Abu Musa Al-Ash’ari (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Abdullah e sua kunya, Abu Musa. Ele era mais conhecido por sua kunya. Seu pai chamava-se Qays e sua mãe, Tayyiba. Não se sabe muita coisa sobre sua vida antes do Islã. Sabe-se apenas que era habitante do Iêmen. Por ser descendente da tribo de al-Ash‘ar, daquele lugar, tornou-se conhecido como al-Ash‘ari. Ao conhecer o Islã, o nobre Abu Musa veio do Iêmen para Meca e prestou o juramento de fidelidade nas mãos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Estabeleceu relações de amizade com a tribo de Abd Shams, de Meca. Depois de permanecer algum tempo em Meca, retornou ao Iêmen para convidar seus conterrâneos ao Islã. O nobre Abu Musa era um dos líderes mais influentes de sua família. Os membros de sua família responderam ao convite com grande rapidez e em grande número. Com um grupo de aproximadamente cinquenta muçulmanos, partiu do Iêmen por mar para encontrar o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele). As condições adversas do mar levaram esse grupo para a Abissínia, em vez do Hijaz. Enquanto isso, o nobre Ja‘far ibn Abi Talib e seus companheiros, que ainda se encontravam na Abissínia, haviam partido em direção a Medina. Abu Musa e seu grupo seguiram com essa caravana rumo a Medina. Eles chegaram a Medina justamente quando o exército muçulmano, sob a liderança do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), retornava depois de concluir a conquista de Khaybar. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) concedeu a Abu Musa e a todos os seus companheiros uma parte dos despojos de Khaybar. O nobre Abu Musa participou da conquista de Meca e da batalha de Hunayn. Depois de fugir do campo de Hunayn, os Banu Hawazin reuniram-se no vale de Awtas. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) enviou um grupo sob o comando do nobre Abu Amir para exterminá-los completamente. Ao chegar a Awtas, o grupo matou Duraid ibn as-Simma, chefe dos Hawazin, e os dispersou. Entretanto, por acaso, Abu Amir foi gravemente ferido por uma flecha lançada por um politeísta chamado Hashimi. Abu Musa al-Ash‘ari perseguiu e matou aquele politeísta. Antes de morrer, o nobre Abu Amir nomeou Abu Musa como seu substituto e pediu-lhe: “Irmão, transmita minha última saudação ao Mensageiro de Allah e peça-lhe que ore pelo meu perdão.” Abu Amir deu seu último suspiro. Abu Musa retornou a Medina com seu exército e relatou ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) as últimas recomendações de Abu Amir. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) mandou trazer água, fez a ablução e suplicou pelo perdão de Abu Amir. Abu Musa pediu: “Ó Mensageiro de Allah, faça também uma pequena súplica por mim.” O Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) suplicou: “Ó Allah, perdoa os pecados de Abdullah ibn Qays e concede-lhe a entrada honrosa no Paraíso no Dia da Ressurreição.” No nono ano da Hégira, estavam em andamento os preparativos para a expedição de Tabuk. Os companheiros de Abu Musa enviaram-no ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) para pedir montarias para eles. Por uma coincidência, quando Abu Musa chegou, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) estava agitado por algum motivo. Sem perceber isso, Abu Musa disse: “Ó Mensageiro de Allah, meus companheiros enviaram-me para que o senhor lhes conceda montarias.” O Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) estava sentado. Com voz exaltada, respondeu: “Juro por Allah que não lhes darei montaria alguma.” Abu Musa ficou assustado, pensando: “Não sei que falta de respeito cometi.” Voltou profundamente triste e comunicou essa má notícia aos companheiros. Mas ele ainda nem havia conseguido se recompor quando Bilal chegou correndo e disse: “Abdullah ibn Qays, onde estás? Vem, o Mensageiro de Allah está chamando-te.” Ele compareceu à presença do Mensageiro de Allah acompanhado de Bilal. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) apontou para dois camelos amarrados perto dele e disse: “Leva estes dois aos teus companheiros.” O nobre Abu Musa voltou aos homens de sua tribo com os dois camelos e disse: “O Mensageiro de Allah concedeu-vos estes dois camelos como montarias. Contudo, alguns de vocês terão de ir comigo até alguém que tenha ouvido as palavras anteriores do Mensageiro de Allah, para que não pensem que inventei o que lhes disse antes.” Eles responderam: “Juro por Allah, acreditamos que és veraz. Mas, já que estás dizendo isso, vamos.” Assim, levando alguns homens consigo, ele comprovou a veracidade de suas palavras anteriores. Depois do retorno de Tabuk, certo dia dois homens importantes da tribo de al-Ash‘ar foram com o nobre Abu Musa al-Ash‘ari ao Mensageiro de Allah. Eles expressaram o desejo de receber algum cargo. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) estava usando o siwak. Ao ouvir o que diziam, parou de usá-lo. Virou-se para Abu Musa e chamou: “Abu Musa, Abu Musa!” Abu Musa respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, eu não conhecia o que havia em seus corações. Não sabia que expressariam o desejo de ocupar algum cargo.” O Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) disse: “Se alguém desejar pessoalmente um cargo, jamais o nomearei para esse cargo. Porém, Abu Musa, vai ao Iêmen. Nomeio-te governador daquela região.” Desde os tempos antigos, o Iêmen estava dividido em duas partes: o Iêmen extremo e o Iêmen próximo. O nobre Mu‘adh ibn Jabal recebeu a responsabilidade pelo Iêmen extremo, e Abu Musa, pelo Iêmen próximo. Ao despedir-se dos dois, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) disse-lhes: “Tratai o povo do Iêmen com suavidade e não com qualquer dureza. Mantende as pessoas satisfeitas, não as irriteis. Vivei uns com os outros em harmonia.” Por ser sua terra natal, o nobre Abu Musa já exercia desde o início grande influência sobre o povo do Iêmen. Por isso, cumpriu sua responsabilidade de maneira exemplar. Mantinha amizade pessoal com o governador vizinho, o nobre Mu‘adh. De vez em quando, encontravam-se na fronteira e trocavam opiniões sobre diversos assuntos. No décimo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) realizou a peregrinação. O nobre Abu Musa veio do Iêmen e participou da peregrinação. O Mensageiro de Allah perguntou-lhe: “Abdullah ibn Qays, vieste com a intenção de realizar a peregrinação?” Ele respondeu: “Sim, ó Mensageiro de Allah!” O Mensageiro de Allah perguntou: “Qual era a tua intenção?” Ele disse: “Eu disse que teria a mesma intenção que o Mensageiro de Allah.” O Mensageiro de Allah perguntou novamente: “Trouxeste contigo o animal destinado ao sacrifício?” Ele respondeu: “Não.” O Mensageiro de Allah ordenou: “Depois de realizar o tawaf e o sa‘i, sai do ihram.” (Sahih al-Bukhari.) É importante observar que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) realizou a peregrinação do tipo qiran. Para a peregrinação qiran, é necessário levar consigo o animal destinado ao sacrifício. Depois da peregrinação, Abu Musa retornou ao Iêmen. Enquanto isso, um falso profeta chamado al-Aswad al-Ansi reivindicou a profecia e iniciou uma rebelião. A situação chegou a tal ponto que o nobre Mu‘adh ibn Jabal foi obrigado a deslocar-se para Marib, a capital de Abu Musa. Mesmo ali, eles não puderam permanecer por muito tempo. Por fim, refugiaram-se em Hadramaut. Embora Ibn Maktuh al-Muradi tenha matado al-Aswad al-Ansi, após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), a rebelião voltou a ganhar força. Então, o primeiro califa, o nobre Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), enviou um exército de Medina e eliminou a rebelião. Os dois governadores do Iêmen retornaram a seus respectivos postos e reassumiram suas responsabilidades. O nobre Abu Musa voltou de Hadramaut para seu local de trabalho, também em Hadramaut, e continuou a desempenhar sua função com grande êxito durante a primeira parte do califado do segundo califa. Durante o califado do nobre Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), quando começaram as campanhas em várias regiões, Abu Musa (que Allah esteja satisfeito com ele), movido por um forte desejo de participar da jihad, abandonou o cargo de governador e ingressou como soldado no exército do nobre Sa‘d ibn Abi Waqqas. No décimo sétimo ano da Hégira, sob as ordens do comandante Sa‘d, conquistou Nasibin. Nesse mesmo ano, o governador de Basra, Mughirah ibn Shu‘bah (que Allah esteja satisfeito com ele), foi afastado, e Abu Musa (que Allah esteja satisfeito com ele) foi nomeado em seu lugar. Khuzistão era uma região próxima à fronteira de Basra. Naquela época, a região ainda estava sob o domínio dos iranianos. No décimo sexto ano da Hégira, com o objetivo de conquistar Khuzistão, o nobre Mughirah (que Allah esteja satisfeito com ele) conduziu uma campanha militar em Ahwaz. O chefe de Ahwaz fez um acordo com Mughirah, comprometendo-se a pagar anualmente uma pequena quantia como tributo. Mughirah retornou. No décimo sétimo ano da Hégira, quando Abu Musa assumiu a responsabilidade no lugar de Mughirah, os habitantes de Ahwaz interromperam o pagamento do tributo e rebelaram-se. Sem alternativa, Abu Musa enviou tropas, conquistou Ahwaz e continuou a campanha até Manadhir. Durante uma etapa dessa campanha de Manadhir, o ilustre oficial do exército, o nobre Muhajir ibn Ziyad (que Allah esteja satisfeito com ele), alcançou o martírio. O exército inimigo separou sua cabeça de seu corpo e pendurou-a na cúpula da fortaleza. Abu Musa confiou ao nobre Rabi‘, irmão de Muhajir, a tarefa de conquistar Manadhir. Rabi‘ obteve sucesso na conquista de Manadhir. Enquanto isso, Abu Musa sitiou Sus. Os habitantes refugiaram-se na fortaleza. Por fim, seu líder chegou a um acordo com Abu Musa sob a condição de que cem membros de sua família fossem mantidos vivos. O líder apresentou os cem homens um por um, e Abu Musa libertou-os conforme o acordo. Infelizmente, o líder esqueceu-se de apresentar seu próprio nome e, de acordo com os termos do tratado, foi morto. Depois do cerco de Sus, Abu Musa sitiou Ramhormuz, e foi firmado um acordo com seus habitantes sob a condição de que pagassem anualmente oitocentos mil dirhams de tributo. Perseguido de todos os lados, Hormuzan, comandante do imperador do Irã, refugiara-se na sólida fortaleza de Shushtar. Abu Musa mantinha a cidade sob cerco, mas todas as tentativas de conquistá-la fracassavam. Certo dia, inesperadamente, um homem saiu secretamente da cidade e chegou ao acampamento de Abu Musa. Propôs que, se lhe fosse garantida segurança, faria a cidade cair. Sua condição foi aceita. Ele tomou consigo um árabe chamado Ashras. Ashras cobriu a cabeça e o rosto com um manto e seguiu o homem como se fosse seu servo. Eles entraram na cidade pelo rio e por uma passagem subterrânea secreta, atravessaram canais e vielas e chegaram ao palácio particular de Hormuzan. Dessa maneira, Ashras observou secretamente toda a situação da cidade, retornou em segredo a Abu Musa e apresentou um relatório detalhado. Então, por ordem de Abu Musa, Ashras levou consigo duzentos soldados destemidos, lançou um ataque repentino, matou os guardas dos portões e abriu as portas. Abu Musa e todos os seus soldados já se encontravam junto à entrada. Assim que os portões foram abertos, todos os soldados entraram juntos no interior da cidade, e instalou-se grande tumulto. Hormuzan correu e refugiou-se na fortaleza. Quando o exército muçulmano chegou ao lado da fortaleza, Hormuzan subiu à cúpula e anunciou que estava disposto a render-se. Suas condições foram aceitas, e ele foi enviado com o nobre comandante à capital do califado, Medina. Depois da conquista de Shushtar, o exército muçulmano, sob a liderança de Abu Musa, sitiou Jundishapur. O cerco prolongou-se por bastante tempo. Certo dia, os habitantes abriram subitamente os portões da cidade. Permaneceram tranquilamente ocupados em seus afazeres. O exército muçulmano entrou na cidade e ficou admirado ao vê-los tão despreocupados. Quando foram questionados, responderam: “Por quê? Foi-nos concedida segurança sob a condição do pagamento da jizya.” Depois de investigarem, descobriu-se que um escravo do exército muçulmano havia assinado sozinho, sem que ninguém soubesse, um tratado de segurança. O comandante Abu Musa recusou-se a reconhecer o acordo feito pelo escravo. Os habitantes da cidade disseram: “Não sabemos quem é escravo e quem é livre.” Por fim, o assunto foi levado à corte do califa em Medina. O califa declarou: “O escravo dos muçulmanos também é muçulmano. Aqueles a quem ele concedeu aman, ou segurança, receberam-no de todos os muçulmanos.” Assim, sob a liderança de Abu Musa, os fundamentos do Islã foram firmemente estabelecidos em todo o Khuzistão. Ao mesmo tempo, Basra, onde ele estava estabelecido, ficou livre da ameaça dos inimigos. Depois da queda do Khuzistão, no vigésimo primeiro ano da Hégira, os iranianos prepararam-se para uma batalha decisiva em Nihawand. O califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou Nu‘man ibn Muqarrin a Nihawand com um grande exército e ordenou a Abu Musa que o ajudasse. Ao receber a ordem do califa, Abu Musa chegou a Nihawand com um grande exército. Também nessa batalha o exército iraniano sofreu uma derrota esmagadora. Depois da conquista do Khuzistão, Abu Musa solicitou ao califa que a região conquistada fosse incorporada a Basra. Ao mesmo tempo, os habitantes de Kufa solicitaram ao seu governador, Ammar ibn Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele), que ela fosse incorporada a Kufa. O califa apoiou o pedido de Abu Musa e incorporou a região conquistada a Basra. Como os habitantes de Kufa não conseguiram realizar sua reivindicação, revoltaram-se contra Ammar. Por fim, atendendo ao pedido dos habitantes de Kufa, o califa afastou Ammar e, no vigésimo segundo ano da Hégira, nomeou Abu Musa governador de Kufa. Porém, um ano depois, no vigésimo terceiro ano da Hégira, Abu Musa foi novamente transferido para Basra. Nesse mesmo ano, um homem chamado Dabbah apresentou ao califa as seguintes acusações contra Abu Musa:

1. Abu Musa levou pessoalmente sessenta filhos de chefes entre os prisioneiros de guerra.

2. Ele confiou todas as responsabilidades da administração a Ziad ibne Sumaiya e, na realidade, Ziad agora é o senhor de todos os assuntos.

3. Ele concedeu ao poeta Hutai’a mil dirrãs como recompensa.

4. A uma de suas escravas, chamada Aqliya Nammi, eram servidas duas refeições diárias de excelente qualidade; contudo, as pessoas comuns não tinham acesso a comida semelhante.

O hazrat Umar escreveu as acusações com a própria mão. Convocou Abu Musa a Medina e interrogou-o. Realizou a investigação habitual para verificar a veracidade ou falsidade das acusações. A primeira acusação foi provada falsa. Em resposta à segunda acusação, ele disse que Ziad era um político brilhante e um administrador competente. “Eu o nomeei meu conselheiro.” O califa convocou Ziad e o examinou, considerando-o uma pessoa qualificada. Ordenou que Ziad permanecesse em seu cargo. Em resposta à terceira acusação, disse: “Eu lhe dei um presente com meu próprio dinheiro para que Hutai’a não me insultasse nem me difamasse.” Mas não conseguiu dar resposta alguma à quarta acusação. O hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, repreendeu-o um pouco e o deixou partir. (Tabari)

No mesmo ano (23 da Hégira), Abu Musa empreendeu uma campanha em Ispahan e incorporou a região ao Califado Islâmico. Ao retornar depois da conquista de Ispahan, naquele mesmo ano foi transferido de Basra para Kufa. Os habitantes de Basra sofriam de uma grave escassez de água. A questão foi levada à corte do califa. O califa ordenou que se cavasse um canal a partir do rio Tigre até a cidade de Basra. Sob a liderança de Abu Musa, foi cavado um canal de dez milhas de extensão, solucionando a carência de água dos habitantes de Basra. Na história, esse canal tornou-se conhecido como Nahr Abi Musa. No ano 23 da Hégira, no segundo mês de Dhu’l-Hijja, o califa Umar alcançou o martírio. Depois que o hazrat Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, assumiu a responsabilidade do Califado, fez muitas mudanças na estrutura administrativa. Contudo, Abu Musa permaneceu no cargo de governador de Basra até o ano 29 da Hégira. Nesse ano, os curdos declararam uma rebelião. Abu Musa foi à mesquita e proferiu um discurso inflamado sobre o jihad contra eles. No discurso, descreveu a virtude de caminhar a pé no caminho de Allah. Como reação, alguns mujahidin prepararam-se para marchar a pé, embora tivessem cavalos. Um crítico de Abu Musa disse-lhes: “Não devemos nos apressar tanto. Vejamos como o nosso comandante, Abu Musa, irá.” Abu Musa também saiu montado a cavalo. Os mujahidin seguraram as rédeas de seu cavalo e protestaram. Na verdade, o sentido do discurso de Abu Musa não era que aqueles que tinham cavalos não deveriam utilizá-los. O fato é que aquele era um período de fitna e conspirações. Os agitadores foram a Medina por causa desse pequeno incidente e exigiram sua destituição. O califa Uthman o removeu. No ano 34 da Hégira, quando os habitantes de Kufa pediram a substituição de Sa’id ibne al-As, o califa Uthman nomeou novamente Abu Musa governador de Kufa. Por todo o Califado, naquele momento, havia intensas intrigas e conspirações. A advertência do Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, permanecia na memória de Abu Musa. Por isso, em seus discursos, ele sempre recordava aos habitantes de Kufa aquela profecia e aconselhava-os a manter distância de toda fitna. No ano 35 da Hégira, após o martírio do hazrat Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, e a ascensão do hazrat Ali ao Califado, aquela fitna veio à tona. Exigindo com veemência a retaliação pelo sangue do terceiro califa, o hazrat Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, Aisha, Talha e Zubair, que Allah esteja satisfeito com eles, partiram de Meca em direção a Basra. Por outro lado, o califa, hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, chegou ao lugar chamado Dhi Qar para enfrentá-los. Enquanto isso, enviou o hazrat Hasan a Kufa juntamente com Ammar ibne Yassir. Quando o hazrat Hasan chegou a Kufa, Abu Musa al-Ash’ari fazia um discurso diante de uma enorme multidão na mesquita de Kufa. Em seu discurso, aconselhava o povo a manter-se afastado daquela fitna. O hazrat Hasan chegou ao local, e teve algumas discussões com Abu Musa, que Allah esteja satisfeito com ele. Abu Musa desceu silenciosamente do púlpito da mesquita e, sem fazer qualquer protesto, foi viver em uma aldeia desconhecida da Síria. Assim, manteve uma posição completamente neutra na guerra civil. Em Siffin, o hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, e o hazrat Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele, declararam uma trégua sob a condição de que a questão fosse confiada à decisão de dois árbitros neutros, um de cada lado. A decisão conjunta deles seria aceita por ambas as partes. O lado de Ali nomeou Abu Musa como árbitro, e o lado de Muawiya nomeou Amr ibne al-As, que Allah esteja satisfeito com ele. Os dois lados reuniram-se no lugar chamado Dumat al-Jandal. Houve uma longa discussão entre os dois sobre a questão. Finalmente, chegaram à decisão de que, no interesse da Ummah, Ali e Muawiya deveriam ser afastados do cargo de califa, e que o conselho da shura escolheria uma terceira pessoa como califa. Ambos compareceram diante do povo para anunciar sua decisão. A pedido de Amr ibne al-As, Abu Musa levantou-se primeiro para anunciar a decisão; mas Abu Musa abandonou sua decisão anterior e acabou proclamando o hazrat Muawiya como califa. Abu Musa ficou estupefato.

Na realidade, Abu Musa era de natureza extremamente simples e ingênua. Ele não sabia o que eram o engano e a astúcia política. Por essa razão, o hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, discordou de sua nomeação como árbitro. Contudo, diante da insistência de seus partidários, também aceitou. Derrotado pela teia diplomática de Amr ibne al-As, Abu Musa ficou tão consumido pelo remorso que, naquele momento, tomou o caminho de Meca. Depois disso, não participou de nenhum outro assunto da vida. Há diferentes opiniões sobre o ano e o local de sua morte. Segundo alguns, morreu em Meca; segundo outros, em Kufa. Contudo, a opinião mais conhecida é que faleceu em Meca. Do mesmo modo, há várias opiniões sobre o ano de sua morte: 42, 44 ou 52 da Hégira. Porém, a opinião mais conhecida é que o ano de sua morte foi 44 da Hégira. (Tazkirat al-Huffaz)

O hazrat Abu Musa, que Allah esteja satisfeito com ele, foi extremamente cuidadoso em obedecer às ordens e proibições do Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, até o fim de sua vida. Mesmo quando seu estado se tornou crítico e ele perdeu a consciência, as mulheres começaram a chorar e lamentar. Naquele momento terrível, recuperando a consciência por um instante, ele exclamou: “Aquele de quem o Mensageiro, que a paz esteja com ele, declarou estar isento de responsabilidade perante mulheres que fazem tais lamentações.” Na primeira parte de sua vida, a pobreza foi sua companheira constante. Porém, sua vida posterior transcorreu com prosperidade. O hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, havia estabelecido seu estipêndio.

Abu Musa, que Allah esteja satisfeito com ele, estava entre os ilustres Companheiros que tiveram a felicidade de alcançar uma proximidade especial com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Durante a vida do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, seis pessoas receberam autorização para emitir fatwas, e ele era uma delas. (Tazkiratul Huffaz) Um tabi‘i chamado Aswad disse: “Em Kufa, não vi ninguém mais instruído que Ali e Abu Musa, que Allah esteja satisfeito com ambos.” Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, dizia: “Da cabeça aos pés, Abu Musa está tingido com a cor do conhecimento.” Ele permanecia sempre na companhia de pessoas instruídas e discutia com elas diversos assuntos. Às vezes, essas discussões chegavam ao ponto de debates e disputas teológicas. Tinha discussões especialmente intensas com Abdullah ibn Mas‘ud e Mu‘adh ibn Jabal, que Allah esteja satisfeito com ambos. Certa vez, Abdullah ibn Mas‘ud e Abu Musa, que Allah esteja satisfeito com ambos, discutiram sobre uma questão relativa ao tayammum. O Imam Bukhari narrou essa discussão no capítulo sobre o tayammum. Ele não era apenas sedento de conhecimento; também se esforçava intensamente para divulgá-lo e propagá-lo. Considerava obrigatório transmitir aos outros tudo aquilo que aprendesse. Certa vez, disse em um sermão: “Aquele a quem Allah concedeu conhecimento deve ensiná-lo aos demais irmãos. Porém, sobre aquilo de que não tem conhecimento, não deve deixar sair da boca sequer uma palavra.” Seu método de ensino também era variado. Além das habituais reuniões de estudo, às vezes reunia as pessoas e fazia um discurso diante delas. Quando encontrava algumas pessoas em algum lugar durante seus deslocamentos, transmitia-lhes uma ou duas palavras do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao ensinar, tratava as pessoas com muita delicadeza. Se alguém, por ignorância, fazia uma pergunta tola, ele não se irritava; explicava-lhe tudo em um tom extremamente suave.

A relação de Abu Musa com o Sagrado Alcorão era extremamente profunda. Ele passava quase todos os momentos do dia e da noite recitando o Alcorão e ensinando-o. Certa vez, enquanto era governador do Iêmen, Mu‘adh ibn Jabal perguntou-lhe: “Como você recita o Alcorão?” Ele respondeu: “Sempre que encontro uma oportunidade, de dia ou de noite, recito um pouco.” Ele recitava o Alcorão com uma voz melodiosa. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia: “Abu Musa recebeu uma parte da bela voz de Dawud, que a paz esteja sobre ele.”

O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, gostava muito de ouvi-lo. Sempre que ouvia sua recitação do Alcorão, levantava-se. Certa vez, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava viajando acompanhado de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela. No caminho, ao ouvir a recitação do Alcorão de Abu Musa, parou ali mesmo. Depois de ouvi-la por algum tempo, prosseguiu. Certa vez, Abu Musa recitava o Alcorão em voz alta durante a oração de Ishá. Ao ouvir sua voz melodiosa, a Mãe dos Crentes aproximou-se da cortina de seu aposento, encostou o ouvido e continuou ouvindo a recitação. Quando ele soube disso pela manhã, disse: “Se eu soubesse, teria recitado com uma voz ainda mais cativante e os teria tornado apaixonados pelo Alcorão.” Foi por causa dessa extraordinária beleza de sua voz que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o enviou ao Iêmen juntamente com Mu‘adh ibn Jabal para ensinar o Alcorão aos novos muçulmanos. Sua contribuição para o serviço do hadith, juntamente com o Sagrado Alcorão, também não foi pequena. Em Kufa, ele tinha uma reunião própria para o ensino do hadith. Por meio dessas aulas, formaram-se grandes muhaddithun. O número de hadiths narrados por ele é 360. Desses, 50 foram narrados por Bukhari e Muslim em comum; 45 foram narrados exclusivamente por Bukhari, e 25 exclusivamente por Muslim. Apesar de seu vasto domínio do Alcorão e do hadith, ele tinha consciência de seus próprios erros e falhas. Do mesmo modo, também valorizava o conhecimento dos outros. Certa vez, emitiu uma fatwa sobre uma questão de herança. A pessoa que havia pedido a fatwa também consultou Abdullah ibn Mas‘ud sobre o assunto. Abdullah ibn Mas‘ud emitiu uma fatwa diferente. Abu Musa reconheceu seu próprio erro e disse: “Enquanto Abdullah ibn Mas‘ud estiver vivo, vocês não devem vir até mim.” A vida de Abu Musa era um reflexo fiel da vida do Mensageiro. Ele se esforçava constantemente para imitar e seguir exatamente cada ato, comportamento, palavra e procedimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Certa vez, estava viajando de Meca para Medina. No caminho, realizou duas rak‘at na oração de Ishá. Depois, levantou-se novamente e realizou uma rak‘at recitando cem versículos da surata An-Nissá. Quando as pessoas protestaram, ele disse: “Procuro sempre colocar meus passos onde o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, os colocou, e fazer exatamente aquilo que ele fez.”

Além do jejum do Ramadã, ele também jejuava voluntariamente porque o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o havia feito. Jejuava regularmente no dia de Ashura e incentivava as pessoas a jejuarem nesse dia. Era extremamente dedicado não apenas à sunnah, mas também às práticas recomendadas. É recomendado abater pessoalmente o animal do sacrifício. Somente por essa razão, ele ordenava até mesmo às próprias filhas que abatessem os animais com as próprias mãos.

A orientação do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era que, quando alguém fosse à casa de outra pessoa, pedisse permissão antes de entrar. Se não recebesse permissão depois de pedi-la três vezes, deveria voltar. Certa vez, Abu Musa foi visitar o califa Umar. Pediu permissão três vezes, uma após a outra, mas o califa, estando ocupado com outra tarefa, não pôde responder. Abu Musa voltou. Em outra ocasião, o califa perguntou por que Abu Musa havia voltado. Ele respondeu: “Como não obtive resposta depois de pedir permissão três vezes, voltei.” Então, narrou-lhe o hadith do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre esse assunto. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Traga uma testemunha que tenha ouvido esse hadith além de você.” Tremendo de medo, Abu Musa compareceu a uma reunião dos ansar. Ubay ibn Ka‘b, que estava presente, também havia ouvido o hadith. Ele compareceu diante de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, e prestou testemunho. Sha‘bi disse: “O conhecimento é adquirido de seis pessoas: Umar, Ali, Ubay, Ibn Mas‘ud, Zayd e Abu Musa.”

O califa Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, nomeou-o governador de Basra e enviou-o para lá. Ao chegar a Basra, durante um discurso diante do povo reunido, ele disse: “O Comandante dos Crentes enviou-me até vocês. Eu lhes ensinarei o Livro de seu Senhor e a sunnah de Seu Profeta, e limparei e manterei limpos os caminhos e estradas de vocês para o benefício de vocês.” Ao ouvir o discurso, o povo ficou admirado. Educar o povo e instruí-lo na religião podia fazer parte das responsabilidades de um governante. Mas como ele poderia encarregar-se de limpar as estradas e caminhos? Isso lhes pareceu extremamente surpreendente. Por isso, Hasan, que Allah esteja satisfeito com ele, comentou sobre Abu Musa: “Nenhum cavaleiro melhor que ele veio para o povo de Basra.” (Rijalun Hawla Rasul) O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia a respeito dele: “Abu Musa é o líder dos cavaleiros.”

A preocupação com o bem-estar da comunidade era o maior objetivo de Abu Musa, que Allah esteja satisfeito com ele. Por isso, durante toda a vida, desprezou todos os ganhos e vantagens pessoais. Quando eclodiu a guerra entre Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, e Mu‘awiya, que Allah esteja satisfeito com ele, Mu‘awiya disse certa vez a Abu Musa que, se ele o apoiasse, nomearia seus dois filhos, respectivamente, governadores de Basra e Kufa, e cuidaria também de seus benefícios e privilégios. Em resposta, Abu Musa escreveu: “Você me escreveu sobre um assunto extremamente importante para a comunidade de Muhammad. Não tenho necessidade daquilo que você me ofereceu.”

A modéstia e o pudor fazem parte da fé. Esse traço estava plenamente presente em Abu Musa. Mesmo ao dormir à noite, vestia um tipo especial de roupa, para que sua awrah não ficasse exposta. Certa vez, viu algumas pessoas tomando banho nuas na água. Disse: “Embora eu ache agradável lembrar repetidamente da vida após a morte, não gosto deste ato.”

Suhayb ibn Sinan ar-Rumi (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Suhayb, e sua kunya era Abu Yahya. Seu pai era Sinan, e sua mãe, Salma bint Qa’id. Seu pai pertencia à tribo árabe Banu Numayr, e sua mãe era da família Banu Tamim. Ele era chamado de ar-Rumi, ou seja, o romano. Na realidade, porém, ele não era romano; era árabe.

Aproximadamente duas décadas antes de o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) receber a profecia, seu pai, Sinan ibn Malik, era governador de Ubulla, uma antiga cidade de Basra, como representante do imperador persa. Suhayb era o filho mais querido de seu pai. Certa vez, sua mãe levou Suhayb consigo, junto com algumas pessoas e soldados, para visitar uma aldeia chamada Saniyya, no Iraque. De repente, certa noite, o exército romano atacou a aldeia de surpresa, realizando um grande massacre e saque. Prenderam as mulheres e as crianças e transformaram-nas em escravas e escravos. Entre os cativos estava também o menino Suhayb. Na época, ele não devia ter mais de cinco anos.

Suhayb foi vendido em um mercado de compra e venda de escravos em Roma. Passou continuamente das mãos de um senhor para as de outro. Esse era o destino dos escravos na sociedade romana daquela época. Assim, ele teve a oportunidade de penetrar profundamente na sociedade romana a partir de dentro e de testemunhar de perto a obscenidade e a depravação que nela ocorriam.

Suhayb foi criado na terra de Roma e chegou à juventude. Esqueceu a língua árabe, ou chegou perto de esquecê-la. Contudo, jamais esqueceu, nem por um único dia, que era filho dos árabes do deserto. Sempre contava os dias, esperando o momento em que seria libertado das correntes da escravidão e se reuniria à sua tribo na Arábia. Seu anseio se tornou ainda mais intenso no dia em que ouviu de um sacerdote cristão, um profeta, estas palavras: «Aproxima-se o tempo em que um profeta surgirá em Meca, na Península Arábica. Ele confirmará a missão profética de Jesus, filho de Maria, e conduzirá as pessoas das trevas para a luz.»

Suhayb ficou aguardando uma oportunidade. E ela finalmente surgiu. Certo dia, ele escapou, enganando seu senhor, e foi para Meca. Por causa de seus cabelos dourados e de sua dificuldade na fala, os habitantes de Meca passaram a chamá-lo de Suhayb, o Romano. Em Meca, firmou um acordo com o ilustre líder coraixita Abdullah ibn Jud’an e começou a comerciar em sociedade com ele. Obteve grande sucesso nos negócios. Segundo outro relato, porém, os Banu Kalb, da Arábia, compraram-no e levaram-no para Meca. Abdullah ibn Juh’an comprou-o deles e concedeu-lhe a liberdade.

Mesmo em meio às inúmeras ocupações de seu comércio e negócios em Meca, Suhayb não esqueceu, nem por um instante, a profecia daquele sacerdote cristão. Sempre que se lembrava dela, dizia em seu íntimo: «Quando isso acontecerá?» Contudo, não precisou esperar assim por muito tempo.

Certo dia, ao retornar de uma viagem, ouviu que Muhammad ibn Abdullah havia recebido a profecia. Ele convocava as pessoas a crerem em um único Deus, incentivava-as à justiça e à benevolência e ordenava-lhes que se abstivessem da injustiça e da obscenidade. Suhayb perguntou às pessoas: «É ele a pessoa conhecida como Al-Amin?» Elas responderam: «Sim». Ele perguntou: «Onde ele mora?» Responderam: «Ele está na casa de Al-Arqam ibn Abi al-Arqam, perto do monte Safa. Mas tenha cuidado para que nenhum coraixita o veja indo até ele. Se eles o virem com Muhammad, tratarão você da mesma maneira que tratam a nós. Você é um estrangeiro, e não há aqui ninguém para protegê-lo. Sua tribo e seu clã também não estão aqui.»

Suhayb dirigiu-se à Dar al-Arqam com extrema cautela. Ao chegar à porta da casa de Al-Arqam, viu Ammar ibn Yasir parado ali. Já o conhecia. Após alguma hesitação, aproximou-se dele e perguntou: “Ammar, você está aqui?”

Ammar perguntou por sua vez: “Diga você, antes: por que veio?” Suhayb respondeu: “Quero ir até esse homem e ouvir algumas de suas palavras.”

Ammar disse: “Esse também é o meu propósito.” Suhayb disse: “Então entremos em nome de Allah.”

Os dois chegaram juntos à presença do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) e ouviram suas palavras. Seus corações se iluminaram com a luz da fé. Ambos estenderam as mãos ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) e recitaram a declaração de fé. Naquele dia, permaneceram na companhia do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), ouvindo suas palavras repletas de ensinamentos. Quando, já tarde da noite, o alvoroço das pessoas cessou, saíram silenciosamente, na escuridão, da presença do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) e seguiram cada um para seu próprio abrigo. Antes de Suhayb, mais de trinta Companheiros haviam aceitado o Islã. A maioria deles mantinha em segredo sua conversão por medo dos coraixitas. Embora Suhayb fosse estrangeiro e não tivesse parentes nem amigos em Meca, não manteve sua conversão em segredo. Ele a declarou publicamente. Assim como Bilal, Ammar, Sumayya e Khabbab, também se tornou vítima da cruel perseguição dos coraixitas. Suportou todos os tormentos com extrema paciência. Sabia que o caminho do Paraíso não é coberto de flores.

Quando o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) decidiu emigrar, Suhayb tomou conhecimento disso. Tinha a firme convicção de que seria o “Sālis al-thalātha” — o terceiro dos três; isto é, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), Abu Bakr e Suhayb. Mas isso não aconteceu devido à vigilância atenta dos coraixitas. Os coraixitas o seguiam para impedi-lo de deixar Meca levando consigo sua grande riqueza.

Após a emigração do Mensageiro de Allah, Suhayb ficou esperando uma oportunidade. Os coraixitas também não o deixavam fora de sua vista. Por fim, ele recorreu a uma estratégia.

Numa noite de frio intenso, começou a sair repetidamente de casa para atender a uma necessidade natural. Mal voltava uma vez, saía novamente. Os guardas coraixitas comentaram entre si: “Al-Lat e Al-Uzza lhe perturbaram o estômago.” Sentiram-se um pouco tranquilos, voltaram para casa e deitaram-se em suas camas. Aproveitando a oportunidade, Suhayb saiu de casa e tomou o caminho de Medina.

Suhayb mal havia se afastado um pouco de Meca quando os guardas descobriram o ocorrido. Montaram rapidamente cavalos velozes e partiram em sua perseguição. Ao perceber a presença deles, Suhayb subiu a uma colina elevada, tirou o arco e as flechas e dirigiu-se a eles, dizendo: “Ó comunidade dos coraixitas! Vocês sabem que sou o melhor entre vocês no tiro com arco e na pontaria. Juro por Allah que não conseguirão chegar até mim enquanto eu não acabar com cada um de vocês usando todas as flechas que tenho. E ainda tenho minha espada.” Um dos coraixitas disse: “Por Allah, não permitiremos que você salve a vida e leve também sua riqueza. Você veio a Meca de mãos vazias. Foi aqui que se tornou dono de toda essa riqueza.”

Suhayb disse: “Se eu entregar minha riqueza e meus bens a vocês, vocês me deixarão seguir livremente?” Eles responderam: “Sim.”

Suhayb levou-os consigo até sua casa em Meca e entregou-lhes sua riqueza e seus bens. Os coraixitas também deixaram seu caminho livre. Assim, Suhayb abandonou tudo pela religião e partiu para Medina. Ele não sentiu a menor tristeza pela riqueza que havia adquirido com tanto esforço e deixado para trás. Sempre que se cansava durante o caminho, bastava lembrar-se do encontro com o Mensageiro para afastar todo o cansaço e retomar a viagem. Desse modo, chegou a Quba. Naquele momento, o Mensageiro encontrava-se na casa de Kulthum ibn Hidam, em Quba. Ao vê-lo chegar, o Mensageiro exclamou, radiante: “Abu Yahya, a transação foi lucrativa!” Ele repetiu essas palavras três vezes. O rosto de Suhayb iluminou-se de alegria. Ele exclamou: “Por Allah, ó Mensageiro de Allah, ninguém chegou antes de mim até você. Certamente Jibril lhe deu esta notícia.” De fato, a transação havia sido lucrativa. Confirmando isso, Jibril chegou trazendo a revelação: “E entre as pessoas há quem venda a própria vida em busca da satisfação de Allah. E Allah é Compassivo para com os servos.” Há pessoas que vendem até a própria vida em busca da satisfação de Allah. Allah é extremamente bondoso para com Seus servos.

Suhayb foi hóspede de Sa’d ibn Khuthayma em Medina e estabeleceu um vínculo de irmandade com Harith ibn al-Simma al-Ansari.

Suhayb era um habilidoso arqueiro. Ele acompanhou o Mensageiro em todas as batalhas, incluindo Badr, Uhud e Khandaq. Na velhice, costumava narrar essas histórias de batalhas em reuniões públicas, de maneira cativante.

Sobre sua convivência com o Mensageiro de Allah, ele próprio dizia: “Estive presente em cada acontecimento e em cada situação do Mensageiro de Allah. Sempre que ele recebia algum juramento de fidelidade, eu estava presente. Participei de suas pequenas expedições. Em todas as batalhas que travou, desde a primeira até a última, lutei ao seu lado direito ou esquerdo. Sempre que e onde quer que os muçulmanos sentissem medo do inimigo à frente ou atrás, eu permanecia com eles. Jamais permitimos que o Mensageiro de Allah ficasse entre nós e o inimigo. Assim, o Mensageiro partiu para a proximidade de seu Senhor.” (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 130)

Umar tinha uma opinião extremamente favorável a respeito de Suhayb. Amava-o profundamente. Antes de morrer, deixou como testamento que Suhayb dirigisse a oração fúnebre por ele. Enquanto os membros da shura não anunciassem o nome do novo califa, Suhayb deveria continuar exercendo a responsabilidade do califado. Após a morte de Umar, ele desempenhou essa responsabilidade com grande competência durante três dias.

Ele faleceu em Medina, no ano 38 da Hégira, aos 72 anos de idade. Foi sepultado no cemitério de Baqi, em Medina.

Suhayb teve a oportunidade de passar uma grande parte de sua vida na companhia do nobre Mensageiro. Ele dizia: “Tive a boa fortuna de desfrutar da companhia do Mensageiro de Allah desde antes da descida da revelação.” Por isso, nele se reuniam todas as virtudes. Além do bom caráter e do senso de dignidade, sua inteligência rápida e seu humor conferiam ainda mais encanto ao seu caráter.

Era hospitaleiro e generoso. Tinha a mão aberta para com os pobres e necessitados. Às vezes, as pessoas pensavam que ele era extremamente esbanjador. Certa vez, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse-lhe: “Não gosto de algumas coisas em você. Primeiro: sua kunya é Abu Yahya. Houve um profeta com esse nome, mas você não tem nenhum filho com esse nome. Segundo: você é muito esbanjador. Terceiro: você afirma ser árabe.” Ele respondeu: “Eu não escolhi essa kunya; foi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quem a escolheu. Quanto à extravagância, a base de minha conduta é esta declaração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): ‘Os melhores dentre vocês são aqueles que alimentam as pessoas e retribuem a saudação de paz.’ Quanto à terceira acusação, a resposta é que, de fato, sou descendente de árabes. Na infância, os romanos me levaram como espólio, separaram-me de minha tribo e fizeram de mim um escravo; por isso, esqueci minha tribo e minha linhagem.”

A constituição física de Hazrat Suhaib era mediana: nem alto nem baixo. Tinha o rosto luminoso e cabelos espessos. Na velhice, usava hena para tingir os cabelos. Tinha certa dificuldade e gagueira na fala. Certa vez, chamou seu servo Yahnas. Parecia que se ouvia “Nas”. Nas significa “pessoas”. Ao ouvir o chamado, Hazrat Umar exclamou: “Por que esse homem está chamando ‘Nas’, isto é, as pessoas, dessa maneira?” Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) explicou: “Com ‘Nas’ ele não está chamando as pessoas, mas sim seu servo Yahnas. Devido à dificuldade na língua, ele não consegue pronunciar bem o nome.”

Ammar ibn Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Ammar e sua kunya, Abul Yaqzan. Seu pai era Yasir e sua mãe, Sumayya. Seu pai era descendente da tribo de Qahtan. Sua terra de origem era o Iêmen. Um de seus irmãos desapareceu. Em busca do irmão perdido, ele chegou a Meca acompanhado dos outros dois irmãos, Harith e Malik. Embora os dois irmãos tenham retornado ao Iêmen, Yasir permaneceu sozinho em Meca. Aliou-se aos Banu Makhzum de Meca e casou-se com uma escrava chamada Sumayya, pertencente a Abu Hudhayfa al-Makhzumi. Foi no ventre dessa Sumayya que Hazrat Ammar nasceu. Abu Hudhayfa libertou Ammar ainda na infância, e os dois mantiveram até a morte uma relação semelhante à de pai e filho.

Hazrat Ammar e Hazrat Suhaib ibn Sinan aceitaram o Islã ao mesmo tempo. Ammar disse: “Vi Suhaib parado à porta da casa de Arqam e perguntei-lhe: ‘Qual é o seu objetivo?’ Ele respondeu: ‘Diga primeiro qual é o seu objetivo.’ Eu disse: ‘Quero encontrar Muhammad e ouvir algumas de suas palavras.’ Ele disse: ‘Esse também é o meu objetivo.’ Então, nós dois aceitamos o Islã juntos.” O pai de Ammar, Yasir, também aceitou o Islã ao mesmo tempo que ele, ou pouco antes ou depois.

Quando Hazrat Ammar aceitou o Islã, descobriu que, além de Abu Bakr, cinco homens e duas mulheres já o haviam aceitado antes dele. Isso, porém, significa apenas que naquele momento somente essas pessoas haviam declarado publicamente sua conversão ao Islã. Caso contrário, de acordo com relatos autênticos, mais de trinta Companheiros haviam aceitado o Islã antes de Ammar. Contudo, a maioria deles manteve sua conversão em segredo, por medo dos incrédulos.

Meca não era a terra natal de Hazrat Ammar. Ele não tinha ali nenhum parente ou protetor. Tampouco possuía distinção mundana ou poder. Além disso, sua mãe, Sumayya, ainda não havia sido libertada da escravidão dos Banu Makhzum. Foi nessas condições que ele aceitou o Islã e, tomado pelo fervor da fé, não conseguiu manter o assunto em segredo nem por um dia. Tornou-o público perante todos. Ao perceberem sua fragilidade, os politeístas de Meca começaram a infligir diversos tipos de tortura a ele e aos membros de sua família. No intenso calor do meio-dia, deitavam-no de costas sobre pedras ardentes e queimavam seu corpo com ferro em brasa. Mas, diante da força da fé de Ammar, todas as crueldades e torturas dos politeístas foram derrotadas.

O miserável Abu Jahl martirizou cruelmente Hazrat Sumayya, mãe de Hazrat Ammar, com sua lança. Na história do Islã, Hazrat Sumayya foi a primeira mártir. Yasir, pai de Ammar, e seu irmão Abdullah também alcançaram o martírio, vítimas da perseguição dos politeístas. Certa vez, os politeístas deitaram Ammar sobre brasas ardentes. Nesse momento, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou ao local. Com o coração dolorido, colocou uma mão abençoada sobre a cabeça de Ammar e disse: ‘Ó fogo, torna-te frio para Ammar, como te tornaste para Ibrahim.’ Sempre que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) passava pela casa da família de Ammar e os via sendo torturados, consolava-os. Certa vez, disse: ‘Ó família de Ammar, boas-novas para vocês: o Paraíso espera por vocês.’ Certa vez, Hazrat Ammar queixou-se ao Mensageiro de Allah da opressão e da tortura insuportáveis. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Tenha paciência, tenha paciência.’ Depois, suplicou: ‘Ó Allah, perdoa os membros da família de Yasir.’

Certo dia, os politeístas mantiveram-no submerso na água por tanto tempo que ele perdeu a consciência. Nesse estado, os inimigos obtiveram de sua boca a confissão que desejavam. Ao recobrar a consciência, ele começou a ser consumido pelo remorso. Chorando, apresentou-se diante do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) perguntou: «Ammar, o que aconteceu?» Ammar respondeu: «Hoje não me libertaram até que eu dissesse algo ruim sobre a sua honra e algo bom sobre os seus deuses.» O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) perguntou: «O que o seu coração diz?» «Meu coração está repleto de fé.» O amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), com grande ternura, enxugou as lágrimas de seus olhos e disse: «Não há problema. Se você se deparar novamente com uma situação assim, faça o mesmo.» Depois, recitou o seguinte versículo da surata An-Nahl: «Quem renega a fé depois de tê-la abraçado — exceto aquele que for forçado, mas cujo coração permaneça firme na fé — não terá culpa.» (An-Nahl/14)

Certa vez, Sa’id ibn Jubayr (que Deus esteja satisfeito com ele) perguntou a Abdullah ibn Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele): «Os coraixitas perseguiam os muçulmanos com tanta violência que eles eram obrigados a abandonar a religião?» Ele respondeu: «Por Deus, sim. Os coraixitas batiam neles e os mantinham famintos. Chegavam a ficar tão fracos que eram incapazes até de se levantar ou sentar. Nesse estado, arrancavam deles uma confissão contra aquilo que havia em seus corações. Ammar era um desses muçulmanos perseguidos.»

Há divergência entre os especialistas em biografia profética sobre se Ammar realizou a Hégira para a Abissínia. Alguns disseram que ele acompanhou a segunda caravana que partiu para a Abissínia. Quando foi ordenada a Hégira para Medina, ele migrou para Medina e hospedou-se com Mubashshir ibn al-Mundhir. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) estabeleceu entre ele e Hudhayfa ibn al-Yaman al-Ansari um vínculo de irmandade e também lhe concedeu um pedaço de terra para que ali estabelecesse residência permanente.

Seis ou sete meses após a Hégira, foram lançadas as fundações da mesquita de Medina. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) também participou pessoalmente da construção da mesquita. Ammar participou ativamente da construção. Ele carregava tijolos sobre a cabeça e recitava estes versos: «Nahnu al-muslimun nabtani al-masajid — somos muçulmanos, construímos mesquitas.» Abu Sa’id disse: «Nós carregávamos um tijolo de cada vez, enquanto Ammar carregava dois.» Certa vez, Ammar passou ao lado do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) sacudiu com grande carinho a poeira da cabeça dele e disse: «Ai de Ammar! Um grupo rebelde irá matá-lo. Você os convocará para Deus, e eles o convocarão para o Inferno.» Certa vez, alguém colocou sobre sua cabeça uma carga tão pesada que as pessoas começaram a gritar: «Ammar vai morrer, Ammar vai morrer!» O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) aproximou-se, retirou os tijolos da cabeça de Ammar e lançou-os para longe.

Ammar participou de todas as batalhas travadas desde Badr até Tabuk. Também se distinguiu como um guerreiro corajoso na maioria dos sangrentos confrontos ocorridos durante o califado de Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele). Abdullah ibn Umar disse: «Na batalha de Yamama, uma das orelhas de Ammar foi arrancada de seu corpo, caiu no chão e continuou a saltar. Apesar disso, ele prosseguiu atacando incansavelmente, golpe após golpe. Em todas as direções para onde avançava, as fileiras dos incrédulos eram desfeitas. Certa vez, o exército muçulmano esteve prestes a dispersar-se completamente. Ammar ficou de pé junto a uma pedra no meio de um vasto campo e começou a gritar: “Ó combatentes muçulmanos! Estais fugindo do Paraíso? Eu sou Ammar ibn Yasir. Vinde, vinde até mim!” Essa voz produziu um efeito mágico no exército muçulmano: eles voltaram a se manter firmes e conquistaram a vitória.»

No ano 20 da Hégira, o segundo califa, Umar (que Deus esteja satisfeito com ele), nomeou-o governador de Kufa. Ele desempenhou essa responsabilidade com grande competência durante um ano e nove meses. Nesse período, os habitantes de Basra solicitaram ao califa que algumas áreas recém-conquistadas fossem anexadas a Basra. Alguns líderes de Kufa pediram a seu emir, Ammar, que convencesse o califa a anexar essas áreas a Kufa. Ammar, porém, não quis envolver-se nessa disputa. Os líderes de Kufa ficaram furiosos. Um deles chegou a insultá-lo, chamando-o de «orelha cortada». Em resposta, ele lamentou e disse: «Ai de você! Você insultou a minha orelha mais querida e melhor, a orelha que foi cortada no caminho de Deus.»

Por causa disso, alguns líderes de Kufa acusaram-no de incompetência na administração. O califa destituiu-o. No dia seguinte à destituição, o califa chamou-o e perguntou-lhe; ele respondeu: «Devo dizer a verdade. Antes, não fiquei feliz quando fui nomeado, e agora também não estou descontente por ter sido destituído.»

Durante o califado do terceiro califa, Uthman (que Deus esteja satisfeito com ele), quando protestos e descontentamento se espalharam por toda parte, no ano 35 da Hégira o califa formou uma comissão de investigação para apurar suas causas. Ammar era um dos membros dessa comissão. A responsabilidade de investigar o Egito, principal centro dos protestos, foi confiada a ele. Ele foi ao Egito.

Os demais membros da comissão retornaram muito rapidamente e apresentaram os relatórios de suas respectivas regiões. Porém, Hazrat Ammar demorou muito mais do que o esperado para retornar. Enquanto isso, em Medina, sede do califado, espalharam-se diversos rumores e suposições a seu respeito. Quando voltou do Egito, ele parecia ter sido influenciado pelos instigadores da rebelião e da desordem. Em reuniões públicas, começou a criticar duramente o método de governo de Hazrat Uthman e as várias ações dos governadores provinciais. Como resultado, iniciou-se um conflito com os homens do califa. Certa vez, os servos de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) espancaram-no tão severamente que todo o seu corpo ficou inchado. Ele sofreu uma grave lesão em uma das costelas. Ammar tinha um pacto, firmado ainda na época da ignorância, com os Banu Makhzum. Estes foram à corte do califa e ameaçaram que, se Ammar não sobrevivesse aos ferimentos, certamente se vingariam. (Al-Isti’ab) Incidentes desse tipo continuaram a aumentar. Quando os instigadores da desordem atacaram Medina, Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas a Ammar, pedindo-lhe que usasse sua influência para fazê-los retornar. Mas Ammar recusou-se. (At-Tabari)

Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) foi martirizado. A responsabilidade pelo califado foi confiada a Hazrat Ali. Hazrat Aisha, Talha, Zubair e outros partiram em direção a Basra, exigindo vingança pelo sangue de Uthman. Hazrat Ali enviou Ammar a Kufa junto com o Imam Hasan, para conquistar o apoio dos habitantes de Kufa. Quando Hazrat Ammar chegou a Kufa, Hazrat Abu Musa al-Ash’ari (que Allah esteja satisfeito com ele) estava discursando diante de uma assembleia na mesquita principal de Kufa. Depois de fazê-lo descer do púlpito, primeiro Hazrat Hasan e, em seguida, Hazrat Ammar fizeram discursos e conseguiram obter o apoio dos habitantes de Kufa a Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Na manhã seguinte, uma força de aproximadamente nove mil e quinhentos soldados reuniu-se ao lado de Ammar para lutar em favor de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).

No ano 36 da Hégira, no mês de Jumada al-Akhira, os exércitos de Hazrat Ali e de Aisha se enfrentaram em um lugar chamado Ziqār, próximo de Basra. Hazrat Ammar participou dessa batalha junto com o exército de Kufa. Logo no início do combate, quando Hazrat Zubair viu que Ammar estava ao lado de Ali, lembrou-se das palavras do Mensageiro de Allah: “A verdade está com Ammar; o grupo rebelde o matará.” Ele compreendeu seu erro, abandonou a batalha e retirou-se. Nessa guerra, Hazrat Ammar tinha a firme convicção de estar do lado da verdade. Por isso, lutou com extrema coragem e saiu vitorioso. Na história, essa batalha é conhecida como a Batalha do Camelo.

Depois da Batalha do Camelo, ocorreu a Batalha de Siffin entre Hazrat Ali e Hazrat Muawiya. Hazrat Ammar também participou dessa batalha ao lado de Hazrat Ali. Na época, tinha noventa e um anos; segundo outra opinião, noventa e três. Mesmo nessa idade avançada, não conseguiu permanecer em casa, inspirado que estava pela jihad. Ele havia compreendido com certeza que a verdade estava do lado de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Assim, mesmo nessa idade, lutou com bravura heroica, como um leão. Para onde quer que atacasse, o acampamento adversário se dispersava. Certa vez, avistou Hazrat Amr ibn al-As, porta-estandarte do acampamento inimigo. Ele disse: “Lutei três vezes contra este porta-estandarte junto com o Mensageiro de Allah. Esta é a quarta vez que luto contra ele. Por Allah, mesmo que ele me derrote e me empurre até um lugar chamado Hajar, ainda acreditarei que nós estamos com a verdade e eles estão com a falsidade.” (At-Tabaqat, 1/185)

Durante a Batalha de Siffin, convocando as pessoas a se juntarem ao lado de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), ele dizia: “Ó povo, saiam comigo para combater aqueles que afirmam estar buscando vingança pelo sangue de Uthman. Por Allah, a vingança pelo sangue não é o objetivo deles. O que querem é desfrutar dos prazeres deste mundo; querem obter ainda mais desses prazeres. …… Eles não têm qualquer contribuição nos primórdios do Islã que lhes permita reivindicar a obediência da comunidade muçulmana. Não têm direito à liderança da comunidade muçulmana. Em seus corações não há temor de Allah suficiente para que sigam a verdade. Eles enganam as pessoas falando em vingança pelo sangue de Uthman. Seu único objetivo é tornar-se reis tirânicos.” (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 216)

A Batalha de Siffin estava em andamento. Certa tarde, Hazrat Ammar bebeu alguns goles de leite e disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) me disse que o leite seria minha última refeição. Depois — hoje encontrarei meus amigos; hoje encontrarei Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus companheiros.” Enquanto dizia essas palavras, juntou-se às fileiras dos soldados. Em seguida, lançou um violento ataque contra o acampamento inimigo. Eles conheciam a profecia do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) acerca de Ammar, bem como sua grande virtude e dignidade. Porém, entre eles havia muitos novos muçulmanos que nada sabiam de especial sobre Ammar. Um deles, Ibn al-Ghabiya, lançou uma flecha e derrubou Ammar ao chão. Depois, outro homem sírio separou sua cabeça do corpo com uma espada.

Depois de martirizarem Ammar, os dois assassinos começaram a discutir, cada um reivindicando sozinho essa façanha. Enquanto discutiam, chegaram à presença de Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele). Por acaso, Hazrat Amr ibn al-As também estava presente. Ao ver o que acontecia, disse: “Por Allah, estes dois estão brigando pelo Inferno.” Com essas palavras, Hazrat Amir Muawiya ficou um pouco ofendido e disse: “Amr, o que você está dizendo? Está falando assim daqueles que dão a vida por nós?” Amr respondeu: “Por Allah, essa é a verdade. Como teria sido melhor se eu tivesse morrido vinte anos atrás!”

Após o martírio de Hazrat Ammar (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Amr ibn al-As ficou profundamente perturbado. Preparou-se para afastar-se desse conflito. Mas Hazrat Muawiya consolou-o, dizendo que não éramos nós os assassinos de Ammar; na verdade, seus assassinos eram aqueles que o haviam tirado de casa e levado consigo para o campo de batalha. (At-Tabaqat)

Com o martírio de Ammar, a verdade e a falsidade foram distinguidas. Hudhayfa ibn Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele) participou das batalhas do Camelo e de Siffin, mas não desembainhou a espada por nenhum dos lados. Após o martírio de Ammar, compreendeu que deveria apoiar Ali. Então desembainhou a espada, lançou-se contra o exército de Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele) e alcançou o martírio. Assim, todos os Companheiros que vacilavam em meio à dúvida abandonaram toda hesitação e passaram a apoiar Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).

Ao ouvir sobre o martírio de seu querido companheiro Ammar (que Allah esteja satisfeito com ele), Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) exclamou com tristeza: “Que Allah tenha misericórdia dele no dia em que Ammar aceitou o Islã, que Allah tenha misericórdia dele no dia em que alcançou o martírio e que Allah tenha misericórdia dele no dia em que ressuscitar. Eu o vi junto do Mensageiro de Allah quando apenas quatro ou cinco Companheiros haviam tido a ventura de declarar sua fé. Nenhum dos Companheiros da primeira geração pode duvidar do perdão que lhe foi concedido. Ammar e a verdade estão intimamente ligados um ao outro. Seu assassino certamente estará no Inferno.”

Depois disso, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) ordenou que Ammar fosse amortalhado e sepultado. Ali realizou a oração fúnebre e ordenou que ele fosse sepultado com as roupas ensanguentadas pelo seu próprio sangue. Esse foi um acontecimento do ano 87 da Hégira. Ammar foi o primeiro Companheiro do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a ser sepultado no solo de Kufa.

Ammar era extremamente temente a Allah. Por causa de sua piedade e de seu temor a Allah, permanecia sempre calado. Falava muito pouco. Buscava constantemente a proteção de Allah contra a discórdia e a sedição. Contudo, Allah o pôs à prova com a maior das tribulações e fez dele, com pleno êxito, um defensor da verdade.

Ele era a própria personificação da humildade e da modéstia. O chão era seu leito confortável. Mesmo quando era governador, levava uma vida extremamente simples. Fazia pessoalmente as compras no mercado e carregava tudo nas costas. Realizava todos os trabalhos com as próprias mãos. Ibn Abi al-Hudhayl, um contemporâneo de Ammar, disse: “Vi Ammar, o governador de Kufa, comprar alguns pepinos em Kufa. Depois, amarrou-os com uma corda, colocou-os nas costas e partiu para casa.” (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 211)

A principal motivação de cada ato de Ammar (que Allah esteja satisfeito com ele) era obter a satisfação de Allah. No caminho para a batalha de Siffin, ele repetia várias vezes: “Ó Allah, se eu soubesse que Tu ficarias satisfeito se eu desse minha vida saltando de uma montanha, lançando-me ao fogo ou mergulhando na água, eu Te agradaria dessa maneira. Estou indo para a batalha. Meu único objetivo é obter a Tua satisfação. Espero que não frustres esse meu objetivo.” (Tabaqat) Sobre sua nobreza de caráter e sua firmeza na fé, o próprio Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A fé se misturou e se fundiu completamente nas veias e artérias de Ammar.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava orgulhar-se da fé de Ammar diante dos outros Companheiros. Certa vez, surgiu um mal-entendido entre o célebre comandante Khalid ibn Walid e Ammar a respeito de uma questão. Quando o assunto chegou ao conhecimento do Mensageiro de Allah, ele disse: “Quem hostilizar Ammar terá Allah como seu inimigo. Quem invejar Ammar será também invejado por Allah.” Em outro hadith, consta: “Depois de mim, seguireis Abu Bakr e Umar. E buscai orientação no caminho e no método de Ammar.”

Ammar sentia um prazer especial na adoração de Allah. Passava a noite inteira na lembrança de Allah. Em nenhuma circunstância deixava de realizar a oração. Certa vez, estava viajando e surgiu a necessidade de tomar um banho ritual. Apesar de muito esforço, não encontrou água. Lembrou-se de que a terra é um substituto da água. Em vez do banho ritual, cobriu todo o corpo com poeira e areia e realizou a oração. Ao retornar da viagem, relatou o ocorrido ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), que lhe disse: “Numa situação assim, apenas o tayammum é suficiente.”

O célebre Companheiro Hudhayfa ibn al-Yaman (que Allah esteja satisfeito com ele) era chamado de “Sirr Rasulillah” — aquele que possuía todo o conhecimento secreto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quando se encontrava entre a vida e a morte, perguntaram-lhe: “Quando as pessoas se dividirem em grupos conflitantes, com quem nos ordenas que permaneçamos?” Ele respondeu: “Permanecei com Ibn Sumayya. Ele jamais se desviará da verdade enquanto viver.” Essas foram as últimas palavras do grande Companheiro Hudhayfa. (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 212)

Ele narrou diversos hadiths do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Dele, muitos tabi‘ins, juntamente com Companheiros como Abu Musa al-Ash‘ari, Abdullah ibn Abbas e Abdullah ibn Ja‘far, narraram hadiths.

Uthman ibn Maz‘un (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Uthman e sua kunya, Abu Sa’ib. Seu pai era Maz‘un e sua mãe, Sukha ila bint Unays. Mesmo na época da ignorância, ele possuía uma natureza extremamente pura e virtuosa. Naquela época, um grande número de pessoas estava acostumado a beber vinho. Mas ele jamais o tocou. Àqueles que bebiam, dizia: “Que benefício há em beber algo que faz a inteligência desaparecer, transforma a pessoa em objeto de riso para gente de classe baixa e, quando se está embriagado, elimina toda distinção entre mãe e irmã?”

Seu coração também era extraordinariamente puro. O convite do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o influenciou muito rapidamente. Segundo os autores de biografias, apenas treze pessoas haviam aceitado o Islã antes dele. Ele foi o décimo quarto muçulmano. Segundo um relato de Ibn Sa‘d, antes de o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) buscar refúgio na casa de al-Arqam, Uthman ibn Maz‘un, Ubaydah ibn al-Harith, Abd al-Rahman ibn Awf, Abu Salamah Abd al-Asad e Abu Ubaydah ibn al-Jarrah aceitaram o Islã juntos. Ele foi o primeiro muhajir a morrer de morte natural em Medina e o primeiro muçulmano sepultado no cemitério de al-Baqi, em Medina.

No quinto ano da profecia, um grupo de muçulmanos emigrou pela primeira vez para a Abissínia, com a permissão do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Uthman ibn Maz‘un era o comandante ou líder desse grupo de emigrantes. Seu filho Sa’ib também estava com o grupo. Depois de permanecerem algum tempo na Abissínia, receberam a notícia de que todo o clã coraixita de Meca havia aceitado o Islã. Ele partiu alegremente em direção a Meca. Quando se aproximou da cidade e percebeu que a notícia era falsa, ficou profundamente perturbado. Afinal, voltar para um país tão distante era difícil, e entrar em Meca também não era seguro. Aos poucos, quando todos os seus companheiros retornaram a Meca com a ajuda de seus próprios parentes politeístas, ele também entrou na cidade sob a proteção de Walid ibn al-Mughira. Graças à influência de Walid ibn al-Mughira, o honorável Uthman ibn Maz‘un foi poupado dos abusos e torturas físicas, mas não conseguiu de modo algum sentir-se feliz ao ver a opressão e a perseguição infligidas ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e aos demais Companheiros. Certo dia, repreendendo a si mesmo, disse: “Ai de mim! Meus parentes, amigos e membros da minha tribo suportam todo tipo de opressão e tortura, enquanto eu vivo confortavelmente com a ajuda de um politeísta. Por Allah! Isso é uma terrível fraqueza da minha parte.”

Consumido por esse pensamento, ele ficou extremamente perturbado. Começou a ser atormentado por um sentimento de culpa. Foi até Walid e disse: “Ó Abu Abdi Shams, você cumpriu devidamente sua responsabilidade. Passei todo esse tempo sob sua proteção, mas agora considero melhor permanecer sob a proteção de Allah e de Seu Mensageiro. Para mim, o exemplo do Mensageiro de Allah e de seus Companheiros é suficiente.” Walid respondeu: “Talvez alguém tenha lhe causado algum mal.” Ele disse: “Não. A verdade é que agora não preciso da ajuda de ninguém além de Allah. Venha comigo imediatamente à Caaba e, assim como anunciou que me concedia proteção, anuncie também que a retira.” Diante de sua insistência, Walid convocou uma assembleia pública no pátio da Caaba. Uthman também se levantou, confirmou as palavras de Walid e disse: “Meus amigos, encontrei em Walid alguém que cumpre suas promessas e é compassivo. Como agora não desejamos a ajuda de ninguém além de Allah e de Seu Mensageiro, eu mesmo retirei de meus ombros o peso do favor ou benefício de Walid.”

Depois desse anúncio, Uthman ibn Maz‘un foi a uma reunião dos coraixitas com Labid ibn Rabi‘ah. Labid era um famoso poeta árabe de sua época. Assim que ele chegou, iniciou-se uma sessão de poesia. Labid começou a recitar sua qasida. Quando chegou ao verso “Ala kullu shay’in ma khalallaha batilun” — “Eis que tudo, exceto Allah, é vão” — Uthman exclamou de repente: “Você disse a verdade.” Porém, quando Labid recitou o segundo verso — “Wa kullu na‘imin la mahala zata’ilun” — “E toda felicidade certamente perecerá” — Uthman disse em tom de protesto: “Você mentiu.” Todos os presentes na reunião olharam para ele com ira. Pediram a Labid que recitasse novamente o verso. Labid o recitou outra vez, e Uthman declarou novamente que o primeiro verso era verdadeiro e o segundo, falso, dizendo: “Você mentiu. As bênçãos e as riquezas do Paraíso jamais perecerão.” Ao ouvir isso, Labid ficou um pouco irritado e disse: “Ó membros da tribo de Quraysh, sua reunião nunca esteve assim antes.” Essa provocação fez toda a assembleia explodir de raiva. Nesse momento, um miserável avançou contra Uthman e desferiu-lhe um violento soco no rosto. Com o golpe, um de seus olhos ficou negro devido ao sangue acumulado. As pessoas disseram: “Uthman, você estava muito bem sob a proteção de Walid, e seu olho também estava livre desse sofrimento.” Ele respondeu: “A proteção de Allah é a mais segura e honrosa de todas. Meu olho que ainda está saudável também anseia por compartilhar o sofrimento de seu companheiro.” Walid perguntou: “Você quer voltar a ficar sob minha proteção?” Ele respondeu: “Agora, a proteção de Allah é suficiente.” Seus sentimentos daquela época foram expressos de maneira magnífica em uma qasida de sua própria autoria. O honorável Ali também descreveu belamente esse episódio de Uthman em um de seus poemas. (Consulte Hayat al-Sahaba, volume 1.)

Assim, durante muito tempo, o honorável Uthman suportou pacientemente os diversos tipos de opressão e perseguição em Meca. Então, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permitiu que todos os Companheiros emigrassem para Medina. O honorável Uthman ibn Maz‘un emigrou de Meca para Medina com seus dois irmãos, Qudamah ibn Maz‘un e Abdullah ibn Maz‘un, seu filho Sa’ib ibn Uthman e todos os demais membros de sua família. O honorável Uthman não deixou em Meca sequer uma pessoa de seu clã. Ao chegar a Medina, hospedou-se como convidado do honorável Abdullah ibn Salamah al-Ajlani (que Allah esteja satisfeito com ele).

Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou a Medina, concedeu a Uthman e a seus irmãos um vasto terreno para que nele estabelecessem residência permanente e estabeleceu um vínculo de fraternidade com Abu al-Haytham ibn al-Tayyihan.

O primeiro confronto entre a verdade e a falsidade ocorreu nos campos de Badr. Ele participou dessa batalha. Logo após retornar da batalha, adoeceu. Seu irmão ansari e seus familiares, embora lhe prestassem cuidados suficientes,

não conseguiram salvá-lo das garras da morte. Trinta meses após a Hégira, Uthman ibn Maz’un faleceu em Medina.

Umm al-Ala al-Ansariyya, em cuja casa Uthman faleceu, disse: Depois que ele foi lavado e envolto na mortalha, quando o funeral estava preparado, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou. Eu comecei a dizer: “Ó Abu Saib, que a misericórdia de Allah seja derramada sobre ti. Testemunho que Allah te honrará.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “Como sabes que Allah o honrará?” Eu respondi: “Ó Mensageiro de Allah, se não for ele, então quem mais honrarás?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Uthman possuía uma fé firme. Espero que ele tenha um bom destino. Mas, por Allah, embora eu seja o Mensageiro de Allah, não sei qual será o meu destino.”

O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou profundamente pesaroso com a morte de Uthman ibn Maz’un. Inclinou-se três vezes e beijou-lhe a testa. Então, as lágrimas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) molharam ambas as faces de Uthman. Depois, erguendo a cabeça e com a voz embargada pelo choro, disse: “Ó Abu Saib, estou me separando de ti. Que Allah tenha misericórdia de ti! Deixaste o mundo de tal modo que nada tiraste dele, e o mundo também não pôde tirar nada de ti.”

Mesmo após a morte de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não o esqueceu. Quando Ruqayya, filha do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), faleceu, ele se dirigiu a ela, dizendo: “Vai e junta-te a Uthman ibn Maz’un, nosso melhor predecessor.”

Quando Uthman ibn Maz’un morreu, ainda não havia em Medina um cemitério destinado aos muçulmanos. Após o falecimento de Uthman, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) escolheu para cemitério o local chamado “Baqi”, em Medina. Entre os Companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele foi o primeiro a ser sepultado ali. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dirigiu pessoalmente a oração fúnebre e, permanecendo junto à sepultura, supervisionou o sepultamento. Depois, fincou sobre a sepultura algum objeto como sinal e disse: “Quando alguém morrer a partir de agora, será sepultado nas proximidades deste lugar.”

O caráter de Uthman era de um nível extremamente elevado. Já na época da jahiliyya, ele sentia aversão pelas bebidas alcoólicas. A modéstia era uma característica de sua natureza.

Ele tinha uma profunda inclinação para o ruhbāniyya, ou ascetismo. Certa vez, decidiu destruir os desejos e paixões do ego e tornar-se um eremita do deserto, renunciando ao mundo. Porém, quando o Mensageiro (que a paz esteja com ele) soube disso, impediu-o de seguir esse propósito. Ele disse: «Acaso não sou eu, para ti, o melhor modelo? Eu me relaciono com minha esposa, como carne, jejuo e também quebro o jejum. O jejum é a castração ou a esterilização da minha ummah. Portanto, quem se castrar ou for castrado não faz parte da minha ummah.»

A adoração, ou a vigília noturna, era sua atividade predileta. Ele passava a noite inteira em oração. Jejuava na maioria dos dias do ano. Havia reservado um cômodo de sua casa para a adoração. Ali praticava o i‘tikāf dia e noite. Certa vez, o Mensageiro (que a paz esteja com ele), segurando o batente da porta desse cômodo, disse duas ou três vezes: «Uthmān, Allah não me enviou para o ruhbāniyya ou ascetismo. A religião hanīf, simples e reta, é a mais amada por Allah entre todas as religiões.

Seu intenso empenho na adoração tornou-o negligente para com a esposa e os filhos. Certo dia, sua esposa foi à casa do Profeta. A esposa do Profeta (que a paz esteja com ele), ao ver suas roupas e sua aparência descuidadas, perguntou-lhe:

«Por que estás assim? Teu marido é um homem rico entre os coraixitas.» Ela respondeu: «Que relação tenho eu com ele? Ele passa a noite inteira em oração e jejua durante o dia.» As Mães dos Crentes levaram o assunto ao conhecimento do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). O Mensageiro (que a paz esteja com ele) dirigiu-se imediatamente à casa de Uthmān ibn Maz‘ūn e chamou-o, dizendo: «Uthmān, acaso a minha própria vida não é um modelo para ti?» Uthmān respondeu: «Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti.» O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Passas a noite inteira em adoração e jejuas na maioria dos dias.» Ele respondeu: «Sim, faço isso.» Foi-lhe dito: «Não faças isso. Teus olhos, teu corpo e tua família têm direitos sobre ti. Ora, descansa, jejua e quebra o jejum.» Depois dessa orientação, sua esposa foi certa vez à casa do Profeta. Dessa vez, porém, ela parecia estar adornada como uma recém-casada. O perfume espalhava-se de seu corpo.

Após o falecimento de Khadīja (que Allah esteja satisfeito com ela), Khawla bint Hakīm, esposa de Uthmān ibn Maz‘ūn (que Allah esteja satisfeito com ele), apresentou ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) a proposta de casamento com ‘Ā’isha e Sawda. Foi principalmente por sua intermediação que esses dois casamentos do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) foram realizados. (Hayātus-Sahābah, 2/653)

‘Abdullah ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era ‘Abdullah e sua kunya, Abū ‘Abdir-Rahmān. Seu pai era ‘Umar ibn al-Khattāb e sua mãe, Zaynab. Segundo o relato correto, durante a Batalha de Uhud, no terceiro ano da Hégira, ele tinha catorze anos. Com base nisso, nasceu no segundo ano da missão profética. Quando Hazrat ‘Umar abraçou o Islã, no sexto ano da missão profética, ‘Abdullah tinha aproximadamente cinco anos.

Desde que começou a compreender as coisas, ‘Abdullah viu sua própria casa iluminada pela luz do Islã. Cresceu em um ambiente islâmico. Contudo, segundo alguns relatos, ele aceitou o Islã antes de seu pai. A opinião correta, porém, é que, quando seu pai aceitou o Islã, ele ainda era pequeno. Como filho menor de idade, seguiu também a religião de seu pai.

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), exausto pela perseguição dos incrédulos, migrou de Meca para Medina junto com sua família. Abd Allah também foi para Medina com seu pai. Após a Hégira, o primeiro confronto entre a verdade e a falsidade ocorreu em Badr. Ibn Umar era então um adolescente de treze anos. Ele pediu para participar do jihad. Como ainda não tinha idade para o jihad, Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recusou seu pedido. Um ano depois, surgiu novamente a oportunidade da batalha de Uhud. Dessa vez, ele se alistou. Pela mesma razão, também não conseguiu obter a permissão de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Dois anos depois, no quinto ano da Hégira, ocorreu a batalha da Trincheira. Abd Allah tinha quinze anos. Foi então que, pela primeira vez, obteve de Rasulullah a permissão para partir para o jihad.

Durante o tratado de Hudaybiyyah, no sexto ano da Hégira, ele acompanhou Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em sua viagem e teve a felicidade de participar do Juramento de Ridwan. Por uma coincidência, alcançou essa honra antes mesmo de seu pai, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Naquele dia, Hazrat Umar o enviara para buscar um cavalo de um ansari. Assim que saiu pelo caminho, ouviu que Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava recebendo o juramento dos companheiros. Ele correu e foi o primeiro a prestar juramento nas mãos de Rasulullah.

Ele também participou da expedição de Khaybar. Durante essa viagem, foi um dos narradores das determinações sobre o lícito e o ilícito anunciadas por Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). (Bukhari)

Na conquista de Meca, Ibn Umar era um jovem de vinte anos. Nessa expedição, esteve ao lado dos demais mujahidin. Suas armas eram um cavalo veloz e uma lança pesada. Vestia apenas uma peça de pano. Certo dia, enquanto cortava com as próprias mãos a grama para o cavalo, Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o viu e exclamou: “Abd Allah, Abd Allah!”. Após a conquista de Meca, entrou na Caaba seguindo Rasulullah. Ele conta: “Os primeiros a entrar na Caaba com Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foram Usama ibn Zayd, Uthman ibn Talha e Bilal ibn Rabah. Depois deles, fui eu o primeiro a entrar no interior da Caaba.”

Após a conquista de Meca, ele também participou da expedição de Hunayn e do cerco de Taif. Junto com inúmeros muçulmanos, Ibn Umar acompanhou Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) na Peregrinação de Despedida e realizou essa peregrinação.

A expedição de Tabuk foi realizada no nono ano da Hégira. Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu para Tabuk com trinta mil mujahidin. Ibn Umar também era um dos membros desse exército. Em suma, desde a Trincheira até o último dia da vida de Rasulullah, ele participou de todas as expedições e acontecimentos importantes.

Durante o período do primeiro califa, não se vê Ibn Umar envolvido em nenhuma atividade digna de nota. Ou, mesmo que tenha estado envolvido, a história não preservou muitas informações a esse respeito.

Contudo, durante o período do segundo califa, a história registra sua presença em algumas expedições como um soldado comum. Ele participou da batalha de Nihawand e adoeceu. Também participou das expedições à Síria e ao Egito e adoeceu. A história registra sua participação nas expedições à Síria e ao Egito. Entretanto, não se conhece nenhuma contribuição significativa sua nessas expedições. Durante esse período, ele também não esteve presente nas atividades administrativas do Estado. A razão provavelmente era que o califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) não gostava que seus parentes próximos se envolvessem em tarefas específicas do califado. Apesar disso, sempre que surgia alguma questão relacionada ao benefício ou ao prejuízo da ummah muçulmana, ele se apresentava espontaneamente e aceitava toda a severidade de seu pai. Como exemplo, pode-se mencionar que, quando o califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) estava à beira da morte, Ibn Umar ouviu de sua irmã, a Mãe dos Crentes, Hazrat Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela), que Umar não queria nomear ninguém como seu sucessor. Ibn Umar pensou nos problemas futuros da ummah na ausência de seu pai. Tremendo de medo, compareceu diante dele e, com coragem, disse: “Tenho ouvido várias coisas das pessoas e vim informá-lo. Elas pensam que o senhor não quer nomear ninguém como seu sucessor. Suponha que um pastor cuide de seus camelos e cabras. Se ele deixar o rebanho no campo e vier até o senhor, qual será o destino dele? Pastorear as pessoas é uma tarefa ainda mais difícil.” Essas palavras sensatas agradaram ao califa Umar. Após refletir por algum tempo, ele disse: “O próprio Allah é o guardião de Seu rebanho.” Por fim, deixou a responsabilidade de escolher o califa seguinte nas mãos de um grupo de companheiros de elevada posição.

Após o falecimento de seu pai, Ibn Umar foi visto pela primeira vez na assembleia para a escolha do califa. Hazrat Umar deixou como testamento que, na escolha do califa seguinte, Abdullah atuasse apenas como conselheiro. Ele não deveria ser nomeado califa.

Durante o califado de Uthman, teve a oportunidade de participar das atividades administrativas. Contudo, jamais tentou obter qualquer benefício ilícito. O califa Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) propôs que ele aceitasse o cargo de juiz. Ele recusou, dizendo: “Eu não julgo entre duas pessoas nem conduzo a oração de duas pessoas. Pois o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Os juízes são de três categorias. A primeira é a do ignorante; seu destino é o Inferno. A segunda é a do erudito mundano; esses também estarão no Inferno. A terceira é a daqueles que fazem ijtihad e chegam à decisão correta; para eles não há punição nem recompensa.’” O califa disse: “Seu pai também julgava.” Ele respondeu: “Sim, isso é verdade. Porém, quando surgia algum problema, ele recorria ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). E, quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não conseguia tomar uma decisão, recorria a Jibril. Mas a quem recorrerei eu agora? Pelo amor de Allah, dispense-me.” O califa o dispensou, mas obteve dele a promessa de que não revelaria isso a ninguém. Pois o califa sabia que, se as pessoas soubessem que Ibn Umar havia recusado o cargo de juiz, não seria possível encontrar outra pessoa íntegra para esse posto. Todos seguiriam o exemplo de Ibn Umar.

Embora se mantivesse afastado das responsabilidades administrativas do califado, jamais se afastou do jihad pela causa de Allah. Sempre que o chamado ao jihad surgia, ele respondia. No ano 27 da Hégira, participou da campanha na África (Tunísia, Argélia e Marrocos). No ano 30 da Hégira, participou, com Sa‘id ibn al-‘As, da campanha no Khurasan e no Tabaristão. Contudo, depois que começaram os tumultos internos e as discórdias, adotou completo isolamento. Não voltou a participar de nenhuma atividade do califado. Após o martírio de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), as pessoas lhe pediram que aceitasse o cargo de califa. Ele recusou firmemente. As pessoas o ameaçaram de morte, mas ele não se perturbou nem por um instante e permaneceu firme em sua decisão.

Há divergência quanto a qual dos dois, Ali ou Muawiya (que Allah esteja satisfeito com eles), ele reconheceu como califa. Ibn Hajar diz: “Ibn Umar considerava que não se deveria prestar juramento de lealdade a alguém enquanto o povo não tivesse chegado a um consenso ou acordo sobre essa pessoa. Foi partindo dessa perspectiva que ele não prestou juramento de lealdade a Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Contudo, segundo uma narração do Mustadrak, ele prestou juramento de lealdade a Ali sob a condição de não se envolver em uma guerra civil ao lado dele. Ali aprovou essa condição. Nenhum muçulmano derramou sequer uma gota de sangue por sua mão. Entretanto, até o fim de sua vida, sentiu intenso remorso por não ter se juntado ao lado de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).”

Após a batalha de Siffin, Abu Musa al-Ash‘ari e ‘Amr ibn al-‘As foram nomeados árbitros pelas duas partes. Abu Musa propôs ao seu oponente o nome de Abdullah ibn Umar como califa. Mas ‘Amr ibn al-‘As rejeitou essa proposta. Ibn Umar também esteve presente em Dumat al-Jandal, juntamente com outros muçulmanos, para ouvir a decisão dos dois árbitros.

Após o martírio de Hazrat Ali, ele reconheceu o califado do Emir Muawiya. Participou das diversas campanhas de sua época. Também participou da campanha contra Constantinopla.

Após o Emir Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele), Yazid assumiu a responsabilidade pelo califado. Ibn Umar prestou juramento de lealdade a ele para escapar da fitna causada pelas divisões internas da ummah muçulmana. Sobre isso, comentou: “Se isso for bom, ficaremos satisfeitos; e, se for ruim, teremos paciência.” Alguns dias depois, quando os habitantes de Medina retiraram o juramento que haviam prestado a Yazid, ele chamou os membros de sua família e disse: “Prestei juramento de lealdade a Yazid para obedecer a Allah e ao Seu Mensageiro. …… Que nenhum de vocês rompa este juramento. Se alguém o romper, a espada decidirá entre mim e essa pessoa.” Segundo sua opinião, rescindir ou retirar esse juramento significava uma forma de fraude. E a Shariah estabelece uma punição severa para a fraude. Ele não prestou juramento de lealdade a Yazid movido por qualquer cobiça.

Após a morte de Yazid, seu filho, Muawiya II, tornou-se califa. Ele administrou o califado por apenas três meses. Após sua morte, de um lado, em Meca, Abdullah ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) declarou-se califa. O povo do Iraque, do Hijaz e do Iêmen prestou juramento de lealdade a ele. Do outro lado, Marwan reivindicou o califado e obteve o juramento de lealdade dos habitantes da Síria. Embora a maior parte das regiões do califado islâmico naquela época apoiasse Abdullah ibn al-Zubayr, Abdullah ibn Umar não deu a mínima importância à sua reivindicação. Enquanto os dois grupos em conflito lutavam pela reivindicação do califado, um homem disse a Ibn Umar: “Allah ordenou que se combatesse para impedir a fitna.” Ele respondeu: “Quando havia fitna, nós combatemos. Naquela época, os incrédulos não permitiam que os muçulmanos adorassem Allah; essa era a fitna daquele tempo. Esta guerra civil de hoje não é jihad, mas uma luta suicida pelo poder monárquico.” Contudo, quando Hajjaj ibn Yusuf atacou Abdullah ibn al-Zubayr em Meca e destruiu uma parte da Caaba, ele expressou profunda indignação e condenação.

Quando foi prestado o juramento de fidelidade ao califado nas mãos de Abd al-Malik, Ibn Umar também lhe enviou um juramento de fidelidade por escrito. O conteúdo de seu juramento era o seguinte: «Eu e meu filho juramos, tanto quanto pudermos, obedecer ao Comandante dos Crentes, Abd al-Malik, segundo Allah e a Sunna do Mensageiro.» Abd al-Malik tinha grande respeito por Ibn Umar e seguia sua orientação no cumprimento das determinações da Sharia. Durante o Hajj, ordenava que Ibn Umar fosse seguido na realização dos ritos do Hajj.

Ele faleceu no ano 74 da Hégira, aos 83 ou 84 anos de idade. Durante o Hajj, a ponta envenenada de uma lança de um homem penetrou em seu pé. Foi esse veneno que acabou causando sua morte. Em geral, acredita-se que isso não tenha acontecido apenas por acaso, mas que tenha havido uma indicação de Hajjaj por trás do acontecimento. Isso porque Ibn Umar repreendeu severamente Hajjaj por ter atacado Abdullah ibn Zubair na Caaba. Hajjaj ficou furioso com isso. Depois, por sua própria ordem, um soldado sírio feriu Ibn Umar dessa maneira. Contudo, Ibn Hajar afirmou que Abd al-Malik havia ordenado a Hajjaj que não entrasse em conflito com Ibn Umar. Essa ordem era extremamente penosa para Hajjaj. Por isso, ele eliminou Ibn Umar deste mundo por esse meio alternativo.

Ibn Sa’d relata que, certa vez, durante o sermão, Hajjaj acusou Ibn Zubair de ter corrompido a Palavra de Allah. Ibn Umar imediatamente protestou, exclamando: «Estás mentindo. Ibn Zubair não tem tal poder, e tu também não tens qualquer motivo para levantar uma acusação como essa.» Hajjaj não conseguiu aceitar tranquilamente um protesto tão duro numa assembleia pública. Entretanto, também não ousava tratar Ibn Umar de modo indelicado em público. Por isso, recorreu a uma conspiração secreta como essa.

Segundo outro relato, certo dia Hajjaj proferiu um sermão tão longo que o tempo para a oração do Asr ficou reduzido. Irritado, Ibn Umar exclamou: «O sol não pode esperar por ti.» De qualquer modo, por várias razões, o tirânico Hajjaj não conseguia tolerar Ibn Umar, o soldado da verdade. Por isso, providenciou para que ele fosse retirado deste mundo dessa maneira.

Quando Ibn Umar estava acamado sob o efeito do veneno, Hajjaj foi visitá-lo. Depois das saudações, Hajjaj disse: «Se eu descobrisse quem é o criminoso, cortaria sua cabeça.» Ibn Umar respondeu: «Foste tu que fizeste tudo e depois dizes que matarias o criminoso caso o encontrasses.» Depois de ouvir essa verdade desagradável diretamente em seu rosto, Hajjaj ficou em silêncio.

O desejo sincero de Abdullah ibn Umar era dar seu último suspiro em Medina, a Iluminada. Quando seu estado começou a piorar, ele passou a fazer súplicas: «Ó Allah, não me faças morrer em Meca.» Ele recomendou a seu filho Salim: «Se eu morrer em Meca, sepulta-me em algum lugar fora do recinto sagrado de Meca. Não considero bom ser enterrado na terra de onde emigrei.» Poucos dias depois de fazer essa recomendação a seu filho Salim, ele deixou este mundo.

Após sua morte, as pessoas quiseram sepultar seu corpo fora do recinto sagrado, conforme sua recomendação. Mas Hajjaj impediu isso. Ele próprio conduziu a oração fúnebre e sepultou-o no cemitério chamado Fakh.

