A realidade da fé
A necessidade do conhecimento para ser muçulmano
Todo muçulmano sabe muito bem que, neste mundo, o Islã é uma das maiores dádivas de Allah, o Altíssimo. Allah, o Altíssimo, criou-o como membro da comunidade de Hazrat Muhammad Mustafa, que Allah abençoe e conceda-lhe paz, e concedeu-lhe uma dádiva tão grandiosa quanto o Islã; por isso, todo muçulmano agradece a Allah. Além disso, o próprio Allah, o Altíssimo, declarou que o Islã é a maior e mais excelente dádiva concedida aos seres humanos. Ele disse:
الْيَوْمَ أَكْمَلْتُ لَكُمْ دِينَكُمْ وَأَتْمَمْتُ عَلَيْكُمْ نِعْمَتِي وَرَضِيتُ لَكُمُ الْإِسْلَامَ دِينًا ۚ
“Hoje, aperfeiçoei para vós a lei da obediência (o código de vida), completei Minha dádiva para convosco e escolhi o Islã como vosso código de vida.” (Surata Al-Ma’idah: 3)
É dever absolutamente necessário dos muçulmanos cumprir o direito da graça que Allah, o Altíssimo, lhes concedeu. Pois aquele que não cumpre o direito da graça recebida de outrem é extremamente ingrato. E a maior ingratidão é esquecer essa enorme graça de Allah, o Altíssimo, para com os seres humanos. Agora, se me perguntardes como se pode cumprir o direito da graça de Allah, o Altíssimo, responderei: quando Allah, o Altíssimo, vos criou como membros da comunidade de Hazrat Muhammad Mustafa, que Allah abençoe e conceda-lhe paz, o direito dessa graça de Allah, o Altíssimo, será cumprido somente se conseguirdes seguir-lhe plena e sinceramente. Quando Allah, o Altíssimo, vos criou como parte da nação muçulmana, para cumprir o direito dessa graça e misericórdia, deveis ser muçulmanos sinceros. Fora disso, de nenhuma outra forma nem por nenhum outro meio podereis cumprir o “direito” desse grande benefício que Ele vos concedeu. E, se não puderdes ou não quiserdes cumprir esse “direito”, sereis grandes culpados por essa ingratidão. Que Allah proteja todos nós deste grande pecado. Amém.
Depois, se me perguntardes como se pode ser um muçulmano completo, a resposta será muito extensa e longa. Neste livro, continuarei descrevendo gradualmente, em detalhes, cada uma de suas partes. Antes de tudo, falarei sobre um assunto que é necessário antes de qualquer outra coisa para quem deseja tornar-se muçulmano e que pode ser chamado de primeiro passo no caminho para ser muçulmano.
Ponderai por um momento, com calma, sobre o significado da palavra “muçulmano”, que usais constantemente. Será que uma pessoa traz consigo a religião do Islã desde o ventre materno? Pode alguém tornar-se muçulmano apenas por ser filho ou neto de um muçulmano? Assim como o filho de um brâmane é chamado brâmane, o filho de um Chaudhuri é chamado Chaudhuri e o filho de um shudra é chamado shudra, pode alguém tornar-se muçulmano simplesmente por ser filho de uma pessoa chamada muçulmana? “Muçulmano” é o nome de uma linhagem ou de uma classe? Assim como quem nasce entre os ingleses é inglês e quem nasce na linhagem dos Chaudhuri é Chaudhuri, será que os muçulmanos são chamados “muçulmanos” apenas por terem nascido na linhagem de uma nação chamada “muçulmana”? Em resposta a todas essas minhas perguntas, não direis vós: “Não, não é assim que se define um muçulmano”? Ninguém nasce muçulmano desde o ventre materno; ao contrário, torna-se muçulmano ao aceitar o Islã, e, ao abandonar o Islã, a pessoa deixa de ser muçulmana e é completamente excluída da sociedade muçulmana. Qualquer pessoa — seja brâmane ou pathan, inglesa ou americana, bengali ou abissínia — será considerada muçulmana no momento em que aceitar o Islã. E a pessoa que, embora tenha nascido na sociedade “muçulmana”, não segue as regras, normas e disposições do Islã não pode ser considerada muçulmana; pouco importa que seja filho de um Sayyid ou filho de um pathan.
Foi justamente a partir das respostas às minhas perguntas anteriores que se soube que a grande dádiva de Allah Ta’ala, a dádiva de ser muçulmano que você recebeu, não é algo hereditário; você não a recebe assim que nasce do ventre de sua mãe, nem é algo que permanecerá continuamente ligado a você por si só, quer você lhe dê atenção durante toda a vida, quer não. Esta é uma dádiva que se conquista mediante esforço; para obtê-la, você deve empenhar-se devidamente. Somente se a alcançar por meio de esforço e dedicação poderá possuí-la. Mas, se não lhe der a mínima atenção, será privado de sua beleza — que Allah nos proteja.
Portanto, ficou comprovado que o ser humano se torna muçulmano ao aceitar o Islã. Mas qual é o significado de aceitar o Islã? Deve-se considerar muçulmana toda pessoa que simplesmente gritar: “Sou muçulmano” ou “Tornei-me muçulmano”? Ou será possível tornar-se muçulmano apenas pronunciando oralmente algumas palavras em árabe sem compreendê-las, tal como os brâmanes adoradores recitam alguns mantras em sânscrito sem entendê-los? Será essa a essência de aceitar o Islã? Em resposta à pergunta acima, vocês não diriam que não é esse o significado de aceitar o Islã? Aceitar o Islã significa compreender o ensinamento, a orientação e o sistema apresentados por Hazrat Muhammad Mustafa, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, crer sinceramente que são verdadeiros, adotá-los como o único propósito e modelo de vida e agir de acordo com eles; essa é a essência de aceitar o Islã. Portanto, quem não fizer isso não poderá ser muçulmano. A partir dessa resposta de vocês ficou claro que, primeiro, aceitar o Islã significa conhecê-lo e compreendê-lo e, depois de compreendê-lo, transformá-lo em prática. Alguém pode ser brâmane sem saber coisa alguma, porque nasceu na casa de um brâmane e, por isso, continuará sendo brâmane; alguém pode ser Chaudhuri sem saber coisa alguma, pois nasceu da linhagem de um Chaudhuri — e continuará sendo Chaudhuri. Mas ninguém pode ser muçulmano sem conhecer o Islã; não se torna muçulmano apenas por nascer da linhagem de um muçulmano — só se torna muçulmano quando conhece o Islã, acredita nele e age de acordo com ele. Pensem: como seria possível crer no ensinamento e no sistema de vida de Hazrat Muhammad Mustafa, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e agir conforme eles sem conhecê-los? E como poderia alguém tornar-se muçulmano sem conhecer, sem compreender e sem crer? Portanto, fica evidente que é absolutamente impossível tornar-se muçulmano e permanecer muçulmano em meio à ignorância. Todos os que nasceram em lares muçulmanos, que se identificam pelo nome de muçulmanos e afirmam ser muçulmanos não são, na realidade, necessariamente muçulmanos. Muçulmano, na realidade, é aquele que sabe o que é o Islã e, depois de compreendê-lo, crê que ele é verdadeiro. A diferença entre um incrédulo e um muçulmano não está nos nomes. Portanto, não se pode dizer que alguém é hindu por se chamar Ramprasad e que outro é muçulmano por se chamar Abdullah. Além disso, a verdadeira diferença entre um incrédulo e um muçulmano também não está simplesmente nas roupas. Assim, não se pode considerar alguém hindu apenas porque veste um dhoti, nem outro muçulmano apenas porque veste um pijama ou um lungi. Pelo contrário, a verdadeira diferença entre o muçulmano e o incrédulo está na diferença de conhecimento entre ambos. Uma pessoa é incrédula porque não sabe qual é sua relação com o seu Criador nem qual é o verdadeiro caminho para viver segundo a Sua lei. Mas, se a situação de um filho de muçulmanos também for assim, em que aspecto será possível diferenciá-lo de um incrédulo? E como, distinguindo entre esses dois, você chamará um de incrédulo e o outro de muçulmano? É necessário refletir sobre essas questões com muita atenção e calma. A obtenção e a preservação da grande dádiva de Allah Ta’ala pela qual vocês dão graças dependem inteiramente do conhecimento. Sem conhecimento, a pessoa não pode obtê-la; e, mesmo que obtenha uma pequena parte, é extremamente difícil preservá-la. O temor de perdê-la e a inquietação permanecem sempre arraigados em seu coração. Uma classe de pessoas considera-se muçulmana sem ser muçulmana; a única causa disso é a sua ignorância. Aquele que absolutamente não sabe qual é a diferença entre o Islã e o kufr, nem entre o Islã e o shirk, é como um viajante que percorre um caminho mergulhado na escuridão; enquanto caminha sobre a linha reta, nem sequer perceberá quando seus pés escorregarão por si mesmos ou se desviarão para outro caminho. Ao avançar pela estrada da vida, nem notará quando tiver se afastado do caminho reto. Pode até acontecer que, no caminho, um Satanás enganador venha dizer-lhe: “Meu senhor, você se perdeu no escuro; venha comigo, e eu o levarei ao seu destino.” Quando o pobre viajante da escuridão não consegue ver com os próprios olhos o caminho reto e correto, é justamente por causa da ignorância que entregará a mão a algum Dajjal e começará a segui-lo; e não haverá qualquer limite para os lugares a que esse enganador o levará depois de desviá-lo. Ele se encontra diante de um perigo tão grande precisamente porque não tem luz própria e não consegue ver, reconhecer e seguir a linha do caminho. Mas, se tiver luz consigo, não perderá o caminho, e ninguém poderá desencaminhá-lo e levá-lo para a perdição. Por isso, podem compreender quão grande perigo representa para um muçulmano ser ignorante a respeito do Islã e não conhecer devidamente as leis apresentadas pelo Sagrado Alcorão e o ensinamento transmitido por Hazrat Muhammad Mustafa, que Allah o abençoe e lhe conceda paz! Por causa dessa ignorância, ele próprio pode desviar-se, e algum outro Dajjal também pode conduzi-lo à perdição. Porém, se tiver consigo a luz do conhecimento, poderá ver o caminho reto do Islã em cada aspecto e a cada passo da vida. Poderá reconhecer e evitar os caminhos tortuosos e as ações ilícitas que surgirem diante dele a cada passo — kufr, desorientação, pecado, zina, atos haram e outros semelhantes. E, se algum desviador se aproximar dele, poderá reconhecê-lo depois de ouvir apenas algumas de suas palavras. Compreenderá claramente que esse homem é um desviador e que de modo algum se deve segui-lo.
O conhecimento que mencionei é justamente aquilo de que dependem absolutamente o fato de vocês e de seus filhos e descendentes serem muçulmanos e permanecerem muçulmanos. Isso não é algo comum, nem pode ser negligenciado. O agricultor não é negligente no trabalho de seus campos e fazendas; não descuida de irrigar as plantações nem de proteger as colheitas; não deixa de fornecer capim e palha ao gado e aos bezerros. Pois, se for negligente nessas questões, corre o risco de morrer de fome e até de perder a vida. Mas, se ser muçulmano e permanecer muçulmano depende do conhecimento, por que as pessoas estão sendo tão negligentes em obtê-lo? Não existe o temor de que, com isso, se perca a dádiva tão querida e valiosa do iman? Acaso o iman não é mais precioso do que a própria vida? Os muçulmanos dedicam tempo e esforço para preservar a vida; não poderiam dedicar sequer um décimo disso à preservação do iman?
Não estou dizendo que cada um de vocês se tornará um maulvi, lerá grandes livros e passará dez ou doze anos de sua vida exclusivamente estudando para se tornar um grande erudito. Para ser muçulmano, não é necessário estudar tanto nem obter um grande diploma. Quero apenas dizer que, das vinte e quatro horas do dia e da noite, vocês devem dedicar somente uma hora ao aprendizado do conhecimento religioso (ciência islâmica). No mínimo, todo muçulmano — menino, jovem ou idoso — deve adquirir conhecimento suficiente para saber o propósito da revelação do Alcorão Sagrado, compreendê-lo devidamente e assimilá-lo de coração. Também deve conhecer plenamente aquilo que Hazrat Muhammad Mustafa, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, veio eliminar — todas as injustiças e superstições — e aquilo que veio estabelecer em seu lugar; e deve familiarizar-se bem com as normas especiais que Allah, o Altíssimo, determinou para a vida humana. Não é preciso muito tempo para adquirir esse conhecimento; e, se a fé for realmente preciosa para alguém, dedicar apenas uma hora a esse trabalho não será de modo algum difícil para essa pessoa.
A diferença fundamental entre o muçulmano e o incrédulo
Todo muçulmano certamente sabe que a posição e a honra de uma pessoa muçulmana são muito superiores às de uma pessoa incrédula. Allah, o Altíssimo, gosta do muçulmano e não gosta do incrédulo. Os pecados do muçulmano serão perdoados, enquanto não há perdão para os crimes do incrédulo. O muçulmano irá para o Paraíso, e o incrédulo, para o Inferno. Mas é necessário refletir um pouco mais profundamente sobre por que existe uma diferença tão grande entre o muçulmano e o incrédulo.
Assim como as pessoas incrédulas são descendentes de Hazrat Adão, que a paz esteja sobre ele, os muçulmanos também são seus descendentes. Assim como os muçulmanos são seres humanos, os incrédulos também são seres humanos. Tal como os muçulmanos, eles também têm mãos, pés, olhos e ouvidos. Eles também respiram o ar desta Terra, vivem sobre este solo e comem alimentos. Nascem e morrem como os muçulmanos. O mesmo Allah que criou os muçulmanos também os criou. Então, por que a posição dos muçulmanos seria elevada e a deles, inferior? Por que os muçulmanos irão para o Paraíso, enquanto eles serão lançados no Inferno? É necessário refletir especialmente sobre isso. Alguns muçulmanos recebem nomes como Abdullah, Abdur-Rahman ou outros semelhantes; por isso, são muçulmanos. Já algumas pessoas recebem nomes como Dinanath, Tara Singh, Robertson e outros; por isso, são incrédulas. Ou os muçulmanos são circuncidados, enquanto eles não o são; os muçulmanos comem carne bovina, enquanto eles não a comem — uma diferença tão grande entre as pessoas não pode existir apenas por causa dessas coisas. Quando foi Allah, o Altíssimo, quem criou todos os seres humanos e sustenta a todos, Ele jamais poderia cometer uma injustiça tão grande. Portanto, não pode ser que, por causa de questões tão insignificantes, Ele estabeleça uma diferença tão grande entre as pessoas e lance sem motivo no Inferno uma classe de seres humanos criados por Ele.
Se realmente não é assim, devemos refletir sobre onde está a verdadeira diferença entre os dois. Na realidade, a única diferença verdadeira entre eles é o kufr e o Islam. Islam significa obedecer a Allah, o Altíssimo; kufr significa negar Allah, rejeitá-lo e desobedecer a Allah, o Altíssimo. Tanto o muçulmano quanto o incrédulo são seres humanos; ambos são criaturas de Allah, o Altíssimo, e servos submetidos à Sua ordem. Contudo, um é superior ao outro porque conhece o seu verdadeiro Senhor, obedece às Suas ordens e teme as consequências dolorosas de desobedecer-Lhe. O outro, porém, não conhece o seu próprio Senhor, não teme as consequências dolorosas de desobedecer-Lhe e não cumpre as Suas ordens; por isso, segue rumo à perdição. Por essa razão, Ele está descontente com os muçulmanos, prometeu levar o muçulmano ao Paraíso e ameaçou lançar o incrédulo no Inferno.
Com isso, ficou claro que o muçulmano se distingue do incrédulo com base em apenas duas coisas: primeiro, o ilm, ou conhecimento; segundo, o amal, ou ação. Isto é, todo muçulmano deve primeiro saber quem é o seu verdadeiro Senhor. Depois de conhecer detalhadamente aquilo que O agrada e aquilo que O desagrada, deve tornar-se inteiramente obediente ao verdadeiro Senhor, seguir a Sua vontade e abandonar a própria independência e arbitrariedade. Se o seu coração desejar algo contrário à vontade do “Senhor”, não ouvirá o próprio coração, mas ouvirá o “Senhor”. Se uma ação lhe parecer boa, mas o Senhor não a considerar boa, deverá considerá-la má. Por outro lado, se uma ação lhe parecer muito má, mas o “Senhor” a considerar boa; e se uma ação lhe parecer prejudicial, mas o “Senhor” ordenar que a pratique, ele certamente a praticará, por maior que seja o prejuízo para sua vida e seus bens. E, se uma ação lhe parecer benéfica, mas o “Senhor” o proibir de praticá-la, jamais a praticará, mesmo que pudesse obter com ela todas as riquezas do mundo. É precisamente por causa desse ilm e desse tipo de amal que o muçulmano é um servo amado de Allah, o Altíssimo. A misericórdia de Allah, o Altíssimo, derrama-se sobre ele, e Allah, o Altíssimo, concede-lhe honra. O incrédulo, porém, nada sabe sobre essas questões mencionadas; e, por não ter conhecimento, suas ações também não são conformes a elas, pois ele é completamente ignorante a respeito de Allah, o Altíssimo, e é Seu servo desobediente. Consequentemente, será privado da graça de Allah, o Altíssimo.
A conclusão desta discussão é que a pessoa que se identifica como muçulmana, mas é tão ignorante quanto um incrédulo e desobediente a Allah, o Altíssimo, não pode de modo algum ser superior ao incrédulo apenas por causa das diferenças de nome, vestimenta e alimentação; nem poderá, por qualquer motivo, ter direito à misericórdia de Allah, o Altíssimo, neste mundo e no Outro.
Islam não é o nome de uma raça, linhagem ou comunidade. Portanto, não pode ser obtido automaticamente do pai pelo filho, nem do filho pelo neto. Mesmo que o filho de um brâmane seja ignorante e de mau caráter, ele é considerado de alta linhagem e recebe a honra de brâmane simplesmente por ser filho de um brâmane. Já o filho de um curtidor, mesmo sendo sábio e virtuoso, continua sendo considerado baixo e inferior, porque nasceu na casa de uma casta baixa como a dos curtidores. No Islam, porém, não há o menor lugar para essas distinções de linhagem ou de clã. Aqui, Allah, o Altíssimo, declarou claramente em Seu Livro Sagrado, o Alcorão:
اِنَّ اَكۡرَمَكُمۡ عِنۡدَ اللّٰهِ اَتۡقٰٮكُمۡؕ
“Entre vocês, o mais honrado perante Ele é aquele que mais teme Allah Ta’ala e cumpre mais rigorosamente as Suas ordens.”
Hazrat Ibrahim, que a paz esteja com ele, nasceu na casa de um idólatra; porém, reconheceu Allah Ta’ala e obedeceu às Suas ordens. Por isso, Allah Ta’ala fez dele o líder ou imame de todos os mundos. O filho de Hazrat Nuh, que a paz esteja com ele, nasceu na casa de um profeta; mas, por não ter reconhecido Allah Ta’ala, tornou-se desobediente a Ele. Por isso, sua linhagem nobre não foi levada em consideração. Além disso, o castigo que lhe foi imposto pode servir de lição para o mundo inteiro. Portanto, compreendam: toda diferença que existe entre as pessoas perante Allah Ta’ala deve-se unicamente ao ilm e ao amal, ao conhecimento e às ações. Tanto neste mundo como no Além, somente aqueles que O reconhecem de acordo com a orientação que Ele concedeu e a seguem podem receber a Sua graça.
Entretanto, entre aqueles que não possuem essa qualidade, quer se chamem Abdullah ou Abdur Rahman, Dinanath ou Tarasingh, não há diferença alguma perante Allah Ta’ala; nenhum deles pode adquirir o direito de receber a graça de Allah Ta’ala.
Os muçulmanos consideram-se muçulmanos e acreditam que a misericórdia de Allah Ta’ala é derramada sobre os muçulmanos. Mas abram um pouco os olhos e observem: a graça de Allah Ta’ala está realmente descendo sobre eles? Quanto à vida no Além, deixemo-la para depois; é necessário observar, ao menos uma vez, a situação deplorável em que os muçulmanos se encontram neste mundo.
Se o muçulmano fosse realmente um servo amado por Allah Ta’ala, por que esses Seus amados seriam humilhados e desonrados de tantas maneiras neste mundo? Acaso Allah é injusto — que Allah nos proteja! Se o muçulmano conhecesse o “direito” de Allah Ta’ala e cumprisse as Suas ordens, por que Ele faria dos Seus servos desobedientes os senhores absolutos dos muçulmanos? E por que os castigaria em troca da obediência a Ele? Certamente Allah Ta’ala não é injusto, e a recompensa pela obediência a Ele não é humilhação nem castigo. Se isto for aceito com plena convicção, será necessário admitir que há alguma falha na reivindicação dos muçulmanos de serem muçulmanos. Seus nomes certamente estão registrados nos órgãos do governo como muçulmanos; porém, no tribunal de Allah Ta’ala não haverá julgamento segundo o certificado desse órgão governamental. Allah Ta’ala possui o Seu próprio registro, completamente diferente. Portanto, é necessário verificar se, no Seu registro, os nomes dos muçulmanos estão inscritos na lista dos Seus obedientes ou na lista dos desobedientes. Allah Ta’ala enviou um Livro aos muçulmanos, por meio do qual, ao lê-lo, eles podem reconhecer o verdadeiro “Malik”; mas será que os muçulmanos fizeram sequer um pequeno esforço para conhecer o que está escrito nesse Livro? Allah Ta’ala enviou-lhes um profeta, que lhes ensinou os meios e as regras para se tornarem muçulmanos; mas será que alguma vez se preocuparam em saber o que o Seu profeta ensinou ao vir a este mundo? Allah Ta’ala mostrou-lhes o caminho para alcançar honra neste mundo e no Além; mas será que eles seguem esse caminho? Allah Ta’ala explicou, uma a uma, as ações que humilham e desonram as pessoas neste mundo e no Além; mas será que os muçulmanos abandonaram essas ações? Qual pode ser a resposta a essas perguntas? Se for admitido que, assim como os muçulmanos não tentaram adquirir qualquer conhecimento do Livro de Allah Ta’ala, também não seguiram nem um pouco o caminho que Ele mostrou, então como se tornaram muçulmanos e como podem esperar recompensa? Eles recebem resultados correspondentes ao tipo de islamismo que reivindicam, e no Além também receberão uma recompensa correspondente.
Eu disse desde o início que, entre o muçulmano e o kafir, não há diferença alguma além do ilm e do amal — conhecimento e ações. Se o ilm e o amal de alguém forem semelhantes aos do kafir e, ainda assim, ele se identificar como muçulmano, deve-se compreender que não existe mentiroso maior do que ele. O kafir não lê o Sagrado Alcorão e não sabe o que está escrito nele. Mas, se a condição do muçulmano também for essa, com que direito ele se chamará muçulmano? Os kafir não sabem nada do ensinamento que o Profeta Mustafa, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deixou para as pessoas do mundo, nem do caminho reto que ele mostrou para alcançar a proximidade de Allah Ta’ala. Agora, se o muçulmano também for igualmente ignorante, como poderá ser chamado de “muçulmano”? O kafir não segue a vontade de Allah; segue a própria vontade. Se o muçulmano também se tornar escravo de semelhante arbitrariedade, ficar igualmente indiferente e despreocupado em relação a Allah e tornar-se um servo obediente dos próprios desejos, que direito terá de se chamar “muçulmano”, isto é, “aquele que cumpre as ordens de Allah”? O kafir não distingue entre halal e haram. Qualquer coisa na qual veja benefício e prazer, ele a pratica sem hesitação, seja ela halal ou haram perante Allah Ta’ala. Se o muçulmano também adotar esse princípio, onde estará a diferença entre ele e o kafir? Em suma, se, à semelhança do kafir, o muçulmano também for ignorante acerca do Islam e se as ações do kafir e do muçulmano forem iguais, por que somente os muçulmanos, em vez dos kafir, haveriam de receber honra neste mundo? Por que os muçulmanos não sofreriam castigo no Além, assim como os kafir? Este é um assunto tão grave que devemos refletir sobre ele com serenidade.
Não há razão para pensar que estou considerando os muçulmanos como incrédulos, pois isso jamais seria correto. Eu mesmo reflito profundamente sobre esse assunto e desejo que todos os membros de nossa sociedade também reflitam sobre ele. Por que estamos privados da misericórdia de Allah? Por que tantas calamidades se abatem sobre nós de todos os lados? Por que aqueles que consideramos “incrédulos”, isto é, servos desobedientes a Allah, vencem-nos em todos os campos? E por que nós, que afirmamos obedecer às ordens de Allah, somos derrotados em toda parte? Quanto mais reflito sobre a causa disso, mais firme se torna minha convicção de que, atualmente, a diferença entre nós e os incrédulos existe apenas no nome. Na prática, não ficamos nem um pouco atrás dos incrédulos em negligência para com Allah, ausência de temor e desobediência. É claro que há algumas diferenças entre eles e nós, mas por causa delas não podemos esperar qualquer recompensa ou prêmio; ao contrário, por isso merecemos um castigo ainda maior. Pois sabemos que o Alcorão é o Livro de Allah e, mesmo assim, tratamo-lo exatamente como os incrédulos. Sabemos que o Profeta Muhammad Mustafa, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, é o verdadeiro, o mais eminente e o último dos profetas; contudo, abandonamos seu seguimento tal como os incrédulos. Sabemos que Allah amaldiçoou os mentirosos, declarou que tanto os que recebem suborno quanto os que o oferecem certamente irão para o Inferno, e chamou os que praticam e os que pagam juros de pecadores abomináveis. Comparou os que semeiam discórdia e os que caluniam a quem come a carne do próprio irmão, e advertiu sobre um severo castigo para a obscenidade e a falta de pudor. Mas, mesmo depois de saber tudo isso, continuamos a praticar essas coisas de modo irresponsável, exatamente como os incrédulos. Parece que não há em nós o menor temor de Allah. Por isso, embora sejamos, em comparação com os incrédulos, um pouco “muçulmanos”, não vemos qualquer reflexo disso em nossa vida; ao contrário, estamos apenas recebendo castigo, de muitas formas e por muitos lados. A vitória dos incrédulos sobre nós e nossa derrota constante são o castigo por esse crime. Recebemos a grande dádiva do Islam, mas não lhe demos o menor valor. Que crime poderia ser maior do que este?
Nada do que disse acima foi dito com a intenção de repreender alguém; tampouco peguei na pena com o propósito de censurar. Meu verdadeiro objetivo é que se faça um esforço para recuperar tudo o que perdemos. O ser humano só pensa em recuperar algo perdido quando tem plena certeza e compreensão do que perdeu e de quanto era valioso aquilo que perdeu. É por isso que tento alertar os muçulmanos: se recuperarem a consciência e compreenderem que, na realidade, perderam algo extremamente valioso, então se esforçarão para recuperá-lo.
Eu disse no primeiro ensaio que, para um muçulmano tornar-se verdadeiramente muçulmano, é absolutamente indispensável, antes de tudo, adquirir uma educação islâmica genuína e conhecimento verdadeiro sobre o Islam. O que ensina o Sagrado Alcorão? Qual é o caminho mostrado pelo Santo Mensageiro? O que é o Islam? Em que consiste a verdadeira diferença entre a incredulidade e o Islam? É indispensável que todo muçulmano conheça claramente essas questões. Sem esse conhecimento, ninguém pode ser muçulmano. Mas, infelizmente, eles não fazem esforço algum para adquirir esse saber. Isso mostra que até agora não compreenderam de quanta grande dádiva e misericórdia estão privados. Enquanto a criança não chora, nem a mãe lhe dá leite; quando o sedento sente sede, ele próprio procura água, e Allah também lhe proporciona água. Se os próprios muçulmanos não sentem sede, de nada lhes servirá que um poço cheio de água seja levado até sua boca. Eles mesmos deveriam compreender quão grande e terrível é o dano de permanecer ignorantes a respeito do Islam. O Livro de Allah está à sua disposição, mas eles não sabem o que pedem a Allah durante a oração. Poderia haver infortúnio maior do que este? Eles nem sequer sabem o significado da ‘kalima’ por meio da qual entram no Islam. Também não sabem quais responsabilidades recaem sobre eles ao recitá-la. Na verdade, para um muçulmano, não pode haver dano ou infortúnio maior do que esse. Todos sabem quais são as consequências da destruição dos campos e das plantações. Quando a colheita se perde, ninguém duvida de que será preciso morrer de fome. Mas eles não conseguem perceber quão terríveis e assustadoras são as consequências da ignorância a respeito do Islam. Quando conseguirem sentir esse dano, eles próprios se esforçarão para escapar de suas garras terríveis; então, insha’Allah, também serão tomadas medidas para salvá-los desse prejuízo.
Assunto para reflexão
No mundo atual, somente os muçulmanos possuem a Palavra de Allah em estado completamente intacto e inalterado. A palavra do Alcorão que foi revelada ao Profeta de Allah permanece, até hoje, exatamente como era. Sob esse aspecto, não há dúvida de que os muçulmanos do mundo são um povo afortunado. Mas esses mesmos muçulmanos do mundo são também os únicos desafortunados: embora a Palavra Sagrada de Allah permaneça entre eles em sua forma original, estão privados de suas bênçãos e de suas infinitas dádivas.
O Sagrado Alcorão foi revelado para que eles o lessem, o compreendessem e agissem de acordo com ele. Ele veio para lhes conceder força e honra. Veio para torná-los os verdadeiros ‘califas’ de Allah na Terra. E a história testemunha que, enquanto seguiram a orientação do Alcorão, ele os manteve como os maiores líderes do mundo. Mas hoje eles não fazem com o Alcorão outra coisa além de expulsar gênios e fantasmas. Escrevem seus versículos e os penduram no pescoço, escrevem-nos, dissolvem-nos em água e bebem-na, e recitam-nos sem compreender, apenas com o objetivo de acumular mérito; hoje, porém, não buscam orientação nele. Não perguntam ao Alcorão como devem ser suas crenças religiosas. Não lhe perguntam como devem ser suas ações, como deve ser seu caráter, de que maneira devem viver neste mundo, como devem realizar suas transações, segundo que regras devem fazer amizade ou inimizade com as pessoas, quais são seus deveres para com os demais servos de Allah e para consigo mesmos, e como devem cumpri-los; a quem devem obedecer no mundo e a quem devem desobedecer; com quem devem manter relações e com quem não devem; quem é seu aliado e quem é seu inimigo; por meio de que alcançarão honra e sucesso; por quais ações obterão riqueza; e o que poderá causar seu fracasso e sua ruína. Os muçulmanos abandonaram a busca, no Alcorão, das respostas a todas essas perguntas. Agora procuram conselho sobre tudo isso junto dos incrédulos, politeístas, desviados e egoístas, e junto de Satanás, que é o próprio nafs; e agem de acordo com os conselhos deles. Assim, aconteceu precisamente aquilo que pode resultar de agir segundo as ordens de outros, abandonando Allah. E hoje eles sofrem esse resultado até os ossos, em diferentes países do mundo e nas diversas regiões de cada país. O Sagrado Alcorão é a fonte de todo bem. O tipo e a medida de benefício que as pessoas lhe pedirem, esse tipo e essa medida ele lhes concederá. Se lhe pedirem coisas pequenas e desprezíveis, como expulsar gênios e fantasmas, tratar resfriados e tosses, vencer processos judiciais, conseguir emprego e outras coisas semelhantes, ele lhes concederá isso. E, se desejarem obter o reino do mundo, a liderança e o domínio sobre toda a humanidade, também lhes concederá isso. Mais ainda: se desejarem alcançar o Trono de Allah, o Alcorão os levará até lá. Na realidade, tudo depende da capacidade do recipiente. Hoje eles retiram apenas duas gotas de água do grande oceano, embora o oceano possa dar-lhes um grande rio.
O tratamento inadequado que nossos irmãos muçulmanos dispensam ao Sagrado Livro de Allah é tão ridículo que, se eles próprios vissem outra pessoa tratar dessa maneira qualquer coisa deste mundo, não deixariam de zombar dela; pelo contrário, considerá-la-iam louca. Se alguém trouxesse do médico uma receita, a envolvesse num pano e a pendurasse ao pescoço, ou a lavasse em água e a bebesse, o que vocês diriam dele? Não ririam ao ver o que ele fez e não o considerariam completamente tolo? Contudo, diante dos olhos de vocês, dia e noite, o mesmo tipo de tratamento é dado à incomparável receita que o maior dos médicos lhes prescreveu para tratar suas doenças e curá-los. No entanto, isso não provoca sequer o menor riso em ninguém. Ninguém pensa que uma receita não foi escrita para ser pendurada ao pescoço ou lavada e bebida, mas para que, seguindo suas instruções, se prepare o remédio e se faça uso dele.
Se uma pessoa enferma começasse a ler um livro de medicina ou de medicina hakimi e pensasse que, ao ler esse livro, todas as doenças desapareceriam por si mesmas, o que vocês diriam dela? Não diriam que ela enlouqueceu e que deveria ser enviada a um manicômio? Mas, ai de nós! O tratamento que vocês dispensam ao grandioso Livro que o único Grande Médico, Allah Ta’ala, enviou para tratar suas doenças é exatamente o mesmo. Vocês o leem e pensam que, apenas por lê-lo, todas as doenças desaparecerão — não há necessidade alguma de agir conforme suas prescrições. E também não consideram necessário abandonar as coisas que esse Livro declara prejudiciais e ordena que sejam rejeitadas. Então, se vocês expressam determinada opinião sobre quem considera suficiente apenas ler um livro para curar a doença, por que não expressam a mesma opinião sobre si próprios?
Se você recebesse uma carta escrita numa língua que não conhece, correria imediatamente até alguém que conhecesse essa língua, para descobrir o seu significado. Enquanto não conseguisse compreendê-lo, não teria nem um pouco de tranquilidade. Vocês ficam assim inquietos por causa de cartas relacionadas aos negócios comuns; talvez elas lhes tragam o benefício de algumas poucas moedas, nada mais. Mas a carta que lhes chegou da parte de Allah, Senhor de todo o universo, e na qual está contido todo o bem desta vida e da vida futura, vocês a deixam negligenciada, sem que surja em vocês qualquer interesse ou inquietação para conhecer o seu significado. Isso não é realmente algo espantoso? Não digo essas coisas por gracejo ou brincadeira. Se refletirem sobre isso, seus próprios corações lhes dirão que a maior injustiça do mundo é cometida contra este grandioso Livro de Allah. E essa injustiça é cometida justamente por aqueles que afirmam ter fé neste Livro e proclamam estar dispostos até a dar a vida por ele. Todos conhecem o resultado de cometer injustiça contra a Palavra de Allah. Compreendam muito bem: a Palavra de Allah não veio aos seres humanos para que, mesmo depois de a receberem, permanecessem na infelicidade e entre sofrimentos e calamidades. O Sagrado Alcorão é a única fonte de felicidade e realização; não pode ser causa de infortúnio e humilhação. Allah Ta’ala disse por Si mesmo:
طه (١) مَآ أَنزَلۡنَا عَلَيۡكَ ٱلۡقُرۡءَانَ لِتَشۡقَىٰٓ (٢)
“Ta-Ha — Ó Profeta! Não fizemos o Alcorão descer sobre ti para que, apesar dele, permanecesses desventurado.” (Surata Ta-Ha: 1–2)
Por meio dele, não há qualquer possibilidade de o destino das pessoas se tornar ruim ou de elas se tornarem piores que todos os demais. É absolutamente impossível que uma nação, embora tenha consigo a Palavra de Allah, se torne envergonhada e humilhada, fique subjugada por outros, seja desonrada e pisoteada, seja aprisionada nos grilhões da escravidão, tenha toda a sua autoridade colocada nas mãos de outros e seja expulsa e maltratada por eles como animais. Um estado tão doloroso só pode atingir essa nação quando ela começa a cometer injustiça contra a Palavra de Allah. Vocês não desconhecem a situação dos Filhos de Israel. A Torá e o Evangelho foram revelados a eles, e foi dito:
٦٦ وَلَوْ أَنَّهُمْ أَقَامُوا التَّوْرَاةَ وَالْإِنْجِيلَ وَمَا أُنْزِلَ إِلَيْهِمْ مِنْ رَبِّهِمْ لَأَكَلُوا مِنْ فَوْقِهِمْ وَمِنْ تَحْتِ أَرْجُلِهِمْ ۚ مِنْهُمْ أُمَّةٌ
“Se tivessem seguido a Torá, o Evangelho e os demais Livros que lhes foram revelados, teriam recebido provisões do céu e a terra teria feito brotar alimentos para eles.” (Al-Ma’ida: 66)
Mas eles haviam cometido uma injustiça contra essas palavras de Allah, o Altíssimo, e, como consequência:
وَضُرِبَتْ عَلَيْهِمُ الذِّلَّةُ وَالْمَسْكَنَةُ وَبَاءُوا بِغَضَبٍ مِنَ اللَّهِ ۗ ذَٰلِكَ بِأَنَّهُمْ كَانُوا يَكْفُرُونَ بِآيَاتِ اللَّهِ وَيَقْتُلُونَ النَّبِيِّينَ بِغَيْرِ الْحَقِّ ۗ ذَٰلِكَ بِمَا عَصَوْا وَكَانُوا يَعْتَدُونَ
“A humilhação e a dependência foram impostas sobre eles, e foram cercados pela ira de Allah. Isso aconteceu porque começaram a desobedecer à palavra de Allah e a matar injustamente os profetas. E também porque desobedeceram a Allah e ultrapassaram os limites que Allah, o Altíssimo, havia estabelecido para eles.” (Surata Al-Baqara: 61)
Portanto, quando uma nação, apesar de possuir o Livro de Allah, é humilhada, pisoteada, subjugada por outros e se torna mais fraca do que eles neste mundo, vocês devem ter a certeza de que ela está cometendo uma injustiça contra as palavras de Allah. E não pode haver outra causa fundamental para o turbilhão de sofrimentos e calamidades que se abate sobre ela. Eles terão de abandonar a injustiça contra as palavras de Allah e esforçar-se para cumprir plenamente o seu direito. Se vocês não se afastarem desse grande pecado, a sua condição degradante jamais mudará. (Ainda que vocês construam faculdades em todas as aldeias, que cada um dos seus filhos se torne um graduado e que, seguindo o exemplo dos judeus, se torne milionário por meio de negócios com juros, o resultado, na realidade, não será nada.)
Todo muçulmano deve saber, antes de tudo, quem é um muçulmano e qual é o significado da palavra muçulmano. Pois, se uma pessoa não souber o que é a humanidade e qual é a diferença entre o ser humano e o animal, começará a agir como um animal e não compreenderá o valor da sua humanidade. Do mesmo modo, se alguém não souber o que significa ser muçulmano e como distinguir entre um muçulmano e um não muçulmano, começará a agir como um não muçulmano e não conseguirá preservar a honra da sua condição de muçulmano. Portanto, todo muçulmano e cada filho de um muçulmano deve saber muito bem o que significa ser muçulmano, já que se considera muçulmano. Que mudança e diferença ocorrem no ser humano quando ele se torna muçulmano? Que deveres e responsabilidades recaem sobre ele? Dentro de quais limites do Islã uma pessoa pode permanecer muçulmana, e ao ultrapassar quais limites ela deixa de ser muçulmana? Se não souber essas coisas, por mais que reivindique ser muçulmano com a boca, não poderá permanecer muçulmano.
Islã significa obedecer a Allah e cumprir os Seus mandamentos. Islã é entregar-se a Allah, o Altíssimo. Islã é renunciar voluntariamente à própria liberdade e independência diante de Allah. Islã é reconhecer, com submissão, o reino e a obediência a Allah. Aquele que entrega todos os seus assuntos às mãos de Allah é muçulmano. Mas aquele que conduz todos os seus assuntos segundo a própria vontade ou os entrega às mãos de qualquer outro além de Allah não é muçulmano. Entregar-se às mãos de Allah significa que a pessoa aceitará completamente a orientação e as normas do caminho reto que Ele enviou por meio do Seu Livro e do Seu Profeta, sem poder fazer a menor objeção a elas. Em cada aspecto e atividade da vida, seguirá somente as normas do Sagrado Alcorão e da hadith. Aquele que deixa para trás a própria razão, os costumes do mundo e tudo o que não seja Allah, e que, em todos os assuntos, busca orientação apenas no Livro de Allah e na hadith do Seu Mensageiro — perguntando o que deve e o que não deve fazer —, e que aceita sem objeção qualquer norma que encontre ali, rejeitando tudo o que lhe for contrário, somente esse é muçulmano. Isso porque ele se entregou completamente a Allah. É entregando-se dessa maneira às mãos de Allah que uma pessoa pode tornar-se muçulmana. Ao contrário, aquele que de modo algum depende do Sagrado Alcorão e da hadith, mas faz tudo o que a sua própria mente lhe dita, ou segue as normas transmitidas por seus antepassados, ou simplesmente faz tudo o que se faz no mundo, e que, ao conhecer a norma do Sagrado Alcorão e da hadith sobre qualquer assunto, diz: “A minha razão não quer aceitá-la, por isso não a sigo”; ou diz: “Desde a época dos meus antepassados vigora uma norma contrária, portanto não a seguirei”; ou ainda: “Ela é contrária aos costumes do mundo, por isso seguirei esses costumes” — essa pessoa de modo algum é muçulmana. Se ela se identifica como muçulmana, sem dúvida é mentirosa.
Quando você recita a fórmula “Lā ilāha illā Allāh, Muhammad é o Mensageiro de Allah” e reconhece que é muçulmano, também reconhece por meio disso que a lei de Allah é a única lei para você; que Allah, o Altíssimo, é o seu Senhor e Aquele que lhe ordena. A partir de então, você deve obedecer somente a Allah. Para você, somente será reconhecida como verdadeira aquela norma que for encontrada no Livro de Allah e por meio do Seu Mensageiro. Isso significa que, ao tornar-se muçulmano, você sacrificou a sua própria liberdade diante de Allah.
Depois disso, você não pode ter nenhuma opinião independente própria; os diversos costumes do mundo ou as normas e tradições familiares também não podem ter importância alguma. Tampouco pode agora apresentar, em oposição à palavra de Allah e à Sunnah do Seu Mensageiro, qualquer coisa que determinado santo ou venerável senhor tenha dito. A sua única tarefa agora é apresentar cada uma das suas questões diante do Sagrado Alcorão e da hadith. O que não estiver de acordo com eles, você deverá retirar e lançar para longe, seja qual for o costume de quem quer que seja. Dizer que é muçulmano e, depois, abandonar o Sagrado Alcorão e a hadith para seguir a própria opinião, os costumes do mundo ou as palavras e ações de qualquer pessoa é algo totalmente contraditório. Assim como um cego não pode dizer que tem visão, e uma pessoa sem nariz não pode dizer que tem nariz, também aquele que não conduz todos os seus atos conforme o Sagrado Alcorão e a hadith, mas os abandona para seguir a própria razão, os costumes do mundo ou as palavras e ações de determinada pessoa, de modo algum pode chamar a si mesmo de muçulmano.
Se alguém não quiser permanecer muçulmano, ninguém pode obrigá-lo a continuar sendo muçulmano. Toda pessoa tem liberdade para adotar qualquer religião e assumir qualquer nome. Mas, quando alguém se identifica como muçulmano, deve compreender muito bem que só pode permanecer muçulmano enquanto permanecer dentro dos limites do Islã. Aceitar a Palavra de Allah e os hadiths de Seu Mensageiro como o único critério da verdade e do bem, e considerar inválido e falso tudo o que se opõe a eles: esse é o limite do Islã. Quem permanecer dentro desse limite é muçulmano; quem o transgredir se desviará do Islã e ficará fora dele. Mesmo assim, se continuar considerando-se muçulmano e reivindicando ser muçulmano, não há dúvida de que estará enganando a si mesmo e ao mundo.
وَمَنْ لَمْ يَحْكُمْ بِمَا أَنْزَلَ اللَّهُ فَأُولَٰئِكَ هُمُ الْكَافِرُونَ
“Aquele que não julga e decide de acordo com a lei dada por Allah é incrédulo.” — (Surata Al-Ma’idah: 44)
O significado da Kalima Tayyibah
Vocês sabem que a pessoa entra nos limites do Islã recitando uma kalima. Essa kalima não é longa nem extensa; são apenas algumas palavras.لا اله الإ الله محمد رسول الله— basta pronunciar algumas palavras com a boca para que a pessoa se transforme completamente. Se um incrédulo a recita, torna-se muçulmano. Antes, era impuro; agora, tornou-se puro. Antes, a ira de Allah poderia recair sobre ele, mas agora tornou-se um servo amado de Allah. Antes, era digno de entrar no Inferno; agora, as portas do Paraíso se abriram para ele.
Não é só isso: por causa dessa kalima, surge também uma grande diferença entre as pessoas. Aqueles que recitam essa kalima formam uma única ummah, enquanto os que a rejeitam se tornam um povo separado. Se o pai recita a kalima e o filho a rejeita, o pai deixa de ser pai e o filho deixa de ser considerado filho; esse filho não receberá parte alguma da herança do pai, e até sua mãe e sua irmã terão aversão a vê-lo. Por outro lado, se um não muçulmano recitar a kalima e se casar com a filha daquela família, ele e seus filhos receberão herança daquela família. Mas o próprio filho biológico se tornará completamente um estranho apenas por rejeitar essa kalima. Isso permite compreender que essa kalima é algo que transforma estranhos em pessoas próximas, unindo-os, e transforma pessoas próximas em estranhas, rompendo os laços entre elas.
Pensem um pouco: qual é a verdadeira razão para existir uma diferença tão grande entre as pessoas? O que há na kalima além de algumas letras? Kaf, lam, mim, alif, sin e algumas outras letras semelhantes: nada mais. Basta juntar essas letras e pronunciá-las com a boca para que, pelo toque de alguma magia, a pessoa se transforme tanto assim! Será que apenas essas poucas palavras podem produzir uma diferença tão imensa entre as pessoas? Se refletirem um pouco, compreenderão; sua consciência e sua razão lhes dirão que uma mudança tão grande jamais pode ocorrer apenas por juntar algumas letras e pronunciá-las. Os politeístas adoradores de ídolos certamente acreditam que, ao recitar um encantamento, as montanhas se moverão, a terra se abrirá e a água jorrará dela! Não importa se alguém conhece ou não o significado do encantamento; isso não causa nem perda nem ganho. Pois acreditam de todo o coração que todo o poder está contido nas próprias letras. Assim, basta pronunciá-las para que se abram as portas de todos os mistérios. Mas, no Islã, tal concepção não tem valor algum. Aqui, o essencial é o significado; qualquer efeito ou influência que exista nas palavras ocorre justamente por causa do significado. Se a palavra não tiver significado, se não se fixar no fundo do coração e, consequentemente, não produzir mudança nos pensamentos, na crença, no caráter e nas ações da pessoa, não haverá benefício algum em simplesmente pronunciá-la.
Quero explicar isso a vocês por meio de um exemplo simples. Imaginem que estejam sentindo um frio terrível. Se começarem a gritar “cobertor e colchão”, “cobertor e colchão”, isso não diminuirá nem um pouco o frio. Mesmo que passem a noite inteira sentados, recitando mil tasbihs com as palavras “cobertor e colchão”, nenhum resultado será obtido. Mas, se conseguirem um cobertor e um colchão e os colocarem sobre o corpo, o frio certamente cessará. Do mesmo modo, imaginem que estejam com sede. Se gritarem “água”, “água”, da manhã até a noite, isso não saciará a sede. Mas, se pegarem um copo de água e o beberem, certamente sentirão alívio. Imaginem que estejam doentes. Se começarem a recitar tasbihs dizendo “remédio”, “remédio”, a doença não desaparecerá. Porém, se comprarem o remédio correto e o tomarem, ficarão curados. A situação da kalima é exatamente assim. Apenas pronunciar seis ou sete palavras não pode produzir uma diferença tão grande que, por causa disso, aquele que era incrédulo se torne completamente muçulmano, o impuro se torne puro, o inimigo se torne de repente amigo e o condenado ao Inferno se torne de repente destinado ao Paraíso. Há um único meio para que ocorra uma diferença desse tipo entre as pessoas: primeiro é preciso compreender o significado dessas palavras e esforçar-se para que esse significado crie raízes no íntimo do coração. Quando pronunciarem essas palavras depois de conhecer e compreender seu significado, então perceberão que, ao recitar essa kalima, reconheceram diante de Allah uma realidade grandiosa e que, por causa disso, lhes foi atribuída uma grande responsabilidade. Quando recitarem a kalima compreendendo tudo isso, ela estabelecerá pleno domínio sobre seus pensamentos e sobre toda a sua vida. Depois disso, nenhuma ideia contrária a essa kalima poderá encontrar sequer um mínimo de espaço em sua mente e em seu coração. Para sempre, deverão considerar que tudo o que contradiz essa kalima é falso — somente essa kalima é a verdade. Em todos os assuntos e atividades de sua vida, essa kalima será a única autoridade que dará ordens. Depois de recitarem essa kalima, não poderão agir livremente como os incrédulos, fazendo tudo o que quiserem. A partir de agora, deverão viver obedecendo às ordens dessa kalima: deverão fazer aquilo que ela ordenar e afastar-se daquilo que ela proibir. É assim que a recitação da kalima pode produzir entre as pessoas a diferença mencionada anteriormente.
Agora discutiremos o significado da “Kalima”, o que a pessoa reconhece ao recitá-la e a qual código de conduta ela fica obrigada a seguir depois de reconhecê-la, entre outras questões.
O significado da Kalima: “Não há divindade além de Allah; Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é o Mensageiro ou enviado de Allah, o Altíssimo”. A palavra “ilah” contida na Kalima significa o Senhor, o Criador, aquele que estabelece as leis para os seres humanos e que ouve e aceita suas súplicas; somente Ele é digno de adoração. Portanto, ao recitar “La ilaha illallah”, você primeiro reconhece que este mundo não poderia ter surgido sem Allah; seu Criador certamente existe, e esse Criador não é muitos, mas um só. Em lugar algum existe divindade ou soberania de qualquer outro além d’Ele. Em segundo lugar, ao recitar a Kalima, você reconhece que esse único Allah é o Senhor dos seres humanos e de todo o universo. Você, tudo o que lhe pertence e todos os objetos do mundo pertencem a Ele. Ele é o Criador; Ele é o Provedor; a vida e a morte ocorrem segundo Sua ordem. A felicidade e a adversidade vêm de Sua parte. Tudo o que o ser humano recebe, recebe d’Ele; na realidade, Ele é o Doador de todas as coisas. E tudo o que o ser humano perde, na realidade, é Ele quem lhe tira. Somente a Ele se deve temer e somente diante d’Ele se deve inclinar a cabeça. Somente a Ele se deve prestar ibadah e devoção. Além d’Ele, não temos nenhum senhor, proprietário ou legislador. Cumprir somente Sua ordem e agir exclusivamente segundo Sua lei é nosso verdadeiro e único dever.
لا اله الإ الله
Ao recitar a Kalima, você faz esta promessa a Allah, e o mundo inteiro se torna testemunha desse compromisso fundamental. Se agir de modo contrário, sua língua, suas mãos e seus pés, cada um de seus pelos e cada átomo do céu e da terra, diante dos quais você fez essa promessa, testemunharão contra você no tribunal de Allah. Ali você ficará completamente indefeso. Não encontrará testemunha alguma para provar sua defesa. Nenhum advogado ou defensor estará ali para sustentá-lo. Pelo contrário, o próprio advogado ou defensor — aqueles que, nos tribunais deste mundo, recorrem a artimanhas jurídicas — ficará ali em situação tão impotente quanto você. Nesse tribunal, vocês não poderão escapar apresentando falsas testemunhas, documentos forjados ou fazendo um advogado oferecer uma defesa falsa. Vocês podem ocultar seus crimes dos olhos da polícia deste mundo, mas não é possível escondê-los dos olhos da polícia de Allah. A polícia deste mundo pode aceitar suborno; a polícia de Allah jamais aceita suborno. As testemunhas deste mundo podem mentir; todas as testemunhas de Allah são verazes — não mentem. Os juízes deste mundo podem agir injustamente, mas Allah, o Altíssimo, não é injusto. Além disso, não será de modo algum possível fugir da prisão na qual Allah encarcerará os pecadores. Portanto, não há dúvida de que fazer uma falsa promessa a Allah é uma grande tolice e a maior das imprudências. Quando fizer uma promessa diante de Allah, faça-a depois de compreender e refletir muito bem, e esforce-se para cumpri-la; caso contrário, ninguém o obriga a fazer uma promessa apenas com a boca. Pois uma simples declaração verbal não tem valor algum.
Depois de dizer “La ilaha illallahu”, deve-se dizer “Muhammadur Rasulullah”. Isso significa que vocês reconhecem que Allah, o Altíssimo, enviou Sua lei aos seres humanos por intermédio de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Depois de reconhecer Allah como seu Senhor, Proprietário e Rei, era indispensável saber quais são a lei e a ordem desse Rei dos dois mundos. Com que ações Ele ficará satisfeito e com que ações ficará descontente? Ao seguir qual lei Ele nos perdoará e ao seguir qual lei nos castigará? Para que soubéssemos tudo isso, Allah, o Altíssimo, designou Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, como Seu mensageiro. Por intermédio dele, enviou-nos Seu Livro, e Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mostrou na prática como se deve viver de acordo com a ordem de Allah.
Portanto, quando vocês dizem “Muhammadur Rasulullah”, reconhecem precisamente que seguirão a lei e o modo de vida ensinados por Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e pisotearão qualquer lei contrária. Depois de fazer essa promessa, se abandonarem justamente a lei transmitida por Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e seguirem as leis do mundo, não haverá ninguém mais mentiroso e infiel do que vocês. Pois foi ao aceitar como única lei verdadeira a lei transmitida por Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e ao prometer segui-la, que vocês entraram nos limites do Islam. Foi por reconhecer isso que se tornaram irmãos dos muçulmanos. Por essa razão, tornaram-se herdeiros de um pai muçulmano e, por meio de vocês, seus filhos puderam ser legitimamente considerados filhos. Por essa razão, os muçulmanos os ajudaram, deram-lhes zakat e assumiram a responsabilidade de proteger suas vidas, seus bens e sua honra. Apesar de tudo isso, se vocês romperem sua promessa, que infidelidade maior poderia existir no mundo? Se vocês conhecem o significado de [a fórmula da Kalima] e a reconhecem conscientemente, então é seu dever obedecer à lei de Allah em todas as circunstâncias. Mesmo que a lei de Allah não esteja em vigor, vocês devem estabelecê-la. Se alguém pensa que a polícia, o exército, os tribunais e as prisões de Allah não existem em parte alguma e, por isso, é fácil violar Sua lei, enquanto a polícia, o exército, os tribunais e as prisões do governo estão presentes por toda parte e, por isso, é muito difícil violar suas leis — sobre tal pessoa declaro claramente queلا اله الإ الله محمد رسول اللهse ela conhece o significado de [a fórmula da Kalima] e a reconhece conscientemente, então é seu dever obedecer à lei de Allah em todas as circunstâncias. Mesmo que a lei de Allah não esteja em vigor, vocês devem estabelecê-la. Se alguém pensa que a polícia, o exército, os tribunais e as prisões de Allah não existem em parte alguma e, por isso, é fácil violar Sua lei, enquanto a polícia, o exército, os tribunais e as prisões do governo estão presentes por toda parte e, por isso, é muito difícil violar suas leis — sobre tal pessoa declaro claramente queلا اله الإ الله محمد رسول اللهrecitou a Kalima falsamente. Por meio dela, sem dúvida, está enganando seu Allah, o mundo inteiro, todos os muçulmanos e sua própria consciência.
Já expliquei anteriormente o significado da Kalima Tayyiba. Agora peço que reflitam sobre esse assunto sob outro aspecto.
Vocês reconhecem que Allah Todo-Poderoso é o Proprietário de vocês e de todas as coisas. Mas o que isso significa? Significa que a vida, os bens e o próprio corpo de vocês pertencem a Allah. As mãos, os ouvidos e nenhum dos membros do corpo de vocês lhes pertencem. A terra que cultivam, os animais com os quais trabalham e todas as coisas que usam constantemente não são de vocês; vocês receberam tudo isso como propriedade de Allah Todo-Poderoso e como uma dádiva de Allah. Depois de reconhecerem isso, que direito podem ter de dizer: “Minha vida, meu corpo, meus bens, esta coisa é minha e aquela coisa também é minha”? Depois de declararem outra pessoa proprietária de algo, reivindicar novamente como seu aquilo que pertence a ela é completamente sem sentido. Se realmente consideram Allah o Proprietário de todas as coisas do mundo, disso decorrem naturalmente duas obrigações para vocês. A primeira é que, sendo Allah o Proprietário e tendo Ele confiado a vocês, como um depósito, as coisas que Lhe pertencem, vocês devem utilizá-las segundo a ordem desse Proprietário. Se, por meio delas, fizerem algo contrário à Sua vontade, estarão certamente traindo o depósito. Vocês não têm sequer o direito de usar as mãos e os pés em algo contrário à vontade desse Proprietário. Também não podem usar os olhos para ver aquilo que Ele proibiu, pois isso é contrário à Sua vontade. Vocês não têm direito algum de usar estas terras contra a lei do Proprietário. A esposa e os filhos que reivindicam como seus tornaram-se próximos de vocês porque Allah Todo-Poderoso os concedeu a vocês; portanto, devem tratá-los não conforme a própria vontade, mas segundo a ordem do Proprietário. Se os tratarem de modo contrário à vontade Dele, merecerão ser chamados de ladrões. Quando roubam algo alheio ou ocupam pela força o lugar de outra pessoa, vocês chamam isso de infidelidade; do mesmo modo, se considerarem como seus os bens concedidos por Allah e os utilizarem segundo a própria vontade ou segundo a vontade de qualquer outro além de Allah, também serão culpados do crime dessa infidelidade. Mesmo que agir segundo a vontade do Proprietário lhes cause algum prejuízo — ainda que a vida se perca, as mãos e os pés se quebrem, os filhos sofram perdas ou os bens e as terras sejam destruídos — vocês não devem se importar com isso. Se o próprio Proprietário das coisas quiser que elas se desgastem ou sofram danos, Ele tem o direito de fazê-lo. Porém, se agirem contra a vontade do Proprietário e, por causa disso, algum bem for danificado, sem dúvida vocês mesmos serão culpados, pois terão destruído algo que pertence a outro. Vocês não podem sequer usar a própria vida conforme a própria vontade. Se sacrificarem a vida de acordo com a vontade do Proprietário, terão cumprido o direito Dele; mas se entregarem a vida em uma ação contrária à Sua vontade, terão cometido uma enorme infidelidade.
A segunda coisa é que, se vocês utilizarem para o trabalho do Proprietário qualquer coisa que Ele lhes tenha concedido, isso não poderá ser considerado um favor a ninguém — nem mesmo ao Proprietário. Se, nesse caminho, derem algo, prestarem algum serviço ou sacrificarem aquilo que lhes é querido, até mesmo a própria vida, isso não será nem um mínimo favor de vocês a ninguém. Com isso, vocês apenas terão cumprido o direito que o Proprietário tinha sobre vocês. Não há nisso nada que justifique orgulho ou arrogância, nem nada que mereça elogio ou louvor. Lembrem-se: o muçulmano que gasta algo no caminho do Proprietário ou realiza qualquer serviço para Ele não sente o menor orgulho; ao contrário, adota humildade e modéstia. O orgulho e a arrogância arruínam as boas ações. Aquele que espera receber elogios e pratica boas ações somente com esse propósito deseja receber a recompensa de sua ação já neste mundo — e é isso que terá obtido. Vejam a graça de Allah Todo-Poderoso, o Proprietário de todo o mundo: Ele aceita de nós aquilo que Lhe pertence e diz que comprou de vocês essa coisa, prometendo também lhes dar o seu preço. Allahu Akbar! Haverá algum limite para as dádivas e a graça de Allah? No Alcorão Sagrado foi dito:
إِنَّ اللَّهَ اشْتَرَىٰ مِنَ الْمُؤْمِنِينَ أَنْفُسَهُمْ وَأَمْوَالَهُمْ بِأَنَّ لَهُمُ الْجَنَّةَ ۚ
“Allah Todo-Poderoso comprou dos crentes as suas vidas e os seus bens, e, em troca disso, destinou-lhes o Paraíso.” (Surata At-Tawbah, 9:111)
É assim que o Proprietário trata vocês! Mas examinem uma vez como vocês O tratam. O Proprietário lhes deu uma coisa e depois a comprou de vocês pagando um preço; ainda assim, vocês vendem essa mesma coisa a outro, por um preço muito pequeno e desprezível. Aquele a quem vocês a vendem utiliza essas coisas em ações contrárias à vontade do Proprietário, e vocês trabalham para essas pessoas considerando-as como provedoras do seu sustento. Na realidade, vocês não têm direito algum de vender dessa maneira as forças do próprio corpo. Pode haver corrupção maior do que vender às forças inimigas de Allah tudo o que elas desejam comprar? Vender novamente a outra pessoa algo que já foi vendido é um crime legal e moral. Por causa disso, no mundo, pode ser instaurado contra vocês um processo por fraude. Vocês acham que não haverá um processo sobre esse assunto no tribunal de Allah?
A Kalima pura e a Kalima impura
Já expliquei anteriormente o significado da Kalima Tayyibah; aqui quero explicar um pouco mais sobre ela para que vocês a compreendam. Isso porque esta Kalima é a base fundamental do Islã: é por meio dela que a pessoa entra no Islã, e ninguém pode permanecer muçulmano sem compreender bem esta Kalima e moldar a própria vida de acordo com ela. Allah Todo-Poderoso apresentou esta Kalima no Alcorão Sagrado da seguinte maneira:
أَلَمْ تَرَ كَيْفَ ضَرَبَ اللَّهُ مَثَلًا كَلِمَةً طَيِّبَةً كَشَجَرَةٍ طَيِّبَةٍ أَصْلُهَا ثَابِتٌ وَفَرْعُهَا فِي السَّمَاءِ
٢٥ تُؤْتِي أُكُلَهَا كُلَّ حِينٍ بِإِذْنِ رَبِّهَا ۗ وَيَضْرِبُ اللَّهُ الْأَمْثَالَ لِلنَّاسِ لَعَلَّهُمْ يَتَذَكَّرُونَ
٢٦ وَمَثَلُ كَلِمَةٍ خَبِيثَةٍ كَشَجَرَةٍ خَبِيثَةٍ اجْتُثَّتْ مِنْ فَوْقِ الْأَرْضِ مَا لَهَا مِنْ قَرَارٍ
٢٧ يُثَبِّتُ اللَّهُ الَّذِينَ آمَنُوا بِالْقَوْلِ الثَّابِتِ فِي الْحَيَاةِ الدُّنْيَا وَفِي الْآخِرَةِ ۖ وَيُضِلُّ اللَّهُ الظَّالِمِينَ ۚ وَيَفْعَلُ اللَّهُ مَا يَشَاءُ
“O exemplo da Kalima Tayyiba é como o de uma árvore de boa espécie, cujas raízes estão firmemente fincadas sob a terra. Seus galhos e ramos se estendem pelo espaço do céu e, pela ordem de Allah, produzem continuamente fruto após fruto. Allah apresentou esse exemplo para que as pessoas recebam admoestação. Em contraste, está a Kalima Khabisa, isto é, a crença errada e a palavra falsa. Seu exemplo é como o das pequenas ervas daninhas e plantas parasitas das florestas. Elas nascem bem na superfície da terra e são arrancadas com um simples puxão, pois suas raízes não conseguem firmar-se profundamente no solo. Por causa dessa palavra firme, Allah mantém os crentes firmes neste mundo e no Além, e desvia os injustos. Allah faz o que quer.” — Surata Ibrahim: 24–27
Allah apresentou, por meio disso, um exemplo incomparável, do qual vocês podem extrair uma grande lição se refletirem um pouco. Vejam quão profundamente estão fincadas as raízes de uma mangueira, quão alto ela se elevou, quantos galhos se espalharam em todas as direções e quantos bons frutos ela produz a cada ano. Mas como isso aconteceu? Como sua semente era muito poderosa, ela tinha pleno direito de se tornar uma árvore tão grande. E esse direito era tão verdadeiro que, quando ela reivindicou o seu direito, a terra, a água, o ar, o calor do dia e o frio da noite, todas as coisas atenderam à sua reivindicação. Tudo aquilo que a semente da manga pediu, cada uma dessas coisas lhe concedeu. Assim, pelo poder de seu próprio direito, ela conseguiu tornar-se uma árvore tão grande. Depois, ao produzir frutos doces, provou que realmente tinha o direito de ser uma árvore desse tipo. Mesmo que todas as forças do céu e da terra se tenham unido para ajudá-la, não cometeram a menor injustiça; ao contrário, era seu dever agir assim. Pois na terra, na água, no ar e nas demais coisas naturais está depositado o poder de alimentar as plantas e fazê-las crescer, para que as árvores de boa espécie recebam delas outros benefícios.
Além disso, nas florestas há muitas plantas pequenas que surgiram por si mesmas. Que força existe nelas? Uma pequena raiz pode ser arrancada por uma criança. Ou são tão moles e frágeis que se curvam ao simples sopro de uma rajada de vento. Estão cheias de espinhos, que perfuram ao menor toque. Quando colocadas na boca, ferem-na. Quantas nascem diariamente e quantas são arrancadas; somente Allah sabe a conta. Por que estão nessa condição? Porque não possuem a mesma força que a mangueira. Quando não há árvores de boa espécie na terra, ela permanece ociosa e completamente desolada. Por isso, embora contra a sua vontade, dá espaço em seu seio a essas ervas daninhas e plantas parasitas. A água presta alguma ajuda, e o ar lhes concede um pouco de sua força; mas nada no céu e na terra quer reconhecer qualquer direito dessas plantas parasitas. Por isso, a terra não permite que suas raízes se espalhem em seu seio, a água não lhes oferece muita ajuda, e o ar também não lhes concede generosamente o sopro da vida. Depois de todo esse conflito, quando conseguem erguer um pouco a cabeça, tornam-se tão amargas e venenosas que fica provado que as forças do céu e da terra não existem, em sua essência, para fazer nascer essas ervas daninhas. O simples fato de essas ervas terem recebido um pouco de força do seio da natureza já é, para elas, uma grande sorte.
Mantenham diante de vocês esses dois exemplos e, depois, reflitam cuidadosamente sobre a diferença entre a Kalima Tayyiba e a Kalima Khabisa.
O que é a Kalima Tayyiba? É uma verdade; uma verdade tal que, neste mundo, não existe outra mais verdadeira do que ela. Somente um Allah é o Ilah de todo o universo, e cada coisa nos céus e na terra testemunha a veracidade disso. Entre o ser humano, os animais, as árvores, as pedras, os grãos de areia, as nascentes correntes e o sol brilhante, qual dessas coisas Allah, o Altíssimo, não criou? Alguém além de Allah criou alguma delas? Elas vivem graças à benevolência de alguém que não seja a Sua misericórdia e bondade? Alguém além de Allah pode conceder vida ou morte a qualquer uma delas? Quando todo este universo é criação de Allah, o Altíssimo, quando tudo isso existe por Sua misericórdia e quando somente Ele é o dono e o governante de todas essas coisas, então, sempre que você disser que, neste mundo, ninguém além do Único Allah possui senhorio ou divindade, imediatamente cada coisa nos céus e na terra exclamará: “Você disse a verdade; todos nós testemunhamos a veracidade de suas palavras.” Quando você se curvar diante desse Allah, cada coisa do universo se curvará com você diante Dele. Pois todas essas coisas também adoram somente a Ele. Quando você começar a seguir o Seu caminho, não estará sozinho; os incontáveis “exércitos” deste universo inteiro começarão a caminhar com você. Pois, desde o sol no céu até a menor partícula da terra, tudo segue continuamente o caminho que Ele determinou. Quando você confiar nesse Único Allah, sua confiança estará depositada em uma força grandiosa, que é a única dona de todas as forças e riquezas dos céus e da terra. Em suma, se você também viver atento a essa verdade profunda, compreenderá muito bem que, quando uma pessoa crê na Kalima Tayyiba e molda sua vida de acordo com esse ideal, todas as forças dos céus e da terra serão colocadas a serviço de sua ajuda. Desde a vida mundana até a vida futura, ela continuará apenas progredindo. Nenhum de seus esforços fracassará, e nenhum de seus objetivos poderá permanecer incompleto. É isso que Allah, o Altíssimo, declarou no versículo citado. Ele disse: “Esta Kalima é como uma árvore, cujas raízes estão firmemente fincadas nas profundezas da terra e cujos galhos se estendem pelo vasto espaço do céu. E continuamente produzem frutos pela ordem de Allah.”
apresenta a doutrina completamente oposta à ‘Kalima Tayyiba’. O significado da Kalima Khabisa é: não existe nenhuma divindade ou Criador deste mundo, ou existem várias divindades neste mundo. Basta refletir um pouco para compreender que não pode haver mentira maior nem afirmação mais infundada do que essa. Cada coisa nos céus e na terra parece dizer: “És um mentiroso; certamente Allah existe. Foi esse mesmo Allah que criou a nós e a vocês. E foi esse Allah que lhes deu a língua com a qual vocês dizem uma mentira tão grande.” O idólatra afirma que Allah não é único e que, juntamente com Ele, existem muitas outras divindades. Elas também dão sustento; elas também são donas de vocês; elas também podem construir e destruir o destino de vocês. Elas também têm poder para beneficiar ou prejudicar. Elas também podem ouvir as súplicas de vocês. Elas também podem realizar os desejos de vocês; deve-se viver temendo-as. Pode-se confiar nelas. Elas também têm autoridade na administração do mundo. É obrigação obedecer às ordens delas, além das de Allah. Tudo isso é a Kalima Khabisa. Em resposta a todas essas afirmações, cada coisa nos céus e na terra parece dizer: “És um mentiroso; cada uma das tuas afirmações é completamente contrária à verdade.” Agora pensem: como pode alcançar progresso neste mundo e na Vida Futura a pessoa que aceitar esta kalima e moldar a própria vida de acordo com ela? Allah, por Sua graça, concedeu a essas pessoas tempo e trégua, e também prometeu prover-lhes o sustento. Por isso, as forças dos céus e da terra irão sustentá-las em alguma medida — assim como sustentam as ervas daninhas e as plantas parasitas nas florestas e selvas. Mas nenhuma coisa na terra as ajudará com interesse, nem lhes dará apoio com toda a sua força. Elas poderão viver apenas por algum tempo, exatamente como a vegetação da selva — nada além disso.
