Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador

Introdução

Pela especial misericórdia de Allah, está sendo publicado o quinto volume de “A Vida dos Companheiros do Mensageiro”. Nosso principal objetivo é apresentar, em poucas palavras, aos leitores de língua bengali a vida dos nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles). Nos quatro volumes publicados anteriormente, discutimos a vida dos Companheiros homens. No quinto volume, são abordadas as vidas de onze “Ummahat al-Mu’minin”. Essas onze mulheres eram as “Azواج Mutahharat”, ou seja, as esposas puras e santas do Honorável Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).

O Islam considera homens e mulheres com igualdade. Foram declarados para ambos deveres e direitos iguais. Assim como os homens fizeram sacrifícios, suportaram dificuldades e contribuíram para a propagação e o estabelecimento do Islam no mundo, o mesmo ocorreu com as mulheres. Assim como os homens sofreram opressão e perseguição e foram expulsos de suas terras natais, as mulheres também suportaram opressão e perseguição e foram forçadas a deixar seus países. Ombro a ombro com os homens, as mulheres lutaram contra as forças contrárias ao Islam. Em suma, para tornar o Islam vitorioso no mundo, as Companheiras não ficaram atrás dos Companheiros em nenhum aspecto. Pelo contrário, em alguns casos, o papel das mulheres tornou-se preponderante. Foi uma mulher a primeira a crer na profecia e na missão apostólica do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), e foi uma mulher a primeira a realizar a oração. A contribuição das mulheres para o Islam não é inferior à dos homens em nenhum aspecto. Por isso, além da vida e das obras dos Companheiros, tomamos a iniciativa de apresentar aos leitores a vida e as realizações das Companheiras.

Em quase todas as obras da disciplina de “Asma al-Rijal” (dicionário biográfico), escrita em árabe, são discutidas a identidade e a vida das Companheiras. Ibn Mundah (falecido em 395 da Hégira), Abu Nu‘aym, Ibn ‘Abd al-Barr (falecido em 463 da Hégira) e Abu Musa al-Isfahani (falecido em 581 da Hégira) discutiram as biografias das Companheiras em suas respectivas obras. Em sua obra “Al-Isti‘ab”, Ibn ‘Abd al-Barr apresentou as biografias de 398 Companheiras. Na obra “Al-Tabaqat al-Kubra”, de Muhammad ibn Sa‘d (falecido em 233 da Hégira), aparecem as biografias de 627 mulheres, das quais 93 não eram Companheiras. As biografias das mulheres foram incluídas no oitavo volume de sua obra. O erudito Ibn al-Athir escreveu uma obra sobre as biografias das mulheres com o título “Tarikh al-Nisa”. O título também é encontrado em várias obras escritas posteriormente. Atualmente, porém, essa obra é rara. Outra obra importante de Ibn al-Athir é “Usd al-Ghabah fi Ma‘rifat al-Sahabah”. Um de seus volumes é dedicado exclusivamente às vidas das mulheres. Nessa obra encontram-se os nomes de 1.022 Companheiras. Outro famoso autor do nono século da Hégira foi o erudito Ibn Hajar al-‘Asqalani (falecido em 852 da Hégira). Ele escreveu duas extensas obras intituladas “Tahdhib al-Tahdhib” e “Al-Isabah fi Tamyiz al-Sahabah”. No décimo segundo volume de “Tahdhib al-Tahdhib”, discutiu as biografias de 322 mulheres. Entre elas também há algumas biografias de mulheres tabi‘iyyat. Já na obra “Al-Isabah” foram incluídas as vidas de 1.545 Companheiras. É nessa obra que se encontram os nomes e as informações biográficas do maior número de Companheiras. Contudo, entre os números de Companheiras mencionados nas diversas obras acima, muitos nomes se repetem. As duas grandes obras do Imam al-Dhahabi (falecido em 748 da Hégira), “Siyar A‘lam al-Nubala” e “Tadhkirat al-Huffaz”, também incluem as biografias de muitas Companheiras. Essas obras mencionadas são, em essência, as principais fontes clássicas escritas sobre os Companheiros. Todas essas obras estão disponíveis para nós.

As mulheres que apoiaram integralmente o Honorável Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) em sua vida doméstica e transmitiram às pessoas o modelo de sua vida familiar foram as “Azواج Mutahharat”. Allah declarou-as “Ummahat al-Mu’minin” (mães dos crentes). Elas são modelos e exemplos para as mulheres muçulmanas. Neste quinto volume, discutimos precisamente suas vidas. Eram onze ao todo. Quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deixou este mundo, seu número era nove.

Nos dias atuais, quando nós, muçulmanos, somos profundamente influenciados pela filosofia de vida ocidental e julgamos e analisamos a ‘aqidah e as crenças, a cultura, as leis e tudo o mais do Islam segundo seus critérios, especialmente quando a atividade contrária ao Islam, conduzida em nome da liberdade e do progresso das mulheres, avança com grande ímpeto, a questão de o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ter tido várias esposas pode surgir até mesmo na mente de um crente. Não tentaremos responder aqui a essa questão. Ela não é nova; cristãos e judeus a levantaram há muito tempo, e os sábios muçulmanos lhes responderam de várias maneiras ao longo dos séculos. Não desejamos repetir isso. O que queremos recordar aos nossos leitores é que todo verdadeiro crente deve ter a convicção de que toda a vida do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi controlada e conduzida pelo próprio Allah, o Altíssimo. Ele nada fazia nem dizia por vontade própria. Portanto, tudo o que fez, fez pela vontade e pela ordem de Allah. Em segundo lugar: a pergunta que surge em nossa mente por causa da propaganda cristã e judaica alguma vez surgiu na mente de algum Companheiro ou Companheira? A história, pelo menos, não afirma isso. Então, por que deveríamos nós nos deixar confundir hoje? Na realidade, o único dono de todas as criaturas deste mundo é Allah. Um proprietário tem o direito de conceder o que lhe pertence a quem quiser e na quantidade que quiser. Assim como ninguém tem o direito de questioná-lo nesse caso, o mesmo se aplica a este caso. Allah permitiu que Seu Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tivesse onze esposas, assim como concedeu ao homem crente a possibilidade de ter até quatro esposas, sob certas condições. Essa era a hikmah de Allah. Em essência, tudo isso é uma questão de fé. Nossa fé deve ser como a fé dos nobres Companheiros. Quando se fortalece a convicção de que todas as ações e condutas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ocorreram pela vontade e permissão de Allah, nenhuma dúvida nem pergunta descabida pode surgir no coração, assim como não surgiu nos corações dos Companheiros.

Desde o dia em que as esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se uniram a ele pelo vínculo matrimonial e Allah as declarou mães dos crentes, elas conquistaram um lugar de honra e respeito especiais no coração de todos os muçulmanos do mundo. Todo muçulmano e toda muçulmana sempre as olharam com mais honra e reverência do que se olha para a própria mãe. O lugar de honra que receberam da comunidade muçulmana não tem paralelo na história das mulheres do mundo.

Quando faleceu uma das esposas do Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele), Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) prostrou-se. As pessoas perguntaram: “Por que o senhor está se prostrando neste momento?” Ele respondeu: “Quando vedes algum sinal da Ressurreição, vós vos prostrais. Então, que sinal da Ressurreição poderia ser maior do que a morte das Azwaj al-Mutahharat?” (Abu Dawud: Kitab as-Salat, Bab as-Sujud ‘ind al-Ayat)

Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) estava presente quando Hazrat Maymunah (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu no lugar chamado Saraf, perto de Meca. Quando o corpo foi colocado no esquife, ele disse às pessoas: “Esta é Maymunah. Levai seu corpo com respeito e não o movais excessivamente.” (An-Nasa’i: Kitab an-Nikah, Dhikru Amri Rasulillah, que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele, fi an-Nikah wa Azwajihi)

Alguns Companheiros amavam tanto as Azwaj al-Mutahharat que doaram como waqf muitos de seus próprios bens em benefício delas. Hazrat ‘Abd ar-Rahman ibn ‘Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) doou como waqf um grande jardim para elas, que foi vendido por quatro mil dirhams. (At-Tirmidhi: Manaqib ‘Abd ar-Rahman ibn ‘Awf)

Cada um dos califas dos Khulafa ar-Rashidun demonstrava grande consideração e respeito pelas Azwaj al-Mutahharat. Durante seu califado, Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) mandou fazer nove tigelas, de acordo com o número delas. Sempre que recebia alguma fruta ou alimento, enviava nove tigelas, uma para cada uma delas. (Muwatta do Imam Malik: Kitab az-Zakat)

Durante a Batalha do Camelo, será que se encontra em algum lugar da história exemplo comparável ao respeito demonstrado por Hazrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e pelos demais Companheiros e pelo povo para com a Mãe dos Crentes, Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela)?

Hazrat Zaynab bint Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ela) casou-se com Hazrat Zayd ibn Harithah (que Allah esteja satisfeito com ele). Eles viveram juntos por aproximadamente um ano. Como não conseguiram conviver em harmonia, separaram-se. Depois que terminou o período de ‘iddah, o Mensageiro (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) enviou o próprio Zayd a Zaynab com uma proposta de casamento. Como o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) havia enviado uma proposta de casamento a Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), surgiu no coração de Zayd tamanha devoção, respeito e reverência por Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) que ele não conseguia sequer levantar os olhos para olhá-la. Em vez disso, virava o rosto e falava com ela. Tudo isso não é uma história inventada ou fantasiosa; é inteiramente verdade.

No ano 23 da Hégira, quando o califa ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi realizar o Hajj como ‘Amir al-Hajj, levou também as Azwaj al-Mutahharat como companheiras de viagem, com extrema reverência e respeito. Confiou a Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e a Hazrat ‘Abd ar-Rahman ibn ‘Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) toda a responsabilidade pela segurança e pelos cuidados delas. Os dois caminhavam à frente e atrás das montarias das Azwaj al-Mutahharat e não permitiam que ninguém se aproximasse delas. Quando paravam em algum lugar durante a viagem, não permitiam que ninguém se aproximasse das suas tendas. (At-Tabaqat: Biografia de ‘Abd ar-Rahman ibn ‘Awf)

Depois do falecimento do Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele), muitas das Ummuhat al-Mu’minin permaneceram vivas por muitos anos. Tentamos apresentar, em suas biografias, o quanto a Ummah muçulmana lhes demonstrou respeito e reverência. Em suma, demonstrar devoção, reverência e respeito por elas é uma responsabilidade e um dever da fé de todo muçulmano. A Ummah muçulmana jamais esqueceu essa responsabilidade e esse dever. Quando também lermos suas biografias, manteremos em nossos corações um pensamento e um sentimento puros a respeito delas.

A ideia e o plano de apresentar aos leitores de língua bengali as histórias de vida dos Companheiros do Mensageiro foram, originalmente, do professor A. K. M. Nazir Ahmad, diretor do Centro Islâmico de Bangladesh. Seu interesse e incentivo me motivaram a levar este trabalho até este ponto. Ele continua me ajudando e colaborando comigo de várias maneiras. Por isso, expresso minha gratidão a ele e suplico a Allah que lhe conceda uma boa recompensa por isso.

Também recebemos dos leitores muitos valiosos conselhos e sugestões a respeito da redação das histórias de vida dos Companheiros. Lamentamos não ter podido aceitar muitas dessas sugestões. Estamos tentando obter as informações desta obra de fontes confiáveis em árabe e urdu. Tendo em vista a elevada honra e dignidade das Mães dos Crentes, também nos esforçamos ao máximo para usar uma linguagem apropriada. Ainda assim, caso os leitores percebam alguma inconsistência factual ou linguística, pedimos que nos chamem a atenção para ela. Que Allah Todo-Poderoso aceite este pequeno esforço, relacionado à confiança das Mães dos Crentes nas mães e irmãs muçulmanas de Bengala. Amém \\

5 de setembro de 1999

21 de Bhadra de 1406 Muhammad Abdul Mabud

Professor associado

Departamento de Árabe

Universidade de Daca

Daca-1000.

Khadija bintKhuwaylid (que Allah esteja satisfeito com ela)

A primeira esposa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Seus apelidos eram ‘Ummu Hind’ e ‘Ummul Qasim’, e seu título ou laqab era ‘Tahira’. Seu pai, Khuwaylid ibn Asad, pertencia ao ramo Banu Asad do clã coraixita de Meca. Por meio de seu ancestral paterno Qusayy, sua linhagem se unia à linhagem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ou seja: Khadija bint Khuwaylid ibn Asad ibn ‘Abdul-‘Uzza ibn Qusayy. Esse Qusayy era também o quarto ancestral ascendente do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A mãe de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), Fatima bint Zayd, também pertencia à linhagem coraixita. Zubayr ibn Bakkar disse: já na época da Jahiliyya, o laqab de Khadija era ‘at-Tahira’. Ela recebeu esse título por seu caráter puro e casto, depois de alcançar maturidade e discernimento. Entre o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) havia um parentesco distante de tia paterna e sobrinho. Por essa razão, depois de receber a profecia, Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) levou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) até seu primo Waraqa ibn Nawfal e disse: ‘Ouça o que seu sobrinho tem a dizer.’ É possível que ela tenha dito isso justamente com base no parentesco entre ambos.

A família de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma família nobre e abastada de Meca. Ela nasceu quinze anos antes do ‘Amul-Fil’ (o Ano do Elefante), correspondente a 68 antes da Hégira/556 d.C., na cidade de Meca. Hakim ibn Hizam disse: ‘Minha tia paterna Khadija era dois anos mais velha do que eu. Eu nasci treze anos antes do Ano do Elefante.’

O pai de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), Khuwaylid ibn Asad, era um homem respeitado em seu clã. Ele foi para Meca e, tornando-se aliado ou protegido por contrato de seu primo ‘Abdud-Dar ibn Qusayy, estabeleceu ali residência permanente. Foi lá que se casou com Fatima bint Zayd, uma mulher de Meca. Essa Fatima era a mãe de Hazrat Khadija, a Mãe dos Crentes (que Allah esteja satisfeito com ela). Khuwaylid foi o comandante de sua tribo na Guerra de Fijar. Foi pai de muitos filhos. Seu primeiro filho foi Hizam; o filho de Hizam, o célebre Companheiro Hakim, recebeu na época da Jahiliyya a responsabilidade de administrar a Darun-Nadwa de Meca. A segunda filha foi Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). O terceiro filho, ‘Awwam, foi o pai do célebre Companheiro Hazrat Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele). Safiyya bint ‘Abdil-Muttalib, tia paterna do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e irmã carnal de Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele), era esposa de ‘Awwam e, portanto, mãe de Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ou seja, era a cunhada mais nova de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). O quarto filho foi Hala. Ela era a sogra de Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), filha do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e, portanto, mãe de Abul-‘As ibn Rabi‘. Abul-‘As era o genro mais velho do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O quinto filho foi Ruqayya. Além disso, Baladhuri menciona os nomes de mais duas filhas: Khalida e Raqiqa. Khalida casou-se com ‘Ilaj ibn Abi Salama, enquanto Raqiqa casou-se com ‘Abdullah ibn Bijad. Entre os irmãos de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), somente Hala (que Allah esteja satisfeito com ela) teve a ventura de aceitar o Islam.

Não há muitas informações sobre a infância e a adolescência de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) nos livros de Sira. Contudo, sabe-se de diversas maneiras que ela cresceu naquela sociedade da Jahiliyya com uma natureza e características extremamente puras e castas. Observando essas qualidades de caráter da filha, seu pai, Khuwaylid, escolheu para ela como pretendente Waraqa ibn Nawfal, um dos mais destacados especialistas em Torá e Evangelho da Arábia daquele tempo; entretanto, os historiadores permanecem em silêncio sobre o motivo pelo qual esse casamento não se realizou. Por fim, seu primeiro casamento foi com Abu Hala Hind ibn Zurara at-Tamimi. Ele morreu ainda na época da Jahiliyya. Após a morte de Abu Hala, ela se casou pela segunda vez com ‘Atiq ibn ‘Abid ou, segundo outra opinião, com ‘A’iz. É isso que afirmam Ibn ‘Abdil-Barr e a maioria dos especialistas em Sira. Contudo, segundo uma transmissão de Qatada, seu primeiro marido foi ‘Atiq e, depois dele, Abu Hala. Yunus ibn Bukayr narrou que Ibn Ishaq também sustentava essa opinião. Baladhuri disse que ela se separou de seu segundo marido, ‘Atiq. Depois disso, casou-se com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Os livros de Sira apresentam duas versões sobre quando morreu o pai de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Segundo uma versão, ele ainda estava vivo quando ela se casou com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e morreu algum tempo depois do casamento. Alguns disseram que ele morreu na Guerra de Fijar. O historiador al-Waqidi narrou que o pai de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) morreu antes da Guerra de Fijar e que seu tio ‘Amr ibn Asad a casou com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele também disse que há consenso entre nossos companheiros de que o pai dela morreu antes de Fijar. Não há divergência quanto a isso. O Imam Suhayli também afirmou o mesmo.

Seja por causa da morte do pai, da separação do marido ou de qualquer outro motivo, Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), assim como muitas pessoas da linhagem coraixita, era uma grande comerciante. Ibn Sa‘d disse sobre seus negócios: ‘Khadija era uma comerciante muito respeitada e rica. Suas caravanas comerciais iam para a Síria, e apenas suas mercadorias equivaliam às mercadorias de todos os coraixitas.’ Por essa observação de Ibn Sa‘d, pode-se compreender a extensão dos negócios de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela comprava e vendia mercadorias dentro e fora do país, contratando pessoas qualificadas mediante sociedade ou remuneração.

Muhammad, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), era então um jovem de vinte e quatro ou vinte e cinco anos. Nesse período, acompanhando seu tio Abu Talib ou viajando sozinho em algumas expedições comerciais, já havia adquirido bastante experiência nos negócios. A fama de sua honestidade e confiabilidade no comércio também se espalhara de boca em boca entre os habitantes de Meca. Naquele tempo, todos o conheciam como ‘al-Amin’. Sua boa reputação também chegou aos ouvidos de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). É provável que ela tenha ouvido muitas coisas sobre Muhammad, ‘al-Amin’ (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), especialmente de sua cunhada mais nova, Safiyya.

Nessa época, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) pensou em enviar mercadorias para a Síria. Por isso, procurava uma pessoa qualificada. Finalmente, contratou Muhammad ibn ‘Abdullah. Apresentamos aqui alguns relatos sobre como ele foi contratado.

Nafisa bint Munya, irmã de Ya‘la, disse: Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) completou vinte e cinco anos, Abu Talib chamou-o certo dia e disse: “Meu sobrinho! Sou um homem sem recursos, e este também é um período muito difícil para nós. Fomos atingidos por uma grave pobreza. Não temos nenhum negócio nem qualquer outro meio de subsistência. Uma caravana comercial de tua tribo está indo para a Síria. Khadija procura algumas pessoas para enviar com suas mercadorias. Se fosses até ela, talvez ela te escolhesse, pois conhece a pureza do teu caráter. Embora eu não goste que vás à Síria e tema pela tua vida por causa dos judeus, não temos outra opção.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Talvez ela mesma envie alguém.” Abu Talib disse: “Talvez já tenha contratado outra pessoa.” Essa conversa entre tio e sobrinho chegou aos ouvidos de Khadija. Então ela enviou alguém ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “Eu lhe darei o dobro da remuneração que outra pessoa lhe ofereceria.”

Al-Baladhuri narrou que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha vinte anos, Abu Talib disse certo dia: “Meu sobrinho! Khadija bint Khuwaylid é uma mulher rica e comerciante. Agora ela precisa de uma pessoa honesta, confiável e de bom caráter como tu. Se eu falar com ela a teu respeito, talvez ela te confie algum de seus negócios.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Tio, faça o que achar melhor.”

Abu Talib foi até Khadija e falou com ela sobre contratar Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para um de seus negócios. Khadija demonstrou interesse ao ouvir a proposta e, tomando uma decisão rapidamente, enviou-o para a Síria.

‘Abdullah ibn Muhammad ibn ‘Aqil disse: Abu Talib falou a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Meu sobrinho! Ouvi dizer que Khadija contratou fulano como trabalhador em troca de dois camelos jovens. Não aceitaremos isso no teu caso. Queres falar com ela?” Ele respondeu: “Tio, faça o que achar melhor.” Então Abu Talib foi até Khadija e disse: “Khadija, queres contratar Muhammad mediante uma remuneração? Ouvi dizer que contrataste fulano em troca de dois camelos jovens. No caso de Muhammad, não aceitaremos menos que quatro camelos.”

Esses relatos mostram que Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma grande comerciante. Para administrar seus negócios, contratava muitos trabalhadores e empregados. Sua inteligência também era aguçada. Por isso, não errou de modo algum ao escolher Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) no momento certo e confiar-lhe a responsabilidade de seus negócios. Abu Talib desempenhou o papel principal na contratação. Depois que Muhammad foi contratado, Abu Talib disse ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Isto é uma graça de Allah para contigo.” Levando as mercadorias de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e acompanhado de May­sara, seu escravo de confiança, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu em direção à Síria. Durante a viagem, seus tios alertaram os companheiros para que cuidassem especialmente dele. A caravana chegou à Síria. No caminho, ele estava sentado à sombra de uma árvore, junto a uma igreja. Maysara estava ocupado com algo a certa distância da árvore. O sacerdote da igreja aproximou-se de Maysara e perguntou: “Quem é o homem que está descansando sob a árvore?”

Maysara respondeu: “É um homem da tribo dos coraixitas, habitante do Santuário de Meca.” O sacerdote disse: “Aquele que agora descansa sob esta árvore não pode ser outro senão um profeta.” O sacerdote perguntou ainda: “Os olhos dele são avermelhados?” Maysara respondeu: “Sim. Esse tom avermelhado jamais desaparece.” O sacerdote disse: “Ele é um profeta. Ele é o último dos profetas.”

O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), acompanhado de Maysara, vendeu as mercadorias no mercado. Em certo momento, teve uma discussão com um homem. O homem disse ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Jure por al-Lat e al-‘Uzza.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Eu jamais juro por elas. Eu as rejeito.” O homem disse: “Tens razão.” Depois, disse a Maysara: “Por Allah, ele é um profeta.”

Há uma pequena divergência quanto ao mercado para onde o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) levou as mercadorias de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Segundo uma versão, ele foi ao mercado de Busra, na Síria. Al-Zirikli mencionou o mercado de Hawran. Al-Tabari narrou, com base em Ibn Shihab al-Zuhri, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) foi não à Síria, mas a um mercado abissínio no Iêmen. Contudo, a versão de que foi à Síria é a mais conhecida. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) vendeu as mercadorias no mercado da Síria e comprou o que precisava comprar. Depois, partiu rumo a Meca levando Maysara consigo. Durante o caminho, Maysara observou que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe dê paz) seguia montado em seu camelo, enquanto dois anjos estendiam uma sombra sobre sua cabeça sob o intenso sol do meio-dia. Assim, ao retornar a Meca, vendeu as mercadorias de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Dessa vez, o lucro do comércio foi o dobro, ou quase o dobro. Nessa viagem, Allah, o Altíssimo, fez nascer no coração de Maysara profundo respeito e intenso amor pelo Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Ele parecia ter se tornado servo do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Quando chegaram a um lugar chamado Marr al-Zahran, próximo de Meca, Maysara disse: “Muhammad (que Allah o abençoe e lhe dê paz), vá até Khadija e informe-a sobre o tratamento que Allah lhe dispensou.”

Eles retornaram a Meca após a viagem comercial. Maysara, o escravo, apresentou à sua senhora Khadija um relatório detalhado sobre tudo o que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) fizera durante a viagem, os comentários do sacerdote, a sombra dos anjos, o lucro dobrado e outros assuntos, relatando tudo com extrema honestidade e fidelidade. Maysara também disse: “Eu me sentava para comer com ele. Nossos estômagos ficavam satisfeitos, embora a maior parte da comida permanecesse sem ser consumida.” Os acontecimentos dessa viagem foram narrados de diferentes maneiras em várias obras. Contudo, o conteúdo de todos os relatos é essencialmente este.

Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) era, na Meca daquela época, uma senhora nobre, prudente, inteligente e de forte determinação. Pessoas de todas as camadas de Meca ficavam encantadas com sua riqueza, educação e cortesia. Pela nobreza de sua linhagem, ela era a joia entre os coraixitas. Muitos jovens nobres dos coraixitas desejavam tê-la como esposa. Muitos lhe enviaram propostas e gastaram grandes quantias por isso. Ela rejeitou todas essas propostas e foi ela própria quem enviou uma proposta de casamento ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Por que Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) decidiu casar-se com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz)? A resposta geralmente apresentada é que, ao ouvir da boca de seu escravo fiel Maysara sobre as qualidades morais e os acontecimentos extraordinários do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), ela ficou impressionada e decidiu casar-se com ele. Talvez essa tenha sido a principal razão. Contudo, há relatos por trás disso. Ao retornar da Síria, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe dê paz) entrou em Meca durante sua caminhada. Era então meio-dia. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) estava no terraço de sua casa. Dali, em pé, viu Muhammad montado em um camelo, enquanto dois anjos lhe faziam sombra. Ela mostrou essa cena às outras mulheres que estavam com ela. Al-Mada’ini também narrou outro acontecimento, com base em Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). Na época da ignorância, por ocasião de certa festividade feminina, as moças de Meca reuniram-se em um lugar. Então viram ao longe um desconhecido. O homem aproximou-se mais e anunciou em voz alta: “Ó mulheres de Meca! Escutai. Em breve surgirá nesta vossa cidade de Meca um profeta. Seu nome será Ahmad. Aquela dentre vós que puder deverá tornar-se sua esposa.” Ibn Ishaq narrou: Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), depois de ouvir da boca de seu escravo Maysara os comentários do sacerdote e que dois anjos haviam feito sombra sobre Muhammad (que Allah o abençoe e lhe dê paz), foi até Waraqa ibn Nawfal e contou-lhe tudo. Ao ouvir Khadija, ele disse: “Khadija! Se o que dizes for verdade, então Muhammad será o profeta desta comunidade. Eu soube que em breve surgirá um profeta nesta comunidade. Este é o seu tempo.” Depois disso, Waraqa ficou esperando. É provável que todos os acontecimentos mencionados tenham ajudado Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) a tomar sua decisão.

É necessário apresentar aqui uma breve introdução a Waraqa ibn Nawfal, pois, para acompanhar corretamente a vida de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), nós o vemos repetidamente em cena. Na história dos primórdios do Islã, ele foi como o brilho dourado do sol da manhã: Waraqa ibn Nawfal ibn Asad ibn Abd al-Uzza. O nome de sua mãe era Hind bint Abi Kabir. Ele era erudito nos Livros Celestiais e no conhecimento humano. Não teve filhos. Foi um dos que creram no Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) e morreram antes de ele se apresentar como profeta.

Há vários relatos sobre como e de que maneira foi feita a proposta de casamento. Contudo, quase todos os relatos concordam que foi Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) quem apresentou primeiro a proposta ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz).

Segundo um relato, Nafisa bint Munya disse: depois que Muhammad retornou da Síria, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) enviou-me para sondar sua disposição. Eu lhe disse: “Muhammad! Por que você não se casa?” Ele respondeu: “Não tenho recursos para me casar.” Eu disse: “Se lhe fosse apresentada uma bela mulher, juntamente com uma proposta que incluísse riqueza, posição e uma família nobre, você aceitaria?” Ele perguntou: “Quem é ela?” Eu respondi: “Khadija.” Ele disse: “Como isso poderia ser possível para mim?” Eu disse: “Essa responsabilidade é minha.” Ele aceitou.

Ibn Ishaq narrou que Khadija era uma mulher prudente e inteligente. Por meio de um mensageiro, ela disse a Muhammad (que Allah o abençoe e lhe dê paz): “Ó meu primo! Sua confiabilidade, honestidade e elevado caráter moral me impressionaram. Esse mensageiro provavelmente era Nafisa bint Munya.

Outro relato afirma que Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) falou pessoalmente com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) e pediu-lhe que apresentasse a proposta ao pai dela. Contudo, ele recusou, dizendo que, por causa de sua pobreza, talvez o pai de Khadija o rejeitasse. Por fim, Khadija apresentou ela mesma o assunto ao pai e obteve seu consentimento.

Alguns disseram que, primeiramente, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) enviou Nafisa para saber a opinião do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a respeito do casamento. Depois de receber uma resposta positiva, ela falou diretamente com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Isso provavelmente se devia ao fato de que, na Arábia daquela época, as mulheres, especialmente as de famílias nobres, tinham o direito de discutir e decidir sobre o casamento. Por isso, mesmo com o pai ou o tio vivos, Khadija passou pessoalmente por todas as etapas do casamento.

Al-Kalbi relatou: Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) mandou dizer ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que ele apresentasse uma proposta formal de casamento ao seu tio, Amr ibn Asad. Naquela época, meu tio já era um ancião muito idoso. Enquanto isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) contou aos seus tios sobre a proposta de Khadija. Ele foi à casa de Khadija, em um dia determinado, acompanhado de seus dois tios, Abu Talib e Hamza. Khadija sacrificou uma cabra e preparou uma recepção. Também convidou o tio Amr e os membros da família. Serviu bebidas ao tio. Quando terminou a refeição, Khadija disse ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Peça a Abu Talib que apresente ao meu tio Amr a proposta formal de casamento comigo.” Em seguida, Abu Talib recitou o sermão matrimonial e concluiu o casamento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com Khadija. Poucos dias depois desse casamento, o tio de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu.

A respeito disso, também se encontram alguns relatos relacionados ao pai de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). O imam Ahmad narrou em seu Musnad, por intermédio de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o pai de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) não era favorável a esse casamento. Certo dia, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) convidou para uma refeição em sua casa o pai e alguns outros membros dos coraixitas. Depois de comerem e beberem até se saciarem, ficaram embriagados, e Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse ao pai: “Muhammad me enviou uma proposta de casamento. Dê sua aprovação a este casamento.” O pai deu seu consentimento. Conforme o costume, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) vestiu o pai com uma roupa nova. Ao recuperar a consciência, ele perguntou: “Por que estou usando esta roupa nova?” Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Eu vou casá-lo com este órfão de Abu Talib.” Ele disse: “Juro pela minha vida, isso jamais acontecerá!” Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse em tom de reprovação: “Você quer se fazer passar por tolo diante dos coraixitas por causa do meu assunto? Quer dizer-lhes que estava embriagado?” Diante dessas palavras de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), ele deu seu consentimento. Al-A’mash também transmitiu algo semelhante, por intermédio de Jabir ibn Samura. O imam al-Zuhri também mencionou um relato semelhante.

Abu Mihraz relatou: fizeram o pai de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) beber vinho até ficar embriagado. Depois, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi chamado, e o casamento foi concluído por meio dele. Em seguida, conforme o costume, vestiram o ancião com uma roupa nova. Ao recuperar a consciência, o ancião perguntou: “Por que estou usando esta roupa?” As pessoas lhe diziam: “Esta roupa foi colocada em você por Muhammad, o marido de sua filha.” Ele explodiu de raiva e pegou uma arma. Os Banu Hashim também se posicionaram com armas nas mãos para resistir. Por fim, chegou-se a um acordo e a uma reconciliação.

Em outra cadeia de transmissão, foi relatado que Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) fez o pai beber vinho em excesso, deixando-o inconsciente. Sacrificou uma vaca, passou tinta no corpo do pai e vestiu-o com uma roupa nova. Ao recuperar a consciência, ele perguntou: “Por que esta vaca foi sacrificada? Você me casou com Muhammad, ou não se lembra?” Ele respondeu: “Não, não fiz isso. Os melhores filhos dos coraixitas lhe fizeram propostas de casamento, e eu não dei meu consentimento. E eu a teria casado com Muhammad?” Já mencionamos anteriormente que há divergência entre os especialistas em biografia sobre se o pai de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) estava vivo na época de seu casamento com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Portanto, também há divergência sobre quem foi o guardião matrimonial (wali) de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) nesse casamento. Alguns mencionaram seu tio Amr ibn Asad, enquanto outros citaram seu irmão Amr ibn Khuwailid. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) casou-a com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), pois seu pai havia falecido antes da Guerra de Fijar. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) acrescentou: “Amr já era um ancião muito idoso naquela época. Além dele, nenhum outro filho de Asad estava vivo. Amr também não tinha filhos.” Muhammad ibn Umar também afirmou que o pai de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) morreu antes da Guerra de Fijar. E todos os relatos que envolvem o pai dela no casamento de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) são falsos e infundados. Foi o tio dela que a casou com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

De qualquer modo, na presença das pessoas de ambos os lados, o tio do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abu Talib, recitou formalmente o sermão matrimonial. Embora breve, o sermão é considerado, por sua excelência literária, um modelo da prosa árabe da época da Jahiliyya. Historiadores árabes e apreciadores da literatura preservaram esse sermão. Para conhecimento dos leitores, nós o apresentamos aqui.

Será em árabe.

“Todo louvor pertence a Allah, que nos incluiu entre os descendentes de Ibrahim e a progênie de Ismael. Ele nos concedeu uma cidade honrada e uma Casa destinada às pessoas. Deu-nos autoridade sobre os homens. Não importa com qual jovem dos coraixitas Muhammad ibn Abdullah seja colocado na balança: sua balança certamente será mais pesada em bondade, nobreza e retidão, ainda que seja o mais pobre em riqueza e prosperidade. A riqueza, porém, é passageira, como uma sombra que desaparece. Ele tem interesse em Khadija bint Khuwailid, e ela também tem a mesma inclinação por ele. Cabe a mim pagar o dote que vocês determinarem.”

Há uma pequena divergência quanto ao valor do dote fixado no casamento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Segundo uma narração, por recomendação do tio ‘Amr, foram fixadas quinhentas moedas de ouro. Al-Kalbi afirma: o dote foi fixado em doze uqiyyas de ouro. Uma uqiyya equivale a quarenta dirhams. O imã Dhahabi, citando Ibn Ishaq, afirmou que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu a Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) o dote denominado “bil bakrah”.

A própria Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) arcou com todas as despesas de ambas as partes. Ela enviou duas uqiyyas de ouro e prata ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e pediu que, com esse valor, fossem providenciadas as roupas de ambos e a walima.

Assim, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) tornou-se a Mãe dos Crentes. Isso ocorreu quinze anos antes do início da missão profética do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Naturalmente, há divergência entre os especialistas em sirah quanto à idade de ambos naquela época.

Al-Kalbi narrou, por intermédio de Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que, quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se casou com Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), ela tinha vinte e oito (28) anos. Contudo, os especialistas não consideraram essa narração aceitável, pois sua cadeia de transmissão é fraca. Al-Zurqani mencionou, em sua obra Sharh al-Mawahib, que Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha quarenta anos na época do casamento. O imã Dhahabi afirmou: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha então vinte e cinco anos, e Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) era quinze anos mais velha que ele. Hakim ibn Hizam, sobrinho de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), também disse algo semelhante. Al-Waqidi narrou, por intermédio de Nafisa bint Munya, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha vinte e quatro anos. Algumas narrações mencionam que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha vinte e cinco anos e Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), quarenta e seis. Do mesmo modo, também foram mencionadas as idades de vinte e três e vinte e oito anos. A opinião mais correta é que ele tinha vinte e cinco anos e ela, quarenta.

Quinze anos após o casamento, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu a missão profética. Desde antes disso, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) já havia adquirido firme convicção de que seu marido, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), seria um profeta. Um hadith que apresenta detalhes desse acontecimento encontra-se no capítulo “O início da revelação”, do Sahih al-Bukhari. A honrada ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) o narrou de maneira extraordinária.

“O início da primeira revelação enviada ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ocorreu por meio de sonhos verdadeiros durante o sono. Tudo o que ele via em sonho manifestava-se com a clareza da luz do sol da manhã. Depois, ele passou a gostar de permanecer em reclusão. Levava provisões consigo e ia para a caverna de Hira. Ali, ocupava-se em adoração durante vários dias. Quando a comida acabava, retornava para junto de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Então levava provisões e voltava à caverna. Foi nesse estado que, certo dia, a Verdade veio até ele. O anjo veio e o apertou com tanta força que ele sentiu dor. Depois de soltá-lo, disse novamente: ‘Leia!’ Ele respondeu outra vez: ‘Não sei ler.’ O anjo o tratou da mesma forma pela segunda e pela terceira vez. Por fim, disse:

Será em árabe

“Leia em nome do seu Senhor, que criou. Criou o ser humano a partir de um coágulo. Leia! Seu Senhor é o Mais Generoso, que ensinou por meio da pena. Ensinou ao ser humano o que ele não sabia.”

O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) voltou para casa tremendo de medo. Chamou Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e disse: “Cubra-me com um cobertor, cubra-me com um cobertor.” Ela o cobriu, e seu medo passou. Ele contou detalhadamente todo o ocorrido a Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e expressou seu temor pelo próprio destino. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse:

Será em árabe

“Não, isso jamais poderá acontecer. Juro por Allah! Ele jamais o humilhará. Você fortalece os laços de parentesco, ajuda os pobres e necessitados, é hospitaleiro e socorre as pessoas em suas adversidades.”

Depois, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) levou o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) até seu primo Waraqa ibn Nawfal. Naquela época de ignorância, ele havia abraçado o cristianismo. Escrevia o Evangelho em língua hebraica. Naquele momento, era idoso e cego. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Ouça o que seu sobrinho tem a dizer.” Ele perguntou: “Meu sobrinho, o que aconteceu com você?” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) relatou todo o ocorrido. Depois de ouvir tudo, Waraqa disse: “Este é o Namus, aquele que Allah enviou a Moisés (que a paz esteja com ele). Ah, se eu estivesse vivo e saudável naquele dia! Naquele dia, seu povo o expulsará de sua terra.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou: “Eles me expulsarão de minha terra?” Ele respondeu: “Sim. Sempre que alguém trouxe algo semelhante ao que você trouxe, o mundo inteiro se voltou contra ele. Se eu ainda tiver forças e estiver vivo até esse momento, eu o ajudarei de todas as formas.”

O Imam Zuhri disse: Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) foi a primeira a crer em Allah. Depois, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recebeu a missão profética. Ao retornar para casa depois de receber essa missão, cada pedra e cada árvore começou a saudá-lo. Ao chegar em casa, ele disse a Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela): “Aquele Ser que eu lhe dizia ver em meus sonhos é Jibril. Ele apareceu diante de mim em plena luz do dia. Meu Senhor o enviou até mim.” Em seguida, contou detalhadamente a Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) tudo o que havia acontecido com a revelação. Ao ouvir suas palavras, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Alegre-se! Allah não lhe fará nenhum mal; somente o bem. Aceite o que veio de Allah. Isso certamente é a verdade.”

Depois, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) foi apressadamente até ‘Addas, escravo de ‘Utba ibn Rabi‘a. Ele era um cristão originário de Nínive. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou a ‘Addas, jurando pelo nome de Allah: “Você sabe alguma coisa sobre Jibril?” ‘Addas respondeu: “Quddus, Quddus — Santo, Santo!” Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Conte-me um pouco do que você sabe sobre ele.” ‘Addas respondeu: “Jibril é o Amín, o ser digno de absoluta confiança, entre Allah e Seus profetas. Ele veio até Moisés (que a paz esteja com ele) e Jesus (que a paz esteja com ele).” Deixando ‘Addas, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) foi até Waraqa. Depois de ouvir o que ambos disseram, voltou para junto do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).

Ibn Ishaq disse: O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) contou: “Depois de receber a revelação, saí da caverna. Quando estava no meio da montanha, ouvi uma voz vinda do céu. Era como se alguém me dissesse: ‘Muhammad, você é o Mensageiro de Allah.’ Ao levantar a cabeça, vi Jibril de pé, sob a forma de um homem de extrema pureza e luminosidade. Seus dois pés alcançavam os dois horizontes do espaço. Ele me disse: ‘Muhammad, você é o Mensageiro de Allah, e eu sou Jibril.’ Permaneci imóvel, observando aquela cena. Para qualquer direção do céu que eu olhasse, via a mesma coisa. Fiquei ali de pé, contemplando a visão. Enquanto isso, como eu demorava a voltar, Khadija enviou pessoas à minha procura. Elas me buscaram minuciosamente nas partes elevadas de Meca, mas, não me encontrando em lugar algum, retornaram para junto de Khadija. Eu, porém, continuava de pé, imóvel, no mesmo lugar.”

Depois de algum tempo, Jibril desapareceu. Voltei para casa e sentei-me junto de Khadija. Khadija disse: “Abul-Qasim! Onde você esteve? Enviei pessoas à sua procura. Elas procuraram por toda a região elevada de Meca e, não o encontrando em lugar algum, voltaram.” Então contei todos os acontecimentos. Ao ouvir minhas palavras, Khadija disse: “Meu primo, permaneça firme. Juro por Aquele em cuja mão está a vida de Khadija! Espero que você seja o profeta desta comunidade.” Em seguida, cobriu o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) com um manto e foi até Waraqa.

Foi narrado por Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): Um dia, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava sozinho na região de Ajyad, em Meca. Ele viu um anjo sentado no horizonte, com uma perna sobre a outra. O anjo gritava: “Ó Muhammad! Eu sou Jibril.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), tomado pelo medo, voltou depressa para Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e disse: “Temo que eu me torne um kahin.” Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Meu primo! Não diga isso. Isso não pode acontecer. Você preserva os laços de parentesco, diz a verdade, devolve os depósitos que lhe são confiados e possui um caráter extremamente nobre.”

Abu Maysara disse: No início do período em que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) começou a receber a revelação, sempre que ia sozinho a algum lugar isolado, ouvia uma voz chamando: “Ó Muhammad!” Ele ficava assustado. Informou Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) sobre isso. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Allah jamais lhe fará mal algum.” Então, ela enviou o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), acompanhado de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), até Waraqa.

Foi narrado pelo Imam Zuhri: Depois que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recebeu a primeira revelação, a revelação deixou de vir durante vários dias. Na terminologia islâmica, esse período é chamado de “Fatrat al-Wahy”. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ficou profundamente preocupado. Ele continuou indo à caverna de Hira. Certo dia, nesse período, viu Jibril acima dele e, assustado e perturbado, voltou correndo para Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e disse: “Cubra-me com um cobertor.” Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) cobriu-o com um cobertor. Nesse estado, foi revelada a surata Al-Muddaththir. O mesmo acontecimento foi narrado por Jabir ibn ‘Abdillah (que Allah esteja satisfeito com ele), embora ele tenha mencionado a revelação da surata Al-Muzzammil.

Certa vez, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) quis fazer uma verificação. Ibn Ishaq narrou: Um dia, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Meu primo! Quando o seu companheiro (Jibril, que a paz esteja com ele) vier até você, poderia me avisar?” Quando Jibril chegou, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse a Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela): “Este é Jibril; ele chegou.” Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) fez o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sentar-se sobre sua coxa direita e perguntou: “Você ainda consegue vê-lo?” Ele respondeu: “Sim, consigo vê-lo.” Então Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) fez o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sentar-se sobre sua coxa esquerda e perguntou novamente: “Agora você consegue vê-lo?” Ele respondeu: “Sim, consigo vê-lo.” Em seguida, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) retirou o véu e descobriu o peito. Depois perguntou: “Ainda consegue vê-lo?” Ele respondeu: “Não, não o vejo assim.” Então Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Alegre-se! Juro por Allah que ele é certamente um anjo, não um demônio. Pois, nessa situação, um anjo certamente sentiria vergonha.”

Certo dia, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) dirigia-se às regiões elevadas de Meca, levando comida para o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e procurando por ele. No caminho, Jibril (que a paz esteja com ele) apareceu sob a forma de um desconhecido e perguntou sobre o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou assustada. Ela se alarmou, pensando que talvez aquele homem a sequestrasse. Mais tarde, quando Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) contou o ocorrido ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ele disse: “Aquele homem era Jibril (que a paz esteja com ele). Ele me disse que eu lhe transmitisse suas saudações e lhe desse as boas-novas de uma casa no Paraíso feita de pérolas e pedras preciosas.”

Todos os acontecimentos mencionados anteriormente ocorreram no período imediatamente anterior ao Islã e em sua fase inicial. Conhecem-se muitos outros acontecimentos desse tipo, nos quais se evidenciam a paciência, a prudência, o intenso amor e a confiança de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) em seu marido, bem como sua disposição de permanecer ao lado dele em todas as circunstâncias. Ao analisar esses acontecimentos, torna-se igualmente claro que, antes mesmo da chegada de Jibril (que a paz esteja com ele) ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ela já havia chegado à firme convicção de que seu marido seria um homem extraordinário. Ele seria um profeta. Por isso, quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi até ela pela primeira vez e declarou que Jibril havia vindo até ele e que ele havia recebido a revelação, nem por um instante surgiu em sua mente qualquer dúvida ou hesitação. Era como se ela já estivesse aguardando receber uma notícia assim e estivesse mentalmente preparada para ela. As diversas ações e atitudes que teve naquele período confirmam e comprovam essas afirmações.

Depois de aceitar o Islã, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) dedicou toda a sua riqueza, seus bens e seu patrimônio ao objetivo da propagação da religião. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) abandonou o comércio e os negócios e dedicou-se à adoração de Allah e à propagação e expansão do Islã. Toda a renda da família cessou. Ao mesmo tempo, aumentavam as preocupações de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela enfrentou todas as situações adversas com paciência e firmeza. Ibn Ishaq disse:

Será em árabe

‘‘Allah afastava, por meio de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), a dor que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sentia devido à rejeição e à descrença dos idólatras. Isso porque ela o consolava, apoiava e encorajava. Ela acreditava sem hesitação em tudo o que ele dizia. Ela relatava ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) todos os comportamentos grosseiros dos idólatras. Ibn Ishaq acrescenta:

Será em árabe

‘‘Para o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma conselheira verdadeira e sincera no assunto do Islã. Em todas as dificuldades e aflições, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava falar com ela e apresentar-lhe suas queixas.’’ No sétimo ano da missão profética, no mês de Muharram, os coraixitas boicotaram os muçulmanos. Eles refugiaram-se no ‘Desfiladeiro de Abu Talib’. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) também ficou confinada ali com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Durante quase três anos, os Banu Hashim viveram em extrema pobreza e fome. Praticamente não tinham outro meio de subsistência além das folhas das árvores. Junto com o marido, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) suportou aquelas dificuldades com um sorriso. Naqueles tempos difíceis, usando sua influência, ela conseguia ocasionalmente obter alimentos por diversos meios. Seus três sobrinhos — Hakim ibn Hizam, Abu al-Bukhtari e Jum‘a ibn al-Aswad — estavam entre os líderes dos coraixitas. Embora não fossem muçulmanos, desempenharam um papel importante, de várias maneiras, no envio de provisões aos muçulmanos isolados.

Certo dia, Hakim ibn Hizam colocou um pouco de trigo sobre a cabeça de um servo e dirigiu-se à casa de sua tia Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Naquela época, ela estava confinada com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) no ‘Desfiladeiro de Abu Talib’. No caminho, encontrou o miserável Abu Jahl. Com voz irada, ele disse: “Você está levando comida para os Banu Hashim? Juro por Allah que você não poderá chegar lá com essa comida. Se for, eu o humilharei e desonrarei em Meca.” Nesse momento, Abu al-Bukhtari ibn Hisham chegou ao local. Ele perguntou: “Por que vocês estão discutindo?” Abu Jahl respondeu: “Ele está levando comida para os Banu Hashim.” Abu al-Bukhtari disse: “Essa comida pertencia à tia dele e estava com Hakim. Ele está levando a comida para a própria tia, e você está impedindo-o? Dê passagem.” Mas Abu Jahl não deu ouvidos às suas palavras. Então os dois se envolveram numa briga violenta. Assim, Hakim costumava enviar comida com frequência.

Certo dia, ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) saiu do ‘Desfiladeiro’ para conseguir algum alimento. Abu Jahl tramou um plano para humilhá-lo. Mas Allah o protegeu. Ao saber disso, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) mandou dizer, por intermédio de alguém, a seu tio Jum‘a ibn al-Asad: “Abu Jahl está impedindo a compra de alimentos. Diga-lhe algumas palavras severas.” Jum‘a agiu conforme as instruções de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Depois disso, ele parou de exceder-se.

Antes de ser instituída a obrigação da oração, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) costumava realizar secretamente a oração em casa junto com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ibn Ishaq disse: certo dia, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava nas terras altas de Meca, Jibril (que a paz esteja sobre ele) veio e, golpeando um lugar na extremidade do vale, fez surgir uma fonte. Primeiro, Jibril (que a paz esteja sobre ele) realizou a ablução com aquela água; depois, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez a ablução como ele. Jibril (que a paz esteja sobre ele) rezou, e o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) rezou como ele. Em seguida, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) voltou para casa, ensinou Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) a fazer a ablução e realizou a oração com ela, proporcionando-lhe instrução prática.

Ibn Ishaq também mencionou que, certo dia, ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) viu os dois — isto é, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) — realizando a oração. ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: “Muhammad, o que é isto?” Então o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apresentou a ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) o convite à nova religião e proibiu-o de contar aquilo a qualquer outra pessoa. Esse relato mostra que, entre a comunidade de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) teve a honra de ser a primeira a realizar a oração junto com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Um homem chamado ‘Afif al-Kindi havia ido a Meca naquela época para fazer algumas compras. Ele estava hospedado na casa de ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). Certa manhã, viu um jovem aproximar-se da Caaba e olhar para o céu. Depois, ficou de frente para a qibla. Um rapaz veio e ficou ao seu lado. Em seguida, chegou uma mulher, que também ficou atrás dos dois. Eles terminaram a oração e foram embora. ‘Afif al-Kindi observou a cena e disse a ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): “Algo grandioso está prestes a acontecer!” ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “‘Ali e a mulher é a esposa de Muhammad. Meu sobrinho acredita que sua religião é a religião do Senhor dos mundos e que tudo o que faz, faz por ordem dele. Pelo que sei, eles são as únicas três pessoas no mundo que seguem essa nova religião.”

Há certa divergência quanto ao ano exato do falecimento de Hadrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Relata-se que ela morreu em Meca três, quatro ou cinco anos antes da Hégira. O imame An-Nawawi afirma que a opinião dos três anos anteriores é a correta. Ela faleceu três dias depois da morte de Abu Talib.

Al-Baladhuri afirma: Banu Hashim saiu do desfiladeiro de Abu Talib no décimo ano da missão profética. Depois de sua saída, Abu Talib morreu naquele mesmo ano, no início do mês de Dhu al-Qi‘dah ou em meados de Shawwal. Há divergência quanto ao intervalo entre as mortes de Abu Talib e Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela): 35, 25, 5 ou 3 dias. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) morreu primeiro. Ela foi sepultada no cemitério de Hajun, em Meca. Naquela época, a oração fúnebre ainda não havia sido instituída. Hakim ibn Hizam, sobrinho de Hadrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), disse: “Nós a retiramos de casa e a sepultamos no próprio Hajun.” O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) desceu ao seu túmulo. Ela morreu no mês de Ramadan do décimo ano da missão profética, aos sessenta e cinco anos de idade. Ibn al-Jawzi também disse isso. Foi relatado por Hadrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) que Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu antes de a oração ser tornada obrigatória. Também foi relatado que ela morreu no mês de Ramadan, aos sessenta e cinco anos de idade, e foi sepultada no cemitério de Hajun, situado na parte elevada de Meca. Qatada e ‘Urwah disseram que ela morreu três anos antes da Hégira. Al-Waqidi afirmou: “Eles foram libertados do desfiladeiro de Banu Hashim três anos antes da Hégira. Depois disso, Abu Talib morreu. Os dois morreram no mesmo ano. Entretanto, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) morreu três dias depois da morte de Abu Talib.” O imame Adh-Dhahabi afirma que, quando se casou com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha 40 anos e viveu com ele durante 24 anos. Segundo esse cálculo, ela viveu 64 anos.

Após o falecimento do tio extremamente respeitado Abu Talib e da amada esposa Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), começou uma nova fase na vida do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). E foi a fase mais difícil de todas. O próprio Hadrat Rasul al-Karim (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chamava o ano de seus falecimentos de ‘Am al-Huzn — o ano da tristeza e do luto. Com a morte dessas duas pessoas tão queridas pelo Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), os perversos coraixitas tornaram-se completamente desenfreados. Eles o trataram com extrema crueldade. Foi então que, desesperançado em relação aos habitantes de Meca, ele partiu para Ta’if. Se Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) estivesse viva, ele ao menos poderia contar-lhe suas próprias tristezas. Ibn Ishaq disse: Depois do falecimento de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), as provações continuaram a suceder-se uma após outra ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Isso porque já não havia pessoas de personalidade como Abu Talib e Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) capazes de conter as forças pagãs.

Ibn al-Athir afirma:

Será em árabe

“Há consenso na comunidade muçulmana quanto ao fato de que Hadrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) foi a primeira de toda a criação de Allah a tornar-se muçulmana.”

Az-Zuhri, Qatada, Musa ibn ‘Uqbah, Ibn Ishaq, Al-Waqidi e Sa‘id ibn Yahya disseram:

Será em árabe

“Khadija, Abu Bakr e Ali, que Allah esteja satisfeito com eles, foram os primeiros a crer em Allah e em Seu Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.”

Foi narrado por Hudhayfa, que Allah esteja satisfeito com ele. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

Será em árabe

“No que diz respeito a crer em Allah e em Muhammad, Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, foi a primeira entre todas as mulheres do mundo.”

Sa’id ibn al-Musayyib disse:

Será em árabe

— “Entre as mulheres, Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, foi a primeira muçulmana.”

O Imam Nawawi disse: al-Zuhri e um grupo numeroso de eruditos mencionaram que Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, foi a primeira a crer em Allah e em Seu Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O Imam Tha’labi narrou que houve consenso quanto a isso. Quando aceitou o Islam, Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, tinha cinquenta anos de idade. A conversão dela também exerceu influência sobre os membros de sua linhagem paterna. Na época do surgimento do Islam, quinze homens ilustres de sua linhagem paterna, os Banu Asad ibn ‘Abd al-‘Uzza, estavam vivos. Dez deles aceitaram o Islam. Os outros cinco foram mortos na Batalha de Badr enquanto ainda eram incrédulos.

Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) foi mãe de muitos filhos. Do seu primeiro marido, Abu Hala, nasceram dois filhos, chamados Hala e Hind. Ambos aceitaram o Islã e tiveram a honra de se tornar companheiros do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Hind participou, ao lado do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), da batalha de Badr ou, segundo outra opinião, da batalha de Uhud. Contudo, pelo relato de Baladhuri, parece que ela teve apenas um filho do primeiro marido, chamado Hind. Ele recebeu esse nome em homenagem ao pai. Era um homem eloquente e fluente. Foi martirizado na Batalha do Camelo, lutando ao lado de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Do segundo marido, Atique Sa‘mi, nasceu uma filha chamada Hindah. Ela também aceitou o Islã e teve a honra de se tornar companheira. Contudo, segundo um relato, do primeiro marido nasceram três filhos: dois meninos, Hind e Harith, e uma menina, Zaynab. Um incrédulo matou Harith junto ao Rukn Yamani da Caaba. A filha chamava-se Zaynab. A filha do segundo marido tinha o apelido de Umm Muhammad. Ela se casou com Sayfi ibn Umayya. Teve um filho chamado Muhammad. Por isso, era chamada de Umm Muhammad.

Ibn Ishaq disse que, com exceção de Ibrahim, todos os filhos do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) nasceram do ventre de Hazrat Khadija. Eles foram: al-Qasim, at-Tayyib, Zaynab, Ruqayya, Umm Kulthum e Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela). Ibn Hisham disse que o filho mais velho do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi al-Qasim. Depois vieram at-Tayyib e at-Tahir. A filha mais velha foi Ruqayya; depois vieram Zaynab, Umm Kulthum e Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela).

Ibn Ishaq também disse que al-Qasim, at-Tayyib e at-Tahir morreram ainda na época da ignorância. Todas as filhas, por sua vez, viveram até a era islâmica. Elas aceitaram o Islã e emigraram para Medina com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).

Pelos relatos de Ibn Ishaq e Ibn Hisham, parece que at-Tahir e at-Tayyib eram dois filhos diferentes. No entanto, esses dois nomes eram títulos ou epítetos de Hazrat Abdullah, filho do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Al-Waqidi disse que, na casa do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) teve dois filhos: al-Qasim e Abdullah. Como Abdullah nasceu depois que o Mensageiro recebeu a missão profética, ele era chamado de at-Tahir. Além disso, nasceram quatro filhas. Assim, ela foi mãe de seis filhos ao todo. O primeiro filho foi al-Qasim. Ele morreu em Meca, ainda em idade de amamentação, antes de o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) receber a missão profética. Por causa de seu nome, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recebeu a kunya, ou nome de parentesco, de Abu al-Qasim. Antes de morrer, ele havia aprendido a andar, dando pequenos passos. Segundo Baladhuri, tinha apenas dois anos quando morreu.

O Imam as-Suhayli relatou que, depois da morte de al-Qasim, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi até Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela chorou e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Meu pedacinho de carne, que mamava no meu peito, morreu. Se ele tivesse vivido até completar o período de amamentação, eu não estaria tão triste.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) consolou-a, dizendo: “Se quiseres, posso fazer-te ouvir a sua voz no Paraíso.” Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.” Esse relato indica que al-Qasim não morreu na época da ignorância, mas na era islâmica.

O segundo filho foi Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), a filha mais velha do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ela se casou com seu primo materno, Abu al-As ibn ar-Rabi. A mãe de Abu al-As era Hala bint Khuwaylid.

O terceiro filho foi Hazrat Abdullah. Ele também era chamado de at-Tayyib e at-Tahir. Como nasceu depois que o Mensageiro recebeu a missão profética, recebeu esses nomes. Morreu ainda criança, em Meca. Após sua morte, os incrédulos, especialmente As ibn Wa’il, começaram a zombar do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), chamando-o de “abtar”, ou seja, “sem descendência”. Então foi revelado o seguinte versículo da Surata al-Kawthar:

Será em árabe

—Aquele que é seu inimigo é, de fato, o de rabo cortado e sem descendência.

Também foi narrado que o primeiro filho faleceu. A quarta filha foi Hazrat Ruqayya (que Allah esteja satisfeito com ela). Seu primeiro casamento foi com Utba ibn Abu Lahab. Devido à sua extrema hostilidade contra o Islã, ele se divorciou de Hazrat Ruqayya. Depois, ela se casou com Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Após a Hégira, faleceu em Medina, durante a vida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A quinta filha foi Hazrat Umm Kulthum (que Allah esteja satisfeito com ela). Seu primeiro casamento foi com Mu’attab ou, segundo outra versão, com Utayba ibn Abu Lahab. Ele também se divorciou de Umm Kulthum, sua esposa, devido ao seu intenso ódio ao Islã. Depois, após a morte de sua irmã Ruqayya, ela se casou pela segunda vez com Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Por isso, Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) recebeu o título de Dhu’n-Nurayn, o Possuidor das Duas Luzes.

A sexta filha, Hazrat Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela), foi esposa do quarto califa, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), e mãe de Hazrat Imam Hasan e Hazrat Imam Husayn (que Allah esteja satisfeito com ambos).

É importante mencionar que Ibrahim era filho de Maria al-Qibtiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), escrava do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O governante do Egito, Muqawqis, enviou Maria ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como presente. Em suma, com exceção de Ibrahim, a mãe de todos os filhos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi Hazrat Khadija al-Kubra (que Allah esteja satisfeito com ela).

Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) cuidava de seus filhos com grande carinho e dedicação. Ela também tinha condições financeiras para criá-los e contratava amas de leite para amamentá-los. Providenciava tudo antes mesmo do nascimento dos filhos. Contratou Salama, escrava de Safiyya, mediante pagamento, para cuidar deles. Salama os amamentava e lhes dava comida.

Uma narração esclarece um pouco o quanto Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) amava todos os seus filhos e quão ansiosa ficava pelo bem-estar deles. Certo dia, ela perguntou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Ó Mensageiro de Allah! Qual será, na vida futura, o destino dos filhos que tive de você e que morreram ainda crianças?” Ele respondeu: “No Paraíso.” Ela perguntou novamente: “E para onde irão os filhos que tive de meus maridos politeístas e que morreram?” Ele respondeu: “Para o Inferno.” Ela perguntou: “Mesmo sem terem praticado qualquer ato?” Ele respondeu: “Allah sabe que atos talvez tivessem praticado se tivessem permanecido vivos.” Essa narração revela a profunda preocupação dela com seus filhos. Não é possível terminar de descrever as virtudes, a grandeza e a dignidade de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), a Mãe dos Crentes. Observamos com admiração como, naqueles dias de extrema escuridão da Arábia, uma mulher acreditou plenamente e sem qualquer hesitação na profecia do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Não havia em seu coração a menor dúvida ou incerteza. O primeiro dia em que recebeu a revelação, sua ida até Waraqa e sua firme declaração de convicção acerca de que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era um profeta — tudo isso merece profunda reflexão.

Mesmo antes de o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) receber a profecia, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) parecia estar firmemente convencida de que ele se tornaria um profeta. Por isso, mesmo após a chegada de Jibril (que a paz esteja sobre ele), jamais surgiu em seu coração, nem por um instante, qualquer hesitação. Isso evidencia sua profunda visão e seu aguçado poder de observação. Antes e depois de receber a profecia, ela sempre honrou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e acreditou sem questionar em cada uma de suas palavras. Durante os vinte e cinco anos de vida conjugal, jamais permitiu que qualquer dúvida se instalasse em seu coração, nem por um momento. Mesmo naquela época de ignorância, ela era pura e imaculada. Nunca adorou ídolos. Certo dia, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhe: “Jamais adorarei al-Lat e al-Uzza.” Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Deixe de lado o assunto de al-Lat e al-Uzza. Não mencione essas divindades.”

Ela não foi apenas a primeira mulher a acreditar na profecia de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e a realizar a primeira oração com ele. O apoio que ofereceu ao Islã naqueles dias de extrema adversidade permanecerá para sempre inesquecível. Naquele período inicial do Islã, ela foi verdadeiramente a conselheira do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Após se casar com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), entregou toda a sua riqueza às mãos do marido. Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele) era um escravo querido de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela também o presenteou ao marido.

Ibn Hisham relata: Hakim ibn Hizam, sobrinho de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), comprou muitos escravos no mercado da Síria e os trouxe consigo. Entre eles estava Zayd ibn Harithah. Sua tia Khadija foi visitar o sobrinho Hakim. O sobrinho disse: “Tia, escolha entre estes escravos aquele de que gostar.” Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) escolheu Zayd e o levou consigo. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu Zayd e gostou dele. Ao perceber isso, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) presenteou-o ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) libertou-o da escravidão e o adotou como filho.

Outra narrativa menciona que Hakim comprou Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) para sua tia Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) na feira de ‘Ukaz, na Arábia. Também foi relatado que, quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viajou para a Síria com Maysarah, levando as mercadorias de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), comprou Zayd nessa viagem para Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Depois do casamento, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) entregou Zayd como presente ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) amava profundamente seu esposo, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ela também respeitava os amigos e parentes do marido, mantinha-se informada sobre eles e permanecia ao lado deles em suas dificuldades e adversidades. Certa vez, Halimah, a ama de leite do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), veio visitá-lo. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) cuidou dela com atenção, tratando-a com a honra e o respeito devidos a uma sogra. Halimah disse ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que, devido à seca e à falta de chuvas em sua região, os animais e as aves haviam morrido e surgira uma situação de penúria. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conversou com Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) sobre os problemas deles. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) deu a Halimah quarenta cabras e camelos, para que fossem distribuídos entre os membros de seu clã.

Suwaybah, a escrava de Abu Lahab, era outra ama de leite do nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ela costumava visitá-lo de vez em quando. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) demonstrava respeito por ela e a tratava bem. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) também a honrava e a tratava com grande consideração. Com o objetivo de libertá-la da escravidão, ela propôs a Abu Lahab comprá-la, mas ele não aceitou vendê-la.

Embora fosse uma mulher rica de Meca, ela mesma cuidava do marido com as próprias mãos. Além de criar os filhos, assumia pessoalmente todas as responsabilidades dos trabalhos domésticos. Ela própria cuidava da alimentação, do descanso e de tudo o mais relacionado ao marido. É relatado em um hadith de Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele disse:

Será em árabe

Certo dia, Jibril (que a paz esteja sobre ele) foi até o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Eis que Khadija vem trazendo para você, em um recipiente, algum ensopado, alimento ou bebida. Transmita-lhe as saudações de seu Senhor e minhas, e dê-lhe a boa notícia de uma casa no Paraíso feita de pérolas.”

Este hadith mostra que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não deixava todas as responsabilidades domésticas sob os cuidados de outras pessoas; ele próprio as desempenhava.

O Honorável Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amava profundamente Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Mesmo após a morte de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), ele jamais esqueceu, por um instante sequer, sua memória e suas contribuições ao longo de toda a sua vida. Isso foi comprovado e estabelecido por muitos dos comportamentos e comentários do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse:

Será em árabe:

— Eu não vi Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Apesar disso, não tive ciúmes de nenhuma outra esposa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tanto quanto tive dela. Isso porque o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) falava dela com muita frequência. Sempre que abatia uma cabra, cortava uma parte da carne e a enviava às amigas de Khadija. Quando eu dizia que parecia não haver outra mulher no mundo além de Khadija, ele respondia: “Khadija era assim. Foi através dela que Allah me concedeu filhos.”

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também disse: Certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mencionou Khadija. Eu fiz um comentário um tanto depreciativo e disse: “Ela era apenas uma velha. Além disso, era assim e assado. Allah lhe concedeu mulheres melhores do que ela.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah não me concedeu mulher alguma melhor do que ela. Quando as pessoas se recusaram a acreditar em mim, ela acreditou em mim. Quando as pessoas me privaram, ela me fez participar de sua riqueza. Allah me concedeu filhos através dela e privou-me de filhos através das outras.” Eu disse: “Jamais voltarei a repreendê-lo por causa dela.”

Outra narração relata. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Após a morte de Khadija, sempre que uma cabra era abatida na casa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele dizia: “Enviem uma parte da carne à casa das amigas de Khadija.” Certa vez, ao mencionar Khadija, ele disse: “Eu amo as amigas de Khadija.” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também disse: Sempre que Khadija era mencionada, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não deixava de elogiá-la de alguma forma. Todos os dias, ele não saía de casa sem falar um pouco sobre Khadija. Certo dia, depois de ouvir o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) falar de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) arrependeu-se e disse consigo mesma: “Ó Allah, se Tu afastares a ira do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), jamais voltarei a dizer algo mau sobre ela.” Percebendo o estado emocional de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Como podes dizer uma coisa dessas? Quando as pessoas me rejeitaram, ela me deu abrigo.” Em outra ocasião, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Allah colocou o amor por ela em meu coração.”

Abu’l-As ibn al-Rabi‘ era um jovem comerciante de Meca, honesto, confiável e rico. Era filho de Hala bint Khuwaylid, irmã de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Sua tia Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) cuidava dele como se fosse seu próprio filho. Ela quis casar sua filha Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) com Abu’l-As. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não se opôs. O casamento foi realizado. Na ocasião do casamento, entre todos os objetos que Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) presenteou à sua filha Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), havia um colar de ouro.

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu a profecia. As filhas de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) tornaram-se muçulmanas, mas Abu’l-As permaneceu não muçulmano. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) partiu deste mundo. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) migrou para Medina. Sua filha Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) permaneceu em Meca com o marido. Abu’l-As foi a Badr com os coraixitas para lutar contra os muçulmanos. Que cruel ironia do destino! Ele foi capturado e chegou a Medina, diante de seu sogro, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Decidiu-se libertar os prisioneiros de guerra mediante resgate. Os familiares dos prisioneiros enviaram de Meca o dinheiro do resgate. Entre os bens que Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) enviou como resgate do marido havia um colar de ouro. Na verdade, era o colar de casamento que sua mãe Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) lhe havia dado. Ao ver o colar, o coração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou profundamente dolorido. A lembrança de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) surgiu em sua mente. Ele disse aos companheiros: “Se puderdes, libertai o prisioneiro de Zaynab e devolvei também o dinheiro.” Os companheiros concordaram. Eles libertaram Abu’l-As sem exigir qualquer resgate.

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse:

Será em árabe

—Hala bint Dhuwaylid, irmã de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), pediu um dia permissão para visitar o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Como a voz e a maneira de pedir permissão das duas irmãs eram semelhantes, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ficou sobressaltado ao lembrar-se do pedido de permissão de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Então, depois de se recompor, exclamou: “Ó Allah! Esta é Hala, ao que parece.” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Senti ciúmes por isso e falei: ‘O que há para recordar de uma velha de faces coradas entre as velhas de Quraysh, que morreu há tanto tempo? Allah concedeu-lhe uma esposa melhor do que ela.’

Foi narrado por Muhammad ibn Salama. Após o falecimento de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), Hazrat Rasul-e-Karim (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ficou tão profundamente entristecido que sua vida chegou a ficar em perigo. Por fim, casou-se com Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).

Numerosos ditos e comentários do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sobre a virtude e a honra de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) encontram-se nas obras de hadith e de sirah. Apresentamos alguns deles em nossa discussão anterior. Aqui, apresentamos mais alguns ditos.

Foi narrado por Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele). O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse:

Será em árabe

Entre as mulheres do mundo, quatro são suficientes para vós.

Também foi narrado por Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

Será em árabe

— As melhores entre as mulheres do mundo são: Maryam, Asiya, Khadija bint Khuwaylid e Fatima (que Allah esteja satisfeito com elas).

‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer:

Será em árabe

— Khadija bint Khuwaylid foi a melhor mulher de seu tempo. Maryam bint Imrat foi a melhor mulher de seu tempo.

Foi narrado por ‘Abdullah ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

Será em árabe

Depois de Maryam bint Imran, Fátima, Khadija e Asiya, esposa do Faraó, são as líderes das mulheres habitantes do Paraíso.

Outro hadith narrado por ‘Abdullah ibn ‘Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, diz: Entre as mulheres que terão o Paraíso, Khadija, Fátima, Maryam e Asiya são as melhores. O Imam an-Nasa’i narrou este hadith.

Hadrat ‘Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Ouvi o Mensageiro de Allah, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, dizer muitas vezes:

Será em árabe

—Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, é a melhor mulher do mundo.

Ao descrever a posição e a dignidade de Hadrat Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, o Imam adh-Dhahabi disse: Seus méritos são numerosos. Ela foi a líder de todas as mulheres do mundo de sua época. Foi uma das mulheres que alcançaram a perfeição em virtude, inteligência e discernimento. Era uma mulher inteligente, extremamente honrada, devota e de caráter imaculado. Era uma habitante do Paraíso. O Mensageiro, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, louvou-a grandemente e concedeu-lhe precedência e superioridade sobre as demais esposas. Demonstrou-lhe extremo respeito. Ela não se casou novamente antes dele nem durante sua vida. Foi mãe de vários filhos do Mensageiro de Allah, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele. Foi a melhor companheira de vida do Mensageiro de Allah, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele. Ao perdê-la, o Mensageiro, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, ficou tomado pela dor. Ela gastou sua riqueza pelo Mensageiro de Allah, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, enquanto o Mensageiro de Allah, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, administrava seus negócios. Allah, o Altíssimo, por intermédio de Seu Profeta, deu-lhe as boas-novas de uma casa no Paraíso feita de pérolas e joias.

Foi narrado em muitas fontes que o Mensageiro de Allah, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Khadija, Jibril transmitiu-te as saudações de paz.” Em algumas dessas narrativas, consta que Jibril disse: “Ó Muhammad, transmita a Khadija as saudações de paz de seu Senhor e de minha parte.” Em resposta, Khadija disse:

Será em árabe

Segundo uma narração de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), a resposta de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) foi a seguinte:

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Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) aceitou o Profeta Muhammad (que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele) como esposo, permaneceu firmemente ao seu lado e entregou-lhe tudo o que possuía, promovendo assim um benefício incomensurável para a humanidade. Não somos capazes de terminar de descrever suas virtudes. Assim como Allah, o Altíssimo, e Jibril (que a paz esteja sobre ele), também nós concluímos estas palavras apresentando incontáveis saudações a ela.

Sawda bint Zam’a (que Allah esteja satisfeito com ela)

Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela) foi a mulher afortunada com quem o Nobre Mensageiro de Allah (que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele) se casou após a morte de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), a Mãe dos Crentes. Ele viveu a vida conjugal durante aproximadamente três anos, ou um pouco mais, somente com ela. Depois, levou para sua casa a Mãe dos Crentes, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).

Sawda era descendente de Banu Amir ibn Lu’ayy, um ramo da famosa tribo coraixita de Meca. Seu pai, Zam’a ibn Qays, era coraixita, e sua mãe, Shamūs bint Qays, pertencia à famosa tribo dos Najjar, de Medina. Salma, a mãe do avô do Mensageiro de Allah (que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele), Abd al-Muttalib, também era filha dessa família dos Najjar. O avô materno de Sawda, Qays ibn Amr, e Salma bint Amr eram irmãos. O kunyah de Sawda era Umm al-Aswad.

Durante a época da Jahiliyya, Sawda casou-se pela primeira vez com Sakran ibn Amr. Sakran era primo paterno de Sawda. Os quatro famosos Companheiros Suhayl ibn Amr, Sahl ibn Amr, Salit ibn Amr e Hatib ibn Amr eram irmãos de Sakran. No início do período da missão profética do Nobre Mensageiro de Allah (que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele), Sawda e seu marido Sakran aceitaram o Islã. Ambos faziam parte dos afortunados homens e mulheres que aceitaram o Islã no primeiro período. O momento em que os dois aceitaram o Islã foi o mesmo. Quando o primeiro grupo de muçulmanos indefesos de Meca migrou para a Abissínia a fim de escapar da perseguição dos coraixitas, essa família muçulmana ainda permaneceu agarrada ao solo de Meca. Porém, quando a perseguição começou a ultrapassar todos os limites, um segundo grupo de muçulmanos de Meca preparou-se para migrar para a Abissínia. Sawda migrou para a Abissínia com esse grupo, juntamente com seu marido. Depois de permanecerem ali por alguns anos, retornaram novamente a Meca. Pouco antes de o Mensageiro de Allah (que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele) migrar para Medina, Sakran morreu em Meca como muçulmano. O Mensageiro (que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele) enterrou-o em Meca.

Também foi narrado que ela migrou para a Abissínia com o marido junto aos dois grupos, o primeiro e o segundo. Um grupo de especialistas em Sira, entre eles Abu Ubayda e Ma’mar, afirmou que Sakran retornou da Abissínia para Meca. Depois, tornou-se apóstata ou adotou o cristianismo, voltou novamente para a Abissínia e morreu ali mesmo. Al-Baladhuri afirma que a primeira narração é a correta.

Cerca de três anos antes da migração do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) para Medina, após o falecimento da Mãe dos Crentes, Hazrat Khadija (r.a.), ele se casou com Hazrat Sawda (r.a.).