A companhia do Mensageiro de Allah em todas as circunstâncias — durante as viagens e a permanência em casa, ou viajando para fora de casa —, o ensino e a formação recebidos do grande Faruq, e, sobretudo, sua própria busca investigativa fizeram dele um oceano de conhecimento islâmico. Ele possuía vasto conhecimento das ciências do Alcorão, do Hadith, do fiqh e de outras áreas. Naquela época, em Medina, Ibn Umar era um dos sábios chamados de «Majma’ al-Bahrayn» no conhecimento e na prática, isto é, um ponto de encontro de dois mares.

Ele tinha uma grande atração pela recitação do sagrado Alcorão. Dedicou uma parte considerável de sua vida ao estudo das suratas e dos versículos do Alcorão. Passou quatorze anos estudando apenas a surata Al-Baqara. Isso permite avaliar quanto esforço e tempo dedicou à compreensão do Alcorão. Essa atração excepcional pelo Alcorão desenvolveu nele uma capacidade singular para a exegese e a interpretação do Alcorão. A capacidade de compreender o Alcorão surgiu nele já no início da juventude. Por isso, era visto participando das reuniões do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) junto aos grandes Companheiros.

Depois do Alcorão vem o hadith. Ibn Umar era um dos principais memorizadores de hadith. O número de hadiths narrados por ele é de 1.630 (mil seiscentos e trinta). Desses, 170 são muttafaq alayh, isto é, foram narrados tanto por Bukhari quanto por Muslim. Bukhari narrou 81 deles exclusivamente, e Muslim, 31. Ele tinha um intenso desejo de conhecer cada palavra e cada ação do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Quando permanecia afastado do convívio do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), perguntava àqueles que estavam a seu serviço sobre o que ele havia dito e feito durante aquele período, e guardava tudo na memória. Ao tomar conhecimento de alguma nova informação que desconhecia, ia imediatamente ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) ou ao primeiro narrador para verificar sua autenticidade. Esse espírito investigativo transformou Ibn Umar em um vasto oceano na ciência do hadith. Se não se lembrasse de cada letra das palavras proferidas pelo Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), não as narrava. Seus contemporâneos disseram: «Entre os Companheiros, ninguém era mais cauteloso do que Ibn Umar quanto a acrescentar ou retirar algo ao narrar os hadiths do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz).»

Grande parte da ciência do hadith foi transmitida por intermédio de Ibn Umar. Ele viveu mais de sessenta anos após o falecimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Durante esse longo período, dedicou-se de todo o coração ao estudo da religião. Ibn Shihab al-Zuhri disse: «Nenhum assunto relacionado ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) e aos seus Companheiros era desconhecido de Ibn Umar.» Temendo que esse estudo fosse interrompido, ele nunca aceitou um cargo oficial. Seu círculo permanente de estudos ficava em Medina. Durante a época do Hajj, emitia fatwas. Também visitava as casas das pessoas para lhes ensinar hadiths. É narrado que, certo dia, foi à casa de Abdullah ibn Muti. Abdullah ofereceu-lhe um lugar para sentar. Depois de se sentar, Ibn Umar disse: «Vim até aqui neste momento para narrar um hadith a você. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe dê paz) disse: “Quem se afastar da obediência ao governante será ressuscitado no Dia da Ressurreição sem possuir nenhuma prova em seu favor. E quem morrer separado da comunidade morrerá como alguém que morreu na época da ignorância.”»

Ele temia intensamente acrescentar ou retirar algo ao narrar os hadiths do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Por isso, narrava pouquíssimos hadiths. O Imam al-Shabi disse: «Sentei-me durante um ano com Abdullah ibn Umar. Nesse período, ele não me narrou sequer um hadith.» Isso não significa que considerasse ruim narrar hadiths ou que os narrasse pouco; ele simplesmente considerava necessário fazê-lo. Não gostava de alterações nas palavras.

Devido à sua extrema cautela ao narrar hadiths, os hadiths transmitidos por ele eram os mais aceitos pelos especialistas em hadith. Ibn Shihab al-Zuhri, quando encontrava um hadith de Ibn Umar sobre determinado assunto, não sentia necessidade de consultar a narração de mais ninguém. Na cadeia de transmissão dos hadiths, a cadeia «Malik, de Nafi, de Ibn Umar» é chamada pelos especialistas em hadith de Silsilat al-Dhahab, ou «cadeia de ouro». Isso porque Ibn Umar passou cerca de quinze anos na companhia do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Presenciou integralmente os períodos de Abu Bakr e Umar, e passou cerca de trinta anos na companhia de Umar. O segundo homem dessa cadeia, Nafi, era escravo de Ibn Umar. Durante cerca de trinta anos, serviu a seu mestre. O terceiro homem da cadeia era o Imam Malik. Ele teve a oportunidade de frequentar durante dez ou doze anos o círculo de estudos de seu mestre, Nafi.

Além do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), Ibn Umar também adquiriu conhecimento junto aos melhores Companheiros, como Abu Bakr, Uthman, Ali, Zayd ibn Thabit, Abdullah ibn Masud, Bilal, Suhayb, Rafi, Aisha e Hafsa (que Allah esteja satisfeito com eles).

A vida de Abdullah ibn Umar era um reflexo vivo da vida do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Abu Huzaifa costumava dizer: «Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), toda pessoa sofreu alguma mudança, mas Umar e seu filho Abdullah não sofreram mudança alguma.» Nafi, o servo pessoal de Ibn Umar, dizia a seus discípulos tabiins: «Se Ibn Umar estivesse vivo nesta época, ao verem sua severidade em seguir a sunna do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), vocês diriam: “Esse homem é louco.”» Ele viveu cerca de oitenta e cinco anos e prestou o juramento de lealdade ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) ainda na infância. No fim da vida, disse: «Desde que prestei o juramento de lealdade ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) até este dia, não o rompi nem o alterei de forma alguma.» Ele não seguia apenas os atos de adoração do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), mas também cada um de seus comportamentos, inclusive seus atos e hábitos humanos. Por exemplo, durante as viagens do Hajj, dormia posteriormente nos mesmos lugares onde o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe dê paz) costumava passar a noite. Rezava nos mesmos lugares onde o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe dê paz) rezava. Percorria as mesmas estradas pelas quais o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe dê paz) passava. Chegava até mesmo a realizar a ablução e o banho nos mesmos lugares onde o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe dê paz) os havia realizado. Em suma, seguia literalmente cada passo do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). As pessoas consideravam que cada palavra e cada ação sua eram, na realidade, palavras e ações do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Como as pessoas o seguiam, quando por alguma razão pessoal não conseguia seguir a sunna em determinado caso, deixava claro: «Isso não é uma ação ou prática do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz); eu fiz isso por uma desculpa especial.» Assim, a confusão das pessoas era eliminada. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse sobre sua adesão à sunna: «Ninguém seguia os passos do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) como Ibn Umar.»

O tafaqquh fi al-din, isto é, a reflexão e o estudo aprofundado da religião, alcançou nele sua plena maturidade. Passou toda a vida estudando e emitindo fatwas. Era um dos célebres Companheiros muftis de Medina. Até os maiores especialistas islâmicos de sua época recorriam a ele para resolver diversas questões. Grandes tabiins, como Said ibn Jubayr, também consultavam-no sobre diferentes questões. Mais tarde, a escola jurídica malikita foi formada essencialmente com base nessas fatwas de Ibn Umar. O Imam Malik dizia: «Ibn Umar é um dos imames da religião. Se suas fatwas fossem reunidas, formariam uma grande obra.» Ele era extremamente cauteloso ao emitir fatwas. O hafiz Ibn Abd al-Barr disse: «Ibn Umar era especialmente cauteloso tanto em suas fatwas quanto em suas práticas. Falava somente depois de muita reflexão e também agia após ponderar cuidadosamente.»

Parece que Ibn Umar não demonstrava interesse especial pelos conhecimentos correntes na Arábia de sua época, além do conhecimento religioso, tais como poesia, astrologia e eloquência. A possível razão é que ele não considerava apropriado dedicar tempo ao estudo de qualquer conhecimento que não fosse o conhecimento religioso.

É verdade que as características morais do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) deixaram, de modo geral, sua marca em todos os Companheiros; porém, em Ibn Umar, essa marca foi mais profunda. Em cada palavra e comportamento dele, tornavam-se claramente visíveis os traços do caráter e das características do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele).

Allah, o Altíssimo, disse ao elogiar os Companheiros no Sagrado Alcorão: “Iza zukirallahu wajilat kulubuhum” — quando Allah é mencionado diante deles, seus corações estremecem de temor. Essa condição manifestou-se plenamente em Ibn Umar. Certa vez, recitaram diante dele o versículo: “Fakaifa iza ji’na min kulli ummatin shahida” — como será quando trouxermos uma testemunha de cada povo? Ao ouvir esse versículo, Ibn Umar chorou tanto que sua barba ficou molhada com as lágrimas, e as pessoas ao seu redor também foram afetadas.

Ibn Umar era um grande devoto e passava as noites em adoração. Passava a maior parte da noite adorando. Seu servo, Nafi, disse que ele rezava durante toda a noite. Ao aproximar-se o amanhecer, perguntava-me: “Já amanheceu?” Se eu respondesse que sim, permanecia fazendo istighfar até clarear um pouco mais. Se eu dissesse que não, levantava-se novamente para rezar. Ao recitar o Alcorão, sentia um prazer celestial. Não abandonava nem mesmo as pequenas formas de adoração. Fazia uma nova ablução para cada oração. Ao dirigir-se à mesquita, caminhava lentamente, para aumentar o número de passos e, assim, obter mais recompensa.

Ibn Umar era um exemplo concreto de zuhd e taqwa. Foi o zahid e muttaqi incomparável de sua época. Hazrat Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia: “Entre nós, não havia ninguém além de Ibn Umar que não tivesse sido atraído pelo esplendor do mundo.” Desde a infância, o espírito de taqwa predominava nele. Ao observar esse caráter temente a Allah, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Rajulus salih” — um servo virtuoso.

Ele era extremamente generoso. Sempre doava pela causa de Allah aquilo que mais amava. Todo escravo ou escrava de quem gostava, ele libertava. Em uma única reunião, distribuía mil dirhams. Libertava tantos escravos e escravas que o número dos que libertou ultrapassou mil. Certa vez, partiu para o Hajj montado em um camelo muito bonito. Gostou muito do modo como o camelo andava. De repente, desceu, retirou a bagagem de seu dorso e ordenou que ele fosse incluído entre os animais destinados ao sacrifício. Ayyub ibn Wa’il al-Rasibi conta: certo dia, chegaram às mãos de Ibn Umar quatro mil dirhams e uma capa de veludo. No dia seguinte, viu Ibn Umar comprando fiado, no mercado, alimento para sua montaria. Então foi imediatamente à casa de Ibn Umar e perguntou à sua família: “Não chegaram ontem às mãos de Ibn Umar quatro mil dirhams e uma capa de veludo?” Eles responderam: “Sim.” Ibn Wa’il disse: “Hoje vi-o comprando fiado alimento para sua montaria no mercado.” Eles responderam: “Ele distribuiu tudo antes que amanhecesse.” Depois, saiu levando a capa sobre os ombros; quando voltou para casa, vi que ela também não estava mais com ele. Quando lhe perguntaram, respondeu: “Doei-a a um pobre.” Ao ouvir isso, Ibn Wa’il correu para o mercado batendo palmas e, de um lugar elevado, gritou: “Ó comunidade de comerciantes! O que fareis com o mundo? Eis Ibn Umar: quatro mil dirhams chegaram às suas mãos, e ele os distribuiu. Depois, pela manhã, comprou fiado alimento para sua montaria.”

Assim, ele era a interpretação prática do versículo: “Lan tanalul birra hatta tunfiqu mimma tuhibbun” — jamais alcançareis a verdadeira bondade até que despendais daquilo que amais. Ele não fazia uma refeição sem levar consigo um ou dois pobres e necessitados. Muitas vezes repreendia os filhos quando convidavam os ricos para comer, mas não chamavam os pobres e necessitados com eles. Dizia: “Convidais os que estão de barriga cheia e deixais para trás os famintos.”

Ele era um comerciante bem-sucedido. Também possuía terras cultiváveis. Recebia uma pensão do Bayt al-Mal. Contudo, consumia muito pouco para si mesmo. Distribuía tudo. Certa vez, um amigo ofereceu-lhe um recipiente cheio. Ele perguntou: “O que é isto?” O amigo respondeu: “É um remédio. Trouxe-o do Iraque para você.” Ele perguntou novamente: “Quais são suas propriedades?” O amigo respondeu: “Aumenta a capacidade de digestão!” No entanto, há quarenta anos não faço uma refeição até ficar saciado.” Seria ele avarento ou necessitado? Não; a história não confirma isso. Ele agia assim por solidariedade e compaixão para com o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) e seu pai, Umar ibn al-Khattab.

Ele nutria um profundo amor pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quando o amado Profeta faleceu, seu coração ficou completamente despedaçado. Sempre que se lembrava das palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), começava a soluçar. Sempre que retornava de uma viagem a Medina, ia à Rawda Sagrada para oferecer saudações. Por amor ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), também amava profundamente seus familiares. Certa vez, um beduíno iraquiano perguntou-lhe sobre a expiação por matar uma mosca. Ele disse aos companheiros: “Vejam este homem. Ele pergunta sobre a expiação pelo sangue de uma mosca, embora tenham sido eles que martirizaram Husayn, o querido neto do Profeta.” Por causa de seu amor pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele também amava intensamente a cidade de Medina. Apesar de todas as dores e dificuldades, jamais pensou em deixar Medina.

Hazrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) sempre se abstinha de todas as ações que pudessem causar divisão entre a comunidade muçulmana. Era sincero e dizia a verdade. Contudo, às vezes permanecia calado quando percebia que poderia haver prejuízo para a comunidade muçulmana. Certa vez, Hazrat Amir Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele) afirmou: “Quem tem mais direito ao califado do que eu?” Embora Ibn Umar quisesse responder, não o fez por temor de fitna e conflito. Permaneceu calado. Do mesmo modo, em Mina, rezou quatro rak‘at atrás do califa Uthman, embora considerasse que, segundo a Sunna do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), de Abu Bakr e de Umar, ali se deveria fazer o qasr. Quando rezou sozinho, porém, rezou apenas duas rak‘at. Por receio de provocar divisão, rezou quatro rak‘at atrás de Uthman. Ele dizia: “Criar divisão é uma coisa má.” Dizia ainda: “Mesmo que toda a comunidade de Muhammad me reconheça como califa e apenas duas pessoas se recusem a reconhecê-lo, ainda assim não lutarei contra elas.”

Foi justamente por medo de provocar divisão que ele prestou bay‘a a todos os califas. Naquela época de fitna e conflitos, rezava atrás de todos os governantes e entregava-lhes o zakat. Contudo, essa obediência permanecia limitada aos limites da religião. Por isso, embora inicialmente rezasse atrás de Hajjaj, quando Hajjaj começou a atrasar a oração, Ibn Umar deixou de rezar atrás dele. Chegou até mesmo a deixar Meca e mudar-se para Medina.

Ibn Umar jamais temia dizer a verdade. Criticava abertamente os governantes da dinastia omíada. Certa vez, Hajjaj estava proferindo um sermão. Ibn Umar dirigiu-se a ele, dizendo: “Este homem é inimigo de Allah. Ele profanou o santuário de Meca, destruiu a Casa de Allah e matou os servos queridos de Allah.”

Em outra ocasião, Hajjaj prolongou tanto o sermão que a oração do ‘asr acabou atrasando. Ibn Umar gritou: “O horário da oração está terminando; conclua o discurso.” Depois de dizer isso três vezes, Umar dirigiu-se às pessoas presentes e perguntou: “Quando eu me levantar, vocês virão comigo?” As pessoas responderam: “Sim.” Ibn Umar levantou-se. Hajjaj desceu apressadamente do púlpito e conduziu a oração. Mais tarde, Hajjaj perguntou a Ibn Umar: “Por que você fez isso?” Ele respondeu: “Nós vamos à mesquita para rezar. Quando chega o horário da oração, ela deve ser conduzida imediatamente. Depois, você pode tagarelar quanto quiser.” Foi por causa dessa sua franqueza que os governantes tirânicos dos Banu Umayya tinham enorme temor dele.

O Islã eliminou todas as ações e características que levam à humilhação de alguém ou à sua exaltação indevida. Ibn Umar era um exemplo concreto dessa igualdade islâmica. Ele não aprovava de modo algum qualquer comportamento que pudesse criar distinções dentro dessa igualdade. Por isso, quando as pessoas se levantavam em sua homenagem, ele não se sentava. Também observava esse princípio de igualdade no modo como tratava seus servos e escravos. Ensinava-lhes a preservar o autorrespeito. Fazia-os sentar-se com ele para comer. Acreditava que não cuidar da alimentação e da roupa dos escravos era um grande pecado. Salim disse que, em toda a sua vida, Ibn Umar jamais repreendeu um escravo, exceto uma única vez. Certa vez, bateu em um escravo por algum motivo. Depois de bater nele, arrependeu-se tanto que o libertou.

A humildade e a modéstia eram características marcantes de seu caráter. Ele detestava ouvir elogios a seu respeito. Certa vez, um homem jogou terra em seu rosto. Então Ibn Umar lhe recitou o hadith do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Joguem terra no rosto dos que elogiam.” Cumprimentava com salam a todos, pequenos e grandes, sem fazer distinção. Se, durante o caminho, esquecesse de cumprimentar alguém, voltava para oferecer-lhe salam. Mesmo quando ouvia palavras extremamente ofensivas, suportava-as e não respondia. Certa vez, um homem o insultou usando linguagem grosseira. Em resposta, ele apenas disse: “Eu e meu irmão somos de uma linhagem muito nobre.” E permaneceu calado.

Na biografia de Ibn Umar, vemos que sua situação financeira era extremamente próspera. Ele distribuía milhares de dirhams entre os pobres e necessitados em uma única reunião. Entretanto, o valor total dos móveis de sua própria casa não ultrapassava cem dirhams. Maymun ibn Mihran disse: “Entrei na casa de Ibn Umar e calculei o preço dos cobertores, colchões, roupas de cama e outros objetos. No total, não ultrapassavam cem dirhams.” Ele levava uma vida simples e sem ostentação. Fazia seus próprios trabalhos com as próprias mãos. Não gostava de aceitar a ajuda de outra pessoa para realizar suas tarefas.

Na época de Umar, quando foram fixadas as pensões de todos os Companheiros, a pensão de Ibn Umar foi estabelecida em dois mil e quinhentos dirhams. Em contrapartida, a pensão de Usama ibn Zayd foi fixada em três mil dirhams. Ibn Umar protestou contra essa disparidade diante de seu pai, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), dizendo: “Quando em nenhum aspecto sou inferior a ele, e o senhor, como pai dele, não é inferior ao pai dele, qual é a razão dessa diferença?” Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Disseste a verdade. Porém, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amava o pai dele mais do que o teu pai, e amava a ele mais do que a ti.” Ao ouvir a resposta, Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou em silêncio.

Suas características morais e virtudes não podem ser descritas e apresentadas neste breve artigo. Certo tabi‘i comentou a respeito dele: “Se eu desse testemunho de que alguém era habitante do Paraíso, certamente daria esse testemunho em favor de Ibn Umar.”

Abdullah ibn Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Abdullah e sua kunya, Abu Muhammad. Seu pai era Jahsh e sua mãe, Umayma. Ele tinha laços de parentesco com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por vários lados. Sua mãe, Umayma bint Abd al-Muttalib, era tia paterna do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Sua irmã, a Mãe dos Crentes Zaynab bint Jahsh, era esposa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Assim, ele era simultaneamente primo paterno e cunhado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

A História não registra nenhuma informação sobre seu ano de nascimento. Contudo, quando sofreu o martírio na Batalha de Uhud, no terceiro ano da Hégira, tinha pouco mais de quarenta anos. Com base nisso, pode-se dizer que nasceu em Meca vinte e quatro ou vinte e cinco anos antes de o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) receber a missão profética. Na época da ignorância, ele era aliado de Harb ibn Umayya, ligado a ele por um pacto de aliança. Alguns, porém, mencionaram os Banu Abd Shams como seus aliados. Na realidade, não há contradição entre os dois relatos, pois Harb ibn Umayya era membro dos Banu Abd Shams.

O honorável Abdullah foi um dos “sābiqūn ilā al-islām”, isto é, um dos primeiros a abraçar o Islam. Ele aceitou o Islam antes mesmo de o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se refugiar na Casa de al-Arqam.

Após abraçar o Islam, ele e seu clã não foram poupados da opressão e das perseguições dos coraixitas. Por essa razão, emigrou duas vezes para a Abissínia. Na última emigração, todos os membros de sua família estavam com ele: seus dois irmãos, Abu Ahmad e Ubaydullah; suas três irmãs, Zaynab, Umm Habiba e Hamna; e a esposa de Ubaydullah, Umm Habiba bint Abu Sufyan. Ao chegar à Abissínia, seu irmão Ubaydullah abandonou o Islam, adotou o cristianismo e morreu ali como apóstata.

Por ter abandonado o Islam, sua esposa, Umm Habiba, separou-se dele e, posteriormente, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou-se com ela, conferindo-lhe a posição de esposa. (Al-Isaba, 2/272.) Depois de permanecer algum tempo na Abissínia, o honorável Abdullah voltou a Meca com os demais membros de sua família. Ao retornar a Meca, descobriu que todos os membros de seu clã, os Banu Ghanam, haviam abraçado o Islam. Com a permissão do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), levou todos consigo e emigrou para Medina. Antes deles, o honorável Abu Salama já havia emigrado para Medina. Como mencionei anteriormente, todos os membros de seu clã haviam abraçado o Islam; ele levou consigo todos, sem distinção entre jovens e idosos, homens e mulheres, e chegou a Medina. Não deixou sequer uma pessoa dos Banu Ghanam em Meca.

Pouco depois de eles partirem de Meca, os líderes coraixitas, como Utba, Abu Jahl e outros, saíram de suas casas em direção ao bairro de Banu Ghanam. Seu objetivo era verificar quem do clã de Ghanam havia partido e quem havia ficado. Constataram que todo o bairro estava deserto. A porta de algumas casas estava aberta, enquanto outras estavam trancadas. Ao ver aquilo, Utba comentou: “As casas de Banu Jahash estão completamente vazias, como se estivessem de luto por seus moradores.” Ao ouvir isso, Abu Jahl começou a saquear a casa de Abdullah ibn Jahash. Saqueou os pertences à vontade. Entre todas as casas do bairro, a de Abdullah era a mais bela e suntuosa. Quando Abdullah mencionou ao Mensageiro de Allah que Abu Jahl havia saqueado sua casa, ele o consolou, dizendo: “Abdullah, não estás satisfeito por que, em troca disso, Allah te concederá uma casa no Paraíso?” Ele respondeu: “Certamente, ó Mensageiro de Allah.” O Mensageiro disse: “É isso que receberás.” Abdullah ficou feliz.

Depois de chegar a Medina, toda a família de Abdullah foi acolhida por Asim ibn Thabit al-Ansari. Mais tarde, o Mensageiro de Allah estabeleceu entre os dois uma relação de fraternidade, ou mu’akhāt.

No mês de Rajab do segundo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah selecionou um grupo de oito Companheiros. Entre esses oito estavam Abdullah ibn Jahash e Sa’d ibn Abi Waqqas. Dirigindo-se a todos, o Mensageiro de Allah disse: “Farei comandante aquele dentre vós que for o mais paciente diante da fome e da sede.” Em seguida, nomeou Abdullah como comandante. Assim, Abdullah alcançou a honra de ser o primeiro comandante de um grupo de crentes. O Mensageiro de Allah indicou-lhe o caminho da viagem e entregou-lhe uma carta selada, dizendo: “Não abras esta carta antes de dois dias. Depois de viajarem por dois dias, abre-a, lê-a e age de acordo com as instruções nela contidas.”

Hazrat Abdullah partiu de Medina com seus companheiros. Depois de viajarem por dois dias, abriu e leu a carta conforme a instrução. A carta ordenava que chegassem a um lugar chamado Nakhla, entre Meca e Taife, e obtivessem informações sobre os movimentos dos coraixitas e outras circunstâncias. Ele aceitou essa ordem com extrema devoção e reverência. Dirigindo-se aos companheiros, disse: “Amigos, cumprirei a ordem do Mensageiro de Allah. Aquele dentre vós que desejar o martírio pode ir comigo, e quem não gostar disso pode voltar. Não obrigarei ninguém.” Ao ouvirem esse discurso, todos expressaram o desejo de acompanhá-lo. Ao chegarem a Nakhla, começaram a observar atentamente os movimentos dos coraixitas. Certo dia, uma caravana comercial dos coraixitas passava por aquele caminho. Havia quatro pessoas na caravana: Amr ibn al-Hadrami, Hakam ibn Kaisan, Uthman ibn Abdullah e Mughirah, irmão de Uthman. Eles transportavam mercadorias como couro, passas e outros produtos.

Abdullah ibn Jahash consultou seus companheiros sobre atacar ou não a caravana. Aquele era o último dia dos meses sagrados. Convém mencionar que Dhu al-Qi’dah, Dhu al-Hijjah, Muharram e Rajab são os quatro meses sagrados. Desde os tempos antigos, os árabes consideravam proibidos nesses meses a guerra e o derramamento de sangue. Eles refletiram que, se atacassem a caravana naquele dia, o fariam durante um mês sagrado. Por outro lado, se não a atacassem naquele dia e esperassem até o dia seguinte, a caravana chegaria aos limites do território sagrado de Meca. O santuário de Meca é um lugar seguro para todos. Atacá-los ali seria cometer um ato proibido. Depois da consulta, decidiram atacar. Lançaram um ataque surpresa, mataram o líder da caravana, Amr ibn al-Hadrami, capturaram Uthman ibn Abdullah e Hakam ibn Kaisan, enquanto o outro homem fugiu. Obtiveram muitas mercadorias como espólio de guerra. Abdullah ibn Jahash reservou um quinto do espólio obtido para Allah e Seu Mensageiro e distribuiu igualmente as quatro partes restantes entre seus companheiros. Naquele momento, ainda não havia regras estabelecidas para a distribuição do espólio. Contudo, o ijtihad de Abdullah estava correto. Mais tarde, foi revelado no Alcorão o versículo sobre o khumus (um quinto), confirmando sua decisão.

Hazrat Abdullah ibn Jahash foi a Medina apresentar-se ao Mensageiro de Allah com um quinto do espólio. O Mensageiro recusou-se a recebê-lo. Ele disse: “Eu não te ordenei que derramasses sangue durante um mês haram, ou seja, proibido.”

Os demais muçulmanos também censuraram Abdullah por sua ousadia e excesso. Os coraixitas começaram a divulgar amplamente o incidente. Diziam por toda parte: “Os Companheiros de Muhammad tornaram lícitos os meses sagrados. Eles profanaram esses meses matando e derramando sangue.” Hazrat Abdullah e seus companheiros ficaram em grande dificuldade. Temendo terem desobedecido ao Mensageiro de Allah, ficaram apavorados. Começaram a ser consumidos pelo remorso. Por fim, Allah, o Altíssimo, revelou o seguinte versículo do Alcorão, manifestando Sua aprovação da ação deles: “Perguntam-te sobre o combate no mês sagrado. Dize: combater nele é um grande pecado. Porém, impedir o caminho de Allah, descrer nEle, impedir o acesso à Mesquita Sagrada (a Caaba) e expulsar dela seus habitantes é ainda mais grave aos olhos de Allah. E a perseguição é pior do que o homicídio.” (Al-Baqarah, 217)

Depois da revelação desse versículo do Alcorão, eles respiraram aliviados. Os muçulmanos foram em grupos felicitá-los e abraçá-los. O Mensageiro de Allah ficou satisfeito com eles, aceitou deles a parte do espólio e libertou os dois prisioneiros mediante o pagamento de resgate.

Na verdade, o acontecimento envolvendo Abdullah ibn Jahsh e seus companheiros foi um acontecimento de grande importância na vida dos muçulmanos. O butim que obtiveram foi o primeiro butim do Islã; o homem morto por suas mãos foi o primeiro mushrik, ou politeísta, morto pelas mãos de muçulmanos; os dois prisioneiros capturados por eles foram os primeiros prisioneiros capturados pelos muçulmanos; a bandeira que lhes foi entregue foi a primeira bandeira erguida pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); e o comandante desse grupo, Abdullah ibn Jahsh, foi o primeiro comandante a ser chamado de Amir al-Mu’minin. Abdullah ibn Jahsh foi também a primeira pessoa a instituir o khums no tocante ao butim, prática que Allah confirmou ao revelar uma revelação. (Al-Istiaab)

O honorável Abdullah ibn Jahsh participou das batalhas de Badr e Uhud. O honorável Sa’d ibn Abi Waqqas narrou: um dia antes da batalha de Uhud, Abdullah e eu fizemos du’a. Eu disse: “Ó Allah, faze com que o inimigo que lutará contra nós amanhã seja extremamente corajoso e irascível, para que eu possa matá-lo em Teu caminho e tomar suas armas.” Ao ouvir minha du’a, Abdullah disse: “Amin.” Então, levantando as mãos, ele fez du’a: “Ó Allah, concede-me um adversário que seja extremamente corajoso e se enfureça rapidamente. Lutarei contra ele em Teu caminho. Ele me matará, cortará meu nariz e minhas orelhas. Quando eu me encontrar Contigo e Tu perguntares: ‘Abdullah, como teu nariz e tuas orelhas foram cortados?’, responderei: ‘Por Tua causa e pela causa de Teu Mensageiro.’” Era como se ele pudesse ver por meio de uma visão sobrenatural que seu desejo estava prestes a ser realizado. Por isso, repetidamente jurava, dizendo: “Ó Allah, juro por Teu nome que lutarei contra o inimigo, e ele me matará, cortará meu nariz e minhas orelhas e me desfigurará.” (Usd al-Ghaba)

No mês de Shawwal do terceiro ano da Hégira, começou uma batalha intensa na planície de Uhud. O honorável Abdullah ibn Jahsh lançou um ataque tão impetuoso que sua espada se partiu em pedaços. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu-lhe um bastão feito de um ramo de tamareira. Ele continuou lutando com ele durante muito tempo. Então, com um golpe violento de Abu al-Hakam ibn Akhnas al-Thaqafi, seu desejo de alcançar o martírio foi realizado. Os mushrikun mutilaram seu corpo: cortaram-lhe o nariz e as orelhas e os enfiaram num cordão, como contas de um colar. Ao ver aquela cena, o honorável Sa’d exclamou: “Juro por Allah, a súplica de Abdullah foi melhor que a minha.”

Ele viveu pouco mais de quarenta anos. Foi sepultado no mesmo túmulo que seu tio materno, o honorável Hamza, Sayyid al-Shuhada.

Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nomeou Abdullah como comandante e o enviou à expedição de Nakhlah, disse a seus companheiros: “Embora Abdullah ibn Jahsh não seja o melhor entre vocês, é quem suporta melhor o sofrimento da fome e da sede.” O amor por Allah e por Seu Mensageiro fez com que ele se desprendesse de tudo neste mundo. Seu único desejo era oferecer sua preciosa vida no caminho de Allah. Esse desejo foi realizado. Ele recebeu o honroso título de “Al-Mujadda fi Allah” — aquele cujas orelhas foram cortadas no caminho de Allah. Durante a batalha de Badr, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) consultou Abu Bakr, Umar e Abdullah ibn Jahsh sobre os prisioneiros.

Abdullah ibn Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Abdullah; suas kunyas eram Abu Muhammad, Abu Abd al-Rahman e Abu Nusayr. Contudo, as duas primeiras kunyas eram as mais conhecidas. Seu pai era o célebre comandante militar e diplomata, o honorável Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele), e sua mãe era Rita bint Munabbih. Foi narrado que o nome de Abdullah antes do Islã era al-As (pecador, desobediente). Abu Zur’a mencionou em seu Tarikh que, durante uma cerimônia funerária, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhe perguntou: “Qual é o teu nome?” Quando ele respondeu: “Al-As”, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não; a partir de hoje, teu nome será Abdullah.” A partir daquele dia, al-As tornou-se Abdullah.

Ibn Sa’d diz que Abdullah aceitou o Islã antes de seu pai, Amr ibn al-As. Segundo diversas fontes, seu pai Amr era apenas dez a doze anos mais velho que seu filho Abdullah. Contudo, segundo al-Waqidi, o pai era vinte anos mais velho que o filho. (Tadhkirat al-Huffaz, al-Isaba, al-Istiaab) Pai e filho emigraram para Medina antes da conquista de Meca. Depois de aceitar o Islã, Abdullah passava a maior parte do tempo na companhia e convivência do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele registrava tudo o que saía da boca do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), tanto quando ele estava irado quanto quando estava calmo. Alguns Companheiros pediram-lhe que não fizesse isso, dizendo que não se deveria registrar tudo o que saía da boca do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quando ele estivesse exaltado. Ele apresentou a questão ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), que disse: “Podes escrever todas as minhas palavras. Não digo nada além da verdade.” (Musnad de Ahmad, al-Istiaab) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amava Abdullah mais do que a seu pai, Amr, e Abdullah tinha grande importância aos olhos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Depois do tempo que Abdullah passava na companhia do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), todo o tempo restante era quase inteiramente dedicado ao jejum durante o dia e à adoração durante a noite. Gradualmente, ele se habituou tanto a essas práticas que se tornou indiferente à esposa, à família e a tudo deste mundo. Nessa situação, seu pai apresentou-se diante do Mensageiro de Allah e queixou-se de sua vida ascética e anormal. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou Abdullah e ordenou-lhe que obedecesse ao pai. Disse: “Abdullah, jejua e quebra o jejum, reza, descansa e cumpre também os direitos de tua esposa e de tua família. Este é o meu caminho. Quem rejeitar o meu caminho não será contado entre os membros da minha comunidade.”

Abdullah participou de todas as guerras travadas durante a época do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Durante as guerras, geralmente cabia a ele providenciar os animais de montaria e cuidar do transporte dos suprimentos. Certa vez, um homem perguntou-lhe: “Abu Muhammad, no lugar onde vivemos não circulam dirhams nem dinares. Os animais domésticos e o gado são nossa principal riqueza. Compramos e vendemos camelos em troca de cabras. Há alguma objeção a isso?” Ele respondeu: “Certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que se formasse uma tropa de cavaleiros montados em camelos. Distribuí, um por um, todos os camelos que possuía. Ainda assim, restaram algumas pessoas sem montaria. Apresentei-me diante do Mensageiro de Allah e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, depois de distribuir todos os camelos que possuía, ainda restou um grupo de pessoas.’ O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou: ‘Adquire alguns camelos, comprometendo-te a dar dois ou três camelos como caridade em troca de cada camelo.’ Assim, reuni os camelos necessários. (Dar Qutni)

Ele lutou com grande bravura na batalha de Yarmuk. Nessa batalha, o honorável Amr ibn al-As entregou a Abdullah o estandarte de comando.

Em Siffin, o honorável Amr ibn al-As estava do lado do honorável Muawiya. Ele obrigou seu filho Abdullah a juntar-se ao exército de Muawiya. Na realidade, sentia profunda aversão por essa guerra civil. Por isso, embora tivesse se juntado ao lado de Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele), na prática não participou de modo algum dos combates. Repetidamente, pressionou o pai a manter-se afastado daquela guerra suicida. (Tadhkirat al-Huffaz)

O honorável Ammar ibn Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele) juntou-se ao lado do honorável Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) em Siffin e foi martirizado. O martírio de Ammar fez Abdullah recordar uma declaração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele perguntou a seu pai, Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele): “Você não ouviu o Mensageiro de Allah dizer: ‘Ai de Ibn Sumayya (Ammar)! Um grupo rebelde o matará’?” Ao ouvir isso, Amr ibn al-As olhou para o honorável Muawiya e disse: “Você não está ouvindo o que Abdullah está dizendo?” Explicando as palavras de Abdullah, Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Ele sempre traz problemas novos. Fomos nós que matamos Ammar? Na verdade, a responsabilidade por sua morte cabe àqueles que o tiraram de sua casa e o trouxeram para cá.” (Musnad Ahmad)

Dois homens atacaram o honorável Ammar (que Allah esteja satisfeito com ele) simultaneamente e o mataram. Eles compareceram diante do honorável Muawiya discutindo e reivindicando individualmente a honra desse feito. Por acaso, o honorável Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) estava presente. Ao ouvir a discussão, disse: “Um de vocês dois deveria aceitar de bom grado a reivindicação do outro, pois ouvi o Mensageiro de Allah dizer: ‘Um grupo rebelde matará Ammar.’” Segundo outro relato, ele disse ao honorável Muawiya: “Dê ao assassino de Ammar a boa notícia do Inferno.” Ao ouvir isso, o honorável Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele), irritado, disse a seu pai: “Amr, você não vai afastar da minha presença esse seu filho louco?” Então ele próprio perguntou a Abdullah: “Se é assim, por que você está comigo?” O honorável Abdullah respondeu: “Porque o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou-me que, enquanto eu vivesse, obedecesse a meu pai.”

Embora suas mãos não tenham sido manchadas nessa guerra suicida de Siffin, ele passou o resto da vida atormentado pelo remorso por ter participado dela. Dizia frequentemente: “Ah, se eu tivesse morrido dez anos antes disso!” Por ter apoiado o honorável Muawiya e por ter carregado seu estandarte, passou toda a vida em arrependimento e buscando o perdão de Allah. (Al-Istiab)

O honorável Raja (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Certa vez, eu estava sentado com um grupo de pessoas na Mesquita do Profeta. Abdullah ibn Amr e Abu Said al-Khudri também estavam presentes. Ao ver o honorável Imam Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele) chegar, Abdullah exclamou: ‘Posso contar-lhes algo sobre esse homem?’ As pessoas responderam: ‘Por que não?’ Ele disse: ‘Desde a batalha de Siffin, não troquei nenhuma palavra com ele. Contudo, sua satisfação é mais preciosa para mim do que tudo o que existe neste mundo.’ Abu Said al-Khudri perguntou: ‘Você deseja ir até ele e apresentar sua defesa?’ Ele respondeu: ‘Sim!’ No dia seguinte, Abu Said al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) levou-o consigo à casa do honorável Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele). A princípio, o honorável Husayn hesitou em recebê-lo. Mais tarde, devido à insistência de Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele), consentiu. Explicando as circunstâncias de sua participação em Siffin, ele disse: ‘Em obediência à ordem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não desembainhei minha espada, não feri ninguém com uma lança nem atirei uma única flecha.’ (Usd al-Ghaba)” }]}],

Em termos de conhecimento e dignidade, Hazrat Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) ocupava uma posição especial entre todos os Companheiros. Além de sua língua materna, o árabe, era versado em hebraico. Estudara profundamente a Torá e o Evangelho. Ele disse: “Vi em sonho que, em uma mão, tinha mel e, na outra, gordura, e que os comia lambendo-os.” Contei esse sonho ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele disse: “Tu lerás dois livros: a Torá e o Alcorão.” (Al-Isaba)

Hazrat Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) reuniu uma grande parte das palavras proferidas pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Deu à sua coletânea o nome de “Sadiqa”. Quando lhe perguntavam sobre algum assunto e ele não encontrava nada sobre isso em sua memória, consultava a referida “Sadiqa” e respondia. (Musnad Ahmad) Essa coletânea lhe era extremamente querida. Mujahid relata: certa vez, comecei a examinar um livro que havia tirado debaixo de sua cama. Ele me proibiu. Eu disse: “O senhor nunca me proíbe de nada. Por que está fazendo isso hoje?” Ele respondeu: “Este é o livro da verdade, que eu mesmo ouvi do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e reuni.” Disse ainda: “Se me fossem dados este livro, o Alcorão Sagrado e aquela propriedade de Wahaj, eu não precisaria de mais nada neste mundo.”

O número de hadiths narrados por Hazrat Abdullah ibn Amr era de setecentos. Dentre eles, dezessete foram narrados conjuntamente por Bukhari e Muslim; oito, exclusivamente por Bukhari; e vinte, exclusivamente por Muslim. (Tahdhib)

O círculo de aulas de hadith de Hazrat Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) era muito amplo. Pessoas vinham de lugares distantes para ouvi-lo. Além disso, onde quer que fosse, grandes grupos de pessoas sedentas de conhecimento se reuniam ao seu redor. Um xeique nakha’i relata: “Certa vez, fiz a oração em congregação na mesquita de Iliya. Um homem veio e ficou ao meu lado. Depois da oração, pessoas de todos os lados se aproximaram e se sentaram ao seu redor. Ao perguntar, descobri que ele era Abdullah ibn Amr ibn al-As.”

Hazrat Abdullah amava profundamente seus alunos. Também nutria grande respeito pelos sábios de sua época. Certa vez, mencionaram diante dele Hazrat Abdullah ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: “Mencionastes um homem a quem amo desde o dia em que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Adquiri o conhecimento do Alcorão com quatro pessoas’, e pronunciou em primeiro lugar o nome de Abdullah ibn Mas’ud.”

Hazrat Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou hadiths de numerosos Companheiros, entre eles Umar, Abu al-Darda, Mu’adh, Abd al-Rahman ibn Awf e seu pai, Amr, entre outros. Abu Nu’aym disse: “Entre os Companheiros, Ibn Umar, Abu Umama, Miswar, Sa’ib ibn Yazid e Abu al-Tufayl, além de numerosos ilustres tabi’in, narraram hadiths dele.” (Al-Isaba)

Abdullah ibn Amr era especialmente famoso por sua taqwa, piedade e devoção intensa. Na história, recebeu títulos como o de orante, penitente e devoto, entre outros. Assim como seu pai, Amr, era um mestre em inteligência, astúcia e estratégia, ele era a figura central entre os devotos, ascetas e francos. Dedicou toda a sua vida à adoração. À medida que o Alcorão era revelado, memorizava cada parte; quando a revelação terminou, tornou-se também um hafiz de todo o Alcorão. Era sempre visto na primeira fileira no campo do jihad. Quando o jihad armado terminava, era visto na mesquita: jejuava durante o dia e adorava durante a noite. Permanecia absorto na recitação do Alcorão e do tasbih, ou no arrependimento e no istighfar. Em suma, quando não havia um chamado ao jihad, passava as vinte e quatro horas imerso no jejum, na oração e na recitação.

Por natureza, ele tendia ao ruhbaniyyat, ou ascetismo. Certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou-o e disse: “Abdullah, soube que decidiste passar toda a vida jejuando durante o dia e adorando durante a noite.” Ele respondeu: “Sim, ó Mensageiro de Allah.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não tens forças para isso. Jejua, mas também quebra o jejum; ora, mas também descansa. Jejua apenas três dias por mês, pois cada boa ação recebe uma recompensa dez vezes maior.” Ele pediu: “Tenho forças para mais do que isso.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Jejuarás um dia e quebrarás o jejum por dois dias.” Ele voltou a pedir: “Tenho forças para mais do que isso.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Jejuarás um dia e quebrarás o jejum no dia seguinte. Esse é o método de Hazrat Dawud (que a paz esteja sobre ele) e esse é o melhor método de jejum.” Ele voltou a pedir: “Posso jejuar de maneira ainda melhor.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não há jejum melhor do que esse.” Em outra ocasião, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi à sua casa e disse: “Teu corpo, teus olhos, tua família e teus amigos têm direitos sobre ti.”

Durante toda a sua vida, ele seguiu Davi (que a paz esteja sobre ele) no jejum e passou a maior parte das noites em adoração. Tinha tanto interesse pela recitação do Alcorão que o completava uma vez a cada três dias. Contudo, no fim da vida, tamanha adoração tornou-se penosa para ele. Às vezes, dizia pesaroso: “Ai de mim! Se ao menos eu tivesse aceitado a ‘rukhṣah’, ou seja, a permissão dada pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para reduzir isso.” (Al-Isabah)

Vendo a indiferença de Abdullah em relação ao mundo, seu pai, ’Amr ibn al-’As, queixava-se frequentemente dele ao Mensageiro de Allah. Certo dia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tomou a mão de Abdullah e a colocou na mão de seu pai, dizendo: “Faça o que eu lhe digo e obedeça ao seu pai.” [Rijalun Hawla ar-Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)] Abdullah obedeceu ao pai durante toda a vida. Por ordem dele, portanto, foi a Siffin ao lado de Muawiya.

O nobre ’Amr ibn al-’As (que Allah esteja satisfeito com ele) recebeu, como herança paterna, uma enorme propriedade e muitos escravos e escravas. A concessão de terras chamada ‘Wahaj’, em Ta’if, que ele recebeu, valia cerca de um milhão de dirhams. (Usud al-Ghabah) A terra era cultivada em seu nome. Certa vez, surgiu uma disputa por essa concessão com ’Anbasah ibn Sufyan. A situação esteve prestes a resultar em derramamento de sangue entre as duas partes. O irmão de Abdullah, o nobre Khalid ibn al-’As, foi até ele para aconselhá-lo. Ele disse a Khalid: “Aquele que for morto ao proteger ou defender sua propriedade é um mártir — você não se lembra desta palavra do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?” (Musnad Ahmad)

Há divergências entre os biógrafos quanto ao ano e ao local da morte do nobre Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele). Os historiadores também não chegaram a um consenso sobre sua idade ao morrer. Quanto ao local de sua morte, são mencionados Sham, Meca, Ta’if e o Egito; quanto ao ano, 65, 68 e 69 da Hégira. Contudo, segundo a opinião mais difundida, ele faleceu no ano 65 da Hégira, na cidade de Fustat, no Egito, aos 72 anos. Naquela época, travava-se uma intensa batalha entre os exércitos de Marwan ibn al-Hakam e Abdullah ibn az-Zubayr, razão pela qual não foi possível levar seu corpo ao cemitério público. Ele foi sepultado em sua própria residência. (Al-Isabah, Tadhkirat al-Huffaz)

Miqdad ibn ’Amr (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Miqdad; suas kunyas eram Abu al-Aswad, Abu ’Amr e Abu Sa’id. Seu pai era ’Amr ibn Tha’labah. A terra de origem de seus antepassados era ‘Bahara’. Ibn al-Kalbi narra que ’Amr, pai de Miqdad, matou um homem de sua tribo e, temendo o qisās, ou retaliação, fugiu para Hadramaut e firmou uma aliança com Kinda. Por isso, foi chamado de ‘al-Kindi’. Ele se casou com uma mulher de Hadramaut, e foi do ventre dela que ‘Miqdad’ nasceu. Miqdad cresceu nesse mesmo Hadramaut. Ali, envolveu-se em uma briga com um homem chamado Abu Shammar ibn Hajar al-Kindi e, com um golpe de espada, decepou-lhe uma perna. Depois, fugiu para Meca. Em Meca, passou a viver aliado a al-Aswad ibn ’Abd Yaghuth. Sua relação com al-Aswad tornou-se tão afetuosa e íntima que este o adotou como filho. Assim, ele passou a ser conhecido como Miqdad ibn al-Aswad (Miqdad, filho de al-Aswad). Mais tarde, quando foi revelado o versículo do Sagrado Alcorão “Udu’hum li-aba’ihim” (“Chamem-nos pelos nomes de seus pais”), ele passou a usar o nome ‘Miqdad ibn ’Amr’ (Miqdad, filho de ’Amr), em vez de al-Aswad. Por isso, na história, às vezes é mencionado como Miqdad ibn ’Amr e outras vezes como Miqdad ibn al-Aswad. (Al-Isabah, Usud al-Ghabah)

Pouco depois de Miqdad se refugiar em Meca, a voz do tawhid chegou aos seus ouvidos. O convite e a pregação do nobre Mensageiro de Allah foram seu primeiro contato com o Islã. Isso ocorreu numa época em que os inimigos ferrenhos do Islã infligiam torturas brutais aos muçulmanos. Temendo-os, muitos mantinham secreta sua conversão ao Islã. Miqdad, porém, depois de aceitar o Islã, não considerou correto ocultar a verdade. Ele foi um dos sete primeiros homens que, naquele momento de extremo terror, declararam publicamente sua fé. Os outros seis eram o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abu Bakr, ’Ammar, sua mãe Sumayyah, Suhayb e Bilal (que Allah esteja satisfeito com eles). (Hayatus Sahabah-1/218)

Ele se casou com Dubayah bint az-Zubayr ibn ’Abd al-Muttalib, prima do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). É narrado que, certo dia, ele estava sentado com ’Abd ar-Rahman ibn Awf. De repente, ’Abd ar-Rahman perguntou: “Miqdad, por que você não se casa?” Miqdad respondeu prontamente e com simplicidade: “Então dê sua filha em casamento a mim.” Com essas palavras, ’Abd ar-Rahman sentiu-se insultado. Ficou furioso e insultou Miqdad duramente. Miqdad foi ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e queixou-se de ’Abd ar-Rahman. O Mensageiro disse: “Eu mesmo providenciarei seu casamento.” Em seguida, casou Miqdad com sua prima Dubayah. (Al-Isabah)

Depois de declarar publicamente sua adesão ao Islã, uma calamidade caiu sobre Al-Miqdad. Com a permissão do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele migrou para a Abissínia. Após permanecer ali por algum tempo, voltou novamente a Meca. Naquela época, a migração para Medina havia se intensificado. Devido a algumas dificuldades específicas, ele não pôde migrar para Medina. Mesmo depois da migração do Mensageiro de Allah para Medina, ele permaneceu em Meca. Quando ocorreu um confronto temporário entre Meca e Medina, ele e Utba ibn Ghazwan partiram em direção a Medina como membros de um grupo avançado de reconhecimento dos coraixitas. O comandante desse exército era Ikrima ibn Abi Jahl. No caminho, ocorreu um pequeno confronto entre eles e um grupo de mujahidin de Medina. O líder ou comandante desse grupo muçulmano de mujahidin era o honorável Ubaida ibn al-Harith (que Allah esteja satisfeito com ele). Aproveitando a oportunidade, Al-Miqdad e Utba ibn Ghazwan juntaram-se ao grupo dos mujahidin muçulmanos e chegaram a Medina com eles. Em Medina, foram hóspedes do honorável Kulthum ibn Hidam. (Usud al-Ghaba) Quando, a pedido do honorável Ubayy ibn Ka’b (que Allah esteja satisfeito com ele), Al-Miqdad manifestou o desejo de residir entre os Banu Adila (segundo outra versão, Jadila), o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) doou-lhe um pedaço de terra naquela região.

No segundo ano da Hégira, começou o primeiro confronto militar direto entre o politeísmo e o monoteísmo. Nesse mesmo ano, o exército coraixita chegou à planície de Badr. Para os Companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), aquela era a primeira prova. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quis consultar os Companheiros sobre o assunto e testar a sua fé. Companheiros como o honorável Abu Bakr, o Veracíssimo, e o honorável Umar, o Grande, proferiram discursos expressando o desejo de dar um exemplo ímpar de sacrifício e abnegação. O honorável Al-Miqdad também estava presente nessa reunião. Ele fez um discurso comovente. Nesse discurso, tranquilizou o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), dizendo: “Ó Mensageiro de Allah, avance para cumprir a ordem que Allah lhe deu. Estamos com você. Por Allah, os filhos de Israel disseram ao seu profeta Moisés: ‘Vá você e seu Senhor, os dois, e lutem; nós ficaremos sentados aqui’ — nós não lhe diremos algo assim. Pelo contrário, diremos: ‘Vá você e seu Senhor, os dois, e lutem contra eles; nós também lutaremos com vocês contra eles’. Pelo Ser que o enviou com a verdade, se você nos levar até Bark al-Ghimad, iremos com você e lutaremos contra o seu inimigo. Lutaremos à sua direita, à sua esquerda, à sua frente e atrás de você, de todos os lados, até que Allah lhe conceda a vitória.” (Rijalun Hawla ar-Rasul) Ao ouvir esse discurso comovente, o rosto abençoado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) iluminou-se de alegria.

A batalha de Badr começou. Nessa batalha, havia apenas três cavaleiros entre os mujahidin muçulmanos: Al-Miqdad ibn Amr, Murthid ibn Abi Murthid e Az-Zubayr ibn al-Awwam. Todos os demais eram combatentes a pé ou montados em camelos. Contudo, segundo várias narrações, Al-Miqdad foi o único mujahid montado a cavalo nessa batalha. Por isso se disse: “Al-Miqdad foi o primeiro a fazer seu cavalo correr no caminho de Allah”.

Além de Badr, ele participou de todas as batalhas importantes, incluindo Uhud e a batalha da Trincheira, demonstrando o máximo de bravura. No ano 20 da Hégira, o honorável Amr ibn al-As conduziu a campanha do Egito. Ele enviou uma solicitação à capital, Medina, pedindo reforços militares. O califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou dez mil soldados e quatro oficiais. Um desses quatro era Al-Miqdad ibn Amr. Em uma carta, o califa informou a Amr ibn al-As: “Cada um desses quatro equivale a dez mil soldados do lado inimigo”. Após a chegada desses soldados, em pouquíssimo tempo a bandeira do Islã foi hasteada em todo o Egito.

Os politeístas de Meca mataram o honorável Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele), crucificando-o. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Az-Zubayr e Al-Miqdad para retirar o corpo de Khubayb da cruz durante a escuridão da noite. Quando retiraram o corpo da cruz, colocaram-no sobre o cavalo e partiram, os coraixitas perceberam e começaram a persegui-los. (Hayat as-Sahaba)

O abdômen do honorável Al-Miqdad era muito volumoso. Por isso, na velhice, ele começou a sofrer intensamente. Para aliviar esse sofrimento, um de seus escravos romanos realizou uma cirurgia em seu abdômen, mas ela fracassou. Nessa situação, ele faleceu no ano 33 da Hégira, no lugar chamado Juruf, a três milhas de Medina. O Comandante dos Crentes, o honorável Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), conduziu sua oração fúnebre. Seu corpo foi sepultado no cemitério de Baqi, em Medina. Ao morrer, tinha aproximadamente 70 anos.

No honorável Al-Miqdad desenvolveram-se as melhores qualidades de caráter. A devoção e a emoção sincera que ele demonstrou durante a batalha de Badr fizeram com que toda a comunidade dos Companheiros passasse a invejá-lo. O honorável Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) costumava dizer: “Que pena! Se eu tivesse naquela época idade suficiente para participar da batalha de Badr e as palavras de Al-Miqdad tivessem saído da minha boca”. O honorável Abdullah ibn Masud disse: “Eu estava com Al-Miqdad na batalha de Badr. Ter estado com ele nessa batalha é tão querido para mim que, em comparação, tudo no mundo é absolutamente insignificante”. A extrema pobreza e a privação dos primeiros tempos do Islã fizeram dele uma pessoa muito mais paciente e realista. Ele disse: “Quando cheguei a Medina após a Hégira, não tinha qualquer lugar certo para morar nem alimento assegurado. A fome havia me levado à beira da morte. Por fim, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) instalou-me, juntamente com dois companheiros meus, na casa de Kulthum ibn Hidam, seu anfitrião. Naquele tempo, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) possuía apenas quatro cabras. Nós, tantas pessoas, vivíamos bebendo somente o leite dessas cabras. Certa noite, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu para algum lugar. Demorou a voltar. Pensei que talvez algum ansari o tivesse convidado, e que ele retornaria depois de comer. Assim que essa ideia me ocorreu, levantei-me e bebi de um só gole todo o leite que havia sido reservado para o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Mas logo depois recobrei a consciência e pensei: se minha suposição estiver errada, ficarei terrivelmente envergonhado. Enquanto eu estava nesse dilema, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) voltou e dirigiu-se diretamente ao lugar onde o leite era guardado. Viu que a tigela estava vazia. Fiquei atormentado pela vergonha e pelo arrependimento do meu erro. Sobretudo quando ele levantou a mão para dizer algo, meu medo não teve limites. Pensei que, devido à súplica contra mim do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), minha vida terrena e minha vida futura seriam imediatamente arruinadas. Contudo, ouvi-o dizer: ‘Ó Allah, alimenta aquele que me alimentou e dá de beber àquele que me deu de beber’. Ao ouvir essa súplica, criei coragem. Levantei-me e fui até as cabras, na esperança de encontrar algum leite no úbere de uma delas. Porém, pelo poder ilimitado de Allah, qualquer úbere que eu tocava estava cheio de leite. Ordenhei uma grande quantidade de leite e apresentei-o ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele perguntou: ‘Todos vocês já beberam?’ Respondi: ‘Ó Mensageiro de Allah, beba primeiro; depois lhe contarei tudo’. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) bebeu até se saciar. Ao me lembrar do meu erro anterior e do meu arrependimento, comecei de repente a rir. Ele perguntou: ‘Abu al-Aswad, por que você está rindo?’ Contei-lhe tudo. Depois de ouvir tudo, ele disse: ‘Isso foi uma misericórdia de Allah. Por que você não acordou seus dois companheiros? Eles também teriam sido agraciados?’

Hazrat Miqdad era extremamente perspicaz e inteligente. Sua perspicácia e inteligência se manifestavam em muitas situações e acontecimentos. Um de seus companheiros narrou: certo dia, estávamos sentados junto de Miqdad. Nesse momento, um tabi‘i dirigiu-se a ele e disse: “Quão afortunados são seus dois olhos, agraciados por terem contemplado o Mensageiro de Allah. Por Allah, anseio muito ver tudo o que você viu e estar presente nas cenas e acontecimentos dos quais você participou.” Ao ouvir isso, Miqdad ficou muito irritado com o homem. As pessoas disseram: “O que há de tão grave para você ficar tão exaltado?” Ele respondeu: “É inútil desejar o passado, deixando de lado o presente. Pois ele não sabe qual teria sido sua atitude se tivesse vivido naquela época. Por Allah, muitos dos contemporâneos do Mensageiro de Allah, por não terem crido, tiveram o Inferno como destino. Será que ele sabe a qual grupo teria pertencido? Não deveria agradecer a Allah por tê-lo protegido de tal perigo e por tê-lo tornado crente em Allah e em Seu Mensageiro?”

Certo dia, o Mensageiro de Allah nomeou-o comandante de um grupo. Quando ele voltou, o Mensageiro perguntou: “O que achou do comando?” Em resposta, ele proferiu uma grande verdade. Disse: “Senti que eu estava acima de todos e que os outros estavam abaixo de mim. Juro por Aquele que o enviou com a verdade: depois de hoje, jamais serei comandante de duas pessoas.” Ele não tentou ocultar sua fraqueza nem esconder a verdade. Repetia sempre este hadith do Mensageiro de Allah: “Aquele que se salva da fitna é verdadeiramente afortunado.”

Ele amava o Mensageiro de Allah mais do que a própria vida. Sentia a extrema responsabilidade de proteger e garantir a segurança do Mensageiro de Allah. Sempre que se ouvia qualquer tumulto em Medina, ele era visto armado e montado à porta da residência do Mensageiro de Allah. Também era extremamente rigoroso na aplicação correta das normas do Islã. Assim como estava vigilante contra os inimigos declarados do Islã, era igualmente atento à menor negligência e aos erros de seus próprios amigos em relação ao Islã. Certa vez, saiu em expedição com uma pequena tropa. O exército inimigo cercou-os. O comandante ordenou que nenhum membro da tropa fosse dispensado, naquele dia, de conduzir o animal de montaria dele. Contudo, um mujahid não tinha conhecimento disso e agiu contra a ordem do comandante. Por isso, recebeu do comandante uma punição ainda maior do que a que lhe cabia. O mujahid estava chorando quando Miqdad passou por ele. Ao perguntar, tomou conhecimento do ocorrido. Então segurou-o pela mão direita, levou-o até o comandante e, discutindo com ele, obrigou-o a reconhecer seu erro. Disse ao comandante: “Permita que o homem exerça o direito de qisas e, assim, isente-se da responsabilidade.” O comandante acatou as palavras de Miqdad. Entretanto, o homem perdoou o comandante. Dessa forma, ele sempre desempenhava o papel de um guardião incansável na defesa da honra e da dignidade da religião. Dizia quase sempre: “Allah ordenou-me que te amasse e também me informou que Ele te ama.” Assim, foi agraciado com o amor de Allah e de Seu Mensageiro.

O Mensageiro de Allah disse: “A cada profeta foram concedidos sete companheiros fiéis e vizires. A mim, porém, foram concedidos quatorze. São eles: Hamza, Ja‘far, Abu Bakr, Umar, Ali, Hasan, Husayn, Abdullah ibn Mas‘ud, Salman, Ammar, Hudhayfa, Abu Ja‘far, Miqdad e Bilal.”

Ele não gostava nem um pouco de lisonjas ou elogios. Certa vez, na presença de Hazrat Uthman, algumas pessoas começaram a elogiá-lo diante do próprio Miqdad. Ele ficou tão irritado que atirou terra no rosto delas. Hazrat Uthman exclamou: “Miqdad, o que está acontecendo?” Ele respondeu: “O Mensageiro de Allah ordenou-nos: ‘Atirai terra no rosto dos que elogiam.’”

Seu verdadeiro ofício era o comércio. Além disso, o Mensageiro de Allah concedeu-lhe algumas terras na região de Khaybar. Mais tarde, Hazrat Muawiya comprou-as dos herdeiros de Miqdad pelo valor de cem mil dirhams.

Sua esposa, Dubaya, narrou: certa vez, Miqdad foi a um lugar isolado de Baqi para atender às necessidades naturais. Enquanto realizava suas necessidades, viu um rato tirar um dinar de sua toca. Desse modo, o rato retirou ao todo dezessete dinares. Ele os recolheu, levou-os ao Mensageiro de Allah e contou-lhe tudo. O Mensageiro perguntou se ele havia enfiado a mão na toca. Quando respondeu que não, que não havia colocado a mão ali, o Mensageiro disse: “Que Allah abençoe essa riqueza que tens. Não há zakat sobre essa riqueza.” (Hayatus Sahaba, 3/645)

Hazrat Miqdad narrou diversos hadiths do Mensageiro de Allah, e companheiros como Ali, Anas, Udaydullah ibn Adi, Hammam ibn al-Harith e Abd al-Rahman ibn Abi Layla narraram hadiths dele.

Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele)

Amr era seu nome; Abu Abdillah e Abu Muhammad eram suas kunyas. Seu pai era As e sua mãe, Nabigha. Por meio de seu antepassado Ka’b ibn Lu’ay, sua linhagem se unia à linhagem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Ainda na época da Jahiliyyah, o clã de Amr ibn al-As — os Banu Sahm — era famoso como um clã nobre. A responsabilidade de arbitrar e resolver as disputas dos coraixitas era confiada a esse clã. Não há informações especialmente relevantes sobre seu nascimento e sua infância. Até aceitar o Islam, ele foi um ferrenho inimigo do Islam. Aliando-se aos líderes coraixitas, demonstrava grande entusiasmo em se opor ao Islam e aos muçulmanos.

É relatado que ele era um dos três principais homens entre os coraixitas, ferrenhos inimigos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Contra eles, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) suplicava a Allah, e Allah revelou, em resposta, este versículo: “Laysa laka min al-amri shay’un, aw yatuba ‘alayhim aw yu’adhdhibahum, fa-innahum zalimun.” (Al Imran, 3:128) — “Tu não tens autoridade alguma para decidir sobre isso. Allah pode perdoá-los, por Sua misericórdia, ou puni-los, pois são injustos e opressores.” O Mensageiro de Allah compreendeu que estava sendo proibido de rogar contra eles. Então, deixou o assunto nas mãos de Allah. Um desses três homens viria a ser o grande comandante dos exércitos do Islam, um dos maiores e mais astutos diplomatas da Arábia e o libertador do povo do Egito: Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele). (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 614)

Amr ibn al-As foi o membro mais entusiasmado do primeiro grupo de muçulmanos que foi à Abissínia. Na Abissínia, conversou com o rei e com várias pessoas da corte real, fazendo todo tipo de esforço para conquistá-los à sua posição de expulsar os muçulmanos da Abissínia. Na corte do rei, também proferiu um discurso inflamado, acusando os muçulmanos de apostasia. Porém, todos os seus esforços fracassaram.

Na Batalha da Trincheira, quase todas as tribos da Península Arábica se aliaram aos coraixitas e chegaram aos arredores de Medina para destruir completamente os muçulmanos. Também ali, Amr era um dos principais homens do lado dos coraixitas. Depois da Trincheira, algo aconteceu nele, de algum modo. Até mesmo naquele ferrenho inimigo do Islam surgiu uma mudança. Ele começou a refletir sobre o chamado e a mensagem do Islam. Ele mesmo disse: “Como resultado dessas reflexões, os fundamentos do Islam começaram gradualmente a se tornar claros para mim. Pouco a pouco, comecei a me afastar da oposição aos muçulmanos. Os líderes coraixitas perceberam isso e enviaram-me um homem. Ele começou a discutir comigo. Eu lhe disse: ‘Dize-me: estamos nós na verdade, ou os persas e os romanos?’ Ele respondeu: ‘Nós.’ Perguntei: ‘Quem possui felicidade, riqueza e prosperidade: eles ou nós?’ Ele respondeu: ‘Eles.’ Eu disse: ‘Se não houver outra vida depois desta, para que servirá esta nossa vida apegada à verdade? Já neste mundo vivemos em aflição, em comparação com os que seguem a falsidade, e na outra vida tampouco temos qualquer possibilidade de receber recompensa. Por isso, o ensinamento de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) — de que haverá outro mundo depois da morte, no qual cada pessoa receberá o resultado de suas obras — parece-me absolutamente correto e aceitável.” Depois da Batalha da Trincheira, nasceu nele plena convicção quanto ao sucesso do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele compreendeu que o Islam havia surgido para triunfar. Foi essa convicção que o incentivou a aceitar o Islam.

Ele disse: “Ao retornar a Meca depois da Batalha da Trincheira, chamei meus parentes e amigos mais próximos e disse-lhes: ‘Sabei que não há dúvida de que a mensagem de Muhammad triunfará sobre todas as demais mensagens. Tenho uma opinião bem ponderada e quero saber como a recebereis.’ Ele disse: ‘Vamos à presença do Negus e permaneçamos com ele. Se Muhammad triunfar sobre nós, ficaremos junto do Negus. E, se o nosso povo triunfar, seremos então a nação superior. Nesse caso, o tratamento do Negus para conosco será certamente bom.’ Todos aceitaram minha opinião. Depois, discutimos que presente poderíamos levar ao Negus. O objeto mais valioso que podíamos oferecer eram as peles disponíveis em nossa terra. Levamos algumas peles e chegamos à Abissínia.

Quando estávamos indo à corte do Negus, Amr ibn Umayya ad-Damri também chegou ali. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o havia enviado de Medina a Ja’far ibn Abi Talib para tratar de um assunto específico. Ja’far ibn Abi Talib ainda se encontrava na Abissínia. Pouco depois, Amr saiu da corte do Negus. Decidimos pedir ao Negus que entregasse Amr em nossas mãos. Se ele atendesse ao nosso pedido e o entregasse a nós, nós o mataríamos. Assim, os coraixitas saberiam que havíamos nos vingado matando o enviado de Muhammad. Depois dessa decisão, compareci à corte do Negus. Conforme o costume, saudei-o com uma reverência e apresentei diante dele os presentes que havíamos levado. Os presentes agradaram-lhe muito.

Então eu disse: “Aquele que acabou de sair de sua corte é o mensageiro de nosso ferrenho inimigo. Se o entregar às nossas mãos, nós o mataremos.” Diante desse pedido, o Najashi explodiu de ira. Vendo que a situação se tornara difícil, disse humildemente: “Se eu soubesse que este pedido o deixaria tão agitado, não o teria feito.” O Najashi disse: “Queres que eu vos entregue, para que o matem, o mensageiro daquele a quem veio o ‘Namus al-Akbar’, que também veio a Moisés (que a paz esteja sobre ele)? Eu disse: “Ele é realmente uma pessoa assim?” Ele respondeu: “Amr, a vossa situação é realmente lamentável. Escuta-me: obedecei-lhe. Juro por Allah, ele é realmente seguidor da verdade. Ele triunfará sobre seus adversários, assim como Moisés triunfou sobre o Faraó e suas tropas. Eu disse: “Então, presta-me o juramento de bai‘ah, ou de obediência, em favor dele.” Ele estendeu a mão, e eu lhe prestei a bai‘ah do Islã. Voltei para junto de meus companheiros; porém, naquele momento, ocorrera uma revolução em meus pensamentos. Nada revelei a eles.

Parti da Abissínia com o propósito de prestar bai‘ah nas mãos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). No caminho, encontrei Khalid ibn al-Walid. Ele também estava indo de Meca para Medina. Perguntei-lhe: “Abu Sulayman, para onde vais?” Ele respondeu: “Juro por Allah, estou diante de uma provação terrível. Tenho certeza de que este homem é um profeta. Devemos aceitar o Islã muito rapidamente. Até quando durará esta hesitação e esta dúvida?” Eu disse: “Também estou viajando com esse objetivo.” Depois, nós dois fomos juntos à presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ao nos ver, o rosto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) iluminou-se. Ele disse aos companheiros: “Lak qad ramātakum Makkah bi-falādhati akbādihā — Meca lançou contra vós as partes mais preciosas de seu fígado.” (Rijālun hawla ar-Rasul)

Primeiro, Khalid ibn al-Walid prestou bai‘ah nas mãos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois, aproximei-me um pouco e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Eu também prestarei bai‘ah, mas deveis perdoar todos os meus crimes anteriores.” Ele disse: “Amr, presta a bai‘ah. O Islã apaga todos os pecados anteriores, e a hijrah também elimina todas as faltas anteriores.” Prestei bai‘ah nas mãos do Mensageiro de Allah e parti. Isso ocorreu no início do sétimo ano da Hijrah, seis meses antes da conquista de Khaybar. (Sīrat Ibn Hisham, vol. 2, pp. 276–278; al-Fath ar-Rabbani, vol. 22; Musnad do Imam Ahmad; Hayat as-Sahabah, 1/157–160)

Depois de aceitar o Islã, ele voltou a Meca. Após permanecer algum tempo em Meca, fez novamente a hijrah para Medina. Amr ibn al-As foi extremista tanto em seu estado de Islã quanto em seu estado de kufr. Assim como antes estava determinado a extirpar o Islã, depois de aceitá-lo também foi resoluto em relação à kufr e ao shirk. Ele disse: “Quando eu era um kafir, era o maior inimigo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Se tivesse morrido naquela época, o Inferno teria sido minha morada. Depois de me tornar muçulmano, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nunca mais pôde sair de minha vista.” Depois de sua conversão ao Islã, várias batalhas também foram travadas, mas não se conhecem muitos detalhes sobre sua participação nelas. Contudo, a história registra que várias pequenas expedições foram realizadas sob sua liderança.

Ibn Sa’d relata que, após a conquista de Meca, alguns membros dos Banu Quda’ah se organizaram e planejaram atacar os muçulmanos. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou contra eles uma força de trezentos mujahidun sob o comando de Abu Ubaydah. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou de Medina, para ajudá-lo, uma força de duzentos mujahidun sob o comando de Abu Ubaydah. Nessa tropa também havia companheiros ilustres como Abu Bakr e Umar. Todos eles conduziram a expedição sob a liderança de Amr ibn al-As e derrotaram os inimigos. Na história, essa expedição é conhecida como a “Ghazwah de Dhat as-Salasil”.

A maioria das tribos da Península Arábica aceitou o Islã após a conquista de Meca. Embora algumas tribos tivessem aceitado o Islã, não conseguiam livrar-se das superstições cultivadas ao longo de gerações. Tinham medo de destruir os ídolos e os centros de adoração dos ídolos. Por isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou várias tropas em diferentes direções para destruir esses ídolos, a fim de que o nome dos centros de idolatria fosse removido dos corações dos novos muçulmanos. Um desses centros chamava-se Su’a. Quando chegaram perto desse centro, os habitantes locais, ao saberem de seu objetivo, disseram: “Não podereis destruir este centro. Ele próprio se defenderá.” Amr disse: “Ainda estais afundados em crenças errôneas e superstições desse tipo? Como pode defender-se aquele que não tem capacidade de ver nem de ouvir?” Em seguida, ele destruiu completamente o centro. Ao verem isso, a fé da população local se fortaleceu.

Após a conquista de Meca, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) levou a carta e apresentou o convite ao Islã aos reis e governantes das regiões próximas da Península Arábica. O governante de Oman aceitou o Islã ao receber a carta. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nomeou Amr como wali de Oman. Amr permaneceu em Oman até o falecimento do Mensageiro de Allah. (Futuh al-Buldan)

Depois que Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) se tornou califa, a fitnah e a rebelião dos falsos profetas e dos que negavam o zakat começaram a ganhar força na Península Arábica. Naquela época, Amr ibn al-As estava em Oman. Por ordem do califa, ele partiu de Oman em direção ao Bahrein. No caminho, hospedou-se com Qurrah ibn Hurayrah, líder dos Banu Amr. Qurrah dispensou-lhe grande consideração. Ao despedir-se, disse a Amr: “Se o zakat for cobrado, os árabes não aceitarão a autoridade ou a liderança de ninguém. Se a cobrança do zakat for suspensa, permanecerão obedientes e submissos. Por isso, o zakat deveria ser abolido.”

Amr disse: “Qurra, você abandonou o Islã? Está tentando me assustar com os árabes? Por Allah, esmagarei pessoas assim sob os cascos dos cavalos.” Mais tarde, Qurra foi levado preso a Medina juntamente com outros rebeldes, e Amr o libertou. Quando Amr chegou a Medina vindo de Omã, o califa Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou-o para sufocar a rebelião dos Banu Quda’a. Graças aos seus esforços, os Banu Quda’ah retornaram novamente ao Islã. Depois que a rebelião foi reprimida, ele voltou mais uma vez a Omã.

No ano 13 da Hégira, o califa Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou diferentes exércitos para várias regiões da Síria. Ele escreveu a Amr: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nomeou-o governador de Omã, e por isso eu o enviei novamente para lá. Agora quero confiar-lhe uma responsabilidade que será benéfica para você nesta vida e na Outra.” Em resposta, Amr escreveu: “Sou apenas uma flecha de Allah, e você é um arqueiro habilidoso. Você tem o direito de lançar esta flecha na direção que desejar.” O califa retirou-o de Omã e nomeou-o para o setor da Palestina.

Os exércitos muçulmanos avançaram contra a Síria por todos os lados. O imperador romano enviou diferentes exércitos para enfrentar as forças muçulmanas. Finalmente, os diversos exércitos romanos reuniram-se em Ajnadayn. Amr ibn al-As avançou da Palestina em direção a Ajnadayn. Enquanto isso, Khalid ibn al-Walid e Abu Ubaidah, depois de concluírem a campanha de Basra, chegaram a Ajnadayn para ajudar Amr. No ano 13 da Hégira, ocorreu em Ajnadayn um violento confronto entre os exércitos muçulmano e romano. O comandante romano foi morto, e eles sofreram uma derrota humilhante. Em Ajnadayn, o comandante romano enviou um espião árabe para recolher informações sobre o exército muçulmano. Depois de percorrer o acampamento muçulmano e observar tudo, o comandante romano perguntou-lhe: “Que notícias você trouxe?” Ele revelou a verdade e disse: “Esses homens passam a noite adorando e, durante o dia, cavalgam no campo de batalha. Mesmo que o príncipe deles cometa algum delito, a lei da Shariah também é aplicada a ele.” Ao ouvir isso, o comandante comentou: “Se eles realmente possuem tais qualidades, ser enterrado na terra é preferível a lutar contra eles.”

Amr também participou da campanha de Damasco junto com seus dois companheiros, Khalid e Abu Ubaidah, e ficou encarregado do cerco ao portão de Tuma, em Damasco. Depois de Damasco, foi realizada a campanha de Fahl. Nessa campanha, ele também liderou com êxito uma parte do exército muçulmano.

Diante dos ataques sucessivos do exército muçulmano, as forças romanas continuaram sofrendo derrotas humilhantes. Finalmente, por ordem do imperador romano, o exército romano, abalado, reorganizou-se e transformou-se numa enorme força de duzentos mil homens, reunindo-se no lugar chamado Yarmuk para oferecer uma resistência final ao exército muçulmano. O exército muçulmano também chegou a Yarmuk, sob a liderança de Khalid, Amr e Shurahbil ibn Hasana. Contudo, o número de soldados romanos era quatro vezes maior que o das forças muçulmanas reunidas. Nesse sangrento confronto de Yarmuk, Amr ibn al-As lutou com extraordinária bravura e coragem. O exército romano sofreu uma derrota humilhante. A bandeira do Islã foi erguida em toda a Síria.

Antes de Yarmuk, Amr ibn al-As já havia concluído a conquista de algumas regiões da Palestina. Depois de Yarmuk, concentrou-se na campanha contra a maior cidade da Palestina, “Iliya”, ou Bayt al-Maqdis. Ele sitiou Bayt al-Maqdis. Abu Ubaidah também o ajudou. Sem qualquer derramamento de sangue, ele conquistou Bayt al-Maqdis. A pedido dos habitantes de Iliya, o califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) veio de Medina a Bayt al-Maqdis e celebrou com eles um tratado histórico. Assim, pela primeira vez, essa gloriosa cidade passou ao domínio dos muçulmanos.

No mesmo ano da conquista de Bayt al-Maqdis, uma epidemia de peste eclodiu em toda a Síria, no Iraque e no Egito. Milhares de pessoas morreram. Amr ibn al-As aconselhou o comandante Abu Ubaidah a retirar os soldados da Síria e enviá-los para algum lugar seguro. Contudo, Abu Ubaidah, profundamente convicto do destino decretado por Allah, rejeitou o conselho. Por fim, a peste também lhe tirou a vida. Antes de morrer, nomeou Amr como comandante. Amr ibn al-As retirou o exército da região afetada pela peste.

Após a conclusão da conquista da Síria, Amr pediu ao califa Umar autorização para realizar uma campanha no Egito. Durante a época da ignorância, Amr costumava viajar ao Egito a negócios. Por isso, tinha experiência a respeito do Egito. Embora inicialmente o califa hesitasse em atender ao seu pedido, acabou concedendo-lhe autorização. Quando Amr partiu para o Egito com seu pequeno exército, o califa Umar enviou-lhe uma força de reforço sob o comando de Zubair ibn al-Awwam.

Hazrat Amr ibn al-As obteve uma vitória após outra nas batalhas de Bab al-Yun, Al-Arish, Ain Shams, Fustat e em várias outras. Depois, pediu ao califa Umar autorização para avançar em direção a Alexandria. Tendo recebido a autorização, confiou a responsabilidade pelas regiões conquistadas a Hazrat Kharija ibn Hudhafa e partiu para a campanha de Alexandria. Ele sitiou Alexandria. As forças de Muqauqis e os habitantes da cidade refugiaram-se numa fortaleza fortificada e ofereceram resistência. De vez em quando, saíam da fortaleza, lançavam ataques rápidos e voltavam para dentro dela. Nessa situação, transcorreram quase dois anos. O califa Umar ficou preocupado. Escreveu a Amr: “Vocês estão sitiando a cidade há dois anos, mas ainda não surgiu nenhum resultado. Parece que, assim como os romanos, vocês também se entregaram aos prazeres e ao luxo e se esqueceram de suas responsabilidades e deveres. Assim que esta carta chegar às suas mãos, reúna as pessoas, faça diante delas um discurso sobre o jihad e leia-lhes esta minha carta. Depois, na sexta-feira, ataquem as forças inimigas.”

Conforme as instruções do califa, ele atacou as forças inimigas e, em muito pouco tempo, Alexandria caiu sob o domínio das forças muçulmanas. Enviou Muawiya ibn Khudayj a Medina para levar ao califa a notícia dessa vitória. Quando Muawiya chegou a Medina, era tarde. Ele foi diretamente à Mesquita do Profeta. Ao saber disso, o califa mandou chamá-lo imediatamente e perguntou: “Por que você foi diretamente à mesquita sem vir à minha casa?” Muawiya respondeu: “Pensei que esta fosse a hora do seu descanso.” O califa disse: “Por acaso posso dormir durante o dia e levar meus súditos à ruína?”

Após a conquista de Alexandria, ele conquistou, uma após outra, regiões como Barca, Juwaila, Tarabulus, al-Magreb e Sabra. Depois da conquista de Tarabulus, enviou ao califa boas-novas por meio de um mensageiro. Túnis, Marrocos, Argélia e outras regiões ficavam a apenas nove dias de distância dali. Ele pediu ao califa autorização para conduzir campanhas nessas regiões. Considerando a paz e a ordem nas regiões conquistadas, o califa ordenou que a campanha na África Ocidental fosse suspensa. A campanha africana de Amr ibn al-As terminou nesse ponto.

Depois do fim da conquista do Egito, o califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) nomeou-o governador do Egito. Poucos dias depois, Hazrat Umar foi martirizado. O califa Uthman também o manteve no cargo que ocupava anteriormente. Nessa época, os habitantes de Alexandria, instigados pelos romanos, rebelaram-se. Amr ibn al-As reprimiu a revolta com extrema firmeza e, temendo futuras rebeliões, demoliu as muralhas defensivas da cidade de Alexandria.

No ano 26 da Hégira, Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) removeu-o do cargo de governador do Egito. Tabari afirma que o califa Uthman não removia ninguém sem uma acusação específica contra essa pessoa. Diz-se que o motivo de sua destituição foi que, embora o Egito fosse um país extremamente fértil, durante o governo de Amr não se arrecadavam receitas na medida esperada. Essa acusação contra ele existia desde a época de Hazrat Umar. Sobre isso, o califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) também lhe havia escrito uma carta. A mesma acusação existia contra ele durante o governo de Hazrat Uthman. Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) escreveu-lhe uma carta sobre o assunto, e Amr respondeu: “A vaca não é capaz de dar mais leite do que isso.” Depois dessa resposta, Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) afastou-o da responsabilidade pela arrecadação e confiou-a a Abdullah ibn Sad. A partir desse incidente, surgiu uma divergência entre Amr e Abdullah, e a administração do Egito ficou em grande medida paralisada. Diante disso, Hazrat Uthman removeu Amr e nomeou Abdullah governador do Egito. (Tabari, Ibn al-Athir.) Segundo outro relato, Amr foi removido antes da revolta de Alexandria. Quando a revolta eclodiu, o califa Uthman encarregou-o de reprimi-la. Depois de a revolta ser eliminada, o califa quis confiar-lhe apenas a responsabilidade pela defesa. Ele rejeitou essa proposta do califa, dizendo: “Não pode ser que eu segure os chifres enquanto ele ordenha.” Segundo esse relato, sua destituição ocorreu no ano 25 da Hégira.

Depois de ser removido do cargo de governador do Egito, Hazrat Amr ibn al-As foi para Medina. Ficou um tanto descontente com Hazrat Uthman. Depois de chegar a Medina, conversou com o califa, e esse descontentamento transpareceu na conversa. Quando falou com o califa, as receitas enviadas pelo Egito já haviam chegado às mãos dele. Essas receitas eram maiores que as enviadas por Amr ibn al-As. O califa disse: “Veja, a vaca deu mais leite.” Amr respondeu imediatamente: “Sim, mas o bezerro ficará com fome.” Mesmo depois desse episódio, Hazrat Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele) continuou, como antes, sendo um conselheiro sincero e leal do califa Uthman. Quando os rebeldes do Egito chegaram a Medina, Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou Amr para convencê-los. Utilizando sua influência anterior, ele fez os rebeldes retornar. Além disso, sempre que surgia algum problema diante de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), ele consultava Amr ibn al-As. Amr aconselhava-o com extrema sinceridade. Quando a conspiração contra o califa Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) atingiu seu ponto máximo, ele convocou uma reunião do conselho da shura. Hazrat Amr ibn al-As era um dos membros desse conselho. Depois de consultar a shura, o califa pediu especificamente a opinião de Amr. Ele aconselhou o califa a seguir os passos de seus dois predecessores, Abu Bakr e Umar (que Allah esteja satisfeito com eles): ser brando quando necessário e rigoroso quando necessário.

Depois de ser removido do cargo de governador do Egito, ele se afastou, em essência, da política e passou a viver na Palestina. No entanto, ia ocasionalmente a Medina. Quando o califa Uthman foi cercado pelos rebeldes, Amr ibn al-As estava em Medina. Ao perceber que a rebelião estava fora de controle, deixou Medina dizendo: “Allah humilhará aquele cuja mão participar do assassinato de Uthman, e quem não puder ajudá-lo deve deixar Medina.” Deixou Medina e foi para a Síria. Contudo, mantinha-se sempre informado sobre o que acontecia em Medina por meio de outras pessoas. Depois ocorreram o martírio de Hazrat Uthman e a Batalha do Camelo; mas ele não saiu de seu retiro na Síria. Não se envolveu em nada.

Começou a disputa entre Hazrat Ali e Hazrat Muawiya. Hazrat Ali exigiu que Hazrat Muawiya lhe prestasse lealdade. Muawiya consultou Amr ibn al-As. Segundo os relatos, a princípio Amr disse a Muawiya: “Em nenhuma circunstância a ummah muçulmana lhe concederá a posição de Ali.” Mas depois ficou claro que, nessa disputa, Amr ibn al-As tomou partido completo de Muawiya. Na batalha travada entre os dois lados em Siffin, Amr era o comandante do exército de Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele). Seguindo o conselho de Amr, no momento em que a derrota se aproximava nessa batalha, Muawiya pendurou exemplares do Alcorão nas pontas das lanças, propôs a Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) uma arbitragem para resolver a questão e obrigou Ali a declarar uma trégua. Depois, com o objetivo de resolver a disputa, foi formado um conselho de arbitragem composto por dois membros. Nesse conselho, Amr ibn al-As era o representante nomeado por Muawiya, enquanto Abu Musa al-Ashari (que Allah esteja satisfeito com ele) era o representante nomeado por Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).

Após longas discussões sobre a questão, Amr e Abu Musa al-Ashari compareceram a Dumat al-Jandal para anunciar sua decisão. Porém, no momento do anúncio, Amr abandonou a decisão anterior e, por meio de uma manobra diplomática, declarou Muawiya como califa; ao mesmo tempo, fez com que seu oponente, Abu Musa (que Allah esteja satisfeito com ele), também declarasse, por sua própria boca, a destituição de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).

A possibilidade de solucionar o conflito autodestrutivo da umma muçulmana, que havia surgido com a formação do conselho de arbitragem, fracassou, segundo os historiadores, devido à astúcia de Hazrat Amr. O conflito e a guerra recomeçaram entre as duas partes. Amr invadiu o Egito, derrotou e matou Muhammad ibn Abi Bakr, governador do Egito nomeado por Hazrat Ali, e tomou o controle do país.

Depois disso, alguns membros da seita extremista dos carijitas decidiram que, como as principais causas da divisão da umma muçulmana eram três pessoas — Ali, Muawiya e Amr —, elas deveriam ser eliminadas do mundo. Essa tarefa foi confiada a Ibn Muljam, Barka ibn Abdillah e Amr ibn Bakr al-Tamimi. De acordo com a decisão, os três atacaram os alvos em locais diferentes, no dia e horário determinados. Hazrat Ali foi martirizado; Muawiya sobreviveu com ferimentos leves. Como Amr estava doente, Kharija ibn Hudhafa saiu para conduzir a oração em seu lugar. O assassino o confundiu com Amr ibn al-As, golpeou-o e matou-o. Assim, Amr também sobreviveu.

O emir Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele) nomeou Amr como governador do Egito. Durante seu governo, surgiu certo mal-entendido entre ele e o emir Muawiya; contudo, por intermédio de uma terceira parte, ambos assinaram um acordo, e ele permaneceu no cargo de governador do Egito. Enquanto ocupava esse cargo, adoeceu no ano 43 da Hégira — segundo outra opinião, no ano 47 ou 51 — e perdeu a esperança de viver. Nos últimos dias de sua vida, foi intensamente consumido pelo remorso por seus erros passados.

