Introdução

História e Sira

Na época da Jahiliyyah, os árabes não sabiam o que era história. Para eles, história significava as tradições transmitidas por herança. A descrição da natureza e das características da vida árabe era o único elemento da história corrente naquela época. Ela estava repleta de relatos gloriosos sobre o heroísmo de seus antepassados, sua generosidade, sua lealdade à própria tribo e seu compromisso com as promessas. Essa história era rica em genealogias e em relatos que identificavam amigos e inimigos. A história da Casa Sagrada da Caaba e de seus guardiões; o relato da origem do poço de Zamzam; as vidas dos líderes de Jurhum e dos coraixitas; a inundação causada pelo rompimento da barragem de Maarib e a história de como, em consequência disso, seus habitantes se dispersaram em todas as direções, divididos em numerosos grupos; as profecias dos adivinhos e sacerdotes e sua prosa rimada e poesia — tudo isso, por meio do qual se conhecia a natureza da vida social, política e religiosa dos árabes daquela época, constituía o principal conteúdo da história do povo árabe. Quando o Islã reapareceu por meio de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, esses relatos tradicionais continuaram a ser transmitidos de boca em boca. Além disso, os narradores e contadores de histórias árabes encontraram um material amplo e de longo alcance nas histórias do convite ao Islã e dos indícios da profecia observados antes dele, de seu desenvolvimento gradual e amadurecimento, de sua vida após a profecia, dos acontecimentos da vida dos companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e das histórias dos muçulmanos nominais, cristãos, judeus e politeístas hostis ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e à sua vida exemplar. Assim, essas novas histórias também se difundiram entre eles por meio da transmissão oral. O Sagrado Alcorão, os hadiths do Grande Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e as palavras dos Companheiros estabeleceram-se como uma ampla fonte documental daquela nova vida.

O Sagrado Alcorão foi escrito desde o princípio. Contudo, os hadiths do Grande Profeta, que a paz esteja sobre ele, permaneceram sem registro escrito durante longo tempo, embora as pessoas os considerassem relatos confiáveis e autênticos. Ninguém ousou registrar os hadiths em grande escala. Foi justamente por causa da declaração do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, transmitida por Abu Sa’id, que dizia: “Não escrevam nada de mim além do Alcorão; e, se tiverem escrito algo, apaguem-no”, que ninguém se atreveu a registrá-los.

O significado dessa proibição é muito claro. Havia o receio de que, se as palavras do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fossem registradas durante o período da revelação do Alcorão, elas pudessem misturar-se e confundir-se com o Alcorão. Não é necessário dizer que essa proibição foi pronunciada tendo diante de si apenas o grande objetivo de evitar tal mistura e que se limitava ao período da revelação do Alcorão.

Ainda assim, até o início do governo de Umar ibn Abd al-Aziz, não se empreendeu de forma ampla a compilação dos hadiths. Ele ocupou o trono do califado de 99 a 101 da Hégira. Diz-se que passou quarenta dias fazendo istikhara para decidir se deveria iniciar a compilação dos hadiths. Por fim, recebeu a indicação de que era seu dever fazê-lo da parte de Allah. Então, encarregou Abu Bakr ibn Muhammad ibn Umar ibn Hazm da compilação dos hadiths. Abu Bakr era governador e juiz de Medina. Viveu até o ano 120 da Hégira. Registrou em forma de livro os hadiths que sabia de memória e enviou-o a várias cidades para revisão. Umar ibn Abd al-Aziz também encarregou Muhammad ibn Muslim ibn Shihab al-Zuhri da coleta de hadiths. Ele compilou um livro de hadiths.

A partir de então, os muçulmanos continuaram o trabalho de coletar hadiths. Contudo, esse trabalho não seguia nenhum método específico de organização; cada um coletava conforme lhe parecia conveniente. Alguns registravam-nos em forma de livro, sob um capítulo específico das normas da Sharia. Depois, o processo de composição desses livros avançou. Nessa etapa, vemos muitos organizando os capítulos dos livros de hadith e separando dessas obras a biografia do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Nessa fase, registraram seu nascimento, sua criação na casa de sua ama de leite e outros acontecimentos anteriores à profecia. Em seguida, apresentaram relatos detalhados do convite aos coraixitas para a religião de Allah, da paciência diante das perseguições e opressões infligidas por eles contra o Profeta e seus companheiros, além de outros acontecimentos relacionados. Também incluíram os hadiths relativos aos acontecimentos das guerras e batalhas.

Os historiadores seguiram um método diferente. Escreveram numerosas obras abrangentes sobre história. Por meio delas, refletiu-se seu fervor islâmico; por isso, encontraram na personalidade do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, um modelo indiscutivelmente digno de imitação para os muçulmanos e uma fonte de orientação.

Os principais historiadores muçulmanos na composição de obras de sīrat

Os primeiros autores de obras de sīrat foram ʿUrwah ibn az-Zubayr ibn al-ʿAwwām (92 H.), Abān ibn ʿUthmān (105 H.), Wahb ibn Munabbih (110 H.), Shurahbīl ibn Saʿd (123 H.), Ibn Shihāb az-Zuhrī (124 H.) e ʿAbdullah ibn Abī Bakr ibn Hazm (135 H.). Quase todas as obras que eles escreveram desapareceram completamente. Contudo, algumas partes foram preservadas de forma dispersa em diversas obras históricas. A História de at-Tabarī é digna de menção neste contexto. Além disso, uma parte da obra de Wahb ibn Munabbih encontra-se atualmente preservada na cidade alemã de Heidelberg.

Depois deles, surgiu outro grupo de autores de obras de história e sīrat. Entre os mais famosos estavam Mūsā ibn ʿUqbah (141 H.), Muʿammar ibn Rāshid (150 H.) e Muhammad ibn Ishāq (152 H.). Os principais integrantes do grupo seguinte foram Ziyād al-Bukāʾī (183 H.), al-Wāqidī, autor da obra al-Maghāzī — a história das guerras conduzidas sob a liderança do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — (207 H.), Ibn Hishām (218 H.) e o famoso autor de at-Tabaqāt, Ibn Saʿd (230 H.).

A sīrat de Ibn Ishāq

Entre as obras de sīrat mencionadas, a mais famosa, mais autorizada e confiável, e também a de maior qualidade, é a Sīrat de Muhammad ibn Ishāq. (1. “Muhammad ibn Ishāq ibn Yasār ibn ʿAbd al-Muttalib ibn ʿAbd Manāf era um liberto. Seu avô Yasār foi um dos prisioneiros de guerra da cidade de ʿAyn at-Tamr, situada em direção a Bāriyah, a oeste de Kūfah. Quando essa cidade passou ao domínio dos muçulmanos, no ano 12 H., durante o califado de Abū Bakr, Yasār foi levado para Medina. Ali, no ano 85 H., nasceu seu neto Muhammad. Foi em Medina que ele passou a juventude. Depois, partiu para viajar pelos países habitados por muçulmanos. No ano 115 H., foi para Alexandria, onde coletou e transmitiu hadiths de um grupo de especialistas egípcios em hadith. Em seguida, viajou para al-Jazīrah, Kūfah, Rayy, Buhayrah e, por fim, Bagdá. Foi ali que faleceu, no ano 152 H. O célebre sábio Ibn ʿAdī comentou sobre ele: ‘Mesmo que a única realização de Ibn Ishāq tivesse sido afastar os reis de seu tempo da composição de livros absurdos e incentivá-los a dedicar-se à elaboração da história das lutas armadas do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, de seu recebimento da profecia e da criação do universo, ainda assim ele seria considerado o pioneiro e o maior nessa realização.’”) Ele compôs esta obra no início do período do governo abássida. Conta-se que certa vez ele entrou na corte do governante abássida al-Mansūr, em Bagdá. Seu filho al-Mahdī estava sentado diante de al-Mansūr. Al-Mansūr disse: “Ibn Ishāq, sabes quem é este?” Ibn Ishāq respondeu: “Sim, o filho do Comandante dos Crentes (al-Mansūr).” Então al-Mansūr disse: “Vai e escreve para ele uma obra que contenha a descrição de todos os acontecimentos, desde a criação de Adão (que a paz esteja sobre ele) até os dias de hoje.” Ibn Ishāq partiu e, depois de algum tempo, compôs a obra mencionada e a apresentou a al-Mansūr. Al-Mansūr disse: “Ibn Ishāq, tornaste a obra excessivamente longa. Agora escreve-a de forma resumida.” Depois disso, essa enorme obra foi depositada no tesouro do califa.

A sīrat de Ibn Hishām

Depois de Ibn Ishāq veio Ibn Hishām. (2. Abū Muhammad ʿAbd al-Malik ibn Hishām ibn Ayyūb al-Himyarī. Nasceu em Basra. Mais tarde, foi para o Egito e encontrou-se com o imām ash-Shāfiʿī. Depois disso, os dois dedicaram-se amplamente ao estudo da poesia árabe. Além de compilar uma versão resumida da Sīrat de Ibn Ishāq, Ibn Hishām também escreveu uma obra sobre os reis e as genealogias da tribo de Himyar. Escreveu ainda outra obra, na qual explicou poemas raros relacionados à sīrat. Faleceu na cidade de Fusṭāṭ, no ano 218 H.) Ele nos apresentou esta obra de sīrat em forma resumida. Concluiu esse trabalho aproximadamente meio século depois de Ibn Ishāq ter composto a obra original. Para elaborar esse resumo da obra de Ibn Ishāq, recorreu à intermediação de apenas uma pessoa, chamada Ziyād al-Bukāʾī. (3. O hāfiz Abū Muhammad Ziyād ibn ʿAbd al-Malik ibn ʿAttūfayl al-Bukāʾī al-ʿĀmirī al-Kūfī. É conhecido como al-Bukāʾī porque era originário de Banū al-Bukā, um ramo de Banū ʿĀmir ibn Ṣaʿṣaʿah. Foi para Bagdá, onde aprendeu com Ibn Ishāq a história das expedições militares do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e com Muhammad ibn Sālim aprendeu e transmitiu as normas da Sharīʿah. Depois retornou a Kūfah. Ali faleceu no ano 183 H., durante o governo do califa Hārūn ar-Rashīd. As poucas palavras mencionadas no início da obra comprovam que Ibn Hishām reconhecia devidamente o valor desse seu mestre: “Omiti os assuntos cuja narração seria desagradável para muitas pessoas ou que al-Bukāʾī não comprovou para nós como autênticos por meio de sua própria transmissão.”) A obra original de Ibn Ishāq, transmitida por Ibn Hishām, apresenta o conteúdo desta obra atual de forma extremamente resumida e editada. Em alguns lugares, ele também incorporou acréscimos e críticas. Em outras ocasiões, comparou e verificou a transmissão de Ibn Ishāq com as transmissões de outros sábios. Logo no início da obra, descreveu alguns dos métodos que seguiu em sua compilação. Apesar disso, não temos dúvida de que Ibn Hishām compilou a obra de Ibn Ishāq com absoluta honestidade, fidelidade e dedicação. Não alterou sequer uma palavra dela. E sempre que sentiu necessidade de apontar uma falha na transmissão de Ibn Ishāq, explicar uma afirmação difícil de compreender ou apresentar uma transmissão contrária a outra, começou-a com a expressão: “Ibn Hishām diz”.

Seu principal objetivo ao compilar a obra de sīrat foi, essencialmente, resumi-la. Por isso, omitiu a história dos descendentes de Ismāʿīl, desde os primórdios da criação, bem como outras narrativas nas quais não viu qualquer relação com a sīrat. Também não incluiu os poemas cuja autenticidade lhe suscitava dúvidas.

Quem tentar encontrar, na compilação de Ibn Hisham, o conteúdo da obra original de Sīrat, encontrará nela o mais elevado grau de devoção e absoluta fidelidade, características dos eruditos muçulmanos daquela época antiga.

A importância da Sīrat de Ibn Hisham

Na realidade, a obra de Sīrat de Ibn Ishaq tem sido considerada, desde os tempos antigos até os dias atuais, a principal fonte autorizada para os leitores de Sīrat. Poucos especialistas na história da vida do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deixaram de aceitar a obra de Sīrat de Ibn Ishaq como o principal guia nesse campo. Desde os tempos antigos, essa própria Sīrat de Ibn Ishaq é conhecida entre os eruditos pelo nome de “Sīrat de Ibn Hisham”, pois Ibn Hisham foi o compilador e resumidor dessa obra. Ibn Khallikan disse: “Foi Ibn Hisham quem reuniu, compilou e resumiu toda a história da vida do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tal como Ibn Ishaq a havia compilado, incluindo sua vida militar e civil. É esta obra que atualmente se encontra nas mãos dos leitores sob o nome de Sīrat de Ibn Hisham.”

Vários comentaristas e exegetas se apresentaram para escrever comentários sobre a Sīrat de Ibn Hisham. Entre eles, o comentário de Abū al-Qāsim ʿAbd al-Rahman al-Suhayli (581 H.), intitulado “al-Rawd al-Unuf”, é muito detalhado e extenso. [4. Abū al-Qāsim ʿAbd al-Rahman ibn ʿAbd Allah ibn Ahmad ibn al-Khusaymi al-Suhayli al-Andalusi al-Maliki. Suhayl é o nome de um vale pertencente à região de Kora, na Espanha. Ele nasceu no ano 508 da Hégira e permaneceu vivendo ali. Mais tarde, passou também três anos no Marrocos, onde faleceu no ano 581 da Hégira.] Depois dele, quem se dedicou ao exame desta obra foi Abū Dharr al-Khushani. [5. Abū Dharr Musʿab ibn Muhammad ibn Masʿud al-Jiyani al-Khushani. Era conhecido como al-Khushani por causa da aldeia de Khushayn, na Espanha, e da tribo Khushayn de Cádia. Nasceu no ano 533 da Hégira e faleceu no ano 604.] Ele explicou as passagens difíceis e também fez algumas críticas em sua obra “Sharh Sīrat al-Nabawiyya”. O Dr. Brunlah publicou a obra. Badr al-Din Muhammad ibn Ahmad al-Ayni concluiu, no ano 805 da Hégira, um comentário sobre ela intitulado “Kashf al-Lisan fi Sharh Sīrat Ibn Hisham”.

Por outro lado, vemos que alguns autores também se dedicaram a resumir esta obra. Um deles foi Burhan al-Din Ibrahim ibn Muhammad al-Murhal al-Shafiʿi. Em sua obra, composta de dezoito capítulos e intitulada “al-Dhakhira fi Mukhtasar al-Sira”, ele não apenas resumiu a Sīrat de Ibn Hisham, como também acrescentou alguns assuntos. Concluiu a redação desta obra no ano 661 da Hégira. Depois, no ano 711 da Hégira, Abū al-ʿAbbas Ahmad ibn Ibrahim ibn ʿAbd al-Rahman al-Wasiti concluiu outra obra resumida, intitulada “Mukhtasar Sīrat Ibn Hisham”. Alguns autores chegaram até mesmo a compilar a Sīrat de Ibn Hisham em forma poética. Entre eles estavam: (1) Abū Muhammad ʿAbd al-ʿAziz ibn Muhammad ibn Saʿid al-Dumayri al-Dayrini, falecido em 607 da Hégira; (2) Abū Nasr al-Fath ibn Musa ibn Muhammad al-Maghribi, falecido em 793 da Hégira. O título da obra composta por este último autor é “al-Fath al-Qarib fi Sīrat al-Habib”. A obra foi composta em dez mil versos.

A presente forma resumida da Sīrat de Ibn Hisham

No início da juventude, eu tentava repetidamente ler esta obra de ponta a ponta, mas a desordem e a falta de coesão de seu método de composição me causavam grande sofrimento mental e tédio. Por isso, lia um pouco daqui e um pouco dali. A doçura e a elegância da linguagem, bem como a grandeza do conteúdo, é que me atraíam para a leitura dessas partes separadas. Essas passagens me pareciam tão agradáveis quanto um jardim florido em um deserto árido.

Na realidade, ao ler livros sobre a Sīrat, eu experimentava uma sensação semelhante àquela de devoção pura e submissão sincera que surge no coração quando se leem o Alcorão e os hadiths. Parecia que uma irresistível atração, proveniente de algum mistério desconhecido, me impelia a querer lê-la repetidamente. Meu falecido pai também era autor de uma obra sobre a Sīrat. Ele escreveu uma obra resumida, concluída em trinta capítulos, intitulada “Talkhis al-Durus al-Awwaliyya fi al-Sīrat al-Muhammadiyya”. Durante longo período, ela foi o único livro didático utilizado nas instituições de ensino islâmico. É desnecessário dizer que, naquela época, a Sīrat era uma das principais disciplinas ensinadas nas escolas.

Apesar disso, não consegui ler de ponta a ponta a obra Sira de Ibn Hisham. Como já mencionei, isso se deve à falta de organização no método de composição e ao estilo narrativo desconexo e fragmentário. Ali, de repente, surgem diante do leitor da Sira, interrompendo o fluxo, longas listas com os nomes de todos os prisioneiros de guerra de Badr, de todos os cavalos utilizados pelo exército muçulmano em Badr, dos soldados muçulmanos entre os Ansar e os coraixitas que participaram da batalha de Badr, dos que foram martirizados e dos politeístas que foram mortos. Do mesmo modo, constituem obstáculos ao estudo da Sira pelo leitor os poemas recitados na batalha de Badr, os diálogos proferidos em exaltação da glória dos antepassados, os discursos em que se mencionam as genealogias, os longos discursos tecidos com o simples encanto das palavras e, embora relacionados ao tema, as interpretações do Alcorão apresentadas nas proximidades; na maior parte da obra da Sira, a cadeia de transmissores, isto é, o isnad, é mencionada segundo o método tradicional, cuja importância é reconhecida apenas pelos estudiosos críticos.

Por isso, empreendi, por meio deste compêndio resumido, apresentar ao leitor este extrato da Sira de forma agradável de ler, sem interromper a continuidade do estudo e revestido de uma apresentação renovada. Naturalmente, empenhei-me plenamente para que o conteúdo original da obra permanecesse inalterado, a fim de que o leitor pudesse citá-lo e tivesse segurança ao recolher informações autênticas da obra original. Não alterei sequer uma letra da obra original, pois sempre tive presente que é minha responsabilidade e meu dever apresentar fielmente as palavras do autor. Adotei e segui continuamente o método de citar corretamente as palavras de Ibn Hisham, mencionando, por isso, logo no início: “Ibn Hisham disse”. Fiz, conforme a necessidade e a finalidade da compilação, o que era preciso em cada lugar. Todo o restante é composto pelas palavras de Ibn Ishaq, transmitidas por Ibn Hisham. Não mencionei os nomes dos transmissores senão quando isso era necessário para estabelecer a declaração, embora na obra original Ibn Ishaq ou Ibn Hisham quase sempre mencionem seus nomes. Tive o cuidado de organizar sistematicamente todas as citações de Ibn Hisham e, quando necessário, expliquei e analisei algumas delas. Para isso, precisei apoiar-me nas narrativas dos estudiosos da Sira, bem como em confiáveis livros de hadith e dicionários.

Para aqueles que foram privados da oportunidade de estudar a obra original, este compêndio resumido constitui uma maneira fácil de ler essa obra. Assim, pode-se estabelecer uma ligação adequada entre a juventude atual e sua antiga e nobre herança.

Os leitores podem concluir a leitura desta obra em apenas alguns dias e, por meio dela, adquirir rapidamente conhecimentos valiosos e benéficos. Se, em vez disso, tivessem de ler a obra original, que atualmente está fora do alcance da maioria dos leitores, levariam muitos meses para fazê-lo.

Rogo a Allah que, por meio desta obra, beneficie a sociedade. Se este meu pequeno e insignificante esforço no campo do conhecimento for bem-sucedido, considerar-me-ei realizado. A satisfação de Allah e de Seu Mensageiro é o único objetivo deste meu esforço.

Abdussalam Harun

Misr al-Jadidah

Meados do Ramadã

1374 da Hégira

Genealogia ascendente de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, até Adão, que a paz esteja sobre ele

Abu Muhammad Abd al-Malik ibn Hisham diz:

Esta obra trata da vida do Mensageiro de Allah, o nobre Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Sua genealogia ascendente é a seguinte:

Seu pai, Abdullah; seu avô paterno, Abd al-Muttalib (cujo nome verdadeiro era Shayba); seu bisavô paterno, Hashim (cujo nome verdadeiro era Amr); seu trisavô paterno, Abd Manaf (cujo nome verdadeiro era al-Mughira); seu tetravô paterno, Qusayy (cujo nome verdadeiro era Zayd); seu pai, Kilab; seu pai, Murra; seu pai, Kaab; seu pai, Luayy; seu pai, Ghalib; seu pai, Fihr; seu pai, Malik; seu pai, al-Nadr; seu pai, Kinana; seu pai, Khuzayma; seu pai, Mudrika (cujo nome verdadeiro era Amir); seu pai, Ilyas; seu pai, Mudar; seu pai, Nizar; seu pai, Maad; seu pai, Adnan; seu pai, Udd; seu pai, Muqawwam; seu pai, Nahur; seu pai, Hita Taira; seu pai, Yarub; seu pai, Yashjub; seu pai, Nabit; seu pai, Ismael (que a paz esteja sobre ele); seu pai, Abraão (que a paz esteja sobre ele); seu pai, Tarah (também chamado Azar); seu pai, Nahur; seu pai, Sarigh; seu pai, Raw; seu pai, Falekh; seu pai, Ubayr; seu pai, Shalekh; seu pai, Arfakhshad; seu pai, Sam; seu pai, Noé (que a paz esteja sobre ele); seu pai, Lameque; seu pai, Matusalém; seu pai, Enoque (segundo os historiadores, ele era o profeta Idris, que a paz esteja sobre ele); seu pai, Jared; seu pai, Maalalel; seu pai, Cainã; seu pai, Enos; seu pai, Sete; seu pai, Adão, que a paz esteja sobre ele.

Ibn Hisham diz:

“Se Allah quiser, começarei esta obra com o relato de Ismael, filho do profeta Abraão. Em seguida, apresentarei, em ordem sucessiva, os antepassados de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que nasceram da descendência de Ismael, bem como os filhos nascidos desses antepassados. Assim, tratarei de todos os antepassados entre Ismael, que a paz esteja sobre ele, e Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e das histórias correntes a respeito deles. Contudo, não registrarei o relato dos filhos de Ismael que não são antepassados do profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a fim de manter esta obra concisa e limitada exclusivamente aos assuntos da sira. Do mesmo modo, com o objetivo de manter a obra concisa, omitirei alguns relatos de Ibn Ishaq que ele registrou nesta obra. Nesses relatos de Ibn Ishaq não há menção ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz; nada foi revelado no Alcorão a respeito deles; nem eles servem de ocasião, explicação ou prova para qualquer passagem desta obra. Também omiti alguns poemas mencionados por Ibn Ishaq que observei serem desconhecidos dos especialistas em poesia. Além disso, tive de excluir algumas afirmações de Ibn Ishaq que eram desagradáveis e provocavam descontentamento no público, bem como alguns assuntos que não eram apoiados por Bucari. Excetuadas essas coisas, mencionarei, se Allah quiser, integralmente todas as demais informações de Ibn Ishaq, na medida em que foram narradas e reconhecidas.”

Genealogia dos descendentes de Ismael, que a paz esteja sobre ele

De Ismael, que a paz esteja com ele, nasceram doze filhos homens. Eram eles: Nabet, Qaizar, Azral, Mish, Masma’, Mashi, Dam, Azar, Tim, Yatur, Nabash e Qaium.

De Nabet nasceu Yasjub; de Yasjub, Ya’rub; de Ya’rub, Udd; e de Udd nasceu Adnan.

A partir de Adnan, os descendentes de Ismael dividiram-se em tribos. Adnan teve dois filhos: Maad e Ak.

Ak ibn Adnan foi para o Iêmen, onde seus descendentes se estabeleceram permanentemente. Ak casou-se com uma mulher da tribo Banu Ash’ar, daquela região, e passou a viver com eles; assim, tanto seu país quanto sua língua se tornaram os mesmos. Os ancestrais da tribo Banu Ash’ar eram: Ash’ar, seu pai Nabat, cujo pai era Udd, cujo pai era Hamaisa, cujo pai era Amr, cujo pai era Uraib, cujo pai era Yashjub, cujo pai era Zaid, cujo pai era Kahlan, cujo pai era Yashzub, cujo pai era Yarub e cujo pai era Qahtan.

Maad, o outro filho de Adnan, teve quatro filhos: Nizar, Quda’a, Kanas e Iyad. Os descendentes de Qudair tiveram a sorte de sobreviver até Himyar ibn Saba. Contudo, segundo os especialistas em genealogia relacionados a Maad, os demais descendentes de Kanas ibn Maad foram extintos. Entretanto, o rei de Hira, Nu’man ibn Mundhir, era descendente deles.

O sonho de Rabi’a ibn Nasr

Entre os reis, Rabi’a ibn Nasr, do Iêmen, era um rei fraco e subjugado. Certa vez, ele teve um sonho terrível e ficou profundamente apavorado. Reuniu todos os adivinhos, mágicos e ā’if que havia em seu reino. Naquela época, os ā’if eram um tipo de adivinho que fazia previsões por meio dos gritos, dos movimentos e de outras manifestações das aves; por isso eram chamados ā’if.

e astrólogos que havia, e disse-lhes: “Tive um sonho que me deixou muito assustado. Digam-me o que sonhei e qual é a sua interpretação.” Os astrólogos reunidos responderam: “Descreva-nos o sonho, e nós lhe diremos sua interpretação.” O rei disse: “Se eu lhes contar o sonho, não encontrarei conforto nem tranquilidade na interpretação de vocês. Pois somente aquele que for capaz de falar sobre o sonho antes que eu o conte será capaz de interpretar ou explicar o significado deste sonho.” Um dos astrólogos disse: “Majestade, se deseja conhecer a interpretação do sonho dessa maneira, mande chamar Satih e Shaqq, pois ninguém é mais competente do que eles. Somente eles poderão dizer-lhe o que deseja saber.”

O rei mandou chamar os dois adivinhos. Primeiro, Sateeh compareceu à corte do rei. O rei disse-lhe: “Tive um sonho que me deixou terrivelmente assustado. Diga-me o que sonhei. Se conseguir relatar corretamente o sonho, também poderá interpretá-lo corretamente.”

Sateeh disse: “Muito bem, farei isso. O senhor sonhou que, de dentro da escuridão, surgiu um pedaço de fogo, desceu até as terras baixas e devorou todas as criaturas que ali se encontravam.”

O rei disse: “Bravo! Você relatou o sonho com exatidão. Agora diga-me qual é o seu significado.”

Ele disse: “Juro por todas as serpentes que habitam as duas terras rochosas: os abissínios entrarão em seu território e tomarão todo o Iêmen.” O rei disse: “Ó Sateeh, isso é extremamente doloroso e enfurecedor.”

Quando isso acontecerá? Durante o meu reinado ou depois dele?”

Ele disse: “Algum tempo depois do seu reinado; terão transcorrido mais de sessenta ou setenta anos.” O rei perguntou: “Este território permanecerá para sempre sob o domínio deles, ou sua ocupação será encerrada?” Ele disse: “Depois de transcorridos pouco mais de setenta anos, seu domínio chegará ao fim. Então serão mortos ou fugirão.” O rei perguntou novamente: “Quem os matará ou expulsará?” Sateeh disse: “Eles serão mortos ou expulsos pelas mãos de Irã ibne Dhu Yazan. Ele surgirá de Áden e não deixará sequer um deles no Iêmen.”

O rei disse: “O domínio de Irã será permanente ou temporário?”

Sateeh disse: “O domínio deles será temporário.”

O rei perguntou: “Pelas mãos de quem o poder chegará ao fim?”

Satieh respondeu: “Pelas mãos de um profeta puro e imaculado. Ele receberá revelação do mundo superior.”

O rei perguntou: “De que linhagem ele descenderá?”

Satieh respondeu: “Ele surgirá da linhagem de Ghalib, filho de Fihir, filho de Malik, filho de Nadar. O poder permanecerá nas mãos de seu povo até o momento do fim do universo.”

O rei perguntou: “Então o universo também terá um fim?”

Ele respondeu: “Sim, no dia em que os primeiros e os últimos seres humanos da Terra forem reunidos. Os que praticarem boas ações serão felizes, e os que praticarem más ações sofrerão.”

O rei perguntou: “A tua profecia é verdadeira?”

Ele respondeu: “Sim, juro pela escuridão da noite e pela luz da alvorada, juro pela alvorada bem ordenada: tudo o que disse é inteiramente verdadeiro.”

Depois, Shek chegou à corte do rei. O rei disse-lhe tudo o que havia dito a Satiḥ. Contudo, não lhe revelou o que Satiḥ dissera, pois ocultou o assunto para verificar se os dois fariam profecias semelhantes ou diferentes.

Shek disse: “Vistes em sonho que, da escuridão, surgiu uma chama de fogo. Ela caiu entre uma montanha e um jardim e, em seguida, devorou todas as criaturas daquele lugar.”

O rei compreendeu que as declarações dos dois eram idênticas. A única diferença era que Satiḥ dissera que o fragmento descera numa planície, enquanto Shek dissera que ele descera entre uma montanha e um jardim. Então disse a Shek: “Disseste a verdade. Agora, dize-me qual é a interpretação disso.”

Ele disse: “Juro por todos os povos dos dois países cercados de montanhas que os sudaneses invadirão o vosso país, e todas as pessoas fracas serão obrigadas a obedecer ao menor movimento dos seus dedos. Eles dominarão todo o território desde Abyan até ao monte Najran.”

O rei disse: “Isso é extremamente doloroso e enfurecedor. Quando acontecerá? Durante a minha vida ou muito depois?”

Ele disse: “Depois de passar bastante tempo após a vossa morte. Então, um homem poderoso vos salvará e expulsará os invasores, depois de os humilhar e desonrar terrivelmente.”

O rei disse: “Quem é esse homem poderoso?”

Ele disse: “Um jovem que não é insignificante nem de caráter vil. Ele surgirá da Casa de Dhu Yazan. Não deixará que nenhum dos invasores permaneça no Iémen.”

O rei perguntou: «O governo desse homem será permanente ou temporário?»

Shek respondeu: «Com a chegada de um Mensageiro enviado, o seu governo chegará ao fim. Ele estabelecerá a verdade e a justiça, virá acompanhado dos piedosos e virtuosos, e o governo da sua comunidade continuará até o Dia da Ressurreição.»

O rei perguntou: «O que é o Dia da Ressurreição?»

Ele respondeu: «Será o dia em que os governantes serão julgados. Um chamamento virá do céu, e todos, vivos e mortos, o ouvirão. Em determinado momento, todas as pessoas serão reunidas. Nesse dia, haverá sucesso e bem-aventurança para os moderados.»

O rei perguntou: «É verdade o que disseste?»

Ele respondeu: «Sim. Juro pelo Senhor dos céus e da terra, e de tudo quanto há entre eles, plano ou elevado, que a profecia que vos anunciei é correta e indubitável.»

Rabi’a acreditou nas palavras desses dois adivinhos e enviou a sua família para o Iraque, fornecendo-lhes as provisões necessárias. Depois, enviou uma carta a Shapur ibn Khurzad, então imperador da Pérsia. Shapur providenciou para que eles se estabelecessem em Hira.

A conquista do reino do Iêmen e o ataque a Iasrib por Abu Karib Hassan ibn Tubban As’ad

Após a morte de Rabi‘a, todo o reino do Iêmen passou às mãos de Abu Karib Hassān ibn Tubba‘ As‘ad. Seu pai, Tubba‘ As‘ad, já vinha a Medina (Iasrib) pelo lado oriental e, desse modo, abriu habilmente o caminho para estabelecer sua própria autoridade sem incomodar os habitantes de Medina. Ali, nomeou um de seus filhos como representante. Porém, esse filho foi subitamente morto por um assassino. Depois disso, Tubba‘ voltou a Medina com o plano de destruí-la e exterminar seus habitantes. Então, um grupo de homens se reuniu sob a liderança de ‘Amr ibn Talla. Por fim, eles entraram em guerra contra ele. Esse grupo aparentava lutar contra ele durante o dia e oferecer-lhe hospitalidade à noite. Admirado com esse comportamento, Tubba‘ disse: “Que maravilha! Esse povo é realmente educado e nobre.” Assim, a guerra continuou. Certo dia, nessas circunstâncias, dois eruditos judeus, tendo tomado conhecimento de sua intenção de destruir Medina e seus habitantes, foram até ele. Disseram-lhe: “Ó rei, não faça isso. Mesmo que insista, um obstáculo irresistível surgirá diante de você, e assim não poderá realizar o que deseja. Além disso, em breve sofrerá um castigo.” O rei perguntou: “Por que razão sofrerei um castigo?” Eles responderam: “Medina é o refúgio do Profeta do fim dos tempos. Ele será expulso do Lugar Sagrado pelos coraixitas e virá morar aqui.”

Ao ouvir isso, o rei desistiu. Pensou que aqueles dois homens eram verdadeiramente sábios. O rei ficou impressionado com suas palavras. Abandonou Medina e adotou a religião daqueles dois eruditos.

Tubba‘, isto é, Tubba‘ As‘ad, e os membros de sua tribo eram politeístas. Ele partiu em direção a Meca, seguindo pela estrada do Iêmen. Quando chegou entre os dois lugares chamados ‘Uthmān e Amāj, alguns homens da tribo de Hudhail ibn Mudārika disseram-lhe: “Ó rei, deseja encontrar uma casa desconhecida, repleta de riquezas preciosas, como diamantes, joias, esmeraldas e outras, da qual seus reis anteriores ignoravam a existência?” O rei respondeu: “Sim, certamente desejo encontrar uma casa assim.” Eles disseram: “Em Meca há uma casa. Os habitantes de Meca adoram nela e rezam junto a ela.”

Na realidade, os homens de Banu Hudhail haviam dado esse conselho com o objetivo de lançar Tubba‘ à destruição. Pois sabiam que todo rei que desejara apoderar-se da Caaba, e todo aquele que a atacara, havia sido destruído.

Tubba‘ pretendia agir conforme o conselho de Banu Hudhail. Porém, antes de fazê-lo, enviou mensageiros aos dois eruditos judeus para saber sua opinião. Os eruditos disseram: “A intenção de Banu Hudhail é destruir você e seus soldados. Não sabemos de nenhuma Casa de Deus na Terra da qual alguém, além de Deus, tenha podido se tornar proprietário. Se agir segundo o conselho que lhe deram, você e seus companheiros serão completamente destruídos. Isso é inevitável e incontornável.” O rei perguntou: “Então, quando eu me aproximar daquela casa, o que vocês acham que devo fazer?” Eles responderam: “Faça o mesmo que os habitantes de Meca fazem. Circunde a casa em tawaf, honre-a e reverencie-a. Enquanto permanecer junto a ela, raspe os cabelos da cabeça. Mantenha-se extremamente humilde até se afastar daquela casa.” O rei perguntou: “Por que vocês não fazem essas coisas?” Eles responderam: “Por Deus, ela é a casa construída por nosso pai Abraão. Tudo o que lhe dissemos sobre essa casa é verdade. Contudo, os habitantes de Meca bloquearam nosso caminho até ela, erguendo grande número de ídolos ao seu redor. Também nos impediram de ir até ela mantendo o derramamento de sangue junto à casa, embora isso seja proibido. Eles são politeístas e impuros.”

Tubba‘ aceitou o conselho dos dois eruditos judeus e o pôs em prática. Depois, foi até aqueles homens da tribo de Hudhail e cortou-lhes as mãos e os pés. Em seguida, foi a Meca, circundou a Caaba Sagrada, sacrificou animais junto a ela e cumpriu o sacrifício, além de raspar os cabelos. Assim, passou seis dias em Meca. Durante esses seis dias, sua principal ocupação foi oferecer animais em sacrifício, alimentar os habitantes de Meca e dar-lhes mel para beber. Em sonho, viu-se como se estivesse cobrindo a Caaba com um revestimento. Depois, cobriu a Caaba com um tecido espesso chamado khasf.

Ele voltou a sonhar que revestia a Caaba com um tecido ainda melhor. Então, mais tarde, cobriu a Caaba com um valioso tecido iemenita. Segundo os historiadores, esse Tubba‘, isto é, Tubba‘, foi a primeira pessoa a revestir a Caaba Sagrada e deixou aos membros da tribo de Jurhum, os responsáveis pela Caaba, a recomendação de que continuassem a revesti-la. Foi também o primeiro a ordenar que a Casa da Caaba fosse purificada — o que incluía livrá-la dos ídolos — e advertiu a todos que não derramassem sangue nas proximidades da Caaba, nem deixassem cadáveres ou pedaços de roupas sujas usadas por mulheres menstruadas. Ele providenciou a construção de uma porta para a Casa da Caaba e a instalação de fechadura e chave.

Depois, Tubba‘ deixou Meca e partiu em direção ao Iêmen, levando consigo seus soldados e os dois eruditos judeus. Ao chegar ao Iêmen, convidou seus habitantes a abandonar a idolatria e aceitar a religião que ele havia adotado. Os iemenitas declararam claramente que não abandonariam sua religião sem, conforme seu costume, pedir um julgamento ao fogo.

Os habitantes do Iêmen resolviam as disputas e contendas por meio do fogo. Esse fogo consumia o opressor, mas não causava dano ao oprimido. Certo dia, os habitantes do Iêmen foram e se sentaram no lugar de onde saía o fogo, levando consigo seus ídolos e os demais utensílios de seu culto, enquanto os dois sábios judeus levavam pendurados aos ombros seus Livros celestiais. O fogo saiu e, primeiro, começou a avançar na direção dos habitantes do Iêmen. Ao vê-lo, eles ficaram assustados e se afastaram do fogo. Os presentes os repreenderam e lhes disseram que permanecessem sentados em seus lugares com paciência. Assim que se sentaram pacientemente, o fogo os cercou e queimou, reduzindo a cinzas, os ídolos e os demais objetos religiosos. Também foram consumidos os poucos sacerdotes da tribo de Himyar que carregavam os objetos religiosos. Como resultado, a tribo de Himyar abraçou a religião de Tubban. Desde então, a religião judaica estabeleceu-se no Iêmen.

Depois de Tubban, seu filho Hassan ascendeu ao trono do Iêmen. Com todos os habitantes do Iêmen, iniciou uma campanha de conquista com a intenção de dominar todo o mundo árabe e não árabe. Quando chegaram ao território do Bahrein, as tribos de Himyar e as demais tribos iemenitas já não quiseram avançar mais com ele. Decidiram voltar para sua terra natal e para suas famílias. Expuseram essa intenção a Amr, um dos irmãos de Hassan que participava daquele exército, dizendo: “Mate seu irmão Hassan e volte conosco para nossa terra natal. Nós o aceitaremos como rei.” Quando Amr consultou os homens de seu exército, todos concordaram. Somente Dhu Ru’ayn al-Himyari se opôs e proibiu que se cometesse o assassinato. Mas Amr ignorou sua proibição. Então Dhu Ru’ayn recitou o seguinte poema,

“Atenção! Quem aceitará a insônia em troca de seu próprio sono?

Aquele que preserva sua vida feliz

é verdadeiramente afortunado. Mas

traiu Himyar. E para Dhu Ru’ayn restou uma justificativa reconhecida por Deus.”

Ele escreveu esse trecho do poema em um pedaço de papel e nele apôs seu selo. Depois, levou-o a Amr e disse: “Guarde consigo este bilhete que escrevi.” Amr guardou-o. Em seguida, matou seu irmão Hassan e retornou ao Iêmen com seus homens.

Depois que Amr ibn Tubban retornou, foi acometido por uma insônia terrível. Quando a doença se agravou, chamou adivinhos, astrólogos e videntes, com a ajuda de um pássaro oracular, e pediu sua opinião para descobrir o mistério de sua doença. Um deles disse: “Veja, assim como você matou seu irmão, sempre que alguém matou seu próprio irmão ou um parente consanguíneo, sofreu desse tipo de insônia.”

Assim que ouviu isso, Amr começou a matar todas as pessoas influentes do Iêmen que haviam aconselhado o assassinato de seu irmão Hassã. Depois de matá-las uma a uma, quando chegou a Zu-Ruain, este disse: “Você tem consigo a prova da minha inocência.” Amr perguntou: “Qual?” Zu-Ruain respondeu: “Um pedaço de papel escrito por mim, que lhe entreguei.” Então Amr tirou-o e viu que nele estavam escritos dois versos. Compreendeu que Zu-Ruain lhe havia dado um bom conselho. Por isso, não o matou.

Depois, Amr morreu. Após sua morte, surgiram anarquia e desordem no governo himiarita, e eles se dispersaram. Aproveitando-se dessa oportunidade, um terrível pecador de fora da família real, chamado Lakhnia Iassufe Zu-Xanatir, apoderou-se do governo. Ele matou os nobres e entregou-se a diversões com os membros da família real.

O maior pecado de Lakhnia era a homossexualidade. Certo dia, ele mandou chamar Zu’ra Zu-Nauás, irmão de Hassã e filho de Tubbã, com essa intenção. Quando Hassã foi morto, Zu’ra ainda era uma criança. Em pouco tempo, tornou-se um jovem de corpo bem constituído e inteligente. Quando o mensageiro de Lakhnia chegou até Zu’ra, ele compreendeu suas más intenções. Escondeu uma faca leve e afiada dentro do sapato, sob o pé, e foi até Lakhnia. Lakhnia chamou-o para um lugar reservado e avançou contra Zu’ra. Aproveitando a oportunidade, este o golpeou imediatamente e com força com a faca. Depois de matar Lakhnia, Zu’ra foi até o povo e começou a proclamar com orgulho o seu feito. Então o povo disse: “Você nos livrou das mãos desse miserável. Portanto, você é a pessoa mais digna de ser nosso governante.”

Com o apoio da tribo de Himyar e de todo o povo do Iêmen, Zu’ra Zu-Nauás estabeleceu sobre eles um reino poderoso e duradouro. Zu’ra foi o último imperador da dinastia himiarita e o protagonista do episódio de lançar pessoas na vala e queimá-las no fogo, mencionado na surata Al-Buruj do Alcorão.

Na província iemenita de Najran ainda vivia um grupo remanescente dos verdadeiros seguidores de Jesus, que a paz esteja com ele. Eram pessoas sábias, virtuosas e dotadas de grande firmeza. Seu líder era Abudallah ibne Samer. Zu-Nauás empreendeu uma campanha militar contra eles, convidou-os a aceitar o judaísmo e declarou claramente: “Ou se tornem judeus, ou preparem-se para morrer.” Assim, cavaram-se valas para eles. Por fim, foram cruelmente queimados vivos, e muitos foram mortos com espadas, tendo seus corpos mutilados. Desse modo, Zu-Nauás matou cerca de vinte mil pessoas.

Foi a respeito de Zu-Nauás e de suas tropas que Deus Altíssimo revelou uma revelação ao nobre Maomé, que a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele: “Malditos sejam os senhores da vala, do fogo ardente. Lembra-te de quando estavam sentados junto à vala, observando o massacre que perpetravam contra os crentes. A única razão de sua hostilidade contra os crentes era que eles haviam acreditado em Deus, o Poderosíssimo, o Digno de todo louvor.”

Diz-se que o imã e comandante desse grupo de crentes, mortos pelas mãos de Zu-Nauás, era o nobre Abdullah ibne Samer.

O Iêmen sob o domínio dos abissínios

Um dos crentes mortos na fogueira de Dhu Nuwas conseguiu, de algum modo, salvar-se e fugir. Esse homem, chamado Daws Dhu Suluban, da tribo de Saba, escapou habilmente da vala de fogo, montou em seu cavalo e partiu a toda velocidade pelo deserto, despistando os homens que perseguiam Dhu Nuwas. Depois de cavalgar sem parar, chegou à corte do imperador romano. Ele relatou em detalhes o horripilante massacre e a perseguição infligidos aos crentes de Najran por Dhu Nuwas, adepto do judaísmo, e por todo o seu exército, e pediu ao imperador romano auxílio militar contra o poder de Dhu Nuwas. O imperador disse: “O teu país fica muito distante daqui. Por isso, escreverei ao rei da Abissínia. Ele também professa a minha religião, e o seu país fica próximo do teu.” O imperador escreveu ao rei da Abissínia, ordenando-lhe não apenas que prestasse ajuda, mas também que tomasse vingança. Daws foi até o rei da Abissínia, o Najashi, levando a carta do imperador romano. O Najashi enviou com Daws, da Abissínia, um exército de setenta mil soldados. Um homem chamado Ariat foi nomeado comandante do exército. Como seu auxiliar, permaneceu no exército outro homem chamado Abraha al-Ashram.

Ariat desembarcou com seu exército na costa do Iêmen, vindo pelo mar. Daws Dhu Suluban também estava com ele. Ao receber a notícia, Dhu Nuwas, Himyar e as demais tribos iemenitas que o seguiam avançaram juntas para impedir as tropas de Ariat. Travou-se uma batalha feroz entre os dois lados. Por fim, Dhu Nuwas e seus homens foram derrotados. Ao ver aquela situação, Dhu Nuwas conduziu o cavalo em direção ao mar. O cavalo lançou-se às águas, e Dhu Nuwas encontrou a morte por afogamento. Assim chegaram ao fim Dhu Nuwas e o seu governo judaico. Ariat entrou no Iêmen e subiu ao trono.

O conflito entre Ariat e Abraha

Ariat continuou governando o Iêmen por muito tempo. Certa ocasião, Abraha entrou em conflito com ele. Sua reivindicação era que, como representante do Najashi, ele tinha mais direito de governar o Iêmen. Os soldados abissínios dividiram-se em dois grupos por causa dessa questão. Quando a guerra entre os dois grupos estava prestes a começar, Abraha enviou a Ariat uma mensagem, dizendo: “Se os abissínios entrarem em guerra uns contra os outros, eles próprios serão destruídos e, no fim, não haverá benefício algum. Portanto, venhamos nós dois a lutar em combate singular. Aquele que vencer entre nós dois terá a obediência de todo o exército.” Ariat aceitou a proposta e disse: “Sim, tens razão.” Travou-se então uma batalha feroz entre Ariat e Abraha. Abraha era relativamente mais religioso, corpulento e baixo, enquanto Ariat era alto, belo e de constituição imponente. Ele empunhava uma arma. Para proteger suas costas, Abraha colocou atrás de si um escravo chamado Atudah. Ariat golpeou a cabeça de Abraha com a espada, mas o golpe atingiu-lhe o rosto. Com isso, o nariz e a sobrancelha de Abraha foram cortados, e seus lábios e olhos ficaram feridos. Por essa razão, ele passou a ser chamado Abraha al-Ashram, ou seja, Abraha de nariz cortado. Então Atudah saiu de trás de Abraha, atacou Ariat e o matou. Depois disso, os soldados abissínios leais a Ariat juntaram-se ao grupo de Abraha, e Abraha continuou governando o Iêmen como representante consensual da Abissínia.

O acontecimento dos Companheiros do Elefante

Depois disso, Abraha construiu em Sana uma igreja chamada Qullays, para a qual não havia, no mundo de então, nenhuma construção igual ou semelhante. 7. Esta é a igreja histórica que Abraha construiu como alternativa à sagrada Caaba. Seu desejo era que os árabes adotassem essa igreja como centro do Hajj em vez da Caaba e transferissem para a área dessa igreja o Hajj realizado na Caaba.

Depois, escreveu ao Najashi: “Ó rei, construí para ti uma igreja sem igual na história. Não descansarei até transferir o Hajj dos árabes para a área desta igreja.” A notícia dessa carta de Abraha ao Najashi logo se espalhou entre os árabes. Eles ficaram furiosos. Na tribo de Banu Kinana havia um grupo que acreditava no processo de tornar lícito o mês em que o derramamento de sangue era proibido. 8. Esse grupo era chamado de Nasa’ah. Era difícil para os árabes observarem consecutivamente como meses sem derramamento de sangue os três meses de Dhu al-Qadah, Dhu al-Hijjah e Muharram. Eles viviam de assaltos, pilhagens e coisas semelhantes, praticados por meio de homicídios. Por isso, a observância consecutiva de três meses proibidos se tornara desagradável para eles. Assim, depois de concluir o Hajj, a pessoa envolvida saía de Mina, completava o restante do dia 8 e fazia diante do povo a seguinte proclamação: “Sou aquele que não tem qualquer mancha, cuja ameaça não recebe resposta e cuja decisão ninguém pode alterar.” Todos diziam em uníssono: “Certamente! Certamente!” Em seguida, todos diziam novamente: “Adiai para nós um mês proibido. Tornai lícito o mês de Muharram e, em seu lugar, considerai o mês de Safar como proibido.” Esse era o processo de Nasa, isto é, de adiar arbitrariamente o mês sagrado. Era um costume da época da ignorância e uma prática inteiramente anti-islâmica. — Tradutor

Um homem irascível dentre eles foi secretamente àquela igreja de Abraha, defecou nela e depois voltou para sua morada.

No devido tempo, o assunto chegou aos ouvidos de Abraha. Ele começou a perguntar às pessoas:

“Quem fez isto à Caaba?” As pessoas informaram: “Foi um árabe. Ele fazia parte dos peregrinos que realizam o hajj na Casa da Caaba, em Meca. Ao ouvir que o senhor pretendia transferir o hajj de Meca para cá, enfureceu-se e fez isso. Com isso, ele quer provar que esta igreja não pode substituir a Caaba e não é digna de ser um centro do hajj.”

Abraha ficou furioso. Jurou que, custasse o que custasse, destruiria a Caaba. Informou os habaxitas de sua intenção. Estes o ajudaram a preparar-se, fornecendo-lhe todo tipo de recursos e equipamentos. No devido tempo, ele partiu para atacar a Caaba à frente de um grupo de elefantes. Ao tomarem conhecimento do assunto, os árabes ficaram extremamente alarmados e aterrorizados. Ao saberem que Abraha pretendia destruir a Caaba, a Casa Sagrada de Deus, os árabes compreenderam que era seu dever absoluto fazer jihad contra os invasores.

Um nobre e influente cidadão do Iêmen, chamado Dhu Nafar, convocou todos os iemenitas e os demais árabes a lutar contra Abraha para proteger a Caaba Sagrada. Aqueles que atenderam ao seu chamado juntaram-se a ele, e Dhu Nafar combateu Abraha. Contudo, ele e seu exército foram derrotados, e Dhu Nafar foi feito prisioneiro. Depois disso, Abraha prosseguiu em direção ao objetivo que desejava alcançar. Ao chegar à região da tribo Khath’am, Nufail ibn Habib al-Khath’ami levantou-se contra Abraha, acompanhado pelas duas tribos khath’amitas, Shahran e Nahis, e por várias outras tribos árabes que compartilhavam sua posição. Nufail também foi derrotado e capturado com seus homens. Quando Abraha libertou Nufail, este passou a acompanhá-lo como guia. Quando Abraha avançava passando por Taife, Mas’ud ibn Mu’attib foi ao seu encontro, acompanhado por alguns homens da tribo Thaqif, e disse-lhe: “Ó rei, somos como escravos inteiramente obedientes. Não somos seus opositores. A casa contra a qual o senhor marcha não é nosso local de adoração. O senhor pretende atacar a casa de Meca. Pois bem, daremos um homem para acompanhá-lo como guia; ele lhe mostrará a Caaba.” Abraha ficou satisfeito com eles e tratou-os com bondade. Os habitantes de Taife enviaram com ele um homem chamado Abu Righal para mostrar-lhe o caminho de Meca. Quando Abraha e seus homens chegaram a um lugar chamado Mughammas, Abu Righal morreu. Mais tarde, os árabes costumavam atirar pedras sobre o túmulo de Abu Righal, e ainda hoje as pessoas atiram pedras sobre seu túmulo em Mughammas.

Enquanto Abraha fazia uma parada em Mughammas, enviou a Meca, montado a cavalo, um habaxita chamado Aswad ibn Maqsud para inspecionar a cidade. Aswad chegou a Meca e, ao retornar, capturou o gado dos coraixitas e de outras tribos que pastava nos campos do vale. Entre esses animais estavam duzentos camelos de Abd al-Muttalib ibn Hashim. Naquela época, ele era o homem mais nobre e o maior líder entre os coraixitas. Irritados com a captura do gado, os coraixitas, os Kinana e os Hudhayl daquela região quiseram entrar em guerra contra Abraha. Porém, ao reconhecerem sua própria incapacidade, abandonaram essa intenção.

Ao enviar Hunata al-Himyari a Meca, Abraha ordenou-lhe: “Primeiro, identifica o homem mais respeitado e o líder de Meca. Depois, diga-lhe que o rei não veio lutar contra eles; veio apenas destruir a Casa da Caaba. Se não se envolverem em qualquer guerra para nos impedir de fazê-lo, não desejamos derramar o sangue de vocês. Se ele não quiser lutar comigo, traga-o até mim.”

Hunata entrou em Meca e, após fazer perguntas, soube que o homem mais respeitado e o líder de Meca era Abd al-Muttalib ibn Hashim. Quando se apresentou a Abd al-Muttalib, transmitiu-lhe o que o rei lhe ordenara dizer. Abd al-Muttalib respondeu: “Por Deus, não queremos lutar contra ele, nem temos capacidade para isso. Esta é a Casa Sagrada de Deus. É Sua própria Casa e uma questão de Sua própria honra. Se Ele não a impedir, nada poderemos fazer.”

Então Hunata disse: “Venha comigo até o rei, pois ele me ordenou que o levasse consigo à sua presença.” Abd al-Muttalib partiu para junto de Abraha levando um de seus filhos. Assim que chegou às tropas de Abraha, perguntou por Dhu Nafar, que era seu amigo. Encontrou-se com Dhu Nafar, que estava prisioneiro, e disse-lhe: “Ó Dhu Nafar, você pode nos prestar alguma ajuda para remediar a calamidade que se abateu sobre nós?” Dhu Nafar respondeu: “Que ajuda pode prestar um prisioneiro real que conta os momentos, esperando que a qualquer instante seja morto? Na verdade, não tenho muito a fazer por vocês nesta aflição. Entretanto, há um mahout chamado Anis. Ele é meu amigo. Vou enviar-lhe uma mensagem. Informarei sobre sua elevada posição e seus direitos e pedirei que obtenha autorização para que você possa apresentar sua defesa ao rei. Pedirei também que, se possível, interceda em seu favor.” Abd al-Muttalib disse: “Isso será suficiente.” Então Dhu Nafar enviou a Anis a seguinte mensagem: “Escute! Abd al-Muttalib é o soberano incontestado dos coraixitas e o líder dos mercadores de Meca. É conhecido por fornecer alimento às pessoas nos vales e aos animais selvagens das montanhas. Entre os animais que caíram nas mãos do rei, duzentos camelos pertencem a este Abd al-Muttalib. Portanto, providencie um encontro dele com o rei e ajude-o tanto quanto puder.” Anis respondeu: “Está bem. Farei o possível.” Anis disse a Abraha: “Ó rei, o líder dos coraixitas está à sua presença e deseja encontrar-se com o senhor. Ele é o chefe dos mercadores de Meca. Assim como alimenta as pessoas nos vales, também é famoso por fornecer alimento aos animais selvagens no alto das montanhas. Por favor, permita que ele seja recebido e apresente suas reivindicações.” Abraha deu-lhe permissão.

Abdul-Muttalib era, naquela época, o homem mais belo, além de ser uma personalidade muito respeitada, eminente e digna. Abraha ficou fascinado e profundamente impressionado assim que o viu. Considerou Abdul-Muttalib tão honrado que, embora estivesse sentado num assento elevado, não pôde permitir que ele se sentasse abaixo de si. Por outro lado, também não queria que os abissínios o vissem sentado no mesmo trono real que o rei. Assim, Abraha desceu do próprio trono real, sentou-se num leito mais baixo e fez Abdul-Muttalib sentar-se ao seu lado. Em seguida, disse ao intérprete: “Peça-lhe que apresente o que tem a dizer.” O intérprete cumpriu a ordem. Abdul-Muttalib disse: “Peço que me sejam devolvidos os duzentos camelos que chegaram às mãos do rei.” Quando o intérprete comunicou isso a Abraha, este disse por seu intermédio: “Quando o vi pela primeira vez, fiquei profundamente impressionado, mas agora, depois de ouvir suas palavras, passei a sentir uma enorme aversão por você. É realmente muito surpreendente que esteja falando comigo para reivindicar os duzentos camelos que tenho em meu poder, embora saiba que viemos destruir a Caaba, o centro da religião sua e de seus antepassados, e não diga nada a esse respeito.” Abdul-Muttalib disse: “Sou apenas o dono dos camelos. A Casa da Caaba tem outro Dono; Ele mesmo protegerá a Sua Casa.” Abraha disse: “Ele não poderá impedir que esta Casa seja atingida pelo meu ataque.” Abdul-Muttalib respondeu: “Isso é uma questão entre você e o Dono da Casa da Caaba.”

Abraha devolveu os camelos de Abdul-Muttalib. Abdul-Muttalib foi até os coraixitas e informou-lhes de tudo. Ordenou-lhes que saíssem de Meca e se refugiassem nas cavernas ocultas das montanhas próximas, para se protegerem da possível violência dos soldados de Abraha. Depois, o próprio Abdul-Muttalib, acompanhado por um grupo de coraixitas, agarrou-se à soleira da porta da Caaba e permaneceu ali, suplicando a Allah que o ajudasse a protegê-los do ataque de Abraha e de suas tropas. Segurando a soleira da Caaba, Abdul-Muttalib começou a dizer:

“Ó Allah, até mesmo um servo protege os seus e o seu grupo. Portanto, protege os Teus servos obedientes. Não permitas que a força das cruzes deles prevaleça sobre o Teu poder. Se decidiste deixar a nossa qibla à mercê deles, então faze o que quiseres!”

Depois disso, Abdul-Muttalib deixou a soleira da porta da Caaba, e ele e seus companheiros coraixitas refugiaram-se nas cavernas das montanhas. Dali, começaram a observar o que Abraha faria ao entrar em Meca.

Na madrugada do dia seguinte, Abraha começou a preparar-se para entrar em Meca. Organizou suas tropas de elefantes e seu exército. O nome de seu elefante era Mahmud. A intenção de Abraha era destruir primeiro a Caaba e depois retornar ao Iêmen. Quando conduziu o exército de elefantes em direção a Meca, Nufayl ibn Habib avançou e ficou ao lado do elefante de Abraha. Então segurou sua orelha e disse: “Ajoelha-te. Caso contrário, volta em paz para o lugar de onde vieste. Sabe que estás na Cidade Sagrada de Allah.” Assim que soltou a orelha, o elefante ajoelhou-se. Nufayl espancou-o cruelmente e, com muita dificuldade, conseguiu fazê-lo subir a montanha. Depois, mesmo tendo sido muito espancado, não foi possível fazê-lo levantar-se. Então introduziram uma vara retorcida em sua tromba e a fizeram sangrar, para que o elefante se levantasse. Ainda assim, ele não se levantou. Quando o conduziram para iniciar o retorno na direção do Iêmen, correndo para trás, ele começou imediatamente a correr. Mesmo quando o conduziram na direção da Síria, avançou a passos largos. Porém, assim que o conduziram na direção de Meca, ajoelhou-se. Foi então que Allah enviou, do lado do mar, um tipo de pássaro negro. Cada pássaro levava três pequenas pedras: uma no bico e duas nas patas. As pedras eram semelhantes a ervilhas e grão-de-bico. Sobre quem quer que caíssem, essa pessoa começava a morrer imediatamente. Mas elas não atingiram todos. Muitos fugiram e começaram a retornar na direção de onde tinham vindo. As pessoas começaram a cair e morrer em vários pontos da estrada. Quando uma pedra atingiu Abraha, ele morreu imediatamente. Ibn Ishaq diz:

Depois de Allah, o Altíssimo, enviar Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, como profeta, Ele mencionou este acontecimento como uma graça e um favor especial concedido aos coraixitas. Pois, por meio dele, salvou-os do perigo da submissão aos abissínios, para que sua própria tradição permanecesse intacta. Allah diz na Surata do Elefante:

[Árabe ***********]

“Não viste como o teu Senhor tratou os homens do elefante? Não frustrou Ele os seus planos? Enviou contra eles bandos de pássaros, que lhes lançavam pedras de argila endurecida, e assim os transformou em algo semelhante a palha mastigada ou erva.”

Descendentes de Nizar ibn Ma’ad

Nizar ibn Ma’ad teve três filhos: Mudar, Rabi’a e Anmar. (10. Ibn Hisham mencionou Iyad como o quarto filho.)

Os dois filhos de Mudar: Ilyas e Aylan

Os três filhos de Ilyas: Mudraka, Tabikha e Qama’a

Os dois filhos de Mudraka: Khuzayma e Hudhayl

Os quatro filhos de Khuzayma: Kinana, Asad, Isdah e al-Hawn

Os quatro filhos de Kinana: Nadar11, Malik, Abd Manah e Milkan

Os dois filhos de Nadar: Malik e Yakhlud

Um filho de Malik: Fihr

Os quatro filhos de Fihr: Ghalib, Muharib, Harith e Asad

Os dois filhos de Ghalib: Lu’ayy e Taym

Os quatro filhos de Lu’ayy: Ka’b, Amir, Usamah e Awf

Os três filhos de Ka’b: Murrah, Adi e Hushays

Os três filhos de Murrah: Kilab, Taym e Yaqazah

Os dois filhos de Kilab: Qusayy e Zuhrah

Os quatro filhos de Qusayy: Abd Manaf, Abd al-Dar, Abd al-Uzza e Abd Qusayy

Os quatro filhos de Abd Manāf: Hashim, Abd Shams, al-Muttalib e Nawfal

Os descendentes de Abdul Muttalib ibn Hashim

Ibn Hisham disse:

“Abdul Muttalib ibn Hashim teve dez filhos e seis filhas. Seus filhos eram: al-Abbas, Hamza, Abdullah, Abu Talib, Zubair e Harith,

11. Segundo Ibn Hisham, o outro nome de Nadar era Quraysh. Somente seus descendentes são conhecidos como coraixitas. Ninguém que não seja descendente dele pode ser chamado de coraixita. Outros dizem que o nome de Fihir ibn Malik era Quraysh.

Hajla, Muqawim, Dira e Abu Lahab (cujo nome verdadeiro era Abdul Uzza). Suas filhas eram: Safiyya, Umm Hakim al-Bayda, Atika, Umayma, Arwa e Barra.”

Os pais do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz

Da união de Abdullah, filho de Abdul Muttalib, com Amina, filha de Wahab, nasceu Muhammad ibn Abdullah ibn Abdul Muttalib, o mais nobre dos descendentes de Adão (que a paz esteja sobre ele). Que Allah faça descer sobre sua família e seus parentes paz, misericórdia e bênçãos sem fim.

Sua linhagem pelo lado materno é a seguinte:

Aminah bint Wahb ibn Abd Manaf ibn Zuhrah ibn Kilab ibn Murrah ibn Ka’b ibn Lu’ayy ibn Ghalib ibn Fihr ibn Nadr. A mãe de Aminah era Barrah bint Abd al-Uzza ibn Uthman ibn Abd al-Dar ibn Qusayy ibn Kilab ibn Murrah ibn Lu’ayy ibn Ghalib ibn Fihr ibn Malik ibn Nadr.

Assim, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, era o mais nobre, o mais excelente, o mais elevado e o mais ilustre entre os descendentes de Adão, tanto pelo lado paterno quanto pelo materno.

A escavação do poço de Zamzam e a controvérsia que surgiu a esse respeito

Certo dia, enquanto Abd al-Muttalib dormia no Hatim da sagrada Caaba, recebeu em sonho a ordem de escavar o poço de Zamzam. O próprio relato de Abd al-Muttalib sobre isso é o seguinte: Eu estava dormindo no Hatim. Nesse momento, apareceu um visitante desconhecido e disse-me: “Escava o poço sagrado.” Perguntei: “Qual poço sagrado?” O visitante desapareceu sem responder. No dia seguinte, fui dormir em meu quarto. Também naquela noite o mesmo visitante veio e disse: “Escava o poço preservado.” Perguntei: “Qual poço preservado?” O visitante desapareceu sem responder. No dia seguinte, fui dormir no mesmo lugar. O visitante apareceu novamente e disse: “Escava Zamzam.” Eu disse: “O que é Zamzam?” Ele respondeu: “É o poço cuja água nunca diminui nem seca, que poderá fornecer água para o maior número de peregrinos, situado perto do ninho de um corvo de asas brancas, entre esterco e sangue.” [12. Isto é, a parte da base da Caaba que havia sido assentada pelo Profeta Abraão, que a paz esteja sobre ele. Entretanto, os coraixitas não construíram mais nada sobre ela.] [13. Conta-se que, quando Abd al-Muttalib se preparou para escavar o poço, viu no local que lhe fora indicado um formigueiro e uma cova de corvo. Porém, não viu esterco nem sangue e ficou indeciso. Nesse momento, de repente, viu uma vaca correndo para aquele lugar. Um homem havia se preparado para abatê-la, mas ela fugiu correndo. O homem correu atrás dela, mas não conseguiu alcançá-la. Por fim, a vaca entrou nos limites da Mesquita Sagrada. Quando chegou ao local indicado e parou, o homem a abateu ali mesmo. Assim, o sangue e o esterco da vaca apareceram. Toda a questão ficou clara para Abd al-Muttalib, e ele começou a escavar exatamente naquele lugar.]

Quando o visitante esclareceu para ele as características do poço de Zamzam, o local foi identificado e não restou qualquer dúvida quanto à veracidade do sonho, na manhã seguinte ele foi até lá com uma pá, acompanhado de seu filho al-Harith. Naquela época, ele ainda não tinha outro filho além de al-Harith. A escavação do poço de Zamzam [Convém mencionar que, na realidade, Abd al-Muttalib reescavou o poço de Zamzam. Esse poço surgiu pela primeira vez em 1910 a.C., no ano do nascimento do Profeta Ismael. De acordo com o calendário hijri, ele surgiu 2.572 anos antes do nascimento do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele. Mais tarde, em determinado momento, o poço secou e ficou soterrado. Por fim, nenhum vestígio dele permaneceu. Ninguém conseguiu encontrá-lo até que Abd al-Muttalib o reescavou. (A história de Meca, pp. 22, 23 e 24)] prosseguiu. Quando Abd al-Muttalib viu a pedra de onde o poço brotava, gritou, tomado de alegria: “Allahu Akbar!” Ao ouvirem esse grito, os coraixitas compreenderam que Abd al-Muttalib havia encontrado aquilo que procurava. Todos foram até ele e disseram: “Ó Abd al-Muttalib, este é o poço de nosso pai Ismael. Nós também temos direito a ele. Concede-nos uma parte deste poço!” Abd al-Muttalib respondeu: “Não posso fazer isso. Esta coisa foi concedida somente a mim, não a vocês.” Eles disseram: “Julga entre nós com justiça; caso contrário, não o deixaremos até que cheguemos a um acordo definitivo.” Abd al-Muttalib disse: “Está bem. Então escolhei quem quiserdes como árbitro para resolver esta disputa entre vós e mim. Estou pronto para aceitar sua decisão.” Eles disseram: “Na tribo de Banu Sa’d há uma adivinha chamada Khuzaym. Ela será nossa árbitra.” Abd al-Muttalib partiu para lá acompanhado de alguns homens da tribo de Banu Abd Manaf. Um homem de cada tribo dos coraixitas foi com ele. Todo o trajeto passava por uma região desértica. Assim que chegaram a um deserto entre o Hijaz e a Síria, a água de Abd al-Muttalib e de seus companheiros acabou. A sede os deixou em uma situação tão deplorável que já não restava qualquer esperança de sobrevivência. Quando pediram água potável às tribos coraixitas que os acompanhavam, elas se recusaram a dá-la. Disseram: “Também estamos no deserto. Tememos que nossa situação se torne igual à vossa.”

Abd al-Muttalib, profundamente afligido pelo comportamento cruel dos coraixitas e pensando no possível destino deplorável que os aguardava, perguntou aos companheiros de viagem: “O que achais que devemos fazer agora?” Eles responderam em uníssono: “Agiremos somente de acordo com a vossa opinião. Dai-nos a instrução que julgardes melhor.” Ele disse: “Creio que, usando a pouca força que ainda temos, cada um de nós deve cavar a própria sepultura e deixá-la pronta. Depois, quando um de nós morrer, os que permanecerem vivos o colocarão naquela sepultura e a cobrirão de terra. No fim, restará apenas uma pessoa. É melhor que seja destruído o corpo de apenas um homem do que os corpos de toda a caravana.” Todos elogiaram unanimemente a decisão de Abd al-Muttalib e cavaram as próprias sepulturas. Depois, sentaram-se e começaram a contar os momentos, aguardando a morte inevitável causada pela sede. Após algum tempo, Abd al-Muttalib disse a seus companheiros: “Juro por Allah que é extrema covardia ficarmos sentados, completamente inertes, entregando-nos impotentes à morte sem ir a lugar algum nem procurar qualquer meio de salvar a vida. Pode ser que Allah providencie água para nós em algum lugar. Portanto, vamos partir.” Os preparativos para a viagem foram concluídos. Os demais coraixitas que viajavam com eles — os mesmos que haviam se recusado a dar-lhes água — vinham observando todas as suas ações. Abd al-Muttalib montou em sua montaria. Assim que ela começou a andar, uma fonte de água potável brotou debaixo de seus cascos. Ao ver isso, Abd al-Muttalib e seus companheiros exclamaram: “Allahu Akbar!” Então Abd al-Muttalib e seus companheiros desceram da montaria, beberam água e encheram seus odres. Em seguida, Abd al-Muttalib chamou os coraixitas e disse: “Vinde! Allah nos deu água. Bebei também e enchei vossos odres.” Eles vieram, beberam e encheram seus odres. Depois disseram: “Ó Abd al-Muttalib, juro por Allah que tua superioridade sobre nós foi definitivamente estabelecida. Nunca mais discutiremos contigo a respeito de Zamzam. Compreendemos que Aquele que hoje te deu água neste deserto é o mesmo que te concedeu a água de Zamzam. Portanto, dedica-te novamente, sem hesitação, à tua nobre tarefa de fornecer água aos peregrinos.”

Abdul Muttalib voltou, e todos os demais membros daquela caravana também voltaram. Ninguém foi ter com a adivinha, e todos impediram Abdul Muttalib de ir até ela.

O voto de Abdul Muttalib de sacrificar seu filho

Quando escavava o poço de Zamzam e enfrentava a oposição dos coraixitas, Abdul Muttalib fez um voto: se tivesse dez filhos, e eles atingissem a idade adulta durante sua vida e fossem capazes de cuidar dele, sacrificaria um deles em nome de Allah, junto à Caaba. Assim, quando o número de seus filhos chegou a dez e ele percebeu que eles poderiam protegê-lo, chamou-os e reuniu-os, informando-lhes sobre seu voto. Em seguida, pediu-lhes que cumprissem aquele voto. Todos os filhos concordaram e perguntaram: “O que devemos fazer?” Ele respondeu: “Cada um de vocês pegará uma flecha, escreverá nela o próprio nome e virá até mim.” Todos fizeram isso e voltaram para junto dele. Abdul Muttalib foi com eles até o ídolo chamado Hubal. Naquele tempo, Hubal ficava junto a uma cavidade no centro da Caaba. Era nessa cavidade que se reunia tudo o que era oferecido em nome da Caaba.

Junto a Hubal havia sete flechas. Em cada uma delas estava gravada uma palavra. Numa delas estava gravado: “dinheiro de sangue”. Quando surgia entre eles uma divergência sobre quem deveria pagar o dinheiro de sangue — isto é, quem era o meu assassino —, as sete flechas eram sorteadas. Se saísse a flecha com a inscrição “dinheiro de sangue”, aquele cujo nome saísse teria de pagar o dinheiro de sangue. Numa flecha estava escrito “sim”. Quando alguém pretendia realizar alguma ação, as flechas eram sorteadas da mesma maneira. Se saísse a flecha com “sim”, a ação desejada era realizada. Em outra flecha estava escrito “não”. Quando pretendiam realizar qualquer ação, as flechas eram sorteadas; se saísse a flecha com “não”, eles não realizavam mais aquela ação. Numa outra flecha estava escrito “dos vossos” ou “de entre vós”; em outra, “ligado”; em outra, “fora de vós”; e em outra, “água”. Quando queriam escavar um poço, sorteavam uma dessas flechas, entre as quais também estava incluída essa, e agiam de acordo com o resultado obtido.

Naquela época, sempre que os árabes queriam circuncidar um menino, casar uma filha, sepultar um morto ou, ao duvidarem da legitimidade do nascimento de uma criança, levavam-na perante o ídolo chamado Hubal, juntamente com cem dirrãs e um camelo para o sacrifício. Entregavam o dinheiro e o camelo ao responsável por sortear as flechas. Depois, apresentavam perante o ídolo a pessoa sobre cujo caso desejavam uma decisão e diziam: “Ó nosso deus, este é fulano, filho de fulano. Viemos pedir-te uma decisão sobre determinada questão a respeito dele. Portanto, informa-nos qual é a decisão correta sobre o seu caso.” Em seguida, pediam ao responsável pelo sorteio que lançasse as flechas. Se saísse a flecha com a inscrição “dos vossos”, entendiam que a criança em questão era legítima; se saísse “fora de vós”, consideravam aquela criança sua aliada. Se saísse “ligado”, ela permaneceria entre eles naquela condição, e sua linhagem ou aliança continuaria sem definição. Se, a respeito de qualquer outra ação desejada, saísse a flecha com “sim”, realizavam imediatamente essa ação. Porém, se saísse “não”, adiavam-na por aquele ano. No ano seguinte, pediam novamente uma decisão sobre a mesma ação, pelo mesmo método. Assim, a decisão das flechas era a decisão final em todos os assuntos deles.

Abdul Muttalib disse ao responsável pelo sorteio das flechas: “Sorteie as flechas para estes meus filhos.” E informou-o também sobre seu voto. Naquele tempo, Abdullah era o filho mais novo de Abdul Muttalib. [Mais tarde, Hamza e Abbas (que Allah esteja satisfeito com eles), nascidos posteriormente, também seriam mais jovens que Abdullah.] Ele era o filho mais amado de Abdul Muttalib. Por isso, este observava ansiosamente para ver se a flecha passaria ao largo de Abdullah. Se passasse ao largo, Abdullah seria poupado. Quando o homem encarregado do sorteio se preparou para lançar a flecha, Abdul Muttalib ficou de pé junto ao deus Hubal e começou a invocar Allah. Depois que a flecha foi lançada, viu-se que saíra o nome de Abdullah. Então Abdul Muttalib foi até os ídolos Isaf e Na’ila, levando Abdullah numa mão e uma grande faca na outra, com a intenção de degolá-lo. Os chefes coraixitas, que estavam reunidos, levantaram-se, foram até ele e perguntaram: “Ó Abdul Muttalib, o que está acontecendo?” Ele respondeu: “Vou degolar este meu filho.” Então os coraixitas e seus filhos exclamaram em uníssono: “Não o degole de maneira alguma sem uma razão válida. Se você degolar seu filho dessa forma, isso continuará até o fim dos tempos. As pessoas continuarão trazendo seus próprios filhos para sacrificá-los, e a raça humana desaparecerá pouco a pouco.” Um homem chamado Mughira ibn Abdullah ibn Umar ibn Makhzum, pertencente à tribo dos tios maternos de Abdullah, disse: “Não empreenda tal ato a menos que esteja absolutamente sem alternativa. Se pudermos libertá-lo pagando um resgate, estamos dispostos a pagá-lo.” Por outro lado, os coraixitas e os filhos de Abdul Muttalib disseram: “Não o degole. Leve-o ao Hijaz. Lá há uma mulher adivinha que tem um jinn a seu serviço. Pergunte-lhe e descubra se isso deve ser feito. Depois disso, não o impediremos. Você será livre para fazer o que quiser. Se a mulher mandar degolá-lo, degole-o; se indicar outra solução, aceite-a.” Abdul Muttalib e seus companheiros aceitaram o conselho dos coraixitas e partiram em direção ao Hijaz. Chegaram a Medina e encontraram aquela mulher em Khaybar. Abdul Muttalib contou-lhe detalhadamente tudo sobre ele e seu filho. A mulher disse: “Partam hoje. Deixem que meu jinn, a meu serviço, venha; então obterei dele a informação.” Todos se despediram da mulher e retornaram. Assim que saiu, após despedir-se, Abdul Muttalib suplicou a Allah. Na manhã seguinte, todos se reuniram novamente junto à mulher. Ela disse: “Já obtive as informações necessárias. Qual é o valor do resgate estabelecido em sua sociedade?” Eles responderam: “Dez camelos.” A mulher disse: “Voltem ao seu país. Depois, apresentem a pessoa em questão diante do ídolo e ofereçam dez camelos em sacrifício. Em seguida, lancem as flechas para decidir o destino dos camelos e da pessoa em questão. Se a flecha sair contra o nome do homem de vocês, acrescentem mais camelos, até que o seu senhor fique satisfeito. Mas, se sair a favor dos camelos, saberão que o seu senhor está satisfeito e que o homem de vocês foi libertado.”

Depois, todos partiram para Meca. Quando, conforme as instruções da mulher, chegaram ao ídolo e se prepararam para cumprir o dever, Abd al-Muttalib permaneceu de pé, suplicando a Allah. Em seguida, apresentaram devidamente Abdullah e, junto com ele, dez camelos. Abd al-Muttalib ficou diante de Hubal, suplicando a Allah. Então as flechas foram sorteadas. Quando saiu a flecha com o nome de Abdullah, acrescentaram mais dez camelos, elevando o número para vinte. Abd al-Muttalib voltou a suplicar a Allah. As flechas foram sorteadas novamente, e mais uma vez saiu a flecha com o nome de Abdullah. Acrescentaram, então, mais dez camelos, elevando o número para trinta, enquanto Abd al-Muttalib continuava a suplicar a Allah. Novamente foram sorteadas as flechas, e saiu a de Abdullah. Acrescentaram mais dez camelos, chegando a quarenta, e Abd al-Muttalib suplicou a Allah. Quando as flechas foram sorteadas outra vez, saiu novamente a de Abdullah. Acrescentaram mais dez camelos, chegando a cinquenta, e Abd al-Muttalib suplicou a Allah. As flechas foram sorteadas novamente, e saiu a de Abdullah. Depois de acrescentarem mais dez camelos, chegando a sessenta, sortearam as flechas da mesma maneira, e ainda assim saiu o nome de Abdullah. Acrescentaram mais dez camelos, chegando a setenta, e, sorteando as flechas segundo o mesmo procedimento, novamente saiu o nome de Abdullah. Em seguida, acrescentaram mais dez camelos, chegando a oitenta, e mais uma vez saiu o nome de Abdullah. Depois acrescentaram outros dez, chegando a noventa, e novamente saiu a flecha com o nome de Abdullah. Finalmente, acrescentaram mais dez camelos, chegando a cem. Abd al-Muttalib suplicou a Allah da mesma maneira e pediu que sorteassem as flechas; desta vez, saiu a flecha dos camelos. Os coraixitas reunidos e todos os demais exclamaram: “Ó Abd al-Muttalib, o teu Senhor está agora plenamente satisfeito!”

Segundo muitos relatos, Abd al-Muttalib disse então: “Não cessarei enquanto não sortear as flechas mais três vezes.” Assim, foram sorteadas as flechas em nome de Abdullah e dos camelos, enquanto Abd al-Muttalib permanecia de pé, suplicando. A flecha saiu em nome dos camelos. Do mesmo modo, na segunda e na terceira vez, a flecha saiu em nome dos camelos. Por fim, aqueles cem camelos foram sacrificados e, depois do sacrifício, os animais foram deixados de tal maneira que ninguém era impedido ou mandado embora ao se aproximar deles.

Relatos dos acontecimentos ocorridos enquanto o Profeta estava no ventre de Âmina

Segundo a tradição corrente, a mãe do Mensageiro de Allah, Âmina bint Wahb, costumava dizer que, depois de conceber o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, um desconhecido foi até ela e lhe disse: “Aquele que concebeste será o líder da humanidade desta época. Quando ele nascer, dirás: ‘Entrego esta criança à proteção do Único e Incomparável Senhor contra o mal de todos os invejosos.’ Depois, dá-lhe o nome de Muhammad. 14. Antes do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, somente três pessoas haviam recebido o nome de Muhammad: 1) Muhammad ibn Sufyan ibn Mujashi, bisavô do avô do poeta al-Farazdaq; 2) Muhammad ibn Uhayha ibn al-Jallah; 3) Muhammad ibn Himran ibn Rabia. O pai de cada um desses três soube que se aproximava o tempo do surgimento de um Mensageiro de Allah, que nasceria no Hijaz. Ao ouvirem isso, cada um deles desejou que ele fosse seu filho. Certa vez, foram a um rei versado no conhecimento dos Livros celestiais. O rei informou-lhes que estava prestes a surgir um profeta chamado Muhammad. Naquela ocasião, cada um deles havia deixado em casa a própria esposa grávida. Por isso, todos decidiram imediatamente que, quando lhes nascesse um filho, o chamariam Muhammad. Foi de acordo com essa decisão que deram esse nome aos seus três filhos.”

Enquanto ele estava no ventre, Âmina sonhou que um raio de luz saía de dentro dela, permitindo-lhe ver os palácios de Busra, no território da Síria.

Pouco tempo depois, enquanto ele ainda estava no ventre materno, seu pai, Abdullah, faleceu.

O nascimento do Mensageiro de Allah

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nasceu numa segunda-feira, num momento auspicioso, após transcorrida a décima segunda noite de Rabi al-Awwal daquele ano em que ocorreu o ataque de Abraha à Caaba com seu exército de elefantes, o Ano do Elefante.

É narrado por Qays ibn Makhrama que ele disse: “Eu e o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) nascemos no ano do ataque de Abraha. Portanto, somos da mesma idade.”

Hassan ibn Thabit disse:

“Eu tinha então sete ou oito anos, mas já havia crescido bastante, forte e alto. Já era capaz de compreender o que ouvia. De repente, ouvi um judeu subir ao topo de uma fortaleza de Yathrib (Medina) e gritar em voz alta: ‘Ó comunidade judaica!’ As pessoas se reuniram ao redor dele e perguntaram: ‘O que aconteceu?’ Ele respondeu: ‘Esta noite nasceu entre nós aquela estrela.’”

Quando o nobre Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — nasceu, sua mãe, Amina, mandou avisar seu avô, Abdul-Muttalib: “Nasceu um neto seu. Venha vê-lo.” Abdul-Muttalib veio e o viu. Então Amina contou-lhe tudo sobre os sonhos que tivera durante a gravidez, o que lhe fora dito a respeito do recém-nascido e o nome que lhe fora indicado para ele. Depois, Abdul-Muttalib saiu com ele da Caaba e, entregando o bebê à mãe, começou a procurar uma ama de leite. Por fim, Halima, filha de Abu Dhu’ayb, dos Banu Sa‘d ibn Bakr, foi encontrada para amamentá-lo.

O relato de Halima

Halima relatou que saiu à procura de um bebê para amamentar junto com o marido e um filho ainda de peito, acompanhando um grupo de mulheres dos Banu Sa‘d. Todas aquelas mulheres estavam à procura de bebês para amamentar. Era um ano de extrema escassez. Todas nós estávamos ocupadas procurando bebês para amamentar. Era um ano de extrema escassez. Havíamos ficado completamente sem recursos. Parti montada numa jumenta branca. Levávamos conosco o nosso camelo idoso, que não dava sequer uma gota de leite. O bebê que nos acompanhava chorava tanto de fome que, por causa dele, passávamos as noites em claro. Não havia leite em meus seios para saciar sua fome, nem no úbere da camela. Estávamos ansiosos por chuva e prosperidade. Nessas condições, montei na minha jumenta e parti. O caminho era longo e, depois de viajarmos sem parar, toda a nossa caravana ficou cansada e exausta. Finalmente chegamos a Meca à procura de um bebê para amamentar. Todas nós fomos convidadas a acolher o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Porém, sempre que se dizia que ele era órfão de pai, cada uma recusava. Pois todas esperávamos receber uma boa recompensa do pai da criança. Pois todas esperávamos receber uma boa recompensa do pai da criança. Todas dizíamos umas às outras: “Uma criança órfã! O que a mãe e o avô dela poderão oferecer como recompensa?” Por isso, todas relutávamos em aceitá-lo. Enquanto isso, todas as mulheres que vieram comigo haviam encontrado algum bebê para amamentar. Só eu não havia encontrado nenhum. Quando decidi voltar de mãos vazias, disse ao meu marido: “Por Deus, não me agrada nada voltar de mãos vazias junto com tantas companheiras. Por Deus, vou até aquele bebê órfão e vou levá-lo.” Meu marido respondeu: “Podes levá-lo. Talvez Allah tenha colocado justamente nele o bem para nós.”

Halima disse: Então fui buscar o bebê órfão e o trouxe. Só o aceitei porque não havia encontrado outra criança; depois, levei-o até a caravana. Quando o tomei nos braços, meus dois seios se encheram de leite, e o bebê Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — mamou até se saciar. Seu irmão de leite também mamou até se saciar. Depois, os dois adormeceram. Antes disso, porém, não conseguíamos dormir por causa do choro dele. Assim que meu marido foi até a nossa camela, descobriu que seu úbere também estava cheio de leite. Então ordenhou uma grande quantidade, e nós dois bebemos até nos saciarmos. Depois disso, passamos uma noite muito agradável.

De manhã, meu marido disse: “Halima, fica sabendo que trouxeste uma criança de imensa bênção.” Eu respondi: “Na verdade, também penso assim.”

Depois partimos. Montei no jumento. Meu jumento avançou, deixando toda a caravana para trás. Nenhum dos jumentos da caravana conseguia acompanhar o seu ritmo. As mulheres que viajavam comigo começaram a dizer: “Ó filha de Abu Dhu’ayb, para um pouco e espera por nós. Este não é o mesmo jumento em que vieste montada?” Eu lhes respondi: “Sim, é ele mesmo.” Elas disseram: “Por Allah, agora ele está completamente diferente.”

Por fim, chegamos às nossas respectivas casas na tribo de Banu Sa‘d. Não conhecia nenhuma outra região do mundo tão assolada pela seca quanto aquela. Depois que chegamos a casa com o pequeno Muhammad, nossas cabras e ovelhas voltavam todas as tardes, satisfeitas e com as tetas cheias de leite. Nós as ordenhávamos devidamente e bebíamos o leite, enquanto os outros não conseguiam sequer obter uma gota. Não encontravam nem uma gota de leite nos rebanhos de cabras e ovelhas. Até mesmo os membros de nossa tribo começaram a dizer aos pastores: “Levem os rebanhos para pastar no mesmo lugar onde a filha de Abu Dhu’ayb (Halima) leva suas ovelhas.” Apesar de os pastores levarem seus rebanhos para pastar onde eu (Halima) levava os meus, eles voltavam famintos. Assim, pouco a pouco, minha casa começou a encher-se de abundância, felicidade e prosperidade. Nesse estado, passaram-se dois anos, e eu desmamei o pequeno Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ele começou a crescer mais rapidamente que as outras crianças. Ao completar dois anos, tornou-se um menino muito ágil e robusto. Nós o levamos à sua mãe. Contudo, estávamos mais interessados em mantê-lo conosco, pois, desde que ele chegara, havíamos recebido imensas bênçãos. Eu disse à mãe dele: “Seria melhor se a senhora permitisse que este menino permanecesse comigo até ficar ainda mais forte e saudável. Temo que ele contraia alguma enfermidade ou epidemia de Meca.” Por fim, ela o mandou de volta conosco.

Nós o levamos de volta. Apenas alguns meses depois, certo dia, ele estava pastoreando cordeiros no campo atrás de nossa casa com seu irmão de leite. Então o irmão correu até mim e até o pai dele e disse: “Dois homens vestidos de branco vieram, agarraram meu irmão coraixita, deitaram-no, abriram-lhe o ventre, retiraram tudo de dentro e estão mexendo nisso.”

Eu e o pai dele o seguramos, perguntando: “Meu filho, o que aconteceu com você?” Ele respondeu: “Dois homens vestidos de branco vieram até mim. Deitaram-me e abriram meu ventre. Depois procuraram alguma coisa, mas não sei o que era.”

Depois, levamos Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) de volta à nossa casa. Meu marido disse: “Halima, temo que alguma coisa tenha afetado este menino. Portanto, leva-o à família dele antes que algo ruim aconteça.”

De fato, nós o levamos à sua mãe. A mãe dele disse: “Irmã de leite, você estava tão ansiosa para mantê-lo consigo. O que aconteceu para que o trouxesse de volta?” Eu respondi: “Allah confiou-me a responsabilidade de dois meninos. Fiz tudo o que me cabia fazer. Temo que algum infortúnio aconteça. Não consigo deixar de me preocupar com isso. Por isso, entrego seu filho de volta às suas mãos em segurança.” Aminah disse: “O que você está dizendo não é a verdadeira razão. Diga-me sinceramente o que aconteceu.” Ela não me deixou partir enquanto eu não lhe contei todo o ocorrido. Depois de ouvir o relato, Aminah perguntou: “Então você acha que ele foi tocado por um jinn?” Respondi: “Sim.” Ela disse: “Quando o concebi, vi em sonho uma luz sair do meu corpo, e seu brilho iluminou os palácios de Busra, na terra da Síria. Depois ele continuou a crescer no meu ventre. Por Allah, nunca tive uma gravidez tão leve e fácil. Quando o dei à luz, ele nasceu apoiando as mãos no chão e erguendo a cabeça para o céu. Pode deixá-lo e partir sem qualquer preocupação.”

O acontecimento da abertura do peito

Ibn Ishaq diz:

Sawr ibn Yazid narrou, com base no relato de alguns eruditos — segundo creio, apenas de Khalid ibn Ma’dan al-Kal’i — que alguns Companheiros certa vez disseram ao Mensageiro de Allah: “Ó Mensageiro de Allah, conte-nos algo sobre si mesmo.” Ele disse: “Sim, escutem. Sou o fruto da súplica do pai Ibrahim e o cumprimento das boas-novas anunciadas pelo irmão Isa. Depois que fui concebido, minha mãe sonhou que dela saía uma luz que iluminava os palácios da Síria. Fui criado e amamentado entre a tribo dos Banu Sa’d ibn Bakr. Certo dia, fui com um de meus irmãos de leite pastorear ovelhas atrás da casa de minha ama, Halimah. Então, dois homens vestidos de branco vieram até mim. Eles traziam uma bandeja de ouro cheia de neve. Agarraram-me, abriram meu ventre, retiraram meu coração e também o abriram. Dele extraíram um coágulo de sangue negro e o lançaram fora. Depois, lavaram e purificaram meu ventre e meu coração com aquela neve. Em seguida, um deles disse ao outro: ‘Pese Muhammad com dez de sua comunidade.’ Ele me pesou, e eu fui mais pesado que os dez. Então disse novamente: ‘Pese-o com cem de sua comunidade.’ Fui mais pesado que cem. Depois disse: ‘Pese-o com mil de sua comunidade.’ Quando me pesou com mil, também fui mais pesado que eles. Então disse: ‘Deixe-o. Por Allah, mesmo que ele seja pesado com toda a sua comunidade, ainda assim será mais pesado que todos eles.’”

Sob a tutela do avô

O Mensageiro de Allah permaneceu sob a proteção e os cuidados de Allah mesmo durante a vida de sua mãe, Aminah bint Wahb, e de seu avô, Abd al-Muttalib ibn Hashim. Nesse período, Allah lhe concedeu um rápido desenvolvimento físico, para que, por meio dele, se manifestassem os milagres desejados por Allah. Quando completou seis anos, sua mãe faleceu em um lugar chamado Abwa, entre Meca e Medina. Ela havia ido visitar os tios maternos de Muhammad, da tribo Banu Adi ibn Najjar, levando consigo o menino Muhammad. Faleceu quando retornava em direção a Meca. Após a morte de sua mãe, o Mensageiro de Allah passou a ser criado sob a tutela exclusiva de seu avô, Abd al-Muttalib. Estendia-se uma esteira à sombra da Caaba para Abd al-Muttalib. Seus filhos e netos sentavam-se ao redor dela até que Abd al-Muttalib chegasse; por respeito a ele, ninguém se sentava sobre a esteira. Porém, o resoluto jovem Muhammad chegava e sentava-se diretamente sobre ela. Seus tios tentavam segurá-lo e retirá-lo dali. Ao ver isso, Abd al-Muttalib dizia: “Não impeçam meu neto. Por Allah, ele é um menino extraordinário.” Então sentava-se com ele sobre a esteira e acariciava-lhe as costas. Tudo o que ele fazia lhe agradava. Quando o Mensageiro de Allah completou oito anos, Abd al-Muttalib faleceu. Ele morreu oito anos depois de Abraha ter atacado a Caaba com seu exército de elefantes.

Sob a tutela de seu tio Abu Talib

Após a morte de Abd al-Muttalib, o Mensageiro de Allah passou a ser criado por seu tio Abu Talib. Naquela época, um homem da tribo de Banu Lahab praticava adivinhação observando os traços físicos das pessoas. Quando ia a Meca, os coraixitas se reuniam ao seu redor levando seus filhos. Ele examinava os corpos dos meninos e predizia seu destino. Abu Talib também foi até esse adivinho levando o Mensageiro de Allah, junto com os demais. O adivinho olhou para ele e, no instante seguinte, pareceu começar a refletir. Por um momento, ignorou o menino Muhammad. Depois de algum tempo, disse: “É preciso prestar uma atenção especial a este menino.” Ao perceber o interesse excessivo do adivinho pelo menino Muhammad, Abu Talib afastou-o discretamente. Então o adivinho disse: “Que atitude é essa? Tragam o menino de volta para mim. Por Allah, ele é um menino extraordinário.”

O episódio do monge Bahira

Algum tempo depois, Abu Talib partiu para a Síria com uma caravana para fins comerciais. Antes da partida, o menino Muhammad pediu insistentemente para acompanhá-lo. O tio, tomado de ternura, não conseguiu ignorar seu pedido. Disse: “Vou levá-lo comigo; jamais partirei para algum lugar deixando-o para trás.”

Abu Talib partiu em viagem levando-o consigo. Quando a caravana chegou à região de Busra, fez uma parada. Ali vivia um monge cristão chamado Bahira. Ele residia em uma igreja e era muito versado na religião cristã. Durante longo tempo, um Livro celestial havia sido guardado naquela igreja. O conhecimento era transmitido de geração em geração. Antes disso, eles passavam frequentemente perto de Bahira, indo e vindo, mas ele não saía para encontrar ninguém nem falava com ninguém. Contudo, naquele ano, quando a caravana dos coraixitas, com Abu Talib e o menino Muhammad, parou naquele lugar junto à igreja de Bahira, Bahira preparou uma grande quantidade de comida para eles.

Conta-se que Bahira, sentado em sua igreja, viu algo extraordinário. Quando a caravana se aproximava, ele percebeu que, entre todos os integrantes, somente o menino Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era acompanhado pela sombra de uma nuvem vinda do céu. Depois, quando eles pararam para descansar à sombra de uma árvore, a nuvem e os galhos daquela árvore inclinaram-se sobre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, para protegê-lo com sua sombra. Ao ver essa cena, Bahira saiu da igreja e enviou alguém para dizer ao pessoal da caravana: “Ó comerciantes coraixitas, preparei comida para vocês. Peço a todos, jovens e idosos, escravos e senhores, que venham comer.” Um dos coraixitas disse: “Ó Bahira, hoje você foi honrado com uma nova dignidade. Já passamos muitas vezes por você, mas nunca demonstrou tal hospitalidade. Por que age assim hoje?” Bahira respondeu: “É verdade. Antes nunca fiz isso. Porém, hoje vocês são meus convidados. Por isso desejo cuidar de vocês de todo o coração, preparar comida para vocês e que todos comam.”

Então todos foram comer. Mas, por ser ainda jovem, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu do lado de fora, junto à caravana, à sombra da árvore. Depois de observar cuidadosamente todos os comerciantes coraixitas reunidos para comer, Bahira não encontrou neles nenhum sinal daquela fisionomia e daquele comportamento característicos que havia percebido no menino Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Por isso disse: “Ó hóspedes coraixitas, que nenhum de vocês deixe de comer da minha comida.” Eles responderam: “Ó Bahira, todos os que podiam vir já vieram. Apenas um menino ficou junto à caravana. Ele é o mais jovem do grupo.” Bahira disse: “Não o deixem de fora. Chamem-no também; que ele coma com vocês.” Um coraixita disse: “Por Lat e Uzza, o filho de Abdullah ibn Abd al-Muttalib estará conosco, mas não comerá conosco? Isso não pode acontecer. Seria vergonhoso para nós.” Dito isso, levantou-se, foi buscar o menino Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tomou-o nos braços e o trouxe, fazendo-o sentar-se com todos à mesa. Nesse momento, Bahira começou a observar atentamente todo o seu aspecto e a examinar os sinais distintivos de seu corpo. Ele havia encontrado sua descrição nos Livros Celestiais anteriores. Quando todos os convidados terminaram de comer e saíram, um após outro, Bahira aproximou-se do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Meu filho, peço-te, por Lat e Uzza, que respondas ao que eu te perguntar.” Bahira invocou Lat e Uzza porque havia ouvido os coraixitas jurarem por aqueles dois ídolos quando conversavam entre si. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não me perguntes invocando Lat e Uzza. Por Allah, odeio profundamente essas duas divindades.” Bahira disse: “Então, por Allah, peço-te que respondas ao que eu te perguntar.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Está bem. Pergunte o que quiser saber.” Então Bahira começou a fazer-lhe diversas perguntas: sobre seu sono, sobre a constituição e a aparência de seu corpo e sobre outras circunstâncias. As respostas dadas pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, coincidiram exatamente com o que Bahira sabia. Depois, examinou suas costas e viu nelas o selo da profecia marcado entre as duas omoplatas. Encontrou o selo exatamente no lugar em que, segundo a descrição dos Livros Celestiais que Bahira havia lido, ele deveria estar.

Depois de tudo isso, Bahira perguntou a Abu Talib: “Quem é o menino para você?” Ele respondeu: “Meu filho.” Bahira disse: “Ele não é seu filho. O pai deste menino não pode estar vivo.” Abu Talib respondeu: “O menino é meu sobrinho.” Bahira perguntou: “O que aconteceu com o pai dele?” Abu Talib respondeu: “Seu pai morreu enquanto este menino ainda estava no ventre da mãe.” Bahira repetiu: “Seu pai morreu enquanto este menino ainda estava no ventre da mãe.” Então disse: “Sim, é assim que deveria ser. Volte para casa com seu sobrinho e tenha cuidado para protegê-lo dos judeus. Por Allah, se eles virem este menino e reconhecerem os sinais pelos quais eu o reconheci, tentarão fazer-lhe mal. Pois este seu sobrinho em breve surgirá como um grande homem.” Em seguida, levou-o consigo e regressou depressa à sua terra natal.

A Guerra de Fijar

Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tinha vinte anos, ocorreu a Guerra de Fijar. Ela recebeu esse nome porque, nessa guerra, ambas as tribos participantes, Kinana e Qays Aylan, violaram as coisas que eram proibidas entre elas. O comandante das forças conjuntas dos coraixitas e de Kinana era Harb ibn Umayya. Na primeira parte do dia, Qays derrotou Kinana na batalha. Porém, ao meio-dia, Kinana saiu vitoriosa. [15. Ibn Hisham menciona que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, participou da Guerra de Fijar durante alguns dias. Seus tios levaram-no consigo ao campo de batalha. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Eu repelia as flechas e lanças lançadas pelos inimigos, recolhia-as e entregava-as aos meus tios.” Essa foi a última Guerra de Fijar. Ela é conhecida como Fijar al-Burad. Antes dela, ocorreram outras três guerras de Fijar: a primeira entre Kinana e Hawazin, a segunda entre os coraixitas e Hawazin, e a terceira entre Kinana e Hawazin.]

O casamento com Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela

Khadija bint Khuwaylid era uma mulher nobre e rica, comerciante da Arábia daquela época. Ela contratava pessoas para o comércio mediante um salário fixo e participação nos lucros. Os coraixitas eram renomados como uma tribo de comerciantes. Ao tomar conhecimento da veracidade, da confiabilidade e da nobreza de caráter do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ela enviou-lhe alguém com uma proposta para que levasse suas mercadorias à Síria, dizendo que lhe daria uma remuneração melhor do que a que costumava dar aos outros. Também quis enviar com ele um jovem chamado Maysara para ajudá-lo. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, aceitou a proposta e partiu para a Síria levando as mercadorias de Khadija e o escravo Maysara consigo. Não demorou para que chegasse à Síria.

Ao chegar à Síria, ele descansou sob uma árvore próxima à igreja de um sacerdote. O sacerdote perguntou a Maysara: “Quem é aquele que está descansando sob a árvore?” Maysara respondeu: “É um homem da tribo dos coraixitas, habitante do Haram.” O sacerdote disse: “Ninguém jamais descansou sob esta árvore, exceto um profeta!”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, vendeu as mercadorias que havia trazido e comprou alguns artigos novos. Depois, partiu em direção a Meca. Sempre que chegava o meio-dia e o sol se tornava escaldante durante o caminho, Maisara via que dois anjos protegiam Maomé do calor, fazendo sombra sobre ele, enquanto avançava montado no camelo. Ao chegar a Meca, entregou a Khadija as mercadorias que havia comprado. Khadija vendeu aqueles bens e obteve quase o dobro de lucro. Maisara informou Khadija sobre as palavras do sacerdote e sobre o fato de os dois anjos terem protegido o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, com sua sombra. Khadija era uma mulher inteligente, nobre e de personalidade firme.

O fato de ter conhecido a grandeza e a honestidade do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi considerado para ela uma felicidade adicional, que alcançou unicamente pela vontade de Allah. Ao ouvir de Maisara sobre o referido acontecimento milagroso, Khadija enviou-lhe uma mensagem, dizendo: “Irmão, estou profundamente impressionada e admirada com a posição honrosa que você ocupa entre seu povo, os laços de parentesco que possui e, acima de tudo, sua reputação de confiabilidade, bom caráter e veracidade.” Depois de dizer isso, Khadija propôs casamento a ele. Entre os coraixitas, Khadija era a mulher de linhagem mais nobre, de mais elevada posição e extremamente rica. Por isso, todos os membros de seu povo desejavam casar-se com ela, se tivessem essa possibilidade.

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, informou seus tios sobre a proposta de Khadija. Seu tio Hamza foi até o pai de Khadija, Khuwaylid ibn Asad ibn Abd al-Uzza ibn Qusay ibn Kilab ibn Murrah ibn Kaab ibn Luayy, apresentou formalmente a proposta, e o casamento foi celebrado. Nota 16: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, deu a Khadija vinte camelos como dote. Ela foi sua primeira esposa, e ele não se casou com outra mulher enquanto ela viveu.

Todos os filhos do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nasceram do ventre de Khadija, exceto Ibrahim. Foram eles: Qasim, Tahir, Tayyib, Zaynab, Umm Kulthum e Fatima. Por causa do nome de Qasim, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também era conhecido como Abu al-Qasim. Qasim e Tahir morreram ainda na época da ignorância. Todas as filhas, porém, testemunharam o surgimento do Islã, aceitaram o Islã e emigraram com o pai. Nota 17: Pelo relato, parece que Tahir e Tayyib eram duas pessoas. Na realidade, ambos eram epítetos de Abdullah, que era chamado por esses dois nomes.

O relato de Waraqa ibn Nawfal

Waraqa ibn Nawfal ibn Asad ibn Abd al-Uzza, primo de Khadija, era um erudito cristão versado nas antigas Escrituras celestiais. Também possuía grande conhecimento das ciências mundanas. Khadija contou a Waraqa o comentário do sacerdote cristão que ouvira de Maisara, bem como o que o próprio Maisara havia visto: dois anjos fazendo sombra sobre o futuro Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Waraqa disse: “Khadija, se esse acontecimento realmente ocorreu, sabe com certeza que Maomé é o Profeta desta época. Eu sabia que a vinda de um profeta estava se aproximando entre os descendentes de Ismael e que ele era aguardado. Esta é a época desse profeta.” Depois disso, Waraqa lamentava que a chegada do profeta aguardado estivesse demorando tanto. Em sua impaciente espera, muitas vezes dizia: “Quanto tempo ainda falta?” Assim, lamentando-se, recitava o seguinte poema:

[Árabe ************]

“Tenho perseverado em recordar um assunto tão importante que, durante longo tempo, levou muitos a chorar soluçando. Depois de muitos relatos sobre esse assunto, chegou agora também um novo relato vindo de Khadija. Na verdade, Khadija, minha espera tornou-se muito longa. Espero ver tua realidade manifestar-se entre as terras altas e baixas de Meca, conforme aquilo que me informaste sobre o sacerdote cristão. De fato, não gosto que as palavras dos sacerdotes sejam distorcidas.”

[Árabe ************]

“Em breve, Maomé será nosso senhor e líder, derrotará seus opositores e espalhará luz por todo o país, uma luz com a qual iluminará toda a criação. Ele subjugará aqueles que lutarem contra ele, enquanto os que buscarem a conciliação com ele serão vitoriosos. Que pena! Se eu estivesse presente quando tudo isso acontecesse, seria o primeiro entre todos vocês a juntar-me ao seu grupo.”

A reconstrução da sagrada Caaba

Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tinha trinta e cinco anos, os coraixitas decidiram reformar o edifício da sagrada Caaba. O principal objetivo dessa decisão era construir um teto para a sagrada Caaba, pois havia o risco de as paredes desabarem se não se construísse um teto. Naquela época, as paredes da Caaba tinham pouco mais de três côvados e meio de altura e eram feitas apenas empilhando-se pedras umas sobre as outras. Não havia argamassa. Por acaso, um navio pertencente a um comerciante romano foi levado pela correnteza do mar até a costa de Jedda, onde encalhou e se despedaçou completamente. Os coraixitas levaram as tábuas desse navio e as apararam e prepararam para utilizá-las na construção do teto da sagrada Caaba. Nessa mesma época, apareceu em Meca um mestre de obras egípcio. Os coraixitas decidiram secretamente que poderiam encarregá-lo de parte do trabalho de restauração da sagrada Caaba. Naquele tempo, uma serpente saía todos os dias de um poço situado junto à sagrada Caaba e se aquecia ao sol sobre a parede da Caaba. No poço de onde a serpente saía eram lançadas diariamente as oferendas destinadas à Caaba. Os coraixitas estavam aterrorizados por causa da serpente, pois ela era tão assustadora que ninguém conseguia aproximar-se dela. Sempre que alguém se aproximava, ela levantava o capelo, retorcia-se, esfregando ruidosamente a pele, e escancarava a boca. Certo dia, enquanto a serpente se aquecia ao sol sobre a parede da sagrada Caaba, Allah enviou ali uma ave. A ave agarrou a serpente e a levou embora. Então os coraixitas se tranquilizaram e disseram: “Esperamos que Allah tenha aprovado nossa intenção. Hoje temos conosco um mestre de obras querido, já conseguimos a madeira necessária e Allah também nos livrou da serpente.”

Então eles se prepararam para demolir as paredes da Caaba e reconstruí-las. Nesse momento, Abu Wahab ibne Amr ibne Aiz ibne Imran ibne Makhzum levantou-se, arrancou uma pedra da Caaba e tomou-a nas mãos. Mas a pedra imediatamente escapou de sua mão e voltou a ocupar o lugar onde estava. Ao ver esse acontecimento extraordinário, ele disse: “Ó coraixitas, empregai na construção deste edifício da Caaba somente riquezas obtidas licitamente. Não despendais riquezas adquiridas por adultério, usura ou opressão.”

Depois, os coraixitas dividiram entre si o trabalho de construção da Caaba. A responsabilidade pela construção da parte da porta coube aos Banu Abd Manaf e aos Zuhra; a construção da parte entre o Rukn al-Aswad e o Rukn al-Yamani coube à tribo Banu Makhzum, à qual se juntaram ainda várias outras tribos coraixitas; a construção do piso da Caaba coube aos Banu Jumah e aos Banu Sahm; e a parte adjacente ao Hajar al-Aswad coube aos Banu Abd al-Dar, aos Banu Qusay, aos Banu Asad ibne Abd al-Uzza e aos Banu Adi ibne Kab.

Chegou então o momento de iniciar a demolição, mas todos foram tomados por um medo desconhecido ao começar esse trabalho. Então Walid ibne al-Mughira declarou: “Eu começarei a demolição.” Dito isso, pegou uma enxada, golpeou uma extremidade do edifício em ruínas e disse: “Ó Allah, não nos desviamos da Tua religião, e o que estamos fazendo é com boa intenção.” Em seguida, demoliu uma pequena parte do canto entre o Rukn al-Yamani e o Rukn al-Aswad. Todos passaram a noite seguinte ansiosos. Disseram: “Vejamos se algum infortúnio atingirá Walid. Se algo acontecer, não continuaremos a demolição; ao contrário, reconstruiremos o que foi demolido e devolveremos o edifício ao seu estado anterior. Caso contrário, saberemos que Allah está satisfeito com nossa iniciativa e demoliremos também o restante.” Na manhã seguinte, Walid voltou normalmente ao trabalho que havia iniciado e começou a demolir as paredes da Caaba. Os demais também começaram a demolir junto com ele. Assim, chegaram até a fundação construída por Abraão, que a paz esteja sobre ele, e pararam. Depois, todos foram recolher raras pedras verdes, de formato semelhante à corcova de um camelo, que aderiam umas às outras. [18. Segundo algumas narrações, as pedras eram verdes como lâminas de lanças.]