Hazrat Khadija (r.a.) foi a primeira e mais amada esposa do honorável Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Em meio à inquietação da solidão, aos horrores das provações e calamidades e à cruel selvageria dos opressores e perseguidores, ela foi a companheira íntima de seu amado esposo. Em cada momento de crise, consolava-o, expressava solidariedade e, permanecendo ao seu lado, ajudava-o a superar todos os obstáculos. Com a perda de uma esposa e amiga tão íntima, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ficou profundamente abatido e entristecido. Ficou tão angustiado pela dor da separação que sua própria vida chegou a estar em perigo. Além disso, Khadija era a mãe dos filhos do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e a responsável pelo lar. Em sua ausência, tornou-se difícil criar os filhos privados da mãe e administrar a casa. Ademais, a intensidade das provocações e perseguições dos idólatras também aumentou. Essa situação do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) preocupou profundamente seus Companheiros.

‘Uthman ibn Maz‘un (falecido no ano 2 da Hégira) era um Companheiro de grande distinção. Certo dia, sua esposa, Khawla bint Hakim, foi até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Durante a conversa, em certo momento ela disse: “Ó Mensageiro de Allah! Case-se novamente!” Ele perguntou: “Com quem?” Khawla respondeu: “Há uma viúva e uma virgem. Pode-se conversar sobre aquela de quem o senhor gostar.” Ele perguntou novamente: “Com quem?” Khawla respondeu: “A viúva é Sawda bint Zam‘a, e a virgem é ‘Aisha, filha de Abu Bakr.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “As mulheres são mais aptas a desempenhar esse papel.” Assim, ele deu seu consentimento.

Depois de obter o consentimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), Khawla foi à casa de Sawda. O pai de Sawda encontrava-se então no limiar da vida. Havia-se afastado completamente de todas as atividades mundanas. Ao chegar diante dele, Khawla o cumprimentou à maneira da época da ignorância, dizendo: “An‘im sabahan!” (Bom dia).

O ancião perguntou: “Quem é você?” Khawla respondeu: “Sou Khawla bint Hakim.” O ancião deu-lhe as boas-vindas e fê-la sentar-se perto dele. Khawla apresentou a mensagem de casamento da seguinte forma: “Muhammad ibn ‘Abdullah ibn ‘Abdul-Muttalib pediu Sawda em casamento.” O ancião disse: “Que excelente e nobre pretendente! O que sua parente Sawda diz?” Khawla respondeu: “Ela está de acordo.” O ancião mandou chamar Sawda. Quando ela chegou, disse-lhe: “Minha filha! Esta mulher (Khawla) diz que Muhammad ibn ‘Abdullah a enviou para pedir você em casamento. Ele é um pretendente nobre. Quero casá-la com ele; você aceita?” Sawda respondeu: “Sim, aceito.” Então o ancião disse a Khawla: “Vá chamar Muhammad.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chegou vestido como noivo, e o pai de Sawda entregou-a a ele em casamento.

Alguns relatos indicam que, antes do casamento, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) conversou diretamente com Sawda. Talvez Khawla tenha organizado essa conversa. O Imam Ahmad registrou um relato de ‘Abdullah ibn ‘Abbas (r.a.). Ele disse: “O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou uma proposta de casamento a uma mulher de sua tribo chamada Sawda. Ela era a própria personificação da aflição: seu marido havia morrido, deixando cinco ou seis filhos. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou-lhe: ‘O que a impede de aceitar minha proposta?’ Sawda respondeu: ‘Juro por Allah, ó Profeta de Allah! Entre toda a criação, o senhor é a pessoa que mais amo. Não tenho nenhum impedimento para aceitar sua proposta, mas temo que meus filhos a incomodem continuamente, de manhã e à noite, e me impeçam de servi-lo.’ O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou: ‘Há algum outro impedimento?’ Sawda respondeu: ‘Não, não há outro impedimento.’ O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: ‘Que Allah tenha misericórdia de você. As melhores mulheres são aquelas que cavalgam na parte traseira dos camelos. Entre as mulheres virtuosas dos coraixitas estão aquelas que são carinhosas com seus filhos pequenos e cuidadosas com seus maridos.’

É narrado por Bukayr ibn al-Ashajj que Sakran retornou a Meca com Sawda e faleceu. Depois de ela cumprir o período de espera (‘iddah), o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pediu-a em casamento. Sawda disse: “Delegue a alguém de sua tribo a responsabilidade de concluir o casamento.” Então Sawda encarregou Hatib ibn ‘Amr al-‘Amiri dessa tarefa. Foi ele quem casou Sawda com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Esse Hatib (r.a.) era um emigrado e participante de Badr.

Há duas opiniões sobre quem foi o wali de Sawda em seu casamento com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). 1. O próprio pai de Sawda foi seu wali e a casou. 2. Salit ibn ‘Amr ou Hatib — segundo outra opinião, Abu Hatib ibn al-‘Amiri. Alguns disseram que o pai de Sawda talvez estivesse debilitado pelo peso da velhice. Por isso, teria nomeado Hatib ou Salit como wali. Ibn Ishaq disse: “Nem Salit nem Abu Hatib estavam em Meca no momento desse casamento; encontravam-se na Abissínia. Portanto, não há possibilidade de terem sido o wali.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deu a Sawda um mahr de quatrocentos dirhams.

Al-Waqidi disse: O casamento de Sawda com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ocorreu no mês de Ramadan do décimo ano da missão profética. Como os casamentos de Sawda e de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ocorreram em épocas próximas, surgiu uma divergência entre os historiadores sobre qual deles foi realizado primeiro. Ao analisar todos os relatos a esse respeito, encontram-se duas versões. A primeira é que Khawla propôs simultaneamente o casamento de ‘A’isha e o de Sawda. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aprovou ambas as propostas e autorizou Khawla a tratar com as famílias das pretendentes. Khawla falou primeiro com a família de ‘A’isha e organizou o casamento. Em seguida, foi organizado o casamento de Sawda. O Imam Ahmad narrou um hadith de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela disse: “Sawda foi a primeira mulher com quem o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se casou depois de mim.” Essa também é a opinião de ‘Abdullah ibn Muhammad ibn ‘Aqil.

Por outro lado, segundo o relato de Bukayr ibn al-Ashajj, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) casou-se com Sawda depois de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Ibn Hibban também afirmou isso. ‘Abdullah ibn Muslim disse: depois da morte de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e antes de se casar com ‘A’isha, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) casou-se com Sawda no mês de Ramadan do décimo ano da missão profética. Ele estabeleceu seu lar com ela em Meca e migrou com ela para Medina.

Abu Salama ibn ‘Abd al-Rahman e Yahya ibn ‘Abd al-Rahman narraram ambos: após obter a autorização do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), Khawla foi sucessivamente a Sawda e a ‘A’isha com as propostas e providenciou seus casamentos. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estabeleceu seu lar em Meca com Sawda. Naquela época, ‘A’isha tinha apenas seis anos. Depois da migração para Medina, ele a levou para sua casa. Ibn Ishaq, Qatada, Abu ‘Ubayda, Ibn Qutayba e muitos outros afirmaram que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) casou-se com Sawda depois de Khadija e antes de ‘A’isha.

Ibn Ishaq apresentou a seguinte ordem das esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): 1. Khadija; 2. Sawda; 3. ‘A’isha; 4. Hafsa; 5. Zaynab bint Khuzayma; 6. Umm Habiba; 7. Umm Salama; 8. Zaynab bint Jahsh; 9. Juwayriya; 10. Safiyya; 11. Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela).

O irmão de Sawda, ‘Abdullah ibn Zam‘a, ainda era não muçulmano na época desse casamento. Ele não estava em casa quando o casamento foi realizado. Ao saber do ocorrido depois da conclusão da cerimônia, explodiu de raiva e agitação. Começou a bater a cabeça, tomado pela tristeza e pelo ressentimento. Mais tarde, tornou-se um muçulmano exemplar. Até o fim da vida, lamentava constantemente aquele seu comportamento tolo. Também há uma pequena divergência entre os especialistas em biografia profética quanto à época do casamento de Sawda. Em várias obras, incluindo al-Tabaqat, é mencionado o décimo ano da missão profética. Já al-Zurqani (3/460) registra o oitavo ano. A causa fundamental dessa divergência é a discordância quanto à época da morte de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela).

Alguns relatos mencionam que Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela) teve dois sonhos durante a vida de seu primeiro marido, e que a interpretação dada por ele, quando ela lhos contou, concretizou-se. Ibn Sa‘d escreveu, por intermédio de Hisham ibn Muhammad, que, durante a vida de seu primeiro marido, Sakran, Sawda sonhou certa vez que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se aproximava e colocava um dos pés sobre seu ombro. Quando Sawda contou o sonho ao marido, ele disse: “Juro por Allah! Se você realmente teve esse sonho, eu morrerei e você se casará com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).”

Em outra ocasião, ela sonhou que estava deitada, apoiada em um travesseiro. De repente, a lua se partiu no céu e caiu sobre ela. Ao ouvir o sonho, o marido disse: “Morrerei muito em breve. Depois da minha morte, você se casará pela segunda vez.” Naquele mesmo dia, ele adoeceu e morreu poucos dias depois.

O professor Ahmad ‘Atiyya, ao explicar em sua obra al-Qamus al-Islami (3/557) a razão pela qual o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se casou com Sawda, afirmou, sem mencionar qualquer fonte: Sawda era uma viúva idosa. Tinha o corpo robusto e movia-se com dificuldade. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estendeu-lhe uma mão de ajuda para ampará-la na velhice e aliviar um pouco os sofrimentos que ela havia enfrentado na vida.

O nobre Mensageiro de Allah migrou de Meca para Medina no décimo terceiro ano da missão profética. Depois de chegar a Medina e se instalar um pouco, enviou novamente Zayd ibn Harithah a Meca para trazer Sawdah e os demais. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Quando o Mensageiro chegou a Medina, enviou Zayd ibn Harithah e Abu Rafi a Meca, dando-lhes dois camelos e quinhentos dirrãs. Depois, todos nós partimos em direção a Medina. Zayd e Abu Rafi retornaram a Medina levando Fatimah, Umm Kulthum, Sawdah, Umm Ayman e Usamah.” No Hajj de despedida do décimo ano da Hégira, Sawdah (que Allah esteja satisfeito com ela) acompanhou o Mensageiro de Allah em sua viagem. O Mensageiro permitiu que ela partisse de Muzdalifah para Mina antes da partida das outras pessoas. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Na noite de Muzdalifah, Sawdah pediu ao Mensageiro de Allah permissão para partir para Mina antes que a multidão se pusesse em movimento. Sawdah era uma mulher corpulenta e não conseguia caminhar rapidamente. O Mensageiro permitiu que ela partisse.”

Certo dia, todas as esposas do Mensageiro de Allah estavam sentadas ao seu lado. Então, uma delas perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! Qual de nós morrerá primeiro?” Ele respondeu: “Aquela cuja mão for mais comprida.” As presentes entenderam o sentido literal dessas palavras. Mediram as próprias mãos e viram que a mão de Sawdah era a mais comprida de todas. Concluíram que Sawdah morreria primeiro. Porém, quando Zaynab bint Khuzaymah morreu antes de todas, compreenderam que “mão comprida” significava generosidade. Dar esmolas era o trabalho que ela mais amava. Ela foi a primeira das Mães dos Crentes a morrer. Sawdah ainda estava viva.

Há grande divergência entre os especialistas em biografia sobre a época da morte de Sawdah (que Allah esteja satisfeito com ela). Al-Waqidi disse que, segundo o que consideramos correto, ela morreu no mês de Shawwal do ano 54 da Hégira. Ibn al-Imad al-Hanbali considerou mais correta a opinião de que ela morreu no ano 55 da Hégira, durante o califado de Muawiyah (que Allah esteja satisfeito com ele). Ibn Hajar disse que al-Bukhari registrou em sua obra histórica, com uma cadeia autêntica, que ela faleceu no final do califado de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). O imã al-Dhahabi afirmou enfaticamente que ela faleceu no fim do califado de Umar. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi martirizado no final de Dhu al-Hijjah do ano 23 da Hégira. Portanto, a morte de Sawdah teria ocorrido antes disso. Al-Baladhuri disse que ela morreu no ano 23 da Hégira e que o califa Umar realizou sua oração fúnebre. Ibn Hibban disse que ela morreu no ano 65 da Hégira. Também foi narrado que ela morreu durante o califado de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), com cerca de oitenta anos. A maioria dos autores de obras de biografia não discutiu os filhos de Sawdah (que Allah esteja satisfeito com ela). Sabe-se, contudo, que ela não teve filhos durante sua vida conjugal com o Mensageiro de Allah. Do primeiro marido, Sakran, ela teve um filho chamado Abd al-Rahman, que foi martirizado na batalha de Jalula, na Pérsia.

Entre as esposas do Mensageiro de Allah, ninguém era mais alta que Sawdah. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que quem quer que a visse uma vez não conseguia deixar de notá-la. Al-Zurqani relatou que sua constituição era alta. O erudito Shibli Numani disse que ela era corpulenta. O imã al-Dhahabi também afirmou o mesmo. Por isso, durante o Hajj de despedida, ela recebeu do Mensageiro de Allah permissão para partir de Muzdalifah para Mina antes que a multidão se pusesse em movimento.

Somente cinco hadiths foram narrados por Sawdah (que Allah esteja satisfeito com ela). Dentre eles, o imã al-Bukhari narrou apenas um. Entre os Companheiros, Abd Allah ibn Abbas, Ibn al-Zubayr e Yahya ibn Abd Allah al-Ansari ouviram hadiths dela e os transmitiram.

Sawdah (que Allah esteja satisfeito com ela) foi viver na casa do Mensageiro de Allah cerca de três anos antes da Hégira. Desde o mês de Ramadan do décimo ano da missão profética até o mês de Rabi al-Awwal do décimo terceiro ano da Hégira, teve a felicidade de desfrutar, durante cerca de treze anos como esposa, da proximidade e companhia do Mensageiro de Allah. Sawdah e Aisha casaram-se com o Mensageiro de Allah aproximadamente na mesma época. Depois do casamento, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) permaneceu cerca de três anos na casa paterna. Durante esse período, Sawdah era, na prática, a dona da casa. Ela desempenhou com grande competência todas as responsabilidades domésticas da casa do Mensageiro de Allah. Também assumiu a responsabilidade de criar e educar as filhas, incluindo Fatimah, que havia perdido a mãe. É provável que, até então, também tenha cuidado de Ali, membro da família do Profeta. Em suma, durante uma fase difícil e cheia de crises da vida do Mensageiro de Allah, Sawdah (que Allah esteja satisfeito com ela), como companheira de vida, cumpriu pesadas responsabilidades e deveres, procurando preencher o vazio deixado por Khadijah (que Allah esteja satisfeito com ela).

Quando Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi viver com o marido, no primeiro ano da Hégira, sua coesposa Sawdah já estava presente. Nessas circunstâncias, seria possível imaginar que uma tentaria tomar o lugar da outra. Porém, a situação dessas duas mulheres era completamente contrária a essa expectativa natural. Tudo em sua vida doméstica era marcado por afeto mútuo, harmonia e união. Na maior parte dos assuntos da vida doméstica, Sawdah era amiga de Aisha. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Nunca vi uma mulher, ao olhar para a qual, desejar que sua alma estivesse em meu corpo, como desejei ao olhar para Sawdah.”

No que dizia respeito à obediência e ao seguimento do Mensageiro de Allah, ela possuía uma característica especial em comparação com todas as demais Mães dos Crentes. Durante o Hajj de despedida, o Mensageiro disse às Mães dos Crentes: “Depois de mim, permaneçam em suas casas.” Sawdah (que Allah esteja satisfeito com ela) cumpriu essa instrução com tanta firmeza que nunca mais saiu de casa, nem mesmo para realizar o Hajj. Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, após o falecimento do Mensageiro de Allah, suas outras esposas realizavam o Hajj; porém, Sawdah e Zaynab bint Jahsh obedeciam rigorosamente à ordem do Mensageiro de Allah e não saíam de casa. Sawdah (que Allah esteja satisfeito com ela) dizia: “Já realizei tanto o Hajj quanto a Umrah. Agora permanecerei em casa conforme a ordem de Allah.”

Uma dimensão incomparável do caráter e da personalidade de Sua Excelência o Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era a generosidade. Entre os Companheiros, quanto mais alguém tinha a oportunidade de permanecer próximo dele, mais marcante se tornava essa qualidade especial em seu caráter. Foram suas esposas quem tiveram a maior oportunidade de adquirir essa virtude por meio da proximidade e companhia do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Por isso, embora essa qualidade especial do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estivesse presente, em geral, em todas elas, depois de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), era em Sawda que ela se manifestava mais intensamente. Ibn Sirin narrou que, certa vez, o califa Sua Excelência ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou uma bolsa a Sua Excelência Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela perguntou ao portador: “O que há na bolsa?”. Ele respondeu: “Dirhams”. Ao ouvir que haviam sido enviados dirhams numa bolsa, como se fossem tâmaras, ela imediatamente distribuiu os dirhams entre as pessoas.

A preferência pelo outro, ou seja, dar precedência a outra pessoa sobre si mesma, também era uma faceta luminosa de seu caráter. Ela e ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) iniciaram a vida conjugal com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) com pouca diferença de tempo. Contudo, ela era mais velha que ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Por isso, a velhice chegou à sua vida e seu interesse pelos homens diminuiu. Assim, para obter a satisfação de seu marido, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ela ofereceu à sua coesposa ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) a noite que lhe cabia. Sobre isso, certa vez Sua Excelência ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse a ‘Urwa: “Meu sobrinho! O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não dava preferência a nenhuma de suas esposas sobre outra quanto à permanência durante as noites que lhes eram destinadas. Houve muitos dias em que ele passou por todas nós sem tocar em nenhuma esposa. Por fim, passava a noite com a esposa para quem aquela noite havia sido designada. Quando Sawda bint Zam‘a chegou à velhice e temeu que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) talvez se separasse dela, disse: ‘Ó Mensageiro de Allah! Dou a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) a noite que me cabe.’ O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aceitou seu pedido.

É preciso esclarecer aqui um ponto. O fato de Sua Excelência Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela) ter cedido a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) o tempo de convivência conjugal com seu marido é mencionado nas obras de hadith e de sira. Paralelamente, porém, encontram-se nas obras de sira alguns relatos segundo os quais, quando Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela) chegou à velhice, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) teria pronunciado contra ela um divórcio. Depois, atendendo ao seu humilde pedido, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) teria revogado o divórcio. Contudo, para os estudiosos do hadith, esses relatos são extremamente fracos e, portanto, sem valor. O correto é que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não se divorciou de nenhuma de suas esposas. Como se poderia imaginar que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) afastaria, na velhice, aquela que havia tomado como esposa numa fase especial de sua vida e que desempenhara com grande habilidade as responsabilidades de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela)? Por isso, os estudiosos do hadith não acreditaram nesses relatos. Eles tampouco aparecem em qualquer coletânea confiável de hadith. Mas, ainda assim, o que fazer? Muitos historiadores modernos fizeram comentários indecentes sobre Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela). Alguns disseram que ela não pôde ser uma esposa ideal do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).

Ao analisar os diversos relatos relacionados a esse assunto, o fato que se torna claro é que a velhice chegou à vida de Sawda. Ela se tornou incapaz de satisfazer o marido. Enquanto isso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tinha várias esposas. E ele era a personificação da justiça e da equidade. Concedia igual dignidade a todas as esposas. Dividia igualmente entre todas o tempo que passava com elas. Desse modo, Sawda e algumas outras esposas recebiam, de forma igual, sua parcela do tempo de conforto e tranquilidade do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Contudo, devido sobretudo à idade, elas eram incapazes de proporcionar tranquilidade ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Por sua própria vontade, Sawda renunciou a seu direito em favor de sua coesposa ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), livrando assim o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) dessa responsabilidade. Um relato de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) comprova precisamente isso. Ela disse: “Sawda envelheceu. Ela percebeu qual era minha posição junto ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e que ele desejava ter-me mais perto. Temendo que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se separasse dela, disse: ‘Ó Mensageiro de Allah! Dou a ‘A’isha o meu dia. Você está livre dessa obrigação para comigo.’ O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aceitou sua proposta.” Sua Excelência Sawda era uma mulher de natureza um tanto áspera. Sua Excelência ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha por ela uma admiração ilimitada. Apesar disso, ela disse que Sawda se irritava muito rapidamente. Antes da revelação da ordem do véu, Sua Excelência ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) frequentemente insistia junto ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) para que fosse dada uma orientação sobre o assunto. Como Allah ainda não havia revelado nenhuma orientação a esse respeito, ele permanecia em silêncio. Naquela época, nenhuma casa de Meca possuía um banheiro interno. Eles não consideravam apropriado ter latrinas dentro de casa. Por isso, à noite, as mulheres também saíam para os campos abertos fora de casa para fazer suas necessidades. Sua Excelência Sawda era corpulenta e alta. Mesmo entre muitas pessoas, era reconhecida facilmente. Certa noite, ela saiu. No caminho, foi vista por ‘Umar. Ele gritou: “Reconheci você!”. Com o comportamento de ‘Umar, Sawda ficou tanto envergonhada quanto irritada. Ao voltar, queixou-se do ocorrido ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Após esse acontecimento, foi revelado o versículo do hijab.

Há grande divergência quanto à razão da revelação do versículo do hijab. Uma narração já foi mencionada acima. Uma segunda narração afirma que Sua Excelência ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Pessoas de todos os tipos, boas e más, reúnem-se em sua presença. Seria bom se você lhes ordenasse que observassem o véu.” Ibn Jarir narrou em seu tafsir, citando Mujahid, que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava comendo com os Companheiros. Sua Excelência ‘A’isha também participava da refeição. A mão de um homem tocou sua mão. O fato desagradou muito ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Depois desse acontecimento, foi revelado o versículo do hijab. Contudo, é geralmente conhecido que o “versículo do hijab” foi revelado por ocasião da refeição do walima de Sua Excelência Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela). Ibn Hajar conciliou essas narrações da seguinte maneira: houve mais de uma causa para a revelação do versículo do hijab. Entre elas, o acontecimento de Zaynab foi o último. E esse é o motivo da revelação do versículo, pois o próprio versículo faz alusão ao acontecimento.

Embora tivesse uma natureza áspera, Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela) também possuía simplicidade. Algumas de suas palavras faziam o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) rir. Certa vez, ela disse ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Ontem à noite rezei atrás de você. Você permaneceu tanto tempo em rukū‘ que pensei que meu nariz tivesse começado a sangrar. Por isso, fiquei segurando meu nariz durante muito tempo.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sorriu suavemente ao ouvir suas palavras.

Certa vez, ele estava viajando com ‘Aisha e Hafsa (que Allah esteja satisfeito com elas). Elas brincaram um pouco e disseram: “Você ouviu alguma coisa?” Ele perguntou: “Sobre o quê?” Elas responderam: “O Dajjal apareceu.” Ao ouvir isso, ele ficou terrivelmente assustado. Perto dali, algumas pessoas estavam se aquecendo junto a uma fogueira numa tenda. De repente, ele entrou na tenda. Ao verem o que ele havia feito, Hafsa e ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com elas) chegaram rindo até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e contaram-lhe a brincadeira. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi até lá, parou à porta da tenda e disse: “O Dajjal ainda não apareceu.” Então Sawda saiu. Havia teias de aranha grudadas em seu corpo, e, ao sair, ela as limpou. Para muitos, a cadeia de transmissão desse relato é fraca e o próprio relato é duvidoso.

Há muitos outros episódios que demonstram a simplicidade de Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela). Por trás do episódio em que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu a si mesmo o consumo de mel, houve um acontecimento afetuoso da vida conjugal. Muitos entendem que Sawda também se envolveu nele de maneira ingênua. Em resumo, o episódio foi o seguinte:

O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) gostava de doces. Quando ia à casa de sua esposa Zaynab bint Jahsh — segundo outra versão, à casa de Hafsa —, bebia um xarope de mel. Isso despertou um pouco de ciúme em ‘Aisha. Ela queria que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não bebesse mais mel ali. Por isso, tramou um plano com Sawda. Quando ele fosse visitá-las depois de beber mel, cada uma delas diria: “Está saindo cheiro de Mughafir de sua boca abençoada.” Talvez assim o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deixasse de beber mel, pois não gostava de nenhum tipo de mau cheiro. Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi até elas depois de beber mel, disseram-lhe a mesma coisa, conforme haviam combinado. O resultado foi imediato. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu a si mesmo o mel. Então foram revelados os versículos 1 a 3 da surata At-Tahrim.

O coração de Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela) era extremamente sensível. Ela ficava aflita ao ver o sofrimento e as dificuldades de seus familiares. Suhayl ibn ‘Amr, irmão de seu primeiro marido, Sakran ibn ‘Amr, foi capturado em Badr e levado para Medina. Foi libertado em troca de quatro mil dirrãs. A respeito disso, Ibn Ishaq relata: quando os prisioneiros de Badr foram levados para Medina, Sawda estava na casa de ‘Awf e Mu‘awwidh, filhos de ‘Afra. Isso ocorreu antes da revelação da norma do hijab. Naquele momento, foi anunciada a chegada dos prisioneiros de Badr. Sawda voltou para casa e encontrou o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). De repente, viu num canto do aposento o prisioneiro Abu Yazid, Suhayl ibn ‘Amr. Suas duas mãos estavam fortemente amarradas ao pescoço com uma corda. Ao ver aquela cena, ela não conseguiu se conter e exclamou: “Abu Yazid! Vocês se deixaram capturar assim? Não puderam morrer com honra?” Sawda disse: “Ouvi então a voz do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dentro da casa, e recobrei a consciência: ‘Sawda! Você está incitando-o contra Allah e Seu Mensageiro?’” Sawda disse: “Ó Mensageiro de Allah! Ao ver Abu Yazid, Suhayl, naquela situação, não consegui me controlar. Ó Mensageiro de Allah! Peça a Allah que me perdoe.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Que Allah a perdoe.”

No oitavo ano da Hégira, Zaynab, filha do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), faleceu em Medina. Sawda, Umm Ayman e Umm Salama deram-lhe o banho fúnebre.

O nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deixou assegurado em Khaybar o sustento de Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela). ‘Abd ar-Rahman al-A‘raj costumava dizer em diversas reuniões em Medina: “O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) assegurou o sustento de Sawda com oitenta wasaq de tâmaras e vinte wasaq de trigo ou cevada.”

‘‘Aisha, a Siddiqa (que Allah esteja satisfeito com ela)

‘Aisha, a Siddiqa (que Allah esteja satisfeito com ela), Mãe dos Crentes, era a esposa mais querida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Sua kunya era Umm ‘Abdillah, e seu título era Siddiqa. Em alguns relatos, é mencionado que outro de seus títulos era al-Humayra. Ela era uma bela mulher de pele clara. Por isso era chamada de al-Humayra.¹ ‘Urwa relata: certa vez, antes da revelação da ordem do hijab, ‘Uyayna ibn Hisn veio visitar o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). ‘Aisha estava presente naquele momento. Apontando para ‘Aisha, ‘Uyayna disse: “Ó Mensageiro de Allah! Quem é esta al-Humayra (a bela)?” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Esta é ‘Aisha, filha de Abu Bakr.”² Muitos consideraram esse relato infundado.³

Abdullah era filho de Asma, irmã de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Na história, ele é conhecido como Abdullah ibn az-Zubayr. A kunya é formada com o nome de um dos filhos. ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) não tinha filhos. Por isso, não possuía nenhuma kunya. Na Arábia daquela época, a kunya era um símbolo de honra e nobreza. Não era costume chamar os membros da classe nobre pelo nome. Eles eram tratados por sua kunya ou alcunha. Certo dia, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse ao seu marido, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Suas outras esposas adotaram kunyas com os nomes dos filhos de seus maridos anteriores; em nome de quem devo adotar uma kunya?” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Em nome de Abdullah, o filho de sua irmã.” A partir daquele dia, sua kunya, ou nome pelo qual era chamada, passou a ser Umm ‘Abdillah — “mãe de Abdullah”.⁴

Também foi narrado que ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) teve um filho, que morreu ainda na infância. Seu nome foi Abdullah.⁵ Foi em homenagem a esse filho que ela recebeu sua kunya. Ibn Hajar al-‘Asqalani afirmou que essa narração não é correta.⁶ Além disso, diversos hadiths autênticos mencionam claramente que ela não tinha filhos.⁷

O pai de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) era o califa do Mensageiro de Allah, o veracíssimo e grandioso Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), e sua mãe era Umm Ruman, Zaynab bint ‘Amir — segundo outra opinião, ‘Umayr al-Kinani. Pelo lado paterno, ela descendia do ramo Banu Taym da tribo dos Quraysh; pelo lado materno, era descendente dos Banu Kinana. Sua mãe era filha de Ghanam ibn Malik al-Kinani.⁸ A linhagem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e a de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) convergem, pelo lado paterno, no sétimo ou oitavo ancestral, e pelo lado materno, no décimo primeiro ou décimo segundo ancestral.⁹

O pai de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), faleceu no ano 13 da Hégira. A maioria dos historiadores escreveu que sua mãe, Umm Ruman, faleceu no quinto ou sexto ano da Hégira. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) desceu à sua sepultura, sepultou-a e realizou a oração fúnebre por ela.¹⁰ Contudo, essa informação não está correta, pois hadiths confiáveis comprovam que ela permaneceu viva até o califado de ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Em todos os hadiths relacionados ao incidente do Ifk — a acusação contra a honra de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), ocorrido no sexto ano da Hégira — seu nome é mencionado. Ela também estava viva na ocasião do incidente do Takhyir, no nono ano da Hégira, quando foi dada a opção de escolher entre duas coisas. Isso é conhecido pelas narrações presentes em at-Tabaqat, Sahih al-Bukhari, Sahih Muslim e no Musnad de Ahmad. O Imam al-Bukhari, em seu Tarikh, e as narrações de Muslim e do Musnad de Ahmad também registram isso. No livro Tarikh as-Saghir, o Imam al-Bukhari mencionou o nome dela entre as pessoas que faleceram durante o califado de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele rejeitou a primeira narração. Hafiz Ibn Hajar, após apresentar uma discussão analítica em sua obra at-Tahdhib, comprovou que a narração do Imam Mukhari está correta.¹¹

A mãe de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), Umm Ruman (que Allah esteja satisfeito com ela), casou-se pela primeira vez com ‘Abdullah ibn al-Harith al-Azdi. ‘Abdullah foi para Meca com sua esposa Umm Ruman e, depois de estabelecer um pacto de aliança com Abu Bakr, passou a viver ali. Isso ocorreu no período pré-islâmico. Eles tiveram um filho chamado at-Tufayl. ‘Abdullah morreu, e Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) casou-se com Umm Ruman.¹² Dessa união nasceram dois filhos: ‘Abdullah e ‘A’isha. Não há muitas informações nas obras de história e de biografia sobre a data exata do nascimento de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Por isso, há grande divergência quanto ao ano de seu nascimento. Sayyid Sulayman Nadwi disse: “O historiador Ibn Sa‘d escreveu — e alguns especialistas em biografia o seguiram — que ‘A’isha nasceu no início do quarto ano da missão profética e se casou aos seis anos de idade, no décimo ano. Mas isso de modo algum pode estar correto. Pois, se ela tivesse nascido no início do quarto ano da missão profética, no décimo ano teria sete anos, e não seis. Na realidade, alguns fatos sobre a idade de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) estão estabelecidos por consenso. Ela se casou aos seis anos, três anos antes da Hégira; foi para a casa do marido aos nove anos, no mês de Shawwal do primeiro ano da Hégira; e ficou viúva aos dezoito anos, no mês de Rabi‘ al-Awwal do décimo primeiro ano da Hégira. Com base nisso, a data exata de seu nascimento teria sido por volta do fim do quinto ano da missão profética, isto é, no mês de Shawwal do nono ano antes da Hégira, correspondente a julho de 614 d.C.”¹³

É importante observar que, dos vinte e três anos da vida profética do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), aproximadamente treze foram passados em Meca e dez em Medina. Segundo a narração do senhor Nadwi, quando ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) nasceu, quatro anos da missão profética já haviam transcorrido e o quinto estava em curso. O Imam adh-Dhahabi afirmou: “‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) era oito anos mais nova que Fatima.” ‘A’isha disse que, em Meca, encontrou um idoso que conduzia um elefante cego.¹⁴

Não há informações específicas sobre quando ou como ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) se tornou muçulmana. Contudo, foi uma grande bênção para o veracíssimo Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) que a luz do Islam tenha entrado primeiro em sua própria casa. Por isso, ‘A’isha foi uma das afortunadas e felizes crianças cujos ouvidos jamais ouviram, nem por um instante, os sons da incredulidade e do politeísmo. ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Desde que passei a conhecer meus pais, encontrei-os muçulmanos.”¹⁵ O Imam adh-Dhahabi apenas disse: “‘A’isha aceitou o Islam.”¹⁶ Mas não informou quando nem como. Ibn Hisham mencionou sob um título específico aqueles que aceitaram o Islam pelas mãos de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ali também aparece o nome de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela).¹⁷

‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi amamentada pela esposa de Wa’il. A kunya de Wa’il era Abu al-Fuqay‘as. Seu irmão, Aflah — que era tio de leite de ‘A’isha — costumava visitá-la ocasionalmente mais tarde. Com a permissão do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ia vê-lo. Seu irmão de leite também costumava visitá-la às vezes.¹⁸

A infância de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) transcorreu como a de todas as outras crianças. Contudo, havia algo um pouco diferente. Já na infância, podia-se perceber sua inteligência aguçada e sua perspicácia. Como as demais crianças, ela gostava de brincar. As meninas vizinhas da mesma idade iam até sua casa, e ela passava a maior parte do tempo brincando com elas. Mas, mesmo enquanto brincavam naquela idade, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) permanecia atento ao respeito e à dignidade. Muitas vezes acontecia de ela estar brincando com bonecas junto com as outras meninas quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chegava à casa delas e aparecia repentinamente entre elas. ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) escondia rapidamente as bonecas, e as outras meninas fugiam correndo assim que viam o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) amava as crianças e não considerava suas brincadeiras algo ruim. Ele chamava as crianças que haviam fugido e dizia-lhes que brincassem com ‘A’isha.¹⁹ Entre as brincadeiras das crianças, duas eram as suas favoritas: brincar com bonecas e balançar-se no balanço.²⁰ Certo dia, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) estava brincando com bonecas quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chegou. Entre as bonecas havia também um cavalo com duas asas. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Cavalos não têm asas.” ‘A’isha respondeu imediatamente: “Por quê? Você não ouviu dizer que os cavalos de Salomão, que a paz esteja sobre ele, tinham asas?” Ao ouvir essa resposta espontânea de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sorriu de tal modo que seus dentes ficaram visíveis.²¹

Esse acontecimento permite avaliar a perspicácia natural de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), seu conhecimento da história e das tradições e sua inteligência aguçada.

Geralmente, as lembranças da infância desaparecem da memória das pessoas. Mas todas as lembranças da infância de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) permaneceram em sua memória. Quando o nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) migrou de Meca para Medina, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) não devia ter mais de oito ou nove anos. Contudo, nenhum outro Companheiro pôde narrar os acontecimentos da Hégira com a riqueza de detalhes com que ela os narrou.²²

O Imã Bukhari narrou, no comentário da Surata Al-Qamar, que ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: quando este versículo:

Será em árabe

foi revelado em Meca, eu era uma menininha e estava brincando.²³ Na infância, às vezes Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) provocava sua mãe. E sua mãe também a castigava. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ficava triste com isso. Certa vez, disse a Umm Ruman: “Por minha causa, não a castigue mais.” Em outra ocasião, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi à casa paterna de ‘A’isha e a viu chorando, encostada no batente da porta. Ele disse a Umm Ruman: “A senhora não deu importância às minhas palavras.” Umm Ruman respondeu: “Ó Mensageiro de Allah! Essa menina se queixa de mim ao pai.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Não a machuque, qualquer que seja o motivo.” Allamah Sayyid Sulayman Nadwi narrou esse acontecimento citando o ‘Mustadrak de Hakim’.

A primeira esposa do nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi Hazrat Khadija bint Khuwaylid. Quando se casou com ela, o nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tinha vinte e cinco anos, e Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), quarenta. Depois de viver vinte e cinco anos com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu no mês de Ramadan do décimo ano da missão profética, três anos antes da Hégira. Naquele momento, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tinha cinquenta anos, e Khadija, sessenta e cinco.

Já mencionamos na biografia de Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela) que, após a morte de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), vendo o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) abatido, Khawla bint Hakim, esposa de ‘Uthman ibn Maz‘un, disse: “Ó Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), case-se novamente.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou: “Com quem?” Khawla respondeu: “Há pretendentes viúvas e virgens. Podemos falar sobre aquela de quem o senhor gostar.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou novamente: “Quem são elas?” Khawla respondeu: “A viúva é Sawda bint Zam‘a, e a virgem é ‘A’isha, filha de Abu Bakr.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Muito bem. Fale com ela sobre isso.”²⁴

Após obter o consentimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), Hazrat Khaula (que Allah esteja satisfeito com ela) foi primeiro à casa de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e apresentou a proposta. Segundo o costume dos árabes da época da ignorância, assim como não se casavam com as filhas de seus irmãos consanguíneos, também não consideravam permitido casar-se com as filhas de irmãos por parte de pai ou mãe, parentes ou irmãos adotivos. Por isso, ao ouvir a proposta, Abu Bakr disse: “Khaula! Aisha é sobrinha do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Como ele poderia casar-se com ela?” Khaula voltou e perguntou ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sobre o assunto. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Abu Bakr é meu irmão na religião. É permitido estabelecer vínculo matrimonial com as filhas de irmãos desse tipo.” Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou a proposta e pediu a Khaula que trouxesse o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).25

Antes de surgir a proposta do casamento de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), já se havia falado de seu casamento com Jubair ibn Mut‘im ibn Adi. Por isso, era necessário perguntar também a ele. Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até Mut‘im ibn Adi e disse: “Você havia proposto Aisha em casamento a seu filho. Diga-me qual é a decisão de vocês.” Mut‘im perguntou à sua esposa. A família de Mut‘im ainda não havia aceitado o Islã. Por esse motivo, sua esposa não concordava com a proposta. Então Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) voltou-se para Mut‘im e disse: “O que sua esposa diz?” Mut‘im respondeu: “Concordo com o que ela disse.” Depois, Abu Bakr chamou Khaula e disse: “Traga o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) veio, e Abu Bakr celebrou o casamento.26 Baladhuri, contudo, declarou que não é correto afirmar que Aisha tivesse sido prometida a qualquer outra pessoa.27

O casamento de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e o de Sauda (que Allah esteja satisfeito com ela) ocorreram na mesma época. Depois de casar-se com Sauda, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) levou-a imediatamente para sua casa e, após viver três anos somente com ela, levou Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) para sua casa.28

Esse casamento foi realizado de maneira extremamente simples e sem ostentação. ‘Atiyya (que Allah esteja satisfeito com ele) descreveu-o assim: “Aisha estava brincando com outras meninas. Sua serva veio buscá-la, e Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) veio e celebrou o casamento.”

Pode-se avaliar quão simples e desprovido de cerimônia foi esse casamento por meio de um relato da própria Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela disse: “Quando me casei, eu não sabia de nada. Meu casamento havia sido realizado. Depois, minha mãe explicou-me tudo.”29

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Na época do casamento, eu era uma menina pequena. Usava uma espécie de vestimenta chamada ‘hawf’. Depois do casamento, apesar de ser pequena, passei a sentir vergonha.” É importante mencionar que a ‘hawfa’ era uma espécie de vestimenta semelhante a uma calça, feita de couro e usada pelas crianças na altura do tronco. Há divergências quanto ao mahr que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deu a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Pelos relatos de Ibn Sa‘d, sabe-se que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deu a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), como mahr, uma casa avaliada em cinquenta dirhams.30 Ibn Ishaq relatou o valor de quatrocentos dirhams. Outro relato de Ibn Sa‘d, transmitido pela própria Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), diz: “O mahr era de doze uqiyyas e um nash, equivalentes a quinhentos dirhams.”31 Em Sahih Muslim, foi narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que o mahr das esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era geralmente de quinhentos dirhams.32 Em Musnad Ahmad, foi narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que seu mahr era de quinhentos dirhams.

Antes do casamento com Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), o Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recebeu a boa notícia. Certo dia, sonhou que alguém lhe mostrava algo envolto em um pedaço de seda e dizia: “Isto é seu.” Ele abriu o embrulho e viu Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) dentro dele.33

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) afirmou: “Vi você em sonho durante três noites. Um anjo trouxe algo envolto em um pedaço de seda e disse: ‘Esta é sua esposa.’ Abri-o pela parte superior e vi você dentro. Então disse: ‘Se isso vem de Allah, que assim seja.’”34

O imame At-Tirmidhi narrou que ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Jibril (que a paz esteja sobre ele) trouxe ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) um retrato dela envolto em um pedaço de seda verde e disse: “Ela será sua esposa neste mundo e no Além.”35

Há uma pequena divergência quanto à data exata do casamento de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). O erudito Badruddin al-‘Ayni escreveu em seu comentário de Sahih al-Bukhari: “O casamento de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ocorreu dois anos antes da Hégira; também se diz que ocorreu três anos antes, e há ainda quem diga que ocorreu um ano e meio antes.”36 Algumas narrações informam que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se casou com ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) três anos após o falecimento de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Alguns especialistas em biografia afirmam que o casamento de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ocorreu no mesmo ano em que Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu.37

Sulaiman Nadwi afirma: Seria possível determinar a data exata do casamento de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) pela data do falecimento de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Contudo, nem mesmo a data do falecimento de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) é consensual; também há divergência a esse respeito. Nesse caso, o relato da própria ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) poderia ser aceito. Porém, em al-Bukhari e no Musnad encontram-se dela duas narrações diferentes. Uma narração informa que o casamento ocorreu três anos após o falecimento de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela).38 A outra menciona que o casamento ocorreu no ano do falecimento de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela).39

A conclusão da maioria dos pesquisadores, apoiada pela maior parte das narrações confiáveis, é que Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu no mês de Ramadan do décimo ano da missão profética, três anos antes da Hégira, e que, um mês depois, no mês de Shawwal, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se casou com ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Naquela época, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha seis anos. Assim, o casamento de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ocorreu em Shawwal do terceiro ano antes da Hégira, correspondente a maio de 620 d.C. A obra al-Isti‘ab, de Ibn ‘Abd al-Barr, apoia essa opinião. Na realidade, o casamento ocorreu no próprio ano do falecimento de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), enquanto a vida conjugal começou três anos depois, quando ele a levou para sua casa aos nove anos de idade. Isso fica claro em uma narração de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) transmitida por Ibn Sa‘d.40

Após o casamento, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) permaneceu cerca de três anos na casa paterna: dois anos e três meses em Meca e sete ou oito meses em Medina, depois da Hégira.

Quando a opressão e a perseguição dos politeístas em Meca ultrapassaram os limites do suportável, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) decidiu emigrar para Medina. ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) conta que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) visitava a casa de Abu Bakr todas as manhãs e tardes. Certo dia, contrariando seu costume, chegou à tarde com a cabeça e o rosto cobertos por um manto. Naquele momento, as duas filhas de Abu Bakr, ‘A’isha e Asma, estavam sentadas com ele. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Abu Bakr! Peça às pessoas que estão com você que se afastem um pouco, pois quero conversar.” Abu Bakr respondeu: “Ó Mensageiro de Allah! Não há aqui ninguém além dos membros de sua própria família.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entrou e revelou sua decisão de emigrar. As duas irmãs, ‘A’isha e Asma, prepararam juntas os itens necessários para a viagem. Em seguida, ambas partiram rumo a Medina. Deixaram seus familiares em Meca, entre os inimigos.41

Depois de se estabelecer um pouco em Medina, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abu Rafi‘ (que Allah esteja satisfeito com ele) a Meca para levar seus familiares de Meca para Medina. Deu-lhes dois camelos e quinhentos dirhams, que Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) havia dado ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para que atendesse às suas necessidades. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) também enviou seu filho ‘Abdullah com eles, dizendo-lhe que levasse ‘A’isha, Asma e sua mãe, Umm Ruman, para Medina.

Quando todas essas pessoas partiram de Meca, Talha ibn ‘Ubaydillah juntou-se a elas como companheiro de viagem, com a intenção de emigrar. Com Abu Rafi‘ e Zayd ibn Haritha estavam Fatima, Umm Kulthum, Sawda bint Zam‘a, Umm Ayman e Usama ibn Zayd; e com ‘Abdullah ibn Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) estavam Umm Ruman e as duas irmãs de ‘Abdullah, ‘A’isha e Asma.42

Quando essa caravana partiu de Meca e chegou a Al-Bayda’, uma localidade dos Banu Kinana, no Hijaz, o camelo que transportava ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) e sua mãe, Umm Ruman (que Allah esteja satisfeito com ela), disparou levando-as consigo. A cada instante, elas temiam ser arremessadas para fora, junto com o howdah. Como é próprio das mulheres, a mãe não se importava consigo mesma e, aflita por sua querida filha ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), começou a chorar desesperadamente. Depois de percorrerem uma longa distância, conseguiram capturar e domar o camelo. Todos estavam seguros e chegaram sãos e salvos a Medina. Naquela época, o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava construindo a Mesquita do Profeta e casas ao seu redor. Uma dessas casas foi destinada à residência de Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela) e das filhas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).⁴³

‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) desembarcou com seus familiares no bairro dos Banu Harith ibn Khazraj, em Medina, e viveu ali com sua mãe durante sete ou oito meses. O clima de Medina não era favorável à maioria dos emigrantes que haviam vindo de Meca. Muitos homens e mulheres adoeceram. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) foi acometido por uma febre muito forte. A jovem ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) passou a dedicar-se aos cuidados do pai. Certo dia, ela foi até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e informou-lhe sobre o estado do pai; então ele fez uma súplica por Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) recuperou-se.

Depois de o pai se recuperar, a própria ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou acamada. Dessa vez, o pai passou a cuidar da filha. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) ia até o leito da filha enferma e, com extrema ternura, roçava o rosto no dela. A doença era tão grave que quase todos os cabelos da cabeça de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) caíram.⁴⁴

Depois que se livraram das dificuldades e das doenças, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) — segundo outra versão, Umm Ruman (que Allah esteja satisfeito com ela) — disse certo dia ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Ó Mensageiro de Allah! Por que não leva sua esposa para sua casa?” Ele respondeu: “No momento, não tenho dinheiro para pagar o mahr.” Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Aceite o meu dinheiro. Estou emprestando-o a você.” Então o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tomou emprestadas de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) doze uqiyyas e uma nash (= quinhentos dirhams) e enviou o dinheiro a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela).

Medina era como a casa da família do marido de ‘A’isha. As mulheres dos Ansar foram à casa de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) para receber a jovem noiva. Naquele momento, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) brincava com outras meninas no pátio da casa, sob uma tamareira. Sua mãe, Umm Ruman (que Allah esteja satisfeito com ela), chamou-a. Assim que ouviu o chamado da mãe, ela correu até ela, ofegante. Depois, entrou no aposento onde as mulheres convidadas estavam sentadas à sua espera. Assim que a noiva entrou no aposento, as mulheres exclamaram: “Que sua chegada seja auspiciosa e abençoada!” Elas adornaram a jovem noiva. Pouco depois, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou.45

Naquele momento, nada foi apresentado ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), exceto uma vasilha de leite. Asma bint Yazid era uma companheira próxima de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela relatou: “Eu era amiga de ‘A’isha. Eu a adornei e a apresentei ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Havia outras pessoas comigo. Naquele momento, não encontramos nada que pudéssemos oferecer ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), além de uma vasilha de leite. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) bebeu um pouco do leite e estendeu a vasilha a ‘A’isha. Vendo que ela tinha vergonha de aceitá-la, eu lhe disse: ‘Não recuses o presente do Mensageiro de Allah.’ Então ela a aceitou, muito envergonhada, bebeu um pouco e ia devolvê-la. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhe: ‘Oferece-a às tuas companheiras.’ Nós dissemos: ‘Ó Mensageiro de Allah! Não temos vontade de beber neste momento.’ Ele disse: ‘Não mintais. Toda mentira de uma pessoa é registrada. Em outra narração, consta: Não junteis a fome à mentira. A mentira é registrada, até mesmo as pequenas mentiras.46

Com base nas narrações autênticas, sabe-se que ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi para a casa do marido no mês de Shawwal do primeiro ano da Hégira. ‘Allama ‘Ayni escreveu que ela foi para a casa do marido no segundo ano da Hégira, após a Batalha de Badr.47 Também foi narrado algo semelhante da própria ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Ele se casou comigo três anos antes da Hégira e consumou o casamento comigo no mês de Shawwal, após dezoito meses da Hégira. No momento do casamento, eu era uma menina de seis anos; e, no momento da consumação, uma menina de nove anos.”48 Contudo, essa narração não pode estar correta. Pois, com base nessa narração, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) teria dez anos naquela época. Entretanto, todos os livros de hadith e de história concordam que, naquele momento, ela tinha nove anos.49

Tanto o casamento de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) quanto sua ida para a casa do marido ocorreram no mês de Shawwal. Por essa razão, ela gostou, durante toda a sua vida, que cerimônias desse tipo fossem realizadas no mês de Shawwal. Ela dizia: “Tanto o meu casamento quanto a minha ida para a casa do marido ocorreram em Shawwal. Por isso, entre as esposas, quem foi mais afortunada do que eu aos olhos do marido?”50

O Mensageiro Nobre, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, levou Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, para um pequeno aposento construído ao lado da Mesquita do Profeta. O lugar onde hoje o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, está sepultado é o aposento de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela. Mais tarde, Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, costumava dizer: “O aposento em que agora me encontro é aquele para o qual o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, me trouxe pela primeira vez. Foi aqui mesmo que ele faleceu.” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fez da porta do aposento uma porta diretamente voltada para a mesquita.⁵¹ A partir dos relatos anteriores, todos podem compreender quão simples e desprovidos de ostentação foram o casamento de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, sua ida para a casa do marido e cada uma das cerimônias. Não havia neles qualquer exibição exagerada nem sinais de suntuosidade.

Por meio do casamento de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, foram eliminadas muitas superstições e práticas viciosas da Arábia daquela época. Eles não consideravam lícito casar-se com as filhas de nenhum tipo de irmão, nem mesmo com a filha de um irmão por parte de mãe. Por isso, ao ouvir a proposta de Khawla, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, exclamou: “Isso é lícito? Aisha é sobrinha do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” Quando isso chegou aos ouvidos do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ele disse: “Abu Bakr é meu irmão no Islã. É lícito que eu me case com sua filha.”

Outra prática supersticiosa era que não realizavam casamentos no mês de Shawwal. Em certa ocasião, no passado, uma peste surgiu na Arábia durante um mês de Shawwal. Por isso, acreditavam que esse mês era agourento e não realizavam nele nenhuma cerimônia de casamento.⁵²

Algumas pessoas da Arábia daquela época também acreditavam que, se a noiva fosse levada para casa durante esse mês, o relacionamento não duraria e o casal acabaria se separando. O casamento de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, desferiu um golpe decisivo na base dessa crença. A cerimônia de levar a noiva para casa ocorreu durante o dia. Isso também contrariava o costume vigente.⁵³

Outra prática era acenderem fogueiras diante da noiva. O primeiro olhar trocado pelos recém-casados ocorria em um palco ou no interior da casa. Todas essas práticas supersticiosas foram extirpadas por meio desse casamento.

Educação e instrução

Na Arábia antiga, onde nem sequer era comum que os homens soubessem ler e escrever, não havia nem como falar de educação para as mulheres. No início do Islã, em todo o clã dos coraixitas de Meca, apenas 17 pessoas sabiam ler e escrever. Entre elas havia somente uma mulher: Shifa bint Abdillah.⁵⁴ Como o Islã deu especial importância à leitura e à escrita, sua prática se difundiu muito rapidamente.

Entre as esposas do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Hafsa e Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ambas, sabiam ler e escrever um pouco. A própria Hafsa, que Allah esteja satisfeito com ela, aprendeu a ler e escrever com Shifa bint Abdillah, que Allah esteja satisfeito com ela, por ordem do próprio Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.⁵⁵ Naquela época, algumas outras mulheres companheiras também aprenderam a ler e escrever. Havia múltiplos benefícios no fato de o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ter se casado com várias esposas, especialmente ter se casado com Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, quando ela ainda era jovem. Embora a bênção da companhia do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, conduzisse inúmeros homens ao ápice da felicidade, as mulheres em geral, por razões naturais, não podiam alcançar essa bênção. Somente por meio das esposas do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi possível que os mistérios dos benefícios e das bênçãos de sua companhia fossem transmitidos e difundidos entre as mulheres de todo o mundo.

Com exceção de ‘Aisha Siddiqah (que Allah esteja satisfeito com ela), todas as demais Mães dos Crentes (que Allah esteja satisfeito com elas) se uniram em matrimônio com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) depois de ficarem viúvas ou serem divorciadas. Sob esse aspecto, somente ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi agraciada com a graça e as bênçãos da profecia. A infância e a adolescência são o período mais apropriado para a educação e a formação do ser humano. Felizmente, durante todo esse período ela recebeu a formação de seu Profeta, tornando-se uma mensageira de luz para a metade da humanidade do mundo.

Em toda a tribo dos coraixitas, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) era a pessoa mais experiente e instruída em astrologia e poesia. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi criada sob os cuidados de um pai assim. Consequentemente, herdou o amor e a aptidão por essas duas áreas.

O venerável Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) dava atenção especial à boa educação e à formação moral de seus filhos, e em certas situações também era rigoroso. Há provas disso nos livros de hadith e de Sira. Certa vez, chegou a tentar bater em seu filho ‘Abdur-Rahman simplesmente porque ele havia demorado a servir a comida aos convidados. Mesmo depois do casamento, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) sentia grande temor de seu pai por qualquer erro ou falha que cometesse.56 Em muitas ocasiões, o pai a repreendia severamente. Às vezes, não hesitava sequer em bater nela.57 Certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a salvou.58 Em outra ocasião, na presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele bateu com força nas costelas de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Então o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) exclamou: “Abu Bakr! Que Allah o perdoe! Nós não queríamos isso.”59 A verdadeira formação e educação da venerável ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) começou depois que ela foi para a casa do marido. Foi nesse período que aprendeu a ler. Ela recitava o Alcorão observando os outros. Segundo uma narração, ela não sabia escrever.60 Consta no hadith que seu escravo, Dhakwan, escrevia o Alcorão para ela.61 Contudo, algumas narrações dizem: “Em resposta a determinada carta, ela escreveu isto.” É provável que os narradores tenham usado “escreveu” em vez de “mandou escrever”. Em geral, é assim que acontece. De qualquer modo, escrever e ler são medidas externas do conhecimento humano. A medida do conhecimento verdadeiro encontra-se em um nível muito mais elevado. Alcançar a perfeição e a pureza da humanidade e da moralidade, conhecer as obrigações essenciais da religião e os mistérios profundos da Sharia, e adquirir conhecimento da Palavra de Allah e dos ensinamentos proféticos constituem a melhor educação. A venerável ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era um tesouro de todos esses conhecimentos; além disso, possuía profundo conhecimento de história, literatura e medicina. Aprendeu história e literatura com seu pai.62 Adquiriu o conhecimento da medicina por meio das pessoas e delegações que, vindas de diferentes regiões e lugares em diferentes épocas, compareciam à presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nos últimos dias de sua vida, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permanecia doente a maior parte do tempo. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) guardava na memória os tratamentos e os medicamentos que os médicos árabes prescreviam em cada lugar.

Certo dia, ‘Urwah disse a ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Fico maravilhado com seu conhecimento de fiqh, poesia e história da antiga Arábia, pois é possível que você tenha adquirido esses conhecimentos. Mas não consigo deixar de me maravilhar com seu conhecimento de ‘tibb’, ou medicina. Como e de onde você adquiriu esse conhecimento?” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “‘Urwah! Nos últimos anos de sua vida, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permanecia doente. Pessoas vinham até ele de diversas regiões da Arábia. Elas traziam vários tratamentos e medicamentos, e eu tratava-o dessa maneira. Foi assim que adquiri esse conhecimento.” Em outra narração, ‘Urwah pergunta: “De onde você adquiriu esse conhecimento de medicina?” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) responde: “Aprendi com os medicamentos e tratamentos administrados quando eu ou outra pessoa ficava doente. Além disso, eu também guardava na memória as doenças e os medicamentos que as pessoas mencionavam umas às outras.”63

Não havia horário específico para adquirir conhecimento religioso. O grande mestre da Sharia estava em casa. Ela era agraciada com sua companhia dia e noite. Todos os dias, realizava-se na Mesquita do Profeta um círculo de ensino e orientação do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A câmara da venerável ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) ficava junto à mesquita. Por isso, quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ensinava algo às pessoas do lado de fora, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) participava da lição sentada em casa. Quando não compreendia alguma coisa por causa da distância ou de outro motivo, perguntava ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quando ele entrava em casa e assim esclarecia sua dúvida.64 Às vezes, aproximava-se do círculo de ensino na mesquita.65 Além disso, atendendo ao pedido das mulheres, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) reservou um dia da semana para sua educação e instrução.66

Dia e noite, chegavam aos seus ouvidos discussões sobre incontáveis assuntos de ilm e hikmah, ou conhecimento e sabedoria. Ela também tinha o hábito de apresentar cada questão ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com total franqueza. Não se tranquilizava até ficar satisfeita. Certa vez, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

Será em árabe

Aquele cujo julgamento for tomado no Dia da Ressurreição sofrerá castigo.

‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Ó Mensageiro de Allah! Allah certamente disse:

Será em árabe

Ou seja, ele será submetido a uma prestação de contas fácil. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Isso é a apresentação das ações. Mas aquele cujas ações forem examinadas minuciosamente estará inevitavelmente condenado.⁶⁷

Certa vez, durante uma exortação, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: No Dia da Ressurreição, todas as pessoas ressuscitarão nuas. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou intrigada e perguntou: Ó Mensageiro de Allah! Homens e mulheres ressuscitarão juntos? Então não olharão uns para os outros? O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Será um momento de extremo terror. Ou seja, ninguém terá qualquer preocupação com os outros.⁶⁸

Certa vez, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se os incrédulos e politeístas receberiam recompensa pelas boas ações que praticam. Em Meca havia um politeísta chamado ‘Abdullah ibn Jada‘an, de caráter nobre e coração compassivo. Antes do Islam, ele reuniu os líderes dos coraixitas em uma assembleia para resolver as disputas e conflitos entre eles. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava entre eles. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou: «Ó Mensageiro de Allah! ‘Abdullah ibn Jada‘an tratava as pessoas com bondade na época da Jāhiliyyah. Alimentava os pobres e os famintos. Essa ação não lhe será útil?» Ele respondeu: Não, ‘Aisha. Ele jamais disse: “Ó Allah! Perdoa-me no Dia da Ressurreição.”

O jihād é uma das obrigações fundamentais do Islam. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) pensava que, assim como não havia diferença entre homens e mulheres no cumprimento das outras obrigações, o mesmo aconteceria neste caso. Certo dia, ela perguntou diretamente ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Recebeu esta resposta: O Hajj é o jihād das mulheres.⁵⁹

Em outra ocasião, ela perguntou: Ó Mensageiro de Allah! O jihād é a melhor ação. Nós, mulheres, não devemos participar do jihād? Ele respondeu: Não. Porém, o melhor jihād é o Hajj mabrūr.⁷⁰

No casamento, é condição que tanto o noivo quanto a noiva deem seu consentimento. Muitas vezes, as moças virgens, por timidez, não expressam verbalmente seu consentimento. Por isso, certa vez, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou: Ó Mensageiro de Allah! O consentimento da moça é necessário no casamento, não é? O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: Sim, é necessário. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Mas as moças permanecem caladas por timidez. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: O silêncio dela é seu consentimento.⁷¹

Certo dia, depois de realizar a oração do tahajjud, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quis deitar-se um pouco para descansar sem realizar a oração do witr. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) exclamou: “Ó Mensageiro de Allah! Vais deitar-te sem realizar o witr?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Meus olhos dormem, mas meu coração não dorme.”⁷² À primeira vista, uma pergunta desse tipo feita por ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) pode parecer uma falta de respeito. Porém, se ela não tivesse demonstrado tal coragem, a comunidade de Muhammad teria permanecido ignorante dos profundos mistérios da profecia.

No Islã, são mencionados muitos direitos dos vizinhos. E, na maioria das vezes, são as mulheres que têm a oportunidade de exercê-los. Mas, quando há vários vizinhos, a quem se deve dar prioridade? Por isso, certo dia, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Deve-se dar prioridade ao vizinho cuja porta é mais próxima da tua casa.”⁷³ Certa vez, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem gosta de encontrar Allah, Allah também gosta de encontrá-lo. E quem gosta de encontrar Allah, Allah também gosta de encontrá-lo. Mas quem não gosta de encontrar Allah, Allah também não gosta de encontrá-lo.” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Ó Mensageiro de Allah! Nenhum de nós gosta da morte, não é?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Não é esse o sentido das minhas palavras. O significado é que, quando o crente ouve falar da misericórdia de Allah, de Sua aprovação e do Paraíso, seu coração anseia por Allah, e Allah também aguarda a sua chegada. Já quando o incrédulo ouve falar do castigo e da ira de Allah, não deseja comparecer diante de Allah, e Allah também não gosta de encontrá-lo.”⁷⁴

Certa vez, um homem veio encontrar-se com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele lhe deu permissão e disse: “Deixai-o entrar. Ele é um homem muito mau de sua tribo.” O homem entrou e sentou-se. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conversou com ele com extrema paciência, atenção e cordialidade. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou muito surpresa. Quando o homem foi embora, ela disse: “Ó Mensageiro de Allah! Tu conhecias bem aquele homem, não é? No entanto, quando ele veio, falaste com ele com tanta cordialidade e gentileza.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “‘Aisha! O pior dos homens é aquele de quem as pessoas se afastam por medo.”

Certa vez, um homem veio pedir ajuda. Por indicação de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), a serva estava prestes a dar-lhe algumas coisas. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “‘Aisha! Não dês contando cada coisa. Caso contrário, Allah também te dará contando cada coisa.”⁷⁵ Mesmo que seja apenas um pedaço, dá-o ao mendigo e salva-te do Inferno. Se uma pessoa faminta o comer, isso lhe será útil e lhe encherá o estômago. O que poderia ser melhor do que isso?

Certa vez, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez a seguinte súplica: “Ó Allah! Mantém-me vivo em pobreza, faze-me morrer em pobreza e ressuscita-me no Dia da Ressurreição junto com os pobres.” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou: “Por quê, ó Mensageiro de Allah?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Os que não possuem riquezas entrarão no Paraíso quarenta anos antes dos ricos. ‘Aisha, nunca mandes embora um mendigo sem lhe dar alguma coisa, mesmo que seja apenas um pedaço de tâmara. Ama os pobres e faze-os sentar ao teu lado.”⁷⁶

Nos livros de hadith e de sira, são narradas inúmeras perguntas desse tipo feitas por ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), assim como suas respostas. Na realidade, essas eram as suas lições diárias. Além de diversos conselhos morais, o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ensinava a ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), com extrema paciência, assuntos relacionados à oração, ao hajj, ao zakat e a inúmeras questões da religião e da vida mundana. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também aprendia com grande interesse e colocava tudo em prática com extrema devoção.

‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha um desejo extremamente intenso de aprender. Mesmo nos momentos em que havia a possibilidade de o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficar descontente, ela não deixava de fazer perguntas. Na verdade, ela conhecia bem o temperamento e a natureza de seu esposo, o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por isso, podia ser franca e ousada em sua presença. Certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), irritado com suas esposas por algum motivo, jurou que não visitaria nenhuma delas durante um mês. Manteve-se firme nesse juramento durante vinte e nove dias. Por coincidência, aquele mês lunar tinha vinte e nove dias. No primeiro dia do mês seguinte, isto é, no trigésimo dia, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi até ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). À primeira vista, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) deveria ter ficado muito feliz. Contudo, vemos que ela perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! Tu disseste que não virias até nós durante um mês. Como vieste um dia antes?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “‘Aisha! Um mês também pode ter vinte e nove dias.”

Vida familiar: A casa para a qual ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) se mudou como esposa, deixando a casa de seus pais, não era uma mansão luxuosa. Ao redor da Mesquita do Profeta, no bairro dos Banu Najjar, em Medina, havia algumas pequenas casas simples; foi para uma delas que ela se mudou. A casa ficava a leste da mesquita. Uma de suas portas dava para oeste, para dentro da mesquita. Assim, a mesquita tornou-se como o pátio da casa. O Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entrava na mesquita por essa porta. Quando fazia i‘tikaf na mesquita, introduzia a cabeça na casa, e ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) penteava seus cabelos.⁷⁷ Às vezes, ainda sentado na mesquita, estendia a mão para dentro da casa e pedia algo a ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).⁷⁸

A largura do aposento era superior a seis côvados. As paredes eram de barro. O teto era feito de folhas e galhos de palmeira. Sobre ele, podia-se colocar um cobertor para proteção contra a chuva. Era tão baixo que, quando uma pessoa ficava de pé, conseguia alcançar o teto com a mão. Havia uma porta de uma só folha, mas nunca houve necessidade de fechá-la.⁷⁹ Para servir de cortina, um cobertor ficava pendurado na porta. Ao lado desse aposento havia outro, chamado “mashraba”. Certa vez, quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se afastou de suas esposas, passou ali um mês.

Entre os móveis da casa havia uma cama, uma esteira, um leito, um travesseiro, dois jarros para guardar tâmaras secas, um recipiente para água e uma taça para beber. Nada além disso. Em vários hadiths, esses objetos são mencionados em diversos lugares. Os moradores não tinham condições de acender uma lâmpada à noite. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Chegava a passar cerca de quarenta noites consecutivas sem que uma lâmpada fosse acesa em casa.”

Na casa viviam apenas duas pessoas: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Alguns dias depois, juntou-se a eles uma escrava chamada “Burayra” (que Allah esteja satisfeito com ela).⁸⁰ Enquanto ‘Aisha e Sawda eram suas únicas duas esposas, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) passava a noite no aposento de ‘Aisha em noites alternadas. Mais tarde, quando outras mulheres receberam o status de esposas e Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela) voluntariamente cedeu a ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) o seu dia de permanência, ele passou duas noites a cada nove no aposento de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).⁸¹

Não havia necessidade especial de organizar e arrumar a casa. Raramente surgia a oportunidade de preparar alimentos e cozinhar. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) dizia: “Nunca se passaram três dias consecutivos sem que os membros da família do Profeta comessem até se saciarem.”⁸² Ela também dizia: “Durante meses, não se acendia fogo em casa.”⁸³ Naquela época, viviam apenas de tâmaras e água.⁸⁴ Após a conquista de Khaybar, o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fixou uma pensão anual para cada uma de suas esposas purificadas (as nobres esposas).⁸⁵ Abd al-Rahman al-A‘raj costumava dizer em sua assembleia em Medina: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dava a ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), para seu sustento, oitenta wasq de tâmaras e vinte wasq de cevada — ou, segundo outra opinião, de trigo — provenientes da produção de Khaybar.”⁸⁶ Contudo, por causa de sua generosidade, essa quantidade de alimento nunca era suficiente para todo o ano.

Os nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) sempre enviavam presentes e dádivas à família do Profeta. Especialmente nos dias em que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permanecia no aposento de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), as pessoas deliberadamente enviavam mais presentes nesse dia.⁸⁷

Muitas vezes acontecia de o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) voltar de fora e perguntar: “Aisha! Há alguma coisa?” Ela respondia: “Ó Mensageiro de Allah! Não há absolutamente nada.” Então, todos jejuavam juntos.⁸⁸ Muitas vezes, algumas famílias dos Ansar enviavam leite. Assim, ficavam satisfeitos apenas por bebê-lo.⁸⁹ Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Na época do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o alimento da maioria dos nossos dias era leite.”⁹⁰

A responsabilidade pela administração da casa e dos afazeres domésticos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava a cargo de Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele distribuía os grãos destinados ao alimento de todo o ano. Quando necessário, contraía empréstimos.⁹¹

Quando o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) faleceu, toda a Arábia já havia entrado sob a sombra do Islã. Grandes riquezas provenientes de várias regiões estavam sendo acumuladas no tesouro público. Apesar disso, no dia em que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) faleceu, não havia na casa de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) sequer alimento suficiente para um dia.

Mesmo durante o califado de Hazrat Abu Bakr as-Siddiq (r.a.), Hazrat ‘Aishah (r.a.) recebia uma quantidade determinada de grãos da produção de Khaybar. O califa Hazrat ‘Umar (r.a.) instituiu um sistema de estipêndios para todos. Fixou um subsídio anual de dez mil dirhams para cada uma das esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), mas estabeleceu doze mil para ‘Aishah (r.a.). Como justificativa, dizia: “‘Aishah era a esposa mais amada do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).”⁹² Segundo um relato, durante seu califado, o califa ‘Umar (r.a.) deu-lhe a opção de receber a parte da produção de Khaybar ou a própria terra. Hazrat ‘Aishah (r.a.) escolheu então a terra.⁹³

Tudo o que recebia em dinheiro e bens distribuía generosamente entre os pobres e necessitados. O sistema acima mencionado permaneceu vigente desde o califado de Hazrat ‘Uthman (r.a.) até o governo do Amir Mu‘awiyah (r.a.). Hazrat ‘Abdullah ibn az-Zubayr (r.a.) era sobrinho de Hazrat ‘Aishah (r.a.) e tornou-se califa do Hijaz depois do Amir Mu‘awiyah (r.a.). Ele arcava com todas as despesas de sua tia. Contudo, nos dias em que o estipêndio não chegava do Bayt al-Mal, sua casa ficava à beira de passar fome.⁹⁴

Embora Hazrat ‘Aishah (r.a.) tivesse, por natureza, inteligência e compreensão aguçadas, por ser jovem às vezes cometia erros. Certa vez, moeu trigo em casa para fazer farinha e adormeceu; uma cabra veio e comeu tudo.⁹⁵ Em outra ocasião, ela própria moeu a farinha e preparou pão. Depois ficou esperando a chegada do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Era noite. Finalmente, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou e pôs-se de pé para realizar a oração. Vencida pelo sono, Hazrat ‘Aishah (r.a.) fechou os olhos. Nesse intervalo, uma cabra do vizinho entrou na casa e comeu tudo. Em comparação com as esposas mais velhas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ela não sabia preparar tão bem os alimentos.⁹⁶

Vida conjugal

É necessário apresentar diante de nós um retrato da vida conjugal do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e de ‘Aishah (r.a.), bem como da relação afetuosa entre os dois. O Islam não considerou a mulher tão sagrada a ponto de colocá-la num pedestal como uma deusa, nem a considerou meramente um objeto para o prazer do homem. Essa é, em essência, a concepção que os povos do mundo, tanto antigos quanto modernos, têm acerca da mulher. Por isso, em nenhuma época e em nenhuma sociedade a mulher recebeu a verdadeira dignidade. Somente o Islam lhe concedeu a dignidade adequada. A melhor descrição que o Islam oferece da mulher é esta: neste mundo cheio de conflitos e confrontos, a mulher é uma fonte de tranquilidade e consolo para o homem. O Alcorão declara:

Será em árabe

E entre os Seus sinais está o fato de Ele ter criado, para vós, esposas dentre vós mesmos, para que encontreis tranquilidade junto delas, e ter estabelecido entre vós amor, afeição e misericórdia.

(Surata Ar-Rum — 21)

Podemos ver a manifestação concreta desta declaração de Allah Todo-Poderoso na vida conjugal do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:⁹⁷

Será em árabe.

—O melhor dentre vós é aquele que é melhor para sua esposa. E eu sou, para minhas esposas, melhor do que todos vós.

Durante os nove anos de sua vida conjugal, havia entre eles profundo amor, compreensão mútua, emoção ilimitada e dedicação. Mesmo em meio à extrema pobreza, à fome e a todas as circunstâncias adversas, não se percebeu que seu relacionamento harmonioso tivesse sido interrompido sequer por um dia. Não surgiu entre eles qualquer amargura ou desentendimento.

O nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amava profundamente Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Toda a comunidade dos Companheiros sabia disso. Por essa razão, no dia em que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) passava em casa de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), eles enviavam muitos presentes. Isso irritava as outras esposas. Elas queriam que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenasse às pessoas que enviassem seus presentes para onde quer que ele estivesse naquele dia. Mas ninguém tinha coragem de dizer isso. Por isso, todas escolheram Fátima (que Allah esteja satisfeito com ela), a querida filha do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), para transmitir-lhe o que sentiam. Depois de ouvir Fátima (que Allah esteja satisfeito com ela), o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Minha filha, acaso não desejas o que eu desejo?” Fátima compreendeu o desejo de seu pai e voltou. As esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quiseram enviá-la novamente; porém, ela era uma mulher idosa, sábia e espirituosa. De maneira habilidosa, transmitiu ao Mensageiro de Allah o que elas sentiam. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhe: “Umm Salama! Não me incomodeis por causa de Aisha, pois a revelação nunca desceu sobre mim sob o cobertor de nenhuma outra esposa além de Aisha.”⁹⁸ O Imam al-Dhahabi afirma que essa resposta do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) indica que uma das razões pelas quais ele amava Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) mais do que as outras era a determinação de Allah. Foi por determinação de Allah que ele a amava tanto.⁹⁹

Certa vez, após retornar da batalha de Dhat al-Salasil, ‘Amr ibn al-‘As (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Ó Mensageiro de Allah! Quem é a pessoa mais querida para vós neste mundo?” Ele respondeu: “Aisha.” Ele perguntou novamente: “Ó Mensageiro de Allah, refiro-me aos homens.” Ele respondeu: “O pai de Aisha.”¹⁰⁰

Certa vez, ao aconselhar sua filha, a Mãe dos Crentes Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela), ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Não tentes competir com Aisha, pois ela é a esposa mais querida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).”¹⁰¹

Certa vez, durante uma viagem, a camela de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) subitamente se assustou e saiu correndo com ela. O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou tão aflito que se ouviu sair de seus lábios: “Wa arusāh!” — “Ai de mim, minha noiva!”¹⁰²

Durante a doença final, o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntava repetidamente: “Que dia é hoje?” Todos compreenderam que ele aguardava o dia correspondente à vez de ‘A’isha. Assim, foi levado ao quarto de ‘A’isha (r.a.), onde permaneceu até falecer. Com a cabeça apoiada no peito de ‘A’isha (r.a.), entregou o último suspiro.103 O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) esteve enfermo durante treze dias. Desses, passou cinco dias nos quartos das outras esposas e oito dias no quarto de ‘A’isha (r.a.).