Quando ele estava em seu leito de morte, Ibn Abbas foi visitá-lo. Depois de trocarem saudações, perguntou: “Abu Abdillah, como você está?”. Amr respondeu: “Sobre o que você está perguntando? Minha vida mundana foi construída, mas minha religião foi arruinada. Se tivesse sido o contrário, tenho plena certeza de que teria sido bem-sucedido. Se o que se deseja no fim da vida pudesse dar frutos, eu certamente o desejaria. Se houvesse uma maneira de fugir e me salvar, eu fugiria. Mas agora estou suspenso entre o céu e a terra como uma catapulta: não consigo subir com a ajuda das mãos nem descer com a ajuda dos pés. Sobrinho, dê-me algum conselho que possa me beneficiar.” Ibn Abbas disse: “Ai de mim! Onde está agora aquele tempo? Agora, sobrinho, o velho se tornou seu irmão. Se você me pedir para chorar agora, posso chorar.” Amr disse: “Tenho agora pouco mais de oitenta anos. Agora você está me fazendo desesperar da misericórdia de Allah. Ó Allah, este Ibn Abbas está me fazendo desesperar da Tua misericórdia. Inflige-me agora um castigo que Te deixe satisfeito.” Ibn Abbas disse: “Abu Abdillah, aquilo que você recebeu era novo, enquanto aquilo que está oferecendo é antigo.” Amr disse: “Ibn Abbas, o que aconteceu com você? Estou dizendo uma coisa, e você está dizendo o contrário!” (Al-Istiab)

Abd al-Rahman ibn Shammāsah conta: ele foi visitar Amr ibn al-As em seu leito de morte. Amr virou o rosto para a parede e começou a chorar. Seu filho, Abdullah, disse: “Pai, por que está chorando? O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) não lhe deu tais e tais boas-novas?”. Ele respondeu: “Meu melhor patrimônio é o testemunho — La ilaha illallah, Muhammad é o Mensageiro de Allah. Minha vida passou por três períodos. Houve um período em que eu era um inimigo ferrenho. Meu maior desejo era matar o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), de qualquer maneira. Depois começou o segundo período da minha vida. Prestei o juramento de fidelidade ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) e aceitei o Islã. Naquela época, ninguém me parecia mais querido ou digno de honra do que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). Por causa do enorme respeito e temor, eu não conseguia levantar bem os olhos para fitá-lo. Se alguém me perguntasse agora como era seu nobre semblante, eu não saberia dizer-lhe coisa alguma. Se eu tivesse morrido então, teria esperança no Paraíso. Depois veio o terceiro período da minha vida. Nesse período, pratiquei vários tipos de atos. Não sei qual será agora a minha situação. Quando eu morrer, que os que choram não acompanhem o meu funeral. Durante o sepultamento, que cubram meu corpo com terra lentamente. Depois do sepultamento, permaneçam junto ao túmulo pelo tempo necessário para abater um animal e dividir sua carne entre vocês. Assim, na presença de vocês, poderei familiarizar-me com o túmulo e preparar corretamente as respostas às perguntas do Mensageiro de Allah.” (Muslim, Kitab al-Iman)

Ele instruiu seu filho Abdullah sobre como deveria ser sepultado após sua morte. Depois, ocupou-se com a recordação de Allah. Começou a dizer: “Ó Allah, Tu ordenaste, mas eu desobedeci; proibiste, mas eu transgredi. Não sou inocente para apresentar uma desculpa, nem sou poderoso para vencer.” Então, recitando “La ilaha illallah”, entregou o último suspiro. Inna lillahi wa inna ilayhi rajiun. No primeiro dia de Shawwal do ano 43 da Hégira, após a oração do Eid al-Fitr, seu filho Abdullah conduziu a oração fúnebre. Ele foi sepultado no local chamado Maqattam, no Egito. Seu túmulo, situado ao lado da primeira mesquita do Egito, a Jami Amr ibn al-As, construída por suas próprias mãos, ainda hoje está identificado. Tinha noventa anos quando morreu.

Após aceitar o Islã, a maior parte da vida de Hazrat Amr ibn al-As transcorreu nos campos do jihad. Por isso, teve poucas oportunidades e pouco tempo para adquirir e cultivar conhecimento. Sentia particular êxtase e prazer ao recitar o Alcorão. Recitava-o de maneira extremamente bela. Embora sua vida tivesse transcorrido nos campos do jihad, aproveitou o tempo que teve para aperfeiçoar o conhecimento e as obras por meio da companhia do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). Ele transmitiu 39 hadiths ou ditos. Desses, três são muttafaqun alayh, isto é, transmitidos tanto por Bukhari quanto por Muslim. Três foram transmitidos exclusivamente por Muslim. Muitos Companheiros e tabiun transmitiram hadiths dele.

Hazrat Amr ibn al-As, apesar de estar ocupado com o jihad, também desempenhava a responsabilidade de ensinar e oferecer exortações e conselhos. Após a vitória na batalha de Dhat as-Salasil, permaneceu ali para ensinar e treinar os novos muçulmanos. Depois do falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), quando o apego de algumas pessoas ao mundo aumentou, ele exortava as pessoas, em seus discursos, a seguir o exemplo do Mensageiro de Allah.

Ele também apreciava a literatura. Foi o maior prosador de sua época. Expressar grandes ideias com poucas palavras, empregar belas analogias e ornamentar as frases e os pensamentos eram características marcantes de sua literatura. Muitas amostras de sua produção literária foram preservadas nos livros de história. Em particular, a carta que o califa Umar lhe escreveu de Medina, ordenando que enviasse cereais ao Egito durante o ‘Ano da Cinza’, isto é, o ano em que uma terrível fome assolou a Arábia, e a resposta que Amr lhe enviou têm sido preservadas como exemplos primorosos da literatura. Além disso, seu talento literário manifestava-se em seus discursos, cartas e escritos de diversos tipos.

Ao examinar toda a vida de Hazrat Amr ibn al-As, percebe-se que ele atravessou diversas fases de provação. Não conseguiu ser igualmente bem-sucedido em todas elas. Em particular, não é possível encontrar, à primeira vista, uma justificativa racional para alguns acontecimentos da fase final de sua vida como Companheiro. Os imãs da umma islâmica declararam que esses atos da fase final de sua vida foram erros de ijtihad. Contudo, deixando de lado alguns acontecimentos controversos desse período, sua vida como um todo, tal como a dos demais Companheiros, foi tornada pura e bela como uma flor pela companhia do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

O próprio Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) reconheceu a força da fé de Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: “As pessoas aceitaram o Islã, mas Amr ibn al-As creu.” Em outra ocasião, disse: “Os dois filhos de al-As — Hisham e Amr — creram.” (Musnad do Imam Ahmad) A veracidade dessas palavras torna-se evidente em um episódio de sua vida. Certa vez, o Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mandou avisar Amr que comparecesse imediatamente, vestido e armado. Amr compareceu sem demora, conforme a ordem. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia feito a ablução; levantou os olhos, depois os baixou e disse: “Quero enviar-te como comandante. Se Allah quiser, estarás seguro e obterás muitos espólios. Também receberás uma parte desses espólios.” Amr exclamou imediatamente: “Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não aceitei o Islã por cobiça de riquezas; aceitei-o por um impulso do coração.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A riqueza pura é melhor para a pessoa sincera.” Em outra ocasião, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse que Amr ibn al-As era um dos homens virtuosos dos coraixitas. (Musnad de Ahmad)

Certo dia, ele estava sentado à sombra da parede da Caaba, transmitindo hadiths às pessoas. Disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Quem prestar sinceramente o juramento de lealdade a um imã deve apoiá-lo empregando todas as suas forças.’” Abd ar-Rahman ibn Abd al-Kaaba, o narrador deste hadith, perguntou: “O senhor ouviu este hadith do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?” Amr apontou para seus ouvidos e seu coração e disse: “Estes meus dois ouvidos o ouviram, e meu coração o guardou.” Então Abd ar-Rahman disse: “Seu primo Muawiya ordena-nos ilegalmente que consumamos os bens uns dos outros e que tiremos vidas injustamente.” Ao ouvir isso, Amr ficou em silêncio. Depois disse: “Obedece ao que não envolva desobediência a Allah e não obedeças ao que envolva desobediência.” Isso mostra que, por natureza, ele era sincero.

O Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amava Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele) por seu trabalho. Hazrat Hasan (que Allah esteja satisfeito com ele) relata que um homem perguntou a Amr ibn al-As: “Não é de bom caráter a pessoa que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amou até o último suspiro?” Ele respondeu: “Quem pode duvidar de sua felicidade?” O homem disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amou-o até o último suspiro.”

Em conhecimento, inteligência e perspicácia política, ele era um dos poucos homens notáveis da Arábia de sua época. O Imam ash-Sha’bi dizia: “Na Arábia islâmica havia quatro diplomatas; Amr ibn al-As era um deles.” (Al-Isaba) Na diplomacia, apenas Hazrat Mughirah ibn Shu’bah (que Allah esteja satisfeito com ele) era seu igual. Seu porte físico, seu modo de andar, sua maneira de falar e tudo o mais deixavam claro que ele havia nascido para liderar. É relatado que, certo dia, ao ver Abu Abdillah aproximar-se, o Comandante dos Crentes Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) primeiro sorriu discretamente e depois disse: “Abu Abdillah não deveria andar pela terra senão como comandante ou líder.” (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 618)

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) reconheceu a correção de seu discernimento. “Tu és uma pessoa de opinião correta no Islã” — foi o que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhe disse. (Kanz al-Ummal) Quando Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) via uma pessoa de pouca inteligência, dizia, maravilhado: “O Criador desta pessoa e o de Amr ibn al-As são a mesma Essência!” (Al-Isaba)

Devido à inteligência ilimitada e à audácia de Amr, o Nobre Mensageiro de Allah lhe confiou a responsabilidade por muitas expedições importantes. Em alguns casos, ele foi nomeado comandante acima de Companheiros de alta posição, como Abu Bakr, Umar e Abu Ubayda. De fato, em cada momento de calamidade da ummah muçulmana, ele demonstrou a capacidade e o talento de um comandante ou líder. Foi justamente por reconhecer sua competência que um governante perspicaz como Umar o nomeou comandante da Palestina, da Jordânia e, depois, do Egito, mantendo-o nesse cargo até os últimos dias de seu califado.

Na história, ele é mencionado como “Fātih Misr” — o conquistador do Egito. Entretanto, não foi conquistador no sentido em que geralmente se entende essa palavra. Na realidade, foi o libertador dos egípcios. Ele libertou o povo do Egito da escravidão e das correntes impostas pelos romanos durante centenas de anos e facilitou o caminho da da‘wah islâmica por toda a África.

O jihād fī sabīlillāh foi um capítulo glorioso da vida de Amr. Em todas as batalhas, ele permaneceu ao lado do célebre comandante Khalid ibn al-Walid. Ele próprio disse: “Desde o início, no campo de batalha, o Mensageiro não considerava ninguém igual a mim e a Khalid.” (Mustadrak) Sempre que surgia em Medina a possibilidade de algum perigo, ele imediatamente desembainhava a espada e se colocava em defesa da cidade. Certa vez, por alguma razão, o terror espalhou-se por Medina. Salim, o servo liberto de Abu Hudhayfa, ficou de pé na mesquita de Medina com a espada na mão. Amr também desembainhou a espada e ficou ao lado dele. Mais tarde, o Nobre Mensageiro disse no sermão: “Por que não vos colocais sob a proteção de Allah e de Seu Mensageiro, e por que não tomais Amr e Salim como exemplos?” (al-Isaba)

Amr ibn al-As era extremamente generoso. Gastava de coração aberto no caminho de Allah. O próprio Mensageiro de Allah reconheceu isso várias vezes. Alqama ibn Ramtha al-Balawi narra: O Mensageiro de Allah enviou Amr com um exército para o Bahrein, enquanto ele próprio partiu para outra expedição. Eu também acompanhei o Mensageiro de Allah nessa expedição. Certo dia, o Mensageiro ficou um pouco sonolento. Ao despertar, disse: “Que Allah tenha misericórdia de Amr.” Entre nós havia várias pessoas com esse nome, e cada um pensou na pessoa chamada Amr que conhecia. Assim, ele ficou sonolento pela segunda e pela terceira vez e, ao despertar, repetiu as mesmas palavras. Perdemos a paciência e perguntamos: “De qual Amr o senhor está falando?” Ele respondeu: “Amr ibn al-As.” Perguntamos o motivo. Ele disse: “Lembrei-me da ocasião em que pedi sadaqah às pessoas, e ele trouxe uma grande quantidade de sadaqah. Quando lhe perguntei: ‘De onde trouxeste toda essa sadaqah?’, ele respondeu: ‘Allah a concedeu.’” Em outra ocasião, o Mensageiro disse três vezes: “Ó Allah, perdoa Amr ibn al-As. Quando lhe pedi que desse sadaqah, ele veio trazendo-a.”

Khalid ibn al-Walid

Seu nome era Abu Sulayman Khalid, e seu epíteto era Sayfullah (a espada de Allah). Seu pai era al-Walid ibn al-Mughira, e sua mãe, Lubaba as-Sughra, irmã de Umm al-Mu’minin Maymuna bint al-Harith e de Lubaba al-Kubra, esposa de Abbas ibn Abd al-Muttalib. O Mensageiro de Allah e Abbas eram seus tios maternos. (Usud al-Ghaba, 2/93)

Sua família era uma das mais nobres entre os coraixitas da Arábia pré-islâmica. As duas funções de qubba e a‘inna (a responsabilidade pela administração dos soldados e dos acampamentos militares) estavam confiadas à sua família. No momento do surgimento do Islã, Khalid ocupava esse cargo. (al-Isti‘ab, 1/157) Pouco antes do tratado de Hudaybiyyah, Khalid era o líder do grupo que saiu de Meca para observar os movimentos dos muçulmanos. Na batalha de Uhud, lutou bravamente contra o exército muçulmano e transformou em vitória a derrota certa do exército dos politeístas de Meca.

Há diferentes relatos sobre o momento em que Khalid aceitou o Islã. Contudo, é mais conhecido que ele aceitou o Islã pouco antes da conquista de Meca.

Hadrat Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele) dirigia-se da Abissínia para Medina com o propósito de abraçar o Islã. No caminho, encontrou uma outra caravana que se dirigia a Medina. Eles também viajavam para Medina com o mesmo propósito. Hadrat Khalid estava com esse segundo grupo. Hadrat Amr ibn al-As perguntou a Khalid: “Para onde?” Khalid respondeu: “Juro por Allah, estou convencido de que este homem é um profeta — por quanto tempo continuaremos assim? Vamos abraçar o Islã.” (Al-Isaba, 1/413; Musnad Ahmad) Ele chegou a Medina e apresentou-se perante o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Primeiro Khalid e depois Amr ibn al-As prestaram bai‘ah ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Amr voltou a Meca, mas Khalid permaneceu em Medina.

Hadrat Khalid disse: “Depois que abracei o Islã, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-me: ‘Eu havia percebido em ti sinais de inteligência e esperava que, no fim, essa inteligência te conduzisse ao bem e à prosperidade.’” Khalid disse: “Quando prestei bai‘ah ao Mensageiro de Allah, pedi-lhe: ‘Suplique para que sejam perdoados todos os pecados que cometi ao criar obstáculos no caminho de Allah.’ O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘O Islã apaga todos os pecados do passado.’ Eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, é com base nisso que presto bai‘ah.’ Ele disse: ‘Ó Allah, perdoa todos os crimes que ele cometeu ao criar obstáculos no Teu caminho.’” (Rijalun Hawlar Rasul, 284–285)

Depois que abraçou o Islã, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aceitou os seus serviços, mantendo-o no posto militar que ocupava por herança familiar antes do Islã. (Usud al-Gabah, 2/93) Antes do Islã, ele era um dos mais ferrenhos inimigos dos muçulmanos; depois de abraçar o Islã, tornou-se um perigo terrível para os politeístas. Em inúmeras batalhas, a sua espada despedaçou a unidade dos politeístas.

Depois de abraçar o Islã, Hadrat Khalid participou pela primeira vez da expedição de Mu’tah. No âmbito das atividades de da‘wah, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Hadrat al-Harith ibn Umayr al-Azdi ao governador de Busra, levando uma carta. Shurahbil ibn Amr al-Ghassani assassinou al-Harith no lugar chamado Mu’tah. Para vingar esse acontecimento, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou um exército de dois mil soldados sob o comando de Hadrat Zayd ibn Harithah. O exército romano adversário contava com aproximadamente duzentos mil soldados. Antes de o exército de Zayd ibn Harithah partir de Medina, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) instruiu-os: “Se Zayd for martirizado na batalha, Ja‘far assumirá o comando; se Ja‘far for martirizado, ‘Abdullah ibn Rawahah assumirá o comando. E, se ‘Abdullah também for martirizado, escolhei entre vós alguém para ser vosso amir.”

Eram três: Zayd, Ja‘far e ‘Abdullah. Eles foram os três heróis da expedição de Mu’tah, na Síria. Nessa batalha desigual, demonstraram uma bravura e uma coragem sem precedentes e foram, um após o outro, martirizados. Por fim, Hadrat Khalid assumiu o comando. Com o martírio sucessivo dos três comandantes, o exército muçulmano perdeu a coragem. Embora Khalid não tenha conseguido derrotar o exército inimigo, salvou o exército muçulmano da destruição.

Hadrat Rasul al-Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) anunciou em Medina o martírio dos três comandantes mencionados e a assunção do comando por Khalid da seguinte maneira:

“Zayd ibn Harithah tomou a bandeira e lutou contra o exército inimigo até ser martirizado. Depois, Ja‘far tomou a bandeira e também lutou até ser martirizado. Em seguida, ‘Abdullah ibn Rawahah tomou a bandeira e também foi martirizado. Então, uma ‘espada dentre as espadas de Allah’ tomou a bandeira, e Allah concedeu a vitória por suas mãos.” (Rijalun Hawlar Rasul, 286) Foi assim que ele recebeu o título de ‘Espada de Allah’. Naturalmente, há divergências quanto ao acontecimento ou ao momento em que recebeu esse título. Outra narração relata que, certa vez, Hadrat Rasul al-Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava em determinado lugar. Quando alguém passava por ele, perguntava: “Quem é?” A resposta era: “Fulano.” Certa vez, Khalid passou. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “Quem é?” Responderam: “Khalid.” Ele disse: “Khalid, servo de Allah: que excelente homem! Ele é uma das espadas de Allah.” Isso ocorreu depois de Mu’tah. (Usud al-Gabah, 2/94; Al-Isaba, 1/413)

Hadrat Khalid participou da expedição de Mu’tah como um soldado comum, sob o comando dos três comandantes Zayd, Ja‘far e ‘Abdullah. Quando o último dos três mencionados foi martirizado, Hadrat Thabit ibn Aqram correu até a bandeira e ergueu-a com a mão direita, para evitar qualquer desordem no exército muçulmano. Segurando a bandeira, correu até Hadrat Khalid e disse: “Khudh al-liwa’a ya Aba Sulayman — Abu Sulayman, toma a bandeira.” Ele sabia muito bem que um recém-convertido como Khalid não tinha o direito de comandar um exército entre cujas fileiras estavam os Muhajirun e os Ansar, que haviam abraçado o Islã desde o início. Com grande respeito, disse a Thabit ibn Aqram: “Não, não posso aceitar a bandeira; tu és a pessoa mais qualificada para isso. És mais velho e és badri, isto é, participaste da batalha de Badr.” Thabit respondeu: “Toma-a; na batalha, és mais habilidoso do que eu. Ergui esta bandeira especialmente para ti.” Em seguida, Hadrat Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele) dirigiu-se ao exército muçulmano e perguntou: “Aceitais Khalid como comandante?” Eles responderam em uníssono: “Sim, aceitamos.” (Rijalun Hawlar Rasul, 286–287) Khalid disse: “Na batalha de Mu’tah, sete espadas quebraram-se em minha mão. Por fim, restou intacta uma espada iemenita.” (Usud al-Gabah, 2/94)

Durante a conquista de Meca, ele acompanhou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) confiou-lhe o comando do flanco direito do exército muçulmano. Embora Meca tenha sido conquistada sem derramamento de sangue, naquele dia alguns politeístas foram mortos pelas mãos de Khalid. Ele entrava em Meca pela direção de Qudāʾ, quando, no caminho, encontrou um grupo de politeístas de Meca. Os politeístas começaram a disparar flechas, e ele respondeu lançando flechas contra eles. Como resultado, alguns politeístas foram mortos. Por isso, ele teve de prestar contas ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) soube que os politeístas haviam iniciado o ataque, aceitou aquilo como sendo a vontade de Allah e permaneceu em silêncio.

Ele participou da expedição de Hunayn. O exército muçulmano foi formado por doze mil soldados. O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dividiu todo o exército em várias unidades, segundo as tribos. A tribo de Banu Sulaym estava na vanguarda de todo o exército, e seu comandante era Khalid. Nessa batalha, ele demonstrou grande coragem e bravura. Foi ferido em várias partes do corpo. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi visitá-lo, soprou sobre seus ferimentos, e ele se recuperou rapidamente. (Usd al-Ghābah, 2/95) Na expedição de Ta’if, Khalid era o comandante da vanguarda. No nono ano da Hégira, também participou da expedição de Tabuk. Nessa guerra, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou-o com quatrocentos soldados contra Uqaydir ibn ʿAbd al-Malik, chefe de Dumat al-Jandal. Khalid matou o irmão de Uqaydir e capturou Uqaydir, levando-o à presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

No nono ano da Hégira, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Khalid à tribo de Banu Jadhīmah, com o objetivo de convidá-la ao Islã. Por meio do convite de Khalid, a tribo de Banu Jadhīmah aceitou o Islã. Porém, por não conseguirem expressá-lo corretamente, sem intenção, Khalid os interpretou mal. Ele ordenou o ataque. Como consequência, muitos membros dessa tribo foram mortos ou feridos. Ao tomar conhecimento do ocorrido, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou profundamente triste. Ergueu as mãos e suplicou: “Ó Allah, estou totalmente isento da responsabilidade pelo que Khalid fez.” Em seguida, enviou Ali e pagou todas as compensações devidas a eles. Pagou até mesmo a compensação pelos cães que haviam sido mortos. (Al-Bukhari: Kitāb al-Maghāzī; Usd al-Ghābah, 2/94)

Depois desse incidente, quando Khalid voltou a Medina, houve uma discussão entre ele e ʿAbd al-Rahman ibn ʿAwf sobre o assunto. Em certo momento, Khalid dirigiu alguns insultos a ʿAbd al-Rahman. Quando o fato chegou aos ouvidos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele se zangou e disse a Khalid: “Não insulteis meus companheiros. Mesmo que algum de vós gaste ouro equivalente ao tamanho do monte Uhud, não conseguirá igualar sequer um mudd, ou metade dele, do que eles gastaram.” (Usd al-Ghābah, 2/95)

No décimo ano da Hégira, o nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Khalid à tribo de Banu ʿAbd al-Madān, em Najran, para convidá-la ao Islã. Como Khalid havia cometido um grave erro ao tomar uma decisão precipitada no caso de Banu Jadhīmah, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu-lhe uma orientação especial antes de sua partida: “Deves apenas convidá-los ao Islã; em nenhuma circunstância deves erguer a espada.” Ele cumpriu essa orientação à risca. Por meio de seu convite, toda a tribo de ʿAbd al-Madān aceitou o Islã. Assim, um soldado do campo de batalha apareceu pela primeira vez como um verdadeiro dāʿī do Islã, um pregador do Islã. Ele ensinou e treinou todos esses novos muçulmanos e levou-os consigo à presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). No mesmo ano, Ali e Khalid (que Allah esteja satisfeito com ambos) foram enviados para levar o convite ao Islã aos habitantes do Iêmen. Em resposta ao convite deles, os habitantes do Iêmen aceitaram o Islã.

Al-ʿUzzā era um dos centros de adoração de ídolos dos coraixitas da Arábia da Jāhiliyyah. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Khalid para destruir aquele centro. Ao chegar lá, ele o reduziu a pó enquanto recitava os seguintes versos: “Ó ʿUzzā, não és sagrada; nós te renegamos. Vi que Allah te humilhou.” (Usd al-Ghābah, 2/94)

Imediatamente após o falecimento do nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), uma grave fitnah dos apóstatas, dos falsos pretendentes à profecia e dos que negavam o zakat começou a se espalhar por toda a Península Arábica. Para esmagar a força desses causadores de fitnah, o califa Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) preparou um exército e montou pessoalmente em seu cavalo para partir. Porém, os Companheiros ilustres consideraram que, naquele momento, o califa deveria permanecer em Medina, sede do califado. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) segurou as rédeas do cavalo do califa e perguntou: “Califa do Mensageiro de Allah, para onde vais? Estou apenas repetindo o que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhe disse no dia de Uhud: ‘Ó Abu Bakr, tua espada enlouqueceu; não nos aflijas por causa de ti mesmo.’” O califa revogou sua decisão e permaneceu em Medina. Dividiu todo o exército em onze partes e confiou a Khalid o comando de uma delas. Ao despedir Khalid de Medina, disse-lhe: “Ouvi o Mensageiro de Allah dizer a teu respeito: ‘Khalid é uma espada de Allah, que Allah desembainhou contra os incrédulos e os hipócritas. Khalid é um excelente servo de Allah e um excelente irmão de sua tribo.’” (Rijāl Ḥawla al-Rasūl, 291)

Hazrat Khalid partiu de Medina com seu exército. Antes de cada expedição, ele instruía suas tropas: “Não maltratareis os agricultores. Deixai-os permanecer em segurança. Contudo, se algum deles sair para lutar contra vós, lutai contra eles.”

Khalid liderou uma expedição contra o falso profeta Tulaiha. A batalha estava intensa. Em cada confronto, os companheiros de Tulaiha sofriam uma derrota. Certo dia, Tulaiha perguntou aos seus íntimos: “Por que estamos sendo tão derrotados?” Eles responderam: “Porque cada um de nós deseja que seu companheiro morra antes dele. Já cada um daqueles contra quem lutamos deseja morrer antes de seu companheiro.” (Hayatus Sahaba, 3/693) Khalid matou os companheiros de Tulaiha e capturou trinta deles, enviando-os para Medina. Ele também liderou uma expedição contra Musailima, o Mentiroso. O falso Musailima foi morto pelas mãos de Wahshi, o assassino de Hazrat Hamza.

Depois de eliminar a sedição dos falsos profetas, Hazrat Khalid avançou contra os que se recusavam a pagar o zakat e contra os apóstatas (os que abandonavam o Islã). Primeiro, atacou as tribos de Asad e Ghatfan. Alguns deles foram mortos, outros foram capturados, e os restantes se arrependeram e retornaram ao Islã. (Tarikh al-Khulafa, de Suyuti, p. 72) Khalid esteve na vanguarda de todas as expedições contra os apóstatas. Tabari disse: “Todas as vitórias obtidas nas campanhas contra os apóstatas foram mérito de Khalid e dos demais.”

Depois de conter a desordem interna, Hazrat Khalid avançou em direção ao Iraque. Nas batalhas de Mujar, Qaisar, Alim, Amghishiya, Hira, Anbar, Ain al-Tamr, Dumat al-Jandal, Hasid, Khanafis, Sana, Bishr, Firad e outras, demonstrou coragem e estratégia incomparáveis e submeteu todo o Iraque. A última batalha entre Hazrat Khalid e os iraquianos ocorreu em Firad. O exército muçulmano estava em uma margem do Eufrates, e o exército iraquiano unido, na outra. Os iraquianos propuseram: “Ou venham para este lado, ou deem-nos a oportunidade de passar para o outro lado.” Hazrat Khalid aceitou a proposta e permitiu que eles atravessassem para este lado. Começou então um violento combate entre os dois lados. O exército muçulmano cercou o exército inimigo por três lados. Atrás deles estava o turbulento rio Eufrates. Não tinham outra opção senão morrer afogados se recuassem ou serem abatidos pelas espadas dos soldados muçulmanos se avançassem. Hazrat Khalid prendeu e esmagou todo o exército inimigo como se estivesse entre as pedras de um moinho. Depois dessa batalha, Hazrat Khalid partiu secretamente para o hajj.

Enquanto Hazrat Khalid combatia no Iraque, outro exército muçulmano estava envolvido em combates na Síria. Assim que a campanha de Khalid no Iraque terminou, ele recebeu da corte do califa a ordem de juntar-se ao exército que se encontrava na Síria. Khalid chegou a Bosra vindo do Iraque. As forças islâmicas já aguardavam sua chegada ali. Assim que chegou, Khalid atacou Bosra. Os habitantes de Bosra salvaram suas vidas mediante um tratado de paz.

Depois de concluir a campanha de Bosra, Hazrat Khalid e Abu Ubaida chegaram a Ajnadayn. Hazrat Amr ibn al-As já se encontrava ali. No 13º ano da Hégira, travou-se uma batalha intensa. Ajnadayn foi subjugada por Khalid.

Sob o comando do general Abu Ubaida, o exército muçulmano mantinha Damasco sitiada pelos três lados. Hazrat Khalid estava encarregado de um dos lados. Apesar de três meses de cerco, nenhum resultado havia sido alcançado. Nesse período, nasceu um filho do sacerdote de Damasco. Os habitantes da cidade beberam vinho e entregaram-se à alegria durante a celebração do nascimento. Hazrat Khalid quase não dormia à noite durante a guerra. Passava as noites ocupado com a organização militar e com a obtenção de informações sobre o inimigo. Ao tomar conhecimento da situação dos habitantes de Damasco, decidiu imediatamente e ordenou ao seu exército que, assim que ouvisse os gritos de takbir, corresse até os portões da muralha da cidade e atacasse. Enquanto isso, escolheu alguns soldados distintos e entrou no interior com a ajuda de cordas. De surpresa, matou os guardas do portão, quebrou o cadeado e começou a proclamar o takbir. Ao ouvirem o takbir, os soldados que aguardavam do lado de fora entraram juntos. Os habitantes da cidade estavam então profundamente adormecidos. Diante de um ataque tão inesperado, ficaram aterrorizados. Tomaram rapidamente uma decisão, propuseram um tratado de paz ao general Abu Ubaida e abriram, com as próprias mãos, os demais portões da muralha da cidade. De um lado, Hazrat Khalid entrou com a aparência de um vencedor; de outro, Hazrat Abu Ubaida concluiu o tratado de paz. Embora metade da cidade tivesse sido conquistada pela guerra, Abu Ubaida tratou todos os seus habitantes de forma igual, conforme as condições do tratado. (Tarikh, de Ibn al-Athir, 6/329)

Khalid também participou da batalha de Fahl. Nessa batalha, era o comandante da vanguarda. Os romanos sofreram uma derrota humilhante. Depois de Fahl, Khalid e Abu Ubaida avançaram em direção a Homs. Na época, Yazid ibn Abu Sufyan estava encarregado da administração de Damasco. Os romanos voltaram a tramar a reconquista de Damasco. Yazid ofereceu resistência. O combate era intenso. Foi então que Hazrat Khalid surgiu pela retaguarda como um cometa. Com exceção de alguns poucos membros do exército romano, todos foram mortos pelas tropas de Khalid.

Ao ouvir as notícias das derrotas do exército romano nas várias frentes da Síria, o governante romano daquela região expressou, em certo momento, o desejo de concluir um tratado de paz com os muçulmanos. Porém, seus conselheiros o incitaram à guerra, dizendo: “Certamente impediremos que os cavaleiros de Abu Bakr entrem em nossa terra.” Sob a liderança do general Mahan, reuniram em Yarmuk um enorme exército de duzentos e quarenta mil homens. Seus sacerdotes também saíram de seus retiros e inflamaram o povo em nome da religião. Ao ouvir essa notícia, o califa Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) comentou: “Juro por Allah, curarei, por meio de Khalid, esta provocação de suas paixões.” Sim, naquele dia Khalid foi o antídoto devastador para aquela grande enfermidade dos romanos.

Hazrat Khalid chegou ao campo de batalha e viu que os vários comandantes do exército muçulmano conduziam separadamente suas próprias tropas. Ele fez um breve discurso aos guerreiros muçulmanos. Depois de louvar e glorificar Allah e Seu Mensageiro, disse: “Este dia é um dos dias de Allah. Hoje não se deve demonstrar orgulho nem arrogância. Sede sinceros em vosso jihad e buscai a satisfação de Allah por meio de vossas ações. Vinde, vamos compartilhar o emirado, ou a liderança. Que alguns de nós sejam emires hoje, outros amanhã e outros depois de amanhã. Assim, todos vós sereis emires. Deixai este dia comigo.” Todos aceitaram a proposta. (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 295) Ele nomeou um oficial para cada uma das 38/36 divisões em que organizou todo o exército. Naquele dia, dispôs o exército muçulmano de uma maneira que os árabes nunca haviam visto antes.

Depois que o exército muçulmano tomou suas respectivas posições em Yarmuk, Hazrat Khalid convocou as mulheres e, pela primeira vez, colocou espadas em suas mãos, ordenando-lhes: “Vós permanecereis atrás dos mujahidin muçulmanos. Se virdes alguém fugindo e recuando, matai-o com esta espada.” (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 295)

Em meio a esses preparativos, um mujahid muçulmano disse em tom desesperado: “Como são numerosos os romanos e como somos poucos!” Khalid lhe disse: “Não estás correto. Dize antes: quão poucos são os romanos e quão numerosos são os muçulmanos — não em razão do número de homens; os exércitos crescem por meio da vitória e diminuem por meio da derrota. Juro por Allah que, se os cascos do meu cavalo estivessem em boas condições, eu não me preocuparia com a superioridade numérica deles.” (Tarikh al-Ummah al-Islamiyyah, 1/193) Vale mencionar que, durante a longa viagem, os cascos do cavalo de Hazrat Khalid, ‘Askar, haviam ficado feridos.

Pouco antes do início da batalha de Yarmuk, o comandante romano ‘Mahan’ informou, por meio de um emissário, que desejava falar diretamente com Khalid. Khalid aceitou. Os dois comandantes ficaram frente a frente no campo entre os dois exércitos. O comandante romano disse a Khalid: “Soubemos que o trabalho árduo e a fome vos expulsaram de vossa terra e vos trouxeram até aqui. Se quiserdes, podemos dar a cada um de vós dez dinares, uma muda de roupa e algum alimento. Em troca, retornareis à vossa terra. No próximo ano, também vos enviarei coisas semelhantes.” Khalid percebeu o insulto oculto nas palavras do comandante romano. Rangendo os dentes de raiva, lançou-lhe uma resposta à altura. Disse: “A fome não nos expulsou de nossa terra nem nos trouxe até aqui, como dissestes. Porém, somos um povo sedento de sangue. Soubemos que, na terra, não há sangue mais cobiçável e nobre do que o sangue romano. Por isso viemos atraídos por esse sangue.” Assim que proferiu essas palavras, o heroico Khalid puxou as rédeas do cavalo e retornou diretamente ao seu exército, declarando a guerra ao grito de ‘Allahu Akbar, Huya riyahal jannah’.

O exército romano avançou de maneira tão terrível que os árabes jamais haviam visto algo semelhante. Ikrimah ibn Abi Jahl e Qa‘qa ibn ‘Amr estavam encarregados do centro do exército muçulmano. Khalid ordenou-lhes que atacassem. Os dois lançaram-se sobre o exército inimigo recitando versos de guerra. Começou uma batalha total. Khalid ordenou que todo o seu exército atacasse. Ele penetrou no centro da cavalaria e da infantaria romanas. Por onde passava, o exército romano era despedaçado. Uma luta intensa continuou por um dia e uma noite inteiros. Na manhã seguinte, Khalid foi visto sobre a plataforma do comandante romano. Segundo at-Tabari, além dos que morreram no campo de batalha, cento e vinte mil soldados romanos que fugiam pela retaguarda morreram afogados no rio Jordão.

A batalha terminou. Na manhã seguinte, Ikrimah e seu filho ‘Amr ibn Ikrimah foram encontrados cobertos de ferimentos. Khalid apoiou a cabeça de Ikrimah sobre sua coxa e a de ‘Amr sobre a canela de sua perna; depois começou a acariciar-lhes a cabeça e, enquanto derramava gota a gota água em suas gargantas, dizia: “‘Ibn al-Hantamah’ — isto é, ‘Umar — pensava que não sabíamos morrer como mártires. Nunca!” Três mil soldados muçulmanos alcançaram o martírio nessa batalha. (Tarikh al-Ummah al-Islamiyyah, 1/193)

A influência que a personalidade de Khalid ibn al-Walid exerceu sobre o exército romano pode ser compreendida por meio de vários acontecimentos. A batalha de Yarmuk estava em andamento. Em certo momento da batalha, um comandante do exército romano chamado ‘Jarjah’ saiu de seu acampamento. Seu objetivo era falar diretamente com Khalid. Khalid concedeu-lhe tempo e oportunidade. Jarjah disse: “Khalid, diga-me a verdade; não minta. Um homem livre e nobre não mente. Allah concedeu do céu ao vosso Profeta alguma espada que ele vos deu, e todos contra os quais essa espada foi erguida foram derrotados?”

Khalid: Não.

Jarjah: Então, por que o senhor é chamado de “Saifullah” — a Espada de Allah?

Khalid: Allah enviou Seu Mensageiro entre nós. Alguns de nós acreditaram nele, e outros não. No início, eu estava entre estes últimos. Então Allah transformou meu coração. Eu criei fé em Seu Mensageiro e prestei juramento de fidelidade a ele. O Mensageiro fez uma súplica por mim. Ele me disse: “Tu és uma espada de Allah.” Assim, tornei-me “Saifullah”.

Jarjah: Para o que vocês convocam as pessoas?

Khalid: Para a unicidade de Allah e para o Islã.

Jarjah: Como? Vocês estão em vantagem.

Khalid: Nós nos levantamos e nos sentamos na companhia do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). Vimos seus milagres e seus feitos extraordinários. Se alguém visse tudo o que vimos e ouvisse tudo o que ouvimos, certamente deveria aceitar o Islã com facilidade. Quanto a vocês, que não o viram nem ouviram suas palavras e, ainda assim, creem no invisível, a recompensa de vocês é ainda mais grandiosa, se crerem sinceramente em Allah.”

Jarjah esporeou o cavalo, aproximou-se de Khalid e parou ao seu lado, dizendo: Khalid, ensine-me o Islã.

Jarjah aceitou o Islã e realizou duas rak‘at de oração. Essas duas rak‘at foram a primeira e a última oração de sua vida. Em seguida, esse romano recém-convertido marchou com o exército muçulmano para combater os romanos, desejando alcançar o martírio. Allah, o Todo-Poderoso, realizou seu desejo. Ele foi martirizado (Rijalun Hawla ar-Rasul, 299–301).

Ao ouvir a notícia da desastrosa derrota do exército romano em Yarmuk, Heráclio recuou, deixando para trás a cidade de Hims. Ao partir, disse: “Salamun alaika, ó Síria, uma despedida após a qual não haverá outro encontro.” Após Yarmuk, Hazrat Khalid conquistou Hadir.

Depois de concluir a campanha de Hadir, Khalid marchou em direção a “Qinnasrin”. Os habitantes de Qinnasrin entraram antecipadamente na fortaleza e fecharam os portões para impedir o exército muçulmano. Hazrat Khalid dirigiu-se a eles, dizendo: “Mesmo que vocês se refugiem sobre as nuvens, Allah me elevará até lá ou fará com que vocês desçam e venham até nós.” (Tarikh al-Ummah al-Islamiyyah, 2/4) Considerando o destino dos habitantes de Hims, os habitantes de Qinnasrin concluíram um tratado de paz com Khalid.

Baitul Maqdis estava sitiada. Entre os comandantes do exército muçulmano nesse cerco estava também Khalid. Sem saber o que fazer, os habitantes cristãos de Baitul Maqdis propuseram um tratado de paz. Contudo, exigiram que o próprio Amir al-Mu’minin Umar assinasse o tratado com as próprias mãos. Para atender à exigência deles, Khalid veio de Medina para a Síria. Convocou para Jabia os oficiais do exército muçulmano que estavam na Síria. Khalid chegou usando roupas extremamente luxuosas. Assim que o califa o avistou, desceu do cavalo, lançou pedrinhas contra Khalid e disse: “Tão rapidamente você mudou seus hábitos?” Khalid ergueu a arma e respondeu: “Mas não abandonei os hábitos de um soldado.” O califa disse: “Então não há problema.” No ano 17 da Hégira, Abu Ubaida e Khalid reprimiram conjuntamente a rebelião em Hims. Com isso, chegou ao fim o domínio romano que durara centenas de anos em toda a Síria.

Nem mesmo um comandante tão grandioso foi poupado pelo califa Hazrat Umar. Ele rebaixou Khalid do posto de comandante ao de simples soldado. Há divergências entre os historiadores quanto ao ano de sua destituição. Segundo alguns, ele foi afastado no ano 17 da Hégira, após cinco anos do califado de Hazrat Umar. De acordo com alguns relatos, porém, Hazrat Umar o destituiu logo depois de assumir o califado, quando Hazrat Khalid ainda comandava as operações no campo de batalha de Yarmuk.

Várias pessoas narraram de maneiras diferentes o episódio da destituição de Hazrat Khalid. Alguns disseram que uma batalha feroz estava em curso em Yarmuk. Nesse momento, um mensageiro do novo califa Umar chegou ao campo de batalha vindo de Medina com uma carta. A carta continha duas notícias: a morte de Abu Bakr e a nomeação de Abu Ubaida no lugar de Khalid, que seria destituído. Depois de ler a carta, Khalid suplicou a Allah pelo perdão de Abu Bakr e pelo sucesso de Umar. Em seguida, pediu ao mensageiro que não revelasse o conteúdo da carta a ninguém. Assim, ocultando a notícia da morte de Abu Bakr e a ordem de Umar, Khalid continuou no comando e alcançou a inevitável vitória. Depois, apresentou-se diante de Abu Ubaida e prestou-lhe homenagem como um simples soldado. A princípio, Abu Ubaida pensou que talvez fosse uma brincadeira. Mas logo entendeu que não era brincadeira, e sim realidade. Khalid retirou suas vestes e colocou-as diante de Abu Ubaida.

Alguns narraram o episódio mencionado da seguinte maneira: às vezes, os gastos de Hazrat Khalid ultrapassavam os limites. Ele doava grandes quantias de dinheiro a poetas e literatos. Doou dez mil dirrãs ao poeta A‘shas ibn Qays. Ao tomar conhecimento disso, o califa Umar ordenou a Abu Ubaida que perguntasse a Khalid de que fonte ele havia dado aquele dinheiro. Se tivesse sido retirado dos recursos da ummah muçulmana, ele teria cometido traição ou quebra de confiança; se tivesse saído de seus próprios recursos, teria cometido desperdício. Segundo alguns relatos, Abu Ubaida recebeu essa ordem do califa no campo de batalha de Yarmuk. Quando perguntou a Khalid, ele respondeu que havia doado o dinheiro de seus recursos pessoais. Então Abu Ubaida leu para ele a ordem do califa e, como indicação de sua destituição do posto de comandante, retirou o gorro da cabeça de Khalid e baixou seu turbante até o pescoço. Khalid limitou-se a dizer: “Ouvi a ordem do califa e a aceitei. Continuo pronto para obedecer às ordens de meu superior e prosseguir no serviço.” O califa convocou-o a Medina. Quando chegou, seus bens foram submetidos a uma rigorosa prestação de contas, mas nenhuma irregularidade foi encontrada. Depois, o califa Umar declarou publicamente: “Não destituí Khalid por falta de confiança, por ira ou por qualquer motivo semelhante.” (Ibn al-Athir, 2/418)

Além do episódio mencionado, havia outras razões para a destituição de Khalid. Seu temperamento de soldado era rude. Ele agia segundo a própria vontade em cada assunto e não considerava necessário consultar o califa. Tampouco enviava regularmente à corte do califa as contas das receitas e despesas do exército. Assim que terminou a campanha no Iraque, partiu para Meca para realizar o hajj sem a permissão do califa Abu Bakr. Essa atitude deixou Hazrat Abu Bakr extremamente contrariado. O califa advertiu-o repetidas vezes. Ele respondeu ao califa: “Dê-me liberdade para agir conforme a minha vontade; caso contrário, eu mesmo deixarei o cargo.” Desde a época de Abu Bakr, Hazrat Umar estava insatisfeito com essas atitudes de Khalid. Repetidamente aconselhou Abu Bakr a destituí-lo. Abu Bakr respondia todas as vezes: “Não posso embainhar uma espada que Allah desembainhou.” Depois de assumir o califado, Umar tentou reformar Khalid; mas, como não obteve resultado, destituiu-o.

Além disso, a terceira razão para sua destituição mencionada pela história foi que, entre muçulmanos e não muçulmanos, surgiu a ideia e a crença de que as vitórias do Islã dependiam essencialmente da força do braço de Khalid. O califa Umar não aprovava de modo algum essa crença infundada. Ao destituir Khalid, demonstrou a falsidade dessa convicção.

Independentemente de como e de que maneira o acontecimento tenha ocorrido, o papel de Hazrat Khalid neste caso é digno de nota. O exemplo de lealdade, dedicação e fé que ele estabeleceu não encontra paralelo na história. Ele foi capaz de agir assim porque acreditava que as condições de comandante e de soldado comum eram iguais. Em todas as circunstâncias, considerava seu dever indispensável cumprir suas responsabilidades para com Allah, o Mensageiro de Allah e a religião na qual havia crido. Aos seus olhos, não havia, em essência, diferença entre um comandante leal e um soldado comum leal. Por isso, não hesitou nem por um instante em deixar o posto de comandante e servir igualmente como soldado comum. E, pela mesma razão, depois de entregar o comando do exército a Abu Ubaida, pôde dizer, em um discurso dirigido aos soldados comuns: “Abu Ubaida, o amīn ou homem mais digno de confiança desta ummah, foi nomeado seu emir.”

Depois que o califa Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) removeu Khalid do cargo de comandante, nomeou-o wālī em várias províncias. Após algum tempo, Khalid voluntariamente deixou essa função e passou a viver permanentemente em Medina. No ano 21/22 da Hégira, depois de permanecer doente por alguns dias, faleceu em Medina. Segundo muitos, ele morreu em Hims; mas considera-se que isso não está correto. Pois várias fontes mencionam que o califa Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) participou de sua oração fúnebre. (Usud al-Ghābah 2/96; al-Isābah 1/415)

Após a morte de Hazrat Khalid (que Allah esteja satisfeito com ele), o califa Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “As mulheres tornaram-se incapazes de dar à luz filhos como Khalid.” Depois da morte de Khalid, o califa chorou profundamente, tomado pela aflição. Mais tarde, as pessoas souberam que ele não chorara assim apenas pela dor da perda de Khalid; como a razão para sua destituição havia desaparecido, ele queria nomeá-lo novamente comandante. Foi por a morte ter impedido esse desejo que ele chorou tanto. (Rijāl hawla al-Rasūl, p. 305)

Desde o início até o fim de sua vida, Hazrat Khalid permaneceu nos campos do jihād. Por isso, teve muito pouca oportunidade e tempo para permanecer na companhia de Hazrat Rasūl-e Pāk (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele próprio disse: “A ocupação com o jihād privou-me de aprender uma grande parte do Alcorão.” (al-Isābah 1/415) Ainda assim, não ficou privado da graça da companhia do Profeta nem da bênção do conhecimento. Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele também foi um dos eruditos e companheiros muftis de Medina. Contudo, devido à sua natureza de soldado, nunca se sentou no posto de iftā. Não se conhecem mais do que duas ou quatro de suas fatwas. (A‘lām al-Muwaqqi‘īn) Ele narrou ao todo 18 hadiths. Desses, dois são muttafaqun alayh, isto é, narrados tanto por Bukhari quanto por Muslim, e um foi narrado exclusivamente por Bukhari.

Certa vez, Ammar ibn Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele) e Khalid discutiram. Khalid o insultou severamente. Ammar também apresentou uma queixa ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois de ouvir todo o relato, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comentou: “Quem nutre inveja e hostilidade contra Ammar nutre inveja e hostilidade contra Allah.” Essas palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) causaram tal efeito em Khalid que ele correu imediatamente até Ammar e o agradou. O próprio Khalid disse: “Depois de me levantar da presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), nada me era mais querido do que conquistar a satisfação de Ammar.” A devoção e o amor de Hazrat Khalid pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) eram tão intensos que ele não conseguia suportar que alguém dissesse sequer uma palavra levemente desrespeitosa a respeito dele. Certa vez, algum ouro chegou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e ele o distribuiu entre os chefes najdianos. Alguns coraixitas e ansares fizeram objeções. Um homem chegou a dizer: “Muhammad, tema a Allah.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Se eu desobedecer a Allah, quem então obedecerá a Allah?” Com palavras tão grosseiras daquele homem, Khalid explodiu de ira. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, permita-me, e eu lhe deceparei o pescoço.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o acalmou. (Bukhari)

O capítulo mais luminoso e glorioso da vida de Hazrat Khalid foi o jihād fī sabīlillāh — o jihād no caminho de Allah. A maior parte de sua vida transcorreu nos campos de batalha. Por suas ações heroicas e sua irresistível atração pelo jihād, recebeu de Hazrat Rasūl-e Pāk (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o título de Saifullah. Participou de aproximadamente cento e vinte e cinco batalhas. Aonde quer que fosse, retornava vitorioso. A confiança de Hazrat Rasūl-e Pāk nele era tamanha que, quando o estandarte chegava às suas mãos, ele ficava tranquilo. Khalid recebeu muitas armas como herança paterna. Depois de aceitar o Islã, dedicou tudo no caminho de Allah como waqf. (Tabaqāt) Seus amigos e inimigos comentavam a seu respeito: “Ele é um homem que não dorme e não permite que os outros durmam.” O próprio Khalid dizia: “Uma noite que eu pudesse passar com uma noiva, ou uma noite em que me anunciassem o nascimento de um filho, é menos querida para mim do que atacar ao amanhecer os idólatras, numa noite de frio intenso, junto de um grupo de muhājirūn.”

Certo dia, em seu leito de morte, disse pesarosamente: “Participei de mais de cem batalhas; cada parte do meu corpo traz uma ou duas marcas de golpes de espada, flecha ou lança. E hoje estou morrendo na cama, batendo os pés como um camelo febril.” Enquanto dizia essas palavras, lágrimas escorriam de seus dois olhos. (Rijāl hawla al-Rasūl, pp. 305–306; Usud al-Ghābah 2/95)

Pouco antes de morrer, deixou em testamento seus bens deixados para trás em favor do califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Esses bens não consistiam em nada além de seu cavalo e algumas armas de guerra. Assim, mesmo após a morte, dedicou no caminho de Allah as duas coisas que mais amara durante a vida como waqf.

O Honorável Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) elogiou-o várias vezes em diferentes ocasiões. Um dia, durante a Conquista de Meca, Khalid foi visto a certa distância. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse a Abu Huraira (que Deus esteja satisfeito com ele): “Veja quem é.” Ele respondeu: “Khalid.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: “Como é bom este servo de Deus!” Certa vez, disse aos Companheiros: “Não ofendam Khalid, pois ele é a espada de Deus contra os incrédulos.”

Certa vez, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) enviou Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) para recolher o zakat. Ibn Jamil, Khalid e Abbas — os três — recusaram-se a pagar o zakat. Ao tomar conhecimento disso, o Mensageiro disse: “Ibn Jamil era pobre, e Deus o tornou rico. Essa é a sua recompensa. Mas vocês foram injustos com Khalid. Ele consagrou todas as suas armas no caminho de Deus. Como se pode cobrar zakat dele? E quanto a Abbas? Sua responsabilidade está a meu cargo. Por acaso vocês não sabem que o tio ocupa o lugar do pai?” (Abu Dawud, 1/163)

Khalid (que Deus esteja satisfeito com ele) não era apenas um soldado; era também um hábil pregador do Islã, alguém que transmitia o chamado ao Islã. Observando os prejuízos causados por suas decisões precipitadas no caso dos Banu Juzayma e de Malik ibn Nuwaira, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), posteriormente, sempre que o enviava para alguma missão, aconselhava-o: “Convide apenas ao Islã; não levante a espada.” Da mesma forma, quando o enviou ao Iêmen, ordenou: “Que o início da guerra não parta de você.” Depois de receber essa orientação, não se sabe que ele tenha cometido qualquer excesso em nenhuma das guerras de que participou. Durante a vida do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e também após seu falecimento, ele cumpriu devidamente o dever de pregador. Depois da Conquista de Meca, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) enviou várias missões em todas as direções para transmitir o chamado ao Islã, e Khalid ficou responsável por algumas delas. Os Banu Juzayma e os Banu Abd al-Maddan aceitaram o Islã graças aos seus esforços. Na missão de pregação no Iêmen, ele foi auxiliar de Ali (que Deus esteja satisfeito com ele). Graças aos seus esforços, as tribos Banu Hawazin, Banu Sulaym, Banu Amir e outras, que haviam apoiado o falso profeta Tulayha al-Asadi, retornaram ao Islã. Além disso, inúmeras pessoas aceitaram o Islã em diferentes ocasiões em resposta ao seu chamado. Antes do início de cada batalha, ele sempre convidava o adversário ao Islã, conforme os princípios islâmicos. Mesmo em meio aos combates intensos no campo de batalha, desempenhou com êxito o papel de pregador. O soldado romano de Iarmuque chamado Jarjaha é uma prova eloquente disso.

Não é possível apresentar todos os acontecimentos da vida de Khalid em um breve ensaio. Repetimos também as palavras que o Emir dos Crentes, Umar (que Deus esteja satisfeito com ele), pronunciou ao expressar seu pesar após a morte de Khalid: “Que Deus tenha misericórdia de Abu Sulayman. O que Deus reservou é melhor do que aquilo em que ele se encontrava. Viveu louvado e morreu afortunado.” (Rijalun Hawla al-Rasul, 308)

Abdullah ibn Hudhafa al-Sahmi (que Deus esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Abu Hudhafa Abdullah. O nome de seu pai era Hudhafa. Era descendente do ramo Banu Sahm da tribo dos coraixitas. Aceitou o Islã nos primeiros tempos da pregação islâmica e permaneceu por muitos anos na companhia do Honorável Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Migrou para a Abissínia com seu irmão Qays ibn Hudhafa, junto à segunda caravana dos emigrantes que se dirigiam à Abissínia. (Al-Istiab)

Ele participou, ao lado do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), de todas as batalhas, exceto a de Badr. Abu Said al-Khudri (que Deus esteja satisfeito com ele) mencionou-o como “badrí”, isto é, participante da batalha de Badr. Contudo, Musa ibn Uqba, Ibn Ishaq e outros não o mencionaram como “badrí”. (Al-Istiab)

O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) enviou-o como comandante de uma expedição. Antes da partida, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) ordenou aos soldados sob seu comando que jamais desobedecessem às suas ordens. Ao chegarem ao local determinado, Abdullah ficou extremamente irritado por algum motivo. Perguntou aos soldados: “O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) não lhes ordenou que me obedecessem?” Eles responderam: “Sim, ordenou.” Ele disse: “Recolham lenha, acendam uma fogueira e atirem-se nela.” Os mujahidin recolheram lenha e acenderam o fogo. Então, antes de se atirarem nele, olharam uns para os outros. Muitos discordaram, dizendo: “Nós seguimos o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) justamente para nos salvar do fogo; e agora daremos a vida nesse fogo?” Enquanto essa discussão prosseguia, o fogo se apagou. A ira de Abdullah também se dissipou. Ao retornarem da expedição, informaram o acontecimento ao Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: “Se vocês tivessem entrado naquele fogo, jamais poderiam sair dele. A obediência só é obrigatória em assuntos permitidos por Deus.” (Bukhari: Livro dos Julgamentos, capítulo sobre ouvir e obedecer; Hayatus Sahaba, 1/67)

O acontecimento mencionado foi narrado de modo diferente em algumas versões. De acordo com essas versões, a ordem de Hazrat Abdullah para que saltassem no fogo não era uma ordem verdadeira. Ele estava apenas brincando um pouco com seus soldados. Hazrat Abu Sa’id al-Khudri (r.a.) narrou o acontecimento da seguinte maneira: O Mensageiro de Allah (s.a.w.) enviou, em uma expedição, um exército formado por Companheiros. Ele nomeou Abdullah ibn Hudhafah como comandante desse exército. Abdullah era um homem espirituoso. Depois de percorrerem certa distância, pararam em um lugar. Abdullah perguntou aos membros de seu exército: “Não vos foi ordenado obedecer-me?” Eles responderam: “Sim.” Ele perguntou: “Se eu vos der uma ordem, vós a cumprireis?” Eles responderam: “Sim.” Ele disse: “Em nome da autoridade e da obediência que me são devidas, ordeno-vos que salteis neste fogo.” Assim que receberam a ordem, alguns membros do exército começaram a preparar-se para saltar. Então ele disse: “Parai! Eu estava apenas brincando um pouco convosco.” Quando o exército retornou a Medina, o acontecimento chegou ao conhecimento do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Ele disse: “Se alguém ordenar-vos desobedecer a Allah, não lhe obedeçais.” (Sirat Ibn Hisham, 2/640)

No sexto ano da Hégira — segundo outra opinião, no sétimo — o nobre Mensageiro de Allah (s.a.w.) decidiu enviar emissários, levando cartas com o convite ao Islam, aos reis e governantes das regiões vizinhas. Ele também decidiu enviar emissários aos imperadores das duas superpotências do mundo daquela época: Roma e Pérsia. Mas a tarefa não era nada fácil. O Mensageiro (s.a.w.) estava ciente das dificuldades envolvidas. Os emissários desconheciam a língua, a cultura e o povo dos países para onde iriam. Ali, convidariam os reis e governantes desses países a abandonar a religião de seus antepassados e aceitar o Islam. Sem dúvida, essa missão diplomática era extremamente perigosa. Talvez aqueles que partissem jamais retornassem. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) ordenou que os Companheiros se reunissem. Levantou-se para proferir um discurso. Depois de louvar e exaltar Allah, recitou a profissão de fé. Então disse: “Quanto ao que segue! Decidi enviar alguns de vós aos reis persas e não árabes. Não vos oponhais a mim, como os Filhos de Israel se opuseram a Jesus, filho de Maria.”

Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah, cumpriremos o vosso desejo. Enviai-nos para onde quiserdes.”

O nobre Mensageiro de Allah (s.a.w.) escolheu seis Companheiros para levar as cartas do convite aos reis e imperadores árabes e estrangeiros. Abdullah ibn Hudhafah era um dos seis. Ele foi escolhido para levar a mensagem do Mensageiro de Allah (s.a.w.) ao imperador da Pérsia, Kisra.

Abdullah ibn Hudhafah concluiu os preparativos para a viagem, despediu-se da esposa e dos filhos e partiu. Seguiu por caminhos diversos, através de terrenos elevados e baixos. Completamente sozinho. Além de Allah, o Único, não tinha ninguém consigo. Depois de percorrer uma longa distância, chegou à Pérsia. Informou aos cortesãos que trazia uma carta para o imperador e pediu permissão para encontrar-se com ele. O assunto chegou aos ouvidos do imperador. Ele ordenou aos cortesãos que preparassem a corte. Quando tudo estava preparado, as personalidades mais importantes da Pérsia foram convocadas à corte. Então foi concedida a Abdullah ibn Hudhafah permissão para entrar.

O emissário do Mensageiro de Allah (s.a.w.), Hazrat Abdullah ibn Hudhafah, entrou na corte real de Kisra vestido como um beduíno comum, envolto em uma fina shamla (um manto que se enrola ao redor do corpo) e uma grossa aba (uma túnica longa). Ele era alto, largo e robusto. Sentia-se orgulhoso da grandiosidade do Islam e da honra da fé.

Assim que viu Abdullah entrar, Kisra ordenou a um de seus cortesãos que recebesse a carta das mãos dele. Mas Abdullah recusou-se a entregar a carta àquele homem e disse: “Não, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) ordenou que eu vos entregasse a carta diretamente. Não posso contrariar essa ordem.”

Kisra disse aos seus homens: “Deixai-o; permiti que ele venha até mim.” Abdullah avançou e entregou a carta nas mãos de Kisra. O imperador chamou um secretário arabófono, natural de Hira, abriu a carta e ordenou-lhe que a lesse. A leitura da carta começou:

“Em nome de Allah, o Misericordioso, o Compassivo — da parte de Muhammad, o Mensageiro de Allah, para Kisra, o imperador da Pérsia. Salamun ala man ittaba’a al-huda — Paz sobre aqueles que seguem a orientação.”

Assim que ouviu essa parte da carta, Kisra explodiu de raiva; seus olhos e seu rosto ficaram vermelhos, e as veias de seu pescoço incharam. Isso porque o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia começado a carta com o próprio nome; isto é, “Muhammad, o Mensageiro de Allah” vinha antes do nome de Kisra. Kisra arrancou a carta das mãos de quem a lia e a rasgou em pedaços. Não sentiu necessidade de saber qual era o conteúdo da carta. Gritou: “Ele é meu escravo e ainda assim escreveu-me desta maneira?” Em seguida, ordenou que Abdullah fosse retirado da assembleia. E ele foi levado para fora.

Abdullah ibn Hudhafah saiu da corte de Kisra. Ele não sabia o que Allah havia determinado para o seu destino. Seria morto ou seria libertado? Vários pensamentos começaram a atormentar sua mente. Num instante, afastou todas as preocupações e disse para si mesmo: “Juro por Allah, depois que a carta do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi entregue, que aconteça comigo o que tiver de acontecer. Não me importo com coisa alguma.” Depois dessas palavras, invocou o nome de Allah, montou em sua montaria e partiu. Enquanto isso, quando a ira de Kisra se acalmou um pouco, ele ordenou que Abdullah fosse trazido novamente à sua presença. Mas já não foi possível encontrá-lo. Procuraram-no minuciosamente, mas não encontraram nenhum vestígio dele. Ao investigarem na estrada que levava à Península Arábica, descobriram que ele havia partido rumo à sua terra natal. Já não conseguiram alcançá-lo.

Hazrat Abdullah compareceu perante o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e relatou detalhadamente tudo o que Kisra havia feito. Depois de ouvir tudo, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comentou: “Mazzaqahullahu mulkahu — Que Allah despedace o seu império.” (Al-Istiar)

Enquanto isso, Kisra escreveu a Bajan, seu representante e governante do Iêmen: “Ordene que enviem de lá dois homens robustos e fortes para capturar, no Hijaz, aquele que afirma ser profeta e trazê-lo até mim.” Bajan escolheu dois homens e enviou-os ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eles levavam consigo uma carta dirigida ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nela havia a ordem de que ele comparecesse, sem demora, à corte de Kisra junto com os portadores da carta. Bajan também ordenou aos dois homens que recolhessem diversas informações sobre o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e voltassem para informá-lo.

Os dois homens partiram do Iêmen e, depois de viajarem continuamente dia e noite, chegaram a Taife. Ali encontraram um grupo de comerciantes coraixitas. Perguntaram-lhes sobre Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Souberam que Muhammad estava então na cidade de Iasrib (Medina). Ao descobrirem o motivo da chegada dos dois homens, os coraixitas retornaram muito alegres a Meca. Deram aos habitantes de Meca a boa-nova: “Alegrai-vos! Kisra finalmente se levantou contra Muhammad. Agora sereis libertados do seu mal.”

Enquanto isso, os dois homens chegaram a Medina. Encontraram-se com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), entregaram-lhe a carta de Bajan e disseram: “O imperador Kisra escreveu ao nosso rei Bajan, ordenando-lhe que enviasse homens para buscá-lo. Viemos buscá-lo por ordem dele. Se responder ao nosso chamado, falaremos com Kisra para que isso seja benéfico para o senhor e para que ele não o castigue de forma alguma. Mas, se não responder ao nosso chamado, tenha cuidado com o que diz. Pois o senhor conhece bem o poder e a autoridade que ele possui para destruir o senhor e o seu povo.”

Quando terminaram de falar, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sorriu suavemente e disse: “Retornai hoje ao vosso alojamento e voltai novamente amanhã.”

No dia seguinte, eles compareceram diante do Mensageiro de Allah (saw) e disseram: “O senhor já se preparou para ir conosco ao encontro de Kisra?” O Mensageiro (saw) respondeu: “Vocês jamais verão Kisra novamente. Allah o destruiu. Em tal mês, em tal dia, seu filho ‘Shirawayh’ o matou e tomou o trono.” Ao ouvirem isso, eles ficaram olhando para o Mensageiro de Allah (saw), com os olhos arregalados de espanto. Então disseram:

“O senhor refletiu sobre o que está dizendo? Devemos escrever isso a ‘Bazan’?”

O Mensageiro de Allah (saw) disse: “Sim. E vocês também lhe escreverão que esta minha religião chegará até os confins do império de Kisra. Se você aceitar o Islã, a autoridade sobre seu povo lhe será concedida, juntamente com tudo o que está sob seu domínio.”

Os dois homens saíram da presença do Mensageiro de Allah (saw), foram diretamente até ‘Bazan’ e lhe relataram tudo o que o Mensageiro de Allah (saw) havia dito. ‘Bazan’ comentou: “Se o que Muhammad disse for verdade, então ele é certamente um profeta. Mas, se não for verdade, nós lhe daremos uma lição apropriada.”

Enquanto essa conversa acontecia, chegou a ‘Bazan’ uma carta de ‘Shirawayh’. O conteúdo da carta era o seguinte: “Em seguida, matei Kisra. Ele foi morto para que se vingasse o meu povo. ………. Depois que esta minha carta chegar até você, tome o juramento de lealdade dos que estão ao seu redor.”

Assim que ‘Bazan’ leu a carta de ‘Shirawayh’, atirou-a para longe e declarou-se muçulmano. Junto com ele, todos os persas que se encontravam ao seu redor, no Iêmen, aceitaram o Islã.

Este é o resumo do episódio de Hazrat Abdullah ibn Hudhafa (ra) com Kisra, o imperador da Pérsia. O episódio que ele viveu com o César romano foi ainda mais extraordinário. Esse acontecimento ocorreu durante o califado do segundo califa, Hazrat Umar.

No ano 19 da Hégira, o califa Umar (ra) enviou um exército contra os romanos. Abdullah ibn Hudhafa as-Sahmi também fazia parte desse exército. O César costumava ouvir muitas histórias sobre a fé e a bravura dos combatentes muçulmanos e sobre como eles ofereciam generosamente a vida por Allah e pelo Mensageiro. Ele havia ordenado aos seus soldados que, sempre que um soldado muçulmano fosse capturado, o enviassem vivo à sua presença. Pela vontade de Allah, Hazrat Abdullah foi capturado pelos romanos. Os romanos apresentaram-no ao seu rei e disseram: “Este homem é um companheiro de Muhammad; ele aceitou a religião dele logo no início. Foi capturado por nós e nós o trouxemos à sua presença.”

O imperador romano, depois de olhar longamente para Abdullah ibn Hudhafa, disse:

«Quero apresentar-te uma proposta.» Abdullah: «Qual é a proposta?»

O imperador: «Proponho que adotes o cristianismo. Se o fizeres, libertar-te-ei e honrar-te-ei.»

O prisioneiro Abdullah respondeu rápida e firmemente:

«Ai de mim! A morte mil vezes me é mais querida do que aquilo a que me estás a chamar.»

O imperador: «Considero-te um homem inteligente. Se aceitares a minha proposta, tornar-te-ei meu sócio no poder, entregar-te-ei a minha filha em casamento e dividirei contigo o meu império.»

O prisioneiro acorrentado sorriu levemente e disse: «Juro por Deus: mesmo que me fossem oferecidos todo o teu império e tudo o que está sob o domínio dos árabes, em troca de eu abandonar por um instante a religião de Muhammad (que a paz esteja com ele), eu não o faria.»

O imperador: «Então matar-te-ei.»

Prisioneiro: “Pode fazer comigo o que quiser.”

Por ordem do imperador, o prisioneiro foi pendurado numa estaca e amarrado firmemente. Depois, suspenderam-no pelas duas mãos e apresentaram-lhe o cristianismo, mas ele recusou. Em seguida, suspenderam-no pelos dois pés e instaram-no a abandonar o Islã, mas ele rejeitou firmemente.

O imperador ordenou aos seus homens que parassem e que o retirassem da estaca. Depois, mandou trazer um enorme caldeirão e enchê-lo de óleo. O óleo foi posto para ferver sobre o fogo. Quando começou a ferver intensamente, trouxeram outros dois prisioneiros muçulmanos. Um deles foi lançado naquele óleo fervente. No instante em que caiu, a carne do seu corpo se desfez e separou-se dos ossos.

O imperador voltou-se para Abdullah e instou-o novamente a aceitar o cristianismo. Dessa vez, Abdullah rejeitou-o com ainda mais firmeza do que antes. Por ordem do imperador, Abdullah foi levado para junto do caldeirão cheio de óleo fervente. Então surgiram lágrimas nos olhos de Abdullah. As pessoas disseram ao imperador: “O prisioneiro está chorando agora.” O imperador pensou que o prisioneiro havia ficado com medo. Ordenou: “Tragam o prisioneiro até mim.” Ele foi levado até lá. Mais uma vez, rejeitou o cristianismo com repulsa. Então o imperador disse a Abdullah: “Que você seja destruído! Então por que está chorando?” Abdullah respondeu: “Estou chorando ao pensar que, dentro de instantes, serei lançado neste caldeirão e chegarei ao fim. Contudo, desejo ter tantas vidas quanto os pelos do meu corpo e poder sacrificá-las todas no caminho de Allah, neste caldeirão.”

Então o imperador ímpio disse: “Se ao menos você beijar a minha cabeça, eu o libertarei.”

A princípio, Abdullah também rejeitou essa proposta. Porém, impôs uma condição e disse: “Se os outros prisioneiros muçulmanos forem libertados junto comigo, aceitarei.”

O imperador disse: “Sim, os outros também serão libertados.”

Abdullah conta: “Disse a mim mesmo: não há mal algum em que os outros prisioneiros muçulmanos também sejam libertados em troca disso.” Ele se aproximou do imperador e beijou-lhe a cabeça. O imperador romano ordenou que os prisioneiros muçulmanos fossem reunidos e entregues a Abdullah. O número total de prisioneiros era de 80.”

Quando Hazrat Abdullah (ra) voltou a Medina, relatou detalhadamente o acontecimento ao califa Umar (ra). O califa transbordou de alegria. Olhando para os prisioneiros presentes, disse: “Todo muçulmano deve beijar a cabeça de Abdullah ibn Hudhafah, e eu começo.” Dito isso, levantou-se e beijou sua cabeça. (Ver: Hayatus Sahabah – 1/302; al-Isabah – 2/296-97; al-Istيعab; Suwarum min Hayatis Sahabah – 1/51-56; Usud al-Ghabah – 3/143)

Após a conquista de Meca, o Mensageiro de Allah (sa) enviou Khalid ibn al-Walid à tribo de Banu Juzaymah para convidá-la ao Islã. Devido a um mal-entendido, Khalid atacou-os, e várias pessoas foram mortas ou feridas. O Mensageiro (sa) ficou profundamente entristecido com o ocorrido. Ele pagou uma compensação pelos mortos e também perdoou Khalid. Ibn Ishaq disse que, quando Khalid foi censurado por isso, ele respondeu: “Eu lutei contra eles porque Abdullah ibn Hudhafah as-Sahmi havia ordenado. Ele havia dito: ‘Se eles se recusarem a aceitar o Islã, o Mensageiro de Allah (sa) ordenou que você lute contra eles.’” (Sirat Ibn Hisham – 2/430)

Certo dia, o Mensageiro de Allah (sa), sentado no púlpito, anunciou: “Enquanto eu estiver sentado aqui, qualquer pessoa entre vocês que fizer qualquer pergunta receberá uma resposta.” Abdullah ibn Hudhafah levantou-se e perguntou: “Quem é meu pai?” O Mensageiro de Allah (sa) respondeu: “Seu pai é Hudhafah.” (Al-Isabah – 2/296) Ao ouvir isso, sua mãe disse: “Que pergunta terrível você fez ao Mensageiro de Allah (sa)! Deus não permita que ele tivesse dito outra coisa; o que teria sido de mim?”

Abdullah respondeu: “Eu estava verificando a veracidade da minha linhagem. Se ele tivesse me atribuído a algum escravo abissínio, eu teria aceitado.” (Al-Istيعab)

Vários hadiths foram narrados por Hazrat Abdullah ibn Hudhafah. Um deles foi registrado por Bukhari. Entre os mais importantes que narraram hadiths dele estão Abu Wa’il, Sulayman e Ibn Yasar.

Ibn Yunus disse que Abdullah participou da expedição ao Egito e faleceu no próprio Egito durante o califado de Hazrat Uthman. Ele foi sepultado no Egito. (Al-Isabah – 2/296)

Foi narrado por Jabir (ra): Um homem pediu alguma ajuda ao Mensageiro de Allah (sa), e ele lhe deu. Depois, outro homem pediu, e ele fez uma promessa. Umar ibn al-Khattab levantou-se e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Pediram-me ajuda, e eu dei; pediram novamente, e tornei a dar; depois pediram outra vez, e fiz uma promessa.” Pareceu que suas palavras não agradaram ao Mensageiro de Allah (sa). Então Abdullah ibn Hudhafah levantou-se e disse: “Ó Mensageiro de Allah, gaste; não tema a escassez da parte d’Aquele que é o Senhor do Trono.” O Mensageiro (sa) disse: “Foi isso que me foi ordenado.” (Hayatus Sahabah – 2/145)

Ibn Asakir narrou, sob a autoridade de Zuhri: Foi apresentada ao Mensageiro de Allah (sa) uma queixa contra Abdullah: “Ele é um homem muito espirituoso e afeito a brincadeiras.” Ele disse: “Deixem-no em paz, pois ele tem um grande ventre. Ele ama profundamente Allah e Seu Mensageiro.” (Hayatus Sahabah – 2/321)

Khabbab ibn al-Aratt (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Khabbab, sua kunya era Abu Abdillah e o nome de seu pai era al-Aratt. Há divergências quanto à sua linhagem. Alguns disseram que ele pertencia aos Banu Tamim, enquanto outros disseram que era descendente da tribo dos Banu Khuzāʿa. Contudo, segundo a opinião considerada autêntica, ele pertencia à tribo dos Banu Tamim. (Sira de Ibn Hisham, 1/254.) Na infância, ele caiu acorrentado à escravidão. A história de sua escravidão é narrada nos registros históricos da seguinte maneira:

Uma mulher chamada Umm Anmar, da tribo dos Banu Khuzāʿa, foi ao mercado de escravos de Meca. Seu objetivo era comprar um escravo saudável, robusto e bem nutrido, capaz de realizar todas as suas tarefas. Ela começou a examinar atentamente os rostos dos escravos levados ao mercado para serem vendidos. Por fim, escolheu um jovem escravo que ainda não havia chegado à idade adulta. O escravo, porém, gozava de boa saúde. Havia sinais de inteligência em seus olhos e em seu rosto. Foi justamente por isso que ela o escolheu. Depois de pagar o preço, levou consigo o jovem escravo.

Depois de percorrerem certa distância, Umm Anmar voltou-se para o escravo e perguntou:

— Meu filho, qual é o seu nome?

— Khabbab.

— E o nome de seu pai?

— Al-Aratt.

Onde fica sua terra natal?

Najd.

Então você é habitante da Arábia?

Sim, sou descendente dos Banu Tamim.

Como você veio parar neste mercado de escravos em Meca?

Uma tribo qualquer da Arábia atacou nossa tribo, roubou o gado e as aves domésticas, matou os homens e capturou as mulheres e as crianças, transformando-as em escravas. Eu era uma dessas crianças cativas. Depois, passei de mão em mão, cheguei a Meca e atualmente estou em sua posse.

Ummu Anmar entregou seu escravo aos cuidados de um ferreiro de Meca para que ele lhe ensinasse a arte e as técnicas de fabricar espadas. Em pouco tempo, aquele escravo inteligente tornou-se hábil na fabricação de espadas. Ummu Anmar alugou uma loja, comprou as ferramentas e os equipamentos de ferreiro e o pôs a trabalhar na fabricação de espadas.

Em pouco tempo, sua honestidade, dedicação, confiabilidade e habilidade na fabricação de espadas se espalharam por Meca. As pessoas começaram a lotar sua loja para comprar as espadas que ele fabricava.

Embora ainda fosse jovem, Khabbab possuía a inteligência dos adultos e o conhecimento dos anciãos. Nos momentos de descanso, entre uma tarefa e outra, ele refletia consigo mesmo sobre a sociedade da Jāhiliyyah, imersa dos pés à cabeça em calamidades. Pensava em que terrível ignorância e erro toda a nação árabe estava se debatendo, e que ele próprio era uma de suas vítimas mais desprezíveis. Ele ponderava e, às vezes, dizia inconscientemente para si mesmo: esta noite certamente terá um fim. Para testemunhar esse fim, desejava secretamente viver por muitos anos.

Khabbab não precisou esperar por muito tempo. Ouviu dizer que do rosto de um jovem dos Banū Hāshim, Muhammad ibn Abdillah, irradiava uma luz resplandecente. Correu até ele. Ouviu suas palavras e contemplou aquela luz. Imediatamente estendeu a mão e declarou: “Não há divindade além de Allah, e Muhammad é Seu servo e Mensageiro.” Assim, tornou-se o sexto muçulmano do mundo. Por isso, foi chamado de “Sādis al-Islām” (o sexto do Islã). Contudo, Mujāhid afirma: o primeiro a declarar o Islã foi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Depois dele, nessa ordem, Abu Bakr, Khabbab, Suhaib, Bilal, Ammar e Sumayyah, mãe de Ammar, declararam o Islã. Segundo esse relato, Khabbab foi o terceiro muçulmano. (Usud al-Ghābah, 2/98; al-Isābah, 1/426.) Khabbab abraçou o Islã justamente quando o nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pregava secretamente o Islã na casa de Arqam ibn Abi al-Arqam.

A partir de então começou o segundo capítulo da vida de Khabbab: suportar com um sorriso a opressão e a perseguição pela verdade, e arriscar a vida para propagar a verdade. Khabbab não ocultou de ninguém o fato de ter abraçado o Islã. Em pouco tempo, a notícia chegou aos ouvidos de sua senhora, Ummu Anmar. Ela ficou furiosa. Acompanhada de seu irmão Siba ibn Abd al-Uzza e de um grupo de homens dos Banū Khuzā‘ah, foi até Khabbab. Ele estava então profundamente concentrado em seu trabalho. Siba avançou um pouco e disse:

Ouvimos algo a seu respeito, mas não acreditamos nisso.

O quê?

Ouvi dizer que você renunciou à sua religião e se tornou seguidor de um jovem dos Banū Hāshim.

Eu não renunciei à minha religião; porém, creio no Deus Único, sem parceiro. Abandonei a idolatria de vocês e testemunhei que Muhammad é servo e Mensageiro de Allah.

Assim que suas palavras chegaram aos ouvidos deles, lançaram-se sobre ele. Começaram a esmurrá-lo, golpeá-lo e pisoteá-lo. Atiraram contra ele todos os martelos, chapas e pedaços de ferro de sua oficina. Khabbab perdeu os sentidos e caiu no chão; seu corpo ficou tingido de sangue.

O acontecimento de outro dia. Alguns homens dos coraixitas foram à casa de Khabbab para buscar as espadas que haviam encomendado. Khabbab fabricava espadas, vendia-as em Meca e também as enviava para fora. Devido ao trabalho, raramente ficava ausente de casa por muito tempo. Mas eles não o encontraram em casa e ficaram esperando por ele. Pouco depois, Khabbab chegou. Seu rosto trazia uma expressão interrogativa luminosa. Depois de perguntar aos visitantes como estavam, ele se sentou. Eles perguntaram: “Khabbab, as espadas estão prontas?”

Havia um brilho de alegria nos olhos e no rosto de Khabbab. Ele parecia estar pensando em algo consigo mesmo. Nesse momento, exclamou involuntariamente: “O assunto dele é realmente extraordinário.”

Imediatamente, os homens perguntaram: “De quem você está falando? Nós queremos saber se as espadas estão prontas ou não.”

Olhando profundamente para eles, Khabbab disse:

“Vocês o viram? Ouviram alguma de suas palavras?”

Eles olharam uns para os outros, perplexos. Um deles perguntou, em tom de brincadeira: “Você o viu?”

Khabbab perguntou, de maneira um tanto enigmática: “De quem você está falando?”

O homem respondeu, com a voz exaltada: “Estou falando justamente daquele de quem você está falando.”

Khabbab não deixou escapar aquela oportunidade de revelar a verdade. Ele disse: “Sim, eu o vi e também ouvi as suas palavras. Vi a verdade fluindo de todos os lados dele, e a luz brilhando em seu rosto.”

Os homens que haviam chegado começaram então a entender o que estava acontecendo. Um deles perguntou aos gritos:

“Ó escravo de Ummu Anmar! De quem estás falando?” Khabbab respondeu calmamente:

“Meus irmãos árabes, quem mais poderia ser? Quem, entre o vosso povo, além dele, tem a verdade fluindo de todos os lados e a luz brilhando em seu rosto?”

“Acreditamos que estás falando de Muhammad.” Khabbab balançou levemente a cabeça e disse, radiante:

“Sim, ele é o Mensageiro de Allah enviado a nós. Allah o enviou para nos tirar das trevas e nos conduzir à luz.”

Depois de pronunciar essas palavras, ele não sabia mais o que havia saído de sua boca nem o que lhe haviam dito. Tudo de que se lembrava era que, algumas horas mais tarde, quando recuperou a consciência, percebeu que aqueles homens haviam desaparecido. Seu corpo estava dormente de dor e sofrimento, e todo o seu corpo e as roupas que vestia estavam encharcados de sangue. O acontecimento ocorrera diante de sua casa. Com grande dificuldade, levantou-se e entrou em casa; enfaixou os ferimentos e começou a preparar-se para uma nova provação. (Rijalun Hawla Rasul, p. 230)

Assim, Hazrat Khabbab conquistou uma posição especial entre aqueles que sofreram opressão e perseguição por causa da religião. Apesar de pobre e fraco, Khabbab foi uma das principais figuras entre os que se levantaram contra a arrogância e a corrupção dos coraixitas.

Como o fogo em folhas secas, a notícia de que Khabbab havia aceitado a nova religião e estava sofrendo castigos espalhou-se rapidamente pelas vielas de Meca. Os habitantes de Meca ficaram atônitos diante da ousadia de Khabbab. Até então, jamais tinham ouvido falar de alguém que, tornando-se seguidor de Muhammad, tivesse declarado isso publicamente diante das pessoas, em tom de desafio.

O caso de Khabbab abalou os líderes dos coraixitas. Eles jamais haviam imaginado que aquele escravo ferreiro de Umm Anmar, sem nome de família, tribo ou qualquer apoio, teria a insolência e a ousadia de escapar ao seu poder daquela maneira e de censurar e condenar a religião de seus deuses e de seus antepassados. Pensaram que, depois de uma surra daquelas, ele talvez se acalmasse e jamais voltasse a cometer semelhante tolice.

A expectativa dos coraixitas revelou-se falsa. O resultado foi justamente o oposto. A ousadia de Khabbab aumentou a coragem de seus companheiros. Eles também se entusiasmaram para declarar publicamente que haviam aceitado o Islã. Um após outro, começaram a proclamar a palavra da verdade.

Abu Sufyan ibn Harb, Walid ibn al-Mughirah, Abu Jahl e outros líderes coraixitas reuniram-se no pátio da Caaba. Discutiram a questão de Muhammad. Perceberam que o movimento em torno dele crescia e ganhava importância dia após dia, até mesmo hora após hora. Decidiram, então, declarar firmemente que o eliminariam pela raiz antes que se expandisse ainda mais: a partir daquele dia, cada tribo começaria a perseguir e oprimir os seguidores de Muhammad pertencentes à sua própria tribo. Assim, ou eles abandonariam sua nova religião, ou morreriam.

A responsabilidade de castigar Khabbab foi confiada a Siba ibn Abdil-Uzza e à sua tribo. Quando o solo ficava escaldante sob o intenso calor do sol do meio-dia, eles arrastavam Khabbab para o vale de Meca. Tiravam-lhe completamente as roupas e vestiam-no com uma armadura de ferro. Ele ficava angustiado pela sede sob o calor intenso, mas nem uma gota de água lhe era dada. Quando, torturado pela sede terrível, começava a se contorcer, diziam-lhe:

Qual é a sua opinião sobre Muhammad?

Ele respondia: Ele é servo e Mensageiro de Allah. Veio até nós com a religião verdadeira e correta, para nos conduzir das trevas à luz.

Eles voltavam a espancá-lo, desferindo socos e golpes. Depois perguntavam:

Qual é a sua opinião sobre Al-Lat e Al-Uzza? Ele respondia: Essas duas estátuas mudas e surdas não têm poder algum para causar dano ou trazer benefício.

Depois, aqueciam pedras no fogo e o deitavam sobre elas. Khabbab disse: Um dia, levaram-me à força. Acenderam uma fogueira e aqueceram uma pedra; depois deitaram-me de costas sobre ela, e um deles colocou uma das pernas sobre o meu peito, pressionando-a contra mim. (Hayatus Sahaba, 1/292.) Ele permanecia deitado assim, enquanto a gordura de ambos os ombros derretia e escorria. O Imam Sha’bi disse: A carne de suas costas se desprendia.

Sua senhora, Ummu Anmar, não era nem um pouco menos cruel que seu irmão Siba. Certo dia, ao ver o Profeta Muhammad (s.a.) de pé na loja de Khabbab, conversando com ele, ficou como uma cadela enfurecida. Dia sim, dia não, ela ia à loja de Khabbab, aquecia uma barra de ferro no fole dele e a pressionava contra sua cabeça. Em meio à intensa dor, ele se contorcia até perder a consciência.

Certo dia, enquanto aqueciam um ferro e o pressionavam contra a cabeça de Khabbab, o Mensageiro de Allah (s.a.) passava por aquele caminho, indo para algum lugar. Ao ver o estado de Khabbab, parou. Seu coração se enterneceu. Mas o que ele poderia fazer? Além de suplicar por Khabbab e oferecer-lhe algum consolo, não pôde fazer mais nada. Ergueu as duas mãos para o céu e disse, com profunda emoção: «Allahumma unsur Khabbabana — Ó Allah, ajuda Khabbab.» (Rijalun Hawlar Rasul, 331.)

Allah Todo-Poderoso aceitou a súplica de maldição de Khabbab contra Ummu Anmar. Ela viu com os próprios olhos o resultado disso antes da Hégira de Meca para Medina. De repente, começou a sofrer uma dor tão intensa na cabeça que passou a latir como um cão o tempo todo. Seus filhos procuraram vários médicos para tratá-la. Todos os médicos disseram: Não há remédio para curar essa dor. Contudo, aquecer um ferro no fogo e aplicá-lo à cabeça pode proporcionar algum alívio. Começaram a aquecer uma barra de ferro e a aplicá-la sobre sua cabeça.

Certo dia, durante o califado do califa Umar (r.a.), Khabbab foi visitá-lo. O califa recebeu-o com grande honra, fez com que se sentasse sobre uma almofada elevada e disse: Com exceção de Bilal, não há ninguém mais digno do que você para sentar neste lugar. Khabbab disse: Como ele poderia ser igual a mim? Mesmo entre os idólatras, ele tinha muitos apoiadores; mas, além de Allah, eu não tinha ninguém que demonstrasse compaixão por mim. O califa quis saber sobre as torturas que ele havia sofrido nas mãos dos coraixitas. Khabbab, porém, sentia vergonha de falar sobre isso. Depois de o califa insistir repetidamente, ele afastou a túnica e descobriu as costas. Ao ver o estado horrível de suas costas, o califa estremeceu e perguntou: Como isso aconteceu?

Khabbab disse: Os idólatras acenderam uma fogueira. Quando ela se transformou em brasas, tiraram as roupas do meu corpo. Depois, arrastaram-me à força e deitaram-me de costas sobre ela. A carne se desprendeu dos ossos das minhas costas. Foi a gordura derretida das minhas costas que apagou aquele fogo. Por causa desse incidente, a pele de suas costas ficou como a de alguém que sofre de vitiligo. (Hayatus Sahaba, 1/292; Mustadrak; Sirat Ibn Hisham, nota, 1/343.)

