INTRODUÇÃO
Ele influenciou profundamente a minha vida. Conheço-o desde que era muito jovem, embora tenha vivido há 1400 anos. Os meus pais ensinaram-me a amá-lo como se ele fosse a luz que guiava a nossa família. Os meus professores do ensino primário alimentaram ainda mais esse amor e, no meu primeiro ano do ensino secundário, o meu professor deu-me um livro sobre a sua vida como prémio por ter obtido a melhor classificação da turma em árabe. No meu primeiro trabalho profissional, dramatizei para a rádio uma parte importante da sua vida. Mais tarde, escrevi um livro sobre os acontecimentos da sua vida, e esse livro foi reeditado várias vezes. Durante trinta e um anos, de 1981 a 2012, editei uma coluna semanal intitulada “O Islão em Perspetiva” para o jornal saudita Arab News, e em todas as ocasiões escrevi um artigo sobre ele ou sobre aquilo que ensinou. Continuo a sentir que tudo isto fica muito aquém do que ele merece. Como poderia eu — ou, na verdade, qualquer pessoa — retratar aquilo que ele ofereceu à humanidade, quando ele continua a ser a luz que traz felicidade pura à vida de milhões de pessoas em todo o mundo? Muhammad ibn [Abdullah, nascido em Meca no ano 570 da era cristã, filho de um pai cujo rosto nunca chegou a ver, foi o homem a quem Deus confiou a tarefa de transmitir a Sua mensagem final à humanidade. Deus comprometeu-Se a preservar essa mensagem enquanto durar a vida humana. A tarefa atribuída a Muhammad era enorme. A sua não era simplesmente uma mensagem a ser transmitida e dada por recebida; ele devia oferecer orientação às gerações contemporâneas e futuras sobre a sua aplicação. A sua orientação é a luz que brilha através de toda comunidade que decide seguir a forma como Deus quer que a humanidade viva. Uma orientação que continuará a aplicar-se a cada indivíduo e a cada comunidade enquanto a vida humana continuar. Esse foi o milagre do Profeta. Ele não disse às pessoas que realizaria milagres para elas, nem lhes mostrou feitos espetaculares que as deixassem atónitas de assombro. Em vez disso, ofereceu um sistema de vida que atendia a todas as necessidades do corpo, da alma e das emoções. Além disso, elevou as suas aspirações em direção a um ideal sublime. Através das suas ações, mostrou-lhes o caminho para alcançar tudo isso de maneira muito simples, direta e honesta. Aquilo que tinham de se esforçar por alcançar estava ao alcance de todos. Não havia complicações nem imposições arbitrárias. Centenas de livros foram escritos sobre o Profeta e os acontecimentos da sua vida. A maioria foi escrita por muçulmanos que o amaram e seguiram, embora alguns tenham sido escritos por detratores cuja posição consiste em rejeitá-lo e rejeitar a sua mensagem. Em geral, quanto mais uma pessoa aprende sobre a vida e a mensagem do Profeta, mais o admira. Nos seus primeiros quarenta anos, antes do início da sua missão, Muhammad viveu entre o seu povo: partilhava as suas preocupações, mas afastava-se de tudo o que fosse errado ou impróprio. Ganhou reputação como pessoa honesta e veraz. Mais tarde, ao fugir de assassinos, foi perseguido até ao deserto, com uma grande recompensa pela sua cabeça; contudo, a sua confiança em Deus e na verdade da sua mensagem permaneceu firme como uma montanha. Num certo momento, o perigo estava próximo e Suraqah, o seu perseguidor, preparava-se para atacar, mas ele prometeu a Suraqah que usaria os braceletes de Khusru, o imperador persa. Essa promessa viria a cumprir-se depois de Muhammad ter falecido. Em menos de dez anos, a vida do Profeta sofreu uma grande transformação. Aquele cavaleiro que, acompanhado por dois homens e um guia, percorrera 500 quilómetros de caminhos desconhecidos no deserto árabe para escapar aos seus perseguidores tornou-se o senhor incontestado de toda a Arábia. Construiu um Estado dedicado à verdade e à justiça, bem como à libertação do ser humano em todo o mundo. Escreveu a imperadores, reis e governantes, apelando-lhes que acreditassem em Deus e seguissem a Sua mensagem; ao mesmo tempo, porém, vivia uma vida de pobreza. Não desdenhava aceitar um convite de uma pessoa pobre e partilhava de bom grado um humilde jantar de pão com gordura que começara a apodrecer. Um dia, voltou para casa para comer, mas o único alimento disponível era uma pequena porção de pão e um pouco de vinagre. O seu comentário foi: “O vinagre é um bom alimento para acompanhar o pão.” Disse isso numa época em que poderia ter tido as maiores riquezas que o mundo pudesse oferecer. Já disse que a sua confiança em Deus era firme como uma montanha. Na verdade, as montanhas poderiam desabar, e ainda assim a fé do Profeta permaneceria inabalável. Nos momentos de perigo extremo, estava cheio de confiança de que a verdade que pregava triunfaria. No momento do seu maior triunfo, demonstrou humildade e deu os devidos agradecimentos ao Todo-Poderoso. Com os inimigos de ontem — precisamente aqueles que tinham conspirado para assassiná-lo e decidido exterminar a sua comunidade — à sua mercê, mostrou uma magnanimidade extraordinária. A visão que lhe deu maior satisfação no fim da sua vida abençoada foi a dos seus seguidores a oferecerem uma oração congregacional na sua mesquita. Sentiu então que tinha transmitido a mensagem de Deus e cumprido a sua missão. Hoje, o Profeta é alvo de muitas difamações por parte de escritores, caricaturistas, blogueiros e vários outros detratores cuja informação sobre ele é simultaneamente escassa e falsa. É particularmente atacado em três questões: os seus muitos casamentos, o seu casamento com [A’ishah (que se diz ter sido criança na época) e o seu tratamento dos judeus, especialmente da tribo de Qurayzah. Um estudo aprofundado de todas essas questões mostra que não há nada a criticar. Apesar disso, o ataque continua. Infelizmente, a maioria dos muçulmanos de hoje não conhece o Profeta suficientemente bem para retratar a sua vida nas suas verdadeiras cores. Pelo contrário, quando esses ataques são feitos, a ira intensifica-se em todo o mundo muçulmano. Isso serve para aprofundar a divisão entre muçulmanos e não muçulmanos, especialmente entre o mundo muçulmano e o Ocidente. Isso é contrário ao que a maioria das pessoas em todo o mundo deseja. É necessária uma melhor compreensão de ambos os lados da divisão. O meu primeiro livro sobre o Profeta, Muhammad: Homem e Profeta, procurou registar os principais acontecimentos da sua vida, com análises e comentários. Neste livro, o meu objetivo é mostrar o seu verdadeiro caráter. No entanto, enquanto escrevo, sinto que fico muito aquém do meu objetivo. Só posso expressar as minhas limitações com as palavras de John Dryden: Como pode o menor compreender o maior? Ou a razão finita alcançar o infinito?1 Como posso mostrar os dois extremos opostos: a vida na sua forma mais comum e a vida na sua mais elevada perfeição? O Profeta combinava ambos de uma maneira extremamente natural. Se conseguir proporcionar ao meu leitor um vislumbre disso, então o meu esforço terá valido a pena. Os meus leitores compreenderão que não estou a tentar refutar nenhuma das acusações dirigidas contra o Profeta. Estou apenas a tentar apresentar o seu caráter. Nisso, fui guiado pelo que o Alcorão — a própria palavra de Deus — diz sobre ele, pelas suas próprias declarações e ensinamentos e pelo que os seus Companheiros nos transmitiram daquilo que ele disse e fez. Baseei-me apenas em fontes autênticas. No entanto, excluí vários relatos e declarações que poderiam ter reforçado um argumento ou ilustrado um ponto, quando senti que continham uma frase ou uma palavra capaz de lançar alguma dúvida sobre eles, muitas vezes apesar de estarem incluídos numa das coletâneas autênticas dos hadiths (tradições) do Profeta. 1 John Dryden, Religio Laici, 39–40. Dediquei um capítulo ao caso dos judeus de Qurayzah e ao seu destino, e nesta discussão sigo uma linha completamente diferente da abordagem tradicional. Os leitores poderão decidir por si mesmos se o meu argumento é válido. Nem neste caso, nem em qualquer questão controversa, tento defender o Profeta ou justificar as suas ações. Nada há nas suas ações ou ensinamentos que precise de justificação; o que é necessário é compreender a situação considerando todos os aspetos, circunstâncias e opções disponíveis. Resta dizer que nenhum retrato do caráter do Profeta lhe fará justiça. Ele era superior a tudo o que podemos imaginar. Talvez a descrição que mais se aproxima da verdade seja a de que era “o mestre da bondade perfeita”. Que Deus o recompense abundantemente por ter ensinado essa bondade perfeita à humanidade. Adil Salahi Londres Agosto de 2012
CAPÍTULO 1
os anos de formação Muhammad, o Profeta do Islã, era um ser humano comum. Os muçulmanos de todo o mundo reconhecem esse fato. Nenhuma escola islâmica de pensamento lhe atribui um status diferente. Nenhuma lhe atribui natureza divina. O Alcorão também enfatiza esse fato, afirmando-o repetidamente, ao mesmo tempo que deixa claro que ele foi encarregado da mensagem final de Deus à humanidade. Seu papel era transmitir essa mensagem por completo. A mensagem está contida no Alcorão, que é a própria palavra de Deus. Deus garantiu que o Alcorão seria preservado em sua forma original para sempre. Assim, o Alcorão que temos hoje é exatamente o mesmo que Muhammad recitou à sua comunidade há mais de 1400 anos, pois nenhuma palavra dele jamais mudou. Como Mensageiro de Deus, Muhammad também explicou o Alcorão. Esclareceu aspectos que haviam sido apresentados em termos gerais, forneceu detalhes quando eram necessários e corrigiu equívocos quando surgiam. Além disso, em sua própria vida, ofereceu um exemplo prático de como os crentes deveriam conduzir sua vida. Aquilo que Muhammad nos transmitiu, além do Alcorão, é chamado de Sunna. A Sunna é uma parte essencial da fé islâmica, pois serve como um memorando explicativo do Alcorão. Os muçulmanos consideram a Sunna um complemento do Alcorão, mas ela não possui o mesmo status. Na verdade, faz parte da revelação que o Profeta recebeu, mas é expressa em suas próprias palavras. Por ser uma palavra humana, não pode ser recitada na oração. Muhammad tornou-se Profeta aos quarenta anos. Antes disso, não era conhecido por falar sobre religião, Deus, a condição humana ou mesmo valores e conduta morais. Se pensava nessas questões, seus pensamentos permaneciam privados, pois não falava delas com ninguém, nem mesmo com sua esposa ou seus amigos mais próximos. Nenhum amigo ou inimigo jamais lhe disse algo como: “Lembro-me da época em que você costumava nos falar sobre religião ou valores morais.” Ninguém sugeriu que o Islã fosse um desenvolvimento de ideias anteriores expressas por Muhammad sob qualquer forma. Os Profetas são um tipo especial de pessoas, pois assumem a tarefa de pregar às pessoas e, ao mesmo tempo, estabelecer um exemplo prático. Contudo, há um grupo de Profetas que alcança um status mais elevado: os Mensageiros de Deus, aos quais são dadas mensagens para transmitir às pessoas. Noé, Abraão, Moisés e Jesus foram os mais elevados e nobres dos Mensageiros de Deus. Também houve outros Mensageiros: alguns são mencionados no Alcorão, enquanto outros não são citados. Todos esses Profetas e Mensageiros pregavam a mesma fé divina, baseada na Unicidade de Deus. Ensinavam que toda submissão deve ser dirigida somente a Ele e que toda adoração deve ser dedicada exclusivamente a Ele. Por fim, a mensagem divina foi apresentada em sua forma final e completa e dirigida a toda a humanidade, em todas as gerações. Essa é a mensagem de Muhammad, incorporada no Alcorão e na Sunna. Neste livro, começamos a estudar Muhammad, o homem. Abordarei sua mensagem e seus ensinamentos apenas por meio do estudo de sua personalidade. Não pretendo apresentar a fé islâmica nem ilustrar seus princípios fundamentais. Em vez disso, começarei examinando sua origem, o ambiente social em que nasceu e cresceu e os aspectos culturais da sociedade em que viveu como jovem e adulto. Depois, examinarei como sua personalidade se desenvolveu enquanto cumpria a tarefa que lhe fora atribuída como Mensageiro de Deus. Muhammad nasceu em 570 d.C., em Meca, a cidade mais importante da Arábia naquela época. Os árabes viviam na terra que hoje compreende toda a Península Arábica, além da Palestina, da Jordânia, do sul da Síria e do sul do Iraque. Tratava-se de uma sociedade tribal, que considerava a lealdade à tribo o vínculo supremo entre as pessoas. Os indivíduos se identificavam como membros de uma tribo, e a tribo protegia e defendia cada um de seus membros. Uma tribo podia facilmente entrar em guerra contra outras tribos por causa de uma disputa que envolvesse apenas um ou dois de seus membros. Em tais casos, o certo e o errado tinham importância secundária, pois a lealdade tribal era suprema. Essas tribos podiam ser grandes ou pequenas. Uma tribo grande podia dividir-se em vários clãs. Os diferentes clãs consideravam-se primos, mas ainda assim competiam por honra e prestígio. Os clãs tinham autonomia, e a lealdade era sempre dirigida ao vínculo mais próximo. Assim, um indivíduo devia lealdade primeiro à família, depois ao clã e, em seguida, à tribo. As tribos desfrutavam de prestígio com base em sua história, ancestralidade e força. Até mesmo as tribos importantes orgulhavam-se de pertencer a grupos ainda maiores. De fato, todos os árabes pertenciam a uma de duas grandes divisões: Adnan e Qahtan. Quando Muhammad nasceu, Meca era habitada pela tribo dos coraixitas, reconhecida por todos os árabes como a tribo dominante. Antes dos coraixitas, Meca pertencera à tribo de Khuza’ah, que, por sua vez, a havia tomado de Jurhum. Muhammad pertencia ao clã dos haxemitas, que detinha autoridade em Meca havia várias gerações. Na verdade, seu avô, Abd al-Muttalib, era o chefe de Meca, com uma autoridade reconhecida por todos os clãs coraixitas. O status dos coraixitas como tribo dominante foi reforçado pela presença da Caaba em Meca. A Caaba foi construída pelo Profeta Abraão e por seu filho Ismael, que também era Profeta. Desde que foi construída, continuou a ser visitada e venerada pelas pessoas. Foi nesse ambiente social que Muhammad nasceu. Naquela época, as crianças pertencentes a famílias distintas daquela sociedade geralmente eram cuidadas por amas de leite beduínas, que vinham a Meca procurando levar bebês para suas casas. As famílias de Meca acreditavam que seria do melhor interesse de seus filhos passar os primeiros dois anos no deserto, onde o ar puro e o ambiente garantiriam um começo saudável. As famílias beduínas recebiam ajuda financeira em troca de cuidar das crianças da cidade. Assim, poucos dias após seu nascimento, Muhammad foi entregue à mulher beduína Halimah, que deveria amamentá-lo e cuidar dele. Halimah era da tribo de Sa’d ibn Bakr, que se ramificava de Hawazin. Dois fatores devem ter exercido efeitos profundos sobre Muhammad durante seus primeiros anos. O primeiro foi a perda de seus parentes mais próximos. O casamento de seus pais durou apenas algumas semanas, depois das quais seu pai, Abdullah, viajou para a Síria com a tradicional caravana comercial que ia para lá todos os anos. No caminho de volta, adoeceu. As pessoas da caravana deixaram-no em Medina para que fosse cuidado por seus parentes maternos, mas ele não se recuperou e morreu pouco depois. A mãe de Muhammad, Aminah, morreu alguns anos mais tarde, quando ele tinha apenas seis anos. A morte de uma mãe é profundamente sentida por uma criança, mas talvez ainda mais no caso do jovem Muhammad, pois ele estava com ela numa viagem que os levou a Medina, onde visitaram o túmulo de seu pai. A distância entre Meca e Medina é superior a 450 quilômetros. Quando chegaram a al-Abwa’, uma aldeia um pouco mais próxima de Meca do que de Medina, Aminah adoeceu e morreu. A criança ficou aos cuidados de sua ama, Umm Ayman, que o levou de volta para casa. Seu avô, Abd al-Muttalib, passou então a cuidar dele, mas também morreu quando Muhammad tinha apenas oito anos. Uma sequência como essa, de perdas de parentes próximos e amados, certamente teria um efeito profundo sobre uma pessoa jovem. Muhammad se lembrou de sua mãe até os últimos dias de sua vida. Mais de cinquenta anos depois, visitou seu túmulo em al-Abwa’ e, enquanto permanecia junto ao túmulo, chorou de tristeza. Disse a seus Companheiros que havia pedido a Deus permissão para visitar o túmulo dela, e que seu pedido fora concedido.1 1 Muslim, Sahih (Livro dos funerais). Em resposta à pergunta de alguns de seus Companheiros, o Profeta declarou que se lembrava vividamente da morte de seu avô. Da mesma forma, sua ama, Umm Ayman, afirmou que ele chorara muito naquela ocasião.2 Com isso, podemos perceber que a dor do jovem Muhammad por suas perdas era realmente intensa. A morte desses parentes próximos deve ter levado Muhammad a reconhecer que a vida traz consigo o que quer que traga, sem garantias para ninguém: ninguém tem direito legítimo a outra coisa senão aquilo que lhe é dado. Mais tarde, ele associaria isso à vontade de Deus, para enfatizar que ninguém poderia esperar nada além daquilo que Deus concede. O segundo fator que deve ter influenciado Muhammad em seus primeiros anos de formação foi o amor que recebeu daqueles que o cercavam. Ele era profundamente amado por Halimah, sua ama de leite, e pela família dela, sobretudo porque logo perceberam que ele era uma criança abençoada. Ela tampouco sentia que amamentá-lo junto com seu próprio filho lhe impusesse grande esforço. Ao completar dois anos de amamentação, Halimah levou-o devidamente de volta à sua mãe, Aminah. Entretanto, Halimah pediu que a criança permanecesse com ela, pois a região desértica onde vivia era um ambiente muito mais saudável do que Meca. Aminah concordou, e Muhammad ficou com Halimah até os quatro anos. De volta a Meca, a criança de quatro anos era cuidada por sua mãe, sob o olhar atento de seu avô, Abd al-Muttalib. Ambos sentiam que havia algo especial naquela criança. O avô dispensava-lhe um tratamento especial, fazendo concessões que normalmente não seriam feitas a nenhuma criança na rígida comunidade tribal de Meca. Talvez as circunstâncias de seu nascimento — embora, mais provavelmente, a natureza da criança — tenham dado ao velho sábio a sensação de que o menino teria um futuro brilhante. Na Arábia, onde sempre havia uma feroz competição por honra, Abd al-Muttalib, o chefe de Meca, que tinha cerca de cem anos, talvez esperasse que o menino crescesse e elevasse ainda mais a honra de seu clã haxemita. Contudo, como observado acima, quatro anos depois de retornar a Meca, Muhammad perdeu tanto a mãe quanto o avô. Assim, aos oito anos, Muhammad teve de mudar de casa novamente e viver com seu tio, Abu Talib, que em breve assumiria uma posição de grande distinção e honra em Meca, como chefe do clã haxemita. Abu Talib, porém, tinha recursos limitados e uma família numerosa, mas era um chefe árabe exemplar. A posição de sua família, de seu clã e de sua tribo ocupava o primeiro lugar em sua mente. Para ele, Muhammad não era apenas um sobrinho órfão: em breve seria um jovem dotado de excelentes qualidades. Abu Talib via em Muhammad uma criança brilhante e cheia de promessas. Sua natureza dócil e amorosa augurava um bom futuro, e Abu Talib pensava que Muhammad poderia dar continuidade à tradição de seus nobres antepassados, que haviam elevado a posição de seu clã na Arábia. Abu Talib amava Muhammad como amava seus próprios filhos, talvez com algum favoritismo também, considerando a situação particular da criança e a bênção que parecia emanar dele. Na casa de seu tio, Muhammad era cuidado por duas mulheres: Fatimah bint Asad, esposa de Abu Talib, e Umm Ayman, sua ama. Ambas o cercavam de amor materno. Quando Fatimah morreu cerca de cinquenta anos mais tarde, o Profeta, que era o governante da Arábia, cuidou pessoalmente dos preparativos de seu enterro. Expressando sua tristeza por sua perda, disse: “Que Deus derrame Sua misericórdia sobre você, mãe. Você foi para mim uma mãe depois que perdi minha mãe: você passou fome para que eu tivesse o suficiente para comer; deu-me roupas de que você necessitava mais do que eu; privou-se das coisas boas da vida para que eu pudesse desfrutá-las; e buscou apenas a recompensa de Deus por tudo isso.”3 Umm Ayman era uma escrava da Abissínia que pertencia a seu pai, Abdullah. Segundo os costumes da época, ela passou a pertencer a Muhammad após a morte de seu pai. Contudo, na tradição islâmica, ela nunca é mencionada como escrava; pelo contrário, é sempre descrita como sua ama. Era uma mulher bondosa que testemunhou sua infância desde o momento de seu nascimento. Foi sua única companheira quando sua mãe morreu na viagem de volta de Medina, quando ele tinha apenas seis anos. Ela o levou de volta ao avô, que lhe ordenou que cuidasse de Muhammad e nunca o deixasse sair de sua vista. Ela não precisava de nenhum incentivo para fazer isso, pois a criança lhe era muito querida. Quando ele cresceu, Muhammad reconheceu seu papel e retribuiu sua bondade. Ao casar-se com Khadijah, aos vinte e cinco anos, Muhammad concedeu-lhe a liberdade. Mais tarde, deu-a em casamento a Zayd ibn Harithah, que era o homem mais querido por ele. Ela deu a Zayd um filho, chamado Usamah, a quem o Profeta amava como se fosse seu próprio filho. Quando Muhammad se tornou o Mensageiro de Deus, Umm Ayman e sua família estavam entre os primeiros convertidos ao Islã. Ela continuou a receber sua bondade até os últimos dias dele. Ele costumava dizer sobre ela: “Umm Ayman é a última de minha família, e foi para mim uma mãe depois que minha mãe faleceu.”4 Em sua criação, portanto, Muhammad sofreu a perda de seus parentes mais próximos, aqueles que mais cuidavam dele: seus pais e seu avô. Ainda assim, nunca esteve longe de um lar onde recebesse amor, bondade e cuidados maternos. Havia muitas mulheres que amavam Muhammad e cuidavam dele, pois ele tinha seis tias paternas, todas bondosas e afetuosas. Quando observamos a infância e a criação de Muhammad, não deixamos de notar que a mão orientadora de Deus sempre esteve presente para garantir que não lhe faltasse o necessário para um bom começo na vida. Perdeu seus entes queridos, mas não lhe faltou amor terno. A questão é: de que modo sua situação particular afetou seu caráter? Por um lado, ter de lidar com a morte em idade tão precoce certamente o teria levado a questionar o sentido da vida. Por outro, viver na casa de um tio cheia de primos provavelmente lhe teria dado a sensação de ser um acréscimo à família, mas não de pertencer a ela. Ele teria uma visão mais distanciada de tudo o que afetasse a família. À medida que crescesse, isso o tornaria mais independente em seu modo de pensar e ampliaria sua perspectiva, pois distinguiria Abu Talib de seus outros tios. Além disso, deu-lhe uma consciência mais clara de seu lugar na família e na tribo. Assim, vemos Muhammad apegando-se ao tio Abu Talib quando este empreendeu uma viagem de negócios à Síria. Pediu para viajar com o tio, embora fosse incomum que um menino daquela idade participasse de tal viagem. A princípio, Abu Talib não quis ouvir falar disso, mas não foi necessária muita persuasão, e o menino de doze anos empreendeu sua primeira longa viagem. Halimah, sua ama de leite, relatou que sentiu uma bênção entrar em sua família desde o momento em que recebeu Muhammad de sua mãe. Essa bênção manifestou-se no sustento da família. Os beduínos viviam dos produtos de suas ovelhas, camelos e vacas. Mesmo nos tempos difíceis, quando era árdua a tarefa de encontrar pasto, o gado dela parecia produzir leite em abundância para a família. Ela associava isso à presença daquele belo bebê. Por essa razão, quis mantê-lo consigo além do período normal. Abu Talib sentia o mesmo. Percebeu que, quando Muhammad participava da refeição da família, todos comiam até se saciar e normalmente ainda sobrava um pouco. Quando Muhammad estava ausente, a comida mal era suficiente. Por isso, se Muhammad se atrasava, a refeição era adiada até que ele chegasse. Tratava-se apenas de uma observação sutil, pois não havia nada tangível nisso, e Muhammad não recebeu um status especial por causa disso. A vida na casa de seu tio simplesmente continuava como de costume. Existem muitas histórias que indicam que as pessoas ao redor de Muhammad perceberam que ele estava destinado a desempenhar um papel importante. Um relato afirma, por exemplo, que em sua viagem à Síria ele foi reconhecido por um monge cristão, que o interrogou minuciosamente. O monge aconselhou o tio de Muhammad a cuidar especialmente dele e advertiu que Muhammad não deveria ser reconhecido pelos judeus. Contudo, não temos meios de confirmar a autenticidade de tais relatos. Os acontecimentos certamente não foram mencionados pelo Profeta, quando ele finalmente assumiu seu papel de Mensageiro de Deus. Portanto, essas histórias devem ser consideradas pelo que valem e não devem participar da formação de nossa compreensão do caráter de Muhammad. Por outro lado, as mulheres que cuidaram de Muhammad durante sua infância certamente influenciaram sua visão de mundo. Aminah, Halimah, Umm Ayman e Fatimah bint Asad deram-lhe um amor incondicional. Isso lhe permitiu compreender o papel das mulheres na vida. Sua sociedade maltratava as mulheres e lhes atribuía um status inferior ao dos homens. Na hierarquia daquela sociedade, uma escrava ocupava um status realmente muito baixo. Uma ama de leite não ocupava posição muito mais elevada, exceto pelo fato de ser uma mulher livre. Na verdade, todas as mulheres eram consideradas inferiores. Em seus primeiros anos, Muhammad foi cuidado por duas mulheres de baixo status: Halimah e Umm Ayman. Ele percebeu que lhes devia muito amor. Assim, mais tarde, como Mensageiro de Deus, não lhe foi difícil enfatizar a igualdade de status das mulheres. Até o último dia de sua vida, defendeu os direitos das mulheres sob todas as formas. Repetia com frequência suas advertências contra a negação dos direitos dos órfãos e das mulheres, pois estes representavam dois dos elementos mais vulneráveis da sociedade humana. Muhammad viveu com seu tio até se tornar adulto. Apesar de sua posição honrosa em Meca, Abu Talib tinha recursos limitados. Os tempos eram difíceis e, aparentemente, ele não tinha muito sucesso nos negócios. Além disso, possuía uma família numerosa. Por isso, quando Muhammad voltou a Meca com seu tio depois da viagem de negócios à Síria, sentiu que precisava fazer algo para aliviar o peso sobre os ombros dele. Queria trabalhar, mas havia pouco a fazer em Meca naquela época. Meca não tinha agricultura, pois a cidade era cercada por montanhas e chovia muito pouco em qualquer época. Tampouco era considerado respeitável que um árabe livre — muito menos alguém pertencente a uma família distinta — realizasse trabalhos manuais, pois estes eram destinados a escravos e servos. Meca prosperava por causa de dois fatores: o comércio e o status da Caaba em seu centro. A Caaba atraía visitantes durante todo o ano, mas, na época da peregrinação anual, as pessoas vinham aos milhares. O que poderia fazer, então, um adolescente? O único trabalho que um jovem poderia ter em Meca naquela época, sem manchar sua posição, era ser pastor. Assim, Muhammad trabalhou como pastor, recebendo um pequeno salário que ajudava nas finanças da família de seu tio. A ocupação de pastor permite muito tempo para contemplação e reflexão. Enquanto levava suas ovelhas para pastar, o único dever de Muhammad era vigiá-las, garantindo que nenhuma se perdesse ou fosse roubada por algum beduíno que passasse. Esse trabalho combinava muito bem com o temperamento dócil de Muhammad e com sua posição numa casa de família, na qual permanecia de certo modo à parte. Ele não falou sobre aqueles anos nem nos contou para que direções seus pensamentos o levaram. Entretanto, contou-nos algo muito significativo: que todos os Profetas anteriores passaram algum tempo de sua juventude como pastores. Será que o trabalho é especialmente adequado como preparação para o papel de Profeta? Os condutores de camelos falam de seu rebanho como uma comunidade na qual cada camelo possui seu próprio caráter distintivo. Isso também se aplica às ovelhas? Um pastor dotado de perspicácia e inteligência seria capaz de observar seu rebanho como indivíduos e identificá-los por suas características especiais. A contemplação e a reflexão permitiriam a esse pastor levar essa percepção à comunidade mais ampla e refletir sobre o que distingue e influencia os caracteres humanos. Talvez seja essa oportunidade de refletir sobre o homem, a vida, os objetivos e o destino que torna o trabalho de pastor particularmente adequado como preparação para o futuro papel de um Profeta. O papel de um Profeta é muito especial. Nenhuma experiência humana pode preparar uma pessoa para assumi-lo. Nenhum instrutor ou instituição pode oferecer treinamento para isso. Como Deus escolhe os indivíduos que realizam essa tarefa, Ele lhes proporciona a preparação necessária. Sem essa ajuda, preparação e orientação, ninguém pode satisfazer as exigências da tarefa nem cumpri-la com êxito. A preparação de Muhammad para sua tarefa futura começou em seus primeiros dias. Certa vez, ele explicou seu domínio excepcional da língua árabe, afirmando que dois elementos muito favoráveis contribuíram para isso: pertencer aos coraixitas e passar seus primeiros anos entre a tribo de Sa’d ibn Bakr. Assim, podemos ver sua longa permanência com essa tribo como parte dessa preparação, pois ela abrangia o período de aquisição da linguagem por uma criança. O mesmo se aplica à sua ocupação, especialmente ao trabalho de pastor. Não sabemos por quantos anos Muhammad trabalhou como pastor, mas isso certamente o levou até a adolescência e provavelmente além dela. Como jovem que crescia numa sociedade caracterizada por uma moral sexual permissiva, Muhammad ouvia muitas histórias sobre as aventuras sexuais de seus companheiros, e era natural que pensasse em experimentar aquilo por si mesmo. Ele nos conta que, em duas ocasiões, pediu a um pastor companheiro que cuidasse de suas ovelhas enquanto tentava obter algum prazer. Em ambas as ocasiões, ficou junto a uma casa onde acontecia uma festa de casamento, apenas para ser vencido por um sono profundo. Nas duas vezes, foi despertado pelo sol da manhã. Mais tarde, observou que