Mais tarde, ‘A’isha (r.a.) costumava dizer: “O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) faleceu em minha casa, no dia da minha vez, e sobre o meu peito.” No momento final de sua vida, ‘Abdur-Rahman ibn Abi Bakr (r.a.) veio visitar o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), trazendo na mão um miswak fresco. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) começou a olhar repetidamente para aquele miswak. Compreendi que o desejava. Peguei-o, lavei-o, mastiguei-o para amaciá-lo e entreguei-o ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele o utilizou para fazer o miswak com perfeição. Depois, estendeu a mão para devolvê-lo, mas sua mão caiu. Então, entregou o último suspiro. Louvado seja o Grande Allah, que fez com que a saliva dele e a minha se misturassem no derradeiro momento da vida terrena de Seu Mensageiro.104

Muitos pensam que a razão do afeto e da admiração tão intensos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por ‘A’isha (r.a.) era sua beleza e formosura. Mas essa ideia está completamente errada. Entre as esposas do Nobre Mensageiro, Juwayriya, Zaynab e Safiyya (r.a.) eram as mais belas. Seus encantos são mencionados nos livros de hadith, sirah e história. Contudo, com exceção de um ou dois lugares, quase nada é mencionado sobre a beleza de ‘A’isha (r.a.). Certa vez, por exemplo, enquanto ‘Umar (r.a.) aconselhava Hafsa (r.a.), fez um comentário a respeito dela. Ao ouvi-lo, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sorriu ligeiramente.105 Na realidade, o comentário de ‘Umar apenas demonstra que ‘A’isha (r.a.) merecia preferência em relação a Hafsa (r.a.).

A verdade é que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse exatamente o que deveria ser dito: a escolha de uma noiva para o casamento pode basear-se em quatro qualidades: 1. riqueza; 2. beleza; 3. nobreza de linhagem; 4. religiosidade. Portanto, procurai a religiosidade.106 Por isso, entre suas esposas, aquela por meio de quem fosse possível prestar maior serviço à religião era a mais amada pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A compreensão, a reflexão e a capacidade de memorizar as determinações e preceitos religiosos de ‘A’isha (r.a.) eram muito superiores às das outras esposas. Foram precisamente essas qualidades que fizeram dela a esposa predileta do marido. O erudito Ibn Hazm demonstrou isso detalhadamente em sua obra Al-Milal wa an-Nihal. Esse hadith do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi transmitido em diversas coletâneas de hadith.107

Será em árabe

— Entre os homens, muitos alcançaram a perfeição; porém, entre as mulheres, ninguém alcançou a perfeição, exceto Maryam, filha de ‘Imran, e Asiya, esposa do Faraó. Contudo, a superioridade de ‘A’isha sobre todas as mulheres é como a superioridade do tharid sobre todos os alimentos.

O significado do imenso amor do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por ‘A’isha (r.a.) pode ser compreendido por meio deste hadith. Sua admiração não se devia à juventude e à beleza de ‘A’isha (r.a.), mas às suas qualidades interiores e à sua perfeição. Depois de ‘A’isha (r.a.), Umm Salama (r.a.) ocupava o lugar seguinte nessas qualidades interiores; por isso, apesar de ser mais velha, também era profundamente amada pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Khadija (r.a.) faleceu aos sessenta e cinco anos, mas seu amor estava tão profundamente arraigado no coração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que até ‘A’isha (r.a.) sentia ciúmes disso.108

‘A’isha (r.a.) nutria no peito um amor puro e transbordante por seu marido, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quando alguém se tornava pretendente a uma parte desse amor, ela sofria. Às vezes, se acordasse durante a noite e não encontrasse o marido ao seu lado, ficava inquieta. Certa noite, acordou profundamente durante a madrugada. Não encontrou o marido ao seu lado. Naquela noite, não havia sequer uma lâmpada acesa no quarto. Começou a tatear de um lado para o outro no escuro. Por fim, encontrou em certo lugar os pés abençoados do marido. Ele estava prostrado em oração.109

Mais uma vez, a mesma situação se repetiu. ‘Aisha (r.a.) pensou que ele talvez tivesse ido ao aposento de alguma outra esposa. Começou a procurar de um lado para o outro. Então viu o marido, silenciosamente absorto na recitação do tasbih, num canto. ‘Aisha (r.a.) sentiu vergonha de sua suposição infundada. Disse consigo mesma: «Que meus pais sejam sacrificados por ele! Em que pensamentos estou eu, e em que estado ele se encontra!»¹¹⁰

Este é o relato de outra noite. ‘Aisha (r.a.) acordou à meia-noite. Como não encontrou o marido ao seu lado, procurou-o por toda parte e chegou ao cemitério, onde o viu absorto em súplicas e istighfar. Ela voltou silenciosamente. Pela manhã, contou isso ao marido, e ele disse: «Sim, durante a noite tive a impressão de que alguma coisa passava diante de mim. Então era você.»

Certa vez, durante uma viagem, ‘Aisha (r.a.) e Hafsa (r.a.) acompanhavam o Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam). Enquanto viajavam à noite, o Mensageiro (sallallahu ‘alayhi wa sallam) ia sentado sobre a montaria de ‘Aisha (r.a.), conversando com ela durante o caminho.

Certo dia, ‘Aisha e Hafsa (r.a.) combinaram entre si e trocaram as montarias. À noite, o Mensageiro (sallallahu ‘alayhi wa sallam), como de costume, montou no camelo de ‘Aisha (r.a.) e seguiu viagem conversando com Hafsa (r.a.). Enquanto isso, ‘Aisha (r.a.), privada da companhia do marido, ficou angustiada. Quando a caravana parou no acampamento seguinte, ela desceu da montaria, mergulhou os dois pés na grama e começou a dizer para si mesma: «Ó Allah! Já não posso dizer nada a ele. Enviai-me um escorpião ou uma serpente, para que me morda!»¹¹¹

Entre as esposas do Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam), havia mulheres de diferentes origens. Algumas eram filhas das famílias mais nobres e aristocráticas da Arábia. Para elas, era extremamente difícil viver com o Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam) em condições tão modestas. Por isso, reunidas, passaram a pedir ao Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam) uma melhoria no padrão de vida. Foi nesse contexto que foram revelados versículos do Sagrado Alcorão, nos quais lhes foi apresentada esta decisão final: aquelas que quisessem poderiam romper voluntariamente o vínculo e partir, ou poderiam aceitar aquela condição modesta e continuar vivendo com o Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam). Como ‘Aisha (r.a.) era a mais jovem, o Mensageiro (sallallahu ‘alayhi wa sallam) pediu-lhe que consultasse seus pais e depois lhe comunicasse sua decisão. Ela disse: «Eu escolho o Mensageiro de Allah.» Foi a primeira a tomar essa decisão e pediu ao Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam): «Ó Mensageiro de Allah! Não consulte ninguém mais sobre a minha decisão.»¹¹²

O nobre Mensageiro (sallallahu ‘alayhi wa sallam) muitas vezes deitava-se com a cabeça apoiada sobre a coxa de ‘Aisha (r.a.). Certo dia, enquanto o Mensageiro (sallallahu ‘alayhi wa sallam) descansava nessa posição, Abu Bakr (r.a.), irritado com a filha por algum motivo, entrou em seu aposento e deu-lhe um empurrão na lateral do corpo. Mas ‘Aisha (r.a.) não se moveu de modo algum, pois isso poderia perturbar o descanso do Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam).¹¹³

‘Aisha (r.a.) conservou com extremo cuidado as roupas com as quais o nobre Mensageiro faleceu. Certa vez, mostrando a um companheiro uma capa e uma manta do Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam), ela disse: «Ele faleceu usando estas roupas.»¹¹⁴

Toda a vida do nobre Mensageiro é um modelo para a humanidade. Por isso, também vemos na vida de ‘Aisha (r.a.) e do Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam) como um marido deve agir para alegrar sua esposa. Às vezes, vemos o Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam) extremamente generoso e espontâneo com ‘Aisha (r.a.). Ele demonstrava satisfação até ao vê-la assistir a uma brincadeira ou divertimento muito simples. O nobre Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam) criava uma menina ansarita. Ao entrar numa casa muito simples, disse: «‘Aisha! Não há nenhuma canção ou canto?»¹¹⁵

Certa vez, no dia do Eid, alguns etíopes exibiam acrobacias de luta, inclinando e balançando suas lanças. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) pediu ao marido que a deixasse assistir à apresentação. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ficou de pé, servindo-lhe de proteção, enquanto ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) apreciava o espetáculo. Ele permaneceu imóvel até que ela própria se cansou e se afastou.116

Certa vez, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) falava com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) em um tom um pouco elevado. Nesse momento, seu pai, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), chegou. Ao ver tamanha insolência da filha, ele se irritou e levantou a mão para bater nela. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) rapidamente se colocou entre os dois e protegeu ‘Aisha. Quando Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) foi embora, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse a ‘Aisha: “Diga-me, como eu a salvei?”117

Certa vez, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi até ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) levando consigo uma jovem e perguntou: “Você conhece esta moça?” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Não.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Ela é escrava de fulano. Você gostaria de ouvir sua canção?” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) demonstrou interesse em ouvi-la. A escrava cantou durante bastante tempo. Em certo momento, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) comentou a respeito dela: “Satanás toca música nas narinas dela.” Ou seja, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não apreciava esse tipo de canto. Para alegrar ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) às vezes também lhe contava histórias.118 E, em outras ocasiões, ouvia pacientemente as histórias de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Contudo, mesmo em momentos tão íntimos e agradáveis, quando ouvia o chamado para a oração, saía imediatamente, como se não conhecesse ninguém.119

Certa vez, durante uma viagem, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) acompanhava o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Em determinado ponto do caminho, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ordenou a todos os companheiros que seguissem adiante. Depois disse a ‘Aisha: “Venha, vamos correr e ver quem chega primeiro.” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era magra e leve, por isso chegou primeiro. Algum tempo depois, surgiu novamente a oportunidade de uma corrida semelhante. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) conta: “Naquela ocasião, eu havia engordado. Por isso, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chegou antes de mim.” Então ele disse: “Esta é a compensação por aquele dia.”120

Quando o Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tinha a oportunidade de comer com ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), os dois comiam do mesmo prato, sobre a mesma toalha. Certa vez, antes da ordem sobre o véu, eles estavam comendo juntos quando ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) o convidou para comer, e os três comeram juntos.121 O carinho entre eles durante as refeições era tal que, no lugar em que ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) encostava os lábios, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) também bebia exatamente dali.122 Como à noite não acendiam uma lâmpada no quarto, às vezes, enquanto comiam no escuro, as mãos de ambos iam parar sobre o mesmo pedaço.123

Nas obras de biografia e de hadith, encontra-se uma cena extraordinária do amor, do carinho e dos momentos de desagrado entre o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Seu comportamento demonstra que o Islam não negou os sentimentos puros e naturais do ser humano. Às vezes, eles são vistos demonstrando emoções como pessoas comuns. Não devemos esquecer que, assim como ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era esposa de um profeta, também era uma mulher. Da mesma forma, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), além de profeta e mensageiro, também era um marido. Por isso, várias atitudes, episódios e momentos de desagrado entre eles, na condição de marido e mulher, foram narrados em diferentes obras; são extremamente surpreendentes e instrutivos.

O Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) frequentemente se lembrava de sua primeira esposa, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), já falecida. Certa vez, enquanto falava sobre Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) exclamou: “Ó Mensageiro de Allah! Por que você se lembra tanto dessa velha senhora? Allah lhe concedeu esposas melhores do que ela.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: “Allah me concedeu filhos por meio dela.”124

Em outro relato, consta que certo dia o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) começou a elogiar Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e continuou a fazê-lo por um longo tempo. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Senti uma grande angústia por dentro e falei: ‘Ó Mensageiro de Allah! Você está elogiando por tanto tempo uma velha coraixita, de lábios avermelhados, cuja morte ocorreu há tanto tempo. Allah lhe concedeu esposas melhores do que ela.’” Ao ouvir isso, a cor do rosto do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) mudou. Ele disse: “Khadija foi uma esposa tal que, quando as pessoas se recusaram a reconhecer-me como profeta, ela acreditou em mim; quando as pessoas não quiseram me ajudar, ela se colocou ao meu lado com seus bens e sua riqueza. Allah me concedeu filhos por meio dela, enquanto as outras esposas me privaram de filhos.”125

Certa vez, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) sentiu dor de cabeça. Naquela ocasião, a doença final do Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) estava prestes a começar. Ele disse a ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Se você morresse antes de mim, eu a lavaria com minhas próprias mãos, a envolveria na mortalha e faria súplicas por você.” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Ó Mensageiro de Allah! Você está desejando a minha morte. Se isso acontecesse, você traria outra esposa para morar nesta casa.” Ao ouvir isso, o Mensageiro (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) riu.¹²⁶

Após o incidente de ‘Ifk’, ou seja, a acusação contra a honra, quando a pureza de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi declarada por meio da revelação, sua mãe lhe disse: “Vá e expresse sua gratidão ao seu marido.” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu imediatamente, em tom ofendido: “Não sou grata a ninguém, exceto a Allah, que declarou a minha pureza.”

Certa vez, o Mensageiro (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) disse: “‘Aisha! Eu consigo perceber quando você está satisfeita ou insatisfeita comigo.” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou: “Como?” Ele respondeu: “Quando está insatisfeita, você jura dizendo: ‘Pelo Deus de Ibrahim’; e quando está satisfeita, diz: ‘Pelo Deus de Muhammad’.”¹²⁷

O serviço ao marido

Em vários pontos das coletâneas de hadiths encontram-se relatos sobre o serviço de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) ao marido. Apresentamos aqui alguns deles. Mesmo havendo um criado em casa, ela fazia tudo com as próprias mãos. Moía a farinha, preparava a comida, estendia a cama, trazia e deixava pronta a água para a ablução, torcia a corda do pescoço dos animais destinados ao sacrifício, penteava a cabeça do marido, aplicava perfume em seu corpo, lavava suas roupas, e, à noite, quando ele ia dormir, colocava o miswak e a água junto à sua cabeça; também lavava e limpava o miswak.

Certo dia, o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) foi à mesquita envolto em uma manta. Um companheiro disse: “Ó Mensageiro de Allah! Há uma mancha de sujeira na manta.” Imediatamente, ele a retirou e a enviou, pelas mãos de um criado, a ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) mandou trazer água, lavou a manta com as próprias mãos, secou-a e depois a enviou novamente ao Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele).¹²⁸

Qays al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele) era um dos membros de Ahl as-Suffa. Ele narrou: certo dia, o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) disse: “Hoje, todos vocês irão à casa de ‘Aisha.” Ele foi conosco até a casa e disse: “‘Aisha! Ofereça comida a todos nós.” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) serviu a todos nós comida cozida e deu-nos leite e água para beber.¹²⁹ Provavelmente, esse acontecimento ocorreu antes da revelação da ordem do hijab.

Embora ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) fosse a esposa mais amada do marido, ela o servia com grande dedicação, mais do que as outras. Estava sempre atenta ao conforto do marido e às suas preferências e aversões. Era necessário lavar repetidamente o miswak do marido. Somente ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha a oportunidade de fazer esse trabalho.¹³⁰

Obediência e seguimento do marido:

Uma das principais virtudes da esposa no Islã é obedecer e seguir o marido. Durante os longos nove anos de convivência conjugal, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) não apenas jamais contrariou qualquer ordem dele, como também, sempre que ele expressava, mesmo por palavras ou gestos, sua desaprovação a algo, ela imediatamente o abandonava. Certa vez, ela pendurou cuidadosamente na porta uma cortina com imagens. Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava prestes a entrar no aposento, seu olhar caiu sobre a cortina. Imediatamente, seu nobre rosto perdeu a cor. Ao ver isso, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) compreendeu tudo. Ela disse: “Perdoe-me! Poderia dizer-me qual foi a minha falta?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Os anjos não entram numa casa onde há imagens.” Ao ouvir isso, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) rasgou a cortina.¹³¹

Durante a vida do marido, muitas esposas obedecem e seguem plenamente seus maridos. Porém, é difícil encontrar alguém comparável a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) na medida em que, após a morte do marido, ela continuou a obedecê-lo e a cumprir suas ordens. Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ela viveu por muitos anos. Durante todo esse longo período, cumpriu e realizou cada ordem e desejo do marido da mesma forma como fazia enquanto ele estava vivo.

O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ensinou a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) a generosidade. Até o fim de sua vida, ela manteve essa virtude com grande dedicação. Certa vez, pediu ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permissão para participar do jihad. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O jihad das mulheres é o hajj.” Depois de ouvir essas palavras, ela passou a praticar isso com tal rigor que, em pouquíssimos anos de sua vida, deixou de realizar o hajj.¹³²

Certa vez, um homem enviou a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) algumas roupas e certa quantia em dinheiro vivo. A princípio, ela se recusou a aceitar e os devolveu. Depois, chamou novamente o homem, aceitou-os e disse: “Lembrei-me de uma coisa.”¹³³

Certa vez, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) jejuou no dia de ‘Arafat. Por causa do calor intenso, ela jogava água sobre a cabeça. Alguém lhe aconselhou a quebrar o jejum. Ela disse: “Tendo ouvido do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que jejuar no dia de ‘Arafat expia os pecados de todo o ano, como poderia quebrá-lo?”¹³⁴

Depois de ver o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizar a oração do duha, ela continuou a realizar essa oração durante toda a vida. Ela dizia: “Mesmo que meu pai se levantasse do túmulo e me proibisse de realizar essa oração, eu não obedeceria às suas palavras.”¹³⁵ Certa vez, uma mulher perguntou a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela): “O que acha de aplicar hena?” Ela respondeu: “Meu amado gostava muito da cor da hena, mas não gostava do seu cheiro. Não é haram. Se quiser, pode aplicá-la.”

A vida religiosa do marido e da esposa no ambiente doméstico

A casa de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era a residência de um Profeta. Ali não havia qualquer vestígio de riqueza ou luxo. Elas não davam importância alguma às riquezas e ao esplendor mundanos. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: era hábito do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), quando entrava em casa, pronunciar repetidamente, em voz um pouco elevada, as seguintes palavras.136

Será em árabe

Se os filhos de Adão possuíssem dois vales repletos de riquezas, desejariam um terceiro. Somente a terra pode preencher a boca da sua avidez. Allah diz: ‘Criei as riquezas apenas para que se estabeleça a oração e se pague o zakat. Quem se volta para Allah, Allah também Se volta para ele.’

Seu objetivo principal era lembrar que a ganância humana não tem fim e qual é a verdadeira finalidade de conceder riquezas.

O Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) voltava para casa depois de realizar a oração de ‘Isha. Usava o miswak e ia imediatamente dormir. Despertava no meio da noite para realizar a oração de tahajjud. No fim da noite, despertava ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela se levantava e participava da oração com o marido. Por último, realizava a oração de witr. Depois do início da alvorada, o Puro Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), após realizar a sunnah do fajr, deitava-se um pouco de lado e conversava por algum tempo com ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).137 Em seguida, saía de casa para realizar a oração obrigatória do fajr. Às vezes, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) passavam a noite inteira na adoração e no serviço a Allah. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era o imam, e ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), a fiel que o seguia. Quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se levantava para a oração durante um eclipse solar ou lunar — kusuf e khusuf —, ela também se levantava. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) liderava a oração congregacional na mesquita, enquanto ela o seguia em oração a partir de casa.138

Além das cinco orações diárias e do tahajjud, seguindo o exemplo do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ela também realizava regularmente a oração de duha. Jejuava com frequência. Às vezes, marido e mulher jejuavam juntos. Durante os últimos dez dias do Ramadã, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fazia i‘tikaf na mesquita. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também participava. Ela armava uma tenda no pátio da mesquita e permanecia nela. Depois da oração do fajr, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ia ali por algum tempo.139

No ano 11 da Hégira, ela acompanhou o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) na viagem da Peregrinação de Despedida. Pretendia realizar o hajj e a ‘umrah. Porém, por causa do seu ciclo menstrual, não pôde fazer o tawaf no momento adequado. Ficou profundamente angustiada e começou a chorar. Quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) voltou de fora e a viu chorando, também começou a chorar. Ao vê-la chorando, perguntou a razão e indicou-lhe o que deveria fazer. Acompanhada de seu irmão, ‘Abd al-Rahman ibn Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), ela completou os ritos obrigatórios que estavam pendentes.140

Pode surgir na mente de pessoas comuns como nós a seguinte pergunta: será que o Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), durante os momentos de descanso e repouso no interior de sua casa, demonstrava alguma negligência — que Allah nos proteja — no cumprimento da responsabilidade da Mensagem? Tal suposição é completamente infundada. Já mencionamos anteriormente o comentário de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): ‘O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) conversava conosco. Assim que ouvia o chamado para a oração, levantava-se. Naquele momento, parecia que ele nem sequer nos conhecia.’ ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) pendurou, com grande dedicação, uma cortina com imagens para agradar ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Em vez de demonstrar satisfação, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) manifestou desagrado.

Certa vez, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu em termos severos a uma judia que lhe havia lançado uma maldição de morte. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse imediatamente: “Ó ‘A’isha! Allah é misericordioso e aprecia a misericórdia e a gentileza.” Em outra ocasião, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) moeu farinha com as próprias mãos, preparou pão e adormeceu. Aproveitando-se disso, uma cabra da vizinha entrou em casa e comeu tudo. ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) correu para agarrar a cabra e começou a golpeá-la algumas vezes. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) impediu-a e disse: “Ó ‘A’isha! Não causes sofrimento à vizinha.”

Relação com as coesposas e seus filhos:

Pelo que sabemos, neste mundo, uma das coisas mais insuportáveis para uma mulher é a existência de uma coesposa. ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) teve, ao mesmo tempo, de uma a oito coesposas. Graças à grandiosa convivência com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), toda a impureza de seus corações foi removida, e eles se transformaram em corações límpidos. O modo como ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) viveu com suas coesposas e os filhos delas tornou-se um modelo incomparável para as mulheres de todo o mundo.

Embora Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) não estivesse viva durante o período de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), ela permaneceu sempre viva no coração do Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ele sempre recordava Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) diante de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Por isso, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Eu nunca senti tanto ciúme de ninguém quanto senti de Khadija. Isso aconteceu porque o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a mencionava muitíssimo, como não fazia com nenhuma outra. O fato de o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) oferecer sacrifícios em nome de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), enviar presentes às amigas de Khadija e mencionar todas as suas contribuições no início do Islã — como consolar o marido, aconselhá-lo a ter paciência e apoiá-lo com todos os meios e recursos — foi ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) quem transmitiu à comunidade. Ela também transmitiu que Allah, o Altíssimo, havia dado a Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) a boa notícia do Paraíso.¹⁴¹ Somente isso já permite avaliar a pureza e a amplitude de seu coração.

Sobre Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela), ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Ao ver qualquer outra mulher além de Sawda, nunca senti o desejo de que minha alma estivesse em seu corpo.” Após a morte de Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela), disse a respeito dela: “Ela era a mais temente a Allah entre nós.”¹⁴² Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) sabia preparar comidas excelentes. Reconhecendo essa habilidade, ela disse: “Nunca vi ninguém preparar uma comida melhor do que ela.” Muitos relatos sobre sua convivência e seu comportamento com as coesposas estão registrados nos livros de hadith e de biografia, revelando sua generosidade, magnanimidade e elevado caráter. O trato afável e o comportamento de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) alegravam a todos. Por isso, durante o episódio da Ifk (acusação caluniosa), quando ela se encontrava desesperada, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou a uma de suas coesposas, Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), sobre o caráter dela, e Zaynab respondeu: “Nada sei dela além do bem.”¹⁴³

‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) não teve filhos. Contudo, várias das outras esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tinham filhos. Sua relação com eles era exemplar. Zaynab, Ruqayya, Umm Kulthum e Fatima — essas quatro filhas eram filhas de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Antes de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) entrar na casa do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), todas, exceto Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela), já haviam se casado e ido viver nas casas de seus respectivos maridos. No sexto ano da Hégira, Ruqayya faleceu; e, nos oitavo e nono anos, respectivamente, faleceram Zaynab e Umm Kulthum. Nos livros de hadith e de biografia não se encontra sequer um episódio de relação amarga entre elas e ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Pelo contrário, os comentários e comportamentos de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) em relação a essas filhas revelam a profunda afeição que sentia por elas. Sobre Zaynab, que morreu como mártir no caminho de Allah, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) transmitiu estas palavras do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Ela era minha filha muito querida; foi maltratada por causa do amor que tinha por mim.” Foi também ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) quem transmitiu quanto carinho e afeto o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) demonstrava por Umama, filha dessa Zaynab.

Quando ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) chegou à casa do marido, a jovem solteira Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela) ainda estava na casa de seu pai. Contudo, era cinco ou seis anos mais velha que ‘A’isha. Essa mãe e essa filha passaram juntas um ano, ou pouco menos. No segundo ano da Hégira, essa jovem casou-se com ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) participou, juntamente com as outras mães, dos preparativos desse casamento. Além disso, por ordem do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), deu-lhe atenção especial. Ela rebocou a casa, preparou a cama, fez com as próprias mãos um travesseiro enchendo-o com fibras de tamareira, serviu tâmaras e passas aos convidados e preparou uma estrutura de madeira semelhante a um cabide para pendurar o odre de água e as roupas. ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) narrou: “Nunca vi um casamento tão magnífico quanto o de Fatima.”¹⁴⁴

Elogiando Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela), ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Nunca vi uma pessoa melhor do que Fatima, exceto seu pai.” Certa vez, um tabi‘i perguntou a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Quem era a pessoa mais querida do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz)?” Ela respondeu: “Fatima.” ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Não vi ninguém, além de Fatima, cujo modo de andar, postura e comportamento fossem tão semelhantes aos do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Quando Fatima ia visitar o pai, ele se levantava, beijava sua testa e a fazia sentar-se em seu lugar. E, quando o pai ia à casa dela, ela se levantava, beijava-o e o fazia sentar-se em seu lugar.”¹⁴⁵

Na casa de seu marido, Fátima (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou um pouco cansada por realizar com as próprias mãos todos os afazeres. Certo dia, foi até seu pai para pedir que lhe fosse concedida uma serva. Por acaso, não conseguiu encontrar o pai. Então, encarregou a mãe ‘Aisha de falar com ele sobre o assunto e voltou.146

‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) narra: “Certo dia, todas nós, esposas, estávamos sentadas ao lado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nesse momento, Fátima veio pela frente. Seu modo de caminhar era exatamente igual ao do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); não havia nenhuma diferença. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou-a com grande emoção e fez com que se sentasse ao seu lado. Depois, sussurrou-lhe algumas palavras ao ouvido. Fátima começou a chorar. Ao vê-la aflita, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) voltou a dizer-lhe algo ao ouvido. Dessa vez, Fátima começou a sorrir. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: ‘Fátima! O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fala em segredo com você, deixando de lado suas esposas, e você está chorando?’ Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se levantou e saiu, quis perguntar a Fátima sobre o assunto. Ela respondeu: ‘Não revelarei o segredo de meu pai.’”

Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) voltou a perguntar-lhe um dia sobre o assunto. Fátima disse: “A razão do meu choro foi que ele me falou de sua morte. E a razão do meu sorriso foi que ele me disse: ‘Fátima! Acaso não ficarias satisfeita em ser a líder das mulheres de todo o mundo?’”147

Por meio de todos esses acontecimentos mencionados acima, podemos compreender quão afetuosa era a relação de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) com as filhas de suas coesposas. Muitos outros acontecimentos desse tipo encontram-se nos livros de hadith e de sirah.

Guerras e conflitos

O Imam Bukhari narrou. Ao relatar a batalha de Uhud, Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Vi ‘Aisha e Umm Sulaym (que Allah esteja satisfeito com ambas) carregando odres de água nos ombros, levando água aos feridos e despejando-a em suas bocas. Quando a água acabava, elas os enchiam novamente e voltavam a distribuí-la.”148 Na época da batalha de Uhud, sua idade não passava de dez ou onze anos. Ela participou dessa batalha e cuidou dos feridos.

O Imam Bukhari diz que a batalha de Banu Mustaliq foi a batalha de Al-Muraysi‘. Há, contudo, alguma divergência entre os especialistas em sirah quanto ao ano em que ocorreu essa batalha. Muhammad ibn Ishaq diz que ocorreu no sexto ano da Hégira. Musa ibn ‘Uqbah diz que ocorreu no quarto ano da Hégira, enquanto ‘Urwah diz que aconteceu no mês de Sha‘ban do quinto ano da Hégira.149 Al-Muraysi‘ era uma fonte pertencente à tribo de Banu Mustaliq. Seu líder era Al-Harith ibn Abi Dirar. Ele organizou os membros de sua própria tribo e de outras tribos vizinhas para combater o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ao tomar conhecimento disso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu de Medina à frente de um exército, com o objetivo de subjugá-los. Um grande número de hipócritas participou desse exército, algo que nunca havia ocorrido em nenhuma outra batalha.150 Por fim, os dois exércitos se confrontaram junto a Al-Muraysi‘. Nessa expedição, os hipócritas tramaram uma vil conspiração contra ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Vou apresentar o acontecimento com um pouco mais de detalhes.

No mês de Sha‘ban do quinto ou sexto ano da Hégira, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) soube que os habitantes das proximidades de Al-Muraysi‘ estavam se preparando para lutar contra os muçulmanos. Assim que tomou conhecimento disso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu com um exército na direção dessas pessoas. O líder dos hipócritas, ‘Abdullah ibn Ubayy, juntou-se à expedição do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), acompanhado de um grande número de hipócritas. Ibn Sa‘d disse que, antes disso, nenhum número tão grande de hipócritas havia participado de qualquer batalha. Após a expedição, esses hipócritas tentaram, de várias maneiras, criar divisão entre os muçulmanos. Pela misericórdia de Allah Todo-Poderoso e graças à visão estratégica e à liderança competente do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), todas as conspirações de ‘Abdullah ibn Ubayy fracassaram.

Foi durante essa expedição que eles tramaram uma conspiração envolvendo a Mãe dos Crentes, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Eles lançaram uma calúnia extremamente humilhante contra a castidade de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). O relato principal foi narrado pelas próprias palavras de ‘Aisha em diversas coletâneas de hadith e de biografia profética, incluindo Sahih al-Bukhari. Ela disse:

Era costume do Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), quando partia para algum lugar distante, decidir por sorteio qual de suas esposas o acompanharia. Durante a expedição contra os Banu al-Mustaliq, meu nome saiu no sorteio. Assim, tornei-me sua companheira de viagem. No retorno, quando nos aproximamos de Medina, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) acampou durante a noite em um local. No fim da noite, começaram os preparativos para a partida. Acordei e saí para atender a uma necessidade natural. Ao voltar, quando me aproximava do local onde havíamos acampado, percebi que meu colar havia caído em algum lugar. Fui procurá-lo. Enquanto isso, a caravana já havia partido. O costume era que, no momento da partida, eu me sentasse em minha hawdaj (liteira colocada sobre o dorso do camelo), e então quatro homens a levantassem e a amarrassem sobre o camelo. Naquela época, devido à escassez e à pobreza, nós, mulheres, éramos muito leves e magras. Quando levantaram minha hawdaj, os homens nem perceberam que eu não estava dentro dela. Sem se darem conta, colocaram a hawdaj sobre o camelo e partiram.

Enquanto isso, encontrei o colar e, ao voltar, não encontrei ninguém ali. Então cobri todo o corpo com meu manto e permaneci deitada naquele lugar. Pensei que, quando avançassem e percebessem que eu não estava, retornariam à minha procura. Nessa situação, adormeci. Pela manhã, Safwan ibn al-Mu‘attal al-Sulami chegou ao local onde eu dormia. Assim que me viu, reconheceu-me, pois já havia me visto algumas vezes antes de ser revelada a ordem do véu. Ao ver-me, parou seu camelo e, tomado de espanto, exclamou: “Inna lillahi wa inna ilayhi raji‘un! A esposa do Mensageiro de Allah ficou para trás aqui!”

Assim que ouvi sua voz, despertei. Levantei-me rapidamente e cobri o rosto com o manto. Ele não me dirigiu palavra alguma. Trouxe seu camelo, fez com que se ajoelhasse diante de mim e afastou-se. Montei no camelo, enquanto ele caminhava segurando as rédeas. Por volta do meio-dia, alcançamos a caravana, que acabara de parar em um lugar. Ninguém havia percebido que eu ficara para trás. Sobre esse acontecimento foi erguida uma montanha de falsas acusações. Entre os que tiveram papel mais destacado, ‘Abdullah ibn Ubayy foi o mais ativo. Mas eu não soube absolutamente nada do que se dizia contra mim.”

Segundo outro relato, quando ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) chegou ao acampamento dos soldados montada no camelo de Safwan, e se soube que ela havia ficado para trás, ‘Abdullah ibn Ubayy gritou: “Juro por Allah! Essa mulher não conseguiu preservar sua honra. Vejam, vejam: a esposa de seu Profeta passou a noite com outro homem e agora veio acompanhada dele abertamente.”

‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Depois que voltamos para Medina, adoeci. Permaneci acamada por quase um mês. A notícia dessa falsa acusação espalhou-se por toda a cidade. Não demorou para que chegasse aos ouvidos do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Mas eu não soube de nada. Ainda assim, algo me causava preocupação: quando eu adoecia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava demonstrar mais atenção, mas dessa vez não o fazia. Quando entrava em casa, perguntava apenas às pessoas da casa: ‘Como ela está?’ Não falava comigo. Isso me fez suspeitar de que talvez algo tivesse acontecido. Por fim, pedi-lhe permissão para ir à casa de minha mãe, a fim de que ela pudesse cuidar melhor de mim.

Certa noite, saí de casa para atender a uma necessidade natural. Naquela época, ainda não havia latrinas em todas as nossas casas. Íamos aos bosques e lugares ermos para atender às necessidades naturais. A mãe de Mistah ibn Uthatha estava comigo. Ela era prima materna de meu pai. Ao caminhar, tropeçou e, de repente, exclamou: ‘Que Mistah pereça!’ Eu lhe disse: ‘Que espécie de mãe é você? Deseja a morte do próprio filho, um homem que participou da batalha de Badr?’ Ela respondeu: ‘Minha filha, você não sabe de nada?’ Então contou-me toda a história e tudo o que os caluniadores andavam dizendo a meu respeito.”

É importante mencionar que, além dos hipócritas, um pequeno número de muçulmanos também acabou participando dessa campanha de mentiras. Entre eles, destacavam-se Mistah ibn Uthatha, o célebre poeta do Islã Hassan ibn Thabit, e Hamnah bint Jahsh, irmã de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela). ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Ao ouvir essa história, senti como se meu sangue se transformasse em água. Esqueci até a necessidade que me levara para fora. Voltei diretamente para casa e passei a noite inteira chorando.”

Enquanto eu estava ausente, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou ‘Ali e Usama ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ambos) e pediu-lhes conselho sobre esse assunto. Usama (que Allah esteja satisfeito com ele) falou bem de mim. Disse: “Ó Mensageiro de Allah! Nunca vi em nenhuma de suas esposas nada além de bondade. Tudo o que está sendo espalhado são apenas mentiras e acusações inventadas.” E ‘Ali disse: “Ó Mensageiro de Allah! Não faltam mulheres em nossa sociedade. Você pode tomar outra esposa em lugar dela. Mas, se quiser saber o que realmente aconteceu, pode chamar a criada e perguntar-lhe sobre a situação.”

A criada foi chamada e interrogada. Ela disse: “Juro por Allah, que o enviou com a verdadeira religião: nunca vi nela nada de ruim que pudesse ser objeto de censura. A única coisa que vi foi que eu amassava a massa e a deixava ali, dizendo: ‘Cuide dela por um momento.’ Mas ela adormecia, e então as cabras vinham e comiam a massa já preparada.”

Naquele dia, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse em um de seus sermões: “Ó muçulmanos, quem entre vocês me protegerá do ataque daquele que me causou sofrimento ao lançar uma falsa acusação contra minha esposa? Juro por Allah, não vi nenhum defeito em minha esposa, nem naquele homem contra quem essa acusação foi levantada. Durante minha ausência, ele jamais entrou em minha casa.” Ao ouvir isso, Usayd ibn Hudayr — segundo algumas narrações, Sa‘d ibn Mu‘adh (que Allah esteja satisfeito com ele) — levantou-se e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Se o acusador for de nossa tribo, nós o mataremos; e, se for de nossa tribo irmã, a dos Khazraj, faremos o que você ordenar.” Ao ouvir isso, o chefe dos Khazraj, Sa‘d ibn ‘Ubada, levantou-se e disse: “Você está mentindo! De modo algum conseguirá matá-lo. Você só fala em matá-lo porque ele é dos Khazraj. Se ele fosse dos seus, jamais diria que deveria ser morto.” Em resposta, disseram-lhe: “Você é um hipócrita; por isso apoia os hipócritas.”

Por causa dessa discussão, surgiu um grande tumulto na Mesquita do Profeta. Os membros das tribos de Aws e Khazraj chegaram a ponto de começar a lutar dentro da própria mesquita. Mas o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) acalmou-os e depois desceu do púlpito.

Durante pelo menos um mês, os rumores inventados dessa falsa acusação continuaram circulando pela sociedade. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) continuou sofrendo grande angústia mental. Eu comecei a chorar, enquanto meus pais passavam os dias em infinita preocupação e ansiedade. Por fim, certo dia, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) veio e sentou-se ao meu lado. Durante todo aquele longo período, ele não havia se sentado comigo sequer uma vez. Abu Bakr e Umm Ruman (os pais de ‘A’isha) imaginaram que talvez naquele dia fosse tomada alguma decisão definitiva. Por isso, também se aproximaram e sentaram-se. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó ‘A’isha, chegaram aos meus ouvidos todas essas coisas a seu respeito. Se você é inocente, espero que Allah manifeste e prove sua inocência. Mas, se de fato cometeu algum pecado, arrependa-se diante de Allah e peça perdão. Quando um servo reconhece seu pecado e se arrepende, Allah o perdoa.”

Ao ouvir isso, minhas lágrimas secaram. Eu disse ao meu pai: “Responda às palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Ele respondeu: “Minha filha, não sei o que dizer.” Eu disse à minha mãe: “Diga você alguma coisa.” Ela respondeu: “Não sei o que dizer.” Então eu disse: “Vocês ouviram uma coisa, e ela se fixou em seus corações. Agora, se eu disser que sou inocente — e Allah é testemunha de que sou completamente inocente — vocês não acreditarão em mim. E, se eu simplesmente reconhecer algo que não fiz — Allah sabe disso —, então…” Naquele momento, tentei lembrar o nome do Profeta Jacó (que a paz esteja sobre ele), mas não consegui. Por fim, disse: “Em uma situação como esta, não vejo outra saída senão dizer o que disse o pai de José (que a paz esteja sobre ele):”

Será em árabe.

Depois de dizer isso, virei-me para o outro lado e deitei-me. Pensei comigo mesma: “Allah conhece perfeitamente minha inocência. Certamente Ele revelará a verdadeira situação às pessoas.” Contudo, jamais me ocorreu que seria revelada uma inspiração em minha defesa, que seria recitada até o Dia da Ressurreição. Eu imaginava que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) teria algum sonho, por meio do qual Allah manifestaria minha inocência. Nesse momento, o estado que acompanhava a revelação veio sobre o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Até mesmo no intenso frio, gotas de suor começaram a cair continuamente de seu rosto abençoado. Ao ver aquela situação, todos ficamos em silêncio. Eu me sentia completamente tranquila por dentro. Mas o estado de meus pais era extremamente angustiante. Eles estavam inquietos e preocupados, pensando em que grande verdade Allah revelaria. Quando terminou o estado que acompanhava a revelação, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pareceu muito feliz. Sorrindo, suas primeiras palavras foram: “‘A’isha, receba as boas-novas! Allah revelou uma inspiração declarando sua inocência.” Em seguida, recitou para nós os versículos 11 a 21 da surata An-Nur. Minha mãe então me disse: “Levante-se e agradeça ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Eu respondi: “Não agradecerei a ele, nem a vocês dois. Estou agradecendo a Allah, que revelou versículos do Alcorão sobre minha inocência. Vocês nem sequer declararam que essa falsa acusação era falsa.”151

A acusação levantada contra Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) é chamada, na linguagem do Alcorão, de ‘al-Ifk’. Por meio dessa palavra, o próprio Allah, o Exaltado, repudiou completamente essa acusação. A palavra ‘ifk’ significa inverter a questão original e dizer tudo o que é contrário à verdade. Nesse sentido, é usada para indicar algo inteiramente falso e inventado. Quando empregada em relação a uma acusação, significa uma acusação claramente falsa, uma falsa imputação. 152

Após a revelação dos versículos do Alcorão que declararam a inocência de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), a pena hadd (punição determinada) foi aplicada a dois homens e uma mulher, sob a acusação de difamação manifestamente falsa. Eram eles: Mistah ibn Uthatha, o poeta Hassan ibn Thabit e Hamna bint Jahsh (que Allah esteja satisfeito com eles). 153

O acontecimento da revelação do versículo sobre o tayammum:

Allah, o Puro, mostrou à humanidade numerosos caminhos de benefício por meio de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Em conexão com o episódio de ‘Ifk, Ele estabeleceu muitas normas e disposições penais para preservar a sociedade humana da imoralidade sexual e da obscenidade. Do mesmo modo, foi por meio dela que concedeu a possibilidade do tayammum como alternativa à água para alcançar a pureza. Considero que não será inadequado fazer aqui uma breve discussão a esse respeito.

Em outra viagem, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) estava com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Segundo Ibn Sa‘d, este também foi um acontecimento da expedição de guerra de ‘Al-Muraysi’. 154 Ela usava novamente o mesmo colar no pescoço. Quando a caravana chegou a um lugar chamado ‘Dhat al-Jaysh’ ou al-Bayda, o colar rompeu-se outra vez e caiu em algum lugar. 155 Ela havia aprendido bastante com o acontecimento anterior. Por isso, dessa vez informou imediatamente o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Era quase madrugada. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que a viagem fosse interrompida, mas no local onde os soldados haviam montado as tendas não havia sequer um pouco de água. Enquanto isso, chegou o horário da oração do fajr. Apavoradas, as pessoas correram até Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e disseram: ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) colocou o exército em uma situação terrível. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) correu imediatamente até ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Viu que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) descansava um pouco, com a cabeça apoiada sobre o joelho de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Com voz exaltada, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse à filha: “Você sempre traz novas aflições para as pessoas.” Depois disso, tomado pela raiva e pelo ressentimento, deu-lhe algumas cutucadas nas costelas. Contudo, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) não se moveu nem um pouco, temendo interromper o descanso do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Enquanto isso, amanheceu. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) acordou e ficou sabendo de tudo. Uma característica das normas islâmicas é que elas sempre foram reveladas no momento apropriado. Antes disso, no Islã, a ablução era obrigatória para a oração. Porém, nessa ocasião, foi revelado o seguinte versículo, indicando o que deveria ser feito quando não se encontrasse água:

Será em árabe

“E, se estiverdes enfermos ou em viagem, ou se algum de vós vier de satisfazer suas necessidades, ou tiverdes tido contato com mulheres e não encontrardes água, então recorrei ao tayammum com terra pura. Com ela, passai as mãos sobre vossos rostos e mãos. Certamente, Allah é Perdoador.” (An-Nisá: 43)

Na realidade, a determinação do tayammum é uma dádiva especial, uma característica exclusiva desta comunidade. Quão grande é a graça de Allah, o Altíssimo, que, para a purificação por meio do wudu, do ghusl e de práticas semelhantes, fez de uma determinada coisa um substituto da água, cuja obtenção é mais fácil do que a da água! Essa facilidade não foi concedida a nenhuma comunidade anterior; foi concedida exclusivamente à comunidade de Muhammad.

De qualquer modo, aquele grupo de combatentes muçulmanos, fervoroso e tomado pela emoção — que, por não encontrar água, considerava-se em dificuldade — ficou imensamente jubiloso ao receber essa misericórdia de Allah. Hazrat Usaid ibn Hudair, que era um Companheiro de grande importância, exclamou emocionado: “Ó membros da família de Abu Bakr Siddiq! Esta não é a primeira bênção que vos foi concedida por meio do Islã.”156

Em outro relato, consta que Usaid ibn Hudair disse a ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Que Allah lhe recompense com o bem! Sempre que lhe sobreveio alguma dificuldade que você não apreciava, Allah, por meio dela, concedeu algum benefício a você e aos muçulmanos.”157

Hazrat Siddiq Akbar (que Allah esteja satisfeito com ele), que poucos momentos antes estivera aflito para instruir sua querida filha, agora, orgulhosamente, dirigiu-se a ela, dizendo: “Pedaço do meu coração! Eu não sabia que você era tão benéfica. Por seu intermédio, Allah, o Altíssimo, concedeu tamanha bênção e facilidade à comunidade muçulmana.”158

Convém mencionar que ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) havia tomado esse colar emprestado de sua irmã Asma para usá-lo.159 Depois, quando o camelo de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi levantado para que a caravana prosseguisse, o colar foi encontrado sob o camelo.160

O episódio de ila ou takhyir:

São muitos os acontecimentos importantes da vida de ‘Aisha durante o período em que esteve casada com o Mensageiro Nobre (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele). Entre eles, os dois mais importantes são: o episódio de tahrim e o episódio de ila ou takhyir. Tahrim é o episódio relacionado ao mel, mencionado na biografia de Hazrat Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela). Embora o outro episódio tenha sido indicado anteriormente em alguns pontos, não foi discutido em detalhes; por isso, é descrito aqui.

Esse acontecimento ocorreu no nono ano da Hégira; segundo outra opinião, na mesma época das batalhas de Ahzab e de Banu Qurayza.161 Naquele período, a mensagem do Islã já havia se espalhado pelos mais longínquos lugares da Arábia. Riquezas eram continuamente acumuladas no Bayt al-Mal do Islã. Apesar disso, já foram apresentadas anteriormente algumas indicações das privações, dificuldades e da vida frugal pela qual passavam os membros da família do Mensageiro Nobre (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele). Após a conquista de Khaybar, a quantidade de cereais e tâmaras secas destinada às suas esposas purificadas para todo o ano era muito insuficiente. Além disso, todas elas tinham o hábito de receber hóspedes e eram generosas nas doações e na caridade. Por isso, seu padrão de vida era extremamente baixo. Passavam todos os dias com fome ou sem se alimentar o suficiente. Antes do casamento com o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele), haviam levado uma vida muito luxuosa na casa de seus pais ou na casa de seus maridos anteriores. Por essa razão, ao verem a abundância de recursos financeiros nas mãos do Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele), solicitaram conjuntamente o aumento das provisões que lhes eram destinadas.

Quando essa notícia chegou aos ouvidos de ‘Umar (r.a.), ele primeiro aconselhou sua própria filha, Hafsa (r.a.), dizendo: “Você está pedindo um aumento em seu sustento. Tudo de que precisar, peça a mim.” Depois, o venerável ‘Umar (r.a.) foi, uma a uma, às portas de cada uma das Mães dos Crentes e as aconselhou. Umm Salama disse: “Ó ‘Umar! Você sempre se intromete em todos os assuntos; agora começou também a se intrometer no assunto das esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).” Ao ouvir isso, ‘Umar (r.a.) sentiu-se humilhado e ficou em silêncio.

Certo dia, Abu Bakr e ‘Umar (r.a.) foram juntos à presença do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e viram que suas esposas estavam sentadas ao seu redor, pressionando-o para aumentar seu sustento. Ambos se prepararam para bater em suas respectivas filhas, ‘A’isha e Hafsa. Então elas se salvaram das mãos de seus pais prometendo que, dali em diante, não causariam sofrimento ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pedindo um aumento no sustento.

As outras esposas permaneceram firmes em sua exigência. Nesse período, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) caiu do dorso de um cavalo e ficou ferido quando sua costela bateu na raiz de uma árvore.¹⁶²

Junto ao aposento de ‘A’isha (r.a.) havia outro cômodo, conhecido como al-Mashraba. Foi ali que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se instalou. Ele jurou que não iria ao encontro de nenhuma de suas esposas durante um mês. Os hipócritas espalharam então o boato de que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) havia se divorciado de todas as suas esposas. Ao ouvir isso, os Companheiros se reuniram na mesquita. Uma atmosfera de inquietação tomou conta de todos os lares. As esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) começaram a chorar. Nenhum dos Companheiros teve coragem de confirmar diretamente com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a veracidade do acontecimento.

Ao receber a notícia, o venerável ‘Umar (r.a.) foi à Mesquita do Profeta e viu os nobres Companheiros sentados em silêncio, abatidos. Por duas vezes, pediu permissão para encontrar-se com o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), mas não recebeu resposta. Na terceira vez, tendo recebido permissão, entrou no aposento e viu o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deitado sobre uma esteira; as marcas de um cobertor grosso haviam ficado em seu corpo abençoado. ‘Umar (r.a.) olhou ao redor do aposento e viu que, além de alguns recipientes de barro e de um odre seco, não havia mais nada. Ao ver aquela situação, lágrimas desceram dos olhos de ‘Umar (r.a.). Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah! Você se divorciou de suas esposas?” Ele respondeu: “Não.” ‘Umar perguntou: “Posso anunciar essa boa-nova entre os muçulmanos?” Depois de receber a permissão do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ‘Umar (r.a.) soltou um brado de “Allahu Akbar” com toda a força da voz.

Aquele mês tinha 29 dias. ‘A’isha (r.a.) disse: “Eu contava os dias um a um. Quando se completaram 29 dias, ele saiu do aposento.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi primeiro ao aposento de ‘A’isha (r.a.). Ela perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! Você havia jurado ficar um mês; hoje se completaram apenas 29 dias.” Ele respondeu: “Há meses que também têm 29 dias.”¹⁶³

Como as Esposas Purificadas desejavam um aumento em seu padrão de vida, enquanto o nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não podia macular-se com os prazeres e o luxo mundanos para satisfazer suas esposas, Allah, o Altíssimo, revelou os versículos do “takhyir”. “Takhyir” significa conceder escolha e liberdade. Ou seja, entre as esposas, aquela que quisesse poderia continuar vivendo como esposa do Mensageiro de Allah, aceitando a pobreza e as dificuldades; e aquela que quisesse poderia deixá-lo e partir. O versículo é citado abaixo:

Será em árabe

“Ó Profeta! Dize às tuas esposas: se desejais a vida mundana e os seus adornos, vinde, e eu vos concederei algo e vos deixarei partir dignamente. Mas, se desejais Allah, o Seu Mensageiro e a morada da Outra Vida, sabei que Allah preparou uma grandiosa recompensa para as virtuosas entre vós.” (Al-Ahzab: 29)

No hadith mencionado no Sahih Muslim, o ilustre Jabir ibn ‘Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou o que aconteceu naquela época. Certo dia, o ilustre Abu Bakr e o ilustre ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ambos) foram à presença do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e viram que as esposas do Profeta estavam sentadas ao seu redor, enquanto o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permanecia em silêncio. Dirigindo-se ao ilustre ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), ele disse: “Vedes estas mulheres sentadas ao meu redor? Na verdade, estão me pedindo dinheiro para as despesas.” Ao ouvirem isso, ambos os Companheiros repreenderam severamente as próprias filhas e disseram-lhes: “Estais causando sofrimento ao Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e pedindo-lhe algo que ele não possui.” Em outra narração, consta que eles se prepararam para golpeá-las. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) os impediu.¹⁶⁴ De fato, fica claramente evidente pelo acontecimento acima quão grave era a dificuldade financeira em que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se encontrava naquela época.

Quando este versículo foi revelado, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) falou primeiro com a ilustre ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Quero dizer-te algo; não respondas com demasiada pressa. Consulta a opinião de teus pais.” Em seguida, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitou para ela o versículo mencionado e disse que aquela ordem havia vindo de Allah. Imediatamente, a ilustre ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Por que eu consultaria meus pais sobre isso? Eu desejo apenas Allah, o Seu Mensageiro e o sucesso na Outra Vida.” O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou extremamente satisfeito com essa resposta de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ele disse: “Da mesma maneira que te apresentei este assunto, também o apresentarei às tuas outras coesposas.” ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Peço-lhe que não informe a ninguém a minha decisão.” Contudo, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não atendeu ao seu pedido. Exatamente como havia falado com ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), falou também com as demais coesposas. E informou-lhes igualmente que ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) havia escolhido Allah, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e a Outra Vida.¹⁶⁵ Cada uma delas deu a mesma resposta que ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Nos livros de Sira, este acontecimento é chamado de “Takhyir”. “Takhyir” significa conceder uma escolha: deixar à esposa a opção de decidir entre permanecer com o marido ou separar-se dele.

Sayyid Abul A‘la Maududi (que Allah tenha misericórdia dele), citando o Ahkam al-Qur’an de Ibn al-‘Arabi, afirmou: “Quando foi revelado o versículo do ‘Takhyir’, havia quatro esposas do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eram elas: Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela), ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) e Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela).”¹⁶⁶ Entretanto, o ilustre Ibn Kathir, citando ‘Ikrima (que Allah esteja satisfeito com ele), mencionou que, naquela época, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha ao todo nove esposas. Cinco eram da tribo dos coraixitas: ‘A’isha, Hafsa, Umm Habiba, Sawda e Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com todas); e as demais eram Safiyya, Maymuna, Juwayriya e Zaynab bint Jahsh al-Asadiyya (que Allah esteja satisfeito com todas).¹⁶⁷ Essa diferença surgiu devido à divergência quanto à época em que o acontecimento ocorreu.

O falecimento do marido

Quando a ilustre ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha dezoito anos, seu marido, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), faleceu. Certo dia, antes do mês de Safar do ano 11 da Hégira, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entrou no quarto de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) e viu que ela gemia de dor de cabeça. Ao vê-la naquele estado, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se morresses diante de mim, eu mesmo te daria o banho fúnebre, te envolveria na mortalha e te enterraria.” ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) reagiu imediatamente, dizendo: “Ó Mensageiro de Allah! Estás dizendo isso para poder trazer outra esposa e fazê-la morar neste quarto.” Ao ouvir isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pôs a mão na cabeça e exclamou: “Ai, a minha cabeça!” Relata-se que foi justamente a partir daquele momento que começou a dor de cabeça do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).¹⁶⁸ Depois, ele foi ao quarto de Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela) e ficou acamado. Mesmo nessa condição, passava a noite no quarto da esposa correspondente ao dia determinado. Porém, todos os dias perguntava: “Onde estarei amanhã?” As esposas compreenderam que ele desejava permanecer com ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Por isso, todas lhe deram permissão. A partir daquele dia e até o último momento de sua vida terrena, ele permaneceu no quarto de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela).¹⁶⁹

Agora, alguém poderia perguntar: por que o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava tão ansioso para ir até a ilustre ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela)? Seria por amá-la excessivamente?

Os especialistas dizem que não. Na realidade, a inteligência, a capacidade intelectual, a memória, a perfeição natural e o poder de reflexão que Allah havia concedido a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) não se encontravam em nenhuma outra esposa. Portanto, não é descabido pensar que o objetivo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era que todas as suas palavras, ações e condutas dos últimos dias de sua vida fossem preservadas integralmente. E foi exatamente isso que aconteceu. A maioria das narrações autênticas relacionadas ao falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou ao conhecimento do mundo por intermédio de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela).

A gravidade da doença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aumentava a cada dia. Em determinado momento, ele ficou incapaz de ir à mesquita para liderar a oração. Suas esposas estavam ocupadas cuidando dele. Elas recitavam algumas súplicas que haviam aprendido do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e sopravam sobre ele. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também recitou algumas súplicas e soprou sobre ele.170

Os fiéis reunidos para a oração do fajr estavam sentados à espera do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Sempre que ele tentava se levantar, perdia a consciência. Por fim, ordenou a Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) que liderasse a oração. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Pensei que, quem quer que ocupasse o lugar do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), as pessoas o considerariam inadequado e de mau agouro. Por isso, eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abu Bakr é um homem de coração terno. Ele não conseguirá realizar essa tarefa; chorará. Ordene a outra pessoa.’” Mas ele repetiu a mesma ordem pela segunda vez. Então Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) pediu a Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) que repetisse essas palavras ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comentou: “Vocês são como as companheiras de José. Digam que Abu Bakr liderará a oração.”171

Antes de adoecer, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia deixado algum dinheiro em espécie com Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), mas se esquecera de gastá-lo. Durante aquela grave enfermidade, lembrou-se disso. Disse a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Onde estão aqueles dirhams? Gasta-os no caminho de Allah. Muhammad se encontrará com Allah nutrindo algum pensamento desfavorável?” Imediatamente, aquele dinheiro foi distribuído entre os pobres.172

Chegara o momento final do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) estava sentada junto à cabeça do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), enquanto ele estava apoiado contra o peito de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) continuava suplicando pela recuperação do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A mão do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava entre as mãos dela. De repente, ele puxou a mão com força, soltou-a e exclamou:

Em árabe: (Allahumma war-Rafiq al-A‘la)

Ou seja: “Ó Allah! Estou escolhendo o Companheiro Supremo.”173

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Quando estava saudável, ele costumava dizer que, no momento da morte, era dada a cada profeta a opção de escolher entre a vida mundana e a vida do Além. Depois que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pronunciou essas palavras, compreendi que ele havia escolhido partir de nós.”174 Ela disse: “Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)! O senhor está sofrendo muito.” Ele respondeu: “A recompensa também é proporcional ao sofrimento.”

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) estava segurando o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e sentada com ele. De repente, sentiu o peso de seu corpo. Ao olhar para seus olhos, compreendeu que ele já não estava entre os vivos. Colocou delicadamente sua cabeça abençoada sobre o travesseiro e desatou a chorar.175

A maior honra e dignidade de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) é que o corpo sagrado do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi sepultado dentro de sua própria casa, num dos lados.176

Certa vez, Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) sonhou que três luas vinham correndo, uma após a outra, e caíam em sua casa. Ela contou esse sonho a seu pai, Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele). Quando o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi sepultado em sua casa, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse à filha: “Esta é uma das três luas, e a melhor delas.”177 Os acontecimentos posteriores provaram que a segunda e a terceira luas de seu sonho eram Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).

Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou viúva aos dezoito anos e passou mais quarenta e oito anos de sua vida nessa condição. Enquanto viveu, permaneceu ao lado do túmulo sagrado. No início, dormia junto ao túmulo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois de certa vez vê-lo em sonho, deixou de dormir ali. Até que Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) fosse sepultado na casa de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), ela entrava e saía sem hijab. Isso porque, dos dois que estavam sepultados ali, um era seu marido e o outro, seu pai. Depois que ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi sepultado ao lado deles, ela dizia: “Agora, quando vou ali, preciso usar o hijab.”

Allah, o Altíssimo, proibiu um segundo casamento para as Azwaj al-Mutahharat (as puras esposas). É narrado por Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele disse: “Um homem desejou casar-se com uma das esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) após o seu falecimento.” Um homem perguntou a Sufyan, um dos narradores da cadeia de transmissão deste hadith: “Era ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela)?” Sufyan respondeu: “Foi isso que os narradores mencionaram.” As-Suddi disse: “O homem que teve esse desejo foi Talha ibn ‘Ubaydillah.” Foi nesse contexto que o seguinte versículo foi revelado:178

Será em árabe

“Não é lícito para vós causar dano ao Mensageiro de Allah nem casar-vos com suas esposas após o seu falecimento. Isso é um grave pecado aos olhos de Allah.”179

Em outro versículo, Allah, o Altíssimo, declarou as Azwaj al-Mutahharat mães dos muçulmanos.180

Será em árabe

“O Profeta é mais próximo dos crentes do que eles próprios, e suas esposas são suas mães.”

Em suma, as Azwaj-e Mutahharat — que foram companheiras de vida do Grande Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) durante uma parte de suas vidas — dedicarão também o restante de suas vidas à prática dos ensinamentos e das ações do marido e à sua divulgação. Elas são as mães dos muçulmanos. Sua responsabilidade será oferecer aos filhos ta‘līm e tarbiyat (ensino e formação). O próprio Allah declarou assim suas responsabilidades e deveres:¹⁸¹

“Ó esposas do Profeta! Vós não sois como as demais mulheres; se temerdes a Allah, não faleis com homens estranhos de maneira suave e atraente, para que aquele cujo coração está enfermo não conceba maus desejos. Falai de modo conveniente. Permanecei em vossas casas e não vos exibais como se exibiam no primeiro período da ignorância. Estabelecei a oração, pagai o zakat e obedecei a Allah e ao Seu Mensageiro. Ó membros da família do Profeta! Allah deseja apenas remover de vós a impureza e purificar-vos completamente. Lembrai-vos dos versículos de Allah e das palavras cheias de sabedoria que são recitados em vossas casas. Certamente, Allah é Sutil e está inteirado de todas as coisas.”

O restante da vida de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi uma explicação prática da palavra de Allah acima citada. Após o falecimento do Honorável Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o honrado pai de Ummul Mu’minin Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), foi escolhido como califa. Alguns dias depois de se livrarem das preocupações do funeral do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e da escolha do califa, as esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quiseram enviar Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), em seu nome, ao califa, para resolver definitivamente a questão da herança. Então ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) lembrou-lhes que o Honorável Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia dito durante sua vida: “Não terei herdeiro algum. Tudo o que eu deixar será considerado caridade.¹⁸²” Ao ouvirem isso, todos ficaram em silêncio.

Na realidade, que bens e propriedades o Honorável Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia deixado que pudessem ser distribuídos entre seus herdeiros? Consta no hadith que ele não deixou como herança nem dirhams e dinares, nem animais quadrúpedes, nem escravos e servas.¹⁸³

Contudo, como principal responsável pelo Estado, ele manteve sob sua administração alguns jardins e pomares. As receitas deles eram destinadas, durante a vida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a determinadas despesas, e o Califado dos Rashidun manteve a mesma disposição. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) custeava as despesas de suas esposas com essas receitas, e Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) também manteve essa व्यवस्था.¹⁸⁴

Falecimento do pai

Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) teve a oportunidade de governar o califado por apenas dois anos. Ele faleceu no décimo terceiro ano da Hégira. Quando se encontrava em seus últimos momentos, sua filha ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) estava sentada junto à cabeceira do pai. Anteriormente, enquanto gozava de boa saúde, ele havia dado à filha algumas propriedades para seu usufruto e posse. Agora, lembrando-se da necessidade que os outros filhos também tinham de receber propriedades, disse: “Minha querida filha, pedaço do meu fígado! Tu darás essas propriedades aos teus outros irmãos?” A filha respondeu: “Certamente, darei.” Então ele perguntou à filha: “Quantos tecidos havia ao todo na mortalha do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?” A filha respondeu: “Três tecidos brancos.” Perguntou novamente: “Em que dia ele faleceu?” Ela respondeu: “Segunda-feira.” Perguntou outra vez: “Que dia é hoje?” Ela respondeu: “Segunda-feira.” Ele disse: “Então também partirei esta noite.” Depois, olhou para seu próprio manto. Havia nele uma mancha de açafrão. Disse: “Lava este tecido e usa-o para minha mortalha, acrescentando-lhe mais dois tecidos.” A filha disse: “Mas este tecido está velho.” Ele respondeu: “Os vivos precisam mais de roupas novas do que os mortos.”¹⁸⁵ Naquela mesma noite, ele faleceu. Foi sepultado no aposento de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), ao lado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), um pouco mais para o lado dos pés. Esta foi a segunda lua a cair no aposento de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ainda tão jovem, apenas dois anos depois de perder o marido, ela perdeu o pai.

O califado de al-Faruq:

O período do califado de Hazrat al-Faruq al-A‘zam foi excelente sob todos os aspectos. Ele estabeleceu uma pensão em dinheiro para cada muçulmano. Segundo uma narração, concedia anualmente doze mil a cada uma das Azwaj-e Mutahharat.¹⁸⁶ Outra narração relata que dava dez mil a cada uma das demais Azwaj-e Mutahharat e doze mil a ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela). O próprio ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) explicou a razão dessa preferência: “Dou-lhe dois mil a mais porque ela era a esposa mais amada do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).”

De acordo com o número das Azwaj-e Mutahharat, o califa ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) mandou fazer nove tigelas. Quando recebia alguma coisa, enviava nove tigelas diferentes a cada uma delas. Ao distribuir presentes e dádivas, era tão cuidadoso que, quando um animal era abatido, enviava-lhes todas as partes, da cabeça até as patas.

Em certa ocasião, durante a conquista do Iraque, os muçulmanos obtiveram uma caixa cheia de pérolas preciosas. Ela foi enviada à corte do califa juntamente com os demais espólios de guerra. A distribuição dessas pérolas tornou-se difícil para todos. O califa ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Se todos me permitirem, posso enviar estas joias à Mãe dos Crentes, ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela), pois ela era a esposa mais amada do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” A caixa foi enviada a ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela). Ao abri-la e vê-la, ela disse: “Depois do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Ibn al-Khattab demonstrou-me muitas grandes bondades. Ó Allah, não me mantenhas viva para que eu venha a receber novamente semelhantes bondades dele.”

O califa Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) desejava ser sepultado no aposento de ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela), junto aos pés abençoados do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Contudo, não conseguia dizer isso. Embora, depois de passar para debaixo da terra, não seja obrigatório, segundo a Shariah, que os homens mantenham o recato diante das mulheres, por respeito e boas maneiras ele ainda se considerava não-mahram de ‘Aishah mesmo após o sepultamento. Nos momentos finais, ficou muito angustiado com esses pensamentos. Por fim, enviou seu filho, dizendo: “Apresente meus cumprimentos à Mãe dos Crentes e diga-lhe: ‘O desejo de ‘Umar é ser sepultado ao lado de seus dois amigos.’” ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Embora eu tivesse reservado esse lugar para mim, concedo-lhe a preferência de coração satisfeito.”

Mesmo depois de obter essa permissão da Mãe dos Crentes, ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela), antes de dar o último suspiro, ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) deixou instruções: “Levarão meu esquife até a porta dela e pedirão novamente sua permissão. Se ela der permissão, sepultar-me-ão lá dentro; caso contrário, sepultar-me-ão no cemitério comum dos muçulmanos.” Após a morte do califa, suas instruções foram cumpridas. ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela) concedeu permissão pela segunda vez, e o corpo foi levado para dentro e sepultado.¹⁸⁷

E assim ele se tornou a terceira lua do sonho de Hazrat ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela), por meio da qual seu sonho se tornou realidade.

O martírio do califa Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) pelas mãos dos rebeldes foi um acontecimento trágico na história do Islã. Nesse contexto, a Mãe dos Crentes, Hazrat ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela), envolveu-se diretamente na política daquele período. Como consequência, ocorreu outro acontecimento doloroso: a Batalha do Camelo. Não emitiremos nenhum juízo sobre até que ponto foi certo ou errado o envolvimento dela nos acontecimentos posteriores ao martírio de Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Cremos apenas que todos os seus esforços e ações tinham como objetivo o bem da religião e da Ummah. Para compreender esses acontecimentos históricos, é necessário apresentá-los com um pouco mais de detalhe.

O período do califado de Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) durou aproximadamente doze anos. Durante a primeira metade desse período, reinava um ambiente pacífico, livre de toda espécie de perturbações e tumultos. Depois, gradualmente, começaram a surgir várias queixas por parte do povo. Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aconselhara ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele): se algum dia Allah, o Altíssimo, lhe vestisse a veste do califado, que ele não a retirasse por vontade própria.188

Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) gozava de grande aceitação entre o povo muçulmano. De acordo com a declaração de Allah, o Altíssimo, ela era a mãe dos muçulmanos. No Hijaz, no Iraque, no Egito e em todas as regiões do califado, era considerada como uma mãe. As pessoas iam até ela para relatar suas diversas queixas e dificuldades, e ela lhes oferecia conselhos e consolo.

Até a primeira fase do califado de Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), os Companheiros de grande sabedoria ainda estavam vivos. Seus conselhos eram solicitados em assuntos de importância nacional. Eles eram nomeados para os cargos importantes do califado de acordo com sua competência. Durante o período dos dois califas anteriores, ninguém tinha qualquer queixa. Naquela época, os jovens ambiciosos — como ‘Abdullah ibn az-Zubayr, Muhammad ibn Abi Bakr, Marwan ibn al-Hakam, Muhammad ibn Abi Hudhayfah e Sa‘id ibn al-‘As, entre outros — ajudavam os mais velhos. Para eles, ocupar qualquer alto cargo no califado ou no governo era apenas uma aspiração remota.

‘Abdullah ibn az-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) era neto de Hazrat as-Siddiq al-Akbar, primo paterno do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e filho de az-Zubayr, o hawari (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele se considerava um dos legítimos pretendentes ao califado.

Muhammad ibn Abi Bakr era o filho mais novo do primeiro califa, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), e meio-irmão materno de ‘A’ishah, a Mãe dos Crentes (que Allah esteja satisfeito com ela). Após a morte de Abu Bakr, ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) casou-se com a mãe de Muhammad. Por essa razão, Muhammad foi criado sob os cuidados de ‘Ali.189 E ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) também o tratava como um filho.

Muhammad ibn Abi Hudhayfah cresceu sob os cuidados de Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Ao atingir a idade adulta, esperava receber algum cargo importante do califa ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Como o califa não o considerava qualificado, ele ficou descontente, deixou Medina e foi para o Egito.

Marwan e Sa‘id ibn ‘As eram dois jovens recém-chegados do clã omíada. Após a morte dos Muhajirun de elevada posição, seus filhos também avançaram, esperando obter muitas coisas do califado. Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) pertencia ao clã omíada. Por isso, sempre que concedia altos cargos a pessoas como Marwan e Sa‘id ibn ‘As, surgia uma forte reação entre os demais jovens ambiciosos do clã coraixita. Por essa razão, Muhammad ibn Abi Bakr e Muhammad ibn Abi Hudhayfah participaram mais intensamente dos protestos contra ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Além disso, esses jovens não possuíam a equidade, a justiça, a honestidade, a confiabilidade, a taqwa e o temor a Allah dos Companheiros de alto nível. Assim, entre o povo e os soldados que haviam visto os Companheiros da primeira geração, cresceu a indignação contra a liderança e o governo desses homens.

Mais importante ainda, os árabes eram perpetuamente livres. Cresciam em um ambiente de liberdade, no meio do deserto. Cada um era leal à sua própria tribo e considerava sua tribo superior às demais. O ideal islâmico de igualdade fez com que esquecessem toda a sua nobreza tribal e os colocasse no mesmo nível. Embora os Companheiros da primeira geração (que Allah esteja satisfeito com eles) mantivessem elevada a doutrina islâmica da igualdade, os funcionários e ocupantes de cargos da nova geração que veio depois não apenas a esqueceram, como também fizeram com que os outros a esquecessem. Começaram a manifestar publicamente, em suas reuniões e cortes, seu autoritarismo e sua nobreza tribal. As demais tribos árabes não aceitaram bem essa atitude. Elas reivindicavam direitos iguais. Por outro lado, os grupos não árabes recém-convertidos ao Islã não conseguiam suportar o domínio dos coraixitas, dos Banu Umayyah ou de qualquer tribo árabe. Por isso, participavam com grande entusiasmo de qualquer tipo de tumulto dentro do califado.

Entre as cidades conhecidas como pontos de encontro entre árabes e não árabes, Kufa era uma das mais importantes. Foi dessa cidade que teve início a fitna do califado islâmico. Ela era a maior fortaleza das tribos árabes. Sa‘id ibn al-‘As era o governador de Kufa. À noite, realizava-se em sua corte uma assembleia com os líderes de todas as tribos. Normalmente, discutiam-se as guerras dos árabes e as diferenças de prestígio entre as tribos árabes. O fato era que nenhuma tribo se considerava inferior a outra em dignidade. Muitas vezes, as discussões transformavam-se em debates, brigas e lutas. Nessa situação, o fato de Sa‘id ibn al-‘As declarar orgulhosamente que era descendente dos coraixitas funcionava como lançar óleo ao fogo. Sua maneira de agir provocou o descontentamento dos líderes tribais. Na realidade, isso assumiu a forma de uma fitna.

Foi exatamente nesse período que um judeu chamado Ibn Saba se tornou muçulmano. É característica dos judeus que, quando não conseguem prejudicar o inimigo como inimigos, mudam de aparência e se tornam seus amigos. Depois, pouco a pouco, por meio de conspirações secretas, levam o inimigo à ruína completa. No passado, haviam adotado exatamente esse comportamento em relação ao cristianismo.

Esse filho de judeu, Ibn Saba, começou a divulgar entre o povo que Hazrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) era, na realidade, o legítimo merecedor do califado. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) teria deixado uma recomendação para que ele fosse seu califa. Com todas as suas forças, ele continuou propagando essa crença equivocada. Tomando como pretexto os diversos pequenos tumultos políticos do califado, espalhou por toda parte a rede de sua conspiração. Percorreu todo o califado. Em Kufa, Basra, Egito e em todos os lugares onde havia grandes acampamentos militares, criou alguns adeptos revolucionários. Transformou o Egito no centro desses revolucionários e unificou as pessoas que estavam espalhadas em diferentes lugares. Na história, isso ficou conhecido como o movimento ‘Sabaiyya’.

Durante o período do califa ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), a maior parte das guerras e combates ocorria na África. Por isso, a maior parte do exército permanecia ali. Sob o pretexto de participar das guerras, Muhammad ibn Abi Bakr e Muhammad ibn Abi Hudhayfa tinham a oportunidade de conviver livremente com os soldados e plantavam entre eles as sementes do descontentamento. Assim, em pouco tempo, o Egito se tornou o centro da revolta contra ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Naquela época, ‘Abdullah ibn Abi Sarh era o governador do Egito. Muhammad ibn Abi Bakr, Muhammad ibn Abi Hudhayfa e outros iniciaram abertamente uma campanha contra ‘Abdullah ibn Abi Sarh e contra o califa ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Desse modo, tornaram-se líderes de um novo grupo político no Egito.

Chegou a temporada do Hajj. De acordo com os contatos e as decisões tomadas entre si, um grupo de mil pessoas partiu de Kufa, Basra e Egito em direção ao Hijaz, sob o pretexto de realizar o Hajj, e acampou nas proximidades de Medina. Hazrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e outros grandes Companheiros convenceram-nos a retornar. Depois de percorrerem certa distância, voltaram novamente e mostraram uma carta dirigida ao governador do Egito. Nela, havia uma ordem do califa ao governador do Egito para matar ou exilar os líderes dos rebeldes egípcios assim que retornassem ao Egito. Segundo os rebeldes, aquela carta havia sido escrita pelo secretário do califa, Marwan. Por isso, cercaram coletivamente a casa do califa ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e apresentaram-lhe duas propostas: ou entregaria Marwan às mãos dos rebeldes, ou renunciaria ele próprio ao cargo. Hazrat ‘Uthman rejeitou ambas as propostas.

Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) encontrava-se então em Medina. Ela chamou seu meio-irmão Muhammad ibn Abi Bakr, aconselhou-o e pediu-lhe que se abstivesse de tomar uma decisão tão extrema contra o califa. Mas ele não deu ouvidos às palavras de sua irmã.