A mesma diferença também existe quanto às consequências dessas duas kalimas. Quando a ‘Kalima Tayyiba’ der frutos, eles serão muito doces e saborosos. Por meio dela, a paz será estabelecida na terra. A verdade e a plena justiça serão instauradas em toda parte. Toda a humanidade poderá obter dela benefícios extraordinários. Mas, quanto mais a Kalima Khabisa crescer, dela brotarão apenas ramos cobertos de espinhos. Nela nascerão frutos amargos e venenosos. Suas veias estarão cheias de veneno. Vocês podem ver isso com os próprios olhos. Onde quer que a incredulidade, o shirk e o ateísmo sejam mais fortes no mundo, o que está acontecendo ali? Ali, as pessoas bebem o sangue umas das outras. A destruição de país após país e de aldeia após aldeia está sendo planejada com grande empenho. Gases venenosos estão sendo produzidos. Uma nação está empenhada em destruir completamente outra. Os poderosos mantêm os fracos como seus escravos; para tomar o pão que lhes cabe, apenas os fracos são mantidos subjugados por meio do medo do exército, da polícia, da prisão e da forca, sendo obrigados a suportar em silêncio a opressão das nações poderosas. Além disso, a situação interna dessas nações é ainda mais terrivelmente deplorável. Seu caráter moral é tão repugnante que o próprio Satanás sente vergonha ao vê-lo. Ali, as pessoas praticam atos ainda mais baixos do que os dos animais. Ali, as mães matam os próprios filhos com as próprias mãos, para que esses filhos não se tornem obstáculos ao seu prazer e à sua satisfação. Ali, os maridos empurram as próprias esposas para os braços de outros, apenas com o objetivo de ter a esposa alheia em seus próprios braços. Foram construídas casas de clubes para nus, onde homens e mulheres circulam nus como animais. O rico, cobrando juros, trata os pobres como escravos comprados. Parece que eles nasceram no mundo apenas para servi-los. Em suma, por causa desta ‘Kalima Khabisa’, tudo ali se encheu de espinhos; e qualquer fruto que nela nasce torna-se terrivelmente amargo e venenoso.
Depois de analisar esses dois exemplos, Allah, o Altíssimo, disse: aqueles que crerem na ‘Kalima Tayyiba’, Allah, o Altíssimo, os estabelecerá neste mundo e na Vida Futura por meio de uma palavra firme; eles permanecerão firmes e indestrutíveis. Em contrapartida, quanto àqueles que acreditarem na ‘Kalima Khabisa’, Allah, o Altíssimo, tornará vãos todos os seus preparativos e esforços. Eles jamais conseguirão realizar qualquer tarefa fácil. Por meio dela, não poderão alcançar o menor benefício, nem neste mundo nem na Vida Futura.
Vocês ouviram a diferença entre a ‘Kalima Tayyiba’ e a ‘Kalima Khabisa’, bem como os resultados de ambas. Agora, certamente poderão perguntar: nós também aceitamos a ‘Kalima Tayyiba’; então, por que não prosperamos? E por que razão os incrédulos que acreditam na Kalima Khabisa estão se tornando tão poderosos e prósperos?
Cabe a mim responder a essa pergunta. Eu responderei, mas já disse anteriormente que ninguém poderá ficar zangado ao ouvir a minha resposta. Vocês deverão apenas examinar se a minha resposta está correta ou não.
Vocês afirmam ter fé na Kalima Tayyiba e, ainda assim, não estão progredindo; antes de tudo, essa afirmação é falsa. Pois não basta recitar a Kalima Tayyiba apenas com os lábios; é preciso recitá-la com o coração. Recitá-la com o coração significa mudar a crença e a doutrina. Nenhuma ideia ou doutrina contrária a ela deve encontrar lugar no coração de quem crê na Kalima, e ele jamais deve praticar algo contrário às instruções da Kalima. Mas digam: essa é realmente a condição de vocês? Entre vocês não existem milhares de ideias kufr e idólatras contrárias à Kalima Tayyiba? A cabeça do muçulmano não se inclina diante de ninguém além de Allah? O muçulmano não teme ninguém além de Allah? Não confia na ajuda de outros? Não acredita que alguém além de Allah seja provedor? Não acredita que alguém além de Allah seja provedor? Não seguem eles, alegremente, a lei de outros, abandonando a lei de Allah? Aqueles que afirmam ser muçulmanos não vão ao tribunal e dizem claramente: “Não queremos o julgamento da Sharia; queremos ser julgados segundo o costume vigente no país”? Não há entre vocês pessoas que, para obter um pequeno interesse mundano, não hesitam nem um pouco em violar a lei de Allah? Não há entre vocês pessoas que temem a ira dos kafirs, mas não temem absolutamente o castigo de Allah? Não há entre vocês pessoas que não estão dispostas a fazer nada para obter o favor dos kafirs? Não há também pessoas que consideram o governo dos kafirs um “governo”, mas nem sequer se lembram de que o governo de Allah existe em algum lugar? Digam com sinceridade: tudo isso não é verdade? Se é realmente verdade, com que coragem podem dizer que reconhecem a Kalima Tayyiba e, apesar disso, não progridem? Primeiro creiam com um coração sincero e moldem a vida segundo a Kalima Tayyiba. Então, se não nascer aquela grande árvore, com raízes firmes profundamente enterradas na terra e galhos estendidos pelo céu vazio, poderão dizer que Allah fez uma promessa falsa (na‘udhu billah). Além disso, é completamente errado pensar que os que creem na Kalima Khabisa estão realmente progredindo muito no mundo. Aqueles que seguem a Kalima Khabisa não podem progredir; nunca puderam no passado e ainda não podem. Ao verem sua riqueza, sua vida de conforto, paz e diversão, seus recursos de luxo e prazer e seu esplendor exterior, talvez tenham pensado que eles estão, na verdade, progredindo muito. Mas perguntem ao coração deles e vejam quantos realmente vivem em paz. Eles possuem abundantes recursos de luxo e conforto, mas, dentro de seus corações, meteoros de fogo ardem continuamente em chamas. É por isso que não conseguem encontrar o Deus Único. Por desobedecerem à lei de Allah, cada uma de suas famílias está se transformando numa fornalha do Inferno. Abram os jornais e vejam: uma onda de suicídios tomou conta da Europa e da América. Inúmeros divórcios ocorrem dia e noite. Vejam como os filhos desses países são destruídos e como a taxa de natalidade é reduzida pelo uso de medicamentos. Vejam como a vida de milhões de pessoas está sendo destruída por diversos tipos de doenças terríveis. Vejam como ocorre a disputa e a luta por alimentos entre diferentes classes de pessoas. Vejam como o ódio, o rancor e a inimizade desencadearam guerras entre pessoas da mesma nação. Vejam quanto a cobiça pelo luxo tornou amarga a vida humana. Mesmo ao pensar que milhões de pessoas vivem uma vida miserável nestas grandes e brilhantes cidades do mundo, que vocês observam de longe e consideram semelhantes ao paraíso, o corpo estremece! —Isso pode algum dia ser chamado de progresso? É por esse “paraíso” que vocês anseiam?
Lembrem-se: a palavra de Allah jamais pode ser falsa. Na verdade, além da Kalima Tayyiba, não existe nenhuma outra “Kalima” que, sendo seguida, permita ao ser humano alcançar felicidade neste mundo e grande paz no Além. Abram os olhos e olhem para onde quiserem; em lugar algum encontrarão algo contrário a essa verdade.
O objetivo de crer na Kalima Tayyiba
Já expus anteriormente, em dois artigos, o significado detalhado da Kalima Tayyiba diante de vocês; no presente artigo, tentarei expor a necessidade de crer na Kalima Tayyiba e seus benefícios.
Todos sabem que, qualquer que seja o trabalho que uma pessoa realize no mundo, há certamente um objetivo em sua base, e ela o realiza para obter algum benefício. Ninguém faz coisa alguma sem objetivo, sem motivo e sem benefício. Por que vocês bebem água? Bebem para saciar a sede; se ela não a saciasse, vocês jamais beberiam água. Pois não haveria resultado em bebê-la. Por que vocês comem alimentos? Com o objetivo de aliviar a fome e aumentar sua força vital. Mas, se comer e não comer produzissem o mesmo resultado, vocês considerariam comer um trabalho inútil. Quando adoecem, tomam remédios para que a doença desapareça e vocês recuperem plenamente a saúde; mas, se mesmo depois de tomar o remédio a doença não desaparecesse e a situação permanecesse como antes, vocês certamente diriam que tomar aquele remédio foi completamente inútil. Por que vocês se esforçam tanto na agricultura? Fazem isso para obter, por meio dela, cereais, frutas e vários tipos de verduras. Mas, se depois de semear não nascesse nenhuma colheita na terra, vocês jamais aceitariam tamanho esforço para arar, semear e regar. Em suma, qualquer trabalho que realizem no mundo é considerado bem executado quando seu objetivo é alcançado. E, quando o objetivo fracassa, vocês dizem que o trabalho não foi realizado corretamente.
Guardem bem esta ideia profunda e, depois, continuem respondendo às minhas perguntas, uma por uma. A primeira pergunta é: por que se recita a Kalima? Em resposta, vocês não podem dizer outra coisa senão que o objetivo de recitar a Kalima é estabelecer, por meio dela, uma diferença entre o kafir e o muçulmano. Mas quero perguntar: o que significa diferenciar o kafir do muçulmano? Significa acaso que, como o kafir tem dois olhos, o muçulmano, ao recitar a Kalima, passará a ter quatro olhos? Ou que, como o kafir tem uma cabeça, o muçulmano terá duas? —Certamente vocês dirão que não; aqui não se fala de uma diferença física. O verdadeiro significado da diferença é que o destino do kafir e o destino do muçulmano serão diferentes. O destino do kafir é que, no Além, será privado da misericórdia de Allah e o objetivo de sua vida fracassará. Já o destino do muçulmano é que ele poderá alcançar a satisfação de Allah e terá sucesso no Além, vivendo em grande felicidade.
Ao ouvir essa resposta de vocês, direi que deram a resposta correta. Mas digam-me: o que é o Além? O que significa fracassar ou ter êxito no Além? E qual é exatamente o significado de alcançar sucesso e prosperidade ali? Se não compreendermos bem essas questões, não será possível iniciar a discussão seguinte.
Não é preciso que você responda a esta pergunta. A resposta já foi dada anteriormente. Foi dito:
“Este mundo é o campo de cultivo do Além.”
O mundo terreno e o Além não são duas coisas diferentes. Ambos são duas etapas do mesmo caminho do ser humano. O mundo terreno é a primeira etapa desse caminho, e o Além é a etapa final. A relação que existe entre arar a terra e obter dela uma colheita é exatamente a mesma que existe entre este mundo e o Além. Vocês aram a terra, depois semeiam as sementes, regam-na quando necessário e, então, podem obter uma colheita. Levam essa colheita para casa e passam o ano inteiro alimentando-se dela com segurança. Qualquer coisa que cultivarem na terra, será isso que colherão. Se semearem arroz, colherão arroz; se semearem juta, colherão juta; se semearem trigo, colherão uma colheita de trigo; se semearem espinhos, serão plantas espinhosas que nascerão em seu campo. E, se não semearem nada, nada nascerá em seu campo. Além disso, os maus resultados dos erros que cometerem ao arar, semear, regar conforme a necessidade e cuidar do campo só poderão ser conhecidos no momento da colheita. E, se tiverem realizado muito bem todas essas tarefas, será também no momento da colheita que verão seus resultados concretos. A situação do mundo terreno e do Além é exatamente assim. Considerem o mundo terreno como um campo. O ser humano foi enviado para cá com o objetivo de produzir, por meio de seu próprio esforço e empenho, uma colheita para si mesmo. Desde o nascimento até a morte, foi-lhe concedido tempo para esse trabalho. Durante esse período, qualquer colheita que uma pessoa cultivar será essa mesma colheita que poderá obter na vida do Além após a morte; e a vida que levará no Além dependerá exclusivamente da colheita que encontrar ali. Se alguém cultivar boas colheitas durante toda a sua vida terrena, regá-las conforme a necessidade e cuidar muito bem delas, ao entrar na vida do Além verá, como fruto de seu esforço, um jardim verdejante, repleto de frutos e flores. Nessa vida do Além, não terá mais de realizar qualquer esforço; ao contrário, sua vida transcorrerá feliz e confortavelmente graças aos frutos inesgotáveis do jardim que criou com seu trabalho durante toda a vida terrena. É isso que se chama Jannat, o Paraíso. Alcançá-lo significa que a pessoa foi bem-sucedida e vitoriosa no Além.
Mas aquele que, durante sua vida terrena, semear apenas sementes de espinhos e de frutos amargos e venenosos colherá, na vida do Além, somente essa colheita. Ali, não terá mais oportunidade nem tempo para destruir a má colheita, produzir uma boa colheita e, em vez de agir com essa insensatez, agir como uma pessoa sensata. Terá de passar toda a vida no Além com essa má colheita, pois foi somente isso que cultivou no mundo terreno. Os espinhos que plantou serão o leito sobre o qual será deitado no Além. E os frutos amargos e venenosos que cultivou serão aquilo de que terá de padecer ali. É isso que significa fracassar e ser derrotado no Além.
Acabo de explicar o Além, e é isso também que está comprovado no Alcorão e no Hadith. Por meio dessa explicação, ficou indubitavelmente claro que o fracasso ou o sucesso da pessoa na vida do Além, e o fato de seu destino ser bom ou mau, são, na realidade, apenas o resultado de o conhecimento e as ações de sua vida terrena serem bons ou maus. Não há dúvida quanto a isso.
Ao compreender isso, vocês também poderão compreender facilmente que a diferença entre o resultado final do muçulmano e o do kafir não pode existir sem uma razão. Na realidade, a diferença no resultado final é apenas consequência da diferença no ponto de partida. Se, no mundo terreno, não houver diferença entre o conhecimento e as ações do muçulmano e os do kafir, então também não poderá haver qualquer diferença entre seus destinos no Além. É absolutamente impossível que, no mundo terreno, o conhecimento e as ações de uma pessoa sejam exatamente como os de um kafir e, ainda assim, ela escape no Além do destino doloroso do kafir.
Agora surge novamente a questão fundamental: qual é o objetivo de recitar a Kalimah? Inicialmente, em resposta a essa pergunta, vocês disseram que o único objetivo de recitar a Kalimah é haver uma diferença entre o destino do kafir e o do muçulmano. Depois de ouvirem a explicação sobre o destino e o Além, devem refletir novamente sobre a resposta que deram e agora precisam dizer que o objetivo de recitar a Kalimah é moldar o conhecimento e as ações das pessoas neste mundo de tal maneira que seu destino no Além seja bom. O Além ensina ao ser humano, neste mundo, a construir aquele jardim de frutos. Se a pessoa não aceitar justamente essa Kalimah, não poderá de modo algum conhecer as regras para plantar esse jardim. Como, então, poderá construí-lo e de que frutos desfrutará no Além? Se a pessoa recitar essa Kalimah apenas com a boca, mas seu conhecimento for como o de alguém que não a recita e suas ações forem como as de um kafir, sua própria consciência lhe dirá que não há benefício algum em recitá-la dessa maneira. Não pode haver razão para que o destino de tal pessoa seja melhor que o destino de um kafir. Ao recitar a Kalimah apenas com a boca, ela não fez nenhum favor a Allah. Portanto, sem aprender as regras para construir o jardim, sem construí-lo e cultivando apenas espinhos durante toda a vida, ninguém poderá obter no Além um jardim verdejante e cheio de flores e frutos. Imaginar algo assim não passa de uma fantasia impossível. Já expliquei anteriormente, com alguns exemplos, que uma ação cujo resultado é o mesmo tanto quando realizada quanto quando não realizada não tem valor algum; é completamente sem sentido. Um remédio após o qual o estado do paciente permanece exatamente igual ao que era antes de tomá-lo não é, na realidade, um remédio. Do mesmo modo, se o conhecimento e as ações de uma pessoa que recita a Kalimah permanecerem exatamente como os das pessoas que não a recitam, então recitar uma Kalimah assim será completamente sem sentido. Se já neste mundo não houve qualquer diferença entre o modo de vida real do kafir e o do muçulmano, por que seus destinos seriam diferentes no Além?
Agora discutirei que tipo de conhecimento a Kalimah Tayyibah ensina ao ser humano e que tipo de diferença deve existir, nas ações diárias do muçulmano e do kafir, depois que esse conhecimento é aprendido.
Vejam: por meio dessa Kalimah, vocês descobrem прежде de tudo que são servos de Allah e não servos de ninguém mais. Ao saberem disso, também passam automaticamente a saber que, sendo servos d’Aquele a quem pertencem, devem agir neste mundo segundo a Sua vontade. Pois, se vocês seguirem um caminho ou agirem contra a Sua vontade, isso será uma rebelião contra o seu Senhor.
Portanto, esta fórmula lhe ensina que Hazrat Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, é o Mensageiro de Allah. Ao saber disso, você também compreendeu que deve agir exatamente segundo o método que o Mensageiro de Allah indicou para substituir o cultivo de espinhos e frutos venenosos no campo deste mundo pela criação de jardins de flores e frutos doces. Se seguir esse método, então poderá obter no Além exatamente a colheita correspondente. Mas, se agir pelo caminho oposto, cultivará espinhos neste mundo e, no Além, receberá precisamente espinhos como colheita, e nada mais.
Depois de adquirir esse conhecimento, você também deve moldar sua vida cotidiana de acordo com ele. Se acreditar firmemente que um dia terá de morrer, que depois da morte terá de viver uma vida de natureza diferente e que, também nessa vida, terá de depender da colheita que obteve neste mundo, então será absolutamente impossível para você seguir qualquer caminho que não seja as regras e os preceitos apresentados por Hazrat Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Por que você cultiva a terra neste mundo? Você o faz porque, sem cultivar, não obterá colheita. E você acredita firmemente que, sem colheita, morrerá de fome. Se não acreditasse nisso e pensasse que a colheita cresceria mesmo sem cultivar, ou que poderia viver sem colheita, jamais se esforçaria tanto para cultivar a terra. Agora, reflita sobre si mesmo. Saiba que a fé daquele que reconhece apenas com os lábios Allah como seu Senhor e Hazrat Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, como o Mensageiro de Allah, e afirma acreditar no Além, mas cuja conduta cotidiana segue uma direção completamente contrária ao Alcorão de Allah e aos hadiths do Mensageiro, é, na realidade, extremamente fraca. Se acreditasse, com a mesma certeza com que acredita nas más consequências de não trabalhar em seu próprio campo, nas consequências dolorosas de não preparar a colheita para o Além, jamais demonstraria tal negligência em relação às obras destinadas à vida futura. Ninguém cultiva conscientemente sementes de espinhos para o próprio futuro. Somente aquele que não acredita que, ao plantar espinhos, nascerão espinhos e que esses espinhos lhe causarão sofrimento pode cultivar espinhos; ninguém mais. Você jamais toma conscientemente em suas mãos uma brasa ardente, pois sabe com certeza que ela queimará sua mão. Mas uma criança ingênua põe a mão no fogo, porque não sabe de modo algum quão dolorosas serão as consequências.
A realidade do Islam
Quem é chamado de muçulmano?
Aqui mencionarei as qualidades necessárias ao muçulmano. Isto é, discutirei especialmente quais são as condições mínimas para ser muçulmano e quais são as qualidades mínimas que uma pessoa deve possuir para poder ser chamada de muçulmana.
Para compreender bem isso, você deve primeiro adquirir uma concepção correta e completa sobre o kufr e o Islam. De modo geral, saiba que recusar-se a obedecer à ordem de Allah é chamado de “kufr” ou descrença; e seguir somente a ordem de Allah, rejeitando toda regra, toda lei e toda ordem que seja contrária ao Sagrado Alcorão concedido por Allah, é chamado de Islam. A diferença entre o Islam e o “kufr” foi expressa claramente no seguinte versículo do Sagrado Alcorão:وَمَنْ لَّمْ يَحْكُمْ بِمَا أَنْزَلَ اللهُ فَأُولَئِكَ هُمُ الْكَفِرُونَ – المائدة : ٤٤
“São descrentes aqueles que não julgam segundo o que Allah revelou.”
Aqui não se está falando apenas de julgar, de acordo com o Alcorão e os hadiths, os processos apresentados nos tribunais civis e criminais. Pelo contrário, fala-se do julgamento que cada pessoa faz ao realizar cada ato de sua vida. Em cada questão surge diante de vocês a pergunta: deve-se ou não fazer este ato? Devo realizar determinada ação segundo esta regra ou segundo alguma outra? Nesse momento, geralmente apresentam-se a vocês dois tipos de regras. Um tipo é indicado pelo Alcorão de Allah e pelos hadiths do Mensageiro. O outro é apresentado pelo próprio nafs, pelos costumes herdados dos antepassados ou pelas leis criadas pelos seres humanos. Nessas circunstâncias, aquele que decide agir adotando outros caminhos e abandonando a regra concedida por Allah, na realidade, adota o caminho do kufr. Se tomar essa decisão em relação à totalidade de sua vida e não seguir em ato algum a regra concedida por Allah, será completamente descrente. Se, em alguns atos, seguir a orientação de Allah, mas realizar outros de acordo com os desejos de seu nafs, com os costumes dos antepassados ou com leis feitas pelos seres humanos, então se envolverá no kufr exatamente na medida em que desobedecer à lei de Allah. Assim, alguém pode ser meio descrente, outro um quarto descrente; em alguém pode haver um décimo de kufr, e em outro, um vigésimo. Em suma, não há dúvida de que, na medida em que se contrariar a lei de Allah, nessa mesma medida se cometerá kufr. Na verdade, Islam significa ser exclusivamente servo de Allah Todo-Poderoso e não obedecer a ninguém — nem ao próprio nafs, nem aos antepassados, à família e ao clã, ao maulvi sahib, ao pir sahib, ao zamindar, ao tahsildar, ao juiz ou ao magistrado, entre outros. Não ser escravo de ninguém além de Allah e não aceitar a servidão de ninguém: esse é o dever do muçulmano. No Sagrado Alcorão foi dito:
قُلْ يَأَهْلَ الْكِتَبِ تَعَالَوْا إِلَى كَلِمَةٍ سَوَاءٍ بَيْنَنَا وَبَيْنَكُمْ أَلَّا نَعْبُدَ إِلَّا اللَّهَ ولا نُشْرِكَ بِهِ شَيْئًا ولا يَتَّخِذَ بَعْضُنَا بَعْضًا أَرْبَابًا مِّنْ دُونِ اللَّهِ ، فَإِنْ
تَوَلَّوْا فَقُولُوا اشْهَدُوا بِأَنَّا مُسْلِمُونَ – ال عمران : ٦٤
“(Ó Profeta!) Dize ao Povo do Livro: Vinde, unamo-nos em uma palavra que seja igualmente aceitável para nós e para vós (isto é, o que vossos profetas disseram, eu também digo, por ser o Profeta de Allah). Ei-la: (1) não adoraremos ninguém além de Allah; (2) não associaremos ninguém a Ele na Sua divindade; e (3) nenhum de nós tomará outro, além de Allah, como seu protetor e senhor. Se eles não aceitarem estas três coisas, dizei-lhes claramente: testemunhai que somos muçulmanos — isto é, aceitamos plenamente estas três coisas.” — Surata Al Imran: 64
Em outro lugar, foi dito:
افغيْرَ بِيْنِ اللهِ يَبْغُونَ وَلَهُ أَسْلَمَ مَنْ فِي السَّمَوتِ وَالْأَرْضِ طَوْعًا
وكرها والَيْه يُرْجَعُونَ – ال عمران : ۸۳”Quereis prestar obediência a alguém que não seja Allah? Contudo, tudo quanto existe nos céus e na terra Lhe obedece, voluntária ou involuntariamente. E todos retornarão a Ele.”
Estas duas ayat dizem a mesma coisa. Isto é: a verdadeira religião consiste em obedecer a Allah e cumprir as Suas ordens. O significado da adoração a Allah não é apenas que, ao prostrar-se diante d’Ele cinco vezes por dia e por noite, todos os deveres da adoração terão sido cumpridos. Pelo contrário, adoração é, na realidade, obedecer continuamente, dia e noite, exclusivamente às ordens de Allah, o Altíssimo. Abster-se daquilo que Ele proibiu e cumprir integralmente aquilo que Ele ordenou é adoração. Por isso, em cada ação e em cada questão relacionada com uma ordem, deve-se procurar somente a orientação de Allah. O que dizem a própria vontade e a consciência, o que disseram ou fizeram os antepassados, qual é a opinião da família, do clã e dos parentes, o que dizem o respeitável Maulvi Sahib e o respeitável Pir Sahib Qibla, qual é a ordem de fulano ou qual é a opinião de sicrano — nada disso deve ser considerado, nem se deve dar a mínima atenção a essas coisas. Se, abandonando a ordem de Allah, alguém obedecer à ordem de qualquer um deles, estará cometendo shirk contra Allah e concedendo àquele cuja ordem obedece a mesma honra que se concede a Allah. Pois o poder de ordenar pertence unicamente a Allah, o Altíssimo:إن الحُكْمُ الأل”O ser humano não pode obedecer à ordem de ninguém além da ordem de Allah.” A adoração e a devoção dos seres humanos só podem ser dirigidas Àquele que os criou e por cuja graça eles vivem. Tudo quanto existe nos céus e na terra obedece à Sua ordem. Uma pedra não age segundo a ordem de outra pedra; uma árvore não obedece a outra árvore; nenhum animal vive submetido à ordem de outro animal. Mas será que o ser humano se tornou inferior aos animais, às árvores e às pedras, de modo que estes obedecem somente a Allah, enquanto o ser humano começa a seguir as instruções de outros seres humanos, abandonando Allah? É precisamente isso que foi explicado claramente nas três ayat mencionadas do Alcorão. De onde vem esta incredulidade e este desvio, e de que modo eles entram no ser humano? É sobre isso que falaremos agora. O Alcorão Sagrado declarou claramente a esse respeito que a atitude de desobedecer a Allah entra no ser humano por três caminhos.
O primeiro caminho é o desejo do próprio nafs do ser humano:
ومَنْ أَضَلُّ مِمَّنِ اتَّبَعَ هَيْهُ بِغَيْرِ هُدًى مِّنَ اللَّهِ إِنَّ اللَّهَ لا يَهْدِي
القوم الظَّلِمِينَ – القصص : ٥٠”Quem pode ser mais desviado e extraviado do que aquele que segue os desejos do seu próprio nafs, abandonando a orientação concedida por Allah? Allah jamais guia para o caminho reto as pessoas injustas.”
Isto significa que, entre todas as coisas capazes de desviar o ser humano, o nafs humano é a principal força que o conduz ao erro. Para aquele que se torna escravo dos próprios desejos, é absolutamente impossível ser servo de Allah. Pois ele procurará apenas as atividades que lhe proporcionem dinheiro, fama e honra, as coisas que lhe deem mais sabor e prazer e as ações que lhe tragam maior conforto e felicidade; e empenhar-se-á com todas as forças somente nessas ações, nas quais encontrar tais benefícios. Mesmo que Allah tenha proibido essas ações, ele não lhes dará a menor atenção. E jamais estará disposto a realizar as ações nas quais não encontrará essas coisas. Mesmo que Allah, o Altíssimo, tenha ordenado tais ações, ele não se importará minimamente com isso. Nessas circunstâncias, pode-se afirmar claramente que ele não reconheceu Allah, o Altíssimo, como seu Senhor; pelo contrário, elevou o próprio nafs à posição de seu único senhor. Portanto, tal pessoa jamais poderá obter a orientação de Allah. O Alcorão Sagrado declara isso em outro lugar da seguinte forma:
اريت مَنِ اتَّخَذَ إِلَهَهُ هَنهُ ، أَفَأَنتَ تَكُونُ عَلَيْهِ وَكِيلاً ، أَمْ تَحْسَبُ أنْ أَكْثَرَهُمْ يَسْمَعُونَ أَوْ يَعْقِلُونَ ، إِنْ هُمْ إِلَّا كَالْأَنْعَامِ بَلْ هُمْ أَضَلُّ
سبيلاً ٥ – الفرقان : ٤٤٤٣”Ó Profeta! Viste aquele que tomou os desejos do seu próprio nafs como seu senhor? Podes ser o guardião de pessoas desse tipo? Pensas que muitos deles escutam e compreendem a tua pregação? De modo algum. Eles são como animais; na verdade, são ainda mais inferiores do que eles.”
Não pode haver dúvida de que aquele que é escravo do nafs é inferior até mesmo a um animal. Jamais vereis um animal transgredir os limites estabelecidos por Allah. Cada animal come apenas aquilo que Allah, o Altíssimo, determinou para ele e ingere exatamente a quantidade de alimento que lhe foi destinada. E cada animal realiza precisamente o trabalho que lhe foi determinado. Mas o ser humano é uma espécie de animal tal que, quando se torna escravo do nafs, pratica ações diante das quais até Satanás se assusta.
Esta é a primeira causa do desvio do ser humano. O segundo caminho é que, devido à atração natural pelos costumes e tradições, pelas crenças, convicções e opiniões, e pelos modos de vida e práticas herdados dos antepassados, o ser humano se torna seu escravo. Ele passa a considerá-los mais dignos de respeito do que a ordem de Allah. Quando alguma ordem de Allah que contraria esses costumes e tradições lhe é apresentada, imediatamente ele diz: “Foi isso que os meus antepassados fizeram; posso eu agir contra o costume da minha linhagem, que existe há tanto tempo?” Para aquele que sofre de uma devoção tão profunda aos costumes dos antepassados, é de todo impossível tornar-se um servo sincero de Allah. Na prática, os seus antepassados e as pessoas da sua linhagem tornam-se os seus senhores. Se ele afirmar ser muçulmano, não haverá a menor dúvida de que essa afirmação será falsa. O Alcorão Majid advertiu severamente sobre isso e declarou:
وإِذَا قِيلَ لَهُمُ اتَّبِعُوا مَا أَنْزَلَ اللهُ قَالُوا بَلْ نَتَّبِعُ مَا الْفَيْنَا عَلَيْهِ
ابانا ، أوَلَوْ كَانَ آبَاؤُهُمْ لَا يَعْقِلُونَ شَيْئًا وَلَا يَهْتَدُونَ ٥ – البقرة : ١٧٠”Quando lhes é dito: ‘Segui aquilo que Allah revelou’, eles respondem simplesmente: ‘Seguiremos apenas o caminho que os nossos antepassados seguiram.’ Mas, mesmo que os seus antepassados não tenham compreendido coisa alguma e não tenham seguido o caminho reto, ainda assim os seguirão?”
Em outro lugar, foi dito:
وَإِذَا قِيلَ لَهُمْ تَعَالَوْا إِلَى مَا أَنْزَلَ اللهُ وَإِلَى الرَّسُولِ قَالُوا حَسْبُنَا مَا
وَجَدْنَا عَلَيْهِ آبَاءَنَا ، أَوَلَوْ كَانَ آبَاؤُهُمْ لا يَعْلَمُونَ شَيْئًا وَلَا يَهْتَدُونَ ، يَأَيُّهَا
الَّذِينَ آمَنُوا عَلَيْكُمْ أَنْفُسَكُمْ : لا يَضُرُّكُم مِّنْ ضَلَّ إِذَا اهْتَدَيْتُمْ ، إِلَى الله مَرْجِعُكُمْ جَمِيعًا فَيُنَبِّئُكُمْ بِمَا كُنتُمْ تَعْمَلُونَ ٥ – المائدة : ١٠٤-١٠٥
“Sempre que lhes foi dito: ‘Vinde para o que Allah revelou como orientação e vinde até o Mensageiro’, eles disseram: ‘Para nós, basta o caminho seguido por nossos antepassados.’ Mas, mesmo que seus antepassados não tivessem compreendido a verdade e não tivessem seguido o caminho reto, ainda assim os seguiriam cegamente? Ó crentes, deveis refletir. Se conseguirdes seguir o caminho reto, o extravio dos outros não vos causará dano algum. Todos vós tereis de retornar finalmente para Allah. Então Allah vos mostrará o bem e o mal de vossas ações.” — Surata Al-Ma’idah: 104–105
Em geral, os ignorantes de todas as épocas permanecem imersos nesse tipo de extravio, e isso os impede de aceitar o chamado do profeta de Allah. Quando o profeta Moisés, que a paz esteja com ele, convidou o povo de sua época para seguir a Sharia de Allah, eles também disseram:
اجِئْتَنَا لِتَلْفِتْنَا عَمَّا وَجَدْنَا عَلَيْهِ أَبَاهُ نَا – يونس : ۷۸“Vieste para nos afastar do caminho seguido por nossos antepassados?” — Surata Yunus: 78
Quando o profeta Abraão, que a paz esteja com ele, pediu ao povo de sua tribo que se afastasse do politeísmo, eles também disseram:
وَجَدَنَا آبَاءَ نَا لَهَا عَبدِينَ – الانبياء : ٥٣“Vimos nossos antepassados adorando precisamente este ídolo.”
Em suma, ao ouvirem o chamado de cada profeta, as pessoas daquela época diziam apenas: “O que estais dizendo é contrário ao costume de nossos antepassados. Portanto, não podemos aceitá-lo.” No Alcorão Sagrado, foi dito:
وكَذَلِكَ مَا أَرْسَلْنَا مِنْ قَبْلِكَ فِي قَرْيَةٍ مِّنْ نُذِيرٍ إِلَّا قَالَ مُتْرَفُوهَا إِنَّا
وجَدْنَا آبَاءَنَا عَلَى أُمَّةٍ وَإِنَّا عَلَى أَثَرِهِم مُّقْتَدُونَ قُلْ أَوَلَوْ جِئْتُكُمْ بِأَهْدَى مِمَّا وَجَدتُّمْ عَلَيْهِ آبَاءَكُمْ ، قَالُوا إِنَّا بِمَا أُرْسِلْتُمْ بِهِ كُفِرُونَ فَانْتَقَمْنَا مِنْهُمْ فَانْظُرْ كَيْفَ كَانَ عَاقِبَةُ الْمُكَذِّبِينَ – الزخرف : ٢٣-٢٥
“Acontece sempre algo assim: sempre que envio um profeta a algum país, os ricos e prósperos daquele país dizem: ‘Vimos nossos antepassados seguindo uma determinada maneira, e nós seguimos exatamente essa mesma maneira.’ O profeta lhes diz: ‘Mesmo que eu lhes apresente algo melhor do que os costumes e tradições de seus antepassados, ainda assim continuarão seguindo a maneira deles?’ Eles respondem: ‘De modo algum aceitamos o que dizes.’ Quando deram essa resposta, também lhes infligi um severo castigo. Agora, vede por vós mesmos quão terrível foi o destino daqueles que desobedeceram à Minha lei.” — Surata Az-Zukhruf: 23–25
Depois de expor essas palavras, Allah, o Altíssimo, diz: ou seguis os costumes e tradições de vossos antepassados, ou obedeceis sinceramente somente aos Meus mandamentos; porém, jamais podereis cumprir essas duas coisas simultaneamente. Entre os dois caminhos, só podereis escolher um. Se quiserdes ser muçulmanos, abandonai tudo e continuai obedecendo somente aos Meus mandamentos:
وَإِذَا قِيلَ لَهُمُ اتَّبِعُوا مَا أَنْزَلَ اللهُ قَالُوا بَلْ نَتَّبِعُ مَا وَجَدْنَا عَلَيْهِ آبَاءَنَا ، أولَوْ كَانَ الشَّيْطَنُ يَدَعُوهُمْ إِلَى عَذَابِ السَّعِيرِ وَمَنْ يُسْلِمَ وَجْهَهُ إلى اللهِ وَهُوَ مُحْسِنٌ فَقَدِ اسْتَمْسَكَ بِالْعُرْوَةِ الْوُثْقَى ، وَإِلَى اللهِ عَاقِبَةُ الْأُمُورِ وَمَنْ كَفَرَ فَلَا يَحْزُنكَ كُفْرُهُ ، إِلَيْنَا مَرْجِعُهُمْ فَتُنَبِّئُهُمْ بِمَا عَمِلُوا – – لقمن : ۲۱-۲۳
“Quando lhes foi dito: ‘Segui a lei que Allah revelou’, eles responderam: ‘Seguiremos apenas o caminho no qual vimos nossos antepassados caminharem.’ Mas, mesmo que Satanás os convoque para o Inferno, ainda assim o seguirão? Aquele que se entregou completamente a Allah e se tornou virtuoso segurou, certamente, uma corda firme. Pois o desfecho de todas as coisas está registrado nas mãos de Allah. E quanto àquele que negar Allah — ó Profeta, não há razão para que te entristeças por causa de sua negação. Todos eles retornarão a Mim. Então lhes mostrarei o resultado final de todas as suas obras.” — (Surata Luqman: 21–23)
Esta é a segunda causa que desvia as pessoas. Depois, sobre o terceiro caminho, o Alcorão Sagrado diz que, quando uma pessoa abandona os mandamentos de Allah e começa a obedecer aos mandamentos dos seres humanos, imaginando que determinada pessoa é muito rica e, portanto, certamente diz a verdade; ou que sua provisão está nas mãos de determinada pessoa e, por isso, deve necessariamente obedecer às suas ordens; ou que determinada pessoa possui grande força e poder, sendo obrigatório seguir suas palavras; ou que determinada pessoa a destruirá lançando uma maldição contra ela; ou que determinada pessoa irá para o Paraíso levando-a consigo, devendo, portanto, considerar infalível tudo o que ela diz; ou que determinada nação está progredindo muito nos dias de hoje e, por isso, deve seguir seus costumes — então ela jamais consegue agir de acordo com a orientação de Allah.
وإن تُطِيعُ أَكْثَرَ مَنْ فِي الْأَرْضِ يُضِلُّوكَ عَنْ سَبِيلِ اللَّهِ .. الانعام ١١٦“Se obedeceres à maioria dos que estão na Terra, eles te afastarão do caminho de Allah e te conduzirão ao caminho do erro.” — Al-An’am: 116
Em outras palavras, o ser humano só pode permanecer no caminho reto quando tiver um único Allah. Aquele que reconhecer centenas e milhares de pessoas como “deuses”, e que ora seguir a palavra de um deus, ora a palavra de outro, jamais poderá encontrar o caminho reto.
Na discussão acima, certamente compreendestes bem que existem três grandes causas para o desvio do ser humano.
Primeira — a escravidão ao nafs.
Segunda — a escravidão aos costumes e tradições dos antepassados, da família e da linhagem.
Terceira — em geral, a escravidão aos seres humanos do mundo; incluem-se nela a escravidão aos ricos, aos reis, aos governantes, aos líderes hipócritas e às nações desviadas do mundo.
Esses três grandes “deuses” estão reivindicando ser os senhores dos seres humanos. Quem deseja tornar-se muçulmano deve, antes de tudo, rejeitar esses três “deuses”; somente quando fizer isso poderá tornar-se um verdadeiro muçulmano. Mas, para aquele que mantiver esses três tipos de deuses instalados em seu coração e agir segundo suas ordens, será muito difícil tornar-se um verdadeiro servo de Allah. Ele poderá rezar cinquenta orações por dia, jejuar o dia inteiro para ser visto pelas pessoas e vestir-se como um muçulmano, enganando apenas os outros. Poderá também enganar a si mesmo, pensando que se tornou um muçulmano sincero. Mas não há dúvida de que jamais poderá enganar Allah por meio de tais artifícios.
Mencionei acima esses três “deuses”; servi-los é o verdadeiro shirk. Vocês quebraram os deuses de pedra e destruíram as estátuas e os templos feitos de tijolos e cal; mas não prestaram atenção alguma ao templo de ídolos que existe dentro de seus próprios peitos. No entanto, para tornar-se muçulmano, esmagar completamente esses ídolos é a tarefa mais necessária e a primeira condição. Embora eu esteja dirigindo estas palavras a todos os muçulmanos do mundo e saiba que a única causa dos danos que os muçulmanos do mundo sofreram, sofrem e sofrerão é a adoração desses três tipos de deuses, aqui me dirijo apenas aos irmãos muçulmanos deste país: a causa fundamental de seu declínio, de suas diversas carências, queixas e aflições são essas três coisas mencionadas acima. A servidão ao nafs, a servidão aos costumes herdados e a servidão a pessoas que não são Allah ainda estão presentes entre vocês em grande medida. E é isso que, de dentro, está destruindo completamente sua força, seu din e sua fé.
Entre vocês existem distinções entre ashraf e atraf, entre nobres e pessoas comuns, entre pequenos e grandes. Assim, os membros de sua sociedade foram divididos em várias classes. Mas o Islã desejava transformar todas essas classes e comunidades em uma só nação e em irmãos uns dos outros, como uma parede sólida. A vontade de Allah Ta’ala era que cada tijolo dessa parede permanecesse firmemente unido aos outros. Contudo, vocês ainda conservam a antiga concepção hindu de castas. Assim como uma casta hindu permanece separada de outra e uma comunidade odeia outra, vocês fazem exatamente o mesmo. No que diz respeito ao casamento, vocês não conseguem realizar qualquer união entre si. Não conseguem aceitar todos os muçulmanos igualmente como irmãos. Dizem “irmão” com os lábios, mas, na prática, permanece entre vocês exatamente a mesma distinção que existia na Arábia antes do Islã. Por essas razões, vocês não conseguem unir-se e formar uma parede sólida. Como tijolos espalhados em diferentes direções de uma parede quebrada, vocês permanecem separados, cada pessoa isolada. Por isso, não conseguem transformar-se em uma força unida nem enfrentar qualquer calamidade ou dificuldade.
Se, de acordo com os ensinamentos claros do Islã, lhes for dito que destruam todas essas divisões e diferenças e se unam uns aos outros, vocês então dirão a mesma coisa: “Não podemos romper o costume que vem sendo seguido desde o tempo de nossos antepassados.” Mas vocês sabem o que Allah Ta’ala responderá? Ele dirá: “Muito bem, não rompam nada disso e não abandonem esses costumes não islâmicos; como consequência, Eu também os despedaçarei completamente e, embora sejam numerosos no mundo, manterei vocês humilhados e decaídos.”
Allah Ta’ala ordenou-lhes que todos os seus filhos e filhas recebessem uma parte de sua propriedade. Mas o que vocês responderam a isso? Vocês disseram: “Segundo a lei de nossos antepassados, as filhas não podem receber uma parte da propriedade; somente os filhos podem recebê-la. Portanto, seguimos a lei de nossos antepassados; não podemos seguir a lei de Allah.” Pensem um pouco: isso é Islã? Foi-lhes dito que abandonassem as leis herdadas e as leis costumeiras do país, e cada um de vocês responde: “Quando todos abandonarem, eu também abandonarei.” Pois, se outras pessoas não derem às suas filhas a parte da herança, minha propriedade irá para a casa dos outros, mas nada virá da casa dos outros para a minha. Pensem: qual é o significado dessa resposta? Se vocês só obedecerem à lei de Allah quando os outros também a obedecerem, será que, impondo tal condição, vocês realmente creram na lei de Allah? Então amanhã vocês também poderão dizer: “Se os outros cometerem adultério, eu também cometerei adultério; se os outros roubarem, eu também roubarei.” Em suma, enquanto os outros não abandonarem todos os pecados, eu também continuarei cometendo todos os pecados.
A realidade é que, neste assunto, estamos fazendo com que vocês adorem precisamente os três deuses que mencionamos. Vocês servem ao nafs, servem também aos costumes de seus antepassados e servem às nações politeístas do mundo. No entanto, juntamente com a adoração desses três deuses, vocês também reivindicam o Islã.
Aqui mencionei apenas dois exemplos. Caso contrário, se abrirem os olhos e observarem, verão entre vocês tantos tipos de grandes doenças que não será possível enumerá-las até o fim; e, ao prestar atenção, verão que em um lugar se adora um deus, em outro se adoram dois e, em outro ainda, adoram-se os três. Reivindicar o Islã ao mesmo tempo que se adoram três deuses é algo ridículo; e, nessas condições, esperar que sobre nós desça exatamente a infinita misericórdia que Allah Ta’ala prometeu fazer descer sobre os muçulmanos sinceros não é menos ridículo.
A prova da fé
No artigo anterior foi dito que, segundo o Alcorão, são três as verdadeiras causas de o ser humano se desviar. A primeira é abandonar a lei de Allah e tornar-se escravo dos desejos do próprio nafs; a segunda é, em oposição à lei de Allah, seguir os costumes de sua linhagem e o caminho de seus antepassados; e a terceira é, rejeitando o caminho indicado por Allah e por Seu Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, obedecer às pessoas do mundo, sejam elas autoridades de sua própria nação ou de uma nação diferente.
A verdadeira identidade do muçulmano é que ele esteja totalmente livre desses três tipos de doença e desvio. Muçulmano é somente aquele que não é servo de ninguém além de Allah e não segue ninguém além do Mensageiro. É muçulmano aquele que crê, com plena sinceridade, que somente os ensinamentos de Allah e de Seu Profeta são inteiramente verdadeiros, e que tudo o que lhes é contrário é falso. O bem-estar e o progresso do ser humano, tanto na religião quanto na vida mundana, encontram-se exclusivamente nos grandiosos ensinamentos de Allah e do Mensageiro. Aquele que puder crer nisso sem a menor dúvida buscará, em cada ato de sua vida, apenas saber: qual é a ordem de Allah? Qual é a orientação do Mensageiro? E, assim que souber, inclinará imediatamente a cabeça diante dela. Depois, por mais inquieto que seu coração fique, por mais que seus parentes tentem fazê-lo voltar atrás e por mais que as pessoas do mundo se oponham a ele, não dará importância a nenhuma delas. Pois dará a todos esta única resposta: “Ora, sou servo exclusivamente de Allah, o Altíssimo; não sou servo de nenhum de vocês, e creio no Mensageiro — não creio em vocês.” Mas, se alguém disser: “Se isso for uma ordem de Allah e do Mensageiro, que seja; porém meu coração não a aceita”, ou “Temo sofrer prejuízo por causa disso; por isso, abandonarei a ordem de Allah e do Mensageiro e seguirei minha própria opinião”, então não restará em seu coração nem o menor vestígio de fé. Ele não é um crente, mas um hipócrita. Embora, com os lábios, reivindique ser apenas servo de Allah e seguidor do Profeta, na realidade é servo de seu próprio nafs e seguidor de sua própria opinião.
Do mesmo modo, se alguém disser: “Seja qual for a ordem de Allah e do Mensageiro, como se pode abandonar tal costume, se ele existe desde o tempo de nossos antepassados? Ou tal costume existe desde tempos imemoriais em minha família ou tribo; como poderei hoje agir de modo contrário a ele?”, então essa pessoa também deve ser incluída no grupo dos hipócritas. Por mais marcas que surjam em sua testa de tanto rezar e por mais que, publicamente, adote a aparência de uma pessoa religiosa, na realidade é um hipócrita, sem dúvida alguma. A razão é que a essência da religião não encontrou lugar algum em seu coração; seu coração não aceita o Islam sinceramente. Apenas o rukū‘ e o sujūd, o jejum e o hajj não são chamados de “religião do Islam”. Tampouco se cumpre a “religião” simplesmente adotando exteriormente a aparência de um muçulmano. Na realidade, “religião” significa obedecer a Allah e ao Mensageiro. Aquele que se recusa a obedecer a Allah e ao Mensageiro em todos os assuntos de sua vida não possui, de fato, em seu coração nem o menor vestígio de “religião”. Sua oração, seu jejum e sua piedade não passam de engano.
Da mesma forma, se alguém, indiferente à orientação de Allah e de Seu Profeta, disser: “Como tal coisa é muito comum entre os povos europeus ou americanos e eles progrediram, devemos adotá-la também”; ou: “Tal povo fez tal coisa, e tal grande homem disse isso; portanto, também devemos praticá-la”, não há razão para considerar que essa pessoa tenha fé. Se tivesse fé, ninguém poderia dizer tais coisas. Se você é realmente muçulmano e deseja continuar sendo muçulmano, deve rejeitar toda palavra que seja contrária à ordem de Allah e de Seu Mensageiro. Se não puder fazer isso, não convém a ninguém reivindicar o Islam. Dizer com a boca “reconheço Allah e o Mensageiro” e, em todos os assuntos da vida, seguir sempre as pessoas do mundo, deixando de lado as palavras de Allah e do Mensageiro — isso não é nem fé nem Islam; seu nome não é outro senão hipocrisia.
No 18.º juz do Sagrado Alcorão, Allah, o Altíssimo, disse em termos claros:
لَقَدْ أَنْزَلْنَا أيت مُبَيِّنَتِ ، وَاللهُ يَهْدِي مَنْ يُشَاءُ إِلَى صِرَاطٍ مُسْتَقِيره
وَيَقُولُونَ أَمَنَّا بِاللهِ وَبِالرَّسُولِ وَأَطَعْنَا ثُمَّ يَتَوَلَّى فَرِيقٌ مِّنْهُم مِّنْ بَعْدِ ذلك ، وَمَا أُولَئِكَ بِالْمُؤْمِنِينَ وَإِذَا دُعُوا إِلَى اللَّهِ وَرَسُولِهِ لِيَحْكُمْ
بَيْنَهُمْ إِذَا فَرِيقٌ مِّنْهُمْ مُعْرِضُونَ ، وَإِنْ يُكُنُ لَهُمُ الْحَقُّ يَأْتُوا إِلَيْهِ مُنْعِتِينَ فِي قُلُوبِهِمْ مُرَضٌ أَمِ ارْتَابُوا أَمْ يَخَافُونَ أَنْ يُحِيفُ اللَّهُ عَلَيْهِمْ وَرَسُولَهُ ، بَلْ أُولَئِكَ هُمُ الظَّلِمُونَ إِنَّمَا كَانَ قَوْلَ الْمُؤْمِنِينَ إِذَا دُعُوا إِلَى اللَّهِ وَرَسُولِهِ لِيَحْكُمَ بَيْنَهُمْ أَنْ يَقُولُوا سَمِعْنَا وَأَطَعْنَا ، أولئِكَ هُمُ الْمُفْلِحُونَ وَمَنْ يُطِعِ اللَّهَ وَرَسُولَهُ وَيَخْشَ اللَّهَ وَيَتَّقُه فَأُولَئِكَ هُمُ الْفَائِزُونَ – النور : ٥٢٤٦
“Revelámos versículos que distinguem claramente entre a verdade e a falsidade. Allah guia para o caminho reto, por meio desses versículos, quem Ele deseja. As pessoas dizem: ‘Cremos em Allah e em Seu Mensageiro e aceitamos obedecer-lhes’; mas, depois, alguns dentre elas abandonam a obediência. Essas pessoas não são crentes. Quando são chamadas para que se decida, segundo a lei de Allah, acerca de seus assuntos, algumas viram o rosto e se afastam. Porém, se a decisão da lei de Allah estiver de acordo com seus desejos, aceitam-na prontamente. Há uma doença em seus corações? Ou estão simplesmente mergulhadas em dúvidas infundadas? Ou temem que Allah e Seu Mensageiro prejudiquem seus direitos? Qualquer que seja a razão, são eles próprios que cometem injustiça contra si mesmos. A conduta de todo crente é que, quando é chamado para que se julgue segundo a lei de Allah, inclina a cabeça e diz: ‘Ouvimos e obedecemos.’ Na verdade, somente pessoas dessa categoria podem alcançar a salvação e o progresso. E somente aqueles que obedecem à ordem de Allah e de Seu Mensageiro, temem a Allah e se mantêm afastados de Sua desobediência serão bem-sucedidos e salvos.” — Surata An-Nur: 46–52
Procurem compreender com especial atenção a descrição da fé apresentada nestes versículos. Na realidade, fé é entregar-se diante do Livro de Allah e da orientação do Mensageiro. Submetam-se ao mandamento que vem daí. Não deem ouvidos a nada que se oponha a ele — nem ao que diz o próprio coração, nem ao que dizem a linhagem e a família, nem ao que dizem as pessoas do mundo. Aquele em cujo coração estiver presente essa qualidade será, de fato, um crente e muçulmano. E aquele que não possuir essa qualidade não pode ser chamado de outra coisa senão hipócrita.
Talvez tenham ouvido que o costume de beber vinho era muito difundido na Arábia. Homens e mulheres, jovens e idosos, eram quase completamente loucos por vinho. Na verdade, havia em seus corações uma profunda atração por ele. Não há conta de quantas gazais e canções eles compuseram em seu louvor. Estavam dispostos até a dar a vida pelo vinho. Também sabem que, uma vez adquirido o vício do vinho, é muito difícil livrar-se dele. Os alcoólatras podem dar a vida pelo vinho, mas não conseguem abandoná-lo. Se um alcoólatra não encontrasse vinho, sua condição se tornava pior que a de um doente grave. Mas sabem o que aconteceu quando foi revelado o versículo que proibia o vinho? Aqueles mesmos árabes, loucos pelo vinho e dispostos a dar a vida por ele, assim que receberam essa ordem quebraram com as próprias mãos os grandes recipientes de vinho. O vinho correu pelas ruas e vielas de Medina como água da chuva. Em uma reunião, algumas pessoas estavam sentadas juntas bebendo vinho. Quando o anunciador do Profeta se aproximou delas e disse que o vinho havia sido proibido, a mão de cada um parou exatamente onde estava, e ninguém avançou nem um pouco. Aquele cujo copo estava junto à boca afastou-o imediatamente. Depois disso, nem uma gota de vinho pôde entrar em seu estômago. Essa é a verdadeira descrição da fé. E isso é chamado de obediência a Allah e ao Mensageiro.
Vocês não desconhecem quão severa é, no Islã, a punição pelo adultério. São cem chicotadas nas costas. Só de imaginá-la, o corpo humano estremece. E, se o adúltero for casado, ele é apedrejado até morrer. Ao ouvir o nome dessa punição severa, as pessoas tremem de medo. Mas sabem como era a situação daqueles que possuíam fé sincera, embora tivessem cometido adultério por engano? Um homem, enganado por Satanás, cometeu adultério. Não havia testemunha, ninguém para levá-lo ao tribunal, nem ninguém para avisar a polícia. Mas em seu coração havia fé sincera. E essa fé lhe disse: “Quando, sem temer a lei de Allah, satisfizeste o desejo do teu ego, prepara-te para receber a punição conforme a lei estabelecida por Ele.” Por isso, ele próprio foi à presença de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e declarou: “Ó Mensageiro de Allah! Cometi adultério; aplique-me a punição por isso.” Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, então virou o rosto para o outro lado. O homem voltou a colocar-se diante dele, pediu novamente que lhe fosse aplicada a punição e disse: “Aplique-me a punição adequada pelo pecado que cometi.” Isso é o que se chama fé. Aquele em quem essa fé estiver presente achará fácil receber cem golpes de chicote nas costas descobertas, e até morrer sob golpes de pedras; mas comparecer diante de Allah depois de desobedecer-Lhe será, para ele, algo extremamente difícil.
Também sabem que, para as pessoas do mundo, os parentes costumam ser os mais queridos. Especialmente pai, filho e irmão são tão amados que as pessoas estão dispostas a abandonar tudo por eles. Mas pensem uma vez nas batalhas de Badr e Uhud e vejam quem lutou contra quem. O pai estava no grupo dos muçulmanos e o filho no grupo dos incrédulos; um filho de um lado e o pai do outro; um irmão a favor do Islã e o outro a favor do inimigo. Os parentes mais próximos dividiram-se em dois grupos e lutaram uns contra os outros. E lutaram de tal maneira como se nem sequer se conhecessem. Não lutaram por dinheiro, terras ou alguma inimizade pessoal. Derramaram o próprio sangue e lutaram contra os parentes somente por causa de Allah e do Mensageiro. Havia neles uma força de vontade tão intensa que eram capazes de sacrificar sem hesitação, por Allah e pelo Mensageiro, pais, irmãos, filhos e toda a linhagem.
Também sabem que o Islã pôs fim a quase todos os antigos costumes da Arábia. Naquela época, a maior cerimônia era a adoração de ídolos. Esse costume existia havia centenas de anos. Mas o Islã declarou em linguagem clara: abandonem esses ídolos. Beber vinho, cometer adultério, jogar, roubar e assaltar eram acontecimentos cotidianos na Arábia. O Islã disse: é preciso abandonar tudo isso. As mulheres da Arábia circulavam completamente “à vista de todos”. O Islã ordenou: não se pode continuar assim; adotem o véu. Às mulheres não era concedida uma parte da herança. O Islã declarou que, assim como os homens, as mulheres também receberiam uma parte da herança. O filho adotivo era considerado exatamente como um filho biológico. O Islã disse: isso não pode ser assim. Criar o filho de outra pessoa não o transforma inteiramente em filho biológico. Até mesmo se o filho adotivo se divorciasse da esposa, seria permitido casar-se com ela. Em suma, todos esses antigos costumes foram destruídos um a um.
Sabem como agiram aqueles que creram em Allah e no Mensageiro? Durante centenas de anos, eles e seus antepassados haviam adorado certos ídolos, apresentado diante deles diversas oferendas e alimentos votivos, e prostrado a cabeça diante deles. Os crentes destruíram cada um desses ídolos com as próprias mãos. Abandonaram todas as tradições de linhagem e os costumes que haviam existido durante centenas de anos. Assim que receberam a ordem de Allah, pisotearam as coisas que consideravam grandiosas e sagradas. Assim que receberam a ordem de Allah, começaram a aceitar de bom grado as coisas que antes odiavam. Começaram a considerar impuras, conforme a lei de Allah, as coisas que sempre haviam considerado puras e sagradas. E as coisas que consideravam impuras tornaram-se de repente puras. Abandonaram imediatamente todos os costumes incrédulos nos quais encontravam conforto e felicidade, assim que receberam a ordem de Allah, e aceitaram com alegria todas as ordens do Islã que pareciam difíceis de cumprir. Isso é fé, e isso é chamado de Islã.
Mas pensem: se naquela época os árabes tivessem dito, como seus antepassados: “Não aceitaremos tais e tais práticas, porque nos causarão prejuízo; certamente praticaremos tais e tais coisas, porque existem desde o tempo de nossos antepassados; e não podemos abandonar tais práticas dos romanos ou dos iranianos, porque gostamos muito delas”, e assim tivessem rejeitado uma a uma as ordens do Islã, haveria hoje sequer um muçulmano no mundo?
Foi dito no Alcorão Sagrado:
لَنْ تَنَالُوا الْبِرَّ حَتَّى تُنْفِقُوا مِمَّا تُحِبُّونَ – – ال عمران : ۹۲“Jamais alcançareis a verdadeira virtude enquanto não gastardes daquilo que amais. Se não sacrificardes a Allah as coisas que mais amais, jamais podereis alcançar a verdadeira prosperidade.” — Surata Āl ʿImrān, 92
Este versículo é precisamente a essência do Islã e da fé. A verdadeira exigência do Islã é que vocês ofereçam a Allah aquilo que mais amam. Em todos os aspectos das atividades da vida, verão que o mandamento de Allah os chama numa direção, enquanto o seu nafs os chama exatamente na direção oposta. Allah ordena uma determinada ação, mas o seu nafs os incita a não realizá-la, dizendo que ela lhes causará terrível sofrimento ou prejuízo. Allah proíbe uma ação, mas o seu nafs a considera extremamente agradável e benéfica e não se dispõe a abandoná-la. Em cada ação, a satisfação de Allah está de um lado, enquanto a atração por todos os prazeres e comodidades do mundo continua chamando-os completamente para o outro lado. Em suma, a cada passo da vida surgem diante do ser humano dois caminhos: um é o caminho do Islã, e o outro é o caminho do kufr e do munafiquismo. Nessas circunstâncias, deve-se considerar que somente aquele que pisa em todas as coisas mundanas e se submete unicamente ao mandamento de Allah adotou o caminho do Islã. Já aquele que pisa no mandamento de Allah para satisfazer os desejos do próprio coração ou os prazeres do mundo deve ser entendido como alguém que adotou o caminho da incredulidade e do munafiquismo.
As pessoas dos tempos atuais adotaram uma política inteiramente oportunista. Aceitam com grande alegria as regras simples do Islã, mas, quando chega o momento do verdadeiro confronto entre o kufr e o Islã, mudam imediatamente de atitude. Mesmo entre os grandes pretendentes ao Islã existe essa fraqueza. Gritam muito: “Islã! Islã!”. Ao elogiar o Islã, não se cansam de louvá-lo, e por isso também realizam muitas ações para ostentação; contudo, quando são convidadas, juntamente com todos os demais, a aplicar em si mesmas o sistema completo do Islã que tanto elogiam, logo respondem: “Isso não é fácil; há vários tipos de dificuldades nisso”, ou: “Agora isso não pode ser feito”. O significado disso é que, para eles, o Islã é apenas um belo brinquedo. Quando colocado numa prateleira, sua beleza pode ser contemplada. Pode-se elogiá-lo muito com a boca, mas, na opinião deles, mencionar sua aplicação como lei completa sobre si mesmos, sobre os membros de suas famílias, sobre seus parentes e sobre suas próprias atividades e negócios é um crime. Essa é a situação das pessoas hoje conhecidas como religiosas — e então, o que dizer das demais pessoas do mundo? Lembrem-se: é precisamente por essa razão que nossas orações, jejuns, recitação do Alcorão e observância externa da sharia já não produzem o efeito que produziam antes; por isso, não conseguimos obter delas nenhum resultado na vida prática. Pois, quando a própria alma não existe, que bom resultado pode produzir um corpo sem vida?
O critério infalível do Islã
Allah, o Altíssimo, disse em Seu Livro Sagrado:
قُلْ إِن صَلاتِي وَنُسُكِي وَمَحْيَايَ وَمَمَاتِي لِلَّهِ رَبِّ الْعَلَمِينَ الأَشَرِيكَ
له ، وبذلك أمرت وأنا أول المسلمين – الانعام : ١٦٣-١٦٤
“(Ó Muhammad!) Dize: Minha oração, todos os meus atos de adoração, minha vida e minha morte — tudo é para Allah, Senhor dos mundos. Ele não tem parceiro algum. Foi-me ordenado dizer isso, e sou o primeiro a inclinar a cabeça em submissão diante d’Ele.” — Surata Al-An’am: 163–164
Ao explicar este versículo, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:
من أَحَبُّ لِلَّهِ وَأَبْغَضَ لِلَّهِ وَأَعْطَى لِلَّهِ وَمَنَعَ لِلَّهِ فَقَدِ اسْتَكْمَلُ الْإِيْمَانَ .
“Quem amou por Allah, odiou por Allah, deu por Allah e deixou de dar por Allah completou sua fé. Isto é, tornou-se um crente de fé completa.”
Fica provado, pelo versículo que mencionei inicialmente, que o Islã ordena ao ser humano dedicar exclusivamente a Allah, com sinceridade, toda a sua servidão e obediência, sua vida e sua morte, e não associar ninguém a Ele nesse assunto. Em outras palavras, o ser humano não deve servir nem obedecer a ninguém além de Allah. Sua vida e sua morte também não devem ser dedicadas a ninguém além de Allah.
Pelo que foi apresentado, na explicação, nas palavras do nobre Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, compreende-se que dedicar exclusivamente a Allah o amor, a inimizade e todos os negócios, atividades e transações da vida material constitui uma exigência essencial da fé. Sem isso, longe de alcançar uma posição elevada, a própria fé não pode atingir a perfeição. Quanto maior for a deficiência nesse aspecto, exatamente nessa medida permanecerá incompleta a fé da pessoa. Por outro lado, quanto mais plenamente o ser humano conseguir entregar o coração a Allah, tanto mais completa será sua fé.
A maioria das pessoas pensa que dedicar-se inteiramente a Allah é necessário apenas para alcançar uma posição ou honra elevada; não seria uma condição indispensável para a fé e o Islã, nem seria necessário que alguém alcançasse tão elevado estado espiritual. Em outras palavras, pensam que, mesmo sem desenvolver esse estado interior, uma pessoa pode ser crente e muçulmana. Mas tal concepção é errada desde a sua base. Ela surgiu porque as pessoas comuns não distinguem entre o Islã jurídico e formal e o verdadeiro Islã reconhecido por Allah.
No Islã conforme a jurisprudência e a lei, não se considera o estado real do coração da pessoa — e isso também não é possível. Em vez disso, observa-se a existência de alguns sinais externos necessários, como prova concreta da sua declaração verbal. Se alguém declarar verbalmente que crê em Allah, no Mensageiro, no Alcorão, na Vida Futura e em outros assuntos essenciais, e depois cumprir as condições necessárias que constituem a prova prática dessa declaração, será considerado dentro dos limites do Islã. Todos tratarão com ele como muçulmano. Contudo, na realidade, essas disposições se limitam a este mundo e fornecem apenas a base jurídica e civilizacional necessária à sociedade muçulmana do ponto de vista material. Todos os que ingressarem na sociedade muçulmana por meio de tal declaração serão considerados muçulmanos. Ninguém entre eles poderá ser chamado de incrédulo. Eles terão uns dos outros os direitos morais e sociais reconhecidos pela Shariah; poderão estabelecer relações matrimoniais entre si, a herança será distribuída e outras relações sociais serão estabelecidas.
Mas a salvação da pessoa na Vida Futura, seu reconhecimento como muçulmana e crente, e sua inclusão entre os servos amados de Allah não são possíveis apenas por meio desse reconhecimento jurídico e verbal. Para isso, é indispensável que, depois de reconhecer interiormente, a pessoa volte o coração para Allah e se entregue completamente a Ele com sincero desejo e entusiasmo. Neste mundo, a declaração verbal tem valor apenas perante o juiz e entre as pessoas comuns ou os muçulmanos, pois eles só podem observar o exterior. Allah, porém, vê o coração da pessoa, seu estado interior real e seus sentimentos. Allah mede a fé das pessoas. Se a pessoa dedicou sua vida e sua morte, toda a sua gratidão, amizade, obediência, servidão e todo o curso de sua vida a Allah, e não a outro, será avaliada diante de Allah precisamente por esse critério. Se essa avaliação demonstrar que ela dedicou tudo isso exclusivamente a Allah, será considerada muçulmana e crente; mas, se tiver dedicado algo a outro, não será considerada nem muçulmana nem crente nesse sentido. Sob essa perspectiva, quanto mais imatura e imperfeita a pessoa se mostrar, igualmente imaturas e imperfeitas serão sua fé e seu Islã. Mesmo que seja considerada um grande muçulmano neste mundo e receba ali uma honra incomparável, não terá importância alguma perante Allah. O valor da pessoa diante de Allah será determinado apenas por saber se ela aplicou tudo o que Allah lhe concedeu para Allah e no caminho indicado por Ele. Se você tiver feito isso, receberá a posição devida a um servo obediente e digno de amizade. Mas, se mantiver alguma coisa afastada da adoração de Allah e não a aplicar no caminho indicado por Ele, sua declaração de ser muçulmano — isto é, de estar completamente submetido a Allah — ficará comprovadamente falsa. Talvez essa falsa declaração consiga enganar as pessoas deste mundo; elas poderão, enganadas por suas palavras, dar-lhe lugar na sociedade muçulmana e conceder-lhe todos os benefícios destinados aos muçulmanos. Mas Allah jamais será enganado por isso, nem o incluirá entre Seus amigos fiéis e obedientes.
Se refletirmos profundamente sobre a explicação dessa diferença entre o Islã jurídico e o verdadeiro Islã, compreenderemos que suas consequências não serão diferentes apenas na Vida Futura; também neste mundo os efeitos práticos dessa diferença necessariamente serão distintos. Por isso, todos os muçulmanos que vieram ao mundo e todos os que nele existem atualmente podem ser divididos nas duas categorias mencionadas.
Há um tipo de muçulmano que reconhece Allah e o Mensageiro e aceita o Islã apenas como uma religião; mas concede a essa religião somente o lugar de uma parte ou setor de sua vida total, e nada além disso. Assim, nessa parte específica, a crença no Islã é estabelecida plenamente. Os atos de adoração são realizados regularmente. Recitam-se o tasbih e os adhkar. Na alimentação e em algumas questões sociais também se observa abstinência e piedade; quase tudo o que se deve fazer como prática religiosa é realizado. Contudo, fora dessa parte ou setor, não se permite que os princípios muçulmanos sejam aplicados nas demais áreas da vida. Nelas, quando amam, amam a si mesmos, seus próprios interesses, seu país e sua nação, ou alguma outra coisa; e, quando demonstram inimizade ou entram em guerra, fazem-no igualmente por algum interesse material semelhante. Suas transações, seus negócios, seus relacionamentos, seus filhos, sua linhagem e família, seu país e sua sociedade, e seu comportamento com as demais pessoas — tudo se desenvolve sob uma perspectiva puramente material, deixando completamente de lado a religião do Islã. Sejam proprietários de terras, comerciantes, governantes ou soldados, cada um trabalha como um profissional independente, não como muçulmano. Nesse aspecto, não concedem sequer o menor espaço ao modo de vida muçulmano. Embora sua identidade muçulmana possa exercer influência parcial sobre as atividades civilizacionais, educacionais e políticas das quais participam coletiva e conjuntamente, nenhuma relação real se estabelece entre tais atividades e o Islã.
