Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso

Introdução

Sahaba quem são??

A palavra “sahabi” é uma forma da palavra árabe “suhbat”. No singular, usam-se “sahib” e “sahabi”, e, no plural, “sahaba”. Em sentido lexicográfico, significa companheiro, parceiro, associado, alguém que vive junto ou que permanece na companhia de outro. Na terminologia islâmica, a palavra “sahaba” designa os ilustres companheiros e associados do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. A palavra “sahib” possui ainda outras formas de plural. Contudo, para designar os companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, além de “sahaba”, também se usam “ashab” e “sahb” como plurais de “sahib”.

Allama Ibn Hajar, que Allah tenha misericórdia dele, ‘Al-–Isaba fi Tamyiz as- Sahaba’ afirma, ao definir o sahabi na obra “Al-Isaba fi Tamyiz as-Sahaba”: “Innas sahabiyya man laqiya an-nabiyya sallallahu alayhi wa sallam mu’minan bihi wa mata alal-islam” — isto é, sahabi é aquele que encontrou o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, crendo nele, e morreu no Islã.

Na definição acima, foram estabelecidas três condições para que alguém seja considerado sahabi: 1. crer no Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele; 2. encontrá-lo estando na condição de crente (al-liqa); 3. morrer no Islã (mawt alal-islam).

De acordo com a primeira condição, não serão considerados sahaba aqueles que encontraram o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, mas não creram nele. É o caso de Abu Jahl, Abu Lahab e outros descrentes de Meca. Pela segunda condição, também será considerado sahabi aquele que encontrou o Profeta, mas, por ser cego ou possuir alguma deficiência semelhante, foi privado da graça de vê-lo com os próprios olhos. É o caso do sahabi cego Abdullah ibn Umm Maktum, que Allah esteja satisfeito com ele.

A terceira condição, isto é, morrer no Islã, inclui entre os sahaba também aqueles que tiveram a bênção de encontrar o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enquanto eram crentes; depois apostataram; e, posteriormente, voltaram a aceitar o Islã e morreram como muçulmanos. Mesmo que, após retornarem ao Islã, não tenham encontrado novamente o Mensageiro de Allah, ainda assim serão considerados sahaba. Esta é a opinião mais correta. É o caso de Hazrat Ash’ath ibn Qays, que Allah esteja satisfeito com ele, e de outros. Os estudiosos do hadith incluíram Ash’ath ibn Qays entre os sahaba e compilaram os hadiths narrados por ele nas coleções Sahih e Musnad. No entanto, depois de aceitar o Islã, ele apostatou e retornou ao Islã durante o califado de Hazrat Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele.

Com base na condição acima mencionada, não será considerado Companheiro aquele que encontrou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enquanto muçulmano, mas morreu posteriormente em estado de apostasia. Por exemplo: Abdullah ibn Jahsh al-Asadi. Depois de emigrar para a Abissínia como muçulmano, tornou-se cristão e morreu ali em estado de apostasia. Além dele, incluem-se entre os apóstatas Abdullah ibn Khatal, Rabi‘ah ibn Umayyah e outros. A condição de morrer como muçulmano, necessária para ser considerado Companheiro, não se verifica no caso dessas pessoas.

De acordo com a definição acima, todos aqueles que encontraram o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com fé, estão incluídos entre os Companheiros, quer tenham desfrutado de sua companhia por muitos dias ou por poucos, quer tenham narrado algum hadith dele ou não, quer tenham participado de alguma batalha ao lado do Mensageiro de Allah ou não; até mesmo aquele que o encontrou apenas por um instante em sua vida e morreu mantendo a fé é considerado um dos Companheiros.

Aqueles que não tiveram fé no Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mas o encontraram tendo fé em algum profeta anterior, não são Companheiros. Quanto àqueles que, como o monge Buhaira, encontraram o Mensageiro de Allah antes de ele receber a profecia, tendo fé em um profeta anterior, e acreditaram que ele seria um profeta no futuro, há dúvida quanto a serem considerados Companheiros. Os sábios muçulmanos não puderam expressar uma decisão definitiva a respeito deles.

As condições da definição mencionada também se aplicam aos gênios. Os gênios também eram Companheiros. O Alcorão Sagrado menciona alguns gênios que ouviram a recitação do Alcorão pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e abraçaram a fé. Sem dúvida, eram Companheiros de elevadíssima posição.

A definição mencionada de Companheiro é considerada a mais correta pela maioria dos sábios, incluindo o Imam al-Bukhari e o Imam Ahmad ibn Hanbal. Naturalmente, também existem algumas opiniões menos conhecidas sobre a definição de Companheiro. Por exemplo, alguns estabeleceram como condição ver o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com os próprios olhos (ru’yah), em vez de simplesmente encontrá-lo (al-liqa). Mas, com isso, seriam excluídas pessoas que, embora fossem crentes, foram privadas, por causa da cegueira, da oportunidade de ver o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com os próprios olhos. Por exemplo: Abdullah ibn Umm Maktum, que Allah esteja satisfeito com ele. No entanto, ele era um Companheiro de elevadíssima posição.

Hazrat Sa’id ibn al-Musayyib disse: a condição para ser Companheiro é ter acompanhado o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, por um ou dois anos, ou ter participado com ele de uma ou duas expedições militares ou batalhas. Segundo alguns estudiosos dos fundamentos da religião e alguns teólogos, a condição para ser Companheiro é ter desfrutado de uma longa convivência com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e ser conhecido e reconhecido por seguir a Sunnah profética. Alguns também estabeleceram como condição ter atingido a maturidade. Segundo um grupo de sábios, quem viu o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ainda que uma única vez depois de atingir a maturidade, é um Companheiro. E aquele que o viu antes de atingir a maturidade também é Companheiro, mas no sentido de que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o viu, e não no sentido de que ele viu o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Contudo, no que diz respeito à narração de hadith, essa pessoa não é considerada Companheiro; antes, recebe a posição de tabi‘i. Pode surgir a pergunta: se alguém viu o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, depois de seu falecimento e antes de seu sepultamento, como ocorreu no caso do famoso poeta árabe Abu Ju’ayrib al-Hudhali, qual será a decisão a seu respeito? Há divergência entre os sábios sobre essa questão. Contudo, a opinião mais aceitável é que tal pessoa não será incluída entre os Companheiros.

Os especialistas islâmicos concordam que a companhia ou “suhbah” do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é uma distinção à qual nenhuma outra distinção concedida aos muçulmanos se iguala. Além da distinção da suhbah, os Companheiros honrados possuem uma posição sagrada e elevada aos olhos de todo muçulmano por terem fortalecido e consolidado os fundamentos da religião, dedicado intenso esforço e feito sacrifícios na divulgação do Islã e no serviço à Shariah. Por essa razão, segundo alguns sábios, aquele que humilha os Companheiros é um “zindiq”. Segundo outros, isso constitui uma ofensa punível.

A posição dos Companheiros dos Companheiros

Pode haver diferenças de nível entre os Companheiros quanto ao grau de mérito; contudo, nenhum muçulmano de gerações posteriores, por mais instruído, virtuoso e devoto que seja, pode alcançar sequer o mérito de um Companheiro comum. Sobre isso, o Alcorão, a Sunnah e o ijma‘ são unânimes.

Foram esses Companheiros que constituíram o primeiro elo intermediário entre o Mensageiro de Allah e sua Ummah. Foi unicamente por meio deles e através deles que as gerações posteriores conheceram a Palavra de Allah, o Sagrado Alcorão, a interpretação do Alcorão, a pessoa do Mensageiro de Allah, seus ensinamentos, seu exemplo e, em suma, tudo o que diz respeito à religião. Portanto, se esse primeiro elo for ignorado, rejeitado ou se surgir desconfiança em relação a eles, o próprio fundamento da religião desmoronará. A incredulidade em relação ao Alcorão e aos hadiths começará a criar raízes.

Hafiz Ibn Abdil Barr, ao descrever o mérito dos Companheiros, disse: “Allah, o Altíssimo, havia destinado a esses grandes homens a rara honra de desfrutar da companhia do Mensageiro de Allah e de preservar e transmitir sua Sunnah. Por essa razão, eles alcançaram a posição de ‘khayrul qurun’ e ‘khayru ummatin’; isto é, sua época foi a melhor das épocas e eles foram a melhor das comunidades.”

Hafiz Abu Bakr Ibn Khatib al-Baghdadi disse: “São numerosos os hadiths e relatos sobre o tema e o significado mencionados, e todos estão em conformidade com o sentido explícito do Alcorão. Ou seja, neles são expressos o grandíssimo mérito dos Companheiros, sua probidade (‘adalat’), pureza e outros atributos semelhantes. Depois que Allah e o Mensageiro declararam sua probidade, eles não dependem do testemunho de qualquer outra pessoa do mundo. Mesmo que Allah e o Mensageiro não tivessem feito nenhuma declaração a respeito deles, sua emigração, jihad, auxílio, o gasto de suas riquezas no caminho de Allah, a morte de seus pais e filhos, a exortação à religião e a firmeza de sua fé e certeza teriam comprovado que, no que diz respeito à probidade, à fé, à pureza e a outras virtudes, por mais justos e puros que sejam todos os indivíduos a nascer no mundo até o Dia da Ressurreição, eles eram superiores a todos.””

Alguns Companheiros receberam do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, durante a sua vida, a boa notícia do Paraíso. No entanto, muitos eruditos muçulmanos expressaram a opinião de que todos os Companheiros estão destinados ao Paraíso. Ibn Hajar ‘Al-–Isaba’ citou, em sua obra, o comentário do imã Ibn Hazm, da Espanha. Ele disse: “Todos os Companheiros pertencem certamente ao povo do Paraíso — todos os Companheiros estão, sem dúvida, destinados ao Paraíso.”

O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proibiu criticar seus Companheiros com o objetivo de insultá-los ou humilhá-los. Ele disse: “Allah, Allah! Depois de mim, não façais deles um alvo de críticas. Aqueles que os amam, amam-nos por causa do amor que têm por mim; e aqueles que os odeiam, fazem isso por causa do ódio que têm por mim.”

Como identificar um Companheiro

Pode surgir a pergunta: como determinar quem é Companheiro e quem não é? Os especialistas nas ciências de ‘Rijal e Hadith’ seguem alguns princípios para esse propósito. Primeiro: o ‘khabar de tawatur’, isto é, quando inúmeras pessoas de cada época narram ou testemunham, a respeito de uma pessoa, que ela foi Companheira. Segundo: o ‘khabar mashhur’, isto é, quando um grande número de pessoas de cada época testemunha que determinada pessoa é Companheira. Terceiro: com base na narração ou no testemunho de algum Companheiro. Quarto: com base na narração ou no testemunho de algum Tabi‘i renomado. Quinto: quando alguém afirma: “Eu sou Companheiro”. Nesse caso, é preciso verificar se essa pessoa possui duas características. 1. ‘Adalah’, ou integridade. Esta é uma qualidade especial dos Companheiros. A pessoa que reivindica ser Companheira deve necessariamente possuir essa qualidade. 2. ‘Mu‘asirat’, ou contemporaneidade. A era dos Companheiros terminou no ano 110 da Hégira. Isso porque o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse um mês antes de seu falecimento: “Aqueles que hoje estão vivos nesta Terra não estarão vivos daqui a cem anos”. Portanto, se alguém estivesse vivo depois do ano 110 da Hégira e afirmasse ser Companheiro, os especialistas na ciência de ‘Rijal’ não o aceitariam como tal. Muitos fizeram afirmações desse tipo, mas ficou comprovado que eram falsas. Suas biografias também estão registradas na ciência de ‘Rijal’. Além disso, os Muhaddithun seguiram ainda alguns outros princípios e regras para determinar quem eram os Companheiros.

Companheiros número

Não é possível determinar com exatidão quantos eram os Companheiros. O Imame Abu Zur‘a ar-Razi disse: quando o Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre ele, faleceu, o número de pessoas — homens e mulheres — que o haviam visto e ouvido suas palavras era superior a cem mil. Cada uma delas narrou hadiths do Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre ele. Portanto, é fácil imaginar quão imenso era o número daqueles Companheiros que não narraram nenhum hadith. A afirmação de Abu Zur‘a é corroborada por uma declaração de Ka‘b ibn Malik, registrada por Bukhari e Muslim. Ao descrever a expedição de Tabuk, ele disse: “O número de pessoas era enorme. Nenhum registro ou diwan poderia contabilizá-las.”

Não é de modo algum possível fazer uma contagem exata dos Companheiros. Isso porque, no fim da vida do Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre ele, as pessoas abraçavam o Islam em grupos e prestavam bay‘ah a ele. Alguns disseram que, no décimo ano da Hégira, não havia um único não muçulmano em Meca e Taife. Todos aceitaram o Islam e participaram da Peregrinação de Despedida. Do mesmo modo, muitas tribos árabes tornaram-se inteiramente muçulmanas. A maioria delas era formada por habitantes do deserto. De modo algum era possível conservar o registro de todos. Além disso, durante o califado de Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, incontáveis Companheiros foram martirizados nas campanhas contra os falsos profetas e os apóstatas. Não foi possível preservar a identidade de muitos deles.

A dignidade e as virtudes dos Companheiros são mencionadas em diversos versículos do Sagrado Alcorão e em inúmeros hadiths. A seguir, são citados os significados de alguns versículos:

“Muhammad é o Mensageiro de Allah; seus companheiros são severos para com os incrédulos e compassivos entre si. Tu os verás inclinados e prostrados, buscando a graça e a satisfação de Allah. Em seus rostos haverá marcas de prostração. Essa é a descrição deles na Torá, e também no Evangelho.” (Surata Al–Fath: 29)

“Quanto aos primeiros dentre os Muhajirun e os Ansar, e aos que os seguiram com sinceridade, Allah está satisfeito com eles, e eles estão satisfeitos com Ele. Ele lhes preparou jardins sob os quais correm rios, onde permanecerão eternamente. Esse é o grande triunfo.” (Surata At–Taubah: 100)

“Este patrimônio destina-se aos muhajirun necessitados, que foram expulsos de suas casas e propriedades. Eles buscam a graça e a satisfação de Allah e ajudam Allah e Seu Mensageiro. Eles são, de fato, os verdadeiros. E aqueles que, antes da chegada dos muhajirun, habitavam esta cidade (Medina) e tinham abraçado a fé amam os muhajirun e não sentem em seus corações desejo algum pelo que foi dado a eles; e dão-lhes preferência sobre si mesmos, mesmo estando em necessidade.” (Surata Al-–Hashr: 8–9) Neste versículo, primeiro são elogiados os primeiros muhajirun e depois os ansar.

Da mesma forma, na Surata Al -Fath‌: 18,, na Surata Al -Waqi‘ah: 10, e na Surata Al -Anfal: 64 º, bem como em vários versículos, encontram-se, em alguns casos diretamente e em outros indiretamente, elogios aos nobres Companheiros.

Da mesma forma, o próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, falou sobre a posição de seus Companheiros. Ele os elogiou grandemente, estabelecendo sua honra, dignidade e posição. Conforme foi narrado por Hazrat Abdullah ibn Masud, que Allah esteja satisfeito com ele, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:

“As melhores pessoas entre minha comunidade são as da minha época; depois, as da época seguinte; depois, as da época seguinte. Então surgirá um grupo de pessoas cujos juramentos precederão seus testemunhos. Eles darão testemunho antes que lhes seja solicitado.”

“Não insulteis meus Companheiros. Juro por Aquele em cuja mão está minha vida: mesmo que algum de vós gaste ouro do tamanho do monte Uhud, isso não equivalerá nem sequer a um mudd — ou à metade dele — de cevada de qualquer um deles.”

Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Deveis agir conforme aquilo que vos foi concedido do Livro de Allah. A desculpa de qualquer um de vós por abandoná-lo não será aceita. Se não encontrardes uma decisão no Livro de Allah, continuai a procurá-la na minha Sunnah. Se também não a encontrardes nela, então deveis buscá-la nas palavras dos meus Companheiros. Meus Companheiros são como as estrelas do céu. Se seguirdes qualquer um deles, encontrareis o caminho correto. E as divergências entre meus Companheiros são uma misericórdia para vós.”

Said ibn al-Musayyib narrou, sob a autoridade de Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:

“Depois de mim, perguntei ao meu Rabb — meu Senhor — sobre as divergências entre meus Companheiros. Allah enviou-me uma revelação: ‘Ó Muhammad, para Mim, teus Companheiros são como as estrelas do céu. Assim como as estrelas, alguns deles brilham mais do que outros. Quem se apegar a qualquer uma das questões sobre as quais eles divergiram estará, para Mim, sobre a orientação.’”

O Imam Shafi’i narrou um hadith por meio da cadeia de transmissão de Hazrat Anas ibn Malik. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Allah escolheu a mim e aos meus Companheiros. Ele estabeleceu laços matrimoniais entre mim e eles e fez deles meus auxiliares. No fim dos tempos surgirá um grupo de pessoas que os humilhará. Cuidado: não vos caseis com seus filhos e filhas, nem deis vossos filhos e filhas em casamento a eles. Cuidado: não oreis com eles, nem realizeis suas orações fúnebres. Sobre eles estará a maldição de Allah.”

Um hadith foi narrado no Mishkat Sharif. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Entre minha comunidade, apenas um grupo certamente entrará no Paraíso.” Perguntaram: “Quem são eles?” Ele respondeu: “Aqueles que permanecerem firmes no caminho e no modelo que segui, assim como no modelo dos meus Companheiros.”

Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «A posição dos Companheiros entre minha comunidade é como a posição do sal entre os alimentos.»

A sociedade dos Companheiros era uma sociedade humana ideal. Suas ações constituíam um modelo supremo para a humanidade. Em todos os aspectos da vida, sua honestidade, confiabilidade, cortesia, autossacrifício e bom comportamento eram incomparáveis. Eles demonstravam respeito e compaixão uns pelos outros. Sempre davam prioridade às necessidades e aos desejos dos pobres e necessitados. Em bravura e coragem, eram incomparáveis. Seguir o Mensageiro de Allah era o objetivo principal de suas vidas. Tanto suas vidas quanto suas mortes eram dedicadas ao Islã.

Os nobres Companheiros foram o primeiro exemplo da melhor sociedade cuja base o nobre Mensageiro havia estabelecido. Pela bênção da companhia do Mensageiro, eles assumiram a forma concreta da grande humanidade. Eram símbolos resplandecentes de justiça, piedade, integridade, benevolência e temor de Deus. Mantinham sempre viva a consciência de que sua vinda a este mundo se destinava a elevar a bandeira do Islã e a estabelecer igualdade e justiça entre a humanidade. Aqui, como guardiões e fiéis depositários do califado divino, deveriam cumprir o propósito de Allah.

A pureza e a inocência haviam criado neles um coração tão limpo e um amor tão profundo pela justiça que, no que dizia respeito à verdade e à equidade, consideravam os outros tão responsáveis quanto a si mesmos. Embora ocupassem altos cargos, não podiam — nem tentavam — poupar seus filhos e parentes das punições previstas pela lei religiosa.

Em suma, a fé e a crença haviam iluminado todas as suas capacidades. Em pouquíssimo tempo, exerceram influência sobre a maior parte do mundo. As páginas da história contêm inúmeros exemplos de suas capacidades militares e organizacionais.

Se quisermos hoje construir uma sociedade semelhante à sociedade ideal dos nobres Companheiros, devemos necessariamente conhecê-los. Precisamos adquirir características de caráter e capacidades como as deles. Atualmente, observa-se entre a comunidade muçulmana o desejo de construir uma sociedade corânica; para conduzi-lo ao objetivo correto, é necessário estudar amplamente as biografias dos Companheiros. Devemos receber orientação de suas vidas. Mas, embora seja lamentável, é verdade que, na sociedade muçulmana bengali, o estudo da vida dos Companheiros é muito escasso. Aqui, as histórias e narrativas imaginárias sobre a vida de pirs e santos são discutidas em tal medida que nem sequer uma pequena fração dessa atenção é dedicada às biografias dos Companheiros.

Em árabe, urdu e outras línguas do mundo, foram escritas muitas obras importantes sobre a vida dos Companheiros. Assim como em outros ramos da literatura islâmica, também neste campo não foi escrita em bengali nenhuma obra realmente significativa. O professor Nazir Ahmad, editor executivo do periódico mensal «Prithibi» e diretor do Centro Islâmico de Bangladesh, expressou o desejo de apresentar aos leitores, por meio de sua revista, alguns relatos da vida dos Companheiros. Foi principalmente por seu incentivo que comecei a escrever regularmente nas páginas de «Prithibi». Os textos publicados nas páginas de «Prithibi» estão sendo agora publicados em forma de livro sob o título «A Vida dos Companheiros do Mensageiro». Sem o incentivo e a participação do professor Nazir Ahmad na publicação em série e na edição em livro, talvez eu nunca tivesse escrito, e a obra talvez jamais tivesse sido publicada em forma de livro. Por isso, suplico que Allah lhe conceda a melhor recompensa.

No primeiro volume de «A Vida dos Companheiros do Mensageiro», são abordadas as vidas de trinta Companheiros ao todo. Todos pertencem à categoria dos Muhajirun. Entre eles também estão incluídos os dez honrados Companheiros dos «Ashara Mubashshara». Embora os textos sejam breves, as informações foram extraídas das fontes originais em árabe e urdu. Procurei evitar, tanto quanto possível, os assuntos controversos.

Por fim, se os leitores tirarem o menor proveito que seja deste texto, considerarei meu esforço recompensado. Peço aos leitores que me informem caso percebam algum erro ou falha em qualquer parte.

Expresso minha gratidão a todos os envolvidos na publicação, incluindo o irmão Kamrul Islam. Que Allah aceite este pequeno esforço meu. Amém.

27-2-1989 d.C.

Muhammad Abdul Ma’bud

Departamento de Árabe, Universidade de Daca,

Daca

Khadija bintu Khuwaylid ((r.a.))

Seu nome era Khadija. Sua kunya era ‘Ummu Hind’ e seu laqab, ‘Tahira’. Seu pai era Khuwaylid e sua mãe, Fatima bintu Zaid. Nasceu na cidade de Meca quinze anos antes do ‘Ano do Elefante’, ou ‘Amul Fil’. Por meio de Qusayy, seu antepassado paterno, sua linhagem se unia à linhagem do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Ainda na época da Jahiliyya, recebeu o título de ‘Tahira’ por seu caráter puro e casto. (Al(––Isaba)) Entre o Mensageiro de Allah (s.a.w.) e Khadija (r.a.) havia um parentesco distante de tia paterna e sobrinha. Por isso, depois de receber a missão profética, Khadija (r.a.) levou o Mensageiro de Allah (s.a.w.) até seu primo Waraka ibn Nawfal e disse: ‘Ouça o que seu sobrinho tem a dizer.’ É provável que ela tenha dito isso com base no parentesco de sangue.

Seu pai, Khuwailid, havia escolhido para Khadija como pretendente Waraqa ibn Nawfal, um renomado especialista em Torá e Evangelho na sociedade árabe daquela época; contudo, os historiadores permanecem em silêncio quanto ao motivo pelo qual isso não se concretizou. Por fim, ela se casou pela primeira vez com Abu Hala ibn Zurarah al-Tamimi. Ele morreu ainda na época da ignorância. Após a morte de Abu Hala, ela se casou pela segunda vez com ‘Atiq ibn ‘Abid al-Makhzumi. (Sharh al- Mawahib, al-–Ist i‘ab) Contudo, segundo Qatada, sabe-se que seu primeiro marido foi ‘Atiq e, depois dele, Abu Hala. Yunus ibn Bukayr narrou que Ibn Ishaq também apoiou essa opinião. (Al- Isaba: 4//281) Contudo, Ibn Hajar mencionou que a primeira opinião é a da maioria, incluindo Ibn Abd al-Barr.

O pai de Khadija, Khuwailid ibn Asad, era o comandante de sua tribo na batalha de Fijar. Ele era pai de muitos filhos. Seu primeiro filho foi Hizam. O filho de Hizam, o renomado companheiro Hakim, recebeu, na época da ignorância, a responsabilidade pela administração da Dar al-Nadwa, em Meca. A segunda filha foi a venerável Khadija. O terceiro filho, ‘Awwam, era o pai do renomado companheiro, o venerável Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele). Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), tia paterna do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e irmã consanguínea do venerável Hamza, era esposa de ‘Awwam, ou seja, mãe de Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele). Safiyya era a cunhada mais nova de Khadija. A quarta filha foi Hala. Ela era a mãe de Abu al-‘As ibn al-Rabi‘, marido de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), filha do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Abu al-‘As era o genro mais velho do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). A quinta filha foi Ruqayya. Entre os cinco irmãos, Hizam, ‘Awwam e Ruqayya morreram antes do surgimento do Islã. A venerável Khadija e Hala tiveram a felicidade de aceitar o Islã.

Há divergência quanto à época da morte do pai de Khadija. Alguns disseram que ele morreu na batalha de Fijar. Segundo o Imam Suhaili, ele morreu antes da batalha de Fijar. Naquela época, Khadija tinha trinta e cinco anos. Segundo alguns, ele morreu depois do casamento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) com ela. (Hayatus Sahaba– 2/652)।

Seja pela morte do pai ou do marido, seja por qualquer outra razão, Khadija, como muitas outras mulheres da tribo dos coraixitas, era uma grande comerciante. Ibn Sa’d disse sobre seus negócios: “Khadija era uma comerciante extremamente respeitada e rica. Suas mercadorias comerciais eram enviadas para a Síria, e os produtos que ela possuía sozinha equivaliam aos produtos de todos os coraixitas.” Esse comentário de Ibn Sa’d permite compreender a dimensão dos negócios de Khadija. Ela comprava e vendia mercadorias no país e no exterior, contratando pessoas capazes mediante sociedade ou remuneração.

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era então um jovem de vinte e cinco anos. Nesse período, já havia adquirido bastante experiência nos negócios, realizando algumas viagens comerciais com seu tio Abu Talib ou sozinho. A notícia de sua honestidade e confiabilidade nos negócios também se espalhara de boca em boca entre os habitantes de Meca. Para todos, ele era então al-Amín. Sua reputação também chegou aos ouvidos de Khadija. Em particular, ela certamente ouvira muitas coisas sobre Muhammad, al-Amín (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), de Safiyya, esposa de seu irmão mais novo.

Certa vez, Khadija pensou em enviar mercadorias para a Síria para compra e venda. Ela procurava uma pessoa competente. A esse respeito, al-Zarqani narra, citando al-Waqidi: “Abu Talib chamou Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e disse: Sobrinho! Sou um homem pobre, e a situação também é muito difícil. Fomos atingidos por uma terrível fome. Não temos nenhum negócio nem outros meios ou recursos. Uma caravana comercial de sua tribo está indo para a Síria. Khadija está procurando alguém para enviar com suas mercadorias. Se você fosse até ela, talvez escolhesse justamente você. Ela conhece a pureza de seu caráter. Embora eu não goste que você vá para a Síria e tema por sua vida por causa dos judeus, não há alternativa.” Em resposta, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Talvez ela mesma envie alguém. Abu Talib disse: Talvez ela já tenha contratado outra pessoa. A conversa entre tio e sobrinho chegou aos ouvidos de Khadija. “Ela enviou alguém ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).” (Nota, Sira de Ibn Hisham– 1/188) Registre-se que, certa vez, durante a adolescência, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi à Síria com seu tio. Naquela ocasião, o monge Buhaira advertira Abu Talib a respeito do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Na narrativa acima, Abu Talib estava aludindo justamente a isso.

Khadija enviou uma proposta a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por intermédio de alguém: se ele fosse à Síria para assumir a responsabilidade pelos negócios, Khadija lhe daria o dobro do lucro concedido aos demais. Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aceitou.

Muhammad S.A.W. partiu para a Síria levando as mercadorias de Khadija R.A. e acompanhado de seu servo fiel, Maysara. No caminho, sentou-se à sombra de uma árvore, junto a uma igreja. O sacerdote da igreja aproximou-se de Maysara e perguntou: “Quem é o homem que repousa sob a árvore?” Maysara respondeu: “É um homem da tribo dos coraixitas, habitante do território sagrado de Meca.” O sacerdote disse: “Aquele que agora repousa sob esta árvore não pode ser outro senão um profeta.” Os historiadores mencionaram o nome desse sacerdote como Nástura. (Nota, Sīrat Ibn Hisham– 1/188) Contudo, Ibn Hajar al-Asqalani afirmou que o nome desse sacerdote era Bahira. (Al-–Isaba 4/281) Ele também afirmou que o Mensageiro S.A.W. foi ao mercado de Busra com essa carga comercial. Tabari narrou, com base no relato de Ibn Shihab al-Zuhri, que o Mensageiro de Allah S.A.W. foi, levando as mercadorias de Khadija, não à Síria, mas a um mercado abissínio do Iêmen. Contudo, o relato da viagem à Síria é o mais famoso. (Tarikh al-Ummah al- Islamiyya, Muhammad al-–Khudri Bek: 1/64)

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, vendeu as mercadorias nos mercados da Síria e comprou tudo o que precisava. Em seguida, partiu rumo a Meca levando Maysara consigo. Durante o caminho, Maysara observou que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, avançava montado em seu camelo, enquanto dois anjos o protegiam do intenso sol do meio-dia, projetando sombra sobre ele. Assim, ao retornar a Meca, vendeu as mercadorias de Khadija. Dessa vez, o negócio rendeu um lucro duas vezes maior, ou quase isso. Ao voltar para casa, o fiel servo Maysara relatou detalhadamente à sua senhora, Khadija, os comentários do sacerdote e os acontecimentos extraordinários da viagem.(Sīrat Ibn Hisham– 1/189)

Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, era uma mulher nobre, perspicaz e inteligente. Pessoas de todas as camadas sociais de Meca ficavam encantadas com sua riqueza, nobreza e boas maneiras. Muitos jovens da aristocracia coraixita desejavam tê-la como esposa. Ela rejeitou todos eles. Depois de ouvir tudo da boca de Maysara, a própria Khadija enviou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, uma proposta de casamento.(Sīrat Ibn Hisham– 1/189)

Há vários relatos sobre como e de que maneira a proposta de casamento foi feita. Contudo, todos os relatos concordam que foi Khadija quem primeiro apresentou a proposta ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

Relata-se que Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, falou pessoalmente com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e pediu-lhe que apresentasse a proposta ao pai dela. Porém, ele recusou-se, dizendo que talvez o pai de Khadija o rejeitasse por causa da pobreza. Por fim, quando o pai de Khadija estava embriagado devido ao consumo excessivo de vinho, ela mesma apresentou-lhe a questão e obteve o seu consentimento. Mas, depois de recuperar a sobriedade, ele voltou atrás. Khadija, contudo, obteve novamente o seu consentimento. (Hayatus Sahaba– 2/652) Outra narração relata que Nafisa bint Maniyya, esposa de Ya‘la e amiga de Khadija, tomou toda a iniciativa nesse assunto. Foi ela quem primeiro apresentou, em nome de Khadija, a seguinte proposta ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Se você fosse convidado a aceitar riqueza, beleza e a garantia de sustento, aceitaria? …” Essas palavras referiam-se a Khadija.

O acordo foi concluído. Na data marcada, Abu Talib, Hamza e alguns outros membros da família do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, compareceram à casa de Khadija. Khadija também havia convidado os membros de destaque de sua família. Na presença de todos, Abu Talib recitou o sermão do casamento. Em termos de excelência literária, esse sermão ocupa um lugar especial na prosa árabe da época da ignorância. O dote foi fixado em quinhentas moedas de ouro. A própria Khadija arcou com todas as despesas de ambas as partes. Ela enviou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, duas uqiyyas de ouro e prata e pediu que, com isso, fossem providenciadas as roupas de ambos e o banquete de casamento. (Hayatus Sahaba– 2/652) Assim, Khadija tornou-se a “Mãe dos Crentes”. Isso ocorreu quinze anos antes do anúncio da missão profética. Embora haja divergência entre os especialistas em biografia sobre a idade de ambos naquela época, segundo a opinião mais correta, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tinha vinte e cinco anos, e Khadija, quarenta.

Quinze anos após o casamento, o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recebeu a missão profética. Ele foi o primeiro a informar Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, sobre isso. Desde antes, Khadija já tinha firme convicção de que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se tornaria profeta. Um hadith aborda detalhadamente esse assunto no capítulo “O início da revelação” do Sahih al-Bukhari. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: A primeira revelação ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou por meio de sonhos verdadeiros durante o sono. Tudo o que ele via em sonhos manifestava-se como a luz do sol da manhã. Depois, passou a gostar de permanecer em retiro. Levava comida e bebida consigo e dirigia-se à caverna de Hira. Ali, permanecia ocupado na adoração por vários dias consecutivos. Quando os alimentos terminavam, voltava para Khadija. Levava provisões e retornava à caverna. Foi nessa situação que, certo dia, a Verdade veio até ele. O anjo chegou e disse-lhe: “Leia.” Ele respondeu: “Não sei ler.” O anjo apertou-o com tanta força que ele sentiu dor. Depois de soltá-lo, disse novamente: “Leia.” Ele tornou a responder: “Não sei ler.” O anjo tratou-o pela segunda e pela terceira vez da mesma forma que na primeira. Por fim, disse: “Leia em nome do teu Senhor, que criou; que criou o ser humano de um coágulo…” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, voltou para casa tremendo de medo. Chamou Khadija e disse: “Cubra-me com um cobertor, cubra-me com um cobertor.” Ela o cobriu, e o seu medo desapareceu. Ele contou a Khadija todo o acontecimento e expressou o temor pela própria vida. Khadija disse: “Não, isso jamais poderá acontecer. Juro por Allah que Ele nunca o humilhará. Você fortalece os laços de parentesco, ajuda os pobres e necessitados, recebe bem os hóspedes e socorre as pessoas em suas dificuldades.”

Depois disso, Khadija (r.a.) levou o Mensageiro de Allah (s.a.w.) até seu primo Waraka ibn Nawfal. Naquela época de jahiliyyah, ele havia adotado o cristianismo. Escrevia o Evangelho em hebraico. Era idoso e cego. Khadija (r.a.) disse: “Escute o que seu sobrinho diz.” Ele perguntou: “Sobrinho, o que aconteceu com você?” O Mensageiro de Allah (s.a.w.) relatou todo o acontecimento. Ao ouvir isso, Waraka disse: “Este é o mesmo Namus — aquele que Allah enviou a Moisés (a.s.). Ah, se eu estivesse vivo e com saúde no dia em que teu povo te expulsar de teu país!” O Mensageiro de Allah (s.a.w.) perguntou: “Eles me expulsarão de meu país?” Ele respondeu: “Sim. Sempre que alguém trouxe algo semelhante ao que você trouxe, o mundo inteiro se opôs a ele. Se eu estiver vivo até esse momento, prestarei a você toda espécie de ajuda. (Bukhari, 1º volume) Poucos dias depois desse acontecimento, Waraka morreu.

Depois de aceitar o Islã, Khadija (r.a.) consagrou toda a sua riqueza ao propósito da propagação da religião. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) abandonou os negócios e dedicou-se à adoração de Allah e à propagação do Islã. Toda a renda da família cessou. Ao mesmo tempo, aumentavam as preocupações de Khadija. Ela enfrentou todas as circunstâncias adversas com paciência e perseverança. Al-–Istiaab é relatado na obra: “A dor que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) sentia por causa da rejeição e da descrença dos idólatras desaparecia quando ele ia ter com Khadija. Isso porque ela o consolava, dava-lhe coragem e o incentivava. Ela acreditava sem hesitação em tudo o que ele dizia. Apresentava ao Mensageiro de Allah (s.a.w.) todos os comportamentos grosseiros dos idólatras como algo extremamente leve e insignificante.” (Tabakat– 3/740)

No sétimo ano da missão profética, no mês de Muharram, os coraixitas boicotaram os muçulmanos. Eles buscaram refúgio em ‘Shi‘ab Abi Talib’. Khadija também ficou confinada ali junto com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Durante quase três anos, os Banu Hashim sobreviveram em meio a uma terrível fome. Não tinham nenhum outro meio de subsistência além de folhas de árvores. Khadija suportou aquele sofrimento com um sorriso, junto de seu marido. Naqueles tempos difíceis, a nobre Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), valendo-se de sua influência, conseguia ocasionalmente obter alimentos por diversos meios. Seus três sobrinhos — Hakim ibn Hizam, Abu al-Bukhtari e Zum‘a ibn al-Aswad — eram todos figuras de destaque entre os líderes dos coraixitas. Embora não fossem muçulmanos, desempenharam um papel especial no envio de alimentos aos muçulmanos por diversos meios. Certo dia, Hakim ibn Hizam enviava, por meio de seu servo, um pouco de trigo à sua tia Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). No caminho, Abu Jahl o impediu. De repente, Abu al-Bukhtari chegou ao local. Ele disse a Abu Jahl: “Um homem está enviando um pouco de alimento à sua tia, e você está impedindo isso?”(Sira de Ibn Hisham Ibn Hisham– 1/192)

Antes de ser revelada a ordem que tornava obrigatória a oração, a nobre Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) já orava desde o início, dentro de casa, junto com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). (Tabaqat– 8/10)Ibn Ishaq mencionou que, certo dia, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) viu os dois — isto é, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) — orando. Ali perguntou: “Muhammad, o que é isso?” Então, o Mensageiro de Allah apresentou a Ali o convite à nova religião e proibiu-o de contar aquilo a alguém. (Hayatus Sahaba– 1/70) Esse relato mostra que, entre a comunidade de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a nobre Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) foi a primeira a alcançar a honra de orar junto com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Um homem chamado Afique al-Kindi veio a Meca para fazer algumas compras. Ele estava hospedado na casa de Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). Certa manhã, percebeu que um jovem se aproximou da Caaba e olhou para o céu. Depois, ficou de pé voltado para a qibla. Um rapaz veio e ficou de pé ao seu lado. Em seguida, chegou uma mulher, que também ficou atrás dos dois. Eles terminaram a oração e foram embora. Afique al-Kindi observou a cena e disse a Abbas: “Algo de grande importância está prestes a acontecer.” Abbas respondeu: “Sim.” E acrescentou: “Este jovem é meu sobrinho Muhammad.” O rapaz é meu outro sobrinho, Ali, e a mulher é a esposa de Muhammad. … Pelo que sei, eles são as únicas três pessoas no mundo que seguem esta nova religião.”(At-Tabacat: 8/10–11)

Ibn al-Athir afirma que há consenso na comunidade muçulmana de que Hazrat Khadija foi a primeira a crer no Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quando aceitou o Islam, ela tinha cinquenta anos. A aceitação do Islam por parte dela também teve influência sobre os membros de sua família paterna. Na época do surgimento do Islam, quinze pessoas ilustres do clã paterno Banu Asad ibn Abdil Uzza ainda estavam vivas. Dez delas aceitaram o Islam. As outras cinco foram mortas na batalha de Badr enquanto ainda eram incrédulas.

Depois de viver vinte e cinco anos de vida conjugal com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), no décimo ano da profecia, no dia dez de Ramadã, Hazrat Khadija faleceu em Meca aos sessenta e cinco anos. A oração fúnebre ainda não havia sido instituída. Por isso, ela foi sepultada sem oração fúnebre no cemitério de Jannat al-Mualla, em Meca. O próprio nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) colocou seu corpo na sepultura.(Al-–Isaba: 4/283)

Poucos dias depois do falecimento de Hazrat Khadija, morreu Abu Talib, o tio especialmente dedicado ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Contudo, uma narração de Al-Istiaab afirma que Khadija faleceu três dias depois da morte de Abu Talib. Em tempos de dificuldades e aflições, era esse tio quem ajudava o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de várias maneiras. Devido ao falecimento de dois parentes próximos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), esse ano ficou conhecido entre a comunidade muçulmana como ‘Amul Huzn’, ou o Ano do Luto.

Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) foi mãe de muitos filhos. Do seu primeiro marido, Abu Hala, nasceram dois filhos, chamados Hala e Hind. Ambos abraçaram o Islã e alcançaram a honra de se tornarem companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Hind participou, segundo algumas versões, da batalha de Badr ou da batalha de Uhud, ao lado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Era um orador eloquente e expressivo. Foi martirizado na Batalha do Camelo, lutando ao lado de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Do seu segundo marido, ‘Atiq, nasceu uma filha chamada Hinda. Ela também abraçou o Islã e alcançou a honra de se tornar uma companheira. (Sharhul Mawāqib, Al-–Isti‘āb, Hāshiya, Sīrat Ibn Hishām– 1/187) Contudo, segundo outro relato, do primeiro marido nasceram três filhos: dois meninos — Hind e Harith — e uma menina, Zaynab. Um incrédulo martirizou Harith junto ao Rukn Yemenita da Caaba. A filha do segundo casamento tinha a kunya Umm Muhammad. (Dā’ira–-i-–Ma‘ārif-’i-–Islām-–ia)

Seis filhos nasceram da união sagrada do Honorável Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O primeiro filho foi o Honorável Qasim. Faleceu ainda jovem em Meca. Em referência ao seu nome, a kunya do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tornou-se Abu al-Qasim. Antes de morrer, ele havia aprendido a andar, dando seus primeiros passos. A segunda filha foi a Honorável Zaynab. O terceiro filho foi o Honorável Abdullah. Ele nasceu após o início da profecia e, por isso, recebeu os epítetos Tayyib e Tahir. Faleceu ainda jovem. A quarta filha foi a Honorável Ruqayya. A quinta foi a Honorável Umm Kulthum. A sexta foi a Honorável Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela). Deve-se observar que Ibrahim era filho da Honorável Maria.

A Honorável Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) amava muito os filhos. Também possuía boa situação financeira. Ela contratou Salama, escrava de Uqba, para cuidar dos filhos mediante pagamento.

Entre as honoráveis esposas do Honorável Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), a posição da Honorável Khadija é a mais elevada. Ela foi sua primeira esposa; casou-se com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aos quarenta anos de idade. Durante sua vida, o Nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não se casou com nenhuma outra mulher. Com exceção do Honorável Ibrahim, todos os filhos do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) nasceram de seu ventre.

Não é possível terminar de descrever as virtudes e a dignidade da Mãe dos Crentes, a Honorável Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Observamos com grande admiração como, naqueles dias de profunda escuridão na Arábia, uma mulher acreditou sem hesitação na profecia do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Não havia em seu coração a menor dúvida ou incerteza. O primeiro dia da revelação, sua ida até Waraqa e sua firme declaração de convicção a respeito de o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ser um profeta — tudo isso merece profunda reflexão. Mesmo antes de o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) receber a profecia, Khadija parecia estar firmemente convencida de que ele seria um profeta. Por isso, após a chegada de Gabriel, nem por um instante surgiu em seu coração qualquer hesitação. Isso evidencia claramente sua profunda visão e sua aguçada capacidade de observação. Antes e depois do início da profecia, ela sempre honrou o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e acreditou em cada uma de suas palavras. Durante vinte e cinco anos de vida conjugal, nem por um momento qualquer dúvida pôde criar raízes em seu coração. Mesmo naquela época de ignorância, ela era pura e imaculada. Jamais adorou ídolos. Certo dia, o Nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse-lhe: “Jamais adorarei al-Lat e al-Uzza.” Khadija respondeu: “Deixe de mencionar al-Lat e al-Uzza. Não mencione sequer o assunto deles.” (Musnad de Ahmad– 4/222)

Ela não foi apenas a primeira a acreditar na profecia de Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e a primeira a realizar a oração com ele. O apoio que ofereceu ao Islã naqueles tempos de extrema adversidade permanecerá para sempre imortalizado. Naqueles primórdios do Islã, ela foi, na realidade, conselheira do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Após o casamento com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), entregou todos os seus bens ao marido. Zayd ibn Haritha era seu escravo predileto. Ela também o entregou ao marido. Como o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) amava Zayd mais do que os demais, libertou-o para fazê-la feliz.

Embora fosse uma mulher rica de Meca, ela servia o marido com as próprias mãos. Certa vez, trazia em um recipiente algo para o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O Honorável Gabriel (que a paz esteja com ele) disse ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Transmita-lhe as saudações de Allah, o Altíssimo, e as minhas.” (Bukhari)

O Honorável Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não esqueceu a memória de sua amada esposa Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), mesmo após sua morte. Depois de sua morte, sempre que um animal era abatido em sua casa, ele procurava suas amigas e enviava carne de casa em casa. A Honorável Aisha disse: “Embora eu não tenha visto Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), sentia ciúmes dela. Isso nunca acontecia com nenhuma outra mulher. Isso porque o Nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sempre se lembrava dela.” Às vezes, a Honorável Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) provocava a ira do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) dizia: “Allah colocou o amor por ela em meu coração.”

Após o falecimento da Honorável Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), sua irmã Hala foi certa vez visitar o Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Assim que ouviu sua voz, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) exclamou: “Hala, você veio?” A memória de Khadija havia então surgido na mente do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) deixou escapar: “Você está se lembrando de uma idosa que morreu. Allah lhe concedeu esposas muito melhores do que ela.” Em resposta, o Nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Nunca! Quando as pessoas quiseram me chamar de mentiroso e rejeitar-me, ela me aceitou como verdadeiro. Quando todos eram incrédulos, ela era muçulmana. Quando ninguém veio me ajudar, ela me ajudou. Foi em seu ventre que meus filhos nasceram.” Consideramos que não pode haver avaliação maior da Honorável Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) do que esta.

Muitos hadices foram narrados sobre a virtude de Hazrat Khadija (r.a.). No Sahih Bukhari e no Sahih Muslim consta: as melhores mulheres da face da Terra são Maryam, filha de Imran, e Khadija, filha de Khuwaylid. Hazrat Jibril (a.s.) estava sentado junto do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Nesse momento, Khadija (r.a.) chegou. Jibril (a.s.) disse ao Mensageiro de Allah (s.a.w.): “Dê-lhe as boas-novas de um palácio celestial feito de pérolas e joias.” (Bukhari)

Abu Bakr Siddiq (r.a.)

Seu nome era Abdullah; Siddiq e Atiq eram seus títulos, e Abu Bakr era seu nome de uso ou kunya. O nome de seu pai era Uthman, e sua kunya, Abu Quhafa. O nome de sua mãe era Salma, e sua kunya, Ummul Khair. O seu nasab e o do Mensageiro de Allah (s.a.w.) encontram-se, na linhagem dos coraixitas, no sexto antepassado acima, Murra. Ele nasceu pouco mais de dois anos depois do nascimento do Mensageiro de Allah (s.a.w.), e ambos faleceram com um intervalo semelhante. Assim, ao morrer, sua idade era igual à idade do Mensageiro de Allah (s.a.w.).

Ele tinha uma tez clara e luminosa, era magro, esbelto e de testa larga. Na velhice, seus cabelos ficaram brancos. Usava tintura de hena. Era extremamente compassivo e tolerante.

Ele era uma das figuras mais respeitadas dos coraixitas. Por seu conhecimento, inteligência, experiência, perspicácia, discernimento e bom caráter, era respeitado por todos os habitantes de Meca. Na época da Jahiliyyah, todo o dinheiro das indenizações por sangue, ou diyah, dos habitantes de Meca era depositado sob sua responsabilidade. Era o maior especialista no conhecimento do nasab, ou genealogia, dos árabes. Também possuía talento poético. Tinha uma linguagem extremamente pura e eloquente. Era dotado de uma capacidade concedida por Deus para discursar e falar com eloquência.

Ele era uma pessoa extremamente popular, afável e amigável entre sua tribo. Era comerciante, generoso e de caráter nobre. Mesmo na época da Jahiliyyah, jamais bebeu vinho. Devido à sua convivência cordial, erudição e habilidade comercial, muitas pessoas estabeleciam amizade e companheirismo com ele. Em sua casa, realizavam-se diariamente reuniões regulares das pessoas ilustres de Meca.

O pai de Hazrat Abu Bakr, Abu Quhafa, era uma pessoa de grande prestígio entre os coraixitas. Era idoso e abastado. Sua casa não era conhecida apenas pelos negócios e pelo comércio; também nas questões sociais, suas opiniões eram recebidas com grande respeito. Embora não tenha se inclinado ao Islam até a conquista de Meca, não há registro histórico de que tenha tentado afastar seu filho Abu Bakr do Islam. Contudo, quando via Hazrat Ali (r.a.), às vezes dizia: “Foram esses jovens que corromperam meu filho.” No dia da conquista de Meca, apresentou-se perante o Mensageiro de Allah (s.a.w.) e declarou sua aceitação do Islam. Faleceu no ano 14 da Hégira, com aproximadamente cem anos de idade. Na velhice, perdeu a visão.

A mãe de Hazrat Abu Bakr, Ummul Khair, aceitou o Islam em Meca, na primeira fase do Islam, muito antes de seu marido. Ela foi uma das pessoas que aceitaram o Islam na Dar al-Arqam, em Meca. Assim como seu marido, também viveu uma longa vida. Com aproximadamente 90 anos, deixou este mundo, tendo deixado seu filho no cargo de califa.

Abu Bakr era o único filho homem de seu pai. Foi criado com extremo carinho, cuidado e luxo. Desde a infância até o início da juventude, dependeu de seu pai. Aos vinte anos, assumiu sobre os próprios ombros a responsabilidade pelos negócios comerciais de seu pai.

Abu Bakr era amigo do Mensageiro de Allah desde a infância. Acompanhou-o na maioria de suas viagens comerciais. Certa vez, viajou com o Mensageiro de Allah à Síria a negócios. Na época, ele tinha cerca de dezoito anos, e o Mensageiro de Allah, vinte. Quando chegaram à fronteira da Síria, o Mensageiro de Allah sentou-se sob uma árvore para descansar. Abu Bakr avançou um pouco e começou a observar os arredores. Encontrou um sacerdote cristão, com quem conversou sobre religião. Durante a conversa, o sacerdote perguntou: “Quem está ali sob a árvore?”. Abu Bakr respondeu: “Um jovem coraixita chamado Muhammad ibn Abdillah”. O sacerdote exclamou: “Esse homem será o profeta dos árabes”. Essas palavras ficaram gravadas no coração de Abu Bakr. Desde então, sua convicção de que o Mensageiro de Allah era verdadeiramente um profeta foi se fortalecendo. A história registra o nome desse sacerdote como Buhaira ou Nastura.

Quando o Mensageiro de Allah anunciou que havia recebido a profecia, um grande alvoroço tomou conta de Meca. Os influentes e ricos líderes de Meca empenharam-se vigorosamente em combatê-lo. Alguns passaram a chamá-lo de louco, enquanto outros diziam que estava possuído por um jinn. Seguindo as instruções dos líderes e imitando-os, o povo comum também se afastou do Islã. Entre os ricos e respeitados coraixitas, somente Abu Bakr apoiou o Mensageiro de Allah, encorajou-o e creu sem hesitação em sua profecia. A esse respeito, o Mensageiro disse: “A todos a quem convidei para o Islã, observei algum tipo de hesitação, exceto em Abu Bakr”. Assim, Abu Bakr tornou-se o primeiro muçulmano entre os homens adultos livres.

Depois de se tornar muçulmano, dedicou-se, juntamente com o Mensageiro de Allah, ao trabalho de pregação, com o objetivo de fortalecer os fundamentos do Islã. Convidava as tribos dos arredores de Meca para o Islã. Durante a temporada do Hajj, visitava diversas tendas e convidava as pessoas para a fé. Apresentava o Islã e o Mensageiro aos visitantes de fora. Dessa forma, os árabes tomaram conhecimento da religião pregada pelo Mensageiro de Allah e creram nele. Por sua influência e esforço pessoais, muitos aceitaram o Islã, entre eles destacados jovens coraixitas da época, como Uthman, Zubair, Abd al-Rahman, Sa’d e Talha.

Quando o Mensageiro de Allah fez o anúncio público de sua profecia, Abu Bakr possuía quarenta mil dirhams. Ele consagrou toda a sua riqueza ao Islã. Com esse dinheiro, comprava e libertava os escravos e as escravas dos coraixitas que eram humilhados e torturados por terem aceitado o Islã. Treze anos depois, quando migrou com o Mensageiro de Allah para Medina, restavam-lhe apenas dois mil e quinhentos dirhams daquele dinheiro. Em pouco tempo, também gastou os dirhams restantes pela causa do Islã. Bilal, Khabbab, Ammar, Sumayyah, mãe de Ammar, Suhaib, Abu Fukaih e outros escravos e escravas foram libertados dos grilhões da escravidão com o dinheiro de Abu Bakr. Por isso, mais tarde, o Mensageiro de Allah disse: “Retribuí os favores de todas as pessoas. Mas os favores de Abu Bakr são de tal magnitude que sou incapaz de retribuí-los. Allah o recompensará. O dinheiro de ninguém foi tão benéfico para mim quanto o dinheiro dele”.

Quando muitos, ao ouvirem da boca do Mensageiro de Allah sobre a Ascensão Noturna, vacilavam entre crer e não crer, ele acreditou sem qualquer hesitação. Al-Hasan relatou: “Ao ouvirem sobre a Ascensão Noturna, muitos muçulmanos abandonaram o Islã. As pessoas foram até Abu Bakr e disseram: ‘Ó Abu Bakr, acreditas no teu amigo? Ele afirma que ontem à noite foi a Baitul Maqdis, rezou lá e depois voltou para Meca’”.

Abu Bakr perguntou: “Vós não acreditais nele?”. Eles responderam: “Sim. Ele está sentado na mesquita, dizendo isso às pessoas”. Abu Bakr disse: “Por Allah, se ele disse isso, falou a verdade. O que há de surpreendente nisso? Ele me diz que recebe revelação de Allah. Eu também acredito nisso, que a revelação desce do céu em apenas um instante. O que vos causa espanto é menos surpreendente do que isso”. Então, foi até o Mensageiro de Allah. Perguntou-lhe: “Ó Profeta de Allah, dizeis às pessoas que viajastes a Baitul Maqdis ontem à noite?”. Ele respondeu: “Sim”. Abu Bakr disse: “Dissestes a verdade. Testemunho que sois, sem dúvida, o Mensageiro de Allah”. O Mensageiro de Allah disse: “Ó Abu Bakr, tu és as-Siddiq”. Assim, Abu Bakr recebeu o título de “as-Siddiq”.

Em Meca, era costume do Mensageiro de Allah ir à casa de Abu Bakr todas as manhãs e tardes. Quando precisava consultar alguém sobre algum assunto, consultava-o. Quando o Mensageiro saía para algum lugar com o objetivo de convidar as pessoas e transmitir a mensagem, Abu Bakr geralmente o acompanhava.

Quando a perseguição dos politeístas contra os muçulmanos atingiu o seu auge, certa vez ele decidiu emigrar para a Abissínia, mas um chefe tribal chamado Ibn al-Dughunnah o impediu de levar adiante essa decisão. Ele lhe ofereceu proteção contra os coraixitas sob a condição de que Abu Bakr não realizasse a oração publicamente. Contudo, tornou-se impossível para ele cumprir essa condição por muito tempo. Então devolveu a proteção de Ibn al-Dughunnah e se preparou, de bom grado, para aceitar o mesmo destino que os demais irmãos muçulmanos.

O sacrifício, a inteligência, a paciência e a amizade de Abu Bakr naquele momento difícil da emigração do Mensageiro de Allah permanecerão para sempre imortalizados na história. Sua companhia foi claramente mencionada no Alcorão Sagrado. Ibn Ishaq relata: “Quando Abu Bakr pediu ao Mensageiro de Allah permissão para emigrar, o Mensageiro de Allah lhe dizia: ‘Não tenha pressa. Talvez Allah lhe conceda um companheiro de viagem.’ Ao ouvir isso, Abu Bakr pensava que o Mensageiro de Allah estivesse falando de si mesmo. Por isso, desde então, comprou dois camelos e passou a criá-los com extremo cuidado, na esperança de que pudessem ser úteis no momento da emigração.”

A Mãe dos Crentes, Aisha, relata: O Mensageiro de Allah costumava visitar a casa de Abu Bakr pelo menos uma vez por dia. No dia em que recebeu permissão para emigrar, veio à nossa casa ao meio-dia, horário em que nunca costumava vir. Assim que o viu, Abu Bakr exclamou: “Certamente aconteceu alguma coisa; caso contrário, o Mensageiro de Allah não viria a esta hora.” Quando entrou na casa, Abu Bakr afastou-se para a extremidade de seu leito. Naquele momento, além de mim e de minha irmã Asma, não havia mais ninguém na casa de Abu Bakr. O Mensageiro de Allah disse: “Afaste de mim os outros que estão aqui.” Abu Bakr respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, não há ninguém além de minhas duas filhas. O que aconteceu?” O Mensageiro de Allah disse: “Allah me deu permissão para emigrar.” Abu Bakr perguntou: “Também poderei ir com você?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Sim, poderá.” Aisha disse: “Antes daquele dia, eu não sabia que uma pessoa podia chorar de tanta alegria. Vi Abu Bakr chorar naquele dia.” Então Abu Bakr disse: “Ó Mensageiro de Allah, veja: deixei estes dois camelos preparados justamente para isso.”

Eles contrataram Abdullah ibn Uraiqit para guiá-los e o levaram consigo. Ele era politeísta, mas digno de confiança. Sob a escuridão da noite, saíram pela porta dos fundos da casa de Abu Bakr e refugiaram-se numa caverna do monte Thawr, na parte baixa de Meca. Ibn Hisham relata, por intermédio de Hasan al-Basri: Eles chegaram à caverna do monte Thawr durante a noite. Antes que o Mensageiro de Allah entrasse, Abu Bakr entrou na caverna e verificou se havia ali algum animal feroz, cobra ou escorpião. Ele se expôs a esse risco com o único objetivo de manter o Mensageiro de Allah a salvo de qualquer perigo.

Depois da morte da Mãe dos Crentes Khadija, quando Abu Bakr viu o Mensageiro de Allah abatido em Meca, casou sua jovem filha Aisha com o Mensageiro de Allah, demonstrando extrema dedicação e respeito. Ele próprio também pagou o dote.

Depois da emigração, participou com o Mensageiro de Allah de todas as expedições. Não foi privado de participar de nenhuma delas.

Na expedição de Tabuk, ele foi o porta-estandarte do exército muçulmano. Durante essa expedição, atendendo ao pedido do Mensageiro de Allah, entregou-lhe tudo o que possuía em casa em termos de dinheiro e bens. O Mensageiro de Allah perguntou: “Deixou algo em casa para seus filhos?” Ele respondeu: “Para eles, Allah e o Mensageiro de Allah são suficientes.”

Depois da conquista de Meca, no nono ano da Hégira, por ocasião da realização do primeiro Hajj islâmico, o Mensageiro de Allah nomeou Abu Bakr como comandante do Hajj. Durante a doença final do Mensageiro de Allah, por ordem dele, Abu Bakr assumiu a responsabilidade de liderar as orações na Mesquita do Profeta. Em suma, enquanto o Mensageiro de Allah esteve vivo, Abu Bakr desempenhou o papel de seu ministro e conselheiro.

Após o falecimento do Mensageiro de Allah, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, tornou-se seu sucessor. O título “Califa do Mensageiro de Allah” foi concedido exclusivamente a ele. Aos califas posteriores foi concedido o título de “Comandante dos Crentes”.

O comércio era sua profissão. Na época pré-islâmica, ele era um rico comerciante dos coraixitas. Mesmo após abraçar o Islam, continuou nessa atividade para garantir seu sustento. Porém, depois de se tornar califa, foi obrigado a encerrar seus negócios, pois a pesada responsabilidade do califado recaíra sobre seus ombros. Após a insistência de Umar e Abu Ubaida, e conforme a decisão do conselho consultivo, aceitou receber do Tesouro Público uma remuneração mínima, de acordo com suas necessidades. O valor era de dois mil e quinhentos dirrãs por ano. Contudo, antes de morrer, ordenou que seus bens móveis e imóveis fossem vendidos e que todo o dinheiro recebido do Tesouro Público fosse devolvido.

Quando os companheiros ficaram completamente atônitos ao receber a notícia do falecimento do Mensageiro de Allah, quando sequer conseguiam imaginar que o Mensageiro pudesse ter falecido, até Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, declarou, com a espada desembainhada na mão: “Matarei quem disser que o Mensageiro de Allah faleceu.” Mesmo em um ambiente tão tomado pela emoção, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, permaneceu extremamente firme e resoluto. Dirigindo-se às pessoas reunidas, declarou: “Saibam aqueles que adoravam Muhammad que Muhammad morreu. Mas saibam aqueles que adoram Allah que Allah é Eterno e jamais morre.” Em seguida, recitou este versículo: “Muhammad não é senão o Mensageiro de Allah. Antes dele, muitos mensageiros já passaram. Se ele morrer ou for morto, voltareis atrás? Quem voltar atrás jamais poderá causar dano algum a Allah. E Allah recompensará em breve os que Lhe são gratos.”(Surata Al Imran–144)Assim que ouviram esse versículo da boca de Abu Bakr, foi como se as pessoas recuperassem a consciência. Pareceu-lhes que o estavam ouvindo pela primeira vez. Desse modo, o primeiro grave problema surgido imediatamente após o falecimento do Mensageiro de Allah encontrou seu desfecho graças à firme intervenção de Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele.

O kafan e o sepultamento do Mensageiro de Allah ainda nem haviam sido concluídos quando a questão de sua sucessão se tornou complicada. O povo de Medina, especialmente os Ansar, reuniu-se em um lugar chamado “Saqifa Banu Saida”. Os Ansar reivindicaram: “Como fomos nós que acolhemos o Mensageiro de Allah e fortalecemos o Islam, que era fraco, sacrificando nossas vidas e nossos bens, alguém dentre nós deve suceder o Mensageiro de Allah.” Os Muhajirun não aceitaram essa reivindicação. Disseram: “Fomos nós que plantamos a semente do Islam e nós mesmos a regamos. Portanto, somos mais merecedores do califado.” A situação tomou outro rumo. Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, foi chamado. Naquele momento, encontrava-se junto ao corpo sagrado do Mensageiro de Allah. Ele compareceu e falou com calma e serenidade. Diante de seus argumentos e provas, os Ansar se submeteram. Assim, o segundo problema surgido após o falecimento do Mensageiro de Allah também foi resolvido de forma admirável graças à inteligência e à perspicácia de Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele.

Abu Bakr foi escolhido como califa. Depois de se tornar califa, em um breve discurso dirigido aos Muhajirun e Ansar reunidos, disse: “Fui feito califa contra a minha vontade. Juro por Allah que desejava que outra pessoa dentre vós assumisse essa responsabilidade. Quero lembrar-vos de que, se desejais que minha conduta seja como a do Mensageiro de Allah, considerai-me incapaz de alcançar tal nível. Ele era um profeta, livre de erros e falhas. Eu não possuo nenhuma posição especial como a dele. Sou uma pessoa comum. Não posso afirmar que sou melhor do que qualquer pessoa comum dentre vós. Se virdes que estou agindo corretamente, ajudai-me. Se virdes que estou me desviando, adverti-me.” Esse breve primeiro discurso, que estabeleceu princípios, permanecerá para sempre como exemplo a ser seguido por todos os estadistas do mundo.

Outra manifestação da firmeza ilimitada de seu caráter ocorreu quando, imediatamente após o falecimento do Mensageiro de Allah, enviou o exército de Usama ibn Zayd. Pouco antes do falecimento do Mensageiro de Allah, ele preparara um exército para vingar o sangue de Zayd ibn Haritha, Ja’far ibn Abi Talib e Abdullah ibn Rawaha, que haviam sido martirizados na expedição de Mu’ta. Nomeou o jovem Usama ibn Zayd comandante desse exército. Sob as ordens do Mensageiro de Allah, Usama partiu com seu exército em direção à Síria. Assim que saíram de Medina, o Mensageiro de Allah adoeceu. Eles montaram acampamento nos arredores de Medina e ficaram aguardando a recuperação do Mensageiro de Allah. Contudo, foi dessa doença que o Mensageiro de Allah faleceu. Abu Bakr tornou-se califa. Enquanto isso, ao se espalhar a notícia do falecimento do Mensageiro de Allah, várias forças hostis começaram a se levantar em diferentes partes da Península Arábica. Alguns abandonaram o Islam, outros se recusaram a pagar o zakat e outros ainda reivindicaram a profecia. Em uma situação tão crítica, muitos aconselharam que o envio do exército de Usama fosse adiado. Mas Abu Bakr rejeitou esse conselho com extrema firmeza. Se tivesse hesitado ou demorado a enviar esse exército, isso teria sido, após assumir a responsabilidade do califado, a primeira oposição a uma ordem do Mensageiro de Allah. Pois, em seu leito de enfermidade terminal, ele ordenara que o exército de Usama partisse.

Abu Bakr (r.a.) permaneceu firme em sua decisão de enviar o exército de Usama. Então, um grupo dos Ansar exigiu que, pelo menos, Usama fosse removido do posto de comandante e que algum companheiro mais velho fosse nomeado em seu lugar. Convém mencionar que, naquela época, Usama tinha apenas vinte anos. Hazrat Umar apresentou a proposta em nome de todos. Ao ouvi-la, Abu Bakr (r.a.) explodiu de raiva. Ele agarrou a barba de Umar (r.a.) e disse: “O Mensageiro de Allah (s.a.w.) nomeou alguém, e Abu Bakr irá removê-lo?” Assim, rejeitou a proposta.

Hazrat Umar também era um dos soldados pertencentes ao exército de Usama. Entretanto, naquele momento, era extremamente necessário que ele permanecesse em Medina para o novo califa. Se quisesse, o califa poderia ordenar-lhe que permanecesse em Medina. Mas, sem interferir na autoridade de Usama, pediu-lhe que deixasse Umar em Medina. Usama aceitou o pedido do califa. Abu Bakr compreendia que o próprio Mensageiro de Allah (s.a.w.) havia nomeado Usama. Portanto, nesse caso, a autoridade de Usama estava acima da sua. Desse modo, Abu Bakr (r.a.) executou devidamente a ordem do Mensageiro de Allah e absteve-se até mesmo da mais ínfima oposição a ela.

Após o falecimento do Mensageiro de Allah (s.a.w.), as tribos de Abas e Jubyan recusaram-se a pagar o zakat. O assunto foi discutido em consulta perante o califa. Muitos dos companheiros aconselharam que não se empreendesse uma campanha militar contra eles. Mas Abu Bakr (r.a.) permaneceu firme. Ele disse: “Juro por Allah: se alguém se recusar agora a entregar até mesmo o filhote de camelo que era enviado como zakat na época do Mensageiro de Allah (s.a.w.), declararei guerra contra ele.”

Algumas pessoas reivindicaram falsamente a profecia. Com imensa coragem e firmeza, Abu Bakr (r.a.) conduziu campanhas contra esses falsos profetas e frustrou todas as conspirações contra o Islã. Por isso, os historiadores observaram: depois da ajuda e do apoio de Allah, se não fosse a firmeza de Abu Bakr, a história da nação muçulmana talvez tivesse sido escrita de outra maneira.

Isso foi possível porque a natureza de Hazrat Abu Bakr (r.a.) reunia duas qualidades aparentemente opostas: firmeza ilimitada e ternura. Por essa razão, havia sempre equilíbrio em seu caráter. Quando a natureza de uma pessoa possui apenas uma dessas duas qualidades e carece da outra, há grande possibilidade de que o equilíbrio de seu caráter seja destruído. Mas, pela graça de Allah, ambas as qualidades existiam igualmente em seu caráter. Embora Hazrat Abu Bakr (r.a.) fosse o líder dos muçulmanos e califa, sua vida era muito simples. Apesar de ser califa, percorria as ruas e vielas de Medina para conhecer a situação do povo e, de tempos em tempos, realizava pessoalmente seus afazeres. Hazrat Umar (r.a.) disse: “Todas as manhãs, eu fazia os trabalhos domésticos na casa de uma senhora idosa. Um dia, quando fui à sua casa como de costume, a idosa disse: ‘Hoje não há trabalho algum. Uma pessoa piedosa terminou as tarefas antes de você.’ Mais tarde, Hazrat Umar descobriu que aquele homem piedoso era Hazrat Abu Bakr (r.a.). Apesar de ser califa, ele costumava realizar dessa forma os afazeres de uma idosa órfã. Hazrat Abu Bakr (r.a.) administrou o califado por apenas cerca de dois anos e meio. Contudo, esse período é considerado extremamente importante na história do Islã. Após o falecimento do Mensageiro de Allah (s.a.w.), sua contribuição mais notável foi preservar a unidade e a coesão da ummah muçulmana. Ele eliminou as revoltas da Arábia. Estabeleceu o Estado e o governo sobre bases tão sólidas que os muçulmanos se sentiram encorajados a declarar guerra contra duas superpotências, a Pérsia e Roma, e, em pouco tempo, conquistaram muitos de seus territórios.

Outra contribuição de Hazrat Abu Bakr (r.a.) foi a compilação e a preservação do Sagrado Alcorão. Na primeira fase de seu califado, surgiram revoltas em várias partes da Arábia. Ao reprimi-las, várias centenas de hafizes do Alcorão alcançaram o martírio. Somente na batalha travada contra Musaylima, o Mentiroso, setecentos hafizes foram martirizados. Depois, seguindo o conselho de Hazrat Umar, Hazrat Abu Bakr (r.a.) compilou o Alcorão inteiro em forma de livro, reunido em um único lugar, e preservou a cópia consigo. Na história, essa cópia original do Alcorão é conhecida como “Mushaf Siddiqi”. Mais tarde, as cópias do Alcorão produzidas na época de Hazrat Uthman (r.a.) eram essencialmente apenas reproduções do “Mushaf Siddiqi”.

O Sagrado Alcorão e as palavras do Mensageiro proclamaram repetidamente, em muitos lugares, a imensa dignidade e honra de Abu Bakr.

Hazrat Abu Bakr (r.a.) narrou hadiths do Mensageiro de Allah (s.a.w.). O erudito al-Dhahabi mencionou na obra ‘Tadhkirat al- Huffaz’ que, ao narrar hadiths, ele era extremamente cauteloso. Devido à sua excessiva cautela, o número de hadiths narrados por ele é muito pequeno em comparação com o de outros. Umar, Uthman, Abd al-Rahman ibn Awf, Ibn Masud, Ibn Umar, Ibn Amr, Ibn Abbas, Hudhayfa, Zayd ibn Thabit, Uqba, Maaqal, Anas, Abu Hurayra, Abu Umama, Abu Baraza, Abu Musa, suas duas filhas Aisha e Asma, e outros companheiros narraram hadiths dele. Destacados tabi’un também narraram dele.

No dia 7 de Jumada al-Thani do ano 13 da Hégira, Hazrat Abu Bakr r.a. foi acometido por uma febre. Depois de permanecer enfermo durante 15 dias, faleceu no dia 21 de Jumada al-Thani do ano 13 da Hégira, correspondente a agosto de 634 d.C. Foi sepultado na câmara de Hazrat Aisha r.a., ligeiramente a leste, ao lado do Mensageiro de Allah s.a.a.s. Exerceu a responsabilidade do califado durante dois anos, três meses e dez dias.

’‘Umar ibn al-Khattab (r.a.)

Seu nome era ‘Umar, seu laqab era Faruq e sua kunya, Abu Hafs. Seu pai era Khattab e sua mãe, Hantama. Pertencia ao clã ‘Adi da tribo dos coraixitas. A linhagem de ‘Umar se unia à linhagem do Mensageiro de Allah s.a.a.s. por meio de um antepassado chamado Ka‘b, que era seu oitavo antepassado ascendente. Seu pai, Khattab, era uma personalidade importante da tribo dos coraixitas. Sua mãe, Hantama, era filha do famoso comandante coraixita Hisham ibn al-Mughira. Khalid ibn al-Walid, um dos maiores comandantes do Islã, era neto desse al-Mughira. No sopé do ‘Jabal ‘Aqib’, em Meca, situava-se, na época da Jahiliyyah, o assentamento dos Banu ‘Adi ibn Ka‘b. Era ali que ficava a residência de Hazrat ‘Umar. Na era islâmica, em homenagem a ‘Umar, o monte passou a chamar-se ‘Jabal ‘Umar’ — o monte de ‘Umar.(Tabaqat de Ibn Sa’‘d 3/66) Zayd ibn Nufayl era primo paterno de ‘Umar. Antes do surgimento do Honorável Mensageiro de Allah, aqueles que, valendo-se de sua própria razão, abandonaram a idolatria e se tornaram monoteístas na Arábia da Jahiliyyah incluíam Zayd.

Ele nasceu treze anos depois do nascimento do Mensageiro de Allah s.a.a.s. Quando morreu, sua idade também era igual à do Mensageiro de Allah s.a.a.s.: 63 anos. Contudo, há divergência entre os historiadores quanto ao ano de seu nascimento e ao ano em que abraçou o Islã.

Sua tez era clara e luminosa, tinha a cabeça calva, as faces sem carne, uma barba espessa, e os dois lados do bigode eram longos e grossos; seu corpo era alto e esguio. Mesmo entre mil pessoas, ele se destacava como o mais alto de todos.

Pouco se sabe sobre seu nascimento e sua infância. Ibn Asakir cita, em seu Tarikh, um relato transmitido por ‘Amr ibn al-‘As r.a. Segundo esse relato, certo dia ‘Amr ibn al-‘As estava sentado com alguns amigos quando ouviu grande alvoroço. Ao procurar saber a notícia, descobriu que Khattab tivera um filho. Com base nesse relato, parece que, por ocasião do nascimento de Hazrat ‘Umar, realizou-se uma celebração bastante alegre.

Sua juventude também é, em grande parte, desconhecida. Quem poderia imaginar que esse jovem comum e obstinado um dia se tornaria o ‘Faruq al-A‘zam’? No início da adolescência, o pai de ‘Umar encarregou-o de cuidar de camelos. Ele pastoreava camelos num lugar chamado ‘Dajnan’, próximo de Meca. Certa vez, durante seu califado, ao atravessar esse campo, recordou assim aos seus companheiros as lembranças da infância: ‘Houve um tempo em que eu, usando uma roupa de lã, pastoreava os camelos de Khattab sob o sol escaldante deste campo. Khattab era um homem extremamente severo e sisudo. Quando, cansado, eu parava para descansar um pouco, era cruelmente espancado por meu pai. Mas hoje chegou o dia em que, além de Allah, o Único, ninguém mais tem autoridade sobre mim.’ (Tabaqat: 3/266–67)

Já no início da juventude, ele dominou as matérias que eram indispensáveis à formação dos árabes nobres de sua época, tais como a arte da guerra, a luta, a oratória e o conhecimento das genealogias. Aprendeu a ciência da genealogia ou das linhagens por herança. Tanto seu pai quanto seu avô eram especialmente versados nessa ciência. Ele foi um dos maiores lutadores de sua época. Lutava nas feiras de ‘Ukaz, na Arábia. O erudito Yubay‘ani afirmou: ‘Umar era um lutador extraordinário.’ Ele era um famoso cavaleiro dos árabes da época da Jahiliyyah. O erudito al-Jahiz afirmou: ‘Quando ‘Umar montava um cavalo, parecia que seu corpo se fundia com a pele do animal.’ (Al–Bayān wa al Tabyīn) Ele também possuía talento poético. Sabia de cor quase todos os poemas dos poetas famosos de sua época. Na realidade, foi ele o fundador da vertente científica da crítica da poesia árabe. Ao ler suas opiniões sobre a língua e a literatura, percebe-se o quanto dominava esses assuntos. A eloquência era uma qualidade inata nele. Na juventude, aprendeu um pouco de leitura e escrita. Al-Baladhuri escreveu: ‘Quando o Mensageiro Nobre recebeu a profecia, apenas dezessete pessoas de todo o clã dos Coraixitas sabiam ler e escrever. ‘Umar era uma delas.’