Enquanto uma situação tão caótica prevalecia em Medina, Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) partiu para Meca a fim de realizar o Hajj, como fazia todos os anos. Ela também quis levar Muhammad ibn Abi Bakr consigo, mas não conseguiu convencê-lo. Depois, Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu sitiado em sua própria casa durante alguns dias e, por fim, alcançou o martírio nas mãos dos rebeldes.

Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) alcançou o martírio nas mãos dos rebeldes. Agora era chegada a vez de eleger um novo califa. Naturalmente, todos deveriam voltar sua atenção para os quatro ilustres Companheiros ainda vivos que haviam integrado o conselho de seis membros nomeado pelo califa Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Eram eles: Talha, Zubair, Sa‘d ibn Abi Waqqas e ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com eles). Naquela ocasião, Sa‘d (que Allah esteja satisfeito com ele) afastou-se completamente e retirou-se da vista das pessoas. Os habitantes de Basra apoiavam Talha (que Allah esteja satisfeito com ele). Uma parte dos egípcios apoiava Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele); porém, a outra parte e a maioria dos revolucionários apoiavam ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Entre os apoiadores de ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), desempenhavam papel de liderança Ashtar al-Nakha‘i, ‘Ammar ibn Yasir e Muhammad ibn Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com eles). Assim, cada grupo ou facção continuou propondo o nome de sua pessoa preferida. Também foram propostos os nomes de ‘Abdullah ibn ‘Umar, filho do segundo califa Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), de Aban, filho do terceiro califa Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), e de ‘Abdur-Rahman, filho do primeiro califa Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Após longas discussões, análises e debates, sob a pressão dos rebeldes e por vontade dos habitantes de Medina, Hazrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) foi escolhido como califa. 190

Enquanto todos esses acontecimentos ocorriam em Medina, Hazrat Amir Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele) sonhava com a independência na Síria, e Muhammad ibn Abi Hudhayfa permanecia no Egito desfraldando a bandeira da independência. O brutal assassinato do califa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e imã do mundo muçulmano, ocorrido na terra sagrada de Medina durante um mês sagrado, deixou uma profunda marca no coração de pessoas de todas as classes. Até aqueles que anteriormente criticavam a conduta de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) explodiram em protestos contra esse ato abominável. Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também estava entre essas pessoas. Ninguém desejava tal excesso. Antes desse acontecimento, certo dia Ashtar al-Nakha’i perguntou a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Que Allah me proteja! Posso falar em matar o imã dos imãs?” Com isso, os agitadores espalharam o boato de que Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também apoiara o assassinato de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Além disso, havia outra razão para essa impressão das pessoas: seu meio-irmão mais novo, Muhammad ibn Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), era um dos líderes dos rebeldes.

Já mencionamos que Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) tentou, tanto quanto pôde, impedir seu irmão de prosseguir em suas ações imprudentes contra Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), mas não teve êxito. Mais tarde, certa vez, ao falar sobre Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Aisha disse: “Juro por Allah! Nunca desejei que Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) sofresse qualquer desonra. Se eu tivesse desejado isso, que eu tivesse o mesmo destino que ele. Ó Ubaydullah ibn Adi! (Adi era partidário de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele.) Depois de saber disso, que ninguém possa enganá-lo. Ninguém pôde desonrar as ações dos Companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enquanto não surgiu divisão entre eles. Quem criticou Uthman disse coisas que não deveriam ter sido ditas. Examinamos profundamente as ações deles e compreendemos que elas não chegavam nem perto das ações dos Companheiros.” Nos livros de história e de sira encontram-se muitas declarações desse tipo de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), pelas quais se compreende que ela não teve qualquer participação no assassinato de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). A acusação feita contra ela não passava de uma propaganda caluniosa dos rebeldes.

Esse acontecimento doloroso em Medina mergulhou toda a ummah muçulmana da época em profunda tristeza. Um pequeno grupo dos nobres Companheiros, que via o jardim cultivado com o sangue de seus próprios corpos sendo devastado, não conseguiu permanecer inerte. Eles se mobilizaram para resolver a situação. O grupo era liderado por três grandes Companheiros: a Mãe dos Crentes, Hazrat Aisha; Hazrat Zubayr; e Hazrat Talha (que Allah esteja satisfeito com eles). Hazrat Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) era um homem da família coraixita e marido da filha do primeiro califa, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), um dos primeiros muçulmanos e um mujahid que participou de todas as batalhas travadas durante a época do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Zubayr era um valente soldado do Islã, primo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e marido de Hazrat Asma, filha do primeiro califa (que Allah esteja satisfeito com ela). Ambos eram membros do grupo de candidatos ao califado nomeado pelo segundo califa, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).

Já foi mencionado que, quando o califa Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) estava cercado em Medina por rebeldes vindos de fora, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) partiu para Meca, como fazia todos os anos, a fim de realizar o hajj. Ao retornar a Medina depois de concluir o hajj, recebeu a notícia do martírio do califa Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Depois de avançar mais um pouco, encontrou Hazrat Talha e Zubayr (que Allah esteja satisfeito com eles). Eles haviam deixado Medina, com a permissão do califa Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), e dirigiam-se a Meca. O quadro da lei e da ordem em Medina que então apresentaram a Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi narrado por Tabari e por várias obras históricas antigas. Alguns trechos são os seguintes:

“Fugimos de Medina, de qualquer maneira possível, das mãos dos beduínos e do povo comum. Deixamos as pessoas em tal estado que estão completamente perplexas. Não conseguem reconhecer a verdade, mas também não são capazes de rejeitar a falsidade. Tampouco conseguem proteger a si mesmas.”

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Agora devemos deliberar sobre o que fazer.” Nesse momento, ela recitou o seguinte verso:

Será em árabe

— Se os líderes do meu povo tivessem obedecido a mim, certamente eu os teria salvado desta calamidade.

Ele voltou novamente para Meca. Quando a notícia do martírio do califa se espalhou por Meca, pessoas começaram a afluir de todas as direções. Foi narrado por ‘Umra bint ‘Abdir-Rahman. Naquela ocasião, a Mãe dos Crentes disse:129 Não existe nenhuma outra comunidade como aquela comunidade que rejeite a determinação do versículo a seguir:193

Será em árabe

—Se dois grupos de crentes entrarem em combate, reconciliai-os. Depois, se um deles atacar o outro, combatei o grupo agressor até que ele retorne à ordem de Allah. Se retornar, reconciliai-os com justiça e agi com equidade.

Era a época da peregrinação. Assim que o anúncio foi feito, várias centenas de pessoas do Santuário responderam. ‘Abdullah ibn ‘Amir veio de Basra trazendo uma grande quantia em dinheiro e juntou-se a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ya‘la ibn Munayya trouxe do Iêmen setecentos camelos e seiscentos mil dirhams e os entregou a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela).194 Na residência de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), realizou-se uma reunião para decidir em que direção esse exército partiria. ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) era da opinião de que deveriam marchar para Medina, pois os sabaitas e os rebeldes estavam lá. Se essa decisão tivesse sido executada naquele dia, talvez a história da comunidade islâmica tivesse sido diferente. Contudo, decidiram buscar auxílio militar em Basra e Kufa —onde Talha e Zubair (que Allah esteja satisfeito com ambos) contavam com muitos apoiadores— para vingar o sangue de ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Então essa caravana partiu de Meca em direção a Basra.

Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) estava então em Meca. Ele também foi convidado a ir para Basra. Ele recusou-se a seguir com a caravana para Basra, dizendo: “Sou um homem de Medina; farei o que o povo de Medina fizer.” As demais Mães dos Crentes, que haviam se preparado para retornar a Medina com ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), não foram para Basra com essa caravana. Somente Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) quis ir, mas, como seu irmão ‘Abdullah ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) a proibiu, ela também não foi. No entanto, as demais Mães dos Crentes e o povo comum de Meca acompanharam a caravana que se dirigia a Basra até Dhat al-‘Iraq. Naquele dia, ao testemunharem tamanha adversidade do Islã, choraram e lamentaram de uma forma que jamais se havia visto antes nem se viu depois. Por isso, esse dia ficou conhecido na história como Yaum an-Nahib, o Dia do Choro.195 A Mãe dos Crentes, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), partiu com a caravana para Basra montada em um camelo. Não será irrelevante apresentar aqui algumas informações sobre esse camelo, testemunha de uma das maiores tragédias da história. Encontram-se os nomes de duas pessoas relacionadas à entrega do camelo à Mãe dos Crentes. Ya‘la ibn Munayya comprou-o por oitenta dinares e o deu a ela. O nome do camelo era al-‘Askar. Segundo outra versão, o camelo pertencia a um homem da tribo de ‘Urayna. Esse homem da tribo de ‘Urayna narrou:196 “Eu estava montado em um camelo. Nesse momento, um cavaleiro veio até mim e disse: ‘Vendes este teu camelo?’ Respondi: ‘Sim, posso vendê-lo.’ O homem perguntou: ‘Por quanto?’ Respondi: ‘Por mil dirhams.’ Ele disse: ‘Estás louco?’ Perguntei: ‘Por quê?’ Juro por Allah, montado nele, consegui alcançar todos aqueles que quis alcançar, e ninguém conseguiu me alcançar enquanto eu estava sobre ele. Ele disse: ‘Se soubesses para quem quero comprar o camelo! Quero comprá-lo para a Mãe dos Crentes, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela).’ Respondi: ‘Nesse caso, eu o entrego gratuitamente.’ Ele disse: ‘Isso não pode ser; vem comigo até a caravana, e nós te daremos uma camela e muitos dirhams.’ Fui com ele até a caravana. Em troca, deram-me uma camela e quatro —segundo outra versão, seiscentos— dirhams.” Esse homem de ‘Urayna foi levado com a caravana como guia.

Durante a viagem da caravana, quando as pessoas ouviram que a líder desse exército era a Mãe dos Crentes, muitas se juntaram a ele com grande emoção e entusiasmo. Assim, antes mesmo de percorrerem uma única etapa da viagem, formou-se um exército de três mil homens. Que oportunidade melhor poderiam ter encontrado os jovens dos Banu Umayya, a tribo de ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), para criar sedição e desordem? Naquele momento, a situação lhes era tão desfavorável que, perseguidos de todos os lados, haviam fugido para Meca e se ocultado. O anúncio de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) representou para eles uma grande oportunidade. Todos eles ingressaram em seu exército.

Ibn al-‘As, dos Banu Umayya, e Marwan ibn al-Hakam também partiram com a caravana. Ao chegarem a Marj adh-Dhahran —segundo outra versão, a Dhat al-‘Iraq— Sa‘id ibn al-‘As disse aos seus partidários: “Se quereis vingar o assassinato de ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), matai primeiro estas pessoas.” Ele se referia a Talha, Zubair e outras personalidades ilustres. Entre os Banu Umayya, era geralmente difundida a ideia de que os assassinos de ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) não eram apenas aqueles que o haviam matado ou que vieram de fora para participar dos protestos contra ele; incluíam-se também entre seus verdadeiros assassinos todos os que, em diferentes ocasiões, haviam criticado a conduta de ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), bem como aqueles que estavam em Medina durante os tumultos, mas não lutaram para protegê-lo. Marwan disse: “Faremos com que um deles —Talha, Zubair e ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com eles)— lute contra o outro. O derrotado será eliminado por si mesmo. E o vencedor ficará tão enfraquecido que poderemos subjugá-lo com extrema facilidade.”197

Na realidade, o verdadeiro objetivo dos Banu Umayya era frustrar o apelo de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) à reconciliação e seus esforços sinceros nesse sentido. Além disso, ao perceberem o surgimento de uma terceira força sob a liderança de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), muitos deles tentaram criar divisões de várias maneiras dentro desse exército. Levantaram a questão: depois da derrota de ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), quem seria o califa, Talha ou Zubair? Ao tomar conhecimento disso, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) pôs fim a essa propaganda. Então levantaram outra questão: a decisão sobre o califado poderia ser tomada mais tarde, mas quem conduziria a oração como imame naquele momento? ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) encerrou também essa sedição, designando, alternadamente, por um dia cada, os filhos de Talha e Zubair (que Allah esteja satisfeito com eles) para conduzir as orações.

Ao chegar, pela rota de Charar, próximo a um reservatório chamado Haw’ab’198, os cães daquele lugar começaram a latir e ganir ao ver aquela enorme caravana. ‘A’isha (r.a.) perguntou qual era o nome do lugar. Responderam: “Haw’ab”. Então ela se lembrou de uma declaração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Certa vez, ele havia dito às suas esposas: “Allah sabe qual de vocês será aquela diante de quem os cães de Haw’ab’ latirão.” Ao se lembrar dessa profecia, a nobre ‘A’isha (r.a.) decidiu retornar. Ao se lembrar dessa profecia, ‘A’isha (r.a.) decidiu retornar. A caravana permaneceu ali por um dia e uma noite.199 Finalmente, cinquenta habitantes locais testemunharam que aquele não era Haw’ab. Então ela se tranquilizou. Além disso, Talha (r.a.) disse-lhe naquele momento: “Você não deve retornar. Talvez Allah resolva este conflito por seu intermédio.”200 Em algumas narrações, o relato aparece da seguinte forma: alguns dos companheiros de ‘A’isha (r.a.) disseram: “Avance, sem voltar atrás. Quando as pessoas a virem, Allah estabelecerá a reconciliação entre elas.” Enquanto ela permanecia hesitante quanto a avançar, disseram-lhe: “Prossiga rapidamente; o exército de ‘Ali (r.a.) vem atrás.” Todos esses relatos mostram que o objetivo de ‘A’isha (r.a.) ao marchar em direção a Basra era apenas promover a reforma e a reconciliação.

Kufa:

Depois de Meca, a Ilustre, Medina, a Iluminada, e Basra, Kufa era a maior e mais importante cidade da Arábia. Abu Musa al-Ash‘ari (r.a.) era o seu governador. Os representantes de ambos os lados apresentavam-lhe a legitimidade de suas reivindicações e buscavam seu apoio. O grande Companheiro Abu Musa (r.a.), compreendendo a importância daquele conflito, exortou o povo, por meio de sua influência e de seus sermões, a manter-se afastado dele. ‘A’isha (r.a.) enviou cartas separadas aos líderes de Kufa. Enquanto isso, por parte de ‘Ali (r.a.), ‘Ammar ibn Yasir e o Imam al-Hasan (r.a.) chegaram a Kufa. Em um discurso proferido na mesquita congregacional de Kufa, ‘Ammar expôs claramente os acontecimentos daquele período. Depois de descrever, nesse discurso, a honra e a dignidade de ‘A’isha (r.a.), disse: “Tudo isso é correto. Porém, Allah está testando-a por meio dessa questão.” O discurso de ‘Ammar (r.a.) causou profunda impressão nos habitantes de Kufa. Vários milhares de muçulmanos atenderam ao seu apelo. Ainda assim, permanecia no coração dos habitantes de Kufa esta dúvida e hesitação: de um lado estava a esposa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a Mãe dos Crentes; do outro, o marido da filha do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seu primo — com qual dos dois se deveria partir?

Enquanto isso, quando a nobre ‘A’isha (r.a.) chegou às proximidades de Basra, enviou, por meio de mensageiros, cartas a cada um dos líderes árabes da cidade. Depois de chegar a Basra, também foi à casa de alguns líderes. Um dos líderes da cidade não estava respondendo ao seu chamado. Ela mesma foi à casa dele e tentou persuadi-lo. Ele disse: “Sinto vergonha por não conseguir obedecer à minha mãe.”201

Naquele momento, ‘Uthman ibn Hunayf era o governador de Basra por parte de ‘Ali (r.a.). Para conhecer a situação real, ele enviou ‘Imran ibn Husayn e Abu al-Aswad. Eles se apresentaram diante de ‘A’isha (r.a.) e, em nome do governador, perguntaram-lhe o objetivo de sua chegada. ‘A’isha (r.a.) disse-lhes: “Juro por Allah! Pessoas como eu não podem sair de casa mantendo algo oculto. Tampouco uma mãe pode esconder dos seus filhos os fatos reais.” Em seguida, expôs diante deles o quadro real de Medina e declarou sua determinação de punir os assassinos de ‘Uthman (r.a.) e pôr fim à discórdia e ao conflito que haviam surgido entre a Ummah. Por fim, disse:202 “Ordenar-vos o bem e proibir-vos o mal é minha responsabilidade.” Então recitou:203

Em árabe:

— A maioria de suas conversas privadas não contém bem algum; exceto as conversas privadas daqueles que recomendam a caridade, a prática do bem ou a reconciliação entre as pessoas.

Esses dois homens levantaram-se da presença de ‘A’isha (r.a.) e foram até Talha e az-Zubayr (r.a.). Depois de despedirem-se deles, voltaram novamente à presença de ‘A’isha (r.a.). Então ela disse: “Abu al-Aswad, que a tua inclinação não te conduza ao Inferno.” Em seguida, recitou-lhes este versículo:204

Será em árabe

‘Permaneceis firmes em prestar testemunho justo por Allah.

O efeito das palavras de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi que Imran, um dos membros da delegação, afastou-se desse conflito e aconselhou o governador de Basra a fazer o mesmo. Mas ele não se absteve; ao contrário, continuou tentando criar apoio popular em Basra para Hazrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Enquanto isso, Talha, Zubair e ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com eles) continuaram conclamando, por meio de discursos e sermões, o povo de Basra a vir em seu auxílio. Certo dia, depois de Talha e Zubair (que Allah esteja satisfeito com eles) discursarem em uma assembleia, Hazrat ‘Aisha, percebendo a hesitação e a dúvida entre os ouvintes, apresentou o hamd e o na‘t com voz extremamente serena e solene e, em seguida, proferiu o seguinte discurso:205

‘O povo costumava protestar contra as ações de ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e divulgar as falhas de seus funcionários e administradores. As pessoas vinham a Medina pedir-nos conselho e orientação. Elas aceitavam os conselhos de paz e reconciliação que lhes dávamos. Examinávamos cuidadosamente todas as acusações feitas contra ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e o encontrávamos inocente, piedoso e veraz. Quanto aos agitadores, víamos que eram pecadores e enganadores. Havia uma coisa em seus corações e outra em suas bocas. Quando seu número aumentou, entraram na casa de ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) sem motivo e sem que ele tivesse cometido qualquer falta. Depois, derramaram sangue que não era lícito derramar, saquearam riquezas cuja pilhagem não era legítima e profanaram e desonraram a terra sagrada cuja dignidade lhes era obrigatório preservar. Atenção! O que deve ser feito agora, e ao que ninguém deve se opor, é prender os assassinos de ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e fazer vigorar firmemente a ordem e a lei de Allah. Allah disse:206

Será em árabe

—Acaso não viste aqueles que receberam uma parte do Livro? Foram convocados ao Livro de Allah para que se julgasse entre eles; então, um grupo dentre eles recusou-se e afastou-se.

Ibn ‘Abd Rabbih al-Andalusi compilou em sua obra um discurso de Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) proferido nessa ocasião, o qual é extraordinário quanto à linguagem e ao estilo. Apresentamos aqui sua tradução:207

‘Ó povo! Silêncio! Silêncio! Tenho sobre vocês os direitos de uma mãe. Também tenho o direito de aconselhá-los. Ninguém pode me acusar de coisa alguma, exceto um homem que tema a desobediência a Allah. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu deste mundo com a cabeça apoiada sobre meu peito. Sou uma das suas esposas mais amadas. O Deus Altíssimo protegeu-me especialmente das demais pessoas. Por meio de minha pessoa, distinguiu-se o crente do hipócrita, e por minha causa Allah concedeu a vocês a determinação do tayammum.’

Meu pai foi o terceiro muçulmano desta terra e o segundo dos dois que estavam na caverna do monte Tawr. Ele foi a primeira pessoa a receber o título de “Sidдиq”. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) faleceu satisfeito com ele e tendo-lhe colocado ao pescoço o colar do califado. Após a morte do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), quando a corda do Islã começou a oscilar, foi meu pai quem a segurou firmemente. Foi ele quem puxou as rédeas da hipocrisia, fez a fonte da apostasia secar e impediu que os judeus soprassem sobre o fogo. Naquele tempo, permanecíamos de olhos fechados, à espera da fraude, da infidelidade e da sedição e desordem. …Sim, agora me tornei alvo das perguntas das pessoas, pois saí acompanhado de um exército. Minha saída não tem por objetivo procurar o pecado e a sedição — é isso que desejo eliminar. Tudo o que digo, digo com verdade e justiça. Digo-o para apresentar minha justificativa e informá-los. Que Allah, o Altíssimo, envie bênçãos e paz ao profeta Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).”

O povo ouvia seu discurso em silêncio e com atenção. Cada palavra pronunciada por ela penetrava também no coração dos partidários do adversário como a ponta de uma flecha. Muitos deles abandonaram seu próprio lado e vieram juntar-se ao acampamento militar de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).

Ao chegar a Basra, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) escreveu cartas ao governador de Kufa e às personalidades importantes de Kufa, de Basra e das regiões vizinhas, explicando o objetivo de sua chegada e os deveres que lhes cabiam. Deve-se mencionar que, antes do confronto final entre Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) — conhecido como a Batalha do Camelo — ocorreram muitos pequenos confrontos entre pessoas dos dois lados, nos quais muitos foram mortos ou feridos. Por fim, a autoridade de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi estabelecida em Basra.

Enquanto isso, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) preparava-se para partir de Medina rumo à Síria, a fim de controlar Hazrat Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele). Ao tomar conhecimento da reunião em Basra, foi obrigado a mudar seus planos para tomar medidas e resolver aquela situação. Contudo, muitos Companheiros e seus seguidores, que consideravam aquela guerra civil entre os muçulmanos uma sedição ou uma provação, não aceitaram acompanhar Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) nessa viagem.²⁰⁸ No mês de Rabi al-Thani do ano 36 da Hégira, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) partiu de Medina em direção a Basra.²⁰⁹ O resultado de muitos Companheiros não desempenharem um papel ativo ao lado de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) foi que os assassinos de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) — dos quais Ali aguardava uma oportunidade para se livrar — infiltraram-se em seu pequeno exército. Isso, por um lado, tornou-se causa de sua má reputação e, por outro, gerou diversos problemas. No dia em que os dois exércitos de Umm al-Mu’minin Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e Amir al-Mu’minin Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) se defrontaram nos arredores de Basra, um grande grupo de pessoas compassivas para com a comunidade muçulmana empenhou-se sinceramente em impedir que aqueles dois grupos de crentes entrassem em conflito. Graças aos seus esforços, as conversações para uma reconciliação haviam sido praticamente concluídas. Entretanto, de um lado, os assassinos de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) estavam presentes no exército de Ali; eles sabiam que, se houvesse reconciliação, não teriam como escapar. Do outro lado, no exército de Umm al-Mu’minin havia pessoas que queriam fazer os dois grupos lutar entre si e enfraquecê-los. Por isso, embora os homens justos tivessem se esforçado ao máximo para impedir a guerra, as forças malignas escondidas entre os dois lados conspiraram e, por fim, provocaram-na: a Batalha do Camelo tornou-se inevitável.²¹⁰

A Batalha do Camelo

Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) partira de Medina acompanhado de apenas setecentos homens. Mais sete mil homens juntaram-se a ele vindos de Kufa. Com um pequeno exército, ele chegou a Basra. Os dois exércitos se defrontaram no campo de batalha. Naquele dia, os membros de cada tribo árabe dividiram-se em dois grupos. Uma parte da tribo de Mudar posicionou-se diante da outra. Da mesma forma, entre os Azd e todas as demais tribos, uma parte ficou contra a outra. Era realmente uma cena dilacerante. Naquele dia, salvo algumas exceções, cada membro dos dois grupos era um soldado da verdade. Todos estavam firmemente convencidos de que se encontravam do lado da verdade. Ninguém desejava afastar-se sequer um pouco de sua posição. Alguns líderes tribais de Kufa foram às mesquitas dos líderes basrianos de suas próprias tribos e pediram-lhes que se mantivessem afastados daquela disputa. Mas eles responderam: “Acaso deixaremos a Mãe dos Crentes sozinha?”

Apesar disso, as pessoas dos dois lados estavam firmemente convencidas de que a situação não chegaria a uma guerra e que, no fim, seria alcançada uma solução. Um líder tribal foi até Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e insistiu para que se chegasse a uma reconciliação. Ali já estava disposto a isso desde o princípio. Então esse líder perguntou a Umm al-Mu’minin: “Talha, Zubair e Mãe dos Crentes, qual é o seu objetivo e propósito nesta ação?” Ela respondeu: “Punir os assassinos de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e convocar à reconciliação.” O líder tribal disse: “Ó Mãe dos Crentes, reflita um pouco: para punir quinhentas pessoas, fizestes correr o sangue de cinco mil homens, e, por causa de cinco mil, será necessário fazer correr o sangue de milhares e milhares de pessoas. Que tipo de reforma e correção é essa?” As palavras daquele homem eram tão claras e poderosas que Umm al-Mu’minin ficou sem resposta. Ela aceitou a reconciliação, e todos chegaram a um acordo.²¹¹

Agora os dois lados estavam tranquilos. A preocupação com a guerra e o conflito havia desaparecido de seus corações. Ninguém tinha dúvida de que tudo seria resolvido adequadamente. Entretanto, os malfeitores presentes nos dois lados perceberam que, se houvesse reconciliação, seus problemas seriam intermináveis. Além disso, os planos e esforços que haviam mantido durante muitos anos fracassariam. Então, tornaram-se ativos. Um grande número de membros do grupo sabaita estava do lado de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Depois das conversações, quando os homens dos dois grupos dormiam nas últimas horas da noite, os sabaitas lançaram um ataque. Aquele pequeno grupo de pecadores ateou subitamente fogo por todos os lados. Despertando de repente, cada pessoa pegou sua própria arma. Os líderes de cada grupo e facção acreditaram que o adversário havia violado o acordo e atacado aproveitando-se de seu sono. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) tentou com todas as forças deter os homens, mas fracassou.

Esse tumulto prosseguiu até a manhã. Em meio à agitação, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou: “O que aconteceu?”. Soube que as pessoas haviam começado a lutar. O cádi de Basra, Ka’b ibn Suwar, foi até Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e disse: “Monte no camelo. Talvez, por meio de sua intervenção, as pessoas possam reconciliar-se.”²¹² Ele amarrou uma howdah de ferro às costas do camelo e, sentada nela, avançou pelo centro do exército. Enquanto isso, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) mandou chamar seus adversários, Hazrat Talha e Hazrat Zubair. Esses três grandes Companheiros permaneceram por algum tempo no mesmo lugar, montados em seus cavalos. Que situação para os três companheiros de armas de Badr e Uhud! Que cena dolorosa! Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) lembrou aos dois uma profecia do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eles também se lembraram dela. Imediatamente, Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) abandonou de seu coração a intenção de lutar. Seu filho, ‘Abdullah, estava ao lado dele. Repreendeu o pai, chamando-o de medroso e covarde. Zubair respondeu: “As pessoas sabem que não sou medroso. Contudo, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) lembrou-me de algo que ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer. Juro por Allah que não lutarei mais contra ele.”²¹³

Ele puxou as rédeas do cavalo, virou-se, saiu do campo de batalha e partiu em direção a Medina. Um sabaita chamado Ibn Jurmuz o seguiu e, no caminho, enquanto ele estava prostrado em oração, separou sua cabeça do corpo com um golpe de espada.

Hazrat Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) também havia decidido retirar-se do campo de batalha. Ele caiu no campo de visão de Marwan, da tribo dos omíadas. Marwan percebeu que, se Talha retornasse vivo, seria difícil consolidar o poder do clã omíada. Então lançou contra ele uma flecha envenenada. A flecha atingiu-lhe a perna. De modo algum foi possível estancar o sangramento. Em consequência desse ferimento, ele alcançou o martírio. Enquanto isso, a Mãe dos Crentes, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), chamou Ka’b ibn Suwar, entregou-lhe sua própria cópia do Alcorão e disse: “Vá e, mostrando-a, convoque as pessoas à reconciliação e à arbitragem.” Ele abriu o Alcorão e ficou de pé entre os dois grupos. Os malfeitores dispararam flechas contra ele de longe. Assim, ele também alcançou o martírio.

Chegou o meio-dia. O ataque foi inesperado. Por fim, os comandantes do exército de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) retiraram-se dessa sedição. Por isso, seu exército ficou enfraquecido. A característica especial dessa batalha era que a maioria dos integrantes de ambos os lados acreditava que o adversário era seu irmão muçulmano. Por essa razão, cada um tentava atingir as mãos, os pés ou outros membros do adversário. Todos procuravam evitar golpes na cabeça e no peito. O objetivo era que, mesmo com mãos e pés cortados, ele pudesse continuar vivo. Sinceramente, desejavam que a batalha se transformasse em amizade. Em vários pontos do campo de batalha, formavam-se montes de mãos e pés separados dos corpos dos combatentes.

O desejo dos sabaitas era humilhar Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) da maneira mais extrema caso conseguissem capturá-la. Assim, após o martírio de Hazrat Talha e Zubair (que Allah esteja satisfeito com eles), os habitantes de Kufa avançaram com o objetivo de atacá-la.²¹⁴ Os homens do exército de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também foram recuando de todos os lados. O camelo da Mãe dos Crentes permanecia parado no mesmo lugar. Flechas e lanças lançadas de todas as direções atingiam a howdah coberta por sua armadura. Seus filhos repeliam os ataques pela direita e pela esquerda, pela frente e por trás. Naquele momento, muitos deles recitavam estes dois versos.²¹⁵

Será em árabe

— Ó nossa mãe, ó nossa mãe, a quem reconhecemos como a melhor de todas! Não vê quantos filhos valorosos estão sendo feridos e tendo as mãos e as cabeças cortadas?

Então começou a ouvir-se de todos os lados que aquela batalha sangrenta não terminaria enquanto o camelo da Mãe dos Crentes não fosse atingido e derrubado. Os Banu Dabba haviam formado um cerco ao redor do camelo. Sempre que alguém tentava aproximar-se dele, não o deixavam sair vivo. Naquele momento, entoavam uma canção carregada de emoção e entusiasmo. Seus três versos são os seguintes:²¹⁶

Será em árabe

—Somos os filhos de Dabbar, os guardiões deste camelo. A morte é, para nós, mais doce que o mel.

—Somos os filhos da morte; quando a morte chega, anunciamos a morte de Uthman, filho de Affan, com a lâmina da lança.

—Devolvam-nos o nosso líder e não haverá conflito algum entre nós e vocês.»

A emoção e a tensão eram tão intensas que os homens de Banu Dabbar avançavam um a um para segurar as rédeas do camelo. Quando a mão de um deles era decepada pelo golpe do adversário, outro corria para agarrar as rédeas com o punho. Assim, no mesmo lugar, enquanto seguravam as rédeas do camelo, as mãos de 70 (setenta) homens foram decepadas.217 Do mesmo modo, nenhuma das mãos dos adversários da Mãe dos Crentes que naquele dia se estendeu em direção às rédeas do camelo pôde ser retirada intacta. O honorável Abdullah ibn az-Zubayr estava de pé nas proximidades. Ele disse: «Parecia que as mãos decepadas voavam no ar.» Ao ver essa cena, o honorável Ali avançou, abrindo caminho pela multidão. Al-Ashtar an-Nakha‘i chegou até Abdullah ibn az-Zubayr. Ambos eram homens valentes e corajosos. Começou entre os dois um combate de espadas. Ambos ficaram feridos. Nessa situação, abraçaram-se mutuamente. Ibn az-Zubayr gritou:218

Será em árabe

Isto é: mate Malik e a mim. Mate Malik junto comigo.

Mais tarde, al-Ashtar an-Nakha‘i costumava dizer: «As pessoas não me conheciam pelo nome de Malik; por isso fui poupado naquele dia. Caso contrário, teriam me despedaçado.»

Alguns membros dos Banu Dabbar também estavam do lado de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Eles perceberam que, se o camelo não fosse retirado de sua vista, sua tribo seria exterminada pelo número de pessoas que estavam morrendo. Depois de pensar nisso, um homem da tribo de Dabba, chamado Bujair ibn Dalja, veio por trás e golpeou com a espada a perna do camelo com tanta força que o animal caiu de bruços e se sentou. Imediatamente, os que lutavam pelo lado de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), ao redor do camelo, afastaram-se. Ao ver a mão, sem saber se Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) havia sofrido algum ferimento, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) bradou: “De quem é esta mão amaldiçoada?” Aisha disse: “Não, você não é Muhammad (o louvado), você é Mujammam (o censurado).” Segundo outra versão, Aisha perguntou: “Quem é?” Muhammad respondeu: “Seu irmão obediente.” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Você não é obediente; pelo contrário, é desobediente.” Muhammad perguntou: “Irmã, você sofreu algum ferimento?” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “O que isso importa para você?”

Enquanto isso, o venerável Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou junto ao camelo. Ele perguntou: “Mãe, como você está?” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Estou bem.” Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Que Allah a perdoe.” Aisha disse: “Que Allah também o perdoe.” 219

O venerável Ammar ibn Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele) estava por perto. Ele disse: “Mãe, o que achou desta luta entre seus filhos?” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Eu não sou sua mãe.” Ammar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Mesmo que isso não lhe agrade, você é minha mãe.” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Está se vangloriando por ter vencido. Trouxe consigo a vingança que tomou. Saiba que aqueles que agem assim jamais podem ser vitoriosos.”

A venerável Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi de Basra diretamente para Meca, a Honrada. Permaneceu ali até o Hajj seguinte. Depois retornou a Medina e viveu ali pelo resto da vida. Durante toda a vida, lamentou o método de expiação que havia adotado.225 Ibn Sa’d narrou que a venerável Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) costumava dizer: “Ai de mim, se eu fosse uma árvore! Ai de mim, se eu fosse uma pedra! Ai, se eu não fosse nada.”226 Essas palavras permitem avaliar a dimensão de seu arrependimento.

Certa vez, um homem de Basra foi visitar Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou-lhe: “Você participou da nossa batalha?” O homem respondeu: “Sim.” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou: “Você conhece o homem que naquele dia recitou este verso?”

Será em árabe

O homem respondeu: “Ele é meu irmão.” O narrador disse que, depois disso, a venerável Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) chorou tanto que me pareceu que aquele choro jamais cessaria. O Imam Bukhari narrou que, no momento de sua morte, ela deixou instruções para que não fosse sepultada junto ao túmulo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), mas no cemitério de Baqi, junto às outras esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).227 Ibn Sa’d narrou que, no momento de sua morte, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Depois do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), cometi um ato novo. Portanto, sepultai-me junto às esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).”228 Também foi narrado que, quando ela recitava o versículo…229

Será em árabe

Quando recitava “(Permanecei em vossas casas)”, chorava tanto que o véu ficava molhado com suas lágrimas.²³⁰ Depois do fim da Batalha do Camelo, Hadhrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse a al-Qa‘qa ibn ‘Amr: “Por Allah! Como teria sido melhor se eu tivesse morrido vinte anos antes deste dia!” Ao ouvir isso, ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) fez exatamente o mesmo comentário.²³¹

Um homem chamado ‘Ain ibn Duraiya al-Majashi aproximou-se e começou a golpear a liteira. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Afasta-te! Que a maldição de Allah esteja sobre ti.” O homem disse: “Só quero ver Humayra uma vez.” Então Hadhrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) lançou-lhe uma maldição, dizendo: “Que Allah exponha tua honra e tua dignidade, corte tua mão e revele tuas partes íntimas.” Mais tarde, o homem foi morto em Basra. Todos os seus pertences foram saqueados. Seu cadáver foi encontrado numa região deserta da tribo de Azd, com as mãos e os pés cortados e nu.²²⁰

Hadhrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) providenciou, sob a liderança de Muhammad ibn Abi Bakr, que a Mãe dos Crentes fosse levada do campo de batalha à casa de ‘Abdullah ibn Khalaf al-Khuza‘i, um líder de Basra que apoiava sua causa. Os soldados feridos do exército de Hadhrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) haviam se refugiado em todos os cômodos e espaços externos daquela casa. Em seguida, Hadhrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), Hadhrat Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e muitas outras personalidades ilustres foram até lá para visitar a Mãe dos Crentes. Hadhrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) cumprimentou a Mãe dos Crentes e permaneceu algum tempo ao seu lado. Hadhrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) sabia que os soldados feridos do lado adversário haviam se refugiado naquela casa, mas não fez qualquer menção a isso.²²¹

A Mãe dos Crentes permaneceu alguns dias em Basra. Depois, Hadhrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) providenciou que ela viajasse para o Hijaz, com a devida dignidade e honra, sob os cuidados de Muhammad ibn Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), acompanhada por quarenta nobres mulheres de Basra. Também lhe entregou doze mil dirrãs.²²² Inúmeros muçulmanos comuns, juntamente com Hadhrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), acompanharam-nas por uma longa distância. O Imam Hasan (que Allah esteja satisfeito com ele) percorreu muitas milhas com a caravana. A Mãe dos Crentes partiu de Basra no sábado, 1º de Rajab do ano 36 da Hégira.²²³ Durante a viagem, disse ao povo: “Por Allah, além da relação que uma mulher mantém com seus genros, não havia entre ele (‘Ali) e mim qualquer relação de inimizade. Pelo que sei, ele é um dos homens virtuosos.” Em resposta, ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó povo! Ela disse a verdade. Não há rivalidade entre mim e ela. Ela é a esposa de vosso Profeta, neste mundo e no Além.”²²⁴

A Batalha do Camelo ocorreu desde o amanhecer até a oração da tarde, na quinta-feira, 10 de Jumada al-Thani do ano 36 da Hégira.²³² O número de feridos nessa batalha foi incontável. Há divergência entre os especialistas em biografia quanto ao número de mortos. Ibn al-Imam al-Hanbali menciona trinta e três mil em sua obra ‘Shadharat al-Dhahab’, enquanto a maioria menciona dezessete mil. Contudo, Ibn al-Athir e a maioria dos historiadores mencionam dez mil. Metade deles era do lado de ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e metade do lado de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ibn al-Athir também menciona que somente da tribo de Banu Dhabba morreram mil homens, e que, junto ao camelo, foram encontrados os cadáveres de setenta (70) homens da tribo de Banu ‘Adi.²³³ Nessa batalha, muitos heróis do Islã foram martirizados — homens que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia formado pessoalmente e que eram filhos profundamente provados do Islã. Talhah (que Allah esteja satisfeito com ele), al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) e outros estavam entre eles. Suas mortes causaram uma perda irreparável à comunidade muçulmana.

Depois que o camelo de Hadhrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) caiu no campo de batalha, Hadhrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) ordenou a um arauto que anunciasse: “Ninguém deve perseguir os fugitivos, saquear os pertences dos soldados feridos ou entrar em qualquer casa. Quanto às mulheres, em particular, ele deu a seguinte instrução:²³⁴

Será escrito em árabe

— “Não exponhais a honra e a dignidade de ninguém, não entreis em nenhuma casa e não ataqueis mulher alguma — ainda que ela zombe e insulte vossa honra e dignidade, vossos líderes e os homens virtuosos. Fomos proibidos de levantar a mão contra as mulheres no tempo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), quando essas mulheres eram idólatras. Como, então, poderíamos agora levantar a mão contra essas mulheres muçulmanas?”

Após a batalha, ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) percorria o campo entre os cadáveres caídos e, ao parar junto aos cadáveres que conhecia, expressava sua tristeza, fossem eles de seus partidários ou dos partidários de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Em seguida, ordenou que todos os cadáveres de ambos os lados fossem reunidos num só lugar. Como imame, conduziu a oração fúnebre por todos e providenciou o sepultamento de muitos deles em grandes sepulturas coletivas. Parando junto ao cadáver de Talha ibn ‘Ubaydullah (que Allah esteja satisfeito com ele), declarou:

A escrita será em árabe

Depois disse: “Por Allah! Eu não gostaria de ver nenhum coraixita deixado assim.” Em seguida, ordenou que os pertences abandonados pelos soldados fossem recolhidos e depositados na mesquita de Basra, anunciando: “Com exceção das armas, cada pessoa poderá retirar dali os seus próprios pertences. As armas serão depositadas no tesouro.”²³⁵

Após a batalha, Hadrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntava quem havia sido morto de cada um dos dois grupos. Quando lhe diziam que fulano havia morrido, ela dizia: “Que Allah tenha misericórdia dele.” Sobre os mortos nessa batalha, Hadrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:²³⁶

Deve-se escrever em árabe

— “Espero certamente que todos aqueles entre essas pessoas cujo coração era sincero para com Allah entrarão no Paraíso.”

É preciso esclarecer aqui uma questão: algumas pessoas de mente pervertida supõem que a causa principal da Batalha do Camelo foi um antigo ressentimento e rancor de ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). No incidente da Calúnia, ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) teria dito ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Se desejar, pode abandoná-la.” Basicamente, foi a partir de então que Hadrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) teria ficado ressentida com ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), e esse confronto sangrento teria sido a consequência disso. Contudo, os dados do hadith e da história que temos diante de nós não dão margem para tal concepção. Essa é uma ideia completamente infundada. Há muitos dados históricos que revelam exatamente o quadro oposto. Não os mencionamos aqui para não alongar o texto. Ao analisarmos todos os dados históricos, vemos que, exceto os conspiradores, todos de ambos os lados eram completamente inocentes e não provocaram o conflito e o confronto. Nesse caso, a conspiração dos conspiradores foi plenamente bem-sucedida.

O período do califado de Hadrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) foi de apenas quatro anos. Depois, Hadrat Amir Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) assumiu a responsabilidade do califado e, pelos vinte anos seguintes,

Ele governou todo o mundo islâmico como seu único soberano. Dois anos antes do fim de seu califado, حضرت ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu. Durante o governo de حضرت Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele), ela passou dezoito anos de sua vida. Com exceção de um ou outro acontecimento isolado, passou longo tempo em completo silêncio.

Certa vez, حضرت Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) foi a Medina e visitou حضرت ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse-lhe: “Como você entrou sozinho e tão despreocupadamente em minha casa? Também seria possível que eu tivesse deixado um assassino de prontidão e que, assim que você entrasse, ele cortasse sua cabeça.” O Emir Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Esta é a Dar al-Aman (Casa da Segurança); aqui a senhora não poderia fazer isso. O Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) disse: ‘A fé é uma proteção contra o assassinato traiçoeiro.’” Então حضرت Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: “Como tem sido meu tratamento para com a senhora?” Ela respondeu: “Bom.” Então Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Nesse caso, deixe de lado a questão entre mim e os Banu Hashim; o acerto de contas será perante Allah.”237

Hujr ibn ‘Adi (que Allah esteja satisfeito com ele) era um Companheiro de alto nível e um dos principais líderes dos apoiadores de ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) em Kufa. Com base no testemunho de algumas pessoas, o governador de Kufa prendeu-o junto com outros homens e enviou-o para Damasco. Hujr pertencia à tribo de Kinda. Naquela época, Kufa era o centro das grandes tribos árabes. Os membros da tribo de Kinda também viviam ali. Contudo, ninguém se apresentou para proteger Hujr. Apesar disso, entre os Companheiros, Hujr (que Allah esteja satisfeito com ele) gozava, naquele momento, de grande influência e prestígio. Entretanto, a notícia de sua prisão deixou aflitas e indignadas as pessoas de todas as regiões do califado. Muitos líderes de diferentes tribos árabes intercederam por sua libertação, mas todas as súplicas foram rejeitadas. Quando essa notícia chegou a Medina e حضرت ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) tomou conhecimento dela, enviou um mensageiro para interceder. Lamentavelmente, antes que o mensageiro chegasse, a sentença de morte de Hujr (que Allah esteja satisfeito com ele) já havia sido executada.238

Mais tarde, quando حضرت Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) foi a Medina e se encontrou com حضرت ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), ela levantou primeiro a questão de Hujr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ela disse: “Mu‘awiya! Onde estavam sua paciência e discernimento no caso de Hujr? Você não temeu a Allah ao ordenar sua morte?” Mu‘awiya respondeu: “Não tenho culpa no caso dele; a culpa é daqueles que testemunharam contra ele.” Segundo outro relato, حضرت Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mãe dos Crentes! Não havia comigo ninguém capaz de tomar a decisão correta.”239 O célebre tabi‘i حضرت Masruq (que Allah tenha misericórdia dele) narra que حضرت ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) dizia: “Juro por Allah! Se Mu‘awiya soubesse que ainda restavam em Kufa coragem e senso de honra, jamais teria levado Hujr dali e o matado daquela maneira diante deles. Mas este filho da Hind que comia fígado, Hind 240, compreendeu muito bem que aqueles homens já haviam partido. Juro por Allah! Kufa era a morada de líderes árabes corajosos e dotados de senso de honra. Labid (que Allah esteja satisfeito com ele) disse com toda a propriedade:241

O texto em árabe será inserido

“Aquelas pessoas se foram — aquelas sob cuja sombra era possível viver. Agora estamos sob a proteção de herdeiros cuja pele é como a de um camelo acometido de doença cutânea.”

“Eles não são úteis a ninguém, nem se pode esperar algo bom deles. Aqueles que falam com eles são apenas censurados.”

Algumas pessoas do Iraque e do Egito costumavam difamar حضرت ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele); do mesmo modo, os habitantes de Sham falavam de maneira ofensiva contra حضرت ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Já os kharijitas consideravam ambos maus. Ao tomar conhecimento da situação desses grupos e subgrupos, حضرت ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “No Alcorão, Allah ordenou que se suplicasse por misericórdia e perdão para os Companheiros do Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele), mas essas pessoas os insultam.”242

Os carijitas separaram-se do grupo de Hazrat ‘Ali (ra) e reuniram-se primeiramente num lugar chamado ‘Harur’. Por isso, foram chamados de ‘Haruriyyah’. Certa vez, uma mulher foi até Hazrat ‘A’ishah (ra) e perguntou: “Então, por que as orações dos dias específicos das mulheres não precisam ser compensadas, como os jejuns?” ‘A’ishah (ra), extremamente irritada, respondeu: “Acaso és uma haruriyyah!243” Com isso, expressou seu desprezo pelos haruriyyah.

Certa vez, Hazrat Mu‘awiyah (ra) escreveu uma carta a Hazrat ‘A’ishah (ra), pedindo-lhe que lhe desse algum conselho. Hazrat ‘A’ishah (ra) respondeu: “Salamun ‘alaiki! Além disso, ouvi o Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alaihi wa sallam) dizer: ‘Quem buscar a satisfação de Allah sem se importar com a satisfação das pessoas, Allah o protegerá das consequências do desagrado das pessoas. E quem buscar a satisfação das pessoas desagradando a Allah, Allah o entregará às mãos das pessoas.’ Was-salamu ‘alaiki.”244

No final da vida, Hazrat Mu‘awiyah (ra) desejou deixar seu filho Yazid como seu sucessor. Naquela época, Marwan era o governador de Medina em seu nome. Durante uma assembleia pública na mesquita, ele mencionou o nome de Yazid. O irmão de Hazrat ‘A’ishah (ra), ‘Abdur-Rahman ibn Abi Bakr (ra), levantou-se e protestou. Imediatamente, Marwan quis prendê-lo. ‘Abdur-Rahman correu e entrou na casa de sua irmã ‘A’ishah (ra). Marwan não teve coragem de entrar. Com voz furiosa, disse: “Este é aquele sobre quem foi revelado no Alcorão o seguinte versículo:”

Será em árabe

— “E aquele que diz aos seus pais: ‘Ufa para vós dois!’”

De trás da cortina, Hazrat ‘A’ishah (ra) exclamou: “Além do versículo que declara a minha inocência, Allah não revelou nenhum outro versículo a nosso respeito.”245 Esse protesto demonstra que os dois irmãos não aceitaram de bom grado a nomeação de Yazid. No ano 49 da Hégira, no aposento de Hazrat Amir Mu‘awiyah (ra), já haviam sido sepultados o Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alaihi wa sallam), Abu Bakr (ra) e ‘Umar al-Faruq (ra). Num canto, havia algum espaço vazio, suficiente para uma sepultura. Antes de morrer, Hazrat Hasan (ra) deixou ao seu irmão mais novo, Hazrat Imam Husayn (ra), a recomendação de que o sepultasse naquele espaço vazio. Se alguém impedisse, não deveria entrar em conflito; deveria sepultá-lo no cemitério dos muçulmanos comuns. Quando Hazrat Imam Husayn quis cumprir a recomendação do irmão mais velho, Hazrat ‘A’ishah (ra) deu prontamente sua permissão. Naquela época, Sa‘id ibn al-‘Asi era governador de Medina por parte de Hazrat Mu‘awiyah (ra), e também não impôs qualquer impedimento. Porém, Marwan ibn Hakam, acompanhado de alguns de seus apoiadores, opôs-se firmemente. Seu argumento era que, quando os rebeldes não haviam permitido que Hazrat ‘Uthman (ra) fosse sepultado ali, ninguém mais poderia obter permissão. Em apoio a Hazrat Imam Husayn (ra), os Banu Hashim, e em apoio a Marwan, os Banu Umayyah, saíram de suas casas portando armas. Estava prestes a ocorrer outro conflito sangrento. Hazrat Abu Hurayrah (ra) ficou perturbado.

Ele tentou promover uma reconciliação. Disse a Marwan: “Se o neto deseja ser sepultado ao lado de seu avô materno, por que vais interferir nisso?” Por outro lado, disse ao Imam Husayn (ra): “Também fazia parte da recomendação do falecido Imam que, se surgisse oposição, não se entrasse em conflito.” De qualquer modo, Hazrat Imam Husayn (ra) teve paciência e sepultou o corpo de seu irmão em Jannatul Baqi‘, ao lado do túmulo de sua mãe, Hazrat Fatimatuz-Zahra (ra).246 Sobre esse assunto, apresentamos aqui uma narração com a mesma redação, conforme aparece na obra ‘Al-Isti‘ab’, de Ibn ‘Abdil-Barr, na obra ‘Usudul-Ghabah’, de Ibnul-Athir, e na obra ‘Tarikhul-Khulafa’, do Allamah Suyuti:247

— O Imam Hasan (ra) disse: “Eu havia pedido a ‘A’ishah (ra) que me permitisse ser sepultado em seu aposento, junto do Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alaihi wa sallam). Ela havia dado permissão, mas não sei se o fez por constrangimento. Depois da minha morte, pede novamente a ela permissão. Se ela der sua permissão de bom grado, sepulta-me ali. Creio que as pessoas vos impedirão. Se realmente fizerem isso, não entreis em conflito com elas por causa desse assunto. Sepultai-me no cemitério de Baqi‘.” Depois que Hazrat Hasan (ra) faleceu, Hazrat Husayn (ra) pediu permissão a Hazrat ‘A’ishah (ra). Ela disse: “Sim, dou minha permissão de bom grado.” Quando a questão chegou aos ouvidos de Marwan, ele disse: “Husayn e ‘A’ishah estão mentindo. Hasan jamais poderá ser sepultado ali. Eles nem sequer permitiram que ‘Uthman fosse sepultado até no cemitério. E agora querem sepultar Hasan no aposento de ‘A’ishah.”

Falecimento

Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu em Medina, aos 66 anos de idade, no dia 17 de Ramadan do ano 58 da Hégira, correspondente a 13 de junho de 678 d.C. Naquela época, encontrava-se no período final do califado de Hazrat Amir Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele). Antes de sua morte, esteve acamada por algum tempo, sofrendo de uma doença. Inúmeras pessoas se aglomeravam à sua porta para visitá-la. Quando alguém perguntava como ela estava, respondia: “Estou bem.”248 Certo dia, nesse período, Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) pediu permissão para visitá-la. Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) hesitava em recebê-lo, pensando que ele talvez viesse e começasse a elogiá-la. Porém, os filhos de sua irmã explicaram-lhe: “A senhora é a Mãe dos Crentes, e ele é Ibn ‘Abbas. Veio cumprimentá-la e despedir-se da senhora.” Então ela disse: “Se quiserem, chamem-no.” Hazrat Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) foi chamado. A suposição da Mãe dos Crentes revelou-se verdadeira. Assim que se sentou, Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a dizer: “Desde os tempos mais antigos, a senhora já era conhecida como a Mãe dos Crentes. É a esposa mais amada do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Aguarda apenas o momento em que sua alma deixará seu corpo para se reunir com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Na noite em que seu colar se perdeu, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) procurou água, mas as pessoas não a encontraram; foi por sua causa que Allah, o Altíssimo, revelou o versículo sobre o tayammum. Jibril, o Fiel (que a paz esteja sobre ele), trouxe do céu os versículos que declaravam sua inocência e a isentavam de culpa. Esses versículos serão recitados em todas as mesquitas até o Dia da Ressurreição.” Depois de ouvir isso, ela disse: “Ibn ‘Abbas, perdoe-me por estes elogios. Eu preferiria não ter existido.”249

Antes de morrer, deixou como testamento que fosse sepultada em Jannat al-Baqi, junto com as outras esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Se a morte ocorresse à noite, deveria ser sepultada ainda naquela noite. Seu falecimento ocorreu à noite, depois da oração do witr. Assim, foi sepultada imediatamente em Jannat al-Baqi, conforme seu testamento. Quando a notícia de seu falecimento se espalhou, um lamento tomou conta de Medina. Os ansares saíram de suas casas. Tantas pessoas compareceram à oração fúnebre que, segundo os relatos, jamais se vira antes uma aglomeração tão grande durante a noite. Alguns relatos dizem que, ao ver a multidão de mulheres, parecia ser o dia do Eid. Ao ouvir os lamentos, Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “O Paraíso é indispensável para ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela era a esposa mais amada do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).

Naquela época, Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) era o governador de Medina. Ele dirigiu a oração fúnebre. Qasim ibn Muhammad ibn Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), ‘Abdullah ibn ‘Abd al-Rahman ibn Abi Bakr, ‘Abdullah ibn ‘Atiq, ‘Urwa ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) e ‘Abdullah ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) — esses sobrinhos, filhos de seus irmãos e irmãs — desceram-na à sepultura. Conforme seu último testamento, ela foi sepultada no cemitério de Jannat al-Baqi.250

Com o falecimento da Mãe dos Crentes, todos os muçulmanos ficaram profundamente enlutados. O célebre tabi‘i Hazrat Masruq (que Allah tenha misericórdia dele) disse: “Se eu não me lembrasse de uma determinada coisa, teria organizado uma assembleia de luto pela Mãe dos Crentes.” ‘Ubaid ibn ‘Umair perguntou a um homem: “Você está triste com a morte de Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela)?” O homem respondeu: “Todos aqueles de quem ela foi mãe estão tristes.” Ibn Sa‘d narrou todas essas declarações.

Já foi mencionado anteriormente que Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) não teve filhos. Ela criou como se fosse seu próprio filho Hazrat ‘Abdullah ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de sua irmã Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela). ‘Abdullah também amava sua tia materna como uma mãe. Após a Hégira, esse ‘Abdullah foi o primeiro filho nascido em Medina na casa de um emigrante. Os descrentes e hipócritas de Medina costumavam dizer que as mulheres muçulmanas haviam se tornado estéreis depois de chegarem a Medina. Quando ele nasceu, uma onda de alegria espalhou-se entre os muçulmanos. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) mastigou uma tâmara e, com a própria mão, passou-a em sua boca, realizando o tahnik. Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) criou esse ‘Abdullah como seu filho. Consta em um hadith que ela criou uma menina ansari e depois a casou.251 Além disso, Masruq ibn Ajda‘, ‘Umra bint ‘Aisha bint Talha, ‘Umra bint ‘Abd al-Rahman al-Ansariyya, Asma bint ‘Abd al-Rahman ibn Abi Bakr, ‘Urwa ibn al-Zubayr, Qasim ibn Muhammad e seu irmão, ‘Abdullah ibn Yazid e muitos outros meninos e meninas foram criados sob seus cuidados. Ela mesma criou e casou as filhas de Muhammad ibn Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele).252

Características físicas e vestuário

Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi uma das meninas que cresciam muito rapidamente. Aos nove ou dez anos, já havia se desenvolvido bastante.253 Na infância, era extremamente magra e franzina. Com o passar dos anos, seu corpo tornou-se um pouco mais robusto.254 Sua pele tinha uma mistura de branco e rosado. Possuía um rosto luminoso e grande beleza. Por isso, era chamada de al-Humayra.255

Devido à frugalidade e ao contentamento com pouco, mantinha apenas duas peças de roupa. Assim, lavava uma enquanto usava a outra.²⁵⁶ Tinha uma túnica cujo valor era de cerca de cinco dirrãs. Contudo, naquela época, ela era tão valiosa que era emprestada para adornar a noiva nas cerimônias de casamento.²⁵⁷ Às vezes usava roupas tingidas com açafrão e, ocasionalmente, também usava ornamentos. Usava ao pescoço um tipo especial de colar de pérolas brancas e pretas produzido no Iêmen. Usava um anel de ouro no dedo.²⁵⁸ Qasim ibn Muhammad narra: “Vi Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) usando um anel de ouro e uma roupa amarela enquanto estava em ihram.” Às vezes também usava um xale de seda. Mais tarde, doou-o a ‘Abdullah ibn az-Zubayr.²⁵⁹

Era extremamente cuidadosa com as normas da Shariah relativas às vestimentas. Certa vez, sua sobrinha Hafsa bint ‘Abdur-Rahman foi visitá-la usando um véu fino sobre a cabeça. Ela o rasgou e disse: “Não sabes o que Allah, o Altíssimo, disse na Surata An-Nur?” Depois mandou trazer um véu espesso e deu-o a ela.²⁶⁰ Certa vez, hospedou-se como convidada numa casa. O anfitrião tinha duas filhas já crescidas. Ela viu que as meninas rezavam sem o xale. Advertiu-as, dizendo que dali em diante nenhuma menina deveria rezar sem o xale.²⁶¹

Hábitos e qualidades morais

Desde a infância até a juventude, Hazrat ‘A’isha, a Mãe dos Crentes (que Allah esteja satisfeito com ela), passou esse período na companhia de uma pessoa santa cuja vinda a este mundo tinha como propósito aperfeiçoar as mais elevadas virtudes morais. Essa companhia elevou-a a um nível ideal de moralidade considerado o ápice do desenvolvimento espiritual. Assim, seu padrão moral era extremamente elevado. Seu coração era muito amplo. Além disso, era generosa, frugal, devotada à adoração e compassiva.

As mulheres e o contentamento com pouco parecem ser duas coisas contraditórias. Foi narrado num hadith que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Vi que a maioria dos habitantes do Inferno eram mulheres.” Perguntaram-lhe a razão disso. Ele respondeu: “A razão é que elas não demonstram gratidão aos seus maridos.” Contudo, essas duas qualidades estavam reunidas na pessoa de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela passou sua vida conjugal em extrema necessidade e pobreza, mas nunca deixou escapar dos lábios sequer uma palavra de queixa. Roupas bonitas, joias valiosas, mansões luxuosas e alimentos saborosos — nada disso ela encontrou na casa do marido. Ao mesmo tempo, testemunhou que as riquezas dos espólios de guerra chegavam de um lado como uma inundação e saíam pelo outro. Ainda assim, jamais sentiu o menor desejo ou cobiça de obter algo daquilo. Depois do falecimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), certa vez pediu que trouxessem comida. Depois disse: “Nunca como até ficar saciada, para não começar a chorar.” Um de seus discípulos perguntou: “Por quê?” Ela respondeu: “Lembro-me da condição em que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) partiu deste mundo. Juro por Allah! Ele nunca comeu pão e carne até ficar saciado duas vezes num mesmo dia!”

Allah, o Altíssimo, não lhe concedeu filhos. Contudo, ela acolhia e criava os filhos dos muçulmanos comuns, especialmente os órfãos. Educava-os e assumia a responsabilidade por casá-los.

Obedecer plenamente ao seu marido, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), e esforçar-se para obter sua satisfação eram a preocupação e a ocupação de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) a cada momento. Se notasse seu rosto ligeiramente pálido e abatido, ficava inquieta. Era tão atenciosa para com os parentes do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) que não ignorava nenhum de seus pedidos. Certa vez, seu sobrinho ‘Abdullah ibn az-Zubayr ficou preocupado ao ver a generosidade ilimitada de sua tia e disse que era preciso fazê-la parar de dar. Com essas palavras, Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou tão zangada que jurou não falar com ‘Abdullah. Contudo, quando os membros do clã materno do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) intercederam, ela não pôde mais recusar.²⁶² Ela também tratava os amigos do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) com grande consideração e respeito, e não ignorava nenhum de seus pedidos. Sempre que possível, não recusava presente algum de ninguém.

Muhammad ibn Ash‘ath (que Allah esteja satisfeito com ele) era um Companheiro. Certa vez, manifestou a intenção de presentear Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) com um poshtin (uma veste feita de pele) e disse: “Esta é quente; use-a.” Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) aceitou e costumava usá-la com frequência.²⁶³

Desde a revelação dos versículos sobre o hijab, ela observava rigorosamente o recato. Havia um tabi‘in cego chamado Ishaq. Certa vez, ele veio visitá-la. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) colocou-se atrás do véu. Ishaq disse: “A senhora está se ocultando de mim? Eu não consigo vê-la.” Ela respondeu: “Que importa você não conseguir me ver? Eu consigo ver você.”²⁶⁴ Certa vez, durante o Hajj, outras mulheres disseram: “Ó Mãe dos Crentes! Venha beijar a Pedra Negra.” Ela respondeu: “Vocês podem ir. Eu não consigo entrar no meio dos homens.”²⁶⁵ Quando às vezes precisava fazer o tawaf durante o dia, os homens eram retirados do pátio em algumas ocasiões.²⁶⁶ A Sharia não determina que se mantenha o recato diante dos mortos. Ainda assim, ela era extremamente cuidadosa também nesse assunto. Depois que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi sepultado ao lado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ela não entrava ali sem se cobrir.

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) nunca fazia a maledicência de ninguém, nem proferia qualquer palavra indecorosa sobre alguém. Muitas de suas palavras foram registradas nos livros de hadith. Contudo, em nenhuma delas se encontra uma palavra ofensiva contra qualquer pessoa ou algo que maculasse a honra de alguém. Falar mal das coesposas é um hábito de muitas mulheres. Mas já mencionamos anteriormente com que generosidade ela elogiava suas coesposas. O poeta Hassan ibn (que Allah esteja satisfeito com ele), que, por ter se envolvido no incidente do ifk, havia multiplicado por cem a tristeza de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), também frequentava sua assembleia, e ela lhe permitia sentar-se ali com grande cordialidade. Certa vez, Hassan (que Allah esteja satisfeito com ele) veio e começou a recitar uma qasida composta em sua homenagem. O significado de um de seus versos era o seguinte:

Ao ouvir o verso, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) recordou o antigo incidente do ifk. Depois, limitou-se a comentar: “Mas o senhor não é assim.”²⁶⁷ Muitos dos entes queridos de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) não conseguiam aceitar facilmente a presença de Hassan (que Allah esteja satisfeito com ele) daquela maneira em sua assembleia. Muitas vezes queriam dirigir-lhe palavras duras, mas Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) os proibia com extrema firmeza. Masruq (que Allah tenha misericórdia dele) relata: “Certa vez, perguntei à Mãe dos Crentes: ‘Por que a senhora permite que ele venha à sua presença dessa maneira?’ Ela respondeu: ‘Agora ele ficou cego. E que punição pode ser maior que a cegueira? Além disso, ele respondia, em nome do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), às sátiras e zombarias dos poetas politeístas de Meca.’”²⁶⁸

Certa vez, falava-se sobre um homem. No decorrer da conversa, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) não manifestou uma boa opinião sobre ele. As pessoas disseram: “Ó Mãe dos Crentes! Esse homem já morreu.” Assim que ouviu isso, ela começou a suplicar pelo seu perdão. Então as pessoas disseram: “A senhora acaba de não falar bem dele e agora está suplicando pelo seu perdão.” Ela respondeu: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Falai apenas bem dos mortos.’”²⁶⁹

Não havia nela o menor traço de arrogância. Considerava-se muito comum e insignificante. De modo algum gostava que alguém a elogiasse em sua presença. A esse respeito, já mencionamos anteriormente seu comportamento com Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) em seu leito de morte. Embora fosse extremamente humilde, possuía plena dignidade pessoal. Por isso, alguns de seus comportamentos com seu esposo, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), assumiam a forma do ressentimento amoroso de uma esposa. Por exemplo, no incidente do ifk, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhe recitou os versículos sobre sua inocência, e sua mãe lhe disse: “Minha filha, demonstra gratidão ao seu marido”, sua resposta revelou, por um lado, um forte senso de dignidade pessoal e, por outro, uma bela manifestação de ressentimento diante do amado. Ela disse: “Agradecerei somente ao meu Senhor, e a ninguém mais — Àquele que me honrou declarando minha inocência e pureza.”²⁷⁰ Além disso, como já mencionamos, quando ficava zangada com o marido, deixava de jurar mencionando seu nome. Tudo isso era uma incomparável manifestação do ressentimento amoroso de uma esposa.

Vemos a expressão máxima de sua dignidade pessoal em outro episódio. Abdullah ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele), a quem ela havia criado com amor materno, também honrava e servia sua tia Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) como a uma mãe. Certa vez, ao ver sua tia entregar bens com generosidade ilimitada, ele comentou que agora seria preciso amarrar-lhe as mãos. Esse comentário feriu o senso de honra de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela jurou que não tocaria em nenhum dos bens do sobrinho. Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou então numa situação muito difícil. Finalmente, por intercessão e mediação de pessoas importantes, ela se apiedou dele.²⁷¹

Além de possuir um forte senso de dignidade pessoal e uma personalidade marcante, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também tinha um aguçado senso de justiça. Certa vez, um homem do Egito foi visitá-la. Ela lhe perguntou como os governantes da época daquela região tratavam as pessoas no campo de batalha. O homem respondeu que não presenciava, da parte deles, nenhum comportamento que merecesse protesto. Quando o camelo de alguém morria, eles lhe davam outro; se alguém não tivesse um servo, davam-lhe um servo; e, se alguém precisasse de dinheiro para suas despesas, supriam essa necessidade. Ao ouvir sua resposta, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Por pior que os egípcios tenham tratado meu irmão Muhammad ibn Abi Bakr, esse mau tratamento não pode impedir-me de lhes dizer esta verdade: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) suplicou nesta mesma minha casa: ‘Ó Allah! Sê severo com quem for severo para com minha comunidade, e sê bondoso com quem for bondoso para com ela.’”²⁷²

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era extremamente generosa nas doações. Seu coração também era muito magnânimo e amplo. Sua irmã Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) também era muito caridosa. A generosidade era uma das principais características do caráter das duas irmãs. Abdullah ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Nunca vi pessoa mais generosa que elas duas.” Contudo, havia uma diferença entre as duas: Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) juntava pouco a pouco; quando acumulava alguma coisa, distribuía tudo de uma só vez. Já Asma (que Allah esteja satisfeito com ela), quando recebia algo, não o guardava: distribuía-o imediatamente.²⁷³ Na maior parte do tempo, ela contraía dívidas e tomava empréstimos de diversos credores. Quando as pessoas perguntavam: “Que necessidade a senhora tem de contrair tantas dívidas?”, ela respondia: “Allah ajuda quem deseja pagar suas dívidas. Eu busco essa ajuda de Allah.”²⁷⁴ Ela não se preocupava com a quantidade, grande ou pequena, ao fazer caridade. Dava tudo o que tivesse em mãos. Certa vez, uma mulher veio pedir ajuda carregando duas crianças pequenas. Naquele momento, por acaso, não havia nada em casa que pudesse lhes dar. Depois de procurar, encontrou apenas uma tâmara. Dividiu-a em duas partes e deu uma a cada criança. Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) voltou para casa, contou-lhe o ocorrido.²⁷⁵ Em outra ocasião, um mendigo veio pedir ajuda. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha diante de si alguns grãos de uva. Pegou um grão e colocou-o na mão do mendigo. O mendigo ficou olhando para o grão de tal maneira que parecia dizer: “Será que alguém dá um único grão a outra pessoa?” Então ela lhe disse: “Veja quantos grãos há dentro deste único grão.”²⁷⁶ Na realidade, ela fazia alusão ao seguinte versículo da surata Az-Zalzalah:

Será em árabe.

Isto é, quem fizer uma boa ação do peso de um átomo, verá isso.

Hazrat ‘Urwa (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que, certa vez, Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) doou de uma só vez, pela causa de Allah, setenta mil dirhams que estavam diante dela e depois sacudiu a ponta de seu manto. 277 Certa vez, Hazrat Amir Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou cem mil dirhams a Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ao anoitecer, não restava sequer um centavo. Ela distribuiu tudo entre os pobres e necessitados. Por acaso, naquele dia ela estava jejuando. A serva disse: “Era preciso ter guardado alguma coisa para comprar os alimentos do iftar.” Ela respondeu: “Se ao menos você tivesse me lembrado antes.” Há muitos outros acontecimentos semelhantes. Certa vez, Hazrat ‘Abdullah ibn Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou cem mil dirhams em duas grandes bolsas. Ela despejou tudo numa bandeja e começou a distribuí-lo. Naquele dia, ela também estava jejuando. Ao entardecer, pediu à serva que trouxesse o alimento do iftar. A serva disse: “Ó Mãe dos Crentes! Não poderia ter comprado um pouco de carne para o iftar com esse dinheiro?” Ela respondeu: “Não repreenda ninguém agora. Por que não me lembrou então?” 278 Certo dia, ela estava jejuando e não havia em casa nada além de um pão. Nesse momento, uma mendiga veio pedir algo para comer. Ela disse à serva que lhe desse o pão. A serva disse: “Se dermos o pão, com que você fará o iftar à noite?” Ela respondeu: “Dê-lhe o pão agora; depois veremos.” Ao entardecer, alguém enviou carne de cabrito. Ela disse à serva: “Vê? Allah enviou algo melhor do que o seu pão.” 279 Ela vendeu sua própria casa de moradia a Amir Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) e distribuiu pela causa de Allah todo o dinheiro que recebeu. 280

Por natureza, Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era destemida e corajosa. Muitos acontecimentos de sua vida comprovam essa coragem. À noite, levantava-se de repente e ia sozinha ao cemitério. 281 Ia até o campo de batalha e permanecia ali. Na batalha de Uhud, quando reinava a desordem entre o exército muçulmano, ela carregou nas costas um odre cheio de água e deu de beber aos soldados feridos. 282 Durante a batalha da Trincheira, quando o exército politeísta havia cercado Medina por todos os lados e havia o temor de um ataque dos judeus vindo de dentro da cidade, ela ainda assim saía destemidamente da fortaleza e observava as estratégias de guerra dos combatentes muçulmanos. 283 Certa vez, chegou a pedir ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permissão para ir ao jihad, mas não recebeu autorização. 284 A habilidade com que comandou os soldados na Batalha do Camelo constitui uma prova magnífica de sua coragem natural.

No coração de Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) havia um intenso temor de Allah. Seu coração também era muito sensível. Ela começava a chorar com muita facilidade. Durante a Peregrinação de Despedida, quando não pôde realizar alguns ritos do hajj devido à menstruação, começou a chorar inconsolavelmente, pensando em sua desventura. Mais tarde, tranquilizou-se com o consolo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). 285 Certa vez, ficou tão perturbada pelo medo do Dajjal que começou a chorar. 286 Na vida posterior, sempre que se lembrava da Batalha do Camelo, chorava angustiada.

Certa vez, ela fez um juramento sobre determinado assunto. Mais tarde, devido à insistência das pessoas, foi obrigada a quebrá-lo e, como expiação, libertou quarenta escravos. Mas o episódio deixou uma marca tão profunda em seu coração que, sempre que se lembrava dele, seu véu ficava encharcado enquanto enxugava as lágrimas. 287 Já mencionamos que, ao saber das acusações dos hipócritas no incidente de Ifk, ela desabou em lágrimas. Apesar do consolo de seus pais, não conseguia parar de chorar.

Certa vez, uma mulher pobre veio a Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) com seus dois filhos pequenos, esperando receber alguma ajuda. Naquele momento, não havia muita coisa em casa. Ela deu à mulher três tâmaras. A mulher colocou uma tâmara na mão de cada um dos dois filhos e levou a terceira à própria boca. Depois de comerem suas tâmaras, as duas crianças ficaram olhando para o rosto da mãe. Então a mulher tirou a tâmara da própria boca, dividiu-a ao meio e colocou cada metade na boca de um dos filhos. Ela mesma não comeu nada. Ao ver aquela dolorosa cena de amor materno e a situação de desamparo da mulher, Hazrat ‘Aisha ficou profundamente comovida. As lágrimas começaram a rolar de seus olhos. 288

Ela permanecia dedicada à adoração durante a maior parte do dia e da noite. Realizava regularmente a oração do Duha. Dizia: “Mesmo que meu pai se levante do túmulo e me proíba de fazer esta oração, ainda assim não a abandonarei.” 289 À noite, levantava-se para rezar o Tahajjud com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Mesmo após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), era tão assídua nessa oração que se levantava cedo e a realizava antes da oração do Fajr. Certa vez, enquanto realizava essa oração, seu sobrinho Qasim chegou. Ele perguntou: “Tia, que oração é essa que você está fazendo?” Ela respondeu: “Não pude realizá-la à noite, mas agora não posso deixá-la de lado.” 290

Ela jejuava durante a maior parte do ano. Segundo algumas narrações, permanecia sempre em estado de jejum.²⁹¹ Certa vez, jejuou no dia de Arafat, durante o verão. O calor e a intensidade do sol eram tão fortes que lhe borrifavam água sobre a cabeça. Ao ver aquela situação, seu irmão, ‘Abdur-Rahman (que Allah esteja satisfeito com ele), disse: “Que necessidade há de jejuar neste calor intenso? Quebre o jejum.” Ela respondeu: “Ouvi da boca do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) que, quem jejuar no dia de Arafat, terá perdoados os pecados de todo o ano. Mesmo assim eu quebraria o jejum?”²⁹²

Ela observava o Hajj com extremo rigor. Raramente passava um ano sem que o realizasse. No final da vida do califa ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), ele enviou ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e ‘Abdur-Rahman ibn ‘Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) para acompanharem as esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) no Hajj.²⁹³ Durante o Hajj, os locais onde elas permaneciam eram determinados. Primeiro, ficavam na extremidade de Wadi Namirah. Quando começou a haver muita aglomeração ali, armavam suas tendas em um lugar chamado ‘Araf, a certa distância dali. Em algumas ocasiões, permaneciam ao pé de Jabal Sabir. Ela jejuava no dia de Arafat. Quando as pessoas começavam a deixar ‘Arafat, ela quebrava o jejum.²⁹⁴

Ela era muito bondosa para com os escravos e as escravas. Sempre que tinha oportunidade, libertava escravos sob vários pretextos. Certa vez, libertou quarenta escravos como expiação por um único juramento. O número total de escravos e escravas que libertou foi de 67 (sessenta e sete).²⁹⁵ Ela possuía uma escrava da tribo de Tamim. Ela ouviu da boca do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) que essa tribo descendia de Isma‘il (que a paz esteja sobre ele). Por indicação do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), libertou a escrava. Em Medina, havia uma escrava chamada Burayrah. Ela havia feito um acordo com seu senhor para obter a liberdade mediante o pagamento de uma quantia determinada. Depois, começou a pedir ajuda às pessoas. Quando ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) soube disso, pagou sozinha toda a quantia e a libertou. Certa vez, ‘A’ishah adoeceu. As pessoas começaram a dizer que talvez alguém tivesse feito feitiçaria. Ela chamou uma escrava e perguntou: “Foi você que fez a feitiçaria?” A escrava confessou. Ela perguntou novamente: “Por quê?” A escrava respondeu: “Para que você morresse logo e eu fosse libertada.” ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) ordenou: “Vendam-na a um homem mau e, com o dinheiro, comprem um escravo e libertem-no.” Sua ordem foi cumprida.²⁹⁶ No capítulo At-Tibb do Al-Mustadrak de Al-Hakim, relata-se que ela aplicou esse castigo à escrava por causa de seu ato contrário à Sharia.