Há, por outro lado, um segundo tipo de muçulmano: aquele que entrega ao Islã sua personalidade inteira e todo o seu ser. Em todos os aspectos da vida, cumpre suas obrigações como muçulmano. Seja pai muçulmano, filho muçulmano, esposa muçulmana, comerciante, proprietário de terras, trabalhador ou empregado — seja o que for —, sua vida é conduzida em toda parte como a de um muçulmano. Seus sentimentos, esperanças e aspirações, pensamentos e opiniões, julgamentos e decisões, ódio e amor, preferências e aversões — tudo segue o ideal islâmico. O Islã exercerá domínio completo sobre sua mente e cérebro, seus olhos e ouvidos, seu estômago e suas partes íntimas, suas mãos, seus pés e todos os membros de seu corpo. Seu afeto, amor ou inimizade não ultrapassarão os limites do Islã. Se estabelecer uma relação com alguém, fará isso pelo Islã; se lutar contra alguém, lutará pelo Islã; se der algo a alguém, será somente porque o Islã ordena tal doação. E, se deixar de dar algo a alguém, deixará de fazê-lo exatamente conforme a orientação do Islã. Esse modo de agir não será aplicado apenas à sua vida individual; sua vida coletiva também será construída, em todos os aspectos e completamente, sobre a base do Islã. Coletivamente, todo o seu ser será dedicado e consagrado ao Islã. O caráter, a atuação e as atividades de toda a sua nação serão estabelecidos e conduzidos sobre os fundamentos dos princípios islâmicos.
Esses dois tipos de muçulmanos são, em essência, completamente opostos. Embora, do ponto de vista jurídico, ambas as classes sejam consideradas parte da mesma comunidade, ou seja, da mesma nação, e embora a palavra “muçulmano” se aplique igualmente a ambas, na realidade são inteiramente diferentes. Nenhuma realização do primeiro tipo de muçulmano foi considerada digna de menção ou motivo de orgulho na história do Islã. Eles não fizeram nada capaz de exercer uma influência gloriosa do Islã na história do mundo. O mundo jamais sentiu qualquer importância desse tipo de muçulmano. Pelo contrário, o fato é que o retrocesso do Islã tornou-se possível por meio desse tipo de muçulmano e por causa deles. Foi justamente porque aumentou o número de tais muçulmanos na sociedade muçulmana que se tornou possível estabelecer o domínio da incredulidade sobre a vida humana e fazer com que os muçulmanos se contentassem com a oportunidade de viver uma vida religiosa limitada.
Na realidade, Allah jamais desejou esse tipo de muçulmano. Ele não enviou os profetas ao mundo para produzir esse tipo de muçulmano, nem revelou os Livros para formar esse tipo de muçulmano. De fato, mesmo que esse tipo de muçulmano não existisse no mundo, não se sentiria nenhuma carência especialmente importante. Tampouco teria havido necessidade de manter esse longo processo de revelação da wahy para suprir tal carência. Na verdade, os muçulmanos que Allah enviou profetas e revelou Livros para formar, aqueles que realizaram e ainda são capazes de realizar obras valiosas e significativas do ponto de vista islâmico, são somente os muçulmanos da segunda categoria.
Isso não é verdade apenas no caso do Islã. Aqueles que limitam seus princípios e ideais a uma simples declaração verbal, consideram-nos apenas um complemento da vida e dedicam sua vida e sua morte a alguma outra coisa não podem elevar a bandeira de nenhum ideal no mundo. Também nos tempos atuais é possível encontrar uma prova prática disso. Os verdadeiros seguidores sinceros de um ideal só podem ser aqueles que se entregam de coração e alma à sua prática e ao seu serviço, que dedicam a ele toda a sua personalidade e que não amam nada que lhes pertença — nem mesmo a própria vida ou os filhos — mais do que esse ideal. Na realidade, é por meio de pessoas assim que qualquer ideal pode ser estabelecido e difundido no mundo. É por isso que todo ideal aguarda pessoas desse tipo.
Certamente, existe uma diferença entre o Islã e os demais ideais em um aspecto. Os outros ideais também exigem das pessoas a entrega, a sinceridade absoluta e a obediência mencionadas; contudo, em essência, não têm direito algum de fazer tal exigência. Trata-se apenas de uma reivindicação injusta que fazem às pessoas. Em contrapartida, a exigência do Islã para com o ser humano é eterna e natural. Pelas mesmas razões pelas quais um ideal exige de outras pessoas que dediquem a ele a vida inteira e sua personalidade completa, o ser humano não pode sacrificar algo que lhe pertence por uma coisa que, em essência, não lhe pertence. Mas, quando o Islã exige do ser humano completa submissão e sincera dedicação a Allah, é precisamente por isso que o ser humano deve dedicar-se a Ele. Tudo o que existe nos céus e na Terra pertence a Allah. O próprio ser humano é criação de Allah. Tudo o que o ser humano possui e tudo o que existe entre os seres humanos pertence a Allah. Também pertencem a Allah as coisas com as quais o ser humano trabalha neste mundo. Portanto, do ponto de vista da razão, da inteligência e da justiça, é lógico que aquilo que pertence a Allah seja dedicado ao caminho de Allah. O sacrifício que uma pessoa faz em favor de outro, de seus próprios interesses ou de um objeto desejado é, em essência, nada além de traição e uso indevido. Naturalmente, se alguém fizer algo de acordo com a ordem de Allah, isso certamente não será traição, pois tudo o que é dedicado a Allah serve, em essência, para cumprir o direito de Allah.
Entretanto, os muçulmanos devem aprender com as atividades daqueles que sacrificam tudo por doutrinas e ideais falsos, por divindades e senhores inventados por eles mesmos, e que, por isso, dão exemplos históricos de firmeza e constância. Quando o ser humano é capaz de demonstrar tanta sinceridade e dedicação pelo falso, quão lamentável é que não faça sequer a milésima parte desse sacrifício pela verdade!
De acordo com o verdadeiro critério da fé e do Islã encontrado nos versículos e hadith mencionados, cada um de nós deve fazer uma autoavaliação. Se você afirma ter aceitado o Islã e possuir fé, deve examinar atentamente se sua vida e sua morte são dedicadas exclusivamente a Allah. Deve verificar especialmente se vive somente para Allah; se todas as capacidades e forças de sua mente e cérebro, a força de seu corpo e espírito, seu tempo e seu trabalho estão dedicados exclusivamente a cumprir a vontade de Allah e a desempenhar as responsabilidades da comunidade muçulmana. Deve também examinar cuidadosamente se sua adoração e obediência são somente para Allah e se sua vida está completamente livre da servidão ao ego, à família, ao clã, aos amigos, à sociedade e ao governo. Deve observar particularmente se suas preferências e aversões são determinadas conforme a vontade de Allah.
Examine ainda se você ama e trata com carinho aqueles a quem ama somente por Allah. E se odeia aqueles a quem odeia também por Allah. Será que algum interesse próprio atua nesse ódio e nesse amor? Dar e deixar de dar também ocorre por Allah? Tudo o que você concede neste mundo às pessoas, inclusive aquilo que oferece com o próprio sustento e com o coração, é dado com o desejo de obter somente a satisfação de Allah? E quando você deixa de dar, isso também ocorre precisamente por Allah? Você deixa de dar porque Allah, o Altíssimo, proibiu que desse? E, ao não dar, busca somente a satisfação de Allah?
Se encontrar em si mesmo o estado de dedicar tudo a Allah, agradeça a Allah, pois Allah realmente aperfeiçoou sua fé. Mas, se sentir em si qualquer deficiência nesse aspecto, empenhe-se imediatamente em removê-la e concentre nisso todos os seus esforços e atividades. Pois do preenchimento dessa deficiência dependem seu sucesso neste mundo e sua salvação na Vida Futura. Mesmo que obtenha uma grande riqueza no mundo, ela não poderá preencher essa deficiência. Mas, se conseguir preenchê-la, mesmo que não obtenha nada neste mundo, na realidade não terá sofrido perda alguma.
É preciso lembrar que esse critério do Alcorão e do hadith não foi estabelecido para avaliar outras pessoas e declará-las crentes ou hipócritas, muçulmanas ou incrédulas. Na realidade, ele foi estabelecido para salvar a si mesmo e, antes de ficar no banco dos réus no tribunal da Vida Futura, conhecer neste mundo os próprios defeitos e corrigi-los. Não há necessidade de preocupar-se com o que os muftis e juízes deste mundo pensam de você. O que deve preocupar-lhe é a posição que Allah — o Juiz Supremo, único conhecedor de tudo o que é oculto e manifesto — lhe concede. Você não deve acomodar-se apenas porque aparece como muçulmano no registro populacional deste mundo. É seu dever estar atento à posição que lhe é concedida no registro de Allah. Mesmo que o mundo inteiro lhe dê um certificado de fé e Islã, isso não lhe trará nenhum benefício real. O verdadeiro sucesso de sua vida consiste em ser considerado, perante Aquele em cujas mãos está o julgamento, um crente em vez de um hipócrita e um servo obediente em vez de um desobediente.
Por que é necessário cumprir os mandamentos de Allah?
Em vários artigos anteriores, tenho repetido muitas vezes que Islam é seguir os mandamentos de Allah e de Seu Mensageiro, e que ninguém pode tornar-se muçulmano enquanto não abandonar a obediência aos próprios desejos, às superstições dos antepassados, aos reis e governantes do mundo e às ordens das pessoas, passando a obedecer exclusivamente a Allah e ao Mensageiro. Mas por que se dá tanta ênfase ao cumprimento dos mandamentos de Allah e do Mensageiro? É isso que explicarei detalhadamente aqui. Alguém pode perguntar: qual é a necessidade de obedecer a Allah? Será que Ele depende da nossa obediência? Será por isso que Allah exige de nós que cumpramos Seus próprios mandamentos e os de Seu Mensageiro? Será que Allah deseja governar como os reis e governantes do mundo, que anseiam por exercer seu domínio? Assim como os povos do mundo dizem: “Reconheçam minha autoridade”, será que Allah também diz o mesmo? É justamente a isso que desejo responder agora.
A verdade é que Allah Ta’ala não exige a obediência das pessoas por interesse próprio; Ele a deseja para o bem das próprias pessoas. Allah não é como os reis e governantes do mundo. Os reis e funcionários do mundo exercem seu domínio sobre as pessoas apenas em benefício próprio e tentam transformá-las em escravas de sua vontade. Allah Ta’ala, porém, não tem interesse algum; Ele é puro de toda baixeza ligada a interesses. Allah não precisa receber dinheiro de vocês. Ele não necessita construir palácios, comprar automóveis, nem obter o dinheiro de vocês ou artigos de luxo, prazeres e conforto. Ele é Puro e não depende de ninguém. Tudo o que existe no mundo pertence a Ele; somente Ele é o dono de toda a riqueza. Ele ordena que vocês sigam Seus mandamentos e Lhe obedeçam apenas para o bem de vocês; Ele deseja somente o benefício de vocês. Ele criou o ser humano como “Ashraful Makhluqat”, a melhor das criaturas. Ele de modo algum aprova que essa melhor e grandiosa criação se torne escrava de Satanás, escrava de outro ser humano ou se curve diante de coisas insignificantes e desprezíveis do mundo. Tampouco Lhe agrada que aqueles a quem Ele fez Seus representantes na Terra pereçam vagando nas trevas da ignorância e, seguindo os próprios desejos como animais, se transformem nas criaturas mais inferiores. Por isso, Ele disse às pessoas: “Ó seres humanos! Sigam somente os Meus mandamentos; sigam apenas as Minhas instruções; obedeçam somente a Mim. Aceitem a luz do conhecimento que enviei a vocês por meio do Meu Profeta; assim, poderão encontrar o caminho reto e direto. E, seguindo esse caminho reto, poderão alcançar honra em todos os lugares, tanto neste mundo quanto na Outra Vida.”
لا إِكْرَاهَ فِي الدِّين بعد قد تبينَ الرُّشْدُ مِنَ الْغَيِّ ، فَمَنْ يُكْفُرُ بِالطَّاغُوتِ وَيُؤْمِنُ بِاللَّهِ فَقَدِ اسْتَمْسَكَ بِالْعُرْوَةِ الْوُثْقَى وَلَا انفِصَامَ لَهَا ، وَاللَّهُ سَمِيعٌ عَلِيمٌ ، اللهُ وَلِيُّ الَّذِينَ آمَنُوا يُخْرِجُهُم مِّنَ الظُّلُمَاتِ إِلَى النُّورِ وَالَّذِينَ كَفَرُوا أَوْلِيتُهُمُ الطَّاغُوتُ يُخْرِجُونَهُم مِّنَ النُّورِ إِلَى الظلمت ، أُولَئِكَ أَصْحَبُ النَّارِ هُمْ فِيهَا خَلِدُونَ – البقرة : ٢٥٦-٢٥٧“Não há compulsão na religião. O caminho reto da orientação foi claramente distinguido do caminho tortuoso do extravio. Portanto, aqueles dentre vocês que rejeitarem os falsos deuses e os líderes que conduzem ao erro e crerem somente em Allah terão agarrado uma corda firme que jamais se romperá. Allah ouve tudo e conhece tudo. Allah Ta’ala é o Protetor daqueles que creem; Ele os tira das trevas e os conduz ao caminho mais luminoso. Quanto àqueles que negam Allah, seus falsos deuses e líderes que desencaminham assumem a responsabilidade por protegê-los. Eles os desviam da luz e os mergulham nas trevas do extravio. Eles irão para o Inferno e permanecerão ali para sempre.” — Surata Al-Baqarah: 256–257
É necessário que vocês reflitam e compreendam por que o ser humano mergulha na escuridão quando obedece às ordens de outros falsos deuses em vez de Allah, e por que, obedecendo somente a Allah, pode encontrar um caminho luminoso. Vocês veem que, neste mundo, sua vida está ligada a inúmeras relações. A primeira relação é com o próprio corpo. As mãos, os pés, os ouvidos, os olhos, a língua, o coração, o cérebro e o estômago — tudo isso Allah, o Altíssimo, lhes concedeu para servi-los. Mas cabe a vocês decidir de que maneira receberão os serviços dessas partes. O que darão de comer ao estômago e o que não lhe darão; o que farão com as mãos e o que não farão; por que caminho conduzirão os dois pés e por qual não os conduzirão; que trabalho farão os olhos e os ouvidos e que trabalho não farão; que pensamentos guardarão no coração e quais não guardarão; sobre que assuntos pensarão com o coração e o cérebro e sobre quais não pensarão — tudo isso vocês devem determinar depois de refletir cuidadosamente sobre todos os aspectos. Todos eles são seus servos: por meio deles vocês podem realizar boas obras, mas também podem cometer pecados. Eles podem, ao executar suas tarefas, transformá-los em pessoas de elevada dignidade, mas também podem torná-los criaturas inferiores e desprezíveis, piores que os animais.
Depois, sua relação mais próxima é com as pessoas de sua casa — pais, irmãos e irmãs, esposa, filhos e demais parentes —, com todos os quais vocês precisam manter uma relação em todos os momentos, dia e noite. Mas devem decidir, depois de uma reflexão especial, como se comportarão com eles. É necessário que conheçam bem quais direitos eles têm sobre vocês e quais direitos vocês têm sobre eles. Lembrem-se de que a felicidade, a paz e o sucesso de vocês neste mundo e na Outra Vida dependem de seu bom comportamento com eles. Se vocês se comportarem mal com eles, transformarão este mundo em um inferno para si mesmos. E não apenas neste mundo: na Vida Futura também terão de prestar contas rigorosas diante de Allah.
Depois vem a questão de sua relação com as inúmeras outras pessoas do mundo. Muitos são seus vizinhos; muitos são seus amigos; alguns são seus inimigos. Muitas pessoas os servem, e vocês servem a muitas pessoas. Vocês recebem algo de alguém e dão algo a outra pessoa. Alguém confia em vocês e lhes entrega a responsabilidade de seu trabalho; por sua vez, vocês confiam em alguém e lhe confiam a responsabilidade de seu trabalho. Alguém é seu juiz, e vocês são juízes de outra pessoa. Vocês dão ordens a alguém, e alguém dá ordens a vocês. Em suma, vocês precisam manter, dia e noite, algum tipo de relação com tantas pessoas que não conseguem terminar de contá-las. Devem preservar muito bem essas relações. Sua felicidade e paz, seus gostos e desgostos, sua alegria, seu sucesso, sua honra, seu respeito e sua boa reputação neste mundo dependem inteiramente disso. Se conseguirem preservá-las muito bem, poderão alcançar felicidade, paz, alegria e glória neste mundo; caso contrário, não. Do mesmo modo, se puderem comparecer diante de Allah na Outra Vida sem serem considerados usurpadores dos direitos de alguém, poderão alcançar honra perante Ele. Para isso, devem apresentar-se diante de Allah de tal maneira que não tenham violado o direito de ninguém, não tenham cometido injustiça contra ninguém, ninguém tenha apresentado queixa contra vocês, não sejam responsáveis pela destruição da vida de alguém e não tenham prejudicado injustamente a vida, os bens ou a honra de ninguém. Portanto, agora vocês precisam decidir como poderão manter corretamente relações com essas inúmeras pessoas e, conhecendo as causas que podem romper, destruir ou amargar essas relações, devem afastar-se delas.
Agora reflitam sobre quão indispensável é, para manter relações corretas com seus corpos, com os membros de suas famílias e com todas as demais pessoas do mundo, obter a luz brilhante do conhecimento a cada passo da vida. A cada passo vocês precisam saber: o que é falso? O que é justiça e o que é injustiça? Que direitos os outros têm sobre vocês e que direitos vocês têm sobre os outros? Em que ação da vida se encontra o verdadeiro benefício e em que coisa existe a possibilidade de um verdadeiro prejuízo?………. Mas onde vocês podem obter o conhecimento de tudo isso? Se perguntarem isso à sua própria mente, não encontrarão ali a resposta. Pois sua mente é ignorante e tola; além de seus próprios interesses e desejos imorais, ela nada conhece. Ela dirá: beba álcool, cometa adultério, ganhe dinheiro por meios ilícitos. Pois há muito prazer nessas coisas. Ela dirá: aproprie-se dos direitos de todos e não dê a ninguém o que lhe é devido. Pois há lucro e conforto nisso. Se vocês entregarem as rédeas de sua vida a alguém tão ignorante e tolo — se fizerem apenas o que a mente deseja —, isso os levará ao limite extremo da degradação. Por fim, vocês se tornarão pessoas egoístas, mesquinhas e pecadoras, das mais desprezíveis. Com isso, tudo o que há em sua religião e em sua vida mundana será arruinado.
A segunda possibilidade é que, sem ouvir os desejos de sua própria mente, vocês dependam inteiramente de outras pessoas semelhantes a vocês e façam tudo de acordo com o que essas pessoas disserem. Seguirão cegamente na direção para a qual elas os conduzirem. Se adotarem esse caminho, há grande possibilidade de que uma pessoa egoísta venha a dirigi-los conforme sua própria vontade e utilizá-los para alcançar seus próprios interesses. Ou uma pessoa ignorante e desviada poderá vir e conduzi-los também pelo caminho do desvio. Ou ainda uma pessoa opressora poderá tomá-los como instrumento e fazer com que pratiquem injustiça contra os outros. Em suma, mesmo seguindo outras pessoas, vocês não poderão obter aquela luz indispensável do conhecimento que lhes permita distinguir entre a verdade e a falsidade, dizer o que é justo e o que é injusto e conduzir sua vida pelo caminho correto.
Depois disso, resta apenas uma fonte da qual vocês podem obter essa luz essencial do conhecimento. Esse meio é Allah, o Altíssimo, Criador de vocês e de todo o universo. Allah, o Altíssimo, conhece tudo, vê tudo e conhece e compreende perfeitamente a natureza de cada coisa. Somente Ele pode dizer em que coisa está seu verdadeiro benefício e em que coisa pode estar seu verdadeiro prejuízo; somente Ele pode dizer que trabalho vocês devem fazer e que trabalho não devem fazer. Allah, o Altíssimo, não tem falta de coisa alguma, não possui interesse próprio, não depende de ninguém e não necessita de coisa alguma. Ele não os enganará — que Allah nos livre — para obter de vocês algum benefício próprio. Pois Ele é Puro e Santíssimo, é o Dono de tudo; em qualquer conselho que lhes der não haverá sequer vestígio de interesse próprio, e tudo será somente para o benefício de vocês. Além disso, Allah, o Altíssimo, é justo e nunca pratica injustiça contra ninguém. Portanto, todos os Seus conselhos serão certamente imparciais, justos e proveitosos. Se vocês seguirem Suas ordens, não haverá perigo de que cometam injustiça contra si mesmos ou contra qualquer outra pessoa.
O benefício da luz recebida de Allah, o Altíssimo, depende inteiramente de duas coisas. A primeira é que vocês devem ter fé verdadeira em Allah, o Altíssimo, e no Profeta por meio de quem Ele enviou essa luz. Devem crer firmemente que a lei e os ensinamentos que o Mensageiro de Allah trouxe da parte de Allah são completamente verdadeiros; mesmo que não consigam perceber seus benefícios reais, ainda assim devem acreditar nisso.
A segunda é que, depois de crerem, devem seguir essa lei de Allah em cada ação de sua vida. Pois, depois de crer nela, se não a seguirem na prática, não poderão obter benefício algum dessa luz. Imaginem que alguém lhes diga: “Certa coisa é veneno e destrói a vida dos seres vivos; portanto, não a coma.” Vocês respondem: “Sim, irmão, o que você disse é absolutamente verdadeiro; não há a menor dúvida de que isso é veneno e destrói a vida.” Mas, mesmo sabendo, acreditando e reconhecendo isso verbalmente, vocês comem a coisa. Então o efeito essencial do veneno certamente ocorrerá. Ele produzirá efeito tanto se for ingerido com conhecimento quanto se for ingerido sem conhecimento. Mesmo que vocês o tivessem comido sem saber, o resultado teria sido o mesmo que ao comê-lo sabendo. Na prática, não há diferença entre saber e não saber dessa maneira. Do mesmo modo, vocês só poderão obter o verdadeiro resultado e benefício de conhecer e reconhecer algo quando, ao conhecerem e reconhecerem uma verdade, agirem imediatamente de acordo com ela. Não devem limitar-se a reconhecer verbalmente como verdadeira a ação que lhes foi ordenada; devem transformá-la em prática. E, quanto à ação que lhes foi proibida, não basta apenas declarar verbalmente que se afastarão dela; devem, em todas as atividades e negócios de sua vida, manter-se afastados dessa ação proibida. Por isso, Allah, o Altíssimo, disse repetidamente:
أَطِيعُوا اللَّهَ وَأَطِيعُوا الرَّسُول – النساء : ٥٩
«Obedecei a Allah e ao Mensageiro.» (Surata An-Nissá: 59)
وإِن تُطِيعُوهُ تَهْتَدُوا — النور : ٥٤
«Se seguirdes o Mensageiro, então encontrareis o caminho reto.» — Surata An-Nur: 54
فَلْيَحْذَرِ الَّذِينَ يُخَالِفُونَ عَنْ أَمْرِهِ أَنْ تُصِيبَهُمْ فِتْنَةٌ – النور : ٦٣
«Aqueles que se opõem à ordem do Meu Mensageiro devem temer que lhes sobrevenha uma calamidade.» — Surata An-Nur: 63
Digo-vos repetidamente que se deve obedecer somente a Allah e ao Seu Mensageiro; isso não significa que não se deva obedecer de modo algum às ordens de qualquer ser humano. Na verdade, significa que não deveis seguir cegamente ninguém. Deveis sempre observar atentamente apenas isto: a ordem daquele que vos manda fazer algo está de acordo com a ordem de Allah e do Mensageiro ou é contrária a ela. Se estiver de acordo, é obrigatório obedecer-lhe. Pois, ao agir conforme essa ordem, na realidade não se está obedecendo à ordem da própria pessoa; está-se obedecendo a Allah e ao Mensageiro de Allah. Mas, se ele der uma ordem contrária à ordem de Allah e do Mensageiro, rejeitai-a diante dele, seja ele quem for. Pois é absolutamente ilícito obedecer à ordem de qualquer outra pessoa que não seja a ordem de Allah e do Mensageiro.
Podeis compreender facilmente que Allah, o Altíssimo, não vem pessoalmente diante dos seres humanos para dar ordens; todas as ordens e instruções que tinha para transmitir foram enviadas por intermédio do Seu Mensageiro. E esse nosso amado Profeta partiu deste mundo há quase mil e quatrocentos anos. Tudo quanto Allah, o Altíssimo, lhe havia ordenado está agora contido no Sagrado Alcorão e nos hadiths. Mas este Alcorão Sagrado não é algo que possa vir por si mesmo diante de vós, falar-vos sobre Allah, dar-vos ordens e impedir-vos de seguir os caminhos proibidos por Allah. São os seres humanos que vos orientarão de acordo com o Alcorão e os hadiths. Portanto, não há como evitar seguir seres humanos. Contudo, é um dever indispensável não seguir cegamente nenhuma pessoa. Deveis verificar cuidadosamente apenas se essas pessoas vos orientam de acordo com o Sagrado Alcorão e os hadiths. Se vos orientarem de acordo com o Alcorão e os hadiths, é vosso dever segui-las; mas, se vos conduzirem pelo caminho contrário, segui-las é claramente haram.
Dīn e Sharia
Ao falar sobre religião, ouvis frequentemente duas palavras, e vós mesmos também as pronunciais com frequência. Uma dessas palavras é dīn; a segunda é sharia. Porém, poucas pessoas conhecem bem o significado e a importância dessas duas palavras. Se os que não sabem ler nem escrever desconhecem o seu significado, isso não é motivo de culpa; mas é lamentável que pessoas muito instruídas — e até mesmo muitos maulvis — não estejam de modo algum conscientes do significado correto dessas duas palavras nem da diferença entre elas. Por não conhecerem bem o significado de ambas, muitas vezes dīn é completamente confundido com sharia, e sharia com dīn. Isso causa muitos tipos de mal-entendidos. Neste artigo, explicarei o significado dessas duas palavras de maneira muito simples.
Dīn (دین) palavra pode ter vários significados. Primeiro: força, autoridade, governo, reino, soberania e poder de governar. Segundo: o seu completo oposto, a saber: humildade, obediência, servidão, submissão e escravidão. Terceiro: prestar contas, julgar e dar a recompensa por todos os atos. No Sagrado Alcorão, a palavra «dīn» (دین) foi usada com esses três tipos de significado:
إِنَّ الدِّينَ عِنْدَ اللهِ الْإِسْلَام تن – ال عمران : ۱۹
Isto é: perante Allah, o único dīn é aquele no qual o ser humano considera somente Allah, o Altíssimo, como o Poderoso, e não se considera submisso diante de ninguém além d’Ele. Reconhecerá somente Allah como Senhor, Dono, Rei e Soberano dos reis; e não será servo, escravo, obediente, subordinado ou súdito de ninguém além d’Ele. Considerará somente Allah como Aquele que toma contas e concede a devida recompensa por todos os atos; não se preocupará em prestar contas a ninguém além d’Ele, não esperará recompensa de ninguém mais e não temerá a punição de ninguém. O nome desse dīn é «Islam». Se uma pessoa abandonar essa crença e considerar alguém além de Allah como o verdadeiro poderoso, legislador, verdadeiro rei e dono, e como o verdadeiro recompensador, inclinando humildemente a cabeça diante dele, servindo-o e sendo seu escravo, agindo conforme as suas ordens, esperando a sua recompensa e temendo a sua punição, então esse dīn deverá ser considerado falso. Allah jamais aceitará tal dīn, pois ele é totalmente contrário à verdade. Em todo este universo, ninguém além de Allah é verdadeiramente poderoso e honrado. Aqui, ninguém além de Allah possui soberania ou realeza. E o ser humano não foi criado para servir ou ser escravo de ninguém além de Allah. Ninguém, exceto o verdadeiro Dono, tem poder para recompensar os atos.
Isso foi dito da seguinte maneira em outro versículo:
وَمَنْ يُبْتَغِ غَيْرَ الْإِسْلامِ دِينًا فَلَنْ يُقْبَلَ مِنْهُ – – ال عمران : ٨٥
Isto é: aquele que, abandonando a soberania e o senhorio de Allah, reconhece outra pessoa como seu dono e legislador, aceita servi-la e ser seu escravo e a considera recompensadora dos atos — Allah, o Altíssimo, jamais aceitará esse seu dīn. Pois:
وَمَا أُمِرُوا إِلَّا لِيَعْبُدُوا اللَّهَ مُخْلِصِينَ لَهُ الدِّينَ حُنَفَاءَ – البيئة : .
“Allah criou o ser humano como Seu próprio servo, e não lhe foi ordenado servir a ninguém além d’Ele. Seu único dever obrigatório é voltar-se de todas as direções e dedicar somente a Allah o seu deen — isto é, a obediência e a servidão — servi-Lo exclusivamente, com devoção unidirecionada, e temer somente o Seu poder de prestar contas.” — Surata Al-Baiyina: 45
أفغير دينِ اللهِ يَبْغُونَ وَلَهُ أَسْلَمَ مَن فِي السَّمَوتِ وَالْأَرْضِ طَوْعًا وَكَرْها
وإِلَيْهِ يُرْجَعُونَ – ال عمران : ۸۳
“Acaso o ser humano deseja servir e obedecer às ordens de alguém além de Allah? Contudo, na realidade, tudo o que existe nos céus e na terra é exclusivamente servo e obediente às ordens de Allah, o Altíssimo, e todas essas coisas terão de comparecer, para prestar contas, diante de Allah, e não diante de qualquer outro. Ainda assim, será que o ser humano deseja adotar, contra tudo o que existe nos céus e na terra, algum caminho diferente da obediência a Allah?” — Surata Al Imran: 83
هُوَ الَّذِي أَرْسَلَ رَسُولَهُ بِالْهُدَى وَدِينِ الْحَقِّ لِيُظْهِرَهُ عَلَى الدِّينِ كُلِّهِ .
ولو كَرِهَ الْمُشْرِكُونَ ٥ – الصف : ٩
“Allah enviou Seu profeta com o sistema de vida islâmico e o sistema de obediência à verdade para destruir o domínio e a soberania de todos os ‘falsos deuses’ do mundo e libertar os seres humanos de tal modo que eles não sejam servos de ninguém além de Allah, por mais que os incrédulos e os politeístas gritem em sua ignorância e odeiem isso.” — Surata As-Saff: 9
وَقَاتِلُوهُمْ حَتَّى لا تَكُونَ فِتْنَةٌ وَيَكُونَ الدِّينُ كُلُّهُ لِلَّهِ – – الانفال : ٣٩
“Lutai para que o domínio de tudo o que é além de Allah seja removido para sempre do mundo e para que somente a lei de Allah seja estabelecida nele. Que todos reconheçam a soberania de Allah e que os seres humanos sirvam somente a Allah.” — Surata Al-Anfal: 39
Espero que, por meio da explicação acima, o significado da palavra ‘deen’ tenha ficado claro para o leitor. Em resumo, significa reconhecer Allah como Proprietário, Senhor e Legislador; servir, adorar e obedecer somente a Allah; temer a prestação de contas e a aplicação de Seu castigo; e esperar recompensa exclusivamente d’Ele.
Além disso, como as ordens de Allah chegam às pessoas por meio de Seu Livro e de Seu Mensageiro, reconhecer o Mensageiro como o Mensageiro de Allah e o Livro como o Livro de Allah, bem como segui-los na prática, também faz parte do ‘deen’. Assim Allah disse:
يبَنِي آدَمَ إِمَّا يَأْتِيَنَّكُمْ رَسُلٌ مِّنْكُمْ يَقُصُّونَ عَلَيْكُمُ ايْتِي، فَمَنِ اتَّقَى وأصلح فَلَا خَوْفٌ عَلَيْهِمْ وَلَا هُمْ يَحْزَنُونَ ٥ – الاعراق: ٣٥
“Ó filhos de Adão! Quando Meu profeta vier até vós trazendo um mandamento, aqueles que seguirem esse mandamento, viverem uma vida exemplar e concluírem seus afazeres de acordo com ele não terão motivo algum para temer.” — Surata Al-Araf: 35
Com isso, soube-se que Allah não envia diretamente Seu mandamento a cada pessoa; ao contrário, Ele o envia por meio de Seus profetas. Portanto, aquele que reconhecer Allah como Legislador só poderá cumprir a ordem de Allah obedecendo às ordens dos profetas e seguindo o mandamento que eles transmitiram; isso é chamado de ‘deen’.
Em seguida, discutirei a definição de Sharia. A palavra Sharia significa caminho e regra. Quando uma pessoa reconhece a servidão a Allah, aceitando-O como Legislador, e também reconhece que o Mensageiro veio da parte de Allah como legislador autorizado e que o Livro foi revelado por Ele, nesse exato momento ela entra no Din. Depois disso, as regras segundo as quais deve adorar Allah e o caminho que deve seguir para obedecer-Lhe são chamados de Sharia. Allah, o Altíssimo, enviou esse caminho e esse método de ação por intermédio de Seu Mensageiro. O Profeta explicou de que maneira se deve adorar o Senhor, quais são as regras de purificação, qual é o caminho da bondade e do temor a Allah, como se devem cumprir os direitos das outras pessoas, como se devem conduzir os negócios e como se deve viver; todas essas coisas foram ensinadas pelo Profeta. A diferença entre o Din e a Sharia é que o Din sempre foi um só, é um só e permanecerá sempre um só; já várias Sharias vieram ao mundo e muitas delas foram modificadas. Contudo, por causa dessas mudanças na Sharia, o Din jamais mudou. O Din que tinha Ibrahim, que a paz esteja com ele, era também o Din de Nuh, que a paz esteja com ele, e era igualmente o Din de Musa, que a paz esteja com ele. O Din de Shuayb, de Salih e de Hud, que a paz esteja com todos eles, também era o mesmo, e o Din do último Profeta, Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era exatamente o mesmo. Porém, havia algumas diferenças na Sharia de cada um desses profetas. As regras da oração e do jejum eram diferentes em cada Sharia. As determinações sobre o que era haram e halal, as regras de purificação, o casamento e o divórcio e as leis de distribuição da propriedade eram diferentes em cada Sharia. Apesar disso, todos eles eram muçulmanos. Os povos de Nuh, Ibrahim e Musa, que a paz esteja com todos eles, também eram muçulmanos, e nós também somos muçulmanos, pois o Din de todos é um só. Com isso se sabe que, embora as determinações da Sharia sejam diferentes, o Din permanece um só e não sofre nenhuma diferença, por mais diversos que sejam os modos e métodos de agir de acordo com o Din.
Para compreender essa diferença, apresentarei um exemplo. Imaginem que um senhor tenha muitos servos. Aquele que não reconhece esse senhor como seu senhor e nem sequer considera necessário obedecer às suas ordens é claramente desobediente e nem pode ser contado entre os servos. Já aqueles que o reconhecem como senhor, acreditam ser seu dever obedecer às suas ordens e temem desobedecer-lhe são todos considerados servos. As maneiras de servir e prestar assistência podem ser diferentes, mas, essencialmente, todos são igualmente servos do mesmo senhor; não há dúvida quanto a isso. Se o senhor disser a um servo que sirva segundo uma regra e a outro que sirva segundo outra regra, nenhum deles poderá dizer: “Eu sou servo do senhor, mas aquela pessoa não é serva”. Do mesmo modo, se cada servo compreender de maneira diferente o significado e o propósito da ordem do senhor e ambos obedecerem à ordem segundo o próprio entendimento, no que diz respeito ao serviço os dois são iguais. É possível, naturalmente, que um servo tenha compreendido incorretamente o significado da ordem do senhor e que o outro o tenha compreendido corretamente. Mas, quando ambos agiram de acordo com a ordem, um não pode acusar o outro de desobediência ou de ter abandonado o serviço do senhor.
Por meio desse exemplo, vocês podem compreender muito bem a diferença entre o Din e a Sharia. Antes do Profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Allah, o Altíssimo, havia enviado diferentes Sharias por intermédio de diferentes profetas. A um deles determinou uma forma de serviço, e a outro determinou uma forma diferente. Todos os que agiram segundo essas regras e conforme a ordem de Allah eram muçulmanos, embora as regras de seu serviço fossem diferentes. Depois, quando o Profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, veio ao mundo, Allah, o Senhor de todos, ordenou: “A partir de agora, ab-rogo todas as regras anteriores. No futuro, quem quiser servir-Me deverá agir exatamente segundo a regra que divulgarei por meio do Meu último Profeta.” Depois disso, ninguém tem o direito de servir segundo qualquer regra anterior. Pois, se alguém não aceitar essa nova regra e continuar seguindo a antiga, será preciso dizer que, na realidade, não está obedecendo à ordem do senhor, mas apenas à sua própria vontade. Portanto, foi dispensado do serviço. Em termos religiosos, tornou-se kafir.
Isso se aplica àqueles que ainda desejam seguir os profetas antigos. Mas, no caso dos seguidores do Profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, aplica-se plenamente a segunda parte do exemplo mencionado. Todos aqueles que reconhecem como Sharia de Allah a Sharia que Allah nos enviou por meio de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e consideram seu dever cumpri-la, são muçulmanos. Agora, se uma pessoa compreende essa Sharia de uma maneira e outra pessoa a compreende de outra maneira, e ambas agem de acordo com o próprio entendimento, então, por maior que seja a diferença entre suas ações exteriores, nenhuma delas terá abandonado o serviço. A razão é que cada uma está absolutamente convencida de que a regra segundo a qual age é a regra dada por Allah e, com esse entendimento, segue tal regra. Como poderia, então, um servo dizer: “Somente eu sou um servo verdadeiro, e fulano não é um servo verdadeiro”? Mesmo que diga algo além disso, só poderá afirmar: “Eu compreendi corretamente o significado da ordem do senhor, mas fulano não o compreendeu corretamente”. Porém, não tem o direito de expulsar o outro do serviço nem de considerá-lo expulso; e, se alguém se atrever a tanto, estará usurpando, sem direito algum, a posição do verdadeiro senhor. O sentido de suas palavras seria: “Assim como és obrigado a obedecer à ordem do teu senhor, também és obrigado a obedecer à minha ordem. Se não obedeceres à minha ordem, pelo meu próprio poder te expulsarei do serviço do senhor”. Pensem um pouco: que enorme insolência é essa! Por isso o Profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse que, se alguém chamar injustamente um muçulmano de kafir, essa acusação recairá sobre o próprio acusador. Isso porque Allah, o Altíssimo, fez do muçulmano um servo de Sua própria ordem. Mas essa pessoa diz: “Não; sê servo do meu entendimento e da minha opinião”. Ou seja: “Allah não é o único teu Deus; eu também sou uma pequena divindade tua e, se não obedeceres à minha ordem, pelo meu próprio poder te expulsarei da servidão a Allah — quer Allah o expulse, quer não”. Assim, pouco importa se, por causa das palavras de tais pessoas, outro muçulmano se torna kafir ou não; elas próprias se lançam no perigo da incredulidade. Espero que vocês tenham compreendido bem a diferença entre o Din e a Sharia. Ao mesmo tempo, também compreenderam que, embora haja diferenças nas formas exteriores de servidão, não há diferença alguma no Din essencial. A condição, naturalmente, é que, qualquer que seja o método pelo qual uma pessoa aja, deve fazê-lo com intenção sincera e tendo em mente que a regra segundo a qual está agindo é a regra de Allah e de Seu Mensageiro.
Agora direi o quanto a nossa comunidade muçulmana está sofrendo danos por não compreender essa diferença entre dīn e sharia. Entre os muçulmanos existem diversas maneiras de realizar a oração. Um grupo mantém as mãos cruzadas sobre o peito, enquanto outro as cruza acima do umbigo. Um grupo recita a surata Al-Hamd como seguidor do imame, atrás dele, enquanto outro não a recita; um grupo diz “āmīn” em voz audível, enquanto outro o diz em silêncio. Cada um deles segue sua maneira convencido de que ela é a prática do Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Assim, embora as formas externas da oração sejam diferentes, todos são igualmente seguidores do Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. No entanto, alguns indivíduos injustos consideraram essas diferenças em questões minuciosas da sharia como diferenças na própria religião; por isso, formaram grupos separados e construíram mesquitas distintas. Um grupo insulta o outro, expulsa seus membros da mesquita à força, move processos judiciais e, desse modo, despedaça a comunidade do Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.
Mesmo assim, como os corações desses demônios não se satisfazem, eles continuam chamando uns aos outros de incrédulos, pecadores e desviados por questões pequenas e insignificantes. Uma pessoa deduz os mandamentos de Allah do Alcorão e dos hadiths conforme seu próprio entendimento. Mas não considera suficiente agir de acordo com aquilo que compreendeu; pelo contrário, quer impor à força sua opinião aos outros. E, se outra pessoa não aceita isso, começa a considerá-la incrédula e excluída da religião de Allah.
Entre os muçulmanos, vocês ouvem nomes de vários grupos, como hanafitas, shafiítas e ahl al-hadith. Todos eles creem que o Sagrado Alcorão e os hadiths são os últimos Livros e, segundo sua própria consciência e razão, extraem deles leis e normas. É possível que a conclusão de um seja correta e autêntica, enquanto a do outro esteja errada. Eu também sigo uma determinada maneira e a considero correta. Converso e debato com aqueles que se opõem a ela: tento explicar-lhes aquilo que compreendi como correto e também lhes mostrar as falhas daquilo que considero errado. Mas uma coisa é a conclusão de alguém estar errada; outra, completamente diferente, é ser expulso da religião. Todo muçulmano tem o direito de praticar a sharia de acordo com sua própria consciência. Se dez muçulmanos agirem segundo dez maneiras diferentes, enquanto observarem a sharia, todos continuarão sendo muçulmanos e serão considerados parte da mesma comunidade; não há razão alguma para formarem grupos e facções separados. Porém, aqueles que não compreendem essa questão profunda criam divisões por motivos muito pequenos e insignificantes. Um grupo entra em conflito com outro, separa as orações e as mesquitas, rompe para sempre o casamento, a convivência e as relações com o outro grupo e forma uma facção separada com aqueles que compartilham sua opinião. Parece que são seguidores de um profeta diferente.
Vocês podem imaginar o enorme prejuízo causado aos muçulmanos por esse tipo de sectarismo. Diz-se que os muçulmanos são um só grupo, uma só comunidade. Neste subcontinente, há 80 milhões de muçulmanos. [Nota: esta palestra foi proferida em 1937–38, em Pathankot (Darul Islam).]
Se um grupo tão grande estivesse realmente unido e trabalhasse com plena unidade para elevar a palavra de Allah, nenhuma força do mundo poderia considerá-lo fraco. Mas, na realidade, por causa dessas divisões, essa comunidade se fragmentou em muitos grupos pequenos. O coração de cada um está cheio de hostilidade e falta de respeito pelo outro. Mesmo em tempos de grandes perigos, não conseguem unir-se e resistir ao perigo. Os muçulmanos de um grupo consideram os muçulmanos de outro grupo inimigos exatamente como um judeu considera um cristão seu inimigo — ou até mais. Chegou-se a ver um grupo de muçulmanos conspirar com incrédulos para derrotar outro grupo de muçulmanos. Nessas circunstâncias, se os muçulmanos do mundo se tornaram fracos, não há motivo para surpresa. Esse é o fruto de suas próprias ações. Sobre eles desceu o mesmo castigo que Allah, o Altíssimo, mencionou no Sagrado Alcorão:
أن يَلْبِسَكُمْ شِيَعًا وَيُذِيقَ بَعْضَكُم بَأْس بعض – – الانعام : ٦٥“Allah pode também enviar sobre vós um castigo que vos dividirá em diversos grupos, fazendo-vos combater e matar uns aos outros.” — Surata Al-An’am, 65
O castigo mencionado acima pode ser visto em grande medida nesta região. Aqui há inúmeros grupos de muçulmanos; não se pode sequer contar os grupos de estudiosos religiosos. É por isso que os muçulmanos e os estudiosos desta região não têm força. Se realmente desejam o bem, dissolvam esses diversos grupos de vocês e dos estudiosos. Constituam-se como uma só comunidade, sendo uns para os outros irmãos. Na sharia islâmica não há espaço para a formação de grupos separados como hanafitas, shafiítas, ahl al-hadith e semelhantes. Essas divisões surgem apenas por causa da ignorância. Do contrário, Allah, o Altíssimo, criou uma única comunidade, e essa única comunidade é a dos muçulmanos.
A realidade da oração e do jejum
Ibādah
No último ensaio da obra “A realidade do Islã”, foram apresentados o significado verdadeiro e a explicação dos termos dīn e sharia. Aqui apresentarei diante de vocês o significado detalhado do termo ibādah. Os muçulmanos em geral costumam usar essa palavra, mas muitos não conhecem seu verdadeiro significado. Allah, o Altíssimo, disse no Sagrado Alcorão:
وَمَا خَلَقْتُ الْجِنَّ وَالْإِنسَ إِلَّا لِيَعْبُدُونِ
“Não criei os gênios e a humanidade senão para que Me adorem.” (Surata Adh-Dhariyat, 56)
Com isso, ficou indubitavelmente claro que o nascimento do ser humano e o propósito e objetivo de sua vida não são outra coisa senão a adoração e a servidão a Allah Ta’ala. Agora vocês podem compreender facilmente quão importante é, para nós, conhecer o verdadeiro significado da palavra ‘ibadah’. Se não conhecerem o significado dessa palavra, jamais poderão alcançar o grandioso propósito para o qual foram criados. E aquilo que não alcança seu propósito permanece fracassado e inútil.
Quando um médico não consegue curar um paciente, diz-se que fracassou em sua prática médica; quando um agricultor não consegue produzir uma boa colheita, seu fracasso na agricultura fica claramente comprovado. Do mesmo modo, se vocês não conseguirem alcançar o propósito de suas vidas, isto é, praticar a ‘ibadah’, será preciso dizer que suas vidas fracassaram. É por isso que espero que vocês prestem especial atenção em conhecer o verdadeiro significado e a importância dessa palavra, ‘ibadah’, e que a fixem firmemente em seus corações e mentes. Pois o sucesso e o fracasso da vida humana dependem inteiramente disso.
A palavra ‘ibadah’ deriva do árabe ‘abd’ (عْبُدُ) . ‘Abd’ significa servo e escravo. Portanto, o significado da palavra ‘ibadah’ será servir e viver em escravidão. Se uma pessoa é escrava de outra e permanece verdadeiramente totalmente obediente diante de seu senhor, tratando-o exatamente como um servo, isso é chamado de servidão e ‘ibadah’. Por outro lado, se alguém é empregado de outra pessoa e recebe integralmente seu salário do patrão, mas ainda assim não trabalha como um verdadeiro empregado, deve-se dizer que foi desobediente e rebelou-se. Na verdade, é mais apropriado chamar isso de ingratidão. Portanto, antes de tudo, vocês precisam saber como trabalhar diante do senhor como um ‘empregado’ e como demonstrar obediência a ele.
Primeiramente, o servo ou empregado deve reconhecer o senhor como seu ‘Senhor’ e considerar que é seu dever obedecer àquele que é seu proprietário, que lhe concede o sustento diário e que cuida e zela por ele. Ninguém além dele tem o direito de receber minha obediência. Obedecer sempre ao senhor, cumprir suas ordens, não abandonar sua obediência nem por um instante, não dar lugar no coração a qualquer pensamento contra o senhor e não obedecer às ordens de ninguém mais são os segundos deveres do servo. O escravo é sempre escravo; ele não tem o direito de dizer: “Obedecerei a esta ordem do senhor, mas não obedecerei àquela.” Tampouco pode dizer: “Fui escravo do senhor durante um período determinado e, no restante do tempo, estou completamente livre e liberto de sua servidão.”
Demonstrar respeito e reverência ao senhor e manter boas maneiras diante dele é a terceira tarefa do servo. É absolutamente necessário comparecer pontualmente no momento determinado pelo senhor para a forma de demonstrar boas maneiras e respeito, e provar seu compromisso e sinceridade de coração reconhecendo a obediência e a servidão ao senhor.
A ação realizada pela combinação desses três processos é chamada, na terminologia árabe, de ‘ibadah’: primeiro, reconhecer a servidão ao senhor; segundo, obedecer ao senhor; e terceiro, preservar o respeito e a reverência ao senhor.
Allah Ta’ala disse:
وَمَا خَلَقْتُ الْجِنَّ وَالْإِنسَ إِلَّا لِيَعْبُدُونِ
Seu verdadeiro significado é este: Allah Ta’ala criou os gênios e a humanidade com o único propósito de que servissem somente a Allah Ta’ala, e a ninguém mais; cumprissem somente a ordem de Allah, sem seguir a ordem de qualquer outro; e inclinassem a cabeça somente diante d’Ele, em sinal de honra e reverência, e diante de ninguém mais. Allah Ta’ala expressou essas três coisas por meio desta palavra de significado abrangente: “ibadah”. Esse é o significado dos versículos nos quais Allah Ta’ala ordenou a ibadah. A essência de todos os ensinamentos do nosso último Profeta e dos honrados profetas que o precederam é:
“Não adoreis ninguém além de Allah”, isto é, em todo o mundo há um único rei digno de receber servidão e obediência — ele é Allah Ta’ala; existe apenas um sistema ou lei a ser seguido — o modo de vida concedido por Allah; e existe uma única Essência que pode ser adorada, venerada e reverenciada. E essa Essência é somente Allah.
يَا قَوْمِ اعْبُدُوا اللَّهَ مَا لَكُمْ مِنْ إِلَٰهٍ غَيْرُهُ
Lembrai-vos desse significado da palavra ibadah e continuai respondendo às minhas perguntas. Se um servo não cumpre os deveres determinados pelo senhor, mas permanece apenas diante dele com as mãos cruzadas, repetindo cem mil vezes somente o seu nome, o que diríeis sobre esse servo? O senhor ordena que ele dê às outras pessoas o que lhes é devido. Mas ele permanece ali, inclina a cabeça diante do senhor, faz-lhe dez saudações e volta a ficar de mãos cruzadas. O senhor ordena que ele interrompa as ações prejudiciais. Mas ele não se move nem um pouco dali; pelo contrário, continua apenas prostrado. O senhor ordena que ele corte a mão do ladrão. Mas ele permanece de pé, recitando ou pronunciando vinte vezes, com voz melodiosa: “Cortai a mão do ladrão”, sem jamais tentar estabelecer um sistema de governo sob o qual fosse possível cortar a mão do ladrão. Que comentário faríeis sobre um servo assim? Poderíeis dizer que ele está realmente servindo e adorando o senhor? Não sei o que diríeis se algum servo vosso agisse assim, mas o surpreendente é que chamais de “grande devoto” — adorador, homem piedoso e assim por diante — o servo de Allah que se comporta dessa maneira. Do amanhecer ao anoitecer, essas pessoas recitam no Alcorão centenas de ordens de Allah Ta’ala, mas não fazem o menor esforço para cumpri-las e transformá-las em prática. Em vez disso, continuam realizando oração voluntária após oração voluntária, repetem milhares de contas do tasbih em nome de Allah e recitam o Alcorão Sagrado com voz melodiosa. Vós vedes tais atos e, maravilhados, dizeis: “Oh! Como esse homem é um grande devoto e um grande asceta!” A causa fundamental desse vosso conceito equivocado é que não conheceis de modo algum o verdadeiro significado da palavra ibadah.
Considerai ainda o caso de outro servo. Dia e noite, ele realiza apenas o trabalho de outros, ouve e cumpre as ordens de outros, segue as leis de outros e se opõe a todas as ordens e decretos de seu verdadeiro senhor. Mas, na hora de prestar homenagem, comparece diante de seu verdadeiro senhor e fica repetindo somente o seu nome. Se algum servo vosso agisse assim, o que faríeis? Não lhe lançaríeis a sua “saudação” no rosto? Quando ele vos chamasse de senhor apenas com os lábios, não lhe diríeis: “És um mentiroso descarado e um desleal; comes o meu salário, serves a outro, chamas-me de senhor com os lábios, mas, na realidade, passas o tempo trabalhando somente para outro”? Qualquer pessoa entende facilmente que isso é uma questão de bom senso comum. Mas que coisa surpreendente! Considerais ibadah a oração, o jejum, a recitação do tasbih, a recitação do Alcorão, o hajj, o zakat e coisas semelhantes daqueles que violam dia e noite a lei de Allah, agem de acordo com as ordens dos incrédulos e dos idólatras e não se importam minimamente com a lei de Allah em sua vida prática. A causa fundamental desse conceito equivocado também é não conhecer o verdadeiro significado da palavra ibadah.
Tomai ainda o exemplo de outro servo. Ele veste exatamente o tipo de roupa que o senhor determinou para seus servos, respeitando as medidas; comparece diante do senhor com grande cortesia e cuidado; assim que ouve cada ordem, baixa a cabeça e a aceita como algo a ser obedecido, como se não houvesse servo mais obediente do que ele. Na hora da “saudação”, coloca-se inteiramente à frente de todos e demonstra, ao repetir o nome do senhor, superioridade e devoção sobre todos os servos. Mas, por outro lado, esse homem serve aos inimigos e rebeldes do senhor, participa de todas as conspirações deles contra o senhor e coopera com todos os esforços que fazem para apagar até o nome do senhor do mundo; durante a escuridão da noite, abre uma passagem clandestina na casa do senhor e, ao amanhecer, comparece diante dele com as mãos cruzadas, como o servo mais obediente. O que diríeis sobre esse servo? Certamente não hesitaríeis nem um pouco em chamá-lo de hipócrita, rebelde, ingrato e coisas semelhantes. Mas o que dizeis quando um servo de Allah passa a praticar esse tipo de comportamento ridículo? Então chamais uns de “Pir Sahib”, outros de “Hazrat Maulana”, outros de “grande homem perfeito”, “piedoso” e assim por diante. A razão é que vos deixais enganar ao ver suas barbas longas e bem aparadas, suas calças dois centímetros acima dos tornozelos, a marca escura da oração em suas testas, suas longas orações e seus tasbih de contas grandes; considerai-os grandes religiosos e adoradores. Esse erro existe somente porque o significado equivocado de ibadah e de religiosidade se arraigou profundamente em vossas mentes.
Talvez penseis que ficar de mãos cruzadas, voltado para a qibla, inclinar a cabeça com as mãos apoiadas sobre os joelhos, prostrar a cabeça no chão e pronunciar algumas palavras determinadas — somente essas poucas ações constituem a verdadeira ibadah. Talvez penseis que ibadah é abster-se de comer e beber todos os dias, do amanhecer ao anoitecer, desde o primeiro dia do Ramadã até o surgimento da lua de Shawwal. Talvez também penseis que ibadah é apenas recitar alguns rukus do Alcorão; entendeis que ibadah é somente ir à Meca e circundar a Casa da Caaba em tawaf. Em suma, tomastes essas formas exteriores como ibadah e pensais que, mantendo essas formas exteriores e realizando apenas as ações mencionadas, tereis completado a ibadah e
وَمَا خَلَقْتُ الْجِنَّ وَالْإِنسَ إِلَّا لِيَعْبُدُونِcumprido o seu propósito. Assim, em todos os outros assuntos da vida, ele pode ser completamente livre e agir conforme os próprios desejos.
Mas a verdadeira questão é que a adoração para a qual Allah Todo-Poderoso criou você e que Ele lhe ordenou é algo completamente diferente. Essa adoração consiste em você reconhecer e seguir a obediência a Allah em cada momento de sua vida e recusar completamente seguir tudo o que existe neste mundo em oposição à lei de Allah. Cada uma de suas ações e cada um de seus movimentos devem ocorrer dentro dos limites estabelecidos por Allah. Toda a vida que você viver dessa maneira será considerada ibadah. Numa vida assim, seu sono e vigília, sua alimentação e bebida, seus deslocamentos, sua fala e suas conversas também serão considerados ibadah. Até mesmo aproximar-se de sua esposa e demonstrar afeição por seus filhos fará parte da ibadah. Todas as atividades que vocês chamam de “assuntos mundanos” também podem ser ibadah e devoção religiosa — se, em todas as questões, vocês agirem dentro dos limites estabelecidos por Allah e de acordo com a orientação que Ele concedeu, mantendo a cada passo a atenção ao que é permitido e ao que é proibido por Allah, ao que é halal e ao que é haram, ao que é obrigatório e ao que é proibido, às ações com as quais Allah Se agrada e àquelas com as quais Se desagrada. Por exemplo, você sai para buscar seu sustento e ganhar dinheiro. Nesse caminho, surgirão diante de você inúmeras maneiras fáceis de obter ganhos haram. Se, então, por temor a Allah, você não aproveitar essas oportunidades e ganhar apenas sustento e dinheiro halal, todo o tempo gasto nessa atividade será ibadah. E, se você levar para casa o dinheiro obtido dessa maneira halal, alimentar-se dele e prover o alimento de sua família, além de cumprir os direitos dos demais beneficiários determinados por Allah, também receberá uma recompensa imensa por essas ações. Se, enquanto caminha, você retirar um espinho do caminho pensando que algum servo de Allah pode ser ferido por ele, isso também será considerado ibadah. Se você cuidar de uma pessoa enferma, ajudar alguém a caminhar ou socorrer uma pessoa em dificuldade, isso também será ibadah. Se, ao conversar, você evitar a mentira, a maledicência, a difamação, as palavras obscenas e tudo o que fere o coração alheio, e, por temor a Allah, falar somente a verdade, todo o tempo gasto nessa atividade será passado em ibadah.
Portanto, viver de acordo com a lei de Allah desde o momento em que se alcança a consciência até a morte, e levar a vida segundo as normas por Ele estabelecidas, é a ibadah de Allah. Essa ibadah não tem um horário específico. Ela deve ocorrer o tempo todo; não possui uma forma externa específica, mas cada ação, em todas as suas formas, deve ser ibadah de Allah. Você não pode dizer: “Em determinado momento sou servo de Allah, e em outro momento não sou servo de Allah”. Tampouco pode dizer: “Determinado momento é reservado à ibadah de Allah, e em outro momento não preciso praticar nenhuma ibadah de Allah”. Com esta explicação, vocês compreenderam bem o significado da palavra ibadah e entenderam que ibadah é viver em servidão e obediência a Allah em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Aqui você pode perguntar: então, como devemos chamar a oração, o jejum, o hajj, o zakat e coisas semelhantes? Responderei que eles são, de fato, ibadah; essas formas de ibadah foram tornadas obrigatórias para vocês apenas para que, por meio delas, alcancem o grande objetivo principal de sua vida: adorar Allah em todos os momentos e em todas as circunstâncias. A oração lembra você cinco vezes por dia de que é servo de Allah Todo-Poderoso e que seu dever é servi-Lo; o jejum, uma vez por ano, prepara você durante um mês inteiro justamente para esse serviço; o zakat lembra repetidamente que a riqueza que você ganhou é uma dádiva de Allah e que não pode gastá-la simplesmente conforme seus desejos. Pelo contrário, deve cumprir com ela o direito de seu Senhor. O hajj grava no coração humano uma imagem tão forte do amor por Allah, do afeto por Ele e do sentimento de Sua grandeza que, uma vez impressa, ela não pode ser apagada do coração durante toda a vida. Depois de cumprir essas diferentes formas de ibadah, somente se toda a sua vida se tornar apta a transformar-se em ibadah de Allah é que sua oração será uma oração verdadeira, seu jejum será um jejum genuíno, seu zakat será zakat verdadeiro e seu hajj será o hajj real — disso não há dúvida. Mas, se esse objetivo não for alcançado, curvar-se e prostrar-se, passar fome e jejuar, cumprir os ritos do hajj e gastar dinheiro em nome do zakat não lhe trará benefício algum. As formas externas e cerimoniais de ibadah podem ser comparadas ao corpo humano. Se houver vida nele e ele puder mover-se e realizar atividades, será sem dúvida o corpo de uma pessoa viva; caso contrário, será apenas um corpo sem vida. Os olhos, ouvidos, mãos e pés de um cadáver continuam presentes; mas, justamente por não haver vida nele, vocês o enterram numa cova. Do mesmo modo, ainda que os pilares e requisitos da oração sejam cumpridos corretamente, ou que as condições do jejum sejam observadas de maneira adequada, se no coração e na mente não estiverem presentes o temor de Allah, o amor e a afeição por Allah e o espírito de servi-Lo e obedecer-Lhe — precisamente aquilo para o qual essas práticas foram tornadas obrigatórias —, elas também serão, sem dúvida, algo sem vida e sem sentido.
Como as diversas formas de ibadah que foram tornadas obrigatórias para vocês os preparam, de que maneira e por quais meios, para essa ibadah verdadeira e maior, e que efeitos e influências elas produzirão em sua vida se forem cumpridas com compreensão e consciência, tudo isso será discutido detalhadamente no próximo artigo — insha’Allah.
A oração
No artigo anterior, expliquei o verdadeiro significado da ibadah. Foi para esse propósito de ibadah que Allah Todo-Poderoso criou os seres humanos e os jinns. Para preparar o ser humano para ser um servo sincero de Allah Todo-Poderoso, algumas formas específicas de ibadah foram tornadas obrigatórias no Islã. Portanto, desta vez quero falar brevemente apenas sobre a oração.
No artigo anterior, vocês aprenderam que o verdadeiro significado de “ibadah” é servir ou viver em servidão. Portanto, quando você foi criado apenas para servir, nunca e em circunstância alguma pode libertar-se da servidão a Allah. Assim como você não pode dizer: “Sou servo de Allah durante tantos minutos ou tantas horas, mas não durante o resto do tempo”, também não pode dizer: “Passarei este período em ibadah de Allah e, no restante do tempo, terei plena liberdade — então farei o que quiser”. Você nasceu como servo e escravo de Allah. É absolutamente necessário passar a vida somente em Sua servidão; você não pode libertar-se da ibadah e da servidão a Ele nem por um único momento de sua vida.
Já lhe disse anteriormente que abandonar as atividades mundanas, sentar-se num canto e repetir “Allahu, Allahu” não é o significado de adoração. Pelo contrário, fazer qualquer trabalho neste mundo de acordo precisamente com a lei e os preceitos de Allah é que significa adoração. O seu sono e repouso, o seu despertar, a sua alimentação e bebida, os seus movimentos — em suma, tudo deve ser feito de acordo com a lei e os preceitos de Allah. Deve tratar a sua esposa e os seus filhos, os seus irmãos e irmãs e os seus familiares exatamente conforme as instruções de Allah. Mesmo ao brincar e conversar com os seus amigos, deve lembrar-se de que não estamos livres dos grilhões da servidão a Allah. Ao ganhar o sustento e realizar transações financeiras, deve observar, em cada ação e palavra, as permissões e proibições de Allah, e jamais ultrapassar os limites estabelecidos por Allah. Se, na escuridão da noite, for muito fácil cometer algum pecado e você pensar que ninguém o verá, ainda assim deverá lembrar-se de que, quer alguém veja ou não, Allah Ta’ala vê tudo; no seu coração deve estar firmemente enraizado o temor de Allah, não o temor das pessoas. Mesmo sentado numa floresta profunda, se desejar cometer algum pecado e pensar que a polícia ou qualquer outra pessoa não o verá, deverá abster-se do pecado temendo somente a Allah. Quando puder obter grandes benefícios por meio da mentira, da corrupção, da desonestidade, da opressão e da exploração, e não houver ninguém para impedi-lo, ainda assim deverá temer a Allah e abster-se desse interesse por receio de provocar o desagrado de Allah. Por outro lado, mesmo que a observância da honestidade e da justiça lhe cause um prejuízo terrível, você não deverá hesitar nem por um instante em aceitar esse prejuízo, esperando unicamente alcançar a satisfação de Allah. Portanto, abandonar a vasta vida ativa do mundo e sentar-se num canto (da casa ou da mesquita) recitando o tasbih não pode ser chamado de ‘ibadah’. Na realidade, viver de acordo com os preceitos de Allah enquanto se está envolvido neste labirinto do mundo é que se chama ‘ibadah’. A simples pronúncia das palavras “Allahu, Allahu” com a boca não pode ser chamada de ‘zikr’ de Allah. O verdadeiro zikr de Allah é não esquecê-Lo enquanto se está envolvido na difícil rede das atividades e complicações mundanas. Não esquecê-Lo apesar de estar envolvido nas coisas que fazem o ser humano esquecer Allah; lembrar-se de Allah quando surge, na vida mundana, a oportunidade de violar a lei de Allah para obter grandes interesses ou escapar de enormes prejuízos; e seguir firmemente a Sua lei — isso é o verdadeiro ‘Zikrullah’, ou lembrança de Allah. O seguinte versículo do Alcorão indica este zikr:
فَإِذا قُضِيَتِ الصَّلاةُ فَانتَشِروا فِي الأَرضِ وَابتَغوا مِن فَضلِ اللَّهِ وَاذكُرُوا اللَّهَ كَثيرًا لَعَلَّكُم تُفلِحونَ
“Quando a oração estiver completamente concluída, espalhai-vos pela terra; procurai obter o sustento da dádiva de Allah e, durante essa busca, lembrai-vos muito de Allah. Talvez assim alcanceis o sucesso.”
(Al-Jumu’ah: 10)
Mantenha vivo na mente este significado de ‘ibadah’ e reflita profundamente sobre quais coisas são indispensáveis para cumprir adequadamente esta grande e máxima ‘ibadah’, e sobre como a oração cria essas coisas no ser humano. Para ser um verdadeiro ‘servo’ de Allah, é necessário lembrar repetidamente que você é servo de Allah e que o seu dever é servir somente a esse Allah em todos os momentos e em todas as situações. É necessário recordar isso repetidamente porque há sempre um ‘shaytan’ presente na mente humana; ele tenta constantemente tornar o ser humano seu próprio ‘servo’.
Para romper a rede das tentações e do labirinto de Shaytan, é absolutamente necessário lembrar repetidamente às pessoas, todos os dias, que: “Tu és servo somente de Allah Ta’ala; além d’Ele, não és servo de mais ninguém — nem de Shaytan, nem de qualquer ser humano.” É a oração que desperta no coração do ser humano essa percepção. Assim que você acorda de manhã, ela é a primeira coisa, antes de todas as atividades, a recordar-lhe isso; durante o dia, quando está ocupado com vários trabalhos, ela também lhe recorda isso três vezes; e à noite, quando chega a hora de dormir, repete isso pela última vez. Assim, recordar repetidamente ao ser humano que ele é ‘servo’ de Allah é o primeiro benefício da oração. Por isso, no Alcorão Sagrado, a oração foi chamada de ‘zikr’, isto é, por meio dela Allah é lembrado.
Depois, você terá de cumprir os preceitos e as proibições de Allah a cada passo da vida; por isso, é desejável que o senso do dever e da responsabilidade permaneça sempre desperto no seu coração, e você também deve adquirir o hábito de cumprir esse dever. Quem não sabe o que significa ‘dever’ jamais poderá cumprir os preceitos de Allah. Por outro lado, mesmo quem conhece o significado do dever, se, por falta de treinamento adequado, não tiver iniciativa nem disposição para cumpri-lo, não se pode de modo algum confiar que observará, com dedicação sincera e firmeza, as centenas de milhares de leis e preceitos que lhe forem impostos durante as vinte e quatro horas do dia e da noite.
Aqueles que trabalham na polícia ou nas forças armadas sabem com que rigor, nesses dois setores, são ensinados o senso do dever e o treinamento para cumpri-lo devidamente. O toque de clarim é realizado várias vezes durante o dia e a noite. Ordena-se aos soldados que se reúnam num determinado local e eles são submetidos a marchas. Tudo isso é realizado apenas para habituá-los ao cumprimento do dever. Por isso, aqueles que se mostram incapazes, inativos e ineptos nessas questões, aqueles que permanecem em casa mesmo ouvindo o som do ‘clarim’, ou que não respondem conforme a ordem durante a marcha, são demitidos imediatamente. Da mesma forma, a oração toca o ‘clarim’ cinco vezes por dia e por noite; assim que ouvirem esse ‘clarim’, os soldados de Allah devem correr até ele e provar que estão prontos para obedecer à ordem de Allah em todas as circunstâncias. Aqueles que, mesmo ouvindo esse ‘clarim’, permanecem sentados e não estão dispostos a mover-se sequer um pouco do lugar onde se encontram, não conhecem o significado do ‘dever’; ou, embora compreendam o significado do dever, não são dignos de integrar o exército de Allah.
Foi por isso que o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Tenho vontade de mandar atear fogo às casas daqueles que, mesmo ouvindo o chamado para a oração, não saem de suas casas.” E é por isso que, no Hadith Sagrado, a oração foi estabelecida como o principal sinal distintivo entre a descrença e o Islam. Na época do Profeta (que a paz esteja com ele) e dos Companheiros, aquele que não comparecia à oração congregacional não era considerado muçulmano. Até mesmo os hipócritas, que precisavam tornar-se muçulmanos, eram obrigados a participar da oração congregacional. Por isso, o Alcorão Sagrado não censurou os hipócritas dizendo que eles não rezavam; ao contrário, disse que eles não se colocavam de pé para a oração com sincero entusiasmo e devoção, mas apenas com extrema negligência, relutância e indiferença.
(Árabe)
Por meio dessas palavras, fica inequivocamente provado que não há possibilidade de considerar muçulmano aquele que não reza. Isso porque o Islam não é uma religião de mera crença, na qual o dever seja cumprido apenas por se acreditar interiormente em “algumas palavras”. Pelo contrário, é uma religião real, inteiramente orientada para as ações. Tão real que se torna obrigatório agir segundo o Islam em cada momento e lutar continuamente contra a descrença e a perversidade. Para viver uma vida tão grandemente orientada para as ações, é indispensável que todo muçulmano esteja sempre preparado para cumprir os mandamentos de Allah. Aquele que não permanece preparado dessa maneira é completamente inútil para o Islam. É precisamente por isso que foram prescritas cinco orações ao longo do dia e da noite. Essas cinco orações foram instituídas para testar e demonstrar na prática se os muçulmanos são realmente muçulmanos e se estão preparados para obedecer às ordens de Allah na vida prática. Se um muçulmano não responder nem minimamente ao “toque de clarim” do desfile de Allah, ficará claramente provado que ele não está preparado para viver sua vida prática segundo os mandamentos do Islam. Depois disso, se ele afirmar que crê em Allah e no Mensageiro, tal afirmação será completamente sem sentido. É por isso que foi dito no Alcorão Sagrado:
وَاستَعينوا بِالصَّبرِ وَالصَّلاةِ ۚ وَإِنَّها لَكَبيرَةٌ إِلّا عَلَى الخاشِعينَ
Em outras palavras, a oração só se torna uma tarefa difícil para aqueles que não estão dispostos a aceitar a servidão e a obediência a Allah. E fica provado que aqueles para quem a oração é considerada uma tarefa difícil não estão preparados para viver aceitando a servidão e a obediência a Allah.
