pôde ser reunido, apesar de cem tentativas. Da mesma forma, as obras dos incrédulos se tornarão inúteis e serão totalmente perdidas.
Allah, o Altíssimo, quer dizer que, se alguém dá algo a outra pessoa e, algum tempo depois, tenta humilhá-la lembrando-a disso, sua doação se torna vã. Uma imagem vívida disso é apresentada neste versículo:
(Árabe************)
Ó crentes! Não anuleis vossas esmolas mencionando-as e causando sofrimento, como aquele que gasta sua riqueza para ser visto pelas pessoas e não crê em Allah nem no Último Dia. O exemplo desse homem é como o de uma pedra lisa sobre a qual havia um pouco de terra, mas uma chuva torrencial a lavou e deixou limpa. Eles não receberão recompensa alguma pelo que adquiriram. (Surata Al-Baqarah: 264)
Neste versículo, é apresentada uma imagem de duas faces. A primeira imagem é a de uma pedra nua, sobre a qual havia apenas uma fina camada de terra, mas uma chuva torrencial a lavou e deixou limpa. Eles não receberão recompensa alguma pelo que adquiriram. (Surata Al-Baqarah: 264)
Neste versículo, é apresentada uma imagem dupla. A primeira imagem é a de uma pedra nua, sobre a qual foi depositada apenas uma fina camada de terra, mas, quando chega a chuva, ela a lava e limpa, fazendo com que a pedra permaneça ali com a aparência de uma pedra. Esse é o exemplo daqueles que dão esmolas e depois ficam alardeando isso. Em seguida, é dito que o exemplo daqueles que doam somente para agradar a Allah é como o de um jardim, onde nenhuma chuva, seja pouca ou muita, é desperdiçada. Ele se torna adornado de flores e frutos. Mesmo que nenhuma chuva caia, ainda assim produzirá frutos.
Não quero dizer aqui qual é o grau de correspondência de lugar e tempo entre as duas imagens mencionadas acima, nem que tipo de veste de beleza foi colocada sobre elas para estabelecer sua semelhança. Tampouco é meu propósito dizer que a fina camada de terra sobre a pedra representa a pessoa que dá esmolas e depois causa sofrimento ao beneficiário da doação; isto é, essa doação encobre temporariamente sua aparência repulsiva, mas, pouco depois, essa aparência se revela novamente em toda a sua nudez.
Quero falar sobre os elementos que compõem a imagem. Aliás, neste livro foi reservado um capítulo específico para discutir esse assunto.
5. Outra imagem sobre este tema é:
(Árabe***********)
A parábola daquilo que eles gastam nesta vida mundana é como a de um vento tempestuoso, que contém o frio do granizo e atinge a plantação de pessoas que foram injustas consigo mesmas, destruindo-a em seguida. (Surata آل عمران: 117)
Neste versículo, é retratada a cena de um campo sobre o qual passou uma tempestade de granizo, destruindo toda a sua colheita. Todo o trabalho e esforço do dono do campo foram em vão. Apesar de tanto esforço, ele não conseguiu levar os grãos para casa. É exatamente assim o trabalho daqueles que, associados à incredulidade, doam no caminho de Allah esperando receber uma recompensa, mas a incredulidade reduz a nada suas boas obras.
Nesta cena, a palavra (**) “Sirrun” foi escolhida com grande precisão, e por meio dela a cena foi levada ao limite máximo da beleza. Parece que pequenas bolas de gelo estão destruindo o campo de cereais. A palavra deu vida a toda a imagem. Para discutir esse tipo de escolha vocabular, reservamos um capítulo específico.
6. Allah Todo-Poderoso quer dizer que, se alguém O invocar, Ele responderá à sua invocação e realizará os desejos de seu coração. Mas, se alguém invocar outro além d’Ele, este não poderá sequer ouvir sua invocação, nem realizar qualquer de seus desejos. Afinal, ele não é o dono de todas as coisas. Sobre isso, o versículo a seguir apresenta uma imagem belíssima.
(Árabe**************)
A Ele pertence exclusivamente o chamado da verdade; e aqueles que invocam além d’Ele não lhes são de nenhuma utilidade. O exemplo deles é como o de alguém que estende as duas mãos em direção à água, para que ela alcance sua boca, mas a água jamais chegará à sua boca. Todas as invocações dos incrédulos são vãs. (Surata Ar-Ra‘d: 14)
Esta é uma imagem extremamente vívida e atraente, que conduz as pessoas nessa direção. Não é possível criar, por meio de palavras, uma imagem mais atraente do que esta. Vejam como ela é clara: uma pessoa está de pé junto à água, estendendo as duas mãos e invocando-a para que entre em sua boca; mas essa água jamais entrará em sua boca.
7. O objetivo é mostrar que aqueles que são adorados além de Allah não ouvem nem veem coisa alguma e estão privados de conhecimento, entendimento e poder. Portanto, a adoração daqueles que os servem está fadada ao fracasso. O método adotado para expressar isso é tão tocante que seria impossível retratá-lo de qualquer outra maneira.
(Árabe*************)
O exemplo dos incrédulos é como o de alguém que chama animais que não ouvem nada além de gritos. Eles são mudos, surdos e cegos; nada compreendem. (Surata Al-Baqarah: 171)
Os ídolos que os incrédulos invocam são completamente incapazes de responder à invocação. Eles não conseguem avaliar a invocação nem compreender seu propósito. Isto é uma parábola. Neste versículo, é retratada uma comunidade que, de fato, invoca seus ídolos, mas os bonecos de barro nada compreendem sobre o significado e o objetivo dessa invocação. Eles são tão indiferentes que não têm nenhuma notícia sobre se sua invocação chegou ao lugar devido ou se recebeu alguma resposta.
8. O objetivo aqui é explicar que aqueles que são invocados e adorados além de Allah são extremamente fracos. Portanto, como podem aqueles que são tão fracos por si mesmos proteger outros? Uma bela imagem disso foi retratada neste versículo:
(Árabe*****************)
Aqueles que tomam outros além de Allah como protetores são como a aranha. Ela constrói uma casa. E, entre todas as casas, a casa da aranha é a mais fraca. (Surata al-Ankabut: 41)
O versículo afirma que aqueles que consideram outro além de Allah como Senhor buscam refúgio numa casa tão fraca quanto a da aranha. Ela é destruída pelo menor golpe. Embora surpreendente, é verdade que, mesmo depois de um exemplo tão evidente, isso não provoca neles reação alguma; eles permanecem imersos na ignorância e na arrogância.
9. O objetivo da afirmação aqui é explicar que os idólatras se envolveram numa prática vã, sem qualquer permanência. Ela é comparada a algo que flutua, mas que tem dificuldade até mesmo para permanecer à tona.
(Árabe************)
Aquele que associa parceiros a Allah é como alguém que tivesse sido lançado do céu; então uma ave o arrebata, ou o vento o leva e o lança num lugar distante. (Surata al-Hajj: 31)
Este versículo retrata a situação lamentável dos idólatras. Sem sequer perceberem, é como se caíssem do céu num instante; porém, antes de tocarem o solo, uma ave carnívora os arrebata com as garras, ou o vento os leva para um lugar desconhecido, de onde jamais será possível retornar.
10. Antes do advento do Islã, Allah havia concedido aos Povos do Livro uma Escritura celestial. Eles declararam e juraram que creriam em Allah. Porém, não conseguiram elevar-se acima de pequenos interesses mundanos. Consequentemente, eles mesmos arruinaram seu compromisso. Assim, por meio deste nobre versículo, foi retratada a dimensão da aflição e da humilhação que sofrerão no Dia da Ressurreição.
(Árabe************)
Aqueles que vendem por um preço insignificante o pacto e o compromisso assumidos em nome de Allah não terão qualquer quinhão na Vida Futura. No Dia da Ressurreição, Allah não lhes falará, não olhará para eles e sequer os purificará. Na verdade, terão um castigo doloroso. (Surata آل عمران: 77)
Aqui se fala do mau destino dos Povos do Livro. Contudo, em vez de mencionar aquilo de que serão privados, são mencionados alguns sinais pelos quais se compreende espontaneamente qual é essa privação. Por exemplo, é dito que Allah não lhes falará, não olhará para eles nem os purificará. Com essas palavras, Allah quis explicar que eles serão lançados no Inferno e privados do Paraíso e de sua felicidade eterna.
Quadro psicológico
1. O versículo a seguir é apresentado para mostrar quão profundamente angustiado fica aquele que escolhe uma vida de shirk em lugar do tawhid. Ele retrata concretamente como seu coração é dividido entre muitas divindades, como fica seu estado psicológico e como seu coração permanece oscilando entre a orientação e o desvio:
(Árabe************)
Dize: Invocaremos, em vez de Allah, aquilo que não pode nos beneficiar nem nos prejudicar em coisa alguma? Retornaremos aos nossos passos depois da orientação de Allah, como aquele a quem Satanás desviou na terra, deixando-o vagando aturdido, enquanto seus companheiros o chamam para o caminho, dizendo: Vem conosco? (Surata الأنعام: 71)
Neste versículo é retratada a situação daquele a quem Satanás desviou. Seus companheiros o convocam à orientação, mas, preso na teia do erro, ele não consegue decidir a qual dos dois lados — seus companheiros ou Satanás — responderá e para qual deles dará um passo.
2. Allah Ta’ala deseja descrever a situação daqueles que, depois de terem recebido de Allah orientação para o caminho, empenham-se incessantemente em fugir para muito longe. É como se estivessem tentando deixar-se levar pela correnteza da queda. Enquanto isso, as necessidades humanas, os desejos e a cobiça o dominaram. Tanto o conhecimento quanto a ignorância são causas de humilhação para ele. Ele não encontra paz por causa de sua ignorância, e o conhecimento também não consegue conduzi-lo a nenhum bem. Quão belamente essa imagem foi retratada nas poucas frases que se seguem.
(Árabe************)
Recita-lhes a situação daquele a quem concedi os Meus sinais (orientação), mas que os abandonou e se afastou. Satanás passou a persegui-lo, e ele acabou desviando-se do caminho. Certamente, se Eu quisesse, poderia tê-lo elevado em dignidade por meio desses sinais. Mas ele se apegou à terra e permaneceu subjugado por seus desejos. Sua parábola é como a de um cão: se o persegues, ele ofega; e, se o deixas, também ofega. (Surata Al-A’raf: 175–176)
Esta imagem é a representação concreta da humilhação e da ignomínia. É uma imagem profundamente comovente, eternamente luminosa. É uma imagem que revela por si mesma seu propósito e objetivo. Aqui, a importância religiosa e a importância do conteúdo fundiram-se numa só. Essa mesma harmonia está presente em todas as imagens retratadas pelo Alcorão.
3. Agora Allah Ta’ala deseja explicar a situação de uma pessoa cuja fé é frágil, não está arraigada no fundo do coração. Falta-lhe firmeza na crença. Embora possua fé, não está disposta a suportar opressão e perseguição no caminho da fé. Quer conservar sua fé vivendo sem perturbações. Sua crença ainda não alcançou a firmeza necessária para que permaneça inabalável diante de qualquer risco. Eis uma imagem desse tipo de pessoa, oscilando entre o lucro e a perda:
(Árabe************)
Entre as pessoas, há quem adore Allah envolvido em dúvida e hesitação. Se alcança algum bem, permanece firme na adoração; mas, se é atingido por alguma provação, retorna à sua condição anterior. Ele sofreu uma perda neste mundo e no Além. Essa é uma perda evidente. (Surata Al-Hajj: 11)
Basta mencionar a palavra harfayn (***) ou limite extremo para trazer a imagem diante dos olhos. Nela, vê-se uma pessoa de fé fraca que pratica a adoração de tal modo que, no próprio ato de adorar, demonstra não ser digna de adorar permanecendo firme e inabalável no caminho correto. Essa imagem se reflete na mente humana de uma forma impossível de descrever em palavras.
Quando eu frequentava a escola primária, sempre que, recitando o Alcorão, chegava a este trecho, uma imagem viva surgia no espelho da minha mente; até hoje não a esqueci.
Não há uma diferença muito grande entre aquela imagem de então e o sentimento de hoje. Naquela época, eu a considerava apenas uma imagem; hoje, parece-me que ela é somente uma parábola, não uma imagem real.
Penso que o Alcorão apresentou sua mensagem de maneira tão extraordinária que todo leitor, instruído ou não, é capaz de compreendê-la, e ela surge como uma imagem viva diante de cada leitor.
4. A imagem dos muçulmanos que, antes de aceitar o Islã, se encontravam à beira da cova do Inferno foi apresentada da seguinte maneira:
(Árabe**************)
Apegai-vos todos firmemente à corda de Allah e não vos dividais. E recordai a graça que Allah recentemente estabeleceu entre vós. Assim, pela Sua graça, tornastes-vos irmãos uns dos outros. Estáveis à beira de uma cova de fogo, da qual Allah vos salvou. (Surata آل عمران: 103)
A imagem mostra que estáveis à beira de uma cova de fogo, onde o menor deslize do pé poderia ter causado um acidente terrível. Em outras palavras, se não tivésseis aceitado o Islã, o Inferno seria inevitável para vós.
Aqui não se trata da aceitabilidade nem da veracidade da metáfora. O que importa aqui é a imagem dos muçulmanos que se manifesta no mundo interior: parece que eles estavam prestes a cair inevitavelmente numa caverna de fogo. Poderia algum artista, com suas cores e pincéis, pintar uma imagem estática tão perfeita do mundo psíquico? Contudo, sem cores, pincéis ou tela, o Alcorão pintou, com algumas palavras, uma imagem tão bela e perfeita.
Nesta imagem, vemos um buraco em chamas, algumas pessoas sentadas ao seu lado, e o pequeno espaço entre eles representa a vida terrena. Depois que se tornaram muçulmanos, surgiu entre eles e esse buraco uma enorme parede, de modo que já não havia possibilidade alguma de atravessá-la e cair nele.
5. Vemos outra imagem semelhante: a pessoa que não fundamentou todas as suas obras na taqwa, mas em outra coisa:
(Árabe**********)
Aquele que ergueu os alicerces de sua casa sobre o temor de Allah e a busca de Sua satisfação agiu melhor do que aquele que assentou os alicerces de sua casa à beira de um precipício prestes a desmoronar, fazendo-o cair com ela no fogo de Jahannam. (Surata At-Tawbah: 109)
A imagem do instante imediatamente anterior à queda em Jahannam foi apresentada de maneira bela neste versículo. O versículo diz:(Árabe*****)isto é, o edifício está caindo com ele em Jahannam. Aqui, a duração da vida terrena foi considerada tão insignificante que nem se julgou necessário fazer qualquer menção a ela. Nesta palavra, poderia ter sido usada uma forma alternativa, mas ela não foi. Isso porque uma determinada forma é usada para indicar algo cuja ocorrência ainda sofrerá um pequeno atraso, enquanto a outra indica que o edifício já está em processo de queda. Em pouco tempo, ele desaparecerá dentro de Jahannam. A distância entre Jahannam e o edifício em queda é precisamente a vida terrena, que se aproxima cada vez mais de Jahannam.
Imagem humana
O Alcorão, além de pintar imagens do mundo psíquico humano, também apresentou imagens das condições humanas. Já discutimos anteriormente o tema(Árabe*******) no contexto de (aquele que adora Allah envolvido em dúvidas e conflitos…). A seguir, são apresentados mais alguns exemplos sobre esse assunto:
1. Nos versículos seguintes, foi retratada de forma magistral a inutilidade de refutar debates fúteis e argumentos vãos, apresentando provas corretas e convincentes.
(Árabe*************)
Mesmo que abríssemos diante deles uma porta do céu e eles continuassem subindo por ela durante todo o dia, ainda assim diriam: “Nossa visão foi confundida; ou então fomos enfeitiçados.”
Em outra passagem, foi dito:
(Árabe**********)
Mesmo que lhes tivéssemos enviado algo escrito em uma folha, e eles o tocassem com as próprias mãos, ainda diriam: “Isto não passa de magia manifesta.” (Surata Al-An’am: 7)
2. O que se retrata aqui é que o ser humano só conhece seu Senhor quando se encontra em aflição e sofrimento. Quando chegam os dias felizes, esquece-se daquele que o salvou. Essas ideias não foram descritas de maneira simples e direta; foram apresentadas em uma imagem cativante. Durante as mudanças, semelhantes às de um filme, surge diante de nós a imagem de um ser humano que representa a maioria das pessoas na sociedade.
(Árabe************)
É Ele quem vos faz viajar por terra e mar. Quando embarcais numa embarcação e ela navega com vento favorável, levando as pessoas, elas ficam felizes. (De repente,) a embarcação é atingida por um vento violento, e ondas começam a vir de todos os lados, umas após as outras. Percebem que estão cercadas. Então invocam Allah, sinceros na adoração a Ele: “Se nos salvares desta aflição, seremos certamente agradecidos.” Porém, quando Allah os salva, imediatamente passam a cometer transgressões na terra, injustamente. (Surata Yunus: ২২-১৩)
Assim, isso é apresentado como uma imagem viva e dinâmica. A embarcação balança ao movimento das ondas, ora para cima, ora para baixo. Parece que está afundando sob a água. Os passageiros chegaram à beira da morte, e o medo da morte os domina. Nessa situação, invocam Allah com todas as suas forças. Ao chegar ao final do versículo, a pessoa fica hipnotizada. Toda a imagem ganha vida e continua a mover-se diante dela. Podemos dizer que este versículo conseguiu apresentar plenamente o seu significado da melhor maneira possível.
3. O objetivo é descrever a condição de uma pessoa cujo aspecto exterior é extremamente atraente e cativante, mas cujo interior é extremamente repulsivo e perigoso. Vejam com que beleza essa imagem foi desenhada.
(Árabe************)
Os que são crentes dizem: “Por que não é revelada uma surata?” Porém, quando é revelada uma surata inequívoca, na qual se menciona o jihad, verás aqueles cujos corações estão enfermos olhando para ti como alguém desmaiado pelo medo da morte. (Surata Muhammad: 20)
Será possível explicar, por meio de alguma imagem, como fica o ser humano no momento da morte? No entanto, com que beleza essa cena se manifesta no versículo acima mencionado! Ao mesmo tempo, surge também a comovente imagem dos seus rostos humilhados.
4. Muitas vezes, a dimensão humana do ser humano é retratada por meio de acontecimentos comuns. Porém, ultrapassando esse acontecimento específico, ela se revela como uma imagem eterna.
(Árabe***********)
Depois de Moisés, não viste um grupo dos filhos de Israel? Quando disseram ao seu profeta: “Designa para nós um rei, para que, sob sua liderança, possamos lutar no caminho de Allah.” O profeta disse: “Podeis acaso ser tomados por homens que não lutarão quando o combate vos for ordenado?” Eles disseram: “Que nos aconteceu para não lutarmos no caminho de Allah, quando fomos expulsos de nossas casas e separados de nossos filhos?” Porém, quando o combate lhes foi ordenado, todos recuaram, exceto alguns poucos. E Allah conhece perfeitamente os injustos. (Surata Al-Baqara: 246)
Aqui se compreende claramente que, quando os filhos de Israel viviam em grande conforto e comodidade, ostentavam falsamente sua bravura. Assim que chegou a ordem para o jihad, o balão de sua bravura murchou e sua covardia ficou exposta. Não se trata de um acontecimento que ocorreu apenas uma vez. Para além dos limites do tempo e do lugar, acontecimentos desse tipo repetem-se continuamente. Pessoas assim existiram, existem e continuarão a existir na sociedade humana.
Até agora, descrevi apenas aqueles exemplos nos quais não foram apresentadas somente imagens de estados psicológicos e humanos, mas essas imagens também foram apresentadas de forma viva e dinâmica. Agora quero apresentar alguns exemplos em que o Alcorão retratou de maneira vívida e cativante acontecimentos ocorridos, provérbios ou diferentes relatos e histórias. É importante observar que não há descontinuidade entre eles; ao contrário, existe uma estreita relação entre um e outro.
O retrato da calamidade ocorrida
1. Pensem na imagem da derrota dos incrédulos na batalha de Al-Ahzab, retratada no Alcorão: parece que todo o campo de batalha está diante dos nossos olhos. As atividades que ali se desenrolavam surgem diante de nós vivas e dinâmicas. A percepção e a imaginação misturam-se e tornam-se uma só. Ao contemplar essa imagem, tem-se a impressão de que a batalha está acontecendo diante de nós e de que nenhuma parte dela escapa ao nosso olhar. Essa imagem foi pintada por meio das seguintes palavras.
(Árabe************)
Ó crentes! Recordai a graça de Allah para convosco. Quando os exércitos inimigos vos cercaram, enviámos contra eles um vento tempestuoso e exércitos que não podíeis ver. Allah vê tudo quanto fazeis. Quando eles se aproximavam de vós pelas partes altas e baixas, vossos olhos se desviavam, vossas almas chegavam à garganta e começastes a alimentar maus pensamentos acerca de Allah. Naquele momento, os crentes estavam sendo postos à prova e eram abalados violentamente. Então, os hipócritas e aqueles cujos corações estavam enfermos começaram a dizer: “A promessa de Allah e do Mensageiro não passa de uma fraude.” Um grupo disse: “Ó habitantes de Yathrib! Este não é um lugar onde se possa permanecer; retornai.” E outro grupo pediu permissão ao Profeta, dizendo: “Nossas casas estão desprotegidas.” Na realidade, elas não estavam desprotegidas; eles apenas pretendiam fugir. (Surata Al-Ahzab: 9–13)
Pensem em quão perfeita é a imagem dos sofrimentos físicos e mentais e dos acontecimentos manifestos e ocultos do campo de batalha. Essa imagem flutua diante dos olhos. Os soldados inimigos cercaram-nos por todos os lados, e os muçulmanos, desorientados, limitavam-se a olhar com os olhos arregalados. Seus pés estavam prestes a escorregar. Enquanto isso, os hipócritas empenhavam-se em provocar a calamidade. Eles diziam: “A promessa que o Mensageiro vos fez durante todo esse tempo não passa de uma miragem de mentiras. Não podereis enfrentá-los e permanecer no campo de batalha. Ide embora enquanto ainda há tempo.” Alguns começaram a procurar uma oportunidade para fugir, alegando que suas casas estavam desprotegidas.
Na verdade, não há nenhum aspecto do campo de batalha que não tenha sido retratado nesta imagem. Toda a cena do campo de batalha foi trazida diante dos olhos exatamente como era. Tratava-se de um acontecimento real, que de fato ocorreu. Contudo, embora a representação corânica possa divergir, em maior ou menor medida, daquela cena singular da derrota dos incrédulos, ela permanece atemporal e eterna. Sempre que duas partes entram em conflito e uma delas é derrotada, essa imagem surge diante dos olhos.
2. Um quadro semelhante ao mencionado acima foi pintado no acontecimento a seguir. Assim como o anterior, ele é atemporal e eterno, não havendo possibilidade de considerá-lo isoladamente. Reflita sobre isso.
(Árabe**********)
E Alá cumpriu aquela promessa quando, com Sua permissão, vocês os matavam, até que se acovardaram, disputaram entre si sobre a ordem a ser seguida e desobedeceram, depois de Ele lhes ter mostrado aquilo que desejavam. Entre vocês, alguns desejavam este mundo e outros desejavam a vida futura. Então, Ele os afastou deles, para testá-los. Na verdade, Alá já os perdoou, pois Alá é benevolente para com os crentes. Vocês subiam, sem olhar para trás nem para ninguém, enquanto o Mensageiro os chamava por detrás. Então, uma tristeza se abateu sobre vocês, seguida de outra, para que não se afligissem pelo que haviam perdido nem pelo que lhes sucedia. E Alá está plenamente informado sobre o que vocês fazem. Depois, Ele transformou a tristeza de vocês em tranquilidade, como um torpor. Alguns de vocês ficaram sonolentos nesse torpor, enquanto outros se preocupavam, temendo por suas próprias vidas. Eles alimentavam pensamentos falsos sobre Alá, como os dos ignorantes. Diziam: “Temos acaso algum poder para fazer alguma coisa?” Dize: “Tudo está nas mãos de Alá.” Eles ocultam em si aquilo que não te revelam. Dizem: “Se tivéssemos tido alguma autoridade, não teríamos sido mortos aqui.” (Surata آل عمران: 152–154)
Ao ler estes versículos, tenho a impressão de estar vendo com meus próprios olhos aquelas pessoas, aquele momento e tudo o que havia no campo de batalha. (Esta imagem foi extraída do campo de batalha de Uhud — nota do tradutor.)
Imagens de acontecimentos alegóricos
1. A história dos donos do jardim
Agora apresentarei a imagem daqueles acontecimentos alegóricos que foi pintada no Alcorão.
Agora estamos diante dos proprietários do jardim. Esse jardim não existe na Outra Vida, mas sim neste mundo. À noite, os proprietários do jardim estão planejando algo. Os pobres e necessitados costumavam comer os frutos daquele jardim. Mas os proprietários querem privá-los e obter benefícios somente para si. Vejamos agora qual será o desfecho.
(Árabe**********)
Eu os pus à prova, assim como havia posto à prova os proprietários do jardim, quando juraram que colheriam os frutos do jardim, mas não disseram: “Se Deus quiser”. (Surata Al-Qalam: 17–18)
À noite, decidiram colher os frutos bem cedo e não reservar nenhuma parte para os pobres e necessitados. Agora, espiemos na escuridão da noite para ver o que está acontecendo ali. Apenas escuridão. O drama da vida está ali silenciado. De repente, no meio da escuridão da noite, percebe-se algo se movendo, mas sem forma nem contorno, como uma entidade incorpórea.
(Árabe*************)
Então, enquanto dormiam, uma calamidade vinda de teu Senhor desceu sobre o jardim. Ao amanhecer, tudo o que possuíam havia se tornado como palha espalhada.
Tudo isso aconteceu sem que eles soubessem. Quando amanheceu, chamaram uns aos outros e disseram: “Vamos colher os frutos”. No entanto, nem sequer perceberam que terrível devastação havia se abatido sobre o jardim durante a escuridão da noite.
(Árabe********)
De manhã, chamaram uns aos outros e disseram: «Se quiserem recolher os frutos, vão depressa ao jardim.» Em seguida, puseram-se a caminhar, falando em voz baixa. Hoje, que nenhum miskin possa entrar no jardim. (Surata Al-Qalam: 21–24)
Agora, os espectadores deveriam ficar em silêncio por algum tempo. Que ninguém diga o que aconteceu ao jardim deles. Tampouco seria apropriado que alguém, achando graça, começasse a rir às gargalhadas. Espectadores, esperem um pouco e vejam que grande engano os aguarda. Eles estão falando em voz baixa, para que nenhum miskin ouça e fique sabendo. Espectadores! Por quanto tempo mais vocês conterão o riso? Agora, riam. Riam à vontade. Uma grande peça está sendo pregada contra eles:
(Árabe***************)
Eles começaram a saltitar de alegria.
Sem dúvida, são capazes de privar os outros, mas não são capazes de proteger a si mesmos da privação.
De repente, ao verem o estado devastado do jardim, começaram a gritar. Diante dessa cena, os espectadores podem rir à vontade.
(Árabe**********)
Quando viram o jardim, começaram a dizer: «Certamente, perdemos o caminho do nosso jardim e fomos parar em outro lugar.»
Ao verem o estado do jardim, não conseguiram acreditar no que viam e disseram:
Este não é o nosso jardim, que estava repleto de frutos. Certamente, perdemos o caminho e fomos parar a outro lugar.
(Árabe***********)
Ou então, nossa sorte se arruinou. (Surata Al-Qalam: 27)
(Árabe*********)
O melhor entre eles disse: Eu não vos disse? Por que ainda não glorificais a Allah? Eles disseram: Declaramos a santidade do nosso Senhor. Certamente, fomos injustos. (Surata Al-Qalam: 28-29)
Mas de que adianta arrepender-se depois de o tempo ter passado? É costume que, quando ocorre algum desastre, as próprias pessoas se envolvam em discussões entre si e tentem culpar umas às outras. Da mesma forma, eles também começaram a fazer isso.
(Árabe*********)
Então começaram a censurar uns aos outros. (Al-Qalam: 30)
Depois chegaram a uma decisão.
(Árabe***********)
Disseram: “Ai de nós! Fomos transgressores. Talvez nosso Senhor nos conceda, em lugar deste, um jardim ainda melhor. Em nosso Senhor depositamos as nossas esperanças.” (Surata Al-Qalam: 21–22)
2. A história do proprietário de dois jardins
Agora lhes contarei a história de outro proprietário de jardins. Contudo, ele não tinha um jardim, mas dois. E esses jardins não eram inferiores, em nenhum aspecto, ao jardim cuja história vocês ouviram. Outra pessoa também está envolvida nesse acontecimento. Porém, ela não possuía nenhum jardim; tinha um coração resplandecente com a luz da fé. Ambos expressavam abertamente o que traziam no coração. Nesse relato, o proprietário dos dois jardins foi apresentado como símbolo daquele que, seduzido pelas suas riquezas e dominado pela arrogância, esqueceu o Poderoso em cujas mãos estão a sua vida, a sua morte e todos os seus bens. Isso se deve ao fato de que, naquele momento, ele possuía grande prestígio, riqueza e poder. Já o seu companheiro, que sempre se lembra de Deus, busca junto a Ele ajuda e apoio e, em todas as circunstâncias, mantém-se afastado da descrença e da corrupção.
(Árabe**********)
Apresenta-lhes a parábola de dois homens. Concedi a um deles dois jardins de videiras, cercados por tamareiras, e entre os dois havia um campo de cultivo. Ambos os jardins eram frutíferos; nada lhes faltava, e entre eles corriam rios. (Surata Al-Kahf: 32–36)
Deste versículo emerge a cena de dois jardins, abundantes em água e frutos, verdejantes e luxuriantes. Esta é a primeira cena. A segunda é:
(Árabe**********)
Ele colheu os frutos. Então, certo dia, durante a conversa, disse ao seu companheiro: Não creio que este jardim venha a ser destruído. E não creio que a Hora aconteça. E, se algum dia eu for levado à presença do meu Senhor, certamente encontrarei lá algo ainda melhor do que isto. (Surata Al-Kahf: 34)
Pela conversa entre eles, entende-se que ambos se dirigiam então para aquele jardim e conversavam. Aproximaram-se do jardim. Pois logo depois é dito:
(Árabe***********)
Tendo cometido uma injustiça contra si mesmo, ele entrou no seu jardim e disse:
Não creio que este jardim venha algum dia a ser destruído. E não creio que a Hora aconteça. E, se algum dia eu for levado à presença do meu Senhor, certamente encontrarei lá algo ainda melhor do que isto. (Surata Al-Kahf: 35–36)
Vemos que aquele homem havia chegado ao limite máximo da arrogância e da presunção. Pensem: que reação as suas palavras provocaram no seu pobre companheiro? Ele não possuía um jardim, nem abundância de riquezas. Nem sequer tinha dois homens para empunhar bastões em seu favor. É verdade que, embora não tivesse mais nada, possuía a riqueza da fé, razão pela qual não se considerava inferior. Nunca se esquecia da honra e da majestade do Senhor. Por isso, lembrou ao companheiro, dono do jardim: Pense bem: de quão desprezível matéria você foi criado. Portanto, o orgulho não lhe convém.
(Árabe***********)
Seu companheiro lhe disse: “Negas Aquele que te criou do pó, depois do esperma, e então te aperfeiçoou, dando-te forma humana? Quanto a mim, digo apenas: Allah é o meu Senhor, e não tomo ninguém como associado ao meu Senhor. Se me consideras inferior a ti em riqueza e filhos, por que, ao entrares no jardim, não disseste: Mā shā’ Allāh, lā quwwata illā billāh (O que Allah quer acontece; não há força senão com Allah)? Espero que o meu Senhor me conceda algo melhor que o teu jardim e envie sobre ele um fogo do céu, de modo que, pela manhã, se transforme num terreno árido. Ou que, pela manhã, sua água seque, e não consigas encontrá-la. (Surata Al-Kahf: 38–41)”
Aqui termina a cena dos dois companheiros. Um deles se exibe, erguendo o pescoço como um galo. Orgulhoso de seus jardins, parece não querer mais pôr os pés no chão. O outro, por sua vez, é um crente que considera a fé seu maior tesouro. Aconselhou o companheiro, dizendo-lhe o que deveria fazer depois de desfrutar de tantas bênçãos. Parece que seu companheiro não deu ouvidos a nada do que ele disse. É natural que o outro companheiro se irrite ao ver sua arrogância. Por fim, tomado pela tristeza, chegou a fazer uma súplica contra ele, e ambos se separaram ainda sob o efeito da ira. Agora veremos o que aconteceu depois. Eis o que foi dito:
(Árabe***********)
Então, todos os seus frutos foram destruídos, e pela manhã ele começou a lamentar, esfregando as mãos, pelo que havia gasto nele. O jardim havia sido completamente queimado. Ele dizia: “Ai de mim! Se ao menos eu não tivesse associado ninguém ao meu Senhor!” (Surata Al-Kahf: 42)
Na verdade, Allah havia aceitado a súplica daquele crente. Vimos a desgraça do companheiro desse crente e o seu arrependimento. Depois que o jardim foi destruído, de que servem o pesar ou o arrependimento? Ele expressou sua tristeza, dizendo que não deveria ter associado outro a Allah. Terminemos esta cena de tristeza e istighfar. Cai o pano, e a cena chega ao fim.
Representação de acontecimentos reais
Até agora, apresentamos a representação de acontecimentos alegóricos. Agora discutiremos alguns acontecimentos reais.
1. Hazrat Ibrahim (A) e Hazrat Ismail (A): Agora apresentaremos a narrativa visual de Hazrat Ibrahim (A), quando ele construía a Casa da Caaba com seu filho Ismail (A). Parece que esse acontecimento não ocorreu há centenas de anos; é como se estivéssemos agora mesmo testemunhando a construção da Casa da Caaba pelo pai e pelo filho, bem como suas súplicas.
(Árabe***********)
Recordai quando Ibrahim e Ismail assentavam os alicerces da Casa da Caaba e fizeram esta súplica: “Ó nosso Senhor! Aceita de nós este serviço. Certamente, Tu és o Oniouvinte, o Sapientíssimo. Ó nosso Senhor! Faze de nós dois submissos a Ti e suscita, dentre nossa descendência, uma comunidade submissa a Ti. Ensina-nos os ritos da peregrinação e perdoa-nos. Certamente, Tu és o Aceitador do arrependimento, o Misericordioso. Ó nosso Senhor! Envia-lhes, dentre eles, um Mensageiro que lhes recite Teus versículos, lhes ensine o Livro e a sabedoria e os purifique. Certamente, Tu és o Poderoso, o Sapientíssimo.”
A súplica termina; cai o pano sobre a cena.
A passagem da narrativa para a súplica é uma mudança extremamente surpreendente. Na realidade, foi justamente essa mudança que tornou toda a cena viva e a colocou diante dos olhos. A narrativa diz:
(Árabe*********)
Quando Ibrahim e Ismail elevavam os alicerces da Casa de Allah.
A passagem da narrativa para a súplica é uma mudança extremamente surpreendente. Na realidade, foi justamente essa mudança que tornou toda a cena viva e a colocou diante dos olhos. A narrativa diz:
(Árabe***********)
Quando Abraão e Ismael estavam elevando os alicerces da Casa de Allah.
Como resultado desta notícia, a cortina se levanta. O palco, isto é, a Casa da Caaba, e Abraão e Ismael (que a paz esteja sobre eles) aparecem diante dos olhos. Pai e filho, ambos estão ocupados numa longa súplica.
Aqui, o aspecto da beleza artística e do caráter miraculoso consiste em que, logo após iniciar a narração do acontecimento, ela passa diretamente à súplica. Aqui não há sequer uma palavra que indique que pai e filho interromperam por um instante o trabalho de construção para fazer essa súplica. Se se considerar que o acontecimento ainda está em curso e não terminou, seu caráter miraculoso torna-se ainda maior. Se tivesse começado assim: “Quando Abraão e Ismael estavam construindo as paredes da Caaba, fizeram esta súplica”, não haveria qualquer surpresa em palavras desse tipo. O episódio se tornaria um acontecimento corriqueiro. Mas o estilo em que o Alcorão o narra não apresenta apenas um acontecimento. É uma cena viva e contínua; parece que ainda hoje está sendo encenada no palco. O palco não fica vazio nem por um instante. Toda a cena, em movimento, surge diante dos nossos olhos. A pulsação de vida criada no quadro só foi possível pela omissão deliberada de uma única palavra: “eles suplicaram”. Essa é precisamente a peculiaridade do Alcorão.
2. O dilúvio de Noé (que a paz esteja sobre ele): Agora apresentaremos a imagem do dilúvio de Noé (que a paz esteja sobre ele), conforme foi dito:
(Árabe***********)
E a arca seguia levando-os em meio a ondas semelhantes a montanhas. (Surata Hud: 42)
Nesse momento perigoso, ao despertar-se a paternidade de Noé (que a paz esteja sobre ele), ele ficou extremamente aflito. Pois o filho agora está negando tudo. Ele vê claramente que o filho também encontrará a morte por afogamento junto com os incrédulos. Noé (que a paz esteja sobre ele) sucumbiu à fraqueza humana. O ser humano dentro de Noé (que a paz esteja sobre ele) prevaleceu sobre o profeta. Então chamou o filho com extrema súplica e insistência.
(Árabe***********)
E Noé chamou seu filho, que se mantinha afastado. Ele disse: Meu filho! Sobe conosco e não fiques com os incrédulos. (Surata Hud: 42)
Mas o filho insolente não deu a mínima para as inúmeras súplicas e apelos do pai. Ele se havia ensoberbecido, orgulhoso de sua juventude, força e capacidade.
(Árabe***********)
Ele disse: Em breve buscarei refúgio em alguma montanha que me protegerá da água. (Surata Hud: 43)
O pai, com o coração angustiado, fez seu último apelo:
(Árabe***********)
Noé disse: Hoje não há protetor contra a ordem de Deus, exceto aquele de quem Ele tiver misericórdia. (Surata Hud: 43)
Então, uma onda veio e levou tudo consigo.
(Árabe***********)
Nesse momento, uma onda se interpôs entre os dois, e ele acabou submerso. (Surata Hud: 43)
Que cena extremamente trágica! O medo faz os ouvintes perderem o fôlego. A arca navega entre ondas semelhantes a montanhas. O venerável Noé (que a paz esteja com ele), aflito, chama seu filho. Mas o filho rejeita o chamado, exibindo com arrogância sua força e capacidade. Enquanto essa conversa se desenrolava, de repente uma onda veio e reduziu tudo a destroços. Ao contemplar essa cena, surge no interior das pessoas o mesmo estado que se havia manifestado entre pai e filho, isto é, entre Noé (que a paz esteja com ele) e seu filho. E não é apenas o ser humano: ela não deixa de afetar e entristecer também os outros seres vivos.
A representação do Dia da Ressurreição
Agora, primeiro descreveremos as cenas do Dia da Ressurreição; depois, discorreremos sobre as representações de paz e castigo apresentadas no Sagrado Alcorão. Isso porque a relação delas com a representação artística é extremamente profunda.
1. Ao descrever o Dia da Ressurreição, Allah, o Senhor dos mundos, diz:
(Árabe***********)
No dia em que o convocador convocar e em direção a um desfecho indesejável. Então sairão dos túmulos com os olhos abaixados, como gafanhotos dispersos. Correrão em direção ao convocador. Os incrédulos dirão: «Este é um dia difícil.» (Surata Al-Qamar: 6–8)
Esta é uma das cenas do Dia do Juízo. Embora breve, é suficientemente poderosa para comover o coração. Quão magistralmente a cena é apresentada por meio da comparação com os gafanhotos! Quando os gafanhotos voam, parecem dispersos e desordenados. Do mesmo modo, quando as pessoas se levantarem dos túmulos e correrem em direção ao convocador, correrão sem saber para que lado, desorientadas. Parecerá que um enxame de gafanhotos dispersos está voando. Mas elas não compreenderão para onde estão indo nem por que estão indo. Serão chamadas para algo que lhes é indesejável. Seus olhos estarão abaixados. Este é o último sinal, por meio do qual a cena alcança a sua plenitude.
Ao verem as circunstâncias ao redor, os incrédulos dirão: «Este é realmente um dia muito difícil.» Em frases curtas, todo o quadro é apresentado de maneira tão bela. Surge na mente do ouvinte a imagem de um campo imenso; parece que todos estão correndo juntos, depois de se levantarem dos túmulos. Todos estão com a cabeça baixa. Seus rostos estão atônitos de medo. É como uma imagem viva e em movimento.
2. Esta é a segunda entre as cenas do Dia do Juízo. Nesta cena, fala-se da fuga das pessoas e também é descrito o seu estado de medo e consternação. Porém, ela é ainda mais lamentável e aterradora do que a cena anterior.
(Árabe***********)
Nunca penses que Allah está desatento ao que fazem os injustos. Ele apenas lhes concede prazo até o dia em que os olhos se arregalarão de medo. As pessoas correrão ofegantes, aterrorizadas e consternadas (em direção ao campo da reunião). Seus olhares não se voltarão para eles; seus corações voarão de medo. (Surata Ibrahim: 42–43)
Aqui são mencionados quatro estados, que ocorrerão um após o outro. São quatro cenas do mesmo acontecimento, apresentadas sucessivamente. Cabeças baixadas pelo medo, pela vergonha e pela humilhação. Além disso, a ansiedade e o temor cobrem inteiramente a mente e o espírito. Esta imagem é mostrada aos vivos, e aqueles cuja imagem é mostrada também são seres humanos. Existe uma estreita relação humana entre as pessoas retratadas e os espectadores e ouvintes. Até seus sentimentos são um só e idênticos. Parece que a preocupação e a angústia de um grupo se transferem para o outro e tomam sua mente e seu espírito. O leitor sente que esse estado está passando por ele próprio.
3. Em seguida, é apresentada outra imagem de medo e terror. Esta imagem é ainda mais aterradora do que a anterior. As palavras parecem incapazes de descrever plenamente aquele estado terrível. Apresentamos esta cena apavorante para que ela própria possa expressar a sua própria condição.
(Árabe***********)
Ó humanidade, temei o vosso Senhor. Com efeito, o abalo da Hora será algo terrível. No dia em que a virdes, cada mulher que amamenta abandonará o filho que estiver mamando. Toda mulher grávida abortará por causa do medo. Verás as pessoas como se estivessem embriagadas, mas não estarão embriagadas. O castigo de Allah será extremamente terrível. (Surata Al-Hajj: 1-2)
Esse horror deixará as pessoas tão atônitas que a mãe que amamenta esquecerá até mesmo o filho que alimenta. A grávida verá tudo, mas não haverá ninguém para prestar atenção nela. Ela correrá de um lado para outro, mas nem sequer terá consciência dessa correria. Assim, por medo e pavor, abortará. As pessoas começarão a correr, mas parecerá que seus pés estão presos ao chão. Verão tudo acontecer, mas isso ocorrerá tão rapidamente que não conseguirão compreender nada. A razão e o discernimento desaparecerão. Ao vê-las, parecerão embriagadas. No entanto, não estarão embriagadas; agirão assim por não conseguirem decidir o que fazer. Tudo isso é apenas um efeito mínimo do castigo de Allah. Parecerá que as pessoas estão vendo essas coisas acontecer diante de seus próprios olhos. Sua capacidade de pensar tentará apreendê-las, mas o horror aterrador as fará esquecer tudo. Por isso, ele não poderá fixar-se de modo permanente em seu mundo interior.
4. Até aqui, foram apresentadas três imagens aterradoras da Ressurreição, cujas cenas, como se estivessem vivas, surgem diante dos olhos. Porém, há algumas cenas que apenas abalam os sentimentos:
(Árabe***********)
Nesse dia, cada pessoa terá uma preocupação que a manterá completamente ocupada.
(Árabe***********)
Nesse dia, nem mesmo o amigo mais íntimo perguntará pelo outro.
Que outra descrição poderia ser mais breve e, ao mesmo tempo, mais comovente da preocupação e da angústia? No coração não há lugar para nada além da preocupação e da aflição. A angústia envolve o coração e a mente de tal modo que a pessoa sequer encontra oportunidade para pensar em qualquer outra coisa.
5. Outra cena da ocorrência do Dia da Ressurreição, do levantamento das sepulturas e da reunião no campo do Juízo Final. Essas cenas são um pouco mais detalhadas. Ainda assim, percebe-se um breve intervalo entre cada uma delas.
(Árabe***********)
Eles aguardam apenas um brado terrível, que os atingirá enquanto estiverem discutindo. Então não poderão sequer fazer um testamento, nem poderão retornar às suas famílias. (Surata Yā-Sīn: 49-50)
Aqui se fala do primeiro sopro. Com o primeiro brado terá início a catástrofe. Ela ocorrerá tão rapidamente que não terão sequer tempo para fazer um testamento. Os habitantes das sepulturas se levantarão. E depois, o que acontecerá? É dito:
(Árabe***********)
Será soprado na trombeta e, imediatamente, eles se levantarão das sepulturas e correrão em direção ao seu Senhor. Dirão: Ai de nós! Quem nos despertou do nosso sono? O Misericordioso havia prometido isso, e os mensageiros disseram a verdade. (Yā-Sīn: 51-52)
Aqui se fala do segundo sopro. Com o primeiro sopro, tudo será destruído. Depois do segundo sopro, todos se levantarão das sepulturas, aflitos e perturbados. Admirados, (os crentes) perguntarão uns aos outros: Quem nos despertou de um sono tão tranquilo? Então, ao observarem o ambiente e a situação, concluirão por si mesmos e dirão: Hoje se cumpriu a promessa que o Senhor Misericordioso nos havia feito, e tornou-se verdadeira a notícia que os profetas e mensageiros nos haviam transmitido.
(Árabe***********)
Será um grande brado. Naquele mesmo instante, todos eles serão apresentados diante de Mim. Nesse dia, ninguém será injustiçado; ao contrário, recebereis apenas a recompensa pelo que fizerdes. (Yasin: 53–54)
Este será o último sopro, fazendo com que as pessoas se apresentem diante de Allah. Nesse dia, as pessoas serão reunidas ali de acordo com suas obras. Por enquanto, esta cena termina aqui.
Agora, aquele que recitar o Alcorão verá essas cenas com os próprios olhos. Parecerá que as palavras são dirigidas precisamente a ele: “Nesse dia, ninguém será injustiçado; recebereis apenas a recompensa pelo que fizerdes.”
6. No Dia da Ressurreição, quando todas as pessoas estiverem reunidas e prestando contas diante de Allah, veremos um grupo de pessoas que eram vizinhas umas das outras neste mundo, mas cuja relação não era boa. Estavam cheias de arrogância e orgulho. Chamavam seus vizinhos de desviados e causavam sofrimento a muitos dos crentes entre eles. Quando os crentes afirmavam que seriam habitantes do Paraíso, começavam a zombar e escarnecer deles. Nesse dia, eles serão conduzidos ao Inferno em grupos. Assim que um grupo entrar, será dada aos seus integrantes a notícia de outro grupo.
(Árabe***********)
Eis um grupo que está entrando com vocês. (Surata Sad: 59)
Em resposta a cada um, será dito: (Árabe***********)
Não haverá boas-vindas para eles; eles entrarão no Inferno. (Surata Sad: 59)
Aquele a quem insultavam ficará calado ao ouvir isso? Certamente que não. Então dirá:
(Árabe***********)
Eles dirão: também não haverá boas-vindas para vós. Fostes vós que nos expusestes a esta desgraça. Que morada abominável! (Surata Sad: 60)
Depois, clamarão em uníssono:(Árabe***********)
Eles dirão: Ó nosso Senhor! Impõe um castigo duplo àquele que nos expôs a isto. (Surata Sad: 61)
Então, o que acontecerá? Eles não verão ali os crentes, dos quais zombavam na Terra e com os quais desafogavam a sua irritação. Como é possível que hoje eles não estejam com eles no Inferno?
(Árabe***********)
E dirão: “O que aconteceu conosco? Não vemos aqueles que considerávamos maus! Será que os tomávamos injustamente como objeto de zombaria, ou nossos olhos estão vendo de modo equivocado?” Certamente haverá uma discussão entre os habitantes do Inferno sobre isso. (Surata Sad: 62-64)
A disputa e o conflito dos habitantes do Inferno são apresentados diante de nós de tal maneira que parece que cada um de nós os presencia. Cada pessoa pensa que é a sua própria imagem que está sendo retratada aqui. Por isso, esforça-se para se livrar dessa terrível situação. E, por meio desse esforço, talvez seja possível escapar dela.
Cenas de paz e castigo
Na discussão anterior, contemplamos as cenas da sepultura, da Ressurreição, do ressurgimento e do ajuntamento. Agora presenciaremos algumas cenas da paz e do castigo no Paraíso e no Inferno.
1. Sobre os habitantes do Inferno, foi dito:
(Árabe************)
Os incrédulos serão conduzidos em grupos para o Inferno. Quando chegarem lá, suas portas serão abertas, e os guardiões do Inferno lhes dirão: “Não vieram até vós mensageiros dentre vós mesmos, que recitavam para vós os versículos do vosso Senhor e vos advertiam sobre o encontro deste dia?” Eles responderão: “Sim.” Mas o castigo já se tornou inevitável para os incrédulos. Então será dito: “Entrai pelas portas do Inferno, para permanecerdes eternamente.” Que péssima morada para os arrogantes!
Sobre os habitantes do Paraíso, foi dito:
(Árabe**********)
Aqueles que temiam seu Senhor serão conduzidos em grupos ao Paraíso. Quando entrarem no Paraíso por suas portas abertas, os guardiões do Paraíso lhes dirão: “Paz esteja convosco! Sede felizes e entrai neste Paraíso para sempre.” Eles dirão: “Todo louvor pertence a Allah, que cumpriu Sua promessa para conosco e nos fez herdeiros desta morada. Permaneceremos no Paraíso onde quisermos.” Vede como é excelente a recompensa dos que se esforçam! (Surata az-Zumar: 73-64)
A cortina desta cena é baixada por meio do versículo seguinte:
(Árabe*************)
E verás os anjos circundando o Trono, proclamando a santidade de seu Senhor. Será feito justiça entre todos eles. E será dito: “Todo louvor pertence a Allah, Senhor dos mundos.”
Estas imagens são tão claras que não deixam espaço para uma explicação separada. Pois bem, vamos seguir os habitantes do Inferno e os habitantes do Paraíso para conhecer um pouco de sua situação.
2. Sobre os habitantes do Inferno, foi dito:
(Árabe***********)
Certamente, a árvore de Zaqqum será o alimento dos pecadores. Ela ferverá em seus ventres como cobre derretido, tal como ferve a água. (Será dito:) «Pegai-o e arrastai-o até o Inferno, e derramai sobre sua cabeça o castigo da água fervente.» (Também será dito:) «Prova! Tu eras, de fato, honrado e nobre. Certamente, estavas em dúvida quanto a isso.»
Em seguida, fala-se dos habitantes do Paraíso desta forma:
(Árabe*************)
Certamente, os tementes a Deus estarão em um lugar seguro, entre fontes e jardins. Vestirão roupas de seda fina e espessa, sentados uns diante dos outros. Assim será. E lhes daremos em casamento belas huris. Ali pedirão tranquilamente diversas frutas. Ali não experimentarão a morte, exceto a primeira morte, e serão protegidos do castigo do Inferno. (Surata ad-Dukhan: 51–56)
3. Encerramos as cenas da Ressurreição em um ponto onde havia duas imagens opostas. Aqui também há várias outras imagens do mesmo tipo:
(Árabe************)
Os habitantes do Paraíso chamarão os habitantes do Inferno e dirão: «Encontramos verdadeira a promessa que nosso Senhor nos fez. E vós também encontrastes verdadeira a promessa de vosso Senhor?» Eles responderão: «Sim.» Então, um anunciador se colocará entre ambos e proclamará: «A maldição de Allah recaia sobre os injustos, que obstruíam o caminho de Allah e buscavam nele desvios, e que negavam a outra vida.»
(Árabe***********)
Haverá uma muralha entre ambos, e sobre o A‘rāf haverá muitas pessoas. Elas reconhecerão cada um por seus sinais. Chamarão os habitantes do Paraíso, dizendo: “Que a paz esteja sobre vós!” Eles ainda não terão entrado no Paraíso, mas estarão ansiosos por entrar. Quando seus olhos se voltarem para os habitantes do Inferno, dirão: “Ó nosso Senhor, não nos coloques entre os injustos.” (Surata Al-A‘rāf: 46-47)
(Árabe*************)
Os habitantes do A‘rāf chamarão aqueles que reconhecerem por seus sinais, dizendo: “De que vos serviram vossos partidários e vossa arrogância? Estes são aqueles sobre os quais juráveis que Allah não lhes concederia misericórdia?” (Será dito:) “Entrai no Paraíso; não tereis medo, nem ficareis tristes.” Os habitantes do Inferno chamarão os habitantes do Paraíso, dizendo: “Derramai sobre nós um pouco de alimento e bebida, ou dai-nos algo da provisão que Allah vos concedeu.” Eles responderão: “Allah proibiu ambas essas coisas aos incrédulos.”
Nas citações acima, surgem várias cenas que passam diante de nossos olhos, uma após outra.
Ao lermos os versículos, parece que estamos diante dos habitantes do Paraíso e do Inferno. Os habitantes do Paraíso dirão aos habitantes do Inferno: “Encontramos verdadeira a promessa que nosso Senhor nos havia feito. E vós, encontrastes verdadeira a promessa que Ele vos havia feito?” Torna-se evidente, por meio dessa pergunta, o escárnio dirigido aos habitantes do Inferno. O interessante, porém, é que eles não poderão negá-lo; ao contrário, serão obrigados a reconhecê-lo. Nesse momento, um anunciador se colocará entre os dois grupos e proclamará: “A maldição de Allah esteja sobre os injustos!”
Depois, vemos os habitantes do A‘rāf, situados entre o Paraíso e o Inferno. É um grupo de pessoas reunido sobre uma muralha elevada, de onde se podem ver tanto o Paraíso quanto o Inferno. Assim que veem os habitantes do Paraíso, saúdam-nos e os congratulam; e, quando seus olhos recaem sobre os habitantes do Inferno, imediatamente os censuram e repreendem, dirigindo-se a eles: “Não éreis vós que juráveis, na Terra, que Allah não concederia Sua misericórdia aos habitantes do Paraíso? Vede onde eles estão hoje: instalados no Paraíso com tamanha glória e honra.”
Depois, vemos os habitantes do Inferno implorando alimento e bebida. Allah colocou todas as dádivas diante dos habitantes do Paraíso, mas estes os despedem, dizendo apenas: “Allah proibiu aos incrédulos o alimento e a bebida do Paraíso, ambos.”
Esta é a cena da Ressurreição, a cena da paz e do castigo do Paraíso e do Inferno. Agora surge a pergunta: quando os leitores leem os versículos, imaginam que esses acontecimentos ocorrerão no futuro? Ou imaginam que estão ocorrendo neste momento, diante de seus próprios olhos?
Juro por Allah! Sempre que li estes versículos, perdi-me completamente. Esqueci por completo que estava vendo esses acontecimentos sob o revestimento de um tema corânico. Pelo contrário, tive a impressão de estar vendo com os meus próprios olhos todos os acontecimentos se desenrolarem; a imagem não era imaginária, mas algo testemunhado pelos olhos. Na verdade, isso não é senão uma técnica milagrosa e uma habilidade artística do Alcorão.
Eu pretendia encerrar esta discussão aqui. Mas o fato é que, entre os objetivos e propósitos para os quais o Alcorão foi revelado, há também um objetivo que, à primeira vista, parece constituir uma exceção ao princípio da representação pictórica. Trata-se de o Alcorão convidar as pessoas à religião por meio de argumentos e debates.
Para isso, podem ser utilizados recursos intelectuais, deixando de lado a natureza do Alcorão e os recursos da representação pictórica. Contudo, para alcançar esse objetivo, o Alcorão também adotou o método da representação pictórica. Isso mostra que o método da representação pictórica prevalece sobre os demais métodos do Alcorão. É justamente sobre esse assunto que desejo discorrer neste capítulo. Apresentarei uma discussão resumida, com exemplos, se Allah quiser. Encontrarão uma discussão detalhada no final da obra, em um capítulo separado.
4. Entre as cenas naturais, a cena imóvel e eterna é o céu, sempre manifesto. Em muitos lugares, o Alcorão chama a atenção das pessoas para o céu, dizendo: olhai, este é um poderoso sinal do poder de Allah. Ele diz:
(Árabe***********)
Ele é Allah, que envia os ventos; então eles movem as nuvens. Depois, Ele as espalha pelo céu como quer e as dispõe em camadas. Em seguida, vês a chuva cair delas. Ele a faz chegar aos servos que deseja, e então eles se alegram. Antes disso, haviam permanecido desesperançados, desde o início até a chegada dessa chuva. Observa, portanto, os efeitos da misericórdia de Allah: como Ele vivifica a terra morta. Certamente, Ele vivificará os mortos e é plenamente poderoso sobre todas as coisas. (Surata Ar-Rum: 48–50)
Observai como o poder de Allah atua: o vento sopra; depois, esse vento carrega o vapor de água; em seguida, ele se transforma em nuvens; e, por fim, a chuva cai das nuvens, tornando-se motivo de alegria para as pessoas comuns. O objetivo é vivificar e renovar a terra morta e seca. Quando essas cenas passam uma após outra diante da mente, o subconsciente humano não pode deixar de ser influenciado. Finalmente, chegam à conclusão de que
(Árabe*********)
Certamente, Ele é Aquele que dá vida aos mortos e tem poder sobre todas as coisas.
5. O âmbito da quarta cena era amplo, mas a quinta cena está relacionada com a terra. As duas cenas são completamente diferentes. Pense nisso:
(Árabe**********)
Não vês que Allah faz descer água do céu e a conduz às fontes da terra? Então, por meio dela, faz brotar plantações de diferentes cores; depois, elas secam, e tu as vês amareladas. Em seguida, Allah transforma-as em palha. Certamente, nisso há uma exortação para os dotados de entendimento. (Az-Zumar: 21)
Esta é uma imagem da terra. Nela, são descritos os seus diversos estados. Cada estado dá ao ser humano a oportunidade de observar e refletir. Vê: a chuva cai do céu. Com essa chuva, a terra enche-se de frutos e plantações de diferentes cores. Depois, essas plantações amadurecem e assumem uma cor acastanhada. Por fim, transformam-se em palha e misturam-se com a terra. Nesta ayah, a palavra thumma, pela maneira e pelo lugar em que foi empregada, proporciona aos olhos e à mente plena oportunidade de refletir, antes mesmo de o segundo estado se revelar diante dos olhos. Aqui está presente o tipo de organização e apresentação necessário para colocar uma cena diante dos olhos das pessoas. (Mais adiante, este assunto será discutido detalhadamente, inshallah.)
