Prefácio
Introdução: Sobre o Movimento Islâmico
O que queremos dizer com Movimento Islâmico? O Movimento Islâmico é um trabalho popular realizado pela causa de Allah
A insuficiência do trabalho oficial
O Movimento é um trabalho organizado e coletivo A missão do Movimento é reviver o Islã Como deve ser alcançado o renascimento necessário? A multiplicidade dos campos de atuação do Movimento e qual deles é mais merecedor Diversificação dos campos de trabalho
Há um trabalho educacional
Há um trabalho político
Há um trabalho social
Há o Trabalho Econômico
Há o Trabalho de Luta (Jihad) Há o Trabalho de Mídia e Propaganda Há o Trabalho Intelectual e Científico Distribuição das Forças entre os Campos de Trabalho O que Deve Ser Enfatizado e Priorizado?
Capítulo 1: O Movimento Islâmico no Campo do Intelecto e do Conhecimento
O Governo no Campo do Intelecto e do Conhecimento
Nossa Necessidade de um Novo Fiqh
Os Tipos de Fiqh [Compreensão] de que Necessitamos
O Fiqh das Prioridades
A Necessidade de Dois Níveis de Fiqh Integração dos Dois Tipos de Fiqh ao Examinar os Interesses e os Malefícios A Dificuldade da Prática na Vida Real Prova do Fiqh das Prioridades no Alcorão Sagrado
A opinião do xeique do Islã Ibn Taymia
Quando o fiqh das prioridades está ausente
O fiqh das prioridades
O fiqh das prioridades na biografia do Profeta A inter-relação entre o fiqh das prioridades e o fiqh das ponderações
A necessidade de observar proporções entre as obrigações da Sharia [legais
Comandos ou mandamentos] A negligência do fiqh das prioridades entre muitos muçulmanos O Imam Al-Ghazali e o fiqh das prioridades
A avaliação do Imam Ibn Al-Qayyim sobre as práticas de adoração preferíveis
Capítulo 2: O movimento islâmico no campo da propaganda e do público
Conhecimento
O Movimento Islâmico no Campo da Propaganda: Expansão Horizontal
O Movimento e a Elite Culta
A incompreensão do Islã por muitos dos cultos. Como o Despertar Islâmico deve lidar com os cultos?
O Movimento Islâmico e as Massas
Dizer a Verdade, Não Anestesiar com Sonhos
Correção de Conceitos Equivocados
O Movimento Islâmico e as Classes Trabalhadoras
O Movimento Islâmico e os Empresários e Financiadores
O Movimento Islâmico e a Atividade das Mulheres
A Deficiência do Trabalho Islâmico nos Círculos Femininos. Quando o Trabalho Islâmico das Mulheres Será Bem-Sucedido?
A Disseminação de Ideias Radicais Neste Campo
O Problema do Trabalho Islâmico na Atividade das Mulheres
Uma Possível Objeção e Sua Refutação
Capítulo 3: O Movimento Islâmico no Campo da Educação e da Formação Religiosa
A Educação Baseada na Crença é o Fundamento. A Necessidade de uma Medida de Educação Sufi Adequada
Quatro pontos de enfoque
Concentrar-se em buscar o que é correto, além da intenção pura
A importância da educação ideológica dos futuros líderes Preparando as lideranças para o futuro Um instituto especial para a preparação de lideranças
Características da ideologia necessária
Uma ideologia científica
Características do espírito científico de que necessitamos
Algumas práticas que contrariam a ideologia científica
Uma ideologia realista
Equilibrar as ambições com as capacidades
Enterrando Problemas Antigos
Um Debate de que Não Precisamos Hoje
Uma Ideologia Tradicionalista
Fundamentos da Verdadeira Metodologia Tradicionalista: a Distorção do “Tradicionalismo” tanto por seus Defensores quanto por seus Oponentes
Adotando a Metodologia dos Primeiros Muçulmanos, Não Apenas suas Decisões Jurídicas
Uma Ideologia Renovadora
O Renovacionismo não se Opõe ao Tradicionalismo
O Islã Aprova o Renovacionismo
A necessidade de renovação nos meios Hassan Al-Banna não era rígido A rigidez é uma doença grave O que temo pelo movimento islâmico
Uma ideologia equilibrada
A atitude da ideologia equilibrada diante das questões importantes
O declínio da atitude equilibrada entre alguns islamistas em certos momentos
O equilíbrio anda de mãos dadas com a facilitação
O movimento deve adotar uma linha de facilitação
Uma ideologia voltada para o futuro
O Alcorão Sagrado e o futuro O Profeta e o futuro
Capítulo 4: O Movimento Islâmico nos níveis político e mundial
Rumo a um Fiqh Político Racional
Fenômenos Ideológicos Adversos
Uma Deficiência que Deve Ser Corrigida no Fiqh Político
Um Diálogo Importante sobre o Fiqh Político O Uso Incorreto da Sira do Profeta para a Inferência Absoluta de Juízos
O Movimento e a Libertação dos Territórios Muçulmanos
O Movimento e os Movimentos de Libertação
O Movimento e as Minorias Muçulmanas
Fatos Importantes sobre as Minorias Muçulmanas
Do que essas minorias mais precisam? Uma nação sem liderança [nem um califa nem um papa]
A missão do Movimento a esse respeito
O Movimento e os expatriados
Por que o interesse pelos expatriados?
A necessidade da presença islâmica no Ocidente
Um conservadorismo sem isolamento e uma abertura sem dissolução
Os cinco deveres dos muçulmanos expatriados
Advertência contra duas coisas
O Movimento, a Liberdade Política e a Democracia
O Movimento Islâmico e as Minorias Étnicas e Religiosas
O Problema das Minorias Étnicas é Resolvido no Islã; Como Resolver o Problema das Minorias Religiosas?
O Movimento e o Diálogo com os Outros
O Diálogo com os Secularistas Racionais
O Diálogo com os Governantes Racionais
O Diálogo com os Ocidentais Racionais
O Diálogo Religioso (Islâmico-Cristão)
O diálogo intelectual (com os orientalistas)
O diálogo político com o Ocidente
O Movimento Islâmico e a instituição religiosa oficial
O Movimento e os grupos do despertar islâmico
Conclusão
A necessidade de trabalho em tempo integral nas tarefas do Movimento por
indivíduos competentes
A qualificação dos especialistas
Um Centro de Informação e Pesquisa
ANEXOS Fatwas proferidas pelo Xeique do Islã Ibn Taymia
A permissibilidade de assumir um cargo público em um Estado injusto, se o ocupante
pudesse aliviar parte da injustiça ou conter o mal e a corrupção
O conflito entre coisas boas e más (em uma situação)
GLOSSÁRIO
Prefácio
De todas as conspirações tramadas contra o Islã nos tempos modernos, a mais perigosa é uma falsa reivindicação de profecia feita no início deste século. Essa reivindicação tem sido a principal causa do amplo caos mental entre a Ummah nos últimos sessenta anos. Como em todos os outros cismas, a causa fundamental desse mal é que os muçulmanos, em geral, ignoram sua religião. Se tivessem sido verdadeiramente imbuídos de seu conhecimento e desenvolvido uma compreensão clara do artigo de fé relativo à finalidade da Profecia, teria sido quase impossível que qualquer falso pretendente à profecia criasse raízes e prosperasse entre o povo do Islã após o último ministério do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Neste momento, o remédio mais perfeito e eficaz para erradicar esse mal é instruir o maior número possível de pessoas, da melhor maneira possível, sobre a verdadeira fé na finalidade da Profecia de Muhammad (que a paz esteja sobre ele), enfatizando a importância e o valor desse artigo de fé na religião do Islã. É também imperativo que todas as dúvidas e concepções céticas sobre o último ministério do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) sejam dissipadas por meio da razão e da lógica. Este livreto foi preparado precisamente para esse propósito. Os leitores que o considerarem útil devem dar um passo adiante e oferecer sua plena cooperação na divulgação de seu conteúdo. Este livreto deve chegar a todas as pessoas alfabetizadas e estas, depois de estudá-lo, devem lê-lo para os analfabetos. Espera-se que o estudo deste livreto não apenas imunize as pessoas que não foram contaminadas por essa doença, mas também torne manifesta a verdade às pessoas sensatas entre aquelas que receberam alguns de seus germes. Entretanto, para aqueles que foram vítimas da falsidade e são impermeáveis a toda razão — para eles, a esperança e a salvação estão somente com Allah.
Abul A’la Maududi
Lahore: 12 de fevereiro de 1962.
Introdução
Em nome de Alá, o Misericordioso, o Beneficente
“Ó povo! Muhammad não é pai de nenhum dos vossos homens, mas, na verdade, é o Mensageiro de Deus e o último dos profetas. E Deus é Onisciente de todas as coisas.” (Surata Al
Ahzab: 40)
Este versículo foi revelado no quinto Ruku’ (para ou passagem) da Surah al-Ahzab. Neste Ruku’, Allah forneceu respostas a todas as objeções levantadas pelos hipócritas, que haviam provocado uma tempestade de calúnias, difamações e intrigas a respeito do casamento do Santo Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) com Hadrat Zainab (que Allah esteja satisfeito com ela).
Esses hipócritas alegavam que Zainab era a esposa de um filho adotivo do Santo Profeta e que, por essa relação, ocupava a posição de nora do Profeta. Assim, depois de seu divórcio de Zaid, o Profeta teria tomado sua própria nora como esposa. Para refutar essa acusação, Allah declarou claramente, no versículo 37, que esse casamento tinha sanção divina e servia como precedente legítimo para que os homens muçulmanos se casassem com as esposas de seus filhos adotivos depois que elas tivessem sido divorciadas por seus maridos. Mais tarde, nos versículos 38 e 39, Allah afirmou que nenhum poder poderia impedir o Profeta de cumprir uma obrigação divina. Os Profetas são ordenados a temer a Deus, não as pessoas. Tem sido uma prática invariável dos Apóstolos transmitir a mensagem divina sem qualquer preocupação estranha à missão e cumprir os deveres impostos por Allah sem medo nem hesitação. Depois, foi revelado um versículo que eliminou a base de todas as objeções. Em primeiro lugar, eles haviam acusado: “Tomaste tua nora como esposa, contrariando a tua própria lei, segundo a qual a esposa de um filho é proibida ao seu pai.” Em refutação dessa acusação, o Todo-Poderoso afirmou: “Muhammad não teve filhos entre vossos homens…”, deixando absolutamente claro que o homem cuja esposa divorciada foi tomada pelo Profeta em casamento não era seu filho verdadeiro; portanto, o ato não implicava violação dessa lei. O argumento da segunda acusação era o seguinte: “Admitindo-se que o filho adotivo não é o filho verdadeiro, e que, com base nisso, um pai poderia legitimamente casar-se com a esposa divorciada de seu filho adotivo, onde estava, porém, a necessidade de o Profeta fazê-lo?” Allah afirmou, em resposta a essa acusação: “Mas, na verdade, ele é o Apóstolo de Allah.” A implicação é que era um mandamento de Allah ao Santo Profeta eliminar todos os preconceitos e declarar lícitos todos os tabus que o costume pagão havia imposto desnecessariamente às pessoas. Nesse aspecto, a ação do Profeta foi inequívoca e não deixou espaço para dúvidas. [Neste ponto, aqueles que negam a finalidade da Profecia de Muhammad (PBUH) exigem saber em que tradição essa acusação foi relatada. Essa pergunta, na realidade, expõe a sua ignorância. O Santo Qur’an fornece respostas às acusações dos intrigantes em diversos pontos sem mencionar de fato a acusação. Em cada caso, contudo, o texto pertinente traz evidência inconfundível sobre qual acusação está sendo respondida. Também no presente caso, a resposta contém a substância da pergunta. O uso da palavra conjuntiva “mas” no fim da primeira frase pressupõe que uma parte da pergunta ainda precisava ser tratada. A segunda frase, portanto, fornece a resposta à parte restante da pergunta. A primeira frase havia revelado aos objetores a resposta à acusação de que ‘Muhammad havia se casado com sua nora’. Contudo, o segundo ponto da pergunta — “onde estava a necessidade de o Profeta fazê-lo?” — ainda exigia uma resposta. Essa resposta foi dada pela frase seguinte do texto: “Mas, na verdade, Muhammad é o Apóstolo de Deus e o último na linhagem dos Profetas de Deus.” O ponto pode ser explicado melhor por meio de uma ilustração de uma conversa comum. Alguém diz: “Zaid não se levantou, mas Bakr se levantou.” Isso transmite o sentido de que Zaid não se levantou, mas a questão não termina aí, pois dá origem à pergunta: “Se Zaid não se levantou, quem se levantou então?” A oração subordinada da frase acima — “mas Bakr se levantou” — fornece uma resposta a essa pergunta. O mesmo ocorre no caso acima.] Para dar ênfase especial a esse ponto, Allah observa: (Khatim Al-Nabbiyeen) “E ele é o último na linhagem dos Profetas”, o que significa que nenhum mensageiro, nem mesmo um Profeta encarregado da missão de realizar reformas no âmbito da Lei ou da sociedade que possam ter sido omitidas (Deus nos livre) durante a vida de Muhammad (PBUH), jamais o sucederá. Como Allah determinou que o ministério do Profeta Muhammad (PBUH) fosse definitivo, era, portanto, imperativo que ele cumprisse a tarefa de erradicar esse costume pagão. Mais tarde, o ponto foi enfatizado novamente na revelação (Wa Kan ul-Allahi Bekulle Shai-in ‘Aleema): “Deus está Ciente de todas as coisas.” O verdadeiro significado dessa revelação é que Allah considerou melhor remover esse costume pagão por meio do Profeta Muhammad (PBUH), e que somente Allah poderia avaliar o dano que a perpetuação desse costume infiel teria causado. Allah sabia perfeitamente que a linhagem da Profecia terminava em Muhammad (PBUH), cujo exemplo toda a ummah seguiria; e, se ele não tivesse abolido esse costume, não surgiria homem comparável em posição ao Profeta Muhammad (PBUH) que pudesse realizar essa tarefa. E, supondo que um reformador tivesse surgido em tempos posteriores para romper esse costume, seu ato não teria constituído um precedente universal ou permanente para os muçulmanos de todas as épocas e de todos os países seguirem. Nenhuma outra pessoa que viesse depois encarnaria a santidade divina ligada à pessoa do Profeta Muhammad (PBUH). Portanto, o precedente de nenhum homem, senão Muhammad, tem o potencial de eliminar das almas humanas, para todos os tempos futuros, a ideia de todos os costumes pagãos.
O Veredito do Texto do Qur’an
Um grupo que, nos tempos modernos, levantou a heresia de uma nova profecia explica o significado da ideia da “Finalidade da Profecia” como o ‘Selo da Profecia’, dando a entender, com isso, que todos os profetas que sucederiam Muhammad (PBUH) levariam o seu selo e alcançariam a profecia somente por meio de seu selo. Ninguém, em outras palavras, que não levasse o selo de Muhammad (PBUH) alcançaria o status de Profeta. Mas o contexto em que o termo “o último na linhagem dos Profetas” foi revelado no Santo Qur’an não deixa margem para tal especulação. Se, de fato, o termo “o último na linhagem dos Profetas” tivesse o significado pretendido por esse grupo, então esse termo estaria certamente deslocado no contexto em que foi revelado. Além disso, quando se atribui ao termo esse significado, distorce-se todo o propósito do versículo revelado. Neste versículo, Deus refuta a acusação e dissipa as dúvidas criadas pelos maliciosos sobre o casamento do Profeta Muhammad (PBUH) com Zainab (que Allah esteja satisfeito com ela), a esposa divorciada de Zaid, filho adotivo do Profeta. Seria razoável inserir subitamente, nesse contexto, a ideia de que Muhammad (PBUH) era o ‘selo dos Profetas’ e de que Allah lhe havia delegado a autoridade de atestar a legitimidade dos profetas que o sucederiam? Essa interpretação não tem a menor relação com o contexto e é contrária ao propósito do argumento divino contra os hereges. Se essa interpretação fosse verdadeira, os descrentes poderiam muito bem ter argumentado: “Não há pressa em eliminar esse costume agora. Podeis seguramente deixar essa tarefa para os vossos profetas sucessores, que levarão o vosso selo.” Segundo uma segunda interpretação da ideia da finalidade da Profecia, apresentada por esse grupo, afirma-se que o termo “Último na linhagem dos Profetas” significa o “Profeta exaltado”. Eles explicam ainda que a linhagem dos Apóstolos continuará, embora a excelência da Profecia tenha atingido o seu ápice na pessoa de Muhammad (PBUH). Essa interpretação não é menos defeituosa e nociva que a primeira. Quase não tem relação com o contexto e, de fato, transmite um sentido contraditório ao versículo. Seguindo essa linha de argumentação, os infiéis e hipócritas poderiam plausivelmente ter observado: “Senhor, haverá outros profetas depois de vós, ainda que inferiores em posição em comparação convosco, para cumprir a missão divina; por que deveis assumir também a tarefa de remover esse costume?”
O Significado Dicionarizado da Palavra ‘Khatam-al-Nabiyyin’
É evidente que o texto comporta um significado, a saber: Khatam-al-Nabiyyin representa a Finalidade da Profecia, com a clara implicação de que a profecia foi culminada e finalizada em Muhammad (PBUH). Não é apenas o contexto que sustenta essa interpretação, mas também a lexicografia. Segundo o léxico árabe e o uso linguístico, Khatam significa afixar um selo; fechar, chegar ao fim; e levar algo ao seu término definitivo. Khatama al-‘Amala equivale a ‘Faragha min al-‘Almali’, que significa ‘concluir a tarefa’. ‘Khatama al-Ina’ significa ‘O recipiente foi fechado e selado, de modo que nada possa entrar nele, nem o seu conteúdo possa derramar-se’. ‘Khatam-al-kitab’ transmite o sentido de ‘A carta foi encerrada e selada, de modo que fique finalmente protegida’. ‘Khatama-‘Ala-al-Qalb’ significa ‘O coração foi selado, de modo que não possa perceber nada novo nem renegar o que já assimilou’. ‘Khitamu-Kulli-Mashrubin’ implica ‘o sabor final que permanece na boca quando a bebida termina’. Katimatu Kulli Shaiinn ‘Aqibatuhu wa Akhiratuhu significa “O fim de tudo denota sua ruína e conclusão definitiva.” Khatm-ul-Shaii Balagha Akhirahu transmite o sentido: “Terminar algo significa levá-lo ao seu limite definitivo.”
O termo Khatam-i-Qur’an é usado em sentido semelhante, e os versículos finais das Surahs corânicas são chamados Khawatim. Khatim-ul-Qaum Akhirhuum significa “O último homem da tribo.” (Consultar Lisan-ul-‘Arab; Qamus e Aqrab-ul-Muwarid). [Referimos aqui três léxicos, mas a elucidação desse ponto não se limita apenas a essas obras. Todos os dicionários autorizados da língua árabe interpretam a palavra Khatam no sentido que lhe atribuímos. Contudo, os negadores da Finalidade da Profecia, em seu esforço para desferir um ataque sorrateiro contra a religião de Deus, argumentam que, se nos referirmos a alguém como ‘Último dos Poetas’, ‘Último dos Juristas’ ou ‘Último dos Comentaristas’, não queremos necessariamente dizer que nenhum poeta, jurista ou comentarista virá depois dele; queremos apenas dizer que toda a excelência de sua atividade se concentrou em tais homens. A realidade, porém, é que, quando usamos esses epítetos exagerados para alguém, não substituímos nem eliminamos, com isso, o significado original da palavra ‘Último’. É absurdo supor que, por seu uso metafórico para designar a excelência ou perfeição de um homem, a palavra ‘Último’ perca seu significado original ou real, que é ‘Final’. Tal suposição só pode ser aceita por alguém que não possui conhecimento elementar das regras gramaticais. Não há princípio gramatical em nenhuma língua pelo qual o significado metafórico de uma palavra possa ser tomado como seu significado real ou original. Além disso, o significado metafórico jamais substitui ou apaga o significado real e básico da palavra. Quando dizeis a um árabe ‘Ja Khatam ul-Qaum’, ele certamente não entenderá que ‘chegou o homem perfeito ou mais excelente da tribo’. Pelo contrário, entenderá que ‘toda a tribo, até o último homem, chegou’. Há outro ponto a considerar. Termos como ‘Último Poeta’, ‘Último Jurista’ ou ‘Último Narrador de hadith’ são elogios usados pelos homens para outros seres humanos que eles consideram perfeitos e excelentes. Aqueles que usam essas hipérboles para outros homens certamente não podem dizer, nem sabem, se pessoas de tal excelência surgirão em tempos posteriores. Assim, na linguagem humana, essas denominações são hipérboles; mas, quando Deus declara que determinada qualidade foi culminada em uma pessoa, não há razão para interpretar isso metaforicamente, à maneira da expressão humana. Se Allah tivesse declarado alguém como ‘Último Poeta’, ele seria o último poeta no sentido literal da palavra. Se Allah nomeia alguém como Seu ‘Último Profeta’, não há absolutamente nenhuma possibilidade de outra pessoa alcançar essa dignidade depois dele. Deus é Onisciente. O homem possui apenas conhecimento limitado. Sendo assim, como se pode interpretar o louvor humano a uma pessoa como ‘Último Poeta’ ou último dos juristas no mesmo sentido da declaração de Deus de que uma pessoa é o ‘Último Profeta’?] Por essa razão, todos os linguistas e comentaristas concordam que Khatam-ul-Nabiyyin significa ‘O Último na linhagem dos Profetas’. A palavra Khatam, em seu significado dicionarizado e em seu uso linguístico, não se refere ao selo postal afixado na correspondência enviada. Seu significado literal é o ‘selo’ que é colocado no envelope para proteger seu conteúdo.
As Declarações do Santo Profeta(PBUH) Sobre a Finalidade da Profecia
O significado da palavra Khatam que emerge do contexto do Santo Qur’an e que é o mesmo apresentado em todos os léxicos da língua árabe também é confirmado pelas declarações do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos estejam com ele). Citamos algumas tradições autênticas para ilustrar o ponto em questão: O Santo Profeta (PBUH) observou: “A tribo de Israel era guiada por profetas. Quando um profeta falecia, outro profeta o sucedia. Mas nenhum profeta virá depois de mim; somente califas me sucederão.” (Bukhari, Kitab-ul-Manaqib). O Profeta de Deus (PBUH) afirmou: “Minha posição em relação aos profetas que vieram antes de mim pode ser explicada pelo seguinte exemplo: Um homem construiu um edifício e adornou essa construção com grande beleza, mas deixou um nicho vazio, no canto onde faltava apenas um tijolo. As pessoas olharam ao redor do edifício e maravilharam-se com sua beleza, mas perguntaram-se por que faltava um tijolo naquele nicho. Eu sou como esse tijolo ausente e sou o último na linhagem dos Profetas.” (Bukhari, Kitab-ul-Manaqib). (Em outras palavras, com o advento do Profeta Muhammad (PBUH), o edifício da Profecia foi concluído, e não há nicho vazio nesse edifício que possa dar lugar a outro profeta.) Quatro tradições relacionadas a esse assunto estão registradas em Muslim, Kitab-ul-Fada’il, Babu Khatimin-Nabiyyin. A última tradição contém a seguinte frase adicional: “Então eu vim, e em mim terminou a linhagem dos Profetas.” A mesma tradição, com palavras semelhantes, foi relatada em Tirmidhi, Kitab-ul-
Manaqib, capítulo Fadlin Nabi, e Kitab-Adab, capítulo Bab-ul-Amthal. Em Musnad Abu Dawud
Tayalisi, esta tradição foi incluída entre outras tradições transmitidas por Jabir bin Abdullah; e sua última frase diz: “Foi em mim que a linhagem dos Profetas chegou ao seu fim.” Musnad Ahmad contém tradições transmitidas por Hazrat Ubayyi bin Ka’b, Hazrat Abu Sa’id Khudri e Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com eles) sobre o mesmo assunto, com pequenas variações nas palavras. Foi-me concedido o dom de um discurso conciso e perfeito. Foi-me concedida a vitória por meio do temor reverencial que inspiro. Os espólios de guerra foram tornados lícitos para mim. Toda a terra foi feita para mim um lugar de adoração e também um meio de purificação. Em outras palavras, na minha religião, a oração não se restringe a determinados lugares de culto. As orações podem ser oferecidas em qualquer lugar da terra. E, caso não haja água disponível, é permitido ao meu povo realizar a ablução com terra (tayammum) e purificar-se com o solo quando houver pouca água para o banho. Fui enviado por Allah para transmitir Sua mensagem divina ao mundo inteiro. E em mim a linhagem dos Profetas chegou ao seu fim. (Muslim, Tirmidhi,
Ibn Majah)
O Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou: “Deus concedeu-me seis favores que os Profetas anteriores não desfrutaram: O Profeta de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “A cadeia dos Mensageiros e Profetas chegou ao fim. Não haverá Mensageiro nem Profeta depois de mim.” (Tirmidhi,
Kitab-ur-Rouya, capítulo Babu Zahab-un-Nubuwwa, Musnad Ahmad, Marwiyat-Anas bin
Malik) O Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou: “Eu sou Muhammad, sou Ahmad, sou aquele que apaga, e a incredulidade será apagada por meu intermédio; sou aquele que reúne. As pessoas serão reunidas no Dia do Juízo depois do meu tempo. (Em outras palavras, o Fim dos Tempos é meu único sucessor.) E sou o último, no sentido de que nenhum profeta me sucederá.”
(Bukhari e Muslim, Kitab-ul-Fada’il, capítulo Asmaun-Nabi; Tirmidhi, Kitab-ul-
Adab, capítulo Asma-un-Nabi; Muatta’, Kitab-u-Asma in-Nabi, Al-Mustadrak Hakim,
Kitab-ut-Tarikh, capítulo: Asma-un-Nabi.)
O Profeta de Deus (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) observou: “Deus Todo-Poderoso não enviou ao mundo nenhum apóstolo que não tivesse advertido o seu povo sobre o aparecimento do Dajjal (o Anticristo; porém, o Dajjal não apareceu no tempo deles). Eu sou o último na linhagem dos Profetas, e vós sois a última comunidade de crentes. Sem dúvida, portanto, o Dajjal surgirá dentre vós.” (Ibn Majah, Kitabul-Fitan, capítulo: Dajjal.) Abdur Rahman bin Jubair relatou: “Ouvi Abdullah bin Amr ibn-As narrar que, certo dia, o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu de sua casa e juntou-se à nossa companhia. O seu comportamento deu-nos a impressão de que estava a despedir-se de nós.” Ele disse: “Eu sou Muhammad, o profeta iletrado de Allah”, e repetiu essa afirmação três vezes. Depois declarou: “Não haverá profeta depois de mim.” (Musnad Ahmad, narrações de Abdullah bin Amr ibn-As.) O Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah não enviará nenhum Apóstolo depois de mim, mas somente os Mubashshirat.” Perguntaram: “O que significa al-Mubashshirat?” Ele respondeu: “Uma boa visão ou uma visão piedosa.” (Musnad Ahmad, narrações de Abu Tufail; Nasa’i; Abu Dawud.) (Em outras palavras, não há possibilidade de revelação divina no futuro. No máximo, se alguém receber uma inspiração de Allah, recebê-la-á sob a forma de um “sonho piedoso”.) O Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se um Apóstolo tivesse de suceder-me, teria sido Umar bin Khattab.” (Tirmidhi, Kitab-ul-Manaqib.) O Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a Hadrat Ali: “A tua relação comigo é como a relação de Aarão com Moisés (que a paz esteja sobre ele). Mas nenhum Apóstolo virá depois de mim.” (Bukhari e Muslim, Kitab Fada’il as-Sahaba.) Esta tradição também está registrada em Bukhari e Muslim no relato da batalha de Tabuk. O Musnad registra duas tradições narradas por Hadrat Sad bin Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) sobre este assunto. A última frase de uma delas é a seguinte: “Sabei que não haverá profecia depois de mim.” Relatos detalhados das tradições incorporadas em Abu Dawud Tayalisi, Imam Ahmad e Muhammad bin Ishaque informam que, na véspera da sua partida para a batalha de Tabuk, o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) decidiu deixar Hadrat Ali para trás, a fim de cuidar da defesa e supervisionar os assuntos de Medina. Os hipócritas começaram então a espalhar insinuações e rumores sobre Hadrat Ali. Hadrat Ali foi ter com o Profeta e disse: “Ó Profeta de Allah, deixas-me entre mulheres e crianças?” Nessa ocasião, para tranquilizar o seu espírito, o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) observou: “A tua relação comigo é como a de Aarão com Moisés.” Em outras palavras: “Assim como Hadrat Moisés, no monte Tur, deixou Hadrat Aarão para trás para cuidar da tribo de Israel, também eu (Muhammad) te deixo para trás para cuidar da defesa de Medina.” Ao mesmo tempo, prevendo que essa comparação com Hadrat Aarão poderia mais tarde dar origem a heresias, o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) esclareceu imediatamente: “Não haverá Profeta depois de mim.” Thauban relata: “O Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) observou: Surgirão trinta impostores na minha Ummah, e cada um deles proclamará ao mundo que é profeta; mas eu sou o último na linhagem dos Profetas de Deus, e nenhum Apóstolo virá depois de mim.” (Abu Dawud, Kitab-ul-Fitan.) Abu Dawud, em Kitab-ul-Malahim, registrou outra tradição narrada por Abu Huraira sobre o mesmo assunto. Tirmidhi também registrou essas duas tradições, narradas por Hadrat Thauban e Hadrat Abu Huraira. O texto da segunda tradição é o seguinte: “Chegará o momento em que surgirão trinta impostores, e cada um deles apresentará a sua pretensão de ser o Apóstolo de Deus.” O Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) observou: “Entre os filhos de Israel que vos precederam, houve pessoas que mantinham comunhão com Deus, embora não fossem Seus Profetas. Se alguma vez surgisse entre o meu povo alguém que mantivesse comunhão com Deus, não seria outro senão Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).” (Bukhari, Kitab-ul-Manaqib.) Uma versão desta mesma tradição em Muslim contém Muhaddithuna em vez de Yukallimuna. Contudo, Mukalima e Muhaddith têm significado idêntico, isto é, um homem que desfruta do privilégio de manter comunhão direta com Deus, ou uma pessoa a quem o Todo-Poderoso se dirige a partir do invisível. Concluímos, portanto, que, se tivesse existido entre os seguidores de Muhammad alguém capaz de manter comunhão com Deus sem ser elevado à dignidade da profecia, esse alguém teria sido Umar.
O Profeta de Deus (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Nenhum Profeta virá depois de mim e, portanto, não haverá outra comunidade de seguidores de um novo profeta.” (Baihaqi, Kitab-ul-Rouya; Tabarani.) O Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) observou: “Sou o último na linhagem dos profetas de Deus, e a minha Masjid é a última Masjid” (referindo-se à sagrada Masjid do Profeta). [Referindo-se a esta tradição, os que negam a Finalidade da Profecia argumentam que o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou a sua mesquita de “a última mesquita”, apesar de ela não ser a última, visto que inúmeras outras mesquitas foram construídas depois dela em todo o mundo. Do mesmo modo, quando o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) observou: “Sou o último Profeta”, isso não significaria que a linhagem dos profetas tivesse terminado, mas que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era o último quanto à sua excelência entre os Profetas de Deus, e que a mesquita era a última no mesmo sentido. Esse raciocínio insensato é uma prova irrefutável de que essas pessoas perderam a capacidade de compreender o verdadeiro significado das palavras de Deus e do Seu Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Mesmo uma breve consideração de toda a cadeia de tradições no contexto da qual esta tradição foi registrada torna claro, para qualquer pessoa, o verdadeiro sentido das palavras do Santo Profeta. Nesse contexto, as várias tradições que Imam Muslim registrou sob a autoridade de Hadrat Abu Huraira, Hadrat Abdullah bin Umar e da mãe dos Crentes, Hadrat Maimuna, relatam que há apenas três mesquitas no mundo às quais se atribui a maior santidade, e que são sagradas acima de todas as outras mesquitas. A adoração nessas mesquitas é recompensada com bênçãos mil vezes maiores em comparação com a oração oferecida em outras mesquitas. Por essa razão, foi declarado lícito viajar até essas mesquitas para oferecer orações nelas. Nenhuma outra mesquita, além dessas três, pode reivindicar tal santidade que uma pessoa deva viajar para adorá-la, deixando todas as outras mesquitas. Entre as três mesquitas que possuem a maior santidade no Islão, a primeira é a Masjid al-Haram, construída por Hadrat Abraão (que a paz esteja sobre ele); a segunda é a Masjid al-Aqsa, erguida por Hadrat Sulaiman (que a paz esteja sobre ele); e a terceira é a Masjid-i-Nabawi, na cidade santa de Medina, fundada pelo Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A observação do Santo Profeta a respeito da “última mesquita” deve ser vista neste contexto. As palavras do Profeta significavam que nenhum Profeta viria depois dele; consequentemente, não haveria uma quarta mesquita depois da última Masjid-i-Nabawi, a mesquita do último Profeta. Portanto, nenhuma outra mesquita deveria possuir tal santidade que a adoração nela fosse recompensada com mais bênçãos do que a adoração em outras mesquitas; além disso, não haveria uma quarta mesquita para a qual fosse lícito, ou mesmo desejável, que as pessoas viajassem a fim de oferecer orações.] (Muslim, Kitab-ul-Hajj; capítulo: Fadl-us-Salat bi Masjidi Mecca wal Medina.) Um grande número dessas tradições do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi relatado pelos Companheiros, e muitos compiladores as registraram a partir de fontes autorizadas. O estudo dessas tradições mostra que o Santo Profeta, em várias ocasiões, de várias maneiras e com diferentes palavras, deixou explicitamente claro que era o último Profeta de Deus; que nenhum profeta o seguiria e que a linhagem dos profetas terminara nele. Além disso, aqueles que depois dele afirmassem ser Profetas e Mensageiros de Deus seriam impostores e mentirosos. [Em contraste com as observações do Santo Profeta, os que negam a Finalidade da Profecia citam as seguintes palavras atribuídas a Hadrat Aisha: “Dizei, na verdade, que o Santo Profeta é o Último Apóstolo de Deus; mas não digais que nenhum profeta virá depois dele.” Em primeiro lugar, é uma audácia citar as palavras de Hadrat Aisha para contradizer a ordem explícita do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Além disso, as próprias palavras atribuídas a Hadrat Aisha não são autênticas. Nenhuma obra autorizada de Hadith contém essa observação de Hadrat Aisha, nem qualquer compilador notável de tradições a registrou ou mencionou. Essa tradição deriva de um comentário intitulado Durr-i-Manthur e de uma compilação de Hadith conhecida como Takmilah Majma-ul-Bihar, mas a sua fonte e as suas credenciais são desconhecidas. É o cúmulo da audácia apresentar a declaração de uma Companheira para contradizer as observações explícitas do Santo Profeta, que os eminentes tradicionalistas transmitiram por cadeias de transmissão da mais elevada autenticidade.]
Não pode haver interpretação autêntica, digna de crédito e conclusiva das palavras do Santo Qur’an, Khatam-un-Nabiyyin, além daquela dada pelo Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), pois as credenciais do Santo Profeta não necessitam de prova e a autoridade das suas palavras é incontestável. As suas palavras são autênticas e constituem, por si mesmas, uma prova. Quando o Profeta explica um Nass do Santo Qur’an, a sua explicação é a mais autêntica e uma prova definitiva. A questão é: quem, além do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a quem o Qur’an foi revelado, está mais qualificado para compreender o seu significado e explicar-nos o seu conteúdo? E, quando alguém apresenta uma explicação alternativa, deveremos considerar as suas alegações dignas da nossa consideração, quanto mais da nossa aceitação?
O Consenso dos Companheiros
Depois do Santo Qur’an e da Sunnah, o consenso dos Companheiros do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ocupa a terceira posição. Todas as tradições históricas autênticas revelam que os Companheiros do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) travaram unanimemente uma guerra contra os que reivindicavam a profecia e contra os seus seguidores, após o falecimento do Santo Profeta. Nesse contexto, o caso de Musailama é particularmente significativo. Esse homem não negava que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fosse o Profeta de Deus; afirmava que Deus o havia nomeado co-profeta com Muhammad para partilhar a sua missão. A carta que enviou ao Santo Profeta pouco antes da morte de Musailama dizia: “De Musailma, o profeta de Deus, para Muhammad, o Profeta de Deus (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Desejo informar-te de que fui nomeado teu parceiro para partilhar o fardo da profecia.” O historiador Tabari registrou uma tradição segundo a qual o chamamento à oração (Adhan) que Musailama havia elaborado para os seus seguidores incluía as palavras: “Testemunho que Muhammad é o Profeta de Deus.” Apesar da clara afirmação de Musailama sobre a profecia de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele foi declarado apóstata e excluído da sociedade do Islão. Não apenas isso: foi travada uma guerra contra Musailama. A História também testemunha que a tribo de Hunaifa (Banu Hunaif) aceitou de boa-fé a pretensão de Musailama à profecia. Foram sinceramente levados a acreditar que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia, por iniciativa própria, declarado Musailama seu parceiro na profecia. Um homem que havia aprendido o Qur’an na cidade santa de Medina foi até a tribo de Banu Hunaifa e apresentou falsamente os versículos do Qur’an como tendo sido revelados a Musailama. Embora Banu Hunaifa tivesse sido deliberadamente mal informado, os Companheiros do Santo Profeta não o reconheceram como muçulmano e enviaram um exército contra ele. Não há fundamento para considerar que os Companheiros lutaram contra eles como rebeldes, e não como apóstatas. A Lei Islâmica determina que, numa guerra contra muçulmanos rebeldes, os prisioneiros capturados em batalha não devem ser escravizados. A lei também determina que nem mesmo os Dhimmis rebeldes, quando capturados em batalha, sejam escravizados. Porém, quando foi empreendida ação militar contra Musailama e os seus seguidores, Hadrat Abu Bakr declarou que as mulheres e as crianças do inimigo seriam tomadas como escravas; e, quando foram capturadas em batalha, foram escravizadas. Uma dessas meninas foi dada como escrava a Hadrat Ali. Ela deu-lhe um filho chamado Muhammad bin Hanfiya, uma figura renomada na história do Islão. (Al-Badaya wan-Nihaya, vol. VI, pp. 316 e 325.) Este acontecimento é uma prova clara de que, quando os Companheiros lutaram contra Musailama, não o acusaram de rebelião. A acusação contra ele era que havia reivindicado a profecia depois de a linhagem dos Profetas ter terminado em Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e que, desse modo, havia induzido outras pessoas a acreditar na sua reivindicação de profecia. A ação contra Musailama foi empreendida imediatamente após a morte do Santo Profeta, sob a liderança de Hadrat Abu Bakr Siddique (que Allah esteja satisfeito com ele), e teve o apoio unânime de todo o conjunto dos Companheiros. Não se pode encontrar exemplo melhor e mais explícito do consenso dos Companheiros do que este.