Terceiro: o temor de Allah. É absolutamente necessário que esse temor permaneça sempre desperto no coração de todo muçulmano. Um muçulmano jamais pode agir de acordo com o Islam se não estiver profundamente arraigada em seu coração a firme convicção de que Allah o vê em todos os momentos e em todos os lugares e está plenamente informado sobre seus movimentos. Allah o vê mesmo na escuridão; mesmo quando está completamente sozinho, Allah é seu companheiro. É possível esconder-se do mundo inteiro, mas de modo algum é possível ocultar-se do olhar de Allah. O ser humano pode escapar de todos os tipos de punição e autoridade existentes no mundo, mas ninguém pode escapar da punição e do julgamento de Allah. É essa firme convicção que impede o ser humano de transgredir os mandamentos de Allah. Por causa dessa convicção, o ser humano é obrigado a respeitar, em todos os atos da vida, os limites do lícito e do ilícito estabelecidos por Allah. Se essa convicção se enfraquecer, o muçulmano jamais poderá viver uma vida verdadeiramente islâmica. Foi para recordar repetidamente essa convicção e, por meio da lembrança contínua, firmá-la profundamente no coração humano que Allah instituiu como obrigatórias as cinco orações diárias. No Alcorão Sagrado, o próprio Allah declarou a eficácia e a característica especial da oração:إِنَّ الصَّلاةَ تَنهىٰ عَنِ الفَحشاءِ وَالمُنكَرِ ۗ
“Certamente, a oração impede o ser humano do pecado, da injustiça, da obscenidade e dos atos de impudência.”
Você mesmo pode compreender a veracidade disso se refletir: quando vai rezar, você se purifica e faz a ablução. Se seu corpo estiver impuro e você comparecer à oração sem tomar banho ritual, ou se for rezar usando roupas impuras, ou ainda se disser “fiz a ablução” apesar de não ter feito a ablução, ninguém no mundo poderá responsabilizá-lo. Ainda assim, você jamais faz isso.
Mas por quê? Porque você acredita sem dúvida que nenhum pecado pode ser ocultado do olhar de Allah. Até mesmo se você não recitar as súplicas e as suratas que devem ser recitadas em silêncio durante a oração, ninguém poderá saber disso. Contudo, você não age assim porque Allah ouve tudo e está muito próximo de você. Do mesmo modo, você vai orar até mesmo numa floresta densa, ora na escuridão da noite e também ora quando está completamente sozinho em sua própria casa. No entanto, nesses momentos ninguém pode vê-lo, nem saber se você orou ou não. Qual é a razão disso? A razão é que você teme violar o mandamento de Allah em segredo, longe dos olhos de todas as pessoas, e acredita sem dúvida que nenhum delito pode ser ocultado do olhar de Allah. Com isso, você pode compreender como a oração mantém Allah desperto no coração humano e como fixa profundamente nesse coração a crença de que Allah está presente e vigilante, é Onisciente e conhecedor do íntimo. Na verdade, se esse temor e essa convicção firme não estiverem arraigados e sempre despertos em seu coração, como você poderá adorar e servir a Allah durante as vinte e quatro horas do dia e da noite? Se esse temor não existir em seu coração, como poderá permanecer firmemente no caminho da justiça e da virtude, temendo Allah em suas inúmeras atividades diurnas e noturnas, e manter-se afastado de todo tipo de pecado e desobediência?
Em quarto lugar, é indispensável que você conheça plenamente a lei de Allah para adorá-Lo. Pois, se não conhecer a lei, como poderá segui-la? A oração atende justamente a essa sua necessidade. É por isso que foi prescrito recitar versículos do Alcorão durante a oração. Por meio disso, dia e noite, você pode adquirir conhecimento da lei e dos mandamentos de Allah. A instituição do khutba antes da oração de sexta-feira também foi estabelecida com esse objetivo; por meio dela, você pode conhecer os preceitos do Islã. Outro benefício da oração em congregação e da oração de sexta-feira é que, para esse fim, estudiosos e pessoas iletradas precisam reunir-se repetidamente num mesmo lugar, proporcionando a todos uma extraordinária oportunidade de conhecer os mandamentos de Allah. Apesar disso, vocês não tentam conhecer os mandamentos de Allah por meio daquilo que recitam na oração; o khutba de sexta-feira é proferido de tal maneira que, mesmo depois de ouvi-lo repetidas vezes, vocês não adquirem conhecimento algum sobre o Islã; e, embora se reúnam para orar em congregação, nem os estudiosos ensinam algo aos iletrados, nem os iletrados perguntam algo aos estudiosos. O que se pode chamar isso, senão infortúnio? A oração lhes proporciona ampla oportunidade nesse assunto. Se vocês não aproveitam esse meio, qual é a culpa da oração?
Em quinto lugar, o muçulmano não pode permanecer isolado neste vasto campo de ação da vida; ao contrário, é seu dever indispensável que todos os muçulmanos permaneçam unidos e organizados, cumpram coletivamente os mandamentos de Allah, moldem suas vidas de acordo com Seus preceitos e ajudem uns aos outros a estabelecer a lei de Allah no mundo. Você sabe que, neste campo da vida, de um lado estão os muçulmanos — servos obedientes aos mandamentos de Allah — e, do outro, o grupo dos rebeldes contra Allah e dos incrédulos. Dia e noite ocorre um conflito e uma luta incessantes entre a obediência aos mandamentos de Allah e a rebeldia contra Ele. Os incrédulos violam a lei de Allah e, em oposição a ela, estabelecem no mundo a lei de Satanás; um muçulmano isolado jamais poderá vencer ao enfrentá-los. Portanto, é dever indispensável dos servos de Allah unirem-se, enfrentarem os inimigos de Allah com a força de uma unidade coletiva e esforçarem-se para estabelecer a lei de Allah no mundo. Mas nada além da oração pode formar essa imensa força de unidade. As cinco orações congregacionais diárias, a grande congregação semanal da oração de sexta-feira e, depois, a enorme reunião anual das duas orações dos Eid — tudo isso molda os muçulmanos como uma muralha sólida e desperta entre eles aquela unidade de pensamento, sentimento, opinião e ação que é absolutamente necessária para formar os muçulmanos como auxiliares uns dos outros nas atividades cotidianas.
O que se recita na oração
Já discutimos detalhadamente como a oração prepara o ser humano para adorar Allah, reconhecer Sua servidão e viver em obediência a Ele. Ao ler tudo o que foi escrito a esse respeito, você compreendeu claramente que, se uma pessoa realizar regularmente a oração, considerando-a um mandamento de Allah e uma obrigação, então, mesmo que não compreenda o significado das súplicas e das suratas recitadas na oração, essa oração certamente manterá sempre despertos em seu coração o temor de Allah, a consciência de que Allah está presente e vigilante e a crença de que um dia comparecerá diante de Seu tribunal. Ela pensará sempre que não é serva de ninguém além de Allah — Allah é seu verdadeiro Rei e Senhor. Como resultado, adquirirá o hábito de cumprir seus deveres e permanecerá preparada, em todas as circunstâncias, para seguir os mandamentos de Allah. A oração também produz no ser humano as qualidades e os atributos indispensáveis para viver toda a sua vida sob a adoração de Allah e transformar a vida inteira em adoração. Espero que, no artigo anterior, vocês tenham compreendido bem como esse benefício pode ser obtido por meio da oração.
Agora é preciso compreender o seguinte: se alguém pode obter um benefício tão grandioso ao orar sem compreender o significado das súplicas e das suratas da oração, então, se uma pessoa orar compreendendo-as bem e atentamente, e puder compreender e sentir, com o coração e a mente, aquilo que recita, que transformação extraordinária poderá ocorrer em sua fé, em suas convicções, em seu modo de pensar, em seus hábitos e em seu caráter, e segundo que ideal toda a sua vida poderá ser formada. É justamente esse assunto que tentarei discutir aqui minuciosamente.
Primeiramente, reflita sobre o azan. O que lhe é dito cinco vezes por dia? Diz-se:
ٱللهُ أَكْبَر — “Allah é o Maior; Allah é maior que todos.”
أَشْهَدُ أَنْ لاَ إِلَـٰهَ إِلَّا ٱللهُ – ‘Testemunho que não há nenhuma divindade além de Allah. Não há ninguém digno de adoração além de Allah.’
أَشْهَدُ أَنَّ مُحَمَّدًا رُسُولُ ٱلله – ‘Testemunho que Muhammad é o Mensageiro enviado por Allah.’
حَيَّ عَلَىٰ ٱلصَّلاة – ‘Vinde para a oração’
حَيَّ عَلَىٰ ٱلْفَلاَح – ‘Vinde para aquilo que traz benefício e prosperidade.’
الله أكبر – ‘Allah é o Maior, Allah é o Maior.’
لا إله إلا الله – ‘Não há nenhuma divindade além de Allah.’
Pensem: que chamado grandioso e poderoso é este! Este chamado lembra vocês, cinco vezes todos os dias, justamente disto: “Todos os que se apresentam na Terra como grandes pretendentes à divindade são mentirosos. No céu e na Terra, há somente Um que possui a divindade e o domínio, e somente Ele é digno de adoração. Venhamos todos juntos adorá-Lo. Na adoração está a verdadeira prosperidade de todos nós, nesta vida e na Vida Futura.”
Quem pode permanecer sentado, imóvel, ao ouvir esta voz comovente? Para aquele que possui sequer um mínimo de fé no coração, é de modo algum possível permanecer inerte depois de ouvir um testemunho tão destemido e um chamado tão claro; tampouco pode ele deixar de comparecer perante o verdadeiro Senhor e Mestre e prostrar-se diante d’Ele.
Ao ouvir esse chamado, você se levanta e, antes de tudo, reflete: estou puro ou impuro? Minhas roupas estão puras? Estou com ablução ou não? Em outras palavras, você tem a clara sensação de que comparecer perante a corte do Rei dos dois mundos é algo completamente distinto de todas as demais coisas do mundo. As outras tarefas podem ser realizadas em qualquer circunstância, mas, nessa grandiosa corte, não basta apenas a pureza do corpo e das roupas; uma pureza adicional e especial — isto é, a ablução — é absolutamente indispensável. Comparecer aqui sem essa pureza é uma enorme falta de respeito. Com esse sentimento, você primeiro pensa em purificar-se e, depois, começa a realizar a ablução. Durante essa ablução, se você recitar as súplicas ensinadas pelo nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ao lavar cada parte do corpo e depois de concluí-la, e se lembrar devidamente de Allah, não serão lavadas apenas as suas partes do corpo; seu coração também será lavado e purificado. Depois de concluir a ablução, deve-se recitar a seguinte súplica:
اللَّهُمَّ اجْعَلْنِي مِنَ التَّوَّابِينَ وَاجْعَلْنِي مِنَ الْمُتَطَهِّرِينَ” “أَشْهَدُ أَنْ لَا إِلَهَ إلَّا اللهُ وَحْدَهُ لَا شَرِيكَ لَهُ، وَأَشْهَدُ أَنَّ مُحَمَّداً عَبْدُهُ وَرَسُولُهُ“Testemunho que não há divindade além de Allah, o Único, sem parceiro, e testemunho também que Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, é Seu servo e Mensageiro. Ó Allah, inclui-me entre os que se arrependem e torna-me um dos que se purificam.”
Em seguida, você se põe de pé para a oração. Seu rosto está voltado para a sagrada qibla. Purificado, você comparece perante o Rei de todo o universo.
A primeira coisa que sai de sua boca é:ٱللهُ أَكْبَر“Allah é o Maior.”
Ao pronunciar esse grandioso compromisso com o coração e com os lábios, você ergue as duas mãos até as orelhas, como símbolo de romper sua ligação com o mundo e tudo o que há nele, e permanece de pé diante de seu Rei, com as mãos cruzadas. Em seguida, com extrema humildade, você suplica:
سبحانك اللهم و بحمدك، وتبارك اسمك، و تعالى جدك، ولا إله غيرك
“Ó Allah! Glorifico somente a Ti; com o Teu louvor, a bênção e a majestade do Teu nome são verdadeiramente incomparáveis. Tu és o Maior, e a Tua honra está acima de todas as outras. Não há divindade além de Ti.”
أعوذ بالله من الشيطان الرجيم
“Busco refúgio em Allah contra Satanás, o maldito e rejeitado.”
بسم الله الرحمن الرحيم
“Começo em nome de Allah, o Misericordioso, o Compassivo.”
الحمد لله رب العالمين
-“Todo louvor e toda espécie de elogio pertencem somente a Allah, o Senhor de todos os mundos.”
الرحمن الرحيم
-Ele é extremamente misericordioso e compassivo.
مالك يوم الدين
-Ele é o único Soberano do Dia do Juízo, quando todas as ações das pessoas serão julgadas e cada um terá de experimentar o resultado de suas ações.
إياك نعبدوإياك نستعين
-Ó Soberano! Nós adoramos somente a Ti e somente a Ti pedimos ajuda.
اهدنا الصراط المستقيم
-Mostra-nos o caminho fácil, reto e correto.
صراط الذين أنعمت عليهم
-O caminho daqueles que receberam Tua graça e recompensa.
غير المغضوب عليهم ولأ الضا لين
—E não os daqueles que foram amaldiçoados e dos que foram conduzidos pelo caminho do erro.
—Ó Allah! Aceita nossa súplica e realiza nossos desejos.
Depois, devem ser recitados alguns versículos do Alcorão Sagrado. Cada versículo do Alcorão está repleto de doçura e vida. Nele há conselhos inestimáveis, ensinamentos e um chamado ao caminho da verdade. Na Surata Al-Fatiha, pede-se o caminho fácil e reto; nela são apresentadas a orientação e a descrição desse mesmo caminho reto. Como exemplo, mencionam-se aqui algumas suratas:
وَالعَصرِ إِنَّ الإِنسانَ لَفي خُسرٍ إِلَّا الَّذينَ آمَنوا وَعَمِلُوا الصّالِحاتِ وَتَواصَوا بِالحَقِّ وَتَواصَوا بِالصَّبرِ
“Pelo tempo! Toda a humanidade está à beira da perdição. Exceto aqueles que creem, praticam boas ações (de acordo com as exigências da fé), recomendam e aconselham uns aos outros a seguir o caminho da verdade e exortam uns aos outros a permanecer firmes e fortes no caminho da verdade (somente estes podem ser salvos do caminho da perdição).”
Aprendemos com esta pequena surata que o ser humano só pode escapar da destruição e do fracasso de uma única maneira. Isto é: não basta crer sinceramente em Allah e agir de acordo com os mandamentos transmitidos por Allah; é igualmente indispensável haver um grupo bem organizado de pessoas crentes e virtuosas, que conclame uns aos outros e toda a humanidade ao caminho da verdade e da justiça, e que, em todos os tipos de sofrimento e adversidade, ajude e coopere para que se permaneça firmemente estabelecido sobre a religião de Allah, o Islã.
Ou ainda alguma outra surata, como:
أَرَأَيْتَ الَّذِي يُكَذِّبُ بِالدِّينِ
فَذَٰلِكَ الَّذِي يَدُعُّ الْيَتِيمَ
وَلَا يَحُضُّ عَلَىٰ طَعَامِ الْمِسْكِينِ
فَوَيْلٌ لِّلْمُصَلِّينَ
الَّذِينَ هُمْ عَن صَلَاتِهِمْ سَاهُونَ الَّذِينَ هُمْ يُرَاءُونَ
وَيَمْنَعُونَ الْمَاعُونَ
“Já viste como é a pessoa que não crê no Dia do Juízo, o Dia da Ressurreição? É esse tipo de pessoa que expulsa o órfão e que não dá alimento aos pobres necessitados; além disso, não se esforça nem um pouco para incentivar outras pessoas a fazerem isso. Ai dos que rezam, mas são negligentes em suas orações (por não acreditarem na Vida Futura)! Eles, embora rezem, fazem-no apenas para serem vistos pelas pessoas, e têm o coração tão mesquinho que relutam em dar aos necessitados até mesmo as coisas mais insignificantes e pequenas.”
O ensinamento principal desta surata é que crer na Vida Futura é como a alma do Islã. (Sem essa crença, as obras do Islã seriam tão sem sentido quanto um corpo sem vida.) Além disso, nenhuma pessoa pode seguir o caminho fácil e reto mostrado por Allah. Eis outra surata:
وَيْلٌ لِّكُلِّ هُمَزَةٍ لُّمَزَةٍ
الَّذِي جَمَعَ مَالًا وَعَدَّدَهُ
يَحْسَبُ أَنَّ مَالَهُ أَخْلَدَهُ
كَلَّا ۖ لَيُنبَذَنَّ فِي الْحُطَمَةِ
وَمَا أَدْرَاكَ مَا الْحُطَمَةُ
نَارُ اللَّهِ الْمُوقَدَةُ
الَّتِي تَطَّلِعُ عَلَى الْأَفْئِدَةِ
إِنَّهَا عَلَيْهِم مُّؤْصَدَةٌ
فِي عَمَدٍ مُّمَدَّدَةٍ
“Ai de todos aqueles cujo hábito é investigar os defeitos dos outros e insultá-los com palavras humilhantes. Eles apenas acumulam dinheiro e ficam contando-o repetidamente (para ver quanto aumentou). Pensam que suas riquezas permanecerão para sempre com eles. De modo algum! Um dia certamente morrerão e serão lançados no Inferno chamado Hutama. E sabes o que é Hutama? É o fogo aceso por Allah; suas chamas ardentes reduzem até os corações a cinzas. É um fogo de chamas grandes e elevadas, como colunas, que os envolverá.”
Assim, entre as suratas e os versículos do Alcorão recitados na oração, há sempre algum ensinamento e conselho valioso. Eles dizem claramente à humanidade que se deve agir neste mundo de acordo com a ordem de Allah dirigida aos seres humanos. Depois de recitar esses versículos de orientação e conselho, diga ‘Allahu Akbar’ e entre na inclinação (rukū‘). Coloque as mãos sobre os joelhos, incline a cabeça diante de Allah, o Senhor de todos os mundos, e continue dizendo repetidamente:
“Santo é o meu grandioso Senhor e Sustentador.” Em seguida, levanta-se ereto e diz:(Árabe***) “Allah ouviu as palavras daquele que O louvou.” Depois, dizendo ‘Allahu Akbar’, prostra-se, encostando a cabeça no chão, e diz:(Árabe***) “Glorifico a santidade de Allah, o Grandioso e o Supremo.” Depois, levanta a cabeça e senta-se respeitosamente para recitar:
Isso التحيات لله والصلوات والطيبات، السلام عليك أيها النبي ورحمة لله
وبركاته، السلام علينا و على عباد الله الصالحين، أشهد أن لا إله إلا الله، وأشهد أن محمدا عبده و رسوله.
“Todas as nossas saudações e reverências, todas as nossas orações e toda forma de pureza pertencem exclusivamente a Allah, o Altíssimo.”
—Ó Profeta! Que a paz esteja sobre ti e que a misericórdia e as graças de Allah sejam derramadas sobre ti.
—Que a misericórdia de Allah seja derramada sobre nós e sobre os servos virtuosos de Allah.
-Testifico que não há outro senhor e objeto de adoração além de Allah. Também testifico que Hazrat Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, é servo e Mensageiro de Allah, o Altíssimo.”
Quando você presta esse testemunho, deve levantar o dedo indicador. Pois, por meio desse gesto do dedo, sua crença e fé são declaradas durante a oração; e, ao pronunciar as palavras desse testemunho, deve prestar especial atenção e concentrar profundamente a mente e o coração. Em seguida, deve recitar o seguinte durood:
اللهم صل على محمد وعلى آل محمد، كما صليت على إبراهيم وعلى آل إبراهيم، وبارك على محمد وعلى آل محمد، كما باركت على إبراهيم
وعلى آل إبراهيم، في العالمين إنك حميد مجيد.
“Ó Allah! Concede misericórdia e bênçãos ao nosso senhor e líder, Hazrat Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aos seus descendentes, assim como concedeste misericórdia a Hazrat Ibrahim, que a paz esteja com ele, e aos seus descendentes. Certamente, Tu és o Possuidor das mais excelentes qualidades e és Grandioso. Ó Allah! Derrama bênçãos sobre o nosso senhor e líder, Hazrat Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e sobre os seus descendentes, assim como derramaste bênçãos sobre Hazrat Ibrahim, que a paz esteja com ele, e sobre os seus descendentes. Certamente, Tu és dotado de virtudes perfeitas e és Grandioso.”
Depois de recitar o durood, faça a seguinte súplica a Allah:
اللهم إني أعوذ بك من عذاب جهنم، و من عذاب القبر، و من فتنة المحيا و الممات، و من فتنة المسيح الدجال، رب اغفر لي و لوالدي رب ارحمهما كما ربياني صغيرا.
“Ó Allah! Busco refúgio em Ti para me salvar do castigo do Inferno. Busco proteção em Ti contra o castigo da sepultura. Busco refúgio em Ti contra o mal do desviado Dajjal, que se espalhará pela Terra. Busco refúgio em Ti contra os males da vida e da morte. Ó Allah! Busco também refúgio em Ti contra as más ações e as dívidas.”
Depois de recitar esta súplica, a oração fica completa. Ao despedir-se da presença do Senhor dos mundos, volta-se primeiro para a direita e para a esquerda e, rogando misericórdia e paz para todos os presentes e para todas as coisas do mundo, diz:
السَّلاَمُ عَلَيْكُمْ وَرَحْمَةُ اللهِ
“Que a paz e a misericórdia de Allah estejam sobre vós.” É como uma boa notícia: depois da oração, você retorna da presença de Allah levando consigo essa mensagem. É assim que se realiza a oração: levantando-se bem cedo, antes de iniciar todos os trabalhos mundanos. Depois, permanece ocupado durante muitas horas com diversas atividades do mundo. Pouco depois do meio-dia, apresenta-se novamente diante de Allah e realiza a oração; algumas horas mais tarde, no terceiro período do dia, realiza outra vez esta oração. Depois de trabalhar por mais algumas horas, assim que o sol se põe, apresenta-se diante de Allah e realiza esta oração. Quando terminam os trabalhos do mundo, apresenta-se pela última vez diante de Allah, antes de dormir. As três últimas rak‘at desta última oração são chamadas de “oração do Witr”. Na terceira rak‘at, você faz diante de Allah um importante compromisso. Esse compromisso chama-se “Du‘a al-Qunut”. Por meio desta súplica, aquele que ora jura, diante de Allah, com extrema humildade e submissão, obedecer-Lhe e servi-Lo. Promete viver em obediência a Ele. Escute atentamente o que você diz neste compromisso:
اللهم إنا نستعينك ونستغفرك ونؤمن بك ونتوكل عليك ونثني عليك الخير ونشكرك ولا نكفرك ونخلع ونترك من يفجرك
اللهم إياك نعبد ولك نصلي ونسجد وإليك نسعى ونحفد ونرجو رحمتك ونخشى عذابك إن عذابك بالكفار ملحق
“Ó Allah! Pedimos-Te ajuda. Pedimos-Te perdão pelos pecados. Cremos em Ti. Somente em Ti confiamos. Louvamos-Te por todo tipo de bem e benefício. Agradecemos-Te e não negamos as Tuas dádivas. Prometemos-Te que não manteremos qualquer relação com aqueles que Te desobedecem — nós os abandonaremos. Ó Allah! Reconhecemos que somos Teus servos. Oramos somente para Ti, prostramo-nos somente diante de Ti, e todos os nossos esforços, empenhos e sofrimentos são exclusivamente para alcançar a Tua satisfação. Suportamos as dificuldades apenas na esperança de obter a Tua misericórdia e tememos o Teu castigo. Certamente, somente os incrédulos serão lançados no Teu castigo.”
Reflita um pouco: a pessoa que ouve cinco vezes por dia o chamado da oração e pensa no quão grandiosas são as palavras anunciadas nesse chamado e no grande e majestoso Rei diante de Quem está sendo convocada a comparecer; a pessoa que, sempre que ouve o chamado da oração, sente isso em seu coração, abandona todos os seus afazeres e comparece diante do Senhor e Dono de todo o universo; que, antes de cada oração, faz a ablução e purifica o corpo e a mente; e que recita atentamente, repetidas vezes na oração, as suratas e súplicas da maneira indicada, não pode deixar de sentir, verdadeiramente, o temor de Allah em seu coração e em sua mente. Ela não pode deixar de sentir vergonha de desobedecer às ordens de Allah. Sua alma certamente tremerá ao comparecer repetidamente diante de Allah carregando as marcas negras dos pecados e das más ações. Depois de declarar, na oração, que é servo de Allah e que seguirá obedecendo-Lhe, e de reconhecer repetidamente que Allah é o Senhor do Dia do Juízo, como poderia alguém voltar ao mundo exterior, retomar suas atividades e mentir, agir desonestamente, usurpar os direitos alheios, dar ou receber suborno, dar ou receber juros, prejudicar injustamente outras pessoas, ou praticar atos de falta de vergonha, adultério e outras injustiças? E, depois de praticar essas coisas, como poderia ter a audácia de voltar a comparecer diante de Allah e reconhecê-las verbalmente? Você reconhece conscientemente, inúmeras vezes todos os dias, diante de Allah: “Ó Allah! Somente a Ti sirvo e somente a Ti peço ajuda.” Depois de fazer esse reconhecimento, como lhe seria possível servir a alguém além de Allah e pedir a alguém além d’Ele? Se, depois de reconhecer essas coisas, você agir contra elas, sua consciência o repreenderá quando voltar a comparecer diante de Allah, e sua cabeça se curvará de vergonha. Se tornar a agir contra elas, sentirá ainda mais vergonha, e sua consciência o atormentará ainda mais. É absolutamente impossível que, apesar de passar toda a vida realizando a oração cinco vezes por dia, suas ações e seu caráter não se corrijam e nenhuma transformação radical se inicie em sua vida. É por isso que Allah, o Altíssimo, disse ao mencionar este benefício da oração:
إِنَّ الصَّلاةَ تَنهىٰ عَنِ الفَحشاءِ وَالمُنكَرِ
“Certamente, a oração impede o ser humano da indecência, da obscenidade e de todo tipo de pecado.”
Mas, apesar de existir um meio tão grandioso para corrigir a mente e o caráter das pessoas e apesar de rezar as cinco orações diárias, se o caráter de alguém não melhorar, se essa pessoa não se afastar do caminho do pecado, então deve-se compreender que, na realidade, a sua própria natureza é má. Por isso, não há qualquer deficiência na oração. A água e o sabão de fato limpam a sujeira das roupas; mas, se não removerem a sujeira do carvão, não se pode atribuir culpa à água e ao sabão — a culpa será do carvão.
Mas é realmente muito triste que não compreendamos absolutamente nada do que recitamos na oração, ou que, mesmo compreendendo, não o façamos com entendimento. Esta é uma grande carência da nossa oração. Basta dedicar algum tempo para aprender, e essa carência poderá ser suprida — vocês podem aprender facilmente, na sua própria língua materna, o significado e o sentido das súplicas e das suratas da oração. Creio que isso lhes será de grande benefício.
A oração em congregação
Nos artigos anteriores, falei apenas sobre as características e os benefícios da oração. Com isso, certamente compreenderam quão importante é esta adoração. Também compreenderam como esta oração faz nascer no ser humano o espírito de devoção ao longo de toda a vida e como o torna capaz de cumprir devidamente o direito dessa devoção. Agora falarei sobre os benefícios de realizar a oração em congregação. Com isso, compreenderão muito bem como Allah, por Sua misericórdia e graça, reuniu todos os tipos de bênçãos nesta mesma prática. A oração por si só já não era pouca coisa para nós; mas, ao ordenar também a realização da oração em congregação, Allah, o Altíssimo, transformou-a num reservatório de benefícios duplicados e concedeu-lhe uma força extraordinária, incomparável para produzir uma transformação radical no ser humano.
Como já disse, considerar-se, a todo instante da vida, servo de Allah, permanecer submisso ao Senhor como um escravo obediente e estar sempre pronto para cumprir as ordens do Senhor: isso é adoração; e a oração prepara o ser humano precisamente para essa adoração. Todas as qualidades necessárias ao ser humano para esse tipo de adoração são criadas nele pela oração. O sentimento de ser servo, a fé em Allah, em Seu Mensageiro e em Seu Livro, a firme crença na Vida Futura, o temor de Allah, o reconhecimento de Allah como ‘Conhecedor do Invisível’, senti-Lo sempre presente consigo, manter-se sempre preparado para cumprir as ordens de Allah e conhecê-las bem — a oração cria no ser humano muitas qualidades desse tipo e o forma como um servo sincero de Allah, o Altíssimo.
Basta refletir um pouco para compreender que, por mais virtuoso que um ser humano seja por si mesmo, enquanto as outras pessoas não forem seus cooperadores e auxiliares, ele não poderá cumprir plenamente o direito da servidão a Allah. As pessoas com quem ele vive dia e noite, com quem trabalha constantemente em conjunto, se não o ajudarem na obediência a Allah, tornam completamente impossível que ele cumpra as ordens de Allah.
O ser humano não veio sozinho ao mundo. Permanecendo sozinho, também não consegue fazer nada. Ele está ligado de várias maneiras aos vizinhos, colegas de trabalho e companheiros do caminho da vida. Os mandamentos e preceitos de Allah não se destinam a uma pessoa isolada, mas a todos os seres humanos — foram enviados por Allah precisamente para manter corretamente todos os tipos de relações da vida. Portanto, se todos ajudarem e cooperarem uns com os outros no cumprimento das ordens de Allah, somente então poderão, juntos, tornar-se cumpridores das ordens de Allah. Por outro lado, se todos começarem juntos a desobedecer a Allah, ou se as suas relações mútuas forem de tal natureza que não cooperem uns com os outros na obediência às ordens de Allah, será absolutamente impossível para uma pessoa cumprir correta e regularmente as ordens de Allah e agir de acordo com a lei de Allah.
Se vocês recitarem o Alcorão com um objetivo específico, saberão que Allah Ta’ala não ordenou apenas que vocês se submetessem e obedecessem a Allah e seguissem cumprindo os mandamentos de Allah. Junto com isso, também lhes foi dada esta ordem: fazer com que o mundo inteiro se submeta e obedeça a Allah e estabelecer a lei de Allah no mundo. Onde quer que vigore a lei de Satanás, vocês deverão aboli-la e, em seu lugar, estabelecer o governo da lei de Allah Ta’ala, o Único e sem associado. Como Allah lhes ordenou a realização de um serviço tão grandioso, uma única pessoa jamais poderia concluir essa tarefa. Mesmo que houvesse milhões e milhões de muçulmanos que acreditassem nisso, se estivessem dispersos e separados, sem qualquer comunicação ou vínculo entre si, ainda assim não conseguiriam de modo algum derrotar a força bem organizada e firmemente estabelecida de Satanás. Por isso, é indispensável que os muçulmanos se unam em grupo, ajudem uns aos outros, tornem-se apoiadores e defensores uns dos outros e lutem e se esforcem coletivamente para alcançar o mesmo objetivo.
Ao examinar a questão um pouco mais profundamente, também fica claro que, para alcançar um objetivo tão grandioso, não basta que os muçulmanos simplesmente se reúnam e se unam. Eles devem unir-se da maneira correta; isto é, devem formar uma congregação muçulmana de tal modo que se estabeleça uma relação adequada entre eles, sem qualquer falha ou defeito em suas relações mútuas. Deve haver plena unidade em suas opiniões, objetivos, propósitos e política de ação. Eles precisam ter um amir e líder, e devem cultivar o hábito e o desejo de agir segundo as indicações desse líder. É necessário que compreendam bem até que ponto devem obedecer às ordens do líder e em que circunstâncias também se pode opor a ele. Guardem estas palavras na memória e reflitam sobre como, ao realizar a oração em congregação, esses importantes princípios despertam nos que rezam.
Assim que se ouve o adhan, foi ordenado que se abandonem todos os trabalhos e afazeres e se vá à mesquita. Portanto, o fato de os muçulmanos abandonarem imediatamente suas ocupações ao ouvir o adhan e todos avançarem em direção ao mesmo centro (a mesquita) recorda um enorme exército. No acampamento militar, assim que soa o toque da corneta, cada soldado entende que o comandante está chamando todos. Nesse momento, surge no coração de todos o mesmo sentimento: o dever e a responsabilidade de obedecer à ordem do comandante. Assim que percebem isso, todos fazem a mesma coisa; isto é, de onde quer que estejam, correm para o local determinado assim que ouvem o toque. Por que esse método é adotado para os soldados? Primeiro, para que cada soldado desenvolva o hábito de obedecer às ordens e de estar sempre pronto para cumpri-las. Segundo, para que, com todos esses soldados obedientes, seja formado um grupo poderoso e se desenvolva o hábito de reunir-se no mesmo momento e no mesmo lugar sob a ordem do comandante. Esse hábito é necessário para que, caso surja repentinamente algum acontecimento, todos os soldados possam comparecer ao mesmo lugar ao ouvir o chamado e agir. Cada soldado pode ser pessoalmente muito valente, mas, se não puder comparecer imediatamente quando for chamado para lutar no momento da ação, sua bravura não terá valor algum. Se, assim que forem chamados, os soldados não se reunirem e, em vez disso, seguirem cada um em uma direção conforme a própria vontade, um grupo disciplinado de cinquenta soldados do inimigo poderá aniquilar mil desses soldados valorosos.
Exatamente segundo essa regra, ordenou-se aos muçulmanos que, assim que ouvissem o adhan, abandonassem seus afazeres e comparecessem à mesquita mais próxima, para que todos os muçulmanos pudessem transformar-se em um exército de Allah. Desse modo, cria-se o hábito de comparecer cinco vezes por dia assim que se ouve o adhan, porque o dever desses soldados de Allah é muito maior e muito mais rigoroso que o dos soldados de todos os exércitos do mundo. Outros exércitos talvez só precisem lutar depois de muito tempo e, como não se sabe quando a guerra começará, recebem treinamento com bastante antecedência. Mas esse exército de Allah precisa lutar a cada instante contra as forças satânicas e estar preparado a todo momento para obedecer à ordem do comandante. Por isso, cinco vezes entre o dia e a noite, ao som da “corneta” divina — o adhan —, os muçulmanos precisam correr para a mesquita, o acampamento de Allah. É preciso dizer que, em comparação com suas responsabilidades e deveres, isso sem dúvida constitui uma grande graça concedida a eles.
Até agora, discutimos apenas a beleza e a importância do adhan. Ao ouvir o adhan, todos os muçulmanos comparecem à mesquita. Somente nessa reunião já estão contidas muitas belezas e benefícios. Reunidos ali, os muçulmanos podem ver-se uns aos outros, conhecer-se e estabelecer relações.
Mas por qual vínculo vocês se reúnem e se conhecem uns aos outros? Pelo vínculo de serem servos de um só Allah, seguidores de um só Mensageiro, de terem todos o mesmo Alcorão Sagrado como livro e código de vida, e de possuírem todos o mesmo propósito de vida. Vocês se reuniram na mesquita para alcançar esse mesmo objetivo e, depois de voltar daqui, cada um de vocês também se esforçará para alcançar esse mesmo objetivo. De fato, esse tipo de conhecimento e companheirismo naturalmente desperta em vocês a ideia de que todos pertencem a uma só nação e são soldados de um só exército. Vocês são irmãos uns dos outros. No mundo, o objetivo e a finalidade da vida de vocês são os mesmos; todos compartilham seus ganhos e perdas, e suas vidas estão intimamente ligadas umas às outras.
Quando olharem uns para os outros, olhem com os olhos, a mente e o coração abertos, com generosidade. Não olhem para ninguém com o olhar com que o inimigo olha; ao contrário, olhem uns para os outros exatamente como um amigo olha para o amigo e um irmão olha para o irmão. Como resultado desse olhar, quando vocês virem um irmão vestindo roupas velhas e rasgadas, outro muito preocupado, em dificuldade ou faminto, ou ainda outro incapaz, aleijado, paralisado ou cego, a compaixão e a misericórdia surgirão espontaneamente em seus corações. Vocês, os ricos, sentirão o sofrimento dos pobres, desamparados e necessitados, e os pobres e indigentes terão coragem de chegar aos ricos e falar-lhes de sua situação. Se souberem que alguém não pôde ir à mesquita por estar doente ou em dificuldade, sentirão vontade de visitá-lo. Ao receberem a notícia da morte de alguém, poderão ir realizar a oração fúnebre e expressar suas condolências à família enlutada. Na verdade, são essas ações que criarão profundo amor e compaixão entre vocês.
Pensem ainda um pouco: o lugar onde vocês se reúnem é um local puro e sagrado. Vocês se reúnem nesse lugar sagrado com um grande propósito. Grupos de ladrões, assaltantes, bêbados e jogadores também se reúnem num mesmo lugar; porém, o coração de todos eles está cheio de más intenções. Mas não se pode comparar a reunião de vocês com a deles. Pois aqui se reúnem apenas os sinceros servos de Allah; esta assembleia de vocês para a adoração de Allah realiza-se na Casa de Allah. Todos se reúnem aqui para reconhecer sinceramente, diante de Allah, a sua servidão e submissão. Nessa situação, surge espontaneamente no coração dos crentes um sentimento de vergonha por seus próprios pecados. Por outro lado, se uma pessoa tiver cometido algum pecado diante de outra e essa outra pessoa estiver presente na mesquita, só isso já fará o pecador morrer de vergonha. Além disso, se houver no coração dos muçulmanos o desejo de aconselharem uns aos outros, e se, com carinho, amor e compaixão, procurarem saber bem como eliminar os defeitos uns dos outros, então, sem a menor dúvida, a infinita misericórdia e bênção de Allah descerá sobre essa assembleia. Assim, pela oportunidade de realizar a oração em congregação, um muçulmano poderá corrigir os defeitos de outro, e um suprirá as necessidades do outro. Como resultado, gradualmente, toda a sociedade poderá tornar-se virtuosa e piedosa.
Há uma grande bênção simplesmente no fato de se reunirem na mesquita. Depois, reflitam também sobre quão ilimitados são os benefícios e as bênçãos de realizar a oração em congregação. Todos os que rezam permanecem de pé, igualmente, na mesma fileira. Ninguém entre eles é maior ou menor, superior ou inferior: perante Allah, diante de Allah, todas as pessoas são absolutamente iguais. Se a mão ou o corpo de alguém tocar outro, nenhum deles se torna impuro. Aqui não há lugar para a intocabilidade. Todos são puros e purificados, pois todos são seres humanos e todos são servos de um único Allah, seguidores da mesma religião do Islã. Entre esses que rezam não há absolutamente nenhuma diferença de linhagem, família, tribo, país ou língua. Individualmente, um pode ser Saiyid, outro Pathan, outro Khan Sahib, outro Howladar e outro ainda Chowdhury Sahib. Além disso, um deles pode ser habitante de um país e outro, de um país diferente. Um fala uma língua, outro expressa seus pensamentos em outra. Mas, apesar dessas diferenças individuais, todos permanecem juntos na mesma fileira e adoram Allah em conjunto. Isso significa que todos pertencem à mesma nação. Aqui, as diferenças de linhagem, tribo, país, região e nacionalidade são inteiramente falsas. A maior relação entre as pessoas é a servidão a Allah, a adoração de Allah. Se, nesse aspecto, todos vocês são um, então não pode haver razão alguma para serem diferentes e separados em outras questões.
Quando vocês permanecem lado a lado, ombro a ombro, em fileiras, parece que um enorme exército está de pé diante do rei para cumprir o seu dever. Permanecer em fileiras e levantar-se e sentar-se juntos cria no coração dos que rezam um profundo sentimento de unidade. Desse modo, por meio da oração, todos são habituados a servir a Allah: as mãos de todos se levantarão juntas e os pés de todos se moverão ao mesmo tempo. Assim ficará claro que os que rezam não são vinte nem cem pessoas; unidos, transformaram-se numa única pessoa indivisível.
O que se faz depois de formar a congregação e as fileiras? Todos os que rezam apresentam, na mesma língua, o mesmo pedido diante de Allah:اِيَّاكَ وَاِيَّاكَ نَسْتَعِيْنُÓ Allah, somente a Ti adoramos e somente a Ti pedimos ajuda.اِهْدِنَا الصِّرَاظَ الْمُسْتَقِيْمَÓ Allah, mostra-nos o caminho fácil e correto.رَبِّنَا لَكَ الْحَمْدُÓ Allah! Todo louvor e toda exaltação pertencem somente a Ti.اَلسَّلاَمُ عَلَيْنَا وَعَلى عِبَادِ اللهِ الصَّالِحِيْنَ ـQue a paz desça sobre nós e também sobre os servos virtuosos de Allah. Depois de terminar a oração, eles saúdam uns aos outros dizendo:اَلسَّلاَمُ عَلَيْكُمْ وَرَحْمَةُ اللهِ ـIsso significa que cada um dos que rezam deseja o bem dos demais, e que todos, juntos, pedem ao mesmo Senhor o bem de todos. Nenhum dos que rezam está sozinho; nenhum deseja o bem apenas para si. Pelo contrário, todos fazem esta súplica: Ó Allah! Que a Tua graça e o Teu bem desçam sobre todos nós; concede a todos a capacidade de seguir o mesmo caminho fácil e reto; que a paz desça sobre todos. Assim, a oração une os corações de todos os que rezam, desperta em todos o mesmo pensamento e a mesma maneira de pensar, e cria entre eles profundo amor, unidade e desejo do bem.
Mas lembrem-se: não se pode realizar a oração em congregação sem um imame. Mesmo que duas pessoas rezem juntas, uma delas deve ser o imame e a outra, o muqtadi. Quando a congregação começa, é rigorosamente proibido afastar-se dela para rezar sozinho. Pelo contrário, a ordem é que quem chegar depois do início da congregação deve ficar atrás daquele imame, seguindo-o na oração. Essas práticas não se limitam apenas à oração; na verdade, por meio delas é transmitido um grande ensinamento: para viver como muçulmano, é preciso permanecer organizado em congregação dessa maneira. Se nenhum de vocês for um imame, essa congregação não poderá sequer ser formada. E, depois de formada a congregação, se vocês permanecerem separados dela, a vida de vocês não será de modo algum uma vida islâmica. Ela não terá absolutamente nenhuma relação com a vida muçulmana.
E isso ainda não é tudo. Por meio da oração em congregação, estabelece-se uma relação muito forte entre o imame e os muqtadis; por meio dela, todo muçulmano pode compreender qual é a posição do “imame” na grande mesquita chamada mundo, fora desta pequena mesquita; quais são os seus deveres; quais são os seus “direitos”; como se deve seguir o imame dessa “grande mesquita”; o que fazer quando ele comete um erro; por quanto tempo se deve tolerar o seu erro; quando se pode apontar o seu erro; quando se pode exigir que ele o corrija; e em que situação se pode destituir o imame. Todas essas questões
De maneira resumida, todo muçulmano é instruído na mesquita, por meio da oração em congregação, sobre essas questões. Em uma palavra, cinco vezes por dia, na mesquita, ensinam-se as regras para administrar um pequeno Estado e cria-se o hábito de aplicá-las.
Não há oportunidade de explicar essas questões detalhadamente aqui. Mencionarei brevemente alguns pontos necessários.
A ordem da Sharia é que, entre os membros da sociedade, aquele que for o mais temente a Deus, tiver mais conhecimento, souber ler e compreender o Alcorão Sagrado melhor que todos os demais e, além disso, tiver atingido a idade adequada, seja precisamente ele nomeado imam para a oração. Por meio dessa disposição, ensinou-se claramente quais qualidades são indispensáveis entre aqueles que serão líderes da nação no campo de atuação.
A Sharia determinou que é impróprio nomear imam aquele que a maioria dos membros da congregação não aceita como imam. A discordância de um pequeno número não deve ser considerada, pois jamais se encontra alguém de quem ninguém discorde. Porém, se a maioria da congregação não gostar de determinada pessoa, de modo algum ela poderá ser nomeada imam. Com isso, ensinou-se o método para escolher o imam ou líder da nação.
A Sharia estabeleceu que se deve nomear como imam para a oração uma pessoa que conduza a oração levando em consideração a condição de todos os que rezam. Pois entre os participantes pode haver muitos enfermos, idosos, doentes e fracos. Nessas circunstâncias, se ele recitar longas passagens durante a oração e prolongar o rukū e o sujūd, levando em conta apenas os jovens, fortes e desocupados, isso poderá causar grande dificuldade e incômodo aos demais. Portanto, o imam deve lembrar que entre os que rezam há muitos idosos, pessoas enfermas e fracas, e muitas pessoas que desejam terminar rapidamente a oração e retornar às suas ocupações. O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) demonstrou grande compaixão nesse assunto. Mesmo quando ouvia o choro de uma criança enquanto conduzia a oração, ele a abreviava bastante. Pois, se a mãe (ou o pai) da criança estivesse participando daquela congregação, isso poderia lhe causar sofrimento e, assim, perturbar a oração. Por meio dessa regra, ensinou-se aos líderes da nação que, quando alguém é feito “líder”, é indispensável que, em todos os assuntos, leve em consideração pessoas de todos os tipos da nação. A disposição da Sharia é que, se durante a condução da oração o imam se encontrar em uma situação que o impeça de continuar conduzindo-a, ele deve imediatamente afastar-se e fazer com que outra pessoa assuma a função de imam. A disposição da Sharia é que, se durante a condução da oração o imam se encontrar em uma situação que o impeça de continuar conduzindo-a, ele deve imediatamente afastar-se e fazer com que outra pessoa assuma a função de imam. Disso se extrai a orientação de que, quando o líder da nação se tornar incapaz de cumprir seu dever, deve ele próprio renunciar e providenciar a nomeação de outra pessoa adequada para o cargo. Isso é obrigatório para ele. Não deve sentir vergonha por fazê-lo, nem isso constitui egoísmo.
A ordem da Sharia é que os seguidores sejam obrigados a acompanhar tudo o que o imam fizer. É absolutamente proibido que um seguidor faça qualquer movimento antes de o imam fazê-lo. Inclusive, foi mencionado no hadith: “Se alguém se inclinar ou se prostrar antes do imam, no Dia da Ressurreição será feito levantar-se como um asno”. Aqui se ensinou à nação muçulmana que é obrigatório seguir o líder.
Se o imam cometer algum erro durante a oração — isto é, se sentar quando deveria ficar de pé ou ficar de pé quando deveria sentar — é obrigatório que os seguidores chamem sua atenção para o erro dizendo “Subhanallah”. “Subhanallah” significa “Allah, o Altíssimo, é puro e grandioso”. O significado de dizer “Subhanallah” ao apontar o erro do imam é que somente Allah, o Altíssimo, está livre de todo tipo de erro e falha; você é humano, portanto não é impossível que cometa um erro. No Islã, esta é a regra para apontar o erro do imam.
Segundo esta regra, sempre que o erro do imam for apontado, ele deve corrigir seu próprio erro sem dar lugar a qualquer vergonha ou constrangimento. Contudo, se, mesmo depois de lhe apontarem o erro, o imam estiver absolutamente convencido de que não cometeu erro algum e agiu corretamente, deverá concluir a oração conforme sua própria convicção. Nessa situação, é dever dos membros da congregação seguir o imam, ainda que considerem errada a ação dele. Depois do término da oração, todos os que rezaram têm o direito de provar diante do imam o erro que ele cometeu e exigir que ele conduza novamente a oração.
Esse modo de tratar o imam por parte dos membros da congregação aplica-se apenas a erros pequenos. Porém, se o imam começar a conduzir a oração contrariando a Sunna do Profeta, ou recitar conscientemente o Alcorão Sagrado de forma errada durante a oração, ou cometer durante a condução da oração algum ato de kufr, shirk ou pecado manifesto, então é obrigatório para cada um dos que rezam abandonar a oração e afastar-se daquele imam.
Por meio dessas orientações da Sharia acerca da oração, ensinou-se de maneira admirável como a sociedade muçulmana deve tratar seus líderes na vida nacional.
Pelo que foi dito aqui sobre as virtudes e os benefícios de realizar a oração em congregação, vocês puderam compreender claramente que, nesta única forma de adoração ordenada por Allah Ta’ala, que deve ser cumprida apenas cinco vezes por dia e à noite, durante poucos minutos, há grandes benefícios para os muçulmanos em todos os lugares, neste mundo e no Além. Isso permite compreender que somente esta prática pode tornar o muçulmano verdadeiramente afortunado e como ela o prepara para servir a Allah e exercer liderança no mundo. Agora pode surgir em suas mentes a pergunta: se a oração está repleta de todos os benefícios, onde foram parar, nos tempos atuais, todos esses benefícios? A resposta a essa pergunta será dada no próximo artigo, se Allah quiser.
Por que não se obtêm os frutos da oração?
Nos artigos anteriores, expliquei de várias maneiras os benefícios e as virtudes que a oração proporciona; aqui tentarei responder por que, atualmente, as pessoas não conseguem obter esses mesmos benefícios da oração. Por que, mesmo rezando na época atual, os muçulmanos estão tão humilhados e fracos? Por que seu caráter não melhora? Por que não se transformam em um exército de Allah, invencível e poderoso? Por que, no mundo, são tão impotentes e desprezados diante dos incrédulos? Esta é realmente uma pergunta difícil.
A resposta resumida a essa pergunta pode ser que os muçulmanos, na realidade, não realizam a oração; e, quando a realizam, não a fazem exatamente da maneira e segundo as regras em que Allah e Seu Mensageiro ordenaram que fosse feita. Portanto, os muçulmanos de hoje não podem esperar obter da oração atual benefícios semelhantes aos daquela oração capaz de levar o crente ao mais alto grau de progresso. Mas sei que vocês não ficarão satisfeitos com uma resposta tão breve. Por isso, é necessário responder a isso com um pouco mais de detalhes.
Vejam este relógio de parede pendurado na mesquita. Vocês sabem que nele muitas peças estão ligadas umas às outras. Quando se dá corda, cada peça começa a desempenhar sua própria função e, ao mesmo tempo, o resultado do trabalho das peças internas começa a aparecer nos ponteiros externos. Em outras palavras, os dois ponteiros, girando continuamente, transformam segundo após segundo em minuto após minuto, e minuto após minuto em hora após hora. Agora pensem: qual é a finalidade para a qual um relógio é fabricado? Todos sabem que seu único objetivo é indicar corretamente as horas. Por isso, reuniram-se nele todas as pequenas peças capazes de indicar a hora exata. Depois, elas foram ligadas umas às outras, para que todas funcionassem adequadamente em conjunto e cada peça realizasse exatamente o trabalho necessário para indicar a hora correta — nem mais, nem menos. Também foi estabelecido que se lhe desse corda repetidamente, pois, se não se der corda, as peças pararão e não poderão funcionar corretamente. Por isso, depois de determinado período, dá-se corda para colocá-lo em movimento. Assim, todas as peças começam a funcionar. Quando elas são devidamente conectadas e se dá corda ao relógio, então se pode alcançar, por meio dele, o objetivo para o qual foi fabricado. Mas, se não se lhe der corda corretamente, ele não poderá indicar a hora com precisão. Se lhe derem corda, mas não de acordo com as regras, o relógio parará ou, mesmo funcionando, não indicará a hora corretamente. Se retirarem algumas de suas peças e lhe derem corda, esse ato de dar corda não produzirá resultado algum. E, se retirarem uma de suas peças, colocarem em seu lugar uma peça de uma máquina de costura Singer e lhe derem corda, ainda assim ele não poderá indicar a hora; por outro lado, também não será possível costurar tecido com ele. Se todas as suas peças forem mantidas separadas umas das outras dentro dele, ele não funcionará mesmo que lhe deem corda. À primeira vista, seria preciso dizer que todas as peças do relógio estão dentro dele; mas o objetivo do relógio não pode ser alcançado apenas pelo fato de suas peças estarem dentro dele. Isso porque elas não estão ligadas umas às outras, nem foram devidamente organizadas e dispostas segundo uma ordem. Por isso, não conseguem funcionar em conjunto. Embora, nas condições aqui mencionadas, o relógio não realize trabalho algum e dar-lhe corda seja inútil, as pessoas de fora, ao vê-lo, não conseguirão perceber que ele não é um relógio ou que não está sendo corretamente posto em funcionamento. Elas dirão que ele tem exatamente a aparência de um relógio e, por isso, esperarão obter dele aquilo que se obtém de um relógio. Assim, quando o virem de longe dando corda corretamente no relógio, esperarão obter dele todos os benefícios que um relógio pode proporcionar. Mas, quando o estado correto de um relógio não existe em seu interior, que importa que ele tenha, por fora, aparência de relógio? De modo algum será possível obter dele a função de um relógio verdadeiro.
Com o exemplo do relógio que apresentei diante de vocês, puderam compreender claramente toda a questão. Considerem o Islã como esse relógio. Assim como a finalidade do relógio é indicar corretamente a hora, o objetivo do Islã é que o ser humano viva neste mundo como representante de Allah e soldado de Allah. Que os próprios muçulmanos sigam os mandamentos de Allah e conduzam também os outros sob a autoridade da lei de Allah.
No Alcorão Sagrado, isso é afirmado claramente:
كُنْتُمْ خَيْرَ اُمَّةٍ اُخْرِجََتْ لِلنَّاسِ تَأْمُرُوْنَ بِالْمَعْرُوْفِ وَ تَنْهَوْنَ عِنْ الْمُنْكَرِ وَتُؤْمِنُوْنَ بِاللهِ ط ـ عمران:
Vós sois a melhor nação, criada para o benefício de toda a humanidade. Vossa tarefa é ordenar a todas as pessoas que pratiquem o bem, fazê-las abandonar toda ação injusta e manter uma fé firme em Allah. Surata آل Imran: 110
وَكَذَلِكَ جَعَلْنَكُمْ وَّسَطًا لَتِكُوْنُوْا شُهَدَا ءَ عَلَى النَّاسِ ـ
E assim fizemos de vós uma nação (a melhor), para que pudésseis testemunhar perante toda a humanidade.
Surata Al-Baqarah: 143
وَعَدَ اللهُ الَّذِيْنَ امَنُوْا مِنْكُمْ وَعَمِلُوْا الصلِحتِ لَيَسْتَخْلِفَنَّهُمْ فِيْ الاَرْضِ النُوْر: 55
Allah prometeu àqueles dentre vós que creem e praticam boas ações que, certamente, Ele os fará sucessores na terra. Surata An-Nur: 55
وَقَاتِلُوْهُمْ حَتّى لاَتَكُوْنَ فِتْنَةٌ وَّيَكُوْنَ الدِّيْنُ كُلُّهُ لِلَّهِ ـ
Combatei esses incrédulos, até que a intriga cesse por completo e a religião seja inteiramente dedicada a Allah. Surata Al-Anfal: 39” Para alcançar esse objetivo, assim como um relógio possui várias peças, também foram reunidos no Islam muitos componentes. Eles são necessários para alcançar o verdadeiro objetivo do Islam e, ao mesmo tempo, são mutuamente harmoniosos. Os princípios fundamentais do Islam, as crenças, as normas da conduta moral, as regras dos negócios e das transações, os direitos de Allah, os direitos das pessoas, os próprios direitos e os direitos relativos a todas as demais coisas com as quais o ser humano se relaciona neste mundo, as normas de ganhar o sustento e gastar, as regras e métodos da guerra e do jihad, as normas e procedimentos de tratados e acordos, os regulamentos e métodos de administração do Estado e as regras para viver sob a autoridade de um Estado islâmico — tudo isso constitui partes do Islam, pequenas peças do Islam. Elas foram unidas umas às outras, como as peças de um relógio, de tal maneira que, ao dar-lhe corda, todas começam a funcionar corretamente; e, como resultado de seu funcionamento conjunto, o verdadeiro objetivo do Islam — sua supremacia e domínio, e o estabelecimento da lei de Allah no mundo — é alcançado de modo tão belo e contínuo quanto o ponteiro externo de um relógio indica a hora correta quando seus mecanismos funcionam. Para unir entre si as várias partes de um relógio, utilizam-se algumas placas e pequenas hastes de ferro. Da mesma forma, foi estabelecido o sistema da formação da jamaat para manter unidas as diversas práticas do Islam e organizá-las em uma hierarquia harmoniosa. Essa jamaat dos muçulmanos terá um líder que possuirá conhecimento correto do Islam, discernimento e as qualidades de taqwa e piedade; os membros da jamaat obedecerão às suas ordens e agirão de acordo com elas. Com o auxílio da força conjunta deles, o líder aplicará a lei islâmica sobre o povo e os impedirá de se opor à lei islâmica. Assim, quando todas as partes do Islam estiverem ligadas umas às outras e uma organização harmoniosa tiver sido estabelecida entre elas, será necessário dar-lhes corda para fazê-las funcionar corretamente e dar-lhes movimento. Na verdade, no sistema de vida islâmico, a oração desempenha a função dessa corda. É necessário dar essa corda cinco vezes durante o dia e a noite. Depois, também é preciso limpar e purificar esse relógio. Por isso, o jejum foi tornado obrigatório. Uma vez por ano, durante trinta dias, ele realiza essa função. É necessário lubrificar esse relógio; uma vez por ano, com o pagamento do zakat, realiza-se essa lubrificação. Esse óleo não é importado de fora; uma de suas próprias peças o produz e torna as demais peças secas aptas a funcionar. Também é necessário fazer uma “revisão geral” do relógio de tempos em tempos; ao realizar o hajj uma vez na vida, conclui-se essa revisão geral.
Agora todos podem compreender que dar corda, limpar, lubrificar e fazer a revisão completa só pode ser proveitoso quando, dentro deste relógio, apenas as peças do próprio relógio estiverem interligadas e organizadas, tal como o seu fabricante as dispôs. Somente em tal estado, ao dar-lhe corda, ele poderá funcionar corretamente e indicar a hora com exatidão. Se refletirem um pouco, compreenderão que, nesse aspecto, a situação atual do Islã é extremamente má. Em primeiro lugar, já não existe a comunidade cuja formação havia servido para unir entre si todas as partes do Islã. Como consequência, todas as partes se separaram. A força da unidade desapareceu. Agora cada um faz o que quer, e não há ninguém que impeça nem ninguém que mostre o caminho correto. Se quiser, segue as leis do Islã; caso contrário, abandona o Islã e segue outro caminho. Os muçulmanos de hoje não pararam por aí. Pelo contrário, retiraram muitas peças deste relógio e acrescentaram-lhe, segundo a própria vontade, muitas outras que de modo algum podem ser peças deste relógio. Alguns introduziram peças de uma “máquina de costura Singer”; outros instalaram nele uma peça de um “moinho de farinha”; e outros ainda procuraram, conforme a sua preferência, certas peças de automóveis e juntaram-nas a ele. Assim, de um lado há muçulmanos e, de outro, eles praticam negócios com juros, fizeram seguros de vida em companhias de seguros, movem processos falsos em tribunais fundados na lei inglesa, servem os descrentes como seus subordinados, transformam as próprias filhas, irmãs e esposas em senhoras à moda europeia, dão aos próprios filhos uma educação materialista, fazem-nos imitar Marx e Lenin e, ao mesmo tempo, obrigam-nos a aceitar também as políticas da Grã-Bretanha e da América. Em suma, os próprios muçulmanos trouxeram inúmeras coisas contrárias ao Islã e as acoplaram a este relógio do Islã.
Depois de praticar todas essas ações indesejáveis, se alguém espera que o relógio funcione corretamente apenas por lhe dar corda, que por meio dele se alcance também o objetivo para o qual foi fabricado, e que se obtenha dele o resultado que deveria ser obtido limpando-o, lubrificando-o e fazendo-lhe uma revisão completa, o que se pode dizer dessa pessoa além de que é extremamente tola? Basta pensar um pouco mais profundamente para compreender facilmente que, no estado em que este relógio — o Islã — se encontra atualmente, ainda que se lhe dê corda, se limpe e se lubrifique durante toda a vida, o seu verdadeiro objetivo jamais poderá ser alcançado. Portanto, enquanto as peças de outras máquinas não forem retiradas do seu interior e, em seu lugar, as suas peças originais não forem devidamente dispostas — tal como foram dispostas quando o relógio foi fabricado pela primeira vez —, não há esperança alguma de alcançar por meio dele o verdadeiro objetivo.
É indispensável compreender muito bem esta questão. Esta é a razão pela qual as orações, o jejum, o hajj e a zakat dos muçulmanos se tornaram completamente infrutíferos. Em primeiro lugar, são muito poucos entre eles os que realizam regularmente as orações, jejuam, pagam a zakat e fazem o hajj. Com a destruição dos laços e da disciplina comunitária, cada pessoa da sociedade tornou-se completamente arbitrária. Não há ninguém que pergunte se alguém está cumprindo ou não esses deveres obrigatórios do Islã. Além disso, como os que os cumprem os cumprem? Hoje, a prática de rezar em congregação praticamente desapareceu. Mesmo onde existe uma congregação, nomeia-se como imã da mesquita alguém que não tem capacidade para realizar nenhuma outra tarefa no mundo. Na maioria dos casos, foram feitos imãs das mesquitas precisamente homens dessa categoria: os que vivem do pão da mesquita, os que consideram o cumprimento dos deveres religiosos um meio de ganhar a vida, os atrasados no conhecimento e na ciência, sem força moral e muito retrógrados em caráter. No entanto, a instituição do imã foi estabelecida justamente com o objetivo de transformar todos os muçulmanos em verdadeiros califas de Allah e em soldados de Allah no mundo.soldadosAssim, a situação atual das orações, do jejum, da zakat e do hajj não pode ser expressa em palavras.
Apesar de tudo isso, alguns podem dizer que hoje muitos muçulmanos cumprem os deveres obrigatórios e desempenham devidamente as suas próprias responsabilidades. Mas, como foi dito acima, depois de retirar algumas peças do relógio e instalar no lugar delas algumas peças de outras máquinas, dar-lhe ou não dar-lhe corda, limpá-lo ou não limpá-lo e lubrificá-lo ou não lubrificá-lo dá no mesmo: tudo é completamente inútil e sem sentido. Visto de longe, ele certamente parecerá um relógio. Quem o observar de fora dirá naturalmente: “Isto é o Islã, e vocês são muçulmanos.” Quando vocês dão corda a este relógio ou o limpam, as pessoas, vendo-o de longe, pensam que vocês estão realmente dando-lhe corda e limpando-o corretamente. Ninguém pode dizer que isto não é oração, que isto não é jejum. Mas como poderão aqueles que o observam de fora compreender o que há em seu interior?
Por que as atividades religiosas dos muçulmanos são hoje infrutíferas? Expus claramente diante de vocês a causa fundamental disso. Expliquei também por que os muçulmanos, mesmo rezando e jejuando, não conseguem tornar-se soldados de Allah; pelo contrário, por que se tornam servidores dos descrentes, seguidores cegos dos seus passos e são oprimidos de várias maneiras. Se não se ofenderem, posso dizer algo ainda mais doloroso. Não há dúvida de que os muçulmanos certamente sentem tristeza ou sofrimento diante da situação atual. Mas também é verdade que, entre os muçulmanos de hoje, novecentos e noventa e nove em cada mil, ou talvez ainda mais, são pessoas que de modo algum estão dispostas a tentar eliminar essa situação. As peças internas deste “relógio” do Islã se desconectaram umas das outras, e cada um acrescentou-lhe, conforme a própria vontade, uma nova peça. Hoje os muçulmanos estão completamente indispostos a corrigi-lo — isto é, a retirar as peças de outras máquinas e a organizar devidamente as suas peças originais para consertá-lo. Mais ainda: mesmo quando alguém quer fazê-lo, eles não conseguem sequer tolerá-lo. Pois, quando as peças das outras máquinas forem retiradas do seu interior, as coisas queridas de cada um também serão retiradas. Mas não se pode permitir que sejam retiradas as coisas queridas dos outros, enquanto a peça que cada um acrescentou de fora continue ali. Quando, desse modo, as suas peças originais forem devidamente organizadas e firmemente fixadas, eles temem ficar presos juntamente com elas. Afinal, se todos forem firmemente amarrados, certamente não será possível deixar sequer um deles livre e sem restrições. E eles não são capazes de suportar voluntariamente uma situação tão penosa. Por isso querem que este relógio continue pendurado exatamente como está, enquanto as pessoas, observando-o de longe, o tomem por um relógio e continuem sendo enganadas. Por outro lado, aqueles que amam extremamente esse relógio inútil estão ocupados em dar-lhe corda com muita frequência e em limpá-lo. Mas jamais estarão dispostos, nem por engano, a organizar corretamente as suas peças e retirar as coisas das outras máquinas. Isso é realmente triste.
Se eu pudesse concordar com uma opinião como essa de vocês, não haveria problema. Mas não posso fazê-lo. Não me é possível falar contra a verdade que vim a conhecer. Posso afirmar com certeza que, nas condições atuais, mesmo que, além das cinco orações diárias, se realizassem também as orações de tahajjud, ishrāq, chāšt e outras, que se recitasse diariamente o Alcorão Sagrado durante cinco horas e que, além do mês do Ramadã, se jejuasse durante cinco meses e meio dos onze meses restantes do ano, ainda assim nenhum resultado seria obtido. Porém, depois que as peças essenciais do relógio forem colocadas e organizadas corretamente em seu interior, bastará dar-lhe uma pequena corda para que continue funcionando e indique corretamente as horas. Então, mesmo uma pequena limpeza e algumas gotas de óleo produzirão muitos benefícios. Caso contrário, ainda que se dê corda ao relógio durante toda a vida, ele jamais funcionará, e seu objetivo fundamental jamais será alcançado por meio dele.
Jejum
Depois da oração, o culto que Allah Todo-Poderoso tornou obrigatório para os muçulmanos é o jejum do mês do Ramadã. Abster-se de comer, beber e manter relações conjugais desde a manhã até a noite é o que se chama jejum. Assim como a oração, o jejum também foi prescrito como obrigatório nas leis religiosas de todos os profetas desde tempos imemoriais. As comunidades de todos os profetas anteriores jejuavam dessa mesma maneira, assim como jejuam os membros da comunidade do último Profeta, Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naturalmente, há diferenças entre as leis religiosas dos diversos profetas quanto às regras e disposições do jejum, ao seu número, ao seu período e à sua duração. Atualmente, podemos ver que, em todas as religiões, a prática do jejum ainda existe de alguma forma. Sem dúvida, porém, seus seguidores acrescentaram muitas coisas segundo seus próprios desejos e deformaram sua forma de várias maneiras. No Alcorão glorioso, Allah declarou:
يَآيُّهَا الذِّيْنَ اَمَنُوْا كُتِبَ عَلَيْكُمْ كَمَا كُتِبَ عَلَى الَّذِيْنَ مِنْ قَبْلِكُمْ لَعَلَّكُمْ تَتَّكُوْنَ ـ
Ó vós que credes! O jejum foi prescrito para vós, assim como foi prescrito para aqueles que vos precederam. Surata Al-Baqara: 183
Este versículo prova que todas as leis religiosas reveladas por Allah ao mundo continham normas e disposições relativas ao jejum. É algo digno de reflexão: que realidade está contida no jejum para que Allah Todo-Poderoso o tenha instituído nas leis religiosas de todas as épocas?
Já disse várias vezes anteriormente que o verdadeiro objetivo do Islã é transformar toda a vida humana em adoração, isto é, em servidão a Allah. O ser humano é, por natureza, servo de Allah, e servi-Lo é sua disposição natural. Portanto, não é correto que o ser humano abandone, nem por um instante, a servidão a Allah, seja em seus pensamentos, seja em suas ações. Em cada ato da vida e em todos os momentos, deve refletir sobre aquilo que agrada a Allah e sobre o que Lhe desagrada. Depois, deve dirigir-se para onde e para aquilo em que espera alcançar a satisfação de Allah, e afastar-se daquilo que Lhe desagrada, tal como todos se afastam do fogo. É dever do ser humano seguir o caminho que Allah aprova e não seguir o caminho que Ele não aprova. Quando toda a vida humana for formada dessa maneira, ficará provado que a pessoa está servindo devidamente a Allah e que وَمَا خَلَقْتُ الْجِنَّ وَالاِنْسَ اِلاَّ لِيْعْبُدُوْنَ ـ (الذريت) Criei os gênios e os seres humanos somente para que Me adorem. De acordo com esta declaração de Allah, ela terá conseguido cumprir o propósito de sua criação.
Também foi dito anteriormente que o verdadeiro objetivo dos atos de adoração conhecidos como oração, jejum, hajj e zakat, tornados obrigatórios para os seres humanos, é prepará-los para essa verdadeira adoração. Torná-los obrigatórios não significa que, apenas por realizar rigorosamente as cinco orações diárias, suportar durante trinta dias do mês do Ramadã o sofrimento da fome e da sede desde a manhã até a noite, pagar o zakat uma vez por ano quando se é rico e realizar o hajj uma vez na vida, a pessoa já tenha cumprido integralmente seu dever para com Allah e depois tenha plena liberdade para fazer o que quiser. Pelo contrário, o verdadeiro objetivo de tornar obrigatórios esses atos de adoração é formar corretamente a pessoa por meio deles e tornar toda a sua vida apta à servidão a Allah. Agora, tendo esse objetivo em vista, é preciso analisar de que modo o jejum prepara a pessoa para essa verdadeira adoração.