Além das torturas físicas, os coraixitas zombavam, ridicularizavam e escarneciam dele. Também se apropriavam do dinheiro que lhe era devido. Ibn Ishaq disse: Um incrédulo de Meca chamado As ibn Wa’il as-Sahmi comprou algumas espadas dele e ficou devendo-lhe certa quantia por isso. Khabbab foi cobrar o que lhe era devido. Ele disse: Ó Khabbab, o seu amigo Muhammad — de cuja religião você é seguidor — não acredita que os habitantes do Paraíso receberão tudo o que desejarem, seja ouro, prata, roupas ou criados? Khabbab respondeu: Sim, acredita. Ele disse: Khabbab, dê-me um prazo até o Dia da Ressurreição; irei até lá e pagarei o que lhe devo. Juro por Allah que nem o seu amigo Muhammad nem você são mais queridos por Allah do que eu, e vocês não terão mais felicidade do que eu. Depois desse acontecimento, Allah Todo-Poderoso revelou os seguintes versículos: «Você observou aquele que nega os Meus versículos e diz: “Certamente me serão concedidos bens e filhos”? Por acaso ele tomou conhecimento do invisível ou recebeu uma promessa do Misericordioso? De modo algum! Registrarei o que ele diz e prolongarei seu castigo. E aquilo de que ele fala permanecerá sob Meu domínio, e ele virá a Mim sozinho.» (Surata Maryam, 77–80.)

Certo dia, Khabbab compareceu à presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) acompanhado de alguns outros companheiros perseguidos como ele, e falou sobre suas aflições e sofrimentos. Khabbab disse: Quando lhe relatamos nossa situação, o Mensageiro de Allah estava deitado à sombra da Caaba, com uma manta listrada sob a cabeça. Dissemos: “Ó Mensageiro de Allah, não pedirás a Allah que nos conceda ajuda e perdão?”

Ao ouvir nossas palavras, o rosto abençoado do Mensageiro de Allah ficou vermelho. Ele se sentou e então disse: “Muitos dos povos que vos precederam eram capturados, enterrados até a metade em uma cova e depois serrados ao meio, da cabeça para baixo. Seus corpos eram despedaçados até os ossos com pentes de ferro. Mesmo assim, não se desviavam nem um pouco de sua religião. Certamente, Allah levará esta religião à perfeição. Chegará um dia em que um viajante percorrerá o caminho de Sanaã até Hadramaut. Durante toda essa longa viagem, não temerá ninguém além de Allah. Naquele tempo, o lobo vigiará os rebanhos. Mas vós estais sendo excessivamente impacientes.” (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 231; Usud al-Ghaba, 2/98)

Khabbab e seus companheiros ouviram atentamente essas palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Decidiram suportar a medida de paciência e sacrifício — perseverança e renúncia — que Allah e Seu Mensageiro apreciavam. Assim, sua fé tornou-se ainda mais firme.

Os tormentos desumanos infligidos a Khabbab continuaram até que Umm Anmar o libertou. O Imam Sha’bi disse: “Mesmo diante de centenas de torturas, Khabbab permaneceu paciente. A opressão dos incrédulos não enfraqueceu nem um pouco sua determinação.” Enquanto permaneceu em Meca, dedicou todo o seu tempo à adoração e ao trabalho de chamar as pessoas para a religião. Naquela época, ensinava secretamente o Alcorão, visitando as casas daqueles que, por medo, ainda não haviam declarado sua conversão ao Islã. Ensinava secretamente o Alcorão a Fatima e Sa’id, irmã e cunhado de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). No dia em que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) saiu com a intenção de matar o nobre Mensageiro e, no caminho, ouviu de Nu’aym ibn Abdullah que sua irmã e seu cunhado haviam aceitado o Islã, ele chegou à casa deles. Naquele momento, Khabbab (que Allah esteja satisfeito com ele) estava ensinando-lhes o Alcorão. Ao perceber a presença de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), escondeu-se em um canto da casa de Fatima. Depois que a recitação do Alcorão provocou uma mudança no coração de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), quando ele disse: “Levai-me até Muhammad”, Khabbab saiu de seu esconderijo. Disse a Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): “Ó Umar, espero que a súplica do Profeta de Allah a teu respeito tenha sido aceita. Ontem ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) suplicar: ‘Ó Allah, fortalece o Islã por meio de um destes dois homens: Abu al-Hakam ou Umar ibn al-Khattab.’” Umar disse: “Khabbab, dize-me, por favor, onde está Muhammad agora. Quero ir até ele e aceitar o Islã.” Khabbab respondeu: “Ele está agora em uma casa próxima ao monte Safa, junto com alguns de seus companheiros.” (Sirat Ibn Hisham, 1/343, 345; Hayatus Sahaba, 1/297)

Certo dia, os dois líderes dos coraixitas, Aqra ibn Habis e Uyayna ibn al-Fazari, foram até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e o viram sentado com alguns escravos e crentes fracos, como Ammar, Suhaib, Bilal e Khabbab. Ignorando todos os presentes, os dois líderes chamaram o nobre Mensageiro para um pouco mais longe e disseram: “Representantes dos líderes árabes vêm até ti. Poderias afastar um pouco esses escravos, para que não tenhamos de nos sentar junto com eles?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) concordou com suas palavras. Eles disseram: “Então que o assunto seja escrito agora mesmo.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou Ali e mandou trazer papel e caneta. Khabbab disse: “Naquele momento, estávamos sentados um pouco afastados. Foi então que Jibril (que a paz esteja sobre ele) veio com estes versículos: ‘Não afastes aqueles que invocam seu Senhor pela manhã e à noite, buscando Seu agrado. Não te cabe prestar contas por suas obras, para que os expulses; e, se o fizeres, estarás entre os injustos.’” (Surata al-An’am, 52–53)

Khabbab disse: Assim que o versículo mencionado acima foi revelado, o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lançou fora o papel e a caneta e nos chamou para perto. Quando nos aproximamos, ele nos cumprimentou com o salam. Sentamo-nos junto dele, joelho a joelho. Imediatamente, Allah, o Altíssimo, revelou este versículo:

“Mantém-te paciente junto daqueles que invocam seu Senhor pela manhã e à noite, buscando Seu agrado, e não desvies deles o teu olhar, desejando o esplendor da vida terrena.” (Surata al-Kahf, 28)

Khabbab disse: Depois disso, sempre que nos sentávamos com o Mensageiro de Allah, ele não se levantava até que nós nos levantássemos. (Hayatus Sahaba, 2/475)

Khabbab suportou pacientemente durante muito tempo as ilimitadas perseguições dos coraixitas de Meca, permanecendo firmemente ligado ao solo de Meca. Por fim, Allah Todo-Poderoso concedeu permissão para a hijra, e ele migrou para Medina. Ele não fez a hijra para escapar da opressão, mas com o objetivo de obter a satisfação e o agrado de Allah. Ele costumava dizer: “Migrei com o Mensageiro de Allah somente por Allah.” Depois de chegar a Medina, o Honorável Mensageiro de Allah estabeleceu entre ele e Hazrat Khirash ibn Sammá — segundo outra opinião, Jabr ibn Utaiq — a muakhát, ou seja, a fraternidade religiosa. (Usud al-Ghaba, 2/99)

Depois de chegar a Medina, surgiu um pouco de paz e segurança na vida de Hazrat Khabbab, algo de que ele havia sido completamente privado durante toda a sua vida. Ali, teve a oportunidade de desfrutar da íntima companhia do Nobre Mensageiro. Participou com o Mensageiro de Allah de todas as batalhas, incluindo Badr e Uhud. Na batalha de Uhud, testemunhou com os próprios olhos o destino de Siba, irmão de Ummu Anmar. Naquele dia, ele foi morto pelas mãos de Hazrat Hamza.

Toda a vida de Hazrat Khabbab (que Allah esteja satisfeito com ele) foi marcada pelos golpes da pobreza. Durante algum tempo, antes e depois do advento do Islã, sustentou-se fabricando espadas. Na parte final de sua vida, alcançou considerável prosperidade. Quando, durante os califados de Hazrat Umar e Hazrat Uthman, foram estabelecidos subsídios para todos os companheiros de acordo com sua respectiva posição, Hazrat Khabbab passou a receber um subsídio vultoso. Assim, acumulou muito dinheiro. Contudo, sua maneira de lidar com esse dinheiro era incomum. Ele deixava seus dirrames e dinares em um lugar aberto. Os necessitados e os pobres podiam pegar dali, à vontade, conforme suas necessidades. Não precisavam pedir autorização para isso. Apesar de tudo, permanecia sempre temeroso, pensando que talvez Allah lhe pedisse contas por essa riqueza e que, por causa dela, tivesse de sofrer um castigo.

Um grupo de seus companheiros disse: “Fomos visitar Khabbab em seu leito de enfermidade terminal. Ele apontou para um lado de sua casa em ruínas e nos disse: ‘Neste lugar há oitenta mil dirrames. Juro por Allah que nunca fechei a entrada deste lugar, nem proibi qualquer necessitado de retirar algo dali.’ Depois de dizer isso, começou a chorar convulsivamente. Seus amigos lhe perguntaram: ‘Por que chora?’ Ele respondeu: ‘Meus companheiros partiram deste mundo sem receber nenhuma recompensa por suas obras. Eu estou vivo e me tornei dono de tamanha riqueza. Temo que esta riqueza seja a recompensa por minhas boas ações. É por isso que choro angustiado.’ Então, as lágrimas escorreram por seus dois olhos quando, apontando para a cara mortalha que havia comprado para si, disse: ‘Vejam, esta é a minha mortalha. Porém, quando o tio do Mensageiro de Allah, Hazrat Hamza, alcançou o martírio em Uhud, não se encontrou para sua mortalha outro tecido além de um único manto. Quando se cobria a cabeça com esse manto, os pés ficavam descobertos; e quando se cobriam os pés, a cabeça ficava descoberta.’”

No ano 37 da Hégira, ele adoeceu em Kufa. Apesar do tratamento, sua doença piorava dia após dia. Continuou sofrendo por muito tempo com as dores da enfermidade. Nessa situação, costumava dizer de vez em quando: “Se o Mensageiro de Allah não tivesse proibido desejar a morte, eu suplicaria pela morte.” (Al-Isaba, 1/416; Usud al-Ghaba, 2/99) Há divergências entre os biógrafos quanto ao ano e ao local de sua morte e à sua idade quando morreu. Segundo a opinião mais conhecida, faleceu em Kufa, no ano 39 da Hégira, aos 72 anos, depois da batalha de Siffin. Não pôde participar da batalha de Siffin devido à enfermidade. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) recebeu a notícia de sua morte quando retornava da batalha de Siffin e foi ele quem dirigiu a oração fúnebre. Os habitantes de Kufa geralmente enterravam os mortos dentro da cidade. Antes de morrer, Hazrat Khabbab deixou instruções para que fosse enterrado fora da cidade. De acordo com suas instruções, foi enterrado fora da cidade de Kufa. Foi o primeiro companheiro a ser enterrado fora da cidade de Kufa. (Usud al-Ghaba, 2/100)

Depois do enterro de Hazrat Khabbab, o Amir al-Muminin Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu junto à sua sepultura e declarou: “Que Allah tenha misericórdia de Khabbab. Ele aceitou o Islã com fervor, fez a hijra em obediência e passou a vida como um mujāhid. Allah não deixa fracassar aqueles que praticam boas obras.”

Hazrat Khabbab tinha um intenso desejo de conhecer as palavras e os atos do Mensageiro de Allah. Às vezes, sem que o Mensageiro de Allah soubesse, passava a noite acordado observando secretamente a maneira e as regras de sua adoração, e pela manhã perguntava-lhe sobre isso. Certa vez, o Mensageiro passou a noite inteira em oração, e ele o observou furtivamente. Pela manhã, foi até o Mensageiro de Allah e disse: “Ó Mensageiro de Allah, que meus pais sejam sacrificados por ti. Na noite passada, ofereceste uma oração como nunca havias oferecido antes.” Ele respondeu: “Sim, foi uma oração de esperança e temor. Pedi três coisas a Allah; Ele concedeu duas, mas não concedeu uma. Uma delas era que Allah não destruísse minha comunidade por meio da fome. Isso foi aceito. Outra era que Ele não desse a nenhum inimigo estrangeiro poder sobre minha comunidade. Isso também foi aceito por Allah. A terceira era que um grupo da minha comunidade não fosse vítima da crueldade de outro grupo. Isso não foi aceito.” (Usud al-Ghaba, 2/99)

Ele narrou trinta e três (33) hadices do Mensageiro de Allah. Entre eles, três foram narrados por Bukhari e Muslim em conjunto; dois foram narrados exclusivamente por Bukhari e um exclusivamente por Muslim. Entre os companheiros e os tabiín que narraram hadices dele encontram-se personalidades ilustres como seu filho Abdullah, Abu Umama Bahili, Abu Mamar, Abdullah ibn Shukhair, Qais ibn Abi Hazim, Masruq ibn Ajda e Alqama ibn Qais, entre outros.

A filha de Khabbab ibn al-Aratt narrou: Certa vez, meu pai partiu para o jihad. Ao despedir-se, deixou apenas uma cabra para prover nosso sustento e disse: “Quando precisarem ordenhar a cabra, levem-na até Ahlus-Suffa.” Levamos a cabra até eles e vimos o Mensageiro (sa) sentado ali. Ele amarrou a cabra e a ordenhou. Então disse: “Tragam-me o maior recipiente de sua casa.” Trouxe o recipiente em que amassávamos a farinha. Ele ordenhou a cabra dentro dele, e o recipiente se encheu. Entregou-nos o recipiente cheio de leite e disse: “Levem-no; vocês beberão e também darão aos vizinhos. Sempre que precisarem, tragam a cabra até mim para que eu a ordenhe.” Frequentemente levávamos a cabra para ser ordenhada pelas mãos do Mensageiro de Allah (sa). Meu pai voltou do jihad. Quando tentou ordenhar a cabra, o leite parou. Minha mãe disse: “Você estragou a cabra; antes, conseguíamos encher este recipiente de leite.” Ele perguntou: “Quem a ordenhava?” Minha mãe respondeu: “O Mensageiro de Allah (sa).” Ele disse: “Você me considerou igual a ele? De quem poderiam ser mãos mais abençoadas que as dele?” (Hayatus Sahaba, 3/637)

Mughirah ibn Shu’ba (ra)

Seu nome era Abu Abdillah Mughirah, e seu pai era Shu’ba ibn Abi Amir. Além de Abu Abdillah, Abu Muhammad e Abu Isa também eram suas kunyas. Era descendente da tribo de Banu Thaqif. Sua mãe, Umamah bint Afqam, era filha da tribo de Banu Nasr ibn Muawiyah. Abraçou o Islam no quinto ano da Hégira, no ano da Batalha da Trincheira, e nesse mesmo ano migrou de Meca para Medina, onde permaneceu na companhia do Mensageiro de Allah (sa). (Al-Isabah, 3/452; Usud al-Ghabah, 4/406; Al-Isti’ab)

Al-Bayhaqi narrou um episódio sobre a primeira vez em que Mughirah conheceu o Mensageiro de Allah (sa). Mughirah disse: “No dia em que conheci o Mensageiro de Allah pela primeira vez, Abu Jahl e eu caminhávamos por uma pequena viela de Meca. Nesse momento, encontramos o Mensageiro de Allah (sa). O Mensageiro (sa) disse a Abu Jahl: ‘Ó Abu al-Hakam — ó pai de Abu al-Hakam — venha para Allah e para Seu Mensageiro.’ Abu Jahl respondeu: ‘Ó Muhammad! Você não vai parar de insultar nossas divindades ou ídolos? Você quer apenas que testemunhemos que transmitiu a mensagem? Então testemunhamos que você transmitiu. Por Allah, se eu soubesse que o que você diz é verdade, nós o seguiríamos.’”

O Mensageiro de Allah (sa) partiu. Abu Jahl começou a dizer-me: “Por Allah! Sei com certeza que o que Muhammad diz é verdade. Mas o que me impede de aceitá-lo é o seguinte: os Banu Qusayy reivindicaram: ‘A Hijabah é nossa’ — isto é, as chaves da Caaba estão com eles e ninguém pode entrar em seu interior sem sua permissão. Nós dissemos: ‘Sim.’ Eles disseram: ‘A Siqayah é nossa’ — a responsabilidade de fornecer água aos peregrinos. Nós dissemos: ‘Sim.’ Eles disseram: ‘A an-Nadwah é nossa’ — a responsabilidade do conselho consultivo. Nós dissemos: ‘Sim.’ Depois disseram: ‘A al-Liwa — a bandeira de guerra — é nossa.’ Nós dissemos: ‘Sim.’ Eles alimentam as pessoas, e nós também alimentamos. Quando alcançamos igualdade com eles nesse aspecto, disseram: ‘Nós temos um profeta.’ Por Allah, não consigo aceitar isso.” (Hayatus Sahaba, 1/84)

Ele acompanhou o Mensageiro de Allah (sa) na expedição de Hudaybiyyah e participou da Bay’at ar-Ridwan. Os coraixitas impediram a entrada em Meca. Da parte dos coraixitas, Urwah ibn Mas’ud ath-Thaqafi veio conversar com o Mensageiro de Allah (sa). De acordo com o costume geral dos árabes, enquanto falava, ele estendia de vez em quando a mão em direção à barba sagrada do Mensageiro de Allah (sa). Esse comportamento era considerado grosseiro pelos muçulmanos, e Mughirah ficava agitado. Sempre que Urwah estendia a mão, a mão de Mughirah ia espontaneamente para o punho de sua espada. Por fim, sua paciência se esgotou. Ele disse em tom de repreensão: “Cuidado! Controle a mão.” Urwah virou-se para olhar. Ao reconhecê-lo, disse: “Seu enganador! Acaso eu não trabalhei em seu favor?” Convém mencionar que Urwah era tio de Mughirah. Na época da ignorância, Mughirah matou alguns homens. Esse mesmo Urwah ibn Mas’ud pagou o diyah, ou preço de sangue, pelos homens mortos. Foi a esse acontecimento que Urwah aludiu. (Bukhari: Kitab as-Siyar, sobre o jihad e a reconciliação; Usud al-Ghabah, 4/406; Hayatus Sahaba, 1/102)

Após Hudaybiyyah, ele teve a honra de participar de várias expedições. O Mensageiro de Allah (sa) enviou-o, juntamente com Abu Sufyan, a Ta’if com uma unidade especial. Eles derrotaram as forças inimigas com bravura e coragem.

A tribo de Banu Thaqif aceitou o Islam e veio a Medina para prestar a bay’ah ao Mensageiro de Allah (sa). Mughirah estava pastoreando camelos nos arredores de Medina, e os membros da tribo de Thaqif encontraram-se primeiro com ele. Assim que os viu, Mughirah correu para dar ao Mensageiro de Allah (sa) essa boa notícia. No caminho, encontrou Abu Bakr (ra) e informou-o. Abu Bakr pediu-lhe, fazendo-o jurar, que não desse essa boa notícia ao Mensageiro de Allah (sa) antes dele: queria ser o primeiro a informar o Mensageiro de Allah sobre o assunto. Mughirah atendeu ao seu pedido. Foi Abu Bakr (ra) quem primeiro levou a boa notícia aos ouvidos do Mensageiro de Allah (sa). Depois, Mughirah foi até os membros da tribo de Thaqif e ensinou-lhes como saudar o Mensageiro de Allah (sa) conforme o modo islâmico. (Hayatus Sahaba, 1/184)

Esteve presente no sepultamento e no kafan após o falecimento de Rasulullah (s.a.). Quando as pessoas haviam descido o corpo sagrado de Rasulullah (s.a.) à sepultura e já tinham subido, de repente ele deliberadamente deixou cair seu próprio anel dentro da sepultura. Hazrat Ali (r.a.) pediu-lhe que recuperasse o anel. Ele desceu à sepultura e tocou com a mão os pés sagrados de Rasulullah (s.a.). Depois, enquanto a terra era gradualmente lançada sobre a sepultura, ele saiu dela. Ele fez isso com o objetivo de alcançar a honra e a glória de ser a última pessoa a despedir-se de Rasulullah (s.a.). Muitas vezes dizia com orgulho às pessoas: “Fui eu quem se separou de Rasulullah (s.a.) por último entre todos vocês.” (Tabaqat)

Após o falecimento do nobre Mensageiro, ele desempenhou um papel ativo na maioria das guerras durante o período dos dois primeiros califas. Por ordem de Hazrat Abu Bakr (r.a.), foi pela primeira vez à expedição de “Bahirah”. Também participou da eliminação dos apóstatas de Yamama.

Após sufocar a revolta dos falsos profetas, participou da campanha do Iraque. Depois da vitória de “Buwaib”, quando o exército muçulmano avançou em direção a Qadisiyyah, Rustum, o famoso comandante e herói persa, propôs negociações e pediu que os muçulmanos enviassem um representante. Em resposta à sua proposta, vários enviados foram e vieram. Por fim, essa responsabilidade foi confiada a Hazrat Mughira.

Para intimidar e amedrontar o enviado muçulmano, os persas decoraram suntuosamente a corte do comandante Rustum. Todos os oficiais do exército persa vestiram roupas caras de seda. O próprio Rustum colocou na cabeça uma coroa adornada de ouro e sentou-se orgulhosamente sobre o estrado. Toda a corte foi coberta com tapetes luxuosos. Ao chegar à corte, Hazrat Mughira subiu sem hesitação diretamente ao estrado e sentou-se ao lado de Rustum. Ao vê-lo sentar-se com tamanha ousadia, os membros do conselho de Rustum ficaram extremamente irritados. Seguraram Mughira pelas mãos, puxaram-no para baixo e fizeram-no sentar-se aos pés do estrado. Mughira disse:

“Nós somos árabes; entre nós não existe a regra de que um homem seja um deus e os outros o adorem. Somos todos iguais. Foste tu quem nos chamou; não viemos aqui como suplicantes. É razoável o vosso comportamento? Se a vossa situação continuar assim, em breve desaparecereis. Compreendi que o vosso governo entrou em colapso, que a vossa derrota é inevitável e que nenhum império governado por uma inteligência como essa pode sobreviver.”

As pessoas das classes inferiores da corte comentaram: “Esse árabe disse a verdade.”

Os iranianos não estavam familiarizados com uma igualdade daquele tipo. Ao ouvirem as palavras de Mughira, ficaram um pouco intimidados. Rustum também ficou um tanto envergonhado. Ele disse que aquilo fora um erro dos servos. Então, para agradar Mughira, retirou uma flecha da aljava dele e, em tom de brincadeira, perguntou: “Para que serve isto?” Mughira respondeu: “Mesmo sendo pequena, uma fagulha é fogo.” Rustum então apontou para a espada de Mughira e disse: “Esta tua espada é bastante velha.” Mughira respondeu: “Embora o cabo seja velho, a lâmina ainda está afiada.” Depois disso, começaram a discutir o assunto principal.

Rustum mencionou o valor, a bravura, a força e o poder de seu próprio povo, bem como a insignificância e a pobreza dos árabes, e disse: “Sois nossos vizinhos; sempre vos tratamos bem e não vos deixaremos desamparados nas vossas dificuldades. Além disso, daremos presentes a cada um dos vossos soldados, de acordo com sua posição.”

Mughira disse:

“O mundo não é nosso objetivo; nosso único objetivo e propósito é a Outra Vida. Allah enviou-nos um Profeta. Allah disse-lhe: ‘Farei este grupo prevalecer sobre aqueles que não aceitarem a Minha religião e, por meio dele, tomarei deles desforra. Enquanto permanecerem firmes na religião, farei com que prevaleçam. Os humilhados rejeitarão esta religião, e os honrados se apegarão a ela.’”

Rustam: ‘E qual é essa religião?’

Mughira: ‘A base dessa religião é “La ilaha illallah — não há divindade além de Allah”, testemunhar ou prestar testemunho dessa declaração e reconhecer tudo quanto veio de Allah.’

Rustam: ‘Isso é realmente uma coisa excelente! E o que mais?’

Mughira: ‘Cada ser humano é filho de Adão; todos nós somos irmãos.’

Rustam: ‘Que excelente! Se aceitarmos a vossa religião, vocês voltarão para o vosso país?’

Mughira: ‘Juro por Allah que voltaremos. Depois disso, não nos aproximaremos do vosso país, exceto para comércio ou alguma outra necessidade.’

Rustum: «Muito bem!»

O narrador diz: Depois que Mugira saiu, Rustum discutiu sobre o Islã com seus líderes. Eles se recusaram a aceitar o Islã. Allah os condenou à desgraça e à humilhação.

Segundo outro relato, em certo momento da discussão, Rustum disse: «Nós os mataremos.»

Mugira disse: «Se vocês nos matarem, entraremos no Paraíso; e, se nós os matarmos, o destino de vocês será o Inferno, e então serão obrigados a pagar a jizya.» Ao ouvirem falar da jizya, eles começaram a gritar.

Mugira disse: «Se vocês se recusarem a pagar a jizya, a espada será a decisão final entre vocês e nós.» Diante de uma resposta tão severa, Rustum ficou furioso. Ele disse: «Juro pelo sol! Antes do nascer do sol de amanhã, o exército de vocês será completamente aniquilado.»

Mugira disse: «Vocês atravessarão o rio e virão até nós, ou nós iremos até vocês?»

Rustum: «Nós mesmos atravessaremos o rio e iremos até vocês.»

Após essa conversa, Mugira retornou ao acampamento. Os soldados muçulmanos recuaram um pouco, dando ao exército persa a oportunidade de atravessar o rio. Hazrat Mugira participou dessa batalha, e o exército persa sofreu uma derrota desastrosa. (Hayatus Sahabah-1/220, 222-23, 3/687-92, Tarikhul Ummah al-Islamiyyah-1/209).

No décimo nono ano da Hégira, os habitantes de Rayy, Qawmas e Ispahan entraram em contato com o xá Yazdegerd e formaram um exército de sessenta mil soldados contra os muçulmanos. Hazrat Ammar ibn Yasir informou urgentemente o califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) sobre o assunto. O próprio califa manifestou o desejo de partir acompanhado do exército, mas desistiu dessa intenção, considerando a paz e a ordem internas. Ordenou aos dois governadores de Basra e Kufa que avançassem, cada um com seu exército, em direção a Nihawand. Nomeou Nu’man ibn Muqarrin comandante e instruiu-o: se você for martirizado, Hudhayfa ibn al-Yaman será seu sucessor; se Hudhayfa for martirizado, Jarir ibn Abdillah al-Bajali o sucederá; e, se ele também for martirizado, Mughirah ibn Shu’bah deverá erguer o estandarte.

Depois que os soldados muçulmanos acamparam perto de Nihawand, os iranianos propuseram novamente conversações e pediram que fosse enviado um emissário. Como Mughirah já havia desempenhado com sucesso a missão diplomática uma vez, foi escolhido para cumprir essa tarefa pela segunda vez. Ao comparecer à corte iraniana como emissário, viu que a situação continuava como antes. O comandante iraniano estava sentado num estrado, usando uma coroa cravejada de ouro. Os demais soldados e guardas da corte permaneciam em pé, solenes, com espadas reluzentes penduradas nos ombros. Toda a corte estava silenciosa e imóvel. Mughirah entrou diretamente, sem dar a menor atenção a ninguém. No caminho, os guardas tentaram impedi-lo. Ele lhes disse: “Não é apropriado tratar assim um emissário.” Começou a conversa. O comandante persa Marwan Shah disse: “Vocês são habitantes da Arábia; não existe no mundo outro povo mais miserável, assolado pela pobreza e impuro do que vocês. Nossos soldados já teriam exterminado vocês há muito tempo; mas vocês são tão inferiores que os perdoaremos. Caso contrário, no campo de batalha vocês verão seus cadáveres agonizando.”

Depois de louvar a Allah e recitar a naat, Hazrat Mughirah disse: “Certamente, outrora éramos como você imagina. Porém, nosso Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) transformou nossa natureza e nossa condição. Agora, nosso caminho está livre em todas as direções. Enquanto nossos cadáveres não estiverem agonizando no campo de batalha, não poderemos deixar de tomar de vocês o trono e a coroa.”

A missão diplomática fracassou. Ambos os lados começaram os preparativos para a guerra. Hazrat Mughirah foi encarregado da ala esquerda. Na batalha de Nihawand, Hazrat Nu’man ibn Muqarrin foi gravemente ferido e começou a aguardar a morte. Contudo, a força, a coragem e a determinação do exército muçulmano não sofreram alteração alguma. O exército persa foi derrotado. Após a batalha, Hazrat Ma’qal foi ver Hazrat Nu’man ibn Mubarrin. Ele ainda respirava e sua visão também funcionava. Perguntou: “Quem é?” Ma’qal identificou-se. Nu’man perguntou: “Qual foi o resultado da batalha?” Ma’qal respondeu: “Allah nos concedeu a vitória.” Ele disse: “Al-hamdulillah — todo louvor pertence a Allah. Informe Umar.” Logo depois de pronunciar essas palavras, deu seu último suspiro.

Depois de Nihawand, foram realizadas amplas campanhas, enviando diferentes exércitos para várias regiões. A responsabilidade geral pela campanha de Hamadan foi confiada a Hazrat Mughirah. Com grande sucesso, ele derrotou os habitantes de Hamadan e os obrigou a firmar um tratado. Também participou da batalha de Yarmuk. Nessa batalha, sofreu um grave ferimento no olho. (Al-Isabah, 3/453; Usud al-Ghabah, 4/401)

Depois da fundação da cidade de Basra, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) nomeou-o seu governador. Durante seu governo de Basra, ele introduziu muitos regulamentos e procedimentos. Foi o primeiro a estabelecer em Basra um “diwan”, ou repartição, separado para o pagamento dos salários e subsídios dos soldados. (Al-Isabah, 3/453) Alguns dias depois, devido a uma grave acusação contra seu caráter, o califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) o destituiu do cargo de governador. Após a investigação, ele foi declarado inocente. (Usud al-Ghabah, 4/406) Ao saber que um Companheiro do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia sido inocentado da abominável acusação feita contra ele, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou extremamente feliz e louvou a Allah. Depois desse acontecimento, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) nomeou-o governador de Kufa no lugar de Ammar ibn Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele permaneceu nesse cargo até o último dia do califado de Hazrat Umar. Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) destituiu-o desse cargo. (Usud al-Ghabah, 4/407)

Ele sempre ajudava o califa Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) com conselhos sinceros. O imã Ahmad narrou isso de Mughirah. Quando Hazrat Uthman estava sob confinamento domiciliar, Mughirah foi visitá-lo certo dia. Disse ao califa: “Você é o imã ou líder do povo. Pode ver por si mesmo o que lhe aconteceu. Vou lhe apresentar três opções; escolha qualquer uma delas. 1. Saia de casa e declare jihad contra os rebeldes. 2. Saia secretamente pela porta dos fundos, monte num animal e vá diretamente para Meca. Lá, ninguém lhe fará mal. 3. Vá para a Síria, pois Muawiyah está lá.” Em resposta, o califa Uthman disse: “Primeiro: não quero ser o primeiro a derramar sangue entre a umma do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Segundo: ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: ‘Um homem dos coraixitas será sepultado em Meca, e metade do castigo do mundo recairá sobre ele.’ Certamente não quero ser esse homem. Terceiro: não desejo abandonar Dar al-Hijrah e Mujawirat Rasulillah — o lugar da Hégira e a proximidade do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), isto é, Medina — para ir à Síria.” (Hayat al-Sahabah, 2/396)

Começou o conflito entre Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Muawiyah (que Allah esteja satisfeito com ele). No início, Hazrat Mughirah (que Allah esteja satisfeito com ele) estava do lado de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele compareceu perante Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e aconselhou-o com franqueza: “Se deseja fortalecer seu califado, nomeie Talhah e Zubayr, respectivamente, governadores de Kufa e Basra. Quanto ao emir Muawiyah, mantenha-o provisoriamente em seu cargo anterior; depois, quando tiver estabelecido plenamente sua autoridade, faça o que desejar.” Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Pensarei a respeito de Talhah e Zubayr; porém, enquanto Muawiyah não interromper suas atividades atuais, não o nomearei governador de lugar algum, nem aceitarei qualquer ajuda dele.” Mughirah ficou irritado com essa resposta. (Al-Isti’ab) Após o assassinato de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), ocorreram conflitos e confrontos entre as duas facções divergentes da umma muçulmana. Ele manteve-se cuidadosamente afastado desses confrontos. Depois de Siffin, também esteve presente em Dumat al-Jandal para ouvir a decisão da arbitragem. Depois que a arbitragem de Dumat al-Jandal fracassou, juntou-se ao lado de Hazrat Muawiyah (que Allah esteja satisfeito com ele) e prestou-lhe o juramento de lealdade, ou bay’ah. A partir de então, começou a opor-se publicamente a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). (Al-Isabah, 3/453; Mustadrak, 3/450)

O apoio e a cooperação de Hazrat Mugira (que Allah esteja satisfeito com ele) foram de grande benefício para Hazrat Muawiya. Ele resolvia muito rapidamente, com a ajuda de sua inteligência perspicaz, muitos problemas de grande importância. Quando surgiam diante do emir Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele) problemas tão difíceis relacionados ao califado, se a inteligência e o talento de Mugira não tivessem atuado, Hazrat Muawiya teria enfrentado uma crise extremamente grave. Ziad era um dos homens mais astutos e habilidosos da Arábia. Ele era o wali da Pérsia em nome de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e um ferrenho opositor de Hazrat Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele). Após o martírio de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e depois que Hazrat Hassan (que Allah esteja satisfeito com ele) renunciou à reivindicação ao califado, Hazrat Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele) tornou-se o califa absoluto de todo o mundo muçulmano; ainda assim, Ziad não o reconheceu como califa. Hazrat Mugira tornou até mesmo esse inimigo tão obstinado leal a Hazrat Muawiya e salvou Muawiya de um perigo terrível.

No ano 41 da Hégira, Hazrat Amir Muawiya nomeou Hazrat Mugira como wali de Kufa, como recompensa por sua contribuição especial. Quando os kharijitas de Kufa declararam uma rebelião, no ano 33 da Hégira, ele a reprimiu com extraordinária competência. Assim, desempenhou um papel grandioso no fortalecimento do califado de Hazrat Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele).

Há divergência quanto ao ano da morte de Hazrat Mugira. Muitos disseram que ele morreu após contrair a peste que surgiu em Kufa no ano 50 da Hégira. Outros disseram que sua morte ocorreu no ano 49 ou 51 da Hégira. Quando morreu, tinha 70 (setenta) anos.

Embora Hazrat Mugira (que Allah esteja satisfeito com ele) fosse um diplomata e soldado experiente, também alcançou grande domínio nas ciências religiosas. Entre seus contemporâneos, gozava de uma posição especial por seu vasto conhecimento. Encontram-se, em diversas coletâneas de hadith, 133 hadiths narrados por ele. Desses, nove são muttafaqun alayh; um foi narrado exclusivamente por Bukhari e dois exclusivamente por Muslim. Muitos companheiros e tabi’in narraram hadiths dele. Entre eles estavam seus três filhos — Urwa, Hamza e Aqqar — e, entre os demais, pessoas como Zubair ibn Yahya, Miswar ibn Makhrama, Qais ibn Abi Hazim, Masruq ibn Ajda, Nafi ibn Hubaira, Urwa ibn Zubair e Amr ibn Wahhab.

Apesar de seu domínio do conhecimento religioso, em vez de ocupar o assento do conhecimento e da emissão de fatwas, ele atuou no complexo campo da política e da diplomacia. Foi nesse campo que seu talento e sua competência se desenvolveram plenamente. É considerado um dos maiores diplomatas da Arábia. O imã Sha’bi disse: “Os quatro homens mais astutos da Arábia são Muawiya ibn Abi Sufyan, Amr ibn al-As, Mugira ibn Shuba e Ziad.” (Usud al-Ghaba, 4/407; Al-Isaba, 3/453.) Ibn Sad disse que, por causa de sua extraordinária inteligência e talento, as pessoas o chamavam de “Mughirat al-Ra’y”, isto é, Mugira, o homem de opinião ou decisão. (Al-Isti’ab.) Devido a todas essas qualidades extraordinárias, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) nomeou-o para muitos cargos importantes. Ele chegou até mesmo a conquistar a rara honra de atuar como enviado à corte iraniana.

Qabisa ibn Jabir disse: “Passei muito tempo na companhia de Mugira. Ele era tão perspicaz e inteligente que, se uma cidade tivesse oito portas, sendo impossível sair por qualquer uma delas sem astúcia e engenho, Mugira seria capaz de sair por todas as suas portas. Era extremamente habilidoso em desfazer os nós de questões complexas.” Tabari disse que, ao expressar uma decisão sobre qualquer assunto, ele também deixava aberta uma via para recuar dela. Sempre que duas questões se tornavam duvidosas, sua opinião correta inevitavelmente se manifestava sobre uma delas. (Al-Isaba, 3/453.)

A história registra muitos episódios curiosos da astúcia e da diplomacia de Hazrat Mugira. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) nomeou-o wali do Bahrein. O povo do Bahrein apresentou uma queixa contra ele ao califa. Hazrat Umar o demitiu. Para impedir que ele fosse novamente nomeado wali daquele lugar, o dahqan, ou chefe local, tramou uma conspiração perigosa. Reuniu cem mil dirhams, depositou-os com o califa e disse: “Mugira desviou esse dinheiro do Bayt al-Mal e o deixou sob minha guarda.” Hazrat Umar começou a interrogá-lo com extrema severidade. A situação era muito delicada. De um lado estava um companheiro do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); de outro, inúmeras pessoas testemunhavam contra ele, e o dinheiro supostamente desviado estava presente. Não era necessária nenhuma testemunha ou prova adicional para comprovar a culpa. Mesmo em tal situação, Mugira manteve o equilíbrio de sua inteligência. Com extrema calma, disse: “O dahqan, ou chefe, mentiu. Eu havia depositado com ele duzentos mil; ele desviou cem mil.” Ao ouvir isso, o dahqan desmoronou de medo. Agora teria de depositar no Bayt al-Mal os duzentos mil. Confessou abertamente sua fraude e passou a jurar repetidamente: “Mugira não deixou dinheiro algum comigo.” Assim, a verdade veio à tona. Ele havia inventado aquela história para difamar Mugira. Depois que o assunto foi resolvido, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou a Mugira: “Por que você admitiu a existência dos duzentos mil?” Ele respondeu: “Ele me acusou falsamente; não havia outra maneira de retribuir-lhe senão essa.” (Al-Isaba, 3/453.)

O célebre companheiro Nu’man ibn Muqarrin (que Allah esteja satisfeito com ele) certa vez disse a Mugira: “Por Allah, innaka lazu manaqib — isto é, você é um homem dotado de inteligência, capacidade de aconselhar e opinião correta.” (Hayatus Sahaba, 1/512.)

Abdur-Rahman ibn Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome antes do Islã era Abd al-Ka‘ba; segundo outra opinião, Abd al-Uzza. Depois de aceitar o Islã, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu-lhe o nome de Abdur-Rahman. Ele tinha três apelidos ou kunyas: Abu Abdillah; Abu Muhammad, em referência ao nome de seu filho Muhammad; e Abu Uthman. Contudo, Abu Abdillah era o mais conhecido. Seu pai era o primeiro califa, Hazrat Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), e sua mãe era Umm Ruman ou Umm Rumman. Era o filho mais velho de seu pai e irmão consanguíneo de Hazrat Aisha, Mãe dos Crentes (que Allah esteja satisfeito com ela). (Usud al-Ghaba, 3/304-305)

Embora todos os filhos de Hazrat Abu Bakr as-Siddiq tenham aceitado o Islã logo no início, Abdur-Rahman permaneceu afastado do Islã por muito tempo. Ele juntou-se aos coraixitas de Meca na batalha de Badr. No meio da batalha, avançou um pouco e, em tom desafiador, disse aos muçulmanos: “Hal min mubārizin” — há alguém que tenha coragem de lutar comigo em combate singular? Ao ouvir esse desafio, o rosto de seu pai, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), ficou vermelho de ira. Ele manifestou o desejo de enfrentá-lo em combate singular, mas Hazrat Rasul-e-Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o impediu. Ele também esteve com os coraixitas de Meca na batalha de Uhud. Nessa batalha, era um dos membros da tropa de arqueiros dos coraixitas. (Usud al-Ghaba, 3/305) Mais tarde, certo dia, Abdur-Rahman disse a seu pai, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele): “Eu o vi no campo de Uhud, mas desviei-me de você.” Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Se eu o tivesse visto, não o teria deixado escapar.” (Hayat as-Sahaba, 2/313)

Hazrat Abdur-Rahman aceitou o Islã na época do Tratado de Hudaybiyyah. Depois, migrou para Medina e passou a viver com seu pai, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Era ele quem cuidava de todos os negócios e afazeres de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Certa noite, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) convidou alguns membros dos Ahl as-Suffah. Ele disse a Abdur-Rahman: “Estou indo servir o Mensageiro de Allah; antes que eu volte, você alimentará os convidados.” Conforme a ordem de seu pai, Abdur-Rahman apresentou a comida aos convidados no horário apropriado. Porém, eles se recusaram a comer na ausência do anfitrião. Por acaso, naquele dia Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) voltou tarde. Ao retornar e saber que os convidados ainda estavam sem comer, disse a Abdur-Rahman, extremamente exaltado: “Juro por Allah! Não lhe darei comida.” Abdur-Rahman, assustado, sentou-se encolhido num canto da casa. Reunindo um pouco de coragem, disse: “Pergunte aos convidados se eu lhes havia pedido que comessem.” Os convidados confirmaram as palavras de Abdur-Rahman. Eles também juraram, dizendo: “Enquanto você não der comida a Abdur-Rahman, nós não comeremos.” Assim, a ira de Abu Bakr se acalmou, e todos se sentaram juntos para comer. Abdur-Rahman disse: “Naquele dia, houve tanta bênção em nossa comida que continuávamos comendo, mas ela não diminuía de modo algum. Levei parte daquela comida para o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comeu dela junto com vários Companheiros.” (Bukhari)

Por natureza, Hazrat Abdur-Rahman era extremamente corajoso. Era um arqueiro habilidoso. Desde o Tratado de Hudaybiyyah até o último dia da vida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), participou de todas as batalhas que ocorreram, dando exemplos de bravura e coragem. Na expedição de Khaybar, acompanhou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e recebeu quarenta wasaq de grãos dos espólios de Khaybar. (Sirat Ibn Hisham, 2/352) Ele também acompanhou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) na Peregrinação de Despedida. Hazrat Rasul-e-Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou-o com Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) a Tan‘im para que ela colocasse novamente o ihram. É importante mencionar que, durante essa viagem, devido à menstruação, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) deixou de realizar alguns dos atos obrigatórios do Hajj e rompeu o ihram. Depois de se recuperar, por ordem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), foi a Tan‘im, colocou novamente o ihram e realizou os atos que haviam sido adiados. (Sirat Ibn Hisham, 2/602)

Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele desempenhou, junto com outros, um papel ativo na repressão das revoltas que surgiram por toda a Península Arábica. Na sangrenta batalha de Yamamah contra o falso profeta Musaylimah al-Kadhdhab, demonstrou extrema bravura. Nessa batalha, matou sozinho sete renomados guerreiros do lado inimigo. Em certo ponto da fortaleza inimiga em Yamamah, uma brecha havia se aberto, formando uma pequena passagem. Os mujahidin muçulmanos tentavam repetidamente entrar por essa passagem, mas fracassavam, pois um valente soldado do inimigo chamado Mahkam ibn Tufayl guardava firmemente o local. Hazrat Abdur-Rahman lançou uma flecha mirando seu peito, e, atingido por ela, ele caiu ao chão. Os mujahidin muçulmanos entraram imediatamente, pisando nos pés de seus companheiros, e abriram a porta da fortaleza. Assim, a fortaleza caiu. Após o martírio de Hazrat Uthman, Abdur-Rahman participou ao lado de sua irmã da batalha do Camelo, travada entre Hazrat Ali e Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) devido a um mal-entendido. (Al-Isabah, 2/408)

Ainda durante sua vida, Hazrat Amir Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a tentar nomear seu filho Yazid como seu sucessor. Ele ordenou a Marwan, governador de Medina, que anunciasse o nome de Yazid como seu herdeiro, para que o povo de Medina lhe prestasse bay‘ah, o juramento de lealdade. Também lhe ordenou que lesse essa instrução às pessoas reunidas na mesquita de Medina. Marwan cumpriu devidamente a ordem de Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele). Reuniu o povo de Medina na mesquita e leu a ordem de Amir Muawiya. Assim que terminou de ler, Hazrat Abdur-Rahman ibn Abi Bakr levantou-se de um salto e, rompendo o silêncio da assembleia, bradou: “Juro por Allah! Sem levar em consideração a opinião da comunidade de Muhammad, vocês estão transformando o califado num sistema heraclista. Quando um Heráclio morrer, outro Heráclio o sucederá.” Segundo outro relato, Marwan disse: “Este é o método instituído por Abu Bakr e Umar.” Abdur-Rahman protestou: “Não, este é o método de Heráclio e César: o método de colocar o filho no trono depois do pai.” Abdullah ibn az-Zubayr e Husayn ibn Ali também apoiaram firmemente Abdur-Rahman. (Al-Isabah, 2/408; Usud al-Ghaba, 3/306)

Então Marwan, com a voz extremamente exaltada, apontou para Abdur-Rahman e disse: “Amigos! Este é aquele sobre quem foi revelado o seguinte versículo do Alcorão: ‘Aquele que diz a seus pais: “Ai de vós”’, isto é, Allah o censurou por não obedecer a seus pais — Surata Al-Ahqaf, 17.” A Mãe dos Crentes, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), ouviu essas palavras de seus aposentos. Exaltada, exclamou: “Juro por Allah! Não, não foi sobre Abdur-Rahman que o versículo foi revelado. Se quiserem, posso dizer sobre quem esse versículo foi revelado.” (Al-Isabah, 4/408; Usud al-Ghaba, 3/306)

Hazrat Abdur Rahman compreendeu naquele dia que, se o desejo de Muawiya (RA) fosse realizado, a Ummah muçulmana enfrentaria uma consequência terrível. Entendeu com certeza que aquilo era uma conspiração para derrubar o sistema islâmico do Califado e impor o cesarismo sobre a Ummah muçulmana.

Hazrat Abdur Rahman começou a protestar em voz alta contra essa iniciativa de Hazrat Muawiya. Hazrat Muawiya (RA) adotou então outro caminho. Para silenciar Abdur Rahman, enviou-lhe um mensageiro com cem mil dirrãs. Abdur Rahman, filho de Hazrat Abu Bakr Siddiq, atirou para longe a bolsa de dirrãs e disse ao mensageiro: “Volte. Diga a Muawiya que Abdur Rahman não venderá sua religião em troca do mundo.” (Al-Isti‘ab, Usud al-Ghaba 3/306, Hayatus Sahaba 2/254, Rijalun Hawlar Rasul 528)

Depois desse acontecimento, quando Hazrat Abdur Rahman soube que Hazrat Muawiya (RA) estava vindo da Síria para Medina, deixou imediatamente Medina e foi para Meca. Ali passou a viver num lugar chamado ‘Habashi’, a dez milhas da cidade, e, segundo a opinião mais correta, faleceu no ano 53 da Hégira, antes do juramento de lealdade a Yazid. Sua morte ocorreu de forma extremamente repentina. No dia de sua morte, completamente saudável, deitou-se como de costume, como fazia todos os dias; porém, não despertou mais daquele sono. Hazrat Aisha ficou um pouco desconfiada, pensando que talvez alguém o tivesse matado por envenenamento. Alguns dias depois, uma mulher saudável e robusta foi até Hazrat Aisha (RA) e morreu enquanto estava prostrada na oração. Depois desse acontecimento, sua dúvida desapareceu. Os companheiros de Hazrat Abdur Rahman levaram seu corpo a Meca e o sepultaram.

Ao receber a notícia da morte de seu irmão, Hazrat Aisha (RA) foi a Meca com a intenção de realizar o Hajj e, de pé junto ao túmulo, desatou a chorar. Em meio ao pranto, repetia várias vezes um verso de uma elegia composta pelo poeta Mutammim ibn Nuwayrah. Depois, dirigindo-se à alma de seu irmão, disse: “Juro por Allah! Se eu tivesse estado presente no momento de sua morte, não choraria agora dessa maneira e o sepultaria justamente no lugar onde você morreu.” (Mustadrak 3/476, Al-Isaba 2/408)

Hazrat Abdur Rahman (RA) narrou vários hadiths do Mensageiro de Allah (SA). Muitos Sahaba e Tabi‘in narraram hadiths transmitidos por ele.

Abu Hudhaifa ibn Utba (RA)

Seu nome era Abu Hudhaifa Hashim — segundo outra opinião, Hashem —, seu pai era Utba, sua mãe era Fatima bint Safwan, e sua kunya era Umm Safwan. Era descendente da tribo dos coraixitas.

Abu Hudhaifa foi uma das pessoas que aceitaram o Islã entre os Sabiqin do Islã, isto é, no primeiro período. Seu pai, Utba, era um dos principais líderes coraixitas e um dos maiores inimigos do Islã. Ele dedicou sua vida à oposição ao Islã. Mas quão grandiosa é a glória de Allah: seu próprio filho, Abu Hudhaifa, não tardou nem um pouco em aceitar o chamado do Islã. Antes mesmo de o Mensageiro de Allah (SA) buscar refúgio na casa de Hazrat Arqam ibn Abi al-Arqam, em Meca, ele teve a honra de aceitar o Islã e, como muitos outros, sofreu torturas desumanas nas mãos dos coraixitas. (Usud al-Ghaba 5/170) Ibn Ishaq afirma que ele aceitou o Islã depois de quarenta e três (43) pessoas. (Al-Isaba 4/42)

Abu Hudhaifa (que Allah esteja satisfeito com ele) participou das duas migrações para a Abissínia. Após a primeira migração, retornou novamente a Meca. Mais tarde, partiu outra vez para a Abissínia. Sua esposa, Sahla bint Suhail (que Allah esteja satisfeito com ela), também o acompanhou nessa migração para a Abissínia. Durante esse exílio, nasceu na Abissínia o filho deles, Muhammad ibn Abi Hudhaifa. (Usud al-Ghaba – 5/170).

Ao retornar pela segunda vez da Abissínia para Meca, ele viu que, entre os muçulmanos que permaneciam em Meca, havia uma intensa movimentação para emigrar para Medina. Levando consigo seu servo Salim, ele também chegou a Medina e tornou-se hóspede de Abbad ibn Bishr al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele). O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estabeleceu entre os dois a mu’akhāt, ou seja, a fraternidade. (Usud al-Ghaba – 5/170).

Ele participou com extrema bravura de todas as batalhas travadas durante a época do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Em particular, o episódio da Batalha de Badr foi uma grande lição para ele e para todos os muçulmanos. Nessa batalha, de um lado ele lutou, e do outro seu pai, Utba, combateu bravamente. Naquele dia, o amor pela verdade e pela justiça fez os muçulmanos esquecerem os laços de parentesco entre próximos e estranhos. Naquele dia, Abu Hudhaifa desafiou em voz alta seu próprio pai, o bravo Utba, guerreiro audacioso do lado adversário, para um combate singular. Ao ouvir esse desafio, sua irmã, Hind bint Utba, censurou-o e o condenou severamente em um poema. A obra Usud al-Ghaba reuniu dois versos desse poema.

Na Batalha de Badr, a maioria dos líderes coraixitas, incluindo Utba, pai de Abu Hudhaifa, foi morta pelas forças muçulmanas, e os corpos de todos eles foram lançados em um poço de Badr e cobertos com terra. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou junto ao poço e começou a chamar pelo nome, um a um, os líderes coraixitas mortos, dizendo: “Ó Utba, ó Shaiba, ó Umayya ibn Khalaf, ó Abu Jahl! Acaso encontrastes verdadeira a promessa de Allah? Eu encontrei verdadeira a minha promessa.” (Bukhari) Ibn Ishaq narra que, naquela ocasião, Abu Hudhaifa parecia extremamente triste e abatido. Ao ver seu estado, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “Abu Hudhaifa, talvez estejas sofrendo por causa de teu pai.” Abu Hudhaifa respondeu: “Juro por Allah que não. Não sinto tristeza por ele ter sido morto. Contudo, eu pensava que ele era um homem inteligente, perspicaz e capaz de tomar decisões. Por isso, esperava que tivesse a bênção de abraçar a fé. Mas, quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) confirmou que ele morreria em estado de kufr, lamentei minha esperança vã.” Em seguida, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez uma súplica por Abu Hudhaifa. (Sira de Ibn Hisham – 1/638–641; Usud al-Ghaba – 5/171)

Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), durante o califado do primeiro califa, Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), começaram na Península Arábica as perturbações e a sedição de alguns falsos profetas. Musailima, o Mentiroso, de Yamama, era um desses falsos profetas. O califa enviou um exército contra ele. Abu Hudhaifa (que Allah esteja satisfeito com ele) também fazia parte desse exército. Lutando bravamente contra as forças do falso profeta Musailima, ele foi martirizado no campo de batalha de Yamama. Quando morreu, tinha 53 ou 54 anos.

Foi narrado por al-Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): certa vez, durante a Batalha de Badr, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse aos Companheiros: “Soube que alguns homens dos Banu Hashim e de outras tribos foram obrigados a participar desta batalha. Não temos necessidade de combater essas pessoas. Se algum de vós se deparar com alguém dos Banu Hashim, não o mate. Se alguém encontrar Abu al-Bukhtari ibn Hisham, não o mate, pois ele veio obrigado.” Imediatamente, Abu Hudhaifa exclamou: “Mataremos nossos pais, filhos e irmãos, mas deixaremos al-Abbas vivo? Juro por Allah que, se eu o encontrar, cortá-lo-ei em pedaços com minha espada.” Ao ouvir essas palavras de Hudhaifa, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Abu Hafs (Umar), será que o tio do Mensageiro de Allah será morto com uma espada?” Umar respondeu: “Ó Mensageiro de Allah! Permite-me; com minha espada, cortarei sua cabeça. Juro por Allah que ele é um hipócrita.” Abu Hudhaifa disse: “Não me sinto seguro por causa das palavras que proferi naquele dia e permanecerei sempre amedrontado até expiar minha falta por meio do martírio.” Ao ser martirizado na Batalha de Yamama, ele expiou sua falta. (Hayat al-Sahaba – 2/364–365).

Salim, o mawla de Abu Hudhaifa (que Allah esteja satisfeito com ele)

Certo dia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) instruiu os Companheiros: “Aprendei o Alcorão com quatro pessoas: Abdullah ibn Masud, Salim, o mawla de Abu Hudhaifa, Ubayy ibn Ka‘b e Muadh ibn Jabal.” Quem era esse Salim, o mawla de Abu Hudhaifa, a quem o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou confiável no ensino do Alcorão?

Seu nome era Salim, e sua kunya, Abu Abdullah. Há divergência quanto ao nome de seu pai. Ibn Mundah disse: “Ubayd ibn Rabia”. Segundo outros, era Maqal. Era de origem iraniana. Istakhr, na Pérsia, era a terra natal de seus antepassados. Ele chegou a Medina como escravo de Subayta bint Yu’ar al-Ansariyya. Subayta era esposa de Abu Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele). Quando Subayta o libertou incondicionalmente, Abu Hudhayfa o adotou como filho. Ele passou a ser conhecido como Salim ibn Abu Hudhayfa, assim como Zayd havia sido conhecido como Zayd ibn Muhammad. Alguns o mencionaram como escravo de Abu Hudhayfa. Por essas razões, ele foi contado entre os muhajirun. Por outro lado, por ter sido o escravo libertado por Subayta, também era chamado de ansari. E, por ser originalmente filho da Pérsia, alguns o mencionaram como ajami, isto é, não árabe.

Hazrat Salim vivia em Meca com Hazrat Abu Hudhayfa. Abu Hudhayfa era filho de Utba, chefe dos coraixitas de Meca e inimigo declarado do Islã. Entre aqueles que responderam “Labbaika” ao chamado islâmico desde o início da missão estavam Abu Hudhayfa e seu filho adotivo Salim. Os dois, pai e filho, continuaram adorando silenciosa e humildemente o seu Senhor e demonstraram uma paciência ilimitada diante da cruel perseguição dos coraixitas. Certo dia, foi revelado um versículo do Alcorão abolindo a prática da adoção: “Udu’uhum li-aba’ihim” — chamai-os pelo nome de seus pais. Cada filho adotivo passou a ser identificado pelo nome de seu pai biológico. Assim, Zayd ibn Muhammad tornou-se Zayd ibn Haritha. Porém, a identidade paterna de Salim era desconhecida. Por isso, ele ficou conhecido como “Salim mawla Abi Hudhayfa” — Salim, amigo, companheiro, irmão ou escravo libertado de Abu Hudhayfa.

O Islã aboliu a prática da adoção. Talvez o Islã queira dizer com isso que não se deve dar a nenhum vínculo de sangue, parentesco ou qualquer outro tipo de relação uma importância maior que a da fraternidade islâmica. Seus vínculos devem ser construídos sobre a fé e a crença. Os primeiros muçulmanos compreenderam muito bem esse princípio. Por isso, depois de Allah e de Seu Mensageiro, nada lhes era mais querido que seus irmãos na religião. Vimos isso entre os ansar e os muhajirun. Da mesma forma, vemos isso na relação entre o nobre coraixita Abu Hudhayfa e seu escravo Salim, sem linhagem paterna conhecida e de origem desconhecida.

A fé de Hazrat Salim era como a fé dos siddiqun, e ele caminhava no caminho de Allah como os muttaqun. Não se importava com qual era sua posição na sociedade nem com sua origem. A nova sociedade construída pelo Islã o elevou à posição mais alta por causa de sua taqwa e sinceridade. Foi nessa grande e virtuosa sociedade nova que Abu Hudhayfa — que no dia anterior o tinha como escravo — sentiu orgulho de aceitá-lo como irmão ou amigo. Chegou até a casar com ele sua sobrinha, Fatima bint al-Walid, elevando assim sua própria família a uma posição de honra e glória. Numa sociedade que eliminara toda forma de opressão e injustiça e declarara abolida toda falsa nobreza, a fé, a honestidade e a firmeza de Salim fizeram dele uma personalidade de primeira linha.

Ainda antes da Hégira do Nobre Mensageiro, ele migrou para Medina com seu amigo na religião, Abu Hudhayfa. Em Medina, hospedou-se com Hazrat Abbad ibn Bishr. Em Meca, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estabelecera uma fraternidade religiosa entre ele e Abu Ubayda ibn al-Jarrah. Mas, em Medina, sua relação de fraternidade foi estabelecida com Hazrat Muadh ibn Maiz al-Ansari.

Na época dos Companheiros, Salim era um dos que eram considerados imãs na arte da recitação. Tinha uma voz tão melodiosa que, quando começava a recitar o Alcorão, os ouvintes escutavam encantados. Certo dia, a Mãe dos Crentes, Hazrat Aisha, demorou a chegar à presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro de Allah perguntou: “Por que você se atrasou?” Aisha respondeu: “Um recitador estava recitando o Alcorão com uma voz melodiosa, por isso fiquei ouvindo.” Ela descreveu a beleza de sua recitação. Ao ouvir sua descrição, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) puxou seu manto, saiu e viu que aquele recitador não era outro senão Salim, mawla de Abu Hudhayfa. Ao ouvir sua recitação, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comentou: “Alhamdulillah, alladhi ja’ala fi ummati mislaka” — Todo louvor pertence a Allah, que criou em minha comunidade alguém como você. (Usud al-Ghaba, 2/246).

Por causa de sua voz melodiosa e de ter memorizado grande parte do Alcorão, Salim era visto entre os nobres Companheiros com extremo respeito e estima. Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Antes da Hégira do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para Medina, Salim liderava na oração, na mesquita de Quba, aqueles que haviam migrado para Medina.” (Bukhari.) Companheiros ilustres, como Hazrat Abu Bakr e Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ambos), também rezavam atrás dele.

Ele esteve com o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em todas as batalhas, incluindo Badr, Uhud e Khandaq. (Usud al-Ghaba, 2/246.) Na batalha de Badr, matou com as próprias mãos o incrédulo Umayr ibn Abi Umayr. (Ibn Hisham, 1/708.)

Após a conquista de Meca, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou vários grupos de pregadores às aldeias e tribos ao redor de Meca. Ele lhes disse: “Vocês estão sendo enviados não como guerreiros, mas como pregadores e convocadores.” O líder de um desses grupos era Hazrat Khalid ibn al-Walid. Quando Khalid chegou ao seu destino, ocorreu um incidente no qual ele desembainhou a espada, causando grandes perdas ao lado adversário. Quando essa notícia chegou aos ouvidos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele passou longo tempo apresentando suas desculpas a Allah, dizendo: “Ó Allah, peço-Te que me isentes da responsabilidade pelo que Khalid fez.” Hazrat Salem acompanhava Hazrat Khalid nessa expedição. Salem não aceitou silenciosamente a atitude de Khalid. Ele protestou veementemente contra o que Khalid havia feito. Diante de seus protestos, o grande guerreiro Khalid às vezes ficava sem resposta; outras vezes tentava apresentar argumentos em sua própria defesa; e, em algumas ocasiões, envolvia-se numa acalorada discussão com Salem. Mas Salem permaneceu firme em sua opinião. Naquele dia, não se calou nem deixou de dizer a verdade por medo de Khalid.

Salem, que poucos dias antes era um escravo de Meca, naquele dia não deu a menor importância a um ilustre comandante qurayshita de Meca como Khalid. Khalid tampouco se sentiu de modo algum ofendido, pois o Islã havia estabelecido ambos em posição de igual dignidade. Naquele dia, Salem não aceitou o erro de Khalid por prestar ao líder uma devoção e um respeito infundados. Pelo contrário, protestou como alguém que compartilhava da responsabilidade. Ele não fez isso por satisfação pessoal nem para obter fama; repetidas vezes havia ouvido o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: “Ad-din an-nasihah” — o outro nome da religião é aconselhamento sincero. Foi esse conselho que ele ofereceu a Khalid naquele dia.

Quando a notícia do excesso cometido por Hazrat Khalid chegou aos ouvidos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele perguntou: “Ninguém protestou ou condenou o que ele fez?” A ira do nobre Mensageiro de Allah aumentou quando ouviu: “Sim, Salem protestou. Houve uma discussão entre eles.”

O nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu para a proximidade de Allah. O califado de Hazrat Abu Bakr enfrentou a conspiração dos apóstatas. Travou-se com eles a terrível batalha de Yamama. Nunca antes uma batalha tão terrível havia ocorrido na história do Islã. O exército muçulmano saiu de Medina em direção a Yamama. Salem e seu irmão na fé, Abu Hudhaifa, partiram com os demais. Na primeira fase da batalha, o exército muçulmano sofreu certo revés. Então compreenderam que guerra é guerra e responsabilidade é responsabilidade. Hazrat Khalid ibn al-Walid reorganizou-os e dispôs o exército de maneira extraordinária. Quando, inicialmente, o exército muçulmano estava recuando, Hazrat Salem gritou: “Ai de nós! Nossa situação não era assim no tempo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Ele cavou uma cova para si e permaneceu firme dentro dela. (Usud al-Ghaba, 2/246).

Na batalha de Yamama, a bandeira do exército muçulmano estava inicialmente nas mãos de Hazrat Zayd ibn al-Khattab. Quando ele alcançou o martírio, a bandeira caiu ao chão. Salem imediatamente a ergueu. Alguns se opuseram a que ele carregasse a bandeira, dizendo: “Tememos que um ataque das forças inimigas venha da sua direção.” Salem disse: “Nesse caso, eu me tornaria um portador indigno do Alcorão.” (Hayat as-Sahaba, 1/535).

Antes de atacarem as forças inimigas, os dois irmãos na fé — Abu Hudhaifa e Salem — abraçaram-se e comprometeram-se a alcançar o martírio no caminho da verdadeira religião. Depois, ambos lançaram-se contra as forças inimigas. De um lado, Abu Hudhaifa gritava: “Ó portadores do Alcorão, adornem o Alcorão com suas ações”; e, ao mesmo tempo, golpeava com a espada as forças de Musaylima, o Mentiroso. De outro lado, Salem gritava: “Eu me tornarei um portador indigno do Alcorão se um ataque das forças inimigas vier da minha direção.” Dizia isso com os lábios enquanto, com ambas as mãos, golpeava com a espada os pescoços dos soldados inimigos.

O golpe violento da espada de um apóstata atingiu sua mão direita. A mão foi decepada. Ele ergueu a bandeira com a mão esquerda. Quando a mão esquerda também foi cortada pelo golpe do inimigo, ele prendeu a bandeira ao pescoço. Nessa condição, continuou recitando este versículo do Alcorão: “Wa ma Muhammadun illa rasul, wa ka-ayyin min nabiyyin qatala ma‘ahu ribbiyyuna kathir.” — “Muhammad não é senão um Mensageiro de Allah. Quantos profetas não combateram acompanhados por muitos homens devotados a Allah! Eles não se enfraqueceram nem desistiram diante das aflições e calamidades que lhes sobrevieram no caminho de Allah. Allah ama os perseverantes.” Esse foi o seu brado nos momentos que precederam sua morte.

Pouco depois, um grupo de apóstatas cercou Salem. O grande guerreiro Salem caiu. Ainda restava em seu corpo o sinal da vida. Com a morte de Musaylima, o Mentiroso, a batalha terminou com a vitória dos muçulmanos e a derrota dos apóstatas. Os muçulmanos começaram a procurar os feridos e os mortos. Encontraram Salem em seus últimos momentos de vida. Nessa condição, Salem perguntou-lhes: “Qual é a situação de Abu Hudhaifa?”

—Ele alcançou o martírio.

—Qual é a situação daquele que temia um ataque das forças inimigas vindo da minha direção?

—Ele alcançou o martírio.

—Deitai-me entre os dois.

—Os dois foram martirizados, um de cada lado teu.

Hazrat Salem apenas esboçou um leve sorriso pela última vez. Não disse mais nada. Salem e Abu Hudhayfa alcançaram aquilo que ambos desejavam sinceramente. Aceitaram o Islã juntos, viveram juntos e foram martirizados juntos, no mesmo lugar.

A história de Hazrat Salem é semelhante à de Bilal e à de inúmeros outros escravos indefesos. O Islã lançou dos ombros de todos eles o jugo da escravidão e os colocou nas posições de imames, líderes e administradores de uma sociedade de verdade e prosperidade. Ele reunia em si todas as virtudes do grandioso Islã. Sua característica mais notável era que expressava francamente aquilo que sabia ser verdadeiro e jamais se abstinha de dizê-lo. Seus amigos crentes deram-lhe o nome de “Salem min as-Salihin”, Salem do grupo dos sinceros.

Hazrat Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) era pródigo em elogios a Salem. Antes de morrer, ao falar sobre a escolha do califa, disse: “Se Salem estivesse vivo hoje, eu lhe confiaria o califado sem sequer consultar o conselho da shura.” (Usud al-Ghaba, 2/246).

Hazrat Salim não tinha filhos. Por isso, deixou um testamento acerca dos bens que legaria após sua morte: um terço para a libertação de escravos e outras obras islâmicas, e um terço em favor de seu antigo senhor, Hazrat Subaita. Quando Hazrat Abu Bakr (r.a.) enviou a Subaita esse terço, conforme o testamento, ele se recusou a recebê-lo, dizendo: “Eu o libertei incondicionalmente e não esperava nada em troca.” Mais tarde, o califa Umar (r.a.) depositou-o no Bayt al-Mal. (Al-Isti’ab, Usud al-Gabah, 2/247).

Foram narrados hadiths do Rasulullah (s.a.w.) por intermédio de Hazrat Salim. Além disso, muitos Companheiros narraram hadiths a partir dele.

Hatib ibn Abi Balta’a

Seu nome era Hatib; suas kunyas eram Abu Muhammad e Abu Abdillah. O nome de seu pai era Abu Balta’a Amr. Há divergências entre os autores de biografias sobre sua linhagem e sobre sua chegada a Meca. Segundo a opinião mais conhecida, a terra de origem de seus antepassados paternos era o Iêmen. Eles se estabeleceram em Meca como aliados dos Banu Asad e, posteriormente, de Zubayr ibn al-Awwam. Alguns também disseram que ele era escravo de Ubaydullah ibn Humayd. Libertou-se da escravidão mediante o pagamento de uma quantia, com base em um contrato de mukataba. (Usud al-Gabah, 1/361).

Marzubani afirma em sua obra Mu’jam al-Shu’ara: “Ele era um dos mais renomados cavaleiros e poetas dos coraixitas na época da Jahiliyyah.” (Al-Isabah, 1/300)

Ele aceitou o Islã antes da Hégira e, depois que Medina se estabeleceu como o centro do Islã, chegou à cidade acompanhado de seu escravo Sa’d. Ali, foi hóspede de Hazrat Mundhir ibn Muhammad al-Ansari e estabeleceu uma relação de fraternidade, ou mu’akhah, com Hazrat Khalid ibn Raqbalah (r.a.).

Musa ibn Uqbah e Ibn Ishaq afirmam que ele participou da batalha de Badr junto do Rasulullah (s.a.w.). Também esteve presente no Tratado de Hudaybiyyah. (Usud al-Gabah, 1/361). Além disso, segundo diversos relatos, participou de todas as batalhas travadas junto do Rasulullah (s.a.w.), incluindo Uhud e a batalha da Trincheira.

Ao retornar de Uhud, no sexto ano da Hégira, o Rasulullah (s.a.w.) enviou-o à corte de Muqawqis, governante do Egito, como pregador e propagador do Islã. O conteúdo da carta que ele levou do Rasulullah (s.a.w.) a Muqawqis era o seguinte:

“Em seguida, convido-o ao chamado islâmico. Se aceitar o Islã, estará seguro e Allah lhe concederá uma recompensa dupla. Mas, se o rejeitar, o pecado de todos os coptas recairá sobre você. Ó detentores do Livro Celestial! Vinde a uma palavra ou afirmação que seja comum a nós e a vós: que adoremos somente um único Allah, que não associemos nada a Ele e que não tomemos uns aos outros como senhores em lugar de Deus.”

O venerável Hatib ibn Abi Balta’a compareceu à corte de Maquqas, no Egito, e entregou-lhe a referida carta do Mensageiro de Allah. Entre os dois, ocorreu o seguinte diálogo:

Hatib: Antes de você, governou aqui um soberano que se considerava um deus. Allah, o Altíssimo, lançou-o no castigo deste mundo e do Além, aplicando-lhe uma punição exemplar. Você também deveria tirar lição do destino dos outros. Não é desejável que você próprio se torne uma lição para os demais.

Maquqas: Somos seguidores de uma religião. Enquanto nenhuma outra religião se provar superior a ela, não podemos abandoná-la.

Hatib: Convidamo-lo para a religião do Islã, que é superior e mais completa que todas as outras religiões. Quando este Profeta convidou as pessoas para essa religião, os coraixitas se opuseram ferozmente. Além disso, os judeus demonstraram a maior hostilidade. Comparativamente, porém, os cristãos foram mais flexíveis. Por Allah! Assim como Moisés anunciou a boa-nova de Jesus, Jesus também anunciou a boa-nova de Muhammad. Assim como você convida os judeus ao Evangelho, nós também os convidamos ao Alcorão. Todas as comunidades ou povos que vivem na Terra durante o período do surgimento de um profeta são seguidores desse profeta, e é obrigatório que lhe obedeçam. Como você viveu na época de um profeta, é seu dever indispensável crer nele. Não estamos desviando-o da religião do Messias para outra direção; ao contrário, queremos conduzi-lo corretamente nessa mesma direção.

Maquqas: Muhammad é realmente um profeta?

Hatib: Por que não seria verdade?

Maquqas: Quando os coraixitas o expulsaram de sua própria cidade, por que ele não lançou uma maldição contra eles?

Hatib: Vocês acreditam que Jesus (que a paz esteja sobre ele) é o Mensageiro de Allah? Se assim é, então, quando ele foi crucificado, por que não invocou uma maldição contra o seu povo?

Diante de uma resposta tão penetrante e imediata, brotou espontaneamente dos lábios de al-Muqawqis uma expressão de admiração. Ele acrescentou: “Certamente, você é um homem muito sábio e veio da parte de um grande sábio.” (Usud al-Gabah, 1/361). “Pelo que pude compreender, esse profeta não ordena nenhuma ação inútil nem impede qualquer coisa louvável. Não posso chamá-lo de feiticeiro extraviado, tampouco de falso adivinho. Há nele muitos sinais de profecia; em breve refletirei profundamente sobre o assunto.” Depois de dizer isso, ele tomou a carta sagrada do Nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), guardou-a numa caixa de marfim, selou-a e confiou-a à proteção de uma serva que estava presente.

Al-Muqawqis despediu-se de Hatib com grande honra e enviou, para o Mensageiro de Allah, três servas, uma mula chamada Duldul e valiosos presentes, incluindo várias peças de tecido. (Zad al-Ma’ad, p. 257). Uma das três servas enviadas por al-Muqawqis era Maria, a Copta. O Nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a tomou para si, e dela nasceu Ibrahim, filho do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). A segunda serva era Sirin, irmã de Maria. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) presenteou com ela o célebre poeta Hassan ibn Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele), e dela nasceu Abd al-Rahman ibn Hassan. A terceira serva foi dada pelo Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a Abu Jahl ibn Hudhayfa al-Adawi. (Hayat al-Sahabah, 1/140–141; Usud al-Gabah, 1/362).

No oitavo ano da Hégira, começaram os preparativos para a conquista de Meca. Para que os coraixitas de Meca, adversários dos muçulmanos, não tomassem conhecimento do assunto, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) alertou a todos. Embora Hatib não morasse em Meca, sua antiga amizade com os coraixitas o levou a sentir simpatia por eles. Ele enviou a Meca uma mulher da tribo de Muzaynah, levando uma carta com notícias dos preparativos secretos dos habitantes de Medina. Ficou combinado que, em troca disso, ele pagaria à mulher a remuneração estipulada. A mulher escondeu a carta numa trança do cabelo e partiu para Meca. Enquanto isso, por meio da revelação, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tomou conhecimento de tudo. Imediatamente, ordenou a Ali, a Zubayr e a Miqdad que perseguissem a mulher e recuperassem a carta. Os três cavalgaram rapidamente e alcançaram-na num lugar chamado “Khalīqah”, ou, segundo outra versão, “Rawdat Khakh”. Primeiro, revistaram sua montaria, mas não encontraram nada. Então Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse à mulher: “Juro por Allah que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não recebeu uma informação falsa, nem nós fomos informados falsamente. Ou você mesma entrega a carta, ou a revistaremos completamente.” Ao verem tal severidade, a mulher disse: “Afastem-se um pouco.” Eles se afastaram. Ela desfez a trança, retirou a carta de dentro dela e entregou-a. Os três levaram a carta à presença do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Depois de lê-la, ele perguntou, surpreso: “Ó Hatib, por que você fez uma coisa dessas?” Hatib respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, não se apresse em decidir sobre o meu caso. Embora eu não seja dos coraixitas, na época da ignorância estabeleci com eles uma relação profunda. Como todos os emigrados costumam ajudar e apoiar seus parentes e amigos que ficaram em Meca, desejei oferecer aos meus parentes pelo menos alguma retribuição pelo bom tratamento que os coraixitas lhes dispensam. Não fiz isso por apostasia, por abandonar o Islã, nem por preferir a descrença ao Islã.” (Sahih al-Bukhari, Livro das Expedições).

Em outra narração, Hatib disse: “Ó Mensageiro de Allah! Minha família está entre eles. Escrevi a carta acreditando que isso não causaria nenhum dano a Allah e ao Seu Mensageiro. Desde que aceitei o Islã, nenhuma dúvida surgiu em meu coração a respeito de Allah. Porém, em Meca eu era um forasteiro, e ali estão minha mãe, meus irmãos e meus filhos.” (Al-Isabah, 1/300; Hayat al-Sahabah, 2/425).

Depois de ouvir as palavras de Hatib, o Nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse aos Companheiros presentes: “Ele revelou a verdade. Portanto, que ninguém o insulte.” Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) pediu: “Ó Mensageiro de Allah! Ele agiu com deslealdade para com Allah, o Mensageiro e os muçulmanos. Permita-me cortar a cabeça desse hipócrita.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Ele não participou da batalha de Badr?” Allah concedeu aos combatentes de Badr esta garantia: “Façam o que quiserem, pois o Paraíso está assegurado para vocês.” Diante dessa extraordinária generosidade do Misericordioso para com os mundos, do Profeta da misericórdia, os dois olhos de Umar encheram-se de lágrimas. (Sahih al-Bukhari, A virtude daquele que participou de Badr).

Foi nesse contexto que este versículo do Sagrado Alcorão foi revelado:

“Ó vós que credes, não tomeis por amigos os Meus inimigos e os vossos inimigos. Vós lhes demonstrais amizade, embora eles tenham negado a verdade que vos chegou.” (Surata al-Mumtahanah, 1).

Após o falecimento do Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o primeiro califa, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), enviou-o pela segunda vez à corte de Maquqis e celebrou um tratado de paz com Maquqis. Esse tratado permaneceu em vigor entre ambas as partes até a conquista do Egito por Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele). (Al-Istيعab).

Ele faleceu em Medina, no ano 30 da Hégira, aos 65 anos de idade. Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) dirigiu a oração fúnebre, e seu sepultamento foi realizado na presença de uma grande multidão. (Al-Istيعab).

Cumprir as promessas, retribuir os favores e falar com clareza eram algumas das principais características de seu caráter. Ele sentia uma compaixão ilimitada por seus parentes e amigos. A carta que escreveu antes da conquista de Meca foi escrita principalmente por insistência dessa compaixão. E o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), compreendendo isso, perdoou-o. Seu temperamento era um tanto áspero. Tratava os escravos com severidade. Por isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os califas posteriores às vezes o repreendiam e o corrigiam. Certa vez, um de seus escravos compareceu perante o Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e, queixando-se de sua severidade, disse: “Ó Mensageiro de Allah, certamente Hatib irá para o Inferno.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Estás mentindo. Quem participou de Badr e de Hudaybiyyah não pode ir para o Inferno.” (Al-Istيعab).

Durante o califado de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), em diversas ocasiões, seus escravos apresentaram ao califa queixas sobre sua severidade. Certa vez, um de seus escravos sacrificou o camelo de um homem da tribo de Muzayna; como punição por isso, ele determinou uma pena severa para aquele escravo. Ao tomar conhecimento do ocorrido, o califa chamou-o e disse: “Fiquei sabendo que manténs teus escravos passando fome.” O califa advertiu-o severamente.

O comércio era a principal fonte de seu sustento. Ele obteve uma grande quantia de dinheiro com uma loja de alimentos. Ao morrer, deixou quatro mil dinares e muitas casas. Alguns dizem que Hatib narrou três hadiths do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); outros dizem que narrou dois hadiths.

‘‘Utba ibn Ghazwan (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era ‘Utba, e seu kunya, Abu Abdillah. Seu pai era Ghazwan ibn Jabir. Na época da Jahiliyyah, sua tribo havia estabelecido um pacto com os Banu Nawfal ibn Abd Manaf. ‘Utba foi uma das primeiras pessoas a responder ao chamado do tawhid, no início do Islã. Certa vez, em um discurso, afirmou que era o sétimo muçulmano. (Usd al-Ghabah-3)

Afligido pela perseguição dos incrédulos em Meca, participou da segunda Hégira para a Abissínia. Naquela época, tinha 40 anos. Depois de permanecer algum tempo na Abissínia, retornou a Meca e passou a viver novamente ali. O Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ainda estava em Meca. (Al-Istيعab, Usd al-Ghabah-3/364).

Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, migrou para Medina e começou o conflito militar entre a descrença e o Islã, ele e Miqdad marcharam em direção a Medina com um exército coraixita. Ikrimah ibn Abi Jahl era o comandante desse exército. No caminho, houve um pequeno confronto entre esse exército e um pequeno grupo de mujahidin muçulmanos de Medina. O líder desse grupo de mujahidin era Hazrat Ubaidah ibn al-Harith. Utba e Miqdad aguardavam uma oportunidade. Quando surgiu a ocasião, juntaram-se ao grupo de mujahidin. Ao chegar a Medina, Utba hospedou-se na casa de Hazrat Abdullah ibn Salama al-Ajlani e estabeleceu uma relação de fraternidade com Hazrat Abu Dujana al-Ansari. (Tabaqat de Ibn Sa‘d, 3/69).

Hazrat Utba ibn Ghazwan era um arqueiro habilidoso. Além de Badr, Uhud e Khandaq, participou com extrema bravura de todas as batalhas das quais o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, participou pessoalmente. Ele também era membro do grupo de reconhecimento que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou em direção a Nakhlah sob a liderança de Abdullah ibn Jahsh. (Hayatus Sahabah, 2/350).

No ano 14 da Hégira, o segundo califa, Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, confiou-lhe a responsabilidade de conduzir uma expedição às áreas de Ubulla, o porto marítimo do Iraque, Maysan e seus arredores, e enviou-o de Medina à frente de um exército. O episódio é narrado da seguinte forma em várias obras: “O Comandante dos Crentes, Hazrat Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, deitou-se após a oração de isha para descansar um pouco, a fim de sair mais tarde à noite para percorrer a cidade. Porém, não conseguia dormir. Um mensageiro havia trazido a notícia de que o derrotado exército persa se reorganizara a partir de seu estado disperso para lançar um contra-ataque. Também informaram ao califa que a cidade de Ubulla, próxima de Basra, era a principal fonte de recursos financeiros e de soldados para o derrotado exército persa. O califa decidiu conduzir uma expedição a Ubulla para cortar essa fonte do exército persa. Entretanto, a insuficiência de forças militares tornou-se um obstáculo à execução de sua decisão. Isso porque, naquela época, em Medina, quase todos, exceto poucas pessoas, estavam envolvidos em expedições em diferentes frentes. Então o califa Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, decidiu empregar seu método habitual. E esse método consistia em compensar a escassez de soldados com uma liderança forte e competente. Ele pensou nos comandantes militares. Depois de algum tempo, disse para si mesmo: ‘Encontrei. Sim, encontrei.’ Em seguida, enquanto dizia essas palavras, foi para a cama. Ele era o mujahid que havia sido reconhecido nas batalhas de Badr, Uhud e Khandaq. Yamamah também testemunhara sua competência e seu papel. Em nenhuma batalha sua espada perdera o fio, e nenhuma de suas flechas errara o alvo. Além disso, ele era alguém que realizara duas migrações e era o sétimo muçulmano sobre a face da Terra.”

Pela manhã, ele disse: “Chamem Utba ibn Ghazwan.” O califa confiou-lhe o comando de um exército composto por pouco mais de trezentos homens e também prometeu enviar-lhe reforços adicionais.

Antes de Utba partir de Medina com seu exército, o califa Umar, ao aconselhar o comandante Utba, disse:

“Parta com seus companheiros, confiando na misericórdia e na bênção de Allah, em direção aos confins da Arábia e às regiões próximas dos impérios não árabes. Adote o máximo possível a taqwa e lembre-se de que vocês estão indo para uma terra inimiga. Espero que Allah o ajude. Escrevi a Ala ibn al-Hadrami para que enviasse Arfajah ibn Harthamah a fim de ajudá-lo. Ele é um mujahid extremamente eficiente no combate ao inimigo. Ele permanecerá como seu conselheiro. Convide os não árabes para Allah. Conceda segurança àqueles que aceitarem esse convite. Quanto aos que o rejeitarem, obrigue-os a viver sob o domínio islâmico mediante o pagamento da jizya. Caso contrário, decida a questão pela espada. Ao longo do caminho, incentive à guerra contra o inimigo todas as tribos árabes pelas quais passar e tema Allah em todas as circunstâncias. (Usd al-Ghabah, 3/364).”

Utba ibn Ghazwan partiu com seu exército. Junto com esse exército, além de sua esposa, seguiram também outras quinze mulheres, esposas dos soldados. Eles chegaram a uma área chamada Qasbah, coberta por uma espécie de planta aquática, não muito distante da cidade de Ubulla. Naquele momento, não tinham nada para comer e sobreviver. Quando foram acometidos por uma fome terrível, Utba ordenou a alguns membros de seu exército que procurassem algo para comer. Uma história surpreendente está ligada à busca por alimento. Um deles relata:

“Entramos numa floresta densa à procura de alimento. Ali vimos dois sacos jogados no chão. Um estava cheio de tâmaras, e o outro continha uma espécie de grão branco coberto, na parte superior, por uma camada dourada. Arrastamos os dois sacos para perto do nosso acampamento. Um de nós olhou para o saco cheio de grãos e disse: ‘Isto é veneno; os inimigos o deixaram aqui. Ninguém deve chegar perto.’ Começamos a comer as tâmaras. Enquanto isso, nosso cavalo disparou, enfiou o focinho no saco de grãos e começou a comê-los. Já estávamos quase decididos a abatê-lo antes que morresse, para que pudéssemos comer sua carne.”

Então o dono do cavalo nos disse: “Vamos esperar um pouco e vigiar o cavalo esta noite. Se ficar claro que ele está realmente morrendo, poderemos abatê-lo.” Mas, pela manhã, vimos que o cavalo estava completamente saudável. Então minha irmã me disse: “Irmão, ouvi meu pai dizer que, quando o veneno é queimado e fervido no fogo, perde o seu efeito.” Em seguida, ela pegou alguns grãos, colocou-os numa panela e começou a fervê-los. Depois de algum tempo, chamou-nos e disse: “Vejam como ficaram vermelhos.” Ela descascou os grãos e retirou deles os grãos brancos. Colocamo-los num recipiente. Utba disse: “Comam-nos dizendo bismillah.” Nós os comemos e achamos seu sabor excelente. Mais tarde, soubemos que o nome daqueles grãos era “arroz”.

Essa ‘Ubulla’ era uma fortaleza extremamente sólida do exército inimigo, situada às margens do Tigre. Utba conquistou essa fortaleza levando consigo apenas seiscentos guerreiros e algumas mulheres. Suas armas também eram muito rudimentares: arcos, espadas, lanças e coisas semelhantes. Contudo, com inteligência, sagacidade e coragem, ele realizou o que parecia impossível.

Utba confeccionou muitas bandeiras para as mulheres e amarrou-as às pontas das lanças. Ordenou-lhes que as mantivessem erguidas atrás dos combatentes muçulmanos. Disse-lhes também: “Quando nos aproximarmos da cidade de Ubulla, levantem muita poeira, de modo que tudo ao redor fique escuro por causa dela.”

Quando o exército muçulmano se aproximou de Ubulla, o exército persa saiu da cidade e viu uma nuvem de poeira que se estendia até o horizonte e inúmeras bandeiras subindo e descendo. Eles diziam uns aos outros: “É um exército avançado. Há incontáveis soldados atrás dele; são eles que estão levantando toda essa poeira.” O medo tomou seus corações, e eles ficaram tomados pelo pânico. Pegando tudo o que encontravam à mão, correram para os barcos ancorados no rio Tigre, numa disputa para fugir. Utba entrou em Ubulla sem perder sequer um homem de seu exército. Em seguida, subjugou as cidades e aldeias às margens do Tigre e ergueu bem alto a bandeira do Islã.

Em Ubulla, o exército muçulmano obteve incontáveis espólios. Quando um soldado do exército muçulmano chegou a Medina, os habitantes perguntaram-lhe como estavam os muçulmanos em Ubulla. Ele respondeu: “Sobre o que estais perguntando? Juro por Allah, quando os deixei, estavam pesando ouro e prata em balanças.” Ao ouvir isso, os habitantes de Medina puseram-se a caminho de Ubulla em suas montarias.

Após a conquista de Ubulla, Hazrat Utba refletiu que, se seus soldados permanecessem convivendo com os habitantes locais naquela terra estrangeira, logo se acostumariam aos costumes estrangeiros e perderiam sua identidade. Ele comunicou o assunto ao califa Umar e pediu permissão para construir uma cidade militar num lugar chamado Basra. Basra ficava perto do porto de Ubulla, onde ancoravam os navios da Índia e da Pérsia que navegavam pelo Golfo Pérsico. Hazrat Utba foi o primeiro a chegar ao local, levando consigo oitocentas pessoas, e lançou os alicerces da cidade de Basra. Designou um bairro separado para cada tribo. Confiou a responsabilidade pela construção da mesquita congregacional a Hazrat Mihjan ibn al-Adra. Inicialmente, as casas da cidade foram construídas com madeira e pedras. Por isso, a mesquita congregacional também foi construída com madeira. Contudo, ele não construiu nenhum palácio para si. Vivia numa tenda de tecido. (Usud al-Ghaba, 3/364).