O Consenso de Todos os Ulema da Ummah
Depois do consenso dos Companheiros, a autoridade seguinte é o consenso, em questões religiosas, dos ulema muçulmanos que vieram depois da época dos Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles). Uma análise da história do Islão, desde o primeiro século até aos tempos modernos, revela que os ulema de todos os períodos, em todos os países islâmicos do mundo, são unânimes na convicção de que nenhum novo profeta pode ser enviado depois de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Todos concordam que qualquer pessoa que reivindique a profecia depois de Muhammad, e qualquer pessoa que acredite em tal reivindicação, é apóstata e está excluída da comunidade do Islão. Os seguintes fatos são apresentados como ilustração disso: Um homem, no tempo do Imam Abu Hanifa (80 A.H.–150 A.H.), reivindicou a profecia e disse: “Deixai-me mostrar-vos as provas da minha profecia.” O grande Imam advertiu então o povo: “Qualquer pessoa que peça a esse homem as credenciais da profecia tornar-se-á apóstata, pois o Profeta de Deus (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou explicitamente: ‘Nenhum profeta virá depois de mim.’” (Manaqib al-Imam-i-Azam Abi Hanifa, Ibn Ahmad al-Makki, vol. I, p. 161, publicado em Hyderabad, Índia, 1321 A.H.) Allama Ibn Jarir Tabari (224 A.H.–310 A.H.), no seu célebre comentário do Santo Qur’an, apresenta a seguinte interpretação do versículo “walakin Rasul Allahi wa Khatam-ul Nabiyyin”: “Ele encerrou e selou a profecia, e a porta da profecia não se abrirá para ninguém até ao fim do mundo.” (Ver o Comentário de Ibn-i-Jarir, vol. 22, p. 12.) No seu livro Aqida-i-Salfia, ao explicar as crenças dos piedosos antepassados, particularmente as de Imam Abu Hanifa, Imam Abu Yusuf e Imam Muhammad, Imam Tahavi (239 A.H.–321 A.H.) escreve que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é um servo de Deus altamente venerável. É o Profeta escolhido e o Mensageiro predileto de Allah. É o último dos Profetas, o líder dos piedosos, o chefe dos Mensageiros de Allah e o amado do Senhor. Depois dele, toda reivindicação de profecia é um erro manifesto e uma adoração do próprio eu maligno. (Sharah al-Tahawiya Fil-‘Aqidatul-Salfia, Dar-ul-Ma’arif, Egito, pp. 15, 87, 96, 97, 100, 102.) Allama Ibn Hazm Andulasi (384 A.H.–456 A.H.) escreve: “É certo que a cadeia das revelações divinas chegou ao fim depois da morte do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A prova disso está no fato de que somente um profeta pode receber revelações divinas, e Deus afirmou que Muhammad não tem filhos entre os homens, que ele é o Mensageiro de Deus e que Ele selou o cargo de Profeta.” (Al-Mohallah, vol. 1, p. 26.) Imam Ghazali (450 A.H.–505 A.H.) diz: “Se se admitir o direito de negar a autoridade do consenso, isso dará origem a muitos absurdos. Por exemplo, se alguém disser que é possível uma pessoa alcançar o cargo de profeta depois do nosso Apóstolo Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não hesitaremos em declará-la infiel; mas, no curso de uma controvérsia, aquele que desejar provar que é pecado hesitar em declarar apóstata tal pessoa terá de recorrer ao consenso para apoiar os seus argumentos, pois a razão não decide contra a possibilidade da existência de um ‘novo profeta’. Quanto aos seguidores dos ‘novos profetas’, não serão incapazes de dar várias interpretações a La Nabiya Ba’di, ‘Não haverá Profeta depois de mim’, e Khatam-ul-Nabiyyin, ‘Último dos Profetas’. Um seguidor dos ‘novos profetas’ poderia dizer que Khatam-ul-Nabiyyin, ‘Último dos Profetas’, significa ‘último dos Mensageiros proeminentes’. Se argumentardes que ‘profetas’ é uma palavra comum, ele muito facilmente atribuirá a esse termo um significado particular em relação à sua própria ‘profecia’. Quanto a ‘Nenhum Profeta virá depois dele’, tal homem alegaria que essa expressão não diz que ‘nenhum Mensageiro o seguirá’. Há uma diferença entre um Profeta e um Mensageiro. O estatuto de Profeta é superior ao de Mensageiro. O fato é que tais absurdos podem ser levados ao infinito. Não é difícil, na nossa opinião, dar interpretações diferentes a uma palavra. Além disso, há amplo espaço para que as pessoas cometam erros continuamente na explicação dessas palavras claras. Nem sequer podemos dizer que aqueles que fazem tais interpretações são culpados de negar injunções claras. Mas, para refutar aqueles que depositam a sua fé em falsas explicações, diremos que toda a Ummah, por consenso, reconhece que as palavras ‘Nenhum Profeta virá depois dele’ e o contexto das tradições indicam que o Santo Profeta quis dizer: ‘Nenhum Profeta nem Mensageiro o seguirá.’ Além disso, a Ummah concorda que as palavras acima do Santo Profeta não deixam margem para interpretação diferente daquela que lhes foi dada pelo consenso da Ummah; e aquele que não se juntar ao consenso não passa de um dissidente.” (Al-Iqtisad Fil Aiteqad, p. 114, Egito.) [Citámos aqui o texto árabe original, na edição urdu, da opinião de Imam Ghazali, porque os que negam a ideia da Finalidade da Profecia desafiaram veementemente a autenticidade desta referência.]
Ibn Maryam; Muslim, Bab: Bayan Nuzul ‘Isa; Tirmidhi, Abwab-al-Fitan; Bab Fi
Nuzul ‘Isa; Musnad Ahmad, Marwiyat Abu Huraira)
Em outra tradição, a palavra jizya foi substituída por harb, «guerra», isto é, ele abolirá a jizya para os não crentes. [Em outras palavras, essa expressão significa que as diferenças entre os seguidores das várias religiões desaparecerão e toda a humanidade se unirá à irmandade do Islã. Consequentemente, não haverá mais guerra nem motivo para impor um tributo religioso a ninguém. Essa interpretação é apoiada pelas Tradições nº 5 e 15 citadas adiante.] Outra tradição, relatada por Hadrat Abu Huraira, diz: «O Dia do Juízo não acontecerá antes da descida de Jesus, filho de Maria», e essas palavras são seguidas pelo texto apresentado na tradição acima. (Bukhari, Kitab-ul-Muzalim:
Bab: Kasr-ul-Salib; Ibn Majah, Kitab-ul-Fitan al-Dajjal.)
Hadrat Abu Huraira relata que o Apóstolo (PBUH) de Allah observou: «Como estareis quando o filho de Maria descer entre vós e uma pessoa dentre vós exercer o cargo de Imam (líder nas orações)?» [A implicação é que Jesus (PBUH) não atuará como líder das orações. Ele fará as orações atrás do Imam dos muçulmanos já existente.]
(Bukhari, Kitab Ahadith Anbiya, Bab: Nuzul Isa; Muslim, Nuzul Isa; Musnad
Ahmad, Marwiyat Abu Huraira)
Hadrat Abu Huraira relata que o Apóstolo (PBUH) de Allah disse: «Cristo, filho de Maria, então matará os porcos e removerá a Cruz. Será realizada uma congregação para a oração em sua homenagem. Ele distribuirá uma quantidade tão enorme de bens que ninguém ficará necessitado de coisa alguma. Abolirá os impostos. Acampará em Rauha (um lugar situado a uma distância de 35 milhas de Medina) e, de lá, partirá para realizar o Hajj ou a Umrah, ou ambos.» (O narrador está em dúvida quanto a qual desses dois foi mencionado pelo Santo Profeta (PBUH). (Musnad Ahmad, Silsila
Relatos de Abi Huraira; Muslim, Kitab-ul-Hajj; Bab Jawaz-ul-Tamatttu fil-Hajj wa-
al-Qir’an) Hazrat Abu Huraira relata que o Profeta (PBUH) de Deus, depois de mencionar o exílio do Dajjal, disse: “Os muçulmanos estarão se preparando para a guerra contra o Dajjal e se alinharão em preparação para oferecer as Orações; e o Takbir terá sido pronunciado para as Orações quando, nesse ínterim, Cristo (PBUH), filho de Maria, descerá e conduzirá os muçulmanos na Oração. O inimigo de Deus, o Dajjal, ao vê-lo, começará a derreter-se como sal na água. Se Cristo (PBUH) deixasse o Dajjal sozinho, ele derreteria e morreria de qualquer modo, mas Deus fará com que o Dajjal seja morto pelas mãos de Cristo (PBUH), e Cristo mostrará aos muçulmanos sua lança manchada com o sangue do Dajjal.” (Mishkat, Kitab-ul-Fitan, Bab: al-Malahim, citado por Muslim) Hazrat Abu Huraira relata que o Apóstolo (PBUH) de Allah afirmou: “Nenhum Profeta virá durante o período entre mim e Jesus (PBUH). E Jesus descerá. Reconhecei-o quando o virdes; ele será um homem de estatura mediana e de tez clara e corada. Estará vestido com duas peças de roupa amarela. O cabelo de sua cabeça parecerá como se a água escorresse dele, embora seu cabelo não esteja molhado. Ele lutará pela causa do Islã. Quebrará a Cruz em pedaços. Matará os porcos. Abolirá a jizya para os não crentes. Em seu tempo, Deus porá fim a todas as outras religiões, exceto à religião do Islã. E Cristo matará o Dajjal. Ele viverá nesta terra por um período de quarenta anos e, ao fim desse período, falecerá. Os muçulmanos oferecerão as orações fúnebres de Cristo
(PBUH). (Abu Dawud, Kitab-ul-Malahim, Bab: Khuruj-ul-Dajjal; Musnad Ahmad,
Relatos de Abu Huraira)
Hazrat Jabir bin Abdullah relata que ouviu o Profeta (PBUH) dizer: “Então Cristo, filho de Maria, descerá. O líder dos muçulmanos lhe dirá: \”Vem, conduz-nos na Oração\”, mas ele responderá: \”Não; sede vós mesmos os vossos líderes na oração.\” [A implicação dessa observação de Cristo (PBUH) é que \”alguém dentre vós deve atuar como vosso líder.\”] Ele dirá isso em respeito à dignidade que Deus concedeu ao povo do Islã.” (Muslim, Bayan Nuzul Isa ibn Maryam; Musnad
Ahmad, Basilsila Marwiyat Jabir bin Abdullah)
A propósito do episódio de Ibn Sayyad, Jabir bin Abdullah relata que Umar bin Khattab (RAA) solicitou: \”Ó Apóstolo de Deus, permite-me matá-lo.\” Em resposta, o Profeta de Deus observou: \”Se este homem for de fato ele (referindo-se ao Dajjal), então será morto por Cristo, filho de Maria. Tu não o matarás. Mas, se este homem não for ele (o Dajjal), então não tens o direito de matar um indivíduo dentre aqueles a quem garantimos proteção (dhimmis).\” (Mishkat, Kitab-ul-Fitan, Bab: Qissa Ibn Sayyad, citado por Shara al-Sunnah al-Baghawi). Jabir b. Abdullah relata que, ao narrar o episódio do Dajjal, o Santo Profeta (PBUH) observou: \”Naquele momento, Cristo, filho de Maria, descerá subitamente entre os muçulmanos. Uma congregação se reunirá para a oração, e lhe será pedido: \”Ó Espírito de Deus, vem à frente e conduz-nos (na Oração).\” Mas ele dirá: ‘Não; o vosso próprio Imam deverá avançar e atuar como líder.’ Assim, quando os muçulmanos tiverem oferecido a oração da manhã, partirão para combater o Dajjal. Quando aquele mentiroso olhar para Cristo (PBUH), começará a derreter-se como sal na água. Cristo (PBUH) avançará contra ele e o matará. E acontecerá que toda pedra clamará: ‘Espírito de Allah, este judeu está escondido atrás de mim.’ Nenhum seguidor do Dajjal escapará da matança.” (Musnad Ahmad, Basissila
Riwayat Jabir b. Abdullah)
Hadrat an-Nawas b. Sam’an relata (ao narrar a história do Dajjal): “Enquanto isso, quando o Dajjal estiver ocupado cometendo tais atos, Deus enviará o Cristo, filho de Maria. Cristo (que a paz esteja sobre ele) descerá junto à torre branca, na parte oriental de Damasco, vestindo duas peças de roupa amarela e apoiando as mãos nos braços de dois anjos. Quando baixar a cabeça, parecerá que gotas de água caem de sua cabeça; e, quando a erguer, parecerá que pérolas escorrem em forma de gotas. Nenhum incrédulo que esteja ao alcance do ar de sua respiração — e o ar de sua respiração alcançará até onde sua vista alcançar — escapará da morte. Depois, o filho de Maria perseguirá o Dajjal, alcançá-lo-á junto ao portão de Lydda [Observe-se que Lod (a moderna Lydda) fica a poucos quilômetros de Tel Aviv, a capital do Estado de Israel, na Palestina. Os judeus construíram nesse lugar uma grande base aérea.] e o matará.” (Muslim, Dhikr Dajjal; Abu Dawud, Kitab ul-Malahim, Bab: Khuruj Dajjal; Tirmidhi, Abwab-ul-Fitan; Bab: Fi Fitna al-Dajjal; Ibn Majah, Kitab ul-Fitna, Bab: Fitna al-Dajjal)
Abdullah b. Amr b. al-As afirma que o Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) observou: “O Dajjal surgirá entre meu povo e sobreviverá por quarenta [aqui o narrador não tem certeza se o Profeta mencionou quarenta dias, quarenta meses ou quarenta anos]. Então Deus enviará Cristo, filho de Maria, ao mundo. Ele se parecerá com ‘Urwa b. Masud (um companheiro do Profeta). Cristo perseguirá o Dajjal e o matará. Depois disso, durante um período de sete anos, a situação do mundo será tal que não haverá conhecimento de qualquer disputa entre duas pessoas.” (Muslim, Dhikr-ul-Dajjal)
Hudhaifa b. Usaid al-Ghifari relata: “Certa vez, o Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele) veio visitar-nos quando estávamos sentados juntos e conversando. O Santo Profeta perguntou: ‘Sobre o que vocês estão falando?’ As pessoas responderam: ‘Estávamos falando sobre o Dia do Juízo.’ O Santo Profeta observou: ‘O Dia do Juízo não acontecerá antes do aparecimento de dez sinais.’ Então enumerou esses sinais: fumaça; Dajjal; Daabba; o nascer do sol no Ocidente; a descida de Cristo, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele); o aparecimento de Yajuj e Majuj; a formação de três enormes cavidades ou deslizamentos na terra — um no Oriente, o segundo no Ocidente e o terceiro nas ilhas Árabes — e, finalmente, um enorme incêndio que surgirá no Iêmen e conduzirá as pessoas até a planície do Juízo.” (Muslim, Kitab ul-Fitan wa Ashtrat-us Sa’h; Abu Dawud, Kitab ul-Malahim, Bab: Amarat ul-Sa’h)
É relatado por Thauban, o escravo liberto do Santo Profeta, que o Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele) observou: “Deus concederá proteção contra o fogo do Inferno a dois grupos dentre o povo da minha Ummah. Um grupo será constituído por aqueles que invadirão a Índia; o outro grupo será constituído por aqueles que se alinharão com Cristo, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele).” (Nasa’i, Kitab ul-Jihad; Musnad Ahmad, Bisilsila Riwayat Thauban)
Mujamme b. Jaria Ansari relata: “Ouvi o Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele) dizer: Cristo, filho de Maria, matará o Dajjal junto ao portão de Lod (Lydda).” (Musnad Ahmad, Tirmidhi, Abwab-ul-Fitan)
Abu Umama al-Bahli (mencionando o Dajjal no curso de uma longa tradição) relata: “Exatamente quando o Imam dos muçulmanos avançar para conduzir as orações da manhã, Cristo, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele), descerá entre eles. O Imam recuará para dar lugar a Cristo para conduzir as orações. Mas Cristo, tocando o Imam no meio dos ombros, dirá: ‘Não; tu serás o líder, pois esta congregação se reuniu para seguir-te na oração.’ Assim, o Imam conduzirá as orações. Quando a oração terminar, Cristo (que a paz esteja sobre ele) ordenará: ‘Abri o portão.’ O portão será aberto. O Dajjal estará do lado de fora do portão com um exército de setenta mil soldados judeus. Assim que o Dajjal avistar Cristo (que a paz esteja sobre ele), dir-lhe-á: ‘Golpear-te-ei com tamanha força que não sobreviverás ao golpe.’ Cristo (que a paz esteja sobre ele) perseguirá o Dajjal e o alcançará junto ao portão oriental de Lod (Lydda). Deus fará com que os judeus sejam derrotados. A terra ficará cheia de muçulmanos como um recipiente cheio até a borda de água; o mundo inteiro recitará a mesma Kalima, e a adoração será oferecida a ninguém além de Deus Todo-Poderoso.” (Ibn Majah, Kitab-ul-Fitan; Bab: Fitan Dajjal)
`Uthman b. Abi al-`As relata que ouviu o Profeta de Deus (que a paz esteja sobre ele) dizer: “E Cristo, filho de Maria, descerá no momento da oração da manhã. O líder dos muçulmanos dir-lhe-á: ‘Ó espírito de Deus, sê nosso líder na oração.’ Ele responderá: ‘As pessoas desta Ummah são líderes umas das outras.’ Então o líder dos muçulmanos avançará e conduzirá as orações. Quando a oração terminar, Cristo (que a paz esteja sobre ele) pegará em sua arma e avançará contra o Dajjal. Ao ver Cristo, o Dajjal começará a derreter-se como chumbo. Cristo (que a paz esteja sobre ele) matá-lo-á com sua arma. Os companheiros do Dajjal serão derrotados. Fugirão, mas não encontrarão lugar algum para se esconder. Até as árvores gritarão: ‘Ó piedoso, este incrédulo está escondido atrás de mim’, e as pedras dirão: ‘Ó piedoso, este infiel refugiou-se atrás de mim.'” (Musnad Ahmad, Tabarani, Hakim)
Samura b. Jundub (em uma longa tradição) atribui estas palavras ao Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele): “Então, pela manhã, Cristo, filho de Maria, descerá entre os muçulmanos. E Allah fará com que o Dajjal e suas hostes sofram uma derrota esmagadora. Até as paredes e as raízes das árvores gritarão: ‘Ó piedoso, este incrédulo está escondido atrás de mim. Vem e golpeia-o até a morte.'” (Musnad Ahmad, Hakim)
Uma tradição relacionada por ‘Imarn b. Husain afirma que o Profeta de Deus (que a paz esteja sobre ele) observou: “Haverá sempre, entre meus seguidores, um grupo de pessoas que permanecerá firme na verdade e dominará seus adversários até que Deus emita um decreto e Cristo, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele), desça à terra.” (Musnad Ahmad)
A respeito do episódio do Dajjal, Hadrat ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) relata: “Hadrat ‘Isa (que a paz esteja sobre ele) descerá e matará o Dajjal. Depois disso, Hadrat ‘Isa (que a paz esteja sobre ele) governará a terra como líder justo e soberano benevolente durante quarenta anos.” (Musnad Ahmad)
Safina, o escravo liberto do Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele), relata (em conexão com o episódio do Dajjal): “Hadrat ‘Isa (que a paz esteja sobre ele) descerá, e Deus porá fim à vida do Dajjal perto da encosta de Afiq.” [Afiq, conhecida atualmente como Fiq, é uma cidade da Síria situada na fronteira entre a Síria e Israel. Há um lago chamado Tibriya a poucos quilômetros a oeste da cidade. Esse lago é a fonte do rio Jordão. A sudoeste desse lago há uma passagem entre as montanhas que desce dois mil pés até o ponto do lago Tibriya onde o rio nasce. Essa passagem montanhosa é chamada de encosta de Afiq.] (Musnad Ahmad)
Hadrat Hudaifa b. Yama relata (a respeito do Dajjal): “Quando os muçulmanos se enfileirarem para oferecer as orações, Cristo, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele), descerá do céu diante de seus olhos. Ele conduzirá as orações. Quando as orações terminarem, dirá ao povo: ‘Abri caminho entre mim e este inimigo de Deus.’ Deus dará aos muçulmanos vitória sobre as hostes do Dajjal. Os muçulmanos infligirão severo castigo ao inimigo. Até as árvores e as pedras gritarão: ‘Ó Abdullah, ó Abdul Rahman, ó muçulmano, vem; há um judeu atrás de mim, mata-o.’ Desse modo, Deus fará com que os judeus sejam aniquilados, e os muçulmanos serão vitoriosos. Eles quebrarão a Cruz, abaterão os porcos e abolirão a Jizya (imposto cobrado dos não muçulmanos).” (Mustadrak Hakim — uma versão resumida desta tradição foi registrada em Muslim. Hafiz Ibn Hajar, em Fath-ul-Bari, vol. VI, p. 450, declara autêntica esta tradição.)
As anteriores são vinte e uma tradições transmitidas sob a autoridade de quatorze companheiros do Santo Profeta e registradas, com referências corretas, nos livros mais autorizados de Hadith. Além destas, há numerosas outras tradições relacionadas ao mesmo assunto, mas não as reproduzimos aqui por brevidade. Tomamos como exemplo apenas aquelas tradições que são sólidas e autênticas quanto à cadeia de transmissão.
O Veredito destas Tradições
Qualquer pessoa que leia as tradições acima chegará à conclusão de que elas não mencionam a vinda de um Masih prometido, nem de um Masih semelhante, nem de uma projeção do Masih. Os textos acima citados não deixam margem para que qualquer homem nascido do esperma humano, do ventre de uma mulher, declare: ‘Eu sou aquele Masih cuja vinda foi predita pelo Santo Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele).’ Todas as tradições acima proclamam clara e definitivamente a descida daquele Cristo Sagrado que nasceu de Maria sem a intervenção de um pai, há dois mil anos. Certamente não adianta, neste momento, abrir o debate sobre se o Cristo Sagrado está morto ou se existe vivo em algum lugar do mundo. Supondo que esteja morto, Deus tem o poder de ressuscitá-lo [Aqueles que negam essa possibilidade devem ler o versículo 259 da Surata al-Baqarah, no qual Deus afirma claramente que deixou uma de Suas criaturas morta durante cem anos e, ao fim desse período, a ressuscitou.] Além disso, não está fora do poder divino de Deus manter um homem vivo em algum lugar do cosmos durante milhares de anos e trazê-lo de volta ao mundo segundo Sua vontade. De qualquer modo, o crente na veracidade e santidade das tradições não terá dúvida de que elas predizem a vinda de ‘Cristo, filho de Maria’, e de ninguém mais. Ao contrário, se uma pessoa não tem fé nas tradições, não acreditará na descida de pessoa alguma, pois as tradições são a única base da doutrina da Descida. Diante de tudo isso, é uma espécie de lógica estranha e divertida tomar a doutrina da Descida derivada das tradições e, arrancando dela a clara referência a Cristo, filho de Maria, estabelecer em lugar do filho de Maria um moderno ‘Cristo encarnado’.
Outro ponto igualmente esclarecido pelas tradições é que Cristo, filho de Maria, não descerá na condição de um novo Apóstolo de Deus. Ele não receberá revelações divinas. Não será portador de nenhuma mensagem nova nem depositário de um novo mandato de Deus; tampouco emendará, ampliará ou abreviará a Shariah de Muhammad (que a paz esteja sobre ele), e Cristo, filho de Maria, não será trazido ao mundo para realizar a renovação da fé. Cristo, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele), não convidará as pessoas a depositar fé em sua própria profecia, nem fundará uma comunidade separada de seguidores [Os Ulema do Islã explicaram esta questão em detalhe. ‘Allama Taftazani (722 A.H.–792 A.H.), em Shara ‘Aqaid-i-Nasafi, escreve: ‘Está estabelecido que Muhammad (que a paz esteja sobre ele) é o Último Profeta… Se for dito que, segundo o Hadith, a descida de Cristo (que a paz esteja sobre ele) ocorrerá depois do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele), diremos: Sim, esse fato foi mencionado nas tradições. Mas Cristo (que a paz esteja sobre ele) aparecerá como seguidor de Muhammad (que a paz esteja sobre ele). A Shariah de Cristo foi ab-rogada. Portanto, ele não receberá revelações divinas nem estabelecerá qualquer cânon. Em todas as suas ações representará apenas Muhammad (que a paz esteja sobre ele).’ A mesma opinião foi reafirmada por ‘Allama Alusi em Tafsir Ruhal-Ma’ani: ‘Mais tarde, quando Cristo (que a paz esteja sobre ele) aparecer, conservará sua dignidade de antigo Profeta. Afinal, Deus certamente não o privará dessa dignidade; contudo, não seguirá seu antigo mandato, pois as Shariahs de todos os profetas, inclusive a de Cristo, foram ab-rogadas. Portanto, será uma obrigação divina para Cristo seguir, em letra e espírito, a lei de Muhammad (que a paz esteja sobre ele). Ele não receberá revelação divina nem será incumbido de dar novas leis religiosas. Em todos os seus atos, Cristo agirá como representante do Santo Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) e funcionará como delegado e como um dos governantes dos seguidores de Muhammad (que a paz esteja sobre ele).’ Imam Razi esclarece ainda este ponto da seguinte maneira: ‘O período dos Profetas estendeu-se até a vinda do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele). Quando Muhammad (que a paz esteja sobre ele) foi elevado à condição de Profeta, chegou ao fim a era da vinda de novos profetas. Não é incompreensível que Cristo (que a paz esteja sobre ele), depois de sua descida, atue como seguidor de Muhammad (que a paz esteja sobre ele).’]. Ele será designado para realizar uma tarefa específica, que será extirpar a corrupção do Dajjal.
Para esse fim, Jesus (que a paz esteja sobre ele) descerá de tal modo que os muçulmanos entre os quais aparecer não terão qualquer dúvida sobre sua identidade como Jesus, filho de Maria, cuja vinda em momento extremamente oportuno foi predita pelo Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele). Jesus (que a paz esteja sobre ele) ingressará na comunidade dos muçulmanos e oferecerá as orações atrás do Imam vigente dos muçulmanos. [Embora duas tradições (n.os 5 e 21) apresentem amplas evidências de que Jesus (que a paz esteja sobre ele) atuará como líder na primeira oração após sua descida, a maioria das tradições, comparativamente mais autênticas (ver n.os 3, 7, 9, 15 e 16), afirma que Jesus (que a paz esteja sobre ele) recusará conduzir as orações. Ele convidará o Imam vigente dos muçulmanos a avançar e conduzi-las. Todos os estudiosos das tradições e comentaristas concordam neste último ponto.]
Ele permitirá que o Imam vigente dos muçulmanos o substitua, para deixar claro, além de qualquer dúvida, que não desceu para reivindicar sua posição como Profeta nem para exercer o ofício da Profecia. Não há dúvida de que, na presença de um Profeta entre uma comunidade, nenhuma outra pessoa pode assumir o ofício de Imam ou líder. Assim, quando Jesus (que a paz esteja sobre ele) se tornar um membro individual da Fraternidade do Islã, esse fato proclamará por si mesmo ao mundo que ele não desceu para assumir o ofício de Profeta. Com base nisso, portanto, a questão de reabrir o selo da Profecia na segunda vinda de Cristo é completamente irrelevante.
Pode-se dizer (sem comparar efetivamente as duas situações) que a vinda de Jesus será semelhante à nomeação de um antigo Chefe de Estado para prestar algum serviço estatal sob o regime do atual Chefe de Estado. Não é difícil para uma pessoa de bom senso compreender que a nomeação de um antigo Chefe de Estado para prestar algum serviço estatal sob o regime do atual Chefe não constitui violação da constituição do Estado. Há, contudo, dois casos que violam a lei do Estado. No primeiro, se um antigo Chefe de Estado tentar reassumir esse cargo. No segundo, se alguém negar a existência do antigo regime de um Chefe de Estado falecido, pois isso equivaleria a contestar a validade das tarefas realizadas pelo regime anterior. Na ausência de qualquer uma dessas duas eventualidades, a simples nomeação de um antigo Chefe de Estado para uma função estatal não altera a posição constitucional.
O mesmo se aplica à segunda vinda de Cristo, filho de Maria. O selo da Profecia não é violado por sua segunda vinda. Entretanto, se ele reassumir o ofício da Profecia e começar a cumprir os deveres de um Profeta, ou, inversamente, se um homem rejeitar a santidade de Cristo (que a paz esteja sobre ele) como antigo Profeta, ambos os casos constituirão violação da lei de Deus no que diz respeito à criação dos Profetas. As tradições excluíram claramente a existência dessas duas possibilidades. Por um lado, as tradições afirmam que nenhum Profeta virá depois de Muhammad (que a paz esteja sobre ele). Ao mesmo tempo, predizem a segunda vinda de Cristo, filho de Maria. Isso basta para deixar claro que, durante sua segunda vinda ao mundo, Cristo não desempenhará os deveres de um Profeta.
Da mesma maneira, sua vinda não dará origem a uma nova questão de fé ou apostasia entre os seguidores do Islã. Qualquer pessoa que rejeite a santidade de Cristo como antigo Profeta é apóstata. O próprio Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele) afirmou a santidade de Cristo como antigo Profeta. Portanto, os seguidores de Muhammad (que a paz esteja sobre ele), desde o princípio, sempre acreditaram na santidade de Cristo como antigo Profeta. Essa crença permanecerá válida também no momento da segunda vinda de Cristo. Naquele momento, os muçulmanos não depositarão fé no ministério de um novo Profeta. Conservarão sua crença na santidade de Cristo como antigo Profeta. Essa posição não é contrária à fé na Finalidade da Profecia hoje, nem será depreciativa dessa crença no momento da segunda vinda de Cristo ao mundo.
O último ponto esclarecido por estas e por numerosas outras tradições diz respeito ao fato de que o Dajjal (para a supressão de cujos graves malefícios Deus enviará Cristo, filho de Maria [que a paz esteja sobre ele]) surgirá entre a nação dos judeus e se apresentará como ‘Masih’. Ninguém pode compreender a realidade desse fato sem estudar a história dos judeus e suas crenças religiosas. Depois da morte de Hadrat Sulaiman (que a paz esteja sobre ele) [isto é, Salomão], a tribo de Israel sofreu um declínio contínuo, até que se tornou escrava dos Impérios Babilônico e Assírio, e seus senhores imperiais a dispersaram pela face da terra. Nesse momento de sua história, os profetas dos judeus começaram a anunciar as boas-novas da chegada de um ‘Masih’ enviado por Deus, que os redimiria da desonra.
Com base nessas profecias, os judeus aguardaram durante muito tempo a vinda de um ‘masih’ que seria um rei. Esse rei lutaria e conquistaria territórios. Reuniria judeus de todo o mundo e os reuniria na Palestina. Criaria um poderoso Império Judaico. Contrariamente a todas as suas expectativas, quando o ‘Masih’ enviado por Deus, Cristo, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele), veio sem um exército para conquistar países, os judeus rejeitaram sua profecia e decidiram pôr fim à sua vida. Desde então, os judeus de todo o mundo aguardam o surgimento de um ‘Masih Mau’ud’, ‘o Messias Prometido’, cuja chegada havia sido anunciada pelos antigos profetas. Sua literatura está repleta dos sonhos desejosos desse milênio. Durante séculos, os judeus têm saboreado o prazer imaginário proporcionado pela descrição desse milênio no Talmude e nas obras dos rabinos.
A nação judaica alimentou a esperança de que esse ‘Messias Prometido’ seria um grande líder militar e político. Ele lhes devolveria o país entre os rios Nilo e Eufrates (que os judeus sempre cobiçaram como sua herança). Reuniria judeus de todas as partes do mundo e os reuniria novamente nesse país. Hoje, quando observamos os assuntos do Oriente Médio à luz das profecias do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele), percebemos imediatamente que o cenário foi preparado para o surgimento do Dajjal que, conforme fora predito pelo Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele), surgiria como um ‘Messias Prometido’ dos judeus.
O povo muçulmano foi expulso de grande parte da Palestina, e nessa parte foi estabelecido um Estado judeu chamado ‘Israel’. Judeus de todo o mundo estão convergindo para esse lugar. A América, a Grã-Bretanha e a França ajudaram a transformar esse Estado judeu numa formidável potência militar. Os cientistas e técnicos judeus estão desenvolvendo rapidamente o país com a enorme ajuda do capital judaico. O potencial militar e técnico de Israel representa uma grave ameaça para os países muçulmanos vizinhos. Os líderes de Israel nunca ocultaram seu projeto de recuperar ‘a terra de sua herança’. O mapa do futuro Estado judeu, publicado por eles há muito tempo, é apresentado na página seguinte. [Mapa omitido]
Ele mostra que desejam incluir no Estado judeu toda a Síria, o Líbano, a Jordânia, quase todo o território do Iraque, além de tomar Askandron da Turquia, o Sinai e a região do Delta do Egito, e as regiões do Hejaz Superior e do Najd da Arábia Saudita. Isso inclui, naturalmente, também a Cidade Sagrada de Medina. Nesse contexto, é bastante claro que, aproveitando-se das condições críticas criadas por uma guerra mundial, os judeus certamente tentarão apoderar-se dessas áreas. E, nesse momento, surgirá o Dajjal, a quem os judeus considerarão seu ‘Messias Prometido’.
O Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele) não apenas predisse a vinda desse Dajjal, mas também advertiu os muçulmanos de que sofreriam dificuldades colossais e que um dia pareceria um ano de sofrimento e calamidade. Por esse motivo, o Profeta de Deus (que a paz esteja sobre ele) costumava orar pedindo proteção contra o grande mal do ‘Dajjal Masih’ e exortava seus seguidores a implorar a Allah que os salvasse da severidade desses tempos malignos.
É certo que Allah não enviará nenhum ‘Cristo Encarnado’ para combater esse ‘Dajjal Masih’. Ele designará o verdadeiro Cristo, o Cristo que nasceu de Maria e que os judeus se recusaram a reconhecer como Profeta há dois mil anos. Enviará o mesmo Cristo que os judeus acreditaram ter eliminado ao matá-lo. O lugar onde o verdadeiro Cristo descerá não é a Índia, a África ou a América. É em Damasco que ele aparecerá, porque esse lugar será o verdadeiro campo de batalha naquela época.
Veja o mapa n.º 1 [o mapa deve ser omitido] e verá que Damasco fica a apenas 50 ou 60 milhas das fronteiras de Israel. Se recordar o texto das tradições que citamos acima, não será difícil compreender que o Dajjal penetrará na Síria com setenta mil soldados judeus e tomará posição diante de Damasco. Nesse momento de crise, Cristo, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele), descerá junto a um minarete branco na parte oriental de Damasco. Depois das orações da manhã, Cristo (que a paz esteja sobre ele) avançará com os muçulmanos para lutar contra o Dajjal. O inimigo recuará diante do poderoso ataque de Cristo, filho de Maria, e o Dajjal fugirá em direção a Israel, passando pela encosta de Afiq (referência à Tradição n.º 21). Cristo (que a paz esteja sobre ele) perseguirá o Dajjal e o destruirá no aeródromo de Lydda (Tradições n.os 10, 14 e 15).
Seguir-se-á um grande massacre dos judeus, e todos eles serão aniquilados. A nação dos judeus será exterminada (Tradições n.os 9, 15 e 21). Com a proclamação da verdade por Cristo, a religião cristã desaparecerá (Tradições n.os 1, 2, 4 e 6). E os seguidores de todas as religiões, tendo anteriormente renunciado às suas lealdades, fundir-se-ão para formar a única fraternidade do Islã. As tradições revelam claramente esse fato, além de qualquer dúvida.