As outras formas de adoração, além do jejum, precisam, de uma maneira ou de outra, de uma manifestação externa para serem praticadas. Durante a oração, aquele que ora precisa levantar-se, sentar-se e fazer o rukūʿ e o sujūd. Outras pessoas podem ver isso. Para realizar o hajj, é preciso viajar por uma longa distância, e essa viagem também é feita junto com milhares de pessoas. No caso do pagamento da zakat, pelo menos duas pessoas precisam saber: uma dá e a outra recebe. Essas formas de adoração não podem permanecer ocultas de ninguém. Assim que são realizadas, outras pessoas podem saber disso. Mas, quanto ao jejum, ninguém além de Allah e da pessoa que jejua pode saber. Se alguém comer o suḥūr diante de todos, fizer o ifṭār junto com todos no momento de quebrar o jejum e, durante o dia, comer ou beber algo às escondidas, ninguém além de Allah poderá saber. É verdade que, publicamente, todos pensarão que essa pessoa está jejuando; mas, na realidade, ela não está jejuando de modo algum.
Considerem este aspecto do jejum. Quão forte é a fé daquele que realmente jejua, não come nem bebe às escondidas, não toma sequer uma gota de água quando, no calor intenso, a sede parece fazer seu fígado explodir, e, embora estrelas comecem a surgir diante de seus olhos devido à fome insuportável, não deseja comer nada? Com que firmeza ele acredita que Allah é ʿĀlim al-Ghayb, conhecedor do invisível. Com que certeza ele sabe que, embora suas ações sejam desconhecidas pelas pessoas do mundo, nada é desconhecido para o Senhor de todo o universo. Quão intenso é o temor de Allah em seu coração: mesmo suportando um sofrimento insuportável, somente por temor a Allah ele não faz nada que possa invalidar seu jejum. Quão firme é sua crença no julgamento da vida futura. Durante um mês, ele jejua pelo menos trezentas e sessenta horas. Ao longo desse longo período, nenhuma dúvida sobre a vida futura surge em seu coração. Se tivesse sequer a menor dúvida sobre a existência da vida futura, ou se houvesse em seu coração algum conflito quanto à possibilidade de nela haver castigo ou recompensa, ele jamais conseguiria completar seu jejum. Quando essa dúvida surge, uma pessoa não consegue permanecer firme na decisão de não comer nem beber apenas por se tratar de uma ordem de Allah.
Assim, Allah submete continuamente a fé dos muçulmanos a uma prova durante um mês de cada ano. Quanto mais a pessoa se fortalece nessa prova, mais firme se torna sua fé. Na realidade, é prova sobre prova, treinamento sobre treinamento. Quando algo é confiado a alguém, sua fé é submetida a uma grande prova. Se ele conseguir passar bem por essa prova e não trair a confiança, adquirirá maior capacidade para suportar o peso de outras responsabilidades confiadas. Gradualmente, tornar-se-á ainda mais digno de confiança. Da mesma forma, Allah submete continuamente a fé dos muçulmanos a uma difícil prova, durante um mês inteiro, por doze ou catorze horas diariamente. Quando ele é plenamente aprovado nessa prova, desperta nele, em maior medida, a capacidade de temer Allah e afastar-se dos demais pecados. Então, considerando Allah como ʿĀlim al-Ghayb, ele não consegue violar a lei de Allah nem mesmo em segredo. Em cada ação, ele se lembrará daquele Dia da Ressurreição em que tudo será revelado e em que, com imparcialidade, cada boa ação receberá uma boa recompensa e cada má ação receberá uma má recompensa. Isso foi dito no Alcorão Sagrado no seguinte versículo:
يَآيُّهَا الَّذِيْنَ اَمَنُوْا كُتِبَ عَلَيْكُوْمُ الصِّيِامُ كَمَا كُتِبَ عَلى الَّذِيْنَ مِنْ قِبْلِكُمْ لَعَلَّكُمْ تَتَّقُوْنَ ـ (البقرة: 183)
Ó vós que credes! Foi-vos prescrito o jejum, assim como foi prescrito aos que vos precederam. Surata Al-Baqara: 183
Outra característica do jejum é que ele obriga o muçulmano a cumprir continuamente as ordens da sharia durante um longo período. Uma oração leva apenas alguns minutos. A zakat precisa ser paga somente uma vez por ano. O hajj, naturalmente, exige bastante tempo, mas sua oportunidade surge apenas uma vez na vida inteira. E isso não se aplica a todos os muçulmanos: somente os ricos têm essa oportunidade. Mas o jejum é completamente diferente dessas outras formas de adoração: durante um mês inteiro, todos os muçulmanos capazes se habituam, dia e noite, a seguir a sharia islâmica. É preciso levantar-se no fim da noite para comer o suḥūr, interromper toda comida e bebida antes de um horário determinado, abster-se durante o dia de certas ações que não podem de modo algum ser realizadas e fazer o ifṭār no horário determinado à noite — nem um pouco antes, nem um pouco depois. Depois do ifṭār, é permitido comer, beber e descansar. Mas logo em seguida é preciso correr para a oração do tarāwīḥ. Dessa forma, todos os anos a pessoa é mantida presa durante um mês inteiro por uma lei rigorosa. Depois, é libertada para atuar no campo da vida durante onze meses. O treinamento recebido neste mês deve refletir-se em suas ações ao longo dos onze meses seguintes; e, se ainda restar algo incompleto, deverá ser completado no ano seguinte.
Se fosse organizado para cada indivíduo da sociedade muçulmana receber esse treinamento separadamente, ele não seria de modo algum eficaz. Os soldados nunca são treinados em desfiles um por um; todo o exército desfila reunido, ao mesmo tempo. Todos precisam levantar-se ao ouvir simultaneamente o som da corneta e começar a tarefa determinada conforme esse som. Como resultado, os soldados adquirem o hábito de trabalhar em grupo. Ao mesmo tempo, um ajuda o outro em seu treinamento. Se o treinamento de um permanecer incompleto de alguma forma, o segundo o completa; e, se o do segundo permanecer incompleto, o terceiro o completa. É precisamente por isso que, no Islã, o mês de Ramadan foi estabelecido para a prática do jejum. Ordenou-se a todos os muçulmanos que começassem a jejuar juntos nesse período. Na realidade, essa ordem transformou a adoração individual das pessoas em adoração coletiva. Assim como a multiplicação de um número por cem mil produz um número enorme, do mesmo modo, o aprimoramento moral e espiritual obtido por cada indivíduo ao jejuar separadamente pode ser multiplicado muitas e muitas vezes quando milhões de pessoas jejuam juntas. O mês de Ramadan ilumina todo o ambiente com a atmosfera sagrada da bondade e da piedade. Em toda a vida nacional cresce uma colheita verde e viçosa de taqwā e piedade. Cada pessoa não tenta apenas proteger a si mesma do pecado; se houver nela algum tipo de fraqueza, todos os outros irmãos que jejuam ajudam-na e colaboram com ela. Toda pessoa sente vergonha de pecar enquanto jejua; por outro lado, surge no coração de cada uma o desejo de realizar boas ações e ações que tragam recompensa. Quando possível, dá uma refeição ao pobre, doa roupas ao que está nu e ajuda o necessitado. Ao ver uma boa ação sendo praticada em algum lugar, participa dela. E, quando o pecado é praticado abertamente em algum lugar, tenta impedi-lo. Assim, cria-se ao redor uma bela atmosfera de bondade e taqwā. Começa uma estação favorável ao crescimento de todo tipo de virtude e boa ação. Na realidade, todas as colheitas do mundo dão frutos em estações determinadas. Nessa época, por todos os lados, torna-se visível apenas o magnífico cenário daquela colheita. Foi por isso que o Último Profeta (que a paz esteja com ele) declarou:
كُلُّ عَمَلٍ اِبنِ ادَمَ يُضُاعَفُ الْحَسَنَةَ بِعَشَرِ اَمْثَالِهَا اِلى سَبْعِ مَائَةِ ضِعْفٍ ـ قَالَ اللهُ تَعَالى الصَّوْمُ اِلاَّ الصَّوْمُ فَانَّهُ لِىْ وَاَنَا اَجْرِى بِه ـ
A recompensa de cada ação humana aumenta de alguma forma perante Allah; como resultado de uma boa ação, ela pode tornar-se de dez até setecentas vezes maior. Mas Allah diz: “O jejum não será incluído entre essas ações, pois ele é observado exclusivamente por Mim. E sou Eu quem concederei sua recompensa.”
Por este hadith ficou claramente sabido que a recompensa da boa ação daquele que a pratica aumenta enormemente conforme sua intenção, mas há um limite determinado para tudo isso. Já para o aumento da recompensa do jejum não foi estabelecido limite algum. Como o mês do Ramadan é a estação das bênçãos, do bem e do aumento das boas ações, nessa estação não é apenas um muçulmano, mas milhões e milhões de muçulmanos que regam juntos o jardim das boas ações. Por isso, ele pode produzir frutos inumeráveis. Quanto mais boas ações forem realizadas neste mês com boas intenções, quanto mais bênçãos o jejuador obtiver para si e procurar oferecer a outro irmão jejuador — e quanto mais os efeitos deste mês permanecerem sobre o jejuador durante os onze meses seguintes — tanto maiores serão seus benefícios. Eles continuarão aumentando de tal forma que não terão limite nem fim. Se os próprios muçulmanos agora o mantiverem limitado, isso será outra questão.
Ao ouvir falar dos efeitos benéficos e das bênçãos extraordinários do jejum, pode surgir no coração de todos esta pergunta: onde foram parar hoje? Hoje os muçulmanos jejuam e fazem a oração. Mas por que não obtêm de modo algum os benefícios que são descritos? Já mencionei anteriormente uma das razões. É que, depois de separar as diferentes partes da ampla legislação do Islam e de introduzir nela muitas coisas novas vindas de fora, não se pode esperar obter dela o resultado original. A segunda razão é que a visão dos muçulmanos atuais sobre a adoração mudou completamente. Eles agora pensam que adoração é apenas não comer nem beber nada do amanhecer ao entardecer. E considera-se que, se alguém realiza essa ação, sua adoração está completa. Do mesmo modo, nas demais formas de adoração, apenas a estrutura exterior e as cerimônias são consideradas adoração. Por isso, a verdadeira essência da adoração, que deveria manifestar-se espontaneamente em cada ação dos muçulmanos, é negada a 99 por cento deles, ou até mais. É justamente por isso que as adorações não produzem plenamente seus frutos. Pois, no Islam, tudo depende da intenção, do discernimento e da sinceridade. Isso será discutido detalhadamente no próximo artigo, se Allah quiser.
O objetivo principal do jejum
Qualquer ação que uma pessoa realize necessariamente contém duas coisas: uma é seu objetivo — aquilo para o qual a ação é realizada; a outra é o método adotado para alcançar esse objetivo. Pode-se tomar como exemplo comer arroz. O objetivo de comer arroz é permanecer vivo e conservar a força física. Para alcançar esse objetivo, é preciso formar uma porção, levá-la à boca, mastigá-la e engoli-la. Este é o método mais eficaz e mais adequado para alcançar o objetivo de comer. Portanto, o método de comer não é a coisa essencial; essencial é o objetivo pelo qual se come. Agora, se alguém apanhar um punhado de terra, cinza ou areia, colocá-lo na boca, mastigá-lo e engoli-lo, o que se poderá dizer dele? Será preciso dizer que enlouqueceu. Mas por quê? Porque o simples cumprimento dessas quatro regras de comer não faz com que o objetivo de comer seja alcançado. Do mesmo modo, uma pessoa que vomita imediatamente depois de comer arroz e, ainda assim, reclama: “Não estou obtendo absolutamente nenhum dos benefícios atribuídos ao ato de comer arroz. Pelo contrário, estou ficando cada vez mais fraca, e a morte se aproxima de mim”, essa pessoa insensata atribui sua fraqueza ao ato de comer, quando, na realidade, ela é apenas resultado de sua própria insensatez. Ela pensa tolamente que, uma vez cumpridas as poucas regras pelas quais se realiza o ato de comer, basta completar essas regras para obter força vital. Por isso, imagina que não há vantagem em deixar a carga de arroz no estômago e que é melhor expulsá-la. Assim, o estômago ficará leve. As regras exteriores de comer foram cumpridas. Essa pessoa insensata nutriu uma concepção equivocada desse tipo e está agindo de acordo com ela. Portanto, terá de sofrer as consequências de sua própria ação. Ela deveria saber que, enquanto o arroz não chegar ao estômago, não for digerido, transformado em sangue e distribuído por todo o corpo, não será possível obter força vital alguma. Embora as regras exteriores do ato de comer sejam indispensáveis, pois sem elas o arroz não pode de modo algum entrar no estômago, não se alcança o verdadeiro objetivo de comer apenas cumprindo essa cerimônia exterior. Não há nessa cerimônia exterior nenhuma magia que, uma vez concluída, faça o sangue fluir magicamente por todas as suas veias. A formação do sangue só pode ocorrer segundo as regras que Allah estabeleceu. Se essas regras forem violadas, a destruição será inevitável.
Basta refletir um pouco sobre o exemplo que expliquei detalhadamente para compreender facilmente a razão pela qual a adoração dos muçulmanos atuais se tornou infrutífera. Como já disse várias vezes, os muçulmanos atuais consideram os arkan da oração e do jejum — as ações internas essenciais — e suas cerimônias exteriores como a verdadeira adoração. No entanto, não poderia haver erro maior do que esse. Eles pensam que aquele que cumpre corretamente essas cerimônias realizou plenamente a adoração de Allah. Podem ser comparados à pessoa que formou uma porção de arroz, colocou-a na boca, mastigou-a e a engoliu, acreditando que realizar essas quatro ações era comer e que, por meio delas, o objetivo de comer havia sido alcançado. Que tenha comido terra ou areia, ou que tenha vomitado tudo, não faz diferença. Quero perguntar: se esse não é o erro dos muçulmanos, como pode o jejuador dizer mentiras e fazer a “ghibah” dos outros? Como pode envolver-se em brigas e discussões a cada palavra? Como podem sair de sua boca insultos e palavras obscenas? Como podem tomar os direitos alheios? Como podem comer o que é haram e fazer outros comerem o que é haram, enquanto afirmam estar adorando Allah? Aqueles que comem areia ou terra e pensam que estão realizando o ato de comer são exatamente iguais a eles.
É especialmente importante refletir sobre isto: depois de os muçulmanos passarem todo o mês do Ramadan, durante 360 horas, adorando Allah, por que, quando encerram esse período, todos os efeitos dessa grande adoração desaparecem completamente já no primeiro dia de Shawwal? Tudo o que os hindus fazem em suas feiras e festivais, os muçulmanos fazem exatamente no festival do Eid. Nas áreas urbanas, chega a começar, no dia do Eid, uma onda de adultério, dança, música, consumo de álcool e jogos de azar. Há até muitas pessoas que jejuam durante o dia e passam a noite bebendo álcool e cometendo adultério. Pela graça de Allah, os muçulmanos comuns ainda não se desviaram tanto; mas a pergunta é: depois que o Ramadan termina, sobre quantas pessoas permanece o efeito da taqwa e da piedade? Quantas pessoas temem violar a lei de Allah? Quantas participam de boas ações? Para quantas desaparece o egoísmo?
Reflita: qual poderia ser a verdadeira causa disso? Quero afirmar com convicção que a única causa é que o significado da adoração e a concepção que os muçulmanos têm a esse respeito estão completamente errados. Eles pensam que jejuar significa não comer nem beber nada do amanhecer ao anoitecer, e que isso, por si só, é adoração. Por isso, vemos que os muçulmanos respeitam muito o jejum e o observam com grande cuidado; o temor de Allah em seus corações é tão intenso que se afastam de tudo que possa fazer com que o jejum seja invalidado. Mesmo quando suas vidas estão em perigo, ninguém aceita quebrar o jejum. Contudo, os muçulmanos sabem que simplesmente permanecer com fome e sede não é a verdadeira adoração; isso é apenas o rito exterior da adoração. O objetivo desse rito é somente despertar nos corações dos muçulmanos o temor e o amor de Allah. Deve despertar neles uma força tal que abandonem até mesmo grandes oportunidades lucrativas, fortalecendo o coração, unicamente por temerem o desagrado de Allah. E que, diante de tarefas muito perigosas, possam lançar-se a elas, fortalecendo o coração, somente na esperança de alcançar a satisfação de Allah. Essa força só pode surgir nos muçulmanos quando compreenderem o verdadeiro objetivo do jejum, mantiverem, durante todo o mês de Ramadã, o coração afastado dos desejos do nafs pelo temor e pelo amor de Allah e se prepararem para alcançar a satisfação de Allah. Mas, infelizmente, a sociedade muçulmana atual perde, logo após o Ramadã, esse hábito e as virtudes adquiridas por meio dele, como alguém que, assim que come arroz, imediatamente o vomita. Além disso, muitos muçulmanos, assim que fazem o iftar, vomitam toda a piedade e a taqwa do dia inteiro. Nessas condições, todos podem compreender que o verdadeiro objetivo do jejum não pode ser alcançado de modo algum. O jejum não é magia; cumprir apenas seu rito exterior não pode conduzir a nenhum grande objetivo. Não se obtém força física do arroz enquanto ele não chegar ao estômago, for digerido, transformar-se em sangue e circular por todas as veias do corpo. Do mesmo modo, não se pode obter do jejum qualquer força moral e espiritual enquanto o jejuador não compreender bem o verdadeiro objetivo do jejum, enquanto esse objetivo não estiver gravado em sua mente e em seu coração e enquanto não exercer influência completa sobre todos os seus pensamentos, desejos e ações.
Por isso, depois de ordenar o jejum, Allah, o Altíssimo, disse:لَعَلَّكُمْ تَتَّقُوْنَ ـ Isto é: “O jejum foi prescrito para vós, para que talvez vos torneis piedosos e tementes a Allah.” Allah, o Todo-Poderoso, não disse que, jejuando, certamente vos tornaríeis piedosos e tementes a Allah. Isso porque os benefícios que podem ser obtidos do jejum dependem inteiramente da intenção, dos desejos e do interesse do jejuador. Aquele que conhecer e compreender bem seu objetivo e se esforçar para alcançar por meio dele o objetivo essencial certamente se tornará, em maior ou menor grau, temente a Allah. Mas aquele que nem sequer conhecer seu objetivo e não se esforçar para alcançá-lo não pode esperar obter benefício algum do jejum.
O nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, indicou de diversas maneiras o verdadeiro objetivo do jejum e explicou que não há proveito algum em permanecer com fome e sede sem conhecer esse objetivo. Ele disse:
مَنْ لَّمْ يَدْعْ قَوْلَ الزُّوْرِ وَالْعَمَلَ بِه فَلَيْسَ لِلَّهِ حَاجَةٌ فِيْ اَنْ يَّدْعَ طَعَامَهُ وَشَرَابَه ـ
Allah não tem necessidade de que uma pessoa abandone apenas a comida e a bebida se ela não abandonar as palavras e as ações falsas.
Em outro hadith, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:
كَمْ مِنْ صَائِمٍ لَيْسَ لَهُ مِنْ صِيْامِه اِلاَّ الظَّمَاءُوَكُمْ مِنْ قَائِمٍ لَيْسَ لَهُ مِنْ قِيَامِه اِلاَّ السَّهَرُ ـ
Há muitos jejuadores cujo quinhão não é outro senão a fome e a sede. Da mesma forma, há muitas pessoas que adoram durante a noite e nada obtêm além de permanecerem acordadas à noite. O significado desses dois hadiths é extremamente claro. Por meio deles, compreende-se perfeitamente que simplesmente permanecer atormentado pela fome e pela sede não é adoração; isso é apenas adotar o meio da verdadeira adoração. A verdadeira adoração consiste em, por temor a Allah, não cometer o pecado de violar a lei de Allah; realizar com amor a Allah, com sincero entusiasmo, as ações por meio das quais se pode alcançar a satisfação de Allah e, tanto quanto possível, destruir o próprio ego. Aquele que não puder realizar essa adoração apenas atormentará o estômago permanecendo com fome e sede; não haverá benefício algum em jejuar durante doze ou quatorze horas. Allah, o Altíssimo, não ordenou que as pessoas abandonassem comida e bebida somente por essa razão. Sobre o objetivo do jejum, o nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:
مَنْ صَامَ رَمَضَانَ اِيْمَانًا وَّاِحْتِسَابًا غُفِرِلَه مَاتَقَدَّمَ مِنْ ذَنْبِهِ ـ
Aquele que jejuar com fé e ihtisab terá perdoados os pecados e as faltas do passado. Fé — isto é, deve conservar na memória a concepção e a crença que um crente deve ter a respeito de Allah. E ihtisab significa que o muçulmano deve sempre refletir e examinar a si mesmo, manter uma atenção cuidadosa sobre suas ações e ponderar se não está agindo contra a vontade de Allah. Aquele que jejuar todo o Ramadã com essas duas coisas poderá obter o perdão de todos os seus pecados e faltas passados. Mesmo que no passado tenha sido um servo desobediente e rebelde contra Allah, se jejuar dessa maneira, ficará provado que agora retornou plenamente para Allah, o verdadeiro Soberano. Está mencionado em um hadith:
اَلتَّائِبُ مِنَ الذَّنْبِ كَمَنْ لاَذَنْبَ لَهُ ـ
Aquele que se arrepende dos pecados torna-se completamente inocente.
Em outro hadith, foi dito:
اَلصِّيَامُ جُنَّةٌ وَاِذَاكَانَ يَوْمِ اَحَدِكُمْ فَلآ يَرْفُثُ وَلاَ يَصْخَبُ فَانْ سَابَّهُ اَحَدٌ اَوْقَاتَلَهُ فَلَيْقُلْ اِنِّيْ اِمْرُءٌ صَائِمٌ ـ
O jejum é como um escudo (assim como o escudo protege contra o ataque do inimigo, o jejum também serve de escudo para proteger das artimanhas de Satanás). Portanto, aquele que jejuar deve manter-se afastado de tumultos e conflitos (isto é necessário para que use esse escudo). Mesmo que alguém o insulte ou brigue e discuta com ele, deve dizer claramente: “Irmão, estou jejuando; não posso esperar que eu me una a você nessa injustiça.”
Em vários outros hadiths, o Último Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse que, durante o jejum, deve-se praticar o máximo possível de boas ações e participar de todo ato virtuoso. Em especial, enquanto jejua, é necessário que o coração do jejuador tenha muita compaixão por seus outros irmãos. Pois, ao sentir pessoalmente fome e sede, ele pode compreender muito bem como os pobres servos de Allah passam seus dias em sofrimento e pobreza. Durante o Ramadã, Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, era mais bondoso e compassivo do que em qualquer outra época. Nesse período, nenhum necessitado podia ser privado de sua porta, e nenhum prisioneiro permanecia encarcerado. Foi dito em um hadith:
مَنْ فَطَّرَ فِيْهِ صائِمًا كَانَ لَه مَغْفِرَةٌ لِذُوْنُوْبِه وَعَتْقُ رَقَبَتِه مِنَ النَّارِ وَكَانَ لَه مِثْلَ اَجَرِه مِنْ غِيْرَ اِنْ يَّنْتَقَصَ مِنْ اَجْرِه شَئٌ ـ
No mês do Ramadã, aquele que oferecer iftar a uma pessoa que esteja jejuando terá, por meio desse ato, os seus pecados perdoados e será salvo do fogo do Inferno. Ele receberá uma recompensa espiritual igual à recompensa que o jejuador receber por seu jejum. Contudo, a recompensa do jejuador não diminuirá nem um pouco por isso.
Jejum e autocontrole
O jejum tem inúmeros benefícios morais e espirituais. Um deles é criar no ser humano a força do autocontrole. Para compreender plenamente como o jejum desperta no ser humano a força do autocontrole, é necessário, antes de tudo, conhecer o significado de autocontrole. É indispensável também saber que tipo de autocontrole o Islã apoia e como o jejum desenvolve essa força no ser humano.
O autocontrole ocorre precisamente quando a “khudi” autoconsciente do ser humano consegue dominar completamente o seu corpo e as demais forças, e consegue submeter todos os desejos, anseios e emoções da mente às suas próprias decisões, fazendo-os seguir sua orientação. Assim como, num Estado, o governante supremo ocupa a posição de maior autoridade, a khudi ocupa exatamente essa posição em todo o ser humano, enquanto os demais membros são seus instrumentos. As forças físicas e mentais do ser humano servem à khudi. O nafs, ou a inclinação instintiva, só pode apresentar à khudi pedidos relativos aos próprios desejos e anseios; não tem poder para fazer mais nada. O direito de tomar a decisão final sobre para que finalidade essas armas e forças serão usadas e sobre se os pedidos do nafs serão aceitos pertence exclusivamente à khudi. Ora, se uma khudi for fraca, se não tiver poder para governar o reino do corpo segundo a sua vontade e se os pedidos do nafs forem semelhantes a ordens, então essa khudi será extremamente desamparada, derrotada e inerte. A khudi do ser humano que não consegue dominar o próprio cavalo, mas se torna ela mesma subordinada ao cavalo, é igualmente incapaz. Uma pessoa tão fraca jamais poderá viver uma vida bem-sucedida neste mundo. Todos aqueles que, na história da humanidade, deixaram uma influência e uma memória brilhantes submeteram e tornaram obedientes, ainda que pela força, todas as suas forças interiores. Nunca foram escravos da cobiça e da lascívia do nafs, nem servos das emoções e dos impulsos; sempre permaneceram como seus senhores e dirigentes. Seus desejos eram muito firmes e suas determinações, inabaláveis.
Contudo, há uma diferença incomensurável entre a khudi que se coloca no lugar de Deus e a khudi que permanece serva e obediente às ordens de Allah. Uma khudi obediente é absolutamente indispensável para uma vida bem-sucedida. Mas, se uma khudi que nega o Criador, não reconhece a submissão e a obediência ao Senhor do universo, rebelando-se contra Ele; uma khudi que não está disposta a aceitar nenhuma lei moral superior e não teme prestar contas diante de nenhum responsável pelo julgamento, dominar todo o conjunto das forças do próprio corpo e da mente e transformar-se numa khudi extremamente poderosa, poderá dar origem a grandes causadores de destruição no mundo, como Faraó, Nimrod, Hitler e Mussolini. Entretanto, esse tipo de autocontrole jamais pode ser louvável. O Islã de modo algum apoia esse tipo de autocontrole. O Islã apoia somente a khudi que primeiro se humilha diante do próprio Allah, inclina a cabeça em obediência, toma como sua principal tarefa esforçar-se para alcançar o Seu agrado e obedecer à Sua lei, e se considera responsável diante Dele. Essa khudi obediente e fiel estabelecerá seu domínio sobre o próprio corpo e o conjunto de suas forças, bem como seu poder sobre a mente e os desejos, para que possa erguer-se no mundo como uma grande força destinada a promover a reforma e a correção.
Na verdade, esse é o verdadeiro ponto central do autocontrole segundo a perspectiva do Islã. Agora discutiremos como o jejum cria no ser humano uma força tão intensa de autocontrole. Ao examinar todas as exigências do nafs e do corpo, fica claro que três delas são fundamentais e basilares. De fato, essas três são as exigências mais poderosas. A primeira é a exigência de satisfazer a fome. Essa é a única maneira de preservar a descendência humana, ou seja, a humanidade, e, em terceiro lugar, a exigência de paz e descanso. Isso é indispensável para despertar novamente e fortalecer a energia para o trabalho. Sem dúvida, se essas três exigências do ser humano permanecerem dentro dos seus próprios limites, estarão de acordo com a disposição inerente da natureza universal. Por outro lado, para o nafs e o corpo, essa mesma coisa é uma grande armadilha. Ao menor relaxamento ou oportunidade, essas três armadilhas capturam a khudi do ser humano e fazem dela sua escrava, sua serva mais submissa. Como resultado, cada uma dessas exigências se amplia e se transforma numa longa lista de inúmeras exigências. Quando uma khudi fraca é derrotada por essas exigências, a exigência de alimento faz dela uma escrava do estômago, a fome sexual a rebaixa a um nível inferior ao dos animais, e o amor ao descanso do corpo destrói sua força de vontade. Depois disso, ela já não permanece como governante ou dirigente do seu nafs e do seu corpo; ao contrário, transforma-se numa escrava obediente a eles, e sua única tarefa passa a ser cumprir suas instruções — boas ou más, razoáveis ou irrazoáveis — e seguir todos os seus conselhos.
O jejum controla e disciplina essas três paixões e desejos do nafs, e acostuma a khudi a exercer sobre eles influência e domínio. Esse jejum dirige-se à khudi que crê em Allah e lhe diz: Allah proibiu-te, durante todo o dia de hoje, comer e beber; nesse período, não é permitido sequer consumir qualquer alimento puro ou qualquer comida ou bebida obtida por meios lícitos.
Ele lhe diz: hoje, seu grandioso Senhor, Allah, impôs restrições à satisfação de seu desejo sexual. Do alvorecer verdadeiro ao pôr do sol, Ele proibiu que você satisfaça os desejos e anseios do nafs, mesmo por meios inteiramente lícitos. Ele também lhe diz que, depois da fome e da sede insuportáveis de todo o dia, quando você fizer o iftar, em vez de descansar, exausto, levante-se e pratique mais adoração do que nos outros dias.
Na verdade, é nisso que reside a satisfação de seu Rabbul-Alamin. O jejum também lhe ensina que, depois de concluir a oração com muitas rak‘at e quando for descansar, não durma inconsciente até a manhã. Embora isso contrarie o costume habitual, acorde no fim da noite para comer o sehri e fortaleça seu corpo com alimento antes que surjam os primeiros clarões do alvorecer verdadeiro. O khudi transmite às pessoas todas essas determinações e regras do jejum e confia inteiramente a elas a responsabilidade de agir de acordo com elas. Nenhum policial, nenhum CID, nem qualquer força capaz de exercer influência é designado para vigiá-las. Se a pessoa comer secretamente ou satisfizer seu desejo sexual, ninguém além de Allah poderá vê-la. Se, para evitar a oração do tarawih, ela recorrer a algum artifício permitido pela shariah, nenhuma força deste mundo poderá impedi-la. Tudo depende de sua própria vontade. Se o khudi do crente estiver realmente submetido e obediente a Allah, e se sua força de vontade tiver capacidade para controlar o nafs, então ele próprio prenderá firmemente, com os grilhões das extraordinárias regras apresentadas pelo jejum, seu intenso desejo de comer, seu desejo e sua paixão sexual, bem como seu amor pelo descanso.
Isso não é um exercício de apenas um dia; um único dia de modo algum é suficiente para esse tipo de treinamento. Durante trinta longos dias, contínua e ininterruptamente, a pessoa deve submeter seu próprio khudi a esse treinamento e exercício. Uma vez por ano, é elaborado um programa para um período completo de 720 horas: acordar no fim da noite para comer o sehri e, assim que começar a surgir a brancura da aurora, interromper toda comida e bebida. Abster-se de todo tipo de alimento e bebida durante o dia inteiro. Fazer o iftar pontualmente, exatamente após o pôr do sol. Depois, passar uma parte da noite na oração do tarawih — uma oração que normalmente não é realizada. Em seguida, após algumas horas de descanso, começar novamente a cumprir o programa. Assim, durante um mês inteiro, o nafs é continuamente preso, por meio de um rígido vínculo indissolúvel, às suas três maiores e mais poderosas exigências e paixões. Como resultado, uma enorme força se manifesta no khudi, permitindo-lhe exercer, segundo a vontade de Allah, domínio sobre seu próprio nafs e corpo. Além disso, esse programa não é realizado apenas uma vez ao longo de toda a vida. Desde a puberdade até a morte, todos os anos um mês inteiro é dedicado a essa prática. Assim, os laços do khudi sobre o nafs são renovados e fortalecidos repetidamente.
O objetivo principal desse sistema de educação não é apenas que o khudi do crente domine sua fome, sede, desejo sexual e anseio por descanso, e que isso ocorra somente durante o mês do Ramadã; esse não é o seu objetivo. Ao enfrentar as três armas mais importantes, mais poderosas e afiadas do ser humano, seu khudi disciplina e submete a regras todas as demais emoções e impulsos, as inclinações do coração e todo tipo de cobiça e desejo. Com isso surge uma nova força, que não permanece vigorosa e afiada apenas no mês do Ramadã, mas continua atuando assim durante os onze meses restantes. Nesse período, ele pode empregar seu corpo e todas as suas forças em cada obra determinada por Allah; pode esforçar-se por toda boa ação que proporcione a satisfação de Allah; pode esforçar-se por toda boa ação que proporcione a satisfação de Allah; pode resistir a todo pecado proibido e reprovado por Allah e é capaz de manter toda a sua cobiça, seus desejos, emoções e inclinações do coração dentro dos limites determinados por Allah. Ele não se entrega às mãos do nafs; por isso, o nafs não pode arrastá-lo para onde quer.
Ele mantém em suas próprias mãos as rédeas do domínio. Ele satisfaz os desejos da nafs na medida e da maneira que Allah Ta’ala lhe permitiu, em cada momento, e de acordo com essas regras. Sua força de vontade tampouco se torna tão fraca que, mesmo reconhecendo uma obrigação como obrigação e desejando cumpri-la, não consiga cumpri-la. É somente por isso que ele se estabelece como um governante poderoso e soberano sobre o reino do corpo. Na realidade, criar essa força no interior do ser humano, em sua khudi, é o verdadeiro objetivo do jejum. Aquele que, mesmo jejuando, não consegue adquirir essa força apenas exauriu e afligiu a si próprio com a fome e a sede. Seu jejum e sua abstinência de comida e bebida são absolutamente inúteis.
Isso foi expresso claramente tanto no Alcorão quanto no Hadith. No Alcorão, foi dito que o jejum foi prescrito para vós precisamente com o objetivo de criar taqwa em vosso interior. O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Aquele que não consegue abandonar a mentira e as ações falsas, de nada necessita Allah que ele abandone sua comida e sua bebida.” Ele também disse que há muitos jejuadores que, do jejum, não obtêm nada além do cansaço da fome e da sede.
A realidade do zakat
A importância do zakat
Depois da oração, o pilar mais importante do Islã é o zakat. Como geralmente o jejum é mencionado logo após a oração, surgiu na mente de muitos a crença de que o jejum ocupa, aparentemente, o lugar seguinte ao da oração. Contudo, aprendemos pelo Nobre Alcorão que, depois da oração, o zakat é a obra mais importante. Esses dois são os principais pilares do Islã; se eles forem destruídos, o palácio do Islã também será reduzido a pó.
“Zakat” significa pureza e limpeza. Dar uma parte determinada dos próprios bens aos pobres, necessitados e carentes é chamado de “zakat”. Isso porque, por meio dele, purificam-se todos os bens e, juntamente com eles, a própria alma. Aquele que não gasta, em favor dos servos de Allah, a parte determinada dos bens que Allah lhe concedeu terá todos os seus bens impuros e, junto com eles, seu próprio coração e sua alma estarão necessariamente maculados. Isso porque não há em seu coração sequer vestígio de gratidão. Seu coração é tão estreito, tão egoísta e tão escravo do dinheiro que até mesmo reconhecer a gratidão para com Allah, que por Sua graça lhe concedeu riquezas além de suas necessidades, lhe causa constrangimento. Pode-se imaginar que uma pessoa assim será capaz de realizar no mundo alguma obra sinceramente por Allah, ou de se preparar para qualquer sacrifício e renúncia a fim de proteger sua religião e sua fé? Portanto, pode-se dizer que o coração de quem não paga o zakat é impuro e que, juntamente com ele, os bens acumulados por essa pessoa também são impuros; disso não há a menor dúvida.
Ao tornar o zakat obrigatório, Allah Ta’ala submeteu cada pessoa a uma prova difícil. Aquele que, por sua própria vontade, paga a parte determinada por Allah de sua riqueza excedente e ajuda tanto quanto pode os servos de Allah é, de fato, a pessoa apta a realizar a obra de Allah; somente ela possui o mérito de ser considerada entre os crentes. Em contrapartida, aquele cujo coração é tão estreito que não está disposto a fazer nem mesmo esse pequeno sacrifício por Allah não pode realizar obra alguma de Allah e não é digno de ser contado na comunidade islâmica. Na realidade, ele pode ser considerado um órgão apodrecido do corpo humano; e quanto mais cedo um órgão apodrecido for cortado e separado, melhor será para os demais órgãos e membros do corpo. Caso contrário, todo o corpo começará a apodrecer. Foi por isso que, após o falecimento de Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), quando os membros de uma tribo árabe se recusaram a pagar o zakat, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), o primeiro califa, declarou guerra contra eles — exatamente como se faz contra os incrédulos. Isso embora eles rezassem e ainda tivessem fé em Allah e em Seu Mensageiro. Fica assim inequivocamente provado que, se uma pessoa não paga o zakat, nenhuma de suas obras — oração, jejum e outras — pode ser aceita por Allah; e a alegação de que tal pessoa é crente não tem absolutamente nenhum valor.
Pode-se saber com certeza, pelo Nobre Alcorão, que desde os tempos antigos foi dada igualmente a todas as comunidades de cada profeta a ordem rigorosa de realizar a oração e pagar o zakat; em nenhum período da religião do Islã, no tempo de qualquer profeta, foi concedida a nenhum muçulmano isenção da oração e do zakat. Depois de mencionar Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) e os profetas de sua descendência, o Nobre Alcorão declara:
وَجَعَلْنَاهُمْ أَئِمَّةً يَهْدُونَ بِأَمْرِنَا وَأَوْحَيْنَا إِلَيْهِمْ فِعْلَ الْخَيْرَاتِ وَإِقَامَ الصَّلَاةِ وَإِيتَاءَ الزَّكَاةِ ۖ وَكَانُوا لَنَا عَابِدِينَ
Nós os fizemos líderes dos homens; eles os conduziam e guiavam segundo a Nossa orientação. Por meio da revelação, ordenamos-lhes praticar boas ações, estabelecer a oração e pagar o zakat; e eles adoravam-Nos sinceramente e cumpriam os mandamentos. Surata Al-Anbiya: 73
A respeito de Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele), foi dito:
وَكَانَ يَأْمُرُ أَهْلَهُ بِالصَّلَاةِ ص وَالزَّكَاةِ وَكَانَ عِندَ رَبِّهِ مَرْضِيًّا
“Ele ordenava a seu povo que cumprisse a oração e pagasse o zakat, e gozava de uma posição especialmente honrada perante Allah.” Surata Maryam: 55
Hazrat Musa, que a paz esteja com ele, fez uma súplica a respeito de si mesmo: “Ó Allah! Concede-me o bem neste mundo e concede-me também o bem na outra vida.” Em resposta, Allah disse no versículo 156 da Surata Al-A‘raf:
عَذَابِي أُصِيبُ بِهِ مَنْ أَشَاءُ ۖ وَرَحْمَتِي وَسِعَتْ كُلَّ شَيْءٍ ۚ فَسَأَكْتُبُهَا لِلَّذِينَ يَتَّقُونَ وَيُؤْتُونَ الزَّكَاةَ وَالَّذِينَ هُم بِآيَاتِنَا يُؤْمِنُونَ
“Lançarei no Meu castigo aquele que Eu quiser. Embora a Minha misericórdia abranja todas as coisas, reservá-la-ei somente para aqueles que Me temerem, pagarem o zakat e acreditarem nas Minhas palavras.” Surata Al-A‘raf: 156
Os corações do povo de Hazrat Musa, que a paz esteja com ele, eram extremamente mesquinhos. Eles não hesitavam sequer em sacrificar a própria vida para obter riquezas. Os judeus dos tempos atuais são um exemplo concreto disso. Por isso, em resposta à súplica desse grande e honrado profeta, Allah Ta‘ala declarou claramente que, se a sua comunidade pagasse devidamente o zakat, poderia alcançar a Minha misericórdia; caso contrário, que soubessem com certeza que seriam privados da Minha misericórdia e que o Meu castigo os cercaria. Mesmo depois de Hazrat Musa (que a paz esteja com ele), os Filhos de Israel foram repetidamente advertidos sobre esse assunto. Repetidas vezes foi-lhes tomado o compromisso de que não adorariam ninguém além de Allah e cumpririam devidamente a oração e o zakat. (Surata Al-Baqarah, Ruku‘: 10.) Por fim, foi-lhes dado um aviso claro, nestes termos:
وَقَالَ اللهُ اِنِّي مَعَكُمْ لَئِنْ اَقَمْتُمُ الصًّلوةَ وَاتَيْتُمْ الزَّكوةَ وَامْنْتُمْ بِرُسُلِىِ وَعَزَّرتُمُوْهُمْ وَاَقْرَضْتُمْ اللهَ قَرْضًا حَسَنًا لاَّكَفِّرَنَّ عَنْكُمْ سَيَّاتِكُمْ ـ المائِدة : ١٢
Allah disse: “Ó filhos de Israel! Se estabelecerdes a oração, continuardes a pagar o zakat, acreditardes nos Meus Mensageiros, os ajudardes e concederdes a Allah um bom empréstimo, então estarei convosco e apagarei as vossas faltas e deficiências (caso contrário, não podereis esperar de modo algum alcançar a misericórdia).” Surata Al-Ma’idah: 12
Antes de Hazrat Rasul-e-Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), Hazrat Isa, que a paz esteja com ele, foi o último profeta. Allah Ta‘ala também lhe ordenou conjuntamente a oração e o zakat. Na Surata Maryam, é dito:
وَّجَعَلّنِى مُبرَكًا اَيْنَا مَاكُنْتُ وَاَوْضنِى بَالصَّلوةِ وَالزَّكوْةِ مَادُمْتُ حَيًا ـ مريم : ٣١
“Allah me honrou; onde quer que eu esteja e enquanto eu viver, ordenou-me que realizasse a oração e pagasse a zakat.” Surata Maryam: 31
A partir disso, pode-se saber sem dúvida que a religião do Islã, no tempo de cada profeta, estava fundamentada nestes dois pilares: a oração e a zakat. Nenhuma nação que acreditasse em Allah jamais foi dispensada desses dois deveres.
É digno de reflexão como, na sharia apresentada pelo nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), essas duas obrigações foram unidas e tornadas inseparáveis. O primeiro versículo mencionado no Sagrado Alcorão é este:
ذَلِكَ الْكِتبُ لاَرَيْبَ فِيْهِ هُدًى لِّلْمُتَّقِيْنَ ـ الَّذِيْنَ يُؤِْنُوْنَ بِالْغِيْبِ وَيُقِيْمُوْنَ الصَّلوةَ وَمِمَّا رَزَقْنَهُمْ يُنْفِقُوْنَ ـ البقرة :
٢ -٣
“Este Alcorão é o Livro de Allah; nele não há lugar para qualquer dúvida. Ele orienta os piedosos, tementes a Allah, para o caminho correto e reto da vida terrena. Piedosos são aqueles que creem no invisível, estabelecem a oração e gastam daquilo que lhes concedemos como provisão.” Surata Al-Baqarah: 2–3
Em seguida, é dito:
أُوْلَـٰٓٮِٕكَ عَلى هُدًى مِّنْ رَّبِهِمْ وَاُولئِكَ هُمُ الْمُفْلِحُوْنَ ـ البقرة : ٥
“Na verdade, estes são os que receberam a orientação concedida pelo Senhor e são bem-sucedidos.” Surata Al-Baqara: 5
Isto é, aqueles que não têm fé e não cumprem a oração nem pagam o zakat não estão apenas privados da orientação de Allah; o bem e o sucesso também não lhes serão concedidos. Depois, continuando a leitura da Surata Al-Baqara, avance algumas páginas, e encontrará a seguinte ordem:
وَأَقِيمُوا الصَّلَاةَ وَآتُوا الزَّكَاةَ وَارْكَعُوا مَعَ الرَّاكِعِينَ ـ البقرة : ٤٣
“Estabelecei a oração, pagai o zakat e inclinai-vos juntamente com os que se inclinam (cumpri a oração em congregação).” Surata Al-Baqara: 43
Depois de avançar um pouco mais, esta surata declara:
لَيْسَ الْبِرَّ اَنْ تُوْلُّوْا وَجُوْهَكُمْ الْمَشْرِقِ وَالْمَغْرِبِ وَلكِنَّ البِرَّ مَنْ امَنَ بِاللهِ وَالْيُوْمِ الاخِرِ وَالْمَلئِكَةِ وَالْكِتبِ وَالنَّبِيْنَ وَاَتَى الْمَالَ عَلى حُبِّه ذَوِى الْقُرْبى وَالْيَتمى وَالْمَّسْكِيْنَ وَاَبْنَ السَّآئِلِيْنَ وَفِى ارِّقَابِ وَاَقامَ الصَّلوةَ وَاَتَى الزَّكوةَ وَالْمُؤْفُوْنَ بَعَهْدِهِمْ اِذَا عَهدُوْا الرِّقَابِ وَاَقَامَ الصَّلوَةَ وَاَتَى الزَّكوَةَ وَالْمُؤْفُوْنَ بَعَهْدِهِمْ اِذَا عَهدُوْا وَالصَّبِرِيْنَ فِى الْبَاسَآءِ وَالضَّرَّاءِ وَحَيْنَ الْبَاسِ اُوْلئِكَ الَّذِيْنَ صَدَقُوْا وَاُوْلئِكَ هُمْ الْمُتَّقُوْنَ ـ البقرة : ٧ ١٧
“A piedade não consiste em voltar o rosto para o Oriente ou para o Ocidente. A verdadeira piedade é a de quem crê em Allah, no Último Dia, nos anjos, nos Livros revelados e nos profetas; e, por amor a Allah, doa sua riqueza aos parentes necessitados, aos órfãos, aos pobres, aos viajantes e aos que pedem; ajuda outras pessoas a libertarem-se de suas dívidas, da escravidão ou do cativeiro; estabelece a oração e paga o zakat. Somente estes alcançarão a piedade. E aqueles que cumprem suas promessas e permanecem firmes no verdadeiro caminho de Allah, suportando com paciência as adversidades, as perdas e os prejuízos, bem como durante a guerra, são os piedosos. Estes são os verdadeiros muçulmanos, tementes a Allah e devotos.” Surata Al-Baqara: 177
Depois, também é digno de atenção o que foi dito sobre isso na surata Al-Maida:
اِنَّمَا وَلَيُّكُمُ اللهُ وَرَسُوْلُهُ وَالَّذِيْنَ امَنُوْا الَّذِيْنَ يُقِيْمُوْنَ الصَّلوةَ وَيُؤْتُوْنَ الزَّكوةَ وَهُمْ رِكِعُوْنَ ـ وَمَنْ يَّتَوَلَّ اللهَ وَرَسُوْلَهُ وَالَّذِيْنَ امَنُوْا فِانَّ حِزْبَ اللهِ هُمُ الْغلِبُوْنَ ـ المائِدَة : ٥٥-٥٦
“Ó muçulmanos! Os vossos verdadeiros amigos e ajudantes são somente Allah, o Seu Mensageiro e os crentes. Por crentes entendem-se aqueles que estabelecem a oração, pagam o zakat e se prostram diante de Allah. Portanto, aqueles que tomarem Allah, o Mensageiro e os crentes como amigos serão considerados o partido de Allah; e somente o partido de Allah será certamente vitorioso.” — Surata Al-Maida: 55-56
Neste versículo foi mencionado um princípio fundamental importante. Primeiro, por meio deste versículo soube-se que são muçulmanos aqueles que estabelecem a oração e pagam o zakat. A alegação de ser crente por parte de quem não cumpre devidamente estes dois pilares do Islã é, na realidade, falsa. Segundo, este versículo também comprova que Allah, o Mensageiro e os crentes pertencem a um único partido. Portanto, os crentes devem romper todos os demais tipos de relações e juntar-se a este partido. Se algum muçulmano tomar como amigo uma pessoa de fora deste partido — seja ela seu pai, irmão, filho, vizinho, compatriota ou qualquer outra pessoa — e estabelecer com ela uma relação de amor e solidariedade, de modo algum se pode esperar que Allah Todo-Poderoso seja solidário com ele. Por fim, este versículo também ensina que os crentes somente podem triunfar no mundo quando, com total dedicação, tomarem exclusivamente Allah, o Mensageiro e os crentes como seus protetores, amigos, ajudantes e companheiros.
Avançando um pouco mais, na surata At-Tauba Allah Todo-Poderoso ordenou aos muçulmanos que lutassem contra os kafirs e os mushriks, e, ao longo de várias rukus consecutivas, deu orientações sobre essa guerra. A esse respeito, foi dito:
فَاِنْ تَابُوْا وَاَقَامُوْا الصَّلوةَ وَاتَوُا الزَّكوةَ فَاِخْوَانَكُمْ فِىْ الدِّيْنِ ـ
“Se eles fizerem tawba sinceramente da kufr e do shirk, abraçarem verdadeiramente a fé, estabelecerem a oração e pagarem o zakat, então se tornarão vossos irmãos na religião.” — Surata At-Tauba: 11
Isto é, não basta apenas fazer tawba da kufr e do shirk e declarar que se abraçou a fé; para provar que realmente fez tawba da kufr e do shirk e que de fato abraçou a fé, é também indispensável cumprir devidamente a oração e pagar o zakat. Portanto, se eles demonstrarem isso por meio dessas ações concretas, certamente serão vossos “irmãos” na religião; caso contrário, longe de serem considerados irmãos, nem sequer será possível cessar a guerra contra eles. Nesta surata também foi dito de forma ainda mais clara:
وَالْمُؤْمِنُوْنَ وَالْمُؤْمِنتُ بَعْضُهُمْ اَوْلِيْآَءُ بَعْضٍ يَامُوْرُونَ بِامُرُوْنَ بَالْمَعْرُوْفِ وَيَنْهَوْنَ عَنِ الْمُنْكَرِ وَيُقِيْمُوْنَ الصَّلوةَ وَيُؤْتُوْنَ الزَّكوةَ وَيُطِيْعُوْنَ اللهَ وَرَسُوْلَهُ اُوْلئِكَ سَيَرْحَمُهُمُ اللهُ ـ التوبية : ٧١
“Os homens crentes e as mulheres crentes são, na realidade, amigos e auxiliares uns dos outros. Sua identidade e característica são que ordenam boas ações, impedem atos injustos e pecaminosos, estabelecem a oração e pagam o zakat, seguindo os mandamentos de Allah e do Mensageiro. Na verdade, é sobre eles que Allah derramará Sua misericórdia.” Surata At-Tawbah: 71
Em outras palavras, enquanto uma pessoa não tiver fé e, na prática, não cumprir a oração e pagar o zakat, não poderá ser considerada irmã religiosa dos muçulmanos. Na realidade, é da combinação dessas três coisas — fé, oração e zakat — que se forma a comunidade dos crentes. Aqueles que cumprem devidamente essas ações pertencem a essa comunidade pura, e entre eles serão estabelecidas relações mútuas de amizade, amor e solidariedade. Já os que não cumprem essas três ações não pertencem a essa comunidade. Embora sejam chamados muçulmanos, não podem integrar a comunidade islâmica. Estabelecer com eles relações de amizade, afeição e amor significa violar a lei de Allah e, com isso, destruir a disciplina do partido de Allah. Como, então, essas pessoas podem esperar permanecer vitoriosas no mundo?
Prosseguindo, encontramos na Surata Al-Hajj que Allah, o Altíssimo, declarou:
وَلَيَنْصُرَنَّ اللهُ مَنْ يَّنْصُرُهُ اِنَّ اللهَ لَقَوِي عَزِيْزٌ ـ اَلَّذِيْنَ اِنْ مَّكَّنّهُمْ فِى الاَرْضِ اَقَامُوْا الصَّلوةَ وَاَتَوُا الزَّكوةَ وَاَمَرُوْنَ بِالْمَعْرُوْفِ وَنَهَوْا عَنِ الْمُنْكَرِۗ وَلِلهِ عَاقِبَةُ الاُمُوْرِ ـ الحج ـ ٤٠-٤١
“Quem ajudar Allah, certamente Allah o ajudará. Allah, o Altíssimo, é realmente Poderoso e Vitorioso sobre todos. (Somente podem ajudar Allah) aqueles a quem, se lhes concedermos autoridade no Estado, estabelecerão o sistema social da oração e implementarão amplamente o pagamento do zakat, ordenarão às pessoas a prática do bem e as impedirão de praticar o mal e a injustiça. Em verdade, o desfecho de todas as coisas depende de Allah.” — Surata Al-Hajj: 40–41
A mesma instrução que anteriormente havia sido dada aos Filhos de Israel foi dada também aos muçulmanos neste versículo. Aos Filhos de Israel havia sido dito que, enquanto estabelecessem a oração, pagassem o zakat e continuassem ajudando os profetas em seu trabalho — isto é, enquanto aplicassem a lei de Allah —, Allah permaneceria seu companheiro e auxiliar. Mas, quando abandonassem esse trabalho, Allah cessaria imediatamente toda a ajuda que lhes dava. Exatamente isso foi dito aos muçulmanos neste versículo. Allah lhes declarou claramente que, se obtivessem poder no mundo e estabelecessem um sistema social para a oração e um método abrangente para o pagamento do zakat, promovendo as boas ações e impedindo as más, então Allah seria seu auxiliar. Na verdade, ninguém pode ser um auxiliar mais poderoso do que Allah. Porém, se os muçulmanos abandonarem a oração e o pagamento do zakat e, depois de obterem poder no mundo, promoverem o mal em vez do bem, continuarem bloqueando o caminho das boas ações em vez de eliminar a injustiça, começarem a estabelecer seu próprio domínio em vez de tornar vitoriosa a palavra de Allah e considerarem que o único objetivo do governo é arrecadar impostos e construir para si um paraíso na face da terra, então jamais terão a ajuda de Allah. Depois disso, Satanás será seu auxiliar. É surpreendente pensar que grande lição isso encerra! Os Filhos de Israel consideraram essa mensagem concedida por Allah infundada e meramente verbal. Por isso, por agirem em sentido contrário a ela, são obrigados a vagar pelo mundo, humilhados e desonrados. São expulsos de diferentes lugares e não conseguem encontrar abrigo permanente em parte alguma. Eles são a comunidade mais rica do mundo; bilhões e bilhões de dinheiro estão acumulados em seus tesouros, mas esse dinheiro não lhes serve para nada. Adotando, em lugar da oração, as más ações e, em lugar do zakat, o maldito método da usura, por um lado tornam-se amaldiçoados diante de Allah e, por outro, vagam pelo mundo espalhando essa maldição de um lugar para outro, como ratos da peste. Essa mesma ordem foi dada aos muçulmanos. Contudo, sem dar atenção a isso, os muçulmanos tornaram-se negligentes quanto à oração e ao pagamento do zakat e esqueceram-se de cumprir o dever de proclamar a verdade e combater a falsidade e a injustiça, usando a força concedida por Allah. E também sofreram de várias maneiras as amargas consequências disso. Foram privados do poder estatal (o mais grandioso e poderoso do mundo). Em todo o mundo, são vítimas da opressão de todas as forças tirânicas. Estão fracos e derrotados. Eis o resultado nefasto do abandono da oração e do zakat. Agora surgiu entre eles (entre os Filhos de Israel) um grupo determinado a introduzir entre os muçulmanos a falta de vergonha, a obscenidade, a ausência de recato e as práticas repugnantes. Eles dizem aos muçulmanos: “Para eliminar suas dificuldades financeiras, abram bancos e companhias de seguros e comam usura até se fartarem.” Mas a verdade é que, se os muçulmanos também se entregarem a isso, serão lançados, como os judeus, numa terrível provação de extrema humilhação e serão amaldiçoados com uma maldição eterna.
O que é o zakat e quão grande poder Allah, o Altíssimo, depositou nele — embora os muçulmanos o considerem algo muito simples —, bem como quão enormes benefícios podem resultar dele, discutirei detalhadamente nos artigos seguintes. Neste artigo, quero apenas dizer que a oração e o zakat são elementos absolutamente fundamentais do Islã. A importância de ambos no Islã é tão grande que, onde eles não existem, por mais que outras coisas existam, não há dúvida de que também não existe o Islã. No entanto, muitos muçulmanos hoje querem ser considerados muçulmanos sem estabelecer a oração e pagar o zakat, e alguns de seus chamados líderes religiosos lhes deram garantias quanto a isso. Mas o Alcorão contesta veementemente sua alegação. Se uma pessoa recita a kalima tayyiba, mas não cumpre a oração e paga o zakat para provar sua veracidade, então, na perspectiva do Alcorão, sua recitação da kalima é absolutamente sem sentido. Foi por isso que Hazrat Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, considerou incrédulos aqueles que se recusavam a pagar o zakat e pegou em armas contra eles. Naquela época, surgiu entre os nobres Companheiros a dúvida sobre se era permitido fazer jihad contra aqueles que criam em Allah e no Mensageiro e também rezavam. Porém, quando Hazrat Abu Bakr, que Allah, o Altíssimo, havia honrado com uma posição próxima à da profecia, declarou firmemente: “Juro por Allah: aqueles que, durante a vida do nobre Mensageiro, pagavam o zakat; se hoje alguém se recusar a entregar sequer uma corda com que se amarra um de seus camelos, pegarei em armas contra ele”, por fim todos os Companheiros compreenderam a validade dessa afirmação e, em consenso, declararam que era obrigatório fazer jihad contra aqueles que não pagassem o zakat. O Alcorão Sagrado declarou em linguagem clara que não pagar o zakat é atitude exclusiva dos politeístas incrédulos do Além:
وَوَيْلٌ لِّلْمُشْرِكِيْنَ ـ الًّذِيْنَ لاَيُؤْتُوْنَ الزَّكوَةَ وَهُمْ بِالاخِرَةِ هُمْ كفِرُوْنَ ـ
“A destruição daqueles idólatras que não pagam o zakat e negam a Outra Vida é inevitável.” — Surata Ha-Mim as-Sajda: 6–7
A essência do zakat
Já foi dito anteriormente que, depois da oração, o zakat é o mais importante pilar do Islã. Sua importância é tamanha que, assim como quem nega a oração se torna incrédulo, aquele que se recusa a pagar o zakat não apenas é considerado incrédulo: todos os nobres Companheiros, por unanimidade, combateram-no em jihad.
Aqui tentarei discutir a verdadeira natureza do zakat e sua sabedoria intrínseca. Essa discussão deixará claro o que é essencialmente o zakat e por que o Islã lhe atribui tamanha importância.
Muitas pessoas entre nós estabelecem relações de amizade com qualquer um. No entanto, ao reconhecer alguém como amigo, frequentemente acabam sendo enganadas justamente no que diz respeito à amizade. Depois, sofrem grande tristeza e arrependimento. Mas, na realidade, os sensatos examinam e testam cuidadosamente aqueles com quem convivem e, por meio dessa avaliação, estabelecem relações de amizade somente com os que consideram pessoas muito boas, confiáveis, sinceras e dignas de confiança; com os demais, rompem as relações.
Allah, o Altíssimo, é o mais sábio e o mais conhecedor de todos. Como se pode esperar que Ele transforme qualquer pessoa em Seu amigo, a inclua em Seu grupo e lhe conceda, perante Ele, a honra e o grau de proximidade? Quando uma pessoa sensata não aceita fazer amizade com alguém sem antes examiná-lo e avaliá-lo, como poderia Allah, o Altíssimo, único possuidor de todo conhecimento e sabedoria, reconhecer alguém como amigo sem examiná-lo e testá-lo cuidadosamente? Não é possível incluir indiscriminada e indistintamente no grupo de Allah todos esses milhões e milhões de pessoas espalhadas pelo mundo, entre as quais há todo tipo de gente, boa e má. Por isso, Allah, o Altíssimo, deseja examinar, por meio de padrões específicos e de situações e provas especiais, aqueles a quem pretende fazer Seus califas na Terra e conceder Sua proximidade na Outra Vida. Somente os que forem aprovados adequadamente nessa prova poderão ser considerados parte do grupo de Allah; os que não conseguirem, afastar-se-ão dele por si mesmos e saberão claramente que não foram capazes de demonstrar possuir a aptidão necessária para integrar o grupo de Allah. Qual é a pedra de toque pela qual os seres humanos são testados? Como Allah é o mais sábio e o mais inteligente, Ele deseja, antes de tudo, testar a inteligência e o conhecimento das pessoas. Ele observa especialmente se há nelas alguma inteligência ou se são completamente estúpidas. Pois os estúpidos jamais podem ser amigos dos inteligentes e sábios. (E os ignorantes e estúpidos, de modo algum e nunca, podem ser amigos de Allah.) Aquele que, ao observar os sinais da existência de Allah, compreende que somente Ele é seu Senhor e Criador, que, além d’Ele, não há nenhum deus, nenhum senhor, ninguém que ouça as súplicas e ninguém que ajude; aquele que, ao contemplar a Palavra de Allah, reconhece que ela é realmente a Palavra de Allah e acredita firmemente que não pode ser palavra de qualquer outro; aquele que compreende corretamente as diferenças fundamentais entre a vida, as ações e os ensinamentos dos profetas verdadeiros e dos falsos profetas, reconhece, entre os que alegam ser profetas, o verdadeiro profeta como enviado por Allah e guia para o caminho da verdade, e identifica o falso profeta como um dajjal e impostor — somente essa pessoa possui a aptidão para ser aprovada nessa prova. Allah, o Altíssimo, escolhe-a dentre centenas de milhões de pessoas e a inclui entre os candidatos selecionados para Seu grupo. Quanto aos demais, que fracassam na primeira prova, Ele os abandona.
Os candidatos aprovados nessa primeira prova são então submetidos a uma segunda prova. Na segunda ocasião, além da inteligência, também se examina a força do caráter moral da pessoa. O objetivo dessa prova é verificar se ela possui a capacidade e a força para reconhecer as obras verdadeiras e virtuosas, aceitá-las e agir de acordo com elas, bem como, depois de reconhecer as obras injustas e pecaminosas, abandoná-las. Verifica-se se essa pessoa não é escrava de seus próprios desejos, seguidora cega de seus antepassados e serva dos costumes familiares e das práticas comuns deste mundo. Verifica-se também se ela não possui a fraqueza de continuar praticando algo mesmo sabendo que é contrário à lei de Allah e considerando-o mau. Por outro lado, examina-se igualmente se ela tem a coragem de aceitar algo quando sabe que é escolhido por Allah e verdadeiro. Aqueles que também fracassam nessa prova não são incluídos no grupo de Allah. Somente podem fazer parte do grupo de Allah aqueles a respeito dos quais Allah, o Altíssimo, disse:
فَمَنْ يَّكْفُرْ بِالطَّاغُوْتِ وَيُؤْمِنْ بِاللهِ فَقَدِ اسْتَمْسَكَ بِالْعُرُوةِ الْوُثقى لاَ اَنْفِصَامَ لَهَا ـ
Isto é, aqueles que abandonam corajosamente as leis e os caminhos contrários à lei de Allah, bem como os seus legisladores — sem se importarem com o que quer que seja a esse respeito — e se preparam para viver destemidamente apenas de acordo com a lei dada por Allah, sem dar a mínima importância ao fato de alguém ficar contente ou descontente com isso, agarraram-se firmemente a uma sólida corrente que jamais se romperá.
Aqueles que são aprovados neste exame precisam preparar-se para o terceiro exame. Um dos exames é sobre a disposição de seguir Allah e reconhecer a Sua obediência. Nessa ocasião, ordena-se: sempre que uma instrução for dada da Minha parte, abandonareis imediatamente o sono e comparecereis diante de Mim; deixareis o trabalho e as ocupações, abandonareis os vossos interesses e as atividades de que gostais, renunciareis à alegria e ao prazer, vireis e cumprireis devidamente o dever determinado; seja verão ou inverno, aconteça o que acontecer, em todos os momentos, assim que ouvirdes o chamado, comparecereis — suportando todas as dores e dificuldades — à Minha presença e cumprireis o dever. E quando Eu vos disser para não comer nem beber do amanhecer ao anoitecer e vos proibir de satisfazer os desejos do nafs, então devereis cumprir plenamente essa ordem, por mais insuportável que seja o sofrimento da fome e da sede, e por mais que bebidas doces e alimentos deliciosos estejam amontoados diante de vós. Aos que reprovam neste exame também se diz claramente: não podeis realizar o Meu trabalho. E, no terceiro exame, somente aqueles que também são aprovados são escolhidos. Pois somente a respeito deles se pode esperar que cumpram devidamente a lei que for revelada da parte de Allah, tanto em segredo como publicamente, em todas as situações de interesse e benefício, felicidade e sofrimento.
Depois disso, realiza-se o quarto exame: o de sacrificar os bens e as riquezas. Mesmo as pessoas aprovadas no terceiro exame ainda não provaram ser qualificadas para ser nomeadas permanentemente para o cargo de servidores de Allah. Pois têm o coração pequeno e estreito, são de ânimo baixo, sem coragem nem vigor e vis; encontram-se inúmeras pessoas que fazem grandes declarações de amizade e amor com os lábios, mas ainda falta verificar se estão dispostas a gastar o dinheiro do bolso em consideração ao amigo. Elas não são como aqueles que, dizendo apenas da boca para fora “mãe, mãe”, ficam transbordando de devoção e não hesitam sequer em brigar por essa mãe, mas, quando essa mesma mãe entra na plantação disfarçada de animal, expulsam-na com um bastão e batem nela até lhe arrancarem a pele. Nem uma pessoa de bom senso aceitaria como amigo um indivíduo tão egoísta, adorador do dinheiro e de mente estreita. E mesmo uma pessoa de espírito muito generoso não estaria disposta a conceder a tal indivíduo qualquer honra junto de si. Então, como pode alguém estar disposto a gastar no caminho do próprio Allah os bens e as riquezas concedidos pelo Grande Allah, se não está disposto a gastar no caminho de Allah os bens e as riquezas que Allah lhe concedeu? E como pode aquele Allah, tão inteligente e sábio, incluir no Seu grupo uma pessoa cuja amizade e amor não passam de meras palavras, e em quem não se pode confiar nem um pouco para qualquer tarefa? Por isso, aos que fracassam neste quarto exame também se diz claramente: não há lugar para vós no grupo de Allah; sois igualmente inúteis — não tendes capacidade para cumprir a enorme responsabilidade confiada ao califa de Allah. Neste grupo somente podem ser incluídos aqueles que, por amor a Allah, conseguem sacrificar de coração aberto o amor pela própria vida, pelas riquezas, pelos filhos, pela descendência e família, pela pátria e por tudo o mais:
لَنْ تَنَالُوْا الْبِرَّ حَتّى تُنْفِقُوْا مِمَّا تُحِبُّوْنَ ـ ال عمران : ٩٢
“Enquanto não gastardes, pela causa de Allah, aquilo que amais, não podereis alcançar o mais elevado grau de virtude e nobreza.” — Surata Al Imran: 92
Não há lugar algum para pessoas de mente estreita neste grupo de Allah; somente pessoas generosas, de coração elevado e nobre, podem ser incluídas neste grupo.
وَمَنْ يُّوْقَ شُحَّ نَفْسِه فَأُوْلئِكَ هُمُ الْمُفْلِحُوْنَ ـ التغابن : ١٦
“Somente aqueles que conseguiram superar a estreiteza de espírito e a avareza podem alcançar o bem-estar integral.” — Surata At-Taghabun: 16
No grupo de Allah, somente podem ser admitidas pessoas que, mesmo que alguém lhes seja hostil, lhes cause sofrimento, lhes prejudique ou lhes despedace o coração, não se recusarão a oferecer alimento e vestimenta, unicamente com o objetivo de obter a satisfação de Allah, nem hesitarão em ajudá-lo nos momentos de dificuldade:
وَلاَ يَاتَلِ اُوْلُوْا الْفَضْلِ مِنْكُمْ وَالسَّعَةِ اَنْ يُّؤْتُوْا اُوْْلِى الْقُرْبى وَالْمَسكِيْنَ وَالْمُهجِرِيْنَ فِى سَبِيْلِ اللهِ وَلْيَعْفُوا وَاْيَصْفَحُوْا اَلاَ تَحِبُّوْنَ اَنْ يَّغْفِرَ اللهُ لَكُمْ وَ اللهُ غَفُوْرٌ رَّحِيْمٌ ـ النور : ٢٢
“Aqueles dentre vocês que são abastados não devem deixar de ajudar seus entes queridos, parentes próximos, pobres e necessitados e os que emigraram pelo caminho de Allah (deixando de ajudá-los por irritação devido a alguma ofensa). Ao contrário, é melhor que os perdoem. Por acaso não desejam que Allah os perdoe? Allah, o Altíssimo, é certamente o maior dos perdoadores e o Misericordioso.”¹ — Surata An-Nur: 22
Neste grupo, são necessárias pessoas que, dentre as riquezas concedidas por Allah, escolham cuidadosamente as melhores coisas e as gastem somente pela causa de Allah:
يَآ يُّهَا الَّذِيْنَ امَنُوْا اَنْفِقُوْا مِنْ طَيِّبتِ مَاكَسَبْتُمْ وَمِمَّا اَخْرَجْنَا لَكُمْ مِّنْ الاَرْضِ وَلاَ تَيْمَّمُوْا الْخَبِيْثَ مِنْهُ تُنْفِقُوْنَ ـ الرقرة : ٢٦٧
“Ó crentes! Gastem, pela causa de Allah, as melhores coisas dos bens que vocês mesmos adquiriram e da provisão que lhes concedemos da terra. Não gastem nesse caminho nada das coisas ruins.” — (Surata Al-Baqarah: 267)
1. Quando um homem querido de Hazrat Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, participou da difamação da honra de sua filha, Hazrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, Hazrat Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, ficou descontente com ele e interrompeu sua ajuda financeira; então este versículo foi revelado. Assim que o versículo foi revelado, ele, trêmulo e amedrontado, disse: “Peço perdão a Allah”, e imediatamente restabeleceu a ajuda financeira àquele homem.
