Palavras do tradutor

O livro Way to the Quran foi escrito pelo ilustre pensador islâmico Sr. Khurram Murad. No mundo moderno, entre os poucos pensadores islâmicos ilustres que conseguiram atrair a atenção tanto do Oriente quanto do Ocidente por seu pensamento atualizado e que provocaram grande comoção entre os jovens de hoje, o nome de Khurram Murad merece especial destaque. Seu livro “As relações mútuas dos trabalhadores do movimento islâmico”, escrito para os membros do movimento islâmico, não pode deixar de tocar o coração de nenhum leitor. Ele também produziu muitas obras criativas. Embora seja, profissionalmente, um engenheiro renomado e tenha recebido educação secular, por meio do estudo e da prática adquiriu um conhecimento profundo e uma erudição sobre o Islã dignos de serem seguidos pelos estudantes e jovens instruídos na educação moderna. Uma das principais características de seus escritos é a beleza, a doçura e a capacidade de tocar o coração da linguagem. Sua escrita é verdadeiramente extraordinária por tocar, comover e revigorar o coração humano.

Quando o livro Way to the Quran chegou às minhas mãos, naturalmente o li rapidamente. Seu livro, escrito em inglês, deixou-me maravilhado já na primeira leitura. Nasceu em mim a convicção de que esta obra tocante seria muito útil aos leitores de língua bengali para ler e compreender o Alcorão Sagrado. O respeitável Sr. Mir Qasim Ali, que me emprestou o livro para que eu o lesse, também disse algo semelhante. Ele disse: “É necessário traduzir este livro para o bengali. Com ele, uma grande parcela dos jovens estudantes instruídos na educação secular poderá se beneficiar.” Depois de ler o livro pela segunda vez, tomei coragem e comecei a traduzi-lo para o bengali. Também sofri conflitos interiores, perguntando-me se seria correto ou não que uma pessoa tão comum quanto eu, um trabalhador sem domínio algum do inglês ou do bengali e, além disso, sem capacidade para compreender o Alcorão Sagrado a partir da língua árabe, se aventurasse a traduzir um livro tão valioso. Mas, no fim, concluí a tradução devido ao meu interesse e à minha afeição pessoais pelo livro.

Creio profundamente que este livro pode dar uma grande contribuição para iluminar o coração por meio dos ensinamentos do Alcorão Sagrado e para compreender e praticar seus grandiosos ensinamentos. Se se consolidar a ideia de que, para compreender o Alcorão e perceber a beleza intrínseca do Islã, é indispensável ser um grande erudito da língua árabe, então, por medo, ninguém se sentirá capaz de avançar na busca de ensinamentos por meio da tradução e do tafsir do Alcorão. Contudo, se for seguido o método pelo qual o autor deste livro, com base em sua experiência de vida, incentivou o estudo do Alcorão e aconselhou as pessoas a obter benefícios dele, estou firmemente convencido de que conhecer e compreender o Alcorão se tornará muito mais fácil. Também devemos lembrar que não é possível conhecer o Islã sem compreender o Alcorão Sagrado. E, para a proteção da humanidade e a salvação na vida futura, não há alternativa ao Islã. Portanto, devemos necessariamente manter o desejo de investigar, compreender e conhecer o Alcorão. Especialmente aqueles entre nós que, devido às dificuldades linguísticas, não conseguem compreender diretamente o Alcorão a partir de sua fonte original devem continuar tentando compreendê-lo por meio de traduções e tafsir. Way to the Quran pode desempenhar um papel grandioso nesse nosso esforço. Por isso, depois de considerar tudo, dei ao livro o título bengali “Guia para o estudo do Alcorão”.

Considero que meu trabalho terá valido a pena se os leitores de língua bengali obtiverem dele sequer o menor benefício. Não é improvável que, por descuido, tenham permanecido erros na tradução do livro. Além disso, erros de impressão também são perfeitamente naturais. Inshallah, tentaremos tornar o livro ainda melhor e mais preciso na próxima edição. Que Allah aceite nossos esforços. Que Allah recompense aqueles que, de diversas maneiras, ofereceram ajuda, colaboração e incentivo para a publicação desta minha modesta tradução. Não posso deixar de mencionar especialmente minha esposa, Nurunnahar. Sem sua colaboração, não teria sido possível concluir a tradução deste livro em meio às ocupações. Por fim, ofereço infinitas graças ao Grandioso Allah, por cuja bondade foi possível traduzir o livro. Que Allah nos ajude. Amém.

Muhammad Kamaruzzaman

Data: 5/5/91

423, Elephant Road, Bara Moghbazar, Daca.

Introdução

Considero meu dever, antes de tudo, reconhecer a extrema inadequação de alguém ignorante e fraco na fé e na obediência, como eu, para escrever um livro desse tipo. Pois o Deus Altíssimo disse: “Se tivéssemos feito descer este Alcorão sobre uma montanha, terias visto a montanha humilhar-se e desmoronar-se por temor de Allah, em pedaços e em ruínas.” (Surata Al-Hashr, versículo 21)

Como pode uma pessoa limitada em conhecimento e desprovida de pureza espiritual ousar oferecer orientação sobre a grandeza, a misericórdia, a beleza e a sabedoria do grandioso Livro, o Alcorão? O que me inspirou foi a insistência contínua de muitos dos meus amigos. Eles sentiam que era necessário compartilhar com muitas outras pessoas aquilo que eu pensava e refletia sobre esse assunto. Mas minha verdadeira coragem e força provêm da promessa do Deus Altíssimo, o Senhor dos mundos, na qual Ele disse:

“Aqueles que se esforçam por Minha causa, certamente os guiarei pelos Meus caminhos.” (Surata Al-Ankabut, versículo 69)

As palavras do Grande Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) são:

“Transmitam de minha parte, ainda que seja um único versículo; e o melhor dentre vós é aquele que aprende o Alcorão e ensina os ensinamentos do Alcorão.”

Essas palavras tornam-me ainda mais ansioso por cumprir esse dever.

O objetivo de escrever este livro é muito simples. Não se trata de uma obra erudita. Não sou um mufassir altamente versado, nem escrevo este livro para estudiosos e pesquisadores. Não ouso oferecer ensinamentos ou orientações, pois não tenho competência para isso. Escrevo especialmente para aquelas pessoas comuns, inexperientes e sem instrução, que buscam o Alcorão — sobretudo jovens homens e mulheres — e que, como eu, estão empenhadas numa árdua luta para compreender o Alcorão, alcançar o sentido profundo de suas palavras e conduzir a vida de acordo com ele. Para os estudantes, escrevo sobre algo que eu mesmo estou aprendendo. Com todas as minhas fraquezas, aquilo que compreendi e considerei necessário sobre minhas experiências, como caminhante que tropeça e enfrenta subidas e descidas ao seguir o caminho fácil e recompensador do Alcorão, escrevo neste livro para outro viajante do caminho do Alcorão. Sobre isso, estou certo de que, por meio de sua profunda sinceridade, dedicação e capacidade, eles poderão aperfeiçoar ainda mais o presente que lhes ofereço neste livro.

Este livro é fruto de uma longa busca, que continua até hoje, e de muitos anos de estudo. Há várias décadas, quando eu apenas iniciava a luta para viver de acordo com o Alcorão e me foi confiada a responsabilidade de explicar a um grupo promissor de jovens estudantes como estudar o Alcorão, disse que era devedor das seguintes fontes: o Tafsir Farahi, de Hamiduddin Farahi; o Tafhim al-Qur’an, de Sayyid Abul A’la Maududi; o Tadabbur-e-Qur’an, de Amin Ahsan Islahi; o Ihya’ ‘Ulum al-Din, de al-Ghazali; o Hujjat Allah al-Baligha e o Al-Fawz al-Kabir fi Usul al-Tafsir, de Shah Waliullah; e o Al-Itqan fi ‘Ulum al-Qur’an, de al-Suyuti. Reconheço com gratidão minha dívida para com essas obras, embora seus autores não sejam responsáveis por quaisquer erros de compreensão ou de apresentação de minha parte. A primeira oportunidade de registrar minhas reflexões surgiu em 1977, quando escrevi a breve introdução, intitulada “No caminho do Alcorão”, para a tradução do Sagrado Alcorão de Allama Yusuf Ali, publicada pela Islamic Foundation (Reino Unido).

Este livro nasceu de algumas convicções firmes. Elas também são explicadas no livro. Ainda assim, considero necessário mencionar brevemente aqui alguns de seus aspectos.

Um: se não formos guiados pelo Alcorão, o Livro revelado por Allah, nossa vida será sem sentido e estará fadada à destruição.

Dois: o Alcorão, concedido pelo Deus Eterno como orientação para a humanidade por toda a eternidade, é hoje exatamente como era há mil e quatrocentos anos e permanecerá eternamente assim, imutável.

Três: assim como os primeiros crentes no Alcorão, também somos capazes de receber suas bênçãos e temos esse direito, desde que nos aproximemos dele e desempenhemos um papel ativo na obtenção de seus benefícios.

Quatro: é dever de todo muçulmano dedicar-se ao estudo do Alcorão, tentar compreendê-lo e esforçar-se para memorizá-lo.

Cinco: à luz de tudo o que o Alcorão lhe concedeu, a pessoa deve abandonar tudo o que lhe é próprio, tanto em suas ações quanto em seus pensamentos. Qualquer arrogância, orgulho, obstinação, sentimento de autossuficiência, objeção, desinteresse, considerar algo inaceitável e atitudes semelhantes serão necessariamente obstáculos muito graves à compreensão do Alcorão e poderão também fechar as portas de suas bênçãos.

Seis: o caminho do Alcorão é o caminho da entrega e da prática. Se alguém aprender sequer um versículo, aprender esse versículo e agir de acordo com ele é melhor do que mil versículos que sejam muito bem explicados, mas cuja beleza não se reflita de modo algum na vida do leitor. A obediência é a verdadeira chave.

Este livro tem 7 capítulos. Cada um lança luz sobre diferentes aspectos do caminho do Alcorão. O primeiro capítulo trata do significado ou da importância de seguir o caminho do Alcorão em nossa vida. No início do segundo capítulo, explica-se quais condições devem ser reunidas nas profundezas do coração e da mente. O terceiro capítulo descreve que tipo de disposição e atividade são necessárias ao coração, à mente e ao corpo. O quarto capítulo trata das regras que devem ser observadas no estudo e de como compreender. O sexto capítulo mostra como uma pessoa pode dedicar sua vida à realização da missão do Alcorão. Em um apêndice foram reunidas as palavras do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre diversas partes específicas do Sagrado Alcorão. Outro apêndice apresenta um programa de estudos para o estudo individual e coletivo, que pode ser bastante útil para muitas pessoas. Também foram acrescentados alguns outros materiais como auxiliares de estudo.

Este não é um livro que possa ser lido às pressas uma única vez e depois deixado de lado. Se você não gostar dele ou não o considerar necessário, então é outra questão. Para aqueles que precisam de um livro desse tipo e o consideram muito útil, espero que estudem cada capítulo repetidamente, dedicando-lhe um tempo especial. Faço-lhes um pedido: podem fazer deste livro um companheiro constante.

Alguns assuntos deverão ser estudados com muita atenção. Algumas coisas deverão ser sempre lembradas, e outras precisarão ser mencionadas repetidamente. Mas aquilo que vocês praticarem será muito valioso para vocês. Este livro indicou os limites do caminho e estabeleceu marcos, para que o viajante possa reconhecer corretamente sua rota e encontrar as orientações, precauções, advertências ou proibições de que necessitar. Ainda assim, vocês terão de equipar-se com um veículo, abastecê-lo, levá-lo à estrada e conduzi-lo. Nada neste livro pode substituir seu desejo sincero, sua força de vontade, sua determinação firme e seu esforço árduo.

É muito importante tudo o que foi dito no livro sobre aceitar e utilizar as advertências nele espalhadas. Nesse sentido, vocês devem prestar atenção se estão tentando compreender o Alcorão por iniciativa própria, se estão utilizando um plano e um programa de estudos, ou se estão fazendo isso de alguma outra maneira.

Tenho enfatizado e ressaltado muito a necessidade de cada muçulmano empreender um esforço pessoal para compreender o Alcorão. Em minha opinião, esta é a exigência mais fundamental do Alcorão. Naturalmente, também estou consciente dos erros de seguir esse caminho e tentei mencioná-los. A esse respeito, eu gostaria que vocês mantivessem sempre diante de si estas palavras de nosso mestre Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), nas quais se diz:

“A terra não me aceitará, nem o céu me protegerá, se eu inventar palavras ao interpretar o Alcorão.”

Estas palavras exerceram sobre mim uma influência de longo alcance e me inspiraram a ser comedido e firme; vocês também deveriam beneficiar-se delas.

Vivemos em uma época em que tornou-se extremamente necessário e inevitável fazer de nossas vidas vidas centradas no Alcorão. Sem isso, nós, muçulmanos, jamais conseguiremos descobrir quem somos, dar significado à nossa identidade nem alcançar qualquer poder supremo neste mundo. Mais importante ainda, sem uma vida centrada no Alcorão, jamais conseguiremos satisfazer nosso Criador e Senhor. Além disso, sem o Alcorão, a humanidade também afundará no abismo da destruição.

Hoje, entre os muçulmanos, cresce rapidamente a consciência dessa necessidade urgente. O desejo de compreender o Alcorão e o anseio de conduzir a vida de acordo com ele são hoje amplamente difundidos. A onda de renascimento islâmico em todo o mundo é resultado desse desejo, dessa consciência e desse entusiasmo. Nestes dias de crise para a nossa ummah muçulmana, se, por meio deste meu pequeno esforço, despertar no coração de algumas pessoas o desejo de trilhar o caminho do Alcorão, e se ele puder tornar-se companheiro de sua jornada pela vida, então meu trabalho terá alcançado grande êxito e será recompensado. Isso só me será realmente benéfico se Allah perdoar minhas falhas e aceitar este meu esforço sincero. Àqueles que se beneficiarem deste livro, faço um único pedido: não se esqueçam de mim ao orarem a Allah.

–Khurram Murad

Leicester

15 de Sha’ban de 1405 da Hégira

6 de maio de 1985

1 : A jornada da vida

Uma realidade eterna e viva

O Alcorão é a palavra do grandioso e amoroso Allah. O Alcorão Sagrado foi revelado como orientação para todas as pessoas de todos os tempos. Por meio do Alcorão, Allah falou com a humanidade. Ler o Alcorão significa honrar a palavra de Allah, falar com Ele e seguir Seu caminho. Isso significa encontrar o Doador da vida na luta da vida. Não há divindade além de Allah. Ele é o Vivente e não depende de ninguém (todos dependem d’Ele). Ele revelou para vós o Livro grandioso com a verdade absoluta, como orientação para a humanidade. (Al ‘Imran 3:2–3)

Para eles, o Sagrado Alcorão era uma realidade viva; eles haviam tido a ventura de ouvir pela primeira vez aquela mensagem dos lábios do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Não tinham a menor dúvida de que, por meio do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o grandioso Senhor, Allah, o Senhor dos mundos, falava com eles. Por isso, seus corações e suas mentes haviam sido completamente tomados por ele. Seus corpos tremiam, e lágrimas escorriam de seus olhos. Eles viam cada palavra do Alcorão, com extraordinária profundidade, em plena concordância com as experiências e percepções de suas vidas, e a haviam integrado completamente à própria vida. Individual e coletivamente, ao entrarem em contato com o Alcorão, foram inflamados por uma nova singularidade e característica vivificadora. Aqueles que antes pastoreavam ovelhas, criavam camelos e se dedicavam a modestos negócios e ao comércio foram, graças a este grandioso Livro, o Alcorão, elevados à liderança da humanidade.

Esse mesmo Alcorão está hoje conosco. Milhões de exemplares do Alcorão são atualmente divulgados. Dia e noite, sem interrupção, o Alcorão é recitado em casas, mesquitas e púlpitos. Reuniu-se uma enorme quantidade de obras e escritos explicativos para esclarecer seu significado. Para explicar os ensinamentos do Alcorão e conduzir a vida de acordo com eles, muitas palavras têm sido continuamente publicadas. Apesar de tudo isso, hoje os olhos continuam secos, os corações não se iluminam. A mente não sente nenhum impacto. Parece que a calamidade e o declínio se tornaram o destino dos seguidores do Alcorão. Por que isso aconteceu? Porque não estudamos o Alcorão aceitando-o como uma realidade viva. Pensamos que ele é um Livro sagrado de tempos passados, no qual se fala de muçulmanos, incrédulos, judeus e cristãos. E também daqueles que, em certa época, eram crentes e hipócritas.

O Alcorão pode ser hoje uma força tão poderosa, viva e inspiradora quanto era há 1.400 anos? Esta é a pergunta mais difícil, à qual devemos necessariamente responder se quisermos redefinir nosso destino de acordo com a orientação do Alcorão.

Parece haver vários obstáculos nesse caminho. O Alcorão foi revelado em uma determinada época. Desde então, percorremos uma longa distância. Houve um desenvolvimento sem precedentes nos campos da ciência e da tecnologia, e mudanças sociais significativas ocorreram na história da humanidade. Além disso, hoje temos apenas uma compreensão limitada da linguagem viva do Alcorão. Não se pode esperar que tenhamos o conhecimento necessário de seu modo de expressão, de suas locuções e de seus recursos retóricos para assimilar profundamente o significado do Alcorão e encontrar sua orientação. Ainda assim, justamente por ser a palavra do Criador Eterno, o Alcorão, por suas próprias características, possui um apelo universal como orientação para todos os seres humanos. É por essa verdade que estou firmemente convencido de que também podemos compreender, assimilar e aceitar o Alcorão como seus primeiros ouvintes — ainda que não completamente, pelo menos até certo ponto. Acreditamos que temos o direito e a oportunidade de receber a orientação de Allah em toda a sua beleza e majestade. Em outras palavras, embora o acontecimento histórico da revelação do Alcorão tenha ocorrido em uma língua, época e lugar específicos, como sua mensagem é eterna e universal, devemos ter a capacidade de compreendê-lo e aceitá-lo. Justamente por ser o grandioso Livro eterno, o Alcorão exige que, como os primeiros crentes, integremos completamente nossa vida à sua mensagem e sigamos necessariamente, em todas as questões, o caminho determinado pelo Alcorão.

Mas a questão é: como isso é possível? Pode-se dizer com muita clareza que somente será possível compreender, assimilar e aceitar o Sagrado Alcorão quando nele entrarmos como se Allah estivesse falando conosco hoje, neste exato momento, e nos encontrarmos em uma situação desse tipo, cumprindo todas as condições necessárias.

Primeiro: devemos compreender o que é o Alcorão como palavra de Allah e qual é seu significado para nós; essa compreensão exige que ajamos de acordo com ele, com toda a reverência, amor, anseio e vontade.

Segundo: devemos ler o Alcorão da maneira como fomos instruídos a lê-lo, conforme orientou o Mensageiro de Allah e conforme ele e seus Companheiros o liam.

Terceiro: devemos superar os obstáculos do tempo, da cultura e das mudanças, relacionando cada palavra do Alcorão à realidade, às experiências e aos problemas de nossa vida.

Para os primeiros ouvintes do Alcorão, ele constituía o contexto de sua própria época. A linguagem e o estilo literário do Alcorão, seus argumentos e ornamentos, expressões idiomáticas e metáforas, símiles e imagens, épocas e acontecimentos, tudo possuía características singulares. Como o acontecimento da revelação do Alcorão ocorreu em sua própria época, os primeiros ouvintes do Alcorão eram, por um lado, testemunhas dele e, por outro, participantes diretos do curso dos acontecimentos daquele período. Nós não temos essa mesma oportunidade. Ainda assim, pode-se dizer que o mesmo deve necessariamente acontecer conosco.

Se, a partir de nossa própria posição, compreendermos o Alcorão e o seguirmos, veremos que, assim como ele era recente ou contemporâneo para as pessoas de outrora, também o é para nós. A razão fundamental disso é que a essência humana não mudou e é imutável. Apenas seu comportamento exterior, sua aparência, sua forma e sua tecnologia mudaram. Talvez já não existam os politeístas de Meca, nem os judeus de Iasrib ou os cristãos de Najran, tampouco os crentes e descrentes de Medina, mas sentimos ao nosso redor a existência dos mesmos tipos de caráter. Somos exatamente os mesmos seres humanos que os primeiros ouvintes. Apesar disso, para muitos de nós é muito difícil compreender o profundo significado desta verdade tão simples.

Somente quando você for capaz de compreender esta verdade e segui-la, e se aproximar do Alcorão da mesma maneira como os primeiros crentes se aproximaram dele, ele lhe parecerá exatamente como lhes pareceu, e você se tornará, como eles, participante dos acontecimentos; somente então o Sagrado Alcorão, em vez de ser apenas um livro sagrado, glorioso e milagroso de bênçãos, se transformará numa força inspiradora, comovente, dinâmica, profundamente poderosa e capaz de conceder o mais elevado sucesso, tal como foi para as pessoas daquela época.

O chamado de um novo mundo

Ao se aproximar do Alcorão, você encontrará um novo mundo. Nada mais em sua vida poderá ser tão valioso, importante, abençoado e proveitoso quanto a jornada em direção ao Alcorão. Esta jornada da vida o conduzirá a uma alegria infinita e a uma prosperidade que seu Criador e Senhor enviou para você e para a humanidade. Neste Alcorão, você encontrará um tesouro inesgotável de orientação para o caminho da vida, conhecimento e sabedoria, para aperfeiçoar seus pensamentos e suas ações. Nele, você descobrirá uma profunda visão para enriquecê-lo e encontrará a força inspiradora para seguir o caminho da verdade. Dele, poderá receber raios luminosos que iluminarão as regiões mais profundas de seu coração. Neste Grande Livro, você se deparará com lágrimas descendo por suas faces, com o calor capaz de derreter o coração e com emoções puras.

Isso será muito difícil para você, pois, ao seguir o caminho do Alcorão, terá de avançar com cautela a cada passo. Deverá manifestar sua irrestrita obediência a Allah. Ler o Alcorão significa espontaneidade, sinceridade, profunda concentração e viver integralmente com o Alcorão. O sucesso de toda a sua vida depende de como você responderá ao chamado de Allah. Portanto, sua existência, o ser humano e o futuro da civilização humana dependem de seguir o caminho do Alcorão.

Há centenas de palavras novas nesta expressão

Séculos e séculos estão ligados em seu breve instante.

(Javidnama: Allama Iqbal)

Saiba que este é o grandioso Alcorão. Somente este Alcorão pode guiá-lo à verdadeira prosperidade e à verdadeira prosperidade e glória neste mundo e no Além.

O que é o Alcorão?

É impossível descrever quão imensa e abrangente é a importância e a grandeza do Alcorão para a humanidade. No entanto, para que você possa mergulhar plenamente e com entusiasmo no Alcorão, entregando-lhe o compromisso, a concentração total e o esforço incessante que ele exige, é necessário, desde o início, adquirir alguma compreensão do que é o Alcorão e a respeito dele.

O Alcorão é uma grande bênção de Allah para você. Ele é a realização da promessa de Allah, o Altíssimo, feita a Adão e à humanidade.

E, depois, quando vos chegar de Minha parte uma orientação para a vida, aqueles que seguirem a Minha orientação não terão motivo algum para temer nem para se afligir. (Al-Baqarah 2:38)

Este é o único instrumento de apoio à sua existência passageira para lutar contra a cobiça e os desejos do mundo e contra as forças satânicas. Este é o único meio de afastar seus medos e preocupações. Este é o único farol (nur) para encontrar o caminho da libertação e do sucesso na escuridão da noite sombria.

Este é o único remédio (shifa) para sua enfermidade interior e para a doença social que deseja devorá-lo continuamente. É um lembrete permanente (dhikr) sobre sua natureza, seu destino, sua posição, suas responsabilidades e sua destruição.

O Alcorão foi trazido à superfície da Terra por um anjo poderoso e fiel do Paraíso, o nobre Gabriel (que a paz esteja com ele). Depois de ser trazido da presença de Allah, a primeira morada do Alcorão foi a alma pura e gloriosa do amado Profeta Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), que não pode ser comparada à de nenhum outro ser humano.

Acima de tudo, este é o único caminho para alcançar a proximidade e a intimidade com o Criador. Seu Livro majestoso informa você sobre Allah e Seus atributos. No Alcorão, Ele também informou como o Grande Criador governa todo o universo e que tipo de relação deve existir entre você e as outras pessoas, e entre os seres humanos e as demais criaturas.

As recompensas por seguir o caminho do Alcorão são certamente numerosas neste mundo, e há recompensas ainda mais abundantes e eternas na Outra Vida. Mas, sobre o que Allah, o Altíssimo, prometeu ao fim desse caminho, Hazrate Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: nenhum olho jamais viu, nenhum ouvido jamais ouviu e nenhum coração humano jamais sentiu. Se quiser, leia a surata As-Sajda, versículo 17:

Além disso, nenhuma criatura sabe que recompensa refrescante para os olhos foi ocultada para eles como retribuição por suas obras.

Misericórdia e glória infinitas

O aspecto mais importante do que é lido no Alcorão é que se trata da palavra de Allah, o Senhor dos mundos. Foi por Sua benevolência, misericórdia e amor pela humanidade que Ele a ofereceu à raça humana em linguagem humana.

O Misericordiosíssimo, que ensinou o Alcorão (Ar-Rahman, 55:1–2)

Uma misericórdia da parte do vosso Senhor (Ad-Dukhan, 44:6)

A majestade de Allah possui uma força tão extraordinária que nenhum ser humano é capaz de compreendê-la. O próprio Allah disse:

Se tivéssemos feito este Alcorão descer sobre uma montanha, verias que ela se prostraria, estremecendo de temor a Allah, e se despedaçaria completamente (Al-Hashr, 59:21).

Esta misericórdia e majestade do Grandioso Allah são suficientes para deixar o ser humano maravilhado e inspirá-lo a empenhar-se para alcançar o mais elevado grau de gratidão. Na verdade, nenhum outro tesouro pode ser mais valioso para o ser humano do que o Alcorão.

Assim como Allah disse:

Ó humanidade! Chegou-vos uma exortação da parte do vosso Senhor, que é uma cura completa para todas as doenças dos corações; e, para quem a aceitar, estão destinadas a orientação e a misericórdia. Ó Profeta, dize: isto é uma graça de Allah e uma misericórdia imensa, por Ele a ter enviado. Por isso, as pessoas deveriam alegrar-se. Isto é melhor do que tudo aquilo que elas acumulam e conquistam (Surata Yunus, 10:57-58).

Perigos e riscos

A misericórdia, a majestade e a generosidade de Allah certamente o comoverão e alegrarão. Despertarão em si inspiração e desejo de investigar. Contudo, o Alcorão abre as portas da orientação para aqueles que, compreendendo a importância dessa misericórdia de Allah, recorrem ao Alcorão com profunda ânsia no coração, sinceridade, devoção absoluta, concentração e atenção. Somente eles podem extrair o tesouro majestoso do Alcorão; ao praticá-lo, tornam-se dispostos a sacrificar tudo, obedecer às instruções do Alcorão, seguir o caminho do Alcorão e aceitá-lo.

Não é impossível que aconteça de alguém estudar continuamente o Alcorão, virar página após página, recitar magnificamente cada palavra e praticá-lo como os pesquisadores, mas, ainda assim, talvez não se depare com a situação capaz de enriquecer e revigorar a sua vida com a luz do Alcorão. Isso porque nem todos os que leem o Alcorão conseguem beneficiar-se dele da maneira como deveriam. Alguns ficam privados das bênçãos do Alcorão, enquanto outros podem até ser amaldiçoados.

No caminho do Alcorão há recompensas valiosas e inesgotáveis; do mesmo modo, há riscos e perigos. Embora esteja ao alcance de todos, muitos nem sequer olham para este Livro grandioso; muitos chegam à sua porta e voltam para trás. Muitos leem frequentemente o Livro e retornam de mãos vazias. Muitos leem, mas não entram verdadeiramente nas profundezas do Alcorão. Alguns encontram, mas depois perdem. Não conseguem ouvir Allah nem mesmo entre as palavras de Allah. Em vez de Allah, ouvem apenas as próprias vozes, as próprias palavras. Muitos ouvem a palavra de Allah, mas não conseguem adquirir a vontade, a firmeza, a coragem e a força necessárias para responder ao chamado de Allah e seguir o caminho de Allah. Muitos perdem até o que possuíam; em vez de recolher as preciosas pedras da vida, retornam com um monte de pedras que lhes quebram os ossos, das quais sofrem golpes durante toda a vida.

Se alguém, mesmo recorrendo ao Alcorão, não for tocado no íntimo, não tiver o coração comovido, permanecer com a vida inalterada, retornar de mãos vazias e voltar exatamente como veio, que infortúnio poderia ser mais doloroso do que esse?