À luz do que foi exposto, a rede de propaganda estabelecida em nosso país em nome do Masih Mau’ud, ‘o Messias Prometido’, é inquestionavelmente uma iniciativa falsa e fraudulenta. Um dos aspectos mais engraçados desse movimento vil é que a pessoa que se considera objeto das profecias de Muhammad (que a paz esteja sobre ele) deu esta interessante explicação de sua identidade como ‘Cristo, filho de Maria’:
‘Ele (Deus Todo-Poderoso) chamou-me Maria na terceira parte de Barahin-i-Ahmadia. Mais tarde, como fica evidente em Barahin-i-Ahmadia, fui criado na forma de Maria durante dois anos. Então, meu corpo foi preenchido com a alma de Cristo, assim como o corpo de Maria foi preenchido com a alma de Cristo, e, em sentido metafórico, fiquei grávido da alma de Cristo. Finalmente, depois de um período de muitos meses (que não durou mais de dez meses), fui transformado de Maria em Cristo por uma revelação divina registrada no fim da quarta parte de Barahin-i-Ahmadia. Assim, tornei-me filho de Maria.’ (Kashti-e-Noah, pp. 87–89)
Em outras palavras, primeiro ele se tornou Maria, depois engravidou e, por fim, saiu de seu próprio abdômen como Cristo, filho de Maria. Restava, porém, um obstáculo. Segundo as tradições, Cristo, filho de Maria, apareceria em Damasco, que havia sido um lugar proeminente e famoso da Síria durante vários milhares de anos e ainda existe com esse nome no mapa do mundo. Essa dificuldade foi afastada por outra declaração fantasiosa:
‘Saiba-se que, quanto à interpretação da palavra “Damasco”, Deus Todo-Poderoso explicou-me numa revelação que, neste lugar, o nome Damasco foi dado a uma aldeia cujos habitantes possuem as características de Yazid e seguem os hábitos e as ideias do impuro Yazid. Essa cidade de Qadian, pelo fato de a maioria de seus habitantes possuir em seu caráter os traços de Yazid, é semelhante e guarda certa semelhança com Damasco.’ (nota marginal de Izala-i-Auham, pp. 63–73)
Mas isso não era tudo. Outro problema exigia solução: as tradições haviam predito que Cristo desceria perto de uma coluna branca. Esse problema foi finalmente resolvido quando o novo ‘Cristo’ mandou construir para si uma coluna branca. As tradições mencionavam que a coluna branca estaria de pé antes da descida de Cristo junto a ela; em Qadian, porém, a coluna foi construída depois do aparecimento do ‘Masih Mau’ud’. Mas não importa a discrepância. Qualquer pessoa que leia de olhos abertos as interpretações acima desse ‘Masih Mau’ud’ chegará à conclusão de que uma fraude evidente foi perpetrada abertamente por um impostor.
Companheiros de trabalho! Estamos prestes a dispersar-nos após quatro dias de Convenção. Concluímos a tarefa que pretendíamos realizar nesta Convenção. Em nossa sessão especial também revisamos, até certo ponto, nosso trabalho anterior. Agora, antes de partirmos, gostaria de conversar algumas palavras com todos vocês — membros e associados — e dar as instruções necessárias para levar adiante corretamente, no futuro, a Iqamat al-Din (estabelecimento do modo de vida islâmico).”
Ta’alluq Billah
(Vínculo com Allah) A primeira e mais importante instrução, sempre dada por todos os Profetas, pelos califas corretamente guiados e pelos piedosos da Ummah (comunidade muçulmana) aos seus companheiros, era incutir o temor de Allah, implantar Seu amor no coração e promover o vínculo com Allah. Portanto, seguindo seus passos, também o escolhi como o primeiro conselho aos obreiros e, no futuro, continuarei a fazê-lo sempre que tiver oportunidade, pois ele merece tratamento preferencial e prioritário. A crença em Allah é a mais importante entre todos os artigos da fé. Por isso, a ligação do coração com Allah deve ter prioridade nas orações. O temor de Allah deve ter prioridade na moral, e buscar a satisfação de Allah deve ter prioridade em todas as relações pessoais. Em suma, a orientação correta de toda a nossa vida deve basear-se no desejo de conquistar a satisfação de Allah, e isso deve ter prioridade sobre todos os demais motivos, esforços e empenhos. Particularmente, esta nossa difícil tarefa, pela qual nos posicionamos como uma Jama’ah islâmica (grupo organizado) e um Movimento, só pode prosperar pela força motivadora do nosso vínculo com Allah. Ela será forte ou fraca na proporção do nosso vínculo com Allah. É um fato reconhecido que, qualquer que seja a tarefa pela qual uma pessoa se empenhe, seja mundana ou celestial, a principal força por trás dela é o propósito pelo qual se levantou, e o zelo só pode nascer quando há profundo interesse e entusiasmo em alcançar esse objetivo. Quem busca apenas seus próprios interesses não pode ter êxito sem ser egoísta. A intensidade do amor por si mesmo leva-o a servir a si próprio com um ardor da mesma força. Um homem que trabalha por seus filhos, devotado ao amor por eles, sacrifica seus próprios prazeres e confortos pelo bem-estar dos filhos e, às vezes, arrisca não apenas seus ganhos mundanos, mas até mesmo os benefícios da Akhirah (Vida Futura), para que eles prosperem ao máximo. Um homem que trabalha por sua nação ou país é cativo do amor por ele e, por causa desse amor, suporta perdas financeiras, bem como as dificuldades das detenções e prisões. Trabalha arduamente dia e noite e, às vezes, sacrifica até mesmo a própria vida pela liberdade, defesa e supremacia de sua nação ou Estado. Agora, se estamos lutando para estabelecer o modo de vida islâmico, não por nossos próprios fins egoístas, nem por qualquer motivo relacionado aos interesses familiares, nem por qualquer interesse nacional ou estatal, mas apenas com o desejo sincero de agradar unicamente ao nosso Criador, Allah Todo-Poderoso, e se nos dedicamos a este trabalho somente porque estamos convencidos de que ele é o trabalho d’Ele, certamente poderão compreender que este trabalho não pode avançar enquanto nosso vínculo com Allah não for real, forte e profundo. O zelo por este trabalho só se desenvolve quando todas as nossas inclinações estão concentradas nos esforços para propagar a Palavra de Allah. Para todos aqueles que uniram forças neste trabalho, não basta que estejam ligados a “Allah também”; sua ligação deve ser com “Allah somente”. Em outras palavras, não deve ser “uma” ligação, mas “a” única ligação real e verdadeira. Devemos estar sempre vigilantes e conscientes para que nosso vínculo com Allah não diminua, mas aumente sempre e se aprofunde cada vez mais com o tempo. O vínculo com Allah é o principal espírito orientador de nossa missão. Louvado seja Allah, nenhum membro de nossa Jama’ah desconhece esse fato ou ignora sua importância. No entanto, muitos frequentemente não têm clareza sobre o que o termo Ta’alluq Billah significa exatamente, qual é o método para incuti-lo e promovê-lo, e como descobrir se alguém realmente possui ou não alguma ligação com Allah e, caso possua, em que grau. Muitas vezes tenho sentido que a falta de conhecimento e compreensão a esse respeito deixa as pessoas perdidas no deserto, sem saber onde estão, para onde devem ir e quanto ainda lhes falta percorrer. Consequentemente, alguns dos obreiros se perdem em ideais vagos, e outros se inclinam para caminhos e métodos que jamais os conduzem ao destino. Alguns têm dificuldade em diferenciar entre coisas intimamente relacionadas e coisas remotamente relacionadas — e alguém fica simplesmente perplexo. Portanto, não me limitarei a aconselhar sobre Ta’alluq Billah, mas também tentarei apresentar respostas claras às questões mencionadas, tanto quanto me permite o meu conhecimento.
O significado de Ta’alluq Billah
Seu significado, de acordo com o Alcorão, é que a pessoa deve viver e morrer por Allah, e que sua adoração e seus sacrifícios também devem ser destinados unicamente a Ele. Certamente, minha oração e meu sacrifício, minha vida e minha morte são todos por Allah, o Senhor dos mundos. (An’am: 162) Ela deve adorar Allah com total devoção e submeter sua vida exclusivamente à submissão irrestrita a Allah. O Alcorão diz: Nada lhes foi ordenado senão que adorassem Allah com devoção sincera e fossem verdadeiros na fé para com Ele. (Bayyinah: 5) O Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), em diferentes ocasiões, explicou essa relação em termos tão claros que não resta qualquer ambiguidade quanto ao seu significado e propósito. Fica explicitamente claro em suas declarações que a natureza dessa relação consiste apenas em: temer Allah em todos os assuntos — públicos ou secretos — (Bayhaqi); e confiar no poder de Allah, em vez de nos próprios recursos. (Bayhaqi) A pessoa deve estar pronta para enfrentar a ira dos homens a fim de buscar a satisfação de Allah, e jamais estar disposta ao contrário. E quando esse vínculo com Allah se eleva a tal ponto que todo amor, inimizade, doação e retenção de uma pessoa sejam unicamente pela causa de Allah, sem qualquer outro motivo, isso significa que ela alcançou a perfeição em seu vínculo com Allah. O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: Quem amou por Allah, odiou por Allah, deu por Allah e reteve por Allah, é aquele que aperfeiçoou sua fé. (Bukhari) Agora reflita sobre os significados do Qunut que você recita todas as noites. Cada palavra dele aponta para a conexão que você deve ter com Allah. Pondere sobre suas palavras e veja por si mesmo a promessa que você faz a Allah quanto aos tipos de conexão que deve ter com Ele. Ó Allah, buscamos Teu auxílio e ansiamos por Teu perdão. Cremos plenamente em Ti e dependemos unicamente de Ti; por isso, louvamos-Te com as melhores palavras, somos-Te gratos e não ingratos para Contigo; por isso, abandonamos e rejeitamos todos os que transgridem Teus mandamentos. Ó Allah, adoramos somente a Ti, oferecemos orações por Tua causa, inclinamo-nos diante de Ti, e todos os nossos esforços e empenhos destinam-se a conduzir-nos até Ti. Esperamos Tua misericórdia e tememos Teu castigo. Sem dúvida, Teu castigo recairá sobre os que rejeitam. Esse vínculo com Allah também se reflete claramente na súplica especial do Profeta (que a paz esteja com ele), que ele costumava recitar no momento do Tahajjud. Ele costumava dizer: Ó Allah, prostrei-me diante de Ti, declarei minha fé em Ti, depositei minha confiança em Ti, sempre recorri a Ti, combati por Ti e apresentei-Te minha causa.
Como fortalecer o Ta’alluq Billah? O que foi mencionado acima é a interpretação correta desse estudo, que deve ser repetido muitas vezes para conservar em sua mente o vínculo que um crente firme deve ter com Allah. Consideremos agora o método para adquiri-lo e fortalecê-lo. O único método para adquiri-lo é crer em Allah e aceitá-Lo como o Único, sem parceiro, como o Provedor, a Divindade e o Senhor de si mesmo e de todo o Universo; e aceitar que todos os atributos, direitos e privilégios da divindade estão reservados unicamente a Allah, purificando assim o coração de todos os possíveis efeitos do politeísmo (Shirk). Quando isso é alcançado, a conexão com Allah é devidamente estabelecida. O fortalecimento dessa relação com Allah requer que você seja Seu vice-regente e guardião responsável. Há dois fatores: um é pensar e compreender, e o outro é praticar. Primeiro, é necessário compreender plenamente e entender sua relação com Allah, tanto por sua natureza quanto por aquilo que, logicamente, lhe é obrigatório na vida prática, com a ajuda do Alcorão e do Hadith (as palavras do Profeta, que a paz esteja com ele). A percepção, o discernimento e a apreciação corretos dessa relação só são possíveis por meio do estudo profundo e intensivo do Alcorão e do Hadith, e pela repetição desse estudo muitas vezes para conservá-lo em sua mente. Consequentemente, sempre que algum aspecto de sua relação com Allah lhe ocorrer, pondere sobre ele e examine a si mesmo para ver quanto está atendendo às exigências dessa relação e onde e em que medida está falhando. Seu vínculo com Allah aumentará na proporção de sua autoavaliação e compreensão do papel que lhe é exigido. Por exemplo, sua primeira e principal relação com Allah é a de um adorador com Aquele que é adorado. Sua segunda relação é a de alguém encarregado e responsável por inúmeras confianças (Amanat). Sua terceira relação com Allah é a de quem celebrou um contrato de compra e venda ao declarar sua fé e convicção nEle; por meio desse contrato, você trocou sua vida e seus bens por Ele, e Ele os comprou, oferecendo-lhe o Paraíso em troca. Sua quarta relação com Allah é a de alguém responsável perante Ele. Você não será responsabilizado diante dEle apenas por seus atos e ações públicos e visíveis; também se mantém um registro de suas intenções e aspirações. Em suma, essas e muitas outras relações existem entre você e Allah. Portanto, o fortalecimento ou o enfraquecimento de sua relação com Allah depende da correta compreensão, consciência e cumprimento das exigências dessas relações. Sua relação com Allah se tornará cada vez mais fraca se você não se importar com as exigências dessa relação, e se aprofundará e se fortalecerá se estiver devidamente consciente delas e atento às suas exigências. Contudo, esse método conceitual não pode ser proveitoso nem mantido por muito tempo, a menos que seja fortalecido e consolidado por meios práticos. E esse método prático é a obediência irrestrita ao mandamento de Allah e o empenho total em cumprir as tarefas que agradam a Allah. A verdadeira obediência aos mandamentos de Allah significa cumprimento total — em público e em segredo — não de modo relutante, mas com plena disposição e zelo, sem qualquer objetivo mundano e unicamente para agradar a Allah. Ao mesmo tempo, abstenha-se, em público e em segredo, de todas as atividades proibidas por Allah, com total aversão e profundo desprezo, sem temer qualquer perda mundana, salvo o temor da ira de Allah. Essa conduta na vida elevará você à posição de Taqwa (abstenção do desagrado de Allah). Além disso, quando você se empenhar em difundir tudo o que agrada a Allah e em suprimir e eliminar tudo o que desagrada a Allah, não hesitará em sacrificar qualquer coisa — inclusive sua vida, seu dinheiro, seu tempo, seus esforços e seu intelecto — para esse propósito. Ademais, você não se vangloriará de nenhum desses sacrifícios, nem os considerará um favor prestado a alguém. Pelo contrário, considerará seu maior sacrifício insuficiente diante do direito devido ao seu Criador. Essa é a atitude que o eleva à posição de Ihsan (submissão bela à vontade de Allah).
Meios de fortalecer o Ta’alluq Billah
Na realidade, não é tão fácil desenvolver tal atitude. É uma tarefa árdua que exige muita energia. Essa energia pode ser gerada com a ajuda das quatro coisas seguintes. 1. Salah (orações): Você deve oferecer não apenas as orações obrigatórias (Fard), mas também a Sunnah (orações adicionais) oferecida pontualmente pelo Profeta (p) e tantas orações Nafl (orações supererrogatórias) quanto possível. Mas faça questão de oferecer as Nafl em casa e em segredo, para que seu vínculo pessoal com Allah aumente e que a sinceridade de propósito se desenvolva em você. A ostentação das orações Nafl ou Tahajjud dá lugar à hipocrisia e à presunção, o que é prejudicial à crença sincera. O mesmo se aplica às outras obras Nafl, que são diminuídas pela ostentação e pela publicidade. 2. Dhikr-Allah (lembrança de Allah): A lembrança de Allah é um processo contínuo durante toda a vida, em todas as circunstâncias. A melhor e mais apropriada maneira de lembrar Allah é aquela praticada pelo próprio Profeta (p), ensinada aos seus companheiros, e não as técnicas inventadas ou tomadas de outros pelos sufis em período posterior. Procure memorizar tantas Du’as quanto possível, ensinadas pelo Profeta (p); compreenda plenamente seus significados e recite-as de tempos em tempos, mantendo os significados presentes em sua mente. Isso é muito eficaz para manter sua atenção e devoção a Allah. 3. Sawm (jejum): Além do jejum obrigatório do mês de Ramadan, observe também alguns jejuns Nafl. A maneira mais fácil e prática é jejuar três dias por mês, com a determinação de alcançar durante esses três dias o mesmo grau de Taqwa que, segundo o Qur’an, é o verdadeiro propósito do jejum. 4. Infaq-fi-Sabilillah (gastar no caminho de Allah): Esses gastos, tanto Fard quanto Nafl, dentro dos limites dos seus meios, devem ser feitos continuamente. Mas uma coisa deve ser sempre mantida em mente. O verdadeiro valor não está na quantidade que você gasta, mas no espírito de sacrifício pela causa de Allah. Um centavo dado por um homem pobre, reduzindo suas despesas com alimentação, é muito mais precioso diante de Allah do que os milhares gastos por um milionário, quantia que representa apenas um décimo ou um vigésimo de suas despesas com luxos. Você também deve reconhecer a importância atribuída à Sadaqah (gastar no caminho de Allah), descrita por Allah e por Seu Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) como o melhor meio de purificar a si mesmo. Você mesmo pode experimentar os efeitos da Sadaqah. Suponha que você cometa uma falta involuntariamente. Quando percebe isso, arrepende-se (Tawbah) e implora Seu perdão. Então a mesma coisa acontece novamente. Desta vez, acrescente alguma Sadaqah ao seu arrependimento. Você mesmo sentirá a diferença que isso produz. Notará que o arrependimento seguido de Sadaqah torna você mais puro e mais forte para resistir às más inclinações. Este é o método simples e puro de aproximar-se de Allah, ensinado a nós pelo Qur’an e pela Sunnah. Se seguir esse método, poderá aumentar seu vínculo com Allah sem adotar as técnicas e métodos típicos dos sufis, levando uma vida normal em casa com sua família e continuando todas as suas atividades mundanas como de costume.
Medida do Ta’alluq Billah:
Agora surge a questão de avaliar a extensão e o grau do relacionamento com Allah e de como podemos saber se esse vínculo aumentou ou diminuiu. Deixe-me dizer-lhe que você não precisa esperar por alguma revelação em sonhos, alguma inspiração divina, algum poder sobrenatural ou alguma luz celestial em celas escuras e solitárias. A medida já foi fornecida por Allah no coração de cada pessoa. Você pode avaliá-la estando desperto e em plena luz do dia. Relembre suas atividades, esforços e desejos ao longo da vida. Examine-se para saber até que ponto está honrando o compromisso assumido ao declarar sua crença e convicção em Allah. Você é fiel a Allah no cumprimento dos encargos e responsabilidades ou está traindo a confiança? Que proporção do seu tempo, esforços, capacidade e bens é dedicada à causa de Allah, e que proporção é reservada para outras atividades? Compare o grau do seu aborrecimento, sofrimento e inquietação quando seus próprios interesses e paixões pessoais são atingidos com seus sentimentos e sua reação quando a autoridade e os mandamentos de Allah são desobedecidos. Assim, você pode testar de muitas maneiras seu vínculo com Allah e descobrir diariamente se ele está aumentando ou diminuindo. Não se preocupe com as terminologias sufis de Basharat (boas-novas), Karamat (excelência), Kashf (inspiração) e Tajalliat (luzes divinas). Na verdade, não há percepção (Kashf) maior do que a consciência da unicidade de Allah neste mundo de enganos e falácias. Nenhuma excelência (Karamat) é superior a permanecer firme diante dos temores criados e das tentações oferecidas por Satanás e seus seguidores. Não há percepção melhor das luzes de Allah do que testemunhar a verdade na escuridão tateante da incredulidade (Kufr), da impiedade (Fisq) e da perdição (Dalalat) que nos cerca. A maior Basharat que um crente pode receber vem de sua firme crença em Allah e de sua perseverança em Seu caminho. Certamente, àqueles que disseram: “Allah é nosso Provedor” e depois permaneceram firmes nessa declaração, Allah envia Seus anjos, que lhes dizem: “Não tenham medo nem se entristeçam, mas alegrem-se ao ouvir as boas-novas de que lhes será concedido o Paraíso que lhes foi prometido.” (Ha-Mim: 30)
Preferência pela Akhirah (Além):
Meu segundo conselho a você, depois de Ta’alluq Billah, é dar preferência ao Além em relação a este mundo, em todos e cada um dos assuntos. Em cada questão desta vida, seu objetivo deve ser alcançar sucesso e bênção na vida do Além. O Qur’an nos informa que nossa morada eterna é o Além; estamos neste mundo apenas temporariamente, para sermos testados quanto a quem de nós demonstrará competência para conquistar a vida eterna do Paraíso, agindo corretamente dentro dos limites impostos por Allah — naturalmente, dentro dos limites de nossos recursos, de nossa autoridade, do tempo que nos foi concedido e das oportunidades que Ele nos ofereceu. Estamos aqui sendo testados não por nossas realizações na indústria, no comércio, na agricultura ou na administração do Estado, nem pelos magníficos edifícios e estradas que construímos, nem mesmo pelo grau de nosso sucesso em estabelecer uma grande cultura. O verdadeiro teste, porém, diz respeito à extensão de nossa capacidade de cumprir nossos deveres como vice-regentes de Allah em relação às responsabilidades que nos foram confiadas, e a saber se conduzimos nossa vida como foras da lei e rebeldes ou como pessoas obedientes e cumpridoras da lei. Se obedecemos à vontade de Allah em Sua terra ou à vontade de nosso próprio ego ou de outros que reivindicam divindade além de Allah. Se estamos tentando adornar e administrar o mundo de Allah segundo Seu padrão ou tentando corrompê-lo e destruí-lo. E se lutamos contra as forças satânicas pela causa de Allah ou se humildemente depomos nossas armas e nos rendemos a essas forças. O primeiro teste de Adão e Eva (que a paz esteja sobre eles) no Paraíso foi exatamente o mesmo. Portanto, todas as pessoas escolhidas para a habitação eterna do Paraíso, dentre toda a humanidade, terão de passar por esse teste. Assim, o verdadeiro critério para determinar o sucesso ou o fracasso não está em considerar a posição do indivíduo no momento da provação, isto é, se o mérito do indivíduo foi testado enquanto rei ou com sua cabeça colocada no cadafalso do carrasco. Tampouco importa se esse indivíduo recebeu um vasto reino ou se teve de enfrentar a provação em sua humilde cabana. Essas fases temporárias de sucesso ou fracasso na vida mortal não constituem prova de sucesso ou fracasso na vida do Além. O verdadeiro sucesso, que deve ser nosso objetivo, é provarmos que somos servos obedientes de Allah e seguidores de Sua Vontade, independentemente da posição que ocupamos neste mundo e de qualquer dádiva com que tenhamos sido postos à prova, para que alcancemos no Além a posição reservada aos servos fiéis de Allah. Esta é a realidade. Não basta compreendê-la ou aceitá-la uma única vez — é necessário grande esforço para renová-la repetidamente. Caso contrário, existe sempre a possibilidade de que, embora não sejamos descrentes, possamos assumir o lugar daqueles que trabalham pelos ganhos mundanos, esquecendo o Além. Isso acontece porque o Além é imperceptível e só se torna evidente depois da morte. Neste mundo, podemos perceber seus resultados bons ou maus apenas por meio do intelecto. Ao contrário, este mundo é algo facilmente perceptível, oferecendo-nos a todo momento seus sabores doces e amargos, e suas conquistas e fracassos estão sempre presentes para nos enganar. A perda do Além pode causar apenas uma pequena pontada em nossa consciência, se é que ela existe. Já a perda deste mundo é sentida fisicamente por nós. Nossa família, nossos parentes, conhecidos, amigos e as pessoas em geral não apenas a sentem, mas também fazem com que a sintamos. Do mesmo modo, a realização do Além proporciona um pouco de conforto e satisfação à consciência, somente se a negligência não a tiver entorpecido. A prosperidade neste mundo, porém, serve de prazer para toda a nossa existência. Nós a sentimos com todos os nossos sentidos, e todos ao nosso redor compartilham desse sentimento. Por isso, é realmente muito difícil traduzir a fé no Além em prática e basear nela toda a perspectiva e o funcionamento da vida cotidiana, embora talvez não pareça tão difícil aceitá-la como fé e crença. Pode ser fácil dizer que o mundo é insignificante, mas enfrentar e rejeitar as atrações mundanas e recusar-se a ceder aos desejos mundanos não é de modo algum uma tarefa fácil. Isso só pode ser possível depois de grande luta e só pode ser mantido com esforços perseverantes.
Meios para desenvolver a preocupação com a Akhirah
Você pode perguntar qual é o método para adquirir essa qualidade e quais são suas exigências. Eu diria novamente que há dois métodos: o reflexivo e o prático. O método reflexivo consiste em não se contentar apenas em declarar “creio no Além”, mas transformar em hábito o estudo do Qur’an, apreendendo plenamente seu espírito e significado. Esse método de estudar o Qur’an desenvolverá gradualmente uma convicção no Além como se você o tivesse visto com os próprios olhos. Talvez não exista uma única página do Qur’an em que o Além não seja mencionado de uma forma ou de outra. Em alguns lugares, você encontrará o Além descrito com tantos detalhes que parece estar sendo apresentado um relato de testemunha ocular. Em muitos lugares do Qur’an, a vida no Além é retratada de maneira tão primorosa que o leitor se sente presente como observador. Somente quando o disfarce deste mundo for removido será possível testemunhar com os próprios olhos tudo aquilo que é narrado no Qur’an. Portanto, o estudo contínuo do Qur’an com plena compreensão pode elevar gradualmente uma pessoa a uma posição em que a preocupação com o Além domine completamente sua mente, e ela comece a sentir, em todos os momentos, que deve preparar-se nesta vida mundana temporária para sua morada permanente após a morte. Essa atitude e perspectiva se fortalecem pelo estudo do Hadith, no qual os detalhes sobre a vida após a morte são frequentemente descritos como relatos de testemunhas oculares. Isso nos recorda como a convicção e a firme crença no Além dominaram a vida do Profeta (p) e de seus companheiros. Essa convicção no Além é ainda fortalecida pelas visitas aos cemitérios, que devem ser feitas exclusivamente com o propósito de lembrar o próprio fim, conforme aconselhado pelo Profeta (p). Deve-se lembrar, enquanto se vive neste mundo de desejos e paixões, que chegará um dia em que também se partirá deste mundo como seus predecessores. Contudo, deve-se ter cuidado para que aquelas tumbas e santuários não sirvam a qualquer propósito que as pessoas desviadas lhes atribuem, como centros onde todo desejo é atendido e todos os problemas são resolvidos. Em vez disso, você deve visitar os cemitérios das pessoas comuns ou os grandiosos mausoléus de monarcas privados do fausto e da ostentação de guarda-costas e ajudantes de campo que fazem o povo observar formalidades na presença de tais monarcas. Agora consideremos o método prático. Vivendo neste mundo e participando dos assuntos de sua comunidade, de seus amigos, conhecidos, cidade, país ou de seus próprios esforços — a ajuda externa só pode ser obtida por meio de profissão ou finanças — você frequentemente se encontra numa encruzilhada. A crença na vida do Além chama você para um caminho, enquanto os ganhos e interesses materiais pressionam-no a seguir o outro. Faça o máximo possível para prosseguir pelo primeiro caminho mencionado. Se escolheu o outro caminho por causa de alguma fraqueza ou desconhecimento, refaça seus passos assim que perceber o erro, sem se importar com quão longe tenha seguido pelo caminho errado. Olhe para si mesmo e procure descobrir quantas vezes os interesses e atrações mundanas conseguiram absorvê-lo e quantas vezes conseguiu evitar desviar-se do caminho correto, fazendo com que a consideração pela vida do Além prevalecesse sobre você. Essa avaliação de si mesmo lhe dirá exatamente quanto sua preocupação com a vida do Além aumentou e até que ponto você precisa compensar a deficiência. Qualquer deficiência que perceba, esforce-se para compensá-la, mantendo-se afastado da companhia dos materialistas e desenvolvendo amizade com pessoas piedosas que preferem os ganhos da vida do Além a este mundo. Mas lembre-se: ainda não se conhece nenhum meio de desenvolver ou eliminar qualquer qualidade em si mesmo sem seus próprios esforços ou capacidades.
Evite o Takabbur (arrogância)
Meu terceiro conselho é que você não se orgulhe das melhorias que realizou em sua pessoa e em sua moral coletiva. Você não deve, individualmente nem como Jama’ah e Movimento, cair no erro de imaginar que alcançou a perfeição, que chegou ao seu objetivo, que não resta espaço para qualquer melhoria adicional em sua vida prática e que não há mais nenhum objetivo a alcançar. Frequentemente, eu e as outras pessoas responsáveis da Jema’ah nos deparamos com um problema irritante. Algumas pessoas têm tentado depreciar a posição da Jama’ah e, na verdade, do Movimento Islâmico, que é o verdadeiro propósito da Jama’ah. Classificam-no como um partido político que trabalha pelo mesmo objetivo das outras organizações políticas. Não há nele qualquer vestígio de piedade, pureza ou espiritualidade. Ele carece inteiramente de vínculo com Allah e de preocupação com o Além; sua liderança não tem ligação com nenhuma escola de sufismo e não recebeu formação em nenhum centro sufi de piedade e excelência espiritual. Portanto, não haveria possibilidade de seus associados receberem tal formação. A intenção por trás dessa campanha é espalhar descontentamento entre os trabalhadores da Jama’ah, para que retornem aos mesmos antigos centros religiosos que consideram uma realização grandiosa qualquer serviço parcial ao Islam sob o patrocínio geral da incredulidade (Kufr), e que jamais conseguem sequer imaginar estabelecer o Islam como um código de vida completo e abrangente. Rotularam toda tentativa desse tipo como movimento antirreligioso, usando toda a eloquência de que dispõem. Sempre se opuseram a qualquer iniciativa para estabelecer o Islam como força dominante na sociedade contra a incredulidade e a impiedade (Fisq), retratando todas essas tentativas como puramente mundanas e motivadas por ambições materiais e ganhos terrenos. Nessas circunstâncias, somos obrigados a explicar a verdadeira diferença entre o conceito de piedade apresentado pelo espiritualismo sufi e o conceito islâmico de piedade e pureza. Temos de explicar o que é a verdadeira Taqwa (temor de Allah) e o Ihsan (excelência na submissão a Allah) desejados no Islam e em que diferem da Taqwa e do Ihsan ensinados pelos chamados especialistas em piedade e religiosidade. Ao mesmo tempo, também temos de explicar em detalhes as técnicas e métodos de reforma e formação adotados pelo Movimento Islâmico e suas consequências, para que qualquer pessoa sincera em relação ao Islam e possuidora de um conceito correto e não adulterado da ordem islâmica possa compreender facilmente que, uma vez convencida e impressionada pela mensagem revolucionária do Islam, ela passa automaticamente por uma grande mudança em sua visão e em seus conceitos. Essa convicção desenvolve verdadeira piedade, temor de Allah e excelência na submissão à Sua Vontade. Esse tipo de sinceridade e convicção está totalmente ausente nos métodos estereotipados sufis de formação em piedade e excelência, não apenas entre os formandos, mas também entre seus professores e guias. Temos de explicar tudo isso por causa da atitude injusta e parcial de nossos críticos. Não pretendemos defender a nós mesmos, mas consideramos necessária essa explicação no interesse do Movimento Islâmico. Buscamos a proteção de Allah contra qualquer vaidade ou orgulho em relação a nós mesmos decorrente da exposição acima, ou contra qualquer equívoco de que tenhamos aperfeiçoado a nós mesmos. Que Allah nos livre: tal equívoco e orgulho enganoso podem privar-nos de tudo o que alcançamos até agora. Para evitar esse infortúnio, gostaria que compreendessem plenamente os três pontos seguintes e nunca os esquecessem: Meu primeiro ponto é que a perfeição não conhece limites e seu ponto de excelência está fora de nossa visão. Continue subindo e nunca considere nenhum ponto como o mais alto. Na realidade, você nunca é perfeito. No momento em que alguém se considera perfeito, sua luta pelo melhor e, consequentemente, seu desenvolvimento param, e começa o declínio. Nunca se esqueça de que é necessária uma luta contínua não apenas para alcançar uma altura, mas também para permanecer nela. No momento em que você deixa de se esforçar para subir, começa a funcionar a força que o puxa para baixo. Os sábios nunca olham para baixo para avaliar suas realizações, mas olham para cima para saber quanto ainda não alcançaram e quão distante está seu objetivo. Meu ponto seguinte é que o padrão de humanidade estabelecido pelo Islam é tão elevado que começa onde os outros ismos e ideologias concluem sua excelência e perfeição. Não é de modo algum um ideal utópico. Ele se reflete na vida prática dos Profetas, bem como na vida dos companheiros devotados do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) e dos piedosos entre a Ummah. Mantenha sempre esse padrão em mente. Ele o salvará do equívoco de pensar que alcançou a perfeição. Fará você reconhecer sua própria inferioridade e apresentará diante de você novas alturas a alcançar. Mesmo depois de uma vida inteira de luta, você sentirá que muitas alturas ainda não foram alcançadas. Nunca se orgulhe de sua saúde enquanto os doentes ao seu redor dão o último suspiro a todo momento. Observe os monumentos de moralidade e piedade do passado, que você está substituindo na luta contra o mal. Verdadeiro crente é aquele que mantém sempre em mente aqueles que são mais ricos em conhecimento islâmico e em boas obras, para que não morra a sede de acumular essa riqueza. Quanto à riqueza material, ele sempre se compara aos mais pobres e agradece a Allah pelo que Ele lhe concedeu, saciando sua sede com o que possui. Meu terceiro ponto é que as qualidades que realmente adquirimos até agora parecem impressionantes apenas porque a deterioração degradou muito a nós e à nossa sociedade. A pequena luz fornecida na escuridão profunda ganhou destaque; caso contrário, é um fato que nos falta muito em nossa vida pessoal quando avaliamos a nós mesmos pelo critério e pelos requisitos mínimos da fé no Islam. Portanto, a confissão de nossas deficiências não deve ser uma formalidade. Ela deve resultar na purificação completa de todas as nossas falhas e vícios que encontramos e identificamos em nossa própria vida pessoal.
Cuide de seus parentes e familiares
Também aconselho você a dar atenção especial à reforma de seus parentes e familiares. O Qur’an diz: “Salvem a vocês mesmos e a seus parentes e familiares do Fogo.” (Tahrim: 6) Você é muito cuidadoso com a alimentação e as roupas de sua família. Mas deve ser muito mais cuidadoso em salvá-la do combustível do Inferno. Faça o máximo possível pelo bem-estar de sua vida no Além e coloque-os no caminho do Paraíso. Se algum deles se desviar, apesar de seus esforços, você não será responsabilizado por isso. O ponto é que você não deve, de modo algum, estar envolvido em seu fracasso no Além. Frequentemente recebo reclamações de que os trabalhadores da Jama’ah não dão tanta atenção ao bem-estar e à reforma de sua própria família quanto dão aos outros. Essas reclamações podem ser verdadeiras em alguns casos e exageradas em outros. Não me é possível investigar o caso de cada indivíduo. Por isso, dou um conselho geral. Todos nós devemos não apenas ter desejo e anseio, mas esforçar-nos sinceramente para colocar nossos entes queridos no caminho da paz e da salvação, a fim de obter verdadeira consolação. Aconselho todos os trabalhadores da Jama’ah a interessarem-se pela vida uns dos outros e a esforçarem-se pelo bem-estar não apenas de seus próprios filhos, mas também dos filhos de seus companheiros de trabalho. Muitas vezes, uma criança não é influenciada pelo pai, mas fica profundamente impressionada pelos amigos do pai.
Islah mútuo (melhoria)
Também aconselho você a não se esforçar apenas pela melhoria e reforma de si mesmo e de sua família, mas também pela melhoria de seus companheiros de trabalho. Aqueles que uniram as mãos para trabalhar como uma Jama’ah Islâmica pela causa de Allah e para estabelecer Sua autoridade e supremacia no mundo precisam cooperar e coordenar-se uns com os outros. Devem saber que não podem alcançar seu elevado ideal sem fortalecer sua moral coletiva e sua disciplina de grupo. Essa compreensão deve resultar em ajuda e cooperação mútuas para seu aperfeiçoamento e melhoria moral e para avançar no caminho de Allah. Este é o único caminho da purificação coletiva (Tazkiyah) no Islam. Se me virem desviando-me do caminho, apressem-se a trazer-me de volta; e, se eu os encontrar escorregando ou cambaleando, devo estender-lhes uma mão amiga. Se houver poeira em minha manga, soprem-na; e, se eu encontrar uma mancha em sua veste, eu a limparei. Transmitam-me tudo o que considerarem melhor para mim e de meu interesse, e eu lhes transmitirei tudo o que considerar necessário para sua melhoria. Sabemos que prosperamos em nossa vida mundana por meio de nossas transações mútuas. O mesmo é verdade em nossa vida moral e espiritual: também progredimos e prosperamos como uma Jama’ah Islâmica nesse campo quando cooperamos e nos complementamos moral e espiritualmente. O método correto de reforma é esperar e observar, evitando qualquer ação precipitada sempre que encontrarem algo errado em um companheiro de trabalho ou surgir alguma reclamação contra ele. Primeiro, procurem compreender a situação; depois, entrem em contato com a pessoa envolvida e falem diretamente com ela, em confidência, sobre a reclamação, sem sequer mencionar o assunto diante de qualquer outra pessoa ou em qualquer lugar na ausência do interessado. O segundo caso é simplesmente falar mal pelas costas, algo muito abominado no Islam.
Ihtisab coletivo (crítica)
A crítica mútua também é uma maneira proveitosa de reforma coletiva. Informem seus companheiros de trabalho sobre suas falhas e deficiências de maneira muito educada e sincera. Mas tenham cuidado, pois isso pode ser desastroso se a etiqueta da crítica sincera não for devidamente observada. As regras da crítica justa são as seguintes: 1. A crítica não deve ser feita a todo momento e em todo lugar. 2. Antes de criticar alguém, examine primeiro seu próprio coração, considerando Allah como testemunha, para saber se está criticando por sinceridade e pelo bem-estar da pessoa ou se é motivado por um impulso pessoal. No primeiro caso, a crítica é de fato plenamente justificada; caso contrário, você deve calar a língua e tentar livrar-se dessa impureza de sua personalidade. 3. Suas palavras e sua maneira de criticar devem fazer todos sentirem que você realmente deseja reforma e melhoria. 4. Certifique-se de que sua reclamação se baseia em fatos reais e concretos antes de criticar alguém. A crítica sem fundamento, feita sem verificar os fatos, é um pecado e cria desordem. 5. A pessoa criticada deve ouvir calmamente a reclamação e depois refletir sobre ela sem preconceito. Deve reconhecer claramente a verdade e responder ao erro com argumentação serena. Irritar-se com a crítica demonstra arrogância e vaidade. 6. A crítica e sua contestação não devem prolongar-se nem transformar-se em uma altercação permanente. A discussão é útil enquanto os dois pontos de vista forem devidamente esclarecidos; mas, se a questão não for resolvida, adiem a discussão e deixem que ambos reconsiderem todo o assunto com calma e separadamente. A crítica dentro desses limites não é apenas útil, mas também necessária para corrigir nossa vida social. Nenhuma Jama’ah Islâmica pode manter-se no caminho correto sem uma crítica construtiva desse tipo. Ninguém na Jama’ah deve estar acima da crítica. Considero-a indispensável para a estabilidade do Movimento Islâmico e tenho certeza de que, no dia em que essa crítica saudável parar, o Movimento sucumbirá a vários males que resultarão em sua destruição. É por isso que, desde sua fundação, sempre convoquei uma reunião especial após a reunião geral da Jama’ah, para avaliar criticamente todo o trabalho da organização e sua estrutura. Nessas reuniões especiais, ofereço-me primeiro à crítica, para que qualquer objeção ou reclamação contra mim ou contra meu desempenho seja apresentada abertamente diante de todos, sem qualquer hesitação. Ou a crítica me corrigirá, ou minha explicação esclarecerá o mal-entendido do crítico e de todos aqueles cujo pensamento é semelhante.