Aqui são necessárias pessoas de grande nobreza de espírito, que, apesar de se encontrarem em condições insuportáveis de necessidade, pobreza e privação, e mesmo tendo necessidades indispensáveis, não considerem inútil gastar dinheiro no caminho de Allah. Pelo contrário, acreditarão firmemente que tudo o que for gasto no caminho de Allah, tanto neste mundo como na Vida Futura, receberá d’Ele a melhor recompensa. Por isso, gastam somente com o objetivo de obter a satisfação de Allah. Não se importam nem um pouco se a sua generosidade for divulgada no mundo ou não, nem se alguém agradecer ou não pela sua doação:
وَمَا تُنْفِقُوْا مِنْ خَيْرٍ فَلاَنْفُسِكُمْ وَمَا تُنْفِقُوْنَ اِلاَّ ابْتِغَاءَ وَجْهِ اللهِ وَمَا تُنْفِقُوْا مِنْ خَيْرٍ يُّوْفَّ اِلَيْكُمْ وَاَنْتُمْ لاَتُظْلَمُوْنَ ـ البقرة : ٢٧٢
“Tudo o que gastardes no caminho de Allah será para o vosso próprio bem — desde que, ao fazerdes essa despesa, não desejeis a satisfação de ninguém além de Allah. Assim, recebereis a recompensa completa por tudo o que doardes em boas obras. E, nesse aspecto, não sereis injustiçados nem sequer no peso de um átomo.” — Surata Al-Baqara: 272
Allah necessita, em Seu grupo, de pessoas serenas desse tipo: aquelas que, mesmo sendo ricas e mergulhadas no conforto, não se esquecem de Allah. Mesmo vivendo em grandes palácios, cercadas de felicidade e prazeres, não se esquecerão de Allah:
يَآيُّهَا الَّذِيْنَ امَنُوْا لاَتُلْهِكُمْ وَلاَ اَوْلاَدُكُمْ عَنْ ذِكْرِ اللهِ وَمَنْ يَّفْعَلِ ذلِكَ فَاوُلئِكَ هُمُ الْخسِرِوْنَ المنفقون : ٩
“Ó crentes! Que as vossas riquezas e os vossos filhos jamais vos afastem da recordação de Allah. E aqueles que, por causa dessas coisas, se esquecerem de Allah serão os grandes perdedores.” — Surata Al-Munafiqun: 9
É indispensável que as qualidades descritas acima estejam presentes nas pessoas do grupo de Allah. Sem isso, ninguém pode ser considerado um dos amigos de Allah. Na verdade, esta é uma prova muito difícil e amarga não apenas do caráter moral da pessoa, mas também da sua fé. Aquele que hesita em gastar no caminho de Allah, que considera esse gasto uma multa imposta a si mesmo, que procura evitá-lo por meio de artifícios e fraude, ou que, mesmo gastando alguma coisa, deseja aliviar o peso interior proclamando perante as pessoas o seu favor, ou quer divulgar no mundo a sua generosidade, na realidade não pode ter fé alguma em Allah e na Vida Futura. Pensa que tudo o que fez por Allah foi completamente inútil. Considera a sua própria felicidade e tranquilidade, o seu conforto e prazer, os seus interesses e a sua fama mais queridos do que Allah e a Sua satisfação. Para ele, este mundo é tudo. Mesmo que gaste dinheiro, é necessário que, neste mundo, obtenha por isso boa reputação e fama. Pois, nesse caso, poderá receber aqui mesmo o retorno do seu dinheiro. Caso contrário, se gastar dinheiro e ninguém sequer souber que determinada pessoa deu tanto dinheiro para uma boa obra, então tudo isso se torna sem sentido. O Alcorão Sagrado deixou claro que uma pessoa desse tipo não pode servir para qualquer obra de Allah. Ainda que proclame ser crente, não é de modo algum um crente; pelo contrário, é um hipócrita declarado. Os versículos seguintes são a prova disso:
يَآيُّهَا الَّذِيْنَ امَنُوْا صَدْقتِكُمْ بَالْمَنَ وَالاَذي كَالَّذِى يُنْفِقُ مَالَهُ رِئَآ ءَ النَّاسِ وَلاَ يُؤْمِنُ بِاللهِ وَالْيُوْمِ الاخِرِ ـ البقرة : ٢٦٤
“Ó crentes! Não torneis vossas doações vãs, divulgando vossa benevolência para com os outros ou causando sofrimento a alguém, como aquele que gasta seu dinheiro apenas para ser visto pelos outros ou para comprar boa reputação, e que não tem sequer um mínimo de fé em Allah e no Além.”
وَاَلَّذِيْنَ يَكْنِزُوْنَ الذَّهَبَ وَالْفِضَّةَ وَلاَيُنْفِقُوْنَهَا فِىْ سَبِيْلِ اللهِ فِبَشّرِهُمْ بِعَذَابِ اَلِيْمٍ ـ التوبة : ٣٤
“Anuncia-lhes um castigo doloroso: aqueles que acumulam ouro e prata e não os gastam no caminho de Allah.” — Surata At-Tawbah: 34.
لاَيَسْتَاْذِنُكَ الَّذِيْنَ يُؤْمِنُوْنَ بِاللهِ وَالْيَوْمِ الاخِرِ اَنْ يُّجَاهِدُوْنا يَاَمْوَالِهِمْ وَاَنْفٌسِهِمْ وَاللهُ عَلَيْمٌ بِالْمُتَّقِيْنَ ـ اِنَّمَا يَسْتَاذِنُكَ الَّذِيْنَ لاَيُؤْمِنُوْنَ بِاللهِ وَالْيَوْمِ الاخِرِ وَارْتَابَتْ قُلُبُهُمْ فَهُمْ فِىْ رَيْبِهِمْ يَتَرَدَّدُوْنَ ـ
“Ó Profeta! Aqueles que creem em Allah e no Além jamais pedirão permissão para se esquivar do dever de participar do jihad com suas vidas e seus bens. Allah, o Altíssimo, conhece muito bem os servos verdadeiramente tementes. Somente aqueles que não têm absolutamente nenhuma fé em Allah e no Além podem apresentar desculpas — aqueles em cujos corações se acumulou a dúvida e que, imersos em sua própria dúvida, permanecem hesitantes.” — Surata At-Tawbah: 44–45
وَمَا مَنَعَهَمْ اَنْ تُقْبَلَ مِنْهُمْ نَفَقّهُمْ اِلاَّ اَنَّهُمْ كَفَرُوْا بِاللهِ وَرَسُوْلِه وَلاَ يَاتُوْنَ الصَّلوةَ اِلاَّ وُهُمْ كُسَالى وَلاَ يُنْفِقُوْنَ اِلاَّ وَهُمْ كرِهُوْنَ ـ
“Suas doações no caminho de Allah não podem ser aceitas simplesmente porque, na realidade, eles não creem em Allah nem no Mensageiro; eles vêm para a oração, é verdade, mas contrariados; e também doam dinheiro, porém com grande aversão.” — Surata At-Tawbah: 54
اَلْمُنفِقُوْنَ وَالْمُنفِقّتُ بَعْضُهُمْ مِّنْ بَعْضٍ يَامُرُوْنَ بِالْمُنْكَرِ وَيَنْهَوْنَ عَنِ الْمَعْرُوْفِ وَيقْبِضُوْنَ اَيْدِيْهِمْ نَسُوْا اللهَ فَنَسِيْهُمْ اِنَّ الْمُنفِقِيْنَ هُمْ الْفسِقُوْنَ ـ التوبة : ٦٧
“Os homens hipócritas e as mulheres hipócritas pertencem todos ao mesmo grupo e são auxiliares uns dos outros. Todos eles ordenam o mal e impedem o estabelecimento da justiça e da verdade. Todos se esqueceram de Allah; por isso, Ele os esqueceu. Não há dúvida de que esses hipócritas são fásiques (transgressores dos limites estabelecidos por Allah).” — Surata At-Tawbah: 67
وَمَنْ الاَعْرَابِ مَنْ يَّتَّخِذُ مَايُنْفِقُ نَغْرَمًا ـ التوْبة : ٩٨
“Muitos desses árabes (dos hipócritas), embora gastem alguma coisa no caminho de Allah, fazem-no de má vontade, como se estivessem pagando uma multa.”
هآَ نْتُمْ هؤْلاَءٍ تُدْعَوْنَ لِتُنْفِقُوْا فِىْ سَبِيْلِ اللهِ فِمِنْكُمْ مَّنْ يَّبْخَلُ وَمَنْ يَّبْخَلْ فَانِّمَا يَبْخَلُ عَنْ نَّفْسِه وَاللهُ الْغَنِىُّ وَاَنْتُمْ الفُقَرَآءُ وَاِنْ تَتَوْلَّوْا يَسْتَبْدِلْ قَوْمًا غَيْرَكُمْ تُمَّ لاَيَكَوْنُوْا اَمْثَالَكُمْ ـ محمد : ٣٨
“Sabei que a vossa situação se deteriorou a tal ponto que, quando vos é pedido que gasteis algo no caminho de Allah, não vos dispondes de modo algum a fazê-lo; ao contrário, muitos de vós passam então a agir com avareza. No entanto, quem é avaro nessas questões só prejudica a si mesmo com a sua avareza. Na realidade, Allah é o único Rico, enquanto todos vós sois pobres e dependentes d’Ele. Se não estiverdes de fato dispostos a gastar dinheiro no caminho de Allah, então, como consequência inevitável desse pecado, Allah estabelecerá outro povo em vosso lugar. Certamente, eles não serão avarentos como vós.” — Surata Muhammad: 38
Em suma, a zakat é um dos pilares do Islã, e essa é a sua essência. É um grave erro considerá-la semelhante aos impostos governamentais comuns. Na realidade, ela é a alma do Islã, a sua força vital. O principal objetivo por trás da instituição da zakat como obrigação é testar a fé. Assim como se obtém um diploma após passar continuamente por exames, Allah também estabeleceu certos testes para verificar a fé das pessoas; todo ser humano precisa ser submetido a esses testes. Quando uma pessoa passa por esse tipo de prova e obtém êxito também na quarta prova — a prova de doar seus bens —, somente então se torna um muçulmano verdadeiro. Mas é preciso lembrar que esta certamente não é a prova final.
Depois vem a prova da vida. Também tratarei disso mais adiante. Entretanto, entre as várias provas de ingresso estabelecidas para entrar nos limites do Islã — em outras palavras, para fazer parte do partido de Allah —, a zakat é a última. Atualmente, muitos andam dizendo que os muçulmanos já ouviram muitos sermões sobre gastar dinheiro ou fazer caridade e que, neste difícil momento de escassez e pobreza, deveriam ouvir sermões sobre ganhar e poupar um pouco. Mas não compreendem que aquilo de que estão zombando é justamente essa essência vital do Islã. E foi a falta dessa essência que levou os muçulmanos ao extremo da decadência moral e financeira. Essa essência vital não os degradou. Sua queda generalizada ocorreu unicamente porque essa própria essência vital saiu de seus corpos.
O lugar da zakat na vida social
Em diversos trechos do Sagrado Alcorão, para explicar questões como o zakat e a sadaqa, é utilizada a expressão infāq fī sabīlillāh (gastar no caminho de Allah). Em alguns lugares, também é dito que tudo o que gastardes no caminho de Allah ficará guardado junto a Allah como qard hasan (empréstimo). Em outras palavras, é como se emprestásseis diretamente a Allah, e Allah se tornasse devedor dos seres humanos. Em muitos lugares, afirma-se ainda que Allah Se encarrega de retribuir tudo o que derdes no caminho de Allah; Ele não vos devolverá apenas a mesma quantia, mas vos concederá muito mais do que isso.
As palavras mencionadas no Sagrado Alcorão são realmente dignas de profunda reflexão. Poderia o Senhor dos céus e da terra jamais depender de alguém? Que necessidade poderia ter esse grandioso e santíssimo Allah de tomar dinheiro emprestado dos seres humanos? Poderia Allah, o Rei dos reis e o único Senhor de tesouros ilimitados, pedir aos seres humanos um empréstimo para satisfazer as Suas próprias necessidades? Jamais; isso é impossível. É por Sua dádiva que os seres vivos e todas as coisas do mundo subsistem; é pelo sustento que Ele concede que os seres humanos vivem. Tudo o que cada rico e cada pobre deste mundo possui é uma dádiva d’Ele. Desde o pobre desamparado até o milionário, todos dependem da Sua graça. Ele, porém, não depende de ninguém. Não tem necessidade alguma de pedir emprestado aos seres humanos nem de estender a mão diante deles em benefício próprio. Na realidade, Ele ordena que se gaste para o bem dos próprios seres humanos e em benefício deles. E considera esse gasto como uma despesa no Seu caminho, ou como um empréstimo a Ele. Na verdade, isso também é uma manifestação concreta de Sua solicitude pelo bem-estar humano; é igualmente uma forma especial de Sua grande graça. Ele diz: “Aqueles a quem dais auxílio financeiro, de onde poderão eles retribuir-vos? A recompensa por isso Eu mesmo darei. Tudo o que derdes aos vossos irmãos órfãos, viúvas, desamparados, aflitos e viajantes sem recursos, registrai-o em Meu nome; não o cobreis deles, mas de Mim. Eu o pagarei. Emprestai aos vossos irmãos pobres, mas não cobreis juros deles; não os pressioneis nem os deixeis constrangidos com cobranças. Se não puderem pagar a dívida, não os mandeis para a prisão civil por causa disso; não confisqueis suas roupas nem os móveis de suas casas; não expulseis seus filhos desamparados de casa, deixando-os sem abrigo. Pois a responsabilidade de cobrar vossos empréstimos não é deles, mas Minha. Se eles devolverem o capital, Eu cobrarei os juros em seu lugar; e, se não puderem devolver sequer o capital, Eu pagarei tanto o capital quanto os juros. Assim, embora sejais vós mesmos que obtereis o benefício do que gastardes em obras de bem-estar social para ajudar as pessoas, essa graça será considerada feita a Mim; e Eu vos devolverei tudo, fazendo as contas completas, juntamente com o benefício.”
A verdadeira manifestação da graça do único Misericordioso, Allah, o Rei dos reis, está precisamente nisto: tudo o que a humanidade possui é uma dádiva d’Ele — vós não o recebeis de nenhum outro lugar nem de qualquer outra pessoa. Retirais isso dos Seus tesouros, mas tudo o que dais não é dado a Ele: dais aos vossos parentes, aos vossos próximos, irmãos, amigos e membros da vossa própria comunidade. Ou gastais em obras de bem-estar social, cujo benefício, no fim, também retorna a vós. Mas observai a infinita generosidade desse grandioso Doador: Ele diz sobre todas essas dádivas que elas Lhe foram emprestadas, que foram gastas no Seu caminho, que Lhe foram oferecidas — e que Eu mesmo vos darei o resultado disso. Na verdade, esse incomparável ápice de generosidade só é digno de Allah; nenhum ser humano é capaz sequer de conceber algo semelhante.
É motivo de reflexão o fato de Allah ter adotado esse método para infundir nos seres humanos a fonte da generosidade e da magnanimidade. Quanto mais se medita sobre isso, mais claramente se apreende a corrente pura e interiormente contida nos elevados ensinamentos do Islã; e o coração proclama em voz alta: “Esse ensinamento incomparável não pode provir de ninguém além de Allah.”
Todos sabem que o ser humano nasce naturalmente um tanto injusto e ignorante. Sua visão é extremamente estreita; ela não alcança muito longe. Seu coração é muito pequeno, e nele cabem pouquíssimas concepções grandiosas e elevadas. O ser humano é terrivelmente egoísta, mas nem mesmo sobre esse egoísmo consegue formar em sua mente e em seu intelecto uma concepção ampla e grandiosa. O ser humano quer obter tudo imediatamente:خَلَقَ الاِنْسَانَ مِنْ عَجَلٍ ـele se esforça para obter o resultado e a consequência de cada ação o mais rapidamente possível. Para ele, o único resultado e a única consequência são aqueles que surgem imediatamente diante dele e que pode ver com os próprios olhos. Sua visão não alcança de modo algum os resultados de longo alcance. Além disso, quando um resultado se manifesta em grande escala e seus efeitos se estendem para muito longe, o ser humano sequer consegue percebê-lo. Na realidade, essa é uma fraqueza natural do ser humano. Por causa dela, ele não consegue enxergar nada além do próprio interesse. E, mesmo assim, sua atenção se concentra apenas nos interesses de pequena dimensão que podem ser obtidos muito rapidamente. Ele diz: “Tudo o que ganhei ou recebi por herança de meus pais e avós é exclusivamente meu; ninguém mais tem qualquer parte ou direito sobre isso. Portanto, gastarei apenas em minhas próprias necessidades, segundo minha vontade e para meu conforto e prazer. Ou empregarei meu dinheiro somente em atividades cujo resultado retorne imediatamente às minhas mãos. Se eu gastar dinheiro, é absolutamente necessário que, em troca, aumentem minha honra e meu prestígio ou que eu receba algum título. Que as pessoas se curvem diante de mim e que meu nome seja comentado por todos. Se não obtiver nenhuma dessas coisas, por que gastaria meu dinheiro? Mesmo que algum pobre sofredor, órfão ou necessitado das proximidades morra de fome, por que eu deveria providenciar alimento para ele? Era dever de seu pai deixar algo para o próprio filho. Se alguma viúva do meu bairro passar os dias em sofrimento, o que tenho eu a ver com isso? Seu marido é que deveria ter pensado nela. Se algum viajante ou expatriado ficar sem recursos, que relação posso ter com ele? Foi uma grande tolice sair de casa sem preparar os meios para a viagem. Se outra pessoa cair em dificuldade, que obrigação posso ter para com ela? Allah Ta‘ālā também lhe deu mãos e pés, assim como a mim. É dever dela ganhar o suficiente para suas próprias necessidades. Por que eu deveria ajudá-la? E, se afinal eu lhe der algum dinheiro, será apenas como empréstimo, e certamente cobrarei, além do capital, os juros correspondentes. Afinal, dinheiro não se ganha sem esforço. Se esse dinheiro permanecesse comigo, eu poderia empregá-lo em tantas coisas: construir edifícios, comprar um automóvel ou investi-lo em algum negócio lucrativo. Se ela pode obter algum benefício com o meu dinheiro, por que eu não poderia obter algum lucro com o meu? Por que eu não haveria de cobrar a minha parte dele?”
Por causa de uma mentalidade tão egoísta, o ser humano torna-se, antes de tudo, um demônio da riqueza. Se gastar seu dinheiro, fará isso apenas em benefício próprio. Não gastará sequer um centavo em algo no qual não veja algum interesse pessoal. Mesmo que ajude algum pobre, na realidade essa ajuda não beneficiará o pobre; ao contrário, explorá-lo-á ainda mais e cobrará dele muito mais do que lhe der. Se fizer alguma doação a um necessitado, exibirá sua própria benevolência diante dele e o deixará humilhado, insultando-o e desonrando-o a tal ponto que não lhe permitirá conservar sequer o restante de seu senso de dignidade. Se participar de alguma causa nacional, uma pessoa desse tipo dará, antes de tudo, atenção aos próprios interesses. Não estará disposta a dar sequer um centavo a uma causa da qual não possa obter algum benefício pessoal.
Já refletiu sobre quão terríveis são as consequências de uma mentalidade desse tipo? Sem dúvida, ela não apenas despedaçará toda a vida social, como também acabará tornando extremamente grave a situação do próprio indivíduo. Contudo, como essas pessoas têm uma visão muito estreita e são extremamente ignorantes, ainda esperam obter disso algum benefício para si mesmas. Sempre que uma mentalidade tão improdutiva se torna ativa entre as pessoas, toda a riqueza nacional acaba concentrada nas mãos de um número muito pequeno de indivíduos, enquanto incontáveis pessoas são obrigadas a ficar completamente desamparadas e privadas de recursos. Os ricos, valendo-se de seu dinheiro, exploram uma quantidade cada vez maior de riqueza, e a vida dos pobres torna-se progressivamente pior. Em uma sociedade na qual a pobreza se torna algo comum, a saúde e a resistência sociais entram em colapso; diversos tipos de doenças incuráveis atacam o corpo social, fazendo com que as pessoas percam a capacidade de trabalhar e produzir. A ignorância e a falta de educação aumentam entre elas, e a saúde moral se deteriora. Para satisfazer suas necessidades, são obrigadas a inclinar-se ao crime e, por fim, não hesitam sequer em recorrer à pilhagem. Cria-se na sociedade uma desordem generalizada; os ricos começam a ser mortos pelas mãos dos pobres, suas casas são saqueadas e incendiadas, e acabam sendo condenados à destruição completa.
Do ponto de vista dos cientistas sociais, o bem-estar individual de cada pessoa está intimamente ligado ao bem-estar social mais amplo. Se o dinheiro que uma pessoa possui for gasto para ajudar outro irmão, esse mesmo dinheiro circulará e retornará às suas mãos trazendo um bem-estar sem precedentes. Por outro lado, se, dominada por uma visão extremamente estreita, ela o guardar consigo ou o gastar em atividades voltadas para seus interesses pessoais, esse dinheiro acabará sendo desperdiçado. Pode-se dar o seguinte exemplo: se você criar um órfão, proporcionar-lhe educação adequada e capacitá-lo para ganhar a vida, a riqueza social aumentará com isso. Você também poderá beneficiar-se dela, pois também é membro dessa sociedade. Talvez você jamais tenha conseguido perceber, por meio de qualquer cálculo, o dinheiro que obteve graças às aptidões especiais desse órfão. Mas, se desde o início você se recusar a criá-lo e educá-lo, dizendo: “Por que eu deveria ajudá-lo? Seu pai deveria ter deixado alguma provisão para ele”, então ele vagará desorientado, viverá abandonado e perdido, tornar-se-á inútil e não adquirirá nenhuma capacidade que possa aumentar a riqueza social. Pelo contrário, inclinando-se ao crime, um dia estará pronto para arrombar a própria casa de você. Isso significa que, ao tornar um membro da sociedade inútil e propenso ao crime, você causará prejuízo não apenas a ele, mas também a si mesmo. Se ampliarmos nossa visão tomando esse único exemplo como referência, ficará claro que, embora o dinheiro gasto altruisticamente por uma pessoa em benefício do bem-estar social mais amplo pareça sair de seu próprio bolso, depois de sair dali ele começa a crescer e multiplicar-se e, por fim, retorna ao seu bolso sob inúmeras formas de benefício e proveito. Já aquele que, aparentemente, mantém seu dinheiro em sua própria caixa ou o aumenta ainda mais por meio de juros, na realidade, por causa de sua própria insensatez, destrói seus bens e prepara a própria ruína.
Allah Ta’ala expressou esta mesma verdade no versículo seguinte:
يَمۡحَقُ ٱللَّهُ ٱلرِّبَوٰاْ وَيُرۡبِى ٱلصَّدَقَـٰتِۗ ـ البقرة : (٢٧٦)
“Allah elimina os juros e faz a caridade crescer.”
وَمَا اتَيْتُمْ مِّنْ رٍّبًا لِّيَرۡبُوَاْ فِىٓ أَمۡوَٲلِ ٱلنَّاسِ فَلَا يَرۡبُواْ عِندَ ٱللَّهِ وَمَآ ءَاتَيۡتُم مِّن زَكوْةٍ تُرِيْدُوْنَ وَجْهَ اللهِ فَاُوْلئِكَ هُمُ الْمُضْعِفُوْنَ ـ الروم : ٣٩
“Quanto aos juros que dais para aumentar os bens das pessoas, eles não aumentam absolutamente nada diante de Allah; mas o zakat que pagais, buscando unicamente a satisfação de Allah, esse certamente se multiplica.” — Surata Ar-Rum: 39
Mas a estreiteza de visão e a extrema ignorância do ser humano se tornaram um enorme obstáculo para compreender esta profunda verdade e agir de acordo com ela. Essas pessoas são escravas dos sentidos. Com o dinheiro que têm no bolso, podem senti-lo e compreender que ele certamente existe. Também não têm dúvida quanto ao aumento contínuo da quantia de dinheiro registrada em seus livros de contabilidade; mas não conseguem de modo algum compreender nem perceber que o dinheiro que sai de suas mãos está aumentando e pode retornar a elas. Elas compreendem apenas isto: “Tanto dinheiro saiu de minhas mãos, e ele se foi para sempre.”
Até hoje, o ser humano não conseguiu romper esse grilhão da ignorância por meio de sua própria inteligência ou esforço. A situação é assim em todo o mundo. De um lado, no mundo dos capitalistas, todas as atividades funcionam com base no sistema de juros e, apesar da abundância de riquezas, a tristeza, a pobreza e a carência aumentam cada vez mais nesses países. Do outro lado, um grupo contrário a eles foi se fortalecendo gradualmente. O fogo da inveja arde intensamente em seus corações. Esse grupo está decidido não apenas a saquear os tesouros dos capitalistas, mas também a reduzir a pó todo o edifício da cultura e da civilização humanas.
O ser humano não conseguiu resolver este problema. Quem o resolveu de modo correto foi o Criador do ser humano, o Majestoso e Grandioso Allah Ta’ala. O livro que Ele revelou, contendo a solução correta para todos os demais problemas dessas pessoas, chama-se Alcorão Majid. Para resolver este problema, o ser humano deve ter fé em Allah e na vida futura. O ser humano deve ter fé em Allah e na vida futura. Se o ser humano conseguir crer em Allah e souber, sem qualquer dúvida, que o verdadeiro Dono de todos os tesouros dos céus e da terra é Allah Ta’ala; que a administração de todos os atos humanos depende inteiramente de Allah e que, perante Ele, está registrado o cálculo de cada átomo e partícula; e que a recompensa ou punição pelos atos bons ou maus do ser humano ocorrerá na vida futura exatamente de acordo com eles, então, em vez de depender de sua visão limitada, confiar em Allah, gastar e utilizar seus bens segundo as determinações de Allah e deixar o lucro e a perda nas mãos de Allah torna-se muito fácil para ele. Tudo o que gastar com uma fé desse tipo será gasto exclusivamente por Allah. Isso também será devidamente registrado nos registros de Allah. Mesmo que ninguém no mundo saiba desse seu gasto, Allah Ta’ala estará plenamente informado a respeito dele. E, ainda que as pessoas do mundo não reconheçam sua gratidão, uma vez que o próprio Allah prometeu recompensá-lo, seja na vida futura ou tanto neste mundo quanto na vida futura, não há a menor dúvida de que essa promessa será cumprida.
A instrução geral para gastar no caminho de Allah
Allah Ta’ala estabeleceu, na Sharia islâmica, a regra de que primeiro emite uma ordem geral para as boas e virtuosas ações, para que o ser humano possa, de modo geral, adotar em sua vida caminhos bons e benéficos. Depois, é indicado um método específico para realizar plenamente essa boa ação. É dever de todos cumprir devidamente esse método específico. Como exemplo, pode-se dizer que recordar Allah é uma ação extremamente boa, na verdade, a melhor de todas. Não apenas isso: em essência, é a fonte de todas as boas ações. Por isso, há a instrução de recordar Allah em todos os momentos e em todas as situações, e de não esquecê-Lo nem por um instante:
فَاذْكُرُوْا اللهَ قِيْمًا وَّقُعُوْدُا وَّعَلى جُنُوْبِكُمْ ـ النساء : ١٠٣
“Recorda Allah em pé, sentado e deitado (em todos os momentos e em todas as situações).” Surata An-Nissá: 103
وَاَذْكُرُوْا اللهَ كَثِيْرَ لَّعَلَّكُمْ تُفْلِحُوْنَ ـ الانفال : ٤٥
“Lembrai-vos muito d’Ele, pois é por meio disso que se espera o vosso bem.” — Surata Al-Anfal: 45
اِنِّ فِىْ خَلْقِ السَّموتِ وَالاَرْضِ وَاَخْتِلاَفِ الَّيْلِ وَالنَّهَارِ لاَيْتٍ لاَوْلِىْ الاَلْبَابِ ـ الَّذِيْنَ يَذْكُرُوْنَ اللهَ قِيْمَامًا وَّقُعُوْادًا وَّعَلى جُنُوْبِهِمْ وَيَتَفَكَّرُوْنَ فِىْ خَلْقِ السَّموتِ وَالاْرْضِ رَبُّنَا مَا خَلَقْتَ هَذَا بَاطِلاً ـ
“Na criação dos céus e da Terra e na alternância da noite e do dia há muitos sinais (da existência de Allah), para os sensatos — aqueles que se lembram de Allah estando de pé, sentados e deitados, e refletem sobre os mistérios da criação e da estrutura dos céus e da Terra e (depois de refletirem profundamente e compreenderem a grandeza de cada coisa, com voz elevada) exclamam: Ó Allah! Tu não criaste nada disso sem propósito.” — Surata Al Imran: 190–191
وَلاَ تَطِعْ مَنْ اَغْفَلْنَا قَلْبَه عَنْ ذِكْرِنَا وَاتَّبَعَ هَوَٮٰهُ وَكَانَ اَمْرَهُ فُرُطًا ـ الكهاف : ٢٨
“Não obedeçais nem sigais aqueles em cujos corações não há lembrança de Allah, que seguem os próprios desejos e transgridem os limites estabelecidos para cada ação.” — (Surata Al Kahf: 28)
Nestes versículos e em muitos outros semelhantes, foi dada claramente a seguinte instrução: Ó seres humanos! Lembrai-vos de Allah em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Pois, na realidade, é a lembrança de Allah que torna corretas e belas todas as ações e atividades humanas. Sempre que, em qualquer ação, o ser humano se esquecer d’Ele, nesse mesmo lugar os desejos (as paixões do nafs) e a astúcia de Satanás o vencerão. Como consequência inevitável, o ser humano se desviará do caminho correto e começará a transgredir os limites na maneira de conduzir a própria vida.
Esta era uma instrução geral para se lembrar de Allah. Em seguida, foi estabelecida uma forma específica de lembrança de Allah. Por isso, foi tornado obrigatório realizar a oração cinco vezes entre o dia e a noite, com algumas rak‘ahs em cada uma. Em cada uma dessas orações, não se gastam mais de cinco a sete minutos. Tornar obrigatória a lembrança de Allah dessa maneira — cinco minutos agora e cinco minutos depois — significa que, pelo menos durante esse tempo, o muçulmano deve dedicar-se inteiramente à lembrança de Allah. Depois, continuará suas próprias tarefas e, mesmo nesse estado, continuará lembrando-se de Allah.
Essa é precisamente a situação da zakat no Islã. Também aqui há uma injunção específica e uma injunção geral. Por um lado, foi dito em linguagem clara: afastai-vos da avareza e da estreiteza de espírito, pois elas são a raiz de todos os males e a fonte de todas as calamidades. Adotai a cor de Allah em vossa vida moral, pois Ele derrama incessantemente, a cada momento, a Sua infinita graça e misericórdia sobre toda a criação, embora ninguém tenha sobre Ele qualquer direito ou reivindicação especial. Também foi dito: continuai a gastar no caminho de Allah tudo quanto e da maneira que puderdes; depois de suprirdes as vossas necessidades, conservai o que puderdes poupar e dai tanto quanto puderdes para atender às necessidades dos demais servos necessitados de Allah. Não hesiteis nem por um instante em empregar a vida e os bens no esforço pela causa da religião e pelo estabelecimento da palavra de Allah. Se tendes amor por Allah, sacrificai por Sua causa o amor às riquezas e aos bens materiais.
Esta é uma ordem geral para gastar recursos no caminho de Allah. Mas, juntamente com ela, há também a instrução específica de que, quando tiverdes acumulado determinada quantia de riqueza, deveis necessariamente gastar pelo menos uma parte dela no caminho de Allah. Quando tiverdes determinada quantidade de colheita em vossas terras, deveis necessariamente doar uma parte dela no caminho de Allah. Assim como o fato de terem sido prescritas apenas determinadas rak‘ahs de oração não significa que, ao cumprir somente essas rak‘ahs, a obrigação de recordar Allah esteja concluída e que, portanto, possais esquecer Allah nos demais momentos, da mesma forma, o fato de ter sido prescrita a doação de uma determinada quantia no caminho de Allah também não significa que somente aqueles que possuem essa quantia sejam obrigados a gastar no caminho de Allah, enquanto os que possuem menos possam manter os punhos fechados. Isso tampouco significa que os ricos possam livrar-se de sua responsabilidade gastando no caminho de Allah apenas a quantia de zakat que lhes foi prescrita e, depois, expulsar qualquer necessitado que apareça ou, quando forem convocados para uma grande obra da religião do Islã, dizer: “A única coisa que me foi prescrita era o zakat; eu já o cumpri. Portanto, agora não podeis esperar mais nada de mim.” Na verdade, esse não é de modo algum o significado da prescrição do zakat. O verdadeiro significado da prescrição do zakat é que toda pessoa rica é obrigada a gastar no caminho de Allah pelo menos essa quantia determinada. E, se tiver capacidade de gastar mais, deverá também fazê-lo necessariamente.
A ordem geral de gastar recursos no caminho de Allah e sua explicação são apresentadas aqui:
Ao ordenar qualquer ação, o Alcorão Sagrado também esclarece sua lógica subjacente. Esta é uma de suas principais características. Por meio disso, as pessoas podem compreender corretamente o objetivo essencial e a razão dos mandamentos de Allah.
O versículo que se encontra no início do Alcorão Sagrado diz:
ذَلِكَ الْكِتبُ لاَرَيْبَ فِيْه هُدًى لِّلْمُتَّقِيْنَ ـ الَّذِيْنَ يُؤْمِنُوْنَ بِالْغَيْبِ وَيُقِيْمُوْنَ الصَّلوةَ وَمِمَّا رَزَقْنهُمْ يُنْفِقُوْنَ ـ البقرة : ٢-٣
“Este Alcorão é o Livro de Allah; não há nele qualquer margem para dúvida. Ele guia ao caminho reto aqueles piedosos e sinceros que creem no invisível, estabelecem a oração e gastam, no Meu caminho, daquilo que lhes concedemos como sustento.” — Surata Al-Baqarah: 2–3
Neste versículo, foi estabelecido um princípio fundamental. Para seguir o caminho reto na vida terrena, três coisas são indispensáveis. Primeiro: o iman bil-ghayb, isto é, crer no invisível; segundo: estabelecer a oração; e terceiro: gastar no caminho de Allah uma parte do sustento que Allah, o Altíssimo, concedeu. Em outro lugar, foi dito:
لَنْ تَنَالُوْا الْبِرَّ حَتّى تُنْفِقُوْنَ مِمَّا تَحِبُّوْنَ ـ ال عمران : ٩٢
“Vocês jamais poderão alcançar o elevado grau da piedade enquanto não gastarem generosamente, no caminho de Allah, aquilo que lhes é mais querido.”
Também foi dito:
اَلْشَّيْطنُ يَعِدُكُمْ الْفَقْرَ وَيَامُرُكُمْ بِالْفَحْشَآَءِ ـ البقرة : ٢٦٨
“Quando gastam seu dinheiro, Satanás lhes promete a pobreza e os incita à prática vergonhosa da avareza.”
Em seguida, foi declarado:
وَاَنْفِقُوْا فِىْ سَبِيْلِ اللهِ وَلاَ تُلْقُوْا بِاَيْدِيْكُمْ اِلَى التَّهْلُكَةِ ـ ١٩٥
“Gastem no caminho de Allah e não se lancem, com suas próprias mãos, à destruição (não gastar no caminho de Allah é lançar a si mesmo à destruição).” — Surata Al-Baqarah: 195
Por fim, foi dito:
وَمَنْ يُّوْقَ شُحَّ نَفْسِه فَاُوْلَئْكَ هُمُ الْمُفْلِحُوْنَ ـ الحشر : ٩
“Somente aqueles que conseguem livrar-se da estreiteza do coração alcançarão a suprema felicidade.” — Surata Al-Hashr: 9
Dos versículos mencionados, pode-se saber claramente que existem apenas dois caminhos para a vida humana neste mundo. Um é o caminho de Allah, cujo desfecho é a felicidade e a paz eternas, bem como a suprema prosperidade. É natural que, nesse caminho, o coração da pessoa se mantenha generoso e aberto. Qualquer que seja a quantidade de sustento que Allah lhe tenha concedido, menor ou maior, ela atenderá a todas as suas próprias necessidades, ajudará tanto quanto possível os demais irmãos e também gastará na tarefa de elevar a Palavra de Allah, ou de estabelecer a religião islâmica de Allah. O outro é o caminho de Satanás. Aparentemente, nesse caminho, a pessoa vê muita alegria e felicidade. Mas, na realidade, nele não há nada além de destruição e calamidade. Nesse caminho, naturalmente, ela tenta explorar e acumular riquezas e não hesita em dedicar seu coração e sua vida ao dinheiro. Tampouco se dispõe a gastá-lo. Se, por acaso, gasta alguma coisa, é somente para satisfazer as próprias necessidades e os desejos do próprio coração.
Aqui são mencionadas, em sequência, as regras e os métodos que foram estabelecidos para os viajantes do caminho de Allah quanto ao gasto de riquezas na senda de Allah:
Primeiro: a questão fundamental é que se deve gastar unicamente para obter a satisfação de Allah; não se deve gastar para demonstrar benevolência a alguém nem para conquistar nome e fama neste mundo.
وَمَا تُنْفِقُوْنَ اِلاَّ اِبْتِغَاءَ وَجْهِ اللهِ ـ البقرة : ٢٧٢
“Em tudo o que gastardes, que vosso objetivo não seja outro senão obter a satisfação de Allah.”
يَآ يُّهَا الَّذِيْنَ امَنُوْا لاَتُبْطِلُوْا صَدَقتِكُمْ بِالْمَنِّ وَاَلاَذى كَالَّذِيْ يُنْفِقُ مَالَهُ وِئَآءَ النَّاسِ وَلاَيُؤْمِنُ بِاللهِ وَالْيُوْمِ الاخِرِ فَمَثَلُه’ كَمَثَلِ صَفْوَانٍ عَلَيْهِ تُرَابٌ فَاصَابَه وَابِلٌ فَتَرَكَاهُ صَلْدًا البقرة : ٢٦٤
“Ó crentes! Não torneis vãs as vossas caridades ao mencionardes o favor concedido e ao causardes sofrimento, como aquele que gasta apenas para ser visto pelos outros e não crê em Allah nem no Dia do Juízo. A caridade desse homem é como terra sobre uma rocha; quando uma forte chuva cai sobre ela, leva toda a terra, deixando a rocha completamente limpa e sem terra.” — Surata Al-Baqara: 264
Dois: Quando deres algo a alguém, não deves mencionar diante dele o favor concedido, nem fazer qualquer coisa que possa causar-lhe o menor sofrimento:
اَلَّذِيْنَ يُنْفِقُوْنَ اَمْوَالَهُمْ فِىْ سَبِيْلِ اللهِ ثُمَّ لاَيُتْبِعُوْنَ مَآاَنْفَقُوْا مَنَّا وَّلاَ اَذّى لَّهُمْ اَجْرَهُمْ عِنْدَ رَبَّهِمْ وَلاَ خَوْفٌ عَلَيْهِمْ وَلاَهُمْ يَحْزَنُوْنَ ـ قَوْلٌ مَعْرُوْفٌ وَّمَغْفِرَةٌ خَيْرٌ مِنْ صَدَقَةَ يَّتْبَعُهَآ اّذّى : البقرة : ١٦٢-١٦٣
“Aqueles que gastam no caminho de Allah, sem mencionar o favor concedido depois de gastar e sem causar sofrimento a ninguém, terão junto de Allah uma grande recompensa e não terão qualquer temor nem receio de prejuízo. Porém, é melhor devolver com gentileza o pedido de quem solicita do que dar uma caridade acompanhada de sofrimento, despedindo-o com as palavras: ‘Irmão, perdoa-me.’” — Surata Al-Baqara: 262–263
Três: Deve-se sempre dar no caminho de Allah coisas boas. Não se deve escolher cuidadosamente apenas as coisas ruins para dar. Aqueles que procuram roupas rasgadas para dar aos pobres e oferecem alimento inferior para alimentar algum necessitado receberão de Allah um resultado igualmente inferior:
يَآيُّهَا الَّذِيْنَ امَنُوْا مِنْ طَيِّبَةُ مِنْ طَيّبِتِ مَاكَسَبَتُمْ وَمِمَّآ اَخْرَجْنَا لَكُمْ مِّنْ الاَرْضِ وَلاَ تَيْمَّمُوْا الْخَبِيْثَ مِنْهُ تُنْفِقُوْنَ ـ البقرة : ١٦٧
“Ó crentes! Gastai no caminho de Allah as coisas boas dentre aquilo que adquiristes e aquilo que extraímos e produzimos para vós do seio da terra; não procureis as coisas inferiores para gastá-las no caminho de Allah.” — Surata Al-Baqara: 267
Quatro: Na medida do possível, deve-se gastar secretamente no caminho de Allah, sem permitir que nele haja o menor desejo de ostentação. Embora não haja nada de errado em gastar publicamente, ainda assim é melhor gastar em segredo.
اِنْ تُبْدُوْا الصَّدَقتِ فَنْعِمًا هِىَ وَاِنْ تُخْفُوْنَ وَتُؤْتُوْهَا الْفُقَرَاءَ فُهُمْ خَيْرَ لَّكُمْ وَيُكَفِّرُ عَنْكُمْ مِنْ سَيَّاتِكُمْ ـ البقرة: ١٧١
“É bom gastar publicamente; mas é muito melhor para vós dar aos pobres em segredo, e com isso os vossos pecados serão expiados.” — Surata Al-Baqara: 271
Cinco: Nunca se deve entregar aos insensatos e ignorantes mais bens do que necessitam. Pois há a possibilidade de que, ao receberem muito dinheiro, se desviem e desperdicem os bens em suas mãos. A vontade de Allah é que se providenciem alimento e vestuário para todas as pessoas, por maior que seja o seu pecado ou a sua rebeldia contra Allah. Porém, não se pode dar a ninguém nem sequer um centavo para beber álcool, consumir maconha ou ópio, ou jogar.
وَلاَ تُؤْتُوْا السُّفَهَآَءَ اَمْوَالَكُمْ الَّتِىْ جَعَلَ اللهُ لَكُمْ قِيْمًا وَّارزٌقُوْهُمْ فِيْهَا وَاكْسُوْهُمْ ـ النساء : ٥
“Allah, o Altíssimo, fez dos vossos bens um meio de subsistência; portanto, nunca os confieis às mãos dos ignorantes e insensatos. Contudo, deveis certamente providenciar, por meio deles, o seu alimento e vestuário.”
Seis: Quando emprestardes a alguém para que satisfaça uma necessidade, não o incomodeis insistindo repetidamente para que pague. Deveis conceder-lhe tempo suficiente para quitar a dívida. E, se for conhecida com certeza a sua incapacidade de devolvê-la e o credor tiver condições de perdoá-la, é preferível que lhe perdoe a dívida:
وَاِنْ كَانَ ذُوْ عَسْرَةً فَنَظِرَةٌ اِلى مَيْسَرَةٍ وَاَنْ تَصَدَّقُوْا خَيْرَ لٌكُمْ اِنْ كُنْتُمْ تَعْلَمُوْنَ ـ البقرة : ٢٨٠
“Se o devedor estiver em dificuldade financeira, deveis conceder-lhe prazo até que alcance condições favoráveis. E perdoar-lhe a dívida é ainda melhor — se ao menos compreendêsseis o benefício disso.” — Surata Al-Baqara: 280
Sete: há também um limite para fazer doações às pessoas. Esse limite jamais pode ser ultrapassado. Allah Todo-Poderoso não ordenou que se doasse aos outros privando a si mesmo e aos próprios filhos, nem essa é a Sua intenção. A vontade de Allah é que se gaste tudo o que for necessário para viver de maneira simples e comum; depois, o que permanecer como excedente deve ser gasto no caminho de Allah:
وَيَسْئَلُوْنَكَ مَاذَا يُنْفِقُوْنَ قُلِ الْعَفْوَ ـ البقرة : ٢١٩
“Eles perguntam: ‘O que devemos gastar?’ Dize: ‘Gastai aquilo que exceder as necessidades.’” — Sura Al-Baqara: 219
وَاَلَّذِيْنَ اِذَا اَنْفَقُوْآ لَمْ يُسْرِفُوْا وَلَمْ يُقتُرُوْا وَكَانَ بَيْنَ ذَلِكَ قَوَامًا ـ الفرقان : ٦٧
“Os servos virtuosos de Allah são aqueles que gastam, mas não gastam inutilmente nem são excessivamente avarentos. Ao contrário, o caminho entre esses dois extremos é o seu modo de vida.” — Sura Al-Furqan: 67
وَلاَ تَجْعَلْ يَدَكَ مَغْلُوْلَةً اِلى عُنُقِكَ وَلاَ تَبْسُطْهَا كُلَّ الْبَسْطِ فَتَقْعُدَ مَلُوْمًا مَّحْسُوْرًا ـ بنى اسرايل: 29
“Não mantenhais as mãos fechadas, prendendo-as completamente ao pescoço, nem as estendais inteiramente, pois assim vos tornareis arrependidos e sereis censurados pelas pessoas.” — Sura Bani Isra’il: 29
Oito: quem é o destinatário adequado dessas doações? Por fim, também é necessário saber isso. Allah Todo-Poderoso apresentou uma lista completa deles no Sagrado Kalam. Ao consultar essa lista, pode-se compreender claramente quem pode receber a sua ajuda e a quem Allah determinou direitos sobre os seus rendimentos.
وَاتِ ذَا الْقُرْبى حَقَّهُ وَالْمِسْكِيْنَ وَابْنَ السَّبِيْلِ ـ بنى اسرائيل : ٢٦
“Dai aos parentes pobres o que lhes é devido, e também ao necessitado e ao viajante pobre.” — Surata Bani Isra’il: 26
وَاتِ الْماَلَ عَلى جُيَِه ذَوِى الْقُرْبى وَالْيَتَمى وَالْمَسْكِيْنَ وَابْنَ السَّبِيْلِ وَالسًَّآئِلِيْنَ وَفِىْ الرِّقَابِ ـ البقرة : ١٧٧
“Aqueles que, buscando obter Sua satisfação, doam seus bens aos parentes próximos, aos órfãos, aos necessitados, aos viajantes e aos que pedem, e para libertar escravos e cativos, são amados por Allah.” — Surata Al-Baqara: 177
وَّبِالْوَالِدَيْنِ اَحْسَانًا وَّبِذِى القُرْبى وَالْيَتمى وَالْمَسكِيْنَ وَالْجَارِذِى الْقُرْبِى وَالْجَارِ الْجُنُبِ وَالصَّاحِبِ بِالْجَنْبِ وَابْنِ السَّبِيْلِ وَمَا مَلَكَتْ اَيْمَانُكُمْ ـ النساء : ٣٦
“Tratai bem vossos pais, os parentes próximos, os órfãos, os necessitados, o vizinho parente e o vizinho não parente, o companheiro de viagem, o viajante e vossos próprios escravos e escravas.” — Surata An-Nisa: 36
وَيُطْعِمُوْنَ الطّعَامَ عَلى حُبِّه مِسْكِيْنًا وَّيَتِيْمًا اِنَّمَا نُطْعِمُكُمْ لِوَجْه الله لاَنُرِيْدُ مِنْكُمْ جَزَآءً وَّلاَ شُكُوْرًا ـ اِنَّا نَخَافُ مِنْ رَّبِّنَا يُوْمًا عَبُوْسًا قَمْطَرِيْرًا ـ الدهر : ٨ – ١٠
“Os servos virtuosos de Allah alimentam os órfãos, os necessitados e os cativos, buscando obter a satisfação e o amor de Allah. Eles dizem: ‘Nós vos alimentamos somente por Allah. Não queremos de vós nenhuma recompensa nem agradecimento. Tememos somente a Allah quanto àquele Dia em que a terrível calamidade fará secar os rostos das pessoas e lhes enrugará as testas.’” — Surata Ad-Dahr: 8–10
وَفِىْ اَمْوَالِهِمْ حَقٌ لِّلْسَّآئِلِ وَالْمَحْرُوْمِ ـ الذّريت : ١٩
“E nos seus bens há um direito para o pedinte e para o necessitado.”
لِلْفُقَرَآءِ الَّذِيْنَ اُحْصِرُوْا فِىْ سَبِيْلِ اللهِ لاَيَسْتَطِيْعُوْنَ ضَرْبًا فِىْ الاَرْضِ يَحْسَبُهُمُ الْجَاهِلُ اَغْنِيَآءَ مِنَ التَّعَفُّفْ تَعْرِفُهُمْ بِسْيْمهُمْ لاَيَسْئَلُوْنَ النَّاسَ اِلْحَافًأ وَمَا تُنْفِقُوْا مِنْ خِيْرِ فَاِنَّ اللهَ بِه عَلِيْمٌ ـ
“A caridade é devida àqueles que, por estarem sempre ocupados com a causa de Allah, não podem trabalhar para ganhar o próprio sustento. Ao verem o seu senso de honra, até os ignorantes os consideram ricos. Mas, apenas pela sua aparência e pelo seu aspecto, podeis compreender quanto sofrem. Vós mesmos deveis tomar a iniciativa de lhes dar donativos. Pois eles não são pessoas que se agarram aos outros para pedir ajuda. O que quer que lhes deis secretamente, Allah certamente saberá, e Ele certamente vos recompensará por isso.” Surata Al-Baqara: 273
As regras para o pagamento do zakat
No artigo anterior, foi apresentada a regra geral sobre gastar na causa de Allah. Agora, serão discutidas detalhadamente todas as regras relativas ao zakat.
No Alcorão Sagrado, Allah, o Altíssimo, estabeleceu regras sobre o zakat em três passagens, de maneiras diferentes. Na Surata Al-Baqara, é dito:
اِنْفِقُوْا مِنْ طَيِّبتِ مَاكَسَبْتُمْ وَمِمَّا اَخْرَجْنَا لَكُمْ مِنَ الارْضِ ـ
“Daquilo que vós mesmos adquiris como bens lícitos e daquilo que fizemos brotar para vós da terra, gastai no caminho de Allah.” — Surata Al-Baqarah: 267.
Também na Surata Al-An’am foi dito a esse respeito que fomos Nós que criamos para vós jardins e campos na terra. Portanto: 141
كَلُوْ مِنْ ثَمَرِه اَثْمَرَ وَاتُوْا حَقَّه يَوْمَ حَصَادِه ـ الانعَام ـ ١٤١
“Quando produzirem frutos ou colheitas (os jardins e os campos), comei deles e, no dia da colheita dos frutos ou das plantações, entregai o que é devido a Allah.” — Surata Al-An’am: 141
Ambos os versículos tratam do zakat sobre as colheitas da terra. Segundo os juristas hanafitas, com exceção dos produtos naturais — madeira, capim, bambu e semelhantes — Allah tem direito sobre todos os tipos de grãos, hortaliças e frutas, e esse direito deve necessariamente ser pago. No Hadith Sharif, afirma-se claramente que, nas colheitas produzidas pela água da chuva, dos rios e do mar, o direito de Allah corresponde a um décimo da colheita total; e, nas terras que precisam ser irrigadas artificialmente pelo ser humano, a parte de Allah foi estabelecida em um vigésimo da colheita total. Ambos esses tipos de contribuição devem ser pagos imediatamente após a colheita.
Depois, na Surata At-Tawbah, foi dito:
وَالَّذِيْنَ يَكْنِزُوْنَ الْذِّهَبَ وَالْفِصَّةَ وَلاَ يُنْفِقُوْنَهَا فِىْ سَبِيْلِ اللهِ فَبَشِّرْهُمْ بِعَذَابٍ اَلَيْمٍ ـ يَّوْمَ يَحْمى عَلَيْهَا فِىْ نَارِ جَهَنَّمَ فَتُكْوْى بِهَا جِبَاهُهُمْ وَجُنُوْبُهُمْ وَظُهُوْرُهُمْ هَذّا مَاكَنَزْتُمْ لاَنْفُسِكُمْ فَذُوْقُوْا مَا كُنْتُمْ تَكْنِزُوْنَ ـ التوبة : ٣٤-٣٥
“Anuncia-lhes um castigo doloroso: aqueles que acumulam ouro e prata e nada gastam deles no caminho de Allah. Informa-lhes sobre o tormento daquele dia em que o ouro e a prata serão aquecidos no fogo e com eles serão marcados suas frontes, seus flancos e suas costas. E lhes será dito: ‘Isto é o que acumulastes para vós mesmos. Provai agora o que costumáveis acumular.’” — Surata At-Tawbah: 34–35
Em seguida, foi dito:
اِنًَّمَا الصَّدَقتُ لِلْفُقََرَآءِ وَالْمَسْكِيْنَ وَالْعمِلِيْنَ عَلَيْهَا وَالْمُؤْلَّفَةِ قُلُوْبُهُمْ وَفِىْ الرَّقَابِ وَالْغَارِمِيْنَ وَفِىْ سَبِيْلِ اللهِ وَاَبْنِ السَّبيْلِ فَرِيْضضةٌ مِّنْ اللهِ ـ التوبة : ٦٠
“A zakat é uma obrigação prescrita por Allah. Ela deve ser destinada aos pobres, aos necessitados e aos funcionários encarregados de arrecadá-la; também deve ser gasta para conquistar os corações dos adeptos de outras religiões, libertar aqueles presos às correntes da escravidão, quitar as dívidas dos endividados, em causas universais determinadas por Allah e para auxiliar os viajantes desamparados.” — Surata At-Tawbah: 60
Depois, Allah disse:
خَذُ مِنْ اَمْوَالِهِمْ صَدَقَةً تَطَهِّرُهُمْ وَتُزْكِّهِمْ : التورة : ١٠٣
“Arrecada a zakat de seus bens e, por meio dela, purifica-os e os torna imaculados.” — Surata At-Tawbah: 103
A partir dos três versículos mencionados, sabe-se que, se não se gastar no caminho de Allah uma parte dos bens que for acumulada e aumentada em quantidade, ela se tornará impura; o único meio de purificá-la é distribuir entre as pessoas merecedoras a parte que pertence a Allah. Foi mencionado no hadith que, quando chegou a notícia desse castigo para os que acumulavam ouro e prata, o povo muçulmano ficou extremamente amedrontado e alarmado. Pois, de acordo com esse versículo, eles haviam entendido que era errado manter consigo sequer um centavo e que tudo deveria ser gasto. Por fim, Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) foi à presença do Nobre Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e informou-o da inquietação dos muçulmanos. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) respondeu: ‘Allah tornou a zakat obrigatória para vocês precisamente para que, depois de pagá-la, o restante dos bens se torne puro e lícito para vocês.’ Também foi narrado um hadith semelhante por Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele). O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: quando você pagar a zakat de seus bens, terá cumprido aquilo que lhe era obrigatório (wajib).
Do versículo mencionado, pode-se conhecer apenas a determinação da zakat sobre o ouro e a prata; mas, pelo hadith, sabe-se que também se deve pagar zakat sobre mercadorias comerciais, camelos, gado bovino e caprino. A zakat torna-se obrigatória quando se possuem cinquenta e duas tolas e meia de prata ou sete tolas e meia de ouro. Deve-se pagar zakat sobre quarenta cabras e sobre trinta bovinos; quanto às mercadorias comerciais, deve-se pagar zakat quando seu valor for igual ao valor de cinquenta e duas tolas e meia de prata. Ou seja, quem possuir essa quantidade mínima determinada e a mantiver durante um ano deverá pagar, como zakat, uma quadragésima parte dela. Os imames da escola hanafita disseram que, se a quantidade mínima individual que torna obrigatória a zakat sobre o ouro ou sobre a prata não estiver presente separadamente, mas o valor total de ambos atingir o montante da zakat (nisab), também se deverá pagar zakat sobre esse total.
Segundo Hazrat Umar e Ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com eles), é obrigatório pagar zakat sobre os adornos de ouro e prata. O Imam Abu Hanifa, que Allah tenha misericórdia dele, também adotou esta opinião. É mencionado nos hadiths que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ao ver pulseiras de ouro nas mãos de duas mulheres, perguntou-lhes se pagavam zakat. Uma delas respondeu que não. Hazrat (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Se hoje não pagares o zakat, aceitarás usar pulseiras de fogo nas mãos no Dia da Ressurreição?” Foi narrado por Hazrat Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, que possuía um tipo de adorno de ouro chamado “pajeb”. Ela perguntou ao Santo Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se aquilo era considerado riqueza acumulada. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: “Se o zakat se tornar obrigatório sobre essa quantidade e ele for pago, então isso não será uma riqueza acumulada proibida.” Esses dois hadiths mostram que, mesmo sendo adornos de ouro ou prata, o zakat é obrigatório sobre eles, assim como é obrigatório sobre o ouro e a prata armazenados. Contudo, não é necessário pagar zakat pelas pedras preciosas nem pelo trabalho ornamental de um anel.
No Kalam Sagrado são mencionadas oito categorias de pessoas elegíveis para receber zakat. Aqui será apresentada a descrição delas:
Pobres: aqueles que possuem algum patrimônio, mas este não é suficiente para atender a todas as suas necessidades, vivem com grande dificuldade e, além disso, não conseguem pedir nada a ninguém — estes são os pobres. O Imam Zuhri, o Imam Abu Hanifa, Ibn Abbas, Hasan Basri, Abu al-Hasan al-Karkhi e outros juristas chamaram essas pessoas de faqir ou pobres.
Miskin: são as pessoas cuja situação é ainda pior, que são obrigadas a estender a mão aos outros e não conseguem sequer obter o alimento para o próprio sustento. Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, também incluiu entre os miskin aqueles que são capazes de trabalhar, mas passam os dias desempregados.
Funcionários do departamento de zakat: aqueles que o Estado Islâmico nomear como funcionários para arrecadar o zakat também deverão receber seus salários dos próprios recursos do zakat.
Aqueles cujos corações devem ser conquistados: incluem-se aqui aqueles a quem é necessário dar dinheiro para apoiar o Islam ou para impedir que se oponham ao Islam. Também se incluem os novos muçulmanos cuja libertação das dificuldades é absolutamente necessária. Se os novos muçulmanos, por romperem relações com as nações não muçulmanas e se juntarem aos muçulmanos, caírem no desemprego ou em dificuldades financeiras, ajudá-los é um dever nacional dos muçulmanos. Mesmo que sejam ricos, deve-se dar-lhes zakat. Isso fará com que tenham ainda mais confiança no Islam. Após a vitória na batalha de Hunayn, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) doou aos novos muçulmanos grande parte dos bens do espólio. Como resultado, couberam cem camelos à parte de cada pessoa. Quando os Ansar reclamaram disso, o Santo Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Como eles aceitaram o Islam recentemente, quero fazê-los felizes.” Com base neste hadith, o Imam Zuhri afirmou que, se judeus, cristãos ou seguidores de qualquer outra religião se tornarem muçulmanos e aceitarem o Islam, deve-se dar-lhes zakat mesmo que sejam ricos.¹
Libertação de escravos e prisioneiros: também pode ser dado dinheiro do zakat àquele que está preso nos grilhões da escravidão e deseja obter a liberdade. Com esse dinheiro, ele se libertará da escravidão do seu senhor. Atualmente, a escravidão não é praticada. Por isso, penso que, se pessoas forem obrigadas a permanecer presas por serem incapazes de pagar uma multa, sua libertação poderá ser providenciada com dinheiro do zakat — e, nesse caso, isso também será considerado pertencente a esta categoria.
Pagamento das dívidas dos endividados: também podem ser libertadas do peso das dívidas, com dinheiro do zakat, as pessoas endividadas ou que não possuem recursos para pagar suas dívidas. Contudo, isso não significa que alguém deva receber zakat apenas por ter uma dívida de cem takas, mesmo possuindo mil takas. Entretanto, se uma pessoa não possuir o montante que poderia permanecer com ela após o pagamento da dívida e sobre o qual o zakat se tornaria obrigatório, então poderá receber zakat. Os juristas também disseram que é makruh dar zakat àqueles que se endividam por desperdício, luxo e atos ilícitos. Isso porque, se lhes for dado zakat nessas circunstâncias, continuarão desperdiçando ainda mais essa riqueza e, confiando em pagar as dívidas com o zakat, contrairão dívidas ainda maiores.
No caminho de Allah: a expressão “no caminho de Allah” é extremamente abrangente. O dinheiro da zakat pode ser gasto em todas as boas obras dos muçulmanos. Mas, em particular, significa ajudar aqueles que combatem no caminho de Allah. O Nobre Profeta (s.a.) disse que não é permitido a uma pessoa rica receber zakat; porém, se justamente uma pessoa rica for obrigada a receber ajuda para o jihad, também se deve dar zakat a ela, pois uma pessoa pode ser rica, mas não consegue cobrir somente com seus próprios recursos a enorme despesa necessária para o jihad. Para essa finalidade, pode-se ajudá-la com dinheiro da zakat.
1. Não é possível apresentar aqui uma explicação detalhada da lei islâmica sobre este assunto. Para isso, consulte o comentário da surata At-Tawbah em Tafhim al-Qur’an.
Viajante—expatriado: por mais riqueza que o viajante ou expatriado possua em sua própria casa, se ele passar por dificuldades durante a viagem ou no exílio, deve receber dinheiro da zakat.
A questão agora é: entre as oito categorias de pessoas mencionadas acima, a quem se deve dar zakat em quais circunstâncias e em quais circunstâncias é dever não dá-la? É disso que trataremos aqui:
Primeiro: ninguém pode dar zakat ao próprio pai ou filho; o marido não pode dá-la à esposa, nem a esposa ao marido. Os juristas da lei islâmica estão inteiramente de acordo sobre isso. Alguns juristas também disseram que não se pode dar zakat aos parentes próximos cuja subsistência está sob sua responsabilidade e que, segundo a sharia, são seus herdeiros; naturalmente, os parentes mais distantes têm direito a receber sua zakat. Além disso, seu direito deve ser reconhecido como maior que o das outras pessoas. Mas o Imam Awza‘i disse que, ao dar zakat, não se deve procurar exclusivamente os próprios parentes.
Segundo: somente os muçulmanos podem receber zakat. Os não muçulmanos não podem receber zakat. Sobre a definição de zakat, foi dito no hadith: تُؤْخَذُ مِنْ اَغْنِيَاءَ كُمْ وَتُرَدُّ عَلى فُقَرَاءَ كُمْ ـA zakat será retirada dos ricos entre vocês e distribuída entre os pobres de vocês. É claro que se deve dar caridade e esmolas comuns aos pobres não muçulmanos. Além disso, no caso da caridade comum, não é de modo algum apropriado fazer distinção entre muçulmanos e não muçulmanos, dando-a aos muçulmanos e não a dando aos não muçulmanos.
Terceiro: os Imames Abu Hanifa, Abu Yusuf e Muhammad (s.a.) dizem que a zakat de cada região deve ser distribuída entre os pobres daquela própria região. Não é correto enviar o dinheiro da zakat de uma região para outra. Porém, se numa região não houver ninguém apto a receber zakat, ou se outra região for atingida por uma calamidade que torne extremamente necessário enviar para lá dinheiro da zakat de uma região distante, como uma inundação, fome e assim por diante, não há mal em distribuir a zakat de acordo com essa necessidade. A opinião do Imam Malik e do Imam Sufyan al-Thawri é praticamente a mesma. Mas deve-se lembrar que enviar zakat de uma região para outra não é de modo algum sempre incongruente ou proibido.
Quarto: segundo algumas pessoas, quem tem comida garantida para duas refeições por dia não deveria receber zakat. Outros disseram que quem tem dez takas guardados não deveria recebê-la; segundo outra opinião, esse limite seria de doze takas e meia. Mas o Imam Abu Hanifa e os demais sábios da escola hanafita disseram que quem possuir menos de cinquenta takas em bens monetários pode receber zakat. Os utensílios domésticos, o cavalo e o servo não são incluídos nesse cálculo. Ou seja, mesmo possuindo esses bens, quem tiver menos de cinquenta takas em patrimônio pode receber zakat. Nesse assunto, uma coisa é a lei e outra é o grau de virtude. Há uma diferença entre essas duas coisas.
Sobre o grau da virtude, o venerável Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: se alguém dispõe de alimento para a manhã e a noite e, ainda assim, pede às pessoas, está acumulando fogo para si mesmo. Em outro hadith, o nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: se alguém prover o próprio sustento, ainda que cortando lenha, isso é mais apreciado por mim do que estender a mão da mendicância às pessoas. Um terceiro hadith afirma que não é permitido receber zakat àquele que possui alimento ou capacidade para trabalhar e ganhar seu sustento. Isso foi ensinado pelo venerável Profeta para despertar nas pessoas o senso de dignidade; não é uma lei, mas foi estabelecido um limite final da lei e explicado até que ponto uma pessoa pode receber zakat. Em um hadith, o Santo Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse:
لِلسَّائِلِ حَقٌ وَاِنْ جَاءَ عَلَى الْفَرَسِ ـ
“Mesmo que o solicitante de esmola venha montado a cavalo, deve-se dar-lhe esmola.”
Um homem perguntou ao venerável Profeta: se eu tiver dez rupias, serei considerado entre os miskins? O venerável Profeta respondeu: sim. Certa vez, dois homens pediram zakat ao venerável Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). O venerável Mensageiro começou a observá-los atentamente e disse: “Se quiserem recebê-lo, eu certamente lhes darei, mas, na realidade, os ricos e os capazes não têm nenhuma parte nele.” Esses hadiths deixam claro que aqueles que não possuem a quantia mínima cuja posse torna o zakat obrigatório também são considerados pobres, e que também se pode dar zakat a eles. É evidente que os verdadeiros beneficiários do zakat só podem ser pessoas realmente necessitadas.
As regras essenciais do zakat foram apresentadas aqui; mas considero especialmente necessário chamar a atenção dos leitores para um ponto extremamente importante e urgente a esse respeito. Pois os muçulmanos de hoje se esqueceram do que desejo dizer. É isto: todos os atos do Islã devem ser realizados de forma coletiva e em conjunto. O Islã não apoia o isolamento individualista. Se um muçulmano que vive distante de uma mesquita fizer a oração sozinho, a oração será válida, mas a Sharia islâmica ordena que a oração seja realizada em congregação — o desejável segundo a Sharia é que o muçulmano faça a oração junto com a congregação muçulmana. O Nobre Alcorão indica isso ao dizer:
خُذْ مِنْ اَمْوَالِهِمْ صَدَقَةٌ تُطَهِّرُ هُمْ وَتُزَكِّيْهِمْ بِهَا : التوبة : 103
Isto é, Allah, o Altíssimo, ordenou ao venerável e nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) que arrecadasse o zakat dos muçulmanos. Não foi ordenado aos muçulmanos que pagassem o zakat de modo independente e individual. Além disso, o fato de uma parcela dos recursos do zakat ser destinada aos funcionários encarregados de arrecadá-lo significa que o imã ou chefe de Estado dos muçulmanos deve arrecadar o zakat de todos e gastá-lo coletivamente. O nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse:
اُمِرْتُ اَنْ اَخَذَ الصَّدَقَةَ مِنْ اغْنِيْاَءِ كُمْ وَاَرُدُّهَا فِىْ فُقَرَاءِ كُمْ ـ
Isto é, fui ordenado a arrecadar a zakat dos ricos entre vós e distribuí-la entre os pobres dentre vós. Esse método de arrecadação da zakat vigorava também no período do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e dos Califas Bem-Guiados. Os funcionários do Estado islâmico arrecadavam toda a zakat, que era devidamente distribuída em nome do governo central.
A realidade do Hajj
Os primórdios do Hajj
Na língua árabe, “Hajj” significa decidir visitar. Como os muçulmanos vêm de todas as partes do mundo em direção a um centro determinado com o propósito de visitar a Caaba, esse ato recebeu o nome de “Hajj”. A história de quando e como o Hajj começou é extremamente interessante e instrutiva. Se o leitor estudar essa história com profunda atenção, será fácil compreender os benefícios do Hajj.
Seja muçulmano, seja cristão, ninguém desconhece o nome do Profeta Abraão (que a paz esteja sobre ele). Mais de dois terços da população do mundo o reconhecem como um “líder”. Os três maiores profetas — Moisés (que a paz esteja sobre ele), Jesus (que a paz esteja sobre ele) e Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) — descendem dele; a luz da verdade irradiou por todo o mundo a partir da tocha luminosa que ele acendeu. Ele nasceu no Iraque há mais de quatro mil anos. Naquela época, toda a humanidade havia se esquecido de Allah. Não havia uma única pessoa na Terra que conhecesse seu verdadeiro Dono e Senhor, nem que baixasse a cabeça diante dele com espírito de servidão e obediência. Embora o povo entre o qual ele nasceu fosse a nação mais avançada do mundo de então, também era o mais destacado no caminho do desvio. Criaturas jamais podem ser divindades ou objetos de adoração. Apesar de terem alcançado o mais alto nível em ciência, conhecimento, arte e escultura, eles não conseguiam compreender essa verdade simples. Por isso, adoravam as estrelas do céu e ídolos feitos de barro ou pedra. A astrologia, a prática de tirar presságios para saber o que era bom ou ruim, a pretensão de conhecer o oculto, o uso da magia, as súplicas, os amuletos e os encantamentos eram muito difundidos. Assim como entre os eruditos hindus e brâmanes dos tempos atuais, havia naquela sociedade uma classe de sacerdotes e adoradores de ídolos. Eles cuidavam dos templos, realizavam a adoração em nome de outras pessoas, praticavam cerimônias especiais nas adversidades e nas ocasiões de alegria e enganavam o povo alegando conhecer o oculto. As pessoas comuns os consideravam os determinadores do destino. Seguiam suas indicações em tudo e, permanecendo em silêncio como cegos absolutos, satisfaziam seus desejos. Isso porque acreditavam que esses sacerdotes tinham autoridade sobre as divindades. Se eles ficassem satisfeitos, as bênçãos dos deuses cairiam sobre nós; caso contrário, seríamos destruídos. Esse grupo de sacerdotes mantinha ligações secretas com os reis e governantes da época. Reis e sacerdotes ajudavam-se mutuamente a manter o povo reduzido à mais completa escravidão. De um lado, o governo patrocinava os sacerdotes; de outro, os sacerdotes incutiam firmemente no povo a ideia de que os próprios reis e governantes também faziam parte dos “deuses”: eram os donos absolutos do país e dos súditos, suas palavras eram a lei e tinham o direito de fazer o que quisessem com a vida e os bens do povo. Não era apenas isso: todos os rituais de servidão eram realizados diante dos reis e governantes, inclusive prostrar a cabeça em reverência, para que a marca de seu domínio permanecesse gravada para sempre na mente e no coração dos súditos.