A majestade e as bênçãos do Sagrado Alcorão são ilimitadas. Mas quanto cada pessoa poderá receber dele dependerá inteiramente do espaço existente no recipiente que o receberá. Portanto, já no início do estudo do Alcorão, é preciso estar profundamente consciente do que é o Alcorão e quais são as suas exigências. É necessário comprometer-se firmemente a estudar o Alcorão da maneira apropriada, para que você possa estar entre aqueles sobre os quais se diz no Alcorão Majid:

Aqueles a quem concedemos o Livro recitam-no como ele deve ser recitado e creem nele com sinceridade (Al-Baqara 2:121).

Recitação do Alcorão

Tilāwah é uma palavra usada no Alcorão para designar o ato de ler o Alcorão. Ela não pode ser traduzida diretamente por uma única palavra para o inglês ou qualquer outro idioma. “Seguir” é o sentido primário mais próximo dessa palavra; a ideia de ler é secundária. Pois, mesmo na leitura, cada palavra segue a outra, uma após a outra, numa sequência profundamente ordenada e significativa. Se uma palavra não seguir a outra, ou se a ordem e a sequência forem prejudicadas, o significado será distorcido.

Assim, em seu sentido primário, tilāwah significa seguir de perto, avançar, fluir em sequência, esforçar-se para alcançar o objetivo pretendido, aceitar como guia, líder, senhor e modelo, aceitar a autoridade, aceitar voluntariamente, praticar, seguir o caminho, praticar um modo de vida, compreender, seguir ou imitar o veículo do pensamento. Ler o Alcorão, compreender o Alcorão, seguir o Alcorão. É dessa maneira que aqueles que afirmam crer no Alcorão podem vincular suas vidas a ele.

Recitar ou fazer a tilāwah é uma atividade na qual a pessoa precisa participar com o corpo, o coração, a mente e a língua — em resumo, com todo o seu ser humano. Ao ler o Alcorão, o corpo e a mente, a razão e o sentimento perdem suas distinções e se entregam por completo. Quando se recita com a ajuda da língua, as palavras saem dos lábios, a mente continua pensando, o coração reflete, a alma recebe, os olhos se enchem de lágrimas, o coração começa a tremer e o corpo estremece. E assim a pessoa caminha à luz de seu Senhor.

Allah revelou a melhor das palavras: um Livro cujas partes são coerentes entre si e no qual a mesma mensagem é repetida várias vezes. Ao ouvi-lo, arrepiam-se os corpos daqueles que temem o seu Senhor. Depois, seus corpos e seus corações se abrandam e se tornam ávidos e desejosos da lembrança de Allah. Esta é a orientação de Allah; por meio dela, Ele guia quem deseja ao caminho da orientação. E aquele a quem Allah não orienta não terá orientador algum. (Az-Zumar, 39:23).

Ler o Alcorão como deve ser lido não é uma tarefa fácil, mas também não é demasiado difícil nem impossível. Caso contrário, o Alcorão não teria sido enviado para pessoas comuns como nós, nem alguém poderia obter a misericórdia e a orientação que ele verdadeiramente oferece. Contudo, é evidente que o estudo do Alcorão exige necessariamente um grande esforço do coração e da mente, do corpo e da alma. Além disso, é preciso cumprir certas condições, tanto internas quanto externas, e satisfazer exigências inevitáveis. Antes de entrar no mundo majestoso do Alcorão, é necessário conhecer essas questões e esforçar-se ao máximo para observá-las.

Somente então será possível beneficiar-se do bem e da grandeza que o grandioso Livro, o Alcorão, contém para a humanidade. Somente então as portas do Alcorão se abrirão para uma pessoa; somente então ela poderá entrar em seu interior, e o Alcorão despertará nela pensamentos profundos e emoções intensas. Depois de passar nove meses no ventre de sua mãe, você, transformado de uma gota de água, tornou-se um ser humano vivo, dotado de audição, visão e capacidade de pensar. Você consegue imaginar quanto tempo de sua vida pode passar com o Alcorão — investigando, ouvindo, vendo, refletindo e lutando — e quão necessário ele pode ser para você? Ele pode transformá-lo em uma pessoa inteiramente nova, diante de muitos dos quais até os anjos se sentiriam honrados em inclinar a cabeça.

A cada passo que der no Alcorão e a cada momento que passar com ele, você sentirá que está ascendendo. O poder e a beleza fluentes do Alcorão o envolverão, e você continuará a percebê-los com o coração. Foi narrado por Abdullah ibn Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele) que o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

Será dito ao companheiro do Alcorão: “Recita e ascende. Continua ascendendo firmemente, assim como recitavas o Alcorão fluentemente no mundo. Teu destino final será o grau correspondente ao último versículo que tiveres recitado.” (Abu Dawud, At-Tirmidhi, Ahmad, An-Nasa’i).

2 : Pré-requisitos fundamentais

Para estabelecer uma relação bem-sucedida com o Alcorão, certos estados e atitudes fundamentais do coração e da mente são pré-requisitos absolutamente essenciais. Enriqueça-os tanto quanto puder. Transforme-os em parte de sua consciência e mantenha-os vivos e ativos. Integre-os às suas ações. Permita que esses sentimentos do coração e essas atitudes penetrem profundamente em você. Sem o auxílio desses recursos interiores, você não será capaz de receber as bênçãos e a misericórdia do Alcorão. Eles serão seus companheiros e amigos indispensáveis ao longo da vida.

Esses recursos interiores não são difíceis, e encontrá-los também não é algo impossível. Por meio de vigilância constante, discernimento e palavras e ações corretas, você pode adquirir força interior e aumentá-la. Quanto mais fizer isso, mais será capaz de alcançar proximidade com o Alcorão. E quanto maior for a proximidade que alcançar com o Alcorão, maior será o seu sucesso.

Fé : A Palavra de Allah

Primeiramente, aproxime-se do Alcorão com uma fé forte e profunda nesta questão: este Alcorão é a Palavra do nosso grandioso Criador e Senhor.

Por que esse tipo de fé é um pré-requisito indispensável? Sem dúvida, o poder e a atração do Alcorão são tão grandes que, se alguém o estudar, também poderá beneficiar-se dele, assim como alguém se beneficia de um livro comum quando o lê com a mente aberta. Mas este Livro não é um livro comum. Ele começa com uma declaração enfática: “Este é o Livro de Allah; não há dúvida alguma nele.” (Al-Baqara 2:2)

Seu objetivo ao ler e estudar o Alcorão não é um objetivo comum. Você busca nele orientação, uma orientação que transformará toda a sua vida. Ela o conduzirá e o guiará pelo caminho fácil e reto, o Sirat al-Mustaqim. “Guia-nos pelo caminho fácil e reto, ó Senhor” (Surata Al-Fatiha 1:5). O Alcorão é a resposta a esse clamor.

Você pode louvar o Alcorão e até tomar conhecimento de muitas coisas por meio dele, mas o Alcorão não poderá transformá-lo enquanto sua mensagem não o despertar, não o cativar, não o curar e não o transformar. Isso não pode acontecer enquanto você não aceitar suas palavras como a Palavra de Allah, no sentido em que elas o são. Sem fé, é impossível adquirir os recursos e as forças interiores necessários para alcançar as profundezas do Alcorão e assimilar sua mensagem. Quando ela se estabelece no coração, você não pode deixar de ser adornado com nobres qualidades: sinceridade de propósito, humildade e reverência, amor e gratidão, confiança, dependência, interesse pelo esforço árduo, firme convicção quanto à sua verdade, atitude de submissão à sua mensagem, obediência às suas instruções e vigilância contra os obstáculos que podem privá-lo das riquezas do Alcorão, entre outras.

Reflita sobre a magnanimidade, a glória e o poder de Allah, e você sentirá reverência, humildade e profundo amor por Sua Palavra. Considere Sua bondade e misericórdia, e verá seu coração repleto de gratidão, amor e anseio por Sua Palavra. Conheça Sua sabedoria, conhecimento e misericórdia, e você se tornará interessado, ansioso e preparado para obedecer às Suas instruções. É por isso que, já no início de muitas suratas, o Alcorão repete e recorda-lhe esta verdade importante.

E é por isso que foi ordenado ao Grande Profeta (que a paz esteja com ele) que declarasse sua fé: “Dize, ó Mensageiro: creio no Livro que Allah revelou.” (Ash-Shura 42:15)

O Mensageiro creu na orientação, ou guia, que lhe foi revelada por seu Senhor. (Al-Baqara 2:285)

Você deve permanecer sempre atento ao fato de que cada palavra que lê, ouve, recita ou tenta compreender foi revelada por Allah.

Você realmente possui essa convicção? Não é necessário ir muito longe para responder a isso. Basta examinar ou observar seu coração e seu comportamento. Se você realmente possui essa convicção, então onde está sua ansiedade e seu desejo de obter a ajuda do Alcorão, onde está seu empenho e esforço árduo para compreender o Alcorão, onde está sua submissão e obediência àquela grandiosa mensagem?

Como adquirir essa convicção e como mantê-la viva? Há muitos meios para isso. Mencionarei apenas um. O método mais eficaz é recitar o Alcorão. Pode parecer que estamos girando dentro de um círculo. Mas, na realidade, não é assim. Pois, ao ler o Alcorão, você certamente perceberá que ele é a palavra de Allah. Então, sua convicção se tornará mais profunda e firme.

Os verdadeiros crentes são aqueles cujos corações tremem quando Allah é lembrado. E, quando Seus versículos são recitados diante deles, sua fé aumenta. (Al-Anfal 8:2)

Pureza da intenção

Em segundo lugar, leia o Alcorão somente para obter a orientação de Allah, alcançar Sua proximidade e obter Sua satisfação.

O que você obtém do Alcorão depende do que deseja obter dele. A intenção é decisiva nesse caso. Sem dúvida, o Alcorão veio para nossa orientação. Mas, se você ler o Alcorão com maus objetivos e intenções desonestas, poderá se desviar. O Alcorão é a palavra de Allah. Portanto, para estudar o Alcorão, são necessárias exatamente a mesma pureza de intenção e a mesma nobreza de propósito exigidas na adoração e no serviço a Allah.

Não estude o Alcorão apenas por necessidades e prazeres intelectuais. Empregue seu intelecto plenamente para compreender o Alcorão e colocá-lo em prática. Muitas pessoas passam a vida estudando a língua do Alcorão, seu estilo, sua história, sua geografia, sua jurisprudência e sua ética. Apesar disso, não alcançam a verdadeira mensagem do Alcorão nem conseguem captar seu ensinamento central. Em muitos lugares, o Alcorão menciona pessoas que possuem conhecimento, mas não conseguem beneficiar-se dele.

Não se deve estudar o Alcorão com o objetivo específico de obter apoio para as próprias opiniões, perspectivas e ideologias. Nessa condição, talvez você ouça apenas o eco da própria voz, e não a voz de Allah. O Profeta (que a paz esteja com ele) condenou veementemente esse método de compreender e interpretar o Alcorão:

Quem interpretar o Alcorão de acordo com a própria opinião terá como lugar o Inferno. (At-Tirmidhi).

Nada pode ser mais desafortunado do que usar o Alcorão para obter fama, prestígio, reconhecimento e riqueza mundanos. Você pode obter influência, prestígio, boa reputação e bens materiais. Mas, com isso, estará trocando levianamente um tesouro inestimável. Certamente, sofrerá uma perda incalculável. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: “Se alguém estudar o Alcorão para obter seu sustento junto às pessoas, no Dia da Ressurreição seu rosto será como um osso sem carne” (Al-Bayhaqi). Ele também disse:

Quem aprender, recitar ou ensinar o Alcorão visando algum interesse mundano será lançado no fogo ardente do Inferno. (Muslim).

Você pode obter do Alcorão benefícios em algumas questões menores, como alívio do sofrimento físico, da inquietação mental, da pobreza e assim por diante. Não há impedimento em obtê-los. Mas eles não podem ser tudo o que você busca alcançar por meio do Alcorão. Tampouco podem ser o objetivo da sua intenção. Você pode, naturalmente, alcançar essas coisas. Porém, perderá um oceano imenso que poderia ter obtido. Para cada palavra do Alcorão que você recita há uma grande recompensa. Você deve estar atento a cada recompensa e fazer disso parte da sua intenção. Pois são elas que o incentivarão a passar tempo com o Alcorão. Mas nunca se esqueça de que lhe foi prometida uma grande recompensa, neste mundo e no Além, por compreender, assimilar e seguir o Alcorão. Esse deve ser o seu objetivo.

A pureza da intenção, por si só, não é suficiente. Enquanto o Alcorão, suas mensagens e a sua representação viva, a Sunnah, estiverem à sua disposição, você não pode, de modo algum, tomar qualquer outra coisa como fonte de orientação. Fazer isso seria correr atrás de uma miragem. Significaria falta de confiança no Alcorão e uma afronta ao Alcorão. Seria uma forma de dividir a obediência.

Nada mais pode aproximá-lo tanto do seu Senhor quanto o tempo que você passa com a palavra do seu Senhor. O Alcorão é para você uma dádiva extraordinária, por meio da qual pode ouvir a “voz” do seu Grande Senhor dirigida a você. Portanto, ao estudar o Alcorão, seu desejo mais profundo deve ser alcançar a proximidade de Allah.

Seu objetivo ao estabelecer a intenção deve ser alcançar a satisfação de Allah, dedicando seu coração, sua mente e seu tempo à orientação que o Deus Altíssimo lhe enviou. Esse é o seu pacto, com base no qual você se submete a Allah. “Entre as pessoas há aquele que dedica a própria vida buscando somente a satisfação de Allah. E Allah é muito bondoso para com esses servos.” (Al-Baqarah 2:207)

O propósito e a intenção são como a força vital do corpo, semelhantes à energia interna de uma semente. Muitas sementes têm a mesma aparência. Mas, quando começam a crescer, transformam-se em árvores e dão frutos, é então que suas diferenças se manifestam. Quanto mais puro e elevado for o propósito, maiores, mais valiosos e mais frutíferos serão os seus passos.

Portanto, faça sempre uma autoavaliação e pergunte a si mesmo: por que estou lendo o Alcorão? Diga continuamente a si mesmo por que deve recitar o Alcorão. Essa é a melhor maneira de manter puro o propósito e a intenção.

Gratidão e louvor

Terceiro: é preciso permanecer consciente e atento, expressando infinita gratidão e louvor ao Todo-Poderoso Allah, pois Ele, por Sua misericórdia, concedeu-lhe o Seu maior presente e, juntamente com ele, também lhe concedeu a oportunidade de ler e estudar o Alcorão.

Se você puder sentir que tesouro extraordinário e inestimável está em suas mãos, seu coração espontaneamente se encherá de alegria e exultará, e você mesmo exclamará: “Todo louvor pertence somente a Allah, que nos guiou por este caminho. Jamais poderíamos ter encontrado o caminho por nós mesmos se Allah não nos tivesse guiado.” (Al-A‘raf 7:43)

Nenhuma das misericórdias e bênçãos que Allah, o Todo-Poderoso, derramou sobre você pode ser comparada ao Alcorão. Mesmo que cada fio de cabelo do seu corpo se tornasse uma língua para louvar e glorificar Allah, e cada gota do seu sangue se transformasse em uma lágrima de alegria, ainda assim o seu louvor e a sua gratidão não poderiam se comparar à grandeza do Alcorão.

Mesmo que o Alcorão não tivesse sido revelado para nós, a pureza, a beleza, a generosidade e o esplendor radiante do Alcorão ainda mereceriam todo o nosso louvor. Mas este presente glorioso e sagrado, uma palavra extraordinariamente elevada e honrada do nosso Senhor, foi-nos concedido unicamente para a nossa salvação.

Por isso, devemos expressar “a nossa infinita gratidão e agradecimento a Allah”.

Um louvor tão profundo inevitavelmente se transforma em profunda gratidão. Nenhuma outra palavra é capaz de louvar Allah e expressar-Lhe gratidão de maneira tão abrangente e profunda quanto a palavra “Al-Hamd”. “Alhamdulillahil-ladhi hadana lihadha __”

Por que devemos agradecer a Allah por nos ter concedido o Alcorão? Dessa forma, Ele nos informou sobre o propósito e o significado da vida e nos guiou pelo caminho reto. A honra e a glória deste mundo foram abertas diante de você. Neste Alcorão, você pode falar com Allah.

Somente seguindo o Alcorão nesta vida mundana você poderá alcançar, na vida futura, o perdão, o Paraíso e o agrado do Grandioso Allah. A gratidão e a alegria conduzem à confiança, à esperança e a uma grande recompensa. Aquele que lhe concedeu o Alcorão certamente o ajudará a lê-lo, compreendê-lo e segui-lo. A gratidão e a alegria criam uma força vital eternamente renovada, que o ajuda a recitar o Alcorão sempre com novo entusiasmo. Quanto mais gratidão você expressar, mais Allah Ta‘ala lhe concederá dos tesouros do Alcorão. A grandeza traz gratidão, e a gratidão torna você grandioso — este é um processo sem fim. Essa também é a promessa de Allah.

Se vocês forem gratos, certamente lhes concederei ainda mais. (Ibrahim 14:7)

Não sentir profunda gratidão pelo Alcorão apesar de tê-lo recebido pode ter dois significados: ou você desconhece as bênçãos que o Alcorão trouxe, ou não atribuiu ao Alcorão a devida importância. Em qualquer caso, você deve refletir profundamente sobre como é a sua relação com o Alcorão. A emoção da gratidão, que flui por cada recanto do coração e da mente, deve necessariamente ser expressa em palavras, de maneira contínua e entusiástica. Agradeça a Allah por cada passo do seu caminho: pelo tempo que lhe é concedido com o Alcorão, por cada significado que dele você obtém ao lê-lo corretamente e pela capacidade de seguir o Alcorão. A gratidão deve necessariamente transformar-se em ação.

Reconhecimento e confiança

Quarto: aceite e tenha confiança em todo conhecimento e orientação oferecidos pelo Alcorão, sem a menor dúvida ou hesitação.

Você tem plena liberdade para questionar se o Alcorão é a palavra de Allah. Também pode rejeitar essa afirmação se não tiver plena confiança ou convicção. Mas, depois de aceitá-lo como a palavra de Allah, não há qualquer justificativa ou fundamento racional para duvidar de uma única palavra dele. Fazer isso significa rejeitar aquilo que você havia aceitado. É necessário submeter-se plenamente aos ensinamentos do Alcorão. Suas próprias crenças, opiniões, julgamentos, perspectivas e inclinações não devem fazer com que você rejeite sequer uma parte mínima dos ensinamentos do Alcorão. O Alcorão considera culpados aqueles que o tratam como um livro recebido por herança e, depois, agem como crentes confusos, perplexos e tomados por dúvidas.

A verdade é que aqueles que receberam a herança do Livro depois dos povos anteriores mergulharam em uma dúvida profundamente angustiante a esse respeito (Ash-Shura, 42:14).

O Alcorão enfatizou repetidamente que todas as medidas foram tomadas para assegurar que a Palavra de Allah fosse transmitida e comunicada em sua forma pura e genuína.

Mas este Alcorão está inscrito em uma Tábua protegida e de elevadíssima honra (Al-Buruj, 85:21).

Ele é, na verdade, a palavra de um mensageiro honrado, altamente estimado junto ao Senhor do Trono poderosíssimo. Lá, sua ordem é obedecida. Ele é digno de confiança, fiel (At-Takwir, 81:19-21).

Ele está nas mãos de escribas honrados e virtuosos (Abasa, 80:15-16).

São aqueles que, quando a Palavra de exortação lhes foi apresentada, recusaram-se a aceitá-la. Mas a verdade é que este é um Livro grandioso. A falsidade não pode alcançá-lo nem pela frente nem por trás. Ele foi revelado por uma Essência Onisciente e Digníssima de louvor (Hã Mim As-Sajda, 41:41-42).

Também foi declarado:

Revelamos este Alcorão com a verdade, e com a verdade ele foi revelado (Al-Isra, 17:105).

A palavra do teu Senhor cumpriu-se plenamente em verdade e justiça. (Al-An’am — 6:115)

Aceitar o Alcorão como verdadeiro e inteiramente verdadeiro, e depositar confiança nele, não significa ter uma fé cega, uma mentalidade fechada ou uma compreensão sem investigação.

Você tem o direito de investigar, examinar, questionar e procurar compreender o que está contido no Alcorão. Mas, se não consegue compreender ou perceber algo completamente, não há razão para considerá-lo irracional ou falso. Imagine uma mina cujas pedras você acredita — e isso está comprovado — serem todas joias inestimáveis. Se, entre elas, houver algumas cujo valor seus olhos não conseguem determinar, ou que os instrumentos de que dispõe não conseguem avaliar, você não pode, por isso, jogá-las fora.

Tampouco há justificativa para rejeitar qualquer parte do Alcorão por considerá-la antiga, ultrapassada ou uma história de tempos passados. Se Allah é o Senhor de todos os tempos, então Sua palavra continua igualmente incontestável e válida mesmo após mil e quatrocentos anos.

Aceitar algumas partes do Alcorão e rejeitar outras significa rejeitar todo o Alcorão. No que diz respeito à sua relação com o Alcorão, não há possibilidade de aceitá-lo parcial ou fragmentariamente, e isso tampouco é racional. (Al-Baqara — 2:85)

Há muitas doenças no coração e na mente que continuam criando obstáculos para você aceitar a mensagem do Alcorão e submeter-se a ela. Tudo isso foi explicado no Alcorão. Entre essas doenças estão a inveja, as superstições, a satisfação dos desejos e a imitação cega dos costumes e tradições da sociedade. O maior obstáculo para abandonar suas próprias opiniões, aceitar a palavra de Allah e recebê-la com humildade é a arrogância, a ignorância e a atitude de autossuficiência.

Afastarei dos Meus sinais os olhares daqueles que, sem direito algum, se comportam com arrogância na terra. Ainda que vejam qualquer sinal, jamais acreditarão nele. Mesmo que o caminho reto lhes seja apresentado, não o seguirão. Porém, quando virem o caminho tortuoso, tomá-lo-ão como caminho e o seguirão. Isso porque consideraram falsos os Meus sinais, negaram-nos e não lhes deram a menor importância. (Al-A’raf — 7:146)

Sabei com certeza que, para aqueles que rejeitaram e desmentiram os Nossos versículos, adotando uma atitude de rebelião contra eles, jamais se abrirão as portas dos céus. Sua entrada no Paraíso será tão impossível quanto a passagem de um camelo pelo buraco de uma agulha. (Al-A’raf — 7:40)

Obediência e transformação

Quinto: é necessário ter uma vontade firme, determinação e preparação para aceitar toda transformação que o Alcorão exige na vida, na visão de mundo e na conduta. Enquanto você não estiver preparado para reorganizar seus pensamentos e ações à luz da mensagem do Alcorão, sua sinceridade e seu esforço acabarão em fracasso. Somente o exercício intelectual e as experiências agradáveis jamais poderão aproximá-lo do verdadeiro tesouro do Alcorão.

Fracassar em seguir o Alcorão e transformar a vida de acordo com ele por causa da fraqueza humana, das tentações, das dificuldades naturais e dos obstáculos externos é uma coisa; fracassar por não ter qualquer intenção ou por não fazer esforço para isso é algo completamente diferente. Nessa situação, você talvez possa adquirir fama como um erudito do Alcorão, mas isso jamais lhe revelará a verdade real e o significado genuíno. O Alcorão condenou em termos muito severos aqueles que afirmam crer neste Livro de Alá, mas, quando lhes é dito que o sigam ou quando chega o momento de tomar uma decisão, ignoram o chamado do Alcorão e dele se afastam. Eles foram chamados de kafir, fasiq e zalim.

Riscos e obstáculos

Sexto: esteja sempre atento a isto: assim que você se concentrar no estudo do Alcorão, Satanás criará em seu caminho todo tipo possível de obstáculo, para que você não consiga alcançar o grande tesouro do Alcorão.

O Alcorão é o único guia seguro no caminho do Sirat al-Mustaqim de Alá. Seguir esse caminho é o destino do ser humano. Quando Adão (A.S.) foi criado, a humanidade foi advertida sobre os obstáculos que teria de superar para cumprir seu destino. Todas as fraquezas humanas, especialmente as fraquezas da força de vontade, da determinação e do sentimento de gratidão, foram expostas. (Ta-Ha 20:115)

É fácil compreender e evidente como Satanás criará obstáculos a cada passo do caminho.

Certamente ficarei à espreita para eles em Teu caminho reto; depois, vindo pela frente e por trás, pela direita e pela esquerda, cercá-los-ei de todos os lados, e não encontrarás a maioria deles agradecida. (Al-A’raf 7:16–17)

O Alcorão é claramente uma orientação da parte de Allah e o seu mais poderoso aliado. Na luta contra Satanás, na luta pelo caminho do Alcorão e na luta para viver segundo a orientação de Allah, é este Alcorão que o ajudará. Portanto, desde o início do seu estudo do Alcorão até o último momento de sua vida segundo ele, Satanás se defrontará com você usando muitas estratégias e artimanhas, fascínios e enganos, obstáculos e adversidades, os quais você terá de superar.

Satanás pode corromper a sua intenção, mantê-lo desatento ao significado e à mensagem do Alcorão, erguer uma barreira entre a sua alma e o mundo de Allah, fazê-lo cair na armadilha de ensinamentos periféricos em vez dos ensinamentos fundamentais, tentá-lo a abster-se de seguir o Alcorão ou, de modo geral, torná-lo negligente quanto ao estudo do Alcorão. O próprio Alcorão também explica detalhadamente todos esses obstáculos.

Tomemos algo muito comum. Estudar o Alcorão todos os dias e compreendê-lo parece muito fácil. Mas tente fazê-lo e verá como parece difícil. O tempo passa, e outras tarefas importantes surgem. A mente concentrada e a atenção tornam-se justamente aquilo que você deseja evitar; por que não lê rapidamente apenas em busca de bênçãos? Para se precaver desse perigo, quando ler o Alcorão, busque refúgio em Allah contra Satanás, o desorientado e rejeitado, obedecendo ao Alcorão (An-Nahl 16:98). Diga: A‘uzubillahi minash-shaytanir-rajim.

Confiança e dependência

Sétimo: deposite plena confiança em Allah, para que Ele o conduza a obter todos os benefícios da recitação do Alcorão.

É uma infinita misericórdia de Allah que o Alcorão tenha trazido a palavra de Allah até você e o tenha aproximado Dele. Portanto, somente a misericórdia de Allah pode ajudá-lo em tarefas difíceis. Você precisa de uma solução importante e valiosa, que não é fácil de obter. Você precisa enfrentar perigos difíceis, que não são fáceis de superar. Para quem, além de Allah, você pode olhar, para que lhe segure a mão, o ajude e lhe indique o caminho a seguir?

A sua vontade e os seus passos são meios indispensáveis. Mas a extraordinária misericórdia e o apoio de Allah são a única garantia pela qual você poderá avançar com sucesso em seu caminho. Para tudo na sua vida, você deve voltar-se somente para Ele. E o que poderia ser mais importante do que o Alcorão?

Nunca se orgulhe do que está fazendo pelo Alcorão nem do que conseguiu alcançar. Não há comparação com esse trabalho, que o mantém sempre consciente de suas deficiências e limitações.

Portanto, suplique humildemente ao Alcorão e, com fervorosa confiança em Allah, peça a cada passo Sua ajuda e Seu apoio.

Comece a recitação com uma atitude de fé, louvor e gratidão, harmonizando sua língua e seu coração: Bismillahir-Rahmanir-Rahim — em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso. Este versículo está presente no início de todas as 114 suratas do Alcorão, exceto uma. O servo ora, buscando Sua proteção: “Ó Allah! Depois de nos haveres guiado ao caminho reto, não permitas que nossos corações se desviem nem se tornem confusos. Concede-nos uma misericórdia proveniente de Teu tesouro, pois Tu és, verdadeiramente, o Doador” (Al Imran, 3:8).

3 : Concentração sincera

Na recitação e no estudo do Alcorão, você deve envolver-se completamente, com todo o seu corpo e a sua mente. Somente assim poderá elevar seu ser ao nível desejado pelo Alcorão; quando chegar a esse nível, você será chamado de verdadeiro crente.

Aqueles a quem concedemos o Livro recitam-no como deve ser recitado e creem nele com devoção. Quanto àqueles que nele descreem, são precisamente eles os perdedores. (Al-Baqara, 2:121)

O que é o coração?

A parte mais importante da sua personalidade é o seu ser interior. É esse ser interior que o Alcorão chama de “qalb”, ou coração. O coração do Mensageiro (que a paz esteja com ele) foi o primeiro receptor da mensagem do Alcorão.

Esta é uma revelação do Rabb al-Alamin. O “Ruh” fiel desceu com ela sobre o teu coração, para que pudesses estar entre aqueles que advertem as pessoas em nome de Allah. (Ash-Shuara, 26:192–194)

Só então você poderá desfrutar plenamente da alegria e das bênçãos da recitação do Alcorão, quando conseguir empenhar seu coração por completo nessa tarefa.

“Coração”, na terminologia corânica, não é apenas um pedaço de carne do seu corpo. Pelo contrário, o coração é o centro de todas as suas emoções, sentimentos, entusiasmo, memórias e atenção.