Os pobres e necessitados devem ser ajudados de acordo com sua posição. ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) sempre prestava atenção a isso. Certa vez, um mendigo simples foi até ela. Ela lhe deu um pedaço de pão e o dispensou. Depois, chegou um mendigo vestido com roupas um pouco melhores. Pela aparência, parecia ser uma pessoa de posição elevada. Ela fez o homem sentar-se, ofereceu-lhe uma refeição e então o dispensou. Os presentes quiseram saber por que ela havia tratado os dois mendigos de maneiras diferentes. Ela respondeu: “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse que as pessoas devem ser tratadas de acordo com sua posição.”²⁹⁷

Ela dava enorme importância até às mais simples ordens e proibições da Sharia. Evitava até mesmo os pequenos atos proibidos. Se, enquanto caminhava, ouvia o som de sinos, parava imediatamente para que o som chegasse aos seus ouvidos.²⁹⁸ Em uma de suas casas havia um inquilino. Ele jogava xadrez. Ela lhe disse que, se não abandonasse aquela atividade, o expulsaria da casa.²⁹⁹

‘A’ishah bint Talhah disse: “Um jinn entrava repetidamente na casa de ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela continuou proibindo-o de entrar daquela maneira e chegou até a ameaçá-lo de morte. Mesmo assim, ele continuava vindo. Certo dia, ela golpeou o jinn com uma barra de ferro e o matou. Depois, sonhou que alguém lhe dizia: ‘Você matou fulano, embora ele tivesse participado da batalha de Badr. Ele não entrava em sua casa senão quando você não estava em estado de recato; ele ia até você para ouvir os hadiths do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).’ ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) contou esse sonho ao pai. Ele lhe disse que desse em caridade doze mil dirhams como diya (compensação de sangue). O Imam Adh-Dhahabi narrou esse acontecimento em sua obra Siyar A‘lam An-Nubala’. O Imam Ahmad, ao narrar esse acontecimento em seu Musnad, disse que o jinn vinha sob a forma de uma serpente e que ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) libertou um escravo como sua diya.

A posição e a dignidade de ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela)

É mencionado no capítulo Al-Fada’il do Sahih Muslim que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Deixo entre vós duas coisas grandiosas: o Livro de Allah e a Ahl al-Bayt (ou seja, a família e os parentes).” Os especialistas disseram: “O significado desta declaração do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) é que, embora o Livro de Allah seja facilmente compreensível e aplicável por causa de sua linguagem simples e clara, sempre haverá no mundo necessidade de pessoas capazes de desvendar seus mistérios e oferecer sua explicação erudita e prática. Depois do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), tais pessoas devem ser procuradas entre a Ahl al-Bayt.”

Todos os comentários e palavras que o Nobre Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — deixou a respeito de Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela —, Aisha também se tornou digna deles por meio da convivência e dos ensinamentos do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —. Além disso, ela se aperfeiçoou graças à sua aguda inteligência e capacidade naturais. Por isso, ninguém discorda de que ela ocupava uma posição especialmente elevada entre a Ahl al-Bayt. Com base nisso, pode-se dizer: quem poderia interpretar e explicar melhor o Livro de Allah e a Sunnah do Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, ou ensinar os mandamentos e as normas islâmicas, melhor do que ela? As pessoas viam o Profeta apenas em sua vida pública; o Profeta em sua vida privada permanecia oculto aos seus olhos. Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela —, por outro lado, teve a felicidade de ver o Profeta em todas as suas situações, tanto fora como dentro de casa. Foi por isso que o Profeta de Allah disse:³⁰⁰

Será em árabe

— A superioridade de Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — sobre as mulheres é como a superioridade do tharid sobre todos os alimentos. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — recebeu, por meio de um sonho verídico, a boa notícia de que se casaria com Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela. Fora do leito dela, o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — não recebeu revelação em nenhum outro leito de suas esposas. O grande anjo Jibril, o digno de confiança, transmitiu-lhe a saudação. Ela teve a felicidade de vê-lo duas vezes. Allah, o Senhor dos mundos, revelou versículos declarando sua inocência. O Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — também informou que ela seria sua esposa na vida futura. Todas essas declarações foram mencionadas no capítulo sobre a honra e a dignidade de Aisha no Sahih al-Bukhari.

Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — dizia: “Não estou falando por orgulho, mas apenas a realidade. Allah, o Altíssimo, concedeu-me algumas características que não concedeu a nenhuma outra pessoa: (1) um anjo mostrou ao Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — a minha imagem em sonho; (2) o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — casou-se comigo quando eu tinha sete anos; (3) fui morar com meu marido aos nove anos; (4) fui a única esposa virgem do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele; (5) mesmo quando ele estava em meu leito, a revelação lhe era enviada; (6) fui a esposa mais amada pelo Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele; (7) foram revelados versículos do Alcorão declarando minha inocência; (8) vi Jibril com meus próprios olhos; (9) o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — deu seu último suspiro com a cabeça apoiada em meu colo; (10) sou a esposa do seu califa e filha do seu siddiq; (11) fui criada pura; (12) foi-me prometido o perdão e uma excelente provisão no Paraíso; (13) no último momento da vida terrena do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, minha saliva se misturou à saliva dele; (14) ele foi sepultado em minha casa.” Ela própria mencionou outras honras e dignidades desse tipo, e muitos outros Companheiros também as narraram. Elas estão espalhadas nos livros de hadith e de sira.³⁰¹

Ao observarem todas essas honras e características de Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela —, alguns sábios consideraram que ela possuía uma posição superior até mesmo à de seu pai, Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele. O Imam al-Dhahabi disse que essa opinião deles não é aceitável. Ele afirmou que Allah, o Altíssimo, concedeu honras especiais a cada coisa. Nós, porém, testemunhamos que ela é a esposa do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — neste mundo e no Além. Haveria para ela alguma honra maior do que essa? Apesar disso, Khadija possuía características que ninguém mais conseguiu alcançar. Sim, creio que, por muitas razões, a posição de Khadija — que Allah esteja satisfeito com ela — era muito superior à dela.”³⁰²

Quando lançamos um olhar analítico e comparativo sobre a vida abençoada de Aisha, a Verídica — que Allah esteja satisfeito com ela —, a característica que encontramos nela de modo completo, não apenas em comparação com todas as mulheres Companheiras, mas também com muitos grandes Companheiros homens, é que ela recebeu, por nascimento e por natureza, uma inteligência e uma mente inclinadas à reflexão e à contemplação. Seu conhecimento profundo do significado da religião, sua capacidade e força para o ijtihad, seus métodos de crítica e análise, sua compreensão adequada dos acontecimentos, sua profunda percepção interior e sua posição na formulação de decisões e opiniões corretas e precisas eram extremamente elevados.

Tudo o que ela dizia e todas as explicações e análises que apresentava estavam inteiramente de acordo com a sabedoria e a razão. Seria difícil encontrar alguma narração sua para cuja aceitação fosse necessário submeter a inteligência e a sabedoria humanas a diversos tipos de ta’wil ou interpretação. É verdade, naturalmente, que, por ser uma das pessoas mais próximas do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, ela teve uma excelente oportunidade de estudar todas as suas palavras e ações. Mas, quando vemos que, além dela, havia muitas outras pessoas cuja proximidade com ele não era em nada inferior à dela, a superioridade da inteligência e do entendimento de Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — torna-se evidente diante de nós. Voltamos sempre ao mesmo ponto: muitos outros, além de Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela —, ouviam as palavras proferidas pelo Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, mas não conseguiam alcançar as conclusões a que ela chegava, nem compreender, tanto quanto sua inteligência e sua mente eram capazes, a essência e o verdadeiro espírito dessas palavras.

A Mãe dos Crentes, Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela —, foi uma das alunas mais brilhantes do círculo de ensinamentos do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. A extensão e a profundidade de seu conhecimento eram incomparáveis. Sua superioridade no conhecimento não se limitava às mulheres de sua época, a todas as Mães dos Crentes — as esposas do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, mães de todos os crentes do mundo, ou a uma parte dos Companheiros; ela se estendia a todos os Companheiros, exceto alguns Companheiros eminentes. Abu Musa al-Ash‘ari — que Allah esteja satisfeito com ele — disse:³⁰³ “Nós, Companheiros de Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, jamais enfrentamos um problema difícil sobre o qual tivéssemos perguntado a Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — sem encontrar junto dela conhecimento a respeito.”

Hazrat Abu Musa al-Ash‘ari (que Allah esteja satisfeito com ele) era um Companheiro de posição extremamente elevada. A partir de seu comentário acima, pode-se ter uma ideia da extensão e da amplitude do conhecimento de Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). O ilustre tabi‘i Hazrat ‘Ata ibn Abi Rabah — que teve a fortuna de ser aluno de muitos Companheiros — disse: 304

Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era a maior faqih entre as pessoas, a mais conhecedora e aquela que possuía as melhores opiniões entre o povo em geral.

O ilustre Imam Zuhri, famoso como o imam dos tabi‘in — que foi criado sob a orientação de vários Companheiros de altíssima posição — disse: 305

— Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era a maior ‘alim entre as pessoas. Muitos dos grandes Companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) consultavam-na.

Abu Salama, filho digno do ilustre Companheiro Hazrat ‘Abd al-Rahman ibn ‘Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) e um tabi‘i de posição extremamente elevada, disse: 306

‘No conhecimento da Sunnah do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), na formulação de decisões sobre questões necessárias, no conhecimento das circunstâncias da revelação dos versículos e nas questões obrigatórias, não vi ninguém mais versado nem dotado de opiniões mais seguras do que ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).

Certa vez, Hazrat Amir Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou a um homem de sua corte: “Diga-me, quem é atualmente o maior ‘alim?” O homem respondeu: “Ó Amir al-Mu’minin! O senhor.” Amir Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Não. Eu lhe peço solenemente: diga a verdade.” Então o homem respondeu: “Se é assim, então é ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).”

Hazrat ‘Urwa ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

Em árabe, será:

—Não vi ninguém mais versado que a Mãe dos Crentes, ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela), em halal e haram, conhecimento, poesia e medicina.

Em outra narração, as palavras de Hazrat ‘Urwah aparecem da seguinte forma:

Em árabe, será:

—No Alcorão, na ciência das leis de herança, em halal e haram, fiqh, poesia, medicina, história dos árabes e genealogia, não vi nenhum sábio maior que ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela).

O famoso tabi‘i Hazrat Masruq (que Allah esteja satisfeito com ele), que foi educado e criado sob a orientação de Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela), certa vez foi questionado: “A Mãe dos Crentes, ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela), conhecia a ciência das leis de herança?” Ele respondeu:

Em árabe, será:

—Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida! Vi os mais eminentes Companheiros do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) fazerem perguntas a ela sobre as leis de herança. As outras esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) também cumpriram a responsabilidade e o dever de preservar, transmitir e divulgar os hadiths e a Sunnah do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Contudo, nenhuma delas conseguiu alcançar o nível de Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela). A esse respeito, Mahmud ibn Labid comentou:

Será em árabe

—As esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) memorizaram muitos hadiths. Contudo, ninguém conseguiu igualar-se a ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela).

Sobre isso, o Imam Zuhri (que Allah esteja satisfeito com ele) dá testemunho:

Será em árabe

—Se o conhecimento de todas as pessoas e das esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fosse reunido, o conhecimento de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) seria o mais amplo e abrangente entre eles.

Segundo outro relato, o Imam Zuhri disse: “Se o conhecimento de todas as mulheres e o conhecimento de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) fossem reunidos, o conhecimento de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) seria superior.”

À luz dos relatos acima, o ‘Allama Dhahabi disse: “Ela era um vasto tesouro de conhecimento.” Ele também disse: “Entre a Ummah de Muhammad, e entre as mulheres em geral, não há ninguém mais instruída do que ela.”

Ao mencionar as virtudes de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), alguns muhaddithin narram um hadith do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz):

Será em árabe

—Recebei uma parte da vossa religião de Humayra. No conhecimento e no ijtihad, ou seja, no saber e na investigação, Hazrat ‘A’isha (ra) conseguiu ocupar uma posição de destaque não apenas entre as mulheres, mas também entre os homens. Seu nome pode ser mencionado sem hesitação junto aos de ‘Umar (ra), ‘Ali (ra), ‘Abdullah ibn Mas‘ud (ra), ‘Abdullah ibn ‘Abbas (ra) e outros, tamanha era a sua elevada posição e dignidade no conhecimento do Alcorão, da Sunna, do fiqh e dos ahkam. Apresentamos aqui, brevemente, uma discussão sobre a extensão e a profundidade de seu conhecimento em diversas áreas.

O Alcorão

Sabemos que o Sagrado Alcorão foi revelado ao longo de vinte e três anos. Hazrat ‘A’isha (ra) entrou na casa do Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam) no décimo quarto ano da revelação do Alcorão e permaneceu ali apenas nove anos. O período de sua convivência com o Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam) não ultrapassou dez anos. A maior parte do período da revelação do Alcorão transcorreu antes de seu desenvolvimento intelectual e de sua maturidade. Contudo, uma pessoa dotada de uma inteligência e de uma capacidade mental tão extraordinárias não permitiu que nem mesmo sua infância fosse desperdiçada. Em Meca, o Mensageiro de Allah (sallallahu ‘alayhi wa sallam) visitava em diferentes ocasiões a casa de Hazrat Siddiq-e Akbar (ra). Siddiq-e Akbar (ra) também havia construído uma mesquita em sua própria casa. Sentado ali, recitava o Sagrado Alcorão com extrema humildade e um coração tomado de temor reverencial.

Era impossível que Hazrat ‘A’isha (ra), devido à sua extraordinária memória, não tirasse proveito de todos esses ambientes e circunstâncias. Por isso, ouvimos dizer a respeito dela, sobre o terceiro versículo da surata Al-Qamar—

Será em árabe

ouvimos dizer a respeito:

Será em árabe

Este versículo foi revelado em Meca a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eu era então uma menina pequena e brincava.

Quando ocorreu o incidente do ifk (acusação forjada), Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) devia ter cerca de 13 ou 14 anos. Até então, ela não havia memorizado uma grande parte do Alcorão. Ela mesma disse:

Será em árabe

—Naquela época eu era uma menina muito jovem e não havia lido muito do Alcorão. Apesar disso, já então apresentava citações do Alcorão.

Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha um escravo chamado Abu Yunus. Ele sabia ler e escrever. Ela fez com que esse Abu Yunus escrevesse o Alcorão para seu uso pessoal.

Devido à convivência com os não árabes, foi no Iraque que se verificaram as maiores diferenças na recitação do Alcorão.

Certa vez, um homem veio do Iraque visitar Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ele disse: “Ó Umm al-Mu’minin! Mostre-me um pouco o seu exemplar do Alcorão.” Quando Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou o motivo, ele respondeu: “Em nossa região, as pessoas ainda não seguem nenhuma ordem na recitação do Alcorão. Quero organizar o meu exemplar de acordo com o seu.” Ela disse: “Não há prejuízo se a ordem das suratas estiver adiantada ou atrasada.” Em seguida, trouxe seu próprio exemplar e fez com que ele escrevesse, recitando os versículos de cada surata.

Durante sua vida conjugal com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha o hábito de, quando não compreendia o significado de algum versículo, perguntar ao seu esposo, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e obter dele a explicação. Nos hadiths autênticos, são narradas suas perguntas ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) acerca de muitos versículos. Além disso, da parte de Allah, foi dada às esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), as Mães dos Crentes, a seguinte ordem:

Será em árabe

— Ó membros da família do Profeta! Lembrai-vos dos versículos de Allah e das palavras repletas de sabedoria que são recitados em vossas casas.

Eles cumpriam essa orientação conforme sua capacidade e suas possibilidades. Durante a oração do tahajjud, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recitava as grandes suratas do Alcorão com extrema concentração, humildade e submissão. Nessas orações, a nobre ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) também rezava atrás do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Com exceção da nobre ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), a revelação do Alcorão não ocorreu no leito de nenhuma outra esposa. Assim, era aos seus ouvidos que chegava primeiro o som dos versículos revelados. Ela disse: “Quando foram reveladas a surata Al-Baqara e a surata An-Nisa, eu estava junto do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).

Em suma, devido a todos esses ambientes e circunstâncias, a nobre ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) adquiriu plena competência quanto à maneira de recitar cada versículo do Alcorão, seu peso e significado, bem como aos métodos para deduzir dele as normas e os mandamentos. Por isso, quando lhe perguntavam sobre qualquer assunto, ela primeiro consultava o Sagrado Alcorão. Além das crenças, da jurisprudência e das normas, ela procurava compreender pelo Sagrado Alcorão tudo o que se relacionava à sira e à moral do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), bem como à história fundamental. Certa vez, algumas pessoas foram visitá-la. Disseram: “Ó Mãe dos Crentes! Narrai-nos algo sobre a moral do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz)!” Ela respondeu: “Acaso não ledes o Alcorão? A sua moral era o Alcorão.” Eles perguntaram novamente: “Como era o método de adoração noturna do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz)?” Ela respondeu: “Acaso não lestes a surata Al-Muzzammil?”

Poucas exegeses do Nobre Alcorão foram transmitidas dos Companheiros por meio de cadeias de transmissão autênticas. Entre as que foram transmitidas, não são poucas as narrações exegéticas da nobre ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Apresentamos aqui algumas delas, resumidamente:

Correr entre os dois montes de Safa e Marwa é um dos principais atos do hajj. A respeito disso, foi revelado no Sagrado Alcorão o seguinte versículo:

Será em árabe

— Sem dúvida, Safa e Marwa estão entre os símbolos de Allah, o Altíssimo. Portanto, para aqueles que realizam o hajj ou a ‘umra na Casa da Caaba, não há pecado em fazer o tawaf entre ambos.

Certo dia, ‘Urwa disse: “Tia! O significado deste versículo é justamente que não há culpa alguma se alguém não fizer a circunvolução entre Safa e Marwa.” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Meu sobrinho! Você não está correto. Se o significado do versículo fosse o que você entendeu, Allah teria dito assim:

Seria em árabe

— isto é, não há culpa alguma por não fazerem a circunvolução entre elas. Na realidade, o versículo foi revelado a respeito dos Ansar. Antes do Islã, os membros das tribos Aws e Khazraj de Medina adoravam a deusa Manat. O ídolo de Manat ficava no monte Mushallal, perto de Qudaid. Por isso, eles consideravam ruim fazer a circunvolução entre Safa e Marwa. Depois de aceitarem o Islã, perguntaram ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Antes do Islã, fazíamos isso; qual é a determinação agora?” Foi nesse contexto que Allah disse: “Fazei a circunvolução entre Safa e Marwa; nisso não há culpa alguma.” Em seguida, ela disse: “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fez a circunvolução entre Safa e Marwa. Agora, ninguém tem o direito de abandoná-la.”

O princípio que se depreende da exegese de Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) é que, para compreender o Alcorão, é preciso compreendê-lo com base na gramática árabe e no uso das palavras pelos árabes.

Na ayah 110 da Surata Yusuf, Allah, o Exaltado, diz:

Seria em árabe

— por fim, quando os Mensageiros perderam a esperança e as pessoas pensaram que os Mensageiros haviam recebido uma promessa falsa, chegou-lhes o Meu auxílio.

Hazrat ‘Urwa perguntou a Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Seria em árabe?”

(isto é, foi feita aos Mensageiros uma falsa promessa) será, e não será em árabe.

(isto é, eles foram chamados de mentirosos) será? ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: será em árabe.

(foram chamados de mentirosos). ‘Urwah disse: Os Mensageiros tinham plena convicção de que haviam sido chamados de mentirosos e de que seu próprio povo havia rejeitado como falsa a sua alegação de profecia. Então, qual é o significado da expressão «eles imaginaram ou supuseram»? Por isso, será mais correto entender que «foi feita a eles uma falsa promessa». Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Deus me livre! Poderiam os Profetas e Mensageiros de Allah nutrir acerca de Allah a ideia de que lhes havia sido feita uma falsa promessa de auxílio? Então Hazrat ‘Urwah quis saber: Qual será, nesse caso, o significado do versículo? Ela respondeu: A expressão refere-se aos seguidores dos Mensageiros. Quando eles creram e reconheceram como verdadeira a profecia deles, seus próprios compatriotas passaram a persegui-los e oprimi-los. Naquele momento, devido à demora da ajuda de Allah, eles pensaram assim. Até os Mensageiros chegaram a perder a esperança de que os descrentes de seu povo viessem a crer. Eles temeram que, por causa dessa demora da ajuda de Allah, os crentes acabassem por considerá-los mentirosos. Foi então que, de repente, chegou a ajuda de Allah.

Quando uma esposa tem uma queixa contra o marido, a orientação do Alcorão é:

será em árabe

— Se uma esposa teme maus-tratos ou indiferença por parte do marido, não haverá culpa se ambos desejarem chegar a um acordo; e chegar a um acordo é melhor.

Chegar a um acordo para eliminar o descontentamento é algo comum. Por que seria necessário que Allah, o Altíssimo, revelasse uma ordem específica para isso? Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que este versículo foi revelado a respeito da esposa cujo marido não se aproxima muito dela. Ou a respeito da esposa que, por causa de sua idade avançada, não é capaz de satisfazer o marido. Em uma situação tão especial, se a esposa não quiser pedir o divórcio e, permanecendo como esposa, abrir mão dos direitos que lhe são devidos perante o marido, tal acordo não será condenável. Pelo contrário, é melhor do que se separarem.

Allah, o Altíssimo, disse no versículo 238 da Surata Al-Baqara:

Será em árabe

—Sede diligentes em todas as orações, especialmente quanto à oração intermediária. Há divergência entre os Companheiros sobre o que se pretende com “oração intermediária”. Segundo Zayd ibn Thābit e Usāmah (que Allah esteja satisfeito com ambos), a oração intermediária é a oração do meio-dia. Segundo alguns Companheiros, é a oração da alvorada. ‘Ā’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que por “oração intermediária” se entende a oração da tarde. Ela estava tão firmemente convencida de sua exegese que mandou escrever a expressão “será em árabe” na margem de seu exemplar do Alcorão. Abū Yūnus, servo de ‘Ā’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela), disse: ela me ordenou que escrevesse um exemplar do Alcorão e disse: “Quando chegares a este versículo, avisa-me.” Quando cheguei a este versículo, ela mandou escrever a expressão “será em árabe”.

Depois, disse: “Foi assim que ouvi do Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele).”

Na realidade, “será em árabe” não é um versículo do Alcorão; ao contrário, “será em árabe” é sua exegese. No versículo 284 da Surata Al-Baqarah, Allah, o Altíssimo, diz:

Será em árabe

—Quer manifesteis ou oculteis o que está em vossos corações, Allah vos pedirá contas disso. Então, perdoará a quem quiser e castigará a quem quiser.

Este versículo dá a entender que Allah pedirá contas de todos os pensamentos e imagens que surgem, por um instante, no coração humano. Porém, se Ele também responsabilizasse pelas tentações e pelos pensamentos involuntários que surgem, seria impossível o ser humano obter salvação. ‘Alī e Ibn ‘Abbās (que Allah esteja satisfeito com ambos) disseram que a determinação deste versículo foi ab-rogada pelo versículo 286 da mesma surata. O significado do versículo é o seguinte:

“Allah não impõe a ninguém uma responsabilidade além de sua capacidade; ele terá o que houver adquirido, e contra ele haverá o que houver praticado.”

O honorável ‘Abdullah ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) também sustentava a opinião mencionada acima. Certa pessoa perguntou à honorável ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) o significado do versículo citado anteriormente e, ao mesmo tempo, apresentou o versículo 123 da surata An-Nisā’. O significado do versículo é: “Quem praticar o mal receberá a sua punição.” A questão levantada era: se essa é a situação, como os servos de Allah alcançarão o Seu perdão e a Sua misericórdia, e como poderão esperar a salvação? A honorável ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Depois de eu ter perguntado ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a interpretação deste versículo, tu és a primeira pessoa a me fazer essa pergunta.” A palavra de Allah é verdadeira. Contudo, o Altíssimo perdoa aos Seus servos os pequenos erros e faltas por meio de diversos sofrimentos e tribulações. Assim, quando um crente adoece ou alguma calamidade lhe sobrevém, ou quando esquece onde deixou alguma coisa e fica inquieto procurando-a, tudo isso se torna uma causa e um meio para que alcance o perdão e a misericórdia de Allah. Por fim, chega-se a uma situação em que, assim como o ouro se torna puro ao ser queimado no fogo, o crente também se despede deste mundo purificado e imaculado.

No sexto versículo da surata An-Nisā’, fala-se sobre os bens dos órfãos:

Será em árabe

— Os que são abastados devem abster-se completamente de gastar os bens dos órfãos. Quanto ao necessitado, poderá comer deles uma quantia razoável.

A instrução deste versículo diz respeito aos responsáveis pelos órfãos. O honorável Ibn ‘Abbās (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que a determinação do versículo mencionado foi ab-rogada pelo décimo versículo da surata An-Nisā’, citado a seguir:

Será em árabe

— Aqueles que consomem injustamente os bens dos órfãos apenas enchem seus ventres de fogo.

Entretanto, o versículo seguinte fala da punição daqueles que consomem injustamente os bens dos órfãos. Por isso, a honorável ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que o versículo que permite comer deles se aplica às pessoas que administram os bens, o patrimônio e os negócios dos órfãos. Se tal responsável for abastado, não deve receber qualquer remuneração. Mas, se for pobre, poderá receber algo de acordo com a sua condição. Assim, com base na interpretação da honorável ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), não há contradição entre o significado dos dois versículos. Muitas outras interpretações de versículos semelhantes aos citados acima foram transmitidas pela honorável ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) nas coletâneas de hadith e de exegese.

O Hadith:

A própria pessoa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é, essencialmente, o objeto de estudo da ciência do Hadith. Por isso, aquela que teve a maior oportunidade de desfrutar da proximidade do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi, naturalmente, a pessoa mais bem informada a esse respeito. Ela se casou com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) três anos antes da Hégira. Após a Hégira, porém, permaneceu privada da companhia do marido durante seis meses. Poucos dias depois de chegar a Medina, foi para a casa do marido e, a partir de então, nunca mais se separou dele. A primeira fase do Islam transcorreu durante sua infância. Mas sua inteligência natural e sua memória compensaram essa desvantagem. Entre as esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), somente Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela) era mais velha que Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) no que dizia respeito à convivência com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Sua força física e mental estava começando a declinar. Alguns anos antes do falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ela já havia se tornado incapaz de servir ao marido. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), por outro lado, era uma mulher ainda jovem. Nessa idade, sua inteligência e sabedoria desenvolviam-se dia após dia. Ela teve a oportunidade de servi-lo até os últimos momentos da vida terrena do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por isso, seu conhecimento sobre toda a condição do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e sobre todas as normas da Shariah era maior que o de todos os demais.

Com exceção de Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela), as demais esposas se casaram com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) depois de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Como Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela), por causa da idade avançada, cedeu a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) o seu dia de permanência com o marido, enquanto as outras tinham a oportunidade de desfrutar da companhia exclusiva do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) um dia a cada oito, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha dois dias. Além disso, por uma feliz coincidência, a casa de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) ficava junto à mesquita que era o centro de ensino público do Mensageiro de Allah (que Allah esteja satisfeito com ele). Por todas essas razões, nenhuma das esposas conseguiu igualar Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) no conhecimento dos Hadiths e da vida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

O número de Hadiths narrados por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) é tão grande que, entre as esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), todas as mulheres Companheiras e todos os homens Companheiros, somente quatro ou cinco Companheiros podem reivindicar igualdade com ela. Grandes Companheiros, como Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), estavam muito acima de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) em posição, devido à sua longa companhia, percepção aguçada, inteligência e outras qualidades. Contudo, o conhecimento que uma esposa naturalmente adquire sobre o marido em um mês não pode ser adquirido por parentes e amigos nem em muitos anos. Por outro lado, esses Companheiros de elevada posição logo após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficaram extremamente ocupados com as responsabilidades iniciais do califado. Por isso, tiveram muito pouco tempo e oportunidade para narrar os Hadiths do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ainda assim, os Hadiths narrados ou preservados por eles dizem respeito a julgamentos e normas. Eles constituem a base da nossa ciência do Fiqh. Na realidade, a principal responsabilidade de narrar os Hadiths foi desempenhada por aqueles que estavam livres da responsabilidade de administrar o califado.

Além disso, há outra razão para o número tão reduzido de Hadiths narrados por esses Companheiros de elevada posição. A época deles era inteiramente a época dos Companheiros. Naquele período, raramente era necessário que alguém perguntasse a outro sobre as palavras ou os atos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Portanto, também eram muito poucas as oportunidades de narrar Hadiths. A geração posterior, formada por aqueles que não viram o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nem viveram em sua época, foi a dos Tabi’in. Sua época começou, em essência, vinte ou vinte e cinco anos após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eles eram os que desejavam conhecer minuciosamente a vida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Entretanto, nessa época, aqueles Companheiros de elevada posição já haviam partido deste mundo. Por outro lado, os Companheiros mais jovens haviam chegado à fase intermediária ou final de suas vidas. Foram eles que saciaram a sede dos Tabi’in de conhecer a vida e os atos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por essa razão, os Companheiros cujos nomes aparecem nas coleções de Hadith como os narradores de grande número de Hadiths eram quase todos Companheiros que ainda eram jovens na época do falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Os Companheiros que narraram mais de mil Hadiths foram apenas sete. A seguir, são mencionados seus nomes e o número de Hadiths que narraram:

1. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) 5364

2. Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) 2660

3. Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) 2630

4. Hazrat Jabir ibn ‘Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) 2540

5. Hazrat Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) 2686

6. Hazrat Abu Sa‘id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) 2270

7. Hazrat ‘A’isha Siddiqah (que Allah esteja satisfeito com ela) 2210

De acordo com os números ao lado dos nomes mencionados acima, Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ocupa o sétimo lugar entre os narradores de hadith. Naturalmente, esta lista não é universalmente aceita. Segundo muitos, ninguém, além de Hazrat Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), narrou mais hadiths do que Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). De acordo com eles, Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ocupa o terceiro lugar entre os que mais narraram hadiths.

A maioria daqueles cujos nomes foram mencionados aqui como os que mais narraram hadiths continuou viva mesmo após o falecimento de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), Mãe dos Crentes. Portanto, a continuidade de suas narrações prosseguiu por algum tempo. Em comparação com os homens, Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha algumas obrigações adicionais. Por exemplo, ela era uma mulher que observava o hijab. Não podia estar presente em todas as assembleias como os narradores homens, e os estudantes também não podiam visitá-la a qualquer momento, sempre que desejassem. Ao contrário dos outros, ela não teve a oportunidade de ir às grandes cidades do então Califado Islâmico. Se tivesse conseguido usufruir de todas as oportunidades e facilidades, como os narradores homens, ela ocuparia o primeiro lugar entre todos.

Como se soube da discussão anterior, o número total de hadiths narrados por Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) é de dois mil duzentos e dez (2210). Dentre eles, 286 hadiths foram compilados no Sahihain — Bukhari e Muslim. Destes, 174 são muttafaq ‘alayh, 53 foram narrados somente por Bukhari e 69 exclusivamente por Muslim. Assim, um total de 228 hadiths aparece em Bukhari e 243 em Muslim. Além disso, os demais hadiths de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) foram compilados com suas cadeias de transmissão em várias obras. Todos os hadiths narrados por Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) foram compilados no sexto volume do Musnad do Imam Ahmad (que Allah esteja satisfeito com ele) (Misr). A elevada posição e a grande honra de que Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) desfruta perante a comunidade muçulmana não se devem ao grande número de hadiths que narrou; o principal é sua profunda e sutil compreensão do significado dos hadiths e de sua orientação fundamental. Entre os Companheiros, há muitos cujo número de hadiths narrados é muito pequeno. No entanto, eles pertencem ao grupo dos Companheiros faqih de alto nível. Aqueles que, sem compreender o significado essencial das palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), narraram tudo o que ouviram têm um grande número de narrações. Vemos que, entre todos os Companheiros famosos por narrarem muitos hadiths, somente Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) foram reconhecidos como faqih e mujtahid. Diz-se que um quarto de todas as disposições jurídicas da Shariah foi transmitido por meio dela. Por isso, o erudito al-Dhahabi disse:

Será em árabe

-Os companheiros juristas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sabiam disso por meio dele. Um grupo de pessoas adquiriu diretamente dele um conhecimento profundo da religião.

Além de narrar muitos relatos, Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) possuía uma profunda compreensão do significado da religião e uma grande capacidade de deduzir preceitos e determinações jurídicas. Uma característica especial de suas narrações é que, ao relatar os preceitos e acontecimentos, na maioria dos casos ela também explicou suas causas. Para esclarecer essa característica de suas narrações, apresenta-se aqui uma breve análise comparativa com as narrações de outros narradores.

Sobre o banho ritual na sexta-feira, há narrações no Sahih al-Bukhari transmitidas por Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Umar, Hazrat Abu Sa‘id al-Khudri e Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com todos eles). Aqui são apresentados exemplos das narrações dos três. Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Umar disse:

Será em árabe

-Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: quem quer que vá à oração de sexta-feira entre vós deve necessariamente tomar um banho ritual antes de ir.

Hazrat Abu Sa‘id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

Será em árabe

-O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: É obrigatório que toda pessoa adulta tome banho na sexta-feira.

A narração de Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) sobre o mesmo assunto é a seguinte:

Será em árabe

-As pessoas vinham de suas casas e dos povoados situados fora de Medina. Vinham através da poeira e da areia. Por isso, ficavam cobertas de suor e poeira. Certa vez, enquanto o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava comigo, um daqueles homens foi até ele. Então o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Teria sido melhor se vocês tivessem tomado banho neste dia.

Outra narração de Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) é a seguinte:

Será em árabe

-As pessoas trabalhavam com as próprias mãos. Quando iam à oração de sexta-feira, iam naquele estado. Então lhes foi dito: Teria sido melhor se vocês tivessem tomado banho.

Registramos acima três narrações sobre o mesmo assunto. Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) explicou claramente por que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou o banho na sexta-feira — algo que não aparece nas outras duas narrações.

Certa vez, o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que a carne do sacrifício fosse consumida dentro de três dias. Não se devia guardá-la por mais de três dias. Muitos Companheiros, entre eles Abdullah ibn Umar e Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com eles), consideravam essa ordem permanente. Muitos deles costumavam dizer isso às pessoas. No entanto, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) não considerava essa uma ordem permanente ou definitiva. Ela acreditava que se tratava de uma ordem temporária.

Ela relatou o assunto da seguinte maneira:

Será em árabe

– Costumávamos conservar a carne do sacrifício com sal. Em Medina, apresentávamos essa carne para que fosse consumida diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele disse: «Não comam esta carne depois de três dias». Isso não era uma proibição definitiva. Pelo contrário, ele queria que as pessoas dessem parte dessa carne também a outras pessoas, para que elas pudessem comer.

Em outro hadith de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), narrado pelo Imam Tirmidhi, ela explicou a verdadeira razão dessa proibição. Um homem perguntou: «Ó Mãe dos Crentes! É proibido comer a carne do sacrifício depois de três dias?» Ela respondeu:

Será em árabe

– Não. Porém, naquela época, havia poucas pessoas que ofereciam sacrifícios. Por isso, ele queria que aqueles que não tinham podido oferecer um sacrifício também recebessem dessa carne para comer.

O Imam Ahmad narrou o hadith da seguinte maneira:

Será em árabe

—Não é correto dizer que a carne do sacrifício não pode ser consumida depois de três dias. Naquele período, porém, pouquíssimas pessoas conseguiam oferecer um sacrifício. Por isso, ele ordenou que aqueles que oferecessem um sacrifício dessem carne para aqueles que não pudessem fazê-lo.

O Imam Muslim narrou este hadith sob a forma de uma informação. Certa vez, surgiu escassez nos arredores de Medina e nas áreas rurais. Naquele ano, ele deu essa ordem. No ano seguinte, quando já não havia escassez, revogou essa ordem. Há também uma narração semelhante transmitida por Hazrat Salama ibn Al-Akwa (que Allah esteja satisfeito com ele).

Na Casa da Caaba, depois de uma das paredes, foi deixado um espaço, chamado Hatim. Durante o tawaf, deve-se circundar a Caaba incluindo o Hatim dentro do circuito. Pode surgir no coração das pessoas a pergunta: por que também se deve fazer o tawaf em torno de algo que não faz parte da Caaba? Talvez muitos companheiros tenham pedido ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a resposta para essa pergunta. Contudo, não se encontra nos livros de hadith nenhuma narração significativa deles sobre isso. Encontramos a resposta na narração de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela disse: “Perguntei: Ó Mensageiro de Allah! Esta parede também faz parte da Casa da Caaba? Ele respondeu: Sim! Perguntei: Então, por que as pessoas não a incluíram na construção? Ele respondeu: O teu povo não tinha recursos suficientes. Por isso, deixou esta parte de fora. Perguntei novamente: Então, por que a porta da Caaba fica tão alta? Ele respondeu: Para que ele permita a entrada de quem quiser e impeça quem quiser.”

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Se a narração de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) estiver correta, entende-se que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não beijou também aquelas duas colunas por esse motivo. Mas a questão é: quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sabia que a Casa da Caaba não estava completamente assentada sobre seus alicerces originais, não há dúvida de que, como o profeta sucessor de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja sobre ele) e aquele que reviveu a sua sharia, Muhammad, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), tinha conhecimento disso. Por isso, respondeu à pergunta de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): ‘Aisha! Se o teu povo não estivesse tão próximo do período de sua incredulidade, eu demoliria a Caaba e a reconstruiria sobre os alicerces originais de Ibrahim.’ Como os árabes em geral haviam aceitado o Islam recentemente, temia-se que, se a Casa da Caaba fosse reconstruída naquele momento, eles se revoltassem. Por esse receio, isso não foi feito. Este hadith mostra que, se a implementação de uma determinação da sharia for adiada com base em um benefício maior, isso não será censurável. A condição, porém, é que a sharia não exija a implementação imediata dessa determinação.”

Com base nessa narração de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), seu sobrinho, Hazrat Abdullah ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele), durante seu califado, ampliou a Casa da Caaba e a estabeleceu sobre os alicerces originais de Ibrahim (que a paz esteja sobre ele). Após o martírio de Ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele), quando o califa Abd al-Malik voltou a estabelecer seu domínio sobre Meca, demoliu essa construção, supondo que Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) a tivesse feito com base em seu próprio ijtihad, e a reconstruiu como antes. Porém, quando soube que Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) não a havia feito com base em seu próprio ijtihad, mas sim com base nessa narração da Mãe dos Crentes, sentiu profunda vergonha e arrependimento pelo que havia feito.

Após o falecimento do Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), surgiu uma divergência entre os companheiros ilustres sobre onde ele deveria ser sepultado. Segundo uma narração, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse então: “Os profetas são sepultados no lugar onde dão o último suspiro.” Por esse motivo, o Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi sepultado no quarto de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), onde faleceu. Contudo, a verdadeira razão é encontrada na narração de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela disse:

Será em árabe

— O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse durante sua doença final: “Que Allah lance Sua maldição sobre os judeus e os cristãos! Eles transformaram os túmulos de seus profetas em locais de adoração.” ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Se não houvesse esse temor, o túmulo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estaria em campo aberto. Contudo, ele temia que seu túmulo fosse transformado em mesquita.”

Foi justamente por causa desse temor manifestado pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que ele foi sepultado no mesmo lugar onde faleceu.

Da mesma forma, uma explicação clara da Hégira pode ser encontrada em um hadith de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), narrado por al-Bukhari. Em geral, as pessoas entendiam por Hégira abandonar sua terra natal e estabelecer-se em Medina. Mas ela disse: “Agora não há mais Hégira. A Hégira existia quando as pessoas, temendo por suas vidas e para preservar sua religião, dirigiam-se a Allah e a Seu Mensageiro. Essa situação já não existe. Portanto, a verdadeira Hégira também não ocorrerá.” Por isso, Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia: “Depois da conquista de Meca, não há mais Hégira.”

Segundo os muhaddithun e os estudiosos da ciência de al-jarh wa at-ta‘dil (crítica e avaliação), entre os hadiths narrados por ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), os erros são relativamente muito poucos. Há uma razão especial para isso. Os Companheiros em geral talvez ouvissem uma declaração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) uma única vez, ou o vissem realizar algum ato, e então transmitissem exatamente essa declaração ou ação a outros. ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), porém, tinha por hábito não transmitir uma declaração ou um acontecimento enquanto não o tivesse compreendido bem. Quando não compreendia alguma palavra ou atitude do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), fazia perguntas repetidamente até compreendê-la. Muitos desses questionamentos são registrados nos livros de hadith. Os demais, entretanto, raramente tinham essa oportunidade.

Quanto aos hadiths que não ouvira diretamente, mas recebera por meio de outras pessoas, ela era extremamente cuidadosa ao transmiti-los. Só os narrava depois de uma verificação minuciosa, análise crítica e investigação completas, quando alcançava plena confiança. Certa vez, o ilustre Companheiro ‘Abdullah ibn ‘Amr ibn al-‘As (que Allah esteja satisfeito com ele) contou-lhe um hadith. Um ano depois, quando ele voltou, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) enviou-lhe um homem para ouvir novamente aquele hadith. ‘Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou-o exatamente como antes, sem qualquer alteração, acréscimo ou omissão. O homem voltou e contou o hadith a ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Então ela comentou: “Juro por Allah, lembro-me das palavras de Ibn ‘Amr.”

Com base nesse princípio, quando recebia uma narração de alguém e outra pessoa ia até ela para ouvi-la, encaminhava-a ao narrador original. O objetivo era reduzir tanto quanto possível os intermediários na cadeia de transmissão do hadith e convertê-la em uma cadeia mais elevada. Por exemplo, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava realizar a oração do ‘Asr na mesquita e, depois, voltar para casa e fazer a oração sunnah. Entretanto, a instrução definitiva era que não se fizesse nenhuma oração depois do ‘Asr. Algumas pessoas enviaram um homem a ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) para saber qual era a realidade do hadith transmitido por sua autoridade. Ela disse: “Vão perguntar a Umm Salama. Ela é a verdadeira narradora desse hadith.” Certa vez, quando um homem lhe perguntou sobre passar as mãos úmidas sobre as meias de couro, ela disse: “Vá até ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele acompanhava o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em suas viagens.”

Assim como manteve suas próprias narrações livres de qualquer tipo de erro, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também corrigiu em muitas ocasiões as narrações de outras pessoas. Ela identificava e corrigia com grande rigor até mesmo os menores erros nas narrações de seus contemporâneos. Na terminologia dos muhaddithun, isso é conhecido como ‘idrāk.

‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) acreditava que qualquer narração que contradissesse a Palavra de Allah não poderia estar correta. Mais tarde, os especialistas na ciência dos hadiths adotaram esse princípio como uma das principais regras para verificar e avaliar os hadiths. Com base nesse princípio, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) recusou-se a aceitar como corretas muitas narrações de outras pessoas. De acordo com seu próprio conhecimento, ela explicou o verdadeiro sentido e significado dessas narrações. Por exemplo, o nobre Companheiro ‘Abdullah ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), o nobre Companheiro ‘Abdullah ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e vários outros Companheiros narraram:

Será em árabe.

Isto é, o falecido é punido por causa do choro dos familiares.”

Quando fizeram este relato à venerável ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), ela o rejeitou e não o aceitou. Disse: “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) jamais disse tal coisa. O que aconteceu foi que, certo dia, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) passava junto ao cadáver de um judeu e viu que seus parentes haviam começado a gritar e a lamentar-se. Então ele disse: ‘Eles estão chorando, enquanto ele está sendo castigado.’ O sentido das palavras de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) é que a causa do castigo não é o choro. Isto é, eles estão lamentando-se, enquanto o falecido está sendo castigado por seus atos passados. Afinal, o choro é ação de outra pessoa. Por que o falecido haveria de sofrer as consequências da ação de outrem? Por isso, ela disse: ‘O Alcorão é suficiente para vós.’ Allah disse:

Será em árabe.

Ninguém carregará o fardo de outro.”

O narrador Ibn Abi Mulayka disse: quando o venerável Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ouviu tal relato e a conclusão da venerável ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), não conseguiu dar nenhuma resposta.

O Imam Bukhari (que Allah tenha misericórdia dele), em uma seção separada do capítulo Al-Jana’iz de sua obra Sahih, tentou conciliar os dois relatos, o da venerável ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) e o de Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse que, se o choro e o lamento eram hábitos do falecido durante sua vida, e se ele, enquanto vivo, não havia proibido seus familiares de praticarem tais atos, então ele será castigado pelo lamento deles. Isso porque não cumpriu, durante sua vida, a responsabilidade de instruí-los e educá-los. Allah disse:

Será em árabe

—Ó crentes! Salvai a vós mesmos e às vossas famílias do fogo do Inferno.

E, se, apesar de terem recebido a devida instrução durante a vida, os familiares continuarem a lamentar-se pelo falecido, então a opinião de ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela) é a correta. Pois Allah disse: “Ninguém carregará o fardo de outro.” Ele também disse:

Será em árabe.

—Se alguém, sobrecarregado com um fardo, chamar outro para carregá-lo, ninguém carregará nada dele, mesmo que seja um parente próximo.

O renomado imam e muhaddith Hazrat ‘Abdullah ibn Mubarak também sustentou a opinião do Imam Bukhari. Contudo, alguns questionaram da seguinte forma a tentativa do Imam Bukhari de conciliar as evidências: se alguém não cumprir, durante a vida, a responsabilidade de proporcionar à sua família a educação e a formação corretas, então, após a morte, sofrerá o castigo pelo pecado de não ter cumprido essa responsabilidade. Por que haveria de sofrer o castigo pelo pecado dos vivos? Entre os mujtahids, os Imams Shafi‘i, Muhammad e Abu Hanifah (que Allah esteja satisfeito com eles) seguem, nesta questão, a opinião de Hazrat ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela).

Foi narrado por Hazrat Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu Allah, o Senhor dos mundos, duas vezes. Hazrat Masruq (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou a Hazrat ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela): “Mãe! Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu Allah?” ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Disseste algo que fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem. Quem te disser que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu Allah está mentindo.” Em seguida, recitou este versículo:

Será em árabe

—As visões não O podem alcançar, mas Ele alcança todas as visões. Ele é o Sutil, o Onisciente.

Em seguida, recitou este versículo:

Será em árabe.

—Não é dado a ser humano que Deus lhe fale, senão por revelação, ou detrás de um véu, ou enviando um mensageiro.

Há também alguns hadiths que apoiam a declaração de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). De um hadith compilado no Sahih Muslim, sabe-se que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ele é luz, ou seja, luminosidade. Como poderia eu vê-Lo?”

O casamento mut’a, que era praticado desde a época da Jahiliyyah e do início do Islam até o 7.º ano da Hégira por um período determinado, foi declarado ilícito durante a conquista de Khaybar. Depois disso, Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e algumas outras pessoas consideravam esse casamento permitido. Contudo, a maioria dos Companheiros acreditava que ele era ilícito. Certo dia, um aluno de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou-lhe sobre a validade desse casamento mut’a. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) não respondeu com um hadith. Ela disse: “Entre mim e vós está o Livro de Allah.” Em seguida, recitou este versículo:

Será em árabe

—E aqueles que guardam as suas partes íntimas, exceto com as suas esposas ou com as escravas que possuem; nesse caso, não serão censurados.

Por isso, além dessas duas formas, nenhuma outra é permitida. Convém mencionar que a mulher obtida por meio do mut’a não é nem esposa nem escrava.

Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: O filho ilegítimo é o pior dos três (pai, mãe e filho).

Quando isso chegou aos ouvidos de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), ela disse: “Isso não está correto. O fato é que um homem hipócrita costumava insultar o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Certo dia, algumas pessoas disseram: ‘Ó Mensageiro de Allah! Esse homem também é filho ilegítimo.’ Então o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comentou: ‘Ele é o pior dos três.’ Ou seja, seus pais haviam cometido apenas uma transgressão; mas não haviam insultado o Mensageiro de Allah. E esse filho, fruto daquela transgressão, insultava o Mensageiro de Allah. Portanto, ele era pior do que eles. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: ‘Esse comentário do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) referia-se a um caso específico, não a todos. Pois Allah disse: “Ninguém carregará o fardo de outro.” Em outras palavras, o crime era dos pais. Por que o filho seria responsabilizado por isso?’

Todos os incrédulos mortos na Batalha de Badr foram enterrados juntos, ali mesmo em Badr. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou de pé ali e dirigiu-se aos enterrados:

Será em árabe

“Vós achastes verdadeira a promessa de vosso Senhor?” Os Companheiros perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah! Estais dirigindo-vos aos mortos?” Ibn Umar narrou de seu pai, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), e Anas ibn Malik narrou de Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) que, em resposta, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

Será em árabe

Vós não ouvis melhor do que eles. Contudo, eles não podem responder.

Quando o relato foi mencionado a Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), ela disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não disse isso; ele disse o seguinte:”

Será em árabe.

—Agora eles certamente descobriram que tudo o que eu lhes dizia era verdade.

Então Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) recitou estes dois versículos do Alcorão:

Será em árabe.

—Você não pode fazer os mortos ouvirem o chamado.

Você não é capaz de fazer ouvir aqueles que jazem nas sepulturas.

Mais tarde, os muhaddithun, aceitando os argumentos e as provas de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), tentaram conciliar as duas narrações. O célebre tabi‘i, Hazrat Qatada (que Allah esteja satisfeito com ele), disse: Allah devolveu a vida aos mortos de Badr por algum tempo. Como um milagre do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a capacidade de ouvir também lhes foi devolvida durante aquele período.

As diferenças nas narrações entre os Companheiros sobre determinados assuntos devem-se, em grande medida, às diferenças na sua compreensão.

Hadrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) havia recebido, em medida muito maior do que muitos outros, a compreensão e a inteligência concedidas por Allah. Ela empregou essa incomparável capacidade de discernimento e compreensão na transmissão e explicação dos hadiths. Aqui mencionamos alguns acontecimentos nos quais se manifestaram sua perspicácia e inteligência penetrantes.

Quando a noite da vida de Hadrat Abu Sa‘id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) se aproximou do fim, ele pediu uma roupa nova e vestiu-a. Ao explicar a razão, disse: “Um muçulmano será ressuscitado com a mesma vestimenta com que morrer.” Ao tomar conhecimento disso, Hadrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Que Allah tenha misericórdia de Abu Sa‘id. Por ‘vestimenta’, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) quis dizer as ações ou obras da pessoa. Caso contrário, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) afirmou claramente que, no Dia da Ressurreição, as pessoas serão ressuscitadas com o corpo, os pés e a cabeça descobertos.”

A orientação do Islam é que a mulher divorciada cumpra seu período de espera (‘iddah) na casa do marido. Uma companheira chamada Fatimah, contrariando essa orientação, costumava narrar um acontecimento de sua própria vida. Ela dizia que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) lhe havia permitido, durante seu período de espera, sair da casa do marido e ir para outro lugar. Em diferentes ocasiões, ela apresentou esse próprio acontecimento como prova diante de muitos Companheiros. Alguns aceitaram sua narração, mas a maioria dos Companheiros recusou-se a aceitá-la. Certa ocasião, quando Marwan era governador de Medina, foi apresentado um processo desse tipo. Uma das partes apresentou a narração de Fatimah como prova. Ao saber disso, Hadrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) repreendeu severamente Fatimah. Ela disse que não havia benefício algum na narração desse acontecimento por Fatimah. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) certamente lhe havia permitido sair da casa do marido durante o período de espera; porém, isso ocorreu porque a casa de seu marido ficava num local inseguro e assustador.

Vários hadiths autênticos informam que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) gostava especialmente da carne da paleta de cabra. Hadrat Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, entre as carnes, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) preferia a carne da paleta. Foi justamente na carne da paleta que lhe administraram veneno.

Abu ‘Ubayd também disse: “O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) preferia a carne da paleta.” Contudo, sobre esse assunto, Hadrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse:

Será em árabe.

—Não é que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) preferisse especialmente a carne da paleta; a verdadeira razão era que ele tinha a oportunidade de comer carne apenas depois de longos intervalos. Por isso, serviam-lhe carne da paleta, pois ela cozinha e amolece rapidamente. Por mais que um amigo íntimo e querido, que conheça uma pessoa há muitos anos, saiba sobre ela, uma esposa conhece-a muito mais. Todo o corpo do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), dos cabelos da cabeça às unhas dos pés, era um exemplo e modelo em cada instante. Por essa razão, cada ato de cada momento de sua vida alcançou o status de lei e norma. Portanto, pode-se dizer que as esposas do Profeta tiveram oportunidades de conhecê-lo pessoalmente que eram impossíveis para os demais. Há algumas questões jurídicas nas quais se vê que os outros nobres Companheiros deram decisões com base em seu próprio ijtihad ou em alguma narração, mas Hadrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) as rejeitou com base em sua experiência pessoal direta. Até hoje, em tais questões, sua palavra continua sendo aceita como prova. Para informação dos leitores, mencionamos aqui algumas dessas questões.

Hadrat ‘Abdullah ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) emitia a fatwa de que, durante o banho ritual, era obrigatório que as mulheres desfizessem os coques e molhassem os cabelos. Ao ouvir isso, Hadrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Por que ele não lhes diz também que cortem os cabelos?” Eu tomava banho diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e não desfazia os cabelos.

Hazrat Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia que, se alguém beijasse a esposa estando em estado de ablução, sua ablução ficava invalidada. Ao ouvir isso, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não fazia ablução depois de beijar.” Dito isso, ela sorriu suavemente.

Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) relatava que, se uma mulher, um jumento ou um cão passasse diante de um homem que estivesse fazendo a oração, a oração desse homem ficaria invalidada. Ao ouvir isso, Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou irritada. Ela disse: “Vocês nos igualaram, nós mulheres, aos jumentos e aos cães. Eu costumava deitar-me com as pernas estendidas diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), enquanto ele permanecia de pé em oração. Quando ia prostrar-se, tocava-me com a mão, e eu recolhia as pernas. Quando se levantava, eu voltava a estendê-las. Às vezes, quando precisava, eu me recolhia e passava à sua frente.”

Certo dia, Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), ao fazer um sermão, relatou que, se alguém precisasse tomar o banho ritual pela manhã durante um dia de jejum, não deveria jejuar naquele dia. As pessoas foram até Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) e Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) para saber se isso era verdade. ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “A prática do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era contrária a isso.” Então as pessoas voltaram a Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) e o alertaram. Por fim, ele retirou sua fatwa anterior.

Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) emitia a fatwa de que, se alguém não realizasse o Hajj, mas apenas enviasse um animal destinado ao sacrifício para o recinto sagrado de Meca, todas as restrições aplicáveis a um peregrino continuariam a vigorar sobre ele até que o animal fosse abatido naquele local. Ao ouvir isso, Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Com minhas próprias mãos, torci as cordas dos animais destinados ao sacrifício do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e ele mesmo colocou essas cordas no pescoço dos animais. Depois, meu pai levou-os a Meca. Apesar disso, tudo permaneceu lícito. Nenhuma coisa lícita se tornou ilícita até o sacrifício.”

Já mencionamos anteriormente que Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) possuía uma inteligência e uma memória extraordinárias. Na realidade, a memória é uma dádiva de Allah, o Altíssimo. Ela foi agraciada plenamente com essa dádiva. Os versículos do Alcorão que ouvira na infância, enquanto brincava, conservou-os na memória durante toda a vida. A confiabilidade da ciência do Hadith depende justamente dessa memória e dessa capacidade de memorizar. Recordar os acontecimentos diários do período da Profecia, relatá-los continuamente com exatidão e transmitir aos outros, da mesma forma como foram ouvidas da boca do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), as palavras que ele proferiu: essa é a maior responsabilidade e obrigação de um muhaddith bem-sucedido. As falhas que Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) apontou em seus contemporâneos e as críticas que lhes fez foram especialmente influenciadas pelas diferenças e variações existentes entre eles quanto à capacidade de memorizar. Aqui são mencionados alguns acontecimentos que demonstrarão a força extraordinária de sua memória.

Hazrat Sa‘d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) faleceu. Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) desejou que o corpo fosse levado à mesquita, para que também pudesse participar da oração fúnebre. As pessoas protestaram. Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Como as pessoas esquecem tão depressa! O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou na própria mesquita a oração fúnebre de Suhail ibn Bayda (que Allah esteja satisfeito com ele).”

As pessoas perguntaram a Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): “Quantas vezes o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou a ‘Umrah?” Ele respondeu: “Quatro vezes. Uma delas foi no mês de Rajab.” ‘Urwah (que Allah esteja satisfeito com ele) exclamou: “Minha querida tia! A senhora não está ouvindo o que ele está dizendo?” Ela perguntou: “O que ele está dizendo?” ‘Urwah respondeu: “Ele diz que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou quatro ‘umrahs, uma das quais no mês de Rajab.” Então ela disse: “Que Allah tenha misericórdia de Abu ‘Abd al-Rahman (o kunya de Ibn ‘Umar). O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nunca realizou uma ‘Umrah sem que eu estivesse presente com ele. E ele não realizou nenhuma ‘Umrah em Rajab.”

Os ilustres muhaddithin dividiram os Companheiros em cinco categorias quanto à transmissão de Hadith, e em quase todas as categorias há tanto Companheiros homens quanto mulheres. 1ª categoria: aqueles Companheiros cujos hadiths transmitidos somam mil ou mais. Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) pertence a esta categoria. 2ª categoria: aqueles cujas transmissões somam quinhentas ou mais, mas menos de mil. Não há nenhuma Companheira nesta categoria. 3ª categoria: aqueles cujas transmissões somam cem ou mais, mas menos de quinhentas. Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) pertence a esta categoria. 4ª categoria: aqueles cujas transmissões variam de quarenta a cem. A maioria dos Companheiros desta categoria são mulheres, como Umm al-Mu’minin Hazrat Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela), Umm ‘Atiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), Umm al-Mu’minin Hazrat Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela), Asma bint Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela), Umm Hani (que Allah esteja satisfeito com ela), entre outras. 5ª categoria: aqueles cujas transmissões somam quarenta ou menos. A maioria dos membros desta categoria são mulheres, como Hazrat Umm Qays (que Allah esteja satisfeito com ela), Hazrat Fatima bint Qays (que Allah esteja satisfeito com ela), Hazrat Rabi‘ bint Ma‘us (que Allah esteja satisfeito com ela), Hazrat Subra bint Safwan (que Allah esteja satisfeito com ela), Hazrat Kulthum bint Husayn al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ela), Hazrat Ja‘da bint Wahab (que Allah esteja satisfeito com ela), entre outras.

Pela discussão acima desses níveis, tornou-se claro para nós qual era a posição ou o grau de ʿA’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) na ciência do hadith. Vimos que sua posição estava no nível mais elevado.

A Mãe dos Crentes, ʿA’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), narrou hadiths diretamente do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Além disso, narrou hadiths por intermédio de seu pai, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), de ʿUmar (que Allah esteja satisfeito com ele), de Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela) e de Saʿd (que Allah esteja satisfeito com ele). Por outro lado, era grande o número daqueles que ouviram hadiths de ʿA’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) e os transmitiram. Entre eles havia pessoas de ambas as categorias: Companheiros e tabiʿin. O erudito al-Dhahabi, depois de mencionar os nomes de quase duzentas pessoas, disse: “Além dessas, há muitas outras.”

A transmissão dos relatos dos Companheiros, a redação dos hadiths e o trabalho de compilá-los em livros começaram em meados do primeiro século da Hégira. No final desse século, o califa omíada ʿUmar ibn ʿAbd al-ʿAziz (que Allah tenha misericórdia dele) assumiu o trono do califado. Em seu tempo, o qadi de Medina era o célebre Abu Bakr ibn ʿAmr ibn Hazm al-Ansari. Ele possuía vasto conhecimento do Alcorão e do hadith. A maior contribuição para esse conhecimento veio de sua tia materna, ʿUmra. Essa ʿUmra era aluna de ʿA’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) e havia sido criada sob sua supervisão. O califa ʿUmar ibn ʿAbd al-ʿAziz ordenou a Abu Bakr que escrevesse os relatos de ʿUmra e os enviasse a ele.

A ciência do fiqh e o qiyas

O Alcorão e o hadith, ou a Sunnah, são as evidências e as provas, enquanto o fiqh é sua conclusão e seu resultado. Todas as decisões tomadas com base no Alcorão e no hadith constituem o fiqh e o qiyas. Já ficou parcialmente claro, pela discussão anterior sobre o domínio que ʿA’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) possuía do Alcorão e do hadith, quão proficiente ela era na ciência do fiqh e do qiyas. Aqui será apresentada uma breve discussão sobre quais eram seus usul, ou princípios, no fiqh e no qiyas.

Durante a vida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele próprio era o centro de todas as fatwas e decisões. Quando surgia qualquer problema, era ele quem apresentava sua solução. Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os Companheiros de alto nível, que eram versados no significado profundo da Sharia e dos preceitos islâmicos, ocuparam seu lugar. Quando surgia um novo problema diante de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) ou de ʿUmar (que Allah esteja satisfeito com ele), ele reunia os Companheiros eruditos e lhes pedia uma decisão. Se algum deles conhecesse um hadith específico sobre o assunto, narrava-o. Caso contrário, proferiam uma decisão por analogia ou inferência com base em algum outro preceito do Alcorão e do hadith. Até o terceiro califa do Califado Bem-Guiado, essa academia de fiqh era centrada em Medina. Durante o califado de ʿUthman (que Allah esteja satisfeito com ele), a desordem e a agitação começaram a se intensificar, e muitas pessoas deixaram Medina e se estabeleceram em Meca, Ta’if, Damasco, Basra e outros lugares. Depois, ʿAli (que Allah esteja satisfeito com ele) tornou-se califa e fez de Kufa a Dar al-Khilafa. Por essas razões, muitos dos talentosos alunos da escola do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deixaram Medina e foram para outras cidades. Como resultado, porém, o campo e o alcance do estudo do conhecimento se ampliaram ainda mais. Mas perdeu-se sua forma ou característica unificada. Tudo o que permanecia estava somente em Medina.

Depois dos Companheiros de alto nível, quatro pessoas em Medina — ʿAbdullah ibn ʿUmar, ʿAbdullah ibn ʿAbbas, Abu Huraira e ʿA’isha (que Allah esteja satisfeito com todos eles) — dedicavam a maior parte de seu tempo ao fiqh e às fatwas. Onde não havia uma regra explícita do Alcorão e da Sunnah, os princípios desses quatro também eram diferentes. A prática de ʿAbdullah ibn ʿUmar e de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ambos) era a seguinte: se houvesse, sobre a questão apresentada, alguma determinação do Alcorão e da Sunnah ou alguma prática dos califas anteriores, eles a comunicavam. Se não houvesse, permaneciam em silêncio. Já ʿAbdullah ibn ʿAbbas (que Allah esteja satisfeito com ele), nesse caso, tomava uma decisão de acordo com seu entendimento e sua razão, fazendo qiyas com base no Alcorão, na Sunnah e nas questões resolvidas no tempo dos califas anteriores. Quanto a ʿA’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), seu princípio era buscar primeiro a solução do problema no Alcorão. Se não a encontrasse ali, consultava a Sunnah. Se também não encontrasse nela a resposta, fazia qiyas segundo seu próprio entendimento. Já discutimos anteriormente, em certa medida, o método e o procedimento do ijtihad e do istinbat de ʿA’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), isto é, sua pesquisa e tomada de decisões. Aqui apresentamos mais alguns exemplos.

No Alcorão está dito:

Será em árabe.

— “A mulher divorciada deverá aguardar por três ‘qurū’.” Ou seja, o prazo de sua ‘iddah é de três ‘qurū’. Há divergência quanto ao significado de ‘qurū’. O marido de uma sobrinha de Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) divorciou-se dela. Quando começou um novo mês, após terem transcorrido três períodos de ‘ṭuhūr’, isto é, três períodos de pureza, ela ordenou que a mulher deixasse a casa do marido. Algumas pessoas protestaram contra sua atitude, dizendo que ela contrariava a determinação do Alcorão. Para sustentar sua opinião, apresentaram como prova o versículo do Alcorão mencionado acima. Em resposta, a Mãe dos Crentes disse: “Três qurū está correto. Mas vocês sabem o que significa ‘qurū’? ‘Qurū’ significa ‘ṭuhūr’ (pureza).” Todos os juristas de Medina seguiram Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) nessa questão. Já os iraquianos entenderam ‘qurū’ como ḥayḍ (os dias específicos da menstruação).

Hadrat Zayd ibn Arqam (que Allah esteja satisfeito com ele) comprou de uma mulher uma escrava por oitocentos dirhams a prazo. Ele estipulou que pagaria o preço quando recebesse o pagamento devido. Antes de pagar o preço, vendeu novamente a mesma escrava àquela mulher, à vista, por seiscentos dirhams. A mulher informou Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) sobre essa transação. Hadrat ‘A’ishah disse-lhe: “Você também fez algo errado, e Zayd ibn Arqam também. Diga-lhe que a recompensa que ele havia obtido lutando ao lado do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi anulada. Contudo, se ele se arrepender…”

Nessa situação específica, Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) decidiu que os duzentos dirhams adicionais eram juros. Foi narrado em diversas coletâneas de hadith que Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) tomou essa decisão com base no versículo 275 da Sūrat al-Baqarah.

Se o marido delegar à esposa o poder de pronunciar o divórcio, e ela devolver esse poder ao marido e escolher permanecer com ele, ainda assim será pronunciado algum divórcio contra essa esposa? Sobre essa questão, Hadrat ‘Alī (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hadrat Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) sustentavam que ocorreria um divórcio. Mas Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) dizia que nem sequer um divórcio ocorreria. Como prova de sua opinião, ela mencionava o episódio do ‘takhyīr’ do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ela dizia que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) havia dado às suas esposas a opção, ou liberdade, de deixá-lo e escolher o conforto e a prosperidade mundanos, ou permanecer com ele e aceitar a pobreza e a fome. Todas escolheram a segunda opção. Isso significaria que um divórcio havia sido pronunciado contra elas?

Quando alguém liberta um escravo, surge, segundo a lei islâmica, uma espécie de relação entre o senhor e o escravo libertado, denominada, na terminologia islâmica, ‘al-walā’ (tutela). Como consequência, o senhor que o libertou pode tornar-se herdeiro dos bens do escravo libertado, e este passa a ser legalmente reconhecido como membro da linhagem de seu antigo senhor. Por isso, a importância da relação de ‘al-walā’ é imensa. Certa vez, um escravo libertado foi até Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) e disse: “Eu era escravo de ‘Utbah ibn Abī Lahab. O casal vendeu-me sob a condição de que, quando eu fosse libertado, ele teria direito ao meu ‘al-walā’. Agora estou livre. Com quem ficará essa relação de ‘al-walā’: com ‘Utbah ibn Abī Lahab ou com aquele que me libertou?” Hadrat ‘A’ishah respondeu: “A situação da escrava chamada Barīrah também era assim. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse-me: ‘Compre Barīrah e liberte-a. Você terá direito ao seu ‘al-walā’, independentemente das condições contrárias à ordem de Allah que o vendedor venha a impor.”

Hadrat Barīrah (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma escrava. Seu senhor queria vendê-la sob a condição de que, quando ela fosse libertada, ele teria direito ao seu al-walā. Hadrat Barīrah (que Allah esteja satisfeito com ela) foi até Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) e contou-lhe sua situação. Hadrat ‘A’ishah manifestou o desejo de comprá-la, mas não aceitou a condição de al-walā imposta por seu senhor. Quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chegou à sua casa, ela informou-o sobre o assunto. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse a ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela): “Você pode comprá-la e libertá-la sem hesitação. A condição contrária ao Livro de Allah será naturalmente anulada.” Barīrah (que Allah esteja satisfeito com ela) foi libertada da escravidão. O homem com quem havia se casado enquanto era escrava deixou de ser aceito por ela como marido depois que foi libertada. As pessoas davam-lhe caridade. Ela oferecia parte desses alimentos, provenientes da caridade, ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), e ele os aceitava.

A partir do episódio de Hadrat Barīrah (que Allah esteja satisfeito com ela), Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) deduziu várias determinações da Sharī‘ah. Ela dizia: “Por meio de Barīrah, ficamos conhecendo três determinações do Islam, a saber:”

  1. Aquele que concede a alforria será o titular de al-walā’.
  2. Se um escravo e uma escrava se casarem enquanto estiverem na escravidão e, posteriormente, a esposa for libertada, mas o marido continuar preso aos grilhões da escravidão, a esposa terá a opção de permanecer com o marido escravo ou não.
  3. Se uma pessoa que tem direito a receber doações e caridade receber algo como doação e caridade, e der parte disso como presente a alguém que não tem direito a receber caridade, será permitido a essa pessoa aceitar o presente.

Na Peregrinação de Despedida participaram aproximadamente cem mil muçulmanos, mais ou menos. Todos os Companheiros de elevado nível acompanharam o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — nessa viagem. É de se esperar que todos conhecessem os acontecimentos dessa viagem. Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — também guardou na memória os acontecimentos que vivenciou. Eles foram igualmente narrados com exatidão em diversos hadiths. Contudo, as narrações de Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — tornaram-se princípios fundamentais para os juristas e os mujtahids. Quando Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — estava justamente realizando os ritos da Peregrinação, foi acometida por uma condição própria das mulheres e ficou impossibilitada de realizar alguns ritos da Peregrinação. Isso lhe causou grande sofrimento. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — consolou-a e, seguindo sua orientação, ela vestiu novamente o ihram em Tan‘im e realizou o tawaf da Caaba. Após citar essa narração de Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela —, o Hafiz Ibn Qayyim — que Allah esteja satisfeito com ele — disse:

Será em árabe

– Deste hadith de Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — foram extraídos alguns princípios muito importantes da Peregrinação. Por exemplo:

  1. Para aquele que pretende realizar a ‘umrah juntamente com a Peregrinação, isto é, que pretende realizar a Peregrinação qiran, será suficiente realizar um tawaf e um sa‘i.
  2. No caso das mulheres, devido à sua condição física especial, o tawaf al-qudum será dispensado.
  3. Quando surgir a condição especial das mulheres, é permitido fazer a intenção de realizar a ‘Umrah depois do Hajj.
  4. Durante sua condição especial, as mulheres podem realizar todos os ritos do Hajj, exceto o tawaf da Caaba.

5. ‘Tan‘im’ não faz parte do ‘Haram’. Fica fora do Haram.

6. A ‘Umrah pode ser realizada duas vezes em um ano e até duas vezes em um mês.

  1. Este acontecimento envolvendo apenas a venerável ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) prova que as pessoas de fora de Meca podem vestir o ihram em Meca (Tan‘im) e realizar a Umrah.

Aqui é necessário discutir um pouco o qiyas ‘aqli, ou seja, a dedução baseada na sabedoria e na razão. Qiyas ‘aqli não significa que qualquer pessoa possa, com base em sua própria inteligência e sabedoria, emitir uma decisão sobre alguma norma da Sharia. Seu significado é, antes, que os alim, que são versados nos mistérios profundos da Sharia e nas ciências religiosas, desenvolvem, devido ao estudo do Livro e da Sunnah, à pesquisa e à aplicação disso em suas próprias vidas, uma capacidade tal que, quando se apresenta diante deles uma nova questão, conseguem compreender, por meio dessa capacidade, que, se o Legislador (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), isto é, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), estivesse vivo, daria aquela resposta. Pode-se dar como exemplo um advogado experiente que tenha examinado as sentenças de muitos processos de um determinado tribunal. Depois, com base em sua experiência, se ele fizer uma dedução, com base nessas sentenças, sobre um caso semelhante e disser que, se o processo fosse apresentado àquele tribunal, a sentença seria tal, isso seria chamado de qiyas ‘aqli. Em nossas discussões anteriores, tornou-se suficientemente claro o quanto a venerável ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) estava familiarizada com os precedentes e decisões — exemplos e julgamentos — da Sharia islâmica. Por isso, é natural que a possibilidade de erro em seu qiyas fosse muito pequena. Apresentamos aqui um exemplo do qiyas ‘aqli da venerável ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).

Durante a vida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), em geral as mulheres iam à mesquita e participavam da oração em congregação. As crianças e os adolescentes ficavam em filas atrás dos homens, e as mulheres, atrás deles. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu que se impedisse as mulheres de ir à mesquita.

Ele disse:

Será em árabe

Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os hábitos, os adornos e as vestimentas das mulheres sofreram mudanças devido à convivência dos árabes com pessoas de diferentes nações e grupos, ao intercâmbio cultural e à prosperidade econômica. Ao ver essa situação, Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Se o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estivesse vivo hoje, proibiria as mulheres de irem à mesquita.” Sua declaração é a seguinte:

Será em árabe

Foi narrado por ‘Amarah. Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Se o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estivesse vivo nesta época, proibiria as mulheres de irem à mesquita por causa das novas coisas e práticas que elas estão introduzindo atualmente, assim como foi proibida a entrada das mulheres judias.”

Embora essa decisão de Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) não tenha sido implementada naquela época, sua base era aquela analogia racional. Por meio das experiências de sua vida, ela compreendeu qual poderia ser, nesse caso, a determinação da Sharia.

Hadrat Abu Hurairah (que Allah esteja satisfeito com ele) emitia a fatwa de que, se uma pessoa lavasse um morto, também deveria realizar o ghusl. E, se alguém carregasse o esquife de um morto, deveria renovar o wudu. Quando isso chegou aos ouvidos de Hadrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela), ela disse:

Será em árabe

“Por acaso o morto muçulmano também se torna impuro? E o que acontece com alguém que carrega madeira?”

Surgiu uma divergência entre os Companheiros quanto à necessidade da emissão de sêmen para que o banho ritual se tornasse obrigatório. Jābir (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia: Será em árabe: «Água por água.» — isto é, somente quando há emissão de sêmen é necessário usar água; caso contrário, não. ʿĀ’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) narrou um hadith contrário a essa opinião e disse: «Se alguém se envolver em adultério e, mesmo sem haver emissão de água, vós o apedrejaríeis, então por que o banho ritual não seria obrigatório?»