6. Algumas imagens são completamente vivas. Vê: o pássaro recolhe as patas e voa no céu apoiando-se apenas nas asas. Depois, no momento de pousar, apoia-se nas patas para ficar de pé. Diz Allah:
(Árabe***********)
Não observam os pássaros que voam sobre eles, abrindo e recolhendo as asas? Allah, o Misericordioso, é Quem os sustém. Certamente, Ele observa todas as coisas. (Surata Al-Mulk: 19)
Neste versículo, são apresentadas duas cenas. Primeiro, o pássaro voa pelo céu com as asas abertas e, durante o voo, mantém as patas recolhidas. Depois, no momento de pousar, ele estende antecipadamente as duas patas para se apoiar nelas ao ficar de pé. As pessoas veem essa cena repetidamente, mas nunca lhe dão atenção. O Alcorão mostra ao ser humano, como se lhe apontasse com o dedo, um dos sinais do poder de Deus.
7. Na Terra, outra cena se apresenta repetidamente, mas o ser humano não a observa atentamente nem sente necessidade de fazê-lo. Se refletisse sobre o seu mistério, novos horizontes de mistério se abririam diante dele. Trata-se da sombra dos corpos, que à vista parece imóvel, mas que, na realidade, se move sutilmente. Diz-se:
(Árabe************)
Não vês como o teu Senhor estende a sombra? Se quisesse, poderia fazê-la permanecer imóvel. Depois, fizemos do sol o seu indicador. Em seguida, recolhemo-la gradualmente para Nós. (Surata Al-Furqan: 45-46)
Os dois versículos mencionados despertam o mundo do pensamento humano. Atraem o coração e a mente. Não faltam no mundo cenas desse tipo, que estão continuamente diante dos nossos olhos. Mas, quando a atenção é dirigida ao seu significado interior, elas passam a manifestar-se como algo novo. E isso só é possível quando uma cena é contemplada simultaneamente pelos olhos, pelo coração e pelo cérebro.
8. Há muitas coisas no mundo que são consideradas instrutivas. Mas aquilo que mais toca os sentimentos humanos são os vestígios da destruição de um povo. Os olhos os percebem exteriormente, e os olhos do coração os observam profundamente. Por isso, o Alcorão chamou a atenção das pessoas para esse ponto sensível, a fim de influenciar seus pensamentos e sua consciência acerca do destino dos criminosos. Diz-se:
(Árabe**********)
Acaso não viajam pela Terra e não veem qual foi o fim daqueles que os precederam? Eles eram mais poderosos do que estes, lavravam a terra e a cultivavam mais do que estes. Os mensageiros foram até eles com provas claras. Deus não foi injusto para com eles; ao contrário, eles foram injustos consigo mesmos. (Ar-Rum: 9)
A discussão acima prova precisamente que o Alcorão adotou a representação e a visualização como um estilo. Por isso, o método de representação ocupa uma posição fundamental. Esse método está relacionado ao conjunto dos temas e objetivos. Trata-se de uma característica indispensável do Alcorão, que os especialistas encontram em cada passagem do Alcorão.
Quarto capítulo
Imaginação e representação
Estamos afirmando que, por meio da visualização e da representação, o Alcorão apresenta sua mensagem em um estilo próprio. Isso constitui a base, ou fundamento, do estilo narrativo do Alcorão. Isso não significa, porém, que a importância do extenso conteúdo tenha chegado ao fim ou que já tenhamos cumprido plenamente o que lhe é devido. Pelo contrário, a importância do conteúdo, em sua especificidade, continua plenamente presente até hoje. Mesmo tendo isso em vista, sentimos a necessidade de elaborar um capítulo separado.
Pode surgir a pergunta: sobre que fundamento se assentam essas imagens? No início do capítulo anterior, demos uma indicação a esse respeito. Dissemos ali que, em certas ocasiões, esse método foi adotado para voltar o olhar do mundo do pensamento para o mundo real. Isto é, para transformar um tema imaginado em algo perceptível pelos sentidos. Da mesma forma, a natureza humana e a própria natureza são apresentadas em imagens compreensíveis. Muitas vezes, aquilo que é objeto de percepção é expresso por meio de uma imagem imaginária. Em seguida, para tornar essa imagem dinâmica, cria-se nela uma atividade orgânica. Como resultado, ela agita o mundo do pensamento. Então, o objeto que está além dos sentidos surge diante dos olhos como uma imagem viva e em movimento. Seja a imagem de um acidente, seja uma imagem comum ou relacionada a algum acontecimento. Se, juntamente com a vida e o movimento, lhe for concedida a faculdade da fala, todos os elementos da imaginação se reúnem nela, e nada mais resta. Todos os exemplos e comparações que apresentei na discussão anterior comprovam a veracidade desta afirmação. Embora o objetivo de discuti-los naquele capítulo tenha sido tentar dar uma ideia de como o Alcorão adotou o método da representação ao apresentar sua mensagem, neste capítulo não consideraremos suficiente apenas citar as comparações anteriores. A razão é que o Alcorão está disponível para nós, repleto de novos exemplos e comparações. Selecionaremos dele algumas comparações que indiquem plenamente o tema específico, e que tratarão dos princípios e regras da representação da imaginação e da percepção.
Takhyil ou imaginação
Entre as imagens corânicas, são poucas as que se apresentam diante de nós em estado silencioso e mudo. Na maioria das imagens encontram-se estímulos manifestos e ocultos. É esse estímulo que desperta a pulsação da vida e faz com que elas se tornem dinâmicas. Deve-se ter em mente que o ato de agitar o pensamento não se limita a algumas cenas de acidentes, às cenas da Ressurreição ou às cenas de bem-aventurança e castigo; ele também está presente em lugares onde não se esperaria encontrá-lo.
Queremos explicar qual é o tipo e a natureza dessa agitação. É importante observar que é justamente por causa desse tipo de pulsação vital que os objetos visíveis parecem vivos. Mesmo a vida invisível para os seres humanos não está fora do alcance desse estímulo. Chamaremos esse estímulo de “takhyil hissī”, ou sensação imaginada. Esse estímulo está presente em cada imagem do Alcorão. Essa pulsação da vida está presente em cada imagem de tal maneira que nela se percebem as diversas formas e naturezas da vida.
Tajsīm ou representação
No Alcorão encontra-se outro tema relacionado à representação, que pode ser considerado a base do tajsīm. Nesse assunto, o Alcorão avançou muito. Até mesmo em relação àquilo que deveria ser mantido separado de sua linha fundamental, o Islã dá importância a apresentá-lo abertamente. Muitas vezes, essas coisas também são apresentadas em forma corpórea, como a essência e os atributos de Allah, o Altíssimo. A conclusão irrefutável que se impõe diante de nós é que o Alcorão deu prioridade ao estilo da representação sobre os demais métodos. Ao mesmo tempo, advertiu que o método da representação muitas vezes conduz a consequências perigosas. Agora tentarei esclarecer a questão com a ajuda de exemplos.
Manifestação em forma de pessoa: 1. Há um tipo de imaginação que podemos chamar de tashkhīs, ou manifestação em forma de pessoa. Tashkhīs significa dar vida àquilo que é desprovido de vida. Por exemplo, uma paisagem natural ou qualquer outro objeto inanimado é apresentado em uma forma viva e compreensível. Muitas vezes, essa vida é desenvolvida até torná-lo semelhante ao ser humano, incluindo nele até elementos externos e sentimentos. Ao objeto sem vida são conferidos interesses, estímulos e vivacidade humanos. Graças a isso, ele se aproxima das pessoas e interage com elas. Surge diante delas em diversas cores e trajes. Assim, o ser humano é levado a considerá-lo vivo. Parece que o vê com os próprios olhos e o sente com os sentidos. Ao observar sua sensibilidade sutil e sua atividade, a pessoa chega a ficar assustada e atônita. Por exemplo, um versículo apresenta a manhã como viva, dizendo que ela respira. (Árabe****)— Pelo amanhecer, quando ele respira. (At-Takwir: 18)
Ao recitar este versículo, surge a impressão de que o período da manhã é um ser vivo, pois respira. Até mesmo, ao respirar, parece que seus dentes se tornam visíveis. Essa vida não parece pertencer apenas à “manhã”, mas ao universo e à natureza em sua totalidade. Foi dito, por exemplo, que a noite corre velozmente atrás do dia para alcançá-lo, mas não consegue. Allah diz:
(Árabe*********)
Ele faz a noite penetrar no dia, e o dia corre atrás da noite. (Surata Al-A‘raf: 54)
Assim como não há fim para a corrida recíproca da noite e do dia, também a capacidade de pensamento humano corre igualmente atrás deles. Vejam também: fala-se do movimento da noite.
(Árabe*******)
E pela noite, quando ela se vai. (Surata Al-Fajr: 4)
Assim que o versículo é recitado, surge aos olhos do leitor a imagem da noite, como se ela continuasse simplesmente viajando pelos caminhos ilimitados da Terra. Uma imagem extremamente familiar. Veja novamente: considerando a terra e o céu como dotados de inteligência, dirige-se-lhes a palavra, e, ao mesmo tempo, eles respondem:
(Árabe*********)
Depois, voltou-Se para o céu, que era fumaça, e disse-lhe, bem como à terra: «Vinde, de bom grado ou contra a vontade.» Ambos disseram: «Viemos voluntariamente.»
Veja, com os olhos da imaginação, o céu e a terra sendo chamados. Eles respondem a esse chamado. Veja a lua, o sol, a noite e o dia movendo-se em seus próprios caminhos e com seu próprio movimento. Mas—
(Árabe*************)
O sol não alcança a lua, nem a noite precede o dia. (Surata Ya-Sin: 40)
Allah, o Todo-Poderoso, determinou o percurso da noite e do dia, para que nunca houvesse somente noite ou somente dia de forma contínua. Olhe para a terra: uma terra morta. A água da chuva cai sobre ela e, imediatamente, ela ganha nova vida e desperta.
(Árabe***********)
Você vê a terra desolada e árida; então, quando faço chover sobre ela, ela se revigora⁸, incha e produz plantas de todas as espécies, belas à vista. (Surata Al-Hajj: 5)
Em outro lugar, é dito:
(Árabe*******)
Outro de Seus sinais é que você verá a terra desolada e estéril. Quando faço chover sobre ela, então ela floresce e se reveste de frutos. (Surata Ha-Mim As-Sajda: 39)
Assim, a terra morta e desolada ganha nova vida num instante.
A cena do Inferno: isto é o Inferno. Que Inferno? Uma realidade destruidora e de tormento extremo, da qual ninguém pode escapar com vida. Ali, não será possível sequer fazer um movimento; aqueles que, na Terra, eram chamados à orientação, mas dela se afastavam. O surpreendente é que agora, assim que forem chamados em direção ao Inferno, virão e se apresentarão. Este é o Inferno que, ao ver os criminosos, se inflamará de ira e continuará a rugir e bramar terrivelmente. Os versículos seguintes revelam algo dessa cena:
(Árabe***********)
Naquele Dia, perguntarei ao Inferno: “Estás cheio?” Ele responderá: “Há mais?” (Surata Qaf: 30)
(Árabe**********)
Quando o Inferno os vir de longe, ouvirão o seu gemido e o seu bramido. (Surata Al-Furqan: 12)
(Árabe************)
Quando forem lançados nele, ouvirão o seu rugido furioso. O Inferno quase explodirá de raiva. (Surata Al-Mulk: 7–8)
(Árabe************)
De modo algum! Isto é, certamente, um fogo abrasador que queima a pele. Chamará aquele que voltou as costas à verdade e se afastou, que acumulou riquezas e as guardou.
Eis a condição da sombra sob a qual os criminosos buscarão refúgio:
(Árabe*******)
A sombra de colunas de fumaça, que não é fresca nem confortável. (Surata Al-Waqi’ah: 43–44)
Nessa sombra, os habitantes do Inferno ficarão sufocados e desorientados. Essa sombra não será fresca nem confortável para eles. Além disso, nem sequer terá uma aparência agradável.
E observem o movimento do ar carregado de água da chuva:
(Árabe**********)
Eu conduzo os ventos carregados de água e faço descer a chuva do céu. (Surata Al-Hijr: 22)
Ao chamar o vento de grávido (grávido de chuva), cria-se nele a pulsação da vida. Parece que o ar fica grávido pela água e, ao fazer chover, dá à luz.
Também foi dito:
(Árabe**********)
Quando a ira de Moisés se acalmou, ele tomou as tábuas.
(Árabe**********)
Então, quando o temor de Abraão se dissipou e lhe chegou a boa-nova, ele começou a discutir comigo a respeito do povo de Lot.
Vejam: nas duas ayat mencionadas acima, fala-se da ira assumindo uma forma intensa e depois diminuindo, do temor sendo afastado e da boa-nova chegando e partindo. Parece que são coisas vivas, nas quais se percebe o sopro da vida.
2. Outra forma de takhyil ou imaginação consiste em apresentar-se diante de nós como uma imagem em movimento, por meio da qual se explica uma situação ou um determinado significado. É o caso, por exemplo, da imagem daquele que adora a Allah numa posição limítrofe: quando a situação lhe parece favorável, ele se satisfaz; mas, se é mergulhado numa provação, afasta-se do Islã. Ou da imagem dos muçulmanos antes de aceitarem o Islã, quando se encontravam à beira de uma cova de fogo. Ou ainda do exemplo daquele que assenta os alicerces de sua casa à beira de um precipício que o lançará, junto com o edifício, no fogo do Inferno. Todas essas são imagens repletas de vivacidade. A última imagem, porém, alcançou o ápice da perfeição; tratei dela no capítulo “A imagem artística”.
A imagem de um camelo robusto tentando passar pelo buraco de uma agulha é outro exemplo de takhyil. Ela é apresentada a propósito dos incrédulos, que jamais serão perdoados nem poderão entrar no Paraíso. Diante de um exemplo tão vívido de tormento, o poder de reflexão fica atônito. Pois, enquanto o pensamento o seguir, seu movimento não poderá chegar ao fim; e, mesmo depois de assumir uma forma corpórea, não poderá permanecer por muito tempo. Eis o que é dito:
(Árabe**********)
Dize: se o mar fosse tinta para escrever as palavras do meu Senhor, o mar se esgotaria antes que terminassem de ser escritas as palavras do meu Senhor, ainda que lhe acrescentássemos outro mar. (Surata Al-Kahf: 109)
A imagem sempre em movimento que, ao recitar este versículo, domina o mundo do pensamento é a seguinte: escreve-se o louvor a Allah com a água do mar, mas ele não chega ao fim; não será possível concluí-lo. É uma imagem dinâmica e ininterrupta. A água do mar está se esgotando, mas não se consegue terminar de escrever o louvor a Allah. É assim que esse dinamismo alcança sua plenitude.
A imagem que se forma na mente a partir dos versículos seguintes também coincide com a imagem acima mencionada.
(Árabe**********)
Então, aquele que for afastado do Inferno e admitido no Paraíso terá triunfado. (Surata Al Imran: 185)
(Árabe**********)
Uma vida tão longa não poderá salvá-los do castigo. (Surata Al-Baqarah: 96)
Neste versículo, a própria palavra mencionada transmite dinamismo, que se manifesta na imaginação como uma imagem em movimento. Trata-se de uma questão importante, que poderemos compreender claramente à medida que avançarmos um pouco mais.
Dessa dinâmica, aos olhos da imaginação, surge a imagem de uma pessoa parada à beira de um fosso de fogo, cujas chamas ardentes se projetam diante dela.
3. Takhyīl, ou outro tipo de imaginação, consiste em criar movimento na imaginação. Isso é produzido nas pessoas por meio de determinadas palavras. Por exemplo:
(Árabe**********)
E nos voltaremos para as obras que fizeram e as reduziremos a pó disperso. (Surata Al-Furqan: 23)
Já discutimos no capítulo “Imagem artística” que transformar as obras em partículas de poeira significa destruir os atos que praticaram. Trata-se de uma imagem perceptível aos sentidos. Agora discutiremos o significado da palavra Qadimnā. Essa palavra indica que suas boas obras serão apresentadas diante deles antes de serem destruídas. Se a palavra Qadimnā fosse eliminada da frase, o fio do pensamento seria rompido. Ao mesmo tempo, toda a beleza associada a essa palavra também desapareceria, embora o movimento das partículas de poeira continuasse. O versículo a seguir também é um belo exemplo.
(Árabe**********)
Dize: invocarei, além de Allah, algo que não pode nos beneficiar nem nos prejudicar? Retornaremos para trás? (Surata Al-An’am: 71)
Neste versículo, o afastamento da religião, que é algo imperceptível aos sentidos, é descrito de modo sensorial. Assim, ele se torna perceptível e se apresenta diante de nós. O versículo seguinte também é um exemplo desse tipo:
(Árabe**********)
E não sigais os passos de Satanás; certamente, ele é vosso inimigo declarado. (Surata Al-Baqarah: 168)
A intenção era dizer: “Não sigais Satanás”. Mas as duas palavras “não sigais” e “passos” desenham a imagem do movimento de Satanás. Parece que Satanás caminha à frente, enquanto as pessoas — que são seus seguidores — avançam atrás dele, seguindo as marcas de seus pés. Uma imagem extraordinária. Satanás é uma força maligna que providenciou a expulsão do pai da humanidade, Adão (que a paz esteja sobre ele), do Paraíso. Ainda assim, as pessoas continuam a segui-lo.
Há outro versículo semelhante:
(Árabe**********)
Relata-lhes a história daquele a quem concedi os Meus sinais, mas que deles se desfez e se afastou. Satanás foi atrás dele, e ele passou a fazer parte dos extraviados. (Surata Al-A’raf: 175)
Há uma pequena diferença entre este versículo e o anterior. Neste versículo, Satanás é colocado atrás da pessoa extraviada. No versículo anterior, é proibido caminhar atrás de Satanás; aqui, porém, é o próprio Satanás que segue atrás.
O versículo seguinte também está relacionado a este assunto:
(Árabe**********)
(Ó servo,) não sigas aquilo sobre o qual não tens conhecimento. (Surata Banī Isrā’īl: 36)
Aqui, o conhecimento é imaginado como um objeto dotado de corpo.
4. Outro tipo de imaginação consiste em ocorrer rapidamente, com cenas que se sucedem umas às outras. Já apresentamos anteriormente exemplos desse tipo, isto é, a atividade dos politeístas, acerca dos quais se diz no versículo seguinte.
(Árabe**********)
Quem atribui associados a Allah é como se tivesse caído do céu; então, uma ave carnívora o arrebata, ou o vento o leva e o lança em algum lugar distante. (Surata al-Hajj: 31)
Também há uma analogia no versículo seguinte:
(Árabe**********)
Quem pensa que Allah jamais ajudará Seu Mensageiro neste mundo e no Além, que estenda uma corda até o céu, depois a corte e veja se seu estratagema poderá afastar sua ira. (Sura Al-Hajj: 15)
Neste versículo, é apresentada uma imagem extraordinária. Aquele que alimenta a má suspeita de que Allah não ajudará Seu Profeta apenas torna seu coração desnecessariamente pesado de sofrimento. Quem não consegue manter a paciência nessa situação ou não tem disposição para esperar o cumprimento da promessa de Allah deve mudar sua situação e conduzi-la ao resultado desejado. Na verdade, assim como é impossível estender uma corda até o céu e subir por ela, também é impossível mudar sua situação. Se tentar colocar uma corda até o céu e subir por ela, mas fracassar, cortar a corda e cair ao chão, talvez então tenha a oportunidade de refletir um pouco sobre isso.
O versículo seguinte também apresenta uma declaração desse tipo:
(Árabe**********)
E, se o desprezo deles te é penoso, procura uma passagem subterrânea na terra ou instala uma escada no céu e traz-lhes um sinal, se puderes fazê-lo. (Sura Al-An’am: 35)
A manifestação do desprezo dos incrédulos pelo chamado do Nobre Mensageiro lhe parecia extremamente desconfortável. Ele desejava que, se pudesse trazer-lhes e mostrar-lhes algum milagre convincente, talvez eles cressem e seguissem o caminho reto. Este versículo foi revelado dirigindo-se ao próprio Nobre Profeta. Por isso, levando em consideração sua honra e dignidade, sua atenção foi atraída por meio de uma linguagem extremamente cortês e refinada, com uma sutileza espirituosa. Este é um excelente exemplo de imagem imaginada, no qual a beleza artística está presente em sua plenitude.
5. Outro estilo da imaginação consiste em apresentar objetos inanimados como se estivessem em movimento.(Árabe**********)
Na velhice, a cabeça tornou-se branca. (Sura Maryam: 4)
Neste versículo, os cabelos brancos são comparados a um fogo ardente. Na imaginação, os cabelos brancos são levados a tal ponto que parecem palha seca incendiando-se ao menor contato com o fogo. É por isso que o versículo adquiriu a beleza que discutimos anteriormente.
Figuração: No capítulo anterior, apresentamos vários exemplos de figuração. A frase comparativa é usada precisamente para transformar seu estado subjacente em uma forma definida. Isso também está relacionado ao tajsim, ou à figuração. A seguir, apresentamos alguns exemplos.
(Árabe**********)
As obras daqueles que não creem em seu Senhor são como cinzas sobre as quais sopra um vento forte num dia de tempestade de poeira. (Surata Ibrahim: 18)
(Árabe**********)
Ó crentes! Não torneis vãs as vossas esmolas divulgando a benevolência e causando sofrimento, como aquele que gasta sua riqueza para ser visto pelas pessoas e não crê em Allah nem no Dia Derradeiro. Seu exemplo é como o de uma pedra lisa sobre a qual havia um pouco de terra.
(Árabe**********)
O exemplo daqueles que gastam seus bens no caminho de Allah, buscando Sua satisfação e fortalecendo seus próprios corações, é como o de um jardim situado numa colina. (Surata Al-Baqarah: 265)
(Árabe**********)
Não observas como Allah propõe uma parábola: a palavra pura é como uma árvore. Suas raízes são firmes, e seus ramos se estendem até o céu. Ela produz frutos continuamente, pela permissão de seu Senhor. Allah propõe parábolas às pessoas, para que reflitam, e o exemplo da palavra impura é o de uma árvore impura, arrancada do solo, sem estabilidade alguma. (Surata Ibrahim: 24–16)
É preciso lembrar que, em nossa concepção, corporificação não é simplesmente comparar algo inteligível com outro objeto. Afinal, é algo bastante comum comparar uma questão imperceptível aos sentidos com algo perceptível. Para nós, corporificação significa não apenas tornar perceptível uma questão imperceptível aos sentidos por meio de comparação e símile, mas, sim, dar-lhe forma e torná-la concreta por meio do próprio acontecimento. Por exemplo:
(Árabe**********)
No dia em que cada pessoa verá diante dos próprios olhos tudo de bom que fez e também tudo de mau que fez, desejará que houvesse uma grande distância entre ela e essas ações. (Surata آل عمران: 30)
(Árabe**********)
Eles encontrarão diante de si tudo o que fizeram. Teu Senhor não cometerá injustiça contra ninguém. (Surata Al-Kahf: 49)
(Árabe**********)
As boas obras que enviarem adiante para vós mesmos, encontrá-las-eis junto a Allah. (Surata Al-Baqara: 110)
Dos exemplos acima, compreende-se que as obras são algo invisível e sem forma ou configuração. Contudo, naquele dia, serão apresentadas em uma forma e configuração compreensíveis. É isso que se chama representação ou tajsīm. Parece que, naquele dia, a obra assumirá a forma de uma pessoa e se apresentará diante dela. Com isso, compreende-se também que, quando alguém pratica uma obra neste mundo, ela permanece sob a custódia de Allah e, no Dia da Ressurreição, será devolvida aos servos depois de receber uma forma.
Naquele dia, o pecado será transformado em um fardo de proporções enormes. Foi declarado:
(Árabe**********)Naquele dia, carregarão sobre as próprias costas o fardo de seus pecados. (Surata Al-An’am: 31)
(Árabe**********)Naquele dia, ninguém carregará o fardo de outra pessoa. (Surata Al-An’am: 164)
Também nos versículos seguintes, algo imperceptível foi expresso de forma concreta. Por exemplo:
(Árabe**********)E levai provisões convosco; certamente, a melhor provisão é a taqwa. (Surata Al-Baqara: 197)
Neste versículo, a taqwa foi chamada de provisão.
(Árabe**********)Assumimos a cor de Allah. E quem pode ter uma cor melhor que a de Allah? (Surata Al-Baqara: 138)
Neste versículo, a religião de Allah foi designada como cor.
(Árabe**********)
Ó crentes! Entrai completamente no Islã.
Neste versículo, o Islã é apresentado numa forma na qual se pode entrar.
(Árabe**********)
Abandonai os pecados manifestos e ocultos. (Al-An’am: 120)
Neste versículo, os pecados são relacionados ao que é manifesto e ao que é oculto.
A estreiteza, a tristeza e a adversidade, a preocupação e a melancolia, entre outras coisas usadas em sentido metafórico, são objetos abstratos e transcendentais; porém, os versículos seguintes as apresentam de forma concreta:
(Árabe**********)
E também os outros três que foram deixados para trás, até que, embora a terra fosse vasta, ela se tornou estreita para eles, sua vida se tornou insuportável e compreenderam que não havia refúgio algum senão Allah. (Surata At-Tawbah: 118)
Foi dito que a terra se tornara estreita para eles. Essa estreiteza foi associada à terra. A estreiteza e a melancolia são coisas abstratas e transcendentais, mas neste versículo são apresentadas de forma concreta. A situação dos Companheiros que não participaram da batalha junto do nobre Profeta (S) foi apresentada de forma concreta. Por terem ficado para trás, sentiram-se tão envergonhados e arrependidos, e estavam tão angustiados, que não tinham nenhum refúgio. Não sentiram alívio nem por um breve instante, até que seu arrependimento fosse aceito perante Allah.
Há outro versículo semelhante:
(Árabe**********)
Adverte-os sobre o Dia iminente, quando as almas chegarão às gargantas e a respiração estará prestes a ser interrompida. Para os pecadores não haverá amigo nem intercessor cuja intercessão seja aceita. (Surata Al-Mu’min: 18)
Este versículo dá a entender que, devido à intensidade da situação, a alma se deslocará de seu lugar original e chegará à garganta.
(Árabe**********)
Então, quando a alma de alguém chega à garganta e vós ficais olhando. (Surata Al-Waqi‘ah: 83–84)
Deste versículo entende-se que o rūḥ é uma substância corpórea que se move e chega até a garganta.
(Árabe**********)
Mas aqueles que se juntam a um povo com o qual tendes um pacto, ou que vêm até vós porque seus corações não querem combater nem contra vós nem contra seu próprio povo. (Surata An-Nisā’: 90)
Isto é, por causa dessa aflição e incerteza, eles ficam em uma situação difícil e não conseguem decidir se lutarão convosco contra seu próprio povo ou se, unindo-se ao seu próprio povo, lutarão contra vós.
3. O Alcorão pretende descrever os estados intelectuais e suprassensíveis dos incrédulos. Os incrédulos certamente ouvem o Alcorão, mas não conseguem obter dele qualquer benefício. Parece que nem sequer o ouviram. O Alcorão apresenta essa realidade suprassensível de tal modo que parece haver uma barreira entre os incrédulos e o Alcorão, a qual não lhes permite seguir o caminho do Alcorão. A seguir, são apresentados alguns exemplos:
(Árabe**********)
Eles foram mantidos afastados do lugar de escuta. (Surata Ash-Shu’ara: 22)
(Árabe**********)
Coloquei uma cobertura sobre seus corações, para que não a compreendam, e enchi seus ouvidos de peso. (Surata Al-An’am: 25)
(Árabe**********)
Acaso não refletem sobre o Alcorão, ou seus corações estão trancados? (Surata Muhammad: 24)
(Árabe**********)
Coloquei grilhões em seus pescoços até o queixo. Assim, suas cabeças ficaram erguidas. Coloquei uma barreira diante deles e outra atrás deles; então os cobrimos, e por isso não veem. (Surata Yasin: 8-9)
(Árabe**********)
Allah selou seus corações e seus ouvidos, e cobriu seus olhos com um véu. (Surata Al-Baqarah: 7)
(Árabe**********)
Aqueles cujos olhos foram cobertos por um véu para não se lembrarem de Mim não são capazes de ouvir. (Surata Al-Kahf: 101)
A barreira suprassensível que impediu os incrédulos de seguir o caminho do Alcorão se materializou diante de nós. Ela parece uma parede semelhante a uma parede real. Assim, adotou-se um estilo de descrição de enorme impacto.
4. Muitas vezes, a descrição de algo é feita de maneira sensorial, mas o método de descrição é tal que, já no primeiro enunciado, percebe-se nele a marca do vigor e da plenitude. Por exemplo: (Árabe**********)
No dia em que o castigo os envolverá por cima de suas cabeças e por baixo de seus pés. (Surata Al-Ankabut: 55)
Isto é, o castigo os cercará por todos os lados. A razão de dizer “por cima e por baixo”, em vez de “por todos os lados”, é que essa expressão é mais eficaz para causar impacto do que a expressão “por todos os lados”.
(Árabe**********)
Quando eles se aproximaram de vocês, pelas terras altas e pelas terras baixas. (Surata Al-Ahzab: 10)
(Árabe**********)
Se eles tivessem cumprido plenamente a Torá, o Evangelho e o que lhes foi revelado por seu Senhor, poderiam comer do que está acima deles e do que está sob seus pés. (Surata Al-Ma’idah: 66)
(Árabe**********)
Seus rostos parecerão cobertos por fragmentos de uma noite escura. (Surata Yunus: 27)
Parece que a cor negra que os rostos dos incrédulos assumirão não é uma camada de tinta de alguma cor; antes, são fragmentos de uma noite escura, com os quais seus rostos foram cobertos.
5. O tajsim, ou concretização, é outro método de representar: descrever objetos suprassensíveis relacionando-os a objetos perceptíveis pelos sentidos. Assim, neste versículo, o castigo ou punição é associado a (***) (forte), e, no versículo seguinte, o dia é chamado de (***) (pesado).
(Árabe**********) Também há um castigo severo atrás deles. (Surata Ibrahim: 17)
(Árabe**********)Eles deixam para trás o dia pesado. (Surata Ad-Dahr: 27)
No primeiro versículo, o castigo é qualificado por um adjetivo que pode ser entendido como longo, largo e espesso. Em outras palavras, o termo “duro” é aplicado à própria coisa.
No segundo versículo, o dia não é apresentado como um período de tempo, mas como uma coisa espessa, corpulenta e pesada.
6. Alguns exemplos em que coisas suprassensíveis são descritas em relação a coisas perceptíveis pelos sentidos:
(Árabe**********)Allah não colocou dois corações no ventre de nenhum ser humano. (Surata Al-Ahzab: 4)
(Árabe**********)Não sejais como aquela mulher que, depois de fiar laboriosamente um fio, o desfaz em pedaços. (Surata An-Nahl: 92)
(Árabe**********)
Que ninguém fale mal de outra pessoa pelas costas. Acaso algum de vós gostaria de comer a carne de seu irmão morto? (Surata Al-Hujurat: 12)
O primeiro versículo explica que não é possível dar lugar, no mesmo coração, a coisas de naturezas opostas. O segundo versículo explica que prometer algo e depois quebrar a promessa é uma ação tão inútil quanto a de uma velha que fiava um fio e depois o desfazia. O terceiro versículo procura despertar repulsa pela maledicência. Afirma-se que o maledicente come a carne de seu irmão morto, pedaço após pedaço, pois aquele que está ausente é comparado a um morto. Assim, falar dos defeitos de alguém em sua ausência não é simplesmente discutir seus defeitos; é como arrancar sua carne pedaço após pedaço e comê-la.
7. O método da representação assume o estatuto de um princípio geral. Por exemplo, afirma-se que, no Dia do Juízo Final, as obras receberão uma forma e serão pesadas. Diz-se:
(Árabe**********)Estabelecerei as balanças da justiça no Dia da Ressurreição. (Surata Al-Anbiya: 47)
(Árabe**********)
Assim, aquele cuja balança for pesada viverá uma vida feliz, e aquele cuja balança for leve terá como morada Hawiya. (Surata Al-Qaria: 6–9)
(Árabe**********)
Se alguma obra tiver o peso de um grão de mostarda, Eu também a apresentarei, e sou suficiente para fazer a prestação de contas. (Surata Al-Anbiya: 47)
(Árabe**********)Nenhuma injustiça do peso de um fio lhes será cometida. (Surata An-Nissa: 49)
(Árabe**********)Não lhes será feita a menor injustiça, nem mesmo equivalente a um grão de gergelim. (Surata An-Nissá: 124)
Nos versículos acima, as ações e a balança foram apresentadas como objetos corpóreos.
A reunião conjunta da imaginação e da representação
Muitas vezes, no mesmo versículo do Alcorão, ocorre uma reunião conjunta da imaginação e da representação. O objeto metafísico então se desprende de sua origem. Ele se manifesta como um objeto corpóreo e perceptível aos sentidos, e também se imprime nesse objeto corpóreo um movimento imaginário. Já encontramos exemplos disso entre os exemplos que apresentamos anteriormente. Contudo, queremos oferecer ainda alguns novos exemplos dessa regra, para que tenhamos diante de nós mais de um exemplo de cada regra. É dito:
(Árabe**********)
Ao contrário, lanço a verdade contra a falsidade, e então a verdade despedaça a cabeça da falsidade. (Surata Al-Anbiya: 18)
(Árabe**********)Ele lançou o terror nos corações deles. (Surata Al-Ahzab: 26)
(Árabe**********)Infundi entre eles a inimizade até o Dia da Ressurreição. (Surata Al-Maida: 64)
(Árabe**********)Então Allah fez descer, da Sua parte, tranquilidade sobre o Seu Mensageiro e os crentes. (Surata At-Tawbah: 26)
(Árabe**********)E inclina-te diante deles com humildade e ternura. (Surata Bani Isra’il: 24)
Leiam repetidamente os versículos mencionados e reflitam. No primeiro versículo, parece que a verdade é uma espécie de bala de vento que, ao atingir a falsidade, a despedaça. No segundo versículo, o medo é apresentado como uma coisa sólida que pode ser lançada de longe e introduzida no coração. Ao deter-se no terceiro versículo, parece que o ódio e a inimizade são uma coisa sólida que pode ser lançada entre dois grupos. Do quarto versículo, compreende-se que a consolação é uma espécie de coisa que passava sobre o Nobre Mensageiro (S) e os crentes; e, a partir do quinto versículo, parece que foram atribuídos braços à humildade e à ternura, os quais permanecem sempre inclinados diante deles.
Em todos os exemplos acima, imaginação e representação se congregam. Isso porque, nesses exemplos, coisas incorpóreas foram apresentadas sob forma corpórea, e nelas foi criado um movimento imaginário. Observem ainda alguns outros exemplos.
(Árabe**********)
Sim, aquele que cometeu um pecado, e o pecado o envolveu. (Surata Al-Baqarah: 81)
(Árabe**********)
Sabei que eles já haviam caído na provação, e certamente o Inferno cerca esses incrédulos. (Surata At-Tawbah: 49)
No primeiro versículo, o pecado foi identificado como uma substância sólida, e, ao dizer que ele está novamente cercado e contido, indicou-se sua dinâmica. Pelo segundo versículo, parece que a fitna é um abismo. E os incrédulos caíram nesse abismo.
(Árabe**********)Não mistureis a verdade com a falsidade. (Surata Al-Baqara: 42)
Portanto, proclama-lhes a ordem que recebeste de Allah. (Surata Al-Hijr: 94)
Do primeiro versículo, entende-se que a verdade e a falsidade são duas substâncias sólidas, uma cobrindo a outra. O uso, no segundo versículo, da palavra “rasgar” faz parecer que a ordem de Allah é uma substância que pode ser rasgada e misturada com outra substância.
(Árabe**********)
Allah é o Protetor daqueles que creem. Ele os tira das trevas para a luz. Quanto àqueles que descreem, seu protetor é o taghut. Eles os tiram da luz e os conduzem às trevas. (Surata Al-Baqara: 257)
(Árabe**********)
E quem rejeita o taghut e crê em Allah segura-se a uma alça que jamais se romperá. (Surata Al-Baqara: 256)
No primeiro versículo, a orientação é comparada à luz e o pecado às trevas, e, ao empregar a expressão “retirar”, procurou-se pôr o pensamento em movimento. No segundo versículo, a fé é comparada a um objeto sólido que não teme ser quebrado ou despedaçado.
Pode-se dizer, nos exemplos mencionados, que, quando um objeto transcendente é separado de sua origem e apresentado em estado corpóreo e dinâmico, esse significado se torna concreto e domina completamente nossa mente.
Também nas passagens do Alcorão Sábio em que são descritas a essência e os atributos de Allah, o Altíssimo, e em que o propósito é expresso claramente, uma imagem corpórea é desenhada no mesmo estilo. Por exemplo:
(Árabe**********)A mão de Allah está sobre as mãos deles. (Surata Al-Fath: 10)
(Árabe**********)Seu Trono estava então sobre a água. (Surata Hud: 7)
(Árabe**********)Seu assento (poder) se estende sobre os céus e a terra. (Surata Al-Baqarah: 225)
(Árabe**********)Depois, foi e se colocou sobre o Trono. (Surata Al-A’raf: 54)
(Árabe**********)Depois, voltou Sua atenção para o céu, que era uma massa de fumaça. (Surata Hamim Sajdah: 11)
(Árabe**********)
No Dia da Ressurreição, toda a terra estará em Sua mão, e os céus estarão dobrados em Sua mão direita. (Surata az-Zumar: 67)
(Árabe**********)
Ó Profeta! Quando lançaste os seixos, não foste tu que os lançaste; foi Allah quem os lançou. (Surata al-Anfal: 17)
(Árabe**********)Allah restringe e amplia. (Surata al-Baqara: 245)
(Árabe**********)E o teu Senhor e os anjos virão, dispostos em fileiras. (Surata al-Fajr: 22)
(Árabe**********)
Os judeus dizem: “A mão de Allah está atada.” Que suas próprias mãos sejam atadas! E que sejam amaldiçoados pelo que disseram. Ao contrário, ambas as Suas mãos estão estendidas. (Surata al-Maida: 64)
(Árabe**********)
Quando Allah diz: “Ó Jesus! Completarei o período da tua permanência no mundo e te elevarei até Mim.” (Surata آل عمران: 55)
Essa era, na realidade, a questão, conforme descrevemos acima. Porém, discutir e polemizar sobre o uso da linguagem e das frases, bem como sobre seus significados, tornou-se uma espécie de moda; por isso, também surgiram divergências acerca das palavras mencionadas. Contudo, aqui não havia qualquer espaço para esse tipo de controvérsia. Isso porque, nessas frases, adotou-se um estilo de apresentação característico do estilo geral do Alcorão. Em outras palavras, o significado fundamental foi apresentado por meio dos métodos do tajsīm e do takhayyul. Trata-se de um estilo que não contém nem atraso nem desvio.
Quinto capítulo
A composição artística do Alcorão
Quando dizemos que, entre os recursos corânicos, o método da representação ocupa a posição de princípio fundamental ou base, e que a imaginação e a corporificação constituem os exemplos mais brilhantes da representação, o assunto não termina aí. Dizer apenas isso não basta para fazer jus à descrição da singularidade do Alcorão, nem traz à luz todas as características da visualização corânica. Na verdade, além da representação, da imaginação e da corporificação, há no Alcorão muitos outros aspectos ornamentais. Enquanto não se penetrar nessa floresta, ainda se poderá falar da composição artística do Alcorão, que desempenha um papel importante na visualização.
Tipos de composição artística
A composição artística possui vários níveis. Há certos aspectos artísticos e ornamentais da composição que foram analisados pelos especialistas. Há também outros aspectos nos quais eles sequer tocaram.
1. Um tipo de composição relacionado à composição da expressão. Por exemplo, a disposição, de uma maneira específica, mediante a escolha de algumas palavras adequadas, graças à qual a frase ou o discurso alcança o limiar da perfeição e do refinamento. Tanto já se discutiu sobre este assunto que não há necessidade de escrever algo novo.
2. Outra relação da composição é com a melodia e o ritmo, que são criados pela escolha correta das palavras e por sua disposição de uma maneira específica. Esse método manifesta-se plenamente no Alcorão e está completamente integrado à sua base artística. Contudo, o olhar dos sábios antigos não conseguiu avançar para além da melodia e do ritmo externos. Eles sequer sabiam quantos eram os tons, ritmos e compassos da música, nem de que modo e onde eram utilizados.
3. Um dos aspectos retóricos da composição do Alcorão que os especialistas em retórica conseguiram conhecer é que o final dos versículos ou do discurso foi elaborado em consonância com o conteúdo. Por exemplo, os versículos que descrevem a Essência e os atributos de Allah foram concluídos com:(Árabe**********) pela frase.(Árabe**********) pela frase. Outro método consiste em começar com o ism al-mawsul (termo relativo) e, depois, conduzir a frase à perfeição sem a silah, ou termo conectivo. Em seguida, menciona-se a jaza, ou retribuição. Por exemplo:
(Árabe**********)
As portas do céu não lhes serão abertas, nem entrarão no Paraíso, até que o camelo passe pelo buraco de uma agulha — assim retribuímos os que desmentem os Nossos versículos e deles se afastam com arrogância. (Surata Al-A’raf: 40)
Da mesma forma, onde se aborda o ensino e a educação, utiliza-se a palavra ‘Rabb’. Ei-lo:
(Árabe**********)
Recita em nome do teu Rabb, que te criou. Criou o ser humano de um coágulo. Recita, e teu Rabb é o Generosíssimo, que ensinou por meio da pena. Ensinou ao ser humano aquilo que ele não sabia. (Surata Al-‘Alaq: 1–5)
Onde se discute a soberania, a honra e a autoridade de Allah, utiliza-se a palavra (**), como segue:
(Árabe**********)
Certamente, somente junto a Allah está o conhecimento da Hora. Ele faz descer a chuva e sabe o que há nos ventres. (Sura Luqman: 34)
Da mesma forma, a palavra (***) foi utilizada de diversas maneiras, conforme o lugar e o tempo. Às vezes, menciona-se a palavra Allah uma vez e, nos versículos seguintes, utilizam-se apenas pronomes. Em alguns lugares, ela aparece no início da frase; em outros, no final; e, em outros ainda, a palavra Allah e seu pronome são utilizados conjuntamente. Em muitos lugares, foi empregada para introduzir uma pergunta e, em muitos outros, para uma descrição afirmativa. Para muitos estudiosos da retórica, isso é considerado um exemplo supremo de eloquência.
4. Há uma continuidade semântica entre o conteúdo e o propósito dos diversos versículos do Alcorão. Além disso, a relação criada pela mudança do propósito de um versículo para o propósito de outro também constitui um exemplo de disposição artística. Contudo, o Alcorão está livre dos princípios que os estudiosos da retórica estabelecem acerca da disposição artística.
5. Talvez o nível mais elevado da disposição artística de que os estudiosos da retórica tomaram conhecimento até agora seja a disposição natural do Alcorão, encontrada na sequência descritiva de alguns versículos. Por exemplo, a respeito da Sura Al-Fatiha, citamos, no capítulo “Estudo e exegese do Alcorão”, um trecho da obra do erudito Zamakhshari. As características identificadas pelos estudiosos da retórica continuam sendo proclamadas pelos estudiosos da eloquência corânica como a melhor expressão da disposição artística. É surpreendente que eles também não tenham alcançado o outro aspecto da disposição artística. Ao avançarem um pouco mais, limitaram-se a tentar dizer algo sobre a melodia e o ritmo do Alcorão. Talvez lhes tenha parecido que o Alcorão não possuía nenhuma outra característica. Na realidade, essa é apenas uma entre as muitas características corânicas. Mas eles se deram por satisfeitos justamente nesse ponto.
Isso porque os estudiosos da eloquência não compreendiam que aquilo que o Alcorão apresenta por meio da representação e da visualização possui um caráter fundamental. Por isso, não conseguiram lançar uma luz adequada sobre a questão da disposição artística. Este livro foi escrito precisamente para apresentarmos, sobre esse tema, nosso novo pensamento e nossa pesquisa. Nosso objetivo não é disputar nem polemizar sobre questões antigas. Queremos tentar compreender, sob uma nova perspectiva, tudo o que foi escrito acerca do aspecto retórico do Alcorão e continuar avançando além do ponto em que nossos predecessores chegaram e pararam, pois há amplo espaço para isso. A esse respeito, consideramos suficientes os exemplos que discutimos inicialmente na explicação da Sura Al-Alaq e no capítulo “A fonte do poder hipnótico do Alcorão”. Esses exemplos demonstram que há amplo espaço e oportunidade para abordar, sob uma nova perspectiva, os vínculos entre as ideias e o processo de disposição externa no Alcorão.
Queremos apenas indicar que existe um vínculo espiritual invisível entre os acontecimentos narrados no Alcorão e os lugares relacionados a esses acontecimentos. Ao mesmo tempo, o Alcorão considera os objetivos religiosos, o conteúdo e o aspecto artístico desses acontecimentos. Exemplos desse tipo de correspondência serão mencionados sob o título “Tema: Os acontecimentos narrados no Alcorão”. Também se encontra esse tipo de correspondência nas cenas da Ressurreição, nas cenas de paz e castigo e nas cenas dos diálogos entre os habitantes do Paraíso e os habitantes do Inferno, tal como ocorre nos acontecimentos narrados no Alcorão. Na descrição de todos esses temas, também se levou em consideração uma continuidade ou um vínculo. Isso não significa, porém, que o objetivo principal tenha sido trazido diretamente à discussão, isto é, o objetivo pelo qual o acontecimento foi introduzido.
O ponto central é que o significado e a importância, bem como o propósito e os objetivos do Alcorão Sagrado, são extremamente sutis, profundos e significativos, além de elevadíssimos. Porém, a beleza oculta da descrição e da explicação do Alcorão é muito mais ampla do que sua representação. Não nos é possível abandonar o caminho simples e plano da discussão, avançar e, de um só golpe, levar o curso da pena até o cume mais elevado desse conteúdo. Por isso, avançaremos passo a passo, tentando subir até esse cume.
[5.1] No Alcorão Sagrado há alguns lugares em que sua mensagem é apresentada por meio da representação pictórica; nesses lugares, há plena correspondência entre a mensagem e a situação. Por exemplo, esse modo de descrição sensorial, ou o significado lexicográfico, revela-se útil para completar os traços da imagem. Trata-se de uma curva que, na descrição, ocupa a posição de elo entre a explicação e a imagem, a partir da qual se separam os caminhos da descrição de estilo simples e da elevada arte de construção. Assim, diz o versículo seguinte:
(Árabe**********)
Sem dúvida, perante Allah, o Altíssimo, os piores de todos os seres vivos são os mudos e surdos que não compreendem. (Sura al-Anfal: 22)
A palavra (****) é usada para os animais em geral. Naturalmente, muitas vezes essa palavra também é usada para designar seres humanos. Isso porque a palavra (****) abrange todos os seres que caminham sobre a superfície da Terra; como o ser humano também caminha sobre a superfície terrestre, ela pode ser aplicada igualmente aos seres humanos. Contudo, a razão não é obrigada a aceitar a palavra (***) no sentido de ser humano. Isso contraria a normalidade. Aqui, o uso da palavra (***) para os seres humanos indica que seu caráter e comportamento revelam uma atitude animalesca, que constitui um obstáculo no caminho da orientação. Assim, completa-se a imagem de sua negligência e animalidade, e a expressão (***) (não compreendem) torna isso ainda mais claro.
Em outro versículo, foi dito:
(Árabe**********)
E os que descreem desfrutam dos prazeres e comem como comem os quadrúpedes; sua morada será o Jahannam. (Sura Muhammad: 12)
Neste versículo, os incrédulos são comparados aos animais, formando-se uma imagem magnífica. Isso porque, durante os poucos dias de sua vida terrena, divertem-se intensamente e, de várias maneiras, procuram desfrutar das cores e diversões deste mundo. No entanto, permanecem completamente indiferentes ao castigo da Outra Vida que os aguarda — uma atitude que só é própria dos animais. Eles permanecem ocupados comendo, bebendo e divertindo-se, mas jamais pensam que a faca do açougueiro os espera. Parece que sua única ocupação é comer, beber e divertir-se.
Vejam outro exemplo:
(Árabe**********)
Vossas mulheres são como uma lavoura para vós. Ide, pois, à vossa lavoura como quiserdes. (Surata Al-Baqarah: 223)
Neste versículo, encontram-se vários tipos de correspondências ocultas e manifestas. Nele, a relação delicada entre marido e mulher é apresentada de maneira extremamente sutil e atraente. A comparação mais interessante é a da relação entre marido e mulher com a relação entre um agricultor e sua terra. Assim como a terra é o campo onde se produzem as colheitas, a esposa também é o campo onde se geram os filhos. Assim como o celeiro é preenchido com a colheita da terra, por meio da geração de filhos através da esposa a linhagem é conduzida à plenitude. Em poucas palavras, todo o propósito e objetivo foram apresentados de forma correta e bela.
[5.2] Muitas vezes, uma única palavra — não uma frase inteira — não apenas traz consigo o sinal da realização parcial da imagem, mas faz resplandecer a imagem completa. No método pictórico, essa correspondência é ainda mais forte do que a anterior. Ela se aproxima quase da perfeição. Sua importância é maior porque, sem uma frase completa, apenas uma palavra pode dar forma a uma imagem. Assim que essa palavra chega aos ouvidos, uma imagem completa surge no espelho da mente.
(Árabe**********)
Ó crentes! O que vos acontece para que, quando vos é dito que saiais pelo caminho de Allah, permaneçais agarrados à terra? (Surata At-Tawbah: 38)
Ao ouvir a palavra (***) durante a recitação deste versículo, surge imediatamente no mundo do pensamento a imagem de um objeto pesado. Parece que alguém tenta repetidamente levantar algum objeto pesado, mas não consegue fazê-lo por causa de seu peso. Parece que a palavra pesa várias toneladas. Se no versículo tivesse sido usada (***) (embora o significado das duas palavras seja essencialmente o mesmo), ela não transmitiria um peso tão grande quanto a palavra anterior. O objetivo teria sido frustrado. Porém, a palavra utilizada foi aplicada com tanta precisão que, assim que a ouve, o ouvinte vê, com os olhos da imaginação, a imagem de um fardo pesado e difícil de suportar.
Outro versículo desse tipo é:
(Árabe**********)
E entre vós há também quem se atrase deliberadamente. (Surata An-Nissá: 72)
Assim que este versículo é lido, forma-se uma ideia de atraso; especialmente ao recitar ou ouvir a palavra (***), uma imagem surge diante dos olhos. É como se suas línguas ficassem rígidas ao pronunciar aquela palavra, alcançando finalmente o fim com grande dificuldade e depois de muita demora.
No Alcorão, as palavras do venerável Noé (A.S.) são apresentadas da seguinte forma:
(Árabe**********)
(Noé disse:) Ó meu povo! Vede: se eu me apoio numa prova clara da parte de meu Senhor, e Ele me concedeu misericórdia de Sua parte, mas isso não se torna visível aos vossos olhos, acaso eu poderia impô-la a vós contra a vossa vontade? (Surata Hud: 28)
Assim que a palavra (*****) é recitada neste versículo, uma imagem de aversão e insistência se reflete no espelho da mente. Toda a sua consciência e capacidade de falar tornam-se tão interligadas quanto (****), ou como aquele que odeia trata aquilo que odeia. A estreita relação entre palavra e significado que se manifesta neste versículo constitui uma das aplicações mais vigorosas da balāgha e da fasāha, consideradas pelos exegetas antigos e contemporâneos uma das características do Alcorão.
Em outro lugar, foi dito:
(Árabe**********)
Quanto aos incrédulos, terão o fogo do Inferno. Não lhes será decretada a morte, para que morram, nem lhes será aliviado o castigo. É assim que castigamos os ingratos. Ali, clamarão em lamento: “Ó nosso Senhor! Tira-nos daqui; praticaremos boas ações e não faremos novamente o que fazíamos antes.” (Surata Fátir: 36–37)
Assim que se ouve a palavra (****) neste versículo, parece que os habitantes do Inferno estão gritando, e que sua voz ressoa e reverbera por todos os lados. Ao mesmo tempo, outra imagem surge: ninguém ouve seus gritos lancinantes, nem alguém se adianta para remediar sua situação por causa desses gritos desesperados. É a partir dessa imagem que se compreende quão terrível é a intensidade do castigo.
Quando uma única palavra torna plenamente manifesta a mensagem de toda a frase, isso constitui (***) ou o auge da composição (artística). Por exemplo:
(Árabe**********) de temperamento rude e, além disso, infame. (Surata Al-Qalam: 13)
Neste versículo, a palavra (***) é suficiente para retratar plenamente a rudeza de caráter e a crueldade.
Outro versículo nobre semelhante é:
(Árabe**********)Mas uma vida tão longa não poderá salvá-los do castigo. (Surata Al-Baqarah: 96)
Neste versículo, o sujeito de (****) é (***), o que traça uma imagem completa e vívida. Assim que algumas palavras são pronunciadas, essa imagem surge diante dos olhos.
O versículo seguinte também é um excelente exemplo:
(Árabe**********)
Em seguida, eles e os desviados — isto é, os ídolos e os idólatras — serão lançados de cabeça no Inferno, assim como todos os exércitos de Iblis. (Surata Ash-Shu’ara: 94–95)
Neste versículo, a palavra (****) representa o som da queda no Inferno.
É importante observar que, nos dois versículos, os significados literais das duas palavras (***) e ((***)) fazem surgir diante dos olhos a imagem completa. Não se trata de uma ideia criada nelas pelo uso específico que o Alcorão faz delas. Na realidade, as palavras que acabamos de mencionar foram empregadas em um contexto específico do Alcorão e aparecem apenas uma vez. Pode-se afirmar, certamente, que o emprego dessas duas palavras no local mencionado é, sem dúvida, considerado uma das mais excelentes descrições entre as descrições retóricas.
Entre os diversos sinônimos descritivos usados no Alcorão Sagrado para o Dia da Ressurreição, encontram-se também as duas palavras (****) (ensurdecedora) e (***) (que se estende sobre todas as coisas). Na palavra (***) há tamanho rugido e dureza que, assim que se ouve a palavra, parece que os ouvidos se romperão com aquele estrondo. Essa palavra atravessa o ar, atinge o canal auditivo e ensurdece. Do mesmo modo, a palavra (****) também parece indicar algo que se move com extrema velocidade. Ela cobre tudo à velocidade de uma tempestade e o devora. Há ainda outro versículo:
(Árabe**********) Pelo amanhecer, quando ele respira (isto é, quando se ilumina). (Surata At-Takwir: 18)
Fiquei pasmo ao ver uma escolha de palavras tão delicada e bela quanto (***) e ao pensar em seus sinônimos alternativos. Você também ficará maravilhado com o caráter milagroso do Alcorão e será obrigado a reconhecer que a beleza e o caráter milagroso do Alcorão foram ampliados pela escolha da palavra certa no lugar certo. Em outra passagem, foi dito:
(Árabe**********)
quando Ele estendeu sobre vocês, da Sua parte, o manto do sono, para tranquilizá-los. (Surata Al-Anfal: 11)
Neste versículo, o sono é expresso pela palavra (****) (sonolência), indicando um efeito intenso. Parece que o sono é uma espécie de manto fino e delicado que cobre com grande conforto e suavidade. A palavra (***) dá a impressão de que a tranquilidade e a segurança cobrem o mundo inteiro.
Também encontramos a representação por meio das palavras e da pronúncia na última surata do Alcorão — a Surata An-Nas. Pense nisso:
(Árabe**********)
Dize: busco refúgio no Senhor dos seres humanos; no verdadeiro Rei dos seres humanos; no Deus dos seres humanos; contra o mal do sussurrador que se retrai ao ouvir o nome de Allah, que incute sugestões malignas nos corações dos seres humanos, seja ele dos seres humanos ou dos gênios. (Surata An-Nas: 1-6)
Recite esta surata repetidamente e observe como sua voz produzirá um sussurro perfeitamente completo, exatamente como o sussurro descrito na surata. Isso ocorre especialmente ao recitar o versículo seguinte.
(Árabe**********)
Observe outro exemplo. Foi dito:
(Árabe**********)
Quão terríveis são as palavras de suas bocas! Eles não dizem senão mentiras. (Surata Al-Kahf: 5)
Este versículo também se harmoniza com o tema em discussão, embora haja uma pequena diferença. Neste versículo, menciona-se a alegação de que Allah teria um filho. Essa mentira extrema é refutada por todos os meios possíveis. Primeiro, mediante o uso de uma determinada forma verbal, o sujeito foi mantido oculto. Além disso, uma palavra foi empregada como tamyiz e como nakira (indefinida), produzindo um grau máximo de repugnância. Em seguida, outra forma verbal indica que essas palavras saíram da boca involuntariamente e por ignorância. Mantém-se ainda a repulsa e a baixeza produzidas por determinada expressão. Ao pronunciá-la, a boca fica ligeiramente aberta, mas se fecha novamente assim que se articula o mīm final. Entretanto, nesse momento, o ar que sai da garganta ainda enche a boca.
Há um tipo de palavra que de fato representa o conteúdo, mas não fazendo sua mensagem e seu som entrarem nos ouvidos. O alcance de sua imagem limita-se àquilo que se forma no mundo do pensamento, como uma sombra. Convém observar que a palavra e a fala possuem sua própria sombra ou reflexo, que se torna visível quando o olhar humano incide sobre elas. O versículo a seguir é um exemplo disso:
(Árabe**********)
Relata-lhes a história daquele a quem concedi os Meus sinais, mas que deles se desvencilhou e se afastou. (Surata Al-A‘raf: 175)
Nesta ayah, a palavra «fan-salakha» indica como aquele homem se desvencilhou dos sinais que lhe haviam sido concedidos. O versículo seguinte é também um excelente exemplo:(Árabe**********)
Então, ao amanhecer, entrou na cidade, temeroso e apreensivo. (Surata Al-Qasas: 18)
Nesta ayah, a palavra «fil-madīnati» retrata vividamente o temor e a apreensão de Hazrat Moisés (que a paz esteja sobre ele). Ao mesmo tempo, deve-se ter em mente que Hazrat Moisés (que a paz esteja sobre ele) considerou a cidade — «fil-madīnati», isto é, o lugar onde normalmente há paz e segurança — como o cenário da manifestação do medo. Embora «yattarrāqabu» seja usado para designar os lugares onde o medo e o perigo ficam ocultos, aqui um lugar de paz e segurança foi apresentado sob uma imagem assustadora.