Foi nesse ambiente e em uma das famílias dessa nação que nasceu o Profeta Abraão (que a paz esteja sobre ele). O mais surpreendente é que a família em que ele nasceu era justamente uma família de sacerdotes profissionais e hereditários. Seu pai e seus avós eram os eruditos e sacerdotes brâmanes de sua linhagem. Portanto, o Profeta Abraão (que a paz esteja sobre ele) recebeu exatamente a educação e a formação que era possível a um filho de brâmane receber. Desde a infância, esse tipo de conversa penetrava em seus ouvidos. Entre seus irmãos e irmãs, ele via a ostentação e o estilo de vida luxuoso próprios dos pirs e dos filhos de pirs. O assento de grande honra do sacerdócio do templo local aguardava por ele. Ao ocupá-lo, poderia facilmente tornar-se o “líder da nação”. As oferendas, os tributos e os presentes que afluíam de todas as partes para toda a sua família também estariam à disposição do Profeta Abraão (que a paz esteja sobre ele). Segundo seu hábito ancestral, o povo do país estava pronto para vir sentar-se diante dele com as mãos unidas e baixar a cabeça com devoção e reverência. Fingindo conhecer o oculto para estabelecer uma relação com as divindades, ele poderia transformar todos, desde o simples camponês até o rei daquele tempo, em escravos obedientes. Em meio àquela escuridão, onde não havia em parte alguma uma única pessoa dotada de verdadeiro conhecimento e seguidora da verdade, por um lado não lhe era possível alcançar a luz da verdade; por outro, nenhum homem comum poderia estar disposto a pisotear interesses tão grandiosos, tanto pessoais quanto familiares, e lançar-se, pela simples causa da verdade, no seio de perigos que abrangeriam o mundo inteiro.
Mas o Profeta Abraão (que a paz esteja sobre ele) não era um homem comum. Ele havia sido criado de uma “matéria singular”. Assim que alcançou a maturidade, começou a refletir: a lua, o sol e as estrelas seguem a regra de nascer e se pôr como meros escravos; os ídolos são feitos de pedra pelas próprias mãos humanas; o rei do país é um homem comum como nós — como poderiam eles ser senhores? Por que o ser humano deveria curvar a cabeça diante de coisas que não podem mover-se nem um pouco por vontade própria, que não têm capacidade de ajudar a si mesmas e que não possuem o menor poder sobre a vida e a morte? Por que haveria de servi-las e adorá-las? Por que haveria de escravizar-se a elas para obter as coisas de que necessita? Tudo o que vemos no céu e na terra, tudo aquilo de que temos algum conhecimento, não é independente, autossuficiente nem eterno e imperecível. Se essa é a condição de cada uma dessas coisas, como poderiam ser o “Senhor” ou o “Mestre” dos seres humanos? Se nenhuma delas me criou, se nenhuma tem em suas mãos o poder sobre minha vida, minha morte, meu benefício ou meu prejuízo, e se nenhuma possui as chaves do meu sustento e da minha subsistência, por que haveria eu de reconhecer qualquer uma delas como meu “Senhor”? E por que haveria de curvar a cabeça diante dela, servindo-a e adorando-a? Na verdade, meu “Senhor” só pode ser Aquele que criou todas as coisas, de quem todos dependem e em cujas mãos estão as fontes da vida, da morte, do benefício e do prejuízo de todos. Depois de refletir sobre essas coisas, o Profeta Abraão (que a paz esteja sobre ele) decidiu não adorar, mas abandonar, os ídolos adorados por sua nação; e, tendo chegado a essa decisão, proclamou em alta voz:
إِنِّي بَرِيءٌ مِمَّا تُشْرِكُونَ
“Não tenho qualquer relação com aqueles que associais a Allah como parceiros.” — Surata Al-An’am: 78
إِنِّي وَجَّهْتُ وَجْهِيَ لِلَّذِي فَطَرَ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضَ حَنِيفًا وَمَا أَنَا مِنَ الْمُشْرِكِينَ
“Voltei o meu rosto, afastando-me de todos os lados, e consagrei-me exclusivamente à adoração daquele Ser Majestoso que criou os céus e a terra, e não faço parte dos idólatras.” — Surata Al-An’am: 79
Depois desta declaração revolucionária, uma montanha de calamidades e infortúnios desabou sobre Ibrahim (que a paz esteja com ele). Seu pai disse: “Vou abandonar-te e expulsar-te de casa.” Toda a nação exclamou: “Nenhum de nós te dará abrigo.” O governo local também se voltou contra ele, e foi apresentada uma acusação diante do rei. Contudo, embora estivesse sozinho e sem companhia, Ibrahim (que a paz esteja com ele) manteve a cabeça erguida diante de todos em defesa da verdade. Disse ao pai, com grande respeito: “Você não sabe absolutamente nada do conhecimento que recebi. Portanto, não obedecerei às suas palavras; pelo contrário, todos vocês deveriam ouvir o que tenho a dizer.”
Em resposta às ameaças do povo, ele quebrou com as próprias mãos todas as estátuas e provou que aqueles a quem adoravam não tinham poder algum. Na audiência pública do rei, disse claramente: “Tu não és o meu Senhor; o meu Senhor é Aquele em cuja mão estão as vidas e as mortes de todos nós, tu e eu, e sob cujos severos desígnios o sol e a lua permanecem cativos.” Por fim, a corte real decidiu que Ibrahim (que a paz esteja com ele) seria queimado vivo até se transformar em cinzas. Mas o coração de Ibrahim (que a paz esteja com ele) era mais firme que uma montanha — sua confiança estava unicamente em Allah. Por isso, também se preparou, com o coração resoluto, para suportar aquele terrível castigo. Depois, quando Allah, o Altíssimo, o libertou da fogueira dos incrédulos, abandonou sua terra natal, sua nação e todos os seus parentes e amigos, e passou a vagar de lugar em lugar e de país em país, levando consigo apenas a esposa e o sobrinho. Para ele, a cadeira de sacerdócio o esperava em casa; sentado nela, poderia tornar-se o guia espiritual de toda a nação e transformá-la hereditariamente em sua propriedade. No entanto, preferiu e aceitou, para si e para seus descendentes, a dor e o infortúnio da expulsão e da completa falta de recursos. Pois ele não conseguiu de modo algum tolerar que os habitantes do mundo vivessem felizes, aprisionados nas correntes da servidão a inúmeros “senhores falsos”. Em vez disso, aceitou a servidão ao único Senhor verdadeiro e começou a convocar o mundo inteiro para esse caminho; e, por esse “crime”, não conseguiu viver em paz em lugar algum.
Depois de deixar sua terra natal, Ibrahim (que a paz esteja com ele) passou a viajar pela Síria, Palestina, Egito e pelas terras árabes. Durante essas viagens, inúmeras calamidades recaíram sobre ele; não levava consigo riquezas nem dinheiro. Mesmo no estrangeiro, não se preocupou nem um pouco em obter sustento. Dia e noite, pensava apenas em como libertar as pessoas do mundo das correntes da servidão a inúmeros senhores e transformá-las em servas de Allah בלבד. Quando seu pai e seu próprio povo não conseguiram de modo algum suportar aquele homem sobrecarregado de pensamentos e preocupações, quem mais poderia tolerá-lo? Que povo de que país o receberia com carinho e honras? Em toda parte, sacerdotes dos mesmos tipos de templos e reis que reivindicavam divindade permaneciam de cabeça erguida, e por toda parte viviam massas ignorantes e tolas, presas nas redes da servidão a esses “deuses falsos”. Como poderia viver em paz entre elas um homem que não estava disposto a servir a ninguém além de seu próprio Senhor? Ele também dizia continuamente às outras pessoas: “Além de Allah, vocês não têm nenhum dono, senhor ou mestre. Destruam os tronos de domínio e divindade de todos e vivam exclusivamente como servos de Allah.” Foi precisamente por essa razão que Ibrahim (que a paz esteja com ele) não pôde viver em paz em lugar algum. Durante anos, vagou como um viajante errante. Ora chegava às povoações de Canaã, ora ao Egito e ora aos desertos da Arábia. Assim passou toda a sua juventude, e seus cabelos negros tornaram-se brancos.
Na fase final da vida, quando faltavam apenas quatro anos para completar noventa anos e já não havia esperança alguma de ter filhos, Allah, o Altíssimo, concedeu-lhe um filho. Mas, mesmo então, este servo de Allah não ficou nem um pouco preocupado pensando: “Minha vida transcorreu sem amparo; agora, pelo menos, devo preparar meus filhos para ganharem o próprio sustento.” Não, tais pensamentos não surgiram em sua mente. Pelo contrário, uma única preocupação despertou no coração daquele pai idoso: havia uma grande falta de pessoas que, após sua morte, cumprissem o dever ao qual ele dedicara a vida e propagassem sua mensagem em todas as direções. Foi precisamente por isso que pediu a Allah um filho; e, quando Allah lhe concedeu um, procurou educá-lo de modo que pudesse continuar seu trabalho depois de sua morte. A vida desse homem perfeito era a vida ideal de um verdadeiro muçulmano. Logo no início da juventude — desde que alcançou a razão e reconheceu seu Senhor — Allah lhe disse:أَسْلِمْ— Aceita o Islã; submete-te voluntariamente a Mim e reconhece a Minha servidão. Ele respondeu então com palavras claras:أَسْلَمْتُ لِرَبِّ الْعَالَمِينَ— Aceitei o Islã. Dediquei-me ao Senhor de todos os mundos e entreguei-me a Ele. Ao longo de toda a vida, esse homem sincero cumpriu integralmente essa declaração e essa promessa. Por amor ao Senhor dos mundos, abandonou a religião ancestral de centenas de anos, com todos os seus ritos, práticas e crenças. Renunciou a todas as vantagens que poderia obter se ocupasse o posto sacerdotal. Abandonou sua linhagem, sua família, sua nação e sua terra natal. Desprezando a própria vida, lançou-se ao fogo. Suportou as dificuldades do exílio e da expulsão, viajou de país em país e dedicou cada momento de sua vida à servidão e à obediência ao Senhor dos mundos e à propagação da Sua religião, o Islã. Quando teve um filho na velhice, determinou também para ele essa mesma religião e esse mesmo dever. Contudo, depois de todas essas duras provas, ainda restava uma última e difícil prova. Sem ser aprovado nela, não se poderia decidir se Ibrahim (que a paz esteja com ele) amava o Senhor dos mundos mais do que qualquer outra coisa. Ele se deparou com essa prova difícil e rigorosa. Tratava-se de testar se conseguiria sacrificar pela causa de Allah até mesmo o seu único filho, que lhe fora concedido na velhice, depois de ter perdido completamente a esperança. Ibrahim (que a paz esteja com ele) também foi aprovado nessa prova e, assim que recebeu a ordem de Allah, preparou-se para degolar o próprio filho com as próprias mãos. Então foi proclamado definitivamente que ele havia provado ser verdadeira a sua reivindicação de ser um muçulmano genuíno. Allah também aceitou seu sacrifício e foi-lhe dito que agora poderia ser feito imame, ou líder, de todo o mundo — agora ele estava plenamente qualificado para isso. É exatamente isso que se afirma no seguinte versículo do Alcorão:
وَإِذِ ابْتَلَى إِبْرَاهِيمَ رَبُّهُ بِكَلِمَاتٍ فَأَتَمَّهُنَّ قَالَ إِنِّي جَاعِلُكَ لِلنَّاسِ إِمَامًا قَالَ وَمِنْ ذُرِّيَّتِي قَالَ لَا يَنَالُ عَهْدِي الظَّالِمِينَ
“E quando o seu ‘Senhor’ pôs Ibrahim à prova com algumas coisas, e ele foi aprovado devidamente nesse teste, foi-lhe anunciado: ‘Eu te nomeei imame (líder à frente) de toda a humanidade.’ Ele perguntou: ‘E quanto aos meus descendentes, aplica-se também a eles essa determinação?’ Allah, o Altíssimo, respondeu: ‘Minha promessa não se aplica aos injustos.’” — Surata Al-Baqarah: 124
Assim, Hazrat Ibrahim, que a paz esteja com ele, recebeu a liderança do mundo e foi nomeado ‘líder’ do movimento mundial do Islã. Para expandir ainda mais esse movimento e assumir responsabilidades em várias regiões, trabalhando como seus representantes, tornou-se absolutamente necessário que ele tivesse alguns companheiros. Nessa tarefa, três pessoas atuaram como o seu ‘braço direito’. Um deles era seu sobrinho, Hazrat Lut, que a paz esteja com ele; o segundo era seu filho mais velho, Hazrat Ismail, que a paz esteja com ele, que, ao saber que Allah desejava a sua vida, preparou-se para ser sacrificado com extrema alegria e entusiasmo; e o terceiro era seu filho mais novo, Hazrat Ishaq, que a paz esteja com ele.
Ele estabeleceu seu sobrinho na região de ‘Sodoma’ (Transjordânia). Ali vivia o povo mais vil e licencioso daquela época. Sua tarefa consistia, por um lado, em reformar a moral daquele povo e, ao mesmo tempo, levar o chamado do Islã às regiões distantes. Grupos de comerciantes do Irã, do Iraque e do Egito passavam por essa região. Portanto, estando ali, era particularmente conveniente para ele realizar adequadamente a tarefa de divulgar o Islã em ambas as direções.
Ele estabeleceu seu filho mais novo, Hazrat Ishaq, que a paz esteja com ele, na região de Canaã ou Palestina. Este é o território situado entre a Síria e o Egito; além disso, por ser uma área litorânea, era fácil fazer chegar, a partir dali, a mensagem do Islã aos demais países. Foi também a partir desse lugar, por meio de Hazrat Yaqub, que a paz esteja com ele, filho de Hazrat Ishaq, que a paz esteja com ele, cujo nome era Israel, e de seu neto Hazrat Yusuf, que a paz esteja com ele, que o movimento islâmico chegou até o Egito.
Ele estabeleceu seu filho mais velho, Hazrat Ismail, que a paz esteja com ele, na cidade de Meca, no Hijaz, e durante muito tempo permaneceu pessoalmente com ele, difundindo os ensinamentos do Islã por todos os recantos da Arábia. Depois, foi ali mesmo que pai e filho, juntos, estabeleceram o mundialmente famoso centro do movimento islâmico, a Casa da Caaba. O próprio Deus havia designado esse centro e determinado o local onde ele seria construído. A Casa da Caaba não é simplesmente um lugar de adoração, como uma mesquita comum; desde o primeiro dia, ela foi destinada a ser o centro de divulgação do movimento mundial do Din do Islã. O objetivo da construção desta Casa da Caaba era que todas as pessoas que creem em um único Deus, vindas das regiões distantes da Terra, se reunissem ali e adorassem coletivamente o Deus único, e que, partindo dali, retornassem a seus próprios países levando a mensagem revolucionária do Islã. O nome dado a essa reunião dos muçulmanos de todo o mundo é Hajj. O relato detalhado de como esse centro de adoração foi estabelecido, com quais pensamentos puros, súplicas e orações pai e filho construíram esse edifício, e de como o Hajj teve início, encontra-se no Sagrado Alcorão:
إِنَّ أَوَّلَ بَيْتٍ وُضِعَ لِلنَّاسِ لَلَّذِي بِبَكَّةَ مُبَارَكًا وَهُدًى لِلْعَالَمِينَ – فِيهِ آَيَاتٌ بَيِّنَاتٌ مَقَامُ إِبْرَاهِيمَ وَمَنْ دَخَلَهُ كَانَ آَمِنًا
“Sem dúvida, a primeira Casa designada para a humanidade foi a Casa de Meca. Ela é extremamente sagrada, abençoada e um centro de orientação para todo o mundo. Nela estão presentes os sinais manifestos de Deus, nela está o ‘Maqam de Ibrahim’, e quem quer que nela entre estará seguro.” — Surata Al Imran: 96–97
أَوَلَمْ يَرَوْا أَنَّا جَعَلْنَا حَرَمًا آَمِنًا وَيُتَخَطَّفُ النَّاسُ مِنْ حَوْلِهِمْ
“Acaso não veem como fizemos do Santuário um lugar livre de perigos e pacífico para as pessoas, enquanto ao seu redor as pessoas eram saqueadas e assaltadas?” — Surata Al-Ankabut: 67
Ou seja, enquanto por toda a Arábia se espalhavam ondas de desordem, como saques, agressões, guerras e conflitos, a paz sempre reinava neste Santuário. Tanto que, mesmo que um feroz beduíno do deserto visse dentro de seus limites o assassino de seu pai, ainda assim não ousaria sequer tocá-lo enquanto estivesse ali.
وَإِذْ جَعَلْنَا الْبَيْتَ مَثَابَةً لِلنَّاسِ وَأَمْنًا وَاتَّخِذُوا مِنْ مَقَامِ إِبْرَاهِيمَ مُصَلًّى وَعَهِدْنَا إِلَى إِبْرَاهِيمَ وَإِسْمَاعِيلَ أَنْ طَهِّرَا بَيْتِيَ لِلطَّائِفِينَ وَالْعَاكِفِينَ وَالرُّكَّعِ السُّجُودِ – وَإِذْ قَالَ إِبْرَاهِيمُ رَبِّ اجْعَلْ هَذَا بَلَدًا آَمِنًا وَارْزُقْ أَهْلَهُ مِنَ الثَّمَرَاتِ مَنْ آَمَنَ مِنْهُمْ بِاللَّهِ وَالْيَوْمِ الْآَخِرِ
“E lembrai-vos de quando fizemos desta Casa um centro para as pessoas e um lugar seguro, e ordenamos que o lugar de oração de Ibrahim fosse transformado em musalla (local de oração), e ordenamos a Ibrahim e Ismael que mantivessem Minha Casa pura e limpa para os que a circundam, os que nela permanecem e os que oram. Então, quando Ibrahim suplicou: ‘Ó meu Senhor, transforma esta cidade em uma terra pacífica e concede provisão, por meio de frutos, aos seus habitantes que creem em Deus e no Último Dia.’” — Surata Al-Baqara: 125–126
وَإِذْ يَرْفَعُ إِبْرَاهِيمُ الْقَوَاعِدَ مِنَ الْبَيْتِ وَإِسْمَاعِيلُ رَبَّنَا تَقَبَّلْ مِنَّا إِنَّكَ أَنْتَ السَّمِيعُ الْعَلِيمُ – رَبَّنَا وَاجْعَلْنَا مُسْلِمَيْنِ لَكَ وَمِنْ ذُرِّيَّتِنَا أُمَّةً مُسْلِمَةً لَكَ وَأَرِنَا مَنَاسِكَنَا وَتُبْ عَلَيْنَا إِنَّكَ أَنْتَ التَّوَّابُ الرَّحِيمُ – رَبَّنَا وَابْعَثْ فِيهِمْ رَسُولًا مِنْهُمْ يَتْلُو عَلَيْهِمْ آَيَاتِكَ وَيُعَلِّمُهُمُ الْكِتَابَ وَالْحِكْمَةَ وَيُزَكِّيهِمْ إِنَّكَ أَنْتَ الْعَزِيزُ الْحَكِيمُ
“E lembrai-vos de quando Ibrahim e Ismael, ao lançarem os alicerces desta Casa, suplicaram: ‘Ó nosso Senhor, aceita de nós este esforço; certamente Tu és Aquele que tudo ouve e tudo sabe. Ó nosso Senhor, faz de nós dois muçulmanos — isto é, submissos a Ti — e faz surgir, de nossa descendência, uma comunidade que seja inteiramente submissa a Ti. Mostra-nos as formas de Te adorar e volta-Te para nós com perdão; certamente Tu és o Perdoador, o Misericordioso. Ó nosso Senhor, envia a essa comunidade um Mensageiro dentre eles, que lhes recite as Tuas revelações, lhes ensine o Livro e a sabedoria e purifique seu caráter. Certamente Tu és o Soberano, o Onisciente.’” — Surata Al-Baqara: 127–129
وَإِذْ قَالَ إِبْرَاهِيمُ رَبِّ اجْعَلْ هَذَا الْبَلَدَ آَمِنًا وَاجْنُبْنِي وَبَنِيَّ أَنْ نَعْبُدَ الْأَصْنَامَ – رَبِّ إِنَّهُنَّ أَضْلَلْنَ كَثِيرًا مِنَ النَّاسِ فَمَنْ تَبِعَنِي فَإِنَّهُ مِنِّي وَمَنْ عَصَانِي فَإِنَّكَ غَفُورٌ رَحِيمٌ – رَبَّنَا إِنِّي أَسْكَنْتُ مِنْ ذُرِّيَّتِي بِوَادٍ غَيْرِ ذِي زَرْعٍ عِنْدَ بَيْتِكَ الْمُحَرَّمِ رَبَّنَا لِيُقِيمُوا الصَّلَاةَ فَاجْعَلْ أَفْئِدَةً مِنَ النَّاسِ تَهْوِي إِلَيْهِمْ وَارْزُقْهُمْ مِنَ الثَّمَرَاتِ لَعَلَّهُمْ يَشْكُرُونَ
“E recorda quando Abraão suplicou: ‘Ó Allah! Torna esta cidade segura e protege a mim e aos meus filhos do politeísmo da idolatria. Ó Allah! Esses ídolos desviaram inúmeras pessoas. Portanto, quem seguir o meu caminho será dos meus; e quanto àquele que seguir um caminho contrário ao meu, certamente Tu és Grandíssimo Perdoador, Misericordiosíssimo. Ó nosso Senhor! Instalei parte da minha descendência junto à Tua Casa Sagrada, neste vale árido, para que estabeleçam a oração. Ó Allah! Faz com que os corações das pessoas se inclinem para eles, e concede-lhes provisão, para que talvez sejam Teus servos agradecidos.’” — Surata Ibrahim: 35–37
وَإِذْ بَوَّأْنَا لِإِبْرَاهِيمَ مَكَانَ الْبَيْتِ أَنْ لَا تُشْرِكْ بِي شَيْئًا وَطَهِّرْ بَيْتِيَ لِلطَّائِفِينَ وَالْقَائِمِينَ وَالرُّكَّعِ السُّجُودِ – وَأَذِّنْ فِي النَّاسِ بِالْحَجِّ يَأْتُوكَ رِجَالًا وَعَلَى كُلِّ ضَامِرٍ يَأْتِينَ مِنْ كُلِّ فَجٍّ عَمِيقٍ – لِيَشْهَدُوا مَنَافِعَ لَهُمْ وَيَذْكُرُوا اسْمَ اللَّهِ فِي أَيَّامٍ مَعْلُومَاتٍ عَلَى مَا رَزَقَهُمْ مِنْ بَهِيمَةِ الْأَنْعَامِ فَكُلُوا مِنْهَا وَأَطْعِمُوا الْبَائِسَ الْفَقِيرَ
“E recorda quando determinamos para Abraão o local desta Casa, dizendo: ‘Não associes nada a Mim e purifica a Minha Casa para os que a circundam em tawaf e para os que oram. E proclama publicamente às pessoas o Hajj; elas virão até ti, a pé ou montadas em camelos magros, vindos de lugares distantes. Para que, ao chegarem, testemunhem os benefícios religiosos e mundanos que lhes foram preparados, e mencionem o nome de Allah sobre os animais que Ele lhes concedeu para o sacrifício, em dias determinados; comei deles e alimentai também os pobres e necessitados.’” — Surata Al-Hajj: 26–28
Esta é a história inicial do começo do Hajj. Ele foi considerado o quinto pilar do Islã. Por isso, sabe-se que Meca era a sede principal do profeta que fora encarregado de conduzir no mundo um movimento islâmico de alcance universal. A sagrada Caaba era o seu centro principal, de onde o Islã era difundido para as regiões distantes do mundo. E todos aqueles que desejassem adorar o Deus Único e obedecer-Lhe na vida prática, qualquer que fosse sua nação ou país, deveriam reunir-se todos os anos em um centro determinado; por isso foi estabelecida a prática do Hajj. Assim se tornaria claro que, tal como uma roda gira ao redor do próprio eixo, a vida dos muçulmanos também gira ao redor do seu próprio centro — o Hajj é a manifestação exterior desse profundo mistério.
A história do Hajj
No artigo anterior, expliquei como e com que propósito o Hajj começou. Também foi mencionado que o venerável Abraão (que a paz esteja com ele) estabeleceu em Meca o centro do movimento islâmico e deixou ali seu filho mais velho, o venerável Ismael (que a paz esteja com ele), para que continuasse esse movimento depois dele. Allah, o Altíssimo, sabe por quanto tempo os descendentes do venerável Ismael (que a paz esteja com ele) permaneceram no caminho da religião do Islã. Contudo, não há dúvida de que, em apenas alguns séculos posteriores, eles haviam esquecido os ensinamentos e o caminho mostrado pelos grandes homens anteriores e, como as demais nações ‘jâhil’, haviam introduzido todo tipo de desvio e práticas pecaminosas. Na própria Caaba, em torno da qual outrora havia começado o convite e a divulgação da adoração ao Deus Único, foram instalados centenas de ídolos. Além disso, foram feitas estátuas do venerável Abraão e do venerável Ismael (que a paz esteja com ambos), cujas vidas inteiras haviam sido dedicadas à luta e ao esforço para pôr fim à idolatria, e essas estátuas também foram colocadas na Caaba. Eles adoravam ainda os astros e planetas, como a Lua, Mercúrio, Vênus e Saturno. Adoravam também fantasmas, gênios, anjos e as ‘almas’ dos antepassados mortos. A ignorância deles havia assumido uma forma tão extrema que, ao sair de casa, se não encontrassem o ídolo de sua própria linhagem, começavam a adorar qualquer pedra colorida que encontrassem pelo caminho. Se não encontrassem uma pedra, faziam uma imagem misturando água e terra; bastava aspergir sobre ela leite de cabra para que, segundo sua crença, aquele bloco inanimado se tornasse uma divindade, e então o adoravam. O sacerdotalismo e a idolatria contra os quais seu ‘pai’, o venerável Abraão (que a paz esteja com ele), havia lutado contra todo o Iraque tinham voltado a entrar em suas casas. Eles transformaram a Caaba em um centro de idolatria e fizeram de si mesmos os sacerdotes dali. Transformaram o Hajj em algo semelhante a uma peregrinação idólatra e, a partir da Caaba, centro da propagação do tawhid, começaram a divulgar a idolatria; usando todos os tipos de artifícios próprios dos adoradores, cobravam das pessoas vindas de diversas partes da Arábia ‘votos, oferendas, presentes e exações’. Assim, toda a grande obra iniciada pelo venerável Abraão e pelo venerável Ismael (que a paz esteja com ambos) foi destruída.
Pode-se avaliar claramente a extrema degradação a que o Hajj havia chegado naquela era de profunda ignorância por meio de um acontecimento. Realizava-se em Meca uma feira anual, e os poetas ou ‘oradores’ das grandes linhagens e tribos árabes enchiam os céus e a terra com elogios à fama, bravura, força, honra e generosidade de suas próprias tribos, competindo assiduamente para exibir glória e orgulho mútuos. Chegavam até mesmo ao ponto de difamar os outros. Também competiam em cortesia e generosidade. Cada chefe tribal mandava preparar enormes caldeirões para provar sua superioridade e, com o objetivo de humilhar os demais, sacrificava camelo após camelo. Na raiz de todo esse desperdício e extravagância havia um único objetivo: se demonstrassem generosidade naquela ocasião, sua fama se espalharia por toda a Arábia por meio dos visitantes da feira, e em todas as casas começaria a falar-se de quantos camelos cada chefe tribal havia sacrificado e quantas pessoas havia alimentado. Nessas reuniões, danças, cantos, consumo de vinho, adultério e todo tipo de atos indecentes eram realizados com grande pompa. É duvidoso que, durante esse festival, alguém sequer se lembrasse de servir ao Deus Único. Fazia-se o tawaf ao redor da Caaba, mas seu método havia sido deturpado. Homens e mulheres giravam juntos nus, dizendo: ‘Compareceremos diante de Allah no mesmo estado em que nossa mãe nos deu à luz.’ É verdade que se praticava ‘adoração’ na mesquita fundada pelo venerável Abraão (que a paz esteja com ele); mas de que maneira? Aplaudia-se muito alto, tocavam-se flautas e sopravam-se trombetas. Não é que o nome de Allah não fosse mencionado ali; mas de que maneira? Eles diziam:
لَبَّيْكَ اللّٰهُمَّ لَبَّيْكَ لاَ شَرِيْكَ لَكَ إِلاَّ شَرِيْكاً هُوَ لَكَ تَمْلِيْكُهُ وَمَا مَلَكَ
“Aqui estou, ó meu Senhor! Aqui estou. Tu não tens nenhum parceiro, exceto aquele que Te pertence; ele é Teu parceiro. Tu és o Senhor dele e também o Senhor daquilo que ele possui.”
Ali também eram oferecidos sacrifícios em nome de Allah. Porém, o modo como isso era feito era extremamente vil e arrogante. Eles espalhavam o sangue do sacrifício nas paredes da Caaba e deixavam sua carne à porta da Caaba. Isso porque, segundo a sua crença, Allah aceitava deles aquele sangue e aquela carne — que Allah nos preserve de tal coisa. Desde a época de Hazrat Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, o derramamento de sangue havia sido proibido durante os quatro meses do Hajj, e todo tipo de guerra e conflito havia sido proibido nesse período. As pessoas das gerações posteriores, em grande medida, respeitaram essa proibição; mas, quando desejavam guerrear, consideravam “lícitos” os meses proibidos de um ano e, no ano seguinte, compensavam-nos como qada.
Além disso, outras pessoas que eram devotadas à sua própria religião também estabeleceram, por extrema ignorância, numerosos costumes extraordinários. Um grupo de pessoas partia para o Hajj sem levar qualquer provisão e passava os dias pedindo esmolas pelo caminho. Na opinião delas, isso era uma obra de grande mérito. Diziam com os lábios: “Confiamos em Allah e estamos indo circundar a Casa de Allah; que necessidade há de levar provisões mundanas?” Em geral, considerava-se ilícito negociar durante a viagem para o Hajj ou trabalhar para ganhar o sustento. Muitas pessoas também deixavam de comer e beber durante o Hajj, e consideravam isso uma forma de adoração. Algumas, ao partir para o Hajj, chegavam até a interromper toda conversa. Isso era chamado de “Hajj-e Musmit”, ou “Hajj mudo”. Não há conta de quantos tipos de crenças errôneas e costumes perversos foram introduzidos dessa maneira. Não quero desperdiçar tempo escrevendo uma descrição detalhada deles.
Esse estado de profunda escuridão perdurou, em maior ou menor grau, por cerca de dois mil anos. Durante todo esse longo período, nenhum profeta surgiu na Arábia, nem os verdadeiros ensinamentos de qualquer profeta chegaram àquela terra. Por fim, aproximou-se o momento em que a súplica de Hazrat Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, seria atendida. Ao estabelecer a Casa da Caaba, ele suplicara a Allah: “Ó Allah! Envia a este país um profeta dentre este próprio povo, que lhes recite a Tua mensagem, lhes ensine conhecimento e sabedoria e corrija o seu caráter moral.” Allah aceitou essa súplica; por isso, entre os seus descendentes, surgiu um ser humano perfeito, cujo santo nome era Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, filho de Abdullah.
Assim como Hazrat Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, nascera numa família de idólatras e sacerdotes, esse “ser humano perfeito”, Hazrat Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também nasceu numa família que, havia séculos, exercia o sacerdócio da Casa da Caaba. Assim como Hazrat Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, desferira um golpe decisivo contra o sistema sacerdotal de sua própria linhagem, o último Profeta, Hazrat Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também desferiu um golpe igualmente poderoso contra o sacerdócio e a pretensa erudição de sua própria linhagem. E não apenas isso: sob o impacto de seu golpe, esse sistema foi completamente desarraigado. Assim como Hazrat Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, se esforçara para destruir as doutrinas falsas e toda a falsa divindade, e para estabelecer o senhorio do Deus Único, o último Profeta, Hazrat Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fez o mesmo. Ele estabeleceu plenamente o verdadeiro e puro Din do Islã pregado por Hazrat Ibrahim, que a paz esteja sobre ele. Quando, após vinte e um anos de esforço, essas obras chegaram à sua conclusão, ele, por ordem de Allah, o Altíssimo, declarou que a Casa da Caaba seria estabelecida como o centro dos crentes no Deus Único em todo o mundo e convocou as pessoas de todas as partes do mundo a reunirem-se na Casa da Caaba para realizar o Hajj:
وَلِلَّهِ عَلَى النَّاسِ حِجُّ الْبَيْتِ مَنِ اسْتَطَاعَ إِلَيْهِ سَبِيلًا وَمَنْ كَفَرَ فَإِنَّ اللَّهَ غَنِيٌّ عَنِ الْعَالَمِينَ
“É direito de Allah sobre as pessoas que aqueles que têm condições de chegar a esta Casa da Caaba venham aqui para realizar o Hajj. Quanto àqueles que rejeitarem a fé — isto é, que, apesar de terem condições, não vierem realizar o Hajj —, saibam que Allah não depende das criaturas de todos os mundos.” — Surata Aal Imran: 97
Assim, juntamente com a instituição do Hajj numa nova fase, todas as superstições que haviam prevalecido durante dois mil anos na época da Jahiliyyah foram completamente abolidas. Os ídolos da Casa da Caaba foram destruídos. O culto aos ídolos que ali era praticado, além da adoração de Allah, foi inteiramente interrompido. As feiras e todo tipo de divertimento e festividade foram proibidos. Foi estabelecido o método correto e natural de adorar Allah. O mandamento de Allah foi:
وَاذْكُرُوهُ كَمَا هَدَاكُمْ وَإِنْ كُنْتُمْ مِنْ قَبْلِهِ لَمِنَ الضَّالِّينَ
“Lembrai-vos de Allah (e adorai-O) exatamente da maneira que Allah vos ensinou, embora antes disso estivésseis desviados (isto é, não soubésseis a maneira correta de recordar Allah e adorá-Lo).” — Surata Al-Baqarah: 198
Toda conduta injusta e fútil foi rigorosamente proibida:
فَلَا رَفَثَ وَلَا فُسُوقَ وَلَا جِدَالَ فِي الْحَجِّ
– (Surata Al-Baqarah: 197)
“Por ocasião do Hajj, não se pode praticar qualquer adultério, obscenidade, rebeldia contra Allah, ato pecaminoso, discussão ou disputa, nem guerra ou hostilidade.”
Também foram proibidas as competições de poesia e eloquência, a ostentação e o orgulho pelos feitos dos antepassados, bem como divulgar os defeitos alheios ou insultar:
فَإِذَا قَضَيْتُمْ مَنَاسِكَكُمْ فَاذْكُرُوا اللَّهَ كَذِكْرِكُمْ آَبَاءَكُمْ أَوْ أَشَدَّ ذِكْرًا
“Quando tiverdes concluído os ritos do Hajj, recordai-vos de Allah como costumáveis recordar-vos de vossos antepassados, ou ainda mais.” Surata Al-Baqarah: 200
Toda ostentação de generosidade e caridade feita apenas para ser vista pelas pessoas ou para obter fama foi abolida; em seu lugar, foi estabelecida a prática de abater animais, conforme o costume da época de Hadrat Ibrahim, que a paz esteja com ele. Assim, os peregrinos pobres também teriam a oportunidade de comer a carne do sacrifício.
كُلُوا وَاشْرَبُوا وَلَا تُسْرِفُوا ۚ إِنَّهُ لَا يُحِبُّ الْمُسْرِفِينَ
“Comei e bebei, mas não desperdiceis; pois, em verdade, Allah não ama os que desperdiçam.” — Surata Al-A‘raf: 31
فَاذْكُرُوا اسْمَ اللَّهِ عَلَيْهَا صَوَافَّ ۖ فَإِذَا وَجَبَتْ
جُنُوبُهَا فَكُلُوا مِنْهَا وَأَطْعِمُوا الْقَانِعَ وَالْمُعْتَرَّ“Abatei esses animais exclusivamente para Allah e em Seu nome. Depois que, após o abate, a vida lhes tiver deixado completamente o corpo, comei deles vós mesmos e dai de comer também ao necessitado paciente que pede.” — Surata Al-Hajj: 36
Foi abolida a prática perversa de esfregar o sangue dos animais sacrificados nas paredes da Caaba e de lançar nelas a carne. Foi declarado claramente:لَن يَنَالَ اللَّهَ لُحُومُهَا وَلَا دِمَاؤُهَا وَلَٰكِن يَنَالُهُ
التَّقْوَىٰ مِنكُمْ ۚ“O sangue ou a carne desses animais não chega a Allah; o que chega a Allah é o vosso temor reverente e a vossa piedade.” — Surata Al-Hajj: 37
Fazer a circunvolução estando nu foi completamente proibido, e foi dito:
قُلْ مَنْ حَرَّمَ زِينَةَ اللَّهِ الَّتِي أَخْرَجَ لِعِبَادِهِ
“Ó Profeta! Dize-lhes: quem proibiu os adornos — isto é, as vestimentas — que Allah escolheu para Seus servos?” — Surata Al-A‘raf: 32
قُلْ إِنَّ اللَّهَ لَا يَأْمُرُ بِالْفَحْشَاءِ“Ó Profeta! Dize: Allah jamais ordena a indecência.” — Surata Al-A‘raf: 28
يَا بَنِي آدَمَ خُذُوا زِينَتَكُمْ عِندَ كُلِّ مَسْجِدٍ“Ó filhos de Adão! Usai os vossos adornos — isto é, vesti-vos — por ocasião de toda adoração.” — Surata Al-A‘raf: 31
Foi proibido com especial rigor alterar os meses determinados para o Hajj e considerar lícito guerrear durante os meses sagrados:إِنَّمَا النَّسِيءُ زِيَادَةٌ فِي الْكُفْرِ ۖ يُضَلُّ بِهِ الَّذِينَ كَفَرُوا يُحِلُّونَهُ عَامًا وَيُحَرِّمُونَهُ عَامًا لِّيُوَاطِئُواعِدَّةَ مَا حَرَّمَ اللَّهُ فَيُحِلُّوا مَا حَرَّمَ اللَّهُ ۚ“An-Nasī aumenta a incredulidade (acrescentando insolência à incredulidade). Assim, os incrédulos mergulham ainda mais no desvio. Em um ano, consideram lícito um mês e, no ano seguinte, tornam ilícito outro mês em seu lugar, para que o número dos meses que Allah proibiu permaneça igual. Mas, ao agir assim, tornam lícito aquilo que Allah proibiu.” Surata At-Tawbah: 37
Foi proibido partir para o Hajj sem levar provisões, e foi claramente declarado:
وَتَزَوَّدُوا فَإِنَّ خَيْرَ الزَّادِ التَّقْوَىٰ ۚ“Levai provisões ao partir para o Hajj. Pois (não levar provisões para a viagem terrena não significa não levar provisões para a Outra Vida) a melhor provisão para a Outra Vida é, na verdade, a taqwa.” Surata Al-Baqarah: 197
Considerava-se um grave pecado fazer negócios ou obter sustento de qualquer outra maneira durante o Hajj, e julgava-se que a grande virtude consistia em não fazer nada disso. Allah, o Altíssimo, revelou o seguinte para refutar essa conceção equivocada:
لَيْسَ عَلَيْكُمْ جُنَاحٌ أَن تَبْتَغُوا فَضْلًا مِّن رَّبِّكُمْ ۚ“Não há pecado em obter algum ganho por meio do comércio durante a ida ao Hajj, como uma graça de Allah.” — Surata Al-Baqarah: 198
As pessoas também foram impedidas de realizar um Hajj “mudo” e um Hajj “faminto e sedento”. Além disso, inúmeras outras superstições da época da ignorância foram eliminadas, e a taqwa, o temor de Allah, a pureza e a simplicidade foram proclamados como mandamentos completos para a humanidade. Foi ordenado aos peregrinos que, ao sair de casa, se libertassem de todos os tipos de vínculos mundanos, abandonassem os desejos e as paixões do nafs, não tivessem relações conjugais durante o caminho para o Hajj e se mantivessem afastados de comportamentos abomináveis, como insultos, difamação e palavras obscenas. Em cada caminho que conduz à Caaba, foi designado um lugar específico. Antes de atravessá-lo e prosseguir em direção à Caaba, deveriam assumir o ihram e vestir roupas simples, próprias dos pobres. Assim, ricos e pobres se tornariam iguais, desapareceriam as diferenças entre povos, tribos e outros grupos, e todos, vestidos da mesma forma — com a aparência de pessoas extremamente pobres — compareceriam diante do Deus Único com humildade e submissão. Depois de assumir o ihram, era proibido não apenas derramar sangue humano, mas também caçar animais. Para que não houvesse guerras e conflitos entre as pessoas, estes quatro meses foram declarados sagrados. Com isso, todos os caminhos para a Caaba se tornariam seguros, e os peregrinos não teriam de temer qualquer perigo no percurso. Com esse espírito sagrado, entrariam no Haram Sagrado — não com o propósito de diversão, danças, música, feiras ou espetáculos. Ali, a cada passo, devem recordar Allah: mencionar o nome de Allah, rezar, adorar, oferecer sacrifícios e circundar a Casa da Caaba (fazer o tawaf). E ali ressoa uma única voz, ouvida junto às muralhas do Haram Sagrado e em cada caminho das subidas e descidas das montanhas:
“Atendo ao Teu chamado, ó Allah! Aqui estou; não tens parceiro algum, vim somente a Ti. Todos os louvores são exclusivamente Teus. Todas as bênçãos são dádivas Tuas, e Teu é o reino e o domínio. Tu és Único; não tens parceiro algum.”
Sobre um Hajj tão puro, sagrado e realizado com devoção sincera, o Profeta do mundo declarou:
“Aquele que realiza o Hajj sinceramente por Allah e se mantém afastado de toda espécie de desejo ilícito e pecado durante esse ato retorna tão inocente quanto um recém-nascido.”
Em seguida, antes de descrever as bênçãos e os benefícios do Hajj, é necessário explicar de que natureza é a obrigação do Hajj. Allah diz no Alcorão Sagrado:
وَلِلَّهِ عَلَى النَّاسِ حِجُّ الْبَيْتِ مَنِ اسْتَطَاعَ إِلَيْهِ سَبِيلًا ۚ وَمَن كَفَرَ فَإِنَّ اللَّهَ غَنِيٌّ عَنِ الْعَالَمِينَ“Aquele que tem meios para chegar à Casa de Allah tem, da parte de Allah, a obrigação inequívoca de realizar o Hajj. Contudo, quem, apesar disso, o rejeitar será um incrédulo; e Allah não necessita dos habitantes de todos os mundos.” — Surata Al Imran: 97
Neste versículo, deixar de realizar o Hajj apesar de se ter capacidade para fazê-lo é claramente chamado de incredulidade. Entre as palavras do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — a esse respeito, são mencionados dois hadiths:
مَنْ مَلَكَ زَادًا وَرَاحِلَةً تُبَلِّغُهُ إِلَى بَيْتِ اللَّهِ وَلَمْ يَحُجَّ فَلَا عَلَيْهِ أَنْ يَمُوتَ يَهُودِيًّا أَوْ نَصْرَانِيًّا
“Se alguém possui provisões e uma montaria para chegar à Casa de Allah, mas não realiza o Hajj, sua morte nessas condições será considerada equivalente à morte de um judeu ou de um cristão.” [Tirmidhi]
مَنْ لَمْ يَمْنَعْهُ مِنَ الْحَجِّ حَاجَةٌ ظَاهِرَةٌ أَوْ سُلْطَانٌ جَائِرٌ أَوْ مَرَضٌ حَابِسٌ فَمَاتَ وَلَمْ يَحُجَّ فَلْيَمُتْ إِنْ شَاءَ يَهُودِيًّا وَإِنْ شَاءَ نَصْرَانِيًّا
“Aquele que não enfrenta nenhuma dificuldade evidente, cujo caminho não foi bloqueado por nenhum rei tirano e que não foi incapacitado por nenhuma doença — apesar disso, se morrer sem realizar o Hajj, poderá morrer como judeu ou cristão.” [Darimi]
Hazrat Omar Faruq, que Allah esteja satisfeito com ele, explicou e disse:
“Aos que, apesar de terem capacidade, não realizam o Hajj, deve ser imposto o tributo da jizya; pois não são muçulmanos, não são muçulmanos.”
Por meio da declaração acima mencionada de Allah, o Altíssimo, e da explicação do Nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e de seu califa, todos podem compreender que realizar o Hajj não é uma obrigação menor. Seu cumprimento ou não cumprimento não foi deixado à vontade dos muçulmanos. Na verdade, para todo muçulmano que tenha condições financeiras de ir e voltar até a Caaba e que também não seja fisicamente incapaz, é absolutamente obrigatório realizar o Hajj uma vez na vida. Não há escapatória alguma sem cumpri-lo. Não importa em que canto do mundo viva, nem quão grandes sejam as responsabilidades que lhe tenham sido atribuídas em relação aos filhos, aos negócios ou ao emprego: se, apesar de ter capacidade, um muçulmano quiser evitar o Hajj e, sob o pretexto de inúmeras ocupações, adiá-lo continuamente por anos, sem realizá-lo enquanto há tempo, então é duvidoso que possua fé. E aqueles em cuja mente jamais surge, ao longo de toda a vida, o pensamento de cumprir o dever de realizar o Hajj, que viajam de um lado a outro do mundo e de país em país, passam pelas proximidades do Hejaz ao viajar para a Europa ou a América — embora a Casa da Caaba esteja a apenas algumas horas de distância — e ainda assim nem sequer lhes ocorre realizar o Hajj, não são de modo algum muçulmanos; não têm direito algum de reivindicar que são muçulmanos e, mesmo que o reivindiquem, essa reivindicação será falsa. E aqueles que os consideram muçulmanos são ignorantes e desconhecedores das disposições do Alcorão Sagrado. Talvez essas pessoas tenham compaixão pela nação muçulmana; mas isso não tem valor algum. Pois é evidente que não existe em seus corações e mentes qualquer obediência a Allah nem fé em Suas disposições.
As características do Hajj
No trecho do Alcorão Sagrado em que é mencionada a ordem dada a Hazrat Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, para fazer um convite geral ao Hajj, sua primeira razão é apresentada da seguinte maneira:
— Que as pessoas venham e vejam quais benefícios estão contidos para elas na realização deste rito do Hajj; isto é, ao chegarem durante o período do Hajj e se reunirem na Caaba Sagrada, testemunharão com os próprios olhos que ele é, de fato, benéfico para elas. Pois as pessoas podem compreender os benefícios nele contidos justamente ao vê-los com os próprios olhos. Sabe-se por uma narrativa que, antes de realizar o Hajj, Hazrat Imam Abu Hanifa, que Allah tenha misericórdia dele, não conseguia compreender exatamente qual das adorações islâmicas era a melhor; mas, assim que realizou o Hajj e testemunhou os benefícios contidos nele, exclamou em voz clara: ‘O Hajj é a melhor adoração’.
Aqui serão descritas brevemente as características e os benefícios do Hajj. Em geral, as pessoas fazem dois tipos de viagem neste mundo. Um tipo de viagem é feito para obter o sustento, e o outro é feito com o objetivo de diversão, alegria e lazer. Em ambos os tipos de viagem, o interesse próprio e os desejos da pessoa é que a incentivam a partir. Ela deixa sua casa por seus próprios interesses e se afasta dos filhos, dos descendentes e dos parentes por algum objetivo mundano. E, nesse tipo de viagem, tudo o que gasta em dinheiro é gasto para alcançar seu próprio objetivo. Portanto, nessas viagens, na realidade, a pessoa não precisa fazer qualquer sacrifício ou renúncia. Mas a viagem feita por ocasião do Hajj é completamente diferente das viagens mencionadas. Ela não é feita para satisfazer nenhum interesse próprio nem para satisfazer os desejos da própria natureza; na verdade, é feita sinceramente por Allah, o Altíssimo, e com a intenção de cumprir o objetivo determinado por Allah. Por isso, enquanto o amor e a devoção a Allah, bem como o temor de Allah, não despertarem no coração da pessoa, e enquanto ela não considerar a obrigação determinada por Allah como uma obrigação, de modo algum poderá tomar a iniciativa de fazer essa viagem. Portanto, quando alguém abandona por longo tempo a própria casa e rompe o contato com parentes, suportando os prejuízos em seus negócios, as despesas e as dificuldades da viagem, e parte para realizar o Hajj, o próprio fato de partir dessa maneira prova que há em seu coração temor e amor por Allah. Ele considera a obrigação de Allah uma obrigação e está mentalmente tão preparado que, se algum dia fosse realmente necessário partir pelo caminho de Allah, poderia deixar sua casa sem dificuldade, suportar as dificuldades e sacrificar sua riqueza e seus bens, bem como todo o conforto e o bem-estar, para obter a satisfação de Allah.
Quando, com essa intenção sagrada, ele se prepara para partir na viagem do Hajj, seu temperamento e sua natureza tornam-se completamente diferentes. Em seu coração, o estímulo do amor por Allah realmente se manifesta espontaneamente. Na verdade, ele se torna como alguém enlouquecido por esse destino; então, nada além de pensamentos virtuosos e puros consegue despertar em sua mente.
Ele se arrepende de todos os pecados cometidos anteriormente, pede perdão a todos pelos erros e faltas e restitui os direitos alheios que até então não havia cumprido, pois de modo algum deseja apresentar-se diante de Allah carregando o peso de dívidas. Seu coração se purifica de toda espécie de pecado e pensamento injusto. Naturalmente, seus pensamentos se voltam para o bem; depois de iniciar a viagem, quanto mais avança, mais ondas de virtude e pureza espiritual percorrem seu coração e sua mente. Ele se empenha e se esforça para que nenhum de seus atos fira o coração de quem quer que seja e para beneficiar cada pessoa tanto quanto puder. Sua natureza se abstém espontaneamente de palavras obscenas e fúteis, da falta de pudor, da fraude e do engano, das brigas e dos conflitos, entre outras coisas. Afinal, ele é um viajante rumo ao ‘Haram Sharif’ de Allah; por isso, não pode deixar de sentir vergonha de avançar por esse caminho praticando injustiças. Se sua própria viagem é uma forma de adoração, que lugar podem ter a opressão e os atos pecaminosos nessa adoração? Assim, vê-se que essa viagem é completamente diferente de todos os demais tipos de viagem. Ela purifica continuamente o coração humano. Na verdade, trata-se de um grandioso curso de reforma, que todo muçulmano peregrino do Hajj deve atravessar.
Depois de concluída uma parte da viagem, chega-se a um lugar onde todo muçulmano que viaja rumo a Meca é obrigado a vestir o ‘ihram’. Ninguém pode prosseguir sem fazê-lo. O que é esse ‘ihram’? Nada além de uma tanga sem costura, um lençol e sandálias sem costura. Isso significa que, qualquer que tenha sido sua condição até então, agora você deve apresentar-se diante de Allah vestido como um faqir. Não apenas exteriormente pobre; procure tornar-se verdadeiramente pobre também no coração. Tire todas as roupas coloridas ou luxuosas e vista roupas simples, dignas de um dervixe. Não use meias; mantenha os pés descobertos; não use nenhum tipo de perfume; não corte o cabelo e renuncie a todo tipo de ornamento e ostentação. Abstenha-se da relação sexual entre marido e mulher, não pratique qualquer ato que provoque excitação sexual e não cace. Tampouco ajude qualquer caçador em sua caça. Quando assumir esse traje na vida exterior, ele também deixará uma profunda marca em sua mente; interiormente, seu coração se tornará de fato o de um faqir. O orgulho e a presunção desaparecerão, e surgirão sentimentos de pobreza e amor pela paz. Será removida a mancha que havia atingido sua alma por se entregar aos prazeres e deleites mundanos, e o sentimento sagrado de servir a Allah engrandecerá tanto o interior quanto o exterior de sua vida.
Ao vestir o ‘ihram’, o peregrino deve recitar repetidamente uma oração especial: após cada oração, durante cada subida e descida do caminho, ao encontrar-se com a caravana e ao acordar todos os dias. A oração é a seguinte:
لَبَّيْكَ اللَّهُمَّ لَبَّيْكَ لَبَّيْكَ لَا شَرِيكَ لَكَ لَبَّيْكَ إِنَّ الْحَمْدَ وَالنِّعْمَةَ لَكَ وَالْمُلْكَ لَا شَرِيكَ لَكَ
Na verdade, esta oração passou a ser recitada em resposta ao chamado universal que Hazrat Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, proclamou por ordem de Allah há quatro mil e quinhentos anos para a realização do Hajj. Há quatro mil e quinhentos anos, esse arauto de Allah chamou e disse: “Ó servos de Allah! Vinde à Casa de Allah; acorrei de todos os cantos da Terra. Vinde a pé ou montados em veículos.” Em resposta, até hoje todo viajante do ‘Haram Sharif’ proclama em voz alta: “Vim, ó Allah, estou presente. Não há parceiro algum para Ti; vim somente em resposta ao Teu chamado. Todo louvor e elogio são dádivas Tuas; em coisa alguma tens qualquer parceiro.”
Assim, por meio de cada proclamação do ‘Labbayk’, estabelece-se uma estreita relação entre o peregrino e o movimento islâmico que se tornou conhecido desde a época de Hazrat Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, e de Hazrat Ismail, que a paz esteja sobre ele. A distância de quatro mil e quinhentos anos desaparece e tudo se torna um só. Parece que, de um lado, Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, chama em nome de Allah, enquanto, do outro, cada peregrino responde, avançando enquanto responde. Quanto mais avança, mais intensamente fluem em seu coração e em sua alma as fontes do entusiasmo, da inspiração e dos sentimentos espirituais. A cada subida e descida do caminho, o chamado de Allah ressoa em seus ouvidos, e ele prossegue respondendo. Caravana após caravana chega, e cada uma, ao ouvir essa mensagem como um apaixonado enlouquecido, exclama: “Vim, estou presente.” Cada novo amanhecer traz-lhe a mensagem do Amigo e, assim que abre os olhos ao clarão da aurora, continua a proclamar: “Vim, ó Allah! Estou presente.” Em suma, a repetição dessa proclamação, o traje humilde do ihram, a condição da viagem e o sentimento de proximidade ao aproximar-se da Casa da Caaba em cada etapa criam tal ambiente de êxtase que o peregrino fica absorto em profundo amor por Allah, e nada mais existe em sua vida além da lembrança desse único Amigo.
Atravessando esse estado, o peregrino chega a Meca e, assim que chega, corre diretamente para o verdadeiro destino. Beija o santuário do Amigo. Depois, circunda o centro de sua crença, fé, doutrina, religião e modo de vida e, a cada volta, beija o santuário.¹ Cada tawaf começa e termina beijando a Pedra Negra² da Casa da Caaba. Em seguida, deve realizar duas rak‘at de oração no “Maqam Ibrahim”. Depois de sair dali, sobe o monte Safa e, quando de lá avista a Casa da Caaba, proclama em voz alta:
لَا إِلَهَ إِلَّا اللَّهُ وَلَا نَعْبُدُ إِلَّا إِيَّاهُ مُخْلِصِينَ لَهُ الدِّينَ وَلَوْ كَرِهَ الْكَافِرُونَ
“Não há outra divindade além de Allah; não adoramos ninguém além d’Ele; reconhecemos exclusivamente a submissão a Allah — por mais insuportável que isso seja para os incrédulos.”
Depois, deve-se correr entre os montes Safa e Marwa. Com isso, o peregrino demonstra que estará sempre pronto a correr dessa maneira, com o objetivo de alcançar a proximidade e a satisfação de Allah. Durante essa corrida, ele também continua a recitar:
أَللَّهُمَّ اسْتَعْمَلْنِيْ بِسُنَّةِ نَبِيِّكَ وَتَوَفَّنِيْ عَلَى مِلَّتِهِ وَأَعِذْنِيْ من مُّضِلاَّتِ الْفِتَنِ
“Ó Allah! Concede-me a capacidade de agir de acordo com o exemplo e os costumes do Teu Profeta. Que a minha morte ocorra no caminho do Teu Profeta, e protege-me das tentações que desviam do caminho da verdade.”
1. Deve-se beijar a “Hajar al-Aswad” (Pedra Negra), instalada na sagrada Casa da Caaba, beijando assim esta Casa. Muitos ignorantes acusam esse beijo de ser uma forma de idolatria. Contudo, ele não é mais que o beijo da morada do Amigo. Durante o tawaf da sagrada Casa da Caaba, ao final de cada circuito, beija-se a Hajar al-Aswad ou, pelo menos, aponta-se para ela. Isso não tem a mínima relação com a adoração dessa pedra negra. A esse respeito, há uma declaração muito conhecida de Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele), que, dirigindo-se à pedra, disse: “Sei que és apenas uma pedra. Se o nobre Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) não te tivesse beijado, eu jamais te beijaria.
2. O costume de beijar a morada da Casa da Caaba, centro vital dos muçulmanos, foi estabelecido tanto por Ibrahim (que a paz esteja com ele) quanto pelo último Profeta, Muhammad (que a paz esteja com ele); por isso, esta pedra foi especialmente designada para receber esse gesto. Fora isso, a Pedra Negra não possui nenhuma outra característica que justifique beijá-la. — Tradutor
Às vezes, recita-se esta súplica:
اغْفِرْ وَأَرْحَمْ وَتَجَا وَزَعَمَّا تَعْلَمُ إِنَّكَ أَنْتَ الْأَعَزُّ الْأَكْمُ رَب“Ó Senhor! Perdoa e tem misericórdia; perdoa as minhas faltas das quais tens conhecimento. Teu poder é o maior, e Tua misericórdia é incomparável.”
Depois disso, o peregrino deve transformar-se em um soldado de Allah. Por isso, ele precisa passar de cinco a seis dias vivendo no acampamento. Deve passar um dia no acampamento de Mina; no dia seguinte, deve permanecer em Arafat e ouvir as instruções do sermão do comandante. À noite, deve ir a Muzdalifa e estabelecer o acampamento. Ao fim do dia, deve retornar novamente a Mina e, ali, lançar pedras para realizar o apedrejamento. Os soldados e súditos do rei Abraha haviam chegado até ali para destruir a Casa da Caaba. A cada pedra lançada, o soldado de Allah exclama:
اَللهُ أَكْبَرْ رَغَماً لِلشَّيْطَانِ وَحِزْبِهِ
“Allah é o Maior. Que Satanás e seus seguidores tenham o rosto coberto de pó.” E —أَللَّهُمَّ تَصْدِيْقاً بِكِتَابِكَ وَإِتِّبَاعاً لِسُنَّةِ نَبِيِّكَ “Ó Allah! Concede-nos a capacidade de declarar a veracidade do Teu Livro e de seguir a ordem do Teu Profeta.”
Atirar pedras significa declarar: Ó Allah! Contra quem quer que tente destruir a Tua religião, o Islã, ou silenciar a Tua voz, lutarei dessa maneira para elevar e estabelecer a Tua palavra. Em seguida, oferece-se o sacrifício nesse mesmo lugar. Com isso, apresenta-se uma prova concreta e ativa do desejo e da disposição de sacrificar a própria vida no caminho de Allah. Depois, parte-se dali em direção à Caaba, como se os mujahidin do Islã, tendo cumprido seu dever, estivessem retornando vitoriosos ao “quartel-general”. Após realizar o tawaf e rezar duas rak‘at, o ihram é retirado. As ações que se haviam tornado proibidas por causa do ihram agora se tornam permitidas, e a vida do peregrino volta a seguir seu curso normal. Depois de iniciar essa vida, ele deve retornar a Mina para montar acampamento e, no dia seguinte, voltar a apedrejar com pedrinhas aqueles três pilares de pedra. Na terminologia islâmica, isso é chamado de “Jamarat”. É apenas um símbolo da retirada e da derrota do exército de Abraha, o rei, que invadiu Meca. No ano do nascimento do Nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Abraha veio, durante a época do Hajj, com o objetivo de destruir a Casa de Allah. Por ordem de Allah, aves celestiais lançaram pedrinhas e os destruíram completamente. No terceiro dia, depois de novamente atirar pedras contra aqueles pilares, o peregrino retorna a Meca e realiza sete voltas de tawaf em torno da Casa da Caaba, o centro de sua religião. Esse tawaf é chamado de tawaf de despedida. Com sua conclusão, terminam os ritos do Hajj.
Desde a intenção de realizar o Hajj, passando pelos preparativos e providências para a viagem, até o retorno à própria casa, é muito fácil imaginar, a partir da discussão detalhada acima, quantos pensamentos divinos grandiosos e profundos se acumulam na mente e no coração do peregrino ao longo de aproximadamente três meses. Desde o início, ele precisa sacrificar seu tempo, sacrificar seu dinheiro, renunciar ao conforto e à tranquilidade e romper inúmeros vínculos e relações mundanas. Deve sacrificar muitos desejos, aspirações, prazeres e gostos pessoais. E tudo isso deve ser feito unicamente por Allah; nenhum interesse próprio pode ter lugar nisso. Além disso, durante essa viagem, à medida que aumentam o temor de Allah e a piedade, assim como a lembrança de Allah e o anseio e o interesse do coração por Allah, isso exerce uma influência duradoura sobre a mente humana, que permanece por muitos dias. Ao colocar os pés no Haram Sagrado, o peregrino vê, a cada passo, sinais claros das ações passadas daqueles grandes homens. Eles adoraram Allah e Lhe obedeceram; ao estabelecerem a religião de Allah, o Islã, sacrificaram tudo o que possuíam; lutaram contra o mundo inteiro; suportaram sem hesitação toda espécie de sofrimento e humilhação; sofreram o exílio e suportaram inúmeras injustiças, mas não sentiram o menor cansaço enquanto não estabeleceram a religião de Allah. Eles esmagaram a cabeça de todas as forças do “falso” que obrigavam as pessoas a se submeterem à servidão de alguém que não fosse Allah, e ergueram bem alto a bandeira da religião do Islã.
Ao contemplar esses sinais evidentes e essas manifestações abençoadas, o crente em Allah pode receber uma educação profundamente tocante de forte desejo, aspiração, coragem e luta no caminho de Allah que não pode receber de nenhuma outra coisa. Ao realizar o tawaf em torno da Caaba, o peregrino estabelece uma estreita relação com o centro da religião do Islã. Por meio dos demais ritos relacionados ao Hajj, a vida do peregrino é moldada mediante um treinamento militar. Quando se examinam esses ritos em conjunto com a oração, o jejum e o zakat, fica claro que o Islã treina as pessoas, por meio de tudo isso, para um grande objetivo. É por isso que o Hajj foi tornado obrigatório para todo muçulmano que tenha condições de viajar até Meca. O objetivo é que, todos os anos, um número cada vez maior de muçulmanos venha a esse centro vital do Islã, receba treinamento e retorne às suas respectivas áreas de atuação.
Além disso, se não observarmos outro aspecto, não poderemos compreender plenamente os benefícios e a eficácia do Hajj. Nenhum muçulmano realiza o Hajj completamente sozinho. Foi fixada uma data para que todos os muçulmanos do mundo realizem o Hajj. Milhares e milhões de muçulmanos se reúnem e realizam o Hajj ao mesmo tempo. Pelo que foi dito acima, você pode compreender apenas até que ponto o Hajj individual pode influenciar um muçulmano. Por meio do próximo artigo, você saberá em detalhes como, ao fixar um período para o Hajj dos muçulmanos do mundo, os benefícios do Hajj foram multiplicados por centenas de milhares: não apenas duas, mas milhares de oportunidades de obter resultados por meio de uma única ação — esta é uma realização incomparável exclusiva do Islã. Os benefícios de realizar a oração individualmente também não são poucos. Porém, ao estabelecer como condição que se participe da oração em congregação e se reze atrás do imame, e ao instituir a regra de realizar em congregação a oração de sexta-feira e as duas orações dos Eids, seus benefícios foram multiplicados incontáveis vezes. O jejum praticado individualmente também contribuiria bastante para a formação da mente e do caráter dos jejuadores. Mas, ao determinar um mês para o jejum de todos os muçulmanos, seus benefícios foram ampliados a tal ponto que não podem ser contados. O benefício de cada pessoa pagar o zakat individualmente também não é pequeno; porém, ao estabelecer seu pagamento por meio do Bayt al-Mal, sua utilidade foi ampliada de tal maneira que não pode ser devidamente compreendida antes do estabelecimento de um Estado Islâmico. Isso porque, sob um Estado Islâmico, o zakat de todos os muçulmanos é depositado no Bayt al-Mal e distribuído de forma organizada entre os beneficiários. Como resultado, os necessitados da sociedade recebem um benefício extraordinário. O mesmo se aplica ao Hajj. Mesmo que realizado individualmente, o Hajj pode iniciar uma grande revolução na vida de milhares de pessoas. Mas, ao estabelecer a prática de os muçulmanos do mundo se reunirem para realizar o Hajj, foi criada a oportunidade de alcançar benefícios ilimitados.
A conferência mundial do Hajj
Os muçulmanos para os quais o hajj se torna obrigatório, isto é, aqueles que têm condições de viajar até a Caaba Sagrada, não são apenas um ou dois. Em cada região, seu número não é de modo algum pequeno. Pode-se dizer que há vários milhares em cada cidade e até centenas de milhares em cada país. Todos os anos, a maioria deles sai de casa com a intenção de realizar o hajj. É realmente digno de observação como, nos lugares do mundo onde vivem muçulmanos, à medida que se aproxima a temporada do hajj, desperta uma nova consciência da vida islâmica. Aproximadamente desde o Ramadã até o mês de Zulcaada, centenas de pessoas partem de diferentes lugares, preparando-se para a viagem do hajj. Por outro lado, desde o final do mês de Muharram até Safar, Rabiu al-Awwal e, mais precisamente, Rabiu al-Thani, prossegue o fluxo do retorno dos peregrinos. Durante esses seis meses, todas as comunidades muçulmanas permanecem, de certo modo, animadas por um espírito religioso. Aqueles que partem para o hajj e retornam depois de realizá-lo, naturalmente permanecem imersos nesse espírito religioso; mas aqueles que não partem para o hajj também experimentam algo da alegria da peregrinação: acompanham os peregrinos em sua partida, despedem-se deles quando deixam cada estação, recebem-nos em seu retorno e ouvem deles os detalhes do hajj.
Quando cada peregrino toma a intenção de partir para o hajj, despertam nele o temor de Allah, a piedade, o arrependimento e o pedido de perdão, bem como sentimentos de caráter elevado e puro. Ele se despede de seus queridos parentes e amigos, colegas de trabalho e de todas as pessoas relacionadas a ele. Começa a dar uma forma definitiva a todos os seus negócios e atividades. Tem-se a impressão de que ele já não é a pessoa de antes; a atração de seu coração por Allah aumentou e seu interior se tornou puro. Assim, pode-se imaginar quão profunda é a influência que a transformação de cada peregrino exerce sobre as pessoas ao seu redor. Se, todos os anos, uma média de cem mil pessoas de diferentes partes do mundo realizar o hajj, a influência de seus movimentos e atividades não poderá deixar de alcançar o caráter de vários outros centenas de milhares de pessoas. Além disso, nos lugares por onde passam as caravanas de peregrinos, ao vê-los, encontrá-los e ouvir suas vozes dizendo “Labbaik”, quantos corações se enchem de um sentimento extraordinário! Quantas pessoas voltam sua atenção para a Casa de Allah! E quantas almas adormecidas despertam com o entusiasmo de realizar o hajj! Quando essas pessoas retornam então aos seus próprios países, espalhando por diferentes partes do mundo o espírito vivificante do hajj, e grupos de pessoas vêm encontrar-se com elas e ouvem de seus lábios relatos sobre a Casa de Allah, o espírito islâmico desperta no coração de incontáveis pessoas e em inúmeros ambientes.
É por isso que quero dizer que, assim como o mês do Ramadã é a temporada de taqwa e piedade para os muçulmanos de todo o mundo, os meses do hajj também são a temporada do renascimento islâmico mundial. O Deus Todo-Poderoso e Sábio estabeleceu esse sistema para que o movimento islâmico mundial não enfraquecesse. Ele estabeleceu a Caaba Sagrada como o centro do mundo, à semelhança da posição do coração no corpo humano. Por mais enfermo que esteja o corpo, enquanto as batidas do coração não cessarem e o sistema de circulação sanguínea de todo o corpo não parar, a pessoa não morre; da mesma forma, enquanto esse sistema da reunião do hajj continuar existindo, o movimento islâmico também continuará.