Depois, as tribos coraixitas recolheram pedras para reconstruir a Caaba. Cada tribo as recolheu separadamente e concluiu sua parte da reconstrução. Quando a construção das paredes chegou ao local do Hajar al-Aswad, começaram as disputas sobre quem o colocaria em seu devido lugar. O desejo de obter a honra de levantar o Hajar al-Aswad e colocá-lo no lugar tornou-se intenso em todos. Por causa disso, as tribos começaram a formar alianças e prepararam-se para a guerra.

Conta-se que, naquela época, Abu Umayya ibn al-Mughira, o mais velho de toda a comunidade dos coraixitas, fez o seguinte apelo: “Ó coraixitas! Entregai a responsabilidade de resolver esta disputa à primeira pessoa que entrar pela porta desta Mesquita Sagrada.” Todos concordaram com a proposta. Então, viu-se que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi o primeiro a entrar. Ao vê-lo, todos exclamaram em uníssono: “Eis o nosso al-Amin (o absolutamente digno de confiança), Muhammad! Aceitaremos de bom grado a sua decisão.” Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se aproximou dos homens em disputa e todos lhe expuseram a questão, ele disse: “Dai-me um pedaço de pano.” Quando lhe deram o pano, ele o estendeu, colocou a Pedra Negra no centro dele e disse: “Cada tribo deve segurar uma parte das bordas deste pano.” Todos seguraram o pano e o levantaram, levando-o até o lugar apropriado. Então, ele próprio levantou a Pedra Negra, colocou-a em seu devido lugar e construiu a alvenaria sobre ela.

Adivinhos árabes, sacerdotes judeus e clérigos cristãos

Os sacerdotes judeus, os clérigos cristãos e os adivinhos árabes já haviam profetizado, antes do advento do Mensageiro de Allah, que se aproximava o tempo de sua chegada. As comunidades sacerdotais judaica e cristã fizeram essa profecia com base nos sinais da vinda do último profeta e do tempo de seu aparecimento, mencionados em seus respectivos Livros Celestiais, e nas promessas que seus profetas haviam feito a respeito dele. Já a fonte das profecias dos adivinhos árabes eram as notícias recebidas dos jinns que escutavam às escondidas as conversas dos anjos. Naquele tempo, os jinns ainda não eram impedidos de escutar às escondidas mediante o lançamento de meteoros para expulsar os demônios. Esses demônios iam ter com homens e mulheres adivinhos. Por isso, de vez em quando, davam-lhes alguns indícios sobre a vinda do último profeta. Os árabes comuns não davam muita atenção a esses indícios. Porém, depois do advento do Profeta e de os sinais indicados terem ocorrido na realidade, todos passaram a conhecê-los e compreendê-los.

Quando se aproximou o tempo de o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, receber a profecia, os demônios foram impedidos de escutar às escondidas, e seu acesso aos postos onde costumavam ficar à espreita foi bloqueado pelo lançamento de meteoros. Com isso, os jinns compreenderam que essa medida havia sido adotada com o objetivo de pôr em vigor, no mundo criado, algum processo ou disposição especial de Allah.

Características físicas e morais do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz)

Ibn Hisham diz:

Umar, o liberto de Ghufra, transmitiu de Ibrahim, filho de Muhammad, filho de Ali ibn Abu Talib, a seguinte descrição das características físicas e morais do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz:

Sempre que Ali ibn Abu Talib louvava o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia: “Ele não era excessivamente alto, nem muito baixo; tinha estatura mediana. Seus cabelos não eram excessivamente encaracolados, nem completamente lisos; eram ligeiramente ondulados. Não tinha corpo muito corpulento ou gordo. Seu rosto não era totalmente redondo nem pequeno. Seus olhos eram negros. Tinha sobrancelhas longas; os ossos das articulações e o osso entre os dois ombros eram elevados e bem definidos. A região que se estendia do peito ao umbigo era coberta por pelos delicados. As palmas das mãos e as plantas dos pés eram robustas. Ao caminhar, não batia os pés com força; parecia estar descendo para um terreno baixo. Quando se voltava para alguma direção, virava o corpo inteiro. Entre seus dois ombros era visível o selo ou marca da profecia. Na verdade, ele era o último profeta, o mais generoso, o mais corajoso, incomparável em veracidade, o mais responsável, o mais afável e sociável. Ao vê-lo pela primeira vez, todos ficavam intimidados.” Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), que o elogiava, disse: “Nunca vi ninguém semelhante a ele, nem antes nem depois dele.”

A descrição do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) no Evangelho

Ibn Ishaq disse:

Quanto à descrição e à promessa relativas ao venerável Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), mencionadas no Evangelho compilado por Iohanan, companheiro de Jesus, e que o próprio Jesus fez registrar conforme a revelação recebida de Allah, tanto quanto sei, são as seguintes:

“Quem me odeia e me detesta odeia o próprio Allah. Se eu não tivesse realizado diante de vocês obras que ninguém jamais realizou, eles — isto é, os incrédulos — não teriam culpa alguma. Mas agora rejeitaram os sinais de Allah. Pensaram que, desse modo, poderiam derrotar a mim e a Allah. Isso aconteceu para que se cumprisse a profecia do Livro Divino. Na verdade, odiaram-me injustamente. Se ‘Manhamanna’ — aquele que Allah enviará — vier até vocês, ele dará testemunho em meu favor. Ele é o Espírito Santo vindo da parte de Allah. E vocês também certamente testemunharão em meu favor, pois desde o princípio estão comigo. Eu lhes disse todas essas coisas para que não apresentassem queixa. [19. Ver João 15:23–36 da Bíblia.] Em siríaco, ‘Munhamanna’ significa Muhammad. E, em romano, seu equivalente é ‘Baraklitas’.”

A obtenção da profecia

Quando Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) completou quarenta anos, Allah enviou-o como misericórdia para todos os mundos e como anunciador de boas-novas para toda a humanidade. De cada um dos profetas e mensageiros que vieram anteriormente à Terra, Allah, o Altíssimo, tomou o compromisso de que eles creriam no Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o apoiariam e o ajudariam contra seus opositores. E ordenaria também àqueles que cressem neles e os apoiassem que cumprissem essa responsabilidade. Em conformidade com esse compromisso, cada profeta instruiu seus próprios seguidores a aceitar Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e obedecer-lhe.

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) narra: “Quando Allah, o Altíssimo, decidiu honrar o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e agraciar a humanidade por meio dele, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) começou a ter sonhos verdadeiros, como parte da profecia. Qualquer sonho que tivesse tornava-se realidade ao nascer do sol, ao amanhecer. Nessa época, Allah, o Altíssimo, fez com que ele se inclinasse à reclusão. A permanência solitária e retirada tornou-se o que ele mais apreciava.”

Abdul Malik ibn Ubaydullah narra:

Quando Allah, o Altíssimo, decidiu honrar e elevar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e deu início à sua missão profética, sempre que ele saía por alguma necessidade, afastava-se das áreas habitadas e dirigia-se para os vales montanhosos e as planícies de Meca, a grande distância. Sempre que passava junto de alguma pedra ou árvore, aquela pedra ou árvore dizia: “A paz esteja contigo, ó Mensageiro de Allah!” (Ó Mensageiro de Allah, que a paz esteja contigo.) Assim que ouvia isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, olhava ao redor, para a direita, para a esquerda e para trás. Alguns dias se passaram, e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, continuou a ouvir e ver essas coisas. Então, no mês de Ramadan, enquanto permanecia na caverna de Hira [20. Hira é o nome de uma caverna situada numa montanha, a três milhas de Meca.], Jibril, que a paz esteja com ele, foi até ele levando, da parte de Allah, palavras de suprema honra e dignidade.

É narrado por Ubaid ibn Umair que:

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passava um mês por ano na caverna de Hira. Na época da ignorância, os coraixitas também se dedicavam, da mesma maneira, à devoção solitária, abandonando a adoração de ídolos. Todos os anos, ele passava assim um mês em adoração, retirado da sociedade. Durante esse mês, alimentava todos os pobres que se encontravam com ele. Ao concluir esse retiro de um mês, antes de retornar à sua casa, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, entrava primeiro na Caaba Sagrada e fazia o tawaf sete vezes ou mais; somente depois disso voltava para casa. Quando se aproximou o mês em que Allah o honraria com a mais elevada honra — isto é, o mês de Ramadan do ano em que recebeu a missão profética —, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu, como de costume, para permanecer em Hira. Finalmente chegou aquela noite grandiosa, a noite em que Allah, o Altíssimo, o honrou com a Mensagem. Nesse momento, Jibril, que a paz esteja com ele, foi até ele por ordem de Allah.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Eu estava dormindo. Nesse estado, Jibril apareceu trazendo um pedaço de tecido de seda. Havia algo escrito naquele pedaço de seda. Jibril disse-me: ‘Leia!’ Eu respondi: ‘Não sei ler.’”

Então ele me abraçou com tanta força que pensei que fosse morrer. Depois de algum tempo, soltou-me e disse: “Leia!” Eu respondi: “Não sei ler.” Ele me abraçou novamente com muita força. Dessa vez também temi morrer devido à intensidade da pressão. Mais uma vez, soltou-me e disse: “Leia!” Eu respondi: “O que devo ler?” Ele disse: “Leia em nome do teu Senhor que criou…”, isto é: “Leia em nome do teu Senhor, que criou; criou o ser humano de um coágulo. Leia, e teu Senhor é o Mais Generoso. Ele ensinou pelo cálamo. Ensinou ao ser humano aquilo que ele não sabia.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Então recitei os versículos que me haviam sido ensinados. Quando Jibril terminou de me fazer recitá-los até esse ponto, partiu. Depois acordei do sono. Parecia que eu havia escrito algo na minha mente. Em seguida, saí da caverna de Hira. Quando cheguei a um lugar entre as montanhas, de repente ouvi uma voz vinda do alto: ‘Ó Muhammad, tu és o Mensageiro de Allah, e eu sou Jibril.’ Olhei para o céu e vi Jibril, sob a forma de um homem, de pé no horizonte distante, com suas duas asas abertas, dizendo: ‘Ó Muhammad, tu és o Mensageiro de Allah, e eu sou Jibril.’ Permaneci imóvel, olhando para ele. Ao olhar para as outras regiões do céu, vi que ele estava presente em toda parte com a mesma forma. Fiquei de pé, imóvel, por longo tempo. Não conseguia recuar nem avançar. Nesse momento, Khadija enviou pessoas à minha procura. Quando chegaram às áreas elevadas de Meca, retornaram para junto de Khadija. Eu, porém, ainda permanecia no mesmo lugar. Depois, Jibril desapareceu. Parti de volta para minha família. Ao chegar junto de Khadija, sentei-me bem perto dela. Ela disse: ‘Ó Abu al-Qasim, onde estiveste? Enviei pessoas à tua procura. Elas retornaram depois de te procurarem nas áreas elevadas de Meca.’ Contei a Khadija tudo o que havia visto. Khadija disse: ‘Recebe este acontecimento como um presságio extremamente auspicioso e permanece firme. Juro por Aquele em cuja mão está a minha alma: tenho plena convicção de que foste escolhido como profeta para a humanidade desta época.’

Depois disso, Khadija cobriu-se com suas roupas e foi até Waraqa ibn Nawfal. Waraqa era primo de Khadija. Ele havia abraçado o cristianismo e era muito instruído no conhecimento dos Livros Celestiais. Em especial, havia adquirido muito conhecimento junto aos seguidores da Torá e do Evangelho. Khadija relatou-lhe detalhadamente tudo o que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia visto e ouvido. Depois de ouvir tudo, Waraqa exclamou: “Quddusun, quddusun! O anjo santíssimo! O anjo santíssimo!” E jurando por Allah disse: “Ó Khadija, acredita em mim: o grande mensageiro que costumava ir até Moisés veio até Muhammad. Na verdade, Muhammad foi escolhido como profeta para a humanidade atual. [21. Suhaili disse: Embora Jesus fosse o profeta mais próximo quanto ao intervalo de tempo, Waraqa mencionou Moisés em seu lugar porque, naquela época, Waraqa havia abraçado o cristianismo. Segundo os cristãos, Jesus não é um profeta. De acordo com sua crença, Jesus é uma das três pessoas de Allah, que se unificou na pessoa de Jesus. Naturalmente, há divergências entre os cristãos quanto a essa interpretação.] Diga-lhe que permaneça firme.”

Khadija voltou para junto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e informou-lhe o que Waraqa havia dito. Depois que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concluiu seu mês de adoração na caverna de Hira, retornou a Meca e começou a fazer o tawaf da Caaba como de costume. Nesse momento, Waraqa perguntou-lhe: “Meu sobrinho, conta-me o que viste e ouviste.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, contou-lhe tudo. Depois de ouvir, Waraqa disse: “Sabe com certeza que és o profeta da humanidade desta época. O grande mensageiro que costumava ir até Moisés veio até ti. Sabe também com certeza que considerarão tua mensagem uma mentira, perseguir-te-ão, expulsar-te-ão de tua terra e lutarão contra ti. Se eu estiver vivo naquela época, certamente ajudarei abertamente no estabelecimento da religião de Allah.” Então Waraqa aproximou a cabeça dele e beijou-lhe a testa. Depois de concluir o tawaf, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, voltou para casa.

O início da revelação do Alcorão

Foi no sagrado mês do Ramadã que a revelação começou a descer sobre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Allah, o Magnífico e Todo-Poderoso, diz:

“O mês do Ramadã é aquele em que foi revelado o Alcorão, como orientação para a humanidade, com provas claras da orientação e como critério entre a verdade e a falsidade.”

O Altíssimo Allah também diz:

“Em verdade, fizemos descer este Alcorão na Noite do Decreto. E o que te fará saber o que é a Noite do Decreto? A Noite do Decreto é melhor que mil meses. Nela, os anjos e o Espírito descem, com a permissão de seu Senhor, para todos os decretos, e ela é paz até o despontar da alvorada.” (Surata al-Qadr)

Allah, o Altíssimo, também diz:

“Hā-Mīm! Pelo Livro claro! Em verdade, fizemos descer este Livro numa noite abençoada. Certamente, somos Nós que advertimos. Nessa noite, é decidido, por Nossa ordem, cada assunto com sabedoria. E, em verdade, enviamos um Mensageiro.” (Surata ad-Dukhān)

Allah, o Altíssimo, também diz:

“Se credes em Allah, em Seu servo e no que fizemos descer sobre o dia da distinção, o dia em que os dois exércitos se encontraram…” Aqui, “o dia em que os dois exércitos se encontraram” significa o dia do confronto entre os idólatras e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, no campo de Badr.

A aceitação do Islã por Khadija bint Khuwaylid

Khadija bint Khuwaylid creu no Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Aceitou como verdadeira a revelação que ele recebeu de Allah. Apoiou-o no cumprimento da missão profética. Na verdade, ela foi a primeira pessoa a crer em Allah e em Seu Mensageiro e a reconhecê-lo como verdadeiro.

Assim, Allah aliviava as aflições e os sofrimentos de Seu Profeta. Sempre que surgia uma situação indesejável, alguém rejeitava seu chamado e o desmentia, ele ficava profundamente entristecido. Porém, bastava ir até Khadija para que, pela vontade de Allah, sua angústia desaparecesse. Khadija o consolava, aliviava a tristeza e a dor de seu coração, reconhecia plenamente a verdade de seu chamado e o encorajava a não se deixar afetar excessivamente pelo comportamento das pessoas. Que Allah faça descer Sua misericórdia sobre ela. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Por isso, fui encarregado de anunciar a Khadija a boa-nova de uma casa no Paraíso, feita de pérolas adornadas com obras de arte incomparáveis, onde não haverá tumulto, sofrimento nem doença.”

A interrupção da revelação

Depois disso, a revelação cessou por alguns dias, e isso se tornou muito difícil para o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Então Jibril (que a paz esteja sobre ele) apareceu diante dele trazendo a surata Ad-Duha. Nessa surata, o Grande Senhor que o honrou com a profecia jurou que não o havia abandonado nem se tornara seu inimigo. O Altíssimo Allah diz: “Pela manhã radiante e pela noite tenebrosa!

Teu Senhor não te abandonou nem te deixou, e tampouco se tornou teu inimigo.” Isto é: Ele não rompeu Sua relação contigo nem te abandonou, e também não aconteceu de Ele, depois de nutrir inimizade por ti, voltar a amar-te. “Na verdade, o que virá será melhor para ti do que o que passou.” Isto é: aquilo que preparei para ti depois de teu retorno a Mim será melhor para ti do que aquilo que te concedi neste mundo. Certamente, em breve Ele te concederá tanto que ficarás satisfeito. Isto é: sucesso e vitória neste mundo, e recompensa na Vida Futura. “Acaso não te encontrou órfão e te deu abrigo? E não te encontrou desorientado e te guiou, e não te encontrou pobre e te enriqueceu?” Nestes versículos, Allah, o Altíssimo, recorda-lhe as honras que recebeu no início de sua vida, bem como a misericórdia e a compaixão que Allah lhe demonstrou quando estava sem mãe nem pai, sem apoio nem recursos e desorientado, e como, por Sua graça, o salvou daquela situação deplorável. “Portanto, não trates o órfão com aspereza nem repreendas aquele que pede ajuda.” Isto é: não demonstres arrogância nem orgulho para com os servos fracos de Allah, e não ajas com crueldade e arbitrariedade. “E proclama a graça de teu Senhor.” Isto é: informa às pessoas e convida-as a esse caminho, falando da riqueza incomparável e da honra inigualável que recebeste de Allah por meio da obtenção da profecia.

Depois disso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dedicou-se, com extrema discrição, a transmitir a religião às pessoas fiéis e confiáveis dentre seus parentes mais próximos. Começou a falar da grande graça com que Allah o havia agraciado, ao conceder-lhe a profecia, bem como a ele próprio e a toda a humanidade.

Os primeiros a aceitar o Islã

O primeiro homem a crer no Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, a realizar a oração com ele e a aceitar de coração a revelação enviada por Allah a ele foi Ali, filho de seu tio Abu Talib — que Allah esteja satisfeito com ele. Naquela época, ele tinha apenas dez anos de idade.

Pode-se perceber uma graça especial de Allah para com Ali — que Allah esteja satisfeito com ele. Que Allah desejava o seu bem e havia preparado meios apropriados para isso pode ser compreendido pelos acontecimentos anteriores à sua aceitação do Islã. Naquele tempo, os coraixitas atravessavam uma grave crise. Por ser pai de muitos filhos, Abu Talib encontrava-se em extrema dificuldade financeira. Abbas, outro tio do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, era o homem mais próspero da tribo dos Banu Hashim. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse-lhe: “Ó Abbas, teu irmão Abu Talib está sobrecarregado pelo peso de muitos filhos. Podes ver como as pessoas estão sofrendo uma situação terrível. Vem, vamos aliviar o peso de seus filhos. Eu assumirei a responsabilidade por um de seus filhos, e tu assumirás a responsabilidade por outro. Assim, ele será aliviado da responsabilidade por dois filhos.”

Abbas disse: “Está bem, vamos.”

Então, os dois foram até Abu Talib e disseram: “Enquanto os habitantes do país não se libertarem da atual crise financeira, queremos aliviar o peso de teus filhos.” Abu Talib disse: “Deixem comigo Aqil; depois, levem quem quiserem.”

Então, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — levou Ali e o integrou à sua própria família. Abbas levou Jafar e também o integrou à sua família. Depois disso, Ali permaneceu com o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — até o momento em que ele recebeu a profecia. Por isso, após o recebimento da profecia, Ali creu nele, aceitou-o de coração como profeta e passou a segui-lo.

Segundo alguns historiadores, quando chegava o momento da oração, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — dirigia-se às cavernas das montanhas inacessíveis de Meca, e Ali também ia com ele. Contudo, eles continuaram fazendo isso secretamente, sem que seu pai, seu tio ou qualquer pessoa de sua tribo soubesse. Os dois iam até lá, realizavam a oração em recolhimento e retornavam para casa ao anoitecer. Assim, pela vontade de Allah, continuaram realizando esse trabalho durante algum tempo. Certo dia, Abu Talib viu os dois orando e, depois da oração, perguntou ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Meu sobrinho, que religião é essa que estás seguindo?” Ele respondeu: “Tio, esta é a religião de Allah, a religião de Seus anjos e a religião de Seus profetas e mensageiros; em especial, a religião de nosso pai Ibrahim. Allah fez de mim um Mensageiro e enviou-me com esta religião à humanidade. Tio, dentre todas as pessoas a quem ensinei esta religião e convidei para aceitar este modo de vida, tu és o mais digno de receber este convite. E, em comparação com todos aqueles que aceitaram o meu convite e me ajudaram na missão, és tu quem tem maior obrigação de responder a este chamado e prestar auxílio.”

Abu Talib disse: “Meu sobrinho, não posso abandonar a religião e os costumes de meus antepassados. Porém, juro por Allah que, enquanto eu estiver vivo, não terás de enfrentar nenhuma situação desagradável por causa de tuas atividades.”

Depois, aceitou o Islã Zayd ibn Haritha ibn Shurahbil ibn Ka’b ibn Abd al-Uzza. Antes disso, Hakim ibn Hizam ibn Khuwaylid, sobrinho de Khadija, havia trazido da Síria vários escravos, entre eles Zayd ibn Haritha. Certo dia, sua tia paterna, Khadija, foi até ele. Naquela época, Khadija já era casada com o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Hakim disse: “Tia, escolha qualquer um destes escravos. Qualquer rapaz que escolher, eu lhe darei.” Ela escolheu Zayd e levou-o consigo. Quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — viu Zayd na casa de Khadija e demonstrou desejo de tê-lo, Khadija deu-o a ele como presente. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — libertou-o da escravidão e adotou-o como filho. Isso aconteceu antes de ele receber a profecia.

Depois, aceitou o Islã Abu Bakr ibn Abu Quhafa. Seu nome verdadeiro era Atiq, enquanto o nome verdadeiro de Abu Quhafa era Uthman. Após aceitar o Islã, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, anunciou-o publicamente. Ele era uma pessoa extremamente popular, amistosa e afável entre os membros de sua tribo. Entre os coraixitas, era o mais nobre e o que melhor conhecia sua genealogia. Não havia entre os coraixitas ninguém tão perspicaz e sábio quanto ele no conhecimento do que lhes era bom ou ruim, benéfico ou prejudicial. Era comerciante, generoso e de bom caráter. Os membros da tribo costumavam reunir-se em torno dele. Devido à sua convivência afável, à sua erudição e à sua habilidade comercial, muitos estabeleciam com ele amizade e companheirismo. Por isso, começou a convidar ao Islã aqueles membros da tribo que se aproximavam dele e lhe eram profundamente leais. Por meio de seu convite, aceitaram o Islã, um após outro, Uthman ibn Affan, Zubayr ibn al-Awwam, Abd al-Rahman ibn Awf, Sa’d ibn Abu Waqqas e Talha ibn Ubaydullah. Esses cinco, juntamente com Abu Bakr, Ali e Zayd — oito ao todo — foram os primeiros muçulmanos. Foram eles os primeiros a estabelecer a oração e a aceitar o Islã de coração e alma.

Depois, Abu Ubayda ibn al-Jarrah, Abu Salama ibn Abd al-Asad e Al-Arqam ibn Abu al-Arqam. 22. A casa de Al-Arqam ficava sobre o monte Safa. Era nessa casa que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, convidava os coraixitas ao Islã. Esse estado de ocultação e o trabalho de convite continuaram secretamente até que o número de muçulmanos chegasse a quarenta, com a aceitação do Islã por Umar. Quando completaram quarenta, eles se manifestaram publicamente.

Uthman ibn Maz’un e seus dois irmãos, Qudama e Abdullah; Ubayda ibn al-Harith; Sa’id ibn Zayd ibn Amr e sua esposa Fatima, irmã de Umar ibn al-Khattab; Asma bint Abu Bakr e Aisha bint Abu Bakr — Aisha ainda era uma menina de pouca idade —; Khabbab ibn al-Aratt; Umayr ibn Abu Waqqas; Abdullah ibn Mas’ud; Mas’ud ibn Qari; Salit ibn Amr; Ayyash ibn Abu Rabi’a e sua esposa Asma bint Sulama; Khunays ibn Hudhafa; Amir ibn Rabi’a; Abdullah ibn Jahsh e seu irmão Abu Ahmad; Ja’far ibn Abu Talib e sua esposa Asma bint Umays; Hatib ibn al-Harith e sua esposa Fatima bint al-Mujallal; seu irmão Hutab e sua esposa Fukaikha bint Yasar; Ma’mar ibn al-Harith; Sa’ib ibn Uthman ibn Maz’un; al-Muttalib ibn Azhar e sua esposa Ramla bint Abu Awf; al-Nahham, isto é, Nu’aym ibn Abdullah; Amir ibn Fuhayra; Khalid ibn Sa’id ibn al-As e sua esposa Amina bint Khalaf; Hatib ibn Amr; Abu Hudhayfa ibn Utba ibn Rabi’a; Waqid ibn Abdullah; Khalid, filho de Bukayr ibn Abd Yalil; Amir, Aqil e Yas; Ammar ibn Yasir; e Suhayb ibn Sinan al-Rumi aceitaram o Islã. 23. Suhayb era árabe de nascimento. Na infância, foi capturado pelos romanos e cresceu entre eles como escravo. Mais tarde, um homem da tribo de Kalb comprou-o e levou-o para vendê-lo em Meca. Abdullah ibn Jud’an comprou-o e libertou-o. Nos hadiths, Suhayb é mencionado como o primeiro romano a aceitar o Islã.

O convite público

Depois, pessoas, homens e mulheres indistintamente, começaram a aceitar o Islã em grupos. Assim, o Islã se espalhou por toda Meca e passou a ser amplamente discutido. Então, Allah, o Altíssimo e Todo-Poderoso, ordenou a Seu Mensageiro que proclamasse Sua mensagem em voz alta e que se lançasse publicamente entre o povo, convidando-o à religião de Allah. Após receber a profecia, o trabalho secreto de pregação continuou durante três anos, antes do início da proclamação pública do Islã. Então Allah ordenou: “Ó Profeta, agora comece a proclamar em voz alta e não dê atenção às palavras dos idólatras.” Ele também disse: “Ó Profeta, advirta seus parentes mais próximos, seja compassivo e bondoso com os crentes que o seguem e diga: ‘Sou um admoestador manifesto.’”

Quando rezavam, os Companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dirigiam-se a cavernas montanhosas de difícil acesso e rezavam escondidos, longe dos olhos das pessoas. Certo dia, enquanto um pequeno grupo dos Companheiros do Mensageiro de Allah, entre eles Sa’d ibn Abu Waqqas, rezava numa caverna de uma montanha de Meca, um grupo de idólatras de Meca apareceu no local. Eles começaram a censurar e insultar severamente os crentes e, por fim, atacaram-nos, pretendendo matá-los. Nesse momento, Sa’d ibn Abu Waqqas golpeou com enorme força a cabeça de um dos idólatras usando o osso da mandíbula de um camelo morto, abrindo-lhe um ferimento. Esse foi o primeiro derramamento de sangue pela causa do Islã.

Embora o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pregasse publicamente conforme a ordem de Allah, eles não se afastaram dele nem protestaram contra ele enquanto ele não criticava seus ídolos. Porém, quando criticou seus ídolos, passaram a considerar seu movimento algo terrível e perigoso. Enfureceram-se intensamente contra ele e lançaram-se decididamente à oposição e à hostilidade. Contudo, ele protegeu da hostilidade, por causa do Islã, o pequeno número de pessoas que ainda não havia se manifestado publicamente.

Seu tio Abu Talib continuou demonstrando plena solidariedade e compaixão ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Diante dos ataques dos coraixitas, continuou protegendo-o e permanecendo ao seu lado. Assim, ele pôde prosseguir sem impedimentos na divulgação da religião de Allah. Mas, quando os coraixitas perceberam que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não dava a menor importância às suas fortes objeções à ruptura com seus ídolos e às críticas a eles e, além disso, que seu tio continuava a dar-lhe proteção e de modo algum o entregava aos coraixitas, certo dia seus líderes e homens de destaque foram em grupo até Abu Talib e disseram: “Ó Abu Talib, seu sobrinho insultou nossos ídolos, difamou nossa religião, chamou nossa inteligência de tolice e declarou que nossos antepassados estavam desviados. Nessas circunstâncias, ou você o impede de fazer essas coisas, ou dê-nos a oportunidade de puni-lo.” Abu Talib respondeu-lhes com palavras comoventes e despediu-os depois de convencê-los e acalmá-los.

O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — continuou realizando sua missão como de costume. Continuou convocando as pessoas para a religião de Allah e prosseguindo com sua pregação e divulgação. Como consequência, a hostilidade e o rancor dos coraixitas aumentavam dia após dia. Eles começaram a fazer críticas intensas ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e a incitar uns aos outros contra ele.

Por isso, eles voltaram a apresentar-se diante de Abu Talib e disseram: “Ó Abu Talib, você é o mais velho e o ancião entre nós. Nós o consideramos uma pessoa de grande importância e respeitável.”

Nós lhe havíamos dito que proibisse seu sobrinho, mas você não o fez. Por Allah, não podemos permitir que isso continue assim. Já não podemos suportar a audácia com que ele nos critica, insulta nossas divindades e considera nossa inteligência uma tolice. Agora, ou você o impedirá, ou entraremos em guerra contra ele e contra você, e não cessaremos antes que um dos dois lados seja destruído.”

Abu Talib mandou chamar o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e disse-lhe: “Sobrinho, os homens do seu povo vieram até mim e disseram todas essas coisas.” Então contou-lhe o que os líderes dos coraixitas haviam dito. Depois acrescentou: “Agora que a situação chegou a este ponto, cuide de si mesmo e de mim. Não me imponha algo além da minha capacidade.”

O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — pensou que seu tio havia mudado de opinião, que queria deixá-lo sozinho diante dos coraixitas e que já não era capaz de ajudá-lo. Então o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Tio, juro por Allah que, mesmo que eles colocassem o sol na minha mão direita e a lua na minha mão esquerda e me pedissem, em troca, que abandonasse esta missão, eu não a abandonaria. Continuarei realizando esta missão até que Allah conceda vitória à Sua religião ou eu pereça enquanto a realizo.” Depois de dizer isso, os olhos do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — encheram-se de lágrimas. Em seguida, levantou-se e preparou-se para partir. Quando já havia avançado um pouco, Abu Talib chamou-o e disse: “Ó sobrinho, aproxime-se.” Ele se aproximou. Abu Talib disse: “Sobrinho, está bem. Continue dizendo o que deseja dizer. Jamais, por motivo algum, entregarei você a eles.”

Quando os coraixitas souberam que Abu Talib não estava disposto a deixar o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — sozinho diante daquela situação humilhante e que, apesar do rompimento e da hostilidade deles, permanecia firme em não entregá-lo às suas mãos, levaram até Abu Talib um jovem chamado Umarah ibn al-Walid ibn al-Mughira e disseram: “Ó Abu Talib, veja este jovem. Seu nome é Umarah ibn al-Walid. Não há entre os coraixitas jovem tão corajoso, forte e belo quanto ele. Adote-o como filho; você poderá beneficiar-se de sua inteligência e de sua ajuda e cooperação. Em troca, entregue-nos aquele seu sobrinho que se opõe à religião de seus antepassados, provoca divisão entre seu povo e considera tola a inteligência deles. Entregue-o a nós, para que o matemos. Você receberá um homem em troca de outro.”

Abu Talib disse: “Por Allah, vocês estão me impondo algo extremamente abominável. Posso aceitar uma proposta segundo a qual vocês me entregariam seu filho, eu o alimentaria e criaria, e depois eu lhes entregaria meu filho para que vocês o matassem? Por Allah, saibam que isso jamais acontecerá.”

Mut’im ibn Adi disse: “Ó Abu Talib, seu povo lhe apresentou uma proposta justa. Eles querem livrá-lo daquilo que você mesmo não aprova. No entanto, parece que você não está disposto a aceitar nenhuma proposta deles.” Abu Talib respondeu a Mut’im: “Por Allah, eles não foram justos comigo. Na verdade, você está determinado a me humilhar e, por isso, quer incitar toda a comunidade contra mim. Agora faça o que quiser.”

Agora a situação saiu do controle de todos, e surgiu um cenário de guerra. Os coraixitas começaram a incitar uns aos outros para a guerra. Cada tribo lançou-se contra os poucos muçulmanos que viviam entre eles, iniciou uma perseguição terrível e passou a pressioná-los severamente para que abandonassem o Islã. Somente o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permaneceu a salvo dessa perseguição. Allah o protegeu por meio de seu tio Abu Talib.

Quando Abu Talib viu que os coraixitas haviam escolhido um caminho de extrema violência, tomou a iniciativa de estabelecer contato com os membros das tribos Banu Hashim e Banu al-Muttalib. Convocou todos a apoiar e colaborar com a política que havia adotado: proteger o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e opor-se a qualquer comportamento indecoroso contra ele. Todos os membros dessas duas tribos atenderam ao seu chamado e prometeram apoiá-lo. Somente o amaldiçoado Abu Lahab, inimigo de Allah, não o apoiou.

Comentário de al-Walid ibn al-Mughira sobre o Alcorão

Um grupo de coraixitas reuniu-se diante do ancião e líder coraixita al-Walid ibn al-Mughira. A temporada do Hajj estava se aproximando. Al-Walid disse: “Ó coraixitas, a temporada do Hajj está se aproximando. Pessoas virão até vocês de várias regiões da Arábia. E elas já ouviram falar de Maomé. Portanto, estabeleçam uma posição consensual a respeito dele. Que não haja entre vocês qualquer divergência sobre esse assunto. Não deve acontecer de um dizer uma coisa e outro contradizê-lo. Nesse caso, a declaração de um será desmentida pela declaração do outro.”

Todos disseram: “Então o senhor mesmo estabeleça uma opinião. Todos nós repetiremos essa mesma opinião.” Al-Walid disse: “Digam vocês mesmos; eu ouvirei.” Todos os reunidos disseram: “Diremos que Maomé é um adivinho.” Al-Walid disse: “Não, ele não é um adivinho. Já vimos muitos adivinhos. As palavras de Maomé não são como as falas ritmadas e confusas dos adivinhos.”

Todos disseram: “Então diremos que Maomé é louco.”

Al-Walid disse: “Não, ele também não é louco. Já vimos muitos loucos e sabemos o que é a loucura. A fala de um louco contém hesitação e obscuridade, é dominada por intensos arroubos emocionais e carregada de dúvidas e incertezas. Mas nada disso existe nas palavras de Maomé.”

Todos disseram: “Então diremos que ele é um poeta.”

Walid disse: «Não, ele também não é poeta. Conhecemos todos os tipos de poesia. Mas as palavras de Maomé não se enquadram em nenhum tipo de poesia.»

Todos disseram então: «Nesse caso, diremos que ele é um feiticeiro.» Walid disse: «Ele também não é feiticeiro. Já vimos muitos feiticeiros e muita feitiçaria. Mas Maomé não tem o hábito deles de dar nós e soprar sobre os nós.» Todos disseram: «Então, o que você quer dizer?»

Walid disse: «Não há dúvida de que é muito agradável ouvir as palavras de Maomé. Sua raiz é extremamente firme e seus ramos são frutíferos. Tudo o que disserdes será provado falso. Contudo, o mais apropriado será chamá-lo de feiticeiro, pois ele fala de tal maneira que suas palavras são tão eficazes quanto a magia para criar discórdia entre irmãos, entre marido e mulher e entre parentes. Portanto, pode-se dizer que ele é verdadeiramente um feiticeiro; sob seu efeito, o povo realmente foi atingido pela divisão.»

Depois, quando começou a chegada das pessoas durante a temporada do Hajj, os coraixitas passaram a formar ajuntamentos e sentar-se nos caminhos por onde elas passavam. Sempre que alguém passava por eles, diziam-lhe que tivesse cuidado com o contato com Maomé. Também o informavam sobre as atividades de Maomé. Nessa ocasião, Allah revelou a respeito de Walid ibn al-Mughira:

«Deixai-Me lidar com aquele que criei sozinho. Depois de criá-lo, concedi-lhe muita riqueza e muitos filhos para estarem sempre ao seu lado, e facilitei-lhe o caminho da liderança e da prosperidade. Mesmo assim, ele deseja que Eu lhe conceda ainda mais. Isso jamais acontecerá. Ele é extremamente hostil aos Meus versículos.»

Depois, a todos que encontravam, começaram a dizer aquelas coisas a respeito do Mensageiro de Allah. Quando terminou a temporada do Hajj e os árabes se espalharam por todas as direções, o único assunto em seus lábios passou a ser o Mensageiro de Allah. Assim, sua mensagem se espalhou por todas as localidades da Arábia.

Relato das perseguições contra o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

Gradualmente, os coraixitas começaram a enfurecer-se. Tornaram-se descontrolados em sua hostilidade contra o Mensageiro de Allah e seus companheiros. Começaram a incitar os ignorantes e os arruaceiros. Esses tolos passaram a insultá-lo, chamando-o de mentiroso, e a atormentá-lo de diversas maneiras. Caluniaram-no, chamando-o de adivinho, feiticeiro, astrólogo e louco. Mas o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu firme na tarefa de divulgar e expandir a religião de Allah. Gradualmente, passou a proclamar o chamado de maneira cada vez mais pública. Embora lhes fosse extremamente ofensivo que ele criticasse os costumes vãos dos árabes, rejeitasse sua idolatria e rompesse com suas doutrinas de incredulidade, ele continuou a fazê-lo com grande firmeza. Abdullah ibn Amr ibn al-As disse:

“Certo dia, quando os chefes dos coraixitas estavam reunidos junto à Pedra Negra, eu me encontrava ali. Eles mencionaram o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e disseram: ‘Nunca demonstramos tanta tolerância para com este homem. Ele nos fez de tolos e insultou os nossos deuses. Suportamos sua presença em uma questão tão delicada e grave.’ Enquanto conversavam desse modo, de repente o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) apareceu ali. Aproximou-se com passos tranquilos e beijou a Pedra Negra. Ao passar por eles, alguns fizeram comentários hostis. Observei no rosto do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a reação a esses comentários. Quando passou por eles pela segunda vez, voltaram a fazer comentários sarcásticos. Observei a reação em seu rosto. Na terceira vez em que passou por eles, quando fizeram comentários semelhantes novamente, ele parou ali e disse: ‘Ó coraixitas, escutai! Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: trouxe a vossa ruína, caso não creiais.’”

Com suas palavras, a multidão ficou silenciosa e atônita, como se tivesse sido atingida por um raio. Até mesmo o homem que, momentos antes, havia falado contra ele com a maior hostilidade e as provocações mais inflamadas tentou acalmar o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), usando palavras tão gentis quanto possível. Chegou até a ser obrigado a dizer: ‘Abul-Qasim, vai embora. Afinal, não és um tolo.’

Depois disso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) partiu dali. No dia seguinte, todos se reuniram no mesmo lugar. Eu também estava ali. Então começaram a dizer uns aos outros: ‘Vistes até onde chegou a insolência de Maomé e quanta audácia ele demonstrou? Ele vos disse claramente na cara aquilo de que não gostais nem um pouco. E ainda assim o deixastes ir.’

Naquele exato momento, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) apareceu ali. E então, que poderia fazer? Todos se lançaram contra ele de uma só vez. Cercaram-no e começaram a dizer: ‘És tu mesmo que proferes palavras ofensivas contra a nossa religião e os nossos deuses.’

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: ‘Sim, sou eu quem diz todas essas coisas.’ Vi então um homem dentre eles tentar matá-lo, apertando-lhe o pescoço com as duas extremidades do manto que cobria sua parte superior. Naquele momento, Abu Bakr avançou e o impediu. Ele começou a chorar e disse: ‘Ireis matar um homem apenas porque declarou que Allah é o seu Senhor?’”

Depois disso, a multidão foi embora. Naquele dia, nunca havia visto os coraixitas atacarem o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) de maneira tão violenta.”

A aceitação do Islã por Hamza

Um homem da tribo de Aslam, dotado de uma memória extraordinária, disse-me:

“Certo dia, Abu Jahl encontrou o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — nas proximidades do monte Safa. Naquela ocasião, tratou-o mal e insultou-o. Dirigiu-lhe palavras extremamente ofensivas. Proferiu comentários depreciativos contra o Islã e lançou uma saraivada de palavras sarcásticas contra a sua pregação e o seu movimento. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — não respondeu sequer uma palavra. Uma escrava de Abdullah ibn Jud’an, sentada em sua casa, ouviu aqueles insultos. Em seguida, Abu Jahl deixou aquele lugar e foi sentar-se numa assembleia dos coraixitas junto à Caaba.”

Pouco depois, Hamza, filho de Abdul-Muttalib, retornava da caça, equipado com arco e flechas. Era um excelente caçador. Era muito hábil em disparar flechas contra a caça e em rastreá-la. Sempre que voltava de uma caçada desse tipo e via no caminho alguma assembleia ou aglomeração dos coraixitas, parava ali, cumprimentava-os e conversava com eles. Era um jovem nobre e vigoroso entre os coraixitas. Quando passava pela escrava de Abdullah ibn Jud’an, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — já havia retornado para casa. Assim que viu Hamza, a escrava disse: “Se tivesses visto o que Abu al-Hakam, filho de Hisham [24. Abu al-Hakam era o sobrenome ou título de Abu Jahl. Seu nome era Amr ibn Hisham ibn al-Mughira ibn Abdullah ibn Umar ibn Makhzum], fez há pouco com o teu sobrinho Muhammad! Muhammad estava sentado aqui. Assim que o viu, tratou-o mal, insultou-o e dirigiu-lhe palavras extremamente ofensivas. Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — foi embora sem dizer uma única palavra.”

Ao ouvir isso, Hamza ficou tomado de indignação, pois Allah desejava coroá-lo com a glória do Islã. Por isso, partiu rapidamente em busca de Abu Jahl. Não parou diante de ninguém pelo caminho. Seu propósito era dar uma lição a Abu Jahl assim que o encontrasse. Ao entrar na Mesquita Sagrada, viu-o sentado numa assembleia. Avançou em sua direção e, ao chegar perto, golpeou-o violentamente com o arco, deixando-o gravemente ferido. Em seguida, disse: “Tu insultas Muhammad? Pois eu aceitei a religião dele. Apoio tudo o que ele diz. Se puderes, golpeia-me de volta!”

Imediatamente, alguns homens do clã Banu Makhzum correram para ajudar Abu Jahl contra Hamza. Mas Abu Jahl disse: “Não digam nada a Hamza, pois realmente insultei o filho de seu irmão com palavras extremamente vis.”

Hamza permaneceu firme e inabalável no Islã e continuou a ajudar e apoiar as atividades do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Depois que Hamza aceitou o Islã, os coraixitas perceberam que já não seria fácil perseguir e humilhar o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Sempre que tentassem fazer alguma coisa, Hamza viria para enfrentá-los. Por isso, por enquanto, reduziram um pouco a intensidade da perseguição.

A artimanha de Utba para impedir o movimento do Mensageiro de Allah

Uma fonte me informou que, certo dia, o proeminente líder coraixita Utba ibn Rabi’a estava sentado numa assembleia dos coraixitas. Naquele momento, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — estava sentado sozinho na Mesquita Sagrada. Utba disse: “Ó coraixitas, vou falar com Muhammad e apresentar-lhe algumas propostas. Talvez ele aceite algumas delas e pare de propagar a sua mensagem. O que acham disso?”

Naquela época, o número de muçulmanos começara a aumentar após Hamza aceitar o Islã. Por isso, todos disseram: “É uma excelente proposta. Vá e converse com ele.”

Utba foi até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e sentou-se ao seu lado. Ele disse: “Meu sobrinho, você não desconhece quão nobre e ilustre é a nossa tribo, nem a posição honrada que você ocupa entre nós. Você surgiu diante do seu povo com um assunto gravíssimo. Esse seu convite criou divisão entre o povo. Você os considerou tolos e menosprezou seus antepassados. Escute-me! Vou apresentar-lhe algumas propostas alternativas. Pense um pouco e veja se pode aceitar algumas delas.”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Está bem, fale. Estou ouvindo.”

Utba disse: “Meu sobrinho, se, com esse novo convite que você começou a fazer, sua intenção é obter uma grande riqueza, nós reuniremos dinheiro para você e o tornaremos o mais rico entre nós. E, se você deseja alcançar uma posição elevada, nós o faremos rei deste país. Mas, se acontece que um jinn vem até você e você não consegue expulsá-lo, nós o trataremos. Quanto dinheiro for necessário, nós o gastaremos para curá-lo. Muitas vezes, um jinn domina uma pessoa, e é preciso tratamento para expulsá-lo.”

Depois de dizer isso, Utba parou. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia escutado atentamente as palavras de Utba. Quando ele terminou, disse: “Ó Abu al-Walid, você terminou de falar?” — “Sim.” Ele disse: “Então escute algumas palavras minhas.” Utba disse: “Fale.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, começou a recitar a surata Ha-Mim as-Sajda: “Em nome de Allah, o Misericordioso, o Compassivo. Ha-Mim! Este é um Livro revelado por Allah, o Misericordioso, o Compassivo. Um Livro em língua árabe, um Alcorão cujos versículos foram detalhados para um povo que tem conhecimento. Ele veio como anunciador de boas-novas e advertência. Contudo, a maioria deles se afastou e não quer ouvir. Eles dizem: ‘Nossos corações estão sob véus que nos impedem de compreender aquilo para o qual nos convocas.’” Utba continuou ouvindo em silêncio. Sentado, apoiando-se com as mãos para trás, escutava com grande atenção. Enquanto recitava, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou ao versículo de prostração daquela surata, parou e prostrou-se. [25. O versículo é este: “Entre os sinais de Allah estão a noite e o dia, o sol e a lua. Não vos prosterneis diante do sol nem da lua; prosternaivos diante de Allah, que os criou, se é somente a Ele que adorais.”] Em seguida, disse: “Você já ouviu o que deveria ouvir. Agora faça o que considerar necessário.”

Depois disso, Utba levantou-se e voltou para junto de seus companheiros. Ao vê-lo, eles começaram a dizer uns aos outros: “Utba foi com uma expressão no rosto e agora está voltando com outra.” Assim que se sentou junto do grupo, todos lhe perguntaram: “Ó Abu al-Walid, qual é a sua opinião?”

Utba disse: “Ouvi palavras como jamais ouvira antes. Ó coraixitas, aquilo realmente não é poesia, nem palavra de um adivinho. Escutem-me e deixem esse assunto sob minha responsabilidade. Deixem esse homem fazer o que quiser. Não mantenham qualquer relação com ele. Estou certo de que aquilo que Maomé se empenha em divulgar provocará uma grande comoção no futuro. Se os árabes o destruírem, vocês terão se livrado dele com a ajuda de outros. Mas, se ele vencer os árabes, seu reino será o reino de vocês; sua honra será motivo da honra de vocês, e vocês serão o povo mais afortunado da Terra.” Ao ouvirem isso, todos disseram em uníssono: “Maomé enfeitiçou você desta vez.” Utba respondeu: “Essa é a minha opinião. Agora façam o que acharem melhor.”

A conversa do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) com os líderes dos coraixitas

O Islã começou a se espalhar gradualmente entre homens e mulheres das tribos coraixitas de Meca. E os coraixitas prendiam todos os muçulmanos que conseguiam alcançar e os submetiam a severas torturas!

Nesse contexto, certo dia, após o pôr do sol, os líderes dos coraixitas de cada tribo se reuniram junto à Caaba Sagrada. Os que se reuniram foram Utba ibn Rabia, Shaiba ibn Rabia, Abu Sufyan ibn Harb, Nadr ibn al-Harith, Abul-Bukhtari ibn Hisham, Aswad ibn al-Muttalib, Zam’a ibn al-Aswad, Walid ibn al-Mughira, Abu Jahl ibn Hisham, Abdullah ibn Abu Umayya, As ibn Wa’il, Nubaih ibn al-Hajjaj, Munabbih ibn al-Hajjaj e Umayya ibn Khalaf. Começaram a dizer uns aos outros: “Mandem chamar Muhammad; falem com ele e, se necessário, discutam com ele. Assim, poderão livrar-se da culpa perante o povo.” De fato, enviaram um mensageiro até ele. O mensageiro foi e disse: “Os líderes dos coraixitas se reuniram para falar contigo. Vem conosco até eles.”

Assim que ouviu isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, correu apressadamente até eles. Pensou que talvez tivessem refletido sobre algo novo a respeito do chamado que lhes havia feito. Na verdade, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, desejava sinceramente que eles retornassem ao caminho correto. Ficava profundamente triste com a obstinação e a opressão deles. Ele foi e sentou-se ao lado dos líderes dos coraixitas. Eles disseram: “Ó Muhammad, mandamos chamar-te para falar contigo. Por Deus, não sabemos de nenhum outro árabe que tenha causado em sua comunidade uma divisão como a que causaste. Censuraste os antepassados, condenaste a religião tradicional, insultaste os deuses e deusas, chamaste de tolos os homens sensatos e provocaste uma ruptura na unidade do povo. Em suma, não deixaste de trazer entre nós e ti nenhuma coisa ruim. Agora, se com tudo isso pretendias obter riqueza, reuniremos dinheiro para ti, para que te tornes o mais rico entre nós. Se desejas posição e autoridade, faremos de ti nosso líder. Se queres ser rei, vem, e faremos de ti nosso rei. E, se aquele que vem até ti for um jinn ou espírito que te dominou, estamos dispostos a pagar o que for necessário para tratar-te, a fim de que te recuperes ou para que não tenhamos de prestar contas ao povo a teu respeito.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Não desejo nenhuma das coisas que estais mencionando. O objetivo do chamado que vos apresentei não é que eu queira as vossas riquezas ou as vossas riquezas, nem que eu queira ser superior a vós em posição, nem que eu queira ser vosso rei. Allah enviou-me a vós como Mensageiro; Ele revelou-me um Livro e ordenou-me que fosse para vós um advertidor e anunciador de boas-novas. Conforme a Sua ordem, transmiti-vos a mensagem do meu Senhor e aconselhei-vos sinceramente para o vosso bem. Se aceitardes o meu chamado, isso vos trará felicidade neste mundo e no Além. Mas, se o rejeitardes, esperarei pacientemente até que Allah profira a decisão final entre vós e mim.”

Eles disseram: “Ó Muhammad, se nenhuma das propostas que te apresentamos é aceitável para ti, então ouve outra coisa. Sabes que, em todo o mundo, ninguém possui uma terra tão estreita quanto a nossa; por causa da escassez de água e da falta de outros recursos, levamos uma vida tão difícil que nenhum outro povo na Terra vive de maneira semelhante. Portanto, suplica ao teu Senhor, que te enviou como Mensageiro, que remova estas montanhas daqui, para que nossa terra se torne mais ampla, e que faça correr em nosso país rios como os rios do Iraque e da Síria. Suplica-Lhe também que ressuscite os nossos antepassados, incluindo entre os ressuscitados Qusay ibn Kilab, que foi um dos líderes mais verazes e justos. Perguntar-lhes-emos se o que dizes é verdadeiro ou falso. Se disserem que és veraz e fizeres conforme a nossa exigência, acreditaremos em ti, reconheceremos a dignidade que Deus te concedeu e aceitaremos verdadeiramente que és o Mensageiro de Allah.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-lhes: “Não vim até vós por causa dessas coisas. Além daquilo com que Allah me enviou, não tenho autoridade sobre coisa alguma. E já vos transmiti aquilo com que fui enviado. Se aceitardes isso, abrir-se-ão para vós as portas da felicidade neste mundo e no Além. Mas, se rejeitardes, esperarei pacientemente até que Allah estabeleça uma decisão final entre vós e mim.”

Eles disseram: “Se esta proposta também não te agrada, então faz algo por ti mesmo. Pede ao teu Senhor que envie contigo um anjo. Ele testemunhará diante de nós a veracidade das tuas palavras e falará conosco em teu favor. Que Allah construa para ti muitos jardins e palácios e te conceda tesouros de ouro e prata. Assim, será satisfeita a avidez por riqueza que percebemos em ti. Afinal, tu circulas pelo mercado como nós e buscas o sustento como nós. Quando tiveres todas essas riquezas, compreenderemos que és realmente superior a nós e mais honrado perante o teu Senhor. Se, segundo a tua própria alegação, és de fato um Mensageiro, então faz tudo isso para que vejamos.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não, também não farei isso. Não posso pedir essas coisas a Allah. Não vim até vós trazendo essas coisas. Allah enviou-me apenas como anunciador de boas-novas e advertidor. Se responderdes ao meu chamado, isso será a fonte da vossa felicidade neste mundo e no Além. Mas, se o rejeitardes, acontecerá aquilo que Allah determinar. Esperarei pacientemente até que Ele estabeleça uma decisão entre mim e vós.”

Eles disseram: “Então faz cair sobre as nossas cabeças alguns pedaços de nuvens, tal como acreditas que Allah pode fazer, se quiser. Se não fizeres isso, não acreditaremos em ti.”

O Mensageiro de Allah disse: “Isso está inteiramente sob o arbítrio de Allah. Se Ele quiser, certamente poderá fazê-lo.”

Eles disseram: “Ó Muhammad, acaso o teu Senhor não sabia que nos sentaríamos contigo e te pediríamos o que agora te pedimos? Ele não poderia ter vindo até ti, ensinado as respostas às questões que levantamos e informado o que faria conosco se rejeitássemos o teu convite? Ficamos sabendo que um homem chamado ‘ar-Rahman’, residente em Yamamah, te ensina essas coisas. [26. Esse homem era Musaylimah ibn Habib al-Hanafi. Ele ficou famoso como Musaylimah al-Kadhdhab (o Mentiroso). Era idoso e, na época da ignorância, era chamado de ‘ar-Rahman’. (Rawd al-Unuf)]

Por Allah, jamais acreditaremos em ar-Rahman. Ó Muhammad, estamos te informando da nossa incapacidade. Dado o ponto a que chegaste conosco com o teu comportamento, não te deixaremos em paz. Não cessaremos até que tu nos destruas ou nós te destruamos.” Um dos presentes disse: “Nós adoramos os anjos. Os anjos são filhas de Allah.” Outro disse: “Faz Allah e os anjos aparecerem diante de nós; caso contrário, não acreditaremos em ti.”

Depois de ouvir essas palavras, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — saiu dali. Seu primo materno, Abdullah ibn Abi Umayyah ibn al-Mughirah, também saiu com ele. Este disse: “Ouve, Muhammad: os membros do teu povo te apresentaram várias propostas, mas não aceitaste nenhuma delas. Depois, exigiram de ti certas coisas pelas quais poderiam conhecer e compreender a posição com que, segundo tu mesmo afirmas, Allah te honrou, reconhecer-te e seguir-te. Mas tu também não cumpriste essas exigências. Eles ainda te fizeram alguns pedidos para saber que és superior a eles e que és o Mensageiro de Allah. Também não atendeste a isso. Por Allah, não acreditarei em ti a menos que subas ao céu por uma escada e eu te veja subir com os meus próprios olhos; depois, que venham contigo quatro anjos e testemunhem a veracidade da tua afirmação. Mesmo que fizesses tudo isso, acho que ainda assim não acreditaria em ti.” 27. Esse homem abraçou o Islã pouco antes da conquista de Meca.

Depois, ele se afastou do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — também o deixou e voltou para casa profundamente entristecido e pesaroso. Quando fora chamado, havia corrido para lá cheio de esperança. Mas, ao constatar que, na realidade, eles haviam se afastado ainda mais dele, sua tristeza não teve limites.

A conduta de Abu Jahl

Depois que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — partiu, Abu Jahl disse: “Ó coraixitas, escutai! Muhammad não está disposto, de modo algum, a abandonar sua postura. Não deixará de criticar a nossa religião, insultar os nossos antepassados, considerar a nossa inteligência como estupidez e ofender os nossos deuses. Juro por Allah que amanhã ficarei à sua espera com a maior pedra que eu conseguir levantar. Assim que ele se prostrar durante a oração, esmagarei a sua cabeça com essa pedra. Depois, aconteça o que acontecer. Vós podeis entregar-me à justiça ou proteger-me; isso é convosco. Que os Banu Abd Manaf façam o que julgarem melhor.” Todos disseram: “Por Allah, de modo algum te entregaremos à justiça. Faz o que decidiste fazer.”

No dia seguinte, Abu Jahl realmente se sentou à espera do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — com uma enorme pedra. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — também foi rezar, como era seu hábito diário. Embora morasse em Meca, rezava voltado para a Síria. Ficava de pé entre o Rukn al-Yamani e a Pedra Negra, de tal modo que a Caaba ficava entre ele e a Síria. Ele iniciou a oração, enquanto os coraixitas, sentados no local de reunião, contavam ansiosamente os momentos, esperando para ver o que Abu Jahl faria.

Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se prostrou, Abu Jahl levantou uma pedra e avançou em sua direção. Assim que se aproximou dele, voltou derrotado, apavorado e com o rosto transtornado. Suas duas mãos pareciam ter ficado imóveis e paralisadas sobre a pedra. Ele atirou a pedra para longe. Nesse momento, alguns coraixitas se aproximaram dele e disseram: “Ó Abu al-Hakam, o que aconteceu com você?” Ele respondeu: “Eu me aproximei de Muhammad e queria executar a intenção que havia declarado a vocês na noite passada. Mas, assim que me aproximei dele, um camelo enorme e assustador surgiu entre ele e mim, impedindo-me de avançar. Por Allah, nunca vi um camelo tão assustador, com tamanho focinho, pescoço e dentes. O camelo estava prestes a me devorar.”

Relato sobre Nadr ibn al-Harith

Depois que Abu Jahl terminou de falar, Nadr ibn al-Harith levantou-se. Ele disse: “Ó povo dos coraixitas, por Allah, caiu sobre vocês uma calamidade para a qual ainda não conseguiram encontrar nenhum meio de remediá-la. Muhammad era apenas um jovem entre vocês. Era o mais amado e o mais veraz entre vocês. Era o mais confiável. Mas, assim que atingiu a maturidade, surgiu com algo novo. Então vocês o chamaram de feiticeiro. Não, por Allah, ele não é feiticeiro. Nós vimos os feiticeiros e também vimos seus encantamentos e seus sopros mágicos. Vocês o chamaram de adivinho. Por Allah, ele não é adivinho. Já ouvimos e vimos muitas das artimanhas e dos maneirismos dos adivinhos. A hesitação, o disparate e a exaltação próprios da fala de um louco estão ausentes de suas palavras. Ó coraixitas, examinai a vossa situação. Por Allah, uma terrível calamidade caiu sobre vocês.”

Nadr ibn al-Harith era um dos homens mais astutos e conspiradores entre os coraixitas. Seu trabalho consistia em causar sofrimento ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, de várias maneiras e mostrar-lhe hostilidade. Ele havia passado algum tempo em Hirah e de lá aprendera as histórias dos reis da Pérsia. Também conhecia as narrativas de Rustam e Isfandiyar. Sempre que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentava-se numa reunião, recitava as palavras de Allah e advertia seu povo, mencionando como os povos anteriores haviam sido destruídos por terem incorrido na ira de Allah, assim que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, terminava de falar e se levantava, ele dizia: “Ó coraixitas, eu posso contar histórias mais belas do que as de Muhammad. Venham, vou fazer vocês ouvirem histórias mais empolgantes do que as palavras dele.” Em seguida, contava-lhes as histórias dos reis da Pérsia e as narrativas de Rustam e Isfandiyar. Depois dizia: “Pode Muhammad dizer algo melhor do que todas essas minhas histórias?”

Abdullah ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, dizia: “Oito versículos do Alcorão foram revelados a respeito de Nadr ibn al-Harith.”

Sempre que os versículos eram recitados diante dele, ele dizia: “Isto não passa de histórias dos antigos!” Este versículo, assim como os outros versículos que mencionam “histórias dos antigos”, foi revelado especificamente a respeito de Nadr ibn al-Harith.

A perseguição dos idólatras contra os muçulmanos vulneráveis

Os idólatras começaram a infligir severas torturas aos Companheiros que haviam aceitado o Islã e seguido o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Cada tribo lançou toda a sua força contra os muçulmanos que havia entre seus membros. Em alguns lugares, mantinham-nos presos, batiam neles e submetiam-nos a sofrimentos indescritíveis de fome e sede; em outros, durante o intenso calor do meio-dia, deitavam-nos no deserto escaldante das planícies de Meca e os torturavam. Os fracos eram torturados dessa maneira até serem obrigados a abandonar o Islã. Alguns abandonavam o Islã sob a pressão de uma tortura insuportável. Outros recebiam ajuda e apoio, e assim Allah os protegia. Bilal, o escravo de Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, havia sido escravo de um homem da tribo de Banu Jumah. Seu nome era Bilal ibn Rabah, e o nome de sua mãe era Hamamah. Ele havia sido criado entre eles desde a infância. Era um muçulmano devoto e de alma pura. Ao meio-dia, sob o sol escaldante, Umayyah ibn Khalaf ibn Wahb ibn Hudhafah ibn Jumah levava-o para as planícies de Meca e mandava que o deitassem de costas. Depois, ordenava que colocassem uma enorme pedra sobre seu peito. Em seguida, dizia-lhe: “Se não aceitares renegar Muhammad e adorar al-Lat e al-Uzza, permanecerás assim até morrer.” Mesmo enquanto suportava tão intenso sofrimento, ele dizia: “Ahad”, isto é, “Allah é Um, Allah é Um”. Quando, durante a tortura, pronunciava “Ahad, Ahad”, às vezes Waraqah ibn Nawfal passava por perto. Ao ouvir as palavras de Bilal, Waraqah ibn Nawfal também dizia imediatamente: “Por Allah, ó Bilal, verdadeiramente Allah é Um, Allah é Um, Allah é Um.” Depois, ia até Umayyah ibn Khalaf e até os demais membros da tribo de Banu Jumah que torturavam Bilal e dizia: “Por Allah, se vocês o matarem por isso, eu certamente o considerarei um homem de imenso mérito e beijarei o pó de seus pés.” Certo dia, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, passava por ali. Viu que Bilal estava sendo torturado da mesma maneira. Então disse a Umayyah ibn Khalaf: “Você não teme nem um pouco a Allah por torturar este homem indefeso? Por quanto tempo continuará fazendo isso?”

Ela disse: “Foste tu que o corrompeste. Agora és tu que deves libertá-lo desta situação.”

Abu Bakr disse: “Farei isso. Tenho um rapaz mais robusto e forte do que ele, que segue a tua religião. Eu te darei esse rapaz em troca dele.” O homem disse: “Aceito.” Abu Bakr disse: “Eu também aceito. Ele é teu.” Então entregou o rapaz a Umayya e, em troca, tomou Bilal e libertou-o. Antes da Hégira, Abu Bakr libertou ao todo sete escravos recém-convertidos ao Islã, incluindo Bilal, Amir ibn Fuhayra, Ummu Ubaiss e Zinnira. Quando libertou Zinnira, ela já havia perdido a visão. Ao verem isso, os coraixitas disseram: “Ela perdeu a visão por causa da maldição de Al-Lat e Al-Uzza.” Zinnira disse: “Juro por Allah que jamais vos libertarei.” Naquele momento, Abu Bakr passava por ali. Assim que ouviu aquelas palavras, disse: “Ó mãe de fulano, quebra o teu juramento.” Ela disse: “O que estás dizendo? Que eu quebre o juramento? Foste tu que os corrompeste. Agora és tu que deves libertá-los.” Abu Bakr respondeu: “Eu os tomo para mim! Eles estão livres e libertos.” Em seguida, disse às duas meninas: “Devolvam a farinha da mulher.” As duas meninas disseram: “Ó Abu Bakr, devemos primeiro ser exoneradas da responsabilidade e depois devolver a farinha?” Abu Bakr respondeu: “Isso fica a vosso critério.”

Certa vez, ele passava por uma escrava recém-convertida ao Islã, pertencente aos Banu Mu’ammal. Umar ibn al-Khattab estava torturando-a e pressionando-a para que abandonasse o Islã. Naquela época, Umar ainda era politeísta. Depois de espancá-la até se cansar, disse-lhe: “Peço-te desculpas por não poder continuar a bater-te, apenas porque estou cansado.” A moça respondeu: “Que Allah te trate da mesma forma.” Ao testemunhar essa cena, Abu Bakr comprou imediatamente a escrava e libertou-a.

Certo dia, Abu Quhafa, pai de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), disse-lhe: “Meu filho, vejo que libertas apenas escravos e escravas fracos. Se libertasses escravos jovens e fortes, eles poderiam defender-te firmemente quando necessário.” Ao ouvir isso, Abu Bakr disse: “Ó pai, faço o que faço unicamente pela causa do Deus Altíssimo.”

Os membros da tribo Banu Makhzum levavam Ammar ibn Yasir e seus pais ao deserto escaldante de Meca, no calor sufocante do meio-dia, e os torturavam. Toda a família havia aceitado o Islã. Enquanto eram torturados, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ia até eles e, consolando-os, dizia: “Ó família de Yasir, tende paciência. Há para vós a promessa do Paraíso.” Eles espancaram Sumayya, mãe de Ammar, até matá-la. Ainda assim, ela não abandonou o Islã.

E o ímpio Abu Jahl, sempre que ouvia que alguém havia aceitado o Islã, incitava imediatamente os coraixitas contra essa pessoa. Se o convertido fosse alguém de elevada posição, ainda assim o insultava e humilhava, dizendo: “Abandonaste a religião de teu pai, embora teu pai fosse melhor do que tu. Portanto, haveremos de provar que és um tolo; demonstraremos que tua opinião é má e errada e não descansaremos até arruinarmos tua honra e tua reputação.” Se fosse comerciante, dizia-lhe: “Arruinaremos teu comércio e destruiremos tuas mercadorias.” E, se fosse alguém fraco, espancava-o e instigava as pessoas contra ele.

Said ibn Jubayr relata: “Perguntei a Abdullah ibn Abbas: Os politeístas infligiam aos Companheiros do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — uma perseguição tão extrema que, mesmo que eles abandonassem o Islã, não seria possível culpá-los? Ele respondeu: ‘Sim. Eles os espancavam e os faziam sofrer com a fome e a sede. Cada um deles, vítima desse tratamento desumano, ficava tão debilitado que sequer conseguia permanecer sentado direito.’”

Depois de infligir-lhes tal tortura, perguntavam-lhes: “Admite que, além de Allah, Al-Lat e Al-Uzza também são teus deuses?” Alguns respondiam: “Sim.” Chegavam até a apontar para um inseto insignificante e dizer: “Reconhece também este como uma divindade além de Allah, não?” Alguns, sem outra alternativa para escapar daquela tortura insuportável, respondiam: “Sim.”

A primeira Hégira dos muçulmanos para a Abissínia

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, viu que, por um lado, seus Companheiros estavam sendo submetidos a uma perseguição intolerável. Por outro lado, devido à honra especial concedida por Allah, o Altíssimo, e ao apoio de Abu Talib, ele levava uma vida relativamente segura. Contudo, não conseguia impedir nem um pouco a injustiça que recaía sobre eles. Nessa situação, disse aos seus Companheiros: “Se vocês forem para a Abissínia, não será uma má ideia. Lá há um rei sob cujo governo ninguém sofre injustiça. Esse país é um refúgio da verdade e da justiça. Permaneçam lá até que Allah os liberte desta situação intolerável.” Seguindo esse conselho, os Companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiram para a Abissínia em busca da proteção de Allah, temendo ser forçados a retornar à incredulidade e procurando preservar sua religião e sua fé. Esta foi a primeira Hégira após o surgimento do Islã.

Os primeiros a deixar sua terra natal por essa Hégira foram Uthman ibn Affan e sua esposa Ruqayya, filha do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele; Abu Hudhayfa ibn Utba e sua esposa Sahla bint Suhayl; az-Zubayr ibn al-Awwam; Mus’ab ibn Umayr; Abd ar-Rahman ibn Awf; Abu Salama ibn Abd al-Asad e sua esposa Layla bint Abi Hathma; Abu Sabra ibn Abu Ruhm; e Suhayl ibn Bayda. Esses dez foram os primeiros muçulmanos a fazer a Hégira para a Abissínia. (Segundo Ibn Hisham, Uthman ibn Maz’un era o líder do grupo.) Depois, deixou sua terra natal Ja’far ibn Abu Talib, que Allah esteja satisfeito com ele. Em seguida, os muçulmanos continuaram a chegar ali, um após o outro, alguns com suas famílias e outros sozinhos, deixando para trás seus familiares. Assim, o número total de muçulmanos que fizeram a Hégira para a Abissínia e começaram a viver ali chegou a 83. Naturalmente, as crianças pequenas e os adolescentes que foram com eles ou nasceram depois de sua chegada não estão incluídos nesse número.

Envio de emissários dos coraixitas à Abissínia para trazer de volta os emigrantes

Quando os coraixitas viram que os Companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estavam vivendo em segurança e paz na Abissínia, decidiram enviar dois emissários qualificados ao Negus, para que ele os mandasse de volta e eles tivessem a oportunidade de fazê-los renunciar à sua religião. Determinaram-se a retirar os muçulmanos, de qualquer maneira, de seu refúgio seguro e tranquilo. Os dois homens enviados para esse fim foram Abdullah ibn Abu Rabia e Amr ibn al-As ibn Wa’il. Os coraixitas reuniram muitos presentes para entregar ao Negus por meio dos dois emissários. Depois, enviaram-nos até o Negus.

Umm Salama bint Abu Umayya ibn al-Mughira, esposa do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Depois que chegamos à Abissínia, encontramos um excelente vizinho: o próprio Negus. Obtivemos plena segurança quanto à nossa religião e pudemos adorar Allah sem impedimentos. Ninguém nos tratava de modo doloroso, nem éramos obrigados a ouvir palavras desagradáveis. Quando os coraixitas souberam disso, decidiram enviar ao Negus dois emissários experientes a nosso respeito e mandar-lhe, de Meca, presentes com objetos raros e admiráveis. Entre os objetos que chegavam de Meca ao Negus, as peles eram consideradas as melhores. Por isso, os coraixitas reuniram e enviaram muitas peles para ele. Não deixaram de presentear nenhum dos funcionários do Negus nem nenhum de seus cortesãos. Enviaram Abdullah ibn Abu Rabia e Amr ibn al-As com todos esses presentes e explicaram-lhes o que deveriam fazer. Disseram-lhes: ‘Antes de falar com o Negus sobre os emigrantes, ofereçam presentes a cada cortesão e funcionário e peçam-lhe que entregue os emigrantes a vocês, sem falar com eles antes de entregá-los.’”

Então partiram e chegaram à presença do Negus. Naquele tempo, vivíamos numa excelente morada, junto de um excelente vizinho. Antes de falar com o Negus, deram presentes a cada cortesão e funcionário. Disseram a cada um deles: “Alguns jovens tolos de nossa terra refugiaram-se no reino do rei. Abandonaram a religião de seu povo, mas também não adotaram a sua religião. Criaram uma nova religião estranha, completamente desconhecida para vocês e para nós. Os homens mais nobres de nossa nação enviaram-nos ao rei para que ele os devolva ao seu próprio povo. Quando falarmos com o rei, aconselhem-no a mandá-los de volta e a não falar com eles, pois o povo deles é quem melhor conhece suas faltas.” Todos os cortesãos concordaram com isso. Depois, deram presentes ao Negus, que os aceitou. Em seguida, começaram a falar com ele. Disseram: “Ó rei, alguns jovens insensatos de nossa terra refugiaram-se em seu país. Abandonaram a religião de seu povo e não adotaram a sua religião. Inventaram uma religião estranha, desconhecida para você e para nós. Os homens mais honrados de seu povo enviaram-nos como emissários a você a respeito deles. Eles são seus tutores e parentes. Viemos pedir que os devolva. Seus tutores e parentes são quem melhor conhece suas faltas.”

Umm Salama disse: “Para Abdullah ibn Abu Rabia e Amr ibn al-As, nada era mais indesejável do que o Negus ouvir a declaração dos emigrantes.” Os cortesãos do rei disseram-lhe: “Ó rei, os dois disseram a verdade. O povo deles conhece melhor suas faltas. Portanto, entregue-os a esses dois emissários, para que os levem de volta à sua terra e ao seu povo.”

Najashi ficou furioso. Ele disse: “Não, nestas circunstâncias não os entregarei nas mãos desses dois mensageiros. Há um grupo de pessoas vivendo sob minha proteção. Eles se tornaram hóspedes em meu país. Preferiram vir até mim a ir para outro lugar. Vou chamá-los e ouvir também o que têm a dizer sobre as alegações desses dois visitantes. Se eu descobrir que os refugiados são realmente como estes dois afirmam, entregá-los-ei e os enviarei de volta ao seu povo; caso contrário, não os enviarei. Enquanto desejarem permanecer comigo, serão recebidos com honra.”

Umm Salama disse: Depois disso, Najashi mandou chamar os Companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando o mensageiro de Najashi foi convocar os emigrantes, todos se reuniram para deliberar. Perguntaram uns aos outros o que deveriam dizer ao rei. Todos disseram unanimemente: “Diremos apenas o que sabemos e o que nosso Profeta nos ordenou. Seja qual for o resultado, aceitá-lo-emos.”

Eles compareceram à corte. Najashi já havia convocado os sacerdotes e os mantinha presentes. Eles tinham aberto o Injil diante do rei. O rei perguntou-lhes: “Qual é essa religião que vocês adotaram, afastando-se assim do seu próprio povo, sem abraçar a minha religião nem qualquer outra?”

Jafar ibn Abu Talib respondeu: “Ó rei, éramos um povo ignorante. Adorávamos ídolos, comíamos a carne de animais mortos e entregávamo-nos a atos obscenos e perversos. Rompíamos os laços com os parentes próximos, desprezávamos os vizinhos, e o mais forte entre nós usurpava o direito do mais fraco. Nessa situação, Allah enviou-nos, dentre nós mesmos, um homem como Profeta. Sabíamos que ele era de linhagem nobre e veraz, e havíamos constatado que era digno de confiança e de excelente caráter. Ele nos convocou a adorar somente Allah e a crer na Sua unicidade. Ordenou-nos abandonar as coisas que adorávamos além de Allah, como pedras, ídolos e semelhantes. Ordenou-nos dizer a verdade, preservar os depósitos confiados, tratar bem os parentes, comportar-nos bem com os vizinhos e abster-nos de atos proibidos e de derramamento de sangue. Proibiu-nos praticar obscenidades, mentir, usurpar os bens dos órfãos e caluniar mulheres inocentes. Ordenou-nos adorar o Deus Único e não associar parceiros a Ele. Ordenou-nos realizar a oração e pagar o zakat.” Assim, Jafar apresentou uma a uma as normas do Islam.

Jafar acrescentou: “Respondemos ao seu chamado e depositamos fé nele. Começamos a seguir as normas que ele transmitiu da parte de Allah. Passamos a adorar somente Allah e não associamos ninguém a Ele. Abstivemo-nos das coisas que ele declarou haram e aceitamos como halal as coisas que ele declarou halal. Por isso, nosso povo tornou-se nosso inimigo; começaram a perseguir-nos e a conspirar para nos fazer voltar da adoração do Deus Único à idolatria. Pressionavam-nos para que voltássemos a considerar halal aquelas práticas abomináveis. Quando passaram a dominar-nos dessa maneira, tornaram nossa vida insuportável com a opressão e a perseguição e começaram a impedir-nos de praticar a religião que havíamos escolhido, viemos buscar refúgio em seu país. Consideramos o senhor melhor do que os outros e desejamos viver sob sua proteção. Ó rei, esperamos não sofrer injustiça sob sua autoridade.”

Najashi perguntou-lhe: “Vosso Profeta trouxe a Palavra de Allah? Você tem consigo alguma parte dela?” Jafar respondeu: “Sim, tenho.” Najashi disse: “Recite-a para mim.” Jafar recitou alguns versículos do início da Surata Maryam. Ao ouvir os versículos, Najashi começou a chorar. Sua barba ficou molhada de lágrimas. Os sacerdotes também choraram com ele, até molharem o Injil. Então Najashi disse: “Estou certo de que esta Palavra e a Palavra que veio a Jesus provêm ambas da mesma fonte. Ó enviados dos coraixitas, ide embora. De modo algum os entregarei às vossas mãos. Eles permanecerão aqui.”

Umm Salama disse: Ao sair da corte, Amr ibn al-As declarou: “Por Allah, amanhã voltarei a Najashi. Então direi algo que será mais decisivo a respeito dos muçulmanos refugiados.” Ele disse: “Não faças isso. Embora sejam nossos adversários, não devemos ir tão longe, pois muitos deles têm parentes consanguíneos.” Amr ibn al-As respondeu: “Informarei Najashi de que os muçulmanos creem que Jesus, filho de Maria, é simplesmente um servo de Allah.”

No dia seguinte, comparecemos novamente à corte de Najashi e dissemos-lhe: “Ó rei, os refugiados dizem algo gravíssimo a respeito de Jesus, filho de Maria. Convoque-os e pergunte-lhes qual é a sua opinião sobre Jesus (que a paz esteja com ele).”

O rei convocou novamente os muçulmanos à sua corte para perguntar-lhes a opinião sobre Jesus (que a paz esteja com ele). Umm Salama disse: “Desta vez enfrentamos a prova mais difícil. Os muçulmanos emigrantes reuniram-se novamente para consultar-se. Agora havia uma nova questão diante de todos: o que deveríamos dizer se o rei perguntasse sobre Jesus (que a paz esteja com ele)? Por fim, todos decidiram que diríamos exatamente o que Allah declarou e a verdade que o nosso Profeta nos ensinou. O que tivesse de acontecer, aconteceria.”

Quando os emigrantes chegaram à corte, ele lhes perguntou: “O que pensais sobre Jesus, filho de Maria?” Ja‘far ibn Abu Talib respondeu: “Cremos naquilo que o nosso Profeta nos ensinou sobre ele. Ele disse que Jesus (que a paz esteja com ele) é servo de Allah, Seu Mensageiro, um espírito vindo d’Ele e Sua palavra, que Ele lançou sobre Maria, a virgem intocada por homens.”

Ao ouvir isso, Najashi, tomado de intensa emoção, bateu as mãos no chão, pegou um pequeno pedaço de madeira e disse: “Por Allah, entre o que disseste e aquilo que Jesus, filho de Maria, é, não há diferença sequer do tamanho deste pedaço de madeira.”

Enquanto o rei dizia isso, os cortesãos ao seu redor murmuraram algo, tomados pela ira. Ao ouvi-los, o rei disse: “Por mais que murmureis, a minha decisão não mudará. Ó emigrantes, ide agora para as vossas residências. Continuai vivendo em meu reino em completa segurança e tranquilidade. Quem vos insultar será multado. Mesmo que eu obtivesse uma montanha de ouro ao prejudicar qualquer um de vós, não gostaria de fazê-lo. Ó funcionários do reino, devolvei os presentes trazidos por esses dois enviados. Não tenho necessidade deles.”

Umm Salama disse: “Depois disso, os dois partiram levando a extrema humilhação e vergonha sobre as cabeças. Os presentes que haviam trazido também foram devolvidos. Nós continuamos vivendo junto dele, em um ambiente residencial extremamente tranquilo e na companhia de um vizinho da mais nobre índole.”

Umm Salama disse: “Vivíamos em um ambiente tão tranquilo quando, de repente, um homem da Abissínia entrou em conflito com Najashi pelo direito de governar o reino. Nunca havíamos passado por uma preocupação como aquela. Temíamos que, se aquele homem vencesse Najashi, talvez não quisesse conceder-nos asilo como Najashi fizera, nem reconhecesse os nossos direitos legítimos. Najashi partiu para combater aquele rival. O rio Nilo ficava entre os dois adversários. Os companheiros emigrantes do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disseram: “Há aqui alguém que possa estar presente no campo de batalha durante esta guerra do povo abissínio, observar o resultado e voltar para nos informar?” Zubayr ibn al-Awwam disse: “Eu irei.” Todos concordaram com o desejo desse companheiro, que era o mais jovem entre eles.”

Encheram de ar um odre de couro e deram-no a Zubayr. Ele o colocou sobre o peito. Depois, apoiando-se nele, atravessou o rio a nado e chegou à margem do Nilo. Em seguida, caminhou até chegar ao campo de batalha.

Umm Salama disse: “Naquele momento, continuamos a suplicar a Allah que Najashi vencesse o seu inimigo e mantivesse a sua autoridade sobre o país. Enquanto esperávamos ansiosamente para saber o resultado da batalha, de repente vimos Zubayr. Ele vinha correndo, agitando um pano, e dizia: “Recebei as boas-novas: Najashi venceu! Allah destruiu o seu inimigo e manteve a sua autoridade na Abissínia.” Depois disso, o seu governo consolidou-se na Abissínia. Nós permanecemos ali no melhor lugar. Por fim, retornamos para junto do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ele ainda se encontrava em Meca.”

A conversão de Umar ibn al-Khattab ao Islã

Quando Amr ibn al-As e Abdullah ibn Abu Rabia retornaram a Meca para junto dos coraixitas, estes souberam que eles não apenas haviam fracassado em trazer de volta os companheiros do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, como também haviam sido dispensados pelo Negus depois de ele lhes dirigir palavras desagradáveis. Foi nessa época que Umar também aceitou o Islã. Ele era obstinado e audacioso. Mesmo na sua ausência, ninguém ousava dizer ou fazer nada contra ele. Ninguém ousava dizer ou fazer nada contra dois heróis como Hamza e Umar. Tendo como companheiros dois heróis como Hamza e Umar, os companheiros do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — obtiveram considerável proteção contra a opressão dos incrédulos. Pode-se dizer que, em força e poder, eles chegaram a superar os próprios coraixitas.

Abdullah ibn Masud — que Allah esteja satisfeito com ele — dizia: “Não podíamos ir à Caaba e realizar a oração até que Umar, filho de Khattab, aceitasse o Islã. Depois que Umar aceitou o Islã, desafiou os coraixitas, foi até a frente da Caaba e realizou a oração, e nós também rezamos com ele. Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — aceitou o Islã depois que alguns companheiros haviam emigrado para a Abissínia [Abissínia].”

O episódio da conversão de Umar ao Islã foi assim: sua irmã, Fatima bint Khattab, e seu marido, Said ibn Zayd, já haviam buscado abrigo sob a proteção do Islã. Ambos haviam mantido isso em segredo de Umar. Naim ibn Abdullah al-Nahham, da tribo dos Banu Adi ibn Kaab, também mantinha em segredo sua conversão ao Islã, por medo dos membros de sua tribo. Ele pertencia ao mesmo clã de Umar. Outro companheiro, Khabbab ibn al-Aratt, ia às vezes à casa de Fatima bint Khattab para ensinar-lhe a recitação do Alcorão. Certo dia, Umar saiu com a espada na mão à procura do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e de alguns de seus companheiros. Ele soubera previamente que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — havia se reunido com quarenta companheiros, homens e mulheres, numa casa próxima ao monte Safa. Ali estavam com ele Hamza ibn Abd al-Muttalib — que Allah esteja satisfeito com ele —, Abu Bakr al-Siddiq — que Allah esteja satisfeito com ele —, Ali ibn Abu Talib — que Allah esteja satisfeito com ele — e aqueles muçulmanos que, em vez de irem para a Abissínia, haviam permanecido em Meca junto do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naim colocou-se diante de Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — e perguntou: “Aonde vais, Umar?”

Umar disse: “Estou à procura daquele apóstata, Muhammad, que semeou a discórdia entre os coraixitas, declarou-os tolos, condenou sua religião e insultou seus deuses. Vou matá-lo.”

Naim disse-lhe: “Umar, certamente foste enganado por ti mesmo. Pensas que, depois de matares Muhammad, os Banu Abd Manaf te deixarão em paz e poderás andar livremente? Trata antes de cuidar da tua própria casa.”

Umar disse: “Por quê? Quem fez o quê dentre o meu clã?”

Naim disse: “Teu cunhado e primo, Said ibn Zayd ibn Amr, e tua irmã, Fatima. Juro por Allah que ambos aceitaram o Islã. Eles seguem a religião de Muhammad. Portanto, se puderes, trata primeiro deles.”[28. Seu objetivo era desviar a atenção de Umar para outra questão, pois temia pela vida do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Embora isso pudesse fazer com que Fatima e seu marido fossem perseguidos, era algo muito menos grave em comparação com o perigo que ameaçava a vida do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz.]

Assim que ouviu isso, Umar correu para a casa de sua irmã e de seu cunhado. Khabbab ibn al-Aratt também estava ali. Ele possuía consigo uma parte do Sagrado Alcorão, que estava ensinando ao casal Sa’id. Nessa parte estava escrita a surata Ta-Ha. Eles perceberam a chegada de Umar. Khabbab imediatamente se escondeu num pequeno quarto. Fatima ocultou o trecho do Alcorão. Quando Umar se aproximava da casa, ouviu Khabbab recitando o Alcorão para os dois. Assim que entrou, disse: “Ouvi vocês recitando alguma coisa.” Sa’id e Fatima responderam juntos: “Você não ouviu nada.” Umar disse: “Juro por Allah que ouvi. Vocês adotaram a religião de Muhammad e a estão seguindo.” Depois de dizer isso, deu uma bofetada em seu cunhado Sa’id. Fatima levantou-se e tentou proteger o marido de seus golpes. Umar bateu em Fatima com tanta força que ela ficou ferida.

Ao verem o comportamento desenfreado de Umar, ambos disseram: “Sim, nós aceitamos o Islã e cremos em Allah e em Seu Mensageiro. Agora faça o que quiser.” Ao ver sangue no corpo de sua irmã, Umar arrependeu-se de sua atitude.

Então disse à irmã, em tom de arrependimento: “Está bem, dê-me o livro que vocês estavam lendo. Quero lê-lo um pouco para ver que mensagem Muhammad prega.” Cabe mencionar que Umar sabia ler e escrever.

Sua irmã disse: “Tememos que, se lhe entregarmos o livro, você o destrua.”

Umar jurou pelas divindades e disse: “Não tenha medo. Depois de lê-lo, certamente o devolverei.” Ao ouvir isso, sua irmã começou a ter esperança de que ele talvez aceitasse o Islã. Por isso, disse: “Meu irmão, por ser idólatra, você está impuro. Para tocar este livro, porém, é necessário purificar-se.” Há divergência quanto à exigência de pureza para tocar o Sagrado Alcorão. Alguns dizem que é obrigatório; outros consideram que não é obrigatório, mas recomendado.

Umar foi imediatamente tomar banho e voltou purificado. Então Fatima entregou-lhe o Sagrado Alcorão. Ao abri-lo, viu diante de si a surata Ta-Ha. Depois de ler um pouco desde o início, disse: “Que belas palavras! Que mensagem grandiosa!” Ao ouvir isso de seu esconderijo, Khabbab saiu e disse: “Umar, parece que Allah aceitou a súplica de Seu Profeta e escolheu você para o Islã. Ontem ele suplicou: ‘Ó Allah, fortalece o Islã por meio de Abu al-Hakam ibn Hisham ou de Umar ibn al-Khattab.’ Ó Umar, atenda ao chamado de Allah; atenda ao chamado de Allah!”

Umar então disse: “Ó Khabbab, diga-me onde está Muhammad. Irei até ele e aceitarei o Islã.” Khabbab respondeu: “Ele está numa casa perto do monte Safa, junto com alguns Companheiros.”

Umar pendurou a espada no ombro e partiu à procura do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e de seus Companheiros. Ao chegar ao local, bateu à porta. Ao ouvir o som, um dos Companheiros levantou-se e olhou pela janela. Viu Umar parado, segurando a espada. Assustado, voltou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, Umar está à porta com uma espada.” Hamza, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Deixem-no entrar. Se veio com boas intenções, nós o ajudaremos; mas, se veio com más intenções, nós o mataremos com a própria espada dele.”

O Mensageiro de Allah disse: “Deixem-no entrar.” Então permitiu que Umar entrasse. O Mensageiro de Allah levantou-se, dirigiu-se a Umar e recebeu-o dentro do aposento. Agarrou-o firmemente pelo cós da calça ou pelo ponto em que as duas extremidades do manto se juntavam em seu pescoço. Em seguida, disse: “Ó filho de Khattab, com que propósito vieste? Juro por Allah que não deixarás de agir dessa maneira até que uma grave calamidade da parte de Allah recaia sobre ti.”

Umar disse: “Ó Mensageiro de Allah, vim para crer em Allah, em Seu Mensageiro e na Lei revelada por Allah.”

Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah bradou “Allahu Akbar” com tanta força que todos os Companheiros do Mensageiro de Allah compreenderam que Umar havia abraçado o Islã. Depois de Hamza, a conversão de Umar fortaleceu enormemente o ânimo dos Companheiros do Mensageiro de Allah. Eles tiveram a certeza de que aqueles dois poderiam agora resistir à opressão e à perseguição dos idólatras contra o Mensageiro de Allah, e que, com a ajuda de ambos, todos seriam capazes de enfrentar os inimigos dos muçulmanos. Depois disso, os Companheiros partiram daquele lugar, cada um retornando à sua posição.

Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Naquela mesma noite, depois de abraçar o Islã, comecei a pensar em quem era o mais ferrenho inimigo do Mensageiro de Allah entre os habitantes de Meca. Eu iria até ele e lhe informaria que havia abraçado o Islã. Decidi que Abu Jahl era o maior inimigo. Então, assim que amanheceu, fui à sua casa e bati à porta. Abu Jahl saiu e veio até mim. Ele disse: ‘Bem-vindo, sobrinho. [30. A mãe de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Hantama bint Hisham, era irmã de Abu Jahl.]’

‘O que te traz aqui?’ Eu disse: ‘Vim informá-lo de que creio em Allah e em Seu Mensageiro Muhammad, e aceitei a Lei e a mensagem que ele trouxe.’ Assim que ouviu isso, ele bateu a porta na minha cara, dizendo: ‘Que Allah te cubra de vergonha, e cubra também de vergonha a notícia que trouxeste.’

Detalhes do pacto

Os coraixitas viram que os Companheiros do Mensageiro de Allah haviam encontrado refúgio num lugar seguro e tranquilo, e que o Najashi havia assumido a responsabilidade de proteger aqueles que buscavam refúgio junto dele. Viram também que Umar havia abraçado o Islã.

Como resultado, homens como Umar e Hamza passaram a fazer parte do grupo dos companheiros do Mensageiro de Allah, e o Islã começou a se espalhar entre as tribos vizinhas de Meca. Diante disso, eles se reuniram novamente e decidiram assinar um pacto segundo o qual, dali em diante, o restante dos coraixitas não realizaria nenhum casamento nem qualquer transação comercial com as tribos de Banu Hashim e Banu Abd al-Muttalib.

Convocaram uma assembleia, redigiram e assinaram esse pacto. Depois, penduraram o pacto dentro da Caaba Sagrada, para que sua importância e influência fossem maiores em suas mentes.

Mansur ibn Ikrimah registrou esse pacto e, devido à súplica de maldição do Mensageiro de Allah, alguns de seus dedos ficaram paralisados.

Depois da conclusão desse pacto, os membros do clã Banu Abd al-Muttalib buscaram refúgio junto de Abu Talib. Todos se reuniram com ele e entraram, juntamente com Abu Talib, no desfiladeiro onde ele se encontrava. Por outro lado, Abu Lahab saiu do clã Banu Hashim, juntou-se aos coraixitas hostis e apoiou o lado deles. Ele costumava dizer: “Muhammad me fala de coisas que não consigo ver. Ele diz que haverá vida novamente depois da morte. Se eu acreditar nisso, o que me restará?” Em seguida, soprou sobre as duas mãos e disse: “Que vocês dois pereçam. (Isto é, ambas as mãos.) Não vejo em vocês nada do que Muhammad diz.” (Seu objetivo provavelmente era zombar da questão de receber o registro das ações nas mãos. — Tradutor.) Nesse contexto, Allah revelou este versículo:

[Árabe *************]

“Que pereçam as duas mãos de Abu Lahab, e que ele próprio pereça.”

O cerco nos desfiladeiros dos dois clãs, Banu Abd al-Muttalib e Banu Hashim, durou dois ou três anos. Durante esse período, eles sofreram dificuldades indescritíveis. Nada chegava até eles, salvo por meio da ajuda secreta de alguns poucos parentes coraixitas compassivos.

[31. Segundo alguns, a circunstância da revelação da surata Al-Lahab foi a seguinte: quando Allah ordenou ao Mensageiro de Allah que convocasse seus parentes mais próximos ao Islã, certo dia ele subiu ao monte Safa e chamou todos os habitantes de Meca. Quando todos se reuniram, ele disse: “Se eu vos dissesse que há um exército à espreita na planície, do outro lado da montanha, pronto para vos atacar, acreditaríeis em mim?” Então todos disseram unanimemente: “Nunca te vimos dizer uma mentira.” Ele disse: “Eu vos advirto acerca de um castigo severo.” Nesse momento, Abu Lahab disse: “Que pereças! Foi para isso que nos chamaste?” Em resposta a isso, foi revelada a surata Al-Lahab.]

A perseguição dos coraixitas contra o Mensageiro de Allah

Devido à proteção especial de Allah e à resistência eficaz de seu tio paterno, juntamente com os clãs dos Banu Abd al-Muttalib e dos Banu Hashim, eles não puderam lançar nenhum ataque físico contra ele. Assim, sem outra alternativa, escolheram o caminho de difamá-lo, insultá-lo, ridicularizá-lo e zombar dele, além de envolver-se em discussões e disputas com ele. O Alcorão continuou a ser revelado, apresentando descrições e análises detalhadas das ações desse tipo praticadas pelos coraixitas e de sua atitude hostil contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Os nomes de alguns dos que adotavam esse comportamento foram mencionados no Alcorão. Quanto aos outros, sem mencionar seus nomes, foram incluídos na descrição geral referente aos incrédulos.

Entre os coraixitas cujos nomes foram mencionados no Alcorão por esse tipo de conduta, um dos principais foi Abu Lahab ibn Abd al-Muttalib. Sua esposa, Umm Jamil bint Harb ibn Umayya, foi descrita como “a carregadora de lenha”, pois recolhia espinhos e os espalhava no caminho por onde passava o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Por isso, Allah revelou esta surata a respeito dos dois:

[Árabe *************]

“Que pereçam as mãos de Abu Lahab, e que ele pereça! De nada lhe valeram seus bens nem tudo o que adquiriu. Certamente, ele será lançado num fogo de chamas, e também sua esposa, a carregadora de lenha. Em seu pescoço haverá uma corda de fibras de palmeira.”

Ibn Ishaq disse: Ouvi dizer que, quando Umm Jamil soube desta surata do Alcorão, revelada a respeito dela e de seu marido, foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, segurando uma pedra na mão. Naquele momento, ele estava sentado na Mesquita Sagrada, ao lado da Caaba, com Abu Bakr al-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele. Quando ela se aproximou dos dois e parou diante deles, Allah tornou o Mensageiro de Allah invisível aos olhos dela. Assim, ela não conseguiu ver ninguém além de Abu Bakr. Ela disse: “Ó Abu Bakr, onde está o teu companheiro? Ouvi dizer que ele me difama. Juro por Allah que, se eu o encontrasse, atiraria esta pedra contra o seu rosto.” Depois de dizer isso, foi embora. Abu Bakr disse: “Ó Mensageiro de Allah, achas que ela te viu?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Ela não me viu. Allah retirou dela a capacidade de me ver.”

E Umayya ibn Khalaf ibn Wahb ibn Hudhafa ibn Jumah, sempre que via o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, insultava-o em voz alta e o difamava em voz baixa. Allah revelou a respeito dele a surata Al-Humaza:

[Árabe *************]

“Ai de todo aquele que difama pela frente e calunia pelas costas, que acumula riquezas e as conta repetidamente, pensando que seus bens o tornarão eterno. De modo algum! Ele será certamente lançado no Triturador. E o que te fará saber o que é o Triturador? É o fogo de Allah, aceso, que alcançará os corações. Certamente, ele será fechado sobre eles, enquanto estarão presos em colunas elevadas.”

Havia ainda outro: ‘As ibn Wa’il as-Sahmi. Khabbab ibn al-Aratt, um dos Companheiros do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, era ferreiro. Ele havia vendido uma espada e, por isso, ‘As ainda lhe devia uma quantia considerável. Quando foi cobrar o dinheiro, ‘As disse: “Ó Khabbab, o vosso homem, Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, acredita que aqueles que entrarão no Paraíso receberão todo o ouro, a prata, as roupas e os servos que desejarem, não é?” Khabbab respondeu: “Sim.” ‘As disse: “Então, ó Khabbab, concede-me prazo até o Dia da Ressurreição. Quando eu entrar no Paraíso, pagarei o que te devo. Ó Khabbab, juro por Allah que tu e o teu companheiro Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — não sereis mais honrados perante Allah do que eu, nem tereis mais felicidade do que eu.” Foi a respeito de ‘As, nesse contexto, que Allah revelou:

[Árabe *************]

“Viste aquele que nega os Meus versículos e diz: ‘Certamente continuarei a ser enriquecido com riqueza e filhos’? Acaso ele conhece o invisível ou obteve uma promessa do Misericordioso? De modo algum! Registrarei o que ele diz e aumentarei ainda mais o seu castigo. E aquilo que ele menciona acerca de filhos e riquezas pertencerá, no fim, somente a Mim, e ele comparecerá perante Mim sozinho.” (Surata Maryam)

Outra narração informa que Abu Jahl ibn Hisham encontrou-se com o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e disse: “Ó Muhammad, tens de parar de insultar os nossos deuses. Caso contrário, insultarei o teu deus.” Foi a respeito disso que Allah revelou este versículo:

[Árabe *************]

“Não insulteis os deuses deles, para que eles, por hostilidade e ignorância, não insultem Allah.” (Al-An‘am)

Nadr ibn al-Harith ibn Kalada ibn ‘Abd Manaf ibn ‘Abd ad-Dar ibn Qusay era outro homem desse tipo. Sempre que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — convidava as pessoas para Allah numa reunião, recitava o Alcorão, narrava aos coraixitas a história dos povos destruídos no passado e advertia-os de que poderiam sofrer um destino semelhante, Nadr contava aos ouvintes daquela reunião as histórias dos heróis persas Rustam e Isfandiyar. Depois dizia: “Muhammad não consegue contar histórias melhores do que eu. As histórias de Muhammad não passam de lendas dos tempos antigos. Assim como Muhammad as escreveu, eu também as escrevi.” A respeito dele, Allah revelou:

[Árabe *************]

“Eles disseram: ‘Estas são apenas histórias dos povos antigos que Muhammad, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, mandou escrever. Elas lhe são ensinadas todas as manhãs e todas as tardes.’ Ó Profeta, dize: ‘Esta mensagem foi revelada por Aquele que conhece todos os mistérios ocultos dos céus e da terra. Na verdade, Ele é Perdoador, Misericordioso.’” (Alcorão)

[Árabe *************]

“Sempre que os versículos são recitados ao incrédulo, ele diz imediatamente: ‘Isto não passa de histórias dos povos antigos.’” (Al-Qalam)

Também foi revelado:

[Árabe *************]

“Ai de todo mentiroso pecador que, mesmo ouvindo os versículos de Deus serem recitados diante dele, persiste arrogantemente em sua atitude e finge que não os ouviu. Anuncia-lhe, portanto, um castigo doloroso.” (Al-Jathiya)

Outro indivíduo era Al-Akhnas ibn Shurayq ibn Amr ibn Wahab al-Thaqafi. Era um homem de grande prestígio. Ele humilhava o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, de várias maneiras e dizia coisas ofensivas. Sobre ele, Deus revelou na surata Al-Qalam:

[Árabe *************]

“Não obedeças a nenhuma pessoa que jure excessivamente, que seja insignificante, que insulte e espalhe intrigas em demasia, que impeça o bem, transgrida os limites e se entregue ao pecado; que seja extremamente perversa e opressora e, acima de tudo, ignóbil.”

Al-Walid ibn al-Mughirah disse: “Enquanto na tribo dos Coraixitas há um chefe como eu e, na tribo de Taquif, Abu Mas’ud ‘Amr ibn ‘Umayr al-Thaqafi, a revelação foi enviada a Muhammad? Nós dois, as personalidades mais importantes das duas cidades, fomos deixados de lado?”

Em resposta, Allah revelou um versículo da surata Az-Zukhruf,

[Árabe *************]

“Eles disseram: ‘Por que este Alcorão não foi revelado a algum grande homem de uma das duas cidades?’ Acaso são eles que distribuem a misericórdia do teu Senhor? Nós distribuímos entre eles os seus meios de subsistência na vida terrena e elevamos alguns deles acima de outros em graus, para que uns possam utilizar os serviços dos outros. Mas a misericórdia do teu Senhor é melhor do que tudo quanto eles acumulam.”

‘Uqbah ibn Abu Mu’ayt e Ubayy ibn Khalaf eram amigos íntimos. Certa vez, ‘Uqbah sentou-se na assembleia do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e ouviu suas palavras. Ao saber disso, Ubayy foi até ‘Uqbah e disse: “Pensaste que eu não saberia que te sentaste na assembleia de Muhammad e ouviste suas palavras?” Então, proferindo um juramento solene, disse: “Se te sentares na assembleia de Muhammad, ouvires suas palavras e não cuspir em seu rosto, será proibido para mim olhar para o teu rosto.” Que a maldição de Allah recaia sobre ‘Uqbah! O miserável realmente agiu conforme a ordem de Ubayy, inimigo de Allah.

A respeito disso, Allah revelou:

[Árabe *************]

“No dia em que o injusto morderá os próprios dedos e dirá, arrependido: ‘Ah! Se eu tivesse seguido o Mensageiro! Ah! Se eu não tivesse tomado fulano como amigo íntimo! Ele realmente me desviou do caminho depois que a orientação me chegou.’ Em verdade, Satanás é extremamente hábil em humilhar o ser humano.”

Certo dia, Ubayy ibn Khalaf foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levando um osso velho, quase completamente deteriorado, e disse: “Ó Muhammad, acaso acreditas que Allah dará vida novamente a este osso já destruído?” Em seguida, reduziu-o a pó sobre a própria mão, soprou-o ao vento e lançou-o na direção do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Sim, afirmo que Allah dará vida novamente a este osso e a ti, depois de vos deteriorardes; em seguida, lançar-te-á no Inferno.” A respeito disso, Allah revelou um versículo:

[Árabe *************]

“Ele nos dá um exemplo e esquece a sua própria criação. Diz: ‘Quem dará vida novamente a estes ossos quando já estiverem reduzidos a pó?’ Dize: ‘Dar-lhes-á vida Aquele que os criou pela primeira vez. Ele conhece perfeitamente toda a criação. Ele é Allah, que para vós fez surgir fogo da árvore verdejante, e com ele acendeis os vossos fogões.’” (Yá-Sin)

Certo dia, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, circundava a Caaba, Aswad ibn al-Muttalib ibn Khalaf e Al-‘As ibn Wa’il as-Sahmi cercaram o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Todos eles eram anciãos de suas respectivas tribos. Disseram: “Ó Muhammad, vem! Adoremos o teu Allah, e tu adora os nossos ídolos. Assim, participaremos mutuamente da adoração uns dos outros. Se a tua divindade for melhor que os nossos ídolos, teremos participado da sua adoração; e, se os nossos deuses forem melhores que o teu Senhor, tu também terás obtido uma parte deles.” Em resposta, Allah revelou:

[Árabe *************]

“Ó Profeta, dize: ‘Ó incrédulos! Não adoro aquilo que adorais. E vós não adorais Aquele que adoro. Não adorarei aquilo que adorais, e vós não adorareis Aquele que adoro. Para vós, a vossa religião; e, para mim, a minha religião.’” (Al-Kafirun)

Quando Allah mencionou a árvore de Zaqqum para advertir os incrédulos, Abu Jahl ibn Hisham disse: “Ó coraixitas, sabeis qual é a árvore de Zaqqum com que Muhammad vos ameaça?” Eles responderam: “Não.” Então ele disse: “São as tâmaras de Medina conservadas com manteiga. Juro por Allah que, se eu tiver a oportunidade de viver em Medina, comerei delas até me fartar.” A respeito disso, Allah revelou:

[Árabe *************]

“A árvore de zaqqum será o alimento do pecador; ferverá em seu ventre como uma massa de óleo ferve, tal como a água fervente borbulha.” (Ad-Dukhan)

Isto é, a respeito de zaqqum, não é realmente como Abu Jahl costumava dizer.

Certa vez, Walid ibn al-Mughira encontrou-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou a conversar com ele. Ele estava ficando esperançoso quanto à aceitação do Islã por Walid. Nesse momento, o companheiro cego Ibn Umm Maktum chegou ao local. Ele começou a conversar com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e pediu-lhe que recitasse para ele este Alcorão. A chegada e as palavras dele pareceram incômodas ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pois ele não conseguia prestar muita atenção à conversa com Walid. Como resultado, a esperança que nutria quanto à aceitação do Islã por Walid estava prestes a ser frustrada. Ao ver que as palavras de Abdullah ibn Umm Maktum começavam a se prolongar excessivamente, ele virou o rosto com desagrado e não lhe deu importância. Por isso, Allah, o Altíssimo, revelou a respeito dele:

[Árabe *************]

“Ele franziu as sobrancelhas e virou o rosto porque o cego foi até ele. E quem sabe? Talvez ele se purificasse ou recebesse a admoestação, e a admoestação lhe fosse benéfica. Quanto àquele que é indiferente, tu lhe dás muita atenção, embora não te caiba nada se ele não se purificar. E quanto àquele que veio correndo até ti e temia as consequências, tu demonstras desinteresse por ele, por aquele que veio correndo até ti e temia as consequências. De modo algum! Isto é uma admoestação; quem quiser, que a aceite. Está registrada em escrituras honradas, elevadas em dignidade e purificadas.” (Surata Abasa)

Isto é, Allah diz: Eu te enviei como anunciador de boas-novas e admoestador para todos, e não te enviei para uma pessoa específica. Portanto, não prives daquilo que deseja quem o deseja. E não anseies por aquele que não tem interesse.

Aqueles que molestavam o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dentro dos limites de sua própria casa eram Abu Lahab, al-Hakam ibn Abi al-As, Uqba ibn Abi Muayt, Adi ibn Hamra as-Saqafi e Ibsul Asda al-Hudhali. Todos eles eram seus vizinhos. Nenhum deles, exceto al-Hakam ibn Abi al-As, aceitou o Islã. É relatado que, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, orava, essas pessoas jogavam sobre ele as vísceras de cabra. Alguns também lançavam essas vísceras nas panelas que estavam no fogo para cozinhar em sua casa. Por fim, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi obrigado a esconder-se atrás de uma parede para rezar. Quando lançavam as vísceras sobre seu corpo, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, colocava-as na ponta de um bastão, saía de casa e, chegando à porta da casa dos envolvidos, dizia: “Ó clã de Abd Manaf, que tipo de comportamento de vizinhança é este da parte de vocês?” Então jogava aquelas vísceras na rua.”

O retorno dos emigrantes ao ouvirem a notícia de que os habitantes de Meca haviam aceitado o Islã

Os companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que haviam emigrado para a Abissínia, ouviram que os habitantes de Meca haviam aceitado o Islã. Ao ouvirem isso, partiram em direção a Meca. Quando chegaram perto da cidade de Meca, descobriram que a notícia que haviam ouvido, de que os habitantes de Meca haviam aceitado o Islã, não era verdadeira. Por isso, ninguém entrou na cidade senão com a proteção de algum habitante de Meca ou secretamente. Ao todo, trinta e três companheiros retornaram da Abissínia. Uthman ibn Maz’un entrou em Meca sob a proteção de al-Walid ibn al-Mughira, e Abu Salama ibn Abd al-Asad entrou sob a proteção de Abu Talib e de sua mãe, Rabah bint Abd al-Muttalib.

A história da anulação do pacto

Por fim, um grupo dos coraixitas tomou a iniciativa de anular o pacto que os coraixitas haviam assinado com o objetivo de manter Banu Hashim e Banu al-Muttalib sitiados no desfiladeiro. O maior mérito nessa questão coube a Hisham ibn Amr. Isso porque ele era meio-irmão uterino de Nadla ibn Hisham ibn Abd Manaf. Hisham ia até Banu Hashim e Banu al-Muttalib, que estavam sitiados, e lhes fornecia alimentos, levando-os no dorso de camelos. Ao chegar à entrada do desfiladeiro, tirava o capacete da cabeça e golpeava com força um dos lados com ele. Depois, entrava no desfiladeiro. Voltava novamente e lhes entregava roupas. Assim, em diferentes ocasiões, fornecia-lhes os artigos de que necessitavam.

Certo dia, Hisham foi até Zuhayr ibn Abu Umayya ibn al-Mughira. Ele era filho de Atika, filha de Abd al-Muttalib. Hisham lhe disse: “Ó Zuhayr, tu vives confortavelmente, comendo, vestindo-te e convivendo com tua esposa e tua família, enquanto sabes onde e em que condições estão os teus tios maternos. Eles estão sob boicote: ninguém negocia com eles nem se casa com eles. Como pudeste aceitar essa situação? Juro por Allah que, se eles fossem tios maternos de Abu al-Hakam ibn Hisham (Abu Jahl), e tu lhe pedisses que os boicotasse dessa maneira, ele jamais atenderia ao teu pedido.” Zuhayr disse: “Basta, já chega. Não precisas dizer mais nada. Escuta, Hisham, o que posso fazer sozinho? Se houvesse mais um homem comigo, eu tomaria a iniciativa de anular este pacto.” Hisham respondeu: “Já encontrei um homem.” Zuhayr perguntou: “Quem é?” Hisham respondeu: “Eu mesmo.” Zuhayr disse: “Encontra mais um homem.”