É esse coração que se inquieta (az-Zumar 39:23), ou que se torna duro e insensível (al-Baqara 2:74), que fica cego e rejeita a verdade (al-Hajj 22:46), e que se torna ativo diante da razão e da compreensão (al-A‘raf 7:179, al-Hajj 22:46, Qaf 50:37). Esse coração é a fonte de todos os tipos de enfermidade (al-Ma’ida 5:32), é o abrigo de todas as doenças interiores (al-Baqara 2:10), e é a morada tanto da fé quanto da hipocrisia (al-Ma’ida 5:41, at-Tawba 9:77). O coração é o centro de todo bem e todo mal: seja a satisfação e a tranquilidade (ar-Ra‘d 13:28), a força para enfrentar a dor (at-Taghabun 64:11), o perdão (al-Hadid 57:27), o amor fraternal (al-Anfal 8:63), o temor reverente a Deus (al-Hujurat 49:3, al-Hajj 22:32), ou a dúvida e a hesitação (at-Tawba 9:45), o arrependimento (Al ‘Imran 3:156) e a ira (at-Tawba 9:15).

Em última análise, seremos responsabilizados pelo comportamento real do coração, e somente será salvo aquele que puder comparecer diante de seu Senhor com um coração sadio.

Deus não os castigará pelos juramentos que fizerem sem intenção. Mas certamente os interrogará a respeito dos juramentos que fizerem com sinceridade (al-Baqara 2:225). Nesse dia, nem as riquezas nem os filhos serão de alguma utilidade. Somente se beneficiará aquele que comparecer diante de Deus com um coração tranquilo (ash-Shu‘ara 26:88–89).

Portanto, você deve assegurar-se de que, enquanto estiver com o Alcorão, seu coração esteja com você — não um mero pedaço de carne, mas aquilo que o Alcorão chama de “qalb”.

Isso não parecerá difícil se você estiver atento a alguns aspectos e observar certas ações do coração e do corpo. As sete condições preliminares descritas anteriormente estabelecem a base para a participação plena do seu coração no estudo do Alcorão. Ao tomar também algumas medidas adicionais, será possível empenhar seu coração nessa tarefa de modo mais profundo e abrangente.

A dinâmica da concentração interior

Você deve compreender bem a dinâmica da concentração interior. Quanto espaço a verdade ocupa em seu coração? Primeiro, saiba disso. Segundo, reconheça a verdade como verdade e aceite-a como sua vida. Terceiro, lembre-se da verdade tantas vezes quanto puder. Quarto, assimile-a até que ela umedeça o recanto mais profundo de seu coração. Quando, desse modo, a verdade penetrar profundamente em seu coração, certamente se manifestará por meio de suas palavras e ações.

É muito importante lembrar aqui que aquilo que você faz exteriormente com a língua e os membros do corpo é uma reação de sua atividade interior. É possível que palavras e ações deem um falso testemunho do estado interior. Porém, a expressão de um estado interior como a fé certamente se manifestará nas palavras e ações; estas, por sua vez, ajudarão a imprimir conhecimento em sua consciência e a transformar isso em uma condição permanente.

Os conselhos apresentados aqui serão eficazes se você estiver atento à dinâmica discutida acima e seguir os princípios mencionados.

Estados de consciência

Há sete estados de consciência. Você deve esforçar-se para desenvolver essa consciência, lembrando-se de certas coisas, assimilando-as e recordando-as a si mesmo.

O critério corânico da participação interior

Primeiro, diga a si mesmo: minha leitura do Alcorão não será uma recitação verdadeira enquanto meu ser interior não se concentrar nele da maneira desejada por Allah. O que Allah deseja? Como você deve receber o Alcorão? O próprio Alcorão lhe explicou detalhadamente, em muitos lugares, como o Profeta de Allah (que a paz esteja sobre ele), seus Companheiros e aquelas pessoas cujos corações foram umedecidos pelo Alcorão receberam o Alcorão. Você deve lembrar-se dessas passagens do Alcorão e, depois, quando recitar o Alcorão, essas passagens devem refletir-se em você. O conteúdo dessas passagens é o seguinte:

Os verdadeiros crentes são aqueles cujos corações tremem quando Allah é mencionado. Quando Seus versículos são recitados diante deles, sua fé aumenta. Eles depositam sua confiança e dependência em seu Senhor. (Al-Anfal 8:2) Allah revelou a melhor Palavra. É um Livro cujas partes são coerentes entre si e no qual a mesma mensagem é repetida várias vezes. Ao ouvi-lo, a pele daqueles que temem a Allah se arrepia. Depois, seus corpos e seus corações tornam-se dóceis e ansiosos pela lembrança de Allah. Esta é a orientação de Allah; por meio dela, Ele guia quem deseja ao caminho da orientação. E aquele a quem Allah não guia não terá guia algum. (Az-Zumar 39:23)

Ó Muhammad, diga a estas pessoas: aceitem-no ou não, quando ele é recitado àqueles que anteriormente receberam conhecimento, eles caem prostrados, com o rosto por terra. E exclamam: “Santo é o nosso Deus! Sua promessa certamente será cumprida.” E caem de bruços, chorando, e, ao ouvi-lo, sua devoção sincera se intensifica ainda mais. (Al Imran-17: 107-109)

Assim era a condição deles: quando os versículos do Misericordioso lhes eram recitados, caíam prostrados, chorando. (Maryam-19: 58)

Quando ouvem a revelação enviada ao Mensageiro, vês seus olhos transbordarem de lágrimas, por reconhecerem e conhecerem a verdade. Eles exclamam: “Ó nosso Senhor, cremos; inscreve nossos nomes entre as testemunhas.” (Al Ma’idah-5: 83)

A presença de Allah

Em segundo lugar, diga a si mesmo: estou diante de Allah, na presença de Allah. Ele está me vendo.

Você deve estar extremamente consciente desta realidade: sempre que estuda o Alcorão, está na presença dAquele que lhe enviou essa mensagem. Pois Allah está sempre com você, onde quer que esteja e faça o que quer que faça; Seu conhecimento abrange todas as coisas.

Como se pode alcançar esse nível de consciência? Ouça o que Allah disse sobre isso no Alcorão. Lembre-se desses versículos, concentre-se neles e reflita profundamente sobre eles no início e durante o estudo do Alcorão. O que pode ajudá-lo ainda mais, não apenas no estudo do Alcorão, mas também a passar toda a vida de acordo com o Alcorão, é lembrar-se desta realidade e refletir profundamente sobre ela o máximo possível. Sozinho ou em grupo, em silêncio ou em voz alta, em casa ou no trabalho, descansando ou ocupado, diga, mentalmente ou em voz alta: Ele está aqui, está comigo, está vendo, ouvindo, sabendo e registrando tudo. E lembre-se destes versículos:

Ele está convosco onde quer que estejais e vê tudo o que fazeis. (Al Hadid-57: 4)

Estamos mais próximos dele do que sua veia jugular. (Caf-50:16)

Nunca acontece de haver uma conversa secreta entre três pessoas sem que Allah seja a quarta entre elas, nem entre cinco sem que Allah seja a sexta. Sejam menos ou mais do que isso, onde quer que estejam, Allah estará certamente com elas. (Al-Mujádala-58:7)

Estou convosco dois (Musa e Harun), ouvindo e vendo tudo. (Ta-Ha-20:46)

Certamente, estás sob Nossa vigilância. (At-Tur-52:48)

Certamente, ressuscitaremos os mortos um dia, e registramos tudo o que eles fazem. E também preservamos tudo aquilo que deixam como vestígios. Registramos cada coisa em um Livro manifesto. (Yá Sin-36:12)

Mais significativo ainda é o versículo a seguir. Nesse versículo, não se afirma apenas com ênfase que Allah está presente em toda parte e vê tudo; também se fala especificamente sobre o estudo do Alcorão:

Qualquer que seja a situação em que estejas e o que quer que recites do Alcorão, e, ó pessoas, tudo o que quer que façais — em todas essas situações continuamos a ver-vos e a observar-vos. No céu e na Terra, não existe sequer algo do tamanho de um átomo — nem pequeno nem grande — que esteja oculto ao olhar de Allah ou que não esteja registrado em um Livro claro. (Yunus-10:61)

Portanto, o próprio Allah nos diz: Eu estou presente quando recitais o Alcorão; nunca vos esqueçais disso.

A recitação do Alcorão é um ato de adoração. O meio de alcançar a mais elevada excelência é adorar a Allah. A respeito disso, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse:

Adora a Allah como se O estivesses contemplando, embora os teus olhos não possam vê-Lo; e, mesmo que não O vejas, sabes que Ele te vê (Muslim).

Além disso, deves lembrar que não és o único na Sua presença; Ele Se lembra de ti enquanto continuares a recitar o Alcorão.

Lembrai-vos de Mim, e Eu Me lembrarei de vós. (Al-Baqara 2:152)

Sem dúvida, a lembrança de Allah, cujo melhor meio é o zikr, consiste na recitação do Alcorão.

Ouvir diretamente de Allah

Em terceiro lugar, diz a ti mesmo: estou ouvindo diretamente de Allah.

Como parte de envolver o teu íntimo no estudo do Alcorão, deves tentar imaginar que estás ouvindo o Alcorão diretamente de Allah. O Alcorão é o discurso do Todo-Poderoso Allah. Pois, embora Ele esteja contigo, não podes vê-Lo, nem podes ouvir as palavras dAquele que proferiu este discurso. Deixa que as palavras impressas e a voz do recitador desapareçam, e aproxima-te mais dAquele que fala. Essa percepção fortalecerá e intensificará em ti a consciência da presença de Allah.

O imã al-Ghazali (que Allah tenha misericórdia dele) relata, em sua obra Ihya’ ‘Ulum al-Din, a respeito de uma pessoa: “Leio o Alcorão, mas não encontro nele nenhum prazer.” Depois, passei a lê-lo como se o estivesse ouvindo do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), quando ele o recitava para seus Companheiros. Em seguida, avancei mais um passo e li o Alcorão como se o estivesse ouvindo de Jibril (que a paz esteja sobre ele), quando o transmitia a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Novamente, pela misericórdia de Allah, avancei mais um passo e comecei a lê-lo como se o estivesse ouvindo diretamente do Deus Todo-Poderoso.

Essa percepção o preencherá de alegria e satisfação, que envolverão sua alma com o Alcorão.

O discurso direto de Allah

Quarto: diga a si mesmo: quando leio o Alcorão, Allah está falando diretamente comigo por meio do Mensageiro.

Sem dúvida, o Alcorão foi revelado em um período específico da história, e você o recebeu indiretamente de pessoas de uma época determinada. Mas o Alcorão é a palavra do Allah Eterno. Ele é para todos os tempos. Sua mensagem dirige-se a cada ser humano. Portanto, deixe de lado esses intermediários por algum tempo e concentre-se você mesmo no estudo do Alcorão, como se o Alcorão estivesse falando diretamente com você, enquanto pessoa de sua época ou membro de uma coletividade. Apenas pensar em receber o Alcorão diretamente dessa forma fará com que o direito do Alcorão se estabeleça em todo o seu coração.

Cada palavra é para você

Quinto: diga: cada palavra do Alcorão é para mim.

Se o Alcorão é válido para toda a eternidade e fala hoje dirigindo-se a você, deve-se receber cada uma de suas mensagens como algo relacionado à sua vida — seja ela sobre algum valor ou princípio, uma declaração de conhecimento, algum personagem ou diálogo, uma promessa ou advertência, uma ordem ou proibição.

Essa percepção do assunto tornará seu estudo do Alcorão vivo, dinâmico e significativo. Como há grandes diferenças entre as pessoas, pode haver algumas dificuldades para transformar uma mensagem dirigida a uma pessoa em uma mensagem destinada a outra. No entanto, isso é possível mediante um esforço sincero e correto.

Conversando com Allah

Sexto: diga a si mesmo: quando leio o Alcorão, estou falando com o próprio Allah.

No Alcorão encontram-se as palavras de Allah dirigidas a você e dedicadas a você. Embora essas palavras estejam em seus lábios e gravadas em seu coração, elas constituem um diálogo entre Allah e o ser humano. Esse diálogo pode assumir muitas formas. Pode ser descrito de maneira explícita ou implícita, no sentido de que inclui uma resposta da sua parte ou da parte d’Ele.

Como ocorre essa conversa ou diálogo implícito? Sobre isso, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) deu um exemplo extraordinário em um hadith qudsi:

«Dividi a oração entre Mim e Meu servo. Metade é Minha e metade é dele, e Meu servo receberá o que pedir. Por isso, quando o servo diz: Alhamdu lillahi rabbil-‘alamin — Todo louvor pertence a Allah, o Senhor dos mundos — Allah diz: “Meu servo louvou-Me”. Quando o servo diz: Ar-Rahmanir-Rahim — o Misericordioso, o Compassivo — Allah diz: “Meu servo exaltou-Me com um grande louvor”. Quando o servo diz: Maliki yaumid-din — Senhor do Dia do Juízo — Allah diz: “Meu servo glorificou-Me; isso Me pertence”. Quando ele diz: Iyyaka na’budu wa iyyaka nasta’in — somente a Ti adoramos e somente de Ti pedimos ajuda — Ele diz: “Isso está dividido entre Mim e Meu servo, e ele receberá o que pedir”. Quando ele diz: Ihdinas-siratal-mustaqim — guia-nos pelo caminho reto — Allah diz: “Isso pertence ao Meu servo; Meu servo receberá o que pedir”.» (Muslim, Tirmidhi, Ahmad)

Mais adiante, vocês verão como o Profeta (que a paz esteja sobre ele) respondia à palavra de Allah e ao conteúdo de Seus diversos versículos, conversando e falando com o Criador e Senhor. Essa consciência dará ao seu estudo do Alcorão uma profundidade extraordinária e uma dedicação intensa.

Esperar a recompensa de Allah

Sétimo: diga a si mesmo: tudo aquilo que Allah prometeu, por meio de Seu Mensageiro, como recompensa por estudar o Alcorão e segui-lo, certamente Ele me concederá.

Muitas recompensas foram prometidas no Alcorão. Foram asseguradas qualidades espirituais da vida, tais como orientação, perdão, conhecimento, sabedoria, tranquilidade, memória e visão. Da mesma forma, para a vida terrena, há honra e dignidade, prosperidade e progresso, sucesso e vitória. Bênçãos eternas — como o perdão (magfirah), o Paraíso (Jannah) e a satisfação de Allah (Ridwan) — também estão disponíveis para os seguidores do Alcorão.

O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também falou de muitas outras recompensas. Você as encontrará ao ler os capítulos relacionados ao Alcorão em qualquer compilação autêntica de hadiths, como Bukhari, Muslim, Mishkat ou Riyad as-Salihin. Também encontrará algumas neste livro, especialmente no final. Por exemplo:

O melhor dentre vocês é aquele que aprende o Alcorão e o ensina. (Bukhari)

Recitai o Alcorão, pois, no Dia da Ressurreição, o Alcorão aparecerá como intercessor de seu companheiro. (Muslim)

Nenhum intercessor tem a dignidade do Alcorão. (Sharhil Yahya)

No Dia da Ressurreição, será dito ao companheiro do Alcorão: recite o Alcorão e ascenda. Quanto mais ele recitar, mais alto ascenderá. (Abu Dawud)

Você receberá uma recompensa dez vezes maior por cada letra do Alcorão que recitar. (Tirmidhi)

Continue a guardar essas promessas tanto quanto a sua memória permitir, e recorde o que puder, sempre que puder. Confie em Allah, tenha esperança e peça.

Observar isso, que nos hadith é chamado de iman e ihtisab, aumentará grandemente o valor interior das suas ações. Um hadith diz:

Há quarenta atos meritórios; se alguém realizar sequer um deles, confiando na promessa de Allah e esperando a recompensa, Allah lhe concederá o Paraíso. Entre esses atos meritórios, o mais elevado é algo tão simples quanto oferecer um pouco de leite ao seu vizinho. (Bukhari)

Ações do corpo e da alma

Há sete ações do corpo e da alma que o ajudarão enormemente, a você e ao seu coração, a concentrar-se profundamente no estudo do Alcorão. Algumas dessas ações são coisas que você já está fazendo. Contudo, talvez não esteja obtendo delas pleno benefício porque não as realiza corretamente ou porque não está consciente do que necessariamente deve ser alcançado por meio delas. Há ainda outras ações que você nunca havia percebido antes. Elas são muito importantes. Para estudar o Alcorão, você precisa conhecê-las e aprendê-las.

A realização das ações ou atividades mencionadas não exigirá, de modo algum, mais tempo do que aquele que você atualmente dedica ao estudo do Alcorão. O que essas ações lhe exigem é maior atenção, profunda concentração e consciência para estudar de maneira correta e eficaz.

A resposta da alma

Primeiro: você deve tornar a sua alma viva e alerta em relação a tudo o que o Alcorão diz. Permita que cada assunto que leia no Alcorão provoque uma reação em seu coração e lhe infunda uma vida nova. Permita que o seu coração atravesse estados diversos, como devoção e louvor, respeito e gratidão, admiração e temor, amor e anseio, fé e paciência, esperança e medo, alegria e tristeza, expressão e seguimento, entrega e obediência. Enquanto não fizer isso, o benefício que deseja extrair do estudo do Alcorão não será mais do que mover os lábios.

Por exemplo: quando você ouvir os nomes e atributos de seu Senhor, seu coração deve encher-se de reverência, gratidão, amor e outros sentimentos apropriados. Quando ler sobre os profetas e mensageiros de Allah, deve despertar em você um intenso desejo de segui-los, bem como aversão e repulsa por aqueles que se opuseram a eles. Quando ler sobre o Dia do Juízo Final, deve despertar em seu coração o desejo pelo Paraíso e, ainda que por um instante, sua alma deve estremecer de medo de ser lançada no fogo do Inferno. Quando ler sobre os indivíduos e povos desobedientes que foram destruídos e punidos, deve sentir aversão a tornar-se como eles. E quando ler sobre os seguidores do caminho reto, a quem Allah ama e recompensa, deve ansiar por tornar-se como eles.

Quando ler sobre o perdão e a misericórdia de Allah, sobre a honra e a prosperidade neste mundo e sobre alcançar Sua satisfação e proximidade na Outra Vida, deve surgir também em seu coração o entusiasmo para trabalhar por isso e tornar-se digno dessas dádivas. E quando ler sobre aqueles desafortunados que são negligentes em relação ao Alcorão, que lhe dão as costas, que não o aceitam e não conduzem suas vidas de acordo com seus ensinamentos, você deve sentir medo e terror. Não seja um deles e decida não se tornar como eles. Quando ouvir o chamado de Allah para cumprir seu compromisso com Ele e lutar em Seu caminho, deve renovar sua determinação de responder ao chamado de Allah e lançar-se à luta em Seu caminho conforme suas capacidades.

Às vezes, espontaneamente, surge no coração um estado em que determinada palavra ou versículo acende dentro dele a centelha de um novo sentimento. Em outras ocasiões, é preciso tomar medidas conscientes e firmes para despertar o coração. Se você não obtiver espontaneamente a resposta adequada, pare por um momento e continue repetindo o que estava lendo até obtê-la. Se o seu coração desejar, pode nascer em você um sincero impulso de repetir muitas vezes determinado versículo. Mas, se você repetir atentamente, fizer uma breve pausa e refletir profundamente, verá que seu coração responderá rapidamente.

A aquisição dessa qualidade é tão importante que o Mensageiro disse: continue recitando o Alcorão até que seu coração se una ao Alcorão. Enquanto não houver união entre seu coração e o Alcorão, compreenda que sua recitação não está sendo realizada como deveria. Portanto, levante-se e pare de recitar. (Bukhari, Muslim)

Resposta verbal

Segundo: permita que a resposta adequada ao que você lê no Alcorão se expresse por meio das palavras de sua língua. As palavras também devem sair espontaneamente. Isso porque as frases exclamativas sempre expressam os sentimentos profundos do coração suscitados pelo Alcorão, como ocorre ao expressar emoções de alegria e dor, choro, agradecimento, amor, medo e ansiedade. Mas é importante enfatizar novamente que, mesmo que não haja espontaneidade nisso, deve-se esforçar-se para alcançá-la.

Foi assim que o Mensageiro recitava o Sagrado Alcorão. Hudhayfah disse: certa noite, rezei atrás do Profeta. Ele começou a recitar o Alcorão a partir da surata Al-Baqarah. Ao recitar os versículos nos quais o Deus Todo-Poderoso mencionava o perdão, o Profeta pediu perdão. Ao recitar um versículo relacionado ao castigo, pediu a Allah que o salvasse do castigo. Ao recitar um versículo que mencionava a glória e os incomparáveis atributos de Allah, glorificou-O dizendo: “Subhan Allah”. (Muslim)

Há um relato semelhante transmitido por Abdullah ibn Abbas. Ele rezou atrás do Mensageiro na casa de Maymunah, tia paterna de Abdullah ibn Abbas e esposa do Mensageiro. (Bukhari, Muslim)

Devemos responder a certos versículos específicos dessa maneira, conforme ensinou o Mensageiro (s.a.w.). Ao recitar o último versículo da Surata At-Tin («Não é Allah o mais justo dos juízes?»), devemos responder dizendo: «Sim, certamente sou uma das testemunhas disso». Quem recitar o último versículo da Surata Al-Mursalat («Em que outra palavra, depois deste Alcorão, eles haverão de crer?») deve dizer: «Cremos em Allah» (Abu Dawud).

O Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse que, quando recitava a Surata Ar-Rahman para os gênios e dizia: «Fabiaií alaii rabbikumaa tukazzibaan», eles exclamavam: «Ó nosso Senhor! Não, não negamos nenhum dos Teus favores. Todo louvor pertence a Ti» (Tirmidhi).

Estes são apenas alguns acontecimentos pelos quais podemos conhecer os exemplos e ensinamentos do nosso Profeta (s.a.w.). À luz desses exemplos, não é difícil formular conscientemente suas próprias respostas de louvor, glorificação, afirmação, negação e súplica, dizendo Alhamdulillah, Subhanallah, Allahu Akbar e La ilaha illallah, ou arrependendo-se, pedindo perdão e rogando a Allah o Paraíso.

As lágrimas dos seus olhos

Terceiro: em resposta ao que você lê no Alcorão, deixe que as «lágrimas de alegria e tristeza», como resposta do seu coração, fluam pelos seus olhos.

Isso necessariamente acontecerá se o estado do seu coração estiver em harmonia com o que você está recitando do Alcorão. Seus olhos permanecerão secos somente se o seu coração estiver desatento, morto ou estéril. Os olhos não se enchem de lágrimas sempre apenas por temor a Allah. Pelo contrário, as lágrimas também fluirão dos olhos do servo pela alegria de encontrar a verdade, ao perceber a infinita misericórdia de Allah e ao testemunhar o cumprimento de Sua promessa.

Vês que seus olhos transbordam de lágrimas por reconhecerem e conhecerem a verdade. (Al-Ma’idah, 5:83)

Então caem prostrados, chorando. (Al-Isra, 17:109)

O Profeta de Allah (que a paz esteja com ele), os nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) e aqueles que, como eles, mantinham uma relação profunda com o Sagrado Alcorão, frequentemente irrompiam em lágrimas durante a recitação do Alcorão.

O Profeta de Allah (que a paz esteja com ele) disse: “Certamente, o Alcorão foi revelado acompanhado de tristeza. Portanto, quando recitardes o Alcorão, entristecei-vos” (Abu Ya’la, Abu Nu’aym). Outro hadith diz: “Recitai o Alcorão e chorai. Se o choro espontâneo não vier, ainda assim chorai” (Ibn Majah).

Se você refletir profundamente, ainda que uma única vez, sobre o que o Alcorão está dizendo e que instruções lhe transmite, não demorará muito para que lágrimas desçam lentamente por suas faces. Ao pensar nas boas-novas, no pesado fardo das rigorosas responsabilidades e nos avisos que o Alcorão lhe trouxe, você mesmo poderá chorar.

Sua conduta

Quarto: Adote uma postura e uma conduta que reflitam a pureza, a devoção e a submissão de seu coração diante das palavras de seu Senhor.

O Alcorão menciona esse tipo de comportamento em muitos lugares: os verdadeiros crentes “cairão prostrados com o rosto em terra”, “eles próprios baixarão a cabeça”, “ouvirão o Alcorão em silêncio e com atenção, e seus corpos tremerão, arrepiados”. A obrigação de realizar a prostração ao recitar determinados versículos é uma orientação sobre o tipo de reação que o corpo deve manifestar diante do que se recita no Alcorão. Por que essa postura ou conduta corporal é importante? O estado mental de uma pessoa é profundamente influenciado por sua condição física. A existência do corpo é que mantém a existência do coração. Deve haver uma diferença muito ampla entre a postura corporal ao ler um livro comum e ao estudar o Alcorão. Por isso, foram ensinadas muitas regras de etiqueta e boas maneiras para a recitação do Alcorão.

O Imam Ghazali (que Allah tenha misericórdia dele) diz: “Primeiro, faça a ablução; sente-se calmamente voltado para a qibla; mantenha a cabeça baixa; não se sente com arrogância, mas sente-se como se estivesse diante de seu Senhor.” O Imam Nawawi mencionou ainda mais alguns pontos em sua obra Kitab al-Adhkar: “O rosto deve estar limpo, o lugar onde se senta deve estar puro, o rosto deve estar voltado para a qibla e deve manifestar-se humildade corporal.”

Recitar com tartil

Quinto: recite o Alcorão com tartil.

Não é possível expressar o significado de tartil por meio de uma única palavra da língua inglesa. Em árabe, significa ler lenta e pausadamente, com clareza, serenidade, em tom moderado e com reflexão, mantendo a perfeita harmonia entre a língua, o corpo e o coração.

Este é o método desejável para recitar o Alcorão, que Allah Todo-Poderoso ensinou desde o princípio. E foi isso que Ele ordenou que o Profeta de Allah (que a paz esteja sobre ele) seguisse quando lhe ordenou que passasse a maior parte da noite em oração, de pé, e recitando o Alcorão Majid (Al-Muzzammil, 73:4). Sobre a razão pela qual o Alcorão foi revelado lenta e gradualmente, Allah Todo-Poderoso diz:

Assim, podemos fortalecer os vossos corações. (Al-Furqan, 25:32)

Para estabelecer a união entre o coração e o estudo do Alcorão, e para criar firmeza e profundidade, o tartil é um elemento significativo. Em vez de recitar rapidamente, balbuciando, recitá-lo com tartil expressa admiração e reverência, ajuda a compreender e refletir, e é capaz de deixar uma marca indelével na alma.

Abdullah ibn Abbas disse: considero melhor para mim recitar as suratas Al-Baqarah e Al Imran com tartil do que ler rapidamente o Alcorão inteiro. Ou então, recitar as suratas Az-Zalzalah e Al-Qari’ah com tartil é melhor do que recitar Al-Baqarah e Al Imran.

Tartil não significa apenas silêncio, clareza, pausas e reflexão, nem apenas a harmonia entre o corpo e o coração; significa também a repetição necessária de certas palavras e versículos. Quando o coração é especialmente tocado por um determinado versículo, cada vez que você o recitar obterá dele um novo prazer e uma nova alegria. A repetição cria uma harmonia entre o coração e aquilo que você está recitando.

Foi relatado a respeito do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) que, certa vez, repetiu várias vezes “Bismillahir Rahmanir Rahim” (Em nome de Allah, o Misericordioso, o Compassivo). Certa vez, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) passou a noite inteira repetindo: “Agora, se os castigardes, eles são, sem dúvida, Vossos servos; e, se os perdoardes, Vós sois, sem dúvida, o Todo-Poderoso, o Onisciente e o Sábio” (5:118). Sa’id ibn Jubayr continuou recitando este versículo: “Ó criminosos, separai-vos hoje (no Dia do Juízo)” (Yasin), enquanto chorava e derramava lágrimas. (Ihya Ulum al-Din)

Alcançar a pureza

Sexto: purifique-se tanto quanto puder.

Vocês sabem que ninguém pode tocar o Alcorão sem pureza. (Al-Waqi’a — 56:79). Este versículo explica de forma abrangente a purificação religiosa. Isto é, você deve purificar-se por meio do wudu, conforme as normas religiosas. Isso está plenamente estabelecido por numerosos hadiths e pelo ijma. Contudo, além da limpeza do corpo, das roupas e do lugar, existem muitos outros aspectos da pureza.

Vocês também viram quão grande é a importância da pureza da intenção e do propósito. A pureza do coração e dos membros em relação aos pecados que podem provocar a ira de Allah tem igual importância. Nenhum ser humano pode estar completamente livre do pecado. Mas você pode evitar os atos pecaminosos tanto quanto possível. Se ainda assim cometer algum, arrependa-se e volte-se para Allah o quanto antes; faça tawba e peça perdão. Você deve cuidar para que, ao recitar o Alcorão, não esteja consumindo alimentos haram, vestindo roupas haram nem vivendo de ganhos haram. Quanto mais puro você for, mais o seu coração estará com você; quanto mais o coração se abrir ao Alcorão, mais compreensão e benefício poderá obter dele. E poderá tornar-se cada vez mais semelhante àqueles que são os únicos autorizados a tocar este grandioso Alcorão, que está registrado em um Livro protegido. (Al-Waqi’a — 56:77-78)

Buscar a ajuda de Allah (du’a)

Sétimo: quando recitar o Alcorão, faça du’a pedindo a misericórdia, o perdão, a orientação e a segurança de Allah. Você deve pedir isso com o coração, com as palavras e com as ações. Para seguir o caminho à luz do Alcorão, você precisa confiar plenamente em Allah. Não se deve ficar excessivamente exaltado com esse sentimento de dependência; pelo contrário, ele deve ser necessariamente manifestado. A cada passo do caminho que percorre, você deve encontrar-se com Ele. Deve pedir-Lhe ajuda para manter o coração ativo, compreender o Alcorão e segui-lo. Peça-Lhe também perdão por sua fraqueza e incapacidade.