O comércio era uma profissão honrosa entre os árabes da época da ignorância. ‘Umar também iniciou atividades comerciais e alcançou considerável prosperidade nelas. Graças aos negócios, teve a oportunidade de viajar para terras distantes e conviver com muitas sociedades de pessoas instruídas e virtuosas. Mas‘udi afirma: “Durante a época da ignorância, ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, viajava à Síria e ao Iraque a negócios. Assim, teve a oportunidade de conviver com muitos reis e soberanos árabes e não árabes.” Shibli Nu‘mani diz: “Já na época da ignorância, a reputação de ‘Umar havia se espalhado por toda a Arábia. Por isso, os coraixitas sempre o designavam para missões diplomáticas. Quando surgia alguma disputa com outras tribos, era ele quem era enviado como emissário para resolvê-la.” (Al–Faruq: 14)

A conversão de ‘Umar ao Islam foi um acontecimento fascinante. Graças a Zayd, seu primo, a mensagem do tawhid não era inteiramente nova em sua família. O primeiro entre eles a aceitar o Islam foi Sa‘id, filho de Zayd. Sa‘id, por sua vez, casou-se com Fatima, irmã de ‘Umar. Fatima também aceitou o Islam junto com o marido. Outro personagem ilustre da família de ‘Umar, Nu‘aym ibn ‘Abdullah, também aceitou o Islam. Contudo, até então, ‘Umar não tinha qualquer conhecimento sobre o Islam. Quando ouviu falar dele pela primeira vez, ardeu de cólera. Tornou-se um inimigo ferrenho daqueles de sua família que haviam aceitado o Islam. Nesse ínterim, soube que uma de suas escravas, chamada Labina, também havia aceitado o Islam. Submeteu à mais cruel perseguição todos aqueles sobre os quais exercia autoridade. Em certo momento, decidiu que era preciso eliminar do mundo Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o principal propagador do Islam. Dito e feito.

É narrado por Anas ibn Malik: “Com a espada pendurada no ombro, ‘Umar seguia seu caminho. No percurso, encontrou um homem dos Banu Zuhrah — segundo outra versão, Nu‘aym ibn ‘Abdullah. Ele perguntou: ‘Para onde vai, ‘Umar?’ ‘Vou dar cabo de Muhammad.’ O homem disse: ‘Depois de dar cabo de Muhammad, como escaparás das mãos dos Banu Hashim e dos Banu Zuhrah?’ Ao ouvir isso, ‘Umar exclamou: ‘Parece que tu também abandonaste a religião de teus antepassados e te tornaste um incrédulo.’ O homem disse: ‘Ó ‘Umar, ouve uma notícia surpreendente: tua irmã e teu cunhado tornaram-se incrédulos. Eles abandonaram tua religião.’ (Na verdade, a intenção do homem era desviar ‘Umar de seu objetivo.) Ao ouvir isso, ‘Umar, tomado pela fúria, correu para a casa de sua irmã e de seu cunhado. Ouviu-se a batida de ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, à porta da casa. Naquele momento, os dois estavam aprendendo o Alcorão com Khabbab ibn al-Aratt. Ao perceberem a presença de ‘Umar, Khabbab escondeu-se em outro cômodo da casa. ‘Umar perguntou primeiro à sua irmã e ao seu cunhado: ‘Que zumbido era esse que ouvi vindo daqui?’ Eles estavam recitando a surata Ta-Ha do Alcorão. Responderam: ‘Estávamos conversando entre nós.’ ‘Umar disse: ‘Talvez vocês dois tenham apostatado.’ O cunhado respondeu: ‘O que farás, ‘Umar, se a verdade estiver em algum outro lugar além da tua religião?’ ‘Umar lançou-se sobre o cunhado e começou a pisoteá-lo violentamente com os dois pés. Quando a irmã veio para salvar o marido, ‘Umar agarrou-a e bateu-lhe de tal modo que seu rosto ficou ensanguentado. A irmã, exaltada pela ira, exclamou: ‘Se a verdade estiver em algum lugar além da tua religião, então testemunho que não há divindade além de Allah e testemunho também que Muhammad é o Mensageiro de Allah.’

Alguns dias antes desse acontecimento, havia ocorrido uma mudança interior em ‘Umar. Os coraixitas haviam submetido os muçulmanos de Meca a uma perseguição e tortura cruéis, mas não conseguiram fazer sequer um deles renunciar ao Islam. Os muçulmanos suportaram tudo em silêncio. Quando necessário, abandonaram suas casas, mas não abandonaram o Islam. Isso havia causado um abalo no coração de ‘Umar. Ele oscilava em meio a dúvidas e conflitos. Naquele dia, o sangue nos olhos e no rosto de sua querida irmã, bem como seu testemunho da verdade, provocaram nele um abalo tão grande que todas as suas dúvidas e conflitos se dissiparam como cânfora. Num instante, seu coração iluminou-se com a luz da verdade. Depois de se purificar, recebeu das mãos da irmã o trecho da surata Ta-Ha e começou a lê-lo. Ao terminar a leitura, disse: ‘Levem-me até Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.’ Ao ouvir as palavras de ‘Umar, Khabbab finalmente saiu de seu esconderijo na casa. Disse: ‘Boas notícias, ‘Umar! Na noite de quinta-feira, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, suplicou por ti. Espero que sua súplica tenha sido aceita. Ele disse: ‘Ó Allah, fortalece o Islam por meio de ‘Umar ibn al-Khattab ou de ‘Amr ibn Hisham.’ Khabbab acrescentou: ‘O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, está agora em Dar al-Arqam, aos pés de Safa.’

’Umar dirigiu-se à «Dar al-Arqam». Hamza, Talha e alguns outros Companheiros estavam então vigiando à porta da casa de Arqam. Ao verem ’Umar, ficaram assustados. Hamza, porém, tranquilizou-os, dizendo: «Se Allah desejar o bem de ’Umar, ele aceitará o Islã e se tornará seguidor do Mensageiro. Caso contrário, será muito fácil para nós matá-lo.» O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava dentro da casa. Naquele momento, a revelação estava descendo sobre ele. Pouco depois, saiu e foi até ’Umar. Segurou firmemente as roupas de ’Umar e o punho de sua espada, e disse: «’Umar, não vais parar?» … Em seguida, suplicou: «Ó Allah, aqui está ’Umar diante de mim. Ó Allah, fortalece a religião por meio de ’Umar.» ’Umar exclamou: «Testemunho que tu és o Mensageiro de Allah.» Assim que aceitou o Islã, ele conclamou: «Ó Mensageiro de Allah, saiamos de casa.» (Tabaqāt al-Kubrā/Ibn Sa’d 3/267–69)Este foi um acontecimento do sexto ano da missão profética.

O Imame Zuhri narra: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia entrado na Dar al-Arqam quando ’Umar aceitou o Islã. Antes dele, um total de quarenta pessoas, entre homens e mulheres — ou um pouco mais de quarenta — haviam aceitado o Islã. Depois que ’Umar aceitou o Islã, Gabriel, que a paz esteja sobre ele, veio e disse: «Ó Muhammad, os habitantes dos céus estão jubilosos com a aceitação do Islã por ’Umar.» (Tabaqāt: 3/269)

A aceitação do Islã por ’Umar marcou o início de um novo capítulo na história do Islã. Embora, até então, quarenta ou cinquenta pessoas tivessem aceitado o Islã, entre elas o honorável Hamza, os muçulmanos ainda não estavam seguros sequer para se declarar muçulmanos, quanto mais para ir à Caaba e realizar a oração. Com a aceitação do Islã pelo honorável ’Umar, essa situação mudou. Ele proclamou publicamente o Islã e começou a realizar a oração na Caaba, acompanhado de outros.

‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Depois de aceitar o Islã, naquela mesma noite pensei: quem, entre os habitantes de Meca, é o mais ferrenho inimigo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)? Eu mesmo iria informá-lo de que havia aceitado o Islã. Pensei que Abu Jahl fosse o maior inimigo. Assim que amanheceu, bati à sua porta. Abu Jahl saiu e perguntou: “O que você quer?” Respondi: “Vim informá-lo de que creio em Allah e em Seu Mensageiro Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e que aceitei os preceitos e a mensagem trazidos por ele.” Assim que ouviu isso, ele bateu a porta na minha cara e disse: “Que Allah o cubra de vergonha, e cubra de vergonha também a notícia que você trouxe.”(Sira de Ibn Hisham)

Assim, pela primeira vez, o poder pagão de Meca se viu diante de um desafio aberto. Sa‘id ibn al-Musayyib disse: “Depois que ele aceitou o Islã, o Islã assumiu uma forma pública em Meca.” ‘Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Assim que ‘Umar aceitou o Islã, começou a discutir com os coraixitas. Por fim, insistiu em rezar na Caaba. E todos nós rezamos com ele.” Suhayb ibn Sinan disse: “Depois que ele aceitou o Islã, sentávamo-nos reunidos ao lado da Caaba, circundávamos a Caaba, retribuíamos qualquer tratamento rude que recebêssemos e repelíamos qualquer ataque contra nós. (Tabaqat: 3/269)Por isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conferiu-lhe o título de “Al-Faruq”. Isso porque, por causa dele, surgiu uma distinção pública entre o Islã e a incredulidade. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah estabeleceu a verdade na língua e no coração de ‘Umar. Por isso, ele é o ‘Faruq’. Allah fez, por meio dele, a distinção entre a verdade e a falsidade. (Tabaqat: 3/270)

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que aqueles que, em Meca, já não suportavam as perseguições dos idólatras migrassem para Medina. Depois da migração de Abu Salama, ‘Abdullah ibn Ashhal, Bilal e ‘Ammar ibn Yasir para Medina, ‘Umar partiu em direção a Medina acompanhado de vinte parentes e amigos. Entre esses vinte estavam seu irmão Zayd, seu sobrinho Sa‘id e seu genro Khunays. Nos arredores de Medina, na localidade de Quba, ele se hospedou na casa de Rifa‘a ibn ‘Abdul-Mundhir.

Havia uma diferença especial entre a Hégira de Umar e a Hégira dos demais. A Hégira dos outros foi feita secretamente, sem que ninguém soubesse. Já a Hégira de Umar foi pública. Nela havia um desafio e um tom de revolta contra os coraixitas. Antes de partir de Meca para Medina, ele primeiro circundou a Caaba. Depois, foi ao local onde os coraixitas se reuniam e declarou: “Estou a caminho de Medina. Se alguém quiser deixar sua mãe enlutada pela perda do filho, que venha encontrar-me do outro lado deste vale.” Depois de lançar esse desafio, dirigiu-se diretamente para Medina. Mas ninguém teve a coragem de aceitar o desafio.(Tarikhul Ummah al–Islamiyyah: Khidri Bek, 1/198)

Por meio de diversos relatos, sabe-se que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estabeleceu, em diferentes ocasiões, um vínculo de fraternidade religiosa entre Umar e várias pessoas. Abu Bakr as-Siddiq, Uwais ibn Sa’ida, Itban ibn Malik e Mu’adh ibn Afra, que Allah esteja satisfeito com eles, eram irmãos de fé de Umar. Contudo, é certo que, após a Hégira para Medina, foi estabelecida sua fraternidade religiosa com Itban ibn Malik, chefe dos Banu Salim.(Tabaqat: 3/272)

Desde o primeiro ano da Hégira até o falecimento do nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a vida ativa de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, foi, na realidade, uma parte da própria vida repleta de atividades do nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Não há um único acontecimento entre as guerras que o Mensageiro travou, os tratados que celebrou, as normas que promulgou de tempos em tempos ou os métodos que adotou para propagar o Islã que tenha sido realizado sem a participação ativa de Umar. Por isso, ao escrever um relato detalhado desses acontecimentos, ele deixa de ser uma biografia de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, e se transforma numa biografia do nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Sua vida repleta de feitos estava intimamente ligada à vida do nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

Hazrat Umar participou, junto com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, de todas as batalhas, incluindo Badr, Uhud e a Batalha da Trincheira. Além disso, liderou várias sariyyas (pequenas expedições nas quais o próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não esteve presente). Desde as consultas e o comando das tropas na Batalha de Badr até todos os demais assuntos, ele trabalhou firmemente ao lado do nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Foi o conselho de Umar sobre os prisioneiros da Batalha de Badr que agradou a Allah. Seu papel especial nessa batalha foi o seguinte:

1. Pessoas de todos os ramos da tribo dos coraixitas participaram dessa batalha; porém, nem uma única pessoa dos Banu Adi, isto é, do clã de Umar, participou. Isso aconteceu graças à influência de Umar.

2. Nessa batalha, do seu próprio clã e dos aliados por tratado de Umar, participaram ao todo doze homens contra o Islã.

3. Nesta batalha, Hadrat ‘Umar matou com as próprias mãos seu tio materno, ‘Asi ibn Hisham. Com esse ato, foi o primeiro a provar que, no caminho da verdade, a influência dos parentes e entes queridos não pode prevalecer.

Na batalha de Uhud, Hadrat ‘Umar também foi um dos soldados da linha de frente. Em certo momento da batalha, quando os soldados muçulmanos se viram em uma situação desesperadora e o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe dê paz, ferido, refugiou-se em um lugar seguro da montanha com um pequeno grupo de companheiros, o líder coraixita Abu Sufyan aproximou-se e, em voz alta, chamou pelos nomes de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe dê paz, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, e outros, perguntando: “Vocês estão vivos?” Por indicação do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe dê paz, ninguém respondeu a Abu Sufyan. Como não obteve resposta, Abu Sufyan declarou: “Certamente, todos eles foram mortos.” Essas palavras feriram o espírito viril de ‘Umar. Ele não conseguiu permanecer calado e exclamou: “Ó inimigo de Allah! Estamos todos vivos.” Abu Sufyan disse: “Que Hubal seja exaltado; vitória para Hubal.” Por indicação do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe dê paz, ‘Umar respondeu: “Allah é mais Elevado e mais Grandioso — Allah é o Sublime e o Honrado.”

‘Umar também desempenhou um papel ativo na batalha da Trincheira. A responsabilidade de proteger um local estratégico da trincheira coube a ‘Umar. Ainda hoje existe ali uma mesquita com o seu nome, proclamando a lembrança de sua atuação. Certo dia, nessa batalha, ele ficou tão ocupado com a defesa que sua oração do ‘Asr esteve prestes a ser perdida. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe dê paz, consolou-o, dizendo: “Por causa da ocupação, eu também ainda não consegui realizar a oração.” ((Al–-Faruq: Shibli Nu’‘mani: 25)

Antes mesmo do juramento de Hudaybiyyah, Hadrat ‘Umar começou a preparar-se para a batalha. Enviou seu filho ‘Abdullah para buscar um cavalo com um dos Ansar. Ele voltou e informou: “As pessoas estão prestando o juramento de lealdade ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe dê paz.” ‘Umar estava então vestido para a batalha. Nessa condição, correu até o Mensageiro de Allah e prestou-lhe o juramento de lealdade.

As condições do tratado de Hudaybiyyah pareceram, à primeira vista, humilhantes para os muçulmanos. ‘Umar ficou agitado. Primeiro diante de Abu Bakr e depois do próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe dê paz, protestou contra o tratado. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe dê paz, disse: “Eu sou o Mensageiro de Allah. Não faço nada sem a ordem de Allah.” ‘Umar acalmou-se e arrependeu-se. Jejuando jejuns voluntários, realizando orações, libertando escravos e dando caridade, ofereceu expiação por sua insolência.

Em Khaybar havia muitas fortalezas protegidas dos judeus. Algumas foram conquistadas facilmente, mas duas não puderam ser conquistadas de modo algum. No primeiro dia, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe dê paz, enviou Abu Bakr; no segundo, enviou ‘Umar, para conquistar as duas fortalezas. Ambos retornaram sem sucesso. No terceiro dia, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe dê paz, anunciou: “Amanhã entregarei a bandeira a um homem por cuja mão Allah concederá a vitória.” No dia seguinte, os nobres Companheiros apresentaram-se diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe dê paz, armados. No coração de cada um havia o desejo de alcançar essa honra. ‘Umar disse: “Exceto nessa ocasião em Khaybar, nunca desejei comandar um exército ou exercer liderança.” A honra daquele dia foi conquistada pelo Leão de Allah, ‘Ali, que Allah esteja satisfeito com ele.

As terras conquistadas de Khaybar foram distribuídas entre os mujahidin. Hadrat ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, dedicou como waqf, no caminho de Allah, a parte que lhe coube. Este foi o primeiro waqf na história do Islã. ((Al–-Faruq: 30)

Durante a conquista de Meca, Hazrat ’Umar (R.A.) acompanhou o Mensageiro de Allah (S.A.W.) como uma sombra. Quando Abu Sufyan, o grande inimigo do Islã, veio para se render, ’Umar pediu ao Mensageiro de Allah (S.A.W.): “Dê-me permissão para acabar com ele agora mesmo.” Naquele dia, os homens de Meca prestavam juramento de fidelidade ao Mensageiro de Allah (S.A.W.), enquanto as mulheres o faziam diante de ’Umar, por ordem do Mensageiro de Allah (S.A.W.).

Hazrat ’Umar também participou da expedição de Hunayn e lutou bravamente. Nessa batalha, devido ao intenso ataque dos incrédulos, o exército muçulmano de doze mil homens foi dispersado. Ibn Ishaq diz: apenas alguns bravos dos Muhajirun e dos Ansar permaneceram firmes ao lado do Mensageiro de Allah (S.A.W.) naquele momento de perigo. Entre eles, destacam-se especialmente Abu Bakr, ’Umar e Abbas (R.A.).

Durante a expedição de Tabuk, atendendo ao pedido do Mensageiro de Allah (S.A.W.), Hazrat ’Umar (R.A.) entregou metade de todos os seus bens ao Mensageiro de Allah (S.A.W.).

Ao ouvir a notícia do falecimento do Mensageiro de Allah (S.A.W.), Hazrat ’Umar permaneceu sentado, atordoado, por algum tempo. Depois, foi até a frente da Mesquita do Profeta, desembainhou a espada e declarou: “Quem disser que o Mensageiro de Allah (S.A.W.) faleceu, eu lhe cortarei a cabeça em duas.” Por esse acontecimento, pode-se facilmente avaliar a intensidade de sua devoção e de seu amor pelo Mensageiro de Allah (S.A.W.).

Após o falecimento do Mensageiro de Allah (S.A.W.), depois de longas discussões em Saqifah Banu Sa’idah, ’Umar tomou rapidamente uma decisão e prestou o juramento de fidelidade ao califado nas mãos de Hazrat Abu Bakr. Assim, a grande crise da escolha do califa foi facilmente superada.

Quando o califa Hazrat Abu Bakr percebeu que seu fim se aproximava, considerou benéfico nomear seu sucessor antes de morrer. Em sua opinião, ’Umar (R.A.) era a pessoa mais qualificada para o califado. Ainda assim, julgou apropriado consultar os Companheiros de alta posição sobre o assunto. Chamou Abdur Rahman ibn Awf (R.A.) e disse: “Diga-me sua opinião sobre ’Umar.” Ele respondeu: “Ele é melhor do que qualquer outra pessoa; mas há certa severidade em seu caráter.” Abu Bakr disse: “Isso se deve ao fato de ele ter me visto sendo brando; quando a responsabilidade do califado recair sobre seus ombros, essa severidade diminuirá bastante.” Então Abu Bakr pediu-lhe que não revelasse a ninguém o assunto que haviam discutido. Em seguida, chamou ’Uthman ibn Affan e disse: “Abu Abdullah, diga-me sua opinião sobre ’Umar.” ’Uthman respondeu: “Vossa Excelência o conhece melhor do que eu.” Abu Bakr disse: “Mesmo assim, diga-me sua opinião.” ’Uthman respondeu: “Pelo que conheço dele, seu interior é melhor do que seu exterior. Entre nós, não há outro igual a ele.” Abu Bakr (R.A.) despediu-o, pedindo-lhe que mantivesse em segredo o assunto discutido entre os dois.

Depois de concluir a consulta a várias pessoas, chamou ’Uthman ibn Affan e ditou-lhe: “Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso. Este é o compromisso de Abu Bakr ibn Abi Quhafa para com os muçulmanos. Quanto ao que segue…” Depois de dizer apenas isso, perdeu a consciência. Então ’Uthman ibn Affan acrescentou por conta própria: “Nomeio ’Umar ibn al-Khattab como califa para vós e não poupei esforços para buscar o vosso bem a esse respeito.” Depois, Abu Bakr recobrou a consciência. Leram-lhe a parte escrita. Ao ouvir tudo, ele exclamou: “Allah é o Maior!” e disse: “Eu temia que, se morresse inconsciente, as pessoas divergiriam.” Dirigindo-se a ’Uthman, acrescentou: “Que Allah lhe conceda o bem em nome do Islã e dos muçulmanos.”

Al-Tabari diz: depois, Abu Bakr (R.A.) olhou para as pessoas. Sua esposa, Asma bint Umais, estava então segurando-o. Ele disse às pessoas reunidas: “Estais satisfeitos com aquele que estou nomeando para vós? Juro por Allah que não poupei esforços para conhecer a opinião das pessoas. Não nomeei nenhum parente próximo para esse cargo. Nomeei ’Umar ibn al-Khattab como vosso califa. Escutai-o e obedecei-lhe.” Assim começou o califado de ’Umar (R.A.), no dia 22 de Jumada al-Thani do ano 13 da Hégira, correspondente a 13 de agosto de 634 d.C.

Não é possível discutir brevemente o método de governo do Estado de Hazrat Umar. Em seu curto período de dez anos, ele provocou a queda de todo o Império Romano Bizantino e do Império Persa. Em sua época, foram conquistadas, ao todo, 1.036 cidades, incluindo as de várias regiões. Foi sobretudo durante seu governo que se estabeleceu de forma sistemática o governo islâmico. Todos os setores do governo ou do Estado surgiram em sua época. Seu governo e sua justiça espalharam-se entre as pessoas de todo o mundo como uma lenda.

Hazrat Umar foi o primeiro califa a receber o título de “Amir al-Mu’minin”. Foi ele também o primeiro a instituir o calendário hijri, a organizar a oração de Tarawih em congregação, a utilizar o durra, ou bastão, para a administração pública, a estabelecer oitenta açoites como pena para o consumo de álcool, a conquistar muitos territórios, a fundar cidades, a definir as patentes do exército e seus diversos batalhões, a elaborar o registro nacional ou lista de cidadãos, a nomear cádis e a dividir o Estado em diferentes províncias.

Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) era um dos escribas do Mensageiro de Allah. Ele casou sua filha, Hazrat Hafsa, com o Mensageiro de Allah. Desempenhou o papel de ministro e conselheiro do Mensageiro de Allah e de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Antes e depois de aceitar o Islã, o comércio era seu meio de subsistência. Mesmo depois de assumir sobre os ombros a pesada responsabilidade do califado, continuou a comerciar por alguns anos. Porém, quando isso se tornou impossível, os Companheiros de posição elevada, entre eles Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), consultaram-se e fixaram para ele, do Bayt al-Mal, uma pensão anual de apenas oitocentos dirrãs. No ano 15 da Hégira, quando foram determinadas as pensões das demais pessoas a partir do Bayt al-Mal, sua pensão também foi fixada em cinco mil dirrãs, igual à dos Companheiros ilustres.

A atitude de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) em relação aos recursos do Bayt al-Mal era semelhante à atitude em relação aos bens de um órfão. Assim como o tutor de um órfão conserva os bens do órfão, pode gastar conforme a necessidade do órfão e de si próprio, mas não pode desperdiçá-los. Quando não há necessidade, abstém-se de utilizar os bens do órfão e apenas os protege; e, quando o órfão cresce, devolve-lhe seus bens. Essa atitude de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) em relação ao Bayt al-Mal sempre se manifestou em suas ações e conduta.

Hazrat Umar sempre caminhava com um durra, ou bastão, na mão. Até Satanás fugia ao vê-lo. (Tazkirat al- Huffaz). Isso, porém, não significa que ele fosse tirânico. Era um juiz rigoroso e justo. Amava as pessoas de todo o coração, e as pessoas também o amavam. A história registra muitos relatos sobre seu cuidado com seus súditos.

Há tantas indicações e declarações explícitas no Alcorão e nos hadiths sobre a virtude e a dignidade de Hazrat al-Faruq al-Azam que não é possível apresentá-las em um breve artigo. Sua posição diante de Allah e de Seu Mensageiro é elevadíssima. Por isso, diz-se que versículos do Alcorão eram sempre revelados em apoio a todas as opiniões de Umar. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) comentou: “Khairul ummati ba’da nabiyyiha Abu Bakr summa Umar” — depois do Profeta, a melhor pessoa da comunidade é Abu Bakr, e depois, Umar. Hazrat Abdullah ibn Masud disse: “A aceitação do Islã por Umar foi uma vitória para o Islã. Sua hijra foi um auxílio de Allah, e seu califado foi uma misericórdia de Allah.” Observando todas as qualidades de Umar, o nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Law kana ba’di nabiyyun lakana Umar” — se houvesse um profeta depois de mim, seria Umar. Isso porque ele possuía as características e a natureza dos profetas.

Umar deu uma contribuição considerável ao cultivo e à disseminação das ciências e do conhecimento. Ele enfatizou a leitura, o estudo e a preservação da poesia árabe. Era extremamente atento à preservação da pureza da língua árabe; quando alguém cometia um erro linguístico diante dele, repreendia-o. Acreditava que aprender corretamente a língua árabe era parte da religião. O erudito al-Dhahabi mencionou em sua obra ‘Tazkirat al- Huf‌faz’ que, na transmissão dos hadiths, Umar era extremamente rigoroso e insistia que um mesmo hadith fosse transmitido por diferentes cadeias de transmissão.

O célebre Companheiro Mughirah ibn Shu’bah (que Allah esteja satisfeito com ele) foi apunhalado por Abu Lu’lu’ Firoz, um escravo adorador do fogo, enquanto estava de pé para a oração do Fajr, atingindo esse grande califa. Na quarta-feira, no terceiro dia após ser ferido, ele faleceu, no dia 27 de Dhu al-Hijjah do ano 23 da Hégira. Antes de morrer, deixou aos seis ilustres Companheiros — Ali, Uthman, Abd al-Rahman ibn Awf, Sa’d, al-Zubayr e Talhah (que Allah esteja satisfeito com eles) — a responsabilidade de escolher, entre eles, um califa. Hazrat Suhayb (que Allah esteja satisfeito com ele) conduziu a oração fúnebre. Ele foi sepultado ao lado de Hazrat al-Siddiq al-Akbar, dentro do Rawdah do Profeta. Tinha 63 anos quando morreu. Seu período de califado durou dez anos, seis meses e quatro dias.

’Uthman ibn ’Af‌fan (r.a.)

Seu nome era ’Uthman; suas kunyas eram Abu ’Amr, Abu ’Abdullah e Abu Layla, e seu lakab era Dhu al-Nurayn. (Tabaqat 3/53, Tahdhib al- Tahdhib) Seu pai era ’Affan, e sua mãe, Arwa bint Qurayz. Era descendente do ramo omíada da tribo dos coraixitas. Sua linhagem se unia à do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) através de seu ancestral ’Abd Manaf. Foi o terceiro califa dos Califas Bem-Guiados. Sua avó materna, Bayda bint ’Abd al-Muttalib, era tia paterna do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Nasceu em 576 d.C., seis anos após o Ano do Elefante. (Al-–Isti’ab) De acordo com isso, era seis anos mais jovem que o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Contudo, há ampla divergência quanto ao seu ano de nascimento. Consequentemente, também há divergência semelhante quanto à sua idade exata no momento de seu martírio. Segundo alguns relatos, nasceu em Ta’if. (Fitnat al-‌Kubra Kubra, Dr. Taha Husayn)

Hazrat ’Uthman (R.A.) tinha um corpo robusto e de estatura mediana. Tinha as faces magras, uma barba espessa, tez clara e luminosa, cabelos abundantes, peito e cintura largos, costeletas que chegavam até as orelhas, panturrilhas grossas, braços longos e cobertos de pelos, marcas de varíola no rosto, barba tingida com hena e dentes revestidos de ouro.

O período inicial da vida de Hazrat ’Uthman, assim como o de outros Companheiros, permanece envolto na escuridão da era da ignorância. Sua vida anterior ao Islã desapareceu de tal maneira que parece que ele nasceu juntamente com o Islã. Os historiadores não conseguiram transmitir-nos nenhuma informação específica sobre sua vida pré-islâmica.

Hazrat ’Uthman era um dos maiores especialistas em astrologia entre os coraixitas. Também possuía profundo conhecimento da história antiga dos coraixitas. Devido à sua sabedoria, experiência, cortesia, senso de civilidade e outras qualidades, as pessoas estavam sempre reunidas ao seu redor. Nenhum ato indigno da era da ignorância conseguiu tocá-lo. A modéstia e o intenso senso de dignidade eram as principais características de seu nobre caráter. Na juventude, começou a dedicar-se ao comércio, como os demais coraixitas nobres. Graças à sua ilimitada honestidade e confiabilidade, alcançou um sucesso extraordinário nos negócios. Na sociedade de Meca, recebeu o título de “Ghani”, como um comerciante rico e eminente.

Hazrat ’Uthman é considerado um dos “As-Sabiqunal Awwalun” (os que abraçaram o Islã no primeiro período), um dos “Ashara-e Mubashshara” e um dos seis mais nobres Companheiros com quem o Nobre Mensageiro de Allah (S.A.A.W.) permaneceu satisfeito por toda a vida. Ele tinha uma relação profunda com Abu Bakr Siddiq. Foi por meio de sua pregação e incentivo que abraçou o Islã. (Sira de Ibn Hisham) Ao contrário da conduta de muitos outros líderes de Meca, Hazrat ’Uthman respondeu ao convite do Mensageiro de Allah (S.A.A.W.) já no início de sua missão profética e, durante toda a vida, dedicou-se ao bem-estar dos muçulmanos com sua vida, seus bens e todos os recursos de que dispunha. Hazrat ’Uthman disse: “Fui o quarto entre aqueles que abraçaram o Islã.” (Usud al- Ghaba) Segundo Ibn Ishaq, depois de Abu Bakr, Ali e Zaid bin Haritha, Hazrat ’Uthman foi a primeira pessoa a abraçar o Islã.

O resumo dos relatos apresentados pelos biógrafos e pelos especialistas em hadith sobre as circunstâncias em que Hazrat ’Uthman abraçou o Islã é o seguinte:

Alguns dizem que sua tia materna, Su’da, era uma renomada kahin, ou adivinha, daquela época. Ela falou a عثمان sobre o Nobre Profeta e o incentivou a crer nele. Foi devido a esse incentivo que ele aceitou o Islã. (Al Fit‌natul Kubra)Por outro lado, Ibn Sa’d e muitos outros narram: Hadrat عثمان estava viajando pela Síria. Quando descansava num lugar entre Mu’an e Zarqa, ouviu, em estado de sonolência, um arauto dizer: “Ó vós que dormis, apressai-vos. Um Mensageiro chamado Ahmad surgiu em Meca.” Ao retornar a Meca, soube que aquilo era verdade. Então aceitou o Islã por convite de Abu Bakr. (Tabaqat: 3/55)

Quando Hadrat عثمان aceitou o Islã, tinha mais de trinta anos. Mesmo no período pré-islâmico, mantinha uma relação estreita com Abu Bakr. Quase todos os dias, visitava a casa de Abu Bakr. Certo dia, Hadrat Abu Bakr apresentou-lhe o Islã. Por coincidência, o Mensageiro de Allah também passava por aquele caminho naquele momento. Ele disse: “Ó عثمان, aceita a entrada no Paraíso. Eu vim como Seu Mensageiro para vós e para todas as criaturas de Allah.” Assim que ouviu isso, ele aceitou o Islã. Após a conversão de Hadrat عثمان, sua tia materna Su’da compôs uma qasida para felicitá-lo.

Amina, irmã consanguínea de عثمان, e seus irmãos e irmãs por parte de pai, Walid, Khalid, Ammara e Umm Kulthum, todos se tornaram muçulmanos. O pai deles era Uqba ibn Abi Muayt. Darqutni narrou que Umm Kulthum foi uma das primeiras muhajir. Diz-se que ela foi a primeira noiva coraixita a prestar juramento de lealdade nas mãos do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Os outros irmãos e irmãs de عثمان aceitaram o Islã por ocasião da conquista de Meca.

Mesmo depois de aceitar o Islã e apesar de ser uma pessoa respeitada entre os coraixitas, ele teve de sofrer as humilhações dos inimigos do Islã. Seu tio, Hakam ibn Abil ‘As, amarrava-o com uma corda e o espancava impiedosamente. Ele dizia: “Ao aceitar uma nova religião, você cobriu de vergonha o rosto de nossos antepassados. Não o libertaremos enquanto você não abandonar esta religião.” Isso não abalou nem um pouco a fé de Hadrat عثمان. Ele dizia: “Façam o que quiserem; jamais poderei abandonar esta religião. (Tabacat: 3/55)

Depois que Hadrat عثمان aceitou o Islã, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou sua própria filha, Ruqayya, com ele. Quando Ruqayya faleceu em Medina, no segundo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou sua segunda filha, Umm Kulthum, com ele. Por isso, ele recebeu o título de “Dhu’n-Nurayn” — o possuidor de duas luzes.

Ruqayya era filha de Hadrat Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela. Seu primeiro casamento foi com Utba ibn Abi Lahab, e Umm Kulthum casou-se com Utayba, o segundo filho de Abu Lahab. Abu Lahab era um inimigo ferrenho do Profeta de Allah. Após a revelação da surata Al-Lahab do Alcorão Sagrado, Abu Lahab e sua esposa Umm Jamil ((Hammā carregadora de lenha)) ordenaram aos seus dois filhos que se divorciassem das duas filhas de Muhammad. Eles se divorciaram. Contudo, o Imã Suyuti considera que o casamento de Ruqayya com Uthman ocorreu antes de ele aceitar o Islam. À luz do acontecimento mencionado acima, a opinião de Suyuti não parece aceitável.

No quinto ano da missão profética, Uthman e sua esposa Ruqayya estavam entre o primeiro grupo que emigrou para a Abissínia, exausto pela perseguição dos politeístas de Meca. Hadrat Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Os primeiros a emigrar para o solo da Abissínia foram Uthman e sua esposa Ruqayya, filha do Profeta.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ficou extremamente angustiado por muito tempo, sem receber notícias deles. Nessa ocasião, uma mulher coraixita veio da Abissínia para Meca. O Mensageiro de Allah perguntou-lhe sobre o estado dos dois. Ela informou: “Vi Ruqayya montada num jumento, enquanto Uthman o conduzia.” O Mensageiro de Allah suplicou por ele: “Que Allah o ajude.” Depois de Lot, Uthman foi o primeiro a emigrar pelo caminho de Allah com sua família. ((Al-–Isābah)) Durante sua permanência na Abissínia, nasceu-lhes um filho, Abdullah, e, em referência ao nome desse filho, ele recebeu a kunya Abu Abdullah. Abdullah morreu no quarto ano da Hégira. Sua vida conjugal com Ruqayya foi muito feliz. As pessoas costumavam dizer que, se alguém quisesse ver o melhor casal, deveria olhar para Uthman e Ruqayya.

Hadrat Uthman permaneceu por algum tempo na Abissínia. Depois, ao ouvir o rumor de que os líderes de Meca haviam aceitado o Islam, voltou para Meca. Após a emigração do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para Medina, ele também emigrou novamente para Medina. Assim, tornou-se Dhul-Hijratayn — aquele que realizou duas emigrações.

Ele participou de todas as batalhas com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, exceto a de Badr. Quando o Mensageiro de Allah partiu para a batalha de Badr, Hadrat Ruqayya estava acamada, doente. Por ordem do Mensageiro de Allah, Hadrat Uthman permaneceu em Medina para cuidar de sua esposa enferma. No próprio dia em que a notícia da vitória em Badr chegou a Medina, Hadrat Ruqayya faleceu. O Mensageiro de Allah declarou que Uthman receberia a mesma recompensa e a mesma parte dos espólios que os combatentes de Badr. ((Tabakāt: 3/56)) Assim, indiretamente, ele também é considerado um companheiro de Badr.

Após o falecimento de Ruqayya, no terceiro ano da Hégira, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou Umm Kulthum, a irmã mais nova de Ruqayya, com Uthman. Segundo um relato, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou Umm Kulthum com Uthman por ordem de Allah. No nono ano da Hégira, Umm Kulthum também faleceu sem filhos. Após a morte de Umm Kulthum, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se eu tivesse uma terceira filha, também a casaria com Uthman.” (Hayat ’Uthman: Riza Misri)

Uthman também participou da batalha de Uhud. Porém, não conseguiu permanecer firme ao lado do Mensageiro de Allah como aquele pequeno grupo de combatentes. Assim como a maioria dos mujahidin, ele também deixou o campo de batalha. Contudo, Allah, o Altíssimo, anunciou o perdão deles. Ele participou de todas as batalhas seguintes, assim como os demais ilustres companheiros.

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) anunciou os preparativos para a expedição de Tabuk. Também anunciou em Meca e entre as demais tribos árabes o chamamento para participar da expedição. Solicitou ajuda para a organização do exército islâmico e para o custeio das despesas. Os companheiros ofereceram amplamente sua ajuda. Abu Bakr entregou ao Mensageiro todo o seu dinheiro. Umar compareceu com metade de seu patrimônio total. E Uthman assumiu pessoalmente todas as despesas de um terço dos soldados desta guerra. Ele forneceu novecentos e cinquenta camelos e cinquenta cavalos. Ibn Ishaq afirma que Uthman gastou uma quantia tão grande para equipar o exército de Tabuk que ninguém mais conseguiu gastar o equivalente. Segundo alguns relatos, Uthman trouxe mil dinares em uma bolsa para os preparativos da batalha de Tabuk e os derramou no colo do Mensageiro de Allah. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) examinou os dinares, virando-os de um lado para o outro com alegria, e disse: “A partir de hoje, tudo o que Uthman fizer não lhe causará dano algum.” Assim, ele contribuía generosamente durante os preparativos da maioria das batalhas. Segundo um relato, satisfeito com sua doação na batalha de Tabuk, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) suplicou pelo perdão de todos os seus pecados passados e futuros e prometeu-lhe o Paraíso. (Al–Fitnatul Kubra)

O incidente de Hudaybiyya. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou Umar e disse: “Vá a Meca. Informe os líderes de Meca sobre o objetivo de nossa chegada.” Umar disse humildemente: “Ó Mensageiro de Allah! Temo pela minha vida diante dos coraixitas. Você sabe quão grande é minha inimizade com eles. Penso que Uthman é a pessoa mais adequada para esta missão.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou Uthman. Enviou Uthman a Abu Sufyan e aos demais líderes coraixitas com a mensagem de que não haviam vindo para guerrear, mas para visitar a “Casa de Allah”.

Uthman chegou a Meca levando a mensagem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A primeira pessoa que encontrou foi Aban ibn Sa’id ibn As. Aban concedeu-lhe proteção. Acompanhado por Aban, ele encontrou os líderes coraixitas e transmitiu-lhes a mensagem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eles disseram a Uthman: “Se quiser, você pode realizar o tawaf.” Mas Uthman rejeitou a proposta e disse: “Enquanto o Mensageiro de Allah não realizar o tawaf, não posso realizar o tawaf.” Os coraixitas ficaram irritados com suas palavras e o detiveram.

Segundo alguns relatos, eles mantiveram Uthman detido por três dias. Enquanto isso, espalhou-se no acampamento muçulmano em Hudaybiyya o rumor de que Uthman havia sido martirizado. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou: “Não retornaremos sem vingar o sangue de Uthman.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) colocou a mão direita sobre a mão esquerda e disse: “Ó Allah, este juramento é em nome de Uthman. Ele foi a Meca para tratar de uma questão Tua e de Teu Mensageiro.” Quando Uthman retornou de Meca, tomou conhecimento do juramento. Ele próprio também prestou juramento nas mãos do Mensageiro de Allah. Na história, este acontecimento ficou conhecido pelos nomes de Bay’at al-Ridwan, Bay’at al-Shajara, entre outros. O Sagrado Alcorão elogiou este juramento.

Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), quando se prestava o juramento de lealdade a Abu Bakr, Uthman recebeu a notícia, foi rapidamente até lá e prestou juramento a Abu Bakr. O escriba do documento de compromisso que Abu Bakr redigiu em seu leito de morte, nomeando Umar como califa, foi Uthman. Foi ele quem primeiro prestou juramento ao califa Umar.

Quando Hazrat ’Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, estava no leito de morte, ferido por uma punhalada, pediram-lhe que nomeasse o próximo califa. Mas ele hesitou e disse: “Se eu nomear um califa, há um precedente para isso: assim procedeu alguém melhor do que eu, isto é, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele. E, se eu não nomear ninguém, também há um precedente para isso: assim procedeu alguém melhor do que eu, isto é, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” Ele acrescentou: “Se Abu ‘Ubayda estivesse vivo, eu o nomearia califa. Se meu Senhor me perguntasse, eu responderia: ouvi o Teu Profeta dizer que ele é o amīn, ou o homem mais digno de confiança, desta comunidade. Se Sālim, o escravo liberto de Abu Hudhayfa, ainda estivesse vivo hoje, eu também poderia nomeá-lo califa; se meu Senhor me perguntasse, eu responderia: ouvi o Teu Profeta dizer que Sālim é um grande amante de Allah.” Então um homem disse: “Mas Abdullah ibn ‘Umar está aqui.” Ele exclamou: “Que Allah te prejudique! Juro por Allah, não desejo isso de Allah. … Se há algum bem nessa responsabilidade do califado, eu o herdei da minha linhagem; e, se há algum mal, nós também o recebemos. Para isso, basta que um membro da linhagem de ‘Umar seja chamado a prestar contas. Lutei contra o meu próprio nafs e privei minha família. Se eu conseguir escapar de algum modo, sem recompensa nem censura, considerar-me-ei afortunado.”

Quando lhe repetiram a mesma questão, ele apontou para ‘Ali e disse: “Ele é o mais apto entre vocês para conduzi-los pelo caminho da verdade. Contudo, não estou disposto a assumir essa responsabilidade, nem em vida nem depois da morte. Diante de vocês está este grupo sobre o qual o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse que são habitantes do Paraíso. São eles: ‘Ali e ‘Uthman, os dois filhos de ‘Abd Manāf; ‘Abdur-Rahman e Sa‘d, os dois tios maternos do Mensageiro; az-Zubayr ibn al-‘Awwām, o discípulo íntimo e primo paterno do Mensageiro; e Talha. Escolham qualquer um deles como califa. Quando qualquer um deles for escolhido, vocês deverão ajudá-lo e tratá-lo bem. Se ele confiar a qualquer um de vocês alguma responsabilidade, cumpram-na devidamente.”

Hazrat ’Umar convocou os membros do grupo mencionado e disse: “Refleti sobre vocês. Vocês são os líderes e administradores do povo. A responsabilidade do califado deve permanecer entre vocês. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu satisfeito com vocês. Se vocês permanecerem corretos, não temo pelo povo. Contudo, temo pelas disputas entre vocês, pois o povo ficará dividido por causa delas.”

Depois, determinou que a eleição ocorresse durante os três dias e três noites após sua morte. Disse a Miqdad ibn al-Aswad: “Depois de me sepultarem, reúna este grupo, e eles escolherão um entre si.” Disse a Suhayb: “Durante três dias, conduzirás a oração congregacional.” Ordenou: “Vá até ‘Ali, ‘Uthman, Sa‘d, ‘Abdur-Rahman, az-Zubayr e Talha; se Talha estiver em Medina (Talha estava então fora de Medina), reúna-os num só lugar. Traga também Abdullah ibn ‘Umar, embora ele não tenha direito algum ao califado. Vigie-os atentamente. Se cinco deles concordarem quanto a um homem e um discordar, corte-lhe a cabeça com a espada. Se quatro concordarem e dois recusarem, decepe as cabeças desses dois. Se eles se dividirem em dois grupos de três, o grupo apoiado por Abdullah ibn ‘Umar escolherá um dentre eles. Se o outro grupo não aceitar a decisão de Abdullah ibn ‘Umar, sigam o lado em que estiver ‘Abdur-Rahman ibn ‘Awf. Se os opositores não aceitarem a decisão do povo, obriguem-nos a aceitá-la.”

Depois que Hazrat ’Umar foi sepultado, Miqdad ibn Aswad reuniu os membros da shura na casa de Miswar ibn al-Makhrama — segundo outra versão, no aposento de Hazrat ‘A’isha. Eram cinco. Talha ainda estava fora de Medina. Abdullah ibn ‘Umar juntou-se a eles. Abu Talha foi designado como guarda da porta da casa. Houve uma longa discussão e uma acalorada controvérsia sobre o assunto. Em certo momento, ‘Abdur-Rahman disse: “Quem de vocês é capaz de renunciar à sua reivindicação e confiar a mim a tarefa de escolher o melhor entre vocês? Eu renuncio à minha reivindicação ao califado.” Hazrat ‘Uthman foi o primeiro a aceitar essa proposta e confiou sua autoridade a ‘Abdur-Rahman. Depois, todos os demais o seguiram. Assim, toda a responsabilidade pela escolha do califa recaiu sobre ‘Abdur-Rahman.

Hazrat ‘Abdur-Rahman consultou, dia e noite, os demais companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, todos os oficiais militares estacionados em Medina, os nobres e representantes do povo de todas as classes. Às vezes, individualmente; outras, coletivamente. Quase todos expressaram sua opinião a favor de Hazrat ‘Uthman.

Na noite anterior à manhã em que terminaria o prazo estabelecido por ‘Umar, ‘Abdur-Rahman foi à casa de Makhrama. Primeiro chamou az-Zubayr e Sa‘d, sentou-se com eles na Suffa da Mesquita do Profeta e conversou com cada um separadamente; do mesmo modo, conversou em particular com ‘Uthman e ‘Ali até o amanhecer.

Enquanto isso, a Mesquita do Profeta estava lotada. Todos estavam ansiosos para ouvir a decisão final. Após um breve discurso dirigido aos habitantes de Medina reunidos depois da oração do fajr, Abd al-Rahman anunciou o nome de Hazrat Uthman como califa e prestou-lhe o juramento de lealdade. Logo depois, Hazrat Ali também prestou o juramento. Em seguida, a multidão reunida prestou o juramento de lealdade a Hazrat Uthman. Na manhã de segunda-feira, 1º de Muharram do ano 24 da Hégira, ele assumiu a responsabilidade pelo califado. (Tarikhul Ummah al–Islamiyyah, Khidri Bek)

Hazrat Uthman continuou a desempenhar com grande competência as responsabilidades do califado. Na primeira fase do califado, quase não se ouviam acusações contra ele. Porém, no período final, o descontentamento contra ele começou a se intensificar em regiões como Basra, Kufa e Egito. Na realidade, a força judaica derrotada desempenhou um papel especial na criação desse descontentamento. Aos poucos, seus integrantes se organizaram, rebelaram-se e cercaram a residência do califa em Medina. Não havia nenhuma pessoa de destaque entre esses rebeldes. Eles exigiram que o califa renunciasse, ameaçando matá-lo. Interromperam o fornecimento de comida e água à casa do califa. Impediram a realização das orações na mesquita. Em determinado momento, invadiram a casa do califa e assassinaram o idoso califa enquanto ele recitava o Alcorão em estado de jejum. (Certamente pertencemos a Allah e certamente a Ele retornaremos) Esse acontecimento ocorreu no dia 18 de Dhu al-Hijjah do ano 35 da Hégira, na sexta-feira, depois da oração do asr. Houve um intervalo de 25 anos entre o falecimento do Mensageiro e o martírio de Hazrat Uthman. Ele exerceu as responsabilidades do califado durante onze anos e onze meses.

Ele foi sepultado na seção chamada “Hashr-e Kawkab”, no Jannatul Baqi. O sepultamento foi concluído entre as orações do Maghrib e do Isha. Zubair ibn Mut’im, que Allah esteja satisfeito com ele, dirigiu a oração fúnebre. Apenas setenta pessoas participaram da oração fúnebre do líder de um vasto califado que se estendia de Cabul ao Marrocos. Há divergências quanto à idade que ele tinha quando morreu. Contudo, acredita-se que estivesse entre 82 e 90 anos. (Al–Fit‌natul Kubra)

Depois que o califa Uthman foi cercado pelos rebeldes, ele poderia, se quisesse, tê-los eliminado. Os outros Companheiros também estavam preparados para isso. Contudo, Hazrat Uthman não queria derramar o sangue de nenhum muçulmano por sua causa. Ele não queria ser o iniciador do derramamento de sangue entre os muçulmanos. Na realidade, o método que Hazrat Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, adotou num momento tão delicado deixa clara a diferença entre um califa e um rei. Se um rei estivesse em seu lugar, não hesitaria em empregar qualquer estratégia para preservar seu poder, independentemente do dano ou da destruição que isso causasse. Mas ele era um califa rashid. Considerava insignificante entregar a própria vida. Ainda assim, não queria que fosse violada uma honra que deveria ser mais preciosa para um muçulmano do que qualquer outra coisa.’ (Khilafat e Mulukiyyat: Abul A’’la Maududi)

A nação muçulmana jamais poderá esquecer as contribuições de Hazrat Uthman ao Islã. Naquele período crítico do Islã, não há exemplo de outro muçulmano rico que tenha gasto tanto no caminho de Allah quanto ele. Ele comprou, por uma grande quantia, o poço “Bir Ruma”, que pertencia a um judeu, e o constituiu como waqf para os muçulmanos de Medina. Em troca, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, prometeu-lhe o Paraíso. Que cruel ironia do destino: aquele que um dia havia constituído Bir Ruma como waqf e aliviado a população de Medina de sua dificuldade com a água teve a água daquele mesmo poço bloqueada em sua própria casa. Certa vez, durante o cerco, ele colocou a cabeça para fora da janela e lembrou aos habitantes de Medina, dizendo: “Por ordem do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fui eu quem comprou Bir Ruma e o constituiu como waqf para todos. Hoje vocês me privam justamente da água desse poço. Hoje, por falta de água, estou quebrando o jejum com água suja.”

O resumo dos hadiths narrados pelo Mensageiro de Allah (s.a.w.) sobre as virtudes e a posição de Hazrat Uthman é o seguinte: ele era muito querido pelo Mensageiro de Allah (s.a.w.). Ocupava uma posição especial entre as pessoas mais próximas do Mensageiro de Allah (s.a.w.). O Mensageiro de Allah (s.a.w.) anunciou-lhe repetidamente as boas-novas do Paraíso. O Profeta (s.a.w.) disse: «Todo profeta tem um amigo; no Paraíso, meu amigo será Uthman.» (Tirmidhi) Hazrat Abdullah ibn Umar disse: no tempo do Profeta (s.a.w.), os muçulmanos consideravam Abu Bakr, Umar e Uthman superiores a todos os demais. A nenhum outro companheiro era atribuída uma posição especial.

Hazrat Uthman (r.a.) era o katib al-wahy — o escriba da revelação — durante o tempo do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Durante os períodos de Siddiqi e Faruqi, atuou como conselheiro. Todos os anos realizava o Hajj. Contudo, no ano em que foi martirizado, não pôde realizar o Hajj devido ao cerco. Jejuava durante todo o ano. Passava a noite inteira em adoração. Concluía o Alcorão uma vez em cada rak‘ah. À noite, não perturbava o sono de ninguém. À noite, não aceitava os serviços dos criados. Era extremamente modesto. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: «Entre a minha comunidade, Uthman é o mais pudico.» Disse também: «Até os anjos sentem pudor ao ver Uthman.» Era extremamente bondoso para com parentes e amigos. Suas virtudes e sua posição não podem ser expressas em um breve artigo.

’Ali ibn Abi Talib ((r.a.))

Seu nome era Ali; seus laqab eram Asadullah, Haidar e Murtada; suas kunyas eram Abu al-Hasan e Abu Turab. Seu pai era Abu Talib ibn Abd Manaf, e sua mãe, Fatimah. Ambos os pais pertenciam ao ramo hashimita da tribo dos coraixitas. Ali era primo paterno do Mensageiro de Allah (s.a.w.).

Ele nasceu dez anos antes de o Mensageiro de Allah (s.a.w.) receber a profecia. Abu Talib era um homem de recursos modestos. Com o objetivo de ajudar um pouco seu tio, o Mensageiro (s.a.w.) assumiu Ali sob sua responsabilidade. Assim, ele cresceu como membro da família do Profeta. Quando o Mensageiro (s.a.w.) recebeu a profecia, Ali tinha entre nove e onze anos. Certo dia, viu dentro de casa o Nobre Mensageiro (s.a.w.) e a Mãe dos Crentes, Hazrat Khadijah (r.a.), prostrados. Surpreso, perguntou: «O que é isso?» Recebeu a resposta: «Estamos adorando o Deus Único. Também te convidamos para isso.» Ali aceitou sem hesitação o convite de seu mentor e tornou-se muçulmano. Nenhuma prática maligna da descrença, do politeísmo ou da era da ignorância pôde tocá-lo.

A primeira a realizar a oração com o Mensageiro de Allah (s.a.w.) foi Hazrat Khadijatul Kubra (r.a.). Não há divergência quanto a isso. Contudo, há divergência sobre quem, entre Abu Bakr, Ali e Zayd ibn Harithah, os três, aceitou o Islã primeiro. (Tabaqat: 3/21) Segundo as narrações de Ibn Abbas e Salman al-Farisi (r.a.), depois da Mãe dos Crentes, Hazrat Khadijah (r.a.), Ali (r.a.) foi o primeiro a aceitar o Islã. Contudo, todos concordam que, entre as mulheres, Hazrat Khadijah; entre os homens adultos livres, Abu Bakr; entre os escravos, Zayd ibn Harithah; e entre os jovens, Ali (r.a.) foram os primeiros muçulmanos.

No terceiro ano da missão profética, o Mensageiro Nobre, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou a Ali que providenciasse uma refeição para algumas pessoas. Todos os membros do clã de Abd al-Muttalib estiveram presentes. Depois que terminou a refeição, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dirigiu-se a eles, dizendo: “Trouxe algo que é benéfico tanto para a religião quanto para este mundo. Quem dentre vocês será meu companheiro?” Todos permaneceram em silêncio. De repente, Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, exclamou: “Embora eu seja jovem, sofra de uma doença nos olhos e tenha o corpo fraco, eu o ajudarei.”

Chegou o momento da Hégira. A maioria dos muçulmanos havia deixado Meca e partido para Medina. O Mensageiro Nobre, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aguardava a ordem de Allah. Enquanto isso, as forças contrárias ao Islã em Meca decidiram eliminar o Mensageiro Nobre, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para sempre deste mundo. Allah informou Seu Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a respeito disso. Ele recebeu permissão para emigrar para Medina. Para que os incrédulos não desconfiassem, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou a Ali que dormisse em sua cama e partiu durante a noite, na companhia de As-Siddiq al-Akbar, rumo a Medina. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, cobriu-se com o manto do Mensageiro Nobre, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e dormiu tranquilo, cheio de alegria. Ele sabia que, naquela situação, poderia perder a vida. Mas estava convicto de que, se perdesse a vida dessa maneira, não haveria maior fortuna para ele. Ao romper da aurora, os cruéis habitantes de Meca entraram com suas intenções perversas e descobriram que, no lugar do Mensageiro Nobre, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, jazia um de seus devotos, preparado para sacrificar a própria vida. Eles fracassaram, e Allah, o Altíssimo, protegeu Ali, que Allah esteja satisfeito com ele.

A respeito dessa Hégira, Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Antes de o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partir para Medina, ele me ordenou que permanecesse em Meca e devolvesse às pessoas os depósitos que estavam sob sua guarda. Era por isso que ele era chamado de al-Amīn, o Confiável. Permaneci três dias em Meca. Depois, parti para Medina seguindo o caminho do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Por fim, cheguei a Banū ʿAmr ibn ʿAwf, onde o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava hospedado. Fiquei hospedado na casa de Kulthūm ibn al-Hidm.” Segundo outro relato, Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, chegou a Qubā no meio do mês de Rabīʿ al-Awwal. O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ainda estava em Qubā. (Ṭabaqāt: 3/22)

No início da vida em Medina, quando o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estabelecia entre os muçulmanos a mu’ākhāt, ou seja, o vínculo de fraternidade religiosa, colocou uma das mãos sobre o ombro de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, e disse: “Ali, você é meu irmão. Você será meu herdeiro, e eu serei seu.” (Ṭabaqāt: 3/22)Mais tarde, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estabeleceu um vínculo de fraternidade entre Ali e Sahl ibn Hunayf. (Ṭabaqāt: 3/23)

No segundo ano da Hégira, Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, alcançou a honra de tornar-se genro do Mensageiro Nobre, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele se casou com Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, a amada filha do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a Senhora do Paraíso.

A contribuição de Hazrat Ali, que Deus esteja satisfeito com ele, para o Islã é inesquecível. Em todas as batalhas da época do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, foi ele quem demonstrou a maior coragem e bravura. Por isso, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, presenteou-o com uma espada chamada Zulfiqar, juntamente com o título de Haidar.

Ele participou de todas as batalhas, exceto da expedição de Tabuk. Em Badr, era reconhecido por seu lenço branco de lã. Isso foi narrado por Qatada. Em todas as batalhas, incluindo Badr, Ali era o porta-estandarte do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele. (Tabaqat: 3/23)Em Uhud, quando todos os outros mujahidin haviam sido derrotados e estavam fugindo, Ali, que Deus esteja satisfeito com ele, foi um dos poucos soldados que formaram uma linha defensiva ao redor do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele. Naturalmente, o perdão de Deus foi declarado para os que fugiram.

É narrado por Ibn Ishaq. No dia de Khandaq, Amr ibn Abd Wudd saiu vestindo uma armadura. Ele bradou: “Quem enfrentará Amr em combate singular?” Ali levantou-se e disse: “Ó Profeta de Deus, estou pronto.” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Este é Amr; sente-se.” Amr lançou novamente o desafio: “Não há ninguém que possa lutar comigo? Onde está agora aquele vosso paraíso, no qual pensais que entrarão os vossos mortos? Nenhum de vós tem coragem de lutar comigo agora?” Ali, que Deus esteja satisfeito com ele, levantou-se e disse: “Ó Mensageiro de Deus, estou pronto.” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Sente-se.” Depois de desafiar pela terceira vez, Amr começou a recitar um poema composto por ele mesmo. Ali, que Deus esteja satisfeito com ele, levantou-se novamente e disse: “Ó Mensageiro de Deus, estou pronto.” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Mas ele é Amr.” Ali, que Deus esteja satisfeito com ele, respondeu: “Que assim seja.” Dessa vez, Ali recebeu permissão. Recitando um de seus próprios poemas, Ali avançou em direção a Amr. Amr perguntou: “Quem és tu?” Ele respondeu: “Ali.” Amr perguntou: “O filho de Abd Manaf?” Ali disse: “Sou Ali, filho de Abu Talib.” Amr disse: “Sobrinho, não gosto de derramar o teu sangue.” Ali respondeu: “Juro por Deus que eu, porém, não desgosto de derramar o teu sangue.” Ao ouvir isso, Amr enfureceu-se. Desceu, sacou a espada e a desembainhou. A espada parecia uma chama de fogo. Ele avançou e golpeou o escudo de Ali, rasgando-o. Ali, por sua vez, derrubou-o com um único golpe. Ao ver essa cena, o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, exclamou o takbir. Em seguida, Ali voltou para junto do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, recitando um de seus próprios poemas. (Al-–Bidaya wa-n- Nihaya, Ibn Kathir 4/106)

No sétimo ano da Hégira, foi realizada a expedição de Khaybar. Ali havia várias fortalezas muito sólidas dos judeus. Primeiro, Siddiq Akbar e, depois, Faruq Azam receberam a responsabilidade de conquistar as fortalezas. Mas nenhum dos dois conseguiu ter êxito. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, anunciou: “Amanhã entregarei o estandarte às mãos de um herói que é amado por Allah e por Seu Mensageiro. Será pelas mãos dele que as fortalezas cairão.” Na manhã seguinte, todos os Companheiros esperavam alcançar essa glória. De repente, Ali foi chamado. Foi pelas mãos dele que caíram aquelas inexpugnáveis fortalezas de Khaybar.

Quando partiu para a expedição de Tabuk, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deixou Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, como seu substituto em Medina. Ali perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, o senhor está partindo e me deixando junto das mulheres e das crianças?” Em resposta, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Assim como Aarão era para Moisés, tu és meu representante. Contudo, não haverá profeta depois de mim.” (At-Tabaqat: 3/24)

No nono ano da Hégira, realizou-se a primeira peregrinação islâmica sob o controle dos muçulmanos. Nesse ano, Abu Bakr Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, era o comandante da peregrinação. Contudo, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, como enviado especial para anunciar o cancelamento de todos os tratados firmados com os infiéis.

No décimo ano da Hégira, Khalid Saifullah foi enviado ao Iêmen para propagar o Islã. Mesmo após seis meses de esforços, não conseguiu ter êxito e retornou. O Nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, anunciou que enviaria Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Ali compareceu diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “O senhor está me enviando a um povo entre o qual surgirão continuamente novas questões, embora eu não tenha experiência no campo do julgamento.” Em resposta, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Allah te concederá a decisão correta e fortalecerá o teu coração.” Ele colocou a mão sobre o rosto de Ali. Ali disse: “Depois disso, nunca mais hesitei em nenhum julgamento.” Antes de sua partida, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, colocou pessoalmente um turbante na cabeça de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, e fez uma súplica por ele. Ali chegou ao Iêmen e começou a pregar. Em pouco tempo, todos os habitantes do Iêmen se sentiram atraídos pelo Islã, e todos os membros da tribo de Hamadã tornaram-se muçulmanos. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou ansioso para ver Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele suplicou: “Ó Allah, não permitas que eu morra sem ver Ali.” Ali chegou do Iêmen durante a Peregrinação de Despedida.

Após o falecimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, seus parentes próximos assumiram a responsabilidade pelo amortalhamento e pelo sepultamento. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, teve a honra de realizar o banho fúnebre. Naquele momento, os Muhajirun e os Ansar aguardavam do lado de fora da porta.

Ele reconheceu o califado de Abu Bakr, Umar e Uthman, que Allah esteja satisfeito com eles, prestou-lhes o juramento de lealdade e participou de todas as decisões importantes de suas épocas. Mesmo em situações extremamente delicadas, aconselhou Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele. Assim como Abu Bakr é chamado de “Siddiq”, Umar de “Faruq” e Uthman de “Ghani”, ele também é chamado de “Ali Murtaza”. Durante as épocas de Abu Bakr e Umar, desempenhou o papel de ministro e conselheiro. Uthman também sempre o consultava.(Muruj adh- Dhahab: 2/2)

Quando Hazrat Uthman foi cercado pelos rebeldes, Ali (r.a.) desempenhou o papel mais importante na proteção de sua segurança. Durante aquele cerco, ele encarregou seus dois filhos, Hasan e Husayn (r.a.), da segurança da casa de Hazrat Uthman (r.a.) nomeou। (Al-–Fit-‌Natul- Kubra: Dr.. Taha Husayn)

Antes de falecer, Hazrat Umar (r.a.) mencionou os nomes de seis ilustres Companheiros e deixou instruções para que o califa seguinte fosse escolhido entre eles. Ali também era um deles. Antes de sua morte, ele comentou a respeito de Ali (r.a.): “Se o povo fizer de Ali o califa, ele será capaz de conduzi-lo pelo caminho correto. ”(Al-–Fit-‌Natul- Kubra) Durante sua viagem a Baitul Maqdis, Hazrat Umar (r.a.) deixou Ali (r.a.) como seu substituto em Medina.

Após o martírio de Hazrat Uthman (r.a.), os rebeldes pressionaram Hazrat Talha, Zubayr e Ali (r.a.) a assumirem a responsabilidade do califado. Todos recusaram firmemente. Segundo diversos relatos, Hazrat Ali (r.a.) continuou rejeitando repetidamente essa proposta. Por fim, os habitantes de Medina foram até Hazrat Ali (r.a.) e disseram: “Este posto do califado não pode permanecer vazio dessa maneira. Atualmente, não há pessoa mais apta do que você para esse posto. Você é o seu legítimo merecedor.” Após a insistência do povo, ele finalmente concordou em assumir a responsabilidade do califado. Contudo, impôs a condição de que meu juramento de lealdade não poderia ser prestado em segredo. Para isso, era necessário o consentimento de muçulmanos de todas as classes. Realizou-se uma assembleia geral na Mesquita do Profeta. Com exceção de apenas dezesseis ou dezessete Companheiros, todos os Muhajirun e Ansar prestaram juramento de lealdade a Ali (r.a.).

O califado de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, começou em uma situação extremamente complexa. Depois de se tornar califa, sua primeira tarefa foi punir os assassinos de Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele. Mas isso não era fácil. Primeiro, ninguém conseguiu identificar os assassinos. A esposa de Uthman, Na’ila, que Allah esteja satisfeito com ela, havia visto os assassinos, mas não conseguiu reconhecer nenhum deles. Muhammad ibn Abu Bakr havia ido com a intenção de matá-lo, mas recuou diante de uma repreensão de Uthman. Muhammad ibn Abu Bakr também não conseguiu identificar os assassinos. Segundo, Medina estava então sob o controle de milhares de rebeldes. Eles haviam se infiltrado no exército de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Contudo, muitos muçulmanos daquela época não compreenderam sua situação de impotência. Eles exigiram imediatamente de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, o qisas pelo assassinato de Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele. Entre os que apresentaram essa exigência estavam a Mãe dos Crentes, Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, e eminentes Companheiros, como Talha e Zubair, que Allah esteja satisfeito com eles. Sob a liderança de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, eles partiram de Meca rumo a Basra acompanhados de um exército. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, também chegou ali com suas tropas. Na periferia de Basra, os dois exércitos adversários ficaram frente a frente. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, apresentou sua exigência a Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, também expôs seus problemas. Como havia sinceridade e devoção de ambos os lados, chegou-se a um acordo. Talha e Zubair partiram de volta, e Aisha também começou a preparar-se para retornar. Porém, havia agitadores e causadores de desordem nos dois exércitos. Por isso, ficaram receosos da reconciliação. Seguindo um plano cuidadosamente elaborado, durante a escuridão da noite eles atacaram o acampamento de uma parte, fazendo parecer que fora atacado pela outra. Como resultado, ambos os lados passaram a acreditar que o adversário os havia atacado sob o pretexto de uma reconciliação. A guerra total começou. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, venceu. Ele conseguiu explicar a situação a Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, retornou de Basra para Medina.

Durante a batalha, Aisha estava montada em um camelo. Por isso, essa batalha ficou conhecida na história como a “Batalha do Camelo”. Ela ocorreu no mês de Jumada al-Thani do ano 36 da Hégira. Ao todo, treze mil muçulmanos foram martirizados dos dois lados, entre eles os membros dos Ashara Mubashshara, Talha e Zubair, que Allah esteja satisfeito com eles. Há, contudo, divergência a esse respeito. Após permanecer quinze dias em Basra, Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, partiu para Kufa. A capital foi transferida de Medina para Kufa.

Essa Batalha do Camelo foi o primeiro conflito autodestrutivo entre muçulmanos. Muitos Companheiros não se juntaram a nenhum dos lados nessa batalha. Eles também ficaram profundamente entristecidos por esse conflito autodestrutivo. Quando o exército de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, partiu de Medina, os habitantes de Medina irromperam em lágrimas.

Foi possível chegar a um acordo com Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela. Mas não foi possível chegar a nenhum entendimento com Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele, governador da Síria. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, destituiu-o do cargo de governador da Síria. Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele, recusou-se a ceder. Ele se negou a obedecer à ordem de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. O ponto central de sua posição era: “Enquanto o qisas pelo assassinato de Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, não for aplicado, ele não reconhecerá Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, como califa.”

No mês de Safar do ano 37 da Hégira, ocorreu um confronto entre os exércitos de Ali e de Muawiya, que Allah esteja satisfeito com eles, no lugar chamado Siffin. Esse confronto foi ainda mais terrível que a Batalha do Camelo. Ao todo, 90.000 (noventa mil) muçulmanos foram martirizados dos dois lados. Entre eles estavam os ilustres Companheiros Ammar ibn Yasir, Khuzaima ibn Thabit e Abu Ammara al-Mazini. Todos foram martirizados pelas tropas de Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele, enquanto lutavam ao lado de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. É importante mencionar que, a respeito de Ammar ibn Yasir, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Que pena! Um grupo rebelde matará Ammar.” ((Sahih al- Bukhari)) Vinte e sete ilustres Companheiros narraram este hadith. Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele, também foi um dos narradores desse hadith. Contudo, Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele, apresentou uma interpretação diferente do hadith. Apesar de tudo isso, a questão não foi resolvida.

No último confronto de Siffin, chamado “Laylat al-Har”, a vitória de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, estava prestes a acontecer. Ao perceber os sinais da derrota, Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele, convocou à resolução por meio do Sagrado Alcorão. Seus soldados ergueram cópias do Alcorão nas pontas das lanças e continuaram dizendo: “Este Alcorão decidirá esta disputa entre nós.” Foi declarado um cessar-fogo. Abu Musa al-Ashari, que Allah esteja satisfeito com ele, foi nomeado árbitro pelo lado de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, e Amr ibn al-As, que Allah esteja satisfeito com ele, pelo lado de Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele. Decidiu-se que ambos os lados adversários aceitariam a decisão conjunta dos dois. Realizou-se uma grande assembleia de muçulmanos no lugar chamado Dumat al-Jandal. Contudo, após analisar todos os dados históricos, chega-se à conclusão de que o conselho de arbitragem fracassou em estabelecer a paz porque, no último momento, Amr ibn al-As, que Allah esteja satisfeito com ele, afastou-se do acordo ao qual havia chegado com Abu Musa al-Ashari, que Allah esteja satisfeito com ele. Os muçulmanos retornaram decepcionados de Dumat al-Jandal. Depois disso, Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, e Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele, fizeram um acordo com o objetivo de pôr fim ao derramamento de sangue inútil. A partir daquele dia, o califado muçulmano ficou essencialmente dividido em duas partes.

Nessa época, surgiu um novo grupo chamado “Kharijitas”. No início, eles apoiavam Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Mais tarde, passaram a propagar a crença de que nomear qualquer pessoa como “hakim” ou árbitro em questões da religião era um ato de kufr. Ao aceitar Abu Musa al-Ashari, que Allah esteja satisfeito com ele, como árbitro, Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, havia agido contra o Alcorão. Portanto, ele havia perdido a legitimidade de exigir sua obediência. Eles se separaram de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Eram extremamente radicais. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, travou uma batalha contra eles, na qual muitas pessoas foram mortas ou feridas.

Três membros dessa seita dos Kharijitas — Abd al-Rahman ibn Muljam, al-Barak ibn Abdillah e Amir ibn Bakr al-Tamimi — reuniram-se em uma reunião secreta após a Batalha de Nahrawan. Depois de uma longa discussão, chegaram à conclusão de que os principais responsáveis pelos conflitos internos da ummah muçulmana eram Ali, Muawiya e Amr ibn al-As, que Allah esteja satisfeito com eles. Portanto, essas três pessoas deveriam ser eliminadas do mundo. De acordo com a decisão, Muljam assumiu a responsabilidade por Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, enquanto al-Barak e Amr assumiram, respectivamente, a responsabilidade por Muawiya e por Amr ibn al-As, que Allah esteja satisfeito com eles. Eles juraram: “Ou mataremos, ou morreremos.” O horário da oração do fajr do dia 17 de Ramadan do ano 40 da Hégira foi escolhido para a execução desse plano. Depois disso, Ibn Muljam foi para Kufa, al-Barak para Damasco e Amr para o Egito.

Na noite de sexta-feira, 16 de Ramadan do ano 40 da Hégira, os assassinos ficaram à espreita em seus respectivos esconderijos. Na hora da oração da alvorada, quando Hazrat Ali (r.a.) se dirigia à mesquita, como de costume, convocando as pessoas para a oração com as palavras “As-Salat”, o perverso Ibn Muljam lançou-se sobre ele com uma espada afiada e o feriu. Mesmo ferido, ordenou que prendessem o assassino. Chamou os filhos e deixou-lhes suas últimas recomendações. Após governar o Califado por quatro anos e nove meses, alcançou o martírio em Kufa, no sábado, 17 de Ramadan do ano 40 da Hégira.

No mesmo dia e à mesma hora, quando Hazrat Muawiya se dirigia à mesquita, também foi alvo de um ataque. Porém, o ataque fracassou, e ele sofreu apenas ferimentos leves. Por outro lado, ‘Amr ibn al-‘As não foi à mesquita naquele dia por estar doente. Em seu lugar, Kharija ibn Hudhafa, comandante da força policial, dirigia-se à mesquita para conduzir a oração. Ele foi assassinado por ser confundido com ‘Amr ibn al-‘As. Assim, Muawiya e ‘Amr ibn al-‘As (r.a.) escaparam com vida. (Tarikhul Ummah al–Islamiyya: Khidri Bek)

Hazrat Hasan ibn Ali (r.a.) conduziu a oração fúnebre de Hazrat Ali (r.a.). Ele foi sepultado ao lado da Mesquita Congregacional de Kufa. Contudo, segundo outro relato, foi enterrado em Najaf al-Ashraf. Ao morrer, tinha 63 anos.

Quando o assassino Ibn Muljam foi trazido, Ali (r.a.) ordenou: “Ele é um prisioneiro. Providenciem adequadamente sua hospedagem e alimentação. Se eu sobreviver, poderei matá-lo ou perdoá-lo. Se eu morrer, golpeiem-no exatamente na mesma medida em que ele me golpeou. Não cometais excessos. Allah não ama os que cometem excessos.” (Tabaqat: 3/35)

Hazrat Ali (r.a.) governou o Califado por cinco anos. Com exceção da Síria e do Egito, todas as regiões, incluindo Meca e Medina, estavam sob seu domínio. Como seu período foi consumido pela guerra civil, nenhum novo território foi conquistado.

Hazrat Ali (r.a.) não nomeou ninguém para sucedê-lo. Quando lhe perguntaram sobre eleger seu filho, Hazrat Hasan (r.a.), como califa, respondeu: “Não vos dou nem ordem nem proibição quanto a isso.” Em outra ocasião, alguém perguntou: “Por que não nomeais vosso sucessor?” Ele respondeu: “Quero deixar a Ummah muçulmana tal como o Mensageiro de Allah (s.a.w.) a deixou.”

Após o falecimento de Hazrat Ali (r.a.), o povo de Kufa, a capital e Dar al-Khilafa, elegeu Hazrat Hasan (r.a.) como califa. Ele não desejava a discórdia interna nem o derramamento de sangue na Ummah muçulmana. Por isso, quando Hazrat Muawiya (r.a.) atacou o Iraque, considerou mais adequado renunciar ao poder do Califado em favor de Muawiya (r.a.) em vez de guerrear. Assim, o sacrifício sem precedentes de Hazrat Hasan livrou a nação muçulmana da guerra civil. Na história islâmica, o ano de sua renúncia ao Califado é chamado de “Amul Jama‘ah”, o ano da unidade e da solidariedade. Depois de renunciar, Hazrat Hasan deixou Kufa e foi para Medina; nove anos depois, faleceu no ano 50 da Hégira. Ele teve a oportunidade de governar o Califado por apenas seis meses.