Hisham foi até Mut’im ibn Adi e lhe disse: “Ó Mut’im, se dois homens de Banu Abd Manaf morrerem definhando de fome, ficarás em silêncio diante dessa cena apenas para preservar a aprovação dos coraixitas? Se continuares a dar aos coraixitas oportunidades desse modo, eles logo avançarão também contra vós.” Mut’im disse: “Entendi. Mas o que posso fazer sozinho?” Hisham respondeu: “Já encontraste mais um homem.” Mut’im perguntou: “Quem é ele?” Hisham respondeu: “Sou eu mesmo.” Mut’im disse: “Precisamos encontrar um terceiro homem.” Hisham respondeu: “Também já encontrei um terceiro homem.” Mut’im perguntou: “Quem é?” Hisham respondeu: “Zuhayr ibn Abu Umayya.” Mut’im disse: “Encontra mais um, um quarto homem.”

Então ele foi até Abu al-Bukhtari ibn Hisham e repetiu-lhe o que havia dito a Mut’im. Abu al-Bukhtari disse: “Se tentarmos fazer isso, haverá alguém para nos ajudar?” Ele respondeu: “Sim.” Abu al-Bukhtari perguntou: “Quem?” Hisham respondeu: “Zuhayr, Mut’im e eu mesmo.” Abu al-Bukhtari disse: “Encontra mais um homem, um quinto.”

Então ele foi até Zam’a ibn al-Aswad ibn al-Muttalib. Mencionando seu parentesco e seus direitos em relação aos sitiados, discutiu o assunto com ele. Zam’a perguntou: “Há mais alguém que apoie a causa para a qual me estás convidando?” Ele respondeu: “Sim.” Em seguida, contou-lhe quem eram todos eles.

Depois disso, marcaram uma data para se reunirem ao pé da montanha chamada Hajun, nas terras altas de Meca. Na data combinada, reuniram-se ali e decidiram começar os preparativos para anular o pacto. Zuhayr disse: “Eu mesmo tomarei a iniciativa nesta questão e assumirei a responsabilidade de conversar com todos.”

Na manhã seguinte, todos foram reunir-se nos locais de assembleia dos coraixitas. Zuhayr compareceu usando uma roupa magnífica e, depois de circumambular a Caaba sete vezes, aproximou-se da multidão reunida e disse: “Ó habitantes de Meca, nós comeremos e vestiremos roupas, enquanto os Banū Hāshim morrerão lentamente, confinados, sem que ninguém possa negociar com eles — como isso pode ser aceitável? Juro por Deus que não descansarei até rasgar este pacto que destrói os laços de parentesco e incita à injustiça.”

Abu Jahl, sentado num canto da Mesquita Sagrada, exclamou: “Estás mentindo. Juro por Deus que ele não será rasgado.” Então Zumʿa ibn al-Aswad disse: “Juro por Deus que tu és o maior mentiroso. Quando este pacto foi escrito, nós não concordávamos com esse conteúdo.” Abu al-Bukhtari disse: “Zumʿa tem razão. Não aceitamos nem reconhecemos o que está escrito neste pacto.” Mutʿim ibn ʿAdi disse: “Vocês dois têm razão. Quem disser o contrário é mentiroso. Diante de Deus, declaramos nossa desvinculação deste pacto e rejeitamos o que está escrito nele.” Hisham ibn ʿAmr também disse algo semelhante. Depois de ouvir tudo, Abu Jahl disse: “Isto foi decidido na escuridão da noite e foi deliberado em outro lugar.” Enquanto Abu Jahl dizia isso, Abu Talib estava sentado num canto da mesquita. Mutʿim avançou para rasgar o pacto. Porém, ao segurá-lo, viu que as traças haviam comido todo o documento, exceto as palavras “Bismika Allahumma” (“Em Teu nome, ó Deus”).

Diz-se que a mão de Mansur ibn ʿIkrima, o escriba do pacto, ficou paralisada.

O episódio de um homem da tribo de Irash que vendeu um camelo a Abu Jahl

Ibn Ishaq disse: ʿAbd al-Malik ibn ʿAbdullah ibn Abu Sufyan al-Thaqafi, conhecido por sua extraordinária memória, informou-me:

Certa vez, um homem da tribo de Irash foi a Meca levando um camelo. Abu Jahl comprou-lhe o camelo, mas começou a protelar o pagamento do seu preço.

Sem outra alternativa, o homem de Irash foi a uma assembleia dos coraixitas e apresentou-se ali. Dirigindo-se a todos os presentes, disse: “Ó coraixitas, algum de vocês pode cobrar para mim o que Abu al-Hakam ibn Hisham me deve?

Vejam, sou um viajante estrangeiro. Aproveitando-se da minha fragilidade, ele fica protelando o pagamento do que me deve.” Naquele momento, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava sentado num canto da mesquita. Os coraixitas presentes apontaram para o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disseram: “Está vendo aquele homem sentado ali? Vá falar com ele. Ele fará com que o seu crédito seja pago.” Na verdade, disseram isso apenas por zombaria. Eles não ignoravam a relação hostil entre Abu Jahl e o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

O vendedor de camelos de Irash foi até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Disse-lhe: “Ó servo de Allah, Abu al-Hakam ibn Hisham, valendo-se de sua autoridade, fica protelando o pagamento do que me deve. Sou um viajante estrangeiro. Perguntei a essas pessoas quem poderia fazer com que o meu direito fosse pago, e todos apontaram para o senhor. Faça com que ele pague o que me deve. Que Allah tenha misericórdia do senhor.”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Venha comigo.” Dito isso, partiu levando-o consigo. Ao verem que ele acompanhava aquele homem, os coraixitas enviaram alguém para segui-los e disseram: “Vá ver o que Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, faz.”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi à casa de Abu Jahl. Ao chegar, bateu à porta. De dentro, ele perguntou: “Quem é?” Ele respondeu: “Sou eu, Muhammad. Saia um instante!” Abu Jahl saiu imediatamente. Estava tão aterrorizado que parecia estar prestes a perder a vida, e seu rosto havia empalidecido. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse-lhe: “Pague a este homem o que lhe deve.” Ele respondeu prontamente: “Está bem, espere um pouco; vou pagar o que lhe devo.” Dito isso, entrou na casa. Pouco depois, saiu e pagou ao vendedor de camelos o que lhe devia.

Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, voltou. Disse ao vendedor de camelos: “Agora volte aos seus afazeres.” Ele foi àquela reunião dos coraixitas e disse aos presentes: “Que Allah lhe dê a melhor recompensa. Ele fez com que eu recebesse o que me era devido.” Então disse ao homem que haviam enviado para segui-los: “E você, o que viu?” Ele respondeu: “Foi algo espantoso! Ele não precisou fazer absolutamente nada. Apenas foi e bateu à porta, e imediatamente Abu Jahl saiu, como se estivesse aterrorizado. Disse-lhe: ‘Pague a este homem o que lhe deve.’ Ele respondeu: ‘Está bem, espere um pouco; já vou pagar.’ Dito isso, entrou e trouxe imediatamente o que devia, entregando-o a ele.” Pouco depois, Abu Jahl apareceu ali, e todos lhe disseram: “O que aconteceu? O que houve com você? Nunca o vimos fazer algo como o que fez hoje!” Abu Jahl respondeu: “É verdade que Muhammad não fez nada além de bater à minha porta. Bastou ouvir sua voz para eu ficar apavorado e, logo em seguida, aparecer diante dele. Vi sobre sua cabeça um camelo de aparência aterradora. Nunca vi outro camelo com uma corcova, um pescoço e dentes como os dele. Por Allah, se eu tivesse recusado, ele certamente teria me devorado.”

Al-Isra, ou a viagem noturna

Certa noite, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi levado da Mesquita Sagrada à Mesquita de Al-Aqsa, isto é, a Bayt al-Maqdis. (33. Suhaili diz: alguns mencionaram que o acontecimento ocorreu um ano antes da Hégira para Medina.) Naquele período, o Islã havia se difundido bastante entre os coraixitas e entre os membros de outras tribos. Abdullah ibn Mas’ud dizia que o Buraq foi trazido ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Era um animal quadrúpede. Os profetas anteriores também eram transportados montados no dorso desse animal. Ele era tão veloz que colocava os pés no limite extremo da visão. O Mensageiro montou nesse animal, e seu companheiro, Jibril, partiu com ele. Prosseguiu, contemplando inúmeros sinais do céu e da terra. Assim, continuou até chegar a Bayt al-Maqdis, onde parou. Ali viu uma grande reunião de profetas. Entre eles, viu Ibrahim, Musa e Isa, que a paz esteja com eles. Conduziu todos eles em oração congregacional. Então trouxeram-lhe três recipientes: um com água, outro com vinho e outro com leite. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Depois que os três recipientes foram colocados diante de mim, ouvi alguém dizer: ‘Se Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, escolher o recipiente cheio de água, ele se desviará e sua comunidade também perecerá. Se escolher o recipiente de vinho, ele se desviará e sua comunidade também se desviará. Mas, se escolher o recipiente de leite, ele e sua comunidade serão guiados.’” Ao ouvir isso, escolhi o recipiente de leite e bebi dele. Então Jibril, que a paz esteja com ele, disse-me: “Ó Muhammad! Você foi guiado, e sua comunidade também.”

É narrado por Hasan. Ele disse que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, afirmou: “Eu estava dormindo perto da Pedra Negra quando Jibril chegou de repente. Ele me beliscou. Sentei-me, mas, não vendo nada, deitei-me novamente. Ele voltou e me beliscou outra vez. Sentei-me novamente e, não vendo nada, deitei-me de novo. Ele veio pela terceira vez e tornou a beliscar-me. Dessa vez, assim que me sentei, ele segurou meu braço e puxou-me. Ali vi um animal branco, de tamanho intermediário entre uma mula e um jumento. Tinha duas asas nas coxas. Movia as pernas com o auxílio das asas e colocava os dois membros dianteiros no limite extremo da visão. Ele me fez montar naquele animal e partiu levando-me consigo. Seguimos tão próximos que nenhum dos dois perderia o outro.” Hasan acrescenta em sua narração: “Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, continuou avançando, e Jibril também seguia com ele. Chegaram a Bayt al-Maqdis e fizeram uma parada. Ali viram um grupo de profetas reunidos; entre eles estavam Ibrahim, Musa e Isa, que a paz esteja com todos eles. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, conduziu-os como imã na oração. Depois, trouxeram-lhe dois recipientes: um com vinho e outro com leite. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, escolheu o recipiente cheio de leite, bebeu um pouco e rejeitou o recipiente cheio de vinho. Ao ver isso, Jibril disse: ‘Ó Muhammad! Você e sua comunidade foram guiados para o caminho do Islã. O vinho foi proibido para vocês.’ Em seguida, levou o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, de volta a Meca. Na manhã seguinte, ele foi até os coraixitas e contou o ocorrido durante a noite. A maioria, ao ouvir aquilo, disse: ‘Por Allah, isto é algo extraordinário e inacreditável. Quantas caravanas vão de Meca à Síria! Levam um mês para ir e outro para voltar. E Muhammad percorreu uma distância tão longa, foi até lá numa única noite e ainda retornou a Meca!’”

Hasan (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ao ouvirem esse acontecimento, muitos muçulmanos abandonaram o Islã. As pessoas foram até Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e lhe disseram: ‘Ó Abu Bakr, você acredita no seu amigo? Ele afirma que, na noite passada, foi a Bayt al-Maqdis, rezou lá e depois retornou a Meca!’”

Abu Bakr disse: “Vocês não acreditam nele?” Todos responderam: “Sim, é justamente isso que as pessoas estão dizendo, sentadas na mesquita.” Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Juro por Allah: se ele disse isso, então falou a verdade. O que há de tão surpreendente nisso? Ele me diz que recebe revelação de Allah. A revelação desce do céu à terra em apenas um instante, e eu também acredito no que ele diz. Isso é ainda mais extraordinário do que o acontecimento pelo qual vocês estão arregalando os olhos.” Em seguida, foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Este lhe perguntou: “Ó Profeta de Allah, você disse às pessoas que, na noite passada, viajou até Bayt al-Maqdis?” Ele respondeu: “Sim.” Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro de Allah, descreva-me a aparência de Bayt al-Maqdis, pois eu já estive lá.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Nesse momento, Bayt al-Maqdis foi erguida diante de mim, e eu fiquei olhando para ela.” Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou a descrever sua aparência a Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ao ouvir a descrição, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia: “Você disse a verdade. Testemunho que, sem dúvida, você é o Mensageiro de Allah.” Quando terminou a descrição, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse a Abu Bakr: “Ó Abu Bakr, você é as-Siddiq.” Naquele mesmo dia, concedeu a Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) o título de as-Siddiq, isto é, “o extremamente veraz”.

Sa’id ibn al-Musayyab (que Allah tenha misericórdia dele) disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, descreveu aos seus companheiros a constituição física de Abraão, Moisés e Jesus, que a paz esteja sobre todos eles. Ele os havia visto naquela noite. Disse: ‘Quanto à constituição física, Abraão (que a paz esteja sobre ele) é o mais parecido com o seu companheiro — isto é, o próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Moisés, que a paz esteja sobre ele, era um homem de pele morena, alto, esbelto e de nariz proeminente, de bela aparência. Parecia ser alguém da tribo de Shanua. Jesus (que a paz esteja sobre ele) tinha estatura mediana, pele avermelhada, cabelos macios e lisos, e muitas sardas no rosto. Parecia que gotas de água escorriam de seus cabelos; era como alguém que acabara de sair do banho. Entre vocês, o que mais se parecia fisicamente com ele era Urwah ibn Mas’ud al-Thaqafi.’”

O episódio do Mi’raj

Ibn Ishaq disse: Fiquei sabendo por uma fonte fidedigna que Abu Sa’id al-Khudri, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Ouvi da boca do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que ele disse: “Quando os ritos de Bayt al-Maqdis terminaram, foi apresentada diante de mim uma escada para ascender aos céus. Nunca vi coisa alguma tão bela. Quando chega o momento da morte, a pessoa vê essa mesma escada e fica olhando para ela com os olhos bem abertos. Meu companheiro (Jibril) fez-me subir por essa escada e, levando-me consigo, parou comigo diante de uma porta do céu. Essa porta é chamada Bab al-Hafazah, ou Porta dos Guardiões. Ali estava encarregado um anjo chamado Ismail. Sob seu comando havia doze mil anjos, e cada um desses anjos também tinha sob seu comando outros doze mil anjos.” Ao narrar este hadith, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recitou este versículo do Alcorão:

[Árabe *************]

“Ninguém conhece as hostes do teu Senhor senão Ele.” (Surata al-Muddaththir)

“Depois, quando ele me fez entrar, aquele anjo perguntou: ‘Ó Jibril, quem é este?’ Ele respondeu: ‘Este é Muhammad.’ O anjo perguntou novamente: ‘Ele é um profeta?’ Jibril respondeu: ‘Sim.’ Então, fez uma súplica desejando o meu bem.”

Depois de entrar no primeiro céu, vi um homem sentado. As almas de todas as pessoas mortas eram levadas até ele. Quando algumas chegavam, ele ficava muito feliz e dizia, elogiando: “Esta é uma alma pura que saiu de um corpo puro.” Quando outras chegavam, ele demonstrava desagrado no rosto e dizia: “Ah! Esta é uma alma impura que saiu de um corpo maculado pelo pecado.” Perguntei a Gabriel: “Ó Gabriel, quem é este?” Gabriel respondeu: “Este é seu pai Adão (a). As almas de seus descendentes são apresentadas a ele. Ao ver a alma de um crente, ele se alegra e diz: ‘Esta é uma alma pura que saiu de um corpo puro.’ Mas, ao ver a alma de um descrente, ele solta um grito, não gosta dela e, incomodado, diz: ‘Esta é uma alma pecadora que saiu de um corpo pecador.’”

Depois vi algumas pessoas. Seus lábios eram como os de camelos, e em seus punhos havia pequenos pedaços de pedras ardentes. Elas os colocavam na boca e, logo em seguida, eles saíam pelo ânus. Perguntei: “Ó Gabriel, quem são eles?” Ele respondeu: “São os que se apropriam indevidamente dos bens dos órfãos.”

Depois vi mais algumas pessoas. Nunca tinha visto barrigas tão horrendas quanto as delas. Vi que estavam paradas sobre o caminho pelo qual os aliados do Faraó eram levados ao Inferno. 34. O Alcorão menciona que os aliados do Faraó sofrerão o mais severo castigo do Inferno. Elas se agitavam como camelos atormentados pela sede. Os seguidores do Faraó que se dirigiam ao Inferno as pisoteavam, mas elas não tinham sequer capacidade de se afastar um pouco dali. Perguntei: “Ó Gabriel, quem são eles?” Ele respondeu: “São os que praticam usura.”

Depois vi outro grupo de pessoas. Diante delas havia carne excelente e bem nutrida, e ao lado dela havia carne ruim, de odor repugnante. Mesmo assim, deixavam a carne boa de lado e comiam a carne ruim. Perguntei: “Ó Gabriel, quem são eles?” Ele respondeu: “São aqueles que, embora tenham esposas legítimas, procuram mulheres proibidas.”

Depois vi algumas mulheres penduradas, com cordas amarradas aos seus seios. Perguntei: “Ó Gabriel, quem são elas?” Ele respondeu: “São as mulheres que, por meio do adultério, incluem entre os filhos do marido uma criança gerada por outro homem.”

Depois ele me fez subir ao segundo céu. Ali encontrei Isa (a) e Yahya ibn Zakariya (a), que eram primos.

Depois Gabriel (a) me fez subir ao terceiro céu. Ali vi um homem cujo rosto brilhava como a lua cheia. Perguntei: “Ó Gabriel, quem é ele?” Ele respondeu: “É Yusuf (a), filho de Jacó (a).”

Depois subi ao quarto céu e ali vi outro homem. Gabriel informou que ele era Idris (a). Em seguida subi ao quinto céu. Ali vi um ancião de cabelos brancos e longa barba. Nunca tinha visto um ancião tão belo. Perguntei: “Ó Gabriel, quem é ele?” Ele respondeu: “É Harun ibn Imran (a), amado por seu povo!” Depois chegamos ao sexto céu. Ali vi um homem alto, de pele morena e nariz comprido, como alguém da tribo de Shanu’a. Perguntei: “Ó Gabriel, quem é ele?” Gabriel respondeu: “É seu irmão Musa ibn Imran (a).”

Depois, fizeram-me ascender ao sétimo céu. Ali vi um ancião sentado numa cadeira junto à porta de Bait al-Ma’mur. O vosso companheiro — isto é, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) — é a pessoa que mais se assemelha a ele. Todos os dias, setenta mil anjos entram em Bait al-Ma’mur e nunca mais retornam. Assim continuará até ao Dia da Ressurreição. Perguntei: “Quem é este?” Ele respondeu: “É o vosso pai Ibrahim (que a paz esteja sobre ele).”

Depois, ele levou-me ao Paraíso. Ali vi uma jovem de extraordinária beleza, com os lábios ligeiramente escuros. Perguntei-lhe: “Para quem és tu?” Ela respondeu: “Para Zayd ibn Harithah.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) transmitiu esta boa-nova a Zayd ibn Harithah.

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Depois, retornei. No caminho, encontrei Musa ibn Imran (que a paz esteja sobre ele). Na verdade, ele é um dos melhores amigos da vossa comunidade. Ele perguntou-me: “Quantas orações foram prescritas para ti?” Respondi: “Cinquenta por dia.” Musa disse: “Vê, a oração é uma tarefa muito difícil, e a tua comunidade é muito fraca. Volta ao teu Senhor e pede-Lhe que alivie o encargo da tua comunidade.” Voltei a Allah e pedi-Lhe que aliviasse o meu encargo e o da minha comunidade. Allah reduziu dez orações. Depois, retornei e encontrei Musa novamente. Ele repetiu o que havia dito antes. Voltei outra vez e pedi a Allah que reduzisse as orações. Allah reduziu mais dez orações. Assim, ele continuou a aconselhar-me.”

Sempre que eu retornava a ele, dizia: “Vai e pede que sejam reduzidas ainda mais.” Assim, após sucessivas reduções, restaram cinco orações por dia. Quando voltei novamente a Musa (que a paz esteja sobre ele), ele aconselhou-me a pedir mais uma redução. Eu disse: “Já voltei muitas vezes a Allah e Lhe pedi que as reduzisse. Sinto vergonha; por isso, não poderei voltar novamente.”

Portanto, quem cumprir estas cinco orações com fé e atenção receberá a recompensa de cinquenta orações obrigatórias.”

O falecimento de Abu Talib e Khadija

Depois, no mesmo ano, Abu Talib e Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceram. Com isso, calamidades e aflições começaram a suceder-se para o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma conselheira extremamente sincera para ele. Ele costumava confidenciar-lhe todas as suas tristezas e dificuldades. E o seu tio Abu Talib era para ele um apoio e um escudo. Ele resistia às perseguições dos coraixitas e prestava-lhe todo o apoio possível. Khadija e Abu Talib faleceram três anos antes da Hégira para Medina.

Depois da morte de Abu Talib, os coraixitas começaram a perseguir o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de uma maneira que não haviam ousado fazer enquanto Abu Talib estava vivo. Certo dia, um dos coraixitas, um indivíduo extremamente vil e tolo, bloqueou-lhe o caminho e lançou poeira sobre a sua cabeça. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi para casa coberto de poeira. Ao ver aquilo, uma das suas filhas correu até ele e, chorando, limpou a poeira da sua cabeça. Então, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia-lhe: “Minha filha, não chores! Allah protegerá o teu pai.” Nessa ocasião, ele disse: “Antes da morte de Abu Talib, os coraixitas não podiam tratar-me mal de forma alguma.”

Quando Abu Talib adoeceu e sua doença chegou ao estágio crítico, os coraixitas reuniram-se certo dia para deliberar, dizendo: “A doença dele atingiu uma situação grave; Hamza e Umar aceitaram o Islã, e o Islã se espalhou por todas as tribos dos coraixitas. Nessas circunstâncias, devemos ir até Abu Talib. Devemos procurá-lo e, por sua intermediação, fazer um acordo com Muhammad. Caso contrário, os partidários dele poderão até tomar nossos bens.” Abdullah ibn Abbas disse: “Utba e Shayba, filhos de Rabi’a, Abu Jahl, Umayya ibn Khalaf, Abu Sufyan ibn Harb e outros grandes líderes coraixitas foram até Abu Talib. Disseram-lhe: “Ó Abu Talib, você sabe quão respeitado é entre nós. Hoje está acometido por uma doença grave, e tememos por sua vida. Você também conhece a natureza de nossa relação com seu sobrinho. Portanto, chame-o e, antes de sua morte, faça um acordo entre nós e ele. Obtenha dele uma promessa em nosso favor e, de nossa parte, obtenha dele uma promessa, para que não cometamos excessos contra ele, nem ele contra nós; para que não interfiramos com ele nem com sua religião, e ele também não interfira conosco nem com nossa religião.””

Abu Talib mandou chamar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando ele chegou, disse-lhe: “Sobrinho, estes são os líderes de seu povo. Vieram receber de você uma palavra e, em troca, oferecer-lhe uma promessa.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Sim. Se aceitarem de mim uma única palavra, tornar-se-ão senhores de toda a Arábia, e todos os não árabes se submeterão a vocês.” Abu Jahl disse: “Muito bem! Então, em vez de uma, estou disposto a aceitar dez palavras.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Declarem que não há divindade além de Allah e abandonem a adoração de todos os outros ídolos que adoram.” Ao ouvirem isso, todos bateram palmas. Em seguida, disseram: “Então, ó Muhammad, queres que adoremos apenas um, em vez de todos os outros ídolos? Isso é uma coisa absurda que dizes.” Depois começaram a dizer uns aos outros: “Vejam, ele jamais lhes dará aquilo que esperam dele. Portanto, vão embora e continuem seguindo a religião de seus antepassados até que chegue o julgamento de Allah sobre ele e sobre vocês.”

Quando todos foram embora, Abu Talib disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Sobrinho, parece-me que você não lhes pediu nada injusto.”

Ao ouvir essas palavras de Abu Talib, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentiu renascer a esperança de que ele aceitasse o Islã. Por isso, continuou insistindo com Abu Talib, dizendo: “Tio, diga isso uma vez. Então, no Dia da Ressurreição, será permitido que eu interceda por você.”

Vendo o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tão ansioso, Abu Talib disse: “Sobrinho, depois da minha morte, você e seus irmãos e irmãs serão humilhados, e os coraixitas pensarão que só aceitei a fé por medo da morte. Se não fosse esse receio, eu recitaria a profissão de fé e aceitaria a fé. Estou dizendo isso apenas para agradar você.”

Depois, quando se aproximou o momento final de Abu Talib, Abbas viu que Abu Talib movia os lábios. Aproximou o ouvido de sua boca. Então disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Sobrinho, meu irmão pronunciou a profissão de fé que você lhe pediu que pronunciasse.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Eu não ouvi.”

Abdullah ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “A respeito dos coraixitas que foram até Abu Talib, Allah, o Altíssimo, revelou este versículo:”

[Árabe *************]

“Sád. Pelo Alcorão, repleto de admoestação. Na verdade, os incrédulos estão imersos em orgulho e obstinação. Antes deles, quantas gerações não destruí! Então clamaram, mas já não havia possibilidade de escapar. Essas pessoas se admiraram de que tivesse surgido entre elas um admoestador, e os incrédulos disseram: ‘Este é um feiticeiro, um mentiroso. Será que ele fez de todos os deuses um único Deus? Isso é realmente algo extraordinário!’ E seus líderes partiram dizendo: ‘Ide e permanecei firmes em relação aos vossos deuses. Isto é certamente algo intencional. Nunca ouvimos tal coisa em nenhuma religião dos tempos recentes. Isto não passa de uma invenção.’” (Surata Sád)

“A religião dos tempos recentes” significa o cristianismo, cujos seguidores diziam que Allah era o terceiro de três. Depois disso, Abu Talib morreu.

Buscar auxílio junto à tribo dos Banu Thaqif

Depois da morte de Abu Talib, os coraixitas começaram a infligir ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, uma perseguição terrível, algo que não puderam fazer enquanto seu tio Abu Talib estava vivo. Por isso, ele foi até a tribo dos Banu Thaqif, em Taife, na esperança de obter ajuda e apoio para se proteger da perseguição dos coraixitas. Ele esperava que talvez aceitassem o Islã; por isso, foi sozinho até lá.

Ao chegar a Taife, ele se apresentou aos três homens mais importantes da tribo dos Banu Thaqif. Eram três irmãos: Abd Yalil, Masud e Habib. O nome de seu pai era Amr ibn Umair. Um deles havia se casado com uma mulher descendente do subclã Banu Jumah, da tribo dos coraixitas. Sentado com eles, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, convidou-os a aceitar o Islã e pediu-lhes que ajudassem na sua propagação. Pediu-lhes também que o apoiassem diante da oposição dos coraixitas. Um deles disse: “Se Allah te enviou como Mensageiro, então que Ele retire o revestimento da Caaba.” [O significado provável é que a dignidade da Caaba teria sido violada por ele ter sido enviado como Mensageiro, pois, para eles, era absurdo fazer de um homem desamparado como ele um Mensageiro — Tradutor.] Outro disse: “Será que Allah não encontrou ninguém além de ti para fazer de Mensageiro?” O terceiro disse: “Não direi uma única palavra contigo. Se és realmente um Mensageiro, como afirmas, seria perigoso contestar as tuas palavras. E, se és um mentiroso, seria impróprio falar contigo.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levantou-se e saiu sem dizer mais nada. Antes de partir, pediu-lhes que, já que não haviam aceitado seu convite, não divulgassem suas palavras a mais ninguém. Ele fez isso temendo que eles falassem dele a outros e incitassem o povo contra ele. Mas não respeitaram seu pedido. Pelo contrário, instigaram contra ele os ignorantes, tolos e escravos da tribo. Estes vieram correndo de todos os lados, insultando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e fazendo grande algazarra. Um grande número de pessoas o cercou. Ele foi obrigado a refugiar-se no pomar murado pertencente aos dois irmãos Utba e Shaiba ibn Rabia. Os dois irmãos estavam no pomar naquele momento. Então, as pessoas da tribo dos Banu Thaqif que o haviam seguido voltaram e foram embora.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi sentar-se à sombra de uma videira. Utba e Shaiba haviam testemunhado em silêncio, até então, os indescritíveis maus-tratos infligidos a ele pelos habitantes de Taife. Nesse meio-tempo, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, encontrou a mulher daquele subclã dos coraixitas. Ele lhe disse: “Viste o que os teus cunhados fizeram comigo, não viste?”

Depois, tendo recuperado um pouco a calma, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez a seguinte súplica a Allah:

[Árabe *************]

“Ó Allah, é somente a Ti que suplico por causa da minha fraqueza, incapacidade, falta de recursos e de discernimento, e por causa da minha insignificância e do desprezo e da indiferença das pessoas para comigo. Ó Misericordiosíssimo dos misericordiosos, Tu és o Senhor dos fracos e dos desprezados. Tu és também o meu Senhor. A quem me entregas? Àquele parente que me trata com crueldade, ou àquele inimigo que, tratando-me com crueldade, se tornou poderoso e dominante sobre mim? Se Tu me concederes tranquilidade e segurança, isso será, sem dúvida, uma fonte de conforto para mim. Busco refúgio na Tua luz, por cujo surgimento todas as trevas se iluminam e por cujo auxílio se resolvem todos os problemas deste mundo e da Outra Vida. Estou pronto para aceitar humildemente todas as Tuas repreensões. Não há força nem capacidade senão com a Tua ajuda.”

Ao testemunharem o estado tão lamentável do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os maus-tratos a que ele vinha sendo submetido durante todo aquele tempo, os dois irmãos, Utba e Shaiba, ficaram perturbados ao se lembrarem dos laços de parentesco que os uniam a ele. Addas cumpriu a ordem. Levou o recipiente cheio de uvas, colocou-o diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse-lhe: ‘Come.’ O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou a comer dizendo: ‘Bismillah’.

Addas olhou para o rosto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Nunca ouvi os habitantes desta terra dizerem isso (isto é, ‘Bismillah’).” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó Addas, de que terra és? Qual é a tua religião?” Ele respondeu: “Sou cristão. Sou habitante de Nínive.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ele é meu irmão. Foi profeta, e eu também sou profeta.” Assim que ouviu isso, Addas inclinou-se diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e começou a beijar-lhe a cabeça, as mãos e os pés.

Ao verem aquela cena, os dois filhos de Rabi’a começaram a dizer um ao outro: “Ora! Pelo visto, ele corrompeu o rapaz.” Addas voltou para Utba e Shaiba. Eles lhe disseram: “O que aconteceu, Addas? Por que beijaste a cabeça, as mãos e os pés daquele homem?” Ele respondeu: “Ó meus senhores, não há pessoa melhor do que ele no mundo. Ele me informou algo que ninguém, exceto um profeta, poderia saber.” Eles disseram: “Ó Addas, que bobagens estás dizendo! Não abandones a tua religião por causa da influência dele, pois a tua religião é melhor do que a religião dele.”

O episódio dos jinn de Nísibis

Desapontado com os Banu Thaqif, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu de Ta’if de volta para Meca. No caminho, ao chegar ao vale de Nakhlah [nome de dois vales situados a dois dias e duas noites de distância de Meca. Um chama-se Nakhlatul Yamaniyyah e o outro, Nakhlatush Shamiyyah], ele rezava à meia-noite. Naquele momento, sete jinn de Nísibis passavam por aquele lugar. Eles ouviram a recitação do Alcorão feita pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando terminou a oração, eles retornaram a Nísibis [uma cidade ou povoado de Abbar, no caminho de Mossul para a Síria] e transmitiram o Alcorão ao seu povo, no qual haviam acreditado assim que o ouviram no caminho. Allah relatou ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a história desses jinn nas suratas Al-Jinn e Al-Ahqaf do Sagrado Alcorão. Alguns versículos da surata Al-Ahqaf dizem: “Recorda o momento em que dirigimos para ti um grupo de jinn, para que ouvissem o Alcorão. Quando chegaram até ele, disseram uns aos outros: ‘Escutai em silêncio.’ Quando terminaram de ouvi-lo, voltaram ao seu povo para adverti-lo. Disseram: ‘Ó nosso povo, ouvimos a recitação de um Livro que foi revelado depois de Moisés, confirmando o Livro que lhe foi dado (a Torá) e guiando para a verdade e para um caminho reto. Ó nosso povo, atendei ao chamado daquele que convoca para Allah e crede n’Ele; assim, Ele perdoará os vossos pecados e vos salvará de um castigo doloroso.’”

Na surata Al-Jinn, Allah, o Altíssimo, disse: “Ó Profeta, dize: foi-me revelado que um grupo de jinn ouviu a Palavra do Alcorão”… Assim, toda a surata está repleta de discussões sobre os jinn.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apresentou-se a todas as tribos para transmitir o chamado do Islã

Depois disso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a Meca. Com exceção de um pequeno grupo de pessoas da classe humilde que já havia acreditado nele, toda a comunidade dos coraixitas havia se tornado sua mais ferrenha inimiga. Nessa situação, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dirigiu-se, durante a peregrinação, às pessoas de várias tribos que chegavam a Meca. Convidou-as para Allah e disse: “Sou o Mensageiro enviado por Allah a vocês. Apoiem-me e protejam-me da opressão; então lhes apresentarei e explicarei a mensagem que Allah me enviou.”

Rabi’a ibn ‘Abbad narra:

Eu era então muito jovem. Fui a Mina com meu pai. Naquela época, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ia aos acampamentos de várias tribos árabes vindas de fora de Meca e fazia o seguinte discurso: “Ó descendentes de fulano e fulano, sou o Mensageiro enviado por Allah a vocês. Allah ordenou que adorassem somente a Ele e que não associassem ninguém a Ele. Ele proibiu que adorassem esses ídolos. Ordenou que me apoiassem, acreditassem em mim e me protegessem da opressão, para que eu pudesse transmitir a mensagem de Allah a vocês.” Nesse momento, seguia-o por trás um homem de olhos vesgos, com duas mechas de cabelo emaranhado na cabeça e vestido à maneira da região de Aden. Sempre que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, terminava seu discurso de pregação, ele imediatamente dizia: “Ó descendentes de fulano e fulano, este homem — Muhammad — está lhes ordenando que abandonem a adoração de Lat e de Uzza e que rompam os laços de aliança com os Banu Malik ibn Uqaysh. [35. Uqaysh significa um camelo ainda não domesticado, que foge assustado ao ver qualquer coisa. Banu Malik ibn Uqaysh é o nome de uma tribo de jinn.] Ele está tentando desviar as pessoas ao apresentar uma nova e enganosa reivindicação. É para isso que ele os convoca. Não deem ouvidos a ele nem o sigam.” Perguntei a meu pai: “Quem é o homem que segue Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tentando refutar sua pregação?” Ele respondeu: “É o tio de Muhammad, Abu Lahab, Abd al-Uzza ibn Abd al-Muttalib.”

Ibn Ishaq disse: Ibn Shihab al-Zuhri relatou-me que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi pessoalmente a cada acampamento dos membros da tribo de Kinda e os convidou para a religião de Allah. Porém, todos eles, incluindo seu líder Mulayh, o rejeitaram.

Ele também foi até os membros da tribo Banu Amir ibn Sa’sa’a, convidou-os para Allah e apresentou-se a eles. Em resposta, um homem chamado Bayhara ibn Firas disse: “Se eu conquistar este jovem coraixita, poderei, com sua ajuda, dominar toda a terra árabe.” Em seguida, teve com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o seguinte diálogo:

Bayhara: “Muito bem, se obedecermos a você, ajudarmos em sua missão e, depois, Allah lhe conceder a vitória, você nos dará poder e autoridade?”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “O poder e a autoridade estão sob a vontade de Allah. Ele os concede a quem quer.”

Bayhara: “Então, que sentido haveria em expormos nosso peito diante de toda a nação árabe apenas por sua causa? Se você vencer, o poder passará para as mãos de outros; não temos motivo algum para participar de sua missão.”

Assim, a tribo de Banu Amir também o rejeitou. Depois do Hajj, as pessoas deixaram Meca e partiram em direção às suas respectivas regiões. Os membros da tribo de Banu Amir também retornaram à sua tribo e foram até um homem extremamente idoso entre eles. Devido à velhice, ele não podia ir ao Hajj. Todos os anos, quando voltavam do Hajj, iam até aquele ancião e lhe relatavam os acontecimentos ocorridos ali. Quando retornaram naquele ano, o ancião perguntou-lhes sobre os acontecimentos de sua peregrinação. Eles responderam: “Desta vez, um jovem dos coraixitas veio até nós. Outro homem da tribo de Banu Abd al-Muttalib veio atrás dele. A alegação daquele jovem é que ele é um profeta. Ele nos pediu que o protegêssemos da opressão, o apoiássemos e o levássemos para nossa região.” Ao ouvir isso, o ancião colocou ambas as mãos sobre a própria cabeça e disse: “Ó Banu Amir, considerem se é possível recuperar aquilo que vocês perderam. Pois nenhum descendente de Ismael jamais afirmou falsamente ser profeta. Por Allah, tudo o que aquele jovem disse é absolutamente verdadeiro. Vocês não conseguiram tomar uma decisão correta?”

Abdullah ibn Ka’b disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também foi até o acampamento dos membros da tribo de Banu Hanifa, encontrou-se com eles, transmitiu-lhes o convite para a religião de Allah e pediu-lhes que o apoiassem. Mas eles o rejeitaram da maneira mais vil.”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, continuou assim a cumprir sua missão. Sempre que algumas pessoas se reuniam em Meca por ocasião do Hajj ou por qualquer outro motivo, ele ia até elas. Desse modo, transmitia o convite ao Islã a cada tribo. Ele as exortava a aceitar a misericórdia e a orientação divinas que lhe haviam sido concedidas. Assim que soubesse que algum árabe famoso e respeitado havia chegado a Meca, ia até ele e o convidava para a religião de Allah.

Quando Suwaid ibn Samit, da tribo de Banu Amr ibn Awf, veio a Meca para o Hajj ou a Umrah e ouviu aquela notícia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, encontrou-se com ele e o convidou para Allah e para a religião do Islã. Suhail disse: “Também tenho algo semelhante à mensagem que estás recitando.” O Mensageiro de Allah disse: “Que mensagem tens?” Ele respondeu: “Um livreto que contém as palavras de Luqman.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Essas palavras são muito belas. Contudo, a mensagem que trago é ainda melhor. É o Alcorão, que Allah revelou sobre mim; ele é uma fonte de orientação e luz.” Em seguida, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, recitou o Alcorão para Suwaid e o convidou ao Islã. Suwaid não ignorou esse convite. Ele disse: “A mensagem do Alcorão que recitaste é realmente maravilhosa.” Depois disso, Suwaid despediu-se do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e retornou para sua tribo em Medina. Pouco tempo depois, membros da tribo de Khazraj o mataram. Os membros da tribo de Banu Amr costumavam dizer: “Acreditamos que Suwaid morreu como muçulmano.” Suwaid foi morto antes da batalha travada entre as tribos de Aws e Khazraj no lugar chamado Bu’ath, nas proximidades de Medina.

O início da expansão do Islã em Medina

Finalmente chegou o momento em que Allah decidiu honrar Sua religião com a vitória, elevar Seu Profeta a uma posição de maior honra e cumprir a promessa que lhe havia feito. Mais uma vez, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, continuou a convidar para o Islã as pessoas que chegavam para a celebração do Hajj e a pedir às tribos árabes que o acolhessem. Dessa vez, encontrou alguns habitantes de Medina. Eles eram um grupo da tribo de Khazraj, de Medina. Ele encontrou-se com eles num lugar próximo de al-Aqabah [36. Nome de um lugar situado a duas milhas de Meca, entre Meca e Mina. De lá, o lançamento de pedras é um dos ritos do Hajj.]. Isso aconteceu porque Allah havia decidido conceder o bem àquele grupo. [37. Esse acontecimento ocorreu no décimo primeiro ano da profecia.] Assim que os encontrou, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou: “Quem são vocês?” Eles responderam: “Somos membros da tribo de Khazraj.” Ele perguntou novamente: “Vocês estão entre aqueles que firmaram um pacto de aliança com os judeus?” Eles responderam: “Sim.” Ele disse: “Sentariam um pouco? Gostaria de conversar com vocês.” Eles responderam: “Está bem, fale.” Então sentaram-se na companhia do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, convidou-os, apresentou-lhes o Islã e recitou o Alcorão para que o ouvissem.

Allah, o Altíssimo, já havia criado uma situação favorável à aceitação do Islã por parte deles. Judeus viviam nas proximidades deles em Medina. Eles possuíam um Livro celestial e, por isso, tinham conhecimento divino. Khazraj e as demais tribos árabes eram politeístas, isto é, adoradoras de ídolos. Anteriormente, os judeus haviam derrotado esses árabes pagãos numa guerra de agressão, tomado suas terras e estabelecido assentamentos nelas. Sempre que surgia alguma situação desagradável entre os pagãos e os judeus, estes ameaçavam e intimidavam os pagãos, dizendo: “A chegada do profeta desta época está próxima. Quando esse profeta chegar, sob sua liderança massacraremos vocês do mesmo modo como os povos de Ad e Iram foram exterminados em massa.”

Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, conversou com o grupo da tribo de Khazraj e o convidou para a religião de Allah, eles começaram a dizer uns aos outros: “Por Allah, este é certamente o profeta sobre o qual os judeus nos ameaçam e intimidam. De modo algum devemos permitir que os judeus tenham a oportunidade de aceitar o Islã antes de nós.” Motivados por esse pensamento, responderam imediatamente ao convite do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e aceitaram o Islã. Eles disseram: “Deixamos nosso povo indefeso diante da hostilidade de um inimigo terrível. Esperamos que Allah torne toda a nossa comunidade apoiadora sua. Voltaremos até eles e também lhes transmitiremos o seu convite. Se Allah os tornar seus apoiadores, ninguém será mais honrado e poderoso do que você.”

Assim, depois de abraçarem a fé e aceitarem o Islam como verdade, eles retornaram às suas terras. Pelo que se sabe, esse grupo da tribo dos Khazraj era composto por seis pessoas. Ao chegarem a Medina, apresentaram à sua tribo as palavras do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e os convidaram a aceitar o Islam. Desse modo, gradualmente, o convite ao Islam chegou a todas as casas de Medina. Não restou uma única casa onde não se falasse sobre o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).

O Primeiro Juramento de Aqabah

No ano seguinte, mais doze pessoas foram a Meca por ocasião do Hajj. Elas encontraram o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) em Aqabah. Aceitaram o Islam diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e se comprometeram a abandonar as práticas não islâmicas. Essa cerimônia de compromisso é chamada de Primeiro Juramento de Aqabah. Ela foi realizada segundo o método do juramento prestado pelas mulheres muçulmanas, que ocorreu no monte Safa, no dia seguinte à Conquista de Meca, imediatamente após o juramento dos homens. O Primeiro Juramento de Aqabah foi concluído antes de ser dada a ordem para combater os incrédulos. Entre os participantes desse juramento estavam As‘ad ibn Zurarah, Rafi‘ ibn Malik, ‘Ubada ibn as-Samit e Abu al-Haitham ibn at-Taihan.

‘Ubada ibn as-Samit disse: “Eu estive presente no Primeiro Juramento de Aqabah. Éramos doze homens. Nosso juramento foi concluído segundo o método do juramento das mulheres, e isso ocorreu antes de ser dada a ordem de combater. Comprometemo-nos com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a não associar ninguém a Allah, não roubar, não cometer adultério, não matar nossos filhos, não levantar falsas acusações contra ninguém e não desobedecer ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) em assuntos justos.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Se cumprirem esses compromissos, haverá para vocês o Paraíso. Mas, se violarem algum deles, o destino de vocês ficará nas mãos de Allah. Se Ele quiser, castigará; e, se quiser, perdoará.”

Ibn Ishaq disse: Quando esse grupo de Medina retornou à sua comunidade, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou Mus‘ab ibn ‘Umair com eles, para ensinar-lhes o Alcorão, instruí-los no Islam e explicar-lhes os detalhes das leis islâmicas. Ele era conhecido como o mestre de Medina. Também conduzia as orações dos muçulmanos de Medina, pois as tribos de Aws e Khazraj não gostavam que um membro de uma tribo liderasse a oração de membros da outra.

O Segundo Juramento de Aqabah

Alguns dias depois, Mus‘ab ibn ‘Umair retornou a Meca. Alguns dos novos muçulmanos de Medina foram a Meca para o Hajj junto com os politeístas de suas próprias tribos. Em meados dos Dias de Tashriq, eles prometeram ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) que se reuniriam todos em Aqabah. 38. Os três dias seguintes ao décimo dia de Dhu al-Hijjah são chamados de Dias de Tashriq. Tashriq significa secar o couro ao sol. Nessa época, os árabes secavam o couro dos animais sacrificados. Quando chegou o momento desejado por Allah para elevar a posição de Seu Mensageiro, conceder-lhe a vitória, fortalecer o Islam e os muçulmanos e provocar a queda do politeísmo e dos politeístas, esse Segundo Juramento foi concluído.

Ka‘b ibn Malik disse: Partimos em direção a Meca com os peregrinos politeístas de nossa tribo. A essa altura, já havíamos adquirido o hábito de realizar as orações e aprendido as normas do Islam. Nosso respeitado ancião e chefe da tribo, Bara ibn Ma‘rur, também era nosso companheiro de viagem. Assim que iniciamos a viagem e saímos de Medina, Bara disse: “Escutem, tomei uma decisão, mas não sei se vocês concordarão comigo.”

Perguntamos: “O que é isso?” Ele respondeu: “Decidi que não rezarei com a Caaba atrás de mim; ao contrário, rezarei voltado para a Caaba.” Dissemos-lhe: “Sabemos que o nosso Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, costuma rezar voltado para a Síria, isto é, para Bayt al-

Maqdis, voltado para ambos.” Dissemos: “Nós, porém, não faremos isso.” Assim, quando chegava a hora da oração, rezávamos voltados para Bayt al-Maqdis, enquanto ele rezava voltado para a Caaba. Desse modo, chegamos a Meca. Como ele viera obstinado, fomos repreendendo-o durante todo o caminho. Mas ele não abandonou sua obstinação de modo algum. Depois de chegarmos a Meca, ele me disse: “Meu sobrinho, leve-me até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Perguntar-lhe-ei se foi correto o modo como rezei durante todo o caminho. A maneira como vi vocês agirem contra mim despertou dúvidas em meu coração.”

Ka‘b ibn Malik disse: “Então saímos à procura do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Não o conhecíamos e jamais o havíamos visto antes. Ao encontrarmos um habitante de Meca, perguntamos-lhe: “Onde está o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz?” Ele perguntou: “Vocês conhecem o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz?” Respondemos: “Não.” Ele disse: “Conhecem o seu tio, Abbas ibn Abd al-Muttalib?” Respondemos: “Sim.” Já conhecíamos Abbas. Ele passava por nossa região a negócios. O homem de Meca disse: “Entrem na Mesquita Sagrada; aquele que virem sentado com Abbas será o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.” Entramos na Mesquita Sagrada e vimos Abbas sentado, com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentado ao seu lado. Cumprimentamo-lo e sentamo-nos junto dele. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou a Abbas: “Você conhece estes dois homens?” Ele respondeu: “Sim, conheço-os. Este é o chefe tribal Bara ibn Ma‘rur, e este é Ka‘b ibn Malik.” Ao ouvir isso, jamais esquecerei o que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse a meu respeito. Ele disse: “Então você é o poeta Ka‘b ibn Malik?” Respondi: “Sim.” Então Bara disse: “Ó Profeta de Allah, antes de partir nesta viagem, Allah já me havia concedido a graça de aceitar o Islã. Depois disso, passei a rezar voltado para a Caaba. Porém, meus companheiros reprovaram minha atitude. Por isso fiquei em dúvida. Ó Mensageiro de Allah, qual das duas opções você considera correta?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Você deveria ter rezado voltado para uma única qibla. Teria sido melhor se tivesse seguido pacientemente essa qibla.”

Depois disso, eles aceitaram a qibla do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e passaram a rezar conosco voltados para Bayt al-Maqdis. Em seguida, partimos com o propósito de realizar a peregrinação. Em meados dos Dias de Tashriq, combinamos encontrar-nos com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em Aqaba. A noite seguinte ao dia em que terminaram os ritos da peregrinação era a noite combinada para nos encontrarmos com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquela ocasião estava conosco Abdullah ibn Amr ibn Haram, Abu Jabir. Ele era um dos mais respeitados líderes da comunidade. Também o levamos conosco. Contudo, não deixamos que nossos companheiros de viagem, os politeístas de nossa tribo, sequer suspeitassem de quem estava conosco ou do que pretendíamos fazer. Dissemos a Abu Jabir: “Ó Abu Jabir, você é um de nossos líderes respeitados. Consideramos muito honroso o modo de vida que segue. Não queremos que você seja lançado no fogo do Inferno na vida futura.” Em seguida, convidamo-lo ao Islã e informamo-lo de que naquele dia deveríamos encontrar-nos com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em Aqaba. Abu Jabir aceitou imediatamente o Islã e participou conosco do pacto de Aqaba. Depois disso, tornou-se um pregador.”

Naquela noite, dormimos dentro da caravana com os membros de nossa comunidade. Depois de transcorrida a primeira terça parte da noite, partimos rumo a Aqaba, conforme a promessa que havíamos feito ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Saímos com extrema cautela e em segredo, como aves noturnas. Enquanto avançávamos, reunimo-nos num desfiladeiro próximo de Aqaba. Ao todo, reuniram-se setenta e três homens. Havia também duas mulheres conosco: Mus‘ab bint Ka‘b e Asma bint Amr ibn Adi. [39. Ibn Ishaq disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, jamais tocava nas mãos das mulheres. Ele apenas recebia o compromisso verbal. Quando elas prestavam o compromisso, ele dizia: “Podem ir. Seu pacto foi concluído.”]

Ka‘b ibn Malik disse: “Reunimo-nos no desfiladeiro e ficamos esperando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Por fim, ele chegou acompanhado de seu tio Abbas ibn Abd al-Muttalib. Naquela época, Abbas ainda não havia aceitado o Islã. Ele viera apenas para testemunhar aquele importante assunto de seu sobrinho e certificar-se de sua segurança. Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se sentou, Abbas foi o primeiro a falar conosco. Ele disse: “Ó povo de Khazraj, certamente sabem que posição Muhammad ocupa entre nós. Até agora, nós o protegemos da injustiça e da perseguição de seu povo. Ele estabeleceu uma distinção rara entre seu povo; por isso, em sua comunidade e em sua terra natal, desfruta de honra e segurança. Apesar disso, ele sente um desejo irresistível por vocês e está decidido a permanecer entre vocês. Agora reflitam: serão capazes de cumprir a promessa com que o estão convidando e de protegê-lo das mãos de seus inimigos? Se forem capazes, compreendam bem a responsabilidade que assumirão. Mas, se pensam que no futuro irão entregá-lo a seus inimigos e, depois de levá-lo consigo, ainda o exporão à humilhação, então desistam desde já de assumir essa responsabilidade. Atualmente, ele vive honrado e seguro entre seu próprio povo e em sua terra natal.” Depois de ouvirmos essas palavras de Abbas, dissemos: “Ouvimos o que você disse. Ó Mensageiro de Allah, agora fale e aceite de nós o compromisso que desejar!”

Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, falou. Primeiro, recitou o Alcorão; depois, convidou todos ao Islã e os incentivou a abraçá-lo. Em seguida, disse: “Peço-lhes este compromisso: assim como protegem suas esposas e seus filhos dos perigos, protejam-me também da mesma maneira.”

Imediatamente, Bara ibn Ma’rur segurou a mão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Sim. Juro por Aquele que o enviou como profeta com a verdadeira religião: assim como protegemos nossos parentes, esposas e filhos dos perigos, também protegeremos você. Ó Mensageiro de Allah, juramos obedecer-lhe. Por Allah, fomos criados e educados em meio à guerra e às armas. Somos um povo de guerreiros por hereditariedade.”

Assim que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, terminou de falar com Bara, Abu al-Haitham ibn Taihan disse: “Ó Mensageiro de Allah, temos uma aliança com os judeus e estamos prestes a rompê-la. Depois de tudo isso, se Allah lhe conceder a vitória, você nos abandonará e retornará ao seu próprio povo?” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sorriu levemente e disse: “Ao contrário, serei para sempre vosso companheiro na vida e na morte, na felicidade e na tristeza. Considerarei vosso derramamento de sangue como meu próprio derramamento de sangue. Permanecerei para sempre convosco, e vós permanecereis para sempre comigo. Combatei aquele contra quem combaterdes, e eu também combaterei contra ele.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também disse: “Escolhei entre vós doze naqibs, ou representantes, e enviai-os a mim, para que eles possam incluir os membros de suas respectivas tribos neste compromisso.” Então escolheram doze representantes. Nove deles eram da tribo dos Khazraj e três eram da tribo dos Aws. [40. Os nove representantes dos Khazraj eram: As’ad ibn Zurarah, Sa’d ibn Rabi’ah, Rafi’ ibn Malik, Bara ibn Ma’rur, Abdullah ibn Amr ibn Haram, Ubada ibn Samit, Sa’d ibn Ubada e Mundhir ibn Amr ibn Khurais. Os três da tribo dos Aws eram: Usaid ibn Hudair, Sa’d ibn Khaitsamah e Rifa’ah ibn Mundhir. Ibn Hisham disse: historiadores abalizados mencionam Abu al-Haitham ibn Taihan como representante no lugar de Rifa’ah.]

A primeira pessoa a prestar o juramento, colocando sua mão na mão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi Bara ibn Ma’rur. Depois, ele incluiu sua própria tribo nesse juramento. Assim que terminou nossa cerimônia de juramento com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Satanás soltou do cume da montanha de Aqabah um grito tão forte que jamais havia ouvido um grito tão horrendo. Ele gritava: “Ó habitantes de Mina, acaso não vistes a conspiração dos apóstatas com Mujammam, isto é, o desprezado? [41. Mujammam significa desprezado ou censurado. É o oposto do nome Muhammad, que significa louvado, o nome do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Os politeístas o chamavam por esse nome. E chamavam aqueles que aceitavam o Islã de sabi, isto é, apóstatas ou pessoas sem religião.] Eles estão planejando guerrear contra vós.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Este é o grito de Satanás de Aqabah, Azib ibn Uzaib.”

Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ide e voltai para vossas respectivas caravanas.”

Abbas ibn Ubada ibn Nadala disse: “Ó Mensageiro de Allah, juro por Allah, que o enviou com a verdadeira orientação: se quiser, amanhã mesmo atacaremos com espadas aqueles que estão acampados em Mina.”

Depois fomos deitar-nos e dormimos até a manhã. Assim que amanheceu, um grande grupo dos coraixitas nos cercou. Eles disseram: “Ó membros da tribo dos Khazraj, soubemos que viestes para levar Muhammad de nosso meio e estais conspirando com ele para guerrear contra nós. Na verdade, entre todas as tribos árabes, é contra vós que menos desejamos guerrear.” Ao ouvirem isso, os politeístas que estavam ali começaram a jurar por Allah, dizendo: “Nenhuma conspiração desse tipo ocorreu aqui, e não sabemos de nada semelhante.”

Na verdade, eles estavam dizendo a verdade. De fato, não sabiam de coisa alguma. Enquanto tranquilizavam os coraixitas com juramentos por Allah, nós olhávamos uns para os rostos dos outros. Depois que o povo deixou Mina, os coraixitas investigaram o assunto ainda mais profundamente. Por fim, descobriram que o acontecimento era verdadeiro. Então começaram a correr por toda parte à procura dos membros das tribos dos Aws e dos Khazraj. Num lugar chamado Azakhir, próximo de Meca, encontraram Sa’d ibn Ubada e Mundhir ibn Amr. Não conseguiram capturar Mundhir; apenas Sa’d foi capturado. Sa’d tinha cabelos bastante longos. Eles o agarraram, amarraram firmemente suas duas mãos junto ao pescoço com uma corda de camelo e depois o levaram para Meca, espancando-o e puxando-o pelos cabelos.

Sa‘d narrou pessoalmente o seguinte sobre isso: Eu estava sob o domínio deles e em cativeiro. Nessa situação, um grupo de coraixitas veio até mim. Entre eles, vi um homem muito belo, de pele extremamente clara, corpo esbelto, estatura alta e rosto agradável. Pensei comigo mesmo: se for possível esperar bom tratamento de alguém entre essa grande multidão, será dele. Mas esse homem veio até mim e, logo de início, desferiu-me uma violenta bofetada. Então pensei: se recebi tal tratamento justamente dele, não se pode esperar bom tratamento de mais ninguém. Assim, eles me arrastavam de um lado para outro. Eu estava completamente indefeso. De repente, um homem da multidão, compadecido de mim, disse: “Ah! Que situação lamentável a sua. Diga-me, não há entre os coraixitas sequer uma pessoa que você conheça ou com quem tenha relações comerciais?” Respondi: “Sim, há. Certa vez, eu acolhia os agentes comerciais de Zubair ibn Mut‘im ibn ‘Adi e os protegia quando alguém em nossa região queria prejudicá-los. Além disso, também ajudava os agentes comerciais de Harith ibn Harb ibn Umayya.” O homem disse: “Então, grite bem alto mencionando os nomes desses dois homens. Mencione a relação que você tem com eles.” Imediatamente, gritei os nomes dos dois. E aquele homem partiu sem demora à procura de Zubair e Harith, encontrando-os na Mesquita Sagrada, perto da Caaba.

Depois, ele lhes disse: “Neste momento, um homem dos khazrajitas está sendo violentamente espancado na planície próxima de Meca. Ele está apanhando e dizendo, mencionando os nomes de vocês dois, que os conhece.” Zubair e Harith perguntaram: “Quem é esse homem?” Ele respondeu: “Sa‘d ibn ‘Ubada.” Eles disseram: “Ele falou a verdade. Quando nossos comerciantes iam à região dele, ele lhes dava abrigo e os protegia contra a opressão.” Então ambos foram e resgataram Sa‘d das mãos da multidão. Depois, Sa‘d foi embora.

A Última Bay‘ah de ‘Aqabah e suas condições

A Última Bay‘ah de ‘Aqabah foi concluída depois que Allah concedeu a permissão para o combate armado. Portanto, excetuando-se o compromisso de combater, as condições dessa bay‘ah eram semelhantes às da primeira bay‘ah. A primeira bay‘ah era semelhante à bay‘ah das mulheres por ocasião da conquista de Meca, pois, no momento da primeira bay‘ah, Allah ainda não havia permitido que Seu Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, combatesse. Assim, depois de receber a permissão, na Última Bay‘ah de ‘Aqabah, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fez os crentes assumirem o compromisso de combater todos os incrédulos do mundo. Impôs-lhes, da parte de Allah, as condições do compromisso e declarou que, se cumprissem o compromisso com essas condições, teriam o Paraíso.

‘Ubada ibn as-Samit (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: “Assumimos com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o compromisso de combater. As condições desse compromisso eram as seguintes: estivéssemos em circunstâncias difíceis ou normais, falaríamos sempre em defesa da verdade e da justiça, e, no que diz respeito à religião de Allah, não temeríamos a censura de nenhum censurador.”

A concessão da ordem para o combate armado

Antes da Bay‘ah de ‘Aqabah, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não havia recebido permissão para combater nem para derramar sangue quando necessário. Até então, ele havia recebido apenas a ordem de convidar as pessoas para a religião de Allah, perseverar diante da opressão e da perseguição e perdoar os ignorantes. Os coraixitas infligiram torturas extremas e cruéis aos seguidores do Mensageiro de Allah, que haviam sido obrigados a abandonar suas casas. Alguns, vítimas de torturas insuportáveis, chegaram a ser forçados a abandonar o Islã. Os coraixitas expulsaram do país um número considerável de crentes. Assim, alguns muçulmanos foram vítimas de torturas desumanas, outros abandonaram o Islã e outros emigraram. Entre eles, muitos fizeram a hijrah para a Abissínia e muitos outros para Medina. Quando os muçulmanos estavam humilhados e despojados de tudo em todos os aspectos, os coraixitas haviam chegado ao limite extremo da rebelião contra Deus e Seu Profeta era rejeitado, foi então que Allah permitiu que Seu Mensageiro conduzisse o combate armado e derrotasse os rebeldes injustos contra Deus. Isto é o que soube de ‘Urwah ibn az-Zubair e de outros narradores. De acordo com isso, os primeiros versículos revelados, declarando lícitos o combate armado e o derramamento de sangue para estabelecer a lei de Allah e defender os crentes, foram:

[Árabe *************]

“Foi concedida permissão para aqueles contra os quais se luta, pois foram injustiçados. E, em verdade, Allah é plenamente capaz de ajudá-los. São aqueles que foram expulsos injustamente de suas casas apenas por dizerem: ‘Nosso Senhor é Allah’. Se Allah não tivesse permitido que um grupo de pessoas fosse repelido por meio de outro, mosteiros, igrejas, sinagogas e mesquitas — nas quais o nome de Allah é frequentemente lembrado — teriam sido destruídos. Allah certamente ajudará aquele que O ajudar. Em verdade, Allah é Poderoso, Majestoso. São aqueles que, se lhes concedermos poder e autoridade na terra, estabelecerão a oração, pagarão a zakat, ordenarão o bem e impedirão o mal. E a Allah pertence o desfecho de todas as coisas. (Surata Al-Hajj, 39–41)”

Ou seja, foi por causa da opressão e da perseguição sofridas pelo Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e por seus Companheiros, que lhes autorizei a luta armada. Eles não haviam cometido crime nem pecado contra as pessoas. Sempre que fossem vitoriosos, estabeleceriam a oração, pagariam a zakat, ordenariam o bem e impediriam o mal. Depois, Allah revelou novamente:

[Árabe *************]

“Lutai contra eles até que nenhum crente seja compelido a abandonar sua religião e até que reste somente a obediência a Allah.” (Surata Al-Baqara) Isto é, que somente Allah seja adorado e servido, e não qualquer outro.

Concessão de permissão aos muçulmanos para fazerem a Hégira para Medina

Quando Allah concedeu ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permissão para lutar, e o grupo mencionado dos habitantes de Medina se comprometeu a seguir as normas islâmicas e a prestar toda a ajuda e apoio ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aos seus seguidores, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou aos muçulmanos que fizessem a Hégira para Medina e fossem juntar-se aos seus irmãos dos Ansar. Ele lhes disse: “Allah preparou para vós uma terra segura para morar e alguns irmãos.” Assim, os muçulmanos começaram a fazer a Hégira em grupos. Já o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu em Meca, aguardando a ordem de Allah para deixar a cidade e fazer a Hégira para Medina.

Relato dos muçulmanos que fizeram a Hégira para Medina

O primeiro dos Companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pertencente aos coraixitas a fazer a Hégira foi Abu Salama ibn Abd al-Asad, da tribo dos Banu Makhzum. Ele fez a Hégira para Medina um ano antes do Juramento de Aqaba. Antes disso, ele havia ido da Abissínia a Meca, para junto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Nessa época, os coraixitas começaram a persegui-lo. Ele ouviu a notícia de que os habitantes de Medina haviam aceitado o Islã e fez a Hégira para lá. Depois de Abu Salama, Amir ibn Rabia e sua esposa, Layla bint Abu Hasma, fizeram a Hégira para Medina. Em seguida, Abdullah ibn Jahsh fez a Hégira levando consigo sua família e seu irmão Abd ibn Jahsh. Seu irmão também era conhecido como Abu Ahmad. Sua visão era fraca; ainda assim, percorria sem ajuda alguma as regiões altas e planas de Meca. Ele era poeta.

Então, Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) e Ayyash ibn Abi Rabi’a al-Makhzumi emigraram para Medina. Depois disso, os muçulmanos continuaram a emigrar em grande número para Medina.

A emigração do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz

Depois que os Companheiros emigraram para Medina, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu aguardando a ordem de Allah quanto à emigração. Naquela época, em Meca, além de Ali ibn Abi Talib, Abu Bakr al-Siddiq e um pequeno grupo de Companheiros, não havia mais ninguém. Os demais ou estavam presos nas mãos dos incrédulos ou haviam sido obrigados a abandonar o Islã. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) costumava pedir frequentemente ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permissão para emigrar. Mas o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia-lhe: “Não tenha pressa. Talvez Allah lhe providencie um companheiro.” O próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tornou-se seu companheiro na emigração. Desde então, era isso que Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) desejava. Quando os coraixitas viram que muitas pessoas de fora de sua tribo haviam se tornado seguidoras do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e que seus Companheiros estavam emigrando para junto delas, compreenderam que o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e seus companheiros haviam encontrado uma terra segura para viver. Por isso, passaram a ficar atentos à partida do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, de seu país. Pensaram que ele havia concluído os preparativos para lutar contra eles.

Para deliberar sobre o assunto, reuniram-se na casa de consultas, Dar al-Nadwa. Essa casa pertencia a Qusay ibn Kilab. Os coraixitas reuniam-se ali sempre que precisavam tomar qualquer decisão. Dessa vez, amedrontados pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentaram-se para discutir o que fazer a respeito dele. Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que eles se reuniram ali no dia determinado para tomar uma decisão final sobre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Esse dia é conhecido como o “Dia da Assembleia Geral”. No caminho para entrar em sua casa de consultas, Iblis apareceu diante deles sob a forma de um velho coberto por um manto. Ele estava parado exatamente diante da porta. Ao vê-lo, todos disseram: “Quem é esse velho?” Ele respondeu: “Sou habitante de Najd. Segundo Suhayli, a razão pela qual Satanás se apresentou como habitante de Najd foi que os coraixitas haviam anunciado previamente que nenhuma pessoa da região de Tihama seria incluída nessa reunião de consultas, pois julgavam que os habitantes de Tihama apoiavam Muhammad, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Por isso, Iblis apareceu sob a forma de um velho habitante de Najd.”

“Ouvi falar do motivo pelo qual vocês se reuniram hoje. Por isso vim ouvir sua conversa. Espero que vocês também não sejam privados dos meus conselhos e recomendações.” Ao ouvirem isso, todos lhe permitiram entrar com grande deferência. Ele entrou junto com os demais. A essa altura, os principais líderes e chefes dos coraixitas já haviam tomado seus lugares no interior. Então começaram a discutir entre si a respeito do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Todos sabem a que ponto chegou atualmente a atividade desse homem. Não se sabe quando ele poderá lançar-se contra nós com seus seguidores de fora. Já não estamos seguros contra seu ataque. Portanto, tomemos todos juntos uma decisão final a respeito dele.”

As deliberações continuaram. Em certo momento, alguém disse: “Acorrentem-no com correntes de ferro e mantenham-no preso em algum aposento trancado. Depois, aguardem para que também tenha o mesmo destino dos poetas semelhantes a ele no passado, isto é, uma morte miserável. Zuhayb, Nabigha e outros poetas como eles tiveram esse destino.” Então o velho disse: “Não, essa decisão de vocês não está correta. Se o aprisionarem, a notícia de que ele está preso num aposento fechado chegará aos seus seguidores de fora. Nessa situação, eles poderão atacá-los e arrancá-lo das mãos de vocês. Depois, seu número aumentará e um dia eles os vencerão. Portanto, essa decisão de vocês não está correta. Pensem se conseguem tomar alguma outra decisão.”

Depois, a discussão continuou novamente. Alguém disse: “Vamos expulsá-lo do país. Depois disso, não teremos mais nenhuma preocupação com ele. Uma vez que ele partir de nosso meio, não nos importaremos para onde foi ou onde ficou. Depois que ele partir, ficaremos livres de seus problemas. Em seguida, poderemos corrigir e normalizar por nós mesmos nossas relações de amizade, aliança e os demais assuntos.”

O velho de Najd disse: “Não, essa também não é a decisão correta. Por acaso não viram sua incomparável eloquência, sua linguagem doce, suas palavras lógicas e os assuntos que, por meio da chamada revelação, ocupam a mente e o coração? Se adotarem essa medida, pode acontecer que ele vá até outra tribo árabe, conquiste autoridade sobre ela com suas palavras doces e cativantes, e seus membros se tornem seus seguidores. Então, liderando-os, ele poderá atacá-los, tomar seu país e arrancar de suas mãos o poder. Abandonem essa opção e tomem outra decisão.”

Então Abu Jahl disse: “Tenho uma proposta que até agora não ocorreu a nenhum de vocês.” Todos disseram: “Diga-nos, Abul Hakam, qual é a sua proposta.”

Ele disse: “Devemos escolher um jovem forte e nobre de cada tribo. Depois, daremos a cada um deles uma espada afiada. Esses jovens atacarão Muhammad em conjunto e o matarão. Assim poderemos livrar-nos dele. E, quando todos participarem desse ato, uma parte da responsabilidade pelo assassinato de Muhammad recairá sobre cada uma das tribos. Consequentemente, o clã de Abd Manaf não poderá lutar contra toda a nação para vingar o assassinato. Será obrigado a aceitar o preço de sangue. Nós, todas as tribos juntas, pagaremos a eles o preço de sangue.”

O ancião de Najd disse: “Esta é a decisão correta. Creio que não poderia haver decisão melhor do que esta.”

Depois que essa decisão foi aprovada, a reunião de consulta foi encerrada, e todos voltaram para suas respectivas casas.

Imediatamente, Jibril (que a paz esteja sobre ele) foi até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse-lhe: “Esta noite, não durma na cama em que dorme todos os dias.” Quando um terço da noite havia passado, o grupo de assassinos designados chegou à porta da casa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), reuniu-se ali e ficou à espreita. Eles aguardavam que ele adormecesse. Pretendiam atacá-lo enquanto estivesse dormindo. Ao perceber a presença deles, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele): “Durma na minha cama e cubra-se da cabeça aos pés com este meu manto verde de Hadramaut. Fique certo de que nenhum golpe deles o atingirá.” Quando dormia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava envolver-se nesse manto.

Muhammad ibn Ka’b al-Qurazi disse que Abu Jahl também fazia parte do grupo de assassinos. Quando os assassinos se reuniram à porta da casa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abu Jahl disse-lhes: “Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirma que, se o seguirem, serão criados para todos vocês, árabes e não árabes, inúmeros jardins semelhantes aos jardins da Jordânia. Mas, se não o seguirem, serão destruídos e exterminados. Depois da morte, serão ressuscitados e queimados no fogo.”

Naquele exato momento, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu e apareceu diante deles. Pegou um punhado de poeira. Em seguida, dirigindo-se a Abu Jahl, disse: “Sim, digo isso; e tu também serás um daqueles que serão queimados no fogo.” Nesse instante, Allah lhes tirou a visão. Assim, eles não conseguiram vê-lo. Ele começou a espalhar aquela poeira sobre suas cabeças. Enquanto isso, recitava os seguintes versículos da surata Yasin:

“Yasin! Pelo Alcorão, repleto de sabedoria, certamente tu és um Mensageiro. Estás sobre o caminho reto. Este Alcorão foi revelado pelo Poderosíssimo, Misericordiosíssimo, para que advirtas um povo cujos antepassados não foram advertidos; por isso, permanecem mergulhados na ignorância. A maioria deles merece o castigo de Allah; por isso, não creem. Colocamos grilhões em seus pescoços, que chegam até seus queixos, deixando suas cabeças erguidas. Colocamos uma barreira diante deles e outra atrás deles, e os cobrimos, de modo que não podem ver.” Enquanto recitava esses versículos, lançou poeira sobre a cabeça de cada um deles. Depois, afastou-se na direção que desejava.

Depois de algum tempo, um homem que vinha de fora aproximou-se deles e perguntou: “Por que estais esperando aqui?” Eles responderam: “Estamos esperando Maomé.” Ele disse: “Que Allah vos frustre! Maomé saiu justamente diante de vós. Não conseguis ver o que está sobre vossas cabeças?” Então cada um levou a mão à cabeça e descobriu que ela estava coberta de poeira.

Em seguida, começaram a revistar a casa. Ao verem Ali deitado na cama, coberto com o manto do Mensageiro de Allah, disseram: “Aqui está Maomé, deitado e coberto com o manto.” Por isso, ficaram esperando até o amanhecer. Pela manhã, quando Ali se levantou da cama, todos disseram ao vê-lo: “Então aquele homem realmente disse a verdade: Maomé foi embora.”

Ibn Ishaq disse: Abu Bakr era um homem muito rico. Quando pediu ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — permissão para emigrar, o Mensageiro de Allah lhe dizia: “Não te apresses. Talvez Allah tenha te indicado isso.” Por isso, desde então, ele comprou dois camelos e os manteve em sua casa. Fez isso como preparação para a emigração.

Aisha relatou: o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — nunca deixava de visitar a casa de Abu Bakr pelo menos uma vez por dia, fosse de manhã ou à tarde. Chegou o dia em que foi concedida ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — permissão para emigrar de Meca, deixando seu próprio povo. Nesse dia, ele veio à nossa casa ao meio-dia, horário em que nunca costumava vir. Ao vê-lo, Abu Bakr disse: “Certamente aconteceu alguma coisa; caso contrário, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — não viria a esta hora.” Quando ele entrou na casa, além de mim e de minha irmã Asma, filha de Abu Bakr, não havia mais ninguém ali. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Afastai de mim as outras pessoas que estão aqui.” Abu Bakr disse: “Ó Mensageiro de Allah, não há ninguém além de minhas duas filhas. Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti. O que aconteceu contigo? Dize-me.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Allah me concedeu permissão para sair de Meca e emigrar.” Abu Bakr perguntou: “Também poderei ir contigo?” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — respondeu: “Sim, também poderás ir comigo.” Aisha disse: “Antes daquele dia, eu não sabia que uma pessoa podia chorar de tanta alegria. Naquele dia, vi Abu Bakr chorar.” Então Abu Bakr disse: “Ó Mensageiro de Allah, eis aqui: preparei estes dois camelos justamente para isso.” Em seguida, contrataram Abd Allah ibn Urayqit para guiá-los pelo caminho e o levaram consigo. Ele era politeísta. Deixaram os dois camelos sob seus cuidados, e ele continuou a cuidar e supervisionar os animais até o momento determinado.

Ibn Ishaq disse: quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — deixou Meca, ninguém sabia de sua partida além de Ali ibn Abi Talib, Abu Bakr as-Siddiq e os familiares de Abu Bakr. O próprio Mensageiro de Allah havia informado Ali sobre o assunto e lhe ordenara que permanecesse em Meca por alguns dias. Os habitantes de Meca costumavam deixar diversos objetos sob a guarda do Mensageiro de Allah. Aqueles que não consideravam seguro guardar alguma coisa consigo confiavam-na ao Mensageiro de Allah, pois todos conheciam sua honestidade e sua confiabilidade. Por isso, depois da emigração, o Mensageiro de Allah encarregou Ali de devolver esses depósitos e ordenou-lhe que permanecesse mais algum tempo em Meca.

Chegou então a hora de saírem da casa de Abu Bakr. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — decidiu partir e foi até Abu Bakr. Depois, ambos saíram pela janela dos fundos da casa de Abu Bakr. Em seguida, foram até uma caverna do monte Sawr, situado na parte baixa de Meca, e entraram nela. Abu Bakr instruiu seu filho Abd Allah a escutar atentamente durante o dia para saber se as pessoas diziam algo sobre eles e a ir até eles ao anoitecer para comunicar-lhes tudo. Ele também instruiu seu servo Amir ibn Fuhayra — que havia sido liberto e depois trabalhava voluntariamente mediante remuneração — a pastorear seu rebanho durante o dia, conduzi-lo até a caverna daquele monte Sawr e encontrá-los na caverna ao anoitecer. Asma, filha de Abu Bakr, levava comida para eles todas as tardes. [43. Ibn Hisham narra, com base em Hasan al-Basri: o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e Abu Bakr chegaram à caverna do monte Sawr durante a noite. Antes que o Mensageiro de Allah entrasse, Abu Bakr entrou na caverna e examinou cuidadosamente o local para verificar se havia algum animal feroz ou serpente. Ele assumiu esse risco para manter o Mensageiro de Allah a salvo de qualquer perigo.] Acompanhado de Abu Bakr, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — permaneceu três dias na caverna do monte Sawr. Enquanto isso, os coraixitas anunciaram uma recompensa de cem camelos por quem capturasse o Mensageiro de Allah, que lhes havia escapado. Durante todo o dia, Abd Allah ibn Abu Bakr permanecia misturado aos coraixitas, ouvia suas deliberações e escutava tudo o que comentavam sobre os dois. Depois, ao anoitecer, ia até eles e comunicava todas as notícias do dia. O servo Amir ibn Fuhayra, por sua vez, pastoreava o rebanho de Abu Bakr junto com os rebanhos dos habitantes de Meca. Ao anoitecer, porém, conduzia os animais até perto da caverna do monte Sawr e os soltava; então os dois ordenhavam as ovelhas ou abatiam alguma delas. Pela manhã, quando Abd Allah ibn Abu Bakr saía da caverna do monte Sawr e ia para Meca, Amir ibn Fuhayra o seguia com seu rebanho, para apagar suas pegadas. Depois de transcorridos três dias dessa maneira, o alvoroço dos habitantes de Meca a respeito deles começou gradualmente a diminuir. Então Abd Allah ibn Urayqit chegou à caverna do monte Sawr montado em um camelo, levando consigo os dois camelos do Mensageiro de Allah e de Abu Bakr. Asma, filha de Abu Bakr, foi até eles levando provisões para a viagem. Entretanto, esquecera-se de trazer uma corda para amarrar e pendurar a comida. Os dois partiram. Asma tentou pendurar a comida, mas viu que não havia corda. Assim, desatou o cinturão, rasgou-o para fazer uma corda e amarrou e pendurou a comida com ela. Por isso, Asma, filha de Abu Bakr, era chamada de Dhat an-Nitaqayn, “aquela dos dois cinturões”. [44. Ibn Hisham disse: ouvi de vários sábios que ela era chamada de Dhat an-Nitaqayn, isto é, “aquela dos dois cinturões”. Como explicação, foi dito que, quando Asma quis amarrar e pendurar o recipiente de comida, dividiu seu próprio cinto em duas partes: com uma, amarrou-o ao redor, e com a outra, pendurou-o.]

Abu Bakr levou os dois camelos até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e, entregando-lhe o melhor deles, disse: “Ó Mensageiro de Allah! Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti. Monta-o.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — respondeu: “Não montarei um camelo que não seja meu.” Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, este é teu. Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Não. Dize-me, porém, por quanto o compraste.” Abu Bakr informou o preço do camelo. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Aceito o camelo por esse preço.” Abu Bakr respondeu: “Dou-te tanto o camelo quanto o seu preço.”

Em seguida, ambos montaram nos camelos e iniciaram a viagem. Abu Bakr Siddiq — que Allah esteja satisfeito com ele — levou consigo, montado atrás, seu servo Amir ibn Fuhayra, para prestar-lhes os serviços necessários durante o caminho.”

Asmā bint Abu Bakr relata: Depois que Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — e o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — partiram, chegou um grupo dos coraixitas, entre os quais estava Abu Jahl. Eles pararam diante da porta de Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele. Fui até eles. Perguntaram: “Onde está teu pai?” Respondi: “Não sei onde está meu pai.” Imediatamente, o vil e miserável Abu Jahl deu-me uma bofetada tão forte no rosto que meu brinco voou para longe.

Depois, eles partiram. Enquanto isso, três dias se passaram, sem que se obtivesse qualquer notícia sobre a direção em que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — havia partido. De repente, um jinn surgiu cantando desde a parte baixa de Meca. As pessoas não conseguiam vê-lo, mas, ao ouvirem sua voz, começaram a segui-lo. Pouco depois, ele atravessou a parte elevada de Meca e desapareceu. A canção que cantava era:

[Árabe *************]

“Que Allah, Senhor da humanidade, conceda a melhor recompensa àqueles dois companheiros que, na casa de Umm Ma‘bad [45. O nome verdadeiro de Umm Ma‘bad era Atika bint Khalid. Ela era uma mulher da tribo de Banu Ka‘b. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, Abu Bakr, Amir ibn Fuhayra e Abdullah ibn Arqat fizeram uma parada na casa dessa mulher. Eles pretendiam comprar dela alguma carne e tâmaras, mas não havia nenhuma das duas coisas ali. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — viu uma cabra em um canto da casa de Umm Ma‘bad. A cabra não dava leite. Ele pediu à mulher permissão para ordenhá-la. Então, assim que passou a mão pelo úbere, este se encheu de leite. Ao ver essa cena, a mulher aceitou imediatamente o Islã]

encontraram abrigo. Eles fizeram uma parada com generosidade e, depois, retomaram a viagem. Feliz foi aquele que se tornou companheiro de Muhammad. Que todo o povo de Banu Ka‘b seja felicitado por a jovem de Banu Ka‘b ter estado presente e sentada no local onde cuidava das provisões dos muçulmanos.”

Ao ouvirmos suas palavras, compreendemos que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — havia partido em direção a Medina.”

Suraca ibn Maleque ibn Ju’sam relata: o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, deixou Meca rumo a Medina. Os coraixitas anunciaram uma recompensa de cem camelas para quem o capturasse e o trouxesse de volta. Certo dia, eu estava sentado no conselho de minha tribo quando um de nossos homens veio até nós e parou diante de nós. Ele disse: “Por Allah, acabo de ver um grupo de três homens passando. Creio que sejam Maomé e seus companheiros.” Fiz-lhe um sinal com o olho para que se calasse. Depois disse: “São pessoas de determinada tribo. Perderam um animal e estão procurando por ele.” Ele disse: “Talvez seja isso mesmo.”

Ele não disse mais nada. Depois de passar algum tempo ali, fui para casa, preparei meu cavalo e minhas armas e comecei a me preparar para partir. Levei também minhas flechas de adivinhação. Então parti usando minha armadura. No caminho, parei em certo lugar e consultei as flechas. Elas deram exatamente o presságio de que eu não gostava nem um pouco: “Maomé não sofrerá nenhum dano.” Na verdade, eu pretendia capturá-lo, entregá-lo aos coraixitas e ganhar as cem camelas da recompensa. Segui rapidamente as pegadas, instigando meu cavalo. Assim que ele começou a correr com grande velocidade levando-me consigo, tropeçou. Fui lançado de sua garupa e caí na estrada. Pensei: “O que está acontecendo?” Mais uma vez tirei as flechas de adivinhação e consultei-as. Novamente veio o mesmo resultado: “Ele não sofrerá nenhum dano.” Mas esse resultado não era o que eu desejava. Ainda assim, eu continuava obstinado.

Eu não estava disposto a parar por nada. Mais uma vez segui as pegadas, instigando vigorosamente o cavalo. Maomé e seus companheiros entraram no meu campo de visão, e eu podia vê-los claramente. De repente, naquele momento, o cavalo tropeçou outra vez. Fui lançado ao chão. Pensei: “O que está acontecendo?” Mais uma vez tirei as flechas e consultei-as. Novamente surgiu o resultado indesejado: “Ele não sofrerá nenhum dano.” Ainda assim, não desisti. Continuei avançando atrás deles. Voltei a vê-los claramente. Assim que os avistei, o cavalo tropeçou de novo; desta vez, suas duas patas dianteiras afundaram no chão e fui lançado ao solo. Quando consegui puxar as patas para fora, uma fumaça começou a sair daquele lugar, formando espirais. Então compreendi que Maomé havia sido protegido de minhas mãos e que era invencível. Depois chamei-os e disse: “Sou Suraca, filho de Ju’sam. Parem um pouco; quero falar com vocês. Por Allah, minhas dúvidas a respeito de vocês desapareceram. Não receberão de mim nenhum tratamento indesejado.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse a Abu Bakr: “Pergunte-lhe o que deseja de nós.” Eu disse: “Escrevam-me uma mensagem. Esse escrito servirá como prova entre vocês e mim.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pediu a Abu Bakr que escrevesse algo para mim.

Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, escreveu uma mensagem sobre um osso (ou sobre um pedaço de tecido, ou sobre um fragmento de vaso de barro quebrado) e atirou-a na minha direção. Peguei o fragmento, coloquei-o na aljava das minhas flechas e voltei. Depois disso, não contei esse acontecimento a mais ninguém. Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, conquistou Meca e concluiu as expedições de Hunain e Taife, fui encontrá-lo levando aquele escrito. Encontrei-o em Jعرانة, entre Meca e Taife. Cheguei diante de uma unidade militar dos Ansar. Eles me cutucavam levemente com as lanças e diziam: “Vá embora, vá embora! O que você quer aqui?” Aproximei-me do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele estava montado em um camelo. Ainda hoje parece que o vejo sentado, com seus pés, brancos e límpidos como gordura, apoiados nos estribos da sela. Ergui o fragmento escrito e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Este é o objeto no qual você escreveu uma mensagem. Sou Suraca, filho de Ju’sam.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Hoje é o dia de cumprir promessas e demonstrar cortesia. Aproxime-se.” Aproximei-me dele e aceitei o Islã. Depois, quando me vinha à mente algo que eu queria perguntar ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, eu lhe perguntava. Mas agora não me lembro disso. Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, encho de água um reservatório para meus próprios camelos. Contudo, os camelos perdidos de outras pessoas vêm até ele e bebem a água. Se eu lhes der água dessa maneira, terei uma recompensa?” Ele respondeu: “Há recompensa por satisfazer a necessidade de qualquer ser vivo.” Depois voltei para minha tribo e enviei ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, os animais destinados à caridade.

Ibn Ishaq relata: o guia Abd Allah ibn Arqate avançou com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, pela parte baixa de Meca. Depois chegaram à região costeira. Dali, avançaram pela parte baixa da região de Usfan e, após atravessarem Qudayd, chegaram a um lugar chamado Kharrar. Em seguida, atravessaram Lakf e Madlaja Lakf e chegaram a um lugar chamado Madlaj Mahaj. Dali, passaram por Marj Mahaj, Marj Dhi al-Gadawain, depois por Batn Dhi Qashr e Jadadjid, até chegarem a Ajrad. Então atravessaram a área hostil de Madlaja Tihin, chamada Dhu Salam, e passaram por Ababid e, depois, por al-Fajj.

Ibn Hisham relata: depois, ele os levou até um lugar chamado Arj. Então, alguns habitantes daquela região estavam à espera deles ali. Chegaram a um lugar chamado Aws ibn Hajar, da tribo de Aslam. Naquele momento, vários habitantes da região estavam à espera deles ali. Um homem da tribo de Aslam chamado Aws Hajar providenciou a viagem do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para Medina, fazendo-o montar em um de seus camelos, chamado Ibn al-Rida. Também enviou com ele um de seus servos, chamado Masud ibn Hunayda. Depois, o guia deixou Arj levando os dois. Passou por San ʿiyat al-Aʿir, à direita de Raqūba, e chegou a Batn Rim. Dali, seguiu diretamente até Quba, onde chegou ao povoado dos Banu Amr ibn Awf. Era o meio-dia escaldante do décimo segundo dia do mês de Rabi al-Awwal. O sol estava quase diretamente acima de suas cabeças.

A chegada a Quba

Abd al-Rahman ibn Uwaymi ibn Sa‘ida citou o relato de um grande número de Companheiros de sua própria tribo: Quando ouvimos que o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, havia partido de Meca e acreditávamos que poderia chegar a Medina a qualquer dia, passávamos a esperá-lo diariamente, depois da oração do fajr, no espaço aberto de nossa região. Não saíamos dali até que o calor do sol se tornasse insuportável. Quando já não havia sombra alguma, voltávamos. Era a estação de intenso calor. No dia em que o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, realmente chegou, também estávamos sentados no campo à sua espera, como todos os dias. Quando, com o sol a pino, não restou sombra alguma, entramos em nossas casas. Assim que entramos, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, chegou. Um judeu foi o primeiro a avistar o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. Ele havia observado como esperávamos por ele. Por isso, gritou em voz alta: “Ó descendentes de Qayla! [46. Esta expressão se refere a todos os Ansar. Qayla era uma ilustre ancestral materna deles.]

Chegou o tesouro de vossa boa fortuna.”

Encontramo-nos com o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, à sombra de uma tamareira. Abu Bakr, quase da mesma idade que ele, estava com ele. Até então, a maioria de nós nunca havia visto o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. Uma grande multidão se reuniu para vê-lo, mas ninguém conseguia distinguir quem era Abu Bakr e quem era o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. Quando a sombra deixou de cobrir o corpo do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, Abu Bakr começou a protegê-lo do sol com seu manto. Então todos nós reconhecemos o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz.

Ibn Ishaq disse: Segundo muitos, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, hospedou-se inicialmente na casa de Kulthum ibn Hidam; segundo outros, hospedou-se na casa de Sa‘d ibn Khaythama. Os que dizem que ele se hospedou na casa de Kulthum ibn Hidam afirmam que, embora permanecesse na casa de Kulthum, ele costumava sentar-se na casa de Sa‘d ibn Khaythama, que era solteiro, para receber as pessoas. Os emigrantes solteiros também permaneciam naquela casa. Abu Bakr al-Siddiq hospedou-se na casa de Habib ibn Isaf; segundo outra versão, na de Khubayja ibn Zayd.

Ali ibn Abi Talib (que Deus esteja satisfeito com ele) permaneceu três dias em Meca. Durante esse período, concluiu a tarefa de devolver aos seus proprietários os depósitos confiados ao Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, e depois emigrou para junto do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. Ele também foi hóspede de Kulthum ibn Hidam.

O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu em Quba, entre o clã de Ibn Awf, durante quatro dias: segunda, terça, quarta e quinta-feira. Nesse período, construiu ali uma mesquita.

A chegada a Medina

Depois, pela vontade de Deus, ele deixou Quba na sexta-feira. Ao chegar ao povoado de Banu Salim ibn Awf, realizou a oração de sexta-feira. Ele realizou a oração de sexta-feira na mesquita de Batn al-Wadi. Outro nome de Batn al-Wadi é Wadi Ranuna. Foi ali que ele realizou pela primeira vez a oração de sexta-feira em Medina.

Algumas pessoas de Banu Salim ibn Awf, entre elas Itban ibn Malik e Abbas ibn Ubada ibn Nadla, foram até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disseram: “Ó Mensageiro de Allah, considerando todos os homens, recursos e meios de proteção que temos, permaneça aqui conosco permanentemente, satisfeito com isso.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apontou para sua camela e disse: “Deixem-na seguir seu caminho, pois recebeu de Allah a ordem de levar-me ao lugar que me foi destinado.” Todos assim fizeram. A camela começou a andar livremente. Quando chegou perto do povoado de Banu Bayada, algumas pessoas dessa tribo, lideradas por Ziyad ibn Labid e Farwa ibn Amr, foram até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disseram: “Ó Mensageiro de Allah, venha até nós e permaneça conosco, junto de todos os homens, recursos e meios de proteção que temos.” Ele disse: “Deixem esta camela seguir sua vontade, pois ela recebeu a ordem de levar-me ao lugar que me foi destinado.” A camela continuou andando. Quando chegou ao povoado de Banu Saida, algumas pessoas de Banu Saida, lideradas por Sad ibn Ubada e Mundhir ibn Amr, bloquearam o caminho do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Também repetiram o mesmo pedido feito por Banu Bayada e Banu Salim. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu a Banu Saida com as mesmas palavras que havia dirigido a Banu Bayada e Banu Salim. A camela prosseguiu. Quando passou ao lado das casas da família Banu Harith, da tribo de Khazraj, Sad ibn Rabi, Khabija ibn Zaid e Abdullah ibn Rawaha, acompanhados de outras pessoas da família Banu Harith, bloquearam o caminho do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Convidaram-no a permanecer com sua família e a confiar nos homens, recursos e meios de proteção que possuíam. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Deixem a camela seguir, pois ela foi incumbida de levar-me ao lugar apropriado.” Todos abriram passagem, e a camela continuou avançando. Em seu percurso, passou pela casa de Banu Adi ibn Najjar, a família dos tios maternos do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Então, Salit ibn Qays e Abu Salit Usaira ibn Abi Khabija, acompanhados de algumas pessoas de Banu Adi ibn Najjar, postaram-se diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Disseram: “Ó Mensageiro de Allah, venha até nós e confie nos homens, recursos e meios de proteção que temos.” Ele disse: “Deixem a camela seguir como quiser, pois ela recebeu a ordem de levar-me ao lugar apropriado.” Registre-se que Salama bint Amr, mãe de Abdul Muttalib, era filha de Banu Adi ibn Najjar.

Ao chegar perto das moradias de Banu Malik ibn Najjar, a camela ajoelhou-se. No lugar onde ela se sentou, mais tarde foi construída a entrada da Mesquita do Profeta. Naquela época, aquele local era usado para secar tâmaras por dois órfãos de Banu Najjar. Os dois eram Sahl e Suhail, filhos de Amr. Mayaz ibn Aqra cuidava deles. Embora a camela tivesse ajoelhado, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não desceu de seu dorso; permaneceu sentado, imóvel. Depois de algum tempo, a camela avançou um pouco. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, continuou segurando firmemente sua rédea. Então a camela olhou para trás e voltou novamente ao primeiro lugar onde havia parado. Ali ajoelhou-se outra vez. Dessa vez, emitiu movimentos e sons, e encostou o peito e a parte inferior do pescoço no chão. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, desceu do dorso da camela. Abu Ayyub Khalid ibn Zaid retirou sua bagagem e levou-a para sua própria casa. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, hospedou-se na casa de Abu Ayyub. Perguntou-lhe: “De quem é o local onde se secam as tâmaras?” Mayaz ibn Aqra respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, ele pertence a Sahl e Suhail, filhos de Amr. Eles são órfãos sob meus cuidados. Obterei o consentimento deles. Construa aqui uma mesquita.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recebeu a ordem de construir uma mesquita naquele local. Ele permaneceu na casa de Abu Ayyub até que sua mesquita e suas moradias fossem construídas. O próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, participou da construção da mesquita, para incentivar os muçulmanos a participar também. Assim, todos os Muhajirun e Ansar participaram da obra com grande entusiasmo. Sobre isso, um muçulmano recitou um poema composto por ele mesmo:

“Se ficarmos sentados enquanto o Profeta trabalha, isso será sinal de nosso extremo desvio.” Durante a construção da mesquita, os muçulmanos recitavam ocasionalmente versos com entusiasmo. Por exemplo: “Não há vida digna de importância além da vida do Além. Ó Allah, derrama Tua misericórdia sobre os Ansar e os Muhajirun.” E, unindo sua voz à deles, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia: “Não há vida digna de importância além da vida do Além. Ó Allah, derrama Tua misericórdia sobre os Ansar e os Muhajirun.”

Quando a mesquita e as moradias ficaram prontas, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deixou a casa de Abu Ayyub e passou a morar em sua própria casa.

Abu Ayyub disse: Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, hospedou-se em minha casa, ele ficou no andar de baixo, enquanto eu e minha esposa ficamos no andar de cima. Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, considero extremamente desagradável e impróprio que eu fique no andar de cima enquanto você permanece no andar de baixo. Portanto, fique no andar de cima, e nós desceremos para ficar no andar de baixo.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Ficar no andar de baixo é mais conveniente para nós e para aqueles que vêm nos visitar.”

Por isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passou a morar no andar de baixo, e nós, no andar de cima. Certa vez, uma jarra nossa cheia de água quebrou. Tínhamos apenas um cobertor, e não possuíamos nem edredom nem outra roupa de frio. Temendo que a água caísse sobre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e lhe causasse incômodo, eu e minha esposa enxugamos a água usando o próprio cobertor.

Preparávamos e enviávamos ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, comida para a noite. Quando ele devolvia o que sobrava daquela comida, eu e minha esposa comíamos justamente do lugar que sua mão havia tocado, buscando bênçãos. Certa noite, enviamos-lhe comida dessa maneira. Colocamos nela também um pouco de cebola ou alho. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, devolveu-a. Não encontramos na comida nenhum sinal do toque da mão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Fiquei alarmado e fui até ele. Disse: “Ó Mensageiro de Allah, que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por você. Você devolveu a comida, mas não encontrei nela nenhum sinal do toque de sua mão. Sempre que você devolvia comida, eu e minha esposa comíamos do lugar que sua mão havia tocado, buscando bênçãos.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Senti no alimento o odor de certa árvore. Como preciso falar aproximando meu rosto do rosto de muitas pessoas, não comi. Contudo, vocês podem comê-lo.” Depois, comemos aquele alimento. A partir de então, nunca mais enviamos cebola ou alho ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ibn Ishaq disse: Depois disso, os Muhajirun começaram a emigrar, chegando um após outro junto do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Somente aqueles que estavam cativos ou que haviam sido obrigados a abandonar o Islã por causa de severas torturas permaneceram em Meca. Com exceção de algumas poucas famílias, a situação de todas as demais era tal que não puderam levar para Medina todos os membros de suas famílias e seus bens. As poucas famílias que conseguiram emigrar com todos os seus membros foram: a família Banu Maz’un, da tribo Banu Jumah; os Banu Jahsh ibn Riyab, aliados dos Banu Umayyah; e a família Banu Bukayr, dos Banu Sa’d ibn Layth, aliada dos Banu Ka’b. Depois da Hégira, suas casas ficaram completamente vazias e trancadas.

Discursos proferidos em Medina e celebração de um pacto

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a Medina no mês de Rabi al-Awwal e permaneceu ali até o mês de Safar do ano seguinte. Durante esse período, construíram uma mesquita e uma casa para ele. Além disso, devido à conversão dessa tribo dos Ansar de Medina — os Banu Malik ibn al-Najjar — ao Islã, o Islã se difundiu amplamente. Com exceção das quatro famílias — Khatma, Waqid, Wa’iq e Umayya —, um grupo da tribo de Aws continuou apegado ao paganismo.

Abu Salama ibn Abd al-Rahman relatou-me que, no primeiro discurso proferido pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, em Medina, ele primeiro se levantou diante do povo e louvou Allah como Ele merece. Depois, disse as seguintes palavras:

“Ó povo, acumulai boas obras para a Outra Vida. Sabei que alguém dentre vós poderá morrer repentinamente, sem deixar sequer quem cuide de seu rebanho de ovelhas. Então, seu Senhor lhe perguntará — e não haverá ali intérprete algum: ‘Não veio a ti o Meu Mensageiro? Não te concedi riquezas e não te agraciei? Quanto enviaste disso para a Outra Vida?’ Então ele olhará para a direita e para a esquerda, mas não verá nada. Olhará à sua frente, e ali não verá nada além do Inferno. Portanto, quem puder proteger-se do Inferno deve empenhar-se em fazê-lo, ainda que seja com uma parte de uma tâmara. E quem não tiver sequer essa capacidade deve, ao menos, proteger-se do Inferno dizendo uma boa palavra. Com efeito, a recompensa de cada boa ação será de dez até setecentas vezes. A paz e a misericórdia de Allah estejam convosco.”

Em outra ocasião, ele proferiu o seguinte discurso:

“Todo louvor pertence a Allah. Eu O louvo e peço ajuda somente a Ele. Buscamos refúgio nEle contra as tentações do ego e contra as más ações. A quem Allah guia, ninguém pode desviar; e a quem Allah destina o desvio, ninguém pode guiar. Testemunho que não há divindade senão Allah. Ele é Único e não tem associado. Em verdade, o Livro de Allah é a melhor das palavras. Aquele em cujo coração Ele tornou o Alcorão amado, a quem concedeu a oportunidade de aceitar o Islã depois de ter permanecido imerso na descrença e que aceitou o Alcorão em vez das palavras dos homens, esse prosperou. Pois não há palavras mais belas e adornadas do que o Alcorão. Amai aquilo que Allah ama. Amai Allah de todo o coração. Não sejais negligentes com a recitação da palavra de Allah nem com a Sua lembrança, e não permitais que o coração se torne duro. Com efeito, Allah escolhe alguns dentre todas as Suas criaturas; de suas obras, escolheu algumas como obras preferidas; e, dentre Seus servos, escolheu alguns. Ele gosta das boas palavras. Entre aquilo que foi dado às pessoas, há tanto o lícito quanto o ilícito. Portanto, adorai Allah e não associeis nada a Ele. Temei-O como se deve. Sede sinceros com Allah, transformando em prática a melhor das palavras que pronunciais, e cultivai entre vós o amor pela graça de Allah. Quando o pacto firmado com Allah é violado, Ele Se irrita. Que a paz esteja convosco.”

Depois, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, celebrou um pacto entre os Ansar e os Muhajirun. Por meio desse documento, ele ofereceu e obteve dos judeus o compromisso de uma coexistência pacífica, reconheceu sua liberdade de praticar a religião e sua propriedade sobre seus bens, e estabeleceu e aceitou com eles algumas condições. O pacto era o seguinte:

“Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador.

Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, os muçulmanos crentes de Quraysh e de Yathrib, e aqueles que posteriormente os seguirem, se juntarem a eles e participarem juntos do jihad, proclamam o seguinte: eles constituem uma ummah distinta entre toda a humanidade. Os emigrantes provenientes de Quraysh permanecerão conforme a situação em que se encontravam ao aceitar o Islã; manterão entre si a prática anterior de pagar compensação, e cada grupo de crentes manterá a norma de libertar os prisioneiros mediante resgate. Os Banū Sāʿidah também permanecerão conforme a situação em que se encontravam ao aceitar o Islã. Entre os crentes de cada um de seus grupos, os prisioneiros poderão ser libertados mediante resgate. Os Banū Hārith permanecerão conforme a situação em que se encontravam ao aceitar o Islã. Manterão entre si a prática anterior de pagar compensação, e entre os crentes de cada um de seus grupos continuará a prática de libertar os prisioneiros mediante resgate. Os Banū Jusham também permanecerão conforme a situação em que se encontravam ao aceitar o Islã. Sua prática anterior de pagar compensação continuará em vigor, e entre os crentes de cada um de seus grupos permanecerá a norma de libertar justamente os prisioneiros mediante resgate. Os Banū Najjār também permanecerão conforme a situação em que se encontravam ao aceitar o Islã. Entre os crentes de cada um de seus grupos continuará a norma de libertar justamente os prisioneiros mediante resgate. Os Banū ʿAmr ibn ʿAwf permanecerão conforme a situação em que se encontravam ao aceitar o Islã. Sua prática anterior de pagar compensação continuará em vigor, e entre os crentes de cada um de seus grupos os prisioneiros poderão ser libertados justamente mediante resgate. Os Banū Nabīt permanecerão conforme a situação em que se encontravam ao aceitar o Islã. Sua prática anterior de pagar compensação continuará em vigor, e entre os crentes de cada um de seus grupos continuará a norma de libertar justamente os prisioneiros mediante resgate. Os Banū Aws permanecerão conforme a situação em que se encontravam ao aceitar o Islã. Entre os crentes de cada um de seus grupos, os prisioneiros poderão ser libertados justamente mediante resgate. Os crentes ajudarão financeiramente, de modo adequado, cada pessoa entre eles que esteja endividada ou tenha muitos filhos, para o pagamento de compensações e resgates. Nenhum crente se oporá ao aliado de outro crente. Os crentes tementes a Allah tomarão medidas eficazes contra qualquer rebelde, opressor extremo, criminoso, prejudicial aos interesses da sociedade muçulmana ou causador de desordem entre eles; todos se unirão para agir contra tal criminoso, ainda que ele seja filho de um deles. Nenhum crente matará outro crente em benefício de um incrédulo, nem ajudará qualquer incrédulo contra um crente. Os direitos do não muçulmano leal no Estado muçulmano estarão igualmente protegidos. Os muçulmanos concederão plena proteção até mesmo ao mais insignificante dos não muçulmanos. Os crentes serão aliados uns dos outros; isso, porém, não se aplicará aos demais. E, entre os judeus, quem nos obedecer e nos seguir terá direitos e ajuda iguais aos nossos. Nenhuma injustiça será permitida contra tais pessoas, nem será prestada ajuda a quem as atacar. A proteção dos crentes será uma e a mesma para todos. Quando ocorrer uma guerra em defesa do Islã, nenhum muçulmano fará uma trégua com um não muçulmano, salvo com base na igualdade e na justiça. Cada grupo de combatentes entre nós seguirá os demais grupos de combatentes. Um crente poderá matar outro somente em retaliação por homicídio e segundo a determinação de Allah. Os crentes tementes a Allah estarão firmados no melhor e mais sólido modelo. Nenhum politeísta de Medina poderá proteger ou garantir a vida e os bens de alguém de Quraysh, nem lhe dará abrigo para prejudicar um crente. Quem matar um crente, sem que este tenha cometido crime passível de pena de morte, e isso for devidamente comprovado, será condenado à morte. Contudo, não será condenado à morte se tiver satisfeito de outra maneira o herdeiro da vítima. Em qualquer situação, todos os crentes se posicionarão contra esse assassino muçulmano, e não será lícito a nenhum crente tomar o seu partido. Para qualquer crente que tenha aceitado esta proclamação e mantenha firme a fé em Allah e no Último Dia, não será lícito ajudar ou dar abrigo a quem introduza inovações estranhas na legislação islâmica. Quem ajudar ou abrigar tal pessoa estará sujeito à maldição de Allah, e a ira de Allah descerá sobre ele no Dia da Ressurreição. Nenhuma intercessão nem compensação será aceita em seu favor. E, sempre que divergirdes sobre qualquer assunto, recorrereis a Allah e ao Seu Mensageiro para que decidam a respeito.

Enquanto os crentes estiverem em guerra, os judeus participarão do fornecimento de provisões para a guerra. Os judeus dos Banu Awf serão considerados parte da mesma ummah que os crentes, tanto eles próprios quanto seus aliados. Contudo, muçulmanos e judeus praticarão, cada qual, a sua própria religião. Entretanto, quem se envolver em opressão, injustiça ou atos criminosos trará apenas a destruição sobre si e sua família. Os direitos dos judeus dos Banu Najjar são iguais aos dos judeus dos Banu Awf. Do mesmo modo, os direitos dos judeus dos Banu Harith, Banu Saida, Banu Jusham, Banu Aws, Banu Tha’laba e Banu Shatiba são iguais aos dos judeus dos Banu Awf. Porém, quem se envolver em opressão, injustiça e pecado causará somente a destruição de si mesmo e de sua família. Todos os assuntos externos dos Banu Tha’laba serão tão honrados quanto suas próprias vidas, em igualdade com seus assuntos internos. A lealdade e o cumprimento das promessas devem proteger todos contra o pecado. Os aliados dos Banu Tha’laba terão os mesmos direitos que eles próprios. Os assuntos internos dos judeus serão tão honrados quanto suas próprias vidas. Ninguém dentre eles poderá sair de Medina sem a permissão de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Todos devem saber que nenhum debate ou interrogatório poderá salvar alguém do Fogo. Quem matar uma pessoa terá cometido esse ato ao preço da destruição de si mesmo e de sua família. Exceto se a vítima for criminosa; nesse caso, será diferente. Allah, o Altíssimo, prefere neste caso a maior magnanimidade. Os judeus arcarão com suas próprias despesas, e os muçulmanos arcarão também com suas próprias despesas. É dever daqueles que aceitaram este pacto ajudar plenamente qualquer aliado que esteja em guerra; entre eles haverá relações de benevolência, bons conselhos e magnanimidade, e ninguém participará com outro em qualquer ato pecaminoso. Prejudicar o próprio aliado é um crime terrível e sem precedentes. Todos têm o dever de ajudar o oprimido. Enquanto os crentes estiverem em guerra, os judeus continuarão a prestar-lhes apoio financeiro. [47. Isto é, Allah e os crentes não se opõem a aceitar a ajuda deles.] Para os participantes deste pacto, toda a área interna de Yathrib estará completamente segura. Se o vizinho não for criminoso nem estiver envolvido em atos prejudiciais, sua vida, seus bens e sua honra terão direito à plena segurança, como a própria vida, os próprios bens e a própria honra. Ninguém poderá entrar na casa de outra pessoa sem a permissão de seu proprietário. Qualquer acontecimento desagradável, disputa ou conflito que ocorra entre os que aceitaram este pacto deverá ser levado a Allah e a Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para decisão. Allah deseja ver este pacto implementado com o máximo de cautela e honestidade. [48. É digno de nota que, quando este pacto foi adotado, a jizya ainda não havia sido imposta e os muçulmanos eram fracos. Naquela época, se os judeus lutassem ao lado dos muçulmanos, teriam participação nos espólios de guerra. Este pacto tornava obrigatória para eles a participação nas despesas da guerra.] Deve-se saber que não se poderá conceder proteção aos coraixitas nem aos seus aliados. Os signatários do pacto resistirão unidos a quem atacar Medina. E, quando forem convidados a estabelecer uma trégua e uma aliança, estabelecerão trégua e aliança com aquele que os convidar. Quando forem convidados a qualquer acordo ou aliança desse tipo, também será obrigatório para os crentes aceitá-lo. Contudo, quando alguém participar de uma guerra contra a religião, receberá sua parte daquele grupo que o incorporou às suas fileiras. Os direitos e deveres dos judeus dos Banu Aws e de seus aliados serão iguais aos direitos e deveres dos signatários deste pacto, e eles os receberão dos signatários de maneira plenamente justa. Se alguém seguir o caminho da honestidade, seus pecados anteriores deverão ser perdoados. Quem praticar uma má ação prejudicará apenas a si mesmo. Allah deseja ver o máximo de honestidade e veracidade na observância deste pacto. Este pacto não é um escudo protetor para o opressor ou o criminoso. Desde que não estejam envolvidos em opressão ou crime, aqueles que se retirarem da guerra ou permanecerem inativos também terão segurança dentro dos limites de Medina. Quem permanecer firme no caminho da honestidade e do temor de Allah terá Allah e Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, como protetores e auxiliares.