isso fora um ato de proteção divina do futuro Profeta contra a queda em um comportamento imoral. Vários incidentes ocorreram durante esse período. Ele relatou que, quando ainda era menino, certa vez brincava com outros meninos, que recolhiam pedras para uma brincadeira. Eles estavam nus. No momento em que se despiu para juntar-se a eles, sentiu um golpe doloroso e uma voz lhe disse que vestisse sua túnica. O mesmo ocorreu muito mais tarde, quando os coraixitas reformaram o edifício da Caaba. Todos participaram do trabalho, e ele carregava pedras sobre o ombro. Seu tio, al-Abbas, sugeriu que usasse sua veste inferior como almofada para proteger o ombro. Novamente, uma voz severa o advertiu contra isso. Um exemplo mais importante de proteção contra um comportamento indigno relaciona-se à adoração religiosa. Os árabes adoravam ídolos que representavam divindades, os quais, afirmavam eles, eram parceiros de Deus. Muhammad sentia uma aversão instintiva por todos esses ídolos, reconhecendo que eram objetos inanimados, incapazes de trazer bem ou mal. Contudo, normalmente as pessoas seguem as práticas de suas comunidades, sobretudo em ocasiões festivas. Muhammad foi protegido disso. Sua ama, Umm Ayman, relata: Os coraixitas costumavam prestar homenagem a um ídolo chamado Buwabah. Em determinado dia de cada ano, organizavam um festival especial em sua honra. Permaneciam o dia inteiro perto do ídolo e raspavam a cabeça. Abu Talib, tio do Profeta, não deixava de comparecer ao festival. Todos os anos, pedia que seu sobrinho órfão participasse, mas Muhammad recusava. Abu Talib ficava irritado com ele, e até suas tias falavam com Muhammad sobre sua aparente falta de respeito pelos ídolos. Tentavam persuadi-lo a não continuar sendo o único diferente em sua família. Em seus argumentos, mencionavam o dever de um jovem de demonstrar lealdade à família. Diziam: “Parece que você não deseja compartilhar nenhum festival com seu povo nem ser contado como um dos seus.” Por fim, Muhammad cedeu aos apelos de suas tias e foi ao festival. Voltou tomado de medo. Disse às tias que temia estar possuído por um espírito maligno. Elas lhe asseguraram que Deus jamais permitiria que algo assim lhe acontecesse, considerando suas numerosas boas qualidades. Ao relatar-lhes sua experiência, disse: “Todas as vezes que me aproximei de um ídolo, vi um homem alto e branco mandando-me recuar e não tocar no ídolo.” Umm Ayman enfatiza que aquele foi o primeiro e o último festival de ídolos a que Muhammad compareceu, até começar a receber suas revelações corânicas.5 Ainda assim, Muhammad participava de todos os aspectos bons da vida de sua comunidade. Quando tinha apenas quinze anos, ajudou seus tios enquanto lutavam naquilo que ficou conhecido como a Guerra de Fijar. Essa guerra, que durou quatro anos, começou nos meses sagrados, durante os quais a tradição árabe proibia qualquer combate. Daí seu nome, que sugere a violação da santidade. Os combatentes eram as duas principais tribos árabes, os coraixitas e os Qays Aylan. Pouco depois do fim dessa guerra, quando Muhammad tinha quase vinte anos, participou da formação da nobre aliança de al-Fudul, que comprometia os clãs coraixitas a permanecer unidos em apoio a qualquer pessoa submetida a uma injustiça em Meca, fosse ela habitante da cidade ou visitante. Por volta dessa época, Muhammad procurava um novo trabalho, e o comércio era o pilar da economia de Meca. Muhammad começou a trabalhar como agente de uma famosa comerciante chamada Khadijah. Ela era uma viúva rica que realizava negócios nos célebres mercados árabes. Segundo os relatos, Muhammad trabalhou para ela no mercado de Hubashah. Tinha um parceiro que trabalhava com ele. Aparentemente, recebia um salário modesto. Contudo, a melhor oportunidade que um jovem de sua idade poderia ter era juntar-se a uma caravana comercial como agente de um dos comerciantes de Meca. Khadijah precisava de um agente assim, e a experiência que tivera com Muhammad a incentivou a enviá-lo como seu agente na tradicional caravana comercial de verão para a Síria. O empreendimento foi muito bem-sucedido, pois Muhammad garantiu lucros consideráveis para Khadijah em ambas as etapas da viagem. Não está claro se ele participou de várias viagens comerciais desse tipo, mas seu desempenho foi altamente impressionante. Khadijah enviara com ele um servo chamado Maysarah, que lhe relatou a honestidade, a integridade e a habilidade comercial de Muhammad. Como viúva rica, Khadijah não tinha falta de pretendentes, inclusive alguns de posição social favorável, mas recusara todos. Agora percebeu que havia encontrado o solteiro adequado. Khadijah propôs discretamente casamento a Muhammad, e o casamento logo se realizou. Afirma-se que Muhammad tinha vinte e cinco anos na época, enquanto Khadijah tinha quarenta, mas isso é muito questionável. Ela lhe deu dois filhos e quatro filhas em dez anos, o que sugere que estava no auge de sua vida reprodutiva. Isso significa que não poderia ter muito mais de trinta anos. De fato, um relato de Ibn Abbas, primo do Profeta, informa que ela tinha vinte e oito anos. Foi um casamento muito feliz, e Muhammad continuou a administrar os negócios de Khadijah; nada faltava à família. Ele era um marido exemplar, e ela, uma esposa muito atenciosa e amorosa. Ela não se decepcionou com sua escolha: encontrara um homem de grande integridade, muito respeitado por seu povo por sua honestidade, coragem e temperamento amistoso. Talvez seja apropriado, neste momento, tentar descobrir que tipo de homem Muhammad era. Temos descrições detalhadas de sua aparência física. As mais autênticas são as transmitidas por al-Bukhari e Muslim. Al-Bara’ ibn Azib relata: “O Mensageiro de Deus era um homem de aparência e modos excelentes. Não era muito alto nem baixo.”6 Ele também relata: “O Profeta tinha estatura mediana e ombros largos. Seus cabelos não chegavam à parte inferior das orelhas. Certa vez o vi usando uma roupa vermelha, e nunca vi nada mais agradável.”7 Perguntaram a al-Bara’ se o rosto do Profeta era comprido. Ele respondeu: “Não. Era como a lua cheia.” Outros relatos mencionam que seus olhos eram de um negro intenso, contrastando com uma brancura luminosa, e que suas sobrancelhas eram longas, arqueadas e relativamente finas, sem se encontrarem no centro. Sua cabeça era grande, com testa larga, faces retas, nariz curvo e boca ampla, com lábios bem proporcionados. Tinha pele clara, com um toque de vermelhidão nas faces. Seus cabelos negros não eram nem muito encaracolados nem lisos e sem volume. Ao fim de sua vida, tinha apenas alguns fios brancos. Quando caminhava, seus passos eram firmes, como se descesse por uma passagem ligeiramente inclinada. Sempre se dirigia ao interlocutor voltando-lhe o rosto inteiro, girando todo o corpo quando precisava virar-se. Tinha sempre um sorriso encantador, que inspirava confiança. No conjunto, era muito bonito e seu cheiro corporal era muito agradável. Anas ibn Malik relata: “Nunca toquei seda ou brocado mais suave que a palma do Profeta; tampouco jamais senti perfume melhor que o cheiro do corpo do Profeta.”8 Seus modos e valores morais faziam-no querido pelas pessoas que entravam em contato com ele. As pessoas de seu clã, os haxemitas, sentiam que ele certamente realizaria a promessa de um futuro brilhante. Na comunidade mais ampla dos coraixitas, era altamente respeitado por sua integridade e seu senso de decoro. Recebeu o apelido de Al-Amin, que significa “o confiável”. Essa característica era reconhecida por seus adversários, e até aqueles que desejavam sua morte admitiam que ele nunca deixava de cumprir sua palavra. Do mesmo modo, sua bondade nunca foi posta em dúvida. Os que lhe eram próximos sentiam que ele se preocupava com todas as pessoas, especialmente com aquelas que se encontravam em situação vulnerável. O que fez por Zayd ibn Harithah oferece um bom retrato de sua bondade. Zayd era um rapaz que fora levado de sua tribo por invasores, que depois o venderam como escravo. Aparentemente, foi vendido mais de uma vez antes de ser levado a Meca e tornar-se escravo de Khadijah, quando o tio dela lho deu de presente. Por sua vez, ela o presenteou a Muhammad quando se casaram. Naquela época, Zayd era adolescente. Ao saber que Zayd estava em Meca, seu pai foi até lá para conseguir sua libertação. Em vez de vender Zayd ao pai, Muhammad ofereceu-lhe a escolha de permanecer com ele ou ser libertado e partir com o pai. Para espanto do pai, Zayd escolheu sem hesitar permanecer com Muhammad. Disse ao pai que não se separaria de Muhammad por motivo algum. Para tranquilizar o pai, Muhammad então libertou Zayd e adotou-o como filho. À medida que crescia, a sabedoria de Muhammad tornava-se amplamente reconhecida. Os coraixitas precisavam reformar a Caaba, que consideravam um lugar sagrado. Esse edifício cúbico, quase inteiramente negro, possuía uma pedra de significado especial — uma pedra negra meteórica — colocada à altura do ombro em um dos cantos da construção. Ela servia como marca do início e do fim do ritual do tawaf. Quando a reconstrução terminou, era preciso recolocar essa pedra negra em seu lugar. Cada clã queria ter a honra de recolocá-la. A discussão tornou-se acalorada e os ânimos se exaltaram. Alguns chegaram a convocar uma luta por causa disso. Contudo, um ancião respeitado sugeriu uma arbitragem, e os clãs concordaram em fazer do primeiro homem que entrasse no local o árbitro. Foi Muhammad quem entrou, e todos ficaram satisfeitos em deixá-lo arbitrar. Ele percebeu que a reconciliação só poderia ser alcançada mediante a partilha da honra. Por isso, pediu que um pano fosse estendido no chão. A pedra negra foi colocada no meio, e um representante de cada clã foi escolhido. Eles seguraram o pano e o levantaram juntos. Quando a pedra negra ficou alinhada com seu local, Muhammad colocou-a de volta. Todos ficaram satisfeitos, pois nenhum clã poderia vangloriar-se de ter recebido maior honra na reconstrução da Caaba. Quando Muhammad se aproximava dos trinta e cinco anos, não havia indicação de que teria outra coisa além da continuidade de sua feliz vida conjugal, enquanto desfrutava de uma boa posição na sociedade. Não há relatos de viagens nesse período. Os negócios de Khadijah eram administrados de casa. Agentes eram contratados para acompanhar as caravanas comerciais à Síria e ao Iêmen. Seus dois filhos morreram na infância, mas suas filhas estavam crescendo e esperava-se que se mudassem para as casas de seus futuros maridos. Foi por volta dessa época que ele começou a buscar algum isolamento onde pudesse refletir sem ser perturbado. Ia a uma caverna numa montanha próxima, onde passava vários dias em adoração. Não foi registrada nenhuma forma especial de adoração, mas esta deve ter consistido principalmente em uma oração verbal dirigida a Deus, o Criador. Novamente, podemos ver isso agora como parte da preparação que a mão de Deus lhe proporcionou. Por meio de longas reflexões em solidão, no alto da montanha, onde o universo parece tão vasto — sobretudo sob o céu límpido da noite, com incontáveis estrelas brilhando —, o pensamento de Deus, o Criador Onipotente, torna clara sua presença. Outro aspecto da preparação, que veio ainda mais tarde, muito próximo do momento em que recebeu pela primeira vez as revelações divinas, foram os sonhos verdadeiros. Sempre que via um sonho relacionado ao seu ambiente social e físico, ele logo se concretizava exatamente como havia acontecido no sonho. Isso servia para tranquilizá-lo previamente, mostrando-lhe que não estava sendo vítima de alguma fraude. Ao aproximar-se dos quarenta anos, Muhammad era um homem de família bem estabelecido. Era uma figura altamente respeitada em sua tribo e na comunidade de Meca em geral. Sua bondade estava sempre disponível, e sua disposição para ajudar qualquer pessoa necessitada era garantida. Então chegou o grande momento. Ele dormia na Caverna de Hira, na montanha, quando o anjo veio até ele segurando um livro aberto e pedindo que lesse. Muhammad era iletrado e respondeu que não sabia ler. O anjo pressionou o livro contra seu peito até que ele quase perdeu o fôlego; depois soltou-o e disse-lhe novamente que lesse. Mais uma vez, ele respondeu que não podia. Esse padrão repetiu-se duas vezes. Depois da terceira vez, o anjo lhe disse: “Lê em nome de teu Senhor, que criou o homem de um coágulo. Lê, pois teu Senhor é o Mais Generoso, que ensinou pelo cálamo, ensinou ao homem o que ele não sabia.” (96: 1-5) Ele acordou tremendo. Quando se acalmou, o anjo veio novamente até ele, agora plenamente desperto, repetindo exatamente o que havia sido dito e feito no sonho. Assim que tudo terminou, correu para casa, para junto de sua esposa. Como estava tremendo, pediu-lhe que o cobrisse, e ela o fez. Quando recuperou a compostura, contou-lhe o que tinha visto. Ela o tranquilizou, assegurando que nenhum mal poderia acontecer-lhe, pois “você é fiel à sua confiança, bondoso com seus parentes e sempre diz a verdade”. A partir daquele momento, Muhammad tornou-se o Profeta de Deus. Em breve saberia que fora encarregado de transmitir uma mensagem à humanidade.
CAPÍTULO 2
Resumo dos acontecimentos durante a vida do Profeta
Como homem maduro de quarenta anos, Muhammad era agora também um Profeta. Levou algum tempo até que se sentisse seguro quanto ao seu papel, e Khadijah desempenhou nisso uma função importante. Ela tinha certeza de que seu marido — claramente um homem de retidão moral e sabedoria — nada poderia ter a ver com o mundo do mal. Finalmente, com a tranquilização veio a fé. Muhammad passou a acreditar na unicidade de Deus e na falsidade absoluta dos ídolos adorados pelos árabes. Uma vez firmemente estabelecido isso, iniciou-se a etapa seguinte, e ele tornou-se o Mensageiro de Deus, com a tarefa de tornar conhecida às pessoas a fé verdadeira, conclamá-las a acreditar nela e a ajustar sua vida cotidiana de acordo com ela. Foi-lhe dito: Tu, que estás envolto em teu manto, levanta-te e adverte. Proclama a grandeza de teu Senhor; purifica tuas vestes; afasta-te de toda impureza; não dês esperando receber mais em troca; e, por teu Senhor, persevera com paciência. (74: 1-7)
Na primeira revelação, Deus ordenou-lhe que lesse. Considerando que Muhammad era iletrado, isso significava recitar de memória — uma ação que, inicialmente, tinha pouca relação com outras pessoas. Entretanto, depois lhe foi ordenado que se levantasse e advertisse. Já não se tratava de uma ação passiva, a ser realizada por e para si mesmo. Pelo contrário, exigia interação com os outros, pois ele deveria adverti-los de que precisavam acreditar na unicidade de Deus e obedecer aos Seus mandamentos.
Muhammad — que a paz esteja sobre ele —, que daí em diante seria conhecido pelos títulos de Profeta e Mensageiro de Deus, aceitou ambas as tarefas e empenhou-se em realizá-las da melhor maneira possível, rogando a Deus que o ajudasse e confiando em Seu apoio. Seguindo a orientação divina, começou a aproximar-se das pessoas, explicando-lhes seu papel e sua mensagem e convidando-as a aceitar o Islã, a nova fé cujo próprio nome significa total submissão a Deus.
Por ordem de Deus, o Profeta iniciou sua missão em segredo, falando com pessoas próximas a ele e em quem podia confiar. Logo se formou uma família de muçulmanos, que incluía Zayd ibn Harithah, então com cerca de trinta anos, Khadijah e Ali ibn Abi Talib, o jovem primo do Profeta, que ele acolhera em sua casa para aliviar o encargo de seu tio enquanto Makkah atravessava tempos difíceis. Abu Bakr, amigo íntimo do Profeta, também aceitou o Islã sem hesitação. Outros convertidos logo se seguiram, entre eles as filhas do Profeta, Fatimah bint Asad, esposa de Abu Talib, e Umm Ayman. Jovens como Talhah ibn Ubaydillah, al-Zubayr ibn al-Awwam, Sa‘d ibn Abi Waqqas e Sa‘id ibn Zayd apresentaram-se, assim como Ammar ibn Yasir e seus pais, Yasir e Sumayyah. Assim surgiu uma pequena comunidade muçulmana.
Embora a divulgação da nova fé continuasse em segredo, os anciãos dos Quraysh perceberam que algo estava acontecendo. Contudo, não se deram ao trabalho de investigar, pois supunham que aquilo não representava perigo para a ordem social estabelecida. Três anos depois, o Profeta recebeu a instrução de tornar pública sua mensagem e convidar as pessoas a aceitá-la. Como provaria ao longo de toda a sua carreira, nunca recuou diante do cumprimento de um dever.
Por isso, dirigiu-se ao seu próprio clã, o clã Hashim, e convidou seus membros para uma refeição. Apelou compassivamente para que aceitassem o Islã, pois isso os salvaria dos males sociais que afligiam seu modo de vida materialista e lhes daria uma vida futura pela qual esperar. Também se dirigiu a todos os clãs dos Quraysh, de pé na colina de al-Safa, perto da Ka‘bah, e deixou claro que Deus lhe confiara uma mensagem aplicável a toda a humanidade, em todas as gerações.
Nos dois casos, foi recebido com hostilidade, sobretudo por seu tio Abu Lahab. A princípio, o confronto não causou grandes problemas; mas logo os chefes de Makkah perceberam que a mensagem do Islã estava conquistando constantemente novos seguidores entre as pessoas pertencentes aos seus diversos clãs. A mensagem anunciava uma mudança fundamental na ordem social que, naquela época, concedia privilégios aos chefes e mantinha escravos, pobres e fracos à sua mercê, pois o Islã defendia uma distribuição equitativa da riqueza. Mais importante ainda, ela ameaçava a autoridade religiosa exercida pelos Quraysh sobre toda a Península Arábica.
Os anciãos dos Quraysh não podiam responsabilizar pessoalmente o Profeta, porque ele era protegido por seu clã, e não queriam que surgisse uma disputa dentro de sua própria comunidade. Tentaram negociar acordos que silenciassem a mensagem do Islã, mas Muhammad não aceitaria compromisso algum, e as negociações fracassaram mais de uma vez. Cada vez que isso acontecia, o fracasso era seguido por um período de perseguição aos elementos mais fracos que se haviam tornado muçulmanos.
A atmosfera em Makkah tornou-se muito mais tensa: aumentou a ameaça de um confronto sangrento, pois os radicais entre os incrédulos se tornaram muito mais veementes, defendendo a necessidade de pôr fim efetivo ao chamado ao Islã.
Em 615 d.C., dois anos depois de sua mensagem ter sido tornada pública, o Profeta aconselhou muitos de seus seguidores a emigrar para a Abissínia, um país “governado por um rei justo, onde podereis encontrar um refúgio seguro”. Um total de oitenta e três homens e dezenove mulheres emigrou para a Abissínia, onde recebeu asilo do Negus, seu rei. Eles representavam cerca de metade da comunidade muçulmana de Makkah naquele momento.
Essa emigração é frequentemente descrita por historiadores muçulmanos — e por outros historiadores — como uma fuga da perseguição. Contudo, uma análise cuidadosa dos nomes dos emigrantes e de sua posição dentro de seus clãs mostra que eles não eram o alvo da campanha de perseguição dos Quraysh. Pertenciam às famílias e aos clãs mais distintos de Makkah e desfrutavam da proteção plena de seus clãs. Assim, não poderiam sofrer dano físico. Pelo contrário, aqueles que suportaram o peso principal da campanha de perseguição permaneceram em Makkah.
A emigração foi, na verdade, uma medida estratégica, destinada a estabelecer uma nova base para o Islã, onde ele pudesse ser divulgado entre a população local sem receio de qualquer dano. Alguns desses emigrantes permaneceram na Abissínia, por ordem do Profeta, durante quinze anos. Poderiam ter se unido aos muçulmanos em Madinah depois que o Profeta e seus Companheiros se estabeleceram ali, em 622 d.C. Embora alguns o tenham feito, as figuras mais ilustres — entre elas o próprio primo do Profeta, Ja‘far ibn Abi Talib — permaneceram na Abissínia até que o Profeta finalmente os chamasse de volta, em 629.
Quando retornaram, trouxeram consigo uma grande delegação de muçulmanos abissínios, que visitou Madinah e jurou lealdade ao Profeta. Essa emigração para a Abissínia pode ter evitado um perigo imediato que talvez tivesse envolvido toda a comunidade muçulmana de Makkah.
Os chefes de Makkah continuaram hostis ao Islã. Não queriam ouvir sua mensagem e tratavam duramente os que a divulgavam. Contudo, já não sentiam que o Islã representasse uma ameaça à ordem estabelecida. O Profeta compreendeu que sua mensagem se dirigia a toda a humanidade, não apenas à sociedade de Makkah. Por isso, precisava levá-la a outros. Seu alvo imediato eram as demais tribos árabes.
Esse grupo não era difícil de alcançar, pois Makkah era o centro de uma peregrinação anual, para a qual contingentes de todas as tribos vinham realizar os ritos da peregrinação, venerar os principais ídolos e adorar junto à Ka‘bah. A peregrinação continuara sendo o centro da vida do povo de Makkah desde que os profetas Abraão e Ismael a haviam construído, muitos séculos antes. Entretanto, os Quraysh haviam distorcido a maior parte de seus ritos e introduzido práticas estranhas, como caminhar nus ao redor da Ka‘bah.
A presença de pessoas de várias tribos oferecia ao Profeta a oportunidade de dirigir-se a elas e explicar-lhes a mensagem do Islã. Além disso, pessoas vinham a Makkah em todas as épocas para visitar o lugar sagrado e adorá-lo. Algumas traziam mercadorias para vender. O Profeta procurava encontrar qualquer visitante de Makkah e explicar-lhe o Islã.
A ideia da unicidade de Deus era geralmente aceitável para os árabes, embora o conceito de Deus tivesse sido distorcido e deformado durante muito tempo. Os ídolos que adoravam além de Deus não tinham uma posição clara no pensamento dos árabes: eles os consideravam parceiros de Deus ou auxiliares d’Ele, e supunham que os ídolos aproximariam as pessoas de Deus. Na verdade, o próprio conceito de Deus era nebuloso em suas mentes. Ele era distante e vago. Por isso, o claro conceito islâmico da unicidade de Deus e a rejeição de todos os parceiros atraíam muitos.
Contudo, havia obstáculos que faziam a maioria das pessoas hesitar ou se abster de aceitar o Islã. Durante a temporada da peregrinação, o Profeta ia aos acampamentos das diferentes tribos e lhes explicava sua mensagem. De modo geral, a resposta era hostil. Os Quraysh lançaram uma contraofensiva, enviando alguns de seus oradores mais eloquentes para falar com as diferentes tribos e adverti-las contra ouvir Muhammad. Deixaram claro que considerariam qualquer resposta positiva ao Islã uma ação hostil e ameaçaram retaliar militarmente qualquer tribo que desse a Muhammad uma resposta favorável.
Os oradores dos Quraysh também insistiam numa ideia que tinha forte apelo na sociedade tribal: como Muhammad era filho dos Quraysh e eles o conheciam bem, teriam aceitado sua ideia sem hesitação se ela fosse realmente boa. No sistema tribal da Arábia, a tribo sempre beneficiava qualquer de seus filhos ou filhas que tivesse algo bom a oferecer. Se permanecesse solidamente contra alguém, as possibilidades de êxito dessa pessoa ficavam severamente reduzidas. Por isso, a maioria dessas tribos estava mais disposta a ouvir os oradores dos Quraysh e seguir seus conselhos do que a ouvir o Profeta.
Além disso, os Quraysh iniciaram uma campanha eficaz de difamação contra o próprio Profeta, descrevendo-o como mentiroso, poeta, louco e feiticeiro. Quando perceberam que o uso de tantas descrições se tornara contraproducente, realizaram uma conferência para decidir o que dizer às delegações de peregrinos. A conferência examinou todas essas opções, reconhecendo que nenhuma tinha muita credibilidade. Por fim, concordaram em dizer que ele era um “feiticeiro que havia inventado recitações vagas, gerando discórdia entre marido e mulher e entre irmãos da mesma família”.
A maioria das tribos ouviu esses argumentos dos Quraysh e não quis ter nada a ver com o Profeta. Sentiam que tinham mais interesses em comum com os Quraysh do que com um indivíduo cujas alegações de receber revelações do alto não podiam ser comprovadas. Embora algumas tribos estivessem dispostas a ouvi-lo e ficassem impressionadas com a extraordinária beleza do Alcorão, quando ele recitava suas passagens, e com os valores que pregava, não estavam dispostas a comprometer-se, pois sentiam que poderiam estar assumindo algo maior do que eram capazes de enfrentar.
Apesar disso, o Profeta continuou a usar a temporada da peregrinação como plataforma para dirigir-se ao povo árabe. Tinha certeza de que sua mensagem era verdadeira, vinha de Deus e acabaria triunfando. Sentia-se encorajado pelo fato de que novos convertidos continuavam a chegar, ainda que pouco a pouco. Por mais abusos verbais que os Quraysh lançassem contra ele e sua mensagem, continuava a pregá-la sem se deixar deter.
Entretanto, era extremamente doloroso para ele ver os elementos mais fracos entre seus seguidores submetidos à tortura e à pressão física, numa tentativa de afastá-los do Islã. De fato, alguns pertencentes a famílias importantes foram presos e torturados por suas próprias famílias.
A situação geral continuou a deteriorar-se. Os radicais entre os Quraysh conseguiram tomar a iniciativa e impor sanções severas à comunidade muçulmana, e queriam ampliá-las. Conseguiram levar todos os Quraysh a impor um boicote econômico e social total ao clã Hashimita. Redigiram termos que determinavam que ninguém entre os Quraysh teria relações comerciais com qualquer hashimita, nem sequer lhe venderia comida, e que nenhum casamento com eles seria permitido até que entregassem Muhammad aos Quraysh para ser morto.
Os hashimitas não aceitaram tamanha humilhação, e tanto os muçulmanos quanto os incrédulos entre eles suportaram o boicote com firmeza. Nem todos os Quraysh estavam satisfeitos com o boicote, mas tiveram de levá-lo adiante para não violar as tradições de sua sociedade tribal. Assim, o boicote durou três anos, até que cinco homens de diferentes clãs dos Quraysh tramaram com êxito sua revogação.
O nono ano da missão do Profeta aproximava-se do fim quando o boicote terminou. Contudo, não havia sinal de que os Quraysh moderariam sua oposição ao Islã. Abu Talib continuou a proteger o Profeta, embora tivesse decidido não se tornar muçulmano. Entretanto, Abu Talib havia chegado à velhice e, alguns meses depois, adoeceu. Vários chefes de clãs foram visitá-lo, pedindo-lhe que negociasse algum entendimento entre eles e o Profeta.
O Profeta insistiu que não podia alterar a mensagem de Deus: eles tinham de acreditar na unicidade de Deus e em que Muhammad era o Mensageiro de Deus. Essa foi a última tentativa de qualquer tipo de entendimento. Pouco depois, Abu Talib morreu e, algumas semanas mais tarde, Khadijah também morreu. Assim, o Profeta ficou privado do cuidado e do apoio que recebia de seu tio em sua vida pública e de sua esposa em casa. Sua situação tornava-se ainda mais difícil.
O Profeta pensou em levar sua mensagem a novas regiões. Viajou para Taif, uma cidade montanhosa situada a aproximadamente quarenta e cinco milhas de distância, onde vivia a principal tribo de Thaqif. Falou com seus chefes e com o povo, mas teve uma recepção muito hostil. Os chefes de Thaqif mandaram seus escravos expulsá-lo da cidade e atiraram pedras e outros objetos contra ele, de modo que seus pés sangravam quando finalmente se refugiou num jardim pertencente a dois irmãos, Utbah e Shaybah, chefes do clã Abd Shams dos Quraysh.
Esses irmãos eram incrédulos, mas mostraram simpatia por seu membro da tribo, enviando-lhe um prato de uvas por meio de um escravo. Quando terminou a perseguição, o Profeta afastou-se de Taif e voltou para Makkah, mas sentia que não podia entrar na cidade sem proteção. Enviou recado a alguns de seus chefes, e al-Mut‘im ibn ‘Adiyy, um tio distante, garantiu-lhe entrada protegida.
Antes de chegar a Makkah, o Profeta sentou-se para refletir sobre sua situação. Implorou apaixonadamente o apoio de Deus: “A Ti, meu Senhor, queixo-me de minha fraqueza, da falta de apoio e da humilhação que me fazem suportar. Ó Misericordiosíssimo e Compassivo! Tu és o Senhor dos fracos e és meu Senhor. A quem me deixarás? A uma pessoa distante que me receberá com hostilidade? Ou a um inimigo a quem deste poder sobre mim? Se não estás descontente comigo, não me importo com o que enfrento. Contudo, eu ficaria muito mais feliz com Tua misericórdia. Busco refúgio na luz de Teu rosto, pela qual toda escuridão é dissipada e esta vida e a vida futura são colocadas em seus devidos caminhos, para que eu não incorra em Tua ira nem seja objeto de Tua cólera. A Ti me submeto, até conquistar Teu agrado. Tudo é impotente sem Teu apoio.”
Nesse momento, o anjo Gabriel veio dizer-lhe que Deus atendera sua súplica: “Aqui comigo está o anjo encarregado das montanhas, para receber tuas instruções.” O anjo das montanhas cumprimentou-o e disse: “Estou às tuas ordens. Se quiseres, posso fechar as duas montanhas sobre o vale deles.” O Profeta respondeu: “Não. Espero que entre seus descendentes haja pessoas que adorem somente a Deus, sem associar parceiros a Ele.”
Anos depois, o Profeta comentou que esse episódio da viagem a Taif fora o mais difícil que já enfrentara. De volta a Makkah, os Quraysh sentiram que Muhammad estava agora vulnerável aos seus abusos. Somaram agressões físicas aos insultos verbais, jogando terra sobre ele enquanto estava ocupado em sua adoração na Grande Mesquita. Desafiaram-no com exigências absurdas. Não pouparam esforços para feri-lo.
O ano de 620 testemunharia o início de uma transformação na sorte do Islã e de seu Profeta. Primeiro, ele foi levado numa viagem noturna, quando o anjo Gabriel veio até ele trazendo uma montaria celestial que viajava em alta velocidade. Gabriel levou o Profeta a Jerusalém, onde ele encontrou todos os profetas anteriores, entre eles Noé, Abraão, Moisés e Jesus. O Profeta conduziu uma oração congregacional, da qual todos participaram. Isso simbolizava a unidade das mensagens de Deus, levadas à sua plenitude pela mensagem do Alcorão.
De Jerusalém, o anjo levou-o aos céus, onde lhe foram mostradas algumas das coisas que sofrerão os destinados ao Inferno e as grandes recompensas daqueles que serão admitidos no Paraíso. O dever da oração foi estabelecido em cinco orações diárias para todos os muçulmanos, durante todo o ano. O Profeta foi então levado de volta a Makkah. Tudo isso ocorreu em poucas horas, e ele retornou no horário da oração da alvorada.