Hazrat Umar (r.a.) disse sobre Ali (r.a.): “Entre nós, Ali é o melhor juiz.” O próprio Mensageiro (s.a.w.) também disse: “Aqḍāhum Ali — Ali é o maior juiz entre eles.” Ao observar suas decisões corretas, Hazrat Umar (r.a.) disse várias vezes: “Lau la Ali lahalaka Umar — Se não fosse Ali, Umar teria perecido.”

Ali (r.a.) considerava-se igual a um muçulmano comum e estava sempre pronto a prestar contas por qualquer erro. Certa vez, um judeu roubou sua armadura. Ali reconheceu-a quando viu o judeu tentando vendê-la no mercado. Se quisesse, poderia tê-la tomado à força, mas não o fez. De acordo com a lei, abriu um processo contra o judeu no tribunal do cádi. O cádi também era um juiz rigorosamente justo. Ele pediu a Ali (r.a.) provas em apoio à sua reivindicação, mas Ali (r.a.) não conseguiu apresentá-las. O cádi decidiu o caso a favor do judeu. O efeito dessa decisão sobre o judeu foi tão grande que ele se tornou muçulmano. Ele comentou: “Isto é uma justiça como a dos profetas. Ali (r.a.), sendo o Comandante dos Crentes, trouxe-me perante o cádi, e o cádi por ele nomeado decidiu contra ele.” Até seu casamento com Fátima (r.a.), ele permaneceu junto à família do nobre Mensageiro (s.a.w.). Depois do casamento, começou a morar numa casa separada. Surgiu a necessidade de prover o sustento. Mas onde conseguir capital e instrumentos? Ele ganhava a vida trabalhando com as próprias mãos e recebendo sua parte dos espólios. Quando, na época de Umar (r.a.), foi instituído o pagamento de estipêndios, seu estipêndio foi fixado em cinco mil dirhams por ano. Hasan disse que, no momento de sua morte, ele deixou apenas setecentos dirhams economizados para comprar um escravo.(At-Tabaqat: 3/39)

A escassez de meios de subsistência jamais se afastou do destino de Ali (r.a.). Certa vez, recordando o passado, ele disse: “Na época do Mensageiro de Allah (s.a.w.), por causa das dores da fome, eu costumava amarrar uma pedra ao estômago.”(Hayatus Sahabah: 3/312)Mesmo depois de se tornar califa, ele teve de lutar contra a fome e a pobreza. Contudo, seu coração era extremamente generoso. Ele nunca mandava embora nenhum necessitado. Por isso, muitas vezes teve de permanecer sem comida junto com toda a sua família. Era extremamente humilde. Fazia com as próprias mãos todo o trabalho doméstico. Usava sempre roupas grosseiras, que eram rasgadas e remendadas. Ele era a porta do conhecimento. Pessoas vinham de lugares distantes para aprender com ele e o encontravam cuidando de camelos ou revolvendo a terra para preparar um campo. Era tão simples e despretensioso que, de tempos em tempos, simplesmente se deitava no chão. Certa vez, o Mensageiro (s.a.w.) o viu nessa condição e o chamou: “Ó Abu Turab” — ó homem simples, habitante do solo. Por isso recebeu o epíteto “Abu Turab”. Mesmo depois de se tornar califa, essa vida simples continuou. Assim como Umar (r.a.), ele costumava andar sempre com uma durra, ou vara, na mão, aconselhando as pessoas.(Al-–Fitnatul Kubra)

Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) era membro da família do Profeta e recebeu educação sob a supervisão direta do Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Ana madinatul ‘ilm wa ‘Ali babuha” — Eu sou a cidade do conhecimento, e Ali é o portal dessa cidade. (Tirmidhi) Ele era um hafiz do Alcorão e um dos maiores mufassirun. Também havia compilado alguns hadiths. Contudo, era extremamente cuidadoso quanto à aceitação de hadiths. Quando alguém lhe narrava um hadith, exigia que o narrador prestasse juramento. (Tazkiratul Huff‌az: 1/10) Ele narrou muitos hadiths do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), e muitos sahabah e tabi‘in famosos narraram hadiths dele. Durante a época dos califas anteriores, três muhajirun e três ansar emitiam fatwas. A saber: ‘Umar, ‘Uthman, ‘Ali, Ubayy ibn Ka‘b, Mu‘adh ibn Jabal e Zayd ibn Thabit. Segundo outra narração de Masruq, entre os companheiros do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), emitiam fatwas: ‘Ali, Ibn Mas‘ud, Zayd, Ubayy ibn Ka‘b e Abu Musa al-Ash‘ari. (Tabaqat: 4/167, 175)

Ali era um orador eloquente e um bom poeta. (Kitabul Umda: Ibn Rashiq: 1/21) Possuímos um diwan de sua poesia. Nele, há um total de 1.400 versos em muitos poemas. Os pesquisadores acreditam que muitos poemas atribuídos a ele foram interpolados. Contudo, os estudiosos não têm dúvida de que ele foi uma figura proeminente no mundo da poesia árabe de sua época. Existe uma compilação de seus discursos chamada ‘Nahj al-Balagha’, que continua a testemunhar sua eloquência incomparável. (Tarikh al-Adab al–Arabi: Dr. Umar Farrukh, 1/309)

Seu primeiro casamento foi com Hazrat Fátima (r.a.), a filha do Profeta e a Senhora do Paraíso. Enquanto Fátima esteve viva, ele não se casou novamente. Após a morte de Fátima, casou-se várias vezes. Segundo o relato de Tabari, teve quatorze filhos e dezessete filhas. Do ventre de Hazrat Fátima nasceram três filhos — Hasan, Husayn e Muhsin — e duas filhas — Zaynab e Umm Kulthum. Muhsin morreu ainda na infância. Segundo o relato de Waqidi, sua descendência prosseguiu por meio de apenas cinco filhos: Hasan, Husayn, Muhammad (Ibn al-Hanafiyya), Abbas e Umar.

O Imam Ahmad disse: Tudo o que foi narrado do Mensageiro de Allah sobre a dignidade e as virtudes de Ali não foi narrado sobre nenhum outro Companheiro. (Al–Isaba: 2/508) Não é possível apresentar, neste breve artigo, nem sequer uma pequena parte de todas as virtudes dele que foram registradas na história. O Mensageiro (s.a.w.) fez inúmeras súplicas por ele e por seus filhos. O Mensageiro (s.a.w.) disse: Ninguém, exceto os crentes, te amará, e ninguém, exceto os hipócritas, te odiará.

Certa vez, Hazrat Durar ibn Damra al-Kinani, companheiro de Hazrat Ali, foi até Hazrat Muawiya. Muawiya pediu-lhe que descrevesse as virtudes de Ali (r.a.). A princípio, ele se recusou. Mas, diante da insistência de Muawiya, fez um longo relato. Nele, as virtudes de Ali (r.a.) sobressaíram de maneira magnífica. Os historiadores dizem que, ao ouvir esse relato, todos os presentes na reunião, incluindo Muawiya, irromperam em lágrimas. Depois, Muawiya (r.a.) comentou: “Juro por Allah, Abu al-Hasan (o pai de Hasan) era exatamente assim.”(Al–Istiab: 3/44)

Zubair ibn al- Awwam ((r.a.))

Seu nome era Zubair, sua kunya era Abu Abdillah e seu título era “Hawariyyu Rasulillah”. Seu pai chamava-se Awam e sua mãe, Safiyya bint Abd al-Muttalib. A honorável Safiyya era tia paterna do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Portanto, Zubair era primo materno do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). A honorável Khadija al-Kubra, Mãe dos Crentes, era sua tia paterna. Por outro lado, por ter se casado com Asma, filha do honorável Abu Bakr as-Siddiq, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tornou-se seu cunhado. A honorável Asma era irmã da honorável Aisha, Mãe dos Crentes. Assim, ele tinha vários vínculos de parentesco com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).

O honorável Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) nasceu vinte e oito anos antes da Hégira. Pouco se sabe sobre sua vida na infância. Contudo, é certo que, desde o início, sua mãe o criou de tal maneira que, ao crescer, ele se tornasse um homem audacioso, determinado e autoconfiante. Por isso, ela frequentemente o espancava e o acostumava a uma disciplina rigorosa. Certo dia, seu tio Nawfal ibn Khuwailid, furioso com sua mãe, a honorável Safiyya, disse: “Desse jeito, batendo nele, você acabará matando o menino.” Além disso, chamou os membros dos Banu Hashim e disse: “Por que vocês não aconselham Safiyya?” Em resposta, Safiyya disse: “Mentem aqueles que dizem que não suporto vê-lo. Eu o espanco para que se torne inteligente e, mais tarde, seja capaz de derrotar os soldados inimigos e obter os espólios de guerra

É claro que essa educação teve efeito sobre ele. Desde muito jovem, lutava com grandes lutadores e homens fortes. Certa vez, em Meca, envolveu-se numa luta corporal com um jovem robusto. Bateu-lhe de tal maneira que quebrou o braço do homem. As pessoas o levaram até a honorável Safiyya e apresentaram uma queixa. Em vez de se arrepender do ato do filho ou pedir desculpas, ela primeiro lhes perguntou: “O que acharam de Zubair: corajoso ou covarde?”

Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou o Islã quando tinha apenas dezesseis anos. Entre os que aceitaram o Islã no primeiro período, ele possuía uma posição singular e especialmente honrada.

Embora fosse jovem, não ficava atrás de ninguém em firmeza e disposição para arriscar a própria vida. Certo dia, depois de aceitar o Islã, alguém espalhou o rumor de que os politeístas haviam capturado ou matado o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ao ouvir isso, ficou tão tomado pela emoção e pela agitação que imediatamente desembainhou a espada de um só golpe, abriu caminho pela multidão e apresentou-se diante do Mensageiro de Allah. Ao vê-lo, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou: “O que aconteceu, Zubair?” Ele respondeu: “Ouvi dizer que o senhor havia sido capturado ou morto.” O Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ficou muito feliz e fez uma súplica por ele. Segundo os autores das biografias do Profeta, esta foi a primeira espada desembainhada por um jovem com o propósito de oferecer a própria vida.

Nos primeiros tempos, como os demais muçulmanos de Meca, ele também foi vítima de tortura e perseguição. Seu tio não poupou esforços para fazê-lo abandonar o Islã. Mas será possível apagar a marca do monoteísmo depois que ela se grava uma vez no coração? Enfurecido, o tio passou a tratá-lo com ainda mais dureza. Deitava-o de costas sobre pedras escaldantes e batia nele até que sua vida parecesse estar por um fio. Ainda assim, ele dizia: “Façam o que quiserem, não posso voltar a ser um incrédulo.” Por fim, sem outra opção, deixou sua terra natal, Meca, e emigrou para a Abissínia. Depois de permanecer algum tempo na Abissínia, retornou a Meca. Enquanto isso, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) emigrou de Meca para Medina. Ele também foi para Medina.

Em Meca, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estabelecera uma relação de fraternidade islâmica entre Talha e Zubair. Porém, depois de chegar a Medina, foi estabelecida uma nova relação de fraternidade entre ele e o honorável Salama ibn Salama al-Ansari. Salama era uma personalidade eminente de Medina e um dos que haviam prestado o juramento de fidelidade em Aqaba.

Na participação em batalhas, ele era incomparável. Na batalha de Badr, demonstrou extrema coragem e habilidade. Rompeu e destruiu completamente a formação defensiva dos politeístas. Um soldado politeísta subiu a uma colina e, ao desafiar alguém para um combate individual, Zubair agarrou-o de tal maneira que ambos começaram a rolar encosta abaixo. Ao ver isso, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “O primeiro deles a cair no chão será morto.” E foi exatamente assim. O politeísta caiu primeiro ao solo, e Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) matou-o com um golpe de espada. Do mesmo modo, ele enfrentou Ubaida ibn Said. Este estava coberto de armadura da cabeça aos pés, de modo que apenas seus dois olhos eram visíveis. Zubair mirou cuidadosamente em seu olho e disparou uma flecha. O tiro foi certeiro. A ponta da flecha atravessou-o de um lado ao outro. Com grande dificuldade, sentado sobre o cadáver, conseguiu retirar a ponta. Contudo, ela havia ficado ligeiramente torta. Como lembrança, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) guardou pessoalmente aquela flecha, que permaneceu conservada junto a vários califas até o terceiro califa, o honorável Uthman, após o falecimento do Mensageiro. Depois do martírio do honorável Uthman, o honorável Abdullah ibn Zubair recebeu a flecha, que permaneceu com ele até seu martírio.

Em Badr, ele lutou com tamanha ferocidade que sua espada ficou cega, e todo o seu corpo ficou coberto de feridas causadas pelos golpes. Uma das feridas daquele dia era tão profunda que se tornou, para sempre, semelhante a um buraco. Seu filho, Hazrat Urwa, disse: “Nós costumávamos introduzir os dedos nesse buraco e brincar.” Naquela batalha, ele usava um turbante amarelo. Ao vê-lo, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, disse: “Hoje, os anjos também vieram com esse traje.”

Quando, no campo de Uhud, a luta entre a verdade e a falsidade atingiu seu ponto culminante, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, desembainhou sua espada e disse: “Quem hoje cumprirá o direito que lhe é devido?” Todos os Companheiros estenderam as mãos com grande entusiasmo. Zubair também estendeu a mão três vezes; mas, no fim, a honra de receber essa distinção coube a Hazrat Abu Dujana Ansari. Quando, na batalha de Uhud, a situação da batalha mudou devido à negligência dos soldados arqueiros e a vitória certa dos muçulmanos se transformou em derrota, Hazrat Zubair foi um dos quatorze Companheiros que, arriscando a própria vida, formaram uma linha de resistência em torno do nobre Mensageiro.

Na batalha da Trincheira, Zubair recebeu a responsabilidade de defender o lado onde estavam posicionadas as mulheres muçulmanas. Durante essa batalha, a tribo judaica Banu Quraiza, de Medina, rompeu o pacto de aliança firmado com os muçulmanos. O Mensageiro, que a paz esteja com ele, quis enviar alguém até eles para obter informações sobre sua situação. Três vezes perguntou: “Quem entre vocês pode ir buscar notícias deles?” A cada vez, Hazrat Zubair respondeu: “Eu.” Satisfeito com seu entusiasmo, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, disse: “Todo profeta tem um hawari. Meu hawari é Zubair.” “Hawari” significa companheiro, aliado e seguidor.

Depois da batalha da Trincheira, ele também participou da batalha contra Banu Quraiza e do Juramento de Ridwan. Na batalha de Khaybar, demonstrou coragem e bravura incomparáveis. Quando Murahhib, o líder judeu de Khaybar, foi morto, seu irmão Yasir, dono de um corpo enorme e de grande força, entrou no campo, bradou e desafiou alguém para um combate individual. Hazrat Zubair avançou de um salto. Então sua mãe, Hazrat Safiyya, disse: “Ó Mensageiro de Deus, certamente hoje este pedaço do meu coração será martirizado.” O Mensageiro, que a paz esteja com ele, respondeu: “Não. Zubair é quem o matará.” E, de fato, pouco depois Zubair o matou.

Após a conquista de Khaybar, estavam em andamento os preparativos para a conquista de Meca. Devido a uma fraqueza humana, o famoso Companheiro Hatib ibn Abi Balta’a escreveu uma carta aos coraixitas de Meca, informando-os de todas as notícias. Ele enviou secretamente uma mulher a Meca levando a carta. Enquanto isso, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, foi informado de tudo por meio da revelação. Entre os integrantes do grupo enviado por ele para prender a mulher com a carta estava Hazrat Zubair. A mulher foi presa com a carta e levada para Medina. Envergonhado, Hatib ibn Abi Balta’a arrependeu-se, e o Mensageiro, que a paz esteja com ele, perdoou-o.

No dia da conquista de Meca, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, dividiu o exército muçulmano em vários grupos. No último e menor grupo estava o próprio Mensageiro, que a paz esteja com ele. Zubair era o porta-estandarte desse grupo. O Mensageiro, que a paz esteja com ele, entrou em Meca. Quando a paz e a ordem retornaram a toda parte, Hazrat Miqdad e Hazrat Zubair foram até o nobre Mensageiro montados em seus respectivos cavalos. O Mensageiro, que a paz esteja com ele, levantou-se e, com as próprias mãos, retirou a poeira do rosto de ambos.

Durante a batalha de Hunayn, quando Hazrat Zubair se aproximou de uma base secreta dos incrédulos, eles o atacaram de surpresa. Com extrema coragem, ele limpou a base em pouco tempo. Também participou das batalhas de Ta’if e Tabuk. No décimo ano da Hégira, acompanhou o Mensageiro de Deus, que a paz esteja com ele, na peregrinação de despedida.

Durante o califado do segundo califa, Hazrat Umar, que Deus esteja satisfeito com ele, ocorreu uma terrível batalha entre o exército muçulmano e o enorme exército romano, na região de Yarmuk, na Síria. Foi a batalha que determinaria o destino da Síria. Hazrat Zubair também participou dela. Em um momento decisivo da batalha, um grupo de soldados muçulmanos decidiu que Hazrat Zubair lançaria um ataque impetuoso contra o centro do exército romano, enquanto os outros o acompanhariam e o apoiariam pelos lados. Conforme o plano, Hazrat Zubair atacou com grande rapidez e intensidade, atravessou as fileiras romanas e chegou ao outro lado, mas os demais não conseguiram segui-lo. Ao retornar sozinho, atravessando novamente o exército romano, foi violentamente atacado e sofreu um grave ferimento no pescoço. Hazrat Urwa disse: “Depois de Badr, este foi o segundo ferimento no qual, quando éramos crianças, introduzíamos os dedos e brincávamos.” Como resultado de seu ataque ousado, o exército romano foi dispersado.

Hazrat Amr ibn al-As lançou um ataque no Egito e mantinha a fortaleza de Fustat sob cerco. O Amir al-Mu’minin, Hazrat Umar, enviou-lhe dez mil soldados e quatro mil oficiais para ajudá-lo. E escreveu numa carta que cada um desses oficiais equivalia a mil cavaleiros. Hazrat Zubair era um dos quatro mil oficiais. Os soldados muçulmanos mantinham a fortaleza sob cerco havia sete meses. Não se vislumbrava qualquer possibilidade de vitória ou derrota. Irritado, Hazrat Zubair disse certo dia: “Hoje sacrificarei minha vida pelos muçulmanos.” Dito isso, com a espada desembainhada na mão, colocou uma escada e subiu ao topo da muralha da fortaleza. Alguns outros companheiros também o acompanharam. De repente, do alto da muralha, começaram a bradar: “Allahu Akbar!”. Lá embaixo, todos os soldados muçulmanos também fizeram o céu e o ar ressoarem simultaneamente com os brados de “Allahu Akbar”. Os soldados cristãos pensaram que os muçulmanos haviam entrado na fortaleza. Ficaram apavorados e desnorteados. Em dado momento, Hazrat Zubair entrou com extrema rapidez no interior da fortaleza, abriu o portão e, imediatamente, o exército muçulmano entrou. Sem outra alternativa, o governante do Egito, Maqauqas, propôs um tratado, que foi aceito. Foi concedida a todos a aman, isto é, segurança.

No ano 23 da Hégira, o segundo califa, Hazrat Umar, foi gravemente ferido pelas facadas de um adorador do fogo e morreu como mártir. Antes de morrer, formou um conselho composto por seis ilustres Companheiros e lhes confiou a responsabilidade de escolher o califa seguinte. Ele disse: “Até o último dia de sua vida, o Mensageiro de Allah estava satisfeito com eles.” Hazrat Zubair era um dos membros desse conselho.

Durante o califado do terceiro califa, Hazrat Uthman, Hazrat Zubair levava uma vida tranquila. Não assumiu nenhum cargo estatal. Na verdade, também já estava envelhecendo. Quando Hazrat Uthman foi cercado pelos rebeldes no ano 35 da Hégira, Hazrat Zubair encarregou seu próprio filho, Hazrat Abdullah, de garantir sua segurança. Quando Hazrat Uthman foi martirizado, ele realizou secretamente sua oração fúnebre e o sepultou na escuridão da noite.

Durante o governo de Hazrat Ali, ele e Hazrat Talha foram a Meca e se encontraram com Hazrat Aisha. Ali, discutiram profundamente a situação então vivida pela ummah muçulmana e decidiram ir para Basra, em vez de Medina. Um grande número de pessoas juntou-se a eles. Enquanto isso, Hazrat Ali avançou com um exército para enfrentá-los, e, no dia 10 de Jumada al-Akhira do ano 36 da Hégira, os dois exércitos muçulmanos se defrontaram num lugar chamado Dhi Qar, não muito distante de Basra. Na história, esse episódio é conhecido como a Batalha do Camelo.

A análise deste capítulo doloroso da história islâmica não é o tema principal deste artigo. Contudo, aqueles que um dia eram irmãos encontravam-se agora consumidos pela sede do sangue uns dos outros. Seja qual for a questão, podemos afirmar com certeza que isso não ocorreu por causa de uma disputa pessoal ou de ressentimento entre eles. Eles agiram assim movidos pelo entusiasmo, pelo fervor e pela inspiração da verdade e da honestidade. Por isso vemos que, naquele momento, pessoas da mesma tribo estavam divididas em dois lados. Além disso, o objetivo principal dos líderes de ambos os lados era chegar a um entendimento. E foi por essa razão que houve conversas entre as duas partes por meio da troca de emissários. Pela mesma razão, vemos Hazrat Ali aproximar-se sozinho, a cavalo, do centro do campo de batalha e chamar Hazrat Zubair, dizendo: “Abu Abdullah! Lembra-se daquele dia em que nós dois caminhávamos de mãos dadas diante do Mensageiro de Allah? O Mensageiro de Allah lhe perguntou: ‘Você ama Ali?’ Você respondeu: ‘Sim, ó Mensageiro de Allah!’ Lembre-se de que então o Mensageiro de Allah disse: ‘Um dia você lutará contra ele injustamente.’” Hazrat Zubair respondeu: “Sim, agora me lembro.”

Uma única frase. Depois de dizê-la, Hazrat Ali voltou à sua tenda. Enquanto isso, ocorreu uma revolução no coração de Zubair. Todas as suas resoluções e toda a sua firmeza se despedaçaram. Ele foi até a Mãe dos Crentes, Hazrat Aisha, e disse: “Eu estava completamente errado. Ali me fez lembrar uma palavra do Mensageiro de Allah.” Aisha perguntou: “Então, o que pretende fazer agora?” Ele respondeu: “Estou me afastando desta disputa.” Seu filho Abdullah disse: “Pai, depois de nos lançar no buraco, agora está fugindo por medo de Ali?” Ele respondeu: “Jurei que não lutaria mais contra Ali.” Abdullah disse: “É possível oferecer a expiação pelo juramento.” Então chamou seu escravo Mak-hul e o libertou. Mas Zubair, o hawari do Mensageiro de Allah, disse: “Meu filho, Ali me fez lembrar algo que apagou todo o meu ânimo e entusiasmo. Tenho certeza de que não estamos com a verdade. Venha, siga-me também.” Hazrat Abdullah recusou-se. Hazrat Zubair partiu sozinho em direção a Basra.

Ao ver Hazrat Zubair partir, Ahnaf ibn Qais disse: “Que alguém vá descobrir por que ele está indo.” Amr ibn Jarmuz disse: “Eu vou.” Dito isso, armou-se, lançou seu cavalo a galope e alcançou Hazrat Zubair. Naquele momento, ele já havia deixado Basra e chegado a certa distância. Aproximando-se, Ibn Jarmuz disse:

— Abu Abdullah, em que situação você deixou o povo?

– Todos estão cortando a garganta uns dos outros.

– Para onde está indo agora?

– Percebi o meu erro. Por isso, quero ir para algum outro lugar para me manter afastado desta disputa.

Ibn Jarmuz disse: “Venha, também preciso ir um pouco nessa direção.” Os dois seguiram juntos. Quando chegou a hora da oração do zuhr, Hazrat Zubair parou. Ibn Jarmuz disse: “Também farei a oração com você.” Os dois se puseram em oração. Assim que Hazrat Zubair se prostrou diante de seu Senhor, o traiçoeiro Ibn Jarmuz imediatamente separou, com um golpe de espada, a cabeça do corpo do Hawari do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Inna lillahi wa inna ilaihi raji’un.

Ibn Jarmuz compareceu diante de Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, levando a espada, a armadura e outros pertences de Hazrat Zubair, e descreveu sua façanha com extremo orgulho. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, lançou um olhar pesaroso à espada e disse: “Muitas vezes ele removeu as nuvens de tribulação da frente do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ó assassino de Ibn Safiyya, fique sabendo: o Inferno está à sua espera.” Assim, Hazrat Zubair, que Allah esteja satisfeito com ele, alcançou o martírio no ano 36 da Hégira e foi sepultado no vale de As-Siba. Viveu 64 anos.

Hazrat Zubair possuía um caráter extremamente nobre. A piedade, o amor à verdade, a generosidade, a magnanimidade e a destemor eram características de seu caráter. Seu coração era terno como o de uma criança. Diante da menor coisa, ele se derretia como cera. Quando este versículo foi revelado:

“Tu certamente morrerás, e eles também morrerão. Depois, no Dia da Ressurreição, disputareis uns com os outros diante do vosso Senhor.” (Zumar/31)Ele perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! No Dia da Ressurreição, essa nossa disputa se repetirá?” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Sim. Cada direito será restituído ao seu legítimo dono, levando-se em conta até o peso de um átomo.” Ao ouvir isso, seu coração estremeceu. Ele exclamou: “Allahu Akbar. Que julgamento severo será!”

Certa vez, ao visitar Ummu Ata, a avó de seu escravo Ibrahim, ele viu que ainda havia carne do sacrifício com eles mesmo depois dos Dias de Tashriq. Ele disse: “Ummu Ata! O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, proibiu os muçulmanos de comer carne do sacrifício por mais de três dias.” Ummu Ata respondeu: “O que posso fazer? As pessoas enviam tantos presentes que não conseguimos terminá-los.” (Musnad de Imam Ahmad 1/166)

Embora Hazrat Zubair fosse o discípulo íntimo e companheiro constante do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, narrava pouquíssimos hadiths por temor de Allah e por cautela. Certo dia, seu filho Abdullah perguntou: “Pai, por que o senhor não narra muitos hadiths como os outros?” Ele respondeu: “Meu filho, em nada fui inferior aos outros na companhia e amizade do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Desde o dia em que aceitei o Islã, nunca me afastei da companhia do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele; porém, esta sua advertência me deixou profundamente cauteloso: ‘Aquele que deliberadamente atribuir uma mentira a meu respeito, que estabeleça para si sua morada no Inferno.”

Ele era tão cuidadoso com a igualdade islâmica que não considerava lícito conceder sequer uma pequena preferência a um dos dois muçulmanos mortos. Na batalha de Uhud, seu tio materno, Hazrat Hamza, que Allah esteja satisfeito com ele, alcançou o martírio. Sua mãe, Hazrat Safiyya, que Allah esteja satisfeito com ela, trouxe dois panos para o sudário do irmão. Porém, junto ao tio havia também o corpo de um homem dos Ansar. Ele não podia aceitar que houvesse dois panos para um cadáver e o outro permanecesse sem sudário. Mediu os dois panos para dividi-los entre ambos. Por acaso, um dos panos era maior e o outro menor. Para que não houvesse favoritismo, resolveu a questão por sorteio.

Hazrat Zubair considerava insignificante qualquer tipo de perigo ou calamidade. O medo da morte jamais conseguiu causar sequer a menor fissura em sua firme determinação. Durante o cerco de Alexandria, ele quis entrar no interior da fortaleza colocando uma escada. Seus companheiros disseram: “Lá dentro há uma peste terrível.” Ele respondeu: “Viemos justamente por causa das feridas e da peste. Então, por que temer a morte?” Naquele dia, entrou na fortaleza com enorme bravura, colocando uma escada.

A honestidade, a confiabilidade, a capacidade administrativa e a habilidade organizacional de Hazrat Zubair eram extraordinárias. Ao se aproximar da morte, as pessoas expressavam o desejo de nomeá-lo guardião de seus filhos e de seus bens. Quando Muti ibn al-Aswad quis nomeá-lo executor testamentário, ele recusou. Então Muti começou a dizer, com voz suplicante: “Peço-lhe, pelo nome de Allah, do Mensageiro e dos laços de parentesco. Ouvi Umar, al-Faruq, dizer: ‘Zubair é um dos pilares da religião.’ Hazrat Uthman, Miqdad, Abdullah ibn Masud, Abdur-Rahman ibn Awf e outros Companheiros o nomearam executor testamentário ao morrer. Com extrema honestidade, ele administrou seus bens e os gastou com seus filhos e familiares.”

Hazrat Zubair amava profundamente sua esposa e seus filhos. Amava especialmente seu filho Abdullah e os filhos dele. Até o momento de sua morte, demonstrou grande preocupação com a educação e a formação dos filhos. Levou seu filho Abdullah consigo para a batalha de Yarmouk. Naquela época, o menino tinha apenas dez anos. Hazrat Zubair colocou-o sobre um cavalo e entregou-o aos cuidados de um soldado, para que, ao fazê-lo ver as cenas terríveis da batalha, lhe ensinasse bravura e coragem.

No que dizia respeito à generosidade, à liberalidade e aos gastos no caminho de Allah, ele jamais ficava atrás de ninguém. Possuía mil escravos. Todos os dias, fazia-os trabalhar mediante aluguel e obtinha uma grande soma de dinheiro. Mas não considerava apropriado gastar sequer um centavo disso consigo mesmo ou com sua família. Doava tudo. Em suma, todas as qualidades possíveis em um discípulo íntimo do Profeta estavam reunidas em Hazrat Zubair.

O comércio era a principal profissão de Hazrat Zubair. O surpreendente é que nenhum negócio em que ele se envolveu jamais resultou em prejuízo.

Na luta pela causa de Allah, ele recebeu incontáveis golpes de flechas e lanças dos inimigos. Ali ibn Khalid disse: “Um homem veio até nós de Mosul. Ele relatou: ‘Eu era companheiro de viagem de Zubair ibn al-Awwam. Em certo momento da viagem, vi em seu corpo marcas de ferimentos como nunca havia visto no corpo de outra pessoa. Quando lhe perguntei, ele respondeu: ‘Tudo isso aconteceu na companhia do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e pela causa de Allah.’”

‘Alī ibn Zayd disse: “Um homem que viu az-Zubayr me contou: ‘Em seu peito havia inúmeras marcas de ferimentos de flechas e lanças, parecidas com pequenas fontes.’”

No que dizia respeito às roupas, ele era extremamente simples. Sua espada, porém, era muito suntuosa. O punho da espada era adornado com belíssimos desenhos.

Mu‘āwiya perguntou a ‘Abdullah ibn ‘Abbās: “Qual é a sua opinião sobre Talha e az-Zubayr?” Ele respondeu: “Que Allah derrame Sua misericórdia sobre ambos. Juro por Allah que os dois eram extremamente moderados, virtuosos, praticantes do bem, submissos, imaculados, purificados e mártires.”

Az-Zubayr disse: “O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — fez súplicas por mim, por meus filhos e descendentes.”

A maior distinção e bênção de az-Zubayr é que ele foi um dos dez Companheiros que receberam, ainda neste mundo, a boa notícia do Paraíso, isto é, um dos ‘Ashara al-Mubashshara.

Tal‌ha ibn Ubaydullah ((r.a.))

Abū Muhammad Talha é o seu nome. Seu pai era Ubaydullah e sua mãe, Sa‘ba. Ele era descendente do ramo Taym da tribo dos coraixitas. O honorável Abū Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — também pertencia à tribo Taym. Sua mãe, Sa‘ba, era irmã do célebre Companheiro mártir Al-‘Alā ibn al-Hadramī.

Talha abraçou o Islã no início da missão islâmica, quando tinha apenas quinze anos. Ele aceitou o Islã por convite de Abū Bakr as-Siddīq — que Allah esteja satisfeito com ele. Durante a Era da Ignorância, era membro assíduo das reuniões realizadas na casa de Abū Bakr.

O relato de sua aceitação do Islã é muito surpreendente. Ele havia ido à Síria com a caravana comercial dos coraixitas. Quando chegaram à cidade de Bosra, os outros comerciantes coraixitas do grupo se separaram dele e ficaram ocupados comprando e vendendo em diferentes pontos do mercado. Enquanto ele caminhava pelo mercado, ocorreu um acontecimento que mudou o rumo da vida de Talha. Ele conta:

“Eu estava então no mercado de Bosra. Ouvi um sacerdote cristão anunciar: ‘Ó comunidade de comerciantes! Perguntem às pessoas que chegaram a este mercado se há entre elas algum habitante de Meca.’ Eu estava por perto. Fui rapidamente até ele e disse: ‘Sim, sou de Meca.’ Ele perguntou: ‘Ahmad já surgiu entre vocês?’ Respondi: ‘Qual Ahmad?’ Ele disse: ‘O filho de Abdullah ibn Abd al-Muttalib. Este é o mês em que ele surgirá. Ele será o último Profeta. Surgirá em Meca e emigrará para uma terra de pedra negra e jardins de tamareiras. Jovem, você deveria ir até ele muito em breve.’ Talha disse: ‘As palavras dele causaram uma profunda impressão em meu coração. Abandonei minha caravana, montei em minha montaria e parti. Assim que cheguei em casa, perguntei aos meus familiares: “Aconteceu algo novo em Meca depois que parti?” Eles responderam: “Sim, Muhammad ibn Abdullah declarou ser profeta, e Abu Bakr, filho de Abu Quhafa, tornou-se seu seguidor.”’

Talha disse: “Fui até Abu Bakr e perguntei: ‘É verdade que Muhammad declarou ser profeta e que você se tornou seu seguidor?’ Ele respondeu: ‘Sim’, e então também me convidou ao Islã. Contei-lhe detalhadamente o episódio do sacerdote cristão. Depois, ele me levou consigo até o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele. Ali recitei a declaração de fé e aceitei o Islã; em seguida, relatei detalhadamente ao Mensageiro de Deus o que o sacerdote havia dito. Ao ouvir isso, ele ficou muito feliz. Assim, fui a quarta pessoa a aceitar o Islã pelas mãos de Abu Bakr.”

Quando Talha aceitou o Islã, sua mãe começou a fazer grande alvoroço. Ela desejava que seu filho se tornasse o líder da tribo. Os membros da tribo tentaram pressioná-lo para que abandonasse o Islã, mas descobriram que ele era firme como uma montanha. Vendo que a persuasão não surtiria efeito, escolheram o caminho da tortura. Masud ibn Kharash disse: “Certo dia, eu corria entre Safa e Marwa quando vi um grupo de pessoas arrastando um jovem com as mãos amarradas. Depois, fizeram-no deitar de bruços e começaram a golpeá-lo violentamente nas costas e na cabeça. Atrás deles, uma mulher idosa gritava a plenos pulmões, insultando-o. Perguntei: ‘Por que o rapaz está nessa situação?’ Eles responderam: ‘Este é Talha ibn Ubaidullah. Abandonou a religião de seus antepassados e tornou-se seguidor daquele homem dos Banu Hashim.’ ‘Quem é essa mulher?’ Eles responderam: ‘Saba bint al-Hadrami, a mãe do jovem.’”

Naufal ibn Khuwaylid, conhecido como o leão dos coraixitas, foi até Talha. Amarrou-o com uma corda e, com a mesma corda, amarrou também Abu Bakr. Depois, entregou os dois aos obstinados de Meca para que os torturassem. Como os dois foram amarrados com a mesma corda, passaram a ser chamados de “Qarinan”.

Depois de aceitar o Islã, ele foi vítima da opressão e das perseguições de seus familiares e dos coraixitas. Durante longos treze anos, suportou tudo com imensa paciência e continuou incansavelmente a divulgar e propagar o Islã. Procurava visitantes estrangeiros nos vales ao redor de Meca; ia discretamente às tendas dos beduínos e às casas dos conhecidos politeístas da cidade, levando-lhes o convite à religião. Assim como os demais, também frequentava regularmente a Dar al-Arqam, em Meca. Naquele período difícil para o Islã e os muçulmanos, esforçou-se e empenhou-se de todas as formas possíveis pela religião de Deus.

Em outubro de 622, o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, emigrou de Meca para Medina acompanhado de Abu Bakr. O guia dessa difícil viagem era Abdullah ibn Uraiqit. Depois de conduzi-los até Medina, ele retornou a Meca e contou detalhadamente a história da viagem a Abdullah, filho de Abu Bakr. Enquanto a família de Abu Bakr se preparava para emigrar para Medina, Talha e Suhayb ibn Sinan juntaram-se a eles. Talha era o comandante daquela caravana. Ao chegarem a Medina, Talha e Suhayb ficaram hospedados na casa de As’ad ibn Zurara. Ibn Hajar diz: antes da Hégira, em Meca, o Mensageiro de Deus estabelecera uma relação de irmandade entre Talha e Zubair; depois da Hégira, estabeleceu para Talha uma relação de irmandade com o célebre companheiro ansari de Medina, Abu Ayyub al-Ansari. Contudo, segundo outro relato, o Mensageiro de Deus estabelecera sua relação de irmandade com Ka’b ibn Malik, e essa relação permaneceu intacta até a morte, como entre irmãos de sangue.

Embora não tenha participado diretamente da batalha de Badr, participou dela indiretamente. Por isso, o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, concedeu-lhe uma parte dos espólios. Durante a batalha, um grupo de incrédulos planejava atacar a comunidade muçulmana de Medina. O Mensageiro enviou Talha para obter informações sobre eles. Além de Talha, enviou outras sete pessoas a diferentes lugares, atribuindo-lhes diversas tarefas. Por essa razão, não puderam participar diretamente da batalha. Ainda assim, foram considerados participantes de Badr.

No terceiro ano da Hégira ocorreu a Batalha de Uhud contra os politeístas de Meca. Nessa batalha, Hazrat Talha estabeleceu um recorde sem precedentes de bravura e coragem. Na verdade, ele foi o herói da Batalha de Uhud. Quando o exército muçulmano enfrentou uma terrível calamidade devido ao erro da unidade de arqueiros, Talha foi um dos poucos soldados que formaram uma linha de resistência ao redor do Mensageiro de Allah. Nessa ocasião, Hazrat Ammar ibn Yazid foi martirizado. Quando uma flecha lançada por um incrédulo atingiu o olho de Qatada ibn Nu’man, o globo ocular saiu da órbita e ficou pendurado sobre sua face. Abu Dujana ficou de frente para o Mensageiro de Allah e fez de todo o seu corpo um escudo para protegê-lo. Nessa ocasião, Sa’d ibn Abi Waqqas disparava flechas com extrema coragem. E Talha lançava ataques violentos contra os incrédulos, segurando uma espada em uma mão e uma lança na outra.

Em certo momento da batalha, todos, exceto doze homens dos Ansar e um único homem dos Muhajirun, Talha, haviam se afastado do Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah subiu ao topo de uma montanha, quando um grupo de soldados inimigos o cercou. O Mensageiro de Allah disse aos seus companheiros: “Quem conseguir afastá-los será meu companheiro no Paraíso.” Talha disse: “Eu irei, ó Mensageiro de Allah.” O Mensageiro de Allah respondeu: “Não, fique.” Um homem dos Ansar disse: “Eu irei.” Ele respondeu: “Sim, vá.” O homem dos Ansar foi e foi martirizado lutando contra os politeístas. Assim, o Mensageiro de Allah fez o apelo repetidas vezes, e todas as vezes Talha manifestou o desejo de ir, mas o Mensageiro de Allah o impediu e enviou um homem dos Ansar. Quando, um a um, todos os homens dos Ansar haviam alcançado o martírio, o Mensageiro de Allah disse a Talha: “Agora é a sua vez; vá.”

Hazrat Talha lançou o ataque. O Mensageiro de Allah foi ferido, seu dente abençoado foi quebrado e ele ficou coberto de sangue. Nessa situação, Talha atacou sozinho os politeístas uma vez e os expulsou para um pouco mais longe; depois correu de volta até o Mensageiro de Allah e começou a carregá-lo sobre os ombros para o alto da montanha. Em certo lugar, deixou o Mensageiro de Allah e voltou a atacar novamente. Assim, naquele dia, ele repeliu os politeístas. Hazrat Abu Bakr disse: “Naquela ocasião, eu e Abu Ubaida havíamos nos afastado do Mensageiro de Allah. Depois de algum tempo, voltamos até ele e nos aproximamos para cuidar dele, mas ele disse: ‘Deixem-me e vejam o seu companheiro Talha.’ Olhamos e o vimos inconsciente em um buraco, coberto de sangue. Uma de suas mãos estava quase separada do corpo, e por todo o seu corpo havia mais de setenta ferimentos causados por espadas, flechas e lanças.” Por isso, mais tarde, o Mensageiro de Allah comentou a respeito dele: “Se alguém deseja alegrar-se ao ver um morto caminhando pela terra, que veja Talha ibn Ubaidullah.” Por essa razão, ele era chamado de mártir vivo. Sempre que se mencionava a Batalha de Uhud, Hazrat as-Siddiq al-Akbar dizia: “Aquele dia pertenceu inteiramente a Talha.” Nessa batalha, o Mensageiro de Allah ficou tão satisfeito com Hazrat Talha que lhe anunciou a boa-nova do Jannatul Firdaus.

No mês de Dhu al-Qi’dah do quinto ano da Hégira, as forças combinadas de várias tribos árabes e dos judeus começaram a preparar-se para atacar Medina. Para repeli-las, o exército muçulmano, sob a liderança do Mensageiro de Allah, decidiu cavar uma trincheira de cinco côvados de profundidade, de leste a oeste, ao lado do monte Sala, nos arredores de Medina. Hazrat Talha foi visto ocupado no trabalho de cavar a trincheira. Mal o trabalho terminou, as forças combinadas dos coraixitas de Meca e de outras tribos árabes sitiaram Medina. Enquanto isso, dentro de Medina, as tribos judaicas, especialmente os Banu Qurayza, romperam o pacto e começaram a conspirar contra os muçulmanos. Naquele momento, os muçulmanos estavam cercados por inimigos internos e externos. Em uma situação tão delicada, alguns muçulmanos naturalmente ficaram um pouco inquietos, preocupados com a segurança de suas esposas, filhos e familiares. Porém, a coragem da maioria dos muçulmanos e sua fé em Allah permaneceram firmes. Eles estavam completamente preparados para sacrificar tudo o que possuíam, suas vidas e seus bens, no caminho de Allah. Hazrat Talha fazia parte desse último grupo. Allah, o Altíssimo, na surata Al-Ahzab nos segundo e terceiro ruku, retratou belamente o estado mental dos muçulmanos naquele momento.

Alguns muçulmanos estavam parados à margem da trincheira, conversando. Hazrat Talha passava por ali. Ele ouviu alguém dizer: “Devemos tomar providências para garantir a segurança de nossas esposas e familiares.” Hazrat Talha parou por um instante. Disse: “‘Allah é o melhor dos protetores’ — Allah é o melhor garantidor da segurança. Aqueles que confiaram em sua própria força e poder físico fracassaram.” As pessoas disseram: “Você tem razão.” E desistiram de seu propósito.

Ele participou de todas as expedições, incluindo o Juramento de Ridwan, Khaybar e Mu’tah, desempenhando um papel significativo. No dia da conquista de Meca, Talha estava entre o pequeno grupo de Muhajirun com o qual o Mensageiro de Allah entrou em Meca, e entrou com o Mensageiro de Allah no interior da sagrada Caaba.

No dia 25 de Dhu al-Qi’dah do décimo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu de Medina com o propósito de realizar o Hajj. Este foi o histórico Hajj de Despedida. Talha também acompanhou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em sua viagem. Ao chegar a Dhu’l-Hulayfa com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele entrou em ihram. Nesta viagem, somente o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Talha levavam consigo animais para o sacrifício. ((Sahih al- Bukhari: Livro do Hajj)

O venerável Talha sofreu um golpe terrível com o falecimento do amado Profeta. Ficou profundamente abatido pela tristeza causada pela morte do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Às vezes, dizia: “Allah, o Altíssimo, ordenou que tivéssemos paciência diante de todas as calamidades; por isso, tento praticar o sabr jamil diante de sua separação e, ao mesmo tempo, peço a Allah a capacidade para fazê-lo.”

Durante o califado do venerável Abu Bakr, ele foi seu conselheiro especial. Ele o ajudava em todos os assuntos por meio de reflexão, aconselhamento e ação. Durante as guerras da Ridda, muitos companheiros ilustres aconselharam inicialmente o califa a tratar com certa indulgência os beduínos que se recusavam a pagar o zakat e a não declarar jihad contra eles. Porém, o venerável Talha afirmou claramente: “Uma religião que não inclui o zakat não pode ser verdadeira nem correta.”

No mês de Jumada al-Thani do décimo terceiro ano da Hégira, o venerável Abu Bakr adoeceu. Seu estado começou a deteriorar-se rapidamente. Certo dia, Talha foi visitá-lo. Quando ele chegou, após alguns momentos de silêncio, os dois tiveram a seguinte conversa:

— Devo nomear Umar como meu sucessor? Abu Muhammad (Talha), qual é a sua opinião?

— Entre os companheiros, Umar possui as melhores qualidades; ele é aquele que distingue entre a verdade e a falsidade.

— Pedi seu conselho sobre nomeá-lo como meu sucessor.

— Há certa severidade em seu caráter, e ele costuma impor regras um pouco rigorosas demais.

— Quais são as falhas que ele tem?

— Se ele é tão rigoroso durante o seu governo, depois de você, com o senso de responsabilidade que terá, quem sabe quão mais rigoroso ele se tornará.

— Quando o pesado dever do califado recair sobre ele, ele se tornará brando.

Por fim, Talha disse: Não tenho dúvida de que suas virtudes e capacidades são superiores às de todos os demais. Não me furtei a expressar minha reação a um aspecto de seu temperamento.

No ano 13 da Hégira, Hazrat Umar tornou-se califa. Ele também concedeu a Hazrat Talha a dignidade que lhe era devida e, assim, sempre se beneficiou de seus conselhos.

Após a conquista do Iraque, surgiu uma divergência entre os Companheiros quanto a saber se as terras agrícolas daquela região deveriam ou não ser distribuídas entre os mujahidins, como os bens tomados como espólio. Um grupo disse que deveriam ser distribuídas. Porém, o califa e outro grupo se opunham à distribuição. Depois, após longas discussões na reunião da shura, a opinião do califa foi adotada por consenso. Sobre essa questão, Hazrat Talha apoiou inequivocamente a opinião do califa na reunião da shura e fez um discurso vigoroso em seu favor.

Antes do falecimento do Amir al-Mu’minin Hazrat Umar, Hazrat Talha estava entre os seis ilustres Companheiros aos quais ele confiou a responsabilidade de escolher um califa entre eles. Contudo, demonstrando o ápice do altruísmo, ele renunciou à própria reivindicação ao califado e deu seu voto em apoio a Hazrat Uthman.

Hazrat Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, foi mantido em prisão domiciliar pelos rebeldes. Certo dia, ele colocou a cabeça para fora da janela da casa e dirigiu-se ao grupo rebelde e ao povo reunido de Medina. Em determinado momento, perguntou: “Há algum Talha entre vocês?” Ninguém respondeu. Quando perguntou pela terceira vez, Hazrat Talha levantou-se. Hazrat Uthman dirigiu-se a ele, dizendo: “Eu não esperava que você estivesse presente entre essa multidão e que respondesse somente depois de ser chamado três vezes. Eu lhe pergunto, pelo nome de Allah: certo dia, em tal lugar, quando além de mim e de você não havia mais ninguém com o Mensageiro de Allah, o Mensageiro de Allah lhe disse: ‘Talha, todo profeta terá um companheiro no Paraíso dentre sua comunidade. Uthman ibn Affan será meu companheiro no Paraíso.’ Você se lembra disso?” Talha respondeu afirmativamente: “Sim.” Então, levantou-se de entre a multidão e foi embora.

Hazrat Uthman foi martirizado. Uma parte da ummah muçulmana levantou a voz contra o assassinato de Hazrat Uthman e exigiu qisas. Hazrat Talha e Zubair foram de Medina a Meca e encontraram-se com Hazrat Aisha (r.a.). Nos arredores de Basra, eles se depararam com o exército de Hazrat Ali (r.a.). Por intermédio de Hazrat Qa’qa ibn Amr, iniciaram-se conversações entre as duas partes. Hazrat Ali (r.a.), a Mãe dos Crentes Hazrat Aisha, Talha e Zubair chegaram a um acordo sobre uma solução pacífica para o problema. Ambas as partes respiraram aliviadas. Mas os homens do judeu Ibn Saba, que tramavam e conspiravam, ficaram alarmados com isso. Na realidade, foram eles os assassinos de Hazrat Uthman. Haviam-se escondido entre as tropas de Hazrat Ali (r.a.). Durante a escuridão da noite, começaram a disparar flechas, de um lado, contra o exército de Hazrat Aisha (r.a.) e, de outro, contra o exército de Hazrat Ali (r.a.). Os soldados de ambos os lados haviam adormecido tranquilos, pois fora decidido celebrar um acordo de paz. Despertando com esse ataque surpresa, pensaram que o adversário havia iniciado o ataque. A conspiração do judeu Ibn Saba foi bem-sucedida. Antes mesmo do amanhecer, irrompeu uma batalha feroz, que ficou conhecida na história como a “Batalha do Camelo”. Nessa batalha, morreram cerca de dez mil pessoas de ambos os lados, ou, segundo outra opinião, treze mil. Logo no início da batalha, uma flecha disparada pelos sabaitas atingiu o pé de Hazrat Talha. Como o sangramento do ferimento não cessava, Hazrat Qa’qa ibn Amr pediu-lhe que fosse ao Darul Ilaj de Basra (hospital). A seu pedido, ele foi ao Darul Ilaj acompanhado de um servo. Entretanto, nesse intervalo, seu corpo ficou exangue. Pouco depois de chegar ali, faleceu. Foi sepultado em Basra.

Ibn Asakir mencionou, com base em diversas fontes, que Hazrat Talha foi ferido pela flecha disparada por Marwan ibn al-Hakam no dia da Batalha do Camelo. Ele faleceu aos 64 anos, no mês de Jumada al-Awwal do ano 36 da Hégira ou, segundo outra opinião, em 10 de Jumada al-Thani.

Hazrat Talha era um comerciante rico. Mas não tinha a avidez de acumular riquezas. A história registra muitos relatos sobre sua generosidade. Na história, ele é mencionado como “Talha, o Generoso”. Certa vez, chegaram às suas mãos setenta mil dirhams vindos de Hadramaut. À noite, ele ficou abatido e angustiado. Ao ver o estado do marido, sua esposa, Umm Kulthum, filha de Hazrat Abu Bakr (r.a.), perguntou-lhe:

— Abu Muhammad, o que aconteceu com você? Parece que se magoou com algum comportamento meu.

— Não, como esposa de um homem muçulmano, você é maravilhosa. Mas, desde aquela tarde, estou pensando: se uma pessoa dormir deixando tanto dinheiro em casa, que tipo de consideração terá por seu Senhor?

— Por que você está tão triste e preocupado com isso? Onde encontrará, a esta hora da noite, os pobres, necessitados e seus parentes? Assim que amanhecer, você poderá distribuí-lo.

— Que Allah tenha misericórdia de você! É isso que significa: tal pai, tal filha.

Na manhã seguinte, ele dividiu todos os dirhams em diferentes sacos e recipientes e distribuiu-os entre os pobres e necessitados dos Muhajirun e dos Ansar. Outro episódio foi narrado sobre sua generosidade. Um homem foi até Hazrat Talha, mencionou seu parentesco com ele e pediu alguma ajuda. Talha disse: “Tenho um pedaço de terra em tal lugar. Uthman ibn Affan quer dar-me trezentos mil dirhams em troca dessa terra. Se quiser, pode ficar com o terreno, ou posso vendê-lo e dar-lhe os trezentos mil dirhams.” O homem preferiu receber o valor. Ele doou-lhe todo o dinheiro obtido com a venda.

Abd ar-Rahman ibn ’Awf ((r.a.))

Segundo o Imam Bukhari, na época da Jahiliyyah, o nome de Abd ar-Rahman ibn Awf era Abd Amr. Ibn Sa’d mencionou em sua ‘Tabakāt’ que, na época da Jahiliyyah, seu nome era Abd Ka’bah. Depois que ele aceitou o Islã, o Mensageiro de Allah deu-lhe o nome de Abd ar-Rahman. Tanto seu pai quanto sua mãe pertenciam à tribo de Zuhrah. O nome de sua mãe era Shifa bint Awf. Seu avô paterno e seu avô materno chamavam-se Awf.

Ibn Sa’d mencionou, citando al-Waqidi, que ele nasceu dez anos depois de Amul Fil (o Ano do Elefante). Com base nesse relato, ele era dez anos mais jovem que o Mensageiro de Allah. O Mensageiro nasceu cinquenta dias após o acontecimento do Ano do Elefante. Ibn Hajar, porém, afirmou que ele era treze anos mais jovem que o Mensageiro de Allah.

Ele foi um dos primeiros a aceitar o Islã, logo após o início da missão profética do Mensageiro de Allah. Os homens de destaque de Meca costumavam reunir-se quase diariamente na casa de Abu Bakr. Abd ar-Rahman também era um membro assíduo dessas reuniões. Ele mantinha uma profunda amizade com Abu Bakr e aceitou o Islã por convite dele. A história registra os nomes dos cinco membros assíduos dessas reuniões na casa de Abu Bakr: Uthman, Sa’d, Talhah, Zubayr e Abd ar-Rahman. Todos aceitaram o Islã desde o primeiro período, por meio do convite de Abu Bakr, e, em troca de seus incomparáveis sacrifícios pela causa do Islã, receberam ainda em vida a boa notícia do Paraíso.

Abd ar-Rahman estava entre os onze homens e quatro mulheres da primeira caravana que, no mês de Rajab do quinto ano da missão profética, emigraram de Meca para a Abissínia. Depois que o Mensageiro emigrou para Medina, ele também emigrou para lá. Aqueles que emigraram tanto para a Abissínia quanto para Medina são chamados de ‘Sāhib al-Hijratayn’. Em Medina, ele hospedou-se na casa de Sa’d ibn Rabi’ al-Khazraji, e o Mensageiro estabeleceu entre os dois um vínculo de irmandade. Sobre isso, o Imam Bukhari transmitiu muitos hadiths através de diversas cadeias de transmissão. A esse respeito, Anas (r.a.) disse: ‘Quando Abd ar-Rahman ibn Awf emigrou para Medina, o Mensageiro estabeleceu entre ele e Sa’d ibn Rabi’ um vínculo de irmandade. Sa’d era o líder da tribo Khazraj de Medina e um homem rico. Ele disse a Abd ar-Rahman: “Todos os Ansar sabem que sou rico. Quero dividir igualmente todos os meus bens entre nós dois. Tenho duas esposas. Quero que você as veja e escolha uma delas. Eu me divorciarei dela; depois, você poderá casar-se com ela.” Abd ar-Rahman respondeu: “Que Allah conceda bênção e bondade à sua família! Meu irmão, não preciso de nada disso. Apenas mostre-me o caminho do mercado.”’

Um exemplo da firme confiança de Sa’d na irmandade islâmica e de sua incomparável generosidade é raro na história da Ummah islâmica e da humanidade. Por outro lado, também é especialmente digno de nota a nobreza de Abd ar-Rahman, sua autossuficiência e sua firme determinação de manter-se de pé com os próprios recursos.

No segundo dia de sua permanência em Medina, Abd ar-Rahman perguntou a seu irmão ansari Sa’d: “Há aqui algum mercado onde se faça comércio?” Ele respondeu: “Sim, há o mercado de Qaynuqa, em Yathrib (Medina).” Abd ar-Rahman comprou um pouco de manteiga e queijo em um lugar e foi ao mercado. No segundo dia, fez o mesmo. Assim, continuou a negociar. Quando juntou algum dinheiro, casou-se com uma mulher ansari.

Certo dia, depois do casamento, ele foi prestar serviço ao Mensageiro de Allah. Ao ver manchas de açafrão em suas roupas, o Mensageiro perguntou: “Você se casou?” Ele respondeu: “Sim.” O Mensageiro perguntou: “Com quem?” Ele respondeu: “Com uma mulher ansari.” O Mensageiro perguntou: “Que dote você estipulou?” Ele respondeu: “Um pouco de ouro.” Então o Mensageiro de Allah disse: “Faça uma walimah, ainda que seja com apenas uma cabra.”

Ele continuou a administrar seus negócios. Depois de algum tempo, quando conseguiu juntar mais algum dinheiro, realizou o banquete nupcial conforme a instrução do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Gradualmente, seus negócios se expandiram ainda mais. Ele também firmou um acordo comercial com Umayya ibn Khalaf, de Meca.

O venerável Abd al-Rahman ibn Awf participou de todas as batalhas, incluindo Badr, Uhud e Khandaq, demonstrando extrema coragem e firmeza. O Imam al-Bukhari narrou no «Kitab al-Maghazi» um episódio da batalha de Badr com as próprias palavras dele: «Na batalha de Badr, eu estava de pé na fileira. A luta era intensa. Olhei para a direita e para a esquerda e vi dois jovens, um de cada lado. Não depositei muita confiança neles. Um deles me perguntou em voz baixa: “Tio, diga-me, onde está Abu Jahl?” Respondi: “Meu sobrinho, o que você fará com ele?” Ele disse: “Fiz um pacto com Allah: ou eu o matarei, ou sacrificarei minha própria vida com esse objetivo.” O outro também me disse a mesma coisa em voz baixa. Abd al-Rahman disse: “Depois de ouvir o que diziam, fiquei feliz ao pensar entre que dois grandes homens eu estava. Apontei para Abu Jahl. Subitamente, os dois se lançaram juntos sobre Abu Jahl como dois falcões e o mataram em um instante. Esses dois jovens eram Muadh e Muawwidh, os dois filhos de Afra.” Na batalha de Badr, Abd al-Rahman foi ferido no pé.

Ele também participou da batalha de Uhud. Nessa batalha, igualmente demonstrou uma coragem extraordinária. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia se refugiado em um canto do monte Uhud, quando Ubay ibn Khalaf avançou com a intenção de matar o Mensageiro de Allah. Quando Abd al-Rahman avançou com a intenção de enviá-lo ao Inferno, o Mensageiro de Allah o impediu. Em seguida, o próprio Mensageiro de Allah pegou uma lança de al-Harith ibn al-Simma e a arremessou contra o pescoço de Ubay ibn Khalaf. Ferido levemente, ele fugiu gritando e, a caminho de Meca, encontrou a morte no lugar chamado Sarf.

Ibn Sa’d ‘Ṭabaqāt al- Kubrā’ mencionou na obra que, na batalha de Uhud, Abd al-Rahman demonstrou imensa coragem e bravura. Al-Baladhuri, em sua obra Futūḥ al- Buldan, Ibn Hajar, em sua obra al-–Iṣābah e Ibn Khaldun, em seu Tarikh , narraram que, nessa batalha, ele sofreu ao todo trinta e um ferimentos por todo o corpo.

No mês de Sha’ban do sexto ano da Hégira, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, decidiu enviar uma expedição a Dumat al-Jandal, cerca de trezentas milhas ao norte de Medina. Ele confiou a Abd al-Rahman o comando dessa tropa. Antes da partida, Abd al-Rahman foi até o Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah tirou pessoalmente o turbante da cabeça de Abd al-Rahman e colocou-lhe outro turbante preto. Depois, deu-lhe algumas orientações relativas à condução da guerra e despediu-se de Abd al-Rahman, que Allah esteja satisfeito com ele.

Na época da conquista de Meca, Abd al-Rahman também estava no pequeno grupo de emigrantes que acompanhava o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

Após a conquista de Meca, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou vários grupos de pregação em diferentes direções para realizar o trabalho de دعوت no território árabe. Naquela época, as tribos árabes ainda estavam completamente imersas na ignorância e no tribalismo. Por isso, o Mensageiro de Allah enviou os grupos de pregação armados, para que pudessem se defender caso necessário. Um grupo de trinta membros foi enviado, sob a liderança do venerável Khalid ibn al-Walid, aos habitantes de Banu Khuzaymah. Contudo, surgiu um mal-entendido entre o venerável Khalid e Banu Khuzaymah. Em determinado momento, o venerável Khalid atacou Banu Khuzaymah, causando muitas mortes e feridos. Ao tomar conhecimento do ocorrido, o Mensageiro de Allah chamou o venerável Khalid, interrogou-o e pediu perdão a Allah por seu erro. O Mensageiro de Allah pagou a diyah pelos mortos. Até mesmo o valor de compensação por um cão que alguém tivesse perdido a vida foi pago.

Por causa desse incidente com Banu Khuzaymah, Khalid e Abd al-Rahman discutiram e entraram em debate. Ao tomar conhecimento disso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chamou Khalid e o repreendeu. Disse: “Você discutiu e debateu com um companheiro que foi um dos Sābiqīn al-Awwābīn” (aqueles que aceitaram o Islã no primeiro período). Não foi apropriado que você fizesse isso. Juro por Allah: mesmo que você possuísse uma quantidade de ouro do tamanho do monte Uhud e a distribuísse toda no caminho de Allah, ainda assim não poderia igualar-se sequer a um daqueles meus companheiros veteranos.” Convém mencionar que o venerável Khalid aceitou o Islã no sexto ano da Hégira, após a batalha de Ahzab.

Durante a expedição de Tabuk, no nono ano da Hégira, ele também foi aprovado na prova de fé que os muçulmanos enfrentaram. Atendendo ao apelo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abu Bakr, Uthman e Abd al-Rahman (que Allah esteja satisfeito com eles) doaram uma quantia recorde para essa expedição. Quando Abd al-Rahman entregou oito mil dinares às mãos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os hipócritas começaram a cochichar. Diziam: “Ele é um ostentador — seu único objetivo é exibir-se.” Em resposta, Allah disse: “Este é aquele sobre quem a misericórdia de Allah continuará a descer.”(Surata At-Tawbah: 71)Há outro relato segundo o qual, ao ver essa doação, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Tenho a impressão de que Abd al-Rahman está pecando, pois não deixou nada para sua família.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “Abd al-Rahman, você deixou algo para sua família?” Ele respondeu: “Sim. Deixei para eles algo maior e melhor do que aquilo que doei.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “Quanto?” Ele respondeu: “Aquilo que Allah e Seu Mensageiro prometeram como provisão, bem e recompensa.”

Certo dia, durante a expedição de Tabuk, na hora da oração do fajr, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu para atender a uma necessidade natural. Ele demorou um pouco para voltar. Enquanto isso, chegou o horário da oração. Então, a pedido dos fiéis reunidos, Abd al-Rahman levantou-se para conduzir a oração como imame. Nesse momento, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) voltou; uma rak‘ah já havia sido concluída. Ao perceber a presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abd al-Rahman tentou recuar. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez-lhe um gesto com a mão para que permanecesse em seu lugar. Em seguida, ele também concluiu a segunda rak‘ah restante, e o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) acompanhou a oração atrás dele. O Imam Muslim e Abu Dawud relataram este hadith em suas respectivas coletâneas autênticas.

O primeiro califa, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), encontrava-se em seu leito de morte; já não havia esperança de vida. A respeito de quem seria o califa depois dele, convocou os notáveis Companheiros, conhecidos por sua prudência, e consultou-os. Também consultou Abd al-Rahman e, mencionando algumas qualidades de Umar, propôs seu nome como o próximo califa. Depois de ouvir pacientemente as palavras do califa, Abd al-Rahman disse: “Você está certo. Não há dúvida quanto à capacidade dele. Contudo, por natureza, ele é um pouco severo.”

Durante o califado de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), oito Companheiros ilustres receberam a responsabilidade de emitir fatwas e julgar, enquanto todos os demais foram instruídos a se abster de emitir fatwas. Abd al-Rahman era um desses oito.

Durante seu califado, Umar também impediu que todos, exceto os Companheiros dotados de conhecimento e discernimento, exercessem a função judicial. Até mesmo Abdullah ibn Masud, a quem ele chamava de “tesouro do conhecimento”, recebeu ordem de se abster quando começou a emitir fatwas sem autorização prévia. Umar só permitia que cada especialista expressasse sua opinião no ramo do conhecimento em que era perito. Sobre isso, durante uma viagem à Síria, disse em um sermão no lugar chamado Jabiyah: “Aqueles que querem compreender o Alcorão devem procurar Ubayy ibn Ka‘b; aqueles que querem conhecer as leis de herança devem procurar Zayd ibn Thabit; e aqueles que desejam se informar sobre questões de fiqh devem estabelecer contato com Mu‘adh ibn Jabal e Abd al-Rahman ibn ‘Awf.”

O califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) concedeu a Abd al-Rahman o status de conselheiro especial. À noite, quando percorria a cidade para verificar a situação de seus habitantes, muitas vezes levava Abd al-Rahman consigo e consultava-o sobre diversos assuntos.

Certa noite, o califa Umar saiu para percorrer a cidade acompanhado de Abd al-Rahman. De longe, notaram uma luz em uma casa. Ao se aproximarem, viram que todas as portas e janelas da casa estavam fechadas; mas, de dentro, ouviam-se as vozes altas de algumas pessoas. O califa Umar perguntou a Abd al-Rahman: “Você consegue ouvir as vozes que vêm de dentro?

— Sim, consigo ouvi-las.”

— Você consegue entender o que ele está dizendo?

— O som de vozes reunidas. Só se ouve um tumulto; não dá para entender o que estão dizendo.

— Você sabe de quem é esta casa?

— A casa é de Rabi’a ibn Umayya.

Umar disse: “Talvez eles estejam bêbados por terem bebido vinho. O que você acha?”

— Allah nos proibiu de espionar. Ele disse: “Não espioneis” (não pratiqueis espionagem) e “não sigais aquilo de que não tendes conhecimento” (não sigais algo sobre o qual não tendes conhecimento).

Ao ouvir isso, Umar disse: “Você está certo e me fez lembrar disso no momento oportuno.” Dito isso, ele prosseguiu acompanhado de Abd al-Rahman. Os dois versículos que Hadrat Abd al-Rahman lembrou ao Amir al-Mu’minin nessa ocasião são a própria essência dos direitos básicos do indivíduo na vida social muçulmana.

No ano 16 da Hégira, a conquista do Iraque provocou a queda, no Iraque, do império do xá Kisra; e, após a batalha de Yarmuk, o império do césar romano caiu na Síria. O califa tomou a iniciativa de estabelecer a jizya e o kharaj. Contudo, quanto a isso, enfrentou a forte oposição dos comandantes Khalid ibn al-Walid, Bilal e Abd al-Rahman. Por fim, após longos debates em reuniões sucessivas do Majlis al-Shura, a opinião do califa foi aceita.

O califa Hazrat Umar decidiu estabelecer os estipêndios dos Companheiros do Mensageiro de Allah. Comunicou essa intenção a Hazrat Abd al-Rahman. Ele aconselhou que a tarefa de elaborar uma lista fosse confiada a três homens versados em astrologia: Makhzama ibn Nawfal, Khaybar ibn Mut’am e Aqil ibn Abu Talib. Seguindo seu conselho, o califa encarregou-os dessa tarefa. Depois que elaboraram a lista e a apresentaram ao califa, o Amir al-Mu’minin e Abd al-Rahman examinaram-na juntos. Depois de ver a lista, Hazrat Umar disse: “Altere a ordem atual da lista e escreva primeiro os nomes de meus parentes e o meu próprio quando chegar a vez deles, de acordo com seu parentesco genealógico com o Mensageiro.” Hazrat Ali e Hazrat Abd al-Rahman objetaram: “O senhor é o Amir al-Mu’minin. A lista deveria começar pelo seu nome.” Ele respondeu: “Não. Comecem por Abbas, tio do Mensageiro de Allah, e depois escrevam o nome de Ali.” Ele determinou o valor dos estipêndios após consultar Abd al-Rahman. Em seguida, apresentou-o ao Majlis al-Shura.

As Azwaj al-Mutahharat (as esposas do Mensageiro de Allah) já vinham manifestando, havia bastante tempo, o desejo de realizar o Hajj. No vigésimo terceiro ano hijri, o califa Umar finalizou os preparativos para que elas realizassem o Hajj. Ele próprio também as acompanhou na viagem. Confiou toda a responsabilidade pela organização da viagem a Hazrat Abd al-Rahman e Hazrat Uthman. Durante a viagem, Abd al-Rahman seguia armado, guardando a frente da caravana, enquanto Uthman fazia a guarda na retaguarda. Não permitiam que ninguém se aproximasse dos camelos delas. Quando paravam em algum lugar, os dois ficavam encarregados de vigiar as tendas.

No primeiro ano de seu califado, Hazrat Umar nomeou Abd al-Rahman como Amir al-Hajj e o enviou a Meca. Enviou também com ele, em seu próprio nome, um animal para o sacrifício. Naquele ano, os muçulmanos de todo o mundo realizaram o Hajj sob sua liderança.

O califa Hazrat Umar estava liderando a oração do fajr em congregação. Firoz, o escravo persa de Mughirah ibn Shu’bah, golpeou-o com uma faca. Mesmo ferido, ele imediatamente segurou a mão de Abd al-Rahman, que estava atrás dele, colocou-o em seu lugar e caiu ao chão. Então Abd al-Rahman concluiu rapidamente o restante da oração.

Dez horas depois de ser ferido, Hazrat Umar disse às pessoas reunidas: “Assim como vocês diziam, eu também queria deixar como Amir um homem capaz de carregar o fardo desta Ummah. Depois pensei que, se fizesse isso, a responsabilidade continuaria recaindo sobre mim mesmo depois da minha morte. Por isso, não tive coragem. Estes são os seis homens: Ali, Uthman, Abd al-Rahman, Sa’d, al-Zubayr e Talha. O Mensageiro de Allah anunciou-lhes a boa-nova de que entrariam no Paraíso. Vocês deverão escolher um deles como Amir. Além desses seis, há também meu filho Abdullah. Contudo, ele não terá qualquer relação com o califado. Se os seis mencionados se dividirem, na escolha do califa, em dois grupos iguais de três pessoas, então o califa será escolhido do grupo apoiado por Abdullah. Mas, se a opinião de Abdullah não for aceita pela maioria do povo, será aceita a opinião do grupo ao qual Abd al-Rahman pertencer.” Esse conselho de Hazrat Umar tornou evidente sua opinião a respeito de Abd al-Rahman.

Hazrat Umar faleceu. Abd al-Rahman não estava disposto a tornar-se califa. Além disso, Hazrat Talha não se encontrava em Medina naquela ocasião. Os quatro homens restantes confiaram a Abd al-Rahman toda a responsabilidade pela escolha do califa.

Hazrat Abd al-Rahman cumpriu a responsabilidade que lhe fora confiada com extrema dedicação e integridade. Durante três dias e três noites consecutivos, consultou pessoas de diferentes camadas da sociedade. A maioria expressou sua preferência por Hazrat Uthman. Finalmente, antes que terminasse o prazo de três dias e três noites estabelecido por Umar, ele pediu ao povo que participasse da oração do fajr em congregação. Após a oração, anunciou o nome de Hazrat Uthman como califa diante da multidão reunida. Desde que Hazrat Umar fora ferido com a faca, por ordem dele, até que o nome de Uthman fosse anunciado como o terceiro califa, Abd al-Rahman liderou as orações em congregação e desempenhou todas as responsabilidades administrativas.

No mês de Muharram do vigésimo quarto ano hijri, Hazrat Uthman foi eleito califa. Naquele mesmo ano, nomeou Abd al-Rahman como Amir al-Hajj. A Ummah muçulmana realizou o Hajj daquele ano sob sua liderança.

Hazrat Abdur Rahman prestou serviços especiais à ummah muçulmana, permanecendo até o fim da vida como membro do conselho da shura do califa Uthman e oferecendo conselhos sobre diversas questões importantes. Para cada um dos três califas — Hazrat Abu Bakr, Umar e Uthman, que Allah esteja satisfeito com eles — ele era uma pessoa extremamente confiável e digna de confiança.

Segundo Ibn Sa’d, Hazrat Abdur Rahman faleceu no ano 32 da Hégira, aos 75 anos de idade. Contudo, segundo Ibn Hajar, ele viveu 72 anos. Ibn Hajar também afirmou que Hazrat Uthman ou Zubayr ibn al-Awwam dirigiu a oração fúnebre por ele, e que ele foi sepultado no cemitério de Baqi’, em Medina. Entre os que carregaram seu corpo até o cemitério estava também o famoso companheiro Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas.

Já vimos anteriormente que Abdur Rahman chegou a Medina de mãos completamente vazias. Começou seus negócios comprando e vendendo pequenas quantidades de manteiga clarificada e queijo. Com o passar do tempo, tornou-se um dos melhores comerciantes e um dos homens mais ricos da ummah muçulmana de então. O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia feito uma súplica para que sua riqueza aumentasse, e essa súplica foi aceita na presença de Allah. Mas ele não desenvolveu a menor avidez ou apego por essa riqueza. Durante a vida do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e mesmo depois de seu falecimento, ele gastou essa riqueza generosamente, até o fim da vida, no caminho de Allah e para o bem da humanidade.

Certa vez, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, decidiu realizar uma expedição. Ele disse: “Decidi enviar soldados para uma expedição; ajudai-me.” Abdur Rahman foi correndo para casa e voltou logo depois, dizendo: “Ó Mensageiro de Allah, tenho comigo estes quatro mil. Dei dois mil como um empréstimo benevolente ao meu Senhor e deixei os outros dois mil para minha família.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Que Allah conceda bênçãos a tudo o que doaste e a tudo o que deixaste.”

Certa vez, houve grande alvoroço em Medina: uma caravana comercial havia chegado da Síria trazendo uma enorme quantidade de cereais. Eram camelos, e somente camelos. A Mãe dos Crentes, Hazrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, perguntou: “De quem é esta caravana comercial?” As pessoas responderam: “De Abdur Rahman ibn Awf.” Ela disse: “Ouvi o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizer: ‘Vi Abdur Rahman inclinar-se uma vez sobre a Sirat e depois voltar a ficar ereto.’” Segundo outro relato, Hazrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Que Allah abençoe tudo o que lhe concedeu neste mundo, e que sua recompensa na Outra Vida seja ainda maior do que isso. Ouvi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizer: ‘Abdur Rahman entrará no Paraíso rastejando.’”

As palavras de Hazrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, chegaram aos ouvidos de Abdur Rahman. Ele disse: “Se Allah quiser, terei de entrar no Paraíso caminhando ereto.” Então, doou toda a sua mercadoria comercial como caridade. A carga estava sobre quinhentos camelos — segundo outra opinião, setecentos. Alguns dizem que ele doou também os camelos juntamente com a mercadoria. Hazrat Abdur Rahman era profundamente dedicado às Mães dos Crentes. Durante toda a vida, gastou generosamente para garantir seu bem-estar e conforto. Para elas, era uma pessoa fiel e digna de confiança. Certa vez, vendeu algumas terras por quarenta mil dinares e distribuiu todo o dinheiro obtido com a venda entre os Banu Zuhra (o clã paterno de Hazrat Amina, mãe do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os muçulmanos, os pobres e necessitados, os emigrantes e as esposas purificadas do Mensageiro. Quando a parte de Hazrat Aisha chegou até ela, perguntou: “Quem a enviou?” Responderam: “Abdur Rahman ibn Awf.” Ela disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Depois de mim, somente os pacientes demonstrarão compaixão por vós.’”