Sama’a e Ta’at (obediência e disciplina)
Há ainda um fato que considero necessário levar ao seu conhecimento: a falta de disciplina e submissão. Não há dúvida de que parecemos pessoas muito disciplinadas quando comparados com outras organizações. Mas, quando observamos o padrão estabelecido pelo Islam e consideramos também a difícil tarefa que temos diante de nós, realmente percebemos que nossa disciplina está muito abaixo do nível exigido. Vocês sabem perfeitamente que são poucos em número e dispõem de recursos ainda mais escassos no campo. A tarefa que têm diante de si é transformar, em sua forma e espírito, todo o sistema de vida baseado na impiedade e na ignorância, um sistema mil vezes mais forte e mais provido de recursos. Quer se comparem a ele em número ou em recursos, vocês não são páreo para ele. Não possuem nada em que possam apoiar-se para alcançar o sucesso nessa luta, exceto a superioridade moral e a disciplina rigorosa. Só poderão ter êxito em sua grande missão quando estabelecerem sua credibilidade moral e demonstrarem tal disciplina e organização que sejam capazes de mostrar sua força a qualquer momento e em qualquer lugar, com plena confiança. Em uma Jama’ah Islâmica que luta pelo estabelecimento do modo de vida islâmico, obedecer aos comandos lícitos das autoridades da Jama’ah é, na realidade, submeter-se a Allah e ao Profeta (p). Todo aquele que dedica seu tempo e sua energia a essa missão somente pela causa de Allah, e que se submete à autoridade de seu Chefe da Jama’ah (Amir ou Nazim) para servir à causa de Allah, obedece a Allah e ao Profeta (p). Quanto maior o vínculo com Allah e com o Profeta (p), mais forte será nele o espírito de obediência. Do mesmo modo, quanto menor o vínculo, mais fraco será o espírito de obediência. Que sacrifício poderia ser mais valioso do que aquele oferecido por vocês ao obedecerem a uma pessoa que, de outro modo, não teria autoridade sobre vocês, mas que aceitaram como seu Chefe apenas para trabalhar pela causa de Allah, cumprindo suas ordens sem ressentimento, como subordinados leais, mesmo quando suas ordens às vezes vão contra seus desejos e interesses? Como esse sacrifício é pela causa de Allah, sua recompensa também é muito grande junto a Allah. Por outro lado, se alguém se recusa a aceitar uma posição subordinada, considera essa subordinação abaixo de sua dignidade, ou se sente ferido quando recebe ordem para fazer algo e demonstra inquietação ou hesitação em cumprir ordens que contrariam seus desejos ou interesses, prova na prática que ainda não se submeteu a Allah e que seu próprio ego continua dominando seus pensamentos e ações.
Conselho aos chefes locais (Nazims):
Considero necessário oferecer uma palavra de conselho aos chefes organizacionais em vários níveis, juntamente com meu conselho anterior aos trabalhadores: eles também devem aprender técnicas de liderança. Quem recebe qualquer responsabilidade na Jama’ah e, em virtude dessa responsabilidade, exerce alguma autoridade sobre outros, não deve impor-se indevidamente aos demais nem desfrutar de sua autoridade como se fosse superior a eles. Deve comportar-se com educação e cortesia para com seus companheiros de trabalho. Deve ter o máximo cuidado para que qualquer mau comportamento de sua parte não provoque desobediência ou espírito de contestação em nenhum dos trabalhadores. Deve diferenciar, em suas relações e comportamento, entre jovens e idosos, fracos e fortes, ricos e pobres. Deve conhecer plenamente as circunstâncias de cada indivíduo e tratar todos de acordo com sua posição e circunstâncias, com a devida consideração e benevolência. Deve incutir em seus trabalhadores um espírito tal que recebam o conselho ou apelo de seu Chefe como uma ordem e o cumpram com o mesmo espírito. Seria realmente considerado falta de disciplina se o apelo do Chefe não obtivesse resposta e ele fosse obrigado a emitir uma ordem. Ordens são dadas apenas a mercenários. Aqueles que voluntariamente se uniram para trabalhar pela causa de Allah não precisam de ordens de uma pessoa que é seu Chefe por escolha própria. Precisam apenas de uma sugestão de que podem servir à sua missão em qualquer lugar, e então avançam com ela. No momento em que esse espírito se desenvolver entre os trabalhadores e seus líderes, vocês não encontrarão qualquer vestígio de ressentimento ou má vontade.
Devoção e sacrifício
Meu último conselho é que todos os que defendem esta missão e este movimento desenvolvam em si mesmos a disposição de gastar pela causa de Allah e de dar a essa causa preferência sobre seus próprios interesses e atividades materiais. Procurem cultivar um vínculo tão profundo com esta missão que não lhes permita descansar até que gastem cada partícula de sua energia e de seus recursos por essa causa. Dediquem não apenas sua pessoa, mas também seus recursos e suas finanças à causa de Allah. Nunca se esqueçam de que Allah tem direito não apenas sobre vocês e seu ser, mas também sobre seu tempo e seu dinheiro. Allah e o Profeta (p) prescreveram o limite mínimo, mas para o máximo não há limite. Cabe a vocês decidir e avaliar até que ponto devem gastar no caminho de Allah para se convencerem de que pagaram o que é devido. Ninguém pode avaliar isso melhor do que vocês mesmos. O melhor juiz é sua própria convicção e consciência. Não preciso dizer mais do que isto: aprendam uma lição com aqueles que não têm fé em Allah nem no Além e, ainda assim, fazem sacrifícios tão grandes por seus ideais falsos. Nós, que cremos em Allah e no Além, deveríamos sentir vergonha de nós mesmos. Também constato que a maioria dos trabalhadores carece do nível de interesse e devoção necessário para o estabelecimento da ordem islâmica. Sem dúvida, alguns de nós trabalham com o máximo zelo, pelo que devemos alegrar-nos, e oro por eles do fundo do coração. Mas a maioria dos trabalhadores carece da devoção necessária. Apenas alguns de nós sentem, como um crente deveria sentir, angústia diante dos vícios generalizados, da miséria e da impotência daqueles que professam crer no Allah Todo-Poderoso. Esse estado de coisas deveria causar pelo menos tanta preocupação e desespero quanto sentimos quando nosso filho está doente ou nossa casa corre o risco de ser incendiada. Também aqui é muito difícil para qualquer pessoa fixar um limite ou extensão para esse desespero e preocupação, ou para o empenho que deve demonstrar. Cabe novamente a cada indivíduo decidir, ao chamado de sua própria consciência, até que ponto deve esforçar-se para se convencer de que, como alguém que acredita na realidade última, cumpriu seu dever. Contudo, para efeito de contraste, basta lançar um olhar aos esforços daqueles que lutam pelo estabelecimento de seus ideais falsos e fictícios, apostando tudo o que têm à sua disposição.
Conselho às mulheres
Muito do que já disse se aplica tanto aos homens quanto às mulheres. Agora direi algo exclusivamente às mulheres que de algum modo estão ligadas ao Movimento Islâmico. A primeira e principal exigência para vocês é adquirir o máximo possível de conhecimento do Islam. Estudem não apenas o Qur’an, mas também o Hadith e o Fiqh (jurisprudência islâmica), com plena compreensão. Não se limitem ao conhecimento básico do Islam e às exigências da fé (Iman), mas procurem conhecer as determinações islâmicas relativas à sua vida pessoal, à vida familiar e à convivência social em geral. Uma das principais causas de costumes e práticas anti-islâmicos se tornarem comuns nas famílias muçulmanas é a ignorância de nossas mulheres acerca dos ensinamentos e das determinações do Islam. O próximo passo é procurar moldar sua vida prática, sua moral e seu caráter, bem como a vida e a atmosfera de sua casa, de acordo com seu conhecimento do Islam. A mulher muçulmana deve ser tão firme e rigorosa que se apegue ao que considera correto apesar da oposição e dos obstáculos de sua família ou de outros parentes. Não deve ceder a nada errado sob qualquer tipo de pressão. Sem dúvida, os pais, o marido e os demais anciãos da família merecem obediência, respeito e consideração, e jamais devem ser tratados com insubordinação e arrogância; mas os direitos e a vontade de Allah e de Seu Profeta (p) reinam supremos. Quem quer que pressione você a adotar o caminho da desobediência a Allah e a Seu Profeta, recuse-se categoricamente a obedecer, seja ele seu pai ou seu marido. Nunca se incline diante de ninguém nesse assunto. Confie em Allah e enfrente corajosamente as piores consequências, mesmo que isso leve à destruição de sua vida mundana. Quanto mais forte for sua determinação de apegar-se ao Islam, melhor será seu efeito sobre o ambiente familiar, pela graça de Allah. Assim, você terá uma oportunidade de ouro para reformar seu lar. Ao contrário, se ceder a exigências injustificadas e anti-islâmicas, sua própria vida pessoal será privada das bênçãos do Islam, e você dará às pessoas ao seu redor um mau exemplo de fraqueza na fé e na moral. Sua terceira responsabilidade é dar prioridade aos seus entes queridos na questão da reforma e da melhoria segundo o modo de vida islâmico. Nossas irmãs a quem Allah concedeu filhos estão, na realidade, submetidas a um teste no qual, se fracassarem, nenhum outro sucesso poderá compensar esse fracasso. Seus próprios filhos merecem sua melhor atenção. É sua principal responsabilidade educar bem seus filhos no Islam e em suas boas maneiras. As mulheres casadas também têm a responsabilidade de manter seus maridos no caminho correto e de ajudá-los a permanecer firmes em sua marcha, caso já estejam no caminho correto. Uma filha também pode transmitir a verdade aos pais, observando o devido respeito e consideração por eles. O mínimo que pode fazer é oferecer-lhes livros islâmicos para ler. Em quarto lugar, dediquem tanto tempo quanto puderem poupar de seus deveres domésticos para transmitir o conhecimento do Islam às mulheres ao seu redor. Eduquem as moças e as mulheres idosas sem instrução. Forneçam literatura islâmica útil às mulheres alfabetizadas. Organizem reuniões de mulheres e expliquem-lhes os ensinamentos do Islam. Se não puderem falar em público, simplesmente leiam para elas trechos relevantes e úteis da literatura. Em suma, façam o máximo possível, usando todos os meios e maneiras disponíveis, para eliminar a ignorância e o analfabetismo entre as mulheres ao seu redor.
CAPÍTULO UM: OS DIREITOS HUMANOS, O OCIDENTE E O ISLÃ
Antes de discutir os direitos humanos no Islã, gostaria de explicar alguns pontos sobre duas grandes abordagens da questão dos direitos humanos: a ocidental e a islâmica. Isso nos permitirá estudar o assunto em sua perspectiva apropriada e evitar parte da confusão que normalmente obscurece tal discussão.
A abordagem ocidental: As pessoas no Ocidente têm o hábito de atribuir a si mesmas tudo o que é bom e tentam provar que foi graças a elas que o mundo recebeu essa bênção; caso contrário, o mundo estaria mergulhado na ignorância e completamente inconsciente de todos esses benefícios. Vejamos agora a questão dos direitos humanos. Afirma-se, com grande alarde e veemência, que o mundo obteve o conceito dos direitos humanos básicos da Magna Carta da Grã-Bretanha, embora a própria Magna Carta tenha surgido seiscentos anos depois do advento do Islã. Mas a verdade é que, até o século XVII, ninguém sequer sabia que a Magna Carta continha os princípios do julgamento por júri, do habeas corpus e do controle do Parlamento sobre o direito de tributação. Se as pessoas que redigiram a Magna Carta estivessem vivas hoje, ficariam muito surpresas se lhes dissessem que seu documento também continha todos esses ideais e princípios. Não tinham tal intenção, nem estavam conscientes de todos esses conceitos que agora lhes são atribuídos. Pelo que sei, os ocidentais não tinham qualquer conceito de direitos humanos e direitos cívicos antes do século XVII. Mesmo depois do século XVII, embora os filósofos e pensadores da jurisprudência tenham apresentado essas ideias, a prova prática e a demonstração desses conceitos só podem ser encontradas no final do século XVIII, nas proclamações e constituições da América e da França. Depois disso, os direitos humanos básicos passaram a ser mencionados nas constituições de diferentes países. Mas, na maioria das vezes, os direitos concedidos no papel não eram realmente concedidos às pessoas na vida real. Em meados do século atual, as Nações Unidas, que agora poderiam ser descritas de modo mais apropriado e verdadeiro como as Nações Divididas, fizeram uma Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovaram uma resolução contra o genocídio e formularam regulamentos para contê-lo. Mas, como todos sabem, não há uma única resolução ou regulamento das Nações Unidas que possa ser imposto. São apenas a expressão de uma esperança piedosa. Não contam com sanções, nem com força física ou moral para fazê-los cumprir. Apesar de todas as resoluções ambiciosas e pomposas das Nações Unidas, os direitos humanos foram violados e pisoteados em diferentes lugares, e as Nações Unidas permaneceram como espectadoras impotentes. Elas não estão em posição de exercer um controle eficaz sobre a violação dos direitos humanos. Até mesmo o hediondo crime de genocídio é perpetrado apesar de todas as proclamações das Nações Unidas. Bem no país vizinho, o Paquistão, o genocídio dos muçulmanos vem ocorrendo há vinte e oito anos, mas as Nações Unidas não têm poder nem força para tomar qualquer medida contra a Índia. Nenhuma ação foi sequer tomada contra qualquer país culpado desse crime tão grave e revoltante.
A abordagem islâmica: O segundo ponto que gostaria de esclarecer desde o início é que, quando falamos dos direitos humanos no Islã, queremos dizer, na realidade, que esses direitos foram concedidos por Deus; não foram concedidos por qualquer rei ou assembleia legislativa. Os direitos concedidos pelos reis ou pelas assembleias legislativas também podem ser retirados da mesma maneira como são concedidos. O mesmo se aplica aos direitos aceitos e reconhecidos pelos ditadores. Eles podem concedê-los quando quiserem e retirá-los quando desejarem; e podem violá-los abertamente quando lhes aprouver. Mas, como no Islã os direitos humanos foram conferidos por Deus, nenhuma assembleia legislativa do mundo, nem qualquer governo na Terra, tem o direito ou a autoridade de fazer qualquer emenda ou mudança nos direitos conferidos por Deus. Ninguém tem o direito de aboli-los ou retirá-los. Tampouco são eles direitos humanos básicos conferidos no papel para exibição e ostentação, mas negados na vida real quando termina a encenação. Nem são como conceitos filosóficos que não têm sanções por trás de si. A carta, as proclamações e as resoluções das Nações Unidas não podem ser comparadas aos direitos sancionados por Deus, pois as primeiras não são aplicáveis a ninguém, enquanto estes últimos são aplicáveis a todo crente. Eles fazem parte integrante da fé islâmica. Todo muçulmano ou administrador que se declare muçulmano terá de aceitá-los, reconhecê-los e fazê-los cumprir. Se deixarem de fazê-los cumprir, começarem a negar os direitos garantidos por Deus, fizerem emendas e mudanças neles ou os violarem na prática enquanto apenas lhes prestam homenagem verbal, o veredicto do Alcorão Sagrado para tais governos é claro e inequívoco: “Aqueles que não julgam conforme o que Deus revelou são os descrentes (kafirun).” 5:44. O versículo seguinte também declara: “Eles são os injustos (zalimun)” (5:45), enquanto um terceiro versículo da mesma surata diz: “Eles são os transgressores (fasiqun)” (5:47). Em outras palavras, isso significa que, se as autoridades temporais considerarem corretas suas próprias palavras e decisões e erradas as que foram dadas por Deus, serão descrentes. Se, por outro lado, considerarem corretos os mandamentos de Deus, mas os rejeitarem conscientemente e impuserem suas próprias decisões contra os mandamentos de Deus, então serão os corruptores e os injustos. Fasiq, o transgressor da lei, é aquele que desconsidera o vínculo de lealdade, e zalim é aquele que age contra a verdade. Assim, todas as autoridades temporais que afirmam ser muçulmanas e, ainda assim, violam os direitos sancionados por Deus pertencem a uma dessas duas categorias: ou são descrentes, ou são injustos e corruptores. Os direitos sancionados por Deus são permanentes, perpétuos e eternos. Não estão sujeitos a alterações ou modificações, e não há margem para qualquer mudança ou ab-rogação.
CAPÍTULO DOIS: DIREITOS HUMANOS BÁSICOS
A primeira coisa que encontramos no Islã a esse respeito é que ele estabelece certos direitos para o ser humano enquanto ser humano. Em outras palavras, isso significa que todo homem, pertença a este ou àquele país, seja crente ou incrédulo, viva em alguma floresta ou seja encontrado em algum deserto, qualquer que seja o caso, possui certos direitos humanos básicos simplesmente por ser um ser humano, os quais devem ser reconhecidos por todo muçulmano. Na verdade, será seu dever cumprir essas obrigações.
1. O Direito à Vida
O primeiro e mais fundamental direito é o direito de viver e de respeitar a vida humana. O Alcorão Sagrado estabelece: Quem quer que mate um ser humano sem (qualquer razão, como) homicídio ou corrupção na terra, é como se tivesse matado toda a humanidade… (5:32) No que diz respeito à questão de tirar uma vida em retaliação por assassinato ou à questão da punição por espalhar a corrupção nesta terra, isso só pode ser decidido por um tribunal de justiça devidamente competente. Se houver uma guerra com alguma nação ou país, isso só pode ser decidido por um governo devidamente constituído. Em qualquer caso, nenhum ser humano tem, por si mesmo, o direito de tirar a vida humana em retaliação ou por causar desordem nesta terra. Portanto, é dever de todo ser humano não ser culpado de tirar uma vida humana sob circunstância alguma. Se alguém assassinou um ser humano, é como se tivesse matado toda a raça humana. Essas instruções foram repetidas no Alcorão Sagrado em outro lugar, dizendo: Não mateis uma alma que Allah tornou sagrada, exceto mediante o devido processo legal… (6:151) Aqui também o homicídio foi distinguido da destruição de uma vida realizada em busca da justiça. Somente um tribunal devidamente competente poderá decidir se um indivíduo perdeu ou não seu direito à vida por desconsiderar o direito à vida e à paz de outros seres humanos. O Profeta, que as bênçãos de Deus estejam sobre ele, declarou o homicídio o maior pecado, vindo logo depois do politeísmo. A Tradição do Profeta diz: “Os maiores pecados são associar algo a Deus e matar seres humanos.” Em todos esses versículos do Alcorão e nas Tradições do Profeta, a palavra “alma” (nafs) foi usada em termos gerais, sem qualquer distinção ou particularização que pudesse dar margem à interpretação de que não deveriam ser mortas as pessoas pertencentes à própria nação, os cidadãos do próprio país ou as pessoas de determinada raça ou religião. A injunção aplica-se a todos os seres humanos, e a destruição da vida humana em si foi proibida. “O Direito à Vida” foi concedido ao ser humano somente pelo Islã. Observareis que as pessoas que falam sobre os direitos humanos, se alguma vez os mencionaram em suas Constituições ou Declarações, deixam claramente implícito que esses direitos se aplicam apenas aos seus cidadãos ou foram formulados exclusivamente para a raça branca. Isso pode ser claramente constatado pelo fato de que seres humanos foram caçados como animais na Austrália, e a terra foi desocupada de seus aborígenes para o homem branco. Do mesmo modo, a população aborígene da América foi sistematicamente destruída, e os indígenas que de algum modo sobreviveram a esse genocídio foram confinados em áreas específicas chamadas Reservas. Eles também penetraram na África e caçaram seres humanos como animais selvagens. Todos esses exemplos provam que eles não têm respeito pela vida humana como tal e, se o têm, é apenas com base em sua nacionalidade, cor ou raça. Em contraste com isso, o Islã reconhece esse direito para todos os seres humanos. Se um homem pertence a uma tribo primitiva ou selvagem, ainda assim o Islã o considera um ser humano.
2. O Direito à Segurança da Vida Imediatamente após o versículo do Alcorão Sagrado que foi mencionado em conexão com o direito à vida, Deus disse: “E quem quer que salve uma vida, é como se tivesse salvo as vidas de toda a humanidade” (5:32). Pode haver várias formas de salvar o ser humano da morte. Um homem pode estar doente ou ferido, independentemente de sua nacionalidade, raça ou cor. Se souberdes que ele necessita de vossa ajuda, então é vosso dever providenciar seu tratamento para a doença ou ferimento. Se estiver morrendo de fome, então é vosso dever alimentá-lo para que possa afastar a morte. Se estiver se afogando ou sua vida estiver em perigo, então é vosso dever salvá-lo. Surpreender-vos-á saber que o Talmude, o livro religioso dos judeus, contém um versículo de natureza semelhante, mas o registra de forma completamente diferente. Diz: “Quem quer que destrua a vida de um israelita, aos olhos das Escrituras, é como se tivesse destruído o mundo inteiro. E quem quer que proteja e salve a vida de um israelita, à luz das Escrituras, é como se tivesse salvado o mundo inteiro.” O Talmude também contém a opinião de que, se um não israelita estiver se afogando e vós tentardes salvá-lo, então sois pecador. Pode-se dar a isso outro nome que não racismo? Consideramos nosso dever salvar toda vida humana, porque é assim que fomos instruídos no Alcorão Sagrado. Por outro lado, se eles consideram necessário salvar de todo modo a vida de um ser humano, deveria ser a vida de um israelita. Quanto às outras pessoas, de acordo com essa visão, elas não parecem ser suficientemente humanas para merecer a proteção de suas pessoas. Em sua literatura, o conceito de “Goyim”, para o qual se usa a palavra inglesa “Gentile” e a palavra árabe ummi (iletrado), é que eles não gozam de direitos humanos; os direitos humanos são reservados apenas aos filhos de Israel. O Alcorão mencionou essa crença dos israelitas e cita os judeus dizendo: “Não temos culpa (por qualquer coisa que façamos) em relação aos iletrados (isto é, os ummi)” (3:75).
3. Respeito pela Castidade das Mulheres A terceira coisa importante que encontramos na Carta dos Direitos Humanos concedida pelo Islã é que a castidade de uma mulher deve ser respeitada e protegida sob todas as circunstâncias, quer ela pertença à nossa própria nação ou à nação inimiga, quer a encontremos numa floresta selvagem ou numa cidade conquistada; quer seja nossa correligionária, quer pertença a outra religião ou não tenha religião alguma. Um muçulmano não pode ultrajá-la sob circunstância alguma. Toda relação promíscua lhe foi proibida, independentemente do status ou da posição da mulher, quer ela seja uma parceira disposta ou não ao ato. As palavras do Alcorão Sagrado a esse respeito são: “Não vos aproximeis (dos limites) do adultério” (17:32). Foi prescrita uma punição severa para esse crime, e a ordem não foi qualificada por condição alguma. Como a violação da castidade de uma mulher é proibida no Islã, um muçulmano que comete esse crime não pode escapar da punição, quer a receba neste mundo, quer no Além. Esse conceito da santidade da castidade e da proteção das mulheres não pode ser encontrado em nenhum outro lugar, exceto no Islã. Os exércitos das potências ocidentais precisam das filhas de sua própria nação para satisfazer seus apetites carnais até mesmo em seus próprios países e, se por acaso ocuparem outro país, o destino de suas mulheres pode ser mais bem imaginado do que descrito. Mas a história dos muçulmanos, salvo alguns deslizes de indivíduos aqui ou ali, esteve livre desse crime contra a condição feminina. Nunca aconteceu de, após a conquista de um país estrangeiro, o exército muçulmano sair estuprando as mulheres do povo conquistado ou, em seu próprio país, o governo providenciar prostitutas para eles. Esta também é uma grande bênção que a raça humana recebeu por meio do Islã.2
4. O Direito a um Padrão Básico de Vida Falando sobre os direitos econômicos, o Alcorão Sagrado prescreve a seus seguidores: E em suas riquezas há um direito reconhecido para os necessitados e desamparados. (51:19) As palavras dessa injunção mostram que se trata de uma ordem categórica e sem qualificações. Além disso, essa injunção foi dada em Meca, onde não existia sociedade muçulmana e onde, em geral, os muçulmanos tinham de entrar em contato com a população dos descrentes. Portanto, o significado claro desse versículo é que qualquer pessoa que peça ajuda e qualquer pessoa que sofra privação tem direito à propriedade e à riqueza dos muçulmanos, independentemente do fato de pertencer a esta ou àquela nação, a este ou àquele país, a esta ou àquela raça. Se estiverdes em posição de ajudar e uma pessoa necessitada vos pedir ajuda, ou se tomardes conhecimento de que ela está necessitada, então é vosso dever ajudá-la. Deus estabeleceu esse direito sobre vós, e tendes de honrá-lo como muçulmano.
5. Direito do indivíduo à liberdade
O Islã proibiu clara e categoricamente a prática primitiva de capturar um homem livre para torná-lo escravo ou vendê-lo como escravo. Sobre este ponto, as palavras claras e inequívocas do Profeta (S) são as seguintes: “Há três categorias de pessoas contra as quais eu próprio apresentarei uma queixa no Dia do Juízo. Uma dessas três é aquele que escraviza um homem livre, depois o vende e consome esse dinheiro” (al-Bukhari e Ibn Majjah). As palavras desta Tradição do Profeta também são gerais; não foram qualificadas nem aplicadas a uma nação, raça, país ou seguidores de uma religião específica. Os europeus têm grande orgulho em afirmar que aboliram a escravidão do mundo, embora só tenham tido a decência de fazê-lo em meados do século passado. Antes disso, essas potências ocidentais vinham saqueando a África em grande escala, capturando seus homens livres, submetendo-os à servidão e transportando-os para suas novas colônias. O tratamento que deram a essas pessoas desafortunadas foi pior do que o dado aos animais. Os livros escritos pelos próprios povos ocidentais testemunham este fato.
O Comércio de Escravos das Nações Ocidentais: Após a ocupação da América e das Índias Ocidentais, o tráfico de escravos continuou durante trezentos e cinquenta anos. As costas africanas para onde os africanos capturados, de pele negra, eram trazidos do interior da África e colocados nos navios que partiam desses portos passaram a ser conhecidas como a Costa dos Escravos. Somente durante um século (de 1680 a 1786), o número total de pessoas livres capturadas e escravizadas exclusivamente para as colônias britânicas chegou, segundo a estimativa de autores britânicos, a 20 milhões de seres humanos. Ao longo de apenas um ano (1790), somos informados de que 75.000 seres humanos foram capturados e enviados para o trabalho escravo nas colônias. Os navios usados para transportar os escravos eram pequenos e imundos. Esses desafortunados africanos eram empurrados para os porões desses navios como gado, até o topo, e muitos deles eram acorrentados às prateleiras de madeira sobre as quais mal podiam se mover, pois elas ficavam separadas por apenas dezoito polegadas, uma sobre a outra. Não recebiam alimentação adequada e, se adoecessem ou fossem feridos, nenhuma tentativa era feita para lhes oferecer tratamento médico. Os próprios escritores ocidentais afirmam que pelo menos 20% do número total de pessoas capturadas para a escravidão e o trabalho forçado pereceram durante o transporte da costa africana para a América. Também se estima que o número total de pessoas capturadas para a escravidão pelas diversas nações europeias durante o auge do comércio de escravos tenha chegado a pelo menos cem milhões. Este é o histórico daqueles que denunciam os muçulmanos dia e noite por reconhecerem a instituição da escravidão. É como se um criminoso apontasse o dedo da culpa para um homem inocente.
A Posição da Escravidão no Islã: Em resumo, gostaria de lhes falar sobre a posição e a natureza da escravidão no Islã. O Islã tentou resolver o problema dos escravos que havia na Arábia, incentivando as pessoas de diferentes maneiras a libertarem seus escravos. Os muçulmanos foram ordenados a libertar seus escravos como expiação por alguns de seus pecados. Libertar um escravo por livre e espontânea vontade foi declarado um ato de grande mérito, a tal ponto que se dizia que cada membro do homem que liberta um escravo será protegido do fogo do Inferno em lugar do membro do escravo por ele libertado. O resultado dessa política foi que, quando se chegou ao período dos Califas Bem-Guiados, todos os antigos escravos da Arábia haviam sido libertados. Somente o Profeta libertou nada menos que 63 escravos. O número de escravos libertados por ‘Aishah foi 67; ‘Abbas libertou 70; ‘Abd Allah ibn ‘Umar libertou mil; e ‘Abd al-Rahman comprou trinta mil e os libertou. Da mesma forma, outros Companheiros do Profeta libertaram um grande número de escravos, cujos detalhes são apresentados nas Tradições e nos livros de história daquele período. Assim, o problema dos escravos da Arábia foi resolvido em um curto período de trinta ou quarenta anos. Depois disso, a única forma de escravidão que restou na sociedade islâmica foi a dos prisioneiros de guerra, capturados no campo de batalha. Esses prisioneiros de guerra eram mantidos pelo Governo muçulmano até que seu governo concordasse em recebê-los de volta em troca dos soldados muçulmanos capturados por ele, ou providenciasse o pagamento de resgate em seu nome. Se os soldados capturados não fossem trocados por prisioneiros de guerra muçulmanos, ou se seu povo não pagasse o resgate para comprar sua liberdade, o Governo muçulmano costumava distribuí-los entre os soldados do exército que os havia capturado. Esta era uma maneira mais humana e apropriada de dispor deles do que mantê-los como gado em campos de concentração, submetê-los a trabalho forçado e, se suas mulheres também fossem capturadas, destiná-las à prostituição. Em lugar de uma forma tão cruel e ultrajante de dispor dos prisioneiros de guerra, o Islã preferiu espalhá-los entre a população e, assim, colocá-los em contato com seres humanos individualmente. Além disso, seus guardiões receberam ordens de tratá-los bem. O resultado dessa política humana foi que a maioria dos homens capturados em campos de batalha estrangeiros e levados para os países muçulmanos como escravos abraçou o Islã, e seus descendentes produziram grandes eruditos, imames, juristas, comentaristas, estadistas e generais do exército. A tal ponto que, mais tarde, tornaram-se os governantes do mundo muçulmano. A solução para este problema proposta na época atual é que, após a cessação das hostilidades, os prisioneiros de guerra dos países combatentes sejam trocados. Os muçulmanos, porém, praticam isso desde o início e, sempre que o adversário aceitava a troca de prisioneiros de guerra de ambos os lados, ela era realizada sem a menor hesitação ou demora. Na guerra moderna, também vemos que, se um governo é completamente derrotado, ficando sem qualquer possibilidade de negociar pelos prisioneiros de guerra, e a parte vencedora recupera facilmente seus prisioneiros, a experiência demonstrou que os prisioneiros de guerra do exército derrotado são mantidos em condições muito piores do que as dos escravos. Pode alguém nos dizer qual foi o destino dos milhares de prisioneiros de guerra capturados pela Rússia dos exércitos derrotados da Alemanha e do Japão na Segunda Guerra Mundial? Até agora, ninguém prestou contas deles. Ninguém sabe quantos milhares ainda estão vivos e quantos milhares pereceram devido às durezas dos campos russos de concentração e de trabalho. O trabalho forçado que lhes foi imposto é muito pior do que o serviço que se pode exigir de escravos. Talvez nem mesmo na época dos antigos faraós do Egito tenha sido exigido dos escravos um trabalho tão árduo na construção das pirâmides do Egito quanto o que foi imposto aos prisioneiros de guerra na Rússia, no desenvolvimento da Sibéria e de outras regiões atrasadas da Rússia, ou no trabalho em minas de carvão e outras minas sob temperaturas abaixo de zero, mal vestidos, mal alimentados e tratados brutalmente por seus supervisores.
6. O Direito à Justiça
Este é um direito muito importante e valioso que o Islã concedeu ao ser humano enquanto ser humano. O Alcorão Sagrado estabelece: “Não deixe que o ódio por um povo os incite à agressão” (5:2). “E não deixe que a animosidade contra qualquer povo os incite a se desviarem da justiça. Sejam justos; isso está mais próximo da piedade” (5:8). Ressaltando este ponto, o Alcorão afirma novamente: “Ó vós que credes, permanecei firmes diante de Deus como testemunhas da verdade e da justiça” (4:135). Isso deixa claro que os muçulmanos devem ser justos não apenas com os seres humanos comuns, mas até mesmo com seus inimigos. Em outras palavras, a justiça à qual o Islã convida seus seguidores não se limita aos cidadãos de seu próprio país, nem às pessoas de sua própria tribo, nação ou raça, nem à comunidade muçulmana como um todo; ela se destina a todos os seres humanos do mundo. Portanto, os muçulmanos não podem ser injustos com ninguém. Seu hábito e caráter permanentes devem ser tais que nenhum ser humano jamais tema sofrer injustiça pelas suas mãos, e eles devem tratar todo ser humano, em toda parte, com justiça e equidade.
7. Igualdade dos Seres Humanos
O Islã não apenas reconhece a igualdade absoluta entre os seres humanos, independentemente de qualquer distinção de cor, raça ou nacionalidade, mas também a transforma em um princípio importante e significativo, uma realidade. O Deus Todo-Poderoso estabeleceu no Alcorão Sagrado: “Ó humanidade, Nós vos criamos de um homem e de uma mulher.” Em outras palavras, todos os seres humanos são irmãos uns dos outros. Todos são descendentes de um mesmo pai e de uma mesma mãe. “E vos estabelecemos como povos e tribos para que pudésseis reconhecer-vos uns aos outros” (49:13). Isso significa que a divisão dos seres humanos em nações, raças, grupos e tribos existe para fins de distinção, para que as pessoas de uma raça ou tribo possam encontrar-se e conhecer as pessoas pertencentes a outra raça ou tribo, e cooperar umas com as outras. Essa divisão da raça humana não se destina a que uma nação se orgulhe de sua superioridade sobre as outras, nem a que uma nação trate outra com desprezo ou desonra, ou a considere uma raça inferior e degradada, usurpando seus direitos. “Certamente, o mais nobre de vós perante Deus é o mais piedoso de vós” (49:13). Em outras palavras, a superioridade de uma pessoa sobre outra baseia-se apenas na consciência de Deus, na pureza de caráter e nos elevados valores morais, e não na cor, raça, língua ou nacionalidade; e nem mesmo essa superioridade baseada na piedade e na conduta pura justifica que tais pessoas se comportem como senhores ou assumam ares de superioridade sobre os demais seres humanos. Assumir ares de superioridade é, por si só, um vício repreensível que nenhum homem temente a Deus e piedoso poderia sequer sonhar em praticar. Tampouco os virtuosos têm direitos mais privilegiados que os demais, pois isso contraria a igualdade humana, estabelecida no início deste versículo como princípio geral. Do ponto de vista moral, a bondade e a virtude são, em todos os casos, melhores que o vício e o mal. Isso foi exemplificado pelo Profeta em um de seus ditos: “Nenhum árabe tem superioridade sobre um não árabe, nem um não árabe tem superioridade sobre um árabe. Tampouco um homem branco tem superioridade sobre um homem negro, nem um homem negro tem superioridade sobre um homem branco. Todos sois filhos de Adão, e Adão foi criado do barro” (al-Bayhaqi e al-Bazzaz). Dessa maneira, o Islã estabeleceu a igualdade para toda a raça humana e atingiu a própria raiz de todas as distinções baseadas na cor, raça, língua ou nacionalidade. Segundo o Islã, Deus concedeu ao ser humano esse direito à igualdade como um direito de nascença. Portanto, ninguém deve ser discriminado por causa da cor de sua pele, de seu local de nascimento, da raça ou da nação em que nasceu. Malcolm X, o famoso líder dos negros africanos na América, que havia lançado uma amarga luta contra os brancos da América para conquistar direitos civis para seus compatriotas negros, quando foi realizar a peregrinação e viu como os muçulmanos da Ásia, África, Europa e América, bem como os de diferentes raças, línguas e cores de pele, vestiam uma única roupa e corriam em direção à Casa de Deus — a Ka’bah —, oferecendo orações em uma única fileira, sem qualquer distinção entre eles, percebeu que essa era a solução para o problema da cor e da raça, e não aquilo que ele vinha tentando buscar ou alcançar na América até então. Hoje, vários pensadores não muçulmanos, livres de preconceitos cegos, admitem abertamente que nenhuma outra religião ou modo de vida resolveu esse problema com o mesmo grau de sucesso com que o Islã o fez.
8. O Direito de Cooperar e de Não Cooperar O Islã prescreveu um princípio geral de importância primordial e aplicação universal, dizendo: “Cooperai uns com os outros para a virtude e a piedade, e não coopereis uns com os outros para o vício e a agressão” (5:2). Isso significa que a pessoa que empreende uma obra nobre e justa, independentemente de viver no Polo Norte ou no Polo Sul, tem o direito de esperar apoio e cooperação ativa dos muçulmanos. Ao contrário, aquele que pratica atos de vício e agressão, mesmo que seja nosso parente mais próximo ou nosso vizinho, não tem o direito de obter nosso apoio e ajuda em nome da raça, do país, da língua ou da nacionalidade, nem deve esperar que os muçulmanos cooperem com ele ou o apoiem. Tampouco é permitido aos muçulmanos cooperar com ele. A pessoa perversa e viciada pode ser nosso próprio irmão, mas não é dos nossos e não pode receber de nós qualquer ajuda ou apoio enquanto não se arrepender e corrigir seus caminhos. Por outro lado, a pessoa que pratica atos de virtude e retidão pode não ter qualquer parentesco com os muçulmanos, mas os muçulmanos serão seus companheiros e apoiadores, ou pelo menos seus benquerentes.