Basta fechar um pouco os olhos e refletir para que se torne claro diante de vocês: embora as inúmeras pessoas que vêm de regiões distantes do mundo sejam diferentes em aparência, cor da pele, idioma e vestimenta, assim que se aproximam do centro, todas chegam a um local determinado, retiram suas próprias roupas e vestem um “uniforme” simples do mesmo tipo. Depois de vestir esse “uniforme” do ihram, fica claro que as milhões de tropas que vêm das milhares de nações do mundo são, todas elas, tropas do único Allah, Rei do mundo e Soberano dos céus e da terra. Elas foram recrutadas entre milhares de nações e povos do mundo. Todas pertencem ao exército do mesmo rei. Todas trazem sobre si o sinal de obediência e servidão ao mesmo imperador; estão todas unidas entre si pelo vínculo de obediência ao mesmo rei e correm na direção da mesma capital, para comparecer diante do Grande Soberano. Quando esse soldado, trajando o mesmo “uniforme”, atravessa o miqat e avança, o mesmo clamor ressoa das vozes de todos, enchendo o céu e o ar:لبيك اللهم لبيك لبيك لا شريك لك لبيك إن الحمد والنعمة لك والملك،
As vozes que os pronunciam são diferentes, mas o clamor é o mesmo em todas elas. Quanto mais se aproximam do centro, mais diminuem as diferenças. As caravanas de diferentes países se encontram, e todos, reunidos, realizam a oração da mesma maneira; as vestimentas de todos são iguais, o imam de todos é o mesmo, todos rezam com os mesmos movimentos e na mesma língua, todos se levantam e se sentam, fazem o rukū e o sujūd ao sinal de um único “Allahu Akbar”, e todos recitam e escutam o Alcorão na mesma língua árabe. Assim, as diferenças artificiais de língua, nação, país, linhagem e tribo entre os milhões reunidos são destruídas e se fundem numa só. Da reunião de toda a humanidade forma-se uma enorme comunidade dos que “creem em Allah”. Então, essa grande comunidade internacional continua avançando, entoando o mesmo clamor: “Labbaik, Labbaik”. Quando esse clamor se eleva em cada subida e descida do caminho, quando esse som ecoa nos momentos da oração e ao amanhecer, e quando ressoa no momento em que as caravanas se encontram, cria-se ao redor uma atmosfera extraordinária. Nessa atmosfera, a pessoa se esquece de si mesma e fica arrebatada por um estado impossível de conceber; atraída pelo clamor de “Labbaik”, corre para um mundo espiritual. Depois, ao chegar à Caaba, circundar o ponto central determinado, usando todos a mesma vestimenta, como um mar de pessoas vindas de diferentes centros do mundo; correr todos juntos entre os montes Safa e Marwa; permanecer todos em Mina, vivendo em tendas e ouvindo ali o sermão pronunciado pela voz de um único imam; passar a noite sob as tendas em Muzdalifa; retornar todos novamente em direção a Mina; apedrejar juntos a Jamarat de Aqaba; oferecer todos o sacrifício; e reunir-se todos no mesmo centro para realizar a oração — o ambiente sagrado e o estado espiritual criados por essas ações não têm comparação em nenhuma outra religião ou sistema de vida do mundo.
Depois, o fato de inúmeras pessoas vindas de diferentes povos do mundo se reunirem num mesmo centro com tanta devoção, concentração e espírito de unidade, cumprindo todas as tarefas com objetivos e sentimentos tão puros e ações tão íntegras, é, na verdade, uma grande bênção para os filhos de Adão. Nenhuma religião além do Islã pôde conceder essa bênção. A reunião dos diferentes povos do mundo não é algo novo; sempre ocorreu. Mas suas conferências realizam-se no campo de batalha para cortarem a garganta uns dos outros; ou em conferências de paz para dividirem entre si os países vencidos; ou em assembleias das nações para espalharem, contra cada povo, redes de engano, conspiração, opressão e traição; ou ainda com o propósito de prejudicar os outros e alcançar os próprios interesses. Reunir o povo de todas as nações com corações puros, bom caráter e sentimentos nobres, com amor, afeição, devoção e unidade mental e espiritual; reunir-se com plena concentração de pensamento, ação e propósito — e, além disso, não se contentar com uma única reunião, mas reunir-se todos os anos no mesmo centro para sempre: terá algum outro sistema religioso no mundo, além do Islã, sido capaz de conceder à humanidade uma bênção tão grandiosa? Para estabelecer a paz mundial, resolver os conflitos e disputas entre as nações e, em vez de lutas e brigas, criar um ambiente de amor, amizade e fraternidade, alguém pôde apresentar sistema melhor do que este? O Islã não se limitou a isso; instituiu ainda muitos outros meios benéficos.
Quatro meses do ano foram designados para a realização do Hajj e da Umrah. O Islã ordenou que, durante esses quatro meses de viagem à Caaba, a paz fosse preservada ao longo de todo o caminho. Este é um sistema permanente para estabelecer e manter a paz mundial. Se a autoridade política do mundo estivesse nas mãos do Islã, por causa do Hajj e da Umrah o mundo poderia ser protegido para sempre da guerra e do derramamento de sangue durante pelo menos um terço de cada ano.
O Islã concedeu à humanidade um santuário inviolável. Este santuário será um centro de paz até o Dia da Ressurreição. Aqui, para além de não ser permitido matar pessoas, nem sequer se pode caçar qualquer animal. Nem mesmo é permitido cortar a relva daqui. Nenhum espinho daqui pode ser quebrado, e é proibido tocar em qualquer objeto que alguém tenha deixado aqui. O Islã estabeleceu uma cidade na face da Terra. Ninguém pode entrar nesta cidade portando qualquer arma. Armazenar cereais ou outros bens necessários e, com isso, provocar o aumento dos preços é claramente uma rebelião contra Allah. Àqueles que cometem injustiça contra outros neste lugar, Allah, o Excelso, advertiu dizendo: «Nudhiqhum min ‘adhābin alīm» — isto é: «Nós lhes infligiremos um castigo doloroso».
O Islã estabeleceu um centro para o mundo inteiro. A respeito da natureza desse centro, foi dito:سَوَاءً الْعَاكِفُ فِيهِ وَالْبَادِ ۚ«Aqueles que, reconhecendo a soberania e o reinado de Allah, bem como a profecia e a liderança de Muhammad Mustafa — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, entrarem na fraternidade islâmica terão todos direitos iguais neste centro do Islã.» Seja ele habitante da América ou da África, da China, de Bangladesh ou do Paquistão, se for muçulmano, terá em Makkah Sharif direitos iguais aos dos habitantes originais de Makkah. Toda a área do Haram Sharif é como uma mesquita. O muçulmano que vai à mesquita e ocupa um lugar para si passa a ter esse lugar à sua disposição; ninguém pode expulsá-lo dele, nem lhe pode cobrar aluguel. Mas, ainda que permaneça sentado nesse lugar durante toda a vida, não pode reivindicar sua propriedade nem vendê-lo. Tampouco pode cobrar aluguel por ele. Assim, quando essa pessoa deixar o lugar, outra poderá vir e ocupar ali um assento, tal como o ocupante anterior pôde fazê-lo. A situação do Haram Sharif é exatamente assim.
O Nobre Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: «O lugar da cidade de Makkah onde uma pessoa chegar e se instalar primeiro será dela.» Não é permitido cobrar aluguel pelas casas daqui. Umar Faruq — que Allah esteja satisfeito com ele — proibiu os habitantes daqui de fecharem as entradas dos pátios diante de suas casas, para que as pessoas pudessem entrar e permanecer em seus pátios. Alguns juristas chegaram a afirmar que ninguém é proprietário das casas da cidade de Makkah e que elas também não podem ser distribuídas segundo as regras de herança. Poderá a humanidade encontrar em algum outro lugar, além do Islã, essas valiosas bênçãos de oportunidades, facilidades e liberdade?
Foi a respeito de um Hajj como este que se disse: «Praticai-o e vereis quão grande benefício há nele para vós.» Não tenho capacidade para enumerar todos os seus benefícios, um por um. Ainda assim, a partir da breve descrição que apresentei acima até este ponto, será possível obter uma ideia clara a seu respeito.
Mas, depois de ouvirem tudo isso, escutem também um pouco da dor do meu próprio coração. O muçulmano hereditário é como uma criança nascida no interior de uma mina de diamantes. Quando essa criança, desde o momento do nascimento, vê apenas diamantes ao seu redor e brinca com pedaços de diamante, até mesmo uma riqueza tão preciosa quanto o diamante se torna, aos seus olhos, tão sem valor quanto uma pedra comum. Essa é exatamente a situação dos muçulmanos de nascimento. As valiosas bênçãos das quais o mundo inteiro está privado e cuja privação o mergulhou em diversas aflições e calamidades, e que toda a humanidade busca ansiosamente, os muçulmanos atuais obtiveram gratuitamente; para procurá-las, investigá-las e buscá-las, não tiveram de fazer sequer o menor esforço. Receberam-nas sem nada disso apenas porque, afortunadamente, nasceram em uma família muçulmana. A kalima do tawhid, que pode oferecer uma solução adequada para todos os complexos problemas da vida humana, entrou em seus ouvidos desde a infância. Para transformar as pessoas em seres verdadeiramente humanos e convertê-las em irmãos e amigos compassivos uns dos outros, a oração e o jejum são mais valiosos que a pedra filosofal. Eles receberam tudo isso ao nascer, como herança de seus pais e antepassados. O zakat é um sistema incomparável da sociedade islâmica; por meio dele, não apenas se purifica a impureza do coração, como também se estabelece a ordem na economia do mundo — uma ordem de cuja ausência as pessoas do mundo estão sugando o sangue do peito umas das outras. Os muçulmanos veem isso diretamente. Contudo, obtiveram-no sem custo e sem esforço. É exatamente como o filho de um grande médico, que, sentado em casa, recebe gratuitamente listas de grandes doenças, enquanto as outras pessoas as procuram com enorme empenho. O hajj também é um sistema grandioso; não há nada comparável a ele em todo o mundo. Para fazer chegar aos recantos da Terra a voz do movimento islâmico e mantê-lo vivo para sempre, não pode haver meio mais poderoso. Na verdade, para atrair todas as pessoas do mundo, de cada canto da Terra, em nome do Deus Único, reuni-las em um centro determinado e unir inúmeras linhagens, tribos e nações em uma fraternidade de crentes no Deus Único, dotada de boas intenções e cordialidade, até hoje não foi possível descobrir método superior a este. Esse sistema, vivo e praticado há eras, os muçulmanos também receberam como seu patrimônio, sem esforço e sem trabalho. Mas é profundamente lamentável que os muçulmanos não tenham compreendido o valor desse precioso patrimônio recebido sem esforço; pelo contrário, brincam com ele exatamente como brinca com um pedaço de diamante a criança nascida em uma mina de diamantes. E o consideram tão sem valor quanto uma pedra comum. Por causa de sua própria ignorância e falta de conhecimento, o muçulmano brinca de maneira extremamente vil com essa imensa riqueza preciosa e essa fonte de força. Desperdiça-a — destrói-a — e, ao ver tudo isso, meu coração arde. É realmente difícil suportar ver um precioso diamante arruinado nas mãos de quem tritura pedras. Um poeta certa vez disse, com toda a verdade:
“Embora o jumento de Jesus vá à terra de Meca,
ainda será um jumento, disso fica sabendo.”
Isto é: mesmo sendo o jumento de um grande profeta como Jesus, que a paz esteja sobre ele, não poderá obter benefício algum por contemplar a sagrada Meca. Mesmo que permaneça ali, continuará sendo exatamente o mesmo jumento que era antes.
Quer se trate da oração e do jejum, quer do hajj, o objetivo dessas práticas é treinar o ser humano. Mas aqueles que não querem compreender seu significado e objetivo, que não pensam nem um pouco em obter seus benefícios e seu bem, e que não têm a menor ideia de que essas formas de adoração possam ter qualquer propósito ou finalidade, se continuarem apenas imitando-as à maneira das pessoas de épocas passadas, não se poderá esperar delas esse resultado benéfico. Mas, infelizmente, em geral os muçulmanos de hoje praticam essas formas de adoração justamente assim. Mantêm corretamente a forma exterior de todas as práticas de adoração; contudo, como não atentam para a meta e o objetivo, nenhuma força vital se produz nelas. Todos os anos, milhares de pessoas vão ao centro do Islã e retornam tendo alcançado a bênção do hajj; no entanto, não se vê a mudança de caráter esperada em quem visita a Mesquita Sagrada, nem se observa qualquer efeito em sua vida mental e moral depois de voltar do hajj. Do mesmo modo, os habitantes muçulmanos e não muçulmanos das regiões atravessadas durante a viagem do hajj também não recebem qualquer influência de seu bom caráter. Pelo contrário, os maus hábitos, o temperamento irascível, o comportamento indecoroso e as fraquezas morais de muitos acabam destruindo a honra do Islã. É justamente por essas razões que muitos de nossos jovens muçulmanos perguntam: “Expliquem-nos o benefício do hajj.” Ora, o hajj deveria ser uma prática tal que, se fosse realizado de maneira genuína, até mesmo os descrentes veriam publicamente seus benefícios e abraçariam o Islã. Se milhões de membros de um movimento se reunissem todos os anos, em um só lugar, vindos de todas as regiões do mundo, e depois retornassem aos seus próprios países, atravessando diferentes países e cidades enquanto manifestassem, por sua vida pura, seus pensamentos puros e sua moralidade pura; se, onde quer que permanecessem ou por onde quer que passassem, não apenas proclamassem verbalmente todos os princípios fundamentais de seu movimento, mas também os concretizassem em seu comportamento e em suas atividades — e se isso continuasse não apenas por dez ou vinte anos, mas ano após ano, durante séculos e séculos — digam-me: poderia algo assim resultar de uma coisa inerte? Na realidade, se o hajj fosse assim, não haveria necessidade alguma de perguntar sobre seus benefícios. Então até o cego poderia ver seus benefícios, e o surdo poderia ouvir seu bem. O hajj de cada ano transformaria milhões de muçulmanos em servos virtuosos, levaria milhares de não muçulmanos a buscar refúgio sob a sombra do Islã e fixaria no coração de milhões de não muçulmanos a convicção da superioridade do Islã. Mas, que pena! Por causa de nossa ignorância, quão valioso patrimônio está sendo destruído.
Para que se possam obter plenamente essa grande realização e esses benefícios inerentes ao Hajj, deveria existir, no centro do Islã, uma autoridade dotada de grande poder, capaz de utilizar adequadamente essa grande força universal. Deveria haver aqui um coração capaz de fazer circular, todos os anos, sangue novo por todo o corpo do mundo. Também deveria haver um cérebro que, por meio desses milhares de mensageiros de Allah, procurasse transmitir a mensagem revolucionária do Islã aos centros de todo o mundo. Mesmo que nada mais houvesse, se ao menos existisse nesta terra central uma manifestação prática de um modo de vida genuinamente islâmico, os muçulmanos do mundo inteiro poderiam retornar todos os anos às suas próprias casas, levando dali lições de uma vida autenticamente islâmica e de devoção religiosa. Mas é motivo de grande tristeza que nada disso exista aqui. Durante longo tempo, as trevas da ignorância se acumularam na Arábia. Desde a era abássida até a era otomana, todos os governantes incapazes e inaptos, em vez de dar aos habitantes do centro do Islã a oportunidade de progredir, empurraram-nos durante vários séculos apenas na direção da decadência. Como resultado, a Arábia chegou ao limite extremo da decadência em todos os aspectos: conhecimento e ciência, caráter moral, civilização e cultura. Por isso, o território de onde outrora emanou a corrente luminosa do Islã, que inundou o mundo e se espalhou por toda a Terra, transformou-se hoje numa caverna escura, semelhante à era pré-islâmica da ignorância. Ali já não há conhecimento do Islã nem modo de vida islâmico. Todos os anos, pessoas chegam de lugares distantes ao Sagrado Haram, cheias de esperança e devoção; mas, ao alcançarem essa região e verem ao seu redor apenas ignorância, degradação, cobiça, impudência, culto do próprio ego, falta de caráter, desregramento e a cruel condição de decadência do povo, a teia dos seus sonhos, esperanças e aspirações se desfaz. Hoje, muitos realizam o Hajj e retornam com a sua fé ainda mais enfraquecida, em vez de fortalecida. Depois de Hazrat Ibrahim, que a paz esteja com ele, e Ismail, que a paz esteja com ele, durante a era da ignorância, o sacerdotalismo e o culto aos ídolos que haviam se espalhado pela Arábia e que o último Profeta, Hazrat Rasul-e-Karim, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia eliminado, foram hoje fortemente reinstaurados. O administrador do Haram da Caaba voltou a ocupar o lugar de servidor, como antigamente. A Casa de Allah transformou-se em propriedade deles. Aqueles que têm devoção por essa Casa são precisamente as suas presas. Grandes agentes assalariados estão nomeados em vários países; eles atraem os devotos de todas as direções e os trazem para cá. Leem para eles versículos do Alcorão e instruções dos hadiths, incentivando-os a empreender a viagem do Hajj, não para lhes recordar que Allah tornou o Hajj obrigatório para eles, mas porque isso lhes proporcionará uma renda considerável. Ao observar tudo isso, fica claro que Allah e o Seu Mensageiro teriam estabelecido esse enorme sistema apenas para sustentar esses sacerdotes, ‘pandas’, e intermediários. Depois, quando as pessoas, obrigadas a empreender a viagem do Hajj, saem de casa, desde o início da jornada até o retorno ao lar após o Hajj, em todos os lugares surgem diante delas, como sanguessugas, trabalhadores religiosos e comerciantes da religião. O muallim, o instrutor do tawaf, o portador da chave da Caaba e o próprio governo do Hijaz — todos participam igualmente desse comércio religioso. Todas as cerimônias do Hajj precisam ser realizadas mediante pagamento. Até mesmo a porta da Sagrada Casa da Caaba não pode ser aberta a nenhum muçulmano sem pagamento. (Que Allah nos proteja disso.) Esses supostos servidores do Islã e servidores do santuário central acabaram adotando a profissão dos eruditos e sacerdotes de Benares e Haridwar, embora tenha sido justamente o Islã que outrora extirpou esse sacerdotalismo. Onde a tarefa de conduzir a adoração se transformou num negócio especial e o local de adoração num meio de obter renda, os versículos de Allah são usados apenas com o objetivo de fazer as pessoas, ao ouvi-los, se sentirem obrigadas a realizar o Hajj e, nessa oportunidade, ter os seus bolsos saqueados. Onde é preciso pagar para cumprir os atos de adoração e os deveres religiosos se tornam mercadorias, como pode sobreviver a força vital do Islã na adoração realizada em tal lugar? Como se pode esperar que os peregrinos obtenham os verdadeiros benefícios morais e espirituais dessa adoração, quando todas as suas práticas se transformaram em mercadorias de compra e venda? Tal esperança é absolutamente impossível.
Não é meu objetivo, com esta discussão, acusar ninguém; quero apenas dizer quais coisas tornaram quase inativa e sem sentido uma força tão grandiosa como o Hajj.
Que ninguém imagine que há alguma falha no Islã ou nas regras instituídas pelo Islã. Pois, na realidade, não há falha alguma nele — a falha está naqueles que não seguem corretamente o Islã em sua totalidade. Portanto, os muçulmanos atuais são os responsáveis por essa situação. Assim, o sistema que poderia conduzi-los ao ideal perfeito da humanidade e cuja observância poderia tê-los tornado líderes hoje não produz nenhum bom resultado. A situação chegou a tal ponto de deterioração que as pessoas começaram a duvidar até mesmo se esse sistema é realmente benéfico para a humanidade. Se um médico altamente competente morre deixando uma lista de alguns medicamentos infalíveis, ela se torna completamente ‘inútil’ nas mãos dos seus herdeiros incompetentes e ignorantes. Consequentemente, assim como a lista perde todo o seu valor, o próprio médico também é difamado — por melhor, mais correta e mais infalível que seja a lista original. Portanto, para tornar eficaz essa lista perfeita, é indispensável possuir competência na ciência médica. Se pessoas inábeis e ignorantes prepararem os medicamentos de acordo com essa lista, não apenas nenhum benefício será obtido, como haverá grande possibilidade de causar danos. Assim, as pessoas ignorantes, incapazes de verificar por si mesmas a exatidão da lista, acabam começando a pensar que a própria lista é essencialmente errada. É exatamente essa a situação do Islã diante da decadência total dos muçulmanos atuais.
A realidade do jihad
O objetivo do jihad
Já foi apresentada anteriormente uma discussão detalhada sobre a oração, o jejum, a peregrinação e o zakat. No decorrer daquela discussão, repeti várias vezes que esses atos de adoração não são, como os atos de adoração de outras religiões, meramente cerimônias de culto, veneração e peregrinação; portanto, Allah, o Altíssimo, não pode comprazer-se com alguém apenas porque este se limita a cumprir essas poucas práticas. Na realidade, esses atos de adoração foram prescritos aos muçulmanos precisamente para prepará-los para um grande objetivo e torná-los plenamente capacitados para uma grande tarefa de responsabilidade. Já expliquei detalhadamente como eles preparam o muçulmano para esse grande objetivo e como, por meio deles, o muçulmano adquire a capacidade e a aptidão para realizar essa grande tarefa. Agora tentarei analisar esse grande objetivo e apresentá-lo em detalhes.
Em resumo, pode-se dizer que o objetivo fundamental desses atos de adoração é eliminar, da vida humana, o domínio de tudo o que não seja Allah — isto é, o domínio das demais forças além de Allah — e estabelecer unicamente o domínio de Allah; e o empenho total, com a dedicação do coração e da alma, para alcançar esse objetivo é o que se chama jihad. Os atos de adoração, como a oração, o jejum e o zakat, preparam o muçulmano de todas as formas para essa tarefa. Porém, os muçulmanos vêm esquecendo, há gerações, esse grande objetivo e essa imensa tarefa. Toda a sua adoração e devoção transformaram-se em meras cerimônias sem sentido. Por isso, considero que uma breve apresentação da jihad não é de modo algum suficiente para que se tome pleno conhecimento de seu grande objetivo e finalidade subjacentes. É, portanto, necessário discutir o assunto detalhadamente.
A causa fundamental de todos os pecados, da desordem e das dores e sofrimentos que permanecem no mundo é a falha estrutural do Estado e do sistema de governo: todo o poder e todos os recursos permanecem sob o controle do governo. É o governo que cria e promulga as leis; todos os poderes relativos à manutenção da ordem e da disciplina do país, à administração e ao governo constituem prerrogativa exclusiva do governo. O poder da polícia e das forças armadas permanece nas mãos do governo. Portanto, não pode haver dúvida de que toda a desordem e todo o pecado existentes no mundo são criados pelo próprio governo ou podem ser praticados livremente com sua ajuda e apoio, diretos ou indiretos. Isso porque ninguém, além do governo, pode dispor da força necessária para promover e perpetuar qualquer coisa no país. Basta abrir os olhos e observar para ver que o adultério é praticado livremente em todas as partes do mundo — esse ato pecaminoso é cometido abertamente em edifícios e residências. Mas qual é a razão disso? A única razão é que, aos olhos das autoridades do Estado e do governo, o adultério não constitui um crime particularmente grave.
Pelo contrário, eles próprios estão envolvidos nessa prática e também arrastam outros para ela. Caso contrário, se o governo quisesse pôr fim a essas práticas pecaminosas, elas não poderiam continuar de maneira tão descarada. Por outro lado, os negócios baseados em juros continuam incessantemente. Os ricos sugam o sangue fresco e quente do peito dos pobres, reduzindo-os à completa miséria. Mas a questão é: como isso pode acontecer? A única razão é que o próprio governo cobra juros e ajuda e apoia os usurários. Os tribunais do governo proferem sentenças favoráveis aos juros e, por receberem o apoio deles, grandes bancos e agiotas estão por toda parte de cabeça erguida. Atualmente, a falta de vergonha e a degradação moral aumentam dia após dia em diferentes países e sociedades do mundo. A única razão para isso também é que o próprio governo ensina as pessoas dessa maneira e molda seu caráter de acordo com isso. O governo ama e aprova o modelo de caráter humano que se vê por toda parte. Nessas circunstâncias, se alguém quiser tentar oferecer ao povo uma educação completamente diferente e formar um caráter moral distinto, não poderá alcançar o sucesso. Pois, em geral, os particulares não conseguem reunir os meios e recursos absolutamente indispensáveis para essa vitória. E, mesmo que, após esforços especiais, consigam formar algumas pessoas assim, torna-se difícil para elas permanecerem firmemente fiéis aos seus próprios ideais no sistema social e estatal vigente. Isso porque as chaves de todas as portas que dão acesso aos meios de ganhar a vida e a todas as formas pelas quais pessoas de caráter diferente poderiam sobreviver estão nas mãos do atual governo corrupto e extraviado. No mundo, ocorrem incontáveis assassinatos, ferimentos e derramamentos de sangue. Hoje, a inteligência e o conhecimento humanos estão empenhados precisamente em inventar meios para destruir toda a humanidade. Os bens necessários, obtidos pelo trabalho árduo das pessoas, estão sendo queimados e destruídos pelo fogo. Inúmeras vidas humanas preciosas estão sendo brutalmente ceifadas, como se fossem vasos de barro sem valor. Mas por que isso acontece? A única razão é que, entre os filhos da humanidade, justamente os mais satânicos por natureza e mais desprovidos de caráter se tornaram hoje os “líderes” das nações do mundo e usurparam para si a força soberana da autoridade e do domínio.
Hoje, o poder está inteiramente em suas mãos; por isso, o mundo é obrigado a seguir na direção para a qual eles o conduzem. No campo do conhecimento e da ciência, da riqueza, do trabalho e do esforço, bem como do uso e da aplicação da vida e das energias humanas, tudo hoje está sendo consagrado àquilo que eles determinaram. Atualmente, reina no mundo um domínio intenso da opressão e da injustiça. A vida dos fracos tornou-se extremamente penosa. Os tribunais daqui já não são tribunais de justiça; hoje se transformaram em verdadeiras lojas de comerciantes. Aqui, hoje, só se pode comprar “justiça” com dinheiro. Hoje, os impostos são cobrados das pessoas à força e por coerção. E não há qualquer limite para o seu montante. O governo gasta sem critério a riqueza obtida com o suor e o sangue dos pobres, pagando salários e benefícios régios aos altos funcionários (oferecendo chás e festas de coquetel a ministros e embaixadores), construindo grandes edifícios, adquirindo munições e armas para guerras e conflitos, e realizando inúmeras outras atividades sem sentido desse tipo. Agiotas e usurários, proprietários de terras, reis e nobres que receberam ou aspiram a títulos, pirs e sacerdotes ocupantes de tronos espirituais, donos de companhias cinematográficas, comerciantes de bebidas alcoólicas, editores e vendedores de livros e revistas obscenos, jogadores e incontáveis outros estão hoje destruindo tudo: a vida e os bens, a honra e a dignidade, o caráter e a moralidade dos seres humanos indefesos criados por Allah. Mas por que não há ninguém para impedi-los? Porque a máquina do Estado entrou em colapso. Os poderosos se desviaram por si mesmos. Eles não apenas cometem injustiças, como também ajudam outros opressores. Em suma, a única razão pela qual toda essa opressão é praticada em diferentes países é que os governos atuais a favorecem e a toleram silenciosamente.
Espero que, após esta longa discussão, tenha ficado claro que a fonte fundamental de todas as calamidades é a corrupção do governo. A deterioração das opiniões e do pensamento das pessoas, a corrupção da crença, o desperdício das forças, talentos e capacidades humanas em caminhos errados, a adoção de princípios e costumes mortíferos no comércio, a propagação da opressão, da injustiça e de ações repugnantes, e o avanço gradual da humanidade em direção à destruição — a causa fundamental de tudo isso é uma só: a liderança e o poder da sociedade e do governo passaram às mãos de pessoas perversas e corruptas. Se as chaves do poder e da riqueza estiverem nas mãos de pessoas más, e se todos os meios de subsistência também estiverem sob seu controle, elas não apenas se tornarão ainda piores, como também empurrarão o mundo inteiro para uma destruição ainda maior; e a calamidade generalizada resultante de seu apoio e proteção se manifestará de maneira ainda mais terrível. Na verdade, é absolutamente claro que, enquanto o poder permanecer em suas mãos, nenhum esforço, por maior que seja, para realizar uma reforma parcial poderá ter êxito.
Depois de compreender este princípio fundamental, o assunto principal pode ser entendido com muita facilidade. Não há outro caminho senão organizar o sistema estatal e a política de ação do governo para eliminar a miséria das pessoas, salvá-las da destruição iminente e conduzi-las por um grande caminho de benefício. Até uma pessoa de inteligência comum pode compreender que, num país onde os habitantes tenham plena liberdade para cometer adultério, mil sermões contra o adultério jamais poderão impedi-lo. Porém, se o poder estatal for tomado e a força for empregada para impedir o adultério, o próprio povo será obrigado a abandonar os caminhos proibidos e adotar meios lícitos. Se alguém quiser interromper apenas por meio de sermões e exortações a propagação do álcool, da maconha, da usura, do suborno, de filmes e espetáculos obscenos, de roupas seminuas, da educação contrária à moralidade e de todos os pecados desse tipo, isso jamais será possível. Contudo, se quiser interrompê-los mediante o poder estatal, poderá fazê-lo facilmente. Aqueles que exploram o povo e corrompem seu caráter não podem ser impedidos de seus negócios lucrativos apenas por palavras. Mas, se alguém obtiver poder e tentar pôr fim a essas práticas injustas, todas as portas do pecado serão fechadas com extrema facilidade.
Se for necessário interromper o desperdício do trabalho, do esforço, da riqueza, dos talentos e das capacidades humanas e aplicá-los em caminhos corretos e saudáveis; se for necessário estabelecer justiça e equidade encerrando a opressão; se for necessário salvar as pessoas, protegendo o mundo da destruição, das garras terríveis da ruína e de toda forma de exploração; se for necessário elevar as pessoas degradadas e estabelecer uma verdadeira igualdade, concedendo a todos o mesmo nível de honra, educação e cultura, então nada disso poderá ser realizado de modo algum apenas por sermões e exortações verbais. Porém, se o poder estatal for empregado para isso, a tarefa poderá ser concluída com muita facilidade. Portanto, não há dúvida de que nenhum esforço de reforma social pode ser bem-sucedido sem o emprego do poder estatal. Isso se tornou hoje tão claro que não é necessária muita reflexão ou investigação para compreendê-lo. Hoje, para quem quiser realmente remover do mundo a desordem e a corrupção e desejar sinceramente estabelecer paz e prosperidade, não faz absolutamente sentido limitar-se a ser pregador ou conselheiro. É preciso levantar-se, acabar com o sistema governamental estabelecido sobre princípios equivocados, retirar o poder estatal das mãos daqueles que seguem princípios errados e formar um Estado e um governo baseados em princípios corretos e em princípios puros (islâmicos).
Depois de compreender esta teoria, avance mais um passo. Já foi demonstrado anteriormente que a causa fundamental de toda a corrupção e de toda a inquietação que se espalham na vida das pessoas do mundo é o erro do Estado e do governo. Também foi explicado que, se se pretende realizar uma reforma, é preciso, antes de tudo, reformar suas raízes fundamentais. Mas a questão é: qual é a causa fundamental dos defeitos e falhas do próprio Estado e do governo, e por meio de qual reforma essencial se poderá fechar para sempre a porta dessas calamidades?
A única resposta é esta: o domínio de seres humanos sobre outros seres humanos é, na realidade, a causa fundamental de todas as calamidades. Portanto, como único meio de reforma, é necessário eliminar o domínio humano sobre os seres humanos e estabelecer o domínio de Allah. Não há motivo para se admirar ao ouvir uma resposta tão breve para uma questão tão grandiosa. Na realidade, quanto mais se investigar e pesquisar a resposta a essa questão, mais se reconhecerá que somente esta afirmação pode ser a resposta correta.
Pensem um pouco: foi Allah Ta’ala quem criou os seres humanos que vivem no mundo, ou foi outra pessoa? Foi Allah quem criou os seres humanos desta Terra, ou foi outro? É Allah quem providencia os inúmeros meios e recursos necessários para a subsistência das pessoas, ou alguma outra força? Essas perguntas só podem ter uma resposta, e nenhuma outra resposta pode ser realmente possível: os seres humanos da Terra e todos esses bens e materiais foram criados unicamente por Allah Ta’ala. Em outras palavras, esta Terra pertence a Allah; Allah é o único proprietário de toda a riqueza; os seres humanos são súditos exclusivamente de Allah. Nessas circunstâncias, que direito alguém poderia ter de exercer autoridade no reino de Allah? Como poderiam vigorar sobre os súditos de Allah leis elaboradas por outro que não Allah, ou leis elaboradas pelos próprios súditos? O país e o reino pertenceriam a um, mas nele vigorariam as leis de outro. A propriedade pertenceria a um, mas outro se sentaria como proprietário. Os súditos pertenceriam a um, mas o domínio e a autoridade sobre eles seriam estabelecidos por outro. Como a razão e a consciência sãs dos seres humanos poderiam aceitar isso? Além disso, essa afirmação é completamente contrária à verdade real. E, por ser totalmente contrária à verdade real, sempre que e onde quer que isso tenha ocorrido, suas consequências foram extremamente graves. As pessoas que obtêm o direito de legislar e exercer domínio são obrigadas a cometer enormes erros de várias formas, devido à sua ignorância e incapacidade naturais. Muitas vezes, também, levadas por seus desejos animalescos, começam deliberadamente a cometer opressão e injustiça. A primeira razão é que lhes faltam o conhecimento, a inteligência e a ciência necessários para formular regras e leis perfeitas, capazes de solucionar e administrar corretamente os problemas e assuntos humanos.
Em segundo lugar, justamente porque não possuem de modo algum no coração o temor de Allah nem o receio de ter de prestar contas diante d’Ele, eles se tornam completamente como feras desenfreadas — e isso é o mais perigoso de tudo. Que dúvida pode haver de que, quando uma pessoa não tiver no coração nem sequer um vestígio do temor de Allah, não pensar em prestar contas diante de nenhuma força superior e, pelo contrário, estiver tranquila por acreditar: “Em lugar algum existe uma força que possa exigir explicações de mim”, tal pessoa, ao obter poder, se transformará numa fera selvagem e desenfreada? Não é necessário possuir muita inteligência ou conhecimento para compreender isso. Quando o controle exclusivo sobre a vida e a subsistência das pessoas, bem como sobre os meios necessários à sua sobrevivência, cair nas mãos dessas pessoas, quando as cabeças de milhões e milhões de seres humanos se curvarem diante delas, será possível esperar, de alguma forma, que continuem preservando os ideais de honestidade, justiça e equidade? Pode-se confiar que elas não tentarão usurpar os direitos alheios, pilhar riquezas por meios ilícitos e transformar os servos de Allah em escravos submissos de seus instintos bestiais? De modo algum. Existe alguma razão para supor que tais pessoas permanecerão no caminho reto e conduzirão os outros ao caminho correto? Nunca. Isso é essencialmente impossível; que acontecesse seria totalmente contrário à razão e à consciência. A experiência de milhares de anos testemunha contra isso. Ainda hoje, basta abrir os olhos para ver provas concretas da quantidade de opressão, traição e extrema hostilidade contra a humanidade que aqueles que não têm no coração o temor de Allah nem o receio de prestar contas na Outra Vida podem cometer quando obtêm força e poder. Portanto, hoje é preciso desferir um golpe total na própria base do sistema estatal e do método de governo. Ou seja, é necessário eliminar o poder de dominação dos seres humanos sobre os seres humanos e estabelecer, em seu lugar, a soberania exclusiva de Allah Ta‘ala e o direito de legislar.
Depois disso, aqueles que estabelecerem e administrarem um governo sobre a base da soberania de Allah jamais poderão sentar-se eles próprios como reis supremos e senhores absolutos; deverão dirigir os assuntos do Estado reconhecendo somente Allah como o único Rei e atuando como Seus representantes. Essa responsabilidade é uma grande confiança depositada neles por Allah. Eles devem lembrar necessariamente que, no fim, chegará o dia em que terão de prestar contas dessa confiança diante do Grandioso Allah, que conhece tudo, o oculto e o manifesto. A lei fundamental do Estado deverá ser a legislação concedida por Allah, pois Ele conhece perfeitamente as realidades profundas de todas as coisas; somente Ele é a fonte de todo conhecimento. Portanto, ninguém terá o poder ou o direito de alterar ou acrescentar sequer um ponto à Sua lei e às Suas prescrições. Somente assim eles poderão permanecer para sempre protegidos contra a intromissão indevida da ignorância, do egoísmo e dos desejos bestiais indesejáveis dos seres humanos.
O Islã veio ao mundo justamente assumindo a responsabilidade por essa reforma fundamental. Ele deseja corrigir dessa maneira a própria fonte de todas as desordens. Aos que reconhecerem Allah como seu Rei — não apenas um rei verbal e imaginário, mas um Rei real — e acreditarem na legislação que Ele enviou ao mundo por intermédio de Seu Profeta, o Islã apresenta esta exigência: que se empenhem para aplicar as leis e prescrições de seu Rei no reino d’Ele. É preciso enfraquecer o poder dos súditos desse Rei que se rebelaram e se sentaram eles próprios como reis supremos, e proteger os súditos de Allah do perigo de se tornarem “súditos” de outras forças. Na perspectiva do Islã, não é de modo algum suficiente simplesmente reconhecer Allah como “Allah” e Sua lei como o modo de vida; junto com isso, recai naturalmente sobre eles o dever de que, onde quer que vivam, qualquer que seja o país ou reino onde tenham sua residência, devem dedicar-se ali ao esforço de reformar as pessoas. Devem substituir o sistema estatal equivocado daquele lugar por um sistema correto. Devem tomar das mãos dos ateus rebeldes contra Allah e daqueles que transgridem os limites determinados por Allah a elaboração das leis e a responsabilidade, assumindo-as eles mesmos, e conduzir os assuntos do Estado segundo a legislação de Allah, com uma consciência desperta de que prestarão contas na Outra Vida e reconhecendo Allah como ‘Alim al-Ghayb, o Conhecedor do Invisível. Em verdade, empenhar-se e esforçar-se com esse objetivo é precisamente o que se chama jihad.
Não há dúvida de que o poder de governar e o direito de administrar o Estado são, por sua própria natureza, tarefas extremamente complexas e repletas de responsabilidade. Assim que surge no coração de alguém o desejo de obtê-los, acende-se naturalmente dentro dele a chama ardente da ambição. Quando uma pessoa obtém riqueza material e o direito de exercer autoridade sobre os outros, sua ambição latente desperta; então nasce o desejo de estender domínio absoluto sobre as pessoas. Tomar posse do poder estatal não é uma tarefa muito difícil; porém, depois de obtê-lo, cumprir o dever não como um deus, mas como um “servo obediente de Allah”, é muito mais difícil. Portanto, se você depuser um Faraó e depois se sentar no lugar dele como um “Faraó”, na realidade nada terá sido conquistado. Por isso, antes de colocá-lo diante dessa enorme prova de fogo, o Islã considera indispensável prepará-lo completamente para ela. Se o egoísmo e a arrogância não forem removidos da sua própria mente e do seu coração, se sua mente e sua alma não forem purificadas, se você não estiver preparado para se empenhar e lutar sinceramente com o objetivo de alcançar a satisfação de Allah e promover o bem de toda a humanidade, em vez de lutar por seus próprios interesses ou pelos interesses nacionais; além disso, se, depois de obter o poder estatal, você não adquirir a capacidade de governar segundo a legislação de Allah, com sincero entusiasmo no coração, em vez de se tornar um deus seguindo sua própria cobiça e seus maus impulsos, então ninguém poderá ter o direito de reivindicar o poder estatal e começar a lutar contra as forças da falsidade do mundo.
O simples fato de pronunciar a profissão de fé e entrar nos limites do Islã não concede nem autoriza você a atacar as pessoas. Pois, nesse caso, você também começaria a praticar exatamente a mesma maldade que os atuais rebeldes contra Allah e opressores do mundo praticam. Pelo contrário, antes de ordenar que você assuma uma responsabilidade tão grandiosa, o Islã deseja criar em você a capacidade de cumpri-la devidamente.
Na verdade, no Islã, as adorações como a oração, o jejum, o hajj e o zakat foram prescritas precisamente como preparação para esse objetivo. Todos os poderes estatais do mundo proporcionam primeiro um treinamento especial aos membros de seus exércitos, forças policiais e serviços civis. Depois que a pessoa demonstra ser apta nesse treinamento, é designada para uma tarefa específica. O Islã também deseja oferecer primeiro aos seus servidores um treinamento especial, segundo um método particular. Somente depois disso lhes é confiada a responsabilidade do jihad e do estabelecimento de um governo islâmico. Contudo, existe uma enorme diferença entre as duas coisas. Nas tarefas para as quais os Estados do mundo designam seus funcionários, não há qualquer necessidade de caráter moral puro, de pureza e inocência do coração, nem de desenvolver o temor de Allah. Por isso, eles se esforçam apenas para torná-los competentes. E, depois de se tornar competente, se ele for adúltero, alcoólatra, desonesto e egoísta, isso ainda não será motivo de objeção. Mas o trabalho que o Islã confia aos seus servidores é, do início ao fim, inteiramente de natureza moral.
Portanto, no Islã, dá-se muito mais importância a despertar neles o temor de Allah e a purificar sua mente e sua alma do que a torná-los «qualificados». O Islã deseja despertar neles força suficiente para que, quando se levantarem reivindicando estabelecer o governo de Allah na terra, possam provar, na prática, a sinceridade e a honestidade dessa reivindicação. Que jamais lutem para obter suas próprias riquezas, terras, países e reinos, honra e domínio. Que lutem sinceramente pela causa de Allah e pelos milhões de servos de Allah, e que isso seja espontaneamente demonstrado por meio de suas ações. Quando forem vitoriosos, que não se tornem arrogantes, orgulhosos e rebeldes contra Allah; que, ainda então, suas cabeças humildemente inclinadas permaneçam prostradas diante de Allah. Quando forem governantes, que não transformem as pessoas em seus escravos servis. Pelo contrário, que eles próprios vivam como servos de Allah. E que procurem fazer também dos demais seres humanos servos unicamente de Allah. Se tiverem assumido o controle do tesouro do Estado, que não o esbanjem apenas para encher os bolsos próprios, de sua família ou de seus compatriotas. Que distribuam o tesouro de Allah entre os Seus servos com justiça e equidade, agindo como um depositário fiel e lembrando-se de que um olho invisível certamente os observa — há Alguém acima, de cujo olhar não podem de modo algum esconder-se, e a Ele terão de prestar contas de cada centavo.
Na realidade, não é possível formar as pessoas para esse propósito por nenhum outro meio além destas formas específicas de adoração prescritas pelo Islã. E, ao formar as pessoas dessa maneira, o Islã lhes diz: agora vocês são os bons e virtuosos servos de Allah na terra; avancem, lutem e combatam, afastem os rebeldes contra Allah do poder estatal e tomem em suas mãos todo o poder e toda a autoridade.
É fácil compreender que, onde os funcionários encarregados de todas as funções governamentais — exército, polícia, tribunais, prisões, cobrança de impostos e assim por diante — forem tementes a Allah e conscientes da inevitabilidade de prestar contas a Allah na vida futura; onde todas as regras e leis de administração do Estado e do governo forem formuladas com base na lei de Allah; ali não haverá espaço para a injustiça e a ignorância. Quando todos os caminhos do pecado e da prática pecaminosa forem fechados no devido tempo, e o próprio governo se empenhar, gastando força e recursos, em promover a justiça, a virtude e uma mentalidade de pureza, não pode haver a menor dúvida de que a humanidade alcançará um bem-estar integral. Se tal governo se dedicar, por meio de esforços e cuidados contínuos, durante algum tempo, à formação do caráter e da natureza das pessoas; se forem fechadas todas as fontes de obtenção ilícita de riqueza, do pecado, da opressão, da impudência e da depravação moral; se abandonar políticas educacionais e de treinamento defeituosas e continuar formando as atitudes e os pensamentos das pessoas por meio de um sistema educacional saudável e perfeito, então, sob seu governo, a sociedade oferecerá às pessoas a oportunidade de viver em um ambiente de justiça e equidade, paz, segurança, bom caráter e pureza de natureza; então terá início uma transformação radical do ser humano. O olho que havia ficado cego por ter vivido longo tempo sob a liderança de pecadores e rebeldes contra Allah tornar-se-á gradualmente, por si mesmo, capaz de ver a verdade e fiel a ela. E o coração que se havia coberto de manchas e se tornado impuro por estar cercado pela imundície moral tornar-se-á pouco a pouco claro como um espelho, despertando nele a capacidade de receber a influência da verdade.
Na realidade, será fácil para todos, naquele ambiente, compreender profundamente que Allah é o único Senhor de todos, que ninguém além d’Ele é digno de adoração e que o Profeta por meio de quem receberam a mensagem dessa verdade é um profeta verdadeiro e veraz. O que hoje parece muito difícil de explicar ocupará então espontaneamente a mente de todos. O que hoje não se consegue explicar por meio de discursos e livros será, naquele tempo, tão fácil de compreender que não apresentará a menor complexidade. Aqueles que puderem testemunhar a enorme diferença entre agir segundo opiniões e caminhos concebidos pelos seres humanos e agir de acordo com a lei determinada por Allah acharão muito fácil acreditar na unicidade absoluta de Allah (tawhid) e na veracidade de Seu mensageiro, e tornar-se-á extremamente difícil negar isso. Com efeito, depois de conhecer a diferença entre flores e espinhos, é fácil colher flores e difícil recolher espinhos. Naquele tempo, será muito difícil negar a verdade do Islã e apegar-se ao kufr e ao shirk. Talvez, mesmo no pior dos casos, tal obstinação seja encontrada em apenas dez pessoas entre mil, não mais.
Espero que, a partir da discussão anterior, os leitores tenham compreendido claramente para que finalidade maior foram prescritos a oração, o jejum, a peregrinação e a zakat. Até hoje, porém, eles foram considerados meros rituais de culto, e durante muito tempo essa concepção equivocada foi profundamente arraigada. Não se divulgou até hoje que foram prescritos precisamente como preparação para uma tarefa grandiosa e elevada. Por essa razão, os muçulmanos vêm realizando esses rituais sem qualquer objetivo definido; mas nenhuma ideia de preparação para a tarefa principal despertou em suas mentes. Embora essas formas de adoração tenham sido prescritas fundamentalmente para isso, quero dizer que, sem o desejo de jihad e sem tomar o jihad como objetivo, essas formas de adoração são absolutamente sem sentido. Se alguém imaginar que é possível alcançar a proximidade de Allah praticando rituais sem sentido desse tipo, a veracidade disso será definitivamente demonstrada no Dia do Juízo.
A importância do jihad
Anteriormente, em vários folhetos, foi explicado em detalhe o significado de termos islâmicos como Din, Sharia e ibadah. Aqui, basta fazer apenas uma breve referência a isso, conforme a ocasião. “Din” significa obediência; à lei dá-se o nome de Sharia; e ibadah significa servidão e escravidão. Quando você reconhece a obediência a alguém e o aceita como seu governante e legislador, isso significa que você adotou o seu “Din”. Além disso, quando você o reconhece como seu legislador e, na prática, se torna seu súdito, suas ordens e proibições, bem como as regras e métodos por ele determinados, adquirem para você a condição de lei ou Sharia. Nessa situação, você vive de acordo com a sua “Sharia”; cumpre tudo o que ele exige; obedece a cada uma de suas ordens; abstém-se das ações que ele proíbe; continua a agir dentro dos limites que ele declara apropriados para suas ações; e não apenas isso: todas as suas relações mútuas, atividades, vínculos de parentesco, inimizades e litígios são conduzidos de acordo com as regras e disposições por ele estabelecidas. Você considera sua opinião e decisão finais e inclina a cabeça diante dele; portanto, esse seu comportamento pode ser chamado de sua ibadah ou servidão a ele.
Dessa análise ficou claramente compreendido que, essencialmente, Din é o Estado e o governo; Sharia é a sua lei; e seguir devidamente suas leis, regras e costumes é chamado de ibadah. Quem quer que você aceite como governante e autoridade suprema do Estado, reconhecendo sua submissão a ele, você estará, em essência, incluído no seu Din. Se esse governante e autoridade estatal for Allah, você estará sob o Seu Din; se for algum rei ou monarca, será considerado que você aceitou o “Din” do monarca. Se você conceder esse status a uma determinada nação, terá aceitado o “Din” dessa nação. E, se conceder esse direito à sua própria nação ou ao povo do seu país, terá aceitado o “Din” do povo. Em suma, a quem quer que você obedeça, na realidade estará seguindo o seu Din; e a quem quer que obedeça em sua lei, estará, em essência, prestando ibadah.
Depois disso, não deve ser nem um pouco difícil compreender também esta verdade simples: uma pessoa não pode, de modo algum, seguir dois “Dins” no mesmo período. Entre vários governantes, só é possível seguir, em essência e na prática, um deles de cada vez. Entre várias leis, uma só pode assumir a responsabilidade pela vida de uma pessoa, e entre inúmeros objetos de adoração, você só pode adorar um. Se alguém perguntar: “Se, em termos de crença, aceitarmos uma pessoa como governante, mas na prática obedecermos a outra e prestarmos servidão de acordo com a lei de uma terceira, que objeção poderia haver a isso?”, a resposta é: isso pode acontecer — na realidade, é o que ocorre atualmente em toda parte. Mas saibam que isso é shirk evidente, e todo shirk é absolutamente falso. Na prática, qualquer que seja a lei que você siga, será essencialmente o “Din” dela que você estará seguindo. Portanto, declarar como governante alguém a quem você não obedece e chamar o seu “Din” de seu próprio “Din” não pode ser outra coisa senão uma grande mentira. Que benefício pode haver em proclamar isso verbalmente ou em continuar a acreditar nisso interiormente? E que resultado isso pode produzir no mundo exterior? Quando todas as atividades da sua vida ultrapassam os limites determinados pela Sharia de uma pessoa, enquanto você, na prática, continua a seguir a Sharia de outra, sua alegação de seguir aquela Sharia não se torna totalmente sem sentido? Quando, na prática, você serve a uma pessoa, proclamar outra como seu objeto de adoração e inclinar a cabeça diante dela não se transforma numa mera artificialidade? Pois, na realidade, você cumpre as ordens dela, abstém-se das ações que ela proíbe, realiza todas as atividades dentro dos limites por ela estabelecidos e, na prática, segue as regras e métodos por ela apresentados. Até suas transações mútuas são realizadas de acordo com as regras e princípios por ela fornecidos. Em todos os seus assuntos e atividades, você adota as decisões dela; suas relações mútuas, sua organização e a distribuição de seus direitos também são realizadas de acordo com as disposições por ela fornecidas. E não apenas isso: conforme suas exigências e instruções, você apresenta diante dela toda a força de sua mente, de seu intelecto e de suas mãos e pés, seus talentos, toda a riqueza adquirida com seu trabalho e, por fim, até sua preciosa vida.
Portanto, se suas ações forem contrárias à sua crença, serão suas ações práticas o verdadeiro elemento a ser considerado. Nessa situação, uma mera crença não tem valor algum e não pode ser levada em conta. Que importância pode ter uma crença que, na prática, não tem existência alguma? Se, na prática, uma pessoa segue o Din do monarca, não pode haver ali lugar algum para o Din de Allah. Do mesmo modo, se, na prática, suas ações consistem em seguir o “Din” do povo ou o Din da Inglaterra, da Alemanha ou de seus Estados, então também aí não pode haver absolutamente lugar para o Din de Allah. Por outro lado, se você seguir o Din de Allah, não haverá lugar ali para nenhum outro Din. Em uma palavra, é preciso lembrar definitivamente que shirk não é senão pura falsidade.
Depois de compreender esta verdade, sem qualquer discussão longa ou complexa, você poderá perceber espontaneamente que, qualquer que seja o “Din” e qualquer que seja sua forma, ele não tem valor sem a autoridade do Estado e do governo. Seja o Din do povo, o Din do monarca, o Din comunista ou o Din de Allah, nenhum Din pode ser estabelecido de modo algum sem o poder do Estado. Assim como é sem sentido a mera imagem imaginária de um palácio — que não possui existência real alguma —, igualmente sem sentido é um Din (e um sistema de vida) sem Estado e governo. Quando você vive num palácio realmente estabelecido, entra por sua porta, sai dele, e o teto e as paredes dele lhe oferecem abrigo, que benefício pode esperar da imagem colorida de um palácio imaginário? Você terá de organizar toda a sua vida de acordo com o palácio realmente estabelecido. Além disso, depois de começar a viver num palácio construído conforme uma imagem, que resultado prático pode haver em imaginar a imagem de outro palácio ou em manter por ele mera devoção ou crença? É fácil compreender quão ridículo é manter na mente um palácio imaginário e viver, na realidade, em outro palácio. A imagem imaginária do palácio que existe em sua mente jamais pode ser chamada de palácio, e ninguém pode viver nele. De acordo com este exemplo, não há sentido algum em simplesmente acreditar que um “Din” é o Din verdadeiro. Quando uma pessoa vive sua vida real segundo um “Din”, é completamente inútil acreditar imaginariamente em outro Din. Um “Din” imaginário também não pode ser chamado de “Din”; e, assim como um palácio imaginário, ninguém pode aceitar um “Din” imaginário como seu verdadeiro Din. Na prática, o Din pertencerá àquele cujo poder for reconhecido, cuja autoridade estiver estabelecida, cuja lei vigorar efetivamente e segundo cujas disposições todas as atividades da vida humana forem realizadas. Portanto, todo Din exige naturalmente o estabelecimento de seu próprio Estado; e um Din existe precisamente para que a obediência, a servidão e o cumprimento da lei pertençam exclusivamente ao poder que ele deseja estabelecer. Eis um exemplo:
O que significa o Din popular? Os habitantes de um país tornam-se ali os detentores do poder e da soberania; as leis elaboradas por eles mesmos são aplicadas sobre eles, e todos os habitantes do país, coletivamente, obedecem e se submetem à sua própria força popular — isso é, na realidade, o Din popular ou um Estado democrático. Portanto, enquanto as leis elaboradas pelo povo não forem aplicadas no exercício do poder efetivo do país, esse Din popular ou Estado popular não poderá, de modo algum, ser estabelecido; tampouco se poderá considerar que tenha sido estabelecido. Mas, se em vez do povo uma nação estrangeira ou um rei se apoderar do poder e da soberania do país, e as leis elaboradas por ele forem aplicadas em todo o território, onde ficará a existência do Din popular? Se alguém ali acreditar no Din popular ou no Estado, que valor poderá ter essa crença? Pois, enquanto o Din do rei ou da nação estrangeira permanecer estabelecido, essa pessoa não poderá seguir o Estado popular.
Tomemos o Din monárquico. Segundo esse Din, o rei é designado como autoridade e senhor supremo; obedecer-lhe e adorá-lo, e aplicar efetivamente suas leis, constituem seu objetivo fundamental. Se não for assim, que benefício real haverá em reconhecer o rei como rei e aceitá-lo como o senhor supremo? Se, na prática, estiver estabelecido o Din popular, o Estado popular ou o governo de uma nação estrangeira, onde ficará o “Din monárquico”? E quem poderá segui-lo?
Não faz muito tempo, bastava pensar no Din ou Estado inglês neste país (hoje desaparecido) para que a questão se tornasse clara. Esse Din existia porque, por meio do poder e da soberania ingleses, eram aplicados o Ato de Governo da Índia e as leis civis. Todas as atividades dos habitantes do país eram realizadas segundo as regras e os procedimentos estabelecidos pelos ingleses. Todas as pessoas curvavam a cabeça e obedeciam às suas ordens. Enquanto esse Din esteve estabelecido com tal força, não havia aqui, na realidade, lugar para qualquer outro Din. Quando o Código Penal e o Código de Processo Civil foram abolidos, e a obediência às leis inglesas deixou de significar, na prática, submissão aos ingleses, onde ficou o Estado ou o Din inglês? — Na realidade, a situação do Din do Islã é exatamente semelhante. O fundamento desse Din é que o Dono do mundo e o único rei de toda a humanidade é Allah, o Altíssimo.
Portanto, somente a Ele se deve obedecer e submeter-se, e todos os tipos de atividades da vida humana devem ser realizados segundo a Sharia que Ele concedeu. A doutrina estabelecida pelo Islã — de que a autoridade suprema e a soberania pertencem exclusivamente a Allah — foi apresentada unicamente para que, na Terra, vigore somente a lei de Allah, e não a de qualquer outro. Os tribunais julgarão segundo Seu mandamento, e a polícia fará cumprir Seu mandamento. Todas as atividades e transações entre as pessoas serão realizadas segundo Seu mandamento. Os impostos serão determinados de acordo somente com Sua vontade, e seus gastos também serão feitos unicamente segundo os princípios por Ele estabelecidos. O serviço civil e as forças armadas estarão sob Sua ordem. Todos temerão e viverão com reverência no coração; o povo do país obedecerá somente a Ele. Em suma, o ser humano não aceitará a servidão de ninguém além de Allah. Portanto, é evidente que esse objetivo não poderá ser alcançado de modo algum sem o estabelecimento de um governo islâmico autêntico. Não há compatibilidade nem participação com qualquer outro Din; e a verdade é que nenhum Din pode tolerar a participação de outro Din. Assim como os demais Dins, o Din do Islã também exige que o poder e a soberania sejam absolutamente somente meus, e que todos os demais Dins permaneçam curvados e derrotados diante de mim. De outro modo, como seria possível seguir-me? Meu Din não será o “Din popular”, não será o “Din monárquico”, não será o “Din comunista”. Nenhum outro Din existirá. Por outro lado, se algum outro Din existir, eu não existirei. Nesse caso, reconhecer-me como verdadeiro apenas com os lábios não produzirá resultado algum na realidade. O Alcorão Sagrado declarou repetidamente esta mesma verdade:
وَمَا أُمِرُوا إِلَّا لِيَعْبُدُوا اللهَ مُخْلِصِينَ لَهُ الدِّينَ حُنَفَاء“Foi-lhes ordenado somente isto (e nenhuma outra instrução lhes foi dada): que se voltem de todas as direções, estabeleçam exclusivamente o Din de Allah e O adorem com devoção sincera.” — Surata Al-Bayyinah: 5
هُوَ الَّذِي أَرْسَلَ رَسُولَهُ بِالْهُدَى وَدِينِ الْحَقِّ لِيُظْهِرَهُ عَلَى الدِّينِ كُلِّهِ .
وَلَوْ كَرِهَ الْمُشْرِكُونَ – التوبة : ٣٣“Ele é Quem enviou Seu Mensageiro com a orientação e o Din da verdade, para fazê-lo prevalecer sobre todos os Dins, embora os politeístas não tolerem isso de modo algum.” — Surata At-Tawbah: 33
وَقَاتِلُوهُمْ حَتَّى لَا تَكُونَ فِتْنَةٌ وَيَكُونَ الدِّينُ كُلُّهُ لِلَّهِ – الانفال : ٣٩“Combatei-os até que não haja mais fitnah e até que o Din, em sua totalidade, seja estabelecido para Allah, o Altíssimo.” — Surata Al-Anfal: 39
إِنِ الْحُكْمُ إِلَّا لِلَّهِ ، أَمَرَ أَلا تَعْبُدُوا إِلَّا إِيَّاهُ – – يوسف : ٤٠“Ninguém tem o direito de decretar ordens senão Allah. Sua ordem é que não adoreis ninguém além d’Ele.” — Yussuf: 40
فَمَنْ كَانَ يَرْجُوا لِقَاءَ رَبِّهِ فَلْيَعْمَلَ عَمَلًا صَالِحًا وَلَا يُشْرِكْ بِعِبَادَةِ ربِّهِ أَحَدًا – الكهف : ١١٠“Quem desejar encontrar-se com seu Senhor deve praticar boas ações e não associar ninguém à adoração de seu Senhor.” — Surata Al-Kahf: 110
أَلَمْ تَرَ إِلَى الَّذِينَ يَزْعُمُونَ أَنَّهُمْ آمَنُوا بِمَا أُنْزِلَ إِلَيْكَ وَمَا أُنْزِلَ مِنْ قَبْلِكَ يُرِيدُونَ أَنْ يُتَحَاكَمُوا إِلَى الطَّاغُوتِ وَقَدْ أَمِرُوا أَنْ يَكْفُرُوا بِهِ . …. وَمَا أَرْسَلْنَا مِنْ رَّسُولٍ إِلَّا لِيُطَاعَ بِإِذْنِ اللَّهِ – – النساء : ٦٤٦٠“Não observaste aqueles que afirmam acreditar no que foi revelado a ti e no que foi revelado antes de ti? Eles desejam recorrer ao Taghut (o poder estatal e o sistema judicial rebelde contra Allah) para que julgue suas causas, embora lhes tenha sido ordenado negá-lo e rejeitá-lo. … Não enviamos Mensageiro algum senão para que fosse seguido, com a permissão de Allah.” — Surata An-Nissa: 60–64
À luz das explicações anteriores sobre ibadat, Din e Shariah, os leitores não deverão encontrar dificuldade alguma para compreender o significado essencial e o espírito desses versículos do Alcorão.
A discussão anterior também tornou claro por que o jihad tem tamanha importância no Islã. O ‘Din’ de Allah não pode satisfazer-se apenas com que alguém o reconheça como verdadeiro, à semelhança de outras religiões e Dins, nem com a simples realização de ritos de culto como manifestação externa dessa crença e convicção. Isso porque é absolutamente impossível obedecer e seguir o Din de Allah permanecendo sob a autoridade de outro Din; sua prática torna-se impossível quando misturada com qualquer outro Din. Portanto, se vocês realmente acreditam que este Din de Allah é o verdadeiro Din, não pode haver outro meio senão empenhar-se e lutar com todas as forças para estabelecê-lo na realidade. É por meio desse empenho e dessa luta que o Islã será estabelecido; caso contrário, será necessário entregar a vida permanecendo dedicado a esse esforço. Na verdade, este é um critério eterno pelo qual pode ser verificada a veracidade de sua fé e de sua aqidah. Se vocês possuem fé verdadeira no Islã, será impossível permanecerem inconscientes, em um sono tranquilo, sob a autoridade de outro Din; nem se pode cogitar que sirvam a esse outro Din ou desfrutem sequer minimamente do sustento obtido em troca disso. Depois de aceitar o Din do Islã como a única verdade, mesmo que sua vida transcorra sob a autoridade de outro Din, seu leito lhes parecerá cheio de espinhos, sua comida venenosa e amarga, e vocês não poderão obter sequer um instante de tranquilidade sem empenhar-se com todas as forças para estabelecer este verdadeiro Din de Allah. Porém, se vocês se sentem satisfeitos por viver sob a autoridade de qualquer outro Din que não o Din de Allah, e nesse estado seu coração permanece contente e tranquilo, então vocês não são crentes de modo algum — por mais atentamente que realizem a oração, por mais tempo que pratiquem a ‘muraqabah’, e por mais que expliquem o Alcorão e o Hadith ou propaguem a filosofia do Islã; não há dúvida de que não são crentes. Esta é a palavra definitiva sobre aquele que, acreditando no Din do Islã, permanece satisfeito com qualquer outro Din. Mas o que se pode dizer dos hipócritas que servem com devoção a outros Dins ou se empenham e lutam para estabelecer algum outro Din, como o Din do povo? … A morte não está distante; quando ela chegar, o próprio Allah apresentará diante deles o ‘registro de obras’ de sua vida material. Na verdade, se essas pessoas se consideram muçulmanas, isso não passa de extrema insensatez. Se tivessem bom senso, compreenderiam por si mesmas que aceitar e reconhecer um Din como verdadeiro, ao mesmo tempo em que se satisfazem com o estabelecimento de outro Din na realidade, participam desse trabalho ou se esforçam por ele, são ações mutuamente contraditórias. O fogo e a água talvez possam encontrar-se; mas tal modo de agir não pode ter qualquer compatibilidade com a fé em Allah. Não é possível citar aqui todos os versículos do Alcorão relacionados a este assunto.
Citaremos aqui apenas alguns versículos:
احسب النَّاسُ أَنْ يُتْرَكُوا أَن يَقُولُوا آمَنَّا وَهُمْ لَا يُفْتَنُونَ وَلَقَدْ فتَنَّا الَّذِينَ مِنْ قَبْلِهِمْ فَلَيَعْلَمَنَّ اللَّهُ الَّذِينَ صَدَقُوا وَلَيَعْلَمَنَّ
الْكَذِبِينَ ٥ – العنكبوت : ٢-٣“Pensam acaso que serão deixados em paz apenas por dizerem: ‘Cremos’, sem serem postos à prova? Com efeito, testamos aqueles que viveram antes deles, para que Allah distinga os que são verazes e sinceros em sua alegação de fé dos mentirosos.” — Surata Al-Ankabut: 2-3
ومِنَ النَّاسِ مَنْ يَقُولُ آمَنَّا بِاللَّهِ فَإِذَا أُوذِيَ فِي اللَّهِ جَعَلَ فِتْنَةَ النَّاسِ كَعَذَابِ اللهِ ، وَلَئِنْ جَاءَ نَصْرُ مِّن رَّبِّكَ لَيَقُولُنَّ إِنَّا كُنَّا مَعَكُمْ ، أَوَ لَيْسَ اللَّهُ بِأَعْلَمَ بِمَا فِي صُدُورِ الْعَلَمِينَ“Entre as pessoas há quem diga: ‘Cremos em Allah’; mas, quando é perseguido por causa de Allah, considera a perseguição das pessoas tão terrível quanto deveria considerar o castigo de Allah. Porém, quando chega uma vitória e um triunfo da parte de teu Senhor, eles certamente se adiantam e dizem: ‘Estávamos convosco’. Acaso Allah não conhece melhor o que há nos corações das criaturas? Ainda assim, Allah certamente distinguirá quais são os verdadeiros crentes e quais são os hipócritas.” — Surata Al-Ankabut: 10-11
مَا كَانَ اللَّهُ لِيَذَرَ الْمُؤْمِنِينَ عَلَى مَا أَنْتُمْ عَلَيْهِ حَتَّى يَمِينَ الْخَبِيثَ مِنَ
الطيب – – ال عمران : ۱۷۹“Não é da prática de Allah deixar os crentes no estado em que vocês se encontram, pois agora os verazes e os mentirosos, os crentes sinceros e os hipócritas, estão misturados. Allah certamente distinguirá os puros dos pecadores.” — Surata Al Imran: 179
أمْ حَسِبْتُمْ أَنْ تُتْرَكُوا وَلَمَّا يَعْلَمَ اللهُ الَّذِينَ جَهَدُوا مِنكُمْ وَلَمْ يَتَّخِذُوا مِنْ دُونِ اللَّهِ وَلَا رَسُولِهِ وَلَا الْمُؤْمِنِينَ وَلِيجَة – – التوبة : ١٦“Pensais acaso que Allah vos deixará assim, sem distinguir entre vós quem se empenhou no jihad e quem não tomou, em vez de Allah, de Seu Mensageiro e dos crentes, confidentes secretos?” — Surata At-Tawbah: 16
الم ترَ إِلَى الَّذِينَ تَوَلَّوْا قَوْمًا غَضِبَ اللَّهُ عَلَيْهِمْ ، مَا هُمْ مِّنْكُمْ وَلَا مِنْهُم ….. أولَئِكَ حِزب الشيطن ، أَلَا إِنَّ حِزْبَ الشَّيْطَنِ هُمُ الْخَسِرُونَ إِنَّ الَّذِينَ يُحَادُونَ اللهَ وَرَسُولَهُ أُولَئِكَ فِي الْأَذَلِّينَ ، كَتَبَ اللهُ لأَغْلِبَنَّ أَنَا وَرُسُلِي ، إِنَّ اللهَ قَوِيٌّ عَزِيزٌ – المجادلة : ١٩١٤“Não refletiste sobre aqueles que tomam como amigos pessoas contra as quais Allah se irou? Eles não são dos vossos nem dos deles… Esses são o partido de Satanás. Acaso não é verdade que o partido de Satanás será, por fim, o perdedor? Aqueles que se opõem a Allah e a Seu Mensageiro estarão entre os mais humilhados. Allah decretou: ‘Certamente vencerei, Eu e Meus mensageiros’. Em verdade, Allah é Poderoso, Vitorioso.” — Surata Al-Mujadalah: 14, 19-21
Fica claramente comprovado pelos versículos mencionados que, se em algum lugar, na prática, estiver estabelecida uma religião diferente do Dīn de Allah, o sinal distintivo dos crentes sinceros e idealistas daquele lugar será que eles se esforçarão para eliminar essa “religião” falsa e estabelecer o verdadeiro Dīn de Allah. Se eles realmente fizerem isso, empregarem todas as suas forças para esse objetivo, sacrificarem até a própria vida e suportarem pacientemente todo tipo de prejuízo e perda, não haverá dúvida de que são verdadeiros crentes. Se seus esforços e empenho alcançarem ou não o sucesso é uma questão irrelevante. Porém, se eles se mostrarem satisfeitos e tranquilos com o estabelecimento da religião falsa, ou se participarem voluntariamente do trabalho de mantê-la vitoriosa e estabelecida, então sua alegação de serem crentes será absolutamente falsa, sem a menor dúvida.
Além disso, nos versículos mencionados, Allah também respondeu àqueles que apresentam como desculpa os diversos obstáculos e impedimentos para o estabelecimento do Dīn do Islã. Quando se fizer uma tentativa de estabelecer o Dīn do Islã em algum lugar, alguma religião falsa estará necessariamente estabelecida ali de antemão, com toda a sua força. Ela terá sob seu controle todos os tipos de poder e autoridade, terá em suas mãos os recursos de subsistência e exercerá forte influência em todos os campos da vida humana; destruir uma religião tão firmemente estabelecida e estabelecer outra em seu lugar, seja como for, não pode ser um caminho coberto de flores. Trabalhando com absoluta tranquilidade e conforto, como príncipes, jamais se poderá alcançar esse objetivo; isso nunca será possível. É absolutamente impossível continuar obtendo algum conforto e bem-estar material sob a religião falsa e, ao mesmo tempo, estabelecer o Dīn do Islã. Essa grande tarefa só poderá ser concluída quando vocês estiverem prontos para renunciar completamente a todos os direitos, interesses e confortos obtidos por meio da religião falsa, e quando estiverem preparados para suportar corajosamente qualquer prejuízo ou perda que tiverem de enfrentar nesse empreendimento. Na realidade, fazer o jihād no caminho de Allah só será possível àqueles que estiverem dispostos a realizar esse árduo esforço. Mas pessoas desse tipo são sempre uma minoria em qualquer sociedade. Quanto àqueles que desejam seguir o Dīn do Islã, mas não estão dispostos a renunciar ao conforto e à comodidade, não quero fazer nenhuma previsão a respeito deles; que continuem tranquilamente servindo aos próprios nafs. Quando os mujāhidūn da verdade, suportando sem queixas o sofrimento e a perseguição e oferecendo sacrifícios incomensuráveis nesse caminho, tiverem estabelecido o Dīn do Islã, então eles virão e dirão: “Nós também somos do vosso grupo; portanto, dai-nos agora a nossa parte.”
Conclusão