Ibn Hajar ‘Al–Isaba’ afirmou, em sua obra, citando Ja’far ibn Barqan, que Abdur Rahman libertou ao todo trinta mil escravos. Mesmo na época da ignorância, ele considerava proibido beber vinho.

Hazrat Abdur Rahman era um exemplo concreto de piedade e temor de Allah. Quando ia a Meca, nem sequer olhava para suas antigas casas. As pessoas perguntaram: “Por que o senhor sente tanta aversão por suas antigas casas?” Ele respondeu: “Eu as abandonei por causa de meu Allah.”

Certa vez, ele convidou seus amigos para uma refeição. Foram trazidos alimentos muito bons. Ao vê-los, começou a chorar. As pessoas perguntaram: “O que aconteceu?” Ele respondeu: “O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu. Em sua própria casa, nem sequer conseguia comer pão de cevada até se saciar.”

Certo dia, ele estava jejuando. Depois do iftar, olhando para a comida colocada diante dele, disse: “Mus‘ab ibn Umair era uma pessoa melhor do que eu. Quando ele foi martirizado, só foi encontrado para ele um pequeno pedaço de tecido para a mortalha. Quando com ele se cobria a cabeça, os pés ficavam descobertos; e quando se cobriam os pés, a cabeça ficava descoberta. Depois, Allah, o Altíssimo, concedeu-nos esta abundância mundana. Temo que nossa recompensa já nos esteja sendo concedida neste mundo.” Então, começou a chorar convulsivamente.

Umar comentou a respeito dele: “Abdur Rahman é um dos líderes dos muçulmanos.” Ao narrar um acontecimento, Ali transmitiu do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Abdur Rahman é uma pessoa digna de confiança nos céus e na Terra.”

Abdur Rahman narrou hadiths diretamente do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele. Dele narraram seus filhos, como Ibrahim, Humayd, Umar, Mus‘ab e Abu Salama; seu neto Miswar; seu sobrinho materno Miswar ibn Makhrama; e os Companheiros Ibn Abbas, Ibn Umar, Zubayr, Jabir, Anas e Malik ibn Aws, entre outros, que Allah esteja satisfeito com eles. Sua maior distinção é ser um dos Ashara Mubashshara, os dez a quem foi prometido o Paraíso.

Sa’’d ibn Abi Waqq‌as ((que Allah esteja satisfeito com ele))

Seu nome era Abu Ishaq Sa‘d, e seu pai era Abu Waqqas Malik. Na história, ele é conhecido como Sa‘d ibn Abi Waqqas. Era descendente do ramo Banu Zuhra da tribo dos coraixitas. O nome de sua mãe era Hamna. Tanto seu pai quanto sua mãe pertenciam à tribo dos coraixitas. O pai de Sa‘d, Abu Waqqas, abraçou o Islã e alcançou a honra de ser Companheiro do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Quando ele estava em seu leito de morte, o Mensageiro foi visitá-lo. Sua mãe, Hamna, também abraçou o Islã. Contudo, ao ouvir inicialmente que seu filho Sa‘d havia abraçado o Islã, começou a fazer alvoroço e a lamentar-se, reunindo as pessoas ao seu redor. Atônito de indignação e tristeza ao ver o comportamento de sua mãe, Sa‘d foi sentar-se silenciosamente num canto da casa. Depois de algum tempo fazendo alvoroço e lamentando-se, sua mãe declarou claramente: “Enquanto Sa‘d não declarar que rejeita a missão de Muhammad, não comerei nada, não beberei nada e não sairei sequer da sombra para me proteger do sol. Allah também ordenou que se obedecesse à mãe. Se você não me ouvir, será considerado desobediente e não terá mais qualquer relação comigo.”

Sa‘d ficou profundamente angustiado. Compareceu à presença do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e relatou todo o acontecimento. Antes que recebesse uma resposta do Mensageiro, foi revelado o oitavo versículo da surata Al-Ankabut:

“Ordenei ao ser humano que trate bem seus pais. Porém, se eles te pressionarem para que associes a Mim aquilo sobre o qual não tens conhecimento algum, não lhes obedeças.”

Este versículo do Alcorão eliminou a inquietação mental de Hadrat Sa‘d. Sua mãe não colocou nada na boca durante três dias, não falou com ninguém e não saiu do sol para a sombra. Seu estado tornou-se extremamente lastimável. Repetidamente, ele foi até sua mãe e tentou convencê-la; mas ela continuava dizendo a mesma coisa: que ele deveria abandonar o Islã. Por fim, ele foi obrigado a dizer-lhe diretamente: ‘Mãe, mesmo que mil mães como a senhora insistissem que eu abandonasse o Islã, deixassem de comer e beber e sacrificassem suas vidas, ainda assim não me seria possível abandonar a verdadeira religião.’ Essas palavras de extrema verdade de Hadrat Sa‘d tocaram profundamente o coração de sua mãe. Finalmente, ela também aceitou o Islã. O Imame Muslim narrou um hadith relacionado a isso em sua obra Sahih, no capítulo “Al-Fada’il”.

O irmão de Hadrat Sa‘d, ‘Umair, aceitou o Islã poucos dias depois de o Mensageiro de Allah receber a missão profética. Ele foi um dos primeiros a aceitar o Islã. Ibn Khaldun, em seu ‘Tarikh’, menciona a aceitação do Islã por ‘Abdullah ibn Mas‘ud depois de ‘Umair.

Hadrat Abu Bakr era um amigo íntimo de Sa‘d. Foi graças ao convite de Abu Bakr que ele aceitou o Islã. O Imame Bukhari narrou, em sua obra Sahih, no capítulo “Al-Manaqib”, um hadith sobre a aceitação do Islã por Sa‘d. Sa‘d disse: “Depois de aceitar o Islã, vi a mim mesmo como o terceiro muçulmano.” Na realidade, ele aceitou o Islã assim que o Mensageiro de Allah recebeu a missão profética; porém, como muitos outros, não o declarou naquele momento. Isso também é confirmado pelo episódio de sua mãe e pela revelação do versículo da Surata al-‘Ankabut. Pois esse versículo foi revelado no quarto ano da missão profética. É provável que tenha sido nessa época que ele revelou à sua mãe que havia aceitado o Islã.

No terceiro ano da missão profética, ‘Amr ibn ‘Abasa, da tribo de Sulaym, foi secretamente até o Mensageiro de Allah e aceitou o Islã. Naquela época, a permissão para o convite público ainda não havia vindo de Allah. Depois de aceitar o Islã, ‘Amr estava realizando a oração em um canto de Shi‘b Abi Talib. Os coraixitas começaram a atirar pedras. Ao ver isso, Sa‘d avançou com dois ou três muçulmanos, e começou uma discussão e uma luta corporal com aqueles descrentes coraixitas. Hadrat Sa‘d golpeou violentamente um deles com seu chicote. O corpo do homem ficou coberto de sangue. Esse foi o primeiro caso, na história do Islã, em que o sangue de um politeísta foi derramado pelas mãos de um muçulmano.

Sa‘d ibn Abi Waqqas foi um dos quatro homens que emigraram para Medina depois da emigração de Hadrat Mus‘ab ibn ‘Umair e Ibn Umm Maktum de Meca para Medina. Um hadith foi narrado no Sahih Bukhari, com autoridade de Bara ibn ‘Azib. Ele disse: “Os primeiros a chegar até nós foram Mus‘ab ibn ‘Umair e Ibn Umm Maktum. Esses dois ensinavam o Alcorão aos habitantes de Medina. Depois chegaram Bilal, Sa‘d e ‘Ammar ibn Yasir. Ibn Sa‘d menciona, em sua obra ‘Tabaqat al- Kubra’ , citando al-Waqidi, que Sa‘d e seu irmão ‘Umair emigraram de Meca para Medina e ficaram hospedados com outro irmão deles, ‘Utba ibn Abi Waqqas. Alguns anos antes, ‘Utba havia matado um homem, fugido de Meca e buscado refúgio em Medina.”

O papel de Hadrat Sa‘d na jihad pelo caminho de Allah foi extremamente importante. Sua bravura e coragem levaram os inimigos do Islã a consequências muito graves. Ele foi o primeiro muçulmano a lançar uma flecha pelo caminho de Allah. Ele próprio costumava dizer:

– “Fui o primeiro árabe a disparar uma flecha por Allah.”

Por bastante tempo após a Hégira de Meca para Medina, a situação financeira dos muçulmanos muhajirun foi extremamente deplorável. Eles não tinham provisões alimentares, roupas para vestir nem meios definidos de subsistência. Sob a pressão dos muhajirun vindos de Meca, os alicerces do limitado sistema econômico de Medina foram abalados. Toda a sociedade muçulmana de Medina, tanto os ansar quanto os muhajirun, caiu em extrema penúria financeira. Em meio a tamanha pobreza, eles continuaram a propagar o Islã e a travar uma guerra após outra contra os kafirun. Sobre essa extrema pobreza, Hazrat Sa’d, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: «Participávamos das batalhas com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele; contudo, naquele tempo, não tínhamos nada para comer além de folhas de árvores. (Vivíamos comendo-as.) E nossas fezes eram como as fezes de camelos e cabras.» — (Bukhari e Muslim: Manāqib de Sa’‘d que Allah esteja satisfeito com ele.).)

No mês de Safar, um ano após a Hégira, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou um grupo de sessenta cavaleiros de camelo para patrulhar e observar os movimentos dos coraixitas. Hazrat Sa’d, que Allah esteja satisfeito com ele, também fazia parte desse grupo. Em certo momento, avistaram um grande contingente dos coraixitas sob a liderança de Ikrima ibn Abi Jahl. Contudo, ambos os lados evitaram o confronto. Entretanto, quando alguém do lado dos coraixitas soltou de repente um grito alto, Hazrat Sa’d lançou imediatamente uma flecha. Essa foi a primeira flecha lançada contra os kafirun na história do Islã.

No mês de Rabi al-Thani do segundo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saiu de Medina acompanhado de duzentos companheiros. O objetivo era observar os movimentos dos inimigos nos arredores de Medina e mostrar-lhes que os muçulmanos não estavam dormindo. Hazrat Sa’d, que Allah esteja satisfeito com ele, era o porta-estandarte dessa expedição. Dessa vez, também ocorreu um pequeno confronto com os coraixitas em um lugar chamado Buwat. Seis meses depois, ocorreu a Batalha de Badr.

Poucos dias antes da Batalha de Badr, Hazrat Sa’d, que Allah esteja satisfeito com ele, foi um dos três homens enviados pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para obter informações sobre a caravana dos coraixitas. Eles ficaram à espreita perto dos poços de Badr, capturaram dois homens do lado adversário e levaram-nos até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, obteve deles muitas informações sobre o lado inimigo.

Em Badr, Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) e seu irmão ‘Umair (que Allah esteja satisfeito com ele) lutaram com extrema coragem. Cada um deles matou vários kafirun e os enviou para o Inferno. Nessa batalha, o honorável ‘Umair (que Allah esteja satisfeito com ele) alcançou o martírio. Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) matou Sa’id ibn ‘As e entregou sua espada ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele manifestou ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o desejo de receber a espada. Em resposta, ele disse: “Esta espada não é nem tua nem minha.” Assim que Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) se levantou e se afastou alguns passos do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a surata Al-Anfal foi revelada. Então o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou-o e disse: “Leva a tua espada.”

A Batalha de Uhud ocorreu um ano depois de Badr. O honorável Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) também participou dessa batalha. Quando, devido ao erro de alguns soldados muçulmanos, a vitória certa se transformou em derrota, Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) foi um dos poucos soldados que, arriscando a própria vida, formaram um perímetro defensivo ao redor do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Imam Bukhari narrou esse acontecimento nas próprias palavras de Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele):

“No dia de Uhud, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) espalhou a sua aljava diante de mim e disse:

Atira as flechas! Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti.” Ibn Sa’d também relatou: “Aconteceu que uma das aljavas não tinha nenhuma flecha. Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, esta está vazia.’ Ele disse: ‘Atira-a também.’”

Um dos irmãos de Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele), ‘Umair, foi martirizado na Batalha de Badr. Na Batalha de Uhud, quando Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) lutava, arriscando a própria vida, para proteger o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) do violento ataque dos incrédulos, foi justamente então que o rosto do amado Profeta foi ferido e um de seus dentes foi quebrado pela pedrada lançada por seu outro irmão, o miserável ‘Utba. Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia com frequência: “Eu nunca desejei tão intensamente matar qualquer outro incrédulo como desejei matar ‘Utba. Mas, quando ouvi o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer que a ira de Allah cairia sobre aquele que havia ensanguentado o rosto do Mensageiro de Allah, meu desejo de matá-lo se extinguiu e a tranquilidade desceu sobre meu coração.”

Na Batalha de Uhud, ele testemunhou uma cena extraordinária. Ele disse: “No dia de Uhud, vi dois homens de uma brancura resplandecente, um à direita e outro à esquerda do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eles lutavam ferozmente contra os incrédulos. Nunca os vi antes nem depois daquele dia.”

A Batalha da Trincheira ocorreu dois anos depois de Uhud. Ele também participou dessa batalha e lançou uma flecha contra um hábil cavaleiro incrédulo, trespassando-lhe o olho de tal maneira que, ao ver aquilo, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) soltou uma gargalhada. Durante a Batalha da Trincheira, foi erguida uma tenda para o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) num vale do monte Sala. Numa noite fria, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dormia sozinho, envolto em seu manto. De repente, ouviu dentro da tenda o tilintar de armas. Perguntou: “Quem é?” Ouviu como resposta: “Sa’d, filho de Abi Waqqas.” “Por que veio?” Ele respondeu: “O Mensageiro de Allah é mais querido para mim do que mil vidas de Sa’d. Nesta noite escura e fria, temi por sua segurança. Por isso vim ficar de guarda.” O Profeta de Allah disse: “Sa’d! Eu estava acordado. Esperava que hoje algum servo virtuoso viesse proteger-me!”

No décimo ano da Hégira, Sa’d também acompanhou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) na Peregrinação de Despedida. Mas, antes da Peregrinação, ele adoeceu gravemente em Meca. De certo modo, perdeu a esperança de continuar vivo. Nessa época, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ia visitá-lo de tempos em tempos para saber de seu estado. Hazrat Sa’d contou: “Certo dia, depois de conversar comigo, ele colocou a mão sobre minha testa. Em seguida, passou a mão pelo meu rosto até o abdômen e suplicou: ‘Ó Allah, concede cura a Sa’d e completa a sua Hégira’ — isto é, faze-o morrer na própria Medina, destino de sua Hégira. Hazrat Sa’d dizia: ‘Ainda hoje sinto em meu coração aquele toque refrescante e a tranquilidade da mão do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).’ Depois de recuperar-se, ele viveu ainda quarenta e cinco anos.

O exército muçulmano, sob o comando de Hazrat Abu ‘Ubaida e al-Muthanna, derrotou o exército persa do Kisra e conquistou o Iraque. O Iraque estava agora sob o controle do exército muçulmano. Os familiares do Kisra, esquecendo todas as suas divergências, colocaram Yazdegerd no trono e, sob a liderança do general Rustam, reuniram um enorme exército para atacar novamente os muçulmanos. Hazrat Umar recebeu a notícia desses preparativos. Ele expressou o desejo de partir pessoalmente com um exército para ajudar al-Muthanna. Contudo, não tendo obtido a autorização do conselho da shura, enviou Sa’d conforme a decisão da shura e nomeou-o comandante supremo das forças conjuntas na frente iraniana. Hazrat Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou a Qadisiyya com seu exército, vindo de Medina. Antes de sua chegada, al-Muthanna havia falecido. Na planície de Qadisiyya, travou-se, sob o comando do general Sa’d, uma batalha decisiva e extremamente sangrenta entre os exércitos muçulmano e persa. Nessa batalha, o dispositivo defensivo do imenso exército persa foi despedaçado, e eles sofreram derrota após derrota.

A caminho de Madain, capital do Império Sassânida, o exército muçulmano havia tomado Bahrasir. Entre Bahrasir e Madain corria o rio Tigre, agitado e revolto por ondas impetuosas. Hazrat Sa’d soube que o xá Yazdegerd estava retirando todos os bens valiosos da capital, Madain. Hazrat Sa’d avançou rapidamente em direção a Madain à frente de seu exército. Ao chegar às margens do Tigre, viu que os iranianos já haviam destruído a ponte sobre o rio. Ali, às margens do Tigre, pronunciou um discurso histórico aos combatentes muçulmanos. O resumo do discurso é o seguinte:

“Ó servos de Allah, soldados da religião! Os governantes sassânidas acorrentaram os servos de Allah à escravidão e, enganando-os com mentiras e falsidades, obrigaram-nos a adorar o fogo e o sol. Acumularam para si os bens arduamente conquistados pelo suor do povo. Quando vocês chegaram como seus salvadores, eles fugiram e carregaram nas costas de cavalos e jumentos os bens dos pobres. Nós jamais lhes daremos tal oportunidade. Para que não pudéssemos tomar os tesouros carregados em seus animais, eles destruíram a ponte. Mas os iranianos não conhecem a nossa natureza. Eles não sabem que os que confiam em Allah e servem à humanidade não dependem de pontes nem de barcos. Em nome de Allah, o Misericordioso e Generosíssimo, vou conduzir meu cavalo para dentro do rio. Sigam-me. Atrás um do outro e lado a lado, em fileiras, atravessem o Tigre. Que Allah os ajude e proteja.”

Ao terminar o discurso, Hazrat Sa’d pronunciou “Bismillah” e conduziu seu cavalo para dentro do rio. Os demais combatentes muçulmanos também seguiram seu comandante. O rio estava revolto. Contudo, não houve a menor desordem nas fileiras dos soldados de Allah. Eles atravessaram o rio em formação e chegaram à outra margem. Os soldados iranianos observavam a cena de uma distância relativamente segura. Ficaram atônitos de espanto. Então, começaram a gritar despreocupadamente: “Estão vindo gigantes! Estão vindo monstros! Fujam, fujam!”

Com o ataque repentino dos mujahidin muçulmanos, o rei Yazdegerd abandonou Madā’in, deixando para trás incontáveis tesouros, e partiu em direção a Hulwān. Sa‘d (que Allah esteja satisfeito com ele) entrou no palácio branco e deserto. O ambiente era terrível. Cada aposento do palácio parecia um memorial de ensinamentos e admoestações. Dos lábios de Sa‘d (que Allah esteja satisfeito com ele) foram proferidos os versículos dasurata ad-Dukhān:

— Quantos jardins e fontes eles deixaram para trás, quantos campos de cultivo e magníficos palácios, e quantos bens de luxo que lhes davam prazer! Assim aconteceu, e fizemos outro povo herdar tudo isso.’ (Surata ad-Dukhān: 25––28))

Sa‘d (que Allah esteja satisfeito com ele) entrou no palácio branco e ofereceu oito rak‘at de Salat al-Fath. Em seguida, anunciou que naquele dia seria realizada a oração congregacional de sexta-feira naquele palácio real. Depois, mandou construir um púlpito e realizou a oração de sexta-feira. Essa foi a primeira oração congregacional de sexta-feira na Pérsia.

Após a conquista de Madā’in, o califa ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ordenou ao comandante Sa‘d que não perseguisse pessoalmente os iranianos, mas escolhesse outra pessoa e lhe confiasse essa tarefa. Então, por ordem do califa, dedicou-se à manutenção da paz e da ordem internas, à reconstrução da administração, à propagação e expansão do Islã e à educação e formação dos novos muçulmanos. Em Madā’in, que durante centenas de anos havia sido o centro dos adoradores do fogo e cujos ouvidos jamais haviam escutado o nome do Deus Único, Sa‘d (que Allah esteja satisfeito com ele) construiu, pela primeira vez, uma mesquita congregacional. Também construiu mesquitas em outras cidades do Irã. Ampliou a cidade de Kūfa para a habitação dos muçulmanos árabes. Ele foi também o fundador da cidade iraquiana de Basra.

O califa Umar nomeou Hazrat Sa’d governador de Kufa. Alguns dias depois, em consequência das queixas de alguns habitantes de Kufa contra ele, demitiu-o desse cargo. O palácio que Sa’d havia construído para si em Kufa foi incendiado por Muhammad ibn Maslama, que foi de Medina a Kufa por ordem de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). (Majmu’’ Fatawa–Ibn Taymiyya, volume 35 p. 40)

O homem de Kufa chamado Usama ibn Qatada, que havia jurado e dado falso testemunho diante do califa Umar contra Hazrat Sa’d, recebeu dele uma súplica contra si; Sa’d pediu a Allah três coisas para ele: que Allah lhe concedesse uma vida longa, o afligisse com os golpes da pobreza e fizesse de sua pessoa uma presa da fitna. Os historiadores disseram que essa súplica dele se confirmou literalmente. Não há nisso nada de surpreendente, pois ele era um “Mujtazabud Da’wah”. O próprio Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) suplicou por ele: “Ó Allah, aceita a súplica de Sa’d quando ele suplicar.”

Não é correto que o califa ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, tenha acreditado que as acusações feitas contra Sa‘d eram verdadeiras. Por isso, ele disse: “Não demiti Sa‘d por considerá-lo incapaz de administrar o Estado, nem por falta de confiança nele.” (Bukhari: Livro dos Méritos) É prova de que Sa‘d continuou sendo digno da confiança do califa ‘Umar até os últimos momentos antes de sua morte o fato de ‘Umar tê-lo incluído no conselho de seis membros que constituiu para escolher o califa seguinte. Suas últimas palavras sobre Sa‘d foram: “Se Sa‘d receber a responsabilidade do califado, ele é digno dela. Caso contrário, que aquele que se tornar califa busque sua ajuda.” (Bukhari: Livro dos Méritos e Al-–Isabah). O califa ‘Uthman nomeou novamente Sa‘d governador de Kufa logo no primeiro ano de seu califado. Porém, depois de alguns dias, surgiu uma divergência entre Sa‘d e ‘Abdullah ibn Mas‘ud, o tesoureiro de Kufa, sobre determinado assunto, e o califa retirou Sa‘d do cargo.

Os agitadores ansaritas de Ibn Saba entraram em Medina com o objetivo de cercar o califa ‘Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele. Durante o sermão da oração de sexta-feira na Mesquita do Profeta, o califa censurou severamente os agitadores. Eles também o feriram atirando pedras. Nesse momento, Sa‘d foi o primeiro a avançar para enfrentá-los. Em seguida, os demais Companheiros levantaram-se juntos e os expulsaram.

‘Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, foi martirizado pelas mãos dos rebeldes. Sa‘d encontrava-se então em Medina. Os habitantes de Medina escolheram ‘Ali como califa e prestaram-lhe o juramento de fidelidade. Quando foram à casa de Sa‘d para que ele também prestasse o juramento de fidelidade a ‘Ali, ele fechou a porta diante deles e disse: “Enquanto todas as pessoas não tiverem prestado o juramento, eu não o farei. No entanto, não há perigo algum da minha parte.”

Não é possível discutir, neste breve espaço, o doloroso capítulo que se iniciou na história do Islã após o assassinato de ‘Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele. Contudo, para compreender o papel de Sa‘d nesse período, é necessário indicar ao menos que, naquela época, a comunidade islâmica se dividiu em três grupos. Um grupo apoiava ‘Ali, outro era contra ele e um terceiro permanecia neutro. Assim como havia ilustres Companheiros nos dois grupos — o que apoiava ‘Ali e o que se opunha a ele —, também havia ilustres Companheiros no grupo neutro. Eles não consideravam permitido desembainhar a espada a favor ou contra qualquer muçulmano. Por isso, vemos que Sa‘d não se juntou a nenhum dos lados na Batalha do Camelo ou na de Siffin; naquela época, permanecia em sua própria casa, em Medina.

Em suma, após o martírio de ‘Uthman, ele adotou uma vida de reclusão. Certa vez, ao ver seu filho ‘Umar chegar ao estábulo de seus camelos, disse: “Que Allah me proteja do mal deste cavaleiro.” Então ‘Umar aproximou-se do pai e disse: “Você passa seu tempo entre camelos e cabras, enquanto as pessoas estão envolvidas em disputas pelo governo.” Sa‘d bateu com a mão no peito do filho e disse: “Cale-se!” Eu ouvi o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer: “Allah ama aquele que vive em reclusão, o temente a Allah e aquele que, ao tomar a decisão correta, não se importa com a ira ou o desagrado das pessoas.”

Sa‘d prestou o juramento de fidelidade a ‘Ali e continuou considerando ímpios os kharijitas que haviam se separado de seu grupo. Após o martírio de ‘Uthman, seu filho ‘Umar foi até ele e disse: “Agora, para administrar o califado, a comunidade muçulmana precisa de um homem sábio. Em nossa opinião, você é a pessoa adequada para isso.” Mal terminou de dizer essas palavras, Sa‘d exclamou: “Basta, já chega. Não precisa mais me encorajar.”

Hazrat Sa’d faleceu após adoecer durante alguns dias no vale de Aqeeq, a dez milhas de Medina. Há divergências entre os biógrafos quanto ao ano de sua morte. Contudo, é amplamente divulgado que ele faleceu no ano 55 da Hégira, aos 85 anos de idade. Ibn Hajar apoiou essa opinião em sua obra ‘Tahzib’. Depois do banho ritual e do amortalhamento, o corpo foi levado para Medina. Marwan, o governador de Medina naquela época, conduziu a oração fúnebre. Por meio de vários relatos de Sahih Muslim, conhecem-se em detalhes os acontecimentos relacionados à sua oração fúnebre.

Após o falecimento de Hazrat Sa’d, a Mãe dos Crentes, Hazrat A’isha, e as demais Esposas Purificadas do Profeta enviaram uma mensagem pedindo que seu corpo fosse levado à mesquita, para que pudessem participar da oração fúnebre. Contudo, as pessoas ficaram em dúvida se o corpo poderia ser levado à mesquita. Ao tomar conhecimento disso, Hazrat A’isha disse: ‘Vocês esquecem tão depressa? O Mensageiro de Deus realizou nesta mesma mesquita a oração fúnebre de Suhail ibn Bayda.’ Então, o corpo foi levado para perto dos aposentos das Mães dos Crentes, e elas realizaram a oração.

No momento de sua morte, Hazrat Sa’d era possuidor de muitas riquezas. Apesar disso, pediu uma jubbah de lã muito antiga e disse: ‘É com esta que vocês me amortalharão. Vestindo esta jubbah, lutei contra os incrédulos na batalha de Badr. Meu desejo é apresentar-me diante de Allah levando-a comigo.’

Mus’ab, filho de Hazrat Sa’d, disse: ‘Nos últimos momentos de meu pai, sua cabeça estava sobre meu colo. Ao ver seu estado agonizante, meus olhos se encheram de lágrimas. Ele olhou para mim e perguntou: “Filho, por que você está chorando?” Respondi: “Por vê-lo nesse estado.” Ele disse: “Não chore por mim. Allah jamais me castigará; sou um habitante do Paraíso. Allah recompensará os crentes por suas boas ações e, em razão das boas ações dos incrédulos, aliviará o castigo deles.”’(A Vida dos Companheiros– 3/54)

A posição e a importância de Hazrat Sa’d eram muito elevadas perante o Mensageiro de Allah, os Califas Bem-Guiados e os demais Companheiros. Muitos hadiths mostram que eles atribuíam grande importância à sua opinião. Certa vez, Sa’d narrou um hadith sobre passar as mãos úmidas sobre as meias. Hazrat Abdullah ibn Umar quis verificar a autenticidade desse hadith com seu pai, Hazrat Umar al-Faruq. Ele perguntou: ‘Você ouviu esse hadith de Sa’d ibn Abi Waqqas?’ Ele respondeu: ‘Sim.’ Umar disse: ‘Sim. Quando Sa’d narrar algum hadith para vocês, não perguntem sobre ele a mais ninguém.’

Ibn Ishaq narra: ‘Entre os Companheiros do Mensageiro de Allah, quatro eram os mais firmes: Umar, Ali, Zubair e Sa’d, que Allah esteja satisfeito com eles.’

Durante a vida do Mensageiro de Allah, Sa’d fez a chamada para a oração três vezes na ausência de Hazrat Bilal. O Mensageiro de Allah lhe havia ordenado: ‘Se você não vir Bilal comigo, fará a chamada para a oração.’(A Vida dos Companheiros 3/116)

Hazrat Sa’d narrou muitos hadiths do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. E, a partir dele, seus filhos e filhas, como Ibrahim, Amir, Mus’ab, Muhammad e Aisha; companheiros ilustres, como Aisha, Ibn Abbas, Ibn Umar e Jabir, que Allah esteja satisfeito com eles; e tabi’un eminentes, como Said ibn al-Musayyib, Abu Usman an-Nahdi, Qais ibn Abi Hazim, Alqama, Ahnaf e outros, narraram hadiths. (Al–Isaba 3/33)

Hazrat Sa’d também possuía talento poético. Algumas de suas poesias foram compiladas em fontes antigas. Ibn Hajar citou alguns versos em sua obra ‘Al–Isaba’.

A maior distinção de Hazrat Sa’d é que ele foi um dos dez al-Mubashshara, isto é, aqueles que receberam, ainda em vida, as boas-novas do Paraíso; e foi o último membro desse grupo a deixar este mundo.

Abu Ubaida Ibnul Jarr‌ah (RA)

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Liku lli ummatin aminun, wa aminu hadhihil ummah Abu Ubaida — toda nação tem uma pessoa digna de confiança, e a pessoa mais confiável desta comunidade muçulmana é Abu Ubaida.»

Ele tinha o rosto radiante, tez clara, corpo esbelto e estatura elevada. Quem quer que o visse sentia prazer aos olhos; ao encontrá-lo, surgiam no coração reverência e amor, e nele se instalava uma sensação de confiança. Era extremamente inteligente, muito humilde e de natureza tímida. Contudo, em qualquer momento de crise, a firmeza de caráter de um leão manifestava-se nele. O brilho e a agudeza de seu caráter eram como o fio de uma espada. Nas palavras do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ele era o «amin» da comunidade de Muhammad — a pessoa digna de confiança.

Seu nome completo era Amir ibn Abdullah ibn al-Jarrah al-Fihri al-Qurashi. Contudo, todos o conheciam simplesmente como Abu Ubayda. Por meio de seu quinto antepassado, Fihr, sua linhagem se unia à linhagem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Sua mãe também era filha do clã de Fihr. Segundo os especialistas em Sira, ele abraçou o Islam.

Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) comentou: “Entre os coraixitas, havia três homens superiores a todos os demais em beleza, caráter e modéstia permanente. Quando lhes dissesses algo, eles não te diriam uma mentira; e, quando lhes dissesses algo, eles não te considerariam um mentiroso. Eram Abu Bakr Siddiq, Uthman ibn Affan e Abu Ubayda ibn al-Jarrah.”

Abu Ubayda foi um dos que aceitaram o Islam logo no início da sua propagação. Ele abraçou o Islam no dia seguinte à conversão de Abu Bakr. Foi pelas mãos de Abu Bakr que declarou sua fé islâmica. Depois, acompanhado de Abd al-Rahman ibn Awf, Uthman ibn Mazun, al-Arqam ibn Abi al-Arqam e dele próprio, apresentou-se diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ali, todos declararam o Islam conjuntamente. Assim, eles foram os primeiros alicerces do grandioso edifício islâmico.

Abu Ubayda esteve presente desde o início até o fim das amargas experiências dos muçulmanos em Meca. Em cada situação, permanecendo firme, foi aprovado na prova suprema da fé em Allah e no Mensageiro. Exasperado pela perseguição dos coraixitas, migrou duas vezes para a Abissínia. Depois, após a Hégira do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), também migrou para Medina. Em Medina, foi estabelecida entre ele e Sa’d ibn Mu’adh uma “mu’akhāt religiosa”, ou fraternidade na religião. Porém, no dia da batalha de Badr, a severidade da provação de Abu Ubayda ultrapassou toda concepção e imaginação. No campo de batalha, atacava os incrédulos com tal destemor que parecia completamente indiferente à morte. Os politeístas ficaram aterrorizados com seus ataques, e seus cavaleiros, tomados pelo medo de perder a vida, fugiam desnorteados em todas as direções. Entretanto, um homem do lado inimigo continuava a voltar repetidamente para se colocar diante dele. E ele também continuava a afastar-se de sua frente, como se estivesse evitando encontrá-lo. O homem entrou no meio da multidão. Abu Ubayda continuou a evitá-lo também ali. Por fim, ele veio colocar-se como uma barreira entre o grupo inimigo e Abu Ubayda. Quando a paciência deste se esgotou, com um só golpe de sua espada separou a cabeça do homem de seu corpo. O homem rolou pelo chão.

Quem era aquele homem? Não era outro senão Abdullah ibn al-Jarrah, pai de Abu Ubayda. Na realidade, Abu Ubayda não matou seu pai; matou a idolatria sob a forma de seu pai. Depois desse acontecimento, Allah, o Altíssimo, revelou o seguinte versículo a respeito de Abu Ubayda e de seu pai.

“Jamais encontrarás pessoas que creem em Allah e no Último Dia mantendo afeição por aqueles que se opõem a Allah e ao Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ainda que sejam seus pais, seus filhos, seus irmãos ou os membros de sua família. Esses são aqueles em cujos corações Allah firmou a fé e aos quais fortaleceu com um espírito vindo de Si. Ele os fará entrar em jardins sob os quais correm rios, onde permanecerão eternamente. Allah está satisfeito com eles, e eles estão satisfeitos com Ele. Esses são o partido de Allah. Sabei que o partido de Allah é o que prosperará.” (Al Mujadila– 22)

Não há motivo para se admirar de tal conduta de Abu Ubayda. Pois sua fé firme em Allah, sua devoção à religião e sua confiabilidade para com a comunidade de Muhammad haviam alcançado nele uma forma tão elevada que muitos homens ilustres chegavam a invejá-lo ao vê-la. Muhammad ibn Ja’far relata: “Uma delegação de cristãos apresentou-se diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: ‘Ó Abu al-Qasim! Envia conosco alguém escolhido por ti entre teus companheiros. Ele decidirá uma questão de bens sobre a qual divergimos. Vossa comunidade muçulmana é agradável e aceitável para todos nós.’ Ao ouvir isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Voltai à noite. Enviarei convosco um homem firme e digno de confiança.’ Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Naquele dia, cheguei cedo à mesquita para realizar a oração do meio-dia. Nunca, como naquele dia, desejei tanto receber uma incumbência de liderança. A única razão era que eu pudesse ser aquele a quem se destinasse esse elogio do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).”

Depois que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) terminou a oração do meio-dia conosco, começou a olhar para a direita e para a esquerda. Eu também comecei a esticar um pouco o pescoço para entrar em seu campo de visão. Mas, enquanto percorria o olhar, ele acabou vendo Abu Ubayda ibn al-Jarrah. Chamando-o, disse: ‘Vai com eles e decide a questão sobre a qual divergem com base na verdade e na justiça.’ Então pensei comigo mesmo: Abu Ubayda havia conquistado essa honra.

Abu Ubaida não era apenas um homem digno de confiança; ele também reunia sempre todas as suas forças para cumprir esse dever de confiança. Isso se manifestava em diversos aspectos.

Pouco antes da Batalha de Badr, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou um grupo de Companheiros para acompanhar os movimentos da caravana dos coraixitas. Ele nomeou Abu Ubaida como seu comandante. Como provisão, foram-lhes dadas algumas tâmaras. Todos os dias, Abu Ubaida dava apenas uma tâmara a cada um de seus companheiros. Eles passavam o dia inteiro chupando aquela tâmara e bebendo água, como crianças mamam no seio de suas mães. Assim, do amanhecer ao anoitecer, recebiam apenas uma tâmara. Eles passavam o dia inteiro chupando aquela tâmara e bebendo água, como crianças mamam no seio de suas mães. Desse modo, apenas uma tâmara era suficiente para eles do amanhecer ao anoitecer. Em alguns relatos, o episódio é descrito da seguinte maneira: no mês de Rajab do oitavo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou uma tropa, sob o comando de Abu Ubaida, à região costeira para observar os movimentos dos coraixitas. Eles não tinham consigo nenhuma provisão além de algumas tâmaras. A ração diária de cada soldado era de apenas uma tâmara. Eles passaram vários dias alimentando-se somente daquela tâmara. Por fim, Allah, o Altíssimo, removeu aquela dificuldade. À beira-mar, encontraram um peixe de tamanho enorme e, sustentando-se nele, retornaram a Medina. Talvez esses tenham sido dois episódios distintos.

Quando os muçulmanos foram derrotados na Batalha de Uhud e os politeístas começaram a gritar bem alto: “Onde está Muhammad? Onde está Muhammad…?”, Abu Ubaida estava entre os dez homens que protegeram o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) das flechas dos politeístas, oferecendo o próprio peito. Ao fim da batalha, constatou-se que um dente do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia sido quebrado, sua testa estava coberta de sangue e duas argolas da armadura haviam penetrado em sua face. Abu Bakr as-Siddiq aproximou-se apressadamente para retirar as duas argolas. Abu Ubaida disse-lhe: “Pelo juramento de Allah! Deixe-me fazê-lo.” Ele então se afastou. Abu Ubaida temeu que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sentisse dor se ele retirasse as duas argolas com a mão. Por isso, segurou firmemente uma delas com os dentes e a arrancou primeiro. Porém, um de seus próprios dentes também se partiu. Então Abu Bakr comentou: “Abu Ubaida é o melhor dos homens com dentes quebrados.” Ele também participou das expedições de Khandaq e de Banu Qurayza. Assinou como testemunha o histórico tratado de Hudaybiyyah. Na expedição de Khaybar, demonstrou o auge da coragem e do heroísmo. Na expedição de Dhat as-Salasil, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Abu Ubaida para trás, com duzentos soldados, a fim de auxiliar o exército de Amr ibn al-As. Eles foram vitoriosos. Abu Ubaida participou de todas as ocasiões, incluindo a conquista de Meca e a expedição de Ta’if. Também acompanhou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) durante a Peregrinação de Despedida.

Depois de aceitar o Islam, Abu Ubaida seguiu constantemente o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em todos os aspectos, como uma sombra, até o último dia de sua vida.

Na Saqifa de Banu Sa’ida, ocorria uma acalorada discussão sobre a escolha do califa. Abu Ubaida fez um importante discurso dirigido aos Ansar. Advertindo-os, disse: “Ó comunidade dos Ansar! Fostes os primeiros a ajudar; não sejais hoje os primeiros a criar a divisão.” Em certo momento, Abu Bakr disse a Abu Ubaida: “Estenda a mão, para que eu lhe preste o juramento de lealdade.” Ouvi o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: “Cada nação tem um homem digno de confiança, e tu és o homem digno de confiança desta nação.” Em resposta, Abu Ubaida disse: “Não posso estender a mão diante de alguém a quem o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que conduzisse nossa oração e que a conduziu até sua morte.” Depois disso, o juramento de lealdade foi prestado a Abu Bakr. Após Abu Bakr tornar-se califa, Abu Ubaida desempenhou o papel de seu melhor conselheiro e auxiliar nas questões da verdade, da justiça e do bem. Depois de Abu Bakr, Umar assumiu a responsabilidade do califado. Abu Ubaida também aceitou obedecer-lhe.

Depois que Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, assumiu a responsabilidade do califado, decidiu empreender uma campanha na Síria no ano 13 da Hégira. Ordenou a Abu Ubaida que marchasse para Homs, a Yazid ibn Abu Sufyan para Damasco, a Shurahbil para a Jordânia e a Amr ibn al-As para a Palestina. Nomeou Abu Ubaida comandante supremo do exército conjunto. Damasco, Homs, Latakia e várias outras cidades foram conquistadas pelas mãos de Abu Ubaida. Foi ele quem conduziu a terrível Batalha de Yarmuk. Atendendo ao chamado de Amr ibn al-As, participou da conquista de Bayt al-Maqdis. Quando os habitantes de Bayt al-Maqdis manifestaram o desejo de concluir um acordo de paz com o próprio califa Umar, Abu Ubaida escreveu ao califa informando-o disso. Quando o califa chegou a Jabia para assinar o tratado, Abu Ubaida foi recebê-lo. No ano 17 da Hégira, o califa Umar destituiu Khalid, a Espada de Allah, do cargo de comandante e governador de Damasco e nomeou Abu Ubaida em seu lugar. Khalid, a Espada de Allah, disse ao povo: “Deveis alegrar-vos, pois o Amin al-Umma é vosso governador.”

Sob a liderança de Abu Ubaida, o exército muçulmano obtinha uma vitória após outra na Síria e avançava na conquista de todo o território sírio. Nessa época, uma epidemia de peste surgiu na Síria, e milhares de pessoas eram vitimadas por ela todos os dias. O califa Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, foi pessoalmente da capital, Medina, até um lugar chamado Sargh para averiguar a situação. Juntamente com outros líderes, Abu Ubaida recebeu o califa ali. Ele consultou os veteranos dos Muhajirun e dos Ansar sobre o assunto. Todos foram unânimes em opinar que os membros do exército deveriam deixar o local. Umar convocou todos a retornarem com ele a Medina no dia seguinte. Abu Ubaida, profundamente crente no decreto divino, opôs-se. Perguntou ao califa: “A firraru min qadarillah — isto não seria fugir do decreto de Allah?” O califa, pesaroso, respondeu: “Que pena! Se outro além de você tivesse dito isso! Sim, estamos fugindo do decreto de Allah, mas em direção a outro decreto.” Abu Ubaida permaneceu ali com seu exército. O califa dos muçulmanos, Umar, chegou a Medina e enviou a Abu Ubaida uma carta por meio de um mensageiro. Nela, escreveu: “Tenho grande necessidade de você. Estou convocando-o com extrema urgência. Se esta carta chegar às suas mãos durante a noite, parta antes do amanhecer. E, se chegar durante o dia, parta antes do anoitecer.” Ao receber a carta do califa Umar, ele comentou: “Compreendi qual é a necessidade do Comandante dos Crentes. Ele quer salvar aquele que não está mais vivo.” Em seguida, escreveu: “Ó Comandante dos Crentes, compreendi a sua necessidade. Encontro-me entre os combatentes muçulmanos. Não desejo salvar a mim mesmo da calamidade que os atingiu. Não quero abandoná-los até que Allah decida definitivamente entre mim e eles. Depois que esta carta chegar às suas mãos, retire sua decisão e permita-me permanecer aqui.”

Ao ler essa carta, Umar chorou tão intensamente e com tanta aflição que as lágrimas escorreram copiosamente de seus olhos. Vendo-o chorar, as pessoas ao seu redor perguntaram-lhe: “Ó Comandante dos Crentes, Abu Ubaida morreu?” Ele respondeu: “Não. Porém, está às portas da morte.”

A suposição de Umar não se revelou falsa. Poucos dias depois, ele foi acometido pela peste. Instantes antes de morrer, dirigiu ao seu exército um breve discurso de exortação. Disse: “Se seguirdes o conselho que vos dou, permanecereis sempre no caminho do bem. Estabelecei a oração, jejuai no mês de Ramadã, pagai o zakat, cumpri o hajj e a umra, aconselhai-vos uns aos outros, dizei a verdade e a justiça aos vossos governantes e líderes, nada lhes oculteis e não vos deixeis levar pelos prazeres e riquezas deste mundo. Mesmo que uma pessoa viva mil anos, terá o mesmo destino que vedes hoje ser o meu.” Terminou o discurso saudando a todos. Em seguida, olhou para Mu‘adh ibn Jabal e disse: “Mu‘adh! Conduze a oração.” Logo depois, sua alma separou-se de seu corpo sagrado e partiu em direção ao Ser Supremo. Mu‘adh levantou-se e disse aos presentes: “Ó povo! Estais profundamente entristecidos pela morte deste homem. Por Deus! Não conheço ninguém cujo peito fosse mais repleto de bondade, cujo coração fosse mais puro, cujo amor pela vida futura fosse maior e que aconselhasse mais o povo do que este homem. Tende misericórdia dele, e Allah terá misericórdia de vós.” Esse foi um acontecimento do ano 18 da Hégira.

Depois, o povo se reuniu e retirou o corpo de Abu Ubayda. A oração fúnebre foi realizada sob a liderança de Mu‘adh ibn Jabal. Mu‘adh ibn Jabal, ‘Amr ibn al-‘As e Dahhak ibn Qays desceram à sepultura e colocaram seu corpo no chão. Depois de cobrirem a sepultura com terra, Mu‘adh o elogiou em um breve discurso, dizendo: “Abu Ubayda, que Allah tenha misericórdia de ti! Por Deus! Direi sobre ti apenas aquilo que sei, e não direi nada falso, pois temo o castigo de Allah. Pelo que sei, foste um dos que se lembravam muito de Allah e caminhavam humildemente pela terra. Foste também um daqueles que passavam a noite prostrados e em pé diante de seu Senhor, e que, ao gastar, não eram esbanjadores nem avarentos, mas adotavam um caminho intermediário. Por Deus! Pelo que sei, foste humilde e bondoso para com os órfãos e os necessitados. Foste um dos inimigos dos tiranos arrogantes.”

O temor de Allah, o seguimento da Sunnah, a piedade, a humildade, o espírito de igualdade, o afeto e a misericórdia eram características marcantes de seu caráter. Certo dia, um homem foi à casa de Abu Ubayda e o encontrou chorando convulsivamente. O homem perguntou: “O que aconteceu, Abu Ubayda? Por que choras tanto?” Ele respondeu: “Certa vez, enquanto o Mensageiro de Allah ﷺ falava sobre as futuras vitórias e riquezas dos muçulmanos, mencionou a Síria. Disse: ‘Abu Ubayda, se estiveres vivo naquela época, três servos serão suficientes para ti: um para ti, um para tua família e outro para te acompanhar em viagem. Da mesma forma, considerarás suficientes três montarias: uma para ti, uma para teu servo e outra para transportar teus pertences.’ Mas agora vejo minha casa cheia de servos e meus estábulos cheios de cavalos. Ai de mim! Como me apresentarei diante do Mensageiro de Allah ﷺ? O Mensageiro de Allah ﷺ disse: ‘A pessoa mais querida para mim será aquela que se encontrar comigo exatamente no estado em que a deixei.’”

Durante uma viagem do califa Umar à Síria, ele viu os oficiais usando roupas luxuosas. Ficou tão furioso que desceu do cavalo e, enquanto lhes atirava pedaços de pedra, disse: “Tão depressa adotastes os costumes dos não árabes!” Abu Ubayda, porém, encontrou-se com o califa como um árabe simples: vestia roupas árabes extremamente modestas, e até a rédea do camelo era uma corda comum. Quando o califa Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, foi à sua residência, encontrou ali sinais de um modo de vida ainda mais simples. Com exceção de uma espada, um escudo e uma liteira de camelo, não havia mais nada em sua casa. O califa disse: “Abu Ubayda, poderias ter providenciado as coisas de que necessitas.” Abu Ubayda respondeu: “Comandante dos Crentes, isto é suficiente para nós.”

Certa vez, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, enviou a Abu Ubayda, como presente, quatrocentos dinares e quatro mil dirrãs. Ele distribuiu todo o dinheiro entre os soldados. Não guardou sequer uma moeda para si. Ao ouvir isso, Umar comentou: “Louvado seja Allah! Também há pessoas assim no Islã.”

Ele era tão humilde que, apesar de ser comandante do exército, não se distinguia dos soldados comuns. Um desconhecido não conseguia reconhecê-lo como comandante. Certa vez, um enviado romano chegou e perguntou: “Quem é o vosso comandante?” Quando os soldados o indicaram, erguendo os dedos, o enviado ficou perplexo ao ver as roupas e a posição extremamente simples do comandante.

Sa‘id ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Sa‘id, e sua kunya, Abu al-A‘war. Seu pai era Zayd e sua mãe, Fatima bint Ba‘ja. Por meio de seu antepassado Ka‘b ibn Lu’ayy, sua linhagem se unia à linhagem do Mensageiro de Allah ﷺ.

O pai de Sa’id, Zaid, era um dos poucos afortunados de Meca na época da Jahiliyyah que se mantiveram afastados do shirk e da idolatria antes do advento do Islã, mantendo-se longe de todo tipo de pecado e obscenidade. Ele evitava até mesmo a carne dos animais abatidos pelas mãos dos idólatras. Certa vez, antes do início da missão profética, encontrou-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, no vale de Balda. Quando trouxeram comida diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele se recusou a comer. Quando lhe pediram que comesse, Zaid recusou novamente e disse-lhes: “Eu não como a carne de animais abatidos em nome dos vossos ídolos.”

Hazrat Asma, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Certa vez vi Zaid encostado à parede da Caaba, dizendo: “Ó povo dos coraixitas! Juro por Allah que, entre vós, ninguém segue a religião hanif além de mim.”

Na época da Jahiliyyah, era comum enterrar vivas as filhas. Quando Zaid ouvia que em algum lugar uma menina estava sendo morta ou enterrada, ia até seu responsável e assumia a responsabilidade por ela. Depois, quando ela crescia, levava-a ao pai e dizia: “Se quiseres, podes assumir agora a responsabilidade por ela; ou podes deixá-la sob minha responsabilidade.”

Os coraixitas estavam celebrando uma de suas festas. Zaid ibn Amr ibn Nufayl observava tudo atentamente, de pé, um pouco afastado da multidão. Ele via os homens usando turbantes de seda caros na cabeça e envolvendo o corpo com valiosos mantos iemenitas. As mulheres e as crianças, vestidas com roupas preciosas e adornadas, conduziam os animais destinados ao sacrifício diante de seus ídolos.

Ele ficou de pé, encostado à parede da Caaba. Então disse:

“Ó membros da tribo dos coraixitas! Allah, o Altíssimo, criou estas cabras. Foi Ele quem lhes fez beber a água da chuva que envia do céu; foi Ele quem criou a relva na terra para alimentá-las. E vós as sacrificais em nome de outros? Vejo-vos como um povo ignorante.”

Ao ouvir isso, seu tio, Al-Khattab, pai de Umar ibn al-Khattab, levantou-se, deu-lhe uma bofetada no rosto e disse:

“Que a ruína caia sobre ti! Há muito tempo suportamos e toleramos ouvir de tua boca esse tipo de tolice. Agora ultrapassaste os limites da nossa paciência.” Depois, incitou os tolos de sua tribo a molestá-lo e atormentá-lo. Por fim, Zaid foi obrigado a deixar Meca e refugiar-se no monte Hira. Mesmo assim, Al-Khattab não desistiu. Designou um grupo de jovens coraixitas para vigiar constantemente, a fim de impedir que Zaid entrasse em Meca, mesmo secretamente.

Depois disso, Zaid ibn Amr reuniu-se secretamente, sem o conhecimento dos coraixitas, com Waraqa ibn Nawfal, Abdullah ibn Jahsh, Uthman ibn al-Harith e Umaima bint Abd al-Muttalib, tia de Muhammad ibn Abdullah. Ele conversou com eles sobre o extremo desvio em que os árabes estavam mergulhados. Zaid disse-lhes:

“Juro por Deus que saibam com certeza: este vosso povo não se apoia em fundamento algum. Eles distorceram a religião de Abraão e continuam a contrariá-la. Se desejam a salvação, busquem uma religião para si mesmos.”

Então, aqueles quatro homens foram aos líderes religiosos dos judeus, dos cristãos e de outras religiões para conhecer a religião de Abraão, isto é, a religião hanif. Waraqa ibn Nawfal adotou o cristianismo. Abdullah ibn Jahsh e Uthman ibn al-Harith, porém, não conseguiram chegar a nenhuma decisão. Já na vida de Zaid ibn Amr ibn Nufayl ocorreu um acontecimento extraordinário. Apresentamos esse acontecimento com suas próprias palavras.

“Informei-me sobre o judaísmo e o cristianismo, mas, não encontrando nessas religiões nada que proporcionasse verdadeira paz de espírito, recusei-me a adotá-las. Em certo momento, cheguei à Síria. Eu já tinha ouvido dizer que ali vivia um monge, um homem que havia renunciado ao mundo e era versado nos Livros Celestiais. Fui até ele e contei-lhe a minha história. Depois de me ouvir, ele disse: ‘Ó irmão de Meca, parece-me que você está procurando a religião de Abraão.’”

Respondi: “Sim, é isso que estou procurando.”

Ele disse: “A religião que você procura não pode ser encontrada nos dias de hoje. Contudo, a verdade está na sua cidade. Deus enviará, dentre o seu povo, um homem que restaurará a religião de Abraão. Se você o encontrar, siga-o.”

Zaid voltou a iniciar a viagem em direção a Meca. Apressou o passo para encontrar o Profeta prometido.

Quando ele ainda estava a certa distância de Meca, Deus enviou o Profeta Muhammad com orientação e a verdadeira religião. Mas Zaid não chegou a encontrá-lo, pois, antes de alcançar Meca, um grupo de bandidos beduínos lançou-se contra ele e o matou.

Assim, ele foi privado da bênção de contemplar o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Antes de dar o último suspiro, olhou para o céu e suplicou:

“Ó Allah, embora me tenhas privado deste bem, não prives dele meu filho Sa’id.”

Allah, o Altíssimo, aceitou a súplica de Zaid. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe dê paz) começou a convocar as pessoas ao Islã. Sa’id foi um dos primeiros a crer em Allah e em Seu Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Não há motivo para se admirar disso, pois Sa’id foi criado numa casa que, com repulsa, protestava contra e rejeitava todas as superstições e desvios dos coraixitas. Seu pai era um homem que passara toda a sua vida em busca da verdade. Sa’id não abraçou o Islã sozinho; juntamente com ele, também abraçou o Islã sua esposa, Fátima, filha de al-Khattab, irmã de Umar ibn al-Khattab.

Por ter abraçado o Islã, esse jovem da tribo dos coraixitas também foi vítima de perseguições e torturas, como os demais. Longe de conseguirem fazê-lo renunciar ao Islã, os coraixitas, por meio daquele casal, acabaram trazendo para o Islã uma importante personalidade dos próprios coraixitas. Tratava-se de seu cunhado, o honorável Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele). Foi por meio deles que Allah, o Altíssimo, conduziu Umar ao Islã.

O honorável Sa’id dedicou todas as forças de sua juventude ao serviço do Islã. Quando abraçou o Islã, ainda não tinha completado vinte anos. Com exceção da batalha de Badr, participou de todas as outras batalhas com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Por estar na Síria, cumprindo uma importante missão por ordem do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), não pôde participar da batalha de Badr. Contudo, recebeu uma parte do espólio da batalha de Badr. Assim, embora não estivesse presente, foi membro do exército de Badr de forma indireta.

Ele participou ativamente, junto com o exército muçulmano, da conquista dos tronos de Kisra, da Pérsia, e do César de Roma. Em todas as batalhas travadas pelos muçulmanos contra eles, prestou uma contribuição notável. Foi na batalha de Yarmuk que demonstrou o auge de sua bravura. Ele mesmo narra:

“Na batalha de Yarmuk, éramos vinte e seis mil, ou aproximadamente isso. Por outro lado, o número de soldados do exército romano era de cento e vinte mil. Eles avançaram em nossa direção com passos firmes, imóveis como montanhas. À frente deles havia um enorme grupo de bispos e sacerdotes. Em suas mãos, carregavam estandartes adornados com cruzes; em seus lábios, entoavam cânticos de oração. Atrás deles, o vasto exército acompanhava sua melodia. Naquele momento, suas vozes unidas ressoavam e reverberavam como o rugido das nuvens.”

Ao ver aquela cena terrível e o número avassalador de seus inimigos, o exército muçulmano ficou atônito de espanto. Seus corações também estremeceram um pouco de medo. Então, o comandante Abu Ubaida levantou-se e proferiu um discurso, encorajando os soldados muçulmanos ao jihad. Ele disse: “Ó servos de Allah! Ajudem Allah, e Ele também os ajudará. Ele firmará os seus pés.

Ó servos de Allah! Tenham paciência. A paciência é o caminho para libertar-se da incredulidade, o caminho para alcançar a satisfação do Senhor e uma proteção contra a humilhação e a vergonha. Afiem suas flechas e lanças e preparem-se com os escudos nas mãos. Abstenham-se, em seus corações, de todo pensamento além da lembrança de Allah. Quando chegar o momento, eu lhes darei instruções, se Allah quiser.”

Said (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

Então, um homem saiu do meio do exército muçulmano e disse a Abu Ubayda:

“Decidi que, neste momento, sacrificarei minha vida. Você tem alguma mensagem que deva ser entregue ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?” Abu Ubayda respondeu: “Sim, tenho. Transmita-lhe as minhas saudações e as dos muçulmanos e diga: Ó Mensageiro de Allah! Encontramos verdadeira a promessa que nosso Senhor nos fez.”

Said (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

“Assim que ouvi suas palavras, vi-o desembainhar a espada e avançar para combater os inimigos de Allah. Então, rapidamente saltei ao chão, avancei apoiando-me nos joelhos e preparei-me com a lança na mão. Golpeei o primeiro cavaleiro inimigo que avançou em nossa direção. Depois, lancei-me com extrema coragem sobre o exército inimigo. Allah, o Altíssimo, removeu completamente do meu coração todo tipo de medo e temor. Em seguida, o exército muçulmano lançou um ataque total contra o exército romano e o derrotou.”

Said ibn Zayd também participou da campanha de Damasco. Após a conquista de Damasco, Abu Ubayda o nomeou wali daquela região. Assim, ele se tornou o primeiro wali muçulmano da história de Damasco. Porém, devido ao seu intenso interesse pelo jihad, não conseguiu ficar satisfeito com esse cargo. Ele escreveu a Abu Ubayda: “Vocês participarão do jihad, enquanto eu ficarei privado dele? Não sou capaz de fazer esse tipo de sacrifício e entrega.” Assim que a carta chegar, envie alguém para ocupar o meu lugar. Em breve estarei chegando até você. Abu Ubayda foi obrigado a nomear o honorável Yazid ibn Abu Sufyan como wali de Damasco, e o honorável Said retornou ao campo do jihad.

Durante a era omíada, ocorreu um acontecimento extraordinário envolvendo o honorável Said ibn Zayd. Durante muito tempo, os habitantes de Medina costumavam ouvir esse acontecimento uns dos outros.

O fato foi o seguinte: uma mulher chamada Arwa bint Uways começou a espalhar a difamação de que Sa’id ibn Zayd havia usurpado uma parte de sua terra e a incorporado à sua própria propriedade. Ela passou a repetir isso por toda parte. Por fim, levou o assunto a Marwan ibn al-Hakam, governador de Medina. Para investigar a questão, Marwan enviou algumas pessoas a Sa’id. Para Sa’id, o nobre Companheiro do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), aquilo era muito doloroso. Ele disse:

“Eles pensam que estou sendo injusto com ela. Como poderia ser injusto? Eu ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) dizer: ‘Quem usurpar injustamente um palmo de terra, no Dia da Ressurreição terá sete camadas da terra penduradas em seu pescoço.’ Ó Allah! Ela alegou que fui injusto com ela. Se ela estiver mentindo, faze com que fique cega, lança-a no poço pelo qual discutiu comigo e manifesta, em meu favor, uma luz que torne claro entre os muçulmanos que não fui injusto com ela.”’

Poucos dias depois desse acontecimento, o vale de Aqeeq foi inundado de uma maneira jamais vista antes. Como resultado, o marco oculto e contestado entre as duas terras tornou-se tão evidente que os muçulmanos, ao vê-lo, compreenderam que Sa’id era verdadeiro. Antes que se passasse um mês, a mulher ficou cega. Certo dia, nesse estado, enquanto caminhava por sua terra, caiu no poço em disputa e morreu.

Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

“Costumávamos ouvir as pessoas, quando amaldiçoavam alguém, dizer: ‘Que Allah te deixe cego, assim como deixou Arwa cega.’ Não há nada de tão surpreendente nesse acontecimento, pois o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

‘Afastai-vos da súplica do oprimido, pois entre essa súplica e Allah não há qualquer barreira.’ Se essa é a condição de todo o oprimido, então que há de tão surpreendente na aceitação da súplica de um oprimido como Sa’id ibn Zayd, um dos dez — os “Dez Agraciados com a Boa-Nova do Paraíso” — a quem foi dada a boa-nova do Paraíso?

Abu Nu’aym narrou, sob a autoridade de Birah ibn al-Harith: Al-Mughirah ibn Shu’bah estava sentado em uma grande mesquita. À sua direita e à sua esquerda estavam sentados alguns habitantes de Kufa. Nesse momento, chegou um homem chamado Sa’id ibn Zayd. Al-Mughirah cumprimentou-o e fez com que se sentasse na extremidade dos pés do divã. Então, um homem de Kufa apareceu e começou a insultar Ali ibn Abi Talib, dirigindo-se a Al-Mughirah. Este perguntou: “Al-Mughirah, a quem esse homem está insultando?” Responderam: “A Ali ibn Abi Talib.” Ele disse: “Ó Al-Mughirah!” Chamou-o assim três vezes. Depois disse: “Não quero ver os Companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) sendo insultados diante de você, sem que você proteste contra isso. Dou testemunho de que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: ‘Abu Bakr está no Paraíso, Umar está no Paraíso, Uthman está no Paraíso, Ali está no Paraíso, Talhah está no Paraíso, az-Zubayr está no Paraíso, Abdur-Rahman está no Paraíso e Sa’d ibn Malik está no Paraíso. E há ainda um nono homem que está no Paraíso; se quiserdes, posso dizer-vos também o seu nome.’ O narrador disse: As pessoas gritaram em uníssono, perguntando: “Ó Companheiro do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), quem é o nono?” Ele respondeu: “O nono sou eu.” Então jurou e disse: “Aquele que participou de uma única batalha com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), tendo seu rosto coberto de poeira junto ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), essa única ação é melhor do que todas as boas obras da vida de qualquer pessoa, ainda que ela viva tanto quanto Noé. ( (Vida dos Companheiros/ / 2ª– – 470 p.))

Ele era um dos Companheiros de elevada posição. Sa’id ibn Habib disse: “Para o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), Abu Bakr, Umar, Uthman, Ali, Sa’d, Sa’id, Talhah, az-Zubayr e Abdur-Rahman ibn Awf tinham a mesma posição e função. No campo de batalha, ficavam à frente do Mensageiro de Allah, e na oração em congregação, ficavam atrás dele.”

Entre os Companheiros, Ibn Umar, Amr ibn Hurays, Abu at-Tufayl e Abu Uthman an-Nahdi; e entre os célebres tabi’un, Sa’id ibn al-Musayyib, Qays ibn Abi Hazim e outros também narraram hadiths de Sa’id ibn Zayd.

Al-Waqidi diz: ele faleceu no vale de Aqiq e foi sepultado em Medina. O ano de sua morte foi 50 da Hégira; segundo outra opinião, foi no ano 51 ou 52. Viveu mais de setenta anos. Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas realizou seu banho ritual e o envolveu na mortalha, enquanto Hazrat Abdullah ibn Umar dirigiu a oração fúnebre. Entretanto, segundo Haytham ibn Adi, ele faleceu em Kufa, e o célebre Companheiro Hazrat al-Mughira ibn Shu’ba dirigiu sua oração fúnebre.

Hamza ibn Abd al- Muttalib ((que Allah esteja satisfeito com ele))

Seu nome era Hamza; Abu Ya’la e Abu Ammara eram suas kunyas, e Asadullah era seu título. Ele era tio paterno do Mensageiro de Allah. A mãe de Hazrat Hamza, Hala bint Uhayb, era prima paterna de Amina, mãe do Mensageiro de Allah. Além disso, Hamza era irmão de leite do Mensageiro de Allah. Suwayba, a escrava de Abu Lahab, amamentou os dois. Ele era cerca de dois anos — segundo outra opinião, quatro anos — mais velho que o Mensageiro de Allah. Desde a infância, tinha grande interesse por manejar a espada, atirar com arco e lutar. Sentia uma atração ilimitada por viagens e caça. Dedicou uma grande parte de sua vida a essas atividades.

Durante bastante tempo, o convite ao tawhid era proclamado nas vielas de Meca. Contudo, pessoas de temperamento guerreiro como Hamza não davam muita atenção a esse convite.

Certo dia, ele voltava da caça. Ao se aproximar do monte Safa, uma escrava de Abdullah ibn Jud’an chamou-o e lhe contou a notícia. Disse: “Abu Ammara, ah, se o senhor tivesse chegado alguns instantes antes e visto a situação de seu sobrinho! Ele estava aconselhando as pessoas junto à Caaba. Abu Jahl o insultou severamente e o fez sofrer terrivelmente. Mas Muhammad voltou completamente indefeso, sem dar qualquer resposta.” Ao ouvir isso, seu sangue de soldado ferveu. Ele se dirigiu rapidamente à Caaba. Tinha o hábito de, ao voltar da caça, se encontrasse alguém, parar por algum tempo e trocar algumas palavras com essa pessoa. Mas naquele dia ficou enlouquecido pelo desejo de vingança. Sem dar a menor atenção a ninguém na estrada, foi diretamente à Caaba e desferiu uma forte pancada com o arco na cabeça de Abu Jahl. A cabeça de Abu Jahl foi cortada. Vendo que a situação se tornara perigosa, alguns homens dos Banu Makhzum correram em auxílio de Abu Jahl. Disseram: “Hamza, talvez você tenha apostatado.” Ele respondeu: “Quando a sua verdade se tornou evidente para mim, quem poderá me impedir de segui-la? Sim, testemunho que Muhammad é o Mensageiro de Allah. Tudo o que ele diz é verdade. Juro por Allah que jamais poderei voltar atrás. Se vocês são sinceros, tentem impedir-me.” Abu Jahl disse aos homens que haviam vindo em seu auxílio: “Deixem Abu Ammara. Juro por Allah que, poucos instantes atrás, insultei gravemente o sobrinho dele.”

Mais tarde, Hazrat Hamza disse: “Falei aquelas palavras levado pela ira; porém, comecei a ser consumido pelo remorso por ter abandonado a religião de meus antepassados e de minha tribo. Preso num turbilhão de dúvidas e incertezas, não consegui dormir a noite inteira. Fui à Caaba e supliquei humildemente a Allah que abrisse as portas do meu coração para a verdade e afastasse dele as dúvidas. Depois da súplica, meu coração encheu-se de firme convicção. Então fui à presença do Mensageiro de Allah e contei-lhe minha situação. Ele suplicou pela firmeza do meu coração.”

Este era o período de grande dificuldade dos muçulmanos, quando o Mensageiro de Allah, refugiado na casa de Arqam ibn Abi al-Arqam, pregava secretamente o Islam. Naquele tempo, os muçulmanos eram apenas um pequeno grupo de pessoas sem amparo. Nessas circunstâncias, a conversão repentina de Hazrat Hamza ao Islam mudou o rumo da situação. A hostilidade gratuita e a atitude imprudente dos incrédulos contra os crentes diminuíram consideravelmente, pois todos em Meca conheciam sua ousadia e bravura.

Certo dia, depois de Hazrat Hamza aceitar o Islã, Hazrat Umar foi até o Mensageiro de Allah para anunciar sua própria aceitação do Islã. Naquele momento, ele estava na casa de Hazrat Arqam, na companhia de alguns Companheiros. Hazrat Hamza também estava ali. Hazrat Umar estava armado. Ao vê-lo, todos os presentes ficaram alarmados. Mas Hazrat Hamza exclamou: “Deixem-no entrar. Se ele veio com boas intenções, também o trataremos bem. Caso contrário, ele será morto com a própria espada.” Assim que entrou, Hazrat Umar começou a recitar a kalima do tawhid. Então, o céu e a terra ressoaram com os brados de takbir dos muçulmanos presentes. Após a aceitação do Islã por esses dois grandes homens, o Islã tornou-se uma força irresistível. Os politeístas de Meca compreenderam que já não seria fácil sequer arranhar o corpo de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

Enquanto estava em Meca, o Mensageiro de Allah estabeleceu um vínculo de fraternidade entre Hamza e seu querido servo, Zaid ibn Haritha. Sua devoção e seu amor por Zaid tornaram-se tão profundos que, sempre que saía para algum lugar, deixava-lhe instruções sobre todos os assuntos.

No décimo terceiro ano da missão profética, Hazrat Hamza também migrou para Medina junto com muitos outros. Ali surgiu uma oportunidade prática para que ele manifestasse a força e a coragem concedidas por Allah.

No sétimo mês após a Hégira, o Mensageiro de Allah enviou uma pequena tropa de trinta Muhajirun em direção à costa marítima da região de Is. O objetivo era observar os movimentos dos coraixitas. Não havia nenhum Ansari nessa tropa. Ali, na costa, eles se depararam com uma força de trezentos cavaleiros de Meca, liderada por Abu Jahl. Eles estavam retornando da Síria. Porém, graças aos esforços de Majdi ibn Amr al-Juhani, foi possível evitar um confronto naquela ocasião. Majdi tinha um tratado de paz com ambas as partes. Antes da partida de Medina, o Mensageiro de Allah entregou o estandarte islâmico a Hazrat Hamza. Alguns historiadores, entre eles Ibn Abd al-Barr, consideram que esse foi o primeiro estandarte entregue pelo Mensageiro de Allah a um muçulmano. ((Sira de Ibn Hisham))

No mês de Safar do segundo ano da Hégira, o próprio Mensageiro de Allah liderou uma expedição com sessenta Companheiros armados pela rota comercial dos coraixitas, a expedição de Abwa. Também nessa expedição Hazrat Hamza foi o porta-estandarte, e o comando de toda a tropa estava em suas mãos. Como a caravana dos coraixitas passou antes que a tropa muçulmana chegasse, também nessa ocasião não ocorreu nenhum confronto. Do mesmo modo, na expedição de Ushayra, no segundo ano da Hégira, Hazrat Hamza teve a honra de portar o estandarte da tropa muçulmana.

No segundo ano da Hégira ocorreu a Batalha de Badr, o acontecimento mais importante da história do Islã. Ele participou dessa batalha. Depois que os dois lados se enfileiraram no campo de batalha, Utba, Shayba e Walid, do lado dos coraixitas, saíram das fileiras e desafiaram alguém do exército muçulmano para um combate individual. Três jovens Ansar, dentre os soldados da fé, aceitaram o desafio e avançaram. Mas Utba gritou: “Muhammad, envie homens à nossa altura. Não queremos lutar com esses homens inadequados.” O Mensageiro de Allah ordenou: “Hamza, Ali e Ubaida, levantem-se e avancem.” Eles apenas aguardavam a ordem. Esses três bravos foram até seus adversários, cada um portando sua lança e seu dardo. No primeiro ataque, Hazrat Hamza enviou Utba para Jahannam. Hazrat Ali também venceu seu adversário. Contudo, Abu Ubaida e Walid continuaram lutando corpo a corpo durante bastante tempo. Por fim, com a ajuda de Ali, Abu Ubaida partiu-o ao meio. Ao ver a situação desfavorável do lado inimigo, Tuayma ibn Adi avançou para ajudá-los. Com a ajuda de Hamza, Ali o derrubou com um único golpe de espada. Em seguida, o exército dos politeístas lançou um ataque total. Os mujahidin muçulmanos também se lançaram ao combate. Começou uma batalha feroz. Nessa batalha, Hazrat Hamza havia colocado uma pluma de avestruz no turbante. Por isso, ele podia ser visto claramente para onde quer que fosse. Segurando a espada firmemente com ambas as mãos, como um punho de trovão, ele destroçava heroicamente as fileiras dos incrédulos. Nessa batalha, os inimigos de Allah e de Seu Mensageiro sofreram uma derrota humilhante. Umayya ibn Khalaf perguntou a Abd al-Rahman ibn Awf: “Quem é esse homem que usa uma pluma de avestruz?” Quando ele respondeu: “É Hamza, o tio do Mensageiro de Allah”, ele disse: “Este homem foi hoje quem mais nos arruinou.”

Nos arredores de Medina ficava o assentamento da tribo judaica Banu Qaynuqa. Depois de o Mensageiro de Allah chegar a Medina, ele havia firmado com eles um tratado de aliança. Porém, quando os muçulmanos saíram vitoriosos na Batalha de Badr, o fogo da inveja se acendeu neles. Eles se rebelaram. Por causa da violação desse tratado, o Mensageiro de Allah conduziu uma expedição militar contra eles no mês de Shawwal do segundo ano da Hégira. Também nessa expedição Hazrat Hamza desempenhou a função de porta-estandarte.

A derrota humilhante em Badr feriu profundamente o orgulho dos coraixitas. Tomado pelo desejo de vingança, um enorme exército coraixita marchou em direção a Medina no terceiro ano da Hégira. O Mensageiro de Allah, acompanhado de seus Companheiros, bloqueou seu avanço ao pé do monte Uhud. A batalha começou no mês de Shawwal. Do lado dos incrédulos, um valente soldado chamado Siba avançou e desafiou alguém para um combate individual. Hazrat Hamza entrou no campo com a espada desembainhada e bradou: “Ó filho da água impura de Umm Anmar, vieste lutar contra Allah e Seu Mensageiro?” Dito isso, lançou um ataque tão violento que acabou com Siba com um único golpe. Então começou a batalha geral. Com os ataques velozes de Hazrat Hamza, as fileiras dos incrédulos foram destroçadas. Nessa batalha, ele sozinho matou trinta soldados incrédulos.

Como Hazrat Hamza havia matado os líderes mais proeminentes dos coraixitas na batalha de Badr, todos os coraixitas desejavam ardentemente, mais do que tudo, vingá-lo com sangue. Wahshi, o assassino de Hazrat Hamza, relatou posteriormente o episódio do assassinato de Hamza no campo de Uhud. Ibn Hisham registrou-o em sua obra Sirat. Wahshi disse: “Eu era um escravo abissínio de Zubayr ibn Mut’im. Na batalha de Badr, Tu’aym ibn ‘Adi, tio de Zubayr, foi morto pelas mãos de Hamza. Ao retornar a Meca, Zubayr me disse: ‘Se você conseguir matar Hamza, tio de Muhammad, e vingar a morte de meu tio, eu o libertarei.’ Ele me treinou especialmente. Parti para Uhud com o único objetivo de matar Hamza. A batalha começou. Escondi-me atrás de uma pedra e fiquei esperando por Hamza. Quando, em certo momento, ele se aproximou de mim, ataquei-o de surpresa e o matei. Depois, voltei para junto dos soldados do meu lado e sentei-me inerte. Não participei mais da batalha, pois meu objetivo havia sido alcançado. Quando retornei a Meca, fui libertado da escravidão.”

Esse trágico acontecimento ocorreu em meados do mês de Shawwal do terceiro ano da Hégira. Hazrat Hamza tinha então quase sessenta anos.

Após o martírio de Hazrat Hamza, as mulheres coraixitas entoaram canções de alegria. Hind bint ‘Utba, esposa de Abu Sufyan, cortou o nariz e as orelhas de Hamza e fez deles adornos; abriu-lhe o peito e o ventre, retirou-lhe o fígado, mastigou-o e cuspiu-o. Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah perguntou se ela havia chegado a comer alguma parte dele. As pessoas responderam: “Não.” Ele disse: “Allah não permitirá que nenhuma parte do corpo de Hamza entre no Inferno.”