Já apresentamos exemplos desse tipo no capítulo «Imaginação e representação», e eles também estão em plena concordância com isso.
Às vezes, o som e o efeito estão reunidos numa mesma palavra. Por exemplo:
(Árabe**********)No dia em que forem empurrados e levados em direção ao fogo do Inferno. (Surata At-Tur: 13)
Neste versículo, a palavra (***) cria, juntamente com o som e o efeito, uma imagem de seu significado. O aspecto a considerar aqui é que (***) significa empurrar com força. Quando alguém é empurrado com muita força, de sua boca sai involuntariamente o som (***) (oh!). Esse som é extremamente compatível com a palavra (***). Observe também o versículo seguinte:
(Árabe**********)Agarrai-o e arrastai-o para o centro do Inferno. (Surata Ad-Dukhan: 47)
Assim que o som da palavra (****) deste versículo penetra nos ouvidos, produz-se uma agitação no mundo das ideias, e uma imagem viva surge diante dos olhos.
Neste capítulo, podemos mencionar aquelas palavras sobre as quais dissemos que o próprio som chama a atenção para seu significado literal. Por exemplo, (****) (sonolência), (***) (respiração) e (****) (Ressurreição). Essas palavras criam, juntamente com o som, também uma sombra. Contudo, é extremamente difícil determinar os limites da sutil diferença existente entre seu som e sua sombra. Quando a palavra desenha uma imagem de seu significado e conceito, seu som e seu conceito se fundem. Ela se dirige não apenas ao sentido semântico, mas também ao pensamento e à imagem. E é precisamente esse o nosso objetivo.
[5.3] Entre os métodos de representação visual que o Alcorão adotou para apresentar sua mensagem está também o taqābul, ou contraste. Quando o Alcorão deseja desenhar uma imagem sutil por meio das palavras, na maioria das vezes segue o método do taqābul. Por exemplo:
(Árabe**********)
E entre Seus sinais está a criação dos céus e da terra e dos seres vivos que Ele espalhou entre ambos. E Ele é capaz de reuni-los quando quiser. (Surata Ash-Shura: 29)
Neste versículo, as duas palavras (***) (dispersar) e (***) (reunir) representam o taqābul, ou contraste. Ao empregar juntas, no mesmo versículo, essas duas palavras de sentidos opostos, foi desenhada uma imagem completa, que surge no mundo das ideias como uma sucessão de imagens. Embora as duas palavras sejam antônimas, elas se harmonizaram de modo belo.
No versículo a seguir, duas imagens opostas — a vida e a morte — são apresentadas juntas.
(Árabe**********)
Não abriram os olhos para isso? Destruí, antes deles, muitas comunidades por cujas moradas eles circulam. Certamente, há sinais nisso. Será que não ouvem? Não veem que faço a água correr sobre a terra árida e, por meio dela, produzo plantações das quais eles e seus animais comem? Por que não prestam atenção a isso? (Surata As-Sajda: 26–27)
Vejam quanta diferença há, neste versículo, entre a vida e a morte. Primeiro, fala-se daqueles que um dia caminhavam sobre a terra. Hoje estão mortos; foram destruídos. Sua terra natal está desolada. Mas, num piscar de olhos, apresenta-se uma imagem completamente diferente: a terra morta sendo revestida de verde e adornada. Aqui, o tacābul, ou contraste, não ocorre fundamentalmente entre um estado e outro, mas entre a vida e a morte.
Imagens desse tipo de ‘tacābul’ (contraste) encontram-se em grande abundância nos trechos que tratam da paz e do castigo na vida futura. Apresentaremos a seguir alguns exemplos desse tipo.
(Árabe**********)
Isso é inadequado. Quando a terra for reduzida a pó e o teu Senhor surgir, os anjos permanecerão enfileirados e o Inferno for apresentado, nesse dia o ser humano se lembrará. Mas de que lhe servirá essa lembrança? Ele dirá: “Ah, se eu tivesse enviado algo antecipadamente para esta vida!” Nesse dia, ninguém castigará como será castigado, e ninguém prenderá como ele será preso. (Surata Al-Fajr: 30)
Mesmo em uma situação tão aterrorizante, um crente será chamado com palavras ternas e afetuosas: “Ó alma tranquila, retorna ao teu Senhor.” Nesse retorno, encontra-se a prova do profundo amor e contentamento entre esse servo e o Senhor. Em outras palavras, ambos demonstram amor um pelo outro. Os sinais de amor e afeição presentes nessas palavras fazem parecer que todo o ambiente está unido por um laço de carinho. Em seguida, foi dito:(Árabe**********)Estabelece uma relação com Meus servos escolhidos e cria afeição entre eles.(Árabe**********)Depois, entra no Meu Paraíso. A descrição do Inferno havia envolvido todo o ambiente em uma imagem de medo e aflição. Aqui, encontra-se uma imagem completamente oposta, repleta de amor e afeição.
O exemplo acima era uma imagem de contraste entre o descrente e o crente. Agora apresento uma imagem de contraste entre o castigo dos habitantes do Inferno e as bênçãos dos habitantes do Paraíso.
(Árabe**********)
Chegou-te o relato do Dia da Ressurreição, que tudo envolve? Nesse dia, muitos rostos estarão humilhados, abatidos e exaustos. Cairão num fogo ardente. Serão obrigados a beber de uma fonte fervente, e não terão alimento senão uma planta espinhosa. Isso não lhes dará nutrição nem lhes saciará a fome. E muitos rostos, nesse dia, estarão radiantes, satisfeitos com suas obras. Permanecerão num Paraíso elevado. Ali não ouvirão palavras vãs. Haverá ali uma fonte corrente, leitos elevados, taças dispostas, tapetes enfileirados e extensos carpetes estendidos.
Os versículos anteriores apresentam uma bela imagem de contraste entre o castigo e as bênçãos. Há muitos exemplos desse tipo no Alcorão.
[5.4] Os exemplos acima eram duas imagens de contraste. Mas agora apresentaremos alguns exemplos que também são contrastantes, embora um deles pertença ao passado e o outro ao presente. O passado é trazido imaginariamente para o presente, e assim são desenhadas imagens contrastantes dessas duas situações. Por exemplo:
(Árabe**********)
Ele criou o ser humano de uma gota de esperma. Mesmo assim, ele é um litigante declarado. (Surata An-Nahl: 4)
A situação que atualmente se apresenta diante de nós é a de uma pessoa abertamente brigona, mas, no passado, ela era apenas uma insignificante gota de esperma. O objetivo aqui é mostrar a enorme distância entre essas duas situações. Por isso, a situação intermediária entre elas foi omitida. Pode-se expressar a ideia assim: se este foi o princípio do ser humano, então não lhe convém ser briguento. Outro exemplo semelhante:
(Árabe**********)
Deixa em Minhas mãos os que desmentem, possuidores de riqueza, e concede-lhes um breve prazo. Certamente, junto de Mim há correntes, uma fornalha, alimento que fica preso na garganta e um castigo doloroso. (Surata Al-Muzzammil: 11-13)
Também aqui se observa um contraste entre duas situações. Uma delas está presente no momento: a arrogância causada pela riqueza. A outra está ausente no presente, limitada apenas ao reino da imaginação. Na realidade, ela não existe. Este exemplo revela tanto uma importância artística quanto religiosa. Observem os versículos seguintes:
(Árabe**********)
Ai de todo difamador, que calunia pelas costas e diante dos outros, que acumula riquezas e as conta repetidamente, imaginando que seus bens permanecerão para sempre com ele. De modo algum! Ele certamente será lançado no Hutamah. E o que te fará compreender o que é o Hutamah? É o fogo aceso por Allah, que alcança os corações. Certamente, eles serão amarrados nele, presos a colunas estendidas. (Surata Al-Humazah: 1-9)
Nesta surata, são descritas duas situações opostas. Uma é a situação deste mundo, e a outra, a da Outra Vida. Há pessoas arrogantes e orgulhosas que, embriagadas pela riqueza e pelos bens deste mundo, esqueceram a Outra Vida e se entregaram às diversões mundanas. Mas, na outra extremidade do caminho que percorrem, espera-os o Inferno: um Inferno que reduz tudo a pó e cujo fogo alcança os corações. Justamente aqueles corações que hoje estão enlouquecidos de orgulho e arrogância. Eles serão amarrados ali de tal modo que não poderão sair por vontade própria, nem outra pessoa será capaz de libertá-los.
O versículo seguinte diz:
(Árabe*********)
Os da esquerda — (ai de mim!) — em que tormento estarão os da esquerda! Estarão em vapor abrasador, água fervente e à sombra de uma fumaça, que não é fresca nem agradável. Antes, viviam em conforto. (Surata Al-Waqi‘ah: 41–45)
Aqui, duas situações são apresentadas face a face. Uma é a situação atual dos habitantes do Inferno: vapor quente, água quente e uma sombra de fumaça que é sombra apenas de nome. Essa situação difícil é apresentada em contraste com a situação anterior deles, isto é, a felicidade e o conforto.
Há uma questão sutil de reflexão entre a situação descrita acima e as demais situações relacionadas a ela. As pessoas mencionadas neste versículo estão plenamente vivas e circulam pelo mundo. Todos os prazeres e confortos mundanos estão sob seu domínio; essa situação existe no presente. O sofrimento que as aguarda na Vida Futura pertence ao futuro. Contudo, o Alcorão trouxe essa situação futura para o presente. O leitor imagina que, depois de encerrarem seus negócios mundanos, elas já entraram naquela situação que lhes foi preparada. Todos os prazeres e deleites que ficaram para trás terminaram. Elas estão diante de um tormento intenso. Nesse estado, são lembradas de seu passado, daqueles prazeres.
Pode parecer um modo extraordinário de pensar. Mas e daí? O Alcorão apresenta seu discurso nesse estilo em muitos lugares. Essa descrição corânica tem apelo tanto artístico quanto religioso. O investigador da arte considera que isso não é apenas o lançamento de uma metáfora; é, antes, um acontecimento que ultrapassa os limites da sensação e da compreensão e se desenrola diante dos olhos, acontecendo neste momento.
A percepção dos investigadores religiosos é que se deve ter uma convicção tão firme (yaqīn) nos acontecimentos que ocorrerão no Inferno, como se estivessem acontecendo agora mesmo. Isso se relaciona à percepção. E essa convicção firme prepara a pessoa para aceitar o convite à fé.
O versículo a seguir também está relacionado ao exemplo acima.
(Árabe*********)
Agarrem-no e arrastem-no até o Inferno. Depois, derramem sobre sua cabeça o tormento de água fervente. (Agora) prova! Tu és, sem dúvida, honrado e nobre. (Surata Ad-Dukhan: 47–49)
O versículo seguinte também apresenta uma imagem de natureza oposta:
(Árabe*********)
De modo algum! Quando a alma chegar à garganta e for perguntado: “Quem poderá curá-lo?”, e ele pensar que chegou o momento da partida, e uma perna se entrelaçar com a outra, nesse dia tudo será levado à presença do teu Senhor. Ele não acreditou nem orou; ao contrário, considerou a verdade uma mentira e virou as costas. Depois, retornou arrogantemente à sua família. (Surata Al-Qiyamah: 26–33)
Nesses versículos são apresentadas imagens opostas de duas situações. A primeira é aquilo que já passou. Parece que toda a criação perdeu sua beleza e se tornou desolada. Houve um tempo em que aquele que agora está morto não realizava a oração e não aceitava a veracidade do Alcorão. Uma situação — isto é, o momento da morte — está diante de seus olhos, mas ele permanece indiferente. O momento da morte chegou; tomado pelo medo, ele está tão perturbado que suas duas pernas tremem. A alma chegou à garganta, e alguém pergunta: “Não há quem possa fazer uma cura por encantamento?”, alguém que possa salvá-lo desse perigo, como se recorre a encantamentos para libertar-se da influência de gênios e espíritos.
O moribundo pensa que hoje é o dia de separar-se de sua família. As lembranças dos dias passados surgem diante de seu coração. Ele vê novamente as duas cenas: afastar-se arrogantemente do convite do nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e voltar para sua família, considerando falso o seu convite. Mas isso não lhe trará benefício algum, pois uma perna já está entrelaçada à outra. Agora não há mais tempo. Agora é o momento de partir rumo ao retorno ao Senhor.
Sexto capítulo
Melodia e ritmo no Alcorão
Quanto à harmonia e à semelhança entre as palavras do Alcorão, outros autores já discutiram diversos aspectos. Pretendo apenas lançar um breve olhar sobre isso e abordar aquele aspecto da composição artística do Alcorão que ainda não foi tratado em detalhe e que também está relacionado ao tema deste livro, especialmente a semelhança fonética no Alcorão.
Já indiquei anteriormente que o Nobre Alcorão possui melodia e ritmo (semelhança na pronúncia das palavras), com vários tipos e formas, que desempenham um papel auxiliar na apresentação de sua mensagem. Como todo o Alcorão é ritmado, há melodia e cadência em toda parte. Observa-se que as diferentes letras de uma mesma palavra, bem como cada versículo e sua palavra final, seguem regras de ritmo, seja o versículo curto ou longo. Quero discutir as passagens em que se manifesta essa harmonia entre as palavras finais das frases. No Nobre Alcorão, foi dito:
(Árabe*********)
Não lhe ensinamos poesia ou composição poética, nem isso lhe convém. Isto não é senão uma admoestação, que foi revelada como um Alcorão claro. (Surata Yá-Sin: 69)
Estas palavras são uma resposta à acusação dos incrédulos, mencionada na Surata Al-Anbiyá:
(Árabe*********)(Eles diziam:) Ele o inventou; não, ele é um poeta. (Surata Al-Anbiyá: 5)
O Alcorão afirmou corretamente que não é poesia. Mas a questão é: os árabes que o chamavam de poema ou poesia eram loucos ou ignorantes acerca da poesia e da composição poética? Certamente, não. Já que o chamaram de poesia, é evidente que nele existem características da poesia e da composição poética, cujo encanto mágico também os fascinava. Eles tinham familiaridade com a harmonia da pronúncia e a beleza do Alcorão; por isso compreenderam que ele possuía caráter poético. Mesmo que o examinemos apenas do ponto de vista da métrica e da rima final, percebe-se que nele estão presentes as características fundamentais da poesia e do poema.
Além disso, o Alcorão assimilou de maneira admirável tanto a prosa quanto a poesia. O Alcorão é independente da métrica (****) e da rima final (****), e não está sujeito à obrigação de possuir rima. Ainda assim, nele estão presentes a melodia e o ritmo. O Alcorão também não deixou de atender à necessidade de rima entre as palavras finais dos versículos. Ao mesmo tempo, incorporou as características da poesia que discutimos acima. Desse ponto de vista, pode-se dizer que o Alcorão reúne características tanto da prosa quanto da poesia. [O Dr. Taha Hussein escreveu: O Alcorão não é poesia nem prosa; o Alcorão é simplesmente o Alcorão. É verdade que nele parecem existir métrica e rima final, mas isso se limita apenas ao aspecto exterior e visível. Do ponto de vista da literatura árabe, não há dúvida de que o Alcorão é uma prosa excelente e de alto nível. Em segundo lugar, a forma prosaica do Alcorão é inteiramente singular e diferente, não sendo possível apresentar qualquer comparação ou exemplo equivalente. — O autor.]
Na verdade, quando as pessoas recitam o Alcorão, percebem, na pronúncia exterior, a métrica e a rima final; isso é especialmente perceptível nas suratas compostas de versículos curtos. Ou ainda nos trechos em que é apresentada uma cena de determinado acontecimento. Isso também existe nas suratas com versículos longos, embora não seja tão evidente. Observe o exemplo abaixo, no qual se refletem plenamente a melodia, o ritmo e a métrica.
(Árabe*********)
Pela estrela quando se põe. Vosso companheiro não se desviou nem se extraviou, e não fala movido pelos desejos. O Alcorão é uma revelação que lhe é inspirada. Foi-lhe ensinado por um anjo poderoso, dotado de força extraordinária, que se manifestou em sua forma original no horizonte superior. (Surata An-Najm: 1–8)
(Árabe*********)
Então ele se aproximou e ficou suspenso, até que a distância entre os dois fosse de dois arcos, ou ainda menor. Então revelou ao Seu servo aquilo que lhe revelou. O coração do Mensageiro não mentiu sobre o que viu. Acaso discutireis com ele sobre o que viu? (Surata An-Najm: 9–12)
(Árabe*********)
Com efeito, ele o viu outra vez, junto ao Loteiro do Limite Extremo, perto do qual está o Jardim do Refúgio, quando o loteiro estava coberto por aquilo que o cobria. Sua visão não se desviou nem transgrediu. Com efeito, ele contemplou alguns dos maiores sinais de seu Senhor. (Surata An-Najm: 13–18)
(Árabe*********)Acaso considerastes Lat e Uzza, e também Manat, a terceira, a outra? (Surata An-Najm: 19–20)
(Árabe*********)Seriam os filhos para vós, e as filhas para Deus? (Surata An-Najm: 21)
(Árabe*********)Tal distribuição é realmente muito incongruente. (Surata An-Najm: 22)
Nas letras finais dos versículos mencionados, há quase uma correspondência métrica. Contudo, ela difere um pouco da métrica da poesia árabe. Todos os versículos terminam com o mesmo tipo de rima. Graças à métrica e à rima, estabelece-se uma correspondência entre cada versículo e o seguinte. Assim, dissemina-se uma maravilhosa melodia. Essa correspondência e semelhança têm ainda outra causa, embora não seja tão evidente quanto a métrica e a rima. Ela surge das palavras isoladas, da disposição das letras e da ordem das palavras na frase. Sua percepção e seu alcance dependem da sensibilidade, da consciência religiosa e da apreciação da melodia e da música. Por isso, é possível distinguir entre o som melodioso e o som desafinado de um trecho; não se pode chamar algo de melodia ou ritmo apenas porque há rima no final das frases.
Como os versículos mencionados são curtos, a duração das ondas melódicas que deles resultam também não é muito longa. Entretanto, o ritmo e a métrica de todos os versículos são iguais; por isso, há correspondência entre eles. Não é obrigatório que a letra final desses versículos seja sempre a mesma.
Por exemplo, na literatura moderna, ao escrever um conto ou romance, não se presta atenção a esse aspecto; já no caso da melodia e do ritmo corânicos, todos esses elementos foram levados em consideração. Muitos versículos deixam claro que isso foi feito de modo inteiramente intencional e planejado, para produzir rima no final das frases. Observe, por exemplo, o versículo a seguir.
(Árabe*********)Se, em vez de ser descrito desta maneira, tivesse sido descrito da forma abaixo:
(Árabe*********)haveria uma diferença na rima final e ocorreria uma quebra do ritmo. Do mesmo modo, o versículo a seguir:
(Árabe*********)Se, em vez de ser mencionado desta maneira, tivesse sido mencionado da forma abaixo:
(Árabe*********)não haveria correspondência rítmica. A palavra “Izan” foi usada para completar essa correspondência.
Isso, porém, não significa que as duas palavras, ‘al-ukhra (***)’ e ‘izan (***)’, tenham sido empregadas apenas por causa da rima e que sejam palavras adicionais. Na realidade, não são palavras adicionais; foram empregadas devido a uma sutil necessidade essencial da estrutura poética. Essa é outra característica artística do Alcorão. No Alcorão, palavras desse tipo foram escolhidas com um significado específico e, ao mesmo tempo, essa escolha desempenha um papel importante em manter a métrica da melodia e do ritmo.
Como discutimos, durante a recitação de um versículo do Alcorão em relação a outro, percebe-se certo acordo rítmico, e, no final, torna-se evidente uma rima consoante. Além disso, em muitos lugares, as palavras foram escolhidas de tal maneira que, se uma delas fosse deslocada para antes ou para depois, a beleza se perderia.
Primeiro caso: o primeiro caso é um exemplo da alteração da forma natural de uma palavra. Estas são as palavras de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele), reproduzidas literalmente pelo Alcorão:
(Árabe*********)
(Ibrahim (que a paz esteja com ele) disse:) Vedes aqueles a quem adorais, vós e vossos antepassados? Todos eles são meus inimigos, exceto o Senhor dos mundos, que me criou e me guiou. Ele me alimenta e me dá de beber. E, quando adoeço, é Ele quem me cura. Espero que seja Ele quem perdoará minhas faltas no Dia do Juízo. (Surata Ash-Shu’ara: 75–82)
No versículo mencionado, o ‘ya’ da primeira pessoa foi eliminado do final das palavras ‘yahdini’, ‘yaskini’ (***), ‘yashfini’ (***) e ‘yuhyini’ (***), para preservar a rima em ‘nun’ (***), à semelhança das duas palavras ‘ta’buduna’ (***) e ‘al-aqdamuna’ (***).
Da mesma forma, o ‘ya’ também foi eliminado nos versículos seguintes:
(Árabe*********)
Pelo amanhecer, pelas dez noites, pelo par e pelo ímpar, e pela noite quando ela passa. Nisso há um juramento para quem tem discernimento. (Surata Al-Fajr: 1–5)
No versículo mencionado, o ‘ya’ da palavra ‘Yasrī’ (***) foi eliminado para que houvesse rima com as palavras ‘Al-Fajri’ (***), ‘Ashrīn’ (***) e ‘Wal Bitri’ (***), entre outras.
Os versículos seguintes também podem ser citados aqui como exemplo.
(Árabe*********)
Portanto, afasta-te deles. No dia em que o convocador convocará para um desfecho desagradável. Eles sairão dos túmulos com os olhos baixos, como gafanhotos espalhados. Correrão em direção ao convocador. Os incrédulos dirão: “Este é um dia difícil.”
Neste versículo, se o ‘ya’ (**) não tivesse sido eliminado do final da palavra ‘Ad Da’i’ (***), pareceria que teria ocorrido uma quebra do ritmo nesta linha. E esse defeito não escaparia à atenção de ninguém. Do mesmo modo, observe o versículo seguinte:
(Árabe*********)
(Moisés disse:) “Era justamente este lugar que procurávamos.” Então, retornaram seguindo as suas próprias pegadas. (Surata Al-Kahf: 64)
Se, neste versículo, a palavra (***) tivesse sido escrita desta forma (***), a continuidade da rima teria sido interrompida.
Do mesmo modo, se, nos versículos seguintes, se eliminassem o “ya” original e o “ya” da primeira pessoa (***) e, do final, o “ha” indicativo de pausa (**), certamente o ritmo seria comprometido.
(Árabe*********)
Mas aquele cuja balança for leve terá como morada o Abismo. E o que te fará compreender o que é? É um fogo ardente. (Surata Al-Qariah: 8-11)
Observe também o versículo seguinte:
(Árabe*********)
Quanto àquele a quem o seu registro de obras for entregue na mão direita, dirá: “Pegai e lede o meu registro de obras. Eu sabia que teria de prestar contas.” Então viverá uma vida de felicidade e prosperidade. (Surata Al-Haqqah: 19-21)
Segundo caso: não se fez nenhuma alteração na forma habitual das palavras; contudo, por meio de uma disposição engenhosa, elas se tornaram ritmadas. Se essa disposição sofrer a menor alteração, já não restará a correspondência rítmica. A sonoridade será destruída.
(Árabe*********)
Esta é a descrição da misericórdia de teu Senhor para com Seu servo Zacarias, quando ele invocou seu Senhor em segredo e disse: “Ó meu Senhor! Meus ossos se enfraqueceram com a idade, e minha cabeça embranqueceu com a velhice, mas jamais deixei de invocar-Te sem obter resposta.” (Surata Maryam: 2–4)
No versículo acima, se apenas a palavra “minnī” fosse alterada, colocando-a antes da palavra “al-ʿaẓm” e dizendo-se assim:(Árabe********)então ficaria evidente que nada restaria de ritmo naquela frase. A palavra “minnī” foi colocada em seu devido lugar unicamente para preservar o ritmo e a métrica. Vejam agora quão bela é a rima. No início da frase, foi dito:(Árabe********)e logo depois foi dito:(Árabe********)
A esse respeito, deve-se observar que a melodia e o ritmo contidos nos versículos são tão sutis que podem apenas ser percebidos, mas não expressos. Já discutimos anteriormente esse assunto em certa medida. Para perceber esse tipo de melodia e compasso, limitados à disposição de um conjunto de palavras isoladas ou de uma mesma frase, isso só é possível por meio do conhecimento e da sabedoria concedidos por Allah, e de nenhuma outra maneira.
A discussão acima indica precisamente que há uma base de melodia e ritmo no estilo narrativo do Alcorão. Contudo, ela deve ser medida com extrema sutileza. É tão sensível que qualquer desvio da disposição verbal comum provoca a quebra do ritmo. E, no entanto, não se trata de poesia nem de verso. Tampouco é obrigado a seguir as regras e normas da poesia. Mas as pessoas o veem tão ordenado e disposto que, não o chamando de poesia, não conseguem sequer imaginar como chamá-lo.
Pausas no final das frases e rima final
Assim como a melodia e o ritmo, há vários tipos de pausas no final das frases e de rima final. A questão agora é: existem regras e princípios para esses tipos de pausas no final das frases e de rima final? E será que eles se desenvolvem tendo em vista algum objetivo específico?
A resposta é a seguinte: uma vez comprovado que há melodia e ritmo no Alcorão, tentaremos responder a essa questão segundo as regras da melodia e do ritmo. Os tipos de pausas no final das frases e de rima final variam de uma surata para outra. Muitas vezes, observa-se a aplicação de mais de uma regra na mesma surata. As diferenças entre as pausas no final das frases encontradas nas diversas suratas dependem de as frases serem curtas, longas ou médias. Sua forma é semelhante à dos versos de um poema, em que, numa mesma estrofe, uma linha pode ser curta e outra longa. O que se pode dizer, por fim, a esse respeito é que, nas suratas curtas, as pausas no final dos versículos também são breves; nos versículos de extensão média, as pausas são médias; e, nos versículos longos, as pausas são relativamente longas. Se observarmos a rima final, veremos que, nas suratas curtas, suas ocorrências estão bastante próximas do ritmo, enquanto nas suratas longas essa proximidade é menor. Entre as rimas finais encontradas nas suratas do Alcorão, e cujo uso é mais frequente, estão o nūn, o mīm e, precedendo-os, o wāw ou o yā. O objetivo é criar também aqui variedade, tal como na melodia e no ritmo.
Resta agora uma questão: por que foram criadas diferenças nas pausas e nas rimas no final das frases que descrevem a mesma situação? A resposta é que o recurso cujos exemplos encontramos na maior parte do Alcorão não tem apenas o objetivo de criar variedade; ele também possui certos propósitos e necessidades. Em muitos lugares conseguimos compreender a razão dessa variedade, mas em outros não conseguimos percebê-la. Nos lugares em que falhamos, fazemos a tentativa vã de estabelecer, mantendo os costumes e convenções vigentes, que esse método é apenas mais um método, como a representação, a imaginação e a expressão artística.
Entre os lugares em que conseguimos compreender o mistério das pausas e das rimas no final das frases está a surata Maryam. Reflita: esta surata começa com o relato de Hazrat Zakaria (que a paz esteja com ele) e Hazrat Yahya (que a paz esteja com ele). Em seguida, o relato de Hazrat Maryam e Isa (que a paz esteja com ele) é ligado a ele. Nesta surata, as pausas e as rimas no final das frases são as seguintes. O que foi narrado no início da surata:
(Árabe********)
Este é o relato da misericórdia de teu Senhor para com Seu servo Zakaria. Quando ele invocou seu Senhor em segredo. Disse: “Ó meu Senhor! Meus ossos se enfraqueceram com a idade, e minha cabeça embranqueceu com a velhice, ó meu Senhor. Ao invocar-Te, jamais fiquei desapontado.” (Surata Maryam: 2–3)
Depois, o relato de Maryam começa assim:
(Árabe********)
E menciona Maryam, quando ela se afastou de sua família e se refugiou num lugar ao leste. Depois, ocultou-se deles, colocando uma cortina entre si e eles. Maryam disse: “Busco refúgio, contra ti, no Misericordioso, se fores temente a Allah.” (Surata Maryam: 16–18)
O relato de Hazrat Zakaria (que a paz esteja com ele) e de Hazrat Maryam (que a paz esteja com ela) termina com a mesma letra, a letra anterior à última, a letra rá (****). Já no trecho em que termina o relato de Hazrat Isa (que a paz esteja com ele), observa-se uma pequena variação desse método.
(Árabe********)
(O filho disse:) Sou verdadeiramente servo de Allah. Ele me deu o Livro e fez de mim um profeta. Ele me abençoou onde quer que eu esteja. Ordenou-me que, enquanto eu viver, cumpra a oração e pague o zakat, e que seja obediente à minha mãe. E não me fez arrogante nem desventurado. Que a paz esteja sobre mim no dia em que nasci, no dia em que morrerei e no dia em que for ressuscitado. (Surata Maryam: 30-33)
(Árabe********)
Este é Jesus, filho de Maryam. Esta é a verdade sobre a qual as pessoas duvidam. Não é próprio de Allah tomar um filho; Ele é Santíssimo e Majestoso. Quando decide algo, diz-lhe: “Sê!”, e então isso acontece. Ele também disse: “Certamente, Allah é meu Senhor e vosso Senhor. Adorai-O, pois este é o caminho reto.” Depois, os grupos entre eles adotaram caminhos diferentes. Portanto, ai dos incrédulos quando chegar o Grande Dia. (Surata Maryam: 34-37)
Examine os versículos acima e observe que houve uma mudança na pausa do último versículo, que se tornou mais longa. Do mesmo modo, a mudança no sistema das rimas finais também é evidente. Na última letra, foram usados “nûn” ou “mîm”, e antes deles foram usadas “wâw” ou “yâ”. Parece que pouco antes havia sido narrado um acontecimento e agora se narra sua conclusão, tomada da própria história.
Apresentamos mais uma prova para demonstrar a veracidade disso: onde esse acontecimento termina, a pausa no final dos versículos e a rima retornam ao primeiro estilo. Isso ocorre para que novamente se descortine o horizonte de novos acontecimentos. Foi dito:
(Árabe********)
Depois, os grupos entre eles adotaram caminhos diferentes. Portanto, ai dos incrédulos quando chegar o Grande Dia. Quão bem eles ouvirão e verão no dia em que vierem diante de Mim! Mas hoje os injustos estão em evidente perdição. Adverte-os sobre o Dia do Arrependimento, quando tudo estiver decidido. Agora estão desprevenidos e não conseguem crer. (Surata Maryam: 37-39)
(Árabe********)
Eu serei o detentor da soberania final sobre a terra e tudo o que nela há, e todos serão reconduzidos a Mim. Relata-lhes, neste Livro, a história de Abraão. Certamente, ele era um profeta veraz. Quando disse a seu pai: “Ó meu pai! Por que adoras aquilo que não ouve, não vê e não pode beneficiar-te em nada? Ó meu pai! Chegou-me um conhecimento que não te chegou; segue-me, pois, e eu te guiarei por um caminho reto. Ó meu pai! Temo que te atinja um castigo do Misericordioso e que te tornes companheiro de Satanás.”
A Surata An-Naba começa utilizando a rima de “nun” (**) e “mim” (**). Por exemplo:
(Árabe********)
Sobre o que se interrogam mutuamente? Sobre a grande notícia, acerca da qual divergem. Não! Em breve saberão. Novamente, não! Em breve saberão. (Surata An-Naba: 1–5)
Quando essa descrição termina e, em seu lugar, começa uma discussão em estilo argumentativo, o padrão é subitamente alterado. Por exemplo:
(Árabe********)
Não fizemos da terra um leito e das montanhas, estacas? Criamos-vos em pares. Fizemos do vosso sono um repouso. Fizemos da noite um manto. Fizemos do dia um período para buscar o sustento.
Em toda a Surata Al Imran está presente a rima final em “nun” e “mim”, uma prática comum do Alcorão. Quando a surata se aproximou do fim e surgiu o tema da súplica de um grupo de crentes, o estilo da rima final também mudou. Eis um exemplo:
(Árabe********)
(Os crentes dizem:) Ó nosso Senhor! Não criaste tudo isso em vão. Toda a glória é Tua. Salva-nos do castigo do Inferno. Ó nosso Senhor! Certamente, aquele a quem lançares no Inferno será humilhado, e os injustos não terão quem os socorra. (Surata Al Imran: 191-192)
Essa variação nas pausas ao final das frases e nas rimas finais pode ser observada em muitos trechos do Alcorão. Contudo, não podemos explicar o segredo e o propósito dessa mudança em todos os casos. Indiquei os poucos padrões de mudança sobre os quais eu tinha conhecimento. A meu ver, o que foi discutido a esse respeito é suficiente.
Resta ainda uma questão: as regras da melodia e do ritmo do Alcorão mudam conforme mudam o tema e o lugar em discussão (***). Ainda assim, podemos afirmar categoricamente que a melodia e o ritmo do Alcorão estão sujeitos a uma regra específica. Eles permanecem sempre de acordo com a frase e sua extensão. Trata-se de um princípio que não admite qualquer exceção ou desvio. Para classificar e analisar os tipos de melodia e ritmo, é indispensável conhecer suas regras específicas e sua terminologia; sem isso, não é possível discuti-los. Lamentavelmente, assim como falta aos leitores conhecimento terminológico nessa área, também me falta a mim. Contudo, penso que, se pudermos apresentar uma breve discussão sobre os tipos de melodia e ritmo e alguns aspectos básicos a seu respeito, isso bastará para alcançar nosso objetivo.
Na Surata An-Nazi’at encontram-se dois princípios de melodia e ritmo. O primeiro deles aparece nos versículos seguintes. Esta parte da surata é composta por várias frases curtas. Essas frases descrevem o curso da morte e da Ressurreição, no qual se percebe uma ação rápida e vigorosa.
Eis o que é dito:
(Árabe********)
Pelo juramento dos anjos que extraem as almas mergulhando, pelo juramento daqueles que desatam suavemente os laços das almas, pelo juramento daqueles que nadam velozmente, pelo juramento daqueles que avançam rapidamente e pelo juramento daqueles que executam todas as tarefas. A Ressurreição certamente acontecerá. No dia em que o primeiro toque fizer tremer, seguido pelo segundo, muitos corações estarão temerosos e perturbados. (Surata An-Nazi’at: 1-8)
(Árabe********)
Seus olhares estarão baixos. Eles dirão: «Seremos realmente devolvidos aos nossos passos, mesmo depois de nos tornarmos ossos deteriorados?» Então, esse retorno será uma perda ruinosa. (Surata An-Nazi’at: 9-11)
(Árabe********)Portanto, isso será um único brado; então, naquele instante, estarão presentes na planície. (Surata An-Nazi’at: 13-14)
O segundo tipo de melodia e ritmo encontra-se nos versículos seguintes. Esses versículos são lentos, de andamento pausado e de extensão mediana. Todos eles se assemelham àqueles versículos nos quais é narrado um acontecimento. Estes versículos constituem uma parte das passagens relativas a Moisés. Eis o que é dito:
(Árabe********)
Chegou-te o relato de Moisés? Quando seu Senhor o chamou no vale de Tuwá, dizendo: “Vai ao Faraó; certamente, ele transgrediu os limites. Dize-lhe, então: “Desejas purificar-te? Eu te guiarei ao teu Senhor, para que O temas.” (Surata An-Nazi’at: 15–19)
Acima, discuti dois tipos de melodia e ritmo. Parece-me que não há necessidade de uma discussão detalhada sobre as diferenças e os princípios de cada um desses dois tipos. A diferença entre eles é clara. Além disso, o objeto da discussão de ambos é um só e idêntico. Em ambos, a melodia e o ritmo resplandecem por sua singularidade.
Passemos agora a discutir um pouco o terceiro tipo de melodia e ritmo. Esse tipo de melodia e ritmo encontra-se especialmente nas frases das súplicas, nas quais as emoções do coração são expressas em um tom suave. Naturalmente, os versículos desse tipo são um pouco longos. Por exemplo:
(Árabe********)
(Eles dizem:) Ó nosso Senhor! Não criaste tudo isso em vão. Glorificado sejas! Salva-nos do castigo do Inferno. Ó nosso Senhor! Certamente, aquele a quem lanças no Inferno, Tu o humilhas, e os injustos não terão auxiliar algum. Ó nosso Senhor! Com certeza ouvimos um convocador que chamava à fé, dizendo: ‘Crede em vosso Senhor’; e nós cremos. Ó Senhor nosso! Perdoa, portanto, todos os nossos pecados, remove de nós todas as nossas faltas e faze-nos morrer junto dos virtuosos. Ó nosso Senhor! Concede-nos o que prometeste por meio dos Teus mensageiros e não nos humilhes no Dia da Ressurreição. Certamente, Tu não rompes a promessa.
Em outra súplica, foi dito:
(Árabe********)
Ó nosso Senhor! Tu sabes o que ocultamos e o que manifestamos. Nada, na terra ou no céu, está oculto a Deus. Todo louvor pertence a Deus, que me concedeu Ismael e Isaac apesar da minha velhice. Certamente, meu Senhor ouve as súplicas. Ó meu Senhor, faze de mim alguém que estabeleça a oração, e também da minha descendência. Ó nosso Senhor! Perdoa-me, a meus pais e a todos os crentes, no dia em que se estabelecer o ajuste de contas. (Surata Ibrahim: 38-40)
O presente tipo é uma exceção aos dois tipos anteriores de melodia e ritmo. Para demonstrar isso, não é necessário dominar as regras da melodia e do ritmo nem sua terminologia. Trata-se de uma ressonância emanada do coração, que assumiu a forma de uma súplica em ondas melódicas ascendentes e descendentes.
Ousarei discutir ainda outro tipo de melodia e ritmo. As ondas oscilantes desse tipo de melodia e ritmo, bem como suas ondas sonoras, são muito longas. Sua natureza é inteiramente diferente da natureza discutida acima. Posso afirmar com plena confiança que a diferença entre este tipo e a melodia e o ritmo discutidos anteriormente é tão clara quanto a luz do dia.
A natureza da melodia e do ritmo sobre a qual quero falar apresenta, juntamente com ondas sucessivas, profundidade e amplitude. Além disso, também estão presentes o medo e o terror. Pois essa melodia e esse ritmo são os da tempestade e da inundação. Considerem:
(Árabe*********)
E a arca os levava entre ondas semelhantes a montanhas. E Noé chamou seu filho, que havia se afastado. Disse: “Ó meu filho! Embarca conosco e não permaneças com os incrédulos.” O filho respondeu: “Em breve me refugiarei em uma montanha que me protegerá da água.” Noé disse: “Hoje não há protetor contra a ordem de Deus, exceto aquele de quem Ele tiver misericórdia.” Então, uma onda interpôs-se entre ambos, e ele foi submerso. (Surata Hud: 42–43)
Para criar uma profunda semelhança com a terrível situação provocada pela tempestade e pela inundação, este versículo apresenta ondas melódicas longas como as ondas do mar e em constante oscilação, ora elevadas, ora baixas. A disposição das palavras encontrada neste versículo compõe uma imagem plenamente harmoniosa com a cena aterradora cercada pela tempestade e pela inundação.
Com um pouco mais de ousadia, discutiremos outro tipo ritmado de ondas melódicas. Contudo, ele não conseguirá despertar tanta atenção e interesse quanto o exemplo acima. Foi revelado:
(Árabe*********)
Ó alma tranquila, retorna ao teu Senhor, satisfeita e acolhida. Depois, integra-te entre os Meus servos e entra no Meu Paraíso. (Surata Al-Fajr: 27–30)
Quando o recitador recita este versículo em voz alta, percebe-se sua suave onda melódica. A onda melódica encontrada neste versículo é como uma onda que cresce gradualmente até alcançar seu estágio final. A onda melódica presente neste versículo, tanto em seu estado suave quanto intenso, está plenamente em harmonia com a paz e a segurança. Quando o som do primeiro alif de “yā” alcança um tom elevado e “ayyū” é recitado em um tom relativamente mais baixo, percebe-se certo tipo de onda melódica; porém, somente isso não tornará visível a beleza dessa onda melódica. Pois aí se estabelece equilíbrio apenas entre as medidas (***), e não entre os tons. Por isso, a melodia musical é necessariamente afetada a partir daí. Nenhuma influência recai sobre a alma que entra; na realidade, a relação da alma que entra com essa característica limita-se aos tons e sons das palavras. Somente pode descobri-la aquele que recita o Alcorão de olhos e ouvidos abertos, com o auxílio dos cinco sentidos.
Encerramos aqui este assunto, para que não tenhamos mais de nos debater no mar insondável das ondas de melodia e ritmo.
Sétimo capítulo
Elementos da imagem corânica
Agora discutiremos outro aspecto da composição artística presente no método de representação do Alcorão. Não há dúvida de que o Alcorão descreve diversos acontecimentos sob a forma de cenas e imagens. Por isso, queremos dizer que, quando os elementos a seguir se reúnem nessas imagens, sua composição artística se torna bela.
1. A presença de um tema na imagem.
2. O lugar, o tempo e os personagens serem adequados à imagem.
3. Todas as partes da imagem serem mutuamente harmoniosas.
4. Dividir cada parte do papel ou do pedaço de tecido sobre o qual a imagem será desenhada de acordo com a proporção das partes da imagem.
Já fizemos algumas referências a este tema no capítulo “Imagem artística”, no qual apresentamos a imagem de gastar riquezas em busca de fama e prestígio. Apresentamos também a imagem daquela pedra sobre a qual caiu uma fina camada de terra. Ao lado da imagem dessas pessoas, tentou-se desenhar também a imagem daqueles que doam seus bens somente para obter a satisfação de Allah. Mostramos ainda a imagem daquele jardim situado sobre uma colina. Dissemos ali quanto equilíbrio existe nas partes dessas imagens e em seus elementos acessórios.
O aspecto da composição artística do Alcorão que desejamos discutir agora são os meios e recursos da composição. Em outras palavras, isso será como a chave daquela fechadura.
A nosso ver, a composição do Alcorão é a seguinte:
Primeiro: o ponto extremamente importante nesta questão é a “wahdat an-naqsh” (unidade da imagem). Até mesmo uma pessoa com conhecimentos básicos sobre obras pictóricas pode compreender o que é a “wahdat an-naqsh”. Queremos apenas concluir dizendo que ela é uma das regras fundamentais e basilares da pintura: uma parte não deve entrar em conflito com outra.
Segundo: o segundo ponto necessário é dividir, conforme as exigências da imagem, as suas partes no papel ou no pedaço de tecido sobre o qual ela é desenhada, para que não surja qualquer dificuldade na execução da pintura.
Terceiro: o terceiro elemento é a cor, por meio da qual a imagem toma forma, a beleza se manifesta plenamente e ocorre a combinação entre a ideia e o conteúdo.
A harmonia ou compatibilidade entre as imagens que tomam forma por meio das cores é tão necessária quanto o é nas apresentações de cinema e teatro. A base da imagem corânica também está assentada nessa mesma coisa. Embora seja desenhada somente por meio de palavras ou de um conjunto de expressões, sem qualquer outro elemento de pintura, ainda assim o esplendor e o caráter milagroso da imagem corânica estão acima daquelas imagens pintadas sobre a tela com cores e pincéis.
1. Entre as suratas curtas do Alcorão, falemos sobre a Surata Al-Falaq, que algumas pessoas consideram relacionada aos feitiços dos feiticeiros. Pode surgir a pergunta: quando esta surata é recitada? Naturalmente, vê-se que ela é recitada no momento de buscar refúgio. Nesse momento, surgem o medo, a censura dos detratores ou uma apreensão desconhecida. Ouça e reflita:
(Árabe**********)
Busco refúgio no Senhor do amanhecer, contra o mal daquilo que Ele criou; contra o mal da noite escura quando ela chega; contra o mal das feiticeiras que sopram nos nós; e contra o mal do invejoso quando ele inveja. (Surata Al-Falaq: 1–5)
Reflita um pouco: o que é ‘Falaq’ (***)? Por que se torna necessário buscar refúgio em seu Senhor? Entre os vários significados, escolhemos o de ‘amanhecer’. Pois somente o ‘amanhecer’ rompe as trevas. Portanto, é apropriado adotar aqui o significado de amanhecer. Isso porque aqui encontramos uma descrição especial, cuja lógica compreenderemos à medida que avançarmos.
Nesta surata, busca-se refúgio, contra toda a criação, no Senhor do amanhecer. Na expressão ‘mā khalaqa’ (****), a letra ‘mā’ (**) transmite o sentido de um pronome relativo, isto é, toda a criação. Parece que toda a criação está imersa nas profundezas das trevas. (***) — “Quando a escuridão da noite cobre tudo, manifesta-se uma condição repulsiva.”
(Árabe*******)— O ato de soprar nos nós das feiticeiras torna todo o ambiente ainda mais assustador. Pois a magia realizada por meio de sopros geralmente ocorre na escuridão da noite.(Árabe*******)Hasad, ou inveja, é o nome de uma ação secreta que se esconde nos recônditos escuros do coração humano. Nesse sentido, a inveja também é uma ação nociva e assustadora. Aqui, tudo está repleto de escuridão, medo e terror. Aquele que busca refúgio deseja abrigar-se, junto a Deus, de todas essas trevas.
A pergunta agora é: se Deus é o Senhor de todas as coisas, qual é a razão de dizer especificamente ‘Rabb al-Falaq’, ou Senhor do amanhecer? A resposta é que isso foi feito para criar beleza e harmonia com o lugar e o tempo. O senso comum, porém, exigiria buscar refúgio das trevas junto a ‘Rabb an-Nur’, ou Senhor da luz. Mas essa ideia não está correta, pois aqui a coisa é apresentada como uma imagem delicada e misteriosa, que desaparece ao toque da luz. A luz torna tudo claro. Se, em oposição às trevas, tivesse sido usada a palavra luz ou ‘Nur’ (***) , ela não se harmonizaria com as duas expressões ‘soprar nos nós’ e ‘inveja’. Por isso, em seu lugar, procurou-se criar harmonia por meio da palavra ‘Falaq’, que, de outra forma, também indica a luz. O momento do ‘Falaq’ ocorre antes do brilho do amanhecer, quando predomina uma mistura de luz e escuridão. Esse momento é igualmente indistinto e fascinante.
Pode-se perguntar: pela combinação de quais elementos foi desenhada a imagem aqui?
A resposta é: se observarmos as duas palavras ‘Falaq’ (***) e ‘Al-Ghasiq’ (***), veremos que se trata de duas imagens naturais; e se (***)
Se refletirmos sobre (****) e (****), veremos que esses dois grupos são seres humanos criados por Allah.
E, se as duas palavras, ‘Falaq’ e ‘Ghasikin’, forem consideradas separadamente, veremos que ali se manifestam duas imagens. No que diz respeito ao tempo, uma é o oposto da outra. Ou seja, ‘Falaq’ significa alvorada, enquanto ‘Ghasikin’ significa noite. Do mesmo modo, as duas palavras ‘An-Naffathat’ (***) e ‘Al-Hasid’ (***) também designam dois grupos de sexos opostos entre os seres humanos. Vê-se que todos os elementos da imagem foram dispostos sucessivamente na tela. Na pintura ou na tela, estão frente a frente. Até as cores e os aspectos de todas as partes são iguais e uniformes. Em todas as partes, o medo e o pavor constituem o tema central. A escuridão engoliu tudo. O tema principal da imagem, suas diferentes partes e suas cores — tudo está concentrado em um mesmo centro.
Nesta discussão, não se recorreu a nenhuma convenção usual, e a beleza incomparável encontrada nesta imagem não parece destinada a empalidecer com o passar do tempo. Isso porque não se trata apenas da oposição entre algumas palavras e ideias. A tela da imagem, a extensão e o alcance do espaço, sua harmonia e continuidade, bem como o tema da imagem, são elementos de grande importância para a pintura. Quando somente as palavras e a descrição realizam todos esses objetivos, isso assume a forma de uma imagem miraculosa.
2. O Nobre Alcorão chamou a terra inculta e seca, em um lugar, de ‘Hamidatun’ (***) (morta e caída), e, em outro, de ‘Khashiatan’ (***) (curvada). Muitos pensam que foram usadas duas palavras diferentes para tornar a linguagem mais melodiosa. Vejamos agora em que contexto essas duas palavras foram usadas.
A palavra ‘Hamidatun’ (***) aparece no seguinte versículo:
(Árabe*******)
(Ó pessoas! Se duvidais da Ressurreição, então refleti: Nós vos criamos do pó; depois, de uma gota seminal; depois, de um coágulo; depois, de uma massa de carne, formada e não formada, para vos tornar isso claro. E conservamos no útero, por um prazo determinado, aquilo que queremos; depois, fazemos-vos sair de lá como crianças. Em seguida, alcançais a maturidade; entre vós há quem morra, e há quem levemos até a idade mais avançada, quando, apesar de já ter conhecido, nada mais sabe. Vês a terra morta; mas, quando fazemos descer sobre ela a chuva, ela se agita, incha e produz toda espécie de plantas belas. (Surata Al-Hajj: 5)
A palavra ‘Khashiatan’ (***) foi usada no seguinte versículo:
(Árabe*******)
Entre Seus sinais estão a noite e o dia, o sol e a lua. Não vos prostrais diante do sol nem diante da lua; prostrai-vos diante de Allah, que os criou, se é somente a Ele que adorais com devoção. Mas, se eles se ensoberbecerem, aqueles que estão junto do teu Senhor glorificam-No noite e dia, sem jamais se cansarem. E entre Seus sinais está o fato de veres a terra prostrada, árida. Então, quando fazemos descer sobre ela a chuva, ela se revitaliza e se avoluma. (Sura Ha-Mim as-Sajdah: 37–39)
Nos dois versículos mencionados, torna-se claramente evidente a diferença entre as palavras ‘hamidatan’ (***) e ‘khashiatan’ (***). O primeiro versículo trata da vida, da transformação da vida e da ressurreição. Por isso, em consonância com esses temas, a terra é descrita ali como ‘hamidatan’, ou seja, morta. Da mesma forma como Ele ressuscitará os seres humanos, Ele revitaliza a terra; e, assim, ela se enche de flores e frutos.
Por outro lado, o segundo versículo trata da adoração, da obediência humilde e da prostração; por isso, nele a terra é descrita como ‘khashiatan’, isto é, com a cabeça humildemente curvada. Em outras palavras, dependente da água, a terra permanece inclinada, esperando pela água de Allah; quando a recebe, incha e se avoluma. Depois disso, não se menciona a produção de frutos e colheitas como no versículo anterior, pois associar a produção de frutos e colheitas à adoração e à prostração seria inadequado e desarmonioso. Por isso, neste versículo, as duas palavras (*****) (vigorosa e avolumada) não foram empregadas no mesmo sentido em que o foram no versículo anterior. Aqui, foram usadas apenas para demonstrar o movimento da terra, pois antes ela havia permanecido prostrada. Nesta passagem, imprime-se movimento àquela condição. Como, nesta cena, todos estão mudando de estado por meio de movimentos destinados à adoração, não seria possível que a terra permanecesse imóvel. Por isso, nesta cena em movimento, a terra também recebeu movimento junto com os adoradores. Afinal, se tudo na imagem está em movimento, por que a terra permaneceria imóvel? Aqui se revela uma beleza extremamente sutil, capaz de envolver o pensamento e a consciência do espectador.
As palavras ‘humudun’ (***) e ‘kushu’un’ (***) são idênticas quanto ao significado. No próprio significado dessas duas palavras há uma indicação de que se tornará a receber vida. Não era necessário empregar as duas apenas para introduzir novidade na descrição. Contudo, como o Alcorão, além de transmitir uma mensagem, deseja deixar uma imagem não apenas no mundo do pensamento, mas também no espelho do coração, esse método foi adotado. Assim, encontra-se uma ligação entre toda a mensagem, e, da combinação de todas as partes, a imagem também alcança sua plenitude.
Nos versículos mencionados, a diversidade das palavras traz uma prova irrefutável da unidade: o método de representação do Alcorão é um dos fundamentos essenciais da análise descritiva. Além disso, o Alcorão não se satisfaz em apresentar apenas um significado compreensível; junto com o significado, ele também apresenta uma imagem viva. Por essa razão, observam-se diferenças sutis na escolha das palavras do Alcorão conforme o lugar, o tempo e a situação.
Agora veremos que tipo de distinção existe entre aquelas duas imagens e seus elementos. A particularidade da primeira imagem é que nela são descritas algumas coisas que não existiam, às quais se dá vida mediante forma e configuração. Em outras palavras, desperta-se nelas a pulsação da vida e elas são tornadas visíveis. Um de seus elementos é o sêmen, que atravessa várias etapas até chegar a determinado estágio. Outro é a terra morta, que, ao entrar em contato com a chuva, volta à vida. Pouco a pouco, ela se enche de frutos e colheitas. Na realidade, o estado e o ambiente criados pela combinação de tudo isso são os da vida.
Na segunda imagem, são descritos alguns elementos naturais. Pode-se dizer também que são apresentadas diversas imagens da natureza. Seus elementos são a noite, o dia, a lua, o sol e a terra, todos inclinando a cabeça em submissão diante de Allah. Sobre a terra encontram-se dois grupos vivos, de naturezas diferentes, mas visualmente semelhantes. Um grupo é a sociedade humana, indiferente à adoração de Allah. O outro grupo são os anjos, ocupados continuamente na adoração de Allah, noite e dia. Da combinação de todos esses elementos surge a imagem da adoração. Na vasta tela dessa imagem, cada uma de suas partes foi devidamente integrada.
3. Em vários lugares do Alcorão, as bênçãos concedidas aos seres humanos são descritas de diferentes maneiras. Porém, em cada passagem é apresentada uma descrição abrangente dessas bênçãos, na qual se percebe uma característica especial. Mencionaremos dois lugares como exemplo. Ei-los:
(3.a)
(Árabe*******)
Allah fez de vossas casas lugares de habitação e, com as peles dos animais quadrúpedes, providenciou para vós tendas que podeis levar durante as viagens e quando vos estabeleceis em casa. E, com a lã das ovelhas, os pelos dos camelos e os pelos das cabras, fizestes móveis e utensílios para uso por um período determinado. Allah fez para vós sombra com aquilo que criou e, nas montanhas, fez para vós abrigos; e fez para vós vestimentas que vos protegem do calor e dos perigos. Assim, Ele completa Sua graça para convosco, para que vos submetais. (Surata An-Nahl: 80–81)
(Árabe*******)
E há, para vós, nos animais quadrúpedes, uma lição para reflexão. Nós vos damos de beber, dentre o que há em seus ventres, leite que sai entre o excremento e o sangue, agradável para os que o bebem; e, dos frutos das tamareiras e das videiras, preparais alimentos excelentes. Nisso há, certamente, um sinal para um povo que compreende. E teu Senhor inspirou às abelhas: “Construí vossas casas nas montanhas, nas árvores e nas estruturas elevadas. Depois, alimentai-vos de todos os frutos e percorrei os caminhos abertos de vosso Senhor.” De seus ventres sai uma bebida de cores variadas, na qual há cura para as pessoas. Nisso há um sinal para os que refletem. (Surata An-Nahl: 66–69)
Acima, citamos em “a” e “b” dois tipos de versículos. Em ambos os tipos de versículos, foram lembradas as bênçãos que Allah concedeu a Seus servos. Agora veremos se há alguma diferença entre os dois tipos de versículos e, caso haja, de que natureza ela é.
Nos primeiros versículos (3.a), são descritas coisas nas quais as pessoas encontram abrigo, ou cuja sombra aproveitam, ou que vestem para cobrir a nudez. Por exemplo: casas, sombra, roupas e outros artigos semelhantes. Esse é, portanto, o tema principal dos versículos acima. Nessa imagem, a descrição dos animais quadrúpedes também possui uma característica especial. Por exemplo, com suas peles as pessoas fazem tendas, que são fáceis de transportar. Com sua lã fazem cobertores e outras vestimentas. Na realidade, essa imagem descreve lugares, cobertores e sombra.
Nos poucos versículos seguintes (3.b), descreve-se a produção de bebidas: bebidas alcoólicas (feitas de frutas), leite, mel (produzido pelas abelhas) e os animais dos quais as pessoas obtêm bebidas.
Na realidade, acima foi apresentada uma imagem de extrema sutileza. Não é uma imagem comum, mas extraordinária. Vejam: a bebida alcoólica é feita de frutas, mas sua forma e natureza são completamente diferentes das dessas frutas. Do mesmo modo, o mel é recolhido das próprias flores, mas não guarda com elas qualquer semelhança. O leite é produzido entre o esterco e o sangue, mas sua natureza e suas propriedades não têm a menor relação com o esterco e o sangue. Todas essas bebidas são criadas a partir de outras coisas. Ao refletir sobre isso, percebe-se a pulsação da vida em toda a cena.
Em cada parte da sutil imagem de singularidade apresentada nos versículos mencionados, há semelhança e equilíbrio entre uma coisa e outra. Nela, por um lado, a beleza floresce; por outro, ela também é algo surpreendente. Há no Alcorão inúmeras comparações desse tipo. Apresentaremos abaixo outro exemplo, que representa plenamente este tema.
(Árabe**********)
Aqueles que te prestam juramento de lealdade, na realidade prestam juramento de lealdade a Allah; aqueles que te prestam juramento de lealdade, na realidade prestam juramento de lealdade a Allah. A mão de Allah está sobre as mãos deles. Portanto, quem quebrar o juramento só causará prejuízo a si mesmo; e quem cumprir o pacto que fez com Allah, Allah em breve o honrará com uma grandiosa recompensa. (Surata Al-Fath: 10)
A imagem desenhada neste versículo é a de um juramento feito com as mãos unidas. A esse respeito, foi dito: (Árabe**********)— “A mão de Allah está sobre as mãos deles”. Aqui, está sendo verificado e examinado um momento específico. Contudo, empregou-se a forma de representação “Yadullahi” (a mão de Allah). O objetivo é estabelecer a pertinência e a harmonia da frase. Para os eruditos da retórica, o termo técnico para isso é “Mura‘at an-Nazir”, ou seja, uma comparação que atrai a atenção. Porém, os eruditos da retórica concentram-se apenas na condição externa. Por isso, a imagem permanece oculta aos seus olhos; nós, entretanto, além desse termo técnico, também percebemos a completa união de ritmo, composição e tema na representação da cena. Essa união foi criada para que as partes da imagem se ajustassem perfeitamente ao conjunto da cena.