Para alcançar a proximidade de Allah, tenha cuidado para não considerar-se autossuficiente nem demonstrar indiferença para com Allah. Essas são faltas graves. O que você precisa é de humildade em vez de orgulho, e de tawakkul em vez de autonomia.

Aquilo que você pedir lhe será concedido — você deve sempre manter em si essa esperança, fé e certeza. Sem isso, sua du’a não lhe será de grande benefício. Este é um dos ensinamentos fundamentais do Alcorão. Observe os versículos a seguir:

Ó meu Senhor. Sou necessitado de todo o bem que fizeres descer sobre mim. (Al-Qasas — 28:24)

Somente os desviados desesperam da misericórdia de seu Senhor. (Al-Hijr — 15:56)

Vosso Senhor diz:

Invocai-Me, e Eu atenderei à vossa súplica. Aqueles que, por orgulho e arrogância, se recusam a adorar-Me entrarão certamente no Inferno humilhados e desonrados. (Al-Mu’min — 40:60)

Estou muito próximo deles. Ouço a súplica de quem Me invoca e lhe respondo. Portanto, é dever deles responder ao Meu chamado e crer em Mim. Transmite-lhes estas palavras. Talvez encontrem o caminho da verdadeira verdade. (Al-Baqarah — 2:186)

Vejamos mais algumas palavras por meio das quais devemos pedir a ajuda de Allah.

A proteção de Allah

Busco refúgio em Allah contra Satanás, o rejeitado. A‘udhu billahi min ash-shaytan ir-rajim.

Já esclarecemos anteriormente quão importante é buscar refúgio em Allah contra Satanás. Na verdade, isso foi ordenado no próprio Alcorão (An-Nahl, 16:98). Não pronuncie essas palavras apenas como uma fórmula ritual ou mágica. Você deve compreender que enfrentará enormes obstáculos e dificuldades em seu trabalho. Satanás é o seu maior inimigo. Ele fará tudo o que puder para privá-lo da recompensa por seus esforços. Allah, e somente Allah, pode protegê-lo dessa conspiração de Satanás.

De vez em quando, você pode usar as palavras encontradas no Alcorão (Al-Mu’minun, 23:99) ou ensinadas pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para pedir refúgio em Allah; ou pode recitar as duas suratas do Alcorão, Al-Falaq e An-Nas.

De tempos em tempos, você deve voltar-se para Allah, para que seu coração seja guiado pelo caminho correto.

Ó nosso Senhor! Depois de nos teres guiado pelo caminho reto, não desvies os nossos corações nem permitas que neles haja qualquer desvio ou perversidade. Concede-nos uma dádiva proveniente do tesouro da Tua misericórdia, pois Tu és, verdadeiramente, o melhor dos doadores. (Al Imran, 3:8)

Embora seja indispensável buscar refúgio em Allah no início do estudo do Alcorão, a mensagem do Alcorão nos lembra que isso deve ser uma prática contínua.

Em nome de Allah

Em nome de Allah, o Misericordioso, o Compassivo: já discutimos anteriormente a importância e o significado de “Bismillahir-Rahmanir-Rahim”. Este versículo aparece no início de todas as 114 suratas do Sagrado Alcorão, exceto uma. Começar em Seu nome transmite o significado de expressar gratidão Àquele que concedeu toda forma de ajuda para confiar no Alcorão e em Allah.

Buscar as bênçãos do Alcorão

Há várias outras súplicas específicas que você deve aprender.

Ó meu Senhor, aumenta o meu conhecimento. (Taha — 20:114)

Quando Allah Todo-Poderoso advertiu o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a permanecer paciente e firme ao receber o Alcorão, ensinou-lhe a suplicar com estas palavras: “E não te apresses com o Alcorão; em breve, a sua revelação será concluída para ti.” Se alguém deseja apegar-se ao significado do Alcorão, a paciência em nome de Allah e a ajuda de Allah são capazes de remover a confusão, desfazer os nós e permitir que avance na aplicação do Alcorão.

Outra excelente súplica

Ó meu Senhor! Sou Teu servo, filho do Teu servo e filho da Tua serva; estou inteiramente sob o Teu domínio, e a minha fronte está em Tuas mãos. Toda ordem Tua a meu respeito é definitiva. Toda decisão Tua é correta e justa. Ó Senhor! Invoco-Te por todos os Teus nomes: por todos os nomes com que Te nomeaste, que ensinaste à Tua criação, que revelaste no Teu Livro Sagrado ou que mantiveste ocultos em Ti. Ó meu Senhor! Faz do Alcorão toda a fonte de inspiração do meu coração, a luz do meu íntimo, o alívio da minha tristeza e o apaziguador das minhas preocupações e ansiedades. (Ahmad, Ruzain)

A súplica a seguir geralmente é recitada após a conclusão da recitação de todo o Alcorão. Porém, o seu significado é tão abrangente que, se Allah for invocado frequentemente por meio destas palavras, certamente concederá grandes bênçãos: “Ó meu Senhor! Derrama sobre mim a Tua misericórdia por meio do glorioso Livro, o Alcorão. Faz do Alcorão, para mim, um líder, um farol, um guia e uma misericórdia. Ó Allah! Concede-me, por meio do Alcorão, a capacidade de lembrar aquilo que esqueci e ensina-mo. Concede-me força para recitá-lo durante o dia e a noite. Ó Dono do universo! Faz do Alcorão uma prova a meu favor.”

Antes da recitação do Alcorão, durante a recitação e depois de concluí-la, peça o perdão de Allah na língua e da maneira que preferir. Sobre isso, você encontrará três súplicas no Alcorão: na Surata آل عمران (3:16), em Al-Mu’minun (23:118) e novamente em آل عمران (3:193).

Súplica geral

Além dessas súplicas específicas mencionadas acima, suplique, em sua própria língua, a Allah, o Senhor dos mundos, para que você possa beneficiar-se do Alcorão. Por exemplo: ‘Abre a minha visão; concede-me a capacidade de ver a verdade como verdade e a falsidade como falsidade; concede-me aquela chama de luz pela qual eu possa reconhecer o Teu caminho; ajuda os meus esforços; torna humilde a minha força de vontade; concede-me a graça de encontrar alegria ao receber o Teu perdão e a Tua orientação; guia-me nas minhas inquietações, nas minhas decisões e em todos os meus assuntos; concede-me resistência contra todas as tentações; concede-me força para cumprir todas as responsabilidades; remove a minha preguiça e a minha inércia; que a Tua palavra reanime os meus pensamentos e as minhas ações e satisfaça cada uma das minhas necessidades; acalma-me quando eu estiver inquieto; concede-me tranquilidade quando eu estiver aflito; ajuda-me a estudar e compreender; concede-me a graça de conhecer e compreender a Ti e a Tua orientação; concede-me paciência; concede-me honra e dignidade; concede-me força para aceitar e cumprir; concede-me a graça de viver de acordo com o que aprendo; concede-me a capacidade de cumprir a missão que o Alcorão me confiou.’

Estudo com compreensão

A consciência do que você está lendo o envolverá profundamente no estudo do Alcorão. No estudo do Alcorão, este é o último aspecto, mas de modo algum o menos importante. Pode ser o método mais importante e eficaz.

Embora seja indispensável para todos compreender o que o Alcorão diz antes que a sua mensagem penetre profundamente no coração, isso não é uma condição absoluta sem a qual não se possa receber de modo algum qualquer bênção do Alcorão. Há pessoas que compreendem cada palavra do Alcorão, mas, ainda assim, as portas do seu coração permanecem fechadas ao Alcorão. Por outro lado, há pessoas que não compreendem uma única palavra e, apesar disso, alcançam uma concentração extremamente profunda, uma relação profunda com Allah, amor e anseio, proximidade de Allah e obediência a Ele. Isso ocorre porque a relação com o Alcorão depende de muitos fatores. Haverá, entretanto, incontáveis pessoas que jamais aprenderão a língua árabe, não serão capazes de ler uma tradução nem terão tempo para se esforçar nesse sentido. Ainda assim, não há razão para que se desesperem. Enquanto não fizerem todo o possível para encontrar meios de compreender o Alcorão e enquanto não se esforçarem sinceramente para viver de acordo com os ensinamentos do Alcorão, deverão certamente continuar a ler o Alcorão, mesmo que não compreendam o seu significado, e deverão também manter a esperança de receber as bênçãos do Alcorão.

Apesar disso, a importância imensa de compreender aquilo que o Alcorão lhe diz não pode, de modo algum, diminuir nem um pouco. Aqui, ‘compreender’ é usado no sentido de conhecer diretamente o que foi dito no Alcorão. Mais adiante, abordaremos a reflexão, os outros níveis de assimilação, a compreensão do significado completo, a integração disso ao nosso pensamento e outras questões semelhantes.

Por que é necessário compreender o significado direto? Em primeiro lugar, isso ajudará enormemente a concentrar-se no significado direto do Alcorão, a despertar diferentes estados de consciência e a produzir uma reação do corpo e da alma, colocando o seu ser interior diante do Alcorão. Em segundo lugar, somente por meio da compreensão você poderá aprofundar a sua fé, o que, na realidade, o conduzirá a viver com o iman e com os ensinamentos do Alcorão.

4: Método de leitura

A companhia duradoura do Alcorão deve ser o maior anseio e a maior ocupação do nosso coração. Portanto, estude o Alcorão tanto quanto puder. Dedique a esse trabalho o máximo de tempo que lhe for possível. Especialmente à noite. Foi assim que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os nobres companheiros conseguiram preparar-se no caminho de Allah para cumprir a grande e importante responsabilidade que o Alcorão lhes havia confiado. Existem algumas orientações e regras sobre esse assunto que você deve sempre ter em consideração.

Quantas vezes você deve ler

Você deve ler diariamente alguma parte do Alcorão. Na verdade, não deveria transcorrer sequer um dia em que você não dedicasse algum tempo ao Alcorão. É melhor lê-lo regularmente, ainda que seja uma parte muito pequena, do que lê-lo ocasionalmente ou ler uma grande parte de uma só vez.

O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Allah aprecia a ação que é praticada regularmente, ainda que seja pequena” (Bukhari, Muslim). Ele advertiu especialmente que você deve dedicar-se regularmente ao estudo do Alcorão. Caso contrário, facilmente sofrerá prejuízo. A situação daqueles que têm o Alcorão consigo é como a de um camelo amarrado por uma corda: enquanto alguém o segura, ele permanece em sua posse; mas, se o soltar, ele foge (Bukhari, Muslim).

Quanto você deve ler

Não há uma resposta específica para isso. A quantidade variará de pessoa para pessoa e conforme as circunstâncias. A orientação a esse respeito é aquela que Allah, o Altíssimo, deu considerando todos os meios e recursos humanos:

Continue lendo do Alcorão tanto quanto puder recitar com facilidade. (Al-Muzzammil, 73:20)

A prática dos Companheiros e de seus seguidores a esse respeito variava, naturalmente, para mais ou para menos. Alguns concluíam a leitura de todo o Alcorão Sagrado em dois meses, outros em um mês, outros em dez dias, outros em uma semana e alguns até em um único dia. Devemos recordar o hadith a seguir como critério orientador: “Quem conclui o Alcorão em menos de três dias não o compreende” (Abu Dawud, Tirmidhi).

Certa vez, quando o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse a Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que concluísse o Alcorão em um mês, Ibn Umar insistiu em fazê-lo em menos tempo. Então o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Leia-o em sete dias e não aumente além disso” (Bukhari). O Alcorão está dividido em 7 hizb e 30 paras. Isso também oferece alguma indicação do que é desejável.

A orientação do Imam Nawawi sobre este assunto merece atenção especial. Quem consegue estudar o Alcorão com concentração e descobrir seus profundos significados e implicações deve ler uma quantidade menor. Da mesma forma, quem precisa dedicar seu tempo aos estudos, ao trabalho governamental ou a atividades importantes estabelecidas pelo Islã pode ler menos. (Kitab al-Adhkar)

A quantidade que se lê dependerá do objetivo da leitura. Se você deseja dedicar tempo apenas ao estudo do Alcorão ou obter rapidamente uma compreensão geral, pode ler depressa e ler mais. Mas, se deseja refletir sobre ele e colocá-lo em prática, leia devagar e leia menos. Foi isso que o Imam al-Ghazali (que Allah tenha misericórdia dele) explicou. Ele disse: “Às vezes concluo a leitura do Alcorão toda sexta-feira; às vezes, a cada mês; e outras vezes, a cada ano. De uma maneira, venho tentando concluir o Alcorão há trinta anos, mas até agora não consegui.” (Ihya’ Ulum al-Din)

Creio que, nas nossas condições atuais, a maioria de nós deveria tentar fazer, pelo menos uma vez a cada oito meses, uma leitura geral de todo o Alcorão. Quer você compreenda o significado diretamente, quer por meio de uma tradução, isso de modo algum deveria exigir mais de 5 a 15 minutos por dia.

No entanto, ao longo da vida, você deveria tentar concluir a leitura do Alcorão em sete dias, ainda que apenas algumas vezes. Ou em um mês, especialmente durante o mês do Ramadã. De vez em quando, deve dedicar-se ao estudo do Alcorão com profunda reflexão e muito lentamente, mesmo que isso não seja feito todos os dias.

Quando ler

Nenhum momento do dia ou da noite é inadequado para estudar o Alcorão. Tampouco é necessária alguma postura física específica para isso. Allah diz: “Lembra-te do nome do teu Senhor pela manhã e ao entardecer, e durante parte da noite.” (Al-Insan, 76:25)

Aqueles que se lembram de Allah em todas as situações: de pé, sentados e deitados. (Al Imran, 3:191)

Certamente, estudar o Alcorão é o melhor caminho para a lembrança de Allah, ou dhikr. O Imam Nawawi (que Allah tenha misericórdia dele) disse que os Companheiros e seus seguidores estudavam o Alcorão em qualquer momento do dia ou da noite, estivessem onde estivessem ou estivessem viajando.

Apesar disso, há certos momentos propícios recomendados pelo Alcorão e pelo Profeta (que a paz esteja sobre ele), nos quais o estudo do Alcorão produz mais frutos e benefícios. Portanto, existem certas condições ou disposições. A noite é o momento mais excelente para recitar o Alcorão, e a postura mais desejável é fazê-lo de pé durante a oração. A surata inicial, Al-Muzzammil, e vários outros trechos do Alcorão nos dizem precisamente isso. (Al Imran, 3:113; Al-Isra, 17:79; Az-Zumar, 39:9.) Recitar o Alcorão de pé durante a oração noturna integra seu coração à recitação, fortalece seu desejo de se submeter à orientação de Allah e o ajuda a cumprir a missão que Ele lhe confiou.

Para fazer isso, você precisa (a) memorizar algumas partes do Alcorão e (b) permanecer acordado durante algum tempo à noite. O Alcorão reconhece essa limitação: por diversas razões, isso pode nem sempre ser possível para todos. Portanto, o Alcorão lhe dá permissão para continuar recitando-o com facilidade, tanto quanto puder. Isso significa recitá-lo na medida possível, pelo tempo possível e em qualquer condição possível. Estudar o Alcorão durante a oração noturna é extremamente necessário e traz benefícios extraordinários. Portanto, você deve dedicar algum tempo a isso, por menor que seja, mesmo que apenas alguns minutos. Em intervalos regulares — digamos, semanalmente ou mensalmente — você deve necessariamente reservar algum tempo para isso.

Para permanecer o mais próximo possível do caminho ideal, pode-se esperar que você recite o Alcorão antes ou depois das orações do fajr e do isha, ou pela manhã, ou antes de dormir. O estudo do Alcorão pela manhã é especialmente recomendado (Al-Isra, 17:78). Embora não seja desejável estudar o Alcorão sentado numa cadeira, recostado numa almofada, ou deitado na cama ou no carro, isso também não é proibido. No entanto, nunca faça isso sem motivo nem transforme isso num hábito. De qualquer modo, se alguém for privado da recitação do Alcorão apenas porque não conseguiu sentar-se na postura correta, será privado de muitas coisas ainda mais valiosas.

Ler corretamente

Você deve necessariamente ler o Alcorão corretamente. No mínimo, deve pronunciar corretamente as vogais e as letras, mesmo que não seja capaz de aprender toda a arte do tajwid. A língua árabe é tal que um pequeno erro na pronúncia das vogais pode alterar gravemente o significado e, muitas vezes, distorcê-lo completamente.

Para adquirir um nível mínimo de competência básica nesse assunto, um mês de estudo contínuo, durante uma hora por dia, é suficiente para um adulto instruído.

Ninguém pode ser dispensado do esforço sincero para aprender a ler corretamente o Alcorão. Mesmo que, depois de aprender, você não consiga fazê-lo perfeitamente, isso não pode ser motivo para abandonar a recitação. Um não árabe talvez nunca consiga dominar a técnica da leitura correta. Ou talvez você não tenha a oportunidade de aprendê-la.

Fui enviado entre um povo que inclui analfabetos, homens e mulheres idosos, meninos e meninas, e pessoas que jamais haviam lido sequer um livro. (Tirmidhi)

Fica comprovado, pelas palavras que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) dirigiu a Hazrat Jibril (que a paz esteja com ele), que ele estava consciente desse tipo de dificuldade. Portanto, você deve lembrar-se das suas palavras de tranquilização a esse respeito, embora ele não tenha feito disso uma desculpa para que você diminuísse ou abandonasse seu empenho em aprender.

Aquele que é proficiente na recitação do Alcorão será companheiro do nobre e virtuoso anjo que trouxe a revelação. Já aquele que recita com dificuldade e para quem a recitação correta é árdua receberá uma recompensa em dobro por recitar e por se esforçar. (Bukhari, Muslim)

Recitar de maneira bela

Depois de aprender a recitar corretamente o Alcorão, é desejável aprender a arte da recitação, para que você possa recitar o Alcorão com uma voz bela, melodiosa, encantadora e agradável de ouvir. Há muitos hadiths que chamam a atenção para isso:

Embeleze o Alcorão com a sua voz. (Abu Dawud)

Allah não escuta a recitação de nenhum profeta como escuta a recitação melodiosa de um profeta (isto é, Ele não escuta a recitação de outro modo como escuta aquela recitada de forma clara e bela).

Aquele que não recita o Alcorão com uma voz melodiosa não faz parte de nós. (Bukhari)

Mas é preciso lembrar que a verdadeira beleza é aquela que se origina do temor de Allah no coração.

Sua recitação e sua voz são tão melodiosas que, ao ouvi-la, você sentirá que ele teme a Allah. (Darisi)

Escuta atenta

Sempre que o Alcorão for recitado, escute atentamente e mantenha profundo silêncio.

A respeito disso, o próprio Alcorão diz:

Quando o Nobre Alcorão for recitado diante de vós, escutai-o com muita atenção e permanecei em silêncio. Talvez a misericórdia também desça sobre vós. (Al-A’raf 7:204)

É natural que, quando Allah fala, você deva necessariamente permanecer em silêncio. Contudo, a palavra árabe usada para “escuta” não significa apenas o ato natural de ouvir, mas também denota um estado especial de concentração e receptividade.

Na prática, nada contrário a esta orientação pode ser feito. Não se deve nem conversar nem fazer discursos durante a recitação do Alcorão. Não se deve colocar uma fita de recitação e usá-la como música de fundo enquanto se faz outra coisa, como conversar ou sussurrar. No início de reuniões, encontros e cerimônias, quando houver recitação do Alcorão, ninguém pode deixar de prestar atenção a ela.

Alguns juristas chegaram a proibir até mesmo a oração em um local próximo enquanto o Alcorão estivesse sendo recitado em voz alta.

A exigência essencial desta regra é que, se a recitação do Alcorão em voz alta dificultar às pessoas próximas prestar atenção ao Alcorão ou lhes for impossível responder, o recitador deverá baixar a voz ou recitar em silêncio. Tratar bem o vizinho faz parte da responsabilidade de cada pessoa. Além disso, se alguém não desejar ouvir, não é apropriado impor-lhe a escuta do Alcorão.

É muito recomendável pedir àqueles que sabem recitar o Alcorão correta e belamente que o recitem e, em seguida, ouvi-lo com atenção. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) costumava pedir aos seus Companheiros que recitassem o Alcorão diante dele. Devemos recordar o que o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse a esse respeito:

Aquele que ouvir um versículo receberá uma recompensa duplicada. Para aquele que o recitar, ele surgirá como uma luz no Dia da Ressurreição (Ahmad).

Concluir a recitação do Alcorão

Não importa quantas vezes você conclua a recitação do Alcorão: sempre que terminar a leitura completa do Alcorão, esse é um momento de alegria, encorajamento e oração. O Imam An-Nawawi (que Allah tenha misericórdia dele) mencionou algumas práticas seguidas pelos nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) e pelos tabi‘in a esse respeito. Embora sejam recomendáveis, não são obrigatórias. Portanto, siga-as tanto quanto puder.

Primeiro: começar na noite de sexta-feira e terminar na noite de quinta-feira. Alguns preferiam começar na manhã de segunda-feira. Outros escolhiam horários diferentes; nenhum horário é desprovido de bênçãos. Cada horário testemunhará no Dia da Ressurreição.

Segundo: recite a parte final durante a oração, se estiver sozinho no momento de concluir a recitação.

Terceiro: ao terminar, convide outras pessoas e submetam-se juntos a Allah.

Quando o Companheiro Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) concluía a recitação do Alcorão, reunia todos os membros da família e fazia du’a perante Allah (Abu Dawud). Foi narrado por Hakam ibn Utaybah que, certo dia, fui enviado a Mujahid e a Ubadah ibn Abi Hudhafah, e eles disseram: “Nós o convidamos porque queremos concluir o Alcorão e fazer du’a a Allah ao terminá-lo.” Em outra narração, foi dito que, durante a conclusão do Alcorão, a misericórdia de Allah desce.

Quarto: Jejue no dia em que pretende concluir o Alcorão.

Quinto: Logo após concluir o Alcorão, comece novamente a recitá-lo para a próxima conclusão. Isto é, depois de terminar a recitação da surata An-Nas, recite a surata Al-Fatiha e alguns versículos de Al-Baqarah. De certo modo, isso cumprirá o propósito do hadith narrado por Anas ibn Malik.

“A melhor obra é chegar, permanecer e iniciar a viagem.” Quando lhe perguntaram qual era o significado disso, ele respondeu: “Concluir o Alcorão e recomeçá-lo.”

Sexto: Ao concluir o Alcorão, entregue-se a Allah e faça du’a. Este é o momento em que sua du’a é aceita e a misericórdia de Allah desce. Foi dada ênfase especial à prática disso. Quando alguém recita o Alcorão e depois suplica a Allah, quarenta mil anjos dizem: “Amém.” (Ad-Darimi)

Faça du’a com humildade, temor, esperança, mansidão e firmeza. Suplique por si mesmo, mas certamente suplique por todas as coisas. Em especial, suplique pelas importantes questões coletivas da Ummah, pela honra e dignidade da Ummah, para que seus governantes se tornem bons, pela proteção da Ummah muçulmana contra as mãos dos inimigos e pela cooperação mútua entre os muçulmanos na prática do bem e na piedade.

Memorização

Memorize tanto quanto puder do Sagrado Alcorão. O Alcorão é extraordinário no que diz respeito ao hifz, isto é, à preservação na memória. Embora hoje a palavra hifz seja usada em seu sentido restrito de memorizar, hifz significa tanto ler compreendendo quanto colocar em prática. Na verdade, não existe no inglês nenhuma palavra capaz de expressar adequadamente o significado correto e completo de hifz.

O hifz é um meio extremamente necessário pelo qual o Alcorão pode penetrar em você. Não é uma tarefa mecânica nem meramente formal. Ele é de grande importância para a espiritualidade elevada e a concentração. Somente por meio do hifz você pode recitar o Alcorão na oração e, permanecendo diante do proclamador do Alcorão, refletir sobre seu significado. Além disso, o hifz faz o Alcorão fluir em sua própria língua e o transforma em seu companheiro constante. Quanto mais você memorizar, mais fácil será para você concentrar-se profundamente na recitação do Alcorão e compreender seu significado.

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) enfatizou isso de várias maneiras: “Memorizem o Alcorão, pois Allah não punirá a alma que contém o Alcorão.” (Sharhis Sunnah)

Aquele em cujo coração não há nada do Alcorão é como uma casa solitária ou em ruínas. (Tirmidhi)

Portanto, reserve para isso uma parte do tempo dedicado ao seu estudo do Alcorão. Avance nessa tarefa de maneira sistemática. Estabeleça uma meta para um período determinado. Sua lista deve incluir as passagens que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) recitava na oração, ou em alguma parte do dia ou da noite, ou que ele ordenava a seus companheiros que recitassem, ou cuja excelência ele mencionou. Algumas passagens o atrairão espontaneamente durante a recitação do Alcorão, e você também deve memorizar essas passagens.

5: Estudo e compreensão

Importância e necessidade

Você não pode obter plenamente as verdadeiras bênçãos e riquezas do Alcorão enquanto não se dedicar completamente à compreensão de seu significado e não souber o que seu Criador está dizendo. Isso não contradiz o que dissemos anteriormente: até mesmo aqueles que não compreendem podem receber as bênçãos do Alcorão. Sem dúvida, a grande maioria dos muçulmanos não sabe árabe, e muitos nem sequer possuem uma tradução em sua própria língua. Ainda assim, se recitarem o Alcorão com sincera concentração, humildade e amor, não deixarão de obter parte das riquezas do Alcorão. Pois você desfruta da companhia daquele a quem ama e, mesmo que não conheça sua língua, é inevitável que sua relação com ele se aprofunde. Contudo, a relação será mais forte se você compreender a língua dele.

Por outro lado, compreender apenas o significado pode também não produzir nenhum resultado. Muitos ouviram o Alcorão dos lábios do Mensageiro (que a paz esteja com ele) e compreenderam cada palavra, mas mesmo assim se desviaram ainda mais. Há milhões de pessoas cuja língua é o árabe e que compreenderam o Alcorão, mas em cuja vida o Alcorão não exerce nenhuma influência. Inúmeros eruditos muçulmanos e não muçulmanos passam toda a vida estudando e praticando o Alcorão, e sua erudição é impecável; contudo, o Alcorão não consegue tocar suas vidas.

Ainda assim, é urgentemente necessário dedicar-se à compreensão do Alcorão. O Alcorão veio para oferecer orientação, recordar, advertir e servir como cura. Ele não é apenas uma fonte de recompensa, uma escritura sagrada, um símbolo de espiritualidade, um sinal de santidade ou uma magia sagrada. O Alcorão veio para transformá-lo radicalmente e conduzi-lo a uma nova vida. Contudo, compreender o Alcorão, por si só, não é uma garantia certa de alcançar uma nova vida. Entretanto, sem compreender o Alcorão, será muito difícil cumprir seu verdadeiro propósito e chamar a humanidade para o caminho do Alcorão.

Estudo pessoal

Por que devemos, por iniciativa própria, dedicar-nos à compreensão do Alcorão e refletir profundamente sobre ele? Não é suficiente que leiamos e escutemos o Alcorão junto de pessoas eruditas? Não, isso não basta. Ainda assim, isso é necessário. Para saber o que o Alcorão diz sobre qualquer assunto importante, você mesmo deve esforçar-se. O Alcorão não é simplesmente um livro, nem uma compilação de uma lista do que se pode e do que não se pode fazer. Este livro não apenas o informa sobre Allah e sobre o que Ele deseja de você. Ele quer influenciar sua vida pessoal, dar-lhe uma nova vida e criar uma relação profunda entre você e Allah. Assim, deve aumentar sua paciência, purificá-lo, formar seu caráter e corrigir sua conduta. Deve incentivá-lo continuamente e promover grande aperfeiçoamento em você.

Tudo isso pode ser alcançado se você conseguir estabelecer uma relação pessoal de estudo, prática e compreensão do Alcorão. Sem refletir profundamente sobre suas mensagens, seu coração, seus pensamentos e seu comportamento não podem responder a ele. Sem mergulhar na reflexão sobre a mensagem do Alcorão, você não será capaz de recebê-la, nem essas mensagens poderão penetrar em sua vida. Pense um pouco: se a reflexão e a compreensão não fossem necessárias, por que lhe teria sido ordenado recitar o Alcorão com tartil? Foi-lhe dito que lesse o Alcorão fazendo pausas. Se você não compreende o que está lendo no Alcorão, como poderá responder sincera, física e verbalmente àquilo que o Alcorão enfatizou?