CAPÍTULO TRÊS: DIREITOS DOS CIDADÃOS EM UM ESTADO ISLÂMICO
Já discutimos os direitos humanos em geral. Agora gostaríamos de abordar a questão dos direitos dos cidadãos em um Estado islâmico. Como esses direitos são mais amplos que os direitos humanos gerais descritos anteriormente, eles precisam ser tratados separadamente.
1. A Segurança da Vida e da Propriedade No discurso que o Profeta proferiu por ocasião da Peregrinação de Despedida, ele disse: “As vossas vidas e propriedades são invioláveis umas para as outras até que encontreis o vosso Senhor no Dia da Ressurreição.” Deus Todo-Poderoso estabeleceu no Alcorão Sagrado: “Quem matar deliberadamente um crente receberá como recompensa (a sentença de) viver eternamente no Inferno. Deus ficará irado com ele, amaldiçoá-lo-á e preparará para ele um tormento terrível” (4:93). O Profeta também disse a respeito dos dimis (os cidadãos não muçulmanos do Estado muçulmano): “Quem matar uma pessoa sob pacto (isto é, um dimi) não sentirá sequer o aroma do Paraíso” (al-Bukhari e Abu Dawud). O Islã proíbe o homicídio, mas admite apenas uma exceção: que a morte seja aplicada no devido processo legal, ao qual o Alcorão se refere como bi alhaqq (com a verdade). Portanto, uma pessoa só pode ser morta quando a lei assim o exigir, e é evidente que somente um tribunal pode decidir se a execução está sendo realizada com justiça ou sem justificativa. Em caso de guerra ou insurreição, somente um governo justo e íntegro, que siga a Sharia ou a Lei Islâmica, pode decidir se uma guerra é justa ou injusta, se a privação de uma vida é justificada ou não, se uma pessoa é rebelde ou não e quem pode ser condenado à morte como punição. Essas decisões importantes não podem ser deixadas nas mãos de um tribunal que se tenha tornado negligente para com Deus e esteja sob a influência da administração. Uma magistratura desse tipo pode cometer injustiça. Tampouco os crimes de Estado podem ser justificados com base no Alcorão Sagrado ou nas Tradições (hadith), quando o Estado assassina aberta e secretamente os seus cidadãos, sem qualquer hesitação ou sob o menor pretexto, por se oporem às suas políticas e ações injustas ou por criticarem os seus atos ilícitos, e também oferece proteção aos seus assassinos contratados, culpados do hediondo crime de assassinar uma pessoa inocente, com o resultado de que nem a polícia toma qualquer medida contra tais criminosos, nem qualquer prova ou testemunha contra eles pode ser apresentada nos tribunais. A própria existência de tal governo é um crime, e nenhum dos assassinatos por ele cometidos pode ser chamado de “execução em nome da justiça”, na terminologia do Alcorão Sagrado. Juntamente com a segurança da vida, o Islã conferiu, com igual clareza e precisão, o direito à segurança da propriedade, como mencionado anteriormente em referência ao discurso da Peregrinação de Despedida. Por outro lado, o Alcorão Sagrado chega a declarar que a apropriação dos bens ou propriedades das pessoas é totalmente proibida, a menos que sejam adquiridos por meios lícitos, conforme permitido pelas Leis de Deus. A Lei de Deus declara categoricamente: “Não devoreis os bens uns dos outros por meios falsos e ilícitos” (2:188).
2. A Proteção da Honra
O segundo direito importante é o direito dos cidadãos à proteção de sua honra. No discurso proferido por ocasião da Peregrinação de Despedida, ao qual me referi anteriormente, o Profeta não apenas proibiu que os muçulmanos atentassem contra a vida e os bens uns dos outros, mas também proibiu qualquer violação da honra, do respeito e da castidade de uns pelos outros. O Alcorão Sagrado estabelece claramente: (a) “Ó vós que credes, que um grupo de pessoas não zombe de outro grupo. (b) Não difameis uns aos outros. (c) Não vos insulteis usando apelidos. (d) E não faleis mal nem calunieis uns aos outros” (49:11-12). Esta é a lei do Islã para a proteção da honra, que é, de fato, muito superior e melhor do que a Lei Ocidental de Difamação. Segundo a Lei Islâmica, se ficar provado que alguém atentou contra a honra de outra pessoa, então, independentemente de a vítima conseguir ou não provar que é uma pessoa respeitável e honrada, o culpado receberá, em qualquer caso, a punição que lhe é devida. Mas o fato interessante sobre a Lei Ocidental de Difamação é que a pessoa que move uma ação por difamação precisa primeiro provar que é um homem de honra e de estima pública e, durante o interrogatório, é submetida aos ataques, acusações e insinuações caluniosos do advogado de defesa, a tal ponto que sofre mais desonra do que aquela causada pelo ataque à sua reputação contra o qual batera às portas do tribunal. Além disso, precisa apresentar testemunhas que atestem no tribunal que, devido às acusações difamatórias do culpado, o acusado caiu em descrédito aos olhos delas. Meu Deus! Que ponto sutil da lei, e que apego ao espírito da Lei! Como pode essa lei injusta e parcial ser comparada à lei divina? O Islã declarou a blasfêmia um crime, independentemente de o acusado ser ou não um homem de honra e de as palavras usadas na blasfêmia terem ou não realmente desonrado a vítima e prejudicado sua reputação aos olhos do público. Segundo a Lei Islâmica, basta provar que o acusado disse coisas que, segundo o senso comum, poderiam ter prejudicado a reputação e a honra do autor da ação para que o acusado seja declarado culpado de difamação.
3. A Santidade e a Segurança da Vida Privada O Islã reconhece o direito de todo cidadão de seu Estado a que não haja interferência indevida nem invasão de sua vida privada. O Alcorão Sagrado estabeleceu a injunção: “Não espioneis uns aos outros” (49:12). “Não entreis em nenhuma casa além de vossas próprias casas, a menos que tenhais certeza do consentimento de seus ocupantes” (24:27). O Profeta chegou ao ponto de instruir seus seguidores de que um homem não deveria entrar nem mesmo em sua própria casa de modo súbito ou furtivo. Deveria, de alguma forma, informar ou indicar aos moradores da casa que estava entrando, para que não visse sua mãe, irmã ou filha em uma condição na qual elas não gostariam de ser vistas, nem ele próprio gostaria de vê-las naquela condição. Espiar dentro das casas de outras pessoas também foi estritamente proibido, a tal ponto que há uma declaração do Profeta segundo a qual, se um homem encontrar outra pessoa espiando secretamente dentro de sua casa e lhe cegar um olho ou ambos como punição, não poderá ser chamado a prestar contas nem estará sujeito a processo. O Profeta também proibiu as pessoas de lerem as cartas alheias; assim, se um homem estiver lendo sua carta e outro lançar olhares de soslaio sobre ela e tentar lê-la, sua conduta se tornará reprovável. Esta é a santidade da privacidade que o Islã concede aos indivíduos. Por outro lado, no mundo civilizado moderno, vemos que não apenas as cartas de outras pessoas são lidas e sua correspondência censurada, mas até mesmo suas cópias fotostáticas são guardadas para uso futuro ou chantagem. Dispositivos de escuta também são secretamente instalados nas casas das pessoas, para que se possa ouvir e gravar à distância a conversa que ocorre atrás de portas fechadas. Em outras palavras, isso significa que não existe algo como privacidade e que, para todos os efeitos práticos, a vida privada de um indivíduo não existe. Essa espionagem da vida do indivíduo não pode ser justificada em bases morais pelo governo, alegando que é necessário conhecer os segredos das pessoas perigosas. Embora, para todos os efeitos, a base dessa política seja o medo e a suspeita com que os governos modernos veem seus cidadãos inteligentes e insatisfeitos com as políticas oficiais do governo. Isso é exatamente o que o Islã chamou de causa fundamental da corrupção na política. A injunção do Profeta é: “Quando o governante começa a procurar as causas da insatisfação entre seu povo, ele o corrompe” (Abu Dawud). O Amir Mu’awiyah disse que ele próprio ouviu o Profeta dizer: “Se tentardes descobrir os segredos das pessoas, certamente as corrompereis ou, pelo menos, as levareis à beira da ruína.” O significado da expressão ‘corrompê-las’ é que, quando espiões (agentes do C.I.D. ou do F.B.I.) são espalhados por todo o país para descobrir os assuntos das pessoas, estas começam a olhar umas para as outras com suspeita, a tal ponto que têm medo de falar livremente em suas casas, receando que alguma palavra escape dos lábios de suas esposas e filhos e possa colocá-las em situações embaraçosas. Desse modo, torna-se difícil para um cidadão comum falar livremente, até mesmo em sua própria casa, e a sociedade começa a sofrer de um estado de desconfiança e suspeita generalizadas.
4. A Segurança da Liberdade Pessoal
O Islã também estabeleceu o princípio de que nenhum cidadão pode ser preso a menos que sua culpa tenha sido comprovada em um tribunal público. Prender alguém apenas com base em suspeita e lançá-lo na prisão sem os devidos procedimentos judiciais e sem lhe proporcionar uma oportunidade razoável de apresentar sua defesa não é permitido no Islã. É relatado no hadith que, certa vez, o Profeta estava proferindo uma palestra na mesquita, quando um homem se levantou durante a palestra e disse: “Ó Profeta de Deus, por qual crime meus vizinhos foram presos?” O Profeta ouviu a pergunta e continuou seu discurso. O homem levantou-se novamente e repetiu a mesma pergunta. O Profeta mais uma vez não respondeu e continuou seu discurso. O homem levantou-se pela terceira vez e repetiu a mesma pergunta. Então o Profeta ordenou que os vizinhos do homem fossem libertados. A razão pela qual o Profeta permaneceu em silêncio quando a pergunta foi repetida duas vezes anteriormente era que o policial estava presente na mesquita e, se houvesse motivos legítimos para a prisão dos vizinhos daquele homem, ele teria se levantado para explicar sua posição. Como o policial não apresentou nenhuma razão para essas prisões, o Profeta ordenou que os presos fossem libertados. O policial conhecia a lei islâmica e, por isso, não se levantou para dizer: “A administração conhece as acusações contra os homens presos, mas elas não podem ser divulgadas em público. Se o Profeta indagasse sobre a culpa deles em sessão secreta, eu o esclareceria.” Se o policial tivesse feito tal declaração, teria sido demitido imediatamente. O fato de o policial não ter apresentado nenhuma razão para as prisões em um tribunal público foi razão suficiente para que o Profeta desse ordens imediatas para a libertação dos presos. A determinação do Alcorão Sagrado é muito clara sobre esse ponto: “Quando julgardes entre as pessoas, julgai com senso de justiça” (4:58). E Deus também disse ao Profeta: “Foi-me ordenado fazer justiça entre vós.” Foi por essa razão que o califa Umar disse: “No Islã, ninguém pode ser preso senão em cumprimento da justiça.” As palavras aqui empregadas indicam claramente que justiça significa devido processo legal. O que foi proibido e condenado é que uma pessoa seja presa e encarcerada sem prova de sua culpa em um tribunal público e sem que lhe seja dada a oportunidade de se defender dessas acusações. Se o Governo suspeitar que determinado indivíduo cometeu um crime ou que provavelmente cometerá uma infração em um futuro próximo, deverá apresentar as razões de sua suspeita perante um tribunal de justiça, e o culpado ou suspeito deverá ter permissão para apresentar sua defesa em um tribunal público, para que o tribunal decida se a suspeita contra ele se baseia em fundamentos sólidos ou não; e, se houver boa razão para a suspeita, ele deverá ser informado por quanto tempo permanecerá em detenção preventiva. Essa decisão deverá ser tomada, em todas as circunstâncias, em um tribunal público, para que o público possa ouvir as acusações apresentadas pelo governo, bem como a defesa feita pelo acusado, e verificar que o devido processo legal está sendo aplicado a ele e que ele não está sendo vítima de perseguição. O método correto de lidar com tais casos no Islã é exemplificado pela famosa decisão do Profeta que ocorreu antes da conquista de Meca. O Profeta estava se preparando para o ataque a Meca quando um de seus Companheiros, Hatib ibn Abi Balta’ah, enviou uma carta por meio de uma mulher às autoridades de Meca, informando-as sobre o ataque iminente. O Profeta tomou conhecimento disso por meio de uma revelação divina. Ele ordenou a Ali e Zubayr: “Ide rapidamente pelo caminho de Meca; em tal e tal lugar encontrareis uma mulher carregando uma carta. Tomai-lhe a carta e trazei-a para mim.” Eles foram e encontraram a mulher exatamente onde o Profeta havia dito. Recuperaram a carta e a levaram ao Profeta. Esse era, de fato, um caso claro de traição. Informar o inimigo sobre um segredo de um exército, ainda por cima em tempo de guerra, é uma ofensa muito grave, equivalente a traição. Na verdade, não se pode imaginar crime mais grave durante uma guerra do que revelar um segredo militar ao inimigo. Que caso poderia ser mais apropriado para uma audiência secreta? Um segredo militar havia sido traído, e o bom senso exigia que ele fosse julgado em sessão secreta. Mas o Profeta convocou Hatib para o tribunal público da Mesquita do Profeta e, na presença de centenas de pessoas, pediu-lhe que explicasse sua posição a respeito de sua carta dirigida aos líderes dos coraixitas, que havia sido interceptada no caminho. O acusado disse: “Ó Mensageiro de Deus — que as bênçãos de Deus estejam sobre ti — não me revoltei contra o Islã, nem fiz isso com a intenção de trair um segredo militar. A verdade é que minha esposa e meus filhos vivem em Meca, e não tenho minha tribo lá para protegê-los. Escrevi essa carta para que os líderes dos coraixitas ficassem em dívida comigo e protegessem minha esposa e meus filhos por gratidão.” Umar levantou-se e disse respeitosamente: “Ó Profeta, permite-me desferir minha espada contra esse traidor.” O Profeta respondeu: “Ele é um daqueles que participaram da Batalha de Badr, e a explicação que apresentou em sua defesa parece correta.” Vejamos essa decisão do Profeta em sua devida perspectiva. Tratava-se de um caso claro de traição e de revelação de segredos militares. Mas o Profeta absolveu Hatib por duas razões. Primeiro, seus antecedentes eram muito limpos e mostravam que ele não poderia ter traído a causa do Islã, pois, por ocasião da Batalha de Badr, quando as probabilidades eram fortemente desfavoráveis aos muçulmanos, ele havia arriscado sua vida por eles. Segundo, sua família estava de fato em perigo em Meca. Portanto, se ele havia demonstrado alguma fraqueza humana em relação aos filhos e escrito aquela carta, o castigo de ter sua ofensa secreta divulgada publicamente e de ser desonrado e humilhado aos olhos dos crentes era-lhe punição suficiente. Deus mencionou essa ofensa de Hatib no Alcorão Sagrado, mas não propôs nenhuma punição para ele, exceto repreensão e admoestação. A atitude e as atividades dos carijitas nos dias do califa Ali são bem conhecidas dos estudiosos da história muçulmana. Eles costumavam insultar abertamente o califa e ameaçá-lo de morte. Mas, sempre que eram presos por essas ofensas, Ali os libertava e dizia a seus oficiais: “Enquanto eles não cometerem efetivamente ofensas contra o Estado, o simples uso de linguagem abusiva ou a ameaça de usar a força não são ofensas pelas quais possam ser presos.” O imã Abu Hanifa registrou o seguinte dito do califa Ali (A): “Enquanto eles não partirem para uma rebelião armada, o Califa dos Fiéis não interferirá com eles.” Em outra ocasião, Ali proferia uma palestra na mesquita quando os carijitas entoaram ali seu lema peculiar. Ali disse: “Não lhes negaremos o direito de vir às mesquitas para adorar a Deus, nem deixaremos de lhes dar sua parte da riqueza do Estado, enquanto estiverdes conosco (e nos apoiardes em nossas guerras contra os incrédulos), e jamais empreenderemos uma ação militar contra vós enquanto não lutardes contra nós.” Pode-se imaginar a oposição que Ali enfrentava; uma oposição mais violenta e injuriosa nem sequer pode ser imaginada em um Estado democrático dos dias atuais. Contudo, a liberdade que ele permitia à oposição era tamanha que nenhum governo jamais foi capaz de conceder à sua oposição. Ele não prendeu nem mesmo aqueles que o ameaçavam de morte, nem os encarcerou.
5. O Direito de Protestar contra a Tirania
Entre os direitos que o Islã conferiu aos seres humanos está o direito de protestar contra a tirania do governo. Referindo-se a isso, o Alcorão diz: “Deus não gosta que se profiram más palavras em público, salvo por parte de alguém que tenha sido injustiçado por isso” (4:148). Isso significa que Deus desaprova veementemente a linguagem abusiva ou as palavras duras de condenação, mas concede à pessoa que foi vítima de injustiça ou tirania o direito de protestar abertamente contra o dano que lhe foi causado. Esse direito não se limita apenas aos indivíduos. As palavras do versículo são gerais. Portanto, se um indivíduo, um grupo de pessoas ou um partido usurpar o poder e, depois de assumir as rédeas da autoridade, começar a tiranizar indivíduos, grupos de pessoas ou toda a população do país, então erguer abertamente a voz de protesto contra isso é um direito concedido por Deus ao ser humano, e ninguém tem autoridade para usurpar ou negar esse direito. Se alguém tentar usurpar esse direito dos cidadãos, estará se rebelando contra Deus. O talismã da Seção 1444 pode proteger tal tirano neste mundo, mas não poderá salvá-lo do fogo do Inferno na Vida Futura.
6. Liberdade de Expressão O Islã concede a todos os cidadãos do Estado Islâmico o direito à liberdade de pensamento e de expressão, sob a condição de que ele seja usado para a propagação da virtude e da verdade, e não para disseminar o mal e a perversidade. Esse conceito islâmico de liberdade de expressão é muito superior ao conceito predominante no Ocidente. Em nenhuma circunstância o Islã permitiria que o mal e a perversidade fossem propagados. Tampouco concede a alguém o direito de usar linguagem abusiva ou ofensiva em nome da crítica. O direito à liberdade de expressão com o objetivo de propagar a virtude e a retidão não é apenas um direito no Islã, mas uma obrigação. Aquele que tenta negar esse direito ao seu povo está abertamente em guerra contra Deus, o Todo-Poderoso. E o mesmo se aplica à tentativa de impedir as pessoas de praticar o mal. Quer esse mal seja perpetrado por um indivíduo, por um grupo de pessoas, pelo governo do próprio país ou pelo governo de outro país, é direito de um muçulmano — e também sua obrigação — advertir e repreender aquele que pratica o mal e tentar impedi-lo de fazê-lo. Além disso, ele deve condená-lo aberta e publicamente e mostrar o caminho da retidão que esse indivíduo, nação ou governo deve seguir. O Sagrado Alcorão descreveu essa qualidade dos fiéis com as seguintes palavras: “Eles ordenam o que é correto e proíbem o que é incorreto” (9:71). Em contraste, ao descrever as qualidades de um hipócrita, o Alcorão menciona: “Eles ordenam o que é incorreto e proíbem o que é correto” (9:67). O principal objetivo de um Governo Islâmico foi definido por Deus no Alcorão da seguinte forma: “Se lhes dermos autoridade na terra, manterão a oração, pagarão a esmola obrigatória, ordenarão o que é correto e proibirão o que é incorreto” (22:41). O Profeta disse: “Se algum de vós se deparar com algo incorreto, deve tentar impedi-lo com a mão (usando a força); se não estiver em condições de impedi-lo com a mão, então deve tentar impedi-lo por meio da língua (isto é, deve falar contra isso). Se nem sequer puder usar a língua, então deve ao menos condená-lo em seu coração. Esse é o grau mais fraco da fé” (Muslim). Essa obrigação de convidar as pessoas à retidão e proibi-las de adotar os caminhos do mal incumbe a todos os muçulmanos verdadeiros. Se algum governo priva seus cidadãos desse direito e os impede de cumprir esse dever, então está em conflito direto com a injunção de Deus. O governo não está em conflito com seu povo, mas com Deus. Dessa forma, está em guerra contra Deus e tenta usurpar aquele direito de seu povo que Deus conferiu não apenas como um direito, mas como uma obrigação. Quanto ao governo que, ele próprio, propaga o mal, a perversidade e a obscenidade e interfere com aqueles que convidam as pessoas à virtude e à retidão, segundo o Sagrado Alcorão, ele é o governo dos hipócritas.
7. Liberdade de Associação O Islã também concedeu às pessoas o direito à liberdade de associação e à formação de partidos ou organizações. Esse direito também está sujeito a certas regras gerais. Deve ser exercido para propagar a virtude e a retidão e jamais deve ser usado para disseminar o mal e a corrupção. Não apenas recebemos esse direito para disseminar a retidão e a virtude, como também fomos ordenados a exercê-lo. Dirigindo-se aos muçulmanos, o Sagrado Alcorão declara: Vós sois a melhor comunidade que foi suscitada para a humanidade. Ordenais o que é correto, proibis o que é incorreto e credes em Deus… (3:110) Isso significa que é obrigação e dever de toda a comunidade muçulmana convidar e exortar as pessoas à retidão e à virtude e proibi-las de praticar o mal. Se toda a comunidade muçulmana não for capaz de cumprir esse dever, então “que haja entre vós uma comunidade que convide ao bem, ordene o que é correto e proíba o que é incorreto; esses serão prósperos” (3:104). Isso indica claramente que, se toda a nação muçulmana começar coletivamente a negligenciar sua obrigação de convidar as pessoas ao bem e proibi-las de praticar o mal, é absolutamente essencial que nela haja pelo menos um grupo de pessoas que possa cumprir essa obrigação. Como foi dito anteriormente, isso não é apenas um direito, mas uma obrigação, e do seu cumprimento dependem o sucesso e a prosperidade tanto aqui quanto na Vida Futura. É uma ironia para a religião de Deus que, em um país muçulmano, a assembleia e a associação formadas com o objetivo de disseminar o mal e a corrupção tenham o direito de governar o país, enquanto a associação e o partido formados para propagar a retidão e a virtude vivam em permanente temor de perseguição e de serem declarados ilegais. As condições aqui são exatamente o inverso do que foi prescrito por Deus. A alegação é que somos muçulmanos e este é um Estado Islâmico, mas o trabalho que está sendo realizado é voltado para disseminar o mal, corromper e degradar moralmente as pessoas, enquanto há um controle ativo e eficaz sobre o trabalho realizado para reformar a sociedade e convidar as pessoas à retidão. Além disso, a vida daqueles que se dedicam a disseminar a retidão e a impedir a propagação do mal e da perversidade torna-se intolerável e difícil de suportar.
8. Liberdade de Consciência e Convicção O Islã também concede aos seus cidadãos, em um Estado Islâmico, o direito à liberdade de consciência e de convicção. O Sagrado Alcorão estabeleceu a seguinte injunção: “Não há compulsão na religião” (2:256). Embora não exista verdade e virtude maiores do que a religião da Verdade — o Islã — e os muçulmanos sejam exortados a convidar as pessoas a abraçar o Islã e a apresentar argumentos em seu favor, eles não são instruídos a impor-lhes essa fé. Nenhuma força será aplicada para obrigá-las a aceitar o Islã. Quem o aceita, fá-lo por sua própria escolha. Os muçulmanos acolherão de braços abertos esse convertido ao Islã e o admitirão em sua comunidade com direitos e privilégios iguais. Mas, se alguém não aceitar o Islã, os muçulmanos terão de reconhecer e respeitar sua decisão, e nenhuma pressão moral, social ou política será exercida sobre ele para que mude de opinião.
9. Proteção dos sentimentos religiosos
Juntamente com a liberdade de crença e a liberdade de consciência, o Islã concedeu ao indivíduo o direito de que seus sentimentos religiosos sejam devidamente respeitados e de que nada seja dito ou feito que possa violar esse direito. Foi ordenado por Deus no Alcorão Sagrado: “Não insulteis aqueles a quem eles invocam em vez de Deus” (6:108). Essas instruções não se limitam apenas a ídolos e divindades, mas também se aplicam aos líderes ou heróis nacionais dos povos. Se um grupo de pessoas sustenta uma crença que, segundo você, está errada, e tem certas pessoas em alta estima que, segundo você, não merecem tal estima, então não será justificável no Islã que você use linguagem abusiva contra elas e, desse modo, fira seus sentimentos. O Islã não proíbe as pessoas de realizarem debates e discussões sobre questões religiosas, mas deseja que essas discussões sejam conduzidas com decência. “E não discutais com o Povo do Livro, senão da melhor maneira” (29:46) — diz o Alcorão. Essa ordem não se limita meramente ao Povo das Escrituras, mas aplica-se com igual força aos seguidores de outras religiões.
10. Proteção contra a prisão arbitrária
O Islã também reconhece o direito do indivíduo de não ser preso ou encarcerado pelos delitos de outras pessoas. O Alcorão Sagrado estabeleceu claramente este princípio: “Nenhum portador de fardos carregará o fardo de outro” (6:164). O Islã acredita na responsabilidade pessoal. Nós mesmos somos responsáveis por nossos atos, e as consequências de nossas ações não podem ser transferidas para outra pessoa. Em outras palavras, isso significa que cada homem é responsável por suas ações. Se outro homem não participou dessa ação, não pode ser responsabilizado por ela, nem pode ser preso. É motivo de grande pesar e vergonha ver este princípio justo e equitativo, que não foi estabelecido por nenhum ser humano, mas pelo Criador e Sustentador de todo o universo, sendo desrespeitado e violado diante de nossos olhos. Chegou-se ao ponto de um homem ser culpado de um crime ou ser suspeito, mas sua esposa ser presa por seu crime. As coisas chegaram tão longe que pessoas inocentes estão sendo punidas pelos crimes de outras. Para dar um exemplo recente, em Karachi (Paquistão), um homem foi suspeito de estar envolvido em um incidente de lançamento de bombas. No curso da investigação policial, ele foi submetido a uma tortura horrível para que se extraísse dele uma confissão. Quando insistiu em sua inocência, a polícia prendeu sua mãe, sua esposa, sua filha e sua irmã, e levou-as à delegacia. Todas foram despidas à força diante dele, e ele foi despido de todas as suas roupas diante delas, para que dele pudesse ser extraída uma confissão do crime. Parece que, em nome da investigação criminal, tornou-se correto e legal em nosso país despir as mulheres inocentes da família, a fim de pressionar o suspeito. Isso é realmente revoltante e vergonhoso. É o auge da mesquinhez e da depravação. Isto não é mero boato que estou repetindo aqui; tenho informações completas sobre este caso e posso provar minhas alegações em qualquer tribunal. Gostaria de perguntar aqui que direito têm esses tiranos, que perpetraram esses crimes contra a humanidade, de nos dizer que são muçulmanos ou que conduzem os assuntos do Estado de acordo com os ensinamentos do Islã e que seu Estado é um Estado Islâmico. Eles violam e desrespeitam uma lei clara do Alcorão Sagrado. Eles despem homens e mulheres, o que é estritamente proibido no Islã. Desonram e humilham a humanidade e depois afirmam que são muçulmanos.
11. O direito às necessidades básicas da vida O Islã reconheceu o direito das pessoas necessitadas de receber ajuda e assistência. “E em suas riquezas há um direito reconhecido para o necessitado e o desprovido” (51:19). Neste versículo, o Alcorão não apenas conferiu um direito sobre a riqueza dos muçulmanos a todo homem que pede assistência, mas também estabeleceu que, se um muçulmano souber que certa pessoa está sem as necessidades básicas da vida, então, independentemente de ela pedir assistência ou não, é seu dever ir até ela e oferecer toda a ajuda que puder. Para esse fim, o Islã não dependeu apenas da ajuda e da caridade oferecidas voluntariamente, mas tornou obrigatória a caridade, o zakat, como o terceiro pilar do Islã, logo depois da profissão de fé e da adoração a Deus por meio da realização regular das orações. O Profeta instruiu claramente a esse respeito: “Será tomado dos ricos deles e dado aos necessitados da comunidade” (al-Bukhari e Muslim). Além disso, foi declarado que o Estado Islâmico deve amparar aqueles que não têm ninguém para ampará-los. O Profeta disse: “O chefe de Estado é o guardião daquele que não tem ninguém para ampará-lo” (Abu Dawud, al-Tirmidhi). A palavra wali, usada pelo Profeta, é muito abrangente e possui uma ampla gama de significados. Se houver um órfão ou um idoso, se houver uma pessoa deficiente ou desempregada, se alguém estiver inválido ou for pobre e não tiver outra pessoa para sustentá-lo ou ajudá-lo, então é dever e responsabilidade do Estado sustentá-lo e assisti-lo. Se um morto não tiver tutor ou herdeiro, então é dever do Estado providenciar seu sepultamento adequado. Em suma, o Estado recebeu o dever e a responsabilidade de cuidar de todos aqueles que necessitam de ajuda e assistência. Um Estado verdadeiramente Islâmico é, portanto, um verdadeiro Estado de bem-estar social, que será o guardião e protetor de todos os necessitados.
12. Igualdade perante a lei
O Islã concede aos seus cidadãos o direito à igualdade absoluta e completa perante a lei. No que diz respeito aos muçulmanos, há instruções claras no Alcorão Sagrado e nos hadiths de que, em seus direitos e obrigações, todos são iguais: “Os crentes são irmãos uns dos outros” (49:10). “Se eles (os descrentes) se arrependerem, observarem a oração e pagarem o zakat, serão seus irmãos na fé” (9:11). O Profeta disse: “A vida e o sangue dos muçulmanos são igualmente preciosos” (Abu Dawud; Ibn Majjah). Em outro hadith, ele disse: “A proteção concedida por todos os muçulmanos é igual. Até mesmo um homem comum entre eles pode conceder proteção a qualquer pessoa” (al-Bukhari; Muslim; Abu Dawud). Em outro relato mais detalhado do Profeta, foi dito que aqueles que aceitam a Unicidade de Deus, creem na profecia de Seu Mensageiro, abandonam os preconceitos primitivos e se unem à comunidade e à irmandade muçulmanas, “então terão os mesmos direitos e obrigações que os demais muçulmanos” (al-Bukhari; al-Nisa’i). Assim, há igualdade absoluta entre os novos convertidos ao Islã e os antigos seguidores da Fé. Essa irmandade religiosa e a uniformidade de seus direitos e obrigações constituem o fundamento da igualdade na sociedade islâmica, na qual os direitos e obrigações de qualquer pessoa não são, de modo algum, maiores nem menores que os direitos e obrigações das outras pessoas. Quanto aos cidadãos não muçulmanos do Estado Islâmico, a regra da Sharia islâmica (lei) a respeito deles foi muito bem expressa pelo Califa ‘Ali nestas palavras: “Eles aceitaram nossa proteção somente porque suas vidas podem ser como as nossas vidas e seus bens como os nossos bens” (Abu Dawud). Em outras palavras, as vidas e os bens deles (dos dhimmis) são tão sagrados quanto as vidas e os bens dos muçulmanos. A discriminação das pessoas em diferentes classes foi um dos maiores crimes que, segundo o Alcorão, o Faraó costumava praticar: “Ele dividiu seu povo em diferentes classes”… “E oprimiu um grupo deles (em benefício de outros)” (28:4).
13. Os governantes não estão acima da lei
O Islã insiste claramente e exige que todos os funcionários do Estado Islâmico, seja o chefe ou um empregado comum, sejam iguais perante a lei. Nenhum deles está acima da lei nem pode reivindicar imunidade. Até mesmo um cidadão comum no Islã tem o direito de apresentar uma reivindicação ou registrar uma queixa judicial contra o mais alto executivo do país. O Califa ‘Umar disse: “Eu mesmo vi o Profeta, que as bênçãos de Deus estejam sobre ele, aplicar a si próprio a retaliação (punindo-se por alguma deficiência ou falha).” Por ocasião da Batalha de Badr, quando o Profeta alinhava as fileiras do exército muçulmano, golpeou a barriga de um soldado na tentativa de fazê-lo recuar para a fila. O soldado reclamou: “Ó Profeta, tu me feriste com teu bastão.” O Profeta imediatamente descobriu a barriga e disse: “Sinto muito; podes retaliar fazendo o mesmo comigo.” O soldado aproximou-se, beijou o abdômen do Profeta e disse que era tudo o que desejava. Uma mulher pertencente a uma família nobre e de alta posição foi presa por causa de um furto. O caso foi levado ao Profeta, e foi recomendado que ela fosse poupada da punição pelo furto. O Profeta respondeu: “As nações que viveram antes de vós foram destruídas por Deus porque puniam as pessoas comuns por suas faltas e deixavam seus dignitários impunes por seus crimes; juro por Aquele (Deus) que tem minha vida em Sua mão que, mesmo que Fatimah, filha de Muhammad, tivesse cometido esse crime, eu teria amputado sua mão.” Durante o califado de ‘Umar, Muhammad, filho de ‘Amr ibn al-‘As, o Governador do Egito, açoitou um egípcio. O egípcio foi a Medina e apresentou sua queixa ao Califa Justo, que imediatamente convocou o Governador e seu filho para Medina. Quando eles compareceram diante dele em Medina, o Califa entregou um chicote ao egípcio queixoso e pediu-lhe que açoitasse o filho do Governador em sua presença. Depois de se vingar, quando o egípcio estava prestes a devolver o chicote a ‘Umar, este disse ao egípcio: “Dá também um golpe de chicote no Honorável Governador. Certamente seu filho não teria batido em ti se não fosse pelo falso orgulho que tinha do alto cargo de seu pai.” O queixoso respondeu: “Já me vinguei da pessoa que me bateu.” ‘Umar disse: “Por Deus, se tivesses batido nele (no Governador), eu não te teria impedido de fazê-lo. Tu o poupaste por tua própria vontade.” Então ele (‘Umar) voltou-se furiosamente para ‘Amr ibn al-‘As e disse: “Ó ‘Amr, quando começaste a escravizar as pessoas, embora elas tenham nascido livres de suas mães?” Quando o Estado Islâmico florescia em sua glória e esplendor originais, as pessoas comuns podiam igualmente apresentar queixas contra o califa da época no tribunal, e o califa tinha de comparecer perante o qadi para responder às acusações. E, se o califa tivesse alguma queixa contra qualquer cidadão, não poderia usar seus poderes e sua autoridade administrativos para resolver a questão, mas teria de encaminhar o caso ao tribunal para a devida decisão judicial.
14. O direito de evitar o pecado
O Islã também confere a todo cidadão o direito de não receber ordens para cometer um pecado, um crime ou uma infração; e, se algum governo, administrador ou chefe de departamento ordenar a um indivíduo que faça algo errado, ele tem o direito de se recusar a cumprir a ordem. Sua recusa em executar tal crime ou instrução injusta não seria considerada uma infração aos olhos da lei islâmica. Ao contrário, dar ordens aos subordinados para cometer um pecado ou fazer algo errado é, por si só, uma infração — e uma infração tão grave que o funcionário que der essa ordem pecaminosa, qualquer que seja sua patente ou posição, estará sujeito à demissão sumária. Estas
instruções claras do Profeta estão resumidas no seguinte hadith: “Não é permitido desobedecer a Deus em obediência às ordens de qualquer ser humano” (Musnad de Ibn Hanbal). Em outras palavras, ninguém tem o direito de ordenar a seus subordinados que façam algo contrário às leis de Deus. Se tal ordem for dada, o subordinado tem o direito de ignorá-la ou de se recusar abertamente a cumprir tais instruções. De acordo com essa regra, nenhum infrator poderá provar sua inocência ou escapar da punição alegando que essa infração foi cometida por ordem do governo ou de superiores. Se tal situação ocorrer, tanto a pessoa que comete a infração quanto a pessoa que ordena que ela seja cometida estarão sujeitas a responder a processo criminal. E, se um funcionário tomar medidas impróprias e injustas contra um subordinado que se recuse a cumprir ordens ilegais, o subordinado terá o direito de recorrer ao tribunal para proteger seus direitos e poderá exigir que o funcionário seja punido por suas ordens erradas ou injustas.
15. O Direito de Participar dos Assuntos do Estado Segundo o Islã, os governos deste mundo são, na realidade, representantes (califas) do Criador do universo, e essa responsabilidade não é confiada a nenhum indivíduo, família, classe específica ou grupo de pessoas, mas à totalidade da nação muçulmana. O Alcorão Sagrado diz: “Deus prometeu fazer daqueles dentre vós que creem e praticam boas ações Seus representantes na terra” (24:55). Isso indica claramente que o califado é um dom coletivo de Deus, no qual o direito de cada muçulmano individual não é nem maior nem menor que o direito de qualquer outra pessoa. O método correto recomendado pelo Alcorão Sagrado para administrar os assuntos do Estado é o seguinte: “E seus assuntos são conduzidos por consulta entre eles” (42:38). De acordo com esse princípio, é direito de todo muçulmano ter participação direta nos assuntos do Estado ou que um representante escolhido por ele e pelos demais muçulmanos participe da consulta do Estado. O Islã, em nenhuma circunstância, permite ou tolera que um indivíduo, grupo ou partido de indivíduos prive os muçulmanos comuns de seus direitos e usurpe os poderes do Estado. Do mesmo modo, o Islã não considera correto nem apropriado que um indivíduo faça uma falsa encenação de criação de uma assembleia legislativa e, por meio de táticas desonestas como fraude, perseguição, suborno etc., consiga eleger a si mesmo e homens de sua escolha para a assembleia. Isso não é apenas uma traição contra o povo, cujos direitos são usurpados por meios ilegais e injustos, mas também contra o Criador, que confiou aos muçulmanos o governo desta terra em Seu nome e prescreveu o procedimento de uma assembleia para exercer esses poderes. A shura, ou assembleia legislativa, não significa outra coisa senão que: 1. O chefe executivo do governo e os membros da assembleia devem ser eleitos pela escolha livre e independente do povo. 2. O povo e seus representantes devem ter o direito de criticar e expressar livremente suas opiniões. 3. As condições reais do país devem ser apresentadas ao povo sem ocultar nenhum fato, para que ele possa formar sua opinião sobre se o governo está funcionando adequadamente ou não.