Entretanto, é preciso lembrar que, na representação de cenas, o Alcorão não recorreu apenas às relações sutis entre elementos; muitas vezes, por meio da imaginação, também aproximou relações distantes. Estamos falando essencialmente na linguagem da pintura e da representação visual. Isso porque, antes mesmo de apresentarmos nossa explicação, nos deparamos com uma imagem (aquela apresentada no versículo acima). Apesar da distância, muitas vezes o céu e a terra são apresentados juntos. Em muitos lugares, paisagens naturais e seres vivos são reunidos no mesmo espaço. E isso ocorre justamente onde há, na tela da imagem, espaço para amplitude e vastidão. Allah diz:
(Árabe**********)
Não observam eles os camelos, como foram criados? E as montanhas, como foram firmemente estabelecidas? E a terra, como foi aplainada? (Al-Ghāshiyah: 17–20)
Vejam como o pincel do artista reuniu tão belamente, numa mesma imagem, a terra, o céu, o camelo e as montanhas. É uma imagem pequena em tamanho, mas com um horizonte vasto. O objeto cuja descrição se pretende fazer aqui é grandioso; ao contemplar esses objetos imponentes e assustadores, uma imagem se forma espontaneamente na mente. A cena apresentada aqui se estende do céu até a terra. Por outro lado, as enormes montanhas que se elevam até o céu e os camelos de corcovas altas foram todos perfeitamente dispostos numa pequena tela. Isso não seria possível para ninguém além de um artista de grande envergadura. Somente um grande artista pode criar semelhante composição e sutileza.
Em segundo lugar, o que somente o olhar de um artista consegue perceber é isto: de um lado de toda a tela está o céu, do outro, a terra; no meio, montanhas de proporções gigantescas e, entre elas, o ser vivo, o camelo, que percorre o deserto que se estende até o horizonte e é cercado por montanhas de todos os lados.
4. Com uma pequena exceção, os versículos a seguir também estão relacionados ao tema acima.
(Árabe**********)
Certamente, criei no céu grandes fortalezas e o embelezei para os observadores. E protegi o céu de todo demônio expulso. Mas aquele que escuta furtivamente e foge é perseguido por um meteoro luminoso. E estendi a terra e nela estabeleci montanhas, e nela fiz brotar cada coisa de modo bem planejado. E criei nela os meios de subsistência para vós e também para aqueles cujo sustento não depende de vós.
Este versículo afirma que no céu existem grandes fortalezas e meteoros, e que esses meteoros são lançados contra os demônios rebeldes. Sobre a terra extensa foram estabelecidas montanhas firmes; e sobre ela foram produzidas diversas plantas, de maneira extremamente planejada e precisa. Por isso foi usada a palavra “Mawzūn”. Não foram usadas as palavras “Bahīj” nem “Laṭīf”. As criações necessárias à subsistência foram expressas pela palavra “Maʿāyish”, um plural que indica abundância. Também se afirma que na terra existem seres vivos que os seres humanos não sustentam; porém, essa ideia foi deixada implícita.
Ao observar profundamente, compreende-se que as cenas e imagens apresentadas nesses versículos são vastas e grandiosas. Tudo foi entrelaçado de modo a produzir percepção sensorial e significado, assim como, num livro inteiro de grandes dimensões, todas as folhas são costuradas e unidas sobre uma fita.
5. Muitas vezes, para criar amplitude e extensão na imagem, a largura da tela é disposta verticalmente, para cima e para baixo. Ainda assim, torna-se difícil incluir nela todos os elementos da composição. Por isso, pinta-se utilizando todo o tecido da tela. Um exemplo desse tipo de imagem é o versículo a seguir:
(Árabe**********)
Certamente, somente Allah possui o conhecimento da Hora. Ele faz descer a chuva e sabe o que há nos úteros. Ninguém sabe o que ganhará amanhã, e ninguém sabe em que terra morrerá. Allah é Onisciente e está ciente de todas as coisas. (Surata Luqman: 34)
Vejam como, neste versículo, a tela ou quadro é de uma extensão inimaginável. Nela estão incluídos o espaço e o tempo, o presente e o futuro, notícias do mundo invisível, a Ressurreição, a chuva, o feto oculto no útero e assim por diante. Junto a isso, também é mencionado o sustento que será obtido no futuro. O momento de obtê-lo não está muito distante; está diante dos olhos. A cena de quando a morte chegará e onde ocorrerão o enterro e o amortalhamento envolve tudo.
Esta imagem é extremamente ampla tanto em termos de tempo quanto de extensão. Seus limites e todo o seu entorno desapareceram por trás do invisível. Tudo isso parece estar diante de uma pequena prateleira, cuja porta está fechada. Se nela se tornasse visível uma abertura tão minúscula quanto o orifício de uma agulha, ver-se-ia que aquilo que está muito distante se encontra extremamente próximo, enquanto qualquer coisa que esteja perto permanece logo atrás; não há espaço entre as duas. Em outras palavras, esses objetos realmente se encontram nos limites extremos da distância, mas o objeto invisível, em determinado momento, resplandece diante dos olhos. Então, tudo parece estar presente simultaneamente na mesma plataforma.
Um aspecto sutil da composição artística
Agora discutiremos outro aspecto da harmonia e da composição artística encontradas nas cenas corânicas. Até aqui, a discussão sobre a composição artística e sua coerência concentrou-se em imagens e cenas visíveis; além disso, tratava-se de uma composição artística completa, encontrada em alguma parte da imagem ou em toda ela. Contudo, o caráter miraculoso e a grandeza do Alcorão não podem parar por aí. Muitas vezes, isso se manifesta como uma imagem emoldurada ou como uma cena em movimento. Outras vezes, todas as coisas se fundem e se tornam uma só, criando a magia de uma única melodia que envolve tudo ao seu redor. O resultado que daí surge manifesta-se no exemplo a seguir. Vejamos:
(Árabe**********)
Pelo esplendor da manhã, e pela noite quando se torna profunda. Teu Senhor não te abandonou, nem está desgostoso contigo. A vida futura será melhor para ti do que a primeira. Teu Senhor certamente te dará, e tu ficarás satisfeito. Acaso Ele não te encontrou órfão e te deu abrigo? Encontrou-te perdido e te guiou. Encontrou-te necessitado e te enriqueceu. Portanto, não sejas duro com o órfão, não repreendas o mendigo e proclama a graça de teu Senhor. (Surata Ad-Duha: 1–11)
Nas ayat mencionadas, manifesta-se uma atmosfera conjunta de graça e compaixão, preocupação e desamparo. Como:(Árabe**********) até o versículo, a melodia de misericórdia e benevolência, tristeza e desespero, que foi criada, assemelha-se ao toque devastador das delicadas cordas da harpa do coração. Na apresentação do discurso, foram reunidas melodias suaves e comoventes, nas quais ressoa continuamente a lamentosa melodia da preocupação. O meio-dia (***) e a noite, que estende uma cortina negra, envolvem essa melodia. Esse momento do meio-dia é o melhor período entre a noite e o dia. Já a noite foi escolhida como símbolo da tristeza e da dor. Assim como a noite cobre tudo com uma tênue camada de escuridão, uma delicada manta de tristeza chamada orfandade e pobreza cobriu o nobre Mensageiro (S.A.). Depois, essa manta vai-se afastando gradualmente, e a aurora da felicidade, cada vez mais luminosa, chega ao meio-dia.
(Árabe**********)
Teu Senhor não te abandonou. Ele também não está desgostoso contigo. O que vem depois é melhor do que o que veio antes. Em breve, teu Senhor te dará aquilo que te fará feliz.
Esta boa nova está sendo anunciada. Assim, a imagem alcançou a perfeição em todos os seus aspectos: ambiente, circunstâncias, cores, estilo e o emprego de analogias e imagens.
b. Agora ouça outro tipo de melodia. Tanto seu contexto quanto sua imagem são de natureza diferente.
(Árabe**********)
Pelos cavalos que correm ofegantes. E pelos que fazem saltar faíscas com as patas. E pelos que atacam ao amanhecer, levantando poeira nesse momento, e que penetram no meio do exército inimigo. Certamente, o ser humano é ingrato para com seu Senhor, e ele próprio é testemunha disso. E, sem dúvida, é intenso em seu amor pelos bens. Acaso não sabe ele que, quando for trazido à luz o que está nas sepulturas e for revelado o que há nos corações, nesse dia seu Senhor estará plenamente informado sobre o que lhes acontecerá? (Surata Al-‘Adiyat: 1–11)
O tom e o ritmo desta surata são semelhantes aos da Surata An-Nazi’at. Contudo, aqui há muito mais dureza e intensidade do que em An-Nazi’at. Além disso, percebe-se a presença de aspereza, temor, ira e tumulto. Esta surata está em plena harmonia com o lugar, o tempo e a situação. Quando o morto se levantar do túmulo, haverá um grande tumulto, e tudo o que estava oculto em seu íntimo será trazido à luz e tornado visível. Aqui se produz uma espécie de dureza, plenamente compatível com o ambiente de ingratidão, arrogância e estreiteza. Quando se sente a necessidade de um contexto harmonioso para completar toda essa beleza, adota-se justamente um ambiente tumultuoso, cujo cenário é formado pelo tropel e pelo relinchar de cavalos velozes. Eles investem contra o inimigo pela manhã. A imagem e o contexto, e o contexto e a imagem, fundem-se maravilhosamente até se tornarem uma só coisa. Assim, o quadro inteiro se reveste de beleza em cada uma de suas partes.
C. Já discutimos anteriormente dois contextos de imagens. Ambos são independentes e de naturezas distintas. Contudo, as cores e o estilo dessas duas imagens guardam semelhança entre si. O contexto não se limita sempre às mesmas cores e ao mesmo estilo; ao contrário, assume formas e cores diversas, e a imagem nele contida também varia de modo correspondente. Por exemplo:
(Árabe**********)
Pela noite quando cobre tudo, pelo dia quando resplandece e por Aquele que criou o homem e a mulher! Certamente, vossos esforços são diversos. Portanto, quanto àquele que dá, é temente a Deus e considera verdadeira a melhor das coisas, facilitar-lhe-ei o caminho da felicidade. E quanto àquele que é avarento, se considera autossuficiente e considera falsa a melhor das coisas, facilitar-lhe-ei o caminho da dificuldade. Quando cair na perdição, sua riqueza de nada lhe servirá. Cabe a Mim indicar o caminho, e a Mim pertencem a vida terrena e a Última Vida. Por isso, advirto-vos acerca do fogo ardente, no qual somente entrará o mais desventurado, aquele que desmente e se afasta. dele será afastado o temente a Deus, que dá seus bens para purificar-se, sem que ninguém lhe deva qualquer favor cuja recompensa ele tenha de retribuir, buscando apenas a satisfação de seu Senhor Majestoso. E ele certamente alcançará a satisfação. (Surata Al-Lail, 1–21)
Na imagem traçada nesta surata, estão presentes tanto o branco quanto o preto — isto é, o pecado e a virtude. Ali se diz: «aquele que dá e é temente a Deus». Assim como isso é mencionado, também se afirma, lado a lado: «aquele que é avarento e se considera autossuficiente». Da mesma forma, diz-se: «facilitar-lhe-ei o caminho da felicidade». Do mesmo modo,(Árabe**********)«Infeliz é aquele que desmente e se afasta» — e, ao mesmo tempo, afirma-se:(Árabe**********)«o temente a Deus, que dá seus bens para purificar-se». Assim, o contexto de toda a imagem foi escolhido entre o branco e o preto.
Por um lado, diz-se: «Pela noite quando ela cobre tudo». Do mesmo modo, afirma-se: «Pelo dia quando resplandece». Aqui, juntamente com «Al-Lail», foi escolhido o termo «yaghsha», enquanto na Surata Ad-Duha foi empregado o termo «saja». Possivelmente, isso foi feito para tornar clara a posição oposta da noite e do dia. Além disso, no caso do homem e da mulher, ambos pertencem à mesma espécie, mas são opostos um ao outro. Por isso, pode-se dizer que este contexto está inteiramente a serviço da imagem.
O tom e o ritmo encontrados na Surata Al-Lail são muito mais elevados do que os da Surata Ad-Duha. Contudo, sua ressonância não contém crueldade nem a profunda dor do coração, pois isso é igualmente exigido pela descrição e pelo contexto. Essa unidade e essa harmonia são, sem dúvida, verdadeiramente admiráveis.
A duração das imagens corânicas
Agora discutiremos outro aspecto da harmonia artística encontrada no Alcorão.
Não se pode concluir a respeito das cenas e imagens do Alcorão apenas dizendo que basta harmonizar as diferentes partes e cores das imagens e das cenas, criando uma cadência de sons e ritmos favorável ao contexto ou ao tema central. É necessário avançar um pouco mais, tendo em vista conferir à cena uma perfeição artística atraente e criar singularidade. Pois é indispensável fixar o tempo para manter essa cena estabelecida no mundo da imaginação. O admirável é que o Nobre Alcorão também realizou essa necessidade de maneira extremamente bela e precisa.
Algumas cenas apresentadas pelo Alcorão desaparecem num piscar de olhos, sem deixar sequer oportunidade para reflexão. Algumas imagens duram tanto que o leitor imagina que essa cena jamais sairá de sua vista. Algumas imagens são dinâmicas, enquanto outras são estáticas. Ambas podem ser encontradas no interior da cena. Além disso, o propósito geral do Alcorão também se reflete igualmente nelas. A duração ou brevidade de cada cena é realizada de uma maneira específica. Todos os meios e recursos nela contidos conferem plenitude ao propósito e ao objetivo da cena.
Ao ingressarmos neste novo campo, apresentaremos agora, sucessivamente, seus exemplos:
1. O Alcorão deseja apresentar às pessoas a cena de quão breve é o período da vida terrena — algo que as torna negligentes em relação à vida do Além. O Alcorão apresentou essa cena da seguinte forma:
(Árabe**********)
Apresenta-lhes a parábola da vida terrena: ela é como a água que fazemos descer do céu. Então, por meio dela, brotam da terra trepadeiras, ervas e folhagens. Depois, tudo seca e voa ao vento como palha. Allah é capaz de fazer todas as coisas. (Surata Al-Kahf: 45)
Aqui são mencionados três aspectos: 1. a água que desce do céu; 2. o desenvolvimento da fertilidade mediante a combinação da água com a terra; e 3. depois, tudo seca e voa ao vento como palha.
Nestas três frases concisas, afirma-se que, nas três cenas, a vida terrena chegou ao fim. Ah! Como é breve a vida!
Descreve-se, de forma concisa, toda a evolução das plantas. Nenhum aspecto foi deixado de fora. Naturalmente, não se menciona o segundo estágio. Primeiro, menciona-se a água, que torna possível a produção das plantações. Depois, em determinado momento, a plantação amadurece e seca, e os restos de palha são levados pelo vento. Pode surgir então a pergunta: além do segundo estágio das plantas, o que mais foi omitido?
Todos os elementos da descrição clara do versículo mencionado, da contemplação da cena e da harmonia estética já se reuniram. O método de descrição é tão claro e vigoroso que nada resta daquilo que se pretendia transmitir por meio dele e que pudesse contribuir para a realização do propósito religioso. A contemplação levou essa imagem à perfeição, ultrapassando os limites da harmonia estética e aguçando a capacidade de reflexão.
Para descrever concisamente esta cena, recorreu-se tanto à disposição das palavras quanto aos recursos artísticos. Por exemplo, a letra “fa” que vem depois da palavra “fakhtalata”, usada para expressar a sequência dos acontecimentos. Essa letra apresentou toda a cena com perfeição e rapidez. É precisamente essa letra “fa” que deixa evidente que a água caída, na realidade, não se mistura com a terra, mas com as trepadeiras e plantas que dela brotam. A cena foi apresentada de tal modo que estabeleceu a rapidez desejada.
2. Outro exemplo bastante semelhante é o versículo a seguir. O significado, o propósito e o modo e método de chamar a atenção são os mesmos, mas foram apresentados com um estilo um pouco diferente.
(Árabe**********)
Sabei que a vida terrena não é senão diversão e entretenimento, ornamentação, vanglória mútua e abundância de riquezas e filhos. É como uma chuva cuja vegetação verde alegra os agricultores; depois, ela seca, e tu a vês amarelada; em seguida, torna-se palha seca.
A imagem da vida efêmera deste mundo traçada neste versículo é semelhante à do versículo anterior. Alguns podem pensar que não há qualquer diferença entre as duas imagens. Na realidade, existe uma diferença sutil entre os dois versículos. Ela consiste no fato de que a razão pela qual os incrédulos dão prioridade ao mundo é que nele encontram um ambiente semelhante ao dos jogos e divertimentos, com todos os meios e recursos de prazer ao alcance das mãos, obtidos com pouco esforço. Podem competir uns com os outros em riqueza e número de pessoas. Allah diz: aquilo em que os incrédulos estão absortos e que os faz considerar a vida longa e prazerosa é, na realidade, extremamente breve e perecível. Assim como a chuva torna a terra fértil e produz diversos tipos de frutos, alegrando os agricultores, mas depois de certo tempo essas plantas secam e são levadas pelo vento como palha seca, assim também é a condição deste mundo.
Entre os versículos do Alcorão que parecem semelhantes, há diferenças sutis como a diferença discutida acima. Torna-se evidente a diferença entre dois versículos que parecem iguais. Essa diferença pode ser comum ou importante. Por meio desses versículos realiza-se o trabalho de da‘wah; da mesma forma, eles também são veículos de beleza e elegância artística. Além disso, graças a essa diferença sutil, surge neles uma novidade, e ela também é considerada uma espécie.
3. Nos dois exemplos anteriores, vimos que a descrição foi abreviada mediante a eliminação do segundo estado. Agora, porém, apresentarei um exemplo em que o tempo mundano também é condensado, assim como no exemplo anterior. Contudo, essa condensação é ainda maior que a do exemplo anterior. Aqui, os dois estados do mundo — o início e o fim — foram reunidos num único instante. Ao mesmo tempo, mostra-se quão longa é a duração desde o início até o fim do mundo. Eis o que foi dito:
(Árabe**********)
A cobiça pela abundância mantém-vos desatentos. Assim, encontrareis os túmulos. (Surata At-Takāthur: 1–2)
O quadro apresentado neste versículo é um quadro dos limites da vida: começa com a busca de riqueza e abundância e termina no túmulo. Como seria possível desenhar, por meio da descrição ou do pensamento, um quadro mais conciso e limitado acerca do limite final da vida? Outro aspecto desse quadro é que o período desde o início até o fim da vida também se esgota enquanto a pessoa permanece envolvida nas diversões e frivolidades mundanas. O uso da palavra ‘hattā’ (***) mostra onde se encontra o limite ao término de sua duração. Mesmo num período tão curto, as pessoas envolvem-se em atividades desnecessárias, embora saibam que a vida é extremamente breve. Com dois versículos concisos, todo o propósito foi expresso de maneira bela e eficaz.
4. O versículo seguinte também trata de um tema desse tipo, mas seu propósito é diferente.
(Árabe**********)
Como podeis negar Allah? Estáveis mortos, então Ele vos deu vida; depois vos fará morrer, em seguida vos dará vida novamente; então a Ele sereis devolvidos. (Surata Al-Baqarah: 28)
Nas quatro partes do mesmo versículo, são descritos os quatro estados da criação. O primeiro estado é o período anterior à criação; o segundo está relacionado à vida e à existência no mundo após a criação; o terceiro estado é que, um dia, será inevitável partir desta Terra; e o quarto estado é que, depois da vida mundana, existe outra vida, na qual todos deverão comparecer.
O estado anterior à vida mundana é chamado de azl. O estado e a condição posteriores à aquisição da existência foram determinados, e seu nome é hayát, ou vida. Depois virá a morte e, após a morte, começará a vida da آخِرَة. Para fins de concisão, os quatro estados foram expressos em apenas quatro palavras. Contudo, a capacidade de pensamento considera esse período muito longo, enquanto, para o Poder Supremo, esse longo período não passa de um piscar de olhos. O Poder Absoluto apenas diz a uma coisa: “Sê!”, e imediatamente ela passa a existir. Ele apresenta essa rapidez de modo ainda mais evidente, especialmente quando introduz esse longo período no intervalo de um piscar de olhos. Como, então, se pode negar Allah? E como se pode desobedecê-Lo? Ele é o Ser que, desde o princípio, é o Senhor de tudo o que vos pertence. E, até o fim, continuará sendo o Senhor. E a Ele retornareis.
No versículo seguinte, a concisão é apresentada em sua forma completa:
(Árabe**********)
Ele é o Ser que criou para vós tudo o que existe na Terra; depois, voltou-Se para o céu e criou-o em sete camadas. (Surata Al-Baqara: 29)
Assim, num único instante, Ele criou tudo o que existe na Terra. Depois, voltou-Se para o céu e, num único instante, dispôs-no e criou-o em sete camadas. Nos versículos do Alcorão em que este tema é mencionado, é apresentada uma descrição detalhada da criação dos céus e da Terra.
5. Até aqui, recorria-se à concisão nas cenas. Em algumas dessas cenas, a descrição era abreviada pela omissão do estado intermediário; em outras, pela introdução de um estado no interior de outro. Agora apresentaremos um exemplo de concisão no qual o Artista da natureza demonstrou uma bela arte em sua obra magistral, realizada com o auxílio de um pincel extremamente vigoroso. Com os toques dispersos do pincel, tornou-se luminosa uma imagem inesquecível; ao contemplá-la, parecerá que nada existia ali. Quando a imaginação dirige o olhar para essa tela, imediatamente surge a impressão de que nada havia ali.
(Árabe**********)
Aquele que associa alguém a Allah é como quem cai do céu; então uma ave carniceira o arrebata, ou o vento o leva e o lança num lugar distante. (Al-Hajj: 31)
Quão rapidamente isso acontece: ser arremessado da terra, ser imediatamente arrebatado por alguma ave carnívora ou ser levado pelo vento para muito longe e lançado ao longe. Agora permanece diante dos olhos uma imagem tal que parece que nada jamais existiu aqui.
Pensem um pouco: que mistério se esconde na rapidez desse arrebatamento? O mistério é que ninguém pense que os idólatras têm algum lar ou permanência. Ainda assim, foi-lhes concedido um lugar na Terra por um breve período. Não importa qual seja a linhagem dos idólatras, de quanto prestígio e magnificência desfrutem, nem como sejam os ramos de sua tribo e o número de seus homens — eles vêm de um lugar desconhecido e, num piscar de olhos, partem novamente para outro desconhecido. Não está destinado a eles estabelecerem-se na vida mundana.
Agora apresentaremos algumas imagens prolongadas.
Imagem prolongada
1. Já discutimos o versículo que diz que a água da chuva cai do céu. Depois, diversos tipos de plantas começam a brotar da terra. Em determinado momento, amadurecem, secam e transformam-se em palha, que o vento leva. Toda a cena foi apresentada num piscar de olhos. Agora veremos como cenas desse tipo são descritas com muito mais calma e detalhe em vários lugares. Eis o que foi dito:
(a)
(Árabe************)
Ele é Allah, que envia os ventos, e eles movimentam as nuvens. Então, Ele as espalha pelo céu como quer e as dispõe em camadas. Depois, tu vês a chuva saindo de dentro delas. Ele a faz chegar a quem quer entre Seus servos, e eis que eles se alegram. (Surata Ar-Rum: 48)
Este versículo pertence à primeira etapa, na qual se fala da água da chuva chegando à terra. A chuva flutua no céu, levada pelo vento, sob a forma de nuvens. Quando Allah quer, Ele as torna pesadas, e elas descem à terra sob a forma de chuva. Embora inicialmente as pessoas se desesperem, depois se alegram ao ver a chuva. Vejamos agora o que acontece depois que a chuva cai.
b
(Árabe************)
Não vês que Allah faz descer água do céu e, por meio dela, produz plantações de várias cores? Depois, elas secam, e tu as vês amareladas. Então, Allah as transforma em palha. Certamente, nisso há uma exortação para os dotados de entendimento. (Surata Az-Zumar: 21)
Vejam: aqui tudo se desenvolve lenta e gradualmente. A água cai do céu, mas a terra não germina imediatamente. Ao contrário, essa água corre pelos rios ou pelas nascentes. — “Então, dela se produz a plantação”, que passa por diversas mudanças de cor. A mudança de cor exige tempo. Depois, ela começa a se desenvolver, até que amadurece e adquire uma coloração amarela. É evidente que esse estado ocorre depois de transcorrido certo tempo, como indica a palavra “thumma”. A frase “então, ela é reduzida a fragmentos” mostra que o processo de ser reduzida a fragmentos também leva algum tempo. Aqui foi usada uma forma verbal do presente ou do futuro. Em outro lugar, foi dito “foi reduzida a fragmentos” e “é reduzida a fragmentos”, cujo sentido é que ela se desfaz sozinha, sem a intervenção de ninguém. Aqui se diz que ela é reduzida a fragmentos e permanece nesse estado. Porém, em outro lugar, foi dito: “o vento a leva”. Depois disso, não resta qualquer vestígio de sua memória.
O segredo dessa calma e dessa extensão é que este versículo trata das bênçãos concedidas por Allah. Por isso, ao falar da bênção, o relato se desenvolve lentamente, para que os espectadores possam contemplar essa cena com calma e dela tirar proveito, sem que reste qualquer desejo insatisfeito. É somente por essa razão que a cena foi prolongada.
2. Vejam outra cena, na qual o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e seus companheiros são comparados a um campo e a uma plantação:
(Árabe************)
Na Torá, esta é a condição deles; e no Evangelho, sua condição é descrita como a de uma planta da qual brota um rebento. Depois, ele se fortalece e se robustece, firmando-se solidamente sobre o seu caule, alegrando o agricultor, para que, por meio deles, Allah suscite a ira dos incrédulos. (Surata Al-Fath: 29)
A plantação mencionada neste versículo não seca, se desfaz e voa ao vento. Pelo contrário, permanece firme e inabalável. Esta é uma imagem perene. Ela jamais desaparece da mente e do pensamento. É uma imagem que produz um efeito duradouro no mundo da mente e do pensamento.
É necessário refletir sobre algo aqui: a imagem é, de fato, uma imagem prolongada, mas suas etapas iniciais ocorrem rapidamente. Assim que uma semente é lançada num campo, ela germina e, em pouco tempo, transforma-se numa árvore gigantesca. Isso não demora muito. Depois, em determinado momento, ela se firma e permanece de pé sobre o próprio caule. Esta era a condição inicial dos muçulmanos. Primeiro, eles não demoraram a aceitar o Islã. Segundo, permaneceram firmes nessa condição. Depois que sua condição alcançou a plenitude, nenhuma mudança se iniciou ali.
3. Na cena que mencionamos anteriormente, foi apresentada uma imagem de toda a vida do ser humano — isto é, do início ao fim — que se concluía num piscar de olhos. Agora veremos outra cena, não de toda a vida, mas de uma parte específica dela, embora muito mais extensa em duração. Eis o que foi dito:
(Árabe************)
Criei o ser humano a partir da essência do barro. Depois, coloquei-o, como uma gota seminal, num lugar seguro. Em seguida, transformei a gota seminal em coágulo; depois, transformei o coágulo numa massa de carne; então, da massa de carne criei os ossos; em seguida, revesti os ossos com carne; por fim, fiz dele uma nova criação. Bendito seja Allah, o melhor dos criadores.
Vejam como é longa a discussão de apenas um capítulo da vida humana. Aqui, é lançado um olhar sobre o período que vai desde a concepção até antes do parto. A exortação e o conselho transmitidos por meio disso são suficientes para causar impacto em toda consciência. Portanto, pode-se dizer que essa extensão não é indesejável aqui.
4. Entre as cenas retratadas de modo duradouro, destacam-se as cenas do Dia da Ressurreição e do castigo do Inferno. Quando essa realidade é definida e surge a necessidade de apresentá-la em imagem, ela é representada por meio de uma imagem duradoura, para que essa imagem possa influenciar a consciência e o pensamento de cada pessoa, e para que a marca de seu terrível desfecho possa deixar uma impressão na consciência.
Foram utilizados certos meios e recursos para prolongar algumas imagens. Apresento abaixo alguns exemplos. Se não houvesse o receio de aumentar o volume do livro, acrescentaria um capítulo independente sobre esse assunto.
[4.1] Muitas vezes, para apresentar uma cena de modo prolongado, ela é expressa com palavras e em um estilo que produz uma sensação de repetição, por exemplo:
(Árabe************)
Aos que negarem os Meus versículos, em breve os farei arder no fogo. Quando o fogo lhes queimar a pele, Nós lhes daremos outra pele em seu lugar, para que sintam plenamente o castigo. (Surata An-Nissá: 56)
Neste versículo, é apresentada uma cena terrível. Os olhos da imaginação contemplam repetidamente essa cena e ficam tomados de medo e pavor. Quando a aflição e a preocupação aumentam, sua repetição também se intensifica. Isso porque, quando o nafs tenta transgredir os limites, essa imagem assustadora o impede e o incentiva a obedecer a Allah.
[4.2] Muitas vezes, a extensão é criada por meio da disposição e da ordenação das palavras. Por exemplo, narra-se um acontecimento e, em seguida, apresenta-se uma descrição detalhada de uma de suas partes. Allah diz:
(Árabe************)
E anuncia aos que acumulam ouro e prata e não os gastam no caminho de Allah um castigo doloroso. No dia em que isso for aquecido no fogo do Inferno e, com isso, forem marcadas as suas frontes, os seus lados e as suas costas, ser-lhes-á dito: “Isto é o que acumulastes; saboreai, pois, hoje, o resultado daquilo que acumulastes.” (At-Tawbah: 34–35)
Primeiro, com (******) — “anuncia-lhes um castigo doloroso” — faz-se uma abordagem geral sobre o castigo. Por um breve momento, interrompe-se a continuidade da descrição, para que o ouvinte possa preparar-se mentalmente para escutar a descrição detalhada do castigo. Em seguida, descrevem-se detalhadamente o tipo e a natureza desse castigo. Para chamar a atenção para a abundância de ouro e prata, emprega-se uma palavra no plural em vez do dual. Assim, evidencia-se a sua grande quantidade. Do mesmo modo, diz-se (****), em vez de (***). Vejam: depois de o ouro e a prata serem aquecidos no fogo, eles não se derreteram; com eles começou um castigo doloroso. Primeiro, são marcadas as frontes com eles. Termina o ato de marcar a testa. Agora, trazendo ambos os lados para a frente, termina também o ato de marcá-los. Pensam que o castigo terminou justamente aí. Esperem. A cena ainda não terminou. Agora, no mundo da imaginação, surge a visão de vários grupos sendo submetidos sucessivamente ao castigo, que é repetido inúmeras vezes. E é dito:
(Árabe************)“Isto é o que acumulastes. Saboreai, pois, hoje, o resultado daquilo que acumulastes.” (Surata At-Tawbah: 25)
[4.3] Muitas vezes, uma cena se prolonga devido à descrição detalhada da sequência dos acontecimentos e à sua quantidade. Além disso, as palavras empregadas nela também produzem uma sensação de repetição. Como nesta nobre ayah:
(Árabe************)
Estes dois litigantes disputam acerca de seu Senhor. Assim, para os que são kafir, foram confeccionadas vestes de fogo. Sobre as suas cabeças será derramada água fervente, que fará derreter tudo o que há em seus ventres e também as suas peles. E haverá para eles malhos de ferro. Sempre que, atormentados pela dor, quiserem sair do Inferno, serão devolvidos a ele. Será dito: “Sabei o gosto do tormento da queima!” (Surata Al-Hajj: 19–22)
É uma cena aterradora a que foi descrita nesta ayah, repleta de tumulto e repetição. De um lado, vestes de fogo; de outro, água fervente borbulhando, que será derramada sobre as cabeças. Por causa disso, tudo o que há dentro dos ventres e as peles derreterão e cairão. Se alguém, atormentado, tentar fugir, será imediatamente golpeado com malhos de ferro, reconduzido ao lugar anterior e lhe será dito: “Sabei o gosto da queima!” Essa imagem se reflete repetidamente no espelho da imaginação. Em particular, os kafir querem sair, mas são golpeados e lançados de volta para dentro. É como se essa cena estivesse acontecendo diante dos olhos dos ouvintes e dos leitores.
[4.4] Muitas vezes, para prolongar uma cena, interrompe-se toda a ação contida nela. Imaginem, por exemplo, um opressor de pé no campo da Ressurreição, completamente sozinho, expressando repetidamente vergonha e pesar. Ao vê-lo, parece que vocês lhe diriam: “Meu irmão, pare! O que adiantará continuar expressando vergonha e pesar agora?” O tempo em que a cena ocorre é muito curto, mas lhes parecerá muito longo. Como, por exemplo:
(Árabe************)
O iníquo dirá, enquanto morde as próprias mãos naquele dia: «Ai de mim! Quem dera eu tivesse seguido o caminho junto com o Mensageiro! Ah! Quem dera eu não tivesse tomado fulano por amigo! Ele me desviou da Mensagem depois que ela me chegou; e Satanás engana o ser humano no momento oportuno.» (Surata Al-Furqan: 27–29)
No versículo mencionado, descreve-se o arrependimento de um infiel pelos atos praticados no passado. Ao mesmo tempo, ressoa uma melodia tão pungente de dor que, por si só, faz emergir a extensão da cena. Suas palavras são poucas, não muitas. Contudo, quando cessam, criam uma duração tão intensa de repulsa, indignação e tristeza que ninguém pode permanecer fora de seu campo de influência. Na verdade, esse era precisamente o seu propósito e objetivo. Deve-se observar que o lugar e o momento da confissão do crime pelo criminoso se fundiram completamente com a tristeza e a vergonha. Imaginem: será perguntado a um grupo de criminosos:
(Árabe************)Por que caístes no Inferno? (Surata Al-Muddaththir: 42)
Eles responderão, por sua vez:(Árabe************)
Dirão: «Não éramos daqueles que oravam, não alimentávamos os necessitados, entregávamo-nos a conversas vãs com os que se entregavam a elas e negávamos o Dia da Retribuição, até que nos chegou a certeza sobre isso (isto é, até antes da morte).» (Surata Al-Muddaththir: 43–47)
Os criminosos poderiam simplesmente ter dito: «Nós não críamos e considerávamos tudo mentira.» Contudo, ao fazer isso, também se criou uma espécie de beleza ao prolongar o momento da confissão do crime.
[4.5] Muitas vezes, observa-se também que todos os recursos anteriormente mencionados são empregados para prolongar uma cena. Por exemplo, recorre-se à disposição e à rima das palavras, à descrição detalhada do acontecimento ou, às vezes, à fixação da cena. Observem os exemplos a seguir:
(Árabe************)
Quando a trombeta for soprada uma única vez, a terra e as montanhas serão erguidas e reduzidas a pó. Nesse dia, a Ressurreição acontecerá. Nesse dia, o céu se fenderá e se dispersará; os anjos estarão em suas extremidades, e oito anjos carregarão acima deles o Trono do teu Senhor. Nesse dia, sereis apresentados, e nada de vós ficará oculto. (Surata Al-Haqqah: 13–18)
(Árabe************)
Quanto àquele cujo registro das obras lhe for entregue na mão direita, dirá: “Tomai e lede o meu registro. Eu sabia que teria de prestar contas.” Então viverá uma vida feliz num Paraíso elevado, cujos frutos estarão ao alcance. “Comei e bebei, com satisfação, em recompensa pelo que enviastes nos dias passados.”
(Árabe************)
Quanto àquele cujo registro das obras lhe for entregue na mão esquerda, dirá: “Ah! Se o meu registro não me tivesse sido entregue! Se eu não soubesse qual era a minha prestação de contas! Ah! Se a minha morte tivesse sido definitiva! De nada me serviram os meus bens; o meu poder pereceu.” Será dito aos anjos: “Agarrai-o e ponde-lhe um grilhão no pescoço. Depois, lançai-o no Inferno. Em seguida, prendei-o com uma corrente de setenta côvados. Com efeito, ele não cria em Alá, o Altíssimo, e não incentivava a alimentar o necessitado. Hoje, portanto, não terá aqui amigo algum, nem alimento algum, salvo o pus que escorre das feridas. Ninguém o comerá, exceto os pecadores.” (Surata Al-Haqqah: 25–27)
Para apresentar a cena mencionada, foram empregados aqui vários métodos: a descrição e a explicação foram prolongadas, e a ressonância do tom também é bastante longa. Algumas partes da cena foram fixadas, em vez de tornadas dinâmicas. Observa-se também harmonia entre as cores de toda a cena. A descrição da corrente de setenta côvados amplia o pensamento. Na verdade, tudo isso exige extensão.
5. Quando são discutidos temas de natureza oposta, como a comparação entre a vida terrena e a vida do Além, essas cenas são apresentadas de forma extensa. Alguns dos versículos seguintes são exemplos disso:
(Árabe************)
Certamente, o registro das obras dos virtuosos está em Illiyyin. E o que te fará saber o que é Illiyyin? É um livro registrado, testemunhado pelos anjos próximos de Allah. Certamente, os virtuosos estarão em plena felicidade, sentados em tronos e contemplando. Reconhecerás em seus rostos os sinais de bem-estar. Dar-lhes-ão de beber uma bebida pura, selada. Seu selo será de almíscar. Que os competidores compitam por isso. Sua mistura será de Tasnim, uma fonte da qual beberão os que estão próximos de Allah. (Surata Al-Mutaffifin: 18-28)
(Árabe************)
Os criminosos costumavam zombar dos crentes e, quando passavam por eles, piscavam uns para os outros em tom de escárnio. Quando retornavam para suas famílias, também voltavam rindo. E, quando viam os crentes, diziam: “Certamente, estes estão desviados.” Contudo, não foram enviados como guardiões dos crentes. Hoje, os crentes zombam dos incrédulos.
Nos versículos mencionados, foram apresentadas duas cenas longas. Em uma delas, as pessoas próximas de Allah aparecem entregues ao desfrute de diversas dádivas; na segunda, mostra-se como os incrédulos tratavam os crentes neste mundo. Mostra-se como zombar e brincar com os crentes havia se tornado uma obsessão para eles. Ambas as cenas são longas, especialmente a segunda. Sua parte final é profundamente comovente. E transmitir justamente esse sentido é o objetivo principal aqui.
6. A passagem do Nobre Alcorão em que são retratados os crentes e suas boas obras apresenta uma cena muito longa. Essa extensão exerce um impacto extraordinário sobre a consciência. Nesses versículos, aqueles que os contemplam são convidados a participar da adoração dos crentes, tal como ela é mostrada na cena. Há muitos exemplos semelhantes no Alcorão. Aqui, apresentamos apenas um exemplo.
(Árabe**********)
Certamente, na criação dos céus e da terra e na alternância da noite e do dia há sinais para os dotados de entendimento: aqueles que se lembram de Allah em pé, sentados e deitados, e refletem sobre a criação dos céus e da terra. (Eles dizem:) “Ó nosso Senhor! Não criaste tudo isso sem propósito. Glorificado sejas! Salva-nos do fogo do Inferno. Ó nosso Senhor! Certamente, aquele a quem lançares no Inferno será coberto pela humilhação extrema, e os injustos não terão nenhum auxiliador. Ó nosso Senhor! Certamente, ouvimos um convocador convocando para a fé: ‘Crede em vosso Senhor’; então cremos. Ó nosso Senhor! Perdoa, pois, todos os nossos pecados, remove de nós todas as nossas faltas e faze-nos morrer junto com os virtuosos. Ó nosso Senhor! Concede-nos aquilo que nos prometeste por meio de Teus mensageiros e não nos humilhes no Dia da Ressurreição. Certamente, não quebras a promessa.” (Al Imran: 190-195)
(Árabe**********)
Então, o seu Senhor aceitou a súplica deles, dizendo: “Não farei perecer nenhum esforço vosso, seja de homem ou de mulher; sois uns dos outros. Portanto, aqueles que emigraram, foram expulsos de suas terras e sofreram perseguição por Minha causa, e aqueles que lutaram e morreram, certamente removerei deles suas más ações e os farei entrar em jardins sob os quais correm rios. Esta é a recompensa da parte de Allah; e junto de Allah está a melhor recompensa.” (Surata آل عمران, Al ‘Imran: 195)
Que pessoa, ao contemplar esta cena tão cheia de reverência e tão poderosa, não teria o coração enternecido e, integrando-se ao grupo daqueles sábios, não ergueria as mãos diante do Senhor Altíssimo, como eles, elevando-se ao ápice da humildade e da submissão? Especialmente quando se descrevem detalhadamente os sacrifícios dos crentes e se fala de sua espera pelas bênçãos da Outra Vida. O Deus Misericordioso não pode deixar de aceitar a súplica dessa pessoa. Certamente, Ele lhe concederá aquilo que prometeu conceder aos crentes.
Sempre que o Alcorão for estudado com plena atenção e interesse, inúmeras cenas vivas desse tipo poderão ser observadas. Quando um leitor do Alcorão o estuda com análise minuciosa, novos portais de conhecimento e mistérios se abrem diante dele: a harmonia entre as palavras e os significados; a beleza do ritmo e da composição; a descrição encantadora e seu efeito fascinante; a conexão e a integração entre os temas; a sutileza e o estilo da apresentação das ideias; a representação artística dos acontecimentos; a melodia cativante; e os novos modos e métodos de apresentar a relação entre uma parte e outra. É da combinação de todos esses elementos que a natureza miraculosa e misteriosa do Alcorão alcança sua plena manifestação.
Oitavo capítulo
Tema: Os acontecimentos narrados no Alcorão
É preciso lembrar que narrar histórias e relatos não é o objetivo principal do Alcorão. Embora nele sejam empregados os conteúdos e o estilo indispensáveis à escrita de histórias e romances, é necessário seguir esse aspecto artístico da escrita literária. Contudo, o assunto aqui é um pouco diferente. Os acontecimentos são um dos instrumentos acessórios que o Alcorão adotou para alcançar objetivos religiosos. O objetivo principal do Alcorão é o chamado à religião, e a representação das histórias é apenas um meio de transmitir esse chamado às pessoas numa linguagem que lhes toque o coração. Exatamente com o mesmo propósito pelo qual o Alcorão apresentou imagens da Ressurreição e da recompensa na Outra Vida, pelo qual apresentou informações sobre a ressurreição após a morte e pelo qual relatou exemplos e parábolas para explicar e analisar a Sharia, ele também apresentou representações de histórias. O objetivo é transmitir o chamado religioso às pessoas de forma tocante.
Na verdade, os acontecimentos narrados no Alcorão e seus conteúdos, em seu estilo próprio e de maneira perfeita, conduziram o objetivo religioso ao limiar de sua plena realização. (Adiante, descreveremos seus tipos e exemplos.) Contudo, estar subordinado ao objetivo religioso não significa que, ao apresentar os acontecimentos, o aspecto artístico seja ignorado. Pelo contrário, ao mesmo tempo que cumprem o objetivo religioso, os acontecimentos também incorporam características artísticas. Na realidade, a representação é um dos instrumentos mais importantes da descrição e da apresentação no Alcorão. É uma característica indispensável da narração.
Já dissemos anteriormente que cada princípio do Alcorão complementa os objetivos e as finalidades religiosas e artísticas. Cada imagem e cena apresentada no Alcorão reúne ambas as qualidades. Também dissemos que a beleza artística do Alcorão foi utilizada para exercer influência sobre o mundo interior do ser humano, pois aquele sentimento religioso do mundo interior foi expresso na linguagem da beleza artística. É importante destacar que a religião e a arte se complementam, e que sua sede está no mais profundo do coração humano. Por isso, a consciência humana só as acolhe quando a beleza artística alcança o seu mais alto grau e, simultaneamente, o intelecto e o espírito estão preparados para responder ao chamado dessa beleza harmoniosa.
No capítulo “Imagem artística”, apresentamos dois exemplos de imagens narrativas. Ali, a natureza pintou, com seu pincel, quadros extremamente comoventes, aos quais o ser humano não pode deixar de se comover. Prometemos ali discuti-los em detalhes. Agora tentaremos cumprir essa promessa, se Deus quiser.
Objetivos e finalidades dos acontecimentos narrados no Alcorão
Dissemos anteriormente que os diversos acontecimentos foram narrados no Alcorão com o único objetivo de conduzir a finalidade religiosa à sua plena realização. Os acontecimentos foram narrados precisamente para cumprir essa finalidade religiosa. Para levar ao seu objetivo o reconhecimento da revelação e da missão profética, o tawhid, a unidade da religião dos diversos profetas, a unidade e uniformidade do modo de tratar todos os profetas, as manifestações do poder divino, as consequências do bem e do mal, a paciência e a perseverança, o shirk e o kufr, além de muitos outros objetivos, o Alcorão recorreu à representação narrativa.
1. O reconhecimento da revelação e da missão profética: Discutiremos os objetivos e as finalidades dos acontecimentos narrados no Alcorão, não para abarcar toda a sua extensão e amplitude. Um dos principais objetivos da narração dos acontecimentos no Alcorão é reconhecer a revelação e a missão profética, bem como apresentar os argumentos sobre sua necessidade e importância.
É importante observar que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) não sabia ler nem escrever no sentido convencional. Além disso, não tinha qualquer relação com um sábio judeu ou cristão que pudesse capacitá-lo a narrar, por meio do Alcorão, acontecimentos dessa natureza. Ele narrou alguns acontecimentos em detalhes e outros apenas parcialmente, como os acontecimentos de Abraão (que a paz esteja com ele), José (que a paz esteja com ele) e Moisés (que a paz esteja com ele). A menção desses acontecimentos no Alcorão prova justamente que eles lhe foram comunicados por meio da revelação. O Alcorão declarou isso claramente, como foi dito logo no início da surata de José.
(Árabe**********)Fizemos descer este Alcorão em árabe, para que possais compreender. (Surata de José: 2)
(Árabe**********)
Nós te narramos a melhor das histórias, conforme te revelamos este Alcorão. Certamente, antes disso, estavas entre os que nada sabiam. (Surata Yūsuf: 3)
Antes de narrar, na Surata al-Qasas, o episódio de Moisés (que a paz esteja com ele), foi dito:
(Árabe**********)Eu te narro, com toda a verdade, os acontecimentos de Moisés e do Faraó, para um povo que crê. (Surata al-Qasas: 3)
No lugar em que esse episódio termina, foi dito:
(Árabe**********)
Quando ordenamos a Moisés, tu não estavas no lado ocidental, nem foste testemunha disso. Contudo, criamos muitas gerações, e longos períodos transcorreram para elas. Tampouco estavas entre os habitantes de Madian quando lhes eram recitados os Nossos versículos. Porém, fomos Nós que enviamos mensageiros. E quando chamamos Moisés, tu não estavas junto ao monte Tur. Mas isso foi uma misericórdia de teu Senhor, para que advertisses um povo ao qual nenhum outro admoestador havia chegado antes de ti, a fim de que se lembrassem. (Surata al-Qasas: 44–46)
Ao narrar o episódio de Maria (que a paz esteja com ela), foi dito na Surata Āl ‘Imrān:
(Árabe**********)
Esta é uma notícia do oculto que te transmitimos. Tu não estavas presente quando eles disputavam entre si quem assumiria a tutela de Maria. Tampouco estavas presente quando discutiam entre si. (Surata Āl ʿImrān: 44)
Antes da narração da história de Adão (que a paz esteja com ele), foi dito na Surata Ṣād:
(Árabe**********)Dize: isto é uma grande notícia, da qual vos afastastes. Eu não tinha conhecimento do mundo superior quando os anjos discutiam entre si. Só me é revelado que sou um admoestador explícito. (Surata Ṣād: 67–71)
Depois de narrar, na Surata Hūd, a história de Noé (que a paz esteja com ele), foi dito:
(Árabe**********)
Esta é uma notícia do oculto que te revelamos por meio da revelação. Antes disso, nem tu nem o teu povo tinheis conhecimento dela. (Surata Hūd: 49)
2. Uma única e mesma religião: O Alcorão afirma claramente que todas as religiões provêm de Allah. Os crentes constituem uma única comunidade ou grupo, e Allah é o Senhor de todos. Em muitos lugares do Alcorão são narradas as histórias de diversos profetas. Afirmar que a religião de todos os profetas é uma só e a mesma também é um objetivo do convite islâmico. Por isso, as histórias dos profetas são apresentadas em diferentes partes do Alcorão, com pequenas variações, para que as pessoas compreendam que todos os profetas e mensageiros foram enviados com a mesma missão. A seguir, apresentamos alguns exemplos. Foi dito:
(Árabe**********)
E concedemos a Moisés e Aarão o Livro do discernimento, luz e exortação para os tementes a Deus. Estes temem seu Senhor sem vê-Lo e estremecem por temor do Dia da Ressurreição. (Surata Al-Anbiya: 48-49)
(Árabe**********)
Esta é uma exortação abençoada que Nós revelamos; ainda assim, vós a negareis? E, anteriormente, havíamos concedido a Abraão retidão, e estávamos cientes dele. Quando ele perguntou a seu pai e a seu povo: “Que são estas estátuas às quais vos dedicais como adoradores?” (Surata Al-Anbiya: 51-52)
(Árabe**********)
E salvamos Abraão e Lot, conduzindo-os à terra na qual havíamos estabelecido bênção para os mundos. Concedemos-lhe Isaac e, como dádiva adicional, Jacó, e fizemos de cada um deles um dos virtuosos. Fizemos deles líderes que guiavam segundo a Nossa ordem. E revelamos-lhes que praticassem o bem, estabelecessem a oração e pagassem o zakat. Eles dedicavam-se à Nossa adoração. (Surata Al-Anbiya: 71-73)
(Árabe**********)
E concedemos a Lot sabedoria e conhecimento. E salvamo-lo daquela cidade, cujos habitantes se entregavam a atos imundos. Eram um povo perverso e desobediente. Fizemo-lo ingressar em Nossa misericórdia. Ele era um dos virtuosos.
(Árabe**********)
E recorda-te de Noé, quando ele suplicou anteriormente, e Eu atendi à sua súplica. Em seguida, salvei-o, juntamente com a sua família, da grande aflição. E ajudei-o contra o povo que negava os Meus sinais. Na verdade, eram um povo perverso; por isso, afogámo-los a todos. (Surata Al-Anbiya: 76-77)
(Árabe**********)
E recorda-te de Davi e Salomão, quando julgavam a respeito de um campo de cultivo, no qual, durante a noite, as ovelhas de certas pessoas haviam entrado; e o julgamento deles foi submetido a Nós. Então, fizemos Salomão compreender aquela decisão e concedemos a ambos sabedoria e conhecimento. E submetemos as montanhas e as aves a Davi; elas glorificavam a Minha santidade e a Minha majestade. E fomos Nós que fizemos tudo isso. E ensinámo-lo a fabricar couraças para vós, a fim de que vos protegessem na guerra. Então, acaso sereis agradecidos? (Surata Al-Anbiya: 78-80)
(Árabe**********)
E submetemos a Salomão o vento impetuoso, que soprava, por sua ordem, em direção à terra na qual havíamos concedido bênçãos. E temos pleno conhecimento de todas as coisas. E submetemos a ele alguns dos demônios, que mergulhavam por ele e realizavam outras tarefas além dessa. E Nós os mantínhamos sob controle. (Surata Al-Anbiya: 81-82)
(Árabe**********)
E recorda-te de Jó, quando invocou o seu Senhor, dizendo: «A aflição atingiu-me, e Tu és o mais misericordioso dos misericordiosos». Então, atendemos à sua súplica e removemos dele a sua aflição. E restituímos-lhe a sua família e, juntamente com eles, concedemos-lhe outro tanto, como misericórdia da Nossa parte. Com efeito, isto é uma admoestação para os adoradores. (Surata Al-Anbiya: 83-84)
(Árabe**********)
E recorda-te de Ismael, Idris e Zul-Kifl; todos eles eram perseverantes. Nós os incluímos entre aqueles que receberam a Nossa misericórdia. Todos eram virtuosos. (Surata Al-Anbiya: 85-86)
(Árabe**********)
E recorda-te do homem do peixe, quando partiu irado, pensando que não poderíamos apoderar-nos dele. Então, nas trevas, clamou: “Não há divindade além de Ti; glorificado sejas! Na verdade, fui dos injustos.” Então, atendemos ao seu clamor e livramo-lo da aflição. Assim salvamos os crentes. (Surata Al-Anbiya: 87-88)
(Árabe**********)
E recorda-te de Zacarias, quando invocou o seu Senhor: “Ó meu Senhor! Não me deixes sozinho, pois Tu és o melhor dos herdeiros.” Então, atendemos à sua súplica, concedemos-lhe João e tornamos a sua esposa apta para a concepção. Eles se apressavam na prática das boas ações, invocavam-Nos com esperança e temor e eram humildes diante de Nós.
(Árabe**********)
E recorda-te daquela mulher — isto é, Maria — que preservou a sua castidade; então sopramos nela o Nosso espírito e fizemos dela e de seu filho um sinal para os crentes. (Surata Al-Anbiya: 91)
(Árabe**********)Todos eles creem na mesma religião, a vossa religião, e Eu sou o vosso Senhor; portanto, adorai-Me.
Este é o verdadeiro objetivo da narração das histórias do Alcorão. Quaisquer outros objetivos, além deste, não são principais, mas secundários.
3. Fé em Allah: O objetivo da narração das histórias no Alcorão não é apenas provar que todas as religiões vieram de um único Allah, sem parceiro, mas também provar que os fundamentos de todas essas religiões são um só. Ao reunir as histórias de todos os profetas, compreende-se que o primeiro convite deles foi o iman em Allah, ou seja, a fé em Allah. Assim, foi dito na Surata Al-A’raf:
(Árabe**********)
Certamente, enviámos Noé ao seu povo. Ele disse: Ó meu povo! Adorai Allah; não há outra divindade para vós além d’Ele. Temo para vós o castigo de um dia terrível. (Surata Al-A’raf: 59)
(Árabe********)
Enviámos Hud, seu irmão, ao povo de Aad. Ele disse: Ó meu povo! Adorai Allah; não há outra divindade para vós além d’Ele. Não temereis?
(Árabe**********)
Enviámos Saleh, seu irmão, ao povo de Samud. Ele disse: Ó meu povo! Adorai Allah; não há outra divindade (ilah) para vós além d’Ele. Chegou-vos uma prova clara da parte do vosso Rabb.
(Árabe***********)
Enviei aos habitantes de Madian seu irmão Shuayb, e ele disse: Ó meu povo! Adorai a Allah; não tendes outra divindade além d’Ele. (Surata Al-A‘raf: 85)
Não há dúvida de que o tawhid é o fundamento ou a base das crenças islâmicas. E todos os nobres profetas foram pregadores do tawhid. Como o objetivo de todos eles era o mesmo, também se observa harmonia em suas histórias.
4. Todos os profetas e mensageiros fizeram o convite pelo mesmo método: a discussão acima também permite compreender que o método de convite de cada profeta era único e idêntico. E o tratamento dado a cada profeta por seu povo também era quase o mesmo. Isso porque a religião de todos os profetas foi revelada pelo Deus Todo-Poderoso, e a base de todas as religiões também é uma só. É por isso que as histórias dos profetas aparecem reunidas na maioria dos lugares, e os relatos de suas atividades semelhantes são apresentados repetidamente. Por exemplo, é dito na Surata Hud:
(Árabe**********)
Certamente enviamos Noé ao seu povo. (Ele disse ao povo:) Certamente sou para vós um admoestador claro. Não adorareis ninguém além de Allah, pois temo por vós o castigo de um dia doloroso. Então os chefes incrédulos de seu povo e os notáveis da sociedade disseram: Não vemos em ti nada além de um homem como nós. E não vemos ninguém seguir-te, entre nós, além dos miseráveis e ignorantes. Além disso, não tendes nenhuma superioridade sobre nós; ao contrário, consideramos-te um mentiroso.
Noé (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe***********)
Ó meu povo! Não vos peço riqueza alguma. Só peço minha recompensa a Allah. (Surata Hud: 29)
O povo de Noé (que a paz esteja com ele) disse:
(Árabe***********)
Ó Noé! Tu discutes conosco e prolongas muito as disputas. Traz-nos, então, o castigo com que nos ameaças, se és veraz. (Surata Hud: 32)
(Árabe***********)
E enviamos ao povo de Ad o seu irmão Hud, que disse: “Ó meu povo! Adorai a Allah; não tendes outra divindade além d’Ele. Todos vós sois mentirosos. Ó meu povo! Não vos peço recompensa alguma; minha recompensa está somente junto d’Aquele que me criou. Ainda assim, por que não compreendeis? Ó meu povo! Pedi perdão ao vosso Senhor e voltai-vos para Ele. Ele enviará do céu chuva abundante para vós e aumentará continuamente a vossa força. Não sejais, porém, como os criminosos. Eles disseram: Ó Hud! Não nos trouxeste nenhuma prova; portanto, não abandonaremos os nossos deuses por causa das tuas palavras, nem acreditaremos em ti. Pelo contrário, pensamos que algum dos nossos deuses te atingiu com um mal. Hud disse: Tomo Allah por testemunha, e vós também testemunhai, que não tenho nenhuma relação com aqueles que associais a Ele. Conspirai todos juntos para me prejudicar e não me concedais nenhum prazo. (Hud: 50–55)
(Árabe***********)
E enviamos ao povo de Samud o seu irmão Salih. Ele disse: Ó meu povo! Adorai a Allah; não tendes outra divindade além d’Ele. Ele vos criou da terra e nela vos estabeleceu. Portanto, pedi-Lhe perdão e voltai-vos para Ele. Meu Senhor está próximo e certamente atende às súplicas. Eles disseram: Ó Salih! Antes disso, depositávamos grandes esperanças em ti. Proíbes-nos de adorar aquilo que os nossos antepassados adoravam? Contudo, temos uma dúvida profunda acerca daquilo para o que nos convocas, e nosso coração não se sente de modo algum convencido. (Surata Hud: 61–62)
5. O vínculo entre a religião de todos os profetas e mensageiros: Outro objetivo da narração das histórias no Alcorão é demonstrar que a religião do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e a religião de todos os profetas anteriores, incluindo o Profeta Abraão (que a paz esteja com ele), estão ligadas pelo mesmo elo. Em particular, busca-se provar que o vínculo religioso entre os Filhos de Israel e a comunidade de Muhammad é mais forte do que o vínculo com a religião dos demais profetas. Por isso, onde o Alcorão narra os acontecimentos relacionados ao Profeta Abraão (que a paz esteja com ele) e ao Profeta Jesus (que a paz esteja com ele), faz-se alusão a isso. Por exemplo:
(Árabe***********)Isto está escrito nos Livros anteriores, especialmente no Livro de Ibrahim e de Musa. (Surata Al-A‘la: 18-19)
(Árabe***********)
Não lhe foi informado o que está no Livro de Musa e no Livro de Ibrahim, que cumpriu sua responsabilidade? Está escrito no Livro que ninguém carregará o pecado de outra pessoa. (An-Najm: 36-38)
(Árabe***********)
Os mais próximos de Ibrahim entre as pessoas são aqueles que o seguiram, este Profeta e aqueles que creram neste Profeta. E Allah é o Protetor dos crentes. (Surata Al ‘Imran: 68)
(Árabe***********)Vosso pai na fé é Ibrahim. Ele vos chamou muçulmanos. (Surata Al-Hajj: 78)
(Árabe***********)
Depois deles, enviei ‘Isa, filho de Maryam. Ele confirmava a Torá anterior. E concedi-lhe o Injil. Nele há orientação e luz. Ele confirma a Torá, o Livro anterior, guia e é orientação e exortação para os tementes a Allah. Os seguidores do Injil devem julgar de acordo com o que Allah revelou nele. E aqueles que não julgam segundo o que Allah revelou são pecadores. E revelei-te o Livro da verdade, confirmando os Livros anteriormente revelados e preservando o seu conteúdo. (Surata Al-Ma’idah: 46-48)
6. O sucesso dos profetas e mensageiros e a destruição dos mentirosos: outro objetivo da narração das histórias no Alcorão é destacar o sucesso dos nobres profetas e a destruição dos mentirosos, para que isso seja motivo de consolo para o nobre Profeta (que a paz esteja com ele), bem como consolo e exemplo para aqueles que convidam as pessoas ao caminho da fé. Foi declarado:
(Árabe***********)
Eu te contei todos os relatos dos profetas e mensageiros, por meio dos quais fortaleci o teu coração. E assim chegaram a ti a verdade absoluta, uma exortação e um lembrete para os crentes. (Surata Hud: 120)
Onde quer que o Alcorão Sagrado mencione os profetas e o seu sucesso, logo em seguida também menciona o destino daqueles incrédulos e politeístas que desmentiam os profetas. Por exemplo:
(Árabe***********)
Enviámos Noé ao seu povo. Ele permaneceu entre eles durante novecentos e cinquenta anos. Então o Dilúvio veio e os destruiu, pois eram pecadores. Depois, salvámos Noé e os ocupantes da arca, e fizemos da arca um sinal para os mundos.