Argumentos contra o estudo

Mas, se alguém se dedicar, por conta própria, à tentativa extremamente arriscada de compreender o Livro de Allah sem contar com um professor experiente e sem dispor de todos os meios e recursos necessários ao estudo, não haverá o risco de cometer erros ou desviar-se? Sim, certamente há esse risco, especialmente quando você não conhece claramente suas limitações e seu objetivo. Porém, se você nem sequer tentar compreender o Alcorão, o prejuízo será muito maior para você e para a ummah muçulmana. O risco do estudo pessoal do Alcorão pode ser eliminado mediante algumas precauções adequadas. É preciso assegurar que, nesse processo, você jamais ultrapasse suas limitações e seu objetivo. Mas o prejuízo causado pelo abandono desse tipo de estudo não poderá ser compensado.

Alguns argumentam que tentar compreender o significado do Alcorão por conta própria não seria uma violação do hadith do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)? Ele disse: “Aquele que interpretar o Alcorão segundo seus próprios desejos terá seu lugar no Inferno.” (Tirmidhi)

Este hadith refere-se ao estudo realizado com o objetivo de encontrar prova ou apoio para alguma ideia preconcebida ou opinião pessoal, em vez de aceitar de coração aberto a orientação de Allah. Ou refere-se à tendência de oferecer uma interpretação sobre assuntos a respeito dos quais não se possui o conhecimento necessário. Sobre isso, o Imam Ghazali (que Allah tenha misericórdia dele) expressou a firme opinião de que, caso contrário, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não teria incentivado seus Companheiros a compreender o Alcorão; eles também não teriam extraído significados que não haviam escutado do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), nem teriam ocorrido entre eles divergências quanto à interpretação do Alcorão.

Temendo consequências terríveis, muitos líderes religiosos proíbem até mesmo a leitura de uma tradução do Alcorão sem a ajuda de um professor erudito. Ou impõem condições tão rigorosas ao estudo individual do Alcorão que pouquíssimas pessoas conseguem cumpri-las, mesmo após muitos anos de esforço. Apesar de suas boas intenções, esse tipo de conselho, na prática, acabará privando você dos grandes tesouros do Alcorão. Embora suas preocupações sejam naturais, suas proibições não têm qualquer lógica ou fundamento.

Pense por um momento: eles podem proibir um árabe de compreender o significado literal do Alcorão? Então, por que um árabe não deveria ler uma tradução? Além disso, podem impedir alguém de ler sobre outro assunto e compreender ou buscar seu significado? Então, por que se proibiria o esforço de estudar e compreender o Alcorão? E o que dizer dos primeiros versículos revelados do Alcorão, dirigidos tanto a muçulmanos quanto a kafires? Eles eram comerciantes iletrados e beduínos, que não dispunham de meios ou recursos para adquirir conhecimento. Ainda assim, muitos kafires aceitaram o Islã sem a ajuda de ninguém, apenas ouvindo, e alguns até mesmo na primeira vez que o ouviram.

É verdade que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e seus nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) tiveram uma oportunidade extraordinária e incomparável de testemunhar o significado do Alcorão em suas vidas, pois os Companheiros atravessavam as rigorosas provações da fé, da da‘wah e do jihad no caminho do Alcorão. Ainda assim, isso não deve ser motivo de desânimo para nós. Se formos capazes de cumprir as condições necessárias, por que o Alcorão não abriria suas portas para nós? Pelo contrário, aquilo sobre o qual se insistiu repetidamente é que também devemos conduzir nossas vidas pelo caminho rigoroso da fé, da da‘wah e do jihad, como os nobres Companheiros.

A solução não está em advertir contra o desvio de proibir todas as outras tentativas de compreender o Alcorão, exceto sentar-se aos pés de um professor, mas em seguir a orientação correta.

Isso, naturalmente, não significa negar a importância de adquirir o conhecimento necessário da língua árabe e das diversas ulum do Alcorão, ler tafsir, estudar com professores eruditos e confiáveis e dominar o conhecimento humano contemporâneo. Tudo isso é importante. Contudo, isso depende do que você deseja obter do Alcorão. Você deve dispor dos meios adequados para alcançar seu objetivo. Mas não pode encerrar a necessidade de estudar o Alcorão simplesmente porque não possui todos os meios e recursos ou porque não pode procurar um professor.

Imagine que você esteja em uma ilha, não saiba árabe ou não tenha qualquer oportunidade de aprendê-lo. Você não tem um bom professor nem um bom tafsir, ou não consegue obter nenhum dos dois. Sem dúvida, em tal situação, você deve reconhecer a necessidade de adquirir a capacidade de compreender corretamente o Alcorão e tomar todas as medidas necessárias para isso. Ainda assim, o Alcorão é uma orientação de Allah para você.

Felizmente, nenhum de nós é habitante de uma ilha assim. A existência de uma ilha semelhante é, em grande parte, uma criação da nossa imaginação, devido à nossa incapacidade, preguiça, desatenção e inatividade; ou, para compreender o Alcorão, a companhia do Alcorão é tão necessária ao nosso coração e à nossa mente quanto o alimento é necessário ao corpo. O que é importante lembrar é que, mesmo que alguém realmente viva em uma ilha, tenha em suas mãos apenas um exemplar do Alcorão e compreenda de algum modo seu significado literal, ou tenha dominado as determinações do Alcorão, ainda permanece a necessidade e a exigência de dedicar-se pessoalmente à reflexão e à investigação profunda sobre o Alcorão.

Características do Alcorão

O Alcorão é orientação para todos, seu mestre e seu sábio conselheiro. Portanto, compreendê-lo é extremamente importante; caso contrário, ele não será mais que um símbolo de mistério. O Alcorão fala claramente sobre a grande importância do esforço e da dedicação, bem como do empenho pessoal, para abrir o coração e a mente ao seu chamado. Permanece em nós a falha de manter trancados o coração e a mente no que diz respeito à compreensão do Alcorão.

Acaso eles não refletem e meditam sobre o Alcorão?

Ou seus corações foram selados? (47:24)

Assim, o chamado para compreender o Alcorão está espalhado por quase todas as suas páginas. Por que você não escuta? Por que não vê? Por que não reflete? Por que você não pondera? Por que não compreende? Por que você não aceita isso em seu coração? Se esse chamado não se dirige aos seres humanos — que têm a capacidade e o poder de ouvir, ver e pensar — então a quem ele se dirige?

Foi declarado com extrema clareza que o Alcorão foi enviado justamente para ser compreendido.

Este é um Livro abençoado que fizemos descer para ti, ó Profeta!, para que essas pessoas reflitam sobre seus versículos e para que os dotados de conhecimento, inteligência e discernimento tirem dele uma lição. (Sad-38:29)

Da mesma forma, o Alcorão Majid os elogia como verdadeiros servos do Misericordioso:

aqueles que, quando são exortados com os versículos de seu Senhor, não permanecem cegos e surdos diante deles (Al Furqan-25:73).

Por outro lado, censura como inferiores aos animais aqueles que não utilizam a audição, a visão e o coração para ouvir, contemplar e compreender o Alcorão:

Eles têm corações, mas não refletem com eles. Têm olhos, mas não veem com eles. Têm ouvidos, mas não conseguem ouvir com eles. Na verdade, são como animais; não, estão ainda mais desviados. Estes estão imersos na extrema negligência. (Al-A‘raf — 7:179)

Você não pode extrair a verdadeira misericórdia e as riquezas do Alcorão enquanto não compreender seu significado, enquanto não compreender o que Allah lhe disse e enquanto não se dedicar pessoalmente a descobri-lo.

A prática das gerações anteriores

Até mesmo o hadith que desencoraja concluir a recitação completa do Alcorão em menos de três dias expressa claramente a necessidade de compreendê-lo. De outro modo, você não será capaz de compreendê-lo. Para quem não entende o significado, essa instrução não tem utilidade. O Imam Al-Ghazali (que Allah tenha misericórdia dele), em sua obra Ihya’ Ulum al-Din, apresentou muitos exemplos de como os Companheiros se dedicavam ao estudo e à compreensão do Alcorão.

Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Uma pessoa recita frequentemente o Alcorão, mas o Alcorão a amaldiçoa, porque ela não o compreende.” Segundo Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), o sinal da fé é compreender o Alcorão. Passamos muitos anos… até chegar um tempo em que vejo um homem a quem todo o Alcorão foi transmitido antes de ele crer: ele recita todas as páginas, desde a Surata Al-Fatihah até o fim do Alcorão, mas não conhece os mandamentos do Alcorão, suas advertências, nem reconhece os lugares em que deve se mostrar humilde. Ele o descarta assim como alguém, durante uma fuga, abandona rapidamente alguma coisa; é desse modo que ele o deixa. Certo dia, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) ouviu um homem murmurando diante do Alcorão e disse: “Esse homem não está recitando o Alcorão nem está permanecendo em silêncio.” Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Não há bem algum no estudo do Alcorão se não se reflete e medita sobre ele.” Abu Sulayman al-Darani disse: “Leio um versículo e passo quatro ou cinco noites com ele; não leio o versículo seguinte enquanto não termino de refletir sobre este.”

Naturalmente, se o Alcorão é um livro de orientação para todas as pessoas, então uma pessoa que vive numa ilha pode receber de sua orientação tanto quanto aquela que está dedicada à busca do conhecimento. Mesmo que não haja nenhum livro ou professor para esse propósito, você deve saber claramente que precisa dedicar tempo, individual ou coletivamente, para compreendê-lo, refletir sobre ele, buscar seu significado para sua vida e saber o que o Alcorão lhe diz.

Riscos do estudo pessoal

Os riscos envolvidos nesse tipo de empreendimento devem ser claramente identificados, e devem ser tomadas medidas apropriadas para evitá-los. Você pode certamente evitar esses riscos seguindo algumas orientações:

(1) É preciso lembrar que compreender o Alcorão é um processo amplo e multifacetado. Ele possui diferentes formas, perspectivas, extensões e níveis. Você deve conhecer tudo isso. Há uma grande diferença entre compreendê-lo para o cultivo do coração e compreendê-lo para deduzir normas religiosas.

(2) Avalie a sua própria situação e identifique com toda clareza as suas limitações e capacidades. Por exemplo: a sua compreensão da orientação ou guia do Alcorão, a sua capacidade de compreender o árabe, o seu domínio dos hadiths e da biografia do Mensageiro, e a sua capacidade de acessar as fontes.

(3) Compreenda corretamente o seu objetivo e estabeleça metas específicas para o seu estudo. Em nenhuma circunstância ultrapasse as suas limitações e capacidades.

Por exemplo: se você não conhece a língua árabe, não empreenda pesquisas profundas em questões gramaticais e lexicais; limite-se diretamente ao significado literal. Se você não possui conhecimento sobre o que foi revelado ou ab-rogado, nem sobre as obras dos juristas das primeiras gerações, não deve começar a elaborar a sua própria jurisprudência a partir do Alcorão, nem criticar ou apoiar uma determinada opinião.

(4) Não considere definitivo nem comece a divulgar qualquer conclusão a que tenha chegado por meio de sua investigação que seja contrária ao consenso geral da comunidade. Isso não significa que você deva deixar de defender uma opinião, nem que se deva afirmar que a opinião dos eruditos esteja necessariamente correta; significa que, para se opor a uma opinião, é preciso possuir, no mínimo, qualificações equivalentes, ainda que não superiores.

Isso não o isenta da responsabilidade de fazer aquilo que você sabe, com base no Alcorão, ser correto, nem de evitar aquilo que é incorreto.

(5) Sempre que duvidar de suas próprias conclusões por causa de seu conhecimento limitado — como frequentemente acontecerá —, mantenha a sua opinião em suspenso até realizar um estudo comparativo completo ou discuti-la com um erudito competente e confiável do Alcorão.

Classificação dos tipos de compreensão

De modo geral, podemos dividir o estudo do Alcorão em duas categorias: (1) Tazakkur e (2) Tadabbur. Como foi mencionado:

para que estas pessoas reflitam sobre seus versículos e para que as pessoas dotadas de conhecimento, razão e consciência tirem lições dele. (Sad — 38:29)

Tazakkur

A palavra Tazakkur foi amplamente utilizada no Alcorão Sagrado e recebeu diferentes traduções, tais como: aceitar o conselho, extrair ensinamentos, lembrar-se, prestar atenção e acolher com o coração. Portanto, trata-se de um processo por meio do qual você pode compreender a mensagem geral e os ensinamentos do Alcorão. Você pode compreender o que essa mensagem significa para você e o que ela exige de você. Acolha tudo isso com o coração, para provocar uma resposta aberta do coração e da mente. Coloque sua força de vontade em ação de acordo com o que receber e, por fim, determine que mensagem apresentará às outras pessoas.

Tazakkur é um tipo de compreensão que, por sua própria natureza e finalidade, não exige um nível muito elevado de erudição. Talvez você não conheça o significado de cada palavra. Talvez não seja capaz de descobrir o significado de todas as palavras importantes e fundamentais; talvez não conheça o significado de cada versículo. Mas deve conhecer com extrema clareza e transparência a mensagem geral, abrangente e específica, bem como a maneira como deve viver.

Na verdade, entre aqueles que mais compreenderam o Alcorão e dele se beneficiaram, os melhores foram seus primeiros ouvintes — eram comerciantes honestos, agricultores, pastores, condutores de camelos e beduínos. Eles não tinham ao seu alcance dicionários ou livros de tafsir, nem obras de pesquisa sobre estilo, composição literária, métrica ou retórica. Tampouco possuíam todo o conhecimento de filosofia, história, geografia, arqueologia, antropologia ou das ciências sociais e físicas. Apesar disso, foram os mais bem-sucedidos na compreensão do Alcorão. A razão é que acolheram a mensagem do Alcorão com o coração e começaram a viver de acordo com ela. Neste caso, aqueles que cumprem as condições necessárias alcançam esse tipo de compreensão, e cada um deles pode obtê-la. A quantidade ou o grau em que uma pessoa consegue assimilá-la depende de seu empenho e de sua capacidade. Naturalmente, os instrumentos da erudição acrescentam muitos novos aspectos a esse processo, aumentam sua importância e proporcionam novas perspectivas, mas não são indispensáveis.

O significado de Tazakkur é que o Alcorão afirma claramente que sua compreensão é muito fácil. O Alcorão está ao alcance de todo buscador sincero, se ele apenas compreender o que está lendo e refletir sobre isso. Tazakkur também significa que o Alcorão convida aqueles que podem ouvir, ver e pensar a se orientar de acordo com ele. Isso no sentido de que:

Tornamos este Alcorão um meio fácil para tirar ensinamentos. Há alguém que tire ensinamentos dele? (Al-Qasas 54:17)

Ó Profeta! Tornamos este Livro muito fácil na tua língua, para que estas pessoas aceitem a exortação. (Ad-Dukhan 44:58)

Apresentamos neste Alcorão, diante das pessoas, exemplos e parábolas de diversos tipos e formas, para que elas tomem consciência. (Az-Zumar 39:27)

Nele há uma lição profundamente instrutiva para toda pessoa que tem coração ou que escuta com muita atenção. (Qaf 50:37)

Tazakkur não é uma compreensão de nível inferior; é o propósito essencial e indispensável do Alcorão. Você terá de lutar durante toda a vida para obter luz e orientação, e para alcançar cura por meio do Tazakkur. Nesse processo, deve continuar esforçando-se para alcançar inúmeros benefícios pessoais.

Tadabbur

Tadabbur é um tipo diferente de compreensão. Significa tentar conhecer o significado completo de cada palavra, versículo e surata; investigar os significados subjacentes das palavras, das comparações, das hipérboles e das metáforas; descobrir a coerência e a unidade interna do texto original; determinar o tema central; realizar uma pesquisa profunda sobre as complexidades lexicais, a revelação e o contexto histórico; e adotar um programa de estudo comparativo de diversos tafsirs. Depois, significa descobrir todos os significados das relações do ser humano com o seu Deus, com as outras pessoas que o cercam, com o seu próprio ser e com o mundo à sua volta; deduzir as leis e a ética para o indivíduo e a sociedade, as normas para o Estado e a economia, os princípios fundamentais da história e da filosofia; e compreender o significado do atual nível do conhecimento humano.

Para esse tipo de estudo, é necessário ter um conhecimento amplo e profundo das diversas ciências do Alcorão, e isso também depende da sua meta e do seu propósito.

Tadabbur e tadhakkur não são completamente distintos nem processos mutuamente independentes para compreender o Alcorão. Um está relacionado ao outro.

Seu objetivo

Qual deve ser o seu objetivo? Naturalmente, o objetivo variará de pessoa para pessoa e pode até variar, para alguém, de um momento para outro. Na minha opinião, o tadhakkur é obrigatório para todo muçulmano que seja capaz de compreender o Alcorão.

Portanto, para um muçulmano de educação comum que procura cumprir seu compromisso com Allah à luz de suas capacidades e limitações, o tadhakkur deve ser o primeiro e mais importante objetivo. Você permanecerá com ele para sempre e jamais chegará a um estágio em que possa deixar de praticar o tadhakkur.

Você deve lembrar-se de que, no tadhakkur, certamente cuidará de sua mente e de seu coração, se esforçará para aumentar a sua fé, empenhar-se-á em descobrir a mensagem do Alcorão dirigida a você, e tentará recebê-la com o coração e memorizá-la. Por meio de todos os seus esforços, você deverá tornar-se capaz de ouvir a voz de Allah: o que Ele lhe diz para ser ou o que Ele lhe diz para fazer.

Níveis e tipos de compreensão

Sua compreensão do Alcorão pode ter diferentes níveis e diferentes tipos.

Primeiro: assim como, ao ler um livro em uma língua que conhece, você é capaz de compreender seu significado simples e literal, ou assim como alguém que conhece árabe é capaz de compreender o Alcorão.

Tal compreensão ou percepção pode ser o mínimo necessário. Ela será a chave para alcançar todos os outros níveis, mas não será suficiente por si só.

Segundo: descubra como os eruditos compreenderam isso, seja ouvindo suas explicações, lendo seus comentários ou consultando outras fontes.

Terceiro: estude e reflita por conta própria para descobrir o significado do Alcorão e alcançar a internalização e o tazakkur. Se tiver capacidade e interesse, também poderá alcançar o tadabbur.

Quarto: descubra o seu significado obedecendo à sua mensagem e cumprindo as responsabilidades, os deveres e a missão que o Alcorão lhe confiou.

Condições fundamentais

Para tornar seus esforços frutíferos, você deve cumprir algumas condições fundamentais.

Primeiro: você deve aprender árabe o suficiente para compreender o significado do Alcorão sem a ajuda de uma tradução. Este é o nível inicial e seu pré-requisito mais importante. Isso pode parecer uma tarefa muito difícil. Mas descobri que até pessoas com pouca instrução realizaram essa tarefa em apenas alguns meses, abraçando-a com profunda dedicação. Com a ajuda de um professor ou de um bom livro, você não deveria precisar de mais de 120 horas para aprender árabe o suficiente para compreender o Alcorão.

Contudo, não deixe de tentar estudar o Alcorão até encontrar tempo suficiente para aprender árabe. Adquira uma boa tradução e comece seus esforços. Isso é melhor do que recitar o Alcorão sem compreendê-lo.

Ler todo o Alcorão

Segundo: primeiro, leia todo o Alcorão do início ao fim, compreendendo diretamente o sentido literal. Se não souber árabe, use uma tradução.

Você deve elaborar um plano específico para concluir uma primeira leitura no prazo de pelo menos um mês. Para isso, não deveria precisar de mais de duas horas por dia. Depois, poderá estabelecer um plano de leitura lenta que seja conveniente para você. Mas deve continuar esse tipo de leitura por toda a vida, da maneira que lhe for mais conveniente, como já aprendeu nas orientações para o estudo do Alcorão.

Antes de iniciar um estudo aprofundado, é extremamente importante fazer uma leitura preliminar de todo o Alcorão. Isso o familiarizará com a mensagem abrangente do Alcorão, com seu estilo de composição, sua forma de expressão, seus argumentos e metáforas, e lhe dará alguma compreensão de seus ensinamentos e preceitos. Por meio da recitação regular, familiarize-se com o Alcorão, perceba sua coerência e unidade e comece a vê-lo como um todo. Assim, diminuirá o risco de interpretar algo fora da estrutura geral do Alcorão. Aqueles que se aproximam do Alcorão seguindo a ordem de um índice, sem uma familiaridade íntima com seu conteúdo e texto original, permanecem sob grande risco de cometer erros ou oferecer interpretações equivocadas.

Manter uma relação regular com o texto original do Alcorão é uma chave indispensável para compreendê-lo. Isso será de grande ajuda até mesmo para compreender palavras ou versículos. Por meio de uma convivência duradoura e contínua com o Alcorão, você verá que, muitas vezes, se depara com um texto original que, de repente, parece estar falando com você e respondendo às suas perguntas.

É claro que, em algum momento, você avançará pelo Alcorão de maneiras diferentes para alcançar objetivos diversos. Poderá adotar um método de leitura rápida ou terminar em um período determinado; ou poderá passar horas refletindo sobre o significado para obter o sentido de uma palavra ou de um versículo. Poderá ler um parágrafo repetidamente, às vezes rapidamente e às vezes devagar. Ou poderá apenas percorrer as páginas com os olhos para obter orientação sobre um tema específico com o qual já tenha alguma familiaridade. Poderá continuar refletindo por conta própria, o que levará menos tempo, ou poderá realizar um estudo comparativo de acordo com quatro tafsirs diferentes, no qual até mesmo uma pequena parte poderá ocupar muito do seu tempo.

Leitura de tafsir

Terceiro: depois de concluir uma vez, com compreensão e atenção, a leitura de todo o Sagrado Alcorão, continue lendo-o regularmente, tão lentamente quanto possível. Nessa situação, escolha um tafsir ou uma tradução breve, porém confiável, e leia-o do início ao fim. Há pouquíssimos tafsirs breves disponíveis em árabe, urdu e outras línguas muçulmanas. Embora atualmente sejam extremamente escassos em inglês e nas línguas europeias, qualquer material que esteja disponível pode ser utilizado proveitosamente, desde que seja lido com cuidado.

Mesmo a leitura de um tafsir resumido, em vez de ler por conta própria, pode proporcionar-lhe uma compreensão muito mais detalhada do Alcorão. O tafsir o familiarizará com muitos aspectos importantes, como a linguagem, o estilo, a argumentação, o contexto histórico e os significados detalhados, cuja descoberta não é possível apenas por meio de seu próprio pensamento. Ele também poderá corrigir alguns de seus erros.

Sempre que sentir necessidade de estudar o Alcorão em profundidade, procure limitar-se a um tafsir resumido. Pelo menos inicialmente, nunca se preocupe com um tafsir longo, detalhado e de caráter acadêmico. Frequentemente, suas extensas explicações e análises tornam-se um obstáculo à sua relação viva e direta com as palavras de Allah. Leia um tafsir parcial se não encontrar um tafsir completo. Quando ler alguma literatura sobre o Islã, faça também uma anotação especial daquilo que encontrar sobre o Alcorão durante o estudo ou na conclusão. Mesmo que esteja amplamente disperso em diferentes lugares, esse trabalho pode tornar-se uma ajuda muito necessária para compreender o Alcorão.

Lembre-se de que você pode nutrir o iman e obter as orientações necessárias sobre como viver sem explicações e análises extensas. Você precisará da ajuda de seu tafsir apenas para eliminar algumas dúvidas, investigar um tema fascinante e desfazer nós complexos.

Estudo das passagens designadas

Quarto: idealmente, você deve começar o estudo do Alcorão desde o início e prosseguir até o fim. Certamente chegará um dia em que alguém entre vocês tomará tal iniciativa.

Mas, para a maioria de nós, esse dia está muito distante ou talvez nunca chegue. Nessas circunstâncias, você deve começar seu estudo o quanto antes.

Então, escolha para esse propósito uma parte, um parágrafo, uma surata ou um versículo designado e leia-o com explicações detalhadas. Às vezes, por estar envolvido em suas próprias atividades de dawah e por causa de seu desenvolvimento pessoal, você é obrigado a estudar uma parte específica. Outras vezes, seu estudo regular também pode levá-lo a determinados parágrafos que você prefere adotar. Mas você também pode seguir um currículo científico e organizado. O importante é começar e saber como estudar, não com o que começar. No final deste livro, foi apresentada, como sugestão, uma lista de alguns parágrafos.

As passagens designadas para iniciar o estudo serão muito úteis para você de várias maneiras. Primeiro: em vez de esperar indefinidamente, você começará a avançar numa etapa importante da jornada pelo mundo do Alcorão, estabelecendo a relação vitalmente necessária do tazakkur. Segundo: você encontrará importantes referências, chaves e métodos que o ajudarão a compreender aquelas partes do Alcorão que não terá oportunidade de estudar detalhadamente tão cedo. O Alcorão expressa sua mensagem de várias maneiras. Allah revelou um Kalam excelente. Este é um Kitab cujas partes são todas harmoniosas e no qual a mesma mensagem é repetida várias vezes (Az-Zumar 39:23). Terceiro: você deverá construir uma visão completa da estrutura corânica, algo muito necessário para manter sua compreensão no caminho correto. Quarto: você estará mais bem preparado para transmitir a mensagem do Alcorão aos outros.

O estudo detalhado de determinadas passagens jamais pode substituir a leitura geral. Seus benefícios são de natureza diferente e importantes. Portanto, não abandone a recitação regular do Alcorão nem a leitura de trechos longos. Ler em detalhe e negligenciar o conjunto pode lançar você na confusão.

Ler repetidamente

Quinto:Qualquer que seja a passagem que você tenha escolhido para estudar, deverá lê-la repetidamente. Aceite isso como uma regra geral e siga-a sempre. Permaneça com ela, viva de acordo com ela tanto quanto possível, reflita profundamente sobre ela e permita que ela seja profundamente considerada pelo seu coração e pela sua mente. Esse tipo de convivência prolongada é um apoio indispensável para compreender o Alcorão. Quanto mais profundamente as palavras do Alcorão se gravarem em seu coração e quanto mais forem repetidamente pronunciadas por seus lábios, mais fácil será para você concentrar-se e meditar sobre o Alcorão. Então, não somente durante a recitação ou o estudo, mas em cada aspecto da sua vida cotidiana, o Alcorão revelará seu significado a você sempre que algum versículo ou palavra surgir em sua mente.

Uma mente indagadora

Sexto:Desenvolva uma mente curiosa, uma alma indagadora e um coração ávido por significado. Você sabe que o Alcorão jamais exige uma fé cega, nem deseja que você o leia de olhos e ouvidos fechados, como se estivessem trancados. O convite à reflexão é um de seus temas mais importantes e abrangentes.

Fazer perguntas e recordar são as chaves do conhecimento e da compreensão. Portanto, levante tantas perguntas quantas considerar necessárias. Por exemplo: qual é o significado literal desta palavra ou deste versículo? Que outro significado poderia ter? Qual é o contexto histórico e em que circunstância foi revelado? Qual é o texto original de cada palavra, expressão idiomática e frase? Como isso se conecta à frase seguinte? Como se pode perceber a ordem interna e a unidade temática? O que foi dito? Por que foi dito? Qual é o significado geral e qual é o específico? Quais são os temas principais? Qual é a ideia central? Que mensagem há agora para mim/nós? Durante o estudo, anote suas perguntas e tente encontrar suas respostas.

Não tenha medo de levantar perguntas. Talvez você não encontre imediatamente as respostas, ou talvez não as encontre por si mesmo nem com a ajuda adequada de alguém. Isso não importa. Qualquer resposta que você obtenha será proveitosa para você. Nada lhe causará prejuízo, se você observar algumas regras. Primeiro: não faça perguntas que estejam além do alcance humano, que pertençam às mutashabihat (Al Imran 3:7). Por exemplo: como é o Trono? Segundo: não dê espaço a minúcias excessivas. Não faça perguntas sobre assuntos que não sejam pertinentes ao caminho da sua vida. Terceiro: não tente oferecer respostas que não se baseiem no conhecimento necessário e adequado ou em um raciocínio sólido. Quarto: há muitas perguntas cujas respostas você não encontrará e que não compreenderá, apesar de seus melhores esforços. Por algum tempo, deixe essas perguntas de lado e concentre-se em outros assuntos do Alcorão. Em algum momento, você encontrará um bom professor ou um livro que o ajudará nisso. Ou poderá encontrar a resposta por si mesmo. O Alcorão contém inúmeras provas de como seus primeiros crentes faziam perguntas, bem como alguns acontecimentos igualmente significativos e instrutivos nos quais o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e seus Companheiros (que Deus esteja satisfeito com eles) incentivaram a investigação, a curiosidade, as perguntas e a reflexão.

Auxílios para o estudo

Sete: Há alguns recursos auxiliares de que você precisará para o seu estudo.

Procure dominá-los tanto quanto lhe for possível.