Hazrat Utba foi nomeado o primeiro governante dessa nova cidade e desempenhou sua função com grande eficiência durante seis meses. Contudo, seu ascetismo e seu desapego aos prazeres e às riquezas mundanas levaram-no a desejar renunciar ao cargo. Além disso, ficou alarmado ao observar o estilo de vida luxuoso dos muçulmanos de Basra. Aqueles que, poucos dias antes, não conheciam alimento melhor que o arroz cozido, agora haviam se acostumado às iguarias da aristocracia persa. Ele passou a temer pela religião. Nessa ocasião, proferiu diante das pessoas reunidas na mesquita um sermão histórico. Eis uma parte dele:

“Amigos! O mundo está em movimento e desaparecendo. A maior parte dele já passou. Certamente sereis transferidos deste mundo para um lugar que não perecerá. Então, por que não levais convosco a melhor provisão? Foi-me dito que, se uma pedra fosse lançada da borda do Inferno, levaria setenta anos para alcançar o seu fundo. Mas, por Allah, vós o preenchereis completamente. O quê? Estais admirados? Por Allah, foi-me dito que os portões do Paraíso serão tão amplos que levará quarenta anos para atravessar essa distância. Contudo, chegará um dia em que haverá uma multidão imensa ali. Quando abracei a fé, havia apenas seis pessoas com o Mensageiro de Allah. Éramos tão pobres e necessitados que as folhas das árvores eram nosso principal meio de subsistência. Por comermos essas folhas, nossos lábios ficavam feridos. Certo dia, encontrei uma manta. Rasguei-a e fizemos tangas, Sa‘d ibn Abi Waqqas e eu. Mas hoje chegou o dia em que cada um de nós se tornou comandante de alguma cidade. Peço a proteção de Allah contra a condição de nos considerarmos grandes, embora sejamos desprezíveis aos olhos de Allah. A profecia chegou ao fim. Depois, estabelecer-se-á a monarquia, e em breve poreis à prova os outros comandantes. (Musnad de Ahmad ibn Hanbal, 4/174).

Depois, Hazrat Utba (que Allah esteja satisfeito com ele) ordenou a Hazrat Majashi ibn Masud que empreendesse uma expedição militar nas regiões às margens do Eufrates e, deixando Hazrat Mugira ibn Shu’ba como seu substituto, foi a Meca para realizar o hajj. O Amir dos Crentes, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), também estava ali. Ali, ele pediu ao califa que o dispensasse de suas responsabilidades, mas o califa rejeitou seu pedido. Ele insistiu repetidamente, e o califa também recusou repetidamente. O califa ordenou-lhe que retornasse a Basra e reassumisse o cargo. Embora relutante, ele aceitou a ordem do califa. Durante a viagem de Meca para Basra, pouco antes de montar no camelo, ele suplicou com extrema humildade: “Allahumma la taruddani ilaiha, Allahumma la taruddani ilaiha” — “Ó Allah, não me faças retornar a Basra; ó Allah, não me faças voltar para lá.” Allah, o Todo-Poderoso, aceitou sua súplica. No caminho, ele caiu repentinamente do camelo e morreu, aos setenta e cinco anos, num lugar chamado Ma’dan Salim. Seu ano de falecimento foi o 17º ano da Hégira, segundo uma opinião, e o 20º, segundo outra. Hadiths transmitidos por Utba ibn Ghazwan encontram-se no Sahih Muslim e em outras coletâneas de Sunan.

Amir ibn Fuheira (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Amir e seu kunya, Abu Amr. Seu pai chamava-se Fuheira; segundo outra opinião, Fuheira era o nome de sua mãe. Ibn Hisham afirma: “Amir ibn Fuheira era um escravo negro não árabe dos Banu Asad. Hazrat Abu Bakr Siddiq comprou-o e concedeu-lhe a liberdade.” (Sirat Ibn Hisham, 1/259.) Segundo outro relato, Amir era escravo de Tufail ibn Abdillah, da tribo de Azd, irmão uterino de Hazrat Aisha. Amir ibn Fuheira foi a sétima pessoa entre aquelas que Hazrat Siddiq Akbar (que Allah esteja satisfeito com ele) libertou da escravidão antes da Hégira. (Sirat Ibn Hisham, 1/318.)

Ainda nos primórdios do Islã, antes de o Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se refugiar na casa de Hazrat Arqam, em Meca, Amir ibn Fuheira aceitou o convite para o tawhid. Além de ser um escravo indefeso, ele havia abraçado o Islã; por isso, uma montanha de tribulações desabou sobre ele. Vários métodos de tortura foram aplicados contra ele. Contudo, permaneceu firme como uma montanha diante de todas as perseguições. Por fim, graças à generosidade de Hazrat Siddiq Akbar (que Allah esteja satisfeito com ele), libertou-se das correntes da escravidão. (Usd al-Ghaba, 3/191.)

Quando o Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu de Meca em direção a Medina, acompanhado de Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), e se escondeu na caverna do monte Thawr, Amir ibn Fuheira passava o dia pastoreando as cabras de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) nas pastagens ao redor do monte Thawr. Assim, providenciava leite para o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Abu Bakr beberem. Enquanto isso, Abdallah, filho de Hazrat Abu Bakr, ia secretamente todas as noites à caverna do monte Thawr para informar o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Siddiq Akbar sobre a situação em Meca. Pela manhã, quando retornava para casa, Amir seguia atrás dele com o rebanho de cabras, apagando as marcas de seus passos e não deixando surgir qualquer suspeita na mente de ninguém. (Sirat Ibn Hisham, 1/486; Sahih al-Bukhari, Kitab al-Maghazi.)

Depois, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) saíram da caverna do monte Thawr e partiram em direção a Medina, e Abu Bakr levou Amir montado atrás de si em sua montaria. Assim, Amir fez a Hégira para Medina. Em Medina, ele foi hóspede de Hazrat Sa’d ibn Khuthayma, e foi estabelecida uma relação de muakhāt, ou fraternidade religiosa, entre ele e Hazrat Harith ibn Aws. (Tabaqat Ibn Sa’d, 3/164.)

Entre as pessoas que vieram de Meca para Medina e cuja saúde, no início, não se adaptava ao clima de Medina, Amir era uma das mais afetadas. Ele ficou gravemente doente. Ibn Ishaq relata que Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) migrou para Medina, Medina era a região com mais febre de toda a terra de Allah. Os companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foram amplamente acometidos pela febre. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) vivia no mesmo quarto com seus dois escravos libertos — Amir ibn Fuheira e Bilal. Todos eles adoeceram com febre. Fui visitá-los. Isso ocorreu antes da ordem do hijab. Naquele momento, estavam inconscientes devido à febre intensa. Depois de perguntar primeiro sobre o estado de Abu Bakr, fui até Amir ibn Fuheira e perguntei: ‘Amir, como você está se sentindo?’ Ele respondeu recitando dois versos de poesia: ‘Encontrei a morte antes de provar seu sabor; certamente a morte do covarde chega de repente. Cada pessoa tenta viver conforme sua capacidade, assim como o boi protege a pele com seus chifres.’”

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Juro por Allah, Amir não sabia o que estava dizendo.” Depois, Hazrat Aisha perguntou pelo estado de Bilal, retornou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e informou-lhe sobre a situação deles. Então o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) suplicou: “Ó Allah, torna Medina tão querida e amada para nós quanto Meca, ou ainda mais; abençoa para nós seus alimentos e transfere suas doenças para o lugar chamado Mahya.” (Sirat Ibn Hisham, 1/588–589; Sahih al-Bukhari, capítulo sobre a Hégira do Profeta e de seus Companheiros.)

A súplica do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi aceita, e todos eles se recuperaram.

Hazrat Amir ibn Fuhayra participou das batalhas de Badr e Uhud. Após a batalha de Uhud, um homem chamado Abu Bara Amir ibn Malik apresentou-se em Medina diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O nobre Mensageiro de Allah apresentou-lhe o convite ao Islã, mas ele não o aceitou nem o rejeitou. Disse: “Ó Muhammad, se enviasses alguns homens dentre os teus companheiros aos habitantes de Najd, e eles lhes apresentassem o teu convite, creio que eles o aceitariam.” O Mensageiro de Allah disse: “Temo que os habitantes de Najd os ataquem.” Abu Bara disse: “Eu me responsabilizo por eles. Envia os homens, e que eles convidem as pessoas para a tua religião.” Confiando em suas palavras, o nobre Mensageiro de Allah selecionou quarenta homens — segundo outra opinião, setenta — e formou um grupo. Hazrat Amir ibn Fuhayra também fazia parte desse grupo. Por ordem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o grupo partiu de Medina no quarto mês após o término da batalha de Uhud, no ano 4 da Hégira, e montou acampamento num local chamado Bi’r Ma’una, situado entre Banu Amir e Harra Banu Sulaym.

Em seguida, enviaram, por intermédio de Haram ibn Milhan, uma carta do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a Amir ibn Tufayl. Sem sequer ler a carta, Amir ibn Tufayl matou o mensageiro, Haram ibn Milhan. Depois, com o auxílio de Banu Sulaym, Ri‘l e Dhakwan, lançou um ataque surpresa contra o grupo e matou todos, exceto Ka‘b ibn Zayd — segundo outra opinião, Amr ibn Umayya al-Damri, que Allah esteja satisfeito com ele. Hazrat Ka‘b sobreviveu de algum modo, embora gravemente ferido. Mais tarde, alcançou o martírio na batalha da Trincheira. (Sira de Ibn Hisham, 1/183–186.)

Quando a lança do traidor Jabbar ibn Salma atravessou o peito de Hazrat Amir ibn Fuhayra, que Allah esteja satisfeito com ele, escapou espontaneamente de seus lábios: “Venci, por Allah — juro por Allah que alcancei o sucesso!” Seu corpo elevou-se aos saltos em direção ao céu. Os anjos o amortalharam e sepultaram. Para sua alma pura, foi aberta a porta do mais elevado ‘Illiyyin. Ao testemunhar essa cena milagrosa, o assassino Jabbar ibn Salma ficou atônito e tão profundamente impressionado que aceitou o Islã. Após esse acontecimento doloroso de Bi’r Ma’una, o nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recitou continuamente a súplica de Qunut an-Nazila durante a oração do fajr por quarenta dias e rogou contra esses assassinos. Depois desse incidente, Amir ibn Tufayl foi a Medina e perguntou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Ó Muhammad, quem era aquele homem que, depois de ser atingido por uma flecha, foi elevado ao céu?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Era Amir ibn Fuhayra.” (Nota: Sira de Ibn Hisham, 1/186; Tabaqat de Ibn Sa‘d — Maghazi.)

A aparência externa do corpo de Hazrat Amir ibn Fuhayra era negra como a dos negros abissínios, e a maior parte de seus trinta e quatro anos de vida foi passada na escravidão e servidão a senhores opressores. Contudo, ele era nobre em beleza de caráter. A paciência e a firmeza que demonstrou diante de diversas calamidades e aflições fizeram sua beleza moral brilhar de modo extraordinário. Ele era tão digno de confiança que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, confiou nele em muitas situações críticas. Seu intenso desejo pelo martírio tornou-o indiferente ao mundo. Por isso, quando uma lança atravessou seu peito no confronto de Bi’r Ma’una, escapou espontaneamente de seus lábios: “Venci, por Allah — juro por Allah que alcancei o sucesso!”

Abdullah ibn Suhayl, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Abdullah; seu nome familiar, ou kunya, era Abu Suhayl. Seu pai era Suhayl e sua mãe, Fakhta bint Amir.

Abraçou a fé no início do Islã e emigrou para a Abissínia com a segunda caravana que partiu em direção à Abissínia. Depois de permanecer algum tempo na Abissínia, ao retornar a Meca, seu pai o prendeu e o submeteu a torturas cruéis. Incapaz de suportar a tortura, Abdullah fingiu abandonar o Islã e retornar à vida politeísta, ou à idolatria. Seus pais e os politeístas de Meca, ao observarem seu comportamento exterior, ficaram tranquilos quanto ao fato de ele ter abandonado o Islã.

Enquanto isso, o venerável Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, deixou Meca e partiu para Medina. Teve início um conflito militar entre Meca e Medina. Os habitantes de Meca levaram Abdullah para lutar em Badr contra os muçulmanos, como um de seus companheiros de armas. Porém, eles não sabiam que, no coração onde uma vez entra a luz da fé, jamais pode entrar a escuridão do politeísmo. Na realidade, Abdullah nunca abandonara o Islã. Ele apenas aguardava uma oportunidade. Em Badr, juntou-se ao exército muçulmano.

Em um incidente repentino, o pai de Abdullah explodiu de raiva. Para vingar-se, lançou um ataque impetuoso. Mas isso não lhe trouxe nenhum proveito. Abdullah estava então livre e lutava bravamente contra o exército de seu pai, ombro a ombro com seus irmãos de fé. Finalmente, a vitória foi dos muçulmanos. Depois de Badr, o venerável Abdullah, que Deus esteja satisfeito com ele, lutou bravamente ao lado do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, em todas as batalhas importantes. Também participou do tratado de Hudaybiyyah e do Juramento de Ridwan. (Al-Isaba, 2/323).

Também durante a conquista de Meca, o venerável Abdullah, que Deus esteja satisfeito com ele, acompanhou o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, em sua viagem. Seu pai, Suhayl, ainda estava vivo em Meca como incrédulo. O venerável Abdullah pediu ao Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, aman, ou proteção, para seu pai. A respeito disso, seu pai Suhayl relatou: quando o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, entrou em Meca, entrei em minha casa e tranquei a porta. Depois, enviei meu filho Abdullah a Muhammad, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, para pedir proteção para mim. Pois eu não tinha certeza de que não seria morto. Abdullah foi até o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, e disse: “Ó Mensageiro de Deus, concederás aman, ou proteção, a meu pai?” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, respondeu: “Sim. Ele recebeu aman, ou proteção, sob a proteção de Deus. Que se apresente.” Em seguida, o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse às pessoas ao seu redor: “Que ninguém menospreze Suhayl ibn Amr. Por Deus, ele é um homem honrado e inteligente. Um homem assim jamais poderia permanecer ignorante quanto à beleza do Islã. Agora ele percebeu que não há bem algum naquilo de que era defensor.”

O venerável Abdullah foi até seu pai e, transmitindo-lhe a ordem do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, deu-lhe a boa notícia. O pai, derretido de alegria pela boa sorte do filho, exclamou: “Por Deus, tanto na infância quanto na idade adulta, foste virtuoso.” Após essa garantia do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, Suhayl, ainda hesitante e indeciso, apresentou-se diante dele. Partiu de Meca com o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, com o propósito de participar da batalha de Hunayn. No caminho, ao chegar a um lugar chamado Ji‘ranah, não muito distante de Meca, aceitou o Islã. O venerável Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, deu-lhe cem camelos dos despojos de Hunayn. (Hayatus Sahabah, 1/173–174).

Durante o califado de Abu Bakr as-Siddiq, que Deus esteja satisfeito com ele, surgiu na Península Arábica uma rebelião dos que negavam o zakat e dos falsos profetas. O venerável Abdullah, que Deus esteja satisfeito com ele, desempenhou um papel ativo na repressão dessa rebelião. No ano 12 da Hégira, ocorreu na planície de Yamamah um sangrento confronto com o falso profeta Musaylimah, e Abdullah foi martirizado ali mesmo. Segundo a opinião mais conhecida, tinha apenas trinta e oito anos quando morreu.

O pai de Abdullah, Suhayl, ainda estava vivo em Meca. Depois desse acontecimento, o califa, o venerável Abu Bakr, que Deus esteja satisfeito com ele, foi a Meca para realizar o hajj. Ele encontrou-se com o pai de Abdullah e tentou consolá-lo. O pai de Abdullah disse ao califa: “O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse que um mártir intercederá, ou rogará, por setenta (70) membros de sua família. Espero que, nessa ocasião, meu filho não se esqueça de mim.”

Zayd ibn al-Khattab, que Deus esteja satisfeito com ele

Seu nome era Zayd, e seu kunya era Abu Abd ar-Rahman. Seu pai era Khattab ibn Nufayl, e sua mãe, Asma bint Wahab. Era meio-irmão do venerável Umar ibn al-Khattab e mais velho que o venerável Umar. (Usud al-Ghabah, 2/228).

Embora, nos primórdios do Islã, a casa de Khattab estivesse aterrorizada por causa dos excessos de Umar, Zayd aceitou o Islã antes de Umar e também migrou para Medina com a primeira caravana dos muhajirun. Depois que o Honorável Mensageiro de Allah chegou a Medina, ele estabeleceu um vínculo de fraternidade entre Zayd e Ma’n ibn Adi al-Ajlani.

Depois de chegar a Medina, participou pela primeira vez da batalha de Badr. Em seguida, também participou de Uhud. Era extremamente corajoso. Em cada batalha, desejava menos a vitória do que o martírio. Em Uhud, lutava com coragem incomparável. Nesse momento, seu irmão Umar percebeu que a armadura de Zayd havia caído, e ele não lhe dava atenção. Estava avançando de corpo descoberto para o meio do exército inimigo. Umar amava muito o irmão. Gritando, chamou-o: “Khudh dir’ī, yā Zayd, faqātil bihā” — “Zayd, toma minha armadura. Veste-a e luta com ela.”

Zayd respondeu: “Innī urīdu min ash-shahādati mā turīduhu yā Umar” — “Ó Umar, assim como tu, também desejo beber a doce bebida do martírio.” Depois, os dois lutaram sem armadura. (Tabaqat Ibn Sa’d, 3/275; Hayatus-Sahabah, 1/515; Rijalun Hawlar-Rasul, 344).

Ele esteve presente no episódio de Hudaybiyyah e prestou o juramento de fidelidade nas mãos do Honorável Mensageiro de Allah. Além disso, participou ativamente das batalhas de Khandaq, Hunayn, Awtas e de outras. Também acompanhou o Mensageiro de Allah na Peregrinação de Despedida. Nessa viagem, ouviu do Mensageiro de Allah estas palavras: “Alimentai e vesti vossos servos e servas com aquilo que vós mesmos comeis e vestis. Se eles cometerem alguma falta e não puderdes perdoá-los, então vendei-os.” (Tabaqat, 3/274).

Durante o califado de Abu Bakr as-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, Zayd participou, juntamente com outros, de várias batalhas para eliminar a fitnah ou agitação provocada pelos apóstatas, e matou muitos deles com as próprias mãos. Zayd matou pessoalmente o famoso apóstata Nahar ibn Unfuh, cuja apostasia o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia predito enquanto ele ainda era muçulmano. Na batalha de Yamamah contra Musaylima, o Mentiroso, coube-lhe a responsabilidade de carregar o estandarte islâmico. Durante a batalha, os Banu Hanifah lançaram certa vez um ataque tão devastador que o exército muçulmano chegou à beira da derrota. Alguns soldados chegaram a abandonar o campo de batalha e fugir. Isso aumentou ainda mais a coragem de Zayd. Ele começou a convocar seus companheiros aos gritos, dizendo: “Ó gente, cerrai os dentes e continuai a eliminar o inimigo. Permanecei firmes. Juro por Allah que não direi palavra alguma até que Allah os faça derrotados ou até que eu me encontre com Allah. Quando me encontrar com Allah, então, diante d’Ele, defenderei minha causa.” (Rijalun Hawlar-Rasul, 345). Depois, continuou a pedir perdão a Allah pelos erros de seus companheiros, dizendo: “Allahumma innī a’tadhiru ilayka min firāri asḥābī” — “Ó Allah, peço-Te perdão pela fuga dos meus companheiros.” (Hayatus-Sahabah, 1/534–535). Nessa situação, ele avançou agitando o estandarte, rompeu as fileiras do exército inimigo e alcançou o martírio enquanto manejava a espada. Após seu martírio, Salim, que Allah esteja satisfeito com ele, tomou o estandarte. Zayd morreu no ano 12 da Hégira. (Al-Isabah, 1/565).

Zayd era uma das pessoas mais queridas de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele. Com sua morte, Umar ficou profundamente entristecido. Sempre que alguma calamidade se apresentava diante dele, dizia: “Sofri a dor da morte de Zayd e tive paciência.” Ao ver o assassino de Zayd, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Que a destruição recaia sobre ti! Mataste meu irmão. A brisa matinal traz consigo a lembrança dele.” (Hayatus-Sahabah, 2/592). Contudo, apesar da dor pela morte de seu querido irmão, ele não perdeu o controle. Em Medina, estava recebendo, juntamente com o califa Abu Bakr, os soldados que retornavam de Yamamah. Ao ouvir deles a notícia do martírio de seu irmão, exclamou: “Sabaqanī ilal-husnayn: aslama qablī wa istashhada qablī” — “Ele me precedeu em duas boas ações: aceitou o Islã antes de mim e alcançou o martírio antes de mim.” (Al-Isabah, 1/565).

Justamente nessa época, um irmão de Mutammim ibn Nuwayrah, um famoso poeta árabe daquele período, também foi morto em uma batalha pelas mãos de Khalid ibn al-Walid. O poeta Mutammim amava muito seu irmão. Em memória do irmão falecido, compôs uma elegia tão comovente que, ao ouvi-la, as lágrimas escorriam dos olhos dos ouvintes. Por acaso, o poeta encontrou-se com Umar, que Allah esteja satisfeito com ele. Umar perguntou-lhe: “Quanto sofreste com a morte de teu irmão?” O poeta respondeu: “Por causa de uma doença, as lágrimas começaram a cair de um dos meus olhos e, até hoje, não pararam.” Ao ouvir isso, Umar comentou: “Este é o grau máximo da tristeza e da dor. Ninguém sente tanta aflição por aquele que partiu.” Então disse: “Que Allah perdoe Zayd. Se eu fosse poeta, comporia uma elegia para ele.” Ao ouvir essas palavras, o poeta Mutammim exclamou: “Ó Comandante dos Crentes, se meu irmão tivesse sido martirizado como o teu, eu jamais derramaria lágrimas.” Com essas palavras do poeta, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, encontrou grande consolo. Depois disse: “Ninguém jamais me ofereceu palavras de consolo melhores do que estas.” Várias pessoas narraram hadiths transmitidos por Zayd ibn al-Khattab.

Shurahbil ibn Hasan, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Shurahbil, e sua kunya, ou nome pelo qual era conhecido, era Abu Abdillah ou Abu Abdir-Rahman. Seu pai era Abdullah ibn al-Muta e sua mãe, Hasana. Segundo Abu Amr, porém, Hasana era o nome de sua filha. De qualquer modo, depois que o pai de Shurahbil faleceu, sua mãe, Hasana, casou-se pela segunda vez com Sufyan al-Ansari. Por isso, ele passou a ser conhecido pelo nome de sua mãe, em vez do nome de seu pai. Há divergências quanto à linhagem de Hasana. Alguns disseram que ela pertencia à tribo de Kinda; outros, à tribo de Tamim; e muitos afirmaram que pertencia à tribo dos Banu Jumah. Ele aceitou o Islã em Meca, no início do período islâmico, e migrou para a Abissínia junto com os demais membros de sua família. Depois, de lá, mudou-se para Medina. (Sira de Ibn Hisham, 2/364, 369).

Shurahbil alcançou a honra de tornar-se muçulmano já no início do Islã e migrou para a Abissínia com a primeira caravana que partiu de Meca para lá. Depois, veio diretamente da Abissínia para Medina e passou a viver entre os Banu Khurayq, parentes por parte de sua mãe. Desde sua chegada a Medina até a morte do Mensageiro de Allah, não se encontra na história nenhuma informação relevante sobre sua vida. É provável que tenha chegado a Medina pouco antes da morte do Mensageiro de Allah. Sua notável carreira a serviço do Islã começou durante o califado do califa Abu Bakr.

No ano 12 da Hégira, o califa Abu Bakr escolheu os quatro melhores soldados do exército muçulmano como comandantes. Eram eles: 1. Amr ibn al-As; 2. Yazid ibn Abi Sufyan; 3. Abu Ubayda ibn al-Jarrah; e 4. Shurahbil ibn Hasana. Ele selecionou soldados para cada um deles e também lhes indicou por qual caminho deveriam avançar. Determinou ainda quem seria o governador de cada região após a vitória: Amr ficaria com a Palestina, Yazid com Damasco e Shurahbil com a Jordânia. (História da Umma Islâmica, 1/190-191). Contudo, algumas narrativas mencionam cinco comandantes militares. Entre os quatro mencionados acima, três são citados, enquanto, no lugar de Abu Ubayda, aparecem os nomes de Khalid ibn al-Walid e Iyaz ibn Ghanm al-Fihri. (Vida dos Companheiros, 3/684; 1/213). Ibn al-Barqi afirma que o califa Umar nomeou Shurahbil governador de um quarto da Síria. (Al-Isaba, 2/143).

Na expedição à Síria, Shurahbil era um dos comandantes na batalha de Bosra. Antes do início da batalha, ele trocou palavras com o líder de seus adversários, Romanus. Como isso não produziu resultado, ele organizou suas tropas e avançava para a frente quando Khalid chegou. Khalid assumiu o comando supremo do exército, e, sob sua liderança, os adversários concordaram em pagar a jizya. (Conquistas dos Países, p. 119).

Depois de Bosra, os romanos reuniram-se em Ajnadayn. Khalid avançou para enfrentá-los. Depois de percorrer certa distância, Shurahbil também se juntou a ele. Juntos, ambos enfrentaram o exército romano e, após um terrível e sangrento confronto, o exército muçulmano saiu vitorioso. Na expedição a Damasco, ele era o comandante da infantaria e, durante o cerco, ficou encarregado de guardar um dos portões. Cumpriu essa função até a conclusão da vitória.

Depois da conquista de Damasco, o exército muçulmano avançou em direção a Baysan pelo caminho de Fahl. Devido às inundações, teve de interromper a marcha em Fahl. Shurahbil também estava com esse exército. Graças à sua vigilância, o exército muçulmano foi salvo de um perigo terrível. Na verdade, os romanos haviam rompido uma represa do mar, provocando uma inundação na região entre Fahl e Baysan. O exército muçulmano interrompeu a marcha e acampou em Fahl. Naquela situação delicada, Shurahbil permanecia acordado durante toda a noite, vigiando o acampamento para impedir um ataque surpresa dos romanos. De fato, certo dia os romanos atacaram repentinamente pela retaguarda, mas, graças à perspicácia e à vigilância de Shurahbil, foram derrotados.

Depois de Fahl, Shurahbil e Amr ibn al-As avançaram em direção a Baysan. Os habitantes de Baysan haviam testemunhado o destino de Fahl; por isso, em vez de entrar em combate aberto, fecharam os portões da fortaleza. Assim que chegou a Baysan, Shurahbil sitiou a fortaleza. O cerco prolongou-se por muitos dias. Certo dia, alguns homens saíram da fortaleza e tentaram atacar, mas foram mortos. Finalmente, eles fizeram um tratado de paz nos termos estabelecidos para Damasco. Depois disso, os habitantes de Tiberíades enviaram uma delegação a Shurahbil e firmaram um acordo. Em seguida, o honrado Shurahbil submeteu ao domínio islâmico a região da Jordânia e todas as cidades vizinhas, quase sem resistência e sem derramamento de sangue.

Durante a expedição de Yarmuk, o exército muçulmano retirou-se de todas as regiões da Síria e reuniu-se em Yarmuk. O honrado Shurahbil também chegou. Ele e Yazid ibn Abu Sufyan estabeleceram-se no mesmo local. Khalid era o comandante supremo dessa expedição. Ele dividiu todo o exército, de uma maneira completamente nova, em trinta e seis partes, colocando cada uma sob o comando de um oficial. A responsabilidade pelas alas direita e esquerda foi confiada ao honrado Amr ibn al-As e a Shurahbil ibn Hasana. Quando, nessa batalha, o estado do exército muçulmano vacilou diante do primeiro ataque dos romanos e muitos fugiram do campo, Shurahbil permaneceu firme. Nessa batalha, lutou arriscando a própria vida.

No ano 18 da Hégira, o exército muçulmano estava empenhado na campanha da Síria. Naquela época, uma epidemia de peste assolou o Iraque, a Síria e o Egito. Amr ibn al-As disse: “Esta peste é um castigo de Allah. Portanto, espalhai-vos por diferentes vales e desfiladeiros.” Ao ouvir isso, Shurahbil ficou furioso. Ele disse: “Amr não falou corretamente. Mesmo quando eu era companheiro do Mensageiro de Allah, Amr era mais desviado do que os camelos de sua família. Certamente, esta peste é uma súplica dos vossos profetas, uma misericórdia do Senhor, e muitos dos vossos predecessores virtuosos morreram nela.” (Hayatus Sahabah, 2/581). Ele era uma pessoa que confiava inteiramente em Allah. Por isso, não considerou correto abandonar o local por medo da doença. Não o abandonou. É relatado que Mu‘adh ibn Jabal, Abu Ubaydah, Shurahbil ibn Hasana e Abu Malik al-Ash‘ari (que Allah esteja satisfeito com eles) foram acometidos pela peste no mesmo dia. (Hayatus Sahabah, 2/582). Durante a peste de Amwas, Hazrat Shurahbil ibn Hasana faleceu aos 67 anos, juntamente com muitas outras pessoas. Contudo, Ibn Yunus afirma que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Shurahbil ao Egito, onde ele morreu. (Al-Isabah, 2/143).

A opinião de Ibn Yunus parece não ser aceitável por diversas razões.

Embora toda a vida de Hazrat Shurahbil tenha sido passada no exílio na Abissínia e, posteriormente, nos campos de jihad, ele não ficou atrás de ninguém na transmissão dos hadiths do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele transmitiu vários hadiths.

É narrado por Shifa bint Abdillah. Ela disse: “Fui até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com a intenção de pedir alguma caridade. Porém, ele declarou que não tinha condições de dar caridade, e eu continuei insistindo. Nesse momento, chegou a hora da oração. Saí da presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e fui à casa da minha filha. A esposa de Shurahbil ibn Hasana era minha filha. Encontrei Shurahbil em casa. Disse-lhe: ‘Já chegou a hora da oração, e você está sentado em casa?’ Comecei a repreendê-lo. Então ele disse: ‘Não me repreenda. Tenho apenas uma roupa, e o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a tomou emprestada.’ Eu disse: ‘Que meus pais sejam sacrificados por ele! Passei o dia inteiro discutindo com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sem compreender de modo algum a situação tão lamentável em que ele se encontrava.’ Shurahbil disse: ‘O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha apenas uma roupa; nós a remendamos.’” (Hayatus Sahabah, 1/326).

Abul-As ibn Rabi‘ (que Allah esteja satisfeito com ele)

Há ampla divergência histórica quanto ao nome verdadeiro de Abul-As. Entre os nomes mencionados estão Laqit, Hisham, Mihsham, Yasir e Yasim. Contudo, sua kunya, ou apelido, era Abu al-As. Foi por esse nome que ele ficou conhecido na história. Seu pai era Rabi‘ ibn Abd al-Uzza, e sua mãe era Hala bint Khuwaylid, irmã consanguínea de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Como era descendente do ramo Abd Shams da tribo dos coraixitas, era chamado resumidamente de ‘Abshami’. Abul-As tinha livre acesso à casa de sua tia materna, Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), e de seu tio, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele era muito querido por ambos. Abul-As foi entrando gradualmente na juventude. Seu rosto atraente conquistava o coração de todos. Por causa de suas qualidades — nobreza de linhagem, bravura árabe e forte senso de honra pessoal — ocupava uma posição especial entre os jovens de Meca daquela época. Além disso, a qualidade especial dos coraixitas mencionada no Alcorão — “a viagem de inverno e de verão”, isto é, suas caravanas comerciais viajando em direção ao Iêmen no inverno e à Síria no verão — desenvolveu-se plenamente também em Abul-As. Sua caravana comercial circulava constantemente entre Meca e a Síria. Essa caravana contava com pelo menos duzentos homens e cem camelos. Graças à sua inteligência comercial, honestidade e confiabilidade, as pessoas lhe confiavam tranquilamente suas mercadorias. Ibn Ishaq afirma: ‘Em riqueza, confiabilidade e atividade comercial, ele era então um dos poucos homens ilustres de Meca.’ (Al-Isabah, 4/122).

O tempo passou seguindo seu curso. Enquanto isso, Zaynab, a filha mais velha de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), cresceu. Os jovens nobres de Meca ficaram ansiosos para tê-la como companheira de vida. E por que não ficariam? Zaynab era filha do melhor ramo da tribo dos coraixitas de Meca. Era a mais honrada tanto pelo lado paterno quanto pelo materno, e também a mais pura em caráter, modos e conduta. Será que toda pessoa que deseja uma noiva assim consegue tê-la? Por fim, seu primo materno, Abul-As ibn Rabi‘, um jovem de Meca, foi agraciado com a honra de conquistá-la.

Alguns anos após o casamento de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) com Abul-As, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu a profecia. Ele foi enviado com a verdadeira religião e a orientação. Recebeu a ordem de transmitir o convite à religião aos seus parentes próximos. Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e suas filhas — Zaynab, Ruqayya, Umm Kulthum e Fatima (que Allah esteja satisfeito com elas) — creram no Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Fatima ainda era muito pequena. Abul-As, genro do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), amava e respeitava profundamente sua esposa Zaynab. Contudo, não aceitou abandonar a religião de seus antepassados e adotar a nova religião de sua amada esposa. Essa situação continuou. Enquanto isso, começou um conflito grave entre o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os coraixitas. Os coraixitas começaram a dizer entre si:

“Que a desgraça recaia sobre vocês! Vocês se casam com as filhas de Muhammad e assumem sobre os próprios ombros as preocupações dele. Se devolvessem todas essas moças a ele, ele deixaria vocês em paz e se ocuparia somente delas.” Muitos deles apoiaram essas palavras, dizendo: “Esta é uma ideia excelente!” Todos foram até Abul ‘As e disseram: “Abul ‘As, nós lhe casaremos com qualquer bela mulher dos coraixitas que você desejar.” Abul ‘As respondeu: “Juro por Allah! Não, isso não pode acontecer. Não posso abandonar minha esposa. Mesmo que me dessem todas as outras mulheres em troca dela, eu não as desejaria.”

O Mensageiro de Allah enviou suas outras duas filhas, Ruqayya e Umm Kulthum, de volta das casas de seus maridos para junto do pai. O honorável Mensageiro de Allah ficou muito feliz ao ver que suas filhas retornavam depois de terem sido abandonadas pelos maridos. Em seu íntimo, desejou que Abul ‘As também se divorciasse de Zaynab, assim como os outros dois genros haviam feito. Como o Mensageiro de Allah não tinha poder para separar Zaynab de Abul ‘As, e como o casamento de mulheres crentes com idólatras ainda não havia sido declarado proibido, ele permaneceu em silêncio.

O tempo passou rapidamente. O honorável Mensageiro de Allah migrou para Medina. Começaram os confrontos militares com os coraixitas. Os coraixitas reuniram-se em Badr com o propósito de guerrear contra os muçulmanos. Apesar de sua extrema relutância, Abul ‘As foi com os coraixitas a Badr, pois, devido à posição que ocupava entre eles, não tinha alternativa. Em Badr, os coraixitas sofreram uma derrota humilhante. Vários de seus líderes foram mortos, muitos combatentes foram feitos prisioneiros e os demais fugiram para salvar a vida. Que ironia cruel do destino: entre esses prisioneiros estava também Abul ‘As, genro do Mensageiro de Allah. Ibn Ishaq afirma que, em Badr, ele foi capturado por ‘Abdullah ibn az-Zubayr ibn an-Nu‘man. Segundo al-Waqidi, porém, ele foi capturado por Khirash ibn as-Simmah. (Al-Isabah, 4/122)

A decisão dos muçulmanos a respeito dos prisioneiros de Badr foi libertá-los mediante resgate. Conforme a posição social dos prisioneiros e a diferença entre ricos e pobres, o resgate foi fixado entre mil e quatro mil dirhams. Os representantes dos prisioneiros começaram a ir e vir entre Meca e Medina, levando os resgates determinados. Zaynab, filha do Profeta e esposa de Abul ‘As, enviou um mensageiro a Medina com o resgate do marido. Segundo al-Waqidi, foi seu irmão, ‘Amr ibn ar-Rabi‘, quem levou o resgate de Abul ‘As a Medina. Em vez de dirhams, Zaynab enviou um colar como resgate. Sua mãe, Khadija, havia lhe dado esse colar de presente por ocasião de seu casamento. Ao ver o colar, o honorável Mensageiro de Allah ficou profundamente abatido e cobriu o rosto entristecido com um pano fino. A lembrança de sua amada esposa e de sua filha surgiu diante de seus olhos.

Pouco depois, o honorável Mensageiro de Allah dirigiu-se aos Companheiros e disse: “Zaynab enviou este colar como resgate de seu marido. Se quiserem, podem libertar o prisioneiro dela e devolver-lhe também este colar.” Os Companheiros responderam: “Ó Mensageiro de Allah, faremos isso para agradá-lo.” Eles concordaram. Contudo, antes de libertar Abul ‘As, o Mensageiro de Allah obteve dele o compromisso de que, ao voltar a Meca, enviaria imediatamente Zaynab para Medina.

Assim que voltou a Meca, Abul ‘As começou a tomar providências para cumprir sua promessa. Ordenou à esposa, Zaynab, que se preparasse para a viagem. Também lhe disse que, não muito longe de Meca, os representantes de seu pai aguardavam para levá-la. Depois de concluir os preparativos da viagem da esposa, Abul ‘As chamou seu irmão ‘Amr — segundo outra versão, Kinana —, pediu-lhe que acompanhasse Zaynab e que a entregasse aos mensageiros que a aguardavam.

Ibn Ishaq afirma que, quando os preparativos da viagem terminaram, o cunhado de Zaynab, Kinana ibn ar-Rabi‘, trouxe um camelo e o deixou de pé. Zaynab montou no howdah sobre o camelo. Kinana pendurou o próprio arco no ombro, tomou o feixe de flechas nas mãos e saiu de Meca em pleno dia. Houve grande alvoroço entre os coraixitas. Eles os perseguiram e, pouco depois, alcançaram os dois no vale de Dhi Tuwa. Encontram-se diversos relatos sobre esse acontecimento nos livros de sirah. Alguns deles são mencionados a seguir. Irritado com o comportamento dos coraixitas, Kinana ibn ar-Rabi‘ tirou do ombro o arco, segurou-o nas mãos, espalhou à sua frente o feixe de flechas e disse: “Se algum de vocês tentar se aproximar de Zaynab, seu peito será o alvo das minhas flechas.” Kinana era um arqueiro habilidoso, e nenhuma flecha que disparava costumava errar o alvo. Ao ouvir essas palavras, Abu Sufyan ibn Harb aproximou-se dele e disse: “Sobrinho, abaixe um pouco a flecha que você mantém apontada para nós; queremos conversar com você.” Abu Sufyan disse: “Você não agiu corretamente. Você saiu levando Zaynab publicamente diante das pessoas, enquanto nós ficamos simplesmente assistindo. Todos os habitantes da Arábia sabem a calamidade que nos atingiu em Badr e o quanto o pai desta Zaynab nos prejudicou. Se você a levar assim publicamente, passando diante de todos nós, as pessoas pensarão que somos covardes, e todos considerarão isso uma humilhação para nós. Leve Zaynab de volta para casa. Que ela permaneça algum tempo na casa do marido. Depois, quando as pessoas começarem a dizer que nós a impedimos de deixar Meca, entregue-a secretamente ao pai.”

Diante dessas palavras, Kinana — ou ‘Amr — concordou, e Zaynab voltou para Meca. Alguns dias depois, durante a noite, ele saiu novamente de Meca levando Zaynab e, conforme as instruções de seu irmão, entregou-a, no local determinado, aos representantes de seu pai.

At-Tabarani narrou de Urwah ibn Zubayr: um homem saiu levando consigo Zaynab, filha do Mensageiro de Allah, mas dois coraixitas os perseguiram e os alcançaram. Eles dominaram o homem que acompanhava Zaynab e o derrubaram do lombo do camelo. Zaynab caiu sobre uma pedra, ferindo-se e começando a sangrar. Nessa situação, levaram Zaynab até Abu Sufyan. Abu Sufyan entregou-a às mulheres da família de Banu Hashim. Mais tarde, ela emigrou para Medina. Por causa da dor que sofreu ao ser derrubada do camelo, Zaynab sentiu aquela dor pelo resto da vida e acabou morrendo em consequência dela. Por isso, as pessoas a consideravam uma mártir. (Hayatus Sahabah, 1/371).

Relatado por Aisha: Zaynab, filha do Mensageiro de Allah, saiu de Meca em direção a Medina com Kinana. Os habitantes de Meca perseguiram-nos. Habbār ibn al-Aswad foi o primeiro a alcançar Zaynab. Ele atingiu com uma flecha o camelo de Zaynab, fazendo-a cair e ferir-se. Ela estava grávida. Devido a esse ferimento, perdeu o filho que trazia no ventre. Depois disso, Banu Hashim e Banu Umayya começaram a disputar Zaynab. Por fim, ela passou a ficar na casa de Hind bint Utba. Hind costumava dizer-lhe: “Essa desgraça que te atingiu aconteceu por causa de teu pai.”

Certo dia, o Mensageiro de Allah disse a Zayd ibn Haritha: “Podes trazer Zaynab?” Zayd aceitou. O nobre Mensageiro de Allah deu-lhe um anel e disse: “Leva isto. Ele chegará às mãos de Zaynab.” Com o anel, Zayd partiu em direção a Meca. Nos arredores de Meca, viu um pastor pastoreando cabras. Perguntou ao pastor: “De quem és pastor?” O pastor respondeu: “De Abu al-As.” Perguntou novamente: “De quem são estas cabras?” Ele respondeu: “De Zaynab, filha de Muhammad.” Zayd caminhou algum tempo com o pastor e então lhe disse: “Se eu te der algo, poderás entregá-lo a Zaynab?” O pastor aceitou. Zayd deu-lhe o anel, e o pastor o entregou às mãos de Zaynab.

Zaynab perguntou ao pastor: “Quem te deu isto?” Ele respondeu: “Um homem.” Ela perguntou novamente: “Onde o deixaste?” Ele respondeu: “Em tal lugar.” Zaynab permaneceu em silêncio. Durante a escuridão da noite, foi secretamente até aquele lugar. Zayd disse-lhe: “Sobe ao lombo do meu camelo e senta-te à minha frente.” Zaynab recusou e disse: “Não, sente-se você à minha frente.” Assim, Zaynab sentou-se atrás de Zayd e chegou a Medina. O nobre Mensageiro de Allah costumava dizer: “Minha melhor filha sofreu por minha causa.” (Hayatus Sahabah, 1/371–372).

Após separar-se de sua esposa Zaynab, Abu al-As passou alguns anos em Meca. Pouco antes da conquista de Meca, o Mensageiro de Allah partiu para a Síria com uma caravana comercial. Depois de concluir os negócios, estava retornando a Meca. A caravana era composta por cem camelos e aproximadamente cento e setenta homens. Quando chegaram a um lugar próximo de Medina, uma pequena força de patrulha enviada de Medina sob o comando de Zayd ibn Haritha lançou um ataque surpresa contra eles e levou todos os homens cativos para Medina, juntamente com os camelos. Abu al-As, porém, conseguiu escapar.

Segundo Musa ibn Uqba, contudo, Abu Basir e seu grupo atacaram a caravana de Abu al-As. Deve-se mencionar que Abu Basir e outras pessoas aceitaram o Islã depois do tratado de Hudaybiyyah. Entretanto, de acordo com os termos do tratado, os habitantes de Medina recusaram-se a recebê-los. Assim, eles fugiram de Meca e passaram a viver numa região costeira do Mar Vermelho. Começaram a lançar ataques surpresa contra as caravanas comerciais de Meca. Por causa do temor que inspiravam, o comércio dos coraixitas ficou à beira de ser interrompido. Os coraixitas de Meca foram obrigados a pedir ao Mensageiro de Allah que os levasse de volta a Medina. (Al-Isabah, 4/122).

De qualquer modo, Abu al-As, em vez de fugir para Meca, entrou secretamente em Medina durante a escuridão da noite, assustado e apreensivo, e foi diretamente até Zaynab para pedir proteção. Zaynab assegurou-lhe proteção.

A noite passou. Quando o nobre Mensageiro de Allah foi à mesquita para a oração do amanhecer, ficou de pé no mihrab e pronunciou “Allahu Akbar”, iniciando a oração com o takbir de consagração. Os fiéis que estavam atrás dele também haviam terminado o takbir de consagração. Nesse momento, ouviu-se a voz de Zaynab, vinda da fileira das mulheres atrás: “Ó gente, eu sou Zaynab, filha de Muhammad. Eu concedi proteção a Abu al-As; concedam-lhe proteção também.”

Depois de concluir a oração, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) voltou-se para as pessoas e perguntou: “Vocês também ouviram o que eu ouvi?”

As pessoas responderam: “Sim, ó Mensageiro de Allah!” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: eu não sabia nada sobre este acontecimento. Ela concedeu-lhe proteção em nome de todos os muçulmanos.” Em seguida, foi para casa e disse à sua filha: “Trata Abul As com honra. Mas fica sabendo que já não és lícita para ele.” Depois, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chamou os homens do exército que haviam capturado os camelos e as pessoas da caravana de Abul As. Disse-lhes: “Vocês conhecem a posição que este homem (Abul As) ocupa entre nós. Vocês tomaram os seus bens comerciais. Se forem benevolentes para com ele e devolverem os seus bens, ficarei satisfeito. Se não concordarem, não terei objeção. Como uma dádiva de Allah, vocês podem ficar com esses bens. Vocês são os que têm mais direito a eles.” Todos disseram: “Ouve, Abul As: és um homem respeitado entre os coraixitas, primo do Mensageiro de Allah e seu genro. Faz o seguinte: aceita o Islão e permanece em Medina com estes bens dos habitantes de Meca. Viverás com todo o conforto.” Abul As disse: “O que vocês estão dizendo é algo muito mau. Deveria eu começar a vida da minha nova religião por meio de uma fraude?”

Abul As levou a sua caravana e chegou a Meca. Depois de entregar a cada pessoa os seus bens, disse: “Ó membros da tribo dos coraixitas! Ainda vos devo alguma coisa?” Eles responderam: “Não. Que Allah te recompense com o melhor. Consideramos-te um excelente cumpridor de promessas.”

Abul As acrescentou: “Cumpri integralmente os vossos direitos. Agora declaro: Ashhadu an la ilaha illallah wa anna Muhammadan Rasulullah — testemunho que não há divindade além de Allah e que, certamente, Muhammad é o Mensageiro de Allah.”

Eu poderia ter feito esta declaração enquanto estava em Medina. Mas não a fiz para que vocês não pensassem que eu havia feito isso com o objetivo de me apropriar dos vossos bens depois de devolvê-los. Quando Allah me concedeu a capacidade de devolver a cada um de vocês os seus bens e eu me livrei da minha responsabilidade, só então declarei a minha aceitação do Islão.”

Depois, Abul As dirigiu-se de Meca para Medina e apresentou-se diante do Mensageiro de Allah. O nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recebeu-o com honra e entregou-lhe também a sua esposa, Zaynab. O nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) costumava dizer a respeito dele: “Tudo o que ele me disse foi verdade; fez-me uma promessa e também a cumpriu.”

Após aceitar o Islão, Abul As (que Allah esteja satisfeito com ele) não teve oportunidade de participar de nenhuma batalha com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Faleceu no mês de Dhu al-Hijjah do ano 12 da Hégira, durante o califado de Abu Bakr. Contudo, segundo Ibn Mundah, ele alcançou o martírio na batalha de Yamamah. (Al-Isabah, 4/123; Al-Isti’ab).

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) amava muito Umamah, filha de Zaynab e Abul As. Foi relatado que ele a carregava aos ombros durante a oração.

Umair ibn Wahab (que Allah esteja satisfeito com ele):

Seu nome era Umair, e sua kunya, ou apelido, era Abu Umayya. Seu pai era Wahab e sua mãe, Ummu Sakhila. Era um dos corajosos líderes dos coraixitas. Antes do Islã, era um acérrimo inimigo do Islã e do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Era uma personalidade de visão penetrante e profunda, dotada de grande capacidade de compreensão.

Ele juntou-se às forças dos coraixitas de Meca na batalha de Badr e, pouco antes do início da batalha, os coraixitas lhe confiaram a tarefa de avaliar a força do exército muçulmano. Cavalgou ao redor das forças muçulmanas e, ao retornar ao acampamento dos coraixitas, informou: “Eles devem ser cerca de trezentos. Talvez sejam um pouco menos ou um pouco mais.” Sua estimativa estava correta. Os coraixitas lhe perguntaram: “Há alguma possibilidade de que recebam reforços pela retaguarda?” Ele respondeu: “Não encontrei nada disso. Contudo, ó coraixitas, vi que seus camelos carregam uma morte terrível. Além das espadas, eles não têm nada para se defender, nem lugar algum onde buscar abrigo. Juro por Allah, tive a impressão de que, se matarem um deles, um dos seus também será morto. Se tiverem de perder tantos homens quanto eles, que vantagem haverá? Agora pensem no que farão.” Para dissuadir os coraixitas de guerrear, ele também lhes disse: “Os habitantes de Medina têm rostos como serpentes; nem mesmo a sede extrema os debilita. Eles são capazes de lutar conosco e vingar-se. Homens de rostos tão radiantes como os seus não deveriam entrar em combate com eles.”

Muitos dos líderes coraixitas foram influenciados por suas palavras. Quase chegaram a decidir retornar a Meca. Mas Abu Jahl se opôs à decisão deles. Seu coração ardia com o fogo da inveja e da guerra. Pela vontade de Allah, Abu Jahl foi o primeiro instigador dessa batalha. E, juntamente com muitos outros, Wahab, filho de Umair, foi capturado pelas forças muçulmanas.

Umair ibn Wahab deixou seu filho Wahab cativo nas mãos dos muçulmanos e retornou de Badr a Meca, salvando a própria vida. Temia que, por causa das atrocidades que havia cometido em Meca contra o Mensageiro de Allah e seus companheiros, sua vingança talvez recaísse sobre seu filho cativo. Depois de retornar a Meca, certa manhã saiu de casa e dirigiu-se à Caaba para realizar a circunvolução e prostrar-se diante dos ídolos. Ali viu Safwan ibn Umayya sentado no recinto da Caaba. Aproximou-se de Safwan e disse:

— Ó chefe dos coraixitas, bom dia.

— Abu Wahab, bom dia. Sente-se; vamos conversar um pouco. Conversar ajudará a passar o tempo. Umair sentou-se ao lado de Safwan. Conversaram sobre a situação em Badr e sobre a calamidade que se abatera sobre Badr, e contaram quem havia sido capturado em Badr pelas mãos de Muhammad e seus companheiros. Lamentaram os líderes coraixitas que haviam sido mortos em Badr, lançados no poço de Kalib e cobertos de terra.

Em determinado momento, tomado pela emoção e pela agitação, Safwan ibn Umayya disse: “Juro por Allah, depois de terem sido mortos dessa maneira, nada mais me agrada.” Umair disse:

—Você disse a verdade. Depois de permanecer calado por algum tempo, voltou a dizer: Juro pelo Senhor da Caaba que, se não fosse o peso das dívidas sobre meus ombros e as responsabilidades para com minha família, eu iria imediatamente a Medina, acabaria com Maomé de uma vez por todas e poria fim a todas as suas más ações. Então, baixando um pouco a voz, disse: “Meu filho Wahab está prisioneiro nas mãos deles. Se eu for até lá, ninguém suspeitará de nada.”

Safwan ibn Umayya não deixou escapar aquela oportunidade. Olhando para Umayr, disse: —Umayr, assumo a responsabilidade por todas as suas dívidas, sejam elas quais forem. E, enquanto eu estiver vivo e sua família também estiver viva, eles permanecerão comigo. Não me faltam riquezas. Eles viverão confortavelmente.

Umayr disse:

—Que nossa conversa permaneça em segredo; que ninguém saiba dela.

Safwan disse:

—Assim será.

Umayr levantou-se do recinto da Caaba e foi para casa. Seu coração ardia com o fogo da vingança contra Maomé. Começou a preparar-se para pôr em prática sua decisão. Ninguém suspeitou de sua preparação para a viagem, pois, naquele momento, delegações iam e vinham entre Meca e Medina levando o dinheiro do resgate para libertar os prisioneiros de Badr.

Umayr afiou a espada e deixou-a mergulhada em veneno potente. Prepararam sua montaria. Ele montou e partiu em direção a Medina. Naquele momento, seu coração ardia como carvão por causa do ódio e da hostilidade.

Umair chegou a Medina e dirigiu-se diretamente à mesquita. Desmontou junto à porta da mesquita.

Enquanto isso, junto à porta da mesquita, o venerável Umar ibn al-Khattab e alguns Companheiros estavam sentados, conversando sobre os acontecimentos de Badr. Discutiam sobre como os coraixitas foram mortos, como cada um havia sido capturado e que bravura e coragem os Muhajirun e os Ansar haviam demonstrado, entre outros assuntos.

De repente, o venerável Umar avistou Umair. Ele vinha desmontando e dirigindo-se diretamente à mesquita. Trazia a espada pendurada no ombro. Umar exclamou, alarmado: — Este é aquele cão, o inimigo de Allah, Umair ibn Wahb. Por Allah, sua intenção não é boa. Em Meca, ele sempre incitava os incrédulos contra nós. Antes da batalha de Badr, ele era o espião de Meca. Então, voltando-se para seus companheiros, disse:

— Ide até o Mensageiro de Allah e permanecei ao redor dele, para que esse pecador não consiga enganá-lo de maneira alguma.

Umar correu até o Mensageiro de Allah e disse: Ó Mensageiro de Allah, aquele inimigo de Allah, Umair, chegou com a espada pendurada no ombro. Creio que ele não veio sem alguma intenção maligna.

O Mensageiro de Allah disse:

— Tragam-no até mim.

O venerável Umar avançou em direção a Umair, agarrou com uma mão sua roupa junto ao pescoço e, com a outra, pressionou-lhe o pescoço contra o punho da espada, conduzindo-o à presença do Mensageiro de Allah. Ao ver seu estado, o Mensageiro de Allah ordenou a Umar que o soltasse. Umar o soltou. Por ordem do Mensageiro de Allah, Umar também se afastou dele. Então o Mensageiro de Allah disse a Umair: Umair, aproxime-se um pouco.

Umayr aproximou-se um pouco e disse: Bom dia.

Na Arábia da Jahiliyyah, as pessoas costumavam cumprimentar-se dessa maneira.

O Mensageiro de Allah disse: «Umayr, Allah nos honrou ensinando-nos uma saudação melhor que a sua. Por meio do salam, Allah elevou nossa dignidade. Esta é a saudação dos habitantes do Paraíso.»

Umayr disse: «Nossa saudação também não lhe é desconhecida.»

O Mensageiro de Allah perguntou: «Com que propósito você veio?»

— Vim libertar o prisioneiro que está em suas mãos. Afinal, você também é da mesma família e da mesma tribo que nós. Conceda-me seu favor a respeito dele.

— Então, por que esta espada está pendurada em seu pescoço?

— Que Allah traga desgraça sobre esta espada. De que nos serviu esta espada em Badr?

Esqueci-me de tirá-la do pescoço quando desci da montaria. Ela permaneceu assim.

—Umair, diga-me a verdade: por que você veio?

—Vim somente com o propósito de libertar os prisioneiros. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Que acordo você fez com Safwan?”

Com essa pergunta, Umair ficou extremamente assustado. Ele perguntou de volta: “Que acordo eu fiz?”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Você e Safwan ibn Umayya sentaram-se no recinto da Caaba e conversaram sobre os líderes coraixitas mortos, lançados no poço de Kalib. Você disse: ‘Se eu não tivesse o peso das dívidas sobre o meu pescoço e a responsabilidade pela minha família, iria a Medina e mataria Muhammad.’ Safwan assumiu todas as suas responsabilidades sob a condição de que você me matasse. Allah interpôs-se entre você e o seu objetivo.”

Umair ficou atônito por alguns instantes. Depois, recobrando um pouco a consciência, exclamou: “Ashhadu annaka Rasulullah” — declaro que você é, com certeza, o Mensageiro de Allah. Ó Mensageiro de Allah, não acreditávamos nas notícias do céu que você nos trazia, nem na revelação que lhe era enviada. Mas ninguém além de Safwan e de mim sabia da conversa que tivemos. Juro por Allah que estou convencido de que somente Allah lhe revelou essa notícia. Alhamdulillah, todos os louvores pertencem a Allah, que me trouxe até você para me guiar. Depois disso, ele pronunciou novamente: “Ashhadu an la ilaha illallah wa anna Muhammadan Rasulullah.”

O nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou aos Companheiros: “Ensinem a religião ao seu irmão Umair, ensinem-lhe o Alcorão e libertem o seu prisioneiro.”

Antes de aceitar o Islã, Umair era um dos “demônios” ou líderes dos coraixitas. Depois de se tornar muçulmano, tornou-se um notável hawari ou companheiro do Islã. Após a sua conversão, Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: quando Umair apareceu em Medina, até mesmo um porco me era mais querido do que ele. Mas hoje ele me é mais querido do que qualquer um dos meus filhos.” (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 325)

Após aceitar o Islã, Umayr passou a dedicar-se a purificar-se por meio dos ensinamentos islâmicos e a preencher o coração com a luz do Alcorão. Ele quase se esqueceu de Meca e daqueles que havia deixado ali.

Enquanto isso, Safwan ibn Umayya alimentava diariamente, em seu íntimo, sonhos coloridos. Ele ia às diversas reuniões dos coraixitas em Meca e dizia: “Em breve, uma grande notícia chegará até vocês. Com ela, encontrarão consolo pela derrota de Badr.”

A espera de Safwan se prolongava cada vez mais. A princípio, ficou um pouco preocupado; depois, tornou-se inquieto. Ele começou a interrogar, um por um, todos os viajantes e cavaleiros que vinham da direção de Medina sobre Umayr. Mas ninguém conseguia dar-lhe uma resposta satisfatória. Então encontrou um cavaleiro vindo de Medina. Extremamente curioso, Safwan perguntou-lhe de imediato: “Não aconteceu nenhum fato novo em Medina?” O homem respondeu: “Sim, aconteceu algo grandioso.” O rosto de Safwan iluminou-se, e seu coração quase explodiu de alegria e júbilo. Imediatamente, voltou a perguntar: “Diga-me, por favor, o que aconteceu.” O homem respondeu: “Umayr aceitou o Islã. Ele está recebendo ali os ensinamentos da nova religião e aprendendo o Alcorão.” O mundo de Safwan pareceu virar de cabeça para baixo. Foi como se um raio tivesse caído sobre sua cabeça. Ele acreditava que, mesmo que todas as pessoas do mundo aceitassem o Islã, Umayr jamais o aceitaria.

Assim que aceitou o Islã, Umayr compreendeu devidamente a responsabilidade para com essa religião. Entendeu que teria de empregar a seu serviço exatamente a mesma força que havia despendido em sua oposição. Deveria convidar as pessoas para essa religião com a mesma intensidade com que antes havia feito propaganda contra ela. Teria de provar, por meio da sinceridade, do jihad e da obediência, o quanto amava a Deus e a Seu Mensageiro.

Depois de passar alguns dias em Medina recebendo ensinamentos e formação islâmicos, Umayr apresentou-se certo dia diante do Mensageiro de Deus e disse: “Ó Mensageiro de Deus, passei grande parte da minha vida tentando apagar a luz de Deus e infligindo violência e opressão aos seguidores do Islã. Desejo que, se me deres permissão, eu vá a Meca e convide os coraixitas para Deus e Seu Mensageiro. Se aceitarem meu convite, será uma excelente obra. Mas, se o rejeitarem, farei com que sofram como anteriormente fiz sofrer os companheiros do Mensageiro de Deus.”

O Mensageiro de Deus deu-lhe permissão. Certo dia, Umayr voltou a Meca com a espada pendurada no ombro e vestido para a batalha. Ao chegar, encontrou primeiro Safwan ibn Umayya e disse-lhe: “Ó Safwan, és um dos líderes de Meca e um dos mais sábios dos coraixitas. Vós adorais pedras e sacrificais animais em nome dos ídolos — consideras isso alguma religião? Quanto a mim, testemunho que não há divindade além de Deus e que Muhammad é o Mensageiro de Deus.” Safwan preparou-se para lançar-se sobre Umayr, mas a espada de Umayr deteve-o firmemente. Cheio de ira e tristeza, Safwan lançou aos ouvidos de Umayr alguns insultos impronunciáveis e afastou-se pelo caminho.

Assim, Umayr voltou a Meca como muçulmano. Poucos dias antes, ele havia deixado Meca como politeísta; quando voltou a entrar nela, sua aparência era exatamente como a que Umar, que Deus esteja satisfeito com ele, havia assumido no dia em que aceitou o Islã. Depois de aceitar o Islã, Umar havia gritado: “Juro por Deus que, em todos os lugares onde me sentei quando estava na incredulidade, sentar-me-ei novamente quando estiver na fé.”

Nesse aspecto, Umayr parece ter tomado Umar, que Deus esteja satisfeito com ele, como seu líder. Dia e noite, continuou a convidar as pessoas ao Islã pelas ruas e vielas de Meca. Em apenas algumas semanas, um grande número de pessoas abraçou a fé pelas mãos de Umayr. Antes da Batalha de Uhud, ele voltou a Medina levando consigo esse grupo de crentes. Participou com o Mensageiro de Deus de todas as expedições, incluindo Uhud, Khandaq e a conquista de Meca.

No dia da alegria da conquista de Meca, Umayr não se esqueceu de seu amigo e companheiro Safwan. Depois que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chegou a Meca, Safwan, tomado pelo medo, fugiu da cidade e chegou a Jidá, a caminho do Iêmen. Ao receber essa notícia, Umayr ficou profundamente aflito. Resolveu firmemente salvar Safwan das mãos de Satanás. Correu até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e disse: “Ó Profeta de Allah! Safwan ibn Umayya é um dos líderes de seu povo. Fugiu de Meca por medo de você. Ele pretende lançar-se ao mar. Conceda-lhe segurança por meu intermédio.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: “Ele está seguro.” Umayr disse: “Ó Mensageiro de Allah, dê-me algum sinal pelo qual se possa saber que lhe concedeste proteção.” Então o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deu-lhe o manto com o qual havia entrado em Meca, cobrindo a cabeça.

Umayr ibn Zubayr narra:

“Umayr saiu levando o manto. Quando chegou até Safwan, este se preparava para atravessar o mar. Ele disse: ‘Safwan, que meus pais sejam sacrificados por ti! Não te destruas dessa maneira. Eis que trouxe para ti a proteção concedida pelo Mensageiro de Allah.’

Safwan disse:

— Que pereças! Afasta-te de mim. Não fales comigo. Umayr disse: ‘Safwan! Que meus pais sejam sacrificados por ti. Certamente, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) é o melhor dos homens. Ele é também o mais virtuoso e paciente de todos. A honra dele é a tua própria dignidade.’ Safwan disse: ‘Temo pela minha vida.’ Umayr respondeu: ‘Ele é ainda mais tolerante e honrado do que isso.’

Umayr (que Allah esteja satisfeito com ele) levou Safwan à presença do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Safwan disse: “Este homem afirma que você me concedeu proteção.”

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Ele disse a verdade.”

Safwan disse: “Conceda-me dois meses de prazo.”

O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Serão concedidos a você quatro meses.»

Poucos dias depois, Hazrat Safwan, que Allah esteja satisfeito com ele, aceitou o Islã. (Rijalun Hawlar Rasul, p. 325; Hayatus Sahaba, vol. 1)

Durante o califado de Hazrat Abu Bakr, Hazrat Umair, que Allah esteja satisfeito com ele, auxiliou o califa em todos os assuntos importantes. Durante o califado de Hazrat Umar, Amr ibn al-As, que Allah esteja satisfeito com ele, conduziu a campanha do Egito. Quando a conquista de Alexandria estava demorando, Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, enviou de Medina dez mil soldados, sob o comando de quatro renomados generais, para ajudá-lo. Um desses quatro comandantes era Hazrat Umair ibn Wahab.

A respeito desses quatro comandantes, Hazrat Umar instruiu Amr ibn al-As a colocá-los na vanguarda durante os ataques. Graças aos seus esforços, a campanha de Alexandria foi bem-sucedida. Após a conquista de Alexandria, por ordem de Amr, ele subjugou muitas regiões do Egito. Ele faleceu no final do califado de Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele.

Salama ibn al-Akwa, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Sinan, e seu pai era Amr ibn al-Akwa. Há divergência quanto à sua kunya, ou nome pelo qual era chamado. Entre elas estão: Abu Muslim, Abu Yas e Abu Amir. Contudo, Abu Yas, derivado do nome de seu filho Yas, é a kunya mais conhecida. (Al-Istiab).

Os especialistas em biografia do Profeta permanecem em silêncio quanto à época em que Salama aceitou o Islã. Entretanto, é um fato histórico que ele aceitou o Islã antes do sexto ano da Hégira e também migrou para Medina. A maioria dos emigrantes fez a Hégira com suas famílias; porém, Hazrat Salama migrou deixando para trás sua esposa e seus filhos pelo caminho de Allah.

Depois de chegar a Medina, ele participou de quase todas as batalhas. No contexto do tratado de Hudaybiyyah, o “Pacto de Ridwan”, ou “Pacto sob a Árvore”, possui uma importância especial na história do Islã. No sexto ano da Hégira, durante o episódio de Hudaybiyyah, quando o Nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ouviu a notícia do martírio de Hazrat Uthman nas mãos dos infiéis de Meca e tomou dos muçulmanos que haviam chegado a Hudaybiyyah com o Mensageiro de Allah o pacto, ou juramento, de morte, Hazrat Salama prestou o pacto três vezes nas mãos do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele disse: «Debaixo da árvore de Hudaybiyyah, prestei o pacto de morte nas mãos do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Depois, afastei-me para um lado. Quando a multidão diminuiu um pouco, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, olhou para mim e disse: “Salama, o que aconteceu com você? Você não prestou o pacto?” Respondi: “Ó Mensageiro de Allah, eu já o prestei.” O Mensageiro disse: “E daí? Preste-o mais uma vez.” Então prestei o pacto novamente. Nessa ocasião, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, deu-lhe um escudo. Depois, ele voltou a notar Salama e perguntou: “Salama, você não prestará o pacto?” Salama respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, eu já o prestei duas vezes.” Ele disse: “Preste-o mais uma vez.” Salama prestou o pacto pela terceira vez. Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou: “Salama, o que você fez com o escudo?” Ele respondeu: “Meu tio estava completamente desarmado, por isso dei-lhe o escudo.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah riu e disse: “Seu exemplo é como o do homem que suplica: ‘Ó Allah, concede-me um amigo que me seja mais querido do que a minha própria vida.’”»

Em Hudaybiyyah, enquanto se prestava o juramento de lealdade nas mãos do Mensageiro de Allah, os muçulmanos firmaram uma trégua com os habitantes de Meca. Os muçulmanos respiraram aliviados e começaram a abraçar-se uns aos outros. Salama estava deitado tranquilamente sob uma árvore. Nesse momento, quatro politeístas sentaram-se ao seu lado. Eles começaram a conversar sobre o Mensageiro de Allah de uma maneira que ele não queria ouvir. Então ele se levantou e sentou-se sob outra árvore. Depois que ele se afastou, os quatro politeístas deixaram suas armas de lado e deitaram-se. Nesse momento, alguém gritou: “Ó emigrantes, venham depressa; Ibn Zanīm foi morto!” Ao ouvir esse grito, Salama pegou numa arma e correu em direção aos quatro politeístas. Eles ainda estavam deitados. Salama tomou posse de suas armas e disse: “Se querem o bem, venham diretamente comigo. Juro por Allah que, se alguém levantar a cabeça, furarei seu olho.” Ele os levou à presença do Mensageiro de Allah. O tio de Salama também trouxe cerca de setenta ou setenta e um politeístas como prisioneiros. O nobre Profeta deixou todos eles livres. Foi nesse contexto que o seguinte versículo do Alcorão foi revelado:

“E Ele é Quem, no território de Meca, conteve as mãos deles de vós e as vossas mãos deles, depois de vos ter dado a vitória sobre os incrédulos.” (Surata Al-Fath/3).

Durante o retorno da caravana muçulmana a Medina, eles montaram suas tendas perto de uma montanha. Alguns maus intentos surgiram no coração dos politeístas. O nobre Mensageiro de Allah tomou conhecimento disso. Ele percebeu a necessidade de guardar as tendas. Rogou pelo perdão daquele que ficasse sentado no alto da montanha para vigiá-las. Salama teve a honra de realizar essa tarefa. Durante toda a noite, subiu repetidamente à montanha, tentando ouvir os passos do inimigo.

Alguns camelos do nobre Mensageiro de Allah pastavam no campo de pastagem de Dhu Qarawa. Certo dia, homens dos Banu Ghatafan — ou, segundo outra versão, dos Banu Fazara — lançaram um ataque surpresa, mataram o pastor e roubaram os camelos. Salama ibn al-Aqwa estava nas proximidades do local. Ele havia saído no final da noite, quando o escravo de Abdur-Rahman ibn Awf lhe informou que os camelos do Mensageiro de Allah tinham sido roubados. Salama enviou o escravo de Abdur-Rahman a Medina para informar o Mensageiro de Allah. Em seguida, subiu ao topo de uma montanha e gritou tão alto “Yā Sabāḥāh!” (um grito de alerta contra o ataque inimigo) que sua voz chegou de uma extremidade de Medina à outra. Sozinho, perseguiu o bando de saqueadores. Quando eles procuravam água, ele chegou ao local. Era um arqueiro habilidoso. Disparava flechas com mira certeira e murmurava:

“Eu sou filho de al-Aqwa

Hoje é o dia da destruição dos vis.”

Isto é: “Eu sou filho de al-Aqwa — hoje é o dia da destruição dos homens vis.” Ele atacou de tal modo que os saqueadores fugiram, abandonando os camelos. Em sua confusão, também deixaram para trás seus mantos. Enquanto isso, o nobre Mensageiro de Allah chegou ao local com mais homens. Salama pediu: “Ó Mensageiro de Allah, não lhes permiti beber água. Se os perseguirmos agora mesmo, poderemos capturá-los.” O Mensageiro de Allah disse: “Depois de derrotá-los, perdoa-os.” (Al-Bukhari, Kitab al-Maghazi, capítulo sobre a expedição de Dhu Qarawah; Sira de Ibn Hisham, 2/281–282; Hayat as-Sahabah, 1/559–561). O acontecimento foi narrado de maneiras diferentes em diversas obras.

Na batalha de Khaybar, ele demonstrou extrema bravura. Após a conquista de Khaybar, retornou a Medina de mãos dadas com o nobre Mensageiro de Allah.

Depois de Khaybar, ele participou das batalhas contra os Saqif e os Hawazin. Durante essa campanha, um homem chegou ao acampamento militar muçulmano montado num camelo, amarrou o animal e, discretamente, juntou-se aos soldados muçulmanos no desjejum. Depois, lançou olhares atentos ao redor, avaliou a força dos muçulmanos, montou novamente no camelo e partiu rapidamente. Como ele havia chegado e partido daquela maneira, os muçulmanos acreditaram que era um espião. Um homem saiu em sua perseguição. Salama também o seguiu e, correndo à frente, capturou-o e matou-o com um golpe de espada. Em seguida, voltou levando a montaria do morto. O Mensageiro de Allah (S.A.W.) perguntou: “Quem matou o homem?” As pessoas responderam: “Salama.” O Mensageiro de Allah (S.A.W.) declarou: “Todos os pertences do morto ficarão com aquele que o matou.” No sétimo ano da Hégira, o nobre Mensageiro de Allah (S.A.W.) enviou uma tropa, sob o comando de Abu Bakr, contra os Banu Kilab. Salama também fazia parte dessa tropa. Nessa campanha, matou sozinho sete homens. Também capturou muitas mulheres daqueles que haviam fugido. Entre as prisioneiras havia uma jovem muito bonita. Hazrat Abu Bakr confiou a jovem aos cuidados de Hazrat Salama. Hazrat Salama levou-a para Medina. O Mensageiro de Allah (S.A.W.) disse: “Deixa a jovem sob minha proteção.” Salama entregou-a aos cuidados do Mensageiro de Allah (S.A.W.). Em troca dessa jovem, o Mensageiro de Allah (S.A.W.) libertou os muçulmanos que estavam cativos nas mãos dos incrédulos.

Depois de aceitar o Islã, Hazrat Salama ibn al-Akwa (R.A.) participou de quase todas as batalhas travadas contra os incrédulos. Segundo alguns relatos, ele participou de um total de quatorze batalhas: sete como companheiro do Mensageiro de Allah (S.A.W.) e as sete restantes em diferentes expedições enviadas pelo Mensageiro de Allah (S.A.W.). Segundo um relato do Mustadrak, o número total de batalhas das quais participou foi dezesseis. Certa vez, ele disse: “Participei de sete batalhas com o Mensageiro de Allah e de nove com Zayd ibn Haritha.” (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 555).

Entre os membros da infantaria que combatiam com arco e lança, Salama era um dos mais hábeis. Quando os soldados inimigos atacavam, ele recuava. Mas, quando o inimigo recuava ou descansava, ele lançava um ataque surpresa. Essa era sua estratégia de combate. Aplicando essa estratégia, sozinho, ele derrotou a tropa comandada por Uyayna ibn Hisn al-Fazari na batalha de Dhu Qarad, nos arredores de Medina. Sozinho, perseguiu-os, atacou-os e repeliu seus ataques. Dessa maneira, conduziu-os em fuga por uma longa distância, para muito além de Medina.

Em bravura e coragem, especialmente na rapidez de corrida, Salama ocupava uma posição singular entre os Companheiros. O autor de Al-Isaba escreveu: “Ele era um dos homens mais valentes e corria mais rápido que um cavalo.” Durante o Tratado de Hudaybiyyah — segundo outra opinião, durante a expedição de Dhu Qarad — o nobre Mensageiro de Allah (S.A.W.), elogiando-o, disse: “Khayru rajjalina Salama ibn al-Akwa — Salama ibn al-Akwa é o melhor dos nossos soldados de infantaria.” (Rijalun Hawla ar-Rasul, p. 555).

Hazrat Salama era um homem extremamente forte. Era como se não soubesse o que eram tristeza e sofrimento. Contudo, durante a batalha de Khaybar, ficou ao lado do corpo de seu irmão — segundo outra opinião, de seu tio — Hazrat Amir ibn al-Akwa e cantarolou uma canção cheia de tristeza. Seu último verso dizia: “Ó Allah, faze descer sobre nós a tranquilidade e firma nossos pés diante do inimigo.”

Nessa batalha de Khaybar, seu irmão Amir golpeou vigorosamente um idólatra com a espada. Porém, o golpe desviou-se, atingiu seu próprio corpo e, por causa disso, ele alcançou o martírio. Depois desse acontecimento, alguns muçulmanos comentaram: “Pobre Amir — foi privado da bênção do martírio.” Somente então, quando, assim como os outros, Salama também passou a pensar que seu irmão havia sido privado da recompensa do jihad e do martírio, ele ficou profundamente angustiado e abatido. Correu até o Mensageiro de Allah (S.A.W.) e perguntou:

— Ó Mensageiro de Allah, todas as boas ações de Amir foram anuladas. Isso é verdade?

O Mensageiro de Allah (S.A.W.) disse:

—Ele foi morto como um mujahid. Há duas recompensas para ele. Agora ele está nadando nos rios do Paraíso. (Rijalun Hawlar Rasul: 555–556).

Hazrat Salama permaneceu em Medina desde o falecimento de Hazrat Rasulullah até o martírio de Hazrat Uthman. Após o assassinato de Hazrat Uthman, esse valente mujahid percebeu que as portas da fitna, ou da discórdia interna, haviam sido abertas entre a nação muçulmana. Aquele que passara toda a vida lutando contra os incrédulos ao lado de seus irmãos não poderia agora considerar correto empunhar armas contra esses mesmos irmãos. A habilidade pela qual conquistara os elogios de Rasulullah ao combater os politeístas não poderia, de modo algum, ser usada para lutar contra um crente ou para matar um muçulmano.

Depois dessa compreensão, ele carregou seus pertences sobre o camelo, deixou Medina e foi diretamente para Rabza. Ali permaneceu pelo resto da vida. Foi nessa mesma Rabza que, anteriormente, Hazrat Abu Dharr al-Ghifari havia deixado Medina e ido viver, e foi ali que deu seu último suspiro.

Hazrat Salama passou o restante de sua vida nessa Rabza. Poucos dias antes de sua morte, surgiu repentinamente em seu coração um forte desejo de ir a Medina. Ele foi para Medina. Depois de passar dois dias ali, morreu subitamente no terceiro dia. Assim, foi sepultado na terra sagrada de seu amado, ao lado de seus amigos mártires e sinceros. (Rijalun Hawlar Rasul: 556–557).

Há divergência entre os historiadores quanto ao ano de sua morte. De acordo com a opinião correta, ele morreu no ano 74 da Hégira. Segundo outra opinião, morreu no ano 64 da Hégira. Waqidi e seus seguidores consideravam que ele vivera oitenta anos. Ibn Hajar afirma que, segundo a primeira opinião sobre o ano de sua morte, essa estimativa de Waqidi não está correta, pois, nesse caso, sua idade na ocasião do pacto de Hudaybiyyah teria sido de cerca de dez anos. E ninguém poderia, nessa idade, participar do pacto de morte. Além disso, vi em Ibn Sa’d que ele faleceu no final do califado de Hazrat Muawiya. Al-Baladhuri também mencionou o mesmo. (Al-Isaba: 2/67).

Hazrat Salama teve a oportunidade de desfrutar da estreita companhia de Rasulullah e também alcançou a honra de acompanhá-lo em muitas expedições. Ele aproveitou devidamente essa oportunidade. Além disso, transmitiu hadiths de Abu Bakr, Umar, Uthman e Talha. O número de hadiths transmitidos por ele é de setenta e sete (77). Desses, dezesseis são muttafaq alayhi, isto é, foram narrados por Bukhari e Muslim. Cinco foram narrados exclusivamente por Bukhari e nove exclusivamente por Muslim. (Tahdhib al-Kamal: 148). Entre os que transmitiram hadiths dele, destacam-se Iyas ibn Salama, Yazid ibn Ubayd, Abd al-Rahman ibn Abdillah e Muhammad ibn al-Hanafiyya, entre outros.

Hazrat Salama era muito generoso ao gastar no caminho de Allah. Se alguém lhe pedia algo por amor a Allah, ele nunca o mandava de volta de mãos vazias. Ele dizia: “Se não se dá por amor a Allah, então a quem se dará?” Contudo, não gostava que lhe pedissem algo por amor a Allah.

Ele considerava ilícita para si a riqueza proveniente da sadaqa. Se tivesse alguma dúvida de que determinado bem provinha da sadaqa, abstinha-se de utilizá-lo. Por essa razão, também não gostava de comprar novamente, pagando dinheiro, qualquer coisa que ele próprio tivesse dado como sadaqa.

Ele era tão cuidadoso em relação ao que é haram e ao que é halal que não permitia que as crianças brincassem de nenhum jogo semelhante à jogatina.

Salama, que Allah esteja satisfeito com ele, era um dos Companheiros que emitiam fatwas em Medina. Ibn Sa‘d narrou, por intermédio de Ziyad ibn Mina, que ele disse: “Ibn Abbas, Ibn Umar, Abu Sa‘id al-Khudri, Abu Huraira, Abdullah ibn Amr ibn al-As, Jabir ibn Abdullah, Rafi ibn Khadij, Salama ibn al-Akwa e outros Companheiros emitiam fatwas em Medina.” (Hayatus Sahaba, 3/254).

O imã Bukhari narrou, na obra ‘Al-Adab al-Mufrad’ (p. 144), por intermédio de Abdur-Rahman ibn Razin. Ele disse: “Estávamos passando por Rabaza. Disseram-nos que Salama ibn al-Akwa estava ali. Fui até ele e o saudei. Ele estendeu as duas mãos, mostrou-as a nós e disse: ‘Com estas duas mãos prestei o juramento de lealdade ao Mensageiro de Allah.’ Então ele estendeu uma das palmas. A palma era enorme, semelhante à pata de um camelo.” (Hayatus Sahaba, 2/498-499).

Certa vez, perguntaram a Salama, que Allah esteja satisfeito com ele: “No dia de Hudaybiyyah, com base em que palavra vocês prestaram o juramento de lealdade ao Mensageiro de Allah?” Ele respondeu: “Mawt”, isto é, pela morte. (Al-Isti‘ab; Hayatus Sahaba, 1/249).

O filho de Salama, que Allah esteja satisfeito com ele, chamado “Iyas”, destacou de maneira admirável, em uma única frase, a virtude e as características de seu pai. Ele disse: “Ma kadzaba abi qattu” — “Meu pai jamais mentiu.” (Rijalun Hawla ar-Rasul, 554).

Para que uma pessoa alcance a posição mais elevada entre os homens verazes, essa única qualidade já é suficiente em sua vida. Em cada etapa de sua vida, ele deu exemplos dessa honestidade.

Abu Umar Yusuf al-Qurtubi, autor da obra “Al-Isti‘ab fi Asma’il Ashab”, mencionou, com base no relato de Ibn Ishaq, uma história extraordinária sobre Salama, que Allah esteja satisfeito com ele. Ibn Ishaq disse: “Ouvi dizer que Salama foi aquele com quem um lobo falou. Salama disse: ‘Vi um lobo caçando um cervo. Persegui-o e tirei o cervo de sua boca. Então o lobo disse: “O que há com você? Eu só quero comer o sustento que Allah me concedeu. E isso também não é propriedade sua para que você o arranque da minha boca.” Salama disse: “Eu respondi: ‘Ó servos de Allah, vejam este acontecimento extraordinário! O lobo está falando.’ Ao ouvir minhas palavras, o lobo disse: “Mais extraordinário ainda é que o Mensageiro de Allah os convoca à adoração de Allah, enquanto vocês rejeitam isso e se voltam para a adoração de ídolos.” Salama disse: “Depois disso, compareci à presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aceitei o Islam. Allah sabe melhor quem era esse lobo.”’ (Al-Isti‘ab).

Abu Salama ibn Abdil-Asad, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Abdullah e sua kunya, ou apelido, Abu Salama. Seu pai era Abd al-Asad e sua mãe, Barra bint Abd al-Muttalib. Era primo materno do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Além disso, segundo relatos autênticos, era seu irmão de leite. Suwayba, escrava de Abu Lahab, amamentou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hamza e Abu Salama. (Sira de Ibn Hisham, 2/96).

Ele se juntou ao grupo dos crentes antes de o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estabelecer-se na casa de Arqam ibn Abi al-Arqam. Depois que Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) abraçou o Islã, os primeiros a quem ele convidou ao Islã foram Uthman ibn Affan, Talha ibn Ubaydullah, Zubayr ibn al-Awwam e Sa’d ibn Abi Waqqas. Ele levou todos eles à presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e todos abraçaram o Islã juntos. No dia seguinte, levou Uthman ibn Maz’un, Abu Ubayda ibn al-Jarrah, Abd al-Rahman ibn Awf, Abu Salama e al-Arqam ibn Abi al-Arqam à presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eles também abraçaram o Islã juntos. (Al-Bidaya, 3/29.) Sua esposa, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), também o seguiu. (Usud al-Ghaba, 5/281).

Ele e sua esposa, Umm Salama, emigraram com o primeiro grupo de emigrantes para a Abissínia. Foi nessa terra da Abissínia que nasceu sua filha, Zaynab bint Abi Salama. (Sira de Ibn Hisham, 1/322, 326.) Depois de algum tempo, ele deixou a Abissínia e entrou em Meca sob a proteção de Abu Talib ibn Abd al-Muttalib. Alguns homens dos Banu Makhzum foram até Abu Talib e disseram em tom de queixa: “Ó Abu Talib, você protegeu seu sobrinho Muhammad de nós. Agora está novamente dando proteção a um dos nossos?” Abu Talib respondeu: “Ele me pediu proteção. Além disso, é filho da minha irmã. Se não posso proteger o filho da minha irmã, tampouco posso proteger o filho do meu irmão.” Em certo momento, Abu Lahab levantou-se e disse: “Ó membros da tribo de Quraysh! Vocês estão indo longe demais com este ancião. Se não pararem, nós nos colocaremos ao lado deste ancião.” Com essas palavras de Abu Lahab, os homens dos Banu Makhzum se retiraram. (Sira de Ibn Hisham, 1/369, 371.) Na segunda vez, ele também emigrou para a Abissínia com sua esposa. Por fim, depois de retornar da Abissínia a Meca, mudou-se novamente para Medina algum tempo depois.

A nobre Umm Salama, esposa de Abu Salama, relata sobre a emigração deles para Medina: “Depois que Abu Salama decidiu emigrar para Medina, preparou seu camelo. Colocou-me sobre o camelo e pôs meu filho Salama no meu colo. Então, segurando as rédeas do camelo, começou a conduzi-lo. Os homens da minha tribo paterna, os Banu Mughira, bloquearam seu caminho e disseram: ‘Quanto a você mesmo, pode fazer o que quiser. Mas não permitiremos que esta nossa filha viaje com você para outro lugar.’ Eles me levaram à força. Com isso, a tribo de Abu Salama, os Banu Abd al-Asad, ficou enfurecida. Disseram: ‘Já que vocês levaram sua filha, não permitiremos que nosso filho, isto é, Salama, permaneça com sua mãe.’ E levaram meu filho. Eu fiquei retida nas mãos da minha tribo paterna, os Banu Mughira; meu filho Salama, ainda no meu colo, ficou com a tribo de seu pai, os Banu Abd al-Asad; e meu marido Abu Salama estava em Medina. Assim, eles nos separaram.”

Todos os dias eu ia ao vale de Abtah, em Meca, e ficava sentada apenas chorando. Derramei lágrimas durante quase um ano. Finalmente, certo dia, um homem da minha tribo paterna viu-me naquela situação e seu coração se compadeceu. Ele disse aos Banu Mughira: ‘Vocês não permitirão que esta infeliz deixe Meca? Por que a fazem sofrer, separando-a do marido e do filho?’ Então os Banu Mughira disseram-me: ‘Se quiser, pode ir para junto do seu marido.’ Os Banu Abd al-Asad também devolveram meu filho. Montei um camelo e tomei o caminho de Medina, em direção ao meu marido. Não havia comigo nenhum outro servo de Allah. Quando cheguei a Tan’im, encontrei Uthman ibn Talha. Ele me perguntou: ‘Ó filha de Abu Umayya, para onde você vai?’ Respondi: ‘Para junto do meu marido em Medina.’ Ele perguntou: ‘Não há mais ninguém com você?’ Respondi: ‘Ninguém além de Allah, o Único.’ Ele segurou as rédeas do meu camelo e caminhou, levando-me até a aldeia dos Banu Amr ibn Awf, em Quba, nos arredores de Medina, e disse: ‘Seu marido mora aqui.’ Depois disso, retomou o caminho de Meca. Foi ali que me reuni ao meu marido. Esse Uthman ibn Talha abraçou o Islã depois do tratado de Hudaybiyya. (Hayat al-Sahaba, 1/358-359.)

O nobre Abu Salama emigrou para Medina um ano antes do juramento dos habitantes de Yathrib ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em Aqaba. (Sira de Ibn Hisham, 1/468.) Segundo um relato de al-Bukhari, ele foi o primeiro muhajir a ir para Medina. Entretanto, outro relato considera Mus’ab ibn Umayr o primeiro muhajir de Medina. Ao conciliar esses dois relatos, o erudito Ibn Hajar (que Allah tenha misericórdia dele) diz: “Quando Abu Salama retornou da Abissínia a Meca, os politeístas de Meca voltaram a persegui-lo. Ele foi então para Medina por medo dos coraixitas, não com a intenção de estabelecer-se ali permanentemente. Já Mus’ab ibn Umayr foi para Medina depois que chegou a ordem de emigrar. Dessa forma, não há, em essência, contradição entre os dois relatos.” (Fath al-Bari, 7/203.)

O dia em que Abu Salama chegou a Medina foi o dia 10 do mês de Muharram. A família de Amr ibn Awf ofereceu-lhe hospitalidade durante dois meses inteiros. Quando o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou a Medina, estabeleceu um vínculo de fraternidade, ou mu’akhah, entre o nobre Khuthayma Ansari e Abu Salama, e também lhes concedeu um terreno para residirem separadamente.