4. Deve haver garantia suficiente de que somente aqueles que têm o apoio das massas governem o país, e que aqueles que não conseguirem obter esse apoio sejam removidos de sua posição de autoridade.
CAPÍTULO QUATRO: DIREITOS DOS INIMIGOS EM GUERRA
Depois de tratar dos direitos dos cidadãos de um Estado Islâmico, gostaria de discutir brevemente os direitos que o Islã conferiu aos seus inimigos. Na época em que o Islã veio à tona, o mundo desconhecia completamente o conceito de regras humanas e decentes para a guerra. O Ocidente tomou consciência desse conceito pela primeira vez por meio das obras do pensador do século XVII, Grotius. Mas a verdadeira codificação do «direito internacional» em matéria de guerra começou em meados do século XIX. Antes disso, nenhum conceito de comportamento civilizado na guerra era encontrado no Ocidente. Todas as formas de barbárie e selvageria eram praticadas na guerra, e os direitos dos que estavam em guerra nem sequer eram reconhecidos, muito menos respeitados. As leis formuladas nesse campo durante o século XIX ou no período subsequente até os dias atuais não podem ser chamadas de «leis» no verdadeiro sentido da palavra. Elas têm apenas a natureza de convenções e acordos, e chamá-las de «direito internacional» é, na realidade, uma espécie de equívoco, porque nenhuma nação as considera obrigatórias quando está em guerra, a menos, naturalmente, que os adversários também concordem em cumpri-las. Em outras palavras, essas leis civilizadas implicam que, se os nossos inimigos as respeitarem, nós também as cumpriremos; e, se eles ignorarem essas convenções humanas e recorrerem a métodos bárbaros e cruéis de conduzir a guerra, nós também adotaremos as mesmas técnicas ou outras semelhantes. É evidente que tal procedimento, que depende de aceitação e acordo mútuos, não pode ser chamado de «lei». E essa é a razão pela qual as disposições desse chamado «direito internacional» foram desrespeitadas e ignoradas de todas as maneiras, e, sempre que foram revistas, foram feitas inclusões ou supressões nelas.
A Lei da Guerra e da Paz no Islã: As regras formuladas pelo Islã para tornar a guerra civilizada e humana têm a natureza de lei, porque são as injunções de Deus e do Seu Profeta, seguidas pelos muçulmanos em todas as circunstâncias, independentemente do comportamento do inimigo. Cabe agora aos estudiosos descobrir até que ponto o Ocidente se beneficiou das leis de guerra dadas pelo Islã há mil e trezentos anos; e, mesmo depois da adoção de algumas das leis do Islã, até que ponto o Ocidente alcançou aquelas alturas de métodos civilizados e humanos de conduzir a guerra às quais os muçulmanos chegaram por meio das bênçãos do Islã. Escritores ocidentais afirmaram frequentemente que o Profeta havia tomado emprestado tudo o que ensinava dos judeus e dos cristãos. Em vez de dizer qualquer coisa em refutação disso, recomendarei apenas ao leitor que consulte a Bíblia6, para que veja quais métodos de guerra são recomendados pelo Livro sagrado desses pretendentes ocidentais à civilização e à cultura. Examinamos em algum detalhe os direitos humanos básicos que o Islã conferiu ao ser humano. Vejamos agora quais direitos e obrigações o Islã reconhece para um inimigo.
Os Direitos dos Não Combatentes: O Islã traçou primeiro uma clara linha de distinção entre os combatentes e os não combatentes do país inimigo. No que diz respeito à população não combatente, como mulheres, crianças, idosos, enfermos etc., as instruções do Profeta são as seguintes: «Não matem nenhum idoso, nenhuma criança ou nenhuma mulher» (Abu Dawud). «Não matem os monges nos mosteiros» ou «Não matem as pessoas que estão sentadas nos locais de culto» (Musnad de Ibn Hanbal). Durante uma guerra, o Profeta viu o cadáver de uma mulher estendido no chão e observou: «Ela não estava lutando. Como, então, foi morta?» A partir dessa declaração do Profeta, os exegetas e juristas extraíram o princípio de que aqueles que não são combatentes não devem ser mortos durante ou depois da guerra.
Os Direitos dos Combatentes: Vejamos agora quais direitos o Islã conferiu aos combatentes.
1. Tortura com Fogo
No hadith há uma declaração do Profeta: «A punição pelo fogo não cabe a ninguém senão ao Senhor do Fogo» (Abu Dawud). A injunção deduzida dessa declaração é que o adversário não deve ser queimado vivo.
2. Proteção dos Feridos
«Não ataquem uma pessoa ferida» — assim disse o Profeta. Isso significa que os soldados feridos que não estão aptos a lutar, nem estão efetivamente lutando, não devem ser atacados.
3. O Prisioneiro de Guerra Não Deve Ser Morto
«Nenhum prisioneiro deve ser passado à espada» — uma instrução muito clara e inequívoca dada pelo Profeta (S).
4. Ninguém Deve Ser Amarrado para Ser Morto
«O Profeta proibiu a morte de qualquer pessoa que esteja amarrada ou em cativeiro.»
5. Nenhum Saque ou Destruição no País Inimigo
Os muçulmanos também foram instruídos pelo Profeta de que, se entrassem no território inimigo, não deveriam entregar-se à pilhagem ou ao saque, nem destruir as áreas residenciais, nem tocar nos bens de ninguém, exceto nos daqueles que lutassem contra eles. Foi narrado no hadith: «O Profeta proibiu os crentes de saquear e pilhar» (al-Bukhari; Abu Dawud). Sua injunção é: «O saque não é mais lícito do que a carniça» (Abu Dawud). Abu Bakr al-Siddiq costumava instruir os soldados, ao enviá-los para a guerra: «Não destruam as aldeias e cidades, não danifiquem os campos cultivados e os jardins, e não abatam o gado.» O espólio de guerra adquirido no campo de batalha é algo completamente diferente disso. Consiste na riqueza, nos mantimentos e nos equipamentos capturados apenas nos acampamentos e quartéis-generais militares dos exércitos combatentes.
6. A Inviolabilidade da Propriedade
Os muçulmanos também foram proibidos de tomar qualquer coisa da população em geral de um país conquistado sem pagar por ela. Se, numa guerra, o exército muçulmano ocupar uma área do país inimigo e acampar ali, não terá o direito de usar as coisas pertencentes ao povo sem o seu consentimento. Se precisar de alguma coisa, deverá comprá-la da população local ou obter a permissão dos proprietários. Abu Bakr al-Siddiq, ao instruir os exércitos muçulmanos enviados para a frente de batalha, chegava ao ponto de dizer que os soldados muçulmanos nem sequer deveriam usar o leite do gado leiteiro sem a permissão de seus proprietários.
7. A Inviolabilidade de um Cadáver
O Islã proibiu categoricamente que seus seguidores desonrassem ou mutilassem os cadáveres de seus inimigos, como era praticado na Arábia antes do advento do Islã. Foi dito no hadith: «O Profeta nos proibiu de mutilar os cadáveres dos inimigos» (al-Bukhari; Abu Dawud). A ocasião em que essa ordem foi dada é altamente instrutiva. Na Batalha de Uhud, os descrentes mutilaram os corpos dos muçulmanos que haviam caído no campo de batalha e sacrificado suas vidas pela causa do Islã, cortando-lhes as orelhas e os narizes e enfiando-os juntos para colocá-los ao redor do pescoço como troféus de guerra. O abdômen de Hamzah, tio do Profeta, foi aberto por Quraysh; seu fígado foi retirado e mastigado por Hind, esposa de Abu Sufyan, o líder do exército de Meca. Os muçulmanos ficaram naturalmente enfurecidos com aquela visão horrível. Mas o Profeta pediu aos seus seguidores que não infligissem tratamento semelhante aos cadáveres dos inimigos. Esse grande exemplo de tolerância e autocontrole é suficiente para convencer qualquer homem razoável que não esteja cego pelo preconceito ou pela parcialidade de que o Islã é realmente a religião enviada pelo Criador do universo; e de que, se as emoções humanas tivessem algum lugar no Islã, então aquela visão horrível no campo de batalha de Uhud teria levado o Profeta a ordenar aos seus seguidores que mutilassem os corpos dos inimigos da mesma maneira.
8. Devolução dos Cadáveres do Inimigo
Na Batalha de Ahzab, um guerreiro inimigo muito famoso e temível foi morto, e seu corpo caiu na trincheira que os muçulmanos haviam cavado para a defesa de Medina. Os descrentes ofereceram dez mil dinares ao Profeta e solicitaram que o cadáver do guerreiro morto lhes fosse entregue. O Profeta respondeu: «Eu não vendo cadáveres. Podem levar o corpo do seu companheiro morto.»
9. Proibição da Violação dos Tratados
O Islã proibiu rigorosamente a traição. Uma das instruções que o Profeta costumava dar aos guerreiros muçulmanos ao enviá-los para a frente de batalha era: «Não sejam culpados de quebra de fé.» Essa ordem foi repetida no Alcorão Sagrado e no hadith muitas e muitas vezes: se o inimigo agir com traição, que o faça; vocês jamais devem voltar atrás na sua promessa. Há um episódio famoso no tratado de paz de Hudaybiyyah. Depois de estabelecidos os termos do tratado, Abu Jandal, filho do emissário dos descrentes que havia negociado esse tratado com os muçulmanos, chegou correndo ao acampamento muçulmano, acorrentado e coberto de sangue, clamando por ajuda. O Profeta lhe disse: «Como os termos do tratado foram estabelecidos, não estamos em posição de ajudá-lo. Você deve voltar com seu pai. Deus lhe proporcionará alguma outra oportunidade de escapar dessa perseguição.» Todo o exército muçulmano ficou profundamente comovido e entristecido pela situação lamentável de Abu Jandal, e muitos deles foram levados às lágrimas. Mas, quando o Profeta declarou: «Não podemos romper o acordo», nem uma única pessoa se apresentou para ajudar o desafortunado prisioneiro; assim, os descrentes o arrastaram à força de volta para Meca. Este é um exemplo incomparável da observância dos termos do acordo pelos muçulmanos, e a história islâmica pode apresentar muitos exemplos de natureza semelhante.
10. Regras sobre a declaração de guerra
Foi estabelecido no Alcorão Sagrado: “Se temerdes uma traição por parte de um povo, então lançai abertamente o tratado contra eles” (8:58). Neste versículo, os muçulmanos foram proibidos de iniciar hostilidades contra seus inimigos sem lhes declarar devidamente guerra, a menos, é claro, que o adversário já tenha iniciado a agressão contra eles. Caso contrário, o Alcorão determinou claramente aos muçulmanos que informassem seus inimigos de que não existia nenhum tratado entre eles e de que estavam em guerra com eles. O atual “direito internacional” também estabeleceu que as hostilidades não devem ser iniciadas sem uma declaração de guerra, mas, por ser uma regra criada pelo homem, seus autores são livres para violá-la sempre que lhes for conveniente. Por outro lado, as leis para os muçulmanos foram estabelecidas por Deus; portanto, não podem ser violadas.
Conclusão:
Este é um breve esboço dos direitos que, há mil e quatrocentos anos, o Islã concedeu ao ser humano, àqueles que estavam em guerra uns com os outros e aos cidadãos de seu Estado, o qual todo crente considera tão sagrado quanto a lei. Por um lado, nossa fé no Islã se renova e se fortalece quando percebemos que, mesmo nesta era moderna, que faz tão alarde de seu progresso e esclarecimento, o mundo não foi capaz de produzir leis mais justas e equitativas do que aquelas concedidas há 1.400 anos. Por outro lado, fere nossos sentimentos constatar que os muçulmanos possuem um sistema jurídico tão magnífico e abrangente e, ainda assim, buscam orientação nos líderes do Ocidente, que jamais poderiam ter sonhado alcançar aquelas alturas de verdade e justiça atingidas há muito tempo. Mais dolorosa ainda é a constatação de que, em todo o mundo, os governantes que afirmam ser muçulmanos fizeram da desobediência a Deus e ao Profeta a base e o fundamento de seu governo. Que Deus tenha misericórdia deles e lhes conceda a verdadeira orientação.
Testemunha perante a humanidade
por Sayyid Abul Al’a Maududi
Traduzido e editado por Khurram Murad — Testemunha da Verdade
A Fundação Islâmica
Louvor e Saudações
Nossa Mensagem
O Propósito e o Dever da Ummah Muçulmana Responsabilidades e Deveres
O Único Propósito da Existência
Testemunho da Verdade Natureza e Importância Responsabilidade da Ummah
Como Devemos Testemunhar a Verdade? Testemunho por Palavras Testemunho por Atos
O Estado Islâmico
Onde Estamos?
Nosso Testemunho por Palavras
Nossa testemunha dos atos
E com que consequências!
Nosso castigo
Neste mundo
Castigo no mundo vindouro
Qual é o nosso verdadeiro problema?
Problemas fictícios
Nosso verdadeiro problema
Louvor e saudações Tudo louvor pertence a Deus, que é o único Criador, Senhor e Soberano do universo. É Ele quem o governa com perfeita sabedoria, poder absoluto e misericórdia infinita. Ele criou o ser humano, dotou-o de conhecimento e razão, fez dele Seu vice-regente na terra e enviou Seus Livros e Mensageiros para guiá-lo. Que Deus abençoe todos aqueles Seus servos justos e nobres que foram designados para ensinar ao ser humano como viver como verdadeiros seres humanos, que o conscientizaram do verdadeiro propósito de sua vida e lhe mostraram o caminho correto para viver neste mundo. Toda a parcela de verdadeira orientação, moralidade, piedade e altruísmo que o mundo possui hoje deve-se aos ensinamentos desses servos de Deus, que a paz esteja sobre eles. Essa é uma dívida que jamais poderá ser suficientemente retribuída.
Nossa Mensagem
Irmãos e amigos, geralmente dividimos nossas reuniões em duas partes. Em uma delas, analisamos, entre nós, nossas atividades e discutimos planos para seu avanço. Dedicamos a outra parte a transmitir nossa mensagem às pessoas da área onde realizamos nossa reunião. Assim, pedimos que se juntassem a nós nesta reunião, para que pudéssemos explicar-lhes nossa mensagem. Por um lado, nossa mensagem é dirigida aos muçulmanos e, por outro, a todos os seres humanos que estão fora do seio do Islã. É lamentável, porém, que eu não veja aqui hoje pessoas pertencentes à segunda categoria. Nossos erros do passado e do presente são responsáveis por afastar de nós um grande número de pessoas. Por isso, raramente encontramos a oportunidade de atraí-las para perto de nós ou de nos aproximarmos delas, para que possamos comunicar-lhes a mensagem enviada por Deus, em quem todos nós cremos, por meio de Seus Mensageiros, para a orientação de todos nós. Como não temos entre nós nenhum não muçulmano presente, concentrar-me-ei apenas na parte de nossa mensagem destinada aos muçulmanos. O Propósito e o Dever da Ummah Muçulmana Responsabilidades e Deveres Aos muçulmanos temos apenas uma coisa muito simples a dizer: compreendam e cumpram as responsabilidades e os deveres que recaem sobre vocês em virtude de serem muçulmanos. Vocês não podem escapar simplesmente afirmando que são muçulmanos e que aceitaram Deus como seu único Deus e o Islã como sua religião. Pelo contrário, assim que reconhecem Allah como seu único Senhor e Sua orientação como seu modo de vida, assumem certas obrigações e deveres. Devem permanecer sempre conscientes dessas obrigações e esforçar-se continuamente para cumprir esses deveres. Se os evitarem, não escaparão às más consequências de sua conduta neste mundo nem no Além. Quais são esses deveres? Eles não se limitam à afirmação da fé em Allah, em Seus Anjos, em Seus Livros, em Seus Mensageiros e no Dia do Juízo. Tampouco se limitam à realização das Orações, à observância dos jejuns, à peregrinação e ao pagamento da esmola. Esses deveres também não se esgotam na observância das injunções do Islã relativas ao casamento, ao divórcio e à herança. Acima de todos esses deveres, há um que é o mais importante: que suas vidas deem testemunho, perante toda a humanidade, da Verdade que lhes foi dada por Deus, a Verdade que vocês creem ser verdadeira.
O Único Propósito da Existência
O Alcorão afirma claramente que testemunhar a Verdade de uma maneira que não deixe à humanidade nenhum fundamento justificável para negá-la é o único propósito de constituir-vos como uma Ummah distinta (comunidade), denominada muçulmana. E assim fizemos de vós uma comunidade do meio-termo, para que sejais testemunhas [da Verdade] diante de toda a humanidade, e o Mensageiro seja testemunha [dela] diante de vós (al-Baqarah 2: 143). Esta missão é o único objetivo para o qual a vossa Ummah foi criada; é a razão de ser da sua existência como sociedade de seres humanos. Se não a cumprirdes, estareis desperdiçando a vossa vida. Pois este não é um dever comum; é um dever imposto por Deus. É um mandamento divino e um chamado divino: Ó crentes, sede sempre firmes ao vos levantardes pela causa de Deus, dando testemunho da justiça (al-Ma’idah 5: 8). Não é uma questão insignificante, mas um mandato enfático e grave, pois Allah também diz: E quem é mais injusto do que aquele que oculta um testemunho que lhe foi confiado por Deus (al-Baqarah 2: 140). Fostes advertidos sobre as consequências de vos esquivardes deste dever. Vede a história do povo de Israel. Eles também foram incumbidos de permanecer no banco das testemunhas; mas, às vezes, ocultavam a Verdade e, às vezes, testemunhavam contra ela. Por sua conduta, na realidade, tornaram-se testemunhas da falsidade, em vez de testemunhas da Verdade. A consequência foi que Deus os abandonou e uma maldição caiu sobre eles. E assim, a humilhação e a impotência os afligiram, e atraíram a ira de Deus (al-Baqarah 2: 61).
Testemunho da Verdade O que implica este dever de testemunhar? Considerai-o cuidadosamente: recebestes a orientação divina, foi-vos mostrada a Verdade. Deveis, portanto, estabelecer, por meio do vosso testemunho, a sua autenticidade e veracidade diante de toda a humanidade. Este é um testemunho que tornará evidente, para todos verem, a autenticidade e a veracidade da orientação divina, e uma prova que a tornará clara e incontestável para todas as pessoas. Foi precisamente para este propósito que todos os Mensageiros foram enviados ao mundo; este era o seu dever primordial. Depois deles, os seus seguidores receberam o mesmo dever. E agora a Ummah muçulmana, como sucessora do Último Profeta, que as bênçãos e a paz estejam sobre ele, está encarregada desta mesma missão, tal como ele esteve encarregado dela durante a sua vida.
Natureza e importância Qual é a importância deste testemunho? Só conhecereis a sua importância quando compreenderdes que o ser humano foi responsabilizado pela sua conduta e será recompensado ou punido na Vida Futura segundo a Lei Divina, que se baseia inteiramente neste testemunho. Deus é Sapientíssimo, Misericordiosíssimo e Justíssimo. A Sua misericórdia, justiça e sabedoria não permitem que Ele castigue pessoas por viverem contra a Sua vontade quando não tinham conhecimento dela; que responsabilize pessoas por se desviarem do caminho reto que ignoravam; ou que cobre delas aquilo de que não tinham consciência. [1] Foi como uma provisão contra isso que o primeiro homem que Ele criou foi um Mensageiro, e que, depois dele, muitos outros foram enviados de tempos em tempos. [2] Todos eles deveriam ser testemunhas perante a humanidade, para fazê-la compreender e recordar a vontade de Deus. Todos deveriam ensinar aos seres humanos a maneira correta de conduzir a sua vida, o código de comportamento que deveriam adotar para obter o agrado de Deus, os atos que deveriam praticar, os atos que deveriam evitar e as coisas pelas quais seriam chamados a prestar contas. [3] Este testemunho foi dado pelos Mensageiros de Allah para que as pessoas não pudessem dizer a Deus: Como podemos ser punidos por coisas sobre as quais não fomos advertidos? O Alcorão diz: [Enviámos] todos os Mensageiros como anunciadores de boas-novas e admoestadores, para que os homens não tivessem nenhum argumento contra Deus depois [da vinda] desses Mensageiros; Deus é Poderosíssimo, Sapientíssimo (al-Nisa’ 4: 165). Deste modo, Deus fez os Seus Mensageiros assumirem a responsabilidade crucial de orientar o ser humano em Seu nome. Assim, foram incumbidos de uma responsabilidade muito delicada e grave: se testemunhassem corretamente a Verdade, as pessoas seriam responsabilizadas pelos seus próprios atos; mas, se falhassem no seu dever, eles próprios seriam chamados a prestar contas pelo desvio do seu povo. Em outras palavras, se os Mensageiros não tornassem as pessoas responsáveis pela sua conduta, oferecendo-lhes um testemunho conclusivo e incontestável da Verdade, as pessoas responsabilizariam os Mensageiros pelos seus próprios erros, dizendo: «O conhecimento que Deus vos deu, vós não o comunicastes a nós; o modo de vida que Ele vos mostrou, vós não o mostrastes a nós.» [4] É por isso que todos os Mensageiros permaneceram sempre profundamente conscientes do peso desta responsabilidade, e é por isso que se esforçaram tanto para testemunhar diante do povo a Verdade que lhes fora confiada. [5]
Responsabilidade da Ummah Todos aqueles que foram conduzidos pelos Mensageiros ao conhecimento da Verdade e à orientação divina foram reunidos numa comunidade, uma Ummah. Cada Ummah foi incumbida da mesma missão dos Mensageiros: testemunhar a Verdade. Como sucessora dos Mensageiros, cada Ummah tem o mesmo papel e a mesma responsabilidade cruciais que eles tinham. Assim, se uma Ummah cumprir devidamente o seu dever de testemunhar a Verdade e, ainda assim, as pessoas não derem atenção, ela será recompensada e as pessoas serão chamadas a prestar contas. Contudo, se a Ummah negligenciar o seu dever, ou se der falso testemunho, merecerá ser punida mais severamente do que as pessoas. A Ummah será responsabilizada não apenas pelos seus próprios erros, mas também pelos erros daqueles que se desviaram ou se voltaram para o erro e a perversidade porque o testemunho que a Ummah lhes deu era enganoso ou falso. Esta, irmãos, é a natureza e a lógica desse dever grave e crucial que recai sobre mim, sobre vós e sobre todos aqueles que se consideram parte da Ummah muçulmana, ou que se tenham tornado suficientemente conscientes do Livro de Deus e da orientação trazida pelos Seus Mensageiros.
Notas de Khurram Murad
1. A lei de Deus para o julgamento: O Alcorão explicou em considerável detalhe a lei segundo a qual a responsabilidade do homem no Dia do Juízo depende do testemunho da Verdade prestado diante dele por aqueles que a portam. É importante compreender o que o Alcorão diz a esse respeito. Primeiro: por que o homem foi colocado na terra? Para que pudesse usar todo o seu enorme potencial e conduzir-se da maneira correta que daria sentido à sua vida. E foi Ele quem criou os céus e a terra em seis dias, e o Seu Trono estava sobre as águas, para testar-vos e ver qual de vós é melhor em conduta (Hud 11: 7). Ele criou a morte e a vida para testar-vos e ver qual de vós é melhor em conduta (al-Mulk 67: 2). Fizemos tudo quanto há na terra como um ornamento para ela, a fim de testar qual deles é melhor em conduta (al-Kahf 18: 7). Segundo: qual é o significado e o propósito da vida do homem? Que ele viva como o seu Criador deseja que viva: em submissão e adoração somente a Ele. Não porque Deus de algum modo necessite da sua adoração, mas porque o homem precisa adorar somente o seu Criador, e ninguém mais, para que a sua própria natureza não seja pervertida e corrompida, nem viva em oposição ao seu caráter intrínseco. Além disso, somente vivendo assim a sua vida terrena será colocada no caminho correto e prosperará, trazendo-lhe paz e felicidade — tudo isso é chamado de falah pelo Alcorão. E não criei os jinn e a humanidade senão para Me servirem e adorarem. Não lhes peço provisão alguma, nem desejo que Me alimentem (al-Dhariyat 51: 56-57). Terceiro e, consequentemente, a vida terrena do homem deve ser julgada. Ele deverá prestar contas da sua conduta e enfrentar as consequências da maneira como vive. Obviamente, para ser julgado com justiça, esse julgamento só poderá ocorrer depois que a sua vida terrena chegar ao fim, e somente por Aquele que lhe deu essa vida, que sabe tudo e que é Todo-Poderoso e Todo-Justo. Somente então ele poderá ser julgado com justiça e devidamente recompensado ou punido por tudo: desde os pensamentos mais ocultos e íntimos até às consequências da sua conduta, que se estendem por toda parte e para além da vida, alcançando gerações futuras. O juiz, em outras palavras, deve ser o Rei e Senhor do Dia do Juízo. Pensáveis acaso que vos criamos em vão, e que não retornaríeis a Nós? Mas Deus está muito acima disso, o Rei, a Verdade! Não há divindade senão Ele, o Senhor do Nobre Trono (al-Mu’minun 23: 115-116). E não criamos os céus e a terra e tudo quanto existe entre ambos em vão; não os criamos senão com verdade [significado e propósito], mas a maioria deles não compreende (al-Dukhan 44: 38-39). Ou será que aqueles que praticam más ações pensam que os colocaremos em igualdade com os que creem e praticam boas ações, tanto na vida como na morte? Que mau é o julgamento deles! Deus criou os céus e a terra com verdade [significado e propósito], para que cada ser humano seja recompensado pelo que ganhou, e para que não sejam injustiçados (al-Jathiyah 45: 21-22). Todo ser humano provará a morte; e no Dia da Ressurreição recebereis integralmente as vossas recompensas; quem então for salvo do Fogo e admitido no Paraíso terá alcançado o triunfo; a vida mundana não é senão um gozo ilusório (Al ‘Imran 3: 185). E estabeleceremos balanças justas no Dia da Ressurreição, e nenhum ser humano será injustiçado em nada; ainda que seja o peso de uma semente de mostarda, Nós a traremos, e bastamos Nós como contadores (al-Anbiya’ 21: 47). Ele conhece o olhar furtivo e o que os corações ocultam (Ghafir 40: 19). Quarto: portanto, o destino final do homem está na vida futura, na Akhirah. Igualmente importante é o fato de que o relato da Akhirah apresentado no Alcorão demonstra claramente, e enfatiza repetidamente, que ali a pessoa será julgada mediante um processo de justiça, com equidade e imparcialidade, com misericórdia e bondade. Além disso, ninguém será injustiçado nem tratado injustamente, nem sequer pelo peso de um átomo. E apressai-vos uns à frente dos outros para o perdão do vosso Senhor e para um Paraíso tão vasto quanto os céus e a terra, preparado para os tementes a Deus (Al ‘Imran 3: 133). Ó meu povo, esta vida mundana não é senão um breve desfrute; certamente, a vida futura é a morada permanente. Ali, quem praticar uma má ação será recompensado apenas com outra semelhante; mas aqueles que praticarem boas ações, homens ou mulheres, sendo crentes, entrarão no Paraíso, onde serão providos [de bênçãos] sem medida (Ghafir 40: 39-40). Certamente Deus não cometerá a menor injustiça, nem sequer do peso de um átomo (al-Nisa’ 4: 40). Quinto: portanto, para que haja plena justiça, o homem deve ser informado sobre como deve viver a sua vida terrena. Em outras palavras, deve conhecer o seu Criador e Senhor, aquilo que Ele deseja dele, e como quer que O adore e se submeta a Ele. Se o homem não souber tudo isso, não poderá ser considerado plenamente responsável e prestar contas se seguir um modo de vida errado. Esse conhecimento foi concedido a ele na sua própria natureza, no universo que o rodeia e nas revelações enviadas através dos Mensageiros de Deus. E quando o teu Senhor tirou dos filhos de Adão, das suas entranhas, a sua descendência e os fez testemunhar acerca de si mesmos: “Não sou Eu o vosso Senhor?” Eles disseram: “Sim, testemunhamos”, para que não dissésseis no Dia da Ressurreição: “Desconhecíamos isso.” Ou para que não dissésseis: “Nossos pais anteriormente associaram parceiros a Deus, e nós éramos apenas descendentes deles. Irás então destruir-nos pelo que fizeram os falsários?” (al-A’raf 7: 172-173). Quantos sinais há nos céus e na terra pelos quais passam [sem refletir] e aos quais dão as costas! E a maioria deles não crê em Deus sem Lhe atribuir parceiros (Yusuf 12: 105-106). [E Deus dirá:] “Ó comunidade dos jinn e dos homens, acaso não vieram até vós Mensageiros dentre vós, transmitindo-vos as Minhas revelações e advertindo-vos do encontro deste vosso dia?”… Isso porque o teu Senhor não destruiria comunidades injustamente enquanto os seus habitantes fossem ignorantes (al-An’am 6: 130-131). Sexto: por várias razões, que não é possível discutir aqui em sua totalidade, somente Deus, e ninguém mais, pode fornecer ao homem o conhecimento da orientação correta. Primeiro e principalmente, porque somente Ele pode dizer ao homem como deve relacionar-se com Ele. Segundo, porque somente o Criador pode dizer-lhe como deve relacionar-se consigo mesmo, com os outros seres humanos e com todas as demais coisas do universo. E, por fim, porque somente Deus pode dar ao homem uma orientação aplicável universalmente e em todos os tempos. Dize: “Há entre aqueles que associais a Deus algum que guie para a Verdade?” Dize: “Somente Deus guia para a Verdade. Então, quem guia para a Verdade merece mais ser seguido, ou aquele que não pode guiar a menos que seja guiado? Que vos sucede? Como julgais?” E a maioria deles não segue senão conjecturas, mas a conjectura jamais pode substituir a verdade (Yunus 10: 35-36). Dize: “Invocaremos, além de Deus, aquilo que não nos beneficia nem nos prejudica, e voltaremos sobre os nossos calcanhares depois de Deus nos ter guiado corretamente? Como alguém a quem os demônios seduziram, deixando-o desnorteado na terra, enquanto os seus companheiros o chamam para a orientação: ‘Vem até nós!’?” Dize: “A orientação de Deus é a única [verdadeira] orientação; e fomos ordenados a submeter-nos ao Senhor de todos os mundos” (al-An’am 6: 71). Esta, portanto, é a lei divina para o julgamento do homem. O ponto central dessa lei é que a Verdade seja testemunhada diante da humanidade de modo completo, fiel e por todos os meios possíveis. Pois, sem a orientação de Deus, a vida terrena do homem, tanto individual como coletiva, resultará em miséria e sofrimento. Mas, mais importante ainda, sem essa orientação o homem jamais estará em condições de tornar glorioso o seu destino final.
2. A promessa de Deus de guiar: Adão, segundo o Alcorão, não é uma figura mítica nem apenas um símbolo da raça humana. Ele é mencionado como Mensageiro, juntamente com Noé e Abraão. Deus escolheu Adão, Noé, a família de Abraão e a família de Imran acima de toda a humanidade, descendentes uns dos outros (Al ‘Imran 3: 33). Foi-lhe concedido conhecimento e orientação (2: 31-35); quando errou e as suas fraquezas se tornaram conhecidas para ele, Deus voltou-Se para ele com misericórdia, exaltou-o, guiou-o e prometeu-lhe, assim como à sua descendência, uma orientação contínua (20: 115-127; 2: 35-39). Adão desobedeceu ao seu Senhor e, assim, errou. Depois, o seu Senhor escolheu-o, voltou-Se para ele e guiou-o. Ele disse: “Descei ambos daqui, cada um de vós inimigo do outro. Contudo, certamente vos chegará de Mim uma orientação; quem seguir a Minha orientação não se desviará nem será infeliz. Mas quem se afastar da Minha lembrança terá uma vida estreita, e no Dia da Ressurreição Nós o ressuscitaremos cego.” Ele dirá: “Ó meu Senhor, por que me ressuscitaste cego, quando eu tinha visão?” Deus dirá: “Assim é. As Nossas revelações chegaram até ti, mas tu as esqueceste; e hoje serás esquecido” (Ta Ha 20: 121-126).
3. Os Mensageiros e a sua missão: Foi para cumprir essa promessa à humanidade que, em primeiro lugar, Deus enviou os Seus Mensageiros com a Sua orientação e com a Verdade a todos os povos — alguns dos quais o Alcorão nomeou, e outros não. Enviámos-te [ó Profeta] com a Verdade, como portador de boas-novas e como admoestador; não há comunidade alguma à qual não tenha chegado um admoestador (al-Fatir 35: 24). Revelámos-te [ó Profeta] assim como revelámos a Noé e aos Profetas depois dele, e como revelámos a Abraão, Ismael, Isaac, Jacó e aos seus descendentes, incluindo Jesus, Jó, Jonas, Aarão e Salomão, e como demos a David os Salmos; e Mensageiros que te mencionámos anteriormente, e Mensageiros que não te mencionámos; e como Deus falou a Moisés. Mensageiros como portadores de boas-novas e admoestadores, para que a humanidade não tivesse argumento contra Deus depois da chegada dos Mensageiros; e Deus é Poderoso, Sábio (al-Nisa’ 4: 163-165). Em segundo lugar, Ele encarregou todos eles desta missão e dever: comunicar a Verdade, convidar as pessoas a adorar somente o Deus Único e submeter-se a Ele como seu único Senhor, por meio da palavra e do exemplo. Em outras palavras, testemunhar a Verdade diante dos homens e mulheres aos quais foram enviados, para que não tivessem desculpa diante de Deus, para que pudessem ser questionados sobre como viveram as suas vidas, para que aqueles que vivessem segundo a Verdade fossem recompensados e aqueles que não o fizessem fossem punidos. E não enviámos antes de ti Mensageiro algum sem que lhe revelássemos: “Não há divindade senão Eu; portanto, servi-Me e adorai-Me somente” (al-Anbiya’ 21: 25). E este foi o Nosso argumento, que concedemos a Abraão contra o seu povo. Elevamos em graus quem queremos; certamente o teu Senhor é Sábio, Onisciente. E concedemos a Isaac e Jacó, e guiámos ambos; e guiámos Noé anteriormente e, entre os seus descendentes, David, Salomão, Jó, José, Moisés e Aarão — assim recompensamos os benfeitores — Zacarias, João, Jesus e Elias, todos entre os justos; e Ismael, Eliseu, Jonas e Lot. E a todos eles favorecemos acima dos demais povos. E [também guiámos] alguns dos seus antepassados, dos seus descendentes e dos seus irmãos. Escolhemo-los e guiámo-los para o caminho reto. Essa é a orientação de Deus; por meio dela Ele guia quem quer, entre os Seus servos. E se tivessem associado parceiros a Deus, tudo quanto haviam feito teria sido em vão. Foram aqueles a quem concedemos o Livro, o julgamento e a profecia. Se estes o rejeitarem, confiámo-lo a pessoas que não o rejeitam. Esses são aqueles que Deus guiou; segue, pois, a sua orientação. Dize: “Não vos peço recompensa alguma por isso; isto não é senão uma lembrança para toda a humanidade” (al-An’am 6: 83-90). Enviámos os Nossos Mensageiros com provas claras e fizemos descer com eles o Livro e a Balança, para que a humanidade estabelecesse a justiça (al-Hadid 57: 25). O Profeta Muhammad foi o último deles. Não trouxe nenhuma Verdade, mensagem ou orientação nova; veio com a mesma Verdade e recebeu a mesma missão e o mesmo dever que todos os Mensageiros anteriores a ele. Esse dever e essa missão foram expressos de várias maneiras: advertir (indhar), anunciar boas-novas (tabshir), convidar e chamar (da’wah), comunicar (tabligh), recordar (dhikr), ensinar (ta’lim), transmitir e propagar (tilawah), ordenar e promover o que é bom e correto e proibir e eliminar o que é errado e mau (amr bi ‘l-ma’ruf wa nahi ‘ani ‘l-munkar), estabelecer o Din (iqamah), estabelecer a justiça (qist), fazer prevalecer a orientação divina e o Din (izhar), ou testemunhar (shahadah). Todas essas expressões dizem respeito à mesma missão, embora a considerem de perspectivas diferentes e com ênfases distintas. Ó Profeta, enviámos-te como testemunha [da Verdade], portador de boas-novas e admoestador, como aquele que convoca para Deus, com a Sua permissão, e como uma lâmpada luminosa (al-Ahzab 33: 45-46). Ó Mensageiro, transmite aquilo que te foi revelado pelo teu Senhor; pois, se não o fizeres, não terás transmitido a Sua mensagem (al-Ma’idah 5: 67). Assim também enviámos entre vós um Mensageiro, dentre vós mesmos, para vos transmitir as Nossas revelações, purificar-vos, ensinar-vos o Livro e a sabedoria e ensinar-vos o que não sabíeis (al-Baqarah 2: 151). Ele é quem enviou o Seu Mensageiro com a orientação e a religião da Verdade, para fazê-la prevalecer sobre todos os outros modos de vida; e Deus basta como testemunha (al-Fath 48: 28; também 9: 33, 61: 9). …e aqueles [entre os seguidores de Moisés] que seguem o Mensageiro, o Profeta iletrado, que encontram mencionado junto deles na Torá e no Evangelho, que lhes ordenará o que é correto e lhes proibirá o que é errado, tornará lícitas para eles as coisas boas e ilícitas as coisas más, e aliviará deles os seus fardos e os grilhões que os prendiam. Aqueles que nele creem, o apoiam e ajudam, e seguem a luz que foi enviada com ele, esses são os bem-sucedidos (al-A’raf 7: 157).