Alguns estudiosos muçulmanos sustentam que se tratou de uma viagem espiritual, enquanto outros dizem que foi um sonho muito vívido. Não há necessidade de afirmar que essa viagem não ocorreu de fato, pois Deus certamente é capaz de realizar tudo o que deseja. Se decide levar o Profeta, ou qualquer outra pessoa, numa viagem milagrosa, Ele o faz. Para Deus, isso é tão fácil quanto enviar chuva ou vento, tornar a terra adequada à vida humana ou conceder a uma criança as faculdades da audição e da fala. As pessoas podem dizer que essas coisas são leis naturais, mas foi Deus quem as criou e as pôs em funcionamento. O milagroso só parece extraordinário porque não nos é familiar. Na verdade, cada aspecto da vida é um milagre e tudo no universo é milagroso: todas essas coisas são fáceis para Deus.
A disposição do Profeta de relatar sua viagem noturna, diante de um público hostil, era sinal de sua confiança fortalecida e bem fundamentada na verdade de sua mensagem. Ele continuou a pregar com renovado entusiasmo. Quando se aproximou a temporada seguinte da peregrinação, o Profeta estava mais determinado do que nunca a levar sua mensagem às pessoas fora de Makkah, apesar das dificuldades crescentes que enfrentava.
A temporada da peregrinação de 620 trouxe-lhe um sopro de esperança e renovação, quando encontrou seis peregrinos de Yathrib, que mais tarde seria chamada Madinah. A comunidade árabe de Yathrib era em grande parte agrícola e vivia lado a lado com uma grande comunidade judaica. Os judeus costumavam vangloriar-se de sua religião monoteísta, dizendo aos árabes que esperavam o surgimento de um novo profeta que receberia permissão para lutar e usar armas contra seus adversários. Quando surgiam problemas entre árabes e judeus, estes ameaçavam os árabes, dizendo que seguiriam o novo profeta e fariam os árabes sofrer uma derrota esmagadora.
Aqueles seis árabes de Yathrib sentaram-se com o Profeta, ouviram sua exposição da mensagem e sua recitação do Alcorão. Ficaram profundamente impressionados e declararam sua aceitação do Islã. Os árabes de Yathrib pertenciam a duas tribos principais, Aws e Khazraj, que frequentemente guerreavam entre si. Os seis disseram ao Profeta: “Deixamos nosso povo num estado terrível de divisão e inimizade. Se Deus promover sua união por teu intermédio, ninguém será mais honrado do que tu.” Prometeram explicar a nova fé a seus companheiros de tribo e encontrar-se novamente com o Profeta na temporada seguinte da peregrinação.
Cumpriram a promessa, trazendo consigo mais seis pessoas. Nesse segundo encontro, os doze comprometeram-se como crentes firmes no Islã. Os termos do juramento foram: “Acreditamos em Deus e não associamos parceiro algum a Ele. Não roubaremos, não cometeremos adultério, não mataremos nossos filhos, não afirmaremos falsidade quanto à filiação de nossos filhos e não desobedeceremos ao Profeta em nada que seja razoável.”
Nesse encontro, discutiram-se as necessidades da nova comunidade muçulmana de Yathrib. O Profeta enviou com eles um de seus Companheiros mais instruídos, Mus‘ab ibn Umayr, para ensinar aos novos muçulmanos os princípios do Islã e do Alcorão. Mus‘ab também deveria organizar os esforços de divulgação do Islã entre o povo de Yathrib. Sua missão foi muito bem-sucedida, e o Islã espalhou-se rapidamente em Yathrib, com clãs inteiros convertendo-se à nova fé.
Ao retornar a Makkah dez meses depois, Mus‘ab informou ao Profeta que a cidade oferecia uma boa base para o Islã. A temporada de peregrinação do ano seguinte, 622 d.C., a décima terceira desde o início do Islã, testemunhou um passo sem precedentes na Arábia. O Profeta encontrou setenta e três homens e duas mulheres de Yathrib, todos muçulmanos. Faziam parte da caravana de peregrinos da cidade. Sob a proteção da noite, saíram furtivamente de seu acampamento em Mina para encontrar-se com o Profeta.
Juraram apoiá-lo e declararam-se dispostos a fazer quaisquer sacrifícios necessários. Afirmaram que lutariam contra qualquer pessoa que se opusesse a ele e que acolheriam todos os muçulmanos de Makkah que fossem para Yathrib, compartilhando com eles tudo o que possuíam. Concordaram que formariam juntos uma comunidade separada das demais, unida pelo vínculo do Islã numa única nação, uma ummah. Sua única condição era que essa nova aliança entrasse em vigor depois que o Profeta chegasse a Yathrib.
Nos três meses seguintes, todos os muçulmanos que puderam emigraram de Makkah para Yathrib. Viajaram em pequenos grupos, levando apenas alguns objetos que conseguiam carregar. Abandonaram suas casas e seus negócios e deixaram seus clãs. Somente aqueles fisicamente impedidos de viajar permaneceram. O Profeta ficou em Makkah com Abu Bakr e Ali, seu primo, até receber instruções para viajar.
Enquanto isso, os Quraysh perceberam o que estava acontecendo e temeram o pior. Numa reunião de emergência, os chefes dos clãs consideraram todas as opções e decidiram agir imediatamente para matar o Profeta. O plano consistia em escolher um jovem corajoso de cada clã, para que todos compartilhassem a responsabilidade pelo assassinato. Concordou-se com esse método para que os hashimitas percebessem que não poderiam lutar sozinhos contra o restante dos Quraysh. Então aceitariam o pagamento de sangue como compensação.
O Profeta conseguiu escapar dos aspirantes a assassinos e tomou todas as precauções para despistá-los. Chegou a Madinah depois de duas semanas, onde recebeu uma acolhida calorosa. Imediatamente começou a organizar sua nova comunidade, formada pelos Muhajirun, os emigrantes de Makkah, e pelos Ansar, os apoiadores muçulmanos de Yathrib, que dali em diante passou a ser chamada de Cidade do Mensageiro de Deus, ou simplesmente Madinah.
O Profeta tomou quatro medidas de grande importância:
1. Construiu uma mesquita que servia como lugar de adoração, escola onde os muçulmanos aprendiam os detalhes de sua fé, local de reunião e sede do governo.
2. Estabeleceu um forte vínculo de fraternidade entre os Muhajirun e os Ansar, fazendo de cada membro de um grupo irmão de um membro do outro. Essa fraternidade foi considerada tão importante que se sobrepôs ao vínculo tribal.
3. Firmou um pacto com os outros grupos de Madinah, a saber, os judeus e os árabes incrédulos, tornando todos cidadãos do novo Estado que estabelecera na cidade. Era um documento detalhado, especificando os deveres e compromissos de cada grupo. Foi a primeira constituição escrita da história humana, estabelecendo uma sociedade pluralista baseada na cidadania.
4. Enviou várias expedições armadas às áreas ao redor de Madinah, para demonstrar que o novo Estado não temia ninguém. A sociedade árabe estava acostumada a incursões tribais lançadas em busca de ganhos fáceis. O Profeta queria mostrar que Madinah era forte demais para que alguém sequer cogitasse atacá-la. Além disso, as expedições ameaçavam a rota comercial das caravanas dos Quraysh, sem travar combate efetivo, exceto uma vez, quando ocorreu um pequeno confronto entre um grupo de seis muçulmanos e uma pequena caravana. Essas expedições eram formadas somente pelos Muhajirun.
CAPÍTULO 3
a chave do caráter do Profeta Cada pessoa tem uma chave para o seu caráter. Quando essa chave é identificada, torna-se fácil lidar com essa pessoa. Essa chave permite explicar suas atitudes e seu comportamento e antecipar sua reação aos acontecimentos. É como a chave de uma casa: pode ser pequena, mas abre a entrada para um lugar espaçoso, com tudo o que ele contém. Sem a chave, o interior da casa permanece desconhecido, e só podemos arriscar uma suposição às cegas sobre o que ela contém. Da mesma forma, a chave de uma pessoa permite compreender seu comportamento, mesmo quando ela age de uma maneira que outros consideram estranha. Quanto ao Profeta, só podemos procurar a chave de sua personalidade com base em sua vida antes da profecia, isto é, antes de começar a receber revelações divinas. Naquela época, ele agia por conta própria, sem saber nada sobre uma mensagem divina que lhe seria confiada. Mais tarde, quando começou a receber sua mensagem, assumiu um papel diferente de qualquer outro e também recebia orientação do alto. Sua missão, suas responsabilidades e suas ações beneficiaram-se dessa orientação e basearam-se nela. Os não muçulmanos que escreveram sobre sua vida isolando esse fato chegaram a explicações que os muçulmanos consideram problemáticas. Alguns desses relatos são imparciais e alguns chegam a admirá-lo. Ainda assim, estudar sua vida em termos puramente humanos, sem atribuir qualquer peso à orientação divina que recebeu, fará com que algumas de suas ações pareçam questionáveis e talvez indefensáveis. Sua atitude nas negociações com os coraixitas que levaram ao acordo de paz de Hudaybiyah pareceu estranha até mesmo aos seus Companheiros mais próximos. Ele não consultou ninguém, contrariando seus padrões anteriores de comportamento, e aceitou todas as condições impostas pelo inimigo. Em qualquer situação humana, o que diriam historiadores, críticos ou analistas sobre um negociador que declarasse desde o início — como fez o Profeta — que aceitaria qualquer oferta e que, de fato, não buscasse nenhuma concessão da outra parte em troca de concordar com suas condições?
Quando começamos a procurar a chave da personalidade de Muhammad em sua vida anterior ao início das revelações, logo descobrimos que teremos alguma dificuldade, pois os relatos que temos desse período fornecem detalhes insuficientes e podem não ser confiáveis. Somente os relatos mencionados pelo Profeta ou por seus Companheiros próximos sobre seus primeiros anos podem ser verificados quanto à autenticidade. Por exemplo, um relato afirma que, quando era bebê de peito, Muhammad costumava mamar apenas em um dos seios de sua ama de leite. Historiadores muçulmanos sugerem: “Era como se Deus o tivesse levado a fazer isso para deixar o outro seio cheio para o próprio filho de Halimah.” Como podemos verificar isso na ausência de uma confirmação posterior do Profeta ou de Halimah? Os relatos que podem ser considerados confiáveis apontam para uma qualidade específica que podemos considerar a chave da personalidade do Profeta: a busca do que é correto. Quando examinamos a história pessoal de Muhammad, constatamos que essa qualidade é constante em seu caráter, tanto antes quanto depois da profecia. Essa qualidade foi ainda fortalecida pela mensagem divina que ele transmitiu à humanidade.
Como mencionado no Capítulo 1, Muhammad tinha vinte anos quando participou da formação da nobre aliança al-Fudul, que obrigava os clãs dos coraixitas a permanecerem unidos em apoio a qualquer pessoa submetida à injustiça em Makkah, fosse ela de Makkah ou visitante. Esse foi um momento luminoso de sua vida pré-islâmica, que ele mencionou com carinho depois da profecia. Já estabelecido em Madinah, ele disse que não trocaria sua participação naquela aliança por nada no mundo; afirmou que continuaria a honrá-la sob o Islã, caso alguém lhe pedisse ajuda nos termos dela. O fato de essa aliança ter sido concluída em tempos pré-islâmicos por pessoas idólatras não diminuía o fato de que era uma aliança nobre, destinada a garantir a todos os seus direitos. Essa declaração do Profeta confirma um senso de honra e integridade que só pode ser cultivado por um homem que busca o que é correto e se levanta em sua defesa.
Ao longo de toda a sua vida, Muhammad manteve conscientemente um padrão muito elevado de integridade. Ele jamais mentiria de propósito. Em muitas sociedades, as pessoas não veem com horror o ato de mentir. É claro que ninguém diz abertamente que mentir é motivo de orgulho, mas muitas vezes aconselham um parente ou amigo a mentir para sair de uma situação difícil. Na sociedade árabe dos tempos pré-islâmicos, mentir não era motivo de grande preocupação. Hoje, muitas sociedades esperam que uma pessoa diga a verdade em situações formais; por exemplo, uma testemunha que presta falso testemunho em um tribunal é processada. Entretanto, em pequenas questões da vida diária, as pessoas não pensam duas vezes antes de contar uma mentira quando isso serve aos seus interesses. Elas até admitem a mentira e não esperam ser censuradas; outros frequentemente riem ou demonstram aprovação. Muhammad, porém, era amplamente conhecido entre seu povo por dizer a verdade em todas as situações. São numerosos os testemunhos disso, vindos tanto de amigos quanto de inimigos.
No quinto ano da profecia de Muhammad, ele aconselhou grande número de seus Companheiros a emigrar para a Abissínia. Temendo as consequências dessa emigração, os coraixitas enviaram uma delegação a Negus, o governante da Abissínia, pedindo a extradição deles. A delegação esforçou-se para fazer Negus ordenar a extradição sem interrogar os emigrantes. Negus, porém, era um homem justo. Por isso, chamou os emigrantes à sua corte e perguntou-lhes sobre sua religião. Seu porta-voz, Ja’far, descreveu sua condição antes do Islã. Depois prosseguiu: “Então Deus nos enviou um Mensageiro que sempre conhecemos como um homem de verdade e honestidade.”1 Aqueles que se opunham ao Profeta em Makkah não hesitavam em afirmar que ele era um homem veraz. Quando Muhammad recebeu de Deus a ordem de proclamar publicamente o Islã, subiu à colina de al-Safa, no centro de Makkah, e chamou todos os clãs para que fossem até ele. Quando se reuniram, disse-lhes: “Se eu lhes dissesse que cavaleiros armados estão além deste vale, dirigindo-se a Makkah para atacá-los, vocês acreditariam em mim?” “Você é digno de confiança, e nunca o conhecemos como alguém que dissesse mentiras”, responderam. “Pois bem”, disse ele, “fui enviado a vocês para adverti-los contra um sofrimento terrível.”2
O xeique Abu al-Hasan Ali al-Hasani Nadwi afirma que a primeira resposta dos árabes em Makkah era prova de sua abordagem realista e prática. Eles respondiam a um homem que conheciam como honesto e veraz, alguém que sempre dava conselhos sinceros. Ele estava no alto de uma colina, de onde podia ver o que havia além. Da posição em que estavam, eles não podiam ver nada além do que havia em seu vale. Não tinham motivo para não acreditar nele, qualquer que fosse a coisa que dissesse. Essa foi uma abertura natural, que garantiu um testemunho; em outras palavras, estabeleceu as credenciais de Muhammad, já conhecidas por seu público.3
Um exemplo de testemunho de seus adversários ocorreu quando o Profeta e seus Companheiros foram a Makkah para sua Umrah compensatória. Como observado no Capítulo 2, segundo o acordo de paz assinado um ano antes entre o Profeta e os incrédulos de Makkah, o Profeta e seus Companheiros deveriam ter permissão para entrar em Makkah e permanecer ali por três dias, mas não poderiam levar armas além de espadas em suas bainhas. Quando os muçulmanos estavam prestes a iniciar a viagem de Madinah, o Profeta ordenou que levassem armamento suficiente, para que estivessem preparados caso os coraixitas pretendessem lançar um ataque traiçoeiro. Quando os muçulmanos se aproximavam de Makkah, seus habitantes foram informados por sua vanguarda de que os muçulmanos levavam armas. Os coraixitas enviaram imediatamente Mikraz ibn Hafs com alguns de seus dignitários para determinar suas intenções. Mikraz disse-lhe: “Muhammad, nunca se soube que você fosse traiçoeiro, nem quando era jovem nem agora em sua velhice. Pretende entrar armado na cidade sagrada onde vive seu próprio povo, quando havia prometido que seu grupo levaria apenas as armas comuns dos viajantes: espadas em bainhas?” O Profeta respondeu: “Não estou levando armas para dentro da cidade.” Mikraz disse: “Este é um homem modelo de honestidade e sinceridade.”4 Foi suficiente para a delegação dos coraixitas que Muhammad dissesse que não levaria as armas. Eles retornaram imediatamente ao seu povo para tranquilizá-lo de que ele honraria o acordo. Aquelas pessoas vinham combatendo-o havia quase duas décadas, acusando-o de todo tipo de mal. Ainda assim, não hesitaram em aceitar sua palavra como expressão de sua verdadeira intenção.
A busca do que é correto exige que aquele que busca assegure que qualquer confiança depositada nele esteja bem colocada. Muhammad foi digno de confiança durante toda a sua vida, e ninguém jamais o acusou de não merecê-la. Pelo contrário, muito antes do Islã, o povo de Makkah deu-lhe o apelido de al-Amin, que significa “digno de confiança”. Vemos, por exemplo, que ele ainda estava no início dos vinte anos quando Khadijah, uma viúva rica, confiou-lhe a administração de seu comércio em uma caravana que viajava para a Síria. Ela não lhe teria confiado uma tarefa tão importante se não tivesse certeza de que sua confiança não seria traída. Tinha uma opinião bem fundamentada sobre ele, pois o havia posto à prova nos mercados locais. Foi a integridade e a honestidade de Muhammad em todas as situações que levaram Khadijah a propor-lhe casamento. Ela havia recusado muitos pretendentes anteriores, sentindo que estavam interessados em sua riqueza. No caso de Muhammad, ela foi a pretendente, porque reconheceu que ele era um homem digno de confiança.
Já mencionamos que os coraixitas conspiraram para assassiná-lo a fim de impedir sua emigração. Agiram rapidamente para executar seu plano. Contudo, Muhammad havia recebido depósitos para guardar. Esses depósitos não pertenciam aos muçulmanos de Makkah, pois quase todos os muçulmanos de Makkah já haviam emigrado para Madinah. Pertenciam, sim, a incrédulos que estavam no campo inimigo. Apesar da hostilidade do povo de Makkah contra Muhammad e sua mensagem, eles não tinham dúvida alguma de sua integridade e honestidade. Qualquer pessoa que possuísse algo precioso confiava-o a Muhammad para que o guardasse, certa de que o encontraria seguro quando quisesse. Como observação à parte, considero surpreendente que, nessa situação, eles não percebessem que uma pessoa de tamanha honestidade e integridade não mentaria para Deus. É lógico que essa prática de deixar objetos de valor com Muhammad não começou depois que ele se tornou Profeta e Mensageiro de Deus; deve ter começado muito antes. As pessoas continuaram a reconhecer sua honestidade depois que ele começou a receber e proclamar a mensagem de Deus; se alguma coisa mudou, foi que o consideravam ainda mais confiável.
Muhammad deu a Ali, seu primo, a tarefa de devolver os depósitos às pessoas. Ao devolver os bens depois de escapar de uma tentativa de assassinato e ser expulso da cidade, confirmou que a confiança depositada nele era bem colocada. Para ele, era inconcebível mudar sua prática apesar de todos os problemas que seu povo lhe impusera. Ele sempre procurava o que era correto e o fazia; era correto que as pessoas que lhe haviam confiado seus bens os recebessem de volta quando ele deixava a cidade e já não podia mantê-los seguros. O fato de serem hostis a ele e à sua mensagem não alterava nada.
A busca do que é correto exige justiça em qualquer situação em que as pessoas estejam em conflito. O Profeta sempre se empenhou em estabelecer a justiça, independentemente de quem fossem as partes em disputa. Esse era seu objetivo antes de ser escolhido para seu grande papel como Profeta, e continuou sendo seu objetivo sempre que duas partes lhe apresentavam uma disputa para julgamento. Por exemplo, no Capítulo 1 observamos a situação em que lhe pediram que arbitrasse a disputa entre os clãs dos coraixitas sobre o honroso ato de recolocar a Pedra Negra em seu lugar. Havia várias opções à sua disposição. Poderia ter defendido que seu próprio clã, o clã Hashim, realizasse essa tarefa honrosa, pois os hashimitas eram o clã mais honrado. Poderia ter decidido em favor do clã, ou dos clãs, que pouco tinham a ver com a Kaaba e a peregrinação. Tal decisão lhes teria dado algo que fortalecesse sua posição. Poderia ter escolhido uma pessoa neutra ou defendido sua própria neutralidade. Não fez nada disso. Em vez disso, reconheceu que a situação exigia uma medida de justiça absoluta e optou por um veredicto no qual todos os clãs participariam em igualdade de condições. Foi um veredicto de justiça completa: alcançar o que é correto.
Depois da profecia, Muhammad foi juiz em todas as disputas dentro da comunidade muçulmana ou entre muçulmanos e não muçulmanos. Declarou a todos os envolvidos que só podia julgar com base nas provas apresentadas: “Qualquer um de vocês”, advertiu, “pode apresentar uma prova aparentemente mais forte, e eu decidirei a seu favor. Que considere o seguinte: se eu lhe der algo que por direito pertence a seu irmão, estarei apenas dando-lhe uma parcela do fogo do Inferno. Ele pode escolher tomá-la ou deixá-la.”5 Para um crente, esta é uma advertência muito forte, pois atribui responsabilidade às pessoas envolvidas. Elas devem saber se têm ou não uma reivindicação legítima; e, se estiverem em dúvida, devem buscar esclarecimento. Com isso, o Profeta estabeleceu um alto padrão de responsabilidade e fez com que todos compartilhassem dele, para que o que é correto e a justiça fossem estabelecidos.
Nos tempos pré-islâmicos, Muhammad empenhava-se muito em ser justo com todos. Quando era chamado para arbitrar, decidia com justiça para todos, porque o que é correto exige justiça. Quando se tornou Mensageiro de Deus, elevou esse padrão ainda mais. Um exemplo diz respeito às comunidades judaicas de Madinah. Como afirmado no capítulo anterior, os judeus estavam muito descontentes com o Islã e tentaram todos os métodos para enfraquecer a comunidade muçulmana. Violaram seu tratado com o Profeta e aliaram-se a seus inimigos. Contudo, quando se tratava de julgar casos envolvendo judeus, o Profeta deu um exemplo claro de garantia da justiça.
Em um caso, alguém roubou de outra pessoa um escudo de armadura. Ambos pertenciam aos Ansar, mas aparentemente o ladrão era suspeito de hipocrisia. Quando as provas apontaram para o verdadeiro ladrão, ele escondeu secretamente o escudo roubado na casa de um vizinho judeu. Depois pediu a seus parentes que dissessem ao Profeta que haviam visto o escudo roubado na casa do judeu. Eles fizeram isso, e o Profeta repreendeu o acusador. Entretanto, o Profeta recebeu revelações corânicas que lhe informaram os fatos. Elas foram registradas nos versículos 105–113 da Surata 4 (“As Mulheres”). O que faria qualquer governante em uma situação como essa, na qual o inimigo acusado é inocente e o amigo insuspeito é culpado? Consideremos o argumento a favor de manter as coisas como pareciam, com as provas materiais apontando o judeu como ladrão, já que o escudo roubado fora encontrado em sua casa. Sayyid Qutb escreve:
Se padrões ou considerações humanos e mundanos fossem o fator decisivo no código islâmico e em seu método de aplicação, haveria várias razões para ignorar todo o acontecimento. Ter-se-ia inventado um encobrimento, e a realidade do caso não teria sido exposta de maneira que se aproximasse de um escândalo. A primeira e mais evidente razão era que o próprio acusado era um judeu pertencente a uma comunidade judaica envolvida numa luta feroz contra o Islã, usando todo armamento à sua disposição. Os muçulmanos daquele período sofriam muito com os planos perversos dos judeus. [Deus quis que os muçulmanos sofressem muito por causa dos judeus em todos os tempos!] Aqueles judeus de Madinah não se deixavam conter por considerações de direito ou justiça. Não aplicavam nenhum padrão moral em suas relações com a comunidade muçulmana.
Outra razão decorria do fato de que a questão envolvia diretamente um grupo dos Ansar, os muçulmanos de Madinah que haviam oferecido refúgio, apoio e proteção ao Profeta e a seus Companheiros de Makkah. Um incidente assim poderia facilmente ter causado grande desunião e ódio entre seus diferentes grupos. Dirigir as acusações contra um judeu teria evitado qualquer possibilidade de divisão entre eles. Uma terceira razão para aprovar um encobrimento seria que isso teria evitado dar aos judeus de Madinah mais armamento com que atacar os Ansar. A exposição do caso permitiria aos judeus acusar os Ansar de roubarem uns aos outros e depois acusarem falsamente e conscientemente os judeus de cometerem seus próprios crimes. Era certo que os judeus não deixariam passar uma oportunidade dessas.6
Sem hesitação, o Profeta declarou o judeu inocente. Não se preocupou com nenhuma das considerações que teriam levado as pessoas a favorecer um encobrimento. Estava preocupado com o estabelecimento do que é correto e da justiça. Convenceu todos os seus Companheiros de que a injustiça levaria à ruína tanto do indivíduo quanto da comunidade, porque a justiça estabelece o que é correto e fortalece a comunidade. Vemos claramente como a busca do que é correto levou Muhammad a ser justo em seu veredicto muito antes do advento do Islã, e podemos ver como, sob o Islã, a busca da retidão o levou a estabelecer a justiça em um padrão superior.
A busca da retidão parece ter sido algo implantado na natureza de Muhammad desde muito cedo. Isso fica claro no relato de seu encontro com um monge cristão na Síria, quando ainda era uma criança de doze anos. O relato circula amplamente nas fontes da história islâmica, mas sua confiabilidade não pode ser absolutamente confirmada. Vários orientalistas consideram-no uma prova importante e algo que apoia suas afirmações de que Muhammad encontrou clérigos cristãos e aprendeu com eles. Não precisamos discutir essas afirmações aqui, exceto para dizer que, se essa é a prova deles, sua tese continua fraca.
O relato em questão menciona que, aos doze anos, Muhammad se agarrou a seu tio Abu Talib quando este estava prestes a partir em uma viagem de negócios à Síria com uma caravana comercial. Homem de coração bondoso, Abu Talib levou consigo o amado sobrinho. A rota da caravana passava perto do eremitério de Bahira, um monge cristão, que convidou os integrantes da caravana para fazer uma refeição com ele. Enquanto os servia, continuava olhando para Muhammad. Depois chamou-o de lado e fez-lhe perguntas sobre si mesmo. Em seguida, perguntou-lhe sob juramento por al-Lat e al-Uzza, dois dos principais ídolos árabes. Muhammad interrompeu-o, dizendo: “Não me interrogue por al-Lat e al-Uzza, pois nada odeio tanto quanto os odeio.” Bahira reformulou a pergunta, fazendo-a sob juramento por Deus, e Muhammad respondeu normalmente. Depois dessa conversa, Bahira perguntou a Abu Talib qual era sua relação com Muhammad. Quando Abu Talib confirmou que o pai de Muhammad havia morrido antes de seu nascimento, Bahira disse-lhe que cuidasse especialmente do sobrinho, pois os judeus, em particular, poderiam prejudicá-lo.
O ponto aqui é o ódio demonstrado por uma criança de doze anos aos ídolos adorados por seu povo: não se tratava de uma atitude baseada em algum princípio religioso. Naquela época, Muhammad não havia tido contato com nenhum ensinamento religioso além do que era conhecido em Makkah, uma forma muito rudimentar de idolatria. Havia em Makkah algumas pessoas que rejeitavam a idolatria, mas nenhuma demonstrava inclinação para começar a defender uma nova religião. Mesmo aqueles cuja rejeição da idolatria era conhecida e registrada ou ainda procuravam uma fé melhor, como Waraqah ibn Nawfal, ou eram muito jovens, como Zayd ibn Amr. Tratava-se de uma aversão instintiva baseada, talvez, na observação pessoal de que aquelas divindades não passavam de estátuas feitas por seres humanos.
A rejeição da idolatria permaneceu com Muhammad durante toda a sua vida. Ele já era adulto quando ocorreu o episódio do ídolo Buwabah, relatado no Capítulo 1. Como alguém amado por toda a sua família, cedeu à pressão de suas tias e foi ao festival daquele ídolo, porque isso significava muito para sua família. Sempre que se aproximava de algum ídolo, diziam-lhe que se afastasse dele. Esse é um aspecto da proteção divina contra tudo o que estivesse relacionado ao culto pagão. Mais relevante aqui é sua recusa de participar daquele festival ano após ano, apesar da pressão de suas tias para que tomasse parte nele. Isso nos mostra que ele não estava absolutamente convencido pelo culto a tais ídolos, pois este não correspondia a seus critérios do que era correto. Para ele, aqueles ídolos eram objetos inúteis, feitos por pessoas, colocados por pessoas em seus lugares e venerados por pessoas; isso era absurdo para Muhammad, que sempre buscava o que era correto.
Esses são apenas dois exemplos de uma vida inteira em que ele sempre se afastou da idolatria. Em nenhum momento de sua vida antes da profecia Muhammad se dirigiu a qualquer uma das divindades adoradas por seu povo. Não tocava em nenhuma delas nem buscava ser abençoado por alguma. Simplesmente se afastou da religião rudimentar de seu povo, rejeitando-a por completo.
Se examinarmos a vida de Muhammad antes da profecia, veremos um homem dedicado à família. Quando perdia pessoas queridas, sofria intensamente; quando estava na casa de seu tio, interagia com a família como uma pessoa carinhosa; quando tinha doze anos, agarrou-se ao tio no momento de sua partida porque não queria perdê-lo nem por algumas semanas; quando se casou, foi um marido e pai exemplar. Participava de tudo o que sua família e seu clã faziam de nobre, inclusive lutando ao lado de seus tios. Participou da aliança para eliminar a injustiça. Ao vê-lo tão envolvido com sua família e seu clã, perguntamo-nos que razão poderia ter para se ausentar dos festivais religiosos aos quais sua família atribuía grande importância. A única razão é que tal culto contrariava seu senso da verdade e sua intensa busca do que é correto.
Quando estava na casa dos trinta anos, Muhammad começou a buscar a solidão como refúgio dos aspectos repugnantes da vida em Makkah: seu culto pagão e sua moral dissoluta. Ia a uma caverna no monte Hira, a alguns quilômetros de Makkah, e permanecia ali por vários dias em uma espécie de devoção que não tinha forma ou padrão reconhecido. A caverna era pequena e totalmente isolada, com espaço apenas para uma pessoa ficar de pé, sentar-se ou deitar-se. Na entrada, a Kaaba podia ser vista claramente à distância por uma pequena abertura no outro extremo. Diante da caverna havia uma pequena área aberta, protegida do sol por duas grandes massas de rocha em dois lados, enquanto o quarto lado era totalmente aberto, permitindo uma brisa refrescante. Ali Muhammad permanecia por vários dias, em total devoção.
O termo árabe para essa devoção é tahannuth, que significa “purificação de si”. O Profeta não nos disse que tipo de culto costumava oferecer naqueles dias. O Alcorão, porém, nos informa que ele nunca esperava receber revelações do alto antes do momento em que o anjo veio até ele com a primeira revelação.7 Também afirma que ele nunca havia lido um livro nem podia escrever com a própria mão.8 Durante esse período, Muhammad não tinha um conceito claro de Deus. Como um daqueles indivíduos que buscavam seguir uma religião que oferecesse uma visão clara, Zayd ibn Amr costumava dirigir-se a Deus e dizer: “Meu Senhor, não sei qual é a maneira correta de Te adorar.” Provavelmente Muhammad teria dito o mesmo naquela época.