Entre os ilustres Companheiros, Ibn ʿUmar (que Allah esteja satisfeito com ele) considerava todos os atos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como sunnah e agia de acordo com isso. Ele não fazia a distinção em duas categorias — devocional e costumeira — que os juristas fizeram quanto à sunnah. Acreditava que, qualquer que fosse a razão pela qual o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tivesse realizado um ato, este era sunnah. Era necessário segui-lo. Por isso, seguia o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quanto aos locais de parada durante as viagens. Ou seja, onde quer que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tivesse permanecido durante uma viagem, Ibn ʿUmar (que Allah esteja satisfeito com ele) permanecia exatamente nesses mesmos lugares mais tarde. Se o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tivesse se purificado por acaso em algum local de parada, ele também se purificava ali sem necessidade. No entanto, ʿĀ’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) e Ibn ʿAbbās (que Allah esteja satisfeito com ele) defendiam a distinção acima mencionada na sunnah do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eles não apoiavam a opinião de Ibn ʿUmar (que Allah esteja satisfeito com ele). Durante o Hajj, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) montou sua tenda e permaneceu no vale de al-Abtah. Mas ʿĀ’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) não considerava isso uma sunnah. Foi narrado em Sahih Muslim e no Musnad de Ahmad:

Será em árabe.

«Permanecer no vale de al-Abtah não é uma sunnah. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu ali porque, a partir daquele lugar, era mais fácil para ele partir.»

ʿĀ’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) divergiu de seus contemporâneos em muitas questões de fiqh. Mais tarde, os juristas do Hijaz, na maioria dos casos, passaram a seguir sua opinião. O Imam Mālik (que Allah esteja satisfeito com ele) compilou uma grande parte dessas opiniões e práticas de ʿĀ’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) em sua obra al-Muwaṭṭa’.

Taʿlīm e iftā (ensino e exercício da responsabilidade de emitir fatwas)

O Islã considera transmitir o conhecimento a outras pessoas uma das principais formas de servir ao conhecimento. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou:

Será em árabe.

“Que o presente transmita necessariamente ao ausente.” Até que ponto Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) cumpriu essa responsabilidade já ficou claro em nossas discussões anteriores. Aqui desejamos discuti-la com um pouco mais de detalhe.

Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) espalharam-se pelas diversas cidades e regiões do Califado Islâmico com o propósito de propagar e difundir o chamado e o conhecimento islâmicos. Em grandes cidades e centros urbanos como Meca, a Honrada, Taif, Bahrein, Iêmen, Damasco, Egito, Kufa e Basra, pequenos grupos desses grandes mestres estabeleciam-se. O centro do Califado e do governo, após 27 anos, permanecia primeiro em Kufa, vindo de Medina. O centro do Califado e do governo foi transferido, após 27 anos, de Medina primeiro para Kufa e posteriormente para Damasco. Apesar disso, a superioridade espiritual e intelectual de Medina não diminuiu em nada. Naquela época, ainda funcionavam em Medina os círculos de estudo independentes de Hazrat Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Zaid Ibn Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele) e outros. Contudo, o maior círculo de estudos era aquele espaço especial da Mesquita do Profeta, centrado no aposento de Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).

Medina era o centro vital do Califado Islâmico. Pessoas afluíam de todas as direções para visitá-la e obter bênçãos. Aqueles que chegavam certamente compareciam, uma vez ou outra, à porta do aposento da Mãe dos Crentes. Apresentavam a saudação. Ela demonstrava aos visitantes o devido respeito. Todas as conversas, saudações, perguntas sobre questões religiosas e respostas ocorriam por trás da cortina. Homens e mulheres, sem distinção, vinham de regiões como o Iraque, o Egito e a Síria para servi-la e pedir sua opinião e fatwas sobre diversos assuntos. Esses visitantes também procuravam satisfazer os estudantes que permaneciam continuamente a serviço da Mãe dos Crentes. Uma estudante desse tipo, Aisha bint Talha, narrou:

Será em árabe

“Pessoas vinham de todas as cidades até Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Por causa da minha relação com ela, os idosos vinham encontrar-se comigo. Os jovens estabeleciam comigo uma relação fraternal. As pessoas enviavam-me presentes e escreviam cartas de várias cidades. Eu apresentava tudo a Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e dizia: ‘Tia querida! Esta é a carta e o presente de fulano.’ Ela dizia: ‘Minha filha! Responde a ele e envia também algo em retribuição.’”

Naturalmente, a afluência de mulheres era maior que a de homens. Ao mesmo tempo que dava respostas às questões relacionadas às mulheres, ela dizia: “Informem também os homens.” Certa vez, algumas mulheres vieram de Basra. Ela deu-lhes alguns conselhos e disse: “Vocês informarão os homens.” Ela dizia: “Tenho vergonha de falar muitas coisas a eles; digam-lhes que se purifiquem com água.”

As mulheres, os meninos que ainda não haviam atingido a puberdade e os homens diante dos quais não era necessário que Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) observasse o hijab sentavam-se na mesquita dentro do aposento; os demais sentavam-se na Mesquita do Profeta, do lado de fora do aposento. Uma cortina era pendurada na porta. Ela própria sentava-se atrás da cortina. As pessoas faziam perguntas, e ela respondia. Em algumas questões, ocorriam debates entre a professora e os estudantes. Às vezes, ela mesma explicava detalhadamente determinada questão, e as pessoas escutavam atentamente em silêncio. Ela também prestava cuidadosa atenção à linguagem, à forma de expressão e à pronúncia correta dos estudantes. Certa vez, chegaram dois sobrinhos seus. Eram filhos de duas mães diferentes. A linguagem de um deles não era muito correta; ele cometia muitos erros ao falar. Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), apontando seus erros, disse: “Por que você não fala como este nosso sobrinho fala?” Então disse: “Sim, já entendi: a mãe dele ensinou-o, e a sua mãe ensinou você.” Vale mencionar que a mãe daquele cuja linguagem não era correta era uma escrava.

Além desses estudantes temporários mencionados acima, ela criava sob sua supervisão e educava meninos, meninas e crianças órfãs de várias famílias. Às vezes acontecia que, não sendo mais crianças, alguns rapazes já crescidos recebiam permissão para entrar em sua casa por terem se tornado seus filhos de amamentação ou por terem sido amamentados por uma ama ligada à sua família. Já aqueles homens não-mahram que não tinham permissão para entrar em sua casa lamentavam, dizendo: “Fomos privados de uma excelente oportunidade de adquirir conhecimento.” Qubaisa dizia: “‘Urwa avançou mais do que eu em conhecimento porque podia entrar no interior da casa de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).” O amplamente reconhecido Imam Nakha‘i, do Iraque, teve na infância a oportunidade de estar na companhia de Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Por isso, seus contemporâneos o invejavam.

Hazrat ‘Aisha (r.a.) ia todos os anos para o Hajj. Sua tenda era montada no local entre as duas montanhas de Hira e Sabir. Pessoas sedentas de conhecimento, vindas de lugares distantes, reuniam-se ao redor daquela tenda. Às vezes, ela se sentava sob o teto de Zamzam, no pátio da Caaba, e os sedentos de conhecimento reuniam-se diante dela. Quando caminhava, as mulheres a cercavam por todos os lados. Ela caminhava à frente, como um imame, e as outras iam atrás. As pessoas procuravam soluções para diversas questões jurídicas e queriam eliminar suas dúvidas; ela lhes apresentava as soluções e dissipava suas incertezas. Incentivava as pessoas a fazer qualquer tipo de pergunta. Dizia: “Tudo o que podeis perguntar à vossa mãe, podeis perguntar também a mim.” Certa vez, disse palavras semelhantes também a Hazrat Abu Musa al-Ash‘ari (r.a.). Ela dizia: “Eu sou a vossa mãe.” De fato, educava os estudantes como uma mãe. Educou ‘Urwah, Qasim, Abu Salamah, Masruq e Safiyyah com afeição maternal. Tomava os meninos e meninas sob sua proteção como se fossem seus próprios filhos e arcava pessoalmente com todas as suas despesas. Com alguns estudantes, comportava-se de maneira tão maternal que até seus próprios familiares sentiam ciúmes ao ver isso. Hazrat ‘Abdullah ibn az-Zubayr (r.a.) era o sobrinho muito querido de Hazrat ‘Aisha (r.a.). Certa vez, disse a Aswad, um discípulo de sua tia: “Conta-me também alguns dos segredos que a Mãe dos Crentes costumava revelar-te.”

Os discípulos de Hazrat ‘Aisha (r.a.) tinham por ela grande respeito. Hazrat ‘Amrah era filha dos Ansar. Ela chamava Hazrat ‘Aisha (r.a.) de tia materna. O Imam ash-Sha‘bi disse: “’Aisha (r.a.) tomou Masruq ibn al-Ajda‘ como filho.” Inúmeras pessoas beberam da fonte do conhecimento de Hazrat ‘Aisha (r.a.). Contudo, a seguir são apresentadas breves biografias de alguns daqueles que cresceram sob sua supervisão direta desde a infância e que, mais tarde, foram reconhecidos pelos muhaddithun como verdadeiros transmissores do conhecimento de ‘Aisha (r.a.):

1. ‘Urwah: Seu pai era az-Zubayr (r.a.) e sua mãe era Asma bint Abi Bakr (r.a.). Seu avô materno era Hazrat Abu Bakr (r.a.), e sua tia materna era Hazrat ‘Aisha (r.a.). Sua tia cuidou dele e o criou com grande carinho. Ele foi um dos maiores expoentes do conhecimento e da excelência de Medina. O Imam az-Zuhri e muitos outros foram seus alunos. É considerado um imam nas áreas de sirah e maghazi. O Imam az-Zuhri disse: “Eu o vi como um oceano inesgotável.” Em conhecimento das narrações de Hazrat ‘Aisha (r.a.), do fiqh e das fatwas, não havia naquela época ninguém maior do que ele. Faleceu no ano 94 da Hégira.

  1. Qasim ibn Muhammad: Seu avô era Hazrat Abu Bakr as-Siddiq (r.a.), e sua tia paterna era Hazrat ‘Aisha (r.a.). Cresceu desde pequeno sob o carinho de sua tia e recebeu educação com ela. Ao chegar à idade adulta, tornou-se um dos imames do fiqh de Medina. Era um dos membros do conselho de juristas composto por sete membros que existia em Medina. Abu az-Ziyad disse: “Nunca vi um jurista maior do que Qasim, nem conheci alguém mais instruído do que ele no conhecimento da Sunnah.” Ibn ‘Uyaynah disse: “Qasim era o maior sábio de seu tempo.” Faleceu no ano 106 — segundo outra opinião, no ano 107 — da Hégira.
  2. Abu Salamah: Era filho do célebre Companheiro Hazrat ‘Abdur-Rahman ibn ‘Awf (r.a.). Após a morte de seu pai, ainda jovem, cresceu sob o carinho de Hazrat ‘Aisha (r.a.). Foi um dos maiores sábios de Medina em seu tempo. O Imam Muhri disse: “Encontrei quatro homens que eram como oceanos. Eram ‘Urwah ibn az-Zubayr, Ibn al-Musayyab, Abu Salamah e ‘Ubaydullah ibn ‘Abdillah.” Faleceu no ano 94 da Hégira — segundo outra opinião, no ano 104.
  3. Masruq ibn al-Ajda‘: Seu pai era um famoso cavaleiro do Iêmen. O célebre herói árabe ‘Amr ibn Ma‘dikarib era seu tio materno. O Imam adh-Dhahabi narrou, com base em ash-Sha‘bi, que Hazrat ‘Aisha (r.a.) tomou Masruq como filho. Ibn Sa‘d narrou que, certa vez, quando ele foi visitar a Mãe dos Crentes, ‘Aisha (r.a.) ordenou que preparassem uma bebida para Masruq. Ela disse: “Preparai uma bebida para o meu filho.” A maioria dos hadiths que ele narrou de ‘Aisha (r.a.) foi registrada pelo Imam Ahmad em seu Musnad e pelo Imam Bukhari em sua obra al-Jami‘. Nunca conheci ninguém mais ávido por conhecimento do que ele. Era um mufti ainda maior do que Qadi Shurayh. Qadi Shurayh costumava consultá-lo. Mas Masruq não tinha necessidade de consultar Qadi Shurayh. Ele exercia o cargo de juiz de Kufa, mas não aceitava remuneração alguma. Era um devoto de elevado nível. Abu Ishaq disse: “Certa vez, ele partiu para o Hajj. Desde que saiu de casa até retornar, não dormiu senão em prostração.” Sua esposa disse: “Seus pés inchavam enquanto permanecia de pé na oração.” Faleceu no ano 63 da Hégira.

5. ‘Amrah bint ‘Abdir-Rahman: Era neta do célebre Companheiro ansari As‘ad ibn Zurarah (r.a.). Entre as mulheres, ela foi o melhor exemplo da educação e formação recebidas de Hazrat ‘Aisha (r.a.). Os muhaddithun pronunciam seu nome com extrema devoção e respeito. Ibn Hibban disse: “Ela era a mulher que mais conhecimento possuía sobre os hadiths de ‘Aisha (r.a.).” Sufyan ath-Thawri disse: “Os hadiths de ‘Amrah, Qasim e ‘Urwah são os mais sólidos e comprovados entre os hadiths de ‘Aisha (r.a.).” Todos a honravam e respeitavam. Segundo a narração do Imam Bukhari, ela era a secretária da Mãe dos Crentes. As pessoas enviavam, por meio dela, presentes e cartas a Hazrat ‘Aisha (r.a.).

  1. Safiyyah bint Shaybah: Safiyyah era filha de Shaybah, o guardião das chaves da Caaba. Os hadiths narrados por ela foram compilados em quase todas as obras de hadith. Nas cadeias de transmissão, ela é identificada como “Safiyyah, filha de Shaybah, discípula especial de ‘Aisha (r.a.)” ou “aquela que teve a companhia de ‘Aisha (r.a.)”. As pessoas iam até ela para perguntar sobre diversas questões jurídicas e sobre os hadiths de Hazrat ‘Aisha (r.a.). Abu Dawud disse:

Será em árabe

— Saí em peregrinação com ‘Adī ibn ‘Adī al-Kindī. Depois de chegarmos a Meca, ele me enviou à presença de Safiyya bint Shayba. Ela havia escutado e memorizado hadiths de Hadrat ‘Ā’isha (que Allah esteja satisfeito com ela).

7. ‘Ā’isha bint Talha (que Allah esteja satisfeito com ela): filha do ilustre Companheiro Hadrat Talha. Hadrat Abū Bakr as-Siddīq (que Allah esteja satisfeito com ele) era seu avô materno, e Hadrat ‘Ā’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), sua tia materna. Foi criada sob os cuidados da tia. Abū Zur‘a ad-Dimashqī disse que as pessoas narraram hadiths por intermédio dela, ao verem sua honra, sua posição e sua cortesia.

  1. Mu‘ādhah bint ‘Abdullah al-‘Adawiyyah: uma mulher de Basra. Teve a honra de ser discípula de Hadrat ‘Ā’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Narrou muitos hadiths com as próprias palavras de Hadrat ‘Ā’isha (que Allah esteja satisfeito com ela). Era uma devota de elevado nível. Depois da morte do marido, nunca mais dormiu numa cama. Aqui foram mencionados apenas os nomes e breves biografias de algumas delas. Além dessas, havia muitas outras.

Embora já tenham sido feitas anteriormente algumas considerações sobre o interesse e a aptidão de Hadrat ‘Ā’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) pela medicina, pela história, pela literatura, pela poesia e pela eloquência, considero necessário tratar ainda um pouco mais desses assuntos separadamente. Os alunos e discípulos de Hadrat ‘Ā’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) relataram que ela tinha bastante domínio da história, da eloquência, da literatura e da poesia. Quanto à medicina, possuía conhecimentos razoáveis. Hishām ibn ‘Urwah narra:

Será em árabe

‘Eu (‘Urwah) nunca vi ninguém mais versado do que ‘Ā’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) no Alcorão, nas leis de sucessão, no lícito e no ilícito (fiqh), na poesia, na história dos árabes e na ciência da genealogia.’

‘Urwah também disse: Não encontrei ninguém mais experiente do que ‘Ā’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) na medicina. Na Arábia daquela época, a medicina não era praticada nem difundida de maneira adequada. O maior médico dos árabes daquele período era Hārith ibn Kaladah. Além dele, havia muitos outros médicos menores espalhados por toda a Arábia. O que se entendia por medicina na sociedade árabe daquele tempo era aquilo que normalmente existia numa sociedade iletrada: algum conhecimento das propriedades de plantas e ervas, conhecimento de certos remédios testados por pessoas saudáveis, e coisas semelhantes. Certa pessoa perguntou a Hadrat ‘Ā’isha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Concordo que você recita poesia; afinal, sendo filha de Abū Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), pode fazê-lo. Mas como adquiriu esse conhecimento de medicina?” Ela respondeu: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava adoecer no fim da vida. Os médicos árabes vinham até ele. Eu memorizava os remédios que eles mencionavam.” Podemos compreender que o conhecimento médico deles se encontrava nesse nível. Além disso, ela havia memorizado as prescrições de alguns outros doentes. Naquela época, as mulheres muçulmanas acompanhavam o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nas batalhas; faziam curativos e cuidavam dos soldados feridos. A própria ‘Ā’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) cuidou dos soldados feridos na batalha de Uhud. Isso sugere que as mulheres muçulmanas daquela época possuíam conhecimento dessa área suficiente para atender às necessidades básicas.

Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) era um profundo conhecedor da história da antiga Arábia, dos costumes e tradições da época da jahiliyyah e da genealogia das diversas tribos e clãs árabes. Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) era sua filha. Pode-se dizer que ela herdou do pai esse conhecimento. Por isso, ouvimos Hazrat ‘Urwah dizer: “Não vi ninguém mais conhecedor da história árabe e da genealogia do que ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela).” Ela forneceu muitos relatos importantes sobre os costumes, as tradições e a situação social dos árabes na época da jahiliyyah, os quais foram compilados nas obras de hadith. Por exemplo: quantos tipos de casamento eram praticados na Arábia; como eram os métodos de divórcio; o que era cantado por ocasião do casamento; em quais dias eles jejuavam; onde os coraixitas permaneciam durante o hajj; o que diziam ao ver o cortejo fúnebre de uma pessoa falecida, entre outras coisas. Seus relatos podem ser encontrados em obras como Sahih al-Bukhari, Tirmidhi e Musnad Ahmad.

Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) também relatou a batalha sangrenta de Bu‘ath, travada entre os Ansar de Medina no período anterior ao Islã,⁴⁰¹ e falou sobre as crenças religiosas e os deuses dos habitantes de Meca. Por exemplo, eles adoravam o ídolo situado no monte Mushallal.⁴⁰² Ela forneceu relatos detalhados de alguns acontecimentos extremamente importantes do Islã, como o início da revelação, a maneira como ela ocorria, o estado em que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficava durante a revelação, diversos acontecimentos do início da missão profética, a Hégira e o episódio da calúnia contra ela.⁴⁰³ O interessante é que, enquanto as pessoas maduras que estiveram envolvidas nesses acontecimentos ou os testemunharam os descreveram em algumas frases breves, o relato de Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) ocupa várias páginas nas coleções de hadith. E, no entanto, quando muitos desses acontecimentos ocorreram, ela era apenas uma criança ou, no máximo, uma adolescente. Ela relatou como e em que ordem o Alcorão foi revelado, bem como o método da oração.⁴⁰⁴ Além disso, foi por meio dela que os habitantes do mundo conheceram em detalhes o estado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) no momento de sua morte, os preparativos para seu amortalhamento e sepultamento, o número e as dimensões dos tecidos da mortalha, entre outros assuntos.⁴⁰⁵ E não é só isso: ela também nos transmitiu relatos sobre as situações no campo de batalha. O acontecimento de Badr,⁴⁰⁶ a situação em Uhud, alguns episódios de Khandaq e de Banu Qurayzah,⁴⁰⁷ a oração do medo durante a batalha de Dhat ar-Riqa‘, o juramento de fidelidade das mulheres por ocasião da conquista de Meca, parte dos acontecimentos do Hajj de Despedida, entre outros, chegaram até nós por meio de seu relato. Ela nos transmitiu informações sobre as devoções noturnas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sua vida doméstica, sua etiqueta e seu caráter, bem como seus hábitos e comportamento. Chegou até a dizer qual foi o dia mais difícil da vida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).⁴⁰⁸ Em suma, ela apresentou diante de nós um retrato claro e correto da vida do Profeta. Ela também relatou acontecimentos relacionados ao califado de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), às reivindicações de Hazrat Fatimah (que Allah esteja satisfeito com ela) e das demais esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ao juramento de fidelidade e a outros assuntos.⁴⁰⁹

É verdade que seu conhecimento da história do Islã provinha de sua experiência direta. Muitas coisas haviam acontecido diante de seus olhos. Mas de quem ela tomou conhecimento da situação da Arábia pagã? Certamente, ouviu tudo da boca de seu pai, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele).

Literatura

Numerosos relatos mostram que Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma mulher eloquente. Sua fala era extremamente clara, correta e fluente. Musa ibn Talhah foi um de seus alunos. O Imam Tirmidhi registrou, no capítulo “Virtudes”, o seguinte comentário seu—

Será em árabe

Ele relatou: “Não vi ninguém mais eloquente e mais correta na fala do que ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela).” No Mustadrak de Hakim, foi registrada uma declaração de Ahnaf ibn Qays. Ele disse: “Nunca ouvi palavras melhores do que a maravilhosa eloquência e a força da expressão de ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela).” Entre as centenas de hadiths narrados por Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela), conservaram-se também muitos relatos em suas próprias palavras. Ao lê-los, percebe-se neles uma admirável forma artística. Neles se observa o uso eficaz de metáforas, comparações e imagens figurativas. Por exemplo, ao descrever a descida da revelação sobre o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ela disse:⁴¹⁰

Será em árabe

Isto é: “No início, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recebia a revelação por meio de sonhos verdadeiros durante o sono. Qualquer sonho que tivesse brilhava como a luz da alvorada.” Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) comparou os sonhos verdadeiros do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ao brilho e à claridade da alvorada. Quando recebia a revelação, gotas de suor se acumulavam no rosto abençoado do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ela comparou essas gotas de suor a contas de pérolas reluzentes. Quando os hipócritas espalharam calúnias contra ele e lançaram uma mancha sobre seu caráter, encontramos em sua narrativa um belo retrato de como aqueles dias se tornaram insuportáveis. Ao descrever como foi uma noite de sua vida naquele período, ela disse:⁴¹¹

Será em árabe

Isto é: “Passei a noite inteira chorando. Minhas lágrimas não cessaram até a manhã, e não apliquei sequer o kohl do sono aos meus olhos.” Em vez de dizer diretamente que passou aquela noite sem dormir, derramando lágrimas, ela apresentou isso por meio de uma bela imagem. Comparou a chegada do sono aos olhos à aplicação de kohl neles. Só alguém com profundo domínio da linguagem poderia expressar-se assim. Certa vez, ela perguntou ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Ó Mensageiro de Allah! Se houvesse dois pastos, um dos quais já tivesse sido utilizado para apascentar os animais, enquanto o outro permanecesse completamente protegido, qual deles você preferiria?” Na realidade, ela queria saber de qual preferiria: uma mulher que já tivesse tido relações conjugais ou uma que não as tivesse tido. Queria saber qual era a preferência do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a seu respeito. Porém, em vez de dizer isso diretamente, explicou-o maravilhosamente por meio de uma metáfora. É importante mencionar que, entre as esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), somente ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) era virgem. Todas as demais eram viúvas ou divorciadas.

Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) também conhecia muitos contos populares da antiga Arábia e sabia narrá-los com beleza. Alguns livros de hadith registram duas ou três histórias contadas por ela. Certo dia, ela contou ao seu marido, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), uma longa história sobre onze irmãs árabes. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ouviu sua história com extrema paciência.⁴¹² Nessa história, podem-se observar seu maravilhoso modo de narrar e seu talento artístico. Há uma profusão de ornamentos vocabulares e de figuras de linguagem.

Oratória e discursos:

Somente pessoas eloquentes e hábeis no uso das palavras podem proferir discursos e sermões. Esta é uma qualidade concedida por Deus. É uma arte extraordinária para conquistar as pessoas para o próprio ponto de vista e influenciá-las. Desde os tempos mais antigos até os dias atuais, observa-se o cultivo dessa arte entre todos os povos e grupos do mundo. Entre os antigos árabes, ela era amplamente praticada. A história registra os grandes pregadores da Arábia pré-islâmica e seus sermões e discursos. Por diversas razões e necessidades, essa arte dos sermões desenvolveu-se e floresceu amplamente durante o período islâmico. Ela ultrapassou os limites dos homens e também se difundiu entre as mulheres. Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi uma das maiores pregadoras e oradoras entre as mulheres. Diversos sermões e discursos de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) foram compilados nas fontes antigas da literatura árabe. Os sermões que ela proferiu durante o tumulto da Batalha do Camelo foram compilados na História de Tabari. Ibn ‘Abd Rabbih copiou alguns deles em sua famosa obra al-‘Iqd al-Farid.⁴¹³

Assim como a eloquência e a pureza da linguagem são qualidades essenciais de um bom orador, também é necessário que ele possua pronúncia clara, voz forte e gravidade no tom. A voz de Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) era assim. Tabari narrou:⁴¹⁴

Será em árabe

“Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) proferiu um discurso. Ela tinha uma voz muito forte. O som de sua voz influenciava a maioria das pessoas, como a voz de uma mulher nobre.”

Ahnaf ibn Qays foi um famoso tabi‘i. É provável que tenha tido a oportunidade de ouvir um discurso de Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) em Basra. Ele comentou: ‘Ouvi os discursos de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e de todos os califas até então; porém, a beleza eloquente e a força presentes nas palavras que saíam da boca de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) não podiam ser encontradas nas palavras de ninguém mais.’ Citando o comentário de Ahnaf ibn Qays, o erudito Sayyid Sulayman Nadwi afirma: ‘Na minha opinião, essa declaração de Ahnaf ibn Qays não está livre de exagero; contudo, não há dúvida de que ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma oradora fluente e eloquente.’⁴¹⁵

Hazrat ‘Amir Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) e Musa ibn Talha fizeram exatamente o mesmo tipo de comentário que Ahnaf. Os discursos que ela proferiu durante a Batalha do Camelo demonstravam uma força emocional e um ardor quase incomparáveis. Já apresentamos anteriormente a tradução de um de seus discursos ao tratar da Batalha do Camelo. Aqui encerraremos esta discussão citando um pequeno trecho de outro discurso que ela proferiu naquela ocasião.

Quando Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) chegou a Basra acompanhada de Hazrat Talha e Hazrat Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ambos), os habitantes de Basra reuniram-se em al-Mirbad. Dirigindo-se à multidão reunida, Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) proferiu primeiro um discurso, seguido por Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele). Por fim, Hazrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) discursou. Primeiro, louvou Allah e ofereceu bênçãos e saudações ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Então disse:⁴¹⁶

O árabe é:

“As pessoas falavam das supostas faltas de ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e acusavam seus funcionários e administradores. Elas vinham a Medina, informavam-nos de vários assuntos relacionados a eles e pediam nosso conselho. Examinávamos essas questões. Víamos ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) como um homem puro, temente a Allah e fiel aos seus compromissos. Já os acusadores nos pareciam pecadores, enganadores e mentirosos. Tentavam fazer o oposto do que diziam com a boca. Quando se tornaram fortes o bastante para lutar, levantaram-se coletivamente contra ele. Atacaram-no em sua própria casa. Aquilo cujo derramamento de sangue era proibido, eles tornaram lícito contra ele em sua própria casa; e aquilo que era ilícito — saquear bens e desonrar a cidade — tornaram lícito sem hesitação e sem motivo. Escutai! O que agora deve ser feito, e sem o qual não deveis fazer mais nada, é capturar os assassinos de ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e aplicar sobre eles o julgamento do Livro de Allah.” Então recitou o versículo 23 da surata Al ‘Imran:

“Não viste aqueles que receberam uma parte do Livro? Foram convocados ao Livro de Allah para que este julgasse entre eles; então um grupo deles voltou as costas e recusou-se.”

Em Basra, ela proferiu outro discurso inflamado. Anteriormente, já foi apresentada a tradução de uma parte dele. Cada palavra e frase daquele longo discurso parecia infundir uma intensa emoção e entusiasmo, deixando os ouvintes fascinados. Aqui são apresentados algumas linhas em sua língua original.⁴¹⁷

Será em árabe

“Ó pessoas, calem-se, calem-se. Certamente, tenho sobre vocês os direitos de uma mãe e o direito de aconselhar. Ninguém pode lançar uma acusação contra mim, exceto aquele que desobedeceu ao seu Senhor. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) faleceu com a cabeça apoiada em meu peito. No Paraíso, serei uma de suas esposas. Meu Senhor reservou-me para ele e purificou-me dos outros. Foi por meio de mim que Ele distinguiu os hipócritas dentre vocês dos crentes. E foi por minha causa que Allah lhes concedeu a permissão para fazer tayammum no solo de Abwa. Além disso, meu pai foi o segundo de dois na caverna do monte Thawr, enquanto Allah era o terceiro. Ele foi o primeiro a receber o título de Siddiq. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deixou este mundo satisfeito com ele… Sim, agora tornei-me o centro das perguntas das pessoas: como saí acompanhada de um exército? Com isso, não pretendia buscar nenhum pecado, nem procurar a sedição e a corrupção…”

Cartas

Nas confiáveis coletâneas antigas da literatura árabe encontram-se muitas cartas importantes de Hazrat Aisha (r.a.). Ela escreveu essas cartas, em diferentes ocasiões, a várias personalidades importantes. Agora, a questão é: será que ela mesma escreveu essas cartas? Não há nenhuma prova de que seu conteúdo e sua linguagem não fossem de Hazrat Aisha (r.a.). Por isso, os eruditos da literatura árabe antiga, considerando o valor literário dessas cartas de Hazrat Aisha (r.a.), incluíram-nas em suas próprias obras. Muitas de suas cartas foram compiladas no quarto volume da famosa coletânea de Ibn ‘Abdi Rabbihi al-Andalusi, Al-‘Iqd al-Farid. Por exemplo, depois de chegar a Basra, ela escreveu ao líder local, Zaid ibn Suhan:⁴¹⁸

Será em árabe

“De Umm al-Mu’minin Aisha (r.a.) para seu filho devotado, Zaid ibn Suhan. Que a paz esteja contigo. Além disso, teu pai foi um líder na época da Jahiliyyah e também na época islâmica. Tu estás, de tua parte, na posição de um orante masbuq, que se pode dizer que alcançou quase ou certamente o lahiq. Tu estás, de tua parte, na posição de um orante masbul, que se pode dizer que alcançou quase ou certamente o lahiq. Sabes que calamidade surgiu no Islã com o assassinato de Uthman ibn Affan. Quando esta minha carta chegar a vocês, impedirás as pessoas de apoiar Ali ibn Abi Talib. Permanece em tua casa até que minha ordem chegue a ti. E que a paz esteja contigo.”

Vale a pena examinar um pouco a resposta dada por Zaid ibn Suhan à carta acima de Umm al-Mu’minin Hazrat Aisha (r.a.). Reproduzimos essa carta e encerramos com isso este assunto. Zaid ibn Suhan escreveu:⁴¹⁹

Será em árabe

«De Zayd ibn Suhan para a Mãe dos Crentes, ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Que a paz esteja com você. Depois disso, foram-lhe ordenadas certas ações, enquanto a nós foram ordenadas ações diferentes. Foi-lhe ordenado permanecer em casa, e a nós foi ordenado combater as pessoas até que a fitna fosse eliminada. Você abandonou aquilo que lhe foi ordenado fazer. E escreveu para que nos abstivéssemos daquilo que nos foi ordenado fazer. E que a paz esteja com você.»

O apreço de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) pela poesia

Os árabes do período pré-islâmico eram um povo amante da poesia. A influência do poeta e da poesia em sua vida individual e social era imensa. Para eles, o poeta ocupava o lugar mais elevado de todos. Consideravam o poeta e o profeta pessoas do mesmo nível. Por isso, também chamaram o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de poeta. Ao descrever o lugar e o prestígio do poeta na Arábia da Jahiliyyah, Ibn Rashiq al-Qayrawani disse:⁴²⁰

Será em árabe

«Quando um poeta alcançava reconhecimento em alguma tribo árabe, pessoas das outras tribos vinham felicitá-la. Preparavam-se diversos tipos de alimentos. As moças reuniam-se e tocavam instrumentos, como numa cerimônia de casamento. Homens e crianças vinham expressar sua alegria. Isso acontecia porque o poeta era o guardião de sua honra e dignidade, o defensor de sua linhagem e o divulgador de seu nome e fama.»

Ao estudar a história da literatura árabe antiga, percebe-se que, na Arábia da Jahiliyyah, parecia correr uma inundação de atividade poética. Encontram-se tantos nomes de poetas que seria impossível enumerá-los. Ibn Qutaybah disse:⁴²¹

Será em árabe

«Os poetas — aqueles que se tornaram famosos em suas sociedades e tribos por causa de sua poesia, tanto no período da Jahiliyyah quanto no período islâmico — eram tão numerosos que ninguém poderia contá-los.»

Ele também disse:⁴²²

Será em árabe

“Os que não compuseram poesia são muito poucos; se quiséssemos mencionar seus nomes, poderíamos mencionar os nomes da maioria das pessoas.”

O célebre Companheiro Anas ibn Malik (r.a.), servo do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), disse:⁴²³

Será em árabe

Isto é: “Quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) veio até nós, recitava-se poesia em cada lar dos Ansar.”

Em suma, um poeta árabe, por meio de sua poesia, tanto podia acender um fogo em algum lugar quanto fazer chover a água da vida em outro. Essa qualidade não estava ligada apenas aos homens; as mulheres também a possuíam. Antes do Islã e durante cem anos após o Islã, essa qualidade característica dos árabes existia plenamente entre os muçulmanos. Conhecem-se inúmeras mulheres daquela época que demonstraram tal excelência na composição de poesia e música que seus feitos se tornaram, cada um deles, uma joia de beleza no mundo da poesia árabe.

A Mãe dos Crentes, Hadrat ‘A’ishah (r.a.), nasceu em uma época como essa da história cultural da Arábia. Em sua própria família também se cultivava a poesia. Seu pai, Abu Bakr (r.a.), era poeta.⁴²⁴ O célebre Tabi‘i Sa‘id ibn al-Musayyib disse:⁴²⁵

Em árabe será

“Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) era poeta. ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) era poeta. E ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) era o melhor poeta dos três.”

Portanto, pode-se dizer que ele adquiriu do próprio pai o conhecimento da ciência da poesia. Os comentários e opiniões que expressou sobre a forma, o conteúdo, as imagens poéticas e outros aspectos da poesia comprovam a profundidade de seu conhecimento nessa ciência. Um de seus discípulos, admirador de seu talento, al-Miqdad ibn al-Aswad, disse:426

Em árabe será

“Entre os companheiros do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), não conheço ninguém que tivesse mais conhecimento de poesia e da ciência das leis de sucessão do que ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela).”

Hazrat ‘Urwa ibn az-Zubayr disse exatamente a mesma coisa.427 Outro de seus discípulos disse: “Não me surpreendo com o conhecimento de poesia de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), pois ela é filha de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele).”

Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) também era poeta. Após a morte de seu pai, ela compôs uma elegia, da qual o erudito al-Alusi compilou alguns trechos no segundo volume de sua obra Bulugh al-Arib.

O Imam al-Bukhari reproduziu uma narração de Hazrat ‘Urwa em sua obra Al-Adab al-Mufrad. Ele disse que Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) sabia de cor uma qasida completa de Hazrat Ka‘b ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele). Uma qasida tinha aproximadamente quarenta versos.428 Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) dizia:429

Será em árabe

“Ensinai poesia aos vossos filhos; assim, sua linguagem se tornará melodiosa.”

Aisha (r.a.) sabia de cor muitos poemas dos poetas da época da Jahiliyyah e da época islâmica. Ela apresentava esses poemas, ou partes deles, como citações, conforme a ocasião e a oportunidade. Muitos dos poemas ou versos narrados por ela foram registrados em várias coletâneas de hadith. Certa pessoa perguntou a Aisha (r.a.): “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) alguma vez recitou poesia?” Ela respondeu: “Sim, ele recitava alguns versos de Abdullah ibn Rawahah. Por exemplo:”⁴³⁰

Será em árabe

“Aquele a quem não enviaste com provisões virá até ti trazendo muitas notícias.”

Certo dia, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ouviu Aisha (r.a.) recitando os dois versos seguintes do poeta Zuhayr ibn Janab:⁴³¹

Será em árabe

“Ergue o teu fraco, cuja fraqueza jamais lutará contra ti. Depois, ele alcançará o resultado daquilo que conquistou.”

Ele lhe dará uma recompensa ou o elogiará. Aquele que elogia o seu ato é como aquele que lhe concedeu uma recompensa.”

Ao ouvir os dois versos, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Aisha! Ele disse a verdade. Quem não agradece às pessoas também não agradece a Allah.

Abu Kabir al-Hudhali era um poeta da época da ignorância. Ele compôs um poema em louvor ao seu enteado, o poeta Ta’abbata Sharran. Eis dois de seus versos: 432

Será em árabe

“Ele está livre de toda impureza do ventre de sua mãe e de todas as doenças da ama de leite. Quando observares as fortes veias e ramificações de veias de seu rosto, vê-las-ás brilhar como um relâmpago acompanhado por uma chuva torrencial.”

Certa vez, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) recitou os dois versos acima ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “Ó Mensageiro de Allah, vós sois mais digno desses dois versos.” O Mensageiro de Allah ficou contente com suas palavras.

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) costumava citar frequentemente os dois versos seguintes como exemplo: 433

Será em árabe

«Quando o ciclo do tempo, com suas calamidades e desgraças, passa sobre uma comunidade, acaba por deter-se no seu último membro. Dizei aos que se alegram com a nossa desgraça: acautelai-vos. Em breve também vos defrontareis com o mesmo, tal como nós nos defrontámos.»

O irmão de ‘Aisha, ‘Abdur-Rahman ibn Abi Bakr, faleceu nas proximidades de Meca e foi sepultado em Meca. Mais tarde, quando ‘Aisha foi a Meca, ficou de pé junto ao túmulo do irmão e recitou os dois versos seguintes: 434

Será em árabe

«Nós dois permanecemos juntos durante muito tempo, como os dois companheiros do rei Jadhima. A ponto de as pessoas dizerem a nosso respeito que jamais nos separaríamos.

Depois, quando nos separamos, eu e Malik parecíamos não ter passado juntos sequer uma noite, apesar de termos convivido por tanto tempo.»

No início, os corpos dos emigrantes de Meca não se adaptavam ao clima de Medina. Abu Bakr, ‘Amir ibn Fuhayra, Bilal e muitos outros — até mesmo a própria ‘Aisha — foram acometidos por uma forte febre depois de chegarem a Medina. Enquanto deliravam por causa da febre, muitos deles proferiam versos de poesia. ‘Aisha guardava alguns desses versos na memória e os relatou. Por exemplo, quando a febre de Abu Bakr se agravava, ele recitava o seguinte verso: 435

Será em árabe

«Toda pessoa começa o dia entre sua família e seus parentes, embora a morte esteja mais próxima dela do que o cadarço de seu sapato.»

Hazrat Bilal (r.a.) recitava em voz alta os dois versos seguintes, delirando de febre:

Será em árabe

“Ah! Se eu soubesse que passaria alguma noite nos vales de Meca, com as ervas Hádhkir e Jalil ao meu redor. Ou que um dia eu vagaria junto ao lago de Majanna, ou que algum dia as duas montanhas de Shama e Tufail surgiriam diante dos meus olhos.”

Quando perguntavam a Hazrat Amir ibn Fuhaira (r.a.) sobre seu estado, ele recitava este verso:⁴³⁶

Será em árabe

“Encontrei a morte antes de provar o sabor da vida. A morte do covarde medroso vem sobre ele pelo alto.”

Na batalha de Badr, muitos dos grandes líderes dos coraixitas foram mortos e lançados no poço de Badr. Os poetas coraixitas compuseram muitos lamentos repletos de emoção em sua memória. Hazrat Aisha (r.a.) guardava na memória muitos versos desses poemas e também os transmitiu. Ela também transmitiu os dois versos seguintes.⁴³⁷

Será em árabe

«Quantas dançarinas e nobres bebedores de vinho jazem no poço de Badr; qual será o estado deles? Umm Bakr deseja-lhes paz e segurança. Poderá haver alguma paz para mim depois da morte dos membros da minha tribo?»

Hazrat Sa‘d ibn Mu‘adh (que Allah esteja satisfeito com ele) costumava recitar, durante a Batalha da Trincheira, um verso de uma canção no metro árabe rajaz, que Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) também havia guardado na memória. Ela o descreveu da seguinte maneira:

Em árabe:

«Ah! Se o camelo pudesse alcançar a batalha dentro de pouco tempo. Quando o momento da morte se aproxima, quão bela é essa morte.»

Quando os poetas coraixitas de Meca compunham poemas para censurar o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), também podemos saber, por intermédio de Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela), como os poetas muçulmanos de Medina lhes respondiam. Ela narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Componham poemas censurando os coraixitas. Esses poemas serão mais eficazes contra eles do que golpes de espada.» Hazrat ‘Abdullah ibn Rawahah (que Allah esteja satisfeito com ele) era poeta. Ele compôs um poema, mas o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não gostou muito dele. Então ordenou ao poeta Ka‘b ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) que escrevesse um poema em resposta aos coraixitas. Por fim, chegou a vez de Hazrat Hassan ibn Thabit. Ele veio e disse: «Ó Mensageiro de Allah! Juro por Aquele que o enviou como verdadeiro Profeta: eu os destruirei completamente, assim como as pessoas fazem com o couro.» O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Não há necessidade de pressa. Abu Bakr é, entre toda a família coraixita, o mais conhecedor da genealogia dos coraixitas.» Por isso, ele foi até Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), informou-se sobre os diversos meandros e complexidades da linhagem e voltou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), dizendo: «Ó Mensageiro de Allah! Eu os desmascararei diante deles da mesma maneira que as pessoas arrancam fios de cabelo de um pedaço de massa.» Em seguida, Hassan (que Allah esteja satisfeito com ele) recitou uma qasida, da qual um verso era:

Em árabe:

«O ápice da honra e da dignidade dos descendentes de Hashim é o neto de Makhzum. Já teu pai era um escravo.»

Hazrat ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: ouvi o Mensageiro de Allah dizer: «Hassan! Enquanto defenderes Allah e o Seu Mensageiro, receberás a ajuda de Ruh al-Qudus.» Ela narrou ainda que ouviu o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer também: «Hassan respondeu por ele e livrou-o da tristeza e da preocupação.» Depois de narrar tudo isso, a Mãe dos Crentes recitou-nos também esta qasida de Hassan: 438

Será em árabe

Tu insultaste Maomé, e eu respondi a isso. A recompensa pelo que fiz está junto de Deus.

Tu insultas Maomé, que é virtuoso, devoto e Mensageiro de Deus. Cumprir promessas e compromissos é uma característica de sua natureza.

Meus antepassados, minha honra e minha dignidade são todos como um escudo para proteger a honra e a dignidade de Maomé dos vossos ataques.

Quer alguém dentre vós insultar, elogiar ou ajudar o Mensageiro de Deus — que Deus o abençoe e lhe conceda paz —, tudo isso é igual para ele.

Gabriel está entre nós. Ele é o mensageiro de Deus e o Espírito puro — ninguém se iguala a ele.”

Quando soube da situação caótica de Medina após o martírio de Uthman, o seguinte verso foi pronunciado por ele: 439

Será em árabe

“Se os líderes do meu povo tivessem dado ouvidos às minhas palavras, eu poderia tê-los salvado desta armadilha e destruição.”

Depois de chegar a Basra, costumava-se ouvir de seus lábios os dois versos seguintes:

Será em árabe

“Abandona a terra dos opressores, ainda que nela a água seja pura, e caminha como caminham os amedrontados.

Escolhe o pasto. Depois, pasta ao sol no vale verde de Damad.”

Como mencionamos anteriormente, Hazrat ‘Aisha conservava na memória os dois versos do metro rajaz que alguns dos bravos guerreiros haviam recitado na Batalha do Camelo. Certa vez, ela recitou os dois versos e chorou muito. Esses dois versos são os seguintes:

Será em árabe

“Ó nossa mãe, que reconhecemos como a melhor das mães! Não vês quantos bravos foram feridos e quantas cabeças e mãos foram cortadas como se fossem capim?”

Hisham ibn ‘Urwah narrou de seu pai, ‘Urwah. Aisha (r.a.) disse: Que Allah tenha misericórdia e conceda Sua graça ao poeta Labid.

Ele dizia:⁴⁴⁰

Será em árabe

“Todos aqueles com quem se podia conviver já partiram. Agora vivo entre sucessores como um camelo acometido de lepra.”

Então Aisha (r.a.) disse:

“Se ele visse a situação em que nos encontramos hoje, o que diria! Posso recitar mil versos desse tipo do poeta Labid. Naturalmente, isso é insignificante em comparação com a quantidade de versos que consigo recitar de outros poetas.”

A partir desse comentário de Aisha (r.a.), podemos imaginar quão grande era seu apreço pela poesia, quão profundo era seu domínio dessa ciência e quantas centenas de versos árabes ela sabia de cor. Ao discutirmos sua contribuição para a ciência do hadith, vimos que extraordinário talento ela demonstrou nesse campo! A mesma coisa se observa no caso da poesia árabe.

Vendo o refinado gosto poético de Aisha (r.a.) e sua capacidade de apreciar a beleza artística, muitos poetas recitavam para ela os próprios poemas. Hassan ibn Thabit (r.a.) era reconhecido como o mestre da poesia entre os Ansar. Era natural que Aisha (r.a.) estivesse descontente com ele por ter se envolvido no episódio do Ifk. Apesar disso, ele ia à presença de Aisha (r.a.) e recitava para ela seus poemas.⁴⁴¹ Aisha (r.a.) o elogiava e descrevia suas diversas virtudes. Além disso, ao mencionar o assunto, também citava os nomes dos outros dois grandes poetas das assembleias do Profeta (sallallahu ‘alayhi wa sallam): Ka‘b ibn Malik (r.a.) e Abdullah ibn Rawahah (r.a.).⁴⁴²

Em essência, cultivar a poesia não é bom nem mau. A poesia também é uma forma de discurso. O caráter bom ou mau do discurso não depende do ritmo do poema; depende, antes, do seu conteúdo. Se o conteúdo não for mau, não há defeito nesse poema. O mesmo se aplica à prosa. O bom e o mau dependem do conteúdo.

Sobre o que é bom e mau na poesia, a honrada ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse exatamente o seguinte:⁴⁴³

Será em árabe

“Há poesias boas e poesias más. Aceita a boa e rejeita a má.”

Ela narrou que o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) disse: “O maior pecador entre os poetas é aquele que difama uma tribo inteira.” Ou seja, difamar uma tribo inteira por causa das más ações de uma ou duas pessoas é apenas uma transgressão contra a moralidade e um uso indevido do talento poético.

Por fim, queremos dizer que a honrada ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi um talento extraordinário, cuja descrição e avaliação não são possíveis em um espaço breve. Para descrever sua vida e seus talentos multifacetados, seria necessária uma obra de grande extensão. Em nossa exposição, tentamos apresentar aos leitores alguns aspectos de sua personalidade.

Hafsa, filha de ‘Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele)

Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela), uma das Mães dos Crentes, era filha do segundo califa, ‘Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele). Sua mãe, Zaynab bint Maẓ‘un, pertencente à tribo de Khuzā‘a, era irmã legítima do ilustre Companheiro ‘Uthman ibn Maẓ‘un. Ela própria também era uma Companheira. ‘Abdullah ibn ‘Umar e Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) eram irmãos consanguíneos.¹ Hafsa era seis anos mais velha que ‘Abdullah.² Ela nasceu em Meca cinco anos antes de o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) receber a profecia. ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Naquela época, os coraixitas de Meca estavam ocupados com a reconstrução da Caaba.”³

Quando ela atingiu a idade para se casar, seu pai, Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele), casou-a pela primeira vez com Khunays ibn Hudhafa, da tribo de Banu Sahm. Esse Khunays foi um dos primeiros a aceitar o Islã em Meca. Ele migrou para a Abissínia com o segundo grupo de emigrantes.⁴ Contudo, Musa ibn Uqba e Abu Ma‘shar não mencionaram sua migração para a Abissínia.⁵ De lá, retornou a Meca e depois migrou novamente para Medina. Ao chegar a Medina, hospedou-se na casa de Rifa‘a ibn Abd al-Mundhir, da tribo Banu Amr ibn Awf, em Quba.⁶

Não se sabe claramente quando Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) aceitou o Islã. Entretanto, sabe-se com certeza que, assim que Umar aceitou o Islã, as pessoas de sua própria tribo e de seu clã também aceitaram o Islã. É provável que Hafsa também tenha aceitado o Islã naquela época, junto com os membros de sua família.⁷

Ela migrou para Medina com o marido. Pouco depois de chegar a Medina, ficou viúva. Naquela época, ainda não tinha vinte anos de idade.⁸ Há uma pequena divergência quanto à época da morte de Khunays. Segundo a maioria dos especialistas em sira, ele participou das batalhas de Badr e Uhud. Em Uhud, foi ferido em vários pontos do corpo e morreu em consequência desses ferimentos depois de retornar a Medina.⁹ Segundo outra opinião, ele esteve em Badr com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ali adoeceu ou foi ferido e morreu no segundo ano da Hégira, depois que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) retornou de Badr para Medina.¹⁰

Depois que sua filha ficou viúva, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a pensar em seu segundo casamento. Por acaso, naquela época, faleceu Ruqayya (que Allah esteja satisfeito com ela), filha do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e esposa de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele)! Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi primeiro ao encontro de Uthman e manifestou seu desejo de casá-lo com Hafsa. Uthman pediu tempo para refletir sobre o assunto. Alguns dias depois, respondeu: “Não quero me casar neste momento”. Então Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e disse: “Quero casar Hafsa com você”. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu calado e não deu resposta alguma. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou mais magoado com a atitude de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) do que com a resposta de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) compareceu à presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e expressou sua tristeza.¹¹ Ibn al-Athir afirma que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) primeiro fez a proposta a Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), mas, como ele não respondeu, fez a proposta a Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele).¹²

Por meio do casamento de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), criou-se um estreito vínculo de parentesco entre Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Porém, não havia qualquer parentesco entre ele e Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Era da vontade de Allah que um vínculo semelhante se estabelecesse por meio do casamento com Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela). Ao ouvir a tristeza de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Hafsa se casará com alguém melhor do que Uthman, e Uthman se casará com uma mulher melhor do que Hafsa”.¹³ Em outra narração, consta que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não queres que te indique um genro melhor do que Uthman e a Uthman um sogro melhor do que tu?”. Umar respondeu: “Ó Mensageiro de Allah! Certamente”. Então o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Casa tua filha Hafsa comigo, e casarei minha filha Umm Kulthum com Uthman”.¹⁴ Assim, o casamento foi acertado. O próprio Umar, pai de Hafsa, atuou como seu wali e realizou o casamento. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu a Hafsa um dote de quatrocentos dirhams.¹⁵

A razão pela qual Uthman e Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ambos) não aceitaram a proposta de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi que haviam ouvido o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) falar sobre Hafsa. Eles entenderam que ele desejava casar-se com Hafsa em consideração à honra de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Contudo, não ousaram dizer isso a Umar, temendo que pudessem estar equivocados em sua interpretação.¹⁶ Por essa razão, depois que foi concluído o casamento de Hafsa com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) encontrou Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) certo dia e disse: “O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia mencionado Hafsa certa vez, mas não quis revelar seu segredo. Fora isso, não havia nenhuma outra razão para eu não responder à sua proposta”.¹⁷

Há uma pequena divergência entre os especialistas em sira sobre quando ocorreu o casamento de Hafsa com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Essa divergência surgiu principalmente por causa da discordância quanto à época da morte de seu marido. Ibn al-Athir afirma que, segundo a maioria dos sábios, esse casamento ocorreu no terceiro ano da Hégira.¹⁸ Segundo Abu Ubayda, ocorreu no segundo ano da Hégira. Essa também é a opinião de Ibn Abd al-Barr. Ibn Hajar menciona em sua obra al-Isaba que a opinião referente ao terceiro ano é a mais aceitável, pois seu primeiro marido foi martirizado em Uhud. Alguns afirmam que o casamento ocorreu vinte e cinco — ou, segundo outra opinião, trinta — meses após a Hégira. Algumas narrações mencionam até vinte meses! Entretanto, a batalha de Uhud ocorreu mais de trinta meses após a Hégira. Ibn Sa‘d afirma categoricamente que seu primeiro marido morreu depois de retornar de Badr. Ibn Sayyid al-Nas afirma que o casamento ocorreu no trigésimo mês após a Hégira, no mês de Sha‘ban.²⁰

Há uma pequena divergência entre os especialistas em sira quanto ao ano da morte de Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela). Segundo a opinião mais conhecida, ela faleceu em Medina, no mês de Sha‘ban do ano 45 da Hégira. Isso ocorreu durante o califado do Emir Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele), quando Marwan era o governador de Medina. Ele dirigiu a oração fúnebre, acompanhou o cortejo até o cemitério de al-Baqi e permaneceu sentado até a conclusão do sepultamento. Ele carregou o esquife sobre os ombros desde a casa da família de Hazam até a casa de al-Mughira; ali, Abu Hurayra tomou seu lugar e o carregou até o túmulo. O irmão de Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela), Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), e seus filhos — ‘Asim, Salim, Abdullah e Hamza — desceram o corpo ao túmulo. Assim, ela foi sepultada no cemitério de al-Baqi. Essa opinião foi narrada por al-Waqidi, através de Ma‘mar, al-Zuhri e Salim.²¹ Ibn al-Athir, porém, inclina-se à opinião de que Hafsa faleceu na época em que Hasan ibn Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) prestou juramento de lealdade ao Emir Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele). Isso ocorreu no mês de Jumada al-Awwal do ano 41 da Hégira. Esse ano é chamado de ‘Am al-Jama‘a.

Segundo outro relato, ela morreu no ano 27 da Hégira, durante o califado de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). A base dessa opinião é a declaração de Wahab ibn Malik de que ela morreu no ano em que a África foi conquistada. A África foi conquistada no ano 27 da Hégira. Mas isso é um erro grave, pois a África foi conquistada duas vezes. A primeira conquista ocorreu no ano 27 da Hégira, e a segunda durante o califado de Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele). A honra dessa conquista coube a Mu‘awiya ibn Khadija (que Allah esteja satisfeito com ele).²² Quando morreu, Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha 63 ou 59 anos.

Antes de morrer, ela deu a seu irmão, Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), o mesmo conselho que seu pai, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), lhe dera no momento de sua morte. Ela doou como waqf, pela causa de Allah, a propriedade que seu pai lhe havia deixado em Gaba‘.²³ Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) não deixou filhos.²⁴

Embora Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) não tivesse filhos, deixou muitos homens e mulheres queridos que ouviram hadiths dela e também os transmitiram. Entre os mais notáveis estão: Abdullah ibn Umar, Hamza ibn Abdullah, Safiyya bint Abi Ubayda (esposa de Abdullah), al-Muttalib ibn Abi Wada‘a, Umm Mubashshir al-Ansariyya, Abd al-Rahman ibn al-Harith ibn Hisham, Abdullah ibn Safwan ibn Umayya, Shutayr ibn Shakal, Sawwa al-Khuza‘i, al-Musayyib ibn Rafi‘, al-Majlaz e muitos outros.²⁵

Foram transmitidos ao todo 60 hadiths por Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela os havia ouvido diretamente do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e de seu pai, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).²⁶ Quatro dos hadiths que ela transmitiu são muttafaq ‘alayh, e seis foram narrados exclusivamente por al-Bukhari.²⁷

Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela), como todos os demais homens e mulheres árabes daquela época, não recebeu educação formal. Contudo, quem poderia ter sido um professor maior do que seu pai, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), e seu marido, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)? Sob sua educação e orientação, nasceu nela um forte desejo de adquirir conhecimento e compreender a religião. Seu profundo conhecimento dos assuntos religiosos é demonstrado por vários acontecimentos. Certa vez, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Espero que aqueles que participaram de Badr e Hudaybiyya não entrem no Inferno.” Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) exclamou: “Allah disse:”

Em árabe, será:

“Não há ninguém entre vós que não chegue a ele (ao Inferno).”

O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Sim, isso é verdade; porém, Allah também disse:”

Em árabe será

“Então salvaremos os tementes a Deus e deixaremos os injustos ali, de joelhos.” (Surata Maryam, 71-72)28

Ao perceber o intenso interesse de Hafsa em aprender e adquirir conhecimento, o Nobre Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — também pensava constantemente em ensinar-lhe diferentes assuntos. Safa bint Abdillah era uma mulher companheira. Ela sabia escrever e ler. Hafsa aprendeu a escrever com ela. Safa também praticava a ruqya contra uma espécie de ferida chamada namla. Certo dia, ela foi até o Nobre Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e disse: “Eu praticava encantamentos durante a época da ignorância. Se me permitires, recitarei um deles para ti.” Depois de ouvi-la, o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Ensina também esse encantamento a Hafsa.” Em outro relato, consta que o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse a Safa: “Não ensinarás a Hafsa a súplica contra a namla, assim como lhe ensinaste a escrever?”30 Durante a vida do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e depois dela, Hafsa dedicava-se intensamente à adoração. Jejuava sempre e passava grande parte da noite rezando. Jibril — que a paz esteja com ele — disse ao Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — a respeito dela: “Ela jejua excessivamente e adora muito durante a noite.”31 Em outro relato, consta que Jibril — que a paz esteja com ele — disse: “Ela é uma mulher virtuosa.”32 Foi relatado a respeito dela que morreu enquanto jejuava.33

Ela não gostava de qualquer tipo de divergência. Quando, após a batalha de Siffin, surgiu a questão da arbitragem em Dumat al-Jandal, seu irmão Abdullah ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — não quis sair de casa, considerando aquilo uma fonte de tumulto e discórdia. Hafsa, porém, disse-lhe: “Não obterás nenhum benefício por participares disso, mas deves participar, pois as pessoas estarão esperando a tua opinião. É possível até que a tua ausência provoque divergência entre elas.”34 Em outro relato, consta que ela disse: “Não é apropriado afastar-se de algo que possa promover a reconciliação entre a comunidade de Muhammad. Tu és cunhado do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e filho de Umar ibn al-Khattab.”35

Após o falecimento do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — Hafsa costumava falar com os califas, especialmente com seu pai, o segundo califa, Umar — que Allah esteja satisfeito com ele —, levando-lhes diversas reivindicações em nome do povo. Muitas vezes, o califa também aceitava o conselho de sua filha. Alguns episódios desse tipo são encontrados nos livros de sira.

Mesmo depois de Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — tornar-se califa, ele continuou sustentando sua família com a pensão que lhe fora fixada durante o período do primeiro califa, Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele. Porém, ao perceberem que sua família não conseguia viver adequadamente com aquilo, alguns ilustres Companheiros, entre eles Uthman, Ali, Talha e Zubayr — que Allah esteja satisfeito com eles — reuniram-se para discutir a questão. Decidiram falar com o califa Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — sobre o assunto. Mas quem teria coragem de amarrar o sino no pescoço do gato? Nenhum deles se atreveu a falar com o califa sobre a questão. Por fim, recorreram a Hafsa e pediram-lhe que falasse com o califa. Hafsa — que Allah esteja satisfeito com ela — falou, mas o califa despediu-a, lembrando-lhe a vida desprovida de ostentação e simples do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —.36

Certa vez, ela também pediu a seu pai, o califa Umar — que Allah esteja satisfeito com ele —, que melhorasse a qualidade de suas roupas e de sua alimentação, dizendo: “Agora Allah, o Altíssimo, concedeu aos muçulmanos maior prosperidade do que antes.” Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — chorou muito, lembrando à filha as difíceis condições da vida do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —.37

Certa vez, chegaram ao califa Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — alguns bens e riquezas. Hafsa foi até ele e disse: “Ó Comandante dos Crentes! Allah, o Altíssimo, determinou disposições acerca dos parentes próximos. Os teus parentes próximos têm direito a uma parte desses bens.” Ao ouvir as palavras da filha, o califa respondeu: “O direito dos meus parentes próximos está na minha propriedade; estes bens, porém, pertencem aos muçulmanos. Filha, estás enganando teu pai. Levanta-te e sai daqui.” Então Hafsa deixou rapidamente o local, temendo que ele puxasse a ponta de seu manto.38 Foi narrado por Ibn Jurayj que, certa noite, enquanto Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — circundava a Caaba, ouviu uma mulher cantar uma canção de lamento em tom triste. Seus dois versos eram assim:

Será em árabe

—Esta noite tornou-se longa e extensa, e todos os lados estão cobertos por uma densa escuridão. Estou acordado sozinho, sem nenhum ente querido ao meu lado com quem possa conversar amorosamente.

—Allah, o Incomparável; se não houvesse temor d’Ele, os arredores desta cama certamente estremeceriam.

O califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até a mulher e perguntou-lhe: “O que aconteceu com você?” A mulher respondeu: “Meu marido está longe de mim há vários meses. Meu desejo de tê-lo perto de mim tornou-se intenso.” Então Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até sua filha Hafsa e disse: “Quero saber de você algo importante; ajude-me. Quando as mulheres ficam afastadas dos maridos, depois de quanto tempo se torna intenso o desejo de tê-los por perto?” Hafsa baixou a cabeça, envergonhada. Umar disse: “Allah não se envergonha de revelar a verdade.” Então Hafsa fez um gesto com a mão, indicando três ou quatro meses. Diante disso, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ordenou que nenhum soldado permanecesse retido por mais de quatro meses.39

Al-Bayhaqi (9/29) narrou, com base em Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): certa noite, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) saiu para percorrer a cidade e ouviu uma mulher cantando os dois versos mencionados acima. Então perguntou a Hafsa: “Por quanto tempo, no máximo, as mulheres conseguem ficar sem os maridos?” Hafsa respondeu: “Seis ou quatro meses.” Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Não manterei nenhum soldado retido por mais tempo do que isso.”40

Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) era filha de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Assim como o pai, ela também tinha um temperamento um tanto incisivo. Às vezes, respondia às palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com outras palavras, o que podia dar início a um desentendimento na vida conjugal. Um episódio a esse respeito foi narrado por Bukhari e outras obras. Certa vez, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse a Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): “Na época da ignorância, as mulheres coraixitas eram obedientes e submissas aos homens. Nós não lhes dávamos a menor importância. O Islã concedeu-lhes honra. Depois que muitos versículos foram revelados a respeito delas, tomamos conhecimento de sua posição e dignidade. Quando chegamos a Medina, vimos que as mulheres de Medina haviam tornado os homens obedientes e submissos a elas. Pouco a pouco, nossas mulheres começaram a aprender com elas. Minha casa ficava no povoado de Banu Umayya ibn Zayd, em Awali. Certo dia, fiquei extremamente irritado com minha esposa. Ela também não se conteve e me respondeu palavra por palavra. Não gostei nem um pouco daquela resposta. Então ela disse: ‘Você não gosta que eu lhe responda dessa maneira, mas até as esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondem às suas palavras. Algumas de suas esposas ficam afastadas dele até o anoitecer.’ Em outro relato, consta que ela disse: ‘Sua filha Hafsa responde ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) na própria face, de tal modo que ele passa o dia inteiro abatido.’

Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ao ouvir isso, corri até Hafsa e perguntei-lhe: ‘Vocês respondem às palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?’ Hafsa respondeu: ‘Sim. Fazemos isso.’ Perguntei: ‘Alguma de vocês permanece afastada dele até a noite?’ Hafsa respondeu: ‘Sim.’ Eu disse: ‘Aquela entre vocês que age assim não prosperará; sofrerá prejuízo. Alguma de vocês se considera segura da ira de Allah mesmo depois de provocar a ira do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)? Que aquela que é mais bela do que você e mais querida pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)) não a engane.’42

Em outro relato, consta que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse a Hafsa: “Cuidado! Não faça isso. Eu a advirto contra a segurança diante do castigo de Allah. Não caia na armadilha da arrogância daquela cuja beleza encantou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” (Isto é, Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela.)43 Em outro relato, consta que ele disse a Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela): “Não responda às palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Você não possui a beleza de Zaynab nem a boa fortuna de Aisha.”44 At-Tirmidhi narrou: certo dia, a Mãe dos Crentes, Safiyya, estava sentada chorando. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entrou em casa e, ao vê-la chorando, perguntou-lhe a razão. Safiyya respondeu: “Hafsa me chamou de ‘filha de um judeu’.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a Hafsa: “Tema a Allah.” Depois disse a Safiyya: “Você é filha de um profeta, seu tio também é um profeta e, além disso, é esposa de um profeta. Em que Hafsa pode se orgulhar diante de você?”45 Certa vez, Hafsa e Aisha (que Allah esteja satisfeito com ambas) disseram a Safiyya: “Nós duas somos mais dignas de honra do que você diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Somos suas esposas e, além disso, suas primas.” Essas palavras feriram profundamente Safiyya. Ela lhes disse: “Por que vocês não lhe disseram que não podem ser mais dignas de honra do que eu? Meu marido é Muhammad, meu pai é Harun e meu tio é Musa.”46

Embora Aisha e Hafsa (que Allah esteja satisfeito com elas) fossem coesposas, sua relação era como a de duas irmãs. Na maioria das questões, elas se apoiavam mutuamente. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse sobre Hafsa: “Hafsa é filha de seu pai. Assim como seu pai era firme em cada palavra e ação, Hafsa também era.”47 Entre as esposas de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), somente Hafsa reivindicava ser minha igual.48 Nós duas éramos como uma só mão.49

Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava em seu leito durante a doença final, tendo chegado ao limite de sua vida. Chegou a hora da oração. Ele disse: “Diga a Abu Bakr que conduza as pessoas na oração.” Aisha disse: “Abu Bakr é um homem de coração sensível. Se ele ficar no lugar de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e recitar o Alcorão, ficará sem voz de tanto chorar, e as pessoas não conseguirão ouvir nada.” Ela disse essas palavras a Hafsa e pediu-lhe que dissesse a Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que ordenasse a mim, em vez dele, que conduzisse a oração. Quando Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela), conforme as palavras de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), disse isso a Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele comentou: “Vocês são como as companheiras de José.”50

Apesar da extraordinária sintonia entre Aisha e Hafsa e do grande afeto que existia entre ambas, às vezes surgiam nelas as inclinações naturais das mulheres. Elas eram acometidas de ciúmes quanto à companhia e ao carinho do marido. Certa vez, as duas acompanharam Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em uma viagem. À noite, Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) montava o camelo de Aisha e seguia pelo caminho conversando com ela. Um dia, Hafsa disse a Aisha: “Se esta noite você montar meu camelo e eu montar o seu, veremos uma cena diferente.” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) concordou. Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) seguiu viagem com Hafsa em sua montaria. Ao chegar ao local de parada, Aisha não encontrou Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Então, enfiando os dois pés na grama izkhir, começou a dizer, irritada: “Ó Allah! Quem dera uma serpente ou um escorpião me picasse!”51

Aisha e Hafsa eram, respectivamente, filhas de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Essas duas grandes personalidades eram muito próximas de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por isso, na vida familiar de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Aisha e Hafsa formavam um bloco unido, em oposição às demais esposas purificadas. Essa união delas esteve por trás de muitos acontecimentos da vida familiar do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Devemos nos lembrar de uma coisa: todos os acontecimentos, grandes ou pequenos, da vida de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não são acontecimentos banais, como os da vida das pessoas comuns. Cada acontecimento contém uma lição para a humanidade. Allah, o Altíssimo, quis ensinar à humanidade, por meio desses acontecimentos, lições práticas sobre diversas normas e comportamentos. Caso contrário, Ele poderia não ter permitido que tais acontecimentos ocorressem na vida de Seu Profeta. É assim que devemos considerar cada acontecimento da vida de nosso amado Profeta.

A surata At-Tahrim foi revelada no nono ano da Hégira. Por trás dessa revelação houve um acontecimento da vida familiar de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Doces e mel eram alimentos muito apreciados pelo nobre Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Normalmente, depois da oração do Asr, ele visitava as casas de todas as suas esposas. Certo dia, demorou-se um pouco mais que o habitual na casa de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela). Isso deixou Aisha contrariada. Ela soube que uma mulher havia enviado a Zaynab um pouco de mel como presente. Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia bebido daquele mel na casa de Zaynab. Por essa razão, sua permanência ali se prolongara. Aisha e Hafsa formaram uma aliança. Aisha disse a Hafsa: “Quando Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) vier à minha casa ou à sua, diremos a ele: ‘Sentimos cheiro desagradável de maghafir em sua boca.’” (Maghafir é o plural de magfur; trata-se da flor de uma espécie de planta da qual as abelhas extraem mel.) Aisha ensinou as mesmas palavras também a Safiyya. Quando Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi à casa delas, ambas disseram a mesma coisa, conforme haviam combinado. Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) detestava muito os odores desagradáveis. Depois, quando voltou à casa de Zaynab, ela lhe disse: “Não é necessário.” Então ele proibiu para si mesmo o consumo de mel. Ao saber dessa decisão de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Aisha disse a Hafsa, em tom de pesar: “Cometemos uma coisa terrível. Privamos Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de algo de que ele gostava.” Foi nesse contexto que foram revelados os seguintes versículos da surata At-Tahrim:52

— Ó Profeta, por que proíbes para ti aquilo que Allah tornou lícito, buscando agradar às tuas esposas? (At-Tahrim, 1)

Em diferentes relatos, aparecem nomes diferentes para a mulher que serviu mel a Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Em alguns relatos, aparece o nome de Hafsa. Nesse caso, Aisha formou um grupo com Sawda e Safiyya. É isso que também se pode entender de um relato de Ibn Sa’d.53 Em alguns relatos, aparece igualmente o nome de Umm Salama.54

O Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) decidiu não beber mel para agradar às suas esposas e pediu que isso fosse mantido em segredo, para que a mulher que havia servido o mel não se sentisse magoada. Segundo a maioria dos relatos, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) contou esse segredo a Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela). Mas Hafsa não conseguiu guardá-lo em segredo e revelou-o a Aisha. Foi a isso que Allah se referiu no terceiro versículo da Surata At-Tahrim, dizendo: “Quando o Profeta confiou um segredo a uma de suas esposas, mas ela o divulgou, e Allah o informou disso, o Profeta comunicou parte dele à esposa e omitiu outra parte. Quando o Profeta lhe comunicou isso, ela perguntou: ‘Quem o informou a esse respeito?’ Ele respondeu: ‘Informou-me o Onisciente, o Conhecedor de tudo.’

Al-Waqidi e muitos outros especialistas em Sira também transmitiram outro relato sobre a causa da revelação da Surata At-Tahrim. Certo dia, Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) não estava em casa. Nessa ocasião, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi ao seu aposento, chamou a serva Maria, a Copta, e esteve com ela. Enquanto isso, Hafsa voltou e, por estar descontente, proibiu para si a companhia daquela serva. E pediu que essa questão fosse mantida em segredo. Mas ela não conseguiu guardá-la e revelou-a a Aisha. Então, a Surata At-Tahrim foi revelada. Nafi‘ disse: “Não é correto que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tenha declarado ilícita para si a sua serva e, depois, Allah, o Altíssimo, tenha ordenado que ele oferecesse uma expiação por quebrar o juramento?”⁵⁵

A respeito dessas duas mulheres que provocaram tais acontecimentos e colocaram o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) numa situação embaraçosa, Allah revelou o quarto versículo de At-Tahrim: “Se ambas se arrependerem diante de Allah, será melhor, pois seus corações se inclinaram para o erro. Mas, se se ajudarem mutuamente contra o Profeta, sabei que Allah, Gabriel e os crentes virtuosos são seus apoiadores.”⁵⁶ Essas duas mulheres eram Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela). Há um longo relato de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) sobre a identidade dessas duas mulheres, registrado no Sahih al-Bukhari. Ele disse: “Há algum tempo eu desejava perguntar a Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) sobre as duas mulheres a respeito das quais foi dito no Alcorão: ‘Se ambas se arrependerem’. Finalmente, certa vez, quando ele partiu para realizar o Hajj, aproveitei a oportunidade e viajei com ele. Um dia, durante a viagem, enquanto ele fazia a ablução e eu derramava água sobre ele, perguntei: ‘Quem são as duas mulheres mencionadas no Alcorão, a respeito das quais foi dito: “Se ambas se arrependerem”?’ Umar respondeu: ‘É surpreendente que você não saiba! Essas duas mulheres são Hafsa e Aisha (que Allah esteja satisfeito com ambas).’”⁵⁷

Essa pequena desavença entre as esposas do Profeta não era um assunto comum. Os hipócritas estavam sempre procurando uma oportunidade para provocar qualquer ruptura entre a própria família do Profeta e seus parentes e amigos próximos. Ao tomarem conhecimento dessa divergência trivial entre as Mães dos Crentes, talvez quisessem incitá-la ainda mais. Pensaram que, dessa vez, poderiam colocar Abu Bakr e Umar (que Allah esteja satisfeito com ambos), pais de Aisha e Hafsa, contra o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Mas não sabiam que, aos pés do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), eles estavam dispostos a sacrificar não apenas as filhas, mas também as próprias vidas. Por isso, quando Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) não recebeu permissão para ver Hafsa, exclamou: “Se eu receber permissão, voltarei trazendo a cabeça de Hafsa.”⁵⁸ O quarto versículo da Surata At-Tahrim faz alusão precisamente a isso: mesmo que Aisha e Hafsa conspirassem e os hipócritas se aproveitassem disso, Allah ajudaria Seu Profeta. E com Allah estão Gabriel, os anjos e todos os crentes, homens e mulheres, do mundo inteiro.⁵⁹

Foi relatado que, depois do acontecimento mencionado, o Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) divorciou-se de Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela), mas depois a tomou de volta. Isso foi dito por Asim ibn Umar.⁶⁰ Após o divórcio, Gabriel (que a paz esteja sobre ele) foi até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “Hafsa jejua abundantemente e realiza muitas orações durante a noite. No Paraíso, ela será sua esposa.” Ao ouvir isso de Gabriel, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tomou-a novamente.⁶¹

Ibn Sa‘d transmitiu um relato de Qays ibn Yazid e Ibn Sirin. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) divorciou-se de Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) uma vez. Então, os dois tios maternos de Hafsa, Qudama e Uthman ibn Maz‘un, foram vê-la. Hafsa, chorando, disse-lhes: “Juro por Allah! Ele não se divorciou de mim por causa de qualquer ato mau.” Nesse momento, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou e disse: “Gabriel me disse: ‘Tome Hafsa de volta, pois ela jejua abundantemente e realiza muitas orações. No Paraíso, ela será sua esposa.’”⁶²

“Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afastou-se de suas esposas. Espalhou-se entre as pessoas o rumor de que ele havia se divorciado de todas elas. Isso ocorreu antes da ordem do hijab. Fui até Aisha e disse: ‘Ó filha de Abu Bakr! Ouviste dizer que as pessoas estão comentando que tu magoaste o Mensageiro de Allah?’ Aisha respondeu: ‘Ó filho de Al-Khattab, que relação tens com isso? Podes ir para outro lugar.’