Após o fim da batalha, começou o sepultamento e o amortalhamento dos mártires. O Mensageiro de Allah aproximou-se do corpo de seu honrado tio. Como Hind havia mutilado seu nariz e suas orelhas, ele chorou ao ver aquela cena. Disse: “No Dia da Ressurreição, Hamza será o Sayyid ash-Shuhada, ou seja, o líder de todos os mártires. Que a misericórdia de Allah desça sobre você. Pelo que sei, você era extremamente consciente dos laços de parentesco e muito virtuoso. Se eu não tivesse me lembrado da tristeza e do pesar de Safiyya, eu o deixaria assim mesmo, para que os animais e as aves o devorassem, e no Dia da Ressurreição Allah o ressuscitasse de dentro de seus ventres. Juro por Allah que me é obrigatório vingar você. Decepando o nariz e as orelhas de setenta deles, eu os mutilarei como você foi mutilado.” Após esse juramento do Mensageiro de Allah, Jibril (que a paz esteja com ele) desceu trazendo asurata An-Nahle os dois versículos seguintes:

“Se vocês se vingarem, vinguem-se na mesma medida da injustiça que lhes foi infligida. Porém, se forem pacientes, isso será melhor para os pacientes. Seja paciente, e sua paciência só será possível com a ajuda de Allah. Não se entristeça por eles nem se angustie com suas conspirações.” ((Surata An-Nahl//126––27))

Após a revelação desse versículo, o Mensageiro de Allah ofereceu a expiação pelo juramento. ((Tabaqat de Ibn Sa’d))

Hazrat Safiyya era irmã consanguínea de Hazrat Hamza. Ao ouvir a notícia do martírio de seu irmão, correu para vê-lo uma última vez. Porém, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) não permitiu que ela o visse; consolou-a e mandou-a voltar. Para a mortalha de seu irmão, Hazrat Safiyya enviou dois lençóis. Mas, ao lado de Hazrat Hamza, jazia também outro corpo sem mortalha. Por isso, os dois lençóis foram divididos entre os dois. Hazrat Khabbab ibn al-Aratt (r.a.) disse: “Não encontramos nenhum tecido para amortalhar Hamza, exceto um único lençol. Quando cobríamos com ele os pés, a cabeça ficava descoberta; e, quando cobríamos a cabeça, os pés ficavam descobertos. Então cobrimos a cabeça com o lençol e os pés com a erva ‘izkhir’.” (Hayatus Sahaba– 1/136) O Senhor dos Mártires, Hazrat Hamza, foi sepultado no campo de Uhud. O Imam Bukhari narrou, transmitindo de Hazrat Jabir, que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) sepultou os mártires da batalha de Uhud, dois em cada sepultura. Hamza e Abdullah ibn Jahsh foram sepultados numa mesma sepultura.

Ibn Hajar mencionou, citando as “Fawa’id de Abu Tahir” na obra “Al-Isaba”, que Hazrat Jabir (r.a.) disse: “No dia em que Muawiya cavou um poço em Uhud, choramos pelos mártires de Uhud. Encontramos os mártires completamente frescos. Quando um homem golpeou o pé de Hazrat Hamza, o sangue jorrou.”

Hazrat Wahshi (r.a.), o assassino de Hazrat Hamza, aceitou o Islam após a conquista de Meca e apresentou-se perante o Mensageiro de Allah (s.a.w.). O Mensageiro de Allah (s.a.w.) perguntou-lhe: “És tu Wahshi?” Ele respondeu: “Sim.” “Foste tu que mataste Hamza?” Ele respondeu: “O que o Mensageiro de Allah ouviu é verdade.” O Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Podes esconder um pouco o teu rosto de mim?” Imediatamente, ele saiu e jamais voltou a ficar frente a frente com o Mensageiro de Allah (s.a.w.) em toda a sua vida. Após o falecimento do Mensageiro de Allah (s.a.w.), durante o califado de Hazrat Abu Bakr Siddiq (r.a.), foi lançada uma campanha contra o falso profeta Musaylima. Ele também participou dessa campanha com o propósito de matar Musaylima e expiar o assassinato de Hazrat Hamza. Foi bem-sucedido. Assim, por meio dele, Allah proporcionou ao Islam um benefício maior do que o dano que ele lhe havia causado.

Hazrat Hamza também possuía talento poético. Após aceitar o Islam, expressou por meio da poesia os sentimentos que então experimentava. Alguns trechos foram citados nas notas do capítulo “A aceitação do Islam por Hamza”, na Sira de Ibn Hisham.

Abbas Ibn Abd al- Muttalib ((r.a.))

Seu nome era Abu al-Fadl Abbas. Seu pai era Abd al-Muttalib, e sua mãe, Natila; segundo outra opinião, Nasila bint Khabbab. Era tio do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Contudo, os dois tinham quase a mesma idade. Segundo os historiadores, é provável que ele tenha nascido dois ou três anos antes do Mensageiro de Allah (s.a.w.).

Certa vez, quando ainda era criança, ele desapareceu. Sua mãe fez um voto de que, se Abbas retornasse, cobriria a Caaba com um revestimento de seda. Alguns dias depois, quando ele voltou são e salvo, Abd al-Muttalib cumpriu seu voto com grande pompa.

Na época da Jahiliyyah, ele era um dos poderosos chefes dos coraixitas. Por herança, recebeu a responsabilidade de cuidar da Caaba e de fornecer água aos peregrinos.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recebeu a missão profética. Em Meca, começou a convocar publicamente as pessoas ao tawhid. Embora Hazrat Abbas não tivesse declarado publicamente sua conversão ao Islã durante muitos anos, ele era um dos principais apoiadores dessa convocação. Por isso, no dia em que os setenta e dois ansar de Medina foram a Meca durante a temporada do Hajj e, num acampamento secreto em Mina, convidaram o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a emigrar para Medina e prestaram-lhe o juramento de lealdade, Hazrat Abbas também estava presente naquela reunião secreta. Naquela época, ele ainda não havia aceitado o Islã. Na história, esse juramento é conhecido como o Segundo Juramento de Aqaba. Nessa ocasião, dirigindo-se aos habitantes de Medina presentes, ele proferiu um discurso: “Ó membros do povo dos Khazraj! Vocês sabem que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, vive entre seu povo com honra e prestígio. Nós sempre o protegemos contra os inimigos. Agora ele deseja ir para junto de vocês. Se puderem ajudá-lo, empenhando suas próprias vidas, isso será muito bom. Caso contrário, digam-no claramente agora mesmo.” Em resposta, os habitantes de Medina asseguraram seu apoio total. Pouco tempo depois, o Mensageiro de Allah emigrou para Medina.

Sob a pressão dos coraixitas de Meca, ele foi obrigado a participar da batalha de Badr junto ao exército dos coraixitas. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava ciente de sua verdadeira situação; por isso, instruiu os Companheiros: “Durante a batalha, se Abbas ou qualquer membro dos Banu Hashim aparecer diante de vocês, não os matem, pois foram levados ao campo de batalha à força.”

Na batalha de Badr, Abbas, Aqil e Nawfal ibn Harith foram capturados pelos muçulmanos juntamente com os demais politeístas coraixitas. Por acaso, Abbas foi amarrado com tanta força que começou a gemer de dor. Seus gemidos perturbaram o descanso noturno do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando os nobres Companheiros souberam disso, afrouxaram as amarras de Abbas. Abbas parou de gemer. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: “Por que não se ouvem mais gemidos?” Responderam: “Afrouxamos suas amarras.” Então o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou: “Afrouxem as amarras de todos os prisioneiros.”

Os prisioneiros de guerra de Badr não tinham roupas extras. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu a todos roupas para vestir. Hazrat Abbas era muito alto. Nenhuma camisa servia nele. Abdullah ibn Ubayy, o hipócrita, tinha estatura semelhante à de Abbas e lhe deu uma camisa. Por isso, apesar de Abdullah ibn Ubayy ser um hipócrita, após sua morte, atendendo ao pedido de seu filho, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu uma de suas próprias camisas para vestir o cadáver. Assim, retribuiu o favor prestado a seu tio.

Decidiu-se libertar os prisioneiros de Badr mediante o pagamento de resgate. A mãe de Abbas era filha dos Ansar de Medina, da tribo dos Khazraj. Por isso, os membros dessa tribo pediram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Abbas é nosso sobrinho materno. Nós o isentamos do resgate.” Porém, por ser contrário à igualdade, essa proposta não foi aceita pelo Mensageiro de Allah. Por outro lado, como Abbas era um homem rico, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, exigiu dele um grande resgate. Abbas declarou-se incapaz de pagar uma quantia tão elevada e disse: “Eu já havia me tornado muçulmano no íntimo. Os politeístas me obrigaram a participar desta guerra.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Allah conhece o estado dos corações. Se sua alegação for verdadeira, Allah lhe dará a recompensa por isso. Contudo, segundo sua condição exterior, não lhe será concedido nenhum privilégio. Sua alegação de incapacidade para pagar o resgate também não pode ser aceita, pois sei que você deixou uma grande quantia em Meca com Umm al-Fadl.” Surpreso, Abbas exclamou: “Juro por Allah que ninguém além de mim e de Umm al-Fadl sabia dessa quantia. Tenho a certeza de que você é o Mensageiro de Allah.” Depois disso, foi libertado após pagar um grande resgate em seu próprio nome e em nome de seu sobrinho Aqil e de Nawfal ibn Harith.

Havia uma razão especial para Abbas ter permanecido em Meca por tanto tempo e não ter declarado publicamente sua conversão ao Islã. Ele sempre informava o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre os movimentos dos incrédulos em Meca. Além disso, era o apoio dos muçulmanos de fé fraca que ainda permaneciam em Meca. Por isso, certa vez, quando pediu ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permissão para emigrar, ele o impediu, dizendo: “É melhor que você permaneça em Meca. Assim como Allah concluiu a missão profética por meu intermédio, Ele concluirá a emigração por seu intermédio.”

Alguns dias antes da conquista de Meca, Hazrat Abbas recebeu permissão para emigrar. Apresentou-se, com toda a família, ao serviço do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, declarou publicamente sua fé no Islã e passou a residir permanentemente em Medina. Ele participou da conquista de Meca. Durante a expedição de Hunayn, estava montado no mesmo animal que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele conta: “Nessa batalha, os incrédulos começaram a vencer e os combatentes muçulmanos se dispersaram. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Abbas, chama os arqueiros!’ Por natureza, eu tinha uma voz muito forte. Então clamei: ‘Onde estão os companheiros da acácia?’ Ao ouvirem minha voz, o rumo da batalha mudou num instante. Ele também participou do cerco de Taif, da expedição de Tabuk e do Hajj de despedida.

Após retornar do Hajj de despedida, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, adoeceu. Sua enfermidade se agravava dia após dia. Hazrat Ali, Hazrat Abbas e outros membros dos Banu Hashim passaram a cuidar do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. No dia de seu falecimento, Hazrat Ali saiu de casa. As pessoas perguntaram: “Como está o estado do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz?” Como naquele dia ele havia apresentado alguma melhora, respondeu: “Um pouco melhor, pela graça de Allah.” Mas Hazrat Abbas era um homem experiente. Segurou uma das mãos de Ali e disse: “O que você imagina? Juro por Allah que, em apenas três dias, vocês começarão a servir como escravos. Vejo claramente que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, falecerá em pouco tempo em decorrência desta doença. Consigo prever a morte dos membros da família de Abd al-Muttalib apenas observando seus rostos.”

Naquele dia, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) faleceu. Com a ajuda de Hazrat Ali e dos demais membros dos Banu Hashim, Hazrat Abbas providenciou o amortalhamento e o sepultamento. Como era o honrado tio do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) e o ancião dos Banu Hashim, pessoas de fora passaram a ir até ele para expressar pesar e condolências.

O nobre Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) honrava muito seu tio Abbas. Sentia profunda tristeza até mesmo com o menor sofrimento dele. Certa vez, quando Hazrat Abbas se queixou de uma atitude dos coraixitas, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), extremamente exaltado, disse: “Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida! Quem não vos ama por Allah e pelo Mensageiro não terá a luz da fé em seu coração.”

Certa vez, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) conversava com Abu Bakr e Umar (que Allah esteja satisfeito com ambos) em uma reunião. Nesse momento, Abbas chegou. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) fez com que ele se sentasse entre si e Abu Bakr, e passou a falar em voz um pouco mais baixa. Depois que Abbas saiu, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou a razão disso. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Somente uma pessoa nobre pode honrar uma pessoa nobre.” E acrescentou: “Jibril me disse que, quando Abbas estiver presente, devo baixar a minha voz, assim como ele vos ordenou que baixásseis a voz diante de mim.”

Os califas bem guiados que sucederam o nobre Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) concederam a Hazrat Abbas a honra que lhe era devida. Quando Hazrat Umar e Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ambos) passavam montados a cavalo ao seu lado, desciam do cavalo em sua consideração e diziam: “Este é o tio do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele).” Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) só a Abbas cedia espaço, afastando-se de seu próprio assento.

Hazrat Abbas faleceu aos 88 (oitenta e oito) anos, no dia 12 do mês de Rajab/Muharram do ano 32 da Hégira. O terceiro califa, Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), conduziu a oração fúnebre, e Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) desceu à sepultura e o sepultou. Ele foi enterrado no cemitério de Baqi, em Medina. Viveu 32 anos após aceitar o Islã e 56 anos na época da Jahiliyyah.

Na época da Jahiliyyah, Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) era extremamente rico. Por isso, durante a Batalha de Badr, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) recebeu dele vinte uqiyyas de ouro como resgate. O comércio era a fonte de seu sustento. Ele também praticava negócios com juros. Essa atividade continuou até a conquista de Meca. Em seu histórico sermão da Peregrinação de Despedida, no décimo ano da Hégira, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “A partir de hoje, todas as formas de negócios com juros dos árabes estão proibidas, e sou o primeiro a declarar abolidos os negócios com juros de Abbas ibn Abd al-Muttalib.”

Depois que os negócios com juros foram encerrados, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) o ajudava com um quinto dos espólios de guerra e com a renda dos pomares de Fadak. Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), ele e Hazrat Fatimah reivindicaram diante do primeiro califa a herança do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele). Depois de ouvirem da boca de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) uma declaração do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) segundo a qual os profetas não deixam herança, ambos permaneceram em silêncio.

Hazrat Abbas era extremamente generoso, hospitaleiro e compassivo. Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Abbas é o tio do Mensageiro de Allah, o mais generoso dos coraixitas e o mais atento aos parentes.” Ele tinha um coração terno. Assim que erguia as mãos para fazer uma súplica, uma torrente de lágrimas corria de seus olhos. Por isso, percebia-se um efeito especial em suas súplicas.”

O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, fez súplicas por Al-Abbas, que Deus esteja satisfeito com ele, e por seus filhos. Pediu perdão a Deus por todos os seus pecados, públicos e ocultos. Al-Abbas narrou muitos hadiths do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, e muitos Companheiros e tabi‘in narraram hadiths dele.

Al-Abbas também possuía talento poético. Ele expressou em um poema sua experiência na batalha de Hunayn. Alguns de seus versos foram citados em Al-Isti‘ab e na obra biográfica de Ibn Ishaq.

Bilal ibn Rabah (que Deus esteja satisfeito com ele)

Seu nome era Abu Abdullah Bilal. Seu pai era Rabah e sua mãe, Hamamah. Era um escravo de origem abissínia, embora tivesse nascido em Meca. Banu Jumah eram seus senhores.

Embora sua pele fosse negra por ser um escravo abissínio, seu coração era extremamente puro. Enquanto os árabes de pele clara, presos às ilusões da nobreza e da linhagem, continuavam rejeitando o convite à verdade, seu coração já havia sido iluminado pela luz da fé. Embora apenas poucas pessoas tivessem aceitado o convite à verdade, ele foi um dos sete que ousaram fazer uma declaração pública.

Desde sempre, os fracos são vítimas de opressão e perseguição. Por causa de sua posição social, Bilal sofreu dores e aflições indescritíveis. Sua paciência e firmeza foram postas à prova por meio de diversos tipos de castigos e torturas. Deitavam-no sobre areia escaldante, cascalho e brasas ardentes, e, com uma corda amarrada ao seu pescoço, crianças o arrastavam pelas vielas de Meca como se fosse uma cabra. Ainda assim, ele não soltou a firme corda do monoteísmo. Abu Jahl deitava-o de bruços e colocava uma grande pedra de moinho sobre suas costas. Quando ele ficava inquieto sob o calor intenso do sol do meio-dia, Abu Jahl dizia: «Bilal, ainda não vais abandonar o Deus de Muhammad?» Mas, mesmo então, de sua boca pura continuava a sair o clamor: «Ahad! Ahad!»

Entre os politeístas opressores, Umayya ibn Khalaf era o mais empenhado. Aplicava continuamente novos métodos de castigo e tortura. Fazia-o sofrer de diversas maneiras. Às vezes colocava-o dentro de uma pele crua de boi; outras vezes vestia-o com uma armadura de ferro e sentava-o sobre o solo escaldante, dizendo: «O teu deus é Lat e Uzza.» Ainda assim, da língua daquele homem apaixonado pelo monoteísmo não saía nenhuma palavra além de «Ahad! Ahad!». Os politeístas diziam: «Pronuncia apenas as palavras que dizemos.» Ele respondia: «Minha língua não consegue pronunciar corretamente as vossas palavras.»

Naquele dia, como todos os dias, o rolo compressor da tortura passava sobre Bilal no vale de Bat’ha. Por acaso, Abu Bakr as-Siddiq também passava por aquele caminho. Ficou profundamente comovido. Pagou uma grande quantia ao senhor de Bilal e libertou-o. Ao ouvir a notícia, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Abu Bakr, associa-me também a esta ação.» Ele respondeu: «Ó Mensageiro de Deus, eu já o libertei.»

Após emigrar de Meca para Medina, ele hospedou-se com Hazrat Sa‘d ibn Khuthayma (que Allah esteja satisfeito com ele). Foi estabelecida uma relação de irmandade entre Hazrat Abu Ruwayha Abdullah ibn Abd al-Rahman al-Khath‘ami (que Allah esteja satisfeito com ele) e ele. Surgiu entre os dois um profundo vínculo. Durante o período do segundo califa, Hazrat Umar al-Faruq, Hazrat Bilal decidiu participar da campanha à Síria. O califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: “Bilal, quem receberá o teu estipêndio?” Ele respondeu: “Abu Ruwayha. A relação de irmandade que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estabeleceu entre nós dois jamais poderá ser rompida.”

Até a Hégira, o Islã era fraco em Meca; depois da Hégira, tornou-se forte em Medina. Desde o início da vida medinense, começou a ser estabelecida a base principal dos costumes islâmicos e das atividades culturais. Foram fundadas mesquitas, instituídas as cinco orações diárias e introduzido o chamado para a oração. Hazrat Bilal foi a primeira pessoa a quem foi confiada a responsabilidade do adhan. Ao ouvir a voz alta e comovente do adhan de Bilal, ninguém, fosse homem ou mulher, jovem ou idoso, conseguia permanecer em casa. Quando a mesquita se enchia dos portadores do tawhid, ele ia à porta do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e chamava: “Hayya ‘ala as-salah, hayya ‘ala al-falah, as-salah, ó Mensageiro de Allah — a oração começou.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saía, e Bilal pronunciava o takbir. Quando Hazrat Bilal não estava presente em Medina, Hazrat Abu Mahdhura e Hazrat ‘Amr ibn Umm Maktum (que Allah esteja satisfeito com ele) cumpriam sua função. Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) geralmente fazia o adhan do fajr antes do início do amanhecer verdadeiro. Por isso, o adhan era feito duas vezes pela manhã. O último adhan era feito por ‘Amr ibn Umm Maktum (que Allah esteja satisfeito com ele). Assim, durante o mês do Ramadã, era permitido comer e beber depois do adhan de Hazrat Bilal.

Tanto durante a permanência do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em Medina quanto durante suas viagens, Bilal era seu mu’adhdhin especial. Certa vez, durante uma viagem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), anoiteceu enquanto caminhavam. Alguns Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah, seria bom se ordenasses que armássemos as tendas em algum lugar daqui para passarmos a noite.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Temo que o sono vos faça negligenciar a oração.” Hazrat Bilal assumiu a responsabilidade de despertar todos. Com a permissão do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), todos armaram as tendas e se entregaram ao descanso. Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele), por sua vez, permaneceu muito atento, apoiado na madeira da howdah, aguardando o amanhecer verdadeiro. Contudo, por circunstâncias do destino, seus olhos se fecharam nessa posição e ele caiu em um sono tão profundo que não recobrou a consciência antes do nascer do sol. Ao despertar, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou primeiro a Bilal: “O que aconteceu com o cumprimento da tua responsabilidade?” Ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, hoje dormi de tal maneira que isso normalmente não me acontece.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando Allah quer, toma as vossas almas; e, quando quer, devolve-as. Levanta-te, faz o adhan e reúne as pessoas para a oração.”

Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) participou de todas as principais batalhas. Na batalha de Badr, matou Umayya ibn Khalaf, um dos grandes inimigos do Islã. Em Meca, Umayya era um dos que haviam perseguido e torturado o próprio Bilal. No dia da conquista de Meca, ele acompanhou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Também teve a honra de entrar no interior da Caaba com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por ordem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ficou sobre o teto da Caaba e elevou a voz com o adhan.

Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) dirigiu-se a Hazrat as-Siddiq al-Akbar (que Allah esteja satisfeito com ele), a pessoa que mais bondade lhe havia demonstrado, e disse: “Ó califa do Mensageiro de Allah! Libertaste-me pela causa de Allah ou com o propósito de me tornares teu companheiro?” Ele respondeu: “Pela causa de Allah.” Bilal disse: “Ouvi da boca do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que a melhor ação do crente é lutar no caminho de Allah. Por isso, desejo tornar esta grande obra uma parte inseparável da minha vida até a morte.” Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Bilal, não te afastes de mim, deixando-me angustiado pela dor da separação.” Atendendo ao pedido de Hazrat Abu Bakr, Bilal não participou de nenhuma batalha durante a vida dele.

Após Hazrat Abu Bakr, o califa foi Hazrat Umar. Bilal também lhe pediu permissão para participar do jihad. Como o primeiro califa, o segundo califa quis impedi-lo. Porém, vendo seu entusiasmo extremo e sua atitude inflexível, o califa Umar permitiu que ele fosse. Ele participou da campanha à Síria. No ano 16 da Hégira, durante a viagem de Hazrat Umar à Síria, Bilal, juntamente com os demais oficiais militares, recebeu o califa em um lugar chamado Jabia; e, durante a visita a Bayt al-Muqaddas, acompanhou o califa. Certo dia, durante a viagem, o califa pediu a Bilal que fizesse o adhan. Bilal disse: “Embora eu tenha prometido não fazer o adhan para ninguém depois do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), hoje atenderei ao seu desejo.” Dizendo isso, fez o adhan com uma voz tão comovente que surgiu grande agitação entre os presentes. Hazrat Umar chorou tanto que ficou sem fala. Hazrat Abu Ubayda e Hazrat Mu‘adh ibn Jabal (que Allah esteja satisfeito com eles) desabaram em lágrimas. Na mente de todos surgiu então a imagem da época do Profeta, e em seus corações despertou um sentimento especial.

As terras verdes e férteis da Síria agradaram muito a Hazrat Bilal. Ele pediu ao segundo califa permissão para permanecer permanentemente na Síria juntamente com seu irmão no Islã, Abu Ruwayha. Seu pedido foi aceito. Os dois se estabeleceram em uma pequena cidade chamada Khawlan. Antes deles, o clã do célebre Companheiro Hazrat Abu ad-Darda al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele) já havia se estabelecido nessa cidade. Ali, os dois se casaram com duas moças desse clã, unindo-se a elas pelo vínculo matrimonial.

Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) continuou vivendo na Síria por muitos anos. Certo dia, viu em sonho o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizendo: “Bilal, por quanto tempo levarás uma vida tão sem alegria? Ainda não chegou o momento de me visitares?” Esse sonho reabriu a ferida de seu amor e devoção. Imediatamente, partiu para Medina e, ao chegar à sagrada Rawda Mubarak, começou a se agitar como um galo sacrificado. Abraçou e acariciou Hazrat Hasan e Hazrat Husayn (que Allah esteja satisfeito com eles), os pedaços do coração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Naquela manhã, os dois pediram a Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) que fizesse o adhan do fajr. Ele não pôde rejeitar o pedido deles. No momento do amanhecer verdadeiro, de pé sobre o teto da Mesquita do Profeta, pronunciava “Allahu Akbar”, e esse chamado ecoava pelas ruas e vielas de Medina. Ao ouvir o seu adhan, o povo de Medina enchia o céu e a terra com os seus takbirs.

Quando ele pronunciou: «Testemunho que Muhammad é o Mensageiro de Allah», todas as mulheres e homens de Medina, chorando descontroladamente, começaram a sair de suas casas e correr em direção à mesquita. Foi relatado que uma cena tão comovente e emocionante jamais havia sido vista em Medina.

Esse dedicado amante do Mensageiro faleceu no ano 20 da Hégira, com cerca de sessenta anos de idade. Foi sepultado perto de Bab as-Saghir, em Damasco.

A beleza de caráter elevou grandemente a dignidade e a consideração por Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele). Umar costumava dizer: «Abu Bakr é nosso líder, e foi ele quem libertou o nosso líder Bilal.»

A companhia e o serviço ao nobre Mensageiro de Allah eram o principal objetivo de sua vida. Ele permanecia sempre nas proximidades do Mensageiro de Allah e o acompanhava em suas viagens. Durante as orações do Eid e da istisqa, ia à frente do Mensageiro de Allah para o campo, carregando uma lança. Também participava das reuniões de sermões e exortações. Apesar de suas muitas necessidades e de sua pobreza, sempre que recebia algo, enviava uma parte como presente ao Mensageiro de Allah. Certa vez, levou ao Mensageiro de Allah algumas tâmaras de excelente qualidade. Ele perguntou: «Bilal, onde encontraste estas tâmaras?» Bilal respondeu: «Eu tinha algumas tâmaras de qualidade inferior. Como desejava enviar algo para o seu serviço, troquei uma medida delas por uma medida de duas sa‘ destas.» O Mensageiro de Allah disse: «Ai, ai! Não faças isso. Isto é uma espécie de usura. Se tivesses de comprá-las, deverias primeiro vender as tuas tâmaras e, com esse dinheiro, comprar estas.»

As perseguições e os tormentos que Bilal suportou em Meca são a prova de sua resistência, paciência e firmeza. Ele era extremamente humilde. Quando alguém mencionava alguma de suas virtudes, dizia: «Sou apenas um abissínio, que até ontem era escravo.» A honestidade, a pureza e a lealdade eram algumas das principais características de seu caráter.

Como Bilal era o muezim especial do Mensageiro de Allah, passava a maior parte do tempo na mesquita. Dedicava grande parte do dia e da noite à adoração. Certa vez, o Mensageiro de Allah perguntou-lhe: «Por qual de tuas boas ações esperas a maior recompensa?» Ele respondeu: «Eu não fiz nenhuma boa ação especial. Contudo, após cada ablução, ofereci uma oração.»

Ele se casou várias vezes com mulheres de famílias árabes nobres. O próprio Mensageiro de Allah o casou com a filha de Abu Bakr. Ele estabeleceu vínculos matrimoniais com as famílias de Banu Zuhra e de Abu Darda, mas não teve filhos com nenhuma delas.

Sahih Ibn Khuzayma é relatado que, certo dia, o Mensageiro de Allah chamou Bilal e perguntou-lhe: «Bilal, por causa de que chegaste ao Paraíso antes de mim? Na noite passada, entrei no Paraíso e ouvi o som dos teus passos.» Bilal respondeu: «Ó Mensageiro de Allah, sempre que cometo algum pecado, ofereço duas rak‘at de oração. E, quando perco a ablução, faço imediatamente uma nova ablução e ofereço duas rak‘at de oração.»

Ja’far ibn Abi Talib ((que Allah esteja satisfeito com ele))

Seu nome era Abu Abdillah Jafar; seu pai era Abu Talib e sua mãe, Fatima. Era descendente do ramo hachemita da tribo dos coraixitas. Era primo paterno do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e irmão consanguíneo de Ali — que Allah honre o seu rosto. Era dez anos mais velho que Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).

Os rostos de cinco homens dos Banu Abd Manaf eram tão semelhantes ao rosto do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) que, muitas vezes, as pessoas de visão fraca se confundiam ao tentar distingui-los uns dos outros. Esses cinco homens eram: 1. Abu Sufyan ibn al-Harith ibn Abd al-Muttalib. Ele era, ao mesmo tempo, primo paterno e irmão de leite do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). 2. Qutham ibn al-Abbas ibn al-Muttalib. Ele também era primo paterno do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). 3. Al-Sa’ib ibn Ubayd ibn Abd Yazid ibn Hashim. Ele era avô do Imam al-Shafi’i — que Allah tenha misericórdia dele. 4. Hasan ibn Ali — neto do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Entre todos, seu rosto era o mais semelhante ao do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O quinto homem era Jafar ibn Abi Talib.

Embora gozasse de elevada posição e grande respeito entre os coraixitas, a situação financeira de Abu Talib era extremamente precária devido ao grande número de filhos e dependentes. Como um golpe sobre outro, aquele ano sem chuvas tornou sua situação ainda mais angustiante. Naquele ano de seca terrível, todas as plantações dos coraixitas foram queimadas e o gado também foi destruído. Um clamor de desespero tomou conta das pessoas. Naquela época, entre os Banu Hashim, não havia ninguém mais próspero que Muhammad ibn Abdillah e seu tio Abbas.

Certo dia, Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse a seu tio Abbas: “Tio, seu irmão Abu Talib tem muitos filhos. As pessoas estão passando agora por uma fome terrível e grande escassez de alimentos. Vamos até ele e assumamos sobre nossos ombros o encargo de alguns de seus filhos. Eu ficarei com um deles, e você ficará com outro.”

Abbas comentou: “Você realmente nos convocou para uma boa ação e nos incentivou a praticar algo excelente.”

Então, os dois foram até Abu Talib e disseram: “Viemos aliviar parte do encargo de sua família, para que você possa se livrar um pouco da calamidade da fome que atingiu as pessoas.”

Abu Talib disse: “Podem fazer o que quiserem, desde que deixem Aqil (Aqil ibn Abi Talib) para mim.” Então Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ficou com Ali, e Abbas ficou com Jafar.

Ali continuou sendo criado sob os cuidados de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois, Allah, o Altíssimo, concedeu a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a profecia, e Ali foi o primeiro entre os jovens a ter a felicidade de crer nele. Enquanto isso, Ja’far foi criado por seu tio Abbas, chegou à idade adulta e, ao aceitar o Islã, tornou-se independente.

Ja‘far ibn Abi Talib e sua esposa, Asma bint ‘Umais, juntaram-se à caravana da luz islâmica ainda durante sua jornada. Ambos aceitaram o Islã pelas mãos de Siddiq Akbar antes de o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) entrar na “Darul Arqam”. (‘Darul Arqam’ uma casa em Meca, que। Darul Islam também é conhecida.। A casa pertencia a Arqam ibn Abd Manaf, al- Makhzumi.। Em Meca, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). desta casa é que convidava as pessoas ao Islã por meio do convite.।)Certo dia, Abu Talib viu Ali realizando a oração, de pé ao lado do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Essa cena agradou muito a Abu Talib. Olhando para Ja‘far, que estava de pé ali perto, ele lhe disse: “Ja‘far, fique também de pé ao lado de seu primo Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).” Naquele dia, Ja‘far realizou a oração de pé à esquerda do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Esse acontecimento causou uma profunda reação no coração de Ja‘far. Poucos dias depois, ele aceitou o Islã. Antes dele, apenas trinta e uma ou trinta e duas pessoas haviam aceitado o Islã.

O jovem hachemita e sua jovem esposa suportaram todos os sofrimentos físicos e psicológicos que os muçulmanos da primeira geração enfrentaram. Mas jamais perderam a paciência. Eles sabiam que o caminho do Paraíso era árduo e cheio de espinhos. Contudo, aquilo que, assim como aos seus demais irmãos na fé, os afligia e preocupava era a oposição dos coraixitas à observância dos preceitos islâmicos e à adoração do Deus único. Em todos os aspectos, os coraixitas ficavam à espreita e criavam para eles uma atmosfera sufocante.

Foi em um momento como esse que Ja‘far ibn Abi Talib, sua esposa e alguns outros Companheiros pediram ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) autorização para emigrar para a Abissínia. Com o coração profundamente angustiado, ele lhes concedeu a permissão. O assunto lhe era tão doloroso porque aquelas pessoas virtuosas e de alma pura estavam sendo obrigadas a deixar sua amada terra natal — o lugar de sua infância, adolescência e juventude — simplesmente por dizerem: “Nosso Senhor é Allah”. Fora isso, não eram culpadas de crime algum. Estavam deixando o país, eram vítimas de injustiça e perseguição, e ele observava tudo isso completamente impotente.

O primeiro grupo de emigrantes chegou à Abissínia sob a liderança de Ja‘far ibn Abi Talib. Ali, encontrou refúgio na corte do justo e íntegro Negus. Após abraçarem o Islã, pela primeira vez sentiram o sabor de alguma segurança e experimentaram a doçura de adorar livremente o Deus único, com o coração tranquilo e sem temor.

Os coraixitas estavam cientes da emigração desse grupo de muçulmanos para a Abissínia e do refúgio e da segurança que haviam encontrado na corte do rei. Então começaram a conspirar para matá-los ou trazê-los de volta. Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), diretamente envolvida nesse acontecimento, disse: “Quando chegamos à Abissínia, encontramos bons vizinhos e segurança para a nossa religião. Não sofremos nenhum tipo de injustiça ou perseguição por adorar o nosso Senhor, o Altíssimo Allah, nem ouvimos qualquer palavra que nos desagradasse. Quando os coraixitas souberam disso, começaram a conspirar. Escolheram entre eles dois homens fortes e robustos e enviaram-nos ao Negus. Esses dois homens eram ‘Amr ibn al-‘As e ‘Abdullah ibn Abi Rabi‘ah. Enviaram com ambos muitos presentes valiosos para o Negus e para os sacerdotes bajuladores de sua corte. Eles foram instruídos a entregar a cada sacerdote o presente que lhe fora destinado antes de discutirem o nosso caso com o rei da Abissínia.”

Os dois chegaram à Abissínia, reuniram-se com os sacerdotes do Negus e entregaram a cada um o presente que lhe fora destinado. Em seguida, disseram: “Alguns de nossos filhos desorientados buscaram refúgio no reino do rei. Eles abandonaram a religião de seus antepassados e provocaram divisão e discórdia entre seu próprio povo. Quando falarmos com o rei a respeito deles, peçam-lhe que os devolva a nós sem interrogá-los de forma alguma sobre sua religião. Afinal, seus líderes tribais conhecem melhor suas crenças e seu comportamento. São eles que decidirão o que fazer com eles.”

Os sacerdotes da corte concordaram com o que eles disseram.

Umm Salama disse: “Para ‘Amr ibn al-‘As e seu companheiro, nada era mais desagradável do que o rei chamar um de nós para ouvi-lo.”

Os dois compareceram à corte do Negus e lhe ofereceram os presentes. O Negus gostou muito deles e teceu grandes elogios aos presentes. Então disseram ao rei: “Majestade, alguns de nossos filhos de natureza perversa entraram em seu reino. Eles inventaram uma religião que nem nós conhecemos nem o senhor conhece. Abandonaram a nossa religião, mas também não adotaram a sua religião. Seus pais, tios paternos e líderes tribais nos enviaram até o senhor para que os levemos de volta. Os líderes de suas tribos conhecem melhor a agitação e a corrupção que eles causaram.”

O Negus olhou para os sacerdotes presentes em sua corte. Eles disseram: “Majestade, eles disseram a verdade. Afinal, são os líderes de sua tribo que conhecem melhor as ações que cometeram. Envie-os de volta aos líderes de sua tribo, para que eles possam decidir o que fazer a respeito deles.”

O rei ficou profundamente irritado com as palavras dos sacerdotes. Disse: “Por Allah, isso não pode acontecer. Não entregarei nenhum deles antes de interrogá-los sobre as acusações feitas contra eles. Se forem realmente como esses dois homens dizem, então os entregarei. Caso contrário, enquanto desejarem permanecer sob minha proteção, permitirei que fiquem aqui em segurança.”

Umm Salama disse: “Então o Negus mandou chamar-nos para uma audiência. Antes de irmos, reunimo-nos todos num só lugar. Supusemos que certamente o rei nos perguntaria sobre a nossa religião. Por isso, decidimos declarar aquilo em que acreditávamos. Ja‘far ibn Abi Talib falaria em nome de todos. Ninguém mais diria qualquer coisa.”

Umm Salama disse: “Então, quando fomos até o Negus, vimos que ele havia convocado todos os seus sacerdotes. Eles estavam sentados à direita e à esquerda do rei, usando suas vestes especiais de gala e com seus livros religiosos abertos diante de si. Também vimos Amr ibn al-As e Abdullah ibn Abi Rabia junto ao rei. Depois que nos sentamos tranquilamente na assembleia, o Negus voltou-se para nós e perguntou: ‘Que religião é essa que inventastes e por causa da qual abandonastes a religião de vossos antepassados, sem, contudo, adotardes a minha religião ou qualquer outra?’”

Ja‘far ibn Abi Talib falou em nome de todos: “Majestade, éramos um povo ignorante. Adorávamos ídolos, comíamos animais mortos, entregávamo-nos a atos obscenos, rompíamos os laços de parentesco e tratávamos mal os vizinhos. Os fortes entre nós usurpavam os direitos dos fracos. Estávamos nessa situação quando, por fim, Allah, o Altíssimo, enviou-nos um Mensageiro. Conhecíamos sua linhagem, sua honestidade, sua confiabilidade, sua pureza e outras qualidades. Ele nos convocou a Allah, para que acreditássemos em Sua unicidade, O adorássemos e abandonássemos a adoração das árvores, pedras e ídolos que nós e nossos antepassados adorávamos.”

Ele nos ordenou que disséssemos a verdade, devolvêssemos devidamente os bens que nos fossem confiados, preservássemos os laços de parentesco, tratássemos bem os vizinhos e nos abstivéssemos de atos proibidos e de derramamento ilícito de sangue. Além disso, proibiu-nos os atos obscenos, a mentira, o consumo dos bens dos órfãos e a acusação caluniosa contra mulheres castas.

Ele também nos ordenou adorar somente a Allah, sem associar-Lhe coisa alguma, estabelecer a oração, pagar a zakat e jejuar durante o mês de Ramadan.

Reconhecendo-o como veraz, cremos nele e seguimos tudo o que ele trouxe da parte de Allah. Portanto, acreditamos ser halal aquilo que ele declarou halal para nós e haram aquilo que declarou haram.

Ó majestoso rei! Depois disso, todo o nosso povo começou a nos perseguir. Eles nos torturaram para nos fazer voltar da nossa religião à idolatria. Quando nos afligiram e nos atormentaram intensamente, erguendo uma barreira entre nós e a nossa religião, preferimos vir para junto de vossa majestade, em vez de ir para qualquer outro lugar, na esperança de que aqui não fôssemos oprimidos.

Umm Salama relata: Então, Najashi olhou brevemente para Ja‘far ibn Abi Talib e perguntou: “Vocês têm consigo alguma parte daquilo que o vosso profeta trouxe de Allah?” Ele respondeu: “Sim.” “Leia um pouco para mim.” Ja‘far recitou: “Kaf-Ha-Ya-Ayn-Sad. Este é o relato da misericórdia do teu Senhor para com o Seu servo Zacarias, quando ele invocou o seu Senhor em segredo. Ele disse: ‘Meus ossos enfraqueceram e a minha cabeça embranqueceu com a velhice; ó meu Senhor! Nunca fiquei frustrado ao invocar-Te.”

Assim, ele recitou para eles a primeira parte da Surata Maryam do Sagrado Alcorão.

Ao ouvir a Palavra de Allah, Najashi chorou tanto que as lágrimas encharcaram a sua barba, e os sacerdotes presentes na corte também choraram, molhando os livros sagrados abertos diante deles. Depois de se acalmar um pouco, Najashi disse: “Aquilo que o vosso profeta trouxe e aquilo que Jesus, que a paz esteja sobre ele, trouxe antes dele têm a mesma origem.” Em seguida, olhou para Amr e seu companheiro e disse: “Vão embora. Juro por Allah que não os entregarei a vocês.”

Umm Salama relata: Quando saímos da corte de Najashi, Amr ibn al-As disse ao seu companheiro, fazendo questão de que o ouvíssemos: “Juro por Allah! Amanhã voltaremos ao rei e lhe apresentaremos ações deles que farão o fogo da inveja arder intensamente em seu coração e o encherão de ódio contra eles. Certamente incentivaremos o rei a exterminá-los completamente.”

Ao ouvir isso, seu companheiro, Abdullah ibn Abi Rabia, disse: “Amr, não devemos fazer isso. Embora se oponham a nós em questões religiosas, eles são nossos parentes.”

Amr disse: “Deixe de lado essas palavras. Certamente informarei ao rei coisas que farão tremer o coração deles. Direi ao rei: eles acreditam que Jesus, filho de Maria, é apenas um servo como os demais.”

No dia seguinte, Amr realmente compareceu à corte de Najashi e disse: “Ó majestoso rei! Essas pessoas, a quem você acolhe e ajuda, dizem algo terrível sobre Jesus, filho de Maria. Envie alguém até eles e pergunte-lhes o que dizem a respeito dele.”

Umm Salama disse: Ao tomarmos conhecimento disso, ficamos extremamente preocupados. Perguntamos uns aos outros: “O que direis quando o rei vos perguntar sobre Jesus, filho de Maria?” Todos chegamos a um consenso: não diremos a respeito dele nada além do que Allah disse. Não acrescentaremos sequer a medida da ponta de um dedo ao que o nosso Profeta trouxe sobre ele. Que nos aconteça então o que estiver destinado para nós. Desta vez também Ja‘far ibn Abi Talib falará em nosso nome.

An-Najashi mandou chamar-nos. Ao comparecermos à sua presença, vimos que os sacerdotes estavam sentados, vestidos da mesma maneira que no dia anterior. Assim que ‘Amr ibn al-‘As e seu companheiro chegaram ali, o rei perguntou-nos: “O que dizeis sobre Jesus, filho de Maria?”

Ja‘far ibn Abi Talib disse: “Nada dizemos além do que o nosso Profeta diz a respeito dele.”

“E o que ele diz?”

“Ele diz: ‘Ele é o servo de Allah e Seu Mensageiro. Ele é o Seu espírito e a Sua palavra, que Ele lançou sobre Maria, a virgem e pura.’”

Ao ouvir Ja‘far, An-Najashi bateu com a mão no chão e disse: “Juro por Allah! O que o vosso Profeta disse sobre Jesus, filho de Maria, não contém o menor exagero, nem mesmo na medida de um pelo.” Ao ouvirem isso, os patriarcas sentados ao redor de An-Najashi emitiram sons de repulsa pelas narinas. O rei disse: “Mesmo que o detesteis tanto quanto quiserdes.” Então, voltou-se para nós e disse: “Ide; sois livres e estais seguros. Se alguém vos insultar ou criar qualquer obstáculo para vós, será punido por isso. Juro por Allah! Mesmo que eu obtivesse uma montanha de ouro, não me agradaria que, em troca dela, a menor aflição atingisse qualquer um de vós.” Em seguida, voltou-se para ‘Amr e seu companheiro e disse: “Devolvei a esses dois homens os presentes que trouxeram. Não preciso deles.”

Umm Salama disse: Assim, a conspiração de ‘Amr e seu companheiro fracassou, e eles deixaram a corte derrotados e desesperados, com o coração partido. Quanto a nós, passamos a viver junto de An-Najashi como vizinhos honrados, em uma excelente moradia.

Depois disso, Ja‘far ibn Abi Talib e sua esposa passaram dez anos completos sob a proteção de An-Najashi, em total segurança e tranquilidade. No sétimo ano após a Hégira, os dois, juntamente com alguns outros muçulmanos, partiram da Abissínia em direção a Yathrib (Medina). Eles também chegaram a Medina, enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornava a Medina após concluir a conquista de Khaybar. Ao ver Ja‘far, o Mensageiro de Allah ficou tão feliz que beijou o espaço entre seus olhos e disse: “Não sei por qual das duas coisas estou mais feliz: pela conquista de Khaybar ou pela chegada de Ja‘far.”

De modo geral, a alegria e a felicidade de toda a comunidade muçulmana e, em particular, dos muçulmanos pobres com a chegada de Ja‘far não eram nem um pouco menores que as do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Isso porque Ja‘far era extremamente bondoso e compassivo para com os pobres e necessitados. Por essa razão, ele era chamado de Abū al-Masākīn, ou seja, o pai dos necessitados.

Um ano se passou após a chegada de Ja‘far ibn Abī Tālib a Medina. No início do oitavo ano da Hégira, o Mensageiro (s.a.w.) preparou um exército para atacar as forças romanas na Síria. Nomeando Zayd ibn Hārithah como comandante, ele disse: “Se Zayd for morto, o comandante será Ja‘far ibn Abī Tālib. Se Ja‘far for morto ou ferido, o comandante será ‘Abdullāh ibn Rawāhah. E, se ele for morto ou ferido, os muçulmanos escolherão um comandante entre si.”

Quando o exército muçulmano chegou a Mu’tah, um lugar na fronteira síria da Jordânia, descobriu que cem mil soldados romanos estavam preparados para enfrentá-lo, enquanto outros cem mil soldados cristãos das tribos árabes de Lakhm, Judhām, Qudā‘ah e outras aguardavam atrás, para ajudá-los. Por outro lado, os muçulmanos eram apenas três mil soldados. Assim que a batalha começou, Zayd ibn Hārithah alcançou o martírio como um herói. Então, Ja‘far ibn Abī Tālib saltou do dorso de seu cavalo e matou-o com a própria espada, para que o exército inimigo não pudesse utilizá-lo. Depois, ergueu o estandarte e avançou profundamente para o interior das forças romanas, continuando a combater e a abater os inimigos. Nesse momento, sua mão direita foi decepada. Ele ergueu o estandarte com a mão esquerda. Pouco depois, com outro golpe de espada, sua mão esquerda também foi separada do corpo. Ainda assim, ele não desistiu. Abraçando o estandarte contra o peito com os braços, manteve elevado o estandarte do Islã. Pouco depois, um terceiro golpe de espada partiu seu corpo ao meio.

Em seguida, ‘Abdullāh ibn Rawāhah tomou o estandarte. Enquanto lutava heroicamente contra os soldados inimigos, ele também se juntou aos seus dois companheiros. Depois, Khālid ibn al-Walīd tomou o estandarte e salvou o exército muçulmano.

Nesta batalha, também participou o venerável ‘Abdullāh ibn ‘Umar. Ele disse: Ao procurarem o corpo de Ja‘far, verificaram que havia cinquenta marcas de ferimentos somente na parte frontal. Havia mais de noventa ferimentos em todo o seu corpo, mas nenhum deles estava nas costas.

Ao ouvir a notícia do martírio desses três comandantes, o Mensageiro de Allah s.a.w. ficou profundamente abatido. Com o coração oprimido pela dor, foi à casa de seu primo Ja‘far. Naquele momento, sua esposa Asmā’ preparava-se para recebê-lo. Ela havia preparado a farinha para fazer pão, dado banho e passado óleo nos filhos, e vestido neles roupas novas.

Asmā’ disse: Ao ver o Mensageiro de Allah s.a.w. aproximar-se de nossa casa, com o rosto abençoado coberto por um tecido fino e limpo, senti todo tipo de medo e apreensão. Porém, por receio de ouvir alguma notícia ruim, não tive coragem de perguntar-lhe nada sobre Ja‘far. Depois de perguntar como estávamos, ele disse: “Traga para mim os filhos de Ja‘far.” Chamei-os. Cheios de alegria, eles correram numa espécie de competição para ver quem chegaria primeiro até o Mensageiro de Allah s.a.w. Ele começou a abraçá-los e beijá-los, enquanto lágrimas copiosas escorriam de seus olhos. Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah! Que meus pais sejam sacrificados por ti. Por que estás chorando? Recebeste alguma notícia triste sobre Ja‘far e seus dois companheiros?” Ele respondeu: “Sim. Eles alcançaram o martírio hoje mesmo.” Naquele instante, o sorriso desapareceu dos rostos das crianças. Quando ouviram sua mãe chorando e lamentando-se, ficaram imóveis em seus lugares como pedras, como se houvesse um pássaro pousado sobre suas cabeças. As mulheres vizinhas vieram reunir-se ao lado de Asmā’. O Mensageiro de Allah s.a.w. saiu enxugando os olhos. Ao chegar em casa, disse às suas esposas purificadas: “Hoje cuidem um pouco da família de Ja‘far. Eles estão hoje completamente desolados.”

Durante muito tempo após o martírio do venerável Ja‘far, o Mensageiro de Allah s.a.w. permaneceu enlutado e abatido. Por fim, o venerável Jibrīl a.s. anunciou-lhe a boa-nova de que Allah Ta‘ālā havia concedido a Ja‘far duas novas mãos vermelhas como sangue, em lugar de suas duas mãos decepadas, e de que ele voava entre os anjos no Paraíso. Por isso, recebeu os títulos de “Dhu’l-Janāḥayn” e “al-Ṭayyār”: o que tem duas asas e o voador.

Ibn Sa‘d narra em sua Tabaqāt: ao ouvir a notícia do martírio de Zaid ibn Haritha, Ja‘far ibn Abi Talib e Abdullah ibn Rawaha, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proferiu um breve sermão diante dos presentes, apresentando-os e louvando-os, e fez esta súplica: “Ó Allah, perdoa Zaid; ó Allah, perdoa Zaid. Ó Allah, perdoa Ja‘far e Abdullah ibn Rawaha.”

O Imam Ahmad narra, sob a autoridade de Abdullah ibn Aslam, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia a Ja‘far: “Em caráter e aparência física, és como eu.”

Hazrat Ja‘far era extremamente bondoso para com os pobres e necessitados. Abu Huraira disse: “Entre nós, os necessitados, Ja‘far ibn Abi Talib era a melhor pessoa. Ele nos levava consigo para sua casa e nos dava tudo o que tinha. Quando sua comida acabava, trazia seu pequeno odre vazio de manteiga. Nós o rasgávamos e comíamos, lambendo tudo o que havia ficado grudado em seu interior. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Aos profetas que vieram antes de mim foram concedidos apenas sete amigos. Mas meus amigos especiais são quatorze, e Ja‘far é um deles.’ ”(Bukhari, Manāqibu Ja’far)

Zaid ibn Haritha ((que Allah esteja satisfeito com ele))

Abu Usama era sua kunya, e Zaid era seu nome. Seu título era Hibbu Rasulillah (o amado do Mensageiro de Allah); seu pai era Haritha e sua mãe, Su‘da bint Tha‘laba.

Su‘da bint Tha‘laba partiu levando consigo seu filho pequeno, Zaid, para visitar a tribo paterna, Banu Ma‘in. Antes de chegarem à tribo paterna, certa noite, um grupo de saqueadores de Banu Qayn atacou sua tenda, saqueou riquezas, camelos e outras coisas, e levou as crianças como prisioneiras. Entre essas crianças cativas estava também seu filho, Zaid ibn Haritha.

Zaid tinha então oito anos de idade. O grupo de saqueadores levou-o à feira de ‘Ukaz para vendê-lo. Um líder coraixita chamado Hakim ibn Hizam ibn Khuwaylid comprou-o por quatrocentos dirhams. Depois de comprar também alguns outros escravos, voltou com eles para Meca.

Ao ouvir que Hakim ibn Hizam havia retornado, sua tia paterna, Khadija bint Khuwaylid, foi visitá-lo. Ele lhe disse: “Tia, trouxe vários escravos que comprei em ‘Ukaz. Escolha entre eles aquele de que mais gostar. Eu o ofereço a você como presente.”

Depois de examinar atentamente o rosto dos escravos, Hazrat Khadija escolheu Zayd ibn Haritha. Isso porque havia percebido no rosto de Zayd sinais de inteligência aguçada e perspicácia. Ela o levou consigo para casa.

Alguns dias depois desse acontecimento, Khadija casou-se com Muhammad ibn Abdullah. Ela desejou dar um presente ao marido. Não encontrou nada mais belo do que seu querido escravo, Zayd ibn Haritha. Foi justamente esse escravo que ela entregou ao marido.

Esse afortunado jovem escravo passou a ser criado sob os cuidados de Muhammad ibn Abdullah. Ao desfrutar de sua nobre companhia, teve a oportunidade de observar a excelência de seu caráter. Enquanto isso, sua amorosa mãe estava transtornada pela dor da perda do filho. As lágrimas nunca secavam de seus olhos. O sono da noite lhe fora privado. Sua maior aflição era não saber se o filho estava vivo ou se havia sido morto pelas mãos de bandidos. Por isso, ficava profundamente desesperada. Seu pai, Haritha, continuava procurando o filho perdido em todos os lugares possíveis. Perguntava a cada pessoa, conhecida ou desconhecida, pelo paradeiro do filho. Ele era um poeta ilustre da Arábia daquela época. A dor pela perda do filho ganhou forma em muitos poemas compostos nesse período. Em um desses poemas, ele diz:

“Choro por Zayd, sem saber o que lhe aconteceu,

está vivo?

Então ainda há esperança de que volte, ou terá morrido

Juro por Allah! Não sei, embora continue perguntando.

Foste raptado pelo povo das terras baixas ou pelo das regiões montanhosas?”

Ao nascer, o sol me faz lembrar de ti, e quando

se põe, faz-me lembrar novamente.

Percorrerei, de país em país, à tua procura,

conduzindo camelos; jamais me cansarei,

nem se cansará o meu camelo. Que eu viva ou que a morte chegue.

Toda pessoa é mortal, por mais que corra atrás de suas esperanças.’’

Naquele período do Hajj, alguns membros da tribo de Zaid foram a Meca para realizar o Hajj. Enquanto circundavam a Caaba em tawaf, depararam-se com Zaid. Ao reconhecerem-se mutuamente, trocaram saudações. Depois de realizarem o Hajj, essas pessoas voltaram para casa e deram a Haritha, pai de Zaid, notícias sobre seu filho desaparecido.

Ao receber notícias do filho, Haritha preparou-se para a viagem. Colocou também sobre a montaria o dinheiro do resgate de Zaid, seu pedaço do fígado e a menina dos seus olhos. O irmão de Haritha, Ka’b, acompanhou-o. Depois de viajarem sem parar pela estrada de Meca, chegaram até Muhammad ibn Abdullah e disseram:

‘Ó descendentes de Abdulmutalib! Vocês são vizinhos da Casa de Allah, auxiliadores dos necessitados, alimentadores dos famintos e protetores dos que buscam refúgio. Viemos tratar do rapaz que está com vocês. Trouxemos também o seu resgate. Sejam benevolentes conosco e fixem o resgate que desejarem.’

Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘De qual rapaz vocês estão falando?’

— Do seu escravo, Zayd ibn Haritha.

— Vocês aceitam que eu lhes ofereça algo melhor do que o resgate?

— O quê?

— Vou chamá-lo diante de vocês. Deixem que ele escolha livremente se permanecerá comigo ou irá com vocês. Se quiser ir com vocês, poderão levá-lo sem pagar resgate. Mas, se quiser permanecer comigo, nada poderei fazer.

Eles concordaram e disseram: — O senhor falou com extrema justiça.

Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou Zayd e perguntou: — Quem são estas duas pessoas?

Disse: “Este é meu pai, Haritha ibn Shurahbil, e aquele é meu tio, Ka‘b.”

Ele disse: “Se quiseres, podes ir com eles; e, se quiseres, podes permanecer comigo.”

Sem hesitar nem por um instante, ele respondeu imediatamente: “Eu permanecerei com o senhor.”

Seu pai disse: “Que a desgraça se abata sobre ti, Zayd! Abandonaste teus pais e escolheste a escravidão?”

Ele disse: “Vi neste homem algo que me impede de abandoná-lo.”

Depois dessa decisão de Zayd, Muhammad (s.a.w.) segurou sua mão, levou-o até a Caaba e, permanecendo junto à Pedra Negra, declarou aos coraixitas presentes: “Ó comunidade dos coraixitas! Sede testemunhas de que, a partir de hoje, Zayd é meu filho. Ele será meu herdeiro, e eu serei seu herdeiro.”

Com essa declaração, o pai e o tio de Zayd ficaram muito felizes. Deixaram-no aos cuidados de Muhammad ibn Abdullah e retornaram tranquilos à sua terra. A partir daquele dia, Zayd ibn Haritha tornou-se Zayd ibn Muhammad. Todos se dirigiam a ele como filho de Muhammad. Por fim, Allah, o Altíssimo, revelou na surata Al-Ahzab o versículo “Chamem-nos pelos nomes de seus pais”, abolindo assim a prática de adotar filhos. Depois disso, ele voltou a ser conhecido como Zayd ibn Haritha.

Quando Zayd escolheu Muhammad (s.a.w.) em vez de seus próprios pais, não sabia que grande vitória havia alcançado. Nada sabia de que o senhor que escolhera, deixando para trás sua família e sua tribo, era o Sayyid dos primeiros e dos últimos e o Mensageiro de Allah enviado a toda a criação. Nem uma única vez lhe ocorreu pensar que neste mundo seria estabelecido um Estado que se encheria de prosperidade e justiça do Oriente ao Ocidente, e que ele próprio seria o fundador desse Estado de prosperidade. Não, nada disso passou então pelos pensamentos ou pela imaginação de Zayd. Tudo é graça de Allah. Ele concede abundantemente a quem quer.

Apenas alguns anos depois desse acontecimento, Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recebeu a missão profética. Zaid foi o primeiro dos escravos homens a crer. Mais tarde, tornou-se o fiel e confiável confidente do Mensageiro de Allah, o comandante de seu exército e o supervisor temporário de Medina durante sua ausência.

Assim como Zaid escolhera o Mensageiro, deixando para trás seus pais, o Mensageiro também o amou profundamente e o incluiu entre seus próprios filhos e familiares. Quando Zaid se ausentava, ele ficava inquieto; quando retornava, ficava radiante e o recebia com uma alegria que não se via quando encontrava qualquer outra pessoa. Certa vez, quando o honorável Zaid voltou a Medina após uma expedição, Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, descreveu como o Mensageiro de Allah o recebeu.

Ela disse:

“Zaid ibn Haritha voltou a Medina. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava então em minha casa. Ele bateu à porta. O Mensageiro levantou-se quase despido. Naquele momento, não vestia nada além de um único pano cobrindo seu corpo do umbigo aos joelhos. Nessa condição, correu até a porta, arrastando o pano. Abraçou-o e beijou-o. Juro por Allah que nunca vi o Mensageiro de Allah assim, com o corpo descoberto, nem antes nem depois disso.”

A notícia do profundo amor do Mensageiro de Allah por Zaid espalhou-se entre os muçulmanos. Por isso, as pessoas o chamavam de ‘Zaid al-Hubb’, e ele recebeu o título de ‘Hibbu Rasulillah’, ou seja, o amado do Mensageiro de Allah.

Quando o honorável Hamza, que Allah esteja satisfeito com ele, aceitou o Islã, o Mensageiro estabeleceu uma relação de fraternidade entre ele e Zaid. Formou-se entre os dois um vínculo profundo. Tanto que, quando Hamza viajava, costumava deixar Zaid, seu irmão na fé, como seu wasi.

O Mensageiro de Allah tinha uma escrava chamada ‘Ummu Ayman’. Certo dia, disse aos Companheiros: “Quem quiser casar-se com uma mulher do Paraíso, que se case com Ummu Ayman.” O honorável Zaid casou-se com ela para agradar ao Mensageiro de Allah. Foi do ventre dela que nasceu em Meca o honorável Usama ibn Zaid, famoso comandante militar.

Após a Hégira de Meca para Medina, ele hospedou-se na casa do honorável Kulthum ibn Hidm. Foi estabelecida uma relação de fraternidade entre ele e o honorável Usayd ibn Hudayb, que Allah esteja satisfeito com ele. Até então, ele vivia junto com a família do Profeta como um de seus membros. Depois que chegou a Medina, deram-lhe uma casa separada, e ele se casou com Zaynab bint Jahsh, prima paterna do Mensageiro de Allah. Contudo, como não se estabeleceu uma relação conjugal com Zaynab, ele divorciou-se dela. Depois, por ordem de Allah, o Mensageiro de Allah casou-se com Zaynab.

Hazrat Zayd era um dos maiores arqueiros da Arábia daquela época. Participou de todas as expedições, desde Badr até Mu’ta. A única expedição da qual não pôde participar foi a de Marra Yasi. Durante essa batalha, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deixou-o como seu representante em Medina.

No oitavo ano da Hégira, ocorreu um acontecimento trágico. Naquele ano, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Harith ibn Umayr al-Azdi ao governador de Basra, levando uma carta com o convite ao Islã. Quando Harith chegou a Mu’ta, um lugar situado na fronteira oriental da Jordânia, Shurahbil ibn ‘Amr, um dos governadores do imperador gassânida, interceptou-o e o fez prisioneiro. Depois, assassinou-o. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) considerou o assunto da maior gravidade, pois nenhum outro enviado havia sido morto daquela maneira. Ele preparou um exército de três mil soldados para uma expedição a Mu’ta e confiou seu comando a Hazrat Zayd ibn Haritha. Pouco antes da partida, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aconselhou: “Se Zayd for martirizado, o próximo comandante do grupo será Ja’far ibn Abi Talib. Se Ja’far for martirizado, o comandante será Abdullah ibn Rawaha. Se ele também for martirizado, eles escolherão entre si um comandante.”

Sob a liderança de Zayd, o exército partiu de Medina e chegou a Ma’an, situada na fronteira oriental da Jordânia. O imperador romano Heráclio avançou com um enorme exército de cem mil soldados, com o objetivo de oferecer resistência em favor dos gassânidas. A ele se juntaram outros cem mil soldados de árabes politeístas. Esse exército combinado tomou posição não muito distante do exército muçulmano. O exército muçulmano permaneceu duas noites em Ma’an, deliberando sobre o que fazer. Alguns disseram que deveriam informar o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), por carta, sobre o número das tropas inimigas e aguardar suas instruções. Outros disseram: “Não lutamos por número, força ou superioridade. Lutamos por esta religião. Avancem para o objetivo pelo qual partiram. Vocês alcançarão um dos dois êxitos: a vitória ou o martírio.”

Então, os dois exércitos desiguais entraram em confronto. Ao verem a bravura e a coragem de apenas três mil soldados contra duzentos mil, as tropas romanas ficaram estupefatas de assombro. O medo também se apoderou de seus corações.

O exemplo da bravura com que Zayd ibn Haritha lutou para manter erguido o estandarte do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é raro na história. Seu corpo foi dilacerado pelos inúmeros golpes de flechas e lanças. Por fim, ele tombou no campo de batalha. Depois, Ja’far ibn Abi Talib e Abdullah ibn Rawaha, um após o outro, ergueram o estandarte e alcançaram o martírio com bravura. Em seguida, por decisão conjunta do exército muçulmano, Khalid ibn al-Walid foi escolhido como comandante. Ele era um recém-convertido ao Islã. Sob sua liderança, o exército muçulmano foi salvo da inevitável derrota e destruição. Assim, no nono ano da Hégira, Hazrat Zayd alcançou o martírio aos cinquenta e quatro ou cinquenta e cinco anos de idade.

Quando a triste notícia de Mu’ta chegou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele ficou tão profundamente entristecido que nunca mais foi visto tão tomado pela dor. Ele foi às casas dos comandantes martirizados para apresentar condolências às suas famílias. Ao chegar à casa de Zayd, sua filhinha abraçou o Mensageiro de Allah, chorando, e ele começou a chorar em voz alta. Ao vê-lo nesse estado, Sa’d ibn Ubadah exclamou: “Ó Mensageiro de Allah, o que é isso?”

Ele respondeu: “Isto é uma expressão de amor.”

Ao retornar da Peregrinação de Despedida, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Usama, o jovem filho de Zayd, à frente de um exército para vingar o assassinato de seu pai. Muitos não aprovaram a liderança de alguém tão jovem. Ao saber disso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Anteriormente, vocês criticaram a liderança de seu pai. Agora não conseguem aceitar a liderança de seu filho. Por Allah, Zayd era digno de ser líder e era o mais amado por mim. Depois dele, o mais amado por mim é seu filho Usama.” Usama era um filho digno de seu pai. Depois de obter a devida vingança pelo assassinato de seu pai, retornou a Medina.

A devoção, o amor, a obediência ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e a busca de sua satisfação constituíam o único objetivo da vida de Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele). Diversos acontecimentos de sua vida comprovam isso. Ummu Ayman (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma mulher já idosa, de idade avançada e sem beleza exterior. Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) casou-se com ela unicamente para alegrar o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quando se divorciou de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), foi ele próprio quem voltou a apresentar a Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) a proposta de casamento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), somente porque o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia manifestado o desejo de casar-se com ela. Por respeito a Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), não levantou os olhos para ela; virou o rosto para o outro lado e limitou-se a apresentar a proposta.(Muslim)

Ao observar o amor ilimitado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por Zayd e seus filhos, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) costumava dizer: “Se Zayd estivesse vivo, talvez o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o tivesse nomeado seu sucessor após sua morte.”

Abdullah ibn Abbas ((que Allah esteja satisfeito com ele))

Seu nome era Abdullah e sua kunya, Abu al-Abbas. Seu pai era Abbas e sua mãe, Ummul Fadl Lubaba. Era descendente do ramo haxemita da tribo dos coraixitas. Era primo paterno do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela), uma das Mães dos Crentes, era sua tia materna.

O grande Companheiro Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) era digno de honra e glória sob muitos aspectos. Por laços de sangue, era primo paterno do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Devido à sua imensa erudição, recebeu da nação árabe, isto é, da Ummah de Muhammad, o título de “Habr e Bahr” (erudito virtuoso e oceano). Era um exemplo prático de taqwa e piedade. Dizia-se a seu respeito que jejuava durante o dia, passava a noite em adoração e, no último período da noite, dedicava-se ao arrependimento e ao istighfar. Temia tanto a Allah que chorava copiosamente, até que as lágrimas formaram duas marcas em suas faces.

Este é Abdullah ibn Abbas, a quem a Ummah de Muhammad chamou de Rabbani (um erudito que conheceu Allah). Era o mais instruído acerca do Livro de Allah, o Sagrado Alcorão; o mais versado em sua interpretação e significado, e a pessoa mais qualificada para compreender seus mistérios.

Ele nasceu em Meca, no vale de Shi’b Abi Talib, três anos antes da Hégira do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de Meca para Medina. Como os coraixitas haviam boicotado seu clã, os Banu Hashim, eles viviam então em Shi’b Abi Talib. Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) faleceu, ele era apenas um adolescente de treze anos. Apesar disso, memorizou mil seiscentas e sessenta palavras ou hadiths do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), proporcionando um benefício extraordinário à comunidade muçulmana, muitos dos quais foram narrados emSahih al- Bukhari e Sahih Muslim, muitos dos quais foram narrados. O pai de Abdullah, Abbas, aparentemente aceitou o Islam no oitavo ano da Hégira, pouco antes da conquista de Meca. Segundo o relato de Ibn Sa’d, Ummul Fadl foi a primeira mulher a crer, depois da Mãe dos Crentes Khadija. Assim, Abdullah cresceu desde o nascimento em um ambiente de tawhid e, ao alcançar a maturidade intelectual, surgiu como um muçulmano dotado de uma fé sólida.

Depois que Abdullah nasceu, sua mãe, a célebre companheira Ummul Fadl Lubaba bint al-Harith al-Hilaliyya, levou-o no colo ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) retirou um pouco de saliva de sua boca purificada, colocou-a na boca do pequeno Abdullah e fez-lhe a tahnik. Assim, antes que qualquer substância mundana entrasse em seu estômago, a saliva pura e abençoada do Mensageiro de Allah já havia entrado nele. E, junto com ela, entraram a taqwa e a hikmah.

Seu pai, Hazrat ‘Abbas, migrou com toda a família para Medina no oitavo ano da Hégira, pouco antes da conquista de Meca. Abdullah tinha então pouco mais de onze anos. Mesmo assim, passava a maior parte do tempo na companhia do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Certa vez, ao voltar para casa, contou: “Vi junto do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, uma pessoa que não conhecia.” Quando Hazrat ‘Abbas relatou isso ao Mensageiro de Allah, ele chamou Abdullah, colocou-o no colo, passou a mão sobre sua cabeça e fez a seguinte súplica: “Ó Allah, abençoa-o e faze com que, por meio dele, se espalhe a luz do Islam.”

Desde os sete anos, ele se dedicou ao serviço e ao cuidado do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Quando era necessário fazer a ablução, providenciava a água; quando ele se levantava para a oração, ficava atrás dele e rezava seguindo-o; e, quando partia em viagem, montava atrás dele em sua montaria e tornava-se seu companheiro de viagem. Assim, seguia-o como uma sombra e carregava sempre consigo um coração atento, uma mente lúcida e uma memória mais poderosa que todos os modernos aparelhos de gravação da época.

Embora Hazrat Abdullah fosse, por natureza, tranquilo, inteligente e perspicaz, o período de sua vida em que teve a oportunidade de conviver com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi justamente a época das brincadeiras da infância. Ele recordou: “Eu brincava com os outros meninos nas vielas e nas ruas. Certo dia, vi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aproximar-se por trás. Corri depressa e me escondi atrás da porta de uma casa. Mas ele me alcançou. Pôs a mão sobre minha cabeça e disse: ‘Vá chamar Mu‘awiya.’ Mu‘awiya era o escriba ou secretário do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Corri até ele e disse: ‘Venha, o Mensageiro de Allah está chamando-o.’”

A Mãe dos Crentes, Hazrat Maymuna, que Allah esteja satisfeito com ela, era tia materna de Hazrat Abdullah e, por isso, ele passava a maior parte do tempo em sua companhia. Muitas vezes, dormia à noite no quarto dela. Assim, por estar muito próximo, foi agraciado com uma convivência extremamente íntima com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Também teve a oportunidade de realizar a oração do tahajjud com o Mensageiro de Allah à noite e de lhe oferecer a água para a ablução. Certa vez, na casa de Hazrat Maymuna, quando ficou à esquerda do Mensageiro de Allah durante a oração do tahajjud, ela segurou a cabeça de Abdullah e o colocou à direita dele.

Hazrat Abdullah ibn ‘Abbas narrou seu próprio episódio da seguinte forma: “Certo dia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, manifestou o desejo de fazer a ablução. Providenciei rapidamente a água. Ele ficou muito satisfeito com o que fiz. Quando se levantou para a oração, fez-me sinal para que eu ficasse ao seu lado. Mas permaneci atrás dele. Ao terminar a oração, voltou-se para mim e perguntou: ‘Abdullah, o que o impediu de ficar ao meu lado?’ Respondi: ‘Ó Mensageiro de Allah, aos meus olhos o senhor é extremamente honorável e tão elevado em dignidade que não me considerei apto a ficar lado a lado com o senhor.’ Imediatamente, ele ergueu as duas mãos para o céu e fez a seguinte súplica: ‘Allahumma atihi al-hikmah’ — ‘Ó Allah, concede-lhe hikmah, ou sabedoria.’ Em outra ocasião, quando lhe ofereci água para a ablução durante a noite, ele suplicou por Abdullah, dizendo: ‘Allahumma faqqihhu fid-din wa ‘allimhu at-ta’wil’ — ‘Ó Allah, torna-o um faqih na religião e ensina-lhe o ta’wil, ou o método de interpretação.’”

Allah, o Todo-Poderoso, aceitou a súplica de Seu amado Profeta e concedeu ao jovem hashimita tamanha quantidade de conhecimento que ele se tornou objeto da inveja dos mais destacados sábios. Diversos episódios de seu vasto conhecimento e de sua extraordinária inteligência foram registrados em obras de história e de biografia.

Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, faleceu, Abdullah tinha apenas treze anos. Dois anos e três meses depois, faleceu o primeiro califa, Hazrat Abu Bakr. Durante o califado do segundo califa, Hazrat ‘Umar, ele entrou na juventude. O califa ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, manteve-o sob sua proximidade e supervisão. Permitia-lhe sentar-se com os grandes Companheiros em assembleias importantes. Também lhe foi permitido sentar-se com os Companheiros de Badr. O muhaddith Ibn ‘Abd al-Barr disse: “‘Umar amava Ibn ‘Abbas e mantinha-o próximo de si.”

Durante a época do terceiro califa, Hazrat ‘Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, no ano 27 da Hégira, foi realizada uma expedição à África sob o comando de Abdullah ibn Abi Sarh, governador do Egito. Hazrat Abdullah participou dessa expedição, levando uma tropa de Medina, e, como enviado do lado muçulmano, conversou com o rei da África, Jarjir. Ao observar sua inteligência aguçada e sua perspicácia, o rei comentou: “Creio que o senhor é um dos homens mais sábios dos árabes.”

No ano 35 da Hégira, quando Hazrat Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, foi mantido sob prisão domiciliar pelos rebeldes, enviou Abdullah a Meca, nomeando-o seu representante e amir do Hajj. Naquele ano, o Hajj foi realizado sob sua liderança. Quando retornou do Hajj a Medina, encontrou a cidade em ebulição. O califa Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, havia alcançado o martírio nas mãos dos rebeldes, e Medina estava sob o controle deles. Eles pressionavam Hazrat Ali a assumir a responsabilidade pelo califado. Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, discutiu o assunto com Abdullah. Após analisar detalhadamente a situação, Abdullah aconselhou Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, a não assumir a responsabilidade. Todas as circunstâncias que ele previra que surgiriam caso Hazrat Ali assumisse o cargo posteriormente se concretizaram.

Na Batalha do Camelo, Hazrat Abdullah assumiu, em favor de Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, o comando das tropas do Hijaz. Hazrat Ali nomeou-o governador de Basra. Levando consigo um exército de Basra, participou da Batalha de Siffin ao lado de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Deve-se observar que essa batalha foi travada entre Hazrat Ali e Hazrat Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ambos. De acordo com a decisão de Siffin, Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, desejou nomear Hazrat Abdullah como seu árbitro, mas, devido à oposição dos outros, esse desejo não pôde ser realizado.

Durante o conflito e os confrontos entre Hazrat Ali e Hazrat Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ambos, quando alguns dos companheiros de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, o abandonaram, Abdullah ibn Abbas disse a Ali: “Ó Comandante dos Crentes, permita-me ir falar um pouco com eles.” Ele respondeu: “Temo que eles cometam algum tipo de excesso contra você.” Abdullah disse: “Se Allah quiser, nada disso acontecerá.”

Ao chegar até eles, Abdullah percebeu que jamais havia visto antes um povo tão profundamente dedicado à adoração e tão concentrado quanto eles. Eles disseram: “Seja bem-vindo, Ibn Abbas! Mas por que você veio?” Ele respondeu: “Para conversar um pouco com vocês.” Alguns deles disseram: “Não há necessidade de conversar com ele.” Outros, porém, disseram: “Está bem, fale; nós o ouviremos.” Ele disse: “Por que vocês adotam uma atitude tão extrema em relação a Ali, primo do رسولullah, seu genro e a primeira pessoa a crer nele?” Eles responderam: “Queremos retribuir-lhe por três atos.” Ele perguntou: “Quais são esses três atos?” Eles responderam:

1. Ao nomear Abu Musa al-Ashari e Amr ibn al-As como árbitros no campo de batalha de Siffin, ele fez com que seres humanos fossem nomeados juízes na questão da religião de Allah.