Alguns historiadores muçulmanos afirmam que, antes da profecia, Muhammad adorava segundo a religião de Abraão. Nos tempos pré-islâmicos, os árabes orgulhavam-se de ser descendentes de Abraão por meio de seu filho Ismael. Entretanto, a religião seguida por seus antepassados, ensinada a eles pelo Profeta Ismael, havia se tornado tão obscurecida que restavam apenas alguns aspectos rudimentares dela, principalmente relacionados à peregrinação. Até os rituais da peregrinação haviam sido profundamente distorcidos. Eles continuavam acreditando em Deus como o Criador dos céus e da terra, mas, para eles, Deus estava distante. Por isso, acreditavam que precisavam adorar divindades e ídolos que os aproximassem de Deus.9 Portanto, o que entendemos pela afirmação de que Muhammad, naqueles dias de solidão, adorava segundo a religião de Abraão é que dirigia sua devoção a Deus, o Criador dos céus e da terra. Contudo, não tinha uma noção clara de Deus nem de como adorá-Lo. Sua devoção era apenas uma tentativa de obter uma compreensão melhor por meio da solidão e da contemplação. Assim, consideramos seus períodos de solidão, que se tornaram mais frequentes no final de seus trinta anos, coerentes com sua busca do que é correto. O que ele procurava era uma compreensão correta da posição e da vida do ser humano.
Durante um desses períodos de solidão, o anjo veio até ele pela primeira vez, como relatado no Capítulo 1. Essa foi sua primeira comunicação com o mundo além do visível. Nenhum ser humano está preparado para contatos assim; por isso, Muhammad tremeu e sentiu medo. Não sabia a natureza do contato nem a natureza do anjo que recebera. Não conseguia explicar nada a respeito. Isso explica sua rápida fuga para casa e seu pedido à esposa para cobri-lo e envolvê-lo com algo quente. As palavras tranquilizadoras de sua esposa, porém, não lhe deram nenhuma certeza; como poderia estar certo, se ela também nada sabia sobre o assunto? Ainda assim, suas garantias baseavam-se no fato de que ele possuía um caráter nobre. Ela lhe disse: “Você é bondoso com seus parentes; ajuda os fracos; é generoso com os pobres; acolhe os hóspedes.”10 Disse também que ele sempre dizia a verdade. Acrescentou que uma pessoa com tais qualidades jamais seria abandonada por Deus.
Muhammad não ficou satisfeito com a garantia de sua esposa, pois ela era apenas um argumento lógico, e ele queria mais. Por isso, foi com ela até Waraqah ibn Nawfal, primo dela. Waraqah era um homem idoso e cego, que viajara por toda parte em busca da fé correta. Convertera-se ao cristianismo e conhecia bem a Bíblia. Waraqah ouviu todos os detalhes do encontro com o anjo antes de chegar à sua conclusão: “Você encontrou o arcanjo que costumava vir ao Profeta Moisés.” Waraqah também lhe disse que ele seria o Mensageiro prometido em todas as Escrituras divinas. Afirmou ainda que a tarefa de Muhammad seria difícil e que seu povo o expulsaria: “Gostaria de estar vivo então, pois certamente lhe daria apoio inabalável.”11 Segundo os relatos que temos, Waraqah encontrou-se com ele mais de uma vez nos dias seguintes, tranquilizando-o. Entretanto, Waraqah logo morreria.
Aqui vemos um homem que tivera uma experiência única, semelhante à qual ninguém entre seu povo conhecia. Não havia registro de nenhum Profeta entre os árabes desde Ismael. Portanto, era necessário chegar à verdade sobre o assunto, e esse era o propósito daqueles encontros com Waraqah. Por meio dele, um estudioso humano profundamente interessado em religião, Muhammad recebeu alguma compreensão da profecia. Assim, pôde compreender melhor as garantias dadas pelo anjo nas visitas seguintes, e logo chegou à verdade. Por isso, a revelação seguinte tranquilizou Muhammad quanto ao futuro, mas aconselhou-o a preparar-se para a tarefa que lhe fora confiada, uma tarefa que seria difícil. Ele só poderia preparar-se para ela por meio de longas horas de devoção e oração durante a noite:
Ó tu que estás envolto em mantos! Levanta-te para orar à noite, salvo uma pequena parte dela: a metade, ou um pouco menos, ou acrescenta-lhe. Recita o Alcorão calma e claramente. Nós te transmitiremos uma mensagem de grande peso. As horas da noite são mais firmes no passo e mais retas na fala. Durante o dia tens uma longa sequência de coisas a atender. Portanto, recorda o nome de teu Senhor e dedica-te inteiramente a Ele. Ele é o Senhor do Oriente e do Ocidente. Não há divindade além d’Ele. Toma-O como teu protetor. (73:1–9)
O Profeta obedeceu: permaneceu em adoração durante longas horas todas as noites por um ano inteiro. Sabia que esse era seu dever, e isso lhe deu mais segurança. Compreendeu que lhe fora confiada uma tarefa difícil, que colocaria a humanidade no caminho correto nas questões mais importantes da religião e da adoração. Essa era a verdade absoluta que lhe chegava da fonte correta, Deus Todo-Poderoso. Já não precisava buscar o que é correto, pois o conheceria em todas as situações pelo resto de sua vida.
CAPÍTULO 4
a necessidade de uma mensagem divina O anjo veio quando Muhammad estava recolhido na caverna do monte Hira’ e disse-lhe que recitasse os cinco primeiros versículos curtos do Alcorão. A profecia de Muhammad começou no momento em que ele recebeu essas primeiras revelações. Como outros eruditos, o imame Ibn Hazm define a profecia como a aquisição de um conhecimento absolutamente certo, que não pode ser obtido por esforço ou experiência humana. Esse conhecimento só pode ser concedido por Deus, e Ele o dá apenas àqueles de Seus servos que escolhe para serem Profetas. Alguns Profetas podem receber mensagens divinas, que então transmitem às pessoas às quais se destinam. Se um Profeta não recebe uma mensagem própria, ele atua segundo a mensagem de um Mensageiro anterior. Os Filhos de Israel tiveram inúmeros Profetas, mas os Mensageiros entre eles foram poucos. Moisés e Aarão são talvez os exemplos mais claros disso. Deus escolheu Moisés para transmitir a mensagem contida na Torá, enquanto Aarão era um Profeta que trabalhava com a mensagem de Moisés. Vários Mensageiros de Deus são mencionados nominalmente no Alcorão, mas Deus afirma que também enviou Mensageiros sobre os quais escolheu não nos informar. Dirigindo-se ao Profeta, Ele diz no Alcorão: “Enviamos outros Mensageiros antes de ti; de alguns te contamos a história, enquanto de outros não te contamos.” (40: 78) Pouco depois do início de suas revelações, Muhammad tornou-se o Mensageiro de Deus, quando Deus lhe revelou os versículos: “Ó tu, envolto em teu manto, levanta-te e adverte” (74: 1-2).1 Isso significava que o Profeta defenderia a fé divina de acordo com a mensagem que receberia. Tudo o que permanecesse intacto das mensagens divinas anteriores — isto é, livre de distorção — seria confirmado ou corrigido pela nova mensagem. Em todos os casos anteriores, os Mensageiros de Deus eram enviados aos seus próprios povos, falavam suas línguas e os chamavam a crer em Deus e a conduzir suas vidas de acordo com as mensagens que lhes haviam sido transmitidas. O Profeta foi declarado o Mensageiro final de Deus, e sua mensagem foi a última a ser concedida por Deus à humanidade. Por essa razão, sua mensagem está contida num livro — o Alcorão — que Deus garantiu preservar intacto pelo resto dos tempos. Que a humanidade sempre necessita de uma mensagem divina é indiscutível, e isso está estreitamente relacionado ao propósito da criação do ser humano. Segundo todos os Profetas e Mensageiros de Deus, o ser humano assume a tarefa de construir uma vida virtuosa na terra. Quando o Profeta صالح exortou seu povo a adorar somente a Deus, disse-lhes: “Foi Ele quem vos fez surgir da terra e vos estabeleceu nela.” (11: 61) Com o estabelecimento vêm o progresso e o aperfeiçoamento do belo e do benéfico (como indica o equivalente árabe ista[marakum, usado neste versículo do Alcorão). Quando consideramos nossa posição no universo, torna-se claro que, apesar de todas as descobertas e avanços que fizemos ao longo dos séculos, só podemos mover-nos dentro de uma área limitada e nossas capacidades são finitas. O ser humano sempre sentiu que existe um vasto mundo além, e é o esforço para alcançá-lo e descobrir seus segredos que motivou sua pesquisa, sua busca científica, suas teorias filosóficas, sua poesia e sua ficção. Isso deu origem a cada avanço realizado pelo ser humano. Contudo, mesmo aqueles que fazem as descobertas mais empolgantes são os primeiros a reconhecer que estão apenas arranhando a superfície e que há muito mais além dela. Isso se aplica à natureza humana, à psicologia, aos sentimentos e às emoções tanto quanto se aplica ao mundo material que nos rodeia. Quando lidamos com o mundo material, podemos cometer erros. Entretanto, podemos sempre rever nossos métodos e corrigir nossos erros. A situação não é tão simples quando regulamos os sentimentos, as emoções e a natureza humana. Um pequeno erro nessas áreas pode ter consequências adversas de longo alcance. A necessidade de evitar tais consequências corrigindo um erro inicial é frequentemente resistida por uma parcela da população, porque toda situação humana tem aspectos positivos e negativos. Aqueles que se beneficiam de seus aspectos positivos — compreensivelmente — resistirão à mudança. Além disso, quando tentamos corrigir tais consequências, muitas vezes vamos longe demais na direção oposta, de modo que, depois de algum tempo, torna-se necessária outra correção. Se tivesse havido orientação adequada desde o início, muitos erros da sociedade poderiam ter sido evitados. Por exemplo, ao observarmos a moralidade sexual na sociedade ocidental e seu desenvolvimento nos últimos dois séculos, constatamos que o século XIX aplicava valores rigorosos. A primeira metade do século XX testemunhou duas guerras mundiais, que eliminaram quase todo esse rigor. Quando a pílula anticoncepcional foi considerada segura, a chamada “revolução sexual” dos anos 1960 foi saudada como libertação de valores arbitrários. A discussão intelectual que contrastava os valores dos séculos XIX e XX nessa área tendia a rejeitar as antigas abordagens rigorosas como hipócritas: supunha-se que a população anterior não acreditava realmente em valores rigorosos, mas era obrigada pela sociedade a manter as aparências. Qualquer argumento de que a literatura da época não apoiava tal julgamento costuma ser respondido com a ideia de que romancistas e dramaturgos tinham de exercer autocensura para que suas obras não fossem proibidas. Por outro lado, a sociedade ocidental afastou-se tanto dos valores daqueles dias que algumas pessoas podem perguntar-se se aquilo que hoje continua inaceitável poderá ser aceitável no futuro. Nos últimos anos, o avanço científico colocou questões éticas muito difíceis, particularmente no que diz respeito à engenharia genética e à concepção e à gravidez assistidas medicamente. A sociedade humana tem se esforçado para encontrar respostas satisfatórias a perguntas como as seguintes: quem tem o direito legítimo sobre a criança nascida de uma mãe de aluguel? Se uma mulher concorda com um casal em gerar um bebê resultante de inseminação artificial, mas depois decide ficar com a criança quando ela nasce, basta que devolva ao casal qualquer quantia que este lhe tenha pago antecipadamente? Até que ponto tal contrato é vinculante? É correto usar técnicas de fertilização in vitro para ajudar uma mulher idosa a conceber — como no caso recente em que uma mulher de sessenta e nove anos deu à luz por inseminação artificial? Até que ponto a engenharia genética pode ser usada para dar aos casais a possibilidade de escolher o sexo e as características de seu futuro filho? E quanto ao suicídio assistido medicamente: é correto ajudar pessoas em estado terminal a pôr fim à vida, se assim o desejarem? Em tais questões, é difícil determinar até que ponto a sociedade humana pode avançar com base em tentativa e erro. Se as consequências adversas das experiências numa determinada área forem graves e difíceis de remediar, isso pode significar que as pessoas sejam submetidas a problemas sérios dos quais poderiam ter sido poupadas se houvesse orientação adequada. Precisamos de orientação para evitar áreas de perigo e levar uma vida razoavelmente feliz. Dado que a experiência humana não pode fornecer essa orientação, a única fonte disponível para nós é o Criador: Ele conhece Sua criação e pode determinar o que nos beneficiará ou nos prejudicará. A orientação divina nos foi concedida desde que a humanidade passou a existir. Ela é fornecida de duas maneiras: a primeira é a natureza humana, quando está sã e não corrompida por influências negativas; a segunda é por meio dos Profetas. Essas duas formas atuam juntas, pois a mensagem pregada pelos Profetas fortalece os recursos da natureza humana e garante que ela permaneça no caminho certo. Precisamos recordar aqui a definição de profecia: a aquisição de um conhecimento absolutamente certo, que não pode ser obtido por esforço ou experiência humana. Deus, segundo o Islã, é o Criador do universo e de tudo o que existe. Ele é Absoluto, Cuidadoso e Misericordioso. Seu conhecimento é perfeito e abrange tudo. Para compreender o conhecimento de Deus, podemos dizer que ele é perfeito e independente do tempo e do lugar. Em outras palavras, nada é acrescentado a ele como resultado de qualquer acontecimento no universo. Não podemos dizer que houve um momento em que Deus não sabia algo e depois o aprendeu: isso não se aplica a Deus. Assim, Deus é a única fonte capaz de nos fornecer uma orientação perfeita e aplicável à vida humana. Ele o fez por meio das mensagens que Seus Mensageiros transmitiram. Vida após a morte Uma questão que constantemente intrigou a humanidade é o que nos acontece depois que morremos. A perspectiva da religião divina é que seremos ressuscitados para uma segunda vida eterna, quando teremos de prestar contas do que fazemos nesta vida e seremos ricamente recompensados se nossas boas ações superarem as más. Aqueles cujas más ações excederem em muito as boas serão julgados por Deus: Ele escolherá perdoá-los ou puni-los. Esse julgamento divino enviará as pessoas ao paraíso ou ao inferno, conforme Deus — em Sua justiça e compaixão absolutas — determine ser justo. Ele nunca é injusto com ninguém, e Seu perdão pode ser total. Ele perdoa todos os pecados, inclusive os muito graves, com uma única exceção: alegar que Ele tem parceiros de qualquer espécie. Portanto, todos os que creem na unicidade de Deus, aceitam Sua mensagem e praticam boas ações nesta vida presente certamente receberão o perdão de Deus por seus pecados e serão recompensados por suas boas ações. Como esta vida presente é limitada e curta, enquanto a segunda vida é eterna, é razoável que todos se preparem para esta última crendo em Deus e praticando boas obras nesta vida. Quando as pessoas aceitam esse chamado e o seguem, seu benefício exerce forte influência sobre a vida humana na terra. As pessoas que fazem o bem são amadas e respeitadas por aqueles que as rodeiam, pois beneficiam sua comunidade. Isso significa que o caminho promovido pela fé divina terá efeitos fortes e positivos sobre nossa vida presente e, ao mesmo tempo, garantirá felicidade na vida futura. Podem surgir algumas perguntas: como podemos ter certeza de que existe uma segunda vida? Que prova temos disso? As pessoas não retornam depois da morte para nos dizer o que acontece depois que deixam nosso mundo; então, como podemos falar da vida após a morte em termos de certeza? A prova encontra-se no fato de que Deus é justo e não permitirá que a injustiça triunfe. Há muita injustiça na vida humana, tanto no nível individual quanto no comunitário. Exemplos de injustiça encontram-se em toda parte: o senhor que maltrata seus servos; o empregador que paga baixos salários por um trabalho altamente lucrativo; as multinacionais que acumulam enormes lucros enquanto mantêm sua força de trabalho do terceiro mundo abaixo da linha da pobreza; o marido que agride a esposa; os pais que abusam dos filhos; e o ditador que tiraniza toda a população de um país. O número de injustiças em qualquer aldeia, vila, cidade ou país é incalculável. Contudo, Deus é justo e não permite que a injustiça fique impune. Situações injustas são comuns no mundo que nos rodeia e, quando uma situação injusta se desenvolve, geralmente se fazem tentativas para corrigi-la. Se esta nossa vida fosse um fim em si mesma, tais tentativas seriam bem-sucedidas e todos os erros seriam corrigidos dentro dela. O ser humano é a mais preciosa de todas as criaturas do nosso mundo. Portanto, situações que trazem miséria à sociedade humana deveriam ser evitadas desde o início e corrigidas quando ocorressem. Contudo, muitas permanecem sem solução, tanto no nível individual quanto no comunitário. É lógico, então, concluir que nem o sistema de criação de Deus nem Sua justiça permitiriam tal imperfeição num sistema de vida perfeitamente concebido. Portanto, é necessária uma segunda vida, na qual a justiça seja plenamente estabelecida. Isso foi prometido pela fé divina desde a criação do ser humano. Isso é apresentado nos termos mais claros no Alcorão, que incorpora a mensagem islâmica. Além disso, quando observamos a vida em nosso mundo, encontramos incontáveis equilíbrios que precisam funcionar juntos para que a vida continue. Se algum desses equilíbrios fosse perturbado, mesmo que minimamente, poderiam seguir-se efeitos desastrosos tanto para o ser humano quanto para o meio ambiente. Tais equilíbrios precisos não poderiam ter surgido por si mesmos; são, antes, produto do belo projeto de Deus e do ajuste perfeito do mundo em que vivemos. Esse ajuste fino e esse equilíbrio também se aplicam ao universo inteiro. É improvável que o Criador tenha estabelecido um projeto tão perfeito apenas para abandoná-lo e deixar o mundo regular-se sozinho, sem qualquer intervenção. Isso seria como um engenheiro mecânico que projetasse uma máquina perfeita e depois a deixasse funcionar sozinha, sem considerar sua manutenção. Pelo contrário, a orientação de Deus fornece os conhecimentos de que o ser humano necessita para manter esse equilíbrio. Tal conhecimento não pode ser obtido de nenhuma outra fonte. O ser humano foi distinguido de todas as criaturas que vivem no mundo por seu livre-arbítrio. Foi-nos concedida a capacidade de determinar como conduzir a vida. Certamente somos afetados pelas forças da natureza e temos pouca influência sobre seu controle. Contudo, fora isso, somos capazes de escolher nossa linha de ação em praticamente todas as situações. Essa capacidade nos impõe uma responsabilidade clara: escolher aquilo que promove a vida e o progresso humanos e aquilo que preserva e desenvolve nosso meio ambiente. Responsabilidade anda de mãos dadas com prestação de contas. Prestamos contas a Deus, e essa prestação de contas ocorrerá na vida futura. Além disso, é justo que nosso registro permaneça aberto diante de Deus, porque foi Ele quem nos deu os meios e as ferramentas para cumprir a responsabilidade que nos atribuiu. Não devemos esquecer que essa responsabilidade serve aos nossos próprios interesses, pois exige que construamos uma vida humana feliz na terra e promovamos o progresso humano. A mensagem final Deus nos concedeu orientação sob a forma de uma mensagem, que nos transmitiu por meio de um Mensageiro humano que levou uma vida normal no meio de uma sociedade humana comum. Essa mensagem foi enviada para nos ajudar a cumprir nossa responsabilidade e a prestar boas contas do tempo que passamos na terra. Ao longo dos séculos, Deus enviou muitos Mensageiros com Sua orientação. Todos transmitiram a mesma mensagem básica, embora houvesse diferenças em questões de pormenor. Todas as religiões exigiam que as pessoas cressem na unicidade de Deus, oferecessem suas orações e pagassem o zakat (isto é, a caridade obrigatória). Esses são os pilares da fé divina em todas as suas formas. Eles constituem a pureza da crença e baseiam-se no reconhecimento da posição do ser humano como servo de Deus, que dirige suas orações somente a Ele e mantém a cooperação e a segurança sociais. Contudo, os Mensageiros de Deus foram inicialmente enviados aos seus próprios povos e também receberam mensagens aplicáveis apenas às suas comunidades. Quando a humanidade alcançou sua maturidade, tornou-se necessário apresentar-lhe uma mensagem de Deus que se aplicasse igualmente a toda a humanidade, em todas as gerações futuras e em todos os lugares do mundo. Essa mensagem está incorporada no Alcorão, a própria palavra de Deus, transmitida a nós por meio do Profeta que a recebeu do anjo Gabriel. Sempre que um Profeta se dirigia ao seu povo, chamando-o a crer em Deus e no Dia do Juízo, as pessoas lhe pediam provas miraculosas em apoio à sua mensagem. Os árabes de Meca também exigiram tais milagres do Profeta. Deus concedeu sinais miraculosos aos Mensageiros anteriores: o Profeta Moisés transformou seu cajado numa serpente veloz, e sua mão mudou de cor quando a colocou sobre o peito; o Profeta Jesus curou o cego e devolveu a vida a um morto; e outros Profetas receberam milagres adequados aos seus povos e ao seu nível de civilização. O Profeta Muhammad não recebeu nenhum desses milagres porque sua mensagem era aplicável a toda a humanidade, em todas as gerações. Produzir um milagre visto por um grupo limitado de pessoas, por maior que seja, num determinado tempo e lugar, não condiz com o estatuto de sua mensagem nem com sua aplicabilidade universal. O Profeta refere-se a isso quando diz: Todo Profeta recebeu sinais miraculosos que levariam as pessoas a crer. O que me foi concedido foram revelações que Deus me concedeu. Espero ser aquele que terá o maior número de seguidores no Dia do Juízo.2 As mensagens dadas aos Mensageiros anteriores assumiram formas diferentes. Escrituras foram dadas a Abraão, Moisés e Jesus, e os salmos foram dados a Davi. O Alcorão descreve tanto a Torá quanto o Evangelho como contendo “orientação e luz”.3 Contudo, essas mensagens sofreram alterações e distorções que, em alguns casos, foram na direção oposta à desejada por Deus. As pessoas frequentemente perguntam por que Deus permitiu que tal distorção penetrasse em Suas mensagens. A razão é que Deus não pretendia que essas mensagens fossem as definitivas. Ele prometeu preservar intacta e livre de qualquer distorção Sua mensagem final. Como essa mensagem final se dirige a toda a humanidade, em todas as gerações, ela tinha de assumir a forma de um livro: não poderia assumir nenhuma outra forma. Assim, temos o Alcorão, a palavra de Deus que permaneceu e permanecerá para sempre disponível a toda a humanidade em sua forma original, livre de qualquer distorção, conforme a garantia de Deus. Os eruditos demonstraram como o Alcorão foi preservado desde os primeiros dias da revelação. Hoje, o Alcorão é lido todos os dias em todo o mundo, como tem sido desde a conclusão de sua revelação, há mais de 1.400 anos. Não há absolutamente nenhuma diferença entre as cópias manuscritas produzidas muitos séculos atrás e as cópias feitas hoje em qualquer parte do mundo. Algumas pessoas perguntam como uma mensagem revelada há quatorze séculos poderia ser aplicável hoje ou daqui a mais mil anos. Há certas áreas que se aplicam a todas as pessoas em qualquer lugar do mundo, independentemente de seu nível de desenvolvimento, como a relação entre o ser humano e Deus. Nessa área, as regras são estabelecidas de maneira flexível, para que as pessoas possam ajustar seu tempo e seu empenho a fim de atender às exigências da religião sem dificuldade. A oração é um exemplo claro. Oferecemos cinco orações obrigatórias todos os dias. Contudo, o intervalo de tempo permitido para cada uma torna fácil que qualquer pessoa as ofereça sem deixar nenhuma de lado. Além disso, em casos de emergência, existem concessões que permitem às pessoas cumprir seu dever. Em outras áreas, nas quais as condições sociais passam por mudanças fundamentais, a mensagem divina estabelece princípios e valores claros que devem ser aplicados, deixando as pessoas conduzir sua vida como preferirem. Por exemplo, as condições econômicas de uma sociedade industrial desenvolvida são muito diferentes das de uma sociedade agrícola medieval. Nessa área, os princípios islâmicos proíbem a usura, a exploração e o monopólio. Eles exigem que os pobres sejam amparados e estabelecem o sistema do zakat para atender a essa exigência. Além disso, os trabalhadores e empregados devem receber seus salários quando estes vencem. O Alcorão também delineia valores claros que precisam ser mantidos. Desde que seus princípios e valores sejam aplicados, o Islã dá às pessoas pleno direito de conduzir seus assuntos como julgarem adequado. O Profeta deu aos seus Companheiros uma declaração muito clara sobre isso: “Vós conheceis melhor o vosso mundo material.” Um Mensageiro humano Deus não escolheu revelar de uma só vez Seu livro de orientação, para que as pessoas pudessem estudá-lo cuidadosamente e depois implementá-lo. Em vez disso, ofereceu-nos uma opção muito melhor, enviando-nos um Mensageiro para transmitir Sua mensagem e ensinar-nos a colocá-la em prática. O Mensageiro era um ser humano que havia nascido e sido criado da mesma maneira que todos os demais. Não se distinguia senão pelo fato de ser o destinatário da mensagem de Deus e por seus traços pessoais. Movia-se e conduzia sua vida como um ser humano comum. O fato de Deus escolher uma pessoa comum para transmitir Sua mensagem é um ponto de contestação para os incrédulos. Eles frequentemente se perguntam por que Deus escolheu um ser humano comum como Seu Mensageiro, em vez de um anjo. Isso baseia-se na ideia de que, se um anjo transmitisse a mensagem, as pessoas conheceriam sua importância e a aceitariam. Tal argumento baseia-se na maneira como as pessoas conduzem seus próprios assuntos. Quando chefes de Estado enviam mensagens aos seus homólogos, enviam o primeiro-ministro ou um ministro das Relações Exteriores, dando maior importância à mensagem por meio da identidade ou da posição de seu portador. As mensagens divinas adquirem sua importância pelo fato de virem de Deus. Uma mensagem divina é enviada para ser posta em prática pelas pessoas em sua própria vida. Se um anjo fosse enviado com ela e mostrasse às pessoas como implementá-la, elas certamente argumentariam que ela não poderia aplicar-se a elas, pois não são anjos. Quando as pessoas cometessem um pecado, diriam que não conseguem evitá-lo porque são humanas; ao passo que o Mensageiro de Deus acharia fácil evitar o pecado, pois os anjos são feitos para fazer aquilo que Deus lhes ordena. Para ser relevante, uma mensagem de Deus deve ser transmitida somente por um membro da comunidade à qual é enviada. Assim, uma mensagem destinada à humanidade só pode ser transmitida por um ser humano. Deus afirma no Alcorão: Nada impediu as pessoas de crer quando lhes chegou a orientação, exceto dizerem: “Será que Deus enviou um ser humano como Seu Mensageiro?” Dize: “Se houvesse anjos caminhando sobre a terra e nela habitando naturalmente, teríamos enviado a eles um anjo mensageiro do céu.” (17: 94-95) Os Mensageiros humanos não apenas transmitem a mensagem; também oferecem um exemplo prático de sua implementação. As pessoas sempre olharão para eles para ver como cumprir as ordens de Deus. Saberão que qualquer exemplo estabelecido pode ser imitado por elas. Nada que o Mensageiro faça estará além de suas possibilidades, porque o Mensageiro, como elas, está sujeito às limitações humanas. Por outro lado, um Mensageiro humano interage plenamente com a comunidade e compartilha seus sentimentos, preocupações, alegrias, triunfos e esperanças. Assim, as pessoas podem apreciar a graça infinita que Deus lhes concedeu ao escolher um dentre elas como Seu Mensageiro. A mensagem do Islã foi revelada ao longo de vinte e três anos, durante os quais o Profeta viveu entre seu povo, guiando cada passo e transformando seu modo de vida. Quando precisavam de instrução, ele a fornecia; quando algo lhes parecia incerto, logo esclarecia sua dúvida. Se uma tarefa parecia difícil demais, ajudava-os ou mostrava-lhes como realizá-la sem esforço. Quando as coisas contrariavam suas expectativas e eles achavam difícil fazer o que ele lhes ordenava, bastava que ele o fizesse diante deles para que corressem a seguir seu exemplo. Por exemplo, quando foi firmado o tratado de paz de Hudaybiyah, ele exigia que os muçulmanos retornassem a Medina sem completar seu culto na Caaba, em Meca. Eles tinham os olhos fixos em entrar em Meca e adorar ali, mas o tratado de paz exigia que voltassem e adiassem sua visita a Meca por um ano. O Profeta ordenou-lhes que abatessem seu sacrifício e saíssem do estado de consagração no lugar em que estavam, para poderem retornar. Estavam tão contrariados que ninguém fez o que lhes fora ordenado. Contudo, seguindo o conselho de sua esposa, o Profeta abateu seu sacrifício e começou a raspar a cabeça diante deles. Imediatamente seguiram seu exemplo. Sempre que os muçulmanos enfrentavam um problema durante aqueles anos abençoados, dirigiam-se ao Mensageiro de Deus. Se ele conhecia a resposta, informava-os; caso contrário, aguardava a orientação de Deus, que normalmente vinha sob a forma de revelações corânicas. Tomemos o exemplo de Khuwaylah bint Tha[labah, que foi ao Profeta com lágrimas nos olhos. Queixou-se de que seu marido havia pronunciado palavras ofensivas que a tornariam ilícita para ele. Esse era um hábito abominável dos árabes: quando um marido queria ofender sua esposa por algo que ela fizera, dizia-lhe que ela era como sua mãe para ele e que não mais se aproximaria sexualmente dela. Nessa situação, ela não era divorciada, mas tornava-se ilícita para o marido. Quando seu marido, que era muçulmano, pronunciou aquelas palavras, Khuwaylah foi ao Profeta para apresentar sua queixa contra ele. É útil conhecer sua história conforme ela a contou: Eu era casada com Aws ibn al-Samit, que havia envelhecido e tinha temperamento explosivo. Um dia ele entrou e eu questionei algo que havia dito. Ele ficou irritado por causa disso e disse-me: “Tu és para mim como as costas de minha mãe.” Depois saiu e sentou-se com seu povo por algum tempo. Mais tarde voltou e indicou que queria ter relações sexuais. Eu disse: “De modo algum! Por Aquele que tem a alma de Khuwaylah em Sua mão, não podes aproximar-te de mim depois de teres dito o que disseste, até que Deus e Seu Mensageiro decidam nosso caso.” Ele tentou forçar-me, mas eu o venci da maneira como uma mulher pode vencer um velho fraco. Deixei-o e fui a uma de minhas vizinhas pedir-lhe um vestido emprestado. Fui ao Profeta e sentei-me diante dele. Contei-lhe o que havia acontecido e queixei-me fortemente do mau comportamento de meu marido. O Profeta disse-me: “Khuwaylah! Teu primo é um homem idoso; portanto, sê bondosa e temente a Deus no trato com ele.” Antes que eu saísse, foram reveladas do alto revelações a meu respeito. O Profeta passou pela experiência que normalmente tinha quando recebia revelações. Então voltou a si e disse: “Khuwaylah! Deus revelou versículos do Alcorão a teu respeito e a respeito de teu marido.” Em seguida, recitou-me os versículos que começam assim: “Deus ouviu as palavras da mulher que discutia contigo acerca de seu marido e se queixava a Deus. Deus ouviu o que ambos dizíeis. Deus ouve tudo e vê tudo. Mesmo que algum de vós diga às vossas esposas: ‘Tu és para mim como as costas de minha mãe’, elas não são vossas mães; suas mães são aquelas que as deram à luz. O que dizem é iníquo e falso. Contudo, Deus perdoa e absolve. Aqueles que se separam de suas esposas dizendo: ‘És para mim tão ilícita quanto minha mãe’, e depois voltam atrás no que disseram, devem expiar libertando um escravo antes que o casal possa retomar plenamente sua relação conjugal. Isso é uma exortação para vós, e Deus está plenamente ciente de tudo o que fazeis. Porém, aquele que não tiver meios deverá jejuar em seu lugar durante dois meses consecutivos antes que o casal possa retomar plenamente sua relação conjugal; e aquele que não puder fazê-lo deverá alimentar sessenta necessitados; isso, para que possais demonstrar vossa fé em Deus e em Seu Mensageiro. Esses são os limites estabelecidos por Deus. Um sofrimento doloroso aguarda aqueles que não crerem.” (58: 1-4) O Profeta então me disse: “Diz-lhe que liberte um escravo.” Eu disse: “Mensageiro de Deus! Ele não tem meios para isso.” Ele disse: “Então que jejue dois meses consecutivos.” Eu disse: “Ele é certamente um homem idoso que não pode jejuar.” Ele disse: “Que alimente então sessenta pobres com um wasq4 de tâmaras.” Eu disse: “Mensageiro de Deus! Por Deus, ele não pode pagar isso.” O Profeta disse então: “Nós o ajudaremos com um saco de tâmaras.” Eu disse: “Mensageiro de Deus! Eu também o ajudarei com outro saco.” O Profeta disse: “Isso é bom e bondoso da tua parte. Vai e dá isso em caridade em nome dele, e cuida bem de teu primo.” Fiz como o Profeta me ordenou. (Relatado por Ahmad e Abu Dawud.)5 Esse caso ilustra o grau de envolvimento do Mensageiro de Deus na vida da comunidade muçulmana durante aqueles vinte e três anos de revelação. Trata-se do caso de uma mulher simples e de seu marido idoso e fraco, que tiveram uma discussão que levou a uma situação insustentável. A solução veio diretamente de Deus, que disse ter ouvido sua queixa. Aqueles anos de assistência prestada pelo Mensageiro de Deus à primeira comunidade muçulmana foram necessários, pois proporcionaram uma orientação prática que foi estudada pelos eruditos ao longo dos anos, tornando fácil e direta a correta implementação da orientação divina em diferentes épocas e ambientes. Também deram ao Mensageiro de Deus o tempo necessário para moldar uma sociedade coerente, unida por sua fé e pela defesa da mensagem divina, a partir de uma sociedade tribal indisciplinada, na qual incursões injustificadas eram uma prática comum. A sociedade muçulmana que o Profeta moldou durante esse período estava bem preparada para levar a mensagem de Deus à humanidade e iniciar a civilização islâmica que haveria de conduzir a humanidade por muitos séculos. 1 A abertura desta surata foi revelada muito cedo na missão do Profeta. É bem sabido que o Alcorão não está organizado em ordem cronológica. Na verdade, os primeiros versículos corânicos revelados a ele são os que se encontram no início da Surata 96. 2 Al-Bukhari, hadith n.º 7274; Muslim, hadith n.º 152. 3 O Alcorão: 5: 44, 46. 4 Um wasq é uma medida de volume estimada em cerca de 130 quilogramas de trigo. 5 Sayyid Qutb, À Sombra do Alcorão, vol. 16, The Islamic Foundation, Leicestershire, 2009, pp. 393-394.