(Árabe***********)
E lembra-te de Abraão, quando disse ao seu povo: Adorai a Allah e temei-O. Isso é melhor para vós, se compreendeis. (Surata Al-Ankabut: 16)
(Árabe***********)
Enviei Lot. Quando ele disse ao seu povo: “Praticais uma obscenidade que ninguém antes de vós, em toda a Terra, jamais praticou? Praticais relações homossexuais, assaltos nas estradas e cometeis atos reprováveis em vossas reuniões?” Em resposta, o seu povo limitou-se a dizer: “Fazei vir sobre nós o castigo de Allah, se sois verídico.”….. Quando os anjos enviados chegaram a Lot, ele ficou angustiado por causa deles e sentiu o peito apertado. Eles disseram: “Não tenhais medo nem vos entristeçais; certamente vos salvaremos, a vós e à vossa família, exceto a vossa esposa, que estará entre os que serão destruídos. Faremos descer do céu um castigo sobre os habitantes desta cidade, por causa de sua perversidade. E deixei nela um sinal claro para as pessoas sensatas.”
(Árabe***********)
Enviei aos habitantes de Madian seu irmão Shuayb. Ele disse: “Ó meu povo! Adorai Allah, esperai o Último Dia e não causeis corrupção na Terra.” Porém, eles o desmentiram. Então foram atingidos por um terremoto e amanheceram prostrados em suas casas. (Al-Ankabut: 36–37)
(Árabe***********)
Destruí o povo de Aad e de Samud. Pelo simples fato de verdes suas moradas, já conheceis sua situação. Satanás tornou suas obras atraentes para eles e os impediu de seguir o caminho reto, embora fossem perspicazes. Destruí Qarun, Faraó e Hamã. Moisés foi até eles com sinais claros, mas entregaram-se à arrogância; por isso, não puderam prevalecer. Apanhei cada um deles por causa de seu pecado. Sobre alguns enviei um vento tempestuoso carregado de pedras; a outros atingiu o estrondo; a alguns fiz a terra engolir; e a outros fiz afogar-se. Allah não foi injusto com eles; foram eles mesmos que foram injustos consigo. (Surata Al-Ankabut: 38–40)
7. A confirmação da verdade das boas-novas e da advertência: outra razão para a narração dos acontecimentos no Alcorão é dar aos crentes as boas-novas do Paraíso e de suas bênçãos, comprovando a sua veracidade, e advertir os incrédulos acerca do Inferno e de seus sofrimentos, comprovando também a sua veracidade. Por exemplo—
Foi dito:
(Árabe***********)(Ó Profeta!) Informa aos Meus servos que sou extremamente perdoador e misericordioso. E Meu castigo é extremamente doloroso. (Surata Al-Hijr: 49-50)
Imediatamente após este versículo, é narrado o acontecimento relacionado à veracidade do perdão e do castigo:
(Árabe***********)
Apresenta-lhes a situação dos hóspedes de Abraão. Quando chegaram à sua casa e disseram: «Salam», ele disse: «Nós estamos apreensivos por vossa causa». Eles disseram: «Não tenhais medo. Nós vos anunciamos as boas-novas de um filho sábio». (Al-Hijr: 51-53)
Logo depois, manifesta-se o fluxo abundante da misericórdia de Allah:
(Árabe***********)
Então, quando os mensageiros chegaram à casa de Ló, ele disse: «Vós sois, na verdade, pessoas desconhecidas». Eles disseram: «Não; pelo contrário, trouxemos-vos aquilo sobre o qual eles discutiam. Trouxemos-vos a verdade e somos verazes. Portanto, parteis no fim da noite com toda a vossa família e não sigais atrás deles. E que nenhum de vós olhe para trás. Ide para onde vos foi ordenado ir». E informei Ló de que, ao amanhecer, eles seriam completamente destruídos. (Surata Al-Hijr: 61-66)
No versículo mencionado, discute-se a misericórdia concedida ao venerável Ló (A.S.) e a destruição do seu povo. Avançando um pouco mais, nesta mesma surata, é dito:
(Árabe***********)
Certamente, os habitantes de Hijr desmentiram os mensageiros. Dei-lhes os Meus sinais, mas eles se afastaram deles. Eles escavavam casas nas montanhas, sentindo-se seguros. Então, certa manhã, um estrondo os atingiu, e de nada lhes valeu o que haviam adquirido. (Surata Al-Hijr: 80–84)
Nesses versículos, é exposto o castigo doloroso infligido aos mentirosos. Também é demonstrado que a promessa de Allah é verdadeira e eficaz. E esses acontecimentos foram apresentados exatamente como ocorreram.
8. Descrição das dádivas concedidas aos profetas e mensageiros: O Alcorão também apresenta narrativas para descrever as bênçãos e dádivas concedidas aos profetas e mensageiros. Por exemplo, as histórias de Davi (que a paz esteja com ele), Salomão (que a paz esteja com ele), Jó (que a paz esteja com ele), Abraão (que a paz esteja com ele), Maria e Jesus (que a paz esteja com ele). Todas essas narrativas são discutidas em diferentes passagens do Alcorão. O objetivo principal é descrever as dádivas e bênçãos; juntamente com isso, naturalmente, também são mencionadas, de forma pertinente, algumas de suas ações.
9. Advertir os filhos de Adão sobre a inimizade de Satanás: Outro objetivo das narrativas apresentadas no Nobre Alcorão é esclarecer que Satanás é inimigo de todas as pessoas que vieram e que virão ao mundo, desde Adão (que a paz esteja com ele) até o Dia da Ressurreição. A cada momento e a cada passo, Satanás empenha-se em desviar o ser humano. Ele jamais deseja o bem das pessoas. Como prova evidente disso, ao narrar a história de Adão (que a paz esteja com ele), o Alcorão menciona, em várias passagens, as más ações de Satanás.
10. Algumas outras razões: Além das razões mencionadas acima, o Alcorão narra diversos acontecimentos e histórias por algumas das seguintes razões:
[10.1] Manifestação do poder de Allah — como a descrição do nascimento de Adão e Jesus (que a paz esteja com ele), o acontecimento de Abraão (que a paz esteja com ele) e as aves, e a história daquele homem [Uzair (que a paz esteja com ele)] que foi ressuscitado cem anos depois de ter morrido. E outros acontecimentos semelhantes.
[10.2] Descrição das consequências das boas e benéficas ações e das ações más e prejudiciais, como a história dos dois filhos de Adão (que a paz esteja com ele), a história dos dois donos de jardins, a história dos Filhos de Israel, a história dos Companheiros da Fossa e outras.
[01.3] É da natureza humana apressar-se e esforçar-se para obter as coisas rapidamente. Por isso, a pessoa se empenha naquilo que pode obter imediatamente ou cuja realidade é evidente. Contudo, Deus ensinou-lhes a importância de esperar e ter paciência em busca do verdadeiro bem. Por isso, o Alcorão também narra diversas histórias sobre as consequências da pressa humana e da serenidade de Deus. Um exemplo é o episódio de Hazrat Moisés (A.S.) e de um servo de Deus, Khaja Khidr, sobre o qual trataremos adiante. Sobre esse tipo de conteúdo, o Alcorão narrou muitos acontecimentos, levando assim seu propósito à plena realização.
Nono capítulo
Prova de que os relatos do Alcorão seguem os propósitos religiosos
1. Já dissemos anteriormente que todos os acontecimentos narrados no Alcorão complementam seus propósitos e objetivos religiosos. As próprias histórias também contêm provas de que esses acontecimentos estão subordinados à religião. A seguir, quero discutir algumas das provas mais significativas. A primeira prova de que esses acontecimentos complementam os propósitos religiosos é a repetição do mesmo acontecimento em vários lugares, de forma detalhada ou resumida.
Mas o que merece reflexão é que, nesses casos, o acontecimento inteiro não foi narrado; foram narradas apenas partes específicas dele. Em particular, foram mencionadas as partes que contêm exortação e ensinamento. Raramente o acontecimento completo foi narrado de uma só vez, juntamente com a exortação e o ensinamento. Quando isso ocorreu, foi por uma razão especial, levando em consideração a sequência e a utilidade. Naturalmente, durante a exposição dos acontecimentos, já dei indicações a esse respeito.
Quando o leitor lê as partes repetidas do acontecimento e observa o que vem antes e depois, percebe que o acontecimento inteiro é coerente. Ele entende que a parte escolhida em cada lugar e o modo como foi narrada são apropriados. Não se esquece de que o Alcorão é, essencialmente, um Livro de pregação. Por isso, a parte do acontecimento narrada em cada lugar foi apresentada em plena harmonia com o tema da pregação. E a coerência dos acontecimentos também é um dos objetivos do Alcorão. Isso ocorre sempre. Contudo, não se vê que a perspectiva artística do acontecimento seja afetada por isso.
Também existe um princípio organizado para a apresentação repetida das diferentes partes de um mesmo acontecimento. Isso se torna claro quando se estudam em conjunto as suratas e as partes dos acontecimentos, seguindo a ordem em que as suratas do Alcorão foram reveladas. Na maioria dos casos, o início foi feito por meio de uma breve indicação. Depois, gradualmente, o relato foi conduzido em direção à sua plenitude. Quando o leitor chega ao ponto em que a narrativa é concluída, o quadro completo surge diante dele.
Podemos citar, por exemplo, o episódio de Hazrat Moisés (A.S.). Entre os acontecimentos repetidamente narrados no Alcorão, este foi apresentado muitas vezes; seu número deve chegar a cerca de trinta. Discutiremos alguns dos lugares mais importantes e também identificaremos aqueles em que apenas se faz referência ao episódio de Moisés (A.S.), sem que se apresente qualquer descrição detalhada. Trataremos dele seguindo a ordem de revelação das suratas.
[1.1] A surata Al-A‘la ocupa a 8.ª posição na ordem da revelação. Nela, é feita uma breve alusão ao episódio de Moisés (que a paz esteja com ele). É dito:(Árabe***********)]
Isto está escrito nos livros anteriores, nos livros de Abraão e de Moisés.
Uma alusão conjunta semelhante também foi feita na surata An-Najm, que ocupa a 23.ª posição na ordem da revelação.
[1.2] A surata Al-Fajr é a 10.ª surata na ordem da revelação. Nela, é mencionado o Faraó, mas não Moisés (que a paz esteja com ele). Naturalmente, também são mencionados os povos de ‘Ad e de Samud. É dito:
(Árabe***********)
e com o Faraó, senhor de numerosas estacas. Aqueles que transgrediram no país e nele espalharam uma corrupção terrível; então, o teu Senhor os castigou com o açoite do castigo.
Uma descrição alusiva desse tipo também foi feita na surata Al-Buruj, que ocupa a 27.ª posição na ordem da revelação.
[1.3] A surata Al-A‘raf ocupa a 39.ª posição na ordem da revelação. Nessa surata, são discutidos vários profetas e mensageiros; entre eles, o episódio de Moisés (que a paz esteja com ele) também é narrado com razoável detalhe. São mencionados aqueles profetas que enfrentaram obstáculos ao apresentar o convite ao Islã aos seus povos; todos eles foram chamados de mentirosos pelos seus próprios povos e, como consequência, foram destruídos pelo castigo de Allah.
Na surata Al-A‘raf, o relato começa com o envio de Moisés e Aarão (A.S.) ao Faraó como profetas. Em seguida, fala-se dos milagres do cajado e da mão que se tornava luminosa. Depois, é descrita a reunião dos magos e a demonstração de magia contra Moisés (A.S.). Moisés (A.S.) saiu vitorioso diante deles, os magos abraçaram a fé e, depois, é descrita a perseguição do Faraó contra os Filhos de Israel. Em seguida, fala-se das diversas calamidades com que o Faraó e seu povo foram provados. Entre elas estavam gafanhotos, piolhos, rãs, sangue e outras. A cada vez, obtinham livramento fazendo Moisés (A.S.) suplicar a Deus. Depois, a perseguição aos Filhos de Israel foi retomada, seguida da saída dos Filhos de Israel do Egito sob a liderança de Moisés (A.S.). Então disseram a Moisés (A.S.): “Assim como os egípcios têm muitos deuses, nós também deveríamos ter os nossos.” Depois, Moisés (A.S.) foi ao monte Tur; após trinta noites, encontrou-se com Allah, o Altíssimo, que estendeu o prazo para quarenta noites. Passadas as quarenta noites, Moisés (A.S.) pediu para contemplar Allah; a montanha foi reduzida a fragmentos, Moisés (A.S.) desmaiou e, depois, recuperou a consciência. Ao retornar ao seu povo, viu que eles haviam fabricado um bezerro e o adoravam. Repreendeu seu irmão e, mais uma vez, setenta homens foram postos à prova para contemplar Allah. Quando insistiram em ver Allah na região do monte Tur, o monte Tur foi erguido sobre eles. Depois, foram agraciados com a misericórdia de Allah e lhes foi dito que somente aqueles que obedecem ao profeta receberão a misericórdia de Allah.
[1.4] Em seguida, na ordem da revelação, alguns acontecimentos em comum são narrados na 42.ª surata, a surata Al-Furqan, e na 44.ª surata, a surata Maryam. Esses acontecimentos tratam da missão profética dos profetas e do destino daqueles que os chamaram de mentirosos.
[1.5] Na sequência da revelação, também há um relato relativamente detalhado na 45.ª surata, a surata Ta-Ha. Na surata Al-A‘raf, o relato de Moisés (A.S.) começava com a menção à profecia e à missão profética. Ou seja, aquele relato começava com acontecimentos posteriores à profecia, enquanto, na surata Ta-Ha, começa com acontecimentos anteriores à profecia: a manifestação de uma luz na encosta do monte Tur. Foi dito:
(Árabe***********)
“Chegou-te o relato de Moisés? Quando viu um fogo, disse à sua família: ‘Permanecei aqui; vi um fogo e talvez vos traga dele uma brasa ou encontre, junto ao fogo, orientação para o caminho.’ Quando chegou até ele, uma voz o chamou: ‘Ó Moisés! Sou, na verdade, o teu Senhor. Portanto, tira as tuas sandálias, pois estás no vale sagrado de Tuwa. Eu te escolhi; portanto, escuta o que te é revelado.’ (Surata Ta-Ha: 9–13)
Quando Moisés (A.S.) recebeu a ordem de convidar o Faraó à fé, suplicou a Allah: “Faze de meu irmão Aarão meu auxiliar, para que ele seja para mim uma fonte de coragem e força.” Allah recorda a Moisés (A.S.) as bênçãos que lhe concedeu e a misericórdia que lhe ofereceu: o acontecimento de sua infância e o fato de tê-lo devolvido à sua mãe. Os acontecimentos seguintes são narrados de modo semelhante ao da surata Al-A‘raf. Contudo, foram omitidos os castigos dos gafanhotos, piolhos, rãs e sangue. Do mesmo modo, não foi narrado o compromisso dado pelo Faraó aos Filhos de Israel nem a sua violação. Entretanto, na surata Ta-Ha, é apresentado outro acontecimento: o relato detalhado do bezerro que um homem chamado Samiri fabricou.
[1.6] A surata Ash-Shu‘ara é a 46.ª surata na ordem da revelação. Nessa surata também é narrada a missão profética de Moisés (A.S.). Em seguida, é relatada a saída dos Filhos de Israel do Egito. Contudo, nessa surata são apresentadas duas novidades.
Primeiro: Moisés (A.S.) matou um copta. Depois, deixou o Egito por medo de ser capturado. Quando foi novamente enviado ao Faraó, este recordou a Moisés (A.S.) que o havia criado durante a infância e que ele havia matado o copta.
Dois: é apresentada a divisão do mar em duas partes, com a formação de um caminho em seu leito, bem como os temas do debate entre Moisés (que a paz esteja com ele) e o Faraó. A descrição, por Moisés (que a paz esteja com ele), dos atributos de Allah e o diálogo que ocorreu com os magos são apresentados sob uma nova perspectiva.
[1.7] A 48.ª surata na ordem da revelação é a Surata An-Naml. Nela são narrados alguns acontecimentos sobre a acusação dos profetas e mensageiros de serem mentirosos e o destino daqueles que os acusaram.
[1.8] A Surata Al-Qasas é a 49.ª surata na ordem da revelação. Aqui, o relato começa com o nascimento de Moisés (que a paz esteja com ele): seu nascimento durante o domínio tirânico do Faraó; o recém-nascido sendo colocado numa arca e lançado ao rio; a arca sendo resgatada por alguém próximo do Faraó; a irmã de Moisés (que a paz esteja com ele) procurando informações; e, depois, ela indicando ao Faraó uma ama, graças à qual Moisés (que a paz esteja com ele) teve a oportunidade de ser criado por sua própria mãe.
Quando chegou à idade adulta, Moisés (que a paz esteja com ele) matou certo egípcio. Ao tentar matar outro, foi ameaçado, quando lhe recordaram o assassinato anterior. Então, um homem veio correndo informar-lhe que a notícia de seu homicídio estava se espalhando pela cidade. Ele partiu do Egito em direção a Madian. Lá, conheceu as filhas de Shuʿayb (que a paz esteja com ele) e deu água aos seus rebanhos. Elas voltaram para casa e contaram o ocorrido ao pai. Moisés (que a paz esteja com ele) trabalhou para Shuʿayb (que a paz esteja com ele) durante um período determinado. Sob essa condição, casou-se com a filha dele e retornou à sua terra com a família. No caminho, saiu em busca de fogo e, nessa ocasião, recebeu a profecia (isso é mencionado na Surata Taha).
Naturalmente, a Surata Al-Qasas menciona um novo aspecto: a reação irônica e zombeteira do Faraó depois que foi convidado à fé:
(Árabe***********)
O Faraó disse: “Ó Hamã! Coze tijolos e depois constrói para mim um palácio, para que eu possa subir e observar o deus de Moisés.” (Surata Al-Qasas: 38)
[1.9] A Surata Al-Isra (Bani Isra’il) é a quinquagésima na ordem da revelação. Nela há uma breve alusão ao afogamento do Faraó e à travessia do mar pelos Filhos de Israel.
[1.10] Surata Yunus, a quinquagésima primeira na ordem da revelação. Aqui é apresentado o destino daqueles que declararam falsos os profetas e mensageiros. Entre esses relatos, o episódio de Hazrat Moisés (que a paz esteja com ele) também é narrado brevemente. Ali há uma breve descrição dos feiticeiros, da travessia do mar pelos filhos de Israel e do afogamento do Faraó. Em seguida, foi acrescentada a seguinte afirmação, que não é mencionada em nenhum outro lugar.
(Árabe***********)
Quando começou a afundar, ele disse: “Agora creio que não há divindade além d’Aquele em quem os filhos de Israel creem. Na verdade, também faço parte dos que se submetem a Ele.” “Só agora dizes isso, embora antes tivesses sido desobediente e estivesses entre os desviados? Portanto, hoje preservarei teu corpo, para que ele possa ser um sinal para os que vierem depois de ti.” (Surata Yunus: 90–92)
[1.11] Surata Hud, a quinquagésima segunda na ordem da revelação. Ao narrar nesta surata a destruição dos mentirosos, em determinado momento também é relatado o episódio de Moisés (que a paz esteja com ele).
[1.12] Surata Al-Mu’min, a sexagésima na ordem da revelação. Nesta surata também é mencionado o diálogo entre Hazrat Moisés (que a paz esteja com ele) e o Faraó. Contudo, a afirmação abaixo foi acrescentada; ela não é mencionada em nenhum outro lugar.
(Árabe***********)
(Em certo momento do debate) o Faraó disse: “Deixai-me; matarei Moisés, e que ele invoque o seu Senhor.” (Surata Al-Mu’min: 26)
Em seguida, é mencionado um dos conselheiros do Faraó que havia realmente acreditado, mas mantinha sua fé em segredo. Ele disse ao povo: “Não mateis Moisés; talvez o caminho dele seja o correto.” Esta afirmação também é narrada somente nesta surata.
[1.13] Na Surata Fussilat (Surata Ha-Mim as-Sajda), de ordem de revelação sessenta e um, foi feita uma breve menção ao episódio de Moisés (a.s.). Do mesmo modo, na Surata az-Zukhruf (de ordem de revelação sessenta e três), esse episódio também foi abordado brevemente. Contudo, ali foram acrescentadas algumas declarações que não foram mencionadas em nenhum outro lugar, exceto na Surata az-Zukhruf. Faraó disse:
(Árabe*********)
“Não sou eu o soberano do Egito? Estes rios correm abaixo de mim; não vedes? Sou superior a este homem, que é insignificante e mal consegue expressar-se com clareza.” (Surata az-Zukhruf: 51–52)
[1.14] Na Surata adh-Dhariyat (de ordem de revelação sessenta e sete), é feita uma breve menção ao envio de Moisés (a.s.) como mensageiro ao Faraó, à rejeição de sua mensagem pelo Faraó e à destruição deste.
[1.15] Na Surata al-Kahf (de ordem de revelação sessenta e nove), é narrado que Moisés (a.s.) encontrou e acompanhou um homem a quem Allah havia concedido um conhecimento especial. Moisés (a.s.) pediu-lhe que lhe permitisse acompanhá-lo, para que pudesse beneficiar-se um pouco de sua companhia. Ele respondeu: “Você não será capaz de demonstrar paciência.” Moisés (a.s.) prometeu ter paciência e perseverança e passou a acompanhá-lo, mas não conseguiu permanecer com ele por muito tempo, mantendo a paciência. Isso porque viu acontecerem certos eventos cujo verdadeiro significado não conseguiu compreender. Assim, a separação entre os dois tornou-se inevitável. No Alcorão, esse episódio foi narrado somente uma vez.
[1.16] Nas duas suratas chamadas Ibrahim (de ordem de revelação setenta e dois) e al-Anbiya (de ordem de revelação setenta e três), esse episódio é mencionado apenas em dois lugares. Na segunda surata, a parte importante da alusão é que a Torá é chamada de “Furqan” (o que distingue a verdade da falsidade).
[1.17] Na Surata al-Baqarah (de ordem de revelação oitenta e sete), é apresentada uma discussão sobre as bênçãos de Allah concedidas aos Filhos de Israel e sobre sua demonstração de ingratidão para com Ele. Ali, o relato é apresentado com considerável detalhe. Nessa surata, o episódio de Moisés (a.s.) é mencionado várias vezes. Em certo momento, também é mencionado que lhes foram concedidos o maná e as codornizes, enquanto os Filhos de Israel pediram outros alimentos em troca deles. Em outro trecho, é narrado o episódio do sacrifício da vaca. A ordem era simples: sacrificar uma vaca; porém, eles a complicaram por meio de várias perguntas. A esse respeito, foi dito:
(Árabe**********)“Então, sacrificaram-na, embora quase não parecessem dispostos a fazê-lo.” (Surata al-Baqarah: 71)
O episódio do sacrifício da vaca é completamente novo nesta surata; não foi narrado anteriormente em nenhuma surata.
[1.18] Na surata An-Nisā’ (ordem de revelação: noventa e dois), foi dito que os Filhos de Israel insistiram em ver Allah sem qualquer véu.
[1.19] Na surata Al-Mā’idah (ordem de revelação: cem), ao narrar o episódio dos Filhos de Israel, foi dito:
(Árabe**********)
Eles disseram: Ó Moisés! Lá há um povo poderoso e formidável. Jamais entraremos lá enquanto eles não saírem de lá. Se eles saírem de lá, então certamente entraremos. (Surata Al-Mā’idah: 22)
Mais adiante, foi dito:
(Árabe**********)
Eles disseram: Ó Moisés! Jamais entraremos lá enquanto eles permanecerem lá. Portanto, vai tu e teu Senhor para lá e combatei. Nós permaneceremos sentados aqui. Moisés disse: Ó meu Senhor! Só tenho autoridade sobre mim e sobre meu irmão. Então Allah disse: Esta terra lhes será proibida por quarenta anos. Eles vagarão pela terra como errantes. Portanto, não te entristeças pelo povo desobediente.
Depois, foram deixados numa região desértica, onde estabeleceram seu assentamento. Depois disso, nada mais foi dito sobre Moisés (A.S.) e os Filhos de Israel. Contudo, foi mencionado que os Filhos de Israel mantinham inimizade para com Jesus (A.S.).
O único acontecimento narrado com maior frequência no Alcorão é o de Moisés (A.S.). A partir da discussão acima, pudemos compreender como se dá a repetição. Com exceção de seis passagens, o acontecimento é narrado em todos os demais lugares de forma muito resumida ou apenas por alusão. No entanto, onde o mesmo acontecimento é repetido, algum novo ensinamento é certamente apresentado. Agora, se algum leitor não encontrar a novidade do acontecimento ao ler o Alcorão, que culpa há nisso do Alcorão?
2. Outra prova de que os acontecimentos narrados no Alcorão seguem objetivos religiosos é que, em cada lugar, a parte do acontecimento narrada — sem repetição — é exatamente suficiente para cumprir o objetivo. Somente a parte compatível com o tema é narrada. Às vezes, por exemplo, discute-se a primeira parte do acontecimento; em outros lugares, sua parte final; e, em outras ocasiões, apenas a parte relacionada ao ensinamento e à exortação. Isso ocorre porque o objetivo do Alcorão não é narrar a história, mas oferecer ensinamentos à luz dela. Alguns exemplos são apresentados a seguir:
[2.1] Muitas vezes, ao narrar um acontecimento, observa-se que é apresentada a história do nascimento do protagonista. Isso ocorre porque essa história contém muitos acontecimentos instrutivos. Por exemplo, a história do nascimento de Adão (A.S.). No acontecimento do nascimento de Adão (A.S.), manifestaram-se plenamente o poder, a misericórdia e a graça de Allah. Ao mesmo tempo, o acontecimento de Iblis que é narrado também encerra um objetivo religioso.
Da mesma forma, pode-se mencionar a história do nascimento de Jesus (A.S.). Esse acontecimento é narrado detalhadamente no Alcorão, porque a história do nascimento de Jesus (A.S.) é um acontecimento excepcional, um grande milagre. Seu nascimento ocorreu de uma maneira contrária a toda lógica e argumentação. Todos os detalhes relacionados a Jesus (A.S.), tanto antes quanto depois do surgimento do Islã, foram apresentados. Também é digno de nota o acontecimento de Maria (A.S.). Ela havia sido consagrada em nome de Allah. Maria (A.S.) foi criada sob os cuidados de Zacarias (A.S.) e, ainda na infância, recebia de Allah a melhor provisão. Certa vez, ele viu muitas frutas e alimentos junto de Maria (A.S.). Assim foi declarado:
(Árabe**********)
Sempre que Zacarias entrava no mihrab, encontrava ali provisões. Certo dia, perguntou: “Ó Maria! De onde obtiveste isso?” Ela respondeu: “Isso vem de Allah.” (Surata آل عمران: 37)
Todo esse acontecimento foi apresentado. Até mesmo a história do nascimento de Jesus (A.S.) foi mencionada. Aqui é narrada uma parte importante da vida de Jesus (A.S.). Da mesma forma, a história do nascimento de Moisés (A.S.) também é apresentada no Alcorão. Há vários aspectos e razões para isso:
a. Hazrat Moisés (A.S.) nasceu numa época em que o Faraó fazia passar o rolo compressor da opressão sobre os Banu Israel.
b. O Faraó não deixava vivo nenhum filho homem dos Banu Israel.
c. Allah Ta‘ala salvou Moisés (A.S.) milagrosamente e providenciou que ele fosse criado na casa do Faraó.
Com base nas informações acima, compreende-se que o relato do nascimento de Moisés (A.S.) merece grande importância. Allah mostrou que aquele que foi criado para a profecia foi conduzido até esse objetivo. Ninguém pôde causar-lhe dano. Além do relato de seu nascimento, também foram mencionados outros acontecimentos importantes de sua vida. Do mesmo modo, o relato do nascimento de Hazrat Ismael (A.S.) e de Hazrat Isaque (A.S.) também foi narrado no Alcorão, pois há exortação e ensinamento ligados ao nascimento deles. Hazrat Ismael (A.S.) nasceu quando Hazrat Abraão (A.S.) já havia envelhecido, e foi com a sua ajuda que ele construiu a Casa da Caaba. Quando a velhice se manifestava em toda a sua intensidade, nasceu Hazrat Isaque (A.S.). Da mesma forma, Hazrat Yahya (A.S.) também nasceu na velhice de Hazrat Zakariya (A.S.). Naquela época, seus cabelos já haviam ficado brancos.
[2.2] No Alcorão também encontramos alguns relatos em que é descrita a situação posterior ao nascimento. O relato do nascimento não é mencionado. É o caso de Hazrat Yusuf (A.S.), cuja história começa com acontecimentos de sua infância. Na infância, ele teve um sonho que era um reflexo do restante de sua vida. Viu em sonho onze estrelas, a Lua e o Sol. Seu sábio pai compreendeu o significado daquele sonho e passou a cuidar dele com ainda mais atenção do que antes. Seus irmãos começaram a arder e definhar no fogo da inveja. Depois, os acontecimentos seguiram seu curso natural.
A história de Hazrat Abraão (A.S.) também começa na infância.
Certo dia, na infância, ele olhou para o céu, viu uma estrela e pensou que talvez ela fosse o seu Senhor. Quando ela se pôs, disse: “Não gosto daquilo que se põe.” A Lua surgiu, e ele pensou que, por ser muito maior, ela certamente era o seu Senhor. Quando, ao fim da noite, a Lua se pôs e o Sol nasceu, iluminando toda a Terra, ele disse: “Sendo este o maior e mais brilhante, certamente ele é uma divindade.” Porém, quando o Sol se pôs ao final do dia, ele se voltou para o verdadeiro Allah, que não pode ser visto, mas apenas sentido. Depois, convocou seu povo e seu pai para essa Divindade, mas eles rejeitaram o seu chamado.
Certo dia, aproveitando-se da distração deles, Hazrat Abraão (A.S.) destruiu os ídolos que eles adoravam. As pessoas disseram: “Ninguém fez isso, exceto um jovem chamado Abraão.” Então decidiram queimá-lo no fogo. Mas Allah o salvou. Foi declarado:
(Árabe**********)
Eu ordenei: “Ó fogo, torna-te frio, de modo que o frescor seja apropriado para Ibrahim.” (Surata Al-Anbiya: 69)
A narrativa de Hadrat Davi (a paz esteja com ele) também começa em sua infância. Ele se tornou famoso por matar um rei tirano chamado Jalute, o que foi inteiramente obra do poder de Allah. Pronto! Foi assim que começou a narrativa de Hadrat Davi (a paz esteja com ele). A narrativa de Hadrat Salomão (a paz esteja com ele) começa em sua juventude, quando ele apresentou uma nova decisão em oposição a uma decisão de seu pai, Davi (a paz esteja com ele). Foi dito:
(Árabe**********)
Quando algumas nuvens entraram nele, seu julgamento estava diante de Mim. (Surata Al-Anbiya: 78)
[2.3] No Alcorão Sagrado, são narradas algumas histórias nas quais somente o episódio final foi mencionado. Entre elas estão as histórias de Hadrat Noé (a paz esteja com ele), Hadrat Hud (a paz esteja com ele), Hadrat Saleh (a paz esteja com ele), Hadrat Lot (a paz esteja com ele), Hadrat Shuayb (a paz esteja com ele) e outros nobres profetas. A respeito deles, não foi apresentada nenhuma discussão adicional além da parte mencionada. Isso porque somente essa parte de suas histórias é importante, e nela estão contidas as lições e exortações.
Síntese e extensão das histórias
Até agora, nossa discussão esteve limitada à questão de onde essas histórias começam. Agora discutiremos que, no Alcorão, muitas histórias são longas e detalhadas, enquanto outras são breves; contudo, até que ponto seus aspectos instrutivos são abrangentes. A seguir, apresentamos alguns exemplos.
1. A história de Hazrat Musa (A.S.) era muito importante. Por isso, foi narrada no Alcorão do início ao fim. A história começa com o relato do nascimento de Musa (A.S.) e termina com a sua chegada às proximidades da Terra Sagrada e o estabelecimento permanente ali. Nesse lugar, seu povo recebeu a ordem de permanecer durante quarenta anos, como consequência das transgressões dos Filhos de Israel. Essa história foi narrada em detalhes porque cada uma de suas partes manifesta ensinamentos e exortações religiosas. Além disso, ela está plenamente de acordo com o chamado corânico e com seus objetivos e propósitos.
A história de Isa (A.S.) também é detalhada, embora algumas partes intermediárias tenham sido resumidas. Seu nascimento e seus milagres são relatados em detalhes, assim como a ajuda prestada pelos discípulos, a tentativa dos judeus de acusá-lo de mentiroso e crucificá-lo, e, depois, sua elevação aos céus por ordem de Allah. O Alcorão também narra as disputas e a fragmentação dos Filhos de Israel após sua elevação. Também é dito no Alcorão que, no Dia da Ressurreição, Isa (A.S.) será questionado sobre por que ele e Maryam foram colocados como iguais a Allah. Hazrat Isa (A.S.) responderá:
Eu apenas os convidei ao tawhid puro. Então, entregando toda a nação às mãos de Allah, dirá: Se quiseres, perdoa-os; ou, se quiseres, castiga-os.
A história de Hazrat Yusuf (A.S.) foi narrada de forma contínua e ordenada. A conspiração de seus irmãos, sua venda como escravo no Egito, sua entrega ao governador do Egito, Aziz, a tentativa de sedução por parte da esposa deste, o sofrimento insuportável na prisão, a interpretação dos sonhos de dois prisioneiros, a interpretação do sonho do rei e sua libertação da prisão, a administração do ministério de alimentos do Egito, a chegada de seus irmãos ao Egito, o encontro de Hazrat Yusuf (A.S.) com Binyamin, a detenção de Binyamin e a convocação de seus pais ao Egito, e, por fim, a decisão de viver no Egito com toda a família encerram a história. Há dois objetivos por trás da narração dessa história: primeiro, o reconhecimento da revelação e da missão profética; segundo, importantes ensinamentos religiosos.
A história de Hazrat Ibrahim (A.S.) começa com o relato de sua aceitação da fé durante a infância. Depois, são narrados seu debate com o pai e seu povo, a destruição dos ídolos, a emigração, o nascimento de Ismail e Ishaq, a ordem recebida em sonho para sacrificar o filho, a construção da Caaba e o anúncio da instituição do Hajj, seu pedido a Allah para testemunhar o acontecimento da vivificação dos mortos a fim de tranquilizar o coração, e a vivificação das quatro aves depois de ele, por ordem de Allah, abatê-las, misturar suas carnes e deixá-las separadas.
A história de Hazrat Sulaiman (A.S.) também foi narrada detalhadamente no Alcorão. São relatados o julgamento relacionado ao campo, a administração do reino, a provação por meio de excelentes cavalos, a submissão dos gênios e do vento ao seu domínio, os acontecimentos relacionados à poupa, às formigas e à rainha Bilqis e, por fim, o encerramento da história com o relato de que, após sua morte, ele permaneceu de pé apoiado em seu cajado, enquanto os gênios não tinham conhecimento disso. Toda a história está repleta de importantes ensinamentos e exortações.
2. Algumas histórias do Alcorão estão relacionadas às atividades de uma determinada fase da vida. É o caso da história de Hazrat Nuh (A.S.), que se limita ao relato de sua profecia e missão. São narrados o convite à religião, a rejeição por parte de seu povo, a construção da arca, o dilúvio e o afogamento do filho de Nuh (A.S.) — nem mesmo o filho de um profeta foi salvo do castigo de Allah sem obras virtuosas. Da mesma forma, são relatados a criação de Hazrat Adam (A.S.), seu envio do Paraíso à Terra, a aceitação de seu arrependimento e outros acontecimentos. Também é relatado o nascimento de Maryam (A.S.) e Isa (A.S.). Contudo, esses acontecimentos não são tão detalhados quanto os anteriormente mencionados. Ainda assim, podem ser considerados relatos detalhados. A história de Hazrat Dawud (A.S.) também é relativamente significativa, embora não seja tão detalhada quanto a de Hazrat Sulaiman (A.S.). Mesmo assim, a história de Hazrat Dawud (A.S.) foi narrada em várias partes.
3. Algumas histórias do Alcorão foram narradas de forma resumida, como as histórias de Hazrat Hud (A.S.), Hazrat Salih (A.S.), Hazrat Lut (A.S.), Hazrat Shu‘ayb (A.S.) e de outros profetas. Foram resumidos apenas os acontecimentos relacionados à missão e à profecia. O nascimento de Hazrat Ismail (A.S.), seu sacrifício e a construção da Caaba por pai e filho são mencionados brevemente. Alguns relatos sobre Hazrat Yaqub (A.S.) aparecem na história de Hazrat Yusuf (A.S.). Em outra passagem, é narrado o episódio do testamento de Hazrat Yaqub (A.S.) em seus últimos momentos. Esta parte é importante porque nela é mencionado o tawhid, que ele deixou como testamento em seus últimos momentos.
4. Algumas histórias foram narradas de forma extremamente resumida. Por exemplo, a história de Hazrat Zacarias (a.s.) limita-se ao nascimento de Yahya (a.s.) e ao episódio da tutela de Maryam (a.s.). A história de Hazrat Ayyub (a.s.) foi narrada apenas no que diz respeito ao seu adoecimento, à sua súplica perante Allah e à sua libertação. A história de Hazrat Yunus (a.s.) limita-se ao episódio que vai desde o momento em que, após convocar seu povo, tentou emigrar por ter sido rejeitado por ele, passando por ter sido engolido pelo peixe e libertado do seu ventre numa terra desolada, até a aceitação do Islã por seu povo.
5. Em alguns casos, considerou-se suficiente apenas fazer uma alusão, sem narrar os acontecimentos em detalhe. Por exemplo, Hazrat Idris (a.s.), Hazrat Al-Yasa’, Zul-Kifl e outros. Apenas se indicou que eles estavam entre os profetas. Nada além disso.
6. Foram narradas algumas histórias relacionadas separadamente a outros acontecimentos. Por exemplo, os Companheiros da Trincheira, os Companheiros da Caverna, a história dos dois filhos de Adão (a.s.), a história dos dois proprietários de jardins, a história dos proprietários dos jardins e outras. Algumas dessas histórias já foram discutidas anteriormente, e outras ainda serão discutidas adiante. Agora, queremos encerrar o assunto neste ponto. Nosso objetivo era apenas afirmar que o Alcorão discute, em cada história, somente a parte relacionada ao propósito religioso. Esse nosso objetivo foi alcançado.
Descrição da conclusão e do desfecho
Outra prova de que as histórias narradas pelo Alcorão seguem objetivos religiosos é que, juntamente com a narrativa dos acontecimentos, foram apresentadas algumas orientações religiosas e também o desfecho da história. Isso foi narrado às vezes no início da história, às vezes no final e, em outras ocasiões, junto com a própria narrativa principal.
Primeiro foi mencionado um acontecimento instrutivo e, depois, iniciou-se a narrativa. Já discutimos anteriormente dois exemplos desse tipo. Naturalmente, há dois aspectos nisso:
1. Apresentar, ao narrar o acontecimento, provas da revelação e da missão profética. Isto é, declarou-se que esse acontecimento foi recebido por meio da revelação. Por exemplo, os acontecimentos referentes a Hazrat Yusuf (a.s.) e Hazrat Adão (a.s.). Onde quer que tenham sido narrados, primeiro foi afirmada a revelação.
2. Primeiro foi feita uma alusão ao acontecimento; depois, sua narrativa foi apresentada para provar a sua veracidade. Por exemplo:
(Árabe**********)
Informa aos Meus servos que sou extremamente Indulgente e Misericordioso. E que Meu castigo é extremamente doloroso. (Surata Al-Hijr: 49–50)
Neste versículo, depois de mencionar a misericórdia e o castigo, narra-se toda a história como prova da misericórdia e do castigo.
Também mencionamos duas histórias nas quais o propósito foi exposto após a narração dos acontecimentos. Isso tem duas razões:
1. Provar que todos os acontecimentos foram informados por meio da revelação e que foram apresentados de tal forma que o próprio acontecimento comprova isso. Por exemplo, na Surata Al-Qasas, depois da narração da história de Moisés (A), é apresentada a mensagem principal. Da mesma forma, na Surata Hud, depois da narração da história do Profeta Noé (A), é apresentada a mensagem essencial.
2. Provar que Allah — que Allah nos livre de tal ideia — não é injusto e que não puniu nenhuma comunidade sem antes enviar-lhe um profeta ou mensageiro. Por exemplo, depois de narrar as histórias dos profetas e mensageiros na Surata Al-Ankabut, foi dito:
(Árabe**********)
“A cada um deles, castiguei por seu pecado. A alguns enviamos um vento impetuoso, acompanhado de pedras; a outros atingiu o estrondo; a alguns fizemos serem tragados pela terra; e a outros fizemos serem afogados. Allah não foi injusto com eles; porém, eles foram injustos consigo mesmos.” (Surata Al-Ankabut: 40)
Na verdade, quem refletir sobre estas histórias do Alcorão poderá compreender seus mistérios e perceber que, junto com cada acontecimento, o Alcorão descreveu seu desfecho e sua lição.
Agora discutiremos alguns exemplos ou acontecimentos nos quais, juntamente com a narração, também se chama a atenção para os aspectos instrutivos.
1. No Alcorão é dito:
(Árabe**********)
(Não viste aquele homem?) que passava por uma cidade cujas casas haviam desabado sobre seus alicerces. Ele disse: «Como Allah dará vida a isto depois da morte?» Então Allah o fez permanecer morto por cem anos e depois o ressuscitou. Disse: «Quanto tempo permaneceste assim?» Ele respondeu: «Um dia ou parte de um dia.» Allah disse: «Não; permaneceste morto por cem anos. Olha para teu alimento e tua bebida: não se alteraram. E olha para teu jumento; queremos fazer de ti um sinal para as pessoas. Observa como juntamos seus ossos e depois os revestimos de carne.» Quando isso aconteceu, ele disse: «Sei que Allah é onipotente.» (Surata Al-Baqara: 259)
Vejam como Allah, o Altíssimo, expressou o propósito no próprio acontecimento por meio do versículo «Queremos fazer de ti um sinal para as pessoas» e, ao final do acontecimento,(Árabe**********)— «Sei que Allah é onipotente em todas as coisas» —, apresentou a verdadeira lição.
2. No episódio de Sulaiman e da rainha Bilquis, foi dito pela voz da poupa:
(Árabe**********)
Vi uma mulher reinando sobre o povo de Sabá. Foi-lhe concedido tudo, e ela possui um trono magnífico. Vi que ela e seu povo se prostravam diante do sol em vez de Allah. Satanás tornou atraentes para eles as suas ações e os desviou do caminho reto. Por isso, não estão no caminho reto. Por que não se prostram diante de Allah, que conhece o oculto dos céus e da terra e sabe o que manifestais e o que ocultais? Não há divindade além de Allah; Ele é o Senhor do Trono grandioso. (Surata An-Naml: 23–26)
Ao narrar o acontecimento, todas essas palavras foram colocadas na boca da poupa. O objetivo é que as pessoas sejam influenciadas ao ouvir as palavras da poupa.
3. No relato de Hazrat Iúçufe (A.), quando Hazrat Iúçufe (A.) deu a interpretação dos sonhos dos dois companheiros do rei, disse:
(Árabe**********)
Este conhecimento foi-me ensinado pelo meu Senhor. Abandonei a religião daqueles que não creem em Allah nem têm qualquer crença na Vida Futura. (Surata Iúçufe: 37)
(Árabe**********)
Sigo a religião dos meus antepassados Ibrāhīm, Isḥāq e Yaʿqūb. Não nos convém associar coisa alguma a Allah. Isso é uma graça de Allah para nós e para todas as outras pessoas, mas a maioria das pessoas não reconhece essa graça. (Surata Iúçufe: 38)
O objetivo principal é apresentar, juntamente com a narrativa dos acontecimentos, ensinamentos instrutivos sob diferentes perspectivas. Contudo, eles foram tão integrados à narrativa que parece que essas palavras também fazem parte do relato principal. Os leitores da narrativa encontram esse tipo de exposição por toda parte no decorrer dos acontecimentos.
O segundo ponto é que, seja qual for o seu estilo, ou mesmo que ele apresente alguma variação, isso não altera o fato de que este aspecto serve como o propósito e objetivo principal da narrativa. Na verdade, sem algum objetivo religioso, não se pode sequer falar de narrativa no Alcorão.
A combinação do religioso e do artístico na narrativa
Já discutimos anteriormente que o fato de a narrativa seguir um objetivo religioso não significa que ela seja um obstáculo às características artísticas. Queremos agora dizer que, por seguir um objetivo religioso, essa característica é considerada, no mundo artístico, a base fundamental da história. Também encontramos apoio para isso no que dissemos no início deste capítulo. Ei-lo:
O Alcorão utilizou a beleza artística como meio para causar impacto na consciência. Em outras palavras, o Alcorão empregou os recursos da beleza artística para influenciar a consciência religiosa. A seguir, discutiremos as características artísticas dos acontecimentos sob o título “A forma artística da narrativa”.
A forma artística da narrativa
1. Um dos objetivos principais da narração dos diversos acontecimentos no Alcorão Sábio é lançar luz sobre questões como a unidade da religião, dos profetas e mensageiros e de sua mensagem, bem como a uniformidade do comportamento dos incrédulos e politeístas para com cada profeta e mensageiro. Naturalmente, isso também foi discutido no capítulo anterior.
A mensagem que se torna clara nos acontecimentos narrados pelo Alcorão é que a religião de cada profeta e mensageiro era uma só, e todos eles convocaram as pessoas para essa mesma religião. Além disso, os povos de cada profeta que rejeitaram a única religião parecem estar ligados pelo mesmo fio. Sempre que os profetas vieram, tiveram de enfrentar esse grupo. Esses acontecimentos foram repetidos em vários lugares do Alcorão. Contudo, mesmo nessa repetição, cria-se uma espécie de beleza artística. Observando atentamente, parece que eles não são profetas diferentes, mas um só profeta, e que não são povos diferentes, mas um só povo. Do mesmo modo, apesar da longa distância temporal e da diferença de circunstâncias, os que rejeitaram a verdade parecem todos possuir a mesma mentalidade. Cada profeta veio, convocou as pessoas à kalima e partiu deste mundo. E os desviados sempre os chamaram de mentirosos e zombaram deles. Observem os versículos a seguir:
(Árabe**********)
Enviamos Noé ao seu povo. Ele disse: “Ó povo meu! Adorai a Allah; não há outra divindade além d’Ele. Temo por vós o castigo de um dia grandioso.” Os líderes de seu povo disseram: “Vemos-te em evidente extravio.” Ele disse: “Ó povo meu! Não estou de modo algum extraviado; apenas vos transmito os bons conselhos do Senhor dos mundos. Sei, da parte de Allah, aquilo que vós não sabeis. Acaso vos admirais de que vos tenha chegado uma admoestação da parte de vosso Senhor, por intermédio de um homem dentre vós, para vos advertir, a fim de que sejais tementes e alcanceis misericórdia?” Então, desmentiram-no. E salvamos a ele e aos que estavam na arca, e afogamos os que haviam desmentido os Nossos sinais. Com efeito, eram cegos. (Surata Al-A‘raf: 59-64)
(Árabe**********)
Enviamos ao povo de ‘Ad seu irmão Hud. Ele disse: “Ó povo meu! Adorai a Allah; não há outra divindade além d’Ele.” Os líderes de seu povo disseram: “Vemos que és insensato e consideramos-te mentiroso.” Ele disse: “Ó meu povo! Não sou insensato; ao contrário, sou um mensageiro do Senhor dos mundos. Transmito-vos as mensagens de vosso Senhor e sou, para convosco, um conselheiro sincero e digno de confiança. Acaso vos admirais de que vos tenha chegado uma admoestação da parte de vosso Senhor, por intermédio de um homem dentre vós, para vos advertir? Lembrai-vos de quando Ele vos fez sucessores depois do povo de Noé e vos aumentou em estatura. Lembrai-vos das dádivas de Allah, para que prospereis.”
Disseram: “Vieste a nós para que adoremos somente a Allah e abandonemos aquilo que nossos pais adoravam? Então traz-nos aquilo com que nos ameaças, se és veraz.” Ele disse: “Já se tornou inevitável para vós o castigo e a ira de vosso Senhor. Discutis comigo acerca de nomes que vós e vossos pais inventastes? Allah não fez descer, sobre eles, autoridade alguma. Portanto, aguardai; e eu aguardarei convosco.” Então, salvamos a ele e a seus companheiros por Nossa misericórdia, e exterminamos aqueles que desmentiam os Nossos sinais. Pois não eram crentes. (Surata Al-A‘raf: 65-72)
(Árabe**********)
Enviamos ao povo de Thamud seu irmão Salih. Ele disse: “Ó meu povo! Adorai a Allah; não há outra divindade além d’Ele. Chegou-vos uma prova de vosso Senhor. Esta é a camela de Allah; deixai-a pastar na terra de Allah e não a toqueis com má intenção, pois, do contrário, um castigo doloroso vos atingirá. Lembrai-vos de quando Ele vos fez sucessores depois do povo de ‘Ad e vos estabeleceu na terra: construís palácios em suas planícies e escavais moradias nas montanhas. Portanto, reconhecei as dádivas de Allah e não espalheis a corrupção pela terra.” Os líderes arrogantes de seu povo perguntaram aos crentes pobres: “Credes que Salih foi enviado por seu Senhor?” Eles disseram: “Cremos naquilo que ele trouxe.” Os arrogantes disseram: “Não cremos naquilo em que credes.” Então, degolaram a camela e desobedeceram à ordem de seu Senhor. E disseram: “Ó Salih! Traz-nos o castigo com que nos ameaças, se és realmente um mensageiro.” Então o terremoto os atingiu, e amanheceram prostrados, de bruços, em suas próprias casas. (Surata Al-A‘raf: 73-78)
Onde quer que cenas desse tipo se repitam no Alcorão, elas coincidem com o que ocorreu com todos os profetas e mensageiros. Essa situação se repetiu no tempo de cada profeta e, prosseguindo, finalmente chegou até Muhammad (que a paz esteja com ele). Aos olhos da imaginação, surge diante de nós aquela cena: ele apresenta aos incrédulos o convite à profissão de fé exatamente como o apresentaram os profetas e mensageiros anteriores. Enquanto isso, os incrédulos tratam-no exatamente da mesma maneira como, desde o princípio, vinham tratando os profetas e mensageiros. Ao refletirmos profundamente sobre a continuidade de todos esses acontecimentos dos profetas e mensageiros, percebemos neles uma beleza e uma harmonia ilimitadas.
2. Outra consequência de a narrativa seguir o objetivo religioso foi que apenas a parte do acontecimento compatível com esse objetivo era apresentada. A esse respeito, o Alcorão adotou um método especial, que pode ser considerado uma regra específica. Assim, depois de os acontecimentos serem narrados na ordem de revelação das suratas, na surata em que foi apresentada a parte final, o aspecto artístico alcançou sua plenitude juntamente com o objetivo religioso. Também se observa que, às vezes, a narrativa é concluída do ponto de vista artístico, sem que nela haja a exposição do objetivo religioso.
Vimos isso no relato de Hazrat Musa (a.s.), cuja parte final foi narrada na Surata Al-Ma’idah. Nela são mencionadas várias bênçãos concedidas por Allah aos Filhos de Israel em diferentes momentos. Contudo, mesmo depois de receberem tantas bênçãos, não demonstraram sequer um mínimo de gratidão. Apesar de Allah lhes ter ordenado, eles não aceitaram entrar na Terra Sagrada. Por isso, foram exilados no deserto de Tih e submetidos a um castigo tal que a morte era o único meio de escapar dali.
Havia aqui um propósito religioso. Com o encerramento do relato na cena do deserto de Tih, alcançou-se um desenvolvimento superior da beleza artística. Se essa história tivesse terminado em qualquer outro lugar que não a cena do deserto de Tih, não teria sido tão surpreendente.
Vejamos agora se conseguimos encontrar o princípio acima mencionado em alguns outros relatos.
[2.1] Os relatos de Hazrat Ibrahim (a.s.) são narrados no Alcorão em cerca de vinte lugares. A parte final foi narrada na Surata Al-Hajj. O relato é concluído da seguinte maneira:
(Árabe**********)
E quando indiquei a Ibrahim o lugar da Casa, dizendo: “Não associes nada a Mim e purifica a Minha Casa para os que a circundam, para os que permanecem em oração e para os que se inclinam e se prostram. E proclama entre as pessoas o Hajj. Elas virão a ti a pé e montadas em camelos magros, vindos de todos os caminhos longínquos.” (Surata Al-Hajj: 26–27)
Do ponto de vista religioso, vê-se que os pilares do Hajj na religião de Hazrat Ibrahim (a.s.) eram os mesmos que foram estabelecidos como obrigatórios na Sharia do Nobre Profeta (s.a.w.). O objetivo aqui é mencionar isso. Do mesmo modo, perto do final da Surata Al-Hajj (ordem de revelação: cento e três), é dito a respeito de Hazrat Ibrahim (a.s.):
(Árabe**********)
Permanecei firmes na religião de vosso pai, Abraão. Foi ele quem vos chamou muçulmanos anteriormente — e também neste Alcorão. (Surata Al-Hajj: 78)
Se for vista de uma perspectiva puramente artística, ver-se-á que não havia cena melhor do que o lugar e a maneira como a história de Abraão (A.S.) foi concluída. Não havia cena melhor do que aquela em que essa história foi concluída. Não havia cena melhor do que aquela em que essa história foi concluída. Não havia lugar melhor onde essa história pudesse ser concluída e o objetivo religioso pudesse ser plenamente alcançado. É verdade que a história também poderia ter sido concluída quando, após a construção da Caaba, as pessoas eram convocadas para o Hajj, ou quando, antes da construção da Caaba, o amado pequeno Ismael (A.S.) estava sendo deixado em um vale desolado. Mas, nesse caso, o objetivo religioso não teria sido plenamente alcançado.
Vejam a história de Jesus (A.S.), narrada em oito passagens do Alcorão. Sua última passagem foi narrada na Surata Al-Ma’idah (ordem cronológica da revelação: 112). Nela, é dito:
(Árabe**********)
E quando Allah disser: Ó Jesus, filho de Maria! Foste tu que disseste às pessoas: “Tomai a mim e à minha mãe como divindades, em vez de Allah”? Ele responderá: “Glorificado sejas! Não me é apropriado dizer aquilo a que não tenho direito. Se eu o tivesse dito, certamente Tu o saberias. Tu sabes o que há em minha alma, e eu não sei o que há em Ti. Certamente, Tu és o Conhecedor do invisível. Eu nada lhes disse além do que me ordenaste: ‘Adorai Allah, meu Senhor e vosso Senhor’. Fui testemunha deles enquanto permaneci entre eles; mas, quando me fizeste partir, foste Tu o Observador deles. E Tu és Testemunha de todas as coisas. Se os castigares, eles são Teus servos; e, se os perdoares, certamente Tu és o Poderoso, o Sapientíssimo.” (Surata Al-Ma’idah: 116–118)
Vejam: a conclusão da história de Jesus (A.S.) também foi traçada pela combinação do objetivo religioso com o artístico.
Por um lado, o objetivo religioso foi alcançado; por outro, a beleza artística também atingiu sua plenitude. O nascimento de Jesus (A.S.) foi algo excepcional e miraculoso. No momento culminante dessa complexidade, ele se apresenta diante do Criador, confessa sua condição de servo, testemunha aquilo que foi dito à sua nação e, por fim, entrega essa questão a Allah, o Poderoso, o Sapientíssimo.
Do ponto de vista artístico, a história exigia ser concluída exatamente no ponto em que foi concluída. Não havia lugar melhor para concluir essa história.
[2.3] O relato de Adão (que a paz esteja sobre ele) é encerrado, em todas as passagens do Alcorão, com a descrição de seu envio à Terra. Acrescenta-se apenas que ele pediu perdão por seu pecado, e Allah o perdoou. Depois disso, o Alcorão silencia — embora na Torá tenha sido apresentada uma descrição mais detalhada — porque Adão (que a paz esteja sobre ele) foi enviado à Terra como consequência de ter seguido o conselho de seu antigo inimigo, Satanás, e desobedecido à ordem de Allah. Aqui, o propósito religioso já está plenamente cumprido.