Estabelecimento dos laços de fraternidade entre os Ansar e os Muhajirun

Ibn Ishaq disse: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estabeleceu laços de fraternidade entre os Muhajirun e os Ansar. Busco refúgio em Allah contra atribuir-lhe aquilo que ele não disse. Soube que ele estabeleceu laços de fraternidade entre cada dois homens. Depois, segurou a mão de Ali ibn Abu Talib e disse: “Este é meu irmão.” Assim, o líder dos profetas, o guia dos tementes, o Mensageiro do Senhor dos mundos, aquele que não tem igual em todo o mundo, e Ali, filho de Abu Talib, foram novamente unidos por um vínculo de fraternidade. E Hamza ibn Abd al-Muttalib, o leão de Allah e de Seu Mensageiro e tio do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi unido em fraternidade a Zayd ibn Haritha. Antes de partir para a batalha de Uhud, Hamza deixou como testamento que, caso morresse, Zayd ibn Haritha seria o herdeiro de seus bens. Jafar al-Tayyar, filho de Abu Talib, e Muadh ibn Jabal, descendente dos Banu Salama, foram unidos por um vínculo de fraternidade. Umar ibn al-Khattab e Itban ibn Malik tornaram-se irmãos. Abu Ubayda ibn al-Jarrah e Sad ibn Muadh; Abd al-Rahman ibn Awf e Sad ibn Rabi; Zubayr ibn al-Awwam e Salama ibn Sulama; Uthman ibn Affan e Aws ibn Thabit; Talha ibn Ubaydullah e Kab ibn Malik; Said ibn Zayd e Ubay ibn Kab; Musab ibn Umayr e Abu Ayyub Khalid; Abu Hudhayfa ibn Utba ibn Kab; Musab ibn Umayr e Abu Ayyub Khalid; Abu Hudhayfa ibn Utba e Ubbad ibn Bishr; Ammar ibn Yasir e Hudhayfa ibn al-Yaman; e Abu Dharr al-Ghifari e Mundhir ibn Amr estabeleceram entre si laços de fraternidade. Além disso, foram estabelecidos laços de fraternidade entre Hatib ibn Abu Baltaa e Uwaym ibn Saida; Salman, o Persa, e Abu al-Darda; e Birar, o escravo liberto de Abu Bakr, e Abu Ruwayha.

Entre os companheiros entre os quais o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estabeleceu laços de fraternidade, estes são os únicos nomes que pude conhecer.

O início do adhan

Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, encontrou em Medina todos os seus irmãos emigrantes e obteve o apoio e a cooperação unidos dos Ansar, respirou aliviado, e o Islã tornou-se uma força bem consolidada. Imediatamente, foram estabelecidas as orações regulares, o zakat e o jejum tornaram-se obrigatórios, e foram implementadas leis para combater os crimes. Também entraram em vigor as normas sobre o lícito e o ilícito. Assim, o Islã estabeleceu-se plenamente entre eles. Essa tribo dos Ansar foi a que, após abraçar a fé, se estabeleceu aqui como residente permanente. Depois que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a Medina, os muçulmanos reuniam-se espontaneamente junto dele quando chegava o horário da oração; não era necessário chamá-los. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, decidiu que, assim como os judeus reuniam as pessoas para a oração tocando uma trombeta, ele também providenciaria que se tocasse uma trombeta. Porém, logo depois, não aprovou a ideia e desistiu. Em seguida, considerou convocar os muçulmanos para a oração tocando um sino.

Enquanto essas reflexões prosseguiam, Abdullah ibn Zayd viu em sonho como convocar as pessoas e reuni-las. Ele foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, esta noite sonhei que um homem desconhecido, vestido de verde e segurando um sino na mão, andava por aí. Quando o homem passou por mim, eu lhe disse: ‘Ó servo de Allah, venderias este sino?’ Ele respondeu: ‘O que farás com o sino?’ Eu disse: ‘Convocarei as pessoas para a oração.’ Ele perguntou: ‘Queres que te ensine algo melhor do que isso?’ Eu disse: ‘O que é? Dize-me.’ Ele disse: ‘Allahu akbar, Allahu akbar, Allahu akbar, Allahu akbar; testemunho que não há divindade além de Allah, testemunho que não há divindade além de Allah; testemunho que Muhammad é o Mensageiro de Allah, testemunho que Muhammad é o Mensageiro de Allah; vinde para a oração, vinde para a oração; vinde para a salvação, vinde para a salvação; Allahu akbar, Allahu akbar; não há divindade além de Allah.’” Assim que contou o sonho ao Mensageiro de Allah, ele disse: “Se Allah quiser, este sonho é verdadeiro. Leva Bilal e fica em algum lugar. Ensina-lhe essas palavras, e que ele faça o adhan, pois sua voz é mais forte que a tua.” Bilal fez o adhan. Umar ouviu-o enquanto estava sentado em casa. Imediatamente, foi ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, puxando seu manto, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, juro por Allah que também tive um sonho igual ao que Abdullah ibn Zayd teve.” Então, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, expressou sua gratidão dizendo: “Alhamdulillah”.

Relato sobre o adoecimento de alguns Companheiros

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse:

A febre era muito disseminada em Medina. Muitos dos Companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, adoeceram. Allah Todo-Poderoso poupou disso o Seu Profeta. Abu Bakr e seus dois servos, Bilal e Amir ibn Fuhayra, viviam no mesmo quarto. Todos foram acometidos pela febre. Fui visitá-los. Naquela época, a norma do véu ainda não havia sido revelada. O sofrimento dos enfermos era indescritível. Primeiro fui até Abu Bakr e perguntei: “Pai, como se sente?” Ele respondeu recitando um poema:

“Cada homem permanece junto dos seus entes queridos, mas a morte está muito próxima dele.”

Compreendi e disse comigo mesma: “O pai certamente está delirando.”

Depois fui até Amir ibn Fuhayra e disse: “Amir, como está o seu corpo?”

Ele também respondeu, recitando um poema: «Alcancei a morte antes de provar a doçura da morte,

a morte do covarde paira sobre a sua cabeça,

cada homem luta com todas as suas forças, assim como o touro protege a própria pele com os chifres.»

Compreendi que Amer havia perdido a razão e estava delirando.

Quando a febre de Bilal se agravava, ele ia deitar-se no pátio da casa.

Então recitava poemas em voz alta e dizia:

«Ah! Será que poderei passar uma noite em Fakhkh, na companhia do idhkhir e das rosas?

E será que terei novamente a oportunidade de descer às águas de Majanna, nem que seja por mais um dia? E será que voltarei a ver os dois montes, Shama e Tafil?» [49. Fakhkh: nome de um lugar nos arredores de Meca. Idhkhir: nome de uma planta aromática. Majanna: um mercado situado na parte baixa de Meca.] [50. Shama e Tafil são os nomes de dois montes de Meca.]

Fui informar ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o que tinha ouvido deles. Eu disse: “Por causa da intensidade da febre, todos estão delirando. Eles próprios não entendem o que estão dizendo.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó Allah, torna Medina tão querida para nós quanto Meca, ou ainda mais. Abençoa para nós as colheitas que nela produzes. Afasta dela todas as doenças e leva-as para Mahaiyaya. [51. Mahaiyaya é outro nome de Juhfa, o local onde os peregrinos da Síria entram em ihram.]”

A data da Hégira

Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a Medina, aproximava-se o meio-dia, sob um sol escaldante. A data era segunda-feira, 12 de Rabi al-Awwal. Naquele momento, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tinha 53 anos. Isso ocorreu no décimo terceiro ano após o início da profecia. Depois, permaneceu em Medina durante os dias restantes de Rabi al-Awwal e os meses de Rabi ath-Thani, Jumada al-Awwal, Jumada ath-Thani, Rajab, Sha’ban, Ramadan, Shawwal, Dhu al-Qa’da, Dhu al-Hijja e Muharram. [Isto é, depois de emigrar para Medina, não saiu dela durante esse período: — o editor.]

A primeira expedição militar

Exatamente doze meses após sua chegada a Medina, no mês de Safar, ele partiu para a expedição de Waddan, também conhecida como expedição de Abwa. Ele chegou a Waddan à procura dos coraixitas e dos Banu Damra ibn Bakr. Ali, os Banu Damra submeteram-se à sua autoridade. Em seguida, retornou em segurança a Medina, sem enfrentar qualquer conspiração. Passou ali o restante dos dias de Safar e a primeira parte de Rabi al-Awwal.

A expedição sob o comando de Ubayda ibn al-Harith

O próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, preparou o estandarte para essa batalha.

Durante esse período em que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu em Medina, ele enviou Ubayda ibn al-Harith com uma força de cavalaria composta por sessenta ou oitenta homens. Todos eram Muhajirun. Nenhum dos Ansar estava com eles. Ao chegar a um reservatório de água na parte baixa de Saniyyat al-Murra, o grupo se deparou com uma grande força dos coraixitas. Contudo, não houve combate. Apenas Sa’d ibn Abi Waqqas lançou uma flecha. Esse foi o primeiro disparo de flecha do exército islâmico. Depois, o grupo retornou. Naquele momento, os muçulmanos estavam bastante entusiasmados.

Expedição sob o comando de Hamza em direção à costa marítima

Nessa ocasião, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou em direção à costa marítima, pelo caminho de Īs, um grupo de trinta cavaleiros emigrados sob o comando de Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele). Também nessa expedição não enviou nenhum ansar. Dessa vez, o exército muçulmano se deparou com uma força de trezentos cavaleiros de Meca, comandada por Abu Jahl. Graças aos esforços de Majdi ibn Amr al-Juhanī, ainda assim não ocorreu nenhum confronto. Ele afastou os dois lados. Assim, ambos os exércitos se separaram e retornaram. Também dessa vez não ocorreu nenhuma batalha.

Expedição de Bu’āt

No mês de Rabī al-Awwal, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em uma expedição militar contra os coraixitas e chegou a um lugar chamado Bu’āt. Ele foi até lá pelo caminho de Ridhwā. Retornou a Medina sem travar batalha alguma. Ali passou o restante dos dias de Rabī al-Thānī e a primeira parte de Jumādā al-Awwal. [52. Durante esta expedição, Sā’ib ibn Uthmān ibn Maz’ūn (que Allah esteja satisfeito com ele) foi encarregado de cuidar de Medina. Bu’āt: nome de uma montanha na região da tribo de Juhayna, próxima de Yanbu.]

Expedição de Ushayra

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conduziu novamente uma expedição militar contra os coraixitas. [53. Nessa ocasião, Abu Salama ibn Abd al-Asad (que Allah esteja satisfeito com ele) foi encarregado da defesa de Medina.] Passando pelo desfiladeiro de Banū Dinār e depois pelo deserto de Hābir, conduziu o exército até o vale de Ibn Adhhar e fez uma parada à sombra de uma árvore. Ali rezou; por isso, há uma mesquita naquele local. Quando prepararam comida para ele, comeu junto com todos. O lugar onde os caldeirões eram colocados ainda é claramente visível. Deram-lhe água da fonte chamada “Mushtarab”, situada naquele local. Depois partiu, deixando o lugar chamado Khalāyiq à sua esquerda, e atravessou o desfiladeiro de Abd Allah. Em seguida, virou à esquerda, chegou à planície chamada Yal’yāl e fez uma parada na confluência de Yal’yāl e Dabu’ā, onde bebeu água de um poço. Depois seguiu pela planície de Farsh Milāl. Por fim, encontrou o caminho das pequenas regiões montanhosas de Yamāma. Seguindo esse caminho, passou pela planície de Yanbu e chegou a Ushayra, onde fez uma parada. Ali permaneceu alguns dias de Jumādā al-Awwal e Jumādā al-Thānī. Nesse local, incentivou os Banū Mudlij e seus aliados tribais dos Banū Damra a reconhecerem sua autoridade. Depois retornou em segurança a Medina.

Expedição militar sob o comando de Sa’d ibn Abī Waqqās

Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou uma força sob o comando de Sa’d ibn Abī Waqqās. Essa força, composta por oito emigrados, chegou a um lugar chamado Kharrār, no Hijaz. Depois retornou em segurança a Medina.

A expedição de Safwan: a primeira expedição de Badr

Certo dia, menos de dez dias após retornar da expedição de Ushaira, Kurz ibn Jabir al-Fihri lançou um ataque com o objetivo de saquear os camelos deixados soltos e outros animais domésticos nos arredores de Medina. O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, perseguiu-o imediatamente. [54. Ao partir para esta expedição, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, encarregou Zaid ibn Haritha da administração de Medina.] Ele chegou a um vale chamado Safwan, numa extremidade da planície de Badr. O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, não conseguiu alcançar Kurz ibn Jabir. Este acontecimento é chamado de primeira expedição de Badr. Depois disso, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, retornou a Medina e passou ali o restante do mês de Jumada al-Thani, bem como os meses de Rajab e Sha‘ban.

Expedição militar sob a liderança de Abdullah ibn Jahsh

No mês de Rajab, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, enviou uma força composta por oito emigrantes que haviam retornado da primeira expedição de Badr, sob a liderança de Abdullah ibn Jahsh. Não incluiu nenhum ansar entre eles. Entregou uma carta a Abdullah ibn Jahsh e disse-lhe que a abrisse e lesse somente depois de percorrer dois dias de viagem, e não antes disso. Depois de ler a carta, deveria agir de acordo com as instruções nela contidas, sem impor nada à força a qualquer um de seus companheiros.

Depois de viajar durante dois dias, Abdullah ibn Jahsh abriu e leu a carta. Nela estava escrito: “Quando leres esta minha carta, parte imediatamente, vai até um lugar chamado Nakhla, entre Meca e Taife, e faz uma parada. Ali, fica de emboscada para os coraixitas e informa-me caso obtenhas alguma notícia.”

Assim que leu a carta, Abdullah ibn Jahsh disse: “Aceitei e permaneci obediente.” Em seguida, disse aos companheiros: “O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, ordenou-me que fosse a Nakhla, ficasse de emboscada para os coraixitas e lhe comunicasse qualquer notícia que obtivesse. Também proibiu que eu impusesse a qualquer um de vocês uma obrigação compulsória a esse respeito. Se algum de vocês deseja alcançar o martírio, que siga adiante; quem não desejar isso, que retorne. Quanto a mim, cumprirei a ordem do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz.” Depois dessas palavras, todos partiram com Abdullah ibn Jahsh. Ninguém retornou. Ele entrou no Hijaz. Em um lugar chamado Bahran, Sa‘d ibn Abi Waqqas e Utba ibn Ghazwan perderam seus camelos. Os dois estavam seguindo os camelos e, para procurá-los, ficaram para trás de Abdullah ibn Jahsh. Abdullah ibn Jahsh e seus companheiros, por sua vez, continuaram a viagem. Prosseguindo, chegaram a Nakhla e fizeram uma parada. Naquele momento, uma caravana dos coraixitas passou perto deles, transportando passas e peles, além de outras mercadorias dos coraixitas. Entre os integrantes estavam Amr ibn al-Hadrami, Uthman ibn Abdullah, seu irmão Nawfal ibn Abdullah e Hakam ibn Kaysan. Ao vê-los, o grupo de Abdullah ibn Jahsh ficou assustado, pois havia se aproximado muito deles. Ukkasha ibn Muhsin aproximou-se deles. Sua cabeça estava raspada. Ao vê-lo, os coraixitas tranquilizaram-se e disseram: “Eles são moradores locais. Não há nada a temer da parte deles.” Enquanto isso, os muçulmanos reuniram-se para deliberar sobre os coraixitas. Aquele era o último dia do mês de Rajab. Todos opinaram que, se deixassem a caravana dos coraixitas partir naquele dia, logo ela entraria no território sagrado e estaria protegida contra nós. Por outro lado, se os matassem naquele dia, seriam culpados de derramamento de sangue durante um mês sagrado. Assim, ficaram indecisos e hesitaram em tomar qualquer medida contra a caravana dos coraixitas. Contudo, pouco depois afastaram a hesitação e, resolutos, concordaram que deveriam matar todos os que pudessem e tomar tudo o que cada um tivesse consigo. Waqid ibn Abdullah al-Tamimi matou Amr ibn al-Hadrami com um golpe de lança. Capturou também Uthman ibn Abdullah e Hakam ibn Kaysan. Nawfal ibn Abdullah fugiu e salvou-se; não foi possível capturá-lo de modo algum. Depois, Abdullah ibn Jahsh apresentou-se em Medina diante do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, levando os sobreviventes da caravana e os dois prisioneiros.

O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Eu não vos ordenei que combatêsseis durante um mês sagrado.” Em seguida, reteve a caravana e os prisioneiros e recusou-se a aceitar seus bens. Com essas palavras do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, Abdullah ibn Jahsh ficou humilhado e sem resposta diante de todos. Os membros de seu grupo pensaram que estavam arruinados. Os muçulmanos censuraram-nos por esse ato. Enquanto isso, os coraixitas começaram a dizer: “Muhammad e seus companheiros violaram a santidade do mês sagrado. Derramaram sangue durante o mês sagrado, apoderaram-se dos bens alheios e fizeram pessoas prisioneiras.” Um dos poucos muçulmanos que ainda estavam em Meca respondeu: “O que os muçulmanos fizeram, fizeram no mês de Sha‘ban.” [A justificativa para essa afirmação era que o mês de Sha‘ban havia começado após o pôr do sol do último dia de Rajab — Editor.]

Quando essa campanha de propaganda ganhou grandes proporções, Deus Altíssimo revelou ao Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, o seguinte versículo:

[Árabe *************]

“Eles te perguntam sobre combater no mês sagrado. Dize: combater nesse mês é uma transgressão. Porém, mais grave aos olhos de Allah é

impedir as pessoas de seguir o caminho de Allah, negar a fé, impedir o acesso à Mesquita Sagrada e expulsar dela os seus habitantes. Na verdade, desviar as pessoas por meio da perseguição é um pecado maior que o homicídio. Eles não cessam de combater-vos, para que, se puderem, vos façam renunciar à vossa religião.” (Al-Baqarah)

Ou seja, ainda que tenhais cometido uma agressão no mês sagrado, eles vos impediram de seguir o caminho de Allah, além de terem negado a fé e de vos impedirem de entrar na Mesquita Sagrada. E expulsar-vos dela, embora sejais os seus habitantes, é, aos olhos de Allah, um pecado mais grave que matar um dos vossos incrédulos. E a perseguição que infligiam aos muçulmanos, obrigando-os a abandonar a religião e fazendo-os retornar ao sistema de incredulidade, era uma ação mais hedionda que o homicídio. E essa gravíssima injustiça eles continuam a cometer contra vós incessantemente, sem abandoná-la nem se arrependerem.

Quando essa orientação foi revelada no Alcorão e Allah afastou o medo e a preocupação dos muçulmanos, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, assumiu oficialmente a caravana capturada e os prisioneiros. Os coraixitas enviaram-lhe uma mensagem pedindo que libertasse Uthman e Hakim em troca dos bens. Em resposta, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, informou-lhes: “Não libertaremos os prisioneiros até que os nossos dois homens, Sa‘d ibn Abi Waqqas e Utbah ibn Ghazwan, retornem, pois tememos que as vossas ações ponham em risco a vida deles.” Logo que Sa‘d e Utbah retornaram, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, libertou-os em troca dos bens. Contudo, um dos dois prisioneiros, Hakim ibn Qaysan, aceitou o Islã e tornou-se um muçulmano sincero. Depois disso, permaneceu junto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Mais tarde, foi martirizado no incidente de Bi’r Ma‘unah. Uthman ibn Abd Allah foi para Meca e morreu como incrédulo.

A mudança da qibla

É relatado que a qibla foi mudada no mês de Sha‘ban, dezoito meses após a chegada do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a Medina.

A Batalha de Badr

Certo dia, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) soube que uma grande caravana dos coraixitas, liderada por Abu Sufyan ibn Harb, vinha da direção da Síria. A caravana transportava muitos bens e mercadorias comerciais dos coraixitas. Nela havia Makh­rama ibn Nawfal, Amr ibn al-‘As e outros trinta ou quarenta homens de origem coraixita. Ele enviou os muçulmanos na direção deles e disse: “Esta é a caravana dos coraixitas. Ela transporta muitas riquezas. Ide naquela direção. Talvez Allah vos conceda posse dessas riquezas.” Os muçulmanos decidiram partir para alcançar a caravana. Alguns se prepararam imediatamente; outros mostraram certa indolência e se atrasaram, pois não imaginavam que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estivesse prestes a enfrentar uma batalha.

Ao se aproximar do Hijaz, Abu Sufyan percebeu o que estava acontecendo. Começou a perguntar a todo viajante que encontrava, pois estava muito assustado com os preparativos dos muçulmanos. Por fim, alguns viajantes lhe disseram claramente que Muhammad estava a caminho com seus companheiros para atacar a ele e à sua caravana. Assim, Abu Sufyan avançou com cautela. Enviou imediatamente a Meca, mediante pagamento, Dhamdam ibn Amr al-Ghifari. Disse-lhe que fosse aos coraixitas, pedisse que enviassem homens armados para trazer suas riquezas em segurança e lhes informasse que Muhammad, com seus homens, estava prestes a atacá-los. Dhamdam partiu rapidamente em direção a Meca.

Três dias antes de Dhamdam chegar a Meca, Atika, filha de Abd al-Muttalib, teve um sonho terrível. Ela contou o ocorrido ao seu irmão Abbas e disse: “Irmão, hoje tive um sonho ruim. Temo que algum desastre ou calamidade se abata sobre o teu povo. Portanto, não contes a ninguém o que estou te dizendo.”

Abbas disse: “O que viste em teu sonho?”

Atika disse: “Vi um cavaleiro descer numa planície próxima de Meca. Então, gritou em voz alta: ‘Ó coraixitas, preparai-vos para morrer dentro de três dias; cuidado!’ Depois, seu camelo levou-o até o cume do monte Abu Qubays. Então ele gritou novamente e anunciou a mesma coisa. Em seguida, lançou de lá uma grande pedra. A pedra rolou até cair ao pé do monte, onde se despedaçou, e um de seus fragmentos caiu na casa de cada habitante de Meca.”

Abbas disse: “Este é um sonho grave. Não contes isso a ninguém. Mantém-no completamente em segredo.”

Quando Abbas saiu, encontrou seu amigo Walid ibn Rabi’a. Contou-lhe o sonho e advertiu-o para que não o revelasse a ninguém. Walid contou o ocorrido a seu pai, Utba. Assim, a notícia espalhou-se por toda Meca. Os coraixitas começaram a falar sobre isso em todas as reuniões e assembleias.

Abbas conta: no dia seguinte, fui fazer o tawaf em torno da Caaba Sagrada. Abu Jahl estava ali conversando com um grupo de coraixitas sobre o sonho de Atika. Assim que me viu, Abu Jahl disse: “Abbas, vem para cá depois de terminares o tawaf.” Depois de terminar o tawaf, fui sentar-me com eles. Abu Jahl disse-me: “Ó filho de Abd al-Muttalib, quando foi que esta mulher-profeta vos disse essas coisas?”

Eu disse: “Sobre o quê?”

Abu Jahl: “Sobre o sonho que Atika teve.”

Eu disse: “Que sonho ela teve?”

Abu Jahl: “Ó filho de Abd al-Muttalib, depois de os vossos homens ficarem profetizando, vejo que agora também as vossas mulheres começaram a profetizar. Dizem que Atika viu em sonho alguém dizer: ‘Preparai-vos dentro de três dias.’ Nós esperaremos três dias por vós. Se isso for verdade, então acontecerá o que tiver de acontecer. Mas, se passarem três dias e nada acontecer, emitiremos uma declaração por escrito sobre vós, afirmando que não há na Arábia uma família mais mentirosa do que a vossa.”

Abbas conta: Não demonstrei nenhuma reação especial às palavras de Abu Jahl. Limitei-me a negá-las. Disse: “Atika não teve sonho algum.” Depois, cada um de nós foi cuidar dos seus afazeres. À tarde, todas as mulheres da família de Abd al-Muttalib vieram ter comigo, uma após outra, e disseram: “Por que tolerais tanto esse canalha insolente? Até agora ele disse aos nossos homens tudo o que quis. Agora começou também a dizer às nossas mulheres tudo o que quer. Tu ouves tudo isso e, ainda assim, não sentes qualquer honra ferida?” Eu disse: “Juro por Deus, estou extremamente constrangido. Não demonstrei nenhuma reação especial, mas vou tratar dele. Que ele diga isso mais uma vez, e farei por vós o que for necessário.”

No terceiro dia após o sonho de Atika, fui até lá. Eu estava fervendo de raiva e indignação. Pensava que não tinha conseguido tratar aquele sujeito como devia. Se tivesse outra oportunidade, desta vez faria o que não pudera fazer. Entrei na mesquita e vi-o ali. Comecei a dirigir-me até ele, esperando que repetisse alguma parte do que havia dito naquele dia, para então atirar-me sobre ele. Abu Jahl era magro e de compleição esguia, mas tinha um olhar penetrante e uma linguagem afiada. De repente, avançou rapidamente em direção à porta da mesquita. Pensei comigo: “Que a maldição de Deus recaia sobre ele! O que lhe aconteceu? Por que todo o seu ser está tão aterrorizado? Será por medo da minha repreensão?” Subitamente, compreendi que ele tinha ouvido os gritos de Damdam ibn Amr al-Ghifari, que eu ainda não ouvira. Damdam chegou ao deserto de Meca e, sentado sobre o seu camelo, gritava: “Ó coraixitas, uma grande calamidade! Uma grande calamidade! As vossas riquezas estão com Abu Sufyan. Muhammad enviou os seus companheiros atrás dessas riquezas. Ao que parece, já não conseguireis salvá-las. Avançai para prestar socorro! Avançai para prestar socorro!” Antes mesmo de gritar essas palavras, o ghifarita já havia realizado um ato extraordinário: cortara o nariz do camelo, virara a liteira e rasgara a própria camisa.

Por causa desse acontecimento terrível, nenhum de nós conseguiu prestar atenção aos demais. As pessoas prepararam-se com extrema rapidez. Diziam: “Muhammad e os seus companheiros pensaram que somos indefesos como a caravana de Ibn al-Hadrami? Nunca! Desta vez terão certamente uma experiência diferente. Naquele dia, conseguiram demonstrar tamanha audácia diante de apenas dois homens — e ainda homens do tipo que ou querem abandonar o campo de batalha ou enviar outra pessoa em seu lugar. Hoje, porém, toda a tribo dos coraixitas se preparou para a guerra. Nenhum dos homens notáveis dos coraixitas ficou de fora. Somente Abu Lahab não participou, enviando em seu lugar Asim ibn Hisham ibn al-Mughira.” Abu Lahab devia quatro mil dirrãs a esse homem. Como não conseguia pagar a dívida por causa da pobreza, enviou-o para a guerra em seu lugar, em troca desse valor que lhe devia.

Umayya ibn Khalaf também decidira não ir à guerra. Era um velho corpulento e de presença imponente. Uqba ibn Abu Muayt foi até ele. Umayya estava sentado com algumas pessoas na Mesquita Sagrada. Uqba deu-lhe um perfume feito de madeira de sândalo e disse: “Toma, perfuma-te com isto, pois és uma mulher.” Umayya respondeu: “Sai daqui! Que Deus te torne feio.” Envergonhado, o velho Umayya acabou por preparar-se para ir à guerra.

Os preparativos foram concluídos e todos estavam firmemente decididos a partir para o campo de batalha. Então, lembrando-se da guerra que havia ocorrido entre eles e os Banū Bakr ibn ʿAbd Manāt, disseram: “Tememos que eles possam atacar-nos pela retaguarda.” Esse receio deixou-os hesitantes quanto a partir para a guerra. Foi então que Iblīs assumiu a forma de Surāqah ibn Mālik ibn Jaʿsham al-Mudlijī e apareceu diante deles. Ele disse: “Ficarei encarregado de proteger-vos, para que a tribo de Kinānah não vos ataque pela retaguarda.” Depois de receberem essa garantia, deixaram Meca rapidamente.

Enquanto isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em expedição acompanhado dos seus Companheiros. Alguns dias do mês de Ramadã já haviam transcorrido. Ele designou ʿAmr ibn Umm Maktūm para conduzir as orações. Entregou o estandarte branco a Musʿab ibn ʿUmayr. Diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia dois estandartes negros. Um deles estava com ʿAlī, filho de Abū Tālib, e chamava-se Águia. O outro estava com um dos Ansār. Naquele dia, os Companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, possuíam ao todo setenta camelos. Eles se revezavam na montaria. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ʿAlī ibn Abū Tālib e Murs̱had ibn Abū Murs̱had revezavam-se na montaria de um camelo. Ḥamzah ibn ʿAbd al-Muṭṭalib e os dois servos do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Zayd ibn Ḥārithah e Abū Kabshah, montavam outro. Abū Bakr, ʿUmar e ʿAbd al-Raḥmān ibn ʿAwf montavam um terceiro. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, seguiu de Medina pela estrada para Meca e chegou à passagem montanhosa nos arredores de Medina. De lá, prosseguiu sucessivamente por ʿAqīq, Dhū al-Ḥulayfah, Awlāt al-Jaysh, Turbām, Malal, Marʾīn, Ghamīṣ al-Ḥammām, Sayyālah, na região pedregosa de Yamāmah, Fajj al-Rawḥā e, dali, chegou a Shanūkā. Ao chegar a um lugar chamado Arqāj Dhariyyah, encontrou um beduíno. Perguntou-lhe se havia visto algum grupo de pessoas, mas não obteve dele nenhuma informação. Os Companheiros disseram ao homem: “Saúda o Mensageiro de Allah.” Ele perguntou: “Há entre vós um Mensageiro de Allah?” Todos responderam: “Sim.” Então ele disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Se és o Mensageiro de Allah, diz-me o que há no ventre desta minha camela.” Salāmah ibn Sulaym ibn Waqsh disse-lhe: “Não perguntes isso ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Vem ter comigo, e eu te direi o que há no ventre dela. Tu tiveste relações com essa camela; portanto, no ventre dela há um cabrito gerado por ti.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, imediatamente repreendeu Salāmah e disse: “Cala-te! Estás a falar obscenamente com o homem?” Depois, voltou sua atenção para outra coisa.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez uma parada junto a um poço chamado Saj-Sāj, em Rawḥā. De lá, retomou a marcha. Depois de percorrer certa distância, abandonou a estrada para Meca e seguiu pela direita em direção a Nājiya. Seu destino era Badr. Ao chegar a um lugar próximo de Badr, atravessou um vale chamado Ruhqān. Esse vale situava-se entre as passagens montanhosas de Nāẓirah e Ṣafrā. Dali, alcançou a passagem montanhosa. Depois, desceu e chegou às proximidades de Ṣafrā. Ao chegar ali, enviou Basbās ibn ʿAmr al-Juhanī e ʿAdī ibn Abū Zāghbā al-Juhanī à região de Badr para obter informações sobre Abū Sufyān ibn Ḥarb e os demais. Depois de enviar os dois à frente, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em direção a Badr.

No caminho, ele soube que os coraixitas haviam partido de Meca em massa para proteger a sua caravana comercial. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, informou os Companheiros sobre isso e consultou todos sobre o que deveriam fazer naquele momento. Abū Bakr al-Ṣiddīq levantou-se primeiro e expressou sua opinião de maneira excelente. Em seguida, al-Miqdād ibn ʿAmr levantou-se e disse: “Ó Mensageiro de Allah, avança na direção que Allah te ordenou. Por Allah, não te diremos como os Filhos de Israel disseram a Moisés: ‘Vai tu e o teu Senhor lutar, enquanto nós permanecemos aqui sentados.’ Pelo contrário, dizemos: vai tu e o teu Senhor lutar, e nós também lutaremos ao teu lado, como auxiliares teus e do teu Senhor. Pela Majestosa Essência que te enviou com a verdade, se nos levares até Barq al-Ghimād, no extremo Iêmen, iremos contigo até lá.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, agradeceu a al-Miqdād e suplicou por ele.

Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dirigiu-se aos Ansār: “Aconselhai-me.” A razão pela qual deu tanta importância aos Ansār era que eles eram os apoiadores dos muçulmanos. Quando haviam prestado o juramento de fidelidade em ʿAqabah, disseram: “Ó Mensageiro de Allah, enquanto não fores para a nossa terra, não poderemos assumir a responsabilidade por ti. Quando vieres até nós, estarás sob a nossa proteção. Proteger-te-emos de todos os perigos, tal como protegemos os nossos filhos, as nossas filhas e as nossas esposas.” Por isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, temia que os Ansār pudessem pensar que só teriam o dever de ajudá-lo e protegê-lo caso ele fosse atacado pelos inimigos em Medina. Talvez pensassem que, se o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, quisesse partir com eles para combater um inimigo fora da sua terra, não seria obrigação deles acompanhá-lo. Assim, quando se dirigiu aos Ansār, Saʿd ibn Muʿādh disse: “Ó Mensageiro de Allah, talvez queiras conhecer a nossa opinião.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim.” Saʿd disse: “Cremos em ti e na revelação que trouxeste, reconhecendo que ela é a verdade absoluta. Com essa convicção, fizemos contigo o pacto e a promessa de obedecer às tuas ordens e seguir-te. Ó Mensageiro de Allah, faze, portanto, aquilo que considerares melhor. Estamos contigo. Pelo Allah que te enviou com a verdade suprema, se atravessares este mar diante de nós e entrares nas suas águas insondáveis, também entraremos contigo. Nenhum de nós ficará para trás, abandonando-te. Se amanhã quiseres levar-nos ao encontro do inimigo, não teremos objeção alguma. Somos pacientes na guerra e firmes na determinação diante do inimigo. Esperamos que Allah te permita ver de nossa parte uma atuação que alegrará os teus olhos. Confia na misericórdia de Allah e avança levando-nos contigo.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou feliz e muito encorajado ao ouvir as palavras de Saʿd. Em seguida, disse: “Parti. Allah prometeu-me que uma das duas caravanas cairá em nossas mãos. [56. Uma era a caravana comercial de Abū Sufyān e ʿAmr ibn al-ʿĀṣ; a outra era o enorme exército equipado para a guerra, que vinha sob o comando de Abū Jahl.] Por Allah, é como se já estivesse a ver diante de mim a morte humilhante dos coraixitas.”

Depois, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, instalou sua tenda quando chegou às proximidades da planície de Badr. Em seguida, saiu para patrulhar, levando consigo outro Companheiro. Depois de percorrerem certa distância, encontraram um velho árabe. Perguntaram-lhe se sabia alguma coisa sobre os coraixitas e se tinha ouvido alguma notícia sobre Muhammad e seus companheiros. O velho disse: “Digam-me quem vocês são; caso contrário, não falarei.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Primeiro diga aquilo que queremos saber. Depois lhe diremos quem somos.” O velho disse: “Ouvi dizer que Muhammad e seus companheiros partiram em tal dia. Se isso for verdade, agora devem estar em tal lugar. E ouvi dizer que os coraixitas partiram em tal dia. Se isso for verdade, hoje devem ter chegado a tal lugar.” O velho mencionou exatamente o local onde os dois grupos realmente se encontravam. Então perguntou: “De onde vocês vêm?” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Da água.” O velho perguntou: “Da água? O que isso significa? Da água do Iraque?”

Depois, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, voltou para junto de seus Companheiros. Durante a noite, enviou um grupo de Companheiros, entre os quais estavam Ali ibn Abi Talib, Zubair ibn al-Awwam e Sa’d ibn Abi Waqqas, ao reservatório próximo à planície de Badr para obter informações sobre os coraixitas. Ali encontraram uma manada de camelos dos coraixitas bebendo água e depararam-se com dois servos: Aslam, servo do clã Banu Hajjaj, e Arid, servo de Abu al-Yasar, do clã Banu As ibn Sa’id. Levaram os dois servos consigo. Naquele momento, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava rezando. Eles foram questionados: “Quem são vocês?” Responderam: “Somos os aguadeiros dos coraixitas. Eles nos enviaram para buscar água potável para eles.” Os muçulmanos não acreditaram no que disseram. Pensaram que eram homens de Abu Sufyan. Então foram espancados e, sob os golpes, foram obrigados a confessar que eram homens de Abu Sufyan. Depois, os muçulmanos os soltaram. Ao terminar a oração, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando disseram a verdade, vocês os espancaram; quando mentiram, vocês os soltaram. Que espécie de conduta é essa? Eles falaram a verdade. São homens dos coraixitas. Digam-me o que sabem sobre os coraixitas.” Eles responderam: “Por Allah, estão além daquela duna de areia que o senhor vê ao longe, do outro lado dela.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou: “Quantos são?” Aslam e Arid responderam: “Não sabemos.” Ele perguntou: “Quantos animais abatem por dia?” Responderam: “Em alguns dias, dez; em outros, nove.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Então devem ser entre novecentos e mil.” Em seguida, perguntou: “Quais líderes dos coraixitas vieram?” Eles responderam: “Utba ibn Rabia, Shaiba ibn Rabia, Abu al-Bukhtari ibn Hisham, Hakim ibn Hizam, Nawfal ibn Khuwa ailid, Harith ibn Amir ibn Nawfal, Tu’ayma ibn Adi ibn Nawfal, Nadr ibn al-Harith, Dhu’ma ibn al-Aswad, Abu Jahl ibn Hisham, Umayya ibn Khalaf, os dois filhos de Hajjaj, Nabih e Munabbih, Suhail ibn Amr e Amr ibn Abd Wudd.” Depois de obter essas informações, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi até os muçulmanos e disse: “Meca enviou a vocês os seus mais ilustres filhos.”

Antes disso, Basbas ibn Amr e Adi ibn Abu Dhagba chegaram à planície de Badr enquanto patrulhavam. Desceram dos camelos junto a uma colina próxima ao reservatório e encheram um odre com água. Mujdi ibn Amr al-Juhani estava então à margem do reservatório. Entre as pessoas que tinham vindo ao reservatório, havia duas escravas. Uma delas começou a exigir da outra o pagamento do que lhe era devido. A escrava endividada disse: “A caravana chegará amanhã ou depois de amanhã. Então trabalharei para a caravana e pagarei o que lhe devo.” Mujdi disse: “Você tem razão.” Em seguida, reconciliou as duas. Adi e Basbas ouviram a conversa, retornaram ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e informaram-no do que haviam escutado. Abu Sufyan ibn Harb avançou à frente da caravana, deixando-a para trás, a fim de tomar precauções. Ao chegar ao reservatório, perguntou a Mujdi ibn Amr: “Você percebeu a presença de alguém?” Ele respondeu: “Não vi ninguém suspeito. Apenas vi dois cavaleiros de camelo que vieram até aquela colina, desceram dos camelos, encheram os odres com água e partiram.” Abu Sufyan foi ao local onde Basbas e Adi haviam descido dos camelos. Encontrou ali um pouco do esterco dos dois camelos, recolheu-o e desfez seus pedaços. Dentro dele, encontrou alguns grãos. Ao vê-los, disse: “Por Allah, isto é forragem dos animais de Yathrib.” Correu rapidamente até sua caravana. Conduziu-a por outro caminho, deixando a planície de Badr à esquerda, e prosseguiu depressa pela estrada junto ao litoral.

Quando Abu Sufyan teve certeza de que havia salvado sua caravana, enviou esta mensagem ao exército dos coraixitas: “Vocês vieram para proteger sua caravana comercial, seus homens e seus bens. Allah os protegeu. Portanto, retornem a Meca.” Em resposta, Abu Jahl disse: “De modo algum retornaremos antes de chegarmos à feira de Badr. Ficaremos aqui três dias, abateremos animais e prepararemos um grande banquete, beberemos vinho, e as cantoras tocarão instrumentos e cantarão. Contaremos aos árabes sobre nossa expedição e sobre a formação de nosso exército. Assim, o medo de nós ficará para sempre arraigado em seus corações. Portanto, sigamos para a feira.” Convém mencionar que todos os anos se realizava uma feira na planície de Badr, e ela era uma das feiras mais famosas da Arábia.

Então os coraixitas continuaram com seus preparativos e sua organização. Foram instalar suas tendas do outro lado de uma colina desértica, relativamente distante, na planície de Badr. Allah fez cair uma forte chuva. O solo da planície não era muito árido; tinha certa umidade. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e seus Companheiros receberam tanta chuva que o solo do local onde estavam ficou molhado, mas isso não lhes dificultou o deslocamento. Já o solo do acampamento dos coraixitas ficou tão encharcado que se tornou impossível para eles se moverem. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, conduziu o exército muçulmano para um lugar onde havia mais água acumulada.

Hubab ibn al-Mundhir disse: “Ó Mensageiro de Allah, foi Allah quem determinou que você escolhesse este lugar, de modo que não podemos nos afastar dele nem um pouco? Ou esta é a sua própria opinião estratégica?” Ele respondeu: “É apenas uma estratégia e uma opinião minha.” Hubab disse: “Ó Mensageiro de Allah, não foi correto escolher este lugar. Portanto, parta daqui com todos e acampe onde houver relativamente menos água. Depois, fecharemos os poços ao redor desse local. Construiremos sobre eles um reservatório e o encheremos de água. Então lutaremos contra o inimigo. Assim, teremos água potável suficiente, mas eles não terão.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Você está certo.” Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu com todos. Chegaram a um local onde havia pouca água acumulada e instalaram suas tendas. Depois, ele ordenou que os poços fossem fechados, e isso foi feito. Em seguida, construíram um reservatório sobre um dos poços, encheram-no de água e deixaram nele os recipientes para água.

Sa‘d ibn Mu‘adh disse: “Ó Mensageiro de Allah, permita-nos construir para você uma plataforma fortificada, na qual você permanecerá, enquanto nós o transportaremos. Depois, iremos enfrentar o inimigo. Se Allah nos conceder a vitória, nossa esperança será realizada. Mas, se isso não acontecer, nós o levaremos conosco, e você se juntará aos demais muçulmanos. Ó Profeta de Allah, um grande número de muçulmanos não pôde vir com você apenas porque não sabe que você irá para a guerra. Eles não o amam menos do que nós. Se soubessem que você iria à guerra, não teriam deixado de vir. Por meio deles, Allah o protegeria, e eles seriam seus sinceros benfeitores e lutariam ao seu lado.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou satisfeito ao ouvir as palavras de Sa‘d, elogiou-o e suplicou por seu bem. Em seguida, foi construída para o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, uma plataforma fortificada, e ele passou a permanecer dentro dela.

Pela manhã, os coraixitas saíram pelas dunas de areia. Assim que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, os viu descendo, suplicou: “Ó Allah, estes são os coraixitas que, com orgulho e arrogância, rebelaram-se contra Ti e negaram o Teu Mensageiro, saindo hoje para a batalha. Ó Allah, chegou o momento do auxílio que me prometeste. Ó Allah, destrói-os nesta manhã.”

Quando todos desceram ao campo, um grupo dos coraixitas avançou e chegou ao reservatório construído pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Hakim ibn Hizam também estava entre eles. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse aos seus companheiros: “Não os impeçam.” De fato, todos os que beberam daquele reservatório foram mortos naquele dia. A única exceção foi Hakim ibn Hizam: ele não foi morto. Mais tarde, aceitou o Islã e tornou-se um bom muçulmano. Ele se lembrou desse acontecimento durante toda a vida. Quando precisava fazer um juramento solene, dizia: “Pelo Ser Majestoso que me salvou no dia da batalha de Badr.”

Quando os muçulmanos se acalmaram e permaneceram firmes, os coraixitas enviaram ‘Umair ibn Wahb al-Jumahi para contar o número dos companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Montado em sua égua, ele deu uma volta ao redor do exército e, ao retornar, disse: “Podem ser pouco mais ou pouco menos de trezentos. Contudo, deem-me mais algum tempo para verificar se eles têm algum acampamento secreto ou aliados.” Depois, percorreu toda a planície, mas não encontrou nada. Ao voltar, disse: “Não encontrei nada. Porém, pelo seu comportamento, parece que vieram dispostos a lutar até a morte. As camelas de Yathrib trouxeram uma morte certa. Eles são um grupo cuja única ajuda e proteção são as espadas. Por Allah, estou certo de que, se um deles for morto, um de vocês será morto em seu lugar. Quando matarem dos coraixitas um número igual ao deles, isso já não será uma boa notícia para nós. Portanto, reflitam ainda.”

Ao ouvir isso, Hakim ibn Hizam foi até os homens do exército coraixita. Primeiro, dirigiu-se a ‘Utba ibn Rabi‘a e disse: “Ó pai de Walid, você é um dos líderes anciãos dos coraixitas. Todos acatam sua palavra. Está disposto a fazer algo que o tornará lembrado para sempre?” Ele respondeu: “Hakim, o que você quer dizer?” Hakim disse: “Retire o exército coraixita e assuma a responsabilidade de resolver a questão do assassinato de seu aliado, ‘Amr ibn al-Hadrami.” ‘Utba disse: “Estou disposto a fazer isso. Darei ouvidos ao que você diz sobre essa questão. Hadrami é meu aliado, e estou preparado para pagar o preço de sangue e compensar seus prejuízos financeiros. Vá até Abu Jahl. Creio que, quanto à retirada dos coraixitas, ninguém além dele se oporá.” Então ‘Utba ibn Rabi‘a levantou-se e dirigiu-se aos coraixitas: “Ó coraixitas, não teremos nenhum benefício em lutar contra Muhammad e seus companheiros. Na verdade, mesmo que hoje consigamos matá-lo, jamais haverá boa convivência entre nós. Um não gostará de olhar para o rosto do outro, pois será identificado como o assassino de seu primo paterno, de seu primo materno ou de algum parente. Portanto, vamos voltar e afastar-nos do caminho de Muhammad e de seus seguidores. Deixemos a questão deles nas mãos dos árabes. Se todos os árabes o matarem, nosso objetivo estará cumprido. E, se não o fizerem, pelo menos seremos inocentes aos olhos de Muhammad.”

Hakim disse: “Depois fui até Abu Jahl e vi que ele afiava seus equipamentos de guerra. Eu lhe disse: ‘Ó Abu al-Hakam, ‘Utba enviou-me até você.’” Em seguida, informei-lhe o que ‘Utba havia dito. Ele respondeu imediatamente: “‘Utba enlouqueceu. Certamente Muhammad o enfeitiçou. Isso jamais será possível. Não retornaremos até que Allah decida definitivamente entre nós e Muhammad. O que ‘Utba disse não é o que realmente pensa. Como Muhammad e seus seguidores são muito poucos e seu próprio filho está entre eles, ele disse isso por temer que, caso houvesse uma batalha, a vida de seu filho corresse perigo.” Então enviou uma mensagem a ‘Amir ibn al-Hadrami, irmão do morto ‘Amr ibn al-Hadrami, dizendo: “Seu aliado ‘Utba quer fazer os coraixitas retornar, embora você veja diante dos próprios olhos a oportunidade de se vingar ao seu alcance. Portanto, lembre aos coraixitas que devem cumprir a promessa de vingar o assassinato de seu irmão.” ‘Amir ibn al-Hadrami levantou-se, abriu a roupa sobre o peito e começou a lamentar-se aos gritos: “Ai de ‘Amr! Ai de ‘Amr!” Imediatamente soaram os tambores de guerra. Os coraixitas ficaram tomados pelo frenesi da batalha. ‘Amir destruiu num instante a boa iniciativa que ‘Utba havia tomado.

Aswad ibn ‘Abd al-Asad al-Makhzumi era um homem extremamente perverso e de caráter vil entre os coraixitas. Ele iniciou sua detestável ação e declarou: “Beberei água do reservatório dos muçulmanos ou o destruirei. Mesmo que isso cause a minha morte, não me importo.” Ao descer ao campo, Hamza ibn ‘Abd al-Muttalib foi ao seu encontro. Durante os ataques e contra-ataques dos dois, Hamza golpeou com a espada a perna de Aswad. Sua perna foi decepada. Naquele momento, ele estava junto ao reservatório. Caiu de costas, e o sangue jorrou de sua perna. Depois, voltou a arrastar-se em direção ao reservatório e, para cumprir sua promessa, entrou em seus limites. Hamza perseguiu-o e matou-o dentro dos limites do reservatório.

Em seguida, Utba ibn Rabia desceu ao campo. Seu irmão Shayba e seu filho Walid vieram com ele. Ao deixar as fileiras dos coraixitas e avançar, ele bradou e desafiou para um combate individual. Então, dentre os ansáres, três jovens — Awf e Muawwiz ibn Harith, que eram irmãos, e Abdullah ibn Rawaha — avançaram para enfrentá-lo. Os coraixitas perguntaram: “Quem são vocês?” Eles responderam: “Somos ansáres.” Eles disseram: “Não precisamos de vocês.” Então alguém gritou: “Ó Muhammad, envie contra nós aqueles de nossa comunidade que sejam nossos iguais.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Ubayda ibn Harith, Hamza e Ali. Quando eles chegaram e se apresentaram, os adversários ficaram satisfeitos e disseram: “Está bem. Agora encontramos adversários dignos.” O mais jovem dos mujahidines do exército muçulmano iniciou o combate contra Utba ibn Rabia; Hamza, contra Shayba; e Ali, contra Walid ibn Utba. Hamza não deu a Shayba, nem Ali a Walid, qualquer oportunidade de desferir um contra-ataque. Eles os abateram com o primeiro golpe. Ubayda e Utba, por sua vez, trocaram um golpe cada um e ficaram gravemente feridos. Hamza e Ali correram rapidamente e, com suas próprias espadas, acabaram com Utba. Depois, carregaram Ubayda sobre os ombros e o levaram até o exército muçulmano.

Em seguida, os dois lados avançaram simultaneamente um contra o outro e se aproximaram. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse aos companheiros que não atacassem até que ele desse a ordem. Ele disse: “Se os coraixitas os cercarem, afastem-nos lançando flechas.” Nesse momento, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, alinhou o exército muçulmano e permaneceu em seu lugar semelhante a um estrado, acompanhado de Abu Bakr al-Siddiq. Não havia mais ninguém ali. Ele começou a suplicar a Allah que enviasse a ajuda que Ele havia prometido. Dizia: “Ó Allah, se este pequeno grupo de muçulmanos for destruído hoje, não haverá ninguém para Te adorar.” Abu Bakr disse: “Ó Mensageiro de Allah, suplique a Allah. Certamente Allah cumprirá a promessa que Lhe fez.” Por certo momento, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi tomado pelo sono dentro de seu estrado. Então, a ajuda chegou. “Eis que Gabriel vem conduzindo um cavalo pelas rédeas. As dobras de suas vestes estão cobertas de poeira.” Logo depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saiu para o campo de batalha e incentivou os mujahidines a combater, dizendo: “Juro por Aquele em cuja mão está a vida de Muhammad: quem hoje combater os incrédulos com paciência e sinceridade, avançando apenas para a frente e jamais recuando em circunstância alguma, Allah lhe concederá o Paraíso.” Umayr ibn Humam, da tribo de Banu Salama, estava comendo algumas tâmaras que segurava na mão. Ao ouvir as palavras do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Que maravilha! Então não vejo nenhum obstáculo entre mim e a entrada no Paraíso, exceto alcançar o martírio.” Dito isso, atirou ao chão as tâmaras que tinha na mão, tomou sua espada e entrou em combate contra os incrédulos. Pouco depois, alcançou o martírio.

Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pegou um punhado de poeira e avançou na direção dos coraixitas. Depois, soprou-a e lançou-a ao ar, dizendo: “Que seus rostos sejam desfigurados.” Em seguida, ordenou aos companheiros: “Ataquem com força.” Em pouco tempo, os coraixitas sofreram uma derrota esmagadora. Muitos de seus grandes líderes foram mortos ou capturados.

Ibn Abbas relata que, naquele dia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse aos companheiros: “Fui informado de que alguns homens de Banu Hashim foram levados à força para a batalha. Eles não desejam combater contra nós. Portanto, se alguém de Banu Hashim aparecer diante de vocês, não o matem. Se Abu al-Bukhtari ibn Hisham aparecer diante de alguém, não o matem, pois ele também foi arrastado à força.” Um homem do exército muçulmano, Abu Hudhayfa, disse: “Mataremos nossos pais, irmãos, filhos e parentes; por que pouparíamos Abbas? Se ele aparecer diante de mim, certamente o golpearei com minha espada.” Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ouviu isso, chamou Umar ibn al-Khattab e disse: “Ó Umar, pode-se golpear com a espada o rosto do tio do Mensageiro de Allah?” Umar respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, permita-me cortar-lhe o pescoço com minha espada. Tenho certeza de que Abu Hudhayfa se tornou um hipócrita.” Mais tarde, Abu Hudhayfa costumava dizer: “Aquela minha declaração no dia da batalha de Badr deixou-me apreensivo. Essa apreensão não desaparecerá até que seja expiada pelo martírio.” Mais tarde, ele alcançou o martírio na batalha de Yamama.

Os anjos ajudaram os muçulmanos em muitos dias de adversidade. Contudo, ele ordenou que procurassem entre os mortos para verificar se o corpo de Abu Jahl estava ali. Ibn Masud relata: “Decapitei-o e levei sua cabeça ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, esta é a cabeça de Abu Jahl, inimigo de Allah.’ O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: ‘É realmente assim?’ Respondi: ‘Juro por Allah que sim.’” Ibn Masud relata que matar Abu Jahl era uma promessa do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Depois, colocou a cabeça dele diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele louvou e agradeceu a Allah.

Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que os corpos dos líderes coraixitas fossem lançados no poço. Todos os corpos foram lançados ali, exceto o de Umayya ibn Khalaf. O corpo de Umayya havia inchado e ficado preso dentro de sua veste militar. Quando os companheiros tentaram soltá-lo da roupa, sua carne começou a se despedaçar. Vendo isso, deixaram-no como estava e cobriram-no com terra e pedras. Depois que os corpos foram lançados no poço, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou ali de pé. Era meia-noite. Os companheiros ouviram o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamar um por um, pelo nome, todos os que haviam sido lançados no poço, dizendo: “Ó habitantes do poço, ó Utba, Shayba, Umayya e Abu Jahl! Encontraram devidamente aquilo que Allah lhes havia prometido? Eu, por minha vez, encontrei concretamente a promessa de meu Senhor.” Os muçulmanos disseram: “Ó Mensageiro de Allah, estás falando com pessoas que morreram e apodreceram.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Eles ouvem minhas palavras assim como vocês as ouvem, mas não conseguem responder.”

Em seguida, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — ordenou que se reunissem os espólios de guerra que estavam junto do exército muçulmano. Os muçulmanos começaram a divergir sobre eles. Aqueles que haviam recolhido os espólios disseram: “Eles nos pertencem.” Os que haviam combatido o inimigo disseram: “Eles nos pertencem, pois, se não tivéssemos combatido, vocês não teriam tido a oportunidade de recolhê-los. Como estávamos empenhados em lutar contra os coraixitas, não pudemos juntar-nos a vocês na coleta dos espólios; por isso vocês conseguiram recolhê-los.” Aqueles que haviam sido encarregados de vigiar o Mensageiro de Allah — temendo que os inimigos o atacassem por outro caminho — disseram: “Por Allah, vocês não têm mais direito a eles do que nós. Também havíamos dominado o inimigo e pretendíamos matá-lo. Nada nos impedia de recolher esses bens, e também queríamos fazê-lo. Porém, por temor de que os inimigos atacassem novamente o Mensageiro de Allah, fomos encarregados de vigiá-lo. Portanto, vocês não têm mais direito a esses bens do que nós.”

O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — enviou Abdullah ibn Rawahah à parte elevada de Medina e Zayd ibn Harithah à parte baixa, para anunciar aos muçulmanos a vitória. Depois, partiu rumo a Medina acompanhado de todo o grupo e dos prisioneiros de guerra politeístas. Entre os prisioneiros estavam Utbah ibn Abu Muʿayt e Nadr ibn al-Harith. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — levou consigo também os espólios obtidos dos politeístas. Encarregou Abdullah ibn Kaʿb ibn Amr ibn Awf da guarda dos espólios.

Ao sair do desfiladeiro de Safra e chegar a uma duna entre o desfiladeiro e Nâziyah, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — sentou-se ali e distribuiu igualmente os espólios entre os muçulmanos. Em seguida, retomou a viagem. Quando chegou a Rawha, os muçulmanos daquela localidade começaram a felicitá-lo, assim como aos seus Companheiros, pela grande vitória que Allah lhes havia concedido. Então Salamah ibn Sulaym (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Por que vocês nos felicitam? Nós apenas lutamos contra alguns velhos experientes. Eles haviam ficado impotentes como camelos cativos; por isso, nós os degolamos.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — sorriu e disse: “Sobrinho, eram justamente eles os líderes e os homens de autoridade.”

Ao chegarem ao desfiladeiro de Safra, o prisioneiro de guerra Nadr ibn al-Harith foi morto. Ali, filho de Abu Talib, matou-o. Depois, prosseguiram. Quando chegaram a Arquz al-Zariyah, também foi morto Uqbah ibn Abu Muʿayt. Quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — ordenou sua execução, Uqbah disse: “Quem cuidará das crianças, ó Muhammad?” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — respondeu simplesmente: “O fogo!” Então Asim ibn Thabit ibn Abu al-Aflah al-Ansari matou Uqbah ibn Muʿayt. Depois, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — prosseguiu viagem. Chegou a Medina um dia antes da chegada dos prisioneiros de guerra. Quando eles chegaram, foram distribuídos entre os Companheiros para que ficassem sob sua custódia. Então ele disse: “Tratem os prisioneiros de guerra com compaixão.”

Enquanto isso, Haysaman ibn Abdullah chegou primeiro a Meca, trazendo a humilhante notícia da terrível derrota dos coraixitas. Os coraixitas começaram a lamentar os seus mortos. Depois, contiveram-se e disseram uns aos outros: “Não lamentem dessa maneira. Se Muhammad e seus companheiros souberem disso, baterão palmas de alegria. E não se apressem em resgatar os prisioneiros, para que Muhammad e seus companheiros não tenham a oportunidade de exigir de vocês um resgate elevado.” Aswad, filho de Abd al-Muttalib, havia perdido os seus três filhos: Zamʿah, Aqil e Harith. Queria lamentar por eles. Naquela ocasião, tarde da noite, ouviu o choro de uma mulher enlutada. Aswad, que era cego, disse a um de seus escravos: “Vá descobrir se já foi permitido lamentar em voz alta. Veja se os coraixitas estão chorando pelos seus mortos. Então chorarei por Zamʿah, pois meu coração está consumido.” O escravo voltou e informou: “Uma mulher está lamentando porque perdeu o seu camelo.” Ao ouvir isso, Aswad recitou os seguintes versos: “Que estranho! Essa mulher passa a noite chorando assim por um camelo. Na verdade, ela não chora por um jovem camelo, mas por uma lua cheia cuja ventura foi tão limitada. Por essa lua cheia choram os clãs de Banu Husays, Makhzum e Abu al-Walid. Se eu chorar, há muitos que chorarão por Aqil e pelo valente leão Harith. Não é possível mencionar todos esses inúmeros enlutados. Na verdade, Zamʿah não tem igual.”

Depois, os coraixitas começaram a providenciar o pagamento dos resgates para libertar os prisioneiros de guerra. Primeiro, depois de obterem o consentimento para libertar Suhayl ibn Amr, os muçulmanos disseram: “Agora paguem o resgate.” Miqraz disse: “Prendam-me em lugar de Suhayl e libertem-no, para que ele possa ir enviar o dinheiro do resgate.” Eles concordaram, libertaram Suhayl e mantiveram Miqraz como prisioneiro em seu lugar. Antes disso, Umar ibn al-Khattab — que Allah esteja satisfeito com ele — havia dito ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Ó Mensageiro de Allah, permita-me arrancar os dentes da frente de Suhayl, para que sua língua fique exposta ao falar e ele nunca mais possa fazer discursos contra o senhor.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Não desfigurarei o rosto dele; caso contrário, embora eu seja um profeta, Allah desfiguraria o meu rosto.”

Um dos prisioneiros de guerra era o genro do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, Abu al-As ibn al-Rabi ibn Abd al-Uzza, marido de sua filha Zaynab. Quando Zaynab abraçou o Islã, ela se separou de Abu al-As, mas o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — não conseguiu, na prática, efetivar a separação entre os dois. Assim, embora Zaynab fosse muçulmana, continuou vivendo na casa de seu marido politeísta. Nessa situação, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — emigrou. Mais tarde, quando os coraixitas partiram para a batalha de Badr, Abu al-As juntou-se a eles. Desse modo, tornou-se um dos prisioneiros de guerra e foi levado a Medina, à presença do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

Depois, os habitantes de Meca começaram a enviar os resgates para libertar os prisioneiros de guerra. Zaynab também enviou algum dinheiro e o colar que Khadijah lhe dera por ocasião do casamento, como resgate por Abu al-As ibn al-Rabi. Ao ver o colar, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — ficou profundamente comovido. Disse aos Companheiros: “Se vocês acharem conveniente, devolvam o resgate enviado por Zaynab e libertem o seu prisioneiro.” Os Companheiros libertaram-no e devolveram o dinheiro e o colar enviados como resgate.

Abu al-‘As foi para Meca, e Zaynab foi para Medina, onde passaram a viver junto do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Islã provocou a separação entre os dois. Pouco antes da conquista de Meca, Abu al-‘As foi à Síria a negócios. Ele levava consigo, como depósito, o dinheiro de seu próprio comércio e o dos coraixitas, que lhe havia sido entregue como capital. Depois de concluir suas transações, quando retornava, uma tropa enviada pelo Mensageiro de Allah tomou suas mercadorias, enquanto Abu al-‘As fugiu e se salvou. Quando a tropa chegou à casa de Zaynab, filha do Mensageiro, para pedir proteção, Zaynab concedeu-lhe proteção. Ele havia vindo para recuperar seus bens. Pela manhã, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — foi realizar a oração e ficou em oração com seus Companheiros. Então Zaynab gritou do aposento das mulheres: “Ó pessoas, saibam que concedi proteção a Abu al-‘As ibn al-Rabi‘.” Depois de terminar a oração, o Mensageiro de Allah voltou-se para todos e disse: “Ó muçulmanos, vocês ouviram aquilo que eu ouvi?” Todos responderam: “Sim, ouvimos.” O Mensageiro de Allah disse: “Juro por Allah, antes de ouvir esta declaração eu nada sabia sobre o ocorrido. Segundo o pacto, qualquer pessoa pode buscar proteção junto aos muçulmanos.” Em seguida, o Mensageiro de Allah foi até sua filha e disse-lhe: “Zaynab, trate Abu al-‘As com cuidado, mas não permita que ele venha ter contigo em particular, pois agora tu não és lícita para ele.”

‘Abdullah ibn Abi Bakr disse que enviou uma mensagem à tropa que havia tomado os bens de Abu al-‘As: “Vocês sabem qual é a nossa relação com ele. Vocês tomaram alguns de seus bens. Se, por bondade, devolverem seus bens, isso será de nosso agrado. Mas, se não quiserem devolvê-los, eles são espólio que Allah lhes concedeu; vocês são os legítimos proprietários desses bens.” Eles responderam: “Ó Mensageiro de Allah, nós preferimos devolver-lhe seus bens.” Então, um trouxe um balde; outro, seu velho odre; outro, seu recipiente de couro; e outro devolveu até mesmo um pequeno cabo de madeira. Assim, ele recuperou todos os seus bens exatamente como eram. Nada ficou para trás. Depois, levou aqueles bens a Meca e devolveu a cada coraixita aquilo que lhe pertencia, dizendo: “Ó coraixitas, ainda falta devolver a alguém algum de seus bens?” Eles responderam: “Que Allah te recompense com o melhor. Nada mais nos é devido. Tu nos trataste como um homem verdadeiramente digno de confiança e nobre.” Então ele disse: “Nesse caso, testemunho que não há divindade além de Allah e que Muhammad é Seu servo e Mensageiro. Juro por Allah, não abracei o Islã diante do Mensageiro de Allah apenas por receio de que vocês pensassem que eu havia feito isso com o objetivo de me apropriar de seus bens. Quando Allah providenciou que esses bens lhes fossem entregues e eu fiquei livre de toda responsabilidade, então abracei o Islã.” Em seguida, Abu al-‘As — que Allah esteja satisfeito com ele — foi até o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

Entre os prisioneiros de guerra de Badr que foram libertados por clemência, sem pagar resgate, estavam Abu al-‘As ibn al-Rabi‘, al-Muttalib ibn Hantab, Sayfi ibn Abi Rifa‘a e Abu ‘Azzah ‘Amr ibn ‘Abdullah ibn ‘Uthman. Abu ‘Azzah era pobre e tinha muitas filhas sob sua responsabilidade. Ele foi até o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e disse: “Ó Mensageiro de Allah, sabes que não possuo riqueza alguma. Sou extremamente necessitado e sobrecarregado por muitos filhos. Portanto, tem misericórdia de mim.” O Mensageiro de Allah perdoou seu resgate e tomou dele o compromisso de que jamais voltaria a portar armas contra o Mensageiro de Allah. Abu ‘Azzah retornou ao seu povo e recitou, em louvor ao Mensageiro de Allah, o seguinte poema:

“Quem levará esta mensagem minha ao Mensageiro Muhammad?

Tu és verdadeiro e soberano do mundo, digno de todo louvor.

És aquele que convoca à verdade e à justiça,

o homem honrado e elevado em posição pelo Deus Altíssimo,

és, da nossa parte, o homem honrado e elevado em posição,

Aquele contra quem você combate é o mais desafortunado,

e aquele com quem você faz as pazes é o mais afortunado.”

O resgate cobrado dos politeístas variava de mil a quatro mil dirrãs por prisioneiro. Contudo, demonstrava-se compaixão pelos necessitados, que eram libertados sem pagamento. Ao todo, participaram da Batalha de Badr 83 muhajirun, 161 ansar da tribo de Aws e 170 ansar da tribo de Khazraj, e o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deu-lhes uma parte dos espólios. O número de muçulmanos que participaram da Batalha de Badr, entre ansar e muhajirun, era de trezentos e quatorze. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) concedeu a todos eles uma parte dos espólios e sua remuneração. A Batalha de Badr ocorreu na manhã de sexta-feira, no dia 17 de Ramadã.

A expedição contra Banu Sulaym

Após retornar da Batalha de Badr, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) permaneceu sete dias em Medina. Em seguida, liderou uma expedição contra a tribo de Banu Sulaym. Ele próprio comandou a expedição e tomou posse de um poço chamado Qadr, pertencente a eles. Não encontrou qualquer resistência ali. Passou em Medina o restante dos dias de Shawwal e todo o mês de Dhu al-Qadah. Durante esse período, libertou a maioria dos prisioneiros de guerra coraixitas mediante resgate.[58. Ao partir para essa expedição, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) nomeou Siba ibn Arqata al-Ghifari como seu representante em Medina. Alguns dizem que deixou Ibn Umm Maktum encarregado de Medina.]

A expedição de Sawiq

No próprio mês de Dhu al-Hijjah, Abu Sufyan ibn Harb realizou a expedição de Sawiq. Naquele ano, os politeístas foram à guerra sem realizar o hajj. Isso porque, assim que Abu Sufyan e os demais coraixitas retornaram a Meca, humilhados pela derrota em Badr, juraram que não lavariam a cabeça com água para se purificar da impureza decorrente das relações sexuais até lançarem outro ataque contra Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e tomarem uma vingança adequada. [59. Assim como o hajj e o casamento, esse banho também era um costume na época da Jahiliyyah.] Para cumprir esse juramento, Abu Sufyan partiu com duzentos cavaleiros. Depois de atravessar Najdiyyah, acampou junto a uma fonte próxima de uma montanha chamada Saib, situada não muito longe de Medina. Então, na escuridão da noite, chegou à casa de Huyayy ibn Akhtab, de Banu Nadir, e bateu à porta. Huyayy, desconfiado, recusou-se a abrir. Sem alternativa, Abu Sufyan foi até Salam ibn Mishkam. Naquela época, este era o chefe de Banu Nadir e o guardião do fundo reservado para enfrentar suas crises e emergências. Quando Abu Sufyan pediu permissão para entrar em sua casa, ele permitiu e também o recebeu como hóspede. Salam informou-o sobre a situação interna de Medina. Depois, antes do amanhecer, Abu Sufyan voltou para junto de seus companheiros. Enviou alguns homens do exército coraixita a Medina. Eles chegaram a um lugar chamado Uraib, nos arredores da cidade. Ali atearam fogo aos pomares de tamareiras. Encontraram um homem dos ansar e um de seus aliados em uma fazenda agrícola que possuíam em sociedade e os mataram. Depois desapareceram na direção de onde haviam vindo. Os habitantes de Medina perceberam o que tinham feito. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) saiu em sua perseguição, deixando Bashir ibn Abd al-Mundhir responsável por Medina. Ao chegar a um lugar chamado Qarqarat al-Qadr, não encontrou qualquer sinal de Abu Sufyan e seus homens e retornou. Viu, dentro da fazenda, alguns objetos que eles haviam deixado para trás. Para ficarem mais leves e fugirem rapidamente, haviam-nos jogado fora.[60. A maior parte dos objetos deixados pelos coraixitas era sawiq de trigo ou cevada — uma farinha que pode ser consumida com leite, mel e manteiga clarificada, ou com água. Essa farinha é chamada sawiq em árabe. Por essa razão, a expedição recebeu o nome de “expedição de Sawiq”.] Como haviam retornado sem lutar, os muçulmanos perguntaram ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Ó Mensageiro de Allah, isso será considerado nosso jihad?” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: “Sim.”

A expedição de Dhu Amar

Depois de retornar da expedição de Sawiq, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passou em Medina todo o restante — ou quase todo o restante — do mês de Dhu al-Hijjah. Em seguida, conduziu uma expedição contra a tribo Ghatafan de Najd. Essa expedição ficou conhecida como a expedição de Dhu Amr. Ele permaneceu em Najd durante todo — ou quase todo — o mês de Safar. Passou todo o mês de Rabi al-Awwal, ou quase todo ele, em Medina.

A expedição de Furu, em Bahran

Dessa vez, ele conduziu outra expedição contra os coraixitas. Atravessou o Hijaz e chegou a Bahran, passando pela região de Furu. Permaneceu ali durante os meses de Rabi al-Thani e Jumada al-Ula. Depois, retornou em segurança a Medina.

A batalha de Banu Qaynuqa

O acontecimento principal envolvendo Banu Qaynuqa foi o seguinte: uma mulher árabe levou algumas mercadorias ao mercado da tribo Banu Qaynuqa para vendê-las. Ali, sentou-se perto da loja de um ourives. As pessoas da loja pediram que ela descobrisse o rosto, mas ela se recusou. Então, o ourives agarrou uma ponta da roupa que a mulher vestia e amarrou-a às suas costas. A mulher não percebeu. Quando se levantou, ficou imediatamente desnuda. Ao verem aquilo, as pessoas do mercado começaram a rir às gargalhadas. A mulher gritou imediatamente. Um muçulmano atacou o ourives e o matou. O ourives era judeu. Por isso, os judeus se uniram e mataram aquele muçulmano. Então, os familiares do muçulmano morto pediram auxílio aos muçulmanos. Quando estes, enfurecidos, lançaram um ataque, eclodiu uma guerra entre os muçulmanos e Banu Qaynuqa.

Entre os judeus de Medina, Banu Qaynuqa foi o primeiro a violar o pacto firmado entre eles e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Por isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sitiou-os e obrigou-os a se renderem sob condições favoráveis. Quando, com a ajuda de Allah, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, os subjugou, Abd Allah ibn Ubayy ibn Salul foi até ele e disse: “Ó Muhammad, trate meus aliados com benevolência.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não respondeu. Ele tornou a dizer: “Ó Muhammad, trate meus aliados com bondade.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, virou o rosto. Então, ele enfiou a mão na abertura da armadura do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e este disse: “Solte-me.” Nesse momento, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou tão furioso que seu rosto se avermelhou. Em seguida, disse-lhe: “Ora, solte-me.” Ele respondeu: “Não, primeiro dê-me a garantia de que tratará meus aliados com bondade; só então o soltarei. Acredite: quatrocentos guerreiros de cabeça descoberta e trezentos guerreiros encouraçados me protegeram de todos os habitantes do mundo. E você quer aniquilá-los em um único dia! Sem eles, não estou seguro nem por um instante.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Está bem. Deixo-os à tua mercê.”

Depois disso, Ubadah ibn al-Samit (que Allah esteja satisfeito com ele) compareceu perante o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele também tinha uma relação de aliança com Banu Qaynuqa. Contudo, sem se importar com isso, deixou-os à vontade do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e declarou, diante de Allah e de Seu Mensageiro, estar livre das responsabilidades decorrentes do pacto que havia firmado com eles. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, meus únicos aliados e amigos são Allah, o Mensageiro e os crentes. Estou completamente livre da aliança com esses incrédulos.”

Foi a respeito de Ubadah ibn al-Samit e Abd Allah ibn Ubayy que foram revelados os versículos seguintes da surata al-Ma’idah,

“Ó crentes, não tomeis jamais os judeus e os cristãos como amigos e aliados. Eles são aliados uns dos outros. E quem dentre vós os tomar como aliados será considerado parte do grupo deles. Certamente, Allah não guia os injustos para o caminho reto. Verás aqueles em cujos corações há uma doença correrem de um lado para outro por causa da questão dos judeus e dos cristãos, dizendo: ‘Tememos que uma calamidade nos atinja.’ Talvez Allah conceda a vitória ou faça surgir algum outro acontecimento de Sua parte. Então eles se arrependerão daquilo que ocultavam em seus corações. E os crentes dirão: ‘São estes os que juravam solenemente estar convosco?’ Todas as suas boas obras foram anuladas e eles se tornaram perdedores. Ó crentes, se algum de vós abandonar a sua religião, Allah fará surgir, em breve, um povo que Ele ama e que O ama, humilde para com os crentes e severo para com os descrentes, que combaterá pela causa de Allah e não temerá a censura de ninguém. Essa é uma graça especial de Allah, que Ele concede a quem deseja. Na verdade, Allah é Abrangente em Sua graça. Ele concede essa graça a quem deseja. Na verdade, Allah é Onisciente e está presente em toda parte. Vosso amigo e aliado é somente Allah, Seu Mensageiro e aqueles crentes que observam a oração, pagam o zakat e são obedientes a Allah. E quem tomar Allah, Seu Mensageiro e os crentes como aliados pertencerá ao partido de Allah; e sabei que o partido de Allah é o que alcança a vitória final.”

A expedição de Zayd ibn Harithah a Qaradah

Qaradah era um reservatório de água em Najd. O motivo dessa expedição foi que, depois do acontecimento de Badr, os coraixitas passaram a considerar perigoso viajar pela sua rota habitual para a Síria e começaram a utilizar a estrada do Iraque. Uma caravana comercial, sob a liderança de Abu Sufyan, partiu por essa rota em direção à Síria. Seu principal carregamento consistia em uma grande quantidade de prata. Furat ibn Hayyan, dos Banu Bakr ibn Wa’il, era o guia contratado da caravana. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Zayd ibn Harithah para atacar a caravana. Ele foi até Qaradah e capturou-a. Quando os homens da caravana fugiram aterrorizados, ele compareceu diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levando consigo toda a caravana e suas mercadorias.

A batalha de Uhud

Quando os coraixitas descrentes chegaram a Meca carregando a vergonha da derrota na batalha de Badr, e Abu Sufyan retornou a Meca com sua caravana, um grupo dos coraixitas — entre eles Abdullah ibn Abu Rabi‘ah, Ikrimah ibn Abu Jahl e Safwan ibn Umayyah — cujos pais, filhos ou irmãos haviam sido mortos na batalha, foi até Abu Sufyan. O lucro obtido naquela ocasião com a caravana ainda estava em sua posse. Eles disseram: “Ó coraixitas, Muhammad causou-vos uma enorme perda e matou os vossos melhores homens. Ajudai-nos agora com todos os bens desta caravana; assim, esperamos poder obter uma vingança adequada por aqueles que perdemos.” Todos concordaram.

Depois disso, Abu Sufyan, os não coraixitas que faziam parte de sua caravana — especialmente os membros da tribo de Kinana e os habitantes de Tihamah que eram leais aos coraixitas — concordou em partir para a guerra, e os coraixitas também decidiram guerrear contra Muhammad. Para despertar o espírito de vingança e impedir que os guerreiros fugissem, os coraixitas levaram consigo algumas mulheres. O comandante Abu Sufyan levou sua esposa Hind bint Utbah; Ikrimah ibn Abu Jahl levou Umm Hakim bint al-Harith; al-Harith ibn Hisham levou Fatimah bint al-Walid; Safwan ibn Umayyah levou Barzah bint Mas‘ud; e Amr ibn al-As levou Baritah bint Munabbih. Em seguida, avançaram em direção a Medina. Acamparam perto da montanha de Batn as-Subkhah, junto às margens de duas nascentes que saíam do canal situado na entrada do vale diante de Medina. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os muçulmanos ouviram que eles haviam se instalado naquele lugar. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dirigiu-se aos muçulmanos e disse: “Tive um bom sonho. Vi que uma das minhas vacas havia sido abatida. Vi também como se houvesse uma fissura na extremidade afiada da minha espada. E vi que introduzia a mão dentro de uma armadura protetora. (61. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “O significado do abate da vaca é que alguns dos meus companheiros serão mortos. E a fissura que vi na extremidade afiada da minha espada é um sinal de que alguém da minha família será morto.”) Por essa armadura entendi Medina. Se achardes que deveis permanecer em Medina e desafiá-los para o combate enquanto eles permanecerem no lugar onde se instalaram, podeis fazê-lo. Se, ainda assim, permanecerem ali, esse será um lugar muito ruim para eles. Mas, se entrarem em Medina, combateremos contra eles permanecendo em Medina.”

Na verdade, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não queria sair de Medina. Abdullah ibn Ubayy ibn Salul também era da mesma opinião, sendo contrário a sair de Medina para combater. Porém, os muçulmanos que não haviam podido participar da batalha de Badr e para os quais Allah havia destinado a honra de participar de Uhud e de outras batalhas disseram: “Ó Mensageiro de Allah, leva-nos para fora de Medina para enfrentarmos o inimigo. Que eles não pensem que nos tornamos fracos ou covardes.”

Abdullah ibn Ubayy ibn Sulul disse: «Ó Mensageiro de Allah, permaneça em Medina e não saia. Por Allah, se sairmos de Medina, os inimigos poderão causar-nos maiores danos. Mas, se os inimigos entrarem em Medina e atacarem, poderemos infligir-lhes uma derrota maior. Portanto, ó Mensageiro de Allah, deixe os incrédulos como estão. Se permanecerem ali, este lugar se tornará para eles o pior dos locais para um cerco. E, se entrarem em Medina, nossos homens os enfrentarão em combate corpo a corpo, enquanto as mulheres e as crianças lhes atirarão pedras de cima. E, se retornarem, voltarão da mesma forma que vieram.» Por outro lado, os muçulmanos que desejavam lutar contra os coraixitas fora de Medina começaram a expressar seu desejo ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Enquanto isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, entrou em sua casa e vestiu-se para a guerra. Era sexta-feira. Nesse mesmo dia, morreu um ansari chamado Malik ibn Amr. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dirigiu sua oração fúnebre. Em seguida, veio diante da comunidade muçulmana. Os muçulmanos arrependeram-se, pensando que ele havia desejado enfrentar os coraixitas permanecendo em Medina. Disseram: «Ó Mensageiro de Allah, não aprovamos sua opinião; isso não foi correto de nossa parte. Se deseja permanecer em Medina, faça-o.» O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Não, isso não convém. Depois de vestir a armadura de guerra, não é digno de um profeta tirá-la sem lutar.» Então, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu acompanhado de mil companheiros. Ao chegar a Shawt, um lugar entre Medina e Uhud, Abdullah ibn Ubayy ibn Sulul separou-se levando consigo cerca de um terço dos homens. Ele disse: «O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ouviu a opinião deles, mas não a minha. Ó gente, não entendo por que haveremos de sacrificar a vida de tantos homens.»

Ele separou-se do exército muçulmano levando consigo os hipócritas de sua tribo e seus seguidores indecisos. Abdullah ibn Amr ibn Haram foi atrás deles e disse: «Suplico-vos por Allah: não abandoneis vossos irmãos muçulmanos e o Profeta de Allah diante do ataque do inimigo presente.» Eles responderam: «Se pensássemos que haveria combate, não vos deixaríamos. Achamos que não haverá batalha.» Quando se recusaram terminantemente a voltar ao campo de batalha, Abdullah disse: «Ó inimigos de Allah, que Allah vos afaste! Allah não deixará Seu Mensageiro depender de vós. Allah é suficiente para ele.»

Os ansar disseram: «Ó Mensageiro de Allah, que tal pedir ajuda aos nossos aliados judeus?» Ele respondeu: «Não há utilidade alguma neles.» O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, continuou os preparativos para a guerra. Ocupou uma posição no vale próximo ao monte Uhud. Posicionou os soldados na extremidade mais próxima do monte e ficou com o monte às suas costas. Disse aos soldados: «Ninguém deve iniciar o combate até que eu dê a ordem.» Enquanto isso, os coraixitas haviam soltado todos os seus camelos e cavalos nas terras férteis de Samgh, irrigadas pelo canal dos muçulmanos, não muito longe de Uhud. Ao ouvir a proibição do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, de iniciar o combate, um ansari disse: «Ainda não recebemos nossa parte das colheitas das terras de Aws e Khazraj. Como podemos tolerar que os animais pastem ali nessas circunstâncias?»

Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, preparou para a batalha seus setecentos soldados. Nomeou Abdullah ibn al-Zubayr comandante de uma unidade de cinquenta arqueiros. Ele foi identificado por um pano branco. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-lhe: «Expulsai os cavaleiros inimigos lançando-lhes flechas. Quer vençamos quer sejamos derrotados, em hipótese alguma permitais que alguém venha por trás. Permanecei firmes em vossa posição, para que não sejamos atacados pelo vosso lado.» O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, vestiu duas armaduras ao mesmo tempo e entregou o estandarte a Mus’ab ibn Umayr.

Naquele dia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, inicialmente não aceitou como combatentes Samura ibn Jundub e Rafi ibn Khadij, ambos com quinze anos de idade. Mais tarde, muitos companheiros disseram: «Ó Mensageiro de Allah, Rafi é um excelente arqueiro.» Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permitiu que ele participasse. Depois que Rafi recebeu permissão, outros disseram: «Ó Mensageiro de Allah, Samura pode derrotar Rafi numa luta corpo a corpo.» Então ele também permitiu a participação de Samura. Contudo, não permitiu a Usama ibn Zayd, Abdullah ibn Amr, Zayd ibn Thabit, al-Bara ibn Hazm e Usayd ibn Zuhayr. Mais tarde, eles receberam permissão para participar da batalha da Trincheira. Naquela ocasião, tinham quinze anos.

Os coraixitas prepararam para a batalha seu exército de três mil combatentes. Tinham consigo duzentos cavalos. Khalid ibn al-Walid foi colocado no lado direito da cavalaria e Ikrima ibn Abu Jahl no lado esquerdo.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mostrou sua própria espada e disse: «Quem está disposto a cumprir o direito devido a esta espada?» Muitos avançaram, mas ele não entregou a espada a ninguém.

Abu Dujana avançou e disse: «Ó Mensageiro de Allah, qual é o direito devido a esta espada?» O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: «Com esta espada, deves golpear o inimigo tantas vezes que ela fique curvada.» Abu Dujana disse: «Ó Mensageiro de Allah, eu a tomarei e cumprirei seu direito.» Então ele entregou a espada a Abu Dujana. De fato, Abu Dujana era um guerreiro extremamente corajoso e valente. Durante a batalha, caminhava com uma atitude muito orgulhosa. Tinha uma faixa vermelha. Quando a colocava em torno do corpo, as pessoas compreendiam que ele estava prestes a entrar em combate. Depois de receber a espada do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tirou a faixa e golpeou a própria cabeça com ela. Em seguida, começou a caminhar entre as fileiras dos soldados, inclinando-se de um lado para o outro com uma postura orgulhosa. Ao ver isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Allah detesta profundamente esse modo de caminhar, exceto no campo de batalha.»

Enquanto isso, Abu Sufyan disse aos homens de Banu Abdud Dar, portadores do estandarte de seu exército, com o objetivo de incitá-los à batalha: “Ó Banu Abdud Dar, vós carregastes nosso estandarte na batalha de Badr. Mas vistes qual foi o nosso destino naquela batalha. Lembrai-vos: os ataques contra os soldados costumam vir do lado do estandarte. Se o estandarte cair, os soldados serão derrotados. Portanto, ou segurareis firmemente o estandarte, ou vos afastareis. Nós mesmos poderemos carregá-lo.” Ao ouvirem isso, os portadores do estandarte concentraram-se nele e prometeram a Abu Sufyan, dizendo: “Confiamos a ti o nosso comando. Amanhã, quando entrarmos na luta, verás como lutaremos.” Era precisamente essa determinação que Abu Sufyan queria incutir neles.

No dia seguinte, quando a batalha começou, Hind, filha de Utba, acompanhada pelas mulheres que estavam com ela, começou a seguir os homens, tocando tambores e incitando-os com estas palavras:

“Muito bem, ó Banu Abdud Dar,

excelente é a vossa atuação, ó guardiões da retaguarda!

Golpeai com cada espada afiada!”

Eles também diziam: “Se continuardes avançando, abraçar-vos-ei e estenderei para vós macios leitos,

mas, se recuardes,

separar-nos-emos,”

Vocês não terão o nosso amor.”

Para que os Companheiros pudessem reconhecer uns aos outros durante a batalha de Uhud, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ensinou-lhes um grito de identificação: “Amit, Amit!”, isto é: “Desferir um golpe mortal. Desferir um golpe mortal.”

Aos poucos, a batalha assumiu proporções intensas. Abu Dujana lutava com tal bravura extraordinária que avançava, matando todos aqueles que encontrava à sua frente. Zubair ibn al-Awwam relatou: “Um homem dos idólatras começou a matar qualquer um dos nossos soldados que avistava. Abu Dujana e esse homem avançavam um em direção ao outro, aproximando-se. Eu suplicava a Allah que os reunisse. Logo os dois se defrontaram e começaram a desferir golpes um contra o outro. O idólatra golpeou Abu Dujana. Abu Dujana repeliu o golpe com seu escudo de couro. A espada penetrou no escudo e ficou presa nele. Então Abu Dujana contra-atacou e matou-o. Depois, vi-o erguer a espada sobre a cabeça de Hind, filha de Utba. Mas, no instante seguinte, baixou a espada. [62. Abu Dujana disse: No campo de batalha, vi alguém incitando os incrédulos. Avancei para detê-lo. Quando ergui a espada, essa pessoa soltou um grito de angústia. Vi que era uma mulher. Abstive-me de golpeá-la, pois pensei que seria uma desonra para a espada do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se eu golpeasse uma mulher com ela.]

Hamza ibn Abd al-Muttalib (que Allah esteja satisfeito com ele) matou, enquanto combatia, Artaah ibn Abd Shurahbil. Ele era um dos membros do grupo que carregava o estandarte. Logo depois, viu Siba ibn Abd al-Uzza passar ao seu lado. Desafiou-o para o combate, dizendo: “Ó filho da circuncisadora, vem enfrentar-me!” A mãe de Siba ganhava a vida em Meca realizando circuncisões.

Wahshi, escravo de Zubair ibn Mut’im, disse: “Eu observava Hamza. Vi-o erguer a espada contra os inimigos e, num piscar de olhos, abatê-los. Não deixava vivo ninguém que estivesse diante dele. Enquanto combatia, seu corpo inteiro ficou coberto de poeira, tornando-se semelhante a um camelo de cor cinzenta. Nesse momento, Siba ibn Abd al-Uzza passou diante de mim e se aproximou de Hamza. Ao vê-lo, Hamza soltou um brado: ‘Ó filho da circuncisadora, vem até mim; vou mostrar-te a diversão!’ Dizendo isso, golpeou-o. Mas pareceu que o golpe não atingiu sua cabeça. Apontei minha lança para Hamza. Quando tive certeza de que a mira estava correta, lancei-a contra ele. A lança penetrou em seu abdômen e saiu entre suas coxas. Mesmo nessa condição, ele avançou em minha direção. Mas, logo depois, perdeu as forças e caiu. Dei-lhe algum tempo. Ele sucumbiu à morte. Então fui até ele e retirei minha lança.”

Depois, voltei para junto do exército dos coraixitas. No campo de batalha, eu não tinha outro objetivo senão matar Hamza. Matei-o sabendo que, se conseguisse fazê-lo, seria libertado. Assim que retornei a Meca, fui libertado. Depois, continuei morando em Meca. Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conquistou Meca, fugi para Taife e passei a viver ali. Porém, quando uma delegação de Taife foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, para aceitar o Islã, fiquei desnorteado. Não conseguia decidir para onde ir. Pensei em partir para a Síria ou para o Iêmen, pois ali poderia viver em segurança. Nesse meio-tempo, alguém me disse: ‘Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não mata ninguém depois que aceita o Islã e profere a declaração de fé.’ Ao ouvir isso, fui até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele ficou profundamente surpreso ao ver minha presença e a minha declaração de submissão à verdadeira religião diante dele. Ergueu os olhos, olhou uma vez para mim e disse: ‘Senta-te. Conta-me como mataste Hamza.’ Relatei-lhe o acontecimento do princípio ao fim. Depois de ouvir tudo, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Nunca mais te ponhas diante de mim. Não quero ver-te.’ Enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, esteve vivo, sempre que eu ia até ele afastava-me para um lado, para que ele não visse o meu rosto.”

Mus’ab ibn Umair (que Allah esteja satisfeito com ele) combateu heroicamente para proteger o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e foi martirizado. Quem o matou foi Ibn Qam’a al-Laythi. Ele imaginou ter matado o próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Por isso, voltou para junto dos coraixitas e disse: “Matei Muhammad.” Depois que Mus’ab foi morto, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, confiou o estandarte a Ali ibn Abi Talib. Então Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e os demais heróis muçulmanos lançaram-se à batalha.

Quando a batalha de Uhud assumiu um aspecto terrível, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentou-se sob o estandarte dos ansares. Por meio de um mensageiro, ordenou a Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): “Avança com o estandarte.” Ali avançou e bradou: “Eu sou o pai do terror.” [63. Abu Sa’d, do lado dos coraixitas, havia bradado: “Eu sou aquele que espalha o terror. Quem está disposto a lutar comigo? Que venha.” Foi em resposta a esse brado que Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) proferiu as palavras acima.] Abu Sa’d avançou até ele e disse: “Ó pai do terror, estás ansioso para lutar?” Ali respondeu: “Sim, estou.” Então começou o combate entre os dois. Golpes e contra-golpes foram trocados. Por fim, Ali derrubou-o com um único golpe. Depois de derrubá-lo, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) afastou-se dali sem desferir-lhe o golpe mortal. Seus companheiros perguntaram a Ali: “Por que te afastaste sem desferir o golpe final?” Ele respondeu: “Abu Sa’d expôs-me os seus órgãos genitais. Mas senti piedade e compaixão por ele; foi movido por essa compaixão que me afastei dele. Contudo, compreendi que foi o próprio Allah quem o matou.”

Asim ibn Thabit ibn Abu al-Aqlah (r.a.) entrou em combate e matou Musafi ibn Talha e seu irmão Julas ibn Talha. Ele golpeou ambos, um após o outro, com uma lança, e cada um deles, ferido, dirigiu-se à sua mãe, Sulafa, e apoiou a cabeça em seu colo. Sulafa perguntou ao filho: “Ó meu querido filho, quem te feriu?” Ele respondeu: “Ibn Abu al-Aqlah.” Então Sulafa fez o voto de que, se conseguisse matar Asim ibn Thabit ibn Abu al-Aqlah, beberia vinho em seu crânio.

Hanzala ibn Abu Amir Ghaseel [recebeu postumamente o título de Ghaseel porque os anjos o banharam]. Ele entrou em combate contra Abu Sufyan. Em certo momento, Hanzala levou a melhor sobre Abu Sufyan. Ao ver isso, um guerreiro coraixita chamado Shaddad ibn Aswad atacou Hanzala de surpresa e o matou. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse aos Companheiros: “Os anjos estão lavando o vosso companheiro Hanzala.” Mais tarde, soube-se por sua esposa que o banho ritual era obrigatório para ele. Depois de ouvir o chamado para o jihad, não teve tempo de se banhar e dirigiu-se imediatamente ao campo de batalha.

Depois disso, Allah enviou auxílio aos muçulmanos e cumpriu Sua promessa feita a eles. Assim, eles conseguiram matar e aniquilar grande parte do exército coraixita. Incapazes de resistir ao ataque do exército muçulmano, os incrédulos foram obrigados a fugir e sofreram uma derrota esmagadora.

Zubayr (r.a.) disse: “Juro por Allah que vi Hind, filha de Utba, e seus companheiros fugirem a toda velocidade. Não vi nenhum grupo de politeístas, grande ou pequeno, avançar para salvá-los da captura. Quando a vitória estava prestes a se completar, de repente o contingente de arqueiros abandonou sua posição e saiu em perseguição ao exército coraixita em fuga, deixando aberto o desfiladeiro atrás de nós. Fomos atacados pela retaguarda. Justamente nesse momento, alguém gritou: ‘Muhammad foi morto.’ Sem outra alternativa, retornamos ao campo de batalha, e o exército coraixita também se lançou novamente contra nós. No entanto, havíamos derrotado até mesmo os porta-estandartes deles e os deixado tão incapacitados que ninguém conseguia aproximar-se de seu estandarte caído. Por fim, uma mulher chamada Amrah bint Harithiyya ergueu-o e levou-o até os coraixitas. Então eles se reuniram novamente em torno daquele estandarte e sob sua proteção.”

Os muçulmanos dispersaram-se. Aproveitando essa oportunidade, os inimigos penetraram entre eles e lançaram um ataque generalizado. Assim, aquele dia tornou-se um dia de severa provação e purificação. Allah honrou vários muçulmanos com o martírio. Os inimigos chegaram até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele recebeu um golpe em um lado do corpo. Com isso, um de seus dentes se quebrou, e seu rosto e seus lábios ficaram feridos. Utba ibn Abu Waqqas desferiu esse golpe. Seu rosto inteiro ficou ensanguentado. Enquanto limpava o sangue com a mão, ele disse: “Como poderá prosperar uma nação que ensanguenta o rosto de seu Profeta, embora ele a esteja convidando para Allah, o Altíssimo?” Em resposta a essa declaração, Allah, o Altíssimo, revelou o seguinte versículo:

[Árabe *******]

“Ó Profeta! Não tens autoridade sobre qualquer decisão final. A autoridade pertence a Allah. Ele pode perdoá-los ou puni-los, pois são injustos.” (Al Imran)

Segundo o relato de Abu Sa’id al-Khudri (r.a.), o golpe da lança de Utba ibn Abu Waqqas quebrou o dente inferior do lado direito do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e feriu seu lábio inferior. Abdullah ibn Shihab al-Zuhri feriu-lhe a testa. Ibn Qumra golpeou a parte superior de sua mandíbula. Com isso, duas partes do elmo do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, quebraram-se e penetraram em sua mandíbula. Em seguida, ele caiu em uma das covas que Abu Amir havia cavado para fazer os muçulmanos cair nelas e matá-los sem que percebessem. Nesse momento, Ali (r.a.) segurou sua mão, e Talha ibn Ubaydullah (r.a.) o ergueu. Com a ajuda deles, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conseguiu levantar-se. Malik ibn Sinan, pai de Abu Sa’id al-Khudri, sugou o sangue da boca do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao notar isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Aquele cujo sangue se misturou ao meu não será tocado pelo fogo do Inferno.”

Quando o exército dos politeístas cercou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, por todos os lados, ele disse: “Quem está disposto a sacrificar a própria vida para nos defender?” Ao ouvir isso, cinco companheiros ansar, entre eles Ziyad ibn Sakan, levantaram-se e começaram a lutar, um após o outro, para proteger o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, até serem martirizados. O último deles foi Ziyad ibn Sakan ou Ammara ibn Yazid ibn Sakan. Ele também lutou com grande bravura e ficou gravemente ferido. Nesse ínterim, um grupo de muçulmanos retornou ao local e, lutando em defesa do referido companheiro ferido, derrotou e repeliu o inimigo. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apontou para o companheiro ferido e disse: “Tragam-no até mim.” Os muçulmanos o levaram até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele colocou a cabeça do homem sobre o próprio joelho e o deitou. Foi nessa posição que o referido companheiro faleceu.

Abu Dujana passou a proteger o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, usando o próprio corpo como escudo. As flechas atingiam suas costas, enquanto ele permanecia inclinado sobre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ocultando-o. Assim, o número de flechas cravadas em seu corpo tornou-se enorme. Sa’d ibn Abi Waqqas começou a lançar flechas na tentativa de defender o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Sa’d disse: “Vi Abu Dujana me entregando flecha após flecha e dizendo: ‘Que meus pais sejam sacrificados por ti. Continua lançando as flechas.’ Às vezes, ele me entregava até flechas sem ponta e dizia: ‘Lança-as.’”

Depois da derrota e da propagação do rumor de que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia sido martirizado, Ka’b ibn Malik foi o primeiro a reconhecê-lo. Ka’b disse: “Os olhos do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, brilhavam sob o capacete; reconheci-o apenas ao vê-los e imediatamente gritei: ‘Ó muçulmanos, boas-novas! O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, está vivo. Ele está aqui!’” Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez-lhe um sinal e disse: “Fica em silêncio.”

Depois que os muçulmanos reconheceram o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, todos se dirigiram com ele para o desfiladeiro da montanha. Naquele momento, estavam com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, um grupo de muçulmanos, entre eles Abu Bakr as-Siddiq, Umar al-Faruq, Ali ibn Abi Talib, Talha ibn Ubaydullah e Zubayr ibn al-Awwam.

Enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, descansava no desfiladeiro da montanha, Ubay ibn Khalaf chegou ali. Ele disse: “Ó Muhammad, mesmo que desta vez escapes com vida, não terás salvação.” Os muçulmanos disseram: “Ó Mensageiro de Allah, é apropriado que algum de nós demonstre compaixão por esse homem?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Deixem-no vir.” Quando ele se aproximou do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, este tomou uma lança de al-Harith ibn Simma. Segundo alguns relatos, depois de pegar a lança, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez um movimento tão assustador que, assim como um enxame de vespas venenosas se dispersa e voa quando o camelo se move violentamente, nós também, tomados pelo medo, nos dispersamos e recuamos para longe do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, avançou contra ele e golpeou-lhe o pescoço com a lança. Ao ser atingido, Ubay ibn Khalaf foi arremessado da sela do cavalo e rolou várias vezes.

Anteriormente, Ubay ibn Khalaf encontrava o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em Meca e dizia: “Ó Muhammad, tenho um cavalo chamado ‘Awj. Dou-lhe diariamente um faraque de milho — quarenta quilos. Montado nesse cavalo, eu te matarei.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondia: “Ao contrário, se Allah quiser, serei eu quem te matará.”

Embora o ferimento que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia causado no ombro de Ubay não fosse muito grave, dele escorria sangue. Nesse estado, ele voltou para junto dos coraixitas e disse: “Por Allah, Muhammad me matou.” Os coraixitas disseram: “Na verdade, estás extremamente assustado. Não há motivo para temeres.” Ele disse: “Quando ainda estávamos em Meca, Muhammad me disse: ‘Eu mesmo te matarei.’ Agora temo que, mesmo que ele apenas cuspa em mim, eu morrerei.” Os coraixitas partiram com ele em direção a Meca. No caminho, no lugar chamado Sarif, chegou ao fim a vida desse inimigo de Allah.

Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou à entrada do desfiladeiro da montanha, Ali ibn Abi Talib saiu em busca de água, encheu um odre no reservatório ou lago cercado de pedras chamado Mehras, nas proximidades de Uhud, e levou-o para que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, bebesse. Ao sentir um mau cheiro na água, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não a bebeu. Em vez disso, lavou com ela o sangue do rosto e, enquanto despejava um pouco sobre a cabeça, disse: “Aquele que ensanguentou o rosto do Profeta de Allah será atingido pela terrível ira de Allah.”

Depois, o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) tentou subir uma elevação da montanha. Porém, estava bastante debilitado e só conseguiu demonstrar força com o auxílio de duas armaduras. Quando não conseguiu subir a elevação, Talha ibn Ubaidullah (que Allah esteja satisfeito com ele) carregou-o sobre os ombros e o fez subir. O Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) disse: “Talha assegurou o Paraíso para si por sua bondade para com o Mensageiro.”

Entre os mortos na batalha de Uhud estava Mukhairiq, da tribo dos Banu Tha‘labah. No dia da batalha de Uhud, ele disse aos judeus de sua própria tribo: “Ó judeus, certamente sabeis que é vosso dever ajudar Muhammad (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele).” Os judeus responderam: “Hoje é sábado.” Ele disse: “A desculpa do sábado não é válida para vós.” Então, partiu para a batalha com sua espada e seu equipamento. Disse: “Se eu morrer, toda a minha propriedade pertencerá a Muhammad. Ele poderá utilizá-la como quiser.” Depois, dirigiu-se ao Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele), lutou ao lado dele e foi morto. O Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) disse: “Mukhairiq é o melhor dos judeus.”

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) costumava dizer: “Dizei-me: quem é a pessoa que entrará no Paraíso embora não tenha realizado a oração?” Como as pessoas não conseguiam responder, perguntavam: “Quem é esse afortunado?” Ele dizia: “Usairim, ‘Amr ibn Thabit ibn Waqash, dos Banu ‘Abdul-Ashhal.” Husain ibn ‘Abdur-Rahman disse: “Perguntei a Mahmud ibn Asad: ‘Que tipo de homem era Usairim?’ Ele respondeu: ‘Antes, recusava-se a aceitar o Islã. Porém, no dia em que o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) partiu para a batalha em direção a Uhud, ele reconheceu a verdade do Islã e aceitou-o. Então, saiu correndo com sua espada e chegou ao campo de batalha. Começou a lutar e, depois de ser gravemente ferido, caiu imóvel. Mais tarde, os homens dos Banu ‘Abdul-Ashhal foram ao campo de batalha procurar os corpos de seus homens e encontraram-no. Ao reconhecê-lo, começaram a dizer uns aos outros: “Como Usairim veio parar aqui? Ele costumava rejeitar o Islã.” Então, todos lhe perguntaram: “Ó ‘Amr, por que vieste lutar aqui? Foi por lealdade à tua tribo ou pela atração do Islã?” Ele respondeu: “Pela atração do Islã. Creio em Allah e em Seu Mensageiro e tornei-me muçulmano. Depois, vim com minha espada até o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele), lutei e fui ferido.” Pouco depois, Usairim morreu diante dos olhos deles. Quando o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) ouviu sua história, disse: “Ele é um dos habitantes do Paraíso.”’”

‘Amr ibn Jamuh era um homem extremamente manco. Tinha quatro filhos semelhantes a leões, que iam lutar com o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) em vários campos de batalha. No dia da batalha de Uhud, eles quiseram impedir que seu pai, ‘Amr, fosse à guerra. Disseram: “Allah te isentou da obrigação de ir à batalha.” ‘Amr foi até o Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) e disse: “Meus filhos não querem permitir que eu vá contigo a esta batalha. Juro por Allah, espero entrar no Paraíso com este meu pé manco.”

O Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) disse: “É verdade que Allah te isentou da obrigação do jihad.” Mas disse a seus filhos: “Não precisais impedir vosso pai de ir à batalha. Pode ser que Allah tenha destinado o martírio para ele.” Então, ‘Amr lutou em Uhud e foi martirizado. Enquanto isso, Hind, filha de ‘Utbah, e suas companheiras começaram a mutilar os corpos dos Companheiros do Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) que haviam sido mortos. Cortaram-lhes os narizes e as orelhas. Hind fez com isso pulseiras para os tornozelos e colares, e presenteou essas pulseiras, colares e brincos a Wahshi, escravo de Jubair ibn Mut‘im. Ela retirou o fígado de Hamzah e o mastigou, mas, não conseguindo engoli-lo, cuspiu-o.

Halīs ibn Dhabban era, naquele dia, o comandante dos soldados abissínios no exército dos coraixitas. Ao passar perto de Abu Sufyan, viu-o golpeando o queixo de Hamzah com a ponta de sua lança e dizendo: “Rebelde miserável! Agora saboreia a diversão.” Halīs não conseguiu permanecer calado ao ver aquela cena. Os homens dos Banu Kinana estavam por perto. Ele chamou-os e disse: “Ó Banu Kinana, vede o líder dos coraixitas: vede como trata seu próprio primo morto.” Abu Sufyan, constrangido, disse: “Que desgraça! Foi um deslize meu. Não contes a ninguém.”

Depois, Abu Sufyan decidiu retornar para casa, deixando o campo de batalha. Pouco antes de partir, subiu à montanha e gritou em voz alta: “Os homens diligentes receberam a devida recompensa. A vitória e a derrota na guerra alternam-se: um dia para este lado e outro dia para o outro. Ó Hubal — nome de um ídolo — torna-te poderoso; isto é, faze triunfar a tua religião.” O Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) ordenou a ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que respondesse ao grito e disse: “Dize: Allah é o Maior e o Altíssimo. Nós e vós não somos iguais. Nossos mortos estão no Paraíso, enquanto os vossos estão no Inferno.” Quando ‘Umar respondeu a Abu Sufyan com esse grito, Abu Sufyan disse: “‘Umar, aproxima-te um pouco.” O Mensageiro de Allah (que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele) disse a ‘Umar: “Vai e escuta o que ele quer dizer.” ‘Umar aproximou-se. Abu Sufyan disse: “Ó ‘Umar, invoco Allah como testemunha: dize-me a verdade, nós matamos Muhammad?” ‘Umar respondeu: “Juro por Allah que não. Ele ouviu as tuas palavras neste mesmo momento.” Abu Sufyan disse: “Considero-te mais honesto e veraz que Ibn Qum’ah.” Deve-se mencionar que Ibn Qum’ah havia dito aos coraixitas: “Eu matei Muhammad.”

Depois, Abu Sufyan dirigiu-se a ‘Umar e disse: “Alguns dos corpos dos vossos mortos foram mutilados. Acredita em mim: não ordenei que isso fosse feito, nem o proibi. Tampouco estou satisfeito ou insatisfeito com isso.”

Ao deixar o campo de batalha, Abu Sufyan lançou um desafio antecipado, dizendo: “Encontrar-nos-emos novamente convosco no campo de Badr no próximo ano.” Imediatamente, por ordem do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, um dos Companheiros informou Abu Sufyan de que também estavam preparados para enfrentá-los no ano seguinte.

Depois que o exército dos coraixitas deixou o campo e partiu, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, dizendo-lhe: “Segue-os e observa para onde vão e o que fazem. Se levarem a cavalaria para o sul e montarem os camelos, compreende que estão indo em direção a Meca. Mas, se montarem os cavalos e conduzirem os camelos, compreende que estão marchando em direção a Medina. Juro por Allah que, mesmo que pretendam atacar Medina, irei contra eles com um exército e os enfrentarei.” Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Segui-os e vi que levavam a cavalaria para o sul e que, montados em camelos, partiam em direção a Meca.”

Então, os muçulmanos saíram à procura dos mortos. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Procurem Sa’d ibn Rabi’ e vejam se está morto ou vivo.” Um Companheiro ansar começou a procurá-lo. Por fim, encontrou-o entre os mortos, gravemente ferido e agonizante. Disse-lhe: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou-me que verificasse se estás vivo ou morto.” Sa’d respondeu: “Considera-me morto. Transmite minha saudação ao Mensageiro de Allah e diz-lhe: ‘Ó Mensageiro de Allah, Sa’d ibn Rabi’ suplicou a Allah que Ele lhe conceda, da nossa parte, a melhor recompensa que é apropriado conceder a um profeta em nome de sua comunidade.’ E transmite minha saudação aos muçulmanos e diz-lhes: ‘Sa’d ibn Rabi’ disse: se os inimigos conseguirem chegar ao vosso Profeta enquanto ainda houver um único homem entre vós vivo, não tereis desculpa alguma diante de Allah.’” Pouco depois de dizer isso, Sa’d sucumbiu à morte. Em seguida, Muhammad ibn Maslama foi até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e informou-o sobre Sa’d. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saiu pessoalmente à procura de Hamza ibn Abd al-Muttalib, que Allah esteja satisfeito com ele. Encontrou-o no centro do campo. Viu que seu abdômen havia sido aberto, seu fígado fora retirado e seu corpo fora mutilado, com o nariz e as orelhas cortados. Ao ver aquilo, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Se Safiyya não sofresse e se não houvesse o risco de estabelecer um costume permanente, eu deixaria Hamza aqui mesmo e permitiria que os animais e as aves comessem seu corpo. Se Allah me conceder vitória sobre os coraixitas em qualquer outro campo de batalha, mutilarei e desfigurarei os corpos de trinta deles dessa maneira.” Quando os muçulmanos viram o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, profundamente entristecido e extremamente indignado e perturbado com o tratamento bárbaro dispensado a seu tio, também prometeram que, se algum dia vencessem os coraixitas, mutilariam seus corpos de uma maneira sem precedentes na história dos árabes.

Abdullah ibn Abbas disse: foi a respeito dessa promessa do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e de seus Companheiros que Allah revelou este versículo:

[Árabe *******]

“E, se castigardes alguém, castigai-o na mesma medida do castigo que vos foi infligido. Mas, se tiverdes paciência, isso será melhor para os pacientes. Sê paciente e perseverante. E tua paciência e perseverança devem ser unicamente pela satisfação de Allah. Não te entristeças com o comportamento deles nem te angusties por causa de suas más conspirações.”