CAPÍTULO 5
muhammad: O Mensageiro de Deus Muhammad (que a paz esteja com ele) compreendia claramente seu papel como Mensageiro de Deus. Ele sabia que isso significava que deveria transmitir a mensagem de Deus e torná-la conhecida por todos. Um de seus jovens Companheiros, [Abdullah ibn [Amr, expressou que a mensagem da Unicidade de Deus é concedida para abrir olhos que estavam cegos, ouvidos que não podiam ouvir e corações que estavam selados. A mensagem de Deus, assim, abre todas as faculdades humanas de percepção para a grande verdade do universo, que é a Unicidade de Deus. Em outras palavras, o Profeta precisava fazer as pessoas compreenderem que Deus é o Criador do universo e de tudo o que nele existe, e que apreciassem o que isso implicava para elas: que deveriam submeter-se somente a Ele e conduzir suas vidas de maneira coerente com tal submissão. Como Mensageiro de Deus, Muhammad deveria apresentar à humanidade conceitos claros sobre Deus, o ser humano e a relação entre ambos, além de explicar o que o fim da vida na Terra significará para cada pessoa. Muhammad, um homem que viveu quarenta anos entre seu povo e conquistou seu respeito por sua boa conduta e integridade, deveria dizer-lhes que fora escolhido por Deus para ser Seu Mensageiro e que lhes transmitia a mensagem de Deus. Que tipo de reação poderia esperar? Como as pessoas veriam um homem que lhes dissesse ter uma relação especial com Deus e, portanto, autoridade sobre elas? Como se sentiriam quando ele lhes ordenasse mudar seus costumes para não incorrer no desagrado de Deus? Ele de fato lhes disse que, a menos que lhe obedecessem, estariam expondo-se ao severo castigo de Deus. Dadas as implicações dessa mensagem, era de esperar que as pessoas quisessem provas de suas afirmações. O Profeta enfrentou repetidamente exigências de provas materiais para confirmar sua posição como Mensageiro de Deus. As pessoas queriam que essa prova indicasse claramente que vinha diretamente do próprio Deus. Quando lhes disse que somente Deus decide mostrar um sinal miraculoso, elas responderam à sua declaração com escárnio e acusações ofensivas. O Alcorão nos fala dessas exigências: Eles também dizem: “Que espécie de Mensageiro é este, que come alimento e anda pelos mercados? Por que não lhe foi enviado um anjo para advertir juntamente com ele? Ou por que não lhe foi concedido um tesouro? Ou por que não possui um jardim do qual possa tirar seu sustento?” Os injustos dizem: “O homem que seguis está certamente enfeitiçado.” (25: 7-8) Quando a situação em Meca se polarizou entre os que se opunham ferozmente a ele e os que aceitavam sua mensagem, os primeiros tentaram persistentemente suprimir o Islã por completo, e suas exigências de milagres tornaram-se absurdas demais para merecer uma resposta. O Alcorão menciona essas exigências: Eles dizem: “Não acreditaremos em ti até que faças brotar para nós uma fonte da terra, ou possuas um jardim de tamareiras e videiras e faças rios correrem por ele, ou faças o céu cair sobre nós em pedaços, como ameaçaste, ou tragas diante de nós Deus e os anjos face a face, ou possuas uma casa de ouro, ou subas ao céu. E não acreditaremos em tua ascensão até que nos tragas um livro que possamos ler.” Dize: “Glorificado seja meu Senhor! Sou apenas um ser humano e um Mensageiro.” (17: 90-93) Escusado será dizer que, se o Profeta tivesse recebido algo semelhante ao que aqueles árabes incrédulos exigiam, eles ainda assim teriam negado sua mensagem. Tesouros, fazendas esplêndidas e jardins pertencem a pessoas comuns, mas sua enorme riqueza não lhes confere nenhum status especial. Da mesma forma, se o Profeta produzisse algo miraculoso, como fazer fontes brotarem da terra, aqueles incrédulos ainda afirmariam que ele era um feiticeiro, assim como incrédulos anteriores haviam alegado sobre seus próprios Profetas e Mensageiros. Alguns incrédulos o acusaram de feitiçaria de qualquer modo. O ponto aqui é que não faltam provas miraculosas: ao nosso redor existem sinais miraculosos que apontam para Deus como o Criador de tudo. Esses sinais estão no nascimento de cada criança, em cada semente que faz surgir uma planta ou uma árvore, em cada flor que se abre para espalhar seu perfume e em cada criatura, pequena ou grande, qualquer que seja sua constituição. Basta refletir adequadamente sobre o que vemos ao nosso redor para perceber que, por trás de tudo, está a mão de Deus, o Criador. Se fosse necessário um milagre material para que acreditássemos, nossa fé perderia o sentido. Há pouco mérito em compreender que uma mesa foi feita por um carpinteiro, um carro por um engenheiro mecânico ou um computador por um engenheiro de hardware. Podemos ter cursos e manuais que mostrem a tecnologia envolvida na fabricação de qualquer coisa na sociedade humana; mas não podemos compreender como Deus cria a vida em qualquer de suas formas. O Profeta disse às pessoas que deveriam acreditar na Unicidade de Deus. Esse é um passo consciente que o ser humano dá e exige compromisso com o que tal crença implica. Para ajudar as pessoas a chegar à decisão de dar esse passo, Deus enviou uma mensagem que continha orientação, bem como uma prova coerente com a natureza humana e logicamente aceitável. Ainda assim, cabia a cada pessoa dar esse passo, que deveria ser dado livremente e sem qualquer pressão ou impedimento de nenhuma parte. Quando a maioria dos habitantes de Meca se opôs ao Profeta e tentou forçar seus seguidores a renunciar à fé, a resposta do Profeta foi apenas pedir-lhes que lhe permitissem defender livremente sua mensagem, falando com outras tribos. Tudo o que queria era uma plataforma para se dirigir às pessoas e liberdade de escolha para todos.
Grande Responsabilidade
O Profeta foi advertido desde o início de que sua tarefa não seria fácil. Em uma revelação corânica muito antiga, Deus lhe disse: “Nós te concederemos uma mensagem de grande peso.” (73: 5) O Profeta compreendeu que carregaria uma pesada responsabilidade. A dificuldade da tarefa não estava na transmissão da mensagem, pois ele estava bem preparado para isso, dotado de talento para uma expressão fluente, grande domínio da língua, argumentação bem fundamentada e um caráter nobre reconhecido por todos os que o conheciam. Antes, compreendeu daquela declaração que haveria forte oposição a ele e à sua mensagem. Por isso, disse à sua esposa Khadijah, quando certa noite ela lhe disse que descansasse: “Khadijah, o tempo do sono tranquilo terminou.” Ele percebeu que já não era senhor do próprio tempo; precisava dedicar-se à sua missão a cada momento do dia e da noite, e mostrou-se à altura da tarefa. Isso suscita a questão de quanto um homem pode suportar para cumprir sua tarefa como Mensageiro de Deus. Que fardo Muhammad se comprometeu a carregar quando aceitou seu papel? Nos primeiros dias, Muhammad foi visitar Waraqah ibn Nawfal, o idoso estudioso das religiões divinas, buscando segurança quanto ao que havia visto em seu primeiro encontro com Gabriel. Waraqah disse a Muhammad que enfrentaria muita hostilidade. De fato, Muhammad suportou muitos abusos pessoais. Foi insultado, ridicularizado e difamado. Também foi acusado de ser feiticeiro, louco, poeta dado a exageros e monge isolado da vida. Na realidade, a lista de acusações é quase interminável. A agressão física era uma ameaça constante, embora a proteção que seu tio lhe oferecia em todas as circunstâncias reduzisse um pouco esse perigo. Sempre que os extremistas dos coraixitas sentiam que poderiam abusar pessoalmente do Profeta sem sofrer consequências, não hesitavam em fazê-lo. Jogaram sujeira sobre ele enquanto orava perto da Caaba, e ele não pôde levantar a cabeça até que sua jovem filha chegasse para ajudá-lo. Tentaram assassiná-lo em mais de uma ocasião. Por fim, ele teve de fugir de sua cidade natal. No entanto, tudo isso era mais fácil para ele suportar do que ver seus seguidores submetidos às piores formas de tortura e agressão física.
Paciência Exemplar
O Profeta compreendeu que deveria suportar tudo isso, e muito mais, sem recorrer à retaliação por qualquer dano pessoal, nem mesmo por agressão física. Por exemplo, Anas ibn Malik relata: Eu caminhava com o Mensageiro de Deus quando ele vestia um manto de borda áspera. Um beduíno o alcançou e puxou-o com força. Olhei para o pescoço do Profeta e vi como a borda de seu manto deixara uma marca nítida em sua pele, devido à atitude rude do beduíno. Então o beduíno lhe disse: “Muhammad, ordena que me seja dada uma parte do dinheiro que Deus te concedeu.” O Profeta olhou para ele e então deu a ordem necessária para que lhe fosse entregue sua parte. (Relatado por al-Bukhari e Muslim.)
O beduíno queria algum dinheiro e pensava que o Profeta deveria dá-lo a ele. Contudo, em vez de pedir de maneira adequada e demonstrar ao Profeta o respeito a que ele tinha direito, puxou com muita rudeza o manto do Profeta. Ainda assim, o Profeta não lhe dirigiu uma única palavra de censura; em vez disso, ordenou que lhe fosse dado um presente.
Ignorar as faltas das pessoas — mesmo quando eram dirigidas pessoalmente contra ele — era uma característica constante do Profeta. Ele sentia que precisava renunciar a toda consideração pessoal em prol de sua missão. Portanto, não se envolvia em disputas pessoais e relevava qualquer ação ou comentário ofensivo dirigido a ele, fosse por muçulmanos ou não muçulmanos. Quando estava em Meca, onde algumas pessoas estavam sempre prontas com seus insultos, nunca respondia a nenhum deles. Mais tarde, em Medina, onde exercia toda a autoridade e seus seguidores estavam prontos a fazer tudo o que ele lhes ordenasse, era ainda mais indulgente e compreensivo.
Por exemplo, um judeu chamado Zayd ibn Sa[nah estava por perto quando o Profeta recebeu um pedido urgente para enviar suprimentos de auxílio a certa comunidade que vivia a alguma distância de Medina. Quando o Profeta perguntou, disseram-lhe que nada estava prontamente disponível para ser enviado. O judeu então ofereceu ao Profeta uma quantia considerável de dinheiro para obter os suprimentos, com o acordo de que esse dinheiro serviria como pagamento antecipado por uma quantidade de tâmaras a ser entregue ao judeu em determinada data. Ele queria tâmaras de uma fazenda específica, mas o Profeta concordou em aceitar a oferta somente se o judeu não insistisse naquela fazenda, e nessas condições o acordo foi feito.
O judeu relatou que, dois ou três dias antes da data combinada, o Profeta e vários de seus Companheiros participaram do funeral de um homem dos Ansar. Depois de oferecer a oração pelo falecido, o Profeta sentou-se junto a um muro
CAPÍTULO 6
provas da profecia
O Imam Ibn Hazm define a profecia como “a aquisição de um conhecimento absolutamente certo que não pode ser adquirido por meio do esforço ou da experiência humana”. Tal conhecimento só pode vir de Deus. Isso é claro no caso de vários Profetas mencionados no Alcorão. Por exemplo, ao falar do jovem Davi e do que Deus lhe daria quando o tornasse Profeta, o Alcorão diz: “Davi matou Golias, e Deus concedeu-lhe o reino e a sabedoria, e ensinou-lhe o que quis.” (2: 251) Do mesmo modo, quando José atingiu a maturidade, Deus concedeu-lhe conhecimento e sabedoria: “Quando atingiu a plena maturidade, concedemos-lhe sabedoria e conhecimento.” (12: 22) O conhecimento dado a Moisés é descrito com palavras muito semelhantes: “Quando atingiu a plena maturidade e se tornou completamente desenvolvido, concedemos-lhe sabedoria e conhecimento.” (28: 14) O Profeta é lembrado no Alcorão do conhecimento especial que Deus lhe concedeu: “Foi Deus quem te revelou este Livro e te concedeu sabedoria, e te ensinou o que não sabias. A graça de Deus para contigo é imensa.” (4: 113)
Todos os Profetas receberam conhecimento que não poderiam ter adquirido por nenhum meio disponível aos seres humanos. A marca da profecia é que tal conhecimento deve ser verdadeiro e não estar sujeito a nenhuma dúvida. Um dos exemplos mais claros pode ser encontrado nas instruções dadas à mãe de Moisés quando ela lhe deu à luz. Naquele tempo, o Faraó matava todas as crianças do sexo masculino nascidas entre os israelitas. O Alcorão afirma:
Inspiramos tua mãe, dizendo: “Coloca [teu filho] num cofre e lança-o no rio. O rio o lançará à margem, e alguém que é Meu inimigo e inimigo dele o recolherá.” (20: 38-39)
provas da profecia
O Alcorão fornece mais detalhes:
Revelamos à mãe de Moisés: “Amamenta-o e, quando receares por ele, lança-o no rio; não temas nem te aflijas. Nós o devolveremos a ti e faremos dele um dos Nossos Mensageiros.” (28: 7)
A informação recebida pela mãe de Moisés indicava-lhe os passos necessários para garantir que Moisés estaria seguro. O primeiro passo, depois de o amamentar, era expô-lo a vários perigos: sendo ainda um bebê de peito, ele deveria ser colocado num cofre de madeira e lançado ao rio Nilo, para que fosse recolhido por um inimigo. Nessa situação perigosa, ele não apenas estaria seguro, como também seria reunido à sua mãe, para que ela pudesse cuidar dele. Ninguém poderia ter-lhe dado tal informação; pelo contrário, o plano de lançá-lo ao rio teria parecido absurdo a qualquer pessoa sensata. No entanto, ela agiu de acordo com ela, e cada detalhe da informação que lhe fora dada concretizou-se.
Esse conhecimento é concedido aos Profetas por meio de revelações ou inspiração. As revelações de Muhammad eram de dois tipos: o Alcorão, que é a própria palavra de Deus, e o hadith, que é uma revelação divina quanto ao significado, expressa pelo Profeta em seu próprio estilo. Não tratarei das características distintivas de cada um; embora valha a pena observar novamente que o Alcorão foi preservado integralmente, sem qualquer diferença no texto ou no significado desde a sua revelação. Isso cumpre a promessa de Deus: “Somos Nós que fizemos descer esta Mensagem e somos Nós que a preservaremos intacta.” (15: 9)
Essa afirmação é uma das numerosas provas de que o Alcorão é a palavra de Deus. Ninguém poderia fazer tal afirmação, de maneira tão categórica, a respeito de sua própria escrita, ou mesmo de qualquer livro ou documento de qualquer espécie. Mais de catorze séculos se passaram desde que essa promessa foi feita, período durante o qual o mundo muçulmano atravessou muitas épocas de dificuldades, guerras, ocupação, caos e até atraso, mas o Alcorão permaneceu intacto durante todo esse tempo.
O Alcorão contém conhecimento que o Profeta não poderia ter adquirido por nenhum meio humano. A abertura da Surata 30, por exemplo, refere-se à derrota sofrida pelo Império Bizantino diante de sua superpotência rival, o Império Persa. Naquela época, o Profeta ainda estava em Meca e enfrentava a oposição dos descrentes, que demonstraram alegria com a vitória persa porque consideravam a sua própria idolatria mais próxima do dualismo dos persas do que da crença bizantina em um único Deus. A surata começa assim:
Os bizantinos foram derrotados nas terras próximas; porém, apesar dessa derrota, vencerão dentro de alguns anos. A decisão pertence a Deus, antes e depois. E, nesse dia, os crentes se alegrarão com o auxílio de Deus. Ele auxilia quem quer. Ele é o Poderoso, o Misericordioso. (30: 2-5)
Um muçulmano não considera esse relato de um acontecimento futuro uma profecia, mas uma informação verdadeira concedida por Deus. Com efeito, os acontecimentos posteriores ocorreram exatamente como o Alcorão predissera: em menos de dez anos, os bizantinos alcançaram uma vitória notável sobre os persas e recuperaram as terras que lhes haviam sido tomadas. No mesmo dia, os muçulmanos alcançaram sua grande vitória na Batalha de Badr, que foi seu primeiro confronto militar com os descrentes. Quando essa surata foi revelada, o número de muçulmanos talvez não ultrapassasse trezentos, e nenhum deles poderia imaginar que participariam de uma batalha contra alguém. Compreenderemos melhor isso se lembrarmos que a palavra árabe nasr, traduzida como “auxílio”, também significa “vitória”, especialmente uma vitória militar.
Outro exemplo pode ser visto nos acontecimentos que levaram à assinatura do acordo de paz de Hudaybiyah entre os muçulmanos e os coraixitas, no final do ano 6 da Hégira (628 d.C.). Como explicado no Capítulo 2, o Profeta viajou com 1.400 de seus Companheiros para visitar a Caaba em Meca e prestar culto ali. Os coraixitas impediram-lhes o acesso. Por fim, foi assinado um acordo entre os dois lados, exigindo que os muçulmanos regressassem. Aos muçulmanos seria permitida uma visita de três dias a Meca no ano seguinte, desde que não portassem armas além de suas espadas individuais.
Quando o Profeta e seus Companheiros iniciaram a viagem de retorno, Deus revelou a Surata 48, que comenta esses acontecimentos. Ela inclui um versículo que fala do que aconteceria um ano depois:
Com toda a certeza, entrareis na Mesquita Sagrada, se Deus quiser, em plena segurança, com as cabeças raspadas ou os cabelos cortados, sem temor. Deus sabia o que vós não sabíeis e, além disso, concedeu-vos uma vitória próxima. (48: 27)
O versículo tranquilizou os muçulmanos de que sua visita a Meca ocorreria e de que estariam seguros ali e poderiam completar os rituais de culto — algo indicado pelas palavras “com as cabeças raspadas ou os cabelos cortados”. Ninguém além de Deus poderia fazer tal afirmação: como poderia o Profeta, ou qualquer outra pessoa, falar de uma visita “em plena segurança”? Como alguém poderia ter certeza da atitude dos coraixitas quando os muçulmanos não teriam outras armas além de suas espadas? No entanto, foi exatamente isso que aconteceu.
O versículo também promete “uma vitória próxima” em uma situação diferente daquela visita. Tratava-se da vitória que os muçulmanos alcançaram na Batalha de Khaybar, ocorrida cerca de três meses depois. Quando esse versículo foi revelado, ninguém entre os muçulmanos, nem mesmo o Profeta, tinha conhecimento de qualquer conflito militar que ocorreria num futuro próximo. O Alcorão fez essa promessa, que se cumpriu exatamente como declarada.
Limitações humanas
O Profeta sempre enfatizou sua condição humana e o fato de estar sujeito às mesmas limitações que todas as pessoas. Num hadith altamente autêntico, ele advertiu seus Companheiros:
Sou apenas um ser humano, e vós me apresentais vossas disputas. Talvez uma das partes apresente um argumento mais convincente, e eu pense que ela está dizendo a verdade. Então posso julgar em seu favor de acordo com o que tenho diante de mim. Se eu der a alguém algo que pertence legitimamente a seu irmão, estarei apenas dando-lhe um pedaço de fogo. Que o tome ou o deixe. (Relatado por Malik e também nas seis coleções autênticas.)
Ele também enfatiza que não possui conhecimento do que está além do alcance da percepção humana, exceto aquilo que Deus lhe concede: “Dize: ‘Não vos digo que possuo os tesouros de Deus, nem conheço o que está além do alcance da percepção humana’” (6: 50), e: “Se eu possuísse conhecimento do que está além do alcance da percepção humana, teria obtido muito bem e nenhum mal jamais me teria atingido.” (7: 188)
O fato de o Alcorão fornecer informações sobre acontecimentos futuros, ao mesmo tempo que enfatiza as limitações humanas do Profeta que recebeu o Alcorão do alto, constitui uma prova irrefutável de que o Alcorão foi revelado por Deus, que é o único que conhece tudo no passado, no presente e no futuro.
Às vezes, o Profeta dava às pessoas informações que não poderia ter obtido por nenhum meio além da revelação divina. Normalmente, eram assuntos dos quais elas próprias haviam participado, e cada pessoa envolvida percebia que o Profeta não poderia ter obtido suas informações de uma fonte humana.
Por exemplo, [Umayr ibn Wahb e Safwan ibn Umayyah sentaram-se certa noite na área semicircular junto à Caaba, em Meca, e falaram tristemente sobre a perda que os coraixitas haviam sofrido nas mãos dos muçulmanos na Batalha de Badr. Estavam completamente sozinhos. Concordaram que [Umayr, um combatente muito corajoso, viajaria a Medina para tentar matar Muhammad. Safwan prometeu pagar as dívidas de [Umayr e cuidar de sua família como se fosse a sua própria, caso algo acontecesse a [Umayr.
Assim, [Umayr foi a Medina, e o Profeta instruiu seus Companheiros a permitirem sua entrada. O Profeta perguntou-lhe por que viera a Medina, e ele respondeu que queria apenas conseguir a libertação de seu filho, feito prisioneiro na Batalha de Badr. O Profeta insistiu para que lhe dissesse a verdade, mas ele continuou afirmando que esse era seu objetivo. Então o Profeta relatou-lhe sua conversa com Safwan, palavra por palavra, incluindo as promessas que cada um fizera ao outro.
Devemos lembrar que isso ocorreu catorze séculos atrás, numa época em que não existiam os rápidos meios de comunicação que temos hoje. A única maneira de as notícias viajarem era pela palavra
CAPÍTULO 7
Muhammad: servo de Deus
Para ser muçulmana, uma pessoa deve primeiro fazer a seguinte declaração: “Presto testemunho de que não há divindade além de Deus e presto testemunho de que Muhammad é o Mensageiro de Deus.” A palavra islã significa “submissão ou entrega de si mesmo”, e muçulmano é aquele que se submete a Deus. Quando feita conscientemente, essa declaração indica submissão a Deus e compromisso de obedecer a Deus em todas as situações. Essa obediência é alcançada seguindo e aplicando os ensinamentos do Profeta, pois ele foi quem nos transmitiu a mensagem de Deus. Uma variante popular da declaração acima, particularmente na oração, modifica a segunda parte da frase para dizer: “Presto testemunho de que Muhammad é servo e Mensageiro de Deus.” É importante considerar o significado desse acréscimo, lembrando que todas as criaturas, humanas e não humanas, são servas de Deus.
O termo árabe para servo é abd, que também significa “escravo” ou “adorador”. Por isso, abd é frequentemente usado como parte do nome de uma pessoa, seguido por um dos nomes ou atributos de Deus. Assim, temos nomes como Abd al-Hadi, Abd al-Rahman ou Abd al-Ghafur: eles significam, respectivamente, “Servo d’Aquele que guia”, “o Senhor da Graça” e “o Perdoador”. Algumas pessoas usam a palavra “escravo” para abd. No entanto, isso está incorreto, porque as conotações da escravidão são inteiramente diferentes das do vínculo entre Deus e o ser humano. Esse vínculo é estabelecido pela submissão a Deus e pelo compromisso de cumprir Sua vontade em todos os aspectos.
Deus, porém, não impõe a ninguém algo que seja difícil demais para essa pessoa. Pelo contrário, Ele é compassivo para com as pessoas, sempre pronto a perdoar-lhes os pecados e a relevar seus deslizes. Ele lhes oferece orientação para que escolham o caminho que lhes traga felicidade nesta vida e na vida futura. Assim, a relação entre o ser humano e Deus é uma relação de cuidado e amor mútuo.
O ser humano escolhe submeter-se a Deus, compreendendo que, por meio dessa submissão, entra em harmonia com o universo ao seu redor, pois o universo, juntamente com todas as criaturas que nele vivem, submete-se a Deus. Somente ao ser humano foi concedida a liberdade de escolha, permitindo-lhe desobedecer a Deus e agir contra as leis da natureza que Deus pôs em funcionamento. Portanto, quando o ser humano se submete a Deus, faz um esforço genuíno, declarando que, por livre vontade, escolhe seguir a orientação de Deus. Deus então responde concedendo Sua misericórdia e dando a Seus adoradores uma rica recompensa: admiti-los-á no paraíso na vida futura. No paraíso, cada pessoa terá uma vida de felicidade ininterrupta.
Essa relação especial entre o ser humano e Deus dá à pessoa um sentimento de orgulho por sua posição. Ela já não estará disposta a submeter-se a qualquer autoridade que lhe exija desobedecer a Deus. Em vez disso, desejará aplicar as leis de Deus e seguir Sua orientação, sabendo que isso produzirá harmonia entre ela e o mundo ao seu redor. Ela entende que afastar-se da mensagem de Deus a coloca em conflito com o mundo ao seu redor e com sua natureza humana. Tal conflito traz miséria ao ser humano neste mundo e o coloca na posição errada na vida futura.
Entretanto, o orgulho de ter tal relação com Deus não leva os crentes à vaidade; ao contrário, produz modéstia em seu trato com todas as pessoas. Como Deus favoreceu o ser humano com Sua orientação, o bom crente é grato a Deus, e essa gratidão se expressa por meio de uma modéstia constante. Somente quando a autoridade de Deus é desafiada é que o crente se levanta para afirmar o orgulho de sua fé. Em tal situação, o crente se alegra em submeter-se somente a Deus e não cederá a ninguém senão a Deus.
Para ser servo de Deus, é necessário resistir à tentação. As pessoas são frequentemente expostas à tentação, material ou de outra natureza. Quando alguém espera obter algo muito atraente para a natureza humana, resistir à tentação pode ser extremamente difícil, sobretudo quando não há consequências negativas iminentes. Em muitas sociedades, algumas coisas proibidas pela religião são permitidas pela lei do país, e as pessoas podem ser tentadas a violar a proibição religiosa. Quando se acrescenta a ausência de uma consequência imediata, essa tentação pode tornar-se ainda mais forte. Somente o sentimento de orgulho por ser servo de Deus pode ajudar a pessoa a vencer a tentação e a seguir um caminho claro, que preserve a obediência à lei divina. Devemos lembrar que a lei divina exige apenas aquilo que é bom para o ser humano e que garante nossa felicidade tanto nesta vida quanto na próxima.
Quando as pessoas se consideram servas de Deus e se submetem a Ele, devem ter consciência de que ninguém adquire uma posição especial. A única posição é aquela que Deus concede como ato de graça, como foi concedida aos Profetas e Mensageiros de Deus. Fora esses, ninguém obtém uma posição que o distinga do restante da humanidade. Uma pessoa pode ser muito devota e Deus pode estar satisfeito com ela, mas ela não saberá disso até o Dia do Juízo. Embora Deus possa conceder-lhe Sua graça nesta vida, facilitando o que parece difícil, aplainando seu caminho ou dando-lhe força para superar suas fraquezas, os servos de Deus sentirão Sua mão em tudo isso, mas não presumirão que o conquistaram ou que lhes seja devido por direito; antes, sempre compreenderão que lhes foi concedido como ato da graça de Deus. Por isso, serão mais devotos, e sua submissão a Deus se tornará mais clara e completa.
Tudo isso se aplicava ao Profeta, pois ele era “servo e Mensageiro de Deus”. Como servo de Deus, submetia-se pronta e completamente a Deus, aceitando Sua vontade, qualquer que fosse o que ela lhe trouxesse. Assim, não aspirava a nenhuma posição específica. Antes de seu primeiro encontro com o anjo Gabriel, não tinha ideia da relação correta entre o ser humano e Deus, pois nada restara da herança dos Profetas Abraão e Ismael além de uma vaga crença em Deus e alguns rituais distorcidos. Portanto, não poderia ter nenhuma noção de qual caminho seguir.