Observando do ponto de vista artístico, constata-se que, em cada ponto de conclusão, está presente aquilo que um artista procura. Para um artista, basta saber que Adão (que a paz esteja sobre ele) foi expulso do Paraíso por causa de seu pecado. Depois disso, a imaginação humana é completamente livre a esse respeito. Pode-se imaginar: por onde Adão e Eva vagaram inexperientemente? Como eram seu modo de vida e suas transações econômicas? São perguntas fantasiosas de vários tipos. Se esses assuntos fossem discutidos juntamente com o relato, sua beleza artística diminuiria. Por isso, no ponto em que o relato foi encerrado, sua beleza artística não sofreu qualquer redução.
[2.4] O relato de Salomão (que a paz esteja sobre ele) é mencionado no Alcorão em três passagens ao todo. A última surata em que esse relato foi narrado é a surata Al-Anbiyā’ (ordem de revelação: setenta e três). Nessa surata, a parte final do relato é apresentada da seguinte forma:
(Árabe**********)
E recorda-te de Davi e Salomão, quando julgavam a respeito de um campo de cultivo no qual, durante a noite, algumas ovelhas haviam entrado. Eu era testemunha de seu julgamento. Então fizemos Salomão compreender aquela decisão, e concedemos a ambos conhecimento e sabedoria. E submetemos as montanhas e as aves a Davi, para que glorificassem conosco. Fomos Nós que fizemos isso. E ensinamos-lhe a fabricar couraças para vós, a fim de proteger-vos na guerra. Então, sereis agradecidos? E submetemos o vento a Salomão; ele soprava, por sua ordem, em direção à terra na qual havíamos concedido bênçãos. E temos pleno conhecimento de todas as coisas. E submetemos a ele alguns dos demônios, que mergulhavam por ele e realizavam muitos outros trabalhos além desse. E éramos Nós que os mantínhamos sob controle. (Surata Al-Anbiyā’: 78–82)
No relato de Salomão (que a paz esteja sobre ele), encontram-se mais conteúdos e propósitos. Nele também estão presentes a sabedoria e a prudência religiosas. Contudo, à primeira vista, parece que, na conclusão do relato, não há harmonia entre o propósito religioso e o aspecto artístico. A exigência artística era que o relato de Salomão (que a paz esteja sobre ele) fosse encerrado na cena em que sua morte é descrita e em que ele permanecia de pé, apoiado em seu bastão, mesmo depois de morrer.
Sem dúvida, essa cena era adequada para encerrar a narrativa. Na vida de Salomão (que a paz esteja sobre ele), tanto a administração quanto a sabedoria haviam alcançado sua plenitude do ponto de vista artístico. Salomão (que a paz esteja sobre ele) era tanto um juiz quanto um homem sábio. Nos exemplos narrados no Alcorão, manifesta-se a sabedoria e a perspicácia concedidas por Allah. Por outro lado, também é apresentada a administração de um vasto império. Na realidade, a narrativa é concluída por meio de um epílogo no qual se discute um resumo de toda a sua vida. O versículo em questão descreve as atividades da infância, da adolescência e da juventude, e o relato é encerrado reunindo tudo em torno de um único ponto central.
[2.5] Em muitas passagens do Alcorão, os relatos de diversos profetas e mensageiros são apresentados de forma resumida; suas conclusões também seguem as exigências artísticas, e nelas o propósito religioso se manifesta. Allah diz:
(Árabe**********)
E, se eles te consideram mentiroso, antes deles também foram considerados mentirosos o povo de Noé, de ‘Ad, de Thamud, de Abraão e de Lot, os habitantes de Madyan e o povo de Moisés. Ainda assim, concedi aos incrédulos um prazo; depois, apoderei-Me deles. Vê como foi terrível o desfecho de Me negarem. (Surata Al-Hajj: 42–43)
Não há dúvida de que, nesse desfecho, o objetivo religioso e a beleza artística se desenvolveram plenamente, e a narrativa terminou no lugar adequado.
[2.6] O episódio de Hazrat Yusuf (A) constitui uma sequência independente do início ao fim. Começa com o sonho de Yusuf (A) e termina com a realização desse sonho. O desfecho do episódio é apresentado com a chegada de seus irmãos, cabisbaixos e envergonhados, e com o retorno e o reencontro de seus pais. Esse episódio não foi repetido. Como o objetivo religioso da narração já havia sido cumprido, essa história não foi repetida em outros lugares.
3. Entre os objetivos religiosos da narração de histórias havia também a exigência de que ela fosse adequada ao lugar, ao tempo e às pessoas, onde quer que fosse narrada. Nesse aspecto, ela representa plenamente a mesma cor e a mesma arte que discutimos anteriormente em um capítulo. Nesse capítulo, descrevemos em detalhes as diversas cores e estados das imagens corânicas.
Discutimos, sob o título “A subordinação das narrativas corânicas aos objetivos religiosos”, o grau de correspondência e harmonia que pode ser encontrado entre os elementos narrados no episódio, e ali também demos como exemplo o versículo a seguir:
(Árabe************)
Informa aos Meus servos que sou o Perdoador, o Misericordioso, e que Meu castigo é um castigo doloroso. (Surata Al-Hijr: 49–50)
Em seguida, foi narrado um episódio no qual se comprova a veracidade da afirmação acima. Agora descreveremos mais alguns exemplos em que o propósito religioso e a composição artística se complementam mutuamente.
[3.1] Na surata Al-A‘raf, o episódio de Adão (que a paz esteja com ele) é narrado da seguinte maneira:
(Árabe************)
E, de fato, criamos-vos e depois vos demos forma. Em seguida, dissemos aos anjos: “Prostrai-vos diante de Adão”; então, todos se prostraram, exceto Iblis, que não estava entre os que se prostraram. Allah disse: “O que te impediu de te prostrares quando te ordenei?” Ele respondeu: “Sou melhor do que ele. Criaste-me do fogo e criaste-o do barro.” Allah disse: “Desce daqui! Não tens o direito de te ensoberbecer aqui. Sai, pois estás entre os humilhados e os desprezíveis.” Ele disse: “Concede-me um prazo até ao Dia da Ressurreição.” Allah disse: “Concedido te é o prazo.” Ele disse: “Por me teres desviado, certamente ficarei à espreita deles no Teu caminho reto. Depois, virei contra eles pela frente, por trás, pela direita e pela esquerda, e não encontrarás a maioria deles agradecida.” Allah disse: “Sai daqui, humilhado e desprezado! Quanto àqueles dentre eles que te seguirem, certamente encherei o Inferno com todos vós. E tu, Adão, habita, tu e tua esposa, no Paraíso e comei do que quiserdes. Mas não vos aproximeis daquela árvore, pois então estareis entre os injustos.” Então Satanás induziu os dois à tentação, para lhes revelar o que estava oculto de suas partes íntimas. Disse-lhes: “Vosso Senhor não vos proibiu esta árvore senão para que não vos tornásseis anjos ou não vos tornásseis eternos.” E jurou-lhes: “Sou, na verdade, vosso sincero conselheiro.” Assim, por meio do engano, conseguiu que ambos consentissem. Quando provaram da árvore, suas partes íntimas lhes ficaram expostas, e começaram a cobri-las com folhas do Paraíso. Seu Senhor chamou-os: “Não vos proibi esta árvore e não vos disse que Satanás é vosso inimigo declarado?” Ambos responderam: “Ó nosso Senhor! Fomos injustos conosco mesmos. Se não nos perdoares e não tiveres misericórdia de nós, certamente estaremos entre os perdedores.” Allah disse: “Descei! Sereis inimigos uns dos outros. Tereis na terra morada e usufruto por um prazo determinado.” E disse ainda: “Nela vivereis, nela morrereis e dela sereis ressuscitados.” (Surata Al-A‘raf: 11–25)
Depois, o assunto é retomado de forma contínua. Os filhos de Adão são advertidos a se protegerem do engano de Satanás: “Ó filhos de Adão! Não permitais que Satanás vos seduza, como seduziu vossos pais, Adão e Eva, fazendo com que fossem expulsos do Paraíso.”
Foi dito às pessoas que também devem precaver-se das coisas permitidas e não declarar ilícito aquilo que Allah tornou lícito. Devem obedecer aos profetas e mensageiros enviados por Allah. A esse respeito, foi dito: “Atribuímos Satanás como aliado àqueles que não creem.” Em seguida, é apresentada a cena da Ressurreição. Aqueles que seguiram a orientação enviada por Allah estão presentes diante de Allah. Da mesma forma, aqueles que seguiram Satanás também estão de pé diante de Allah para prestar contas. Tudo termina assim: um grupo entra no Paraíso e outro grupo entra no Inferno. Mais adiante, é dito que os habitantes de Al-A‘raf chamarão os outros: “Entrai diretamente no Paraíso, sem medo nem tristeza.” Do outro lado, os anjos chamarão: “Este é o Paraíso que vos foi concedido em recompensa por vossas boas obras.” Sobre isso, já discutimos no capítulo “A imagem artística”.
A verdade é que ele foi expulso do Paraíso justamente por seguir Satanás, e será admitido no Paraíso justamente por não seguir Satanás. O retorno deles é semelhante ao retorno de uma pessoa que deixou sua casa e, depois de algum tempo, voltou novamente para ela. Aqui, a beleza artística reside precisamente em “sair e entrar”. O lugar principal desta discussão é aquele em que tratamos da “composição artística”.
Encerramos aqui esta discussão, na esperança de que os leitores possam, à luz dela, examinar outros episódios.
Capítulo Décimo
Características artísticas das narrativas
Agora quero descrever certas características artísticas gerais que, quando presentes, fazem com que o propósito religioso de um acontecimento se realize por meio da beleza e da harmonia artística; e a beleza e a harmonia artísticas tornam essa narrativa mais influente sobre a mente, o intelecto, o pensamento e a consciência. Como resultado, o espírito humano se prepara muito facilmente para aceitá-la. Para esse tipo de descrição, foram adotados quatro princípios artísticos fundamentais. São eles:
1. Diversidade na narrativa: o primeiro tipo de particularidade artística consiste na diferença metodológica entre as formas de narrar uma história. Ao examinarmos os acontecimentos narrados no Alcorão, tomamos conhecimento de quatro modalidades. Elas serão discutidas a seguir, sucessivamente.
[1.1] Por exemplo, a narrativa dos Companheiros da Caverna começa assim no Alcorão:
(Árabe************)
Pensas que os companheiros da caverna e do er-Raquim foram algo assombroso entre os nossos sinais? Quando os jovens se refugiaram na caverna da montanha e suplicaram: “Ó nosso Senhor! Concede-nos misericórdia da Tua parte e prepara para nós uma orientação correta em nossa situação.” Então, fizemos cair sobre os seus ouvidos um sono profundo na caverna durante vários anos. Depois, despertamo-los, para saber qual dos dois grupos seria mais capaz de calcular o tempo que haviam permanecido ali. (Surata Al-Kahf: 9-12)
Este é o resumo do acontecimento. Em seguida, começa a descrição detalhada: as consultas mútuas antes de entrarem na caverna; as circunstâncias de sua entrada; seu adormecimento e despertar; o envio de um deles para comprar alimento; as discussões e os murmúrios na cidade a respeito dele; seu retorno; a morte dos Companheiros da Caverna; a construção de um monumento sobre seus túmulos; as divergências das pessoas a esse respeito, e assim por diante. No início, o acontecimento é resumido dessa maneira para que, assim que o leitor o leia, fique ansioso por conhecer o que virá depois.
[1.2] Muitas vezes, a conclusão ou o desfecho de um acontecimento é narrado primeiro e, depois, todo o acontecimento é apresentado em detalhes. Um exemplo disso é o relato do profeta Moisés (A), narrado na surata Al-Qasas. Ele começa assim:
(Árabe************)
Estamos narrando para ti, com verdade, a história de Moisés e do Faraó, para o povo dos crentes. O Faraó havia se ensoberbecido em sua terra e dividido seus habitantes em grupos, enfraquecendo um deles. Matava seus filhos e mantinha vivas as suas mulheres. Com efeito, ele era um dos corruptores. E quisemos favorecer aqueles que haviam sido enfraquecidos na terra, fazendo deles líderes e herdeiros, estabelecendo-os no poder da terra, e mostrar ao Faraó, a Hamã e aos seus exércitos aquilo que temiam da parte do grupo enfraquecido. (Surata Al-Qasas: 2–6)
Em seguida, a história do profeta Moisés (A) é narrada em detalhes: seu nascimento, sua criação, a amamentação, a entrada na juventude, o exílio após matar um copta, e assim por diante. Depois, começam os acontecimentos seguintes, que haviam sido mencionados no início. O acontecimento é iniciado de tal modo que a ansiedade do leitor aumenta. Com o excesso de interesse, surge em sua mente a pergunta: o que Moisés (A) fez nessa situação?
A história do profeta José (A) também é semelhante. O acontecimento começa com um sonho. Depois de sonhar, ele o relata ao pai. O pai compreende que esse sonho é um indício de que ele alcançará posição e boa reputação na Terra. O acontecimento começa assim:
(Árabe************)
Quando José disse ao pai: “Ó meu querido pai! Vi em sonho onze estrelas, o Sol e a Lua prostrando-se diante de mim.” O pai disse: “Meu filho! Não contes esse sonho aos teus irmãos, pois eles conspirarão contra ti. Na verdade, Satanás é um inimigo declarado do ser humano. Assim, teu Senhor te escolherá, ensinar-te-á a interpretação profunda das palavras e completará Sua graça para contigo e para com a família de Jacó, como anteriormente a completou para com teus antepassados, Abraão e Isaque. Certamente, teu Senhor é Onisciente e Prudentíssimo.” (Surata José: 4–6)
Logo em seguida, o acontecimento começa. Ele nada mais é que a realização de seu sonho, que seu pai, Jacó (A), já havia compreendido anteriormente. O acontecimento termina com a realização completa do sonho. Após um belo desfecho, o Alcorão permanece em silêncio. Nada é dito sobre os relatos mencionados na Torá.
[1.3] Muitas vezes, os acontecimentos começam diretamente, sem introdução ou resumo, e terminam subitamente. Por exemplo, ao narrar o nascimento de Hazrat Jesus (A), o acontecimento de Maryam (A) é apresentado sem introdução. Do mesmo modo, no relato de Hazrat Sulaiman (A) e da rainha Bilqis, a narrativa do Hudhud e das formigas surge de repente.
[1.4] Também se observa que, na narração dos acontecimentos, são acrescentadas cores imaginativas. O acontecimento começa e, enquanto a narrativa prossegue, fazem-se subitamente algumas súplicas pela boca do protagonista. Por exemplo, no capítulo “A imagem artística”, apresentamos cenas do acontecimento de Hazrat Ibrahim (A) e Hazrat Ismail (A). Ali se diz:
(Árabe************)
Recorda quando Ibrahim e Ismail erguiam os alicerces da Casa da Caaba e disseram: “Senhor nosso, aceita de nós. Certamente, Tu és o Oniouvinte, o Onisciente.” (Surata Al-Baqara: 127)
Esta é uma cena muito grandiosa. Nos acontecimentos narrados pelo Alcorão encontram-se muitos exemplos e parábolas desse tipo.
2. O súbito desvelamento do mistério: o segundo tipo consiste no súbito desvendamento do mistério de algum acontecimento.
[2.1] Muitas vezes, o mistério do acontecimento permanece desconhecido tanto para o leitor quanto para o protagonista. Porém, em determinado ponto da narrativa, ele subitamente se revela diante do leitor. Um exemplo é o acontecimento de Hazrat Musa (A), quando ele foi ter com um homem virtuoso e sábio, narrado na Surata Al-Cahf:
(Árabe************)
Quando Moisés disse ao seu jovem companheiro: “Não cessarei de caminhar até alcançar a confluência dos dois mares, ainda que tenha de prosseguir por longos anos.” E, quando chegaram à confluência dos dois mares, esqueceram o seu peixe. O peixe abriu um túnel no mar e desapareceu. Depois de ultrapassarem aquele lugar, Moisés disse ao seu companheiro: “Traz-nos o nosso desjejum, pois estamos fatigados desta viagem.” Ele respondeu: “Viste o que aconteceu? Quando descansámos junto à rocha, esqueci-me do peixe. Somente Satanás me fez esquecer-me de mencioná-lo. E o peixe tomou, de modo surpreendente, o seu caminho pelo mar.” Moisés disse: “Era isso que procurávamos.” Então, voltaram seguindo as suas próprias pegadas. Depois encontraram um dos Nossos servos, a quem havíamos concedido misericórdia da Nossa parte e a quem havíamos ensinado um conhecimento especial. Moisés disse-lhe: “Posso seguir-te, sob a condição de que me ensines algo do conhecimento da orientação correta que te foi ensinado?” Ele respondeu: “Certamente, não poderás ter paciência comigo. E como poderás ser paciente diante de algo cujo entendimento não está ao teu alcance?” Moisés disse: “Se Allah quiser, encontrarás em mim alguém paciente, e não desobedecerei a nenhuma das tuas ordens.” Ele disse: “Se me seguires, não me perguntes sobre coisa alguma, até que eu próprio te fale a respeito.” E partiram. Quando embarcaram no barco, ele fez nele uma abertura. Moisés disse: “Fizeste uma abertura nele para afogar os seus ocupantes? Cometeste certamente uma grave falta.” Ele respondeu: “Não te disse que não poderias ter paciência comigo?” Moisés disse: “Não me culpes pelo meu esquecimento.” E continuaram a caminhar. Por fim, encontraram um rapaz, e ele o matou. Moisés disse: “Mataste uma vida inocente, sem que tivesse tirado a vida de alguém? Cometeste certamente uma grave injustiça.” Ele respondeu: “Não te disse que não poderias ter paciência comigo?” Moisés disse: “Depois disto, se eu te perguntar algo, não me mantenhas mais contigo. Terás, da minha parte, toda a justificativa.” Então continuaram a caminhar. Quando chegaram aos habitantes de uma cidade, pediram-lhes comida, mas eles recusaram-se a hospedá-los. Depois encontraram ali um muro prestes a ruir, e ele o endireitou e o levantou. Moisés disse: “Se quisesses, poderias ter recebido deles uma recompensa por isso.” Ele respondeu: “Aqui termina a separação entre mim e ti. Agora explicar-te-ei o significado daquilo diante do qual não pudeste ter paciência. (Surata Al-Kahf: 60–78)
Não conseguimos alcançar o fundo dos elementos contidos no versículo mencionado, os quais criaram para nós um mistério. Diante desse mistério, ficamos tão incapazes de responder quanto o protagonista do acontecimento, o nobre Moisés (que a paz esteja com ele). Também não sabemos quem foi aquele que realizou os acontecimentos extraordinários. Na verdade, o Alcorão nem sequer considerou necessário revelar o seu nome. E que necessidade haveria de revelar o seu nome? Esse homem realizou todas as ações pelo poder de Allah e segundo a Sua ordem. E Allah não apresentará o desfecho do caso da mesma maneira que o que aconteceu diante de nós e que vimos. Isso porque o Seu olhar está fixado em objetivos de longo alcance, aos quais o nosso olhar não chega. Do mesmo modo, o facto de o seu nome não ser mencionado está plenamente de acordo com o caráter misterioso do acontecimento.
Não há dúvida de que, desde o início do acontecimento, havia um véu invisível sobre o desconhecido. A ansiedade de Moisés (que a paz esteja com ele) por ver o servo virtuoso, a caminhada em busca dele, o esquecimento, por parte do jovem companheiro de Moisés (que a paz esteja com ele), de que o peixe havia partido junto à rocha, o retorno à rocha para reparar o erro e o encontro com o homem virtuoso: se não tivesse voltado, jamais teria conseguido encontrá-lo. O acontecimento que se desenrolou também estava envolto em mistério. Nem sequer se chegou a conhecer o nome daquele que o provocou.
Agora o nó do mistério começa a desatar-se. Moisés (que a paz esteja com ele) saberá por que esses acontecimentos foram apresentados. Ao mesmo tempo, isso também ficará claro para nós. Foi dito:
(Árabe**********)
Quanto ao barco, pertencia a alguns pobres que trabalhavam no mar em busca do sustento. Eu quis danificá-lo, pois, do outro lado, havia um rei que se apoderava à força de todos os barcos. Quanto ao rapaz, os seus pais eram crentes, e receei que ele os oprimisse com a sua rebeldia e incredulidade. Então quis que o seu Senhor lhes concedesse, em seu lugar, um filho melhor, mais puro e mais próximo deles em afeto. Quanto ao muro, pertencia a dois rapazes órfãos da cidade. Sob ele havia um tesouro que lhes pertencia, e o pai deles era um homem virtuoso. Assim, o teu Senhor quis, por misericórdia, que eles atingissem a maturidade e recuperassem o seu tesouro. Eu não fiz isso por minha própria iniciativa. Esta é a explicação daquilo diante do qual não pudeste ter paciência. (Surata Al-Kahf: 79–82)
Depois que o mistério criado no acontecimento mencionado é desvendado pelo homem virtuoso, por meio de revelação e milagres, o leitor recupera parcialmente a consciência. Pergunta: quem é ele? Não se obtém resposta. O mistério continua a ser mistério. Assim como estava envolto em mistério no início, continua a estar agora. Nesse acontecimento manifestou-se uma sabedoria extremamente poderosa. Apenas um breve vislumbre dela alcançou o nosso olhar; depois, desapareceu para sempre da nossa vista.
[2.2] Muitas vezes também acontece que o mistério do acontecimento é claro para os espectadores, mas continua desconhecido para o protagonista. Ainda assim, ele prossegue realizando a sua tarefa. Os espectadores, porém, sabem como e por que aquilo aconteceu. Esse tipo de acontecimento ocorre sobretudo quando algo é dito a alguém em tom de sátira ou de brincadeira. Desde o início, os espectadores observam as suas ações e também riem delas. Já mencionámos anteriormente o acontecimento dos donos do jardim. Esse acontecimento é um excelente exemplo disso. Foi dito:
(Árabe**********)
Quando haviam jurado que colheriam os frutos do jardim pela manhã, não disseram: «Insha’Allah». Então, enquanto dormiam, uma calamidade procedente de teu Senhor caiu sobre o jardim, e, ao amanhecer, ele se tornou como palha triturada.
Nós já conhecemos o acontecimento, mas os donos do jardim ainda estão desavisados. Eis o que foi revelado:
(Árabe**********)
Pela manhã, chamaram-se uns aos outros, dizendo: «Se quereis colher os frutos, ide cedo para o campo.» E partiram, cochichando: «Hoje, que nenhum necessitado entre no jardim junto a vós.» E partiram de manhã, saltitando e apressando-se com vigor. (Surata Al-Qalam: 21–25)
Nós, espectadores, sorrimos discretamente quando eles partem para o jardim, cochichando. Enquanto isso, o jardim havia sido completamente devastado. Quando nos deleitamos em riso, somente então o mistério começa a se desvendar para eles.
(Árabe**********)
Então, quando viram o jardim, disseram: «Nós nos perdemos do caminho; ou então fomos privados de tudo.» (Surata Al-Qalam: 26–17)
Certamente, para aqueles que desejam privar os miskins, esta é uma punição justa.
[2.3] Muitas vezes acontece que os espectadores são informados apenas parcialmente sobre o acontecimento, enquanto sua verdadeira natureza ainda permanece oculta, e há um aspecto do acontecimento do qual nem os espectadores nem o protagonista têm conhecimento. Um exemplo disso é o trono da imperatriz Bilquis, que foi trazido num piscar de olhos. Também sabemos que isso aconteceu diante de Hazrat Suleiman (a.s.). Mas a rainha Bilquis não tinha absolutamente nenhum conhecimento disso. Quando lhe perguntaram: “Este é o seu trono?”, ela respondeu: “Parece ser ele mesmo”. Esse é um mistério do qual estamos cientes desde o início. Contudo, assim como Bilquis, também permanecíamos no escuro quanto ao palácio de vidro. Juntamente com Bilquis, compreendemos o assunto exatamente no momento em que ela levantou o tecido sobre os tornozelos para atravessar o tanque de água. Ao ver isso, Hazrat Suleiman (a.s.) disse: “Isto não é um tanque de água. É um palácio, sob o qual foi feito algo assim com vidro.” [Mais adiante, descreveremos isso em detalhes.]
[2.4] Muitas vezes, não se trata de um acontecimento misterioso, mas de um acontecimento simples que, a princípio, não é claro; de repente, porém, torna-se mais vívido, surpreendendo o leitor e o protagonista. É o caso de Hazrat Maryam (a.s.). Hazrat Maryam (a.s.) caminhava sozinha, afastada de sua família e parentes. Nesse momento, Jibril (a.s.) apareceu sob a forma humana. Hazrat Maryam (a.s.) disse: “Se você é uma pessoa virtuosa, busco refúgio em Allah contra você.” Ao ouvirmos o acontecimento, compreendemos imediatamente que ele é Jibril (a.s.). Pouco depois, ao identificar-se, ele disse: “Sou um mensageiro enviado por teu Senhor, trazendo-te as boas-novas de um filho virtuoso.” Então, de repente, o acontecimento se apresenta diante de nós: tomada pelas dores do parto, Maryam (a.s.) refugiou-se sob uma tamareira e disse: “Ah! Quem dera eu tivesse morrido antes disso! E tivesse sido completamente esquecida.” Então, o anjo chamou-a de baixo, dizendo: “Não te aflijas. Teu Senhor fez correr, abaixo de ti, uma pequena fonte.” Até o fim do versículo.
3. Pausa entre as cenas: a terceira característica artística da narrativa consiste em pausas sutis entre os acontecimentos narrados. Assim como hoje, no teatro e no cinema, a cortina é baixada durante o intervalo, distinguindo-se desse modo uma cena da outra. Em todos os acontecimentos narrados no Alcorão existe esse tipo de pausa. Isso pode ser facilmente observado nos acontecimentos que mencionamos anteriormente. Agora, como exemplo, discutiremos o relato de Hazrat Yusuf (a.s.). Esse relato foi concluído em um total de 28 cenas. No entanto, em vez de discutir todas elas, trataremos de algumas cenas específicas.
Os irmãos de Hazrat Yusuf (a.s.) foram até ele durante a fome para obter rações. Naquele momento, ele ocupava o cargo de ministro da Alimentação. Ele ordenou que, quando voltassem, trouxessem consigo seu irmão legítimo. Apesar da falta de consentimento de Hazrat Yaqub (a.s.), eles foram ao Egito com Bin Yamin para obter rações. Enquanto media os grãos, Hazrat Yusuf (a.s.) escondeu uma taça na bagagem de seu irmão. Em seguida, acusou-o de roubo e, astutamente, manteve-o consigo. Então os irmãos aconselharam-se e pediram que outra pessoa fosse detida, mas ele rejeitou firmemente o pedido. Foi dito:
(Árabe**********)
Depois, quando perderam a esperança de obter algo dele, reuniram-se em um lugar para deliberar. O irmão mais velho disse: “Não sabeis que vosso pai vos fez jurar em nome de Allah e que anteriormente cometestes uma injustiça no caso de Yusuf? Portanto, jamais deixarei este país até que meu pai me dê permissão ou até que Allah estabeleça algo em meu favor. Ele é o melhor dos administradores. Retornai ao vosso pai e dizei: ‘Ó nosso pai, teu filho roubou.’ Nós apenas declaramos aquilo que sabíamos e não tínhamos conhecimento do invisível. Pergunta aos habitantes da cidade onde estivemos e à caravana com a qual viajamos. Certamente estamos dizendo a verdade.” (Surata Yusuf: 80–82)
A cortina caiu. Agora encontraremos os irmãos de Hazrat Yusuf (a.s.) em outra cena. Contudo, não será em nenhuma cidade do Egito. Nós os encontraremos quando estiverem diante do pai, ocupados em prestar esclarecimentos. A cortina subiu. Ali vemos o pai deles, Hazrat Yaqub (a.s.), fazendo o seguinte comentário.
(Árabe**********)
Jacó disse: “Isso não é nada disso. Vocês trouxeram apenas uma história inventada. Agora, ter paciência é o melhor. Talvez Allah traga todos eles juntos até mim. Ele é Onisciente e Sábio.” (Surata Yusuf: 83)
A cortina caiu. Agora veremos o Profeta Yusuf (que a paz esteja com ele) e seus filhos em outra cena. Ali veremos Jacó (que a paz esteja com ele) profundamente absorto em pensamentos. Os filhos, ao verem o estado do pai, ficaram aflitos. A cortina se ergueu.
(Árabe**********)Ele virou o rosto para longe deles e disse: “Ó, que tristeza por Yusuf!” Seus olhos ficaram turvos de tanto chorar. O sofrimento insuportável o deixava debilitado. Eles disseram: “Por Allah! Você não deixará de se lembrar de Yusuf até ficar à beira da morte ou morrer.” Ele disse: “Só apresento a Allah a minha tristeza e a minha angústia, e sei, da parte de Allah, o que vocês não sabem. Meus filhos! Ide e procurai Yusuf e seu irmão, e não desespereis da misericórdia de Allah. Ninguém se desespera da misericórdia de Allah, exceto os incrédulos.” (Surata Yusuf: 84–87)
Agora a cortina cairá novamente. Os irmãos de Yusuf partiram. Depois disso, nada mais sabemos. Quando a cortina se ergueu outra vez, ouvimos seus irmãos chegarem diante do Profeta Yusuf (que a paz esteja com ele), no Egito, e dizerem:
(Árabe**********)
Quando chegaram diante de Yusuf, disseram: “Ó Governante! Nós e nossas famílias fomos atingidos pela adversidade e trouxemos um capital insuficiente. Portanto, conceda-nos a medida completa e seja generoso conosco. Allah recompensa os generosos.” (Surata Yusuf: 88)
As histórias dos Companheiros da Caverna, de Maria (que a paz esteja com ela) e os relatos sobre Salomão (que a paz esteja com ele) também são narrados no mesmo estilo. Falaremos mais sobre isso adiante, se Allah quiser.
4. Representação de cenas por meio dos acontecimentos: já discutimos anteriormente três características artísticas da narrativa. Agora discutiremos como as cenas são representadas por meio dos acontecimentos. Esse tipo está relacionado ao capítulo “Imagem artística” da presente obra. Ali afirmamos que, embora todos os acontecimentos narrados no Alcorão pertençam ao passado, quando os leitores os leem ou os ouvintes os escutam, toda a cena se apresenta diante deles de forma concreta. Parece que o acontecimento está ocorrendo naquele momento diante de seus olhos.
O que queremos dizer agora é que as cenas ou imagens desenhadas por meio dos acontecimentos assumem diferentes estilos. Por exemplo, uma imagem pode ganhar vida e tornar-se visível por meio do acontecimento; ou pode expressar emoções e sentimentos; ou ainda revelar marcas de personalidade. Às vezes, embora um acontecimento ou narrativa contenha duas características, uma delas se torna mais proeminente que a outra. Por isso, o acontecimento recebe o nome dessa característica. Essas belezas artísticas manifestam-se em todas as cenas das narrativas. Em vez de discuti-las apenas por meio de palavras, queremos explicá-las com exemplos.
Já narramos anteriormente o acontecimento dos donos dos jardins. Chegamos até mesmo a contemplar sua representação. Vimos o Profeta Abraão e o Profeta Ismael de pé diante da Casa da Caaba. Vimos o Profeta Noé e seu filho no momento do dilúvio. Essas imagens são sempre vivas, eternas. O leitor ou ouvinte desses acontecimentos sente que eles estão ocorrendo diante de seus próprios olhos. Agora apresentaremos mais alguns exemplos.
Quando os Companheiros da Caverna saíram do grupo dos idólatras e seguiram o caminho do monoteísmo, realizaram entre si uma consulta. O Alcorão apresenta essa consulta diante de nós. Sempre que a lemos ou a ouvimos, parece que eles estão consultando uns aos outros diante de nossos olhos e que chegamos até a ouvir suas palavras.
(Árabe**********)
Eu te relato corretamente a sua história. Eles eram alguns jovens. Nós lhes aumentamos a orientação. Fortalecemos seus corações quando se levantaram. Eles disseram: “Nosso Senhor é o Senhor dos céus e da terra. Jamais invocaremos, em Seu lugar, outra divindade. Se o fizermos, teremos proferido uma enorme iniquidade. Este nosso povo adotou, em vez d’Ele, diversas divindades. Por que não apresentam uma prova clara a respeito delas? E quem é mais injusto do que aquele que inventa mentiras contra Deus? Quando vos afastardes deles e daquilo que adoram em vez de Deus, refugiai-vos na caverna. Vosso Senhor derramará sobre vós a Sua misericórdia e proporcionará uma solução benéfica para os vossos assuntos.” (Surata Al-Kahf: 13–16)
Aqui a cena termina e a cortina cai. Tal como no cinema-teatro do século XX, há aqui uma pausa entre uma cena e outra. Quando a cortina se abrir, veremos que, depois da consulta, eles entraram juntos na caverna. Nós os vemos entrar na caverna com nossos próprios olhos. Não há dúvida quanto a isso. Surge uma convicção tão firme. Essa é também a exigência da narração e da explicação do Alcorão.
(Árabe**********)
Você verá o sol, quando nasce, passar de lado à direita da caverna deles e, quando se põe, passar de lado à esquerda deles, enquanto eles se encontram no espaço amplo da caverna.
É isso que significa trazer algo diante dos olhos. Atualmente, assim como no teatro a luz é projetada para tornar a cena nítida, aqui também isso é feito por meio da luz do sol. O movimento do sol tornou esta cena dinâmica. Contudo, quer quando o sol nasce, quer quando se põe, em nenhum momento a sua luz penetra no interior da caverna. Durante todo o dia, ali ocorre um jogo de luz e sombra. É isso que se pretende explicar com a palavra ‘Tazāwaru’ (****). Com que simplicidade a imagem foi apresentada! Quanto esforço seria necessário para mostrar esta cena numa tela de cinema.
Venham, contemplem os Companheiros da Caverna. Foi dito: ”(Árabe**********)- ‘Eles se encontram no espaço amplo da caverna’; esta afirmação é um acréscimo incomparável, que não é inferior a um milagre em nenhum aspecto. Estas poucas palavras tornaram toda a cena viva e dinâmica diante de nós. Parece que eles se movem diante dos nossos olhos.
(Árabe**********)
Você os julgaria despertos, embora estivessem dormindo. Nós os virávamos para a direita e para a esquerda. O cão deles mantinha as patas dianteiras estendidas à entrada da caverna. Se você os visse espiando, certamente fugiria, voltando-se para trás, e ficaria tomado de terror por causa deles. (Surata Al-Kahf: 18)
A imagem traçada por estas poucas palavras é inteiramente viva e dinâmica.
De repente, a vida começou a pulsar entre os Companheiros da Caverna. Vejamos agora o que acontece:
(Árabe**********)
Assim, despertei-os para que perguntassem uns aos outros. Um deles disse: “Quanto tempo permanecestes?” Alguns deles disseram: “Um dia ou parte de um dia.” Outros disseram: “Vosso Senhor sabe melhor quanto tempo permanecestes. Agora, enviai um de vós à cidade com esta moeda, para que veja qual alimento é puro e vos traga dele alguma provisão. Que vá com discrição e não revele a ninguém nenhuma informação sobre vós. Se descobrirem quem sois, apedrejar-vos-ão até à morte ou vos forçarão a retornar à religião deles. Nesse caso, jamais alcançareis o sucesso.” (Surata Al-Kahf: 19–20)
Esta é a terceira cena, ou a parte final da segunda cena. Agora, todos estão despertos. A primeira pergunta que fazem é: quanto tempo dormiram? A resposta foi: um dia ou menos. Contudo, sabemos que permaneceram na caverna durante um longo período. Ficamos sabendo disso pelo resumo do acontecimento. Estavam famintos e, por isso, não deram tanta importância à questão. Agora, aquele crente que havia dito:(Árabe**********)—“Vosso Senhor sabe quanto tempo dormistes.” Ele ordenou a um deles que comprasse alimento, advertindo-o sobre várias coisas. Disse-lhe que deveria ir à cidade com extrema discrição, que não deveria revelar a ninguém a existência daquele lugar e que deveria comprar alimento bom e puro. Se alguém descobrisse a notícia, talvez os matasse ou os obrigasse a retornar à religião de seus antepassados. Foram os habitantes da caverna (Aṣḥāb al-Kahf) que disseram essas palavras. Sabemos que centenas de anos haviam se passado. Já não restava ninguém que pudesse condená-los à morte por apedrejamento ou obrigá-los a retornar à religião ancestral, pois todos haviam abraçado o Islã. Vejamos, na cena seguinte, as ações de seu representante.
Onde está a cena seguinte? Aqui é certamente necessário refletir. Sabemos que as pessoas haviam descoberto a história deles. Contudo, aqueles que eles temiam como incrédulos, na realidade, já não eram incrédulos nem idólatras. Naquela época, todos haviam se tornado crentes.
(Árabe**********)
E, assim, revelei a história deles, para que soubessem que a promessa de Allah é verdadeira e que não há dúvida alguma quanto à chegada da Hora. (Surata Al-Kahf: 21)
Ao chegar a este ponto, o propósito religioso do relato se revela. Ao mesmo tempo, seu aspecto artístico também alcança a plenitude. Agora, a pergunta que continua a girar em nossa mente é: o que aconteceu com aquele que foi enviado à cidade? E o que ele fez quando as pessoas descobriram seu segredo?
Aqui também ocorre uma pausa sutil. Depois, compreende-se que, naquele momento, a morte os havia alcançado. Então, as pessoas se puseram do lado de fora da caverna e começaram a discutir por que eles haviam permanecido firmes na religião.
(Árabe**********)
Quando discutiram entre si sobre o que fazer a respeito deles, disseram: “Construam uma edificação sobre eles. Seu Senhor sabe melhor acerca deles.” Aqueles cuja opinião prevaleceu quanto ao assunto disseram: “Certamente construiremos uma mesquita no local deles.” (Surata Al-Kahf: 21)
Novamente, uma pausa. Agora, se alguém quiser, poderá construir em sua imaginação uma mesquita sobre o mausoléu deles. Enquanto isso, as pessoas começaram a discutir sobre várias questões. Alguns discutiam quantos eles eram; outros discutiam quanto tempo haviam dormido.
(Árabe**********)
Agora, baseando-se em conjecturas sobre o desconhecido, dirão: “Eram três, e o quarto era o cão deles.” Outros dirão: “Eram cinco, e o sexto era o cão deles.” E outros ainda dirão: “Eram sete, e o oitavo era o cão deles.” (Surata Al-Kahf: 22)
Quando o propósito religioso se cumpriu, depois de os Companheiros da Caverna terem sido trazidos de volta à vida, eles foram novamente envoltos em mistério:
(Árabe**********)
Dize: “Meu Senhor conhece melhor o número deles. Poucos conhecem a história deles. Não discutas sobre eles, exceto de maneira superficial, nem perguntes a ninguém sobre a condição deles.”
Depois de o acontecimento chegar à sua conclusão, o Alcorão expressou seu propósito religioso. Indicando o poder de Allah que se manifestou ao conceder uma nova vida aos Companheiros da Caverna, dirige a atenção das pessoas, dizendo:
(Árabe**********)
Não dirás, a respeito de coisa alguma: “Farei isso amanhã”, sem acrescentar: “Insha’Allah (se Allah quiser)”. E, quando te esqueceres, lembra-te do teu Senhor e diz: “Espero que meu Senhor me guie para algo ainda mais próximo da verdade.” (Surata Al-Kahf: 23–24)
Aqui é dirigida uma palavra especial ao Nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Não precisamos entrar nessa discussão. Basta compreender que, assim como o Alcorão esclarece o propósito religioso ao mesmo tempo que narra o acontecimento, também o fez aqui. Que oportunidade poderia haver melhor do que esta para uma exortação educativa?
Por fim, foi apresentada a informação exata sobre o período em que permaneceram na caverna, que é também a nossa posição sobre este episódio. Resta o número deles. Ainda hoje — tal como os próprios Companheiros da Caverna — ele permanece um mistério.
(Árabe**********)Na caverna, passaram-se trezentos anos sobre eles, acrescidos de mais nove anos. (Surata Al-Kahf: 25)
A lição religiosa subjacente a este acontecimento foi expressa nas seguintes palavras:
(Árabe**********)
Diz: “Allah sabe melhor quanto tempo permaneceram. A Ele pertence o conhecimento do invisível dos céus e da terra. Quão excelente é Aquele que vê e ouve! Fora d’Ele, eles não têm nenhum protetor. Ele não associa ninguém à Sua autoridade. Recita o Livro que teu Senhor te revelou. Ninguém pode alterar as Suas palavras. E, fora d’Ele, não encontrarás refúgio algum.” (Surata Al-Kahf: 26–27)
Tentei investigar todas as características da narrativa e, depois, apresentei-as diante de vocês. Não há dúvida alguma de que, no Alcorão, os acontecimentos são apresentados de tal maneira que, assim que o leitor os lê, tudo surge diante de seus olhos como uma imagem. Esta é a maior característica. E ela exerce influência sobre as demais características.
A representação das emoções e dos sentimentos
Agora observaremos outro aspecto da representação da narrativa. Trata-se da manifestação das imagens das emoções e das inclinações e tendências da mente.
Anteriormente, descrevemos o episódio da conversa entre os dois proprietários de jardins e seu companheiro. Da mesma forma, também descrevemos o episódio de Hazrat Musa (a.s.) e de um homem justo. Nesses dois episódios, há imagens de emoções e sentimentos; ao mesmo tempo, eles apresentam imagens das personalidades e tornam todas aquelas cenas concretas, colocando-as diante dos olhos. Agora apresentarei a vocês outro episódio semelhante: o episódio de quando Hazrat Maryam (a.s.) deu à luz Hazrat Isa (a.s.). Diz-se:
(Árabe**********)
E menciona no Livro a história de Maryam, quando ela se afastou de seus familiares e se refugiou em um lugar ao leste. Então, para se ocultar deles, ela colocou uma cortina. (Surata Maryam: 16–17)
Hazrat Maryam estava satisfeita com sua vida solitária e retirada. Certo dia, enquanto se dirigia absorta ao local de banho, viu ali um jovem. Diante da súbita ocorrência, ficou completamente atônita, e seu mundo de imaginação mudou num instante.
(Árabe**********)
Então enviei a ela o Meu Espírito, que se apresentou diante dela sob a forma de um homem perfeito. Maria disse: “Busco refúgio no Misericordioso contra ti, se és temente a Deus.” (Surata Maria: 17–18)
Essas palavras são como as de uma jovem virgem que está sentada, sozinha e isolada, quando, de repente, um homem aparece ali e a assusta; sem ver outra saída, ela tenta despertar nele o temor de Deus.
Embora saibamos que aquele visitante não era um jovem, mas o próprio anjo Gabriel, o Fiel, Maria (que a paz esteja com ela) pensou que ele fosse um jovem desconhecido. Pensem: por que um jovem desconhecido iria até uma virgem tão pura, pertencente a uma família tão nobre, cujos costumes e comportamentos eram inteiramente limitados pelos preceitos da religião e cujo tutor era o próprio Zacarias (que a paz esteja com ele)? Sua mãe a havia consagrado à religião. Esta é a primeira parte.
(Árabe**********)
Ele disse: “Sou o mensageiro do teu Senhor. Conceder-te-ei um filho puro.” (Surata Maria: 19)
É fácil imaginar, pelo poder da razão, qual seria o estado mental e emocional de uma jovem virgem, recatada, quando alguém se aproveitasse de sua solidão para aparecer de repente e assustá-la. Embora ele afirmasse ser um mensageiro de Deus (isto é, um anjo), ela não conseguiu acreditar plenamente nele. Uma única ideia continuava a girar repetidamente em sua mente: talvez ele quisesse aproveitar-se de sua ingenuidade para violar sua virgindade. Caso contrário, por que lhe anunciaria a chegada de um filho de uma maneira para a qual, até então, não havia precedente? Esta é a segunda parte.
Agora Maria (que a paz esteja com ela) assume o papel de uma jovem corajosa, que não se deixa intimidar pelo perigo e o enfrenta com bravura.
(Árabe**********)
Ela exclamou: Como terei um filho, se nenhum homem me tocou? E eu jamais fui uma adúltera? (Surata Maryam: 20)
Maryam (A.S.) pronunciou estas palavras com o coração profundamente angustiado. Ainda agora, Maryam (A.S.) e o jovem mencionado permaneciam sozinhos, de pé. Entretanto, Maryam (A.S.) já havia conseguido compreender o propósito da vinda do forasteiro. Mas não conseguia de modo algum entender como aquilo poderia acontecer. Sua única consolação era a declaração daquele homem: “Sou o mensageiro do teu Senhor”. Ainda assim, parecia que também poderia tratar-se do engano de algum impostor, como mencionamos no início. Não era uma questão de vergonha ou pudor. Era necessário que a explicação fosse ainda mais clara. Por isso, Jibril (A.S.) disse:
(Árabe**********)
Ele disse: Assim será. Teu Senhor disse: “Isso é muito fácil para Mim, e quero fazer dele um sinal para as pessoas e uma misericórdia da Minha parte. É uma questão já determinada.” (Surata Maryam: 21)
O que lhe aconteceu? Aqui há uma longa pausa artística. Mas, durante esse momento de pausa, uma pergunta ressoa repetidamente no mundo dos pensamentos dos leitores: o que aconteceu com Maryam (A.S.)? Mais uma vez, o cenário da história muda. Desta vez, também vemos Maryam (A.S.) angustiada com outra questão, ainda mais do que antes.
(Árabe**********)
Depois, ela concebeu. Em seguida, retirou-se para um lugar distante. As dores do parto obrigaram-na a refugiar-se ao pé de uma tamareira. Ela disse: “Ah! Se eu tivesse morrido antes disso e tivesse sido esquecida da memória das pessoas!” (Surata Maryam: 23)
Esta é a terceira parte.
No início, diante de Hazrat Maryam (A), havia apenas a sua própria pessoa. Ela havia sido criada em um ambiente puro e sagrado. Mas, por fim, deparou-se com uma situação completamente nova. Seu comportamento também era agora diferente. Ela estava humilhada e desonrada diante de seu povo, sofrendo não apenas mentalmente, mas também fisicamente. Pois, devido às dores do parto, foi obrigada a refugiar-se sob uma tamareira. Ali estava sozinha. Não havia ninguém junto dela. Além disso, sofria todas as dificuldades próprias de uma mulher que espera o primeiro filho, e não tinha sequer a menor ideia do que fazer em tal situação. Não havia uma única pessoa que pudesse oferecer-lhe a mínima ajuda. Por isso, lamentou-se, dizendo: “Ah! Por que não morri antes disso e não fui esquecida da memória das pessoas?” Essas palavras nos permitem compreender sua dor física e mental, bem como sua aflição e sofrimento. Podemos ver em que enorme dificuldade ela estava mergulhada. Foi revelado:
(Árabe**********)Então, o anjo chamou-a de baixo: “Não te entristeças. Teu Senhor fez correr um riacho aos teus pés. E sacode em tua direção o tronco da tamareira; tâmaras maduras cairão sobre ti. Come, bebe e alegra os olhos. Se encontrares alguém entre as pessoas, dize: ‘Fiz um voto de jejuar por Allah. Portanto, hoje não falarei de modo algum com pessoa alguma.’” (Surata Maryam: 24–26)
Esta é a quarta parte.
Este acontecimento é tão espantoso e perturbador que, diante de sua súbita ocorrência, estamos prontos para sair correndo [não Maryam (A)]. O nascimento repentino de uma criança, a voz de um anjo vinda de baixo, uma criança que era fonte de dor e censura para Maryam (A), e a imediata provisão de alimento e bebida: sem dúvida, é um acontecimento extraordinário.
Pensamos que Hazrat Maryam (A) também ficou profundamente maravilhada. Sacudir os ramos da tamareira com um corpo fraco, recolher e comer as tâmaras frescas e maduras que caíam dali. Depois, recuperar um pouco as forças e partir em direção à sua casa. Mas ainda restava atravessar aqui outra ponte do pensamento.
(Árabe**********)Então ela retornou ao seu povo levando consigo o filho. (Surata Maryam: 27)
Agora, depois de Maryam (A) alcançar tranquilidade interior, era preciso transferir suas preocupações, tristezas e dores para os outros.
(Árabe**********)
Eles disseram: “Ó Maria! Cometeste algo inaudito. Ó irmã de Aarão! Teu pai não era um homem mau, nem tua mãe era uma adúltera.” (Surata Maria: 27–28)
Os membros da tribo começaram a repreendê-la. Em tom de zombaria, dirigiam-se a ela como “irmã de Aarão” e diziam: “Tu és filha de uma família tão nobre, na qual jamais ocorrera algo semelhante. Além disso, teus pais também não eram assim. Como pudeste manchar a honra da família?”
Maria (A.S.), com o coração aflito, permaneceu em silêncio e, apontando para a criança, disse: “Não me perguntem; perguntem a ele e obterão a resposta.” Parece que Maria (A.S.) acreditava que, por meio de seu filho, ocorreria um milagre. Foi por isso que apontou para a criança. Ao ouvirem isso, as pessoas ficaram surpresas e passaram a censurá-la ainda mais. Pois estavam atônitas: uma jovem virgem concebera um filho e estava feliz com aquela criança. Depois, ao mostrar-lhes a criança com profundo autoconfiança e de maneira desdenhosa, Maria levou-as ao extremo do espanto.
(Árabe**********)Eles disseram: “Como podemos falar com uma criança que ainda está no berço?”
Então, milagrosamente, o venerável Jesus (A.S.) falou:
(Árabe**********)
A criança disse: “Sou servo de Allah. Ele me concedeu o Livro e fez de mim um profeta. Onde quer que eu esteja, Ele me abençoou. Ordenou-me que, enquanto eu viver, pratique a oração, pague o zakat e seja obediente à minha mãe. Ele não me fez arrogante nem infeliz. A paz esteja sobre mim no dia em que nasci, no dia em que morrerei e no dia em que for ressuscitado e levantado. (Surata Maria: 30–33)
Se não tivéssemos ouvido este acontecimento pouco antes, teríamos ficado apavorados e fugido ao ouvi-lo. Não conseguiríamos dormir à noite, consumidos pela preocupação. A ansiedade teria marcado nossos rostos. Mas ficamos sabendo do acontecimento. Assim, enquanto as lágrimas caem gota a gota dos olhos, pesados de tristeza, também sentimos vontade de bater palmas, dominados pela alegria. Nesse momento, a cortina caiu. A situação tornou-se tal que, diante da tragédia do acontecimento, as lágrimas caíam gota a gota dos olhos, enquanto, ao mesmo tempo, batíamos palmas de alegria. Uma voz foi ouvida, tocando profundamente o coração absorto. O anunciador proclamava:
(Árabe**********)
Este é Jesus, filho de Maria! Esta é a palavra da verdade, acerca da qual as pessoas duvidam. Deus não é tal que tome um filho. Ele é Santo e Majestoso. Quando decide algo, diz: “Sê”, e isso acontece. (A criança também disse:) Certamente, Deus é o meu Senhor e o vosso também. Portanto, adorai-O; este é o caminho reto. (Surata Maria: 34-36)
Ao chegar a este ponto, tanto o propósito e o objetivo da religião quanto a cena e a imagem do acontecimento alcançaram a sua plenitude; e, sem dúvida, pode-se dizer que esta é uma das mais sublimes representações das emoções e dos sentimentos. Essa tonalidade permeia todo o acontecimento, fazendo com que as demais características se tornem pálidas.
A marca da personalidade na narrativa
Agora discutiremos o terceiro tipo de representação no Alcorão. Embora seja um dos diversos tipos de representação, procuramos descrevê-lo separadamente. Ele está relacionado à personalidade.
A marca da personalidade também se manifesta plenamente nas duas histórias anteriormente mencionadas: a dos dois proprietários de jardins e seu companheiro, e a de Moisés e um homem justo. O acontecimento está ligado à personalidade. Por isso, a expressão da personalidade na narração de acontecimentos é uma arte de altíssimo nível. O propósito e o objetivo de toda a narrativa estão relacionados à personalidade, quer o acontecimento esteja ligado ao Alcorão, quer às artes.
Embora no Alcorão diversos acontecimentos e narrativas tenham sido apresentados unicamente para a convocação à religião, o objetivo principal de qualquer acontecimento ou narrativa é, portanto, o convite à religião. Ainda assim, a representação da personalidade não pode ser separada disso. Essa característica está presente em todas as narrativas do Alcorão. A pessoa é apresentada como um exemplo humano. O Alcorão discute algumas pessoas e personalidades que ultrapassaram os limites da individualidade e se revelaram como “pessoas-exemplo”. A seguir, analisaremos alguns acontecimentos a esse respeito.
1. Um líder de natureza impetuosa
Por exemplo, podemos falar de Moisés (que a paz esteja sobre ele). Ele era um líder de natureza impulsiva.
O profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele) foi criado no palácio do Faraó e chegou à juventude. Tinha um corpo robusto e forte.
(Árabe**********)
Certo dia, ele entrou na cidade, quando seus habitantes estavam desprevenidos. Ali, viu dois homens lutando. Um deles pertencia ao seu próprio grupo, e o outro, ao grupo inimigo. Então, aquele que pertencia ao seu grupo pediu-lhe ajuda contra o homem do grupo inimigo. Moisés deu-lhe um soco, e o homem morreu. (Surata Al-Qasas: 15)
Nesse episódio, duas coisas se tornaram claras. Primeiro: o espírito de solidariedade de Moisés (que a paz esteja sobre ele) para com seu povo. Segundo: sua natureza impulsiva. Pois um homem de seu povo lhe pediu ajuda, e imediatamente ele tomou o partido dele, desferiu um soco e acabou com a vida do outro. Depois, sentindo-se envergonhado, disse:
(Árabe**********)
Moisés disse: “Isto é obra de Satanás. Certamente, ele é um inimigo declarado, que desencaminha. E acrescentou: “Ó meu Senhor! Na verdade, fui injusto comigo mesmo. Portanto, perdoa-me.” Então, Deus o perdoou. Certamente, Ele é Perdoador, Misericordioso. Disse: “Ó meu Senhor! Depois da graça que me concedeste, jamais ajudarei os criminosos.” (Surata Al-Qasas: 15–18)
Em seguida, foi dito:
(Árabe**********)Então, naquela manhã, ele se levantou na cidade, temeroso e vigilante. (Surata Al-Qasas: 18)
Neste versículo, é apresentada uma cena muito conhecida. Quando uma pessoa se assusta, olha para todos os lados enquanto caminha, pois não quer voltar a se deparar com aquela situação. Esse é o estado habitual das pessoas de natureza inquieta.
Moisés (que a paz esteja com ele) havia prometido que não ajudaria mais ninguém em perigo. Vejamos até que ponto ele permaneceu firme nessa decisão. De repente, ele viu:
(Árabe**********)
De repente, viu que o homem que, no dia anterior, lhe havia pedido ajuda estava clamando por seu auxílio. Moisés lhe disse: “Tu és, evidentemente, um homem extraviado.” (Surata Al-Qasas: 18)
Mas ele se esqueceu de sua promessa. Aproximou-se dele e quis repetir o que havia acontecido antes, pois era um homem de natureza inquieta. Por isso, esqueceu-se de que, envergonhado por esse tipo de atitude, havia pedido perdão na presença divina. Quando lhe recordaram seu crime passado, ele ficou com medo.
(Árabe**********)
Então, quando Moisés quis castigar o inimigo de ambos, este disse: “Queres matar-me como mataste ontem um homem? Queres apenas tornar-te um tirano na terra; não queres ser um reformador.” (Surata Al-Qasas: 19)
Naquele momento, um homem veio aconselhá-lo a fugir da cidade. Sabemos que, seguindo esse conselho, ele emigrou. Deixemo-lo por enquanto. Encontremo-nos com ele depois de dez anos. Durante esse longo período, teria havido alguma estabilidade em seu temperamento? Teria ele conseguido tornar-se uma pessoa calma e serena?
Certamente, não. Não houve nenhuma mudança fundamental em seu temperamento e em sua natureza. Quando uma voz veio do lado direito do monte Tur: «Lança o teu cajado!» Ele o lançou, mas, quando o cajado se transformou numa serpente em movimento, ao vê-la, começou a fugir desesperadamente. Nem sequer olhou para trás. Mesmo na idade madura, não conseguiu abandonar seu antigo hábito. — Naturalmente, naquela situação, todos correriam —, mas ele correu à frente de todos. Não parou nem por um instante para tentar ver o que estava acontecendo ali.
Venceu os feiticeiros, salvou os Filhos de Israel da opressão do Faraó e fê-los atravessar o mar. Depois, no momento determinado, chegou ao monte Tur para receber a bênção da profecia. Ainda assim, ao chegar ao monte Tur, fez a Allah um pedido extraordinário:
(Árabe**********)
Moisés disse: «Meu Senhor! Mostra-Te a mim; eu Te verei.» Allah disse: «Jamais Me verás. Olha para o monte; se ele permanecer firme em seu lugar, então também Me verás.» (Surata Al-A’raf: 143)
Então, o que aconteceu depois — não apenas Moisés, que a paz esteja com ele, mas nenhum ser humano na Terra é capaz de compreender.
(Árabe**********)
Então, quando seu Senhor irradiou Sua luz sobre o monte, este foi imediatamente reduzido a pó, e Moisés caiu inconsciente. Quando recuperou a consciência, disse: «Ó Senhor! Tua Essência é santa. Arrependo-me diante de Ti, e sou o primeiro dos crentes.» (Surata Al-A’raf: 143)
Moisés (que a paz esteja com ele) fez o que faz uma pessoa de natureza inquieta.
Isso não foi tudo. Quando voltou de lá e viu seu povo adorando um bezerro, tendo nas mãos as tábuas da Torá que o Senhor lhe havia dado, sem pensar duas vezes lançou-as violentamente ao chão, agarrou a barba do irmão e começou a puxá-lo e arrastá-lo. Não se dispôs sequer a ouvir suas palavras. Então começou a dizer:
(Árabe**********)
Ó filho de minha mãe! Não puxes minha barba nem os cabelos da minha cabeça. Eu temi que dissesses: “Tu causaste divisão entre os filhos de Israel e não guardaste a minha palavra.” (Surata Ta-Ha: 94)
Quando soube que um homem chamado Samiri havia organizado a adoração do bezerro, toda a sua ira voltou-se contra ele. Dirigindo-se a Samiri, declarou com voz trovejante:
(Árabe**********)
Moisés disse: “Afasta-te! Para ti haverá este castigo por toda a vida: dirás ‘Não me toques’. Para ti há uma promessa determinada, que não será quebrada. Olha para a tua divindade, à qual te apegavas. Nós a queimaremos e espalharemos suas cinzas pelo mar.” (Surata Ta-Ha: 97)
O venerável Moisés (que a paz esteja com ele) fez tudo isso dominado pela ira. Concedamos-lhe mais alguns anos de intervalo.