Sob a influência desses dois versículos, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perdoou os idólatras e ordenou a todos que se abstivessem de mutilar os corpos.

Depois, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, cobriu o corpo de Hamza com um manto. Em seguida, realizou a oração fúnebre. Depois, o corpo de Hamza foi colocado junto aos outros corpos, e ele realizou a oração fúnebre por cada um deles. Assim, realizou a oração fúnebre por Hamza setenta e duas vezes.

Ibn Ishaq disse: Safiyya, filha de Abd al-Muttalib, veio ver Hamza. Hamza era seu irmão de sangue. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse a Zubair ibn al-Awwam, filho de Safiyya: “Vai ter com tua mãe, convence-a e manda-a voltar, para que ela não veja o estado trágico do irmão.” Zubair foi e disse: “Mãe, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — pediu-lhe que voltasse.” Safiyya perguntou: “Por quê?” Ouvi dizer que o corpo do meu irmão foi mutilado. Isso aconteceu no caminho de Allah, e é motivo de alegria para mim. Se Allah quiser, terei paciência e ficarei satisfeita.” Zubair disse: “Está bem, então deixe-a vir.” Safiyya veio, viu Hamza, recitou “Inna lillahi wa inna ilayhi raji’un” e pediu perdão por ele. Depois, por ordem do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, seu corpo foi sepultado.

Muitos muçulmanos levaram os corpos dos mártires para Medina e os sepultaram ali. Mais tarde, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — proibiu tal prática e ordenou que fossem sepultados no próprio local onde haviam sido mortos.

É narrado por Abdullah ibn Tha’laba. Quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — viu os corpos dos mártires, disse: “Dou testemunho a respeito deles de que todo aquele que foi ferido no caminho de Allah, quando Allah o ressuscitar no Dia da Ressurreição, continuará a sangrar pelo local de seu ferimento. O sangue terá a cor do próprio sangue, mas seu aroma será como o do almíscar. Vejam qual deles havia memorizado mais do Alcorão. Depois, sepultem essa pessoa voltada para os demais.” Em seguida, dois ou três foram sepultados juntos em cada sepultura.

Depois, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — partiu em direção a Medina. Nesse momento, encontrou uma mulher chamada Hamna bint Jahsh. Primeiro, quando lhe comunicaram o martírio de seu irmão Abdullah ibn Jahsh, ela recitou “Inna lillah” e pediu perdão a Allah. Depois, quando lhe comunicaram a morte de seu tio Hamza ibn Abd al-Muttalib, recitou novamente “Inna lillah” e pediu perdão a Allah. Em seguida, quando lhe informaram que seu marido, Mus’ab ibn Umair, havia sido martirizado, ela soltou um grito. Então o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — comentou: “Por isso, o marido de uma mulher ocupa uma posição especial para ela.” Ele disse isso ao vê-la permanecer firme ao receber a notícia da morte do tio e do irmão, mas gritar ao saber da morte do marido.

Nessa ocasião, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — passava perto das casas dos Companheiros ansar das famílias de Banu Abd al-Ashhal e Ja’far. Ao ouvir os gritos lancinantes das famílias aflitas e enlutadas pela perda dos seus entes queridos mortos na batalha, seus olhos também se encheram de lágrimas. Lembrando-se então de Hamza, ele também chorou e disse: “Não há quem chore por Hamza!” Mais tarde, quando Sa’d ibn Mu’adh e Usaid ibn Hudair voltaram para casa, ordenaram às mulheres de suas famílias que chorassem e lamentassem pelo tio do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao ouvir aquelas mulheres chorando por Hamza, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — saiu de casa. Viu-as sentadas e chorando na mesquita. Disse-lhes: “Que Allah derrame Sua misericórdia sobre vocês. Agora podem ir embora, pois já demonstraram compaixão suficiente por mim.”

Havia também uma mulher de Banu Dinar. Seu marido, seu irmão e seu pai haviam sido martirizados na batalha de Uhud. Quando lhe comunicaram a morte desses entes queridos, ela disse serenamente: “Como está o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz?” Todos responderam: “Ele está bem. Está como gostarias que estivesse.” A mulher disse: “Mostrem-me o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Deixem-me vê-lo.” Então lhe mostraram o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao vê-lo, ela disse: “Ó Mensageiro de Allah, depois de ver que estás a salvo, qualquer outra calamidade me parece insignificante.”

Depois, quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — chegou a casa, entregou sua espada à filha Fátima e disse: “Minha querida filha, lava-a e limpa-a. Hoje ela prestou um grande serviço.” Ali ibn Abu Talib também entregou sua espada a Fátima e disse: “Lava também o sangue desta espada. Por Allah, ela prestou um grande serviço.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Se hoje foste sincero na batalha, fica sabendo que Sahl ibn Hanif e Abu Dujana também demonstraram sinceridade no jihad ao teu lado.”

A batalha de Uhud ocorreu no sábado, dia 15 de Shawwal. No dia seguinte, domingo, 16 de Shawwal, o arauto do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — anunciou que era preciso perseguir o inimigo. Contudo, ninguém que não tivesse participado da batalha do dia anterior poderia partir naquele dia; somente aqueles que haviam estado presentes no dia anterior poderiam ir. Ao ouvir isso, Jabir ibn Abdullah disse: “Ó Mensageiro de Allah, meu pai deixou-me em casa para cuidar das minhas sete irmãs. Ele disse: ‘Não seria correto, nem da minha parte nem da tua, deixá-las de modo que não houvesse nenhum homem com essas moças. E eu também não posso ficar em casa e preferir que vás contigo para combater junto do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — em vez de ir eu mesmo. Portanto, fica com tuas irmãs.’ Foi por isso que permaneci com elas.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — permitiu que ele também o acompanhasse na expedição para perseguir o inimigo. O objetivo dessa expedição era apenas amedrontar o inimigo. Ela foi realizada para mostrar-lhe que a perseguição demonstrava a força dos muçulmanos e que o revés da batalha de Uhud não os havia desencorajado nem um pouco.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em expedição e chegou a um lugar chamado Hamra al-Asad, situado a oito milhas de Medina. Depois de permanecer ali até segunda, terça e quarta-feira, retornou a Medina. Naquela ocasião, confiou a responsabilidade pela administração de Medina a Abdullah ibn Umm Maktum. Ma’bad ibn Abi Ma’bad al-Khuza’i ainda era pagão. Todos os membros de sua tribo, Khuza’a, tanto muçulmanos quanto pagãos, mantinham relações estreitas com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e protegiam seus segredos na região de Tihama. Também o informavam sobre tudo o que acontecia em Tihama; nada lhe ocultavam. Certo dia, Ma’bad encontrou-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Sobre o acontecimento de Uhud, ele disse: “Ó Muhammad, estamos aflitos e tristes pela calamidade que lhe sucedeu. Todos nós desejávamos que Allah o mantivesse a salvo.” Depois disso, Ma’bad partiu. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu em Hamra al-Asad. Ao chegar a Rawha (64. Este povoado de Rawha, local de residência da tribo Muzaina, ficava a dois dias de caminhada de Medina), Ma’bad encontrou Abu Sufyan e seus companheiros. Eles haviam decidido atacar novamente o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e seus Companheiros. Diziam uns aos outros: “Já eliminamos muitos dos homens influentes e líderes entre os companheiros de Muhammad, mas estamos voltando para Meca sem os exterminar de uma vez. Pelo contrário, atacaremos novamente os que restaram e só descansaremos depois de acabar com eles.” Nesse momento, ao ver Ma’bad, Abu Sufyan perguntou: “Ma’bad, que notícias há do outro lado?” Ma’bad respondeu: “Vi Muhammad reunir uma multidão imensa com seus companheiros e vir correndo em seu encalço. Nunca vi uma reunião tão grande. Até aqueles que não haviam participado da batalha no dia de Uhud agora se juntaram a Muhammad. Eles se arrependeram do que fizeram.”

“Vi entre eles uma ira e uma hostilidade tão terríveis contra vocês como jamais havia visto.” Abu Sufyan perguntou: “O que está dizendo?” Ma’bad respondeu: “Juro por Allah que eles talvez já estejam chegando. Antes mesmo de você partir, talvez consiga ver as cabeças de seus cavalos.” Abu Sufyan disse: “Estamos preparados para atacar novamente e acabar com os homens que restaram deles.” Ma’bad respondeu: “Então eu o proíbo. Não faça isso. Ao ver os preparativos deles, cheguei a compor um poema. Abu Sufyan perguntou: “Que poema você compôs? Recite-o para que eu o ouça.” Ma’bad respondeu: “O poema é este:”

“Com o seu rugido ameaçador, meu camelo quase desmaiou de medo

quando uma tropa de cavalos de longas crinas avançou pela terra como uma inundação:

avançou velozmente para o campo de batalha, levando homens altos e imponentes, leões entre os homens

Eles não são como soldados desarmados, cambaleantes e de cabeça baixa.

Fugi imediatamente, correndo. Pensei que a terra estivesse se curvando

quando ele avançou contra nós acompanhado por um comandante invencível.

Eu disse: o vale tremeu sob as pisadas daquele homem de passos estrondosos.

Aos habitantes sensatos e perspicazes do Santuário Sagrado,

advirto-os claramente contra o exército de Ahmad.

Contudo, não há nele nenhum homem vil.

Na verdade, não há palavras adequadas para o aviso que estou proferindo.” Ao ouvirem esse relato, Abu Sufyan e seus companheiros desistiram de partir para a guerra.

Abu Sufyan encontrou uma caravana dos Banū ʿAbd al-Qays. Ele perguntou: “Para onde vocês vão?” Eles responderam: “Para Medina.” Abu Sufyan perguntou: “Com que propósito?” Eles responderam: “Para transportar alimentos.” Ele disse: “Vocês poderiam entregar uma mensagem minha a Muhammad? Se o fizerem, amanhã irei ao mercado de ʿUkāẓ e lhes darei uma grande quantidade de passas.” Eles concordaram em entregar a mensagem. Ele disse: “Digam a Muhammad que decidimos atacar a ele e aos seus homens e exterminar os que restarem deles.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ainda se encontrava em Ḥamrāʾ al-Asad. Eles o encontraram ali e transmitiram-lhe a mensagem de Abu Sufyan. Ao ouvi-la, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Hasbunallahu wa niʿmal-wakīl! (Allah é suficiente para nós, e que excelente Guardião!)” Depois disso, dois espiões inimigos, Muʿāwiya ibn al-Mughīra ibn Abī al-ʿĀṣ e Abū ʿIzza al-Jumaḥī, foram capturados naquela região pelas mãos do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O último deles havia sido capturado pelo Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — como prisioneiro de guerra na batalha de Badr e depois fora libertado sem resgate. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, não me mate.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — respondeu: “Não lhe será concedida a oportunidade de voltar a Meca e dizer, satisfeito: ‘Enganei Muhammad duas vezes.’ Ó Zubayr, decapite-o.” Zubayr imediatamente o decapitou.

Depois disso, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — retornou a Medina. Em Medina havia um homem de distinção chamado ʿAbdullah ibn Ubayy ibn Salul. Todas as sextas-feiras, ele desempenhava um papel especial para exibir sua posição diante de sua tribo. Sempre que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — começava a discursar diante do povo, ele se levantava e dizia: “Ó comunidade, eis o Mensageiro de Allah diante de vocês. Por meio dele, Allah aumentou sua força e sua honra; portanto, apoiem-no e auxiliem-no, e escutem-no e obedeçam-lhe.” Depois de dizer isso, sentava-se. Antes da batalha de Uhud, ninguém se opunha a esse seu procedimento. Porém, na batalha de Uhud, ele assumiu o papel de um traidor abjeto e fez muitos homens abandonar o caminho da guerra. Ainda assim, quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — discursava, ele se levantava às sextas-feiras como antes, para exibir sua posição, e elogiava o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Os muçulmanos imediatamente agarraram suas roupas de todos os lados e disseram: “Inimigo de Allah, sente-se! Pelo que você fez, essas palavras não lhe ficam bem.” Então, enquanto saía passando por cima dos pescoços dos fiéis reunidos, ele disse: “A palavra que eu dizia para exaltar a importância da missão do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — acabou sendo considerada uma palavra ruim.” À porta da mesquita, encontrou um companheiro ansarita. Este lhe perguntou: “O que aconteceu com você?” Ele respondeu: “Eu estava tentando exaltar a importância da missão do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Por isso, os companheiros dele investiram contra mim, começaram a puxar-me e a repreender-me. Eu havia me esforçado para exaltar a importância da missão do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, mas isso pareceu muito ruim a todos.” O companheiro ansarita disse: “Vá, volte. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — pedirá a Allah que o perdoe.” Ele respondeu: “Não quero que ele peça perdão por mim.”

Ibn Ishaq disse: “A batalha de Uhud foi um dia de provação extrema e calamidade. Por meio dela, Allah pôs os crentes à prova e separou e distinguiu os hipócritas. Naquele dia, foram identificados aqueles que professavam a fé com a boca, mas mantinham secretamente no coração pensamentos e concepções de incredulidade. E, naquele dia, Allah honrou com o martírio os Seus servos amados a quem desejava conceder a honra do martírio.”

O terceiro ano da Hégira: a expedição de Raji‘

Após a batalha de Uhud, um grupo das tribos de Adal e Qarah compareceu perante o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Eles disseram: “Ó Mensageiro de Allah, nosso povo aceitou o Islã. Portanto, envie conosco um grupo de seus companheiros, para que nos ensinem detalhadamente as normas do Islã e nos instruam na leitura do Alcorão.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou com eles Mursad ibn Abu Mursad, Khalid ibn Bukair, Asim ibn Thabit, Khubaib ibn Adi, Zaid ibn al-Dathina e Abdullah ibn Tariq. Nomeou Mursad ibn Abu Mursad como comandante. Ele partiu levando todos consigo. Quando chegaram a Raji‘, um poço pertencente à tribo de Hudhail, situado sobre Hudayya, entre ‘Usfan e Meca, numa extremidade do Hijaz, aqueles homens traíram-nos. Os traidores também chamaram a tribo de Hudhail para ajudá-los. Os Companheiros ainda estavam montados. Então viram homens armados de espadas cercando-os por todos os lados. Prepararam-se para lutar com as próprias espadas. Os incrédulos disseram: “Por Allah, não queremos matar-vos. Queremos apenas obter, por vosso intermédio, algum dinheiro dos habitantes de Meca. Juramos por Allah que não vos mataremos.” Mas Mursad ibn Abu Mursad, Khalid ibn Bukair e Asim ibn Thabit disseram: “Não confiamos no juramento nem no pacto de nenhum politeísta.” Asim ibn Thabit respondeu recitando os seguintes versos:

“Não há em mim fraqueza alguma, pois sou um homem forte, portador de uma lança

Tenho um arco, com flechas velozes e afiadas.

A ponta de uma lança forte e espessa é repelida ao ser atingida por essa flecha

Na verdade, a morte é a realidade, e a vida é vã.

O que Allah determinou para as pessoas é inevitável

e o ser humano é obrigado a submeter-se ao seu destino.”

Depois, lutaram contra os infiéis, e os três alcançaram o martírio.

Quando ‘Asim foi morto, os membros da tribo Hudail decidiram vender sua cabeça a Sulafa bint Sa‘d. Depois que os dois filhos daquela mulher foram mortos pelas mãos de ‘Asim na batalha de Uhud, ela havia jurado que, se obtivesse a cabeça de ‘Asim, beberia vinho em seu crânio. A tribo Hudail, com esse objetivo, se a cabeça de ‘Asim fosse obtida, beberia vinho em seu crânio. Quando a tribo Hudail foi buscar a cabeça de ‘Asim com esse propósito, não conseguiu levá-la, pois vespas e abelhas cercavam seu cadáver. Eles disseram: “Deixem-na aqui por enquanto. À tarde, as vespas e as abelhas irão embora. Então cortaremos sua cabeça e a levaremos.” Dito isso, partiram. Nesse ínterim, Deus fez uma torrente devastadora passar por aquela região, e o cadáver de ‘Asim foi levado e desapareceu com a enchente.

Antes de alcançar o martírio, ‘Asim suplicara a Deus que nenhum politeísta pudesse tocar seu cadáver e que ele próprio também não tocasse em nenhum politeísta. Isso porque considerava os politeístas impuros de todo o coração e os odiava. Quando ‘Umar ibn al-Khattab, que Deus esteja satisfeito com ele, soube que os politeístas não haviam podido tocar o cadáver de ‘Asim porque vespas e abelhas o cercavam, disse: “É assim que Deus protege Seu servo crente. Durante sua vida, ‘Asim havia jurado que não tocaria em nenhum politeísta e que não permitiria que nenhum politeísta tocasse seu corpo. Após sua morte, Deus o protegeu exatamente da mesma forma como ele se protegera durante sua vida.”

Zayd ibn Dathina, Khubayb ibn ‘Adi e ‘Abdullah ibn Tariq — os três — adotaram uma atitude conciliadora e demonstraram interesse em permanecer vivos. Eles estenderam as mãos e se entregaram. Os infiéis os prenderam e partiram com eles para Meca, a fim de vendê-los. Quando chegaram a Zahran, ‘Abdullah ibn Tariq soltou as amarras das mãos, libertou-se e tomou sua espada. Os infiéis não conseguiram capturá-lo, mas o martirizaram atirando pedras de longe. Ele foi sepultado em Zahran.

Depois, chegaram a Meca levando Khubayb ibn ‘Adi e Zayd ibn Dathina. Os coraixitas tinham dois prisioneiros da tribo Hudail. Em troca deles, venderam aqueles dois Companheiros aos coraixitas. Khubayb foi comprado, em nome de ‘Uqba ibn al-Harith, por Hujayr ibn Abu Wahab, para que ‘Uqba pudesse matá-lo como vingança pelo assassinato de seu pai. Já Zayd ibn Dathina foi adquirido por Safwan ibn Umayya, para ser morto em retaliação pelo assassinato de seu próprio pai, Umayya ibn Khalaf. Safwan enviou-o com seu escravo Nastas para Tan‘im, fora do Santuário Sagrado, com o objetivo de matá-lo. Ali, uma grande multidão dos coraixitas, incluindo Abu Sufyan, cercou Zayd. Quando Zayd foi levado adiante para ser morto, Abu Sufyan disse: “Ó Zayd, se hoje capturássemos Muhammad em seu lugar, o matássemos e o enviássemos de volta para tua família, gostarias disso?” Zayd respondeu: “Por Deus, eu não gostaria nem um pouco que Muhammad, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, sofresse sequer com um espinho no corpo enquanto estivesse onde está, padecesse com a dor disso, e eu permanecesse sentado confortavelmente entre minha família.”

O comentário de Abu Sufyan foi: “Nunca vi em ninguém um amor tão profundo quanto o amor que os Companheiros de Muhammad tinham por ele.” Depois, Nastas matou Zayd.

A serva liberta de Hujayr ibn Abu Wahab, Ma‘awiya, que já havia aceitado o Islã, disse: “Khubayb estava sob minha custódia. Ele era mantido prisioneiro em minha própria casa. Certo dia, vi-o comendo uvas de um cacho tão grande quanto a cabeça de um homem. Naquele período, porém, não havia uvas em Meca. Quando se aproximou o momento de sua execução, pediu-me uma navalha para se purificar e se preparar para a morte. Mandei um menino do bairro buscar uma navalha para ele. Pedi ao menino que entrasse na casa de Khubayb levando a navalha. Quando ele entrou, de repente pensei: ‘O que fiz? Que desastre! O que acontecerá se este homem matar o menino em vingança? Ele poderá tirar antecipadamente a vida de alguém em retaliação pela própria morte.’ Quando o menino entregou a navalha a Khubayb, ele disse: ‘Tua mãe não teve medo ao enviar-te a mim com esta navalha, teve?’ Dito isso, mandou imediatamente o menino embora.”

Depois, os coraixitas levaram Khubayb a Tan‘im para matá-lo. Khubayb disse: “Se não se opuserem, permitam-me rezar duas rak‘at.” Eles disseram: “Está bem, reza.”

Ele realizou duas rak‘at de oração com grande perfeição. Depois, dirigiu-se aos incrédulos e disse: “Se vocês não pensassem que eu estava prolongando a oração para passar o tempo por medo de morrer, eu teria rezado por mais algum tempo.” Desde então, sempre que os muçulmanos se veem diante de uma execução desse tipo, tornou-se costume rezar duas rak‘at; e Khubaib foi o primeiro e principal introdutor desse costume.

Depois, os incrédulos o colocaram sobre um tronco de madeira e o amarraram firmemente. Nessa ocasião, Khubaib fez a seguinte súplica: “Ó Allah, transmitimos a mensagem do Teu Mensageiro. Portanto, antes da manhã de amanhã, informa o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre o que nos foi feito. Ó Allah, mata esses inimigos um por um, contando-os cuidadosamente, e não deixes nenhum deles escapar.” Em seguida, eles mataram Khubaib, que Allah tenha misericórdia dele.

Mu‘awiya, filho de Abu Sufyan, costumava dizer: “Naquele dia, eu estava entre os que se reuniram ao redor de Khubaib, juntamente com Abu Sufyan. Naquela época, havia um rumor de que, quando alguém fosse amaldiçoado, poderia escapar da maldição se imediatamente se deitasse de lado.”

Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, nomeou Sa‘id ibn Amir, da tribo de Jumah, administrador de um distrito da Síria. Ele desmaiava repentinamente diante das pessoas. Isso foi comunicado a Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele. Disseram-lhe que algo havia acontecido com Sa‘id. Umar perguntou-lhe: “Ó Sa‘id, o que aconteceu com você?” Sa‘id respondeu: “Ó Comandante dos Crentes, não tenho nenhuma doença. Contudo, eu estava presente quando Khubaib foi morto e ouvi sua maldição. Sempre que me lembro dela enquanto estou numa reunião, perco a consciência.” Mais tarde, ele se recuperou junto de Umar.

Abdullah ibn Abbas disse: quando o grupo de Asim e Mursid foi atacado em Raji‘, os hipócritas, ao ouvirem a notícia, comentaram: “Que desgraça para esses enganados, que morreram de maneira tão lamentável! Não ficaram em casa, nem conseguiram transmitir o chamado de seu profeta.” Em resposta a essas palavras dos hipócritas, Allah revelou um versículo.

[Árabe *********]

Há pessoas cuja fala, na vida terrena, te causa admiração (isto é, pronunciam com a boca belas palavras sobre o Islam) e que tomam Allah como testemunha do que há em seus corações (embora o estado de seus corações seja completamente contrário às suas palavras), mas são inimigos ferrenhos da justiça e da verdade. (Isto é, quando discutem contigo, envolvem-se numa controvérsia intensa.) E, quando obtêm autoridade, espalham a desordem na terra e empenham-se em destruir as plantações e a humanidade. Allah não aprecia suas ações destrutivas. Quando lhes é dito que temam Allah, seu orgulho os leva a persistir no pecado. O Inferno é suficiente para pessoas desse tipo; e que péssimo lugar é esse! E há também aqueles que sacrificam a si mesmos em busca da satisfação de Allah (empenhando-se no jihad pelo caminho de Allah e cumprindo os direitos que Lhe são devidos). Na verdade, Allah é muito compassivo para com Seus servos.” As últimas palavras referem-se precisamente aos muçulmanos que partiram na expedição a Raji‘.

A respeito desse acontecimento, os historiadores citaram um poema de Khubaib. Quando Khubaib soube que havia sido tomada a decisão de crucificá-lo, recitou este poema:

“As facções reuniram todas as suas tribos ao meu redor

e manifestaram contra mim toda a hostilidade de que foram capazes,

pois, embora minha própria vida estivesse em risco, permaneci firme em meu ideal.

Reuniram todas as suas mulheres e filhos,

e fui aproximado de um tronco longo e resistente

(para ser crucificado)

Somente a Allah apresento a minha vida no exílio e o clamor da minha angústia.

E também os preparativos que os grupos inimigos fizeram para me matar.”

Portanto, ó Senhor do Trono, concedei-me paciência para suportar a trama urdida contra mim,

concedei-me força para suportá-la.

Os inimigos venderam a minha carne,

e, com isso, apagou-se a lâmpada da esperança da minha vida.

Contudo, essa morte iminente é unicamente pela causa de Deus,

e, se Ele quiser, poderá conceder bênçãos infinitas até mesmo aos meus membros despedaçados

e concedê-las,

Eles me ofereceram, em vez de um único Deus, a morte e a incredulidade

tinha-lhe dito que aceitasse uma delas.

Meus olhos rejeitaram ambas, e meu coração

não teme de modo algum (o medo da morte)

Não me importo nem um pouco com a morte, pois certamente terei de morrer.

Só desejo escapar do fogo devorador do Inferno.

Juro por Allah que não temerei absolutamente nada quando morrer muçulmano; e, sendo morto pela causa de Allah, não importa sobre que lado eu caia.

Não mostrarei a menor flexibilidade diante do inimigo,

nem demonstrarei qualquer inquietação. Pois é para Allah que é meu retorno.”

Lamentando Khubayb, Hassã ibn Thabit compôs e recitou o seguinte poema,

“O que aconteceu aos teus olhos, para que as lágrimas não parem de correr (dirigindo-se a si mesmo)

escorrendo continuamente sobre o peito, como pérolas

por causa da dor por Khubayb — um daqueles jovens que soube

que, quando te encontrares com Ele (Allah), não haverá fracasso nem

inquietação.

Portanto, ó Khubayb, parte! Que Allah te conceda a melhor recompensa.

O que respondereis se o Profeta vos perguntar (ó coraixitas)

Quando os anjos virtuosos estiverem reunidos no horizonte,

Em troca de quê matastes a testemunha de Allah?

Em troca de um homem rebelde contra Deus, oportunista e causador de desordem por onde passava?

(É digno de nota que Khubaib (que Allah esteja satisfeito com ele) matou al-Harith na Batalha de Badr.)

O incidente de Bi’r Ma‘una (4º ano da Hégira)

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu em Medina durante o restante do mês de Shawwal, Dhu al-Qi‘dah, Dhu al-Hijjah e Muharram. Os politeístas haviam boicotado a peregrinação daquele ano. No mês de Safar, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou os expedicionários a Bi’r Ma‘una. Esse acontecimento ocorreu apenas quatro meses depois da Batalha de Uhud.

O contexto do acontecimento foi o seguinte: Abu Bara Amir ibn Malik ibn Ja‘far, conhecido pelo epíteto de ‘Mulayib al-Asinnah’ (perito no jogo de lanças), veio a Medina para encontrar-se com o Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apresentou-lhe o Islã e convidou-o a aceitá-lo. Ele não aceitou o Islã, mas também não disse nada contra o Islã. Disse: “Ó Muhammad, se enviares alguns Companheiros aos habitantes de Najd, para que os convidem à tua religião, penso que eles aceitarão a tua religião.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Temo que os habitantes de Najd lhes façam mal.” Abu Bara disse: “Eu sou o garante da segurança deles. Envia-os; que convidem o povo para a tua religião.”

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou quarenta Companheiros capazes e escolhidos dentre os muçulmanos, sob a liderança do ilustre Companheiro Mundhir ibn Amr, da tribo de Banu Sa‘ida. Mundhir era conhecido pelo epíteto de ‘Mu‘annaq li-Yamut’ [a razão desse epíteto era que ele avançava rapidamente em direção ao martírio] (aquele que abraça a morte rápida). Entre seus distintos companheiros estavam os ilustres Companheiros al-Harith ibn al-Simmah, Haram ibn Milhan, ‘Urwah ibn Asma’, Nafi‘ ibn Budayl ibn Warqa’ e ‘Amir ibn Fuhayrah, liberto de Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele). Eles partiram e chegaram a Bi’r Ma‘una, onde se estabeleceram. Esse poço situava-se entre a terra habitada pelos Banu ‘Amir e a região pedregosa dos Banu Sulaym. Embora ambas as regiões fossem próximas do poço, a região dos Banu Sulaym era ainda mais próxima.

Harām ibn Milhān (que Allah esteja satisfeito com ele) levou uma carta do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — a ʿĀmir ibn al-Tufayl, um inimigo ferrenho do Islã. Quando se apresentou diante dele, este não deu a mínima atenção à carta e matou Harām ibn Milhān. Em seguida, pediu a ajuda dos Banu ʿĀmir para exterminar os demais Companheiros. Porém, os Banu ʿĀmir rejeitaram seu pedido, dizendo: “Não queremos quebrar a promessa feita aos Banu Barāʾ. Abū Barāʾ lhes deu sua garantia de segurança.” Então, sem alternativa, ʿĀmir pediu a ajuda de algumas subtribos de Sulaym. Elas concordaram imediatamente e cercaram os Companheiros por todos os lados. Ao vê-los, os Companheiros pegaram suas espadas e lutaram até serem martirizados. Somente Kaʿb ibn Zayd escapou. Os incrédulos o deixaram caído, julgando-o morto, embora ainda estivesse vivo. Apesar de enfraquecido pela grande perda de sangue, conseguiu escapar com vida, de algum modo, de entre os corpos amontoados dos mortos; mais tarde, foi martirizado na batalha da Trincheira.

No momento do ataque, dois Companheiros, ʿAmr ibn Umayya al-Damrī e um certo Companheiro ansari — Munḏir ibn Muḥammad ibn ʿUqba — encontravam-se, por alguma razão, a certa distância do grupo. Eles não sabiam do perigo que havia atingido seus companheiros. Porém, ao verem algumas aves voando sobre suas cabeças, ficaram desconfiados. Pensaram que certamente havia algum mistério por trás do voo daquelas aves. Aproximaram-se para verificar o que havia acontecido. Viram que todos estavam caídos, cobertos de sangue, e também viram o grupo que os havia atacado. O ansari perguntou a ʿAmr ibn Umayya: “O que você acha que devemos fazer agora?” Ele respondeu: “Pretendo ir ao encontro do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e informá-lo de tudo.” O ansari disse: “Não quero fugir com vida do campo de batalha onde Munḏir ibn ʿAmr foi martirizado. Eu jamais ficaria esperando ouvir de outras pessoas a notícia de um massacre.” Então, lutou até ser martirizado.

Os incrédulos capturaram e prenderam ʿAmr ibn Umayya. Ao saber que ele pertencia à tribo de Muḍar, ʿĀmir ibn al-Tufayl cortou-lhe os cabelos da testa e, lembrando-se de que havia feito um voto de libertar uma escrava de sua mãe, libertou-o em cumprimento desse voto. Depois disso, ʿAmr ibn Umayya partiu em direção a Medina. Quando chegou a Qarqara, situada não muito longe de Medina, dois homens dos Banu ʿĀmir chegaram e começaram a descansar com ele à sombra do mesmo lugar. ʿAmr não sabia que os Banu ʿĀmir tinham um pacto de segurança e não agressão com o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Perguntou-lhes e descobriu que pertenciam à tribo dos Banu ʿĀmir. Esperou um pouco. Assim que eles adormeceram, atacou-os e matou ambos. Ele pensava que os Banu ʿĀmir haviam massacrado os Companheiros do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e que, por isso, era necessário vingar-se dos Banu ʿĀmir.

Ao chegar à presença do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, ʿAmr ibn Umayya relatou-lhe todo o ocorrido. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Devo pagar o preço de sangue pelos dois homens que você matou.” Em seguida, disse: “Abū Barāʾ foi a causa desse acontecimento. Eu o desaprovei e temi por isso.” Ao tomar conhecimento do ocorrido, Abū Barāʾ ficou profundamente triste. Ele expressou sua indignação porque ʿĀmir ibn al-Tufayl fizera com que a promessa fosse quebrada e, ao dar sua garantia de segurança, trouxera desgraça sobre os Companheiros do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Entre os mortos estava também ʿĀmir ibn Fuhayra. Hišām ibn ʿUrwa narrou, por intermédio de seu pai, que ʿĀmir ibn al-Tufayl costumava dizer: “Havia entre aquele grupo um homem que, logo depois de ser morto, vi entre o céu e a terra. Por fim, vi como se ele tivesse subido ao céu e desaparecido. Quem era aquele homem?” As pessoas responderam: “Era ʿĀmir ibn Fuhayra.”

A expulsão dos Banu Naḍīr (quarto ano da Hégira)

O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — foi aos Banu Naḍīr para pedir ajuda na obtenção do preço de sangue pelos dois homens dos Banu ʿĀmir mortos pelo Companheiro ʿAmr ibn Umayya (que Allah esteja satisfeito com ele). Isso porque o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — tinha com eles um pacto de não agressão. Os Banu Naḍīr também tinham um pacto semelhante com os Banu ʿĀmir. Quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — chegou aos Banu Naḍīr, eles o receberam cordialmente e concordaram em ajudá-lo com o pagamento do preço de sangue.

Mas, pouco depois, conceberam uma conspiração perversa. Começaram a consultar-se secretamente sobre como assassinar o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Pensaram que jamais teriam outra oportunidade tão perfeita. Naquele momento, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — estava sentado ao lado de um muro. Abu Bakr, ʿUmar e ʿAlī — que Allah esteja satisfeito com todos eles — estavam com ele. Os Banu Naḍīr consultaram-se entre si e disseram: “Quem subirá ao telhado da casa vizinha, fará rolar uma grande pedra sobre Muḥammad e nos livrará dele?” Um homem dos Banu Naḍīr, ʿAmr ibn Jāḥiš ibn Kaʿb, subiu ao telhado para realizar essa tarefa.

Exatamente nesse momento, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — soube, por meio da revelação, da conspiração deles. Então, levantou-se do lugar onde estava sentado e voltou para Medina. Seus Companheiros que o acompanhavam ainda não haviam percebido para onde o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — tinha ido. Depois de esperarem por bastante tempo e verem que ele não retornava, saíram à sua procura. No caminho, encontraram um homem que vinha de Medina. Perguntaram-lhe pelo Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele respondeu: “Vi o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — entrando em Medina.” Os Companheiros chegaram imediatamente à presença do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele lhes ordenou que se preparassem para atacar os Banu Naḍīr. Em seguida, marchou com os muçulmanos contra os Banu Naḍīr. Eles se refugiaram em suas fortalezas. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ordenou aos Companheiros que cortassem as tamareiras e as queimassem. Ao verem isso, os Banu Naḍīr começaram a gritar de longe: “Muḥammad, você proibia a disseminação da corrupção e censurava quem a praticava; então, por que agora está cortando e queimando as tamareiras?”

Nesse período, alguns homens da tribo Banu Awf ibn Khazraj — entre eles, Abdullah ibn Ubayy Sulul, seu protetor de confiança Malik ibn Abu Kawfal, Suwayd e Dayim, pertencentes aos Banu Nadir — enviaram-lhes uma mensagem dizendo: “Não tenham medo nem se rendam. De modo algum permitiremos que vocês sejam derrotados pelos muçulmanos. Se eles lutarem contra vocês, nós também iremos com vocês.” Os Banu Nadir, aguardando a ajuda deles, não se renderam nem enfrentaram os muçulmanos. Porém, no fim, nenhuma ajuda chegou. Allah lançou o medo em seus corações. Então eles pediram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Não derrame sangue. Em vez disso, expulse-nos; deixaremos todas as nossas armas. Permita-nos levar tantos bens móveis quanto os camelos de cada um puderem carregar.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, atendeu ao pedido deles. Procedeu-se conforme a proposta dos Banu Nadir. Eles levaram os bens móveis que podiam ser transportados nas costas dos camelos. Nessa ocasião, alguns chegaram a arrancar a parte superior das portas de suas casas e levá-la sobre os camelos. Alguns foram para Khaybar e outros para a Síria. Entre os líderes daqueles que foram para Khaybar estavam Salam ibn Abu al-Huqayq, Kinana ibn Rabi ibn Abu al-Huqayq e Huyayy ibn Akhtab. Os habitantes de Khaybar lhes deram total apoio.

Abdullah, filho de Abu Bakr, disse: “Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) informou que os Banu Nadir levaram consigo suas mulheres, filhos e bens móveis. Levaram também seus instrumentos musicais. As escravas iam atrás deles, tocando música. Entre elas estava Umm Amr, esposa de Urwa ibn al-Ward al-Abasi. Eles haviam comprado de seu marido uma mulher chamada Salma. [65. Essa mulher havia se casado primeiro com um homem da tribo Muzayna. Certa vez, Urwa ibn al-Ward atacou-os e saqueou-os. Nessa ocasião, levou aquela mulher cativa. Urwa costumava visitar frequentemente os Banu Nadir e tomar empréstimos deles. Às vezes, também os pressionava a comprar os bens que havia saqueado. Mas eles se recusavam a comprá-los. Então deram vinho a Urwa e, astutamente, compraram dele a mulher. Para essa compra e venda, também obtiveram as testemunhas necessárias. Mais tarde, arrependido, Urwa recitava a respeito os seguintes versos: “Os inimigos de Allah embriagaram-me e subjugaram-me por meio de mentiras e intrigas. Que infortúnio! Como pude concordar com uma proposta que minha consciência desaprovava?”] Eles partiam com tamanha pompa e orgulho que, naquela época, nenhuma outra tribo era vista fazendo algo semelhante.”

Eles deixaram todos os bens restantes para o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Todos esses bens passaram a pertencer ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e ele podia utilizá-los como quisesse. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, distribuiu esses bens somente entre os Companheiros que haviam feito a primeira Hégira. Quando os Ansar Sahl ibn Hunayf e Abu Dujana Simak ibn Kharasha informaram-no de sua pobreza, ele também lhes deu uma parte. A surata Al-Hashr foi revelada integralmente a propósito dos Banu Nadir. Nela encontra-se o relato da terrível vingança que Allah tomou contra os Banu Nadir e das severas medidas que fez Seu Mensageiro adotar contra eles, enviando tropas para combatê-los. Allah diz: “Ele é Quem expulsou de suas casas, ao primeiro ataque, aqueles dentre o Povo do Livro que eram incrédulos. Vocês não imaginavam que eles sairiam, e eles pensavam que suas fortalezas os protegeriam de Allah. Mas Allah os alcançou de onde não esperavam e lançou o terror em seus corações. Assim, destruíram suas casas com as próprias mãos e também com as mãos dos crentes. (Isso porque eles mesmos haviam arrancado e levado a parte superior das portas de suas casas.)”

Portanto, ó pessoas dotadas de entendimento, tirai uma lição. Se Allah não tivesse decretado para eles o exílio — que também foi uma vingança de Allah contra eles —, tê-los-ia castigado neste mundo pela espada; além disso, no Além, terão o castigo do Inferno, além do exílio. As palmeiras frescas que vocês cortaram ou deixaram de pé sobre suas raízes: ambas as ações foram permitidas por Allah e destinavam-se apenas a humilhar os desobedientes. E tudo o que Allah restituiu ao domínio de Seu Mensageiro dos bens deles, dos Banu Nadir, não foi algo que vocês conquistaram fazendo seus camelos e cavalos correrem; mas Allah concede a Seus Mensageiros poder sobre quem quer. E o que Allah restituiu a Seu Mensageiro, dos bens dos habitantes das cidades — isto é, aquilo que foi tomado por meio de combate e do uso da força, com camelos e cavalos — pertence a Allah, a Seu Mensageiro, aos parentes, aos órfãos, aos necessitados e aos viajantes, para que a riqueza não circule apenas entre os ricos de vocês. E aceitai o que o Mensageiro vos der e abstende-vos daquilo que ele vos proibir.”

Aqui, Allah, o Altíssimo, explica a norma para a distribuição entre os muçulmanos dos bens obtidos por meio da guerra.

Depois, Allah diz:

“Não viste a condição dos hipócritas? Eles dizem a seus irmãos do Povo do Livro que persistem em sua incredulidade — isto é, aos Banu Nadir: ‘Se vocês forem expulsos, nós sairemos com vocês. Jamais ouviremos ninguém a respeito de seus interesses; e, se lhes for declarada guerra, certamente os ajudaremos.’ Allah testemunha que eles são mentirosos. Se forem expulsos, esses hipócritas jamais sairão com eles; se forem combatidos, jamais os ajudarão; e, mesmo que os ajudem, fugirão do campo de batalha antes do fim. Depois, nenhuma ajuda lhes chegará de parte alguma. O medo que vocês lhes inspiram é maior em seus corações do que o medo de Allah, pois são um povo que não compreende. Eles jamais lutarão contra vocês unidos, exceto em cidades fortificadas ou de trás de muralhas. A hostilidade entre eles é intensa. Vocês os julgam unidos, mas seus corações estão divididos, porque são um povo sem entendimento. São semelhantes àqueles que, pouco antes deles, provaram as más consequências de sua conduta; e, para eles, haverá um castigo doloroso. São como Satanás, que diz ao ser humano: ‘Descrê!’ Mas, quando ele descrê, diz: ‘Não tenho nada a ver contigo. Eu temo Allah, o Senhor dos mundos.’ O destino de ambos será o Fogo, onde permanecerão eternamente; esse é o resultado das ações dos injustos.”

A expedição de Dhat al-Riqa (4º ano da Hégira)

Após o incidente de Banu Nadir, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passou em Medina todo o mês de Rabi al-Awwal e parte de Jumada al-Awwal. Em seguida, empreendeu uma expedição contra Banu Tha’laba, um subclã de Banu Muharib, de Ghatafan, em Najd. Deixou Abu Dharr al-Ghifari encarregado de Medina. Ao chegar a Nakhl, uma região de Najd habitada pela tribo de Ghatafan, estabeleceu seu acampamento. Essa foi a expedição de Dhat al-Riqa [66. Riqa significa pedaços de tecido usados para remendar. A razão desse nome é que, nessa expedição, foram usadas bandeiras remendadas. Alguns dizem que o nome surgiu porque, como o terreno era extremamente pedregoso, os soldados foram obrigados a amarrar pedaços de tecido aos pés. Outros dizem que Dhat al-Riqa era o nome de uma árvore ou do local do acontecimento.]. Ali, ele se deparou com uma grande concentração da tribo de Ghatafan. Os dois lados se aproximaram, mas não houve batalha. Ainda assim, ambos permaneceram apavorados um com o outro. Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu com seus companheiros.

Jabir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Eu parti de Nakhl com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, montado em um camelo fraco. Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, iniciou a marcha com todos os seus homens, os demais companheiros começaram a avançar rapidamente, enquanto eu ficava para trás. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, veio até mim e perguntou: “Ó Jabir, como você está?” Eu respondi: “Ó Mensageiro de Allah, estou ficando para trás.” Ele disse: “Pare o camelo.” Eu parei o camelo, e o Mensageiro de Allah também parou o seu. Então ele disse: “Dê-me o bastão que está em sua mão, ou corte um galho de alguma árvore e faça um bastão para mim.” Entreguei o bastão ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele cutucou meu camelo várias vezes com aquele bastão. Depois me disse: “Monte.” Eu montei, e então meu camelo começou a andar tão depressa que passou a deixar para trás até o camelo do Mensageiro de Allah.

Durante a conversa, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-me: “Jabir, você me venderia seu camelo?” Eu respondi: “Ó Mensageiro de Allah, eu o darei a você gratuitamente.” Ele disse: “Não, venda-o.” Eu perguntei: “Quanto você dará por ele?” Ele respondeu: “Um dirham.” Eu disse: “Então terei prejuízo.” Ele perguntou: “E se eu der dois dirhams?” Eu respondi: “Não.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, continuou aumentando o preço até chegar a uma uqiyya (uma onça). Então eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, você está satisfeito com esse preço?” Ele respondeu: “Sim.” Eu disse: “Então eu o entrego a você.” Ele disse: “Eu o aceito.” Em seguida, perguntou: “Jabir, você se casou?” Eu respondi: “Sim.” Ele perguntou: “Com uma virgem ou com uma mulher previamente casada?” Eu respondi: “Com uma mulher previamente casada.” Ele disse: “Por que você não se casou com uma jovem? Ela brincaria com você, e você também poderia brincar com ela.” Eu respondi: “Ó Mensageiro de Allah, meu pai foi martirizado na batalha de Uhud, deixando sete filhas. Por isso me casei com uma mulher mais velha, que pudesse cuidar delas e criá-las.” Ele disse: “Você fez bem, se Allah quiser.” Em seguida, disse: “Quando chegarmos a Sirar, mandarei abater um camelo, e ele será abatido. Depois passaremos ali um dia como hóspedes de sua esposa. Falarei a ela sobre o Islã, e ela nos honrará, preparando almofadas e uma cama.” Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, nós não temos almofadas.” Ele respondeu: “Certamente haverá almofadas. Quando chegar lá, aja com inteligência.”

Depois de chegarmos a Sirar [Sirar é um lugar situado a três milhas de Medina.], o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que um camelo fosse abatido. Ele foi imediatamente abatido. Passamos um dia comendo a carne daquele camelo. Ao anoitecer, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, entrou em casa, e nós também entramos. Contei à minha esposa todos os acontecimentos e tudo o que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, me havia dito. Depois de ouvir, ela disse: “Ouça a minha decisão: nós ouviremos e obedeceremos a tudo o que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disser.”

De manhã, levei o camelo, puxando-o pela cabeça, até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e amarrei-o diante da porta do aposento onde ele se hospedava. Depois fui sentar-me ao lado do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, na mesquita. Ao sair da mesquita, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, viu o camelo e perguntou: “O que é isso?” As pessoas presentes responderam: “Ó Mensageiro de Allah, Jabir trouxe este camelo.” Ele perguntou: “Onde está Jabir?” Todos me chamaram e me levaram até ele. Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Jabir, leve este camelo. Ele é o seu camelo.” Em seguida, chamou Bilal e disse: “Leve Jabir e dê-lhe uma uqiyya pelo preço deste camelo.” Fui com Bilal, e ele me deu um pouco mais de uma uqiyya. Por Allah, aquele camelo continuou a contribuir para a minha prosperidade, e sua importância e seu valor eram reconhecidos em minha casa. O que lhe aconteceu no caminho de volta do campo de batalha pedregoso de Najd para casa foi a última manifestação dessa importância e desse valor. O que lhe aconteceu no caminho de volta do campo de batalha pedregoso de Najd para casa foi a última manifestação dessa importância e desse valor.

Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) também disse: Ao término da expedição de Dhat al-Riqa, partimos de Nakhl com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Nessa ocasião, um muçulmano tratou mal a esposa de certo politeísta. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu do campo de batalha com todos os seus homens. O marido dela voltou para casa; até então, ele estava ausente. Quando soube que sua esposa havia sido maltratada, jurou e prometeu que não descansaria enquanto não matasse pelo menos um dos companheiros de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele começou a seguir os rastros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a um lugar e interrompeu a marcha. Então disse: “Quem está disposto a permanecer acordado esta noite inteira para nos vigiar?” Um Muhajir e um Ansari se ofereceram. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, designou-os para vigiar a entrada de uma caverna na montanha. Os dois companheiros dividiram a noite entre si, de modo que o Ansari ficaria de guarda na primeira parte da noite e o Muhajir na última. Assim, o Muhajir dormiu durante a primeira parte da noite, enquanto o Ansari começou a rezar em pé.

O assassino politeísta chegou ali no meio da noite. Ao ver o ansari realizando a oração, compreendeu que ele era o vigia dos muçulmanos. Imediatamente, disparou uma flecha contra ele, atravessando-lhe o corpo. Depois, retirou a flecha do corpo e guardou-a consigo. Apesar disso, ele permaneceu firme e continuou a oração. Em seguida, o assassino disparou outra flecha, que também atravessou seu corpo. Depois, retirou-a igualmente do corpo e guardou-a consigo. Apesar disso, ele permaneceu firme na oração. Então, o assassino disparou uma terceira flecha. Essa flecha também atravessou o corpo daquele companheiro. O assassino retirou-a e guardou-a consigo. Só então ele concluiu a oração, fazendo o rukūʿ e o sujūd, e despertou seu companheiro. Disse-lhe: “Levanta-te e senta-te. O assassino feriu-me e deixou-me incapacitado.” Imediatamente, o muhājir levantou-se de um salto. Ao ver os dois, o assassino compreendeu que eles haviam percebido sua presença e estavam alertas. Por isso, fugiu.

Ao ver o corpo ensanguentado do ansari, o companheiro muhājir disse: “Subḥānallāh! Por que não me despertaste ao receber o primeiro golpe da flecha?” O companheiro ansari respondeu: “Eu estava recitando uma surata durante a oração. Não queria interromper a oração antes de concluir a surata. Porém, como o inimigo continuou disparando flechas, fiz o rukūʿ e o sujūd e então te chamei. Juro por Allah que, se não temesse falhar na responsabilidade que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, me confiara, não teria interrompido a oração até ser morto.”

Ibn Isḥāq disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornou a Medina após a expedição de Dhāt al-Riqāʿ e permaneceu ali até o fim de Rajab.

A Segunda Expedição de Badr (4.º ano da Hégira)

Como se aproximava o momento marcado por Abū Sufyān para o desafio, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu novamente para a expedição de Badr no mês de Shaʿbān[67. Observe-se que, nessa ocasião, ele deixou a administração de Medina nas mãos do companheiro ansari ʿAbdullāh ibn Ubayy ibn ʿAbdullāh ibn Sulūl.] e estabeleceu ali seu acampamento. Permaneceu ali durante oito noites, aguardando Abū Sufyān. Enquanto isso, Abū Sufyān partiu com os habitantes de Meca e fez uma parada em Majinnah. Chegou ali passando por Ẓahrān. Depois, decidiu retornar a Meca.

Ele disse: “Ó coraixitas, para vós só é apropriado lutar nos anos de boas colheitas, quando puderdes cuidar de vossas plantações e beber leite. Mas este é um ano de esterilidade. Decidi voltar. Voltai também.” Diante de suas palavras, as pessoas retornaram. Os habitantes de Meca chamaram-nos de “exército dos comedores de saṭū”. Diziam: “Vós só fostes lutar para comer saṭū.”

Enquanto isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu no campo de Badr, contando as horas enquanto aguardava o prazo marcado por Abū Sufyān. Nesse momento, Makhshā ibn ʿAmr al-Ḍamrī foi até ele. Durante a expedição de Waddān, esse homem havia firmado um tratado com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em nome da tribo Banū Ḍamrah. Ele disse: “Ó Muḥammad, vieste até este reservatório para enfrentar os coraixitas?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “É exatamente isso, ó irmão dos Banū Ḍamrah! Mesmo vendo esta situação, se desejardes, estamos preparados para romper o tratado que temos convosco e combater. Se quiserdes que Allah determine o destino de vós e de nós por meio da guerra, não temos objeção.” Ele disse: “Não, ó Muḥammad, por Allah, não temos necessidade disso.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, continuou aguardando Abū Sufyān. Nesse momento, Maʿbad ibn Abī Maʿbad al-Khuzāʿī passava por perto. Ao ver o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ali presente, partiu rapidamente, conduzindo seu camelo, enquanto recitava os versos seguintes.

“(Minha camela) sente aversão pela proximidade de Muhammad e das tâmaras de Medina, semelhantes a passas negras. Ela corre, seguindo os antigos costumes de seu pai. Hoje, ela deve chegar ao reservatório de Kudayd e, amanhã, antes da tarde, ao reservatório de Dajnan. [Kudayd é o nome de um lugar próximo de Meca.]

O companheiro Abdullah ibn Rawahah recitou os seguintes versos, referindo-se à ausência de Abu Sufyan:

“Havíamos prometido enfrentar Abu Sufyan no campo de Badr. Mas não encontramos veracidade em sua promessa, e ele não é alguém que cumpre promessas. Juro que, se tivesses cumprido a promessa, ó Abu Sufyan, e nos tivesses enfrentado, terias sido obrigado a retornar humilhado e censurado, e terias perdido também os teus aliados. Foi neste mesmo campo de Badr que deixamos os membros de Utbah e de seu filho. Também deixamos aqui o cadáver de Abu Jahl. Desobedecestes ao Mensageiro de Allah! Malditos sejam a vossa religião e as vossas ações torpes e desviadas! Por mais que me repreendais, ainda assim direi: por causa do Mensageiro de Allah, minha riqueza e minha família estão todos sacrificados. Somos obedientes a ele. Não fazemos promessa a ninguém além dele. Ele é, para nós, a estrela polar que guia na noite escura.”

Expedição de Dumat al-Jandal (5º ano da Hégira: Rabi al-Awwal)

Após a segunda expedição de Badr, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, retornou a Medina e permaneceu ali durante um mês, isto é, até o fim do mês de Dhu al-Hijjah. Os politeístas não realizaram o Hajj naquele ano. Esse foi o quarto ano após a chegada do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a Medina. Em seguida, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizou uma expedição militar a Dumat al-Jandal. Ali não houve qualquer confronto; na verdade, ele nem sequer precisou chegar àquele lugar. Retornou a Medina e passou ali o restante do ano.

A Batalha da Trincheira (5º ano da Hégira, Shawwal)

A Batalha da Trincheira ocorreu no mês de Shawwal do quinto ano da Hégira. O contexto dessa batalha foi o seguinte: uma delegação conjunta dos judeus de Banu Nadir e Banu Wa’il foi a Meca e convidou os coraixitas a atacarem Medina e exterminarem o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, assegurando-lhes plena cooperação nessa tarefa. Entre os membros destacados dessa delegação estavam Salam ibn Abu al-Huqayq, Huyayy ibn Akhtab e Kinana ibn Abu al-Huqayq, da tribo de Banu Nadir, e Hawa ibn Qays e Abu Ammar, da tribo de Wa’il. Eles incitaram numerosas tribos árabes a se unirem e lançarem um ataque contra o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Os coraixitas disseram-lhes: “Ó judeus, sois os detentores do primeiro Livro. Conheceis muito bem a questão pela qual divergimos de Muhammad; dizei-nos vós mesmos: a nossa religião é melhor ou a religião de Muhammad?” Eles responderam: “A vossa religião é superior à religião de Muhammad, e vós sois os portadores do estandarte da verdade!”

Foi a respeito deles que o Altíssimo Allah revelou estes versículos da surata An-Nisa:

“Não viste aqueles a quem foi concedido o Livro, que creem nos ídolos e nas forças rebeldes contra Deus e dizem que os incrédulos estão mais bem guiados do que os crentes? São esses que estão sob a maldição de Deus; e aquele a quem Deus amaldiçoa jamais encontrará um ajudador. Acaso têm eles alguma participação no reino de Deus, de modo que não dariam às pessoas nem mesmo a menor coisa? Ou invejam as pessoas por causa da graça que Deus lhes concedeu, isto é, a profecia? Na verdade, concedemos à família de Abraão o Livro e a sabedoria, e demos-lhes um grandioso reino. Alguns deles creram nele, enquanto outros impediram as pessoas de aceitá-lo. O Inferno lhes será suficiente como fogo abrasador.”

Quando os judeus disseram tais coisas aos coraixitas, sua alegria pareceu não ter limites. Além disso, quando os convidaram a atacar o Mensageiro de Deus, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, eles concordaram e se comprometeram. Depois, aqueles judeus foram até a tribo de Ghatafã e convidaram-nos a lutar contra o Mensageiro de Deus, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Prometeram participar da luta ao lado deles e informaram-lhes que os coraixitas também haviam concordado com eles e estavam prontos para lançar o ataque.

No momento determinado, o exército coraixita, sob o comando de Abu Sufyan, saiu em campanha, equipado para a guerra. Ghatafã também partiu, levando consigo Banu Fazara e seu comandante, Uyayna ibn Hisn. Al-Harith ibn Awf ibn Abu Haritha partiu com Banu Murra, e Mis’ar ibn Ruzayra, comandante de Ashja’ah, partiu com sua tribo.

Ao tomar conhecimento desses preparativos de guerra, o Mensageiro de Deus, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou imediatamente a escavação de uma trincheira ao redor de Medina. Para incentivar os muçulmanos a participarem amplamente desse trabalho, na esperança de obter recompensa, ele próprio escavou a trincheira com as mãos. Os muçulmanos juntaram-se em grande número a ele nesse trabalho. Ele e seus Companheiros continuaram trabalhando incansavelmente. Apenas alguns hipócritas se mantinham afastados do Mensageiro de Deus, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e dos muçulmanos. Valendo-se de vários pretextos e artifícios, negligenciavam o trabalho e retiravam-se furtivamente para suas casas, sem o conhecimento e sem a permissão do Mensageiro de Deus, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Já entre os muçulmanos, se alguém enfrentasse uma dificuldade grave e tivesse necessidade inevitável de ir até sua família, informava devidamente o Mensageiro de Deus, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e partia somente após obter sua permissão. O Mensageiro de Deus, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não hesitava em concedê-la. Assim que atendiam à necessidade, voltavam e retomavam o trabalho restante. Desse modo, demonstravam seu interesse e sinceridade nas boas ações. Sobre esses crentes, Allah, o Altíssimo, revelou os seguintes versículos da surata An-Nur:

“Os crentes são apenas aqueles que creem em Allah e em Seu Mensageiro e que, quando estão reunidos com o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em algum assunto importante, não se retiram sem sua permissão. Aqueles que te pedem permissão são, de fato, os que creem em Allah e em Seu Mensageiro. Ó Profeta, quando eles te pedirem permissão para tratar de algum assunto, concede-a a quem quiseres e pede perdão por eles. Certamente, Allah é Perdoador.”

Esses versículos foram revelados especificamente sobre os muçulmanos sinceros, interessados nas boas ações e obedientes a Allah e ao Seu Mensageiro.

Sobre os hipócritas que se retiravam furtivamente, sem pedir permissão ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o Deus Altíssimo também diz:

“Não considereis o chamado do Mensageiro dirigido a vós como considerais o chamado que fazeis uns aos outros. Allah conhece muito bem aqueles dentre vós que se retiram furtivamente, escondendo-se uns dos outros. Que aqueles que desobedecem à ordem do Mensageiro se acautelem, pois pode atingi-los, a qualquer momento, uma provação ou um castigo doloroso. Sabei que pertence a Allah tudo quanto há nos céus e na Terra. Ele sabe muito bem quem segue a verdade e quem segue a falsidade. E, no dia em que retornarem a Ele, informá-los-á sobre aquilo que fizeram. Na verdade, Allah é Onisciente.” (Surata An-Nur, versículo 64)

Nestes versículos, é descrita a situação dos hipócritas que, sem pedir permissão ao Mensageiro, afastavam-se secretamente das tarefas que ele lhes havia ordenado.

Assim que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concluiu a escavação da trincheira, os coraixitas chegaram com um total de dez mil guerreiros, reunindo membros da tribo de Kinana, habitantes de Tihama e homens de suas diversas tribos. Acamparam em Mujtama al-Asiyal, entre Juruf e Jugaba, num lugar chamado Ruma. Os membros da tribo de Gatafan também chegaram com seus aliados de Najd. Acamparam num lugar chamado Jamb Naqma, nas proximidades de Uhud. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, posicionou o exército muçulmano, composto por três mil soldados, deixando atrás deles a montanha chamada Sala. Entre ele e os inimigos ficou a trincheira. Ele providenciou antecipadamente que as crianças e as mulheres fossem alojadas dentro das fortalezas.

Huyayy ibn Akhtab, da tribo de Banu Nadir, inimiga de Allah, foi até Ka’b ibn Asad, de Banu Qurayza. Ka’b ibn Asad havia organizado o pacto de reconciliação e não agressão entre Banu Qurayza e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Em nome de Banu Qurayza, ele havia dado ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, uma promessa de paz e celebrado o acordo. Sentado no interior, Ka’b percebeu a chegada de Huyayy e fechou a porta da fortaleza diante dele. Quando Huyayy pediu que abrisse a porta, ele se recusou. Huyayy voltou a pedir-lhe que abrisse, e Ka’b disse: “Ai de ti, Huyayy! És um homem agourento. Estou comprometido por um pacto com Muhammad e não o quebrarei. No comportamento de Muhammad, só encontrei profundo respeito e lealdade à promessa.”

Huyayy disse: “O que foi? Abre um pouco a porta. Quero conversar contigo.” Ka’b disse: “Não posso abrir a porta.” Huyayy disse: “Fechaste a porta porque pensaste que eu viria consumir a tua comida.” Diante dessas palavras, Ka’b ficou constrangido e abriu a porta. Então Huyayy disse: “Trouxe para ti a maior glória desta época e um mar de ondas impetuosas. Reuni todo o exército dos coraixitas, com seus líderes e chefes, e conduzi-os a Mujtama al-Asiyal, na região de Ruma. Além disso, reuni toda a tribo de Gatafan, com seus líderes e notáveis, e a coloquei em Jamb Naqma, nas proximidades de Uhud. Todos se comprometeram e firmaram um pacto comigo de que não cessarão até exterminar Muhammad e seus companheiros.” Ka’b disse: “Na verdade, preparaste para manchar meu rosto de vergonha. Estás reunindo nuvens que já despejaram a chuva e ficaram sem água. Agora só lhes resta trovejar e ribombar; nada têm para oferecer. Portanto, Huyayy, ai de ti! Não me atormentes. Deixa-me como estou. Muhammad nunca me tratou mal. Ele apenas demonstrou honestidade, justiça e fidelidade às promessas.” Apesar disso, Huyayy continuou a insistir com Ka’b. Pôs a mão sobre seu ombro e ficou sacudindo-o até que finalmente conseguiu convencê-lo e obter dele uma promessa. Disse que, se os coraixitas e Gatafan partissem sem matar Muhammad, permaneceria com Ka’b em sua fortaleza e ambos compartilhariam igualmente suas alegrias e tristezas. Assim, Ka’b rompeu a promessa e o pacto que havia firmado com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

Quando essa notícia chegou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aos muçulmanos, ele enviou Sa’d ibn Mu’adh ibn Nu’man, então líder da tribo de Aws, Sa’d ibn ‘Ubadah ibn Dulaym, líder de Khazraj, ‘Abdullah ibn Rawahah e Khawwat ibn Jubayr. Disse-lhes: “Ide verificar se a notícia que recebemos é verdadeira. Se for verdadeira, voltai e informai-me por meio de um sinal. Não anuncieis isso publicamente, para não quebrar o ânimo dos muçulmanos em geral. Mas, se eles permanecerem fiéis ao pacto, voltai e proclamai publicamente essa informação.”

Eles foram e descobriram que Ka’b, Huyayy e seus partidários nutriam contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, uma atitude ainda mais vil do que se havia sabido. Eles disseram: “Quem é afinal o Mensageiro de Allah? Não há pacto nem promessa alguma com Muhammad.” Ao ouvir isso, Sa’d ibn Mu’adh os repreendeu.

Em resposta, eles também o repreenderam. De fato, Sa’d ibn Mu’adh era um homem de temperamento um tanto exaltado. Sa’d ibn ‘Ubadah disse-lhe: “Deixe de repreendê-los. O pacto que existe entre nós e eles é muito mais importante do que a repreensão.” Em seguida, os dois líderes e seus dois companheiros voltaram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saudaram-no e disseram: “’Adal e Qarah.” Isto é, eles seguiram o mesmo caminho de traição que o povo de ‘Adal e Qarah havia seguido em relação ao companheiro Khubayb e seus companheiros, em al-Raji’. Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Allah é o Maior! Ó muçulmanos, recebei as boas-novas!”

Nesse momento, a calamidade que recaíra sobre os muçulmanos assumiu proporções terríveis. O medo intensificou-se entre eles. Pensamentos e preocupações começaram a tumultuar suas mentes por todos os lados. A hipocrisia dos hipócritas que integravam o grupo muçulmano também começou a se manifestar. Mu’attib ibn Qushayr chegou a dizer: “Muhammad nos prometeu que nos tornaríamos donos de todas as riquezas dos impérios da Pérsia e de Roma. No entanto, hoje nem sequer conseguimos ir ao banheiro em segurança.” Aws ibn Qayzi disse: “Ó Mensageiro de Allah, nossas casas, isto é, nossas famílias, ficaram desprotegidas. (Ou seja, recebemos ameaças de alguns homens de sua própria tribo.) Portanto, permita-nos voltar para nossas casas, pois elas ficam fora de Medina.” Em tais circunstâncias, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os politeístas permaneceram frente a frente por mais de vinte dias e menos de um mês. Entre os dois lados, não houve outro tipo de combate além do lançamento de flechas e do cerco.

O sofrimento dos muçulmanos tornou-se insuportável devido ao prolongamento do cerco. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou uma mensagem a dois líderes da tribo de Gatafã, Uaina ibn Hisn e Harith ibn Auf, dizendo que, se eles abandonassem o cerco e partissem com seus homens, deixando de combater o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e seus Companheiros — que Allah esteja satisfeito com eles —, ele lhes daria um terço de toda a produção agrícola de Medina. Com base nessa proposta, foi firmada uma trégua entre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os gatafanitas, e o documento da trégua foi redigido. Restavam apenas a assinatura e a ratificação final do acordo. Contudo, foram concluídas as negociações e dado o consentimento de ambas as partes quanto aos termos da transação. Antes de realizar o restante do procedimento, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mandou chamar Sa‘d ibn Mu‘adh e Sa‘d ibn ‘Ubadah — que Allah esteja satisfeito com eles. Quando chegaram, informou-os sobre o assunto e pediu seu conselho. Ambos disseram: “Ó Mensageiro de Allah, esta é uma proposta sua para o nosso benefício, ou Allah lhe ordenou que fizéssemos isso?” Ele respondeu: “É uma iniciativa minha, pois vejo que toda a Arábia se uniu para lançar contra vocês um ataque total e impôs-lhes, de todos os lados, um cerco intransponível. Por isso, quero destruir tanto quanto possível o poder deles.”

Sa‘d ibn Mu‘adh disse: “Ó Mensageiro de Allah, anteriormente nós e essas pessoas estávamos envolvidos no politeísmo e na idolatria. Naquela época, não conhecíamos Allah nem O adorávamos. Naquele tempo, eles não podiam comer sequer uma tâmara nossa, exceto por meio de hospitalidade ou de uma venda. Hoje, porém, depois que Allah nos honrou com a glória e a dignidade do Islã e nos guiou ao caminho da verdade, deveremos dar-lhes nossos bens? Juro por Allah, não precisamos de nada disso. Juro por Allah, não lhes daremos nada além de golpes de espada. Assim Allah determinará o destino deles e o nosso.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Muito bem; então aceito a tua opinião sobre este assunto.” Em seguida, Sa‘d ibn Mu‘adh tomou o documento do tratado e apagou todo o texto. Depois disse: “Que façam o que puderem.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os muçulmanos permaneceram dentro do cerco imposto pelo inimigo. Não houve batalha alguma. Entretanto, alguns cavaleiros coraixitas, entre eles ‘Amr ibn ‘Abd, ‘Ikrimah ibn Abu Jahl, Hubayrah ibn Abu Wahab e Dirar ibn al-Khattab, tomaram a iniciativa de começar o combate. Montados em seus cavalos, aproximaram-se de Banu Kinana e disseram: “Ó Banu Kinana, preparem-se para a batalha. Hoje verão quem é mais hábil na guerra.” Depois, lançaram seus cavalos a toda velocidade e pararam à margem do fosso. Ao verem o fosso, ficaram atônitos e disseram: “Juro por Allah, esta é uma estratégia de guerra que os árabes jamais haviam concebido.” [68. Ibn Hisham diz: Conta-se que Salman, o Persa, aconselhou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a adotar essa estratégia.]

Então, ao encontrarem o trecho mais estreito do fosso, atravessaram-no. Montados em seus cavalos, chegaram à posição dos muçulmanos entre o monte Sala e o fosso. ‘Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — avançou com alguns muçulmanos para enfrentá-los e bloqueou-lhes a passagem justamente no espaço aberto por onde os incrédulos haviam lançado seus cavalos. Os cavaleiros continuaram avançando em sua direção.

‘Amr ibn ‘Abd ficara tão debilitado pelos ferimentos sofridos na batalha de Badr que não pôde comparecer à batalha de Uhud. Para exibir sua posição, veio identificado por um sinal distintivo. Assim que chegou, bradou: “Quem lutará comigo?” ‘Ali avançou até ele. Disse: “Ó ‘Amr, havias feito um pacto com Allah de que, se algum homem dos coraixitas te convidasse a uma de duas coisas, aceitarias. É verdade?” Ele respondeu: “Sim!” ‘Ali disse: “Então, convido-te a Allah, a Seu Mensageiro e ao Islã.”

Ele respondeu: “Não tenho interesse nisso.” ‘Ali disse: “Então, convido-te a Allah, a Seu Mensageiro e ao Islã.”

Ele respondeu: “Não tenho interesse nisso.” ‘Ali disse: “Então, convido-te a lutar.” Ele respondeu: “Ora, sobrinho, não quero matar-te.” ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Mas eu quero matar-te.” Ao ouvir isso, ‘Amr ficou enfurecido. Saltou do cavalo, matou-o primeiro e golpeou-lhe o rosto. Depois avançou contra ‘Ali. Os dois travaram um combate feroz. Por fim, ‘Ali matou-o.

Depois disso, o seu grupo de cavaleiros foi derrotado e fugiu atravessando o fosso. Desesperado com a morte de ‘Amr, ‘Ikrimah, filho de Abu Jahl, abandonou a lança e fugiu. Ao ver isso, o poeta muçulmano Hassān ibn Thābit disse:

“Ele fugiu, deixando sua lança para nós.”

Ó Ikrimah, fingiste que não havias lutado.

Fugiste ofegante como um avestruz macho.

Parecia que tinhas sido separado do próprio caminho

e não recuaste nem um pouco com espírito conciliatório.

(Ao ver-te fugir,) parecia que só se via tuas costas.”

Na batalha da Trincheira e contra os Banu Qurayza, o grito de guerra dos companheiros do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era: “Hum, la yunsarun.” Ou seja, a derrota do inimigo era inevitável. Sob a pressão da força e do poderio dos inimigos, bem como de sua enorme superioridade numérica, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e seus companheiros tiveram de permanecer no campo de batalha em meio a intenso medo e terror.

Por fim, Nu’aym ibn Mas’ud veio e disse: “Ó Mensageiro de Allah, aceitei o Islã. Minha tribo não sabe disso. Agora, dê-me qualquer instrução de que necessite.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Entre nós, você é o único em quem o inimigo confia. Se puder, derrote os inimigos em nosso nome. A guerra nada mais é que estratégia.”

Na’im ibn Mas’ud foi até os Banu Qurayza. Na época da Jahiliyyah, ele havia sido um amigo íntimo deles. Disse-lhes: “Ó Banu Qurayza, certamente vocês sabem o quanto eu os amo. Em especial, não desconhecem a relação sincera que tenho com vocês.” Eles responderam: “Sim, isso é verdade. Nunca tivemos qualquer queixa contra você.” Então ele disse: “A situação dos coraixitas e dos Ghatafan é diferente da de vocês. Esta cidade é a cidade de vocês. Aqui estão suas esposas, seus filhos e seus bens. Vocês não podem transferi-los para outro lugar. Os coraixitas e os Ghatafan vieram lutar contra Muhammad e seus companheiros. Vocês estão ajudando-os e cooperando com eles. No entanto, suas terras, seus bens e suas famílias estão em outro lugar. Portanto, eles não se encontram na mesma situação que vocês. Se virem algum interesse aqui, certamente o buscarão; e, se não o encontrarem, voltarão para suas terras. Então vocês enfrentarão Muhammad sozinhos nesta cidade. Nessa situação, não conseguirão resistir a ele. Assim, se quiserem lutar contra os muçulmanos, primeiro tomem como reféns alguns líderes entre os coraixitas. Eles permanecerão sob seu poder como garantia. Então poderão ficar tranquilos. Não será correto que lutem contra Muhammad acompanhados deles.” Eles responderam: “Você deu o conselho correto.”

Depois, ele foi até os coraixitas e disse a Abu Sufyan e aos líderes coraixitas que o acompanhavam: “Certamente vocês sabem que sou seu grande benfeitor e um ferrenho adversário de Muhammad. Ouvi uma notícia, e é meu dever informá-los dela, em consideração ao bem de vocês. Não revelem isso a ninguém.”

Na’im disse: “Então ouçam. Os judeus se arrependeram de ter violado o pacto que haviam firmado com Muhammad e seus companheiros. Enviaram uma mensagem a Muhammad dizendo: ‘Estamos arrependidos pelo que fizemos. Agora, se capturarmos alguns líderes dos coraixitas e dos Ghatafan, entregando-os a você para que os mate, ficará satisfeito conosco? Depois, unir-nos-emos a você e exterminaremos todos os coraixitas e Ghatafan restantes.’ Muhammad aceitou.” Na’im disse ainda a Abu Sufyan: “Se os judeus quiserem manter alguns de seus homens como reféns, cuidado: não entreguem sequer um homem às mãos deles.”

Depois, Na’im foi até os Ghatafan e disse: “Ó Banu Ghatafan, vocês são meu próprio povo e meus parentes. Vocês são mais queridos para mim do que todos os demais. Creio que não têm nenhuma queixa contra mim.” Eles responderam: “Você disse a verdade. Não temos nenhuma queixa contra você.” Na’im disse: “Então não permitam que ninguém saiba da notícia que lhes darei.” Eles responderam: “Está bem. Guardaremos o segredo de suas palavras.” Na’im então repetiu aos Ghatafan exatamente o que havia dito aos coraixitas e proferiu também a mesma advertência sobre os reféns que havia feito aos coraixitas.

Este foi o acontecimento da noite anterior ao sábado do mês de Shawwal do quinto ano da Hégira. Allah mudou toda a situação em favor de Seu Mensageiro. Abu Sufyan ibn Harb e os líderes dos Ghatafan enviaram aos Banu Qurayza um grupo de coraixitas e Ghatafan sob a liderança de ‘Ikrimah ibn Abi Jahl. Eles foram até os Banu Qurayza e disseram: “Já não conseguimos permanecer aqui. Todos os nossos camelos e cavalos estão morrendo. Portanto, preparem-se para a guerra. Queremos lutar contra Muhammad e chegar a uma decisão final.” Eles responderam: “Hoje é sábado. Não fazemos nada neste dia. Anteriormente, alguns de nosso povo fizeram algo num sábado, e vocês não desconhecem o que lhes aconteceu como consequência. Além disso, não podemos lutar contra Muhammad para ajudá-los. Contudo, se deixarem alguns de seus homens como reféns em nossas mãos, como garantia de nossa segurança, poderemos participar da guerra para ajudá-los. Tememos que, se sofrerem perdas na batalha ou acharem difícil continuar lutando, vocês retornem à sua terra sem se preocuparem com nossa segurança, deixando-nos indefesos nas mãos de Muhammad. Nós não temos capacidade para enfrentá-lo.”

Quando a delegação retornou com essa resposta dos Banu Qurayza, os coraixitas e os Ghatafan disseram uns aos outros: “A notícia que Na’im ibn Mas’ud nos deu é verdadeira em todos os detalhes. Portanto, que se informe aos Banu Qurayza que não estamos dispostos a entregar-lhes sequer um homem como refém. Se querem lutar, venham e lutem.” Quando um mensageiro foi novamente aos Banu Qurayza com essa resposta dos coraixitas e dos Ghatafan, os líderes dos Banu Qurayza disseram uns aos outros: “Vejam: tudo o que Na’im disse é completamente verdade. Os coraixitas e os Ghatafan só querem lutar. Não se preocupam nem um pouco com o nosso bem ou mal. Se obtiverem vantagem, terão alcançado seu próprio interesse; caso contrário, voltarão para suas terras, deixando-nos indefesos nas mãos de Muhammad.”

Por isso, informaram aos coraixitas e aos Ghatafan: “Enquanto vocês não nos entregarem reféns, não lutaremos contra Muhammad como seus aliados.” Assim, rejeitaram definitivamente a proposta dos Ghatafan e dos coraixitas, e Allah semeou a discórdia entre os inimigos, derrotando-os. Além disso, naquela noite de frio intenso, Allah fez soprar sobre eles um vento extremamente gelado. Esse vento derrubou suas tendas e espalhou seus utensílios de cozinha.

Quando chegaram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, notícias da discórdia e da desunião entre eles, ele enviou o companheiro Hudhayfa ibn al-Yaman durante a noite para observar os movimentos do inimigo.

É narrado por Muhammad ibn Ka’b al-Qurazi. Um companheiro proveniente de Kufa perguntou a Hudhayfa ibn al-Yaman: “Você viu o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e conviveu com ele?” Ele respondeu: “Sim.” O homem perguntou: “Como vocês se comportavam com ele?” Hudhayfa respondeu: “Nós nos esforçávamos ao máximo por ele.” O homem de Kufa disse: “Juro por Deus, se tivéssemos encontrado o Mensageiro de Allah vivo, não o teríamos deixado caminhar sobre a terra; tê-lo-íamos carregado sobre os ombros.” Hudhayfa, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Sobrinho, escute. Estávamos com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, junto à trincheira. Ele passou parte da noite rezando. Depois, voltou-se para nós e disse: ‘Quem dentre vocês pode ir verificar os movimentos do inimigo e depois retornar? Peço a Allah que essa pessoa seja minha companheira no Paraíso!’ O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estabelecera como condição que a pessoa retornasse depois de cumprir a tarefa. Ninguém entre os muçulmanos tinha forças para ir, devido ao medo, ao frio e à fome. Como ninguém se preparou, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamou-me. Assim, tive de me preparar para ir. Ele disse: ‘Ó Hudhayfa, vá para o meio do inimigo e veja o que eles estão fazendo. Depois, retorne até nós e não faça nada por conta própria.’”

Então fui e entrei furtivamente no meio do exército inimigo. Naquele momento, os exércitos invisíveis de Allah ainda os estavam devastando. Suas tendas e todos os utensílios e panelas usados para cozinhar estavam destruídos, e o fogo havia se apagado.

Então Abu Sufyan lhes disse: “Ó coraixitas, que cada um de vocês examine o que está ao seu redor para verificar se há algum estranho.” Ao ouvir isso, fui o primeiro a tocar no homem ao meu lado e perguntar: “Quem é você?” Ele respondeu: “Sou o filho de fulano.” [69. É narrado em Sharh al-Mawahib: Hudhayfa disse: “Pousei minha mão sobre a mão do homem que estava sentado à minha direita e perguntei: ‘Quem é você?’ Ele respondeu: ‘Sou Mu’awiya, filho de Abu Sufyan.’ Depois perguntei ao homem sentado à minha esquerda: ‘Quem é você?’ Ele respondeu: ‘Sou ‘Amr ibn al-‘As.”]

Depois Abu Sufyan disse: “Ó coraixitas, o lugar onde vocês estão acampados já não é adequado para permanecer. Nossos camelos e cavalos morreram, e os Banu Qurayza nos abandonaram. Eles fizeram justamente aquilo que detestamos. Vocês podem ver em que situação ficamos por causa da violenta tempestade. Nossos utensílios de cozinha, tendas e outras coisas foram destruídos. Até o fogo se apagou. Portanto, todos vocês partam em direção às suas casas. Eu estou partindo.”

Dizendo isso, ele se dirigiu ao seu camelo. O camelo estava amarrado. Ele montou em seu dorso e depois o golpeou. Após ser golpeado três vezes, o animal saltou. Embora a amarração do camelo tivesse sido desfeita, ele continuava de pé. Se o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não me tivesse ordenado: “Não faça nada até retornar”, eu poderia tê-lo matado, se quisesse.

Hudhayfa disse: “Depois, retornei ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele momento, ele estava rezando, envolto em um cobertor iemenita. Enquanto rezava, ele me viu, puxou-me para perto de seus pés e cobriu parte do meu corpo com o cobertor. Nessa posição, fez a inclinação e a prostração. Depois de concluir a oração, informei-lhe todas as notícias sobre o inimigo.”

Quando os Gatafan souberam que os coraixitas haviam partido, seguiram em direção à sua terra natal. Pela manhã, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os muçulmanos deixaram a trincheira e foram para Medina, deixando de lado as armas.

Expedição contra os Banu Qurayza (5º ano da Hégira)

Ao meio-dia, Jibril (que a paz esteja com ele) veio até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele usava um turbante de seda na cabeça. Montava uma mula selada, coberta com tecido de seda. Ele disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Ó Mensageiro de Allah, você depôs as armas?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim.” Jibril disse: “Mas os anjos ainda não depuseram as armas. E você também está retornando do campo de batalha apenas por exigência dos muçulmanos! Ó Muhammad, Allah ordenou que você marchasse contra os Banu Qurayza. Eu também irei para lá e os reduzirei a pedaços.”

Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou a alguém que anunciasse: “Aqueles que obedecerem a Allah e ao Mensageiro de Allah devem ir à região dos Banu Qurayza e realizar a oração do Asr.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou a Ali, filho de Abu Talib (que Allah esteja satisfeito com ele), que marchasse em direção à região dos Banu Qurayza levando seu estandarte. Os muçulmanos também o seguiram. Quando Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) partiu e se aproximou da fortaleza deles, ouviu uma declaração vil contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao ouvir aquilo, voltou. No caminho, encontrou-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, você não deveria ir até essa gente vil.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: “Por quê? Parece que você ouviu deles palavras ofensivas e obscenas a meu respeito.” Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, é verdade.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Se eles me vissem, não diriam nada desse tipo.” Então, ao se aproximar da fortaleza dos Banu Qurayza, disse: “Ó irmãos dos macacos, Allah os humilhou, não foi? Estão sofrendo o castigo d’Ele, não estão?” Eles responderam: “Ó Abu al-Qasim — o conhecido apelido do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz — nada lhe é desconhecido.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou junto ao poço chamado Atta, pertencente aos Banu Qurayza, e armou sua tenda. Os muçulmanos começaram a chegar em grupos e a juntar-se a ele. Alguns chegaram mesmo depois da última congregação da oração do Isha. Eles ainda não haviam realizado a oração do Asr, pois o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia ordenado que fossem à região dos Banu Qurayza e ali realizassem a oração do Asr. Sem outra alternativa, atrasaram a oração por causa da batalha. Por isso, realizaram o Asr depois do Isha. Por esse motivo, o Alcorão não os censurou. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, manteve-os sob cerco por vinte e cinco dias. A situação tornou-se insuportável para eles, e Allah lançou o medo em seus corações.

Depois que os membros das tribos dos Quraysh e dos Ghatafan partiram em direção às suas terras, Huyayy ibn Akhtab permaneceu na fortaleza com os Banu Qurayza. Ele ficou ali para cumprir a promessa feita aos Banu Qurayza. Quando os Banu Qurayza compreenderam com certeza que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não retornaria de modo algum sem lutar contra eles, Ka’b ibn Asad convocou os membros da tribo e disse: “Ó judeus, escutem! Vocês veem a calamidade que lhes sobreveio? Para livrá-los desta situação, apresento três propostas. Podem aceitar qualquer uma delas.” Eles perguntaram: “Quais são essas propostas?” Ele disse: “Vamos todos seguir e aceitar Muhammad. Juro por Allah que é evidente para nós que ele é um profeta. Há menção a ele também em nosso livro religioso. Assim, poderemos ficar tranquilos e seguros quanto às nossas vidas e bens, bem como às vidas e bens de nossas esposas e filhos.” Eles responderam: “Jamais negaremos a autoridade da Torá, nem aceitaremos qualquer alternativa a ela.” Ele disse: “Se não aceitarem isso, então venham: matemos todas as nossas esposas e filhos. Depois, empunhemos as espadas e lutemos contra Muhammad e seus companheiros. Assim, não deixaremos problemas nem responsabilidades para trás. Continuaremos lutando até que Allah estabeleça uma decisão final entre nós e Muhammad. Se formos mortos, poderemos morrer tranquilos quanto ao destino de nossos descendentes. E, se vencermos, teremos novamente esposas e filhos.” Todos disseram: “É possível matar esses entes queridos inocentes? Se eles não existirem, que proveito haverá em continuarmos vivos com conforto e prosperidade?” Ka’b disse: “Se também rejeitarem isso, resta ainda uma opção. Hoje é a noite de sábado. Talvez Muhammad e seus companheiros estejam despreocupados a nosso respeito. Portanto, venham, lancemos um ataque surpresa e matemos Muhammad e seus companheiros.” Eles responderam: “Vamos desonrar o sábado dessa maneira? Faremos neste dia aquilo que nossos antepassados não fizeram? É verdade que alguns o fizeram, e, como consequência, seus rostos foram desfigurados; isso não lhes é desconhecido.” Ka’b disse: “Desde os tempos mais antigos até hoje, não nasceu entre vocês uma única pessoa capaz de tomar uma decisão firme e permanecer resoluta sequer durante uma noite de toda a sua vida.”

Então, incapazes de tomar uma decisão, enviaram um mensageiro ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pedindo: “Envie-nos Abu Lubaba ibn Abd al-Mundhir. Queremos consultá-lo sobre algumas coisas.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou-o. Quando Abu Lubaba chegou, todos os membros da tribo se reuniram ao seu redor, e as mulheres e crianças foram até ele chorando. Ao ver aquela cena, o coração de Abu Lubaba enterneceu-se. Eles perguntaram: “Ó Abu Lubaba, você acha que devemos aceitar a decisão de Muhammad?” Ele respondeu: “Sim.” Ao mesmo tempo, fez um gesto passando a mão pelo próprio pescoço, indicando que aquela decisão não seria outra coisa senão a morte.

Abu Lubaba disse: “Imediatamente percebi que havia traído Allah e Seu Mensageiro.” [70. Quando Banu Qurayza foi cercada e considerou inevitável a própria destruição, enviou Shas ibn Qays ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele foi até ele e recomendou que lhes fosse concedido o perdão nas mesmas condições em que o perdão havia sido concedido a Banu Nadir: isto é, que pudessem levar somente os filhos, as esposas e tudo quanto conseguissem transportar sobre os lombos dos camelos. Quanto ao restante dos bens, móveis e imóveis, deixá-los-iam para trás. Não levariam armas de modo algum. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rejeitou esse pedido. Então ele disse: “Nesse caso, conceda-nos apenas o perdão e expulse-nos, entregando-nos nossas esposas e filhos. Não queremos levar absolutamente nenhum bem sobre os lombos dos camelos.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rejeitou também esse pedido e insistiu que aceitassem sua decisão. Shas ibn Qays retornou levando consigo essa resposta do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. (Sharh al-Mawahib, de Jarfani.) Em Sharh al-Mawahiz, também foi relatado que, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rejeitou o pedido de perdão, Abu Lubaba pensou que, se Banu Qurayza aceitasse a decisão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele certamente os mataria. Por isso, informou-lhes esse fato por meio de um gesto.] Logo depois, em vez de ir até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Abu Lubaba dirigiu-se à Mesquita do Profeta, amarrou-se a uma coluna da mesquita e disse: “Enquanto Allah não perdoar o erro que cometi, não sairei deste lugar; neste solo, onde traí Allah e Allah e o Mensageiro de Allah, jamais voltarei a mostrar o rosto a ninguém.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, esperou por Abu Lubaba durante bastante tempo. Depois de ouvir todo o ocorrido, disse: “Se ele viesse até mim, eu pediria perdão por ele. Mas, como fez tal promessa, não posso libertá-lo até que Allah o perdoe.”

Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Quando Abu Lubaba foi perdoado, eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, devo dar-lhe essa boa notícia?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Pode informá-lo.” Então Umm Salama ficou de pé junto à porta de sua casa e disse: “Ó Lubaba, boas-novas! Você foi perdoado.” Deve-se observar que, naquele momento, os versículos sobre o véu ainda não haviam sido revelados.

Depois disso, os muçulmanos correram até ele para libertá-lo. Mas Abu Lubaba disse: “Se o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não me libertar com as próprias mãos, não me libertarei.” Ao tomar conhecimento disso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, desatou suas amarras quando saiu para a oração do fajr.

Ibn Hisham disse: Abu Lubaba permaneceu amarrado à coluna durante seis dias. A cada oração, sua esposa vinha e desatava suas amarras para que ele rezasse. Depois, ele voltava à coluna e amarrava-se novamente.

Na manhã do dia seguinte, Banu Qurayza preparou-se para aceitar a decisão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao ouvirem a notícia, os membros da tribo de Aws correram até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Disseram: “Ó Mensageiro de Allah, Banu Qurayza é nosso aliado. Eles nos ajudam contra a tribo de Khazraj. Você sabe muito bem como tratou o aliado de Khazraj, Banu Qaynuqa.” Antes de Banu Qurayza, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia cercado a tribo de Banu Qaynuqa. Eles eram aliados da tribo de Khazraj e também haviam se submetido à decisão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando Abdullah ibn Ubayy ibn Salul pediu que lhes fosse concedido o perdão, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concedeu-lhes o perdão. Quando a tribo de Aws pediu ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que poupasse Banu Qurayza, ele disse: “Ó membros da tribo de Aws, se eu nomear um de vocês como árbitro, vocês aceitarão?” Eles responderam: “Sim.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Nomeio Sa’d ibn Mu’adh como árbitro.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia alojado Sa’d ibn Mu’adh em uma tenda na Mesquita do Profeta, junto de Rufayda, esposa de um muçulmano. Essa mulher tratava os feridos e cuidava dos muçulmanos aflitos. Quando Sa’d foi ferido por uma flecha na batalha da Trincheira, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse aos muçulmanos: “Coloquem Sa’d na tenda de Rufayda, para que ele fique perto de mim e eu possa visitá-lo e cuidar dele.” Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o nomeou árbitro no caso de Banu Qurayza, os membros de sua tribo o levaram montado em um jumento. Haviam colocado uma sela de couro sobre o dorso do jumento. Ele era um homem muito corpulento e de bela aparência. Enquanto o levavam até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, diziam-lhe: “Ó Sa’d, trate bondosamente seus aliados. Você foi nomeado árbitro para tratá-los com benevolência.” Ao ver que eles suplicavam e imploravam insistentemente, ele disse: “Chegou a hora de Sa’d não dar importância à censura ou à repreensão de ninguém no que diz respeito à religião de Allah.” Alguns dos que o levavam até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornaram ao bairro de Banu Abd al-Ashhal. Então alguns membros de Banu Qurayza foram até eles. Antes que Sa’d chegasse, eles ouviram tudo deles e começaram a chorar, considerando inevitável a própria morte. [71. “Chegou a hora de Sa’d não dar importância à censura ou à repreensão de ninguém no que diz respeito à religião de Allah.” Ao ouvirem essa declaração de Sa’d, eles entenderam que ele talvez decretasse sua execução. Por isso, ao perceberem sinais de uma morte certa antes mesmo de ela chegar, começaram a chorar.]

Quando Sa’d chegou até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os muçulmanos, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Levantem-se para receber seu líder.” Então os coraixitas e os emigrados começaram a dizer: “Essa ordem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, destina-se apenas aos ansar.” Os ansar disseram: “Essa ordem é para todos.” Em seguida, todos se aproximaram dele e disseram: “Ó Sa’d, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, confiou a você a decisão sobre seus aliados.” Sa’d disse: “A decisão que eu proclamar será reconhecida como a decisão final. Todos vocês se comprometem com isso em nome de Allah?” Eles responderam: “Sim.” Então, apontando para o lado em que estava o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “E aqueles que estão aqui também estão comprometidos?” Por respeito, Sa’d não mencionou expressamente o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Mas o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim.” Então Sa’d proclamou: “Minha decisão é que todos os homens de Banu Qurayza sejam mortos, todos os bens sejam distribuídos e as mulheres e as crianças sejam feitas prisioneiras.”

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse a Sa‘d (que Allah esteja satisfeito com ele): “O teu julgamento é semelhante ao julgamento que Allah proferiu do alto dos sete céus.”

Depois, todos os membros dos Banu Qurayza foram retirados de suas casas e confinados na casa de Qays bint al-Harith, em Medina. Em seguida, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi ao mercado de Medina — onde o mercado de Medina ainda se encontra hoje. Eles foram trazidos em grupos e mortos dentro dessas trincheiras. O inimigo de Allah, Huyayy ibn Akhtab, e o chefe dos Banu Qurayza, Ka‘b ibn Asad, também foram mortos. Seu número total era de seiscentos ou setecentos. Segundo aqueles que consideram seu número maior, eram entre oitocentos e novecentos. Quando eram levados em grupos à presença do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), perguntaram ao chefe Ka‘b ibn Asad: “Ó Ka‘b, que tipo de tratamento você acha que receberemos?” Ka‘b respondeu: “Vocês não entendem nada? Não veem como aquele que os chama permanece indiferente e impassível? Não veem que aquele dentre vocês que parte não retorna? Por Allah, todos serão mortos.”

Assim, foram mortos um após o outro.

Trouxeram Huyayy ibn Akhtab, o mais abominável inimigo do Islã. Ele vestia uma roupa cor-de-rosa. Havia feito nela pequenos rasgos por toda parte, para que não lhe fosse tomada. Suas duas mãos estavam amarradas ao pescoço com uma corda. Ao olhar para o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), disse: “Nunca me arrependi de ter sido teu inimigo. Contudo, aquele que abandona Allah está destinado a ser derrotado.” Em seguida, dirigindo-se às pessoas presentes, disse: “Ó povo, o decreto de Allah não pode ser violado. Allah havia destinado aos Filhos de Israel um decreto inevitável e uma grande matança.” Depois de dizer essas palavras, sentou-se e, em seguida, foi decapitado.

A Mãe dos Crentes, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), disse: “Nenhuma mulher foi morta, exceto uma mulher dos Banu Qurayza. Ela conversava comigo tranquilamente e ria às gargalhadas. Naquele exato momento, porém, os membros de sua tribo estavam sendo mortos por ordem do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). De repente, um arauto gritou em voz alta: ‘O que é isso? O que aconteceu com você?’ Ela respondeu: ‘Serei morta.’ Eu perguntei: ‘Onde está fulana?’ Ao ouvir isso, ela respondeu: ‘Sou eu.’ ‘Por quê?’ Ela respondeu: ‘Porque cometi um ato terrível.’ Depois, levaram-na e mataram-na.” (72. Ibn Hisham disse: “Foi essa mulher que matou o companheiro Khallad ibn Suwayd, atirando-lhe uma pedra de moinho.)

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) costumava dizer: “Não consigo esquecer aquela mulher. Fico admirada ao pensar que, embora soubesse que seria morta, estava alegre e entregue ao riso.”

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ordenou que todos os homens adultos dos Banu Qurayza fossem mortos. Atiyya al-Qurazi disse: “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ordenou que todo homem adulto fosse morto. Eu era então um adolescente. Quando constataram que eu ainda não tinha atingido a idade adulta, deixaram-me partir.”

Ayyub ibn Abd al-Rahman disse: Salma bint Qays, uma tia materna do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) — que havia rezado com ele voltada para ambas as qiblas e participado do juramento de lealdade das mulheres — pediu ao Mensageiro de Allah que poupasse a vida de Rifa‘a ibn Samu’il al-Qurazi. Ela disse: “Rifa‘a decidiu rezar e comer carne de camelo.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aceitou seu pedido e poupou-lhe a vida. Esse homem, Rifa‘a, era adulto e havia buscado refúgio junto de Salma. Ele já conhecia a família de Salma. Assim, Salma salvou a vida de Rifa‘a.

Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, distribuiu entre os muçulmanos os bens, as mulheres e os filhos dos Banu Qurayza. Em seguida, enviou Sa‘d ibn Zayd al-Ansari a Najd, levando consigo algumas escravas dos Banu Qurayza. Em troca delas, ele comprou e trouxe de lá armas e cavalos para os muçulmanos.

Entre as mulheres dos Banu Qurayza, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, escolheu Rayhana bint ‘Amr ibn Khunafa para si. Ela permaneceu sob sua posse até o falecimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele propôs casar-se com ela e elevá-la à condição de esposa, protegida por um véu. Mas ela disse: “Ó Mensageiro de Allah, prefiro que me acolhas como escrava. Isso será mais tranquilo tanto para mim quanto para ti.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez exatamente como ela pediu. Quando foi aceita como escrava, ela se opusera intensamente à aceitação do Islã e queria apegar-se à religião judaica. Por isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, manteve-se afastado dela e ficou entristecido. Certo dia, enquanto estava sentado com os Companheiros, ouviu atrás de si o som de passos. Ele disse: “Certamente, Tha‘laba ibn Sa‘ya está vindo informar-me de que Rayhana aceitou o Islã.” De fato, Tha‘laba chegou e informou que Rayhana havia aceitado o Islã. Com isso, ele ficou feliz.

Allah, o Altíssimo, narrou na surata Al-Ahzab do Alcorão Sagrado a história da Batalha da Trincheira e dos Banu Qurayza. Ele narrou como os muçulmanos foram postos à prova, que imensas bênçãos derramou sobre eles e como os salvou de todas as adversidades, concedendo-lhes a vitória em ambas as batalhas. Antes disso, porém, os hipócritas haviam proferido palavras indesejáveis. Allah diz: ‘Ó crentes, recordai a graça que Allah vos concedeu quando grandes exércitos avançaram contra vós. Então enviámos contra eles um violento vendaval e exércitos que não podíeis ver. E Allah observava tudo o que fazíeis. Quando eles vos atacaram por todos os lados, quando os olhos de muitos se arregalaram de medo e as almas chegaram às gargantas, e começastes a ter diversas opiniões sobre Allah, os crentes foram postos à prova e foram abalados profundamente. Os hipócritas e aqueles cujos corações estavam enfermos diziam: “Allah e o Seu Mensageiro não nos prometeram senão ilusões.” Um grupo deles disse: “Ó habitantes de Yathrib, não há lugar para vós permanecerdes; portanto, voltai.” Então alguns dos seus grupos pediam permissão ao Profeta, dizendo: “As nossas famílias estão expostas ao perigo.” Na realidade, elas não estavam expostas ao perigo; eles apenas procuravam uma desculpa para fugir.’

Este versículo foi revelado a respeito de Aws ibn Qayzi e dos que compartilhavam de sua opinião.

“Se o inimigo entrasse contra eles por todos os lados de Medina e lhes fosse pedido que se entregassem à fitna, isto é, que cometessem shirk, certamente o fariam. Pouco hesitariam em fazê-lo. Antes disso, haviam assumido perante Allah o compromisso de não fugir, quebrando as fileiras. E certamente serão questionados sobre o compromisso com Allah. (As duas tribos, Banu Salama e Banu Haritha, haviam prometido, depois de recuarem na Batalha de Uhud, que nunca mais fariam algo semelhante. Allah recordou-lhes esse compromisso, que haviam assumido espontaneamente.) Ó Profeta, dize: fugir da morte ou do assassinato de nada vos servirá; apenas desfrutareis da vida por poucos dias. Dize: se Allah decidir afligir-vos com uma calamidade ou conceder-vos uma misericórdia, quem poderá proteger-vos da decisão de Allah? Além de Allah, não encontrareis protetor nem auxiliar. Quem, entre vós, cria obstáculos e diz aos seus irmãos: “Vinde conosco”? Esses hipócritas raramente participam da guerra (isto é, exceto quando precisam defender-se ou livrar-se de uma obrigação). Seu único objetivo é satisfazer a inveja e a hostilidade que sentem por vós. Quando a batalha se aproxima, vê-los-ás olhar para ti com medo, com os olhos girando como os de uma pessoa moribunda e inconsciente, tomada pelo temor da morte. Mas, quando o perigo passa, aproximam-se de vós com palavras exaltadas e discursos grandiosos, movidos pela cobiça dos espólios. (Isto é, dizem coisas de que não gostais, pois não creem na Vida Futura e não receberão recompensa alguma. Por isso temem a morte exatamente como a temem aqueles que não creem na vida após a morte.) Eles não creram; por isso Allah anulou todas as suas boas obras. E isso é muito fácil para Allah. Eles pensam que os grupos (isto é, os coraixitas invasores e os Gatafã) ainda não partiram. E, se voltarem a atacar, refugiar-se-ão entre os beduínos no deserto e, de lá, continuarão a perguntar notícias vossas; e, mesmo permanecendo entre vós, participariam muito pouco da guerra.”

Depois, Allah dirige-se aos crentes, dizendo: “Tendes no Mensageiro de Allah um excelente exemplo, para aqueles que esperam em Allah e no Último Dia.” [Isto é, não para aqueles que procuram obter benefícios por meio da proximidade do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ou de sua posição.] Em seguida, ao mencionar a sinceridade dos crentes e a atitude que tinham de reconhecer e aceitar a prova prometida por Allah, Allah diz: “Quando os crentes viram os grupos invasores, disseram: ‘Isto é o que Allah e o Seu Mensageiro nos prometeram; e Allah e o Seu Mensageiro só prometem a verdade.’ E isso apenas aumentou a sua fé e a sua submissão.” (Isto é, paciência diante da adversidade, submissão ao destino e disposição para aceitar a verdade.)

“Entre os crentes há homens que cumpriram o compromisso assumido perante Allah. Alguns já cumpriram o seu dever. (Isto é, concluíram a sua missão e retornaram a Allah, como os mártires de Badr e Uhud.) E alguns ainda aguardam. (Isto é, aguardam a ajuda de Allah e a oportunidade de fazer o que o Mensageiro e os Companheiros fizeram; não alteraram isso em nada. (Isto é, não nutriram dúvidas, hesitação ou reservas, nem procuraram um caminho alternativo.)) Allah recompensará os sinceros pela sua sinceridade e, se quiser, castigará os hipócritas ou perdoá-los-á. Ele é Perdoador e Misericordioso. E Allah fez os incrédulos (isto é, os coraixitas e os Gatafã) regressarem com a sua ira e o seu rancor, sem que obtivessem bem algum. Allah é suficiente para combater em defesa dos crentes, pois Ele é Forte e Poderoso. E Allah expulsou das suas fortalezas o grupo do Povo do Livro (isto é, os Banu Qurayza) que os havia apoiado, e lançou o medo nos seus corações. Assim, pudestes matar uma parte deles e capturar outra. (Isto é, matastes os homens e fizestes prisioneiras as mulheres e as crianças.) E Allah vos concedeu a posse das suas terras, das suas casas, dos seus bens e de uma terra que ainda não havíeis pisado (isto é, Khaybar). Allah é, certamente, Poderoso sobre todas as coisas.”

Depois de resolvida a questão dos Banu Qutayba, o ferimento de Sa‘d ibn Mu‘adh piorou repentinamente, e ele alcançou o martírio.

Hasan al-Basri (que Allah tenha misericórdia dele) disse: Sa’d era um homem muito corpulento e pesado. Contudo, os que carregavam seu cadáver sentiram-no extraordinariamente leve. Então alguns hipócritas disseram: “Sa’d era muito pesado. No entanto, nunca vimos um cadáver tão leve.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Ele pareceu leve porque, além de vós, havia outros entre os que carregavam seu cadáver (isto é, os anjos). Juro por Allah: os anjos ficaram jubilosos e felizes ao receberem a alma de Sa’d. Com sua morte, o Trono de Allah estremeceu.”

Três politeístas foram mortos na Batalha da Trincheira. Munabbih ibn Uthman foi um deles. Ele foi atingido por uma flecha e morreu em Meca, para onde fora enquanto estava ferido. Outro foi Naufal ibn Abd Allah, dos Banu Makhzum. Ele atravessara a trincheira, foi capturado e morto. Também fora atingido por uma flecha. Seu cadáver estava em poder dos muçulmanos. Os politeístas propuseram comprar seu cadáver. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Não temos necessidade alguma de seu cadáver nem de seu preço.” Depois, seu cadáver foi-lhes entregue. O terceiro era Amr ibn Abd Wudd, da tribo de Banu Amir. Ali ibn Abu Talib (que Allah esteja satisfeito com ele) o matou.

Vários muçulmanos foram martirizados durante a expedição contra os Banu Qurayza. Entre eles estava Khallad ibn Suwaid, que foi morto quando lhe atiraram uma pedra de mó. É relatado que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse a respeito dele: “Khallad receberá a recompensa de dois mártires.” O Companheiro Abu Sinan morreu quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — sitiava os Banu Qurayza. Ele foi sepultado no cemitério dos Banu Qurayza. Quando terminou a concentração dos exércitos nos dois lados da trincheira e os incrédulos abandonaram-na, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Depois disso, os coraixitas nunca mais atacarão vós; ao contrário, depois disso, sereis vós que os atacareis.”

De fato, depois disso, não houve mais nenhum ataque dos coraixitas contra os muçulmanos. Pelo contrário, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — passou a atacá-los. Por fim, Allah concedeu-lhe a oportunidade de conquistar Meca.

Expedição de Banu Lihyan

Depois disso, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — permaneceu em Medina durante alguns meses: Dhu al-Hijjah, Muharram, Safar, Rabi al-Awwal e Rabi al-Thani. No sexto mês após a vitória sobre os Banu Qurayza, em Jumada al-Ula, ele partiu para a expedição contra os Banu Lihyan. O objetivo dessa expedição era exigir dos habitantes de Raji a devolução de Khubaib ibn Adi e seus companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles). Ele partiu de tal modo que parecia estar viajando em direção à Síria. Na realidade, seu objetivo era atacar os habitantes de Raji.

Ao sair de Medina, ele passou pela montanha de Ghurab, nos arredores de Medina, e seguiu pela estrada que levava à Síria, indo primeiro a Makhid e depois a Batra. Ali, virou à esquerda e avançou pela planície de Bina, próxima de Medina, atravessou a cadeia montanhosa de Yamamah e seguiu pela estrada que levava a Meca. Depois, chegou rapidamente a Ghurān, território dos Banu Lihyan. Ghurān é uma planície entre Amāj e Usfan, que se estende até a região chamada Sāyah. Ao chegar a Ghurān, descobriu que eles já haviam sido alertados e se instalado nas montanhas em busca de segurança. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — acampou em Ghurān. Como seu ataque surpresa não alcançara o objetivo, ele disse aos Companheiros: “Se acamparmos em Usfan, os habitantes de Meca pensarão que estamos indo para Meca.” Então, acompanhado de duzentos Companheiros montados, foi a Usfan e acampou ali. Depois, enviou dois cavaleiros, que chegaram até Qura al-Ghumaym. Em seguida, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — retornou a Medina com todo o exército.

Jabir ibn Abd Allah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, durante o retorno, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dizia: “Pela vontade de Allah, somos os que retornam, os que se arrependem e os que louvam nosso Senhor. Busco refúgio em Allah contra as dificuldades da viagem e contra a perda da família e dos bens.”

Expedição de Dhu Qarad

Depois disso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, passou alguns dias em Medina. De repente, Uyayna ibn Hisn al-Fazari, acompanhado por alguns cavaleiros dos Gatafanitas, atacou e saqueou as camelas prenhes e leiteiras do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que pastavam num lugar chamado Ghaba, nos arredores de Medina. Entre os donos dessas camelas saqueadas havia um homem da tribo de Banu Ghifar e sua esposa. Eles mataram o homem e levaram as camelas juntamente com sua esposa.

Salama ibn Amr ibn al-Akwa foi o primeiro a tomar conhecimento desse saque. Ele havia ido a Ghaba, armado com arco e flechas, acompanhado pelo escravo de Talha ibn Abdullah. Tinha consigo um cavalo. Ao chegar a uma encosta do monte Saniyat al-Wada, começou a gritar em voz alta: “Socorro!” Em seguida, avançou rapidamente no encalço deles. Correu exatamente como uma fera predadora corre atrás de sua presa. Alcançou-os enquanto corria e começou a disparar flechas contra eles. Ao lançar cada flecha, dizia: “Recebam esta! Eu sou filho de al-Akwa. Hoje é o dia de exterminar os pecadores.” Quando os saqueadores o perseguiam, ele recuava; logo depois, voltava a sair e avançava para enfrentá-los. Assim, sempre que encontrava uma oportunidade, lançava flechas e dizia: “Recebam esta! Eu sou filho de al-Akwa. Hoje é o dia de exterminar os pecadores.” Enquanto isso, os saqueadores gritavam: “Esse homem se tornou tão severo contra nós logo no começo do dia!”

Os gritos de Salama chegaram aos ouvidos do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele gritou, anunciando: “Perigo! Perigo!” Imediatamente, um grande número de Companheiros começou a reunir-se junto dele, montados. Primeiro chegou Miqdad ibn Amr; depois, Abbad ibn Bishr; em seguida, um após outro, Sad ibn Zayd, Usayd ibn Zuhayr, Ukasha ibn Mihsan, Muhrid ibn Nadala, Abu Qatada al-Harith ibn Rab’i e Abu Ayyash. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou-os sob o comando de Sad ibn Zayd. Disse: “Continuem perseguindo os saqueadores. Enviarei mais homens depois.” A tropa de Sad perseguiu-os e alcançou-os. Abu Qatada foi o primeiro: matou Habib ibn Uyayna, cobriu-o com seu próprio manto e depois voltou para juntar-se aos homens de seu grupo.

Depois de algum tempo, o próprio Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, avançou acompanhado por um grupo de muçulmanos. No caminho, viu Habib envolto no manto por Abu Qatada. Os Companheiros que o acompanhavam disseram, recitando “Inna lillahi”: “Que calamidade! Abu Qatada foi morto?”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não, este não é Abu Qatada. Este homem foi morto pelas mãos de Abu Qatada. Ele o envolveu em seu próprio manto para que vocês entendessem que este era seu companheiro.” Ukasha ibn Mihsan alcançou dois dos saqueadores, Awbar e seu filho Amr, e matou ambos de uma só vez. Eles viajavam montados no mesmo camelo. Também recuperaram algumas das camelas saqueadas. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi até perto do monte Dhu Qarad e estabeleceu acampamento. Depois, os demais muçulmanos passaram a noite junto dele. Salama ibn al-Akwa disse: “Ó Mensageiro de Allah, se me enviares com cem homens, poderei recuperar as camelas restantes e capturar os saqueadores.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Agora eles estão tomando a refeição noturna junto ao povo de Gatafan.”

Depois disso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, distribuiu entre seus Companheiros um camelo para cada cem homens, e eles passaram o dia alimentando-se dele. Então, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, voltou a Medina com os Companheiros.