(1) Adquira uma tradução do Alcorão em sua própria língua. Esta é a sua necessidade mínima. Você deverá utilizá-la tanto na leitura geral quanto no estudo. Pode usar o mesmo exemplar para memorizar, se for conveniente levá-lo consigo. Mas tenha o cuidado de usar o mesmo exemplar durante toda a vida para a memorização; caso contrário, a releitura se tornará difícil.

Lembre-se de que nenhuma tradução é perfeita ou impecável. Toda tradução contém partes da interpretação pessoal do tradutor. Não existe, nem pode existir, uma tradução do Alcorão aceita como oficial.

(2) O mesmo exemplar pode conter uma explicação resumida, ou você pode adquirir uma separadamente. Mas você deve ter uma. Uma tradução e uma obra confiável de tafsir devem ser suficientes para o seu objetivo principal inicial.

(3) Embora não seja indispensável possuí-las, várias traduções e obras de tafsir lhe serão úteis para saber que diferentes significados os estudiosos atribuíram às palavras e ao conteúdo principal.

(4) Para um estudo mais avançado, você deverá ter pelo menos uma obra detalhada de tafsir.

(5) Você deverá ter um bom dicionário de árabe; melhor ainda se for um dicionário do Alcorão, para poder penetrar profundamente nos significados das palavras.

(6) Deve-se obter um índice alfabético de vocábulos ou temas.

Uma lista de auxiliares desse tipo para o estudo foi incluída no final deste livro.

Como estudar

A seguir, é apresentado um processo gradual para estudar detalhadamente a passagem indicada. Naturalmente, não há nenhuma regra específica para isso. Você pode, essencialmente, utilizar este processo para desenvolver um método próprio, adequado às suas capacidades e limitações. O importante é que você avance de maneira extremamente científica e tente seguir a sequência apresentada abaixo.

Primeiro, leia toda a passagem à sua maneira. Em seguida, consulte a pessoa que o auxilia em seus estudos ou aprenda tanto quanto possível o significado dela com um professor qualificado. Por fim, tente, tanto quanto possível, alcançar uma compreensão completa, integrando o que aprendeu de ambas as fontes.

Primeiro nível: informe-se e identifique os problemas.

Etapa 1: apreenda rapidamente os requisitos básicos e o que consegue recordar por meio de uma participação sincera. Compreenda que Allah está com você e peça ajuda a Allah para entender o que vai ler.

Etapa 2: leia a passagem pelo menos três vezes e reflita sobre seu significado. Ou leia-a quantas vezes forem necessárias, até conseguir recordar seu tema principal sem consultar o texto. Então você poderá assimilá-la e refletir sobre ela sempre que quiser.

A regra é: deixe as palavras e os significados fluírem antes de começar a consultar a explicação.

Passo 3: Anote os principais temas que conseguir apreender sem consultar o texto original. Depois, compare-os com o texto original e repita-os.

Passo 4: Se conseguir identificar ao menos um, anote o tema central.

Passo 5: Divida-o em parágrafos curtos que, na sua opinião, contenham uma ou mais afirmações.

Passo 6: Sublinhe as palavras e expressões que, na sua opinião, são fundamentais para compreender o significado.

Passo 7: Faça perguntas da maneira como mencionamos acima.

Segundo nível: reflita sobre o que você leu. Tente responder sozinho às perguntas; procure compreender qual é o significado e qual é a mensagem.

Passo 8: Descubra o significado das palavras importantes.

Passo 9: Especifique o significado de cada expressão idiomática ou afirmação.

Passo 10: Reflita sobre como estão relacionados entre si, como um segue ou precede o outro, e que unidade ou coerência existe entre eles.

Passo 11: Extraia e tente compreender o significado a partir do tema direto do parágrafo, do tema mais amplo da surata e do tema geral do Alcorão.

Passo 12: Especifique quais são as suas várias afirmações e ensinamentos.

Passo 13: Pergunte: qual é a sua mensagem para mim e para a nossa época?

Passo 14: Reflita sobre como você, a Ummah e a humanidade podem responder a isso.

Terceiro nível: Com a ajuda de qualquer guia de estudo ou professor que você tenha, empenhe-se em compreender o significado por meio dos passos 8–14 do segundo nível. Reestude, corrija, acrescente e atualize a sua própria compreensão; reconheça-a como correta ou rejeite-a.

Quarto nível: Registre a compreensão que obteve dessa forma ou guarde-a no coração e na mente.

Registre as perguntas que permanecem. Não considere nenhum entendimento completo e definitivo. Quanto mais continuar estudando, mais significados obterá e mais perceberá a importância e a necessidade de revisar o estudo.

Como compreender o significado

Para discutir em pleno detalhe os princípios e as diretrizes que precisam ser seguidos para compreender o Alcorão, seria necessário escrever uma grande obra.

Aqui podemos oferecer orientações sobre alguns assuntos muito importantes que devem ser sempre lembrados ao tentar compreender o Alcorão.

6: Princípios gerais

 

Compreendê-lo como uma realidade viva

Um: Tente compreender cada palavra do Alcorão como se tivesse sido revelada hoje. Assim como este Livro era relevante e vivo quando foi enviado pela primeira vez, há 1.400 anos, deve ser acolhido da mesma forma na era moderna de hoje. Isso porque é eterno, e sua mensagem ainda não transmite nenhum sentido diferente. Não considere, em hipótese alguma, qualquer afirmação do Alcorão como algo pertencente ao passado. Só então poderá compreender a mensagem do Alcorão como eterna, como a palavra de Allah, o Eterno — que está sempre desperto em toda a criação.

Isso é essencial para que sua alma se concentre no estudo do Alcorão; seu coração e sua inteligência devem sempre buscar orientação por meio dessa diretriz. Isso tem grande importância. Ela o ajudará a compreender o significado do que está no Alcorão, para que, à sua luz, você possa compreender o seu mundo.

À luz disso, aplique-o então às questões relacionadas à sua própria vida. Os temas do pensamento contemporâneo, as diversas questões, as experiências, os níveis de conhecimento e a tecnologia do seu tempo encontrarão suas respostas no Alcorão.

Compreenda-o como uma mensagem dirigida a você

Dois: Tome cada mensagem do Alcorão com ainda maior seriedade, como se ela fosse dirigida a você e à sua comunidade. Uma vez que tenha alcançado algum progresso, deve tentar compreender o que cada versículo do Alcorão ensina pessoalmente a você. Você já viu anteriormente como isso deve ser feito para alcançar uma compreensão desde o mais profundo do seu coração. Agora deve sentir como isso abre seu coração para compreender o Alcorão. Certa vez, um homem foi ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) para aprender o Alcorão. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) ensinou-lhe a surata Al-Zalzalah. Quando chegou a este versículo: “E quem fizer o peso de um átomo de bem o verá, e quem fizer o peso de um átomo de mal o verá”, ele disse: “Isso me basta.” E foi embora. O Profeta (que a paz esteja com ele) comentou: “Este homem voltou como um faqih.” (Abu Dawud)

Na verdade, creio que não há sequer um trecho no Sagrado Alcorão que não traga pessoalmente uma mensagem para você ou que não contenha uma lição para você. Mas é preciso ter a percepção para compreender isso. Cada palavra de Allah, o Altíssimo, convida-o a estabelecer uma relação profunda com Ele. Cada descrição da Vida Futura diz-lhe que se prepare para ela, ou o inspira a buscar sua recompensa, ou lhe pede que peça perdão por seus males. Cada diálogo envolve você. Cada personagem apresenta um exemplo. Você deve segui-lo ou negá-lo e rejeitá-lo. Cada norma jurídica, mesmo que aparentemente não se aplique a você na situação atual, ainda assim contém uma mensagem para você. Uma afirmação muito geral pode sempre ter um significado especial para você, enquanto uma afirmação muito específica pode, devido aos acontecimentos e às circunstâncias, expressar sempre um significado geral em sua vida.

Compreenda-o como parte do Alcorão inteiro

Três: O Alcorão inteiro constitui, em si mesmo, uma unidade. É uma única revelação. Embora essa mensagem tenha sido transmitida de diferentes maneiras e por diversos meios, a própria mensagem é uma só. Ela possui uma visão de mundo e uma estrutura abrangente de orientação. Todas as suas partes são plenamente compatíveis umas com as outras. Isso é um sinal de que ele é um sistema revelado por Allah.

“Não refletem profundamente sobre o Alcorão? Se ele viesse de alguém que não fosse Allah, encontrariam nele muitas discrepâncias.” (An-Nisa 4:82)

Você deve tentar assimilar plenamente essa única mensagem e essa estrutura. Então poderá compreender cada coisa como parte da mensagem do Alcorão, o Livro único, seja ela uma única palavra, um versículo, um trecho ou uma surata. Nunca separe nada da estrutura corânica. Caso contrário, poderá encontrar um significado distorcido. Qualquer que seja o significado que obtenha, verifique-o à luz do tema geral. Ao ler um determinado trecho, você deve explicá-lo, analisá-lo profundamente e tentar compreender cada frase e cada palavra separadamente. Mas não deve esquecer de dar a tudo uma forma unificada. E esse quadro integrado deve ser avaliado à luz da mensagem geral do Alcorão. Caso contrário, a interpretação que você estabelecer poderá levá-lo na direção oposta. Além disso, em vez de ser guiado pelo Alcorão, tal interpretação poderá mergulhá-lo no erro de usar versículos específicos em favor da sua própria visão.

Se você quiser aplicar o Alcorão à solução dos problemas de sua época, terá de incluir todo o Alcorão no âmbito de seu estudo. Caso contrário, cometerá o grave erro de simplesmente tentar tornar o Alcorão compatível com as correntes de pensamento contemporâneas, em vez de avaliá-las criticamente à luz do Alcorão.

À luz da discussão acima, não se pode recomendar que se avance no estudo do Alcorão por meio de um índice. Naturalmente, não estude nenhum tema reunindo um índice de versículos sem estudar repetidamente o Alcorão e compreendê-lo plenamente. Use-o somente quando, com base em seu próprio estudo, sentir necessidade de consultar uma referência.

Compreenda-o como um tema único e coerente

Quatro: Embora exteriormente possa parecer desordenado, o Alcorão possui, em sua essência, uma coerência e uma organização da mais alta qualidade. Uma parte está relacionada com outra; um versículo, com outro versículo; e uma sura, com outra sura. Por trás das aparentes variações do conteúdo existe um elo de unidade. Foi por isso que o Profeta ordenou aos escribas das revelações onde cada revelação deveria ser colocada. Você deve descobrir essa coerência interna, embora talvez não consiga fazê-lo na primeira leitura ou possa precisar de muito tempo para isso. Somente então será capaz de compreender plenamente o significado de cada parte.

Tente compreender com todo o seu ser

Cinco: Tente compreender o Alcorão entregando todo o seu ser ao estudo. O coração e o íntimo, os sentimentos e a sabedoria, tudo está imerso em sua individualidade. O Alcorão não é um invólucro que possa ser envolvido pelo intelecto. Tampouco é apenas uma mensagem de conselho celestial que se possa desfrutar em êxtase. Não é correto querer compreender o Alcorão de maneiras diferentes; ao estudá-lo, você não deve deixar para trás nem a inteligência nem os sentimentos: ambos devem ser integrados ao mesmo tempo.

Tente compreender o que o Alcorão está dizendo

Seis: Compreenda não o que você diz, mas o que o Alcorão diz. Nunca recorra ao Alcorão para obter apoio para sua opinião, confirmação de sua perspectiva ou prova de sua reivindicação. Você deve aproximar-se do Alcorão com a mente aberta. Deve estar preparado para ouvir a palavra de Allah e submeter-se a ela.

Mantenha-se dentro do consenso

Sétimo: Vocês não são os primeiros a estudar e compreender o Alcorão. Antes de vocês, houve uma sucessão de grupos humanos que realizaram esse trabalho e deixaram para trás uma rica tradição. Vocês não podem ignorá-los. Portanto, não devem avançar pelo caminho do Alcorão como se ninguém antes de vocês tivesse feito algo semelhante. Nenhum significado é válido, correto ou aceitável se for contrário às palavras de Muhammad (que a paz esteja com ele) ou ao consenso da comunidade muçulmana. Nesse caso, qualquer conclusão inteiramente diferente e nova em relação à rica tradição que possuímos ao longo dos séculos deve fundamentar-se em uma erudição muito profunda.

Compreenda unicamente pelo critério corânico

Oitavo: O Alcorão não é como qualquer outro livro. Em todos os aspectos, este livro é único: o Alcorão possui sua própria linguagem, seu próprio vocabulário, seu próprio estilo, seus próprios recursos retóricos, sua própria filosofia e sua própria lógica. Além disso, possui um apelo e um propósito extraordinários. É inútil tentar compreendê-lo segundo critérios humanos externos ao Alcorão.

Seu único propósito é conduzir a humanidade, cada ser humano, ao seu Criador, provocar uma transformação revolucionária na vida humana e estabelecer uma relação completamente nova com Allah. Tudo se destina a alcançar esse objetivo, e tudo é determinado tendo esse objetivo em vista. Isso possui várias implicações importantes.

Primeiramente: Embora não haja fim para a profundidade do oceano de seus significados, eles são, contudo, fáceis e compreensíveis para um buscador comum da verdade na condução da vida. Se alguém tiver uma atitude sincera e desejar avançar pelo caminho da verdade, poderá compreender facilmente os significados suficientes para a orientação.

Em segundo lugar: A linguagem do Alcorão é tal que as pessoas comuns conseguem compreendê-la. No Alcorão são usadas as mesmas palavras que as pessoas comuns utilizam nas conversas da vida cotidiana. O Alcorão não emprega termos novos e incompreensíveis, nem utiliza a linguagem técnica e acadêmica da filosofia, da ciência ou da lógica. Contudo, expressa significados inteiramente novos por meio de palavras antigas e usadas diariamente.

Em terceiro lugar: O Alcorão não é um livro de história, nem um livro de ciência. Tampouco é um livro de filosofia ou de lógica, embora utilize todas essas áreas. Ele o faz unicamente para orientar a humanidade. Portanto, o Alcorão não busca validar o conhecimento humano contemporâneo, nem esse conhecimento é indispensável para compreendê-lo. Ainda assim, ele pode ajudar a ampliar a capacidade de percepção.

Compreenda o Alcorão por meio do próprio Alcorão

Nove: A melhor exegese do Alcorão é o próprio Alcorão. À primeira vista, parece que muitas palavras e afirmações foram repetidas. Mas, na realidade, não se trata de uma repetição sem propósito. Por meio da repetição de uma determinada palavra ou afirmação, um novo aspecto de seu significado é apresentado, e um novo aspecto é apresentado em seu significado, oferecendo uma nova luz sobre seu significado. Você deve tentar compreender esse significado.

Portanto, para compreender uma palavra, um versículo ou um parágrafo, volte sua atenção para o próprio Alcorão. Por exemplo, você pode compreender melhor palavras importantes como Rabb, ilah, din, adoração, kufr, iman e dhikr estudando como elas são usadas em diferentes passagens do Alcorão.

Compreenda por meio dos hadiths e da Sira

Dez: Uma das principais responsabilidades do Mensageiro (que a paz esteja com ele) era explicar e interpretar o Alcorão. Ele cumpriu essa responsabilidade estabelecendo exemplos por meio de suas palavras e ações. Portanto, todo o conjunto dos hadiths e a Sira constituem uma fonte valiosa para compreender o Alcorão. Não apenas os hadiths que contêm exegese, mas todos os hadiths são úteis para isso. Por exemplo, os hadiths sobre iman, jihad e tawbah serão de grande ajuda para você na compreensão do Alcorão quando se deparar com temas semelhantes.

Língua

Décimo primeiro: A língua é a primeira chave do Alcorão. Por meio da língua, o Alcorão se torna claro, vivo e compreensível. Você deve estar consciente de algumas características da língua árabe utilizadas no Alcorão.

Primeiramente: O estilo do Alcorão não é como o de um texto escrito, mas assemelha-se ao de um discurso. Em um discurso, certas coisas da língua árabe podem permanecer não expressas, o que não dificulta sua compreensão pelos ouvintes presentes. Isso aumenta sua eficácia e força. Pois os ouvintes mantêm uma comunicação contínua com o orador, suas palavras e o ambiente em que se encontram. Um discurso excessivamente detalhado torna-se enfadonho.

No Alcorão, observam-se mudanças repentinas de tempo verbal. Elas aumentam o significado vivo do texto original. Você deve estar atento a essas mudanças e determinar a quem se dirige cada fala. Muitas vezes há interrupções repentinas; você deve identificá-las.

Segundo: não apenas isso: a língua árabe é muito concisa e expressiva. Frequentemente, ela não utiliza as palavras e expressões relacionadas que seriam esperadas. Assim, há ambiguidades, omissões, acréscimos, supressões, ocultações, uso de palavras alternativas e outras características. Você deve estar sempre atento a isso. Só poderá aprender essas coisas por meio do tafsir e de um professor.

Terceiro: o significado direto das palavras ou do texto original não é suficiente para compreender o Alcorão. Você precisa adquirir alguma compreensão e sensibilidade a partir da visão geral do tema, do estilo discursivo do Alcorão e de seus recursos literários. Ter conhecimento da língua árabe tal como era na época da revelação do Alcorão seria de grande ajuda, embora, no início, isso esteja além do alcance do estudante.

Orientações metodológicas

Com base na estrutura e nos princípios gerais da discussão acima, algumas orientações metodológicas podem ser muito úteis para você.

Estudo das palavras

Primeiro: tente descobrir o significado das palavras que tornam muito difícil compreender o texto original. Seu guia inicial será uma tradução e um breve livro de tafsir. Consulte dicionários, mas não considere o significado do dicionário como definitivo. Seu melhor e último guia é o texto original imediato da palavra, isto é, todo o Alcorão e sua visão de mundo.

O conteúdo do texto original

Dois: Se você compreende as palavras e o significado direto, situe o parágrafo no contexto do texto original e tente compreender qual é o significado. Leia o texto original anterior e posterior e, se necessário, leia toda a surata.

Contexto histórico

Três: Reúna o máximo possível de informações históricas relevantes e necessárias. Mas certifique-se de sua credibilidade.

Nesse contexto, você encontrará hadiths que descrevem as causas da revelação. Esses hadiths fornecerão informações importantes. Mas você deve lembrar-se de duas coisas.

Primeiro: essas narrativas podem nem sempre relatar exatamente os acontecimentos históricos ocorridos no momento da revelação. Pelo contrário, a situação foi considerada relevante e real.

Segundo: a evidência do texto original sobre a revelação é mais importante. Ao utilizar informações históricas, isso não deve ser tomado como algo definitivo.

Terceiro: as informações históricas não devem constituir um obstáculo à compreensão do Alcorão ao se compreender sua mensagem principal.

Significado original

Quatro: Depois de assimilar o significado literal direto, tente, tanto quanto possível, compreendê-lo da maneira como os primeiros ouvintes do Alcorão o compreenderam. Talvez seja fácil entender o significado literal. Mas, 1.400 anos depois, extrair o significado original em um contexto de civilização e sociedade diferentes é uma tarefa difícil e complexa. Este não é o lugar para discutir as dificuldades. Isso foi mencionado apenas como precaução.

Tradução no contexto atual

Cinco: Sua próxima tarefa é tentar ler e compreender no contexto de sua própria situação. Isso também é uma tarefa tão importante quanto determinar o significado original. Especialmente, não caia na armadilha de ler o Alcorão de acordo com suas próprias concepções. Tampouco é possível discutir aqui os complexos problemas de interpretação relacionados a isso. Mas essa é uma tarefa que você não pode ignorar nem evitar. Se permanecer atento e observar uma questão fundamental básica, aproxime-se do Alcorão com a mente aberta e evite julgar que aquilo que você pensa é o correto. Pois essa é uma armadilha que você deve evitar. Em vez de se concentrar em questões jurídicas e morais complexas, você deve concentrar sua atenção na mensagem essencial para sua vida. Pode ser possível, e às vezes necessário, apresentar a perspectiva do Alcorão sobre a terminologia, as interpretações e as situações de nossa época contemporânea. Mas é preciso estar extremamente alerta e consciente para que, em circunstância alguma, o significado original e a terminologia se percam.

Significado irrelevante

Seis: Não se dedique a descobrir significados ocultos, remotos, forçados e metafóricos que as pessoas comuns não compreendem. Não há necessidade de refletir sobre um significado que não esteja relacionado à sua vida nem ao modo de vida dos crentes da primeira época do Alcorão.

Níveis de conhecimento e sabedoria

Sete: Tente compreender o significado no nível do conhecimento e da sabedoria que você possui. De qualquer modo, não perca de vista o nível de conhecimento dos primeiros ouvintes, para não se desviar. Não comece a ler no Alcorão aquilo que pertence ao seu próprio conhecimento.

Conhecimento humano atual

Oito:Não há dúvida de que cada pessoa deve empregar seu próprio conhecimento para compreender o Alcorão. Naturalmente, seu conhecimento deve ser aprovado pelos critérios do Alcorão. Para obter orientação sobre as diversas questões levantadas, são necessários critérios modernos. Empregue todo o seu conhecimento e intelecto para ajudá-lo a compreender o Alcorão. Mas nunca apresente o Alcorão como apoio ao conhecimento contemporâneo. Não faça o Alcorão prever todas as descobertas da ciência da época atual. Seja especialmente cauteloso com as teorias científicas, que são mutáveis como grãos de areia. Seria igualmente errado procurar no Alcorão as teorias de Einstein, Copérnico, Nietzsche ou Bergson, assim como foi errado procurar nele as de Ptolomeu, Aristóteles e Platão.

O que você não consegue compreender

Nove:No Alcorão há muitas palavras e frases cujo significado você não conseguirá compreender, apesar de todos os seus esforços. Isso acontecerá porque você não possui conhecimento suficiente ou porque o assunto é muito difícil. Em tal situação, faça uma anotação sobre a dificuldade e concentre-se no estudo seguinte. Não desperdice tempo tentando resolver uma questão que, em determinado momento, provará que você está além de sua capacidade.

A vida do Mensageiro (que a paz esteja com ele)

Para compreender e assimilar o Alcorão, aproxime-se tanto quanto puder do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), que foi o primeiro a receber o Alcorão de Allah. Sua vida é o reflexo exato do significado e da mensagem do Alcorão, o símbolo da orientação segura e a melhor explicação. A vida do Mensageiro (que a paz esteja com ele) é um Alcorão vivo. Se você quiser ver o Alcorão, observe a vida de Muhammad, em vez de apenas lê-lo. Pois Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Sua vida não era nada além do Alcorão.” A vida e o caráter do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) serão muito mais úteis para você na compreensão do Alcorão do que os famosos tafsirs de Ibn Kathir, Ibn Jarir, Kashshaf e Razi. Para se aproximar do Profeta (que a paz esteja com ele), primeiro você deve estudar sua vida e seu caráter tanto quanto puder. Embora não se encontrem muitos detalhes sobre sua biografia, no Alcorão você encontrará a melhor descrição de sua vida e caráter. Em segundo lugar, esforce-se para seguir sua Sunnah. Por meio disso, você realmente conseguirá compreendê-lo. Assim, poderá compreender o Alcorão, e você amará Allah, e Allah também o amará. (Al Imran, 3:31)

7: Estudo coletivo

 

Importância e necessidade

Para percorrer o vasto acervo de conhecimento do Alcorão, você deve juntar-se ou vincular-se a uma comunidade de pesquisa e estudo. Sem dúvida, você estudará o Alcorão individualmente. Mas, se participar como colega de estudo com outros crentes e pesquisadores do Alcorão, você se beneficiará muitas vezes mais. A companhia dos outros alegrará muito mais o seu coração, e muitas mentes reunidas poderão compreender o significado de maneira melhor e mais correta. A responsabilidade e a missão religiosa que o Alcorão nos atribuiu, bem como o modo como nossa vida deve ser, só podem ser alcançados em conjunto com os outros. Somente ao cumprir essa missão e por meio das ações você poderá tornar-se digno de receber todas as bênçãos possíveis do Alcorão.

Significativamente, o discurso do Alcorão é quase sempre coletivo. A partir do momento em que Muhammad (que a paz esteja com ele) começou a receber a revelação do Alcorão, tomou medidas para formar uma sociedade ou comunidade centrada no Alcorão e dedicou a isso cada momento de sua vida. Imediatamente após o chamado “Lê”, vieram as instruções: “Levanta-te”, “Desperta”, “Adverte”. Logo depois da ordem de continuar lendo o que foi revelado no Livro de teu Senhor, veio a instrução—

“Ó Profeta, proclama o que te foi revelado do Livro de teu Senhor. Ninguém tem o direito de alterar Suas palavras. E não encontrarás nenhum refúgio para escapar d’Ele. Mantém teu coração firme na companhia daqueles que invocam seu Senhor pela manhã e à tarde, buscando Sua satisfação.” (Al-Kahf, 18:27-28)

No Alcorão, esses ensinamentos estão relacionados de maneira extremamente clara e firme à necessidade da formação corânica e de uma sociedade organizada e forte, fundamentada nela.

Além disso, nenhuma oração pode ser completa sem a recitação do Alcorão, nem pode ser completa sem a congregação, salvo quando houver uma razão válida. Se não houvesse necessidade de ouvir o Alcorão, compreendê-lo e refletir profundamente sobre ele, qual seria então o propósito de recitá-lo na oração? Assim, o propósito da recitação do Alcorão na oração pode ser alcançado por meio de um esforço coletivo cinco vezes ao dia. A responsabilidade de transmitir a mensagem ou ensinamento do Alcorão a toda a humanidade também está inseparavelmente ligada à sua recitação e à sua interpretação adequada. Quando o termo tilāwah é usado com a preposição árabe “alā”, significa “comunicar”, “proclamar”, “levar à fé” e “ensinar”. Assim, a recitação é uma das tarefas fundamentais da profecia e, consequentemente, também dos seguidores dos profetas.

“Ó Allah! Envia-lhes um Mensageiro, escolhido dentre o seu próprio povo, que lhes recite os Teus versículos, lhes ensine o Livro e a Sabedoria e purifique e aperfeiçoe sua vida prática. Certamente, Tu és Poderoso e Sábio.” (Al-Baqarah, 2:129)

“Assim como enviamos entre vós um Mensageiro, escolhido dentre vós mesmos, que vos recita os Meus versículos, purifica e aperfeiçoa vossa vida, vos ensina o Livro e a Sabedoria e vos informa sobre aquilo que desconheceis.” (Al-Baqarah, 2:151)

Na Surata Al-Jumu‘ah, o fracasso em compreender a orientação de Allah e conduzir a vida de acordo com ela é enfatizado à luz do fracasso em participar da oração de sexta-feira, durante a qual todas as atividades mundanas são proibidas.

O versículo seguinte chama a atenção para a recitação do Alcorão diante da família e dos membros do lar.

«Lembrai-vos dos versículos de Allah e das palavras repletas de sabedoria que são recitadas em vossas casas; certamente, Allah é Sutil e Onisciente.» (Al-Ahzab 33:34)

Aqueles que se reúnem para recitar e estudar o Alcorão são abençoados, pois os anjos descem sobre eles trazendo a infinita misericórdia do Altíssimo Allah. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

Quando as pessoas se reúnem em uma das casas de Allah para estudar o Alcorão e ensiná-lo umas às outras, a paz desce sobre elas, elas são acolhidas sob a sombra do perdão e da misericórdia de Allah, os anjos as cobrem com suas asas, e Allah informa a todos os que estão ao Seu redor a respeito delas. (Muslim)

Portanto, você não deve contentar-se apenas em ler e estudar o Alcorão sozinho. Pelo contrário, procure aqueles que são interessados e desejosos de conhecer o Alcorão e convide-os, para que todos possam estudá-lo juntos.

O estudo coletivo pode ser de dois tipos

Primeiro: aquele em que um pequeno grupo se apresenta preparado para o estudo, cada um participa ativamente do processo de formação corânica, alguém entre eles possui mais conhecimento e conduz o estudo. Podemos chamar esse tipo de estudo de círculo de estudo.

Segundo: aquele em que um grupo grande ou pequeno se reúne e escuta atentamente a exposição de um mufassir erudito. Os participantes apenas fazem perguntas. Podemos chamar esse tipo de estudo de dars, palestra ou discussão.

Você deve saber como conduzir um círculo de estudo e como apresentar um dars. Aqui podemos oferecer algumas orientações gerais. É necessário mencionar, contudo, que não pode haver um padrão específico nem um procedimento permanente para isso. Cada pessoa deve aperfeiçoar seu próprio método, e isso dependerá da situação, do tempo e do ambiente de cada uma. As orientações apresentadas abaixo são apenas sugestões. Essas sugestões devem ser aplicadas de acordo com suas necessidades e capacidades.

Quatro princípios fundamentais

Há quatro princípios para o sucesso de qualquer estudo coletivo.

Um: para cumprir sua responsabilidade, você deve sempre fazer toda a preparação necessária. Esse trabalho não pode ser encarado levianamente. A preparação deve continuar até o último momento. Não se pode considerar suficiente fazer uma leitura muito rápida. Nunca fale sobre o Alcorão sem refletir profundamente. É sempre melhor preparar anotações sobre o que você estudou e sobre o que deseja dizer.