Ele desempenhou um papel corajoso nas batalhas de Badr e Uhud. Na batalha de Uhud, uma flecha de Abu Usama Jushami cravou-se em seu braço. Embora tenha se recuperado exteriormente após um longo mês de tratamento, a ferida continuou a se formar internamente. Nessa situação, foi-lhe confiada a responsabilidade da expedição de Qatan.

‘Katan’ é o nome de uma montanha. Os Banu Asad viviam nessa região. O Nobre Mensageiro de Allah (s.a.w.) soube que Tulayha e Asad ibn Khuwaylid estavam incitando sua própria tribo e outras tribos sob sua influência a guerrear contra Medina. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) decidiu pôr fim a essas atividades. Ele formou uma força de cento e cinquenta mujahidin, composta conjuntamente por muhajirin e ansar, e ordenou que partissem em direção a ‘Katan’, sob o comando de Abu Salama, no mês de Muharram ou Safar do quarto ano hijri. Ao entregar a bandeira a Abu Salama, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Partam. Dispersem os Banu Asad antes que eles se unam.”

Hazrat Abu Salama avançou por uma rota pouco conhecida e surgiu repentinamente no povoado dos Banu Asad. Atônitos com o ataque inesperado, eles começaram a fugir. Abu Salama dividiu seu exército em três grupos e ordenou que os perseguissem. Eles os perseguiram por uma longa distância e obtiveram como butim uma grande quantidade de camelos e cabras. Todo o butim foi levado a Medina e apresentado ao Mensageiro de Allah (s.a.w.).

Hazrat Abu Salama retornou a Medina da expedição de ‘Katar’. Enquanto isso, o ferimento causado pela flecha na batalha de Uhud voltou a infeccionar. Depois de permanecer doente por vários dias, faleceu no dia 3 do mês de Jumada al-Akhirah do quarto ano hijri — segundo outra opinião, do terceiro ano. Por acaso, pouco antes de ele dar seu último suspiro, o Nobre Mensageiro de Allah (s.a.w.) chegou para visitá-lo. Depois que sua alma partiu, o Mensageiro (s.a.w.) fechou com suas próprias mãos puras os dois olhos que haviam permanecido abertos e disse: “Quando a alma de uma pessoa é retirada, seus dois olhos permanecem abertos para observá-la.” (Tabaqat Ibn Sa‘d, 3/172).

Enquanto isso, as mulheres, atrás do véu, começaram a lamentar. O Mensageiro (s.a.w.) pediu que parassem e disse: “Agora é hora de fazer du‘a. Pois os anjos que descem do céu até o falecido também dizem ‘Amin’ junto com a du‘a daqueles que suplicam.” Então o Mensageiro (s.a.w.) fez a seguinte du‘a por ele: “Ó Allah, amplia e ilumina seu túmulo. Perdoa seus pecados e eleva sua posição entre o grupo guiado.” (Ibn Sa‘d, 3/172).

Hazrat Abu Salama faleceu em um lugar chamado ‘Aliyah, nos arredores de Medina. Ele havia vindo de Quba e se estabelecido justamente ali. Ele foi banhado com a água do poço ‘Yasirah’, pertencente aos Banu Umayyah ibn Zayd, e foi sepultado no solo sagrado de Medina.

Entre os Companheiros, Hazrat Abu Salama (r.a.) possuía uma posição especialmente honrosa. Quando adoeceu, o Nobre Mensageiro de Allah (s.a.w.) costumava visitá-lo com frequência.

Hazrat Umm Salama (r.a.) disse: “Certo dia, Abu Salama voltou para casa muito alegre, vindo da presença do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Então começou a dizer: ‘Hoje, uma declaração do Mensageiro de Allah (s.a.w.) me deixou muito feliz.’ Ele disse: ‘Se um muçulmano afligido por uma calamidade, em meio à sua aflição, voltar-se para Allah e disser: “Ó Allah, ajuda-me nesta calamidade e concede-me uma recompensa melhor por ela”, Allah aceitará sua du‘a.’ Assim, quando fiquei profundamente triste com a morte de Abu Salama, também fiz essa du‘a. Mas imediatamente pensei: quem poderia ser uma recompensa melhor do que Abu Salama? Depois que meu período de ‘iddah terminou, quando o próprio Mensageiro (s.a.w.) enviou uma proposta de casamento, compreendi que Allah havia providenciado uma recompensa melhor.” (Musnad de Ahmad ibn Hanbal, 4/127). Assim, Umm Salama tornou-se Umm al-Mu’minin.

Hazrat Abu Salama deixou dois filhos, Salama e Umar, e duas filhas, Zaynab e Durrah.

Quando o califa Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, estabeleceu, durante o seu califado, as pensões para cada pessoa, ordenou que fossem concedidos dois mil aos filhos dos Muhajirun e dos Ansar que haviam participado da batalha de Badr. Quando chegou a vez de Umar, filho de Abu Salama, ele disse: “Concedam-lhe mais mil.” Muhammad ibn Abdillah — cujo pai era Abdillah ibn Jahsh, martirizado em Uhud — protestou, dizendo: “O pai dele não possui nenhuma distinção especial em relação aos nossos pais.”

O califa disse: “Concedo-lhe dois mil por causa de seu pai, Abu Salama, e mais mil por causa de sua mãe, Umm Salama. Se você tivesse uma mãe como a mãe dele, também lhe daria mais mil.” (Hayatus Sahabah, 1/216–217).

Aqil ibn Abi Talib, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Aqil e seu kunya, Abu Yazid. Seu pai era Abu Talib ibn Abd al-Muttalib e sua mãe, Fatima. Era descendente do ramo Hachemita da tribo dos coraixitas. Era meio-irmão do quarto califa, Ali, e vinte anos mais velho que ele.

Aqil foi criado por seu pai, Abu Talib. Antes de o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, receber a profecia, Meca passou certa vez por uma grande escassez. Entre os coraixitas, a situação do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e de Abbas era relativamente um pouco melhor. Um dia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse a Abbas: “Tio, você conhece a situação de seu irmão Abu Talib. Ele tem muitos filhos. Que tal assumirmos a responsabilidade por alguns deles?” Os dois foram até Abu Talib e expuseram sua intenção. Abu Talib disse: “Podem levar qualquer um, exceto Aqil.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levou Ali, e Abbas levou Ja‘far. (Hayatus Sahabah, 2/530).

Desde o início, o coração de Aqil era favorável ao Islã e aos muçulmanos. Contudo, por medo dos coraixitas, não conseguiu aceitar o Islã publicamente. Apesar de sua relutância, juntou-se aos líderes politeístas na batalha de Badr e, juntamente com muitos outros, também foi capturado pelo exército muçulmano. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou a Ali que verificasse quais membros de sua família haviam sido capturados. Ali foi averiguar e disse: “Nawfal, Abbas e Aqil foram capturados.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi pessoalmente vê-los e, parando ao lado de Aqil, disse: “Abu Jahl foi morto.” Aqil respondeu: “Agora não resta nenhum adversário dos muçulmanos na região de Tihama.” Aqil estava sem recursos. Abbas pagou seu resgate e o libertou. Em Badr, ele havia sido capturado por Ubayd ibn Aws. (Sirat Ibn Hisham, 1/687).

Depois de ser libertado do cativeiro, voltou para Meca. No ano da conquista de Meca — segundo outra opinião, depois do tratado de Hudaybiyyah — aceitou o Islã e migrou para Medina no início do oitavo ano da Hégira. (Al-Isabah, 2/494).

Depois de participar da expedição de Mu’tah, voltou novamente para Meca e adoeceu. Por isso, não pôde participar da conquista de Meca nem das expedições de Ta’if e Hunayn. (Usud al-Ghabah, 3/422). Contudo, segundo alguns relatos, ele participou da batalha de Hunayn. No início dessa batalha, quando o exército muçulmano estava prestes a ser derrotado e até mesmo os Muhajirun e os Ansar começaram a fugir, ele foi um dos que permaneceram firmes. (Al-Isabah, 2/494).

Ibn Hisham relata: no dia da batalha de Hunayn, Aqil ibn Abi Talib entrou, com uma espada ensanguentada na mão, na tenda de sua esposa, Fatima bint Sh ayba ibn Rabi’a. A esposa disse: “Percebi que você lutou. Mas que espólio de guerra você trouxe para mim?” Aqil respondeu: “Tome isto: uma agulha, para costurar roupas.” E entregou a agulha à esposa. Nesse momento, ouviu-se a voz do arauto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele anunciava: “Quem tiver consigo qualquer objeto, que o devolva. Mesmo que tenha consigo apenas uma agulha e uma linha, que as devolva.” Aqil voltou-se para a esposa e disse: “Até a sua agulha se foi.” Dizendo isso, tirou a agulha da mão dela e jogou-a no monte dos bens do espólio. (Sira de Ibn Hisham, 2/492).

Desde o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ou seja, desde a batalha de Hunayn, até o fim do califado de Uthman, não se encontra na história muita informação sobre o papel e as atividades de Aqil. Contudo, durante o califado de Umar, quando uma grande quantidade de dinheiro começou a se acumular no Bayt al-Mal, ele consultou os Companheiros ilustres sobre o que fazer com esse dinheiro. Ali sugeriu que todo o dinheiro fosse distribuído entre o povo. Uthman disse: “Há muito dinheiro; todos receberão. Porém, se não mantivermos um registro de quem recebeu e de quem não recebeu, o assunto se transformará em desordem.” Então, Walid ibn Hisham ibn al-Mughira disse: “Ó Amir al-Mu’minin, fui à Síria. Lá vi os reis; eles elaboram um diwan e registram tudo separadamente.” O califa aprovou sua sugestão. Ele ordenou a Aqil, Makhrama e Zubayr ibn Mut’im que elaborassem uma lista dos cidadãos de acordo com sua posição. Os três eram renomados especialistas em genealogia entre os coraixitas. Eles prepararam a lista. (Vida dos Companheiros, 220).

Aqil volta a aparecer nas páginas da história durante o conflito entre Ali e Muawiya. Embora fosse irmão de Ali, mantinha relações com o emir Muawiya por causa de suas próprias necessidades. Durante o conflito entre Ali e Muawiya, deixou Medina e foi para a Síria, junto de Muawiya. A história menciona como razão que Aqil era um homem pobre e endividado, e precisava de dinheiro. Já o tesouro do emir Muawiya estava aberto. A pobreza e a necessidade o obrigaram a tomar o partido de Muawiya.

Quando o conflito entre Muawiya e Ali estava no auge, Aqil foi certa vez até Ali, esperando que ele pagasse suas dívidas. Ali o recebeu com grande consideração e encarregou seu filho Hasan de servi-lo. Hasan providenciou seu descanso com extremo cuidado. À noite, estendeu-se a toalha de mesa e Aqil foi chamado para comer. Quando chegou, viu sobre a toalha alguns pães secos, sal e um pouco de ensopado. Aqil disse: “A refeição é apenas isto?” Ali respondeu: “Sim.” Então Aqil revelou o motivo de sua visita e disse: “Pague minhas dívidas.” Ali perguntou: “De quanto se trata?” Ele respondeu: “Quarenta mil dirrãs.” Ali disse: “Onde encontrarei tanto dinheiro? Espere um pouco; quando meu estipêndio chegar a quatro mil, poderei dar-lhe.” Aqil perguntou: “Qual é a sua dificuldade? O Bayt al-Mal está em suas mãos. Por quanto tempo me manterá esperando pelo aumento de seu estipêndio?” Ali respondeu: “Sou apenas o depositário do dinheiro dos muçulmanos. Você quer que eu lhe dê esse dinheiro e traia a confiança depositada em mim?” Ao ouvir essa resposta, Aqil foi diretamente para a Síria, até o emir Muawiya. Muawiya perguntou a Aqil: “Como você viu Ali e seus companheiros?” Aqil respondeu: “Eles são os verdadeiros Companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Só lhes falta uma coisa: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não está entre eles. Quanto a você e seus companheiros, são exatamente como os companheiros de Abu Sufyan.” Apesar dessa comparação, no dia seguinte o emir Muawiya chamou Aqil e colocou em suas mãos cinquenta mil dirrãs. (Usd al-Ghaba, 4/423).

Depois da chegada de Aqil à Síria, Muawiya costumava apresentá-lo como prova, dizendo: “Se eu não estivesse com a verdade, como Aqil teria abandonado seu irmão Ali para tomar o meu partido?” Certa vez, quando Muawiya apresentou esse argumento diante das pessoas, na presença de Aqil, Aqil protestou e disse: “Meu irmão é bom para a religião, e você é bom para o mundo. A única questão é que eu dei preferência ao mundo em detrimento da religião. Quanto à Vida Futura, peço a Allah, em Sua presença, um bom desfecho para ela.” (Usd al-Ghaba, 3/423).

Aqil faleceu no fim do califado de Muawiya ou no início do governo de Yazid. (Al-Isaba, 2/494).

Depois de aceitar o Islã, ele foi privado da oportunidade de desfrutar de uma longa convivência com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por isso, embora fosse um parente muito próximo e querido do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não alcançou no campo do conhecimento a proficiência que deveria ter alcançado. Ainda assim, encontram-se nas coletâneas de hadith alguns poucos hadiths narrados por ele. Muhammad, Hasan al-Basri, Ata e outros tabi’un transmitiram hadiths dele. Além do conhecimento religioso, era versado em diversos conhecimentos da época da Jahiliyya. Era um grande conhecedor de Ilm al-Ansab, Ayyam al-Arab — genealogia e a história das guerras e batalhas da antiga Arábia —, entre outros assuntos. As pessoas iam até ele para adquirir conhecimento sobre esses temas. Depois da oração na Mesquita do Profeta, ele discorria sobre esses assuntos, e as pessoas se sentavam para ouvi-lo.

Hisham al-Kalbi disse: “As pessoas procuravam estes quatro homens dos coraixitas — Aqil, Makhrama, Huwaytib e Abu Jahl — para que resolvessem suas disputas e conflitos.” (Al-Isaba, 2/494).

O nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, amava-o profundamente. Ele costumava dizer: “Abu Zayd, meu amor por você é duplo: primeiro, por causa do parentesco; segundo, porque meu tio amava você.”

Em todas as situações, tanto na felicidade quanto na adversidade, o nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi um fiel seguidor da Sunnah. Certa vez, ele havia se casado novamente. Pela manhã, os vizinhos foram cumprimentá-lo. Eles o saudaram pronunciando duas expressões comuns na época da ignorância. Essas duas expressões não continham nenhum significado contrário ao Islam. Contudo, como havia uma forma islâmica de saudação, ele corrigiu o engano deles e disse: “Não é assim; em vez disso, digam: Barakallahu lakum wa barakallahu alaykum. Recebemos a instrução de dizer isso dessa maneira.” O nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, deixou estabelecida para seu sustento uma provisão anual de 140 wasaq de cereais produzidos em Khaybar. (Sira de Ibn Hisham, 2/350).

Hakim ibn Hizam, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Hakim e seu kunya era Abu Khalid. Seu pai era Hizam ibn Khuwaylid, e sua mãe era Zaynab — segundo outra versão, Safiyyah. O próprio Hakim disse: “Nasci no ‘Ano do Elefante’, isto é, treze anos antes do ataque de Abraha à Caaba.” Al-Waqidi afirmou: “Hakim nasceu cinco anos antes do nascimento do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” Seu pai, Hizam, morreu na Guerra de Fijar. Ele próprio também participou dessa guerra. Al-Zubayr ibn Bakkar afirmou: “Hakim nasceu dentro da Caaba.” (Al-Isabah, 1/349).

A história relata que ele foi a única criança da Arábia a nascer dentro da Caaba. Sua mãe entrou na Caaba acompanhada de algumas amigas. Naquele dia, a porta da Caaba estava aberta por ocasião de algum evento especial. Naquele momento, sua mãe estava grávida. Pela vontade de Allah, as dores do parto começaram ali, e ela não teve tempo de sair. Estenderam uma pele, e ela deu à luz um menino. Deram-lhe o nome de Hakim ibn Hizam. A Mãe dos Crentes, Khadijah bint Khuwaylid, era sua tia paterna.

Hakim cresceu em uma família nobre e rica de Meca. Era extremamente cortês e inteligente. Os coraixitas o escolheram como líder. Na época da ignorância, aqueles que cuidavam dos peregrinos que chegavam a Meca e lhes ofereciam alimento eram chamados de “mut’im”, isto é, aquele que alimenta. Hakim também era um dos principais “mut’im” de Meca. (Sira de Ibn Hisham, 1/664–665).

Na época da ignorância, ele ajudava com seu próprio dinheiro aqueles que iam a Meca para visitar a Casa de Allah e se encontravam em dificuldades. Antes de receber a missão profética, era um amigo íntimo do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Embora fosse mais velho que o Mensageiro de Allah, amava-o e considerava valiosa sua companhia. Da mesma forma, o Mensageiro de Allah também o amava e permanecia em sua companhia.

Depois, com o casamento do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, com Khadijah bint Khuwaylid, estabeleceu-se também um vínculo de parentesco entre o Mensageiro de Allah e Hakim. Isso fortaleceu ainda mais o antigo relacionamento entre eles. Contudo, é muito surpreendente que, apesar de existir uma relação tão profunda entre os dois, ele não tenha acreditado no Mensageiro de Allah até o dia anterior à conquista de Meca. Quando abraçou a fé, já haviam transcorrido vinte anos da missão profética do Mensageiro de Allah.

Considerando o conhecimento, a inteligência e o parentesco com o Mensageiro de Allah que Allah, o Altíssimo, concedera a Hakim, seria razoável que ele fosse o primeiro a responder ao seu convite e abraçar a fé. Mas, pela vontade de Allah, isso não aconteceu. Assim como nós nos admiramos com isso, ele próprio também se admirava de sua conduta. Depois de aceitar o Islam, permaneceu até o fim da vida consumido pelo arrependimento por seus atos passados. Certo dia, depois de aceitar o Islam, seu filho o viu sentado, chorando. Perguntou-lhe:

— Pai, por que está chorando?

— Meu filho, são muitas as razões do meu choro.

Primeiramente, aceitei o Islam tarde demais. Por isso, fiquei para trás em relação a muitas grandes obras de bondade. Agora, mesmo que eu gastasse na causa de Allah uma quantidade de ouro equivalente ao mundo inteiro, ainda assim não conseguiria alcançar o mérito delas.

Em segundo lugar, Allah me poupou a vida em Badr e Uhud. Naquela ocasião, prometi secretamente a mim mesmo que jamais ajudaria os coraixitas contra o Mensageiro de Allah e que nunca mais sairia de Meca. Mas, logo depois, tive a audácia de voltar a ajudar os coraixitas.

Em terceiro lugar, sempre que pensava em aceitar o Islam, observava os respeitados e idosos líderes coraixitas. Eles se apegavam firmemente aos seus costumes e práticas da época da ignorância. Eu também os segui. Ai de mim! Se ao menos eu não os tivesse seguido! Seguir meus antepassados e os líderes foi o que me destruiu. Meu filho, como eu poderia não chorar agora?

Assim como nós e o próprio Hakim nos admiramos com o fato de ele ter aceitado o Islam tão tarde, o próprio Mensageiro de Allah também não ficou menos admirado. O Mensageiro desejava que outras pessoas inteligentes como ele ingressassem rapidamente no Islam.

Na noite anterior à conquista de Meca, o Mensageiro disse aos Companheiros: “Eu não desejava que quatro homens de Meca permanecessem idólatras. Eu desejava que eles aceitassem o Islam.”

Perguntaram: “Quem são eles?” Ele respondeu: “Attab ibn Usaid, Zubair ibn Mut’im, Hakim ibn Hizam e Suhail ibn Amr.” Pela graça de Allah, todos eles aceitaram o Islã. Quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — estava sitiado, junto com seus companheiros, no vale de Abu Talib, em Meca, Hakim, embora ainda fosse politeísta, enviava secretamente provisões à sua tia Khadija. Certo dia, enquanto levava trigo, foi visto pelo infame Abu Jahl. Abu Jahl tentou impedi-lo. Abul Bakhtari ibn Hisham estava perto. Ele se aproximou e disse a Abu Jahl: “Ele está enviando apenas um pouco de alimento para a sua tia. Por que você o impede?” Por fim, os dois entraram em uma violenta briga. (Sira de Ibn Hisham, 1/353–354).

Apesar da resistência dos coraixitas, quando aumentou o número dos apoiadores do Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dentro e fora de Meca, os coraixitas ficaram ainda mais inquietos. Reuniram-se na casa de Dar an-Nadwa, em Meca, para tomar uma decisão final a respeito do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Hakim também estava presente na reunião, juntamente com os demais líderes coraixitas. Iblis também compareceu, disfarçado de um ancião de Najd. (Sira de Ibn Hisham, 1/480–481).

Depois que os coraixitas acamparam em Badr, alguns deles avançaram para beber água do poço do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Hakim estava entre eles. O Mensageiro proibiu que fossem impedidos de beber água. Todos os que beberam daquela água, exceto Hakim, foram mortos em Badr. (Hayat as-Sahaba, 3/550).

Depois que os coraixitas estabeleceram seu acampamento em Badr, enviaram Umayr ibn Wahb para estimar o número de soldados do exército muçulmano. Após circular pelos arredores do acampamento muçulmano, Umayr disse: “Eles podem ser trezentos, ou um pouco menos ou mais.” Umayr opinou que os coraixitas não deveriam entrar em combate. Ao ouvir suas palavras, Hakim ibn Hizam atravessou a multidão e foi até Utba ibn Rabi’a, dizendo: “Abul Walid! Você é o líder e chefe dos coraixitas. É uma pessoa respeitada entre eles. Você não deseja que sua boa reputação seja lembrada entre eles para sempre?” Utba perguntou: “Hakim, por que você diz isso?” Hakim respondeu: “Você deve levar as pessoas de volta a Meca.” Utba enviou Hakim até Abu Jahl. Hakim disse: “Fui até Abu Jahl e o vi passando óleo em seu escudo. Eu lhe disse: ‘Abul Hakam! Utba me enviou até você com este propósito.’ Abu Jahl respondeu: ‘Juro por Allah! Ele se tornou covarde ao ver Muhammad e seus companheiros.’”

“Não retornaremos até que Allah decida entre Muhammad e nós. E Utba certamente diria algo assim. Seu filho está com eles; por isso, ele está tentando amedrontá-los.” Desse modo, os esforços de Hakim e Utba para evitar o confronto foram frustrados pela obstinação de Abu Jahl. Pela vontade de Allah, Abu Jahl foi a primeira vítima de Badr. (Sira de Ibn Hisham, 1/622–624).

Mais tarde, Hakim relatou o que ocorreu na derrota de Badr: “Ouvimos um som, como se tivesse caído do céu à terra. O som era semelhante ao de uma pedra caindo sobre uma bandeja. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — havia lançado aquela pedra. Fomos derrotados.” (Hayat as-Sahaba, 3/550).

Com o objetivo de conquistar Meca, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — chegou a Marr az-Zahran e estabeleceu seu acampamento. Para obter secretamente informações para os coraixitas, Abu Sufyan ibn Harb, Hakim ibn Hizam e Budayl ibn Warqa saíram de Meca. Ao chegarem a um lugar chamado Arak, próximo de Meca, ouviram o barulho de camelos, cavalos e pessoas. Continuaram avançando e, em meio à escuridão da noite, acabaram entrando na área muçulmana. Os guardas muçulmanos os capturaram. Umar desferiu vários socos no pescoço de Abu Sufyan. Abu Sufyan gritou assustado, pedindo a ajuda de Abbas. Abbas correu até lá e o libertou das mãos de Umar. Enquanto isso, Hakim e Budayl foram presos e levados à presença do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, quando aceitaram voluntariamente o Islã. Abu Sufyan também aceitou o Islã. (Hayat as-Sahaba, 1/163, 170–172; Sira de Ibn Hisham, 2/400).

No dia da conquista de Meca, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — entrou na cidade como um conquistador. Ele decidiu honrar Hakim ibn Hizam e ordenou que fosse feito um anúncio:

1. Não há divindade além de Allah; Ele é Único, não tem associado, e Muhammad é Seu servo e Mensageiro — aqueles que testemunharem isso estarão seguros.

2. Aquele que depuser sua arma e se sentar no recinto da Caaba estará seguro.

3. Aqueles que permanecerem sentados dentro de suas casas, com as portas fechadas, estarão seguros.

4. Aquele que buscar refúgio na casa de Abu Sufyan estará seguro.

5. Aquele que buscar refúgio na casa de Hakim ibn Hazam também estará seguro.

A casa de Hakim ibn Hazam ficava na parte baixa de Meca, enquanto a casa de Abu Sufyan ficava na parte alta.

Hakim ibn Hazam abraçou o Islam com extrema sinceridade. Depois de abraçar o Islam, declarou o compromisso de desempenhar, em sua vida islâmica, o mesmo papel e gastar a mesma quantia que havia desempenhado e gasto, na oposição ao Islam e ao Mensageiro, durante sua vida anterior ao Islam.

A Darun Nadwa de Meca era uma casa. Os coraixitas reuniam-se ali para deliberar e tomar decisões. Qusayy, um dos mais importantes antepassados da tribo dos coraixitas, construiu essa casa. Depois de passar por vários proprietários, Hakim tornou-se seu dono na época anterior ao Islam. Depois de abraçar o Islam, durante o califado de Muawiya, ele vendeu a casa por cem mil dirhams. Muawiya o repreendeu, dizendo: “Você vendeu a honra e a nobreza de seus antepassados?” Hakim respondeu: “Toda honra e toda nobreza desapareceram, exceto a taqwa, ou temor a Allah. Na época da Jahiliyya, comprei esta casa em troca de um recipiente de vinho. Hoje, vendi-a por cem mil dirhams. Informo-lhe ainda que todo esse dinheiro será gasto no caminho de Allah. Então, onde está a perda?” (Sira de Ibn Hisham, 1/125)

Depois de aceitar o Islam, Hákim ibn Hizam realizou o Hajj certa vez. À sua frente, conduziu cem camelos de excelente raça, adornados com tecidos preciosos. Sacrificou todos eles buscando a satisfação de Allah.

Em outra ocasião, ele realizou o Hajj. Enquanto permanecia em Arafat, estava acompanhado de cem escravos. Do pescoço de cada um pendia uma placa de prata, na qual estava escrito: “Escravo liberto por Hákim ibn Hizam para Allah.” Ele libertou todos eles. Em outro Hajj, levou consigo mil cabras e ovelhas. Sacrificou todas em Mina e alimentou com essa carne os pobres e necessitados muçulmanos.

Após a batalha de Hunayn, Hákim ibn Hizam pediu ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) uma parte dos espólios. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu-lhe algo. Ele pediu novamente, e o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) voltou a dar-lhe. Assim, naquele dia, ele recebeu sozinho cem camelos. Naquela época, era recém-convertido ao Islam. (Sīrat Ibn Hisham, 2493).

Então, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhe:

“Ó Hákim, esta riqueza é muito doce e muito atraente. Quando uma pessoa a recebe com satisfação, ela é abençoada para ela. Mas, quando a recebe com avidez, não há bênção nela. É como aquele que come, mas não se sacia. A mão que está por cima é melhor do que a mão que está por baixo; isto é, a mão que dá é melhor do que a mão que recebe.”

Ao ouvir essas palavras da boca do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hákim disse: “Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), juro por Aquele que o enviou com a verdade: depois de hoje, enquanto eu viver, nunca pedirei nada a ninguém, nem aceitarei coisa alguma de ninguém.” Hákim cumpriu rigorosamente seu juramento.

Durante o califado de Abu Bakr, o califa chamou Hákim várias vezes para que recebesse sua provisão do Bayt al-Mal. Hákim recusou repetidamente. Então Umar tornou-se califa. Ele também continuou chamando Hákim para que recebesse sua parte. Por fim, Umar, tendo o povo como testemunha, disse: “Ó comunidade muçulmana! Ficai sabendo que chamei Hákim para que recebesse sua parte, mas ele continua recusando.” Assim, Hákim não estendeu a mão a ninguém nem aceitou coisa alguma de ninguém até morrer. Umar costumava dizer: “Ó Allah, tomo-Te como testemunha de que chamei Hákim para que recebesse sua parte, mas ele recusou.” (Hayatus Sahabah, 2/250–251).

Certa vez, Hákim ibn Hizam foi ao Iêmen quando ainda era politeísta, isto é, pagão. De lá, comprou uma capa do rei do Iêmen, Dhu Yazan, e, ao chegar a Medina, ofereceu-a de presente ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Porém, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recusou-a, dizendo: “Não aceito presente algum de um politeísta.” Quando Hákim vendeu a capa, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comprou-a e entrou na mesquita vestindo-a. Hákim disse: “Nunca vi ninguém tão belo quanto ele com essa roupa. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) parecia a lua cheia no plenilúnio.” Naquele momento, involuntariamente, um poema em louvor ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu de seus lábios. (Hayatus Sahabah, 2/243–244).

Certa vez, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) enviou Hakim ao mercado com um dinar para comprar um cabrito para o sacrifício. No mercado, ele comprou um cabrito por um dinar e depois o vendeu por dois dinares. Em seguida, comprou outro cabrito por um dinar e apresentou-se diante do Mensageiro de Allah (s.a.w.) com o cabrito e o outro dinar. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) suplicou por bênçãos no seu sustento e ordenou-lhe que desse o dinar do lucro em caridade. (Hayatus Sahaba, 3/345)

Há divergências quanto ao ano da morte de Hakim. O Imam Bukhari mencionou em seu Tarikh que ele faleceu no ano 60 da Hégira, aos cento e vinte anos de idade. Contudo, segundo Urwa, ele morreu no décimo ano do califado do califa Muawiya (r.a.).

Nawfal ibn Harith (r.a.)

Seu nome era Nawfal e sua kunya, ou alcunha, era Abu Harith. Seu pai era Harith ibn Abd al-Muttalib e sua mãe, Ghaziya. Era descendente do ramo Haxemita da tribo dos coraixitas. Era primo paterno do Mensageiro de Allah (s.a.w.).

Assim que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) iniciou seu trabalho de pregação, até mesmo seus parentes mais próximos se tornaram seus inimigos e empenharam-se firmemente em sua oposição. Contudo, o amor por seu irmão sempre esteve presente no coração de Nawfal. Por isso, mesmo enquanto permanecia pagão, ele não conseguia aceitar de coração a oposição ao Mensageiro de Allah (s.a.w.). Sob a pressão dos politeístas de Meca, foi obrigado a ir a Badr para lutar contra os muçulmanos. Mas, naquela ocasião, estes versos eram repetidos continuamente por seus lábios:

“Para mim, é proibido lutar contra Ahmad; considero Ahmad meu parente mais próximo.”

Quando o exército pagão de Meca foi derrotado em Badr, ele também foi capturado junto com os demais. Aceitou o Islã enquanto estava cativo. Quando o Mensageiro de Allah (s.a.w.) lhe disse: “Nawfal, liberte-se pagando o fidya, ou resgate”, Nawfal respondeu: “Não tenho condições de pagar o resgate.” Então Nawfal exclamou: “Juro por Allah! Ninguém, exceto o Deus Único, sabe dos projéteis guardados em Judda. Testemunho que você é o Mensageiro de Allah.” Ele tinha mil flechas em Judda. Entretanto, segundo outra opinião, ele aceitou o Islã no ano da Batalha da Trincheira e partiu para Medina. (Nota: Sirat Ibn Hisham, 2/3; Al-Isaba, 3/577.)

Nawfal era um bom poeta. Expressou em muitos poemas seus sentimentos após aceitar o Islã. Alguns de seus versos são os seguintes:

‘Afastem-se, afastem-se; já não sou dos seus.

Não tenho nenhuma relação com a religião dos líderes dos coraixitas.

Testemunhei que Maomé é certamente um profeta.

Ele veio de seu Senhor trazendo orientação e conhecimento divino.

Ele é o Mensageiro de Allah — convoca à taqwa,

O Mensageiro de Allah não é poeta algum.

Viverei com esta convicção.

E no túmulo também repousarei sobre esta convicção.

E no Dia da Ressurreição, levantar-me-ei novamente com esta crença.”

Às vésperas da Batalha da Trincheira ou da conquista de Meca, ele partiu novamente rumo a Medina na companhia de Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). Ao chegar a Abwa, Rabi‘a ibn al-Harith ibn Abd al-Muttalib manifestou o desejo de voltar a Meca. Nawfal disse-lhe: “Para onde voltarás, àquela terra pagã, cujos habitantes lutam contra o Mensageiro de Allah e o rejeitam? Agora Allah honrou o Seu Mensageiro, e o número de seus companheiros também aumentou. Vem conosco.” Em seguida, a caravana migrou e chegou a Medina.

Nawfal e Abbas já mantinham uma relação íntima antes mesmo de aceitarem o Islã. Por isso, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estabeleceu entre os dois um vínculo de fraternidade religiosa e também lhes destinou duas casas para morarem. Uma delas ficava no local chamado ‘Rahbat al-Qada’, adjacente à Mesquita do Profeta, e a outra ficava no mercado, na estrada de ‘Saniyyat al-Wida’.

Depois de chegar a Medina, participou pela primeira vez da conquista de Meca. Tomou parte em várias expedições, incluindo as de Taife e Hunayn, demonstrando especial competência e bravura. Sobretudo em Hunayn, mostrou extrema coragem. Mesmo quando o exército muçulmano se dispersou e chegou à beira da derrota, permaneceu firme como uma montanha diante do inimigo. Nessa batalha, prestou grande auxílio ao exército muçulmano. Às vésperas da partida, entregou três mil lanças às mãos do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O Mensageiro comentou: “É como se eu estivesse vendo as tuas flechas atravessarem as costas dos idólatras.” (Nota: Sira de Ibn Hisham, 2/3).

Hazrat Nawfal faleceu em Medina no ano 15 da Hégira, e o califa Hazrat Umar dirigiu a oração fúnebre por ele. Foi sepultado no cemitério de Baqi, em Medina.

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntava sempre por Nawfal e casou-o com uma mulher de Medina. Naquela época, não havia alimento em sua casa. O Mensageiro de Allah enviou sua própria armadura a um judeu, pelas mãos de Abu Rafi e Abu Ayyub. Eles deixaram a armadura penhorada com esse judeu e, com o dinheiro recebido em troca, compraram trinta sa‘ de cevada, que levaram ao Mensageiro de Allah. Ele doou-a a Nawfal.

Abu Rafi (que Allah esteja satisfeito com ele)

Há muita divergência quanto ao nome verdadeiro de Hazrat Abu Rafi (que Allah esteja satisfeito com ele). Entre os nomes mencionados estão: Ibrahim, Aslam, Sinan, Yasar, Salih, Abd al-Rahman, Karman, Yazid, Thabit e Hurmuz, entre outros. Dentre eles, o nome Aslam é o mais famoso. (Al-Isaba, 4/67.) Abu Rafi é sua kunya, ou alcunha. Quanto à nobreza de sua linhagem, basta dizer que ele teve a fortuna de servir Hazrat, o Nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O Mensageiro de Allah acolheu-o em sua própria família. Não poderia haver honra familiar maior para qualquer pessoa. Na realidade, ele era um escravo abissínio.

Hazrat Abu Rafi foi inicialmente escravo de Hazrat Abbas. Ele o presenteou ao Mensageiro de Deus. Mais tarde, por ocasião da alegria de Hazrat Abbas ao aceitar o Islã, o nobre Mensageiro de Deus libertou Abu Rafi.

Sobre sua conversão ao Islã, foi dito que ele estava entre aqueles que foram atraídos ao Islã ao verem o brilho do rosto sagrado do nobre Mensageiro de Deus. A esse respeito, o próprio Abu Rafi relata: certa vez, os coraixitas enviaram-me ao Mensageiro de Deus para tratar de um assunto. Assim que vi o Mensageiro de Deus, meu coração inclinou-se ao Islã. Eu lhe disse: “Ó Mensageiro de Deus, não voltarei mais.” Ele respondeu: “Não retenho um mensageiro ou emissário, nem quebro uma promessa. Agora, volte. Se, depois de alguns dias, o entusiasmo pelo Islã ainda permanecer em seu coração, então venha.” Naquela ocasião, ele voltou; depois de alguns dias, retornou novamente e aceitou o Islã.

Por medo do poder opressor dos coraixitas, Hazrat Abu Rafi manteve em segredo sua conversão ao Islã até a batalha de Badr. Certo dia, logo após o término da batalha de Badr, ele estava sentado numa sala junto ao poço de Zamzam, ao lado da Caaba, fabricando flechas. A esposa de Hazrat Abbas estava sentada ao seu lado. Nesse momento, o miserável Abu Lahab chegou e sentou-se ali. Abu Lahab começou a perguntar-lhe sobre a situação da batalha de Badr. Vale mencionar que Abu Lahab não participou pessoalmente da batalha de Badr; em vez disso, enviou As ibn Hisham como seu representante. Respondendo às perguntas de Abu Lahab, Abu Sufyan disse: “O que você está perguntando? Os muçulmanos destruíram completamente todas as nossas forças, mataram muitos e fizeram muitos prisioneiros.” Conta-se, a esse respeito, uma história extraordinária: o espaço entre a terra e o céu estava repleto de cavaleiros vestidos de branco e preto. Ao ouvir isso, Abu Rafi exclamou subitamente: “Eles são anjos!” E então, sem mais demora, Abu Sufyan desferiu um violento tapa no rosto de Abu Rafi. Abu Rafi recuperou-se do golpe e enfrentou-o, mas era fraco. Abu Lahab derrubou-o ao chão, sentou-se sobre seu peito e espancou-o brutalmente. A esposa de Hazrat Abbas não conseguiu suportar aquela violência. Pegou uma estaca e atingiu com força a cabeça do desumano Abu Lahab. A cabeça do pecador Abu Lahab foi ferida. Então a esposa de Hazrat Abbas começou a dizer: “Vocês o espancam, julgando-o fraco, aproveitando-se da ausência do senhor de Abu Rafi?” Uma semana depois desse incidente, Abu Lahab morreu de uma doença chamada “adasi” (varíola). (Hayatus-Sahaba, 3/530–531).

At-Tabarani relata, citando Ibn Abbas: “No quinto ano após a Hégira, encontramo-nos com o Mensageiro de Deus. Era o período da batalha dos Ahzab. Eu estava com meu irmão Fadl ibn Abbas. Nosso escravo Abu Rafi também estava conosco. Ao chegarmos a Medina, encontramos o Mensageiro de Deus na trincheira.” Esse relato indica que Abu Rafi migrou de Meca para Medina no quinto ano da Hégira. (Hayatus-Sahaba, 1/373).

Entretanto, Ibn Hisham cita um relato de Hazrat Aisha. Hazrat Aisha disse: “Algum tempo depois de o Mensageiro de Deus ter migrado para Medina e de se estabelecer um pouco, ele enviou Zayd ibn Haritha e Abu Rafi de Medina a Meca para nos buscar.” (Sira de Ibn Hisham).

Esse relato indica que Abu Rafi chegou a Medina antes do quinto ano da Hégira. Em Medina, passou a residir com o nobre Mensageiro de Deus.

Sobre a batalha de Badr, Abu Rafi relata o seguinte: “Fomos a Khaybar sob o comando de Ali. O Mensageiro de Deus entregou sua bandeira a Ali e enviou-o a Khaybar. Quando nos aproximamos da fortaleza, seus habitantes saíram e começaram a lutar contra nós. Ali arrancou uma das portas da fortaleza e usou-a como escudo. Ela permaneceu em sua mão até o fim da batalha. Depois, ele a deixou cair. Nós oito tentamos com todas as nossas forças, mas não conseguimos virá-la.” (Hayatus-Sahaba, 1/546).

No sétimo ano da Hégira, o Mensageiro de Deus foi a Meca, conforme os termos do tratado de Hudaybiyyah, e realizou a Umrat al-Qada. Abu Rafi também o acompanhou nessa viagem. Durante sua permanência em Meca, realizou-se o abençoado casamento do Mensageiro de Deus com Hazrat Maymunah. Quando terminou o período de permanência em Meca, o nobre Mensageiro de Deus deixou Abu Rafi em Meca e partiu para Sarif. Mais tarde, Abu Rafi levou Hazrat Maymunah a Sarif e ali foram concluídos os ritos matrimoniais. Depois, todos retornaram a Medina. (Sira de Ibn Hisham, 2/372).

Abu Rafi também estava entre os integrantes do exército que o Nobre Mensageiro de Allah enviou ao Iêmen sob o comando de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Durante sua ausência, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) nomeou Abu Rafi comandante do exército.

Abu Rafi é um exemplo brilhante da oportunidade de progresso que o Islã proporcionou aos escravos, isto é, às pessoas das classes mais vulneráveis. Ele era escravo, mas, em dignidade e capacidade, era igual aos homens livres. Nas obras de hadith encontram-se 68 hadiths narrados por ele. Desses, um foi narrado exclusivamente pelo Imam Bukhari e três, exclusivamente pelo Imam Muslim.

Mesmo depois de ser libertado da escravidão, ele não abriu mão da honra de servir ao Nobre Mensageiro de Allah. Por isso, conhecia muitos detalhes das atividades e dos hábitos diários do Mensageiro de Allah. Os ilustres Companheiros costumavam procurá-lo para obter informações sobre esse assunto. Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) ia até ele acompanhado de um secretário e perguntava: “O que o Mensageiro de Allah fazia em tal e tal dia?” Abu Rafi respondia, e o secretário anotava. (Al-Isabah, 4/92).

Embora o Mensageiro de Allah o tivesse libertado, ele próprio continuou dedicado ao serviço do Mensageiro de Allah. Quando o Mensageiro de Allah o libertou, lágrimas começaram a escorrer dos dois olhos de Abu Rafi. As pessoas lhe disseram: “Você está sendo libertado da escravidão; por que chora?” Ele respondeu: “Hoje uma recompensa está escapando das minhas mãos.” A partir de então, embora estivesse legalmente livre, ele se apegou firmemente à honra de servir ao Mensageiro de Allah. Durante as viagens, era ele quem montava a tenda do Mensageiro de Allah. A relação de servidão que mantinha com o Mensageiro de Allah era tão doce e querida para ele que, até o fim da vida, apresentava-se como servo ou escravo do Mensageiro de Allah.

O Nobre Mensageiro de Allah casou um Companheiro, Nawfal ibn al-Harith, com uma mulher. Depois do casamento, pediu-lhe algo para comer, mas ele não tinha nada. Então o Mensageiro de Allah entregou sua própria armadura a Abu Rafi e Abu Ayyub e os enviou para vendê-la. Eles penhoraram a armadura a um judeu, obtiveram trinta sa‘ de cevada e chegaram com ela até o Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah entregou a cevada a Nawfal. Nawfal disse: “Comemos aquela cevada durante meio ano. Depois, ao pesá-la, vimos que não havia diminuído nada; continuava exatamente como antes.” Quando contou isso ao Mensageiro de Allah, ele comentou: “Se não a tivésseis pesado, poderíeis ter comido dela durante toda a vida.” (Hayat as-Sahabah, 3/630).

Em certa fase de sua vida, Hazrat Abu Rafi passou por extrema necessidade e dificuldades financeiras. Chegou até a pedir e aceitar sadaqah e ajuda das pessoas. Contudo, nunca aceitou mais do que precisava. O Mensageiro de Allah havia feito uma profecia sobre essa fase de sua vida. Abu Rafi contou que, certo dia, o Mensageiro de Allah lhe perguntou: “Ó Abu Rafi, como será quando você ficar pobre?” Abu Rafi respondeu: “Nesse estado, aceitarei sadaqah?” O Mensageiro de Allah disse: “Sim.” Ele perguntou: “Quando virá a minha pobreza?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Depois da minha morte.” O narrador Abu Sulaym disse: “Eu o vi em estado de pobreza. Sentado à beira da estrada, ele dizia: ‘Quem deseja dar sadaqah a um velho cego? Quem deseja dar uma esmola àquele sobre quem o Mensageiro de Allah disse que futuramente ficaria pobre?’ Ele também disse: ‘Não é permitido ao rico aceitar sadaqah, nem ao saudável.’ Abu Sulaym disse: “Vi um homem dar quatro dirhams a Abu Rafi, mas ele devolveu um dirham. O homem disse: ‘Abdullah, não devolva a minha doação.’ Abu Rafi respondeu: ‘O Mensageiro de Allah me proibiu de acumular riqueza excedente.’ Abu Sulaym acrescentou: ‘Por fim, vi Abu Rafi como um homem rico e o ouvi dizer: “Que pena! Se ao menos Abu Rafi tivesse morrido pobre!”’ (Hayat as-Sahabah, 2253–54). Segundo al-Waqidi, ele faleceu em Medina durante o califado de Hazrat Ali. (Al-Isabah, 4/67).

Ubaydah ibn al-Harith (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Ubaydah; sua kunya, Abu al-Harith ou Abu Muawiyah. Seu pai era al-Harith e sua mãe, Sukhaylah. Seu avô era Abd al-Muttalib ibn Abd Manaf. Era descendente da tribo dos coraixitas.

Ubaidah ibn al-Harith, Abu Salama ibn Abd al-Asad, al-Arqam ibn Abi al-Arqam e Uthman ibn Maz’un abraçaram a fé juntos, respondendo ao convite de Abu Bakr. Naquela época, o Honorável Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, ainda não havia se refugiado na casa de al-Arqam ibn Abi al-Arqam. Quando o Honorável Ubaidah aceitou o Islã, era um dos líderes dos Banu Abd Manaf. Em Meca, tomou Bilal como seu irmão na religião.

Foi dada a ordem para emigrar para Medina. O Honorável Ubaidah partiu para Medina acompanhado de seus dois irmãos, Tufail e Husain, e de Mistah ibn Uthasah. No caminho, Mistah ficou completamente incapaz de caminhar. Ao saberem disso, os integrantes da caravana que ia à frente voltaram, carregaram-no e levaram-no para Medina. Em Medina, o Honorável Abd al-Rahman al-Ajlani os recebeu e lhes ofereceu hospitalidade com extremo cuidado. Logo após a chegada do Honorável Mensageiro de Deus a Medina, estabeleceu-se uma relação de fraternidade entre ele e o Honorável Umair ibn Humam al-Ansari. O Mensageiro de Deus também lhe concedeu um pedaço de terra para que vivesse separadamente. Toda a sua família se estabeleceu ali.

O Mensageiro de Deus enviou-o, oito meses após a Hégira, à frente de um grupo de sessenta emigrantes, em direção a Rabigh, para observar os movimentos dos politeístas de Meca. Na história do Islã, esta foi a segunda expedição. O Mensageiro de Deus entregou a bandeira desse exército a Ubaidah. Quando chegaram perto de Rabigh, tiveram um breve confronto com uma força de duzentos politeístas, liderada por Abu Sufyan. O incidente não evoluiu para uma batalha nem para derramamento de sangue, limitando-se à troca de algumas flechas e lanças.

Depois desse acontecimento, ele participou da batalha de Badr, o primeiro confronto entre a verdade e a falsidade. Depois que os combatentes formaram suas fileiras, Utbah, Shaibah e Walid saíram do lado dos politeístas e começaram a gritar: “Há alguém que possa lutar conosco?” Alguns jovens ansaritas avançaram do exército islâmico. Então eles gritaram: “Muhammad, não podemos lutar com pessoas que não são nossos pares. Envia-nos adversários à nossa altura.” O Mensageiro de Deus ordenou a Ali, Hamzah e Ubaidah que avançassem. Eles já aguardavam essa ordem. Assim que a receberam, os três heróis foram até os três adversários, brandindo suas respectivas lanças. Ubaidah e Walid lutaram durante longo tempo. Ambos ficaram gravemente feridos. Ali e Hamzah, porém, haviam derrubado seus adversários. Juntos, lançaram-se sobre Walid, mataram-no e trouxeram o Honorável Ubaidah para fora do campo de batalha, ferido.

Uma das pernas do Honorável Ubaidah foi decepada abaixo do joelho. Ele ficou coberto de sangue da cabeça aos pés. Para consolá-lo, o Mensageiro de Deus apoiou a própria cabeça sobre o joelho dele. Nessa condição, Ubaidah disse: “Ó Mensageiro de Deus, se Abu Talib estivesse vivo neste momento e visse o meu estado, certamente reconheceria que eu sou mais digno do que qualquer outro de dizer estas palavras.” Então recitou este verso de um poema de Abu Talib: “Protegeremos Muhammad, mesmo que acabemos mortos ao seu redor, esquecendo nossos filhos e nossas esposas.” (Sira de Ibn Hisham, 2)

Depois do fim da batalha, o Mensageiro de Deus partiu em direção a Medina levando-o consigo. Ele estava gravemente ferido. No caminho, faleceu aos 63 anos, num lugar chamado Safra. Foi sepultado na areia de Safra.

Ele gozava de uma posição elevada junto ao Honorável Mensageiro de Deus. O Mensageiro de Deus demonstrava-lhe grande respeito. Certa vez, em Safra, o Mensageiro de Deus montou uma tenda junto ao seu túmulo. Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Deus, vem daqui um aroma de almíscar.” Ele respondeu: “Aqui estava o túmulo de Abu Muawiya. Então, por que se admirar?”

Com a morte do Honorável Ubaidah, muitos poetas, entre eles Hind bint Uthasah e Ka’b, compuseram elegias. (Sira de Ibn Hisham, 2/24, 25, 41).

Ukasha ibn Mihsan (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Ukasha ou Ukkasha, e sua kunya, ou nome pelo qual era conhecido, era Abu Mihsan. Seu pai era Mihsan ibn Hursan. Na época da ignorância, era aliado, por meio de um pacto, dos Banu Abd Shams. Aceitou o Islã antes da Hégira e, juntamente com outros, deixou Meca e foi para Medina. (Usd al-Ghaba, 4/2).

Ganhou grande fama por sua bravura na batalha de Badr. Nessa batalha, a espada que tinha nas mãos se partiu em pedaços. O Mensageiro de Allah lhe deu uma vara de tamareira, e foi com ela que ele atacou os inimigos como se fosse uma faca afiada. Lutou com essa vara até o fim da batalha. (Al-Isti’ab) Ibn Sa’d relata, com base em Zayd ibn Aslam e outros: no dia de Badr, a espada de Ukasha ibn Mihsan se partiu. O Mensageiro de Allah lhe deu um bastão de madeira, que se transformou, em sua mão, numa espada afiada de ferro sólido e brilhante. (Hayat as-Sahaba, 3/658).

Ele participou de todas as batalhas célebres, incluindo Uhud e a Batalha da Trincheira, demonstrando extrema bravura e coragem. No mês de Rabi al-Awwal do sétimo ano da Hégira, foi encarregado de exterminar os Banu Asad. Esse povoado dos Banu Asad ficava ao redor do poço de Ghamar, no caminho para Medina. Ele foi rapidamente até lá à frente de uma força de quarenta homens. Porém, por medo, os Banu Asad haviam abandonado o local antecipadamente e fugido para outro lugar. Como não encontrou ninguém, Ukasha conduziu para Medina os duzentos camelos e algumas cabras e ovelhas que eles haviam deixado para trás.

No ano 12 da Hégira, o primeiro califa, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), ordenou a Khalid ibn al-Walid (que Allah esteja satisfeito com ele) que eliminasse a rebelião do falso profeta Tulayha al-Asadi. Ukasha e Thabit ibn Arqam eram dois soldados da vanguarda do exército de Khalid. Eles avançavam à frente do exército. De repente, entraram em confronto com soldados inimigos. Entre esses soldados estavam o próprio Tulayha e seu irmão Salama. Tulayha atacou Ukasha, enquanto Salama se lançou contra Thabit. Thabit alcançou o martírio. Nesse momento, Tulayha gritou: “Salama, venha depressa me ajudar! Ele está me matando!” Salama já havia terminado sua tarefa. Então avançou para ajudar Tulayha, e os dois irmãos atacaram Ukasha juntos, derrubando-o. Assim, Ukasha tornou-se mártir.

Ao chegar aos corpos desses dois mártires, o exército islâmico ficou profundamente entristecido. O corpo de Ukasha apresentava marcas de ferimentos graves. Todo o seu corpo estava dilacerado por feridas. O comandante do exército, Khalid, desceu do cavalo e ordenou que a marcha fosse interrompida. Em seguida, sepultou os dois mártires com as próprias roupas ensanguentadas, enterrando-os na areia daquele deserto.

Em termos de dignidade e virtudes, ele estava entre os companheiros mais proeminentes.

(Usd al-Ghaba, 4/3)

Certa vez, o nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Setenta mil pessoas entrarão no Paraíso sem prestar contas.” Ukasha perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, eu estarei entre elas?” Ele respondeu: “Tu também estarás entre elas.” Então, um segundo homem perguntou sobre si mesmo. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ukasha passou à tua frente.” Depois desse acontecimento, essa frase do Mensageiro de Allah tornou-se um provérbio. Quando alguém supera outra pessoa em alguma questão, diz-se: “Fulano avançou como Ukasha.”

Shammas ibn Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Shammas, o nome de seu pai era Uthman e o de sua mãe, Safiyyah. Era descendente do ramo Banu Makhzum da tribo dos coraixitas. Foi narrado por Hisham al-Kalbi que seu nome verdadeiro era Uthman. A razão de ter recebido o nome Shammas foi a seguinte: certa vez, na época da jahiliyyah, um cristão extraordinariamente belo chegou a Meca. Parecia que raios de sol emanavam de seu rosto. Ao verem sua beleza extraordinária, as pessoas ficaram tomadas de espanto.

Naquela ocasião, seu tio materno, Utbah ibn Rabi‘ah, alegou que conhecia alguém de quem emanavam ainda mais raios de sol. E, para a disputa, apresentou o honorável Shammas. A partir daquele dia, Uthman passou a ser chamado Shammas. Shammas significa “aquele que irradia excessivos raios de sol”. (Usud al-Ghabah, 3/375.) Al-Zubayr ibn Bakkar disse: “Ele era um dos homens mais belos de Meca.” (Al-Isabah, 1/155.)

O honorável Shammas e sua mãe, a honorável Safiyyah bint Rabi‘ah, aceitaram o Islam ao responderem ao convite do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ainda no período inicial.

Incapaz de suportar as perseguições dos politeístas, ele emigrou para a Abissínia. Levou consigo sua mãe, Safiyyah. De lá, retornou a Meca e depois emigrou novamente para Medina. Em Medina, hospedou-se com o honorável Mubashshir ibn al-Mundhir. Foi estabelecida uma relação de fraternidade, ou mu’akhah, com o honorável Hanzalah ibn Abi Amir al-Ansari.

Nas batalhas de Badr e Uhud, o honorável Shammas lutou heroicamente, arriscando a própria vida. Na batalha de Uhud, quando de repente a vitória dos muçulmanos se transformou em derrota e todos, exceto um pequeno grupo de mujahidin dispostos a sacrificar a vida, abandonaram o campo de batalha, Shammas foi um dos poucos que, naquele momento extremo, permaneceram ao lado do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, repelindo os ataques dos descrentes. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, costumava dizer: “Não encontro outra comparação para Shammas senão um escudo.” Naquele dia, para onde quer que o Mensageiro de Allah olhasse, à direita ou à esquerda, via apenas Shammas. Ele transformou-se naquele dia no escudo do Mensageiro de Allah. Todo o seu corpo ficou coberto de ferimentos. Ao fim da batalha, verificou-se que ainda havia nele algum vestígio de vida. Nessa condição, foi levado para Medina. A honorável Umm Salamah recebeu a responsabilidade de cuidar dele. Mas ele já se encontrava na fase final de sua vida. No dia seguinte, deu seu último suspiro. O nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou que ele fosse enterrado com suas roupas ensanguentadas, sem a oração fúnebre, no cemitério dos mártires de Uhud. Ele foi levado novamente a Uhud e enterrado ali. Contudo, o historiador al-Waqidi afirma que ele foi enterrado no cemitério de al-Baqi, em Medina. Além dele, nenhum outro mártir de Uhud foi sepultado no cemitério de al-Baqi. (Al-Isabah, 2/155.)

O honorável Hassan, que Allah esteja satisfeito com ele, compôs uma elegia por sua morte. No momento de sua morte, ele tinha apenas trinta e quatro anos.

Shuja ibn Wahab (que Allah esteja satisfeito com ele):

Seu nome era Shuja, sua kunya era Abu Wahab e seu pai chamava-se Wahab. Na era da ignorância, sua família era aliada do clã Banu Abd Shࢮams, ou seja, estava vinculada a ele por um pacto. (Usud al-Gabah, 2/386).

Shuja foi um dos que aceitaram o Islã no período inicial. Obrigado a emigrar para a Abissínia devido às perseguições dos politeístas de Meca, foi para lá com o segundo grupo de emigrantes. (Al-Isabah, 3/138).

Enquanto permaneciam na Abissínia, espalhou-se ali o rumor de que todos os habitantes de Meca haviam aceitado obedecer ao Mensageiro de Allah. Então, como aconteceu com muitos outros, o amor por sua terra natal também o atraiu de volta a Meca. Ao chegar, descobriu que a notícia era completamente falsa. Depois de permanecer algum tempo em Meca, emigrou em segurança para Medina. Ali, estabeleceu-se entre ele e Hazrat Aws uma relação de fraternidade na fé.

Ele participou de todas as batalhas famosas, incluindo Badr e Uhud. No mês de Rabi al-Awwal do oitavo ano da Hégira, recebeu a missão de eliminar um grupo dos Banu Hawazin. Esse grupo dos Banu Hawazin havia montado acampamento num lugar chamado Rassi, a cinco dias de distância de Medina. Hazrat Shuja partiu com vinte e quatro mujahidin corajosos; durante o dia, avançavam furtivamente, e à noite, viajavam abertamente e com altivez, até que um dia chegaram subitamente ao local. Depois de derrotar as forças inimigas, capturaram e levaram para Medina um grande número de camelos, ovelhas e cabras. A quantidade dos espólios pode ser estimada pelo fato de que, além dos demais bens, couberam quinze camelos na parte de cada mujahid.

Após retornar de Hudaybiyyah, o Mensageiro de Allah enviou mensageiros, levando cartas, à maioria dos reis e governantes do mundo daquela época. O Mensageiro de Allah enviou Shuja, com uma carta, a Harith ibn Abi Shिमr al-Ghassani ou, segundo outra versão, a Mundhir ibn Harith ibn Abi Shimr al-Ghassani. (Hayat al-Sahabah, 1/127)

Esse Harith era o governante da região de Ghuta, próxima de Damasco. Os primeiros trechos da carta que o Mensageiro de Allah lhe escreveu são os seguintes: “Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador. De Muhammad, o Mensageiro de Allah, para Harith ibn Abi Shimr. A paz esteja sobre aqueles que seguem a orientação, creem e reconhecem a verdade. Convido-vos a crer em Allah, que é Único e não tem parceiro algum. Nesse caso, vosso reino permanecerá.”

Harith rejeitou esse convite. Contudo, seu ministro, ‘Muray’, aceitou o Islã e, secretamente, por intermédio de Hazrat Shuja, enviou suas saudações ao serviço do Mensageiro de Allah.

Segundo um hadith narrado pelo Imam Zuhri, Shuja ibn Wahab era o mensageiro enviado pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) à corte do Kisra da Pérsia. Foi ele quem entregou a carta do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ao Kisra. (Hayatus Sahabah, 1/136)

Durante o califado do primeiro califa, Hazrat Abu Bakr, Hazrat Shuja alcançou o martírio no campo de batalha de Yamama, na guerra travada contra o falso profeta Musaylima al-Kadhdhab. (Al-Isabah, 2/138.) Quando morreu, tinha pouco mais de quarenta anos.

Mihráz ibn Nadla, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Mihráz e sua kunya, ou apelido, era Abu Fadlah. Contudo, era sobretudo conhecido pelo título de Akhram al-Asadi.

Não se sabe com exatidão quando ou como ele aceitou o Islam. Contudo, os especialistas em sirah têm certeza de que ele aceitou o Islam ainda no período inicial. Depois de emigrar de Meca para Medina, estabeleceu uma aliança com a tribo de Abd al-Ashhal, e foi estabelecida uma relação de fraternidade, ou mu’akhah, entre ele e Hazrat Ammar ibn Hazam, que Allah esteja satisfeito com ele.

Musa ibn Uqbah, Ibn Ishaq e outros o mencionaram na lista dos Companheiros de Badr.

Waqidi narrou, com base em Ayyub ibn Nu’man. Ele disse: Em Badr, Abu Aziz ibn Umayr, irmão de Mus’ab ibn Umayr, foi capturado. Ele foi colocado sob a custódia de Mihráz ibn Nadla. Mus’ab disse a Mihráz: “Amarre as mãos dele um pouco mais apertadas. Ele tem uma mãe rica em Meca.” Abu Aziz disse: “Irmão, você recebeu tal ordem contra mim?” Mus’ab respondeu: “Em seu lugar, Mihráz é meu irmão.” Para libertar Abu Aziz, sua mãe enviou quatro mil dirhams. (Hayatus Sahabah, 2/315).

Ele também lutou bravamente, arriscando a própria vida, nas batalhas de Uhud e da Trincheira. A última e mais notável batalha de sua vida foi a batalha de Dhu Qarad. No sexto ano da Hégira, os Banu Fazara atacaram um pasto nos arredores de Medina, mataram os pastores e roubaram os camelos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Hazrat Salama ibn al-Akwa estava nas proximidades do local. Ele enviou a Medina Rabah, servo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ou, segundo outra versão, um servo de Abd al-Rahman ibn Awf, para dar a notícia. Enquanto isso, ele próprio subiu ao topo de uma montanha e gritou “Ya Sabahah” (um brado de alerta diante do perigo) com tanta força que sua voz se espalhou de uma extremidade à outra de Medina. Durante bastante tempo, enfrentou sozinho aquele bando de salteadores com flechas e pedras. Nesse intervalo, viu-se, por entre as árvores, o exército do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aproximando-se a toda velocidade. À frente desse exército estava Hazrat Mihráz ibn Nadla. Atrás dele estavam Hazrat Abu Qatadah al-Ansari e Miqdad ibn al-Aswad, que Allah esteja satisfeito com eles. Hazrat Salama ibn al-Akwa segurou as rédeas do cavalo de Hazrat Akhram, ou Mihráz, e disse: “Akhram, não avances. Temo que os salteadores te cerquem e não te deixem juntar-te ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e aos seus Companheiros.” Ele respondeu: “Salama, se crês em Allah e no Dia do Juízo, e se sabes que o Paraíso e o Inferno são verdadeiros, então não te tornes um obstáculo no caminho do meu martírio.” Ele pronunciou essas palavras com tanta emoção que Hazrat Salama, que Allah esteja satisfeito com ele, soltou as rédeas do cavalo. Mihráz lançou-se a galope, posicionou-se diante de Abd al-Rahman ibn Farázi e bloqueou-lhe o caminho. Desferiu contra Abd al-Rahman um golpe de espada tão poderoso que seu cavalo foi cortado em duas partes. Por sua vez, a lança arremessada por Abd al-Rahman também não errou o alvo. Hazrat Mihráz foi atingido mortalmente e caiu ao chão. Então Abd al-Rahman saltou e montou no cavalo de Mihráz. Hazrat Abu Qatadah vinha logo atrás. Imediatamente, desferiu um golpe violento contra Abd al-Rahman. Assim, Qatadah, que Allah esteja satisfeito com ele, enviou Abd al-Rahman para o Inferno e vingou o assassinato de seu amigo. Na ocasião de seu martírio, Hazrat Mihráz tinha 37 ou 38 anos.

O acontecimento mencionado acima é uma prova clara da firmeza de sua fé e de seu intenso desejo pelo martírio. Alguns dias antes de seu martírio, ele sonhou que as portas do céu haviam sido abertas para ele. Enquanto viajava pelo mundo supremo, chegou a Sidrat al-Muntahā. Ali lhe foi dito: “Este é o seu lugar de morada.”

Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) era muito versado na interpretação e no significado dos sonhos. No dia seguinte, Mihraz relatou-lhe o sonho. Ele disse: “Akram, eis a boa notícia de seu martírio.” Alguns dias depois desse acontecimento, seu sonho se concretizou durante a expedição de Dhu Qarad, e ele chegou à sua morada permanente, “Sidrat al-Muntahā”.

Shukran Salih (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Salih, e seu laqab, ou título, era “Shukran”. O nome de seu pai era Adi. Era um escravo de ascendência abissínia de Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele). Contudo, mesmo em meio à escravidão, estava destinado a exercer liderança. O Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o escolheu para seus serviços. Comprou-o de Abd al-Rahman mediante pagamento. Segundo alguns relatos, Abd al-Rahman o ofereceu como dádiva ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sem qualquer pagamento. Não se conhecem muitos detalhes de sua biografia. Tampouco há informações significativas nos livros de sira sobre quando e como ele aceitou o Islã.

Na maioria das batalhas, Shukran era encarregado de guardar os espólios de guerra e os prisioneiros. Por isso, nas batalhas, por um lado recebia uma parte dos espólios e, por outro, recebia remuneração daqueles cuja responsabilidade de cuidar dos prisioneiros ele assumia. Abu Mashar afirma que ele participou da batalha de Badr como escravo. Por essa razão, não lhe foi concedida uma parte dos espólios. No entanto, por cuidar dos prisioneiros em Badr, cada um deles lhe deu certa quantia em dinheiro. Assim, ele acabou recebendo mais do que aqueles que haviam recebido uma parte dos espólios. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou tão impressionado com sua vigilância e competência no cumprimento de suas responsabilidades na batalha de Badr que o libertou da escravidão.

Na batalha de Marrah Yasi, ele foi encarregado de reunir o dinheiro e os bens abandonados pelo exército inimigo derrotado, suas armas, cabras e demais pertences. O Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava tão satisfeito com ele que, no momento de sua morte, recomendou que se tratasse Shukran com bondade. Shukran (que Allah esteja satisfeito com ele) teve a felicidade de participar do sepultamento e dos ritos fúnebres junto com a Ahl al-Bayt, ou seja, os familiares do Mensageiro de Allah. Ibn Ishaq narra, através de Ali ibn al-Husayn, que Ali ibn Abi Talib, Fadl ibn Abbas, Qutham ibn Abbas, Shukran, o mawla do Mensageiro de Allah, e Aws ibn Khawla desceram à sepultura e colocaram o Mensageiro de Allah em seu túmulo. (Al-Isabah, 2/664).

Há divergência quanto a saber se, após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Shukran (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu em Medina ou se se estabeleceu em Basra. Isso porque ele possuía uma casa em Basra. Também não se sabe com exatidão o ano nem o local de sua morte. Na história, ele é conhecido pelo nome de Shukran, o mawla do Mensageiro de Allah — Shukran, o escravo liberto pelo Mensageiro de Allah.

Umair ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Umayr; seu pai, Abu Waqqas, e sua mãe, Hamna bint Sufyan. Era irmão consanguíneo de Sa‘d ibn Abi Waqqas, o conquistador do Irã.

O irmão mais velho de Umayr, Sa‘d ibn Abi Waqqas, abraçou o Islam logo no início. Embora ainda fosse jovem, Umayr seguiu os passos do irmão mais velho. Aos14 anos, fez a Hégira e chegou a Medina. O Mensageiro de Allah estabeleceu entre ele e ‘Amr ibn Mu‘adh, irmão mais novo de Sa‘d ibn Mu‘adh, líder da tribo de Banu Abd al-Ashhal, em Medina, um vínculo de fraternidade religiosa. Os dois tinham praticamente a mesma idade.

No segundo ano da Hégira, estavam sendo feitos os preparativos para a Batalha de Badr. O nobre Mensageiro de Allah estava selecionando os soldados. Umayr também havia comparecido à assembleia. Seu irmão, Sa‘d ibn Abi Waqqas, viu que Umayr, evitando seu olhar, andava inquieto de um lado para o outro. Então lhe perguntou: “Umayr, o que aconteceu com você?” Ele respondeu: “Irmão, também quero participar da batalha. Talvez Allah me conceda o martírio. Mas temo que o Mensageiro de Allah me mande de volta por me considerar muito jovem.”

Quando todos se apresentaram um após o outro diante do Mensageiro de Allah, o temor de Umayr tornou-se realidade. Observando sua idade, ele disse: “Volte para casa.” Ao ouvir isso, Umayr caiu em prantos. Ao ver seu choro, seu entusiasmo pelo jihad e seu intenso desejo de alcançar o martírio, o Mensageiro de Allah ficou comovido. Umayr recebeu permissão para participar da batalha. O próprio Mensageiro de Allah pendurou sua espada nele com as próprias mãos.

Umayr tinha então apenas dezesseis anos. Ele mal sabia manejar armas. Seu irmão mais velho ensinou-lhe a empunhar a espada. Impulsionado pelo intenso ardor e entusiasmo pelo martírio, ele rompeu as fileiras dos incrédulos, entrou em seu meio e lutou por bastante tempo com extrema bravura. Nessa situação, o violento golpe da espada de ‘Amr ibn ‘Abd Wudd realizou seu desejo de alcançar o martírio. Inna lillahi… raji‘un. Ele alcançou o martírio com apenas dezesseis anos. (Hayatus Sahabah, 1/599.) Na Batalha da Trincheira, ‘Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, matou o assassino ‘Amr ibn ‘Abd Wudd. (Al-Isabah, 3/70.)

Abu Sufyan ibn al-Harith, que Allah esteja satisfeito com ele

A relação entre Muhammad, o Mensageiro de Allah, e Abu Sufyan ibn al-Harith era tão profunda e forte que poucos tiveram uma relação semelhante com ele. Os dois nasceram na mesma família e na mesma época. Eram primos paternos. O pai de Abu Sufyan, al-Harith ibn Abd al-Muttalib, era o tio paterno mais velho do Mensageiro de Allah. Ele morreu na época pré-islâmica. (Nota: Sirat Ibn Hisham, 1/163.)

O Mensageiro de Allah e Abu Sufyan eram irmãos de leite. Halimah al-Sa‘diyyah amamentou os dois. Até o Mensageiro de Allah receber a missão profética, havia uma relação profunda entre eles. Havia também grande semelhança entre seus rostos. Segundo Ibn al-Mubarak, Ibrahim ibn al-Mundhir e outros, o nome de Abu Sufyan era Mughirah, e Abu Sufyan era sua kunya, ou apelido. (Al-Isabah, 4/90; Sirat Ibn Hisham, 1/647.)

Devido à relação tão profunda entre os dois em tantos aspectos, era natural que Abu Sufyan acreditasse no Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, logo no início de sua missão profética, e respondesse ao seu convite. Porém, em vez do que seria natural, aconteceu o oposto. Assim que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou a convidar as pessoas ao Islam em Meca, toda a amizade e o parentesco de Abu Sufyan transformaram-se em inveja, ódio, hostilidade e desobediência.

Quando o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou a convidar as pessoas ao Islam, Abu Sufyan era um renomado herói cavaleiro dos coraixitas e um dos seus melhores poetas. Ele empregou sua língua e suas flechas na oposição ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e ao seu convite. Reuniu todas as suas forças na hostilidade ao Islam e aos muçulmanos. Sempre que os coraixitas planejavam uma guerra contra o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Abu Sufyan alimentava esse plano. Ele teve uma grande participação em todos os tipos de sofrimento que os muçulmanos suportaram nas mãos dos coraixitas. Empregou seu talento poético para satirizar e difamar o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Chegou a compor um poema indecente contra ele. Em um verso de uma famosa qasida de Hassan ibn Thabit, que Allah esteja satisfeito com ele, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Tu difamaste Muhammad, e eu respondi; a recompensa disso está com Allah.” Na realidade, esse verso foi dirigido a Abu Sufyan. (Al-Isaba, 4/90)

Essa hostilidade de Abu Sufyan para com o nobre Mensageiro de Allah durou vinte longos anos. Durante esse período, ele fez todo tipo de conspiração possível contra os muçulmanos e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Os livros de biografia do Profeta registram um relato surpreendente sobre sua participação na Batalha de Badr. Abu Rafi narra: “Após a Batalha de Badr, eu estava sentado perto do poço de Zamzam, em Meca, fazendo flechas, quando Abu Lahab veio sentar-se ao meu lado. Por alguma razão, ele não participou de Badr e enviou outra pessoa em seu lugar. Então chegou Abu Sufyan ibn al-Harith ibn Abd al-Muttalib. Abu Lahab fez com que ele se sentasse perto e pediu-lhe que contasse detalhadamente o que havia acontecido em Badr. Abu Sufyan disse: ‘Por Allah, eles eram um grupo diante do qual havíamos entregado nossos ombros. Eles nos conduziam conforme desejavam e nos capturavam quando queriam. Por Allah, apesar de tudo isso, não censuro nosso povo, pois vimos alguns cavaleiros de uma brancura resplandecente montados em cavalos alados, brancos e negros, entre o céu e a terra. Por Allah, nada seria capaz de enfrentá-los.’ Abu Rafi exclamou imediatamente: ‘Por Allah, eles só podem ser anjos!’ Então Abu Lahab deu-lhe uma bofetada no rosto.” (Sirat Ibn Hisham, 1/646–647; Hayat al-Sahabah, 3/530)

Por fim, às vésperas da conquista de Meca, terminou a hostilidade de Abu Sufyan para com o Islam. A história de sua conversão ao Islam é narrada da seguinte maneira: Abu Sufyan disse: “Quando o Islam se fortaleceu e se espalhou a notícia de que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, avançava para conquistar Meca, comecei a ver escuridão por todos os lados. Eu dizia para mim mesmo: ‘Para onde irei agora? Com quem irei? E com quem e onde permanecerei?’”

Depois de refletir sobre tudo isso, fui até minha esposa e meus filhos e disse: “Preparem-se para sair de Meca. Aproxima-se o momento da entrada de Muhammad em Meca. Assim que os muçulmanos me encontrarem, irão me matar.”

Eles me disseram: “Você está vendo agora que árabes e não árabes, todos, reconhecem a autoridade de Muhammad e aceitam sua religião. E você ainda persiste obstinadamente em sua inimizade contra ele? No entanto, você deveria ter sido o primeiro a se apressar para ajudá-lo e apoiá-lo.” Assim, começaram a me incentivar e a me aproximar da religião de Muhammad. Finalmente, Allah, o Altíssimo, abriu as portas do meu coração.

Levantei-me imediatamente e ordenei ao meu escravo, Mazkur, que preparasse um camelo e um cavalo. Levei também meu filho Jafar. Partimos rapidamente em direção a al-Abwa, entre Meca e Medina. Eu já havia sabido que Muhammad chegara ali. Ao me aproximar de al-Abwa, disfarcei-me para que, caso alguém me reconhecesse e me encontrasse diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não me matasse antes que eu pudesse declarar o Islam. Avancei a pé desde cerca de uma milha de distância. Vi os grupos avançados dos muçulmanos dirigirem-se a Meca, um após o outro. Temendo que alguém me reconhecesse, caminhei um pouco afastado do caminho deles. De repente, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, surgiu diante dos meus olhos em meio àquela multidão. Apressei-me até ele e retirei o véu do rosto. Assim que me reconheceu, virou o rosto para o lado oposto ao meu. Dei a volta e fui novamente até ele, mas tornou a virar o rosto. Fez isso várias vezes.

Eu acreditava que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficaria extremamente feliz com a minha conversão ao Islam. Porém, quando os muçulmanos viram que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, desviava o rosto de mim, também fecharam o semblante e desviaram o rosto. Ao me ver, Abu Bakr desviou o rosto de mim com extrema severidade. Olhei, completamente impotente, para Umar ibn al-Khattab. Ele também desviou o rosto com ainda mais severidade que seu companheiro. Além disso, incitou um ansari contra mim. Esse ansari dirigiu-se a mim e disse: “Ó inimigo de Allah! Tu causaste sofrimento ao Mensageiro de Allah e aos seus companheiros!” O referido ansari repreendia-me e insultava-me em voz alta, enquanto os muçulmanos se aglomeravam ao meu redor e, sem qualquer compaixão, ouviam e apreciavam aquilo.

Foi então que vi meu tio Abbas. Aproximei-me um pouco dele e disse: “Tio, eu esperava que, devido ao meu parentesco com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e à minha posição entre o meu povo, ele ficaria feliz com a minha aceitação do Islã. Fale com o Mensageiro de Allah a meu respeito e tente fazê-lo aceitar-me.” Ele respondeu: “Depois de ver que ele virou o rosto para o lado oposto ao seu, não posso dizer sequer uma palavra ao Mensageiro de Allah a seu respeito. Contudo, se surgir alguma oportunidade, falarei. Pois, assim como respeito o Mensageiro de Allah, também o temo.”

Eu disse: “Tio, então sob a responsabilidade de quem você está me deixando?”

Ele respondeu: “Não posso fazer nada além do que você acabou de ouvir.” Meu coração encheu-se de preocupação e ansiedade. De repente, vi meu primo Ali ibn Abu Talib. Contei-lhe o que havia acontecido. Ele respondeu da mesma forma que meu tio Abbas. Então voltei ao meu tio Abbas e disse: “Tio, se você não consegue abrandar o coração do Mensageiro de Allah para comigo, pelo menos tente impedir aquele homem que me difama, me insulta e incita as pessoas contra mim.” Ele disse: “Como é esse homem? Descreva-o.” Eu o descrevi. Ele disse: “Ora, ele é Nuayman ibn al-Harith al-Najjari.” Foi até Nuayman e disse: “Escute, Nuayman! Abu Sufyan é primo do Mensageiro de Allah e meu sobrinho. Embora hoje o Mensageiro de Allah esteja descontente com ele, um dia ficará satisfeito com ele. Portanto, não o humilhe dessa maneira.” Repetiu-lhe isso várias vezes. Por fim, Nuayman concordou e disse: “A partir deste momento, não direi mais palavras duras contra ele.”

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) parou num lugar chamado Juhfa, no caminho entre Meca e Medina. Fui sentar-me à porta da tenda do Mensageiro de Allah, e meu filho Jafar ficou de pé ao meu lado. Quando o Mensageiro de Allah saiu, ao ver-me virou o rosto. Ainda assim, não perdi a esperança. Sempre que ele parava em algum lugar, eu ia com meu filho sentar-me à porta de sua tenda, e o Mensageiro de Allah continuava a agir da mesma maneira. Isso prosseguiu por algum tempo. Eu comecei a sofrer muito. O mundo tornou-se estreito para mim.

Ibn Ishaq disse: Abu Sufyan ibn al-Harith e Abdullah ibn Abi Umayya solicitaram novamente uma audiência com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), num lugar chamado Niq al-Uqab (no caminho entre Meca e Medina). A senhora Umm Salama disse a respeito deles: “Ó Mensageiro de Allah, seus dois primos, o primo paterno e o primo materno, vieram pedir para vê-lo.” O Mensageiro de Allah respondeu: “Não tenho mais necessidade deles. Meu primo paterno prejudicou minha honra, e meu primo materno disse-me em Meca tudo o que tinha para dizer.” O filho de Abu Sufyan, Jafar, também estava com ele. Quando essas palavras do Mensageiro de Allah chegaram aos seus ouvidos, Abu Sufyan disse: “Por Allah, ou ele me dará permissão para vê-lo, ou segurarei a mão deste meu filho e partirei para qualquer lugar da terra que eu desejar, onde morreremos de fome e sede.” Quando o Mensageiro de Allah ouviu isso, abrandou-se um pouco e permitiu que eles o visitassem. Os dois foram até o Mensageiro de Allah e declararam sua aceitação do Islã. (Sira de Ibn Hisham, 2/400–401).

Abu Sufyan disse: “O Mensageiro de Allah entrou em Meca, e eu entrei em Meca junto com sua caravana. Quando ele saiu para ir à mesquita, caminhei atrás dele. Não me afastei dele nem por um instante.”

Então aproximou-se o momento da expedição de Hunayn. Todos os árabes se uniram e prepararam-se para guerrear contra os muçulmanos. Dessa vez, estavam determinados a fazer algo contra o Islã e os muçulmanos. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) saiu com seu exército para enfrentá-los. Eu também parti. Ao ver o enorme exército dos incrédulos, disse no íntimo: “Por Allah, hoje compensarei toda a hostilidade que demonstrei no passado contra o Mensageiro de Allah; hoje, por meio das minhas ações, farei o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) feliz.”

Os dois exércitos se enfrentaram. Diante do intenso ataque dos incrédulos, os muçulmanos não conseguiram resistir e começaram a fugir do campo de batalha. Então vi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) firme como uma montanha no centro do campo, montado em sua mula chamada Shahba. Ele manejava a espada com enorme vigor, protegendo a si mesmo e aos companheiros ao seu redor. Naquele momento, parecia corajoso como um leão. Ao ver aquela cena, saltei do meu cavalo e corri em direção ao Mensageiro de Allah com a espada desembainhada na mão. Somente Allah sabe, mas naquele momento eu esperava morrer diante do Mensageiro de Allah. Meu tio Abbas segurou as rédeas da mula do Mensageiro de Allah e ficou de um lado, enquanto eu fiquei do outro. Segurei a montaria do Mensageiro de Allah com a mão esquerda e, com a direita, empunhei a espada e lancei um ataque feroz. Vendo aquilo, o Mensageiro de Allah perguntou ao meu tio Abbas: “Quem é este?” Meu tio respondeu: “É seu irmão, filho de seu tio: Abu Sufyan ibn al-Harith. Ó Mensageiro de Allah, fique satisfeito com ele.” O Mensageiro de Allah disse: “Estou satisfeito. Allah perdoou toda a hostilidade que ele demonstrou contra mim.”

Fiquei extasiado de alegria e beijei os pés do Mensageiro de Allah, que se voltou para mim e disse: “Meu irmão, avance e ataque.” Essas palavras do Mensageiro de Allah aumentaram minha coragem. Lancei um ataque intenso e expulsei as forças adversárias de suas posições. Os demais muçulmanos também atacaram comigo. Nós os dispersamos e os perseguimos por quase um farsakh.”

Abu Sufyan ibn al-Harith foi agraciado, no campo de batalha de Hunayn, com a satisfação e a companhia do Mensageiro de Allah. Contudo, jamais voltou a erguer os olhos para olhar diretamente para o Mensageiro de Allah. Lembrando-se de seu comportamento anterior, não ousava dirigir o olhar para o rosto abençoado do Mensageiro de Allah, tomado de vergonha e arrependimento.

Depois de aceitar o Islam, Abu Sufyan ficou atormentado pelo remorso ao refletir sobre as ações e o comportamento de sua vida passada na jahiliyyah, bem como sobre ter sido privado do Livro de Allah. Pelo resto da vida, passava os dias e as noites exclusivamente recitando o Alcorão e refletindo sobre seus mandamentos, disposições e exortações. Afastando-se de todos os prazeres e riquezas deste mundo, voltou-se inteiramente para Allah, concentrando n’Ele todos os seus membros e faculdades. Certo dia, ele estava entrando na mesquita. Ao vê-lo, o Mensageiro de Allah chamou Aisha e disse: “Aisha, conheces este homem?” Aisha respondeu: “Não, ó Mensageiro de Allah.” O Mensageiro de Allah disse: “Este é meu primo Abu Sufyan ibn al-Harith. Vê: ele entra na mesquita antes de todos e sai dela depois de todos. Seu olhar jamais se desvia dos cadarços de seus sapatos.”

Após o falecimento do Nobre Mensageiro de Allah, Abu Sufyan chorou intensamente, como uma mãe que perdeu o filho. Em uma qasida, expressou de maneira belíssima a dor de sua perda. Depois de aceitar o Islam, ele recitou para o Mensageiro de Allah uma qasida de sua própria autoria, na qual expressava seus sentimentos daquele período e pedia perdão. Quando, em um verso da qasida, disse: “Ele me mostrou o caminho da verdade, aquele que eu havia expulsado”, o Mensageiro de Allah bateu-lhe no peito e exclamou: “Foste tu que me expulsaste.” (Sirat Ibn Hisham, 2/400–401)

Durante o califado de Umar, Abu Sufyan sentiu que o fim de sua vida se aproximava. Certo dia, cavou uma sepultura com as próprias mãos. Três dias depois, partiu deste mundo. Era como se tivesse um pacto com a morte. Antes de morrer, disse à esposa, aos filhos e aos familiares: “Não choreis por mim. Por Allah, depois de aceitar o Islam, não cometi nenhum pecado.” Depois de dizer isso, deu seu último suspiro. O califa Umar conduziu sua oração fúnebre. Seu ano de morte foi o ano 15 da Hégira; segundo outra opinião, o ano 20. Hisham ibn Urwah narra, de seu pai Urwah, que o Mensageiro de Allah disse: “Abu Sufyan é o líder dos jovens habitantes do Paraíso.” (Al-Isabah, 4/90)

Buraidah ibn al-Husayb, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Buraidah, e sua kunya, ou apelido, era Abu Abdullah. O nome de seu pai era Husayb ibn Abdullah. Era o chefe da tribo de Banu Aslam. Buraidah aceitou o Islam na época da Hégira do Mensageiro de Allah. Quando o Nobre Mensageiro de Allah partiu de Meca em direção a Medina e chegou a um lugar chamado Ghamim, Buraidah apresentou-se diante do Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah apresentou-lhe o convite ao Islam, e ele o aceitou sem hesitação. Vale mencionar que Ghamim ficava a duas jornadas de Meca. Ali, outras oitenta pessoas de Banu Aslam aceitaram o Islam juntamente com ele. O Mensageiro de Allah realizou ali a oração de Isha, e Buraidah e seus companheiros fizeram a oração atrás dele. (Hayatus Sahaba, 1/3) Depois de aceitar o Islam, ele permaneceu em sua própria tribo e foi para Medina após as batalhas de Badr e Uhud. Contudo, encontram-se na história opiniões divergentes quanto à época de sua conversão e de sua chegada a Medina.

Antes do sexto ano da Hégira, ele migrou para Medina e, participando pela primeira vez do tratado de Hudaybiyyah, teve a honra de prestar o Juramento de Ridwan. No sétimo ano da Hégira, participou da expedição de Khaybar. A esse respeito, ele narra: “Sitiamos Khaybar. No primeiro dia, Abu Bakr tomou o estandarte, mas não houve vitória. No segundo dia, ocorreu o mesmo. As pessoas começavam a ficar desanimadas. Então o Mensageiro de Allah disse: ‘Amanhã entregarei o estandarte a um homem que é muito amado por Allah e por Seu Mensageiro.’ As pessoas ficaram muito felizes ao pensar que a questão seria resolvida já no dia seguinte. Na manhã seguinte, depois de realizar a oração do Fajr, o Mensageiro de Allah ordenou que trouxessem o estandarte. As pessoas estavam alinhadas. Ele chamou Ali e colocou o estandarte em suas mãos. Naquele dia, Khaybar foi conquistada pelas mãos de Ali.”

No 8º ano da Hégira, Buraidah acompanhou o Mensageiro de Allah em sua expedição a Meca e entrou na cidade carregando o estandarte de uma das tropas. (Hayatus Sahabah-1/167).

A esse respeito, ele narra que, no dia da conquista de Meca, realizou várias orações com uma única ablução.

Durante a batalha de Tabuk, o nobre Mensageiro de Allah enviou emissários a várias tribos para incentivar as pessoas de Meca e de diversas outras regiões a participarem da batalha. Nessa ocasião, enviou Buraidah à tribo de Aslam e ordenou-lhe que se apresentasse num lugar chamado Fur‘ah, situado entre Meca e Medina. (Tarikh Ibn Asakir-1/110).

Após a conquista de Meca, o nobre Mensageiro de Allah enviou uma tropa ao Iêmen sob o comando de Khalid ibn al-Walid. Buraidah também era membro dessa tropa. Mais tarde, outra tropa foi enviada para lá sob o comando de Ali, e a liderança de toda a expedição foi confiada a Ali. Ao fim da batalha, Ali tomou para si uma escrava dos espólios de guerra. Buraidah não conseguiu aceitar isso. Ao retornar a Medina, levantou o assunto diante do Mensageiro de Allah. Depois de ouvir tudo, o Mensageiro de Allah disse: “Buraidah, sentes alguma aversão por Ali?” Buraidah negou. Então o nobre Mensageiro disse: “Não guardes nenhum rancor contra Ali. Ele recebe dos quatro quintos dos espólios mais do que isso.” (Sahih al-Bukhari — capítulo sobre o envio de Ali ao Iêmen).