A esposa do homem de Ghifar chegou até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, montada num camelo, e informou-o da morte de seu marido. Depois disse: “Ó Mensageiro de Allah, fiz um voto: se eu escapar do perigo montada no dorso deste camelo, sacrificá-lo-ei em nome de Allah.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sorriu e disse: “Quiseste dar ao camelo uma recompensa muito ruim. Allah te salvou do perigo fazendo-te montar em seu dorso, e tu queres sacrificá-lo! Não há voto válido quando envolve desobediência a Allah. Não se pode cumprir um voto com algo de que não se é proprietário. Este camelo é meu. Volta para tua família. Allah fará nisso o teu bem.”

A expedição contra os Banu Mustaliq

O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, passou em Medina o restante do mês de Jumada al-Thani e o mês de Rajab. Depois, no mês de Sha’ban do sexto ano da Hégira, empreendeu uma expedição contra o ramo Banu Mustaliq da tribo Khuzā’a.

Certa vez, o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, soube que a tribo Banu Mustaliq estava reunindo suas tropas. Seu líder era al-Harith ibn Abi Dirar, pai de Juwayriya, uma das esposas do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele. Ao receber essa notícia, o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, partiu com suas tropas para enfrentá-los. Travou-se uma batalha intensa com eles junto à fonte chamada al-Muraysi’. Deus concedeu a vitória sobre os Banu Mustaliq. Muitos deles foram mortos. O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, considerou seus filhos, mulheres e bens como espólio de guerra.

Nessa ocasião, foi morto um muçulmano chamado Hisham ibn Subaba, da tribo Banu Kalb ibn Awf. Um companheiro ansarita pertencente ao grupo de ‘Ubada ibn al-Samit, que o julgou pertencente ao lado inimigo, matou-o por engano.

Enquanto permaneciam junto à fonte, ocorreu um incidente lamentável entre os muçulmanos. ‘Umar ibn al-Khattab contratara como trabalhador um homem dos Banu Ghifar chamado Jahjah ibn Mas’ud, para cuidar de seu cavalo. Ele discutiu com Sinan ibn Wabr al-Juhani por causa da água, e a discussão gradualmente se transformou em luta. Então al-Juhani gritou: “Ó ansar, socorro!” Jahjah também gritou: “Ó muhajirun, socorram-me!” Naquele momento, ‘Abdullah ibn Ubayy ibn Sulul estava com um grupo de homens de sua tribo. O jovem Zayd ibn Thabit também fazia parte desse grupo. Ao ouvir os gritos, ‘Abdullah ibn Ubayy ficou exaltado e disse: “Então eles chegaram finalmente a fazer uma coisa dessas? Eles permaneceram entre nós, aumentando suas fileiras e entregando-se à arrogância. Vejo que nossa situação com os muhajirun está se tornando como o provérbio que diz: ‘Alimente e engorde seu próprio cão; um dia, você o verá mordê-lo e devorá-lo.’ Juro por Deus, quando retornarmos a Medina, os fortes expulsarão de lá os fracos.” Depois, começou a dizer aos membros de sua tribo: “Vejam agora o desastre que vocês causaram a si mesmos. Deram-lhes abrigo nesta terra e compartilharam com eles seus bens. Se não tivessem demonstrado tamanha generosidade para com eles, seriam obrigados a ir para outro lugar.”

Zayd ibn Arqam ouviu todas essas palavras e informou o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele. Naquele momento, ele acabara de derrotar o inimigo e respirava aliviado. Quando recebeu essa notícia, ‘Umar ibn al-Khattab estava em sua presença. Ele disse: “Ordene a ‘Abbad ibn Bishr que o envie para a morada da morte.” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Ó ‘Umar, se eu fizer isso, as pessoas dirão que Muhammad está matando seus próprios companheiros. Isso não pode ser feito. Contudo, ordene agora mesmo que partam daqui.” Naquele horário, normalmente o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, não partia para lugar algum. Ainda assim, todos partiram.

Quando ‘Abdullah ibn Ubayy ibn Sulul soube que Zayd ibn Arqam havia contado suas palavras ao Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, correu até ele e, jurando, começou a dizer: “Não disse nada do que Zayd relatou.” Como ‘Abdullah ibn Ubayy era considerado uma pessoa muito respeitada entre sua própria tribo, os companheiros ansaritas que estavam junto do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disseram: “Ó Mensageiro de Deus, talvez Zayd tenha ouvido mal e talvez não tenha conseguido lembrar completamente o que relatou.” Dessa forma, mostraram certa consideração por ‘Abdullah ibn Ubayy e o salvaram.

O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, partiu, e Usayd ibn Hudayr encontrou-se com ele. Após saudá-lo e cumprimentá-lo, disse: “Ó Mensageiro de Deus, você partiu num horário muito inconveniente. Normalmente, não parte para lugar algum num horário como este.” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Não ouviste o que disse aquele vosso companheiro?” Ele perguntou: “Qual companheiro?” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “’Abdullah ibn Ubayy.” Usayd perguntou: “O que ele disse?” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Ele pensa que, se conseguir retornar a Medina, os fortes expulsarão de lá os fracos.” Usayd disse: “Ó Mensageiro de Deus, se desejar, nós o expulsaremos. Ele é realmente muito vil e desprezível, enquanto você é poderoso.” E acrescentou: “Ó Mensageiro de Deus, seja um pouco indulgente com ele. Juro por Deus que Deus o enviou a nós justamente quando sua tribo estava se preparando para coroá-lo. Por isso, ele pensa que você lhe tomou um reino.”

Depois, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — viajou com seus Companheiros durante um dia e uma noite. No caminho, o sol intenso começou a lhes causar um sofrimento insuportável. Por isso, fizeram uma parada em determinado lugar. Assim que desceram das montarias, todos adormeceram. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — havia iniciado a viagem em um horário incomum justamente para desviar a atenção da possível reação negativa que as palavras de Abdullah ibn Ubayy, proferidas no dia anterior, poderiam provocar entre as pessoas. Depois do descanso, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — retomou a viagem com todos os seus homens. Ao atravessar o Hijaz, ele fez uma parada junto a uma fonte. O lugar chamava-se Baqya. Quando partiram novamente dali, um vento repentino, doloroso e assustador passou sobre os muçulmanos. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Não temais este vento. Um grande incrédulo morreu; é por isso que sopra este vento.” Ao retornar a Medina, descobriram que Rifa’a ibn Zayd, uma figura influente da tribo dos Banu Qaynuqa, havia morrido naquele mesmo dia. Ele era um refúgio dos hipócritas e um instigador.

Na surata Al-Munafiqun do Alcorão, a respeito de Abdullah ibn Ubayy e de pessoas como ele, Zayd ibn Arqam, colocando a mão sobre sua orelha, disse: “Este homem cumpriu a promessa de Allah por meio de sua orelha.” Ao saber do assunto de seu pai, Abdullah, filho de Abdullah ibn Ubayy, disse ao Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —: “Ó Mensageiro de Allah, ouvi dizer que desejais matar Abdullah ibn Ubayy por suas palavras hostis. Se realmente desejais isso, ordenai-me, e eu vos entregarei a cabeça dele. Por Allah, a tribo dos Khazraj sabe que, entre eles, ninguém é mais devotado ao pai do que eu. Temo que ordeneis a alguém que mate meu pai. Se essa pessoa o matar, ao ver o assassino de meu pai andando livremente, talvez minha natureza me incite e me torne incapaz de suportá-lo. Então eu o mataria e seria obrigado a ir para o Inferno, pois, nesse caso, seria culpado de matar um crente em troca de um incrédulo.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — respondeu: “Não. Enquanto ele permanecer conosco, seremos indulgentes com ele e o trataremos bem.”

Depois disso, sempre que Abdullah ibn Ubayy cometia alguma transgressão, os membros de sua própria tribo o puniam. Repreendiam-no, censuravam-no e o prendiam. Certo dia, ao tomar conhecimento dessa situação, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse a Umar ibn al-Khattab: “Ó Umar, estás vendo como a situação mudou? No dia em que me aconselhaste a matar Abdullah ibn Ubayy, se eu o tivesse matado, muitas pessoas teriam torcido o nariz. Mas, se hoje eu ordenar que ele seja morto, aqueles mesmos que naquele dia teriam torcido o nariz serão os que hoje o matarão.” Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Por Allah, sei que a decisão do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — é mais benéfica do que a minha decisão.”

O muçulmano que Ubayda ibn Samit — que Allah esteja satisfeito com ele — havia matado por engano, suspeitando que fosse um homem do inimigo, era Hisham ibn Subaba. Certo dia, seu irmão, Miqyas ibn Subaba, veio de Meca, encontrou-se com o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e exigiu o preço de sangue por seu irmão. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — providenciou o pagamento do preço de sangue. Miqyas afirmara ser muçulmano. Depois de receber o preço de sangue, permaneceu por pouco tempo junto ao Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Então, certo dia, matou o assassino de seu irmão, abandonou o Islã e partiu para Meca.

Naquele dia, muitas pessoas dos Banu Mustaliq foram mortas. [73. Ibn Hisham diz: O grito de guerra dos muçulmanos na batalha contra os Banu Mustaliq era: “Ó aquele que foi auxiliado, matai, matai.”] Dois homens dos Banu Mustaliq, incluindo Malik e seu filho, foram mortos pelas mãos de Ali ibn Abi Talib — que Allah esteja satisfeito com ele. E Abd al-Rahman ibn Awf matou o cavaleiro Ahmar, também chamado Uhaymir.

Naquele dia, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — capturou muitos prisioneiros de guerra. Distribuiu-os entre os muçulmanos como escravos e servas. Entre esses prisioneiros estava Juwayriya, filha de al-Harith ibn Abi Dirar, chefe da tribo dos Banu Mustaliq, que posteriormente recebeu a honra de se tornar esposa do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — disse: Quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — distribuiu os prisioneiros de guerra dos Banu Mustaliq, Juwayriya bint al-Harith coube na parte de Thabit ibn Qays ou na de um de seus primos. Juwayriya imediatamente procurou obter sua liberdade mediante resgate. Ela era uma jovem muito bela e encantadora.

Quem quer que a visse ficava encantado. Juwayriya foi até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — para pedir ajuda em sua libertação. Quando a vi parada à porta de minha casa, passei a não gostar dela. Percebi que a beleza encantadora que eu contemplava certamente não escaparia à atenção do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Depois, ela se encontrou com o Mensageiro de Allah e disse: “Ó Mensageiro de Allah, sou filha de al-Harith ibn Abi Dirar. Meu pai é o chefe da tribo. Vós não ignorais a calamidade em que me encontro. Fui destinada à parte de Thabit ibn Qays — ou à de seu primo. Peço-vos ajuda para pagar meu resgate.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “E se eu providenciasse algo melhor para ti?” Ela perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, o que seria?” Ele respondeu: “Pagarei o teu resgate em teu nome e me casarei contigo.” Juwayriya disse: “Ó Mensageiro de Allah, aceito isso.” Então o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Assim fiz.” Quando os muçulmanos souberam que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — havia se casado com Juwayriya, devolveram todos os membros dos Banu Mustaliq que estavam cativos em suas mãos, considerando-os parentes do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Assim, cem prisioneiros dos Banu Mustaliq foram libertados unicamente porque Juwayriya se casara com o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Na verdade, não conheço nenhuma mulher que tenha sido mais benéfica para seu próprio povo do que Juwayriya.

Yazid ibn Ruman relata: depois que a tribo Banu al-Mustaliq aceitou o Islã, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou-lhes al-Walid ibn Uqba ibn Abu Mu’ayt. Ao ouvirem a notícia de sua chegada, muitos cavaleiros da tribo avançaram para recebê-lo. Ao ver aquilo, al-Walid ficou assustado e voltou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizendo que os membros da tribo haviam se preparado para matá-lo e não lhe haviam permitido trazer o zakat que lhe deviam. Então os muçulmanos começaram a insistir fortemente para atacar Banu al-Mustaliq. Por isso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, decidiu realizar o ataque. Nesse exato momento, uma delegação de Banu al-Mustaliq foi até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, ao ouvirmos que você havia enviado um mensageiro até nós, quisemos recebê-lo e entregar-lhe o zakat que lhe devíamos. Mas ele voltou rapidamente. Depois ouvimos que ele lhe havia dito que tínhamos tentado matá-lo. Por Allah, não viemos por esse motivo.” Sobre esse acontecimento, Allah revelou os dois versículos seguintes da Surata al-Hujurat.

“Ó crentes, quando um perverso lhes trouxer uma notícia, verificai-a cuidadosamente, para que, inadvertidamente, não ataqu[em] um povo e depois se arrependam do que fizeram. E sabei que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, está entre vocês. Se ele os seguisse em muitas questões, vocês cairiam em desgraça. ……….”

Nesta viagem, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também estava com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Quando ele retornava levando-a consigo e chegou a um lugar próximo de Medina, um grupo de muçulmanos caluniou Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).

O episódio da calúnia durante a expedição contra Banu al-Mustaliq, no 6.º ano da Hégira

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, relata: sempre que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, viajava, fazia um sorteio para decidir qual de suas esposas o acompanharia. Aquela cujo nome saía no sorteio ia com ele. Durante a expedição contra Banu al-Mustaliq, ele também fez o sorteio como de costume, e meu nome foi sorteado. Por isso, levou-me consigo.

Naquela época, era comum as mulheres serem muito magras. Por isso, sua carne não aumentava de volume nem fazia seu peso crescer. Durante a viagem, quando meu camelo estava preparado para partir, eu me sentava na howdah. As pessoas vinham, levantavam a howdah, colocavam-na sobre o dorso do camelo e prendiam-na a ele com cordas. Em seguida, iniciávamos a viagem.

Ao retornar da expedição contra Banu al-Mustaliq, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a um lugar próximo de Medina e passou ali uma noite. Depois, quando foi anunciado que partiríamos novamente, iniciamos a viagem em grupo. Nesse momento, eu havia saído para fazer minhas necessidades. Eu trazia no pescoço um colar de pérolas iemenitas. Depois de voltar, tendo feito minhas necessidades, percebi que o colar não estava mais no meu pescoço. Não havia percebido quando ele caiu. Então, sem alternativa, saí novamente da caravana para procurá-lo e voltei ao lugar onde havia ido fazer minhas necessidades. Enquanto isso, a caravana se preparou para partir. Encontrei o colar. Os homens que levantavam a howdah do meu camelo foram até ele e, como de costume, colocaram a howdah sobre o animal. Até então, eles já haviam concluído os preparativos para a partida. Quando levantaram a howdah, imaginaram que eu estivesse dentro dela, como de costume. Assim, ergueram-na e prenderam-na ao camelo. Não tiveram a menor dúvida sobre a minha presença na howdah. Depois, conduziram o camelo e partiram. Quando, após encontrar o colar, voltei ao local onde a caravana havia passado a noite, o campo estava vazio. Não havia ninguém ali. Toda a caravana já havia partido. Sem ter outra opção, cobri-me com meu manto e deitei-me naquele lugar. Pensei que, ao notarem minha ausência, certamente voltariam para me procurar. Eu ainda estava deitada quando vi Safwan ibn Mu’attal al-Sulami passando perto de mim. Ele também havia se separado da caravana por alguma necessidade e não havia passado a noite com ela. Ao me ver de longe, aproximou-se e parou diante de mim. Ele já me havia visto antes de ser revelada a ordem sobre o véu. Assim que me viu, exclamou: “Inna lillahi wa inna ilayhi raji’un. Esta é a esposa do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” Eu ainda estava coberta pelo tecido. Ele disse: “Que Allah derrame Sua misericórdia sobre você. Como ficou para trás?” Não lhe respondi. Então, aproximou o camelo e disse: “Monte.” Afastou-se um pouco, e eu montei no camelo. Ele segurou a cabeça do animal e avançou rapidamente em direção à caravana. Assim chegou a manhã. As pessoas estavam descansando em um lugar, quando ele apareceu levando-me montada no camelo. Ao verem aquela cena, os caluniadores espalharam a calúnia. Houve grande comoção e tumulto entre os muçulmanos por causa disso. Mas eu não soube de nada. Assim que cheguei a Medina, adoeci gravemente. Ainda não sabia de nada sobre o acontecimento. Aos poucos, a notícia chegou aos ouvidos do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e dos meus pais. Eles também não me informaram absolutamente nada. Contudo, notei algo incomum no comportamento do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Seu tratamento afetuoso comigo diminuiu em comparação com antes. Quando eu adoecia, ele costumava demonstrar carinho e ternura por mim, mas desta vez não fez isso. Aquilo não me agradou nem um pouco. Minha mãe estava comigo para cuidar de mim. Na presença dela, ele vinha até mim e perguntava apenas: “Como você está?” Não dizia sequer uma palavra além disso. Eu sofria muito com isso. Certo dia, ao ver seu comportamento frio e sem afeto, eu lhe disse: “Ó Mensageiro de Allah, se você me permitir, irei para a casa da minha mãe. Ela cuidará de mim.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, deu-me permissão e disse: “Pode ir, não há impedimento.”

Fui para a casa da minha mãe. Ainda não sabia absolutamente nada sobre a calúnia. Depois de sofrer por mais de vinte dias com a doença, fiquei extremamente debilitada.

Nós éramos árabes. Não construíamos latrinas em nossas casas como os não árabes. Isso nos parecia desagradável. Nós, mulheres, íamos ao campo aberto, no meio da noite, para fazer nossas necessidades. Certa noite, saí para atender ao chamado da natureza com Umm Mistah, filha de Abu Ruhm, filho de Abd al-Muttalib. Enquanto caminhava comigo, essa mulher tropeçou, prendendo o pé na própria manta, e imediatamente exclamou: “Que a desgraça recaia sobre Mistah!” Eu disse: “Que vergonha! Que vergonha! Como pode dizer isso de um muhadjir que participou da Batalha de Badr?” Ela disse: “Ó filha de Abu Bakr, não ouviste nada sobre ele?” Eu disse: “Sobre o quê?” Então ela me informou sobre a calúnia que circulava. Eu disse: “Mistah também participou dessa calúnia?” Ela respondeu: “Sim, por Allah, participou.”

Aisha disse: Depois de ouvir isso, não consegui fazer minhas necessidades. Voltei para casa e comecei a chorar. De tanto chorar, senti como se meu coração estivesse prestes a se partir. Disse à minha mãe: “Que Allah vos perdoe! As pessoas já disseram tudo o que tinham para dizer. Mas por que não me informastes nem um pouco sobre isso? O que está acontecendo?” Minha mãe disse: “Minha filha, não leves isso tão a sério. Quando uma mulher é bonita, seu marido a ama muito e ela ainda tem uma coesposa, todos — homens e mulheres — passam a importuná-la e a espalhar inúmeros rumores contra ela.”

Certo dia, nesse ínterim, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proferiu um sermão numa reunião de muçulmanos. Eu nem sequer sabia o que ele havia dito nesse sermão. Ele começou louvando Allah. Depois disse: “Ó gente! Algumas pessoas estão difamando e caluniando minha família, dizendo falsidades sobre ela. No entanto, nada sei sobre minha família além do bem. E está sendo caluniada uma pessoa sobre a qual também tenho boa opinião. Ela jamais entra em minha casa quando estou ausente.”

Aisha disse: O principal instigador e artífice oculto dessa calúnia era Abdullah ibn Ubayy ibn Salul. Algumas pessoas da tribo dos Khazraj também o apoiavam. O grupo de hipócritas exagerou aquilo que Mistah e Hamna bint Jahsh — irmã de Zaynab bint Jahsh, Mãe dos Crentes — haviam dito. Zaynab bint Jahsh, irmã de Hamna, era uma das esposas do Mensageiro de Allah. Entre suas esposas, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concedia somente a Zaynab uma posição igual à minha. Apesar disso, Zaynab não disse uma única palavra ruim a meu respeito. Allah a manteve no mais alto grau de sinceridade. Somente Hamna bint Jahsh participou da divulgação da calúnia. Ela chegou até a discutir comigo em defesa da irmã. Eu ficava muito constrangida com esse comportamento dela.

Depois que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proferiu o sermão acima, Usayd ibn Hudayr disse: “Ó Mensageiro de Allah, se os caluniadores forem da tribo dos Aws, nós seremos suficientes para puni-los. E, se forem dos Khazraj, dai-nos a ordem que desejardes. Por Allah, pessoas desse tipo merecem ser mortas.” Sa’d ibn Ubadah era considerado um homem bom. Ao ouvir isso, ele disse: “Isso é mentira! Nós não os mataremos. Estás dizendo isso porque eles são da tribo dos Khazraj. Se fossem da tua tribo, não dirias isso.” Usayd disse: “Tu estás mentindo. Na verdade, és um hipócrita; por isso falas em defesa dos hipócritas.”

Aisha disse: Então começou uma violenta discussão entre os dois grupos, e surgiu até o temor de que houvesse uma guerra entre as tribos dos Aws e dos Khazraj. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, desceu do púlpito e chamou Ali e Usama ibn Zayd para consultá-los. Usama elogiou-me grandemente e disse: “Ó Mensageiro de Allah, quanto à tua esposa, nada sei sobre ela além do bem. Isso é uma calúnia falsa e sem fundamento.” Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó Mensageiro de Allah, não faltam mulheres. Se quiseres, podes divorciar-te de uma esposa e tomar outra. Contudo, pergunta à serva; ela poderá informar-te dos fatos.” Assim, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamou Barira, a serva de Aisha, para interrogá-la. Quando ela chegou, Ali bateu nela severamente e disse: “Fala a verdade ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.” Barira disse: “Por Allah! Sei que Aisha é casta e virtuosa. Nunca vi nela defeito algum. Apenas uma coisa: às vezes moo trigo, transformo-o em farinha e peço a Aisha que a guarde. Mas, por vezes, ela se esquece da farinha e adormece; então uma cabra vem e a come.”

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Depois disso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, veio até mim. Meus pais estavam sentados comigo. Havia também uma mulher dos Ansar sentada junto de mim. Eu chorava, e essa mulher chorava comigo. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentou-se ao meu lado, louvou Allah e mencionou Seus atributos. Depois disse: “Aisha, se cometeste algum ato mau do tipo que as pessoas mencionaram, arrepende-te diante de Allah. Allah aceita o arrependimento de Seus servos.”

Assim que ouvi essas palavras do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, minhas lágrimas cessaram. Foi como se eu já não percebesse sua presença. Esperava que meus pais lhe respondessem em meu nome, mas eles não disseram palavra alguma. Por Allah, jamais me considerei tão importante a ponto de Allah revelar sobre mim versículos do Alcorão, que seriam recitados em todas as mesquitas e durante a oração. Eu esperava apenas que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recebesse em sonho alguma indicação por meio da qual Allah refutasse a calúnia lançada contra mim. Pois Allah não sabe que sou inocente. Se não fosse um sonho, talvez Allah lhe comunicasse isso de maneira comum. Mas jamais imaginei, por Allah, que uma revelação incorporada ao Alcorão seria enviada a meu respeito, nem que eu fosse tão importante.

Ao ver meus pais sem resposta, eu lhes disse: «Vocês não deram nenhuma resposta ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz?» Eles disseram: «Por Allah, não conseguimos encontrar nada que pudéssemos responder.» Na verdade, não tenho conhecimento de nenhuma família que tenha enfrentado uma crise tão grave quanto aquela que a família de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) enfrentou naqueles dias.

Ao ver meus pais permanecerem em silêncio a meu respeito, minhas faces voltaram a inundar-se de lágrimas, e comecei a chorar. Eu disse: «Por Allah! Jamais me arrependerei do pecado de que você está falando. Sei que, se eu admitir aquilo que as pessoas estão espalhando, estarei admitindo algo que de modo algum cometi. O próprio Allah é testemunha de que sou completamente inocente nesse caso. E, se eu negar isso, vocês não acreditarão em mim.» Aisha disse: Então tentei lembrar-me do nome de Yaqub, que a paz esteja com ele, mas não consegui. Por fim, disse: «Repetirei as palavras que o pai de Yusuf, que a paz esteja com ele, pronunciou: “A paciência é bela.” Quanto ao que vocês estão relatando, somente Allah é meu auxílio.» Assim que terminei de falar, os sinais da revelação começaram a manifestar-se no Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele foi coberto com um pano, e colocaram um travesseiro sob sua cabeça. Permaneci completamente indiferente, destemida e sem medo ao presenciar aquilo. Eu sabia que era inocente. Allah não poderia cometer injustiça contra mim. Já meus pais pareciam estar à beira de perder a vida. Temendo que, por meio da revelação, a calúnia divulgada fosse declarada verdadeira, eles ficaram em uma situação lamentável.

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Depois de algum tempo, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentou-se normalmente. Mesmo naquele dia de frio intenso, o suor escorria de seu corpo como gotas de pérola. Enquanto enxugava o suor da testa, ele disse: «Aisha, boas-novas para você! Allah revelou uma passagem declarando sua inocência.» Eu disse: «Louvado seja Allah, e para Ele é todo o agradecimento.»

Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saiu e dirigiu-se em discurso aos muçulmanos, recitando-lhes os versículos do Alcorão que haviam sido revelados a respeito daquele assunto. Em seguida, aplicou a punição por espalhar calúnias a Mistah ibn Uthatha, Hassan ibn Thabit e Hamna bint Jahsh, pois eles estavam entre os principais disseminadores daquela calúnia.

Ibn Ishaq relata, citando algumas pessoas dos Banu Najjar:

Umm Ayyub, esposa de Abu Ayyub Khalid ibn Zayd, perguntou-lhe: «Ouviste o que está sendo espalhado sobre Aisha?» Abu Ayyub respondeu: «Sim, ouvi. Isso é mentira. Umm Ayyub, tu serias capaz de fazer algo assim?» Umm Ayyub respondeu: «Nunca.» Abu Ayyub disse: «Por Allah, Aisha é, sem dúvida, melhor do que tu.»

Aisha disse: Entre os versículos revelados no Alcorão a respeito daqueles que espalharam essa calúnia estão os seguintes: «Aqueles que inventaram essa calúnia são um grupo dentre vós. Não considereis esse acontecimento ruim para vós; ao contrário, ele é bom para vós. Cada um deles receberá o castigo correspondente ao pecado que cometeu, e aquele que assumiu a maior parte dessa transgressão terá um enorme castigo.» (Este versículo refere-se a Hassan ibn Thabit e seus companheiros, que participaram da divulgação da calúnia.) «Quando ouvistes isso, por que os crentes, homens e mulheres, não pensaram bem de seu próprio povo? (Isto é, como Abu Ayyub e sua esposa.) Quando transmitíeis a história de boca em boca e espalháveis aquilo que não sabíeis, considerando-o algo insignificante, embora, perante Allah, fosse algo terrível.»

Depois que esses versículos foram revelados a respeito de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e daqueles que espalharam calúnias contra ela, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «Por Allah, quando Mistah espalhou uma calúnia tão abominável contra Aisha, não mais arcarei com seu sustento nem lhe prestarei o menor benefício.» Deve-se mencionar que Mistah era seu parente pobre, e Abu Bakr arcava com as despesas de seu sustento.

A respeito desse juramento de Abu Bakr foi revelado: “Que os que, dentre vós, possuem recursos e são benevolentes não jurem deixar de ser generosos para com os parentes, os necessitados e os que emigraram no caminho de Allah. Que perdoem e sejam indulgentes. Não desejais que Allah vos perdoe? Allah é Perdoador, Misericordioso.” Ao ouvir este versículo, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, disse imediatamente: “Sim, desejo que Allah me perdoe.” Em seguida, voltou a assumir o sustento de Mistah e jurou que jamais abandonaria novamente essa responsabilidade.

Ibn Ishaq disse: Sobre a punição recebida por Hassan ibn Thabit por caluniar Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, um dos muçulmanos recitou os seguintes versos:

“Hassan recebeu o castigo merecido. E Hamna e Mistah também.

Pois proferiram palavras obscenas

sobre a esposa de seu Profeta, fazendo afirmações insinuantes e afligindo-a

e foram alvo da ira do Senhor do Trono.

Eles causaram sofrimento ao Mensageiro de Allah e deram importância à calúnia vergonhosa e eterna

espalhando-a por toda parte e humilhando-o.”

(Como resultado,) a punição dos caluniadores começou a cair em torrentes

como uma chuva torrencial.”

O acontecimento de Hudaybiyyah (6.º ano da Hégira)

Depois disso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passou os meses de Ramadan e Shawwal em Medina. No mês de Dhu al-Qi’dah, partiu em direção a Meca com o objetivo de realizar a umrah. Ele não tinha a intenção de travar qualquer guerra. (74. Segundo Ibn Hisham, nessa ocasião, o governo de Medina foi confiado a Numaylah ibn Abdullah al-Laythi.) Ele levou consigo como companheiros de viagem os árabes comuns residentes em Medina e também os beduínos nômades dos arredores. Temia que os coraixitas, seguindo o seu costume, o impedissem de visitar a Casa de Allah ou avançassem para combatê-lo. Por causa desse receio, muitos dos que desejavam acompanhá-lo adiaram a partida. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu com os demais árabes, os muhajirun e os ansar. Levou também uma caravana de camelos destinados ao sacrifício e entrou no estado de ihram para a umrah. (75. Levou consigo setenta camelos. O número de peregrinos da umrah era de setecentos. Havia um camelo para cada dez pessoas.) Isso era para que os coraixitas não temessem que ele pretendesse guerrear e compreendessem que havia ido apenas visitar a Casa de Allah e prestar-lhe homenagem.

Quando chegou a Usfan, perto de Meca, encontrou Bishr ibn Sufyan al-Ka’bi. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, um exército dos coraixitas se reuniu nas proximidades. Ao saberem de sua partida, vieram com uma grande caravana de camelos para combatê-lo. Eles já haviam se reunido em Dhu Tuwa. Juraram que de modo algum permitiriam que você entrasse em Meca. Sob o comando de Khalid ibn al-Walid, avançaram até Kura’ al-Ghamim (76. Dhu Tuwa é um lugar próximo de Meca. Kura’ al-Ghamim é um vale situado a oito milhas de Usfan).” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Desgraça aos coraixitas! O espírito belicoso os dominou completamente. Que dificuldade haveria se me dessem a oportunidade de chegar a um entendimento com todos os árabes? Se os árabes me derrotarem, o desejo dos coraixitas estará realizado. Mas, se Allah me conceder a vitória sobre os árabes, todos buscarão refúgio no Islã. Mesmo que não aceitem o Islã, ainda assim poderão combater com forças muito maiores. O que os coraixitas imaginam? Juro por Allah que continuarei a combater até o fim: ou esta religião triunfará, ou eu perecerei.”

Então ele disse: “Há alguém que possa nos conduzir por um caminho diferente daquele em que os coraixitas se reuniram?” Em seguida, esse homem os conduziu por uma passagem montanhosa difícil. Essa expedição foi extremamente penosa para os muçulmanos. Por fim, chegaram a uma planície na extremidade do vale. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse aos muçulmanos: “Dizei: ‘Peço perdão a Allah e me arrependo.’” Todos disseram isso. Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Foi exatamente isso que Moisés (que a paz esteja com ele) ordenou aos Filhos de Israel que dissessem. Mas eles não quiseram dizê-lo.”

Depois disso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou a todos que passassem por Jamz, à direita, em direção a Thaniyyat al-Murar, até chegarem ao vale de Hudaybiyyah, situado na parte baixa de Meca. O exército muçulmano partiu conforme a ordem. A tropa de cavalaria avançada dos coraixitas, ao perceber de outra direção o avanço do exército muçulmano, voltou a toda velocidade para junto dos coraixitas. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou com seus companheiros a Thaniyyat al-Murar, e foi ali que seu camelo parou. As pessoas disseram: “O camelo parou.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “O camelo não parou, pois não é de seu costume fazê-lo. Contudo, aquilo que deteve o exército de elefantes de Abraha é o que o impede de seguir para Meca. Hoje, qualquer proposta que os coraixitas me apresentem em nome dos laços de sangue será aceita por mim.” Depois, ordenou aos companheiros de viagem que acampassem. Todos disseram: “Ó Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não há água alguma aqui. Como acamparemos neste lugar?” Ele tirou uma flecha, entregou-a a um companheiro e ordenou-lhe que a lançasse dentro de um poço seco. Quando ele lançou a flecha, o poço se encheu de água, e os muçulmanos acamparam ali.

Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se estabeleceu em segurança, Budayl ibn Warqa chegou até ele acompanhado de alguns homens da tribo Khuza’ah. Eles conversaram com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Perguntaram-lhe: “Com que objetivo você veio?” Ele informou que não viera com o propósito de travar qualquer guerra ou combate, mas apenas para visitar a sagrada Caaba e prestar-lhe homenagem. Disse-lhes a mesma coisa que havia dito a Bishr ibn Abu Sufyan. Eles voltaram e disseram aos coraixitas: “Ó coraixitas, vocês decidiram com excessiva precipitação a respeito de Muhammad. Na verdade, ele não veio para guerrear; veio apenas para visitar a Caaba.”

Ao ouvir isso, os coraixitas inverteram a acusação contra eles e dirigiram-lhes palavras desagradáveis. Disseram: “Mesmo que ele não tenha vindo para lutar, jamais permitiremos que entre em Meca à força. Todos os árabes sabem que os habitantes de Meca nunca permitiram que alguém entrasse nesta cidade pela força.”

Todos os membros da tribo Khuzā‘ah, fossem muçulmanos ou politeístas, eram sinceros benfeitores do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e guardavam todos os seus segredos. Tudo o que acontecia em Meca eles não ocultavam do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

Os coraixitas enviaram Mīkrāz ibn Ḥafṣ ibn Akhyāf ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao vê-lo aproximar-se de longe, o Mensageiro de Allah comentou: “Este homem é um traidor.” Quando ele chegou ao Mensageiro de Allah e conversou com ele, o Profeta disse a Mīkrāz as mesmas coisas que havia dito a Budayl e aos seus companheiros. Ele voltou aos coraixitas e transmitiu-lhes exatamente o que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia dito.

Depois, os coraixitas enviaram Ḥulayṣ ibn ‘Alqamah — ou ibn Zabān — ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Assim que o viu, ele comentou: “Este homem pertence a um povo temente a Allah. Levem os nossos animais destinados ao sacrifício para que ele os veja.” Quando Ḥulayṣ viu passar diante dele uma enorme caravana de camelos portando os sinais do sacrifício, cujos pelos haviam caído por não conseguirem chegar ao local do sacrifício durante tanto tempo, voltou aos coraixitas e contou-lhes o que tinha visto. Ficou tão impressionado ao ver os animais destinados ao sacrifício que não lhe restou dúvida alguma de que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia vindo apenas para realizar a ‘umrah; por isso, nem considerou necessário encontrar-se com ele para interrogá-lo. Ao ouvirem suas palavras, os coraixitas disseram: “Senta-te calado. És um beduíno ignorante; o que podes compreender?” Ao ouvir isso, ele se enfureceu e disse: “Ó coraixitas! Não nos aliamos a vós para esse tipo de conduta, nem celebramos um pacto convosco por causa disso. Será impedido aquele que veio visitar a Casa de Allah e honrá-la? Juro e faço o voto de que, se não permitirdes que Muhammad cumpra o nobre propósito pelo qual veio, abandonarei vós imediatamente, levando comigo todo o meu povo da tribo.” Eles lhe disseram: “Ḥulayṣ, espera um pouco! Permite que cheguemos a uma decisão consensual.”

Depois, os coraixitas enviaram ‘Urwah ibn Mas‘ūd al-Thaqafī ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele sentou-se diante do Mensageiro de Allah e disse: “Ó Muhammad, reuniste esta enorme multidão para subjugar os teus próprios parentes? Fica sabendo, porém, que os coraixitas também saíram preparados para o confronto, assumindo a aparência de leões com sua caravana de camelos fracos. Tomaram Allah como testemunha e juraram que jamais te permitirão entrar na cidade à força. Juro por Allah que, muito em breve, toda essa gente te deixará sozinho e se afastará.” Abū Bakr al-Ṣiddīq, que Allah esteja satisfeito com ele, estava sentado atrás do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ouvindo aquelas palavras. Enfurecido, disse: “Vai lamber os membros de al-Lāt. Achas que abandonaremos o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz?” ‘Urwah perguntou: “Quem é este homem?” O Mensageiro de Allah respondeu: “É o filho de Abū Quḥāfah.” ‘Urwah dirigiu-se a Abū Bakr e disse: “Certa vez fizeste-me um favor; caso contrário, eu teria vingado hoje as palavras que disseste. Em consideração àquele favor, deixarei isso passar.” Depois, enquanto conversava, ‘Urwah começou a mexer na barba do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Nesse momento, Mughīrah ibn Shu‘bah, que Allah esteja satisfeito com ele, permaneceu ao lado do Mensageiro de Allah com a espada na mão. Sempre que ‘Urwah tocava a barba do Mensageiro de Allah, Mughīrah batia de leve em sua mão com a espada e dizia: “Não ponhas a mão no rosto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Caso contrário, esta espada cairá sobre o teu pescoço.” ‘Urwah disse: “Que vergonha! Como és rude e insensível.” Ao ver isso, o Mensageiro de Allah sorriu. ‘Urwah perguntou: “Ó Muhammad, quem é este homem?” Ele respondeu: “É o teu sobrinho, Mughīrah ibn Shu‘bah.” (Mughīrah e ‘Urwah eram ambos originários da tribo de Banū Thaqīf.) ‘Urwah disse: “Ó ingrato! Ainda ontem fiz-te um favor tão grande.” Depois, o Mensageiro de Allah conversou com ‘Urwah e informou-lhe que não havia vindo para lutar. [77. Ibn Hishām diz: Antes de aceitar o Islã, Mughīrah havia matado treze homens da família Banū Mālik, da tribo de Banū Thaqīf. Como resultado, surgiu uma forte tensão entre as duas famílias. Então, ele ajudou os Banū Mālik a obter treze indenizações de sangue e conseguiu a sua própria libertação, além de providenciar a reconciliação entre as duas famílias. Aqui, ‘Urwah aludia a esse acontecimento.]

‘Urwah ibn Mas‘ūd despediu-se do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele viu com que devoção e reverência os Companheiros do Mensageiro de Allah o tratavam. Quando ele fazia a ablução, todos competiam e disputavam para obter a água da sua ablução; quando cuspia, disputavam para recolher a sua saliva; e, quando caía um fio de seu cabelo, disputavam para apanhá-lo. Ao retornar aos coraixitas, disse: “Ó coraixitas! Vi o imperador persa Cosroes, o imperador romano César e o imperador da Abissínia, o Negus, em seus respectivos ambientes régios. Juro por Allah que nunca vi nenhum rei ser tão venerado e respeitado pelos seus súditos quanto Muhammad é pelos seus Companheiros. Eles não estão dispostos, por nada neste mundo, a deixá-lo indefeso diante do inimigo e abandoná-lo. Portanto, fazei o que julgardes melhor.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Khirāsh ibn Umayyah al-Khuzā‘ī a Meca, aos coraixitas. Montou-o em seu próprio camelo, chamado Tha‘lab, e enviou-o aos líderes para explicar o propósito de sua chegada. Eles se prepararam para matar o camelo do Mensageiro de Allah e também Khirāsh, que Allah esteja satisfeito com ele. Contudo, algumas pessoas de diferentes tribos reuniram-se, protegeram-no e libertaram-no. Depois, ele retornou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

Então, ele decidiu enviar Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) aos líderes coraixitas em Meca, para explicar-lhes o propósito de sua chegada. Mas Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó Mensageiro de Allah, temo que os coraixitas me matem. Não há em Meca ninguém do clã dos Banu Adi ibn Kaab que possa me proteger deles. E eles sabem muito bem o quanto sou um inimigo ferrenho dos coraixitas. Envie, em vez disso, Uthman ibn Affan (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele tem muito mais influência entre os habitantes de Meca do que eu.” Imediatamente, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Uthman, para que ele explicasse aos habitantes de Meca que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não viera com intenção de guerrear, mas para realizar a Umrah. Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) partiu. Depois de entrar na cidade, encontrou Aban ibn Said. Aban concedeu-lhe proteção. Assim, ele conseguiu transmitir a mensagem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) encontrou-se com Abu Sufyan e com os demais líderes coraixitas e transmitiu-lhes a mensagem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Eles disseram a Uthman: “Escuta, Uthman, se quiseres circundar a Caaba, então faze-o.” Uthman respondeu: “Não o farei enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não a circundar.” Os coraixitas mantiveram Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) detido. Enquanto isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os muçulmanos ouviram que Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) havia sido martirizado.

A Juramento de Ridwan

Ibn Ishaq disse: Abdullah ibn Abu Bakr informou-me que, no mesmo instante em que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ouviu que Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) havia sido morto, disse: “Não deixarei este lugar sem lutar contra os coraixitas.” Ele fez os muçulmanos jurarem lutar. Este foi o Juramento de Ridwan. Esse juramento foi prestado sob uma árvore. Os muçulmanos em geral diziam: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez um juramento de sacrificar a própria vida.” Jaber ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele), porém, dizia que não se tratava de um juramento de sacrificar a própria vida, mas de um juramento prestado para que não fugíssemos.” [78. Ibn Hisham mencionou que Abu Sinan al-Asadi (que Allah esteja satisfeito com ele) foi o primeiro a prestar o juramento.]

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez todos os muçulmanos prestarem o juramento. Ninguém ficou de fora desse juramento, exceto um homem. O nome desse homem era Jadd ibn Qays. Ele pertencia ao clã dos Banu Salama. Jaber ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia: “Esse homem ficou fora do juramento, escondendo-se sob a axila de um camelo. Ainda consigo ver diante dos meus olhos a cena em que ele se escondeu.”

Por fim, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, soube com certeza que a notícia da morte de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) era falsa.

O Tratado de Paz ou a Trégua de Hudaybiyyah

Os coraixitas enviaram Suhayl ibn Amr ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Enviaram-no com instruções para negociar com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O único objetivo dessa negociação seria fazer com que Muhammad não entrasse em Meca neste ano, como pretendia, e retornasse. Assim, os árabes jamais poderiam dizer que Muhammad havia entrado em Meca à força, subjugando os coraixitas.

Suhayl ibn Amr foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao vê-lo chegar, ele disse: “Esse homem só foi enviado agora porque os coraixitas certamente decidiram fazer uma trégua.” Suhayl chegou e iniciou uma longa conversa. Depois, ambas as partes chegaram a um acordo sobre a trégua.

Restava apenas formalizar a decisão do tratado e registrá-la por escrito. Nesse momento, Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) correu até Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e disse: “Ó Abu Bakr, ele não é o Mensageiro de Allah?” Abu Bakr respondeu: “Sim.” Umar perguntou: “Nós não somos muçulmanos?” Abu Bakr respondeu: “Certamente.” Umar perguntou: “Os coraixitas não são politeístas?” Abu Bakr respondeu: “Sim.” Umar tornou a perguntar: “Então, por que estamos prestes a nos submeter dessa maneira em relação à nossa religião?” Abu Bakr respondeu: “Ó Umar, obedece-lhe. Testemunho que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é o Mensageiro de Allah.” Umar disse: “Eu também testemunho que ele é o Mensageiro de Allah.”

Depois, ele foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, você não é o Mensageiro de Allah?” Ele respondeu: “Sim.” Umar perguntou: “Eles não são politeístas?” Ele respondeu: “Sim.” Umar tornou a perguntar: “Então, por que estamos prestes a tolerar esta humilhação em relação à nossa religião?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sou servo e Mensageiro de Allah. Jamais desobedecerei à Sua ordem, e Ele jamais me desviará.”

Mais tarde, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, costumava dizer: “Passei o resto da vida tentando expiar aquela conduta equivocada daquele dia por meio de caridade, orações, jejuns e libertação de escravos. Fiz tudo o que pude para me proteger das más consequências das minhas palavras. Por fim, comecei a ter esperança de que obteria um bom resultado.”

Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamou Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele) e disse: “Escreve: ‘Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso.’” Suhayl disse: “Essa é uma expressão que desconheço. Escreve, antes: ‘Em teu nome, ó Allah’.” (Ó Allah, em Teu nome.) Então ele disse: “Escreve: ‘Muhammad, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, celebrou com Suhayl ibn Amr o seguinte tratado de paz.’” Assim que ouviu isso, Suhayl ibn Amr exclamou: “Se eu o reconhecesse como Mensageiro de Allah, não teria lutado contra você. Escreve apenas o seu nome e o nome do seu pai.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Está bem, escreve isso: ‘Muhammad, filho de Abdullah, celebrou com Suhayl, filho de Amr, o seguinte tratado de paz.’” Ambos concordaram que a guerra seria interrompida por dez anos. Durante esses dez anos, as pessoas desfrutariam de plena paz e segurança e se absteriam de qualquer tipo de ataque umas contra as outras. Se alguém dos coraixitas fosse até Muhammad sem a permissão de seu tutor, ele o devolveria. Mas, se algum dos companheiros de Muhammad fosse até os coraixitas, eles não o devolveriam. Este nosso tratado jamais será violado. Ambas as partes o cumprirão com sinceridade e plena dedicação. Ninguém trairá nem se envolverá em atividades clandestinas de contrabando. Qualquer pessoa poderá aderir a este tratado ou celebrar um novo tratado com qualquer uma das partes — Muhammad ou os coraixitas — livremente.” Assim que esta cláusula foi anunciada, a tribo Banu Khuza’a celebrou imediatamente uma aliança com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e Banu Bakr celebrou uma aliança com os coraixitas. O tratado também registrava: “Você, Muhammad, retornará este ano sem entrar em nossa cidade, Meca. No próximo ano, abriremos para você as portas de Meca e nos afastaremos para outro lugar. Você entrará livremente e permanecerá em Meca com seus companheiros durante três dias. Poderá levar consigo espadas embainhadas. Não haverá obrigação de entrar sem espadas.”

Enquanto o tratado estava sendo redigido sob a supervisão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e de Suhayl ibn Amr, Abu Jandal, filho de Suhayl ibn Amr, chegou ali acorrentado. Ele havia fugido para junto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele momento, os companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não estavam presentes no local. Eles já começavam a duvidar da vitória indicada pelo sonho que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia visto. Por isso, ao verem que a cláusula de retornar naquele ano, sem realizar a Umrah, estava sendo incluída no tratado e que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a suportava e aceitava, ficaram profundamente perturbados e quase se desviaram. Ao ver Abu Jandal, Suhayl ibn Amr perdeu o controle, deu-lhe uma violenta bofetada no rosto e agarrou a roupa que cobria seu peito. Ele dizia: “Ó Muhammad, o tratado entre mim e você foi concluído antes da chegada de Abu Jandal.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “É verdade.” Então ele começou a puxar Abu Jandal com força pela roupa do peito, para devolvê-lo a Meca. Abu Jandal gritava em voz alta: “Ó muçulmanos, serei devolvido justamente aos coraixitas que me torturam por eu ter aceitado o Islã?” Com esse grito angustiado, a indignação dos muçulmanos aumentou ainda mais. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó Abu Jandal, tem paciência e aceita a tua situação. Allah providenciará uma saída para você e para os muçulmanos indefesos e perseguidos como você que estão em Meca. Celebramos um tratado de paz com os coraixitas. Tomando Allah como testemunha, fizemos uma promessa mútua sobre isso. Não quebraremos a promessa que lhes fizemos.”

Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) correu até Abu Jandal e disse: “Ó Abu Jandal, tenha paciência. Eles são politeístas, e o sangue de todos eles equivale ao sangue de cães.” Ao dizer isso, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) estendeu sua própria espada a Abu Jandal. Ele disse: “Eu esperava que Abu Jandal pegasse a espada e matasse o próprio pai.” Porém, no fim, Abu Jandal sentiu compaixão por seu pai, e o assunto terminou ali.

Quando terminou a redação do documento, muitas pessoas de ambos os lados, muçulmanos e politeístas, testemunharam-no. Entre as testemunhas mais importantes estavam Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele), Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele), Abdullah ibn Suhayl ibn Amr, Sa’d ibn Abi Waqqas, Mahmud ibn Maslamah, Miqraz ibn Hafs e Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele). Miqraz ainda era politeísta naquela época. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) foi o redator do documento.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava preocupado sobre como sacrificar os camelos destinados ao sacrifício e sair do estado de ihram. Naquele momento, ele ainda realizava a oração em estado de ihram. Depois que o tratado foi assinado, sacrificou seu próprio animal e raspou a cabeça. Imediatamente, todos os companheiros também sacrificaram seus animais e rasparam a cabeça. Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em direção a Medina. Quando ainda estava entre Meca e Medina, a surata Al-Fath foi revelada:

“Ó Profeta, Nós te concedemos uma vitória manifesta, para que Allah perdoe os teus pecados passados e futuros, complete sobre ti a Sua graça e te guie por um caminho reto.”

Allah também diz: “Allah tornou verdadeira a visão de Seu Mensageiro. Ele havia visto em sonho que em breve entraria em Meca em segurança e sem temor. Se Allah quiser, entrareis certamente na Mesquita Sagrada em segurança, raspando ou cortando os cabelos, sem medo. Ele — o Mensageiro de Allah — soube aquilo que vós não soubestes. Além disso, Ele determinou, depois desse acontecimento — o tratado de Hudaybiyyah — uma vitória próxima.”

Zuhri disse: Entre todas as vitórias alcançadas anteriormente pelo Islã, esta — o tratado de Hudaybiyyah — foi a maior. Antes, quando as pessoas se encontravam frente a frente com o adversário, entravam em guerra. Mas, depois que o tratado foi firmado, a guerra terminou e, como consequência, as pessoas tiveram a oportunidade de conviver e conversar umas com as outras sem temor. Assim, o Islã começou a se espalhar amplamente. Naquele período, bastava conversar sobre o Islã com alguém que tivesse um mínimo de discernimento para que ele o aceitasse. O número dos que aceitaram o Islã nos dois anos posteriores ao tratado não foi menor que o total dos que o haviam aceitado antes do tratado; pelo contrário, foi maior. [79. Ibn Hisham disse: A prova que confirma essa afirmação de Zuhri é que o Mensageiro de Allah foi a Hudaybiyyah acompanhado de 1.400 muçulmanos. Apenas dois anos depois, quando foi conquistar Meca, estava acompanhado de dez mil muçulmanos.]

 

A conquista de Khaybar: o mês de Muharram do 7º ano da Hégira

Ao retornar de Hudaybiyyah, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — passou em Medina o mês de Dhu al-Hijjah e parte do mês de Muharram. Os politeístas não realizaram o hajj naquele ano. No final de Muharram, ele partiu em campanha contra Khaybar.

Abu Mu’attab ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — chegou a Khaybar, disse aos Companheiros: “Parai.” Eu estava entre eles. Em seguida, disse: “Ó Allah, Senhor dos céus, da terra e de tudo quanto há entre ambos; Soberano absoluto de todos os demônios e daqueles a quem eles desviaram; Senhor absoluto dos ventos e de tudo que eles conduzem, transportam e lançam; pedimos-Te proteção contra todo mal desta povoação e de seus habitantes. Em nome de Allah, avançai.” Ele dizia essas palavras ao entrar em cada povoação.

Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — não atacava nenhum povo antes da manhã. Se ouvia o chamado para a oração naquele lugar, parava; se não o ouvia, atacava. Chegamos a Khaybar à noite e fizemos uma parada. Contudo, não ouvimos nenhum chamado para a oração. Depois, ele prosseguiu conosco. Eu estava montado atrás de Abu Talhah, e meus pés tocavam os pés do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Pela manhã, os trabalhadores de Khaybar saíam para o trabalho diário, levando enxadas e cestos. Ao verem o Mensageiro de Allah e seu exército, exclamaram espantados: “Desgraça! Parece que Muhammad chegou com seu exército!” E, dizendo isso, fugiram e começaram a recuar. Ao ver aquela cena, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Allah é o Maior! Khaybar caiu. Quando chegamos a uma povoação, sua manhã se torna uma manhã de infortúnio para seus habitantes.”

Ibn Ishaq disse: Quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — foi de Medina para Khaybar, passou pela montanha de Isr. Por isso, uma mesquita foi construída ali. Depois, passou pelo local chamado Sahaba. Em seguida, fez uma parada com todo o seu exército no vale de Raji. Ali, posicionou-se entre o povo de Khaybar e os Ghatfan, para impedir que os Ghatfan ajudassem o povo de Khaybar. Eles sempre ajudavam os judeus de Khaybar contra o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —.

Ao ouvirem que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava chegando, os homens de Ghatafan reuniram um grupo de guerreiros e partiram para reforçar os judeus de Khaybar. Depois de percorrerem uma curta distância, ouviram um grande alvoroço causado por algum perigo que havia atingido suas famílias e seus bens, deixados para trás. Pensaram que os muçulmanos talvez tivessem atacado suas famílias por outra direção. Então retornaram e dedicaram-se à proteção de suas próprias famílias e bens, deixando os habitantes de Khaybar enfrentarem o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Depois disso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) começou a conquistar, uma após outra, as riquezas e as fortalezas dos judeus de Khaybar. Primeiro, conquistou a fortaleza de Na’im. Ali, o Companheiro Mahmud ibn Maslamah foi martirizado. Ele foi atingido e morto quando lhe lançaram uma pedra de moinho usada para moer trigo. Depois, foi conquistada a fortaleza de Abu al-Huqayq, chamada Qamus. Dali, ele capturou alguns judeus, entre os quais estava Safiyyah, filha de Huyayy ibn Akhtab. Ela era esposa de Kinana ibn al-Rabi. Duas de suas primas também foram capturadas. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) escolheu Safiyyah para si. Dihyah ibn Khalifah al-Kalbi (que Allah esteja satisfeito com ele) havia pedido Safiyyah ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Como ele a havia escolhido para si, deu a Dihyah sua prima. Por fim, os cativos de Khaybar foram distribuídos entre todos os Companheiros.

Uma após outra, as fortalezas de Khaybar e suas riquezas passavam para as mãos do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Restavam ainda apenas duas fortalezas a serem conquistadas, chamadas Watiḥ e Sulālim. Por fim, ele conquistou as duas. Manteve-as sitiadas por mais de dez dias.

O líder judeu Marhab, depois de se armar, avançou para enfrentar o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e começou a recitar um poema de exaltação guerreira. O poema dizia:

“Toda Khaybar sabe que eu sou Marhab (isto é, muito poderoso).

Um guerreiro experiente e perspicaz, hábil em golpear com armas.

Às vezes atravesso o inimigo de lado a lado, e às vezes desferro um golpe poderoso.

Quando os tigres avançam enfurecidos, ninguém consegue sequer chegar perto de mim

nem se aproximar de mim.”

Ele desafiou: “Venham, quem está disposto a travar um duelo comigo?” Ka‘b ibn

Malik (que Allah esteja satisfeito com ele), depois de recitar o canto de guerra, respondeu-lhe:

“Khaybar sabe que eu sou Ka‘b. Afasto a tristeza e a adversidade; sou corajoso e inflexível.

Quando a guerra começa, batalha após batalha continua.

Tenho uma espada afiada como o clarão de um relâmpago.

Nós vos esmagaremos sob os pés, para que todas as dificuldades cheguem ao fim.

Com isso seremos recompensados, ou para nós

virão abundantes espólios de guerra! (Esses espólios virão) com o golpe de um punho trovejante.

e não haverá motivo para censura nisso.”

O Mensageiro de Allah perguntou: “Quem está disposto a lutar contra este homem?” Muhammad ibn Maslama

disse: “Ó Mensageiro de Allah, estou disposto a lutar contra ele. Juro por Allah que sou um combatente feroz. Quero vingar nele o assassinato de um parente. Ontem ele matou meu irmão, Mahmud ibn Maslama.” O Mensageiro de Allah disse: “Vai. Ó Allah, ajuda-o a derrotar Marhab.” Então começou um intenso combate entre Muhammad ibn Maslama e Marhab. Uma árvore antiga ergueu-se entre os dois como obstáculo. Ambos começaram a abrigar-se alternadamente atrás dela. Em certo momento, a espada de Marhab ficou presa no escudo de Muhammad ibn Maslama. Imediatamente, Muhammad ibn Maslama matou Marhab com um golpe de espada.

Depois que Marhab foi morto, seu irmão Yasar avançou bramindo. Segundo Hisham ibn Urwa, Zubayr ibn al-Awwam foi lutar contra ele. Ao ouvir isso, sua mãe, Safiyya bint Abd al-Muttalib, perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, meu filho será morto?” Ele respondeu: “Não; teu filho, se Allah quiser, matará Yasar.” Zubayr realmente matou Yasar.

Salama ibn Amr ibn al-Akwa disse: O Mensageiro de Allah enviou Abu Bakr as-Siddiq com a bandeira para conquistar uma das fortalezas de Khaybar. Ele lutou e, apesar de seus grandes esforços, não conseguiu conquistar a fortaleza e voltou. No dia seguinte, enviou Umar ibn al-Khattab. Ele também travou uma batalha intensa, mas voltou sem êxito. Então o Mensageiro de Allah disse: “Amanhã de manhã entregarei a bandeira a alguém que ama Allah e Seu Mensageiro. Allah concederá a conquista da fortaleza pelas mãos dele. Ele não é alguém que fuja do campo de batalha.” O Mensageiro de Allah chamou Ali. Naquele momento, ele sofria de uma enfermidade nos olhos. O Mensageiro de Allah cuspiu em seus olhos e disse: “Avança com esta bandeira e luta até que Allah te conceda a vitória pelas tuas mãos.”

Salama disse: Ele avançou. Tinha uma força e um vigor extraordinários, capazes de subjugar o inimigo. Corria apenas gingando e fazendo movimentos de combate. Nós o seguíamos atrás dele. Ele fincou a bandeira num monte de pedras sob a fortaleza. Um judeu, do alto, viu-o e perguntou: “Quem és tu?” Ele respondeu: “Sou Ali, filho de Abu Talib.” O judeu disse: “Pela Torá! Vós triunfastes.” Por fim, Allah concedeu a vitória pelas mãos de Ali.

O Mensageiro de Allah sitiou o povo de Khaybar em suas duas fortalezas, Watih e Sulalim. Quando compreenderam com certeza que não havia outra saída senão a morte, pediram-lhe que lhes poupasse a vida e propuseram ser expulsos de Khaybar. O Mensageiro de Allah aceitou a proposta e concedeu-lhes segurança. Antes disso, ele já havia conquistado todas as fortalezas, exceto aquelas duas, bem como todos os bens móveis e imóveis, incluindo as terras de an-Natah e al-Qutaybah. O povo de Fadak tomou conhecimento de tudo. Pediram ao Mensageiro de Allah que lhes poupasse a vida, os expulsasse e tomasse suas terras e riquezas. O Mensageiro de Allah aceitou o pedido. Entre os judeus que foram até o Mensageiro de Allah com esse pedido estava Muhayyisa ibn Masud, um homem dos Banu Haritha. O povo de Khaybar aceitou inicialmente esse acordo, mas depois pediu que, em vez de serem expulsos, fossem empregados no cultivo das terras mediante a divisão pela metade. Argumentaram que eram eles que melhor cultivavam aquelas terras e que eram os mais experientes e hábeis nesse trabalho. O Mensageiro de Allah aceitou a proposta e fez um acordo com eles. Impôs, porém, a condição de que teríamos o direito de expulsá-los quando quiséssemos. O povo de Fadak também fez um acordo com ele sob essa condição. Assim, Khaybar tornou-se propriedade conjunta dos muçulmanos, e Fadak tornou-se propriedade pessoal do Mensageiro de Allah, pois não foi necessária uma expedição militar para conquistá-la.

Depois desses acordos, quando o Mensageiro de Allah finalmente respirou aliviado, Zaynab bint al-Harith, esposa de Sallam ibn Mishkam, ofereceu-lhe um cabrito assado. Antes de enviá-lo, ela perguntou: “Que parte do cabrito o Mensageiro de Allah prefere comer?” Disseram-lhe que ele preferia a carne da coxa ou da perna. Então ela misturou muito veneno na coxa. Depois envenenou o cabrito inteiro e levou-o ao Mensageiro de Allah. Ele mastigou um pedaço da carne, mas não o engoliu. O Companheiro Bishr ibn al-Bara ibn Marur também estava sentado comendo com ele. Bishr colocou um pedaço de carne na boca e mastigou-o; ele o engoliu. Porém, o Mensageiro de Allah cuspiu o pedaço. Ele disse: “Este osso está me informando que está envenenado.” Então chamou a mulher e interrogou-a. Ela confessou. Ele perguntou-lhe: “Por que fizeste tal coisa?” Ela respondeu: “Tu sabes o que fizeste ao meu povo. Pensei em envenenar-te dessa maneira. Se fores um rei, ficarei livre das tuas mãos; mas, se fores um profeta, serás advertido disso por Allah.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah perdoou-a. Contudo, Bishr morreu por causa do pedaço que havia comido. Depois de concluir a conquista de Khaybar, o Mensageiro de Allah partiu para Wadi al-Qura. Sitiou seus habitantes durante alguns dias e, depois, partiu para Medina.

Em Khaybar ou em algum lugar durante o caminho, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passou a noite de núpcias com Safiyya. Umm Sulaym bint Milhan, mãe de Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele), havia preparado Safiyya com trajes de noiva. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passou a noite de núpcias com ela numa tenda semelhante à sua cúpula. Enquanto isso, Abu Ayyub Khalid ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele), segurando uma espada desembainhada, permaneceu acordado durante toda a noite, vigiando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Durante toda a noite, ele patrulhou ao redor da tenda. Pela manhã, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, viu-o e perguntou: “O que aconteceu, Abu Ayyub?” Ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, fiquei de guarda temendo que algum perigo lhe viesse da parte dessa mulher. Pois fizeste matar o pai, o marido e outros membros da sua tribo. Além disso, ela acaba de aceitar o Islã. Por isso, temi que algum perigo lhe viesse da parte dela.” Alguns dizem que, ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó Allah, protege Abu Ayyub assim como ele passou a noite inteira empenhado em me proteger.”

No caminho de volta de Khaybar, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez uma parada num lugar. No fim da noite, ele disse: “Quem pode assumir a responsabilidade de nos acordar na hora do fajr, para que possamos dormir agora?” Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro de Allah, posso assumir essa responsabilidade.” Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os muçulmanos que o acompanhavam fizeram uma parada e adormeceram. Durante a noite, Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a rezar. Depois de rezar por algum tempo, sentou-se apoiado no camelo, aguardando o amanhecer. Em certo momento, adormeceu. Como resultado, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os guerreiros muçulmanos não conseguiram acordar no horário. Seu sono só foi interrompido quando sentiram o calor do sol ardente. O primeiro a despertar foi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao levantar-se, disse a Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele): “Bilal, que foi que fizeste hoje?” Ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, fui também vencido pelo mesmo sono que te dominou.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Disseste a verdade.” Em seguida, avançou um pouco com o seu camelo. Depois parou-o e fez a ablução. Os Companheiros também fizeram a ablução. Então pediu a Bilal que fizesse o iqama para iniciar a oração. Ele fez o iqama, e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conduziu os Companheiros na oração. Ao terminar, voltou-se para os Companheiros e disse: “Se alguma vez vos esquecerdes de rezar, rezai assim que vos lembrardes. Pois Allah disse: ‘Estabelece a oração para Me recordares.’”

Após a conquista de Khaybar, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, encarregou Ibn Luqaym al-Abasi (que Allah esteja satisfeito com ele) de cuidar de todas as galinhas e dos animais domésticos de Khaybar. A conquista de Khaybar foi concluída no mês de Safar. Ibn Luqaym recitou um poema sobre Khaybar, que é o seguinte:

“Por um Profeta cercado por um destemido e impetuoso exército vestido de branco,

Naṭā foi atacada,

quando os habitantes de Naṭā se dispersaram em todas as direções

e as tribos de Aslam e Ghifar também se separaram entre eles

então tiveram certeza da derrota.”

O povo de Banu Amr ibn Zur’ar viu logo ao amanhecer,

que os habitantes de Ash-Shiqqa haviam mergulhado em trevas profundas em pleno dia.

Por toda a sua planície haviam corrido a destruição e a morte.

Nada fora poupado, exceto os galos que cantavam ao amanhecer.

E cada fortaleza fora conquistada por Abd Ashhal

ou pelos cavaleiros de Banu Najjar.

[Ash Alhal e Banu Najjar são os nomes de duas tribos dos Ansar.]

E os Muhajirun, que haviam descoberto a testa por cima dos elmos—

que nem sequer podem pensar em fugir.

Eu sabia que Maomé certamente triunfaria e

permaneceria ali por muitas gerações.

Os gritos e brados daquele dia abriram os olhos dos judeus.”

 

O retorno de Ja‘far ibn Abu Talib da Abissínia

Ibn Hisham diz:

Al-Sha‘bi relatou que Ja‘far, filho de Abu Talib, retornou ao Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, no dia da conquista de Khaybar. Ele beijou sua testa e, abraçando-o, disse: “Hoje não consigo determinar se estou mais feliz com a conquista de Khaybar ou com o retorno de Ja‘far.” Ibn Ishaq diz: ‘Amr ibn Umayya al-Damri foi enviado ao Najashi para trazer os companheiros do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, que haviam permanecido na Abissínia. Ele os trouxe em dois navios. Naquele momento, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, encontrava-se em Khaybar, depois de concluir o tratado de Hudaybiyyah. Entre os companheiros que viviam no exílio estavam Ja‘far ibn Abu Talib, do clã de Banu Hashim ibn Abd Manaf; sua esposa, Asma bint Umays al-Khath‘amiyyah; e seu filho Abd Allah ibn Ja‘far, nascido durante sua permanência na Abissínia. Do clã de Banu Abd Shams ibn Abd Manaf estavam Khalid ibn Sa‘id ibn Umayya; sua esposa, Amina bint Khalaf; seu filho Sa‘id e sua filha Ama—ambos nascidos na Abissínia—; o irmão de Khalid, ‘Amr; Mu‘ayqib ibn Abu Fatima, que mais tarde foi nomeado por ‘Umar ibn al-Khattab tesoureiro do Bayt al-Mal islâmico; e Abu Musa al-Ash‘ari. De Banu Asad ibn Abd al-‘Uzza, al-Aswad ibn Nawfal ibn Khuwailid.

De Banu Abd al-Dar ibn Qusayy, Juham ibn Qays.

Dos Banu Zuhra: Amir ibn Abi Waqqas e Utba ibn Masud.

Dos Banu Taym ibn Murra: Harith ibn Khalid ibn Sakhr.

Dos Banu Jumah ibn Amr: Uthman ibn Rabi’a ibn Uhyan.

Dos Banu Sahm ibn Amr: Mahmiya ibn al-Jaza.

Dos Banu Adi ibn Ka’b: Ma’mar ibn Abdullah ibn Sadlaha.

Dos Banu Amir ibn Lu’ayy: Abu Hatim ibn Amr e Malik ibn Rabi’a.

Dos Banu Harith ibn Fihr ibn Malik: Harith ibn Abd al-Qays ibn Laqit.

Algumas das esposas dos muçulmanos que haviam falecido entre os que permaneciam ali vieram com eles. O Najashi enviou um total de 16 homens com Amr ibn Damari, em dois navios. Entre os muçulmanos emigrados na Abissínia, aqueles que não participaram da Batalha de Badr, que não retornaram enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permanecia em Meca, mas vieram depois, e que o Najashi não enviou nesses dois navios, o número total de homens era 34.

Umrat al-Qadá: 7.º ano da Hégira: mês de Dhu al-Qi‘da

Depois de regressar de Khaybar, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — permaneceu em Medina desde Rabi‘ al-Awwal até ao mês de Shawwal. Durante esse período, ele próprio participou em várias expedições militares ou enviou outros Companheiros.

Depois, no mês de Dhu al-Qi‘da, partiu em direção a Meca para realizar a Umra compensatória que havia sido impedida no ano anterior. No mesmo mês do ano anterior, os politeístas tinham-no interceptado no caminho e obrigado a regressar sem realizar a Umra. Nessa mesma viagem, os muçulmanos que no ano anterior haviam sido seus companheiros estavam a passar por extrema pobreza, necessidade e sofrimento. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Os coraixitas reuniram-se e ficaram alinhados na sua assembleia, Dar al-Nadwa, para observar o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e os seus Companheiros. Quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — entrou na Mesquita Sagrada, colocou o seu manto passando-o por baixo da axila direita e sobre o ombro esquerdo, ergueu a mão direita, deixando descoberta a axila direita, e disse: ‘Hoje, Allah terá misericórdia de quem se mostrar forte.’ Depois de dizer isso, beijou a Pedra Negra. Em seguida, ele e os seus Companheiros começaram a caminhar vigorosamente, com um porte heroico. Quando se ocultaram dos olhares dos coraixitas, passando por detrás da Caaba, beijaram o Canto Iemenita e caminharam normalmente até chegarem à Pedra Negra, completando uma volta. Depois, voltaram a caminhar vigorosamente, como antes. Assim, fizeram três voltas e completaram as restantes caminhando normalmente.”

Foi também nessa viagem que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — se casou com Maymuna, filha de al-Harith (que Allah esteja satisfeito com ela), enquanto se encontrava em estado de ihram. Al-Abbas ibn Abd al-Muttalib (que Allah esteja satisfeito com ele) foi o responsável por promover esse casamento.

O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — permaneceu três dias em Meca. No terceiro dia, alguns coraixitas, liderados por Huwaytib ibn Abd al-‘Uzza, foram ter com o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e disseram-lhe: “O prazo da vossa permanência em Meca terminou. Portanto, deixa Meca.” [80. Isto é, o prazo de três dias estipulado no tratado de Hudaybiyya.]

Os coraixitas tinham-lhe confiado a responsabilidade de providenciar a partida do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Que mal há se eu celebrar o casamento aqui, na vossa presença, preparar comida para vós e vós participardes?” Eles responderam: “Não precisamos da tua comida. Vai-te embora.”

O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — deixou Meca. Deixou o seu servo Abu Rafi‘ para acompanhar Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela). O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — chegou a Sarif, próximo de Tan‘im. Abu Rafi‘ levou Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela) até ele. Aqui, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — consumou o casamento com Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela) e depois regressou a Medina. Ibn Hisham disse: Segundo o relato de Abu ‘Ubayda, foi no final dessa viagem que foi revelado o versículo: “Allah tornou verdadeira a visão do Seu Mensageiro. (Na visão, Ele havia-lhe anunciado:) Haveis de entrar na Mesquita Sagrada, se Allah quiser, em segurança e sem temor, com as cabeças rapadas ou os cabelos cortados. Ele sabia o que vós não sabíeis e, além disso, determinou uma vitória próxima.” (Al-Fath, último trecho)

A Batalha de Mu’ta: 8.º ano da Hégira: Jumada al-Ula

Passou o restante de Dhu al-Hijjah e até Rabi al-Thani em Medina. Naquele ano, os idólatras assumiram a liderança e a supervisão do Hajj. No mês de Jumada al-Awwal, enviou um exército de muçulmanos para a Síria, sob o comando de Zayd ibn Harithah. Esse exército encontrou o inimigo em combate num lugar chamado Mu’tah. A instrução do Mensageiro de Allah, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, era que, se Zayd fosse martirizado ou ferido, Ja’far assumiria o comando; e, se Ja’far fosse martirizado ou ferido, Abd Allah ibn Rawahah seria nomeado comandante.

Três mil muçulmanos prepararam-se para partir para a guerra. Quando os muçulmanos vieram despedir-se deles e cumprimentá-los, Abd Allah ibn Rawahah começou a chorar. As pessoas perguntaram: “Por que está chorando?” Ele respondeu: “Não estou chorando pelo apego ao mundo nem pelo afeto que sinto por vocês. Ouvi o Mensageiro de Allah, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, recitar um versículo do Alcorão. Nesse versículo, ao mencionar o Inferno, foi dito:

“Cada um de vocês terá de chegar perto daquele Inferno. Esta é a decisão final do seu Senhor.” (Maryam) Não consigo entender como me salvarei dele depois de chegar junto ao Inferno.” Os muçulmanos consolaram-no, dizendo: “Que Allah esteja com vocês! Que Ele os proteja do Inferno e nos traga de volta sãos e salvos!”

Em resposta, Abd Allah ibn Rawahah recitou estes versos:

“Peço perdão ao Misericordioso e desejo ser capaz de

desferir um golpe amplo e derramador de sangue (nos infiéis).

Ou de, com a minha mão sedenta de sangue, desferir com a lança um golpe

que lance rapidamente (o inimigo) à face da morte e despedace o seu fígado e as suas entranhas

despedaçará.

para que os transeuntes, ao passarem junto à minha sepultura, possam dizer que este homem

Allah o conduziu pelo caminho da orientação, fez dele um combatente pela fé, e ele

foi guiado pelo caminho reto.”

Então o exército partiu. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também os acompanhou por certa distância. Depois de percorrer algum trecho, despediu-se deles e, ao retornar, Abdullah ibn Rawaha recitou este poema:

“Que o grandioso homem de quem nos despedimos,

Allah mantenha feliz e em paz, entre as palmeiras, esse melhor amigo e o melhor dos que se despedem.” Então o exército muçulmano iniciou a marcha. Ao chegar a Ma’an, um lugar de Sham (Síria), fizeram uma pausa. Ali souberam que o imperador romano Heráclio havia acampado com cem mil soldados em Ma’ab, na região de Balqa. Outros cem mil homens das tribos de Lakhm, Judham, Bahra e Bali haviam se juntado a eles. Eram liderados por um homem da tribo de Bali e por outro da tribo de Irash, seu companheiro. Seu nome era Malik ibn Rafila. Depois de tomar conhecimento dessas informações, o exército muçulmano permaneceu dois dias em Ma’an, refletindo sobre o que deveria fazer. Por fim, decidiram enviar uma carta ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, informando-o sobre o número de soldados do inimigo. Ele poderia enviar mais tropas para ajudá-los ou dar as instruções que julgasse melhores, e eles agiriam de acordo com elas.

Abdullah ibn Rawaha encorajou os muçulmanos, dizendo: “Ó muçulmanos! Aquilo que hoje vos desagrada era precisamente o que desejáveis: o martírio. Não lutamos pelo poder do número nem pela superioridade numérica. Lutamos pela forma de vida com a qual Allah nos honrou. Portanto, avançai! Uma destas duas coisas excelentes — a vitória ou o martírio — está certamente destinada a nós.”

Todos os muçulmanos disseram: “Por Deus, Ibn Rawaha falou a verdade.”

Então os muçulmanos avançaram. Ao chegarem perto da fronteira de Balqa, depararam-se com as forças romanas e árabes reunidas de Heráclio. O local de Balqa chamava-se Masharif. O inimigo aproximou-se. Os muçulmanos deslocaram-se para um lado e estabeleceram-se numa aldeia chamada Mu’ta. Na ala direita do exército, confiaram o comando a Qutba ibn Qatada, dos Banu Udhrah (que Allah esteja satisfeito com ele), e, na ala esquerda, ao ansari Ubayya ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele), preparando-se para a batalha. Em seguida, começou um combate feroz entre os dois lados. O comandante-chefe Zayd ibn Haritha combateu com todas as suas forças, levando o estandarte do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e alcançou o martírio. Depois, Ja’far ibn Abu Talib tomou o estandarte. Desceu do cavalo, cortou-lhe as patas e alcançou o martírio combatendo. Pouco antes de alcançar o martírio, recitou estes versos:

“Ah! Como é maravilhosa a Paraíso e a proximidade dela!

Assim como o Paraíso é excelente e puro, também o são as suas bebidas.

O castigo dos romanos se aproxima; eles são incrédulos e

muito inferiores a mim, embora eu tenha recebido os seus golpes.”

Ibn Hisham disse:

Soube por uma fonte confiável que Ja’far ibn Abu Talib primeiro levantou o estandarte com a mão direita. Quando a espada do inimigo lhe cortou a mão direita, levantou o estandarte com a mão esquerda. Essa mão também foi cortada. Então ele o apertou contra o peito com os dois braços; depois alcançou o martírio sob os golpes do inimigo. Que Allah esteja satisfeito com ele. Naquela época, tinha trinta e três anos. Allah, o Altíssimo, concedeu-lhe duas asas no Paraíso, com as quais ele voa por onde quer. Diz-se que um soldado romano o dividiu ao meio com um golpe de espada.

Ibn Ishaq diz: Depois de Ja‘far ser martirizado, Abdallah ibn Rawaha ergueu a bandeira e avançou montado a cavalo. Começou a pensar se deveria descer do cavalo para participar da luta e ficou um tanto hesitante. Então disse para si mesmo:

“Juro por Deus, ó Ibn Rawaha, tens de descer a este campo de batalha,

ou terás de fazê-lo contra a tua vontade.

Mesmo que todas as pessoas estejam reunidas ao som dos gritos de guerra e entre elas

se ouçam lamentos,

por que te vejo indiferente ao Paraíso?

Passaste muitos dias em conforto e tranquilidade,

embora, na verdade, não passes de algo dentro de um recipiente velho

Não eras nada além de uma gota de água.

Ó minha alma, mesmo que não sejas morta hoje, terás de

morrer um dia.

Este é o lar da morte no qual entraste (o campo de batalha).

Até agora, obtiveste tudo o que desejavas.

Agora, se agires como aqueles dois (Zayd e Ja’far),

então serás guiada pelo caminho correto.”

Depois, ele desceu do cavalo. Então, um de seus primos trouxe um pedaço de carne com osso, entregou-lho e disse: “Toma, come isto e recupera um pouco de força, pois tens sofrido demasiadamente nestes últimos dias.” Ele pegou o pedaço de carne e arrancou dele um pouco com os dentes. Nesse momento, ouviu o som de uma violenta luta e grande tumulto vindo de um lado. Então disse: “Enquanto eu estiver vivo?” Atirou o pedaço de carne ao chão, avançou com a espada na mão e, lutando, tornou-se mártir.

Depois, Thabit ibn Aqram, da tribo de Banu Ajlan, tomou o estandarte em suas mãos. Ele disse: “Ó muçulmanos! Escolhei, por consenso, um comandante.” Todos disseram: “Vós sois o nosso comandante.” Ele disse: “Não sou capaz de desempenhar esta responsabilidade.” Então, os muçulmanos escolheram Khalid ibn al-Walid como comandante. Ele tomou o estandarte e começou a lutar com grande bravura. Com o exército, avançava para uma extremidade e depois recuava. Assim, continuou lutando. Certa vez, quando ele se dirigiu a uma extremidade, o exército romano também avançou até lá e fugiu do campo de batalha. Depois, ele retornou a Medina com o exército muçulmano. Foi narrado que, quando o exército muçulmano estava sendo atacado pelo inimigo, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia: “Zayd ibn Haritha ergueu o estandarte e foi martirizado enquanto lutava. Depois, Jafar ergueu o estandarte e foi martirizado enquanto lutava.” Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou em silêncio. Com isso, os rostos dos Ansar empalideceram. Eles pensaram que talvez algo desagradável tivesse acontecido a Abdullah ibn Rawaha. Depois de algum tempo, ele disse: “Depois de Jafar, Abdullah ibn Rawaha ergueu o estandarte e foi martirizado enquanto lutava.” Em seguida, disse: “Vi em sonho que esses três foram conduzidos ao Paraíso, montados em leitos de ouro. Vi que o leito de Abdullah ibn Rawaha estava ligeiramente inclinado. Perguntei: ‘Por que isso aconteceu?’ Foi-me respondido que Zayd e Jafar haviam se lançado à batalha sem o menor atraso.”

Khalid retornou a Medina com seus homens e tropas. Quando se aproximaram de Medina, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os muçulmanos em geral avançaram para recebê-los. Sobretudo as crianças e os meninos e meninas correram para encontrá-los com ainda maior rapidez. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, avançava montado no dorso de um animal junto com a comunidade muçulmana. Ele disse: “Colocai as crianças sobre as montarias de cada um. E trazei-me o filho de Jafar.” Abdullah ibn Jafar foi levado até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele o fez sentar à sua frente sobre a montaria.

Naquele momento, os muçulmanos de Medina atiravam terra contra aquele exército e diziam: “Ó grupo de fugitivos! Fostes ao jihad no caminho de Allah e fugistes.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não, eles não fugiram. Pelo contrário, lançarão um novo ataque, se Allah quiser.”

Nesse momento, ao ouvirem a poesia de Hassan ibn Thabit, os Companheiros que retornavam da batalha de Mu’ta desataram a chorar. O sentido do poema é o seguinte:

“Passei em Medina uma noite relativamente dolorosa

Quando todas as pessoas dormiam, não consegui dormir.

A lembrança do amigo fez correr uma torrente de lágrimas dos meus olhos,

Pois, na verdade, é a lembrança o principal estímulo para o choro.”

De fato, perder um amigo é uma grande provação,

porém, há muitas pessoas nobres que, ao enfrentarem provações,

mantêm a paciência.

Vi os melhores muçulmanos lançarem-se à batalha, um após outro, em grupos,

e, logo depois deles, lançarem-se seus descendentes.

Allah jamais privará da proximidade aqueles que, em Mu’tah, foram martirizados um após outro,

não os privará jamais de alcançar Sua proximidade,

entre eles, destaca-se Ja’far, o homem de duas asas,

Zayd e Abdullah. Na verdade, as causas da morte foram terríveis.

Certa manhã, partiram para a batalha levando os crentes; um homem afortunado

era seu comandante.

que brilhava como a lua cheia entre os Banu Hashim,

o herói audacioso que se recusara a aceitar a opressão.

Então lançou um ataque feroz contra o pagão derrotável no campo de batalha.

Por fim, em certo momento, caiu curvado e impotente.

E juntou-se ao grupo dos mártires, cuja recompensa é o Paraíso

e densos bosques verdes.

Observávamos em Ja’far uma devoção irrestrita a Muhammad e

uma liderança firme ao dar instruções.

Na linhagem dos Banu Hashim, os pilares de honra e glória ainda existem.

Eles são como montanhas do Islã, e seus companheiros

estão entre esses nobres homens de semblante afável: Ja’far, Ali,

o universalmente respeitado Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Hamza, Abbas e Aqil.

Com efeito, de onde quer que se esprema a árvore de sândalo

somente o extrato do sândalo (isto é, perfumado) é obrigado a sair.

(isto é, em qualquer família da linhagem dos Banu Hamim em que nasça um filho

ele será como os filhos mencionados. Em qualquer família dessa linhagem

em que venha a nascer.)

Quando as pessoas se encontram impotentes e aflitas diante de algum problema difícil,

é por meio delas que a crise é resolvida.

Todos eles são íntimos de Allah; sobre eles Allah

revelou Seu mandamento, e

O Livro Sagrado encontra-se preservado junto deles.”

A conquista de Meca: 8.º ano da Hégira, mês de Ramadã

Após a batalha de Mu’ta, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu em Medina durante os meses de Jumada al-Thani e Rajab.

Nessa época, os Banu Bakr atacaram injustamente a tribo de Khuza’a. A causa desse ataque foi que, antes do advento do Islã, um homem chamado Malik ibn ‘Abbad, pertencente à tribo de Banu al-Hadrami, atravessava o território habitado pela tribo de Khuza’a a negócios, quando os seus homens o mataram e levaram tudo o que ele possuía. Em consequência disso, os Banu Bakr atacaram e mataram um homem de Khuza’a. Em retaliação, pouco antes do surgimento do Islã, a tribo de Khuza’a matou, perto dos limites do Santuário Sagrado, os três filhos de Aswad — Salma, Kulthum e Zu’ayb —, chefe dos Banu Dā’il, um ramo dos Banu Bakr. Isso porque Aswad era inimigo de al-Hadrami. Por causa desse assunto, havia uma intensa tensão entre os Banu Bakr e os Banu Khuza’a. Com o surgimento do Islã, essa tensão entre as duas tribos diminuiu, e sua atenção voltou-se para o Islã. Uma das condições do tratado de Hudaybiyya, celebrado entre os coraixitas e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era que nenhuma terceira parte poderia estabelecer uma aliança com Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ou com os coraixitas. Assim, os Banu Bakr declararam sua aliança com os coraixitas, e os Banu Khuza’a declararam sua aliança com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

Após a celebração do tratado, os Banu Dā’il, um ramo dos Banu Bakr, consideraram ter encontrado a oportunidade perfeita para vingar a morte dos três filhos de Aswad pelas mãos dos Banu Khuza’a. Por isso, Nawfal ibn Mu’awiya, chefe da família dos Banu Dā’il, tomou a iniciativa de buscar vingança. Deve-se observar que esse homem não tinha autoridade sobre todos os Banu Bakr. Certa noite, enquanto os membros da tribo de Khuza’a estavam junto à sua própria fonte, al-Watir, Nawfal e seus companheiros mataram um dos homens de Khuza’a. E então a situação se agravou: as duas tribos formaram alianças com outras tribos e envolveram-se numa violenta batalha. Naquele momento, os coraixitas forneceram armas aos Banu Bakr e, com a sua ajuda, muitos coraixitas lutaram às escondidas contra os homens de Khuza’a durante a noite. Desesperada, a tribo de Khuza’a refugiou-se dentro dos limites invioláveis da Mesquita Sagrada. Os homens da tribo de Dā’il, movidos pela vingança e liderados por Nawfal, perseguiram-nos até o Santuário Sagrado. Os homens dos Banu Bakr disseram a Nawfal: “Ó Nawfal, pare agora. Estamos dentro do Santuário Sagrado. Tema a Deus.”

Então Nawfal proferiu uma declaração terrível. Ele disse: “Hoje ele não tem divindade nem senhor. Ó Banu Bakr, vinguem-se. Vocês não hesitam sequer em roubar no Santuário Sagrado. (Deve-se observar que os coraixitas eram acusados de roubar muitas estátuas preciosas feitas de ouro da Caaba Sagrada.) Por que agora hesitam em se vingar aqui?” Anteriormente, nem mesmo o assassinato, durante a noite, junto à fonte de al-Watir, de um homem de Khuza’a de coração fraco chamado Munabbih havia saciado sua sede de vingança. Munabbih havia saído acompanhado de outro homem de sua tribo, chamado Tamim ibn Asad. Munabbih disse: “Ó Tamim, cuide da sua própria proteção. Eu certamente vou morrer. Eles ou me matarão ou me deixarão partir.” Tamim fugiu dali, e eles mataram Munabbih.

Embora os homens de Khuza’a tenham se refugiado em Meca na casa de Rafi’, um antigo escravo de seu aliado Budayl ibn Warqa, muitos deles perderam a vida no ataque conjunto dos Banu Bakr e dos coraixitas. Desse modo, os coraixitas mataram os Banu Khuza’a, aliados do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, no local inviolável do Santuário Sagrado e violaram o tratado de Hudaybiyya. Depois disso, ‘Amr ibn Salim al-Khuza’i e um homem dos Banu Ka’b foram a Medina, encontraram-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e relataram todo o ocorrido. Esse acontecimento foi uma das causas da conquista de Meca. Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava sentado na mesquita, rodeado de pessoas, ele chegou até lá e recitou um poema, pedindo sua ajuda. O sentido do poema era o seguinte:

“Ó Senhor! Quero lembrar Muhammad da antiga aliança entre nossos pais e seu pai, e pedir que ela seja cumprida. Vocês eram filhos, e nós éramos pais. Ali, aceitamos o Islã e não o abandonamos. Que Allah o guie pelo caminho correto. Ajuda-nos imediatamente. E convoca os servos de Allah para que avancem em nosso auxílio. Entre eles está o Mensageiro de Allah, que se encontra separado (do tratado). Se ele for humilhado, uma mancha será lançada sobre seu rosto. Ele está com um exército que avança como o mar, trazendo ondas de espuma. Saibam que os coraixitas romperam o seu tratado. Eles violaram a sua trégua e prepararam para mim uma emboscada no local chamado Kuda. Eles são poucos em número e relativamente fracos em força. Passaram a noite secretamente em al-Watir.”

Ao ouvir esse relato, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Amr, você será ajudado.” Logo depois, ele viu no céu um pedaço de nuvem e disse: “Este pedaço de nuvem será o início da ajuda aos Banu Ka‘b.”

Depois, Budail ibn Warqa foi a Medina acompanhado de alguns homens dos Banu Khuza‘a e encontrou-se com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Informou-o sobre as aflições e dificuldades deles e sobre a perseguição que os coraixitas estavam infligindo contra eles, incitando os Banu Bakr. Em seguida, retornou a Meca. Antes disso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, informou aos muçulmanos: “Podem supor que Abu Sufyan veio até vocês e propôs tornar o tratado de paz inviolável e prolongar seu prazo.”

Quando Budail ibn Warqa e seus companheiros retornavam a Meca, encontraram Abu Sufyan ibn Harb em Usfan. Os coraixitas o haviam enviado ao Mensageiro de Allah para tornar o tratado de paz inviolável e prolongar seu prazo, pois tinham ficado receosos devido ao tratamento que haviam dispensado aos Banu Khuza‘a. Assim que Abu Sufyan encontrou Budail ibn Warqa, perguntou-lhe: “Budail, de onde você vem?” Ele suspeitava que Budail tivesse ido até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Budail respondeu: “Saí para viajar por esta região com alguns homens dos Banu Khuza‘a.” Abu Sufyan perguntou: “Você não foi até Maomé?” Ele respondeu: “Não.” Depois que Budail partiu para Meca, Abu Sufyan foi até o local onde ele havia parado o camelo e examinou seus excrementos. Ao encontrar neles caroços de tâmaras, disse: “Certamente Budail foi até Maomé.” Ele considerou os caroços de tâmaras um indício de que Budail havia ido a Medina.

Então Abu Sufyan partiu, chegou a Medina e foi até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dirigindo-se à sua própria filha, a Mãe dos Crentes, Umm Habiba. Quando ele se preparava para sentar-se na cama do Mensageiro de Allah, Umm Habiba retirou a cama. Ao ver isso, Abu Sufyan disse: “Minha filha, você não me considera digno de sentar nessa cama?” Umm Habiba respondeu: “Essa é a cama do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Você é um politeísta e impuro. Não quero que você se sente na cama do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” Abu Sufyan disse: “Minha filha, você se tornou má por se afastar de mim.”

Abu Sufyan apresentou-se diante do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e falou com ele. Porém, ele não respondeu a nenhuma de suas palavras. Então Abu Sufyan foi até Abu Bakr e pediu-lhe que intercedesse por ele junto ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Abu Bakr recusou diretamente esse pedido.

Depois, foi até Umar ibn al-Khattab e fez um pedido semelhante. Umar disse: “O que você está dizendo? Eu intercederia por você junto ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele? Mesmo que eu não encontre nenhum aliado além de mim, lutarei contra você!”

Depois, foi até Ali ibn Abu Talib. A filha do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Fatima, estava ali. Diante dela, o pequeno Hasan engatinhava. Abu Sufyan disse: “Ó Ali, você é a pessoa mais compassiva para comigo. Vim até você por uma necessidade especial. Não quero voltar frustrado. Portanto, interceda por mim junto ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” Ele respondeu: “Que vergonha para você, ó Abu Sufyan. Por Allah, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tomou uma decisão sobre um assunto, e nós somos incapazes de falar com ele a respeito.”

Sem saber mais o que fazer, Abu Sufyan olhou para Fatima e disse: “Ó filha de Maomé! Você gostaria que este seu filho pequeno recebesse a ordem de proteger o povo e, como resultado, se tornasse para sempre o líder dos árabes?” Fatima respondeu: “Meu filho ainda não se tornou digno de proteger o povo. Além disso, ninguém pode proteger outra pessoa contra a vontade do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.”

Abu Sufyan disse: “Ó Ali! Vejo que a situação está contra mim. Agora, dê-me um bom conselho.” Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Não conheço nenhum conselho que possa beneficiá-lo. Contudo, você é o líder da tribo dos Banu Kinana. Vá e proteja o povo; depois, permaneça em sua terra natal.” Ele perguntou: “Isso me salvará?” Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Não creio; porém, não vejo outra alternativa para você.” Então Abu Sufyan foi à mesquita e proclamou: “Ó povo! Assumi a responsabilidade de proteger todos os habitantes de Meca.” Depois disso, montou em seu camelo e partiu. Quando chegou aos coraixitas, eles perguntaram: “Como você voltou?” Ele respondeu: “Fui falar com Muhammad, mas ele não respondeu a nada do que disse. Depois fui até Abu Bakr, mas ele também não disse nada promissor. Em seguida, fui até Umar; encontrei nele o mais severo dos inimigos. Depois fui encontrar-me com Ali; ele me pareceu o mais flexível de todos. Ali aconselhou-me a fazer algo, e eu o fiz. Não sei se isso terá algum resultado.”

Todos perguntaram: “O que Ali lhe disse para fazer?” Abu Sufyan respondeu: “Ele me disse para tomar providências a fim de proteger os habitantes de Meca. Eu vim depois de anunciar isso.” O povo perguntou: “Muhammad autorizou você a fazer isso?” Ele respondeu: “Não.” O povo disse: “Então Ali apenas zombou de você. Isso não lhe será útil.” Ele respondeu: “Mas, além disso, eu não tinha outra saída.”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou que todos os muçulmanos de Medina e seus próprios familiares se preparassem para a viagem. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até sua filha Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e viu que ela estava arrumando as coisas. Ao vê-la, disse: “Ó Aisha, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou que vocês se preparassem para a viagem?” Aisha respondeu: “Sim, pai; prepare-se também.” Abu Bakr perguntou: “Para onde você acha que ele pretende ir?” Aisha respondeu: “Não sei.” Em seguida, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, informou claramente aos muçulmanos que partiria em direção a Meca. Ordenou-lhes que se preparassem para a viagem. Disse também: “Ó Allah! Mantenha ocultas dos coraixitas todas as informações sobre nossos preparativos, para que possamos atacá-los de surpresa.” Os muçulmanos ficaram prontos em pouco tempo.

Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia concluído todos os preparativos para partir em campanha contra Meca, o Companheiro Hatib ibn Abi Balta’a (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou uma carta aos coraixitas por meio de uma mulher. Na carta, informou-lhes que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia se preparado para marchar contra Meca. A mulher escondeu a carta em seu coque e partiu. Imediatamente, Allah Todo-Poderoso, por meio da revelação, revelou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o segredo da conspiração de Hatib. Ele enviou imediatamente Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele) e Zubair ibn al-Awwam (que Allah esteja satisfeito com ele), dizendo-lhes: “Interceptem essa mulher no caminho e recuperem dela a carta de Hatib, para que Hatib não alerte os habitantes de Meca, informando-os de todos os detalhes de nossos preparativos para a campanha.” Ambos partiram e, ao chegar a um lugar chamado Khalifa, capturaram-na. Fizeram-na descer do camelo e procuraram a carta na liteira do camelo, mas não a encontraram. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Juro por Allah que as palavras do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não podem ser falsas, e nós também não estamos mentindo. Entregue a carta, caso contrário revistaremos seu corpo.”

Quando a mulher viu que Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) não desistiria, disse-lhe: “Vire o rosto para o outro lado.” Ele virou o rosto. A mulher desfez o coque, retirou a carta e entregou-a. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) levaram a carta à presença do Mensageiro de Allah.

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chamou Hatib e perguntou-lhe por que havia enviado a carta. Hatib disse: “Juro por Allah que não houve a menor mudança em minha fé em Allah e em Seu Mensageiro. Não tenho parentes em Meca, embora minha esposa e meus filhos estejam entre os coraixitas. Por isso, quis conquistar a simpatia deles dessa maneira.”

Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro de Allah, ele agiu como um hipócrita. Dê-me permissão para cortar-lhe o pescoço.”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Umar, você não sabe. Talvez Allah Todo-Poderoso tenha dito aos participantes da Batalha de Badr, no dia de Badr: ‘Façam o que quiserem; Eu já lhes perdoei.’”

Allah, Exaltado seja, revelou sobre Hatib um versículo na surata al-Mumtahina: “Ó crentes! Não tomeis como amigos aqueles que são inimigos Meus e vossos, demonstrando-lhes afeto e amor, na esperança de conquistá-los como aliados. ……… Tendes um excelente exemplo em Ibrahim e nos que estavam com ele. Ele disse ao seu povo: ‘Não temos nada a ver convosco nem com aquilo que adorais além de Allah. Renegamos qualquer vínculo convosco. Entre nós e vós surgiu uma inimizade permanente, até que aceiteis somente Allah como divindade a ser adorada.’”

Depois disso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em campanha contra Meca. Nessa ocasião, nomeou Abu Burhum al-Ghifari como seu substituto em Medina. Partiu depois de transcorridos dez dias do Ramadan. Tanto ele como todos os muçulmanos estavam jejuando. Ao chegarem a Qudaid, um lugar situado entre Usfān e nós, todos quebraram o jejum.

Dali, partiu novamente levando consigo dez mil muçulmanos e fez uma parada em Marr az-Zahrān. No caminho, juntaram-se a ele cerca de setecentos — segundo outra versão, mil — homens dos Banū Sulaym, e mil homens dos Banū Muzayna. Naquela época, não havia na Arábia nenhuma tribo da qual um número considerável de pessoas não tivesse abraçado o Islã. Todos os Muhājirūn e os Ansār participaram da campanha do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, contra Meca; ninguém ficou para trás.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez uma parada em Marr az-Zahrān. Até então, os coraixitas não tinham descoberto nem o mínimo que ele estava viajando ou o que pretendia fazer. Certa noite, Abu Sufyan ibn Harb, Hakim ibn Hizam e Budayl ibn Waraqah saíram para buscar notícias sobre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. No caminho, em algum lugar, Abbas ibn Abd al-Muttalib (que Allah esteja satisfeito com ele) encontrou-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Abu Sufyan ibn al-Harith e Abdullah ibn Umayya ibn al-Mughira chegaram à presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, num lugar chamado Naif al-Uqab, no caminho entre Meca e Medina. Quando procuraram encontrar-se com o Mensageiro de Allah, a Mãe dos Crentes, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), disse: “Ó Mensageiro de Allah, chegaram seu primo e seu cunhado.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não preciso deles. Meu primo insultou-me, e meu cunhado — Abdullah ibn Umayya, meio-irmão de Umm Salama — opôs-se intensamente a mim enquanto permanecia em Meca.”

Ao receberem ambos essa resposta, Abu Sufyan ibn al-Harith disse: “Se o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não me der a oportunidade de encontrá-lo, partirei com este meu filho para algum lugar desconhecido e morreremos lentamente de fome e sede.”

Ao ouvir isso, o coração do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enterneceu-se. Ele deu permissão. Então, os dois foram até ele e abraçaram o Islã. Abu Sufyan ibn al-Harith pediu perdão pelos poemas que havia recitado anteriormente para difamar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Depois de abraçar o Islã, recitou um novo poema. O sentido desse poema é o seguinte:

“No dia em que eu lutar como comandante, o exército de Muhammad

certamente triunfará sobre o exército dos politeístas.”

(O exército dos politeístas) como um viajante desnorteado na escuridão da noite.

Hoje chegou a minha vez, quando alcancei a orientação.

Aquele que orienta orientou-me e transformou-me

e conduziu-me à proximidade de Allah

a quem eu um dia havia expulsado para longe.

Naquele dia, interpusera-me entre Maomé e

afastara-me dele e tramara uma guerra,

e eu era chamado da parte de Maomé

Embora eu não tivesse qualquer relação com ele.

Ele continuou pelo mesmo caminho que seguia — os politeístas

não falou conforme seus caprichos

embora falasse como alguém que defendia a opinião correta

ainda assim, foi chamado de mentiroso.

Enquanto eu não havia recebido orientação, em cada reunião eu queria agradá-los (aos politeístas)

e não me havia unido à comunidade (muçulmana).

Portanto, diga aos Banu Saqif que não quero combater contra eles.

Diga aos Banu Saqif que intimidem outra pessoa, não a mim.

Pois eu não estava entre o exército que

atacou a cidade

e esse ataque não foi cometido pela minha língua nem pelas minhas mãos.

Naquele exército havia tribos vindas de regiões distantes e

guerreiros desconhecidos vindos de Saham e Surdad.”

Conta-se que, quando ele recitava este trecho do poema — “Aquele a quem expulsei para muito longe foi quem me conduziu à proximidade de Allah” — o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) bateu-lhe no peito e disse: “Foste tu que me expulsaste para longe.”

Quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fez uma parada em Marr az-Zahran, Abbas ibn Abd al-Muttalib ficou alarmado. Ele compreendeu que, se os coraixitas não fossem espontaneamente até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) para fazer um acordo, e ele entrasse em Meca à força, os coraixitas seriam exterminados para sempre.

Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Montei a mula branca do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e fui até um lugar chamado Arak, procurando algum lenhador, vendedor de leite ou outra pessoa que estivesse indo para Meca. Se encontrasse alguém, informaria aos habitantes de Meca da chegada do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, para que fossem até ele e fizessem um acordo antes que ele entrasse à força em Meca.

Eu estava ocupado com essa busca. Nesse momento, ouvi a conversa entre Abu Sufyan e Budail ibn Warqa. Ambos conversavam. Abu Sufyan dizia: “Nunca vi um fogo como o que vi na noite passada, nem jamais vi um exército tão grande.” Budail dizia: “Certamente é o exército da tribo de Khuza’a. Eles devem ter se preparado para a guerra.” Abu Sufyan respondeu: “Khuza’a não tem tanto poder nem tantos homens para acender tantos fogos e reunir um exército tão grande.” Reconheci a voz de Abu Sufyan e disse: “Ó Abu Sufyan!” Ele respondeu: “É Abbas?” Eu disse: “Sim.” Ele perguntou: “Qual é a notícia?” Eu disse: “Você não sabe? Eis o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — com seu exército. Por Allah! Os coraixitas estão em perigo.” Ele disse: “Então, o que fazer agora?” Eu disse: “Se o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — o capturar, ele o matará. Portanto, monte atrás desta mula. Levá-lo-ei até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e pedirei proteção para você.”

Então ele montou atrás de mim, e seus dois companheiros retornaram. Eu atravessava com Abu Sufyan diante de cada uma das fogueiras do exército muçulmano. Todos perguntavam: “Quem é este?” Mas, ao olharem e me verem montado na mula do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, todos se tranquilizavam. Ninguém percebia que Abu Sufyan estava atrás de mim.

Quando passamos diante de Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele), ele se aproximou de mim. Ao ver Abu Sufyan sentado atrás, disse: “Inimigo de Allah, Abu Sufyan! Louvado seja Allah, que o entregou às nossas mãos sem qualquer tratado.” Depois de dizer isso, correu até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Eu também corri rapidamente. Nem Umar nem a mula eram muito velozes; ainda assim, a mula chegou um pouco antes. Desmontei e fui até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, e Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) também chegou imediatamente. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah! Eis Abu Sufyan. Allah o colocou facilmente em nossas mãos. Não temos nenhum tratado com ele. Portanto, permita-me cortar-lhe o pescoço.”

Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah! Eu lhe concedi proteção.” Então sentei-me junto ao Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, puxei Abu Sufyan pela cabeça e disse: “Por Allah, esta noite não permitirei que ele fique a sós com ninguém além de mim.”

Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a falar longamente sobre Abu Sufyan. Ao ouvi-lo, eu disse: “Cale-se, Umar! Se Abu Sufyan pertencesse à tribo de Banu Ka’b (Banu Ka’b é a tribo de Umar), você não falaria assim. Você fala dessa maneira apenas porque ele pertence a Banu Abd Manaf.”

Umar disse: “Abbas, não diga uma coisa dessas. Se meu pai tivesse aceitado o Islã, eu teria preferido muito mais que você aceitasse o Islã do que ele.”

O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Ó Abbas, leve Abu Sufyan para junto de você. Pela manhã, traga-o até mim.”

Levei Abu Sufyan comigo. Ele passou a noite em minha companhia. Pela manhã, levei-o até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Abu Sufyan, ai de ti! Ainda não chegou o momento de reconheceres que não há outra divindade além de Allah?” Ele respondeu: “Sua generosidade, grandeza e consideração pelos parentes são incomparáveis. Penso que, se houvesse outra divindade além de Allah, ela já teria vindo em meu auxílio.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, voltou a dizer: “Ó Abu Sufyan, ai de ti! Ainda não compreendeste que sou o Mensageiro de Allah?” Abu Sufyan disse: “Que meus pais sejam sacrificados por ti! És tão generoso, tolerante e atencioso com os parentes que não consigo expressar isso em palavras. Contudo, ainda tenho algumas dúvidas e hesitações quanto ao fato de seres Mensageiro.” Então Abbas disse: “Ai de ti! Aceita o Islã e testemunha que não há outra divindade além de Allah e que Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, é Seu Mensageiro; caso contrário, tua cabeça será decepada imediatamente.”

Abu Sufyan testemunhou a verdade e aceitou o Islã. Então Abbas disse: “Ó Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Abu Sufyan gosta um pouco de prestígio. Portanto, concede-lhe alguma distinção honrosa.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Está bem. Quem entrar na casa de Abu Sufyan estará seguro. Quem fechar a porta de sua própria casa também estará a salvo. E nada será feito a quem entrar na Mesquita Sagrada.”

Depois, quando Abu Sufyan saiu da presença do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para retornar a Meca, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Abbas, detém-no por algum tempo na passagem no topo da montanha, à margem do vale, para que os soldados de Allah passem diante dele e ele os veja.” Abbas disse: “Então fui e o detive na passagem que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia indicado.” Em seguida, as diferentes tribos partiram em fileiras, cada uma atrás de sua própria bandeira. Sempre que uma tribo passava diante dele, ele me perguntava: “Ó Abbas, quem são eles?” Eu respondia: “São os Banu Sulaym, ou os Banu Muzayna, ou esta ou aquela tribo.” Abu Sufyan dizia imediatamente: “Não há comparação possível entre eles e nós.” Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, avançou com seu próprio exército verde. [81. Esse exército foi chamado de exército verde porque nele se concentrava a maior quantidade de objetos feitos de ferro. (Ibn Hisham)] Nele estavam reunidos os Muhajirun e os Ansar. Nesse exército, nada se via além de armas afiadas de ferro. Abu Sufyan disse: “Glorificado seja Allah! Glorificado seja Allah! Ó Abbas, de quem é este exército?” Respondi: “Neste exército está o próprio Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, acompanhado pelos Muhajirun e pelos Ansar.” Ele disse: “Ninguém tem capacidade para enfrentar este exército. Por Allah, ó Abbas, teu sobrinho está prestes a tornar-se amanhã o governante de um grande império.” Eu disse: “Ó Abu Sufyan, isto não é uma questão de realeza; é o poder da profecia.” Ele disse: “Então, que maravilha!” Eu disse: “Apressa-te e vai até os coraixitas.” Abu Sufyan foi a Meca e anunciou: “Ó coraixitas, Muhammad chegou com um exército que não tendes capacidade de enfrentar. Agora, quem buscar refúgio na casa de Abu Sufyan não terá nada a temer.”

Nesse momento, Hind, filha de Utba, foi até Abu Sufyan, puxou-lhe o bigode e disse: “Ó coraixitas, matem este glutão de barriga grande! Ele se desonrou enquanto ocupava a posição de liderança da nação.”

Abu Sufyan disse: “Cuidado com a vossa ruína. Não vos deixeis desviar pelas palavras desta mulher. Um exército irresistível caiu sobre vós. Nessas circunstâncias, quem entrar em minha casa estará seguro.”

Todos disseram: “Maldição sobre ti! De que nos servirá a tua casa?” Abu Sufyan respondeu: “Quem fechar a porta de sua própria casa e quem entrar na mesquita também estará seguro.”

Todos foram para suas próprias casas ou para a Mesquita Sagrada.

Abdullah ibn Abu Bakr relata: Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou a Dhu Tuwa, amarrou um turbante com um tecido iemenita vermelho e começou a avançar com a cabeça baixa, devido à vitória que estava prestes a alcançar pela graça de Allah. Ele inclinou tanto a cabeça em expressão de gratidão que sua barba tocava o corpo do camelo.

Asma, filha de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela), relata: Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) parou em Dhu Tuwa, Abu Quhafa, pai de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), disse a uma de suas filhas, ainda jovem: “Leva-me ao topo do monte Abu Qubays.” Abu Quhafa já havia perdido a visão. A menina levou-o ao topo da montanha. Então Abu Quhafa perguntou à filha: “O que estás vendo?” Ela respondeu: “Vejo uma enorme multidão.” Ele disse: “Aquele é o exército.” A menina disse: “Também vejo um homem correndo à frente da multidão e depois para trás.” Ele disse: “Ele é o comandante do exército.” A menina disse: “Agora a multidão se dispersou.” Abu Quhafa disse: “Então o exército foi enviado. Agora leva-me depressa para casa.” A menina desceu a montanha com ele. Antes que Abu Quhafa chegasse em casa, o exército chegou até ele. A menina usava um colar de prata no pescoço, e alguém o arrancou dela.

Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou a Meca e entrou na Mesquita Sagrada, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) apresentou-lhe o pai. Ao vê-lo, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Por que não deixaste este ancião em casa? Eu teria ido até ele.”

Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), é mais apropriado que ele venha até vós do que vós irdes até ele.”

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez com que ele se sentasse diante de si. Depois, acariciou-lhe o peito e disse: “Aceita o Islã.” Imediatamente, Abu Quhafa aceitou o Islã. Em seguida, Abu Bakr levou-o para a mesquita. Naquele momento, a cabeça de Abu Quhafa estava coberta por uma espécie de arbusto branco chamado “sagham”. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Remove isto dos cabelos dele.”

Depois, Abu Bakr segurou a mão de sua irmã e disse: “Por Allah, será que hoje o Islã é o colar de minha irmã?” Ninguém respondeu. Abu Bakr disse: “Minha querida irmã, não te aflijas por teres perdido o teu colar.”

Durante a conquista de Meca e a batalha de Taife, os Companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) adotaram nomes de código: para os Muhajirun, “Banu Abd al-Rahman”; para a tribo Khazraj, “Banu Abdullah”; e para os Aws, “Banu Ubaydullah”.

Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou aos muçulmanos que entrassem em Meca, exigiu dos comandantes muçulmanos o compromisso de que não entrassem em combate com ninguém, a menos que fossem atacados. Mencionou apenas os nomes de algumas pessoas e disse: “Matai-as, mesmo que estejam escondidas sob a cobertura da Caaba.” Uma delas era Abdullah ibn Sa’d, dos Banu Amir. Esse homem havia aceitado o Islã inicialmente e depois fora nomeado escriba da revelação. Mais tarde, abandonou novamente o Islã, tornou-se politeísta e retornou para os coraixitas. Por isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que ele fosse morto. Porém, ele fugiu e procurou refúgio junto de seu irmão de leite, Uthman ibn Affan. Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) escondeu-o. Depois, quando a situação em Meca voltou ao normal e o povo se acalmou, apresentou-o ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) pediu segurança para a vida dele. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu longamente em silêncio, sem responder. Depois disse: “Está bem.” Quando Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) saiu, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse aos seus Companheiros: “Fiquei em silêncio para que algum de vós tivesse a oportunidade de matá-lo.” Um dos Companheiros ansar disse: “Ó Mensageiro de Allah, poderíeis ter-me feito um sinal.” Ele respondeu: “Nenhum profeta mata pessoas por meio de um sinal.” [82. Ibn Hisham disse: Esse homem voltou posteriormente a aceitar o Islã. Durante o califado de Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele), foi nomeado para um cargo governamental. Mais tarde, o terceiro califa, Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), também lhe confiou uma função governamental.]

O segundo era Abdullah ibn Khatal, da tribo de Banu Tamim. A razão pela qual foi dada a ordem para matá-lo foi que, quando ainda era muçulmano, ele foi enviado com outro homem para arrecadar o zakat. Ele também tinha consigo um servo muçulmano. No caminho, pararam em determinado lugar. Nessa ocasião, ordenou ao servo que sacrificasse uma cabra e preparasse uma refeição. Porém, o servo adormeceu sem preparar a comida. Então ele o matou, abandonou o Islã e tornou-se politeísta.

Ele tinha duas escravas. Elas cantavam canções difamatórias contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que Abdullah ibn Khatal fosse morto juntamente com suas duas escravas.

Outro era Huwairis ibn Suqayz. Enquanto permanecia em Meca, ele costumava importunar o Mensageiro de Allah.

Outro era Miqyas ibn Lubaba. Quando um companheiro ansari matou seu irmão por engano, Miqyas matou aquele ansari. Depois, tornou-se politeísta e foi juntar-se aos coraixitas. Por isso, ele ordenou que Miqyas fosse morto.

Outra era Sara, uma escrava liberta dos Banu Abd al-Muttalib. Ela também costumava importunar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enquanto permanecia em Meca.

Outro era Ikrima, filho de Abu Jahl.

Ikrima fugiu para o Iêmen, e sua esposa, Umm Hakim bint al-Harith, aceitou o Islã. Quando Umm Hakim pediu ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proteção para Ikrima, ele lhe concedeu proteção. Então ela foi buscá-lo no Iêmen e o trouxe de volta. Mais tarde, Ikrima aceitou o Islã.

Abdullah ibn Khatal e Miqyas foram mortos. Quanto às duas escravas de Abdullah, uma foi morta e a outra fugiu. Mais tarde, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perdoou esta última. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também perdoou Sara. Porém, mais tarde, durante o califado de Umar ibn al-Khattab, um homem a matou. Ali matou Huwairis.

Umm Hani, filha de Abu Talib, disse: Às vésperas da conquista de Meca, dois homens da tribo dos Banu Makhzum fugiram e buscaram refúgio comigo. O marido de Umm Hani era Hubaira ibn Abu Wahab, da tribo dos Makhzum. Umm Hani narra: Assim que eles chegaram à minha casa, meu irmão Ali ibn Abu Talib veio até mim e disse: “Vou matá-los.” Fechei a porta da casa e fui até o Mensageiro de Allah. Ele estava tomando banho. Havia massa fermentada grudada no recipiente do banho. Fátima o cobriu com um pano. Depois de terminar o banho, ele rezou oito rak’ahs da oração do meio da manhã. Então olhou para mim e disse: “Bem-vinda, ó Umm Hani! Eu também concedo proteção àquele a quem tu deste refúgio. Eu também garanto segurança àquele a quem tu deste segurança. Portanto, que Ali não os mate.”

Safiyya bint Shayba disse: O Mensageiro de Allah entrou em Meca e, quando o povo se acalmou, montou sua montaria, dirigiu-se à Caaba e realizou o tawaf. Naquela ocasião, ele beijou a Pedra Negra, apontando para ela com um bastão curvo em uma das extremidades. Depois de concluir o tawaf, chamou Uthman ibn Talha e recebeu dele a chave da Caaba. Quando a porta foi aberta, ele entrou no interior da Caaba. Ali viu uma estátua de uma pomba feita de madeira. Ele a quebrou e a lançou fora. Em seguida, ficou de pé sobre a porta da Caaba. Naquele momento, as pessoas haviam buscado abrigo na Mesquita Sagrada e permaneciam ali, esperando receber dele salvo-conduto.

Ibn Ishaq disse: Ouvi de pessoas dignas de confiança que o Mensageiro de Allah, de pé sobre a porta da Caaba, proferiu o seguinte sermão:

“Não há divindade além de Allah. Ele é Único e não tem associado. Ele cumpriu Sua promessa, concedeu a vitória a Seu servo e derrotou os grupos de incrédulos unidos. Sabei que toda reivindicação anterior de sangue, bens ou dinheiro está anulada sob os meus pés. Contudo, o serviço da Caaba e o fornecimento de hospitalidade aos peregrinos continuarão. Sabei que o homicídio involuntário é próximo do homicídio intencional, quer seja cometido com um bastão, quer com uma vara. Por isso, deve ser paga uma diyah de cem camelos, incluindo quarenta camelas prenhes. Ó coraixitas, Allah aboliu o orgulho da ignorância e a prática de vangloriar-se em nome dos antepassados. Todos os seres humanos são filhos de Adão, e Adão foi criado do barro.” Em seguida, recitou este versículo:

“Ó humanidade, Nós vos criamos de um homem e de uma mulher. E vos dividimos em povos e tribos somente para que vos reconheçais uns aos outros. Na verdade, o mais honrado de vós perante Allah é o mais temente a Ele.” (Al-Hujurat) Em seguida, ele disse: “Ó coraixitas, que tipo de tratamento esperais de mim?” Todos responderam: “Um tratamento generoso, pois és nosso nobre irmão e filho de um nobre irmão.”

Ele disse: “Ide; todos sois livres.” Em seguida, o Mensageiro de Allah sentou-se na Mesquita Sagrada. Ali ibn Abu Talib foi até ele, trazendo a chave da Caaba na mão. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, confia-nos, juntamente com o fornecimento de hospitalidade aos peregrinos, também a responsabilidade de guardar a porta da Caaba.” O Mensageiro de Allah disse: “Onde está Uthman ibn Talha?” Uthman foi chamado. Ele disse: “Ó Uthman, toma a tua chave. Hoje é um dia de cortesia e benevolência.”

Ibn Hisham disse: Soube, por meio de alguns homens instruídos, que, no dia da conquista de Meca, o Mensageiro de Allah entrou no interior da Caaba e viu ali imagens de anjos e de muitas outras coisas. Viu também uma imagem do honrado Abraão, que tinha nas mãos flechas usadas para determinar o bem e o mal. Ao ver isso, disse: “Que a maldição de Allah recaia sobre os idólatras! Eles fizeram do nosso mais antigo patriarca alguém que lançava flechas para determinar o bem e o mal. Onde está Abraão, e onde estão estas coisas?” Em seguida, recitou este versículo: “Abraão não era judeu nem cristão; era um muçulmano monoteísta. E não era um idólatra.”

Em seguida, ordenou que aquelas imagens fossem destruídas, e elas foram destruídas. Depois, o Mensageiro de Allah entrou no interior da Caaba acompanhado de Bilal e ordenou-lhe que fizesse o chamado para a oração. Abu Sufyan ibn Harb, Attab ibn Usayd e Harith ibn Hisham estavam então sentados no pátio da Caaba. Attab ibn Usayd disse: “Ainda bem que Allah levou meu pai, Usayd, com honra antes disso; caso contrário, ao ouvir hoje este chamado, ele teria dito algo que também despertaria a sua ira.” Harith ibn Hisham disse: “Se eu acreditasse que ele (Muhammad) está seguindo o caminho da verdade, eu o seguiria.” Abu Sufyan disse: “Não direi nada. Se eu disser sequer uma palavra, até estas pedras do pátio a divulgarão.”

Nesse momento, o Mensageiro de Allah veio até eles e disse: “Ouvi o que vocês estavam dizendo.” Al-Harith e ‘Attab disseram: “Testemunhamos que você é o Mensageiro de Allah. Ninguém que estava conosco lhe informou disso. Portanto, não podemos culpar nenhum de nossos companheiros por lhe ter transmitido essa informação.” (Assim, certamente foi Allah quem o informou, pois isso só seria possível se ele fosse o Mensageiro de Allah.)

Ibn Hisham disse:

‘Abdullah ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: No dia da conquista de Meca, o Mensageiro de Allah entrou em Meca montado em sua cavalgadura e, antes de tudo, circundou a Caaba. Naquele momento, ainda havia ídolos ao redor da Caaba, fixados com chumbo. O Mensageiro de Allah apontou para eles com o bastão que segurava e disse: “A verdade chegou e a falsidade desapareceu. Com efeito, a falsidade está destinada a desaparecer.” Cada ídolo para o qual ele apontava começava a cair de bruços ou de costas. Assim, todos os ídolos foram derrubados, um após o outro.

Uma fonte confiável me informou que, no dia da conquista de Meca, enquanto o Mensageiro de Allah circundava a Caaba, Fudalah ibn ‘Umayr al-Laythi tramava assassiná-lo. Quando se aproximou do Mensageiro de Allah com essa intenção, ele lhe disse: “Quem é? Fudalah, não é?” Ele respondeu: “Sim, ó Mensageiro de Allah.” O Mensageiro de Allah perguntou: “O que você estava pensando consigo mesmo?” Ele respondeu: “Nada; eu estava apenas me lembrando de Allah.” O Mensageiro de Allah riu e disse: “Arrependa-se diante de Allah.” Em seguida, colocou a mão sobre o peito dele, e seu coração se tranquilizou. Mais tarde, Fudalah dizia: “A partir do momento em que o Mensageiro de Allah retirou a mão do meu peito, nada na terra me pareceu mais querido do que ele.”

Fudalah também disse: Depois, fui para junto da minha família. No caminho, passei por uma mulher com quem eu tinha intimidade. Ela disse: “Venha, vamos conversar.” Eu respondi: “Não.”

A esse respeito, Fudalah recitou o seguinte poema:

“A mulher me chamou para conversar. Eu disse: Allah e o Islam me proíbem de atender ao seu chamado. Se você tivesse visto Muhammad e seu exército no dia da conquista — quando os ídolos eram quebrados e reduzidos a pedaços — teria visto a religião de Allah resplandecer, enquanto o politeísmo era encoberto pela escuridão.”

Ibn Ishaq disse: Participaram da conquista de Meca, ao todo, dez mil muçulmanos. Entre eles havia setecentos — ou, segundo outra opinião, mil — da tribo de Banu Sulaym; quatrocentos de Banu Ghifar e Banu Aslam; mil e trezentos de Muzayna; e os demais eram pessoas de Quraysh, dos Ansar, seus aliados e de outras tribos árabes, incluindo as três tribos de Tamim, Qays e ‘Adas.

O célebre poema composto sobre o dia da conquista de Meca é o poema de Hassan ibn Thabit al-Ansari:

“Toda a região, desde Dhat al-Asabi e Jiwa até Adhra, foi devastada. As casas de Jiwa ficaram desertas. A região da tribo de Banu Hashhash tornou-se um deserto árido. O vento impetuoso apaga os seus vestígios, e o céu não derrama chuva ali. Antes, havia ali um amigo benfeitor; camelos e ovelhas pastavam nos verdes bosques daquela região. Deixemos agora essas recordações. Mas o curioso é que a noite se aprofunda e eu não consigo dormir. A causa é aquela cabeleira desgrenhada — aquele estado de desordem e confusão — que o envolveu, de modo que não há como afastar a tranquilidade do seu coração. Era como se mel e água, substâncias ocultas de Baytub Ba’s, fossem misturados com ele. Um dia, quando as bebidas forem examinadas, ver-se-á que são excelentes, agradáveis ao paladar e consagradas. Dar-lhe-emos o direito de nos censurar se fizermos algo digno de censura — mesmo que isso chegue a insultos ou agressões. Beberemos essas bebidas e, imediatamente, tornar-nos-emos reis; tornar-nos-emos leões que não temem enfrentar coisa alguma. Fomos separados da nossa cavalaria, que corre levantando poeira e cujo destino é Qada, as terras altas de Meca; não sei se a viste. É um exército que disputa as rédeas — para decidir quem montará primeiro —, extremamente ansioso, e que traz sobre o seu touro uma lança sedenta de sangue. Os nossos cavalos correm com grande velocidade. Até as mulheres podem incitá-los, mesmo com os seus véus. Se não nos impedirdes, faremos a umra — pois a vitória já está assegurada e todos os véus foram rasgados. Caso contrário, procurai uma futura batalha. Jibril, o mensageiro de Allah, está entre nós. Ele é o Espírito puríssimo, sem semelhante. Allah diz: ‘Enviei um servo que proclama a verdade em meio às adversidades. Sou testemunha das suas ações. Aceitai-o.’ Mas vós — ó habitantes de Meca — respondestes: ‘Não o aceitaremos, nem temos intenção de aceitá-lo.’ Allah também disse: ‘Enviei o exército dos Ansar; o seu objetivo é a guerra.’ Temos de enfrentar-vos de uma forma ou de outra: às vezes com insultos, às vezes com guerra, às vezes com censura. Aos que censuram ou insultam respondemos com palavras rimadas que lhes quebram os dentes; e aos que se empenham em derramar o nosso sangue, desferimos golpes. Informai Abu Sufyan de que a nossa entrada em Meca se aproxima. Já se tornou claro que as nossas espadas fizeram de ti um escravo e reduziram à servidão os chefes da tribo de Abd al-Dar. Tu insultaste Muhammad, e eu lhe respondi; a recompensa por isso está com Allah. Tu insultaste um homem sumamente benéfico, generoso e firmemente comprometido com a verdade, aquele que é o mais digno de confiança de Allah e cuja vida é dedicada ao cumprimento das promessas. Poderão ser iguais aquele que insulta o Mensageiro de Allah e aquele que o elogia e o auxilia? Pela honra do meu pai e do meu avô, e pela minha própria honra, protegerei a honra de Muhammad das vossas mãos. A minha língua é inabalável e inocente. O meu mar não pode ser turvado por balde algum.” 282

A batalha de Hunayn: 8.º ano da Hégira

A tribo de Hawazin, ao ouvir sobre a conquista de Meca pelo Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, reuniu-se sob a liderança de Malik ibn Awf. Juntamente com Hawazin, reuniram-se todos os membros de Banu Thaqif, Banu Nasr, Banu Jusham e Banu Sa’d, além de um pequeno grupo de Banu Hilal. Com exceção desse pequeno grupo de Banu Sa’d e Banu Hilal, ninguém mais de Banu Qays participou dessa mobilização militar.

Duraid ibn al-Simma era um ancião da tribo de Banu Jusham. Era experiente e habilidoso na guerra. Além de dar conselhos militares, já não podia fazer mais nada. Banu Thaqif tinha dois chefes. Entre os seus aliados estavam Qareb ibn al-Aswad; e Banu Malik tinha Dhu al-Khimar, Subay ibn al-Harith, e o seu irmão, Ahmar ibn al-Harith. Contudo, Malik ibn Awf al-Nasri era o comandante supremo de todo o exército. Quando Malik decidiu conduzir um ataque contra o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, obrigou cada homem do seu exército a levar consigo a esposa, os filhos e os bens móveis. Quando chegou ao vale de Awtas, uma grande multidão, incluindo Duraid ibn al-Simma, reuniu-se diante dele. Ao chegar ao vale de Awtas, Duraid perguntou aos seus homens: “Que lugar é este?” Todos responderam: “Awtas.” Ele disse: “Sim, este é certamente um lugar adequado para a guerra. Não é demasiado elevado nem pedregoso, e também não é demasiado macio. Mas por que ouço o mugido de camelos, o balido de cabras e o zurro de jumentos, além do choro das crianças?” Todos responderam: “Malik ibn Awf obrigou os homens do seu exército a trazer consigo os seus bens e as suas esposas e filhos.” Ele perguntou: “Onde está Malik?” Malik foi chamado. Duraid disse: “Ó Malik, és o dirigente e líder da tua tribo. Depois de hoje virão ainda muitos dias, cujo fim não se vê. Por que ouço aqui o mugido de camelos, o zurro de jumentos, o balido de cabras e o choro das crianças?” Malik respondeu: “Trouxe comigo, juntamente com os homens, as suas famílias e os seus bens.” Duraid perguntou: “Por quê?” Malik respondeu: “Cada homem terá atrás de si a sua família e os seus bens, e lutará com todas as suas forças para os proteger. Ninguém fugirá do campo de batalha.” Duraid manifestou desagrado diante do argumento de Malik e disse: “Na verdade, vejo que tens a mentalidade de um pastor de ovelhas, não a de um comandante militar. Que benefício resta a quem é derrotado? Se fores derrotado na guerra, além da tua própria ruína, a tua família e os teus bens também estarão perdidos.”

Duraid voltou a dizer: “Que notícias tendes de Banu Ka’b e Banu Kilab?” Malik respondeu: “Nenhum deles veio para a guerra.” Duraid disse: “Então os verdadeiros guerreiros e soldados valentes não vieram. Se hoje houvesse uma oportunidade real de vitória e glória, Banu Ka’b e Banu Kilab certamente teriam vindo. Penso que deveríeis ter seguido o exemplo de Banu Ka’b e Banu Kilab. Ora, quais guerreiros notáveis vieram convosco?” Os homens responderam: “Amr ibn Amir e Awf ibn Amir.” Duraid disse: “São guerreiros fracos; com eles, nada ganhareis nem perdereis. Ó Malik, escuta: não fizeste bem ao lançar a tribo de Hawazin contra o inimigo. Envia-os de volta aos seus lugares seguros. Depois, combate estes muçulmanos com a tua cavalaria. Se venceres, eles virão juntar-se a ti mais tarde; e, se fores derrotado, pelo menos as famílias e os bens dos teus homens estarão a salvo.” Malik respondeu: “Não farei isso. Assim como envelheceste, também a tua inteligência foi atingida pela decrepitude e pela doença. Ó povo de Hawazin, ou me obedecereis, ou lutarei sozinho com esta espada até à última gota de sangue.” Na verdade, Malik não queria que, ao agir conforme as palavras de Duraid, a fama e a reputação da sua inteligência fossem atribuídas a ele. Os guerreiros reunidos prometeram obedecer a Malik. Duraid disse: “Não estou disposto a participar na batalha de hoje e a correr esse risco.” E recitou em versos:

“Ah! Se eu fosse jovem no tempo desta batalha

Então eu demonstraria todo tipo de estratégia de guerra. De porte gigantesco,

eu comandaria um exército de homens de cabelos longos, semelhantes a cabras montesas.”

Então Malik disse: “Assim que avistarem o exército muçulmano, desembainharão as espadas e avançarão juntos contra ele.”

Ao ouvir sobre os preparativos de guerra dos Hawazin, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Abdullah ibn Abu Hadra al-Aslami para infiltrar-se astutamente entre eles, recolher informações e trazê-las de volta. Abdullah entrou entre eles, recolheu informações e, ao retornar, informou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, decidiu enfrentar os Hawazin. Nesse momento, informaram-no de que Safwan ibn Umayya possuía muitas armas e equipamentos de guerra. Safwan ainda era politeísta. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou alguém até ele para pedir-lhe armas e equipamentos de guerra emprestados, a fim de combater o inimigo. Safwan perguntou: “Muhammad, estás tomando estas coisas à força?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Não, estou tomando-as emprestadas e garanto que te serão devolvidas.” Ele disse: “Não tenho objeção.” Então emprestou cem armaduras e a quantidade necessária de armas para elas. Conta-se que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também lhe pediu que providenciasse o transporte dessas armas, e ele providenciou isso adequadamente.

Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em campanha com um total de doze mil soldados: dois mil dentre os habitantes de Meca e dez mil Companheiros que haviam vindo de Medina com ele por ocasião da conquista de Meca. Naquele momento, nomeou Attab ibn Usaid governador de Meca para cuidar dos habitantes que permaneciam ali e avançou pessoalmente, com seu exército, para enfrentar os Hawazin.

É relatado por Harith ibn Malik. Ele disse: Partimos em campanha para Hunayn com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Havíamos acabado de nos libertar da Jahiliyyah e ainda não havíamos abandonado completamente os costumes da Jahiliyyah. Havia uma enorme árvore verde e frondosa chamada Dhat Anwat. Os incrédulos de Quraysh e os demais árabes iam todos os anos até essa árvore, penduravam suas armas nos galhos, permaneciam um dia à sua sombra e ali sacrificavam animais. A caminho de Hunayn com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, vimos uma grande árvore e dissemos: “Ó Mensageiro de Allah! Assim como os incrédulos têm uma Dhat Anwat, concede-nos também uma Dhat Anwat.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Allah é o Maior! O que dissestes é semelhante ao que o povo de Moisés lhe disse: ‘Assim como os incrédulos têm divindades, adota também para nós uma divindade’. Essas são antigas práticas. Quereis apegar-vos às práticas antigas.”

Jabir ibn Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Aproximamo-nos da planície de Hunayn e começamos a descer por um amplo vale montanhoso de Tihamah. A luz do amanhecer ainda não havia surgido. As tropas inimigas haviam se refugiado naquele vale antes de nós e estavam escondidas em estreitas e inacessíveis cavernas montanhosas e nos arredores delas, emboscando-nos. Estavam à espera em plena prontidão. Descia­mos pelo desfiladeiro completamente despreocupados; nesse momento, subitamente, lançaram contra nós um violento ataque conjunto. Aturdidos pela surpresa do ataque, nossos homens começaram a fugir apressadamente, cada um na direção que conseguia, sem dar a menor atenção uns aos outros. Parecia que ninguém tinha sequer tempo para olhar para quem quer que fosse.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, afastou-se para a direita e começou a dizer: “Ó soldados! Para onde estais indo? Vinde até mim. Eu sou o Mensageiro de Allah. Sou Muhammad, filho de Abdullah. Por que vos lançastes de cabeça sobre os camelos?” Porém, além de um pequeno número de Muhajirun, Ansar e membros de sua família, ninguém permaneceu junto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Todos partiram.

Ibn Ishaq diz: Quando os homens do exército muçulmano fugiram em debandada, alguns dos habitantes de Meca, de natureza perversa, que permaneciam junto do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — começaram a falar de várias coisas, considerando inevitável a derrota. Abu Sufyan ibn Harb disse: “Mesmo que eles cheguem até a costa do mar, a derrota deles não terminará.” As flechas usadas para sorteios, adivinhação e jogos de azar ainda estavam com Abu Sufyan.

Jabala ibn Hanbal gritou: “Hoje terminou o poder da magia de Muhammad.” Shayba ibn Uthman disse: “Naquele dia, decidi matar Muhammad e vingar todos os mortos dos coraixitas. Assim que, com essa decisão, me aproximei do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, algo terrível surgiu diante de mim e se interpôs; isso tomou conta da minha mente, e não consegui matá-lo. Percebi que estava além da minha capacidade golpeá-lo.”

Um dos habitantes de Meca informou-me que, logo após o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — deixar Meca a caminho de Hunayn, ao ver o grande número dos soldados de Allah, ele disse: “Hoje, aconteça o que acontecer, não seremos derrotados por causa da inferioridade numérica.”

Abbas ibn Abd al-Muttalib (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Eu segurava a rédea da sua mula branca enquanto estava com o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Eu era muito corpulento e tinha uma voz forte. Ao ver os soldados muçulmanos, aterrorizados, correndo a toda velocidade, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Ó gente, não vejo nenhum de vós voltar-se para os outros!” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse-me: “Abbas! Grita assim: Ó ansar! Ó vós que prestastes juramento sob a árvore de Babul!”

Quando comecei a chamar conforme fora ordenado, todos começaram a responder, dizendo: «Labbayk!». Nesse momento, alguns dos Companheiros montados não conseguiram fazer os camelos que corriam e fugiam mudar de direção, então golpearam seus pescoços com as armaduras. Como ainda assim não conseguiram fazê-los voltar, desceram dos camelos levando as armas e os abandonaram. Em seguida, avançaram na direção de onde vinha a voz e chegaram até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Assim, cerca de cem Companheiros se reuniram, posicionaram-se contra o inimigo e envolveram-se numa batalha feroz.

Primeiro, começou-se a chamar: «Ó ansar!». Depois, passaram a chamar apenas: «Ó Khazraj!», pois os Khazraj eram conhecidos entre os árabes por sua firmeza no campo de batalha. Então o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — avançou à frente do exército dos Khazraj. Depois, olhou para o campo de batalha e viu que um combate intenso estava em curso. Ao ver isso, disse: «Agora o campo de batalha se tornou ardente!»

Jabir ibn Abd Allah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

O comandante da tribo de Hawazin lutava montado em um camelo. Nesse momento, Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele) e um ansari avançaram contra ele e golpearam as pernas de seu camelo. O camelo sentou-se, apoiando-se para trás. Então o ansari golpeou o comandante e cortou-lhe a perna abaixo do joelho. Ele caiu imediatamente no chão. Nesse momento, a batalha assumiu um aspecto terrível e seu curso mudou completamente. Os muçulmanos passaram da situação de derrota à vitória, e a batalha não terminou até que os prisioneiros de guerra chegassem enfileirados diante do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, olhou para Abu Sufyan ibn al-Harith ibn Abd al-Muttalib. Naquele dia, ele lutou com extrema firmeza. Era um muçulmano devoto. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, viu que ele segurava as rédeas de sua mula. Ao vê-lo, perguntou: “Quem é você?” Ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, sou seu irmão.”

Abdullah ibn Abu Bakr narra: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, encontrou Umm Sulaym bint Milhan com seu marido, Abu Talha, em uma extremidade da planície. Ela havia envolvido a cintura e o abdômen com um pano. Seu filho, Abdullah ibn Abu Talha, estava então em seu colo. O camelo de Abu Talha estava com ele, e, temendo que o camelo fugisse, ele segurava firmemente a corda presa ao seu focinho. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “É você, Umm Sulaym?” Ela respondeu: “Sim, ó Mensageiro de Allah. Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por você! Mate aqueles que fogem e o abandonam, assim como você mata os inimigos que atacam você, pois eles merecem ser mortos.”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Umm Sulaym, Allah não é suficiente para isso?” Umm Sulaym tinha então um punhal consigo. Abu Talha perguntou: “Ó Umm Sulaym, para que serve o punhal?” Umm Sulaym respondeu: “Guardei-o para que, se algum politeísta ousar aproximar-se de mim, eu possa abrir-lhe o ventre com ele.” Abu Talha disse: “Ó Mensageiro de Allah, você ouviu o que Umm Sulaym está dizendo, apesar de sua enfermidade ocular?”

Abu Qatadah narra: No dia da batalha de Hunayn, vi um politeísta e um muçulmano lutando entre si. Nesse momento, outro politeísta avançou para ajudar aquele politeísta. Ataquei-o imediatamente e cortei-lhe a mão com um golpe de espada. Então ele me agarrou com a outra mão. Não me soltava de modo algum; pelo contrário, quase me matou. Se não tivesse enfraquecido pouco depois devido à grande perda de sangue, ele teria me matado. Quando caiu, eu o matei. Depois, como a batalha continuava ao redor, não pude mais prestar atenção nele. Nesse momento, um homem de Meca veio e levou seus pertences. Quando a batalha terminou, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quem matar alguém ficará com todos os seus pertences.” Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, matei um homem. Ele possuía muitos pertences, mas, devido à intensidade da batalha, não pude mais prestar atenção nele. Não sei quem levou seus pertences.” Um homem de Meca disse: “Ó Mensageiro de Allah, Abu Qatadah está dizendo a verdade. Tenho comigo todos os pertences daquele homem morto. Faça com que ele chegue a um acordo comigo a respeito deles.” Abu Bakr al-Siddiq disse: “Juro por Allah que você não deve propor um acordo sobre esses pertences. Você veio tentar enganar um dos leões de Allah, que luta pela causa de Allah, e ainda quer compartilhar os espólios que ele conquistou na batalha?” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Abu Bakr falou corretamente. Devolva os pertences a Abu Qatadah.”

Abu Qatadah disse: Depois, recebi todos aqueles pertences do homem de Meca e os vendi. Com o dinheiro, comprei um pequeno palmeiral. Essa foi a primeira propriedade que possuí em minha vida.

Ibn Ishaq disse: Depois da derrota dos Hawazin, fizeram a contagem e constataram que as maiores perdas ocorreram entre o clã Banu Malik de Thaqif. Setenta homens desse clã morreram na batalha. Entre os mortos, destacava-se Uthman ibn Abdullah ibn Rabi’ah ibn al-Harith ibn Habib. O comandante desse clã era Dhu al-Khimar. Quando ele foi morto, Uthman ibn Abdullah assumiu o comando e também foi morto. Depois de sofrerem uma derrota humilhante nessa batalha, os politeístas partiram para Ta’if com Malik ibn Awf. Alguns de seus soldados acamparam e permaneceram em Awṭās. Outros partiram em direção a Nakhla. Entre os que foram para Nakhla não havia ninguém além do subclã Banu Ghiyara de Thaqif. Os soldados do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não os perseguiram. Para perseguir a parte do exército politeísta que havia ido para Awṭās, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou Abu Amir al-Ash’ari. Ali, ele desafiou alguns soldados derrotados para o combate.

Abu Amir al-Ash’ari foi martirizado depois de ser atingido por uma flecha. Em seguida, seu primo Abu Musa al-Ash’ari assumiu o comando. Ele conduziu a batalha, obteve a vitória e os politeístas foram derrotados.

Diante da derrota, Malik ibn Awf posicionou-se com um grupo de cavaleiros de sua própria tribo em um vale entre duas montanhas. Disse-lhes: “Deixem os fracos partir. Depois, os fortes virão. Enquanto isso, esperem aqui.” Ele permaneceu ali até que os soldados derrotados e fracos partissem.

Khalid ibn al-Walid matou uma mulher. Ao chegar junto ao seu cadáver, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — viu uma grande multidão reunida. Ele perguntou: “O que aconteceu aqui?” Todos responderam: “Khalid ibn al-Walid matou uma mulher.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse a um de seus companheiros: “Vai ter com Khalid e diz-lhe que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — te proibiu de matar crianças, mulheres, trabalhadores diaristas ou escravos e escravas.”

Naquele dia, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — havia dito: “Se encontrardes Bujad, de Banu Sa’d ibn Bakr, não o deixeis escapar.” Ele havia cometido um grande crime. Os muçulmanos conseguiram capturá-lo e trouxeram-no, juntamente com sua família, incluindo Shaima bint al-Harith, irmã de leite do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. No caminho, trataram-na com certa rudeza. Então ela disse: “Ó Mensageiro de Allah, sou tua irmã de leite.” Ele perguntou: “Qual é a prova disso?” Ela respondeu: “Quando eu te carregava sobre a minha coxa, mordeste-me nas costas. A marca ainda está aqui.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — reconheceu-a ao ver a marca da mordida. Estendeu sua própria capa para que ela se sentasse honrosamente e disse: “Se preferires ficar comigo, poderás permanecer aqui com honra. Mas, se preferires que eu te dê alguns presentes e que retornes ao teu povo, também poderás fazê-lo.” Ela respondeu: “Dá-me aquilo que quiseres oferecer-me e envia-me de volta ao meu povo.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — deu-lhe muitas coisas e enviou-a de volta ao seu povo.

Segundo o relato de Banu Sa’d, ele despediu-a oferecendo-lhe um escravo chamado Maqstal e uma escrava. Mais tarde, Shaima casou os dois entre si, e a sua descendência continuou entre eles por muitas gerações.

Ibn Hisham disse:

Allah, o Altíssimo, revelou estes versículos sobre a batalha de Hunayn:

“Allah já vos ajudou em muitos campos de batalha. E também no dia da batalha de Hunayn, quando vos orgulhastes da vossa superioridade numérica. Mas essa superioridade numérica de nada vos serviu. Naquele dia, a vasta terra tornou-se estreita para vós, e fugistes. Depois, Allah fez descer a tranquilidade e a serenidade sobre o Seu Mensageiro e sobre os crentes, e enviou forças que não podíeis ver. Assim Allah castiga os incrédulos. E, na verdade, este é o castigo apropriado para os incrédulos.” (At-Tawbah)

Ibn Ishaq disse: Depois, todos os prisioneiros de guerra e os bens capturados em Hunayn foram trazidos e colocados diante do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Mas’ud ibn Amr al-Ghifari foi encarregado de supervisionar os espólios. Por ordem do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — os espólios e os prisioneiros de guerra foram mantidos num lugar chamado Ji’rana.

A batalha de Ta’if: 8.º ano da Hégira

O exército derrotado dos Banu Thaqif foi para Taife, fechou os portões da cidade e começou a preparar-se para uma nova batalha. Urwa ibn Masud e Ghailan ibn Salama não participaram das expedições de Hunain e Taife. Eles haviam recebido em Jurash treinamento para operar armas de guerra como tanques, canhões e dabur.

Após a vitória de Hunain, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em expedição. A respeito dessa expedição, Ka’b ibn Malik recitou um poema, cujo significado é: “De Tihama e Khaybar, havíamos removido todas as dúvidas e dado descanso às espadas. Havíamos concedido às espadas o direito de escolher entre Daus e Thaqif. E, se essas espadas falassem, pronunciariam a palavra final. Se não virdes essas espadas nos pátios de vossas moradas, então, mesmo que algum dos nossos queira proteger-vos, não lhe serei de modo algum amistoso. Derrubaremos os telhados de vossas casas e os levaremos para a planície de Wajj. Assim, vossas casas ficarão desoladas.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou primeiro a Nakhlah Yamaniyya, depois a Qarn, em seguida a Mulaih, e dali dirigiu-se a Buhrah al-Rughah, na região de Liya. Ali mandou construir uma mesquita e realizou a oração nela. Depois, seguindo a estrada chamada Daiqa, foi até Nakhab e acampou sob uma árvore de sidr chamada “Sadirah”, perto da terra de um homem dos Banu Thaqif. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou a esse homem um ultimato: “Desocupa este lugar e vai embora; caso contrário, demoliremos e reduziremos a escombros o teu muro.” Quando o homem se recusou a sair, ele derrubou o seu muro.

Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retomou a marcha. Ao aproximar-se de Taife, montou as tendas e instalou-se ali com os soldados. Nesse local, alguns Companheiros foram atingidos por flechas e morreram. Como os soldados do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estavam posicionados junto às muralhas de Taife, as flechas lançadas pelos habitantes da cidade caíam sobre eles. Os habitantes de Taife haviam fechado os portões da cidade de tal maneira que os muçulmanos não puderam entrar. Quando alguns Companheiros foram atingidos por flechas e alcançaram o martírio, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deslocou todo o seu exército para o local onde hoje se encontra a mesquita de Taife. Ele sitiou os habitantes de Taife. Nessa expedição do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, duas de suas esposas, entre elas Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, acompanharam-no. Para elas, ele mandou construir duas casas em forma de cúpula. Ele realizou a oração entre essas casas e permaneceu ali. Quando os Banu Thaqif aceitaram o Islã, Amr ibn Umayya, que Allah esteja satisfeito com ele, construiu uma mesquita no local onde o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, costumava rezar. É conhecida a tradição de que um grupo de guerreiros permanecia naquela mesquita. Todos os dias ouviam-se seus gritos de guerra e seus brados ameaçadores. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sitiou os habitantes de Taife e travou com eles uma intensa batalha com arcos e flechas. [83. Ibn Hisham afirmou: “Nesta batalha, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, utilizou um canhão. O canhão que ele empregou contra os habitantes de Taife foi o primeiro canhão do Islã.”]

Quando chegou o dia marcado para derrubar as muralhas de Taife, um grupo de Companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, entrou sob um tanque e avançou unido com ele para destruir as muralhas de Taife. Os homens da tribo dos Banu Thaqif começaram a lançar contra eles projéteis de ferro em brasa. Com isso, os Companheiros foram obrigados a sair de sob o tanque. E todo aquele que saía era atingido pelas flechas dos Thaqif. Assim, vários muçulmanos alcançaram o martírio. Nesse momento, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que os jardins dos Thaqif fossem cortados. Os Companheiros começaram a cortá-los.

Durante o cerco dos Thaqif pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele disse certa vez a Abu Bakr al-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele: “Ó Abu Bakr, sonhei que me haviam oferecido uma taça de manteiga clarificada. Um galo veio bicando-a repetidamente e derramou toda a manteiga da taça.” Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Penso que hoje não conseguirás derrotar os Banu Thaqif.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Também penso assim.”

Certo dia, Khawla bint Hakim, esposa de Uthman ibn Maz’un, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Ó Mensageiro de Allah, se Allah te conceder a vitória sobre os habitantes de Taife, dar-me-ás as joias da mulher mais adornada dos Banu Thaqif, Badiya bint Ghailan ou Farigha bint Aqil?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-lhe: “E se eu não receber autorização para agir contra os Banu Thaqif?” Ao ouvir isso, Khawla partiu e contou o ocorrido a Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele. Umar foi imediatamente ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, disseste o que Khawla me contou?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim.” Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não recebeste autorização para agir contra os Banu Thaqif?” Ele respondeu: “Não.” Umar perguntou: “Então devo agora ordenar aos muçulmanos que deixem este lugar?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim.” Então Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, ordenou ao exército muçulmano que partisse. Quando começaram a marchar, Sa’id ibn Ubaid gritou: “Os Banu Thaqif continuam exatamente como eram.” Uyayna ibn Hisn disse: “Sim, permanecem com sua dignidade e honra.” Um dos Companheiros disse: “Ó Uyayna! Os idólatras rejeitaram o Mensageiro de Allah, e tu os elogias? No entanto, vieste para lutar ao lado do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Vergonha de ti!” Ele respondeu: “Na verdade, não vim para lutar contra os Banu Thaqif em vosso favor. Vim com o objetivo de, se Muhammad conquistasse Taife, obter uma jovem dos Banu Thaqif, para que um filho meu nascesse dela. Isso porque os Banu Thaqif possuem uma inteligência extremamente aguçada.”

Durante o cerco, alguns escravos de Taife foram até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aceitaram o Islã. Ele libertou todos eles. Mais tarde, quando os habitantes de Taife aceitaram o Islã, alguns deles solicitaram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que devolvesse aqueles escravos. Um dos principais solicitantes foi al-Harith ibn Kalada. Ele respondeu-lhes negativamente, dizendo: “Eles são servos libertos por Allah. Não posso voltar a prendê-los nos grilhões da escravidão.”

Ao todo, doze Companheiros alcançaram o martírio em Taife. Entre eles, havia sete coraixitas, quatro ansares e um homem da tribo de Banu Laith.

Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deixou Taife após a guerra e o cerco, Bujaير ibn Zuhair recitou um poema descrevendo Taife e Hunain, cujo sentido é:

“No dia em que nos reunimos na planície de Hunain, na manhã em que nos reunimos em Autas e no dia dos relâmpagos (este último provavelmente se refere a Taife), travou-se uma batalha violenta. Por meio de um engano, Hawazin reuniu seu povo. No fim, eles se tornaram como pássaros expulsos de seus ninhos e dispersos em todas as direções. Não conseguiram impedir nenhuma de nossas posições; puderam apenas barrar-nos dentro de suas muralhas e trincheiras. Tentamos fazer com que os habitantes de Taife saíssem, mas eles fecharam as portas e esconderam-se em lugares seguros dentro de suas casas. Um dia, arrependidos, retornarão àquele exército gigantesco — um exército resplandecente com a glória radiante da morte, cuja reunião manifesta um brilho verde. Se ele fosse conduzido até a montanha Hāzan, em Najd, essa montanha seria reduzida a nada. Marchamos como os leões da floresta caminham sobre a vegetação espinhosa. Somos como cavalos velozes, que às vezes se dispersam no caminho e depois se reúnem novamente. Vestimos todos os tipos de armaduras de guerra. Essas armaduras nos servem de fortaleza, como o ar acumulado no interior de um poço raso, quando dele escapa, é usado como uma fortaleza. As armaduras são tão compridas que tocam nossos calçados, e são tão bem confeccionadas quanto as armaduras feitas por Davi (que a paz esteja sobre ele) e por Amr ibn Hind, rei de Hira.”

As terras de Hawazin

Relato sobre os prisioneiros de guerra, a oferta de presentes para atrair alguns deles ao Islã e a concessão de recompensas a certas pessoas

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os Companheiros partiram de Taife levando consigo um grande número de prisioneiros de guerra de Hawazin, e fizeram uma parada em Ji’rana. Anteriormente, quando abandonaram o cerco de Saqif e se afastavam deles, um Companheiro pediu-lhe que rogasse contra Banu Saqif. Em resposta, ele disse: “Ó Allah, guia Saqif e faze com que eles venham até mim.”

Uma delegação de Hawazin foi a Ji’rana e encontrou-se com ele. Naquele momento, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tinha consigo seis mil crianças e mulheres de Hawazin como prisioneiras de guerra. Não era possível determinar o número de camelos e cabras. Os delegados disseram: “Ó Mensageiro de Allah, somos seus parentes e familiares. Você não desconhece a terrível calamidade que nos atingiu. Portanto, tenha misericórdia de nós. Allah terá misericórdia de você.”

Um homem de Hawazin levantou-se. Logo depois, levantou-se um homem de Banu Sa’d ibn Bakr. Esse homem era Zuhair, conhecido como Abu Surad. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, entre os prisioneiros de guerra estão suas tias paternas, suas tias maternas e suas amas de criação. [84. Por amas de criação entendem-se as mulheres que amamentam. Halima, a mãe de leite do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era uma mulher dessa tribo de Banu Sa’d, que é um ramo de Hawazin.] Se tivéssemos amamentado Harith ibn Abi Shimar ou Nu’man ibn Mundhir, e eles hoje estivessem ocupando o seu lugar, também teriam compaixão de nós. Você é, sem dúvida, superior a eles.”

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Qual preferis: os vossos bens ou as vossas esposas e crianças?” Eles responderam: “Se nos pedirdes que escolhamos apenas uma das duas coisas, devolvei-nos as nossas crianças e mulheres.” Ele disse: “Estou a devolver-vos as mulheres e crianças que estão comigo e com o clã dos Banu Abd al-Muttalib. Quanto às restantes, comparecei em congregação no horário da oração do meio-dia. Então, suplicai a todos os muçulmanos, dizendo: ‘Queremos de volta as nossas esposas e crianças. Quanto àquelas que estão com os muçulmanos, pedimos ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) que interceda junto aos muçulmanos por nós; e, quanto às que estão com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), pedimos aos muçulmanos que roguem ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) por nós.’ Então devolverei os que estão comigo e pedirei aos muçulmanos que também os devolvam.”

No horário da oração do meio-dia, os representantes dos Hawazin e dos Banu Sa‘d fizeram conforme a orientação do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) anunciou diante deles: “Imediatamente, os Muhajirun e os Ansar também disseram: ‘Entregamos ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aqueles que estão conosco.’” Somente Aqra ibn Habis, em seu próprio nome e no dos Banu Tamim; Uyayna ibn Hisn, em seu próprio nome e no dos Banu Fazara; e Abbas ibn Mirdas, em seu próprio nome e no dos Banu Sulaym, não atenderam a esse pedido. Porém, os Banu Sulaym, ignorando Abbas, disseram: “Entregamos às mãos do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) todas as mulheres e crianças que estão conosco.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Prometo àqueles dentre vós que não desejam renunciar aos seus próprios direitos que, do primeiro prisioneiro de guerra que vier às minhas mãos depois disso, darei a cada um seis em troca de um. Portanto, devolvei estas crianças e mulheres.”

Depois, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou aos representantes dos Hawazin: “Que notícias tendes de Malik ibn Awf?” Eles responderam: “Ele está em Ta’if, junto dos Banu Thaqif.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Informai Malik de que, se ele vier a mim como muçulmano, devolver-lhe-ei todos os seus bens e os seus prisioneiros, e ainda lhe darei cem camelos.” Malik temia que, se os Banu Thaqif soubessem da proposta do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), o detivessem. Por isso, elaborou um plano para chegar até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Deixou preparado, em algum ponto do caminho, um camelo para lhe servir de montaria. Depois, saiu de Ta’if a cavalo, durante a noite, e chegou até o camelo. Em seguida, montou o camelo e apresentou-se diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Quando se encontrou com ele em Ji‘rana ou em Meca, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) devolveu-lhe todos os prisioneiros e bens, e também lhe deu cem camelos. Ele aceitou o Islão e tornou-se um muçulmano sincero. Depois, Malik ibn Awf recitou um poema em louvor ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O poema era o seguinte:

“Em toda a humanidade, nunca vi nem ouvi falar de homem algum igual a Muhammad.

Se ele dá algo a alguém ou faz uma promessa, cumpre-a devidamente

e dá generosamente

Além disso, se quiseres

então ele pode até dizer-te o que acontecerá amanhã.

Quando as grandes tribos fugiram com seus próprios exércitos e armas

e até as espadas de fio extremamente afiado foram desgastadas golpe após golpe

no campo de batalha coberto de poeira, ele ainda permanecia encarregado de guardar os filhotes e

o feroz leão que espreitava na fortaleza permanecia inabalável.”

Depois disso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nomeou Malik ibn Awf comandante dos muçulmanos de sua própria tribo e dos muçulmanos das tribos Banu Sumala, Banu Salima e Banu Kahm. Malik continuou a lutar contra os Banu Thaqif com esses muçulmanos e, por fim, subjugou-os. O poeta dos Banu Thaqif, Abu Mihjan, recitou um poema zombeteiro:

“Certa vez, os inimigos tinham medo de nós. No entanto,

hoje os Banu Salim estão nos atacando.

Violando a santidade de todos os laços e quebrando as promessas

Mālik lançou-se contra nós com o apoio deles. A ponto de

ter avançado e se instalado sobre nossas próprias casas.

Quando, na verdade, éramos nós que deveríamos ter tomado vingança.”

Depois disso, muitos muçulmanos começaram a insistir com o Mensageiro de Deus (que Deus o abençoe e lhe conceda paz) para que lhes desse uma parte do fay (bens obtidos sem combate), isto é, camelos e cabras. Enquanto insistiam, levaram-no até debaixo de uma árvore, e seu manto ficou preso nos galhos. Então o Mensageiro de Deus (que Deus o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Devolvei-me o meu manto. Juro por Deus que, mesmo que eu possuísse uma riqueza tão vasta quanto as árvores de Tihāma, eu a distribuiria entre vós. Jamais encontraríeis em mim sequer o menor vestígio de avareza, covardia ou mentira.” Em seguida, ele foi até o lado de seu camelo, tirou um pelo de seu pescoço, segurou-o na mão e disse, mostrando-o: “Ó comunidade dos muçulmanos, juro por Deus que, do vosso fay — mesmo deste tufo de lã — não me cabe mais que um quinto. E, ainda assim, até mesmo esse quinto eu vos entreguei. Portanto, se alguém tiver tomado deste espólio sequer uma agulha e um fio, que os devolva. Sabei que quem se apropriar indevidamente de algo levará essa apropriação, no Dia da Ressurreição, à forma de fogo, e ela se tornará causa de extrema humilhação e desonra.”

Certo homem dos Ansar havia pegado alguns fios de lã para costurar a parte rasgada da sela de seu camelo. Ele os devolveu. O Mensageiro de Deus (que Deus o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Dou-te a parte que me cabe disso.” O homem respondeu: “Depois do que disseste sobre a apropriação indevida, não tenho necessidade alguma disto.” E então o devolveu.

O Mensageiro de Deus (que Deus o abençoe e lhe conceda paz) concedeu riquezas a homens influentes e proeminentes com o objetivo de conquistar seus corações. Deu cem camelos a cada uma das seguintes pessoas: Abū Sufyān ibn Harb, Muʿāwiya, filho de Abū Sufyān, Ḥakīm ibn Ḥizām, al-Ḥārith ibn Qalāda, al-Ḥārith ibn Hishām, Suhayl ibn ʿAmr, Ḥuwayṭib ibn ʿAbd al-ʿUzzā, al-ʿAlāʾ ibn Jāriya, ʿUyayna ibn Ḥiṣn, al-Aqraʿ ibn Ḥābis, Mālik ibn ʿAwf e Ṣafwān ibn Umayya.

Concedeu menos de cem camelos às seguintes pessoas: Makhrama ibn Rawal al-Zuhrī, ʿUmayr ibn Wahb al-Jumaḥī, Hishām ibn ʿAmr e ʿAmr ibn Luʾayy. E deu cinquenta camelos a Saʿīd ibn Yarbuʿ al-Sahmī.

A ʿAbbās ibn Mirdās deu menos de cinquenta. Ele ficou irado e, censurando o Mensageiro de Deus (que Deus o abençoe e lhe conceda paz), recitou os seguintes versos:

“Estas eram coisas que eu havia tomado como espólio. Eu as obtive montado no dorso de um cavalo jovem, atacando as aldeias da planície. Trouxe-as depois de manter os membros da minha tribo acordados, para que não dormissem. Mas eles acabaram dormindo, enquanto eu permaneci acordado sozinho. O que Uyayna e Aqra não conseguiram fazer, eu e meu cavalo fomos capazes de fazer: tomar aquele espólio. Sou um combatente habilidoso no campo de batalha. Contudo, não me foi dada uma quantidade suficiente. Ainda assim, não fui totalmente privado. Deram-me apenas alguns camelos pequenos, cujas quatro pernas ainda não cresceram o bastante. Hisn e Harith — pai de Uyayna e Aqra, que receberam cem camelos — não tinham na sociedade mais prestígio do que meu pai, Mirdas. E eu próprio não sou inferior a nenhum dos dois. Aquele a quem hoje humilhaste jamais será honrado novamente.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou aos Companheiros: “Ide, dai-lhe algo mais para agradá-lo e calai-lhe a boca.” Os Companheiros foram até ele e o agradaram dando-lhe mais alguns camelos.

Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Como o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, demonstrou tamanha generosidade para com os líderes dos coraixitas e de outras tribos árabes, sem dar nada aos Ansar, eles ficaram muito descontentes, e alguns começaram a fazer comentários ofensivos. Alguns chegaram a dizer: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, agradou aos seus próprios parentes.” Nesse momento, Sa’d ibn ‘Ubada (que Allah esteja satisfeito com ele) encontrou-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, os Ansar ficaram extremamente indignados com a maneira como distribuíste os espólios. Distribuíste esses bens entre os coraixitas, tua própria tribo, e outros, mas nada deste aos Ansar.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: “Ó Sa’d, qual é a tua própria opinião?” Ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, sou apenas um membro do meu povo.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Então reúne aqui o teu povo.”

Sa’d reuniu os Ansar naquele local. Quando alguns Muhajirun também chegaram, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permitiu-lhes entrar. Depois, quando outros Muhajirun quiseram entrar, ele não lhes deu permissão. Quando ainda outros Muhajirun quiseram entrar, novamente não lhes deu permissão. Assim que todos aqueles Ansar se reuniram, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi até eles. Primeiro, louvou devidamente a Allah. Depois disse: “Ó Ansar, ouvi que foram proferidas algumas palavras ofensivas da vossa parte e soube que ficastes contrariados e irados comigo. Dizei-me: quando fui ter convosco, não estáveis extraviados? Depois, Allah não vos guiou? Não éreis pobres? Depois, Allah não vos tornou abastados? Não éreis inimigos uns dos outros? Depois, Allah não vos tornou queridos uns dos outros?” Eles responderam: “Sim. Allah e o Seu Mensageiro foram os que mais nos favoreceram.” Ele continuou: “Ó Ansar, por que não respondeis?” Eles disseram: “Ó Mensageiro de Allah, que resposta podemos dar-te? O Mensageiro de Allah foi quem mais nos favoreceu.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Podíeis dizer que fui ter convosco quando ninguém havia acreditado em mim, e somente vós acreditastes; todos me perseguiam, e somente vós me ajudastes; fui expulso, e somente vós me destes abrigo; cheguei até vós desamparado, e vós me acolhestes como alguém da família. Se disserdes essas coisas, não estareis de modo algum mentindo, e todos reconhecerão a sua veracidade. Ó Ansar, ficastes descontentes comigo por causa dos bens passageiros deste mundo? Não vos agradou que eu já tivesse conquistado a confiança de um grupo de pessoas? Ó Ansar, não vos agrada que as pessoas partam levando camelos e cabras, enquanto vós levais convosco o Mensageiro de Allah? Juro por Aquele em cuja mão está a vida de Muhammad: se eu não tivesse tido de emigrar, teria sido um Ansari como vós. Se todos seguirem por um caminho e os Ansar seguirem por outro, eu seguirei o caminho dos Ansar. Ó Allah, concede a Tua misericórdia aos Ansar, aos seus filhos e também aos descendentes dos seus filhos.”

Ao ouvirem esse discurso do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, os Companheiros Ansar choraram tanto que até as suas barbas ficaram molhadas. Em uníssono, exclamaram: “Estamos satisfeitos e honrados por ter recebido em nossa parte o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.”

Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu. Os muçulmanos também foram cada um cuidar dos seus afazeres.

A realização da umra do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a partir de Ji’rana

O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, nomeou temporariamente Attab ibn Usaid como governador de Meca, e Attab realizou o hajj no oitavo ano da Hégira juntamente com os muçulmanos.

Ibn Ishaq disse:

Depois, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, partiu de Ji‘rana com o propósito de realizar a ‘umra. Ordenou que os bens restantes obtidos na conquista fossem guardados em Majanna, perto de Marr az-Zahran. Após concluir a ‘umra, foi para Medina e nomeou temporariamente Attab ibn Usaid (que Deus esteja satisfeito com ele) como governador de Meca. Deixou também Mu‘adh ibn Jabal (que Deus esteja satisfeito com ele) com Attab, a fim de ensinar ao povo muçulmano as normas detalhadas do Islã e o Alcorão. O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, levou consigo para Medina os bens restantes obtidos na conquista. Ele realizou essa ‘umra no mês de Dhu al-Qa‘da. Portanto, sua partida para Medina ocorreu no fim de Dhu al-Qa‘da ou no início de Dhu al-Hijja. Ibn Ishaq disse que o hajj daquele ano foi realizado conforme o costume vigente entre os árabes. Attab (que Deus esteja satisfeito com ele) realizou o hajj juntamente com os muçulmanos. [85. Ibn Hisham disse: Foi narrado por Zayd ibn Aslam que, depois de nomear Attab como governador de Meca, o Profeta, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, estabeleceu para ele uma remuneração diária de um dirham. Certo dia, ao dirigir-se aos muçulmanos, ele disse: “Que Deus jamais satisfaça aquele que não se contenta mesmo recebendo uma remuneração de um dirham. O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, fixou para mim uma remuneração diária de um dirham. Agora não dependo de ninguém.”] Isso ocorreu no oitavo ano da Hégira. Desde a partida do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, de Ta’if, isto é, desde o mês de Dhu al-Qa‘da até o Ramadã do nono ano da Hégira, os habitantes de Ta’if permaneceram firmes no politeísmo e na oposição ao Islã.

A aceitação do Islã por Ka‘b ibn Zuhayr após a partida de Ta’if

Após a partida do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, de Ta’if, Bujayr ibn Zuhayr informou por carta a seu irmão, o renomado poeta autoproclamado Ka‘b ibn Zuhayr: “Em Meca, ele matou muitos dos que compunham poemas difamatórios contra o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. Entre os poetas coraixitas, Ibn Zab‘ari, Hubayra e outros fugiram para salvar a vida. Se queres viver, apresenta-te sem demora diante do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. Ele não mata quem vai até ele como muçulmano e arrependido. Caso contrário, refugia-te em qualquer lugar do mundo onde te sintas seguro.”

Anteriormente, Ka‘b havia dito em um poema:

“Leva esta mensagem minha a Bujayr: sentes inclinação para aceitar o que eu disse? E, se não o aceitares, então traz-me; por que outra coisa tens interesse? Tens interesse naquele caráter que não encontrei em seus pais — isto é, nos pais de Muhammad — e que também não encontraste nos teus? Se não aceitares minhas palavras, não lamentarei, nem te corrigirei, mesmo que erres e sofras prejuízo. O homem confiável deu-te a beber uma nova bebida com o propósito de formar em ti esse caráter especial.”

Ka‘b enviou esse poema a Bujayr, e Bujayr o recitou para o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. Quando ouviu: “O homem confiável deu-te a beber uma nova bebida”, ele disse: “Embora Ka‘b seja mentiroso, disse a verdade nessa afirmação. Eu sou esse homem confiável.”

Quando foi recitado novamente: “(Acaso) desejas o caráter que não viste em seus pais?”, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Sim, ele não viu esse caráter em seus pais.”

Ibn Ishaq disse: Ao receber a carta de Bujair, Ka’b começou a ver o mundo girar diante de seus olhos. Seu coração secou de medo pela própria vida. Aqueles que, ao seu redor, eram seus inimigos começaram a dizer-lhe, para aterrorizá-lo ainda mais: “A morte de Ka’b está próxima.” Sem outra alternativa, ele compôs um poema elogiando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Nesse poema, mencionou o próprio medo e o terror que seus inimigos lhe causavam. Depois, partiu para Medina. Ali, hospedou-se na casa de um homem da tribo de Juhaina que já conhecia. Em seguida, esse homem levou Ka’b consigo até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, no momento da oração do fajr. Ele rezou com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Depois, apontando para ele, disse a Ka’b: “Ele é o Mensageiro de Allah. Vá até ele e peça proteção.” Ka’b foi imediatamente até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentou-se diante dele, embora não o conhecesse, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, se Ka’b ibn Zuhair se apresentar a você arrependido e convertido ao Islã, você o aceitará?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim.” Então ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, eu sou Ka’b ibn Zuhair.” Nesse momento, um dos Ansar correu até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, permita-me matar este inimigo de Allah.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Deixe-o. Ele veio arrependido e abandonando o politeísmo.” Por causa da atitude daquele homem dos Ansar, Ka’b ficou zangado com todos os Ansar. Os Muhajirun, porém, não lhe disseram nada desagradável. Então ele compôs um poema. Ei-lo:

“Minha esposa Su’ad afastou-se de mim, e por isso meu coração se partiu. Hoje estou humilhado e acorrentado. Segui seus passos, mas isso não me trouxe nenhum benefício. … Ouvi dizer que o Mensageiro de Allah me ameaçou. Ainda assim, espero obter o perdão do Mensageiro de Allah. Tenha um pouco de paciência! Que Allah, que lhe concedeu a riqueza do Alcorão, repleto de exortações, o conduza ao caminho reto. Não me castigue por ter sido influenciado pelas intrigas dos caluniadores. Embora eu tenha proferido muitas palavras impensadas, não cometi crime algum. Hoje encontro-me numa situação tão delicada que, se um elefante ouvisse tudo o que vejo e escuto daqui, ficaria aterrorizado e inquieto. Contudo, seria diferente se o Mensageiro de Allah lhe concedesse segurança, com a permissão de Allah. Até agora, vaguei durante a escuridão da noite pelo deserto árido. Por fim, coloquei minha mão na mão daquele que é capaz de se vingar e cuja palavra é a única verdade. Não retirarei mais essa mão. Na verdade, quando falei com ele e me disseram: ‘Tu és acusado e responsável por muitos males’, ele se tornou, para mim, mais terrível que o leão da densa floresta de Ishr — aquele leão que mantém vivos dois outros leões, alimentando-os com carne humana; quando salta em direção ao cume de uma montanha, não o abandona antes de conquistá-lo; os animais selvagens e ferozes da região de Jau fogem de medo dele, e os homens não ousam atravessar seu território, mesmo em grupos. Somente alguém confiável pode entrar em seu território, e esse alguém deve ser capaz de caminhar carregando uma arma ensanguentada e vestindo roupas velhas e rasgadas. Certamente, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é uma luz brilhante que guia ao caminho da verdade e uma espada invencível de Allah. Quando um grupo dos coraixitas creu nele em Meca, alguns deles disseram aos crentes: ‘Afastem-se!’ Eles de fato se afastaram. Porém, diante daqueles heróis, os coraixitas ficaram desarmados e indefesos — homens que, na guerra, vestem longas e resistentes armaduras brancas; que, mesmo vitoriosos, não se deixam dominar pela euforia, pois isso faz parte de sua natureza, e que, mesmo derrotados, não se quebram de desespero, pois sabem que a vitória e a derrota estão nas mãos de Allah e que sua vitória será inevitável no futuro. Caminham com passos firmes e tranquilos, como camelos brancos. Quando os homens baixos e morenos fogem deles, defendem-se lutando. Os golpes atingem-lhes o peito, não as costas, pois não fogem por medo da morte; ao contrário, avançam, oferecem o peito aos golpes do inimigo e os repelem.”

Relatado por Asim ibn Umar ibn Qatadah. Quando Ka’b disse: “Quando os homens baixos e morenos fogem”, os Ansar ficaram zangados com ele, pois essas palavras eram dirigidas precisamente contra nós, os Ansar. Isso aconteceu porque um dos nossos havia tratado Ka’b mal. Mais tarde, para apaziguar a ira dos Ansar, ele voltou a elogiar seu sacrifício, sua perseverança e sua dedicação ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, bem como o papel que desempenhavam como seu braço direito.

O poema era este:

“Quem deseja tornar sua vida feliz e honrada não deve abandonar a companhia dos virtuosos Ansar. A grandeza e a generosidade são uma herança que receberam de seus antepassados; por isso, são os melhores descendentes dos melhores homens. Eles enfrentam flechas e lanças protegidos apenas por armaduras. Suas armaduras são como lanças: não lhes são inferiores em nenhum aspecto. Olham com olhos vermelhos como brasas e de visão penetrante. Quando enfrentam a batalha, entregam suas vidas ao Profeta, prontos para morrer. Protegem a religião dos crentes com espadas desembainhadas e lanças. Purificam-se com o sangue dos incrédulos e consideram isso um ato de devoção. Assim como leões caçadores de pescoço robusto treinam para a luta nas profundezas da floresta de Khifya, eles também aperfeiçoam sua habilidade de combate. Quando resistem ao atacante, detêm-no completamente. Eles desferiram contra Ali ibn Mas’ud Mazin al-Ghassani, na batalha de Badr, um golpe tal que todo o clã de Banu Nizar foi subjugado e se rendeu. Se todas as tribos soubessem o que sei sobre os Ansar, até aqueles que são meus mais ferrenhos adversários reconheceriam isso. Eles são um povo que, mesmo em tempos de extrema fome, demonstra generosidade para com os hóspedes que chegam à noite. São uma linhagem nobre dos Ghassan, cuja nobreza não apresenta falha alguma.”

Enquanto recitava o poema sobre sua esposa Su’ad, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Neste poema, deverias ter elogiado os Ansar, pois eles são dignos disso.” Então Ka’b recitou este último poema. Ibn Hisham acrescentou que Ka’b recitou para o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentado na Mesquita do Profeta, o poema que começava mencionando sua esposa Su’ad.

A Batalha de Tabuk: Rajab, nono ano da Hégira

Depois disso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permaneceu em Medina desde Dul-Hijjah até o mês de Rajab e, posteriormente, ordenou aos muçulmanos que se preparassem para a expedição contra Roma. Os historiadores Zuhri, Iázid ibn Ruman, Abdullah ibn Abu Bakr, Assim ibn Jamar e outros narraram a expedição de Tabuk da seguinte maneira:

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou aos seus Companheiros que se preparassem para a expedição contra Roma. Naquela época, os muçulmanos viviam um período extremamente difícil. Por um lado, havia o intenso calor escaldante do verão; por outro, o país sofria com a fome. Os frutos que haviam nascido estavam completamente maduros. As pessoas sentiam forte inclinação para colher seus frutos e permanecer em lugares frescos e sombreados. Justamente naquele momento, ninguém desejava sair. Antes da maioria das expedições, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dava apenas alguma indicação sobre o destino. Informava que o destino real era diferente da direção para a qual estavam partindo. Porém, no caso da expedição de Tabuk, ocorreu algo completamente diferente. Nesse caso, ele informou a todos, sem ambiguidades, qual era o destino. Isso porque o destino ficava muito distante, o momento era extremamente delicado e a superioridade numérica do inimigo era considerável. Assim, para que as pessoas pudessem preparar-se adequadamente para a expedição, ele informou tudo com antecedência. Ordenou aos muçulmanos que se preparassem e anunciou que, dessa vez, enfrentariam o imperador de Roma. Durante esses preparativos, certo dia o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse a Jadd ibn Qais, da tribo de Banu Salamah: “Ó Jadd, estás preparado para lutar contra os romanos este ano?” Ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, permitir-me-ias permanecer em casa, em vez de me lançares numa provação (pecaminosa)? Por Allah, meu povo sabe que são poucos os homens tão fracos quanto eu diante das mulheres. Temo não conseguir controlar-me ao ver as mulheres romanas.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não se ocupou mais com o assunto. Disse: “Concedo-te permissão.” Sobre Jadd ibn Qais foi revelado este versículo:

[Árabe ********]

“Alguns deles dizem: ‘Permite-me ficar em casa e não me exponhas à provação.’ Sabei que eles já caíram na provação. E o Inferno certamente cerca os descrentes.” Ou seja, ele temia apegar-se às mulheres romanas. Na realidade, esse não era o seu verdadeiro temor. Ao deixar de participar do jihad com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e ao dar preferência aos próprios interesses, ele se expôs, antes, a um perigo ainda maior. Para ele está destinado o Inferno.

Os hipócritas disseram uns aos outros: “Não partais em viagem com este calor intenso.” Desse modo, esforçavam-se para abster-se do jihad e permaneciam hesitantes e duvidosos quanto ao caminho da verdade. Allah, o Altíssimo, revelou sobre eles:

“Disseram: ‘Não partais em viagem sob o calor.’ Dize: ‘O fogo do Inferno é ainda mais quente.’ Se compreendessem, não diriam isso. Portanto, que riam pouco e chorem muito. Eles serão recompensados pelo castigo de suas más ações.”

Ibn Ishaq disse:

Depois disso, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — começou a organizar a expedição e ordenou aos muçulmanos que concluíssem rapidamente os preparativos. Ele incentivou os muçulmanos abastados a ajudarem no caminho de Allah, fornecendo montarias, dinheiro, provisões e outras coisas. Os muçulmanos ricos deram muitas contribuições e consideraram suficiente buscar a satisfação de Allah. Uthman ibn Affan — que Allah esteja satisfeito com ele — foi, nessa ocasião, quem mais doou. [86. Ibn Hisham afirmou que ele doou mil dinares para os muçulmanos necessitados que participariam da expedição de Tabuk. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ficou tão feliz que suplicou: “Ó Allah! Fica satisfeito com Uthman, pois eu estou satisfeito com ele.”]

Sete muçulmanos, entre os Ansar e outros, foram até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e pediram montarias. Eram extremamente pobres. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — declarou-se incapaz de lhes fornecer montarias. Assim, não podendo participar do jihad, voltaram chorando. Na história, são conhecidos como os “Bakkā’ūn”, isto é, os que choram. Eram: Salim ibn Umayr, da tribo de Banu Amr ibn Awf; Ulbah ibn Zayd, de Banu Harithah; Abu Layla Abd al-Rahman, de Banu Majin; Amr ibn Humam e Abdullah ibn Mughaffal al-Muzani, de Banu Salimah. Alguns dizem que eram Abdullah ibn Amr; Harmi ibn Abdullah, de Banu Wafiq; e Irbad ibn Sariyah, de Banu Fazara — que Allah esteja satisfeito com todos eles.

Conta-se que, ao ver dois deles, Abu Layla Abd al-Rahman e Abdullah ibn Mughaffal, chorando, Ibn Yamin ibn Umayr perguntou: “Por que vocês estão chorando?” Eles responderam: “Fomos ao Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — pedir uma montaria para participar da expedição de Tabuk, mas ele não pôde nos dar uma. Nós também não temos nada com que possamos ir à expedição com ele.” Então Ibn Yamin deu-lhes um camelo e algumas tâmaras. Eles montaram nele e partiram para a expedição com o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Um grupo de muçulmanos beduínos foi até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — apresentando várias desculpas e pedindo permissão para não participar da expedição. Allah não lhes concedeu permissão. Segundo alguns, eram pessoas da tribo de Banu Ghifar. A viagem começou sob a liderança do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Alguns muçulmanos sinceros e devotos deixaram de participar da expedição com o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ninguém tinha qualquer queixa quanto à sua fé; a única razão de terem ficado para trás foi não terem demonstrado firmeza de propósito. Ele conduziu o exército pelo desfiladeiro montanhoso de Saniyat al-Wada, situado nos arredores de Medina. Abdullah ibn Ubayy separou seus homens da força principal do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e conduziu-os pelo caminho que passava abaixo de Saniyat al-Wada e seguia em direção ao monte Jubab. Segundo muitos, esse grupo era numeroso. Quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e seu exército avançaram bastante, Abdullah ibn Ubayy voltou a Medina com seus companheiros hipócritas e céticos. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — deixou Ali ibn Abi Talib — que Allah esteja satisfeito com ele — encarregado de cuidar de sua família. Pediu-lhe que permanecesse com seus familiares. Os hipócritas espalharam vários rumores a seu respeito. Diziam que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — o havia deixado para trás porque o considerava indolente e queria livrar-se dele. Ao ouvir essas palavras dos hipócritas, Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — armou-se e foi até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Este encontrava-se então num lugar chamado Juruf, a três milhas de Medina, onde Umar ibn al-Khattab — que Allah esteja satisfeito com ele — e muitos outros habitantes de Medina possuíam terras. Ali disse: “Ó Mensageiro de Allah, os hipócritas pensaram que você me deixou para trás porque me considera indolente e queria livrar-se de mim.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — respondeu: “Eles mentiram. Eu deixei você para cuidar de mim e de sua família. Ó Ali, não ficaria satisfeito se eu o colocasse na posição em que Musa colocou Harun? Pois não haverá profeta depois de mim.” Ao ouvir isso, Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — voltou a Medina, enquanto o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — partiu para a expedição.

Vários dias depois de o exército muçulmano, sob a liderança do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ter partido para a expedição de Tabuk, Abu Khaythama — que Allah esteja satisfeito com ele — voltou para junto de sua família. Viu que suas duas esposas estavam em suas respectivas tendas, dentro do jardim. Ambas haviam borrifado água em suas tendas para mantê-las frescas. Ele chegou, parou à entrada da tenda, olhou para suas duas esposas no interior e viu também os preparativos que elas haviam feito para seu conforto. Então disse, com razão: “O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — está sofrendo sob o sol, o vento e o calor, enquanto Abu Khaythama permanece sentado entre suas terras e seus bens, comendo comida preparada, na companhia de belas mulheres sob uma sombra fresca? Isso jamais será correto. Por Allah, não entrarei na tenda de nenhuma de vocês. Irei até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Preparem-me para a jihad.” Elas reuniram seu equipamento, e depois seu camelo foi trazido. Abu Khaythama partiu e apressou-se em busca do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Depois que ele se estabeleceu no acampamento, Abu Khaythama chegou até ele. No caminho, outro Companheiro, Umayr ibn Wahb al-Jumahi, juntou-se a Abu Khaythama. Ele também estava indo participar da expedição do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Quando os dois se aproximaram de Tabuk, Abu Khaythama disse a Umayr: “Cometi um pecado. Portanto, não haverá prejuízo algum se você ficar um pouco atrás de mim. Deixe-me chegar primeiro até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.”

Quando Abu Khaythama se aproximou do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — em Tabuk, os Companheiros, ao vê-lo, disseram: “Um cavaleiro de camelo está vindo nesta direção.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Talvez seja Abu Khaythama.” Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah, é Abu Khaythama mesmo.” Ao aproximar-se, Abu Khaythama desceu do camelo, cumprimentou o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — com a saudação de paz e foi até ele. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Ó Abu Khaythama, você fez o que era apropriado.” [87. A expressão original é [Árabe ***](awlā laka). Essa expressão é usada em vários lugares do Alcorão Sagrado. Alguns exegetas deram-lhe também o sentido de “você se aproximou da perdição”. Contudo, neste caso, provavelmente se aplica o primeiro sentido: “Você fez o que era apropriado.”] Depois, ele contou ao Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — todo o ocorrido. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — felicitou-o e suplicou por ele.

A caminho de Tabuk, ao atravessar Hijr, a morada de um povo próspero, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, fez ali uma breve parada. Quando alguns Companheiros foram buscar água potável nos poços daquele lugar, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, advertiu-os: “Não bebam desta água nem façam ablução com ela. Se alguém tiver preparado massa com esta água, deem-na para os cavalos comerem; não a comam vocês. À noite, ninguém saia daqui sozinho.” Quase todos os Companheiros obedeceram à ordem do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz. Somente dois homens da tribo de Banu Saida saíram sozinhos durante a noite: um para atender a uma necessidade natural e o outro à procura de seu camelo perdido. Aquele que saiu para atender a uma necessidade natural desmaiou justamente no local onde foi fazê-lo. Quanto ao que saiu à procura do camelo, foi levado por um vento fortíssimo e lançado sobre a montanha de Tai. Quando informaram o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, sobre o ocorrido, ele disse: “Eu não vos havia proibido de sair sozinhos?” Depois, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, suplicou por aquele que desmaiara ao sair para defecar, e ele se recuperou. Já o homem lançado sobre a montanha de Tai foi levado até o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, pelo povo da tribo de Tai, depois que ele retornou a Medina.

Na manhã seguinte, verificou-se que ninguém na caravana possuía sequer uma gota de água. Quando isso foi comunicado ao Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, ele suplicou a Deus. Deus enviou uma nuvem, que fez chover, e assim todas as necessidades foram satisfeitas. Todos ainda recolheram e armazenaram água suficiente para o período seguinte.

No caminho para Tabuk, mais uma vez o camelo do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, se perdeu. Os Companheiros saíram à procura dele. Naquele momento, encontrava-se junto ao Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, um Companheiro chamado Umar ibn Hazm, que havia participado do Juramento de Aqaba e da batalha de Badr. Ele era um respeitado ancião de Banu Amr. Entre os membros de seu grupo havia um hipócrita da tribo de Banu Qaynuqa chamado Zaid ibn Lusait.

Enquanto Umara estava na presença do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, o referido Zaid ibn Lusait sentou-se junto ao grupo de Umara e disse: “Então, Muhammad afirma ser profeta e informa-vos sobre as notícias do céu, mas não sabe sequer onde está o seu camelo?” Naquele mesmo instante, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, disse na presença de Umara: “Um homem está dizendo que Muhammad afirma ser profeta e vos informa sobre as notícias do céu; por que, então, não sabe onde está o seu camelo? Juro por Deus que não sei nada além daquilo que Deus me informou. Deus mostrou-me onde está o camelo. Ele se encontra em tal lugar, dentro deste vale. Seu cabresto ficou preso a uma árvore. Ide buscá-lo.” Os Companheiros foram e trouxeram o camelo. Depois, Umara voltou para junto de seu grupo e disse: “O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, acabou de nos dar uma notícia extraordinária. Alguém em nosso exército teria dito algo assim, e Deus o informou disso.” Então relatou as palavras de Zaid ibn Lusait. Um dos homens do grupo de Umara, que permanecera dentro do grupo e não fora até o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, disse: “Juro por Deus, foi Zaid quem disse isso.” Então Umara aproximou-se de Zaid, golpeou-o no pescoço e disse: “Ó servos de Deus, vinde até mim! Há uma serpente escondida na minha caravana, e eu nem sequer sabia disso. Ó inimigo de Deus, sai da minha caravana! Não permaneças mais comigo.”

É relatado que, depois disso, Zaid se arrependeu. Outros, porém, dizem que ele foi acusado de persistir na hipocrisia até o momento de sua morte.

Durante a viagem, de vez em quando um ou dois homens se separavam do exército muçulmano e voltavam. Quando os muçulmanos informavam ao Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, que alguém assim havia retornado, ele dizia: “Deixai-o ir. Se houver nele amor pela verdade, Deus o trará novamente até vós. Caso contrário, Deus vos livrou de sua companhia. Tanto melhor.” Certa vez, disseram: “Ó Mensageiro de Deus, Abu Dharr também ficou para trás. Seu camelo o deixou para trás.” O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, disse: “Se ficou para trás, que fique. Se houver nele algum bem, Deus o trará de volta para junto de vós. Caso contrário, considerai que Deus vos livrou dele.” Abu Dharr tentou muitas vezes fazer seu camelo andar mais depressa, mas isso não produziu resultado. Por fim, carregou sobre os ombros seus pertences e provisões e começou a caminhar seguindo os passos do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz. Quando o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, parou em certo lugar para descansar, ele o alcançou. Ao vê-lo aproximar-se caminhando sozinho, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, disse: “Que Deus tenha misericórdia de Abu Dharr. Ele caminha sozinho, morrerá sozinho e será ressuscitado sozinho para comparecer diante de Deus.” Abdullah ibn Masud relata que, quando Uthman o exilou para Rabaza durante seu califado, Abu Dharr não tinha ali ninguém além de sua esposa e seu servo. Ele lhes recomendou: “Quando eu morrer, lavem-me, envolvam-me na mortalha e deixem-me à beira da estrada. Depois, à primeira caravana que passar por vós, dizei: ‘Este homem é Abu Dharr, Companheiro do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz. Ajudai-nos a enterrá-lo.’” Depois de sua morte, a esposa e o servo cumpriram a recomendação e deixaram seu corpo à beira da estrada. Naquele momento, Abdullah ibn Masud viajava do Iraque com um grupo de peregrinos que realizavam a umra. Ao ver o corpo estendido na estrada, o grupo parou surpreso. Por pouco ele não foi esmagado sob os pés dos camelos da caravana. O servo parou diante deles e disse: “Ele é Abu Dharr, Companheiro do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz. Ajudai-nos a enterrá-lo.” Abdullah ibn Masud começou a chorar e disse: “O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, realmente disse a verdade: tu caminhas sozinho, morrerás sozinho e serás ressuscitado sozinho.” Então ele e seus companheiros desceram e o enterraram. Depois, Abdullah ibn Masud contou-lhes, durante a viagem para Tabuk, o episódio de Abu Dharr e as palavras que o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, lhe havia dito. Depois, Abdullah ibn Masud contou-lhes, durante a viagem para Tabuk, o episódio de Abu Dharr e as palavras que o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, lhe havia dito. Quando o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, chegou a Tabuk, Yuhanna ibn Ruba, governador de Ayla, compareceu diante dele e firmou um tratado pagando a jizya. Do mesmo modo, os habitantes de Jarba e Adruh vieram e pagaram a jizya. O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe dê paz, escreveu-lhes então o seguinte tratado:

«Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador. Da parte de Allah e de Seu Mensageiro Muhammad, é concedida segurança a Yuhanna ibn Ru’ba, aos habitantes de Ayla e a todos os seus veículos marítimos e terrestres. O Mensageiro de Allah assume plena responsabilidade pela segurança deles e de seus aliados na Síria, no Iêmen e entre os habitantes do mar. Se alguém violar este tratado, sua riqueza e seus bens não poderão livrá-lo da punição. Será lícito que se cobre vingança daquele que causar dano a alguém. Eles poderão utilizar a água de qualquer reservatório e viajar por qualquer rota marítima ou terrestre. Ninguém poderá impedi-los disso.»

O envio de Khalid ibn al-Walid pelo Mensageiro de Allah ao governador de Duma, Uqaydir

Em seguida, o Mensageiro de Allah enviou Khalid ibn al-Walid a Uqaydir ibn Abd al-Malik, governante de Dumat al-Jandal. Uqaydir era cristão da tribo de Kinda e era o rei daquela região. O Mensageiro de Allah disse a Khalid: «Quando fores, verás Uqaydir caçando uma vaca selvagem.»

Numa noite de luar de verão, quando Uqaydir estava sentado no terraço com sua esposa, Khalid chegou ao alcance da visão de sua fortaleza. Naquele momento, uma vaca selvagem começou a golpear com os chifres a porta do palácio de Uqaydir. Sua esposa disse: «Já viste alguma vez uma vaca assim?» Ele respondeu: «Não.» A esposa disse: «Então, seria correto deixar escapar uma caça como essa?» Ele respondeu: «De modo algum.» Dito isso, desceu e montou em seu cavalo. Ele e vários membros de sua família, incluindo seu irmão Hassan, saíram em perseguição da caça. Assim que saíram, foram capturados pela tropa enviada pelo Mensageiro de Allah. Hassan, irmão de Uqaydir, foi morto pelas tropas muçulmanas. Vestia uma túnica de seda bordada com fios de ouro. Khalid (que Allah esteja satisfeito com ele) retirou-a e enviou-a a Medina por alguém, antes de ele próprio chegar à cidade.

Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «Quando a túnica de Uqaydir foi levada ao Mensageiro de Allah, eu a vi. Ao ver os muçulmanos maravilhados, tocando-a com as mãos, o Mensageiro de Allah disse: “Estais admirados ao ver isto? Juro por Allah que o lenço que Sa’d ibn Mu’adh terá no Paraíso é melhor do que este.”»

Ibn Ishaq disse: Khalid levou Uqaydir ao Mensageiro de Allah. Ele lhe concedeu salvo-conduto, celebrou com ele um tratado em troca do pagamento da jizya e o libertou. Uqaydir retornou à sua região.

O Mensageiro de Allah não avançou além de Tabuk; permaneceu ali por dez dias e depois retornou a Medina. No caminho, no vale de Wadi al-Mushaqqaq, havia uma pequena nascente montanhosa. Sua água mal era suficiente para matar a sede de dois ou três viajantes. O Mensageiro de Allah disse: «Aqueles que chegarem primeiro a esse vale devem esperar, sem beber da água, até que nós cheguemos.» Contudo, um grupo de hipócritas chegou primeiro, bebeu toda a água que havia ali e partiu. Quando o Mensageiro de Allah chegou, viu que não restava sequer um pouco de água. Perguntou: «Quem chegou aqui antes de nós?» Informaram-lhe que certas pessoas haviam chegado primeiro. Ele disse: «Eu havia proibido que alguém bebesse água antes de eu chegar.» Em seguida, amaldiçoou aqueles hipócritas e suplicou contra eles. Depois desceu de sua montaria e colocou a mão ao pé da montanha. Imediatamente, pela vontade de Allah, uma grande quantidade de água começou a escorrer. Ele bebeu daquela água, passou a mão sobre aquele lugar da montanha e suplicou a Allah. Logo em seguida, uma fonte de água jorrou com um estrondo intenso, como um relâmpago. As pessoas beberam até se saciar e satisfizeram suas demais necessidades. O Mensageiro de Allah disse: «Se viverdes por muito tempo, ouvireis falar da fama deste vale no futuro, e esta água tornará férteis as áreas ao redor do vale.»

Ibn Ishaq narra: Ibn Uqayma al-Laythi transmitiu, por intermédio do sobrinho de Abu Ruham al-Ghifari, e al-Laythi transmitiu, por intermédio de Ibn Shihab al-Zuhri, que Abu Ruham Kulthum ibn Husayn, um dos Companheiros que participaram da Bay’at al-Ridwan, disse: «Participei da expedição a Tabuk com o Mensageiro de Allah e viajava com ele. Certa noite, quando atravessávamos al-Akhdar, nos arredores de Tabuk, Allah fez o sono cair sobre nós. Como minha montaria estava muito próxima da montaria do Mensageiro de Allah, e eu temia que, se ambas se aproximassem, a minha montaria atingisse os pés do Mensageiro de Allah, eu me esforçava ao máximo para permanecer acordado e manter minha montaria afastada da montaria do Mensageiro de Allah. Nessa situação, em certo momento da noite, o sono tornou-se irresistível para mim. Imediatamente, minha montaria encostou-se à montaria do Mensageiro de Allah. Despertei ao ouvir o seu “ah!”. Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, pede a Allah que me perdoe.” Ele respondeu: “Continua andando.”»

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou a perguntar quem, entre os Banu Ghifar, não havia participado da expedição, e eu fui mencionando, em resposta, os nomes daqueles que não tinham vindo. Ele perguntou: “O que aconteceu com os homens altos, de barba rala, sobrancelhas finas e pele avermelhada?” Eu lhe disse que eles não tinham vindo. Ele perguntou: “E o que fizeram os homens baixos, negros e de constituição robusta?” Respondi: “Não vejo ninguém assim entre nós.” Ele perguntou: “E aqueles que possuem grandes riquezas nas áreas habitadas pelos Ghifar e pelos Aslam do Hijaz?” Tentei lembrar-me deles no contexto dos Banu Ghifar, mas não consegui. Por fim, lembrei-me de que eram um grupo dos Banu Aslam com quem tínhamos uma aliança. Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah! Eles são um grupo dos Banu Aslam com quem tínhamos uma aliança.” Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah! Eles são um grupo dos Banu Aslam que eram nossos aliados.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Eles poderiam, ao menos, ter ajudado um guerreiro capaz a vir lutar no caminho de Allah, fornecendo um de seus camelos. Nada os impedia de fazê-lo. Entre meus companheiros, independentemente do que os outros tenham feito, nada me entristece mais do que a ausência dos emigrantes coraixitas, dos Ansar, dos Banu Ghifar e dos Banu Aslam.”

A chegada da delegação da tribo Banu Thaqif e sua aceitação do Islã no mês de Ramadan do nono ano da Hégira

Ibn Ishaq disse:

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornou de Tabuk a Medina no mês de Ramadan, e nesse mesmo mês veio até ele a delegação da tribo Banu Thaqif. O contexto da chegada dessa delegação foi o seguinte: anteriormente, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornou de Taif, Urwah ibn Mas’ud al-Thaqafi veio atrás dele. Antes de chegar a Medina, encontrou-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aceitou o Islã. Então, quando se preparava para retornar ao seu povo a fim de convocá-lo ao Islã, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-lhe: “Eles irão matá-lo.” Ele conhecia a obstinação e a teimosia da tribo Banu Thaqif. Também sabia que eles estavam acostumados a rejeitar o convite de qualquer pessoa de seu próprio povo. Mas Urwah disse: “Ó Mensageiro de Allah! Sou mais querido para eles do que um recém-nascido.”

Ele era, de fato, tão querido e respeitado por eles. Em seguida, retornou ao seu povo e o convidou a aceitar o Islã. Esperava que, devido ao prestígio e à influência que possuía entre sua tribo, ninguém se opusesse a ele. Quando, do topo da casa de sua tribo, depois de convidar devidamente o povo e anunciar sua própria aceitação do Islã, olhava para eles, flechas foram disparadas contra ele de todas as direções. Uma delas o atingiu, e com isso ele alcançou o martírio.

Segundo os Banu Malik, ele foi morto por Aws ibn Awf, dos Banu Salim ibn Malik; segundo seus aliados, foi morto por Wahb ibn Jabir, dos Banu Attab ibn Malik. (Os Banu Salim e os Banu Attab são famílias pertencentes aos Banu Malik, um ramo dos Banu Thaqif.) Depois que Urwah foi ferido, disseram-lhe: “Qual é a sua opinião sobre o seu assassinato?” Ele respondeu: “Isto é uma grande honra e glória que Allah me concedeu. O próprio Allah me adornou com a glória do martírio. Minha posição não é de modo algum superior à daqueles mujahidin que alcançaram o martírio acompanhando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, antes de ele retornar deste lugar. Portanto, enterrem-me junto deles.”

Conta-se que, ao ouvir a notícia do martírio de Urwah ibn Mas’ud, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, comentou: “Urwah é comparável ao mártir cuja história é narrada na surata Ya-Sin.”

Durante um mês após o assassinato de Urwah, os Banu Thaqif observaram a situação; depois, reuniram-se para uma consulta. Concluíram que, enquanto todo o restante do povo árabe ao redor havia aceitado o Islã, os Banu Thaqif não seriam capazes de permanecer sozinhos, lutando contra todos eles. Diante dessa decisão, resolveram enviar novamente alguém ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, assim como anteriormente haviam enviado Urwah. Para esse propósito, consultaram Abd Yalil ibn Amr, homem da mesma idade de Urwah ibn Mas’ud, e disseram-lhe que, caso retornasse do Mensageiro de Allah como representante dos Banu Thaqif, os Banu Thaqif o tratariam da mesma maneira como haviam tratado Urwah. Ele disse: “Aceitarei se enviarem comigo mais algumas pessoas; caso contrário, não.” Por fim, decidiram enviar com Abd Yalil seis homens: dois das tribos aliadas e três dos Banu Malik. De acordo com essa decisão, enviaram com Abd Yalil al-Hakam ibn Amr e Shurahbil ibn Gaylan, da família Banu Mu’attab; dos Banu Malik, Uthman ibn Abi al-As, da família Banu Yasar; Aws ibn Awf, da família Banu Salim; e Numayr ibn Kharash, da família Banu Harith. Abd Yalil partiu com eles como líder da delegação. Ele os levou consigo para se proteger do risco de ter o mesmo destino de Urwah ibn Mas’ud, para que cada um pudesse, ao retornar a Taif, envolver seu próprio grupo na questão.

Quando a delegação se aproximou de Medina, alguns Companheiros avistaram Mugira ibn Shu‘ba (que Allah esteja satisfeito com ele) enquanto pastoreavam camelos junto a uma nascente. A responsabilidade de pastorear aqueles camelos era distribuída entre os Companheiros por turnos, e naquele momento era a vez de Mugira. Depois de encontrá-los, Mugira deixou os camelos com os representantes de Banu Saqif e correu para dar ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a boa notícia de sua chegada. Antes de se encontrar com o Mensageiro de Allah, Mugira (que Allah esteja satisfeito com ele) encontrou Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele). Informou-lhe que os representantes de Banu Saqif tinham vindo para aceitar o Islã. Contudo, eles queriam que o Mensageiro de Allah lhes concedesse certas facilidades e redigisse um pacto garantindo a segurança de seus bens, terras e habitantes. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse a Mugira (que Allah esteja satisfeito com ele): “Peço-te, por Allah, que me deixes ir primeiro ao Mensageiro de Allah, sem ires até ele, e que me permitas conversar com ele sobre este assunto.” Mugira concordou. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até o Mensageiro de Allah e informou-o sobre aquela delegação. Depois, Mugira (que Allah esteja satisfeito com ele) voltou para junto de seus companheiros de tribo. [Observe-se que Mugira (que Allah esteja satisfeito com ele) era descendente de Banu Saqif.] Ele passou o restante do meio-dia descansando com eles e ensinou-lhes a maneira islâmica de cumprimentar o Mensageiro de Allah. Contudo, no momento do encontro, eles o cumprimentaram segundo o costume da Jahiliyya.

Quando a delegação se apresentou diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi preparado para sua hospedagem um aposento em um dos lados da Mesquita do Profeta. Até que fosse redigido um pacto para Banu Saqif, as conversas entre o Mensageiro de Allah e a delegação eram conduzidas por Khalid ibn Sa‘id ibn al-‘As, e foi esse mesmo Khalid quem redigiu o pacto. Durante esse período, até a redação do pacto e a aceitação do Islã pela delegação, seus membros não consumiam os alimentos enviados pelo Mensageiro de Allah sem que Khalid comesse primeiro. Entre as concessões que pediram ao Mensageiro de Allah estava a de que lhes fosse permitido continuar adorando Lat e que ela não fosse destruída durante três anos. O Mensageiro de Allah recusou essa exigência. Depois, reduziram o prazo para um ano. Quando isso também foi recusado, foram reduzindo-o até chegar a um mês. O Mensageiro de Allah recusou igualmente. A explicação dada pela delegação para essa exigência era que desejavam proteger-se da ira dos membros mais jovens de sua tribo, dos descendentes jovens e das mulheres, e que não lhes agradava provocar pânico entre eles destruindo os ídolos antes de que o povo da tribo fosse iniciado no Islã. Mas o Mensageiro de Allah não aceitou de modo algum essa exigência. Pelo contrário, afirmou enfaticamente que enviaria imediatamente Abu Sufyan ibn Harb e Mugira ibn Shu‘ba (que Allah esteja satisfeito com ele) para destruir aquele ídolo. Eles também pediram que não fossem obrigados a rezar nem a destruir os ídolos com as próprias mãos. O Mensageiro de Allah declarou claramente que não poderia haver Islã sem a oração, mas que eles não seriam obrigados a destruir os ídolos com as próprias mãos. A delegação aceitou a oração, embora comentasse que ela era “humilhante”, e consentiu em cumpri-la.

Depois, todos aceitaram o Islã, e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, redigiu para eles um pacto. Em seguida, nomeou Uthman ibn ‘As como seu comandante. Ele era o membro mais jovem do grupo e demonstrava relativamente maior interesse em aprender o Alcorão e o Islã. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) comentou a respeito dele: “Ó Mensageiro de Allah, parece-me que Uthman é o que melhor compreende o Islã e aprende o Alcorão.”

Quando, após concluir sua missão, a delegação partiu em direção a Ta’if, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, encarregou Abu Sufyan ibn Harb e Mugira ibn Shu‘ba (que Allah esteja satisfeito com ele) de destruir o ídolo e enviou-os junto com a delegação. Ambos partiram com os representantes. Ao chegarem aos arredores de Ta’if, Mugira (que Allah esteja satisfeito com ele) quis enviar Abu Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ele) à frente. Abu Sufyan recusou e disse: “Vai primeiro encontrar-te com o teu povo.” Abu Sufyan ficou junto ao reservatório chamado Dhu al-Hudum, enquanto Mugira, assim que entrou na cidade, investiu contra os ídolos com uma picareta para destruir Lat e os demais ídolos. O clã de Mugira, Banu Mu‘attab, também o ajudou, temendo que seu destino fosse semelhante ao de Urwa ibn Mas‘ud. Enquanto isso, as mulheres de Banu Saqif saíram às ruas lamentando o ídolo. Elas diziam:

“Chorai pelo protetor; os ingratos o abandonaram. [88. Os politeístas chamavam Lat de ‘Daffa’, isto é, protetora, pois acreditavam que Lat os protegia dos inimigos e das calamidades.] [89. Isto é, os membros de Banu Saqif mostraram-se ingratos para com sua protetora e partiram, entregando-a às mãos de Mugira para que fosse destruída.]

Eles nem sequer lutaram devidamente para defendê-la.” [90. Isto é, deveriam ter vindo lutar para proteger a protetora, mas ninguém se apresentou para fazê-lo.]

Então, quando Mugira começou a golpear Lat com o machado, Abu Sufyan começou a exclamar: “Ai! Ai!”

Depois de destruir Lat, Mugira recolheu todos os tesouros do templo e enviou-os a Abu Sufyan. Entre esses tesouros havia grande quantidade de ouro e artigos de seda.

Após Urwah ibn Mas’ud ser martirizado, seu filho Abu Mulayh e seu sobrinho Qareb ibn al-Aswad encontraram-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e manifestaram a intenção de romper todas as relações com os Banu Thaqif e abandoná-los para sempre. Isso ocorreu antes mesmo da chegada da delegação de Yalil. Quando Abu Mulayh e Qareb aceitaram o Islã, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-lhes: “Escolham como tutor quem quiserem.” Eles responderam: “Aceitamos Allah e Seu Mensageiro como nossos tutores.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: “E também vosso tio materno Abu Sufyan?” Eles responderam: “Sim.” Mais tarde, quando o povo de Taif aceitou o Islã, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou al-Mughirah e Abu Sufyan para destruir [o templo de] Lat. Então Abu Mulayh disse: “Ó Mensageiro de Allah, quite a dívida de meu pai com os tesouros que forem recuperados do templo de Lat.” Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concordou, Qareb disse: “Ó Mensageiro de Allah, quite também a dívida de meu pai, al-Aswad.” É digno de nota que Urwah e al-Aswad eram irmãos legítimos. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Al-Aswad morreu em estado de politeísmo.” Qareb respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, ajude um parente muçulmano, isto é, a mim, pois a dívida pesa sobre meus ombros e sou eu quem pede ajuda.” Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concordou e disse a Abu Sufyan: “Pague as dívidas de Urwah e al-Aswad com os tesouros de Lat.” Quando al-Mughirah entregou os tesouros a Abu Sufyan, lembrou-lhe a ordem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Abu Sufyan pagou as dívidas de Urwah e al-Aswad.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, redigiu o seguinte tratado para os Banu Thaqif: “Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador. Da parte de Muhammad, Mensageiro de Allah, para os crentes. É proibido cortar as árvores espinhosas de Wajj (um lugar de Taif). Quem violar esta ordem será açoitado. Quem transgredir os limites será capturado e enviado ao Profeta Muhammad. Esta é uma ordem do Mensageiro de Allah, Muhammad. Este documento foi escrito por Khalid ibn Sa’id, por ordem do Mensageiro de Allah, Muhammad ibn Abdullah. Ninguém deve violar este documento. Quem o violar estará, na realidade, atraindo castigo sobre si mesmo, pois ele foi escrito por ordem do Mensageiro de Allah, Muhammad.”

O nono ano da Hégira foi denominado “o ano da chegada das delegações”. A surata An-Nasr foi revelada nesse mesmo ano.

Ibn Ishaq disse: Após a conquista de Meca e de Tabuk, a aceitação do Islã pelos Banu Thaqif e seu juramento de lealdade, as delegações dos árabes começaram a chegar ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, vindas de todas as direções.

Os árabes, por assim dizer, aguardavam apenas que os coraixitas aceitassem o Islã. Eles eram os líderes e guias dos árabes. Eram os guardiões e administradores da Caaba Sagrada e da Mesquita Sagrada, além de serem os incontestáveis descendentes de Ismael, filho de Abraão. Nenhum árabe negava isso. No entanto, foram precisamente os coraixitas que se empenharam firmemente em se opor ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Com a conquista de Meca, os coraixitas submeteram-se ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aceitaram a autoridade do Islã. Então os árabes compreenderam que não tinham força capaz de impedir o avanço vitorioso do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nem de manter inimizade contra ele. Começaram, por isso, a aceitar o Islã em grupos. Pessoas vinham até ele de todas as direções e aceitavam o Islã. Foi justamente isso que Allah, o Altíssimo, declarou na surata An-Nasr:

[Árabe *******]

“Quando chegar o auxílio de Allah e a vitória, e vires as pessoas entrando em grupos na religião de Allah, glorifica, com louvor, a santidade de teu Senhor e pede-Lhe perdão. Certamente, Ele é o Perdoador.”

A chegada da delegação dos Banu Tamim e a revelação da surata Al-Hujurat

Quando começaram a chegar delegações das tribos árabes, a primeira foi a delegação da tribo de Banū Tamīm, liderada por Utarid ibn Hājib al-Tamīmī. Nela também estavam os principais líderes de Banū Tamīm. Entre os mais destacados encontravam-se al-Aqra‘ ibn Hābis, Zabāriqān ibn Badr, de Banū Ma‘d, ‘Amr ibn al-Ahtam e Habhab ibn Yazīd. Também faziam parte dela Nu‘aym ibn Yazīd, Qays ibn al-Hārith, Qays ibn ‘Āsim e ‘Uyaynah ibn Hisn. Anteriormente, al-Aqra‘ ibn Hābis e ‘Uyaynah ibn Hisn haviam participado da conquista de Meca e das expedições de Hunayn e Tā’if. Ambos se juntaram também à delegação de Banū Tamīm. Essa delegação de Banū Tamīm chegou perto da Mesquita do Profeta e, do lado de fora das casas, começou a chamar em voz alta o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dizendo: “Ó Muhammad! Saia e venha encontrar-se conosco.” Seus gritos e clamores causaram incômodo ao Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Eles disseram: “Viemos apresentar diante de vós nossas gloriosas qualidades. Portanto, permiti que nosso principal orador e nosso poeta falem.” Ele lhes deu permissão. Então Utarid ibn Hājib começou a dizer: “Todo louvor pertence a Allah, que derramou sobre nós incontáveis favores; somente Ele tem poder para isso. Ele nos fez reis e nos enriqueceu com abundantes riquezas e prosperidade, por meio das quais demonstramos nossa generosidade. Ele nos concedeu mais homens e riquezas do que a todos os povos do Oriente. Há alguém que se compare a nós? Não somos nós os seus líderes e os mais nobres? Que aquele que reivindica igualdade conosco em nobreza e linhagem descreva a própria excelência. Poderíamos dizer muito mais, mas temos vergonha de nos alongar em vanglórias sobre as dádivas concedidas por Allah. Nossa superioridade é conhecida. Só dissemos isso para vos dar a oportunidade de apresentar um discurso sobre vossa própria identidade, como fizemos, e talvez um discurso ainda melhor.”

Depois de dizer isso, Utarid sentou-se. Então o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse a Thābit ibn Qays (que Allah esteja satisfeito com ele): “Levanta-te e responde ao seu discurso.”

Thābit levantou-se e disse:

“Todo louvor pertence ao Grandioso Allah, cuja vontade se cumpre nos céus e na terra, e cujo conhecimento se estende por todo o domínio de Sua autoridade. Nada surge ou aparece sem a Sua graça. O aparecimento de reis entre nós é fruto da Sua graça. Por Sua graça, Ele escolheu como Mensageiro, dentre as melhores de Suas criaturas, o homem da mais nobre linhagem, de maior distinção e dotado de incomparável veracidade. Depois, revelou-lhe o Seu Livro, nomeou-o responsável por toda a humanidade e fez dele o único escolhido por Allah entre todos os mundos. Em seguida, convocou as pessoas a crerem nele. Assim, os Muhājirūn, entre seus próprios parentes e membros de sua tribo, aceitaram o seu chamado — homens mais nobres, distintos, honrados e virtuosos que todos os demais. Fomos nós os primeiros a aceitar o chamado do Mensageiro. Portanto, somos os sinceros auxiliares de Allah e os mais próximos colaboradores de Seu Mensageiro. Combatemos aqueles que não creem; a vida e os bens daqueles que creem no Mensageiro de Allah estão a salvo de nossas mãos, e lutamos contra os que cometem incredulidade somente com base na vontade e na ordem de Allah. Esse combate não tem fim. É lícito para nós matá-los. Depois de dizer isso, peço a Allah perdão por mim e por todos os muçulmanos e muçulmanas. As-salāmu ‘alaykum.”

Em seguida, Zabāriqān ibn Badr levantou-se. Ele apresentou seu discurso recitando um poema. O sentido do poema era o seguinte:

“Somos nós os honrados. Nenhuma tribo se compara a nós. Os reis estão entre nós, e todos os templos são estabelecidos por nossa iniciativa. Não há fim para o número de tribos que saqueamos à força. Apesar disso, nossa honra e nosso prestígio continuam a crescer sem cessar. Mesmo em tempos de fome, nosso povo alimenta as pessoas com carne assada. Quando as nuvens não fazem chover conforme o desejo das pessoas, os viajantes, durante a noite, vêm correndo de todos os lugares até nós, e nós providenciamos comida para eles. Então abatemos grandes camelos e alimentamos os hóspedes até que se saciem. Essa é a nossa tradição inata. Sempre que vires que fomos a uma tribo e manifestamos o orgulho de nossa nobreza, verás que ela se torna nossa seguidora e que sua cabeça se inclina. Portanto, hoje, aquele que apresentar sua superioridade diante de nós nos fará adquirir novos conhecimentos por meio de sua descrição, e, quando nossa delegação retornar, essa informação será divulgada. Não estamos dispostos a reconhecer a superioridade de ninguém. Contudo, ninguém negará a nossa superioridade. Assim, permanecemos invencíveis em glória e orgulho.”

Hassān não estava presente nessa reunião. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — mandou chamá-lo para responder ao poeta de Banū Tamīm. Ele veio, recitou um poema e respondeu. O sentido desse poema era o seguinte:

“Quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — surgiu entre nós, nós o protegemos, embora houvesse entre nós tanto pessoas que o amavam quanto pessoas que o rejeitavam. Como ele surgiu em nossa terra, protegemo-lo, de espada em punho, contra todos os opressores e agressores. Ele surgiu numa casa honrada, situada entre pessoas desconhecidas próximas de Jāriyat al-Jawlān, na Síria. Não há nada que se compare à glória da antiga nobreza, da distinção, da honra real e da capacidade de suportar severas adversidades.”

Hassan disse: Assim que cheguei diante do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, recitei um poema de resposta, imitando exatamente a métrica do poema que o poeta da delegação havia recitado. Quando Zabarkan terminou de recitar seu poema, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse a Hassan: “Ó Hassan! Responde ao poema de Zabarkan.” Hassan levantou-se e recitou um poema de resposta. O sentido do poema é o seguinte:

“Os líderes dos coraixitas apresentaram à humanidade um modelo digno de ser seguido. Todos aqueles cujo temor a Deus governa suas ações secretas e que seguem a justiça e a honestidade se alegram com eles. Eles são os líderes coraixitas: um povo que, quando entra em combate, derrota o inimigo ou, pelo menos, se esforça para promover e promove o bem de seu próprio povo, dos crentes. Isso não é uma nova característica de seu caráter; na verdade, tudo o que há de novo no caráter é mau. Se, depois deles, surgir entre o povo algum vencedor, cada vencedor desse tipo será ainda mais insignificante que o menor de seus vencedores. Se eles demonstrarem fraqueza em algum lugar, as pessoas comuns não serão capazes de mostrar mérito ali. E onde todas as pessoas demonstram mérito, eles não demonstram fraqueza. Se competem com pessoas comuns ou disputam com nobres e dignitários, são eles que ficam à frente. Fala-se de uma pureza como a deles. Não se envolvem em nenhuma impureza, e nenhuma cobiça ou desejo os faz cair na baixeza. Não são mesquinhos ao mostrar cortesia ao vizinho, nem se deixam fascinar por coisas insignificantes. Quando nutrimos inimizade contra algum povo, não a escondemos, e não nos entregamos secretamente à ferocidade como o touro selvagem. Quando a guerra ergue contra nós o punho agressivo e os inocentes são feridos por seus golpes, nós a dominamos e a subjugamos. Eles, os líderes coraixitas, não se orgulham quando derrotam o inimigo, nem ficam desesperados ou amedrontados quando são derrotados. Quando lutam diante da morte, seu estado é como o do leão da selva de Hilya, cujas patas não podem ser acorrentadas. Aceita aquilo que eles dão voluntariamente e não tentes tomar aquilo que, por ira, não querem dar. O resultado de guerrear contra eles é terrível e amargo. Portanto, abandona sua inimizade. Quando os demais se dispersam em grupos e seus temperamentos assumem formas diversas, os seguidores do Mensageiro de Allah ainda o veneram profundamente. Meu coração, unido a eles, dedicou-lhes meu louvor; a língua de qualquer pessoa se enche de elogios a eles. Pois, digam as pessoas o que disserem, com seriedade ou em tom de brincadeira, eles — os seguidores de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — são a melhor das comunidades humanas.”

Depois que terminou essa rodada de recitação de poemas e poemas de resposta, a delegação visitante aceitou o Islã. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, presenteou-os generosamente. Quando a delegação veio à presença do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, deixou na caravana de camelos um jovem chamado Amr ibn Awhtam. Qays ibn Asim estava um tanto irritado com ele. Disse: “Ó Mensageiro de Allah, deixamos um de nossos homens sentado na caravana de montaria. Além disso, ele é um jovem.” Pretendia minimizar a importância dele e dar a entender que não era necessário presenteá-lo. Porém, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, presenteou-o também, como aos demais. Ao saber disso, Amr ibn Awhtam repreendeu Qays e recitou um poema para censurá-lo—

“Tu me censuraste diante do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, mas mentiste e não pudeste me prejudicar.”

“Nós dominamos completamente vocês, embora o domínio de vocês esteja a caminho de desaparecer.”

Ibn Ishaq disse: Foi a respeito dessa delegação que este versículo da surata Al-Hujurat foi revelado—

[Árabe *******]

“Ó Mensageiro! A maioria daqueles que te chamam aos gritos de fora dos aposentos, detrás das cortinas, são insensatos.” (Al-Hujurat)

O relato da delegação de Banu Amir, Amr ibn Tufayl e Irbad ibn Qays

Uma delegação de três membros de Banu Amir veio ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Eram Amr ibn Tufayl, Irbad ibn Qays e Jabbar ibn Salami. Eles eram os chefes mais intrigantes da tribo. Amr ibn Tufayl viera tramando uma conspiração terrível contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Anteriormente, os membros de sua tribo o haviam aconselhado a tornar-se muçulmano, alegando que a maioria da população do país estava aceitando o Islã. Mas ele dissera: “Jurei que não pararei até que toda a nação árabe aceite minha liderança. E hoje eu aceitaria a liderança deste jovem da tribo de Quraysh?” Amr disse a Irbad: “Quando nós dois formos encontrar Muhammad, sentaremos em lados opostos. No exato momento em que Muhammad virar o rosto para falar comigo, golpeia-o com tua espada.”

Depois, os dois membros da delegação encontraram-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Amr começou a dizer: “Ó Muhammad, dá-me a oportunidade de falar contigo em particular.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Não te darei essa oportunidade enquanto não creres no Deus Único.” Amr repetiu várias vezes a mesma coisa, para dar a Irbad uma oportunidade. Mas, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não aceitou de modo algum falar com ele em particular, Amr partiu com a delegação. Ao sair, ameaçou: “Verás: vou atacar-te à frente de um enorme exército.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó Allah, protege-me de Amr ibn Tufayl.”