2. Ele combateu Aisha e Muawiya, mas não tomou seus bens como espólio nem seus prisioneiros de guerra como escravos e escravas.

3. Embora os muçulmanos tivessem prestado bay’a a ele e o reconhecido como comandante, ele renunciou ao título de “Comandante dos Crentes”.

Em resposta, Ibn Abbas disse:

‘Se eu puder apresentar diante de vocês, a partir do Livro de Allah e do hadith do Mensageiro, algo que vocês não possam negar, então vocês abandonarão a crença que professam?’ Quando responderam afirmativamente, ele disse:

‘A acusação de vocês é que ele cometeu um erro ao nomear pessoas como árbitros em uma questão religiosa. No entanto, Allah, o Altíssimo, diz:

‘‘Ó crentes, não caceis enquanto estiverdes em estado de ihram. Se algum de vós matar deliberadamente alguma caça, deverá levar à Caaba, como compensação, um animal equivalente, conforme o julgamento de dois homens justos dentre vós.’’ (Al-–Mā’idah: 95)

‘Juro por Allah: não é mais razoável nomear pessoas como árbitros com o objetivo de proteger o sangue e a vida das pessoas e resolver suas disputas mútuas do que nomear um árbitro para decidir sobre um coelho morto no valor de quatro dirrãs?’

Eles disseram: ‘Sim, é mais razoável nomear árbitros para garantir a segurança do sangue das pessoas e resolver suas disputas mútuas.’ Ibn Abbas disse: ‘Então chegamos a uma decisão sobre este assunto?’ Eles responderam: ‘Sim.’

Ibn Abbas disse: ‘Vocês afirmam que Ali lutou contra Aisha e Muawiya, mas não os capturou nem os transformou em escravos. Vocês querem que sua mãe Aisha seja feita escrava e tratada da mesma forma que as outras escravas? Se responderem afirmativamente, tornar-se-ão descrentes. (Pois na sharia com uma escrava como uma esposa é permitido ’।)’

E se disserem: ‘Aisha não é nossa mãe’, também se tornarão descrentes. Pois Allah diz:

“O Profeta é mais compassivo para com os crentes do que eles próprios, e suas esposas são suas mães.” ((Surata Al–Ahzab: 36))

“Agora, escolham uma dessas duas respostas.” Em seguida, ele disse: “Então chegamos a uma decisão também sobre esta questão?” Eles responderam: “Sim.”

Por fim, ele disse: “Vocês levantaram a acusação de que Ali abandonou o título de ‘Comandante dos Crentes’. No entanto, na ocasião do tratado de Hudaybiyyah, quando foi escrito no acordo celebrado entre o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os politeístas de Meca o enunciado ‘Muhammad, o Mensageiro de Allah’, os coraixitas disseram: ‘Se realmente acreditássemos que você é o Mensageiro de Allah, não o teríamos impedido de chegar à Caaba Sagrada nem teríamos entrado em conflito com você. Em vez desse enunciado, escreva “Muhammad ibn Abdillah”.’ Naquele dia, porém, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aceitou a exigência deles, dizendo: ‘Por Allah, afirmo com toda a certeza que sou o Mensageiro de Allah, por mais que vocês neguem isso.’ Ali abandonou o título de ‘Comandante dos Crentes’ exatamente pelo mesmo motivo. Pois, se Muawiya o tivesse reconhecido como ‘Comandante dos Crentes’, não haveria qualquer divergência.” Depois disso, ele disse: “Então chegamos a uma decisão também sobre esta questão?” Eles responderam: “Sim.”

Os dissidentes de Ali ficaram satisfeitos com essa esclarecedora discussão de Abdullah ibn Abbas e aceitaram de coração aberto seus argumentos sólidos. Depois desse encontro, vinte mil pessoas retornaram ao grupo de Ali, enquanto as quatro mil restantes permaneceram firmes em sua decisão precipitada de hostilidade contra Ali.

A batalha que Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) travou contra os kharijitas extremistas ocorreu num lugar chamado Nahrawan. Abdullah juntou-se a essa batalha vindo de Basra com sete mil soldados. Ali nomeou Abdullah governador não apenas de Basra, mas também de todo o Irã conquistado. Ele suprimiu a rebelião dos kharijitas no Irã.

Segundo uma versão, ainda durante o califado de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), Abdullah renunciou ao cargo de governador de Basra e partiu para Meca. A razão apresentada é que ele renunciou depois de surgir uma divergência entre ele e Abu al-Aswad al-Du’ali, o juiz de Basra. Contudo, segundo outra versão, ele permaneceu no cargo de governador de Basra até o fim do califado de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele); no início do califado de Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele), partiu para Meca e passou a viver em reclusão.

Quando o Imam Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele) partia de Medina para Kufa, passando por Meca, a convite dos habitantes de Kufa, Abdullah tentou dissuadi-lo, lembrando-lhe a traição dos habitantes de Kufa. Abdullah ficou profundamente abalado quando o Imam Husayn de Karbala foi martirizado junto com toda a sua família. Embora permanecesse em Meca, Abdullah recusou-se a prestar o juramento de lealdade a Abdullah ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele). Contudo, considerava-o merecedor do califado. Isso se torna evidente com base num hadith de Sahih al-Bukhari. Por esse motivo, sua permanência em Meca tornou-se um tanto difícil.Bukhari Sagrado; com base num hadith, isso se torna evidente. Por esse motivo, sua permanência em Meca tornou-se um tanto difícil. Ele partiu para Ta’if. No fim da vida, adoeceu e faleceu em Ta’if.

Hazrat Abdullah ibn Abbas empenhou-se incansavelmente e trabalhou arduamente na busca do conhecimento. Para esse propósito, adotou todos os tipos de meios e métodos. Durante a vida do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele colheu duas mãos cheias de sua fonte abundante; após seu falecimento, continuou a saciar sua sede de conhecimento junto aos companheiros ilustres. Quanto à sua humildade e resistência às dificuldades na aquisição do conhecimento, isso pode ser estimado por um de seus próprios relatos. Ele disse:

“Sempre que tomava conhecimento de que algum companheiro do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) havia conservado um hadith dele, eu me dirigia à porta de sua casa. Quando chegava o horário do descanso do meio-dia, estendia meu manto diante de sua porta e me deitava. O vento talvez levantasse a poeira, cobrindo completamente minhas roupas e meu corpo. No entanto, assim que eu pedia permissão para visitá-lo, ele me concedia permissão. Fiz isso apenas com o propósito de lhe fazer perguntas. Ao sair de casa e ver minha situação, ele dizia: ‘Ó primo do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), com que propósito você veio? Por que não me avisou? Eu mesmo teria ido visitá-lo.’ Eu respondia: ‘É a mim que cabe ir até você, pois o conhecimento é algo que se vai receber, não algo que se vai oferecer.’ Então eu lhe perguntava sobre o hadith.”

No aprendizado, Ibn Abbas era humilde. Ele também honrava devidamente os sábios. Um episódio particularmente digno de menção ilustra isso. Certo dia, quando Zayd ibn Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele), líder dos sábios de Medina nas ciências da escrita da revelação, do julgamento, do fiqh, da recitação e das leis de herança, estava prestes a montar em sua montaria, o jovem hachemita Abdullah ibn Abbas aproximou-se dele e ficou diante dele, como um escravo que se posta diante de seu senhor, segurando as rédeas e a sela do animal e ajudando-o a montar. Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) disse-lhe: ‘Ó primo do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), o que você está fazendo? Deixe isso.’ Ibn Abbas respondeu: ‘Foi-nos ordenado tratar assim os nossos sábios e homens de conhecimento.’ Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Estenda uma das suas mãos.’ Quando ele estendeu uma mão, Zayd inclinou-se, beijou-a e disse: ‘Também nos foi ordenado tratar assim os membros da família do nosso Profeta.’

Os grandes sábios e intelectuais daquela época ficaram profundamente maravilhados ao observar os hábitos, a concentração e o método de trabalho de Ibn Abbas na busca do conhecimento. Masruq ibn al-Ajda, um dos maiores tabi‘ins, disse: “Quando vi Ibn Abbas, disse: ‘O mais belo dos homens.’ Quando ele falou, disse: ‘O mais eloquente dos oradores’; e quando ele discorreu, disse: ‘O homem mais sábio.’”

Quando sentiu certo grau de satisfação com seus conhecimentos, assumiu a missão de ensinar as pessoas. A partir de então, sua casa transformou-se em uma universidade islâmica. Não seria exagero chamar sua casa de universidade no sentido em que hoje empregamos essa palavra. A diferença entre uma universidade moderna e a universidade de Ibn Abbas, porém, é que a universidade moderna conta com muitos professores, enquanto ali havia um único professor: Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele.

Um companheiro de Ibn Abbas narra: ‘Certa vez, vi uma reunião de Ibn Abbas que era motivo de grande orgulho para toda a tribo dos coraixitas. Vi a rua diante de sua casa completamente tomada de gente. Fui até ele e informei-o da enorme multidão junto à porta. Ele mandou trazer água para a ablução, realizou a ablução e então sentou-se, dizendo: “Saia e diga às pessoas que estão esperando: aqueles que desejam perguntar sobre o Alcorão e a recitação podem entrar.” Saí e lhes transmiti isso. Depois que falei, entrou um número tão grande de pessoas que o aposento, e até mesmo toda a casa, ficou cheio. Ele respondeu a tudo o que quiseram saber. Depois disse: “Deixem passagem para os irmãos que estão esperando.” Eles saíram.’

Depois, ele me disse: ‘Saia e diga: aqueles que desejam saber sobre o tafsir e o ta’wil do Alcorão podem entrar.’ Saí e lhes transmiti isso. Depois que falei, a casa ficou cheia de gente. Ele respondeu a todas as suas perguntas e ainda lhes ensinou muitas outras coisas. Depois disse: ‘Deixem passagem para os irmãos que estão esperando.’ Eles saíram.

Mais uma vez, ele me disse: ‘Saia e mande entrar aqueles que desejam saber sobre o halal, o haram e o fiqh.’ Saí e os enviei para dentro. Eram também tão numerosos que a casa ficou completamente cheia. Depois de responder a todas as suas perguntas, pediu-lhes que deixassem espaço para as pessoas seguintes. Eles foram embora.

Ele me enviou novamente e mandou chamar aqueles que desejavam saber sobre as leis de herança e as questões jurídicas relacionadas a elas. Dessa vez, a casa também ficou cheia. Depois de responder satisfatoriamente a todas as suas perguntas, pediu-lhes que deixassem espaço para os que viriam em seguida. Eles saíram. Ele me enviou novamente e disse: ‘Mande entrar aqueles que desejam conhecer a língua árabe, a poesia e a maravilhosa literatura dos árabes.’ Eu os enviei. Mais uma vez, a casa ficou cheia. Ele respondeu a todas as suas perguntas, deixou-os satisfeitos e despediu-se deles. O narrador comenta: ‘Uma única reunião como essa é suficiente para constituir a glória e o orgulho de toda a tribo dos coraixitas.’

Foi justamente por causa dessa multidão que, mais tarde, Ibn Abbas dedicou um dia da semana a cada tema. Ele realizava sessões de discussão em dias diferentes sobre fiqh, maghazi, poesia, a história dos árabes antigos e outros assuntos. Por maiores que fossem os eruditos presentes nessas suas sessões, todos retornavam satisfeitos.

Graças ao seu conhecimento incomensurável e ao seu poder de reflexão, o honorável Ibn Abbas, apesar de ser jovem, teve a honra de tornar-se membro da assembleia consultiva do Califado Bem-Guiado. Quando o honorável Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, se deparava com algum problema difícil, convocava os Companheiros mais velhos e eruditos. Ao mesmo tempo, mandava chamar também Abdullah ibn Abbas. Quando ele chegava, o honorável Umar demonstrava-lhe grande respeito e dizia: “Estamos diante de uma prova difícil; encontre uma solução, você e os outros que são como você.”

Certa vez, numa assembleia de Companheiros idosos e mais velhos, o honorável Umar deu a Abdullah ibn Abbas um pouco mais de importância e preferência do que aos demais. Naquela época, Abdullah era jovem. Por isso, Umar foi alvo das críticas dos Companheiros mais velhos. Alguns disseram: “Nós também temos filhos e netos da idade dele; também poderíamos trazê-los.” Então o honorável Umar testou Abdullah, pedindo-lhe a explicação de um versículo do Alcorão. Ele foi aprovado nesse teste. Umar disse então: “Abdullah é um jovem dotado da inteligência dos sábios. Ele possui uma língua inquisitiva e um coração atento.”

Hisham ibn Urwah perguntou a seu pai, Urwah, sobre a profundidade do conhecimento de Ibn Abbas e sua posição. Em resposta, ele disse: “Nunca vi alguém tão erudito quanto Ibn Abbas.”

Amr ibn Habashi disse: “Perguntei a Ibn Umar sobre um versículo. Ele respondeu: ‘Vá até Ibn Abbas e pergunte-lhe também. Pois, entre os que restam daqueles que têm conhecimento de tudo o que foi revelado a Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele é o mais sábio.’”

A base de sua extraordinária erudição na exegese e em outros assuntos islâmicos foi, primeiro, a oportunidade de desfrutar da companhia e servir o nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz; segundo, a súplica do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em seu favor; e, terceiro, seu imenso interesse pela aquisição do conhecimento, juntamente com seu esforço e dedicação incansáveis.

Quando Zayd ibn Thabit morreu, o honorável Abu Hurayra comentou: “Morreu o erudito sábio desta ummah, e espero que Allah, o Altíssimo, faça de Abdullah ibn Abbas seu sucessor.”

O honorável Ibn Abbas, além de ensinar estudantes e pessoas ilustres, também se preocupava com o povo em geral. De tempos em tempos, por meio de reuniões especiais, ele oferecia ao povo exortações e conselhos religiosos.

Ibn Abbas não era do tipo de pessoa que manda os outros fazerem aquilo que ele próprio não faz. Durante o dia, jejuava, e à noite, dedicava-se à adoração. Abdullah ibn Mulaika disse: “Certa vez, viajei com Ibn Abbas de Meca a Medina. Sempre que armávamos a tenda em algum lugar para descansar, ele passava uma parte específica da noite em oração, permanecendo de pé. Enquanto isso, os demais companheiros de viagem estavam inconscientes, profundamente adormecidos de cansaço e exaustão. Certa noite, ouvi-o recitar com profunda concentração:

وَجَاءَتْ سَكْرَةُ الْمَوْتِ بِالْحَقِّ ۖ ذَٰلِكَ مَا كُنتَ مِنْهُ تَحِيدُ

‘E a agonia da morte virá com a verdade. Eis o que tentavas evitar.’ (Caf: 19)

Ele repetia esse versículo várias vezes e chorava. E assim passou a noite até o alvorecer.”

Ele faleceu na cidade de Taife, no ano 68 da Hégira, correspondente a 686/88 d.C. Na ocasião de sua morte, tinha setenta e um anos. Muhammad ibn al-Hanafiyya dirigiu sua oração fúnebre. Na cidade de Taife, a imensa mesquita chamada “Mesquita de Ibn Abbas” continua até hoje preservando sua memória. O túmulo desse grande Companheiro encontra-se de um lado, nos fundos dessa mesma mesquita. Depois que ele foi sepultado, foi recitado o seguinte versículo do Alcorão:

يَا أَيَّتُهَا النَّفْسُ الْمُطْمَئِنَّةُ – ارْجِعِي إِلَىٰ رَبِّكِ رَاضِيَةً مَّرْضِيَّةً – فَادْخُلِي فِي عِبَادِي – وَادْخُلِي جَنَّتِي –

‘Ó alma tranquila! Retorna ao teu Senhor, satisfeita e agradada. Entra, pois, entre os Meus servos e entra no Meu Paraíso.’ (Al–Fajr: 27––30)

Abdullah ibn Mas’ud ((que Allah esteja satisfeito com ele))

O Mensageiro de Allah ﷺ disse a respeito de Abdullah ibn Mas‘ud رضي الله عنه: “Quem deseja recitar o Alcorão com pureza e deleitar-se com sua recitação, tal como foi revelado, que recite o Alcorão seguindo a recitação de Ibn Umm ‘Abd.”

Isso aconteceu quando ele ainda era apenas um adolescente e não havia entrado na juventude. Ele pastoreava, pelas passagens montanhosas de Meca, um rebanho de cabras pertencente a ‘Uqbah ibn Abu Mu‘ayt, um dos chefes da tribo dos coraixitas. As pessoas o chamavam de “Ibn Umm ‘Abd”. Seu nome, porém, era Abdullah; o nome de seu pai era Mas‘ud, sua kunya era Abu ‘Abdir-Rahman e o nome de sua mãe era Umm ‘Abd.

Aquele jovem ouvia constantemente diversas notícias sobre o surgimento de um profeta entre seu povo. Contudo, devido à sua pouca idade e ao fato de passar a maior parte do tempo afastado da vida social de Meca, não dava importância ao assunto. Como de costume, levantava-se todas as manhãs, saía com o rebanho de cabras de ‘Uqbah e retornava ao entardecer.

Certo dia, aquele jovem viu dois homens idosos, cujos rostos traziam marcas de dignidade, aproximando-se dele de longe. Estavam tão exaustos e sedentos que seus lábios e gargantas haviam secado completamente. Ao se aproximarem, os dois homens o cumprimentaram e disseram: “Meu filho! Ordenhe um pouco de leite destas cabras para nós. Bebamos para saciar a sede e umedecer um pouco nossas gargantas ressecadas.”

O rapaz disse: “Isso não me é possível. As cabras não são minhas. Sou apenas o pastor e o depositário delas.” Os dois homens não se descontentaram com suas palavras; pelo contrário, uma expressão de alegria surgiu em seus rostos. Um deles disse novamente: “Então, dê-me uma cabra que ainda não tenha tido contato com um bode.” O rapaz apontou para uma cabritinha que estava parada ali perto. O homem aproximou-se, pegou-a e, dizendo “Bismillahir-Rahmanir-Rahim”, segurou-a com uma mão e começou a massagear seu úbere com a outra. Perplexo, o rapaz observava a cena e pensava: “Como uma cabritinha que nunca teve contato com um bode poderia dar leite? Mas que maravilha! Em pouco tempo, o úbere da cabra inchou e começou a sair uma grande quantidade de leite. O segundo homem levantou uma pedra com cavidades, colocou-a sob as tetas e encheu-a de leite. Depois, os dois beberam e fizeram o rapaz beber com eles. Ibn Mas‘ud disse: “Tudo o que eu via parecia inacreditável para mim.” Quando todos ficaram satisfeitos, aquele homem virtuoso olhou para o úbere da cabra e disse: “Encolhe-te.” Imediatamente, ele voltou a murchar como antes. Então pedi àquele homem virtuoso: “Ensine-me as palavras que o senhor pronunciou.” Ele respondeu: “Você é um rapaz instruído.”

Esta foi a primeira história do contato de Abdullah ibn Mas‘ud com o Islam. Essa pessoa extremamente virtuosa não era outro senão o próprio Mensageiro de Allah ﷺ. Seu companheiro era o nobre Abu Bakr as-Siddiq رضي الله عنه. Naquela época, eles haviam se refugiado nas passagens montanhosas desertas de Meca para escapar da perseguição e da opressão dos coraixitas. Assim como o rapaz havia gostado do Mensageiro ﷺ e de seu companheiro, eles também haviam considerado excelentes o comportamento, a confiabilidade e a inteligência do rapaz. Perceberam nele sinais auspiciosos de bondade e prosperidade.

Pouco tempo depois desse acontecimento, Abdullah ibn Mas‘ud aceitou o Islam e dedicou-se a servir o Mensageiro de Allah ﷺ. O Mensageiro ﷺ também o nomeou seu servidor. A partir daquele dia, aquele rapaz afortunado deixou de ser pastor de cabras para se tornar servidor do melhor de todos os seres humanos.

Abdullah ibn Mas‘ud seguia seu mestre como uma sombra. Esteja em viagem ou em residência, dentro ou fora de casa, ele permanecia sempre ao seu lado. Quando o Mensageiro ﷺ dormia, Abdullah o despertava; durante o banho, protegia sua privacidade; quando saía, calçava seus sapatos; ao entrar em casa, retirava-os; e carregava seu bastão e seu miswak. Mesmo quando o Mensageiro ﷺ se encontrava em seus aposentos, Abdullah ia até ele. O Mensageiro ﷺ havia-lhe permitido entrar em seu quarto sempre que desejasse e tomar conhecimento de todos os seus assuntos, sem qualquer hesitação ou constrangimento. Por isso, ele era chamado de “Sahib as-Sirr”, isto é, aquele que conhecia todos os segredos do Mensageiro de Allah ﷺ.

Abdullah ibn Mas’ud foi criado na casa do Profeta, seguiu-o e adquiriu hábitos, comportamento e características semelhantes aos dele. Por isso, foi dito a seu respeito: “Em orientação, conduta e características morais, ele era o melhor dos homens junto ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.”

Ibn Mas’ud recebeu sua educação na própria escola do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Por isso, ele foi um dos Companheiros que melhor recitavam o Alcorão, que melhor compreendiam seus significados e sentidos e que possuíam maior conhecimento das leis e dos mandamentos de Allah.

Certa vez, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, encontrava-se na planície de Arafat. Nesse momento, um homem chegou e disse: “Ó Amir al-Mu’minin! Venho de Kufa. Lá vi um homem ensinando o Alcorão às pessoas de memória.” Ao ouvir isso, ele ficou tão furioso que raramente alguém o via tão irado. Dentro da liteira de seu camelo, começou a ferver de raiva. Então perguntou: “Que você pereça! Quem é esse homem?”

— Abdullah ibn Mas’ud.

Ao ouvir o nome de Ibn Mas’ud, ele ficou como alguém sobre quem se derrama água para apagar um fogo ardente. Sua ira se dissipou e ele recuperou a calma. Então disse: “Que você pereça! Juro por Allah que não conheço ninguém vivo mais digno do que ele para esse trabalho. Vou contar-lhe um episódio a esse respeito.” Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, continuou: “Certa noite, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conversava com Abu Bakr. Eles discutiam vários assuntos dos muçulmanos. Eu também estava com eles. Depois de algum tempo, o Mensageiro de Allah saiu, e nós saímos com ele. Assim que saímos, vimos um homem em pé, rezando na mesquita, mas não conseguimos reconhecê-lo. O Mensageiro de Allah ficou de pé e por algum tempo ouviu sua recitação do Alcorão. Depois, voltou-se para nós e disse: ‘Quem deseja recitar o Alcorão corretamente, como foi revelado, e alegrar-se com isso, deve recitá-lo à maneira de Ibn Umm Abd.’ Em seguida, Abdullah ibn Mas’ud sentou-se e começou a fazer súplicas. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passou a dizer-lhe suavemente: ‘Peça, e lhe será concedido; peça, e lhe será concedido.’

Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Pensei comigo mesmo: Juro por Allah que amanhã, ao amanhecer, irei até Abdullah ibn Mas’ud e lhe darei a boa notícia do comentário do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre sua súplica.” Fui até ele bem cedo pela manhã. Quando cheguei, vi que Abu Bakr as-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, já havia chegado antes de mim e lhe dado a boa notícia. Na verdade, sempre que competi com Abu Bakr na prática de alguma boa ação, ele venceu em todas as ocasiões.

A respeito de quão profundo era seu conhecimento do Alcorão, o Livro de Allah, é especialmente digno de menção um comentário feito pelo próprio Ibn Mas’ud. Ele disse: “Juro por Allah, além de Quem não há outra divindade: não foi revelado um único versículo do Livro de Allah sem que eu saiba onde foi revelado e a respeito de que foi revelado. Se eu souber da existência de alguém mais versado do que eu no Livro de Allah e puder chegar até ele, certamente irei à sua presença.”

Não há exagero no que Abdullah ibn Mas’ud disse sobre si mesmo. Considero apropriado apresentar aos leitores um episódio a esse respeito. Certa vez, Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, encontrou, durante uma viagem noturna, uma caravana desconhecida. Na escuridão profunda da noite, não era possível ver nenhuma das pessoas da caravana. Por acaso, Abdullah ibn Mas’ud também estava naquela caravana, mas Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, não sabia disso. Umar pediu a um homem que chamasse os integrantes da caravana e perguntasse de onde ela vinha. Abdullah ibn Mas’ud respondeu da outra caravana:

– «Do vale de Amīq.»

– «Para onde está indo?»

– «Ilā al-Bayt al-‘Atīq — para o Bayt al-‘Atīq (isto é, a Caaba).» Ao ouvir a resposta, Omar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «Certamente, entre eles há um sábio.» Em seguida, pediu que perguntasse novamente: «Qual é o versículo mais grandioso do Alcorão?»

– «Allāhu lā ilāha illā huwa al-ḥayyu al-qayyūm, lā ta’khudhuhu sinatun wa lā nawm — não há divindade além de Allah, o Eterno, o Vivente, o Sustentador de tudo. Nem a sonolência O toca, nem o sono O alcança.»

– «Qual é o versículo que expressa mais plenamente o princípio da justiça?»

– Innallāha ya’muru bil-‘adli wal-iḥsāni wa ītā’i dhil-qurbā — Allah ordena estabelecer a justiça, praticar a benevolência e dar aos parentes próximos. Então veio outra pergunta:

– «Qual é o versículo de significado mais abrangente?»

– «Faman ya‘mal mithqāla dharratin khayran yarah, wa man ya‘mal mithqāla dharratin sharran yarah — quem fizer uma boa ação do peso de um átomo verá a sua recompensa; da mesma forma, quem fizer uma má ação do peso de um átomo também verá a sua recompensa.»

– «Qual é o versículo que mais causa temor?»

– «Laissa bi-amāniyyikum wa lā amāniyyi ahlil-kitābi man ya‘mal sū’an yujza bihi wa lā yajid lahu min dūnillāhi waliyyan wa lā nasīran» — «Tudo não acontecerá conforme os vossos desejos, nem conforme os desejos do Povo do Livro. Quem praticar uma má ação receberá a sua recompensa. E, além de Allah, não encontrará para si protetor algum nem auxiliador.»

«Qual é o versículo que mais desperta esperança?»

– «Qul yā ‘ibādiyallazīna asrafū ‘alā anfusihim lā taqnatū mir rahmatillāhi innallāha yaghfiruz-zunūba jamī‘an. Innahū huwal-ghafūrur-rahīm» — «Dize: Ó Profeta, dize: Ó Meus servos, que cometestes excessos contra vós mesmos, não desespereis da misericórdia e da compaixão de Allah. Certamente, Allah perdoará todos os pecados. Ele é, de fato, o Perdoador, o Misericordioso.»

– «Então, há entre vós alguém chamado Abdullah ibn Mas‘ud?»

– Sim.»

Abdullah ibn Mas‘ud não era apenas um excelente recitador do Alcorão, erudito, devoto e asceta; era também um homem ativo e perspicaz, além de um mujahid que se adiantava nos momentos de grave dificuldade. É glória suficiente para ele o fato de que, depois do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), foi o primeiro muçulmano sobre a face da Terra a recitar o Alcorão publicamente entre os coraixitas.

Certo dia, os companheiros do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) reuniram-se em Meca. Naquele momento, eram poucos e fracos. Conversando entre si, disseram: «Por Allah, até hoje ninguém recitou o Alcorão publicamente para fazê-lo ouvir aos coraixitas. Quem poderia fazê-los ouvir o Alcorão?»

Abdullah ibn Mas‘ud disse: «Eu mesmo farei com que eles ouçam.» Os outros disseram: «Tememos por você. Queremos alguém que tenha pessoas consigo, para que, se os coraixitas tentarem maltratá-lo de algum modo, elas possam impedi-los.» Ibn Mas‘ud disse: «Permit am-me ir. Allah me protegerá.» Dito isso, dirigiu-se à mesquita e, pouco antes do meio-dia, chegou ao Maqām Ibrāhīm. Parou junto ao Maqām Ibrāhīm e começou a recitar o Alcorão em voz alta: «Bismillāhir-Rahmānir-Rahīm. Ar-Rahmān, ensinou o Alcorão, criou o ser humano e ensinou-lhe a eloquência…»

Ele continuou a recitação. Ao ouvirem, os coraixitas ficaram por um instante pensativos. Então perguntaram uns aos outros: «O que está dizendo Ibn Umm ‘Abd? Que seja destruído! Ele está recitando justamente o que Muhammad diz.» Todos se levantaram e correram em sua direção, começando a golpeá-lo impiedosamente no rosto. Nessa situação, ele recitou o quanto Allah quis que recitasse. Depois voltou para junto de seus companheiros com o corpo ensanguentado. Eles disseram: «Era exatamente isso que temíamos.» Ele respondeu: «Juro por Allah! Os inimigos de Allah agora são insignificantes aos meus olhos, como nunca foram antes. Se quiserem, amanhã também posso fazer o mesmo.» Eles disseram: «Não, já basta. Você fez com que ouvissem aquilo que detestam.» Após abraçar o Islam, o venerável Abdullah ibn Mas‘ud tornou-se alvo da perseguição dos coraixitas. Por necessidade, emigrou duas vezes para a Abissínia. Por fim, emigrou para Medina, onde permaneceu para sempre. Em Medina, hospedou-se na casa do célebre companheiro ansari, o venerável Mu‘adh ibn Jabal. Depois que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a Medina, estabeleceu a fraternidade religiosa entre os dois e concedeu a Abdullah um terreno ao lado da Mesquita do Profeta para sua moradia.

Ele participou de todas as batalhas importantes com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Na batalha de Badr, dois jovens ansaris mataram Abu Jahl, o feroz inimigo do Islam, e o deixaram no campo de batalha. Ao término da batalha, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Vá alguém verificar como está Abu Jahl.» Abdullah ibn Mas‘ud correu até lá. A pulsação de Abu Jahl ainda não havia cessado. Abdullah agarrou-lhe firmemente a barba e disse: «Diga-me: você é Abu Jahl?»

Ele esteve com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em Uhud, Khandaq, Hudaybiyyah, Khaybar e também na conquista de Meca. Na batalha de Hunayn, o exército muçulmano de dez mil homens dispersou-se devido ao ataque surpresa dos incrédulos. Apenas oitenta guerreiros permaneceram firmes ao redor do Mensageiro de Allah, arriscando a própria vida. Abdullah ibn Mas‘ud era um desses oitenta. Nessa batalha, foi Abdullah ibn Mas‘ud quem entregou à mão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o punhado de poeira que ele lançou contra o exército dos idólatras.

Após o falecimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele permaneceu afastado de todas as atividades por muito tempo. Entretanto, durante o califado do venerável Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, no ano 15 da Hégira, não conseguiu mais permanecer inativo. Respondendo ao chamado da jihad, partiu para a batalha de Yarmuk e lutou com bravura.

No ano 20 da Hégira, o califa Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, nomeou-o cádi de Kufa. Além das funções de cádi, também lhe foram confiadas as responsabilidades de administrar o Bayt al-Mal, a educação e a formação, bem como a de ministro do governador de Kufa.

Durante dez anos completos, ele desempenhou todas essas funções com extrema competência. Nesse longo período, o califa Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, foi martirizado, o venerável Uthman assumiu o califado e houve mudanças no governo de Kufa; contudo, Abdullah ibn Mas‘ud permaneceu em seu cargo. No final do califado de Uthman, Abdullah foi dispensado de suas funções. Acompanhado por seus companheiros e sua família, partiu de Kufa em direção ao Hijaz. Ao chegar a um lugar do deserto chamado Rabdha, soube que o célebre companheiro, o venerável Abu Dharr al-Ghifari, que Allah esteja satisfeito com ele, encontrava-se em seu leito de morte. Pouco depois da chegada de Abdullah, Abu Dharr deu seu último suspiro. Abdullah ibn Mas‘ud dirigiu a oração fúnebre e providenciou seu amortalhamento e sepultamento. Dali, foi para Meca, realizou a ‘umrah e chegou a Medina. Passou o restante da vida tranquilamente em Medina.

No ano 32 da Hégira, quando Abdullah tinha mais de sessenta anos, certo dia um homem chegou repentinamente até ele e começou a dizer: «Que Allah não me prive de participar de sua oração fúnebre. Na noite passada, sonhei que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava sobre um púlpito e você diante dele. Ele lhe dizia: ‘Ibn Mas‘ud, depois de mim você sofreu terrivelmente. Venha, junte-se a mim.’» O sonho se concretizou. Poucos dias depois, ele adoeceu e morreu em decorrência daquela enfermidade.

Ele permaneceu vivo até o califado de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Quando estava em seu leito de morte, Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) foi visitá-lo certo dia e perguntou:

— Do que você se queixa?

— Dos meus pecados.

— Há algo que você deseja?

— A misericórdia, ou a compaixão, do meu Senhor.

— Você não recebe seu benefício há muitos anos; devo ordenar que ele volte a ser pago?

— Não tenho necessidade de nada.

— Ele será necessário para suas filhas depois da sua morte.

— Você está preocupado com a pobreza de minhas filhas? Eu lhes ordenei que recitassem a surata Al-Waqi‘ah todas as noites. Pois ouvi o Mensageiro (s.a.w.) dizer: “Quem recitar a surata Al-Waqi‘ah todas as noites jamais será tocado pela pobreza.”

Ao fim do dia, caiu a noite, e Abdullah ibn Mas‘ud encontrou-se com seu Rafīq al-A‘lā — o Companheiro Supremo. O califa Uthman conduziu sua oração fúnebre, e ele foi sepultado ao lado de Hazrat Uthman ibn Maz‘un (r.a.).

Al–Arqam ibn Abil Arqam ((r.a.))

Seu nome era Abu Abdillah al-Arqam. Seu pai era Abu’l-Arqam Abd Manāf, e sua mãe, Umaimah.

A família de Hazrat al-Arqam gozava de grande prestígio e poder na Arábia da época da ignorância. Seu avô, Abu Jundub Asad ibn Abdillah, era um dos principais líderes de Meca em sua época.

Hazrat al-Arqam aceitou o Islã depois de onze ou doze pessoas.Al–Bidayarelata que, depois de Abu Bakr aceitar o Islã, ele apresentou o convite ao Islã a Uthman ibn Affan, Talhah ibn Ubaidillah, Zubair ibn al-Awwam e Sa‘d ibn Abi Waqqas. Todos aceitaram imediatamente esse convite. No dia seguinte, ele foi à presença do Mensageiro de Allah (s.a.w.) acompanhado de Uthman ibn Maz‘un, Abu Ubaidah e al-Arqam ibn Abil Arqam. Todos eles aceitaram o Islã.

Quando Hazrat al-Arqam aceitou o Islã, a situação de todos os muçulmanos, inclusive a do Mensageiro de Allah (s.a.w.), era extremamente crítica. As forças pagãs de Meca queriam sufocar esse movimento antes que ele adquirisse força. Mas o Islã não veio para ser eliminado. Depois que ele aceitou o Islã, a casa de Hazrat al-Arqam transformou-se na base secreta do Islã. Sempre que se discute a história da primeira fase do Islã, a “Dār al-Arqam”, ou a casa de al-Arqam, volta a surgir diante de nós. Essa casa desempenhou um papel grandioso na propagação e no estabelecimento do Islã. O Mensageiro (s.a.w.) permanecia nessa casa e, evitando a vigilância dos coraixitas, transmitia secretamente o convite ao Islã. Os poucos que até então haviam aceitado o Islã reuniam-se ali com o Mensageiro de Allah (s.a.w.). Além disso, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) fazia, a partir dali, o convite ao Islã por meio de contatos pessoais. Várias pessoas aceitaram o Islã nessa casa histórica. A última pessoa a proclamar o Islã nessa casa foi Umar ibn al-Khattab (r.a.). Está relatado na obra Hayatus Sahabah que, quando o número de muçulmanos chegou a trinta e oito, Abu Bakr e os demais pressionaram o Mensageiro de Allah (s.a.w.) para que propagasse o convite ao Islã publicamente. Diante da insistência deles, o Mensageiro (s.a.w.) concordou. Eles saíram da casa de al-Arqam e espalharam-se de modo disperso pela Mesquita Sagrada. Conforme o plano, Hazrat Abu Bakr levantou-se para discursar, dirigindo-se aos coraixitas reunidos no recinto da Caaba. Assim que começou a apresentar-lhes o convite ao Islã, os arruaceiros coraixitas atacaram Abu Bakr em conjunto e começaram a golpeá-lo. O miserável Utbah tirou os sapatos e espancou Hazrat Abu Bakr com eles. O estado de Abu Bakr tornou-se alarmante. Sua tribo, Banu Taim, avançou para salvá-lo. Assim que recuperou a consciência, Abu Bakr perguntou pela situação do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Enviou sua mãe, Umm al-Khair, a Umm Jamil para obter notícias do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Umm Jamil veio e informou secretamente que o Mensageiro (s.a.w.) estava a salvo. Depois, na escuridão da noite, os três chegaram secretamente à presença do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Ali, pela bênção da súplica do Mensageiro de Allah (s.a.w.), a mãe de Hazrat Abu Bakr, Umm al-Khair, aceitou o Islã. Eles permaneceram ali durante um mês. Nesse intervalo, o número de muçulmanos chegou a quarenta. No mesmo dia em que Abu Bakr (r.a.) foi espancado enquanto propagava o convite à religião de Allah, por uma coincidência, Hazrat Hamzah também aceitou o Islã.

Na era pré-islâmica, havia em Meca uma associação beneficente chamada “Hilf al-Fudul”, fundada sob a liderança do Mensageiro de Allah (s.a.w.); al-Arqam era um de seus membros.

No décimo terceiro ano da missão profética, quando foi dada a ordem da Hégira, Hazrat Arqam chegou a Medina junto com os demais Companheiros. Foi estabelecida uma relação de irmandade entre ele e Hazrat Abu Talha ibn Sahl. Para que pudesse fixar residência, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) concedeu-lhe um terreno no bairro dos Banu Zuraique, em Medina.

Ele participou da primeira batalha entre a verdade e a falsidade, a Batalha de Badr. Nessa batalha, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu-lhe uma espada. Participou de todas as importantes expedições, incluindo Uhud, Khandaq e Khaybar, combatendo com bravura e coragem. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nomeou-o coletor do zakat.

Ele faleceu em Medina, aos 83 anos de idade, no ano 53/55 da Hégira. Antes de morrer, deixou instruções para que Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas conduzisse sua oração fúnebre. Contudo, Hazrat Sa’d encontrava-se em um lugar chamado Aqiq, um pouco distante de Medina. Quando sua chegada se atrasou um pouco, Marwan ibn Hakam, o então governador de Medina, protestou, dizendo: quanto tempo a oração fúnebre permanecerá esperando por uma pessoa? Ele decidiu avançar pessoalmente e começar a liderar a oração fúnebre. Mas Ubaidullah ibn Arqam não lhe deu permissão. A tribo Banu Makhzum também veio apoiar e respaldar Ubaidullah. Enquanto ocorria a discussão, Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou. Ele conduziu a oração fúnebre, e o corpo foi sepultado no cemitério de Baqi, em Medina.

A piedade, a devoção religiosa, o desapego dos prazeres mundanos e a honestidade eram características marcantes do caráter de Hazrat Arqam. Ele tinha uma forte atração pela adoração e pela vigília noturna. Certa vez, decidiu viajar para Bayt al-Maqdis. Depois de concluir os preparativos para a viagem, foi despedir-se do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro perguntou: para fins de comércio ou por alguma outra necessidade? Arqam respondeu: “Que meus pais sejam sacrificados por você, não tenho outra necessidade. Quero apenas realizar a oração em Bayt al-Maqdis.” Foi-lhe dito: “Uma oração nesta minha mesquita é melhor do que mil orações em qualquer outra mesquita, exceto a Mesquita Sagrada.” Assim que ouviu isso, Hazrat Arqam sentou-se e desistiu da intenção de viajar.

A principal profissão de Hazrat Arqam era o comércio. Após a Hégira, ele fixou residência permanente em Medina. Ele deixou sua histórica casa em Meca como waqf para seus descendentes. Durante muito tempo, essa casa foi considerada um local de visita para os viajantes.

A casa de Hazrat Arqam ficava ao pé do monte Safa. Ao realizar o sa’i entre Safa e Marwa, era preciso passar exatamente diante da porta da casa. A casa permaneceu intacta até a época do califa abássida Mansur, no ano 140 da Hégira. Nesse mesmo ano, Muhammad ibn Abdullah ibn Hasan proclamou uma revolta em Medina contra o governo abássida. Abdullah ibn Uthman, neto de Hazrat Arqam, também era um dos apoiadores e colaboradores dessa revolta. Por essa razão, por ordem do califa Mansur, Shihabuddin ibn Abdebar foi enviado a Abdullah com uma proposta para comprar a casa. Inicialmente, Abdullah recusou-se a vendê-la; mas, sob a condição de ser libertado da prisão e atraído pelo alto preço, finalmente concordou em vendê-la. Mansur adquiriu a propriedade dessa grandiosa, abençoada e histórica casa pelo valor de dezessete mil dinares. Embora os demais coproprietários da casa inicialmente não concordassem, pouco a pouco também aceitaram.

Depois do califa Mansur, o califa Mahdi doou a casa à sua escrava predileta, Khayzuran. Ela demoliu a antiga estrutura da casa e construiu uma mansão completamente nova. Assim, ao longo das eras, a casa foi sendo reformada e, pouco a pouco, esse grandioso lar — onde o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os muçulmanos haviam buscado refúgio durante o período crítico do Islã e que, por longo tempo, fora o local da descida da revelação e dos anjos — desapareceu completamente.

Abu Huraira ad–Dawsi ((que Allah esteja satisfeito com ele))

Há alguém entre os muçulmanos que não conheça este nome: Abu Huraira? Na época da Jahiliyyah, antes do Islã, as pessoas o chamavam de “Abd Shams”. Mais tarde, quando Allah, o Altíssimo, o agraciou, guiando-o ao Islã, e o honrou permitindo-lhe encontrar-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o Mensageiro perguntou-lhe: “Qual é o seu nome?” Ele respondeu: “Abd Shams (servo do sol).”

O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não; a partir de hoje, seu nome será Abdur-Rahman.”

Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó Mensageiro de Allah! Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por você. A partir de hoje, meu nome será Abdur-Rahman.”

“Abu Huraira” era sua kunya, ou alcunha. Quando era criança, ele brincava constantemente com um filhote de gato. Ao verem isso, seus companheiros deram-lhe o nome de Abu Huraira (aquele que tem um filhote de gato). Aos poucos, ele se tornou conhecido por esse nome entre todos, e seu nome verdadeiro caiu no esquecimento. Depois que aceitou o Islã, quando sua relação com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se estreitou, este às vezes o chamava carinhosamente de “Abu Hirrin”. Por isso, ele preferia o nome Abu Hirrin a Abu Huraira. Dizia: “Meu amado, o Mensageiro de Allah, chamou-me por este nome.” Além disso, hirrun é masculino, enquanto huraira é feminino.

Abu Huraira abraçou o Islã pelas mãos do célebre companheiro Tufayl ibn Amr ad-Dawsi. Depois de aceitar o Islã, continuou permanecendo com seu próprio povo, os Daws. No sexto ano da Hégira, ele também veio a Medina com uma delegação de sua tribo para encontrar-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Amr ibn Ghalas afirma que sua primeira chegada a Medina ocorreu no mês de Muharram do sétimo ano da Hégira, o ano da conquista de Khaybar.

Depois de chegar a Medina, esse jovem da tribo de Daws dedicou-se continuamente ao serviço e à companhia do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Permanecia na mesquita dia e noite, durante as vinte e quatro horas. Recebia sempre ensinamento e formação diretamente do Mensageiro de Allah e realizava as orações sob sua liderança. Durante a vida do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele não tinha esposa nem filhos; tinha apenas sua mãe idosa. Ela ainda permanecia firme na idolatria. Abu Huraira convidava constantemente sua afetuosa mãe ao Islã, mas ela recusava. Por isso, sentia profunda dor e tristeza. Certo dia, quando a convidou a crer em Allah e em Seu Mensageiro, ela disse coisas tão ofensivas sobre o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que Abu Huraira ficou profundamente abalado. Chorando, dirigiu-se imediatamente ao Mensageiro de Allah. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou-lhe: “Por que está chorando?”

Ele disse: “Convido sempre minha mãe ao Islã, mas ela recusa. Hoje, como todos os dias, convidei-a ao Islã, e ela me disse algo sobre você que me causou grande sofrimento. Ó Mensageiro de Allah, suplique a Allah para voltar o coração da mãe de Abu Huraira para o Islã.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez uma súplica.

Abu Huraira conta: “Voltei para casa vindo da presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Vi que a porta da casa estava fechada, mas ouvi o som de água caindo lá dentro. Quando ia entrar, minha mãe disse: ‘Abu Huraira, espere um pouco’. Depois de dizer isso, ela ajeitou suas roupas. Em seguida, chamou-me para entrar. Entrei, e então ela começou a recitar: ‘Testemunho que não há divindade além de Allah e testemunho que Muhammad é Seu servo e Mensageiro.’”

Voltei novamente para junto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele momento, eu chorava de alegria, assim como havia chorado de tristeza pouco antes. Disse: “Ó Mensageiro de Allah, boas notícias! O Deus Todo-Poderoso aceitou a sua súplica; Ele guiou a mãe de Abu Huraira e ela abraçou o Islã.”

Abu Huraira amava o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Esse amor era profundo. Ele não se contentava em olhar para o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apenas uma ou duas vezes. Dizia: “Nunca vi nada mais belo e radiante do que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Era como se os raios do sol brilhassem em seu rosto.”

Por ter alcançado a honra de ser um companheiro do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e adquirido a glória de ser um seguidor de sua religião, ele agradecia constantemente ao Deus Todo-Poderoso. Dizia: “Todo louvor pertence ao Deus Todo-Poderoso, que guiou Abu Huraira ao Islã. E todo louvor pertence a Allah, que ensinou o Alcorão a Abu Huraira e o agraciou com a companhia do Profeta Muhammad, o Mensageiro de Allah.”

Assim como Abu Huraira era dedicado ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também era devotado ao conhecimento. A aquisição e o estudo do conhecimento haviam se tornado seu hábito e seu principal objetivo. Zaid ibn Thabit, que Allah esteja satisfeito com ele, disse:

Certo dia, Abu Huraira, um amigo nosso e eu estávamos fazendo uma súplica a Allah na mesquita. Nesse momento, vimos o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele se aproximou, sentou-se entre nós, e todos ficamos em silêncio. Ele disse: “Voltem a fazer o que estavam fazendo.” Meu amigo e eu fizemos a súplica a Allah antes de Abu Huraira. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse “amém” logo após nossa súplica. Então Abu Huraira fez sua súplica:

“Ó Allah, peço-Te tudo o que meus dois amigos Te pediram. E, além disso, peço-Te um conhecimento que eu jamais esqueça.” Mais uma vez, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse “amém”. Nós dois também dissemos: “Nós também queremos um conhecimento que jamais esqueçamos.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Este homem da tribo de Daws superou vocês dois nesse aspecto.”

Assim como Abu Huraira amava o conhecimento para si mesmo, também o amava para os outros. A história registra um acontecimento extraordinário relacionado a isso. Certo dia, ele foi ao mercado de Medina. Ao ver as pessoas absortas em compras, vendas, transações e atividades semelhantes, ficou surpreso. Parou e disse: “Ó habitantes de Medina, vocês estão sendo grandemente privados.” As pessoas perguntaram: “Abu Huraira, o que você viu em nossa privação?”

Ele disse: “A herança do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, está sendo distribuída, enquanto vocês estão sentados aqui? Por que não vão até lá e tomam suas respectivas partes?”

Eles perguntaram: “Onde?”

Ele respondeu: “Na mesquita.”

As pessoas correram em direção à mesquita. Abu Huraira ficou ali, esperando por elas. Depois de algum tempo, elas voltaram e disseram: “Abu Huraira, nós fomos à mesquita e entramos nela, mas não vimos nada sendo distribuído.”

Ele perguntou: “Vocês não viram ninguém na mesquita?”

Eles responderam: “Certamente vimos: algumas pessoas estavam de pé em oração, outras estavam ocupadas recitando o Alcorão, e outras discutiam entre si sobre o que é haram e o que é halal.”

Ele disse: “Que pereçais! Isso é precisamente a herança do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).”

Abu Huraira preservou e transmitiu à ummah muçulmana milhares de hadiths do Profeta, guardando-os na memória. Sahih al-Bukharinarrou um hadith de Abu Huraira. Ele disse: “Entre os companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ninguém narrou mais hadiths de mim do que Abdullah ibn Umar. Isso se deve ao fato de ele escrever os hadiths, enquanto eu não os escrevia.”

Muitas pessoas viam com desconfiança o fato de Abu Huraira narrar tantos hadiths do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por isso, ele disse: “Talvez penseis que narro hadiths em excesso. Eu era pobre e não possuía nada; passava todo o tempo na companhia do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), com uma pedra amarrada ao estômago. Já os muhajirun estavam ocupados com seus negócios, e os ansar cuidavam de suas riquezas.” Ele também disse: “Certo dia, falei: ‘Ó Mensageiro de Allah, ouço muitas das suas palavras, mas esqueço grande parte delas.’ Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Estende o teu manto.’ Eu o estendi. Então ele disse: ‘Aperta-o contra o teu peito.’ Eu o apertei contra o peito. Desde então, nunca mais esqueci nenhuma palavra.” O Imam al-Bukhari disse: “Mais de oitocentos companheiros e tabi’un narraram hadiths dele.” Entre os companheiros que narraram hadiths de Abu Huraira, destacam-se Ibn Abbas, Ibn Umar, Jabir, Anas e Wasilah — que Allah esteja satisfeito com eles —, entre outros.

Por dar excessiva atenção à aquisição do conhecimento e atribuir extrema importância à sua presença nas reuniões do Mensageiro de Allah, ele suportou na vida tamanha fome e pobreza que nenhum de seus contemporâneos suportou. Sobre si mesmo, ele disse:

“Às vezes, eu ficava com tanta fome que, não conseguindo suportar o sofrimento, perguntava a algum companheiro do Mensageiro de Allah sobre um determinado versículo do Alcorão, embora já o conhecesse. Meu objetivo era que, talvez, ao perceber a minha situação, ele me levasse consigo à sua casa para me oferecer uma refeição.

Certo dia, senti uma fome terrível. Por causa das dores da fome, amarrei uma pedra ao ventre e depois me sentei no caminho por onde passavam os Companheiros. Ao ver Abu Bakr passar, perguntei-lhe sobre um versículo. Eu esperava que ele me convidasse a acompanhá-lo, mas ele não me chamou.

Depois veio Umar ibn al-Khattab. Também lhe perguntei sobre um versículo, mas ele nada disse. Por fim, veio o Mensageiro de Allah. Ele percebeu a intensidade da minha fome. Disse: “Abu Huraira?” Respondi: “Estou às suas ordens, ó Mensageiro de Allah.” Dizendo isso, entrei atrás dele em sua casa. Ao entrar, o Mensageiro de Allah viu uma tigela de leite. Perguntou aos familiares: “De onde veio este leite?”

Eles responderam: “Fulano o enviou para o senhor.” O Mensageiro de Allah disse: “Abu Huraira, vá até Ahl as-Suffa e reúna-os.” Depois de dizer isso, fiquei muito desapontado. Pensei comigo mesmo: “É apenas uma tigela de leite; o que será de todas essas pessoas de Ahl as-Suffa?” Eu queria beber até me saciar primeiro e só então ir até eles. De qualquer modo, fui até Ahl as-Suffa e, chamando-os, reuni-os. Quando se reuniram e se sentaram diante do Mensageiro de Allah, ele disse:

“Abu Huraira, pegue a tigela e ofereça-a a eles.” Eu a entreguei a cada um, um por um, e todos beberam até se saciar. Depois, com a tigela nas mãos, voltei para junto do Mensageiro de Allah. Ele ergueu a cabeça, olhou para mim e sorriu levemente, dizendo:

“Agora, restamos apenas você e eu.” Respondi: “Sadaqta, ó Mensageiro de Allah — disseste a verdade, ó Mensageiro de Allah.” Ele disse: “Beba.” Eu bebi. Ele disse: “Beba mais.” Bebi mais. Assim, cada vez que ele me mandava beber novamente, eu bebia novamente. Por fim, disse: “Juro por Aquele que o enviou com a verdade: já não consigo beber mais.” Então o Mensageiro de Allah pegou a tigela e bebeu o restante.

Abu Huraira, porém, não precisou permanecer por muito tempo em tamanha pobreza e adversidade. Em pouco tempo, riquezas e prosperidade chegaram às mãos dos muçulmanos. De todas as direções, os espólios de guerra começaram a afluir continuamente para suas mãos. Abu Huraira tornou-se possuidor de dinheiro, casa, terras, esposa e filhos — de tudo. Mas nada disso exerceu qualquer influência sobre o seu nobre coração. Ele jamais esqueceu, nem por um único dia, os dias do passado. Dizia sempre:

“Cresci órfão e migrei de mãos vazias. Trabalhei por comida e sustento para Busra bint Ghazwan. Quando armavam suas tendas em algum lugar, eu cumpria suas diversas tarefas e, quando montavam seus animais, conduzia seus camelos. Por fim, Allah concedeu-me Busra como esposa. Todos os louvores pertencem a Allah, que fortaleceu Sua religião e fez de Abu Huraira um de seus líderes.”

O segundo califa, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), nomeou Abu Huraira governador do Bahrein. Mais tarde, destituiu-o. Depois, quando quis nomeá-lo novamente, Abu Huraira recusou e deixou Medina, passando a viver num lugar chamado Aqiq.

Durante o governo de Muawiya, Abu Huraira foi nomeado governador de Medina várias vezes. Contudo, o poder governamental não provocou qualquer mudança em suas qualidades naturais de nobreza, generosidade, contentamento com pouco e outras virtudes.

Abu Huraira era então o governador de Medina. Ele caminhava por uma rua de Medina carregando nas costas um feixe de lenha para sua família. Ao passar por Sahlaba ibn Malik, disse: “Sahlaba, deixe um pouco de espaço no caminho para o governador.” Sahlaba respondeu: “Que Allah tenha misericórdia de você. Com uma rua tão larga, ainda assim o senhor não consegue passar?” Ele disse: “Deixe o caminho mais largo para o governador de vocês e para a carga que ele leva nas costas.”

Em Abu Huraira havia uma sublime combinação de piedade e amor por Allah, acompanhada de vasto conhecimento, humildade ilimitada e generosidade. Ele jejuava durante o dia e passava a primeira terça parte da noite em oração. Depois, acordava sua esposa. Ela passava a segunda terça parte da noite em oração e então acordava a filha. A filha passava o restante da noite em pé, orando. Assim, a adoração jamais cessava em sua casa durante toda a noite.

Ikrima relata que Abu Huraira recitava o tasbih doze mil vezes por dia. Ele dizia: “Recito o tasbih em quantidade equivalente aos meus pecados diários.”

Abu Huraira tinha uma escrava negra. Certo dia, ele e seus familiares ficaram muito irritados com o comportamento dela. Ele se preparou para golpeá-la. Ergueu o chicote, mas então parou. Disse: “Se não temesse a retaliação no Dia do Juízo, eu a castigaria com o chicote e lhe causaria sofrimento, assim como você nos causou. Contudo, venderei você a alguém que me pagará o seu justo valor. E eu tenho ainda mais necessidade desse valor. Vá; pela causa de Allah, eu a liberto.”

Certo dia, a filha de Abu Huraira disse: “Pai, as outras meninas me envergonham. Elas dizem: ‘Por que seu pai não manda fazer joias de ouro para você?’”

Ele disse: “Filha, diga-lhes que meu pai teme as chamas ardentes do Inferno.” A razão de ele não dar joias de ouro à filha não era cobiça nem avareza em relação às riquezas. Pelo contrário, ele sempre foi generoso ao gastar no caminho de Allah. A história registra muitos relatos sobre sua generosidade. Certo dia, Marwan ibn al-Hakam enviou cem dinares a Abu Huraira. No dia seguinte, porém, Marwan mandou novamente alguém informar: “Meu servo entregou-lhe os dinares por engano. Eu não queria dá-los a você; queria dá-los a outra pessoa.” Ao ouvir isso, Abu Huraira disse, envergonhado e surpreso:

“Eu já os gastei no caminho de Allah. Até o amanhecer, não restou comigo nem um dinar. Quando minha remuneração for paga futuramente pelo Tesouro Público, retire-a de lá.” Na verdade, ele havia feito aquilo apenas para colocá-lo à prova.

Enquanto sua mãe esteve viva, Abu Huraira sempre a tratou com bondade. Quando saía de casa, ia até a porta do quarto de sua mãe e dizia: “Mãe, que a paz, a misericórdia e as bênçãos de Allah estejam sobre você.”

Em resposta, sua mãe dizia: “Meu querido filho, que a paz, a misericórdia e as bênçãos de Allah estejam sobre você também.”

Depois de trocarem saudações, Abu Huraira dizia: “Que Allah tenha misericórdia de você e lhe conceda Sua graça, assim como você fez comigo quando eu era pequeno.” Sua mãe dizia: “Que Allah tenha misericórdia de você em retribuição à bondade que demonstrou para comigo depois de crescer.” Quando retornava para casa, mãe e filho trocavam súplicas e saudações semelhantes.

Assim como o próprio Abu Huraira demonstrava respeito e reverência pelos mais velhos, também aconselhava todos a tratarem bem os pais e a manterem boas relações com os parentes. Certo dia, viu dois homens caminhando lado a lado pela estrada. Um deles era consideravelmente mais velho que o outro. Chamando o mais jovem, perguntou-lhe: “O que o homem que está com você é seu?”

Ele respondeu: “Meu pai.”

Ele disse: “Nunca o chame pelo nome, não caminhe à frente dele e não se sente em nenhum lugar antes que ele se sente.”

Durante sua doença final, ele chorava angustiado. Perguntaram-lhe por que chorava. Ele respondeu: “Não choro por causa deste mundo de vocês. Choro ao pensar na longa viagem e na pouca provisão. Agora cheguei ao fim do caminho que conduz ao Paraíso ou ao Inferno. Não sei por qual desses dois caminhos seguirei.”

Ele estava deitado em seu leito de morte. Marwan ibn al-Hakam foi visitá-lo e disse: “Abu Huraira, que Allah lhe conceda a cura.”

Ele respondeu: “Ó Allah, amo encontrar-Te; que Tu também desejes encontrar-me e apresses isso para mim.”

Mal Marwan havia saído após visitá-lo, ele deu seu último suspiro.

O historiador al-Waqidi afirma: “Walid ibn Uqba conduziu a oração fúnebre por ele após a oração do Asr. Ibn Umar, Abu Sa’id al-Khudri e outros Companheiros estiveram presentes em seu funeral.”

Quando Walid informou Muawiya sobre sua morte, ele lhe escreveu: “Procure seus herdeiros, dê-lhes dez mil dirhams e trate bem seus vizinhos, pois ele o ajudou quando Uthman estava sob confinamento domiciliar.”

O erudito Ibn Hajar al-Asqalani mencionou, em sua obra Al-Isaba, citando Abu Sulayman, que Abu Huraira viveu setenta e oito anos. Durante a vida do Mensageiro de Allah, sua idade era pouco superior a trinta anos. Segundo alguns, ele faleceu no ano 55 da Hégira; al-Waqidi, porém, afirma que seu ano de falecimento foi o 59 da Hégira. Segundo o Imam al-Bukhari, entretanto, ele faleceu no ano 57 da Hégira.

Abu Dharr al–Ghifari ((que Allah esteja satisfeito com ele))

No vale de Ad-Dan, que ligava Meca ao mundo exterior, vivia a tribo de Ghifar. As caravanas comerciais dos coraixitas de Meca passavam por ali a caminho da Síria. Eles sobreviviam com o pouco dinheiro que obtinham em troca da proteção dessas caravanas. Saque e banditismo também eram suas profissões. Quando alguma caravana comercial não lhes entregava os alimentos ou o dinheiro que exigiam, eles a saqueavam.

Jundub ibn Junadah, conhecido pelo nome de Abu Dharr, também era filho dessa tribo. Desde a infância, distinguia-se de todos os demais por sua coragem ilimitada, inteligência aguçada e visão profunda. Na primeira parte de sua vida, durante a época da Jahiliyyah, sua profissão também era o banditismo. Ele se tornou conhecido como um ousado salteador da tribo de Ghifar. Contudo, em pouco tempo, ocorreu uma revolução em sua vida. Ele começou a sentir profunda dor ao ver as estátuas que seu povo adorava além de Allah, o Único. Compreendeu profundamente a onda de corrupção religiosa, crenças cegas e superstições que então assolava todo o mundo árabe. Passou a esperar impacientemente por um profeta que purificasse a razão, a consciência e os corações das pessoas, conduzindo-as das trevas para a luz.

Ele abandonou o banditismo e voltou-se, com plena devoção, para a adoração de Allah, enquanto toda a Arábia estava submersa no abismo da perdição. Hazrat Abu Ma’shar disse: «Abu Dharr já era um muwahhid, ou monoteísta, na época da Jahiliyyah. Não acreditava que ninguém, além de Allah, fosse digno de adoração, e não adorava nenhuma outra estátua ou divindade. Sua crença e sua adoração a Allah eram conhecidas pelas pessoas. Por isso, a pessoa que primeiro lhe anunciou o surgimento do Mensageiro de Allah, S.A., disse:

«Abu Dharr, há em Meca um homem como você que diz: ‘Lá ilaha illallah’».

Ele não acreditava no tawhid apenas com os lábios; também realizava a oração naquela época de Jahiliyyah. Sobre isso, ele próprio disse: «Eu já realizava a oração desde três anos antes de me encontrar com o Mensageiro de Allah, S.A.» As pessoas perguntaram: «A quem você se dirigia?» Ele respondeu: «A Allah.» Perguntaram novamente: «Para que direção você se voltava?» Ele respondeu: «Para a direção que Allah desejasse.»

O episódio de sua conversão ao Islam também é bastante surpreendente. Ibn Hajar ‘Al-–Isaba’narrou detalhadamente, em sua obra, a história de sua conversão ao Islam. Em resumo, pode ser contada assim: ele vivia com sua tribo. Um dia, soube que um novo profeta havia surgido em Meca. Chamou seu irmão Anis e disse: «Você irá a Meca por um tempo. Lá, reúna algumas informações sobre aquele que afirma ser um profeta e declara receber revelação do céu; ouça algumas de suas palavras. Depois, volte e informe-me.»

Anis partiu para Meca. Encontrou-se com o Mensageiro de Allah, S.A., ouviu as palavras que saíram de sua boca e voltou para sua tribo. Ao receber a notícia, Abu Dharr correu imediatamente até Anis. Com grande interesse, começou a fazer-lhe várias perguntas sobre o novo profeta. Anis disse:

— «Juro por Allah! Eu vi aquele homem convocando as pessoas à nobreza de caráter. E ele diz coisas que não pareciam poesia.»

– “O que as pessoas dizem a respeito dele?”

– “Alguns dizem que ele é um feiticeiro; outros, um adivinho; e outros ainda, um poeta.”

– “Por Deus! Você não saciou a minha sede nem foi capaz de satisfazer o meu desejo. Poderia assumir a responsabilidade pela minha família, para que eu possa ir a Meca e ver com os meus próprios olhos a situação dele?”

– “Certamente. Porém, tenha cuidado com os habitantes de Meca.”

Na madrugada do dia seguinte, Abu Dharr partiu em direção a Meca. Levou consigo algumas provisões e um odre de água. Estava sempre apreensivo e assustado, temendo que alguém descobrisse o seu propósito. Nessas condições, chegou a Meca. Não considerou prudente perguntar a qualquer pessoa algo sobre Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pois não sabia se aquele a quem perguntasse era amigo ou inimigo de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

O dia chegou ao fim, e a escuridão da noite desceu. Ele estava cansado e exausto. Para descansar, deitou-se num canto da Mesquita Sagrada. Ali ibn Abi Talib passava por aquele caminho. Ao vê-lo, percebeu que era um viajante. Chamou-o, dizendo: “Venha à minha casa.” Abu Dharr foi com ele e passou ali a noite. Pela manhã, voltou à mesquita, levando nas mãos o odre de água e o embrulho de comida. No entanto, nenhum dos dois perguntou nada ao outro.

O dia seguinte também passou, mas ele não conseguiu encontrar-se com o Profeta. Naquele dia, voltou a deitar-se na mesquita. Mais uma vez, Ali passava por aquele caminho. Disse: “O que será? Será que este homem ainda não conseguiu encontrar o seu destino?” Levou-o novamente consigo para casa, e aquela noite também passou ali. Nesse dia, igualmente, nenhum dos dois perguntou nada ao outro. Do mesmo modo, chegou a terceira noite. Então Ali disse:

– “Diga-me: com que propósito você veio a Meca?”

Ele disse: “Se o senhor me prometer que me guiará àquilo que desejo conhecer, então poderei falar.” Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, fez a promessa.

Abu Dharr disse:

“Vim a Meca de muito longe para encontrar o novo Profeta e ouvir algumas das palavras que ele profere.”

O rosto de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, iluminou-se de alegria. Ele disse: “Por Allah, ele é certamente um verdadeiro Profeta.” Depois de dizer isso, descreveu o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, de várias maneiras. E acrescentou: “Pela manhã, siga-me aonde quer que eu vá. Se eu perceber algo que possa representar perigo para o senhor, pararei e fingirei estar urinando. Quando eu voltar a caminhar, continue seguindo-me. Assim, onde quer que eu entre, o senhor também entrará.”

Tomado por intenso desejo e ansiedade de ver o amado Profeta e ouvir a revelação que lhe fora transmitida, Abu Dharr não conseguiu ficar quieto na cama durante toda a noite. Na manhã seguinte, Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, dirigiu-se à casa do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, levando consigo o hóspede. Abu Dharr ia logo atrás dele. Não prestava atenção a nada ao redor do caminho. Assim, chegaram à presença do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Abu Dharr o cumprimentou.

— “A paz esteja contigo, ó Mensageiro de Allah.” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu:

— “E sobre ti esteja a paz, a misericórdia de Allah e Suas bênçãos.”

Desse modo, Abu Dharr teve a honra de ser o primeiro a cumprimentar o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, segundo a forma islâmica. Depois disso, esse modo de trocar saudações foi adotado e difundido.

O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, convidou Abu Dharr ao Islã e recitou para ele alguns versículos do Alcorão. Ali mesmo, Abu Dharr pronunciou a kalima do tawhid e declarou sua entrada na nova religião.

Abu Dharr narrou o que aconteceu depois da seguinte maneira: após aceitar o Islã, permaneci em Meca com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele me ensinou diversos aspectos do Islã e também me treinou na recitação de alguns versículos do Alcorão. Disse-me: “Não reveles a ninguém em Meca que aceitaste o Islã. Se alguém descobrir, temo pela tua vida.”

Eu disse: “Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida que não deixarei Meca até ir à Mesquita e proclamar abertamente o convite à verdade entre os coraixitas.” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permaneceu em silêncio.

Fui à Mesquita. Naquele momento, os coraixitas estavam sentados juntos, conversando. Aproximei-me deles e, dirigindo-me a todos com a voz tão alta quanto pude, disse: “Ó membros da tribo dos coraixitas! Testemunho que não há outra divindade além de Allah e que Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, é o Mensageiro de Allah.”

Assim que minhas palavras chegaram aos seus ouvidos, ficaram assustados e atônitos. Todos se levantaram de um salto e disseram: “Agarrem esse apóstata!” Correram até mim e começaram a espancar-me impiedosamente. Abbas ibn Abd al-Muttalib, tio do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, reconheceu-me. Para salvar-me das mãos deles, lançou-se sobre mim. Em seguida, dirigindo-se a eles, disse: “Que pereçais! Estais matando um homem da tribo de Ghifar, alguém que vive na rota por onde passam as vossas caravanas comerciais?” Então eles me deixaram.

Depois de me recuperar um pouco, voltei ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ao ver meu estado, ele disse: “Eu não te havia proibido de revelar que aceitaste o Islã?” Respondi: “Ó Mensageiro de Allah! Sentia dentro de mim um desejo intenso. Apenas manifestei esse desejo.” Ele disse: “Volta para o teu povo. Informa-os sobre o que viste e ouviste e convida-os a Allah. Talvez Allah os beneficie por teu intermédio e te recompense. Quando souberes que estou pregando abertamente, vem ter comigo.”

Voltei para a terra onde vivia o meu povo. Meu irmão Anis veio encontrar-se comigo. Ele perguntou: “O que fizeste?” Respondi: “Aceitei o Islã e tornei-me crente.” Imediatamente, Allah abriu as portas do coração dele. Ele disse: “Não tenho intenção de rejeitar a tua religião. Aceitei o Islã e tornei-me crente.” Então nós dois fomos juntos à nossa mãe e também a convidamos ao Islã. Ela disse: “Não sinto nenhuma aversão à religião de vocês dois”, e com essas palavras declarou que também aceitava o Islã.

A partir daquele dia, essa família crente passou incansavelmente a transmitir o convite ao Islã ao povo da tribo de Ghifar. Jamais se desesperaram nessa tarefa, nem perderam o ânimo. Graças aos seus esforços incansáveis, um grande número de pessoas dessa tribo aceitou o Islã, e a oração em congregação foi estabelecida entre eles. No entanto, um grupo disse: “Permaneceremos firmes em nossa religião. Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, vier a Medina, aceitaremos o Islã.” Após a Hégira do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para Medina, eles também aceitaram o Islã. Sobre a tribo de Ghifar, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “A tribo de Ghifar — Allah a perdoou; e a tribo de Aslam — Allah lhe concedeu paz e segurança.”

Abu Dharr voltou a Meca e passou a permanecer no deserto com os membros de sua tribo. Uma após outra, terminaram as batalhas de Badr, Uhud e da Trincheira. Depois, ele foi para Medina e passou a desfrutar continuamente da companhia do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele lhe pediu a oportunidade de servi-lo. Seu pedido foi aceito. Durante sua permanência em Medina, passava todo o tempo servindo ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Esse era o trabalho que mais amava. Ele próprio dizia:

“Eu servia ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e, em meu tempo livre, ia à mesquita para descansar.”

Ibn Ishaq disse: Quando Abu Dharr migrou para Medina, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estabeleceu um vínculo de irmandade entre Mundhir ibn ‘Amr e Abu Dharr. Contudo, a opinião do historiador Waqidi sobre esse assunto é que Abu Dharr migrou para Medina depois da revelação do versículo sobre a herança. Portanto, a prática de estabelecer vínculos de irmandade já havia sido abolida.

Não se conhecem informações detalhadas sobre sua participação nas batalhas ao lado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Contudo, o erudito Ibn Hajar al-Asqalani narrou um episódio de sua participação na batalha de Tabuk, no livro ‘Al-–Isaba’, com base no relato de Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud: Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu em direção a Tabuk, as pessoas começaram a mostrar hesitação quanto a ir para a batalha, apresentando várias desculpas. Quando alguém não era visto, os Companheiros diziam: “Ó Mensageiro de Allah, fulano não veio.” Ele respondia: “Se sua intenção for nobre, Allah logo o reunirá a vocês. Caso contrário, Allah o afastou de vocês e os protegeu dele.” Em certo momento, mencionaram o nome de Abu Dharr e disseram: “Ele também recuou.” O fato, porém, era que seu camelo era lento. Primeiro, ele tentou fazê-lo avançar rapidamente, mas, não conseguindo, desceu seus pertences, colocou-os sobre os próprios ombros e começou a caminhar, alcançando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) no acampamento avançado. Um Companheiro o viu de longe e exclamou: “Ó Mensageiro de Allah, parece que alguém está vindo pela estrada.” Ele disse: “Deve ser Abu Dharr.” As pessoas observaram atentamente e o reconheceram. Disseram: “Ó Mensageiro de Allah, por Allah, é Abu Dharr mesmo.” Ele disse:

“Que Allah tenha misericórdia de Abu Dharr. Ele caminha sozinho, morrerá sozinho e ressuscitará sozinho no Dia da Ressurreição.” (Tarikh al- Islam: Alama Dhahabi,, 3º volume)) A profecia do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comprovou-se verdadeira em todos os seus detalhes.

Hazrat Abu Dharr era, por natureza, simples, despretensioso, desapegado do mundo e amante da solidão. Por isso, o nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhe deu o epíteto de “Masihul-Islam”. Após o falecimento do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele se desligou completamente do mundo. O ardor que começou a queimar em seu coração com a separação do amado Profeta nunca mais se aplacou. Por isso, com o falecimento de Hazrat Abu Bakr, seu coração já partido ficou ainda mais despedaçado. Aos seus olhos, naquele momento, o jardim adornado de Medina parecia desprovido de folhas e folhagens. Ele deixou Medina e foi viver no Sham (Síria).

Até o período dos califados de Abu Bakr e Umar, mantinha-se o modo de vida islâmico simples e despojado. Quando, com as conquistas e a expansão do califado islâmico, surgiu a abundância de riquezas e prosperidade, o brilho e o esplendor naturalmente passaram a ocupar esse lugar. Foi durante a época de Uthman que o luxo e a ostentação começaram a manifestar-se entre várias pessoas. Isso exerceu certa influência sobre a vida do povo em geral. Em vez da simplicidade da época do Profeta, passou a evidenciar-se entre eles a marca do conforto e do luxo. Abu Dharr esperava que as pessoas seguissem aquele modo de vida simples, despojado e sem ostentação da época do Profeta. Sua expectativa era que todos se tornassem completamente desapegados das riquezas e dos bens mundanos. Segundo sua fé e sua doutrina de confiança em Deus, nada deveria ser acumulado hoje para o dia seguinte. Ele acreditava que nenhum muçulmano tinha o direito de acumular riquezas enquanto deixasse outros com fome e nus. Muawiya e os demais governadores consideravam que, depois de pagar corretamente o zakat que Deus tornou obrigatório sobre os ricos, todo muçulmano tinha o direito de guardar o dinheiro excedente. Essa divergência de opiniões cresceu até finalmente assumir a forma de disputas e discussões. Abu Dharr começou a protestar com extrema coragem contra essas pessoas. Por possuírem riquezas além das necessidades, passou a considerá-las destinatárias do seguinte versículo do Alcorão.

وَالَّذِينَ يَكْنِزُونَ الذَّهَبَ وَالْفِضَّةَ وَلَا يُنفِقُونَهَا فِي سَبِيلِ اللَّهِ فَبَشِّرْهُم بِعَذَابٍ أَلِيمٍ

– E anuncia aos que acumulam ouro e prata e não os gastam no caminho de Deus um castigo doloroso.(At-‌ Tawbah: 34)

O versículo anterior a este trata dos judeus e dos cristãos. Por essa razão, o posicionamento do governador Muawiya era que esse versículo se referia àqueles descrentes. Abu Dharr, porém, considerava que seu objetivo abrangia tanto muçulmanos quanto não muçulmanos. Em segundo lugar, Abu Dharr entendia que não gastar no caminho de Deus significava não distribuir completamente seus bens e riquezas nesse caminho. Já Muawiya entendia que isso estava relacionado apenas ao zakat. Assim, Abu Dharr começou a fazer críticas muito severas, de acordo com seu próprio pensamento, visão e opinião. Muawiya considerava que, se aquela situação continuasse, a desordem e a agitação poderiam eclodir a qualquer momento na Síria. Ele informou ao califa Uthman sobre a situação delicada e pediu-lhe que convocasse Abu Dharr a Medina. Uthman mandou chamá-lo para Medina.