4. A responsabilidade do homem e o testemunho: O testemunho prestado pelos Mensageiros e por todos aqueles que são incumbidos do mesmo dever é a base da responsabilidade do homem na Akhirah e da consequente recompensa e punição. A Verdade é testemunhada diante deles para que não lhes reste argumento contra Deus; serão responsabilizados porque a receberam: essa posição foi declarada no Alcorão em muitos lugares e sob muitas perspectivas diferentes, como vimos anteriormente. Quem segue o caminho reto segue-o em seu próprio benefício, e quem se desvia desvia-se para seu próprio prejuízo; e nenhum portador de fardos carregará o fardo de outro. Nunca castigamos sem antes enviarmos um Mensageiro (al-Isra’ 17: 15). Assim, [no Dia do Juízo,] certamente chamaremos à prestação de contas todos aqueles a quem foi enviada a mensagem, e certamente chamaremos à prestação de contas os Mensageiros; então certamente lhes relataremos o seu relato com conhecimento, pois nunca estivemos ausentes (al-A’raf 7: 6-7). E quando firmámos um pacto com todos os Profetas — contigo [ó Profeta], com Noé, Abraão, Moisés e Jesus, filho de Maria — firmámos com eles um pacto solene, para que Ele pudesse questionar os verazes acerca da sua veracidade; e preparou para os que negam a verdade um castigo doloroso (al-Ahzab 33: 7-8). No dia em que Deus reunir todos os Mensageiros e disser: “Que resposta vos foi dada?” Eles dirão: “Não temos conhecimento; Tu és o Conhecedor das coisas ocultas” (al-Ma’idah 5: 109). [E Deus dirá:] “Ó comunidade dos jinn e dos homens, acaso não vieram até vós Mensageiros dentre vós, transmitindo-vos as Minhas revelações e advertindo-vos do encontro deste vosso dia?” Eles dirão: “Testemunhamos contra nós mesmos.” A vida deste mundo enganou-os, e testemunharão contra si mesmos que eram descrentes (al-An’am 6: 130). Então os descrentes serão conduzidos em grupos para o Jahannam. Quando chegarem a ele, as suas portas serão abertas, e os seus guardiões lhes dirão: “Acaso não vieram até vós Mensageiros dentre vós, que vos transmitiram as revelações do vosso Senhor e vos advertiram do encontro deste vosso Dia?” Dirão: “Sim, certamente!” Mas a palavra do castigo terá sido decretada contra os descrentes; e lhes será dito: “Entrai pelas portas do Jahannam, para nele permanecerdes eternamente.” Quão péssima é a morada dos arrogantes! (al-Zumar 39: 71-72). Certamente ajudaremos os Nossos Mensageiros e os que creem, nesta vida e no Dia em que todos os testemunhos se erguerão — o dia em que as desculpas dos malfeitores não lhes serão úteis; sobre eles estará a maldição e deles será a pior morada (Ghafir 40: 51-52).
5. O senso de responsabilidade: O Alcorão oferece um relato muito comovente de como os Mensageiros de Deus se dedicaram com toda a seriedade à sua missão, de como trabalharam arduamente para cumprir o seu dever e de como sofreram intensamente pela sua causa. A sua história é amplo testemunho disso. Mas aqui bastam dois exemplos: primeiro, o do Profeta Noé e, segundo, o do Profeta Muhammad — que as bênçãos e a paz estejam sobre ambos. Enviámos Noé ao seu povo, e ele permaneceu entre eles mil anos, menos cinquenta… (al-‘Ankabut 29: 14). Ele [Noé] disse: “Meu Senhor, tenho chamado o meu povo noite e dia, mas o meu chamado apenas os fez fugir ainda mais. E sempre que os chamei para que Tu lhes perdoasses, puseram os dedos nos ouvidos, cobriram-se com as suas vestes, persistiram e se ensoberbeceram com orgulho. Depois, certamente os chamei abertamente; então lhes falei publicamente e também em segredo” (Nuh 71: 5-9). Talvez tu [ó Profeta] te atormentes até à morte porque se recusam a crer? (al-Shu’ara’ 26: 3). O Propósito e o Dever da Ummah Muçulmana Responsabilidades e Deveres Aos muçulmanos temos apenas uma coisa muito simples a dizer: compreendei e cumpri as responsabilidades e os deveres que recaem sobre vós em virtude de serdes muçulmanos. Não podeis escapar simplesmente afirmando que sois muçulmanos e que aceitastes Deus como o vosso único Deus e o Islão como a vossa religião. Pelo contrário, assim que reconheceis Allah como o vosso único Senhor e a Sua orientação como o vosso modo de vida, assumis certas obrigações e deveres. Deveis permanecer sempre conscientes dessas obrigações e esforçar-vos continuamente por cumprir esses deveres. Se os evitardes, não escapareis às más consequências da vossa conduta neste mundo nem no Além. Quais são esses deveres? Eles não se limitam à afirmação da fé em Allah, nos Seus anjos, nos Seus Livros, nos Seus Mensageiros e no Dia do Juízo. Nem se limitam à realização das orações, à observância dos jejuns, à peregrinação e ao pagamento da esmola. Esses deveres também não se esgotam na observância das determinações do Islão relativas ao casamento, ao divórcio e à herança. Acima de todos esses deveres, há um que é o mais importante: que as vossas vidas testemunhem diante de toda a humanidade a Verdade que recebestes de Deus, a Verdade que acreditais ser verdadeira.
O Único Propósito da Existência
O Alcorão afirma claramente que testemunhar a Verdade de tal maneira que a humanidade não tenha nenhum fundamento justificável para negá-la é o único propósito pelo qual vocês foram constituídos como uma Ummah distinta (comunidade), chamada muçulmana. E assim fizemos de vocês uma comunidade do caminho do meio, para que fossem testemunhas [da Verdade] perante toda a humanidade, e o Mensageiro fosse testemunha [dela] perante vocês (al-Baqarah 2:143). Esta missão é o único objetivo para o qual a sua Ummah foi trazida à existência; é a razão de ser da sua existência como sociedade de seres humanos. A menos que a cumpram, estão desperdiçando a vida. Pois este não é um dever comum; é um dever imposto a vocês por Deus. É um mandamento divino e um chamado divino: Ó crentes, permanecei firmes em vos levantardes, por amor de Deus, prestando testemunho da justiça (al-Ma’idah 5:8). Não é uma questão insignificante, mas um mandato enfático e grave, pois Allah também diz: E quem é mais injusto do que aquele que oculta um testemunho que lhe foi confiado por Deus? (al-Baqarah 2:140). Vocês foram advertidos sobre as consequências de se esquivarem desse dever. Considerem a história do povo de Israel. Eles também foram designados para ocupar o banco das testemunhas; mas, às vezes, ocultavam a Verdade e, às vezes, testemunhavam contra ela. Por sua conduta, tornaram-se, de fato, testemunhas da falsidade, em vez de testemunhas da Verdade. A consequência foi que Deus os abandonou e uma maldição caiu sobre eles. Assim, a humilhação e a impotência os afligiram, e atraíram a ira de Deus (al-Baqarah 2:61).
Testemunho da Verdade O que implica este dever de testemunhar? Considerem-no cuidadosamente: foi-lhes dada a orientação divina, e a Verdade lhes foi mostrada. Devem, portanto, estabelecer, por meio do seu testemunho, a autenticidade e a veracidade dela perante toda a humanidade. Este é um testemunho que tornará evidente, para todos verem, a autenticidade e a veracidade da orientação divina, e uma prova que a tornará clara e incontestável para todas as pessoas. Foi precisamente para esse propósito que todos os Mensageiros foram enviados ao mundo; esse era o seu dever primordial. Depois deles, seus seguidores receberam o mesmo dever. E agora a Ummah muçulmana, como sucessora do Último Profeta, que as bênçãos e a paz estejam sobre ele, está encarregada desta mesma missão, assim como ele esteve encarregado dela durante sua vida.
Natureza e Importância Qual é a importância deste testemunho? Só conhecerão a sua importância quando compreenderem que o ser humano foi responsabilizado por sua conduta e será recompensado ou punido na Vida Futura segundo a Lei Divina, que repousa inteiramente sobre este testemunho. Deus é Sapientíssimo, Misericordiosíssimo e Justíssimo. A Sua misericórdia, justiça e sabedoria não permitem que puna as pessoas por viverem contra a Sua vontade quando não tinham conhecimento dela; que responsabilize as pessoas por se desviarem do caminho reto que ignoravam; ou que as considere responsáveis por coisas das quais não tinham consciência. [1] Foi como uma proteção contra isso que o primeiro homem que Ele criou foi um Mensageiro, e que, depois dele, muitos outros foram enviados de tempos em tempos. [2] Todos eles deveriam testemunhar perante a humanidade, para fazê-la compreender e recordar a vontade de Deus. Todos deveriam ensinar aos seres humanos a maneira correta de conduzir suas vidas, o código de conduta que deveriam adotar para obter o agrado de Deus, os atos que deveriam praticar, os atos que deveriam evitar e as coisas pelas quais seriam chamados a prestar contas. [3] Este testemunho foi prestado pelos Mensageiros de Allah para que as pessoas não pudessem dizer a Deus: Como podemos ser punidos por coisas sobre as quais não fomos advertidos? O Alcorão diz: [Enviamos] todos os Mensageiros como anunciadores de boas-novas e como admoestadores, para que os homens não tivessem argumento algum contra Deus depois [da vinda] desses Mensageiros; Deus é, de fato, Poderosíssimo, Sábio (al-Nisa’ 4:165). Desse modo, Deus fez de Seus Mensageiros os responsáveis fundamentais por guiar o ser humano em Seu nome. Assim, foram encarregados de uma responsabilidade muito delicada e grave: se testemunhassem corretamente a Verdade, as pessoas seriam responsabilizadas por suas próprias ações; mas, se falhassem em seu dever, eles próprios seriam chamados a prestar contas pelo desvio de seu povo. Em outras palavras, se os Mensageiros não tornassem as pessoas responsáveis por sua conduta, dando-lhes um testemunho conclusivo e incontestável da Verdade, as pessoas responsabilizariam os Mensageiros por suas próprias más ações, dizendo: ‘O conhecimento que Deus lhes deu, vocês não o comunicaram a nós; o modo de vida que Ele lhes mostrou, vocês não o mostraram a nós.’ [4] É por isso que todos os Mensageiros permaneceram sempre profundamente conscientes do peso dessa responsabilidade, e é por isso que se esforçaram tanto para testemunhar perante o povo a Verdade que lhes fora confiada. [5]
Responsabilidade da Ummah Todos aqueles que foram conduzidos pelos Mensageiros ao conhecimento da Verdade e à orientação divina foram constituídos em uma comunidade, uma Ummah. Cada Ummah recebeu a mesma missão dos Mensageiros: testemunhar a Verdade. Como sucessora dos Mensageiros, cada Ummah tem o mesmo papel fundamental e a mesma responsabilidade que eles tinham. Assim, se uma Ummah cumpre devidamente seu dever de testemunhar a Verdade e, ainda assim, as pessoas não dão atenção, ela será recompensada e as pessoas serão chamadas a prestar contas. Contudo, se a Ummah negligenciar seu dever ou der falso testemunho, merecerá ser punida mais severamente do que as pessoas. A Ummah será responsabilizada não apenas por suas próprias más ações, mas também pelas más ações daqueles que se desviaram ou se voltaram para o erro e a perversidade porque o testemunho prestado a eles pela Ummah era enganoso ou falso. Irmãos, esta é a natureza e a lógica desse dever grave e fundamental que recai sobre mim, sobre vocês e sobre todos aqueles que se consideram parte da Ummah muçulmana, ou que se tornaram suficientemente conscientes do Livro de Deus e da orientação trazida por Seus Mensageiros.
Notas de Khurram Murad
1. A lei de Deus para o julgamento: O Alcorão explicou em considerável detalhe a lei segundo a qual a responsabilidade do ser humano no Dia do Juízo depende do testemunho da Verdade prestado diante dele por aqueles que a portam. É importante compreender o que o Alcorão diz a esse respeito. Primeiro, por que o ser humano foi colocado na terra? Para que utilize todo o seu enorme potencial e se conduza da maneira correta que dará cumprimento ao sentido de sua vida. E foi Ele quem criou os céus e a terra em seis dias, e Seu Trono estava sobre as águas, para testar-vos e ver qual de vós é melhor em conduta (Hud 11: 7). Ele criou a morte e a vida para testar-vos e ver qual de vós é melhor em conduta (al-Mulk 67: 2). Fizemos tudo o que há na terra um adorno para ela, a fim de testar qual deles é melhor em conduta (al-Kahf 18: 7). Em segundo lugar, qual é o significado e o propósito da vida humana? Que o ser humano viva como seu Criador deseja que viva: em submissão e adoração somente a Ele. Não porque Deus necessite de sua adoração de alguma maneira, mas porque o ser humano precisa adorar somente seu Criador e ninguém mais, para que sua própria natureza não seja pervertida e corrompida e para que não viva em oposição ao seu caráter intrínseco. Além disso, somente vivendo assim sua vida terrena será colocada no caminho correto e prosperará, trazendo-lhe paz e felicidade (tudo isso que o Alcorão chama de falah). E não criei os jinn e a humanidade senão para Me servirem e adorarem. Não desejo deles provisão alguma, nem desejo que Me alimentem (al-Dhariyat 51: 56-7). Em terceiro lugar e, consequentemente, a vida terrena do ser humano deve ser julgada. Ele deverá prestar contas de sua conduta e enfrentar as consequências da maneira como vive sua vida. Obviamente, para ser julgado com justiça, esse julgamento deve ocorrer somente depois que sua vida terrena chegar ao fim e somente por Aquele que lhe deu essa vida, que conhece tudo e que é Todo-Poderoso e Justíssimo. Somente então ele poderá ser julgado com justiça, devidamente recompensado e punido, por tudo: desde os pensamentos mais ocultos e íntimos até as consequências de sua conduta que se estendem por toda parte e para além da vida, por gerações futuras. O juiz, em outras palavras, deve ser o Rei e Senhor do Dia do Juízo. Pensastes, acaso, que vos criamos apenas por brincadeira e que não retornaríeis a Nós? Mas exaltado seja Deus, o Rei, a Verdade! Não há divindade senão Ele, o Senhor do Nobre Trono (al-Mu’minun 23: 115-16). E não criamos os céus e a terra e tudo o que há entre ambos por mera brincadeira; não os criamos senão com verdade [significado e propósito], mas a maioria deles não compreende (al-Dukhan 44: 38-9). Ou pensam aqueles que cometem más ações que os colocaremos em pé de igualdade com aqueles que creem e praticam boas ações, tanto em sua vida quanto em sua morte? Que mau é o julgamento deles! Deus criou os céus e a terra com verdade [significado e propósito], para que cada ser humano seja recompensado pelo que conquistou, e eles não sejam injustiçados (al-Jathiyah 45: 21-2). Todo ser humano provará a morte; e certamente recebereis integralmente vossas recompensas no Dia da Ressurreição; quem então for salvo do Fogo e admitido no Paraíso terá alcançado o triunfo; a vida mundana não é senão um gozo ilusório (Al ‘Imran 3: 185). E estabeleceremos balanças justas no Dia da Ressurreição, e nenhum ser humano será injustiçado em nada; ainda que seja o peso de uma semente de mostarda, Nós a traremos à conta, e somos suficientes como contadores (al-Anbiya’ 21: 47). Ele conhece o olhar furtivo e o que os corações ocultam (Ghafir 40: 19). Em quarto lugar, portanto, o destino final do ser humano encontra-se na vida futura, na Akhirah. Igualmente importante é o fato de que o relato da Akhirah apresentado no Alcorão demonstra claramente e enfatiza repetidamente que ali cada um será julgado segundo o devido processo de justiça, com equidade e imparcialidade, com misericórdia e bondade. Além disso, ninguém será injustiçado nem tratado injustamente sequer pelo peso de um átomo. E apressai-vos uns à frente dos outros para o perdão de vosso Senhor e para um Paraíso tão vasto quanto os céus e a terra, preparado para os conscientes de Deus (Al ‘Imran 3: 133). Ó meu povo, esta vida mundana não é senão um breve gozo; certamente a vida futura é a morada permanente. Ali, quem praticar uma má ação será recompensado somente com outra semelhante; mas quem praticar boas ações, seja homem ou mulher, e for crente, esses entrarão no Paraíso, onde receberão bênçãos sem medida (Ghafir 40: 39-40). Certamente Deus não cometerá injustiça nem mesmo do peso de um átomo (al-Nisa’ 4: 40). Em quinto lugar, portanto, para que haja plena justiça, o ser humano deve ser informado sobre como deve viver sua vida terrena. Em outras palavras, deve conhecer seu Criador e Senhor, o que Ele deseja dele, como quer que O adore e se submeta a Ele. Enquanto não souber tudo isso, o ser humano não poderá ser plenamente responsabilizado e chamado a prestar contas se seguir um modo de vida errado. Esse conhecimento lhe foi concedido em sua própria natureza, no universo ao seu redor e nas revelações enviadas por meio dos Mensageiros de Deus. E quando teu Senhor fez sair dos filhos de Adão, de seus lombos, sua descendência, e os fez testemunhar contra si mesmos: “Não sou Eu o vosso Senhor?” Eles disseram: “Sim, testemunhamos”, para que não dissésseis no Dia da Ressurreição: “Estávamos desatentos a isso.” Ou para que não dissésseis: “Nossos antepassados associaram parceiros a Deus anteriormente, e nós éramos apenas seus descendentes depois deles. Destruir-nos-ias, então, por causa do que fizeram os falsificadores?” (al-A’raf 7: 172-3). Quantos sinais existem nos céus e na terra pelos quais passam sem refletir e aos quais dão as costas! E a maioria deles não crê em Deus sem associar parceiros a Ele (Yusuf 12: 105-6). [E Deus dirá:] “Ó comunidade de jinn e homens, não vieram a vós Mensageiros dentre vós, transmitindo-vos Minhas revelações e advertindo-vos do encontro deste vosso dia?…” Isso porque teu Senhor não destruiria comunidades injustamente enquanto seu povo fosse ignorante (al-An’am 6: 130-1). Em sexto lugar, por diversas razões, que não é possível discutir aqui, somente Deus, e ninguém mais, pode proporcionar ao ser humano o conhecimento da orientação correta. Primeiro e principalmente, porque somente Ele pode dizer como o ser humano deve relacionar-se com Ele. Segundo, porque somente o Criador pode dizer-lhe como deve relacionar-se consigo mesmo, com os demais seres humanos e com todas as outras coisas do universo. E, por fim, porque somente Deus pode dar ao ser humano uma orientação aplicável universalmente e em todos os tempos. Dize: “Há algum daqueles que associais [a Deus] que guie para a Verdade?” Dize: “Somente Deus guia para a Verdade.” Então, quem guia para a Verdade merece mais ser seguido ou aquele que não pode guiar a menos que seja guiado? Que vos sucede? Como julgais? E a maioria deles não segue senão conjecturas, e a conjectura jamais pode ocupar o lugar da verdade (Yunus 10: 35-6). Dize: “Invocaremos, além de Deus, aquilo que não nos beneficia nem nos prejudica e retornaremos sobre nossos calcanhares depois de Deus nos ter guiado corretamente? Seremos como aquele que os demônios seduziram e deixaram desnorteado na terra, enquanto seus companheiros o chamam para a orientação: ‘Vem até nós!’” Dize: “A orientação de Deus é a única orientação verdadeira; e assim nos foi ordenado submeter-nos ao Senhor de todos os mundos” (al-An’am 6: 71).
Esta, portanto, é a lei divina para o julgamento do ser humano. O ponto central dessa lei é que a Verdade seja testemunhada diante da humanidade de maneira plena, fiel e por todos os meios possíveis. Pois, sem a orientação de Deus, a vida terrena do ser humano, tanto individual quanto coletiva, resultará em miséria e sofrimento. Mais importante, porém, sem essa orientação o ser humano jamais estará em condições de tornar glorioso seu destino final.
2. A promessa de Deus de orientar: Adão, segundo o Alcorão, não é uma figura mítica nem meramente um símbolo da raça humana. Ele é mencionado como Mensageiro, juntamente com Noé e Abraão. Deus escolheu Adão, Noé, a família de Abraão e a família de Imran acima de toda a humanidade, descendentes uns dos outros (Al ‘Imran 3: 33). Foi-lhe dado conhecimento e orientação (2: 31-5); quando errou e suas fraquezas se tornaram conhecidas, Deus voltou-se para ele com misericórdia, elevou-o, guiou-o e prometeu a ele e à sua descendência orientação contínua (20: 115-27, 2: 359). Adão desobedeceu a seu Senhor e, por isso, errou. Depois, seu Senhor o escolheu, voltou-se para ele e o guiou. Ele disse: “Descei ambos daqui; cada um de vós será inimigo do outro. Contudo, certamente vos chegará de Mim uma orientação; e quem seguir Minha orientação não se desviará nem será infeliz. Mas quem se afastar da Minha lembrança terá uma vida estreita; e no Dia da Ressurreição Nós o ressuscitaremos cego.” Ele dirá: “Ó meu Senhor, por que me ressuscitaste cego, quando eu tinha visão?” Deus dirá: “Assim é. Nossas revelações chegaram a ti, mas tu as esqueceste; e hoje és esquecido” (Ta Ha 20: 121-6).
3. Os Mensageiros e sua missão: Foi para cumprir essa promessa à humanidade que, em primeiro lugar, Deus enviou Seus Mensageiros com Sua orientação e com a Verdade a todos os povos — alguns dos quais o Alcorão nomeou, e outros não. Enviamos-te [ó Profeta] com a Verdade, como portador de boas-novas e admoestador; não há comunidade alguma à qual não tenha passado um admoestador (al-Fatir 35: 24). Revelamos-te [ó Profeta] assim como revelamos a Noé e aos Profetas depois dele, e como revelamos a Abraão, Ismael, Isaac, Jacó e seus descendentes, incluindo Jesus, Jó, Jonas, Aarão e Salomão, e como concedemos os Salmos a Davi; e Mensageiros que te mencionamos anteriormente e Mensageiros que não te mencionamos; e Deus falou a Moisés diretamente. Mensageiros como anunciadores de boas-novas e admoestadores, para que a humanidade não tivesse argumento contra Deus depois da [vinda dos] Mensageiros; e Deus é Poderoso, Sábio (al-Nisa’ 4: 163-5). Em segundo lugar, Ele encarregou todos eles desta missão e dever: comunicar a Verdade, convidar as pessoas a adorar somente o Deus Único e submeter-se a Ele como seu único Senhor, por meio da palavra e do exemplo. Em outras palavras, testemunhar a Verdade diante dos homens e das mulheres aos quais foram enviados, para que não tivessem argumento diante de Deus, para que pudessem ser questionados sobre como viveram suas vidas, para que aqueles que vivessem segundo a Verdade fossem recompensados e aqueles que não o fizessem fossem punidos. E não enviamos, antes de ti, Mensageiro algum sem que lhe revelássemos: “Não há divindade senão Eu; portanto, servi-Me e adorai-Me somente” (al-Anbiya’ 21: 25). E este foi o Nosso argumento, que concedemos a Abraão contra seu povo. Elevamos em graus quem queremos; certamente teu Senhor é Sábio, Onisciente. E concedemos a Isaac e Jacó, e guiamos ambos; e guiamos Noé antes deles e, entre seus descendentes, guiamos Davi, Salomão, Jó, José, Moisés e Aarão — assim recompensamos os benfeitores — Zacarias, João, Jesus e Elias, todos entre os justos; e Ismael, Eliseu, Jonas e Lot. E a todos favorecemos acima dos demais povos. E [guiamos igualmente] alguns de seus antepassados, seus descendentes e seus irmãos. Nós os escolhemos e os guiamos para o caminho reto. Essa é a orientação de Deus; por meio dela Ele guia quem quer entre Seus servos. E se tivessem associado parceiros a Deus, teria sido inútil tudo o que fizeram. Esses são aqueles a quem concedemos o Livro, o Julgamento e a Profecia. Se estes negarem essa [Nossa orientação], Nós a confiaremos a um povo que não a negará. Esses são aqueles a quem Deus guiou; segue, pois, a orientação deles. Dize: “Não vos peço recompensa alguma por isso; é apenas uma admoestação para toda a humanidade” (al-An’am 6: 83-90). Certamente enviamos Nossos Mensageiros com provas claras e fizemos descer com eles o Livro e a Balança, para que a humanidade estabelecesse a justiça (al-Hadid 57: 25). O Profeta Muhammad foi o último deles. Não trouxe nenhuma Verdade, mensagem ou orientação nova; veio com a mesma Verdade e recebeu a mesma missão e o mesmo dever que todos os Mensageiros anteriores. Esse dever e essa missão foram expressos de várias maneiras: advertência (indhar), anúncio de boas-novas (tabshir), convite e chamado (da’wah), comunicação (tabligh), lembrança (dhikr), ensino (ta’lim), transmissão e propagação (tilawah), ordenação e promoção do que é bom e correto e proibição e eliminação do que é errado e mau (amr bi ‘l-ma’ruf wa nahl ‘ani ‘l-munkar), estabelecimento do Din (iqamah), estabelecimento da justiça (qist), fazer prevalecer a orientação divina e o Din (izhar) ou testemunho (shahadah). Todas essas expressões dizem respeito à mesma missão, embora a partir de perspectivas diferentes e com ênfases diferentes. Ó Profeta, enviamos-te como testemunha [da Verdade], portador de boas-novas e admoestador, como aquele que chama para Deus, com Sua permissão, e como uma lâmpada luminosa (al-Ahzab 33: 45-6). Ó Mensageiro, transmite aquilo que foi enviado a ti por teu Senhor; pois, se não o fizeres, não terás transmitido Sua mensagem (al-Ma’idah 5: 67). Assim também enviamos entre vós, dentre vós mesmos, um Mensageiro, para transmitir-vos Nossas revelações, purificar-vos, ensinar-vos o Livro e a sabedoria e ensinar-vos aquilo que não sabíeis (al-Baqarah 2: 151). Ele é quem enviou Seu Mensageiro com a orientação e o caminho da Verdade, para fazê-lo prevalecer sobre todos os demais modos de vida; e Deus basta como testemunha (al-Fath 48: 28; também 9: 33, 61: 9)…. e aqueles [entre os seguidores de Moisés] que seguem o Mensageiro, o Profeta iletrado, que encontram escrito junto deles na Torá e no Evangelho, que lhes ordenará o correto e lhes proibirá o errado, tornará lícitas para eles as coisas boas e ilícitas as coisas más e aliviará deles seus fardos e os grilhões que os prendiam. Aqueles que creem nele, o amparam e o ajudam e seguem a luz que foi enviada com ele, esses são os bem-sucedidos (al-A’raf 7: 157).
4. A responsabilidade do ser humano e o testemunho: O testemunho dado pelos Mensageiros e por todos aqueles que são encarregados do mesmo dever é a base da responsabilidade do ser humano na Akhirah e de sua consequente recompensa e punição. A Verdade é testemunhada diante deles para que não lhes reste argumento contra Deus; serão responsabilizados porque a receberam: essa posição foi exposta no Alcorão em muitos lugares e sob muitas perspectivas diferentes, como já vimos. Quem segue o caminho reto segue-o em seu próprio benefício, e quem se desvia desvia-se em seu próprio prejuízo; e nenhum portador de fardos carregará o fardo de outro. Nunca punimos até enviarmos um Mensageiro (al-Isra’ 17: 15). Assim, [no Dia do Juízo,] certamente chamaremos a prestar contas todos aqueles a quem foi enviada [Nossa] mensagem e certamente chamaremos a prestar contas os portadores da Mensagem; então certamente lhes relataremos [suas contas] com conhecimento, pois nunca estivemos ausentes (al-A’raf 7: 6-7). E quando tomamos dos Profetas, de ti [ó Profeta], de Noé, Abraão, Moisés e Jesus, filho de Maria, um compromisso, tomamos deles um pacto solene, para que Ele questionasse os verídicos sobre sua veracidade; e preparou para os que negam a verdade um castigo doloroso (al-Ahzab 33: 7-8). No dia em que Deus reunirá todos os Mensageiros e dirá: “Que resposta vos foi dada?” Eles dirão: “Não temos conhecimento; Tu és o Conhecedor das coisas ocultas” (al-Ma’idah 5: 109). [E Deus dirá:] “Ó comunidade de jinn e homens, não vieram a vós Mensageiros dentre vós, transmitindo-vos Minhas revelações e advertindo-vos do encontro deste vosso dia?” Eles dirão: “Testemunhamos contra nós mesmos.” A vida mundana os iludiu, e testemunharão contra si mesmos que eram descrentes (al-An’am 6: 130). Então os descrentes serão conduzidos em grupos para Jahannam; quando chegarem, seus portões serão abertos e seus guardiões lhes dirão: “Não vieram a vós Mensageiros dentre vós mesmos, que vos transmitiram as revelações de vosso Senhor e vos advertiram do encontro deste vosso dia?” Eles dirão: “Sim, de fato!” Mas a palavra do castigo terá se cumprido sobre os descrentes; e lhes será dito: “Entrai pelos portões de Jahannam, para permanecerdes ali eternamente.” Quão má é a morada dos arrogantes! (al-Zumar 39: 71-2). Certamente ajudaremos Nossos Mensageiros e aqueles que creem, nesta vida mundana e no Dia em que se levantarão todas as testemunhas — o dia em que suas desculpas não beneficiarão os malfeitores; deles será a maldição e deles será a péssima morada (Ghafir 40: 51-2).
5. Senso de responsabilidade: O Alcorão apresenta um relato muito comovente de como os Mensageiros de Deus se dedicaram com toda a seriedade à sua missão, como trabalharam arduamente para cumprir seu dever e como sofreram pesadamente por sua causa. Sua história é amplo testemunho disso. Mas aqui bastam dois exemplos: primeiro, o do Profeta Noé e, segundo, o do Profeta Muhammad, que as bênçãos e a paz estejam sobre ambos. Enviamos Noé ao seu povo, e ele permaneceu entre eles mil anos, menos cinquenta… (al-‘Ankabut 29: 14). Ele [Noé] disse: “Meu Senhor, chamei meu povo noite e dia, mas meu chamado apenas os fez fugir ainda mais. E sempre que os chamei para que Tu os perdoasses, puseram os dedos nos ouvidos, cobriram-se com suas vestes, persistiram e se ensoberbeceram com arrogância. Então, certamente, chamei-os abertamente; depois falei-lhes publicamente e falei-lhes em particular” (Nuh 71: 5-9). Quererás [ó Profeta], talvez, atormentar-te até a morte porque se recusam a crer? (al-Shu’ara’ 26: 3). Como devemos testemunhar a Verdade? Vejamos agora de que maneira devemos cumprir nosso dever de testemunhar a Verdade. O testemunho é de dois tipos: um, testemunho por palavras, ou testemunho verbal; o outro, testemunho por atos e ações, ou testemunho prático.
[6] Testemunho verbal
De que maneira nossas palavras devem testemunhar a Verdade? Por meio de nossa fala e escrita, devemos proclamar e explicar ao mundo a orientação que nos chegou por meio dos Mensageiros de Deus. Isso, em suma, é o testemunho verbal. Empregando todos os métodos possíveis de educação, utilizando todos os meios possíveis de comunicação e propagação, dominando todo o conhecimento proporcionado pelas artes e ciências contemporâneas, devemos informar a humanidade sobre o modo de vida que Deus estabeleceu para o ser humano. A orientação que o Islam oferece à humanidade no pensamento e na crença, na moralidade e no comportamento, na cultura e na civilização, na economia e nos negócios, na jurisprudência e no poder judiciário, na política e na administração civil — isto é, em todos os aspectos das relações entre os seres humanos — devemos expô-la de maneira clara e completa diante da humanidade. Por meio de um discurso racional e de provas convincentes, devemos estabelecer sua verdade e solidez. Por meio de uma crítica solidamente fundamentada, devemos refutar tudo o que for contrário à orientação dada por Deus. A tarefa é enorme. Não se poderá fazer plena justiça a ela a menos que o pensamento de guiar o ser humano para o caminho reto se apodere de toda a Ummah tão completamente quanto se apoderou pessoalmente de cada Mensageiro. É também essencial que essa tarefa se torne o objetivo central de todos os nossos esforços coletivos, que dediquemos todos os nossos corações e mentes, todos os nossos recursos, a essa causa. Este objetivo deve estar no topo de todas as nossas ações. Em nenhuma circunstância devemos permitir que qualquer voz dentro de nós testemunhe contra a Verdade e a orientação divina que possuímos.
Testemunho prático
De que maneira nossos atos e ações devem testemunhar a Verdade? Para esse propósito, devemos pôr em prática a orientação que consideramos verdadeira. Nossas ações devem demonstrar os princípios nos quais professamos crer. Em termos simples: que nossas vidas falem a verdade e que o mundo a ouça não somente de nossos lábios, mas também de nossos atos; que a humanidade testemunhe todas as bênçãos que a orientação divina traz à vida humana. Que o mundo experimente, em nossa conduta individual e coletiva, aquela doçura e aquele sabor que somente a fé no Deus Único pode transmitir ao caráter e à moralidade. Que o mundo veja que belos exemplos de humanidade o Islam forma, que sociedade justa é estabelecida, que ordem social sólida surge, que civilização limpa e nobre se ergue, como a ciência, a literatura e a arte florescem e se desenvolvem por caminhos sólidos, que economia justa, compassiva e livre de conflitos é criada. Em suma, como todos os aspectos da vida são corrigidos, desenvolvidos e enriquecidos. Não cumpriremos nosso dever para com essa tarefa enquanto nossas vidas, individuais e coletivas, não se tornarem uma encarnação viva do Islam: enquanto nossos caracteres pessoais não forem uma prova viva de sua verdade, nossos lares não estiverem perfumados com seus ensinamentos, nossos negócios e fábricas não forem iluminados por suas regras e leis, nossas escolas e instituições não forem moldadas por suas ideias e normas e nossa literatura e meios de comunicação não refletirem seus princípios. Na verdade, até que toda a nossa política nacional e nossa vida pública tornem sua verdade manifesta e evidente por si mesma. Em suma, onde quer que e sempre que qualquer indivíduo ou povo entre em contato conosco, é nosso dever convencê-los, por meio de nosso exemplo, de que os princípios e ensinamentos que o Islam proclama como verdadeiros são realmente verdadeiros e de que eles melhoram a qualidade da vida humana e a elevam a níveis melhores e mais elevados.
O Estado Islâmico
Por fim, devo declarar mais uma coisa importante. Este nosso testemunho não estaria completo a menos que estabelecêssemos um Estado baseado nos princípios e ensinamentos do Islã. Ao traduzir seus ideais e práticas, suas normas e valores, suas regras e leis em políticas e programas públicos, tal Estado demonstraria como a orientação divina conduz à equidade e à justiça, à reforma e ao progresso, ao cuidado e a uma administração eficiente, ao bem-estar social, à paz e à ordem, a elevados padrões de moralidade entre os servidores públicos, à virtude e à retidão nas políticas internas, à honestidade nas políticas externas, a uma conduta civilizada na guerra, à integridade e à lealdade na paz. Tal conduta pública seria um testemunho vivo para toda a humanidade de que o Islã é, de fato, o verdadeiro garantidor do bem-estar humano e de que somente seguir seus preceitos pode assegurar o bem da humanidade. Somente quando a Verdade for testemunhada dessa maneira, tanto por palavras quanto por ações, a crucial responsabilidade atribuída à Ummah muçulmana será plenamente cumprida. Somente então não restará à humanidade nenhum fundamento para negar ou afastar-se da orientação divina. Somente então, na Vida Futura, a Ummah muçulmana estará em posição de depor depois do Profeta, que as bênçãos e a paz estejam sobre ele, e declarar: Tudo aquilo da verdade e da orientação que recebemos deste Profeta, nós transmitimos à humanidade; aqueles que não o seguiram devem culpar a si mesmos por terem se desviado, e não a nós. Este é o verdadeiro significado e alcance do testemunho que nós, como muçulmanos, deveríamos ter prestado ao mundo, tanto por nossas palavras quanto por nossas ações. Mas agora voltemo-nos para o estado real das coisas e examinemos o testemunho que, de fato, estamos prestando em favor da orientação divina.
Notas de Khurram Murad
6. Tipos de testemunho: O testemunho por meio da palavra pode ser amplamente abrangido pela terminologia corânica de advertir (indhar), anunciar boas-novas (tabshir), convidar e chamar (da’wah), comunicar (tabligh), ensinar e instruir (ta’lim), transmitir e propagar (tilawah). A terminologia do testemunho por meio das ações inclui estabelecer o Islã (iqamatu ‘d-din), fazer prevalecer sobre todos os demais a orientação de Deus e Seu modo de vida (izhar), estabelecer a justiça (qist), ordenar o bem e proibir o mal, e o Jihad. Onde Estamos?
Nossa Palavra — Testemunho
Primeiro, vejamos o testemunho que está sendo prestado por meio de nossa palavra. Há poucas pessoas entre nós que usam a língua e a pena para testemunhar a verdade do Islã. Ainda menor é o número daqueles que o fazem de maneira apropriada e adequada. Fora isso, sob quase todos os aspectos, os muçulmanos, em geral, estão testemunhando contra o Islã, e não a seu favor, como deveriam.