Dois: seja você um estudante ou alguém que tenha adquirido algum conhecimento, quer apresente uma aula, quer participe de uma discussão em grupo, em qualquer situação deve ter um plano de estudo individual segundo o processo discutido para a passagem determinada.

Três: mantenha sempre sua intenção pura e correta. É indispensável que sua intenção seja clara quanto a compreender o Alcorão, conduzir a vida de acordo com ele e obter a satisfação de Allah.

Quatro: não estude o Alcorão simplesmente para obter prazer, satisfazer a curiosidade intelectual ou para argumentar e debater. Seu estudo do Alcorão deve necessariamente incentivá-lo a seguir o Alcorão, e você deve ter em mente cumprir plenamente a missão que o Alcorão lhe confiou.

Círculo de estudo

As regras a seguir podem ser úteis para tornar eficaz o estudo em grupo.

Participante

Um: o número de participantes pode variar de 3 a 10. Eles devem ter um nível de conhecimento e capacidade intelectual igual ou próximo. Se forem poucos, isso pode transformar-se em um diálogo entre duas pessoas. Por outro lado, se forem muitos, pode ser difícil garantir a participação ativa de todos.

Dois: deve-se sempre enfatizar a mensagem principal, o conteúdo e a orientação e os ensinamentos que devem ser extraídos. Nunca se deve deixar levar por um conteúdo impressionante que não tenha nenhuma utilidade na vida prática.

Três: todos os membros devem estar plenamente conscientes de seus objetivos, limitações e procedimentos.

Quatro: os membros do círculo devem demonstrar dedicação e concentração no estudo e na sua aplicação. Para isso, serão necessários profunda atenção e trabalho árduo. Em especial, é importante preparar-se regularmente e estar presente.

Cinco: eles precisam saber como avançar pelo caminho do Alcorão e encontrar seu caminho dentro do Alcorão. A leitura deste livro pode ser útil para eles em certa medida.

Seis: eles não devem falar como se fossem recém-chegados. Pelo contrário, devem falar como irmãos crentes comprometidos a compreender o Alcorão e a segui-lo.

Como conduzir

Um: primeiro, um dos membros apresentará um resultado de seu estudo, isto é, o que compreendeu após ler a parte determinada.

Dois: os outros participarão então da discussão. Eles poderão oferecer explicações mais detalhadas, fazer correções e acréscimos, levantar questões ou dar respostas.

Três: se todos os membros tiverem de estudar, será conveniente determinar antecipadamente quem apresentará primeiro a discussão. Isso melhorará a qualidade da apresentação. Ou você poderá convidar qualquer pessoa a conduzir a discussão ou fazer a apresentação. Se esse processo for adotado, todos permanecerão atentos e trabalharão arduamente.

Quatro: será muito proveitoso se houver pelo menos um membro com mais conhecimento, que tenha capacidade e competência para aplicar as fontes primárias. Se houver alguma deficiência na discussão do apresentador principal, ele poderá suprimi-la. Também poderá contribuir para determinar o curso e o ritmo da discussão.

Cinco: se houver alguém experiente no Alcorão, não será adequado que intervenha na discussão desde o início. Pelo contrário, deve-se permitir que os participantes digam o que desejam expressar na discussão; depois de concluírem suas falas, se ficar evidente que há erros em sua discussão, deve-se chamar sua atenção para isso ou corrigi-los de maneira muito educada e gentil, ou acrescentar à discussão deles a própria experiência. Seu método de discussão não deve ser argumentativo, mas baseado em aconselhamento e perguntas.

Seis: ao final do círculo de estudo, será melhor que um dos membros, o diretor ou o professor faça uma breve conclusão sobre o amplo conteúdo da discussão. Deve-se mencionar qual é o conteúdo principal e quais são as reivindicações da discussão em questão.

Dars

Um dars pode tornar-se eficaz se as instruções a seguir forem observadas.

Preparação

Um: É preciso ter uma ideia clara sobre os ouvintes. É preciso conhecer o nível de conhecimento, a inteligência, a condição da fé, as preocupações e os pensamentos, as necessidades e as demandas dos ouvintes.

Dois: Em vez de considerar aquilo que você está interessado em dizer, determine o trecho destinado à lição tendo em vista e levando em consideração a condição dos ouvintes.

Três: O estilo, a linguagem e a maneira de expressão de sua apresentação devem ser adequados à natureza dos ouvintes.

Quatro: Faça du’a e ore a Allah para que você possa apresentar aos ouvintes a verdadeira mensagem do Alcorão.

Cinco: Leia o trecho e escreva suas anotações. O que você quer dizer? Como e em que ordem quer dizer? Como quer começar e terminar?

Seis: É preciso respeitar devidamente o tempo de que você dispõe. De modo algum ultrapasse o tempo. Talvez você tenha muitos pontos muito bons ou coisas a dizer, e talvez tenha vontade de dizer tudo isso, mas lembre-se: seus ouvintes têm capacidade muito limitada, e sua capacidade de retenção também é limitada. Eles podem elogiar sua erudição, mas não conseguirão aprender muita coisa com você.

Um trecho muito longo pode ser apresentado resumidamente, enquanto um trecho muito curto pode ser discutido durante bastante tempo. Tudo isso depende de uma coisa: qual mensagem você deseja transmitir no contexto de seu estudo.

Sete: deve-se prestar plena atenção ao fato de que a sua mensagem precisa ser extremamente clara. É essencial que fique claro na discussão o que você deseja apresentar para obter a reação dos ouvintes e levá-los a seguir essa orientação. Isso deve estar de acordo com a ideia principal do parágrafo, e não com a sua vontade pessoal.

Como apresentar

Um: você terá apenas dois objetivos:

Primeiro: alcançar a aprovação e a satisfação de Allah, cumprindo o seu dever de transmitir a outros a palavra de Allah. Segundo: apresentar de forma clara e eficaz a palavra do Alcorão de Allah.

Dois: lembre-se de que fazer com que a sua mensagem chegue eficazmente aos ouvintes e influencie seus corações e suas mentes depende inteiramente de Allah. Mas isso não significa que você esteja livre da responsabilidade de preparar respostas possíveis, apresentar a mensagem de forma eficaz, tornar a palavra do Alcorão viva e dinâmica para eles, relacioná-la às suas preocupações e assim por diante.

A sua apresentação pode não ser a de um grande orador, nem ser eloquente. Pode ser muito simples. Mas a sua intenção e o seu empenho são o que realmente importa.

Três: primeiro, você recitará o Alcorão e apresentará a sua tradução. Depois, poderá passar à explicação, lendo ou não cada versículo e repetindo ou não a tradução. Ou poderá, após uma breve introdução, explicar um versículo após outro ou vários versículos juntos. O método que você adotará dependerá da situação e do tempo disponível.

Lembre-se de que nem sempre é necessário recitar todo o trecho logo no início, especialmente quando o tempo é curto. Em vez disso, você pode dedicar esse tempo à criação de um ambiente que prepare o grupo de ouvintes para escutar a sua mensagem.

Quatro: tanto quanto possível, você pode utilizar uma combinação de diferentes perspectivas relacionadas a cada versículo ou a alguns versículos. Se o versículo for breve e claro, você poderá recitá-lo primeiro e depois explicá-lo em detalhes. Antes e depois da explicação, você pode apresentar a mensagem principal.

O que você deve assegurar é isto: que cada ouvinte sinta uma unidade coerente e integrada. Cada ponto deve ser apresentado de modo que se mantenha uma continuidade entre o que foi dito antes e o que será dito depois.

Cinco: ao final da discussão, você deve necessariamente apresentar um resumo do tema principal e enfatizar que mensagem educativa ele contém. Se houver tempo, você poderá ler novamente todo o texto ou apenas a tradução. Ao ler o texto original ou a tradução no encerramento, você pode colocar seus ouvintes em contato direto com o Alcorão. Assim, eles poderão compreender o que entenderam à luz da sua apresentação.

Seis: você deve estar sempre atento a isto: não é você que deve falar; é o Alcorão. Para aqueles que conheciam a língua do Alcorão e o portador de sua mensagem, o Alcorão produziu resultados sem qualquer explicação ou análise. Ele continua sendo eficaz até hoje. Você pode prejudicar a mensagem do Alcorão não apenas impondo opiniões pessoais em excesso, mas também ao tentar oferecer uma explicação demasiado longa e detalhada. Quando terminar sua longa explicação e análise, seus ouvintes talvez já tenham esquecido o que foi dito no Alcorão. Portanto, primeiro: seja tão breve quanto possível em sua exposição. Segundo: se, em algum caso, ela precisar ser longa, você deve retornar ao texto original tantas vezes quanto puder. De modo algum deve ser criada uma distância entre seus ouvintes e o Alcorão, não apenas no sentido do significado, mas também no da audição.

Sete: organize sua própria explicação segundo o estilo do Alcorão. Talvez esse seja um meio eficaz de assegurar o sucesso.

Isso pode parecer muito difícil para você inicialmente. Mas, à medida que se aproximar cada vez mais do Alcorão, o recitar repetidamente e o memorizar, ele se tornará cada vez mais parte do seu próprio estilo.

Você deve lembrar-se de que o estilo de composição corânico possui várias características: um: o apelo do Alcorão dirige-se tanto à razão quanto à emoção. Dois: o Alcorão é conciso, preciso, direto, pessoal e capaz de despertar a memória. Três: o Alcorão coloca seus ouvintes diante de escolhas e decisões e cria neles uma motivação para agir. Quatro: sua linguagem é tão poderosa que a mensagem do Alcorão penetra profundamente em seu interior. Cinco: seus argumentos são formulados de modo que os ouvintes possam compreendê-los. O Alcorão toma exemplos da vida cotidiana deles e sempre encontra nela um eco. Ele não é abstrato, meramente racional nem distante.

Oito: não apresente afirmações abstratas. Tampouco destrua o efeito dinâmico do Alcorão em troca de sua ficcionalização e sistematização. Entretanto, uma concepção correta e uma apresentação científica são muito importantes para transmitir a mensagem essencial do Alcorão, desde que ela possa ser apresentada em linguagem simples, de modo que os ouvintes a compreendam. O chamado à ação e o compromisso devem ser elementos indispensáveis do seu dars. Seja sobre a natureza ou a história, um aviso, uma declaração, um diálogo ou um discurso, em cada caso deve haver um apelo à resposta, um chamado para avançar, algumas decisões, ações e medidas a serem tomadas.

Nove: Não use o Alcorão para apresentar as suas opiniões. Pelo contrário, forme-se como porta-voz ou intérprete da palavra de Allah.

Dez: Permita que o Alcorão penetre no coração dos seus ouvintes; permita que o Alcorão encontre um lugar no íntimo deles. Permita que ele ilumine a sua compreensão, o seu amor, a sua gratidão e a sua preocupação. Essa deve ser a sede do seu dars.

Onze: Você deve estar sempre atento à resposta dos seus ouvintes. Se perceber que um argumento não consegue atrair nem estimular os ouvintes, pode resumir ou abandonar esse argumento, por mais valioso que ele seja considerado. Sempre que a situação exigir ou você julgar necessário, pode acrescentar novos temas e estilos.

8: Viver de acordo com a luz do Alcorão

A obediência ao Alcorão

Se, desde o início, você não se submeter plenamente a Allah e não reconstruir e transformar a sua vida de acordo com o Alcorão concedido por Allah, a leitura do Alcorão não lhe trará benefício algum; pelo contrário, poderá ser causa de dano e sofrimento. Sem uma firme intenção e esforço para agir, os sentimentos devocionais do coração e da alma, o entusiasmo emocional ou o enriquecimento intelectual não lhe servirão de nada. Se o Alcorão não produzir qualquer efeito nas suas ações, se você não cumprir as instruções que o Alcorão prescreveu e não abandonar aquilo que ele proibiu, não poderá alcançar a proximidade do Alcorão.

Cada página do Alcorão contém um chamado à devoção, à mudança e à ação. Em cada etapa, o leitor se vê diante de uma decisão e de um compromisso. Aqueles que, respondendo ao chamado do Alcorão, não conseguem submeter-se a Allah, foram declarados incrédulos, injustos e transgressores (Al-Ma’idah 5:44–47).

Aqueles a quem foi concedida esta grandiosa mensagem de Allah, mas que não a compreendem nem agem de acordo com ela, são descritos como jumentos que carregam cargas, mas não sabem o que estão carregando e não conseguem beneficiar-se disso. Eles são os desafortunados contra os quais o Profeta de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apresentará uma queixa no Dia do Juízo:

«Ó meu Deus, o meu povo fez deste Alcorão objeto de zombaria.» (Al-Furqan 25:30)

Evitar o Alcorão, abandoná-lo e deixá-lo de lado significa não o ler, não o compreender, não conduzir a vida de acordo com ele e considerá-lo irrelevante e pertencente ao passado.

O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) enfatizou e ressaltou grandemente a importância de seguir o Alcorão.

Entre os leitores do Alcorão, haverá muitos hipócritas entre a minha ummah. (Ahmad)

Não é verdadeiramente crente aquele que considera lícito aquilo que o Alcorão declarou ilícito. (Tirmidhi)

Leia o Alcorão, para que possa adquirir a capacidade de abster-se das ações proibidas. Se ele não o impedir das ações proibidas, então deve-se compreender que, na realidade, o Alcorão não foi lido. (Tabarani)

Para os companheiros do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), aprender o Alcorão significava lê-lo, refletir profundamente sobre ele e pôr em prática seus ensinamentos.

Foi narrado:

Aqueles que se dedicaram ao estudo do Alcorão disseram que pessoas como Hazrat Uthman ibn Affan, Abdullah ibn Affan e Abdullah ibn Masud (r.a.), quando aprendiam dez versículos de uma vez, não avançavam até serem capazes de compreendê-los e colocá-los em prática na vida. Eles diziam que aprendiam simultaneamente o Alcorão e o conhecimento. Assim, muitas vezes levavam anos para aprender uma única surata. (Al-Itqan fi Ulum al-Qur’an, al-Suyuti)

Al-Hasan al-Basri disse: você tomou a noite como um camelo, para montá-lo e atravessar os diversos níveis do Alcorão. Aqueles que vieram antes de você consideraram-no a palavra de seu Senhor. Eles refletem sobre ela à noite e vivem de acordo com ela durante o dia. (Yahya)

O estudo do Alcorão deve fortalecer a fé em seu coração, uma fé que dará uma forma especial à sua vida. Não se trata de um processo fragmentado e gradual, no qual você passará os primeiros anos lendo o Alcorão, depois dedicará alguns anos à compreensão e ao fortalecimento da fé, e somente então o colocará em prática. Tudo isso constitui um único processo. Tudo ocorrerá simultaneamente. Sempre que você ouvir ou recitar o Alcorão, ele acenderá a fé em seu coração. E sempre que a fé nascer em seu coração, terá início uma transformação em sua vida.

O que você deve lembrar necessariamente é que, para viver de acordo com o Alcorão, é preciso tomar uma decisão fundamental em sua vida. Independentemente do tipo de pensamento que exista ao seu redor, do que sua sociedade lhe ordene ou do que os outros façam, você terá de mudar completamente o curso de sua vida. Tomar essa decisão exige um grande sacrifício. Enquanto você não estiver preparado para fazer sacrifícios como alguém que crê no Alcorão, a palavra de Allah, por mais tempo que dedique ao Alcorão, os resultados não serão muito bons.

Desde o primeiro momento, desde o primeiro passo, isso foi claramente exposto: o Alcorão é orientação para aqueles que estão preparados para se proteger dos danos da desobediência a Allah, que desejam proteger-se da insatisfação de Allah e temem o desfecho; esses são os muttaqun (Al-Baqarah 2:1–5). O Alcorão não reconhece oposição entre conhecimento e ação, nem entre fé e boas obras.

A plenitude da missão corânica

Um aspecto indispensável e importante de conduzir a vida de acordo com o Alcorão é transmitir a mensagem do Alcorão às pessoas ao seu redor. Na verdade, no momento em que a primeira revelação foi enviada ao Grande Profeta (s.a.w.), ele compreendeu a importante responsabilidade e o dever de transmiti-la ao seu povo. A segunda revelação veio com esta instrução: Levanta-te e adverte (Al-Muddaththir 74:2). Depois, em diferentes etapas, foi esclarecido ao Profeta (s.a.w.) que transmitir o Alcorão aos outros, fazê-los ouvi-lo e explicá-lo constituíam sua responsabilidade primordial, a missão de sua vida. (Al-An’am 6:19, Al-Furqan 25:1, Al-An’am 19:97, Al-A’raf 7:157).

Como seus seguidores e detentores do Livro de Allah, a mesma responsabilidade e missão também nos foram confiadas. Ler o Alcorão significa que somos obrigados a transmiti-lo a outros; ouvir o Alcorão significa que devemos fazê-lo ser ouvido por outros. Certamente, devemos transmiti-lo à humanidade, e o Alcorão não pode ser mantido oculto.

“Lembra-lhes a promessa que Allah tomou do Povo do Livro: que deveriam divulgar entre as pessoas os ensinamentos e a orientação do Livro, não podendo ocultá-los. Mas eles deixaram o Livro para trás e venderam-no por um preço insignificante. Quão mau é o que estão fazendo!” (Al Imran 3:187)

Se houver uma lâmpada em seu coração e em suas mãos, ela certamente irradiará luz. Se houver fogo em seu interior, ele certamente arderá. Aqueles que não fazem isso por um pequeno interesse mundano, na realidade, estão enchendo o próprio ventre com fogo.

“Em verdade, aqueles que ocultam os mandamentos e as proibições do Livro concedido por Allah e o abandonam em troca de um pequeno interesse material, na realidade, enchem o próprio ventre com fogo. No Dia da Ressurreição, Allah jamais falará com eles nem os declarará puros. Para eles está reservado um castigo doloroso e severo.” (Al-Baqara 2:174) E eles merecem a maldição de Allah:

“Aqueles que ocultarem os princípios luminosos e o modo de vida que Nós revelamos, embora os tenhamos explicado claramente em Nosso Livro para orientar toda a humanidade, saibam com certeza que Allah os amaldiçoa, e que todos os que amaldiçoam também lançam sua maldição sobre eles.” (Al-Baqara 2:159)

Até que cumpram sua responsabilidade:

“Quanto àqueles que abandonarem essa conduta indesejável, corrigirem sua maneira de agir e começarem a tornar público aquilo que haviam ocultado, Eu os perdoarei. Em verdade, sou Perdoador, Aceitador do arrependimento e Misericordioso.” (Al-Baqara 2:160)

Mas, se morrerem nessa condição, serão amaldiçoados por todos:

“Sobre aqueles que adotaram a incredulidade e morreram em estado de incredulidade cairá a maldição de Allah, dos anjos e de toda a humanidade.” (Al-Baqara 2:161)

Allah sequer Se voltará para eles:

«Aqueles que vendem por um preço insignificante a sua promessa e os seus juramentos não terão parcela alguma na Vida Futura. No Dia da Ressurreição, Allah não lhes falará, nem olhará para eles, nem os purificará; ao contrário, terão um castigo severo e doloroso. (Al ‘Imran 3:77)

Olhem para si mesmos; olhem para os muçulmanos de hoje. Por que a nossa condição não muda, apesar de milhões de pessoas recitarem o Alcorão dia e noite? Ou lemos o Alcorão sem compreendê-lo; ou, se o compreendemos, não o aceitamos nem agimos de acordo com ele; ou, quando o lemos por inteiro e praticamos apenas uma parte, tornamo-nos culpados do mais grave crime: ocultá-lo e não apresentá-lo à humanidade à luz do Alcorão.

«Entre eles há outro grupo de iletrados, que não possui conhecimento algum do Livro de Allah. Suas esperanças infundadas, seus desejos e suas paixões são o seu único recurso, e eles são guiados por concepções e crenças sem fundamento. Assim, está certa a ruína daqueles que escrevem com as próprias mãos disposições da sharia e depois dizem às pessoas que, em troca disso, obterão um pequeno benefício. Na verdade, o que suas mãos escreveram é a causa de sua ruína, e aquilo que obtêm por meio disso é instrumento de sua destruição.» (Al-Baqarah 2:77–78)

«Então, credes em uma parte do Livro e negais outra? Sabei que, para aqueles dentre vós que adotarem tal conduta, não haverá outra punição senão serem humilhados e desonrados na vida terrena e, na Vida Futura, serem lançados no mais severo dos castigos. Allah não desconhece nada do que fazeis.» (Al-Baqarah 2:85)

Não temos a menor dúvida de que, enquanto não nos comprometermos com a mais importante responsabilidade que nos foi atribuída, em consequência do estudo do Alcorão, como testemunhas desse Alcorão, não poderemos cumprir nosso dever para com ele. A desonra, a indignidade, a humilhação e o atraso que se tornaram o nosso destino são causados unicamente pela nossa atitude para com o Alcorão e sua missão.

Por meio deste Livro, Allah honrará algumas pessoas e rebaixará outras. (Muslim)

Como teria sido bom se eles tivessem estabelecido a Torá, o Evangelho e os demais Livros que Allah lhes revelou; então, teriam recebido provisão dos céus e da terra. (Al-Ma’idah 5:66)

Por mais conhecimento que adquiramos sobre o Alcorão, enquanto não o seguirmos, não seremos capazes de compreender e descobrir plenamente seu significado e sua correta importância. O Profeta de Allah (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) disse aos seus honrados Companheiros:

Haverá entre vós pessoas diante das quais comparareis vossa oração com a oração delas, vosso jejum com o jejum delas e vossas boas ações com as boas ações delas, e vos considerareis muito inferiores. Elas recitarão o Alcorão, mas ele não descerá abaixo de suas gargantas. (Bukhari)

A submissão e o cumprimento não são necessários apenas para completar a verdadeira missão do Alcorão. Eles são uma chave segura para compreendê-lo. O significado que podeis descobrir ao seguir as instruções do Alcorão não pode ser alcançado apenas por meio da reflexão. Então podereis contemplar o Alcorão diretamente. A esse respeito, Sayyid Abul A’la Maududi (que Allah tenha misericórdia dele) escreveu em palavras inesquecíveis, que jamais devem ser esquecidas.

«Mas, apesar de todos esses esforços para compreender o Alcorão, ninguém pode familiarizar-se plenamente com sua essência enquanto não cumprir, na prática e na realidade, as obras que o Alcorão veio ordenar e instruir a realizar. Ele não é simplesmente um livro de doutrinas e ideias. Portanto, não se pode esperar compreender tudo o que ele diz lendo-o sentado numa poltrona. De acordo com a concepção religiosa corrente no mundo, ele não é simplesmente uma escritura religiosa. Não é possível desvendar todos os seus mistérios e profundos significados sentado numa madrassa ou numa khanqah. Foi dito na introdução, no início, que este é um livro de da’wah e de movimento. Ele veio retirar um homem de natureza silenciosa, honesto e sincero, do campo de uma vida solitária e isolada, e colocá-lo diante de um mundo contrário a Allah. Colocou em sua voz o brado de um forte protesto contra a falsidade. Envolveu-o num intenso conflito contra os porta-bandeiras da incredulidade, da impiedade e do desvio de sua época. Retirou de dentro de cada lar pessoas de bom caráter e reuniu-as sob a bandeira do convocador à verdade. Incitou e enfureceu os causadores de intrigas e desordens de todas as regiões do país, fazendo-os entrar em guerra contra os seguidores da verdade. Tendo iniciado sua obra por meio do chamado de um único homem, este Livro liderou, durante todos os vinte e três anos, até o estabelecimento do Khilafah Divino, esse grandioso e magnífico movimento islâmico. Durante esse longo e extenuante conflito entre a verdade e a falsidade, em cada etapa e em cada fase, ele ensinou, por um lado, os métodos de demolir e, por outro, apresentou os planos para construir. Agora dizei: se não participardes da luta entre o Islam e a jahiliyyah, entre o Din e a incredulidade; se não vos for concedida a oportunidade de atravessar as etapas desse conflito e dessa confrontação, como poderão todos os seus significados profundos revelar-se diante de vós simplesmente pela leitura das palavras do Alcorão?»

Só é possível compreender plenamente o Alcorão quando vós próprios vos levantardes com a da’wah do Alcorão, começardes a convocar as pessoas para Allah e continuardes a avançar exatamente como este Livro vos orienta. Somente então sereis capazes de obter as experiências do período em que o Alcorão foi revelado. Vereis também as etapas de Meca, da Abissínia (atual Etiópia) e de Taif. As etapas de Badr e Uhud, até Hunayn e Tabuk, também surgirão diante de vós. Defrontar-vos-eis com Abu Jahl e Abu Lahab. Encontrareis os hipócritas e os judeus. Encontrar-vos-eis com todos, desde os crentes devotados da primeira época do Islam até os crentes de coração fraco. Isto é uma espécie de «prática espiritual»; eu a chamo de «prática corânica». Nessa senda de prática surge uma cena extraordinária. À medida que atravessardes suas diversas etapas, em cada uma delas alguns versículos e suratas do Alcorão aparecerão diante de vós por si mesmos. Eles continuarão a dizer-vos: «Foi nesta etapa que fomos revelados e foi ali que trouxemos estas determinações». Nesse momento, alguns conhecimentos de lexicografia, gramática e retórica poderão permanecer ocultos à visão do praticante; mas é impossível que o Alcorão se recuse a revelar diante dele sua própria essência. De acordo com essa regra geral, o ser humano tampouco poderá compreender as determinações do Alcorão, seus ensinamentos morais, suas normas econômicas e culturais e os princípios, regras e leis que ele estabeleceu para os diversos aspectos e áreas da vida, enquanto não os puser efetivamente em prática na própria vida. Aquele que não segue o Alcorão em sua vida pessoal não poderá compreendê-lo. E uma nação cujas instituições sociais não seguem o caminho e os princípios de ação descritos pelo Alcorão também não poderá familiarizar-se com ele.

O que o Mensageiro (que Allah esteja satisfeito com ele) recitou especificamente ou enfatizou

No Alcorão Sagrado há certas suratas e versículos sobre os quais se diz que o Profeta (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) os recitava repetidamente em orações específicas ou em circunstâncias especiais, ou que os louvava especialmente, explicando suas extraordinárias características e virtudes. Ele louvava especialmente essas suratas e versículos, explicando suas extraordinárias características e virtudes. Deveis conhecer essas suratas e versículos.

O hadith apresentado abaixo não tem por objetivo provar que uma parte do Alcorão é superior a outra. Não deveis negligenciar o restante do Alcorão e, em troca, dedicar-vos à recitação ou à memorização apenas dessas partes específicas. Essas partes selecionadas são necessárias porque ninguém é capaz de memorizar e recitar tudo diariamente. Além disso, uma pessoa pode normalmente habituar-se a ler regularmente uma determinada parte. Que poderia ser melhor do que seguir o Mensageiro (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) e esperar a recompensa que ele prometeu?

É muito importante lembrar que o Mensageiro costumava recitar todo o Alcorão Majid pelo menos uma vez durante o mês do Ramadã. Ele também recitava longos trechos, como as suratas Al-Baqara e Al Imran, em uma única rak‘ah da oração noturna.

O que o Mensageiro recitava nas diferentes orações

Foi narrado por Jabir ibn Samura que o Mensageiro recitava a surata Qaf (50) e suratas semelhantes. (Muslim)

Ele recitou Al-Waqi‘a (56). (At-Tirmidhi)

Amr ibn Hurays disse: Eu o ouvi recitar At-Takwir (81). (Muslim)

Abdullah ibn as-Sa’ib disse: Quando ele estava em Meca, recitou até o versículo 45 ou 50 da surata Al-Mu’minun. (Muslim)

Abu Huraira disse: Ele recitava as suratas Al-Kafirun (109) e Al-Ikhlas (112). (Muslim)

Uqba ibn Amir disse: Ele recitava as suratas Al-Falaq (113) e An-Nas (114). (Ahmad, Abu Dawud)

Abdullah ibn Abbas (r.a.) disse que ele recitava trechos da Surata Al-Baqarah (2:136) e da Surata Al Imran (3:64). (Muslim)

É relatado que Abu Bakr (r.a.) recitava Al-Baqarah. (Muwatta)

Hazrat Uthman ibn Affan (r.a.) recitava frequentemente a Surata Yusuf (12). (Muwatta)

Hazrat Umar ibn al-Khattab recitava a Surata Yusuf (12) e a Surata Al-Hajj (22).

Hazrat Umar (r.a.) escreveu a Abu Musa (r.a.), instruindo-o a recitar as Tiwal al-Mufassal, isto é, desde a Surata Muhammad (47) até a Surata Al-Buruj. (Tirmidhi)

Hazrat Abu Huraira (r.a.) disse que, nas duas rak’ahs anteriores à oração do fajr, o Profeta (s.a.w.) recitava a Surata Al-Kafirun e a Surata Al-Ikhlas. (Ibn Majah)

A oração do fajr

Hazrat Abu Huraira (r.a.) disse que, na oração do fajr de sexta-feira, ele recitava a Surata As-Sajdah (32) na primeira rak’ah e Ad-Dahr (76) na segunda rak’ah.