Certo dia, Abu Dharr estava sentado. Diante dele, o califa Uthman perguntou a Ka’b: “O que você pensa de uma pessoa que acumula riquezas, paga seu zakat e também gasta no caminho de Deus?” Ka’b respondeu: “Pode-se ter uma boa esperança a respeito dessa pessoa.” Ao ouvir isso, Abu Dharr enfureceu-se. Erguendo sobre a cabeça de Ka’b o bastão que tinha na mão, disse: “Filho de uma mulher judia — Ka’b era filho de uma judia — o que você entende disso? No Dia da Ressurreição, até o coração de uma pessoa assim será picado por um escorpião.” Por fim, Uthman disse a Abu Dharr: “Fique comigo; uma camela leiteira será trazida à sua porta todas as manhãs e todas as tardes.” Ele respondeu: “Não tenho necessidade de nada deste mundo que você me oferece.” Dizendo isso, partiu. Finalmente, Uthman pediu-lhe que fosse viver num lugar chamado Rabdha, no meio do deserto, muito distante de Medina. Segundo alguns, ele foi viver ali voluntariamente. Longe das áreas habitadas, naquele deserto isolado, renunciou à vida de conforto e luxo e seguiu rigorosamente, até o fim da vida, o modo de vida do Mensageiro de Deus, voltado para a Outra Vida. O relato da morte de Abu Dharr é também extremamente comovente e surpreendente. Ele faleceu no deserto de Rabdha, no ano 31 — ou, segundo outra opinião, no ano 32 — da Hégira. Sua esposa descreveu assim seu estado nos últimos momentos:

«Quando a situação de Abu Dharr se agravou bastante, comecei a chorar. Ele perguntou: “Por que você está chorando?” Respondi: “Você está partindo para a Outra Vida neste deserto desolado. Aqui não há nenhuma roupa extra, além das vestes que você e eu usamos, com a qual seja possível envolvê-lo em uma mortalha.” Ele disse: “Pare de chorar. Vou lhe dar uma boa notícia. Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: ‘Se dois ou três filhos de um muçulmano morrerem, isso será suficiente para salvá-lo do Fogo do Inferno.’ Ele disse diante de algumas pessoas, entre as quais eu me encontrava: ‘Um de vocês morrerá no deserto, e, no momento de sua morte, um grupo de muçulmanos aparecerá ali inesperadamente.’ Todos aqueles homens, exceto eu, morreram em lugares habitados. Agora, sou o único que permanece vivo. Portanto, posso afirmar com certeza que esse homem sou eu. Juro por Allah que não estou mentindo, e Aquele que disse isso também não mentiu. Olhe para a estrada; certamente a ajuda do invisível está chegando.” Eu disse: “Agora até o retorno dos peregrinos terminou, e não há mais trânsito na estrada.” Ele respondeu: “Não. Vá e veja.” Assim, por um lado, eu ia até uma elevação, subia ao topo e olhava ao longe; por outro, corria de volta para cuidar dele. Essa correria e busca continuavam. Então, avistei alguns cavaleiros ao longe. Quando lhes fiz um sinal, eles vieram rapidamente até mim e pararam. Perguntaram sobre Abu Dharr: “Quem é ele?” Respondi: “Abu Dharr.” “É o Companheiro do Mensageiro de Allah?” Respondi: “Sim.” Dizendo: “Que nossos pais sejam sacrificados por ele”, foram até Abu Dharr. Primeiro, Abu Dharr lhes relatou a profecia do Mensageiro. Depois, recomendou-lhes: “Se houver comigo ou com minha esposa tecido suficiente para uma mortalha, enterrem-me usando-o.” Em seguida, fez com que jurassem que ninguém que ocupasse sequer o menor cargo no governo o envolvesse na mortalha. Por acaso, todos eles, exceto um jovem ansari, ocupavam algum cargo governamental. Abu Dharr permitiu que somente ele o envolvesse na mortalha. Essa caravana era iemenita. Eles vinham de Kufa. Com eles estava o célebre Companheiro Abdullah ibn Masud. Ele viajava com essa caravana para o Iraque. Foi ele quem conduziu a oração fúnebre de Abu Dharr, e todos juntos o enterraram no deserto de Rabaza.»

O número total de hadiths narrados por Abu Dharr é de vinte e oito. Desses, doze são muttafaqun alayh, isto é, foram narrados tanto por Al-Bukhari quanto por Muslim. Dois foram narrados exclusivamente por Al-Bukhari e sete exclusivamente por Muslim. A razão de o número de hadiths narrados por ele ser tão pequeno em comparação com o de outros é que ele permanecia sempre calado, gostava da solidão e se relacionava pouco com as pessoas. Por isso, seu conhecimento não se difundiu muito. Entretanto, eruditos Companheiros, como Anas ibn Malik e Abdullah ibn Abbas, adquiriram conhecimento com ele. Ibn Asakir discutiu detalhadamente esse assunto em sua obra «‘História de Damasco’».

Perguntaram a Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, sobre a extensão do conhecimento de Abu Dharr. Ele respondeu: “Ele adquiriu um conhecimento que as pessoas são incapazes de alcançar. Depois, esse conhecimento foi testado com fogo, mas nenhuma impureza foi encontrada nele.” Sobre esse grande asceta e Companheiro desapegado do mundo, o Mensageiro de Allah disse: “Sob o céu e sobre a terra, Abu Dharr é a pessoa mais verdadeira.”

Durante o califado de Uthman, Abu Dharr foi certa vez ao Hajj. Um homem veio e disse: “Uthman, enquanto estava em Mina, realizou a oração de quatro rak‘ahs (isto é, não a encurtou).” Isso não lhe agradou. Reprovando-o em termos muito severos, disse: “Rezei atrás do Mensageiro de Allah, de Abu Bakr e de Umar. Todos eles rezavam duas rak‘ahs.” Depois de dizer isso, ele próprio conduziu a oração e realizou quatro rak‘ahs. As pessoas disseram: “Você criticou o Comandante dos Crentes e agora você mesmo realizou quatro rak‘ahs.” Ele respondeu: “A divergência é uma coisa muito ruim. O Mensageiro de Allah disse: ‘Não humilhem aqueles que se tornarem governantes depois de mim. Quem desejar humilhá-los lançará de seus próprios ombros a firme corda do Islam e fechará para si a porta do arrependimento.’»(Musnad de Ahmad, 5//165)

Depois do falecimento do Mensageiro de Allah, sempre que o seu nome sagrado lhe vinha aos lábios, uma torrente incessante de lágrimas escorria-lhe dos olhos. Ahnaf ibn Qays narra: «Certa vez, vi em Bayt al-Maqdis um homem prostrar-se repetidamente. Isso provocou em mim uma reação especial. Quando fui até ele pela segunda vez, perguntei: “Pode dizer-me se rezei um número par ou ímpar de orações?” Ele respondeu: “Mesmo que eu não saiba, Allah certamente sabe.” Então disse: “O meu amigo Abu al-Qasim disse-me…” Mal pronunciou essas palavras, começou a chorar. Depois repetiu: “O meu amigo Abu al-Qasim disse-me.” Mais uma vez, a comoção embargou-lhe a voz. Por fim, controlando-se, disse: “O meu amigo Abu al-Qasim, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Quando um servo se prostra diante de Allah uma vez, Allah eleva para ele um grau, apaga um dos seus pecados e regista para ele uma boa ação.’” Perguntei: “Quem é você?” Ele respondeu: “Abu Dharr, companheiro do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.”»

Certo dia, um homem foi ter com Abu Dharr. Olhou ao redor da sua casa e, não vendo nenhum objeto doméstico, perguntou-lhe:

— Abu Dharr, onde estão os seus pertences?

— Tenho uma casa na Outra Vida. É para lá que envio todos os meus melhores pertences.

Certa vez, o governador da Síria enviou-lhe trezentos dinares, dizendo: “Use-os para satisfazer as suas necessidades.” Ele respondeu: “Será que o governador de Sham não encontrou nenhum servo de Allah mais inferior do que eu?” E, dizendo isso, devolveu-lhe os dinares.

Salman al–Farisi ((que Allah esteja satisfeito com ele))

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Salman é um dos membros da família do Profeta.”

Esta é a história da vida de um homem que buscava a verdade e ansiava alcançar Allah. Ele era Salman al-Farisi. É pela própria voz de Salman al-Farisi que nos chega o relato surpreendente da sua descoberta da verdade. Ele diz:

Naquela época, eu era um jovem persa da região de Isfahan, na Pérsia. O nome da minha aldeia era Jayyān. Meu pai era o chefe dos dehqans da aldeia, o homem mais rico e de mais alta posição. Desde o meu nascimento, eu era, para ele, a mais querida de todas as criaturas de Allah. À medida que eu crescia, também aumentavam seu carinho e amor por mim. Em certo momento, temendo que algum mal me acontecesse, ele me manteve confinado em casa, como se eu fosse uma menina.

Comecei a praticar com rigor a religião magista dos meus pais e, muito rapidamente, alcancei o cargo de responsável pelo fogo que adorávamos. Foi-me confiada a tarefa de mantê-lo aceso dia e noite, durante as vinte e quatro horas, como objeto de adoração.

Meu pai era proprietário de vastas terras. Ele próprio cuidava delas, e dali obtínhamos uma grande produção de cereais. Certo dia, por alguma razão, ficou preso em casa e não pôde ir cuidar da fazenda da aldeia. Chamou-me e disse:

«Meu filho, como podes ver, hoje não posso ir à fazenda por uma razão especial. Hoje, em vez disso, vai até lá e supervisiona, em meu nome, os trabalhos daquele lugar.»

Parti em direção à fazenda. No caminho, ao passar ao lado de uma igreja dos cristãos, alguns sons de suas palavras chegaram aos meus ouvidos. Eles estavam orando. Foi esse som que me despertou.

Como eu havia permanecido confinado em casa por muito tempo, não tinha conhecimento algum sobre os cristãos ou sobre os seguidores de qualquer outra religião. Ao ouvir suas vozes, entrei na igreja para ver o que estavam fazendo. Observei-os atentamente. Gostei muito de seu modo de orar e senti-me atraído por sua religião. Disse comigo mesmo: «Esta religião é muito melhor do que aquela que seguimos.» Passei aquele dia com eles, em vez de ir à fazenda. Perguntei-lhes:

— Onde fica a origem desta religião?

— Na Síria.

A noite começou a cair. Voltei para casa. Meu pai começou a perguntar-me o que eu havia feito durante todo o dia.

Respondi: “Pai, ao passar por algumas pessoas, vi que elas estavam rezando em seu local de culto. Gostei muito das práticas da religião delas que presenciei. Passei o resto do dia com elas, até o pôr do sol.” Ao ouvir minhas palavras, meu pai ficou apreensivo. Ele disse:

“Meu filho, não há bem algum nessa religião; a religião de você e de seus antepassados é melhor do que ela.” Respondi: “Juro por Allah, de modo algum! A religião deles é melhor do que a nossa.”

Ao ouvir minhas palavras, meu pai ficou assustado e receou que eu abandonasse a minha religião. Por isso, acorrentou meus pés e manteve-me preso em casa.

Eu aguardava uma oportunidade. Em poucos dias, ela surgiu. Secretamente, enviei uma mensagem aos cristãos, dizendo que, se alguma caravana com destino à Síria chegasse até eles, deveriam avisar-me.

Em poucos dias, uma caravana com destino à Síria chegou até eles. Eles me avisaram. Fugi secretamente do meu cativeiro e parti com eles. Eles me levaram até a Síria. Ao chegar à Síria, perguntei:

— Quem é a melhor pessoa e a mais versada nesta religião?

Eles responderam: “O bispo, o sacerdote da igreja.”

Fui até ele e disse: Fiquei atraído pelo cristianismo. Desejo permanecer em sua companhia, servi-lo, aprender com o senhor e orar com o senhor. Ele disse: Entre.

Entrei e fui até ele, começando a servi-lo. Pouco tempo depois, percebi que aquele homem era desonesto. Ele ordenava a seus companheiros que fizessem caridade e os incentivava a obter recompensa; mas, quando eles lhe entregavam algo para ser gasto no caminho de Allah, ele próprio se apropriava de tudo e acumulava para si. Não dava nada aos pobres e necessitados. Assim, acumulou sete jarros de ouro.

Ao ver sua degradação moral, passei a odiá-lo intensamente. Poucos dias depois, o homem morreu. A comunidade cristã da região reuniu-se para enterrá-lo. Eu lhes disse: Este seu companheiro era um homem de caráter muito desonesto. Ele lhes ordenava que fizessem caridade e os incentivava a isso. Mas, quando vocês lhe entregavam as doações, ele se apropriava de tudo. Não dava nada aos pobres e necessitados.

Eles perguntaram: Como você soube disso?

Eu disse: Vou mostrar-lhes o esconderijo onde ele acumulava seus bens.

Eles disseram: Está bem, mostre-nos.

Quando lhes mostrei o esconderijo, eles retiraram de lá sete jarros de ouro e prata. Ao verem aquilo, disseram:

— Por Allah, não vamos enterrá-lo.

Eles o penduraram numa cruz e apedrejaram seu corpo até deixá-lo dilacerado. Pouco tempo depois, colocaram outro homem em seu lugar. Também passei a acompanhá-lo. Antes dele, nunca havia visto alguém tão desapegado do mundo, tão devotado à vida futura e tão dedicado à adoração dia e noite. Eu o amava imensamente. Passei um longo período com ele. Quando a hora de sua morte se aproximou, eu lhe disse:

— Senhor, depois de sua morte, junto de quem me aconselha a permanecer?

Ele disse: — Meu filho, não conheço aqui ninguém que preserve a verdade à qual me apeguei. Contudo, em Mossul há um homem chamado fulano; ele não alterou nem acrescentou sequer um ponto a essa verdade. Permaneça junto dele.

Após a morte daquele meu amigo, fui a Mossul e encontrei o homem que ele havia mencionado. Contei-lhe toda a minha história. Também lhe disse que, no fim da vida, fulano me havia recomendado permanecer junto dele. Disse-lhe ainda que fulano me havia informado que ele permanecia profundamente apegado à mesma verdade pela qual havia dado seu último suspiro. Depois de me ouvir, ele disse: — Fique comigo.

Permaneci com ele. Gostei muito de seu modo de vida. Em pouco tempo, ele morreu. Quando sua morte se aproximou, eu lhe disse:

— Senhor, como pode ver, o decreto de Allah chegou até você. Quanto à minha situação, você a conhece bem. Agora, junto de quem me aconselha a ir?

Ele disse: — Meu filho, não conheço ninguém que permaneça firme naquilo que seguíamos. Contudo, em Nísibis há um homem chamado fulano; você pode encontrar-se com ele.

Depois de sepultá-lo, encontrei-me com aquele homem de Nísibis e contei-lhe toda a minha história. Ele me pediu que permanecesse com ele. Fiquei. Também encontrei nesse homem um caráter puro, como nos dois amigos anteriores. Que grandiosidade a de Allah! Em pouco tempo, ele morreu. No momento final, eu lhe disse: — Você conhece, de modo geral, tudo a meu respeito. Agora, junto de quem me aconselha a ir?

Ele disse: “Há um homem chamado Amun em Ammuriyya; é na companhia dele que você deve permanecer. Além dele, não conheço ninguém que tenha permanecido fiel à nossa verdade.” Ao chegar até ele, contei-lhe tudo sobre mim.

Depois de ouvir o que eu tinha para dizer, ele falou: “Fique comigo.” Juro por Allah, enquanto permaneci com ele, vi que seguia a mesma crença e o mesmo caminho de seus predecessores. Durante o tempo em que estive com ele, tornei-me dono de muitas vacas e cabras.

Em pouco tempo, vi que lhe estava reservado o mesmo destino que eu tinha visto atingir seus predecessores. Quando chegou o fim de sua vida, eu lhe disse: “Você conhece bem a minha situação. O que me aconselha a fazer agora? A quem me aconselha a ir?”

Ele disse: “Meu filho! Não sei de ninguém que tenha permanecido na face da Terra fiel à verdade que seguimos. Contudo, em um futuro próximo surgirá um profeta na terra dos árabes. Ele trará novamente a religião de Abraão. Expulso de sua terra natal, ele emigrará para uma terra com palmeirais, situada entre grandes pedras negras. Terá sinais tão claros quanto a luz do dia. Comerá presentes, mas não comerá aquilo que for dado em caridade. Entre seus ombros haverá o selo da profecia. Se puder, vá para esse país.”

Depois disso, ele morreu. Permaneci ainda alguns dias em Ammuriyya. Certo dia, chegaram ali alguns comerciantes árabes da tribo de Kalb. Eu lhes disse: “Se me levarem com vocês para a terra dos árabes, darei em troca todas estas minhas vacas e cabras.” Eles responderam: “Está bem, levaremos você conosco.”

Entreguei-lhes as vacas e as cabras. Eles partiram levando-me consigo. Quando chegamos a um lugar chamado Wadi al-Qura, entre Medina e Sham, traíram-me e venderam-me a um judeu. Comecei a servi-lo como escravo. Pouco tempo depois, um primo dele, da tribo dos Banu Qurayza, comprou-me e levou-me para Yathrib (Medina). Ali vi as tamareiras descritas pelo meu amigo de Ammuriyya e reconheci a cidade de acordo com a descrição que ele havia feito do lugar. Passei a viver ali a serviço do meu senhor.

Naquela época, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe dê paz — pregava o din em Meca. Porém, como eu estava sempre ocupado com o trabalho de escravo, nenhuma notícia ou conversa a respeito dele chegou aos meus ouvidos. Pouco tempo depois, o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe dê paz — emigrou de Meca para Yathrib. Eu estava no alto de uma tamareira, fazendo algum trabalho, enquanto meu senhor estava sentado embaixo dela, quando chegou um de seus sobrinhos e lhe disse:

“Que Allah destrua os Banu Qayla — as tribos de Aws e Khazraj. Juro por Deus, eles estão agora reunidos em Quba, junto de um homem que acaba de chegar de Meca e que afirma ser um profeta.”

Assim que suas palavras chegaram aos meus ouvidos, foi como se eu tivesse ficado com febre. Comecei a tremer violentamente. Temi cair pesadamente sobre o pescoço do meu senhor, que estava sentado sob a árvore. Desci rapidamente da árvore e disse àquele homem:

— O que você disse? Repita, por favor, essas palavras para mim.

Ao ouvir minhas palavras, meu senhor explodiu de raiva, deu-me um forte tapa no rosto e disse:

— O que você tem a ver com isso? Vá, continue fazendo o que estava fazendo.

Naquela tarde, levei algumas tâmaras das que havia colhido e parti em direção ao local onde o Mensageiro de Allah estava. Ao chegar diante do Mensageiro de Allah, disse-lhe:

— Ouvi dizer que o senhor é um homem virtuoso e que tem alguns companheiros sem recursos nem sustento. Eu tinha guardado estas poucas coisas para dá-las como caridade, mas achei que vocês eram mais merecedores delas do que os outros. Dizendo isso, estendi as tâmaras em sua direção. Ele disse aos companheiros: “Comam.” Mas recolheu a própria mão e não comeu nada. Pensei comigo mesmo: “Esta é a primeira.”

Naquele dia, voltei. Comecei novamente a juntar algumas tâmaras. O Mensageiro de Allah foi de Quba para Medina. Certo dia, levei as tâmaras até ele e disse: “Vi que o senhor não come coisas dadas como caridade. Por isso, desta vez trouxe um presente para oferecê-lo ao senhor.” Desta vez, ele próprio comeu e convidou seus companheiros a comerem com ele. Pensei comigo mesmo: “Esta é a segunda.”

Depois, em outro dia, fui até o Mensageiro de Allah. Ele estava sepultando um de seus companheiros no cemitério de Baqi al-Gharqad. Vi que ele estava sentado, envolto em uma shamla (um tipo de roupa folgada). Cumprimentei-o. Em seguida, comecei a olhar repetidamente para suas costas. Eu procurava o selo da profecia descrito pelo meu amigo de Ammuriyya.

O Mensageiro de Allah percebeu a razão pela qual eu olhava repetidamente para suas costas. Ele afastou o manto que cobria suas costas, e pude ver claramente o selo. Então reconheci-o perfeitamente, lancei-me sobre ele, cobri-o de beijos e, chorando, banhei-lhe o peito com minhas lágrimas. Ao ver-me naquele estado, o Mensageiro de Allah perguntou:

— O que aconteceu com você?

Contei-lhe toda a história em detalhes. Ele ficou maravilhado e quis que eu mesmo contasse essa história aos seus companheiros. Eu a contei a eles. Eles ficaram surpresos e muito felizes.

Por estar preso às correntes da escravidão, Salman, que Allah esteja satisfeito com ele, não pôde participar das batalhas de Badr e Uhud, e por isso sofreu uma grande angústia. Salman disse: “Certo dia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chamou-me e disse: ‘Celebre um mukataba (contrato de alforria) com o seu senhor.’ Fiz o contrato: plantaria para ele trezentas mudas de tamareira e, além disso, daria quarenta uqiyyas de ouro; em troca, eu seria libertado. Informei o Mensageiro de Allah sobre esse contrato. Ele chamou os Companheiros e disse: ‘Ajudem este seu irmão.’ Cada um deles me deu cinco, dez, vinte ou trinta mudas, conforme podia. Assim, consegui reunir trezentas mudas. Depois, por ordem do Mensageiro de Allah, cavei as covas. Certo dia, ele próprio foi comigo até lá. Eu lhe entregava uma muda de cada vez, e ele a plantava. Juro por Allah, nenhuma das mudas plantadas por ele morreu. (Os historiadores dizem que Salman, que Allah esteja satisfeito com ele, plantou apenas uma muda, e foi justamente essa que morreu. Todas as demais foram plantadas pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e todas sobreviveram.) Desse modo, cumpri uma parte do meu contrato; restava o pagamento.”

Certo dia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chamou-me, colocou em minha mão uma substância semelhante ao ouro, do tamanho de um ovo de galinha, e disse: ‘Vá e pague de acordo com o seu contrato.’ Eu disse: ‘Isto será suficiente para quitá-lo?’ Ele respondeu: ‘Pegue; Allah fará com que seja suficiente.’ Juro por Allah, nós a pesamos e descobrimos que tinha exatamente quarenta uqiyyas.

Assim, Salman, que Allah esteja satisfeito com ele, cumpriu seu contrato e foi libertado. Depois de libertar-se da escravidão, Salman, que Allah esteja satisfeito com ele, passou a viver entre os muçulmanos. Naquela época, não tinha casa alguma. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estabeleceu entre ele e o célebre Companheiro ansari Abu al-Darda, que Allah esteja satisfeito com ele, uma relação de fraternidade, como fez com os demais muhajirun. Por causa da escravidão, Salman, que Allah esteja satisfeito com ele, não pôde participar das batalhas de Badr e Uhud. Depois de ser libertado, ocorreu a batalha da Trincheira. Com sua importante contribuição nessa batalha, compensou o prejuízo de sua ausência nas duas batalhas anteriores. As diversas tribos de toda a Arábia uniram-se aos coraixitas e prepararam-se para atacar Medina. Ao receber a notícia, o Mensageiro de Allah consultou os Companheiros. Muitos deram diferentes conselhos. Salman disse: ‘Na Pérsia, as cidades são protegidas pela escavação de trincheiras. É apropriado cavar uma trincheira no lado desprotegido de Medina para proteger a cidade.’ O conselho agradou ao Mensageiro de Allah. Cavou-se uma longa trincheira a oeste e noroeste de Medina, e o ataque do enorme exército coraixita foi facilmente repelido. O próprio Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, participou da escavação dessa trincheira, ou khandaq. Ao chegar aos arredores de Medina e ver essa extraordinária estratégia militar, o exército coraixita ficou estupefato. Depois de manter Medina sitiada por vinte e um ou vinte e dois dias, acabou sendo obrigado a fugir. Salman, que Allah esteja satisfeito com ele, participou de todas as batalhas ocorridas depois da Trincheira. Após o falecimento do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Salman permaneceu algum tempo em Medina. É provável que, no final do califado de Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, ou no início do califado de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, ele tenha se estabelecido no Iraque, enquanto seu irmão na fé, Abu al-Darda, que Allah esteja satisfeito com ele, se estabeleceu na Síria. Durante a época de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, desempenhou um papel especial na conquista do Irã. Lutou em várias frentes, lado a lado com os mujahidin muçulmanos, e também participou da conquista de Jalula. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, nomeou-o governador de Mada’in. Faleceu durante o califado de Uthman.

Depois de aceitar o Islã, a maior parte da vida de Salman, que Allah esteja satisfeito com ele, transcorreu na companhia do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Por isso, alcançou especial excelência em conhecimento e ma’rifa. Quando Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, foi questionado sobre seu conhecimento, disse: ‘Em conhecimento e sabedoria, Salman era equivalente a Luqman, o Sábio.’ Segundo outro relato, ele disse: ‘Ele era um conhecedor de todos os conhecimentos: o conhecimento do primeiro período e o conhecimento do último período.’ O conhecimento do último período significa o conhecimento do Alcorão. Como não tinha parentes nem clã na Arábia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, declarou-o membro da Ahl al-Bayt. Mu’adh ibn Jabal, que era um eminente sábio e Companheiro mujtahid, disse: ‘Adquiram conhecimento de quatro pessoas. Salman é uma delas.’

Sessenta hadiths foram narrados por Salman, que Allah esteja satisfeito com ele. Desses, três foram transmitidos por al-Bukhari e Muslim em concordância, um foi transmitido exclusivamente por Muslim e três exclusivamente por al-Bukhari. Abu Sa’id al-Khudri, Abu al-Tufayl, Ibn Abbas, Aws ibn Malik, Ibn Ajza e outros eminentes Companheiros foram seus alunos.

Hazrat Salman fazia parte daqueles ilustres Companheiros que tiveram a felicidade de alcançar uma proximidade especial do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Hazrat Aisha disse: “Nas noites em que o Mensageiro de Allah se sentava para conversar em particular com Salman, nós, suas esposas, pensávamos que talvez Salman nos privasse naquela noite de nossa parcela de sua companhia.”

Ele era um verdadeiro exemplo de ascetismo e taqwa. Viveu como um viajante de passagem. Nunca construiu uma casa em sua vida. Quando encontrava uma parede ou a sombra de uma árvore, deitava-se ali mesmo. Certa pessoa pediu-lhe permissão para construir uma casa para ele. Salman proibiu-o. Depois de muita insistência, perguntou por fim: “Que tipo de casa você construirá?” O homem respondeu: “Tão pequena que, se você ficar de pé, sua cabeça tocará o teto, e, se se deitar, seus pés tocarão a parede.” Com isso, ele concordou. Construíram para ele uma pequena cabana. Hazrat Hasan disse: “Mesmo quando Salman recebia uma pensão de cinco mil dirrãs e governava sobre trinta mil pessoas, possuía apenas uma única aba. Nela, ele recolhia lenha. Ao dormir, cobria o corpo com uma parte da aba e estendia a outra como cama.”

Quando Hazrat Salman se encontrava no leito de sua doença terminal, Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas foi visitá-lo. Salman começou a chorar. Sa’d perguntou: “Abu Abdillah, por que está chorando? O Mensageiro de Allah partiu deste mundo satisfeito com você. Você se encontrará com ele junto ao lago de Kawthar.” Salman respondeu: “Não estou chorando por medo da morte. A razão do meu choro é que o Mensageiro de Allah nos fez prometer que nossos pertences não seriam mais numerosos que os pertences de um viajante. No entanto, acumularam-se comigo tantas coisas.” Sa’d disse: “Essas coisas não passavam de uma grande tigela, um prato de cobre e um recipiente para queijo.”

Usama ibn Zayd ((r.a.))

Antes da Hégira, estava em curso o sétimo ano da missão profética em Meca. O Mensageiro de Allah e seus Companheiros eram então vítimas dos extremos abusos dos coraixitas. Ao cumprir a difícil responsabilidade e o pesado encargo de transmitir o chamado islâmico, ele enfrentava, a cada passo, toda sorte de dores, sofrimentos e calamidades. Foi então que surgiu em sua vida um pequeno raio de luz e alegria. Um mensageiro de boas-novas chegou trazendo a alegre notícia: “Ummu Ayman deu à luz um filho.” O rosto sagrado do Mensageiro de Allah iluminou-se de alegria. Aquele afortunado recém-nascido, cuja chegada ao mundo deixou o Mensageiro de Allah tão jubiloso, era Usama ibn Zayd.

Os Companheiros, porém, não ficaram surpresos com a grande alegria do Mensageiro de Allah ao saber do nascimento da criança. Todos conheciam a posição que os pais da criança ocupavam para o Mensageiro de Allah. A mãe da criança era “Baraka al-Habashiyya”, conhecida como “Ummu Ayman”. Ela havia sido escrava de Hazrat Amina, mãe do Mensageiro de Allah. Essa mulher criou o Mensageiro de Allah durante a vida de sua mãe e também após o falecimento dela. Ao abrir os olhos para o mundo, foi com ela que o Mensageiro de Allah aprendeu a reconhecer uma mãe. Ele a amava de modo extremamente profundo e sincero. Frequentemente dizia: “Depois da minha mãe, ela é minha mãe e o membro remanescente da minha família.” Essa honrada mulher era a gloriosa mãe daquele recém-nascido.

O pai da criança era o querido do Mensageiro de Allah, seu filho adotivo na época pré-islâmica, companheiro fiel e, depois do advento do Islã, a pessoa mais amada pelo Mensageiro de Allah: Zayd ibn Harithah (r.a.).

Juntamente com o Mensageiro de Allah, toda a comunidade muçulmana de Meca alegrou-se com a notícia do nascimento da criança. Assim como haviam dado ao pai da criança o título de “Hibbu Rasulillah”, deram-lhe também o título de “Ibnul Hibb”, ou seja, filho do amado do Mensageiro de Allah. Esse título era inteiramente apropriado. O Mensageiro de Allah amava-o tanto que, ao vê-lo, as pessoas do mundo sentiam inveja. Usama tinha a mesma idade que Hasan ibn Fatima, neto do Mensageiro de Allah. Hasan era extraordinariamente belo, como seu avô, o Mensageiro de Allah. Já Usama era negro e tinha o nariz achatado, como sua mãe abissínia. Contudo, o Mensageiro de Allah não fazia absolutamente nenhuma distinção entre os dois em carinho e amor. Colocava Usama sobre uma coxa e Hasan sobre a outra. Depois, apertava os dois contra o peito e dizia: “Ó Allah, eu amo os dois; ama Tu também a ambos.”

Um episódio permite compreender quão profundo e intenso era o carinho e o amor do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) pelo pequeno Usama. Certa vez, o pequeno Usama tropeçou na soleira da porta e caiu. Sua testa abriu-se, e começou a sair sangue. A princípio, o Mensageiro de Allah pediu a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que limpasse o sangue. Mas não se sentiu satisfeito com isso. Ele próprio se levantou, limpou o sangue e começou a beijar o ferimento, acalmando-o com palavras doces, ternas e cheias de compaixão.

Assim como na infância, Usama também recebeu, na juventude, o amor do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Certa vez, Hakim ibn Hizam, um dos líderes dos coraixitas, comprou no Iêmen, por cinquenta dinares, um precioso manto do rei iemenita Dhu Yazan. Quando quis oferecê-lo de presente ao Mensageiro de Allah, ele se recusou a recebê-lo, pois Hakim ainda era politeísta. No entanto, o Mensageiro de Allah comprou o manto dele em troca de dinheiro. Em certa sexta-feira, usou-o uma única vez. Depois, vestiu-o em Usama. Usama passou a passear, de manhã e à tarde, usando aquele manto com jovens emigrados e auxiliares da mesma idade que ele.

Na juventude, Usama desenvolveu uma beleza de caráter e qualidades capazes de conquistar facilmente o carinho e o amor do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Inteligência aguçada, coragem destemida, discernimento, caráter puro e castidade, além de taqwa e piedade, eram suas características especiais.

No dia da batalha de Uhud, Usama compareceu diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) com vários outros jovens Companheiros da sua idade. Todos desejavam participar do jihad. O Mensageiro de Allah escolheu alguns deles e mandou os demais de volta por serem menores de idade. Usama voltou para casa depois de ser rejeitado, com os olhos marejados de lágrimas. Sua dor vinha de ter sido privado da oportunidade de combater sob a bandeira do Mensageiro de Allah.

A batalha da Trincheira estava prestes a começar. Usama também estava presente, acompanhado por alguns outros jovens Companheiros. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) estava selecionando os soldados. Para que, como em Uhud, não fosse novamente excluído por ser pequeno, Usama ficou na ponta dos pés, erguendo-se o máximo que podia. Ao ver seu entusiasmo, o coração do Mensageiro de Allah enterneceu-se, e ele o escolheu. Com a espada pendurada no ombro, Usama partiu para o jihad. Ele tinha então doze ou treze anos.

Alguns relatos afirmam que, por ser menor de idade, ele não teve oportunidade de participar das primeiras expedições. Participou pela primeira vez da expedição de Harqa, realizada no sétimo ou oitavo ano da Hégira. Tinha então catorze anos. Porém, devido às suas extraordinárias capacidades, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) confiou-lhe o comando da expedição. Sobre essa experiência, ele próprio relatou: “O Mensageiro de Allah enviou-nos em direção a Harqa. Os inimigos foram derrotados e começaram a fugir. Persegui, junto com um soldado ansari, um combatente que fugia. Quando ele ficou ao nosso alcance, começou a proclamar em voz alta: ‘Não há divindade além de Allah’. Diante dessa declaração, o ansari conteve-se; mas eu atirei minha lança e o atravessei. Ele morreu. Quando voltamos da expedição, o assunto chegou aos ouvidos do Mensageiro de Allah. Ele me disse: ‘Usama, mataste um homem depois de ele ter pronunciado a fórmula de fé’. Eu respondi que ele havia dito aquilo para salvar a vida. Ele não deu atenção às minhas palavras e continuou repetindo a mesma coisa. Fiquei então tão arrependido que pensei: ‘Ai de mim! Se ao menos eu não tivesse abraçado o Islã antes deste dia’. Segundo outro relato, o Mensageiro de Allah lhe disse: ‘Por que não abriste o coração dele para ver?’”

Na batalha de Hunayn, o exército muçulmano foi derrotado e começou a fugir. Usama permaneceu firme e enfrentou o exército inimigo junto com apenas seis Companheiros, entre eles o tio do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), Abbas, e Abu Sufyan ibn al-Harith. Com a ajuda desse pequeno grupo de crentes corajosos, o Mensageiro de Allah transformou naquele dia uma derrota certa em vitória e salvou o exército muçulmano em fuga das mãos dos politeístas.

Também durante a conquista de Meca, Usama era companheiro do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Montado no mesmo animal que o Mensageiro de Allah, ele entrou em Meca. Naquele dia, somente estas três pessoas — Usama, Bilal e Uthman ibn Talha — tiveram a honra de entrar no interior da Caaba junto com o Mensageiro de Allah. Depois que esses quatro entraram, a porta da Caaba foi fechada.

Usama participou da expedição de Mu’ta junto com seu pai, o comandante Zaid ibn Haritha. Naquela época, ele tinha menos de dezoito anos. Nessa batalha, testemunhou com os próprios olhos o martírio de seu pai. Contudo, não se deixou abater. Após o martírio de seu pai, lutou bravamente, sucessivamente sob a liderança de Ja‘far ibn Abi Talib e de Abdullah ibn Rawaha. Quando esse comandante também foi martirizado, como Zaid, ele lutou sob a liderança do comandante Khalid ibn al-Walid e salvou o exército muçulmano das garras do exército romano. No campo de Mu’ta, confiou o corpo de seu pai Zaid a Allah e retornou a Medina montado no cavalo sobre o qual seu pai havia sido martirizado.

No décimo primeiro ano da Hégira, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou a preparação de um exército para uma batalha decisiva contra o exército romano. Abu Bakr, Umar, Sa‘d ibn Abi Waqqas, Abu Ubaida ibn al-Jarrah e outros Companheiros, especialistas militares de primeira linha, foram incluídos nesse exército. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nomeou Usama ibn Zaid como comandante supremo desse exército. Naquela época, ele tinha cerca de vinte anos. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou que acampassem na fronteira, nas proximidades de Balqa e Darum al-Kilayar, perto do vale de Gaza.

O exército ficou pronto para partir. Enquanto isso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, adoeceu. Como a doença do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, se agravou, Usama interrompeu a marcha com o exército e ficou aguardando em um lugar chamado Juruf, nos arredores de Medina. De lá, ele ia diariamente visitar o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Usama disse: “Quando a doença do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, se agravou, fui visitá-lo. Outras pessoas também estavam comigo. Ao entrar na casa, vi que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava em silêncio. Devido à intensidade da doença, não conseguia falar. Ao me ver, primeiro ergueu as mãos para o céu e depois colocou a mão sobre o meu corpo. Entendi que estava fazendo uma súplica por mim.”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, faleceu. Ao receber a notícia, ele correu para Medina e participou do envolvimento e do sepultamento. Também teve a sorte de baixar o sagrado corpo do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, à sepultura.

Abu Bakr foi escolhido como califa. Ele ordenou que Usama partisse. Contudo, um pequeno grupo dos Ansar considerou que, naquele momento, a partida do exército deveria ser um pouco adiada. Eles pediram a Umar que conversasse sobre o assunto com o califa. Também disseram a Umar que, se ele permanecesse firme em sua decisão, pelo menos pedisse que fosse nomeado como comandante alguém mais velho que Usama.

Abu Bakr estava sentado. Assim que ouviu da boca de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, o que os Ansar haviam dito, levantou-se de um salto, agarrou firmemente a barba de Umar, o Grande Faruq, e exclamou com voz exaltada: “Ó filho de Khattab! Que sua mãe pereça! Você está me ordenando que remova aquele que foi nomeado pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele? Juro por Allah que jamais farei isso.”

Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, voltou. As pessoas perguntaram: “Qual é a notícia?” Ele respondeu: “Que pereçam as mães de todos vocês! Por causa de vocês, tive de ouvir muitas coisas do califa do Mensageiro de Allah.”

O exército partiu de Medina sob a liderança do jovem comandante. O califa Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, avançou por um trecho para acompanhá-lo. Usama estava montado, enquanto o califa caminhava a pé. Usama disse: “Ó califa do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele! Juro por Allah: ou o senhor monta a cavalo, ou eu desço.” O califa respondeu: “Juro por Allah que nem você descerá, nem eu montarei. Que mal há em que meus pés se cubram de poeira por algum tempo no caminho de Allah?” Em seguida, disse a Usama: “Confio a Allah a proteção da sua religião, da sua honestidade e do desfecho da sua missão. Recomendo-lhe que cumpra a ordem que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, lhe deu.” Depois, inclinando-se um pouco em direção a Usama, disse: “Se você considerar melhor que Umar me ajude, permita que ele permaneça comigo.” Usama aceitou o pedido de Abu Bakr e permitiu que Umar permanecesse em Medina com o califa.

Usama cumpriu à risca a ordem de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A cavalaria muçulmana subjugou as fronteiras de Balca e Quilaiat ad-Darum, na Palestina. Assim, o temor dos romanos foi para sempre eliminado daquela região para os muçulmanos, e abriu-se o caminho para a conquista de uma vasta extensão territorial que se estendia por toda a Síria, o Egito e o Norte da África até o Mar Negro.

Nessa expedição, ele matou o assassino de seu pai e vingou sua morte. Carregando no dorso do cavalo sobre o qual seu pai havia sido martirizado uma enorme quantidade de espólio, retornou a Medina com a aparência de um vencedor. O califa Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), acompanhado por um grande grupo de emigrantes e ansares, foi recebê-lo nos arredores de Medina. Ao chegar a Medina, Usama realizou duas unidades de oração na Mesquita do Profeta e foi para casa. Os historiadores comentaram sobre essa vitória: “Nunca se viu um exército mais seguro e que obtivesse mais espólio do que o exército de Usama.”

Por cumprir devidamente a responsabilidade que lhe fora confiada por Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e por sua personalidade firme, Usama conquistou amplo amor e respeito na sociedade muçulmana. O segundo califa, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), fixou para Usama uma pensão maior do que a de seu próprio filho, Abdullah ibn Umar. Abdullah, indignado, reclamou: “Meu pai, a pensão de Usama é de quatro mil, enquanto a minha é de três mil. O pai dele não era mais nobre do que o meu, nem sua posição é superior à minha.” Umar respondeu: “Que pena! O pai dele era mais amado por Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) do que o teu pai, e ele era mais amado por Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) do que tu.” Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) não fez mais objeção alguma.

Sempre que o califa Umar encontrava Usama, dizia: “Bem-vindo, meu comandante.” Quando alguém se admirava com esse tratamento, ele dizia: “Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o havia nomeado meu comandante ou líder.”

Durante o califado de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), não aceitou nenhum cargo estatal por receio de que surgissem sedição e desordem. Contudo, como muçulmano bem-intencionado, sempre oferecia ao califa conselhos sinceros e discutia secretamente com ele a questão do descontentamento popular.

Após o martírio de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), quando surgiu a desordem, ele adotou completa neutralidade. Manteve-se totalmente afastado do conflito entre Ali e Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ambos). Nessa ocasião, certa vez mandou dizer a Ali: “Se você entrasse nas mandíbulas de um leão, eu também entraria de bom grado. Mas não tenho o menor interesse em participar dessa questão.” Embora não quisesse envolver-se nesse conflito por temor do derramamento de sangue muçulmano, considerava Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) alguém que seguia a verdade. Por isso, no fim da vida, arrependeu-se de não tê-lo ajudado.

Usama foi criado na casa do Profeta. Por isso, seria de esperar que possuísse vasto conhecimento. Quando Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) faleceu, ele tinha apenas dezoito anos. Depois de atingir a maturidade, não teve oportunidade de desfrutar de uma longa convivência com Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por essa razão, nesse aspecto, não alcançou o êxito esperado de sábios companheiros como Abdullah ibn Abbas e Abdullah ibn Umar. Ainda assim, o que conquistou não foi de modo algum insignificante. Ele guardou de memória muitos ensinamentos do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Até companheiros ilustres, por vezes, recorriam a ele para conhecer as determinações da Sharia. Saad ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele), não tendo encontrado nenhuma determinação da Sharia sobre a peste, perguntou a Usama: “Você ouviu algo de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a respeito da peste?” Ele narrou a Saad um ensinamento de Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre esse assunto. O número total de hadiths por ele narrados é de cento e vinte e oito. Desses, quinze foram narrados tanto pelo imã Bukhari quanto pelo imã Muslim. Hasan, Muhammad ibn Abbas, Abu Huraira, Kuraib, Abu Uthman an-Nahdi, Amr ibn Uthman, Abu Wa’il, Amir ibn Saad e Hasan al-Basri (que Allah esteja satisfeito com eles), entre outros companheiros e tabi’un, narraram hadiths dele.

Como havia sido criado na casa do Profeta e tinha livre acesso a Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os ensinamentos do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) exerceram grande influência sobre ele. Na maioria das viagens, teve a felicidade de montar no mesmo veículo que Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por isso, também teve muitas oportunidades de servi-lo. Na maior parte das vezes, era ele quem trazia a água para a ablução e a purificação.

Apesar de ser jovem, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, consultava-o sobre diversos assuntos. Quando se espalharam as falsas e indecentes acusações dos hipócritas contra Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, no episódio de Ifk, as duas pessoas próximas a quem o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, consultou sobre o assunto foram Ali e Usama, que Allah esteja satisfeito com ambos.

Esse grande comandante faleceu em Medina, aos sessenta anos de idade, no ano 54 da Hégira, no final do califado de Muawiya.

Abdullah ibn Umme Maktum ((que Allah esteja satisfeito com ele))

Abdullah ibn Umme Maktum, o muezim do Mensageiro, que Allah esteja satisfeito com ele, foi aquele grande Companheiro por cuja causa o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi repreendido do alto do sétimo céu, e em cuja honra o anjo Gabriel, que a paz esteja sobre ele, desceu da parte de Allah até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, trazendo a revelação. Ele foi aquele ilustre homem sobre quem foram revelados, ao todo, dezesseis versículos do Alcorão.

Os habitantes de Medina o chamavam de Abdullah ibn Umme Maktum. Entre os iraquianos, porém, ele era conhecido como Umar ibn Umme Maktum. Era descendente da tribo coraixita de Meca. Também possuía laços de parentesco com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Era primo materno de Khadija bint Khuwaylid, a Mãe dos Crentes, que Allah esteja satisfeito com ela. Seu pai era Qays ibn Zayd e sua mãe, Atiqa bint Abdullah. Como sua mãe deu à luz Abdullah cega, passou a ser conhecida como Atiqa Umm Maktum. Maktum significa cego, e Umm Maktum significa mãe do cego.

Ele não possuía a visão exterior, mas recebera uma visão interior aguçada. Testemunhou o início do surgimento dos raios luminosos do Islã em Meca. Allah, o Altíssimo, abriu-lhe a visão interior. Ele abraçou a fé. Assim, tornou-se um dos primeiros crentes do Islã. Também compartilhou os sacrifícios, as renúncias, a perseverança e a firmeza dos muçulmanos de Meca. Como os demais, também foi vítima da opressão e da perseguição dos coraixitas. Seus milhares de atos de tirania e opressão não o abalaram nem um pouco, não lhe tiraram a coragem nem um pouco; ou, pode-se dizer, sua fé jamais se enfraqueceu. Quanto mais aumentavam a tirania e a opressão deles, mais firmemente ele se apegava à religião de Allah. Ao mesmo tempo, aprofundava-se sua relação com o Livro de Allah, aumentava sua compreensão da Sharia, e suas visitas ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, em todos os momentos, tornavam-se mais frequentes.

Sua devoção e amor pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e seu interesse em memorizar o Sagrado Alcorão tornaram-se tão intensos que ele considerava preciosa cada oportunidade relacionada a isso e aproveitava cada momento. Devido ao excesso de seu entusiasmo, muitas vezes ele tomava até mesmo o tempo reservado pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para si próprio e para outras pessoas.

Era o período em que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enfrentava o enorme desafio dos líderes coraixitas de Meca. Ele desejava intensamente que eles aceitassem o Islã. Certo dia, encontrou-se com Utba ibn Rabia, Shayba ibn Rabia, Amr ibn Hisham, conhecido como Abu Jahl, Umayya ibn Khalaf e Walid ibn Mughirah, pai de Khalid, a Espada de Allah. Ia até cada um deles, conversava e os convidava ao Islã. Esperava que aceitassem seu convite ou, pelo menos, deixassem de perseguir e oprimir seus companheiros. Enquanto estava ocupado com uma tarefa tão importante, Abdullah ibn Umme Maktum apareceu completamente sem ser convidado. Disse: “Ó Mensageiro de Allah, ensina-me algo do que Allah lhe ensinou.” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não deu atenção especial às suas palavras e continuou concentrado nos líderes coraixitas, na esperança e convicção de que eles aceitariam o Islã, elevando assim a honra da religião de Allah e facilitando o trabalho de convocação. Assim que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, terminou sua conversa e consulta com eles e se preparava para voltar para casa, Allah, o Altíssimo, o repreendeu e fez descer a revelação:

‘Ele franziu as sobrancelhas e virou o rosto, porque o cego veio até ele. E o que te fará saber? Talvez ele se purificasse ou aceitasse a admoestação, e a admoestação lhe fosse útil. Quanto àquele que não se importa, tu te ocupaste dele, embora não te caiba responsabilidade alguma se ele não se purificar. Mas aquele que veio correndo até ti, cheio de temor, tu o ignoraste. Não! Tal conduta é imprópria. Isto é uma admoestação. Quem quiser, que se recorde dela. Ela está em escrituras honradas, elevadas em dignidade, puras e grandiosas, escritas pelas mãos de escribas nobres e virtuosos.’(Abasa: 1–16)

Naquele dia, o anjo Jibril al-Amin desceu ao coração do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, trazendo um total de dezesseis versículos a respeito deste companheiro cego, Abdullah ibn Umm Maktum. Esses versículos continuam sendo recitados até hoje e serão recitados enquanto a vida da humanidade continuar sobre a face da Terra. Desde aquele dia, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, passou a honrar especialmente Abdullah ibn Umm Maktum. Quando ele chegava, chamava-o, fazia-o sentar-se perto, perguntava-lhe como estava e atendia a qualquer necessidade que tivesse. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, preparava para ele uma bebida de limão e mel e fazia-o bebê-la; ela disse: ‘Depois da revelação dos versículos, isso foi reservado para ele.’ Não há motivo para tanta admiração, pois ele era justamente a pessoa por causa da qual o Mensageiro foi severamente repreendido do alto do sétimo céu.

Quando a severidade e a perseguição dos coraixitas contra o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e os muçulmanos ultrapassaram todos os limites, Allah, o Altíssimo, permitiu que os muçulmanos emigrassem. Abdullah ibn Umm Maktum foi um daqueles que deixaram rapidamente sua terra pela causa da religião. Ele e Musab ibn Umayr, que Allah esteja satisfeito com ele, foram os primeiros entre os companheiros a chegar de Meca a Medina. Ao chegar a Medina, Abdullah ibn Umm Maktum começou, junto com seu amigo Musab ibn Umayr, a ir de casa em casa, ensinando o Alcorão e a religião de Allah às pessoas. Al-Bara ibn Azib, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: ‘Entre os companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, os primeiros a emigrar e chegar até nós em Medina foram Musab ibn Umayr e Ibn Umm Maktum, que Allah esteja satisfeito com eles. Assim que chegaram a Medina, começaram a ensinar-nos o Alcorão.’

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, emigrou de Meca para Medina. Ele nomeou Abdullah ibn Umm Maktum e Bilal ibn Rabah como mu’azzins dos muçulmanos. Eles foram os dois primeiros mu’azzins da comunidade muçulmana. Assim, passaram a cumprir diariamente a responsabilidade de proclamar cinco vezes a unicidade de Allah, convocar as pessoas às boas ações e incentivá-las ao bem. Bilal fazia o adhan, enquanto Ibn Umm Maktum fazia a iqama. Às vezes, Ibn Umm Maktum fazia o adhan e Bilal, que Allah esteja satisfeito com ele, fazia a iqama. Durante o mês de Ramadã, eles também desempenhavam outra tarefa. Os muçulmanos de Medina começavam a tomar o suhur ao ouvir o adhan de um deles e paravam de comer ao ouvir o adhan do outro. Ao ouvir o adhan de Bilal, as pessoas despertavam para o suhur. Enquanto isso, Abdullah ibn Umm Maktum aguardava; assim que surgia a verdadeira alvorada, fazia o adhan, e as pessoas, ao ouvi-lo, paravam de comer.

Após a emigração do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, começaram as guerras e os combates. Entretanto, Ibn Umm Maktum não podia participar do jihad por causa de sua incapacidade. Depois da Batalha de Badr, Allah, o Altíssimo, revelou alguns versículos ao Seu amado Profeta. Esses versículos declaravam a elevadíssima posição dos combatentes e sua superioridade e excelência em relação àqueles que, afastando-se do jihad, permaneciam em suas casas. O conteúdo dos versículos causou uma profunda reação em Ibn Umm Maktum. Ele ficou extremamente pesaroso por ser privado da posição dos combatentes. Quando este versículo foi revelado:

‘Os crentes que permanecem em casa e os combatentes no caminho de Allah não serão iguais em posição.’ O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pediu a Zayd ibn Thabit, que Allah esteja satisfeito com ele, o escriba da revelação, que escrevesse o versículo. Nesse momento, Ibn Umm Maktum chegou ao local e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, se eu fosse capaz, também poderia participar do jihad e alcançar a posição dos combatentes.’

Então suplicou a Allah com extrema humildade: ‘Ó Allah, revela uma revelação sobre a minha incapacidade; ó Allah, revela uma revelação sobre a minha desculpa.’ Seu desejo agradou tanto a Allah que, imediatamente, Ele revelou uma revelação concedendo, para toda a eternidade, isenção da obrigação do jihad a todas as pessoas incapazes do mundo.

Foi revelado:

لَّا يَسْتَوِي الْقَاعِدُونَ مِنَ الْمُؤْمِنِينَ غَيْرُ أُولِي الضَّرَرِ وَالْمُجَاهِدُونَ فِي سَبِيلِ اللَّهِ بِأَمْوَالِهِمْ وَأَنفُسِهِمْ

‘Os muçulmanos que permanecem em casa, exceto os que têm uma justificativa, não são iguais em mérito àqueles que se empenham no caminho de Allah com suas vidas e seus bens.’ Aqui غَيْرُ أُولِي الضَّرَرِ a expressão declara todos os incapacitados isentos da obrigação do jihad.

Porém, em vez de diminuir, seu entusiasmo para partir para o jihad aumentou ainda mais por causa dessa determinação. Seu nobre coração recusava-se a permanecer em casa junto com os incapacitados. Pois um coração nobre jamais pode contentar-se com algo que não sejam obras grandiosas. Ibn Hajar Asqalani ‘Al Isaba’ afirma em sua obra: embora fosse cego, ele participava ocasionalmente das batalhas. Dizia às pessoas: ‘Coloquem a bandeira em minhas mãos e façam-me ficar entre as duas fileiras. Sou cego; não tenho medo de fugir.’

Embora Hazrat Ibn Umm Maktum tenha sido privado do mérito do jihad devido à sua incapacidade, alcançou uma honra e uma distinção ainda maiores. Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partia para alguma expedição para fora de Medina, acompanhado dos principais Muhajirun e Ansar, deixava Ibn Umm Maktum como seu substituto. Nessa ocasião, ele desempenhava a função de imam das orações na Mesquita do Profeta. Assim, alcançou essa honra ao todo treze vezes durante expedições como as de Abwa, Buwat, Dhu al-Usayr, Juhayna, Suwayq, Ghatafan, Hamra al-Asad, Najran e Dhat al-Riqa, entre outras. Durante a batalha de Badr, exerceu essa função por alguns dias. Depois, essa responsabilidade foi confiada a Hazrat Abu Lubaba.

Nada de especial se sabe sobre ele desde o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) até o fim do califado de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Sabe-se apenas que participou da batalha de Qadisiyya e manteve erguida a bandeira do exército muçulmano. Segundo o historiador Waqidi, ele faleceu em Medina. Entretanto, Ibn Sa’d menciona em sua obra Tabaqat, por intermédio de Zubayr ibn Bakkar, que ele alcançou o martírio na batalha de Qadisiyya. A maioria dos autores de biografias proféticas considera esse relato mais autêntico.

No décimo quarto ano da Hégira, o segundo califa, Hazrat Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele), decidiu travar uma batalha decisiva contra o exército persa. Ele escreveu aos governadores das diversas províncias:

‘Não deixeis de fora ninguém que possua uma arma, um cavalo ou uma camela, ou inteligência. Enviai cada um deles rapidamente a mim.’

O povo muçulmano respondeu em massa ao chamado de Hazrat Faruq al-Azam. De todas as direções, as pessoas começaram a dirigir-se a Medina como uma torrente. O cego Abdullah ibn Umm Maktum também não conseguiu permanecer em casa. Juntou-se às fileiras dos mujahidin e foi para Medina. O califa Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) nomeou Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) comandante daquele enorme exército. Ao partir, o califa aconselhou-o sobre vários assuntos e despediu-se dele.

Quando o exército muçulmano chegou a Qadisiyya, o honorável Abdullah ibn Umm Maktum avançou usando uma armadura e preparado para a batalha, e pediu que lhe fosse confiada a responsabilidade de carregar o estandarte ou a bandeira do exército muçulmano. Disse: “Ou manterei esta bandeira erguida, ou morrerei.”

A terrível e sangrenta batalha travada entre os exércitos muçulmano e persa nesta planície de Qadisiyya tem poucos exemplos semelhantes na história militar do mundo. Por fim, no terceiro dia da batalha decisiva, a vitória do exército muçulmano provocou a queda do maior império do mundo de então e do trono mais glorioso. Ao mesmo tempo, a bandeira do tawhid começou a tremular vigorosamente nesta vasta terra idólatra. Essa grande vitória foi alcançada ao preço das vidas de inúmeros mártires. O honorável Abdullah ibn Umm Maktum também foi um desses incontáveis mártires. Depois da batalha, viram-no caído no chão, ensanguentado e coberto de feridas, abraçado à bandeira dos muçulmanos.

Ibn Umm Maktum era cego. Sua casa também ficava um pouco distante da Mesquita do Profeta. No caminho havia valas, esgotos, arbustos e matas. Ele não tinha nenhum ajudante permanente. Apesar de todas essas dificuldades, ia regularmente à Mesquita do Profeta para realizar a oração. A esse respeito, ele disse: “Certo dia, falei: Ó Mensageiro de Allah! Sou cego, e minha casa fica bastante distante da mesquita. Tenho um homem que me conduz pelo caminho, mas ele não é do meu agrado. Nessas circunstâncias, o senhor me permitiria realizar a oração em casa?” Ele respondeu: “Você ouve o chamado para a oração?” Respondi: “Sim.” Ele disse: “Não vejo nenhuma possibilidade de lhe conceder essa permissão.” Em outro relato, consta que ele disse: “Ó Mensageiro de Allah! Entre minha casa e a mesquita há palmeirais e matas. Não consigo manter sempre alguém para me guiar pelo caminho. Nessas circunstâncias, posso realizar a oração em casa?” Ele respondeu: “Você ouve o chamado para o início da oração?” Respondi: “Sim.” O Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Então vá à mesquita e realize a oração.” (Hayatus Sahaba, 3ª, 121) Como o som do chamado para a oração e do início da oração chegava até sua casa, ele não recebeu permissão para realizar a oração em casa, apesar de ser cego. Durante o seu califado, o honorável Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — designou-lhe um rahnuma (guia). O honorável Abdullah ibn Umm Maktum era um hafiz do sagrado Alcorão. O honorável Anas e Yazid ibn Jaish transmitiram hadiths dele.(Tahzibul Kamal, 289)

 

Tufail Ibn ’Amr ad–Dawsi ((que Allah esteja satisfeito com ele))

Seu nome era Tufail. Seu título era “Zun-Nur”. Era chamado de Dawsi por ser descendente da tribo de “Daws”. A tribo de Daws era uma poderosa tribo que vivia no Iêmen. Ele era o “rais”, ou chefe, dessa tribo. Seu ofício era o comércio. Por isso, precisava ir ocasionalmente a Meca.

Tufail era um dos nobres e honrados homens da Arábia na época da Jahiliyyah. O fogo de seu fogão nunca se apagava. A porta de sua casa permanecia sempre aberta aos hóspedes.

Ele possuía uma inteligência aguçada, um intelecto brilhante, um talento poético inato e uma sensibilidade sutil. Conhecia profundamente a doçura e a amargura da linguagem, bem como a magia das palavras.

Certa vez, Tufail ibn Amr chegou a Meca, vindo da região de Tihama, onde sua tribo vivia, para tratar de negócios. Naquela época, já havia começado o conflito entre o Mensageiro de Allah e os coraixitas. Ambos os grupos se empenhavam em conquistar apoiadores para suas próprias posições. De um lado, o Mensageiro de Allah conclamava as pessoas ao seu Senhor. Do outro, os incrédulos empregavam todos os meios e recursos para tentar afastar as pessoas dele. Pode-se dizer que ele se envolveu nesse conflito completamente contra a sua vontade, pois não tinha ido a Meca com esse propósito. Até então, jamais lhe ocorrera pensar no conflito entre Muhammad e os coraixitas. Uma história extraordinária de sua vida está ligada a esse conflito. Ele conta: “Entrei em Meca. Assim que me viram, os líderes dos coraixitas vieram ao meu encontro e me deram as melhores boas-vindas. Eles me hospedaram em sua casa mais honrada. Depois, seus líderes e homens sábios vieram até mim e disseram: ‘Tufail, você veio à nossa terra. Esse homem, que se considera um profeta, criou desordem em todos os nossos assuntos e abriu uma brecha em nossa unidade. Tememos que você também se deixe enganar por suas palavras e que, sob a sua liderança, o mesmo problema que surgiu entre nós se levante em sua tribo. Portanto, não converse de modo algum com esse homem, nem dê ouvidos a qualquer coisa que ele diga. Pois suas palavras agem como magia: ele provoca a separação entre pai e filho, entre irmãos e entre marido e esposa.’”

Tufail conta: “Por Allah, eles me relataram histórias extraordinárias sobre o Mensageiro de Allah e descreveram suas diversas ações surpreendentes, advertindo a mim e à minha tribo contra ele. Então decidi não me aproximar dele, não falar com ele nem ouvir qualquer coisa que dissesse. Naquela época, costumávamos circundar a Caaba e adorar os ídolos que nela estavam. Quando saí em direção à mesquita para circundar a Caaba e adorar os ídolos, enchi bem os dois ouvidos de algodão, para que de modo algum as palavras de Muhammad chegassem aos meus ouvidos.”

Assim que entrei na Mesquita Sagrada, vi-o orando ao lado da Caaba. Contudo, sua oração não era como a nossa oração, e sua adoração não era como a nossa adoração. Aquela cena me encantou, e sua adoração me comoveu. Senti vontade de me aproximar dele. Apesar de relutante, avancei pouco a pouco até chegar a ele. Allah quis que algumas de suas palavras chegassem aos meus ouvidos. Assim, embora meus ouvidos estivessem cheios de algodão, consegui ouvir algumas de suas belas palavras. Disse a mim mesmo: ‘Tufail, que tua mãe pereça! Tu és um poeta inteligente e tens capacidade para distinguir o bem do mal. O que te impede de ouvir o que esse homem diz? Se ele disser algo bom, aceita-o; e, se for mau, rejeita-o.’

Tufail conta: “Fiquei esperando. Quando terminou a oração, o Mensageiro de Allah dirigiu-se para sua casa. Eu também o segui e cheguei à sua casa. Disse: ‘Ó Muhammad, os membros de seu povo me disseram todas essas coisas a seu respeito. Eles me assustaram tanto em relação a você que enchi meus ouvidos de algodão para que nenhuma de suas palavras chegasse até mim. Apesar disso, Allah fez com que eu ouvisse algumas de suas palavras. O que ouvi pareceu-me bom. Explique-me um pouco a sua missão.’ Depois de expor claramente sua mensagem, ele recitou para mim a Surata Al-Ikhlas e a Surata Al-Falaq. Na verdade, jamais havia ouvido palavras mais belas nem um conteúdo mais sublime. Naquele momento, estendi minha mão em direção a ele e, recitando a declaração de fé ‘La ilaha illallahu Muhammadur Rasulullah’, declarei minha adesão ao Islã.”

Após aceitar o Islã, os coraixitas de Meca começaram a ameaçá-lo e a intimidá-lo. Então ele compôs um belo poema dirigido a eles. A censura aos coraixitas, a unicidade de Allah e o louvor ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz — esse era o tema do poema. Ibn Hajar ‘Al–Isaba’ na obra, na obra, compilou alguns de seus versos.

Tufail disse: Depois, permaneci algum tempo em Meca, aprendendo as normas e os preceitos do Islã; também memorizei, tanto quanto pude, algumas partes do Alcorão. Decidi retornar ao meu povo.

Ao ouvir a notícia do meu retorno, meu pai idoso veio correndo. Eu disse: Pai, mantenha-se afastado de mim. Eu não sou nada seu, nem você é nada meu.

Ao ouvir isso, ele perguntou: “Por que isso, meu filho?” Eu respondi: “Aceitei o Islã e tornei-me seguidor da religião de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Ele disse: “Meu filho, a sua religião também é a minha.” Eu disse: “Vá, tome um banho, vista roupas puras e venha até mim. Ensinarei a você o que aprendi.” Ele foi embora. Depois de tomar banho e vestir roupas puras, voltou para junto de mim, e eu lhe apresentei o convite ao Islã. Ele aceitou o Islã imediatamente. Depois veio minha esposa. Também lhe pedi que se afastasse. Dizendo: “Que meus pais sejam sacrificados por você”, ela perguntou o motivo. Eu disse: “O Islã rompeu o vínculo entre você e eu. Aceitei o Islã e tornei-me seguidor da religião de Muhammad.” Ela disse: “Então a sua religião também é a minha.” Eu disse: “Tome banho com a água da nascente de Yush-Shara, purifique-se e venha.”(‘Yush-–Shara’ da tribo de Daws, a deusa–em forma de ídolo.। Ao lado dela havia uma nascente  que vinha fluindo da montanha.) Ela disse: “Que meus pais sejam sacrificados por você; por acaso você não teme nem um pouco Yush-Shara ao abandonar a religião?” Eu disse: “Que Yush-Shara e você pereçam! Vá até lá, afaste-se um pouco da multidão e tome banho. Esse ídolo de pedra surdo não poderá causar-lhe mal algum; eu assumo essa responsabilidade.” Ela foi embora e, pouco depois, voltou após tomar banho. Apresentei-lhe o convite ao Islã, e ela o aceitou com alegria. Depois apresentei o convite ao Islã a todos os membros da tribo de Daws. Porém, com exceção de Abu Huraira, todos demonstraram hesitação. Entre o povo de Daws, somente ele aceitou o Islã muito rapidamente.

Tufail (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Então fui à presença do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) em Meca. Dessa vez, Abu Huraira estava comigo. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou: ‘Tufail, que notícias trazes dos que ficaram para trás?’ Respondi: ‘Seus corações estão enferrujados; estão profundamente envolvidos na descrença. O pecado e a desobediência tomaram conta da tribo de Daws.’”

Ao ouvir minhas palavras, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) levantou-se, fez a ablução, realizou a oração e ergueu as mãos para o céu. Abu Huraira disse: quando vi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fazer aquilo, temi que ele fizesse uma súplica contra minha tribo e que eles fossem destruídos. Pensei comigo: ‘Que Allah proteja meu povo.’ Mas, inesperadamente, ouvi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) dizer: ‘Ó Allah, concede orientação à tribo de Daws’, e ele repetiu isso três vezes. Depois, voltando-se para Tufail, disse: ‘Agora retorna ao teu povo. Trata-o com bondade e convida-o ao Islam.’”

Quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ergueu as mãos e suplicou pela tribo de Daws, Tufail disse: ‘Eu não quero isso.’ Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: ‘Entre eles há muitos outros como você.’ Diz-se que Jundub ibn Amr al-Dawsi já dizia, na época da ignorância: ‘Certamente existe um Criador deste universo, mas não sabemos quem Ele é.’ Ao ouvir a notícia do surgimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ele foi a Medina com 75 homens e aceitou o Islam.

Tufail disse: “Ao retornar, dediquei-me a convidar a tribo de Daws ao Islam e a transmitir-lhe a mensagem. Enquanto isso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) emigrou de Meca para Medina. Um após outro, terminaram as batalhas de Badr, Uhud e Khandaq. Então fui à presença do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), acompanhado por oitenta famílias da tribo de Daws. Todas haviam aceitado o Islam. Ao nos ver, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ficou imensamente feliz e também nos deu uma parte dos espólios de Khaibar. Dissemos: ‘Ó Mensageiro de Allah, a partir de agora, em todas as batalhas das quais participares, ficará sob nossa responsabilidade o flanco sul.’ Tufail disse: ‘Permaneci com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Finalmente, pela vontade de Allah, ocorreu a conquista de Meca.’”

Tufail (que Allah esteja satisfeito com ele) reduziu a cinzas o ídolo de sua tribo, Dhu’l-Kaffayn. Imediatamente, o politeísmo restante da tribo de Daws também foi eliminado, e todos aceitaram o Islam. Enquanto isso, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) partira para a expedição de Taif. Tufail (que Allah esteja satisfeito com ele) encontrou-se com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) em Taif, levando consigo outros quatrocentos homens armados de sua tribo. Tufail era o comandante de seu grupo. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou-lhe: ‘Quem será o porta-estandarte de vocês?’ Ele respondeu: ‘Como Nu’man ibn Rabia vem desempenhando essa função há muito tempo, ele também a desempenhará nesta ocasião.’ O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aprovou seu argumento.

Depois disso, enquanto o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) permaneceu vivo, Tufail ibn Amr foi seu companheiro constante. Durante o califado de Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), dedicou ao serviço e à obediência do califa sua vida, sua espada e todos os seus filhos. Quando o fogo das guerras de apostasia se alastrou violentamente por toda parte, ele partiu com seu filho Amr, como soldado da linha de frente de um exército enviado contra o falso profeta Musailima, o Mentiroso. Quando estava a caminho de Yamama, teve um sonho. Pediu aos companheiros que o interpretassem. Quando lhe perguntaram: ‘O que viste?’, respondeu: ‘Vi que minha cabeça havia sido raspada; um pássaro saiu de minha boca; minha esposa me introduziu em seu ventre; e meu filho Amr tentou me retirar dali rapidamente, mas uma parede se ergueu entre ele e mim.’

Eles comentaram: ‘O sonho é bom.’ Tufail disse: ‘Eu, porém, interpretei o sonho da seguinte maneira: a cabeça raspada significa que minha cabeça será separada do pescoço. O pássaro saindo da boca significa que minha alma partirá. Entrar no ventre de minha esposa significa que cavarão a terra, prepararão uma sepultura e me enterrarão. Meu grande desejo é morrer como mártir. Meu filho Amr também desejará o martírio como eu, mas o alcançará algum tempo depois.’ Sua interpretação tornou-se realidade. No ano 11 da Hégira, esse grande Companheiro lutou bravamente na batalha de Yamama e alcançou o martírio no próprio campo de batalha. Nessa batalha, o pulso da mão direita de seu único filho, Amr, foi decepado, e ele ficou debilitado devido à intensa perda de sangue. Assim, tendo perdido a própria mão e o pai no campo de batalha, retornou a Medina.

Durante o califado do segundo califa, Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele), Amr ibn Tufail foi certa vez visitá-lo. Quando a comida foi servida ao califa, ele convidou todos os que estavam sentados com ele a comer. Todos aceitaram, mas Amr não. O califa lhe perguntou: ‘O que aconteceu contigo? Talvez tenhas vergonha por causa da mão?’ Amr respondeu: ‘Sim, é isso.’ O califa disse: ‘Juro por Allah que não levarei esta comida à boca enquanto não a misturar com essa tua mão decepada. Juro por Allah que, em toda a comunidade muçulmana, ninguém além de ti possui uma parte no Paraíso — isto é, tua mão.’ Depois da morte do pai, ele sonhava constantemente com o martírio. Finalmente, no ano 15 da Hégira, seu sonho se realizou no terrível combate travado entre os muçulmanos e o exército romano no campo de Yarmuk. Desse modo, pai e filho alcançaram ambos a honra do martírio.

Quando a intensidade da opressão e da perseguição contra o Mensageiro de Allah e os muçulmanos em Meca atingiu o seu auge, certa vez Tufail propôs que o Mensageiro de Allah emigrasse para a sua tribo e se refugiasse na sua fortaleza inexpugnável. Ele também lhe assegurou que assumiria plena responsabilidade pela sua proteção. Contudo, Allah, o Altíssimo, havia reservado essa honra aos Ansar de Medina. Por isso, ele não aceitou o convite de Tufail.

Depois de aceitar o Islã, por estar ocupado convocando e propagando o Islã entre o seu próprio povo, ele não teve a oportunidade de passar muito tempo na companhia do Mensageiro de Allah. Entretanto, graças aos seus esforços, toda a tribo de Daws aceitou o Islã.

Said ibn ’Amir Al–Jumahi ((que Allah esteja satisfeito com ele))

Os historiadores disseram: Said ibn Amir era alguém que comprou a Vida Futura em troca deste mundo e deu preferência a Allah e ao Seu Mensageiro sobre todas as demais coisas.

Seu pai chamava-se Amir, e sua mãe, Arwa bint Abi Muait. Ele aceitou o Islã antes da conquista de Khaibar.

Os coraixitas de Meca capturaram, por meio de um ardil, o Companheiro do Mensageiro de Allah, Khubaib ibn Adi, levaram-no para Meca e, diante de uma multidão reunida, cortaram-lhe brutalmente os membros enquanto ainda estava vivo e crucificaram-no. Para que o público pudesse assistir a essa cena dolorosa, anunciaram-na por toda Meca, tocando tambores. Entre as pessoas que vieram da região de Tan’im, em Meca, para assistir à cena estava também Said ibn Amir al-Jumahi.

Em suas veias corria então o sangue fervilhante da juventude. Abrindo caminho por entre a multidão, ele também avançava. Por fim, chegou e ficou ao lado dos líderes coraixitas da primeira fila — Abu Sufyan ibn Harb, Safwan ibn Umayya e outros. Ele viu o prisioneiro dos coraixitas acorrentado. Homens e mulheres, crianças, idosos e jovens empurravam-no em direção ao pátio da morte. O objetivo deles era vingar, por meio da sua execução, os coraixitas mortos na batalha de Badr. Por isso, estavam tomados por uma alegria demoníaca.

Inúmeras pessoas chegaram ao local da execução acompanhando o prisioneiro. O jovem e alto Said ibn Amir ficou de pé, observando. Em meio aos gritos e ao tumulto das mulheres e crianças, chegou aos seus ouvidos a voz firme e serena de Khubaib. Ele dizia: “Se me permitirem, antes de me crucificarem, posso realizar duas rak’ahs de oração?” Eles lhe deram permissão.

Saíde ibn Amir viu-o voltar-se para a Caaba e realizar duas rak‘at de oração. Quão bela e magnífica era aquela oração! Então, voltando-se para os líderes coraixitas, disse-lhes: “Juro por Allah! Se vocês não pensassem que estou prolongando a oração por medo da morte, eu a prolongaria ainda mais.”

Depois, Saíde ibn Amir viu com os próprios olhos os homens de sua tribo cortarem, um após outro, os membros do corpo de Khubaib enquanto ele ainda estava vivo. E perguntavam-lhe: “Você gostaria que Muhammad (s.a.) fosse colocado em seu lugar e que você fosse libertado?”

O sangue escorria de seu corpo, e ele dizia:

“Juro por Allah, mesmo que eu estivesse em segurança entre minha família e meus filhos, não desejaria que sequer um espinho ferisse o corpo de Muhammad (s.a.) em troca disso.” Ao ouvirem essas palavras, as pessoas ao redor ergueram as mãos e começaram a gritar: “Matem-no! Matem-no!”

Depois, Saíde ibn Amir viu-o olhar para o céu por cima do madeiro da crucificação e dizer:

“Allahumma ahsihim ‘adadan wa-qtulhum badadan wa-la tugadir minhum ahadan — Ó Allah, conta-os um por um, mata-os um por um e não deixes nenhum deles escapar.” Essa foi sua súplica final. Depois, seu corpo foi dilacerado por incontáveis golpes de espadas e lanças.

Poucos dias depois, os coraixitas envolveram-se em grandes acontecimentos e esqueceram-se de Khubaib e de seu madeiro. Mas a lembrança de Khubaib nunca se afastou, nem por um instante, do coração do jovem Saíde ibn Amir al-Jumahi. Quando dormia, via Khubaib em seus sonhos; quando estava acordado, via-o em sua imaginação. Era como se pudesse vê-lo realizando duas rak‘at de oração diante do madeiro, com extrema serenidade, firmeza e tranquilidade. Parecia também ouvir com os próprios ouvidos o tom humilde da súplica final de Khubaib contra os coraixitas. Temia que, a qualquer momento, um raio caísse sobre ele ou que pedras fossem lançadas do céu.