Depois fui até Hafsa e disse: “Juro por Allah, sei que ele não te ama. Se eu não estivesse aqui, certamente se divorciaria de ti.” Ao ouvir isso, Hafsa chorou muito. Perguntei: “Onde está o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?” Ela respondeu: “Está num aposento próximo.” Vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sentado ali. Sua capa estava pendurada na porta. Por meio dela, pedi para encontrar o Mensageiro de Allah. Depois de algum tempo, recebi permissão. Disse ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Se me deres permissão, cortarei a cabeça de Hafsa.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez um gesto com a mão para que eu me acalmasse. Então perguntei calmamente: “Ó Mensageiro de Allah! Divorciaste tuas esposas?” Ele respondeu: “Não.” Então, de pé à porta da mesquita, anunciei em voz alta: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não se divorciou de suas esposas.” Foi então revelado o versículo 83 da Surata An-Nisa.⁶³ O acontecimento foi transmitido de formas diferentes em diversas fontes.

Através dos relatos sobre os desentendimentos e o divórcio na família do Profeta, muitos dos atributos e méritos de Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela), bem como algumas disposições da Sharia, tornaram-se claros para mim. Por exemplo:

  1. Conceder o divórcio é algo permitido. Se o divórcio ocorrer por alguma necessidade ou benefício, isso não é contrário à perfeição.⁶⁴
  2. O próprio Allah, o Altíssimo, louvou Hafsa, atestando que ela jejuava muito e realizava muitas orações.
  3. Também no Paraíso ela terá a bênção de ser esposa do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
  4. Para agradá-la, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou ilícitas para si duas coisas que eram lícitas.
  5. Pelas palavras de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), soube-se que ela era como seu pai.’

6. Pequenos desentendimentos na vida conjugal são algo natural. Nesse aspecto, o exemplo do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deve ser seguido por nós.

Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha um intenso temor do Dajjal. Em Medina havia um homem chamado Ibn Sayyad. Muitos dos sinais ou características do Dajjal descritos pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estavam presentes naquele homem. Até o próprio Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha dúvidas a respeito dele. Certo dia, Hafsa e Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com eles) encontraram aquele homem no caminho. Quando Ibn Umar lhe disse algo, ele se enfureceu e ficou tão alterado que bloqueou a passagem. Ibn Umar se preparou para golpeá-lo. Hafsa ficou assustada. Ela disse a Ibn Umar: “O que você tem a ver com ele? Você não sabe que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘A ira do Dajjal será a causa de sua saída’?”⁶⁵

Não seria possível concluir, em um pequeno artigo, a descrição da honra e da dignidade de Hafsa, Mãe dos Crentes, que Allah esteja satisfeito com ela. Allah informou que, assim como ela se tornou una com a vida do Mensageiro nesta terra, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permanecerá igualmente unida a ele na vida do Além.

Zaynab bint Khuzayma, que Allah esteja satisfeito com ela

Zaynab bint Khuzayma ibn al-Harith al-Hilaliyya era filha de Banu Bakr ibn Hawazin. Seu título, ou laqab, era Umm al-Masakin. Quando seu marido morreu como mártir na batalha de Uhud, o Nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, casou-se com ela naquele mesmo ano, e ela passou a possuir a incomparável dignidade de Mãe dos Crentes.

Há divergências quanto à identidade do primeiro marido de Zaynab bint Khuzayma, que Allah esteja satisfeito com ela. Segundo Baladhuri, Ibn al-Kalbi e o genealogista Abu al-Hasan Ali al-Jurjani, antes de seu casamento com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, seu primeiro marido foi Tufayl ibn al-Hassi. Tufayl ibn al-Harith. Quando Tufayl se divorciou dela, seu irmão Ubayda ibn al-Harith casou-se com ela. Ele foi ferido em Badr e morreu em as-Safra. Naquela época, Ubayda tinha 64 anos. Depois, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, casou-se com ela no mês de Ramadan do terceiro ano da Hégira. Foi isso que disseram Baladhuri e Ibn Sa’d.

Yunus ibn Muhammad, citando Ibn Ishaq, disse que anteriormente ela havia sido esposa de al-Husayn ibn al-Harith ibn Abd al-Muttalib, ou de seu irmão at-Tufayl ibn al-Harith. Ibn Hisham disse: antes de seu casamento com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ela era esposa de Ubayda ibn al-Harith. Antes de Ubayda, ela havia sido esposa de Jahm ibn Amr ibn al-Harith. Esse Jahm era seu primo paterno.

Entretanto, segundo Ibn Abd al-Barr e Ibn al-Athir, imediatamente antes de seu casamento com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ela era esposa de Abdullah ibn Jahsh. No terceiro ano da Hégira, esse Abdullah morreu como mártir na batalha de Uhud. Os descrentes cortaram e separaram partes de seu corpo, mutilando o cadáver. Ele era filho de Umayma bint Abd al-Muttalib, tia paterna do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela, sofreu profundamente com uma morte tão trágica de seu marido. O Imam Zuhri também afirmou isso.

No início do mês de Ramadan do terceiro ano da Hégira, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, casou-se com ela e lhe deu doze uqiyyas de ouro como dote. Ibn Hisham disse que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, casou-se com ela oferecendo quatrocentos dirhams como dote. O casamento foi intermediado por Qubaysa ibn Amr al-Hilali, que Allah esteja satisfeito com ele. Segundo algumas narrativas, ela viveu dois ou três meses após o casamento com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Baladhuri disse que ela morreu no fim do mês de Rabi al-Thani. Essa opinião parece ser a correta. Quando morreu, tinha trinta anos. Entre as esposas do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ela foi, depois de Khadija, a primeira a alcançar o Paraíso durante sua vida. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dirigiu a oração fúnebre por ela e a sepultou no cemitério de Baqi, em Medina.

Ibn Hajar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse que, depois de Hafsa, que Allah esteja satisfeito com ela, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, trouxe Zaynab bint Khuzayma, que Allah esteja satisfeito com ela, para sua casa. Em uma narração de Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, consta que, após a morte de Zaynab bint Khuzayma, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, casou-se com ela e a levou para morar em sua própria casa.

Alguns disseram que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), por meio desta afirmação

Será em árabe

(Aquela dentre vocês cuja mão é mais longa será a primeira a encontrar-se comigo após a minha morte.) fez alusão a Zaynab bint Khuzayma. A expressão “mão longa” foi usada em sentido metafórico, significando generosidade. Como Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela, fazia muitas doações e caridades, ela foi indicada pela expressão “mão longa”.

Mas essa opinião deles está completamente equivocada. Na realidade, este hadith referia-se especificamente a Zaynab bint Jahsh, que Allah esteja satisfeito com ela. Ela morreu após o falecimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), antes de todas as demais esposas purificadas. Os estudiosos do hadith são unânimes, porém, em afirmar que Zaynab bint Khuzayma, que Allah esteja satisfeito com ela, faleceu durante a vida do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).13

Ibn Hisham disse:14

Será em árabe

— Devido à sua compaixão, ternura e solidariedade para com os pobres e necessitados, ela era chamada de “Umm al-Masakin”, ou seja, “a mãe dos necessitados”.

O hafiz Ibn Hajar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse:15

Será em árabe

Ela alimentava os pobres e necessitados e lhes fazia caridade; por isso era chamada de Umm al-Masakin, “Mãe dos Necessitados”.

Ibn Abd al-Barr e Baladhuri dizem que ela já era chamada por esse nome na época da Jahiliyyah.¹⁶

Umm Salama bint Abi Umayya (que Allah esteja satisfeito com ela)

O nome verdadeiro de Umm al-Mu’minin, Hadrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), era Hind. “Umm Salama” era seu nome de kunya, e foi por esse nome que ela ficou conhecida.¹ Alguns disseram que seu nome era Ramla, mas os muhaddithun consideraram essa informação infundada.² Na realidade, Ramla era o nome de Umm al-Mu’minin Hadrat Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela). O pai de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) era Abu Umayya ibn al-Mughira ibn Abdullah ibn Amr ibn al-Makhzum. O nome verdadeiro de Abu Umayya era Hudhayfa, mas ele ficou conhecido pelo nome de Abu Umayya.³ Seu título era Zad al-Rakib. “Zad al-Rakib” significa “provisão da caravana”. Ele ocupava uma posição especial entre os generosos e os que ofereciam hospitalidade em Meca. Quando viajava com alguma caravana, assumia sobre os próprios ombros toda a responsabilidade, incluindo a alimentação e as demais necessidades de toda a caravana. Impressionados com sua generosidade e magnanimidade, os árabes de sua época concederam-lhe esse título.⁴ É importante mencionar que, naquela época, havia apenas três pessoas entre os coraixitas que ostentavam o título de Zad al-Rakib: Abu Umayya ibn al-Mughira, al-Aswad ibn Abd al-Muttalib e Musafir ibn Abi Amr.⁵

Hisham, pai de Abu Jahl de Meca; Hashim, avô materno de Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele); al-Walid ibn al-Mughira, pai de Khalid ibn al-Walid (que Allah esteja satisfeito com ele); Abu Hudhayfa al-Makhzumi; Abu Rabi‘a, pai de Ayyash ibn Rabi‘a; Fakiha; Hafs, primeiro marido de Hind bint Utba; e Abd Shams eram todos filhos de al-Mughira al-Makhzumi, irmãos de Abu Umayya e tios paternos de Hadrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Por outro lado, Umm Harmala bint Hisham, mãe de Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele), e Khantama bint Hashim, mãe de Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele), eram ambas primas paternas de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Khalid ibn al-Walid, al-Walid ibn al-Walid, Ayyash ibn Abi Rabi‘a, Salama ibn Hisham, Abu Jahl ibn Hisham, Khalid ibn Hisham e al-Harith ibn Hisham eram todos seus primos paternos.⁶

O nome da mãe de Hadrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) era Atika bint Amir ibn Rabi‘a ibn Malik al-Kinaniyya.⁷ Alguns autores consideraram que a mãe de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), Atika, era filha de Abd al-Muttalib. Assim, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) seria prima paterna do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).⁸ Na realidade, essa Atika havia se casado com o pai de Umm Salama, e desse casamento nasceram três filhos: Abdullah, Umm Zuhayr e Qariba. Porém, essa Atika não era a mãe de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Sua mãe era Atika, filha de Amir ibn Rabi‘a.⁹

Primeiro casamento

O primeiro casamento de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) foi com ‘Abdullah ibn ‘Abdil-Asad al-Makhzumi, cujo kunya era Abu Salama e pelo qual era conhecido. Hilal, avô paterno de Abu Salama, e Mughirah, avô paterno de Umm Salama, eram irmãos. ‘Abdullah, pai de Abu Salama, era tio por casamento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ele se casou com Barra, tia paterna do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Salama (que Allah esteja satisfeito com ele) era filho deles. Abu Talib, Hazma (que Allah esteja satisfeito com ele) e ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) eram os honrados tios maternos de Abu Salama.¹⁰ Por outro lado, Abu Salama era irmão de leite do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).¹¹

Ambos, marido e mulher, pertenciam ao grupo de pessoas chamadas qadim al-Islam, ou seja, aquelas que aceitaram o Islam no primeiro período. No início do Islam, quando as pessoas hesitavam e se debatiam entre aceitar ou não o Islam, e quando tomar a decisão correta era uma tarefa extremamente difícil, esse casal teve a ventura de aceitar o Islam.¹² Ibn al-Athir escreveu que Abu Salama ibn ‘Abdil-Asad, Abu ‘Ubayda ibn al-Harith, al-Arqam ibn Abi al-Arqam e ‘Uthman ibn Maz‘un aceitaram o Islam todos juntos. Depois deles, ‘Abdullah ibn Mas‘ud, Sa‘id ibn Zayd e outros se tornaram muçulmanos.¹³

Depois que ele aceitou o Islam, os Banu Makhzum passaram a torturar e perseguir cruelmente Abu Salama (que Allah esteja satisfeito com ele). Por fim, ele fugiu e buscou refúgio junto de Abu Talib. Os homens dos Banu Makhzum disseram: “Abu Talib! Até agora você ajudou e apoiou seu sobrinho; agora também não entrega às nossas mãos o filho de nosso irmão que está sob sua proteção?” Abu Talib respondeu: “Assim como protejo o filho de meu irmão do perigo, também protejo do mesmo perigo o filho de minha irmã.” Quando foi ordenada a Hégira, ele emigrou para a Abissínia. Ibn Ishaq disse que ele foi o primeiro a emigrar para a Abissínia acompanhado de sua esposa.¹⁴

Hégira

Assim como os dois haviam decidido juntos aceitar o Islam, também estavam de acordo quanto à Hégira. Eles emigraram duas vezes consecutivas para a Abissínia.¹⁵ Depois de permanecerem ali por alguns dias, retornaram novamente a Meca. Em seguida, partiram outra vez em direção a Medina. Ibn al-Athir narrou em sua obra, com as próprias palavras de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), o doloroso acontecimento que ela enfrentou durante a Hégira para Medina. Ele disse:

“Quando Abu Salama decidiu partir para Medina, ele tinha apenas um camelo. Ele me colocou sobre o camelo junto com seu filho Salama e começou a conduzi-lo, segurando as rédeas. Os homens da família de meu pai, dos Banu Mughirah, impediram Abu Salama e disseram: ‘Não permitiremos que nossa filha vá em uma condição tão difícil.’ Eles arrancaram as rédeas do camelo das mãos de Abu Salama e partiram levando-me consigo. Enquanto isso, chegaram os homens da família de meu marido, dos Banu ‘Abdil-Asad, e tomaram meu filho Salama sob sua custódia. Eles disseram aos Banu Mughirah: ‘Se vocês não permitirem que sua filha vá com o marido, nós não deixaremos nosso filho com a filha de vocês.’ Assim, eu, meu marido e meu filho fomos separados, cada um lançado para um lado. Fiquei completamente debilitada pela dor da separação de meu marido e de meu filho. Como a ordem da Hégira havia sido dada, Abu Salama chegou a Medina; enquanto isso, eu permanecia sozinha em Meca. Todas as manhãs eu saía de casa e me sentava sobre uma colina no vale de Abtah, chorando até a noite. Isso continuou por cerca de sete ou oito dias.”

Certo dia, um homem dos Banu Mughirah, que desejava o nosso bem, ficou profundamente comovido ao ver minha situação. Ele reuniu os homens dos Banu Mughirah e os repreendeu, dizendo: ‘Por que vocês não libertam essa moça indefesa? Por que a mantêm separada do marido e do filho? Libertem-na e permitam que se reúna com o marido e o filho.’ Ele expressou essas palavras com tamanha emoção que a compaixão e a misericórdia surgiram no coração dos homens da minha tribo paterna. Eles me permitiram ir até meu marido. Ao saber da notícia, os Banu ‘Abdil-Asad também enviaram meu filho para junto de mim. Então sentei-me no howdah sobre o camelo e parti levando Salama no colo. Saí sozinha de Meca e cheguei a Tan‘im. Ali encontrei ‘Uthman ibn Talhah ibn Abi Talhah, o guardião das chaves da Caaba. Ao saber de minha intenção, ele perguntou se havia alguém comigo. Respondi: ‘Não, não há ninguém. Somente eu e este meu filho.’ Ao ouvir isso, ele segurou firmemente as rédeas do meu camelo e começou a caminhar à frente dele, puxando-o.

Por Allah, nunca encontrei na Arábia alguém melhor e mais cortês do que ‘Uthman ibn Talhah. Quando chegávamos a algum lugar de parada e precisávamos descansar, ele fazia o camelo sentar e se afastava para trás de alguma árvore. Quando era hora de partir novamente, preparava o camelo, vinha até mim e dizia: ‘Monte no camelo.’ Depois que eu me acomodava confortavelmente sobre o camelo, ele segurava as rédeas e continuava caminhando à frente. Toda a viagem transcorreu dessa maneira. Quando chegamos a Quba, na localidade dos Banu ‘Amr ibn ‘Awf, em Medina, ‘Uthman ibn Talhah me disse: ‘Seu marido está nesta localidade.’ Abu Salama estava ali. Confiando em Allah, entrei na localidade e encontrei Abu Salama. Assim, depois de me conduzir até Abu Salama, ‘Uthman ibn Talhah partiu novamente em direção a Meca.¹⁶

Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) guardou na memória, por toda a vida, a consideração e a compaixão demonstradas por Uthman ibn Talha. Ela costumava dizer:

Será em árabe

—Nunca conheci companheiro mais cortês do que Uthman ibn Talha.

Durante esse período de provações, os muçulmanos eram vítimas de torturas e perseguições por todos os lados, e suas preocupações e angústias pareciam não ter fim. O sofrimento que Umm Salama teve de suportar durante a Hégira foi apenas uma parte disso. Ela própria tinha consciência desse fato. Por isso, sempre que, mais tarde, surgia o assunto da Hégira, dizia com certo orgulho: “Não sei se alguém entre a Ahl al-Bayt suportou tanto sofrimento quanto a família de Abu Salama suportou pela causa do Islã.”¹⁷

Assim como Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) se distinguia entre as demais esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) por suas diversas virtudes, também possuía esta distinção: foi a primeira mulher recatada a emigrar de Meca para Medina.¹⁸

Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma mulher de acentuado senso de dignidade. Seu pai, Abu Umayya, era um homem ilustre e respeitado entre os coraixitas. Quando Umm Salama chegou a Quba, as pessoas queriam saber sua identidade. Quando ela mencionava o nome de seu pai, ninguém queria acreditar, pois, mesmo naquela época, era inconcebível que uma mulher nobre como ela viajasse sozinha daquela maneira. Umm Salama tinha um amor intenso pelo Islã e acreditava firmemente que era obrigatório obedecer às ordens de Allah. Por isso, não reagia às palavras de ninguém; suportava tudo em silêncio. Chegou a época do Hajj. Quando algumas pessoas partiram de Quba em direção a Meca para realizar o Hajj, ela lhes deu o endereço de seu pai em Meca. Então todos acreditaram em sua nobreza e na ilustre origem de sua família. Ela conquistou, no coração de todos, uma posição de grande respeito e honra.¹⁹

As dolorosas lembranças das dificuldades e da humilhação da Hégira ainda não haviam desaparecido de suas mentes, e fazia pouco tempo que tinham conseguido viver juntos, marido, esposa e filhos, quando surgiu o chamado para a Batalha de Uhud. Hazrat Abu Salama (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu ao chamado e juntou-se à batalha. Durante o combate, seu braço foi ferido por uma flecha disparada por outro homem do lado adversário, também chamado Abu Salama al-Hashmi; após um mês de tratamento, ele se recuperou.²⁰ Pouco tempo depois, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou-o para a expedição de Qatan, onde permaneceu por vinte e nove dias. No oitavo ou nono dia do mês de Safar do quarto ano da Hégira, retornou a Medina. Então seu antigo ferimento voltou a abrir-se, e ele passou a correr risco de vida. No dia nove do mês de Jumada al-Thani daquele ano, faleceu.²¹ Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) foi informar o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sobre a morte de seu marido. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi à casa de Umm Salama. Ela estava então inconsolável de dor e repetia apenas: “Ai de mim! Que morte terrível ele teve, longe de sua terra e entre estranhos!” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aconselhou-a a ter paciência e disse: “Peçam o perdão de Allah por ele e digam—

Será em árabe

‘Ó Allah, concede-me uma alternativa melhor do que ele.’

Então, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi até o corpo de Abu Salama e realizou sua oração fúnebre com grande solenidade. Nessa oração, proferiu nove takbirs. As pessoas pensaram que talvez tivesse cometido um erro. Por isso, disseram: “Ó Mensageiro de Allah, o senhor não se enganou?” Ele respondeu: “Este homem era digno de receber tantos takbirs.” No momento de sua morte, os dois olhos de Abu Salama estavam abertos. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fechou-os com suas próprias mãos sagradas e suplicou a Allah pelo seu perdão.²²

Segundo casamento:

Quando Abu Salama faleceu, Ummu Salama estava grávida. Depois que ela deu à luz, Abu Bakr Siddiq, considerando sua solidão e sua tristeza, pediu-a em casamento. Ummu Salama recusou a proposta.²³

Também foi relatado que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) pediu-a em casamento. Contudo, o autor de “Al-Isaba” considera que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou seu pedido de casamento por intermédio de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). O sacrifício de Abu Salama e o estado de desamparo e solidão de Ummu Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) devem ter abalado profundamente os sentimentos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Assim, depois que ela recusou a proposta de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), por ordem de Allah, enviou sua proposta por intermédio de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Ummu Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) mencionou algumas razões pelas quais não se sentia capaz de aceitar a proposta do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Porém, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aceitou todas as condições de Ummu Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Então, Ummu Salama consentiu. As razões que Ummu Salama apresentou para sua incapacidade de aceitar a proposta do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foram as seguintes: (a) sou uma mulher extremamente zelosa de sua dignidade; (b) tenho vários filhos; (c) sou uma mulher idosa; (d) não tenho nenhum wali. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “A responsabilidade por seus filhos cabe a Allah e ao Seu Mensageiro. Allah removerá de você esse intenso zelo pela sua dignidade. Quanto ao wali, entre eles não há ninguém que não aceite; e, quanto à sua idade avançada, eu sou mais velho do que você.”

Então ela disse a seu filho Umar: “Vá e providencie meu casamento com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).”²⁴

O casamento com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi concluído no final do mês de Shawwal do quarto ano da Hégira. Dessa forma, foi removida a tristeza e a dor que ela sofrera com a morte de seu marido, Abu Salama (que Allah esteja satisfeito com ele), e ela recebeu uma alternativa melhor do que ele. Allah, o Altíssimo, transformou sua tristeza em alegria por toda a eternidade.

Ahmad ibn Ishaq al-Hadrami relatou, por intermédio de Ziyad ibn Mar’iyarem: Certa vez, o marido de Ummu Salama, Abu Salama, disse-lhe: “Soube que, se o marido de uma mulher entrar no Paraíso após sua morte e sua esposa não se casar novamente, Allah também dará a essa esposa um lugar no Paraíso junto do marido. Se isso também se aplicar aos homens, então vamos fazer um compromisso: você não se casará depois de mim, e eu também não me casarei depois de você.” Abu Salama perguntou: “Você obedecerá ao que eu disser?” Ummu Salama respondeu: “Onde encontrarei maior alegria senão em obedecer-lhe?” Abu Salama disse: “Se eu morrer antes de você, então se case novamente.” Em seguida, Abu Salama suplicou: “Ó Allah, depois de mim, concede a Ummu Salama um marido melhor do que eu.” Ummu Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Quando Abu Salama morreu, eu pensava comigo mesma: quem poderia ser melhor do que Abu Salama?” Pouco tempo depois, casei-me com o Mensageiro de Allah (que Allah esteja satisfeito com ele).²⁵

Por meio desse relato, além de se conhecer a existência de uma relação afetuosa entre esse casal, também se percebe quão profundo era o efeito dos ensinamentos corretos e puros do Islã. Foi esse efeito que capacitou um marido a controlar todas as suas emoções e aconselhar sua amada esposa a contrair um segundo casamento após a sua morte.

O nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, deu a Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, um par de moinhos manuais, dois odres, e um travesseiro com capa de couro, cheio de fibras de tamareira. Ele havia dado esses mesmos objetos às suas outras esposas.²⁶

Quando Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, ouviu falar da aparência e da beleza de Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, depois que o nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, se casou com ela, sentiu um pouco de ciúme. Ela foi ver Umm Salama. Depois de observá-la atentamente, compreendeu que Umm Salama era ainda mais bela do que se dizia. Ela falou sobre sua beleza a Hafsa, que Allah esteja satisfeito com ela. Hafsa explicou a Aisha que as pessoas estavam exagerando um pouco. Depois, Hafsa foi vê-la e disse a mesma coisa. Aisha voltou a observar Umm Salama atentamente e acreditou que Hafsa estava certa.²⁷ De qualquer modo, esse relato e muitos outros semelhantes comprovam a bela aparência de Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela.

Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, era uma mulher modesta e dotada de forte senso de dignidade. No início, após seu casamento com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a situação era tal que, sempre que o Mensageiro se aproximava, ela começava a amamentar sua filha de colo, Zaynab. Ao ver isso, o Mensageiro se retirava. Ammar ibn Yasir, que Allah esteja satisfeito com ele, era seu irmão de leite. Ao ouvir isso, ele ficou furioso e levou a menina para sua casa. Depois, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entrou no quarto de Umm Salama e começou a olhar ao redor. Como não viu a menina, perguntou: “Onde está Zaynab? O que fizeram com ela?” Ela respondeu: “Ammar veio e a levou.” A partir daquele dia, o Mensageiro passou a permanecer ali.²⁸

Gradualmente, essa situação desapareceu, e ela se acostumou a viver como viviam as outras esposas. Mais tarde, sua relação com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tornou-se tão profunda que ela passou a ocupar uma posição imediatamente posterior à de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela.

Entre os acontecimentos relacionados ao casamento do nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, com Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, este é especialmente digno de menção: no dia em que ela chegou à casa do Mensageiro de Allah, preparou pessoalmente a comida. Zaynab bint Khuzayma, que Allah esteja satisfeito com ela, havia falecido poucos dias antes. Umm Salama foi levada para morar justamente em seu quarto. Os utensílios domésticos já estavam preparados. Umm Salama retirou um pouco de cevada de uma jarra e um pouco de gordura de outro recipiente, e colocou a gordura numa panela sobre o fogo. Depois, moeu a cevada no moinho manual, misturou-a à gordura e preparou um tipo de alimento. Essa foi a comida da noite de núpcias do nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e de sua esposa.²⁹

As esposas do nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estavam divididas em dois grupos. De um grupo faziam parte Aisha, Hafsa, Safiyya e Sawda, que Allah esteja satisfeito com elas. Do outro faziam parte Umm Salama e as demais. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, era a esposa mais querida do Mensageiro de Allah. As pessoas sabiam disso. Por essa razão, nos dias em que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permanecia no quarto de Aisha, enviavam presentes para lá. As esposas do grupo de Umm Salama disseram: “Também queremos receber presentes como Aisha.” Portanto, independentemente da casa em que o Mensageiro estivesse, as pessoas deveriam enviar para lá tudo o que quisessem oferecer. Elas escolheram Umm Salama como porta-voz para comunicar sua reivindicação ao Mensageiro de Allah.

Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, repetiu essa questão ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, duas vezes consecutivas. Ele não lhe deu atenção. Na terceira vez, disse: “Não me causem sofrimento por causa de Aisha. Pois, entre vocês, não há outra mulher em cuja coberta tenha vindo revelação para mim.”

Umm Salama então disse:

Será em árabe

— Ó Mensageiro de Allah, peço perdão a Allah por ter causado sofrimento a você.

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) viveu satisfeito ao lado dela, aceitando as dificuldades e a pobreza da vida. Certa vez, Al-Irbad, Ju’al ibn Suraqa e Abdullah ibn Mughaffal (que Allah esteja satisfeito com eles) chegaram à presença do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) depois de retornarem de uma viagem. Eles estavam famintos. Com o desejo de oferecer-lhes algo para comer, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi até Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) e pediu comida. Contudo, não encontrou em sua casa nada que pudesse ser comido.³⁰

Al-Muttalib ibn Abdullah disse: A viúva dos árabes, Umm Salama, chegou à casa do Senhor dos muçulmanos como esposa no início da noite e, no final da noite, já começava a moer cevada.³¹

No quinto ano da Hégira, durante o cerco à tribo judaica de Medina, Banu Qurayza, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou Abu Lubaba (que Allah esteja satisfeito com ele) para negociar com eles. Durante as negociações, ele lhes indicou com a mão que seriam mortos. Porém, ao pensar que havia revelado um segredo do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), arrependeu-se profundamente. Então, amarrou-se a um dos pilares da mesquita. Permaneceu assim por muitos dias, até que seu arrependimento foi aceito. Naquele dia, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava na casa de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela).

De manhã, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) acordou na casa de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) e começou a sorrir suavemente. Ao vê-lo, Umm Salama disse: “Que Allah o mantenha sempre sorridente. Qual é a razão desse sorriso agora?” Ele respondeu: “O arrependimento de Abu Lubaba foi aceito.” Umm Salama pediu permissão para transmitir-lhe essa boa notícia. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Sim, pode informá-lo, se quiser.” A casa de Umm Salama ficava tão próxima da Mesquita do Profeta que sua voz podia ser ouvida na mesquita quando ela chamava de casa. Tendo recebido permissão, ela ficou à porta de seus aposentos e gritou: “Abu Lubaba! Parabéns! Seu arrependimento foi aceito!” Assim que essa voz chegou aos ouvidos das pessoas, toda Medina pareceu explodir de alegria e entusiasmo.³²

Este acontecimento ocorreu antes da revelação da ordem do hijab.

Naquele ano, foram revelados os versículos do hijab (véu). Até a revelação desses versículos, as esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) costumavam aparecer diante de alguns parentes um pouco mais distantes. Então, foi ordenado que se mantivessem veladas diante de todos, exceto alguns parentes específicos e familiares próximos. Ibn Umm Maktum era um Companheiro cego, altamente respeitado, da tribo dos Coraixitas. Ele também era o mu’adhdhin do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Como era cego, tinha acesso até aos aposentos internos do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Um dia, após a revelação dos versículos do hijab, ele entrou, como de costume. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse a Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) e a Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela): “Mantenham-se veladas diante dele.” Elas disseram: “Mas ele é cego.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: “Vocês não são cegas. Vocês o veem.”³³

Ele não participou da Batalha da Trincheira. No entanto, estava tão próximo do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) que conseguia ouvir claramente cada palavra que ele dizia. Ele dizia: “Lembro-me muito bem daquele momento em que havia poeira sobre o peito sagrado do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ele colocava tijolos sobre as cabeças das pessoas e recitava poesia. De repente, ao avistar Ammar ibn Yasir, disse: ‘Ó filho de Sumayya, um grupo rebelde te matará.’”³⁴

Por ocasião do Tratado de Hudaybiyyah, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) deu ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) um conselho correto. Está registrado no Sahih al-Bukhari que, após o acordo, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ordenou que as pessoas sacrificassem seus animais em Hudaybiyyah. Como as condições do tratado pareciam ser contrárias aos interesses dos muçulmanos, estes, em geral, estavam magoados e abatidos. Mesmo depois de o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ter dado a ordem três vezes, ninguém demonstrou disposição para cumpri-la. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) voltou à tenda e contou o ocorrido a Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Então, Umm Salama disse: “Não diga nada a ninguém. Saia, faça você mesmo o sacrifício e corte o cabelo para sair do ihram.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) seguiu seu conselho. Quando as pessoas viram que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava ele próprio praticando conforme sua ordem, todos fizeram o sacrifício e saíram do ihram. Então, começou uma verdadeira competição para fazer o sacrifício e sair do ihram.³⁵

O conselho de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) foi extremamente oportuno e realista. Ele resolveu num instante um problema difícil.

Durante o incidente do ila e do takhyir, no nono ano da Hégira, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) aconselharam cada um sua própria filha. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até Umm Salama e conversou com ela. Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse-lhe, num tom um tanto áspero:

Será em árabe

— Ibn Khattab! É surpreendente que você se intrometa em todos os assuntos. Você começou a se intrometer até mesmo nos assuntos estritamente pessoais do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e de suas esposas.³⁶

Em “A Vida de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela)”, discutimos este assunto em detalhes. A resposta de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) foi muito contundente. Por isso, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) levantou-se em silêncio e foi embora. Enquanto isso, durante a noite, espalhou-se a notícia de que o Honorável Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) havia se divorciado de suas esposas. Pela manhã, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) compareceu perante o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e contou-lhe tudo o que havia acontecido. Ao ouvir sobre a resposta contundente de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), ele sorriu levemente.³⁷

Durante a conquista de Meca, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) acompanhava o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) em sua viagem. Quando a caravana chegou a Marr al-Zahran — ou, segundo outra opinião, a Niq al-‘Uqab —, local situado próximo de Meca, Abu Sufyan ibn al-Harith ibn ‘Abd al-Muttalib e ‘Abdullah ibn Abi Umayya ibn al-Mughira chegaram ao acampamento dos muçulmanos na escuridão da noite e quiseram encontrar-se com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Nessa ocasião, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) aconselhou o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) da seguinte maneira:

Será em árabe

— Ó Mensageiro de Allah! Um deles é filho de seu tio paterno, e o outro é filho de sua tia paterna e seu cunhado.’ É importante mencionar que Abu Sufyan era filho de al-Harith, tio paterno mais velho do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), enquanto ‘Abdullah era filho de ‘Atika, tia paterna do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), e irmão de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela).³⁸

Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) acompanhou o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) durante a expedição a Ta’if.³⁹ No décimo ano da Hégira, durante a Peregrinação de Despedida, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) estava doente. Contudo, ela não gostava de demonstrar qualquer negligência no cumprimento de uma obrigação religiosa; por isso, apesar de ter uma desculpa ou motivo válido, acompanhou o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) em sua viagem. A respeito do tawaf, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse-lhe: “Ó Umm Salama! Quando estiver próximo o horário da oração do fajr, monta no camelo e realiza o tawaf.” Ela assim fez.⁴⁰ No décimo primeiro ano da Hégira, quando o nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) adoeceu nos últimos dias de sua vida e passou a permanecer no quarto de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) ia frequentemente visitá-lo. Certo dia, o estado físico do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava muito grave. Ele não conseguiu se controlar e, de repente, soltou um grito. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) o proibiu, dizendo: “Isso não é um costume dos muçulmanos.”

Certo dia, nesse período, a doença do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se agravou. Suas esposas quiseram fazê-lo beber leite. Como não tinha vontade de beber, ele recusou. Porém, quando ficou um pouco inconsciente, Umm Salama e Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ambas) abriram sua boca à força e fizeram-no beber uma pequena quantidade.

Certo dia, nesse período, Umm Salama e Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ambas) conversavam, na presença do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), sobre as imagens de pessoas existentes nos locais de culto dos cristãos da Abissínia. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Quando morre entre eles uma pessoa virtuosa, eles transformam seu túmulo em local de culto, fazem imagens dela e as colocam ali. No Dia da Ressurreição, essas pessoas serão as criaturas mais desprezíveis perante Allah.”

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) havia predito a Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) o martírio de Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele). Justamente quando Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele) combatia com bravura e coragem contra o exército de Yazid, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) sonhou que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) havia chegado. Ele estava extremamente perturbado, e sua cabeça e sua barba abençoadas estavam cobertas de poeira. Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, por que está assim?” Ele respondeu: “Estou retornando do local do martírio de Husayn.” Ela despertou, e as lágrimas começaram a cair de seus olhos. Nessa situação, estas palavras saíram de sua boca: “Os iraquianos mataram Husayn. Que Allah os destrua! Eles humilharam Husayn; que a maldição de Allah recaia sobre eles.”⁴¹

Filhos

Todos os filhos de Hazrat Umm Salama (r.a.) eram do seu primeiro marido. Ela não teve nenhum filho na casa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Em Al-Isaba, Usud al-Ghaba e Tabaqat são mencionados dois filhos, Salama e ‘Umar, e uma filha chamada Zaynab. Em Sahih al-Bukhari é mencionada uma filha chamada Durra. Assim, o número de filhos de Hazrat Umm Salama (r.a.) era quatro. A seguir, será apresentada brevemente uma discussão sobre eles:

Salama: nasceu na Abissínia.⁴² Ele estava no colo durante a Hégira de Umm Salama para Medina. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou Umama, filha de Hazrat Hamza (r.a.), com Salama.⁴³

‘Umar: tinha nove anos quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) faleceu. Seu kunya era Abu Hafs. Narrou alguns hadiths do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Morreu em Medina durante o governo de Abd al-Malik ibn Marwan. Foi sob os cuidados deste ‘Umar que se realizou o casamento de sua mãe, Umm Salama, com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Durante o califado de Hazrat ‘Ali (r.a.), foi nomeado governador de Fars e do Bahrein. Sua mãe enviou-o com ‘Ali (r.a.) na Batalha do Camelo. Ele disse a ‘Ali (r.a.): “Envio-lhe meu filho, mais querido para mim do que a minha própria vida. Ele permanecerá com você; depois, que Allah faça o que quiser. Se isso não fosse contrário à ordem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), eu também sairia com você, assim como saíram ‘A’isha (r.a.), Talha e Zubayr.”⁴⁴

Durra: sua menção aparece em Sahih al-Bukhari. Certo dia, Hazrat Umm Habiba (r.a.) disse ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Ouvi dizer que o senhor deseja casar-se com Durra?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Como isso seria possível? Mesmo que eu não a tivesse criado, ela de modo algum seria lícita para mim, pois é filha do meu irmão de leite.”⁴⁵

Zaynab: seu primeiro nome era ‘Barra’. Porém, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu-lhe o nome de Zaynab. Todos esses filhos dela aceitaram o Islam e alcançaram a honra de serem Companheiros.⁴⁶

Caráter

Toda a vida de Hazrat Umm Salama (r.a.) foi um exemplo concreto de ascetismo e temor a Allah. Ela dava pouquíssima atenção aos prazeres, ao luxo e ao esplendor mundanos. Certa vez, colocou no pescoço um colar que continha uma pequena quantidade de ouro. Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) demonstrou desagrado, ela o retirou.⁴⁷

Ela jejuava três dias por mês: segunda-feira, quinta-feira e sexta-feira.⁴⁸ Os filhos do seu primeiro marido viviam com ela. Ela cuidava deles com extremo zelo. Certa vez, perguntou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Receberei alguma recompensa por isso?” Ele respondeu: “Sim, receberás.”⁴⁹ Ela era extremamente cuidadosa quanto às ordens e proibições da Sharia. Certa vez, algumas pessoas deixaram passar o horário recomendado da oração. Umm Salama advertiu-as, dizendo: “O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava realizar rapidamente a oração do meio-dia, e vocês costumam realizar rapidamente a oração da tarde?”⁵⁰

Certa vez, uma sobrinha de Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) realizou duas rak‘ahs de oração diante dela. Como havia poeira no local da prostração, ela levantou a cabeça da prostração e limpou a terra da testa. Umm Salama proibiu-a de fazê-lo e disse: “Isso é contrário à conduta do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Certa vez, um escravo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez o mesmo. Ele lhe disse:

Em árabe:

“Que teu rosto se cubra de poeira por Allah.”

Ela própria era generosa e também incentivava os outros à generosidade. Certa vez, algumas pessoas necessitadas foram à sua casa pedir ajuda. Ummul Husain estava sentada junto dela e repreendeu-as. Mas Umm Salama a impediu e disse: “Não recebemos ordem para agir assim.” Então ordenou à escrava: “Dá-lhes alguma coisa e manda-os embora. Se não houver nada, dá-lhes uma tâmara seca.”

Certa vez, Hazrat Abdur-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) disse-lhe: “Mãe! Acumulei uma quantidade tão grande de riquezas que temo a minha destruição.” Ela respondeu: “Meu filho! Gasta-as!” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Há muitos Companheiros que, depois da minha morte, jamais voltarão a ver-me.”51

Ela era muito cuidadosa com o conforto dos outros. Quanto lhe era possível, não era avarenta nas boas ações. Como lembrança de seu amor pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), conservava consigo um pelo de seu corpo. É relatado no Sahih al-Bukhari que ela possuía um recipiente de prata, no qual guardava o pelo mubarak. Quando algum dos Companheiros sofria uma aflição ou tristeza, traziam um copo de água e o colocavam diante dela; então ela mergulhava o pelo mubarak naquela água. Pela bênção daquela água, todas as suas aflições e dificuldades desapareciam. Abdullah ibn Mawhab disse: “Sou escravo de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Certa vez, ela retirou um pelo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), conservado em hena e katam.”52

Nos dias em que Hazrat Rasul-e-Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) passava a noite na casa de Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), ela estendia um leito diante do tapete de oração. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizava a oração, enquanto ela permanecia deitada naquele leito.53

Ela era tão cuidadosa com o conforto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que libertou seu escravo Safina sob a condição de que ele o servisse enquanto o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permanecesse vivo.54

Certa vez, Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), por que não há menção de nós, mulheres, no Alcorão?” Depois dessa pergunta, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) subiu ao púlpito da mesquita, levantou-se e recitou o versículo 35 da surata Al-Ahzab:

Em árabe, será:

“Certamente, os muçulmanos e as muçulmanas, os crentes e as crentes, os obedientes e as obedientes, os verazes e as verazes, os pacientes e as pacientes, os humildes e as humildes, os caridosos e as caridosas, os que jejuam e as que jejuam, os que preservam suas partes íntimas e as que as preservam, e os que se lembram muito de Allah e as que se lembram muito — para eles, Allah preparou perdão e uma grandiosa recompensa.” Foi devido à sua profunda ligação e ao seu amor pelo nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) ousou fazer tal pergunta.

A grandeza e a posição de Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela).

Entre as esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) ocupava, em grandeza e posição, o segundo lugar depois de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ibn Hajar disse:

Em árabe, será:

“Umm Salama era dotada de beleza incomparável, sabedoria completa e capacidade de tomar decisões corretas.”

Ela transmitiu hadiths de Abu Salama, de Fátima Az-Zahra e das demais esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Entre os que transmitiram hadiths através de Umm Salama, alguns dos mais notáveis são: Umar, Zaynab (seus filhos e filhas), seu irmão Amir, seu sobrinho Mus‘ab ibn ‘Abdullah, ‘Abdullah ibn Rafi‘, Nafi‘ ibn Safin, Abu Kathir, Khayra, Safiyya bint Shayba, Hind bint al-Musayyib, Humayd, ‘Urwa, Abu Bakr ibn ‘Abd al-Rahman, Sulayman ibn Yasar e outros Companheiros e tabi‘in.⁵⁵ Nas obras de hadith, encontram-se 378 hadiths transmitidos por ela. Desses, treze são muttafaq ‘alayh. O Imam Bukhari transmitiu três exclusivamente, e o Imam Muslim, treze exclusivamente. Por isso, ela pertence à terceira categoria dos Companheiros muhadith. Entre as mulheres que transmitiram hadiths, ninguém está acima dela, exceto Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).⁵⁶

Hazrat Umm Salama (r.a.) tinha um intenso desejo de ouvir hadiths. Certo dia, ela estava fazendo uma trança no cabelo. Nesse momento, Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) subiu ao púlpito da mesquita para proferir um sermão. Ele apenas disse: “Ó pessoas!”, e imediatamente Umm Salama disse à mulher que arrumava seu cabelo: “Termine de trançá-lo”. Ela perguntou: “Por que tanta pressa? Ele acabou de dizer: ‘Ó pessoas!’”. Umm Salama respondeu: “Muito bem; acaso nós não estamos incluídas entre as pessoas?”. Então, depois de prender o próprio cabelo, ela se levantou rapidamente e, permanecendo de pé, ouviu todo o sermão de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).57

Esse acontecimento comprova seu intenso desejo de adquirir conhecimento.

Os hadiths de Hazrat Umm Salama (r.a.) foram compilados no Musnad do Imam Ahmad, no sexto volume, das páginas 289 a 324. Sobre a posição e o mérito de Hazrat Umm Salama (r.a.), Mahmoud ibn Labid disse:

Em árabe:

As esposas de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) haviam memorizado muitos hadiths. Contudo, Hazrat Aisha e Hazrat Umm Salama (r.a.) não tinham rival.58

Allama Ibn al-Qayyim disse: Se suas fatwas fossem reunidas, poderiam constituir um pequeno livro.59

Imam al-Haramayn disse: “Não conheço nenhuma mulher mais capaz de chegar a decisões corretas do que Hazrat Umm Salama (r.a.).

Marwan ibn Hakam costumava consultar Hazrat Umm Salama (r.a.) sobre questões religiosas e dizia publicamente:60

Será em árabe

-Como podemos perguntar a outras pessoas enquanto as esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estão entre nós?

Até Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), conhecidos como oceanos do conhecimento, costumavam insistir à porta de Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) para obter conhecimento. Um grande grupo de tabi’un adquiriu conhecimento com ela.61

Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) sabia recitar o Alcorão com muita beleza. Ela o recitava conforme o método e o estilo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Certa vez, alguém lhe perguntou: Como o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitava? Ela respondeu: Recitava cada versículo separadamente. Em seguida, ela mesma recitou alguns versículos para que ouvissem.62

Ela possuía uma discrição extraordinária. Antes do falecimento do nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele disse secretamente algo à sua filha Fátima. Até uma esposa dotada de todas as virtudes, como Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), quis perguntar imediatamente a Fátima e descobrir o que fora dito. Porém, Fátima (que Allah esteja satisfeito com ela) recusou-se a contar, e Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou constrangida. Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), contudo, não ficou ansiosa para descobrir aquele segredo. Esperou pacientemente e perguntou depois do falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

O versículo 33 da Surata Al-Ahzab, conhecido como o Versículo da Purificação, foi revelado na casa de Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) encontrava-se em seu aposento. O versículo é o seguinte:

Será em árabe

-Ó membros da família do Profeta! Allah deseja apenas remover de vós a impureza e purificar-vos completamente.

Após a revelação deste versículo, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou Fátima, Ali, Hassan e Hussein (que Allah esteja satisfeito com eles) e disse: “Eles são o meu Ahl al-Bayt, isto é, membros da minha família.” Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! Eu também faço parte do Ahl al-Bayt?” Ele respondeu: “Sim, insha’Allah.”⁶³ Também foi narrado no Jami’ at-Tirmidhi que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou as pessoas mencionadas acima, lançou um manto sobre suas cabeças e disse: “Ó Allah! Estes são o meu Ahl al-Bayt. Purifica-os.” Ao ouvir essa súplica, Umm Salama disse: “Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), eu também faço parte deles?” Ele respondeu: “Tu estás no teu lugar e estás bem.”⁶⁴

Certo dia, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) estava sentada ao lado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nesse momento, Jibril (que a paz esteja sobre ele) chegou e começou a conversar. Depois que ele partiu, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “Tu o conheces?” Umm Salama respondeu: “Dihya al-Kalbi.” Contudo, quando Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) contou o ocorrido a outras pessoas, soube que aquele homem não era Dihya, mas sim Jibril (que a paz esteja sobre ele). Os estudiosos do hadith consideram que esse fato ocorreu antes da revelação da ordem relativa ao hijab.⁶⁵

Que ela era extremamente versada no conhecimento da Sharia islâmica tornou-se evidente por muitos acontecimentos de sua vida e por suas palavras. Aqui serão mencionados alguns desses acontecimentos: Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) costumava dizer que, se alguém entrasse em estado de impureza ritual durante o mês do Ramadã, deveria realizar rapidamente o banho ritual antes do alvorecer; caso contrário, seu jejum seria invalidado.

Certa pessoa perguntou a Aisha e a Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ambas) sobre a veracidade das palavras de Abu Huraira. Ambas contestaram o que ele havia dito e afirmaram que tinham visto o próprio Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) jejuar estando em estado de impureza ritual. Ao saber disso, Abu Huraira ficou profundamente arrependido. Ele disse: “O que eu poderia fazer? Fadl ibn Abbas havia me dito exatamente isso. Contudo, é evidente que, nesse assunto, Umm Salama e Aisha (que Allah esteja satisfeito com ambas) possuíam maior conhecimento.”⁶⁶

Certa vez, alguns Companheiros pediram a Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela): “Conte-nos algo sobre a vida privada do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Ela respondeu: “Sua vida pública e sua vida privada eram iguais.” Depois de dizer isso, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) sentiu que talvez tivesse revelado algum segredo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e arrependeu-se. Quando o Mensageiro de Allah chegou em casa, ela contou-lhe tudo. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Fizeste muito bem.”⁶⁷

Abdullah ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) costumava realizar duas rak’ahs de oração após a oração de Asr.

Certo dia, Marwan perguntou: “Por que realizas esta oração?” Ele respondeu: “O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava realizá-la.” Como Abdullah ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) havia aprendido esse hadith através de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), Marwan enviou alguém até ela para verificar sua autenticidade. O homem foi até Aisha e transmitiu-lhe o que ela havia dito. Ela respondeu: “Que Allah perdoe Aisha! Ele entendeu minhas palavras de maneira equivocada. Eu não lhe disse que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu a realização daquela oração?”⁶⁸

Certa vez, ela deu a um homem a solução para uma questão jurídica. O homem não ficou satisfeito com a resposta. Levantou-se e foi até as outras esposas do Mensageiro. Todas deram a mesma resposta. Então o homem voltou e contou o ocorrido a Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela lhe disse: “Sim, espera. Quero deixar-te satisfeito. Ouvi um hadith sobre esse assunto diretamente do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).”⁶⁹

Que Umm Salama era uma mulher muito modesta é comprovado por muitos relatos mencionados nos hadiths. Certa vez, Umm Sulaym perguntou ao Mensageiro de Allah: se uma mulher sonhar que o marido teve relações sexuais com ela, deverá realizar o ghusl? Umm Salama estava sentada ali perto. Ela exclamou: “Ó Umm Sulaym! Que tuas mãos se cubram de poeira! Tu deixaste toda a comunidade feminina envergonhada diante do Mensageiro de Allah.” Em resposta, o Mensageiro de Allah disse: “Quando houver emissão de líquido, ela deverá realizar o ghusl.” Então Umm Salama perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, a mulher também tem emissão de líquido?”⁷⁰

Após o Califado Bem-Guiado, os governantes da dinastia omíada e seus partidários extremistas faziam vários comentários indecentes contra a família do Profeta, especialmente a respeito de Ali. Muitos o insultavam. A Mãe dos Crentes, Umm Salama, ainda estava viva naquela época. Ela os odiava e, muitas vezes, protestava contra isso. Abu Abdillah al-Jadali relata: “Certo dia, fui visitar Umm Salama, e ela me perguntou: ‘Entre vocês, o Mensageiro de Allah é insultado?’ Respondi: ‘Deus nos livre!’ Então ela disse: ‘Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: “Quem insultar Ali será como quem me insultou.”’

Em outro relato, Umm Salama disse: “Não são Ali e aqueles que o amam insultados? E, no entanto, o Mensageiro de Allah o amava.”

Esse relato mostra quão profundo era o amor e a compaixão do Mensageiro de Allah pelos membros de sua família.⁷¹

Umm Salama transmitiu muitas das súplicas e litanias que o Mensageiro de Allah recitava durante o dia e a noite. Por exemplo, ela relatou que, após a oração do fajr, o Mensageiro de Allah fazia esta súplica:⁷²

Será em árabe

— Ó Allah! Peço-Te um sustento puro, um conhecimento benéfico e ações aceitas.

Ela também relatou que, ao sair de casa, o Mensageiro de Allah dizia:⁷³

Será em árabe

—Em nome de Deus, confio em Deus. Ó Deus, buscamos refúgio em Ti contra tropeçarmos, desviarmo-nos, cometermos injustiça, sermos vítimas de injustiça, excedermos os limites contra alguém ou de que excedam os limites contra nós.

Ela também disse: o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) costumava dizer: 74

Será em árabe

—Ó Transformador dos corações! Firma meu coração na Tua religião.

Também foi narrado por ela que o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) dizia: 75

Será em árabe

—Ó Senhor! Perdoa-me, tem misericórdia de mim e guia-me pelo caminho reto.

Morte

Há divergência quanto ao ano de sua morte. Al-Waqidi considera que ela faleceu no mês de Shawwal do ano 59 da Hégira, e Hadrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) dirigiu sua oração fúnebre. Ibn Hibban afirma que ela faleceu no final do ano 61 da Hégira, após o martírio de Husayn ibn Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Segundo Abu Khaythama, sua morte ocorreu no final do ano 60 da Hégira, durante o califado de Yazid ibn Muawiya. Contudo, a opinião de que ela faleceu no ano 63 da Hégira é a mais aceita. Foi nesse ano que ocorreu o incidente de Harra: o exército de Yazid sitiou em Meca as tropas de Hadrat Abdullah ibn Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) e atacou a cidade.76

No momento de sua morte, Hadrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha 84 anos. Hadrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) dirigiu sua oração fúnebre.77 Segundo o costume vigente, o governador de Medina costumava dirigir as orações fúnebres. Naquela época, o governador de Medina era Walid ibn Utba. Esse Walid era neto de Abu Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ele). Antes de morrer, Hadrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) deixou o seguinte testamento: “Que Walid se retire para a região arborizada fora de Medina e envie Hadrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) para dirigir a oração fúnebre.” Contudo, o imame Adh-Dhahabi citou um relato segundo o qual não está comprovado que Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) tenha dirigido a oração, pois ele morreu antes de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Hadrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) foi sepultada no cemitério de Al-Baqi, em Medina.78

Zainab bint Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ela)

O kunya de Umm al-Mu’minin Hadrat Zainab era Umm Hakim. Seu pai era Jahsh ibn Ri’bab al-Asadi, da tribo Banu Asad ibn Khuzaima, e sua mãe era Umaima bint Abd al-Muttalib, tia paterna do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Portanto, ela era prima paterna do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Os dois irmãos de Hadrat Zainab (que Allah esteja satisfeito com ela), Ubaidullah ibn Jahsh e Abu Ahmad ibn Jahsh, casaram-se respectivamente com Umm Habiba e Faria, as duas filhas de Hadrat Abu Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ele). Seu outro irmão, Abdullah ibn Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ele), foi martirizado na batalha de Uhud. Os incrédulos abriram seu abdômen e mutilaram seu cadáver. Ele foi sepultado no mesmo túmulo que seu tio materno, Hadrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele), no campo de Uhud. Hamna bint Jahsh e Umm Habiba bint Jahsh eram as duas irmãs de Hadrat Zainab. Ambas sofriam de istihada, um tipo de sangramento feminino. Elas frequentemente perguntavam ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sobre diversas questões relacionadas a isso. Por essa razão, são mencionadas nos hadiths.

Hadrat Abdullah ibn Jahsh e todos os seus demais irmãos e irmãs aceitaram o Islam no período inicial. Tornaram-se muçulmanos antes de o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ir à casa de Al-Arqam. Depois, todos emigraram para a Abissínia. Ali, seu irmão Ubaidullah tornou-se cristão, enquanto sua esposa, Hadrat Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela), permaneceu firme no Islam. Mais tarde, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) casou-se com ela por intermédio do Negus. Depois disso, todos retornaram a Meca. Algum tempo mais tarde, Abdullah ibn Jahsh e Abu Ahmad ibn Jahsh emigraram para Medina com suas famílias e irmãs.

Hadrat Zainab (que Allah esteja satisfeito com ela) aceitou o Islam ainda no período inicial. Ibn al-Athir diz:

Será em árabe

Ele foi um dos primeiros muçulmanos.

Casamento

O Honorável Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou-a com Zaid ibn Haritha, seu escravo liberto e filho adotivo. Na história, existem inúmeros exemplos de como o Islã concretizou no mundo os ensinamentos da igualdade e da equidade, colocando pessoas de todas as classes na mesma fileira. Contudo, o casamento da Honorável Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) foi a base do ensinamento prático da igualdade e da equidade. Por isso, ele alcançou precedência e importância sobre todos os demais exemplos desse gênero.

Como servidora da Caaba Sagrada, a elevada posição de honra e respeito que a família dos coraixitas, especialmente os Banu Hashim, ocupava em toda a Arábia era tal que nenhum rei do Iêmen daquela época ousaria reivindicar ser seu igual.

Mas o Islã declarou que o critério de honra e dignidade é a taqwa e o temor de Allah, e declarou que toda forma de orgulho, ostentação e nobreza de linhagem é um símbolo da jahiliyyah. Com base nisso, embora o Honorável Zaid fosse aparentemente um escravo, como o Islã obteve por meio dele uma força ilimitada, ele era considerado superior a milhares de homens livres. Além de ensinar concretamente a igualdade islâmica, esse casamento tinha ainda outro objetivo. Ibn al-Athir narrou-o da seguinte maneira:

Abarī será

— O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou-a com Zaid para que Zaid lhe ensinasse e educasse no Livro de Allah e na Sunnah do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Os coraixitas se vangloriavam de sua linhagem. Seu orgulho pela ascendência não tinha limites. Mas o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou Zaynab bint Jahsh com Zaid ibn Haritha. Zaid era uma pessoa querida pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Zaid aceitou o Islã na mesma época em que a Honorável Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e o Honorável Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) se tornaram muçulmanos.

Na maioria das expedições, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o nomeava comandante sobre os líderes coraixitas. Zaid tornou-se tão próximo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que ficou conhecido como Zaid ibn Muhammad. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha uma consideração especial por ele. Apesar de todas essas qualidades e características, ele era um escravo. Já Zainab possuía uma linhagem nobre. Desde o início, a senhora Zainab não aprovava esse casamento. Ela disse diretamente ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele):

Será em árabe

Não o considero adequado para mim. Mas, por fim, aceitou por ordem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Isso aconteceu porque, naquela ocasião, foi revelado o seguinte versículo da Surata Al-Ahzab:

Será em árabe

Isto é: quando Allah e Seu Mensageiro tomam uma decisão sobre qualquer assunto, nenhum homem ou mulher crente tem qualquer escolha.

Após o casamento, os dois viveram juntos durante um ano, mas não se desenvolveu entre eles uma relação de amor e afeição. Dia após dia, a relação tornou-se cada vez mais amarga. O senhor Zaid (que Allah esteja satisfeito com ele) foi ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), queixou-se e manifestou a intenção de divorciar-se.

Será em árabe

—Zaid foi ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: Ó Mensageiro de Allah! Zainab fere-me com suas palavras duras. Quero divorciar-me dela.

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tentou impedir que Hazrat Zaid se divorciasse. No Alcorão, essa tentativa é descrita da seguinte forma.

Será em árabe

— quando você dizia àquele a quem Allah e você haviam favorecido: “Conserva a tua esposa e teme a Allah.”

Apesar de todos os esforços do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o casamento de Hazrat Zainab e Hazrat Zaid (que Allah esteja satisfeito com ele) não se manteve. Hazrat Zaid (que Allah esteja satisfeito com ele) acabou divorciando-se dela.

Como já mencionei, o casamento de Hazrat Zaid (que Allah esteja satisfeito com ele) com Hazrat Zainab (que Allah esteja satisfeito com ela) ocorreu por vontade do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Zainab não era de modo algum favorável a esse casamento. Zainab era irmã do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) cuidou dela até que ela alcançasse a maturidade e a razão. Por isso, quando eles se separaram, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) começou a desejar casar-se ele próprio com ela, para fazê-la feliz. Contudo, como ainda permanecia, em certa medida, na mente dos muçulmanos a influência dos costumes e tradições da época da jahiliyyah, ele reprimiu o desejo de seu coração. Isso porque Zaid era seu filho adotivo. A sociedade da jahiliyyah não fazia distinção alguma entre o filho biológico e o filho adotivo. Zainab era a esposa divorciada de Zaid, filho adotivo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) temia que os hipócritas e os descrentes provocassem grande alvoroço caso ele se casasse com ela. Porém, como o costume de não se casar com a esposa divorciada de um filho adotivo era apenas uma tradição da jahiliyyah, e como a vontade de Allah e de Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era erradicá-la pela raiz, Allah, o Altíssimo, revelou o desejo secreto que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha naquele momento, da seguinte maneira:

Será em árabe

— “Você ocultava em seu coração aquilo que Allah haveria de manifestar. E temia as pessoas, embora fosse mais apropriado que temesse a Allah.”

O Imam Tirmidhi disse: se o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tivesse ocultado alguma coisa da revelação, teria sido justamente este versículo. Isso porque, neste versículo, Allah revelou um desejo secreto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Foi narrado no Sahih Muslim, por Hadrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele). Quando terminou o período de ‘iddah de Hadrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Hadrat Zayd até ela, dizendo-lhe: “Leva-lhe minha proposta de casamento.” Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) foi e viu Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) amassando farinha. Zayd relata: ao olhar para ela, surgiu em meu coração um profundo respeito por ela. Perdi a coragem de erguer os olhos para ela, pois o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhe havia enviado uma proposta de casamento. Afastei-me um pouco. Em outra narração consta que Hadrat Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele), de costas para a porta da casa de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), disse: “Zaynab! Vim trazer a proposta do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Hadrat Zaynab respondeu: “Agora estou ocupada. Nada posso dizer sem fazer istikhara diante de Allah.” Depois de dizer isso, começou a dirigir-se à mesquita. Enquanto isso, Allah, o Altíssimo, revelou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o seguinte versículo:

Será em árabe

— “E quando Zayd terminou com ela o que tinha de cumprir, Nós a casamos contigo, para que não haja dificuldade para os crentes quanto às esposas de seus filhos adotivos, quando eles terminarem com elas o que tiverem de cumprir. A ordem de Allah deve ser executada.” Por meio deste versículo, Allah, o Altíssimo, deixou claro ao Seu Profeta que Ele próprio havia realizado o casamento de Zaynab com ele. Por isso, Zaynab tornou-se esposa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nesse assunto, não era necessária a vontade ou a falta de vontade de Zaynab. Ibn Ishaq disse que Hadrat Abu Ahmad ibn Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ele) realizou o casamento de Hadrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). É possível que depois tenha havido uma celebração pública do casamento, realizada por Abu Ahmad ibn Jahsh. Contudo, está claramente narrado no Sahih Muslim que, após a revelação do versículo acima, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi até Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) sem qualquer autorização prévia. Numa narração dos Sahihayn consta que Hadrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) costumava vangloriar-se diante de suas coesposas, dizendo: “Os vossos casamentos foram arranjados pelos vossos responsáveis, mas o meu casamento foi arranjado pelo próprio Allah, o Altíssimo.” O casamento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi realizado no mês de Dhu al-Qa‘dah do quinto ano da Hégira.

No versículo 37 da Surata al-Ahzab, Allah diz: “Nós a casamos contigo” — referindo-se à mulher divorciada, Zaynab. Essas palavras e os termos empregados deixam claro que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não realizou esse casamento com base em sua própria vontade ou desejo, mas por ordem do próprio Allah, o Altíssimo.

Esse versículo deixa claro que Allah, o Altíssimo, fez com que Seu Profeta realizasse esse ato com o objetivo de atender a uma necessidade especial e promover um benefício que não poderia ser alcançado por nenhum outro meio. Na Arábia havia se difundido, com enorme gravidade, um costume completamente equivocado a respeito dos parentes adotivos, e ele vinha sendo mantido com pleno vigor havia muitas gerações. Havia apenas um meio que poderia ser eficaz e bem-sucedido para eliminá-lo: o próprio Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deveria avançar e arrancá-lo pela raiz. Portanto, fica claro que Allah, o Altíssimo, não determinou esse casamento com o objetivo de aumentar o número de esposas na casa do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele o determinou visando a uma tarefa extremamente importante e necessária.

O casamento de Hadrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi realizado. Mas os inimigos do Islam fizeram grande alarde e agitaram a opinião pública, dizendo que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia se casado com sua nora, embora, segundo a lei da Shariah que ele próprio apresentara, casar-se com a nora também tivesse sido proibido ao pai. Em resposta, Allah, o Altíssimo, revelou o versículo 40 da Surata al-Ahzab:

Será em árabe

— (Ó humanidade!) Muhammad não é pai de nenhum de vossos homens; é, isto sim, o Mensageiro de Allah e o último dos profetas. E Allah é Onisciente sobre todas as coisas.

“Muhammad não é pai de nenhum dos vossos homens.” Isto é, o homem cuja esposa divorciada Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se casou não era filho do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Portanto, nunca foi proibido ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) casar-se com a esposa divorciada dele. Vós mesmos sabeis que o Nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não tem, de fato, nenhum filho vivo.

A segunda pergunta dos opositores era a seguinte: mesmo que um filho adotivo não seja um filho biológico, casar-se com a esposa divorciada dele poderia, no máximo, ser permitido. Mas não havia necessidade alguma de ele se casar com ela. Em resposta, foi dito: “Além disso, ele é o Mensageiro de Allah.” Ou seja, por ser Mensageiro, era dever de Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) eliminar todos os erros e equívocos relativos a uma prática lícita e permitida que, por causa dos vossos costumes errôneos, vinha sendo considerada ilegal sem motivo. Além disso, ele é o último Profeta. Depois dele, não virá outro Mensageiro; muito menos outro Profeta. Portanto, se durante sua vida alguma lei ou reforma social permanecesse ineficaz e sem ser implementada, não haveria possibilidade de que algum profeta posterior a completasse. Assim, abolir esse costume perverso da época da ignorância tornou-se uma responsabilidade que cabia exclusivamente a ele. Em seguida, para enfatizar ainda mais a importância do assunto em discussão, foi dito: “Allah é conhecedor de todas as coisas.” Isto é, Allah sabe perfeitamente que é absolutamente necessário abolir imediatamente esse costume perverso por meio do Último Profeta. Caso contrário, depois dele não haveria no mundo pessoa alguma capaz de remover um costume tão profundamente arraigado.

A cerimônia da walima

Depois de levar Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) para sua casa como esposa, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) organizou uma walima. Isso não significa que ele tenha preparado um banquete real. No entanto, a walima de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) foi relativamente mais suntuosa. A cerimônia ocorreu ao meio-dia, segundo uma opinião, ou à noite, segundo outra. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ofereceu pão e carne a todos nós.” Para o nosso nobre Mensageiro, isso era realmente um banquete real. Afinal, para pessoas de uma família que passava dias seguidos vivendo apenas de leite, preparar carne e pão para trezentas pessoas podia ser considerado uma grande demonstração de suntuosidade. Por isso, mais tarde, Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) costumava dizer com orgulho diante de suas coesposas: “Foi somente no meu casamento que o Nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ofereceu uma walima com carne e pão.” Ibn Sa‘d descreveu as características dessa walima da seguinte maneira:

Será em árabe

—“O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não realizou a walima de nenhuma de suas outras esposas da maneira como realizou a de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela). Ele realizou a walima de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) com carne de cabra.” Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ele nunca preparou comida tão boa e tão abundante na walima de nenhuma de suas outras esposas.”

A respeitável mãe de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), Umm Sulaym (que Allah esteja satisfeito com ela), que era tia materna do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), enviou alguma comida à Casa do Profeta para a walima de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela). Quando os alimentos ficaram prontos, o Nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou o servo Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) para chamar as pessoas. Trezentos convidados se reuniram. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) organizou a refeição em grupos de dez. As pessoas chegavam em grupos, comiam e iam embora. Os convidados da cerimônia comeram até se saciar.

Foi narrado por Abu Hatim. Por ocasião do primeiro encontro íntimo do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) com uma de suas esposas, Umm Sulaym (que Allah esteja satisfeito com ela) preparou um tipo de comida chamado “hays”, feito de tâmaras, aqit e gordura, e colocou-a em um recipiente de bronze ou de madeira. Depois, chamou seu filho Anas e disse: “Leve isto ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e diga-lhe: ‘É uma pequena oferta de nossa parte.’” Anas disse: “Naquela época, as pessoas sofriam grande escassez de alimentos. Levei o recipiente e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah! Umm Sulaym enviou isto para vós. Ela também vos transmite saudações e diz: “Esta é uma pequena oferta de nossa parte.”’ O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) olhou para o recipiente e disse: ‘Coloque-o em um canto da casa e chame fulano, fulano e fulano.’ Ele mencionou os nomes de muitas pessoas. Além disso, disse: ‘Traga convosco qualquer muçulmano que encontrardes pelo caminho.’ Anas disse: ‘Convidei aqueles cujos nomes ele mencionou. Ao voltar, vi que toda a casa do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), a Suffa e os aposentos estavam completamente cheios de pessoas.’ O narrador perguntou a Anas: ‘Quantas pessoas eram?’ Ele respondeu: ‘Cerca de trezentas.’ Anas disse: ‘O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pediu-me que trouxesse o recipiente de comida. Eu o trouxe. Ele colocou a mão sobre ele e fez uma súplica. Depois disse: ‘Sentai-vos em grupos de dez, dizei “Bismillah” e cada um comei do lado que estiver diante de vós.’ Todos comeram até se saciar, conforme a ordem do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Então ele me disse: ‘Retire o recipiente.’ Anas disse: ‘Aproximei-me e retirei o recipiente. Olhei para dentro, mas não posso dizer se havia mais comida quando o coloquei ali ou quando o retirei.’ Esse foi o acontecimento ocorrido por ocasião da walima de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela).

Allah Altíssimo deseja transformar os muçulmanos em uma nação civilizada. Por isso, para abolir alguns dos costumes bárbaros e incivilizados que vigoravam entre as pessoas da época da ignorância, foi revelado o seguinte versículo do Sagrado Alcorão tendo como contexto um acontecimento relacionado à walima de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela).

Será em árabe

—Ó vós que credes! Não entreis nas casas do Profeta sem permissão, nem fiqueis esperando a hora da refeição sem terdes sido convidados. Porém, se fordes convidados para uma refeição, entrai. E, depois de comerdes, retirai-vos imediatamente. Não vos demoreis em conversas. Isso causa incômodo ao Profeta, mas ele se envergonha de vo-lo dizer. Allah, porém, não Se envergonha de dizer a verdade.”

O versículo acima repreende alguns maus costumes dos árabes.

1. Nos tempos antigos, os árabes entravam livremente uns nas casas dos outros. Quando precisavam encontrar alguém, não havia obrigação de ficar à porta, anunciar sua presença e entrar somente após obter permissão. Pelo contrário, entravam na casa e perguntavam às mulheres e às crianças se o dono da casa estava presente. Esse costume da época da ignorância dava origem a vários tipos de falhas e problemas. Muitas vezes, dele surgiam acontecimentos indesejáveis que provocavam diferentes formas de corrupção moral. Por isso, foi estabelecida inicialmente a regra de que nenhum amigo próximo ou parente distante poderia entrar sem permissão na residência do Nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Mais tarde, por meio da Surata An-Nur, essa regra foi instituída de modo geral para as casas de todos os muçulmanos.

2. Outro mau costume e prática reprovável vigorava entre os árabes. Eles apareciam na casa de algum amigo ou conhecido na hora da refeição, ou iam à casa dessas pessoas e permaneciam ali até chegar a hora de comer. Naturalmente, em tal situação, o dono da casa ficava extremamente constrangido. Por isso, Allah Altíssimo ordenou neste versículo que se abandonasse esse mau hábito. Foi determinado que somente se fosse à casa de alguém para comer quando o dono da casa tivesse feito um convite para a refeição. Essa ordem não se restringia apenas à casa do Nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Pelo contrário, essa regra deveria tornar-se um costume geral e habitual nas casas de todos os muçulmanos. Para esse propósito, mencionou-se apenas, como exemplo, a casa do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).

3. Este versículo também repreende outro mau costume. Há na sociedade pessoas que vão à casa de alguém, convidadas para comer, e continuam sentadas sem necessidade mesmo depois de terminada a refeição. Iniciam então uma sequência de conversas entre si que parece não chegar ao fim. Elas não param para pensar no incômodo que isso causa ao dono da casa e aos seus familiares. Muitos chegavam a incomodar até mesmo o Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Por causa de sua infinita cortesia e natureza humilde, ele suportava silenciosamente esses incômodos. Por fim, no dia da walima de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), ocorreu um acontecimento desse tipo que levou ao limite o sofrimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Na realidade, foi esse acontecimento que motivou a revelação do versículo.

Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), servo especial do Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), narra que o convite para essa walima ocorreu à noite. As pessoas em geral comeram e foram embora. Porém, dois ou três homens permaneceram sentados, entretidos em várias conversas.

O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), exasperado, levantou-se certa vez e foi dar uma volta pelos aposentos das esposas. Ao retornar, viu que as pessoas continuavam sentadas, sem se mover. Ele entrou novamente, foi ao aposento de ‘Aisha (r.a.) e sentou-se. Quando, depois de transcorrida grande parte da noite, soube que aquelas pessoas haviam ido embora, dirigiu-se ao aposento de Zaynab (r.a.). Após esse acontecimento, tornou-se necessário que o próprio Allah, o Altíssimo, advertisse as pessoas sobre esse mau hábito. Segundo a narração de Anas (r.a.), o versículo em questão foi revelado precisamente a respeito desse acontecimento.

Após o acontecimento mencionado acima, o venerável Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) colocou uma cortina na porta de sua casa e proibiu as pessoas de entrar nela. Esse acontecimento ocorreu no mês de Dhu al-Qa‘da do quinto ano da Hégira.

O casamento de Zaynab (r.a.) possuía algumas características que não se encontram em nenhum outro casamento. Em resumo, são as seguintes:

  1. Foi eliminada a falsa crença de que um filho adotivo ou considerado filho por adoção era igual a um filho biológico.
  2. Nesse casamento, foi estabelecido um exemplo concreto da igualdade islâmica, eliminando-se a enorme diferença de status que existia entre escravos e pessoas livres. O escravo Zayd foi colocado em condição de igualdade com os Banu Hashim, o clã mais nobre e distinto da Arábia.
  3. Foi nesse casamento que foi revelada a determinação acerca do hijab; ou, pode-se dizer, esse casamento constituiu o contexto para a revelação da determinação acerca do hijab.
  4. Foi revelada uma revelação para esse casamento.
  5. A walima desse casamento foi realizada com grande pompa.

Por causa de tudo isso, Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) costumava orgulhar-se diante de suas coesposas. Certa vez, ela disse diretamente ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), eu não sou como qualquer uma de suas outras esposas. Entre elas, não há nenhuma cujo casamento tenha sido realizado por seu pai, irmão ou algum tutor de sua família. Somente o meu casamento foi realizado por Allah Todo-Poderoso, desde os céus, com você. Seu avô e o meu são a mesma pessoa, e Jibril (que a paz esteja sobre ele) foi o mensageiro encarregado do meu caso.”

O Imam al-Dhahabi disse: Será em árabe.

— Allah casou Zaynab com Seu Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sem tutor nem testemunhas.

Entre as esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma das que podiam reivindicar igualdade com Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Sobre isso, a própria Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) comentou o seguinte:

Será em árabe

— Entre as esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), somente ela podia reivindicar igualdade comigo.

A reivindicação de Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) também tinha fundamento. Ela era prima paterna do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e possuía beleza e formosura. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também procurava sempre mantê-la feliz. No caráter de Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) havia algumas características encontradas em pouquíssimas mulheres. No que dizia respeito a obter a proximidade do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), existia, no íntimo, um espírito de competição entre Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e ela. De acordo com a natureza feminina, isso assumia a forma de uma espécie de ciúme virtuoso, chamado, na terminologia da Sharia, de “gibta”. Usei a expressão “ciúme virtuoso” porque, nas obras de hadith e sira, entre todas as concepções, opiniões e comentários narrados sobre uma acerca da outra, não se manifesta de modo algum o sentimento de ciúme impuro. Pois o ciúme verdadeiro cega a pessoa. Ela não consegue ver nem tolerar qualquer coisa boa no adversário. Mas nenhuma delas era assim. Pela bênção da companhia virtuosa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), elas se tornaram tão generosas e magnânimas que cada uma reconhecia francamente as boas qualidades da outra. Durante toda a vida, divulgaram-nas entre as pessoas. Somente pessoas de grande estatura são capazes de fazer isso. Como exemplo a esse respeito, pode-se mencionar o incidente do Ifk. Hazrat Hamna bint Jahsh, irmã de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), também se envolveu nele. Ela pensou que, se aproveitasse aquela oportunidade para derrotar Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), coesposa e rival de sua irmã Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), sua irmã Zaynab se tornaria invencível. Com a intenção de favorecer a irmã, ela se envolveu nessa conspiração vil.