Outra narração relata que, ao ouvir as palavras de Buraidah, a cor do rosto abençoado do Mensageiro de Allah mudou. Ele disse: “Buraidah, não tenho eu mais direito sobre os crentes do que eles têm sobre si mesmos?” Buraidah respondeu: “Sim, ó Mensageiro de Allah!” O Mensageiro de Allah disse: “Aquele de quem eu sou mawla (senhor/escravo), Ali também é seu mawla.” Buraidah disse: “Depois de ouvir essa declaração da língua sagrada do Mensageiro de Allah, todas as minhas queixas contra Ali desapareceram. E, desde aquele dia, o profundo amor que nasceu em meu coração por ele nunca surgiu por ninguém mais.” (Musnad do imã Ahmad ibn Hanbal).

Na última fase da vida, o nobre Mensageiro de Allah ordenou a Usama que conduzisse uma expedição à Síria. Buraidah era o porta-estandarte dessa tropa. Usama saiu de Medina e montou acampamento nos arredores da cidade, preparando-se para partir, quando recebeu a notícia do estado terminal do Mensageiro de Allah. Ele suspendeu a partida e correu para junto do leito do Mensageiro de Allah. Buraidah também retornou a Medina com os demais, carregando o estandarte, e fincou-o diante da porta da casa do Mensageiro de Allah. Após o falecimento do Mensageiro de Allah, o nobre Abu Bakr assumiu a responsabilidade do califado. Por ordem do califa, Buraidah voltou a erguer o estandarte, foi à Síria e participou da batalha. Ao fim da batalha, retornou novamente a Medina com o estandarte na mão e fincou-o diante da casa de Usama. O estandarte permaneceu ali até o último dia da vida de Usama. (Hayatus Sahabah-1/425-26).

Após aceitar o Islã, Hazrat Buraidah participou de todas as batalhas ocorridas durante a vida do Mensageiro de Allah. Foi narrado por ele nos dois Sahih que participou de um total de 16 (dezesseis) batalhas com o Mensageiro de Allah. (Al-Isabah-1146; Tabaqat Ibn Sa‘d — capítulo das expedições militares-136).

Durante a vida do nobre Mensageiro de Allah, Buraidah era residente de Medina. Quando a cidade de Basra foi fundada durante o califado de Umar, ele se tornou seu residente permanente. O sangue do jihad fervilhava em suas veias e artérias. Ele dizia às pessoas: “A verdadeira diversão da vida está em esporear cavalos.” Por causa desse entusiasmo e ardor, mesmo durante a era dos califas ele saía de casa como soldado para várias expedições. Durante o califado de Uthman, participou da campanha do Coração e foi para Marw, onde permaneceu. Embora fosse um bravo mujahid, durante a era dos califas sua espada permaneceu sempre embainhada nos conflitos entre os muçulmanos. Durante sua vida, não participou de nenhuma das guerras civis ocorridas na época do segundo e do terceiro califas. Além disso, por extrema cautela, não expressava opinião alguma sobre aqueles de ambos os lados que se envolviam nesses conflitos. A esse respeito, um homem dos Banu Bakr ibn Wa’il relata: “Certa vez, eu estava em Sijistão com Buraidah al-Aslami. Um dia, mencionei Ali, Uthman, Talha e Zubair, a fim de saber sua opinião sobre eles. Buraidah imediatamente sentou-se voltado para a qiblah, ergueu as duas mãos e começou a suplicar: ‘Ó Allah, perdoa Uthman. Perdoa também Ali, Talha e Zubair.’ O narrador diz: ‘Depois, ele se voltou para mim e disse: “Queres ser meu assassino?” Eu respondi: “Por que eu haveria de querer ser seu assassino? Apenas lhe pedi isso.” Buraidah disse: “Eles eram um grupo de pessoas sobre as quais a vontade de Allah já havia sido determinada. Se Ele quiser, poderá perdoá-los, ou poderá puni-los. A responsabilidade de julgá-los cabe a Allah.”’ (Ibn Sa‘d-4/176; Hayatus Sahabah-3/388).

Certa vez, ele foi visitar o emir Mu‘awiya, que Allah esteja satisfeito com ele. Mu‘awiya estava sentado conversando com um homem. Buraida disse: “Mu‘awiya, poderia me dar também um pouco de oportunidade para falar?” Mu‘awiya respondeu: “Sim”, pois pensou que Buraida talvez dissesse algo como os demais. Mas Buraida disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizer: ‘Espero interceder, no Dia da Ressurreição, por uma quantidade de pessoas equivalente a todas as árvores, pedras e areias do mundo. Mu‘awiya, você espera essa intercessão, mas Ali não pode esperar por ela?’” (Musnad do Imam Ahmad, 4/347; Hayatus-Sahaba, 3/49). É provável que o primeiro homem estivesse criticando Ali, e Mu‘awiya esperasse ouvir isso da boca de Buraida. Dizer a verdade era uma de suas qualidades especiais. Nesse assunto, ele não temia nem mesmo as personalidades mais eminentes.

Buraida desfrutava de especial respeito e dignidade entre os Companheiros. Ele preservou de memória muitos hadiths do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O número de hadiths por ele narrados é de aproximadamente 164. Entre eles, dois foram narrados por Bukhari e onze exclusivamente por Muslim, enquanto alguns são muttafaqun ‘alayh. Todos os hadiths narrados por ele foram ouvidos diretamente da boca do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Entre seus alunos, destacam-se seus filhos Abdullah e Sulaiman; entre os demais, Abdullah ibn Khazai, Sha‘bi e Maliḥ ibn Usama.

O nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, relacionava-se com ele de maneira extremamente simples e informal. Certa vez, Buraida estava indo a algum lugar quando encontrou o Mensageiro de Allah no caminho. O Mensageiro de Allah segurou a mão de Buraida e começou a caminhar com ele.

Foi narrado por Buraida. Ele disse: “Estávamos sentados na presença do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, quando chegou um homem da tribo dos coraixitas. O Mensageiro de Allah chamou-o e fez com que se sentasse perto dele. Quando o homem se levantou para ir embora, o Mensageiro de Allah me disse: ‘Buraida, você conhece esse homem?’ Respondi: ‘Sim. Em termos de linhagem e prestígio, ele ocupa uma posição mediana entre os coraixitas, mas é o homem que possui a maior riqueza.’ Repeti isso três vezes. Depois disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, informei-lhe sobre ele apenas o que sei. No entanto, você sabe mais do que eu.’ O Mensageiro de Allah disse: ‘No Dia da Ressurreição, essa característica dele não terá qualquer importância perante Allah.’”

Ele procurava cumprir exatamente tudo o que ouvia da boca do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Certa vez, estava sentado junto ao Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah disse: “Minha ummah será expulsa três vezes por um povo de olhos pequenos e largos como um escudo. Eles a perseguirão até cercá-la na ‘Península Arábica’. Na primeira investida deles, os que fugirem sobreviverão. Na segunda investida, alguns sobreviverão e outros morrerão! Mas, na terceira investida, todos morrerão.” As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah! Quem são eles?” Ele respondeu: “Os turcos.” E acrescentou: “Juro por Aquele em Cuja mão está a minha vida! Essas pessoas amarrarão seus cavalos às colunas das mesquitas dos muçulmanos.”

Depois dessa terrível profecia, Buraida mantinha sempre preparados dois ou três camelos, provisões para a viagem e um recipiente para beber água, para que, quando esse momento chegasse, pudesse fugir desse castigo. (Musnad do Imam Ahmad, 5/347).

Buraida era o chefe da tribo de Aslam. Rabi‘a al-Aslami era um servo do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sem apoio nem recursos. Quando ele se casou, o Mensageiro de Allah ordenou a Buraida que providenciasse o pagamento do seu dote. Buraida arrecadou contribuições e cumpriu essa ordem.

Ele faleceu em Merv, na Pérsia, no ano 63 da Hégira, durante o califado de Yazid ibn Mu‘awiya. Deixou dois filhos, chamados Abdullah e Sulaiman.

ʿUqba ibn ʿĀmir al-Juhanī, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era ʿUqba, seu kunya era Abū ʿAmr, e seu pai chamava-se ʿĀmir. Pertencia à tribo de Banū Juhāna. Quando o Nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a Medina, ʿUqba estava pastoreando cabras muito longe de Medina. A notícia da chegada do Mensageiro de Allah espalhou-se pelas ruas e vielas de Medina, bem como pelos desertos e oásis ao seu redor. Ouçamos da própria boca de ʿUqba como ocorreu seu primeiro encontro com o Mensageiro de Allah:

“Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a Medina, eu estava pastoreando minhas cabras nos arredores da cidade. Depois que a notícia chegou até mim, deixei tudo e parti para encontrá-lo. Ao apresentar-me diante do Mensageiro de Allah, disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, você me aceitará no bayʿa (juramento de lealdade)?’ Ele perguntou, querendo saber minha identidade: ‘Quem é você?’ Respondi: ‘Sou ʿUqba ibn ʿĀmir al-Juhanī.’ Ele perguntou: ‘Qual bayʿa lhe é mais querida: a bayʿa dos beduínos que permanecem em suas terras ou a bayʿa da hijra?’ Respondi: ‘A bayʿa da hijra.’ Então ele me fez prestar o mesmo juramento pelo qual fazia os Muhājirūn prestarem. Depois de prestar o bayʿa nas mãos do Mensageiro de Allah, passei uma noite com ele e depois retornei às minhas cabras no deserto.

Éramos doze muçulmanos. Pastoreávamos cabras longe de Medina. Alguns de nós disseram: ‘Não haverá bem algum em nossa vida se, a cada dois dias, não formos à presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, para aprender a religião e saber o que lhe é revelado.’ Assim, todos os dias um de nós iria a Medina em sistema de revezamento, enquanto os demais pastoreariam suas cabras. Eu disse: ‘Que vocês se revezem, indo um de cada vez; eu assumirei a responsabilidade pelas cabras dele.’ Eu não queria deixar minhas cabras aos cuidados de alguém e ir para Medina.

Meus companheiros começaram a ir, em revezamento, à presença do Mensageiro de Allah, enquanto eu pastoreava os rebanhos deles. Quando retornavam, eu ouvia deles e aprendia tudo o que haviam escutado ou aprendido. Isso continuou por alguns dias. Então surgiu em meu coração este sentimento: ‘Que a ruína recaia sobre você! Por causa das cabras, você está sendo privado da companhia do Mensageiro de Allah e da bênção de ouvir diretamente as palavras saídas de sua boca!’ Depois desse sentimento, abandonei minhas cabras e parti para Medina, com a intenção de residir permanentemente ao lado do Mensageiro de Allah, na Mesquita do Profeta.

Cheguei a Medina. Ao entrar na Mesquita do Profeta, a primeira coisa que ouvi foi um homem dizendo que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia dito: ‘Quem realizar a ablução completamente será purificado de todos os seus pecados como no dia em que sua mãe o deu à luz.’ Gostei muito dessas palavras. Então ʿUmar ibn al-Khaṭṭāb disse: ‘Você ficaria ainda mais feliz se ouvisse a primeira declaração.’ Pedi-lhe que a repetisse. Ele disse: ‘O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Se alguém morrer sem associar nada a Allah, Allah abrirá para ele todas as portas do Paraíso. As portas do Paraíso são oito; ele entrará por qualquer uma delas que desejar.”’ Nesse momento, o Mensageiro de Allah apareceu entre nós. Sentei-me diante dele, mas ele desviou o rosto de mim. Fez isso várias vezes. Na quarta vez, eu disse: ‘Ó Profeta de Allah, que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por você! Por que você desvia o rosto de mim dessa maneira?’ Então ele voltou sua atenção para mim e disse: ‘Uma pessoa é mais querida para você ou doze?’ (Ḥayāt al-Ṣaḥāba, 3/214–215; Ṣuwar min Ḥayāt al-Ṣaḥāba, 4/144).

ʿUqba lutou pela primeira vez contra os incrédulos em Uḥud, ao lado do Mensageiro de Allah. Depois disso, desempenhou um papel ativo em todas as batalhas ocorridas durante a vida do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Durante o califado do segundo califa, ʿUmar, que Allah esteja satisfeito com ele, participou da campanha da Síria como mujāhid. No dia da conquista de Damasco, demonstrou grande habilidade e coragem no lançamento de flechas. Após a conquista de Damasco, o comandante Abū ʿUbayda ibn al-Jarrāḥ, que Allah esteja satisfeito com ele, enviou-o a Medina para transmitir rapidamente essa notícia ao califa. Em apenas oito dias, viajando incessantemente dia e noite, de uma sexta-feira à outra, ele chegou a Medina e levou a notícia ao califa. Na batalha de Ṣiffīn, participou ao lado de Amīr Muʿāwiya, que Allah esteja satisfeito com ele. Após a conquista do Egito, Muʿāwiya, que Allah esteja satisfeito com ele, nomeou-o por algum tempo governador daquela região. Abū ʿAmr al-Kindī relata: ‘Muʿāwiya confiou-lhe a arrecadação do kharāj (imposto) do Egito e a liderança das orações.’ Mais tarde, quando decidiu removê-lo, ordenou a ʿUqba que atacasse Rodes. Enquanto ʿUqba avançava em direção a Rodes, ouviu que Maslama havia sido nomeado para substituí-lo. Então comentou: ‘Enviar alguém para longe e depois destituí-lo?’ Isso ocorreu no ano 47 da Hégira. Após ser demitido, retirou-se da campanha. Há divergência quanto ao ano da morte de ʿUqba. Segundo o relato correto, ele faleceu no Egito, no ano 58 da Hégira, durante o califado de Muʿāwiya, que Allah esteja satisfeito com ele. Foi sepultado ao pé da montanha al-Muqattam, ao sul do Cairo atual. (Al-Iṣāba, 3/489; Tadhkirat al-Ḥuffāẓ, 1/43).

Em termos de conhecimento e dignidade, ʿUqba era uma personalidade notável. O Alcorão, o hadith, o fiqh, a ciência das leis de herança e a poesia ocupavam nele uma posição especial. O erudito al-Dhahabī disse: ‘Ele era simultaneamente um faqīh, um ʿallāma, um recitador do Livro de Allah, um conhecedor profundo da ciência das leis de herança, um orador eloquente e um poeta de alto nível.’ (Tadhkirat al-Ḥuffāẓ, 1/43).

Ele tinha um interesse especial em aprender a recitação do Sagrado Alcorão. Com intensa emoção e entusiasmo, aprendia a recitar o Nobre Alcorão. Algumas suratas, ele as aprendeu diretamente com o próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Certa vez, lançou-se aos pés do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e suplicou: “Ó Mensageiro de Allah, ensina-me um pouco das suratas Hud e Yussuf.” Esse intenso interesse fez dele um famoso recitador do Alcorão.

Ele possuía uma voz extremamente melodiosa. Recitava o Alcorão com uma voz bela e harmoniosa. Quando o silêncio descia nas profundezas da noite, começava a recitar o Alcorão com uma voz comovente. Os companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, escutavam atentamente essa recitação. Seus corações se derretiam por temor a Allah, e seus olhos se enchiam de lágrimas. Certa vez, o califa Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse-lhe: “Uqba, recita para nós um pouco do Alcorão.” Uqba começou a recitar. Ao ouvir aquela recitação, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, desatou a chorar, e sua barba ficou molhada com suas lágrimas. Uqba, que Allah esteja satisfeito com ele, preparou com as próprias mãos uma compilação do Sagrado Alcorão. Até o século IX da Hégira, essa cópia foi preservada na mesquita egípcia conhecida como Jami Uqba ibn Amir. No final da cópia estava escrito: “Uqba ibn Amir al-Juhani a escreveu.” Essa era a cópia mais antiga do Alcorão já encontrada no mundo. Porém, a desafortunada nação muçulmana perdeu também esse precioso tesouro, assim como tantas outras coisas. (Tahdhib al-Tahdhib, 7/243; Suwar min Hayat al-Sahaba, 4/148-149; Muhajirin, 2/236)

No que diz respeito à transmissão dos hadiths do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele de modo algum ficou para trás. O número total de hadiths que transmitiu foi de cinquenta e cinco. Desses, sete foram transmitidos por ambos al-Bukhari e Muslim; um foi transmitido exclusivamente por al-Bukhari e sete, exclusivamente por Muslim. Muitos grandes Companheiros viajavam longas distâncias para ouvir hadiths dele. Abu Ayyub foi de Medina ao Egito apenas para ouvir um único hadith e, assim que o ouviu, iniciou novamente a viagem de volta a Medina. O “Erudito da Ummah”, Abdullah ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, também adquiriu conhecimento com ele. Além disso, muitos famosos tabi’un obtiveram conhecimento de seu vasto tesouro. Ibn Asakir narra de Ibrahim ibn Abd al-Rahman ibn Awf. Ele disse: “Juro por Allah, antes de sua morte, Umar ibn al-Khattab enviou pessoas para convocar de diferentes lugares os Companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz — Abdullah ibn Hudhafa, Abu al-Darda, Abu Dharr e Uqba ibn Amir — e disse-lhes: ‘O que são esses tantos hadiths que vocês transmitem do Mensageiro de Allah?’ Eles disseram: ‘Você nos proíbe de transmitir hadiths?’ Ele respondeu: ‘Não. Contudo, permanecerão comigo. Enquanto eu estiver vivo, não poderão partir para lugar algum sem a minha permissão.’ Enquanto Umar viveu, eles não se afastaram para nenhum lugar distante dele. (Hayat al-Sahaba, 3/240-241)

Uqba, que Allah esteja satisfeito com ele, também possuía profundo conhecimento da jurisprudência islâmica. Nas áreas do conhecimento diretamente relacionadas à religião, como a oratória religiosa e a poesia, entre outras, tinha grande domínio. Embora Uqba, que Allah esteja satisfeito com ele, fosse um Companheiro de elevada posição, tinha extremo temor de cumprir responsabilidades religiosas. Durante certo período, exerceu a função de imã no Egito, mas depois passou a evitar conduzir as orações. Abu Ali al-Hamadani disse: “Certa vez, durante uma viagem, as pessoas lhe disseram: ‘Como você é Companheiro do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conduzirá a oração.’ Ele respondeu: ‘Não. Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: Se alguém conduz a oração e a realiza corretamente e no horário adequado, tanto o imã quanto aqueles que o seguem recebem recompensa. Mas, se houver alguma falha, o imã será responsabilizado, enquanto aquele que o segue não terá nenhuma responsabilidade.’

Servir ao Nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era sua única paixão. Durante as viagens, ele frequentemente se encarregava de conduzir pela rédea a mula do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamada Ash-Shahba. Durante esse serviço e companhia, não deixava escapar a oportunidade de adquirir conhecimento religioso. Ele narrou: “Certa vez, eu acompanhava o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em uma viagem. Enquanto eu conduzia sua montaria, ele disse: ‘Uqba, quer que eu te fale de duas excelentes suratas que podem ser recitadas?’ Respondi: ‘Diga.’ Ele disse: ‘São as duas suratas: Dize: Busco refúgio no Senhor da alvorada, e Dize: Busco refúgio no Senhor dos humanos.’

Ele respeitava tanto o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que considerava até sentar-se sobre sua montaria uma falta de respeito. Certa vez, enquanto cumpria durante uma viagem a tarefa de serviço que lhe havia sido designada, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, parou a montaria e fez com que ela se sentasse. Desceu das costas da montaria e disse: “Uqba, monte na montaria.” Uqba respondeu: “Glorificado seja Allah! Ó Mensageiro de Allah, eu montarei na sua montaria?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou novamente. Uqba deu a mesma resposta. Por fim, depois de muita insistência, Uqba subiu e sentou-se sobre a montaria para cumprir a ordem, enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conduzia o animal pela rédea. Por isso, ele era chamado de Radif Rasulillah — aquele que cavalgava atrás, na montaria do Mensageiro de Allah. Ocultar os defeitos das pessoas era uma qualidade especial de Uqba. Ele considerava extremamente repreensível divulgar os defeitos de alguém. Certa vez, seu secretário veio e disse: “As pessoas que moram ao nosso lado estão bebendo vinho.” Ele respondeu: “Deixe-os; não conte a ninguém.” O secretário disse: “Devo avisar a polícia?” Ele respondeu: “Que lamentável! Afaste-se disso.” Ouvi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer: “Quem ocultar o defeito de alguém é como se tivesse dado vida a um morto.” (Hayat al-Sahaba, 2/423)

Ele tinha um interesse especial pela ciência militar, especialmente pelo tiro com arco. Também incentivava outros a aprender essa arte. Certa vez, chamou Khalid ibn al-Walid e disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer: ‘Allah concederá o Paraíso a três pessoas por causa de uma única flecha: aquele que a fabricar, aquele que a transportar no caminho de Allah e aquele que a disparar.’ Ele também disse: ‘Entre todos os tipos de jogos e divertimentos, somente três são permitidos: o tiro com arco, o treinamento de equitação e as brincadeiras com a própria esposa. Quem aprender a arte de disparar flechas e depois esquecê-la terá, na verdade, perdido uma grande riqueza.’” (Musnad do Imam Ahmad, 4/148) Ele acumulou muitas armas de guerra. Após sua morte, ao examinarem os bens que deixou, descobriram que havia em sua casa pouco mais de setenta arcos. Junto com esses arcos havia várias flechas e pontas. Ele doou tudo no caminho de Allah. (Suwar min Hayat al-Sahaba, 4/150-151)

Uqba, que Allah esteja satisfeito com ele, era um homem abastado. Também tinha servos. Apesar disso, realizava pessoalmente todos os seus trabalhos.

O venerável Uqba, que Allah esteja satisfeito com ele, encontrava-se no leito de morte, no Egito. Nessa situação, chamou os filhos e deu-lhes o seguinte conselho: “Meus filhos! Proíbo-vos três coisas; guardai-as bem na memória. 1) Não aceiteis hadith do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, de ninguém além de uma pessoa confiável e digna de confiança. 2) Mesmo que useis uma aba (uma espessa e folgada túnica aberta na frente), jamais contraiais dívidas. 3) Não escrevais poesia, pois, por causa disso, vossos corações abandonarão o Alcorão e ficarão ocupados com essa atividade.” (Hayatus Sahaba, 3/201).

Em suma, a capacidade latente que havia no venerável Uqba, o pastor de cabras, desenvolveu-se plenamente durante seu breve convívio com o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Mais tarde, ele se tornou, entre os Companheiros, um dos maiores sábios, um dos melhores recitadores do Alcorão, um dos mais destacados comandantes vitoriosos e um dos melhores governantes. Quando abandonou o pastoreio de cabras e se apresentou ao serviço do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não fazia a menor ideia de que um dia seria um dos soldados da vanguarda do exército conquistador de Damasco e teria uma casa na “Bab Tuma” de Damasco. No dia em que decidiu retornar a Medina, jamais lhe ocorreu que um dia seria um dos líderes da conquista do Egito, seu governador, e teria uma casa no monte Muqattam, no Cairo. O Islã desenvolveu de tal modo sua capacidade latente que, de pastor de cabras, ele se tornou tudo isso.

Abu Barza al-Aslami, que Allah esteja satisfeito com ele

Há considerável divergência entre os especialistas na ciência dos narradores sobre o nome verdadeiro de Abu Barza. Segundo a opinião mais conhecida, seu nome era Nadla ibn Ubaid, enquanto Abu Barza era sua kunya, ou sobrenome honorífico. (Al-Isaba, 4/19)

Ele aceitou o Islã ainda no início da pregação islâmica em Meca. Depois de se tornar muçulmano, esteve ao lado do nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em todos os confrontos que ocorreram com os descrentes. No dia da conquista de Meca, o nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perdoou até mesmo seus inimigos mais ferrenhos. Contudo, naquele dia foram mortos alguns criminosos que haviam ultrapassado os limites da hostilidade e da rebelião. Abd al-Rahman ibn Khatal era um deles. Esse homem havia aceitado o Islã inicialmente, mas matou um de seus escravos muçulmanos e, para escapar da punição islâmica de qisas, apostatou e fugiu para Meca. Ele possuía duas escravas, que percorriam os mercados de Meca cantando canções de difamação contra Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. No dia da conquista de Meca, sem encontrar outra saída, o miserável Ibn Khatal agarrou-se ao revestimento da Caaba e ali permaneceu, buscando segurança. Os Companheiros disseram ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Ibn Khatal está sob a proteção do revestimento da Caaba.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que ele fosse morto. Assim que recebeu essa ordem, Abu Barza correu e o matou. (Abu Dawud, Kitab al-Jihad; Sirat Ibn Hisham, 2/410)

Abu Barza permaneceu residente em Medina até o falecimento do nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Durante o califado de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, tornou-se residente de Basra. Lutou ao lado de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, na batalha de Siffin e contra os kharijitas em Nahrawan. Na campanha do Khurasan, foi um mujahid.

Há divergência quanto à época da morte do venerável Abu Barza, que Allah esteja satisfeito com ele. Segundo alguns, ele morreu no ano 60 da Hégira; segundo outros, no ano 65. A segunda opinião parece mais correta, pois ele ainda estava vivo durante o conflito entre Marwan e Abdullah ibn al-Zubayr, que Allah esteja satisfeito com ele, e dizia: “Eles estão disputando por todas as coisas deste mundo.” (Hayatus Sahaba, 2/407). Ao morrer, deixou apenas um filho, Mughira.

O venerável Abu Barza, que Allah esteja satisfeito com ele, teve a oportunidade de desfrutar de um longo convívio com o nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Por isso, guardou na memória uma quantidade significativa de hadiths do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O número de hadiths por ele narrados é 64. Entre eles, 27 foram narrados conjuntamente por Bukhari e Muslim. Bukhari narrou dois exclusivamente, e Muslim narrou quatro exclusivamente.

O ascetismo fazia parte do caráter de Abu Barzah, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele não usava roupas caras nem montava cavalos. Cobria a parte íntima do corpo com duas peças de tecido cor de açafrão. Um de seus contemporâneos entre os Companheiros era Ayiz ibn Umar. Ele usava roupas valiosas e também montava cavalos. Certa pessoa, com a intenção de semear discórdia entre os dois, foi até Ayiz e disse: “Veja Abu Barzah: ele se opõe a você em suas roupas e em seu modo de vida. Você veste roupas caras de khuzz e monta cavalos, enquanto ele evita ambas as coisas.” Contudo, a fraternidade entre os Companheiros era muito mais profunda e firme do que aquilo que se manifestava em suas roupas e maneiras. Ayiz respondeu ao homem: “Que Allah tenha misericórdia de Abu Barzah. Quem entre nós hoje se compara a ele?” Desapontado, o homem foi dali até Abu Barzah e lhe disse: “Veja um pouco Ayiz. Ele não aprova seu modo de vida. Ele anda montado em cavalos, e roupas valiosas de khuzz adornam seu corpo.” Mas também ali recebeu a mesma resposta. Abu Barzah disse ao homem: “Que Allah tenha misericórdia de Ayiz. Quem entre nós tem posição semelhante à dele?”

Certa vez, um homem dirigiu palavras duras a Abu Bakr Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele. Imediatamente, Abu Barzah exclamou: “Devo cortar-lhe a cabeça?” Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, repreendeu-o, dizendo: “Depois do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não é lícito aplicar a ninguém uma punição por uma falta tão pequena.” (Kanz al-Ummal, 2/161; Hayatus Sahaba, 2/638)

Servir os pobres e necessitados era uma característica especial de Abu Barzah. Do amanhecer ao entardecer, ele alimentava os pobres e necessitados. Hasan ibn Hakim narrou isso de sua mãe.

Abu Barzah oferecia sarid (um tipo de alimento apreciado pelos árabes) às viúvas, aos órfãos e aos necessitados, de manhã e à tarde. (Hayatus Sahaba, 2/194-195).

Ele não conseguia tolerar qualquer espécie de zombaria, gracejo ou brincadeira a respeito do nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ubaydullah ibn Ziyad desejou saber algo sobre o Lago de Kawthar. Perguntou às pessoas quem poderia falar sobre o Lago de Kawthar. Elas mencionaram Abu Barzah, que Allah esteja satisfeito com ele. Ubaydullah mandou chamá-lo, e ele foi. Ao vê-lo chegar, Ubaydullah disse em tom de zombaria: “Este é o vosso homem de Muhammad?” Abu Barzah respondeu, extremamente irritado: “Louvado seja Allah! Estou vivendo numa época em que a honra do companheirismo é vista com desprezo.” Enquanto dizia isso, sentou-se muito indignado. Ubaydullah fez a pergunta, e Abu Barzah respondeu: “Aquele que negar o Lago de Kawthar não poderá sequer aproximar-se dele, e Allah não lhe dará de beber dele.” Depois de dizer isso, levantou-se e saiu.

É narrado por Abu Barzah. Ele disse: “Em uma batalha — segundo outra versão, em Khaybar — atacamos o exército dos politeístas e os expulsamos para longe de seus utensílios de fazer pão. Depois tomamos posse deles e começamos a comer. Na época da ignorância, ouvíamos dizer que aqueles que comiam pão branco engordavam. Depois de comer o pão abandonado por eles, alguns de nós começaram a olhar para o próprio ombro para ver se haviam engordado ou não.” (Hayatus Sahaba, 1/323) Esse relato indica que os nobres Companheiros normalmente não usavam farinha branca refinada.

Fadl ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Fadl, e seu kunya era Abu Muhammad. Seu pai era o ilustre Companheiro Abbas ibn Abd al-Muttalib, que Allah esteja satisfeito com ele, e sua mãe era Lubaba bint al-Harith al-Hilaliyya. Era primo paterno do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e o filho mais velho de seu pai. Por isso, Abbas era chamado de Abu al-Fadl, isto é, “o pai de Fadl”, e Lubaba era chamada de Umm al-Fadl, ou seja, “a mãe de Fadl”.

Aceitou o Islã juntamente com os demais membros da família antes da Batalha de Badr, mas não declarou isso por medo dos incrédulos de Meca. Poucos dias antes da conquista de Meca, migrou para Medina com seu pai, Hazrat Abbas, e seu irmão mais novo, Abdullah, que Allah esteja satisfeito com eles. No momento da Hégira, ele tinha treze anos, e Abdullah, oito. (Hayatus Sahaba-1/373). Após migrar para Medina, participou primeiro da expedição a Meca. Depois, também participou da expedição de Hunayn. Quando, na primeira fase do ataque, o exército muçulmano chegou à beira da derrota e começou a fugir, ele permaneceu firme no campo ao lado de Hazrat Rasul-e-Karim, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Na Peregrinação de Despedida, estava sentado no mesmo animal que Rasulullah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Por isso, a partir daquele dia, recebeu o título de “Radifur Rasul”. Naquela ocasião, um jovem e uma bela jovem da tribo de Khaysam foram até Rasulullah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para perguntar sobre diversas questões da peregrinação. Como não é permitido às mulheres cobrir o rosto com niqab durante a peregrinação, o rosto da jovem estava descoberto. Fadl era um jovem muito belo. A jovem começou a olhar para ele de soslaio, e Fadl também continuou olhando para ela. Hazrat Rasul-e-Karim, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, virou o rosto de Fadl para o outro lado várias vezes. Rasul, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Hoje, serão perdoados todos os pecados daquele que conseguir controlar seus olhos, seus ouvidos e sua língua.” (Ibn Sa’d-4/37, Al-Isaba-3/208). O assunto também foi relatado no capítulo Babu Hajji al-Mar’ah do Sahih Bukhari.

Durante o apedrejamento em Mina, ele ergueu sua capa e fez sombra para Rasul, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Em Medina, Rasul, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, casou-o e ele próprio pagou o seu dote.

Hazrat Fadl, que Allah esteja satisfeito com ele, foi honrado com a oportunidade de prestar o último serviço a Rasulullah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, durante sua vida terrena. Em seu leito de morte, Rasul, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, proferiu seu último sermão. Fadl foi um dos dois felizardos que o ajudaram a sair de casa para proferir esse sermão. Foi também Fadl quem anunciou ao povo que Rasul, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, faria um sermão. (Al-Isaba-3/208). Após o falecimento de Rasulullah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Fadl, que Allah esteja satisfeito com ele, foi um dos poucos felizardos que tiveram a oportunidade de lavar seu corpo sagrado. Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, realizou o banho; Fadl derramou a água; Rasul segurou o pano; e um ansari chamado Aws ibn Khaulí trouxe a água. (Al-Isti’ab, Hayatus Sahaba-2/341). Waqidi afirma que Hazrat Fadl morreu durante a epidemia de peste de Amwas, no califado de Hazrat Umar. Outros disseram que ele alcançou o martírio na batalha de Ajnadayn ou na batalha de Yamama, durante o califado de Hazrat Abu Bakr. Alguns outros disseram que ele foi martirizado na batalha de Yamama, no ano 15 da Hégira. Há ampla divergência quanto ao ano de sua morte. Contudo, o Imam Bukhari considerou aceitável a opinião de que foi em Ajnadayn. (Al-Isaba-3/209).

Foram narrados 24 hadiths de Hazrat Fadl, que Allah esteja satisfeito com ele. Companheiros ilustres como Ibn Abbas e Abu Huraira também transmitiram hadiths dele. Além disso, os tabi’un Kuraib, Qusam ibn Abbas, Abbas ibn Ubaidillah, Rabia ibn Harith, Umair, Abu Said, Sulaiman ibn Yasar, Sha’bi e Ata ibn Abi Rabah, entre outros, receberam hadiths dele. (Al-Isaba-3/209).

Tulaib ibn Umair, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Tulaib, e seu kunya, Abu Adi. Seu pai era Umair ibn Wahab, e sua mãe era Arwa bint Abdul Muttalib, tia paterna de Rasulullah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Era descendente do ramo Banu Adi da tribo dos coraixitas. (Ansab al-Ashraf-1/88).

Não se sabe muita coisa especial sobre o nascimento de Hazrat Tulaib nem sobre sua vida antes do Islã. A história registra que ele se juntou a uma caravana ainda no início do Islã. Alguns acontecimentos narrados pela história permitem compreender que ele tinha devoção e amor ilimitados por seu primo materno, Muhammad, e por sua religião. Tulaib estava sempre irritado com o comportamento hostil dos coraixitas para com Rasul, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. De vez em quando, ele também dava uma resposta enérgica ao tratamento rude dos coraixitas para com Rasul, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Em todas essas ações, sua piedosa mãe sempre lhe dava apoio.

Al-Harith al-Taimi relata que Tulaib ibn Umair aceitou o Islã enquanto Rasul, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permanecia na Dar al-Arqam, ou Casa de Arqam, em Meca. Depois de aceitar o Islã, saiu de lá e foi diretamente à sua mãe, Arwa bint Abdul Muttalib. Disse à mãe: “Mãe, segui Muhammad e entreguei-me a Allah.” A mãe respondeu: “A pessoa mais indicada para ajudá-lo e apoiá-lo é o filho de sua tia materna. Se eu tivesse a força e a capacidade que os homens possuem, certamente o protegeria das mãos das pessoas.” Tulaib disse: “Mãe, que impedimento há para que a senhora aceite o Islã e se torne sua seguidora? Seu irmão Hamza aceitou o Islã.” A mãe respondeu: “Estou aguardando para ver o que farão minhas outras irmãs. Permanecerei com elas assim que elas o fizerem.”

Tulaib disse: “Enquanto você não for até ele, cumprimentá-lo e testemunhar que não há divindade além de Allah, continuarei suplicando a Allah por você.” A mãe afortunada não pôde rejeitar o pedido do filho. Ela declarou: “Ashhadu an la ilaha illallah wa anna Muhammadan rasulullah — testemunho que não há divindade além de Allah e que Muhammad é o Mensageiro de Allah, ou Seu servo enviado.” A partir daquele dia, ela começou a apoiar o Mensageiro de Allah de todas as formas por meio de suas palavras e ordenou a seu filho Tulaib que permanecesse ao lado do Mensageiro de Allah em todas as circunstâncias. (Tabaqat 3/123; Al-Isaba 2/233–234).

Durante o primeiro período do Islã em Meca, aqueles que aceitavam o Islã eram perseguidos de várias maneiras pelos coraixitas. Certo dia, Tulaib e Hatib ibn Amr estavam realizando a oração na região de “Az Iyad al-Asghar”, em Meca. Os dois mais cruéis terroristas de Meca naquela época, Ibn al-Asda e Ibn al-Ghaytala, perceberam isso. Eles atacaram Tulaib e Hatib, atirando pedras contra eles. Hatib e Tulaib repeliram o ataque durante cerca de uma hora e conseguiram fugir, salvando suas vidas por pouco. (Ansab al-Ashraf 1/117).

Uqba ibn Abi Muayt, de Meca, era um inimigo ferrenho do Mensageiro de Allah. Além disso, tinha um caráter extremamente vil. Ele atormentava o Mensageiro de Allah de diversas maneiras. Certo dia, trouxe um cesto de lixo e começou a despejá-lo junto à porta da casa do Mensageiro de Allah. Tulaib percebeu o que estava acontecendo. Correu até lá, tomou o cesto das mãos de Uqba e torceu-lhe as duas orelhas. Uqba ficou furioso e foi atrás de Tulaib até sua mãe, para reclamar, dizendo: “Você não vê que seu filho tomou o partido de Muhammad?” A afortunada filha de Abd al-Muttalib respondeu: “Diga você mesmo: quem seria mais digno do que Tulaib de tomar o partido dele? Muhammad é seu primo materno. Todo o nosso dinheiro e a nossa vida estão dedicados a Muhammad.” Em seguida, recitou um verso cujo significado era: “Tulaib ajudou seu primo materno; mostrou solidariedade para com seu sangue e seus bens.”

É importante mencionar que esse mesmo Uqba foi capturado pelas forças muçulmanas na batalha de Badr e, por ordem especial do Mensageiro de Allah, foi executado. (Ansab al-Ashraf 1/147).

Após aceitar o Islã, Tulaib permaneceu por algum tempo em Meca, resistindo a todas as perseguições e opressões dos coraixitas. Porém, quando a perseguição atingiu seu extremo e se tornou absolutamente impossível continuar em Meca, ele emigrou para a Abissínia com o segundo grupo que partiu para lá. Depois de permanecer ali por algum tempo, Tulaib estava entre aqueles que retornaram da Abissínia a Meca ao ouvirem o rumor de que todos os habitantes de Meca haviam aceitado o Islã. (Sira de Ibn Hisham 1/324, 366).

Depois de retornar da Abissínia, permaneceu por algum tempo em Meca. Então emigrou novamente para Medina. Em Medina, foi hóspede de Abd Allah ibn Salama al-Ajlani. O Mensageiro de Allah estabeleceu entre ele e Mundhir ibn Amr al-Saidi uma muakhāt, ou seja, uma relação de fraternidade islâmica.

Segundo o relato de Muhammad ibn Umar, Tulaib participou da batalha de Badr. Al-Tabari afirma: sua participação na batalha de Badr é comprovada. Entretanto, Musa ibn Uqba, Muhammad ibn Ishaq e Abu Mashar não mencionam o nome de Tulaib na lista daqueles que participaram da batalha de Badr. (Tabaqat 3/123).

Não há outras informações sobre suas atividades, desde a batalha de Badr até sua morte, nas obras de sira. Contudo, pode-se supor que um homem tão vigoroso quanto ele jamais poderia permanecer inativo. Participou de todas as expedições até o fim da vida.

Ele alcançou o martírio na batalha de Ajnadayn, no mês de Jumaada al-Ula do ano 13 da Hégira. Contudo, Mus‘ab ibn Abdullah afirma que ele foi martirizado na batalha de Yarmuk. Tinha 53 anos quando morreu. Não deixou filhos. (At-Tabaqat, 3/124; Al-Isti‘ab).

Sauban ibn Najdah (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Sauban, o nome de seu pai era Najdah, e sua kunya, ou alcunha, era Abu Abdillah. Era descendente da célebre tribo Himyar, do Iêmen. (Asahh as-Siyar, p. 599.) Por alguma razão, tornou-se escravo. O Honorável Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comprou-o e depois o libertou. Ao libertá-lo, disse-lhe: “Se quiseres, podes voltar para o teu povo; ou podes permanecer comigo. Se ficares comigo, serás considerado membro da minha família.” Sauban considerou preferível permanecer na companhia do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a retornar à sua própria tribo.

Após o falecimento do Honorável Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele permaneceu em Medina por pouco tempo. Para ele, Medina tornou-se insuportável sem o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Deixou Medina e passou a viver num lugar do Levante chamado Ramla. Participou da campanha do Egito e, deixando Ramla, estabeleceu-se em Hims. Foi em Hims que faleceu, no ano 54 da Hégira.

O Honorável Sauban era um servo especial do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Tinha a oportunidade de acompanhá-lo em todas as situações, tanto no âmbito privado quanto no público. Por isso, naturalmente, adquiriu especial domínio das “ciências proféticas”, ou seja, dos conhecimentos do Profeta. Foram narrados por ele 127 hadiths do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Além de memorizar os hadiths, também assumiu a responsabilidade de divulgá-los e disseminá-los. O erudito Ibn Abd al-Barr afirmou que Sauban estava entre aqueles que, além de memorizar os hadiths, também se dedicaram à sua transmissão.

Como o Honorável Sauban havia memorizado muitos hadiths, inúmeras pessoas iam até ele para ouvi-los. Certa vez, quando as pessoas manifestaram o desejo de ouvir um hadith dele, ele disse: “Quando um muçulmano se prostra uma vez diante de Allah, Allah eleva um grau de sua posição e perdoa os seus pecados.” (Musnad do Imam Ahmad ibn Hanbal, 5/276.)

Os célebres muhaddiths da época do Honorável Sauban verificavam com ele a autenticidade dos hadiths que haviam ouvido de outras pessoas. Um eminente especialista em hadith, como Sa‘dan ibn Talhah, ouviu um hadith do Honorável Abu ad-Darda (que Allah esteja satisfeito com ele) e verificou a sua autenticidade com o Honorável Sauban. Após o falecimento do Honorável Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele foi considerado um dos principais Companheiros mujtahids de Medina. (A‘lam al-Muwaqqi‘in, 1/15.)

O círculo de alunos do Honorável Sauban também era muito amplo. Sa‘dan ibn Talhah, Rashid ibn Sa‘d, Zubayr ibn Nुदayr, Abd ar-Rahman ibn Ghanam e Abu Idris, entre outros, foram seus alunos notáveis.

Ele tinha tanta devoção e reverência pelo nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que não conseguia ouvir, vindo da boca de um não muçulmano, sequer uma palavra que expressasse o mínimo desrespeito pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Certa vez, um judeu foi até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “As-salāmu alaika, ó Muhammad.” Imediatamente, Sawban explodiu de raiva. Ele empurrou o judeu com tanta força que o pobre homem quase caiu e só conseguiu recuperar o equilíbrio com dificuldade. Depois de se recompor um pouco, o homem quis saber o motivo de tamanha ira. Sawban disse: “Por que você disse ‘ó Muhammad’, em vez de ‘ó Mensageiro de Allah’?” O homem perguntou: “Que ofensa há nisso? Eu apenas pronunciei o seu nome de família.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) confirmou suas palavras e disse: “Sim, Muhammad é o meu nome de família.”

A honra da profecia é, sem dúvida, algo grandioso. Se alguém desprezasse ou tratasse com desdém a relação de servidão que ele tinha com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Sawban o advertia. Certa vez, enquanto estava em Hims, ele adoeceu. Quando Abd Allah ibn Qarat al-Izdi, o então governador de Hims, não foi visitá-lo, Sawban escreveu-lhe uma carta: “Se o servo de Moisés e Jesus estivesse hospedado em sua casa, você procuraria saber de sua doença ou iria visitá-lo?” Ao receber a carta, o governador saiu de casa com tamanha pressa que as pessoas imaginaram que algo muito grave havia acontecido. Nessa situação, ele chegou à casa de Sawban e permaneceu sentado ao seu lado por longo tempo.

Ele era tão cuidadoso em cumprir as instruções do nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que, uma vez tendo recebido uma ordem do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), cumpria-a por toda a vida e jamais fazia algo que pudesse sequer levantar a mínima suspeita de desobediência a alguma instrução. At-Tabarani narrou, com base em Abu Umama (que Allah esteja satisfeito com ele), que ele disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: ‘Quem prestará o juramento de fidelidade?’ Sawban disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, nós já prestamos o juramento.’ O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Juramento de que não pedirás nada a ninguém.’ Sawban perguntou: ‘Por quê, ó Mensageiro de Allah?’ Ele respondeu: ‘Pelo Paraíso.’ Sawban prestou o juramento com base nisso. Abu Umama disse: ‘Eu o vi em Meca, montado em sua montaria, em meio à multidão. Nessa ocasião, o chicote caiu de sua mão. Talvez tenha caído sobre o pescoço de um homem, que o apanhou. Em seguida, ele quis entregá-lo a Sawban; mas Sawban não o aceitou: desceu da montaria e apanhou-o com as próprias mãos.’ (Hayatus Sahabah, 1/242).

Segundo outro relato, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não pedirás nada às pessoas; àquele que me der essa garantia, eu darei a garantia do Paraíso.” Ao ouvir isso, Sawban exclamou: “Eu dou essa garantia.” Depois disso, ele jamais pediu coisa alguma a ninguém. (Al-Isaba, 1/204).

Yusuf ibn Abd al-Hamid narrou: “Sawban me contou que, certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez uma súplica por sua família. Eu disse: ‘Eu também faço parte da Ahl al-Bayt (sua família).’ Na terceira vez, ele disse: ‘Sim, você faz parte da minha família. Contudo, não deverás permanecer diante de nenhuma porta fechada nem ir pedir algo a qualquer governante.’” (Al-Isaba, 1/204).

Depois de todas essas instruções, sabe-se pela história que ele jamais pediu coisa alguma a ninguém durante o resto de sua vida.

Amr ibn Abasa (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Amr, e Abu Najih era sua kunya, ou alcunha. Seu pai era Abasa ibn Amir, e sua mãe, Ramla bint al-Waqi’a. Ele era irmão por parte de mãe do ilustre Companheiro Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele). (Al-Isaba, 3/5).

Desde o início de sua vida, Amr foi um homem de natureza íntegra. Mesmo na época da ignorância, quando toda a Arábia estava envolvida na adoração de ídolos, ele odiava essa prática e considerava os adoradores de ídolos extraviados. Ele se declarava a quarta pessoa do Islã, ou um quarto do Islã. Quando lhe perguntaram com base em que fazia tal afirmação, respondeu: “Na época da ignorância, eu acreditava que as pessoas estavam extraviadas. Os ídolos não tinham importância alguma para mim. Eu sabia que, assim como não podiam causar nenhum dano, também não podiam proporcionar benefício algum. Pois eles adoravam ídolos de pedra. Naquele período, perguntei a um ahl al-kitāb, isto é, a uma pessoa que acreditava em uma religião revelada, qual era a melhor religião. Ele respondeu: ‘Um homem surgirá em Meca. Ele abandonará a divindade de seu próprio povo e convidará as pessoas a adorar outra divindade. Ele trará a melhor religião. Quando ouvires falar de seu surgimento, segue-o.’”

Amr conta: “Foi então que recebi uma notícia de Meca. Não ousei perguntar a ninguém se havia acontecido algum novo acontecimento em Meca. Por fim, montado no dorso de um animal, cheguei a Meca. Ao perguntar a um cavaleiro, ele respondeu: ‘Surgiu aqui um homem que odeia a divindade de seu povo, ou seja, de seus compatriotas.’ Encontrei-me secretamente com o Mensageiro de Allah, pois, naquela época, seu próprio povo se opunha ferozmente a ele. Segundo outra narração, o encontro de Amr com o Mensageiro de Allah ocorreu na feira de Ukaz. Na primeira ocasião, a conversa entre eles foi a seguinte: Amr perguntou: ‘Quem és tu?’”

—Sou o Profeta de Allah.

—Foi Allah quem te enviou?

—Sim.

—Com que missão Ele te enviou?

—Que creiais que Allah é Um, que não associeis nada a Ele, que destruísseis os ídolos e mantivésseis intactos os laços de parentesco.

—Alguém aceitou este chamado?

—Sim, um homem livre e um escravo.

Amr disse: “Esses dois eram Abu Bakr e Bilal.” Em seguida, suplicou: “Inclua-me também entre os adoradores de Allah. Permanecerei junto de vós.” O Mensageiro de Allah disse: “Como poderás permanecer comigo enquanto enfrento oposição de todos os lados? Volta agora para tua terra natal. Quando eu começar a fazer o convite publicamente, vem até mim.” Amr disse: “Foi assim que aceitei o Islã e passei a considerar-me um quarto do Islã.” (Al-Isaba, 3/6; Hayatus-Sahaba, 1/71–72).

Seguindo a instrução do Mensageiro, Amr aceitou o Islã e retornou ao seu povo. Entretanto, mantinha-se sempre informado sobre o Mensageiro de Allah por meio daqueles que viajavam de e para Meca. Após a Hégira do Mensageiro para Medina, algumas pessoas de Yathrib, ou Medina, foram ao clã de Amr. Ele lhes perguntou: “Como está o homem que veio de Meca para Medina?” Eles responderam: “As pessoas estão correndo para ele em grupos. Seu próprio povo havia planejado matá-lo, mas não conseguiu. Agora ele está em Medina.”

Ao receber essa notícia deles, Amr partiu para Medina. Quando se apresentou ao Mensageiro em Medina e disse quem era, ele falou: “Sim, eu me lembro de ti; encontraste-te comigo em Meca.” A partir de então, Amr tornou-se residente permanente de Medina.

Há divergência quanto à época da chegada de Amr a Medina. Segundo uma opinião, ele chegou antes da Batalha de Badr e participou dela. Contudo, a opinião mais conhecida é que chegou depois da Batalha de Khaybar e antes da conquista de Meca. (Al-Isaba, 3/5).

As batalhas de Badr, Uhud, Hudaybiyyah, Khaybar e várias outras terminaram enquanto ele ainda permanecia em sua terra natal. Ele participou pela primeira vez da campanha para a conquista de Meca. Também há relatos de que participou da campanha de Ta’if. Ele próprio narrou: durante o cerco de Ta’if, o Nobre Mensageiro de Allah disse: “Para aquele que lançar uma flecha no caminho de Allah, uma porta do Paraíso será aberta.” Ao ouvir essa boa-nova, lancei dezesseis flechas. Depois da campanha de Ta’if, não se sabe com precisão de nenhuma outra batalha da qual tenha participado. Sabe-se apenas que participou de mais algumas batalhas. Não se conhece com exatidão a época da morte de Amr ibn Abasa. Os especialistas em sira disseram, com base em conjecturas, que ele morreu no final do califado do califa Uthman. Assim, o autor de Al-Isaba fi Tamyiz as-Sahaba, o erudito Ibn Hajar al-Asqalani, mencionou sua morte no final do califado de Uthman baseando-se apenas nessa conjectura — pois não há registro de que tenha sido visto durante o conflito entre Ali e Muawiya nem durante o califado do emir Muawiya. (Al-Isaba, 3/6). Contudo, um relato no Musnad do imame Ahmad ibn Hanbal informa que o emir Muawiya e os romanos celebraram um tratado. Por causa desse tratado, o emir Muawiya não podia atacar os romanos até determinado prazo. Mas o venerável Muawiya planejou que seu exército chegasse à fronteira dos romanos e que, enquanto isso, o prazo do tratado expirasse. Então seu exército lançaria imediatamente o ataque. Nessa ocasião, Amr ibn Abasa gritava repetidamente: “Cumpram o compromisso; não traiam!” O relato acima indica que ele estava vivo até o período do califado do emir Muawiya. Contudo, se a opinião do autor de Al-Isaba for considerada correta, esse acontecimento teria ocorrido durante o califado de Uthman, quando o venerável Muawiya era governador da Síria. Naquela época, ele também havia entrado em conflito com os romanos.

O venerável Amr ibn Abasa não teve muitas oportunidades de desfrutar da companhia ou da intimidade do Mensageiro de Allah. Entretanto, procurou aproveitar plenamente o pouco que recebeu. Encontramos prova disso em seu primeiro encontro com o Mensageiro em Medina. Ele suplicou: “Ensina-me algo do que Allah te ensinou.” Por isso, apesar do breve período de companhia, encontram-se nas coleções de hadith um total de 48 hadiths narrados por ele.

Entre os Companheiros, Ibn Masud, Abu Umama al-Bahili e Sahl ibn Sad; e, entre os tabi‘in, Shurahbil ibn Samat, Sadan ibn Abi Talha, Sulaym ibn Amir, Abd ar-Rahman ibn Amir, Zubayr ibn Nafir, Abu Salama e outros narraram hadiths dele. (Al-Isaba, 3/5).

Abu Nu‘aym narrou um episódio contado pelo maula de Ka‘b, isto é, seu escravo liberto. Ele disse: Certo dia, ‘Amr ibn ‘Abasa saiu para apascentar os animais. Saí ao meio-dia à sua procura. Vi que ‘Amr dormia em um lugar, enquanto uma nuvem lhe fazia sombra. Eu o despertei. Ao acordar, ele me disse: “Que este assunto permaneça em segredo entre mim e você. Não será bom para você revelá-lo a outra pessoa.” Não contei isso a ninguém durante sua vida. (Al-Isaba, 3/6)

Al-Walid ibn al-Walid ibn al-Mughira, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era al-Walid, e seu pai era al-Walid ibn al-Mughira. Era descendente do ramo Banu Makhzum da tribo dos coraixitas. Era irmão dos ilustres Companheiros e comandantes militares Khalid ibn al-Walid e Hisham ibn al-Walid. Segundo um relato, era irmão consanguíneo de Hisham e meio-irmão paterno de Khalid. Durante a vida do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em Meca, al-Walid não aceitou o Islam. Os livros de biografia não mencionam claramente como ele tratava os muçulmanos naquela época. Sabe-se, porém, que se juntou às forças coraixitas de Meca, combateu os muçulmanos na batalha de Badr e, após a derrota, foi capturado por ‘Abdullah ibn Jahsh — ou, segundo outra versão, por Sulayt ibn Qays — que Allah esteja satisfeito com ele. (Ansab al-Ashraf, 1/302)

Seus outros dois irmãos, Khalid ibn al-Walid e Hisham ibn al-Walid, foram resgatá-lo. ‘Abdullah ibn Jahsh exigiu quatro mil dirhams como resgate. Diante da grande soma que deveria ser paga, Khalid demonstrou hesitação. Hisham ficou furioso e lhe disse: “O que há com você? Você já não é irmão dele?” Mesmo que ‘Abdullah exigisse mais do que isso, seria necessário libertá-lo. O historiador al-Waqidi disse: “Al-Walid foi capturado enquanto ainda seguia a religião de seu povo e foi libertado mediante o pagamento de quatro mil dirhams.” Segundo outro relato, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, exigiu, em troca da libertação de al-Walid, o escudo, a armadura e a espada de seu pai. Seus irmãos atenderam à exigência e o libertaram. (Ansab al-Ashraf, 1/210)

Depois de ser libertado, al-Walid partiu com os irmãos rumo a Meca. Ao chegar a um lugar chamado Dhul-Hulayfa, fugiu deles, retornou a Medina e voltou para junto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, onde aceitou o Islam. Seus irmãos voltaram a encontrá-lo e lhe disseram: “Se você pretendia tornar-se muçulmano, por que não o fez antes de pagarmos o resgate? Você destruiu inutilmente as lembranças de nosso pai.” Al-Walid respondeu: “Assim como os demais coraixitas, eu também queria pagar o resgate e ser libertado. Não declarei o Islam antes da libertação para que os coraixitas não pudessem dizer que eu havia aceitado o Islam por medo de pagar o fidya, ou resgate.”

Depois de aceitar o Islam, ele partiu novamente com os irmãos rumo a Meca. Durante o caminho, seus irmãos não disseram muita coisa. Mas, ao chegarem a Meca, também o prenderam, como fizeram com os demais muçulmanos perseguidos, e o confinaram em uma mesma casa com outros prisioneiros como ele: ‘Ayyash ibn Rabi‘a, Hisham ibn al-‘As, Salama ibn Hisham e outros.

Os historiadores disseram que os coraixitas submetiam esses prisioneiros a torturas desumanas. Eles também eram ameaçados de morte.

Al-Kalbi disse: “Por terem aceitado o Islam, foi castigada uma comunidade fraca, que não possuía força tribal nem efetivo humano. Muitos deles abandonaram a religião, enquanto muitos membros de famílias nobres aceitaram o Islam e foram submetidos a provações. Entre eles estavam Salama ibn Hisham ibn al-Mughira, al-Walid ibn al-Walid ibn al-Mughira e ‘Ayyash ibn Rabi‘a, entre outros.” (Ansab al-Ashraf, 1/19)

Ibn Ishaq diz: quando al-Walid ibn al-Walid ibn al-Mughira aceitou o Islã, um grupo dos Banu Makhzum foi até seu irmão, Hisham ibn al-Walid ibn al-Mughira, quando este aceitou o Islã, e pediu que lhes entregasse al-Walid para que o matassem. O argumento deles era que, se o matassem, poderiam sentir-se seguros quanto aos demais. Hisham rejeitou energicamente o pedido e recitou um poema. Ele também ameaçou que, se alguém matasse seu irmão al-Walid, mataria, em represália, a pessoa mais honrada entre eles. Diante dessa ameaça extrema, eles desistiram da esperança de matar al-Walid e foram embora. (Sira de Ibn Hisham, 1/321).

Antes da Batalha de Badr, o Honorável Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, costumava suplicar a Allah pela libertação de Ayyash ibn Rabi’a, Salama ibn Hisham, Hisham ibn As e outros. Depois da Batalha de Badr, quando al-Walid foi capturado e se juntou a eles, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, passou também a suplicar mencionando seu nome. Al-Bazzar narrou, por intermédio de Abu Huraira, que, depois de concluir a oração com o salam, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ergueu a cabeça e, voltado para a qibla, disse: “Ó Allah, liberta Salama ibn Hisham, Ayyash ibn Rabi’a, al-Walid ibn al-Walid e todos aqueles muçulmanos fracos que são incapazes de adotar qualquer estratégia e não conhecem nenhum meio.” Segundo outro relato, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fazia essa súplica durante a oração do fajr. (A Vida dos Companheiros, 3/348).

Ele passou vários dias em cativeiro. Certo dia, aproveitando uma oportunidade, fugiu para Medina. O Honorável Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou-lhe sobre a situação de Ayyash e Salama. Al-Walid respondeu que eles estavam sendo torturados e que uma corrente havia sido presa aos pés dos dois. O Honorável Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse-lhe: “Volta a Meca. Um ferreiro de lá aceitou o Islã. Primeiro, hospeda-te na casa dele. Depois, encontra-te secretamente com Ayyash e Salama e dize-lhes: ‘Sou um representante meu; vinde comigo.’”

Conforme a instrução do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, al-Walid chegou a Meca, encontrou-se com Ayyash e Salama e transmitiu-lhes a mensagem do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Conforme o plano, eles fugiram de Meca e partiram em direção a Medina. Khalid ibn al-Walid perseguiu-os, mas, não conseguindo capturá-los, voltou para Meca.

Enquanto isso, al-Walid, juntamente com seus dois companheiros, ia ficando entorpecido de cansaço por causa da viagem contínua e do temor do desconhecido. Nessa ocasião, repetia várias vezes um verso de um poema: “Ó meus dois pés! Levai-me até meu povo. Depois deste dia, jamais me vereis ocioso.”

Quando caiu num lugar chamado Ajbas, um de seus dedos ficou gravemente ferido e começou a sangrar. Ele passou a recitar um verso dirigindo-se ao dedo ferido: “Ó tu, que não és mais que um dedo do qual corre sangue;

tudo o que conquistaste foi pela causa de Allah.” (Ansab al-Ashraf, 1/209-210)

De acordo com o tratado de Hudaybiyya, no sétimo ano da Hégira, o Honorável Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi a Meca para realizar a umra compensatória do ano anterior. Al-Walid foi companheiro do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nessa viagem. Naquela época, seu irmão Khalid ibn al-Walid ainda não havia aceitado o Islã. A respeito disso, o Honorável Khalid ibn al-Walid disse: “Depois do tratado de Hudaybiyya, enquanto eu sofria de intenso conflito interior e indecisão, no sétimo ano da Hégira, no mês de Dhu al-Qi’da, o Honorável Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entrou em Meca com o objetivo de realizar a ‘Umrat al-Qada. Fiquei escondido, temendo encontrar-me com algum deles. Não encontrei nenhum deles. Meu irmão, al-Walid ibn al-Walid, acompanhava o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nessa viagem. Como não conseguiu encontrar-me, escreveu-me uma carta. O conteúdo da carta era o seguinte: ‘Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador. Depois disso, o fato de você manter uma atitude tão hostil em relação ao Islã fez com que você me parecesse uma pessoa muito estranha, embora seja um homem dotado de grande inteligência e sabedoria. Pode alguém como você permanecer ignorante a respeito do Islã? O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou-me sobre você: “Onde está Khalid?” Respondi: “Em breve Allah o trará.” Então ele disse: “Pode alguém como ele permanecer ignorante a respeito do Islã? Se sua inteligência e seus esforços estivessem a serviço dos muçulmanos, isso lhe traria benefício, e eu lhe daria mais honra do que aos outros. Irmão, venha agora e participe da boa ação que lhe escapou.”’ Na realidade, ao receber essa carta, o Honorável Khalid decidiu aceitar o Islã e, pouco tempo depois, partiu em direção a Medina. (A Vida dos Companheiros, 1/160; Usud al-Ghaba, 5/93).

Há duas narrativas sobre a época da morte de Hazrat Walid ibn al-Walid. Segundo uma delas, ele libertou Ayyash e Salama, retornou a Medina e morreu poucos dias depois. De acordo com essa narrativa, ao chegar a Medina, apresentou-se diretamente diante do Mensageiro de Allah (S.A.) e disse: “Ó Mensageiro de Allah (S.A.), estou morrendo; envolva-me em sua roupa usada.” Em seguida, ele morreu, e o Mensageiro de Allah (S.A.) o envolveu em sua própria roupa como mortalha. (Al-Isaba, 3/640; Ansab al-Ashraf, 1/210-211).

Entretanto, a narrativa acima não parece correta. Pois várias narrativas informam que ele participou, juntamente com o Mensageiro de Allah (S.A.), da realização da ‘Umrat al-Qada no sétimo ano da Hégira. Allama Ibn Abd al-Barr escreveu: “É correto que ele participou da ‘Umrat al-Qada junto com o Mensageiro de Allah (S.A.).” A ‘Umrat al-Qada ocorreu no final do sétimo ano da Hégira. Por outro lado, a primeira narrativa indica que ele morreu no quinto ano da Hégira, dois anos antes da ‘Umrat al-Qada.

Além disso, al-Waqidi disse: “Alguns consideram que Walid fugiu de Meca e se juntou ao grupo de Abu Basir.” É importante mencionar que esse Abu Basir foi para Medina depois do tratado de Hudaybiyyah. O Mensageiro de Allah (S.A.) o enviou de volta a Meca, conforme os termos do tratado. Porém, no caminho, ele matou um de seus companheiros e retornou novamente a Medina, dirigindo-se ao Mensageiro de Allah (S.A.). Este ordenou a Abu Basir que deixasse Medina. Abu Basir deixou Medina e foi para a região costeira do Mar Vermelho. Depois, vários outros jovens recém-convertidos de Meca juntaram-se a ele. Eles atacavam e saqueavam as caravanas comerciais dos coraixitas. Como resultado, o comércio dos coraixitas quase chegou a ser completamente interrompido. Então, sem outra alternativa, os coraixitas pediram ao Mensageiro de Allah (S.A.) que trouxesse esse grupo de volta a Medina. O Mensageiro de Allah (S.A.) mandou chamá-los para Medina. (Ansab al-Ashraf, 1/210-211).

No entanto, al-Baladhuri não considerou essa narrativa correta. De qualquer modo, não se encontra nos livros de sira nenhuma evidência de que ele tenha permanecido vivo depois do oitavo ano da Hégira.

A Mãe dos Crentes, Hazrat Umm Salama, era prima paterna de Walid ibn al-Walid. Após a morte de Walid, ela disse ao Mensageiro de Allah (S.A.): “Ó Mensageiro de Allah (S.A.), ele morreu em uma terra estrangeira. Não há aqui ninguém para lamentá-lo.” O Mensageiro de Allah (S.A.) permitiu que ela manifestasse seu luto. Com a permissão do Mensageiro de Allah (S.A.), Umm Salama preparou comida e chamou as outras mulheres do bairro. Hazrat Umm Salama (R.A.) começou a recitar uma marsiya, ou elegia fúnebre. Seus dois versos são os seguintes:

“Ó olhos, chorai por Walid ibn Walid ibn al-Mughira. Entre nós, ele era como chuva e misericórdia em tempos de seca. Em nome e glória, era como seu pai. Sozinho, ele era suficiente para sua tribo.”

Assim que ouviu a elegia, Hazrat Rasul-e-Karim (S.A.) exclamou: “Umm Salama, em vez de dizer isso, diga: ‘Verdadeiramente, a agonia da morte virá. E é dela que tendes buscado escapar.’” (Surata Qaf, 19). (Ansab al-Ashraf, 1/210-211; Al-Isaba, 3/640).

Ibn Hisham disse: “Chegou até mim, por intermédio de Mujahid, que ele afirmou que o seguinte versículo da Surata al-Fath foi revelado acerca de Walid ibn al-Walid, Salama ibn Hisham, Ayyash ibn Rabi‘a, Abu Jandal ibn Suhayl e outros semelhantes a eles: ‘Seríeis ordenados a combater se não houvesse entre eles homens e mulheres crentes que não conheceis. Poderíeis pisoteá-los sem saber, e, por causa deles, sofreríeis prejuízo.’”

(Surata Al-Fathue, 25) (Sira de Ibn Hisham, 2/321).

Salama ibn Hisham (que Allah esteja satisfeito com ele):

Seu nome era Salama e seu nome de kunyah, Abu Hashim. Seu pai era Hisham ibn Mugira e sua mãe, Dabaia bint Amer. Ele era irmão de Abu Jahl, um ferrenho inimigo do Islã.

O Dr. Muhammad Hamidullah narrou uma história surpreendente da vida pré-islâmica de Dabaia bint Amer, mãe de Salama. Al-Haytham e Ibn al-Kalbi narraram: Muttalib ibn Abi Wadaia disse a Ibn Abbas: Dabaia bint Amer era esposa de Hawza ibn Ali. Quando Hawza morreu, Dabaia recebeu uma grande fortuna como herança. Depois, voltou para a tribo de seu pai. Ali, Abdullah ibn Judayán al-Taymi enviou ao pai de Dabaia uma proposta de casamento com ela. Seu pai consentiu e casou-a com Abdullah.

Enquanto isso, o pai de Dabaia disse: “Eu já a casei com Ibn Judayán.” Então Huzn jurou: “Se Dabaia for para Ibn Judayán, eu a matarei diante do marido dela.”

O pai de Dabaia comunicou o ocorrido a Ibn Judayán. Ibn Judayán, por sua vez, respondeu que, se ele agisse de acordo com a exigência do primo de Dabaia, seria levantado contra ele, na feira de Ukaz, o estandarte da acusação de quebra de pacto. Quando o pai de Dabaia contou o assunto ao primo dela, ele se tornou flexível e retirou sua exigência. Dabaia foi enviada para Ibn Judayán. Ela permaneceu ali pelo tempo que Allah quis. Dabaia era uma jovem extremamente bela. Certo dia, durante sua vida conjugal com Ibn Judayán, ela estava realizando o tawaf da Caaba, em Meca, quando chamou a atenção de Hisham ibn Mugira. Hisham ficou fascinado pela beleza de Dabaia. Eles conversaram por algum tempo no recinto da Caaba. Por fim, Hisham disse: “Dabaia! Com essa beleza e juventude, você vive na casa de um homem idoso? Se conseguir obter o divórcio dele, eu me casarei com você.”

Ao voltar para casa, Dabaia disse ao marido, Ibn Judayán: “Eu sou uma mulher jovem, enquanto você é um homem idoso.” Ibn Judayán disse: “Por que está dizendo isso? Fiquei sabendo que Hisham falou com você durante o tawaf. Não me divorciarei de você até que me prometa que não se casará com Hisham. Você também terá de prometer que, se se casar com ele, cumprirá estas minhas condições: 1. realizará o tawaf da Caaba nua; 2. sacrificará tantos camelos; 3. fiará tal quantidade de lã.”

Dabaia contou a Hisham sobre essas condições. Hisham disse: “Quanto à primeira condição, conversarei com os coraixitas e deixarei completamente vazio o recinto da Caaba. No fim da noite, você realizará sozinha o tawaf, nua, na escuridão. Ninguém terá oportunidade de vê-la. Quanto aos camelos, eu os sacrificarei em seu nome. E, quanto a fiar o fio, isso não é nenhuma religião; foram os coraixitas que inventaram isso. Minhas vizinhas farão esse trabalho em seu nome.” Depois de receber a promessa de Hisham, Dabaia disse ao marido, Ibn Judayán: “Aceito suas condições. Se me casar com Hisham, cumprirei todas elas.” Assim, depois de obter o divórcio de Ibn Judayán, Dabaia casou-se com Hisham. Quando Hisham conversou com os coraixitas e deixou vazio o recinto da Caaba, Dabaia realizou o tawaf da Caaba nua. Al-Kalbi disse: Muttalib ibn Abi Wadaia contou: “Eu era então um menino. Espiava por uma das portas da mesquita. Vi Dabaia tirar suas roupas. Durante uma semana, ela realizou o tawaf recitando um verso.” Hisham também cumpriu as outras duas condições. Foi com Hisham que Dabaia deu à luz Salama ibn Hisham. Mais tarde, esse Salama tornou-se um excelente muçulmano, comprovado por suas provações. Durante a vida conjugal de Dabaia com Hisham, seu antigo marido, Abdullah ibn Judayán, morreu. Ao ouvir a notícia de sua morte, Dabaia comentou: “Ele era um marido extraordinário para uma mulher árabe.” Alguns dias depois, Hisham morreu, e Dabaia ficou viúva.

Mais tarde, Dabayah aceitou o Islã. Enquanto isso, seu filho Salama também cresceu e aceitou o Islã. O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, propôs a Salama casar-se com sua mãe. Salama consultou sua mãe e, percebendo nela certa relutância, informou o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele. Então, ele retirou a proposta. (Ansābul Ashrāf, 1, editado pelo Dr. Hamidullah, nota nº 3, pp. 460–461).

Salama aceitou o Islã ainda no início da pregação islâmica em Meca. Migrou para a Abissínia. Depois de permanecer ali por algum tempo, também retornou a Meca com muitos outros muhājirūn. Muitos voltaram novamente para a Abissínia. Salama também quis partir, mas Abu Jahl o impediu. Começaram a torturá-lo. Mantiveram-no em jejum forçado e também o espancavam. Contudo, todos os seus esforços fracassaram. Naquela época, o Islã ainda não havia adquirido força suficiente. O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, também não era capaz de oferecer qualquer ajuda. Entretanto, após as orações, suplicava por Salama e por outros perseguidos como ele, dizendo: “Ó Deus, liberta Walid ibn Walid, Salama ibn Hisham e Ayyash ibn Rabiah da dureza dos politeístas de Meca.” Na biografia de Walid, o livramento de Salama e sua migração para Medina foram narrados detalhadamente.

A Batalha de Badr terminou enquanto ele ainda estava cativo nas mãos dos incrédulos em Meca. Depois da Batalha de Badr — segundo outra opinião, depois da Batalha da Trincheira — ele foi para Medina. Depois de chegar a Medina, participou de todas as batalhas que ocorreram. Na Batalha de Mu’ta, foi um dos que fugiram do campo diante do intenso ataque das forças inimigas. Por causa dessa vergonha e desse arrependimento, mais tarde ele quase deixou de sair de casa. Ibn Ishaq narrou, com base em Umm Salama, uma das Mães dos Crentes: ela perguntou à esposa de Salama ibn Hisham: “O que aconteceu com Salama? Por que não o vejo participar da oração em congregação com o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, e os muçulmanos?” A esposa de Salama respondeu: “Por Deus, ele não consegue sair. Sempre que sai, as pessoas o veem e começam a gritar: ‘Ó fugitivos! Vocês fugiram do caminho de Deus!’ Por isso, ele permanece em casa e não vai a lugar algum.” (Sīrat Ibn Hisham, 2/382–383).

O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, dirigia-se a ele como “Karrār”, isto é, “o atacante impetuoso”. (Al-Iṣābah, 2/69).

Durante o califado de Abu Bakr al-Siddiq, que Deus esteja satisfeito com ele, participou da expedição à Síria. Em certa etapa dessa expedição, durante o califado de Umar, que Deus esteja satisfeito com ele, foi martirizado na batalha conhecida como “Marj al-Suffar” ou “Marj al-Rum”, ocorrida no mês de Muharram do ano 14 da Hégira. Contudo, segundo Urwah, Musa ibn Uqbah e Abu Zur’ah al-Dimashqi, ele foi martirizado na Batalha de Ajnadayn. (Al-Iṣābah, p. 269).

A mãe de Salama, Dabayah, disse em um poema: “Ó Senhor da honrada Caaba, não há motivo para preocupação. Concede a Salama a vitória contra todo inimigo. Em empreendimentos incertos, suas duas mãos: uma se manifesta, e a outra é generosa.” (Ansābul Ashrāf, 1/208).

Amir ibn Rabiah, que Deus esteja satisfeito com ele

Seu nome era Amir, sua kunya era Abu Abdillah, e seu pai chamava-se Rabiah. O clã dele era um aliado ou associado por pacto de Khattab, pai de Umar, que Deus esteja satisfeito com ele. Khattab amava-o tanto que o adotou como filho. Por isso, no início de sua vida, ele ficou conhecido como Amir ibn al-Khattab (Amir, filho de Khattab). Porém, quando o Alcorão aboliu esse costume e ordenou que cada pessoa fosse identificada pelo nome de seu pai biológico, Amir também passou a ser conhecido pelo nome de seu pai biológico, Rabiah, em vez de Khattab.

Por causa do parentesco mencionado, existiu até o fim da vida uma relação extremamente afetuosa entre Hazrat Amer e Hazrat Umar. Durante a viagem de Hazrat Umar a Bayt al-Maqdis, Hazrat Amer foi seu companheiro de viagem. No ano em que Hazrat Umar partiu para o hajj, nomeando Hazrat Uthman como seu sucessor, Amer também o acompanhou.

Hazrat Amer foi um desses afortunados que, nos primórdios do Islã, antes de o Nobre Mensageiro, que a paz esteja com ele, refugiar-se na casa de Hazrat al-Arqam ibn Abi al-Arqam, aceitaram o Islã em resposta ao chamado do Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele. Em meio ao conflito entre o politeísmo e o monoteísmo e à opressão e perseguição dos incrédulos, ele também não pôde viver em paz em Meca. Junto com sua esposa, Hazrat Layla, migrou duas vezes para a Abissínia em busca de paz e segurança. Ibn Ishaq narrou: A esposa de Amer disse: “Estávamos nos preparando para migrar para a Abissínia. Amer saiu de casa para tratar de um assunto. Nesse momento, Umar veio e parou diante de mim. Ele ainda seguia o politeísmo. Nós éramos maltratados por suas mãos. Umar me disse: ‘Mãe de Abdullah, o que é isso? Vocês estão se preparando para partir?’ Respondi: ‘Sim, iremos de uma terra de Allah para outra terra. Vocês nos causaram muito sofrimento e nos oprimiram. Veremos se Allah providenciará alguma saída para nós.’ Umar disse: ‘Que Allah abençoe o vosso dia.’ A esposa de Amer disse: “Naquele dia, vi Umar tão afável como nunca o tinha visto antes. Umar foi embora. Ele ficou profundamente entristecido com a nossa partida. Quando Amer voltou para casa, eu lhe disse: ‘Pai de Abdullah, se você tivesse visto há pouco a tristeza de Umar e a compaixão que ele demonstrava por nós!’ Amer disse: ‘Você espera que ele aceite o Islã?’ Respondi: ‘Sim.’ Ele disse: ‘O jumento de Khattab pode aceitar o Islã, mas aquele que você viu não o aceitará.’ (Hayatus Sahaba-1/356).

Hazrat Amer ibn Rabi’a, que Allah esteja satisfeito com ele, voltou da Abissínia para Meca e, acompanhado de sua esposa, migrou novamente para Medina. Ibn Ishaq disse: “Entre os emigrantes, depois de Abu Salama, os primeiros a chegar a Medina foram Amer ibn Rabi’a e Abdullah ibn Jahsh.” (Hayatus Sahaba-1/363). Segundo muitos, isso não está correto. Antes deles, várias outras pessoas chegaram a Medina. Contudo, é verdade que sua esposa, Hazrat Layla, foi a primeira mulher a migrar de Meca para Medina.

Ele esteve com o Mensageiro, que a paz esteja com ele, em todas as batalhas, incluindo Badr, Uhud e Khandaq. Além disso, participou também de pequenas expedições. Arriscando a própria vida, cumpriu com êxito a responsabilidade de transmitir a mensagem de Allah, ou o kalima. Costumava relatar com orgulho ao próprio filho, Abdullah ibn Amer, seus feitos gloriosos. Certa vez, no decorrer de uma conversa, disse: “O Mensageiro, que a paz esteja com ele, enviava-nos em expedições. Devido à pobreza, dava-nos apenas algumas tâmaras como provisão. No início, recebíamos um punhado para cada um; depois, foram diminuindo até chegar a uma única tâmara.” Hazrat Abdullah perguntou, admirado: “Como vocês conseguiam viver com uma tâmara?” Ele respondeu: “Meu querido filho, não digas isso. Quando a tâmara acabava, ficávamos aflitos até mesmo por causa daquela única tâmara.”

No fim do califado de Hazrat Uthman, quando a fitna e os conflitos internos atingiram o auge, Hazrat Amer, que Allah esteja satisfeito com ele, passou a viver em reclusão. Dia e noite, permanecia ocupado com o jejum, a oração e a adoração. Certa vez, estava absorto na adoração até tarde da noite, quando sentiu um pouco de sonolência. Em sonho, viu alguém dizer-lhe: “Levanta-te e suplica a Allah, para que Ele te salve desta fitna, assim como protegeu os Seus outros servos virtuosos.” Hazrat Amer imediatamente se sentou. Depois desse acontecimento, aumentaram ainda mais seu isolamento e sua dedicação à adoração. A partir de então, ninguém mais o viu sair de casa. Nesse estado, adoeceu e faleceu alguns dias depois do martírio de Hazrat Uthman. Por causa de seu extremo isolamento, ninguém soube quando ele adoeceu nem quando morreu. As pessoas ficaram surpresas ao deparar subitamente com seu funeral.

Mus’ab ibn al-Zubayr disse: “Amer morreu no ano 32 da Hégira.” Segundo Abu Ubayda, seu ano de falecimento foi o ano 37 da Hégira. Al-Waqidi disse que ele faleceu pouco tempo depois do martírio de Hazrat Uthman. (Al-Isaba-2/249).

Ele narrou hadiths do Mensageiro, que a paz esteja com ele, por intermédio de Hazrat Abdullah ibn Umar, Abdullah ibn al-Zubayr, Abu Umama ibn Sahl e outros. Esses hadiths foram registrados em diversas coletâneas de hadith, incluindo as de Bukhari e Muslim.

É narrado por Amer ibn Rabi’a: Um homem da Arábia foi até ele. Amer demonstrou-lhe grande respeito. O homem relatou isso ao Mensageiro, que a paz esteja com ele. Depois voltou e disse a Amer: “Pedi ao Mensageiro, que a paz esteja com ele, a propriedade de um vale do qual não existe outro melhor na Arábia. Pretendi doar-lhe uma parte, que seria útil para você e para as gerações posteriores.” Amer disse: “Não tenho necessidade dessa terra.” Nesse contexto, foi revelado o seguinte versículo do Alcorão: “A prestação de contas das pessoas se aproximou, mas elas continuam desatentas, rejeitando-a.” (Surata al-Anbiya, 1). Amer disse: “Este versículo nos torna desapegados do mundo.” (Al-Isaba-2/251-252).

Uthman ibn Talha (que Deus esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Uthman, seu pai chamava-se Talha ibn Abi Talha e sua mãe, Ummu Sa’id Salama. Era descendente do ramo Banu Amr da tribo coraixita de Meca. Na época da Jahiliyyah, era o hajib, ou administrador, da sagrada Caaba e guardião de sua chave. Também desempenhou essa função na era islâmica. (Usd al-Ghabah, 3/372).

O pai de Uthman ibn Talha, Talha; seus três irmãos, Musafi, Kilab e Harith; e seu tio paterno, Uthman ibn Abi Talha, foram mortos pelas forças muçulmanas na Batalha de Uhud enquanto ainda eram incrédulos. Seu pai, Talha, entrou em combate contra Ali (que Deus esteja satisfeito com ele). Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) o enviou ao Inferno com um único golpe de espada. (Sīrat Ibn Hisham, vol. 1, nota nº 3, p. 470).

Não se conhece muita coisa especial sobre a vida de Uthman ibn Talha antes do Islã. Também não há muitos registros históricos sobre se, antes de aceitar o Islã, ele participava das perseguições e dos maus-tratos infligidos aos muçulmanos em Meca. Conhece-se um episódio: depois que Mus’ab ibn Umayr (que Deus esteja satisfeito com ele) aceitou secretamente o Islã na Dar al-Arqam, em Meca, ele costumava realizar as orações às escondidas. Certo dia, Uthman ibn Talha o viu e informou sua mãe e sua tribo. Então eles prenderam Mus’ab e o torturaram. (Hayat al-Sahabah, 1/301).

Ao tratarem da migração de Umm Salama (que Deus esteja satisfeito com ela) de Meca para Medina, os especialistas em biografia do Profeta mencionaram repetidamente o nome de Uthman ibn Talha. O episódio foi, em resumo, o seguinte: quando Umm Salama (que Deus esteja satisfeito com ela), depois de ser libertada das mãos dos coraixitas de Meca, partiu sozinha rumo a Medina para encontrar-se com seu marido, Abu Salama (que Deus esteja satisfeito com ele), e chegou a Tan’im, nas proximidades de Meca, Uthman ibn Talha aproximou-se e perguntou: “Ó filha de Abu Umayyah, para onde vais?” Ela respondeu: “Para Medina, para junto de meu marido.” Uthman perguntou: “Não há mais ninguém contigo?” Umm Salama respondeu: “Não há ninguém além deste meu pequeno filho, Salama.” Então Uthman segurou a rédea do camelo de Umm Salama e começou a conduzi-lo. Ao chegar à aldeia de Banu Amr ibn Awf, em Quba, nos arredores de Medina, disse a Umm Salama: “Entra em nome de Deus; teu marido está aqui.” Depois disso, Uthman retomou o caminho de Meca. (Sīrat Ibn Hisham, 1/469–470).

Quando Umm Salama (que Deus esteja satisfeito com ela) migrou para Medina, Uthman ainda não era muçulmano.

Há opiniões divergentes quanto à época em que Uthman ibn Talha aceitou o Islã. Segundo uma opinião, isso ocorreu na época do Tratado de Hudaybiyyah; segundo outra, no oitavo ano da Hégira; e, segundo outra, no dia da conquista de Meca. Algumas narrativas relatam que, antes da conquista de Meca, no oitavo ano da Hégira, quando ele decidiu ir a Medina com Khalid ibn al-Walid e Amr ibn al-As para aceitar o Islã, disse a si mesmo: “Com quem irei até o Mensageiro?” Conversei sobre o assunto com Safwan ibn Umayyah. Ele rejeitou firmemente minha proposta e disse: “Mesmo que ninguém permaneça comigo, jamais serei seu seguidor.” Então fui até Ikrimah ibn Abi Jahl e disse-lhe a mesma coisa. Ele respondeu como Safwan. Depois encontrei Uthman ibn Talha e disse-lhe: “Nossa situação agora é como a de uma raposa dentro de uma toca na qual se está despejando água. Mais cedo ou mais tarde, ela terá de sair.” Uthman compreendeu minhas palavras, concordou e expressou o mesmo desejo que eu. Eu disse: “Amanhã cedo partirei para Medina.” Então decidimos chegar separadamente, na manhã seguinte, a um lugar chamado Yajuj, a três milhas de Meca, e dali prosseguir juntos. Quem chegasse primeiro esperaria pelo outro. Antes do amanhecer, chegamos a Yajuj e iniciamos a viagem. Ao chegarmos a um lugar chamado Hadda, encontramos Amr ibn al-As. Depois de conversarmos, soubemos que ele também havia saído com o mesmo propósito. Em seguida, nós três chegamos juntos a Medina e comparecemos diante do Mensageiro. Primeiro eu, depois Uthman e Amr, prestamos o bay’ah, ou juramento de lealdade, às mãos do Mensageiro de Deus (que Deus o abençoe e lhe conceda paz). Isso ocorreu no mês de Safar do oitavo ano da Hégira. (Hayat al-Sahabah, 1/161–162. O poeta Abdullah ibn al-Ziba’ri compôs naquela ocasião uma qasida dando boas-vindas à conversão de Talha ao Islã. Ibn Hisham compilou parte dela em sua obra biográfica do Profeta (Sīrah, 2/278). Segundo outra narrativa, Uthman aceitou o Islã na época do Tratado de Hudaybiyyah e foi para Medina com Khalid e Amr. (Al-Isabah, 3/460). Por outro lado, várias narrativas sobre a conquista de Meca indicam que Uthman aceitou o Islã naquele dia, depois de receber a chave da Caaba das mãos do Mensageiro. Isso pode levantar a seguinte questão: depois da conquista de Meca, poderia o Mensageiro entregar a chave da Caaba às mãos de um não muçulmano? O episódio da entrega da chave indica que ele já havia aceitado o Islã. Mas, nesse caso, surge outra questão: antes da conquista de Meca, a chave da Caaba também estava com Uthman. Seria possível que, antes da conquista de Meca, a chave da Caaba estivesse nas mãos de um muçulmano e os coraixitas aceitassem isso? Essas questões podem ser resolvidas da seguinte maneira: ele teria ido anteriormente a Medina com Khalid e Amr, declarado sua adesão ao Islã e retornado a Meca; porém, talvez o povo de Meca não soubesse disso. (Asahh al-Siyar, 304–306).

Desde a época da Jahiliyyah até antes da conquista de Meca, Uthman esteve encarregado da administração da Caaba e da guarda de sua chave. No dia da conquista de Meca, o Nobre Mensageiro de Deus (que Deus o abençoe e lhe conceda paz) pediu-lhe a chave para entrar no interior da Caaba. Ele foi até sua casa e pediu a chave à sua mãe, mas ela se recusou a entregá-la. É provável que a mãe de Uthman ainda não tivesse aceitado o Islã. Uthman ergueu uma espada desembainhada, obrigou sua mãe a entregar-lhe a chave e a colocou nas mãos do Nobre Mensageiro de Deus. O Mensageiro abriu a porta e entrou na Caaba. Uthman também estava com ele. A porta foi fechada por dentro. Depois de purificar e limpar a Caaba, o Mensageiro saiu. Em seguida, o Mensageiro sentou-se na mesquita. Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) veio com a chave da Caaba nas mãos, ficou de pé e disse: “Ó Mensageiro de Deus, confia-nos a chave. Entrega, de agora em diante, ambas as responsabilidades — a siqayah e a hijabah (o fornecimento de água aos peregrinos e a administração da Caaba) — às mãos dos Banu Hashim.”

Said ibn al-Musayyib disse: Naquele dia, Abbas ibn Abd al-Muttalib tentou apoderar-se da chave da Caaba, e alguns outros membros dos Banu Hashim o apoiaram. A responsabilidade pela siqaya, isto é, por fornecer água, já estava confiada a Abbas.

Diante dessa reivindicação dos Banu Hashim, o nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Onde está Uthman ibn Talha?” Quando Uthman foi chamado, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, entregou a chave a ele — ou, segundo outra versão, a Uthman e a seu primo Shayba — e disse: “Esta é a tua chave. A partir de agora, esta chave permanecerá para sempre em vossas mãos. Quem tentar arrancá-la de vossas mãos será um opressor.” (Sira de Ibn Hisham, 2/411-412)

Ibn Sad escreveu: A chave da Caaba já estava sob a responsabilidade de Uthman ibn Talha. Ele abria a porta da Caaba todas as segundas e quintas-feiras. Certa vez, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pediu-lhe que abrisse a porta em outro dia. Mas ele recusou firmemente. Naquele dia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó Uthman, chegará um dia em que esta chave estará sob meu controle, e eu a confiarei a quem eu quiser.” Uthman disse: “Talvez, nesse dia, toda a existência da tribo dos coraixitas tenha desaparecido.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rejeitou suas palavras e disse: “Não; ao contrário, esse dia será o dia da verdadeira honra e dignidade dos coraixitas.” Por isso, no dia da conquista de Meca, quando Uthman estava saindo com a chave que havia recebido das mãos do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele chamou Uthman novamente e lembrou-lhe aquele episódio do passado. Então Uthman disse: “Ó Mensageiro de Allah, certamente tu és o Mensageiro de Allah.”