Além disso, aprendeu com Khubaib coisas que antes não conhecia. Por exemplo: a verdadeira vida consiste na fé e no jihad até a morte pelo caminho da fé. Uma fé firme pode produzir muitos acontecimentos extraordinários e milagrosos. Além disso, um homem cujos companheiros são capazes de amá-lo tão profundamente não pode ser senão um profeta enviado por Allah.

A partir daquele momento, Allah abriu o coração de Saíde ibn Amir para o Islã. Certo dia, ele se levantou diante do povo, rompeu publicamente seus vínculos com os deuses e ídolos dos coraixitas e declarou que havia abraçado o Islã. Ele abraçou o Islã antes da batalha de Khaybar.

Saíde ibn Amir fez a Hégira para Medina e permaneceu constantemente na companhia do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele participou de todas as batalhas subsequentes, incluindo Khaybar.

Após o falecimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, durante o califado de seus sucessores, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, e Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, Saíde ibn Amir cumpriu rigorosamente suas ordens, empunhando a espada desembainhada. Durante o califado de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, o comandante Abu Ubaida, que Allah esteja satisfeito com ele, solicitou reforços para a batalha de Yarmuk. O califa enviou de Medina um exército sob o comando de Saíde. Saíde, que Allah esteja satisfeito com ele, desempenhou um papel significativo em Yarmuk. Ao escolher a Outra Vida em troca deste mundo e ao dar preferência à satisfação de Allah sobre todos os desejos do coração e do corpo, ele estabeleceu para os muçulmanos um exemplo incomparável. Os dois primeiros califas depois do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conheciam a honestidade e o temor de Allah de Saíde ibn Amir. Por isso, sempre aceitavam seus conselhos.

Estava transcorrendo então o primeiro período do califado do califa Umar, que Allah esteja satisfeito com ele. Certo dia, Saíde ibn Amir disse ao califa:

“Ó Umar, recomendo que tema a Allah no que diz respeito às pessoas, mas não tema as pessoas no que diz respeito a Allah. Que suas palavras não sejam contrárias às suas ações, pois as melhores palavras são aquelas confirmadas pelas ações.

Ó Umar, esteja sempre atento àqueles que Allah fez de você governante: a comunidade muçulmana, tanto os que estão longe quanto os que estão perto. Deseje para eles aquilo que deseja para si mesmo e para sua família. Deteste para eles aquilo que detesta para si mesmo e para sua família. Supere todos os obstáculos e dificuldades para alcançar a verdade. E, no cumprimento das ordens de Allah, não tema a censura de nenhum censurador.”

Umar perguntou:

“Saíde, quem é capaz de fazer isso?”

Ele disse: «Uma pessoa como o senhor, a quem Allah confiou a autoridade sobre a Ummah de Muhammad e entre quem e Allah não há qualquer intermediário.»

Então ele disse a Sa’id: «Pelo amor de Allah, não imponha esta calamidade sobre mim; não me arraste para este mundo.»

Umar, irritado, disse:

«Que vocês sejam destruídos! Depois de colocar sobre meus ombros esta responsabilidade do califado, agora quer se manter afastado de mim? Juro por Allah! Não o deixarei.» Dizendo isso, nomeou Sa’id governador de Hims. Depois perguntou: «Devo fixar seu estipêndio?» Sa’id respondeu: «Ó Amir al-Mu’minin, o que farei com ele? O estipêndio que recebo do Bayt al-Mal já é mais do que suficiente para minhas necessidades.» Sa’id partiu para Hims.

Depois de algum tempo, alguns homens de confiança do Amir al-Mu’minin Umar vieram de Hims para Medina. Umar lhes disse:

«Entreguem-me uma lista dos pobres e necessitados entre vocês. Eu lhes darei alguma ajuda.» Eles prepararam uma lista e a entregaram a Umar. Entre outros nomes, também constava o de Sa’id ibn Amir. O califa perguntou: «Quem é este Sa’id ibn Amir?» Eles responderam: «É o nosso governador.» Ele perguntou: «O seu governador também é tão pobre assim?»

Eles responderam: «Sim. Juro por Allah, durante vários dias seguidos não se põe uma panela no fogo em sua casa.»

Ao ouvir isso, o califa Umar chorou tanto que sua barba ficou molhada com as lágrimas. Depois colocou mil dinares numa bolsa e disse: «Transmitam-lhe minhas saudações e digam-lhe que o Amir al-Mu’minin enviou este dinheiro para atender às suas necessidades pessoais.»

Eles foram até Saíde levando uma bolsa cheia de dinares. Assim que abriu a bolsa, ele viu que havia dinares dentro. Imediatamente, dizendo “Inna lillahi wa inna ilayhi raji’un”, afastou a bolsa como se uma grande calamidade tivesse se abatido sobre ele. Sua esposa, assustada, correu até ele e perguntou:

“Saíde, o que aconteceu com o senhor? O Amir al-Mu’minin faleceu?”

Ele respondeu: “Não. Pelo contrário, algo ainda pior.”

“Alguma calamidade se abateu sobre os muçulmanos?”

Ele respondeu: “Não. Algo ainda pior que isso.”

Sua esposa perguntou: “O que é essa coisa ainda pior?”

Ele respondeu: “O mundo entrou em minha casa para arruinar minha vida futura. Uma calamidade se abateu sobre minha casa.”

Sua esposa disse: “Afaste essa calamidade.” Naquele momento, ela ainda não sabia da questão dos dinares.

Said disse: “Você me ajudará neste assunto?”

A esposa respondeu: “Certamente.”

Então, ele colocou os dinares em várias bolsas e os distribuiu entre os muçulmanos pobres.

Alguns dias depois, o honorável Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, foi a Hims para ver pessoalmente a situação da Síria. Naquela época, Hims era chamada de “Kuwaifa”, pois, assim como os habitantes de Kufa, os habitantes de Hims também apresentavam constantemente queixas excessivas contra seus governantes. Por isso, dizia-se que Hims era como uma pequena Kufa. Enfim, depois da chegada do califa, quando os habitantes de Hims vieram saudá-lo, ele perguntou: “O que acharam de seu governador?”

Eles mencionaram quatro atitudes do governador (Said) e apresentaram graves queixas contra ele. Em termos de importância, cada uma das quatro atitudes era igualmente grave.

Umar disse: “Pedi que os habitantes de Hims e seu governador comparecessem juntos. Supliquei a Allah para que minha opinião a respeito dele não se revelasse decepcionante, pois eu tinha grande confiança nele.”

Quando os habitantes de Hims e seu governador chegaram diante de mim, perguntei:

“Qual é a queixa de vocês contra o seu governador?”

Eles disseram: “Ele não nos recebe até que já tenha passado boa parte do dia.”

‘Umar perguntou: “Sa‘id, qual é sua resposta a esta queixa?”

Ele ficou em silêncio por algum tempo e disse:

“Por Deus! Não gosto que o assunto seja revelado a ninguém. Mas, já que é preciso falar, vou dizê-lo. Não tenho nenhum criado ou serva para minha família. Pela manhã, tenho de fazer todo o trabalho da casa com minhas próprias mãos. Também sou eu quem amassa a farinha e faz o pão. Depois lavo as mãos e o rosto e recebo as pessoas. Nessa altura, já é um pouco tarde.”

‘Umar perguntou:

“Vocês têm mais alguma queixa?”

Eles disseram:

“Ele não recebe ninguém à noite.

Umar perguntou:

«Said, qual é a sua resposta sobre este assunto?»

Ele disse:

«Juro por Allah! Também não me agrada revelar este assunto. Ainda assim, digo que reservei o dia para as pessoas e a noite para Allah.»

Umar perguntou:

«Que outra queixa vocês têm?»

Eles disseram:

«Em um dia do mês, ele não concede audiência a ninguém.»

‘Umar perguntou: “Sa‘id, qual é o problema?”

Ele respondeu: “Ó Comandante dos Crentes, não tenho nenhum criado. Além desta roupa que visto, não possuo outra. Uma vez por mês, lavo-a pessoalmente e espero até que seque. Por isso, não posso receber as pessoas na primeira parte do dia. Contudo, recebo-as na parte final.”

‘Umar voltou a perguntar: “Há alguma outra queixa contra ele?”

Eles responderam:

“Enquanto conversa com as pessoas na assembleia, às vezes perde subitamente a consciência.”

‘Umar perguntou: “Qual é o problema, Sa‘id?”

Ele respondeu:

“Quando ainda era idólatra, presenciei a cena de Khubayb ibn ‘Adi sendo colocado numa estaca. Também vi os coraixitas cortarem seus membros, um a um. Naquela ocasião, os coraixitas lhe perguntaram:

Você gostaria que Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fosse colocado em seu lugar?

Ele respondeu: “Por Allah, não me agradaria estar a salvo entre minha família e meus filhos enquanto, em troca disso, um simples espinho sequer ferisse o corpo de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Por Allah! Sempre que me lembro daquele dia e desperta em mim o sentimento de que não o ajudei naquele dia, perco a consciência. Penso que Allah não perdoará esse meu pecado.”

Então Umar disse: “Todos os louvores pertencem a Allah, que não desmentiu minha opinião.” Em seguida, enviou cem mil dinares para atender às necessidades de Said. Ao ver os dinares, sua esposa exclamou:

“Todos os louvores pertencem a Allah, que nos livrou de aceitar seus serviços. Vá, compre alimentos para nós e contrate um servo.”

Ao ouvir isso, ele disse à esposa:

“Você não deseja obter algo melhor do que isso?” A esposa perguntou: “E o que é esse bem melhor?”

Ele respondeu: “Entreguemos estes dinares a Allah como um empréstimo benevolente. Ele nos concederá uma recompensa melhor, e nós somos os que mais necessitam dessa recompensa.”

A esposa disse: “Sim, faça isso. Que Allah lhe conceda a melhor recompensa.”

Sentado naquela assembleia, ele colocou os dinares em vários sacos. Depois, entregando um saco a cada membro da família, disse: “Distribuam-nos entre esta viúva, este órfão, os necessitados de tal tribo e os pobres de tal tribo.”

Saíde era um daqueles grandes homens que davam preferência aos outros, mesmo quando tinham necessidades próprias.

Certa vez, quando ele era governador de Hims, o califa Hazrat Umar (r.a.) convocou-o a Medina. Ele foi a Medina levando apenas um bastão na mão e uma tigela para comer. O califa perguntou: “Isso é tudo o que você possui?” Ele respondeu: “Para que preciso de mais coisas do que isso? Como na tigela e penduro meus pertences no bastão.”

Segundo Ibn Sa‘d, ele faleceu no ano 20 da Hégira, enquanto era governador de Hims. Segundo Abu Ubaida, sua morte ocorreu no ano 21 da Hégira.

Suraqa ibne Maleque ((r.a.))

Quando se espalhou entre os coraixitas a notícia de que Muhammad (s.a.w.) não estava em Meca, por um lado os líderes coraixitas não conseguiam acreditar na informação e, por outro, um clima de medo se espalhou por Meca. Imediatamente, começaram a revistar todas as casas de Banu Hashim. Depois de revistarem as casas dos mais próximos de Muhammad (s.a.w.), chegaram à casa de Abu Bakr. Ao ouvir o alvoroço, Asma, filha de Abu Bakr, saiu. O líder coraixita Abu Jahl perguntou-lhe: “Onde está seu pai?” Ela respondeu: “Eu não sei onde ele está agora.”

O vil Abu Jahl deu um violento tapa no rosto de Asma; seu brinco voou, e ela também caiu no chão.

Quando os coraixitas tiveram a certeza absoluta de que Muhammad (s.a.w.) realmente havia deixado Meca, sua agitação aumentou ainda mais. Enviaram um grupo de especialistas em rastreamento para seguir as pegadas e encontrá-los. Ao chegarem perto da caverna do monte Saur, os rastreadores disseram aos coraixitas: “Juro por Allah, o companheiro de vocês, Muhammad (s.a.w.), ainda não deixou esta caverna.” Na verdade, essa suposição estava correta. Muhammad (s.a.w.) e seu companheiro Abu Bakr ainda estavam dentro daquela caverna, enquanto os coraixitas estavam acima deles. Hazrat Abu Bakr Siddiq (r.a.) conseguia até ver os pés dos coraixitas que caminhavam sobre a caverna, acima de suas cabeças. Seus olhos ficaram turvos de lágrimas. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) olhou para ele com um olhar que mesclava amor, compaixão e censura. Abu Bakr sussurrou: “Ó Mensageiro de Allah, juro por Allah que não estou chorando por medo pela minha própria vida, mas com medo de ter de presenciar algum maltrato deles contra você.” Para tranquilizá-lo, o Mensageiro (s.a.w.) disse: “Abu Bakr, não se preocupe; Allah está conosco.”

Allah concedeu tranquilidade ao coração de Abu Bakr. Contudo, ele continuava olhando repetidamente para os pés dos coraixitas que se movimentavam acima deles. Em certo momento, disse ao Mensageiro (que a paz esteja sobre ele): “Ó Mensageiro de Allah, se algum deles olhar para a sola dos próprios pés, verá-nos.” O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) respondeu: “Pensas que somos apenas dois? Há um terceiro: Allah também está conosco.”

Naquele momento, os dois ouviram um jovem dos coraixitas dizer: “Todos vocês, venham até a caverna; vamos olhar um pouco lá dentro.” Umayyah ibn Khalaf disse-lhe, em tom de escárnio: “Não vês esta aranha e a sua teia na entrada da caverna? Elas estão aqui desde antes do nascimento de Muhammad.” Abu Jahl, porém, disse: “Juro por al-Lat e al-Uzza que tenho a impressão de que eles estão em algum lugar bem perto de nós. Estão ouvindo o que dizemos e também vendo o que fazemos. Mas a magia dele encobriu a nossa visão. Por isso não conseguimos vê-los.”

De qualquer modo, os coraixitas não desistiram completamente de encontrar Muhammad (que a paz esteja sobre ele), e sua decisão de persegui-lo também não sofreu qualquer alteração. Eles anunciaram às tribos que viviam entre Meca e Medina que dariam cem camelos de raça superior a quem capturasse Muhammad, vivo ou morto.

Surāqah ibn Mālik al-Madlijī encontrava-se então num ponto de encontro de sua tribo, no lugar chamado Qudayd, não muito distante de Meca. Nesse momento, chegou ali um mensageiro dos coraixitas e divulgou a recompensa anunciada por eles pela captura de Muhammad (que a paz esteja sobre ele), vivo ou morto.

Ao ouvir falar dos cem camelos, o fogo da cobiça ardeu intensamente dentro de Surāqah. Porém, temendo despertar a mesma cobiça nos outros, ele se conteve sem dizer nada.

Antes que Surāqah se levantasse do ponto de encontro, outro homem de sua tribo chegou ali e disse: “Juro por Allah que três homens acabaram de passar ao meu lado. Imagino que sejam Muhammad, Abu Bakr e o seu guia.”

Surāqah disse: “Não, não são eles. São homens de determinada tribo. Seus camelos se perderam, e por isso estão procurando por eles.” “É possível”, disse o homem, e ficou em silêncio.

Como levantar-se imediatamente poderia despertar suspeitas nos outros, ele permaneceu sentado ali por mais algum tempo. Quando as pessoas presentes começaram a conversar sobre outro assunto, aproveitou a oportunidade e saiu furtivamente. Assim que deixou o ponto de encontro, dirigiu-se para casa. Ao chegar, disse à escrava: “Vai amarrar secretamente o meu cavalo em determinado vale, de modo que ninguém te veja.” E disse ao escravo: “Leva estas armas e sai pelos fundos da casa de maneira que ninguém te veja; depois deixa-as em algum lugar perto do cavalo.”

Suraca vestiu a armadura, armou-se e montou em seu cavalo, fazendo-o galopar rapidamente para capturar Maomé, a fim de que ninguém mais pudesse tomar a recompensa ao capturá-lo e entregá-lo. Ele era um dos cavaleiros mais habilidosos de sua tribo. Era alto, de corpo robusto, perito em seguir pegadas e extremamente paciente diante dos perigos. Acima de tudo, era um poeta inteligente. Seu cavalo era de uma raça nobre.

Suraca continuou avançando. Depois de percorrer certa distância, o cavalo tropeçou, e ele foi arremessado para longe de seu dorso. Considerando aquilo um mau presságio, exclamou: “O que é isso? Que você pereça, ó cavalo!” Dizendo isso, montou novamente. Mal havia percorrido alguma distância quando o cavalo tropeçou outra vez. Dessa vez, sua convicção de que aquilo era um mau presságio aumentou ainda mais. Ele pensou em voltar, mas a cobiça pelos cem camelos impediu-o de fazê-lo.

A pouca distância do lugar onde o cavalo havia tropeçado pela segunda vez, ele avistou Maomé, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, com seus dois companheiros. Imediatamente, estendeu a mão em direção ao arco, mas sua mão pareceu ficar completamente paralisada. Viu que as patas do cavalo pareciam afundar na terra seca, enquanto uma espessa fumaça se elevava à frente e envolvia o cavalo e seus olhos. Tentou rapidamente incitar o animal, mas ele ficou tão imóvel como se suas patas tivessem sido pregadas ao chão com pregos de ferro.

Então Suraca se voltou para o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e seus dois companheiros, e gritou com voz extremamente humilde: “Ó vocês! Supliquem ao seu Senhor para que liberte as patas do meu cavalo. Não lhes farei mal algum.” O Mensageiro de Allah suplicou, e seu cavalo foi libertado. Imediatamente, sua cobiça voltou a despertar. Ele incitou novamente o cavalo na direção do Mensageiro de Allah, mas dessa vez as patas do animal ficaram presas ao chão de modo ainda mais grave que antes. Mais uma vez, pediu a ajuda do Mensageiro de Allah, dizendo: “Levem estes meus alimentos, utensílios e armas. Prometo por Allah que, se eu for libertado, desviarei para outra direção as pessoas que vêm em minha perseguição, afastando-as de vocês.”

Eles disseram: “Não precisamos dos seus alimentos nem dos seus utensílios. Contudo, você deverá afastar as pessoas de nós.” Então o Mensageiro de Allah suplicou por ele, e seu cavalo foi libertado. Decidindo voltar, ele chamou o Mensageiro de Allah e seus dois companheiros e disse: “Esperem um pouco; quero conversar com vocês. Juro por Allah que não lhes farei mal algum.”

O Mensageiro de Allah e Abu Bakr exclamaram juntos: “O que você quer de nós?” Ele respondeu: “Juro por Allah, ó Maomé, que sei com certeza que sua religião triunfará em breve. Prometa-me que, quando eu for ao seu reino, você me honrará. E escreva isso para mim.”

O Mensageiro de Allah pediu a Abu Bakr que escrevesse. Ele escreveu aquelas palavras sobre um pedaço de osso e o entregou a Suraca. Quando Suraca se preparava para partir, o Mensageiro de Allah lhe disse: “Suraca, como será quando você vestir as vestes reais de Cosroes?”

Suraca perguntou, maravilhado: “Cosroes, filho de Hormuz?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Sim, Cosroes, filho de Hormuz.”

Suraqa voltou. No caminho de volta, viu que as pessoas ainda procuravam o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Disse-lhes: “Voltem. Eu o procurei por uma grande distância nesta região. E vocês sabem quão grande é minha habilidade em seguir rastros.” Por causa dessas palavras, eles voltaram.

Ele ocultou completamente a notícia sobre Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e seus dois companheiros. Quando ficou firmemente convencido de que, a essa altura, eles haviam chegado a Medina e estavam a salvo da hostilidade dos coraixitas, divulgou o que lhe acontecera. Quando Abu Jahl soube do papel e da atitude de Suraqa para com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, censurou-o severamente por sua covardia e por não ter aproveitado a oportunidade. Em resposta, Suraqa recitou dois versos de sua própria composição:

“Juro por Allah, se tivesses visto, Abu Hakam,

o que aconteceu com meu cavalo quando suas patas afundavam, saberias

e não terias qualquer dúvida de que Muhammad é o verdadeiro Mensageiro —

então, quem poderia detê-lo?”

Ibn Hajar ‘Al Isaba’ mencionou os dois versos em sua obra.

O tempo passou rapidamente. Aquele mesmo Muhammad, que um dia havia deixado Meca secretamente sob a escuridão da noite, entrou novamente naquela cidade de Meca como um conquistador, acompanhado por milhares de companheiros armados. Os líderes coraixitas, tirânicos e arrogantes, cujo domínio mantinha Meca sempre estremecida, apresentaram-se diante de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com o coração tomado de medo e perturbação, implorando por misericórdia.

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhes: “Ide, todos vós estais livres.”

Suraqa ibn Malik dirigiu-se ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para declarar sua aceitação do Islam. Levou consigo o documento de compromisso que lhe fora entregue pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dez anos antes. Mais tarde, Suraqa narrou:

“Vim de Ji‘rara (um lugar próximo de Meca) até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quando entrei no meio de um grupo de soldados dos Ansar, eles começaram a golpear-me com as hastes de suas flechas, dizendo: ‘Afasta-te, afasta-te! O que queres?’ Ainda assim, entrei no meio de suas fileiras e aproximei-me do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Naquele momento, ele estava montado em sua camela. Ergui a mão, juntamente com o documento de compromisso, e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, eu sou Suraqa ibn Malik. E este é o teu documento de compromisso.’”

O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Suraqa, vem até mim; hoje é o dia de cumprir promessas e demonstrar bondade.”

Aproximei-me do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e declarei o Islam diante dele. Assim, fui agraciado com sua benevolência e bênçãos.”

Com o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Suraqa ficou profundamente triste e enlutado. A lembrança do dia em que decidira matar o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), movido pela cobiça de cem camelos, voltava repetidamente à sua memória. Agora, todos os camelos do mundo não valiam sequer a ponta da unha do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele repetia muitas vezes a pergunta que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhe fizera: “Suraqa, como será no dia em que vestires as roupas de Kisra?” Não tinha a menor dúvida de que realmente vestiria as roupas de Kisra.

O tempo passou. A responsabilidade do Califado Islâmico foi confiada a Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele). Durante sua gloriosa era, os exércitos muçulmanos entraram no Império Persa à velocidade de uma tempestade. Destruíram suas fortalezas persas, derrotaram seus exércitos e tomaram o trono da Pérsia.

Perto do fim do período do Califado de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), chegaram a Medina os mensageiros do comandante Sa‘d ibn Abi Waqqas, trazendo a boa notícia da conquista da Pérsia. Trouxeram consigo um quinto dos espólios da Pérsia. Quando as riquezas dos espólios foram empilhadas diante de Umar, ele ficou olhando para elas, maravilhado. Entre elas estavam a coroa de Kisra, adornada com joias e pérolas, tecidos bordados com fios de ouro, colares de pérolas e duas vestes magníficas como Umar jamais havia visto antes. Além disso, havia muitos outros objetos inestimáveis. Umar começou a remexer aqueles tesouros preciosos com seu bastão. Depois, olhou para as pessoas presentes ao redor e disse: “Certamente, aqueles que se abstiveram de tomar essas coisas e as entregaram são extremamente dignos de confiança.

Hazrat Ali, que estava presente ali naquele momento, disse: “Ó Amir al-Mu’minin, você não traiu a confiança, nem o seu povo a traiu. Se você tivesse se apropriado injustamente, eles também o teriam feito.”

Então Hazrat Umar chamou Suraqa ibn Malik e, com as próprias mãos, vestiu-o com a túnica, as calças, os sapatos e as demais vestes de Kisra. Penduro-lhe ao ombro a espada de Kisra, amarrou-lhe um cinto à cintura, colocou-lhe uma coroa na cabeça e pôs braceletes em suas mãos. Que cena maravilhosa!

Enquanto Hazrat Umar vestia Suraqa com as roupas de Kisra, o céu e o ar de Medina ressoavam com os repetidos gritos de takbir dos muçulmanos.

Quando terminou de vestir as roupas de Kisra, Hazrat Umar voltou-se para Suraqa e disse: “Muito bem, muito bem! Na cabeça de um pequeno beduíno da tribo de Mudlij está brilhando a coroa do imperador Kisra, e em suas mãos estão os braceletes.” Em seguida, olhou para o céu e disse: “Ó Allah, não deste esta riqueza ao Mensageiro de Allah, embora ele fosse mais amado e honrado por Ti do que eu. Também não deste esta riqueza a Abu Bakr; ele também era mais amado e mais honrado por Ti do que eu. Tu a concedeste a mim para me testar. Busco refúgio em Ti.” Depois, recitou os dois versículos seguintes da Surata Al-Mu’minun: “Pensam eles que, ao lhes concedermos riqueza e filhos, com os quais os auxiliamos, estamos apressando para eles todo tipo de bem? Não, eles não compreendem.”(Surata Al-Mu’’minun: 55–56)

Ele não deixou aquela reunião até que toda a riqueza fosse distribuída entre os muçulmanos.

O Imam Bukhari narrou esta história de Hazrat Suraqa ibn Malik. O Imam Ahmad também a narrou através de Al-Bara ibn Azib e Abu Bakr as-Siddiq.

Abu Amr disse que Suraqa ibn Malik faleceu no ano 24 da Hégira, durante o califado do califa Uthman. Alguns disseram que ele faleceu depois de Hazrat Uthman.

Ikrima ibn Abi Jahl ((que Allah esteja satisfeito com ele))

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse a respeito dele: “Em breve, Ikrima abandonará a descrença e virá até vós como crente. Não insulteis o pai dele (Abu Jahl), pois insultar os mortos causa sofrimento aos vivos, mas não lhes chega.”

Quando o Profeta Muhammad, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, começou a convocar as pessoas para a religião em Meca, Ikrima estava prestes a concluir a terceira década de sua vida. Entre os coraixitas, ele era o mais honrado e rico em termos de linhagem. Como Sa‘d ibn Abi Waqqas, Mus‘ab ibn Umair e outros filhos de famílias nobres de Meca, também lhe cabia aceitar o Islã desde o primeiro momento. Porém, isso não lhe foi possível por causa de seu pai.

Seu pai, Abu Jahl, era o maior déspota de Meca, o líder dos primeiros politeístas e um opressor cruel. Allah, o Altíssimo, testou a fé dos crentes por meio de sua opressão e perseguição, e eles foram bem-sucedidos nesse teste. Por meio de seus enganos, testou a veracidade dos fiéis, e eles foram bem-sucedidos nisso. Por meio de seus enganos, testou a veracidade dos fiéis, e eles foram aprovados nesse teste.

Sob a liderança de seu pai, Ikrima dedicou-se à hostilidade contra Muhammad, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Nesse aspecto, seu papel foi extremamente severo. Devido à sua perseguição, a vida dos companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tornou-se insuportável. Ao ver sua crueldade para com o Islã e os muçulmanos, seu pai, Abu Jahl, sentia profunda satisfação.

Seu pai liderou os politeístas na Batalha de Badr. Jurou por Al-Lat e Al-Uzza que não voltaria a Meca sem humilhar Muhammad. Estabeleceu acampamento em Badr e permaneceu ali por três dias. Abateu camelos, embriagou-se bebendo vinho e entregou-se à dança e à música com cantores e cantoras. Enquanto Abu Jahl dirigia a batalha, Ikrima era seu braço direito e principal auxiliar. Porém, Al-Lat e Al-Uzza não atenderam ao chamado de Abu Jahl nessa batalha; esses dois ídolos adorados não puderam ajudá-lo. Nem poderiam.

No campo de Badr, Abu Jahl ficou caído de bruços. Ikrima viu com os próprios olhos como as pontas das flechas dos muçulmanos bebiam o sangue de seu pai e ouviu com os próprios ouvidos o grito final que saiu da boca dele.

Deixando em Badr o cadáver do líder coraixita Abu Jahl, Ikrima voltou para Meca. A derrota humilhante nem sequer lhe permitiu enterrar o corpo do pai. Junto com os corpos dos outros soldados politeístas mortos em Badr, os muçulmanos lançaram também o corpo dele no poço chamado Qalib e o cobriram de terra. Assim foi quebrado o orgulho desse arrogante e opressor líder coraixita.

A partir daquele dia, a atitude de Ikrima em relação ao Islã manifestou-se de uma nova forma. Até então, ele havia sido hostil ao Islã para preservar a honra e a dignidade de seu pai. Agora, porém, jurou vingar o sangue paterno. Junto com os outros que haviam perdido os pais em Badr, começou a acender no coração dos politeístas o fogo da inimizade contra Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e a incentivá-los a vingar o sangue dos mortos em Badr. Assim foi organizada a Batalha de Uhud.

Ikrimah ibn Abu Jahl partiu em direção a Uhud. Sua esposa, Ummu Hakim, também seguiu com as mulheres que haviam perdido maridos, irmãos e filhos em Badr. O objetivo era que elas se posicionassem atrás dos soldados em combate, tocassem instrumentos musicais, incentivassem os coraixitas a lutar e dessem coragem e força aos soldados que estivessem prestes a fugir.

Os coraixitas colocaram Khalid ibn al-Walid à direita de sua cavalaria e Ikrimah ibn Abi Jahl à esquerda. Naquele dia, os dois demonstraram o máximo de bravura e estratégia militar. Eles arrancaram das mãos de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e de seus companheiros a glória da vitória e a entregaram aos coraixitas. Por isso, Abu Sufyan, o líder dos coraixitas naquele dia, pôde dizer: “Esta é a vingança pelo dia de Badr.”

Depois veio a batalha da Trincheira. As tropas politeístas mantinham Medina sitiada havia vários dias. A paciência de Ikrimah estava se esgotando, e ele se tornava cada vez mais amargurado e irritado. Por fim, avistou uma passagem estreita em um ponto da trincheira. Com muita dificuldade, fez seu cavalo entrar por ela e atravessou a trincheira. Outros soldados politeístas atravessaram-na depois dele. Os soldados muçulmanos os perseguiram. Ikrimah escapou com alguns de seus companheiros e salvou a vida, mas um deles, Amr ibn Abd Wudd al-Amiri, morreu nas mãos dos soldados muçulmanos.

No dia da conquista de Meca, os coraixitas perceberam que de modo algum poderiam impedir Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e seus companheiros. Decidiram deixar livre o caminho para os muçulmanos. Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, anunciou: somente aqueles habitantes de Meca que se envolverem em combate com os soldados muçulmanos serão combatidos. Todos os demais serão perdoados.

Ikrimah ibn Abi Jahl e outro grupo de soldados desafiaram a decisão dos coraixitas e organizaram resistência contra os muçulmanos. Um pequeno grupo de soldados muçulmanos, sob a liderança de Khalid ibn al-Walid, desbaratou completamente essa formação de resistência. Eles mataram muitos deles, enquanto outros fugiram e salvaram a vida. Entre os fugitivos estava também Ikrimah ibn Abi Jahl.

Após a conquista muçulmana de Meca, Ikrimah ibn Abi Jahl ficou completamente desorientado. Pela primeira vez, recobrou a consciência da embriaguez causada por seu poder. Percebeu que Meca já não era segura para ele. Enquanto isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perdoou a conduta passada de todos os habitantes de Meca. Contudo, mencionou os nomes de algumas pessoas e declarou que elas estavam excluídas desse perdão. Ordenou que fossem mortas, mesmo que fossem encontradas sob a cobertura da Caaba. Ikrimah estava no topo da lista dos condenados à morte. Sem encontrar outra saída, deixou Meca secretamente e partiu em direção ao Iêmen.

Enquanto isso, a esposa de Ikrimah, Ummu Hakim, e Hind bint Utbah foram até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Muitas outras mulheres também as acompanharam. Seu objetivo era prestar o juramento de fidelidade nas mãos do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando chegaram até ele, estavam sentadas junto dele suas duas esposas, sua filha Fátima e muitas outras mulheres dos Banu Abd al-Muttalib. Com a cabeça e o rosto cobertos, Hind falou com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Hind era esposa de Abu Sufyan e mãe do comandante Muawiya. Foi ela quem mastigou o fígado de Hamza, que Allah esteja satisfeito com ele, na batalha de Uhud. Por isso, no dia da conquista de Meca, compareceu à presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com a cabeça e o rosto cobertos, envergonhada e arrependida.

“Ó Mensageiro de Allah, louvor a Allah, que concedeu a vitória à religião que escolheu. Em razão do laço de parentesco que existe entre você e eu, espero que me trate bem. Agora sou uma mulher de fé e crente.” Depois de dizer isso, ela abriu o véu e revelou sua identidade: “Ó Mensageiro de Allah, eu sou Hind bint Utbah.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Bem-vinda.” Hind disse: “Ó Mensageiro de Allah, juro por Allah que, para humilhá-lo e insultá-lo, não havia na terra antes uma casa que me fosse mais querida do que a sua. Agora, para mim, não há segunda casa mais honrada do que a sua.”

O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Muito mais.

Então, a esposa de Ikrima, Ummu Hakim, levantou-se e professou sua aceitação do Islam. Depois disse: “Ó Mensageiro de Allah, Ikrima fugiu para o Iêmen temendo que você pudesse matá-lo. Conceda-lhe segurança, e Allah lhe concederá segurança.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ele está seguro”.

Naquele momento, Ummu Hakim saiu em busca de seu marido, Ikrima. Levou consigo um de seus escravos romanos. Os dois seguiam pela estrada. No caminho, surgiu no escravo um desejo imoral por sua senhora. Ele queria possuí-la, mas ela começou a ganhar tempo com vários pretextos. Assim, chegaram a uma tribo árabe. Ali, Ummu Hakim pediu a ajuda deles. Eles prometeram ajudá-la. Ela deixou seu escravo sob a custódia deles e prosseguiu sozinha. Finalmente, encontrou Ikrima na costa marítima da região de Tihama. Ele estava conversando com um barqueiro para que este o transportasse, e o barqueiro lhe dizia:

— “Seja sincero.”

Ikrima disse-lhe:

— “Como posso ser sincero?”

O barqueiro disse:

— “Diga: Ashhadu an la ilaha illallah wa anna Muhammadan Rasulullah.”

— Foi somente por essa razão que fugi.’ No meio dessa conversa entre os dois, Ummu Hakim chegou. Dirigindo-se ao marido, disse:

‘Ó meu primo, venho da presença da melhor, mais nobre e mais pura das pessoas. Pedi-lhe por você, e ele concedeu o meu pedido em seu favor. Portanto, não se destrua mesmo depois disso.’

Ao ouvir isso, Ikrima perguntou:

— Você mesma falou com ele?

Ela respondeu:

— Sim, fui eu mesma que falei com ele, e ele lhe concedeu segurança.’ Repetidamente, ela continuou falando-lhe da garantia de segurança e tranquilizando-o. Por fim, sentindo-se seguro, ele voltou com sua esposa.

Enquanto caminhavam, Ummu Hakim contou ao marido tudo o que seu escravo havia feito. No caminho de volta, antes de aceitar o Islã, Ikrima matou o escravo.

No caminho, passaram a noite em uma casa. Ikrima quis ficar a sós com sua esposa e ter relações com ela. Mas ela recusou firmemente e disse:

— Eu sou uma mulher muçulmana, enquanto você ainda é um idólatra. Ao ouvir as palavras de sua esposa, Ikrima ficou surpreso.

Ele disse:

— O que está impedindo a nossa união é algo realmente grandioso!

Quando Ikrima se aproximou de Meca, o Mensageiro de Allah disse aos seus companheiros: “Em breve, Ikrima abandonará a descrença e virá até vós como crente. Não insulteis o pai dele, pois insultar os mortos causa sofrimento aos vivos, e isso não chega aos mortos.”

Pouco depois, Ikrima chegou à presença do Mensageiro de Allah acompanhado de sua esposa. Ao vê-lo, o Mensageiro de Allah levantou-se alegremente e foi ao seu encontro sem sequer envolver-se com o manto. Depois, o Mensageiro de Allah sentou-se. Ikrima ficou de pé diante dele e disse:

— Ó Maomé, Umm Hakim disse-me que me concedeste proteção.

O Profeta disse: “Ela disse a verdade. Estás seguro.”

Ikrima disse: “Maomé, para que convocas as pessoas?”

O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Convido-te a testemunhar que não há outra divindade além de Allah e que eu sou servo de Allah e Seu Mensageiro. Depois, estabelece a oração e dá o zakat.” Assim, ele descreveu todos os pilares do Islam.

Ikrimah disse: “Por Allah, você está convidando somente para a verdade e ordenando o bem.” Então, começou a dizer:

— “Mesmo antes deste convite, você já era o mais veraz e o mais virtuoso entre nós.” Enquanto dizia isso, estendeu a mão e falou: “Ashhadu an la ilaha illallah wa ashhadu annaka ‘abduhu wa rasuluhu.” Depois, disse: “Ó Mensageiro de Allah, ensina-me algumas boas palavras que eu possa dizer.”

O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Dize: Ashhadu an la ilaha illallah wa anna Muhammadan ‘abduhu wa rasuluhu.”

O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Dize: ‘Ushhidullaha wa ush-hidu man hadara annī muslimun mujāhidun muhājirun’ — tomando Allah e todos os presentes como testemunhas, declaro que sou muçulmano, mujāhid e muhājir.”

Ikrimah disse exatamente isso. Então, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) lhe disse: “Se hoje me pedires algo que eu esteja dando a outra pessoa, eu te darei.”

Ikrimah disse: “Peço-te que supliques a Allah pelo meu perdão por toda a hostilidade que tive contra ti, por todas as batalhas em que te enfrentei e por tudo o que disse contra ti, na tua presença ou pelas costas.” Imediatamente, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) suplicou por ele: “Ó Allah, perdoa toda a hostilidade que ele teve contra mim, todos os caminhos que percorreu para comparecer ao campo de batalha com o propósito de apagar a Tua luz e também todas as palavras difamatórias que disse contra mim, na minha presença ou na minha ausência.”

O rosto de Ikrimah iluminou-se de alegria. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, por Allah! Tudo o que gastei para criar obstáculos no caminho de Allah, gastarei o dobro no caminho de Allah; e todas as batalhas que travei com o objetivo de criar obstáculos no caminho de Allah, travarei o dobro delas no caminho de Allah.”

A partir desse dia, ele ingressou na fileira dos que convidavam ao Islam. Era um cavaleiro destemido no campo de batalha, o mais dedicado adorador na mesquita, aquele que passava as noites em vigília e recitava o Livro de Allah. Segurando o Sagrado Alcorão diante do rosto, dizia: «Kitabu Rabbi, Kalamu Rabbi — o Livro do meu Senhor, a Palavra do meu Senhor.» Dizia isso e chorava copiosamente.

Ikrimah cumpriu à risca o compromisso que havia assumido diante do Mensageiro de Allah. Depois de aceitar o Islam, participou de todas as batalhas travadas pelos muçulmanos e esteve à frente de todas as expedições das quais eles partiram.

Na batalha de Yarmuk, lançou-se contra o inimigo como uma pessoa sedenta se atira sobre a água fria ao meio-dia de um verão. Em certo momento da batalha, os muçulmanos sofreram uma pressão intensa; então ele desceu do cavalo, desembainhou a espada e penetrou no interior do exército romano. Vendo que a situação era perigosa, Khalid ibn al-Walid correu até ele e disse: «Ikrimah, não faça isso. A sua morte será perigosa para os muçulmanos.»

Em resposta, ele disse:

«Khalid, deixe-me. Você foi anterior a mim em crer no Mensageiro de Allah. Meu pai e eu fomos os maiores inimigos do Mensageiro de Allah; permita-me expiar o meu passado. Lutei contra o Mensageiro de Allah em muitas batalhas. E hoje eu fugiria por medo do exército romano? Isso não é possível para mim.» Depois de dizer isso, apelou aos muçulmanos: «Quem deseja prestar o juramento de lealdade até a morte?» Atenderam ao seu chamado seu tio, Harith ibn Hisham, Dirar ibn al-Azwar e outros quatrocentos soldados muçulmanos. Lutando ferozmente desde a frente da tenda de Khalid ibn al-Walid, eles alcançaram uma grande vitória e honra no campo de Yarmuk. Foi precisamente nesse campo de Yarmuk que Harith ibn Hisham, Ayyash ibn Abi Rabi’a e Ikrimah ibn Abi Jahl foram encontrados caídos, cobertos de ferimentos. Dominado pela sede, Harith ibn Hisham pediu água. Quando lhe deram água, Ikrimah olhou para ele. Ao perceber isso, ele disse: «Dêem-na a Ikrimah.» Quando o copo de água foi levado até Ikrimah, Ayyash olhou para ele. Então Ikrimah disse: «Dêem-na a Ayyash.» Quando levaram o copo de água até Ayyash, descobriram que ele havia dado o último suspiro. Depois, levando o copo na mão, foram um após o outro até seus dois companheiros restantes e descobriram que eles também haviam seguido o mesmo caminho. Que Allah esteja satisfeito e contente com todos eles. Amém!

Asma bint Abi Bakr ((r.a.))

Os historiadores dizem: «A venerável Asma (r.a.) viveu cem anos. No entanto, durante essa longa vida, nenhum de seus dentes caiu, nem se manifestou nela o menor sinal de perturbação mental.»

Esta mulher companheira do Profeta possuía excelência e dignidade em todos os aspectos. Seu pai, avô, irmã, marido e filho eram todos companheiros ilustres. Que maior honra, dignidade e glória poderia haver para um muçulmano do que essa?

Seu pai era o honorável Abu Bakr as-Siddiq, companheiro do Mensageiro de Allah durante sua vida e seu primeiro califa após sua morte. Sua mãe era Qutayla bint Abd al-Uzza. Seu avô paterno, pai do honorável Abu Bakr, era Abu Quhafa, também conhecido como Abu Atiq. A honorável Mãe dos Crentes, Aisha, era sua irmã. Zubair ibn al-Awwam, o honorável Hawari — o mais especial apoiador do Mensageiro de Allah — era seu marido, e o honorável Abdullah ibn Zubair, mártir no caminho da verdade e da justiça, era seu filho. Esta é uma breve apresentação da honorável Asma bint Abu Bakr. Ela nasceu vinte e sete anos antes da Hégira.

Asma foi uma das pessoas que aceitaram o Islã ainda nos primeiros tempos. Antes dela, ninguém havia alcançado essa bênção, exceto dezessete homens e mulheres. Ela era chamada de «Zat an-Nitaqayn», a possuidora de dois cintos. Isso porque, durante a Hégira de Meca para Medina, ela preparava provisões em uma bolsa e água em um odre para o Mensageiro de Allah e seu pai. Contudo, não encontrou nenhuma corda por perto para amarrar a abertura. Por fim, retirou o próprio cinto, ou nitaq, da cintura e dividiu-o em duas partes: com uma amarrou a bolsa e, com a outra, a abertura do odre. Ao ver isso, o Mensageiro de Allah fez uma súplica por ela: que Allah lhe concedesse, em troca disso, dois «nitaq» no Paraíso. Assim, ela recebeu o título de «Zat an-Nitaqayn».

Quando ela se casou com Zubair ibn al-Awwam, Zubair era extremamente pobre e não possuía nada. Não tinha criados nem servos, e, além de um único cavalo, não possuía nenhum bem para atender às necessidades da família. Contudo, Zubair havia obtido uma esposa virtuosa e dedicada às boas ações. Ela servia ao marido, moía com as próprias mãos a forragem para o cavalo dele e cuidava do animal. Por fim, Allah, o Altíssimo, concedeu-lhes abundância, e eles passaram a ser considerados uma das famílias mais ricas entre os Companheiros.

Hazrat Asma (r.a.) narrou: Quando Az-Zubair (r.a.) se casou comigo, não possuía nada além de um cavalo. Eu mesma cuidava dele e lhe dava farelo. Eu moía caroços de tâmaras para fazer farelo. Eu trazia na cabeça os caroços de tâmaras do campo de Az-Zubair — o campo que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) lhe havia dado. O campo ficava a três quartos de um farsakh de distância. Certo dia, eu voltava para casa carregando os caroços de tâmaras na cabeça quando encontrei o Mensageiro de Allah (s.a.w.) no caminho. Naquele momento, havia também algumas outras pessoas com ele. Ele me chamou e disse que eu deveria montar na garupa de sua montaria. Porém, fiquei envergonhada e me lembrei de Az-Zubair e de sua honra e dignidade. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) seguiu adiante. Quando cheguei em casa, contei o ocorrido a Az-Zubair. Depois disso, meu pai, Abu Bakr (r.a.), deu-me um criado. Foi ele quem passou a cuidar do cavalo. Foi como se ele me tivesse libertado. (Siyar ‘’lam An Nubala– 2/290–291, Tabaqat– 8/250, Musnad de Ahmad– 6/347,352)

A hora da Hégira de Meca para Medina se aproximava. Ela estava então em estado avançado de gravidez, com Abdullah em seu ventre. Ainda assim, não temeu aquela longa e difícil viagem e partiu em nome de Allah. Assim que chegou a Quba, deu à luz Abdullah. Ele foi o primeiro filho nascido na casa dos emigrantes de Medina depois da chegada destes à cidade. Por isso, ao ouvirem a notícia de seu nascimento, os muçulmanos expressaram sua alegria e júbilo proclamando o takbir. Sua mãe, Asma, levou o recém-nascido no colo até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e o colocou em seus braços. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tirou um pouco de saliva da própria língua, colocou-a na boca do bebê e fez uma súplica por ele. Assim, antes que qualquer coisa mundana entrasse em seu estômago, a primeira coisa a entrar nele foi a saliva sagrada do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Em Asma, filha de Abu Bakr, reuniam-se, de modo raro, qualidades morais tão equilibradas quanto a honestidade, a generosidade, a nobreza e a inteligência extraordinária. Sua generosidade havia se tornado proverbial. Seu filho Abdullah disse: “Não vi mulher alguma mais generosa do que minha mãe, Asma, e minha tia Aisha. Contudo, havia uma diferença entre a maneira de ambas serem generosas. Minha tia tinha o hábito de, primeiro, juntar diversas coisas. Quando via que havia acumulado uma quantidade suficiente, certo dia, de repente, distribuía tudo entre os pobres e necessitados. O hábito de minha mãe, porém, era diferente. Ela não guardava consigo coisa alguma até o dia seguinte.”

Asma era extremamente inteligente. Sua inteligência se manifestava em diferentes momentos de crise. Segundo o relato de Ibn Hisham, quando a notícia da Hégira do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e de Abu Bakr se espalhou por Meca, no dia seguinte Abu Jahl e alguns outros líderes coraixitas foram à casa de Abu Bakr. Ao encontrarem Asma, perguntaram-lhe: “Onde está seu pai, Abu Bakr?” Quando Asma se recusou a responder, o infame Abu Jahl deu-lhe um forte tapa no rosto. Com isso, seus dois brincos voaram e caíram.

Durante a Hégira, enquanto o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneciam na caverna do monte Thawr, Asma levava-lhes comida e bebida na escuridão da noite.

Durante a Hégira, seu pai, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), levou consigo todo o dinheiro que possuía. Ao saber disso, seu avô Abu Quhafa disse: “Ele deixou para trás dificuldades tanto em sua vida quanto em seus bens.” Asma disse ao avô: “Não, ele deixou muita riqueza.” Depois de dizer isso, colocou muitas pedras no lugar onde Abu Bakr costumava guardar seu dinheiro e seus bens. Em seguida, chamou Abu Quhafa e disse-lhe: “Veja, ele deixou tudo isso.” Abu Quhafa era cego. Ele acreditou no que Asma lhe disse. Asma contou: “Fiz isso para consolar Abu Quhafa. Na realidade, não havia coisa alguma ali.”

A história não conseguiu preservar muitos relatos da vida repleta de acontecimentos de Asma, filha de Abu Bakr. Contudo, a inteligência aguçada, a força de caráter e a firmeza na fé que ela demonstrou em seu último encontro em vida com seu filho Abdullah permanecerão para sempre marcadas na história. Após a morte do califa omíada Yazid ibn Muawiya, os habitantes do Hijaz, do Egito, do Iraque, do Khurasan e da maior parte das regiões da Síria reconheceram Abdullah como califa e lhe prestaram o juramento de fidelidade. A dinastia omíada, porém, não pôde aceitar isso. Para subjugá-lo, enviou um enorme e poderoso exército sob o comando de Hajjaj ibn Yusuf. Houve um conflito sangrento entre os dois lados, no qual Abdullah ibn Zubair demonstrou extrema bravura. Por fim, seus companheiros começaram a dispersar-se, não vendo possibilidade alguma de vitória. Ele se instalou no recinto sagrado da Caaba com os poucos seguidores que ainda lhe restavam. Pouco antes do confronto final com o exército omíada, foi encontrar-se pela última vez com sua mãe, Asma. Naquele momento, Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) estava debilitada pelo peso da velhice e cega. O último encontro entre mãe e filho foi o seguinte:

— Mãe, que a paz, a misericórdia e as bênçãos de Allah estejam contigo.

— Abdullah, e que a paz esteja contigo. As catapultas do exército de Hajjaj estão lançando pedras contra suas tropas, que estão no recinto sagrado, fazendo tremer as casas de Meca. Com sua presença num momento tão crítico, qual é o seu propósito?

– O objetivo é consultar-nos.

– Consultá-los! Sobre o quê?

– Por medo de Hajjaj ou seduzidas por suas promessas, as pessoas me abandonaram em meio ao perigo; até mesmo meus filhos e os membros da minha família me deixaram. Agora restam comigo apenas algumas pessoas. Por maior que seja a paciência e a coragem delas, de modo algum conseguirão resistir por mais de uma ou duas horas. Enquanto isso, os Omíadas enviaram uma proposta: se eu reconhecer Abdul Malik ibn Marwan como califa, depuser as armas e lhe prestar bay‘ah, eles me darão tudo o que eu desejar em termos de conforto e riquezas mundanas. Nessa situação, que conselho a senhora me dá? Asma, que Allah esteja satisfeito com ela, disse em voz um pouco mais alta:

– O assunto é inteiramente seu. E você conhece a si mesmo melhor do que ninguém. Se tiver a firme convicção de que está na verdade e convocando as pessoas para a verdade, então permaneça firme, como aqueles que permaneceram firmes sob sua bandeira e alcançaram o martírio. Mas, se você deseja os confortos e as riquezas deste mundo, então é o mais vil dos homens. Você destruiu a si mesmo e ao seu povo.

– Então, hoje certamente serei morto.

– É melhor ser morto lutando do que se render voluntariamente a Hajjaj e permitir que os rapazes dos Banu Umayya brinquem com sua cabeça.

– Não tenho medo de ser morto. Meu medo é que eles cortem minhas mãos e meus pés e me mutilem.

– Depois de ser morto, não há nada que o homem deva temer. Afinal, uma cabra abatida sente dor quando é esfolada?

Ao ouvir isso, o rosto de Hazrat Abdallah ibn al-Zubayr tornou-se ainda mais radiante. Ele disse: “Minha virtuosa mãe, que sua sublime dignidade se torne ainda mais abençoada. Vim à sua presença neste momento de crise somente para ouvir estas palavras de sua boca. Allah sabe que não tive medo nem fraquejei. Ele é testemunha de que não estou lutando por cobiça ou amor a prazeres, riquezas e honras mundanas. Pelo contrário, esta luta se deve ao meu ódio e aversão à declaração do haram como halal. Agora vou fazer aquilo que você aprovou. Se eu for martirizado, não se entristeça por mim e confie tudo a Allah.”

— Se você for morto defendendo a falsidade e a injustiça, ficarei triste.

— Mãe, tenha certeza de que este seu filho jamais praticou algo injusto ou obsceno, jamais violou a lei de Allah, jamais traiu a confiança de alguém, jamais oprimiu um muçulmano ou um protegido, e que, neste mundo, nada é mais valioso para ele do que a satisfação de Allah. Não digo isso com a intenção de me declarar puro e inocente, pois Allah conhece melhor do que ninguém a meu respeito. Digo estas palavras apenas para que Allah conceda paciência e perseverança ao seu coração. Em resposta, Asma, que Allah esteja satisfeito com ela, disse:

— Al-hamdu lillāh alladhī jaʿalaka ʿalā mā yuḥibbu wa uḥibbu — Louvado seja Allah, que o manteve firme naquilo que Ele e eu amamos. Meu filho, aproxime-se um pouco de mim; quero sentir pela última vez o cheiro do seu corpo e tocar você um pouco. Pois este é o último encontro, nesta vida, entre mim e você.

Abdallah se inclinou e cobriu de beijos as mãos e os pés de sua mãe, enquanto ela encostava o nariz e a boca na cabeça, no rosto e nos ombros do filho, cheirando-o e beijando-o, e passava as duas mãos sobre seu corpo. Depois de algum tempo, soltou-o, dizendo:

— Abdallah, o que é isso que você está vestindo?

— Mãe, isto é minha armadura.

— Meu filho, esta não é a vestimenta daqueles que anseiam pelo martírio.

— Vesti esta roupa com o objetivo de alegrá-la e trazer tranquilidade ao seu coração.

— Tire-a. Isso será mais apropriado para sua personalidade, sua bravura e seus ataques. Além disso, facilitará suas atividades, sua velocidade e seus movimentos. Em vez dela, vista uma calça comprida. Assim, mesmo que o derrubem no chão, sua intimidade permanecerá coberta.

Conforme sua mãe lhe havia dito, Abdullah tirou a armadura, vestiu a calça e partiu em direção à Mesquita Sagrada para participar da batalha, dizendo: — Mãe, não se esqueça de fazer du‘a por mim.

Imediatamente, sua mãe, a venerável Asma, ergueu ambas as mãos ao céu e fez du‘a: “Ó Allah, tenha misericórdia dele por sua longa adoração, permanecendo acordado, e por seu choro em voz alta enquanto as pessoas, na escuridão da noite, estão inconscientes em um sono profundo. Ó Allah, tenha misericórdia dele pela fome e pela sede do meio-dia, em Meca e Medina, enquanto jejuava. Ó Allah, derrame Sua misericórdia sobre ele por sua bondade para com seus pais. Ó Allah, eu o confiei a Ti; estou satisfeita com qualquer decisão que tomares a respeito dele. Em troca disso, concede-me a recompensa dos pacientes.”

Antes mesmo de o sol se pôr naquele dia, o venerável Abdullah ibn az-Zubair encontrou-se com seu Supremo Senhor. Poucos dias após seu martírio, no ano 73 da Hégira, a venerável Asma também deixou este mundo. Naquela ocasião, tinha cem anos de idade. Entre as companheiras, foi a última a falecer. (Siyar A’lam an–Nubala– 2/288)

Depois que o venerável Abdullah foi morto, Hajjaj deixou seu corpo pendurado em uma estaca. Sua mãe, Asma, veio ver o corpo do filho. Parada junto ao corpo pendurado, disse com extrema serenidade: “Será que ainda não chegou a hora de este cavaleiro descer do cavalo?” Com o objetivo de dispersar a multidão, Hajjaj enviou alguém para levá-la dali. Ela se recusou a ir. Ele enviou novamente um mensageiro, dizendo que, se ela não fosse dessa vez, seria arrastada pelos cabelos. A venerável Asma não se intimidou diante de Hajjaj. Não foi. Então Hajjaj veio pessoalmente. Entre os dois, ocorreu a seguinte conversa. Hajjaj disse:

– «Diga-me, como tratei Ibn az-Zubayr, inimigo de Allah?» Asma respondeu: «Destruíste a vida terrena dele, e ele destruiu a tua vida futura. Ouvi dizer que zombaste dele, chamando-o de filho de Zat an-Nitaqayn. Por Allah, eu sou Zat an-Nitaqayn. Com um dos meus nitaq amarrei a comida do Mensageiro de Allah e de Abu Bakr. O outro nitaq ainda está na minha cintura. Lembra-te de que ouvi o Nobre Profeta dizer que, entre os Banu Saqif, surgiriam um mentiroso impostor e um tirano. O mentiroso já o vi antes. ((Al-–Mukhtar)) e o tirano és tu.» Ao ouvir este hadith, Hajjaj ficou em silêncio. (Sahih Muslim: volume 2)।

Cinquenta e seis hadiths foram narrados por Hazrat Asma. Treze são muttafaqun alayh; al-Bukhari narrou cinco exclusivamente, e Muslim, quatro. Muitos ilustres Companheiros narraram hadiths dela. Alguns de seus nomes são mencionados aqui: seus dois filhos — Abdullah e Urwa; seu neto, Abdullah ibn Urwa; seu bisneto, Ubbad ibn Abdullah; Ibn Abbas; Abu Waqid al-Laythi; Safiyya bint Shayba; Muhammad ibn al-Munkadir; Wahb ibn Kaysan; Abu Nawfil Muawiya ibn Abi Akbar; al-Muttalib ibn Abdullah ibn Hantab; Fatima bint al-Mundhir ibn az-Zubayr; Ibn Abi Mulaika; Ubbad ibn Hamza ibn Abdullah; e muitos outros. (Siyar A’lam an-–Nubala 2//288)

 

Mus’ab ibn ’‘Umair ((r.a.))

Seu nome era Mus’ab e sua kunya, Abu Muhammad. Depois de aceitar o Islã, recebeu o título de Mus’ab al-Khayr. Seu pai era ‘Umair e sua mãe, Khunas bint Malik. Criado no luxo e no extremo carinho dos pais, ele era um dos jovens mais belos de Meca. Como sua mãe era rica, criou-o em meio a grande conforto e opulência. Naquela época, ele usava todas as belas roupas e os melhores perfumes disponíveis em Meca. Quando seu nome era mencionado de algum modo diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele dizia: «Em Meca, não havia ninguém mais belo nem mais bem-vestido que Mus’ab.»(At-Tabaqat)Os historiadores disseram: «Ele era o maior apreciador de perfumes de Meca.»

Além da beleza, do bom gosto e do bom caráter, Allah Altíssimo havia criado seu coração com extraordinária pureza. Com um único vislumbre do tawhid, ele passou a detestar o politeísmo e compareceu à presença do nobre Mensageiro de Allah, aceitando o Islã. Isso aconteceu quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permanecia na casa de Arqam e continuava convidando as pessoas ao Islã, enquanto a terra de Meca se tornava estreita para os muçulmanos.

Nas vielas de Meca, nas reuniões dos coraixitas e em seus conselhos, havia então uma única discussão: Muhammad al-Amín e sua nova religião, o Islã. Esse filho predileto dos coraixitas ouvia essas discussões com grande atenção. Embora ainda fosse jovem, ele era o ornamento e o centro de todas as reuniões e assembleias dos coraixitas. Sua presença era desejada em cada uma delas. Inteligência penetrante, grande perspicácia e personalidade eram as principais características de seu caráter. E essas qualidades abriram todas as portas e removeram todas as trancas de seu coração.

Ele soube que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e aqueles que acreditavam nele, mantendo-se afastados de todas as ações fúteis e da opressão e perseguição dos coraixitas, reuniam-se na casa de al-Arqam ibn Abi al-Arqam, ao pé do monte Safa. Deixando de lado toda hesitação e conflito interior, certa tarde ele se apresentou em Dar al-Arqam. Naqueles dias, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) reunia-se ali com seus companheiros, ensinava-lhes o Alcorão e fazia a oração com eles.

Assim que Mus’ab ibn ‘Umair se sentou em Dar al-Arqam, foram revelados versículos do Alcorão. Saindo da língua do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), aqueles versículos pareciam penetrar nos ouvidos e no fundo do coração de todos os ouvintes. Naquela noite abençoada, Ibn ‘Umair também se tornou possuidor de um coração crente. Dominado pela felicidade e pela alegria, perdeu-se em êxtase. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estendeu uma de suas mãos puras sobre o peito de Mus’ab. Mus’ab ficou absorto em uma profunda tranquilidade. Em um instante, adquiriu muitas vezes mais sabedoria e conhecimento do que seria esperado para sua idade e alcançou tal firmeza que, dali em diante, milhares de perigos e calamidades jamais puderam abalá-lo nem um pouco.

A mãe de Mus’ab, Khunas bint Malik, era uma mulher de personalidade extremamente forte. Mus’ab temia-a como se teme a própria morte. Depois de aceitar o Islã, ele não temia ninguém na face da Terra, exceto sua mãe. Todas as forças, incluindo os coraixitas e seus ídolos, passaram a parecer insignificantes para ele. Mas não conseguiu livrar-se do medo da mãe. Por isso, decidiu ocultar a notícia de sua conversão até que Allah desse Seu veredito final e continuou frequentando Dar al-Arqam. Continuou sentando-se na assembleia do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Sua mãe, porém, nada descobriu.

Certo dia, enquanto ele entrava secretamente em Dar al-Arqam, Uthman ibn Talha o viu. Em outro dia, ele estava fazendo a oração à maneira de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e também nessa ocasião isso chamou a atenção de Uthman. A notícia espalhou-se pelas vielas de Meca mais rápido que o vento. Chegou também aos ouvidos de sua mãe.

Musab foi levado diante de sua mãe, dos membros de sua tribo e dos líderes de Meca, para ser julgado. Com fé inabalável e coração sereno, começou a recitar para eles as grandiosas palavras do Alcorão, nas quais havia acreditado. Sua mãe tentou fazê-lo calar, dando-lhe uma bofetada no rosto. Vieram as repreensões e as agressões. Depois, ele foi mantido confinado em casa.

Ele continuou vivendo como prisioneiro. Era vigiado dia e noite, durante as vinte e quatro horas. Nesse período, soube que alguns muçulmanos crentes como ele estavam emigrando para a Abissínia. Enganando a vigilância de sua mãe, partiu para a Abissínia com aquele grupo.

Certo dia, um grupo de muçulmanos estava sentado ao lado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nesse momento, viram Musab passar. Ao vê-lo, todos os presentes na reunião ficaram profundamente comovidos. Seus olhares se baixaram, e os olhos de alguns se encheram de lágrimas. Isso porque Musab vestia então apenas um pedaço de couro velho e desgastado, remendado inúmeras vezes. Nele estavam claramente estampadas as marcas da extrema pobreza. Na mente de todos surgiu a imagem de sua vida antes do Islam. Naquela época, suas roupas eram macias, atraentes e perfumadas como as flores de um jardim. Ao ver aquela cena, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sorriu levemente e disse: “Vi este Musab em Meca. Não havia em Meca nenhum jovem mais amado por seus pais do que ele. Por amor a Allah e ao Seu Mensageiro, ele abandonou tudo.”

Depois de permanecer algum tempo na Abissínia, ele voltou a Meca. Em seguida, por ordem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), partiu novamente para a Abissínia acompanhando outro grupo. Musab, porém, havia compreendido que, estivesse em Meca ou na Abissínia, onde quer que permanecesse, sua vida havia assumido uma nova forma. Seu único modelo digno de imitação era Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e seu único objetivo desejado era a satisfação de Allah, o Senhor Supremo.

Ao fracassar em fazê-lo abandonar a nova religião, sua mãe deixou de lhe dar qualquer coisa. Ela não podia, de modo algum, continuar alimentando e vestindo aquele que havia abandonado seus deuses e os insultava, ainda que fosse seu próprio filho.

Depois que Musab retornou da Abissínia, sua mãe tentou prendê-lo novamente. Ele jurou diante dela, dizendo: “Se fizeres isso, matarei todos vocês, inclusive aqueles que te ajudarem.” Sua mãe conhecia aquele filho insolente. Por isso, despediu-se dele em meio às lágrimas, e ele também se despediu dela chorando.

No momento da despedida, a mãe permaneceu firme na incredulidade, assim como o filho permaneceu firme na fé. Enquanto expulsava de casa o filho tão amado, sua mãe dizia: “Vá para onde quiser. Não me chame mais de mãe.” O filho aproximou-se um pouco dela e disse: “Mãe, estou lhe dizendo uma boa palavra e sinto grande compaixão por você. Diga apenas uma vez: Ashhadu an la ilaha illallahu wa anna Muhammadan abduhu wa rasuluhu.” Irritada, a mãe jurou pelas estrelas e disse: “Não aceitarei sua religião. Se a aceitasse, diriam que minha opinião, minha inteligência e meu discernimento são fracos.” Assim, Musab, aquele jovem dos coraixitas, extremamente mimado e acostumado ao luxo, foi expulso de casa e saiu pelo caminho. Agora veste roupas grossas, rasgadas e cheias de remendos. Se consegue comida em um dia, passa o dia seguinte com fome. Mas seu coração está iluminado pela luz da fé.

Durante a peregrinação, algumas pessoas de Medina foram a Meca, encontraram-se secretamente com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em Aqaba, creram nele e prestaram-lhe o juramento de fidelidade. Depois, retornaram a Medina. Com o objetivo de ensinar-lhes a religião, transmitir o chamado da religião a outras pessoas e preparar Medina para a emigração, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Musab a Medina como emissário. Assim, ele se tornou o primeiro emissário da história do Islam.

Naquela época, havia em Meca muitos Companheiros mais velhos e de maior prestígio do que Mussab. Ainda assim, o Mensageiro o escolheu para essa importante missão. Com a inteligência, o discernimento e o nobre caráter que Deus lhe havia concedido, Mussab cumpriu essa difícil responsabilidade com extrema fidelidade. Com intensa dedicação, sinceridade e nobreza, dialogou com os corações dos habitantes de Medina. Como resultado, eles ingressaram em grupos na religião de Allah.

Mussab chegou a Medina. Antes disso, apenas doze habitantes de Medina haviam ido a Aqaba e aceitado o Islã. Porém, poucos meses depois de sua chegada a Medina, muitas pessoas atenderam ao seu convite e aceitaram o Islã. Na temporada seguinte da peregrinação, uma delegação de setenta e dois muçulmanos de Medina veio a Meca acompanhada de seu mestre religioso e enviado do Profeta, Mussab, e encontrou-se novamente com o Mensageiro de Allah em Aqaba.

Mussab compreendia corretamente sua responsabilidade e os limites dessa responsabilidade. Entendia que era um convocador para Allah e um anunciador das boas-novas de uma religião de Allah que convidava a humanidade à orientação e ao caminho reto. Sua única responsabilidade era transmitir o convite dessa religião.

Ao chegar a Medina, Mussab hospedou-se com Asaad ibn Zurarah. Os dois começaram a convidar as pessoas, em diferentes tribos, casas e reuniões de Medina, para a adoração do Deus Único. Também enfrentaram diversos obstáculos. Mas, com inteligência, sabedoria e paciência, superaram todos eles.

Certo dia, ele estava convidando algumas pessoas. De repente, Usáid ibn Hudair, líder dos Banu Abd al-Ashhal, apareceu armado e extremamente exaltado. Estava furioso com aquele homem que havia chegado ali como enviado de Muhammad e incentivava as pessoas a abandonar a religião de seus antepassados. Além disso, insultava os deuses que elas adoravam. Ao ver o aspecto ameaçador de Usáid, os muçulmanos sentados ao lado de Mussab ficaram com medo. Mas Mussab não teve medo; pelo contrário, recebeu Usáid sorrindo. Aproximou-se dele e ficou diante dele com um sorriso. Então Usáid dirigiu-se a ele e a Asaad ibn Zurarah, dizendo: “Por que vocês vieram ao território de nossa tribo e estão enganando desse modo nosso povo simples? Se não têm vontade de morrer, saiam de nossa região.”

Sorrindo, Mussab lhe disse: “O senhor não poderia sentar-se um pouco e ouvir o que tenho a dizer? Escute-me. Se gostar, aceite; se não gostar, iremos embora.”

Usáid era um homem inteligente. As palavras de Mussab tocaram seu coração. Isso era uma fala sensata. Que objeção poderia haver em ouvi-la? Ele depôs as armas, sentou-se no chão e começou a escutar atentamente as palavras de Mussab.

Mussab recitava versículos do Sagrado Alcorão e explicava a religião trazida pelo Profeta Muhammad, enquanto o rosto de Usáid se tornava pouco a pouco mais sorridente. Mussab ainda não havia terminado seu discurso quando Usáid e seu companheiro exclamaram: “Isto é realmente maravilhoso e verdadeiro. O que é preciso fazer para ingressar em sua religião?” Mussab respondeu: “Purificar o corpo e as roupas e prestar o testemunho: ‘لا إله إلا الله’.”

Usaid levantou-se e foi embora. Depois de algum tempo, quando voltou, a água pingava de seus cabelos. De pé, declarou: “Testemunho que não há divindade senão Allah e que Muhammad é Seu servo e Mensageiro.” A notícia espalhou-se por toda parte, e Sa‘d ibn Mu‘adh e Sa‘d ibn ‘Ubadah correram até Mus‘ab. Ambos aceitaram o Islã. Depois que esses líderes aceitaram o Islã, os habitantes comuns de Medina começaram a dizer uns aos outros: “Por que ficaremos para trás? Vamos até Mus‘ab e aceitemos o Islã.”

Assim, o primeiro enviado do Mensageiro de Allah obteve um sucesso sem paralelo na história. O tempo passou rapidamente. O Mensageiro de Allah e seus companheiros haviam emigrado de Meca para Medina. Os coraixitas ardiam de ódio e conspiraram para extirpá-los completamente também de Medina. Em Badr, receberam uma lição tão severa que seu ódio se transformou em desejo de vingança. Mais uma vez, enfrentaram os muçulmanos em Uhud. Antes do início da batalha, o Mensageiro de Allah olhava para o rosto de todos no meio do exército muçulmano. Pensava em quem poderia confiar naquele dia o estandarte do Islã. Observou atentamente. Então chamou Mus‘ab e colocou o estandarte em suas mãos.

A batalha feroz começou. O exército coraixita estava à beira da derrota. Nesse momento, o contingente de arqueiros muçulmanos, esquecendo a ordem do Mensageiro de Allah, abandonou sua posição e começou a perseguir os coraixitas. Porém, essa ação anulou a vitória certa do exército muçulmano e trouxe a derrota. O exército coraixita entrou subitamente pelo desfiladeiro abandonado pelos arqueiros muçulmanos e atacou o exército muçulmano pela retaguarda. O exército muçulmano ficou desorganizado. Aproveitando essa oportunidade, o exército coraixita empregou toda a sua força e cercou o Mensageiro de Allah.

Mus‘ab ibn ‘Umair percebeu a gravidade do perigo. Ergueu o estandarte tanto quanto pôde, começou a bramir a plenos pulmões como um lobo e a proclamar o takbir em voz alta. Ao mesmo tempo, saltava e fazia demonstrações de bravura. Seu objetivo era desviar dos Mensageiro de Allah os olhares dos inimigos e concentrá-los em si. Assim, naquele dia, transformou sua única pessoa em um exército. Com extrema lealdade, segurava o estandarte erguido com uma mão e brandia a espada com enorme força na outra. As tropas inimigas avançaram contra ele e, passando por cima de seu corpo, tentaram chegar até o Mensageiro de Allah. Sobre o desfecho de Mus‘ab, Ibn Sa‘d narra: “No dia de Uhud, Mus‘ab ibn ‘Umair carregava o estandarte. Quando os muçulmanos se dispersaram, Mus‘ab permaneceu firme e enfrentou o inimigo. O cavaleiro Ibn Qami’a avançou contra ele e, com um golpe de espada, decepou-lhe a mão direita. Mus‘ab então exclamou: ‘Muhammad não é senão um Mensageiro; outros mensageiros já passaram antes dele.’ Mus‘ab ergueu o estandarte com a mão esquerda. Com outro golpe de espada, sua mão esquerda também foi decepada. Mais uma vez, enquanto repetia: ‘Muhammad não é senão um Mensageiro’, inclinou-se sobre o estandarte e o sustentou com os dois braços. Então uma lança foi arremessada contra ele. Ele caiu ao chão junto com o estandarte. Pertencemos a Allah e a Ele retornaremos. Antes do martírio de Mus‘ab ibn ‘Umair, a frase que ele repetia continuamente ainda não havia sido revelada como versículo do Alcorão. Foi somente depois desse acontecimento em Uhud que Jibril apareceu trazendo o versículo: ‘Muhammad não é senão um Mensageiro…’”

Ao fim da batalha, encontraram o corpo de Mus‘ab. Seu rosto estava coberto de sangue e poeira. Ao ficar junto ao corpo, o Mensageiro de Allah caiu em prantos inconsoláveis. Khabbab ibn al-Aratt disse: “Nós emigramos com o Mensageiro de Allah pelo caminho de Allah, buscando a satisfação de Allah. Cabe a Allah recompensar-nos por esse ato. Entre nós, um dos que partiram deste mundo sem receber absolutamente nada da recompensa por esse ato foi Mus‘ab ibn ‘Umair.

Em Uhud, ele alcançou o martírio. Não se encontrou nenhum tecido para envolvê-lo como mortalha, exceto um único manto. Quando cobriam sua cabeça com ele, os pés ficavam descobertos; quando cobriam os pés, a cabeça ficava descoberta. Por fim, o Mensageiro de Allah nos disse: “Cubram com o manto o quanto puderem, começando pela cabeça, e coloquem a erva ‘izkhir sobre o restante, na direção dos pés.” O Mensageiro de Allah, em pé junto ao corpo de Mus‘ab, recitou: “Min al-mu’minina rijalun sadaqu ma ‘ahadullaha alaihi…” — “Entre os crentes há homens que cumpriram fielmente o pacto que fizeram com Allah.” Depois, olhando para o manto que servia de mortalha, disse: “Eu te vi em Meca. Ali, ninguém tinha um manto mais macio nem cabelos mais belos que os teus. E hoje estás aqui, caído neste manto, coberto de poeira.” Disse ainda: “O Mensageiro de Allah testemunha que, no Dia da Ressurreição, todos vós sereis testemunhas perante Allah.” Então, voltando-se para os companheiros, disse: “Ó gente, visitai-os, aproximai-vos deles e saudai-os. Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: até o Dia da Ressurreição, quem quer que os saude receberá deles a resposta à sua saudação.”

O irmão de Hazrat Mus‘ab, Abu Rawm ibn ‘Umair, juntamente com ‘Amir ibn Rabi‘ah e Suwayt ibn Sa‘d, desceram-no ao túmulo e concluíram o enterro.

Hazrat Mus‘ab era extremamente inteligente, generoso e um orador eloquente. A rapidez com que o Islã se espalhou em Yathrib (Medina) comprova essas suas qualidades. Ele memorizou tudo do Alcorão que havia sido revelado até seu martírio. Foi o primeiro a estabelecer a oração de sexta-feira em Medina. Quando o número de muçulmanos em Medina aumentou um pouco, ele, com a permissão do Mensageiro de Allah, iniciou a oração de sexta-feira na casa de Hazrat Sa‘d ibn Khuthaymah. Foi ele quem conduziu a oração. Depois da oração, um bode foi abatido e os participantes foram recebidos com uma refeição. (Tabakāt)

…….. Primeiro volume concluído ……..

Bibliografia

1. Ibn Sa’d — Tabaqat,

2. Ibn Hajar al-Asqalani — Al-Isaba,

3. Ibn Hisham — As-Sirah,

4. Ibn Kathir — Al-Bidaya wa an-Nihaya,

5. Ibn Abd al-Barr — Al-Isti’ab,

6. Al-Dhahabi — Tadhkirat al-Huffaz,

7. At-Tabari — Tarikh al-Umam wa al-Muluk,

8. Adh-Dhahabi — Tarikh al-Islam

9. Ibn ‘Asakir — Tarikh Dimashq al-Kabir,

10. Yusuf Kandhalawi — Hayat as-Sahaba,

11. Khalid Muhammad Khalid — Rijal Hawla ar-Rasul,

12. Dr. Abdur Rahman Ra’fat al-Basha — Suwar min Hayat as-Sahaba,

13. Muhammad al-Khudari Bek — Tarikh al-Umma al-Islamiyya

14. Maulana Muinuddin Nadwi — Muhajirin (urdu),

15. Dairatul Maarif al-Islamiyya,

16. Diversas obras de hadith.