Alguns árabes, particularmente em Medina, que mantinham contato com cristãos ou judeus, eram informados de que as escrituras de ambas as religiões anunciavam o Mensageiro final, que levaria a fé divina à sua plenitude. Os árabes de Meca, porém, não tinham essa informação. Quando mais tarde lhes disseram que Muhammad era um Profeta, alguns perguntaram: “O que é um Profeta?” Deus afirma no Alcorão: “Tu jamais poderias esperar que este Livro te fosse confiado. Mas ele veio pela graça de teu Senhor.” (28:86)
O Profeta reconheceu a graça excepcional que Deus lhe havia concedido e dedicou-se à tarefa que lhe fora atribuída. Durante os vinte e três anos de sua missão, nunca perdeu de vista sua posição primordial como servo de Deus. Mostrou, por seu exemplo, que ser servo de Deus era uma posição honrosa para todo ser humano. Quando as circunstâncias eram difíceis e exigiam enorme sacrifício, dizia: “Sou servo de Deus e jamais Lhe desobedecerei.”
O reconhecimento, pelo Profeta, de sua posição como servo de Deus deu-lhe paz e tranquilidade, mesmo nas situações mais críticas e perigosas. Isso foi possível porque ele compreendia plenamente a promessa que Deus fez a todos os crentes: “Para todo aquele que teme a Deus, Ele proporcionará uma saída e lhe concederá sustento de onde não imagina. Deus será suficiente para quem n’Ele confia. Deus sempre alcança Seu propósito. Deus estabeleceu uma medida para cada coisa.” (65:2-3)
O Profeta temia a Deus e depositava n’Ele plena confiança; por isso, não temia ninguém nem receava situação alguma. Pelo contrário, quando as coisas estavam mais difíceis, permanecia muito calmo, confiando que tudo o que acontecesse seria bom, porque era a escolha de Deus. Um exemplo disso pode ser visto no momento em que teve de fugir de Meca, quando o plano para assassiná-lo estava em pleno andamento. Viajou na direção oposta àquela para a qual se dirigia, a fim de confundir seus perseguidores. Depois, ele e seu único Companheiro, Abu Bakr, refugiaram-se numa caverna. Os perseguidores passaram do lado de fora, e Abu Bakr disse-lhe: “Bastaria que um deles olhasse para onde pisa para nos ver.” Contudo, sua confiança em Deus nunca falhou. Ele respondeu: “Abu Bakr, o que pensas de duas pessoas quando Deus está com elas?” (Relatado por al-Bukhari.)
Os perseguidores poderiam facilmente tê-los visto e, se isso acontecesse, haveria apenas um resultado, pois no dia anterior os coraixitas haviam concordado unanimemente em matá-lo e oferecido uma enorme recompensa por sua cabeça. Naquele momento extremamente crítico, o Profeta apenas reconheceu que Deus estava com ele e não demonstrou sequer um tremor de ansiedade. Fez tudo o que pôde para escapar deles e depositou sua confiança em Deus.
Confiança total em Deus
O Profeta esforçou-se muito para incutir em seus seguidores essa confiança completa em Deus. Acreditava que, como servos de Deus, os muçulmanos deveriam depositar toda a sua confiança em Deus, independentemente do que lhes acontecesse. Khabbab ibn al-Aratt era um muçulmano cuja condição humilde em Meca o colocava numa posição extremamente vulnerável. Ele sofreu torturas imensas. Relata:
“Queixamo-nos ao Mensageiro de Deus enquanto ele estava reclinado sobre uma esteira, perto da Caaba. Dissemos: ‘Não pedirás a Deus que nos ajude? Não pedirás por nós?’ Ele disse: ‘Nos tempos anteriores aos vossos, um crente podia ser levado, cavava-se um buraco no chão e ele era colocado nele. Uma serra era posta sobre sua cabeça e ele era então cortado ao meio. Ou era torturado com pentes de ferro que lhe rasgavam a carne e deixavam seus ossos expostos. Nada disso o faria abandonar sua fé. Por Deus, Ele levará esta nossa causa à vitória completa, de modo que um viajante poderá ir de Sanaá a Hadramaut sem temer ninguém além de Deus, e que um lobo poderá matar suas ovelhas. Estais apenas querendo apressar as coisas.’” (Relatado por al-Bukhari, Ahmad, Abu Dawud, al-Nasa’i e outros.)
Sabemos, pela grande quantidade de relatos sobre o Profeta e seu caráter, que ele se compadecia de cada um de seus Companheiros. Sempre que enfrentavam uma dificuldade, compartilhava seus sentimentos. Quando sofriam perseguição, sua dor não era menor que a deles. Esse hadith, contudo, nos diz que alguns daqueles que mais sofreram nas mãos dos coraixitas, que recorreram a todos os métodos de tortura, queixaram-se ao Profeta do que tinham de suportar e pediram-lhe que orasse por eles. Ele atendeu ao pedido com muita calma e disse-lhes que não havia nada de incomum no que suportavam. As forças do mal sempre tentarão silenciar a voz da verdade. Ele queria que depositassem sua confiança em Deus e tivessem a certeza de que o islã triunfaria.
Erramos, porém, se pensamos que, ao depositar nossa confiança em Deus, seremos poupados de toda adversidade, física ou de outra natureza. O Profeta sugeriu que Khabbab e aqueles que se queixavam suportassem a tortura e a perseguição enquanto confiavam em Deus. Confirmou que, embora o resultado final fosse o triunfo da verdade da fé divina, suportar as dificuldades e perseverar na adversidade eram sempre necessários.
Pouco antes da primeira grande batalha entre os muçulmanos e os árabes idólatras dos coraixitas, em Badr, o Profeta orou intensamente a Deus, pedindo-Lhe a vitória. Em sua oração, disse: “Meu Senhor, se permitires que este grupo de crentes pereça hoje, não restará ninguém para Te adorar.”1 Para ele, uma derrota que exterminasse os crentes era uma possibilidade que esperava evitar. Por isso, suplicava ardentemente a Deus que cumprisse Sua promessa de vitória.
Ele desconhecia inteiramente o desígnio de Deus. Nunca afirmou saber algo além das verdades que Deus decidisse revelar-lhe em determinado momento. Quando cavavam o fosso seco para defender Medina contra os exércitos atacantes, ele ajudou a quebrar uma rocha dura. Disse aos Companheiros que podia ver os palácios da Síria e da Pérsia e os portões de Sanaá sempre que saíam faíscas ao bater na rocha; não sabia, porém, quando nem como esses países ingressariam no domínio do islã. Contou aos Companheiros tudo o que sabia. Como aconteceu, todas essas regiões se tornaram partes do Estado muçulmano dentro de duas décadas, e muitos dos que ouviram suas palavras naquele momento participaram do cumprimento daquela profecia.
As exigências da submissão a Deus e da confiança n’Ele não significam que o muçulmano deixe tudo a cargo de Deus. Pelo contrário, confiar em Deus exige que o muçulmano tome todas as medidas possíveis para enfrentar qualquer situação. Depois de fazer isso, o servo de Deus confia em Deus para produzir o melhor resultado. Isso ficou claro no comportamento do Profeta durante toda a sua vida, e esse é um exemplo que devemos seguir.
O adorador mais devoto
Entrelaçado com a confiança em Deus e a entrega a Ele está o aspecto da adoração, que é uma conotação igualmente importante do termo abd, que significa “servo de Deus”. Talvez a humanidade não tenha visto, nem venha a ver, uma pessoa mais devotada à adoração do que Muhammad (que a paz esteja com ele). Basta conhecer seu comportamento e seus ensinamentos para perceber isso. Na verdade, para ele, a adoração era como o ar que respirava. Aqui só posso oferecer um vislumbre de sua adoração, embora sustente que um estudo adequado sempre confirmará essa afirmação.
A adoração islâmica tem diferentes aspectos e formas: a oração é física e verbal; o zakat é financeiro; o jejum é um ato de adoração por meio da abstinência; e a peregrinação reúne os quatro aspectos. Desses, a oração é a forma mais importante de adoração islâmica. O Profeta disse: “Uma religião que não inclui a oração é inútil.” O termo árabe para oração é salah, derivado de uma raiz que significa “contato, ligação ou vínculo”. De fato, a oração islâmica proporciona tudo isso e estabelece um vínculo entre o crente e Deus.
A fim de dar a Muhammad a força necessária para cumprir seu papel como Seu Mensageiro, Deus ordenou-lhe, no início de sua missão, que passasse grande parte da noite, todas as noites, em adoração: “Permanece em oração durante a noite, salvo uma pequena parte dela: a metade, ou um pouco menos, ou acrescenta-lhe algo. Recita o Alcorão com calma e clareza. Nós te concederemos uma mensagem de grande peso.” (73:2-5)
Durante um ano inteiro, o Profeta e as poucas pessoas que responderam ao seu chamado e acreditaram no islã realizaram a adoração noturna, orando e recitando o Alcorão. Os estudiosos afirmam que a posição mais próxima de Deus que qualquer pessoa pode alcançar é permanecer em oração, recitando o Alcorão, que é a própria palavra de Deus, e refletindo sobre seu significado. Mais tarde, essa exigência foi amenizada. A adoração noturna continuou sendo uma parte importante da formação do caráter do muçulmano, mas tornou-se voluntária; pode-se dedicar apenas alguns minutos a essa adoração ou escolher fazê-la por mais tempo. A importância dessa prática está na compreensão que ela proporciona da relação entre o ser humano e Deus.
Uma parte importante da adoração islâmica é glorificar a Deus, louvando-O e expressando nossa gratidão por todas as bênçãos que Ele nos concede. Isso também contribui para nossa compreensão correta de nossa posição no universo e nos dá o conceito correto de Deus. Essa compreensão deriva do que o Profeta nos ensinou por palavras e exemplo:
Pouco antes do islã, havia pessoas que não tinham nenhuma ideia de Deus, mas Muhammad deu-lhes luz interior e conduziu-as a um conhecimento claro de seu Senhor. Havia outras que tinham ideias erradas sobre Deus, imaginando que Ele tivesse um filho ou parceiros que atuassem como intermediários, mas Muhammad apresentou à humanidade a ideia mais clara da absoluta Unicidade de Deus, mostrando que Deus não tem filho, filha, parceiro, equivalente ou semelhante de espécie alguma: “Acaso escolheram protetores além d’Ele? Deus é o único Protetor de todos; Ele é Quem dá vida aos mortos e tem poder sobre todas as coisas. Qualquer que seja o assunto de vossas divergências, a decisão final pertence a Deus. Tal é Deus, meu Senhor. N’Ele depositei minha confiança e a Ele sempre retorno. Ele é o Originador dos céus e da terra. Criou para vós cônjuges dentre vós mesmos, assim como criou cônjuges para os animais, para que vos multipliqueis. Nada é minimamente comparável a Ele. Somente Ele ouve tudo e vê tudo. A Ele pertencem as chaves dos céus e da terra. Ele concede abundante sustento, ou o concede em medida escassa, a quem quer. Ele tem pleno conhecimento de todas as coisas.” (42:9-12)
O conhecimento que Muhammad tinha de Deus é perfeito, sem igual entre todos os que já viveram ou viverão, pois se baseia numa visão que jamais poderia desaparecer. O muçulmano que segue o exemplo do Profeta percebe que seu conhecimento de Deus possui características especiais, claramente refletidas em seu discurso. É claro, verdadeiro, caloroso, penetrante, livre de ambiguidade e de afetação. O discurso humano precisa ter certo grau de calor para alcançar o efeito desejado. Quando Muhammad fala de Deus, seja com esperança ou temor, as próprias palavras têm forte impulso, emoção fluida e grande calor. Quer leiamos suas palavras, quer as escutemos, nosso coração será devidamente tocado e sentiremos a grandeza de Deus, o Senhor de todos os mundos.2
Imaginemos o que a Terra contém ao longo de uma linha reta que parte de um ponto de sua superfície até reaparecer na extremidade oposta. Deve haver uma infinidade de coisas sobre as quais ainda nada sabemos. Deus nos lembra: “A vós, humanidade, foi concedido apenas um pouco do conhecimento.” (17:85) Deus nos oferece uma imagem de Seu conhecimento para que reflitamos: 2 Muhammad al-Ghazali, Fann al-Dhikr wa’l-Du’a ‘Inda Khatam al-Anbiya’ (A arte da glorificação e da súplica de Deus pelo último Profeta), Cairo, 1998, pp. 10-11.
“Ele é o Senhor da Graça, estabelecido no trono de Sua onipotência. A Ele pertence tudo o que há nos céus e na terra, tudo o que existe entre ambos e tudo o que está sob o solo. Se disseres algo em voz alta, sabe que Ele conhece tudo o que é secreto e também aquilo que é ainda mais oculto. Ele é Deus; não há divindade além d’Ele. A Ele pertencem somente todos os atributos de perfeição.” (20:5-8)
Um segredo conhecido por uma única pessoa, que o guarda cuidadosamente, pode ser considerado desconhecido pelos demais. Deus nos diz que conhece todo segredo desse tipo e até aquilo que é mais oculto. Até a menor partícula nas profundezas da terra é plenamente conhecida por Deus Todo-Poderoso. Talvez esse seja o limite a que nossa imaginação possa chegar, mas neste universo existem mundos dos quais nada sabemos. Contudo, tudo nesses mundos e além deles é conhecido por Deus. Nada está oculto a Ele.
Tendo essa visão de Deus, o Profeta dirigia-se a Deus em sua oração com palavras que faríamos bem em memorizar e repetir com frequência. Segundo a descrição de Ali da oração do Profeta, quando ele se inclinava, dizia: “Meu Senhor, inclino-me diante de Ti, creio em Ti e submeto-me a Ti. Minha audição, minha visão, meu cérebro, meus ossos e meus nervos inclinam-se todos diante de Ti.” Quando levantava a cabeça, dizia: “Que Deus ouça quem O louva. Meu Senhor, o louvor Te é devido tanto quanto encheriam os céus, a terra, tudo o que há entre ambos e tudo o que quiseres além disso.” Então, quando se prostrava em sujud, dizia: “Meu Senhor, diante de Ti me prostro; em Ti creio e a Ti me submeto. Meu rosto está prostrado diante d’Aquele que o criou, o formou e lhe deu audição e visão. Toda a glória pertence a Deus, o melhor dos criadores.”3
Esse discurso dirigido a Deus encerra o significado da divindade perfeita e da submissão perfeita a Ele. Nas narrativas corânicas, na legislação, nas imagens do universo e na descrição da ressurreição no Dia do Juízo, lemos centenas de referências aos nobres atributos de Deus. O Alcorão não aceita que os louvores a Deus sejam apresentados de modo teórico, deixando o coração intocado ou sem influência sobre o comportamento humano. O Profeta, o mais devoto adorador de Deus, traduziu essa abordagem em prática em todos os aspectos de sua vida. Assim, tornou-se um homem de Deus, com o coração e a mente voltados para Deus, aproximando-se de tudo na vida em nome de Deus, como se estivesse vendo Deus e ouvindo-O.
A pessoa satisfeita com Deus não se submete a sentimentos de medo ou desejo; aquela que extrai força de Deus não se preocupa com a superioridade numérica do inimigo; aquela que observa Deus antes de tomar qualquer atitude adota a mesma conduta em público e em privado; e aqueles que buscam o sucesso na vida futura não se desviam de seu caminho por causa dos objetivos desta vida presente. O coração de Muhammad estava sempre vivo com a consciência de seu Senhor. Tinha um profundo senso da grandeza de Deus, e essa era a base sólida de suas relações com as outras pessoas e com o Criador.
Ouçamo-lo enquanto dirigia esta súplica a Deus: “Meu Senhor, invoco-Te pelo fato de que conheces tudo o que está além da percepção humana e por Tua onipotência, para que me mantenhas vivo enquanto souberes que a vida é melhor para mim e me faças morrer quando souberes que a morte é melhor para mim. Meu Senhor, peço-Te que me tornes temente a Deus em todas as situações. Ajuda-me a dizer a verdade quando estou satisfeito ou irado. Concede-me moderação na pobreza e na prosperidade. Peço-Te que me concedas alegria e conforto intermináveis e satisfação incessante. Concede-me contentamento com tudo o que me deres e ressurreição após a morte. Peço-Te que me concedas a felicidade de contemplar Teu rosto e o desejo de encontrar-Te numa vida livre de sofrimento doloroso e de conflitos perturbadores. Concede-nos, nosso Senhor, o esplendor gerado pela fé e faze de nós guias que seguem o caminho reto.”4
Quando estudamos a vida do Profeta, encontramos-no glorificando a Deus e louvando-O a cada momento. Ele acordava antes do amanhecer, deixando o leito quando a cortina escura da noite ainda cobria tudo. Então dizia: “Louvado seja Deus, que me devolveu o espírito, me deu força física e me permitiu glorificá-Lo.” Consideremos como ele acolhia a vida, cheio de otimismo: “Louvado seja Deus, que me devolveu o espírito.” A vida é um dom de Deus, e somos capazes de fazer muitas coisas boas durante um dia. O Profeta expressava sua gratidão pelo bem-estar. Podemos refletir longamente sobre a última parte dessa súplica, que menciona a permissão de Deus para glorificá-Lo. Essa é uma expressão de devoção completa que as palavras dificilmente podem descrever: 4 Muhammad al-Ghazali, ibid., p. 12.
Muhammad, servo de Deus sempre agradecido, começa seus louvores usando palavras que transmitem certeza da fé e amor puro em cada letra e som. Ele dizia estas palavras de manhã e à noite: “Meu Senhor, peço-Te que me concedas boa saúde nesta vida e na vida futura, que me perdoes e me concedas pureza na fé, na vida, na família e nos bens. Meu Senhor, cobre minhas falhas e dá-me segurança nos momentos de medo. Protege-me do que está diante de mim, atrás de mim, à minha direita, à minha esquerda e acima de mim. Invoco Tua grandeza para que me protejas de qualquer perigo que esteja abaixo de mim.”
O Profeta exortava todo muçulmano a dizer, ao começar ou terminar o dia: “Meu Senhor, conheces tudo o que está além da percepção humana e tudo o que é testemunhado por qualquer pessoa; és o Originador dos céus e da terra; és o Senhor e o Dono de tudo. Presto testemunho de que não há divindade além de Ti. Busco refúgio em Ti contra o mal que há em mim e contra as maquinações de Satanás.”5 Isso é apenas um vislumbre da frequência com que o Profeta glorificava a Deus e O louvava a cada dia de sua vida. Sua consciência da presença de Deus nunca o abandonava por um instante, e ele O louvava a cada momento decisivo e antes de cada ação. Por isso, o Profeta é o modelo perfeito para todos os crentes.
Alguns de nós podem perguntar se é necessário repetir todas essas súplicas o tempo todo. Os estudiosos esclarecem corretamente que, embora todas sejam recomendadas, nenhuma é obrigatória. Contudo, o falecido xeique Muhammad al-Ghazali diz a esse respeito: “Sinto que é necessário refletir longamente sobre essas glorificações e súplicas apaixonadas quando o coração enfraquece e a relação com Deus se debilita. Elas são altamente eficazes para nos dar o conceito correto de Deus e nos tornar conscientes da importância de Seus grandes atributos. A fé torna-se ineficaz quando não se baseia numa visão esclarecida. Quando a convicção é apenas marginal, não consegue controlar o comportamento nem conter o desejo desenfreado. De fato, os Companheiros do Profeta conseguiram alcançar o ápice da fé e mudar o curso da história, substituindo constituições e padrões morais por outros infinitamente melhores, somente porque estavam próximos do Profeta, observando sua vida e guiados por sua luz. Assim, permitiram que sua sinceridade exemplar e seu amor por Deus enchessem seus corações, como haviam preenchido o coração dele. Essa é a natureza humana. A meu ver, ouvir o Profeta dirigir sua súplica e sentir sua emoção enquanto apelava a Deus certamente iluminará nosso coração e nossa mente, motivando-nos a nos aproximar de Deus.”6
Da mesma forma, quando consideramos como o Profeta glorificava a Deus a cada momento decisivo e O louvava por tudo o que acontecia, é natural preocupar-nos que, por mais que nos esforcemos, ficaremos aquém do que é exigido. As pessoas que pensam assim podem então exigir demais de si mesmas. O Profeta, porém, fazia questão de mostrar que não desprezava os confortos e os luxos. Queria que as pessoas desfrutassem da vida, lembrando-se também de sua relação com Deus.
Aisha relata que, quando o Profeta ordenava às pessoas que fizessem algo, especificava apenas ações que estavam ao alcance delas. Quando disseram ao Profeta: “Somos diferentes de ti, Mensageiro de Deus. Como poderíamos ser como tu, se Deus já perdoou todos os teus pecados, passados e futuros?”, ele ficou irado, e a ira era visível em seu rosto. Disse-lhes: “Sou o mais temente a Deus entre vós e o que melhor sabe o que Deus deseja.” (Relatado por al-Bukhari.)
Abdullah ibn Amr era um jovem Companheiro devoto do Profeta. Relata que o Profeta o encontrou e disse: “Abdullah, fui informado de que jejuas todos os dias e passas longas horas em adoração noturna.” Abdullah confirmou que fazia isso. O Profeta disse: “Não faças isso. Jejua em alguns dias e não jejues em outros. Dedica algum tempo à adoração noturna em certas noites e dorme bem. Teu corpo tem um direito sobre ti; teus olhos têm um direito sobre ti; tua esposa tem um direito sobre ti; e teu visitante tem um direito sobre ti.” (Relatado por al-Bukhari e Muslim.)
Seguir integralmente a orientação do Profeta nos permitirá trilhar um caminho intermediário, no qual cumpriremos e buscaremos aquilo que é obrigatório, acrescentaremos algo do que é voluntário, cuidaremos de nosso trabalho e atenderemos às necessidades de nossas famílias.
6 Muhammad al-Ghazali, ibid., p. 19.
CAPÍTULO 8
um homem para transmitir a mensagem de Deus O Profeta foi repetidamente instruído, no Alcorão, a enfatizar sua condição humana. Um versículo diz: Dize: “Sou apenas um ser humano como vós. Foi-me revelado que o vosso Deus é um Deus único. Portanto, segui o caminho reto até Ele e implorai o Seu perdão. Ai daqueles que Lhe associam parceiros.” (41: 6) Aqui, como em outras passagens do Alcorão, são enfatizados dois pontos: primeiro, que Maomé (que a paz esteja com ele) é um ser humano comum, como todos os demais; segundo, que recebe revelações do alto sobre o tipo de religião que as pessoas fariam bem em adotar. Na verdade, o Profeta recebeu revelações durante um período de vinte e três anos. Quando essas revelações foram concluídas, a religião do Islã estava completa. Deus declara na última revelação corânica: “Hoje, aperfeiçoei para vós a vossa religião, completei sobre vós a Minha graça e escolhi para vós o Islã como religião.” (5: 3) O Profeta não tinha controle sobre o momento de nenhuma revelação do Alcorão nem sobre o seu conteúdo, pois Deus determinava quando e o que revelar ao Seu Mensageiro. O fato de o Alcorão ter sido revelado durante um período tão longo serviu a vários propósitos; um deles era que certas regras só fossem reveladas quando a comunidade muçulmana sentisse necessidade delas. Por exemplo, os versículos iniciais da surata 24 (“A Luz”) especificam a punição do adultério. Eles incluem uma punição por fazer uma acusação de adultério sem apresentar as provas necessárias para comprová-la: “Quanto aos que acusam de adultério as mulheres castas e não apresentam quatro testemunhas, açoitai-os com oitenta chibatadas e jamais aceiteis o seu testemunho, pois são transgressores.” (24: 4) Quando o Profeta recitou isso aos seus Companheiros, um deles, Sa’d ibn ‘Ubadah, perguntou-se como isso funcionaria se um homem encontrasse a sua esposa na cama com outro homem. O Profeta respondeu que aquelas eram revelações de Deus. Contudo, Sa’d ainda sentia que era necessária uma explicação adicional. Pouco depois, um homem apresentou-se e acusou a sua esposa de adultério. O Profeta exigiu que ele trouxesse as suas testemunhas. O homem protestou, dizendo que, como aquilo ocorrera em casa, não tinha testemunhas. O Profeta disse que não tinha alternativa senão exigir as provas estabelecidas; caso contrário, puniria o acusador de acordo com o versículo acima. O homem disse: “Por Deus, não serei punido por dizer a verdade.” Enquanto esse debate prosseguia, o Profeta recebeu os versículos seguintes da surata, que dizem: “E quanto àqueles que acusam as suas próprias esposas de adultério, mas não têm testemunhas além de si mesmos, que cada um deles invoque Deus quatro vezes como testemunha de que diz a verdade; e a quinta vez, que a maldição de Deus recaia sobre ele, se estiver mentindo. Porém, a punição será afastada dela se ela invocar Deus quatro vezes como testemunha de que ele está mentindo; e a quinta vez, que a ira de Deus recaia sobre ela, se ele estiver dizendo a verdade. Se não fosse pela graça de Deus para convosco e pela Sua misericórdia, e se Deus não fosse o Aceitador do arrependimento, o Sábio…” (24: 6-10) O fato de essa decisão ter sido revelada somente quando o caso foi apresentado ao Profeta mostrou à comunidade muçulmana que Deus cuidava dela e provia o seu bem-estar. Essa foi uma grande sensação para aqueles que viveram essa experiência, e algo único na história da humanidade. Além disso, forneceu mais uma prova de que o Profeta apenas transmitia à comunidade aquilo que lhe era concedido. Ele não tinha qualquer influência sobre o que seria revelado ou quando seria revelado. Às vezes, isso o afetava pessoalmente, como no caso do que é conhecido como ifk, “a História da Calúnia”. Trata-se de um rumor, espalhado por alguns hipócritas, de que ‘Aisha, esposa do Profeta, mantivera relações com um homem chamado Safwan. O rumor circulou em Medina durante um mês, período em que ‘Aisha estava doente e não podia ser questionada. Ninguém apresentou qualquer prova, mas as pessoas falavam. O Profeta não recebeu nenhuma revelação sobre o assunto e, por isso, não podia agir de modo algum. Ele não puniu os que espalharam os rumores nem repreendeu a sua esposa. O máximo que fez foi pedir conselho a alguns dos seus Companheiros. Somente quando o Alcorão foi revelado, declarando a inocência de ‘Aisha, o Profeta tomou as medidas adequadas. O que significa essa referência repetida à condição humana de Maomé? As pessoas frequentemente acumulam muitos elogios sobre os seus heróis e figuras históricas. Alguns profetas receberam status divino; por exemplo, muitos afirmaram que Jesus era o filho de Deus. No caso de Maomé, nada disso pode ser afirmado. Certamente houve pessoas que o elogiaram de maneira exagerada. Alguns sufis afirmaram que, sem ele, Deus não teria criado o universo. Desnecessário dizer que isso é absurdo. Contudo, mesmo aqueles que faziam tais afirmações inaceitáveis reconheciam que ele era humano. Nenhum muçulmano — de qualquer escola de pensamento — se afasta disso. De outro ponto de vista, a condição humana de Maomé significava que tudo o que Deus exigia das pessoas também se aplicava a ele. Ele deveria adorar somente a Deus durante toda a sua vida e nada omitir dos atos de adoração exigidos pelo Islã. Deus lhe diz no Alcorão: “Adora o teu Senhor até que te chegue a certeza [da morte].” (15: 99) O Profeta era um modelo de adorador. Dedicava-se à adoração em todas as horas do dia e da noite. Todos os outros deveres islâmicos, como o zakat, o jejum e a peregrinação, aplicavam-se a ele. Observava o jejum em todos os Ramadãs, sem falhar. Pagava o seu zakat e realizava a peregrinação. Praticava muito mais de todos os vários aspectos da adoração islâmica do que o que era exigido. Realizou a peregrinação apenas uma vez, como é exigido de todos os muçulmanos, mas isso se deveu ao fato de que, durante vários anos, não pôde realizá-la porque os incrédulos eram os governantes de Meca. Depois que Meca ficou sob o seu controle, não viveu tempo suficiente para poder realizá-la mais de uma vez. Como ser humano, profeta e Mensageiro de Deus, Maomé (que a paz esteja com ele) também recebeu a ordem: “Portanto, sê paciente diante da adversidade, pois a promessa de Deus certamente se cumprirá. Implora o perdão pelos teus pecados e glorifica e louva o teu Senhor ao entardecer e pela manhã.” (40: 55) A questão aqui é: poderia o Profeta ter cometido pecados a ponto de precisar pedir perdão? Certamente, o Profeta jamais cogitou fazer algo que Deus tivesse proibido. Ir contra a vontade de Deus constitui pecado. Isso significa que o Profeta nunca teve deliberadamente a intenção de desobedecer a Deus de maneira alguma. Contudo, em algum momento ou outro, como resultado de certas circunstâncias, alguns pensamentos podem ter-lhe ocorrido. No seu caso, tais pequenas questões poderiam constituir um deslize, e ele foi instruído a pedir o perdão de Deus por elas. Este versículo nos diz que, se o Profeta precisava pedir o perdão de Deus, todos nós precisamos fazer o mesmo, mas em medida ainda maior.
Um homem para transmitir a mensagem de Deus Como foi observado no Capítulo 6, o Profeta passava muito tempo em adoração. Podia passar longas horas da noite em oração e súplica. Contudo, sempre facilitava as coisas para os seus Companheiros e seguidores. Tinha o cuidado de não lhes impor tarefas que considerassem demasiado penosas. Por que, então, fazia tanta questão de passar tanto tempo em devoção? A resposta foi dada por ‘Aisha, sua esposa, quando fez a mesma pergunta ao Profeta, observando que Deus já lhe havia perdoado todo pecado possível que ele pudesse ter cometido ou viesse a cometer. O Profeta respondeu: “Não deveria eu, então, ser um servo de Deus que Lhe agradece?” O seu esforço adicional era uma expressão de gratidão ao Todo-Poderoso por todos os favores que lhe havia concedido. Ao mesmo tempo, o Profeta queria assegurar que os seus Companheiros e os seus seguidores das gerações futuras não se sobrecarregassem na tentativa de serem devotos; por isso, frequentemente indicava as concessões. Fazia questão de que as pessoas as aplicassem. Ele nos diz: “Deus ama que as concessões que concede sejam aproveitadas, assim como ama que sejam cumpridas as obrigações que exigem esforço.” As pessoas, porém, tendem a tornar as coisas mais difíceis para si mesmas. Muitas vezes menosprezam as suas boas ações e pensam que precisam fazer mais. ‘Aisha relata: O Profeta fez algo, indicando que se tratava de uma concessão dada às pessoas. Alguns, contudo, abstiveram-se de fazê-lo. Isso foi comunicado ao Profeta. Ele dirigiu-se às pessoas, começando por louvar a Deus. Disse: “O que acontece com algumas pessoas? Elas se abstêm de fazer o que eu faço. Por Deus, sou aquele que melhor conhece a Deus e o que mais O teme.” (Relatado por al-Bukhari e Muslim.) Colocando as coisas na perspectiva correta, o Profeta deixa claro que nem mesmo o esforço mais intenso na adoração e nas boas ações será suficiente para garantir a entrada de alguém no Paraíso. Isso se deve ao fato de Deus nos ter concedido bênçãos imensas. Mesmo que passássemos todo o nosso tempo em oração e devoção, ainda assim não poderíamos agradecer suficientemente a Deus por aquilo que Ele nos deu. Em vez disso, é necessário um ato da graça de Deus, que Ele certamente concede a todos os que são sinceros na fé. ‘Aisha cita o Profeta dizendo: “Praticai as coisas corretas com moderação e alegrai-vos. Nenhuma ação será suficiente para que alguém entre no Paraíso.” As pessoas perguntaram: “Nem mesmo tu, Mensageiro de Deus?” Ele disse: “Nem mesmo eu, a menos que Deus me conceda o Seu perdão e a Sua graça.” (Relatado por al-Bukhari e Muslim.)