Ainda hoje, a chave da Caaba permanece nas mãos de membros do clã Shaybi, de Meca. Esse clã Shaybi é descendente de Shayba ibn Uthman ibn Abi Talha, primo de Uthman ibn Talha, que Allah esteja satisfeito com ele. Esse Shayba ibn Uthman abraçou o Islã durante a batalha de Hunayn. Seu pai, Uthman ibn Abi Talha, foi morto pelas forças muçulmanas na batalha de Uhud enquanto ainda era descrente. Sua mãe era Umm Jamil Hind bint Umayr, irmã do famoso Companheiro Musab ibn Umayr, que alcançou o martírio em Uhud. Segundo um relato do historiador Waqidi, no dia da conquista de Meca, o nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, confiou simultaneamente a chave da Caaba a Shayba e a Uthman. Naquele momento, a chave estava nas mãos de Uthman ibn Talha ibn Abi Talha. Após sua morte, foi recebida por seu primo Shayba ibn Uthman ibn Abi Talha. Desde então, a chave da Caaba permanece nas mãos de seus descendentes. (Asahus-Siyar, p. 305).

Após a conquista de Meca, Uthman ibn Talha, que Allah esteja satisfeito com ele, mudou-se para Medina e permaneceu ali até o falecimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Depois do falecimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele voltou a Meca para assumir novamente a responsabilidade de guardião da chave da Caaba, e faleceu ali no ano 42 da Hégira. Contudo, segundo outro relato, ele alcançou o martírio em Ajnadayn, no início do califado do califa Umar, que Allah esteja satisfeito com ele. (Sira de Ibn Hisham, 1, nota 3, p. 470).

A prova da cortesia, da gentileza e do elevado caráter de Uthman ibn Talha, que Allah esteja satisfeito com ele, encontra-se no episódio da emigração de Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela. Ao elogiá-lo, Umm Salama disse: “Juro por Allah, nunca vi na Arábia homem mais gentil do que ele. Quando chegava comigo a algum lugar de parada, fazia o camelo ajoelhar-se para que eu descesse e afastava-se. Quando eu saía da liteira do camelo e me afastava um pouco, ele voltava, amarrava o camelo a uma árvore e deitava-se sob alguma árvore, a certa distância de mim. Quando chegava o momento de partir novamente, preparava o camelo e conduzia-o para perto de mim; depois afastava-se e dizia: ‘Monta no camelo.’ Depois que eu me acomodava devidamente sobre o camelo, ele voltava, segurava as rédeas e começava a conduzi-lo. Assim, levou-me até Medina. (Sira de Ibn Hisham, 1/469-470) (A Vida dos Companheiros, 1/358-359). Esta foi a manifestação concreta da nobreza de caráter de Uthman ibn Talha, que Allah esteja satisfeito com ele, em sua vida antes do Islã.

Hajjaj ibn Ilat, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Hajjaj; sua kunya, ou apelido, era Abu Kilab, e, segundo outra versão, Abu Muhammad e Abu Abdullah. Seu pai era Ilat ibn Khalid. Era membro da tribo Banu Sulaym.

Ibn Sa’d diz: quando o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — estava em Khaybar, ele compareceu à sua presença e aceitou o Islã. Depois, estabeleceu-se em Medina. É narrado por Ibn Shihab que ele foi a primeira pessoa a reconhecer como verdadeira a profecia do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e a enviar-lhe alguém. (Al-Isaba, 1/313).

A história de sua conversão ao Islã, registrada na história, é surpreendente. Ibn Abi ad-Dunya, em sua obra ‘Hawatif al-Jinn’, e Ibn Asakir narraram, com base em Wathila ibn al-Asqa — que Allah esteja satisfeito com ele —, o seguinte: o episódio da conversão de Hajjaj ao Islã foi assim. Ele viajava para Meca com uma caravana. Quando caiu a noite, chegaram a um vale deserto e assustador, e ficaram aterrorizados. Seus companheiros pediram-lhe: “Abu Qilaba, fique acordado durante a noite, sentado, e peça proteção para você e para seus companheiros.” Hajjaj assumiu a responsabilidade pela vigília e, permanecendo acordado, começou a repetir as seguintes palavras:

U‘īdhu nafsī wa u‘īdhu ṣaḥbī,

min kulli jinniyyin bihādhā an-naqbī,

ḥattā a‘ūda sāliman wa rakbī.

Busco proteção para mim e para meus companheiros contra todos os gênios deste desfiladeiro, para que eu e minha caravana possamos retornar em segurança.

Enquanto repetia as palavras acima, ouviu, de uma voz invisível, alguém recitar o seguinte versículo do Alcorão:

Ó comunidade dos gênios e dos seres humanos! Se puderdes ultrapassar os limites dos céus e da Terra, ultrapassai-os! Mas não podereis fazê-lo sem poder. — Surata Ar-Rahman, 33.

Ao chegarem a Meca, relataram o acontecimento na assembleia dos coraixitas. Os coraixitas disseram: “Abu Qilabah, pelo que vemos, tu também te tornaste um incrédulo. Isto é justamente a mensagem que, segundo Muhammad, lhe foi revelada.” Em resposta, Hajjaj disse: “Juro por Allah, eu e meus companheiros ouvimos exatamente esta mensagem.” Durante essa conversa, Asī ibn Wā’il chegou. As pessoas lhe disseram: “Abu Hisham, ouviste o que este Abu Qilabah está dizendo?” Quando ele perguntou do que se tratava, informaram-no. Depois de ouvir tudo, ele disse: “O que há de surpreendente nisso? Eles ouviram daquele de quem ouviram e, apoiando-se em Muhammad, fazem-no falar por sua boca.” (Hayātus-Sahābah, 3/576-577).

A esposa de Hajjaj ainda vivia em Meca, e todos os seus bens também estavam lá. Depois de aceitar o Islam, ele sentiu a necessidade de transferir esses bens e recursos para Medina. Caso contrário, se os coraixitas descobrissem que ele havia aceitado o Islam, tomariam tudo. Até os politeístas de Meca suspeitavam dele. Além disso, não era fácil retirar seus bens de Meca. Por isso, Hajjaj foi a Meca e espalhou o rumor de que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia sido derrotado em Khaybar.

Em pouco tempo, a notícia se espalhou por toda a cidade. Para alegrar dessa maneira os politeístas de Meca, ele disse: “Todos os pertences de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estão sendo vendidos. Meu desejo é comprá-los antes que os outros comerciantes cheguem. Muitas pessoas em Meca me devem grandes somas de dinheiro. Se fizerem um pequeno esforço, será fácil cobrá-las.” Os habitantes de Meca empenharam-se com grande zelo nessa boa ação. Por meio de seus esforços e diligências, conseguiram cobrar o dinheiro que lhe era devido. O honrado tio do Mensageiro de Allah, al-Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, encontrava-se então em Meca. Sentado em sua casa, ouvia tudo. Ficou tão angustiado que nem saiu de casa para verificar a veracidade da notícia. Mandou chamar Hajjaj por meio de um menino. Quando Hajjaj foi até ele, revelou a al-Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, a verdade. Disse: “Espalhei esse boato para cobrar as dívidas que me eram devidas. Eu mesmo aceitei o Islam. Se os habitantes de Meca descobrissem isso, não me dariam nem um centavo do que me devem. Pela vontade de Allah, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, está em segurança. O exército muçulmano saiu vitorioso em Khaybar, e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, casou-se com a filha de Huyayy ibn Akhtab, o líder de Khaybar, e vive com ela como marido e mulher. Não reveleis esta informação secreta a ninguém até que eu saia do alcance da autoridade dos coraixitas.”

Conforme o combinado, al-Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, permaneceu em completo silêncio durante três dias. No quarto dia, quando teve certeza de que Hajjaj havia saído do alcance dos habitantes de Meca, trocou de roupa, foi à casa de Hajjaj e revelou a verdade à sua esposa. Depois, dirigiu-se ao recinto da Caaba. Ali, o assunto já estava sendo discutido. Ele disse às pessoas: “Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conquistou Khaybar, e a filha de Huyayy ibn Akhtab agora é sua esposa. Os líderes dos Banu Abi Huqayq, isto é, os líderes de Yathrib, foram decapitados. Hajjaj enganou-vos e fugiu levando consigo os seus bens.” As pessoas perguntaram: “De quem ouvistes essas coisas?” Ele respondeu: “De Hajjaj.” Quando perguntaram à esposa de Hajjaj, ela também confirmou. No quinto dia, chegaram notícias de Medina. Mas então já não havia nada que pudessem fazer. A presa estava fora do alcance deles. Calaram-se. (Ibn Saad, 4/2, pp. 14-15).

Hajjaj aceitou o Islam poucos dias antes da batalha de Khaybar. Foi nessa batalha que se juntou pela primeira vez ao exército muçulmano. Na época da conquista de Meca, ele estava fora de Medina. Quando o nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, decidiu realizar a expedição, convocou-o a Medina. No dia da conquista de Meca, Khalid ibn al-Walid, que Allah esteja satisfeito com ele, entrou em Meca pelo caminho de Banu Sulaym à frente de um exército de mil soldados. Nesse exército, Abbas ibn Mirdas, Khufaf ibn Nudbah e Hajjaj ibn Ilat carregavam, cada um, um estandarte. (Hayātus-Sahābah, 1/167).

Hajjaj era um homem rico. Ele também conseguiu transferir todos os seus bens de Meca. Em Medina, construiu para si uma casa e uma mesquita. (Al-Isabah, 327).

Há duas narrativas sobre a época de sua morte. Segundo uma delas, ele morreu no início do califado de Umar al-Faruq, que Allah esteja satisfeito com ele. Segundo outra, alcançou o martírio na Batalha do Camelo, travada entre Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, e Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela. A primeira narrativa é mais confiável. Na Batalha do Camelo, não foi Hajjaj, mas seu filho, que foi martirizado.

Qudamah ibn Maz’un, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Qudamah e sua kunya, ou apelido, era Abu Umar. Seu pai era Maj’un ibn Habib e sua mãe, Sukhaillah bint al-Anbas. (Nota: Sirat Ibn Hisham, 1/253).

Era descendente do ramo Banu Jumah da tribo dos coraixitas. Sua esposa era Safiyyah bint al-Khattab, irmã de Umar.

Qudamah abraçou o Islã no início da era islâmica. Entre aqueles que aceitaram o Islã a convite de Abu Bakr al-Siddiq estavam Uthman ibn Maz’un e seus dois irmãos, Qudamah e Abdullah. Ele realizou duas Hégiras. Depois de aceitar o Islã, migrou inicialmente para a Abissínia com seus outros dois irmãos. Mais tarde, ao ouvirem o falso rumor de que todos os habitantes de Meca haviam abraçado o Islã, muitos retornaram da Abissínia para Meca. Qudamah estava entre os que retornaram. (Sirat Ibn Hisham, 1/367).

Ao retornar da Abissínia, Qudamah continuou vivendo em Meca. Antes da Batalha de Badr, migrou novamente para Medina e teve a honra de participar de Badr. Depois, participou de todas as batalhas, incluindo Uhud e a Batalha da Trincheira.

O califa Umar nomeou Qudamah governador do Bahrein. Enquanto ocupava esse cargo, ele foi acusado de beber vinho e recebeu o hadd, a punição prescrita para esse ato. Ele não confessou seu crime diante de Umar e, embora sua defesa como companheiro de Badr fosse digna de crédito, seu crime foi comprovado perante Umar com base em testemunhos e provas. Por isso, o califa aplicou-lhe o hadd. Segundo o relato do acontecimento, certa vez Jarud, chefe dos Banu Abd Qays, compareceu perante o califa Umar e apresentou uma acusação de que Qudamah havia bebido vinho. O califa perguntou a Jarud: “Há alguma outra testemunha desse fato além de você?” Jarud indicou Abu Hurayrah como testemunha. Umar convocou Abu Hurayrah e o interrogou. Abu Hurayrah respondeu que jamais vira Qudamah beber vinho, mas o vira vomitar em estado de embriaguez. Umar disse: “O crime não é comprovado apenas por esse testemunho.” Para investigar melhor, convocou Qudamah do Bahrein para Medina. Qudamah chegou a Medina. Jarud voltou a exigir que o hadd fosse aplicado a ele perante o califa. Umar perguntou-lhe: “Você é testemunha ou acusador?” Jarud respondeu: “Testemunha.” O califa disse: “Você cumpriu seu dever; agora fique em silêncio.” Depois disso, Jarud tornou a insistir perante o califa para que o hadd fosse aplicado. Por causa dessa insistência excessiva, Umar começou a suspeitar. Disse a Jarud: “Controle sua língua; caso contrário, estou avisando que o repreenderei.” Em resposta, Jarud disse ao califa: “Umar, seu primo bebeu vinho e você ainda está me repreendendo; isso não é justiça.” Nesse momento, Abu Hurayrah disse ao califa: “Ó Comandante dos Crentes, se o senhor tem dúvidas sobre nosso testemunho, pode convocar Hind, esposa de Qudamah e filha de al-Walid, e interrogá-la.” Umar mandou chamá-la. Ela também testemunhou contra o marido.

Então a justiça e a equidade de Umar se manifestaram plenamente. Ele disse a Qudamah: “Qudamah, prepare-se para receber a punição.” Qudamah respondeu: “Mesmo que, com base no testemunho deles, se admita que eu bebi vinho, o senhor ainda não tem o direito de aplicar o hadd contra mim.” Umar perguntou: “Por quê?” Qudamah recitou para ele o versículo 11 da surata al-Ma’idah do Alcorão Sagrado: “Aqueles que creem e praticam boas obras não terão pecado pelo que comeram, desde que tenham adotado a taqwa, crido e praticado boas obras.” (Surata al-Ma’idah, 11).

Umar disse: “Qudamah, você está distorcendo o significado do versículo. Se temesse a Deus, certamente se abst teria das coisas ilícitas.” Qudamah estava doente naquela época. Por isso, o califa consultou os outros companheiros e adiou por alguns dias a aplicação do hadd, ou da punição. Contudo, para Umar, deixar de aplicar o hadd depois de o crime ter sido comprovado era insuportável. Ele consultou os companheiros uma segunda vez. Novamente, todos se manifestaram a favor do adiamento do hadd. Mas o califa Umar disse: “É preferível que ele morra sob o açoite a que eu me encontre com Deus enquanto o peso disso recaia sobre meus ombros.” Ele não demorou mais. Aplicou o hadd a Qudamah enquanto ele ainda estava doente e rompeu todas as relações com ele.

Algum tempo depois desse acontecimento, os dois realizaram o Hajj juntos novamente. No caminho de volta para Medina, Umar adormeceu em certo lugar e, em sonho, recebeu a ordem de restabelecer seu relacionamento com Qudamah. Assim que acordou, mandou chamar Qudamah. Qudamah, porém, recusou-se a comparecer. Umar enviou alguém pela segunda vez e disse que, se ele não viesse voluntariamente, seria trazido à força. Qudamah veio. O próprio califa iniciou a conversa. Depois disso, o relacionamento entre os dois voltou ao normal.

É relatado que, após o falecimento do nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nenhum outro companheiro de Badr, além de Qudamah, foi punido sob a acusação de beber vinho. (Al-Isabah, 3/229).

Há divergência quanto ao ano da morte de Qudamah, que Allah esteja satisfeito com ele. Segundo a opinião mais conhecida, ele faleceu no ano 36 da Hégira, aos 68 anos, durante o califado de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Segundo outra opinião, o ano de sua morte foi 56 da Hégira.

Hisham ibn al-As, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome era Hisham, e suas kunyas ou alcunhas eram Abu al-As e Abu Mut’i. Ibn Hibban diz: na época da ignorância, a kunya de Hisham era Abu al-As, isto é, “pai do desobediente”. Depois que ele aceitou o Islam, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, mudou-a para Abu Mut’i — “pai do obediente”. (Al-Isabah, 2/604). Seu pai era al-As ibn Wa’il. Ele pertencia ao ramo Banu Sahm da tribo dos coraixitas. Era o irmão mais novo do ilustre companheiro Amr ibn al-As, o conquistador do Egito.

A felicidade ou a infelicidade não depende da diferença de idade. Embora Hisham fosse mais jovem que Amr, foi mais afortunado que seu irmão mais velho. Enquanto Amr se afundava nas trevas do paganismo, a luz do Islam já brilhava na fronte de Hisham. Ele aceitou o Islam logo no início da pregação islâmica em Meca e, exausto pela perseguição dos habitantes de Meca, partiu para a Abissínia com uma caravana de emigrantes. Depois de permanecer ali por algum tempo, ouviu o falso rumor de que os habitantes de Meca haviam aceitado o Islam; então, juntamente com muitos outros, retornou a Meca. De lá, planejou novamente emigrar para Medina, mas foi capturado por seu pai e pelos membros de sua família.

Há relatos de Umar ibn al-Khattab sobre esse episódio em várias obras de biografia. Ele disse: “Decidimos emigrar para Medina. Eu, Ayyash ibn Rabi’ah e Hisham ibn al-As fizemos este pacto junto ao poço chamado Udat, pertencente aos Banu Ghifar, no vale de Tandub, a seis milhas de Meca: cada um de nós estaria presente aqui na manhã seguinte. Quem faltasse seria certamente capturado. Eu e Ayyash chegamos no horário, mas Hisham foi capturado e torturado. Chegamos a Medina e fomos hóspedes dos Banu Amr ibn Awf, em Quba. Enquanto isso, Abu Jahl ibn Hisham e al-Harith ibn Hisham foram a Medina para levar Ayyash de volta. Os dois eram primos paternos de Ayyash, e todos eram filhos da mesma mãe. O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava então em Meca. Eles disseram a Ayyash: ‘Sua mãe jurou que não penteará os cabelos nem sairá do sol para a sombra sem vê-lo. Volte conosco.’ O coração de Ayyash enterneceu-se por sua mãe.

Umar disse: Eu lhe pedi repetidamente que não voltasse com eles. Mas, por fim, Ayyash partiu com eles em direção a Meca. Depois de percorrerem certa distância, amarraram Ayyash e o levaram para Meca, torturando-o durante o caminho. Ali, ele foi mantido preso.

Umar disse: Naquela época, em Medina, comentávamos entre nós que Allah não aceitaria o arrependimento daqueles que haviam se colocado diante de tal perigo. Então o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a Medina, e este versículo do Alcorão foi revelado:

Dize: Ó Meus servos que transgredistes contra vós mesmos! Não desespereis da misericórdia de Allah. Por certo, Allah perdoará todos os pecados. Ele é Perdoador, Misericordioso.

Umar disse: Escrevi o versículo e o enviei secretamente a Hisham, em Meca. Hisham disse: Eu costumava recitar esse versículo sentado no lugar chamado Dhu Tuwa, em Meca, mas não entendia nada. Por fim, supliquei a Allah que me concedesse a graça de compreendê-lo. Então entendi que esse versículo fora revelado a nosso respeito. Depois, cheguei a Medina e fui ter com o Mensageiro de Allah. (Hayatus Sahaba, 1/345-346; Sira de Ibn Hisham, 1/474-476; Al-Isaba, 3/604).

Ibn Hisham disse: Uma pessoa de confiança narrou-me que, certo dia, em Medina, o Mensageiro de Allah disse: Quem dentre vós pode ajudar-me no caso de Ayyash ibn Rabi’a e Hisham ibn al-As? Al-Walid ibn al-Walid ibn al-Mughira disse: Ó Mensageiro de Allah, eu o ajudarei no caso deles. Então partiu em direção a Meca. Entrando secretamente em Meca, viu uma mulher que levava comida. Perguntou-lhe: Ó serva de Allah, aonde vais? Ela respondeu: Vou até esses dois prisioneiros, isto é, Ayyash e Hisham. Al-Walid seguiu a mulher e descobriu o local onde estavam presos. Eles estavam amarrados em uma casa sem teto. Quando anoiteceu, Al-Walid escalou o muro, chegou até eles e cortou suas amarras com uma pedra. Depois, os três saíram juntos e fugiram para Medina montados no camelo de Al-Walid. Quando o único camelo que os transportava tropeçou, um dos dedos de Al-Walid feriu-se e ficou ensanguentado. Dirigindo-se ao próprio dedo, ele recitou este verso: “Hal anti illa usbu’in damaiti wa fi sabilillahi ma laqiti.”

Ó tu, não és mais que um dedo que ficou ensanguentado; e tudo o que te aconteceu foi pelo caminho de Allah. (Sira de Ibn Hisham, 1/476)

As batalhas de Badr, Uhud e da Trincheira terminaram enquanto Hisham ainda estava prisioneiro em Meca. Depois da batalha da Trincheira, ele foi para Medina. Participou ativamente de todas as batalhas travadas contra os incrédulos depois da Trincheira. Al-Waqidi disse que, no mês de Ramadã, antes da conquista de Meca, o Mensageiro de Allah enviou Hisham em uma expedição. (Al-Isaba, 3/604)

O comando militar, a bravura e a demonstração de coragem eram características especiais da família de Hisham. Os filhos dessa família cresciam à sombra das espadas. Depois da morte do Mensageiro de Allah, durante o califado de Abu Bakr, alguns sinais dessa característica puderam ser observados nele. Segundo alguns relatos, o primeiro califa, Abu Bakr, enviou-o, juntamente com Nu’aym ibn Abdullah e algumas outras pessoas, à corte do imperador romano Heráclio para convidá-lo ao Islã. A esse respeito, Hisham disse: Fui enviado com algumas pessoas até Heráclio. Chegamos a Guta, ou Damasco, e fomos à casa de Jabala ibn Ayham al-Gassani. Ele enviou um mensageiro para falar conosco. Dissemos: Fomos enviados ao imperador; não falaremos com nenhum mensageiro. Se ele nos der permissão, falaremos com ele próprio. Por fim, Jabala permitiu-nos ir até ele.

Jabala disse-nos: Qual é a vossa mensagem? Hisham disse: Apresentei-lhe o convite ao Islã. Naquele momento, ele e seus conselheiros vestiam roupas negras. Perguntei-lhe: Por que vestis essas roupas? Ele respondeu: Vestimos estas roupas e juramos não as retirar até expulsarmos vocês da Síria. Eu disse: Juro por Allah! Nós tomaremos, se Allah quiser, este vosso trono e o império do vosso imperador. Nosso Profeta Muhammad predisse isso. Jabala disse: Não sereis vós; mas sim aqueles que jejuam durante o dia e permanecem em adoração durante a noite são dignos disso. Como é o vosso jejum? Expliquei-lhe como jejuávamos. Então o rosto de Jabala escureceu. Depois, enviou-nos, acompanhados por um mensageiro, até o imperador Heráclio.

Hisham disse: Seguimos com o mensageiro. Quando nos aproximamos da cidade, o mensageiro que nos acompanhava disse: Esses animais que montais não podem entrar na cidade do imperador. Se quiserdes, posso providenciar cavalos turcos e mulas para vós. Dissemos: Não entraremos na cidade em nenhuma outra condição que não seja montados nesses animais. Quando o imperador foi informado de nossa firmeza, permitiu-nos entrar conforme desejávamos. Com as espadas penduradas nos ombros, chegamos até a câmara do imperador.

Assim, enquanto Hisham ibn al-As e seus companheiros desciam das montarias diante do palácio real, o imperador os observava atentamente. Quando pronunciavam “La ilaha illallah wa Allahu akbar”, tremiam como as folhas das tamareiras agitadas pelo vento. O imperador mandou informá-los de que não tinham o direito de proclamar a religião em voz tão alta. Então foram até o imperador.

O imperador estava sentado no trono, e os estrategistas romanos, em seus respectivos assentos. Sorrindo, o imperador lhes disse: “Por que não me cumprimentaram da mesma maneira como trocam saudações entre vocês?” Ao lado do imperador estava sentado um homem que falava árabe fluentemente. Eles responderam: “A nossa saudação não é permitida para você; e também não nos convém pronunciar com a boca a sua saudação.” O imperador perguntou: “Como vocês se cumprimentam entre si e como cumprimentam o seu rei?” Eles responderam: “As-salamu alaika.” O imperador perguntou novamente: “Qual é a vossa frase mais grandiosa?” Eles responderam: “La ilaha illallahu wa Allahu akbar” — não há divindade além de Allah, e Allah é o Maior. Em seguida, apresentaram ao imperador vários aspectos da religião islâmica, como a salat, o sawm, o hajj e a zakat, entre outros. Essa delegação permaneceu três dias com o imperador como sua hóspede e depois retornou a Medina. Diversos livros de sirah apresentam relatos detalhados dessa missão de da‘wah. (Al-Isabah, 2/471; Hayatus Sahabah, 1/204, 405; 3/557–562.) Contudo, alguns relatos afirmam que aquele que foi à corte do imperador Heráclio com uma missão de tabligh não era este Hisham, mas outro Hisham. (Al-Isabah, 3/704.)

Durante o califado de Abu Bakr, após alguns confrontos, os romanos reuniram um grande exército em Ajnadayn e se prepararam para a batalha. O confronto começou no mês de Jumada al-Ula do ano 13 da Hégira. Al-Waqidi relatou, com base na autoridade de Umm Bakr bint al-Miswar: durante essa batalha, quando Hisham percebeu entre alguns soldados muçulmanos uma tendência a fugir, lançou fora o seu véu facial, avançou para o centro das fileiras inimigas e começou a gritar: “Ó soldados muçulmanos, eu sou Hisham ibn al-As. Venham comigo. Estão fugindo do Paraíso?”

Esses homens incircuncisos não conseguem resistir diante das vossas espadas.” Juntando-se a Hisham, o exército muçulmano lançou um ataque intenso contra o exército romano. O exército romano concentrou-se na entrada de uma passagem estreita. Hisham atacou pelo lado oposto da passagem. Os romanos atacaram-no em conjunto, mataram-no e fugiram passando por cima de seu corpo. Quando os soldados muçulmanos chegaram ali, hesitaram em perseguir o exército inimigo, temendo pisotear o corpo esmagado de Hisham. Então seu irmão mais velho, Amr, que Allah esteja satisfeito com ele, chegou e disse: “Ó povo, Allah lhe concedeu o martírio, levou sua alma, e seu corpo está aqui.” Em seguida, os soldados muçulmanos atravessaram a passagem estreita passando por cima de seu corpo e perseguiram o exército inimigo. Amr ibn al-As, que Allah esteja satisfeito com ele, reuniu os restos dispersos do corpo e o sepultou. (Al-Isabah, 3/604.)

Entretanto, segundo Ibn al-Mubarak, ele alcançou o martírio na batalha de Yarmuk, durante o califado de Umar. (Al-Isti‘ab, nota em Al-Isabah, 3/593–595.)

Embora Hisham ibn al-As fosse mais jovem que seu irmão Amr ibn al-As, era mais virtuoso que o irmão mais velho. Após o martírio de Hisham, certa vez alguns coraixitas estavam sentados atrás da Caaba, conversando sobre os dois irmãos. Ao verem Amr realizando o tawaf, perguntaram-lhe: “Qual de vocês dois é superior: você ou seu irmão Hisham?” Ele respondeu: “Falarei em nome de ambos. A mãe dele era filha de Hashim ibn al-Mughira, enquanto a minha era uma escrava. Nosso pai o amava mais do que a mim. E vocês conhecem a perspicácia de todo pai em relação aos seus filhos. Nós dois competíamos nas boas ações, mas ele sempre me superava. Ambos participávamos das batalhas e, durante toda a noite, suplicávamos a Allah pelo martírio. Allah aceitou a súplica dele, mas a minha súplica não foi atendida.” (Al-Isabah, 1/604.)

O nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, testemunhou a firmeza da fé dos dois irmãos. Ele disse: “Hisham e Amr, os dois filhos de al-As, são crentes.”

Ao ouvir a notícia do martírio de Hisham, Umar al-Faruq, que Allah esteja satisfeito com ele, comentou: “Que Allah faça descer Sua misericórdia sobre ele. Ele foi um excelente servidor do Islã.”

Dhū al-Shimālayn, ʿUmayr ibn ʿAbd ʿAmr, que Allah esteja satisfeito com ele.

Seu nome verdadeiro era ʿUmayr, seu kunya era Abū Muḥammad e seu laqab ou título era Dhū al-Shimālayn. O nome de seu pai era ʿAbd ʿAmr. Ele pertencia à tribo de Khuzāʿa. Como realizava todas as tarefas com as duas mãos, o título Dhū al-Shimālayn, “o possuidor de duas mãos direitas”, tornou-se seu epíteto. Seu pai, ʿAbd ʿAmr ibn Naḍla, foi a Meca e ali se estabeleceu permanentemente após firmar um pacto com ʿAbd ibn Ḥārith ibn Naḍla ibn Zahba. ʿAbd deu-lhe sua própria filha, Num, filha de ʿAbd, em casamento. Dela nasceram o filho Dhū al-Shimālayn e a filha Rayta. (Ṭabaqāt de Ibn Saʿd, 3/167).

Convém observar que, nas obras de sīra, são mencionadas uma pessoa ou duas pessoas com os dois laqab ou títulos Dhū al-Shimālayn, isto é, “o possuidor de duas mãos direitas”, e Dhū al-Yadayn, isto é, “o possuidor de duas mãos”. Há divergência entre os especialistas em sīra sobre se esses dois títulos pertenciam à mesma pessoa ou a duas pessoas diferentes. Segundo a maioria, os dois títulos pertenciam à mesma pessoa. Por exemplo, Ibn Saʿd intitulou uma seção de sua Ṭabaqāt: “Dhū al-Yadayn, também chamado Dhū al-Shimālayn”, ou seja, Dhū al-Yadayn era também chamado Dhū al-Shimālayn. (Ṭabaqāt, 3/167).

Entretanto, essa opinião não é aceita por muitos. Segundo eles, tratava-se, na realidade, de duas pessoas diferentes. Isso também é comprovado pelos ḥadīths. Um episódio envolvendo uma pessoa chamada Dhū al-Yadayn foi narrado por Abū Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, e registrado no Ṣaḥīḥ de al-Bukhārī e no Ṣaḥīḥ de Muslim. Certa vez, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, encerrou a oração com o salām após realizar duas rakʿāt em vez de quatro. Todos os Companheiros ficaram perplexos, mas ninguém ousou fazer qualquer pergunta. Dhū al-Yadayn era extremamente corajoso. Então perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! A oração foi reduzida ou você se esqueceu?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, verificou com os Companheiros a veracidade de suas palavras. Todos apoiaram Dhū al-Yadayn e disseram: “Você realizou apenas duas rakʿāt.” Depois de confirmar o fato, ele realizou as duas rakʿāt restantes e, ao final, fez a prostração do esquecimento. (Al-Bukhārī: Livro da Adhān, seção: “Quando o imām tem dúvida, deve aceitar a palavra dos maʾmūmīn?”).

O narrador do ḥadīth acima é Abū Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele abraçou o Islã no sétimo ano da Hégira, durante a batalha de Khaybar. Por outro lado, Dhū al-Shimālayn foi martirizado na batalha de Badr, cinco anos antes. Portanto, Dhū al-Yadayn e Dhū al-Shimālayn não podem ter sido a mesma pessoa. Além disso, seus nomes também eram diferentes: o nome de um era Khirbāq e o do outro era ʿUmayr. (Siyar al-Ṣaḥāba, al-Muhājirūn, 2/327). Abū ʿUmar disse: “Dhū al-Shimālayn foi martirizado em Badr; ele não era Dhū al-Yadayn.” (Al-Iṣāba, 3/33).

Não há informações sobre quando e como o nobre Dhū al-Shimālayn abraçou o Islã. Após aceitar o Islã, emigrou para Medina e foi hóspede do nobre Saʿd ibn Khaythama. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estabeleceu uma relação de fraternidade entre ele e Yazīd ibn Ḥārith. Ele não viveu por muito tempo após abraçar o Islã. Depois de chegar a Medina, ele e seu irmão na fé, Yazīd, participaram da grandiosa batalha de Badr. Essa foi a primeira e última batalha de sua vida. Nessa batalha, ele foi martirizado pelas mãos do incrédulo Abū Usāma Zuhayr ibn Muʿāwiya al-Jushamī. Tinha apenas trinta anos quando morreu. Seu irmão na fé, Yazīd, também foi martirizado nessa batalha. (Ṭabaqāt, 3/168; Ansāb al-Ashrāf, 1/295).

Muʿayqib ibn Abī Fāṭima, que Allah esteja satisfeito com ele

Muʿayqib pertencia à tribo de Daws. Porém, por alguma razão desconhecida, tornou-se escravo e foi levado à presença de Saʿīd ibn al-ʿĀṣ, em Meca. (Ansāb al-Ashrāf, 1/200).

Segundo outro relato, ele pertencia à tribo de Azd e era aliado ou conveniado dos Banu Abd Shams de Meca. Abraçou o Islã ainda no início da pregação islâmica e migrou para a Abissínia com o segundo grupo que se dirigiu para lá. Da Abissínia, veio para Medina por ocasião da batalha de Khaybar. Segundo um relato, veio de Meca para Medina com Abu Musa al-Ashari e participou da batalha de Khaybar. Alguns relatos mencionam também sua participação na batalha de Badr e no Juramento de Ridwan. Isso indica que ele chegou a Medina antes da batalha de Khaybar. Segundo esses relatos, ele não migrou para a Abissínia. Contudo, Waqidi disse: “Ouvi daqueles que afirmam que ele migrou para a Abissínia que Muayqib foi diretamente da Abissínia para Medina com Jafar ibn Abi Talib.” (Ansab al-Ashraf, 1/200).

Entretanto, é correto que ele chegou a Medina depois da batalha de Khaybar. Não pôde participar de Badr nem de Khaybar. Ibn Sad também o incluiu entre os Companheiros que, embora tenham abraçado o Islã no início, foram privados da oportunidade de participar de Badr.

Durante a vida do nobre Mensageiro de Allah, o khatam, ou selo, da profecia permanecia sob sua responsabilidade. Por isso, após o falecimento do Mensageiro, Abu Bakr e Umar demonstravam-lhe especial respeito. Durante o califado de ambos, ele foi encarregado de supervisionar todas as atividades financeiras e de guardar o Bayt al-Mal.

O califa Umar amava-o muito. Na velhice, ele foi acometido de lepra. O califa fez todo o possível para tratá-lo. Sempre que ouvia falar de algum bom médico, mandava chamá-lo para tratá-lo. Mas nada adiantou. Contudo, afastou-se o temor de que a doença se agravasse ainda mais no futuro. Em geral, as pessoas evitam conviver, comer e beber com os leprosos; porém, Umar sentava-se com ele para comer à mesma toalha. Certa vez, foi servido o jantar ao califa Umar e aos seus companheiros. O califa saiu de casa e chamou Muayqib ibn Abi Fatima para comer com eles. Os presentes ficaram assustados. Umar disse a Muayqib: “Senta-te ao meu lado. Juro por Allah que, se outra pessoa tivesse essa doença, em vez de ti, eu não comeria com ela no mesmo prato. Come à vontade do teu lado.” Muayqib sentou-se com eles e comeu do mesmo prato. (Hayat al-Sahaba, 2/458). Segundo outro relato, Umar disse: “Se ele não fosse um Companheiro do Mensageiro de Allah, eu não comeria com ele.” (Ansab al-Ashraf, 1/200).

Depois do califa Umar, o califa Uthman continuou a tratá-lo da mesma maneira. O selo do Mensageiro permaneceu sob sua guarda até o fim. Esse selo caiu de sua mão no poço chamado Bir Mauna, ou poço de Mauna. Ele faleceu no final do mesmo ano em que o selo caiu. Baladhuri disse: “Ele faleceu no ano em que foi realizada a campanha da África, durante o califado de Uthman.” (Ansab al-Ashraf, 1/200).

A história registra a existência de um filho seu chamado Muhammad ibn Muayqib. Ele também transmitiu hadith de seu pai, Muayqib.

No campo do conhecimento, ele não era uma figura especialmente destacada. Entretanto, tinha habilidade nos estudos. Quando Umar constituiu seus bens como waqf, foi Muayqib quem redigiu o documento do waqf. Ele também era versado nos hadith do Mensageiro de Allah. Nos livros de hadith encontram-se vários relatos transmitidos por ele. Dois deles foram narrados tanto por al-Bukhari quanto por Muslim, sendo portanto muttafaq alayh, e um foi narrado exclusivamente pelo Imam Muslim.

Aban ibn Said ibn al-As

O nome do pai de Hazrat Aban era Abu Uhayha Sa’id ibn al-As, e o nome de sua mãe era Hind bint al-Mughira. No quinto antepassado de sua linhagem ascendente, Abd Manaf, sua genealogia se une à genealogia do Mensageiro de Allah (S.A.W.). (Usud al-Ghaba-1/35)

Seu pai, Sa’id, era uma pessoa de grande prestígio entre os coraixitas. Morreu como incrédulo em Ta’if, no segundo ou terceiro ano da Hégira, e foi sepultado ali mesmo. (Ansab al-Ashraf-1/142, 368).

Ele tinha vários filhos dignos. Ainda no início do Islam, dois deles, Khalid e Amr, aceitaram o Islam e emigraram para a Abissínia. (Al-Isaba-1/13).

Aban permaneceu pagão juntamente com seus outros dois irmãos, Ubayda e al-As. Ele ficou profundamente entristecido com a aceitação do Islam por seus dois irmãos, Khalid e Amr. Essa tristeza foi expressa em uma qasida que ele compôs. Um de seus versos é o seguinte:

Ai! Se os mortos de Jariba pudessem ver a mentira que Amr e Khalid atribuíram à religião! (Al-Isaba-1/13) (Usud al-Ghaba-1/35).

Aban continuou a se opor ao Mensageiro de Allah (S.A.W.) e aos muçulmanos juntamente com seus outros dois irmãos. Ele saiu de Meca com Ubayda e al-As para lutar contra os muçulmanos na Batalha de Badr. Ubayda e al-As foram mortos de forma lamentável pelas mãos dos muçulmanos. Aban conseguiu retornar a Meca com vida, por pouco.

Ibn Hisham menciona um episódio relacionado à vida de Aban antes do Islam: na era pré-islâmica, o Mensageiro de Allah (S.A.W.) casou algumas de suas filhas com jovens coraixitas de Meca. Quando começou o conflito entre o Mensageiro de Allah (S.A.W.) e os coraixitas, os líderes coraixitas solicitaram aos genros do Mensageiro de Allah (S.A.W.) que se divorciassem de suas filhas. Ruqayya, filha do Mensageiro de Allah (S.A.W.), era esposa de Utba ibn Abi Lahab. Os coraixitas disseram a Utba: “Divorcie-se da filha de Muhammad.” Ele concordou sob a condição de que, se eles pudessem casá-lo com a filha de Aban ibn Sa’id ou com a filha de Sa’id ibn al-As, ele se divorciaria de Ruqayya. Eles aceitaram a exigência de Utba, casaram-no com a filha de Sa’id ibn al-As e fizeram com que Ruqayya se separasse dele. (Sirat Ibn Hisham-625).

Às vésperas do Tratado de Hudaybiyya, Hazrat o Mensageiro de Allah (S.A.W.) enviou Hazrat Uthman (R.A.) aos coraixitas de Meca com sua mensagem. Uthman (R.A.) dirigia-se a Meca pelo vale de Balda. Os coraixitas perguntaram-lhe: “Aonde você vai?” Uthman disse-lhes exatamente aquilo que o Mensageiro de Allah (S.A.W.) lhe havia ordenado. Nesse momento, Aban ibn Sa’id avançou do meio dos coraixitas e deu as boas-vindas a Uthman. Ele já mantinha uma relação próxima com Uthman. Aban preparou seu próprio cavalo, fez Uthman montar nele e assumiu a responsabilidade por sua segurança. Em seguida, Aban levou Uthman a Meca. (Hayat al-Sahaba-1/156).

Quando Uthman foi à casa de Aban, este lhe perguntou: “Por que suas roupas estão assim?” A túnica de Uthman chegava até a metade entre os joelhos e os tornozelos. Aban continuou: “Por que você não alonga sua túnica como as pessoas do seu povo?” Uthman respondeu: “Nosso Profeta veste-se assim.” Aban disse: “Faça a circunvolução da Caaba.” Uthman respondeu: “Não podemos fazer algo antes que nosso Profeta o faça. Nós apenas seguimos seus passos.” (Hayatus-Sahaba-2/358-59; Al-Istiab-35; Sira de Ibn Hisham-2/315).

Embora Aban tivesse sido hostil ao Islã e ao Profeta do Islã durante muito tempo, nesse período ele não deixou de modo algum de buscar a verdade. Nessa época, perguntava a homens sábios sobre a missão profética do Mensageiro. Naqueles dias, Sham ou Síria era um centro de pessoas instruídas, virtuosas e experientes. Aban ia até lá por motivos comerciais. Certa vez, durante uma conversa, disse a um monge cristão dali: “Sou descendente da tribo coraixita do Hijaz. Um homem dessa tribo afirma ser o escolhido por Allah. Ele diz que Allah também o enviou como profeta, tal como enviou Jesus e Moisés.” O monge perguntou o nome do homem. Aban respondeu: “O nome dele é Muhammad.” O monge explicou, de acordo com as descrições dos Livros celestiais, a idade, a linhagem e outras características do surgimento de um profeta. Ao ouvir sua explicação, Aban disse: “Tudo isso existe nesse homem.” Então o monge disse: “Juro por Allah: nesse caso, depois de dominar toda a Arábia, esse homem se expandirá por todo o mundo. Quando você voltar, transmita minhas saudações a esse servo virtuoso de Allah.” O nome desse monge ou sacerdote de Sham era Yaqqa. Quando Aban voltou de Sham, já não era o mesmo de antes. Sua força para se opor ao Islã e aos muçulmanos havia chegado ao fim. (Usud al-Ghaba-1/35; Al-Isaba-1/13).

Pensando na religião de seus antepassados e temendo as censuras e zombarias de seus contemporâneos, Aban permaneceu completamente calado por alguns dias. Contudo, não conseguiu reprimir por muito tempo o fervor pela verdade que havia surgido dentro dele. Enquanto isso, seus irmãos Amr e Khalid, que haviam retornado da Abissínia, continuaram mantendo contato com Aban. Depois, antes da batalha de Khaybar, ele aceitou o Islã e emigrou para Medina. Os três irmãos participaram juntos da expedição a Khaybar com o Mensageiro de Allah. (Al-Isaba-1/13).

Segundo outro relato, depois que Aban chegou a Medina, o Nobre Mensageiro de Allah o nomeou comandante de uma pequena força e o enviou em direção a Najd. Quando retornou a Medina após obter sucesso nessa expedição, a conquista de Khaybar já havia terminado. Foi justamente nessa ocasião que Abu Huraira chegou a Medina junto com os demais emigrantes da Abissínia. Os dois foram juntos até o Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah deu-lhes uma parte dos espólios de Khaybar. Além da expedição a Najd, ele também recebeu do Mensageiro de Allah a liderança ou o comando de várias outras pequenas expedições.

Aban participou da expedição a Taife com o Nobre Mensageiro de Allah. Ao ver em Taife o túmulo do pai de Aban, Abu Siddiq exclamou: “Que a maldição de Allah recaia sobre o ocupante deste túmulo! Ele era um opositor de Allah e do Mensageiro.” Aban e seu irmão Amr imediatamente protestaram contra as palavras de Abu Bakr e proferiram algumas censuras contra seu pai, Abu Quhafa. Então o Mensageiro disse: “Não insultem os mortos. Insultar os mortos causa sofrimento aos vivos.” (Ansab al-Ashraf-1/142, 368).

O Nobre Mensageiro de Allah nomeou Aban governador do Bahrein no lugar de Ala ibn al-Hadrami. Ele exerceu essa função até o falecimento do Mensageiro de Allah. Ao ouvir a notícia da morte do Mensageiro de Allah, retornou a Medina. (Al-Istiab-1/35).

Aban também exerceu para o Mensageiro de Allah a função de escriba. (Ansab al-Ashraf-1/532).

Após o falecimento do Mensageiro de Allah, Abu Bakr foi escolhido como califa. Mesmo depois de concluída a adesão pública a ele, Aban foi um dos poucos coraixitas que permaneceram afastados da lealdade por alguns dias. Quando os membros dos Banu Hashim prestaram o juramento de lealdade, sua objeção foi removida e ele também prestou o juramento.

O califa Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) não destituiu nenhum governador ou funcionário nomeado pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Aban também era um governador nomeado pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Abu Bakr pediu a Aban que retornasse ao seu cargo. Contudo, Aban recusou o pedido do califa. Segundo algumas narrativas, após repetidos pedidos do califa, ele finalmente aceitou assumir novamente o governo do Iêmen.

Ibn Saad narra: quando Aban recusou o pedido do califa, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse-lhe certa vez: “Ele não deveria ter abandonado seu posto dessa maneira sem a autorização do imã ou líder. Agora, novamente, está se recusando a retornar para lá por ordem dele.” Aban respondeu: “Juro por Allah! Depois do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não trabalharei para mais ninguém. Se fosse trabalhar, devido à posição de Abu Bakr e à sua precedência no Islã, eu seria seu amil, ou funcionário.” Então Abu Bakr consultou os Companheiros sobre quem deveria enviar para o Bahrein. Uthman disse: “Como Alá ibn al-Hadrami estava lá antes dele, que ele seja enviado para lá.” Umar disse: “Que Aban seja obrigado a retornar para lá.” Mas Abu Bakr recusou-se a fazer isso. Ele disse: “Não posso obrigar alguém que diz: ‘Depois do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não trabalharei para mais ninguém.’” Em seguida, nomeou Alá ibn al-Hadrami governador do Bahrein. (Hayatus Sahaba, 2/59).

Há divergências entre os especialistas em biografia quanto à época da morte de Aban. Segundo Musa ibn Uqba e a maioria dos genealogistas, ele alcançou o martírio no campo de batalha de Ajnadayn, no ano 13 da Hégira, perto do fim do califado de Abu Bakr. Segundo Ibn Ishaq, ele morreu como mártir na batalha de Iarmuk; segundo outros, no dia de Marj al-Safar. Outra narrativa informa que ele morreu no ano 27 da Hégira, durante o califado de Uthman, e que, sob sua supervisão, Zaid ibn Thabit compilou o mushaf de Uthman. Contudo, há razões suficientes para considerar correta a primeira opinião.

Amr ibn Umayya (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Amr, e sua kunya, ou nome pelo qual era chamado, era Abu Umayya. O nome de seu pai era Umayya. Era descendente da tribo de Banu Kinana. Ibn Hisham o menciona como um dos homens mais inteligentes da Arábia pré-islâmica, por volta da época em que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu a profecia, e narra também um episódio a esse respeito. (Sira de Ibn Hisham, 1/204, 207). Ele lutou com extrema bravura e coragem contra os muçulmanos nas batalhas de Badr e Uhud, ao lado dos politeístas de Meca. Logo após Uhud, aceitou o Islã e emigrou para Medina.

Após aceitar o Islã, participou pela primeira vez do episódio de Bir Mauna. O acontecimento foi o seguinte: no quarto mês após a batalha de Uhud, Abu Bara Amir ibn Malik ibn Jafar, da tribo Banu Kilab de Najd, conhecido como Mulaib al-Asinna, compareceu perante o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em Medina. O Mensageiro de Allah apresentou-lhe o convite ao Islã. Sem demonstrar aceitação ou rejeição, ele disse: “Se você enviasse alguns de seus companheiros à tribo Kilab de Najd, talvez eles aceitassem o Islã.” O Mensageiro de Allah disse: “Temo pelos habitantes de Najd.” Porém, como Abu Bara assumiu plena responsabilidade pela segurança do grupo enviado, o Mensageiro de Allah enviou um grupo de quarenta — segundo outra versão, setenta — homens, sob a liderança de Mundhir ibn Amir. Eles chegaram a um lugar chamado Bir Mauna, montaram suas tendas e permaneceram ali, enviando por meio de Haram ibn Malhan a carta do Mensageiro de Allah, contendo o convite ao Islã, a Amir ibn Tufail.

Amir ibn Tufail matou o mensageiro Haram e anunciou que partiria imediatamente para combater o grupo muçulmano junto às tribos de Asiyya, Rial, Zakwan e outras. Eles se reuniram. Enquanto isso, vendo que Haram demorava a retornar, os muçulmanos saíram à sua procura. Pouco depois, encontraram-se frente a frente com as tribos de Rial, Zakwan e outras. Todos atacaram conjuntamente o grupo muçulmano e mataram seus integrantes. Somente Amr ibn Umayya sobreviveu. Ele foi capturado pelo exército inimigo e levado à presença de Amir ibn Tufail. Quando este soube que Amr ibn Umayya pertencia à tribo de Mudar, libertou-o, dizendo que sua mãe havia feito um voto de libertar um escravo. Contudo, como sinal de humilhação, cortou-lhe os cabelos da parte frontal da cabeça. (Sira de Ibn Hisham, 2/184-185).

Nesse episódio de Bir Mauna, também alcançou o martírio o ilustre Companheiro Amir ibn Fuhaira. Quando Amr ibn Umayya foi capturado e levado à presença de Amir ibn Tufail, este apontou para o corpo de Amir ibn Fuhaira e perguntou-lhe: “Quem é esse homem?” Amr ibn Umayya respondeu: “Amir ibn Fuhaira.” Então Amir ibn Tufail disse: “Vi que, depois de ser morto, seu corpo se elevou muito alto no ar, em direção ao céu, e depois desceu novamente.” (Hayatus Sahaba, 3/595).

Quando Amr ibn Umayya, tendo escapado das mãos dos inimigos em Bir Ma’una, chegou a um lugar chamado Qarquara a caminho de Medina, encontrou dois homens que vinham na direção oposta. Os dois homens também vieram sentar-se à sombra da árvore sob a qual ele descansava. Ao conversar com eles, Amr ibn Umayya descobriu que eram membros da tribo de Banu Amir, mas permaneceu em silêncio. Quando adormeceram, Amr os atacou e matou ambos. Ele pensou que isso seria uma forma de vingança pelo tratamento que Banu Amir havia dado aos companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ao chegar a Medina, Amr relatou o ocorrido ao Mensageiro de Allah, que lhe disse: “Amr, você cometeu dois homicídios pelos quais necessariamente terei de pagar o preço de sangue.” Deve-se mencionar que, antes desse incidente, o Mensageiro de Allah já havia firmado um pacto com Banu Amir. (Sīrat Ibn Hisham, 2/186.) Em seguida, o Mensageiro de Allah pagou o preço de sangue por eles. (Sīrat Ibn Hisham, 1/564.)

No sexto ano da Hégira, o nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou a Amr ibn Umayya que fosse à Abissínia levando uma carta contendo o convite ao Islam. Nessa carta, o Mensageiro de Allah recomendava ao Negus que acolhesse os emigrantes que se encontravam na Abissínia e enviava uma proposta de casamento a Umm Habiba bint Abi Sufyan, que ainda permanecia ali com os emigrantes da Abissínia. Deve-se mencionar que Umm Habiba era esposa de Ubaydullah ibn Jahsh. Ela havia aceitado o Islam em Meca nos primeiros tempos e emigrado com o marido para a Abissínia. Quando seu marido, Ubaydullah, abandonou o Islam e se converteu ao cristianismo, a relação entre os dois foi rompida. Ao receber essa carta de convite, o Negus aceitou o Islam pelas mãos de Ja’far ibn Abi Talib e escreveu uma carta em resposta à carta do Mensageiro de Allah. Nessa carta, mencionava sua aceitação do Islam, suas saudações ao Mensageiro de Allah e sua hospitalidade para com os emigrantes, entre outras coisas. De acordo com a carta do Mensageiro de Allah, o próprio Negus enviou a Umm Habiba uma proposta de casamento em nome dele. Ele próprio atuou como representante do Mensageiro de Allah e, após o casamento, pagou, em nome do Mensageiro de Allah, um dote de quatrocentos dinares. (Sīrat Ibn Hisham, 1/224, 324.) (Hayat al-Sahaba, 1/158; 3/596-597.)

Quando esse Amr ibn Umayya chegou à presença do Negus como enviado do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Amr ibn al-As, um dos maiores inimigos do Islam naquela época, também estava ali. Ele insistiu junto ao Negus para que Amr ibn Umayya lhe fosse entregue, a fim de que pudesse matá-lo para se vingar e aumentar sua posição perante os coraixitas. (Sīrat Ibn Hisham, 2/276-277.)

Amr ibn Umayya levou os emigrantes que se encontravam na Abissínia em dois navios e chegou com eles a Medina durante a batalha de Khaybar. (Sīrat Ibn Hisham, 2/359.)

Depois de retornar a Medina ao concluir sua missão diplomática na Abissínia, foi-lhe confiada a tarefa de vingar uma das más ações de Abu Sufyan. Eis o que aconteceu: Abu Sufyan incentivou algumas pessoas a assassinar o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Um homem assumiu essa tarefa, e Abu Sufyan forneceu-lhe o necessário. Ele foi a Medina e dirigiu-se diretamente à mesquita, à presença do Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah descobriu sua intenção. Ao lhe fazer perguntas, revelou com que propósito ele havia vindo. O homem estava prestes a atacar o Mensageiro de Allah quando, de repente, Usayd ibn Hudayr o agarrou firmemente. Um punhal caiu debaixo das roupas do homem. O crime era evidente; não havia necessidade de testemunhas. Contudo, a Misericórdia para os mundos perdoou-o. Ele revelou toda a conspiração de Abu Sufyan.

Como Abu Sufyan era o principal responsável por esse incidente e, por causa dele, permanecia constantemente um estado de guerra entre os coraixitas de Meca e os habitantes de Medina, o nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou Amr ibn Umayya e Salama ibn Aslam — segundo outra versão, Jabbar ibn Sakhr al-Ansari — numa missão secreta a Meca. Ele lhes ordenou que, caso surgisse uma oportunidade, eliminassem para sempre do mundo o principal causador daquela agitação.

Amr e Salama chegaram secretamente a Meca, mas Muawiya os avistou enquanto realizava a circunvolução em torno da Caaba. A notícia se espalhou entre os coraixitas. Eles começaram a dizer que sua chegada certamente não era sem motivo e que, sem dúvida, provocariam algum incidente. Quando Amr e Salama perceberam que sua chegada já era conhecida entre os coraixitas, saíram de Meca. No caminho, encontraram Ubaydullah ibn Malik e um homem de Banu Hudhayl. Amr matou Ubaydullah, e Salama matou o segundo homem.

Enquanto isso, os coraixitas espalharam espiões pelos arredores de Meca para procurá-los. Amr e Salama encontraram dois desses espiões. Mataram um deles e capturaram o outro, levando-o a Medina, à presença do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. (Sīrat Ibn Hisham, 2/633-634.)

Segundo uma narração de Ahmad e al-Tabarani, Khubaib ibn Adi foi martirizado pelas mãos dos incrédulos de Meca, e seu corpo foi pendurado num tronco de madeira. O Nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou uma missão secreta a Meca para trazer o corpo de Khubaib. O homem chegou secretamente a Meca, subiu pelo tronco e cortou a corda, fazendo com que o corpo de Khubaib caísse ao chão. Nesse momento, os coraixitas perceberam sua presença e o perseguiram, e ele fugiu deixando o corpo para trás. Contudo, segundo outra narração, Miqdad ibn Aswad e Zubair ibn al-Awwam foram encarregados dessa tarefa e foram eles que realizaram a expedição. (Hayatus Sahaba, 3/596-597).

Após o falecimento do Nobre Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Amr ibn Umayya ainda viveu por muitos anos. Contudo, não há informações especialmente relevantes sobre sua vida posterior nos registros históricos. Ele faleceu em Medina antes do ano 60 da Hégira, durante o governo do califa Amir Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele. Nas coleções de hadith encontram-se vinte hadiths narrados por Amr ibn Umayya. Abdullah, Jafar, Fadl, Zabarkan, al-Shabi, Abu Salama ibn Abd al-Rahman, Abu Qilaba, Jurmi e Abu al-Muhajir foram alguns de seus alunos mais importantes.

Ele era um dos homens mais valentes e corajosos da Arábia de seu tempo. Por isso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, confiava-lhe a responsabilidade de realizar expedições ousadas. Ao morrer, deixou três filhos: Jafar, Abdullah e Fadl.

Mistah ibn Usasa, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome verdadeiro era Awf, seu nome de kunya era Abu Abbad, e seu لقب ou título era Mistah. Seu pai era Usasa ibn Abbad, e sua mãe era tia materna de Abu Bakr — segundo outra opinião, sua prima materna. Ambos os pais abraçaram o Islam no período inicial da religião. (Al-Isaba, 3/408).

Mistah abraçou o Islam no período inicial da pregação islâmica. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estabeleceu um vínculo de irmandade entre ele e Zaid ibn Muzayyin. Não se sabe com certeza quando ocorreu sua Hégira. Contudo, ele migrou para Medina antes da Batalha de Badr, e os livros de história e de sirah registram sua participação nessa batalha. Ele também participou da batalha contra os Banu Mustaliq. No caminho de retorno dessa batalha ocorreu o episódio da Ifk, ou seja, a calúnia contra Aisha, a Mãe dos Crentes, que Allah esteja satisfeito com ela. Quando os hipócritas espalharam a calúnia, alguns Companheiros crentes e sinceros também acabaram envolvidos nela. Mistah foi um deles.

O famoso episódio conhecido como “o incidente da Ifk” é mencionado em vários versículos do sagrado Alcorão, incluindo o versículo 11 da surata An-Nur. Resumidamente, o episódio foi o seguinte: Aisha, a Mãe dos Crentes, que Allah esteja satisfeito com ela, acompanhou o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, na batalha contra os Banu Mustaliq, no sexto ano da Hégira. No caminho de retorno a Medina, eles acamparam num determinado local. Aisha afastou-se do acampamento para atender às necessidades naturais. Quando seu colar caiu ali, ela ficou procurando-o. Enquanto isso, como sua liteira era coberta por cortinas, a caravana partiu, pensando que ela estava dentro dela. O guarda que vinha atrás, Safwan, que Allah esteja satisfeito com ele, ao vê-la, colocou-a sobre seu camelo e, segurando a rédea do animal, caminhou a pé até alcançar a caravana. A partir desse acontecimento, o líder dos hipócritas, Abdullah ibn Ubayy, começou a espalhar várias calúnias. Nos versículos da surata An-Nur, é declarada a inocência de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, e é anunciada uma punição severa para os caluniadores.

Ao retornar da batalha, Mistah contou o ocorrido à sua mãe. Certa noite, a mãe de Mistah foi à casa de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, para tratar de um assunto. Naquele momento, Aisha estava na casa de seus pais, junto de sua mãe. Naquela época, as casas não tinham um local permanente destinado às necessidades fisiológicas. Geralmente, à noite, as mulheres saíam de casa e iam ao deserto para atender às suas necessidades naturais. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, saiu com a mãe de Mistah para fora de casa a fim de atender às necessidades naturais. No caminho, a mãe de Mistah tropeçou, tendo o próprio manto enrolado nos pés. Depois de tropeçar, conforme o costume árabe, deixou escapar: “Que Mistah pereça!” Aisha protestou e disse: “Você está lançando uma maldição contra um muçulmano emigrado que lutou em Badr?” Então a mãe de Mistah disse: “Ó filha de Abu Bakr, você não ouviu nada?” Em seguida, a mãe de Mistah contou-lhe todo o ocorrido. (Sirat Ibn Hisham, 1/299-300; Hayatus Sahaba, 1/587).

O pobre Mistah era primo materno de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Abu Bakr sempre o tratava bem e o ajudava financeiramente. Quando soube que Mistah estava envolvido no incidente do “Ifk” e o Alcorão declarou que a divulgação deles era uma falsa calúnia, Abu Bakr deixou de ajudá-lo. Declarou: “A partir de agora, não gastarei sequer um centavo com Mistah.” Então foi revelado o seguinte versículo da Surata An-Nur: “Que os dotados de riqueza e abundância entre vós não jurem que deixarão de dar qualquer coisa aos parentes, aos necessitados e àqueles que abandonaram seus lares pela causa de Allah. Que os perdoem e ignorem suas faltas. Não desejais que Allah vos perdoe? E Allah é Perdoador, Misericordioso.” (Surata An-Nur, 22).

Após a revelação do versículo, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) voltou a ajudá-lo como antes. Um longo hadith narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), registrado por Bukhari e Muslim, fornece detalhes sobre esse assunto. (Al-Isaba, 3/408).

Entretanto, como ele havia se envolvido no episódio da calúnia contra uma mulher casta e virtuosa, e o Alcorão também havia estabelecido para eles a seguinte punição: “Açoitai com oitenta chibatadas aqueles que caluniam mulheres castas e virtuosas e não apresentam quatro testemunhas.” (Surata An-Nur, 4), por essa razão ele também recebeu essa punição juntamente com os demais. Além de Mistah, os outros poucos companheiros famosos e devotados que sofreram a punição foram Hassan ibn Thabit e Hamna bint Jahsh, irmã de Zaynab bint Jahsh, Mãe dos Crentes (que Allah esteja satisfeito com ela). (Sira de Ibn Hisham, 1/302). (Hayatus Sahabah, 1/590).

Devemos lembrar que os companheiros devotados, como Mistah (que Allah esteja satisfeito com ele), que se envolveram no incidente do “Ifk”, foram simplesmente vítimas da propaganda dos hipócritas. Do contrário, uma pessoa como Mistah não poderia ter se envolvido nisso deliberadamente. Além disso, eles se arrependeram e aceitaram a punição de bom grado. Allah, o Mensageiro de Allah, a Mãe dos Crentes Aisha, Abu Bakr e toda a comunidade muçulmana os perdoaram. Portanto, nutrir agora qualquer inimizade contra eles seria contrário à fé. A maior descrição de Mistah (que Allah esteja satisfeito com ele) aparece nas palavras de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ele foi um dos primeiros a aceitar o Islam, um muhajir que abandonou seu lar e um mujahid da Batalha de Badr. Quantos versículos do Alcorão Sagrado foram revelados em louvor a pessoas como eles!

Há divergência quanto à data da morte de Mistah. Segundo uma opinião, ele morreu no ano 34 da Hégira, durante o califado de Uthman. Segundo outra, morreu no mesmo ano, no ano 37 da Hégira, depois de lutar ao lado de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) em Siffin. Tinha 56 anos quando morreu. (Usud al-Ghabah, 4/355; Al-Isaba, 3/408; Tabaqat, 3/52).

Marsad ibn Abi Marsad al-Ghanawi (que Allah esteja satisfeito com ele)

O pai de Marsad chamava-se Abu Marsad Kannaz ibn Husayn. Pai e filho aceitaram o Islam ainda no início da pregação islâmica em Meca e migraram para Medina antes da Batalha de Badr. Em Meca, Marsad estava sob a proteção de Hamza ibn Abd al-Muttalib. Depois da migração para Medina, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estabeleceu entre ele e Aws ibn Samit, irmão do famoso companheiro ansari Ubada ibn Samit, um vínculo de fraternidade, ou muakhah. (Tabaqat, 3/48; Al-Isaba, 3/398).

Marsad e seu pai, Abu Marsad Kannaz, foram valorosos combatentes na Batalha de Badr. Nessa batalha, Marsad montou um cavalo chamado Sabal e lutou com extrema bravura ao lado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele também participou da Batalha de Uhud. (Tabaqat, 3/48; Sira de Ibn Hisham, 1/666).

Na época da Jahiliyyah, Marsad mantinha uma relação com uma prostituta de Meca chamada ‘Inaq. Depois que o adultério foi proibido no Islã, ele rompeu sua relação com aquela prostituta. Ele era extremamente forte e corajoso; por isso, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, confiava-lhe a tarefa de levar secretamente de Meca para Medina os muçulmanos que eram torturados enquanto estavam cativos nas mãos dos incrédulos. Certa vez, ele foi a Meca com esse propósito. A noite estava iluminada pela lua. Ele caminhava furtivamente por uma viela de Meca. Nesse momento, sua antiga amante, ‘Inaq, avistou-o e chamou-o. Ele parou. Ela o cumprimentou de maneira extremamente doce e sedutora e tentou atraí-lo, oferecendo-se para passar aquela noite com ele. Marsad disse: “Inaq, Allah proibiu agora o adultério.” ‘Inaq ficou profundamente ferida com essa resposta tão seca. Então, enfurecida pelo desejo de vingança, começou a gritar, informando às pessoas que Marsad havia chegado. Oito homens foram atrás dele. Ele escondeu-se num lugar seguro. Quando os inimigos, não conseguindo encontrá-lo, foram embora, ele saiu de seu esconderijo e seguiu diretamente pelo caminho de Medina. Ao chegar a Medina, apresentou-se diante do Mensageiro de Allah e pediu: “Ó Mensageiro de Allah! Case-me com ‘Inaq.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu em silêncio, sem dar resposta. Logo depois, foi revelado o seguinte versículo da Surata an-Nur:

“O homem adúltero somente se casará com uma mulher adúltera ou idólatra, e a mulher adúltera somente será desposada por um homem adúltero ou idólatra. Isso foi declarado ilícito para os crentes. (Surata an-Nur: 2)”

Algumas pessoas das tribos de ‘Adal e Qarah foram a Medina depois da Batalha de Uhud. Elas compareceram perante o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disseram: “Algumas pessoas de nossa tribo aceitaram o Islã; envie conosco alguns homens que possam ensiná-las a religião e o Alcorão.” Segundo o relato de Ibn Ishaq, o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou seis homens sob a liderança de Marsad ibn Abi Marsad, que Allah esteja satisfeito com ele. Contudo, consta no Sahih al-Bukhari que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou dez homens sob a liderança de ‘Asim ibn Thabit. Marsad era um deles. Quando o grupo chegou ao local chamado Raji‘, junto ao reservatório de água de Banu Hudhayl, os homens de ‘Adal e Qarah começaram a gritar de maneira conspiratória. Os homens de Banu Hudhayl correram até lá com espadas desembainhadas e cercaram o grupo. Os Companheiros estavam montados em cavalos. Prepararam-se para lutar. Mas Banu Hudhayl disse: “Não queremos matar vocês. Nosso objetivo é apenas obter dos habitantes de Meca algum dinheiro em troca de vocês. Venham vocês mesmos conosco, e nós prometemos protegê-los.”

Marsad, Khalid e ‘Asim disseram: “Não confiamos nas promessas dos idólatras.” Depois de dizerem isso, lutaram e alcançaram o martírio. Já seus outros três companheiros — Khubayb, Zayd e ‘Abdullah ibn Tariq — demonstraram certa submissão e deixaram-se capturar. Quando o grupo inimigo começou a amarrar-lhes as mãos e os pés, ‘Abdullah protestou, dizendo: “Esta é a primeira traição de vocês.” Eles apedrejaram ‘Abdullah até a morte no lugar chamado Jahran. Em seguida, levaram Khubayb e Zayd a Meca. Dois homens de Banu Hudhayl estavam cativos nas mãos dos coraixitas. Em troca deles, os coraixitas resgataram aqueles dois. ‘Uqbah ibn al-Harith ibn ‘Amir tomou Khubayb para vingar o assassinato de seu pai, al-Harith. Khubayb, que Allah esteja satisfeito com ele, havia matado al-Harith na Batalha de Badr. Por outro lado, Safwan ibn Umayyah tomou Zayd com o objetivo de vingar o assassinato de seu pai, Umayyah ibn Khalaf. Assim, vítimas do desejo de vingança dos coraixitas, os dois alcançaram o martírio em Meca de maneira extremamente desamparada e cruel. Na história, esse acontecimento é chamado de “Waqi‘at Yawm ar-Raji‘”. Ibn Sa‘d afirma que o episódio de Raji‘ ocorreu no mês de Safar, trinta e seis meses após a Hégira do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, para Medina. (at-Tabaqat, 3/48).

Asahhus-Siyar, p. 160); Sira de Ibn Hisham, pp. 169–174).

Este acontecimento é suficiente para demonstrar a competência e a posição elevada de Marsad, que Allah esteja satisfeito com ele: o próprio Nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, escolheu-o como mestre ou professor da religião. Como ele faleceu ainda durante a vida do Nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não teve oportunidade de manifestar sua competência no conhecimento. Ainda assim, os livros de hadith não estão de modo algum desprovidos de hadiths transmitidos por ele. Ahmad ibn Sinan al-Qattan narrou um hadith de Marsad em seu Musnad; o Imam al-Baghawi e al-Hakim, em seus Mustadrak; e at-Tabarani, em seu al-Awsat. (al-Isabah, 3/398).

Abu Ahmad ibn Jahsh, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome verdadeiro era ‘Abd — segundo outra opinião, ‘Abdullah — e seu kunyah era Abu Ahmad. Seu pai era Jahsh ibn Riyab, e sua mãe, Umaymah bint ‘Abd al-Muttalib. Por um lado, era primo materno do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz; por outro, era irmão legítimo de sua esposa, a Mãe dos Crentes, Zaynab bint Jahsh, que Allah esteja satisfeito com ela. (Ansab al-Ashraf, 1/88; al-Isabah, 4/3).

Nos primeiros tempos da pregação islâmica do Mensageiro de Allah em Meca, Ahmad aceitou o Islã juntamente com seus dois outros irmãos, Abdullah e Ubaydullah. Eles já haviam concluído sua conversão ao Islã antes de o Mensageiro de Allah se refugiar na casa de Al-Arqam ibn Abi Al-Arqam, em Meca. Al-Baladhuri disse que, embora seus dois outros irmãos, Abdullah e Ubaydullah, tenham emigrado para a Abissínia, ele não emigrou para lá. Disse ainda que todas as narrações que mencionam sua emigração para a Abissínia são infundadas. (Ansab al-Ashraf, 1/199).

Ibn Ishaq, ao falar sobre a identidade de Abu Ahmad e sua emigração para Medina, disse: Abdullah ibn Jahsh foi um dos primeiros a chegar a Medina depois de Abu Salama. Ele levou consigo sua família e também outro irmão, Abu Ahmad. Esse Abu Ahmad era cego. Percorria os terrenos elevados e baixos de Meca sem a ajuda de ninguém. Farwa, filha de Abu Sufyan, era sua esposa. Sua mãe era Umayma, filha de Abd al-Muttalib.

Quando eles deixaram suas casas e partiram para Medina, certo dia Utba ibn Rabi’a, Abbas ibn Abd al-Muttalib e Abu Jahl ibn Hisham passavam pelas casas abandonadas deles, dirigindo-se às áreas elevadas de Meca. Apontando para a casa vazia, Utba recitou um verso do poeta Abu Du’ad al-Iyadi e disse, em tom pesaroso: “A casa dos Banu Jahsh ficou completamente vazia.” Abu Jahl respondeu: “Este é o resultado das ações do filho de nosso irmão. Ele abriu uma brecha em nossa união, arruinou tudo o que tínhamos e provocou nossa separação.” … Em Medina, Abu Salama ibn Abd al-Asad, Abdullah ibn Jahsh e Abu Ahmad residiam no povoado dos Banu Amr ibn Awf, em Quba. (Sira de Ibn Hisham, 1/470–472).

Ao chegar a Medina, ele foi inicialmente hóspede de Mubashshir ibn Abd al-Mundhir. Em Meca, havia um grupo cuja ocupação constante era conspirar contra o Islã e atormentar os muçulmanos. Os líderes desse grupo eram dois homens: Abu Sufyan e Abu Jahl. Como Abu Ahmad havia emigrado antes e saído do alcance deles, escapou diretamente de sua perseguição. Contudo, Abu Sufyan vendeu injustamente a casa abandonada deles a Amr ibn Alqama. (Sira de Ibn Hisham, 1/499).

É provável que Farwa, filha de Abu Sufyan, fosse a nora da família proprietária daquela casa e que a tenha vendido nessa condição. (Sira de Ibn Hisham, 1/500). Após a conquista de Meca, no oitavo ano da Hégira, Abu Ahmad mencionou ao Mensageiro de Allah o assunto da casa. As pessoas o fizeram parar e disseram: “Abu Ahmad, não é do agrado do Mensageiro de Allah que agora reivindiques aquilo que perdestes no caminho de Allah.” Segundo outra narração, depois da reivindicação de Abu Ahmad, o Nobre Mensageiro de Allah enviou-lhe uma mensagem por intermédio de Uthman. Uthman sussurrou-lhe a mensagem ao ouvido. Depois disso, até o momento de sua morte, ele não pronunciou mais uma palavra sequer sobre a casa. Mais tarde, seus filhos informaram que o Nobre Mensageiro de Allah lhe pediu que renunciasse à reivindicação da casa e, em troca, lhe anunciou a boa-nova de um palácio no Paraíso.

No entanto, ele compôs um poema inflamado dirigido a Abu Sufyan. Eis alguns de seus versos: “Dizei a Abu Sufyan que o resultado do que fez é vergonha e remorso. Vendeste as casas de teus primos e pagaste tuas próprias dívidas.”

Jurei solenemente pelo nome de Allah, o Senhor da humanidade. Vai, leva; quanto a isso, transformei esse dinheiro em um colar para o teu pescoço, como o colar do pescoço de uma pomba, (que jamais será separado nem poderá ser separado). (Sira de Ibn Hisham, 2/644).

Quando terminou o casamento de Zaynab bint Jahsh com Zayd ibn Haritha, o escravo liberto do Mensageiro de Allah, foi Abu Ahmad quem a casou com o Mensageiro de Allah. (Sira de Ibn Hisham, 2/644). Abu Ahmad faleceu em Medina. (Ansab al-Ashraf, 1/199).

No entanto, há ampla divergência quanto ao momento de sua morte. Ibn al-Athir afirmou categoricamente: ele morreu depois de sua irmã Zaynab bint Jahsh, isto é, depois do ano 20 da Hégira, pois Zaynab morreu no ano 20 da Hégira. Ibn Hajar não apoiou essa opinião. Ele disse que também há uma tradição segundo a qual, após a morte de Abu Ahmad, sua irmã Zaynab mandou trazer algum perfume e o aplicou em seu corpo. Al-Bukhari e Muslim transmitiram, por meio de Zaynab bint Umm Salama, que ela disse: “Fui à casa de Zaynab bint Jahsh quando um de seus irmãos morreu. Ela mandou trazer algum perfume e o aplicou em seu corpo.” Ibn Hajar disse que esse acontecimento deve ter ocorrido por ocasião da morte de Abu Ahmad, pois os outros dois irmãos de Zaynab, Abdullah, foi martirizado em Uhud ainda durante a vida do Mensageiro de Allah, e Ubaydullah morreu na Abissínia como apóstata, ou seja, tendo abandonado a religião. O Mensageiro de Allah casou-se com sua esposa, Umm Habiba. (Al-Isaba, 4/4).

Amr ibn Sa’id ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele)

O kunya de Amr era Abu Uqba. Seu pai era Sa’id ibn al-As. Ele era descendente do ramo omíada da tribo dos coraixitas. Sua mãe era filha dos Banu Makhzum. Amr era primo materno de Khalid ibn al-Walid. (Usud al-Ghaba, 4/106). (Al-Isaba, 2/539).

Sa’id ibn al-As teve cinco filhos: Khalid, Aban, Sa’id, Abdullah e Amr. Todos eles aceitaram o Islam em momentos diferentes. Al-Zubayr ibn Bakkar disse: Abu Uhayha, Sa’id ibn Sa’id, filho de Sa’id ibn al-As, foi martirizado durante o cerco de Ta’if. O nome anterior de Abdullah ibn Sa’id era Hakam. O Mensageiro de Allah mudou-o para Abdullah. Amr ibn Sa’id foi martirizado na batalha de Ajnadayn. Depois, Khalid e Amr aceitaram o Islam. Ibn Ishaq disse que Amr não teve filhos. Aban, outro filho de Sa’id ibn al-As, foi o último a aceitar o Islam. Aban ficou profundamente irritado com a conversão de seus irmãos, especialmente Khalid e Amr. Khalid, Amr e Aban eram todos poetas. Depois que seus dois irmãos, Khalid e Amr, aceitaram o Islam, Aban escreveu um poema para censurá-los. Khalid e Amr também lhe responderam em versos. Algumas partes desses poemas foram compiladas em obras como Al-Isaba, a Sira de Ibn Hisham e Usud al-Ghaba. Um verso do poema que Aban compôs para censurar seus irmãos é o seguinte: “Ah! Se o morto de Jabira pudesse ver que espécie de mentira Amr e Khalid adotaram em relação à religião!”

O pai deles, Sa’id ibn al-As, estava sepultado num lugar chamado Jabira. É a esse fato que se faz referência aqui. Amr respondeu em versos. Um de seus versos diz: “Agora deixem de falar dos mortos que seguiram o caminho deles. Venham agora para aquela verdade cuja veracidade é absolutamente evidente.” (Al-Isaba, 2/539). (A Sira de Ibn Hisham, 2/360).

Dois anos depois da migração de Khalid ibn Sa’id para a Abissínia, Amr ibn Sa’id migrou para a Abissínia com o segundo grupo de emigrantes, acompanhado de sua esposa, Fatima bint Safwan. Fatima bint Safwan faleceu na Abissínia. (A Sira de Ibn Hisham, 2/360). Já Amr chegou a Medina por navio, vindo da Abissínia com a caravana muçulmana, na época da batalha de Khaybar. Depois de chegar a Medina, participou com o Mensageiro de Allah da conquista de Meca e de expedições como as de Hunayn, Ta’if e Tabuk, entre outras.

O nobre Mensageiro de Allah nomeou os três filhos de Sa’id — Aban, Khalid e Amr — governadores de três regiões. Khalid era governador do Iêmen, Aban do Bahrein, e Amr das regiões a oeste de Medina, isto é, Tabuk, Khaybar, Fadak e outras. Todos desempenharam suas funções com grande competência até o falecimento do Mensageiro de Allah. Após o falecimento do nobre Mensageiro de Allah, eles foram para Medina. Depois que Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, assumiu o califado, pediu a todos que retornassem aos seus antigos cargos, dizendo: “Não vejo ninguém mais digno do que vocês para administrar o governo.” (Al-Isaba, 2/539).

No entanto, os filhos de Sa’id ibn al-As recusaram o pedido do califa, dizendo: “Depois do Mensageiro de Allah, não seremos administradores ou governadores de ninguém.”

Depois de assumir a responsabilidade do califado, Hazrat Abu Bakr decidiu enviar um exército à Síria contra os romanos. O assunto foi longamente discutido e as opiniões foram recolhidas numa reunião de ilustres companheiros. Um após outro, todos expressavam suas opiniões, enquanto alguns permaneciam em silêncio. Certa vez, com o objetivo de incentivar todos, Hazrat Umar disse: “Se houvesse a possibilidade de obter resultados imediatos ou se a viagem estivesse próxima, somente então vocês sairiam?” Diante dessa declaração de Umar, Amr ibn Sa’id reagiu com indignação e disse: “Você aplicou a nós o exemplo usado em relação aos hipócritas? Por que você mesmo está sentado em silêncio? Comece você primeiro.” Nesse momento, ele e Umar tiveram uma acalorada discussão. Então o califa Abu Bakr disse: “Na verdade, o objetivo das palavras de Umar é inspirá-los e incentivá-los.” Imediatamente, Khalid, irmão de Amr, levantou-se e fez um discurso apoiando as palavras do califa. Assim, a questão foi resolvida. (Hayatus-Sahaba, p. 1440)

Recusando o cargo de governador, Amr participou da campanha da Síria como um mujāhid comum. No ano 13 da Hégira ocorreu a batalha de Ajnadayn. Ele lutou com extrema bravura. Sempre que percebia alguma fraqueza no exército muçulmano, gritava e procurava, de várias maneiras, fortalecer o ânimo dos soldados. Certa vez, tomado por grande emoção, disse: “Não consigo de modo algum ver a fraqueza dos meus companheiros no campo de batalha. Agora eu mesmo entrarei.” Dizendo isso, atravessou a formação no centro do exército inimigo e entrou em seu meio; enquanto lutava com extrema audácia, alcançou o martírio. Ao fim da batalha, quando recolheram seu corpo, viram que todo ele estava perfurado por inúmeros ferimentos. Ao contá-los, encontraram trinta marcas ao todo. Contudo, segundo Ibn Ishaq e Musa ibn Uqba, Amr alcançou o martírio na batalha de “Marj as-Saffar”. (Al-Isaba, 2/539)

Waqid ibn Abdillah (que Allah esteja satisfeito com ele):

Seu nome era Waqid e seu pai era Abdillah. Era descendente do ramo Hanzali-Yarbu’i da tribo de Banu Tamim. Durante a época da Jahiliyyah, estava ligado por um pacto a Khattab ibn Nufayl. (Tabaqat, 3/390; Al-Isaba, 3/628).

Waqid aceitou o Islã ainda no início da missão islâmica em Meca, antes de o nobre Mensageiro de Allah entrar na casa de Arqam ibn Abil-Arqam. Depois que veio a ordem da Hégira, ele migrou para Medina e hospedou-se com Rifa’ah ibn Abdil-Mundhir. Em Medina, o Mensageiro de Allah estabeleceu entre ele e Bishr ibn Bara ibn Ma’rur uma relação de irmandade, ou mu’akhah. (Tabaqat, 3/390).

O décimo sétimo mês após a Hégira do nobre Mensageiro de Allah para Medina era o mês de Rajab. Nesse mês, ele enviou a Nakhla uma força de 12 membros — ou, segundo outra opinião, 9 — sob o comando de Abdillah ibn Jahsh, para observar os movimentos dos coraixitas. Waqid ibn Abdillah também fazia parte dela. Eles chegaram a Nakhla e ficaram à espreita. Nesse momento, avistaram uma pequena caravana comercial dos coraixitas. Era o último dia de Rajab. O mês de Rajab era um dos quatro meses durante os quais os combates eram proibidos na Arábia. Por isso, os membros da força muçulmana consultaram-se sobre se era permitido atacar naquele momento. Por fim, foi tomada a decisão de atacar.

Waqid ibn Abdillah disparou uma flecha. A flecha atingiu e matou Amr ibn al-Hadrami, do lado inimigo, e dois homens chamados Uthman e Hakam foram capturados.

Como o derramamento de sangue ocorreu durante um mês sagrado, os coraixitas começaram a fazer diversos tipos de propaganda contra o Mensageiro de Allah e os muçulmanos. Diziam: “Muhammad e seus seguidores não respeitam a santidade dos meses sagrados, observados desde tempos imemoriais?” Até o próprio Mensageiro de Allah não conseguia aceitar o ocorrido. Ele chamou os homens da expedição e disse: “Eu não lhes dei permissão para lutar; então por que vocês lutaram?” Nesse contexto, foi revelado o seguinte versículo da surata Al-Baqarah:

“Ó Maomé, os idólatras perguntam-te sobre combater no mês sagrado. Diz-lhes: combater neste mês é um grande pecado. Porém, impedir o caminho de Allah, descrer de Allah, impedir as pessoas de adorar na Mesquita Sagrada e expulsar dela os seus habitantes é, perante Allah, um pecado ainda maior do que combater neste mês. E causar agitação e corrupção é um pecado mais grave do que matar. (Surata Al-Baqarah, 2:217).”

(Al-Isaba, 3/628; Asahhus Siyar, 128).

De qualquer modo, Amr ibn al-Hadrami foi o primeiro incrédulo morto pelas mãos de um muçulmano; Uthman e Hakam foram os dois primeiros prisioneiros da história do Islã; e os bens obtidos da caravana dos coraixitas foram o primeiro espólio de guerra do Islã. (Asahhus Siyar, 128).

Depois desse acontecimento, os Banu Yarbu orgulhosamente diziam: “Foi um dos nossos que matou, pela primeira vez na história do Islã, um idólatra.” Hazrat Umar ibn al-Khattab dizia em versos: “Em Nakhla, fizemos nossas flechas beberem o sangue de Ibn al-Hadrami, quando Waqid acendeu o fogo da guerra. (Al-Isaba, 3/628)

Depois de Nakhla, participou de todas as batalhas, incluindo Badr, Uhud e Khandaq. Faleceu no início do califado de Hazrat Umar, o segundo califa. Não deixou descendentes. Nos livros de hadith encontram-se um ou dois hadiths narrados por ele.

Abdullah ibn Makhrama, que Allah esteja satisfeito com ele

Seu nome completo era Abu Muhammad Abdullah; seu pai era Makhrama ibn Abdil-Uzza e sua mãe, Bahsana bint Safwan. Era descendente do ramo Amiri da tribo dos coraixitas. (Al-Isaba, 2/365).

Abraçou o Islã em Meca, nos primórdios da missão islâmica. Migrou para a Abissínia com o segundo grupo que partiu para lá, juntamente com Ja’far ibn Abi Talib, que Allah esteja satisfeito com ele. De lá, foi diretamente para Medina e hospedou-se na casa de Hazrat Kulthum ibn Hidam. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estabeleceu sua irmandade religiosa com Farwa ibn Amr al-Bayadi, que Allah esteja satisfeito com ele. Depois de chegar a Medina, participou primeiro da batalha de Badr e alcançou a grande honra de ser um companheiro de Badr. Tinha então trinta anos. Depois de Badr, participou com o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, de todas as batalhas, incluindo Uhud.

Hazrat Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) tinha um desejo tão intenso de alcançar o martírio que estava sempre ansioso para tingir de sangue cada pelo de seu corpo. Ele suplicava: “Ó Allah, não me retires deste mundo até que cada articulação do meu corpo esteja dilacerada por golpes sucessivos.” Sua súplica foi aceita, e a oportunidade surgiu pouco depois.

Durante o califado de Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), espalhou-se uma onda de ridda, ou apostasia. Ele juntou-se à campanha contra os apóstatas como um mujahid. Lutou contra os apóstatas com tamanha ferocidade que todo o seu corpo ficou crivado de ferimentos. Era o sagrado mês de Ramadã, e ele estava jejuando. Ao pôr do sol, quando também se aproximava o crepúsculo de sua vida, Hazrat Abdullah ibn Makhrama (que Allah esteja satisfeito com ele) veio visitá-lo. Abdullah ibn Makhrama (que Allah esteja satisfeito com ele) pediu-lhe: “Traga também um pouco de água para mim.” Ao retornar com a água, viu seu corpo sem vida estendido no chão. Ele alcançou o martírio na batalha de Yamama. Ao morrer, tinha apenas quarenta e um anos. (Al-Isaba, 2/365).

Em termos de conhecimento, prática, taqwa e piedade, ele possuía qualidades extraordinárias. O autor de Usud al-Ghaba escreveu que ele era um devoto dotado de grandeza.

Fontes:

1. Ibn Sa’d: Tabaqat

2. Ibn Hajar al-Asqalani: Al-Isaba

3. Ibn Hajar al-Asqalani: Tahdhib al-Tahdhib

4. Ibn Athir: Usud al-Ghaba

5. Ibn Athir: Tajrid Asma as-Sahaba

6. Al-Baladhuri: Ansab al-Ashraf

7. Adh-Dhahabi: Tadhkirat al-Huffaz

8. Adh-Dhahabi: Tarikh al-Islam

9. Ibn Kathir: Al-Bidaya wa an-Nihaya

10. Ibn Asakir: At-Tarikh al-Kabir

11. Az-Zirikli: Al-A’lam

12. Al-Qurtubi: Al-Isti’ab (nota marginal de Al-Isaba)

13. Ibn Hisham: As-Sirah

14. At-Tabari: Tarikh al-Umam wa al-Muluk

15. Maulana Yusuf Kandhalwi: Hayatus Sahabah

16. Muinuddin Ahmad Nadwi: Muhajirin

17. Dr. Abdur Rahman Ra’fat al-Basha: Suwar min Hayat as-Sahabah

18. Khalid Muhammad Khalid: Rijal Hawla ar-Rasul

19. Muhammad Khidri Bek: Tarikh al-Ummah al-Islamiyyah

20. Dairah-i-Maarif-i-Islamiyyah (urdu)

21. Várias obras de hadith.