Oração do Zuhr e do Asr

Segundo a narração de Jabir ibn Samura (que Allah esteja satisfeito com ele), ele recitava a surata Al-Lail (92) nas orações do Zuhr e do Asr; segundo outra narração, recitava a surata Al-Ala (87). (Muslim)

Segundo a narração de Jabir ibn Samura, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitava as suratas Al-Buruj (85), At-Tariq (86) e suratas semelhantes.

Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) escreveu a Abu Musa (que Allah esteja satisfeito com ele): “Recita o awsat al-mufassal, isto é, da surata Al-Buruj (85) até a surata Al-Bayyinah (98).” (Tirmidhi)

Oração do Maghrib

Umm Fadl (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Ouvi o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitar a surata Al-Mursalat (77) na oração do Maghrib.” (Bukhari, Muslim)

Jarir ibn Mut’im disse: “Ouvi-o recitar a surata At-Tur (52).” (Bukhari, Muslim)

Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que ele recitava Al-Kafirun (109) e Al-Ikhlas (112). (Ibn Majah) Jabir ibn Samurah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: especialmente na noite de sexta-feira. (Sharh as-Sunnah)

Abdullah ibn Utbah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ele recitava a surata Ad-Dukhan (An-Nasa’i).

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: ele recitava a surata Al-A’raf (7). (An-Nasa’i)

Abdullah ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: nas duas rak‘ahs após a oração do Maghrib, ele recitava as suratas Al-Kafirun (109) e Al-Ikhlas (112). (At-Tirmidhi)

Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) escreveu a Abu Musa (que Allah esteja satisfeito com ele): recite Qisar Al-Mufassal, isto é, da surata Al-Bayyinah (98) até An-Nas (114). (At-Tirmidhi)

Oração do Isha

Jarir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ele instruiu Muadh ibn Jabal a recitar as suratas Ash-Shams (91), Ad-Duha (93), Al-Layl (92) e Al-A’la (87), bem como suratas mais longas que Al-Baqarah. (Al-Bukhari, Muslim)

Al-Bara (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ouvi-o recitar a surata At-Tin (95). (Al-Bukhari, Muslim)

Jumu’ah e Eid

Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: na oração de sexta-feira, ouvi-o recitar a Surata Al-Jumu‘ah (62) na primeira rak‘ah e a Surata Al-Munafiqun (63) na segunda rak‘ah. (Muslim)

Hazrat Nu‘man ibn Bashir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitava a Surata Al-A‘la (87) e a Surata Al-Ghashiyah (88) tanto nas orações de sexta-feira quanto nas orações do Eid; e, se a sexta-feira e o Eid coincidissem no mesmo dia, recitava as mesmas suratas em ambas. (Muslim)

Hazrat Wathiq Al-Laythi (que Allah esteja satisfeito com ele) recitava a Surata Qaf (50) e a Surata Al-Qamar (54) nas orações do Eid al-Adha e do Eid al-Fitr. (Muslim)

9: O que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitava em diferentes ocasiões

Tahajjud

Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: depois de acordar, ele olhava para o céu e recitava desde “Inna fi khalqis…” até o final da surata (Al ‘Imran 3:190–200; Bukhari).

De manhã e à noite

Hazrat Abdullah ibn az-Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: recita três vezes pela manhã e três vezes à noite a Surata Al-Ikhlas (112), Al-Falaq (113) e An-Nas (114). Isso será suficiente para ti, seja qual for o objetivo que desejes alcançar. (Tirmidhi, Abu Dawud)

Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: quem recitar Ayat al-Kursi e Ha-Mim al-Masir (Al-Mu’min 40:2-3) pela manhã, Allah o protegerá até a noite; e quem os recitar à noite, Allah o protegerá até a manhã. (Tirmidhi).

Hazrat Maqil ibn Yagar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: se alguém recitar pela manhã os três últimos versículos da Surata Al-Hashr (59:22-24), setenta mil anjos continuarão a pedir perdão a Allah por ele até a noite. Se os recitar à noite, os anjos continuarão a pedir perdão por ele até a manhã. (Tirmidhi)

Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: se alguém recitar pela manhã os três versículos da Surata Ar-Rum (30:17-19), será recompensado mesmo que negligencie alguma boa ação durante o dia; e, se os recitar à noite, será recompensado mesmo que negligencie alguma boa ação durante a noite. (Abu Dawud)

Antes de dormir ou durante a noite

Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), relatando em um longo hadith seu encontro com Satanás, disse: recita Ayat al-Kursi ao deitar-te. Então, da parte de Allah, um guardião será designado para ti, e Satanás não poderá aproximar-se de ti até a manhã. (Bukhari)

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: quando ia deitar-se, juntava as duas mãos, recitava nelas as Suratas Al-Ikhlas, Al-Falaq e An-Nas e soprava sobre elas. Em seguida, passava as mãos, tanto quanto possível, sobre a cabeça, o rosto e a parte frontal do corpo. Fazia isso três vezes. (Bukhari, Muslim)

Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: recita os dois últimos versículos da Surata Al-Baqarah. Para aqueles que os recitam à noite, eles são suficientes. (Bukhari, Muslim)

Se recitares a parte final da Surata Al Imran (3:190-200), serás recompensado como se tivesses um vigilante atento durante a noite. Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: quem recitar a Surata Ad-Dukhan terá setenta mil anjos pedindo a Allah que lhe conceda perdão até a manhã. (Tirmidhi)

Al-Irbad ibn Sariya (r.a.) disse: «Recitai Al-Musabbihat/Al-Isra (17), Al-Hadid (57), Al-Hashr (59), As-Saff (61), Al-Jumu’a (62), At-Taghabun (64) e Al-A’la (87).» Ele costumava recitar essas suratas antes de dormir e dizia: «Um versículo delas é melhor do que mil versículos.» (Abu Dawud, Tirmidhi)

Jabir (r.a.) disse que ele não dormia sem recitar As-Sajdah (32) e Al-Mulk (67). (Ahmad, Tirmidhi)

10: O que o Mensageiro (s.a.w.) disse sobre os méritos de várias suratas

Surata Al-Fatiha

Abu Sa’id al-Mu’alla (r.a.) disse: «Não devo ensinar-vos uma surata que é a maior do Alcorão?» O Mensageiro (s.a.w.) disse isso e, em seguida, ensinou a Surata Al-Fatiha, dizendo: «Foi-me concedido o Sab’ul Mathani e o Alcorão grandioso; esta é ela.» (Bukhari)

Foi narrado por Abdullah ibn Abbas (r.a.) que um anjo disse ao Profeta (s.a.w.): «Alegrai-vos pelas duas luzes que vos foram concedidas e que não foram concedidas a nenhum outro profeta.» Uma delas é a Surata Al-Fatiha e a outra são os últimos versículos da Surata Al-Baqarah (2:285-286). (Muslim)

Hazrat Abu Huraira (r.a.) disse: «Juro por Allah, em cuja mão está a minha alma, que nada semelhante à Surata Al-Fatiha foi revelado na Torá, nem no Evangelho, nem nos Salmos, nem no Alcorão.» (Tirmidhi)

Abdul Malik ibn Umair (r.a.) disse: «Ela é uma cura para toda doença.» (Darimi)

Surat Al-Falaq e An-Nas

Uqba ibn Amir disse: «Nunca se viu nada semelhante a isso.» (Muslim)

Nenhum buscador de refúgio pode buscar refúgio em algo diferente que se compare a estas duas suratas. (Abu Dawud)

Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «Algum de vós pode recitar um terço do Alcorão em uma única rak’ah?» Ele perguntou e instruiu: «Recitai a Surat Al-Ikhlas, pois ela equivale a um terço do Alcorão.» (Bukhari, Muslim)

Segundo o relato de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), acerca daquele que recita esta surata em cada oração, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Dize-lhe que Allah o ama.» (Bukhari, Muslim)

Surat Al-Kafirun

Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) disseram: «Ela equivale a um quarto do Alcorão.» (Tirmidhi)

Surat An-Nasr

Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «Esta é um quarto do Alcorão.» (At-Tirmidhi)

Surata At-Takāthur

Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: «Não podeis recitar mil versículos em um dia?» Depois disse: «Algum de vós não pode recitar a Surata At-Takāthur?» (Al-Bayhaqi)

Surata Az-Zalzalah

Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) disseram: «Esta equivale à metade do Alcorão.» (At-Tirmidhi)

Ayat al-Kursi (Surata Al-Baqarah, 2:255)

Foi narrado por Ubayy ibn Ka’b (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele perguntou: «Sabeis qual é o mais grandioso versículo do Livro de Allah?» E, quando lhe disseram que era Ayat al-Kursi, ele o aprovou. (Muslim)

Āmanar-Rasūl (Al-Baqarah, 2:285–286)

Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Nenhum profeta antes dele trouxe uma luz semelhante. (Muslim)

Nu‘man ibn Bashir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Não importa em qual casa ela seja recitada, Satanás não poderá aproximar-se dela durante três noites. (Tirmidhi)

Aifa ibn Abd al-Qilā‘i (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Ela emana do tesouro do Seu Qur’an, sob o Trono de Allah, que Ele concedeu a essa comunidade; não há nenhum bem neste mundo ou no Além que não esteja incluído nela. (Darimi)

Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Aprende-a e ensina-a às tuas esposas e aos teus filhos, pois ela é uma bênção, uma recitação e uma oferenda. (Hakim)

As suratas Al-Baqarah e Āl ‘Imran

Abu Umamah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Recitai as duas suratas luminosas e resplandecentes. Pois, no Dia da Ressurreição, elas virão flutuando como duas nuvens, duas sombras ou dois bandos de aves, intercedendo por seus companheiros. (Muslim)

Nawwas ibn Sam‘an (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: No Dia da Ressurreição, o Qur’an será trazido junto com aqueles que o acompanhavam. À frente daqueles que agiam de acordo com o Qur’an estarão as suratas Al-Baqarah e Āl ‘Imran. Elas parecerão duas nuvens negras, ou duas massas de luz, ou dois bandos de aves, e continuarão intercedendo por seus companheiros. (Muslim)

Surata Al-Baqarah (2)

Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Não transformes a tua casa em um cemitério abandonando a recitação do Alcorão. Satanás foge da casa em que a Surata Al-Baqara é recitada. (Muslim)

Hazrat Abu Umama (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Recitai a Surata Al-Baqara, pois apegar-se a ela é uma bênção, e abandoná-la é uma falha. (Muslim)

Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Tudo tem um tesouro, e o tesouro do Alcorão é a Surata Al-Baqara. (Muslim)

Surata Al-An’am (48)

Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Tantos anjos desceram no momento da revelação desta surata que cobriram o horizonte do céu. (Hakim)

Surata Al-Kahf (18)

Hazrat Abu Darda (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quem aprender, memorizar e praticar sinceramente os primeiros dez versículos da Surata Al-Kahf será protegido contra o Dajjal. (Muslim)

Surata Ya-Sin (48)

Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: cada coisa tem um coração, e o coração do Alcorão é a Surata Iá-Sin. Quem quer que a recite, Allah registrará para ele a recompensa de dez recitações completas do Alcorão. (Tirmidhi)

Maqil ibn Yamar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: quem recita a Surata Iá-Sin buscando a satisfação de Allah, Allah perdoa seus pecados passados. Portanto, recitai-a também no momento da morte. (Bayhaqi)

Surata Al-Fath (48)

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: amo isto mais do que qualquer coisa no mundo. (Bukhari)

Surata Ar-Rahman (55)

Hazrat Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: cada coisa tem um ornamento, e o ornamento do Alcorão é a Surata Ar-Rahman. (Bayhaqi)

Surata Al-Waqi’a (56)

Quem quer que recite a Surata Al-Waqi’a todas as noites não passará necessidade.

Surata Al-Mulk (67)

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: os 30 versículos desta surata intercedem por uma pessoa até que seus pecados sejam perdoados. (Ahmad, Tirmidhi, Abu Dawud)

Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “Gosto que esta surata ocupe um lugar no coração de todo crente.” (Hakim)

Surata Al-A’la (87)

Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que amava esta surata. (Ahmad)

11: Currículo para o estudo do Alcorão

 

Apresentar uma proposta de currículo de passagens do Alcorão para estudo individual ou para um círculo de estudo é uma tarefa muito difícil. Primeiro: o que deve ser incluído? É quase impossível fazer uma seleção adequada e satisfatória de todo o Nobre Alcorão. Cada parte do Alcorão contém alguma afirmação adicional e nova. Mesmo as passagens repetidas muitas vezes e semelhantes entre si possuem temas subjacentes distintos. Um determinado número de passagens só pode abranger um determinado número de temas. Portanto, todo currículo terá a deficiência de deixar de fora muitas coisas igualmente importantes ou muito importantes. Além disso, qualquer abordagem definida será necessariamente arbitrária. Ela expressará, ou naturalmente tenderá a expressar, não o Alcorão, mas apenas a visão pessoal, as preferências e as aversões de quem faz a seleção. É muito importante lembrar dessas limitações ao utilizar o currículo apresentado aqui. Você deve estar consciente de que aquilo que foi deixado de fora também tem igual valor e de que está sendo guiado por uma pessoa comum, que não está acima dos erros e das falhas.

Segundo: de onde se deve começar, onde se deve terminar e que sequência deve ser seguida? A única sequência satisfatória é a sequência do Alcorão, tal como foi revelado por Allah. Mas um currículo não pode evitar alterar essa sequência. Com base em que critério? Novamente, isso será necessariamente arbitrário. Qualquer sequência pode, muitas vezes, ser uma alternativa entre as sequências necessárias. Você também pode prosseguir desta maneira: primeiro, estabeleça a posição elevada do Alcorão como revelação de Allah. Em seguida, familiarize-se com as evidências do universo; conheça o próprio ser e a história; a crença em Allah, na Vida Futura e no Mensageiro; a dignidade individual e coletiva; as metas e os objetivos da vida muçulmana; o chamado à fé e ao jihad; e o cumprimento dos compromissos e juramentos perante Allah. Ou, se desejar, pode começar pelas crenças fundamentais. O que mencionei aqui pode ser alterado conforme as circunstâncias. O leitor deve ser lembrado, desde o início, das bênçãos do Islã. É preciso lembrá-lo dos objetivos de sua vida e de seu juramento perante Allah. Isso se baseia na minha compreensão da maneira como Allah, o Altíssimo, se dirigiu aos muçulmanos que haviam sofrido perdas na Surata Al-Baqara.

Cada ciclo começará discutindo como ler e compreender o Alcorão. Para isso, este livro deverá servir de apoio.

Uma observação especial sobre a Surata Al-Fátiha. Esta surata ocupa uma posição extraordinária no Alcorão Sagrado. Tudo o que há de essencial no significado do Alcorão está contido nesta surata. Você a recita muitas vezes todos os dias. Portanto, ela deveria fazer parte de todo currículo. Porém, para que um iniciante obtenha verdadeiro benefício de seu estudo, será necessário contar com a ajuda de um bom professor ou de uma obra de tafsir. Sempre que esse tipo de ajuda estiver disponível, mesmo mediante o cumprimento de uma parte determinada, ela deverá ser incluída no currículo.

As suratas breves da parte final do Alcorão Sagrado, que você recita nas orações diárias, também são muito importantes. Será necessário auxílio para compreender corretamente esses versículos. Quando os meios e recursos adequados estiverem disponíveis, essas suratas deverão ser estudadas.

Aqui são apresentados dois currículos. O currículo breve, para o qual foram selecionadas 12 partes, destina-se a um ciclo anual de estudos ou a um estudo intensivo durante um período curto. Se houver um professor e bastante tempo disponível para o estudo, ele também poderá ser considerado adequado para 12 semanas ou para um acampamento educacional de 14 dias. Pode até ser útil para elaborar um currículo para períodos ainda mais curtos, como 5 a 7 dias.

Para cada parte selecionada, foram mencionados alguns aspectos amplos sobre os quais você poderá refletir. Foram fornecidas algumas orientações corânicas para que você possa refletir à luz delas. Essas referências foram elaboradas com base na minha própria compreensão e de modo algum são abrangentes. À medida que avançar, você poderá perceber que foram dadas poucas referências. Isso porque se espera que você próprio tome a iniciativa e que, nesse período, já tenha se familiarizado com elas. O currículo extenso foi elaborado para um ciclo semanal de estudos ao longo de um ano.

12: Currículo breve: 12 partes determinadas

Curso de um ano para um ciclo mensal de estudos

(1) Surata Al-Hajj 22:77–78

Pense: uma vida de devoção e obediência aperfeiçoada no jihad, centrada na missão da shahada, o propósito de ser muçulmano, e os meios da oração, do zakat e do jejum.

(1.1) Ruku e sujud: atos de adoração e obediência — a oração, especialmente a oração noturna; o estado da mente, o estado do comportamento, em particular e publicamente — 2:125, 16:49, 1:43, 76:26, 39:9, 77:48, 5:55, 96:19, 9:112, 48:29, 2:58.

(1.2) Ibadah: como propósito da criação, a mensagem fundamental de Allah, a obediência e a submissão completas permeando toda a vida, afastando-se de toda falsidade e voltando-se para Allah — 51:56, 16:36, 21:25, 4:36, 39:11, 40:66, 12:40.

(1.3) O bem: do coração a todos os aspectos da vida — 8:70, 2:269, 2:180, 73:20, 99:7.

(1.4) Jihad: suas exigências — 49:15, 8:74, 3:142, 9:19-22, 4:95-96, 61:11, 9:41-45, 9:24.

(1.5) Sobre ser escolhido para o encontro com a shahada — 2:128-129, 2:143, 6:161-164, 3:65-68.

(1.6) O exemplo de Hazrat Ibrahim quanto ao tawhid, à obediência e ao sacrifício — 6:79, 60:4, 2:131

(1.7) Dīn — 5:3-6, 2:185, 4:26-28.

(1.8) A missão do testemunho — 2:213, 33:45, 5:67, 48:8, 3:187, 4:41, 2:159-163, 174-176.

(1.9) Oração: importância, condições internas e externas para estabelecê-la — 2:3, 19:59, 70:23, 34:2, ******, 102:3, 2:239, 29:45, 7:29, 23:2, 4:43, 17:78, 4:142, 2:34, 7:31, 62:9-11, 19:55, ******, 22:41.

(1.10) Zakat: importância e significado — 41:6-7, 9:5, 30-39, 9:103.

(1.11) Jejum — 3:101, 31:22, 26:77-82.

(2) Surata Al-Baqara 2:40-7

Reflita: lembre-se das bênçãos da orientação e de outras coisas; cumprir a promessa feita a Allah; renovar a fé; o comércio de obter pequenos benefícios em troca da palavra de Allah; misturar a verdade com a falsidade e distorcê-la; ocultar a verdade; a oração, a zakat, a vida coletiva na adoração e fora dela; a hipocrisia e a política de duas faces; a paciência e a oração como forças morais.

(2.1) Regularmente — na orientação, na natureza e na história — 5:3, 2:150, 5:7, 16:8, 3:103, 8:26, 5:10.

(2.2) Promessa — 7:11, 48:8-10, 7:172, 36:60, 33:21-24, 5:12-13, 3:76-86.

(2.3)A negociação por parte de Allah nesta vida e na outra — 3:1-39, 24:55, 5:66, 4:66-9.

(2.4)Um chamado à renovação da fé — 4:136-139, 57:7-16, 4:60-61.

(2.5)Ganhos mundanos em troca da fé — 5:44, 2:174-176.

(2.6)Encobrir a verdade com a falsidade — 2:75, 78, 79, 40, 41, 91, 94, 102, 111, 113, 5:18.

(2.7)Ocultar a verdade — 2:157-163, 174-186.

(2.8)A importância da oração; a oração congregacional na mesquita é o núcleo da comunidade islâmica — 18:28, 9:16-17, 24:36, 2:114, 9:107-108.

(2.9)Incoerência entre as palavras e as ações, especialmente no trabalho de da’wah — 61:2-3, 63:1-4.

(2.10)O principal apoio para cumprir a promessa feita a Allah são a paciência e a oração — 2:153-157, 41:35, 46:35, 7:107, 8:43, 3:125, 8:65-66.

(2.11) Advertência e certeza quanto ao retorno a Allah — 52:48.

(3) Surata Al-Muzzammil 73:1-10 e 20

Reflita: a recitação do Alcorão na oração noturna, o dhikr, o tabattul, o tawakkul, o sabr, a salat, o zakat, a justiça e o istighfar.

(3.1) Qiyam al-Layl — 32:15-16, 39:9-23, 51:15-19, 17:78-82.

(3.2) Tasbih — 20:24-33

(3.3) A chave fundamental da tazkiyah é o dhikr — em todas as situações e de diversas formas: no coração, pela língua, fisicamente, nas ações, na da‘wah e no jihad — 87:15, 3:191, 13:28, 39:22-23, 62:9, 2:150-155.

(3.4) Tawakkul: significado e necessidade — 8:2-4, 65:3, 11:123, 12:67, 25:58, 14:12.

(3.5) As diversas formas de Yaf‘alūn — 34:8, 21:5, 25:4-5, 7, 68:8-15, 17:90-93, 10:15, 17:73.

(3.6) Qard Hasan (empréstimo benevolente) e o gasto no caminho de Allah — 57:11-16, 92:18-21, 23:60, 2:264-274, 3:92, 4:38, 57:10, 63:11, 35:29.

(3.7) Istighfar, o núcleo central da mensagem de Allah: vigilância, discernimento, prestação de contas, reconhecimento dos erros, retorno e as recompensas deste mundo e do Além — 4:110, 3:15-17, 3:133-136, 3:146-148, 71:7-12, 39:53, 64:17.

(4) Surata Al-Hadid 57:1-7

Reflita: tudo proclama a glória de Allah; todo o reino pertence a Ele; Ele é o Senhor da vida e da morte; Seu poder está sobre todos; Seu conhecimento abrange todas as coisas; Sua soberania e Seu governo estão sobre todos e sobre o tempo; Ele também sabe o que há no coração das pessoas. À luz disso, o convite à fé e ao gasto no caminho de Allah.

(4.1) Os atributos de Allah — 22:18, 17:44, 10:31,6, 59:61, 3:154, 28:70-72, 2:255, 59:22-24, 3:25-26.

(5) Surata An-Nahl 16:1-22

Reflita: as provas do Tawhid, da Risalat e do Além no universo e em si mesmo. O ser humano, a Terra, o Paraíso, o propósito da criação dos seres vivos, a chuva, o cultivo, a noite e o dia, o Sol, a Lua, as estrelas, as diversas cores, os alimentos e recursos no mar, e a orientação por meio das estrelas.

(5.1) Provas, em diversas passagens — 30:17-27, 27:59-68, 10:1-10, 31:6.

(6) Surata Yasin 36:50-65

Reflita sobre a jornada através das diversas etapas da vida: a morte e os momentos finais da vida, a grande destruição ou o Dia da Ressurreição, o ressuscitar, o julgamento, a recompensa e a punição.

(6.1) Akhirah — 50:16-35, 75:20-30, 18:47-49, 20:100-112, 22:1-7, 23:99-118, 43:66-80, 44:40-59, 51:1-27.

(7) Surata Al-Hadid 57:20-25

Reflita: a realidade e a natureza da vida presente. Empenho pela causa de Allah e do Mensageiro.

(7.1) A vida presente e a vida futura — 3:14-15, 105, 10:24, 18:45, 4:134, 17:18-19, 42:19-20.

(7.2) Estabelecer a equidade e a justiça — 4:135, 61:9-14.

(8) Surata Al-Ankabut 29:1-10

Reflita: a necessidade de passar por provações e sofrer aflições para testar a fé e alcançar o sucesso.

(8.1) Veja: 2:155, 2:214, 3:140-142, 3:179, 47:29-31.

(9) Surata Al-Anfal 8:72-75

Reflita sobre a profunda relação entre a fé, a hijra e o jihad. A indispensabilidade da ação coletiva para o jihad.

(10) Surata At-Tawbah 9:19-24

Reflita: para a plena realização da missão de Allah, a base fundamental da vida coletiva é a obediência e responder ao chamado do Profeta.

(10.1) Veja: 8:20-28, 49:1-5, 58:11-13, 9:42-57, 9:62-66, 9:81-82, 62:9-11.

(11) Surata Al ‘Imran 3:190-200

Um resumo abrangente: Allah, a vida futura, a missão profética, a criação do Paraíso e da Terra, as provas da alternância do dia e da noite, conduzir a vida sempre na lembrança de Allah, a vida futura como objetivo final, confiança e fé no Profeta enviado por Allah, o significado da luta e das provações, e a orientação para a vida coletiva.

Pressupõe-se que o currículo acima mencionado será estudado como parte de um curso mais amplo. Por isso, nada sobre as qualidades individuais e coletivas da vida muçulmana foi incluído nele. Caso contrário, será bastante útil acrescentar as seguintes passagens: Al-Isra — 17:23-39; Al-Furqan — 25:63-77; Luqman — 31:12-19; Al-Hujurat — 49:10-14.

13: Currículo extenso: 40 partes

Curso de um ano para um círculo semanal de estudos

(1) Surata Al-Hajj — 22:77-78: uma vida de jihad e devoção, a missão do martírio.

(2) Surata At-Tawbah — 9:111-112: o compromisso da fé, uma vida de devoção.

(3) Surata An-Nisa — 4:131-137: testemunho da justiça, o chamado à fé.

(4) Surata Al Imran — 3:102-110: o propósito da Ummah.

(5) Surata Al-Fath — 48:4-11: Compromisso de dar continuidade à missão do Profeta.

(6) Surata Al-Baqarah — 2:40-46: Convite ao cumprimento do compromisso.

(7) Surata Al-Muzzammil — 73:1-10, 20: Desenvolver uma relação com Allah.

(8) Surata Al-Isra — 17:23-39: Ética pessoal e coletiva.

(9) Surata An-Nahl — 16:1-11: Provas do tawhid, da risalah e da Akhirah.

(10) Surata An-Nahl — 16:12-22: Provas do tawhid, da risalah e da Akhirah.

(11) Surata Yunus — 10:31-3: Prova do tawhid e orientação.

(12) Surata Al-Hajj — 21:1-7: Provas da Akhirah.

(13) Surata Al-Kahf-18:1-18: a Akhirah.

(14) Surata Al-Mu’minun-99:1-118: a Akhirah.

(15) Surata Yasin-36:50-65: a Akhirah.

(16) Surata Qaf-50:19-35: a Akhirah.

(17) Surata Az-Zumar-39:53-56: preparação para a Akhirah.

(18) Al-Hashr-59:18-24: preparação para a Akhirah e os atributos de Allah.

(19) Al-Hadid-57:1-7: os atributos de Allah, a fé e o convite a gastar no caminho de Allah.

(20) Al-Hadid-57:12-17: fé e infak.

(21) Al-Hadid — 57:20-25: vida presente, infak, estabelecimento da justiça.

(22) Surata As-Saff — 61:9-14: a missão do Profeta, chamado à fé e ao jihad.

(23) Surata Al-Anfal — 8:72-75: fé, hijra, jihad, comunidade.

(24) Surata An-Nisa — 4:95-100: hijra e jihad.

(26) Surata At-Tawbah — 9:19-24: jihad, a mais elevada das obras, renunciar a tudo.

(27) Surata At-Tawbah — 9:38-45: jihad.

(28) Surata Aal Imran — 3:169-175: morrer no caminho de Allah.

(29) Surata Al-Baqarah — 2:261-266: justiça no caminho de Allah.

(30) Surata Al-Baqarah — 2:267–72: Justiça no caminho de Allah.

(31) Surata Al-Anfal — 8:20–9: Vida coletiva, obediência.

(32) Surata An-Nisa — 4:60–7: Vida coletiva, obediência.

(33) Surata An-Nur — 24:47–52, 62–4: Resposta na vida coletiva e obediência.

(34) Surata Al-Hujurat — 49:1–9: Vida coletiva, relacionamento com a liderança.

(35) Surata Al-Mujadala — 58:7–13: Vida coletiva, regras, princípios e responsabilidades.

(36) Al-Hujurat — 49:10–15: Vida coletiva, relações interpessoais.

(37) Al-Mursalat — 41:30–6: Da’wah e qualidades necessárias.

(38) Al-Baqarah 2:150–63: A missão e sua responsabilidade.

(39) Āl ‘Imrān 3:185–92: Resumo.

(40) Āl ‘Imrān 3:193–200: Resumo.

Foram definidas 40 partes para 52 semanas. Presumiu-se que algumas semanas serão deixadas de fora e que a conclusão de algumas partes exigirá mais de uma semana.

De qualquer modo, se estiverem facilmente disponíveis, pode-se concentrar a atenção nas passagens históricas do Alcorão que não incluí aqui. Para esse fim, pode-se escolher um profeta por semana, como Noé (a.s.) ou Hud (a.s.), para estudo. Com base em cada passagem da surata Al-A‘raf, devem ser discutidos, a esse respeito, os versículos autênticos do Alcorão.

1. Al-A‘raf 7:59–64

2. Al-A‘raf 7:65–72

3. Al-A‘raf 7:73–79

4. Al-A’raf 7:40-44

5. Al-A’raf 7:45-93

6. Al-A’raf 7:94-102

7. Surata Hud 11:116-23

— Fim —