Amor e compaixão Como ser humano, Maomé (que a paz esteja com ele) experimentou todos os sentimentos e emoções que as pessoas comuns experimentam. Era muito sensível, e isso fazia transbordar os seus sentimentos. Contudo, mantinha as suas emoções sob controle por meio da fé. O Profeta era um homem amoroso e atencioso, e o seu amor se dirigia a uma grande variedade de pessoas. Como pai, era extremamente amoroso e compassivo. O Profeta mudou fundamentalmente a maneira como os árabes tratavam os seus filhos e demonstrou o seu amor pelas filhas. ‘Aisha relata: Nunca vi ninguém que se parecesse mais com o Mensageiro de Deus, na aparência, nos modos e no andar, do que a sua filha Fátima. Quando ela vinha visitar o Profeta, ele se levantava, beijava-a e fazia-a sentar-se no seu lugar. Quando ele a visitava, ela se levantava, beijava-o e fazia-o sentar-se no seu lugar. (Relatado por al-Bukhari, Muslim, Abu Dawud e al-Tirmidhi.) A atitude do Profeta representava uma ruptura com aquilo a que os árabes estavam acostumados. Antes do Islã, as mulheres eram frequentemente maltratadas na Arábia. Em alguns casos, quando uma jovem ficava viúva, os parentes mais próximos do marido falecido tratavam-na como parte dos bens deixados pelo seu parente. Ou se casavam com ela ou determinavam quem poderia casar-se com ela. O nascimento de uma filha era recebido pelo pai com tristeza. Meninas pequenas eram enterradas vivas por medo da pobreza, pois as mulheres não ganhavam o próprio sustento. O Profeta amava todas as pessoas e preocupava-se profundamente com os seus Companheiros, que acreditavam na sua mensagem. Sentia a dor deles quando enfrentavam uma adversidade e era generoso com eles, oferecendo-lhes o que quer que tivesse. No Capítulo 6, contei a história de Jabir ibn ‘Abdullah e de como ele convidou o Profeta a ir com algumas pessoas jantar em sua casa. O Profeta levou consigo todos os que trabalhavam na escavação do fosso seco para fortificar Medina. Também disse à esposa de Jabir que fizesse a sua refeição e desse comida aos vizinhos. Houve muitos incidentes semelhantes durante a vida do Profeta, e discutiremos isso num capítulo posterior. Tais incidentes não são considerados milagres para provar a veracidade da mensagem de Maomé. Eram, antes, um aspecto da bênção de Deus, pela qual a comida foi aumentada de modo a ser suficiente para alimentar todo o grupo. O incidente, contudo, indica como o Profeta estava consciente das condições em que os seus Companheiros trabalhavam. Percebeu que estavam na pobreza e precisavam de comida. A sua própria fome e a expectativa de fazer uma boa refeição não o distraíram da necessidade de cuidar dos seus Companheiros. Queria que todos partilhassem do conforto que a refeição quente representava. Confiou em Deus para abençoar a refeição e aumentar a comida. O Profeta tinha certeza de que a mensagem que recebera de Deus era a verdade e de que traria felicidade às pessoas nesta vida e na vida futura. Se a rejeitassem, expor-se-iam ao castigo de Deus na vida futura, além da infelicidade nesta vida presente. Por isso, fez tudo o que pôde para persuadi-las a aceitá-la. Desejava-lhes o bem, mesmo quando eram muito duros com ele e com os seus Companheiros. Sempre que via o menor indício de que alguém talvez prestasse alguma atenção ao que ele defendia, ia até essa pessoa e demonstrava todo o seu amor e cuidado. A hostilidade deles nunca o dissuadiu de tentar, e ele perdoava prontamente as suas palavras ofensivas e insultos. Quando um adversário obstinado se voltava para ele num gesto positivo, recebia-o de braços abertos. Um bom exemplo é o de ‘Ikrimah ibn Abi Jahl, que seguiu o exemplo do pai ao fazer tudo o que era possível para enfraquecer o Islã. Ele esteve no campo inimigo durante 21 anos. Por fim, a esposa de ‘Ikrimah persuadiu-o a mudar a sua atitude em relação ao Islã, pois ela era motivada por considerações de orgulho e alimentava o ódio. Ele acompanhou-a a Medina para encontrar-se com o Profeta. Quando o Profeta o viu entrar na mesquita, disse aos seus Companheiros que não falassem mal do pai dele, porque “falar mal dos mortos não os prejudica, mas ofende os seus parentes vivos”. Recebeu ‘Ikrimah, descrevendo-o como o “cavaleiro emigrante”.1 E quanto ao ódio? A questão aqui é como a emoção oposta ao amor afetava o Profeta. O Profeta nunca expressou ódio por ninguém, nem mesmo pelos seus adversários mais obstinados. Com efeito, uma pessoa podia ser culpada de uma trama perversa contra o Profeta, mas, no momento em que mudasse de atitude, o Profeta aceitava-a e recebia-a, sem guardar rancor. Por exemplo, quando o Profeta marchou para Meca e ela passou ao Islã com muito pouco combate, muitas pessoas ainda guardavam ressentimento pessoal contra o Profeta e contra o Islã. Fudalah era uma delas. Ele caminhava atrás do Profeta enquanto este realizava a circunvolução, isto é, o tawaf, em torno da Caaba. Fudalah pensou: “Se eu o matar agora, não me importarei com o que me acontecer depois. Terei vingado os coraixitas dele.” Quando se aproximou, o Profeta virou-se para ele e disse: “Fudalah?” Ele respondeu: “Sim, Mensageiro de Deus.” O Profeta perguntou: “Em que estavas pensando?” Ele disse: “Em nada; estava apenas fazendo o meu tawaf.” O Profeta sorriu e colocou a mão sobre o peito de Fudalah, perto do coração. Fudalah disse depois: “Quando ele retirou a mão, ninguém era mais querido para mim do que Maomé.”2 1 Al-Hakim, Al-Mustadrak, vol. 3, pp. 241-242. 2 Ibn Hisham, Al-Sirah al-Nabawiyyah, vol. 4, p. 37.
Contudo, às vezes o Profeta expressava forte aversão por algumas pessoas. Ele disse: “Entre vós, os que mais detesto são os tagarelas e os pedantes que enfatizam excessivamente a sua eloquência.” Há hadith semelhantes que falam de qualidades e maneiras geralmente reprovadas. O próprio Profeta expressava aversão por tais qualidades. Isso mostra que os seus sentimentos negativos eram moderados pela compreensão do seu papel e pela fé em Deus. Quando nos submetemos a Deus, aceitando tudo o que Deus determina para nós, começamos a olhar as coisas de uma maneira diferente, de modo que os nossos interesses pessoais se tornam menos importantes do que os interesses mais amplos. No caso do Profeta, o seu foco estava sempre em fazer com que as pessoas compreendessem a mensagem que ele transmitia, para que pudessem adotar uma atitude esclarecida em relação a ela.
Emoções negativas Até que ponto emoções negativas como ira, ansiedade e medo afetavam o Profeta? Como Mensageiro humano que vivia no meio de uma comunidade humana e defendia uma mensagem divina que exigia que as pessoas cumprissem certos ensinamentos, Maomé (que a paz esteja com ele) experimentou todas as emoções humanas. A tarefa que lhe foi atribuída incluía oferecer um modelo para toda a humanidade. Deus nos diz no Alcorão: “No Mensageiro de Deus tendes um belo exemplo, para todo aquele que espera encontrar Deus e o Último Dia e que se lembra muito de Deus.” (33: 21) Sem experimentar tais emoções, ele não teria sido capaz de oferecer tal modelo. As pessoas frequentemente cedem à tentação quando lhes são oferecidos posição, riqueza, poder, sexo e coisas semelhantes. Ao Profeta foram oferecidas todas essas coisas mais de uma vez. Por exemplo, ‘Utbah ibn Rabi’ah era o chefe do clã Abd Shams dos coraixitas e era altamente respeitado por todas as pessoas da Arábia. Estava entre os mais moderados dos coraixitas. Não gostava da polarização que ocorria entre os novos muçulmanos e o restante do povo de Meca. Certo dia, viu o Profeta adorando na Caaba. Falou com ele, esperando chegar a algum entendimento. Dirigiu-se a ele de maneira muito gentil, apresentando o problema antes de lhe fazer as seguintes ofertas: “Meu sobrinho, se iniciaste este assunto esperando ganhar dinheiro com ele, estamos todos dispostos a dar-te parte da nossa riqueza, para que sejas o mais rico entre nós. Se desejas honra e posição, faremos de ti o nosso líder e pediremos o teu conselho em todos os assuntos. Se procuras um trono, faremos de ti o nosso rei. Se, por outro lado, estás possuído e não consegues resistir ao que te domina, não pouparemos despesas para procurar uma cura médica para ti.”
Um homem para transmitir a mensagem de Deus A resposta do Profeta consistiu em recitar para ‘Utbah os primeiros 38 versículos da surata 41 do Alcorão, e ‘Utbah ouviu atentamente. Quando terminou a recitação, o Profeta prostrou-se em humilde devoção a Deus e disse a ‘Utbah: “Ouviste o que tenho a dizer; agora podes decidir por ti mesmo.”3 Essa recitação explicou a ‘Utbah os princípios básicos do Islã, juntamente com a advertência de Deus sobre o castigo severo para aqueles que rejeitam a Sua fé. ‘Utbah percebeu que o Profeta não aceitaria nenhum compromisso. Portanto, voltou ao seu povo e sugeriu que deixassem Maomé em paz e permitissem que levasse a sua mensagem para onde quisesse. Raciocinou que, se Maomé alcançasse honra e poder, eles se beneficiariam disso; se outros o matassem, os coraixitas seriam poupados da necessidade de fazê-lo eles mesmos. A oferta incluía tudo aquilo que as pessoas cobiçam e ao qual frequentemente sucumbem. Às vezes, a tentação é tão forte que resistir exige uma grande força, que só pode ser fornecida por uma crença firme nos próprios princípios. O processo de hesitação entre a tentação e a resistência é frequentemente chamado, na terminologia islâmica, de ouvir o próprio Satanás. O Profeta mencionou isso aos seus Companheiros. Explicou-lhes que cada pessoa tinha o seu próprio Satanás, que a tentava a cometer pecados diferentes. Perguntaram-lhe se ele também tinha um Satanás que fazia o mesmo. Ele disse: “Sim, tenho; mas Deus ajudou-me contra ele, e agora ele só me diz o que é bom.” Essa ajuda sempre foi concedida aos profetas e mensageiros. Eles são guias que ajudam as comunidades ao longo da vida, apontando o caminho para a verdadeira fé e para a compreensão correta de Deus, do ser humano e do vínculo entre ambos. Isso permite que os Mensageiros de Deus moderem os sentimentos e as emoções negativas e ampliem a sua perspectiva. Assim, conseguem assumir as responsabilidades que aceitam quando assumem o papel que lhes foi atribuído. A ira é uma característica humana natural, e qualquer pessoa pode ficar irada, embora algumas tenham temperamento explosivo e se enfureçam com muita facilidade. O Profeta fazia questão de incutir nos seus Companheiros o fato de que a ira pode levar as pessoas a fazer aquilo de que logo se arrependerão. Por isso, aconselhava-os a não permitir que a ira as dominasse. Ele disse: “A força não consiste em dominar as pessoas; a verdadeira força consiste em controlar a si mesmo quando se está irado.” (Relatado por al-Bukhari.) Um dos Companheiros do Profeta pediu-lhe conselho. O Profeta disse-lhe: “Não te enfureças.” O homem repetiu o pedido várias vezes, e todas as vezes o Profeta disse: “Não te enfureças.” (Relatado por al-Bukhari e Muslim.) É desnecessário dizer que o Profeta não quis dizer que o homem não deveria sentir ira, pois a ira resulta de coisas que dificilmente estão sob o nosso controle e é uma reação ao que pode acontecer ou ao que outros podem dizer ou fazer. O conselho do Profeta deve ser entendido como uma orientação para não agir enquanto se está irado. O Profeta chegou a indicar-nos uma maneira de reduzir rapidamente a ira. Sulayman ibn Surad relata: Duas pessoas discutiam na presença do Profeta, enquanto estávamos sentados com ele. Uma delas estava irada, insultava a outra e tinha o rosto vermelho de raiva. O Profeta disse: “Conheço uma palavra que fará a sua ira desaparecer, se ele simplesmente a disser. É: ‘Busco refúgio em Deus contra Satanás, o amaldiçoado.’” As pessoas disseram ao homem: “Não ouviste o que o Profeta acabou de dizer?” O homem respondeu: “Não estou louco.” (Relatado por al-Bukhari.) O Profeta alguma vez ficou irado? Certamente, às vezes sentia ira. Contudo, nunca demonstrava ira por algo que lhe dissesse respeito pessoalmente. Demonstrava e expressava a sua ira quando os limites estabelecidos por Deus eram ultrapassados. Abu Mas’ud relata: Um homem disse ao Profeta: “Frequentemente chego atrasado à oração da alvorada por causa do nosso imame. Ele prolonga demais a oração.” Nunca vi o Profeta chegar a tal estado de ira em nenhuma situação em que desse uma reprimenda. Ele disse: “Ó pessoas, observai o que fazeis. Alguns de vós fazem com que outros se afastem. Quem conduzir uma oração congregacional deve torná-la breve. Pode haver na congregação pessoas doentes, idosas ou que tenham algo urgente a tratar.” (Relatado por al-Bukhari.) O fato de nunca se ter visto o Profeta irado por uma questão pessoal mostra como Deus lhe permitiu moderar as suas emoções negativas. Contudo, quando se tratava de religião ou da violação da orientação divina, a sua ira era claramente visível. Ainda assim, ele não agia até que a ira diminuísse. A ansiedade é outra emoção negativa que pode abater uma pessoa. O Profeta alguma vez sofreu de ansiedade? O Profeta era uma pessoa muito sensível e amava o seu povo. Como crente firme em Deus, nunca demonstrava ansiedade em relação aos seus próprios assuntos. Mesmo nas situações mais perigosas, agia sem demonstrar qualquer preocupação com o que poderia acontecer-lhe. Vemos isso nas batalhas de Uhud e Hunayn, quando o exército muçulmano estava em retirada e ele ficou com um número muito pequeno dos seus Companheiros. Nessas ocasiões, avançou em direção ao inimigo sem temer nada. Em contraste, quando a situação ficava difícil, mostrava grande preocupação com o que poderia acontecer à comunidade muçulmana. Pouco antes da batalha de Badr, quando um pequeno contingente de seus Companheiros, mal equipado, enfrentava uma força muito maior de incrédulos, a sua ansiedade sobre o que poderia acontecer-lhes era evidente. Rezou fervorosamente a Deus para poupá-los e conceder-lhes a vitória. Na sua súplica, apelou a Deus, dizendo: “Meu Senhor, se este grupo perecer, não serás adorado.” Enfatizou que a comunidade muçulmana era a única comunidade na Terra que adorava somente a Deus com total sinceridade. Da mesma forma, quando o Profeta viu nuvens movendo-se sobre Medina, a sua inquietação era evidente. A esposa perguntou-lhe o que o perturbava. Ele disse: “Uma comunidade anterior foi punida pela chuva. Como posso saber que isto não trará uma forma de castigo?” Quando chovia, a sua ansiedade desaparecia. O medo é outra emoção normalmente vista como negativa, mas certamente tem aspectos positivos, pois está ligado ao instinto de sobrevivência do ser humano. As pessoas normalmente temem tudo o que ameaça a sua vida ou as expõe a perigo ou dano. Além disso, um medo moderado ajuda a evitar a imprudência. Pessoas destemidas podem colocar precipitadamente a si mesmas ou às suas famílias em perigo. Por outro lado, quando permitem que o medo dite o seu comportamento, podem perder grande parte da sua autoestima. Sob uma ditadura, o medo de discordar frequentemente leva as pessoas a aceitar a humilhação. Portanto, deve-se manter o equilíbrio correto. No Alcorão, aprendemos que o profeta Moisés sentiu medo em mais de uma ocasião. Antes da profecia, teve de fugir do Egito por medo pela própria vida. Depois de matar um egípcio, caminhou pela cidade “temeroso e vigilante”.4 O seu medo era plenamente justificado, pois logo recebeu a informação de que pessoas conspiravam para matá-lo. Mais tarde, quando Deus quis que ele visse os sinais que lhe foram dados para provar a sua condição de Mensageiro de Deus, recebeu a ordem de lançar ao chão o seu cajado. “Mas quando o viu mover-se como se fosse uma serpente, virou-se e fugiu, sem sequer olhar para trás. [Deus disse:] ‘Ó Moisés! Aproxima-te e não temas! Estás seguro.’” (28: 31) Esses são sentimentos normais: quem não estremeceria de medo ao ver que, no momento em que lança ao chão o seu bastão, este se move rapidamente como uma serpente? Os Mensageiros de Deus são seres humanos normais — exceto pelo fato de receberem revelações do alto — e experimentam todos os sentimentos e emoções humanas. Contudo, lidam com eles corretamente. O mesmo se aplicava ao Profeta. Como foi mencionado no Capítulo 1, quando o anjo Gabriel veio até ele pela primeira vez, a experiência foi intensa demais. Ele correu da caverna onde estava sozinho e não parou até chegar à sua casa, que ficava a alguns quilômetros dali. Disse à esposa que o cobrisse, pois tremia. Novamente, esse é um sentimento normal: quem não entraria em pânico ao ver uma criatura alada segurando um livro e pressionando-o contra o peito até quase sufocá-lo, simplesmente porque protestara que não sabia ler? O anjo repetiu isso três vezes, e a cada vez Maomé sentiu que estava prestes a morrer. A única coisa que fez cessar aquela pressão e aquele sufocamento foi ele perguntar: “O que devo ler?” Mais tarde, quando recuperou a consciência, disse à esposa: “Temi por mim.” Ela tranquilizou-o, dizendo que um homem com qualidades tão nobres não poderia ser prejudicado por forças malignas. Os seus Companheiros, contudo, descrevem-no como o mais corajoso de todos os homens. Quando estavam em batalha e as coisas se tornavam difíceis, aproximavam-se dele, extraindo coragem da sua coragem. Não há dúvida de que nunca temeu pela própria vida durante os vinte e três anos da sua missão. Podemos, então, concluir que, antes da profecia, Maomé experimentou o tipo normal de medo em situações que fazem as pessoas ter medo. Depois de se tornar Mensageiro de Deus, a sua entrega a Deus permitiu-lhe eliminar o medo por si mesmo ou pela sua vida. Confiava que tudo o que Deus quisesse para ele seria a melhor opção. Essa é a atitude de um verdadeiro crente. Em conclusão, Maomé (que a paz esteja com ele) era um homem de caráter nobre. Todas as qualidades nobres foram demonstradas por ele no mais alto grau. Era um homem que experimentava todas as outras emoções que as pessoas experimentam. Contudo, a sua comunicação com o anjo que lhe trazia as revelações de Deus ajudou-o a fortalecer todas as qualidades humanas positivas e a reduzir ao mínimo todos os traços negativos.
CAPÍTULO 9
misericórdia para todos
Um curto versículo do Alcorão oferece uma definição muito precisa da missão atribuída ao Profeta quando Deus o escolheu para ser Seu último Mensageiro à humanidade: “Nós te enviamos como uma [manifestação da Nossa] graça para todos os mundos.” (21:107) O estilo do Alcorão combina vários pares de qualidades que são muito difíceis, ou talvez até impossíveis, de combinar. Um desses pares é a economia de palavras e a amplitude de significado. No versículo citado, as palavras “manifestação da Nossa” foram acrescentadas na tradução ao texto original para facilitar sua compreensão. O original árabe permanece mais abrangente, e também significa que o próprio Profeta era cheio de compaixão. Esse aspecto se soma ao fato de que foi a misericórdia de Deus que tornou necessário o envio de um Profeta para transmitir à humanidade a mensagem final de Deus.
O versículo fala de compaixão para “todos os mundos”. Algumas pessoas entendem que essa expressão abrange toda a humanidade; mas isso limita seu significado. Na verdade, Sua compaixão abrange todas as criaturas, incluindo animais e plantas. Quando estudamos sua vida, vemos a compaixão permeando todas as suas ações. A severidade lhe era desconhecida. A compaixão influenciava todas as suas ações, em todas as situações. Com efeito, influenciava a maneira como lidava com seus inimigos. Ele nunca perdeu a esperança de que alguém pudesse aceitar a verdade da mensagem divina e se alegrava com cada novo convertido ao Islã. Sentia que, ao adotar o Islã, uma pessoa não apenas iniciava o caminho correto para um modo de vida melhor neste mundo, mas também esperava alcançar a misericórdia de Deus no Dia do Juízo.
Por isso, o Profeta fazia questão de falar até mesmo com seus adversários mais endurecidos, explicar-lhes a essência de sua mensagem e convidá-los a crer na Unicidade de Deus. Quando a situação era difícil e os incrédulos ofereciam feroz oposição ao seu chamado, perseguiam seus seguidores e os submetiam à tortura, os crentes poderiam ter sido tentados a invocar as maldições de Deus sobre aqueles que buscavam suprimir a verdade e perseguiam seus defensores. É natural que os oprimidos busquem a ajuda de Deus contra seus opressores. Certamente, os muçulmanos foram oprimidos durante todo o período em Meca, assim como hoje o são em muitas partes do mundo. Por isso, os Companheiros do Profeta que se encontravam sob imensa pressão buscaram sua ajuda para lidar com sua dificuldade.
Abu Hurayrah menciona: “Disseram ao Profeta: ‘Mensageiro de Deus! Roga a Deus contra os idólatras.’ Ele respondeu: ‘Não fui enviado para amaldiçoar as pessoas; fui enviado como misericórdia para a humanidade.’” (Relatado por Muslim e por al-Bukhari em Al-Adab al-Mufrad.)
O Profeta via sua missão como um ato da graça e da misericórdia de Deus para toda a humanidade. Como tal, invocar as maldições de Deus sobre qualquer grupo de pessoas era incompatível com sua missão, mesmo quando essas pessoas se opunham ao Islã e usavam todo o seu poder e recursos para miná-lo. Embora determinada pessoa possa merecer ser amaldiçoada por causa de seus atos malignos, isso não justifica proferir uma maldição geral, nem mesmo contra os idólatras que adoram estátuas em vez de Deus. O Profeta compreendia isso muito bem e se esforçava para aprimorar sua qualidade natural de compaixão, de modo a ser misericordioso e compassivo com todas as pessoas, em todos os momentos.
Quando o Profeta ordenava uma expedição militar, assegurava que fossem observados os padrões islâmicos de ética na guerra. Ao enviar uma expedição desse tipo, sempre exortava seus comandantes e soldados a respeitarem essa ética. Anas ibn Malik relata que o Profeta lhes dizia:
“Marchai em nome de Deus, com a ajuda de Deus e com base na mensagem do Mensageiro de Deus. Não mateis um idoso, uma criança, um jovem ou uma mulher. Não acumuleis nada dos espólios de guerra; reuni-os. Corrigi as coisas e agi bem, pois Deus ama os que fazem o bem.”1
Isso é confirmado em vários hadiths, alguns dos quais acrescentam a proibição de cortar árvores e atravessar terras agrícolas. O Profeta sempre considerava que os inimigos do Islã eram pessoas desviadas. Se tivesse de combatê-los, era apenas porque eles eram os agressores. Contudo, para ele, isso não justificava matar quem não fosse combatente. Os idosos, os jovens e as mulheres não portavam armas. Portanto, o Profeta declarou que os muçulmanos não deveriam matá-los.
Nenhuma inimizade duradoura
Mesmo quando o próprio Muhammad, ou a comunidade muçulmana em geral, enfrentava grandes dificuldades, ele tratava com bondade aqueles que lhe eram hostis, sempre esperando que modificassem sua hostilidade. Mencionei no Capítulo 2 que, depois de dez anos pregando sua mensagem em Meca em meio à grande hostilidade de seus habitantes, o Profeta foi a Taif, e que seus habitantes e chefes foram extremamente hostis, chegando ao abuso físico. Deus enviou-lhe anjos, oferecendo-se para puni-los conforme ele ordenasse, inclusive destruindo-os completamente. Ele disse: “Espero que Deus faça surgir de sua descendência pessoas que O adorem somente a Ele, sem Lhe associar parceiros.”2
Um adversário individual que leva sua inimizade ao extremo e depois cai nas mãos de seu oponente pode constituir uma forte tentação para que o vencedor o mate ou lhe imponha severos castigos físicos e mentais. O Profeta não tinha falta de adversários endurecidos desse tipo; alguns deles acrescentavam à inimizade ativa o abuso verbal e a zombaria. Ainda assim, sempre que algum deles ia até ele, sozinho ou acompanhado por um intermediário, declarando lealdade, o Profeta o aceitava sem hesitação.
A hostilidade de alguns incrédulos era especialmente dolorosa para o Profeta, porque ele esperava que fossem amistosos com ele. Entre eles estavam al-Mughirah (Abu Sufyan) ibn al-Harith ibn [Abd al-Muttalib e Abdullah ibn Abi Umayyah. Os dois eram primos do Profeta, e al-Mughirah havia sido seu companheiro de brincadeiras na infância. Quando o Profeta recebeu sua mensagem, al-Mughirah escolheu ser muito hostil com ele e o atacou em seus poemas. [Abdullah ibn Abi Umayyah havia sido muito ofensivo com o Profeta no passado, apesar de sua mãe ser tia do Profeta. Certa vez, disse ao Profeta que jamais acreditaria nele até vê-lo subir por uma escada diretamente ao céu e retornar com um testemunho escrito de que era o Mensageiro de Deus, trazendo consigo quatro anjos para testemunhar.
O abuso cometido por parentes próximos é especialmente doloroso. Por isso, o Profeta não estava interessado em encontrar nenhum desses dois homens e, quando foi informado de que se aproximavam, recusou-se a recebê-los. Umm Salamah, uma das esposas do Profeta, tentou interceder em favor dos dois homens, pois um deles, [Abdullah, era seu irmão. Ela disse ao Profeta: “Mensageiro de Deus, eles são seus próprios primos e parentes.” Ele respondeu: “Não preciso deles. Meu primo me difamou, e o filho de minha tia foi aquele que disse em Meca o que você sabe.”3
Quando foram informados do que o Profeta havia dito, sentiram que se encontravam em uma situação muito difícil e não sabiam o que fazer. Al-Mughirah, que estava com seu filho, disse: “Se ele não me receber, pegarei este meu filho pela mão, e nós dois vagaremos pela terra até morrermos de fome e sede.”2 Al-Bukhari, Sahih (Livro sobre o início da criação). 3 Ibn Hisham, Al-Sirah al-Nabawiyyah, vol. 4, p. 184.
Então receberam um conselho de [Ali ibn Abi Talib, que era primo tanto do Profeta quanto de al-Mughirah. Seguindo esse conselho, foram diretamente até ele e disseram: “De fato, Deus concedeu a você uma posição melhor que a nossa, e nós realmente estivemos errados.” (12:91) Essas foram as palavras ditas pelos irmãos do Profeta José quando o reconheceram, conforme relatado no Alcorão. Portanto, o Profeta usou a mesma resposta do Profeta José, dizendo-lhes: “Hoje, nenhuma censura recairá sobre vós. Que Deus vos perdoe. Ele é, certamente, o mais Misericordioso.” (12:92) Assim, al-Mughirah e seu parente foram reintegrados.
O Profeta havia ordenado que dois homens, [Ikrimah ibn Abi Jahl e Ka[b ibn Zuhayr, fossem mortos quando tomou Meca. O pai de [Ikrimah era o mais obstinado adversário do Islã, desde o primeiro dia até sua morte na Batalha de Badr. Durante quinze anos, Abu Jahl fez todo o possível para suprimir o Islã, tendo torturado e matado alguns dos primeiros muçulmanos. Também tentou matar o Profeta em mais de uma ocasião. [Ikrimah tinha a mesma atitude de seu pai. Quando o Profeta entrou em Meca, tentou lutar contra o exército muçulmano, mas logo foi derrotado. Então fugiu para o Iêmen.
Sua esposa, Umm Hakim, foi até o Profeta e declarou-lhe lealdade como muçulmana. Depois, intercedeu por [Ikrimah. Disse que iria ao Iêmen buscá-lo. Ela o trouxe a Medina. Como mencionado no capítulo anterior, quando o Profeta o viu chegando, disse a seus Companheiros que não insultassem seu pai. Disse: “Esse tipo de insulto fere os vivos e não prejudica os mortos.” Quando [Ikrimah chegou, o Profeta o recebeu, dizendo: “Bem-vindo, cavaleiro imigrante.”4 Repetiu isso três vezes.
Um caso semelhante envolve Ka[b ibn Zuhayr, que pertencia a uma família de grandes poetas — de fato, a poesia de seu pai continua a ser estudada nas escolas e universidades árabes. Seu irmão, Bujayr, também poeta, era Companheiro do Profeta. Ka[b, porém, usava sua poesia como arma na guerra contra o Islã. Naquela época, a poesia na Arábia desempenhava um papel importante, semelhante ao dos meios de comunicação de rádio e televisão de hoje. Ka[b continuou a atacar o Islã em seus poemas por mais de vinte anos.
Quando Meca se submeteu ao Islã e a maior parte da Arábia se tornou muçulmana, seu irmão Bujay
CAPÍTULO 10
Nobreza em seu melhor
Anas ibn Malik relata que uma mulher conhecida por ser mentalmente instável disse ao Profeta: “Mensageiro de Deus, preciso de sua ajuda em determinada questão.” Ele disse: “Escolha qualquer caminho, e eu irei até você e resolverei o que precisa.” Ele parou com ela em algum caminho e conversou sobre sua necessidade até que ela terminasse o que tinha de fazer. (Relatado por Muslim, Ahmad, Abu Dawud e al-Bayhaqi em Dala’il al-Nubuwwah.)