O que devemos observar é qual foi o papel de Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) naquele momento. Era uma excelente oportunidade para derrotar a coesposa rival e remover o obstáculo do caminho. Não se sabe de nenhuma coesposa no mundo que tenha deixado escapar uma oportunidade tão decisiva. Mas, considerando o nível de moralidade e espiritualidade ao qual Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) havia ascendido, como se poderia imaginar que alguém como ela aproveitaria uma oportunidade para participar de uma conspiração tão vil? Assim, naquele dia de tribulação para Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou certa vez a Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) sua opinião sobre Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu com absoluta clareza:

Será em árabe

“Eu não conheço nela nada além de bondade.” Depois, foram revelados dez versículos do Alcorão declarando a inocência de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ao mesmo tempo, a veracidade e a elevada moral de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) também foram comprovadas e estabelecidas. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) jamais se esqueceu dessa dívida para com Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela). Durante toda a sua vida, falou disso às pessoas. Relatou francamente às pessoas todas as virtudes que havia observado em Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela). Ibn Hajar al-Asqalani (que Allah tenha misericórdia dele) escreveu:

Será em árabe

— Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) teceu grandes elogios a Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) ao narrar o incidente do ifk.

Quando uma mulher tão perspicaz, erudita e ilustre como Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) enaltece Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), parece não ser necessária qualquer outra explicação para se compreender o nível de sua honra e sua posição. Isso porque Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), com sua inteligência aguçada, concedida por Allah, observou e estudou Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) profundamente e de muito perto. A verdadeira posição de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) transparece nas declarações de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) espalhadas pelos livros de hadith. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse:

Será em árabe

— “Nunca vi mulher alguma mais devota, mais temente a Allah, mais verdadeira, mais generosa, mais caridosa, mais virtuosa e mais diligente em buscar a satisfação de Allah do que Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela tinha apenas certa aspereza no temperamento. Contudo, logo se arrependia disso.”

O erudito Ibn Abd al-Barr narrou o seguinte comentário de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) sobre Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela):

Será em árabe

—No que diz respeito à religião, jamais vi mulher alguma melhor do que Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela).

Ibn Sa‘d compilou o seguinte comentário de ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela):

Será em árabe

—Que Allah seja misericordioso com Zaynab bint Jahsh! De fato, ela alcançou no mundo uma honra e uma dignidade incomparáveis. O próprio Allah a casou com o Seu Profeta, e por causa dela foram revelados vários versículos do Alcorão.

‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) também disse: ‘O Mensageiro (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) anunciou-lhe a boa-nova de que seria a primeira a encontrar-se com ele na outra vida e de que seria sua esposa no Paraíso.’

Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse a respeito dela:

Será em árabe

Isto é, ela era muito mais virtuosa, jejuava muito mais e oferecia muito mais orações.

Vários acontecimentos comprovam que Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) gozava de uma posição especialmente honrada junto ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Certa vez, a respeito de um assunto, as «Esposas Puras» (as castas esposas) enviaram Fátima (que Allah esteja satisfeito com ela) como emissária ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), para obter o seu consentimento. Contudo, ela voltou sem ter conseguido cumprir sua missão. Então, todas concordaram em escolher Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) para essa missão, pois, aos olhos de todas, ela era a mais qualificada para realizá-la. Ela desempenhou essa responsabilidade com extrema coragem. Foi até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e tentou demonstrar, com grande veemência, que Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) não era digna daquela posição. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), sentada ao lado, ouviu em silêncio o seu discurso, enquanto lançava olhares furtivos para o rosto abençoado do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Quando Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) terminou seu discurso, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) levantou-se após pedir permissão ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e apresentou um argumento tão poderoso que Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou sem resposta. Então o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: «E como poderia ser diferente? Ela é a filha de Abu Bakr.»

Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma mulher extremamente generosa, de mão aberta, dependente de Allah e satisfeita com pouco. Era considerada um centro de esperança e amparo para os órfãos, os desamparados e os necessitados. Sua compaixão e ternura pelos pobres e aflitos não tinham limites. Ibn Sa‘d narrou:

Em árabe:

— Zaynab bint Jahsh não deixou sequer um dirham ou dinar. Tudo o que chegava às suas mãos, ela doava. Era um refúgio para os pobres e necessitados.

Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma artesã. Com as próprias mãos e por seu método particular, curtia e preparava peles, e doava aos necessitados toda a renda que obtinha com isso.

Há outro relato de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) fiava fios com as próprias mãos e os entregava aos prisioneiros de guerra do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Eles teciam tecidos, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) utilizava para fins relacionados à guerra. Sua mão era tão generosa que o califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) fixou para ela uma pensão anual de doze mil dirhams; mas ela nunca a aceitou. Certa vez, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou-lhe a pensão de um ano. Zaynab cobriu os dirhams com um pedaço de tecido. Depois ordenou a Bazrah ibn Rafi‘ que distribuísse os dirhams entre os parentes e os pobres necessitados. Bazrah perguntou: «Também temos algum direito a isso?» Ela respondeu: «Os que estão sob o tecido são teus.» Ao recolhê-los e contá-los, verificou-se que eram cinquenta — ou, segundo outra versão, oitenta e cinco — dirhams. Depois de distribuir todos os dirhams, ela fez uma súplica, dizendo:

Em árabe:

“Ó Allah! Que, daqui em diante, esse dinheiro não chegue mais até mim, pois isto é uma provação.”

Essa notícia chegou aos ouvidos de Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), que comentou:

Será em árabe

“Esta é uma mulher da qual só se pode esperar o bem.” Em seguida, Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu algum tempo à porta dela e mandou transmitir-lhe suas saudações. Ele disse a Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela): “Fiquei sabendo de tudo o que você fez.” Ao retornar, enviou-lhe mais mil dirhams para suas despesas. Ela também gastou todo esse dinheiro como havia feito anteriormente. Os historiadores afirmam que a súplica acima de Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) foi aceita e que ela faleceu naquele mesmo ano.

O próprio Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) testemunhou que Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma mulher extremamente temente a Allah, humilde e devota. Certa vez, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava distribuindo os espólios entre os emigrantes. No meio disso, Hazrat Zaynab disse-lhe algo. Imediatamente, Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) repreendeu-a severamente. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): “Não lhe diga nada. Ela é uma grande devota e asceta.”

Morte:

Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu no ano 20 da Hégira, durante o califado de Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Naquele mesmo ano, o Egito foi conquistado. Segundo Hafiz Ibn Hajar, ela viveu cinquenta e três anos. Essa é também a opinião da maioria dos historiadores. Contudo, segundo o historiador al-Waqidi, a vida total de Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) foi de cinquenta anos, o que contraria a opinião da maioria. Al-Waqidi também afirmou que, quando se casou com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ela tinha trinta e cinco anos; segundo outros, tinha trinta e oito.

Até os últimos momentos de sua vida, ela conservou seu hábito de doar. Ela mesma providenciou seu sudário. Contudo, disse aos familiares: “Depois da minha morte, ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) talvez envie tecidos para o sudário. Se isso acontecer, distribuam qualquer um dos dois sudários entre os pobres e necessitados.” Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou cinco peças de tecido, e ela foi envolta nelas. O tecido que Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) havia deixado foi doado por sua irmã Hafsa. Ela também deixou instruído que fosse levada até o túmulo na mesma padiola em que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia sido levado até a sepultura. Ela foi a primeira mulher, depois de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), a ser colocada nessa padiola. Ambas as suas instruções foram cumpridas. As outras esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deram-lhe o banho fúnebre.

O califa, Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), dirigiu a oração fúnebre por ela, e ela foi sepultada no cemitério de Al-Baqi‘.

Rabi‘a ibn ‘Abdullah disse: “Vi ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) com o durra pendurado em um dos ombros. Ele avançou nessa condição e dirigiu a oração fúnebre de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), realizando quatro takbirs, e permaneceu junto ao túmulo até que água fosse aspergida sobre ele.”

Hazrat ‘Abdullah ibn Abi Sulayt (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Vi Abu Ahmad ibn Jahsh [irmão de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela)] carregando, aos prantos, o esquife de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela). Ele era cego. Ouvi ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) dizer-lhe: ‘Abu Ahmad, afaste-se do esquife, para que não sofra com a pressão das pessoas.’ Abu Ahmad respondeu: ‘Ó ‘Umar, foi por meio dela que alcançamos todo o bem. Este meu pranto está aliviando o intenso ardor dentro de mim.’ ‘Umar disse: ‘Está bem, deixe-o, deixe-o.’”

No exato momento em que Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) estava sendo sepultada, um jovem coraixita apareceu vestido com duas peças de tecido egípcio colorido e com os cabelos penteados. ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ergueu o bastão sobre sua cabeça e disse: “Pela maneira como você veio, parece que estamos brincando. Aqui, os anciãos estão sepultando sua mãe.” Era um dia de calor intenso. Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) mandou erguer uma tenda no local onde o túmulo estava sendo cavado. Diz-se que esta foi a primeira tenda erguida sobre um túmulo em Al-Baqi‘. Quando o corpo estava sendo baixado ao túmulo, Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou às outras esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quem desceria ao túmulo. Elas responderam: “Descerão aqueles que costumavam visitá-la e conviver com ela enquanto estava viva.” Então, por ordem de Hazrat ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Muhammad ibn ‘Abdillah ibn Jahsh, Usama ibn Zayd, ‘Abdullah ibn Abi Ahmad ibn Jahsh e Muhammad ibn Talha (que Allah esteja satisfeito com eles) desceram ao túmulo. Todos eram parentes de Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela).

Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou profundamente entristecida com a morte de Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela expressou assim os sentimentos que teve naquele momento:

Será em árabe

“Ela partiu em uma condição louvável e incomparável, deixando órfãos e viúvas desolados.” No dia em que Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) morreu, os pobres e necessitados de Medina começaram a lamentar profundamente sua morte.

Hazrat, o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), destinou a Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) cem wasaqs de grãos da colheita produzida em Khaybar.

Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) deixou uma casa como herança. Durante seu califado, o califa omíada al-Walid ibn ‘Abd al-Malik comprou essa casa dos seus parentes próximos por cinquenta mil dirhams e a incorporou à Mesquita do Profeta.

Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) narrava pouquíssimos hadiths. Nas coletâneas de hadith foram compilados apenas onze hadiths narrados por ela, dos quais dois são muttafaqun ‘alayh. Entre aqueles que narraram hadiths dela, destacam-se Hazrat Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela), Zaynab bint Abi Salama, Muhammad ibn ‘Abd Allah ibn Jahsh, Kulthum bint Talaq e o escravo Mazkur.

Certa vez, antes de seu falecimento, o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse às suas esposas:

Será em árabe

—“Aquela dentre vós cuja mão for mais longa será a primeira a encontrar-se comigo.” Com “mão mais longa”, ele quis dizer metaforicamente maior generosidade. Porém, as nobres esposas entenderam o sentido literal. Por isso, reuniam-se e mediam as mãos umas das outras para ver de quem era a mão mais longa. Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) era de baixa estatura. Elas continuaram fazendo isso até o falecimento de Zaynab bint Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ela). Mas, quando ela morreu antes de todas as outras, refletiram profundamente e compreenderam o significado das palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por isso, Hazrat ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela), ao explicar este hadith, disse:

Será em árabe

—Entre nós, Zaynab era a dona da mão mais longa, pois trabalhava com as próprias mãos para ganhar seu sustento e doava o que ganhava.

Muitos pensaram que, com esse comentário, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se referia a Hazrat Zaynab bint Khuzayma (que Allah esteja satisfeito com ela). Mas essa ideia não está correta, pois Hazrat Zaynab bint Khuzayma (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu antes do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Os relatos presentes nas obras de hadith e de sira indicam que a venerável Zaynab (r.a.) era uma mulher de grande beleza. Certa vez, ao aconselhar sua filha, a venerável Hafsa (r.a.), ‘Umar (r.a.) disse:

Será em árabe

—Não respondas às palavras do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), pois não tens nem a beleza de Zaynab, nem o carinho conjugal que ‘A’isha recebia.

Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), embora as demais esposas tenham realizado o hajj, Sawda (r.a.) e Zaynab (r.a.) não realizaram mais o hajj. Elas também não saíram mais de casa. Ambas compreenderam dessa maneira a instrução de Allah e do Mensageiro.

A venerável Juwayriya bint al-Harith (r.a.)

A Mãe dos Crentes, a venerável Juwayriya (r.a.), era filha de al-Harith ibn Dirar, líder do ramo al-Mustaliq da célebre tribo árabe dos Khuza‘a.¹

O primeiro casamento da venerável Juwayriya (r.a.) foi com um homem de sua própria tribo chamado Musafi‘ ibn Safwan (Dhu ash-Shufar). Ele era primo paterno da venerável Juwayriya (r.a.) e era conhecido pelo nome de Dhu ash-Shufar.² Seu pai, al-Harith, e seu marido, Musafi‘, eram ambos inimigos ferrenhos do Islã. Mais tarde, seu pai compareceu diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e aceitou o Islã.³

A batalha de Banu al-Mustaliq:

“Musta‘liq” era o epíteto de um homem chamado Juzayma ibn Sa‘d, da tribo Banu Khuza‘a. Al-Muraysi‘ era o nome de um poço de água pertencente à tribo Banu Khuza‘a. Durante a expedição contra os Banu Mustaliq, o Honorável Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) acampou junto a esse poço com seu exército; por isso, essa expedição ficou conhecida na história como a expedição dos Banu Mustaliq ou a batalha de Al-Muraysi‘. A expedição ocorreu no mês de Sha‘ban do quinto ano da Hégira. Alguns, porém, afirmaram que ocorreu no sexto ano.⁴ Mas isso não parece correto.

No quinto ano da Hégira, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recebeu a notícia de que Harith ibn Dirar, líder dos Banu al-Mustaliq, havia começado os preparativos para atacar Medina com um exército formado por seus próprios homens e por membros de outras tribos árabes, instigado pelos coraixitas de Meca. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou Buraida ibn al-Hus||||ib al-Aslami (r.a.) para verificar a veracidade da notícia. Ao chegar lá e conversar diretamente com Harith, ele compreendeu que a informação era verdadeira. Retornou imediatamente e informou ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a situação real. Sem demora, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ordenou aos Companheiros que se preparassem para a expedição.

O exército foi preparado. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deixou Zayd ibn Haritha (r.a.) — segundo outra opinião, Abu Dharr al-Ghifari — como seu substituto em Medina e partiu pessoalmente à frente do exército. Algumas narrações mencionam que Numayla ibn ‘Abdullah al-Laythi foi deixado em Medina como seu representante. De qualquer modo, ele saiu de Medina no dia 2 do mês de Sha‘ban do quinto ano da Hégira e, ao chegar a Muraysi‘, a nove manzils de Medina, fez uma parada.

Todas as notícias chegaram ao exército conjunto dos incrédulos, liderado por Harith. Eles ficaram aterrorizados. As demais tribos árabes perderam a vontade de resistir e se dispersaram, cada uma seguindo seu próprio caminho. Somente os membros da tribo de Harith permaneceram com ele. Eles formaram fileiras e, durante bastante tempo, mantiveram o exército muçulmano à distância, lançando flechas e lanças. Por fim, o exército muçulmano lançou um ataque repentino e simultâneo e derrotou o exército inimigo. O líder, al-Harith, fugiu.

Onze soldados incrédulos foram mortos, e todos os demais foram capturados. Nenhum soldado do exército muçulmano sofreu o martírio. Contudo, por engano, foi morto um homem chamado Hisham ibn Sababa, aliado de ‘Ubada ibn Samit (r.a.). Cerca de seiscentas pessoas do lado inimigo — homens, mulheres e crianças — foram capturadas. O exército muçulmano também obteve como ghanima (espólios de guerra) dois mil camelos e cinco mil cabras e ovelhas.⁵

Entre esses prisioneiros de guerra encontrava-se também Juwayriya (r.a.). Ibn Ishaq narrou esse episódio, que também foi registrado em algumas coletâneas de hadith. Todos os prisioneiros de guerra foram declarados escravos e escravas e distribuídos entre os soldados que haviam participado da batalha. Juwayriya (r.a.) coube a Thabit ibn Qays (r.a.) ou, segundo outra opinião, ao primo dele. Ela era filha do líder de uma tribo. Além disso, possuía forte senso de honra, natureza gentil, beleza e encanto. Não conseguiu aceitar a vida de escrava. Ela pediu a Thabit ibn Qays (r.a.) um mukataba. Thabit (r.a.) celebrou com ela um contrato de mukataba — isto é, de libertação da escravidão — em troca de nove uqiyyas de ouro. Mas onde Juwayriya (r.a.) conseguiria tamanha quantia? Ela decidiu pedir ajuda às pessoas e reunir o dinheiro necessário.

Depois que o Honorável Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) terminou de distribuir os espólios, Juwayriya (r.a.) foi até ele e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Eu vim tendo aceitado o Islã. Ashhadu an la ilaha illallah wa ashhadu annaka rasuluhu. Sou filha de Harith ibn Dirar, o líder da minha tribo. Fui capturada pelo exército muçulmano e coube a Thabit ibn Qays. Thabit celebrou comigo um mukataba, mas não consigo pagar a quantia. Vim até você esperando que me estenda uma mão de ajuda para pagar o valor estipulado no meu contrato.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Você não espera algo melhor do que isso?” “O quê?”, perguntou ela. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Eu pago todo o valor estipulado no seu contrato e me caso com você.” Juwayriya (r.a.) ficou extremamente feliz com essa proposta inesperada e deu seu consentimento. Em seguida, o Honorável Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) mandou chamar Thabit, entregou-lhe o valor estipulado no contrato e libertou Juwayriya (r.a.) da escravidão. Depois, casou-se com ela e conferiu-lhe a condição de esposa livre. Ibn Ishaq narrou o episódio dessa maneira.⁶

Outra narração relata que o pai de Juwayriya (r.a.), Harith, era um dos principais líderes da Arábia. Quando sua filha foi capturada pelo exército muçulmano, ele foi até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e disse: “Minha filha não pode ser escrava. Minha posição está muito acima da escravidão. Liberte-a.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Não seria melhor deixar essa questão à vontade de Juwayriya?” Harith foi até sua filha Juwayriya e disse: “Muhammad deixou você livre para decidir conforme a sua vontade. Veja que você não me envergonhe.” Juwayriya disse ao pai: “Prefiro permanecer junto do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).” Depois disso, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) casou-se com ela.⁷

Ibn Sa‘d também mencionou em seu Tabaqāt que foi o pai dela quem pagou o resgate. Quando ela ficou completamente livre, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou-se com ela, com o consentimento dela.

Quando a notícia do casamento se espalhou entre os combatentes muçulmanos, eles disseram: “Os Banū al-Mustaliq agora são os honrados sogros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Os membros da família com a qual o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se casou jamais podem ser escravos e escravas.” Em seguida, consultaram-se e, unidos, libertaram todos os cativos.8

Ibn al-Athīr escreveu que, por essa ocasião, todos os cativos de cem casas dos Banū al-Mustaliq foram libertados. O Imām Abū Dāwūd e o Imām Aḥmad narraram de ‘Ā’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela disse:9

Será em árabe

“Não vi nenhuma mulher mais benéfica para seu povo do que Juwayriya.

Ibn Isḥāq disse que cem casas não significa cem pessoas, pois o número deles era superior a setecentas. Cem casas significa as pessoas de cem casas.10

Ibn al-Athīr e outros também narraram o acontecimento da seguinte maneira: Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela) já havia começado a viver como esposa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Seu pai, al-Ḥārith, não sabia disso. Ele carregou o valor do resgate em vários camelos e partiu em direção a Medina para libertar sua filha. Ao chegar ao vale de ‘Aqīq, no caminho, soltou os camelos dos cabrestos para que pastassem. Entre esses camelos, havia dois que lhe eram muito queridos. Por isso, escondeu-os em um local secreto. Depois, chegou a Medina e apresentou-se diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), fazendo seu pedido:

“Você trouxe minha filha cativa. Aqui está o resgate dela; permita que ela vá comigo.”

Depois, começou a apresentar, um por um, todos os bens, camelos e outras coisas que trouxera. Então o Mensageiro perguntou-lhe: “Onde estão aqueles dois camelos que deixaste amarrados no vale de Aqeeq?”

Ao tomar conhecimento disso por meio do Mensageiro de Allah, Harith ficou profundamente surpreso. Imediatamente, pronunciou a profissão de fé e tornou-se muçulmano. Em seguida, soube que aquela por quem correra para obter a liberdade havia se tornado, a essa altura, um ornamento da Casa Profética. Ficou imensamente feliz com a boa sorte da filha e foi visitá-la com grande alegria. Depois, partiu contente com ela em direção à terra onde vivia sua tribo.¹¹

Al-Waqidi narrou isso por intermédio de Urwa. Juwayriya disse: “Três dias antes da chegada do Profeta, sonhei que a lua vinha correndo da direção de Yathrib e caía em meu colo. Não achei conveniente contar isso a ninguém. Então o Profeta chegou. Quando fui feita prisioneira, esperei que o sonho que tivera se realizasse. Depois, o Mensageiro libertou-me e casou-se comigo. Não contei esse sonho a ninguém da minha tribo. Eu nada sabia sobre a chegada do Mensageiro até que uma prima minha me contou. Então louvei Allah, o Altíssimo.¹² O Imã Muslim compilou uma narração de Ibn Abbas. Ele disse:¹³

Em árabe:

— O primeiro nome de Juwayriya era Barra. Depois, o Mensageiro de Allah mudou-o para Juwayriya. Como o primeiro nome continha certa ideia de autolouvor, o Mensageiro viu nele uma indicação de mau agouro e infortúnio. Por isso, não o aprovou. Em uma narração de Ibn Abbas consta:¹⁴

Em árabe:

— Ele não gostava que ela fosse chamada de Barra. Por isso, saiu de sua presença.”

Allah, o Todo-Poderoso, disse no Alcorão Sagrado:

Em árabe será:

— Não vos considereis puros. Foi essencialmente tendo em vista este versículo que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mudou o nome dela.

Ibn Sa‘d disse o seguinte sobre o dote de Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela):15

Em árabe será:

— A libertação de cada cativo dos Banu al-Mustaliq foi estabelecida como seu dote.

Quando Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela) se casou com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ela tinha apenas vinte anos. Desde o primeiro olhar, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) considerou-a muito bela e achou seus modos extremamente doces e cativantes. Ao descrever sua beleza, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse:16

Em árabe será:

— Juwayriya possuía tanto doçura quanto encanto. Quem quer que a visse, ela conquistava seu coração.

O imã adh-Dhahabi disse:17

Será em árabe

‘Ela era uma das mulheres mais belas.’

Ela era uma mulher de personalidade muito marcante. Possuía um ilimitado senso de dignidade. A prova disso era sua inquietação e seus esforços para se libertar da escravidão. Era desapegada dos prazeres e luxos mundanos e inteiramente devotada à adoração de Allah. Há várias narrações de hadiths segundo as quais o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi até ela e a encontrou ocupada com o tasbih e o tahlil.

Quando o califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) instituiu as pensões, fixou doze mil para todas as esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), exceto Safiyyah (que Allah esteja satisfeito com ela) e Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela). Para essas duas, fixou seis mil para cada uma. Ele fez isso porque, em determinada fase de suas vidas, ambas haviam sido escravas. Entretanto, elas reagiram indignadas à atitude de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e recusaram-se a aceitar a pensão. Exigiram igualdade. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi obrigado a aceitar a reivindicação delas. Outra narração também menciona Maymunah (que Allah esteja satisfeito com ela) e registra dez mil em vez de doze mil.18

Certa manhã, o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela) sentada na mesquita, fazendo du‘a. Ele saiu e, ao voltar ao meio-dia, encontrou-a na mesma situação e perguntou: ‘Você permanece sempre assim?’ Ela respondeu afirmativamente. Então o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Não devo ensinar-lhe algumas palavras melhores que isso e mais importantes que essa sua adoração voluntária?’ Em seguida, ensinou-lhe esta du‘a:19

Será em árabe

Naturalmente, há algumas diferenças entre as diversas narrações.

É narrado por Ibn Sa‘d: certa sexta-feira, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi até Hazrat Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela). Naquele dia, Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela) estava jejuando. Como ele não apreciava que ela jejuasse apenas um dia, perguntou: “Você jejuou ontem?” Ela respondeu: “Não.” Ele perguntou novamente: “Você pretende jejuar amanhã?” Ela respondeu: “Não.” Então o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Nesse caso, quebre o jejum e faça o iftar.”20

Hazrat Rasul-e Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amava-a profundamente. Ele sempre ia à sua casa. Certa vez, ao chegar à casa dela, perguntou: “Há algo para comer?” Ela respondeu: “Minha escrava tinha trazido um pouco de carne de caridade; só temos isso. Além disso, não há mais nada.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Traga-a. Pois a caridade já chegou àquele a quem foi destinada.”21

Hazrat Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela) narrou sete hadiths do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Desses, o Imam Bukhari narrou um e Muslim narrou dois.22 Entre os mais notáveis daqueles que ouviram hadiths dela estão: Ibn ‘Abbas, Jabir, Ibn ‘Umar, ‘Ubayd ibn as-Sabbak, Tufayl, Abu Ayyub al-Muraghi, Mujahid, Kurayb, Kulthum ibn al-Mustaliq, ‘Abdullah ibn Shaddad ibn al-Had e outros.23

No quinto ano da Hégira, quando se casou com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hazrat Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha vinte anos. Segundo a opinião correta, ela faleceu em Medina, no mês de Rabi‘ al-Awwal do ano 50 da Hégira. Tinha então 65 anos. Marwan, o governador de Medina naquela época, conduziu a oração fúnebre. Seu túmulo encontra-se no cemitério de al-Baqi‘, em Medina. Segundo a narração de Muhammad ibn ‘Umar, o ano de sua morte foi o 56 da Hégira.24

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) destinou, para o sustento de Hazrat Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela), oitenta wasaq de tâmaras e vinte wasaq de cevada — segundo outra opinião, de trigo — da produção de Khaybar.25

Hazrat Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: certa vez, Hazrat Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela) disse ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Quero libertar este escravo.” Ele disse: “Entregue-o ao seu tio materno, que mora na aldeia. Ele cuidará dele. Assim, você receberá uma recompensa maior.”26

Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hazrat Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela) viveu por muitos anos. Contudo, pouco se sabe em detalhes sobre suas atividades durante esse período.

Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela)

A Mãe dos Crentes, Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela), era filha do líder coraixita Abu Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ele). Antes do Islã, três homens dos coraixitas de Meca — Utba, Abu Jahl e Abu Sufyan — eram líderes muito influentes. O estandarte militar dos coraixitas, chamado “Iqab”, permanecia sob a responsabilidade de Abu Sufyan. Ele era um grande comerciante. Enviava caravanas comerciais para a Síria, Roma e a Pérsia, e às vezes também acompanhava pessoalmente as caravanas. O nome verdadeiro desse Abu Sufyan era Sakhr ibn Harb.¹

Uma das filhas de Abu Sufyan chamava-se Zaynab. Ela se casou com Dawud ibn Urwa ibn Masud al-Thaqafi, de Taife.² As outras duas filhas se casaram com os dois irmãos da Mãe dos Crentes, Zaynab bint Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ela). Fari’a casou-se com Abu Ahmad ibn Jahsh, e Ummu Habiba, com Ubaydullah ibn Jahsh. Um dos filhos de Abu Sufyan era o honorável Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele), que entrou em confronto e combate com o Comandante dos Crentes, o honorável Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Yazid, filho desse Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele), martirizou em Karbala o honorável Imam Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele), neto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele) fundou o califado omíada.

Hind bint Utba, esposa de Abu Sufyan, havia mastigado o fígado do honorável Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele), tio do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), no campo de Uhud. Hind era mãe do honorável Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele). Outra esposa de Abu Sufyan, Safiyya bint Abi al-As, era mãe da Mãe dos Crentes, a honorável Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela). Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele) era meio-irmão de Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela). Safiyya, mãe de Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela), era tia paterna do terceiro califa, o honorável Uthman ibn Affan (que Allah esteja satisfeito com ele). Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) nasceu em Meca dezessete anos antes de o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) receber a missão profética.³

Abu Sufyan, sua esposa Hind e a maioria dos membros de sua família aceitaram o Islã na época da conquista de Meca. Contudo, Abu Sufyan ainda não havia se tornado um muçulmano sincero. Naquele momento, ele pertencia à categoria dos mu’allafatu al-qulub. Alguns especialistas escreveram que, mais tarde, ele se tornou um bom muçulmano.⁴

Embora a família paterna tenha permanecido hostil ao Islã até a conquista de Meca, as famílias dos maridos de Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) e Fari’a (que Allah esteja satisfeito com ela) aceitaram o Islã já no início de sua propagação. Elas também aceitaram o Islã juntamente com seus maridos.

A honorável Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) emigrou para a Abissínia com seu marido, Ubaydullah ibn Jahsh, para escapar da perseguição dos idólatras de Meca. Foi em solo abissínio que nasceu Habiba, filha de Ubaydullah. No entanto, Ibn Sa’d mencionou, com base na autoridade de al-Waqidi, que “Habiba” nasceu em Meca antes da emigração para a Abissínia.⁵ Foi por causa do nome dessa filha que ela recebeu o sobrenome Ummu Habiba. Seu nome original, “Ramla”, caiu no esquecimento, e ela se tornou conhecida por esse sobrenome.⁶

Algum tempo depois de chegarem à Abissínia, seu marido, Ubaydullah, abandonou o Islã e adotou o cristianismo. Antes de sua apostasia, a honorável Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) certa vez viu o marido em um sonho, com uma aparência horrível. Assustada e apreensiva, pensou consigo mesma que certamente algum desfecho terrível estava prestes a acontecer com ele. Pela manhã, Ubaydullah lhe disse: “Ummu Habiba! Refleti profundamente sobre a religião e não achei que alguma religião fosse melhor do que o cristianismo. Embora eu tenha sido muçulmano, agora estou me tornando cristão.” A honorável Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) repreendeu severamente o marido por esse desvio e também lhe contou o sonho que tivera. Mas nada adiantou. Ele continuou cristão. Assim, os dois se separaram. Ubaydullah passou a viver de maneira irresponsável. Certo dia, morreu após cair enquanto estava embriagado. Segundo outra versão, morreu afogado no mar em estado de embriaguez.⁷ Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) também relatou: “Vi alguém me chamando de ‘Ó Mãe dos Crentes’. Fiquei com medo. Interpretei isso como significando que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se casaria comigo.”⁸

Depois da separação, a honorável Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) continuou vivendo na Abissínia com sua filha Habiba. Essa notícia chegou aos ouvidos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em Medina. Depois que terminou o período de espera legal de Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela), o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou de Medina Amr ibn Umayya al-Damri (que Allah esteja satisfeito com ele) ao imperador da Abissínia, o Negus, levando uma carta e quatrocentos dinares como dote. Na carta, escreveu ao Negus: “Providencie meu casamento com Ummu Habiba.” Assim que recebeu a carta, o Negus enviou sua serva Abraha a Ummu Habiba para transmitir-lhe a proposta de casamento. Informou-lhe também: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) escreveu-me para providenciar seu casamento. Agora, para realizar essa cerimônia, nomeie um representante de sua parte.” A honorável Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) presenteou Abraha, por lhe ter dado essa boa notícia, com dois braceletes de prata, brincos e um anel ornamentado. Em seguida, nomeou seu primo materno Khalid ibn Sa’id ibn Abi al-As como representante e enviou-o ao Negus.⁹

Ao anoitecer, o Negus convocou à sua corte o honrado Ja‘far ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele) e os demais Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles), residentes na Abissínia, e realizou o casamento na presença de todos.¹⁰ O próprio Negus proferiu o sermão matrimonial e entregou a Khalid ibn Sa‘id, em nome do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), o valor de quatrocentos dinares como dote. Quando, ao término da cerimônia, todos se preparavam para se levantar, Khalid ibn Sa‘id deteve-os e disse: “É costume ou tradição dos profetas (que a paz esteja com eles) oferecer uma refeição após o casamento.” Em seguida, ofereceu uma refeição a todos e despediu-os.¹¹ Há diferentes relatos sobre o valor do dote desse casamento. Um relato de al-Mustadrak menciona quatro mil dinares. No relato de Abu Dawud, são mencionados quatro mil dirrames. Ibn Abi Khaythama narrou, com base no Imam al-Zuhri, o valor de quarenta uqiyyas. Contudo, o erudito al-Zurqani considerou mais autêntico o relato dos quatrocentos dinares.¹²

Quando o valor do dote chegou às mãos da honrada Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela), ela quis dar cinquenta dinares à serva Abraha. Abraha, porém, recusou-se a aceitá-los e disse: “O Negus proibiu-me de recebê-los.” Ela também devolveu tudo o que Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) lhe havia dado anteriormente. Após o casamento, o Negus enviou a Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela), como presentes, grande quantidade de almíscar, âmbar, perfumes e outros objetos. A honrada Umm Sahabi (que Allah esteja satisfeito com ela) narrou pessoalmente esses fatos. Ela relatou ainda que, naquela ocasião, Abraha informou que havia aceitado o Islã e pediu-me que comunicasse ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) que ela havia aceitado o Islã e que lhe transmitisse suas saudações. Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Quando cheguei a Medina, contei ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tudo sobre o casamento, informei-o de todas as atitudes de Abraha e transmiti-lhe suas saudações.” Ele sorriu levemente e disse:

Abraha será¹³

O casamento de Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi celebrado no sexto ano da Hégira — segundo outra opinião, no sétimo. Naquela época, a Mãe dos Crentes Umm Habiba tinha trinta e seis ou trinta e sete anos. Após o casamento, o Negus enviou Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) para Medina, por navio, acompanhada de um grupo de emigrantes sob a liderança de Shurahbil ibn Hasana (que Allah esteja satisfeito com ele) — segundo outra opinião, sob a liderança de Ja‘far ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele).¹⁴ Quando essa caravana chegou a Medina, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) encontrava-se em Khaybar.¹⁵

Ibn Hazm (que Allah esteja satisfeito com ele) afirmou que havia consenso quanto à celebração do contrato matrimonial de Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) na Abissínia. Os especialistas em biografia do Profeta concordam sobre isso. Contudo, um relato de Hasan e outro do Imam al-Zuhri afirmam que o contrato de Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) foi celebrado em Medina, sob a organização de ‘Uthman ibn ‘Affan (que Allah esteja satisfeito com ele).¹⁶

Nesse casamento, foi oferecido um banquete nupcial, no qual ele serviu carne aos convidados. Alguns especialistas em biografia do Profeta disseram que talvez, depois de sua chegada a Medina, tenha sido realizado novamente um contrato matrimonial e um banquete nupcial.

Um relato de Sahih Muslim menciona que, após a conquista de Meca, as pessoas não viam com bons olhos Abu Sufyan, que havia aceitado o Islã, e também não gostavam de sua companhia. Por isso, ele fez ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) três pedidos. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) atendeu aos seus pedidos. Um desses três pedidos foi o seguinte: Abu Sufyan disse: “Para mim, a moça mais bela da Arábia é Umm Habiba; case-se com ela.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) mostrou-se satisfeito.¹⁷

Esse relato dá a entender que, até o momento em que Abu Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou o Islã, ele ainda não havia se casado com Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela). Os especialistas em biografia do Profeta consideram que isso foi apenas uma suposição do narrador. Por isso, os muhaddithun Ibn Sa‘d, Ibn Hazm, Ibn al-Jawzi, Ibn al-Athir, al-Bayhaqi, ‘Abd al-‘Azim al-Mundhiri e outros rejeitaram o relato acima de Muslim. Muitos explicaram esse relato dizendo que, na realidade, Abu Sufyan se referia à realização de uma segunda cerimônia formal de casamento.¹⁸

Já mencionamos anteriormente o consenso dos especialistas em sīra de que o contrato de casamento de Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) foi realizado na Abissínia. Além disso, outro acontecimento que corrobora isso foi registrado nas obras de sīra. De acordo com uma cláusula do Tratado de Hudaybiyyah, a tribo Khuzāʿa, vizinha de Meca, declarou sua aliança com os muçulmanos de Medina. Então, os coraixitas violaram esse tratado e passaram a oprimi-los. A tribo de Khuzāʿa pediu a ajuda do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Com isso, os coraixitas de Meca ficaram apreensivos. Para manter o tratado em vigor, enviaram Abū Sufyān a Medina em seu nome. Ao chegar a Medina, Abū Sufyān foi primeiro à casa de sua filha, Umm al-Mu’minīn Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela). Ao ver o pai, sua filha retirou a cama do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), impedindo-o de sentar-se nela. Abū Sufyān perguntou à filha: “Minha filha! Você retirou a cama. Foi por não considerar a cama adequada para eu me sentar, ou por não me considerar digno dela?” Ela respondeu: “Esta é a cama do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Você é um idólatra e impuro. Por isso, não quis que você se sentasse na cama do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Ao ouvir essas palavras da filha, Abū Sufyān levantou-se dali, foi sentar-se junto ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse à filha:

Será em árabe

Depois que me deixaste, entrou em ti muita maldade.¹⁹

Pelo acontecimento acima, entende-se que Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) alcançou a condição de esposa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) muito antes de Abū Sufyān aceitar o Islã. Além disso, há um relato de Ibn Saʿd segundo o qual a notícia do casamento de Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) chegou a Abū Sufyān em Meca. Naquela época, ele era adversário e inimigo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). No entanto, não desaprovou esse casamento. Ele comentou:

Será em árabe

— É uma correspondência nobre que não pode ser rejeitada.²⁰

Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu em Medina no ano 44 da Hégira — segundo outra opinião, no ano 42 — durante o califado de seu irmão, o Comandante dos Crentes Muʿāwiyah (que Allah esteja satisfeito com ele). Ela foi sepultada em Medina. Tinha 73 anos quando morreu. Marwān dirigiu a oração fúnebre. Por isso, os filhos de seus irmãos e irmãs desceram à sepultura e a enterraram.²¹ Sobre seu túmulo, sabe-se apenas que ficava na casa de ʿAlī (que Allah esteja satisfeito com ele). Foi narrado pelo Imām Zayn al-ʿĀbidīn (que Allah tenha misericórdia dele) que ele disse: “Certa vez, cavei um canto da casa de ʿAmr. Ali encontrei uma inscrição. Nela estava escrito—

Será em árabe

“Este é o túmulo de Ramla bint Sakhr.” Eu o coloquei novamente ali. Por este relato, entende-se que o túmulo dela ficava na casa de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).22 Ela viajou para Damasco a fim de visitar seu irmão, o honorável Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele). Diz-se que ela morreu ali e foi sepultada no mesmo lugar. O imame Adh-Dhahabi afirma que isso é infundado e que seu túmulo fica em Medina.23

Antes de morrer, ela mandou chamar a honorável Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e a honorável Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Disse-lhes: “A relação entre mim e vocês era como a relação entre coesposas. Como vocês desejavam que fosse assim, eu também preferi que fosse assim. Peçam a Allah o perdão para mim.” Quando a honorável Aisha suplicou pelo perdão dela, ela, feliz, disse:

Será em árabe

— Você me deixou feliz; que Allah a deixe feliz também.24

Do primeiro marido nasceram dois filhos, ‘Abdullah e Habiba. Habiba cresceu na casa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sob seus cuidados. Ela se casou com um grande líder da tribo dos Saqif.

A honorável Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela) era muito bela. No Sahih Muslim, o relato de seu pai, Abu Sufyan, aparece da seguinte forma:

Será em árabe

— Para mim, Umm Habiba é a mais bela e formosa filha da Arábia.

Nas diversas coletâneas de hadith, foram compilados sessenta e cinco (65) hadiths de Hadrat Ummu Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela). Entre eles, dois são muttafaq ‘alayhi, e dois foram narrados exclusivamente pelo Imam Muslim.25 O número de narradores que transmitiram hadiths por sua autoridade também não é pequeno. Entre os mais notáveis estão: Habiba (sua filha), Mu‘awiya, ‘Utba (os dois filhos de Abu Sufyan), ‘Abdullah ibn ‘Utba, Abu Sufyan ibn Sa‘id as-Saqafi, Salim ibn Sawwar, Abul Jarrāh, Safiyya bint Shayba, Zaynab bint Ummu Salama, ‘Urwa ibn az-Zubayr, Abu Salih as-Samman, Shahr ibn Hawshab, ‘Anbasa, Shutayr ibn Shakal, Abul-Malih ‘Amir al-Hudhali, entre outros.26

Hadrat Ummu Habiba, a Mãe dos Crentes, era uma mulher de fé extremamente forte. Considerando a época em que viveu, não se pode deixar de ficar maravilhado ao refletir sobre a paciência, a firmeza e a prudência que demonstrou. Logo no início do surgimento do Islam, reconheceu a verdade por meio de sua inteligência e sabedoria e a abraçou firmemente. Aquilo que muitos homens extremamente inteligentes daquela época não conseguiram fazer, ou para o que levaram muito tempo, ela conseguiu realizar com facilidade. Pela verdade, abandonou o país, deixando para trás seus pais, irmãos, irmãs e todos os parentes e amigos. O marido em quem se apoiara para abandonar tudo também a deixou em uma terra estrangeira. Mas ela não se desviou nem um pouco da verdade. Permaneceu tão firme em sua crença quanto uma montanha. Que força de fé é necessária para alguém fazer tudo isso! Talvez tenha sido justamente por essa fé tão sólida que Allah, o Altíssimo, lhe concedeu, como recompensa, ainda neste mundo, a sublime posição de Mãe dos Crentes.

Junto com sua fé sólida, ela também trazia no coração um amor ilimitado pelo Mensageiro de Allah. A prova de quão grandioso e puro considerava o Mensageiro de Allah encontra-se no fato de não permitir que seu pai politeísta se sentasse no leito do Mensageiro de Allah. Ela disse diretamente ao pai: “O senhor é um politeísta, impuro. Não quero que se sente no leito do Mensageiro de Allah e o contamine.” Isso é fé; isso é amor por Allah e pelo Mensageiro de Allah.

Assim como ela própria seguia rigorosamente os hadiths do Nobre Mensageiro de Allah, também insistia para que os outros os seguissem. Certa vez, seu sobrinho Abu Sufyan ibn Sa‘id ibn al-Mughira foi visitá-la. Ele comeu sattu e apenas enxaguou a boca. A Mãe dos Crentes disse-lhe: “Você deveria fazer wudu, pois o Mensageiro de Allah disse: ‘Quem comer algo cozido no fogo deve fazer wudu.’”27

Três dias após o falecimento de seu pai, Abu Sufyan, ela pediu perfume, passou-o na testa e disse:

Será em árabe

— Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: “Não é permitido a uma mulher que creia em Allah e no Último Dia guardar luto por qualquer falecido por mais de três dias, exceto por seu único marido. Pelo marido, ela guardará luto por quatro meses e dez dias.”28

Certa vez, ela ouviu o Mensageiro de Allah dizer: “Para quem oferecer diariamente doze rak‘ahs de oração voluntária, será construída uma casa no Paraíso.” Ummu Habiba disse: “Desde então, sempre tenho oferecido essas orações.” Como resultado, seu aluno e irmão, ‘Utba; o aluno de ‘Utba, ‘Amir ibn Uways; e o aluno de ‘Amr, Nu‘man ibn Salim, cada um deles oferecia regularmente essa oração em seu respectivo período.

Por natureza, ela era uma pessoa verdadeira. Certa vez, disse ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Case-se com minha irmã.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “Você deseja isso?” Ela respondeu: “Por que eu não desejaria? Que mal há nisso?! Não deveria haver impedimento para que eu ou alguma de minhas irmãs vejamos uma boa situação.”

Ao descrever sua posição, al-Dhahabi diz: “Em termos de linhagem, nenhuma das esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era mais próxima dele do que ela. Nenhuma das esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu um mahr maior do que o dela. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não se casou com nenhuma esposa que estivesse mais distante dele do que ela.”29

Ibn Abbas (r.a.) disse: “Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se casou com Umm Habiba (r.a.), o seguinte versículo foi revelado:”30

Será em árabe

— “Talvez Allah estabeleça afeição entre aqueles que são vossos inimigos e vós.” (Surata Al-Mumtahanah, 7).

Maymuna bint al-Harith (r.a.)

Depois de Umm al-Mu’minin Hafsa (r.a.), o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou-se com Maymuna bint al-Harith al-Hilaliyya (r.a.). Esta foi a mulher com quem o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se casou por último — assim relatou Ibn Sa‘d. Seu pai era al-Harith ibn Hayn e sua mãe, Hind bint ‘Awf.1

Maymuna (r.a.) era uma mulher da tribo dos coraixitas. Ela tinha relações de parentesco com muitas das famílias e linhagens mais ilustres da Arábia. Sua irmã, Umm al-Fadl Lubaba al-Kubra, era esposa de al-‘Abbas (r.a.). Seus seis filhos — al-Fadl, ‘Abdullah, ‘Ubaydullah, Ma‘bad, Qutham e ‘Abd al-Rahman — foram figuras ilustres do Islã. Sua segunda irmã, Lubaba al-Sughra, era a mãe de Khalid ibn al-Walid (r.a.). Sua terceira irmã, Bayda, era a mãe de Yazid ibn al-Asamm. O nome da quarta irmã, Umm Hafid, era Huzayla. O Imam Malik (que Allah tenha misericórdia dele) relatou detalhadamente em Al-Muwatta’; Bukhari e Muslim também narraram o episódio de forma um pouco resumida: certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi à casa de Maymuna (r.a.). Estavam presentes ‘Abdullah ibn ‘Abbas (r.a.) e Khalid ibn al-Walid. Foi-lhes oferecida carne de lagarto. Maymuna (r.a.) disse: “Esta carne foi enviada por minha irmã Huzayla bint al-Harith.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não comeu a carne de lagarto; contudo, os demais comeram com sua permissão. Segundo uma narração compilada pelo Imam al-Tahawi, Maymuna (r.a.) também não comeu porque o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não havia comido.

Todas as irmãs mencionadas acima eram meias-irmãs por parte de mãe. Na obra Mawāhib Ladunniyya, relata-se que Asmā bint ‘Umays (ra), esposa de Ja‘far ibn Abī Tālib (ra), era sua meia-irmã por parte de mãe. Ja‘far (ra) teve, com ela, três filhos chamados ‘Abdullah, Muhammad e ‘Awn. Depois que Ja‘far (ra) foi martirizado na batalha de Mu’ta, Abū Bakr al-Siddīq (ra) casou-se com ela, e desse casamento nasceu Muhammad ibn Abī Bakr. Após o falecimento de Abū Bakr (ra), ‘Alī (ra) casou-se com Asmā (ra). Desse casamento nasceram dois filhos, chamados Yaḥyā e ‘Awn. Outra meia-irmã de Maymūna (ra), Salmā bint ‘Umays (ra), era esposa de Ḥamza (ra). Uma outra meia-irmã sua era Salāma bint ‘Umays. Ela permaneceu não muçulmana.²

Casamento

O primeiro casamento de Maymūna (ra) foi com Mas‘ūd ibn ‘Amr ibn ‘Umayr al-Thaqafī. Esse relato é encontrado em Ṭabaqāt, de Zurqānī, e em outras obras. Contudo, Ibn Ḥajar, autor de al-Iṣāba, não discutiu quem foi seu primeiro marido. Limitou-se a dizer que, antes do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ela era esposa de Abū Ruhm ibn ‘Abd al-‘Uzzā. De qualquer modo, vários relatos indicam que, depois de separar-se de Mas‘ūd ibn ‘Amr, ela se casou com Abū Ruhm. Quando Abū Ruhm morreu, no sétimo ano da Hégira, ela recebeu a posição de esposa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ela foi a última esposa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois dela, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não concedeu a nenhuma outra mulher a posição de esposa.³

O casamento de Maymūna (ra) com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi realizado sob a tutela de al-‘Abbās ibn ‘Abd al-Muṭṭalib (ra). Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu em direção a Meca, no sétimo ano da Hégira, para realizar a ‘Umrat al-Qaḍā’, enviou Ja‘far ibn Abī Tālib (ra) a Maymūna (ra), que se encontrava em Meca, levando-lhe a proposta de casamento. Ela nomeou como seu representante matrimonial seu cunhado, al-‘Abbās ibn ‘Abd al-Muṭṭalib (ra). Muitos acreditam que o próprio al-‘Abbās foi quem incentivou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a realizar esse casamento.⁴

Segundo o relato de Ibn Hishām, Maymūna (ra) confiou a decisão sobre o casamento à sua irmã Umm al-Faḍl. E ela, por sua vez, transferiu essa responsabilidade para seu marido, al-‘Abbās (ra).⁵

De qualquer modo, durante o estado de iḥrām dessa ‘Umra, no mês de Dhū al-Qa‘da do sétimo ano da Hégira, o Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou-se com Maymūna (ra), mediante um mahr de quinhentos — segundo outra opinião, quatrocentos — dirhams.⁶ Depois de realizar a ‘Umra, ele fez uma parada, no caminho de volta para Medina, num lugar chamado Sarif, situado a seis ou doze milhas de Meca. Enquanto isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou seu servo Abū Rāfi‘, que chegou ali com Maymūna (ra). Em Sarif, Maymūna (ra) consumou o casamento com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), na tenda que havia sido preparada para ele.⁸

Um relato de Ibn ‘Abbās (ra) informa que o casamento de Maymūna (ra) com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ocorreu em Meca, durante a realização da ‘Umra. Por ocasião da ‘Umra, ele permaneceu ali durante três dias. No terceiro dia, Ḥuwayṭib ibn ‘Abd al-‘Uzzā foi ao encontro do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), acompanhado de alguns outros coraixitas, e disse: “De acordo com o tratado de Hudaybiyya, o prazo de sua permanência termina hoje. Deixe Meca e vá embora.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Que mal haveria se me concedessem mais algum tempo? Eu consumaria meu casamento com Maymūna entre vocês e prepararia uma refeição de walīma para vocês.” Eles disseram: “Não precisamos dessa sua refeição. Deixe Meca.”⁹ Por isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu apressadamente de Meca, dirigiu-se a Sarif e permaneceu ali; naquele lugar, consumou o casamento com Maymūna (ra).

O Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou-se com Maymūna (ra) durante a ‘Umrat al-Qaḍā’. Todos os especialistas em sīra concordam quanto a isso. Entretanto, há uma grande divergência entre os juristas sobre se, no momento do casamento, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se encontrava em estado de iḥrām ou já havia saído desse estado.¹⁰

Ibn Hajar (que Allah tenha misericórdia dele), ao tentar conciliar essa divergência, afirmou que o casamento foi realizado durante o ihram, enquanto a consumação ocorreu após a realização da ‘umra, já em estado de halal.11

Ao descrever as características de Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela), Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) comentou:

Será em árabe

— Entre nós, Maymuna era a que mais temia a Allah e a que mais preservava os laços de parentesco.12

Ela era uma mulher de fé muito pura e de pensamentos corretos. Sua clareza de pensamento e de fé tornou-se evidente por meio de diversos acontecimentos. Certa vez, uma mulher, enquanto estava doente, fez um voto de que, se Allah a curasse, iria a Bayt al-Maqdis para realizar a oração. Pela vontade de Allah, ela se recuperou. Então, decidiu ir a Bayt al-Maqdis para cumprir seu voto. Com esse objetivo, foi despedir-se de Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela). Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela) explicou-lhe que a recompensa da oração realizada na Mesquita do Profeta é mil vezes maior do que a de outras mesquitas. Portanto, disse-lhe: “Não vá até lá; fique aqui.”13

De vez em quando, ela contraía empréstimos. Certa vez, acabou tomando emprestado um pouco mais do que de costume. Então alguém lhe perguntou: “Como você conseguirá pagar uma dívida tão grande?” Ela respondeu: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Aquele que tem a intenção de pagar sua dívida, Allah mesmo fará com que ela seja paga.’”14 Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha um forte desejo de libertar escravos. Certa vez, depois que ela libertou uma escrava, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Com isso, você alcançou uma grande recompensa.”15

Ela era extremamente rigorosa quanto às ordens e proibições da Sharia. Não havia nela qualquer espécie de flexibilidade nesse assunto. Certa vez, um de seus parentes próximos foi visitá-la. Naquele momento, sentia-se cheiro de bebida alcoólica saindo de sua boca. Ela o repreendeu severamente e ordenou-lhe firmemente que nunca mais fosse visitá-la.16

Certa vez, uma escrava de Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela) foi à casa de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e viu que as camas do casal estavam bastante afastadas uma da outra. A escrava imaginou que talvez tivesse surgido algum desentendimento entre marido e mulher. Porém, ao perguntar, descobriu que não era isso; durante o período menstrual da esposa, Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) passava para uma cama separada. Ao voltar, a escrava contou tudo à Mãe dos Crentes, Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela lhe disse: “Vá e diga-lhe: por que você despreza tanto o costume do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)? Ele sempre descansava confortavelmente em nossas camas.”17

Certa vez, Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) foi visitar sua tia, Hazrat Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela). Ao ver que os cabelos de sua cabeça e sua barba estavam desalinhados, sua tia perguntou: “Meu filho, por que estás assim?” Ibn Abbas respondeu: “Ummu Ammar está menstruada atualmente. É ela quem costuma pentear meus cabelos.” Hazrat Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Muito bem, excelente! O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava deitar-se com a cabeça em nosso colo e recitar o Alcorão quando estávamos nesse estado especial. Nessa condição, levantávamos a esteira e a deixávamos na mesquita. Meu filho, tens alguma coisa na mão?”18

O número de hadiths narrados por Hazrat Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela) é de 46; segundo outra opinião, 76. Desses, sete são muttafaq alayh. Um foi narrado exclusivamente por Bukhari e cinco exclusivamente por Muslim. Os demais foram registrados em diversas coletâneas de hadiths. Alguns hadiths narrados por ela revelam seu profundo conhecimento dos aspectos sutis da Sharia.

Entre aqueles que ouviram e narraram hadiths de Hazrat Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela), alguns dos mais notáveis são:

Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Abdullah ibn Shaddad ibn al-Had, Abd al-Rahman ibn al-Sa’ib, Yazid ibn Asam — todos eles filhos de sua irmã —, Ubaydullah al-Khawlani, Nadba (uma escrava), Ata ibn Yasar, Maysara ibn Yasar, Ibrahim ibn Abdullah ibn Ma’bad ibn Abbas, Kuraib, Ubayda ibn Sibaq, Ubaydullah ibn Abdullah ibn Utba, Aliya bint Subay e outros.19

Há considerável divergência quanto ao ano da morte de Hazrat Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela). Diferentes relatos mencionam os anos 51, 61, 63 e 66 da Hégira. Contudo, a maioria dos especialistas em Sira, incluindo Ibn Hajar, considerou correta a opinião de que ocorreu no ano 51 da Hégira.20 Outro acontecimento notável de sua vida é que, cerca de 44 anos depois de ter se unido pela primeira vez ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), no lugar chamado Saraf, na condição de sua esposa, ela faleceu ali mesmo. Foi sepultada exatamente no local onde havia consumado o casamento com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).21

Também foi narrado que ela foi a Meca para realizar o Hajj. Após concluir o Hajj, faleceu ali mesmo. Por ordem de Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), seus restos mortais foram levados sobre os ombros até Saraf e ali sepultados.22

Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) dirigiu a oração fúnebre. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Abd al-Rahman ibn Khalid ibn al-Walid, Abdullah ibn Shaddad ibn al-Had, Abdullah ibn al-Khawlani e Yazid ibn al-Asamm colocaram o corpo na sepultura. Quando o corpo foi levantado sobre o esquife, Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Cuidado! Ela é a esposa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Não a sacudam demais. Levem-na com respeito, pois ela é vossa mãe.”23

Safiyya bintHuyayy ibn Akhtab (que Allah esteja satisfeito com ela)

A Mãe dos Crentes, Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), filha de Huyayy ibn Akhtab, era descendente de Levi ibn Jacó e, por sua linhagem, descendia de Hazrat Aarão ibn Imran, que a paz esteja sobre ele. Por essa razão, ela era chamada de Safiyya bint Huyayy al-Isra’iliyya. Seu pai, Huyayy ibn Akhtab, pertencia à famosa tribo judaica Banu Nadir, de Medina, e sua mãe, Barrah bint Samawwal, era descendente da tribo judaica Banu Qurayza.¹

Na realidade, o nome verdadeiro de Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) era Zaynab. Como ela passou a estar sob a autoridade dos muçulmanos como parte dos espólios da guerra de Khaybar e, na distribuição, coube à parte do Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele), e como, na Arábia daquela época, os espólios destinados ao líder ou ao rei eram chamados de safiyya, Zaynab acabou se tornando conhecida pelo nome Safiyya, enquanto seu nome verdadeiro caiu no esquecimento. O autor de Siyarus Sahabiyyat relatou isso citando al-Zurqani.²

Tanto o pai quanto o avô materno de Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) eram líderes altamente respeitados de suas respectivas famílias. Desde tempos muito antigos, entre os judeus que viviam no norte da Arábia, suas duas famílias — Banu Qurayza e Banu Nadir — eram consideradas mais honradas e prestigiosas do que as demais famílias judaicas árabes. Cada Ibn Akhtab da tribo era visto com ilimitada honra e respeito. Os membros árabes da tribo obedeciam às suas ordens e liderança sem questionar. Seu avô materno, Samawwal, era famoso em toda a Península Arábica por sua bravura e coragem. Em suma, Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) possuía uma nobreza extraordinária tanto pelo lado paterno quanto pelo materno.³

Casamentos:

Salam ibn Mishkam, da Banu Qurayza, era um famoso poeta e líder. Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) casou-se com ele pela primeira vez. Esse casamento não durou. Depois do divórcio, ela se casou pela segunda vez com Kinana ibn Abi al-Huqayq, sobrinho de Abu Rafi‘, famoso comerciante do Hijaz e um dos líderes de Khaybar. Em termos de honra e influência, Kinana não era inferior a Salam em nenhum aspecto. Ele era o líder da famosíssima fortaleza de al-Qamus, em Khaybar, e também um grande poeta.⁴ Vivia nessa fortaleza com sua família. Quando Khaybar passou ao controle dos muçulmanos após uma batalha extremamente sangrenta e a fortaleza de al-Qamus caiu, Kinana, marido de Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), foi morto dentro da própria fortaleza, e todos os demais membros de sua família, juntamente com Safiyya, foram capturados pelos muçulmanos. Entre eles estavam também duas primas de Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela). Ibn Ishaq afirmou que Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) era a jovem esposa de Kinana. Eles haviam se casado apenas alguns dias antes.⁵

Essa guerra foi tão devastadora para os judeus de Khaybar que todas as suas esperanças e expectativas se dissiparam como cânfora, e eles perderam toda a capacidade de se reerguer no futuro. Todos os seus líderes importantes foram mortos nessa guerra. Entre os mortos estavam o pai e o irmão de Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela). Por isso, entre todos os prisioneiros de guerra, ela era a que mais merecia compaixão e benevolência.

De acordo com o procedimento estabelecido, quando começou a preparação para distribuir os espólios de guerra, isto é, os bens e escravos capturados, entre os mujahidin, e todos os prisioneiros foram reunidos para esse fim, Dihya al-Kalbi informou ao Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) que precisava de uma escrava. O Mensageiro (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) permitiu-lhe escolher entre as mulheres prisioneiras. Dihya (que Allah esteja satisfeito com ele) escolheu Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela). Como, em termos de honra e posição, Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) era superior até mesmo a Dihya (que Allah esteja satisfeito com ele), alguns Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah! Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) é a líder dos Banu Nadir e dos Banu Qurayza. Ela é digna de você.” O Mensageiro (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) aceitou esse conselho e mandou chamar Dihya al-Kalbi juntamente com Safiyya. Disse a Dihya que escolhesse outra escrava e ficou com Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela). Depois, libertou-a da escravidão e casou-se com ela.⁶ No Sahih al-Bukhari, consta que sua libertação da escravidão foi estabelecida como seu mahr.

Será em árabe

O Imam Shafi‘i narrou, no livro Kitab al-Umm, por intermédio de al-Waqidi, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deu a Dihya al-Kalbi, em lugar de Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), a irmã de seu marido, Kinana. Ibn Ishaq narrou que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) lhe deu a prima de Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela). Está registrado no Sahih Muslim que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) comprou Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) de Dihya em troca de sete prisioneiros.8 O Allama Zurqani disse que a expressão “comprou” não deve ser entendida em seu sentido literal.9

Este acontecimento ocorreu no sétimo ano da Hégira. Segundo uma narração de al-Bukhari, ao retornar para Medina depois da expedição de Khaybar, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fez uma parada num lugar chamado Sahba. Ali, Umm Sulaym (que Allah esteja satisfeito com ela), mãe de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), penteou os cabelos de Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), trocou suas roupas e perfumou seu corpo. Depois, enviou-a ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ali ocorreu a consumação do casamento e também a walima. Uns trouxeram tâmaras, outros gordura, e outros ainda hais, isto é, tudo o que tinham para comer. Quando tudo foi reunido, todos se sentaram juntos e comeram. Essa foi, essencialmente, a walima. Esse relato da walima foi transmitido por Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) nos dois Sahih.10 O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) permaneceu três dias com Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) em Sahba. Na primeira noite do casamento, Abu Ayyub al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele), sem o conhecimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), passou a noite inteira guardando a entrada da tenda do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), com uma espada desembainhada na mão. Pela manhã, quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) lhe perguntou a razão, ele respondeu: “O pai, o marido, o irmão e todos os parentes próximos desta mulher foram mortos. Temi que ela pudesse fazer algo ruim.” Ao ouvir isso, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sorriu levemente e fez uma súplica por ele.11

Quando partiram de Sahba, depois de colocar Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) em seu camelo, as pessoas não sabiam se o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) lhe havia concedido a posição de esposa ou se a mantinha sob sua posse como escrava. Percebendo essa atitude das pessoas, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estendeu uma cortina e ocultou Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) dos olhares das pessoas. Com essa cortina, ele comunicou, essencialmente, que Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) não era uma escrava; pelo contrário, havia recebido a dignidade de uma esposa nobre.12 Algumas narrações dizem que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fez a cortina com sua própria aba. Durante a viagem de Sahba, o camelo que transportava o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) tropeçou. Com isso, os dois cavaleiros foram lançados ao chão. Allah, o Altíssimo, manteve-os ilesos. Assim que caíram, Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) saltou de sua montaria, correu até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e disse: “Ó Profeta de Allah! Você se machucou?” Ele respondeu: “Não. Veja a mulher.” Imediatamente, Abu Talha cobriu o rosto com um pano, aproximou-se de Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) e lançou sobre ela um tecido. Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) levantou-se. Abu Talha preparou seu próprio camelo e o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) montou nele com Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela).13

Ao partir de Saba, a senhora Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) colocou o pé sobre o joelho do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e montou no camelo.14

Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Quando Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) foi levada à tenda do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), nós fomos até lá. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: ‘Levantem-se da presença de sua mãe.’ À noite, voltamos novamente. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) veio até nós. Em seu manto havia cerca de dois mudd de tâmaras Ajwa. Ele nos disse: ‘Comam da walima de sua mãe.’15 Ao chegar a Medina, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) hospedou a senhora Safiyya na casa do célebre Companheiro Harith ibn Nu‘man (que Allah esteja satisfeito com ele). Harith (que Allah esteja satisfeito com ele) era um Companheiro totalmente dedicado ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Allah também lhe havia concedido uma grande riqueza. Ele sempre se lembrava das necessidades do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e se apressava em ajudá-lo quando necessário. Ele cedeu alegremente sua casa para que a senhora Safiyya também pudesse permanecer ali. Segundo o relato de Umm Sinan al-Sulamiyya, ao ouvirem falar da beleza e da formosura da senhora Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), Zaynab bint Jahsh, Hafsa e Yasar foram vê-la com as mulheres dos Ansar; Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também foi vê-la com as moças dos Ansar, cobrindo o rosto com um niqab. Ao voltar, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi atrás dela e perguntou:

— Aisha! O que achou dela?

— Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Eu a vi; ela é uma mulher judia.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Não diga isso. Ela aceitou o Islam e se tornou uma boa muçulmana.”16

A senhora Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), Mãe dos Crentes, era uma mulher de espírito muito firme. Não se sabe de nenhuma ocasião em sua vida em que tenha perdido a paciência. Quando a fortaleza de al-Qamus caiu e a bandeira do Islam foi hasteada sobre toda Khaybar, Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) conduziu Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) e suas primas até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Elas passavam justamente ao lado dos cadáveres dos judeus. Normalmente, uma situação assim é extremamente dolorosa. Até o coração de uma pessoa muito forte estremece. Por isso, as mulheres que a acompanhavam gritaram ao ver aquela cena terrível. Elas arrancaram os cabelos e começaram a lamentar. Mas vejam o estado da senhora Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela): caminhava cativa ao lado do cadáver de seu amado marido, mas não estava nem um pouco perturbada. Não demonstrava qualquer alteração. Caminhava com passos firmes. Mais tarde, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) repreendeu Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) por tê-las conduzido daquela maneira, passando junto aos cadáveres de seus pais e irmãos.17

Safiyya nutria um amor infinito pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava enfermo em estado terminal na casa de Aisha, Safiyya e as outras esposas reuniram-se certo dia para visitar e cuidar do marido. Em certo momento, Safiyya, com o coração profundamente aflito, disse: “Ó Profeta de Allah! Eu ficaria feliz se fosse eu quem suportasse todas essas dores que o senhor está sofrendo.” Ao ouvirem suas palavras, as outras esposas começaram a olhar umas para as outras de tal maneira que parecia que suspeitavam do que ela havia dito. Então o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Por Allah, ela disse a verdade.”18

O amor do Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por Safiyya era exatamente assim. Ele gostava da companhia de Safiyya e sempre procurava alegrá-la. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu em viagem para a peregrinação acompanhado de Safiyya e de algumas outras esposas. Durante o caminho, o camelo de Safiyya adoeceu e caiu. Safiyya ficou assustada e começou a chorar. Ao saber disso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi até ela e enxugou as lágrimas de seus olhos com sua mão abençoada. Mas, mesmo assim, seu choro não cessou; pelo contrário, aumentou. Sem outra alternativa, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) interrompeu a viagem de todos naquele lugar. À noite, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse à sua esposa Zaynab bint Jahsh: “Zaynab, dê um camelo a Safiyya.” Zaynab respondeu: “Eu daria um camelo a essa sua mulher judia?” Diante dessa resposta, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou extremamente descontente e, durante dois ou três meses, absteve-se de falar com Zaynab ou de aproximar-se dela. Finalmente, por intermédio de Aisha, e com grande dificuldade, esse descontentamento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi afastado.19

Certa vez, quando Aisha fez um comentário sobre a constituição física de Safiyya, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Você proferiu uma palavra que, se fosse lançada ao mar, se misturaria a ele”, isto é, até a água do mar ficaria turva.20

Depois de aceitar o Islam e purificar-se, ela sofria muito quando alguém a provocava chamando-a de judia. Certo dia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi à sua casa e viu que ela estava chorando. Quando lhe perguntou o motivo do choro, ela respondeu: “Aisha e Zaynab afirmam que são melhores do que as outras esposas, pois, além de serem suas esposas, também são suas primas.”

Para fazê-la feliz, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Por que você não lhes disse: ‘Meu pai é Harun, meu tio é Musa e meu marido é Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)’? Como, por isso, vocês poderiam ser melhores do que eu?”21

Safiyya era, por natureza, extremamente generosa e caridosa. Ibn Sa’d escreveu que, ainda em vida, ela doou a casa em que morava. Segundo o relato de Allama Zurqani, depois de chegar a Medina como Mãe dos Crentes, ela dividiu seus dois brincos de ouro entre Fatima e as demais Esposas Puras do Mensageiro.22

No ano 35 da Hégira, os rebeldes mantiveram o terceiro califa, Uthman, sitiado em sua casa em Medina. Nessa ocasião, Safiyya estendeu sua mão para ajudar o califa. Quando os rebeldes interromperam todo o abastecimento e a comunicação com a casa do califa e colocaram guardas ao redor dela, certo dia Safiyya dirigiu-se à casa do califa montada em uma mula, acompanhada por um escravo. Ashter al-Nakha’i avistou-a. Para impedi-la de prosseguir, Ashter começou a golpear a mula. Safiyya disse: “Não preciso ser humilhada. Estou voltando. Deixe-me passar.” Assim, voltou para casa e encarregou Hasan de manter contato com a casa do califa. Ele levava comida e água da casa de Safiyya, Mãe dos Crentes, até a residência do califa.23

Quando o califa Umar instituiu as pensões, fixou doze mil para cada uma das outras esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), mas determinou seis mil para Juwayriya e Safiyya. Como ela protestou, foram fixados doze mil.24

Todos os especialistas em sīra elogiaram sem reservas as virtudes morais de Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela). O sábio Ibn ʿAbd al-Barr escreveu:

Será em árabe

— «Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma mulher paciente, inteligente e erudita.»25

Ibn al-Athir disse:

Será em árabe

— «Ela era uma das mulheres mais inteligentes.»26

O sábio al-Dhahabi disse:

Será em árabe

—“Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma senhora educada, inteligente, de nobre linhagem, bela e devota.”27

Assim como as outras esposas do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) também era um centro de conhecimento e ma‘rifa. Frequentemente, as pessoas lhe faziam perguntas sobre diversos assuntos e ficavam satisfeitas ao receber suas respostas. Certa vez, uma mulher chamada Suhayra bint Haykar foi a Medina, depois de realizar o hajj, para visitar Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela). Quando foi à casa de Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), viu que muitas mulheres de Kufa estavam sentadas ali, fazendo-lhe vários tipos de perguntas. E ela lhes respondia de maneira muito eloquente.

Suhayra também tinha vindo com o mesmo propósito. Por meio das mulheres de Kufa, ela quis saber a decisão sobre o ‘nabidh’. Ao ouvir a pergunta, Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Os iraquianos costumam perguntar frequentemente sobre esta questão.”28

Foram narrados dez hadiths de Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela). Eles foram transmitidos pelo Imam Zayn al-‘Abidin, Ishaq ibn ‘Abdullah ibn Harith, Muslim ibn Safwan, Kinana, Ayazid ibn Mu‘attab, entre outros. Dentre os dez, um hadith é muttafaq ‘alayh.29

Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu em Medina, aos sessenta anos, no mês de Ramadan do ano 50 da Hégira. Hazrat Sa‘id ibn al-‘As (que Allah esteja satisfeito com ele) conduziu a oração fúnebre por ela. Segundo outra opinião, foi Hazrat Mu‘awiya (que Allah esteja satisfeito com ele) quem conduziu a oração, pois naquela época estava em Medina após realizar o hajj.30 Ela foi sepultada no cemitério de al-Baqi‘.31 Antes de morrer, deixou como testamento que seu sobrinho receberia um terço de seus bens.32

Ibn Sa‘d escreveu, citando al-Waqidi, que ela deixou cem mil dirhams. Ibn Hisham mencionou trinta mil. O sobrinho de Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) era judeu. Por isso, as pessoas começaram a hesitar e a mostrar relutância em executar seu testamento. Porém, quando Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) tomou conhecimento disso, enviou-lhes uma mensagem: “Ó pessoas! Temei a Allah. Executai o testamento de Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela).” Finalmente, o testamento foi executado.33

Ibn Sa‘d narrou, com base na autoridade de al-Waqidi, que Hazrat Safiyya disse: “Quando fui ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), eu ainda não havia completado dezessete anos.”34 Al-Waqidi também afirmou que ela faleceu no ano 52 da Hégira. Em outra de suas narrações, consta o ano 50 da Hégira. Ibn Hajar considerou mais correta a narração referente ao ano 50. Ibn Mundah e Ibn Hibban afirmaram que ela morreu no ano 36 da Hégira. Ibn Hajar, porém, disse que isso era completamente errado, pois ‘Ali ibn Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele) ainda nem havia nascido no ano 36 da Hégira. Entretanto, al-Bukhari e Muslim compilaram um hadith narrado por ele a partir de Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela).35 Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) sabia preparar comidas muito saborosas. Mesmo quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava hospedado nos aposentos de outras esposas, ela às vezes preparava comida e a enviava para ele. Certa vez, enquanto o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava no aposento de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), ela lhe enviou comida. O relato desse episódio consta, entre outras obras, em al-Bukhari e al-Nasa’i.

Certa vez, Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Ó Mensageiro de Allah! Todas as suas outras esposas, exceto eu, têm parentes. Se algo lhe acontecer, em que casa encontrarei abrigo?” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: “Na casa de ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).”36 Umm al-Mu’minin Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) narrou: certa vez, durante os últimos dez dias de Ramadan, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava em retiro espiritual (i‘tikaf) na mesquita. Um dia, nesse período, ela foi à mesquita para visitá-lo. Depois de conversar por algum tempo com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), levantou-se para voltar para casa. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) acompanhou-a até a porta da mesquita, junto à porta do aposento de Umm Salama. Naquele momento, dois homens dos Ansar passavam por aquele caminho. Eles cumprimentaram o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse aos dois: “Esperem um pouco; esta é Safiyya bint Huyayy.” Ao ouvirem isso, eles disseram “Subhanallah” e proferiram o takbir. Então o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Satanás pode alcançar cada veia e capilar por onde circula o sangue do filho de Adão. Eu temi que ele introduzisse algo ruim nos corações de vocês dois.”37

Certa vez, uma escrava de Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) apresentou uma queixa ao califa Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), dizendo que ainda havia nela tendências judaicas. Isso porque ela ainda observava o sábado e mantinha relações com os judeus. Para verificar a veracidade das palavras da escrava, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou alguém para perguntar a Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) sobre a acusação. Ela respondeu: “Desde que Allah me concedeu a sexta-feira em substituição ao sábado, não há necessidade de observar o sábado. Quanto à manutenção das minhas relações com os judeus, minha explicação é que tenho parentes entre eles. Preciso cuidar de manter os laços de parentesco com eles.” Então chamou a escrava e perguntou-lhe: “Quem te incentivou a fazer essa acusação?” A escrava respondeu: “Satanás.” Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) ficou em silêncio e libertou a escrava da servidão.³⁸

Antes de se casar com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hazrat Safiyya sonhou certa noite que a lua no céu se desprendia e caía em seu colo. Quando contou o sonho à sua mãe — segundo outra versão, ao seu marido —, ele lhe deu um tapa no rosto e disse: “Estás estendendo o pescoço em direção a Muhammad, o rei dos árabes?” A marca daquele tapa ainda estava em seu rosto quando ela foi à presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou de onde vinha a marca, ela contou-lhe todo o acontecimento.³⁹