O povo de Moisés (a.s.) encontrava-se no deserto de Tih. Segundo nossa opinião, quando ele se separou de seu povo, já havia alcançado a maturidade. Encontrou um homem virtuoso e manifestou o desejo de permanecer em sua companhia para dela se beneficiar. Sabemos que, também ali, ele não conseguiu manter a paciência. Enfim, o homem virtuoso explicou-lhe as razões de seus atos e, então, separou-se dele.
Essa era a personalidade de Moisés (a.s.), apresentada, ao longo de cada passagem da narrativa, como uma figura exemplar.
2. Personalidade de coração terno e tolerante
A personalidade de Abraão (a.s.) era exatamente o oposto da personalidade de Moisés (a.s.). Abraão (a.s.) foi um exemplo luminoso de uma personalidade de coração terno e equilibrada. Foi dito:
(Árabe**********)Sem dúvida, Abraão era muito terno e tolerante. (Surata At-Tawbah: 114)
Desde a infância, ao buscar conhecer Allah, ele refletiu profundamente da seguinte maneira. Foi dito:
(Árabe**********)
Quando a escuridão da noite o envolveu, ele viu uma estrela. Disse: Este é o meu Senhor. Porém, quando ela se pôs, disse: Não amo os que se põem. Depois, quando viu a lua brilhante, disse: Esta é o meu Senhor. Mas, quando ela desapareceu, disse: Se o meu Senhor não me guiar, certamente farei parte do povo desviado. Então, quando viu o sol ainda mais resplandecente, disse: Este é o meu Senhor; este é o maior. Porém, quando ele também se pôs, disse: Ó meu povo, estou livre de tudo quanto associais a Allah. Voltei meu rosto, como um monoteísta, para Aquele que criou os céus e a terra, e não sou dos idólatras. Seu povo discutiu com ele. Ele disse: Discutis comigo a respeito da unicidade de Allah, embora Ele me tenha guiado? Não temo aqueles que associais a Ele, a menos que o meu Senhor queira causar-me algum mal. O meu Senhor abrange todas as coisas com o Seu conhecimento. Não refletis? (Surata Al-An’am: 76–81)
Quando Hazrat Ibrahim (A.S.) creu na unicidade de Allah, foi com um tom extremamente suave e cheio de amor que, primeiramente, convidou seu pai ao tawhid:
(Árabe**********)
Quando ele disse a seu pai: “Ó meu pai! Por que adoras aquilo que não ouve, não vê e não te traz benefício algum? Ó meu pai! Chegou-me um conhecimento que não te chegou. Segue-me, portanto, e eu te mostrarei o caminho reto. Ó meu pai! Não sigas Satanás; na verdade, Satanás é desobediente ao Misericordioso. Ó meu pai! Um castigo do Misericordioso te tocará, e então te tornarás companheiro de Satanás.” (Surata Maryam: 42–35)
Mas o pai de Ibrahim (A.S.) rejeitou seu convite e disse em tom ameaçador:
(Árabe**********)
Disse: “Ó Ibrahim! Estás te afastando das minhas divindades? Se não desistires, certamente te matarei apedrejando-te. Afasta-te de mim para sempre.”
Entretanto, mesmo diante dessa atitude severa de seu pai, não se viu Ibrahim ultrapassar os limites da paciência e da tolerância, nem se mostrou arrogante. Pelo contrário, respondeu de maneira educada e gentil:
(Árabe**********)
Abraão disse: «Que a paz esteja sobre ti. Pedirei perdão ao meu Senhor por ti. Certamente, Ele é Benevolente para comigo. Eu me afasto de vós e daqueles a quem adorais além de Deus; adorarei o meu Senhor. Espero não ser privado de adorar o meu Senhor.» (Surata Maryam: 47-48)
Depois, o profeta Abraão (que a paz esteja sobre ele) destruiu os ídolos. Talvez esta tenha sido a única ação que realizou com uma atitude severa. Foi graças à majestade incomparável de Deus que ele conseguiu destruir os ídolos. Ele imaginou que, quando seu povo visse os ídolos despedaçados e espalhados, seria obrigado a pensar: os ídolos jamais conseguem sequer mover-se por causa de suas próprias aflições e sofrimentos. Portanto, certamente alguém os destruiu. Ele pensava que, dessa forma, seu povo abraçaria a fé. Certamente, eles disseram em seu íntimo:
(Árabe**********)Então refletiram interiormente e disseram: «Ó povo! Sois vós os injustos.» (Surata Al-Anbiya: 64)
Quando seu povo decidiu queimá-lo vivo no fogo, Deus disse:
(Árabe**********)Eu disse: «Ó fogo! Sê frio e seguro para Abraão.» (Surata Al-Anbiya: 69)
Depois, o profeta Abraão (que a paz esteja sobre ele) emigrou levando consigo os crentes. Entre os crentes estava também seu sobrinho, o profeta Lot (que a paz esteja sobre ele). Mais tarde, já na velhice, Deus concedeu-lhe um filho chamado Ismael. Porém, os acontecimentos tomaram outro rumo, e ele foi obrigado a deixar a esposa e o filho em outro lugar. O Alcorão permanece silencioso quanto à razão disso. Confiando unicamente em Deus, deixou-os numa terra desolada. Então suplicou diante de Deus com extrema humildade, súplica e voz angustiada.
(Árabe**********)
«Ó meu Senhor! Estabeleci um dos meus descendentes num vale sem cultivo, junto à Tua Casa sagrada. Ó meu Senhor! Para que eles estabeleçam a oração. Faze com que alguns corações se inclinem para eles e provê-lhes frutos como sustento. Talvez expressem gratidão.» (Surata Ibrahim: 37)
Hazrat Ismael (A) ainda não havia atingido a juventude; era apenas um adolescente. Nessas circunstâncias, Hazrat Ibrahim (A) viu em sonho que estava sacrificando Ismael (A). Depois de despertar do sonho, preparou-se para ser submetido à prova da fé. Então, por Sua misericórdia, Allah ofereceu o “Grande Sacrifício” em substituição a Ismael (A).
Com efeito, de todos os acontecimentos e relatos encontrados sobre Hazrat Ibrahim (A), uma coisa se torna evidente: ele era uma pessoa de natureza extremamente afável e tolerante. Sobre isso, o próprio Alcorão dá testemunho:
(Árabe**********)Sem dúvida, Ibrahim era muito paciente, de coração terno e devotado a Allah (Surata Hud: 75).
3. Hazrat Yusuf (A)
Hazrat Yusuf (A) era a personificação de uma personalidade instruída e sábia.
Vejam: a esposa de Aziz tentava seduzi-lo a cometer um ato imoral e também o ameaçava por não atender ao que ela dizia. Mas ele rejeitou firmemente a proposta. Ele vivia na casa de Aziz e, por isso, via todos com respeito e reverência. Assim, esforçava-se sempre para que nada fosse dito que pudesse lançar sua honra e dignidade por terra.
É declarado:
(Árabe**********)
Certamente, a mulher havia pensado nele, e ele também teria pensado nela, se não tivesse visto o sinal de seu Senhor. Assim, afastamos dele as más ações indecentes. Certamente, ele era um dos Nossos servos escolhidos. (Surata de Yusuf: 24)
Vejamos um pouco mais adiante o verdadeiro rosto da mulher:
(Árabe**********)
Ambos correram em direção à porta, e a mulher rasgou por trás a camisa de Yusuf. (Surata de Yusuf: 25)
De repente, ele ouviu aquela voz, a voz que amedrontava a esposa.
(Árabe**********) e ambos encontraram o marido da mulher junto à porta.
Aqui, a mulher se revelou como realmente era. Ela caluniou Yusuf:
(Árabe**********) Ela disse: Aquele que deseja praticar uma ação indecente com tua família.
Como a mulher estava loucamente apaixonada por Hazrat Yusuf (que a paz esteja com ele), não queria que ele recebesse uma punição severa. Por isso, ela mesma sugeriu uma punição mais leve, dizendo:
(Árabe**********)Enviem-no para a prisão ou apliquem-lhe uma punição dolorosa (que outra punição poderia ser aplicada?). (Surata Yusuf: 25)
Ele declarou a verdade com toda a cortesia.
(Árabe**********)Ela disse: Foi ele quem me incitou a não me conter. (Surata Yusuf: 26)
Isso foi comprovado. O interessante é que um dos parentes mais próximos da própria mulher se apresentou como testemunha.
(Árabe**********)
Um membro da família da mulher testemunhou: se a camisa dele estiver rasgada na parte da frente, a mulher estará dizendo a verdade e ele será mentiroso. Mas, se a camisa estiver rasgada nas costas, a mulher será mentirosa e ele estará dizendo a verdade. (Surata Yusuf: 26–27)
Com isso, ficou comprovada a veracidade de Hazrat Yusuf (que a paz esteja com ele).
Esse acontecimento espalhou-se entre todas as mulheres da cidade. A esposa do Aziz começou a morrer de vergonha. Certo dia, convidou todas as mulheres da cidade. Quando elas pegaram as facas para comer, — naquela época, no Egito, era costume cortar a comida com facas enquanto os convidados comiam — Yusuf (que a paz esteja com ele) foi apresentado diante delas. As mulheres ficaram completamente absortas olhando para ele. A ponto de, ao cortar a comida com as facas enquanto olhavam para ele, cada uma ferir a própria mão.
(Árabe**********)
Quando o viram, ficaram atônitas e cortaram as próprias mãos. Disseram: «Isso não pode ser um ser humano! Ele é certamente um anjo nobre.» (Surata Yusuf: 31)
Todas elas eram mulheres, e entre elas estava também a esposa do Aziz. Ela sabia muito bem como as mulheres haviam ficado dominadas pelo assombro.
(Árabe**********)Depois de verem esses sinais, acharam apropriado mantê-lo na prisão por algum tempo. (Surata Yusuf: 35)
Depois, vemos que Hazrat Yusuf (que a paz esteja com ele), na prisão, explicou os sonhos de dois servidores do rei. A respeito de um deles, ele concluiu que seria libertado e novamente nomeado companheiro do rei; então disse-lhe: «Quando fores ao rei, fala-lhe de mim.» Mas, ao sair, ele se esqueceu. Assim, Hazrat Yusuf (que a paz esteja com ele) sofreu ainda mais alguns anos na prisão. Quando o rei teve um sonho e ficou aflito, querendo saber sua interpretação, ninguém conseguiu apresentar a interpretação correta. Então aquele homem lembrou-se de Hazrat Yusuf (que a paz esteja com ele). Ele contou todo o acontecimento ao rei. Depois, o rei mandou chamá-lo na prisão para que lhe explicasse o sonho.
Aqui se manifesta a inteligência de Hazrat Yusuf (que a paz esteja com ele). Ele teve de suportar, sem culpa, os tormentos da prisão. Mesmo ao ouvir hoje o chamado para a liberdade, temia que, se fosse novamente dominado pela suspeita, o mandassem de volta à prisão. Por isso, procurava uma oportunidade para fazer com que a questão fosse esclarecida. Assim, mandou dizer ao mensageiro:
(Árabe**********)
Ele disse: “Voltai ao vosso senhor e perguntai-lhe qual foi a situação das mulheres que cortaram as mãos. Meu Senhor conhece perfeitamente as suas intrigas.” (Surata de José: 50)
O rei perguntou a todas aquelas mulheres sobre todo o acontecimento. Elas contaram tudo. A própria esposa de Aziz reconheceu a castidade dele. Naturalmente, pode-se entender que, naquela época, aquela mulher já havia envelhecido. Pensamos que, quando esse acontecimento ocorreu, ela tinha quarenta anos ou um pouco mais. Já havia entrado na maturidade e, portanto, não lhe era mais possível envolver-se em qualquer ato indecoroso. Por isso, confessou francamente:
(Árabe**********)
A esposa de Aziz disse: “Agora a verdade veio à tona. Fui eu que tentei seduzi-lo, e ele é verdadeiramente sincero.” (Surata de José: 51)
A discussão acima deixa claramente evidente que o profeta José (que a paz esteja com ele) era extremamente sábio e racional. Dar cada passo com cautela era uma de suas principais características. Por isso, foi dito:
(Árabe**********)
“Isso, para que Aziz saiba que não o traí secretamente. Além disso, Allah não faz prosperar a astúcia dos traidores. Não declaro minha inocência; na verdade, a alma humana é propensa ao mal.” (Surata de José: 52–53)
Quando o profeta José (que a paz esteja com ele) viu que o rei havia sido influenciado por suas palavras e ficara feliz ao conhecer a interpretação do sonho, ele chegou a dizer:
(Árabe**********)Certamente, a partir de hoje, conquistaste junto a mim a posição de pessoa digna de confiança. (Surata de Yūsuf: 54)
Aproveitando a oportunidade, sem deixá-la escapar, ele disse ao rei:
(Árabe**********)
Confia-me a administração dos tesouros do país. Sou um guardião fiel e experiente. (Surata de Yūsuf: 55)
Assim, ele aproveitou bem a oportunidade. Administrou habilmente tanto em tempos de prosperidade quanto de fome, demonstrando sua competência. Exerceu essa responsabilidade durante catorze anos. Nesse período, não se considerava apenas o ministro da alimentação do Egito, mas também o responsável pelos Estados e regiões vizinhos, pois eles também haviam sido atingidos pelas garras da fome. Por isso, foram obrigados a obter alimentos do Egito durante sete anos.
Quando seus irmãos foram ao Egito para receber a ração, ele os reconheceu, mas eles não o reconheceram. Ele lhes impôs a condição de que, se na próxima vez não trouxessem o irmão, não receberiam a ração. Na remessa seguinte, quando trouxeram seu irmão Benjamin, ele colocou uma taça real entre seus pertences para separá-lo dos demais e anunciou que uma taça havia sido roubada do palácio real. “Ó gente da caravana! Vós roubastes.” Eles negaram o roubo e desafiaram-nos a revistar seus pertences. Disseram também: “Prendei e mantende sob custódia aquele em cuja posse for encontrada a taça perdida.” Aqui se manifesta a sagacidade de Yūsuf (que a paz esteja com ele).
(Árabe**********)
Em seguida, Yūsuf começou a revistar os alforjes deles, em vez do alforje de seu próprio irmão. Por fim, retirou o recipiente do alforje de seu próprio irmão. (Surata de Yūsuf: 76)
Os irmãos de Yusuf (A) deixaram Bin Yamin no país e retornaram. Então, Hazrat Yusuf (A) revelou sua identidade. Antes disso, porém, deixou-os confusos e lhes deu uma pequena lição.
Aqui, a personalidade de Hazrat Yusuf (A) foi apresentada de maneira extremamente brilhante. Conhecimento e sabedoria, reflexão ponderada e racionalidade, entre outras qualidades, eram características de sua personalidade.
4. Hazrat Adão (A)
Queríamos discutir detalhadamente as personalidades de Hazrat Adão e Iblis. No entanto, em vez disso, apresentaremos ambos os relatos de forma resumida e conjunta, pois espero descrever esse acontecimento detalhadamente em outro lugar.
Na verdade, no Alcorão, Hazrat Adão (A) foi apresentado como o exemplo de um ser humano no qual estão presentes todas as qualidades e características humanas. Entre as características humanas, há uma que se manifestou no início da vida de Hazrat Adão (A) e que ainda hoje se encontra nas pessoas. Foi justamente da fraqueza humana que Iblis se aproveitou. Por isso, tanto Adão quanto Eva acreditaram nas palavras de Iblis.
(Árabe**********)
Iblis disse: “Ó Adão! Queres que te indique a árvore da vida eterna e um reino imperecível?” (Surata Ta-Ha: 120)
Por isso, o ser humano sempre anseia por uma vida que não tenha fim. Quando tenta alcançá-la seguindo o conselho de Satanás, a questão do lícito e do ilícito torna-se secundária para ele. Às vezes, o ser humano deseja permanecer vivo na Terra por meio de seus descendentes; outras vezes, deseja criar filhos espirituais de suas crenças, convicções e concepções, para viver entre eles. Mas o Islam mostrou o verdadeiro caminho para a vida. Por isso, foi ordenado ao ser humano que acreditasse em outra vida após a morte. Sob essa perspectiva, o Islam é o garantidor de uma vida eterna. Quanto à personalidade de Iblis, ela é a personalidade de Satanás. Basta! Isso é suficiente para definir Iblis.
5. Hazrat Sulayman (que a paz esteja com ele)
Agora falarei sobre um acontecimento no qual o desenvolvimento das personalidades se manifesta em sua plenitude. Esse desenvolvimento está além da nossa imaginação. Ao mesmo tempo, a beleza artística e o propósito religioso também estão presentes em sua plenitude. Trata-se do episódio de Hazrat Sulayman (que a paz esteja com ele) e Bilqis.
Neste episódio, as personalidades de ambos são marcantes. Vemos a personalidade de um homem e, ao mesmo tempo, a de uma mulher; além disso, vemos a personalidade de um rei e a de uma imperatriz. Vejamos agora como as personalidades de ambos foram apresentadas.
(Árabe***********)
Sulayman examinou as aves e então disse: “O que aconteceu? Não vejo a poupa. Ou será que ela está ausente? Certamente lhe infligirei um castigo severo ou a condenarei à morte, a menos que ela apresente uma justificativa convincente.” (Surata An-Naml: 20–21)
Esta é a primeira cena. Aqui se revela um governante sábio, além de profeta, bem como uma personalidade prudente. O rei verifica a situação de seus súditos e se enfurece ao constatar que um deles está ausente sem permissão. Mas, ainda assim, ele não é um rei tirânico. Muitas vezes há uma razão justificável para uma ausência; se houver uma razão legítima desse tipo, não há problema. Caso contrário, isso é uma transgressão. Por isso, infligirei a ele um castigo ou a pena de morte.
(Árabe***********)
Pouco depois, a poupa chegou e disse: “Tomei conhecimento de algo de que você não tinha conhecimento. Trago-lhe de Sabá uma notícia segura. Vi uma mulher reinando sobre o povo de Sabá. Tudo lhe foi concedido, e ela possui um trono magnífico. Vi que ela e seu povo se prostravam em adoração ao sol em vez de Allah. Satanás tornou essa prática atraente para eles e os desviou do caminho reto; por isso, não encontram a orientação. Por que não se prostram diante de Allah, que revela o que está oculto nos céus e na terra e sabe o que ocultais e o que manifestais? Não há divindade além de Allah; Ele é o Senhor do Trono grandioso.” (An-Naml: 22–26)
Hudhud estava ausente; com a sua chegada, teve início a segunda cena. Ele sabia que o rei era extremamente poderoso e que sua punição também era extremamente severa. Por isso, começou seu discurso de tal maneira que acreditava que, iniciando-o assim, atrairia a atenção do rei e não teria de sofrer a punição por sua ausência. O discurso começou com estas palavras:
(Árabe************)
Trouxe uma notícia da qual você não tem conhecimento. Trata-se de uma informação segura sobre Sabá.
Se um súdito comum dissesse ao rei: “Eu conheço uma notícia da qual você não tem conhecimento”, haveria algum rei que pudesse deixar de ouvi-lo? Quando Hudhud viu que o rei o escutava atentamente, passou a relatar detalhadamente o acontecimento. Depois, maravilhado com a conduta do povo de Bilquis, disse:
(Árabe***********)
(Não consigo compreender) por que eles não se prostram diante de Allah, que conhece todos os segredos dos céus e da terra? (Surata An-Naml: 25)
Aqui, Hudhud é o culpado. O rei ainda não havia tomado nenhuma decisão a seu respeito. Por isso, Hudhud habilmente chamou a atenção do rei para o fato de que somente Allah é o Senhor do Trono Majestoso. Sulaiman (A.S.) disse:
(Árabe************)
Agora veremos se estás dizendo a verdade ou mentindo. Leva esta minha carta, lança-a diante deles e depois afasta-te; então observa que resposta darão. (Surata An-Naml: 27–28)
Este é o episódio final da segunda cena. Nela aparece um rei sábio e justo, que, mesmo depois de receber uma notícia tão importante, não perdoou o crime de alguém ausentar-se do exército. Por isso, tentou verificar a veracidade do acontecimento. Um profeta e um rei justo tomaram a decisão apropriada. Nós somos apenas espectadores comuns desta cena. Ainda não sabemos o que ele escreveu na carta. Não temos como saber até que a carta chegue às mãos da rainha. Quando a rainha recebe a carta, isso é revelado. É então que se inicia a terceira cena.
(Árabe***********)
A rainha disse: Ó membros do conselho, foi-me entregue uma carta honrosa. Ela é de Sulayman e diz o seguinte: Em nome de Allah, o Infinitamente Generoso, o Misericordiosíssimo. Não vos mostreis arrogantes diante de mim e vinde a mim em submissão. (Surata An-Naml: 29–31)
A rainha chamou a atenção dos membros do conselho para que deliberassem sobre a carta e disse:
(Árabe************)
A rainha disse: Ó membros do conselho! Aconselhai-me em meu assunto. Eu não tomo decisão alguma sem a vossa presença. (Surata An-Naml: 32)
Em todos os tempos e lugares, é hábito dos homens do exército exibirem constantemente a sua bravura e o seu valor. Afinal, sem demonstrar a sua bravura e o seu valor, não teriam como garantir o próprio sustento. Ao mesmo tempo, dizem também que toda a autoridade e o poder pertencem ao rei. Estamos prontos para obedecer a qualquer ordem. Assim, conforme o seu costume de sempre, exclamaram:
(Árabe***********)
Eles disseram: Somos fortes e valorosos guerreiros. Agora, a decisão cabe a você. Pondere e veja que instruções nos dará. (Surata An-Naml: 33)
Neste ponto, manifestou-se a feminilidade de Bilqis. Em geral, as mulheres procuram evitar a agitação, os tumultos e as desordens; não gostam deles. É da natureza das mulheres tentar alcançar seus objetivos por meio da astúcia, sem recorrer à força. Outra de suas características é considerar o homem um adversário mesmo sem brigas ou conflitos.
(Árabe**********)
Ela disse: Quando os reis entram numa cidade, devastam-na e humilham seus nobres. É isso que eles farão. Enviarei a ele alguns presentes e veremos o que os mensageiros trarão como resposta. (Surata An-Naml: 34-35)
Aqui cai a cortina desta cena. Depois que o mensageiro entrou na presença de Sulayman, a cortina tornou a subir.
(Árabe**********)
Então, quando chegaram à presença de Sulayman, ele disse: Quereis ajudar-me com riquezas? Aquilo que Allah me concedeu é melhor do que aquilo que vos foi dado. Antes, regozijai-vos com os vossos presentes. Voltai para junto deles; certamente iremos contra eles com um exército ao qual não poderão resistir. Com certeza, nós os humilharemos e os expulsaremos de lá, aviltados. (Surata An-Naml: 36-37)
Ele o mandou de volta, juntamente com os presentes que o mensageiro havia levado até ele. Deixemo-la voltar.
Sulaimão (A.S.) não era apenas um profeta ou rei; era também um homem valente. Graças à sua experiência como rei, ele compreendeu que, com a altivez com que o presente da rainha fora devolvido, chegaria a um entendimento definitivo com ela.
O envio do presente pela rainha mostra que ela se esforçava para evitar a inimizade. Enviara o presente para que pudesse haver um acordo. Por outro lado, o rei (Sulaimão) acreditava que ela aceitaria o convite. Nesse momento, despertou em Hazrat Sulaimão (A.S.) aquela virilidade que deseja impor sua supremacia sobre a mulher por meio de sua própria força e estratégia.
Hazrat Sulaimão (A.S.) queria trazer o trono da rainha antes da chegada dela e desejava construir para ela um palácio de vidro, mas não houve uma descrição clara do acontecimento. Para espectadores como nós, isso permaneceu um mistério. Quando a rainha chegou à presença de Hazrat Sulaimão (A.S.), ficamos sabendo da segunda cena do palácio:
(Árabe**********)
Sulaimão disse: “Ó membros da assembleia! Quem me trará o trono dela antes que eles cheguem a mim, submetendo-se?” Um jinn gigante disse: “Eu o trarei antes que você se levante do seu lugar, e tenho capacidade para isso e sou digno de confiança.” (Surata An-Naml: 38-39)
Mas o objetivo religioso não é compatível com a dependência dos poderes dos jinns. Ao ver Sulaimão (A.S.) permanecer em silêncio, o homem crente, que tinha conhecimento do Livro de Allah, disse: “Eis-me à sua disposição.” Naturalmente, seu poder era maior que o daquele jinn.
(Árabe*********)
Aquele que possuía conhecimento do Livro disse: “Eu o trarei e o colocarei diante de você antes que seus olhos pisquem.” (Surata An-Naml: 40)
Aqui há uma breve pausa. Apenas o tempo suficiente para fechar e abrir os olhos uma vez. Em seguida, a cena recomeça.
(Árabe*********)
Quando Sulaimão o viu colocado diante de si, disse: “Isto é uma graça do meu Senhor, para que Ele me ponha à prova, a fim de verificar se Lhe agradeço ou se sou ingrato. Quem agradece, agradece em benefício próprio; e quem é ingrato, que saiba que meu Senhor é independente de toda necessidade e generoso.” (An-Naml: 40)
O profeta que existia no íntimo de Hazrat Sulaimão (A.S.) despertou agora pela misericórdia de Allah. A manifestação dessa misericórdia ocorreu por meio de um de Seus servos, que fez o trono da rainha aparecer em apenas um instante. Por isso, Sulaimão, com o coração tranquilo, agradece repetidamente a Allah, para que seu objetivo religioso seja realizado.
Pouco depois, a virilidade de Sulaimão (A.S.) despertou novamente.
(Árabe*********)
Ele disse: “Alterem a forma do trono dela. Veremos se ela o reconhecerá ou se fará parte daqueles que nada compreendem.” (Surata An-Naml: 41)
Agora, a cena da recepção da imperatriz. Os espectadores aguardam, de respiração suspensa, a chegada da imperatriz.
(Árabe*********)
Quando a imperatriz chegou, perguntaram-lhe: «É assim o seu trono?» Ela respondeu: «Parece que é o mesmo.»
O que aconteceu depois? Parece que a imperatriz ainda não havia abraçado o Islam.
(Árabe*********)
Ele lhe disse que abandonasse aquilo que ela adorava em vez de Allah. Com efeito, ela pertencia ao povo dos incrédulos. (Surata An-Naml: 43)
Neste ponto, terminou a segunda cena da imperatriz e dos espectadores — entre os quais eu também me encontrava.
(Árabe*********)
Foi-lhe dito: “Entre neste palácio.” Quando ela olhou naquela direção, pensou que se tratava de um lago de águas cristalinas. Então levantou a roupa que cobria seus pés. Salomão disse: “Este é um palácio construído de cristal transparente.” Bilqis disse: “Ó meu Senhor! Eu, de fato, fui injusta comigo mesma. Submeto-me, com Salomão, a Allah, o Senhor dos mundos.” (Surata An-Naml: 44)
À luz desse acontecimento, percebe-se que Bilqis representa uma mulher plena. Por ser mulher, procurou resolver o problema de maneira pacífica, evitando tumultos e conflitos. Também é digno de reflexão o fato de que ela não se deixou cativar de imediato; primeiro, observou. Contudo, permaneceu tal como era. Na segunda cena, ela refletiu sobre a situação que havia sido criada para ela e sobre aquilo que precisava considerar: ele [o honorável Salomão (que a paz esteja com ele)] estava honrando-a e lhe oferecera uma recepção generosa em sua homenagem. Assim, entregou-se a ele. Diante de sua magnificência, esplendor e bravura, reconheceu sua submissão. Embora soubesse que toda aquela preparação fora feita para ela, ainda assim adotou a cautela própria das mulheres, aquela conduta feminina que havia sido concedida a Eva (que a paz esteja com ela). A cortina está descendo.
Esses acontecimentos não apresentam qualquer deficiência, seja no aspecto religioso, seja no artístico. Não há nenhum aspecto que precise ser acrescentado. Tampouco se trata simplesmente de uma história ou romance sem qualquer relação com a perspectiva artística. Trata-se de uma narrativa fundamentada em uma base religiosa.
As discussões sobre as emoções, os sentimentos e seus efeitos, apresentadas sob o título “A natureza humana”, foram organizadas em um estilo belíssimo, que é extremamente agradável.
Encerro aqui a discussão que fiz sobre as histórias corânicas. Se alguém quiser avançar mais nesse estudo, esta discussão lhe servirá de orientação.
Capítulo Onze
A natureza humana
Juntamente com a descrição de diversos temas religiosos, o Alcorão também apresenta breves retratos dos vários temperamentos e características humanas. O surpreendente é que, por meio de uma ou duas frases, a natureza humana é revelada de tal modo que parece surgir diante de nós, viva e em movimento.
Talvez esta seja uma representação da verdadeira natureza de toda a humanidade. O ser humano foi retratado com algumas características e disposições que são mais frequentemente observadas no mundo. Essas disposições humanas são permanentes. Nenhuma nação ou tribo está livre de todas essas características; cada pessoa necessariamente possui alguma delas.
Esses versículos foram originalmente revelados no contexto de uma situação específica, mas, por meio deles, foram retratadas algumas imagens vivas e reais do ser humano, cujo conteúdo é milagroso e eterno. Isso porque essas imagens se repetem, ao longo dos séculos, no ciclo do espaço e do tempo, permanecendo sempre vivas, vigorosas e concretas.
Agora apresentaremos brevemente alguns exemplos, tal como foram apresentados no Alcorão. É claro que já apresentamos anteriormente alguns exemplos desse tipo sob o título “Imagem artística”. Esse era, naturalmente, o lugar apropriado para eles: aquele capítulo. Ainda assim, por sua relação com acontecimentos ou narrativas, desejamos discuti-los no presente capítulo.
1. A natureza humana
No versículo a seguir, foi retratada uma imagem à qual toda a humanidade está ligada. Diz-se:
Quando o ser humano é atingido por alguma calamidade ou aflição, invoca-Me em todas as situações, de pé, deitado ou sentado. Quando removemos dele a aflição, ele se comporta como se jamais tivesse invocado-Me ao ser atingido por alguma adversidade. (Surata Yunus: 12)
Nesse breve exemplo mencionado, reúnem-se todos os elementos da verdade, da beleza e da beleza artística. Na realidade, essa é a natureza e o modo de ser do ser humano. A fitra humana é assim: quando a pessoa é atingida por uma calamidade e chega ao limiar entre a vida e a morte, passa a lembrar-se do nome de Allah, o Todo-Poderoso e Onipotente, de tal maneira que parece não haver solução para sua aflição senão junto a Ele. Assim que a calamidade e a aflição são afastadas, ela se desvia do caminho da verdade e da beleza e continua a agir como antes. Imagina que nenhuma adversidade jamais lhe sobreveio. Não dispõe sequer de um momento para olhar para trás. Sua situação angustiante foi apresentada com maestria artística da seguinte forma:
(Árabe*********)
Então, deitados, sentados ou em pé, eles Me invocam, aflitos. (Surata Yunus: 12)
Em seguida, quando a aflição é afastada, uma representação artística de seu estado é apresentada da seguinte forma:
(Árabe*********)(Quando) a aflição é afastada, comportam-se como se jamais tivessem Me invocado. (Surata Yunus: 12)
Essas duas imagens mostram que, quando o ser humano cai em infortúnio e calamidade, o curso de sua vida para. Às vezes, esse obstáculo se prolonga. Porém, quando a aflição e a calamidade são afastadas, a embarcação da vida volta a navegar, como se jamais tivesse encontrado qualquer obstáculo.
O Alcorão apresenta cenas desse tipo de maneira muito cativante. Embora não sejam todas do mesmo tipo, seu caráter fundamental é o mesmo. Todas convergem para um único ponto, como:(Árabe*********)
Quando concedemos uma graça ao ser humano, ele se afasta e se distancia com arrogância; mas, quando algum mal o toca, fica completamente desesperado. (Surata Bani Isra’il: 83)
(Árabe*********)
E, se fizermos o ser humano provar da Nossa misericórdia e depois a retirarmos dele, ele se torna desesperado e ingrato. Mas, se, após a adversidade que o atingiu, lhe concedermos bem-estar, ele dirá: “O meu infortúnio desapareceu.” Então, exulta desmedidamente e se torna arrogante e altivo. (Surata Hud: 9–10)
(Árabe*********)
O ser humano foi criado impaciente. Quando o mal o toca, fica angustiado; e, quando alcança o bem, torna-se avarento. (Surata Al-Ma’arij: 19–21)
Há muitos versículos desse tipo no Alcorão. Seu objetivo é apresentar ao ser humano, sob diferentes perspectivas, os traços permanentes da natureza humana. Contudo, todas essas atividades da vida humana acabam convergindo para uma única coisa: a tendência de continuar buscando superioridade em força e ostentação. Quando se envolve completamente nessa situação, dedica sua preciosa vida a esse objetivo. E, se alguma calamidade ou desgraça surge e se torna um obstáculo à sua esperança, ele não hesita sequer em recuar.
2. O crente de fé frágil
Entre as pessoas, há um grupo cuja fé é muito frágil. Elas não conseguem permanecer firmes em sua fé. Permanecem no caminho da fé enquanto podem tirar proveito dela em segurança e sem dificuldades. Mas, se lhes é imposto qualquer tipo de prova ou dificuldade, não hesitam em abandonar a fé imediatamente.
(Árabe*********)
Há pessoas que adoram Allah envolvidas em dúvidas e hesitações. Se recebem algum benefício, permanecem firmes na adoração; mas, se são submetidas a uma prova, retornam à condição anterior. Elas sofrem perda neste mundo e no Além. Essa é, de fato, a perda evidente. (Surata Al-Hajj: 11)
(Árabe*********)
Algumas pessoas dizem: «Cremos em Allah», mas, quando são perseguidas por causa de Allah, consideram a perseguição das pessoas como o castigo de Allah. Porém, quando chega algum auxílio da parte do teu Senhor, dizem: «Estávamos convosco». Acaso Allah não conhece o que há no coração dos crentes? (Surata Al-Ankabut: 10)
3. Pessoas oportunistas e ardilosas por natureza
Há pessoas que são oportunistas e ardilosas por natureza. Quando elas próprias realizam uma ação baseada na verdade, tiram proveito dela; mas, sempre que outra pessoa realiza essa mesma ação, negam-na.
(Árabe*********)
Quando lhes chegou, da parte de Allah, um Livro que confirmava o que já possuíam, e embora sempre pedissem a vitória sobre os infiéis, quando lhes chegou aquilo que reconheciam, rejeitaram-no conscientemente. Portanto, que a maldição de Allah recaia sobre os que rejeitam. (Surata Al-Baqara: 89)
Quando são convocados a Allah e ao Mensageiro para que se julgue entre eles, um grupo deles dá as costas. Mas, se a verdade lhes for favorável, correm humildemente até o Mensageiro. (Surata An-Nur: 48-49)
4. Covardes
Há também pessoas que veem a verdade com ódio e desprezo e não desejam conhecê-la. Assim, por um lado, a sua teimosia e obstinação as impedem de aceitar a verdade e, por outro, a covardia apodera-se delas. Por isso, jamais têm sequer coragem de enfrentar a verdade.
(Árabe*********)
Eles discutiam contigo mesmo depois de a verdade e a justiça se terem tornado evidentes, como se estivessem sendo conduzidos para a morte enquanto a viam. (Surata Al-Anfal: 6)
5. Pessoas que provocam risos e gracejos
Há pessoas de natureza estranha. Elas tentam fugir da verdade sem pensar nas consequências.
(Árabe*********)
O que há com eles, para se afastarem da admoestação? Como se fossem jumentos assustados e dispersos, fugindo por causa do tumulto. (Al-Muddaththir: 49–51)
6. Humanos apenas na aparência
É como uma matéria inerte em movimento, cuja visão faz as pessoas rirem.
(Árabe*********)
Quando os vês, sua aparência te parece extremamente atraente. E, se falam, tu escutas o que dizem. Mas são como troncos encostados a uma parede. (Surata Al-Munafiqun: 4)
Esta é uma imagem extremamente atraente dos hipócritas: um humor mesclado de dor.
7. Os que desejam elogios
Eles próprios nada fazem, mas querem que as pessoas os elogiem por aquilo que não fizeram.
(Árabe*********) e desejam ser louvados pelo que não fizeram. (Surata Al Imran: 188)
Em todas as épocas e em todos os lugares, vê-se a presença de pessoas desse tipo.
8. Oportunistas
Há pessoas que, ao perceberem uma vantagem, juntam-se a um grupo; mas, quando surge alguma dificuldade, passam para outro grupo.
(Árabe*********)
São pessoas que estão sempre à espreita, aguardando o vosso bem ou o vosso mal. Se, pela vontade de Allah, fordes vitoriosos, dizem: «Acaso não estávamos convosco?» Mas, se os incrédulos obtiverem uma vitória parcial, dizem-lhes: «Acaso não vos cercámos e não vos protegemos das mãos dos muçulmanos?»
9. O arrogante extraordinário
Nos dois versículos seguintes, é retratada uma pessoa arrogante de natureza extraordinária. Esses dois versículos também são mencionados sob o título «Imagem artística».
(Árabe*********)
E, mesmo que Eu lhes abrisse uma porta do céu e eles subissem por ela durante todo o dia, ainda assim diriam: «A nossa visão foi confundida; ou então fomos enfeitiçados.» (Surata Al-Hijr: 14–15)
(Árabe*********)
Se tivéssemos feito descer sobre eles algo escrito em papel e, depois, eles o tocassem com as próprias mãos, ainda assim os incrédulos diriam: “Isto não é senão magia manifesta.” (Surata Al-An‘am: 7)
10. O covarde sem-vergonha
O exemplo daquele que é covarde e, ao mesmo tempo, sem-vergonha ou descarado é apresentado da seguinte forma:
(Árabe*********)
E se pudesses ver quando forem colocados diante do Inferno! Dirão: “Como seria bom se fôssemos enviados de volta à terra! Então não consideraríamos falsas as evidências do nosso Senhor e seríamos crentes.” O que antes ocultavam aparecerá diante deles. E, mesmo que fossem enviados de volta, fariam aquilo que lhes havia sido proibido. Na verdade, são mentirosos. (Surata Al-An‘am: 27–28)
11. O hipócrita fraco
Aqui é apresentado o exemplo de um hipócrita fraco. Assim como não consegue tomar uma decisão por si mesmo, também não consegue aceitar a verdade. A cada momento, permanece vacilante entre a dúvida e a hesitação.
(Árabe*********)
E sempre que uma surata é revelada, eles olham uns para os outros e perguntam entre si se algum muçulmano os viu; depois, afastam-se furtivamente. Allah desviou os seus corações da verdade. Certamente, eles fazem parte de um povo ignorante. (Surata At-Tawbah: 127)
Quando pessoas desse tipo começam a fugir sorrateiramente, é realmente uma cena digna de ser observada.
12. O que apresenta desculpas
Aqui são apresentados exemplos de pessoas covardes, que quebram promessas e inventam falsas desculpas.
(Árabe*********)
Se houvesse um benefício imediato e a viagem fosse curta, certamente eles teriam saído contigo. Mas, quando a viagem lhes parece longa, juram, dizendo: “Se tivéssemos capacidade, certamente sairíamos convosco.” Na verdade, eles próprios estão se lançando à destruição. Allah sabe que são mentirosos. (Surata At-Tawbah: 42)
13. Há pessoas que se ocupam de enganar e de hipocrisia. Embora se considerem espertas, não têm na cabeça senão palha. Tentam enganar as pessoas, mas, infelizmente, acabam enganando a si mesmas.
(Árabe*********)
Entre as pessoas, há algumas que dizem: “Cremos em Allah e no Último Dia”, embora não sejam crentes. Tentam enganar Allah e os crentes, mas não enganam senão a si mesmas, sem se darem conta disso.
14. Os causadores de corrupção
Há um tipo de pessoa que vive causando corrupção, sem saber nem compreender; porém, quando lhe dizem para parar, enfurece-se violentamente.
(Árabe*********)
E quando lhes é dito: “Não causeis intrigas e corrupção na Terra”, dizem: “Estamos apenas promovendo a reforma.” Sabei que, na verdade, são eles os causadores da corrupção, mas não percebem isso.
15. Os obcecados pelo encanto da vida mundana
Há pessoas que dão importância excessiva à vida mundana. Onde quer que estejam, suas necessidades físicas são o que mais lhes importa. Dão-lhes tamanha importância que, se necessário, aceitam viver uma vida de humilhação (mas não aceitam arriscar a vida protestando contra isso), algo impossível para uma pessoa de espírito livre. Foi dito:
(Árabe*********)Você os verá mais ávidos pela vida do que todos os demais.
16. Pessoas de natureza teimosa e inerte
Há também pessoas cujos pés parecem ser feitos de pedra. Elas não fazem esforço algum para se livrar dessa condição.
(Árabe*********)
E quando lhes é dito: “Segui o que Alá revelou”, respondem: “De modo algum! Seguimos apenas aquilo em que encontramos nossos antepassados”, embora seus antepassados nada soubessem nem conhecessem o caminho reto. (Surata Al-Baqarah: 170)
17. Grupo arbitrário
Há pessoas que não seguem um caminho específico, nem pertencem a qualquer grupo ou jamāʿat. Sobre elas é afirmado:
(Árabe*********)
Que maravilha! Quando assumem um compromisso, uma parte delas o lança fora. Na verdade, a maioria não crê. (Surata Al-Baqarah: 100)
18. Quer seja verdade ou mentira, eles certamente discutirão
Há pessoas que, seja a questão verdadeira ou falsa, quer saibam ou não, inevitavelmente discutem ou causam confusão. Onde quer que alguém encontre pessoas desse tipo, não pode deixar de se entristecer.
(Árabe*********)
Ouçam! Antes, discutíeis sobre aquilo que conhecíeis. Por que agora discutis sobre aquilo de que nada sabeis? Deus sabe muito bem aquilo que não sabeis. (Surata آل Imran: 66)
(Árabe*********)
Há pessoas que começam a discutir sobre Deus sem conhecimento, prova ou Livro esclarecedor. Ele discute, virando-se de lado, para poder desviar do caminho de Deus. (Surata Al-Hajj: 8–9)
Aqui é apresentado um retrato perfeito da pessoa que discute e é arrogante. Dominado pela arrogância, ele continua discutindo, virando o pescoço para um lado e para o outro.
19. O avarento
Aqueles que não gastam quando necessário são avarentos. Se alguém sofrer prejuízo depois de gastar, dirá com um sorriso de vitória: “Ainda bem que não gastei; fiz muito bem. Meu dinheiro ficou comigo.” Mas, se houver algum benefício na jihad, lamentará, dizendo: “Ai de mim! Teria sido melhor se eu também tivesse gasto.”
(Árabe*********)
Há entre vós alguns que se esquivam e, quando uma desgraça vos atinge, dizem: “Ainda bem que não fui com eles; Allah salvou-me.” Mas, se vos alcançar uma graça de Allah, começam a dizer como se jamais tivesse havido qualquer amizade entre eles e vós: “Ah! Se eu estivesse com eles, também teria alcançado o sucesso.” (Surata Al-Baqara: 204–205)
20. Contradição entre o interior e o exterior
Há pessoas cujo exterior não corresponde ao interior. Parecem ser completamente opostas: não uma, mas duas pessoas.
(Árabe*********)
Há pessoas cujas palavras sobre a vida mundana te deixam maravilhado. E tomam Allah como testemunha daquilo que têm no coração. Na realidade, são pessoas briguentas. Quando se afastam, espalham a corrupção na terra, esforçam-se por destruir as plantações e causar a morte. Contudo, Allah não aprecia a corrupção, a desordem nem os tumultos. (Surata Al-Baqara: 204–205)
21. O arrependido em estado agonizante
Algumas pessoas vivem toda a sua vida conforme lhes apraz e se arrependem no momento que antecede a morte. Mas esse arrependimento não é aceitável.
(Árabe*********)
Não há perdão para aqueles que persistem em praticar o mal e, quando a morte pende sobre suas cabeças, dizem: “Agora me arrependo.” E não há arrependimento para aqueles que morrem em estado de incredulidade. (Surata An-Nissá: 18)
22. Pessoas de pouca inteligência
Algumas pessoas são tão pouco inteligentes que permanecem completamente indiferentes ao que é dito diante delas.
(Árabe*********)
Entre eles há alguns que escutam atentamente as suas palavras, mas, assim que saem, perguntam aos que têm conhecimento: “O que ele acabou de dizer?” (Surata Muhammad: 16)
23. Os verdadeiros crentes
Sobre pessoas desse tipo, foi dito:
(Árabe*********)
Àqueles a quem se diz: “Muitas pessoas se reuniram para vos enfrentar e muitos equipamentos foram reunidos; temei-os”, isso lhes fortalece ainda mais a fé, e eles respondem: “Allah nos basta, e que excelente Guardião Ele é.” (Surata Al-Baqara: 273)
24. Pobres, porém satisfeitos com pouco
Allah, o Senhor dos mundos, diz acerca de algumas pessoas:
(Árabe*********)
As caridades são destinadas aos pobres que se encontram impedidos no caminho de Allah e não podem viajar por outras terras em busca de sustento. O ignorante os considera abastados porque não estendem a mão. Tu os reconhecerás pelos seus sinais. Eles não imploram às pessoas, de maneira insistente, que lhes deem esmola. (Surata Al-Baqara: 273)
25. Aqueles que temem a Allah
O mandamento de Allah acerca dessas pessoas é:
(Árabe*********)
Os crentes são assim: quando o nome de Allah é mencionado diante deles, seus corações se enchem de temor. E quando Suas palavras são recitadas diante deles, sua fé aumenta. Eles depositam sua confiança em seu Senhor. (Surata Al-Anfal: 2)
26. Os verdadeiros servos de Allah
(Árabe*********)
Os verdadeiros servos do Misericordioso são aqueles que caminham humildemente pela Terra e, quando os ignorantes lhes dirigem a palavra, afastam-se dizendo: “Paz!” (Surata Al-Furqan: 63)
27. Generosos e magnânimos
Allah, o Altíssimo, diz acerca das pessoas generosas:
(Árabe*********)
Por amor a Allah, alimentam os necessitados, os órfãos e os prisioneiros, e dizem: “Só vos damos alimento buscando a satisfação de Allah. Não desejamos de vós recompensa nem gratidão.”
28. Os perseverantes
Eis o anúncio sobre os perseverantes:
(Árabe*********)
Quando lhes sobrevém alguma adversidade ou calamidade, dizem: “Certamente, retornaremos a Allah.” (Surata Al-Baqarah: 156)
29. Aquele que dá preferência ao outro irmão
(Árabe*********)
Eles amam os Muhajirun, não guardam no coração inveja pelo que foi dado aos Muhajirun e dão-lhes preferência, embora eles próprios estejam necessitados. (Surata Al-Hashr: 9)
30. Os que controlam a ira e perdoam os outros
Eis o decreto de Deus acerca dos que controlam a ira e perdoam:
(Árabe*********)Eles controlam a sua ira e perdoam as pessoas. (Surata Ali Imran: 134)
As características discutidas acima podem ser encontradas em todas as épocas e entre todas as pessoas. O Alcorão os apresentou de tal maneira que, mesmo depois de centenas de anos, parece que todos eles estão presentes diante de nós.
Doze capítulos
Argumentação baseada na sabedoria
Assim como outras pregações foram rejeitadas de várias maneiras, a pregação islâmica também foi rejeitada. O Islã também desafiou, por meio de argumentos e provas, aqueles que apresentaram argumentações para provar a invalidade da pregação islâmica. Como o Alcorão está essencialmente relacionado à pregação islâmica, nele também estão presentes argumentos e provas. Agora, a questão é: que tipo de argumentação corânica é essa? Ou que método foi adotado para essa argumentação e que evidências e provas foram apresentadas para esse fim?
Antes de responder a esta pergunta, devemos refletir: por que o Alcorão veio? E qual é o propósito de sua revelação?
Não há dúvida de que o Alcorão veio para reviver e restabelecer a maior das crenças — a crença no tawhid. O objetivo era reviver essa crença entre um povo que considerava outros como parceiros de Allah. Portanto, nada poderia ser mais surpreendente para eles do que alguém dizer: “Allah é Único”.
(Árabe*********)
“Será que ele decidiu adorar uma única divindade em vez de várias divindades? Certamente, isso é algo surpreendente.” Alguns de seus notáveis partiram dizendo: “Ide e continuai adorando as vossas divindades. Certamente, esta declaração tem algum propósito. Nunca ouvimos algo tão extraordinário antes. Isto não passa de uma invenção.” (Surata Sad: 5–7)
Hoje, quando observamos essas palavras e pensamentos dos politeístas, rimos. Para nós, isso parece uma enorme tolice da parte deles. Mas devemos verificar qual era a compreensão geral do tawhid naquela época.
Não há dúvida de que, naquela época, a crença no tawhid era vista como algo extremamente surpreendente.
É preciso compreender outra coisa: nem todos aqueles aos quais o Alcorão se dirigia entre os habitantes da Arábia eram politeístas. Havia também pessoas do Povo do Livro (seguidores das Escrituras anteriores). Porém, elas não queriam que outra religião viesse para eliminar a sua religião, nem que um Livro celestial fosse revelado a alguém que não pertencesse à sua comunidade, por mais que os princípios e as relações dessa nova religião tivessem afinidade com a religião delas.
(Árabe*********)
E eles costumavam pedir a vitória sobre os primeiros descrentes. Quando aquele que conheciam muito bem chegou até eles, negaram-no. (Surata Al-Baqara: 89)
É digno de reflexão que, quanto às bases e aos princípios religiosos, o Islã estava em concordância com o Povo do Livro. (Pois, antes da distorção, ele também era o Islã.) Contudo, o Islã de modo algum estava disposto a tolerar o estado em que então se encontravam as crenças dos judeus e dos cristãos. Os judeus fizeram de Uzair (que a paz esteja sobre ele) o filho de Allah, e os cristãos fizeram o mesmo com Isa (que a paz esteja sobre ele). Por isso, a reivindicação dos judeus e dos cristãos era: somos filhos de Allah e somos os mais próximos e amados por Allah. Se tivermos de entrar no Inferno, será apenas por alguns poucos dias. O próprio Alcorão declarou isso em vários lugares.
À luz da situação acima, pode-se dizer que o chamado feito pelo Islã para reviver a crença no monoteísmo era algo inaudito para os judeus e os cristãos. Além disso, a primeira reivindicação do Alcorão foi apresentar a grande crença — isto é, a crença no monoteísmo — de uma nova maneira e dar-lhe nova vida.
Chamamos a crença no monoteísmo de a maior crença — embora, atualmente, isso não seja de modo algum algo surpreendente para nós; trata-se de uma questão evidente por si mesma — porque abandonar diretamente as crenças herdadas dos antepassados não era algo fácil para qualquer pessoa. A crença se mistura e se funde com a natureza humana desde a infância, e não era fácil que uma pessoa apagasse da sua mente e consciência os milhares de acontecimentos manifestos e ocultos da vida humana e se dirigisse apressadamente a uma única divindade, que domina todas as suas forças físicas e mentais.
Na verdade, o Islã não é a primeira religião a pregar o monoteísmo. Outras religiões também pregam o monoteísmo, e essas religiões igualmente enfrentaram perigos, sofrimentos e dificuldades por causa desse chamado; o Islã também passou por sofrimentos semelhantes. A diferença, porém, é que o monoteísmo ao qual o Islã convida está completamente livre do politeísmo. Ele é puro e livre até mesmo de qualquer suspeita de politeísmo. Trata-se de um monoteísmo imaculado. O Islã se opõe completamente até ao menor vestígio de forma ou imagem que possa ser encontrado no ser humano.
À luz da descrição acima, compreende-se que a primeira responsabilidade do Alcorão é tornar resplandecente a crença pura e imaculada no monoteísmo. Deve-se observar que o centro permanente da crença ou da consciência é a mente e a consciência do ser humano. Não apenas a crença religiosa, mas o verdadeiro lugar de toda crença é a mente humana. O caminho mais próximo da mente é a apresentação imediata. (Isto é, a mente aceita aquilo que lhe é apresentado de modo evidente e simples.) E o caminho mais fácil para alcançar a consciência é a percepção ou o sentimento. (Isto é, a consciência é influenciada por meio do sentimento.) Nesse assunto, a posição do intelecto não é mais que a de um canal de conexão. O intelecto é um túnel. Além desse túnel, existem muitos outros. Esse intelecto não é o mais amplo de todos os túneis, nem é o mais confiável. Tampouco é um túnel mais próximo que os demais. Na realidade, o intelecto não possui nenhuma característica especial que possa separar a mente da consciência.
Hoje em dia, algumas pessoas, ao verem o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, atribuem importância excessiva ao intelecto e à capacidade humana. Até mesmo alguns religiosos de entendimento limitado se envolvem nessa provação e tentam verificar a perspectiva, o pensamento e a consciência religiosos à luz dos argumentos produzidos pelo cérebro e da pedra de toque da ciência. Essas pessoas estão cometendo um erro grave.
Essas pessoas estão dando ao conhecimento e à razão humanos uma primazia que de modo algum lhes é devida. Deve-se conceder-lhes apenas a medida de respeito que merecem. Isso não significa que o Islã menospreze o conhecimento e a razão humanos. O campo do conhecimento humano é muito amplo. Ainda assim, o ser humano não consegue dominar completamente todo o campo do conhecimento e daquilo que pode ser conhecido, seja no aspecto intelectual, seja no aspecto emocional. Além disso, o intelecto e a razão humanos não são mais que um caminho entre os inúmeros caminhos-túneis existentes. Uma pessoa só pode fechar para si mesma esse caminho-túnel quando sua alma é atingida pela fraqueza e suas forças se esgotam. Por isso, ela fica privada da capacidade de tomar decisões nessa grandiosa tarefa.
É certo, porém, que a inteligência administra as tarefas e necessidades da vida cotidiana. Além disso, penetra nos problemas que, de alguma forma, estão relacionados com a vida humana. Mas, quando está em questão a crença e a fé, sua posição é muito mais elevada. O pensamento humano não pode alcançar seu limite extremo. Ao ápice das crenças só pode chegar aquele que segue o caminho da orientação e possui a percepção interior concedida por Allah. Na verdade, somente uma pessoa desse tipo pode iluminar o próprio coração e os próprios sentimentos com a luz da orientação.
Em todas as religiões, sempre foram capazes de crer aqueles que percorrem o caminho da orientação e da percepção interior. Os racionalistas vêm se envolvendo, século após século, em debates intelectuais sobre a crença no tawhid, mas nada obtiveram em troca. Aquilo que o Nobre Alcorão demonstrou em apenas alguns anos, os mestres da lógica não conseguiram realizar nem em sua milésima parte. Vejamos que tipo de caminho simples e compreensível para o povo o Alcorão adotou para esse propósito.
A expressão simples e direta do Alcorão
Para aguçar a percepção interior humana, o Alcorão procura sempre despertar a consciência e os sentimentos das pessoas. Indo um pouco além, deseja influenciar sua consciência moral. Para esse propósito, aquilo que o Alcorão pretende fazer está relacionado à compreensão das cenas e ao que se torna visível. Em outras palavras, pode-se dizer que é uma obra artística transformada em argumento. O Alcorão também atua por meio de realidades autoevidentes, eternas e permanentes. São realidades que abrem as portas luminosas da percepção interior, e a pessoa as compreende por meio de sua disposição natural.
Por isso, o método adotado pelo Alcorão é um método simples: apresentar algo de forma pictórica por meio da imaginação e da representação, como esclarecemos no capítulo anterior. Aqui usamos a palavra “tajsim” (representação) em sentido artístico e expressivo, não em sentido religioso. Pois o Islã é uma religião pura, livre de concepções materialistas, e não depende de representação.
Ao método pelo qual o Alcorão apresenta os argumentos e as provas contra seus opositores e derrota o adversário podemos chamar de argumentação nascida da sabedoria. Essa argumentação é apresentada às vezes por meio de palavras, às vezes por meio de diferentes histórias e relatos, e outras vezes por meio de imagens. Foi pela combinação de tudo isso que o Alcorão alcançou seu objetivo. Já discutimos esse assunto anteriormente.
Além disso, a cena da Ressurreição que foi apresentada, bem como as imagens da paz e do castigo que foram pintadas, também fazem parte da argumentação nascida da sabedoria. Elas golpeiam as portas da mente inconsciente humana. Tornam o pensamento mais aguçado e ampliam a percepção interior. Despertam a pessoa de sonhos ociosos e a conduzem ao mundo real. Assim, a mente humana se prepara para aceitar a verdade e permanecer firme nela.
Além das imagens humanas e psicológicas, das histórias e relatos, das cenas da Ressurreição e das imagens do castigo e da paz, o Alcorão adotou ainda outro método para tornar o convite aceitável: apresentar por meio de imagens a argumentação nascida da sabedoria. Por isso, decidi incluí-la e discuti-la em um capítulo separado.
Contudo, o tema da discussão neste capítulo não é a argumentação nem o debate. Queremos apenas discutir qual é o tipo ou a natureza dessas provas e desses argumentos. Isso porque o nosso tema principal é a natureza e o tipo das imagens sobre as quais se baseia o desenvolvimento contínuo do Alcorão. Afinal, o conteúdo desta obra limita-se exclusivamente ao aspecto artístico do Alcorão. Nada mais. A discussão dos demais temas do Alcorão não é nosso objetivo.
A questão do Tawhid (monoteísmo)
Já dissemos que o primeiro chamado e a primeira reivindicação do Islã são o Tawhid. Aqueles a quem o Alcorão se dirigia eram ferrenhos opositores do Tawhid. Eles o consideravam algo estranho. É importante observar como o Alcorão apresentou seus argumentos e sua refutação aos que negavam o Tawhid.