O que testemunham nossos proprietários? Que a lei islâmica de herança está errada e que os costumes herdados dos tempos pré-islâmicos estão corretos. O que testemunham nossos advogados e juízes? Que todas as leis do Islã são más leis e que sua própria base — a soberania de Deus — é inaceitável. Dizem-nos que somente as leis criadas pelo homem, que nos chegaram por meio dos britânicos, são boas leis. O que testemunham nossos professores e instituições educacionais? Que, em filosofia e ciência, história e sociologia, economia e política, direito e ética, o único conhecimento e pensamento verdadeiros e válidos são aqueles derivados da visão de mundo secular ocidental. Que, em todas essas disciplinas, a abordagem islâmica nem sequer é digna de consideração. O que testemunham nossos escritores? Que sua literatura transmite a mesma mensagem que a dos escritores ateus do Ocidente secular. Demonstram que, como muçulmanos, não possuem nenhuma abordagem literária própria e distinta. O que testemunham nossa imprensa e nossos meios de comunicação? Que as únicas questões e debates que consideram importantes e que os preocupam, e os únicos métodos e padrões de comunicação que consideram adequados para empregar, são aqueles que ostentam a marca dos meios de comunicação não muçulmanos. O que testemunham nossos empresários e industriais? Que as regras estabelecidas pelo Islã para as transações econômicas são impraticáveis e que os negócios só podem ser conduzidos pelos métodos elaborados pelos Kafirs.* O que testemunham nossos líderes e governantes? Que têm os mesmos slogans de nacionalismo e pátria para mobilizar as pessoas, os mesmos objetivos a perseguir em âmbito nacional, os mesmos métodos para resolver problemas nacionais, os mesmos princípios de política e de elaboração constitucional praticados pelos Kafirs. Declaram que o Islã não tem nenhuma orientação a oferecer nesse aspecto. E o que testemunham nossas massas? Testemunham que não têm nada a dizer senão sobre assuntos mundanos, que não possuem um Din que deseje ser propagado ou que exija que dediquem parte de seu tempo a esse propósito. Este, portanto, é o estado do testemunho prestado por toda a nossa Ummah por meio de suas palavras. Esse é o caso não apenas neste país, mas em todo o mundo.
Nossa Ação — Testemunho
Voltemo-nos agora para o nosso testemunho pelos atos e vejamos o testemunho dado por nossas ações e obras. Aqui, nossa conduta é ainda mais escandalosa do que no que diz respeito ao nosso testemunho por palavras. Sem dúvida, há alguns bons muçulmanos cujas vidas são um verdadeiro exemplo do Islã. Mas consideremos como a esmagadora maioria da Ummah, a sociedade em geral, está se comportando. Que testemunho é dado pela vida de um muçulmano típico e comum? Que as pessoas moldadas e formadas pelo Islã não são de modo algum melhores nem diferentes daquelas preparadas pelo Kufr. Se alguma coisa, as primeiras são piores que as últimas: por exemplo, é mais provável que um muçulmano diga uma mentira, traia e viole uma confiança nele depositada, oprima as pessoas e lhes faça injustiça, abandone sua promessa, furte e roube, envolva-se em condutas desordeiras e violentas e entregue-se a todo tipo de atos indecentes. Com efeito, no que diz respeito a todas essas ações imorais, o nível de “desempenho” muçulmano não é inferior ao de qualquer povo Kafir. Qual é o testemunho de nossa vida social? Observem nossos estilos de vida, nossos costumes e cerimônias, nossas festividades, nossas feiras e reuniões religiosas, nossos encontros e procissões: em nenhum aspecto representamos verdadeiramente o Islã. Pelo contrário, nossa vida social é um testemunho patético de que os seguidores do Islã consideram os modos não islâmicos melhores e preferíveis aos islâmicos. O mesmo testemunho é dado por nossas outras instituições sociais e empreendimentos coletivos. Quando criamos instituições educacionais, importamos tudo dos Kafirs: nosso conhecimento, nosso sistema educacional, nossa filosofia, nosso espírito e nosso objetivo. Quando formamos partidos e associações, moldamos tudo segundo os padrões estabelecidos pelos Kafirs: nossos ideais e objetivos, nossas estruturas e constituições, nossas políticas e métodos. Quando nós, como povo, iniciamos uma luta, nossa causa, nossos slogans e reivindicações, nossas questões e debates, nossos programas e procedimentos, nossas resoluções, declarações e discursos são todos réplicas exatas das práticas de comunidades e nações Kafir. As coisas chegaram a tal ponto que até mesmo nossos Estados independentes, onde existem, tomaram emprestados dos Kafirs suas constituições, seus códigos de leis e suas políticas e princípios orientadores. Em alguns Estados, a lei islâmica foi reduzida a uma mera lei pessoal; em outros, até mesmo essa lei pessoal foi alterada. Um escritor inglês observa de modo provocador: “Diante das muitas acusações feitas pelos indianos contra a administração britânica, é importante compreender que os britânicos foram extraordinariamente lentos para introduzir quaisquer inovações na lei… [Com efeito], no que diz respeito ao Islã, o resultado da ligação britânica com a Índia foi estabelecer em bases mais firmes a lei pessoal e religiosa muçulmana… enquanto todo o restante da sharia foi abolido… Por outro lado, a Albânia e a Turquia tornaram-se ambas Estados seculares [adotando códigos penais e civis europeus, alterando inclusive a lei penal muçulmana]… [Assim, pode-se dizer, como diz Lindsay, que] ‘A doutrina muçulmana de que a legislação não está dentro da competência de um soberano terreno nunca foi, na verdade, nada mais que uma ficção piedosa…’” Este, portanto, é o testemunho dado pelas ações de quase todos os muçulmanos. Esse testemunho também depõe contra o Islã. Não depõe a seu favor. Por mais que prestemos apenas um tributo verbal ao Islã, nossa conduta pública prova que não aprovamos nenhum aspecto do Islã, que não consideramos suas leis boas e propícias ao nosso bem-estar. E com que consequências!
Nosso Castigo
Diante de nossa conduta, somos culpados de prestar falso testemunho, cometer perjúrio e ocultar a Verdade. Como consequência, estamos enfrentando precisamente o mesmo castigo prescrito na Lei de Deus para crimes tão graves e hediondos. Qual é essa lei? Quando um povo rejeita e se afasta da orientação de Deus, quando é culpado de perjúrio e deslealdade para com seu Criador e quando se torna traidor d’Ele, então Deus o castiga severamente neste mundo e também no mundo vindouro. [7] Essa lei foi aplicada aos Filhos de Israel. [8] Agora somos nós, a Ummah muçulmana, que estamos no banco dos réus. Deus não nutria nenhuma vingança pessoal contra os judeus para que tivesse castigado somente a eles. Tampouco tem Ele algum parentesco ou relação especial com os muçulmanos que nos libertasse, embora estejamos agora cometendo o mesmo crime que eles cometeram naquela época. [9]
Neste Mundo
A punição aplicada aos muçulmanos por seus crimes neste mundo está diante dos olhos de todos. Com efeito, a extensão e o ritmo do nosso declínio estiveram em verdadeira proporção com a extensão e o ritmo da nossa negligência e do nosso fracasso em cumprir o nosso dever de dar testemunho da Verdade, bem como com o nosso “progresso” em testemunhar a falsidade. Durante os últimos cem anos, do Marrocos à Indonésia, um país após outro foi perdido por nós para a subjugação estrangeira; um povo muçulmano após outro caiu sob o jugo do domínio e da dominação coloniais. A palavra “muçulmano” já não representa dignidade, já não impõe respeito; ao contrário, tornou-se uma marca de degradação, humilhação, extremo atraso e total impotência. Quão impotentes nos tornamos? Perdemos toda a honra e todo o respeito aos olhos do mundo. Em alguns lugares, nosso sangue correu como água e fomos submetidos a massacres em grande escala; em outros, fomos expulsos de nossas casas; em outros ainda, fomos torturados e perseguidos; e, em outros, fomos reduzidos a viver como servos. Se em alguns lugares os Estados muçulmanos sobreviveram, sofreram derrota após derrota, até serem reduzidos a posições de medo e impotência diante das potências estrangeiras. Se ao menos tivessem dado testemunho do Islã por suas palavras e ações, as potências seculares teriam permanecido tomadas de temor diante deles. Por que ir tão longe? Basta olhar para a sua situação na Índia. + Porque vocês se esquivaram do dever de testemunhar a verdade do Islã — na verdade, porque foram além e deram falso testemunho contra ele, tanto por suas palavras quanto por suas ações —, todo o país foi arrancado do seu controle. Primeiro, vocês foram derrotados pelos maratas e pelos siques; mais tarde, a servidão ao domínio britânico tornou-se o destino de vocês. E agora calamidades ainda maiores os encaram. Hoje, sua condição de minoria tornou-se sua maior ansiedade; vocês vivem com medo da maioria hindu, temendo que ela os subjugue e que tenham o mesmo destino dos intocáveis. Mas, pelo amor de Deus, digam-me: poderia uma maioria ter ameaçado vocês se tivessem sido verdadeiras testemunhas do Islã? Não desaparecerá, dentro de poucos anos, este problema de maioria e minoria se hoje suas palavras e ações derem verdadeiro testemunho do Islã? Na Arábia, uma maioria extremamente hostil e opressora decidiu exterminar uma minoria insignificante de cerca de uma pessoa em cem mil. Com que resultado? Em dez anos, essa minoria, por seu testemunho veraz e digno de confiança em favor do Islã, transformou-se em uma maioria de cem por cento. Mais tarde, quando essas testemunhas do Islã saíram da Arábia, em vinte e cinco anos, do Turquestão ao Marrocos, povo após povo confiou na integridade de seu testemunho e juntou-se a eles em sua fé. Onde antes viviam apenas zoroastristas, cristãos e pagãos, agora vivem somente muçulmanos. Nenhuma intransigência, nenhum chauvinismo, nenhum fanatismo religioso mostrou-se forte o bastante para resistir ao testemunho vivo e verdadeiro da orientação divina dado pelos muçulmanos. Se hoje vocês estão sendo pisoteados, se temem catástrofes maiores amanhã, não será isso senão a punição pelo seu falso testemunho e pela ocultação da Verdade?
Punição no Mundo Vindouro Esta é a punição que vocês estão recebendo neste mundo; mas é provável que uma punição mais severa lhes seja aplicada no mundo vindouro. Como poderiam ser absolvidos da culpa por todo mal e toda injustiça a que a humanidade foi submetida apenas porque vocês deixaram de cumprir seu dever como testemunhas da Verdade? Enquanto não cumprirem seu dever, qualquer opressão e corrupção perpetrada no mundo, e qualquer imoralidade e perversidade que prevaleça, não há razão para que vocês não sejam responsabilizados por isso. Talvez vocês não sejam responsáveis por tê-las originado, mas certamente são responsáveis, por causa do seu falso testemunho, por mantê-las e perpetuá-las, por sua origem nas mãos de outros e por permitirem que se espalhem.
Notas de Khurram Murad
7. Consequências do fracasso e da negligência: A missão de testemunhar a Verdade e convidar a humanidade a se render ao seu Criador tem o status de um pacto com Deus. Aqueles que abandonam essa missão, ou não conseguem cumpri-la, ou a negligenciam, são culpados de violar seu pacto. Por isso, são amaldiçoados por Deus e privados de Suas bênçãos. Também são amaldiçoados pelos anjos, porque a luz que eles trouxeram foi extinguida por tais pessoas enquanto a humanidade tateia nas trevas; e pela própria humanidade, pois seus sofrimentos e misérias se devem principalmente à conduta daqueles a quem essa luz foi confiada. Aqueles que ocultam as mensagens claras e a orientação que Nós fizemos descer, depois de as termos tornado claras para a humanidade no Livro, serão amaldiçoados por Deus e pelos que amaldiçoam; mas quanto àqueles que se arrependem, se corrigem e tornam isso conhecido, deles aceitarei o arrependimento; Eu sou o Aceitador do arrependimento, o Misericordioso. Mas aqueles que permanecem no estado de negação e morrem negando, sobre eles estará a maldição de Deus, dos anjos e de toda a humanidade… (al-Baqarah 2: 159-61). E a humilhação e a impotência abateram-se sobre eles, e incorreram na ira de Deus; tudo isso porque persistiram em negar os sinais de Deus e em matar os Profetas sem direito; tudo isso porque se rebelaram [contra Deus] e persistiram em transgredir [os limites de Deus] (al-Baqarah 2: 61). Evidentemente, o dever é negligenciado ou abandonado em troca de ganhos mundanos. O Alcorão descreve esses ganhos como uma ninharia, que atrai a ira de Deus sobre os negligentes. A punição por esse crime, mencionada pelo Alcorão, é de fato única, pois tal punição não é mencionada para nenhum outro crime. Na verdade, aqueles que ocultam o que Deus fez descer no Livro e o trocam por um preço irrisório nada comem senão fogo em seus ventres. E Deus não lhes falará no Dia da Ressurreição, nem os purificará; e terão um castigo doloroso. São eles que compraram o erro pelo preço da orientação e o castigo pelo preço do perdão. Quão pacientemente aceitaram o Fogo! Tudo isso porque Deus fez descer o Livro com a Verdade; e aqueles que divergem acerca do Livro estão profundamente equivocados (al-Baqarah 2: 174-6; também 3: 77-8).
8. O exemplo judaico: A história do povo de Israel é narrada pelo Alcorão com considerável riqueza de detalhes. Ela oferece o exemplo mais instrutivo de um povo que foi guiado por alguns dos maiores Mensageiros de Deus. Eles fizeram um pacto com Deus de que seriam somente Seus servos, obedeceriam somente a Ele e seriam Suas testemunhas. Alcançaram grandes alturas e contribuíram muito para o bem da humanidade ao cumprirem seu pacto. Mas, por fim, romperam seu pacto, sofreram gravemente e assim se tornaram uma lição sobre como pessoas escolhidas por Deus para testemunhar Sua orientação podem se desviar e como podem incorrer na ira de Deus. O propósito de narrar sua história não é criar ódio contra qualquer religião ou povo específico, nem obter prazer e conforto com seu sofrimento e humilhação. Isso fica evidente pelo fato de que, apesar das severas censuras do Alcorão contra o povo de Israel, os dias mais pacíficos e gloriosos da história judaica, nos últimos dois mil anos, foram vividos sob o domínio islâmico. Na verdade, sua história deve funcionar como um espelho que o Alcorão apresenta aos muçulmanos, para que se reconheçam quando se desviarem e permaneçam conscientes das dolorosas consequências de tal conduta. Outro propósito, naturalmente, era despertar os judeus no tempo do Profeta, que as bênçãos e a paz estejam sobre ele, e convidá-los a crer no Último Profeta e apoiá-lo, como exigia sua própria missão. O relato corânico é semelhante ao relato bíblico; se há diferença, é muito mais brando no tom e na linguagem. Primeiro, o Alcorão mostra que grandes bênçãos foram concedidas por Deus ao povo de Israel, sendo a maior delas o Livro e a orientação provenientes d’Ele, e que eles foram escolhidos para ser Seus servos especiais. Ó filhos de Israel, lembrai-vos da Minha bênção com que vos agraciei e de como vos favoreci sobre todos os outros povos (al-Baqarah 2: 47). E quando Moisés disse ao seu povo: Ó meu povo, lembrai-vos da bênção de Deus sobre vós, quando Ele suscitou entre vós Profetas, fez de vós reis e vos concedeu o que não havia concedido a nenhum outro ser (al-Ma’idah 5: 20). E quando fizemos um pacto com os Filhos de Israel: não servireis nem adorareis senão a Deus; tratareis bem os pais, os parentes próximos, os órfãos e os necessitados; falareis bem às pessoas, observareis a oração e pagareis o zakat (al-Baqarah 2: 83). E quando fizemos um pacto convosco [ó Filhos de Israel] e elevamos o Monte acima de vós: apegai-vos com toda a vossa força ao que vos demos e lembrai-vos do que nele há, para que permaneçais conscientes de Deus. Depois disso, voltastes as costas… (al-Baqarah 2: 63-4). Certamente fizemos descer a Torá, na qual havia orientação e luz; por meio dela os Profetas, que se haviam submetido [a Deus], julgavam entre os judeus; e também os homens de Deus e os rabinos, segundo a parte do Livro de Deus que lhes fora confiada; e testemunharam sua verdade (al-Ma’idah 5: 44).
A Bíblia apresenta um relato semelhante: Fazei isso porque pertenceis ao Senhor, vosso Deus. De todos os povos da terra, Ele vos escolheu para serdes Seu povo especial. O Senhor não vos amou nem vos escolheu por serdes mais numerosos que os outros povos; éreis a menor nação da terra (Deut. 7: 6-7). No Monte Sinai, o Senhor, nosso Deus, fez um pacto não somente com nossos pais, mas com todos nós que vivemos hoje. Ali, no monte, o Senhor falou convosco face a face, do meio do fogo… O Senhor disse: “Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos tirou do Egito, onde éreis escravos. Não adoreis outro deus senão a Mim” (Deut. 5: 2-7). Israel, lembrai-vos disto! O Senhor, e somente o Senhor, é o nosso Deus. Amai o Senhor, vosso Deus, com todo o vosso coração, com toda a vossa alma e com toda a vossa força. Nunca vos esqueçais destes mandamentos que hoje vos dou. Ensinai-os aos vossos filhos. Repeti-os quando estiverdes em casa e quando estiverdes fora, quando estiverdes descansando e quando estiverdes trabalhando. Atai-os aos vossos braços e usai-os na testa como lembrete. Escrevei-os nos batentes das portas de vossas casas e em vossos portões (Deut. 6: 4-9). [Esta é uma exegese muito boa das palavras corânicas “e lembrai-vos”.] Nunca vos esqueçais do Senhor, vosso Deus, nem vos volteis para outros deuses para adorá-los e servi-los. Se o fizerdes, hoje vos advirto de que certamente sereis destruídos (Deut. 8: 19). Povo de Israel, vós sois Minhas testemunhas; Eu vos escolhi para serdes Meus servos, para que Me conheçais, creiais em Mim e compreendais que Eu sou o único Deus. Além de Mim não há outro deus; nunca houve e nunca haverá (Isa. 43: 10).
Segundo, o Alcorão exorta e convida o povo de Israel, assim como faz a Bíblia, a cumprir seu pacto com Deus, a crer em Sua última mensagem e a testemunhar sua verdade, lembrando-lhes a promessa e a ameaça que lhes foram feitas. Ó filhos de Israel, lembrai-vos da Minha bênção com que vos agraciei e cumpri o Meu pacto [convosco], e Eu cumprirei o vosso pacto [comigo]; e somente a Mim temei! (al-Baqarah 2: 40). Lembrai-vos de que o Senhor, vosso Deus, é o único Deus e de que Ele é fiel. Ele manterá Seu pacto e demonstrará Seu amor constante por mil gerações daqueles que O amam e obedecem aos Seus mandamentos, mas não hesitará em punir os que O odeiam (Deut. 7: 9-10). Se obedecerdes ao Senhor, vosso Deus, e fizerdes tudo o que Ele ordena, Ele fará de vós Seu próprio povo, conforme prometeu… O Senhor, vosso Deus, vos fará líderes entre as nações, e não seguidores; sempre prosperareis e nunca fracassareis… Mas, se desobedecerdes ao Senhor, vosso Deus, e não guardardes fielmente todos os Seus mandamentos e leis que hoje vos dou, todas estas coisas más vos acontecerão… o Senhor amaldiçoará tudo o que fizerdes… (Deut. 28: 9-19). Eu serei o vosso Deus, e vós sereis o Meu povo (Lev. 26: 12).
Terceiro, o Alcorão acusa o povo de Israel de romper seu pacto e negligenciar seu dever de adorar e obedecer somente a Deus e de ser Suas testemunhas. Eles não apenas se afastaram da mensagem de seu Senhor, como também impediram outros de aceitá-la e segui-la. Ó Povo do Livro, por que não credes nos sinais de Deus, enquanto vós mesmos testemunhais [a sua verdade]? Ó Povo do Livro, por que revestis a verdade de falsidade e ocultais a verdade, sabendo disso (Al ‘Imran 3: 70-1)? Dize: Ó Povo do Livro, por que impedis do caminho de Deus aqueles que creem, tentando fazê-lo parecer tortuoso, enquanto vós mesmos sois testemunhas de sua verdade? (Al ‘Imran 3: 99). Com efeito, Deus fez um pacto com os Filhos de Israel quando suscitamos entre eles doze líderes, e Deus disse: Estou convosco. Se observardes a oração, pagardes o zakat, crerdes nos Meus Mensageiros, os apoiardes e emprestardes a Deus um bom empréstimo, certamente apagarei as vossas más ações e vos admitirei em jardins sob os quais correm rios. Mas quem dentre vós, depois disso, descrer, terá certamente se desviado do caminho reto. Então, por terem rompido seu pacto, Nós os amaldiçoamos e endurecemos seus corações… (al-Ma’idah 5: 12-13). Com efeito, fizemos um pacto com os Filhos de Israel e enviamos Mensageiros a eles; sempre que lhes chegava um Mensageiro com aquilo de que não gostavam [eles se rebelavam], a alguns desmentiam e a outros matavam (al-Ma’idah 5: 70). O Povo do Livro te pedirá que faças descer sobre eles um Livro do céu; e já haviam pedido a Moisés algo ainda maior, dizendo: Mostra-nos Deus face a face; então o raio os atingiu por sua maldade. Depois, adotaram [a adoração] do bezerro, mesmo depois de lhes ter chegado a Verdade clara; ainda assim, Nós os perdoamos e concedemos a Moisés uma autoridade clara [em favor da Verdade]. E elevamos o Monte acima deles ao fazer um pacto com eles; e dissemos-lhes: Entrai pela porta, prostrando-vos; e dissemos-lhes: Não transgredi o sábado; e fizemos com eles um pacto solene. Assim [Nós os amaldiçoamos] por terem rompido o pacto, negado os sinais de Deus, matado os Profetas sem direito, dito “Nossos corações estão fechados [à falsa orientação]” — não, Deus selou-os por sua descrença, e por isso não creem, salvo poucos — e por sua descrença e por terem proferido contra Maria uma calúnia terrível, e por terem dito: “Matamos o Messias, Jesus, filho de Maria, o Mensageiro de Deus” (al-Nisa’ 4: 153-7). Foram amaldiçoados os descrentes dentre os Filhos de Israel pela boca de Davi e de Jesus, filho de Maria; isso porque se rebelaram [contra Deus] e persistiram na transgressão. Não impediam uns aos outros dos males que cometiam. Como eram ruins as coisas que faziam! (al-Ma’idah 5: 78-9).
A Bíblia fala no mesmo tom. Sua acusação não difere da que o Alcorão faz, embora seja expressa de maneira mais dura e com censuras mais severas. Além disso, os líderes de Judá, os sacerdotes e o povo seguiram o exemplo pecaminoso das nações ao redor, adorando ídolos, e assim profanaram o Templo, que o próprio Senhor havia santificado. O Senhor, Deus de seus antepassados, continuou a enviar profetas para advertir Seu povo, porque queria poupar o povo e o Templo. Mas eles ridicularizaram os Mensageiros de Deus, ignoraram Suas palavras e zombaram de Seus profetas, até que, por fim, a ira do Senhor contra Seu povo se tornou tão grande que não houve escape (2 Crôn. 36: 14-16).
Deus me disse que escrevesse num Livro como o povo é, para que houvesse um registro permanente de sua maldade. Estão sempre se rebelando contra Deus, sempre mentindo, sempre se recusando a ouvir os ensinamentos do Senhor. Dizem aos profetas que se calem. Dizem: “Não nos faleis sobre o que é certo. Dizei-nos o que queremos ouvir. Deixai-nos conservar nossas ilusões. Saí do nosso caminho e parai de bloquear nossa passagem. Não queremos ouvir falar do vosso Deus santo de Israel” (Isa. 30: 8-11). Mas Teu povo se rebelou e Te desobedeceu; virou as costas à Tua lei. Matou os profetas que o advertiam e diziam que voltasse para Ti. Insultou-Te repetidamente, e por isso permitiste que seus inimigos o conquistassem e governassem (Nee. 9: 26-7). Os filhos que criei rebelaram-se contra Mim. O boi conhece seu dono, e o jumento sabe onde seu senhor lhe dá alimento. Mas o Meu povo Israel sabe menos que isso. Não entende nada… A cidade que antes era fiel comporta-se como uma prostituta! Antes estava cheia de homens justos, mas agora só restam assassinos. Jerusalém, antes eras como prata, mas agora és inútil;… Teus líderes são rebeldes e amigos de ladrões; estão sempre aceitando presentes e subornos. Nunca defendem os órfãos no tribunal nem escutam quando as viúvas apresentam sua causa (Isa. 1: 2-23).
E é assim que Jesus censura o povo de Israel. Jerusalém, Jerusalém! Tu matas os profetas e apedrejas os Mensageiros que Deus te enviou!… E assim teu templo será abandonado e ficará vazio (Mt. 23: 37-8). Atam às costas das pessoas cargas pesadas e difíceis de carregar, mas não estão dispostos sequer a levantar um dedo para ajudá-las a carregá-las. Fazem tudo para que as pessoas os vejam. Vede as faixas com versículos das Escrituras que usam na testa e nos braços e observai como são grandes! Observai também como são longas as franjas de suas vestes! Gostam dos melhores lugares nos banquetes e dos assentos reservados nas sinagogas; gostam de ser cumprimentados com respeito nas praças e de ser chamados de “Mestre”… Hipócritas! Fechais a porta do Reino dos céus na cara das pessoas, e vós mesmos não entrais, nem permitis a entrada daqueles que tentam entrar!… Limpais o exterior do vosso copo e do vosso prato, enquanto o interior está cheio do que obtivestes pela violência e pelo egoísmo… Sois como sepulcros caiados, que parecem bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e cadáveres em decomposição… Assim, admitis que sois descendentes daqueles que assassinaram os profetas! Ide, então, e terminai o que vossos antepassados começaram! Serpentes e filhos de serpentes! Como esperais escapar da condenação ao inferno? E por isso vos digo que vos enviarei profetas, sábios e mestres; matareis alguns deles, crucificareis outros, açoitareis outros nas sinagogas e os expulsareis de cidade em cidade (Mt. 23: 4-34).
Talvez o relato mais comovente do destino de Israel esteja nas lamentações do Profeta Isaías, que a paz esteja sobre ele. Descrevendo Israel como uma vinha plantada por Deus, ele primeiro descreve como Ele a abençoou com toda sorte de dádivas; depois passa a descrever como ela produziu frutos amargos e como Deus a puniu — algo muito semelhante ao que Sayyid Mawdudi disse sobre os muçulmanos. Meu amigo tinha uma vinha numa colina muito fértil. Ele revolveu a terra e a limpou das pedras; plantou as melhores videiras. Construiu uma torre para guardá-las e cavou um lagar para pisar as uvas. Esperou que as uvas amadurecessem, mas toda uva era amarga. Agora meu amigo diz: “Vós que viveis em Jerusalém e Judá, julgai entre a minha vinha e mim. Há algo que eu tenha deixado de fazer por ela? Então por que produziu uvas amargas, e não as boas uvas que eu esperava? Eis o que farei à minha vinha: retirarei a sebe que a cerca, derrubarei o muro que a protege e deixarei que os animais selvagens a comam e a pisoteiem. Deixarei que seja tomada pelas ervas daninhas. Não podarei as videiras nem revolverei o solo; ao contrário, deixarei que espinhos e cardos a cubram. Até proibirei às nuvens que deixem cair chuva sobre ela” (Isa. 5: 1-4).
Finalmente, o Alcorão também deixa claro que, depois de Israel, foram os muçulmanos que foram designados para cumprir a mesma missão que fora concedida a Israel. Com efeito, demos aos Filhos de Israel o Livro, o julgamento e a profecia; concedemos-lhes boas coisas e favorecemo-los sobre todos os outros povos. E demos-lhes sinais claros relativos à questão [de seu Din]; mas não divergiram senão depois de lhes ter chegado o conhecimento, por inveja mútua… então estabelecemos-te [ó Muhammad] sobre um caminho [Shari’ah] relativo à questão [de teu Din]; segue-o, portanto, e não sigas os desejos daqueles que não sabem (al-Jathiyah 45: 16-18).
9. Ilusões e desculpas: Quando uma fé tão total, abrangente, profunda e dinâmica como o Islam — viver em submissão ao Deus Único, o que é um chamado e um compromisso — se transforma numa religião hereditária e sectária, seus seguidores inventam certas crenças populares para acalmar e silenciar a consciência. Com base em tais ilusões e desculpas, conseguem viver tranquilamente enquanto falham em seu compromisso total com Deus. Negligenciam a missão que Ele lhes confiou e também se recusam a aceitar qualquer chamado para renovar sua fé e assumir seu dever. O Alcorão menciona algumas dessas noções populares que haviam se tornado parte da fé judaica e as rejeita categoricamente. Novamente, o objetivo não é condenar para sempre uma determinada fé ou povo, nem alimentar ódio contra eles, mas induzi-los a corrigir suas crenças errôneas e, mais importante, advertir os muçulmanos a se precaverem contra tais noções. É irônico que hoje se encontrem todas essas crenças populares também como parte da fé dos muçulmanos; por exemplo, que nossa Ummah é a amada de Deus, que os muçulmanos, qualquer que seja o estado de sua fé e conduta, têm o monopólio do Paraíso, que as misericórdias e recompensas de Deus estão reservadas exclusivamente para eles, e que, mesmo se forem punidos, sua punição durará apenas alguns dias.
E os judeus e os cristãos dizem: Somos filhos de Deus e Seus amados. Dize: Por que então Ele vos pune por vossos pecados? Não; sois apenas seres humanos entre aqueles que Ele criou. Ele perdoa a quem quer e pune a quem quer (al-Ma’idah 5: 18). E dizem: Ninguém entrará no Paraíso, a menos que seja judeu ou cristão. Tais são suas crenças ilusórias! Dize: Apresentai vossa prova, se sois verdadeiros! Não; quem se entrega inteiramente a Deus e pratica o bem terá sua recompensa junto ao seu Senhor; não haverá temor sobre eles, nem se entristecerão (al-Baqarah 2: 111-12). E dizem: O Fogo não nos tocará senão por alguns dias. Dize: Fizestes um pacto com Deus — e Deus jamais quebrará Seu pacto — ou atribuís a Deus algo de que não tendes conhecimento? Não é assim; quem pratica o mal e é envolvido por suas transgressões, esses são os habitantes do Fogo… (al-Baqarah 2: 81). E quando lhes é dito: Crede no que Deus fez descer, dizem: Cremos no que foi feito descer sobre nós; e rejeitam o que veio depois disso, embora seja a verdade que confirma o que já possuem. Dize: Por que então matastes os Profetas de Deus no passado, se éreis crentes? (al-Baqarah 2: 91). Dize: Se a morada da Vida Futura é exclusivamente vossa, com exclusão de todos os outros povos, desejai então a morte, se sois verdadeiros! Mas jamais a desejarão, por causa do que suas mãos enviaram adiante; e Deus conhece os malfeitores… (al-Baqarah 2: 95).
Qual é o nosso verdadeiro problema?
Problemas fictícios
A esta altura, irmãos, vocês já devem ter compreendido como nós, enquanto muçulmanos, deveríamos estar vivendo e nos comportando, e como de fato estamos vivendo e nos comportando. Também devem ter percebido as graves consequências que sofremos por causa da nossa conduta. Portanto, não devem ter dificuldade em ver que os problemas que os muçulmanos consideram cruciais para suas sociedades e que se esforçam ao máximo para resolver por diversos meios — alguns inventados por eles, mas em sua maioria copiados de outros — não são o seu verdadeiro problema. O tempo, a energia e os recursos que gastam para resolver esses problemas estão simplesmente sendo desperdiçados. Por exemplo, vemos a nós mesmos como uma minoria cercada por uma maioria estrangeira esmagadora, ou como uma maioria privada de sua soberania dentro de seu próprio território, ou como uma nação subjugada e explorada por uma potência estrangeira, ou como um povo que sofre com o atraso e a pobreza. Então, dedicamos todos os nossos esforços à consecução de objetivos que derivam dessas concepções e imagens que temos de nós mesmos. Por exemplo, objetivos como proteger e assegurar nossa posição em um país enquanto minoria, alcançar a soberania dentro de nossas fronteiras territoriais, conquistar a liberdade da dominação estrangeira ou alcançar os mesmos níveis de progresso e desenvolvimento econômico das nações avançadas. Essas e outras questões semelhantes podem ser as principais preocupações daqueles que não são muçulmanos, que não aceitam Deus como seu Senhor e Guia, e podem constituir o centro de seus esforços. Mas, para nós, muçulmanos, elas não são os problemas primários; nós as enfrentamos apenas porque temos negligenciado, e ainda negligenciamos, cumprir nosso dever. Se tivéssemos sido verdadeiras testemunhas do Islã, não nos teríamos encontrado perdidos em uma selva tão densa de problemas complexos e insolúveis. Se agora dirigirmos toda a nossa atenção e todos os nossos esforços ao cumprimento do nosso dever, em vez de dissiparmos nossas energias limpando a mata, ela desaparecerá em pouco tempo — não apenas para nós, mas para toda a humanidade. Pois manter o mundo limpo e melhorá-lo é nossa responsabilidade; como abandonamos o dever que nos foi confiado, o mundo ficou infestado de matas espinhosas. E não é de admirar que a parte mais espinhosa tenha cabido a nós. Infelizmente, nossos líderes religiosos e políticos não procuram compreender essa realidade simples, mas crucial. Em toda parte, continuam convencendo os muçulmanos de que seus problemas são os problemas de uma minoria em oposição a uma maioria, do progresso material, da segurança nacional, da conquista da liberdade e da independência como Estado-nação. Além disso, até mesmo as soluções que recomendam foram tomadas de não muçulmanos. Mas, assim como creio em Deus, também creio que vocês estão sendo desencaminhados e que, seguindo tais caminhos, jamais alcançarão seu bem-estar e seu destino.
Nosso verdadeiro problema
Qual é, então, o nosso verdadeiro problema? Se eu não lhes disser isso claramente, sem qualquer reserva, estarei prestando-lhes um grande desserviço. A meu ver, o seu destino, agora e para sempre, depende de uma única questão: como vocês se conduzem em relação à orientação de Deus que lhes chegou por meio de Seu Mensageiro, bênçãos e paz estejam sobre ele? É por causa dessa orientação que vocês são muçulmanos. É por causa dessa orientação que, quer gostem disso quer não, vocês concordaram em tornar-se embaixadores do Islã para o mundo inteiro. Portanto, somente se seguirem o Islã total e devotadamente, se suas palavras e ações derem verdadeiro testemunho de seus ensinamentos, se sua conduta social e pública representar fielmente todos os aspectos do Islã, vocês passarão de glória em glória neste mundo e receberão as mais elevadas honras no mundo vindouro. Então, em pouco tempo, as nuvens sombrias do medo e da ansiedade, da desgraça e da humilhação, da subjugação e da escravidão se dissiparão. Então, a verdade de sua mensagem e a virtude de seu caráter conquistarão mente após mente e coração após coração. Então, seu prestígio e reputação, sua influência e autoridade, dominarão o mundo. Em vocês serão depositadas as esperanças de alcançar a justiça, confiança será depositada em sua integridade e honestidade, a expectativa de virtude lhes será confiada, e autoridade será concedida ao seu mundo. Em contraste, os líderes do secularismo perderão toda credibilidade e autoridade. Sua filosofia e visão de mundo, suas ideologias econômicas e políticas, revelar-se-ão falsas e espúrias quando confrontadas com sua verdade e sua conduta correta. As forças que hoje pertencem ao campo secular se afastarão, uma a uma, e se juntarão ao campo do Islã. Então chegará um tempo em que o comunismo temerá pela própria sobrevivência na própria Moscou; em que a democracia capitalista estremecerá diante da ideia de ter de se defender até mesmo em Washington e Nova York; em que o secularismo materialista não conseguirá encontrar lugar nem mesmo nas universidades de Londres e Paris; e em que o racialismo e o nacionalismo não conquistarão sequer um adepto entre brâmanes e alemães. A atual era de abjeta humilhação será então relegada às páginas da história. Ela servirá apenas para nos lembrar dos dias em que os seguidores de uma fé tão universal e poderosa quanto o Islã foram reduzidos a tamanha estupidez que tremiam diante de paus e cordas, embora tivessem o cajado de Moisés debaixo do braço. Esse futuro é de vocês! Mas somente se seguirem o Islã com sinceridade e exclusividade e servirem como suas testemunhas fiéis. Sua conduta atual, porém, é inteiramente contrária a isso. Vocês foram agraciados com a orientação divina, mas, como uma serpente que guarda um tesouro, não se beneficiam dela nem permitem que outros se beneficiem. Ao se chamarem muçulmanos, vocês assumiram para si a posição de representantes do Islã, mas o testemunho conjunto de suas palavras e ações é dado, em sua maior parte, em favor da Ignorância (Jahillyah), da idolatria, do materialismo e da imoralidade. Vocês têm consigo o Livro de Deus, mas o colocaram na prateleira e, para buscar orientação, voltam-se para todo tipo de pessoas que conduzem ao Kufr e para fontes que os desencaminham. Vocês afirmam ser servos do Deus Único, mas, na realidade, servem a todo deus falso, a todo Satanás e a todo poder que se rebela contra Deus. Vocês têm amigos e inimigos, mas são sempre seus interesses pessoais e egoístas que determinam sua amizade e inimizade. Em ambos os casos, vocês usam o Islã como parte de sua causa. Assim, sua conduta, por um lado, privou suas vidas das bênçãos que o Islã lhes oferece e, por outro, está afastando a humanidade, em vez de atraí-la para o Islã. Se continuarem a comportar-se dessa maneira, não poderão alcançar nenhum bem, nem neste mundo nem no mundo vindouro. O resultado disso, segundo a Lei de Deus, é a situação miserável em que vocês se encontram. O que o futuro lhes reserva poderá ser muito pior. Para dizer a verdade, talvez, se retirassem de si o rótulo do Islã e seguissem abertamente e sinceramente o Kufr, poderiam ao menos alcançar tanto progresso mundano quanto alcançaram a América, a Rússia e a Grã-Bretanha. Mas afirmar serem muçulmanos e, ainda assim, comportar-se como não muçulmanos, fechando à humanidade a porta da orientação divina ao representar falsamente o Islã diante dela, é um crime tão hediondo que jamais lhes permitirá prosperar neste mundo. Não há maneira de evitar a punição prescrita pelo Alcorão para esse crime. A história judaica fornece uma prova viva dessa realidade. Vocês podem voltar-se para o nacionalismo secular como um mal menor, podem fazer-se aceitar como uma nação separada e alcançar tudo o que o nacionalismo muçulmano busca alcançar. Mas nada disso lhes servirá. Há apenas uma maneira de afastar a punição de Deus: afastem-se de seu pecado e arrependam-se.