Depois de sair da presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Amr disse a Irbad: “Ai de ti, Irbad! Que fizeste com a ordem que te dei? Por Allah, eu te considerava o homem mais valente da Terra e era de ti que eu mais tinha medo. A partir de hoje, não terei mais medo de ti.” Irbad respondeu: “Que a tua desgraça recaia sobre ti! Não te precipites. Assim que me dispus a fazer o que me ordenaste, vi que não havia ninguém diante de mim senão tu. Se eu desferisse o golpe naquela situação, ele atingiria teu pescoço. Por acaso eu deveria acabar golpeando justamente a ti?”

Depois, cada um deles partiu para sua própria casa. No caminho, Allah fez com que Amr ibn Tufayl contraísse peste no pescoço. Ele foi à casa de uma mulher de Banu Salul e morreu daquela peste. Ao morrer, lamentava-se, dizendo: “Ó Banu Amir! Será que, no fim, o bócio dos camelos tinha de me atingir, e ainda por cima na casa de uma mulher de Banu Salul?” [91. Banu Salul era conhecida entre os árabes como uma tribo extremamente covarde e vil. O poeta Samaw’al disse: “Somos um grupo que não considera o assassinato tão vergonhoso quanto Banu Amir e Banu Salul.”] Depois de sepultarem Amr, seus companheiros chegaram à aldeia de Banu Amir levando duas cabras. Os membros da tribo dos delegados perguntaram a Irbad: “Ó Irbad, como vocês chegaram?” Ele respondeu: “Nada aconteceu. Ele — Muhammad — convidou-nos a adorar uma entidade que, se eu a alcançasse, mataria lançando-lhe uma flecha.” Um ou dois dias depois de dizer isso, Irbad ia a algum lugar com seu camelo. De repente, Allah lançou sobre ele um raio do céu e reduziu a cinzas Irbad juntamente com seu camelo. Irbad era irmão do poeta Labid. Este compôs o seguinte lamento pela morte de Irbad:

“A morte não poupa ninguém, nem mesmo o pai compassivo.

Eu temia por Irbad somente a morte — não temia calamidade vinda do céu

nem o ataque de um leão.”

Então, ó olho, por que não derramas lágrimas por Arbad?

Quando todos nós, homens e mulheres, passávamos os dias em meio a intenso sofrimento e dificuldades

mesmo que todos gritassem, Arbad não se importaria.

E, se eles seguissem mantendo o equilíbrio, então

nesse caso, Arbad também adotaria o caminho do meio.

Ele é um homem eloquente, inteligente e de coração humilde.

Ao mesmo tempo, também havia amargura dentro dele.

Quando as árvores ficam despojadas no inverno e, depois, voltam a dar frutos e

revigora-se e surgem as coisas promissoras que restavam,

(isto é, quando surge a fome no país e depois se criam condições para que nele se produza novamente uma colheita

favorável.) Então ele (Arbad)

demonstrava mais bravura e perspicácia habitual do que o leão feroz da floresta).

As carpideiras, feridas pela dor causada por sua morte, pranteiam, como jovens gazelas

no deserto árido (chorando inutilmente). No dia da calamidade

a morte daquele valente cavaleiro, atingido por um golpe trovejante, deixou-me profundamente angustiado.

Ele saqueava, mas, se a pessoa espoliada viesse até ele, então ele

dava uma compensação e, se quisesse, devolvia os bens saqueados.

apesar de sua grande escassez, continua a produzir vegetação.

os habitantes da região pedregosa são simplesmente desafortunados

por maior que seja a sua população.

Ainda que às vezes alcancem certa prosperidade, logo em seguida sobre eles

desce a pobreza. Embora sejam numerosos, estão destinados apenas a cair sob a destruição e

a ruína.

A chegada da delegação de Banū ʿAbd al-Qays, liderada por Jarūd

Uma delegação da tribo de Banu Abd al-Qays veio ao encontro do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sob a liderança de Jarud ibn Amr, que era cristão. Hasan narra: Jarud apresentou-se diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e iniciou uma conversa. Ele lhe apresentou o Islã, convidou-o a aceitá-lo e aconselhou-o. Jarud disse: “Ó Mensageiro de Allah, tenho uma religião. Agora estou disposto a abandonar a minha religião para aceitar a sua. Contudo, podes garantir-me que não sofrerei nenhum prejuízo por abandonar a minha religião?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Sim, garanto-te. Aceitar o Islã significa que Allah te deu a oportunidade de adotar uma religião melhor do que a tua.”

Ao ouvir isso, Jarud e seus companheiros aceitaram o Islã. Depois, pediram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, montarias para retornarem à sua terra. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, declarou-se incapaz de lhes fornecer montarias. Então Jarud disse: “Ó Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, no caminho de volta à nossa terra encontramos muitos camelos perdidos e extraviados. Podemos montá-los para seguir viagem?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não, cuidado! Não os montem. Eles serão montarias para o Inferno.”

Depois disso, Jarud saiu da presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e partiu de volta à sua terra. Permaneceu firme no Islã até a morte e foi um excelente muçulmano. Ainda estava vivo quando, após a morte do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, algumas pessoas abandonaram o Islã.

Quando alguns membros de sua tribo, que eram muçulmanos, retornaram à religião anterior, Jarud explicou-lhes que o Islã era a única religião verdadeira e convidou-os a retornar ao Islã. Ele disse: “Ó povo, testemunho que não há divindade além de Allah e que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é Seu servo e Mensageiro. Declaro também que quem não prestar este testemunho é um incrédulo.”

A chegada da delegação de Banu Hanifa com Musaylima, o Mentiroso

A delegação de Banu Hanifa, acompanhada de Musaylima, o Mentiroso, veio ao encontro do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Eles se hospedaram na casa de Bint al-Harith, uma mulher dos Ansar, que mais tarde se tornou esposa de um homem de Banu Najjar. Um historiador de Medina relatou que a delegação de Banu Hanifa levou Musaylima, coberto por um tecido, até onde o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava sentado com seus companheiros. Ele segurava na mão um ramo de tamareira despojado de folhas, com algumas folhas na extremidade. Musaylima, coberto pelo tecido, chegou diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, falou com ele e pediu-lhe alguma dádiva. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Mesmo que me peças este ramo de tamareira, não o darei a ti.”

Ibn Ishaq disse: Um ancião de Banu Hanifa, habitante de Yamama, contou-me o episódio de Musaylima de uma maneira diferente. Ele disse:

Quando a delegação de Banu Hanifa veio encontrar-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deixou Musaylima junto à caravana de camelos. Depois que a delegação aceitou o Islã, informou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que Musaylima também estava com eles. Eles disseram: “Ó Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deixamos um de nossos companheiros para cuidar da caravana de camelos.” Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu-lhe presentes, assim como dera aos demais membros da delegação. Disse também: “Esse vosso companheiro não é inferior a vós em dignidade, para que o tenhais deixado aqui, sem trazê-lo, a fim de guardar os vossos pertences.” Depois, a delegação partiu da presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e entregou a Musaylima o que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, lhe havia dado. Assim que chegaram a Yamama, Musaylima abandonou o Islã e passou a reivindicar falsamente a profecia. Ele disse: “Quando mencionastes o meu caso a Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele não disse: ‘Ele não é inferior a vós em dignidade’? Ele disse isso justamente porque sabia que eu era um profeta associado a ele.” Depois, começou a apresentar-lhes vários discursos rimados, tentando provar que eram semelhantes ao Alcorão. Uma de suas declarações rimadas desse tipo é:

[Árabe *******]

“Allah teve misericórdia das mulheres grávidas, pois delas fez sair de seus ventres seres humanos capazes de se mover — em meio às entranhas e aos líquidos.”

Musailima tornou lícitos o vinho e o adultério para seu povo e os isentou da oração. Apesar disso, continuava a reconhecer a profecia do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. A tribo de Banu Hanifa aceitou essa sua alegação inventada.

Allah sabe melhor qual das duas versões acima é a correta.

O relato de Adi, filho de Hatim Ta’i

Adi ibn Hatim dizia: “Ao ouvir falar do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ninguém entre os árabes sentia por ele tanto ódio quanto eu. Eu próprio era um cristão de família nobre. Como chefe tribal, era considerado um rei. Ao ouvir falar do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nasceu em meu coração uma intensa aversão por ele. Eu tinha um escravo árabe que cuidava dos meus camelos. Disse-lhe: ‘Deixe preparados para mim alguns camelos bem domesticados e robustos e amarre-os perto de mim. Depois, quando ouvir que o exército de Maomé está vindo para esta região, avise-me.’ Ele trouxe os camelos e amarrou-os perto de mim.”

Certa manhã, ele veio até mim e disse: “Ó Adi, faça agora o que pretendia fazer caso o exército de Maomé atacasse você.” Ao ver algumas bandeiras tremulando, perguntei às pessoas: “De quem são essas bandeiras?” Elas responderam: “São as bandeiras do exército de Maomé.” Ao ouvir isso, disse ao escravo: “Então traga meus camelos para perto.” Montei um dos camelos e coloquei minha esposa e meus filhos nos outros. Depois, conduzi a caravana de camelos para ir até os cristãos da Síria. A caravana partiu pela passagem montanhosa de Jushiya. Deixei para trás, na tribo, uma filha de Hatim. Fui para a Síria e permaneci lá. Enquanto isso, um grupo de cavaleiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, veio à minha procura e capturou a filha de Hatim. Levaram-na ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, como prisioneira de guerra. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, já havia tomado conhecimento da minha fuga para a Síria. Ele permitiu que a filha de Hatim permanecesse em um dos lados da Mesquita do Profeta. Ali também estavam detidas outras mulheres prisioneiras de guerra. A filha de Hatim era eloquente. Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passava por elas, ela disse: “Ó Mensageiro de Allah, meu pai morreu e meu responsável desapareceu. Portanto, tenha misericórdia de mim; Allah terá misericórdia de você.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: “Quem é o seu responsável?” Ela respondeu: “Adi ibn Hatim.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Aquele Adi que fugiu de Allah e de Seu Mensageiro?” Depois de dizer isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi embora. A filha de Hatim contou: “No dia seguinte, ele voltou a passar por mim. Eu repeti o que havia dito no dia anterior, e ele repetiu também a resposta do dia anterior. No dia seguinte, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, voltou a passar por mim. Eu já estava desesperada. Um homem que seguia o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-me: ‘Levante-se e fale com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.’ Levantei-me e disse novamente: ‘Ó Mensageiro de Allah, sou órfã de pai e meu protetor também desapareceu. Portanto, tenha compaixão de mim; Allah terá compaixão de você.’ O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Aceito o seu pedido. Não tenha pressa de sair daqui. Quando encontrar alguém confiável de sua tribo que possa levá-la ao seu país, informe-me.’ Ao investigar, descobri que o homem que me havia dito para falar com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era Ali, filho de Abu Talib, que Allah esteja satisfeito com ele. Permaneci ali. Por fim, chegou um grupo de cavaleiros de camelo das tribos de Bali ou Quda’a. Eu pretendia ir para a Síria, até meu irmão. Por isso, considerando aquela caravana uma companhia adequada, fui ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, chegou um grupo de pessoas da minha tribo. Confio neles, e eles são adequados para me levarem ao meu destino.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu-me uma montaria, provisões e roupas. Parti com o grupo e cheguei à Síria.

Adi disse: “Eu estava sentado com minha família quando, de repente, vi uma mulher montada em um camelo aproximando-se de nós. Pensei comigo mesmo que talvez fosse a filha de Hatim. E vi que realmente era ela. Ela veio até mim e começou a repreender-me, dizendo tudo o que queria: ‘Ó injusto que rompe os laços de parentesco! Você deixou desprotegida a última integrante da família de seu pai e fugiu levando consigo seus filhos e sua esposa?’ Eu disse: ‘Ó irmã, não me repreenda. Na verdade, não tenho desculpa alguma. O que você está dizendo é realmente o que fiz.’”

Ela desceu do camelo e permaneceu comigo. Era uma mulher de inteligência perspicaz. Perguntei: “Qual é a sua opinião sobre Muhammad?” Ela respondeu: “Penso que você deve aderir imediatamente ao seu movimento. Se ele for um profeta, aquele que for até ele primeiro receberá dele maior benevolência. E, se for um rei, sua glória não diminuirá em nada diante dos nobres do Iêmen. Você continuará exatamente como é.” Eu disse: “O que você está dizendo está correto.” Então parti em direção a Medina para encontrar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao chegar, entrei na mesquita, e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levantou-se e partiu comigo em direção à sua casa. No caminho, encontramos uma senhora idosa. Ela pediu ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que parasse por um momento. Ele permaneceu de pé por muito tempo, ouvindo suas diversas queixas e necessidades. Ao ver aquilo, pensei comigo mesmo: “Juro por Allah, este homem não pode ser um rei.”

Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, entrou em sua casa comigo. Ele me ofereceu uma almofada feita de fibras de tamareira para que eu me sentasse. Eu disse: “Sente-se você.” Ele respondeu: “Não, sente-se você.” Sentei-me nela, enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentou-se no chão.

Pensei comigo mesmo: “Certamente, isso não pode ser o caráter de um rei.” Então ele disse: “Ó Adi ibn Hatim, você não é um rakusi?” [92. Rakusi era o nome de um grupo religioso daquela época. Essa comunidade professava uma doutrina intermediária entre o cristianismo e o sabeísmo.] Eu respondi: “Sim.” Ele perguntou: “Você não costumava ficar com um quarto dos espólios de guerra de sua tribo?” Eu disse: “Sim.” Ele disse: “Isso, porém, é ilícito na sua religião.” Respondi: “É verdade.” Naquele momento, tive certeza de que ele era realmente o Profeta de Allah, que faz as pessoas se lembrarem do que esqueceram e lhes ensina aquilo que desconhecem. Então ele disse: “Ó Adi, talvez você não esteja entrando no Islã ao ver a pobreza dos muçulmanos. Juro por Allah, não está distante o dia em que os muçulmanos possuirão tamanha riqueza e prosperidade que não se encontrará ninguém para aceitar dinheiro. Talvez você também não esteja aceitando o Islã porque os muçulmanos são poucos e seus inimigos são numerosos. Juro por Allah, está próximo o dia em que você ouvirá que uma mulher virá de Qadisiyyah, sozinha, montada em seu camelo, para visitar a Casa Sagrada, sem medo e em segurança. Talvez você também não esteja aceitando o Islã porque vê reis apenas entre os não muçulmanos. Mas, juro por Allah, está muito próximo o dia em que os palácios brancos da Babilônia cairão nas mãos dos muçulmanos.”

Adi dizia: “Vi duas das profecias do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se realizarem. Resta apenas uma, e juro por Allah que ela também se realizará. Vi os palácios brancos da Babilônia serem conquistados. Também vi uma mulher realizar o hajj, sozinha e em segurança, partindo de Qadisiyyah. E o dia em que haverá tamanha abundância de riquezas que não se encontrará ninguém para aceitar dinheiro também se tornará realidade.”

A chegada de Farwah ibn Musayk al-Muradi

Ibn Ishaq disse: Farwah ibn Musayk al-Muradi foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, após renunciar à autoridade dos reis de Kinda. Antes do surgimento do Islã, numa guerra travada entre Murad e Hamdan, Hamdan infligiu enormes perdas a Murad e realizou um grande massacre. Na história, esse dia ficou conhecido como Yawm ar-Radam, isto é, “o Dia da Construção de Sepulturas em Massa”. Naquele dia, Azhda ibn Malik liderou o ataque de Murad contra o exército de Hamdan.

Ao abandonar os reis de Kinda e dirigir-se ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Farwah recitou o seguinte poema:

“Quando vi os reis de Kinda, como traidores, do reino

quando desonrou a honra e a castidade das mulheres,

montando em sua própria montaria, na esperança de obter maior benevolência e melhor abrigo,

parti em direção a Muhammad.”

Quando Farwa foi levado à presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele disse: “Ó Farwa! Foi por causa das perdas sofridas por teu povo no Dia de ar-Radm que ficaste tão entristecido?” Ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah! Quem não ficaria entristecido depois de sofrer uma perda como aquela?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Escuta: se aceitares o Islam, apesar dessa perda sofrida por teu povo, alcançarás benefícios cada vez maiores.”

Depois, ele nomeou Farwa governador das tribos de Murad, Zubayd e Madhhij, e enviou com ele Khalid ibn Sa’id como coletor do zakat. Khalid permaneceu trabalhando ali até a morte do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

A chegada de uma delegação de Dhu Zubayd, liderada por Amr ibn Ma’di Yakrib

Uma delegação de Dhu Zubayd, liderada por Amr ibn Ma’di Yakrib, foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aceitou o Islam. Anteriormente, depois de ouvir notícias sobre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Amr havia dito a Qays ibn Makshuh al-Muradi: “Ó Qays! Tu és o líder do teu povo. Ouvimos dizer que um homem dos coraixitas chamado Muhammad surgiu no Hijaz, apresentando-se como profeta. Vem conosco até ele; vejamos se é verdadeira a reivindicação que faz. Se ele for realmente um profeta, certamente perceberás isso. E, se nos parecer que ele é de fato um profeta, nós o seguiremos. Mas, se não for, saberemos até onde alcança o seu conhecimento.” Qays, porém, rejeitou essa proposta e classificou-a como uma opinião fruto da insensatez. Então Amr ibn Ma’di Yakrib foi pessoalmente, acompanhado de seu grupo, até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aceitou o Islam. Ao saber disso, Qays ibn Makshuh disse: “Amr se opôs a mim e rejeitou a minha opinião. Muito bem, vou mostrar-lhe uma coisa.” Ele ameaçou e intimidou Amr severamente.

[Segundo Ibn Hisham, Malik ibn al-Harith al-Hamdani liderou os Hamdan nessa expedição.]

Em resposta, Amr recitou o seguinte poema:

“No dia do incidente de Sa’na, dei-te um conselho sábio,

aconselhei-te a temer a Allah e a concordar com a justiça.

Escapaste da morte como um jumento orgulhoso da sua estaca.

Ele encontrou-me montado num cavalo,

sobre o qual sou capaz de impedir o seu avanço.

Visto uma armadura semelhante a um lago de águas límpidas situado em terreno pedregoso,

tranquilo.”

Ao atingir a armadura, a lança desvia-se, e sua melhor parte é arremessada para longe.

Se vieres enfrentar-me, verás

que vieste enfrentar um leão de uma só juba.

Então verás nosso guerreiro indomável, de punho de trovão e pescoço erguido

(isto é, ansioso e pronto para a batalha).

Se algum guerreiro da mesma idade que ele, seu rival, tentar dominá-lo, ele próprio

o derrotará, agarrá-lo-á e arremessá-lo-á para o alto,

depois o lançará ao chão e o matará,

extrai-lhe o cérebro e o reduz a pedaços,

e depois o engole.

Seus dentes e garras estão manchados pela opressão do shirk.”

Mais tarde, Amr ibn Ma‘di Yakrib permaneceu entre a tribo de Banu Zubayr, sob o governo de Farwa ibn Musayk, até o falecimento do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Depois, desviou-se do Islã. Quando se afastou da verdade, recitou os seguintes versos:

“O governo de Farwa pareceu-nos o pior dos governos.

Nós o consideramos como um jumento que enfia o focinho no útero e fareja.

Se pudesses ver este governo, ó Abu Amr, então

verias que seu grupo está repleto de demônios e traidores.”

A chegada da delegação de Kindah, liderada por Ashʿath ibn Qays

Ibn Ishaq disse: Ashʿath ibn Qays chegou à presença do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, à frente de uma delegação de Kindah. Zuhri ibn Shihab informou-me que Ashʿath se encontrou com o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, na Mesquita do Profeta, acompanhado por oitenta cavaleiros de Kindah. Seu grupo chegou com os cabelos bem penteados, os olhos delineados com kohl e vestindo mantos iemenitas adornados com seda bordada. Quando foram encontrar-se com ele, o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, perguntou: “Vocês não se tornaram muçulmanos?” Eles responderam: “Sim.” Ele perguntou: “Então por que há tanta seda em suas vestes?” Assim que ele disse isso, eles rasgaram e retiraram as partes de seda de suas roupas. Então Ashʿath ibn Qays disse ao Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele:

“Ó Mensageiro de Deus! Assim como nós somos descendentes de ‘Aqil al-Murāb, você também é descendente de ‘Aqil al-Murār.” [93. Este era o título de um ancestral de Banū Kindah. Como a mãe de Kilāb ibn Murārah, um dos ancestrais dos coraixitas, era filha de Banū Kindah, Ashʿath, em tom de brincadeira, chamou-o de descendente de ‘Aqil al-Murāb pelo lado materno de seu avô.] O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, sorriu levemente e disse: “Apliquem essa linhagem a ʿAbbās ibn ʿAbd al-Muṭṭalib e Rabīʿah ibn al-Ḥārith.” Esses dois homens eram comerciantes e, quando viajavam a alguma povoação árabe distante por motivos comerciais e lhes perguntavam sobre sua origem, diziam: “Somos descendentes de ‘Aqil al-Murār.” Dizendo isso, tentavam aumentar sua honra, pois havia muitos reis na tribo de Kindah. O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse novamente: “Não; nós somos, antes, descendentes de Naḍar ibn Kinānah. Não somos conhecidos pela ascendência materna e jamais abandonamos nossa linhagem paterna.” Então Ashʿath ibn Qays apressou seus companheiros a retornarem ao seu povo e disse: “O trabalho de vocês terminou? Juro por Deus que não deixarei escapar sem lhe aplicar oitenta golpes de chicote qualquer pessoa que diga tal coisa — isto é, que divulgue a ascendência materna em vez da linhagem paterna.”

A chegada de Surad ibn ʿAbdullah al-Azdī

Surad ibn ʿAbdullah al-Azdī chegou ao Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, acompanhado por um grupo de homens da tribo de Azd, aceitou o Islã e tornou-se um muçulmano profundamente devotado. O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, nomeou-o comandante dos membros muçulmanos de sua tribo e ordenou-lhe que conduzisse, com eles, o jihād contra as tribos iemenitas politeístas das redondezas.

Por ordem do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, eles partiram primeiro em uma expedição contra Jurāsh com o objetivo de realizar o jihād. Naquela época, essa cidade, habitada por tribos iemenitas, era cercada por muralhas e fortificada. Ao ouvir que o exército muçulmano avançava para atacá-los, a tribo de Khathʿam juntou-se aos iemenitas. O exército de Surad manteve os iemenitas de Khathʿam sitiados por cerca de um mês, enquanto eles resistiam de dentro de Jurāsh e permaneciam incólumes. Depois, Surad retirou-se com seu exército. Quando chegou perto do monte Shakār, os habitantes de Jurāsh, julgando que ele havia sido derrotado, puseram-se a persegui-lo. Assim que atacaram o exército de Surad, ele os atacou e matou um grande número deles. Antes disso, os habitantes de Jurāsh haviam enviado dois homens a Medina, ao Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, para observar a situação. Certo dia, depois da oração da tarde, quando foram sentar-se com o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, ele lhes perguntou: “Onde fica Shakār?” Os dois homens de Jurāsh responderam: “Ó Mensageiro de Deus! Há uma montanha em nossa região. Nós, habitantes de Jurāsh, a chamamos de Kashār.” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “O nome daquela montanha não é Kashār, mas Shakār.” Eles perguntaram: “O que aconteceu em Shakār, ó Mensageiro de Deus?” Ele respondeu: “Neste momento, muitas pessoas estão sendo mortas ali.”

Quando os dois homens foram sentar-se com Abū Bakr ou ʿUthmān — que Deus esteja satisfeito com ele —, eles lhes disseram: “O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, anunciou a morte de pessoas de sua tribo. Peçam-lhe que suplique a Deus para livrar sua tribo dessa calamidade.” Quando eles fizeram esse pedido ao Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, ele fez a seguinte súplica: “Ó Deus, afasta essa calamidade dos habitantes de Jurāsh.” Depois, os dois partiram em direção a Jurāsh. Ao chegarem, descobriram que Surad ibn ʿAbdullah havia matado os habitantes de Jurāsh exatamente naquele dia e naquele momento — o mesmo dia e a mesma hora em que o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, lhes havia mencionado o ocorrido.”

A delegação de Jurāsh foi até o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, e aceitou o Islã. O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, designou algumas áreas protegidas ao redor da cidade deles para o pastoreio dos animais. Foram demarcadas áreas separadas para cavalos, camelos e bois de arado, e foi anunciado que não seria permitido a ninguém capturar ou comer qualquer animal que pastasse nessas áreas.

A chegada dos enviados dos reis da linhagem de Himyar

Os reis de Himyar enviaram enviados ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, acompanhados de cartas, informando-o de que haviam abraçado o Islã. Entre esses reis estavam al-Harith ibn Abd Qulal, Nu’aym, Ma’afir e Nu’man Qayl, governador de Hamdan. [94. Há divergência quanto ao termo «qayl». Alguns dizem simplesmente que significa «rei». Outros dizem que significa um alto funcionário próximo do rei. Esta última opinião é a mais famosa.] Esses enviados chegaram quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornava da expedição de Tabuk. O governante do Iêmen, Dhu Yazan, enviou Malik ibn Murrah Bahawi. Todos eles enviaram enviados e cartas, declarando que haviam abraçado o Islã, abandonado o politeísmo e rompido relações com os politeístas. Em resposta, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, escreveu-lhes a seguinte carta: «Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador. Do Mensageiro e Profeta de Allah, Muhammad, para Ru’ayn, Ma’afir, Ibn Abd Qulal, governante de Hamdan, Nu’aym ibn Abd Qulal e o governador Nu’man. Louvo o Deus Supremo, além de Quem não há divindade. Depois de retornarmos da terra dos romanos, os vossos enviados encontraram-se conosco em Medina e transmitiram-nos a vossa mensagem. Informaram-nos que havíeis abraçado o Islã e matado os politeístas. Se seguirdes o caminho da retidão, obedecerdes a Allah e ao Seu Mensageiro, estabelecerdes a oração, pagardes o zakat, entregardes, dos espólios, um quinto para Allah, a parte do Profeta e a parte escolhida antes da sua distribuição, bem como a sadaca obrigatória imposta aos crentes, então alcançareis a orientação de Allah. A sadaca obrigatória consiste em um décimo da produção das terras agrícolas irrigadas pela chuva e pela água dos canais, e em um vigésimo da produção das terras agrícolas irrigadas artificialmente.»

Para cada quarenta camelos, deve ser entregue uma camela com mais de dois anos, e para cada trinta, um camelo com mais de dois anos. Para cada cinco camelos, uma cabra; para dez camelos, duas cabras; para quarenta vacas, uma vaca; para trinta, um bezerro de um ou dois anos; e para cada quarenta cabras ou ovelhas de pasto, uma cabra. Esta é a sadaca obrigatória que Allah impôs aos crentes. Dar mais é melhor, mas aquele que entregar apenas isto, demonstrar obediência ao Islã e ajudar os crentes a vencerem os politeístas, esse é um crente. Ele terá os mesmos direitos e responsabilidades que todos os crentes. Allah e o Mensageiro de Allah são os garantidores da sua plena segurança. Se algum judeu ou cristão abraçar o Islã, será incluído entre os crentes. Seus direitos e responsabilidades serão iguais aos dos demais crentes. Mas, se alguém quiser permanecer na sua religião judaica ou cristã, não será forçado a converter-se ao Islã. Contudo, todo adulto desse grupo, homem ou mulher, escravo ou livre, deverá pagar a jizya. O valor da jizya será um dinar, ou tecido no mesmo valor, conforme o preço de compra da ma’afir, um tipo especial de tecido iemenita. Quanto àquele que entregar esta jizya ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Allah e o Seu Mensageiro garantirão a sua segurança. E aquele que se recusar a pagá-la será inimigo de Allah e do Seu Mensageiro.

O Profeta e Mensageiro de Allah, Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordena a Dhu Yazan, governante do Iêmen: quando os meus enviados Mu’adh ibn Jabal, Abdullah ibn Zayd, Malik ibn Ubadah e Uqbah ibn Namir, juntamente com os seus companheiros, que Allah esteja satisfeito com eles, chegarem até vós, tratai-os bem. E, se eles cobrarem o zakat e a jizya devidos pelos vossos súditos e os entregarem aos enviados subordinados ao comandante Mu’adh ibn Jabal, Dhu Yazan deverá aprovar isso.

Muhammad declara novamente que não há divindade além de Allah e que ele é o servo e o Mensageiro de Allah.

Também fica registrado que Malik ibn Murrah Bahatiri informou-me de que tu, Dhu Yazan, foste o primeiro entre os reis de Himyar a abraçar o Islã e mataste os politeístas. Por isso, recebe as boas-novas e os parabéns, e trata bem o povo de Himyar. Não traias nem maltrates ninguém. Lembra-te de que o Mensageiro de Allah é o protetor de todos vós, ricos e pobres. A sadaca do zakat não é lícita para Muhammad nem para os seus familiares. O zakat é um meio de purificar os bens e só é lícito para os pobres muçulmanos e os viajantes. Malik transmitiu a tua mensagem de maneira correta e fiel. Por isso, ordeno-vos que o trateis bem. Enviei-vos, entre os meus seguidores, homens extremamente honestos, capazes, sábios e tementes a Allah. Ordeno-vos que os trateis bem, pois o relatório deles será considerado de máxima importância. E que a paz, a misericórdia e as bênçãos de Allah estejam convosco.»

Os conselhos do Mensageiro de Allah a Mu’adh ibn Jabal quando o enviou ao Iêmen

Ibn Ishaq disse: Abdullah ibn Abu Bakr informou-me de que lhe foi relatado que, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Mu’adh como enviado, deu-lhe alguns conselhos e tomou dele um compromisso. Ele disse: «Apresenta o convite ao Islã de maneira fácil, não de maneira difícil. Desperta neles a esperança, não os afastes. Então encontrarás um grupo do Povo do Livro. Eles perguntarão: “Qual é a chave do Paraíso?” Dir-lhes-ás: “A chave do Paraíso é testemunhar que Allah é Único e não tem associado.”»

A conversão da tribo Banū al-Hārith ao Islã pelas mãos de Khālid ibn al-Walīd durante a expedição

Ibn Ishaq diz: No mês de Rabīʿ al-Thānī ou de Jumādā al-Awwal do décimo ano da Hégira, o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, enviou Khālid ibn al-Walīd à tribo Banū al-Hārith ibn Kaʿb, em Najrān, com a seguinte instrução: “Antes de entrar em combate, convide-os ao Islã durante três dias. Se aceitarem o convite, aceite isso deles. Caso contrário, ataque-os.”

Khālid partiu. Ao chegar ao acampamento dos Banū al-Hārith, ordenou a seus companheiros que se espalhassem por toda parte e convidassem as pessoas ao Islã. Eles diziam: “Ó povo, aceitai o Islã e estareis seguros.” As pessoas começaram a aceitar o Islã, e Khālid permaneceu entre elas. Passou a ensiná-las o Islã e a instruí-las sobre o Alcorão e a Sunna do Mensageiro. O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, também lhe havia ordenado que, se os habitantes de Najrān aceitassem o Islã em vez de combater, permanecesse entre eles e continuasse a ensiná-los detalhadamente o Islã. Khālid ibn al-Walīd escreveu então a seguinte carta ao Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele:

“Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso. De Khālid ibn al-Walīd para Muhammad, o Profeta enviado por Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele. Ó Mensageiro de Deus! Que a paz, a misericórdia e as bênçãos de Deus desçam sobre ti. Louvo diante de ti a Deus, além de quem não há outra divindade. Ó Mensageiro de Deus, que a misericórdia e a paz de Deus estejam sobre ti. Enviaste-me aos Banū al-Hārith com a instrução de que, durante três dias, eu não combatesse, mas os convidasse ao Islã. Se aceitassem o Islã, eu deveria aceitar isso deles, permanecer com eles e ensinar-lhes as disposições abrangentes do Islã, o Livro de Deus e a Sunna do Mensageiro. Caso não aceitassem o Islã, eu deveria combatê-los. Assim que cheguei a eles, convidei-os ao Islã durante três dias, conforme a instrução do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele. Enviei meus companheiros ao povo daqui, e eles os convidaram dizendo: ‘Ó Banū al-Hārith! Aceitai o Islã e estareis seguros.’”

Como resultado, os Banū al-Hārith não combateram e aceitaram o Islã. Permaneço entre eles e ordeno-lhes aquilo que Deus ordenou, e os impeço daquilo que Deus proibiu. Também lhes ensino as disposições abrangentes do Islã e os ensinamentos do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele; esse trabalho continua até o momento em que escrevo esta carta. Ó Mensageiro de Deus, que a paz, a misericórdia e as bênçãos de Deus estejam sobre ti.”

Em resposta, o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, escreveu a seguinte carta a Khālid: “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso. Do Profeta de Deus, Muhammad, para Khālid ibn al-Walīd. Que a paz esteja sobre ti. Louvo diante de ti a Deus, além de quem não há outra divindade. Recebi tua carta por meio de um mensageiro e soube que os Banū al-Hārith aceitaram o Islã sem combater e, respondendo ao teu convite, testemunharam que não há outra divindade além de Deus e que Muhammad é Seu servo e Mensageiro. Informaste que Deus os guiou por meio da mensagem de Sua orientação. Portanto, anuncia-lhes boas-novas e, ao mesmo tempo, adverte-os. Agora, vem embora e ordena a uma delegação dos Banū al-Hārith que venha até mim. A paz, a misericórdia e as bênçãos de Deus estejam sobre vós.”

Depois de receber a carta do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, Khālid retornou a Medina, ao encontro do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele. Uma delegação dos Banū al-Hārith veio com ele. Entre os membros importantes dessa delegação estavam Qays ibn al-Husayn, Yazīd ibn ʿAbd al-Madān, Yazīd ibn Muhājil, ʿAbdullah ibn Qurd al-Ziyādī, Shaddād ibn ʿAbdullah al-Kinānī e ʿAmr ibn ʿAbdullah al-Dibābī. Quando chegaram à presença do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, e ele os viu, disse: “Quem são estes que parecem indianos?” Os Companheiros responderam: “Ó Mensageiro de Deus, são homens dos Banū al-Hārith.” Eles se aproximaram do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, e o cumprimentaram. Disseram: “Testemunhamos que tu és o Mensageiro de Deus e que não há outra divindade além de Deus.” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Eu também testemunho que não há outra divindade além de Deus e que sou o Mensageiro de Deus.” Depois perguntou: “Então sois vós aquela gente que, quando é repelida para trás, avança ainda mais?” Repetiu essa frase quatro vezes. O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Se Khālid não me tivesse informado que aceitastes o Islã sem combate, eu teria decepado vossas cabeças e as teria lançado sob vossos pés.” Yazīd ibn ʿAbd al-Madān disse: “Saiba que não louvamos nem a ti nem a Khālid.” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, perguntou: “Então, a quem louvastes?” Eles responderam: “Ó Mensageiro de Deus, louvamos a Deus, o Poderosíssimo e Todo-Poderoso, que nos guiou por teu intermédio.” Ele disse: “Dizeis a verdade.” Em seguida perguntou: “Durante a época da ignorância, por meio de que vencíeis vossos adversários nas guerras e nos combates?” Eles responderam: “Ora, não vencíamos ninguém.” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Sim, vencíeis aqueles que combatiam contra vós.” Os delegados disseram: “Ó Mensageiro de Deus, a razão de nossa vitória sobre os adversários era que permanecíamos unidos e não nos envolvíamos em conflitos e disputas. Jamais atacávamos alguém primeiro ou injustamente.” O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Dizeis a verdade.”

O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, nomeou Qays ibn al-Husayn comandante dos Banū al-Hārith.

Depois disso, a delegação de Banu al-Harith retornou à sua terra no final de Shawwal ou no início de Dhu al-Qi’dah. Quatro meses após a partida deles, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, faleceu.

Depois que a delegação partiu, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Amr ibn Hazm, que Allah esteja satisfeito com ele, para ensinar a Banu al-Harith as leis abrangentes do Islam e a sua Sunnah, e para recolher a sadaqa deles. Também lhe entregou uma carta contendo suas instruções. A carta dizia o seguinte:

“Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador. Esta é uma proclamação de Allah e de Seu Mensageiro. Ó crentes, cumpri os pactos. Esta é uma instrução do Profeta Muhammad, enviado por Allah, para Amr ibn Hazm, seu mensageiro enviado ao Iêmen. Ele ordenou a Amr que temesse Allah em todos os lugares e em todas as circunstâncias. É preciso lembrar que Allah está com aqueles que O temem e praticam o bem. Foi-lhe ordenado que seguisse sempre o caminho da justiça e da verdade, conforme Allah lhe ordenou. Que incentive e ordene às pessoas que sigam o caminho do bem; que espalhe entre elas os ensinamentos do Alcorão e lhes transmita um conhecimento profundo sobre o Alcorão; e que as advirta para que ninguém toque no Alcorão em estado de impureza. Que lhes explique o que é bom e o que é mau para as pessoas; que trate com brandura aqueles que seguem a verdade e a justiça, e seja severo contra os que cometem injustiça. Isso porque Allah detesta a injustiça e ordenou que se abstivessem dela. Ele disse: ‘Atenção! Que a maldição de Allah esteja sobre os injustos!’ Que incentive as pessoas a entrar no Paraíso e a praticar as obras adequadas a ele, e as advirta contra o Inferno e as obras adequadas a ele. Para transmitir às pessoas um conhecimento profundo e abrangente do Islam, que procure conquistar o seu afeto; que lhes ensine as regras, a Sunnah, as obrigações e os mandamentos de Allah relativos ao Hajj maior e ao Hajj menor, isto é, à Umrah. Que proíba as pessoas de rezar usando apenas uma pequena peça de roupa; contudo, se essa peça for suficientemente grande para que uma extremidade seja passada pelo corpo e a outra seja enrolada sobre o pescoço, então é diferente. Que proíba as pessoas de sentarem-se com uma única peça de roupa, levantando as pernas de modo que suas partes íntimas fiquem expostas. Que proíba os homens de trançarem os cabelos e deixá-los pendurados sobre as costas. Que proíba o povo, em momentos de agitação, de invocar o nome das tribos e dos grupos familiares, e ordene que invoquem somente o nome de Allah, o Único e Absoluto. Aqueles que, em vez de invocarem Allah, invocam uma tribo ou um grupo específico devem ser eliminados pela espada, e o Mensageiro de Allah, o Único e Absoluto, nomeou Qays ibn Husayn como comandante de Banu al-Harith.”

Depois disso, a delegação de Banu al-Harith retornou à sua terra no final de Shawwal ou no início de Dhu al-Qi’dah. Quatro meses após a partida deles, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, faleceu.

Depois que a delegação partiu, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Amr ibn Hazm, que Allah esteja satisfeito com ele, para ensinar a Banu al-Harith as leis abrangentes do Islam e a sua Sunnah, e para recolher a sadaqa deles. Também lhe entregou uma carta contendo suas instruções. A carta dizia o seguinte:

“Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador. Esta é uma proclamação de Allah e de Seu Mensageiro. Ó crentes, cumpri os pactos. Esta é uma instrução do Profeta Muhammad, enviado por Allah, para Amr ibn Hazm, seu mensageiro enviado ao Iêmen. Ele ordenou a Amr que temesse Allah em todos os lugares e em todas as circunstâncias. É preciso lembrar que Allah está com aqueles que O temem e praticam o bem. Foi-lhe ordenado que seguisse sempre o caminho da justiça e da verdade, conforme Allah lhe ordenou. Que incentive e ordene às pessoas que sigam o caminho do bem; que espalhe entre elas os ensinamentos do Alcorão e lhes transmita um conhecimento profundo sobre o Alcorão; e que as advirta para que ninguém toque no Alcorão em estado de impureza. Que lhes explique o que é bom e o que é mau para as pessoas; que trate com brandura aqueles que seguem a verdade e a justiça, e seja severo contra os que cometem injustiça. Isso porque Allah detesta a injustiça e ordenou que se abstivessem dela. Ele disse: ‘Atenção! Que a maldição de Allah esteja sobre os injustos!’ Que incentive as pessoas a entrar no Paraíso e a praticar as obras adequadas a ele, e as advirta contra o Inferno e as obras adequadas a ele. Para transmitir às pessoas um conhecimento profundo e abrangente do Islam, que procure conquistar o seu afeto; que lhes ensine as regras, a Sunnah, as obrigações e os mandamentos de Allah relativos ao Hajj maior e ao Hajj menor, isto é, à Umrah. Que proíba as pessoas de rezar usando apenas uma pequena peça de roupa; contudo, se essa peça for suficientemente grande para que uma extremidade seja passada pelo corpo e a outra seja enrolada sobre o pescoço, então é diferente. Que proíba as pessoas de sentarem-se com uma única peça de roupa, levantando as pernas de modo que suas partes íntimas fiquem expostas. Que proíba os homens de trançarem os cabelos e deixá-los pendurados sobre as costas. Que proíba o povo, em momentos de agitação, de invocar o nome das tribos e dos grupos familiares, e ordene que invoquem somente o nome de Allah, o Único e Absoluto. Aqueles que, em vez de invocarem Allah, invocam uma tribo ou um grupo específico devem ser eliminados pela espada, e um homem confiável, Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, informou-me, citando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que ele disse: ‘Antes da Hora, surgirão trinta impostores, e cada um deles alegará ser profeta.’”

A expedição para recolher a zakat pelos funcionários e comandantes nomeados pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz

Ibn Ishaq disse:

Ainda antes de seu falecimento, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou seus emires e funcionários nomeados para arrecadar o zakat de todos os países e regiões sob domínio muçulmano. Enviou Muhajir ibn Abu Umayya a Sana’a. Enquanto ele ainda estava em Sana’a, al-Ansi rebelou-se contra o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Enviou Ziyad ibn Labid, da tribo ansari Banu Bayada, a Hadramaut; Adi ibn Hatim à tribo Banu Tayy e à tribo Banu Asad; Malik ibn Nuwaira à tribo Banu Hanẓala; Zabarkan ibn Badr a uma parte da tribo Banu Sa’d; Qays ibn Asim à outra parte da mesma tribo; e Ali ibn Abu Talib, que Allah esteja satisfeito com ele, a Najran para arrecadar o zakat dos muçulmanos e a jizya dos cristãos.

A carta de Musaylima ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e a resposta do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele

“De Musaylima, o Mensageiro de Allah, para Muhammad, o Mensageiro de Allah. Que a paz esteja sobre você. Fui feito seu parceiro na profecia. Metade da terra cabe a nós e a outra metade cabe aos coraixitas. Contudo, os coraixitas sempre transgridem.”

Dois emissários chegaram ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, levando esta carta. Ibn Ishaq disse: “Um ancião da tribo Banu Ashja’ contou-me, citando Salma ibn Nu’aym, que Nu’aym disse: depois de receber a carta dos dois emissários e lê-la, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou-lhes: ‘Qual é a opinião de vocês dois?’ Eles responderam: ‘Dizemos o mesmo que Musaylima.’ O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Juro por Allah: se não fosse contrário à ética matar emissários, eu decapitaria vocês dois.’”

Então ele escreveu a Musaylima: “Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso. De Muhammad, o Mensageiro de Allah, para Musaylima, o pretendente mentiroso. Que a paz esteja sobre aquele que segue a orientação vinda de Allah. Saiba que a terra pertence inteiramente a Allah. Ele concede o domínio da terra, entre Seus servos, a quem deseja, e o sucesso na Outra Vida é para os tementes a Allah.” Essa troca de cartas ocorreu no décimo ano da Hégira.

O Hajj de Despedida

Quando começou o mês de Dhu al-Qa’dah, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, preparou-se para o Hajj e ordenou aos muçulmanos que se preparassem. Partiu para realizar o Hajj quando faltavam cinco dias para o fim do mês de Dhu al-Qa’dah.

Às vésperas do Hajj, ele ensinou ao povo os ritos e as regras do Hajj. Depois, dirigiu-se à multidão reunida. Após louvar a Allah, disse:

“Ó povo, escutai as minhas palavras. Talvez eu não volte a encontrar-me convosco neste lugar depois deste ano. Ó gente, assim como hoje, neste dia e neste mês, é proibido que atentéis contra a vida e os bens alheios, isso permanecerá proibido até ao Dia da Ressurreição. Em breve comparecereis perante Allah e sereis chamados a prestar contas das vossas ações. Cumpri a responsabilidade de transmitir-vos a mensagem de Allah. Quem tiver consigo algo que lhe foi confiado deve devolvê-lo ao seu proprietário. Toda a usura foi abolida. [95. Foram abolidas todas as formas de dívida e de retaliação por homicídio e ferimentos.] Recebereis apenas o capital. Não cometais injustiça contra ninguém, nem sofrereis injustiça. A decisão definitiva de Allah é que nenhuma usura subsistirá. Toda a usura de Al-Abbas ibn Abd al-Muttalib foi abolida. Foram abolidas todas as punições ou retaliações por homicídios e ferimentos cometidos na época da ignorância. Sou o primeiro a abolir a punição ou retaliação pelo assassinato de Ibn Rabi’a, neto de Al-Harith ibn Abd al-Muttalib. Ibn Rabi’a era amamentado entre a tribo de Banu Layth. Foi morto por Banu Hudhayl. É com esse assassinato que começo a perdoar todos os homicídios cometidos na época da ignorância.”

Depois, ó gente, não há mais possibilidade de que Satanás seja adorado nesta vossa terra. Ele perdeu a esperança disso. Contudo, ficará satisfeito se lhe obedecerdes em pequenas coisas que considerais insignificantes e sem importância. Portanto, acautelai-vos de Satanás no que diz respeito à vossa religião.

Ó povo, adiar os meses sagrados para o ano seguinte é um ato de incredulidade ainda mais abominável. Por meio dessa prática, os incrédulos são conduzidos ao caminho do desvio. Assim, tornam o derramamento de sangue permitido num ano e proibido no outro. Desse modo, tramam escapar aos dias que Allah declarou sagrados. Na prática, tornam permitido o que Allah proibiu e proibido o que Allah permitiu. Desde o início da criação dos céus e da terra, o tempo tem seguido o seu curso segundo a sua própria ordem. Para Allah, os meses são doze. Quatro deles são sagrados: três consecutivos e um é o Rajab da tribo de Mudar. Esse mês situa-se entre Sha’ban e Jumada al-Thani. [96. O mês de Rajab é chamado de “Rajab da tribo de Mudar” porque era essa tribo que lhe atribuía importância. Nenhuma outra tribo árabe observava esse mês como sagrado.]

Tendes deveres e direitos para com as vossas mulheres. Elas não devem permitir que outro homem se deite nos vossos leitos, nem devem envolver-se em atos obscenos proibidos — esse é o dever delas —, pois isso provoca o vosso repúdio. Se, contudo, cometerem tal ato, Allah concedeu-vos o direito de dormir separados delas e de golpeá-las levemente. Mas, se se corrigirem, é vosso dever prover-lhes normalmente alimento e vestuário. Sede bondosos para com as mulheres, pois elas estão convosco como cativas indefesas. Recebestes-nas como uma confiança de Allah e tornastes lícita a vossa união com elas segundo a lei de Allah.

Ó humanidade, compreendei as minhas palavras. Cumpri a tarefa de transmitir a mensagem de Allah às pessoas. E deixo convosco algo que, se vos apegardes firmemente a isso, jamais vos extraviareis: o Livro de Allah e a Sunnah do Seu Mensageiro, coisas claras e explícitas. Ó povo, escutai as minhas palavras e compreendei-as. Sabei que todo muçulmano é irmão de outro muçulmano. Os muçulmanos são irmãos uns dos outros. Portanto, é ilícito tomar qualquer coisa pertencente ao vosso irmão, salvo se ele a der de bom grado. Não cometais injustiça contra as pessoas. Ó Allah, transmiti a Tua religião às pessoas?” As pessoas responderam: “Ó Allah, certamente o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, transmitiu-nos a Tua religião.” Ele disse: “Ó Allah, sê testemunha.”

Envio de Usama ibn Zayd à Palestina

Ibn Hisham diz que, depois de proferir o sermão acima, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, juntamente com todos os seus companheiros

regressou a Medina e passou ali os dias restantes de Dhu al-Hijjah, bem como os meses de Muharram e Safar. Em seguida, enviou para Sham (Síria) um exército sob o comando de Usama, filho do seu liberto Zayd, e ordenou-lhe que tomasse as regiões de Balqa e Darum, na Palestina. As pessoas prepararam-se para a viagem. Todos os primeiros emigrantes que haviam participado da Hégira partiram com ele.

O envio de mensageiros do Mensageiro de Allah aos reis e soberanos

Ibn Hisham disse:

Anteriormente, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou alguns Companheiros como mensageiros aos reis e soberanos de vários países. Ele lhes enviou cartas convidando-os ao Islã.

Ibn Hisham disse: Um homem digno de confiança, de Abu Bakr al-Hudhali, informou-me que, certo dia, depois de o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ter sido impedido de realizar a Umrah no dia de Hudaybiyyah, ele compareceu diante de seus Companheiros e disse: “Ó povo, Allah enviou-me como misericórdia para toda a humanidade. Portanto, não me desobedeçais como os companheiros de Jesus desobedeceram a ele.” Os Companheiros perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, como os companheiros de Jesus lhe desobedeceram?” Ele respondeu: “Ele lhes ordenava que fizessem as mesmas coisas que eu vos ordeno. Porém, quando queria enviar alguém a algum lugar próximo, essa pessoa mostrava relutância e procrastinava. Jesus apresentou uma queixa sobre isso a Allah. Como consequência, cada um dos que procrastinavam teve este destino: aquele que fosse enviado ao povo de uma determinada nação passou a falar a língua dessa nação.”

Depois disso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, escolheu alguns de seus Companheiros como mensageiros e enviou cartas contendo o convite ao Islã aos reis e soberanos de vários países. Enviou Dihya ibn Khalifa al-Kalbi ao imperador de Roma; Abdullah ibn Hudhafa al-Sahmi ao imperador da Pérsia; Amr ibn Umayya al-Damri ao Najashi da Abissínia; Hatib ibn Amr a Sumama ibn Uthal e Hawdha ibn Ali, os dois reis de Iamama; Ala ibn al-Hadrami ao rei do Bahrein, al-Mundhir ibn Sawa; e Shuja ibn Wahb al-Asadi ao rei da região fronteiriça da Síria, al-Harith ibn Abu Shamir al-Ghassani.

Ibn Hisham disse: Até onde sei, Salit foi enviado a Sumama, Hawdha e al-Mundhir.

Ibn Ishaq disse: Yazid ibn Abu Habib al-Misri informou-me que viu, em um livro, os nomes dos mensageiros enviados pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aos reis árabes e não árabes, bem como a vários países. O livro também mencionava os conselhos que ele dava aos Companheiros quando os enviava. Yazid enviou esse livro ao famoso erudito Muhammad ibn Shihab al-Zuhri. Al-Zuhri reconheceu o livro como confiável. Nele estava escrito: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi até seus Companheiros e disse: “Allah enviou-me como misericórdia para todos os habitantes do mundo. Portanto, transmiti o convite em meu nome; Allah derramará Sua misericórdia sobre vós. Não me desobedeçais como os companheiros de Jesus o desobedeceram.” Os Companheiros perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, como eles lhe desobedeciam?” Ele respondeu: “Assim como ele vos confiou a responsabilidade de transmitir o convite em vários lugares, também lhes confiava essa responsabilidade. Aquele que ele enviava a um lugar próximo ficava feliz e satisfeito. Mas aquele que queria enviar para longe ficava descontente e se recusava. Jesus suplicou a Allah sobre isso. Como consequência, aquele dentre eles que era enviado a determinado país passava a falar a língua daquele país.”

Ibn Ishaq disse: “Entre os companheiros que Jesus enviou a várias regiões do mundo e os seguidores que foram enviados posteriormente, os mais notáveis foram o companheiro Pedro e seu seguidor Paulo. Paulo não era um apóstolo nem companheiro de Jesus. André e Matias foram enviados aos romanos; enviou-os a uma região cujos habitantes comiam seres humanos. Tomé foi enviado à Babilônia, no Oriente; Filipe foi enviado a Cartago, na África, ou à África. João foi enviado à cidade de Éfeso, povoado dos Companheiros da Caverna. Tiago foi enviado ao Hijaz, na Arábia; Simão foi enviado à região dos berberes; e Judas foi enviado à terra dos jônios. Judas não era companheiro de Jesus.”

A última expedição

Ibn Ishaq disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Usama, filho de Zayd ibn Haritha, à Síria e ordenou-lhe que conquistasse as regiões de Balqa e Darum, na Palestina. Os muçulmanos fizeram os preparativos necessários. Todos os muçulmanos que haviam participado da primeira Hégira tomaram parte nessa expedição.

O início da enfermidade do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz

Ibn Ishaq disse: Enquanto prosseguiam os preparativos para o início da expedição sob o comando de Usama, começaram a surgir sinais de enfermidade no Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e, por fim, ele faleceu em decorrência dessa enfermidade. A doença começou nos últimos dias do mês de Safar ou no primeiro dia de Rabi al-Awwal. A enfermidade teve início da seguinte maneira: certa noite, já muito tarde, ele foi ao cemitério de Medina, Baqi al-Gharqad, e fez istighfar pelos habitantes dos túmulos. A partir do dia seguinte, passou a sofrer com a doença.

Abu Mu’ayhiba, o liberto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamou-me e despertou-me por volta da meia-noite, dizendo: “Ó Abu Mu’ayhiba, fui ordenado a fazer istighfar pelos mortos deste cemitério. Vem comigo.” Eu o acompanhei. Parando diante do cemitério, ele disse:

“Ó habitantes dos túmulos, que a paz esteja sobre vós. Hoje estais numa condição muito melhor do que aquela em que as pessoas caíram. As fitnas estão chegando como uma noite de profunda escuridão, tornando-se progressivamente mais densas. Qualquer calamidade que venha será mais grave do que a anterior.

Então, dirigindo-se a mim, disse: “Ó Abu Mu’ayhiba! Foram-me oferecidos a riqueza deste mundo e o direito de desfrutá-la permanentemente e, depois, o Paraíso; e foi-me dito: ‘Escolhe o que quiseres entre esta riqueza e o direito de desfrutá-la permanentemente, e o Paraíso e o encontro com Allah.’”

Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, escolha a riqueza deste mundo e o direito de desfrutá-la permanentemente e, depois, o Paraíso.” Ele disse: “Não; eu escolhi o encontro com Allah e o Paraíso.”

Depois, ele suplicou e pediu perdão para os habitantes dos túmulos de Al-Baqi e voltou para casa. Logo depois, começaram suas dores e enfermidade, das quais, por fim, faleceu.

Aisha, esposa do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, disse: Quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — voltou de Al-Baqi e me viu sofrendo com dor de cabeça, dizendo: “Ai, minha cabeça!”, ele, ao ver meu estado, disse: “Ó Aisha, quem deveria dizer isso sou eu: minha cabeça!” Depois disse: “Bem, que te parece se você morrer antes de mim, e eu preparar seu sudário, enterrá-la e realizar sua oração fúnebre?” Eu respondi: “Consigo ver claramente o que aconteceria: depois disso, você voltaria para casa e se divertiria com suas outras esposas.”

Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — sorriu discretamente. Por um instante, pareceu que suas dores haviam desaparecido. Naquele momento, ele ainda se revezava entre as casas de suas esposas. Porém, logo suas dores aumentaram. Nessa ocasião, ele estava na casa de Maymuna — que Allah esteja satisfeito com ela. Ele chamou todas as suas esposas e pediu-lhes permissão para ser cuidado em minha casa. Todas deram sua permissão.

As esposas do Mensageiro de Allah ou as Mães dos Crentes

Ibn Hisham diz: O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — teve nove esposas: Aisha, filha de Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ela —; Hafsa, filha de Umar ibn al-Khattab — que Allah esteja satisfeito com ela —; Umm Habiba, filha de Abu Sufyan ibn Harb — que Allah esteja satisfeito com ela —; Umm Salama, filha de Abu Umayya ibn al-Mughira — que Allah esteja satisfeito com ela —; Sawda, filha de Zam’a ibn Qays — que Allah esteja satisfeito com ela —; Zaynab, filha de Jahsh — que Allah esteja satisfeito com ela —; Maymuna, filha de al-Harith ibn Hazn — que Allah esteja satisfeito com ela —; Juwayriya, filha de al-Harith ibn Abu Dirar — que Allah esteja satisfeito com ela —; e Safiyya, filha de Huyayy ibn Akhtab. Seus relatos são conhecidos por meio de vários estudiosos confiáveis.

O número total de esposas do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — foi treze. Contudo, as nove mencionadas estavam vivas quando ele faleceu. Duas haviam morrido antes, e com outras duas houve apenas um casamento nominal; elas não chegaram a se tornar esposas do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

Khadija, filha de Khuwaylid — que Allah esteja satisfeito com ela

Khadija foi sua primeira esposa. Seu pai, Khuwaylid ibn Asad — segundo outra versão, seu irmão Amr ibn Khuwaylid —, casou Khadija com o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O Mensageiro de Allah deu-lhe como dote vinte camelas jovens. Com exceção de Ibrahim, todos os filhos do Mensageiro de Allah nasceram dela. Seu marido anterior foi Abu Hala ibn Malik. Ele pertencia aos Banu Usayd, aliados da tribo dos Banu Abd al-Dar. Enquanto era esposa de Abu Hala, ela teve dele um filho chamado Hind e uma filha chamada Zaynab. Antes de Abu Hala, ela havia se casado com Atiq ibn Abid. Também desse casamento nasceu um filho chamado Abd Allah e uma filha chamada Jariya.

Aisha bint Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ela

Ela se casou com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em Meca, quando tinha apenas sete anos. Após a Hégira para Medina, aos nove ou dez anos de idade, iniciou a vida conjugal com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele não se casou com nenhuma outra virgem além de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela. Seu pai, Abu Bakr al-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, casou-a com ele. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, casou-a. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu-lhe quatrocentos dirhams como dote.

Sawda bint Zam’a, que Allah esteja satisfeito com ela

Salit ibn Amr, também conhecido como Abu Hatim ibn Amr, casou-a com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu-lhe quatrocentos dirhams como dote. Seu marido anterior chamava-se Sakran ibn Amr. [97. Ibn Hisham diz que Ibn Ishaq não concorda com este relato. Segundo ele, Ali e Abu Hatim estavam, nessa época, vivendo ambos na Abissínia como exilados. Nesse período, estavam ausentes do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.]

Zaynab bint Jahsh, que Allah esteja satisfeito com ela

Seu irmão, Abu Ahmad ibn Jahsh, casou-a. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu-lhe um dote de quatrocentos dirhams. Seu marido anterior era Zayd ibn Haritha, que Allah esteja satisfeito com ele, o escravo liberto pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

Foi a respeito de Zaynab que este versículo do Alcorão foi revelado: “Quando Zayd se divorciou dela, Nós a casamos contigo.”

Umm Salama bint Abu Umayya, que Allah esteja satisfeito com ela

Seu outro nome era Hind. Seu próprio filho, Salama, providenciou seu casamento. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu-lhe um colchão recheado com cascas de tâmaras, uma taça, um prato e um moinho manual. O nome de seu marido anterior era Abdullah Abu Salama. Ela teve ali quatro filhos: Salama, Umar, Zaynab e Ruqayya.

Hafsa bint Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ela

Seu pai, Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, pessoalmente a casou com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mediante um dote de quatrocentos dirrãs. Antes, ela havia sido casada com Khunays ibn Hudhafa as-Sahmi.

Umm Habiba bint Abu Sufyan ibn Harb, que Allah esteja satisfeito com ela

Khalid ibn Sa’id ibn al-As tomou a iniciativa e fez a proposta para que ela se casasse com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquela época, ambos viviam como emigrantes na Abissínia. O próprio Negus lhe entregou um dote de quatrocentos dinares em nome do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O nome de seu marido anterior era Ubaydullah ibn Jahsh al-Asadi. Seu nome verdadeiro era Ramla.

 

Juwayriya bint al-Harith, que Allah esteja satisfeito com ela

Essa mulher da tribo de Khuzā’a foi capturada como prisioneira de guerra na batalha de Banu al-Mustaliq e coube a Thabit ibn Qays. Juwayriya fez um acordo com Harith para obter sua liberdade mediante o pagamento de um resgate. Para obter ajuda no pagamento desse resgate, ela procurou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concordou em pagar seu resgate e propôs casar-se com ela. Juwayriya aceitou a proposta. Em seguida, o casamento foi realizado.

Ibn Hisham menciona que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornou da região de Banu al-Mustaliq levando Juwayriya consigo. No caminho, deixou Juwayriya sob a guarda de um companheiro ansari, confiando-a a ele e ordenando-lhe que cuidasse dela, e seguiu para Medina. Depois de chegar a Medina, o pai de Juwayriya, al-Harith ibn Abu Dirar, dirigiu-se ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levando o resgate pela libertação de sua filha. Ao chegar a um lugar chamado Aqiq, al-Harith avistou a caravana de camelos que levava consigo ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, como resgate. Dois camelos lhe agradaram muito. Ele escondeu esses dois camelos em uma das cavernas do monte Aqiq. Depois, foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Ó Muhammad, vocês capturaram minha filha. Aqui está o resgate dela.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “O que aconteceu com aqueles dois camelos que você deixou escondidos em determinada caverna do monte Aqiq?” Al-Harith disse: “Testemunho que não há divindade além de Allah e que você é o Mensageiro de Allah. Certamente, somente Allah lhe informou sobre isso.” Al-Harith aceitou o Islã. Em seguida, mandou pessoas buscarem no monte Aqiq os dois camelos escondidos. Entregou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, todos os seus camelos. Sua filha Juwayriya foi devolvida a ele.

Safiyya bint Huyayy ibn Akhtab, que Allah esteja satisfeito com ela

Safiyya, filha do líder judeu Huyayy ibn Akhtab, foi trazida pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, de Khaybar como prisioneira de guerra, e ele lhe concedeu o status de esposa. Para esse casamento, ele organizou uma walima simples, na qual os convidados foram servidos apenas com tâmaras e sawiq, em vez de gordura ou carne. O nome de seu marido anterior era Kinana ibn al-Rabi ibn Abu al-Huqayq.

Maymuna bint al-Harith, que Allah esteja satisfeito com ela

Al-Abbas ibn Abd al-Muttalib, que Allah esteja satisfeito com ele, providenciou seu casamento com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. E, em nome do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pagou um dote de quatrocentos dirhams. O nome de seu marido anterior era Abu Ruhm ibn Abd al-Uzza. Segundo alguns historiadores, ela foi a mulher que, nas palavras do Alcorão Sagrado, ofereceu-se espontaneamente ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando a proposta de casamento, em nome do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou até essa mulher, ela estava montada em um camelo. Em resposta à proposta, disse imediatamente: “Este camelo e seu cavaleiro estão consagrados a Allah e ao Mensageiro de Allah.” Em razão disso, o Altíssimo Allah revelou: “(É lícito para ti) se uma mulher crente se oferecer e o Profeta desejar casar-se com ela.”

Alguns dizem que a mulher que se ofereceu ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não foi ela, mas Zaynab bint Jahsh. Outros dizem que foi Umm Shurayk Ghaziyya bint Jabir. Segundo outros, foi uma mulher pertencente à tribo de Banu Sama. No entanto, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, adiou sua decisão a respeito dela.

Zaynab bint Khuzayma, que Allah esteja satisfeito com ela

Primeiro, ela se casou com seu primo, Jaham ibn Amr. Depois, casou-se com Ubayda ibn al-Harith. Qabisa ibn Amr al-Hilali a casou com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mediante um dote de quatrocentos dirhams. Por causa de sua extrema compaixão e misericórdia para com os pobres, necessitados e pessoas em situação de pobreza, ela era chamada de Umm al-Masakin, a Mãe dos Pobres.

Estas onze eram as esposas do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com as quais ele viveu maritalmente. Entre elas, Khadija bint Khuwaylid, que Allah esteja satisfeito com ela, e Zaynab bint Khuzayma, que Allah esteja satisfeito com ela, estavam vivas no momento do falecimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e depois dele. Além disso, não foi possível que ele consumasse a vida conjugal com outras duas. Uma delas era Asma bint Nu’man al-Kindiyya. Depois de casar-se com essa mulher, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, descobriu que ela sofria de vitiligo ou lepra. Por isso, enviou-a de volta à sua família, dando-lhe presentes. A outra era Amra bint Yazid al-Kilabiyya. Assim que chegou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pediu para ser dispensada por ele. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ela está se afastando e buscando refúgio em Allah.” Então, ele a enviou de volta à sua família. Alguns dizem que a mulher que buscou refúgio contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz — isto é, que se recusou a estabelecer uma relação conjugal — era prima de Asma bint Nu’man al-Kindiyya. Segundo alguns, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a chamou para junto de si, ela disse com arrogância: “Nós somos de uma tribo nobre. As pessoas vêm até nós; nós não vamos até ninguém.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou-a de volta à sua família.

Entre as esposas do Mensageiro de Allah, seis eram da linhagem coraixita: Khadija bint Khuwaylid (que Allah esteja satisfeito com ela), Aisha bint Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela), Hafsa bint Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ela), Umm Habiba bint Abu Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ela), Umm Salama bint Abu Umayya (que Allah esteja satisfeito com ela) e Sawda bint Zam’a (que Allah esteja satisfeito com ela). As sete restantes não eram coraixitas. Seis eram de origem árabe: Zaynab bint Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ela), da tribo Banu Asad; Zaynab bint Harith (que Allah esteja satisfeito com ela), da tribo Banu Amir; Zaynab bint Khuzayma (que Allah esteja satisfeito com ela), da tribo Banu Khazaya; Asma bint Nu’man al-Kindiya (que Allah esteja satisfeito com ela), da tribo Kinda; e Amra bint Yazid (que Allah esteja satisfeito com ela), da tribo Banu Kilab. A outra era de origem não árabe, judaica: Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), filha de Huyayy ibn Akhtab, da tribo Banu Nadir.

Descrição restante da doença do Mensageiro de Allah

Ibn Ishaq disse:

Ubайdullah ibn Abdullah ibn Utba me relatou, por intermédio de Aisha, esposa do Mensageiro de Allah, e ele, por intermédio de Muhammad ibn Muslim al-Zuhri, e este, por intermédio de Yaqub ibn Utba, que Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Depois de obter das outras esposas a permissão para permanecer em minha casa a fim de ser cuidada, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entrou em meu quarto arrastando os pés, com a cabeça enfaixada e apoiado nos ombros de dois membros de sua família: Fadl ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e outro homem. Segundo Abdullah ibn Abbas, o outro homem era Ali ibn Abu Talib (que Allah esteja satisfeito com ele).”

Pouco depois, a dor do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aumentou, e ele disse, gemendo: “Trazei sete odres de água de diferentes poços e derramai-a sobre minha cabeça, para que eu possa ir até o povo e obter deles o juramento de fidelidade.” Sentamo-lo junto a um grande recipiente para lavar roupas de Hafsa bint (que Allah esteja satisfeito com ela) e derramamos bastante água sobre sua cabeça. Por fim, ele disse:

“Já chega. Já chega.”

Al-Zuhri disse: Ayyub ibn Bashir me relatou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saiu com a cabeça enfaixada e sentou-se no púlpito da mesquita. Ao começar a falar, primeiro rogou misericórdia e pediu perdão pelos mártires da batalha de Uhud. Ele fez muitas súplicas por eles. Em seguida, disse: “Allah deu a um servo a escolha entre os bens deste mundo e aquilo que se encontra junto de Allah. Esse servo escolheu aquilo que se encontra junto de Allah.” Abu Bakr al-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, compreendeu o significado dessas palavras. Percebeu que esse servo não era outro senão o próprio Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Então, chorando, disse: “Que sacrifiquemos nossas próprias vidas e as vidas de nossos filhos em troca da sua vida.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Abu Bakr, aceita isso naturalmente.” Depois disse: “Fechai estas portas abertas da mesquita, mas não fecheis a porta contígua à casa de Abu Bakr, pois, entre todas as pessoas que me acompanharam, Abu Bakr foi o colaborador em quem encontrei maior confiança.”

Abd al-Rahman ibn Abdullah me relatou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também disse: “Se eu fosse tomar alguém entre os servos de Allah como amigo íntimo, tomaria Abu Bakr. Contudo, enquanto não nos reunirmos junto de Allah, somente o companheirismo, a fraternidade e a fé serão o vínculo de nossa relação.”

Muhammad ibn Jubayr informou-me, citando a autoridade de ʿUrwa ibn az-Zubayr e de outros sábios, que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, apesar de estar enfermo, manifestou sua inquietação pelo atraso no envio do exército de Usama (que Allah esteja satisfeito com ele). Enquanto isso, alguns expressavam uma discreta objeção ao fato de o jovem Usama ter sido nomeado comandante, embora houvesse Muhajirun e Ansar idosos. Ao saber disso, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — voltou a sentar-se no púlpito, com a cabeça enfaixada. Depois de louvar Allah como era devido, disse: “Ó povo, apressai-vos em enviar o exército de Usama. Se entre vós se levantou alguma discussão sobre o seu comando, também levantastes esse tipo de discussão sobre o comando de seu pai. Contudo, a verdade é que Usama era digno desta tarefa, e seu pai também era digno dela.” Em seguida, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — desceu do púlpito. Os muçulmanos começaram a preparar o envio do exército de Usama. Ao mesmo tempo, as dores da doença do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — tornaram-se mais intensas. Quando Usama, levando o exército, chegou a uma área baixa situada a uma parasanga de Medina, seu exército também chegou ali, e outros muçulmanos se juntaram a ele, justamente quando foram verificar como estava a condição do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Az-Zuhri disse: ʿAbdullah ibn Kaʿb ibn Malik informou-me que, naquele dia, em seu discurso, além de tudo o que dissera sobre a súplica pelos participantes da batalha de Uhud e sobre o que os muçulmanos deveriam fazer, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — também disse: “Ó Muhajirun, cuidai bem dos Ansar. Quanto às outras pessoas, sua situação financeira vai melhorando gradualmente. Mas, considerando a situação atual dos Ansar, eles não têm essa oportunidade. Eles foram os guardiões dos meus segredos e meus protetores. Portanto, tratai-os bem em retribuição ao bom tratamento que vos deram. E, se receberdes algum mau tratamento da parte deles, perdoai-os.”

Depois, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — desceu do púlpito e entrou em sua casa. Imediatamente, suas dores aumentaram. Pouco depois, perdeu a consciência.

Nesse momento, algumas de suas esposas, entre elas Umm Salama e Maymuna (que Allah esteja satisfeito com elas), e algumas mulheres muçulmanas, entre elas Asma bint Umays, reuniram-se junto dele. Seu tio ʿAbbas (que Allah esteja satisfeito com ele) já estava presente junto dele.

Todos decidiram administrar ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — um medicamento chamado “ladud”. ʿAbbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Eu certamente lhe administrarei o ladud.” Por fim, deram-lhe o ladud, e ele recuperou a consciência. Ao recobrá-la, perguntou: “Quem me deu esta coisa?” Todos responderam: “Ó Mensageiro de Allah, seu tio lhe deu.” Ele disse: “É um tipo de medicamento trazido por algumas mulheres vindas da direção da Abissínia. Por que o aplicastes?” ʿAbbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro de Allah, temíamos que estivesses sofrendo de pleurisia.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Allah jamais me fará sofrer dessa doença. Entre meus familiares, ninguém além de meu tio ficará isento do ladud.” Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela) teve de tomar o ladud enquanto estava em jejum. Assim, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — determinou que sua família fosse punida por aquele ato equivocado.

Usama ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Quando a condição do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — se tornou extremamente grave, eu, meu exército e os muçulmanos que me acompanhavam retornamos a Medina e depois fomos visitá-lo. Ao chegarmos, vimos que ele havia perdido a capacidade de falar; não conseguia falar. Ao ver-me, começou a levantar as mãos em direção ao céu e depois a baixá-las, colocando-as sobre mim. Compreendi, então, que estava suplicando por mim.”

ʿAisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse:

Quando chegou o momento final do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, as últimas palavras que o ouvi pronunciar foram: “Ao contrário, desejo o Companheiro Supremo.” Ao ouvir isso, pensei comigo mesma: “Ele não nos está dando preferência.” Nesse momento, compreendi que era isso que ele queria dizer quando afirmava: “Nenhum profeta recebe a morte sem que lhe seja dada a escolha entre a vida e a morte.” A coisa mais amada, que ele escolhera, foi anunciada por suas palavras: “Ao contrário, desejo o Companheiro Supremo.”

Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) como imam na oração congregacional

Az-Zuhri disse: Ouvi isso de Hamza ibn Abdullah ibn Umar. Aisha (r.a.) disse: Quando a doença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se agravou excessivamente, ele disse: “Dizei a Abu Bakr que conduza a oração.” Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, Abu Bakr é um homem muito sensível. Sua voz é muito baixa. Quando recita o Alcorão, frequentemente começa a chorar.” Ele disse: “Dizei-lhe que conduza a oração.” Repeti novamente o que havia dito. Ele disse: “Vós sois como as mulheres que trataram José. Ide e dizei a Abu Bakr que conduza a oração em congregação.” Na verdade, eu havia dito aquilo porque queria impedir Abu Bakr (r.a.) de conduzir a oração. Eu sabia que, se ocorresse qualquer incidente, as pessoas responsabilizariam Abu Bakr (r.a.) e colocariam a culpa sobre seus ombros. Eu sabia que as pessoas jamais aceitariam o sucessor do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Foi por essas razões que eu desejava afastá-lo dessa responsabilidade.

Abdullah ibn Zam’a disse:

Quando a doença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) atingiu um estado preocupante, eu estava em sua presença com um grupo de muçulmanos. Nesse momento, Bilal (r.a.) chamou-o para a oração. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Dizei a alguém que seja capaz de conduzir a oração que a conduza.” Primeiro, encontrei Umar ibn al-Khattab (r.a.). Eu disse: “Ó Umar, venha conduzir a oração.” Umar (r.a.) posicionou-se para conduzir a oração. Umar tinha uma voz forte. Quando ele pronunciou o takbir, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ouviu-o e disse: “Onde está Abu Bakr? Isso não agrada a Allah nem aos muçulmanos.” Abu Bakr (r.a.) foi chamado. Quando Umar (r.a.) terminou a oração que havia iniciado, Abu Bakr veio. A partir de então, foi ele quem passou a conduzir as orações.

Abdullah ibn Zam’a disse: Umar (r.a.) disse-me: “Ai de ti, ó Ibn Zam’a! Que tratamento foi esse que me dispensaste? Quando me disseste que conduzisse a oração, pensei que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tivesse ordenado que eu a conduzisse. Caso contrário, eu não a teria conduzido.” Eu disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não me ordenou que lhe dissesse para conduzir a oração. Porém, quando não encontrei Abu Bakr (r.a.), considerei-o o mais digno, entre os muçulmanos presentes, de conduzir a oração.”

Ibn Ishaq disse: Az-Zuhri também relatou, citando Anas ibn Malik, que o dia em que Allah chamou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para Sua presença para sempre foi uma segunda-feira. No exato momento em que os muçulmanos realizavam a oração do fajr em congregação, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) levantou a cortina, abriu a porta, saiu e ficou de pé na soleira da porta adjacente à casa de Aisha (r.a.). Ao vê-lo de relance, os muçulmanos que realizavam a oração ficaram tomados de alegria. Naquele momento, de tanta felicidade, quase interromperam a oração. Ao vê-lo de pé sozinho, sem o auxílio de ninguém, todas as preocupações e apreensões desapareceram de seus corações num instante. Ele sorriu de alegria ao ver a ordem com que realizavam a oração e fez um gesto, dizendo: “Não abandoneis a oração; concluí-a.” Naquele dia, jamais vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) numa aparência tão bela quanto naquele momento. Depois disso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) voltou para dentro. Ao vê-lo aparentemente recuperado da doença, as pessoas partiram, cada uma para seus afazeres. Abu Bakr (r.a.) também voltou para junto de sua família na região de Sunah. [98. Abu Bakr (r.a.) possuía terras e uma casa nesse local, onde vivia com sua família.]

Muhammad ibn Ibrahim informou-me, citando al-Qasim ibn Muhammad, que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ouviu o takbir de Umar (r.a.) ao conduzir a oração, disse: “Onde está Abu Bakr? Para Allah e para os muçulmanos, a liderança da oração de qualquer outro além de Abu Bakr (r.a.) não é aceitável.” Na verdade, se Umar (r.a.) não tivesse proferido uma declaração antes de sua morte, os muçulmanos teriam acreditado, sem dúvida, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia nomeado Abu Bakr (r.a.) como califa. Porém, antes de morrer, Umar (r.a.) rejeitou essa ideia. Ele disse: “Se eu nomear um califa, então sabei que aquele que era melhor do que eu também deixou isso à livre decisão deles.” Assim, quando Umar (r.a.) morreu sem nomear um califa, os muçulmanos compreenderam que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não havia nomeado Abu Bakr como califa.

Abu Bakr ibn Abdullah disse-me — a Ibn Ishaq —: Na segunda-feira, enquanto Abu Bakr (r.a.) conduzia a oração do fajr, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou ali com a cabeça enfaixada. As pessoas, felizes, afastaram-se das fileiras. Abu Bakr (r.a.) compreendeu que as pessoas haviam feito isso por causa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por isso, recuou de seu lugar. Mas o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) colocou a mão em suas costas, empurrou-o para a frente e disse: “Tu é que deves conduzir a oração.” Em seguida, rezou sentado à direita de Abu Bakr (r.a.). Depois da oração, voltou-se para os fiéis e proferiu um sermão com voz tão alta que podia ser ouvido até do lado de fora da mesquita. Ele disse: “Ó gente, o fogo do Inferno foi aquecido, e as calamidades aproximam-se como uma noite escura. Sabei que não tendes de seguir nada que seja exclusivamente meu. Não proibi nada que esteja no Alcorão.” Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) terminou seu sermão, Abu Bakr (r.a.), pensando que a saúde do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia voltado ao normal, e sabendo que aquele era o dia de sua esposa, Bint Kharija, pediu sua permissão e partiu para junto de sua família em Sunah. E o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entrou em seus aposentos.

Abdullah ibn Abbas (r.a.) disse: Naquele dia, quando Ali ibn Abu Talib (r.a.) saiu de junto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), as pessoas perguntaram-lhe: “Ó Abu al-Hasan, como está o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?” Ele respondeu: “Louvado seja Allah. Ele se recuperou.” Então Abbas (r.a.) segurou sua mão e disse: “Juro por Allah, dentro de alguns dias terás de assumir a liderança. Juro por Allah, eu reconhecia os sinais da morte nos rostos dos filhos de Abd al-Muttalib, e também os vi no rosto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Vamos, dirijamo-nos ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Se, após sua ausência, a responsabilidade pelo Islã e pelos muçulmanos recair sobre nós, saberemos disso. E, se passar para as mãos de outros, diremos a ele que ordene a todos que cuidem de nós.” Ali (r.a.) disse: “Não irei. Se ele se recusar a confiar-nos essa responsabilidade, ninguém mais a confiará a nós depois dele.” Então, naquele mesmo dia, por volta do meio-dia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) faleceu.

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse:

Naquele dia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, veio diretamente da mesquita até mim e deitou-se com a cabeça em meu colo. Logo depois, um membro da família de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) veio até mim trazendo um siwak verde. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, olhou para a mão dele de tal maneira que pareceu querer aquilo. Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, quer que eu lhe dê o siwak?” Ele respondeu: “Sim.” Então eu o entreguei a ele. Ele o usou intensamente e depois o colocou de lado. Em seguida, o corpo do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou a ficar cada vez mais pesado sobre o meu colo. Olhei para o seu rosto e vi que seus olhos estavam se arregalando. Ele dizia: “Quero o Companheiro Supremo.” Eu disse: “Foi-lhe dada a opção de escolher aquilo que desejasse. E o senhor escolheu o que era apropriado.”

Depois disso, ele deu o último suspiro. Ibn Ishaq disse: Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) afirmou: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, faleceu com a cabeça apoiada sobre meu peito, durante o período em que lhe cabia permanecer em minha casa. Nesse assunto, não cometi injustiça contra ninguém. O fato de eu tê-lo segurado no colo no momento de sua morte, depois tê-lo deitado sobre um travesseiro e começado a bater no rosto e no peito junto com as outras mulheres — tudo isso não passou de minha insensatez e ingenuidade juvenil.”

Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, faleceu, Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) levantou-se e começou a dizer: “Alguns hipócritas estão afirmando que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, morreu. Juro por Allah que ele não morreu. Ele apenas foi temporariamente até Allah, assim como Musa, que a paz esteja sobre ele. Musa (que a paz esteja sobre ele) foi até Allah por quarenta dias. Naquela ocasião, anunciou-se que ele havia morrido, mas depois ele retornou. Juro por Allah que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornará como Musa (que a paz esteja sobre ele). Agora, cortarei as mãos e os pés daqueles que disserem que ele morreu.”

Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), ao saber da notícia do falecimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, correu para lá. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) continuava repetindo aquelas mesmas palavras. Sem dar atenção a isso, Abu Bakr entrou no quarto de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e dirigiu-se ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele momento, ele estava coberto, em um canto do quarto, com um tecido iemenita. Aproximando-se, Abu Bakr removeu o tecido do rosto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e beijou-o. Em seguida, disse: “Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por você. Você experimentou a morte que Allah havia determinado para você. Depois disso, a morte jamais virá até você novamente.” Então cobriu-lhe o rosto. Depois saiu e viu que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) continuava dizendo as mesmas palavras. Abu Bakr disse: “Umar, pare. Cale-se.” Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) não estava disposto a parar de modo algum. Ao ver aquela situação, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a falar dirigindo-se ao povo. Ao ouvirem suas palavras, as pessoas avançaram em direção a ele, deixando Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Depois de louvar Allah, Abu Bakr disse:

“Ó povo! Que aquele que adorava Muhammad saiba que Muhammad morreu; e que aquele que adorava Allah saiba que Allah é Eterno e Imortal.” Em seguida, recitou este versículo:

Em árabeÁrabe ******]

“Muhammad não é senão o Mensageiro de Allah. Antes dele, muitos mensageiros já passaram. Se ele morrer ou for morto, acaso retornareis, abandonando o Islã? Quem retornar não poderá causar nenhum dano a Allah. Allah recompensará devidamente os agradecidos.” (Al Imran)

Depois disso, ocorreu uma mudança tão profunda entre as pessoas que parecia que elas jamais tinham ouvido esse versículo antes de o ouvirem da boca de Abu Bakr. Memorizaram o versículo a partir de Abu Bakr e passaram a recitá-lo continuamente. Abu Huraira relata que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Depois de ouvir esse versículo da boca de Abu Bakr, fiquei atônito e completamente desnorteado. Não consegui permanecer de pé. Naquele momento compreendi que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realmente havia falecido.”

No pátio do clã Banu Sa’ida

Ibn Ishaq diz:

Após o falecimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, um grupo de companheiros ansar reuniu-se no pátio coberto do clã Banu Sa’ida e uniu-se sob a liderança de Sa’d ibn Ubadah. Na casa de Fátima (que Allah esteja satisfeito com ela), Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), Zubayr ibn al-Awwam (que Allah esteja satisfeito com ele) e Talha ibn Ubaydullah (que Allah esteja satisfeito com ele) declararam sua lealdade à liderança. O clã Banu Abd al-Ashhal também os seguiu sob a liderança de Usayd ibn Hudayr (que Allah esteja satisfeito com ele). Nesse momento, um homem foi até Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e disse: “Esse grupo de ansar reuniu-se no pátio de Banu Sa’ida e formou uma aliança separada sob a liderança de Sa’d ibn Ubadah. Portanto, se vocês consideram necessário preservar a unidade dos muçulmanos, vão depressa até eles. Caso contrário, a situação poderá assumir proporções graves. Até agora, porém, nem sequer foram concluídos o amortalhamento e o sepultamento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Sua família ainda o mantém em sua casa fechada.” Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse a Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele): “Vamos até esses nossos irmãos ansar e ver do que se trata.”

Relato de Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e Umar (que Allah esteja satisfeito com ele)

Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: No final do califado de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), certo dia eu estava sentado, esperando por ele, na casa de Abd al-Rahman ibn Awf, em Mina. Abd al-Rahman estava então com Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Umar estava concluindo sua última peregrinação. Quando Abd al-Rahman (que Allah esteja satisfeito com ele) voltou da companhia de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) para casa, encontrou-me sentado à sua espera. Naquela época, eu lhe ensinava o Nobre Alcorão. Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) disse-me: “Você ficaria surpreso se visse que um homem foi até o Comandante dos Crentes, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), e disse: ‘Ó Comandante dos Crentes, o que diria sobre aquele que afirma: Se Umar morresse, eu escolheria fulano como califa? Por Allah, a escolha de Abu Bakr como califa foi simplesmente um acontecimento acidental e inesperado.’” Ao ouvir isso, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou furioso, pois viu nisso uma tentativa de fazer campanha pela escolha de determinada pessoa como califa e de menosprezar a escolha do primeiro califa. Ele disse: “Se Allah quiser, ainda esta tarde farei um discurso diante do povo e os advertirei contra aqueles que desejam distorcer e destruir a tradição e a herança dos muçulmanos.” Abd al-Rahman (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Eu lhe falei: “Ó Comandante dos Crentes, não faça isso, pois durante a peregrinação reúnem-se muitas pessoas ignorantes, insensatas e irresponsáveis. E sempre que você se colocar diante do povo, pessoas ignorantes estarão ao seu redor. Temo que elas compreendam equivocadamente suas palavras e as espalhem por toda parte. Portanto, espere até retornar a Medina, pois Medina é o centro do Mensageiro. Ali você terá a oportunidade de consultar pessoas respeitadas, sábias e virtuosas; e, se disser ali o que deseja dizer, durante sua permanência na cidade, seus habitantes sensatos poderão compreender corretamente suas palavras. Não haverá possibilidade de distorção nem de mal-entendido.” Umar disse: “Muito bem, assim será. Ao chegar a Medina, direi isso na primeira oportunidade.”

Ibn Abbas disse: Chegamos a Medina no fim de Dhu al-Hijjah. Encontrei Sa’id ibn Zayd perto do púlpito e sentei-me bem junto dele. Pouco depois, vi Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) chegar. Então disse a Sa’id ibn Zayd: “Hoje ele dirá algo que nunca havia dito desde que se tornou califa.” Ao ouvir isso, Sa’id demonstrou irritação e disse: “Que coisa ele poderia dizer que nunca tenha dito antes?” De qualquer modo, Umar subiu e sentou-se no púlpito. Assim que o mu’adhdhin terminou o chamado para a oração, ele proferiu o seguinte discurso, após louvar a Allah:

«Hoje lhes direi algo que só posso dizer porque estava destinado a mim. Talvez eu esteja dizendo isso porque minha morte se aproxima. Quem, entre vocês, compreender corretamente o verdadeiro sentido destas palavras não deve sair espalhando, inutilmente, coisas que eu não disse. Allah concedeu a Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a profecia e fez descer sobre ele o Livro. Nele também foi incluída a punição do adultério por apedrejamento até a morte. Nós o lemos, aprendemos e compreendemos. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) também aplicou essa punição, e depois dele nós a aplicamos. Temo que, depois de transcorrer muito tempo, alguém venha a dizer: “Não encontramos no Livro de Allah, em parte alguma, a punição de apedrejar o adúltero até a morte.” Assim, as pessoas abandonarão uma obrigação prescrita por Allah e se perderão no desvio. Contudo, a norma do rajm existe de forma inequívoca no Livro de Allah para todo adúltero e toda adúltera casados. Naturalmente, o crime deve ser comprovado sem qualquer dúvida por testemunhas, gravidez ou confissão. Também lemos no Livro de Allah a determinação de não renunciar à própria filiação paterna, pois isso equivale à incredulidade. Cuidado! O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Não me louvem de modo exagerado, como se exagerou no louvor de Jesus, filho de Maria, que a paz esteja sobre ele. Chamem-me apenas de ‘servo de Allah e Seu Mensageiro’.” E digo mais uma coisa; escutem. Ouvi dizer que certa pessoa afirmou: “Quando Umar ibn al-Khattab morrer, reconhecerei fulano como califa.” Que ninguém entre vocês induza os outros ao erro dizendo que a ascensão de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) ao califado foi um acontecimento casual e inesperado. De fato, foi assim. Mas Allah Todo-Poderoso protegeu os muçulmanos de suas possíveis consequências nocivas. A verdade é que, entre vocês, não há nem houve ninguém de posição mais elevada e mais digno de respeito do que Abu Bakr. Portanto, quem prestar juramento de fidelidade a alguém e o reconhecer como califa sem consultar os muçulmanos terá seu califado invalidado, e o juramento daquele que lhe prestar fidelidade também será inválido e rejeitado. Do contrário, não haverá outra maneira de garantir que os dois sejam protegidos de serem mortos.» [99. O significado é que reconhecer alguém como califa, emir ou líder mediante o bay‘a, isto é, o compromisso de obediência, só pode ser válido com consulta e consenso. Porém, se duas pessoas se separarem da comunidade inteira e, de maneira arbitrária, uma prestar juramento de fidelidade à outra, isso equivalerá a ignorar e dividir a comunidade. Tal juramento não será aceito para nenhuma das duas. Ambas deverão ser expulsas da comunidade, que concordou em escolher um líder entre seus membros. Se a comunidade reconhecer uma dessas duas pessoas arbitrárias como líder e lhe prestar juramento, não se poderá dizer quando alguém poderá matá-la, pois ela insultou a comunidade ao desprezar e negligenciar a opinião de todos; ninguém poderá assumir a responsabilidade por sua segurança. (Veja Lisan al-‘Arab, capítulo sobre o significado da palavra original «[Árabe ***]; consulte o capítulo sobre o significado da palavra original «[Árabe ***]».]

Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: Após o falecimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), recebemos a notícia de que os Ansar estavam se opondo a nós. Eles se reuniram no pátio de Banu Sa‘ida com seus anciãos mais importantes. Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele), az-Zubayr ibn al-Awwam e seus companheiros afastaram-se de nós, enquanto os Muhajirun se reuniram junto de Abu Bakr. Eu disse a Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele): “Venha conosco até nossos irmãos Ansar.” No caminho para encontrá-los, deparamo-nos com dois homens responsáveis entre eles. Eles nos informaram sobre a posição dos Ansar e depois disseram: “Ó Muhajirun, aonde vocês estão indo?” Respondemos: “Estamos indo até nossos irmãos Ansar.” Eles disseram: “Não há necessidade de vocês irem até eles. Façam o que lhes compete.” Eu disse: “Temos de ir.” Então chegamos ao pátio de Banu Sa‘ida. Ao chegar, vimos um homem sentado no meio dos Ansar reunidos, envolto em um cobertor e com o rosto coberto. Perguntamos: “O que aconteceu com ele?” Eles responderam: “Está doente.” Sentamo-nos ali, e um de seus oradores começou a discursar, testemunhando a unicidade de Allah e a missão do Mensageiro, e louvando Allah como Ele merece. Disse: “Somos os auxiliares de Allah e os valentes soldados do Islã. Ó Muhajirun, vocês são um grupo pertencente a nós. Um grupo de habitantes do deserto, pacíficos e modestos, veio juntar-se a nós e já se integrou a nós.”

Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: Percebemos que eles queriam nos desviar de nosso princípio fundamental e pretendiam estabelecer à força seu controle exclusivo sobre ele. Preparei uma excelente resposta e ela me pareceu muito apropriada. Quis apresentá-la a Abu Bakr. Havia em Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) uma espécie de veemência que me causava grande temor, e eu procurava, tanto quanto possível, preservar seu ânimo. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Umar, diga alguma coisa.” Não quis insistir e aumentar sua irritação. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) era muito mais respeitado e instruído do que nós. Ele respondeu às palavras deles de maneira tão bela que, embora eu tivesse passado muito tempo pensando e preparando um discurso — com o qual eu mesmo estava encantado —, não deixou de dizer uma só coisa dele em seu discurso improvisado; pelo contrário, disse coisas ainda melhores. Ele disse: “O que vocês disseram sobre suas nobres qualidades de caráter e suas contribuições é verdadeiro. Também é inegável que, se não fosse a contribuição da tribo de Quraysh, os árabes nada teriam aprendido sobre o Islã. Eles possuem uma posição genealógica mediana entre os árabes, e sua região habitada está situada no centro de toda a nação árabe. Para todos vocês, prefiro um destes dois homens. Unam-se e prestem juramento de fidelidade àquele que escolherem entre eles.” Então tomou a mão de Abu Ubayda ibn al-Jarrah. Nada do que ele disse me desagradou, exceto essas últimas palavras. Por Allah, eu sentia que, mesmo que avançar para o campo de execução a fim de ser decapitado fosse um ato pecaminoso, isso provavelmente me seria muito mais agradável do que tornar-me comandante dos muçulmanos enquanto Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) estivesse presente.”

Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Depois desse discurso de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), um dos Ansar disse: “Assim como somos confiáveis em inteligência entre os árabes, também somos superiores em posição e dignidade. Portanto, que haja um comandante da nossa parte e outro da vossa (dos Quraysh).” Em seguida, houve muita discussão, e as conversas passaram a ser travadas em voz bastante elevada. Temi que, afinal, surgisse uma divisão ou conflito entre os dois grupos de muçulmanos, os Muhajirun e os Ansar. Então disse imediatamente (com o objetivo de pôr fim a toda a discussão): “Ó Abu Bakr, estenda a sua mão.” Ele a estendeu. Segurei-lhe a mão e prestei-lhe o bay‘a. Depois, os Muhajirun prestaram o bay‘a. Em seguida, os Ansar também prestaram o bay‘a. Depois começamos a repreender Sa‘d ibn Ubadah. Irritado com isso, um deles disse: “Vocês encurralaram Sa‘d ibn Ubadah.” Eu disse: “Foi Allah quem encurralou Sa‘d ibn Ubadah.”

Az-Zuhri disse: Urwah ibn az-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) informou-me que os dois homens dos Ansar que Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e os demais Muhajirun encontraram quando se dirigiam ao pátio de Banu Sa‘ida eram Uwaym ibn Sa‘ida e Mu‘an ibn Adi, dos Banu Ajlan. É relatado que Uwaym ibn Sa‘ida era um dos afortunados Companheiros em cujo louvor Allah revelou este versículo—

[Árabe *******]

“Ali há homens que gostam de se purificar; e Allah ama os que se purificam.” (At-Tawbah)

Depois que este versículo foi revelado, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Entre este grupo, Uwaym ibn Sa’idah é um homem excelente.”

É narrado sobre Mu’an ibn Adi que, no dia em que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, faleceu, os muçulmanos choraram copiosamente e disseram: “Deveríamos ter morrido antes do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Tememos enfrentar uma severa provação em nossa fé após sua morte.” Porém, apenas Mu’an ibn Adi disse: “Não desejo morrer antes do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Pois, assim como acreditei nele durante sua vida, também tive a oportunidade de renovar minha fé nele depois de sua morte.” Mais tarde, durante o califado de Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, ele alcançou o martírio lutando contra Musaylimah, o Mentiroso, na batalha de Yamamah.

Az-Zuhri, citando Anas ibn Malik, que Allah esteja satisfeito com ele, relata: No dia seguinte à primeira bay’ah pelo califado, realizada no pátio do clã Banu Sa’idah, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, sentou-se no púlpito da mesquita. Antes que ele dissesse qualquer coisa, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, louvou a Allah e pronunciou o seguinte discurso: “Ó povo, o que vos disse ontem [isto é, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não havia morrido, mas havia desaparecido temporariamente como Musa, que a paz esteja sobre ele, e assim por diante] não encontrei no Alcorão, nem o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, me disse isso. Eu imaginava que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, só faleceria depois de organizar completamente todos os aspectos de nossa vida coletiva. Mas, na realidade, não é assim. Allah deixou entre vós o Livro pelo qual conduziu Seu Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ao objetivo que havia escolhido para ele. Se vos apegardes a este Livro, Allah vos conduzirá na direção para a qual conduziu Seu Mensageiro. Hoje, Allah confiou vossa liderança ao melhor dentre vós. Ele é um dos companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, seu companheiro íntimo na caverna do monte Thawr. Portanto, prestai-lhe bay’ah e aceitai-o como califa ou emir.” Então, as pessoas prestaram bay’ah a ele pela segunda vez. Esta foi a bay’ah geral, realizada depois da bay’ah no pátio de Banu Sa’idah.

Em seguida, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, fez um discurso. Primeiro louvou devidamente a Allah. Depois disse: “Ó povo, fui designado como responsável por vós. Na verdade, não sou melhor do que vós. Se eu fizer o bem, ajudai-me; e, se eu cometer uma injustiça, corrigí-me. A veracidade é lealdade, e a mentira é traição. Aquele dentre vós que é considerado fraco será forte para mim, até que, pela vontade de Allah, eu lhe conceda o direito que lhe é devido. E aquele dentre vós que é considerado forte será fraco para mim, até que eu retire dele o direito devido. Sabei que, quando uma nação abandona o jihad no caminho de Allah, Allah a lança na humilhação, na desonra e na calamidade. E quando a obscenidade, a indecência e a imundície se espalham numa sociedade, Allah a enche de aflições, infortúnios e desastres. Enquanto eu obedecer a Allah e ao Mensageiro de Allah, vós me obedecereis. Mas, quando eu desobedecer a Allah e ao Seu Mensageiro, não tereis obrigação de me obedecer. Cuidai da oração; que Allah faça descer Sua misericórdia sobre vós.”

Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Durante o califado de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, certa vez eu caminhava com ele para algum lugar. Ele levava um bastão na mão e ia tratar de um assunto seu. Naquele momento, não havia ninguém com ele além de mim. Murmurava consigo mesmo algo que eu não compreendia e batia com o bastão na própria perna. De repente, voltou-se para mim e disse: “Ó Ibn Abbas, sabes por que eu dizia aquelas palavras no momento da morte do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz?” Eu respondi: “Ó Emir dos Crentes, não sei. Vós sabeis melhor.” Ele disse: “Eu estava recitando um versículo e pensava que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceria entre sua ummah até poder testemunhar contra ela depois de ver suas últimas ações. Foi sob a influência dessa ideia que eu disse aquelas palavras. O versículo é este:

[Árabe *******]

“Assim, fizemos de vocês uma comunidade moderada, para que fossem testemunhas perante a humanidade, e para que o Mensageiro fosse testemunha perante vocês.” (Al-Baqarah)

 

O amortalhamento e o sepultamento do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele

Ibn Ishaq disse: Depois que o juramento de lealdade a Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) foi concluído, na terça-feira o povo começou a preparar o sepultamento do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

Abdullah ibn Abu Bakr, Husayn ibn Abdullah e outros me relataram que Ali ibn Abu Talib, Abbas ibn Abdul-Muttalib, Fadl ibn Abbas, Qutham ibn Abbas, Usamah ibn Zayd e Shaqran, o liberto do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foram encarregados de banhá-lo. Aws ibn Khawli (que Allah esteja satisfeito com ele), da família Banu Awf, da tribo Banu Khazraj, disse a Ali ibn Abu Talib (que Allah esteja satisfeito com ele): “Ó Ali, pelo amor de Allah, providencie para que possamos participar do amortalhamento e do sepultamento do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” Aws (que Allah esteja satisfeito com ele) era um Companheiro que havia participado da batalha de Badr. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Venha.” Então ele veio e participou do banho do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) manteve o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, apoiado contra o próprio peito. Abbas, Fadl e Qutham (que Allah esteja satisfeito com eles) viravam-no, conforme necessário, juntamente com Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Usamah ibn Zayd e Shaqran (que Allah esteja satisfeito com eles) derramavam água sobre ele, enquanto Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), mantendo-o apoiado contra o próprio peito, lavava-o. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permanecia vestido. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) esfregava-o suavemente e lavava-o por cima da roupa, sem tocar diretamente em sua pele. Durante o banho, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia: “Que meus pais sejam sacrificados por ti. Quão perfumado é o teu corpo, tanto em vida como depois da morte.” Durante o banho, não saiu do corpo do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nada daquelas impurezas que normalmente saem do corpo dos demais mortos.

Segundo uma narração de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), quando começaram a preparar o banho, os encarregados dele divergiram. A questão era se o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, deveria ser despido e banhado como os demais mortos, ou se deveria ser banhado com a roupa sobre o corpo. Enquanto essa divergência prosseguia, Allah fez com que subitamente fossem tomados pelo sono. Por causa do sono, os rostos de todos caíram sobre o peito do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Nesse estado, uma pessoa desconhecida, de um canto da casa, disse-lhes: “Banhai o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, com a roupa sobre o corpo.” Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi banhado com a roupa vestida, e seu corpo foi esfregado por cima dela.

Ibn Ishaq disse: Quando o banho do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi concluído, ele foi amortalhado com três peças de tecido: duas peças suhари e um manto iemenita, colocado após ser dobrado várias vezes.

Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quando começaram os preparativos para cavar a sepultura, soube-se que Abu Ubaydah ibn al-Jarrah era habilidoso em cavar uma sepultura do tipo “darih”, como as dos habitantes de Meca, enquanto Abu Talhah era habilidoso em cavar uma sepultura do tipo “lahd”, como as de Medina. Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) mandou chamar ambos e disse: “Ó Allah, providencia aquilo que for melhor para o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” No fim, Abu Talhah foi encontrado, e ele cavou para o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, uma sepultura do tipo “lahd”.

Na terça-feira, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi amortalhado e banhado, e depois foi colocado em sua cama, em sua casa. Em seguida, os Companheiros voltaram a divergir sobre o sepultamento. Alguns disseram: “Vamos sepultá-lo na Mesquita do Profeta.” Outros disseram: “Vamos sepultá-lo junto às sepulturas dos demais Companheiros.” Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) resolveu a questão, dizendo: “Ouvi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizer que todo profeta foi sepultado no local onde faleceu.”

Então, retiraram a cama sobre a qual o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia falecido e cavaram a sepultura exatamente abaixo dela. As pessoas vieram em grupos e começaram a realizar a oração fúnebre pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Depois que os homens terminaram, as mulheres a realizaram. Em seguida, as crianças e os adolescentes. Depois disso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi sepultado à meia-noite de quarta-feira.

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Foi ao ouvirmos, à meia-noite de quarta-feira, o som das pás que soubemos que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava sendo sepultado.”

Ibn Ishaq disse: Ali, Fadl, Qutham e Shaqran (que Allah esteja satisfeito com eles) desceram à sepultura para colocar nela o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

Quando Aws ibn Khawli voltou a reivindicar, junto a Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), que os Ansar tivessem uma participação no sepultamento do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) pediu-lhe que descesse à sepultura; e ele desceu com todos os demais e participou daquele trabalho.

Shaqran também sepultou junto com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a manta que ele costumava usar, quando o colocou na sepultura. Naquele momento, disse: “Depois de você, não será permitido que mais ninguém use esta manta.”

Mughira ibn Shu’ba (que Allah esteja satisfeito com ele) afirmava que havia tido o último contato com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Isso porque ele deixou deliberadamente seu anel na sepultura e saiu. Depois, alegando que o anel havia caído, desceu à sepultura por último, retirou o anel e foi a última pessoa a tocar no Mensageiro de Allah. Assim, reivindicava ter sido a última pessoa a ter contato com ele.

Mukassam Abu al-Qasim, liberto de Abdullah ibn Harith, narra que, durante o califado de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ou de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), realizou a umrah com Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Ali hospedou-se na casa de sua irmã, Umm Hani. Depois de concluir a umrah e realizar o ghusl, um grupo de muçulmanos vindo do Iraque foi visitá-lo. Eles perguntaram se era verdadeira a afirmação de Mughira ibn Shu’ba de que ele havia tido o último contato com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Quem teve o último contato foi Qutham ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele).”

Ubaydullah ibn Abdullah ibn Utba relata que Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) lhe disse: “Durante o agravamento da doença do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia sobre seu corpo uma manta preta quadrada. Ele se cobria com ela uma vez e a retirava outra vez. E dizia: ‘Que Allah amaldiçoe o povo que transforma os túmulos dos profetas em lugares de prostração.’” Com essas palavras, ele advertia sua própria comunidade.

ʿĀ’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: «O último testamento do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — foi que, na Península Arábica, não permanecesse nenhuma religião além do Islã.»

Ibn Isḥāq disse:

Imediatamente após o falecimento do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — os muçulmanos foram cercados por uma terrível calamidade. ʿĀ’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) informou que, naquele momento, os árabes começaram a apostatar, os judeus e os cristãos começaram a levantar a cabeça, e a hipocrisia assumiu grandes proporções. Devido à perda do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, a situação dos muçulmanos tornou-se semelhante a um rebanho de nuvens carregadas de chuva numa noite de inverno. Essa situação continuou até que eles se organizassem sob a liderança de Abū Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ibn Hishām disse: Abū ʿUbayda e outros homens instruídos informaram-me que, assim que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — faleceu, a maioria dos habitantes de Meca começou a inclinar-se para abandonar o Islã. Ao ver isso, o então governador de Meca, ʿAttāb ibn Usayd, escondeu-se por medo. Em seguida, Suhayl ibn ʿAmr reuniu os habitantes de Meca e fez-lhes um discurso. Depois de louvar Allah, informou-os do falecimento do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e disse: «Com o seu falecimento, o Islã tornou-se ainda mais forte. Decapitaremos quem espalhar dúvidas e desorientação.»

Depois disso, as pessoas mudaram de opinião, e ʿAttāb ibn Usayd saiu do esconderijo.

Foi precisamente sobre essa situação que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse a ʿUmar ibn al-Khaṭṭāb (que Allah esteja satisfeito com ele): «Ele passará por uma situação em que não poderás censurá-lo.»

Ḥassān ibn Thābit (que Allah esteja satisfeito com ele) compôs e recitou o seguinte lamento pela morte do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele:

«Em Medina existem os luminosos sinais e as lembranças do Mensageiro.

Os sinais e as lembranças comuns desaparecem e são apagados.»

Mas os vestígios daquele lugar sagrado são imperecíveis e eternos,

onde permanece o púlpito que guarda a memória da ascensão do grande guia.

Ali estão aquelas casas, das quais, por parte de Allah,

descia uma luz resplandecente

Ali existem sinais atemporais da sabedoria

que não se deformam, mesmo com o passar dos séculos.

Quanto mais antigo é, mais novos conhecimentos dele emanam.

Ali pude reconhecer

Conheci melhor os sinais e o exemplo do Mensageiro

o seu túmulo, no qual foi sepultado.

Sentado ali, derramo lágrimas pelo Mensageiro, por causa do qual

muitos olhos derramam lágrimas e se tornam afortunados.

Os olhos derramam lágrimas; na verdade, ao recordar o Mensageiro (s.a.),

estão lembrando justamente as suas contribuições—

cujo número sou incapaz de determinar.

Quanto às suas contribuições, meu coração, vazio e pesado pela dor de perder Ahmad (s.a.),

Foi dedicado à tarefa de recordar.

Mas não consegui recordar sequer um décimo de qualquer de suas contribuições.

Apenas, com o coração oprimido pela tristeza, junto ao túmulo onde jaz Muhammad (s.a.)

não tenho outra coisa a fazer senão permanecer por muito tempo e derramar lágrimas.

Ó túmulo do Mensageiro, tornaste-te um receptáculo de bênçãos e bondade sem fim.

Assim como toda esta região se tornou abençoada pelos passos do guia do caminho correto.

Ó túmulo, teu interior foi preenchido de bênçãos, pois abriga um ser puríssimo

e a pessoa que me é mais querida.

Foi feito amplo e organizado em camadas.

Sobre esse túmulo, muitos lançaram terra, e uma árvore perene

‘sud’ foi plantada nele.

À noite, as pessoas (ao sepultarem o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele),

o conhecimento, a misericórdia e a tolerância

sepultaram e cobriram-no de terra, embora

ele não fosse alguém que devesse ser deitado na terra.

Após o sepultamento, partiram, aflitos, por terem perdido o Profeta (que a paz esteja sobre ele)

E suas costas e mãos ficaram enfraquecidas.

Passaram a chorar de pesar por aquele grande homem — por cuja morte, no dia de seu falecimento,

até o céu e a terra choraram.

Por isso, as pessoas ficaram ainda mais pesarosas por ele. Alguma vez

o luto pela morte de alguma pessoa foi igual ao luto pela morte de Maomé?

Por causa dessa morte, as pessoas perderam aquele que estava no local da descida da Revelação,

aquele que estava no local da descida da Revelação e resplandecia com a luz de Allah,

e que distribuía essa luz até o Iêmen e Najd.

Aqueles que o seguiam, ele os guiava pelo caminho de Allah, o Misericordioso,

protegia-os da humilhação e da censura, e guiava-os pelo caminho da justiça.

Ele era para eles um líder que os conduzia em direção à verdade

e trabalhava arduamente por ela.

Ele era um mestre e guia da verdade

cujo seguimento conduzia à purificação.

Ele perdoava compassivamente os erros dos crentes

e aceitava suas desculpas.

Se eles realizassem boas e corretas obras, isso seria para o bem deles

o próprio Allah seria generoso.

E, se lhes fosse atribuída a responsabilidade por alguma tarefa

que fosse difícil para eles,

somente Ele a tornaria fácil.

Enquanto os seguidores de Muhammad (que a paz esteja com ele) permanecerem sob as bênçãos de Allah,

Ele permanecerá para eles como uma prova por meio da qual

poderão determinar a conduta correta em todos os assuntos.

É-Lhe insuportável que as pessoas se desviem, e deseja ardentemente que recebam orientação

e permaneçam firmes nela.

—— Fim ——-