Não há dúvida de que o Alcorão apresentou o chamado ao Tawhid numa linguagem extremamente simples e tocante, procurando despertar a consciência das pessoas. A mensagem do Alcorão é tão evidente e clara que nela não há complexidade alguma, nem espaço para argumentos contrários. Assim foi proclamado:
(Árabe***********)
Acaso tomaram ídolos feitos de barro como divindades, na esperança de que eles os ressuscitassem? Se houvesse nos céus e na terra outra divindade além de Allah, ambos se teriam corrompido. Portanto, Allah, o Senhor do Trono, está acima do que dizem. Ele não será questionado sobre o que faz, mas eles serão questionados. Acaso tomaram, além de Allah, outras divindades? Dize: “Apresentai vossa prova. Esta é a palavra dos meus companheiros e também a palavra dos meus predecessores.” Porém, a maioria deles não conhece a verdade e, por isso, tergiversa. (Surata Al-Anbiyā’: 21–24)
(Árabe***********)
Allah não tomou filho algum, nem há outra divindade junto d’Ele. Se houvesse, cada uma se apartaria com a sua própria criação e uma tentaria prevalecer sobre a outra. Portanto, Allah está acima do que dizem. (Surata Al-Mu’minūn: 91)
Há muitas outras provas evidentes e autoevidentes em favor do tawhid. O significado desses versículos é que não vemos qualquer desordem ou calamidade na Terra e no céu. Tudo funciona harmoniosamente. Isso mostra que a administração deste vasto reino está nas mãos de um só. E Ele é Allah, o Onisciente e Sapientíssimo, o Senhor dos mundos.
Ao mesmo tempo, o Alcorão também declarou que, se houvesse várias divindades no céu e na Terra, elas se separariam, cada uma levando consigo a sua criação. Isso seria extremamente risível: cada criatura buscaria refúgio junto à sua divindade. Depois, cada divindade seguiria seu caminho separadamente com a sua criação. Mas não se sabe onde terminaria esse caminho. Nós também não temos resposta para isso. Por isso, basta lembrar a possibilidade de várias divindades para rirmos; se houvesse várias divindades, um caos tremendo teria ocorrido no céu e na Terra.
Pode surgir ainda outra pergunta: se realmente existisse outra divindade, o que ela teria feito? O céu e a Terra já foram criados e estão diante de nós. O que ela criou de novo?
(Árabe***********)
Dize: Já considerastes aqueles que adorais além de Allah? Mostrai-me o que eles criaram na Terra. Ou tiveram alguma participação na criação dos céus? Apresentai-me um Livro anterior a este ou algum conhecimento transmitido, se sois verídicos. (Surata Al-Ahqaf: 4)
Observai novamente: a criação de Allah está presente em diversos lugares. O toque do poder de Allah manifesta-se em cada lugar e em cada coisa. Os nossos sentidos veem isso, a consciência reconhece-o e a percepção interior sente-o. No Alcorão foi dito:
(Árabe***********)
Dize: Todo louvor pertence a Allah, e a paz esteja sobre os Seus servos escolhidos. Quem é melhor: Allah ou aqueles que eles associam a Ele? Dizei-me: quem criou os céus e a Terra? E quem fez descer para vós água do céu? (Certamente, sou Eu que a faço descer.) Então, com essa água, criei jardins aprazíveis. Vós não teríeis capacidade de fazer crescer as suas árvores. Há, pois, algum outro criador além de Allah? Na verdade, eles são um povo desviado. Dize: quem tornou a Terra habitável, fez correr rios por entre ela, nela firmou montanhas para mantê-la estável e colocou uma barreira entre os dois mares? Dizei agora: há alguma divindade junto com Ele? Porém, a maioria deles não sabe. Dize: quem atende à súplica do necessitado quando ele O invoca, remove a aflição e vos estabelece como sucessores na Terra? Há, pois, alguma divindade além de Allah? Quão pouco refletis! Dize: quem vos guia nas trevas da terra e do mar e envia os ventos como arautos de Sua misericórdia? Há, pois, alguma divindade além de Allah? Exaltado está Allah acima do que associam a Ele. Dize: quem inicia a criação e depois a repete, e quem vos concede provisão do céu e da Terra? (Dizei novamente:) há alguma divindade além de Allah? Dize: apresentai a vossa prova, se sois verídicos. (Surata An-Naml: 59–64)
Os diversos temas dos versículos mencionados são partes integrantes e complementares uns dos outros, fortalecendo e consolidando a consciência do tawhid no ser humano. Por exemplo, as cenas do céu e da terra, os diversos acontecimentos e acidentes da vida cotidiana e as sensações naturais que, por causa das dificuldades de subsistência, obrigam o ser humano a voltar-se para Allah. Tudo isso influencia o pensamento, os sentimentos, a consciência e a percepção interior, conduzindo o ser humano à consciência do tawhid. Há inúmeros versículos desse tipo no Alcorão. Do mesmo modo, não são poucas no Alcorão as cenas da Ressurreição, do Paraíso e do Inferno. Da mesma forma, não faltam versículos destinados a fixar profundamente na mente e no coração das pessoas a crença (consciência) no tawhid. Tudo isso está essencialmente relacionado aos argumentos derivados da sabedoria e faz parte deste capítulo.
A Ressurreição após a morte
A afirmação que mais dificuldade causava ao Islã para ser compreendida era a Ressurreição após a morte, a Ressurreição, o Hasr e outras questões semelhantes. O Islã dirigiu-se àqueles árabes que haviam dito:
(Árabe***********)
Nossa vida terrena é a única vida. Morremos ou vivemos, tudo acontece aqui, e jamais seremos ressuscitados. (Surata Al-Mu’minun: 37)
Entre os árabes, a questão da Ressurreição era ainda mais surpreendente do que o convite ao tawhid. Eles chamavam de loucos aqueles que aceitavam a Ressurreição. Segundo sua concepção, nenhuma pessoa em pleno juízo poderia aceitar tal coisa.
Os incrédulos diziam: “Quereis que vos indiquemos alguém que vos informa de que sereis recriados depois de vos haverdes desintegrado completamente? Ele inventa mentiras contra Allah ou é louco?” (Surata Saba: 7–8)
Eles viam o Hasr e o Nashr de uma perspectiva tão surpreendente. Vejamos agora que tipo de argumentos e provas o Alcorão apresentou diante deles em uma situação tão extraordinária.
O Alcorão apresentou-lhes uma concepção dos estados manifesto e oculto da criação. Na terra, especialmente ao criar nela o pulsar da vida, chamou a atenção para a concessão de uma vida especial ao ser humano. O propósito do Alcorão aqui era mostrar que, assim como Allah pode iniciar a criação, também pode repeti-la, e que Ele é capaz disso.
(Árabe***********)Acaso Me cansei depois de criar pela primeira vez? Pelo contrário, eles duvidam da nova criação (Surata Qaf: 15)
O método de representação do Alcorão, uma de suas formas particulares de expressão, manifestou isso na forma especial em que se apresenta a semelhança da vida entre a terra e o ser humano.
(Árabe***********)
Que pereça o ser humano! Quão ingrato ele é! De que coisa Ele o criou? Criou-o de uma gota seminal e determinou-lhe a medida. Depois, facilitou-lhe o caminho; em seguida, fez com que morresse e o sepultou. Então, quando quiser, fá-lo-á reviver. Mas ele jamais foi grato; não cumpriu aquilo que Ele lhe ordenou. Que o ser humano observe o seu alimento. Derramamos água abundantemente sobre ele; depois, fendemos a terra em fendas e nela fizemos brotar cereais, uvas, hortaliças, oliveiras, tamareiras, jardins densos, frutos e pastagens, para benefício vosso e dos vossos animais quadrúpedes. (Surata Abasa: 17–32)
Em outro lugar, foi dito:
(Árabe***********)
Ele extrai o vivo do morto e o morto do vivo, e vivifica a terra morta. Assim sereis ressuscitados. Entre os Seus sinais está o fato de Ele vos ter criado do pó; então eis que sois seres humanos espalhados pela terra. E entre os Seus sinais está o fato de Ele ter criado para vós, dentre vós mesmos, companheiras, para que encontreis tranquilidade junto delas, e ter estabelecido entre vós afeição e misericórdia. Certamente, nisso há sinais para aqueles que refletem. E entre os Seus sinais está a criação dos céus e da terra, bem como a diversidade das vossas línguas e das vossas cores. Certamente, nisso há sinais para os que possuem conhecimento. E entre os Seus sinais está o vosso sono durante a noite e o dia, e a vossa busca pela Sua graça. Certamente, nisso há sinais para os que prestam atenção. E outro de Seus sinais é que Ele envia a chuva; então, por meio dela, vivifica a terra morta. Certamente, nisso há sinais para os sensatos. (Surata Ar-Rum: 19–24)
O Alcorão apresentou-lhes imagens que lhes eram compreensíveis e sobre as quais estavam bem informados. Seus sentidos observavam continuamente essas imagens. Essas imagens atraíam constantemente sua razão e seu intelecto em direção ao ensinamento.
Essas cenas tinham uma profunda relação com a vida e os meios de subsistência dos árabes, bem como com sua consciência e seus sentimentos. Essas cenas haviam-se fundido com o seu próprio ser. O Alcorão chamou sua atenção para elas de tal maneira que pareciam ser cenas novas. Naturalmente, aquele que observa essas paisagens naturais com os olhos e os ouvidos abertos certamente encontra nelas algo novo, se não estiver obstinadamente apegado à própria teimosia. A lógica produzida pela mente não possui estabilidade; no máximo, pode servir como prova de habilidade.
Tanto o intelecto quanto os sentidos humanos desejam alcançar a profundidade da crença (consciência). O ser humano tem interesse em conhecer o desconhecido. Quanto mais uma crença permanece oculta e distante da consciência e dos sentimentos, mais se deseja alcançar aquilo que está além dela. Por isso, também ao tratar da crença, o Alcorão adotou um método de descrição baseado em imagens e imaginação.
(Árabe***********)
Não vês que tudo quanto há nos céus e na terra, e as aves que voam, estendendo suas asas, glorificam e exaltam a santidade de Allah? Cada um conhece a forma de adorá-Lo, glorificá-Lo e exaltar Sua santidade que lhe é própria. (Surata An-Nur: 41)
Os sete céus, a terra e tudo quanto há entre eles glorificam e exaltam Sua santidade. Não há coisa alguma que não glorifique e exalte Sua santidade. Contudo, vós não compreendeis a sua glorificação e exaltação da santidade. (Surata Bani Isra’il: 44)
(Árabe***********)
Aqueles que carregam o Trono e os que estão ao seu redor glorificam seu Senhor, louvando-O; creem n’Ele e imploram perdão pelos crentes, dizendo: “Ó nosso Senhor, Tua misericórdia e Teu conhecimento abrangem todas as coisas. Portanto, perdoa aqueles que se arrependem e seguem Teu caminho, e protege-os do castigo do Inferno. Ó nosso Senhor, introduze-os nos Jardins de Adn, que lhes prometeste, juntamente com os virtuosos dentre seus pais, suas esposas e seus filhos. Certamente, Tu és o Poderoso, o Sábio. E protege-os das más ações; aquele a quem protegeres das más ações nesse dia, terás agraciado. Esse será o grande triunfo.” (Surata Al-Mu’min: 7–9)
As imagens delineadas nestes versículos provocam na natureza humana um temor semelhante àquele que a pessoa sente ao ver a imagem de algo desconhecido, ficando assustada e atônita. Ao mesmo tempo, despertam nela curiosidade acerca do mundo desconhecido e inexplorado. É um mundo em que os anjos carregam o Trono e, juntamente com isso, glorificam a Ele. Da mesma forma, não há na Terra coisa alguma que não glorifique e louve a Allah.
Muitas vezes, o invisível está muito próximo, mas, devido às limitações da inteligência humana, não é possível compreendê-lo. Ainda assim, ele envolve os pensamentos e a consciência do ser humano, e por meio dele se evidencia o poder de Allah. Sob sua influência, o coração humano resplandece com a luz da fé.
(Árabe***********)
Nada nos céus e na Terra está oculto a Allah. Ele é Quem vos formou, como quis, no ventre de vossas mães. (Surata آل عمران: 5–6)
Este versículo comprova que Allah conhece as notícias de todo o mundo invisível. Trata-se, essencialmente, de uma prova relacionada à consciência, não de uma questão de investigação intelectual. No versículo seguinte, foi delineada uma imagem ainda mais ampla e impressionante.
(Árabe***********)
Ele possui as chaves do mundo invisível; ninguém, além d’Ele, as conhece. Ele sabe o que há no mar e em terra. Nenhuma folha cai sem que Ele o saiba. Nem mesmo um grão de cereal cai na terra escura sem que Ele o saiba, nem qualquer coisa úmida ou seca cai em algum lugar sem o Seu conhecimento. Tudo está registrado em um Livro manifesto. (Surata الأنعام: 59)
Neste versículo, o poder de Allah é descrito de maneira extremamente sutil, porém poderosa. Mostra-se quão vasto é o alcance do conhecimento de Allah. Para transmitir esse propósito, foram escolhidas as melhores palavras, e com elas foi desenhada uma imagem magnífica. As palavras deste versículo expressam a amplitude do conhecimento de Allah. Mais do que isso, com essas palavras também foi desenhada uma extraordinária imagem imaginária. Assim, é dito: “Nenhuma folha cai de modo que Ele não o saiba. E não há, em nenhum recanto escuro da Terra, um único grão do qual Ele não esteja informado. Além disso, Ele está ciente de tudo, tanto do que é úmido quanto do que é seco.” Parece que não se trata de uma descrição, mas de uma imagem absolutamente fiel.
Ao recitar este versículo, a pessoa deseja percorrer toda a Terra com os olhos da imaginação para descobrir onde está aquela folha caída. Também procura o grão escondido na terra escura. Mas ninguém, além de Allah, tem como conhecer essas coisas. Ao refletir, quando a pessoa volta para si mesma, o temor e a majestade de Allah a envolvem. Nesse momento, volta sua atenção para a presença de Bari Ta‘ala e, com profunda absorção, continua reconhecendo o Seu conhecimento.
Esta é a argumentação do Alcorão, que também pode ser chamada de representação argumentativa. Que relação ela poderia ter com os argumentos produzidos pelo intelecto, apresentados por nossos racionalistas ao longo dos séculos?
Em muitas passagens, o Alcorão evita os debates e argumentos produzidos pelo intelecto. Daremos um exemplo disso. Foi dito:
(Árabe***********)
Vós e aqueles que adorais em vez de Allah sereis o combustível do Inferno, e todos vós entrareis nele. (Surata Al-Anbiyá: 98)
Ao ouvirem este versículo, os idólatras árabes imaginaram que havia entre os cristãos pessoas que consideravam Isa (A.S.) uma divindade. Então, Isa (A.S.) também iria para o Inferno? O objetivo deles era deteriorar as relações entre muçulmanos e cristãos. Para isso, apresentaram um argumento baseado no raciocínio intelectual.
A resposta foi dada de maneira bela no versículo seguinte.
(Árabe***********)O exemplo que apresentam diante de ti serve apenas para argumentar. Na verdade, são um povo dado à disputa. (Surata Az-Zukhruf: 58)
Nesta frase descrita de maneira tão simples, não se recorreu aqui a qualquer auxílio da lógica ou da ciência do raciocínio.
Se o Alcorão falasse no estilo dos argumentos e debates intelectuais, nada se realizaria. Pois, dessa maneira, seu objetivo fundamental não seria alcançado. Com efeito, nenhuma crença pode ser estabelecida por meio de disputas ou debates. A fé está acima dos debates.
Não há dúvida de que o Alcorão tentou despertar a consciência humana. Por isso, adotou o método da narração de histórias. Do mesmo modo, apresentou sua mensagem fundamental em estilo figurativo e alcançou seu objetivo. Como o Alcorão é o portador e o repositório tanto de temas religiosos quanto artísticos, o estilo que adotou para apresentar suas mensagens encontra-se no ápice da beleza e da harmonia.
O estilo narrativo do Alcorão
A ideia central de toda a discussão anterior é que o Alcorão procura alcançar seu objetivo apresentando sua mensagem em um estilo singular e excepcional. Até mesmo ao apresentar provas, evidências, argumentos e debates, adotou o mesmo método. Além disso, por meio da imaginação e da representação, apresentou cada acontecimento como uma imagem. Em outras palavras, o Alcorão apresentou os significados incorpóreos de forma corpórea e perceptível aos sentidos.
Queremos verificar até que ponto esse método artístico de narração é bem-sucedido e eficaz. Esse é o tema deste nosso livro. Os temas discutidos pelo Alcorão não são o objeto de nossa análise. Nas discussões que fizemos anteriormente, esses temas foram mencionados apenas para chamar a atenção para a maneira como o Alcorão os apresentou, bem como para seu estilo e método.
Quando muitos observam profundamente o conteúdo do Alcorão e refletem sobre sua amplitude, abrangência universal e grandeza, exclamam: é esse conteúdo que constitui sua característica distintiva. E isso basta. A narração do Alcorão, seu modo de abordagem e sua análise minuciosa são questões secundárias. Na visão deles, toda a inimitabilidade do Alcorão reside em seu conteúdo. Outros, porém, discutem as palavras e as frases e dizem que a inimitabilidade do Alcorão está relacionada separadamente a ambas.
A esse respeito, afirmamos que o conteúdo pretendido pelo Alcorão nasceu do estilo que ele adotou para sua narração. Portanto, ambos têm igual importância. Não desejamos envolver-nos em discussões inúteis sobre palavras e significados, embora renomados literatos e estudiosos da linguagem tenham se empenhado em disputas a respeito deles.
Ibn Qutayba, Qudama, Abu Hilal al-Askari e outros literatos e linguistas escreveram sobre esse assunto. Contudo, consideramos profundamente erudito e equilibrado o que Abd al-Qahir al-Jurjani disse a esse respeito em sua obra intitulada “Dala’il al-I’jaz”. Ele afirmou: uma pessoa instruída nem sequer pode imaginar que possa haver uma discussão sobre as palavras simplesmente por causa delas mesmas. Naturalmente, pode-se discutir em que sentido uma palavra deve ser empregada. Tampouco se pode discutir sobre um significado agradável. Sim, a discussão relacionada ao significado que pode ser feita é esta: a qual palavra está associado o significado compreensível? A palavra representa justamente esse significado. Além disso, esse significado só pode ser expresso quando as palavras são compostas segundo determinado ritmo e métrica; caso contrário, não. Não é possível que a disposição das palavras e o ritmo sejam diferentes e, ainda assim, o significado permaneça correspondente.
Se Abd al-Qahir al-Jurjani tivesse escrito algo brevemente com esse propósito, nós o teríamos transcrito literalmente. Mas, infelizmente, ele preencheu todo o livro com essa discussão. Por isso, não conseguimos apresentar seu pensamento por inteiro. Nem sequer podemos citar qualquer trecho dele. Vimos que seu material é muito complexo.
Entretanto, o que se pode afirmar com segurança é que ele tinha a capacidade de resolver essas questões. Se tivesse avançado um pouco mais no assunto, poderia ter alcançado o ápice artístico.
Queremos falar sobre a perspectiva de Abd al-Qahir: a disposição e o ritmo de sua composição constituem uma grande demonstração na representação dos significados. Quando se empregam dois métodos para explicar um significado subjacente, dois significados distintos se manifestam na mente e no espírito. Parece haver uma relação tão estreita entre esse significado e o modo de sua descrição que, uma vez apreendida, já não resta qualquer possibilidade de distingui-los, como se fosse possível separar a palavra do significado. Um significado se manifesta de determinada maneira quando a disposição e a correspondência permanecem iguais. Conforme a mudança que se evidencia na condição das palavras, ocorre uma mudança correspondente também no significado. Muitas vezes, o aspecto intelectual não é afetado, mas ocorre uma mudança no espírito e na disposição interior. Fica claro que o estilo empregado na apresentação do discurso artístico se destina exclusivamente a influenciar o mundo interior. Por isso, quando uma mudança se inicia sob o efeito da frase, o significado também sofre uma mudança.
A discussão acima indica precisamente que o método de visualização adotado no Alcorão é de extrema importância. Pois este é o método de descrição no qual os significados, os objetivos e os temas corânicos receberam exatamente a forma sob a qual podemos vê-los. E essa condição é o critério de seu valor e de sua dignidade. Se ali houvesse outra condição em vez desta, ele não teria a importância que tem atualmente.
Queremos tornar o assunto mais claro por meio de exemplos. Embora haja exemplos desse tipo em várias partes deste livro e tenhamos fornecido uma explicação detalhada sobre eles, deixando claro o estilo de expressão do Alcorão, como este é o último capítulo do livro, apresentaremos ainda alguns exemplos de discussão, como “um feixe de folhas sobre aquilo que já foi compreendido”. Afinal, não nos faltam exemplos.
A primeira característica do estilo descritivo do Alcorão é dar forma visual ao que está além dos sentidos e apresentá-lo de modo compreensível. Pelo mesmo método, o Alcorão apresentou as imagens da natureza, a história do passado, acontecimentos e exemplos, as cenas da Ressurreição, as cenas do castigo e da paz, bem como a natureza humana, de tal maneira que parece que todos estão presentes diante dos olhos. Assim, o Alcorão trouxe os temas intelectuais para o âmbito da percepção sensorial. Além disso, por meio da força do pensamento, criou movimento dentro deles, de modo que parecem estar sempre em movimento aos olhos da imaginação.
Agora surge a pergunta: por que o método de visualização adotado pelo Alcorão é mais importante do que outros métodos, nos quais o significado e a situação são descritos em sua forma original? Do mesmo modo, por que um acidente ou uma narrativa é descrito em seu estado real? Se o objetivo é descrever uma cena e, ainda assim, ela é apresentada apenas com algumas palavras simples, sem que se desenhe sua imagem na imaginação,
A respeito da dignidade das formas e dos métodos adotados pelo Alcorão, basta dizer que, primeiro, os contemplamos em sua forma original, livre de qualquer véu ou revestimento. Depois, trazemo-los à nossa imaginação sob a forma de uma cena. Assim, ambos os estados se tornam claramente distintos um do outro.
No primeiro estado, o significado se dirige à inteligência e à sensibilidade, alcançando-as separado da imagem que o transporta. Já no método de representação, o significado se dirige aos sentidos e à consciência, alcançando o ser humano por uma via diferente. Desse modo, a consciência é influenciada. Essa influência chega ao ser humano por uma via excepcional. Entre essas vias está também a inteligência. Não se pode dizer que a inteligência seja a única via, nem que, além desta via e deste método, não exista nenhuma outra.
Não há dúvida de que o estilo de representação visual adotado pelo Alcorão é extremamente surpreendente.
Esse método é equilibrado para apresentar todos os ensinamentos da fé, mas queremos examinar apenas o aspecto da beleza artística. Sem dúvida, esse modo de descrição é extremamente necessário do ponto de vista artístico. Por isso, a primeira exigência artística é influenciar a consciência e criar nela uma atração artística. Valendo-se dessa influência, ilumina-se o interior da vida e oferece-se alimento à faculdade de pensar por meio da cena. A frase pretendida torna-se, assim, ilustrada e concreta. Retomamos aqui um dos exemplos que apresentamos anteriormente.
1. A expressão de intenso ódio pela fé: o Alcorão poderia ter dito diretamente, acerca daqueles que se afastam do caminho da fé, que determinadas pessoas odeiam a fé. Assim que ouvissem essa frase, a ideia do ódio se fixaria na mente das pessoas, e elas poderiam apreender essa palavra com plena certeza e tranquilidade. Contudo, a imagem da manifestação desse ódio foi apresentada por meio da frase seguinte, desta maneira:
(Árabe***********)
O que há com eles, que se afastam da exortação? Como jumentos dispersos, fogem por causa do alvoroço. (Surata Al-Muddaththir: 49–51)
Nesse método de descrição, além da inteligência, também participam a visão e a faculdade de pensar. Ao mesmo tempo, apresenta-se uma bela caricatura daqueles que odeiam a fé. Assim como os jumentos selvagens, ao ouvirem um alvoroço, ficam agitados para fugir e correm de um lado para o outro, da mesma forma os incrédulos e os idólatras tentam fugir ao ouvir a palavra de Allah. A beleza artística dessa imagem só se manifesta quando, na imaginação, surge diante dos olhos a cena da fuga da manada de jumentos, correndo e movimentando-se por causa do alvoroço, enquanto um tigre a persegue.
2. Bastaria dizer de maneira simples que os ídolos falsos adorados pelos árabes eram fracos e impotentes: “Aqueles a quem invocais além de Allah são mais fracos que uma de Suas criaturas insignificantes.” Assim, a afirmação chegaria diretamente à porta do pensamento humano, sem se associar a qualquer outra coisa.
Mas não foi assim; em vez disso, recebeu uma forma pictórica. Assim:
(Árabe***********)
“Aqueles que adorais em vez de Allah jamais poderão criar sequer uma mosca, ainda que todos se unam para isso. E, se a mosca lhes tirar alguma coisa, não poderão recuperá-la dela. Quão impotentes são tanto aquele que invoca quanto aquele que é invocado!” (Surata Al-Hajj: 73)
Toda a imagem se torna concreta e dinâmica diante de nossos olhos, manifestando-se em três níveis.
(1) Os ídolos falsos deles não são capazes de criar sequer uma mosca.
(2) Nem mesmo se todos se unissem para tentar.
(3) Para além de criar, se a mosca lhes levar alguma coisa, são completamente incapazes até mesmo de recuperar esse objeto dela.
Este é o retrato da fraqueza e incapacidade deles (dos falsos deuses). Nesse retrato, o assunto foi apresentado de tal maneira que, no coração das pessoas, surgissem desprezo e repulsa pelos falsos deuses.
Agora, a questão é: houve aqui um exagero da representação? E a balāghah (ornamento da linguagem) acabou fundindo-se com o exagero da representação? Certamente que não. Aqui não há nenhum elemento de exagero. O ponto principal é que, mesmo que todos os falsos deuses tentassem criar uma mosca, não seriam capazes de fazê-lo. Sem dúvida, a mosca é uma criatura extremamente pequena e insignificante. Mas por trás de sua criação há. Esse “milagre” está relacionado à criação da vida, seja a criação de um animal grande ou de um animal pequeno. O milagre não consiste apenas em criar animais enormes; há também algo miraculoso na criação de uma criatura extremamente insignificante e desprezível.
A beleza artística presente nessa imagem consiste no seguinte: como eles (os falsos deuses) nem sequer têm capacidade para criar uma pequena mosca, o que mais seriam capazes de criar? Assim, sua fraqueza manifesta-se por si mesma. Em seguida, afirma-se que, longe de serem capazes de criar, se essa pequena mosca lhes tirar alguma coisa, eles também não serão capazes de recuperá-la. Tudo isso constitui um elemento da beleza artística.
3. Ao descrever os horrores do Dia da Ressurreição, bastaria dizer de modo geral: “Nesse dia, um amigo esquecerá o outro, e aqueles que eram seguidos rejeitarão os seus seguidores.” Não é correto dizer que, se fosse assim, a descrição seria de todo inadequada. Contudo, isso não tem nenhuma relação com a maneira como o Alcorão pintou a cena; pelo contrário, ela está repleta de vida e movimento.
(Árabe***********)
(Nesse dia, os seguidores dirão aos líderes:) Nós éramos seguidores de vocês; então, vocês nos livrarão do castigo de Allah? Eles responderão: Se Allah nos tivesse guiado para o caminho reto, certamente teríamos guiado vocês para o caminho reto. Agora, quer nos desesperemos ou tenhamos paciência, tudo dá no mesmo; não há salvação para nós. Quando todas as decisões tiverem sido tomadas, Satanás dirá: Certamente, Allah lhes havia feito uma promessa verdadeira, e eu também lhes fiz uma promessa, mas hoje a quebro. Eu não tinha autoridade alguma sobre vocês, exceto que os convidei e vocês responderam ao meu convite. Portanto, não me censurem, mas censurem a si mesmos. Não posso ser útil a vocês em nada, e vocês também não poderão ser úteis a mim em nada. Anteriormente, vocês me associaram a Allah; eu rejeito isso. Na verdade, para os injustos haverá um castigo doloroso. (Surata Ibrāhīm: 21–22)
No versículo acima, foram retratados três grupos. Eles se tornam vívidos e aparecem diante de nós numa cena imaginada.
a. As pessoas fracas
Eles eram mendigos da compaixão dos poderosos. Devido à sua própria fraqueza, ignorância e dependência, estavam sempre ansiosos para buscar refúgio nas mangas dos líderes. No Dia da Ressurreição, primeiro pedirão aos seus líderes que os livrem dessa situação. Depois, os responsabilizarão por tê-los desviado.
b. Os arrogantes
Este grupo, formado por pessoas de liderança e homens do tipo dos emires e governantes, ficará então atormentado pela humilhação e pela desonra. Verá o seu próprio destino. Ao ver os seus seguidores, ficará extremamente furioso. Quanto aos seguidores, mesmo vendo os seus líderes humilhados e desonrados, não deixarão de lhes pedir a salvação. Entretanto, eles próprios estarão então dependentes de outros para serem salvos. Mas ninguém avançará em seu favor. Então os seguidores continuarão dizendo: “Esses líderes nos desviaram.” Naturalmente, isso não lhes trará nenhum benefício naquele dia. E os líderes simplesmente se calarão depois de dizer: “Se Allah nos tivesse mostrado o caminho da orientação, também poderíamos ter-vos guiado.”
c. Satanás
Iblis é o autor de todas as más ações, incluindo o engano, a fraude e a satanice. Naquele dia, dirigindo-se aos seus seguidores, dirá: “Allah vos fez uma promessa verdadeira, mas a promessa que vos fiz era mentira e fraude.” Depois, dirá claramente: “Eu não vos obriguei a vos desviar. Apenas vos convidei, e imediatamente correstes até mim. Portanto, hoje, em vez de me censurardes, censurai a vós mesmos.”
Depois, ele dirá as suas últimas palavras: “Declaro-me livre de toda responsabilidade por todas as ações nas quais me considerastes associado.”
A cena apresentada na imagem acima possui uma característica singular e única. Nela, vemos que os líderes e os seguidores não reconhecem uns aos outros. Todos confessam os seus próprios crimes. No entanto, essa confissão não lhes traz nenhum benefício. Além disso, ao contemplar essa cena horrenda, involuntariamente nos vem à boca: se ele não dissesse coisas desse tipo, por que seria chamado de Satanás? Essa imagem mantém toda a mente humana sob o seu domínio. Se as palavras tivessem sido simplesmente declaradas dessa maneira, a beleza artística que floresceu nesta representação não teria se manifestado.
4. Em termos gerais, bastaria dizer que aquilo que os incrédulos e politeístas fizeram não é aceitável. Portanto, os incrédulos que dão prioridade a essa prática inaceitável estão, sem dúvida, vivendo no país dos tolos. São vítimas de um desvio permanente, e não há ninguém que os faça retornar dele ou lhes mostre o caminho correto. A mente deles aceitou essa compreensão. Porém, quando essas palavras são expressas da maneira como aparecem no versículo seguinte, nelas se cria o pulsar e o movimento da vida. Elas agitam o mundo dos desejos e dos sentimentos.
(Árabe*************)
As obras daqueles que são kafir são como uma miragem no deserto, que o sedento toma por água. Mas, quando chega até ela, não encontra coisa alguma; encontra Allah. Então Allah lhe exige as contas. Allah é, de fato, rápido no acerto de contas. Ou são como trevas profundas no seio de um mar revolto, coberto por ondas sobre ondas e, acima delas, nuvens espessas e negras: trevas sobre trevas. Quando ele estende a mão, mal consegue vê-la. E aquele a quem Allah priva de luz não terá luz alguma. (Surata An-Nur: 39-40)
No versículo em questão foi pintado um quadro artístico que hipnotiza completamente o ser humano. É como um conto de fadas. Aqui, o poder de reflexão manifestou toda a sua capacidade; contudo, para produzir a imagem colorida e fazê-la mover-se, ainda seriam necessários um pincel raro e uma excelente câmera.
A questão é: de onde se obterão um pincel e uma câmera capazes de tornar luminosa e vívida a escuridão mencionada neste versículo? Depois, a imagem do sedento, correndo atrás da miragem, ao chegar até ela nada encontrará. Sim, de repente encontrará ali algo que jamais imaginara, nem mesmo em sonho: a Essência do Deus Altíssimo. Então Allah acerta suas contas num piscar de olhos.
Neste versículo vemos o objetivo religioso para o qual esta cena foi apresentada. Ao mesmo tempo, reconhecemos uma arte extremamente moderna, presente nesta imagem sempre viva.
5. Nestes poucos versículos foi apresentado um belo quadro daqueles que, depois de receberem a orientação, se desviam. Ele tem semelhança com o exemplo apresentado anteriormente. Aqui também encontramos várias imagens vivas, uma após outra. Allah diz:
(Árabe*************)
São aqueles que compraram o desvio em troca da orientação. Na verdade, não lucraram com esse negócio, nem receberam a orientação. A situação deles é como a daquele que acendeu um fogo em algum lugar; quando o fogo iluminou tudo ao seu redor, Allah retirou a luz que os cercava e deixou-os nas trevas. Assim, nada podem ver. São surdos, mudos e cegos; por isso, não retornarão. E o exemplo deles é como o daqueles que caminham numa noite de tempestade, entre trevas, estrondos e relâmpagos; querem proteger-se do trovão, embora Allah cerque todos os kafir. Quando o relâmpago lhes dá um pouco de luz, avançam por algum trecho; mas, quando volta a escuridão, permanecem parados. Allah é Todo-Poderoso sobre todas as coisas. (Surata Al-Baqara: 16-20)
Nos versículos mencionados, uma imagem encantadora é desenhada sucessivamente. Algumas pessoas acenderam um fogo na escuridão da noite; tudo ao seu redor se iluminou. De repente, quando aquela luz desapareceu, mergulharam numa escuridão ilimitada e começaram a caminhar em meio a ela. Então começaram também a tempestade e a chuva.
De um lado, escuridão impenetrável, tempestade, chuva e relâmpagos; de outro, o estrondo grave e solene das nuvens, acompanhado pelos clarões dos relâmpagos. Desnorteado pelo medo, ao ver o menor clarão, ele enfia os dedos nos ouvidos, temendo o trovão. Mais uma vez, o relâmpago ilumina tudo por um breve instante; ele caminha alguns passos à luz daquele clarão e novamente para, imóvel. Não consegue decidir o que fazer.
Para captar uma imagem tão viva e dinâmica, seria necessária uma câmera extremamente valiosa e automática. Aqui, porém, a imagem viva e dinâmica foi apresentada não por meio de uma câmera, mas através de apenas algumas palavras. Há aqui algo capaz de tornar a imagem viva e dinâmica, algo que seria possível por meio de uma câmera, mas não por meio das palavras? Pelo contrário, o ser humano sente maior prazer ao contemplar uma imagem verbal. Isso ocorre porque, junto com ela, também atua o poder de reflexão. Ele desenha a imagem, torna a apagá-la e também a põe em movimento. Nesse momento, ondas de emoção percorrem o ser humano. Sua consciência é afetada. Seu coração começa a bater mais depressa. Sabe por que isso acontece? Apenas pelo efeito de algumas palavras.
Conclusão
Ao concluir a discussão sobre o método de representação adotado no Alcorão Sagrado, queremos falar daquela força vital que é criada no interior das cenas e cujos exemplos foram mencionados em diversas partes deste livro. Dar a algumas cenas o pulso da vida e fazê-las mover-se é uma característica especial desse método.
As imagens apresentadas no Alcorão Sagrado não se limitam a transformar seu significado literal em uma imagem; ao contrário, nelas é criado o pulso da vida. E elas podem ser comparadas com seres vivos e examinadas à luz dessa comparação.
Como exemplo, pode-se mencionar a aterradora cena do Dia da Ressurreição. Nela, é mostrado que uma mãe que amamenta esquecerá o próprio filho e sairá correndo. A mulher grávida sofrerá um aborto. As pessoas correrão desnorteadas, cambaleando como bêbadas; na realidade, porém, não estarão embriagadas. Esse estado não é criado pelas palavras, mas pelo terror que as afeta. Ele não surge das palavras, mas daquela terrível situação que se abate sobre as pessoas.
Em outro lugar, essa cena aterradora é retratada assim: naquele dia, as pessoas fugirão de seus pais, mães, irmãos e amigos.
(Árabe*************)Naquele dia, cada pessoa terá a mesma preocupação, que a deixará completamente perturbada. (Surata Abasa: 37)
Aquela terrível cena do Dia da Ressurreição foi apresentada de tal modo que, ao contemplá-la, as pessoas ficam aterrorizadas. Não é necessário verificar ou examinar os acontecimentos. Nessa cena terrível e assustadora, até mesmo os objetos imóveis e sem vida são animados, como se também se juntassem a eles. Eis o que foi dito:
(Árabe*************)
Naquele dia, a terra e as montanhas tremerão, e as montanhas se transformarão, reduzidas a montes de areia. (Surata Al-Muzzammil: 24)
Parece que a terra é um ser vivo que tremerá de medo.
(Árabe*************)
Como, então, vos protegereis, se negardes aquele dia que fará a criança envelhecer? Naquele dia, o céu se fenderá. (Surata Al-Muzzammil: 17–18)
Neste versículo, menciona-se primeiro que a criança será transformada em velha; depois, menciona-se que o céu se fenderá.
No episódio de Noé (A), a imagem aterradora do dilúvio é apresentada, por um lado, por meio de cenas da natureza e, por outro, é retratada de forma comovente através do pai e do filho. O pai sobe à arca e se salva da inundação, mas fica angustiado por seu filho, pedaço de seu coração. A inundação está engolindo o filho. (O pai grita:) “Hoje somente se salvará aquele de quem Allah tiver misericórdia.” Ao descrever a imagem aterradora da tempestade, do dilúvio e das ondas, é dito: uma arca começou a navegar entre ondas tão altas quanto grandes montanhas. A separação entre pai e filho torna essa cena ainda mais comovente. É uma situação tão dolorosa que nem mesmo o horror da tempestade e do dilúvio conseguiu encobri-la.
A expressão do sofrimento e da dor dos habitantes do Inferno ocorrerá por meio de gritos, cuja imagem foi pintada nas palavras abaixo:
(Árabe*************)
Eles gritarão: “Ó Malik! Dize a teu Senhor que nos faça morrer.” Ele dirá: “Permanecereis assim.” (Surata az-Zukhruf: 77)
(Árabe*************)E eles (os habitantes do Inferno) continuarão a gritar ali.
A condição a que um habitante do Inferno chegará no Dia da Ressurreição, humilhado e desonrado, não é apresentada apenas por meio de algumas palavras; é como se ele próprio a expressasse pela boca, ainda vivo:
(Árabe*************)
E se pudesses ver quando forem colocados diante de seu Senhor. Ele dirá: “Isto não é a verdadeira realidade?” Eles responderão: “Sim, por nosso Senhor!” Então Ele dirá: “Provai hoje o castigo por causa de vossa incredulidade.” (Surata al-An’am: 30)
Os habitantes do Inferno lamentarão e se arrependerão publicamente no Dia da Ressurreição, assim como uma pessoa continua lamentando a perda de uma oportunidade.
(Árabe*************)
Nesse dia, os injustos dirão, mordendo os próprios dedos: “Que arrependimento! Se ao menos eu tivesse seguido o caminho do Mensageiro. Ai de mim! Se ao menos eu não tivesse tomado fulano como amigo.” (Al-Furqan: 27-28)
A exortação à jihad é feita assim, retratando a situação do crente e do incrédulo:
(Árabe*************)
Não esmoreçais na perseguição deles. Se sofreis ferimentos, eles também sofrem ferimentos semelhantes aos vossos. Vós esperais de Allah aquilo que eles não esperam. (Surata An-Nissá: 104)
Por meio de algumas palavras, foi pintado um quadro que mostra a diferença entre os crentes e os incrédulos. Essa diferença se concentra na situação dos dois grupos e em seu desfecho.
Não quero repetir as cenas que descrevemos em diversos capítulos. Creio que esta discussão é suficiente para tratar dos tipos de cenas corânicas e de sua força vital. Assim como o pulsar de uma vida é transmitido a outra vida. Assim como uma influência toca um corpo vivo e real, alcançando outro corpo vivo. Do mesmo modo, o efeito da imagem e da descrição incide sobre a mente humana, e ela também se funde com isso.
Outra característica do estilo narrativo do Alcorão
Os objetos inanimados tocados pelo toque extraordinário e incomparável do Deus Todo-Poderoso ganharam, dentro de si, a pulsação da vida. Tudo aquilo que era antigo e que Ele tocou surgiu sob uma nova forma. Isso nada mais é que um milagre de Deus, o Senhor dos Mundos, detentor de todo o poder e autoridade. Essa criação não é, em aspecto algum, inferior aos demais milagres ou manifestações do poder divino.
A cena da manhã é vista todos os dias; essa manhã retorna repetidamente na vida. Porém, na descrição especial do Alcorão, ela adquire uma forma viva, embora nenhum olho humano a veja.
(Árabe*************)Pela manhã, quando ela respira (se ilumina). (Surata At-Takwir: 18)
A noite é o nome dado a uma parte determinada do tempo, mas, na descrição do Alcorão, ela parece viva e renovada:
(Árabe*************)E pela noite, quando ela passa. (Surata Al-Fajr: 4)
Segundo o Alcorão, o dia corre velozmente atrás da noite, para alcançá-la:
(Árabe*************)Ele cobre a noite com o dia; então, o dia corre velozmente atrás da noite. (Surata Al-A’raf: 54)
(Árabe*************) e essa sombra será de fumaça, que não é fresca nem agradável. (Surata Al-Waqi’ah: 43–44)
O muro é uma matéria inerte, tal como a pedra, mas o Alcorão o apresentou como um ser vivo, dotado de consciência e sensibilidade:
(Árabe*************)
Então encontraram ali um muro inclinado, prestes a desabar, e ele o endireitou e o pôs de pé. (Surata Al-Kahf: 77)
(Árabe*************)
Acaso não observam as aves que voam acima de suas cabeças, abrindo e fechando as asas? Deus, o Altíssimo, é quem as mantém firmes. (Surata Al-Mulk: 19)
Entre as coisas cujas imagens o Alcorão pintou estão o céu, a terra, a lua, o sol, as montanhas, as florestas, as terras habitadas, as terras incultas, as plantas e outras semelhantes. A atenção das pessoas foi atraída por meio de imagens vivas dessas coisas. Ninguém poderá chamar essas imagens de mortas; são inteiramente vivas e dinâmicas.
Este é o método de descrição e apresentação do Alcorão. Ele levou as metas e os objetivos do Alcorão ao limiar da perfeição.
Apêndice 1
Este livro foi publicado pela primeira vez há sete anos. Alhamdulillah! Ele foi igualmente bem recebido por linguistas, literatos e estudiosos religiosos. Isso demonstra claramente que a religião não é um obstáculo à prática da ciência e das artes quando estas, livres de quaisquer vínculos e condições, tratam de seus objetivos e conteúdos. Além disso, compreende-se que, se a intenção for sincera e não houver arrogância nem desejo de ostentação, a discussão sobre arte e ciência não é, de modo algum, incompatível com a consciência religiosa. Isso, porém, não significa que a liberdade de pensamento e de perspectiva exija um rompimento completo com a religião, como imagina um grupo de pessoas que se autodenominam intelectuais. Isso ocorre porque elas analisam essa questão com base em uma determinada nação e em sua história. Assim como no Ocidente se criou uma situação de oposição e conflito entre religião, ciência e artes, elas também querem criar uma situação semelhante no mundo islâmico. Entretanto, no Islã, jamais houve, nem por um instante, conflito entre religião, ciência e artes. A história é testemunha disso.
Há ainda uma segunda questão que é extremamente necessário mencionar neste momento: será que o método da representação pictórica ocupa a posição principal e fundamental no Alcorão?
Respondi a essa pergunta da seguinte maneira, na introdução da obra intitulada “Cenas do Dia da Ressurreição no Alcorão”:
Para julgar e analisar essa questão, é necessário investigar e observar profundamente os versículos do Alcorão. Não há dúvida de que, se incluirmos, juntamente com as narrativas corânicas, as cenas do Dia da Ressurreição, a apresentação de parábolas humanas e os argumentos baseados na sabedoria, também os estados psicológicos, o pensamento e a reflexão, a imaginação e a representação, bem como exemplos de alguns acontecimentos da profecia, veremos que sua proporção é aproximadamente de 4:3. Todos os temas mencionados acima foram apresentados pelo método da representação pictórica. Foram deixados de lado apenas os lugares e métodos em que se enuncia alguma determinação da Sharia, em que se adota o método da argumentação e da prova, ou em que alguma questão é apresentada de maneira simples e direta. No Alcorão, esse tipo de exposição simples e direta, sem o método da representação pictórica, corresponde aproximadamente a um quarto do total. Portanto, não é exagero afirmar que “no método de exposição do Alcorão, a representação pictórica e a visualização receberam maior destaque do que os demais métodos”.
Se Allah me conceder tawfiq e eu expuser os seguintes temas do Alcorão, as pessoas alcançarão tanta certeza quanto a que existe em meu coração. Por exemplo:
1. As narrativas da Torá e do Alcorão.
2. A natureza humana no Alcorão.
3. Argumentos e provas no Alcorão.
4. Recursos artísticos no Alcorão.
É motivo de grande alegria para mim ter conseguido, por meio deste livro, tentar despertar, ainda que minimamente, a atenção para o método de representação do Alcorão. É fruto deste livro que a maioria dos leitores do Alcorão e os professores das madraças passaram a encontrar aspectos artísticos até mesmo em passagens cuja descrição não se encontra nesta obra. Quando observam a beleza artística em algum trecho, ficam extasiados de alegria. Da mesma forma, passam a buscar a beleza artística também em diversas obras poéticas e em prosa, além do Alcorão.
Para um escritor, não é algo comum que outros escritores acolham favoravelmente a descoberta da beleza artística que ele apresentou. Essa felicidade encheu-me de alegria. Por isso, ofereço milhões de agradecimentos a Allah, Subhanahu wa Ta’ala.
O uso incorreto do termo arte
Aqui não se pode deixar de mencionar outra questão. Atualmente, o termo arte está sendo usado de maneira indevida, ou então seu significado e sua importância não são compreendidos corretamente. Até mesmo nos tafsirs do Nobre Alcorão essa palavra é interpretada de forma incorreta.
Reconheço que, há sete anos, quando dei a este livro o título ‘At-Taswir al-Fanni fil-Qur’an’ (A beleza artística do Alcorão), eu tinha apenas uma ideia em mente: discutir a beleza da descrição e da explicação, bem como sua forma e natureza. Nunca me ocorreu que, ao relacionar a arte ao Alcorão, ela se tornasse algo inventado, fundamentado na fantasia. Isso porque, diante do longo estudo que fiz do Alcorão, não é possível aceitar tal significado.
Quero dizer claramente — e também reconheço — que não aceitei como crença religiosa algo produzido pela mente. Contudo, aceitei isso por esta razão: não havia outra alternativa. Naturalmente, compreendo que, embora respeitasse a razão e a inteligência humanas, minha consciência me obrigou a não transgredir seus limites: aceitar, com base apenas no conhecimento, uma afirmação por trás da qual não há prova nem evidência.
Fico surpreso ao ver por que o termo “arte” é usado em um sentido tão arbitrário e novo, sem qualquer prova genuína que o sustente. Então, por que isso é feito? Não seria possível descrever acontecimentos verdadeiros à maneira da ciência e da arte, preservando assim sua veracidade e a validade da narrativa?
Então, Homero teria fundamentado a Ilíada em histórias fictícias e inventadas?
Será que nas obras dos contistas, romancistas e dramaturgos do Ocidente não há o menor vestígio de verdade?
É claro que até uma história falsa pode ter relação com a arte. Mas a arte não se limita a isso. Sem dúvida, a verdade e a essência possuem a qualidade que permite apresentá-las de modo plenamente artístico. Não é preciso fazer grande esforço para compreender isso. Basta abandonar a servidão mental ao Ocidente e lançar um olhar atento ao aspecto prático do uso da linguagem.
A liberdade de pensamento e de visão não significa que a pessoa possa dizer o que quiser e fazer o que bem entender. Queremos examinar o Alcorão sob uma perspectiva histórica, tendo em vista a santidade da religião. Isso deixará claro diante de nós que, em toda a criação, não existe livro que contenha, na história da humanidade, tais registros históricos e elementos de análise científica na medida em que eles estão presentes na parte histórica do Alcorão.
A veracidade das afirmações do Alcorão
Temos apenas dois meios para verificar a exatidão dos acontecimentos narrados no Alcorão. Nenhum dos dois é irrefutável. Além disso, neles não existe a força das provas encontrada no Alcorão.
Um dos dois meios mencionados é a evidência histórica. Se o Alcorão for avaliado não a partir de sua santidade religiosa, mas apenas como um livro histórico, veremos que, do ponto de vista científico, sua posição está acima de todos os livros de história do mundo. O narrador deste livro é Muhammad ibn Abdullah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Até seus inimigos antigos e recentes são obrigados a reconhecer, a respeito de sua personalidade, que ele era um homem extremamente veraz.
Somente aquele que persiste em caluniar os outros pode discordar disso. A compilação e a organização do Alcorão Sagrado foram realizadas com tal sabedoria que não há margem para apontar defeitos ou fazer acusações. Todos foram obrigados a reconhecer isso.
A análise científica apresentada no Alcorão não é facilmente encontrada em nenhum outro livro, seja ele uma escritura sagrada ou qualquer outro Livro Celestial da história, que sofreu alterações e acréscimos com o passar do tempo. Nenhum outro livro chegou até nós da maneira gradual e preservada como o Alcorão. Quanto aos livros de história, sempre há margem para dúvida e incerteza a respeito deles. Entre todos os livros de história existentes na sociedade humana, não há sequer um cujas informações e dados possam ser considerados inteiramente certos.
Por essa razão, também não pode ser aceitável à razão e à lógica avaliar a parte histórica do Alcorão segundo os critérios de uma história comum, especialmente comparando-a com uma história que não é autêntica.
O segundo meio é o conhecimento e a razão. Quero afirmar claramente, sem hesitação, que o conhecimento e a razão humanos são válidos e aceitáveis apenas até certo limite. Digo isso com base no pensamento e na pesquisa, não com base na religião. Quando a razão e a consciência humanas afirmam que já sabem tudo e que nada está além de seu conhecimento, elas próprias destroem sua honra e dignidade. A razão nem sequer sabe o que ela é. Como poderia, então, compreender as questões abstratas das concepções mentais? Isso não significa que eu negue a importância da razão, da consciência e da liberdade humanas. Quero apenas dizer que se deve conceder à razão e ao pensamento humanos a medida de respeito que lhes é devida.
Embora vivessem no mundo materialista, os grupos religiosos da Europa não gostavam de expressar opiniões independentes nos debates intelectuais. A reação a isso foi o surgimento de hostilidade entre os intelectuais e os grupos religiosos. Por isso, não queremos limitar essa questão apenas ao Islã antigo. Pois a manifestação de um pensamento e de uma visão de mundo tão independentes acabaria influenciando os outros sem qualquer prova, o que podemos chamar de taqlid censurável ou imitação cega. Isso mostra que a liberdade de pensamento é uma forma de amizade. Em virtude dessa amizade, continuamos imitando os outros como macacos.
Não há dúvida de que aqueles que refletiam e pesquisavam sobre “os acontecimentos do Alcorão e a representação da Ressurreição feita no Alcorão” enfrentaram obstáculos semelhantes aos meus. Eu pensava: as cenas retratadas no Alcorão ocorreram realmente dessa maneira? Ou foram descritas de forma metafórica?
Pensei nisso durante muito tempo, mas não encontrei nenhum acontecimento histórico no qual pudesse depositar uma confiança incontestável e que pudesse comparar com o Alcorão. Tampouco conseguia imaginar que um acontecimento pudesse ser comparado com o Alcorão apenas com base em concepções e ideias. Naquela época, também não havia nenhum religioso que me proibisse de conversar abertamente sobre assuntos religiosos. Por outro lado, eu conseguia compreender o suficiente para que ninguém pudesse rejeitar minhas palavras, alegando que se baseavam em uma mentira.
Se alguém encontrar uma verdade que possa ser comparada com o Alcorão, estou disposto a refletir sobre suas palavras com tranquilidade. Contudo, se este livro for declarado falso, antes de uma busca por essa verdade, devido a uma visão de mundo sem fundamento, isso será sinal de pouca inteligência, qualquer que seja o valor deste meu livro no âmbito religioso.
À luz da terminologia corânica, a expressão «arte» designa a singularidade do discurso, a beleza da explicação e da análise e a força da descrição. Nada disso exige que sua base seja apenas constituída por pensamentos e imaginações ilusórios. A condição, porém, é que haja no indivíduo firmeza, compreensão e percepção adequadas.
Apêndice 2
Ordem cronológica da revelação das suratas do Alcorão
| Nome da surata | Ordem da revelação | Ordem da compilação |
| Surata Al-Alaq / Surata Iqra Bismi | 01 | 96 |
| Surata Al-Muzzammil | 02 | 73 |
| Surata Al-Muddaththir | 03 | 74 |
| Surata Al-Qalam | 04 | 68 |
| Surata Al-Fátiha/As-Sab’ al-Mathani | 05 | 01 |
| Surata Lahab/Surata Masa | 06 | 111 |
| Surata At-Takwir | 07 | 81 |
| Surata Al-A’la | 08 | 87 |
| Surata Al-Lail | 09 | 92 |
| Surata Al-Fajr | 10 | 89 |
| Surata Ad-Duha | 11 | 93 |
| Surata Inshirah/ Surata Alam Nashrah/ Surata Ash-Sharh | 12 | 94 |
| Surata Al-Ar | 13 | 103 |
| Surata Al-Adiyat | 14 | 100 |
| Surata Al-Kawthar | 15 | 108 |
| Surata At-Takathur | 16 | 102 |
| Surata Al-Ma’un | 17 | 107 |
| Surata Al-Kafirun | 18 | 109 |
| Surata Al-Fil | 19 | 105 |
| Surata Al-Falaq | 20 | 113 |
| Surata Al-Nas | 21 | 114 |
| Surata Al-Ikhlas | 22 | 112 |
| Surata Abasa | 24 | 80 |
| Surata Al-Qadr | 25 | ṅ97 |
| Surata Ash-Shams | 27 | 85 |
| Surata At-Tin | 28 | 95 |
| Surata Quraysh | 29 | 106 |
| Surata Al-Qari’ah | 30 | 101 |
| Surata Al-Qiyamah | 31 | 75 |
| Surata Al-Humaza | 32 | 104 |
| Surata Al-Mursalat | 33 | 77 |
| Surata Qaf | 34 | 50 |
| Surata Al-Balad | 35 | 90 |
| Surata At-Táriq | 36 | 86 |
| Surata Al-Qamar | 37 | 54 |
| Surata Sad | 38 | 38 |
| Surata Al-A’raf | 39 | 07 |
| Surata Al-Jinn | 40 | 72 |
| Surata Yá-Sin | 41 | 36 |
| Surata Al-Furqan | 42 | 25 |
| Surata Fátir | 43 | 35 |
| Surata de Maria | 44 | 19 |
| Surata Ta-Ha | 45 | 20 |
| Surata Al-Wáqi’a | 46 | 56 |
| Surata Ash-Shu’ara | 47 | 26 |
| Surata An-Naml | 48 | 27 |
| Surata Al-Qasas | 49 | 28 |
| Surata Bani Isra’il/Surata Isra | 50 | 17 |
| Surata Yunus | 51 | 10 |
| Surata Hud | 52 | 11 |
| Surata Yusuf | 53 | 12 |
| Surata Al-Hijr | 54 | 15 |
| Surata Al-An’am | 55 | 05 |
| Surata As-Saffat | 56 | 37 |
| Surata Luqman | 57 | 31 |
| Surata As-Saba | 58 | 34 |
| Surata Az-Zumar | 59 | 39 |
| Surata Al-Mu’min/Surata Ghafir | 60 | 40 |
| Surata Ha-Mim as-Sajda/Surata Fussilat | 61 | 41 |
| Surata Ash-Shura | 62 | 42 |
| Surata Az-Zukhruf | 63 | 43 |
| Surata Ad-Dukhan | 64 | 44 |
| Surata Al-Jathiyah | 65 | 45 |
| Surata Al-Ahqaf | 66 | 46 |
| Surata Adh-Dhariyat | 67 | 51 |
| Surata Al-Ghashiyah | 68 | 88 |
| Surata Al-Kahf | 69 | 18 |
| Surata An-Nahl | 70 | 14 |
| Surata Nuh | 71 | 71 |
| Surata Ibrahim | 72 | 14 |
| Surata Al-Anbiya | 73 | 21 |
| Surata Al-Mu’minun | 74 | 23 |
| Surata As-Sajdah | 75 | 32 |
| Surata At-Tur | 76 | 52 |
| Surata Al-Mulk | 77 | 67 |
| Surata Al-Haqqah | 78 | 69 |
| Surata Al-Ma’arij | 79 | 70 |
| Surata An-Naba | 80 | 78 |
| Sura An-Nazi’at | 81 | 79 |
| Sura Al-Infitar | 82 | 82 |
| Sura Al-Inshiqaq | 83 | 84 |
| Surata Ar-Rum | 84 | 30 |
| Surata Al-Ankabut | 85 | 29 |
| Surata Al-Mutaffifin | 86 | 83 |
| Surata Al-Baqara | 87 | 02 |
| Surata Al-Anfal | 88 | 08 |
| Surata Al Imran | 89 | 03 |
| Surata Al-Ahzab | 90 | 33 |
| Surata Al-Mumtahanah | 91 | 60 |
| Surata An-Nisā | 92 | 04 |
| Surata Az-Zalzalah | 93 | 99 |
| Surata Al-Hadid | 94 | 57 |
| Surata Muhammad / Surata do Combate | 95 | 47 |
| Surata Ar-Ra’d | 96 | 13 |
| Surata Ar-Rahman | 97 | 55 |
| Surata Ad-Dahr/Surata Al-Insan | 98 | 76 |
| Surata At-Talaq | 99 | 65 |
| Surata Al-Bayyina | 100 | 98 |
| Surata Al-Hashr | 101 | 59 |
| Surata An-Nur | 102 | 34 |
| Surata Al-Hajj | 103 | 22 |
| Surata Al-Munafiqun | 104 | 63 |
| Surata Al-Mujadalah | 105 | 58 |
| Surata Al-Hujurat | 106 | 49 |
| Surata At-Tahrim | 107 | 66 |
| Surata At-Tagabun | 108 | 64 |
| Surata As-Saff | 109 | 61 |
| Surata Al-Jumu’a | 110 | 62 |
| Surata Al-Fath | 111 | 48 |
| Surata Al-Ma’idah | 112 | 05 |
| Surata At-Tawbah / Surata Bara’ah | 113 | 09 |
| Surata An-Nasr | 114 | 110 |