O Profeta estava sentado com seus Companheiros quando essa mulher, conhecida por ser mentalmente instável, disse-lhe que precisava de sua ajuda. Sua reação imediata foi deixá-la tranquila. Disse-lhe que estava pronto para ouvi-la. Ao mesmo tempo, respeitou sua privacidade e não lhe pediu que discutisse seu problema diante de outras pessoas. Sabia que uma pessoa mentalmente perturbada pode atribuir grande importância a coisas que as pessoas normalmente consideram insignificantes, e não queria constrangê-la. Disse-lhe que escolhesse um lugar onde se sentisse à vontade para explicar-lhe o que precisava. Evidentemente, o lugar deveria ser aberto, onde ambos pudessem ser vistos pelas pessoas. Nem é preciso dizer que, naquela época, não havia cafés nem restaurantes em Medina. Portanto, qualquer lugar na rua serviria.
O Profeta parou com a mulher e a ouviu enquanto ela explicava sua necessidade. Em seguida, deu-lhe a ajuda de que precisava. Isso era típico do Profeta, pois ele sempre atendia aos mais fracos e vulneráveis da sociedade. Anas relata: “Qualquer jovem serva em Medina podia aproximar-se do Profeta e segurá-lo pela mão. Ele não retirava a mão da dela. Ela o levava a qualquer lugar que quisesse.”1 (Relatado por Ahmad e Ibn Majah.)
1 Este hadith fala de jovens servas segurando o Profeta pela mão. Isso parece muito estranho para a maioria dos muçulmanos, pois eles acreditam que o Profeta nunca tocou uma mulher que não fosse sua esposa ou filha. Eles citam o fato de que ele nunca apertava a mão das mulheres quando elas lhe juravam lealdade. O hadith não menciona se essas servas eram sempre meninas ou jovens mulheres. O texto árabe permite ambas as interpretações. Conversei com estudiosos sobre isso, e alguns deles preferem entendê-lo como referente a meninas. Alguns, porém, não veem problema mesmo que signifique jovens mulheres. Dizem que a prática habitual do Profeta era não apertar a mão das mulheres, especialmente por ocasião do juramento de lealdade. No entanto, se uma jovem precisasse da segurança de segurar sua mão, ele não a impedia. Em uma decisão jurídica, o xeique Yusuf al-Qaradawi afirma que não encontrou um texto que proibisse apertar a mão de uma mulher, mas aconselha os homens a não estenderem a mão primeiro.
Uma serva talvez tivesse sido encarregada por seu povo de fazer ou buscar algo, e talvez não soubesse onde obtê-lo ou como cumprir seu dever. A melhor pessoa a quem pedir ajuda era o Profeta, e por isso ela o segurava pela mão. Para tranquilizá-la, ele permitia que ela o conduzisse aonde quisesse, até lhe dar a ajuda de que necessitava.
Esses são dois entre os numerosos exemplos de como o Profeta tratava os elementos mais fracos da sociedade. Ele queria que sentissem que estava sempre disponível para eles e que ajudaria até os mais pobres ou mais fracos em qualquer coisa que desejassem. Para ele, todos eram importantes. Se uma menina precisava de sua ajuda, essa ajuda era oferecida.
O segundo hadith não menciona uma serva específica. Pelo contrário, sugere que esse era o comportamento normal do Profeta, e a formulação do hadith parece indicar que era costume as servas procurarem-no para receber esse tipo de ajuda.
Encontrar alguém em posição de autoridade pode não ser fácil para algumas pessoas, especialmente para aquelas conscientes de sua fraqueza na sociedade. O Profeta queria garantir que ninguém se sentisse apreensivo ao encontrá-lo. Embora sua posição como Mensageiro de Deus fosse muito mais importante que a de qualquer rei ou chefe de Estado, ele mantinha uma disposição alegre, para que qualquer pessoa que falasse com ele pudesse expor claramente sua situação. Ainda assim, algumas pessoas não se sentiam à vontade ao falar com ele, e ele se esforçava muito para tranquilizá-las.
Abu Mas‘ud al-Badri relata que um homem tremia intensamente enquanto falava com o Profeta. O Profeta disse-lhe: “Calma, calma! Não sou um rei. Sou filho de uma mulher que costumava comer carne seca e salgada.” (Relatado por Ibn Majah e al-Hakim.)
O Profeta deu ao homem assustado uma imagem vívida de sua própria mãe como uma pessoa pobre e comum, que precisava depender do tipo mais simples de alimento para viver. (As pessoas que não podiam comprar carne o tempo todo costumavam conservar o que tinham secando-o e salgando-o.)
Quando observamos as ações do Profeta em diferentes situações, devemos lembrar que Deus ordena a todos os muçulmanos, em todas as gerações, que façam dele seu modelo. Deus diz no Alcorão: “No Mensageiro de Deus tendes um excelente modelo para todo aquele que espera em Deus e no Último Dia e se lembra sempre de Deus.” (33:21)
Isso significa que seguir a orientação do Profeta e imitar sua atitude e suas ações nos fará merecer uma recompensa de Deus. Essa recompensa nos é concedida por duas razões: a própria ação é boa, porque o Profeta fazia somente o que era bom e benéfico; além disso, seguir o exemplo do Profeta é prova de uma fé firme no Islã.
O Profeta permitiu que tudo o que dizia ou fazia fosse conhecido: sua vida era um livro aberto. Nada do que fazia só veio a público depois de sua morte, pois seus Companheiros e os membros de sua família relatavam tudo o que tinham visto ou ouvido dele. Até mesmo sua vida mais íntima foi descrita claramente. As pessoas perguntavam às suas esposas sobre seu comportamento em casa, e elas mencionavam tudo.
Aprendemos, por exemplo, que, quando ele e uma de suas esposas precisavam tomar banho, os dois podiam fazê-lo juntos, usando o mesmo recipiente. [A’ishah relata que podia pegar um pouco de água e derramá-la sobre o corpo, dizendo-lhe: “Deixe um pouco para mim”, e ele podia dizer o mesmo a ela.]2 Uma ou duas de suas outras esposas relataram a mesma coisa.3 Relatar assuntos tão privados era necessário para que os muçulmanos soubessem o que é permitido e o que não é em questões desse tipo.
2 O Islã exige tomar um banho para remover o estado de impureza ritual, isto é, a janabah, que ocorre como resultado da ejaculação, da relação sexual e da menstruação da mulher.
3 Vários ahadith mencionam isso, e são relatados por Muslim em seu Sahih, no capítulo sobre a purificação após a menstruação.
Como mencionamos, o Profeta não foi apenas um modelo para sua própria geração; continua sendo um modelo para todos os crentes no Islã, onde quer que vivam e em qualquer época. Isso significa que ele reuniu os melhores traços humanos universalmente reconhecidos. Isso só poderia ocorrer por ação de Deus, o Criador de tudo.
A modéstia é uma virtude
Um aspecto fundamental do caráter do Profeta era sua modéstia. Ele era muito decoroso em sua maneira de agir e em seu comportamento. Não criticava as pessoas diretamente nem as constrangia em público.
[A’ishah relata: “Se o Profeta ouvia que determinada pessoa tinha feito ou dito algo errado, não dizia: ‘Essa pessoa diz isto ou aquilo’, mas dizia: ‘Como é que algumas pessoas dizem isto ou aquilo?’”] (Relatado por Abu Dawud.)
Somente quando alguém fazia em público algo contrário ao Islã o Profeta declarava a decisão islâmica correta. Fazia isso para garantir que as pessoas aprendessem, e cuidava para não constranger ninguém.
Sua modéstia também se manifestava em seus assuntos pessoais. Ele cuidava de suas necessidades privadas, certificando-se de que não fosse visto. Ninguém jamais o viu despido. Contudo, sua timidez em assuntos privados não se estendia à maneira como apresentava sua mensagem: ele sempre enfatizava, sem qualquer hesitação, que era o Mensageiro de Deus, e deixava claro a todas as pessoas o que isso implicava.
Um exemplo que reúne ambas as características é seu casamento com Zaynab bint Jahsh. Zaynab era sua prima, pois sua mãe era Umaymah bint ‘Abd al-Muttalib, sua tia paterna. Como tal, pertencia a uma família nobre. O Profeta anteriormente a havia casado com Zayd ibn Harithah, a quem, muito antes de sua missão profética, libertara da escravidão e adotara como filho. O Islã, porém, proibiu a adoção, e Zayd voltou a usar seu antigo nome.
Tanto Zaynab quanto Zayd estavam infelizes com o casamento. Deus ordenou ao Profeta que permitisse que Zayd se divorciasse dela e depois se casasse com ela. Isso contrariava a tradição da sociedade árabe por causa da antiga adoção de Zayd. Entretanto, o Profeta declarou o que Deus lhe havia ordenado e recitou os versículos corânicos que incluíam uma repreensão por sua hesitação no assunto.
O casamento aconteceu, e o Profeta convidou várias centenas de pessoas para um jantar por ocasião da celebração. Depois do jantar, todos, exceto três, foram para casa. Os três que ficaram sentaram-se na casa do Profeta, conversando. Não perceberam que estavam causando transtorno, e ele se sentiu tímido demais para lhes dar qualquer indicação de que deveriam partir. Ele próprio saiu, visitando suas outras esposas, e depois voltou, apenas para encontrar os três ainda conversando. Saiu novamente, e depois uma terceira vez. Então foi informado de que eles haviam ido embora, e voltou para sua noiva.
Assim, quando se tratava de religião e da mudança de uma tradição social bem estabelecida, ele falava abertamente, independentemente das consequências para si; por outro lado, quando se tratava de um assunto pessoal, era tímido demais para deixar claros seus sentimentos.
A humildade era uma característica evidente do Profeta. Talvez nada mostre melhor sua humildade do que a escolha que Deus lhe ofereceu no início de sua missão profética. Abu Hurayrah relata:
O Profeta estava sentado com o anjo Gabriel quando olhou para o céu e viu outro anjo descendo. Gabriel disse ao Profeta: “Esta é a primeira vez que esse anjo desce desde que foi criado.” O anjo disse: “Muhammad, teu Senhor enviou-me para oferecer-te uma escolha: Ele deverá fazer de ti um rei e um Profeta, ou um
CAPÍTULO 11
um líder extremamente atencioso
Anas ibn Malik era jovem, talvez tivesse doze ou treze anos, ou talvez menos, mas era inteligente. Ao contrário da maioria das crianças de sua idade em Medina naquela época, sabia ler e escrever. Além disso, tinha uma boa memória. Seu padrasto levou-o ao Profeta pouco depois de sua chegada a Medina e disse: “Anas é um bom rapaz, Mensageiro de Deus. Permita que ele seja seu servo.” Esse foi o início da estreita convivência entre Anas ibn Malik e o Profeta, que durou até a morte do Profeta, dez anos mais tarde. Alguns visitantes de Medina comentavam que pensavam que Anas e sua mãe, Umm Sulaym, pertenciam à família do Profeta, “por causa da frequência com que entravam nas casas do Profeta”. O modo como as pessoas tratam seus servos é uma indicação clara de sua personalidade: tendem a comportar-se naturalmente com um servo, sem temer qualquer reação. Isso era particularmente verdadeiro na sociedade árabe no início do Islã. As classes mais fracas eram invariavelmente vítimas de maus-tratos e abusos, e isso se aplicava aos escravos, servos, mulheres e aliados.1 Contudo, Anas ibn Malik afirma que recebeu um tratamento muito diferente em seu serviço ao Profeta: Eu o servi na cidade e durante as viagens. Por Deus, ele nunca me perguntou sobre nada que eu tivesse feito, por que o fizera daquela maneira; nem jamais me perguntou sobre algo que eu tivesse omitido, por que não o fizera. (Relatado por al-Bukhari, Muslim, Ahmad e al-Tirmidhi.)
1 Aliados eram indivíduos que se ligavam a tribos por um vínculo de lealdade chamado “aliança”. Não pertenciam à tribo por nascimento e estavam afastados de suas próprias tribos por uma razão ou outra. Deviam cumprir todos os deveres que os membros da tribo cumpriam, mas tinham menos privilégios. Alguns aliados eram antigos escravos que haviam obtido a liberdade e escolhido permanecer com seus antigos senhores.
Uma versão mais longa deste hadith acrescenta as seguintes palavras de Anas: Espero sinceramente encontrá-lo no Dia do Juízo e dizer-lhe: “Sou seu pequeno servo, Mensageiro de Deus.” Eu o servi durante dez anos em Medina, quando era jovem e meus modos não eram dos melhores para me recomendar. Ele nunca fez o menor gesto de desaprovação, nem jamais me disse: “Por que você fez isso ou por que omitiu aquilo.” (Relatado por Ahmad e Abu Dawud.) Isso indica a natureza afável do Profeta. Deve-se lembrar, contudo, que Anas era um adolescente quando começou a servir ao Profeta, uma idade em que muitos jovens se sentem rebeldes, ou pelo menos não estão dispostos a que lhes digam o que fazer. Anas alude a isso na segunda versão, ao dizer: “Meus modos não eram dos melhores para me recomendar.” Então, o que o Profeta fazia quando seu servo se descuidava? Anas relata: O Mensageiro de Deus era do melhor tipo de pessoa. Certo dia, mandou-me realizar uma tarefa. Pensei que não iria, mas, no fundo, sentia que devia ir para cumprir o que o Profeta me ordenara. Saí e juntei-me a alguns meninos que brincavam na rua. Algum tempo depois, o Profeta segurou-me pelas costas. Virei-me para olhá-lo, e ele estava sorrindo. Disse: “Unays,2 você foi fazer o que eu lhe disse?” Respondi: “Sim, Mensageiro de Deus; vou agora.” (Relatado por Muslim e Abu Dawud.) O Profeta aparentemente compreendeu que Anas não estava disposto a cumprir a tarefa e preferia brincar com os meninos na rua. Permitiu-lhe fazer isso por algum tempo, sem acrescentar censuras ou palavras duras. Simplesmente segurou-o pelas costas e sorriu, fazendo uma pergunta que servia como lembrete. Esse tratamento não se devia ao fato de o servo ser jovem; o Profeta demonstrava os melhores modos com todas as pessoas, em todos os momentos. Quando perguntaram a A’ishah sobre os modos do Profeta, sua resposta começou com uma pergunta ao interlocutor: “Você lê o Alcorão?” Ele respondeu afirmativamente. Ela disse: “Os modos do Profeta eram o Alcorão posto em prática.” (Relatado por Muslim, Ahmad e al-Nasa’i.) O Alcorão ordena somente o que é bom. Suas ordens, recomendações e proibições atuam em conjunto para revelar o melhor no ser humano. Ao que parece, essa pergunta foi feita a A’ishah em várias ocasiões.
2 Esta forma de seu nome é uma expressão de carinho.
Um líder extremamente atencioso
Às vezes, ela fornecia mais detalhes. Certa vez, recitou os versículos iniciais da Surata 23 (“Os Crentes”), que dizem: “Em verdade, prosperarão os crentes, que são humildes em suas orações, que se afastam de tudo o que é fútil, que são ativos nas obras de caridade, que se abstêm das relações sexuais, exceto com aquelas unidas a eles pelo casamento ou aquelas que possuem legitimamente — pois, nesse caso, não serão censurados; mas aqueles que buscam ultrapassar esse [limite] são transgressores —, que são fiéis às suas confianças e aos seus pactos e que são diligentes em suas orações. Estes serão os herdeiros, que herdarão o paraíso; nele permanecerão.” (23:1-11) Em seguida, acrescentou: “Assim eram os modos do Mensageiro de Deus.” O Profeta deu o melhor exemplo ao tratar as pessoas com respeito e afeição, independentemente de sua posição social. Na verdade, o status não significava nada para ele. Todos eram importantes, e todos recebiam o mesmo tratamento. Quando alguém falava com ele, dedicava-lhe toda a atenção. Mostrava-lhe que estava profundamente interessado em tudo o que aquela pessoa lhe dizia. Anas relata: Quando uma pessoa encontrava o Profeta e apertava sua mão, o Profeta não retirava a mão até que a outra pessoa a retirasse. Também não se afastava dela até que ela se virasse para seguir seu caminho. Nunca foi visto avançar os joelhos na direção de alguém que estivesse sentado com ele. (Relatado por al-Tirmidhi e al-Bayhaqi.) O mesmo se aplicava quando alguém queria sussurrar algo ao Profeta. Anas relata: Nunca vi o Profeta afastar a cabeça quando um homem lhe sussurrava algo, até que o homem afastasse a sua cabeça. Também nunca vi o Profeta soltar a mão de alguém antes que a outra pessoa a soltasse. (Relatado por Abu Dawud e al-Bayhaqi.) Esses relatos confirmam uma característica do Profeta: ele dava toda a sua atenção a quem quer que estivesse falando com ele ou o acompanhando. Não dava sequer a menor indicação de que a outra pessoa deveria parar. Além disso, recebia calorosamente qualquer pessoa que viesse até ele. Jarir ibn Abdullah relata: “O Mensageiro de Deus nunca se recusou a receber-me desde que abracei o Islã. Sempre que me via, sorria.” Toda delegação que chegava a Medina era recebida calorosamente. Até aqueles que haviam se oposto ao Islã por muito tempo e lutado contra ele eram bem recebidos se viessem visitar o Profeta com a mente aberta. Se o visitante fosse um dos primeiros muçulmanos, a acolhida do Profeta seria ainda mais calorosa. Perguntaram a Abu Dharr se o Profeta apertava a mão de seus Companheiros. Ele respondeu: Ele apertava minha mão todas as vezes que eu o encontrava. Certo dia, mandou chamar-me, mas eu não estava em casa. Quando voltei, disseram-me. Fui até ele, e ele estava reclinado em sua cama. Abraçou-me. Isso foi ainda melhor que um aperto de mão. (Relatado por Abu Dawud.)
Perfeição nas relações sociais
Quando o Profeta encontrava as pessoas, perguntava como estavam. Anas relata: “Quando o Profeta encontrava alguém, perguntava como estava. Se o homem dizia que estava bem e louvava a Deus, o Profeta fazia uma oração por ele: ‘Que Deus o mantenha bem.’” (Relatado por Ahmad.) Da mesma forma, se alguém estivesse ausente por três dias, o Profeta perguntava por ele. Se tivesse viajado, o Profeta orava por ele; se estivesse em casa, visitava-o; e, se estivesse doente, também o visitava. (Relatado por Abu Ya’la.) O Profeta gostava de sentar-se com seus Companheiros e ouvir sua conversa. Fazia isso frequentemente depois da oração da alvorada, permanecendo na mesquita até depois do nascer do sol. Eles podiam passar parte desse tempo em conversa comum, lembrando seus dias pré-islâmicos e mencionando a mudança que o Islã trouxera às suas vidas. Se brincavam e riam, ele participava com um sorriso alegre.3 O neto do Profeta, al-Husayn ibn Ali, pediu a seu pai que descrevesse detalhadamente os modos e as ações do Profeta. Parte da resposta detalhada de Ali dizia respeito ao comportamento do Profeta ao encontrar pessoas. Ali disse: O Mensageiro de Deus glorificava a Deus toda vez que se sentava ou se levantava para partir. Não reservava um lugar específico para si e, de fato, aconselhava contra isso. Quando se juntava a um grupo de pessoas, sentava-se no final do grupo e incentivava os outros a fazerem o mesmo. Dava a todos na reunião sua devida atenção. Quem se sentava com ele pensava que era a pessoa mais próxima dele. Quando alguém se sentava com ele para discutir um assunto específico ou explicar uma necessidade, o Profeta permanecia com essa pessoa até que ela partisse. Se alguém lhe pedia algo, ele dava-lhe o que pedia ou, pelo menos, dizia-lhe palavras gentis. Seus modos simples e amistosos estendiam-se a todos. Tornou-se como um pai para todos os seus Companheiros. Para ele, todos eram iguais e tinham os mesmos direitos. Tolerância, modéstia, perseverança e honestidade eram as características de seu círculo. Ali nunca se elevavam as vozes, nem se proferiam obscenidades. Os deslizes eram ignorados. As pessoas distinguiam-se apenas por sua piedade. Demonstravam humildade, respeitavam os idosos e eram compassivas com os jovens. Ajudavam os necessitados e cuidavam de qualquer estranho. A outra pergunta sobre a interação do Profeta com aqueles que o atendiam foi respondida por Ali: O Mensageiro de Deus era sempre alegre e afável. Não era rígido nem áspero em seus modos. Nunca usava linguagem vulgar ou obscena, nem falava mal de ninguém. Ignorava aquilo de que não gostava. Não fazia ninguém perder a esperança nem se sentir decepcionado. Evitava três coisas: discussões fúteis, excessos e aquilo que não lhe dizia respeito. Nunca atacava, envergonhava ou procurava encontrar defeitos em ninguém. Dizia somente aquilo pelo qual esperava obter a recompensa de Deus. Quando falava, todos prestavam atenção. Só falavam quando ele parava. Não discutiam em sua presença. Escutavam qualquer pessoa que falasse até que terminasse… Ria daquilo que os fazia rir e admirava-se daquilo que os maravilhava. Era paciente com qualquer estranho, incentivando-o a expor seu caso e fazer sua pergunta. De fato, seus Companheiros empenhavam-se em levar esses estranhos até ele. Dizia: “Se virem alguém necessitado de alguma coisa, ajudem-no.” Não aceitava elogios, exceto em retribuição por algo que tivesse feito. Nunca interrompia ninguém, mas escutava o que tinham a dizer. Al-Husayn perguntou ainda sobre o momento em que o Profeta permanecia silenciosamente pensativo. A resposta de Ali indicou que o silêncio do Profeta refletia um de quatro propósitos: tolerância, cautela, ponderação ou contemplação. Sua ponderação consistia em considerar o que ouvia das pessoas, enquanto contemplava aquilo que sobrevivera e aquilo que perecera. Unia tolerância à paciência e, como resultado, nunca se irritava nem se deixava provocar. Sua cautela manifestava-se de várias maneiras: sempre escolhia o bem e abandonava o mal, para que as pessoas seguissem seu exemplo; sempre pensava no que beneficiaria sua comunidade; e sempre se esforçava para mostrar o que traria o melhor nesta vida e na vida futura.4 Outro aspecto da maneira como o Profeta tratava as pessoas era que dava uma acolhida especial aos dignitários de outras tribos e comunidades. Honrar tais dignitários era uma atitude natural do Profeta. Contudo, ensinava a seus Companheiros que isso estava relacionado à boa fé. Ao fazer isso diante de seus Companheiros, ressaltava que tais ações não eram apenas o cumprimento de boas maneiras; eram o comportamento natural de todos os crentes. Por exemplo, Jarir ibn Abdullah, chefe da tribo Bajilah do Iêmen, foi certa vez ao Profeta, que estava sentado com seus Companheiros. Ninguém se moveu para dar a Jarir ibn Abdullah um lugar para sentar, pois todos queriam ficar o mais perto possível do Profeta. O Profeta tirou sua veste externa e lançou-a para Jarir. Jarir pegou a veste do Profeta, colocou-a sobre o rosto e o pescoço, beijou-a e esfregou os olhos com ela. Disse ao Profeta: “Que Deus lhe conceda parte de Suas graças, assim como o senhor me favoreceu.” Depois, colocou a veste nas costas do Profeta. O Profeta disse a seus Companheiros: “Quem crê em Deus e no Dia do Juízo deve honrar um dignitário quando ele vem visitá-lo.”5
Nenhuma queixa pessoal
O Profeta queria garantir que ninguém tivesse uma queixa pessoal contra ele. Se acidentalmente atingisse ou empurrasse alguém, oferecia-se para que a pessoa revidasse. Abu Sa’id al-Khudri relata que o Profeta estava cortando algo quando um homem se aproximou. O Profeta atingiu-o acidentalmente com um bastão que tinha na mão e causou-lhe um corte no rosto. O Profeta disse: “Venha, revide.” O homem respondeu: “Abro mão disso, Mensageiro de Deus.” (Relatado por Ahmad, al-Nasa’i e Abu Dawud.) Alguns Companheiros do Profeta aproveitavam ocasiões assim para demonstrar seu amor pelo Profeta, que lhes era mais querido que seus próprios filhos. Usayd ibn Hudayr, dos Ansar, era uma pessoa alegre e tinha bom senso de humor. Certa vez, conversava com algumas pessoas que estavam com o Profeta e fê-las rir. O Profeta tocou-lhe o lado com o dedo. Usayd disse: “Você me machucou.” O Profeta respondeu: “Então é sua vez: toque-me.” Usayd disse: “Você está usando uma camisa, e eu não.” O Profeta levantou a camisa para permitir que ele revidasse, mas Usayd abraçou-o e beijou-lhe o lado. Disse: “É exatamente isso que eu quero.” (Relatado por al-Bayhaqi.) Estava intimamente relacionado a isso o empenho do Profeta para que as pessoas não tivessem dúvidas sobre seu comportamento. Se fosse visto com uma mulher, queria que as pessoas soubessem quem ela era. Safiyyah, sua esposa, relatou que, durante o período em que o Profeta permanecia os últimos dez dias do Ramadã na mesquita, ela certa vez foi visitá-lo. Passou algum tempo conversando com ele na mesquita e depois despediu-se. Ele levantou-se para acompanhá-la até sua casa. Quando estavam à porta da mesquita, dois homens dos Ansar passaram por eles. O Profeta disse-lhes: “Esperem um momento. Esta é Safiyyah bint Huyayy.” Eles disseram: “Glória a Deus, Mensageiro de Deus.” Pensaram que era grave o Profeta precisar explicar isso. O Profeta tranquilizou-os, dizendo: “Satanás chega às pessoas como o sangue que corre em suas veias. Receei que algum pensamento lhes passasse pela mente.” (Relatado por al-Bukhari, Muslim, Ahmad e Abu Dawud.)
Cuidando de todos
O Profeta queria o melhor para todos os seus Companheiros. A história daquele período mostra que muitas pessoas tinham nomes estranhos, alguns com significados infelizes. Uma grande tribo era conhecida como a tribo Kalb, nome que significava “cão”. Abu Sufyan, chefe de Meca, tinha um filho a quem dera o nome Hanzalah, que significava uma planta amarga. O Profeta deixou claro a todos os muçulmanos que toda criança tem o direito a um bom nome: é responsabilidade dos pais escolher bons nomes para seus filhos. Quando Ali, casado com Fatimah, filha do Profeta, teve seu primeiro filho, chamou-o Harb, que significava “guerra”. O Profeta mudou seu nome para Hasan, que significava “bom, atraente”. Ali quis então chamar seu segundo filho de Harb, mas o Profeta deu-lhe o nome Husayn, uma forma carinhosa de Hasan. O Profeta foi além e mudou todos os nomes negativos. Umar tinha uma filha chamada Asiyah, que significava “desobediente”, mas o Profeta mudou seu nome para Jamilah, que significava “bonita”. Da mesma forma, o Mensageiro de Deus passou certa vez por uma aldeia chamada Afrah, que significava “empoeirada”, mas mudou seu nome para Khadirah, que significava “cheia de vegetação”. Esse era um aspecto do cuidado que o Profeta tinha com seus Companheiros. Uma manifestação clara desse cuidado pode ser vista nos esforços do Profeta para garantir que nenhum de seus Companheiros fosse lembrado depois da morte por uma dívida não paga. Contudo, nos primeiros anos de sua vida em Medina, a comunidade muçulmana era muito pobre e o Estado não tinha recursos. Abu Hurayrah relata que uma pessoa falecida podia ser levada à mesquita para a oração antes do enterro. O Profeta perguntava se ela tinha dinheiro suficiente para pagar alguma dívida pendente. Se lhe dissessem que havia dinheiro suficiente para isso, ele conduzia a oração pelo falecido. Se fosse informado de que não era esse o caso, dizia a seu povo que orasse por ele. Mais tarde, quando tinha recursos abundantes, costumava dizer: “Estou mais próximo dos crentes que eles próprios. Quem morrer deixando uma dívida pendente, eu a pagarei. Quem deixar bens, estes pertencerão a seus herdeiros.” (Relatado nas seis coleções autênticas de hadith.) Surge aqui a pergunta: por que o Profeta não oferecia a oração pelo falecido que morrera antes de poder pagar suas dívidas, considerando que tal pessoa precisava mais das orações do Profeta do que a maioria? O Profeta pretendia incentivar parentes e membros da tribo a apresentarem-se e assumirem o pagamento das dívidas. Isso funcionou, pois foi exatamente o que aconteceu. Os parentes do falecido não queriam que seu familiar fosse privado dessa oração do Profeta. Portanto, apresentavam-se e assumiam o pagamento. Isso respondia diretamente à sua principal preocupação com a defesa do direito: o credor tinha uma reivindicação legítima que não deveria ser negligenciada. O Profeta deixou claro que, assim como os parentes próximos recebem partes da herança quando o falecido é abastado, também devem ser generosos quando ele é necessitado. Para o Profeta, a dívida era algo que devia ser pago o mais rápido possível. Por isso, tentava ajudar os Companheiros que estavam endividados. Por exemplo, um homem dos Ansar, Abdullah ibn Amr ibn Haram, foi morto na Batalha de Uhud. Tinha uma dívida pendente correspondente a determinado peso de tâmaras. Seu filho, Jabir, queixou-se ao Profeta de que a produção de seu jardim não seria suficiente e de que o credor, um judeu, não aceitaria adiar o pagamento. O Profeta garantiu que a dívida fosse paga no prazo. O pagamento das dívidas pendentes dos indivíduos da comunidade muçulmana era um aspecto do cuidado que o Profeta tinha com todos os seus Companheiros, especialmente os que se encontravam em posição de fraqueza. Fosse a fraqueza causada por posição social, ignorância ou erro de julgamento, o Profeta procurava corrigir os erros, fornecer instruções simples e elevar a condição de todos os seus Companheiros. Anas ibn Malik relata: Estávamos com o Mensageiro de Deus na mesquita quando um beduíno se aproximou. Então, levantou-se e começou a urinar na mesquita. Os Companheiros do Profeta disseram-lhe que parasse. O Profeta disse: “Deixem-no. Não o impeçam.” Deixaram-no terminar de urinar. Depois, o Profeta chamou-o e disse-lhe: “As mesquitas não são lugares onde as pessoas possam urinar ou jogar seu lixo. São lugares onde as pessoas passam o tempo glorificando a Deus, oferecendo orações e lendo o Alcorão.” Em seguida, deu instruções a um homem que trouxe um balde de água e a derramou sobre o lugar onde o beduíno urinara. (Relatado por al-Bukhari e Muslim.) É evidente que um lugar de culto não deve ser usado como banheiro. Especificamente, a mesquita do Profeta quase não tinha esteiras ou tapetes, e as pessoas oravam sobre o chão duro. Como os beduínos viviam principalmente em tendas no deserto, aquele beduíno podia ser perdoado se pensasse que podia urinar ali. Talvez desconhecesse os padrões islâmicos de limpeza e purificação. Os Companheiros do Profeta ficaram chocados com sua atitude, mas o Profeta quis, antes de tudo, que o beduíno não sofresse nenhum dano. Depois, deu-lhe o conselho correto, explicando por que sua ação estava errada. Em seguida, corrigiu o problema purificando o local. Outro exemplo diz respeito a Abdullah ibn Abd Nuhm, um jovem da tribo Muzaynah, que vivia a certa distância de Medina. Seu tio rico cuidou dele depois da morte de seu pai e orientou-o no caminho do sucesso financeiro. Abdullah aprendeu sobre o Islã e quis tornar-se muçulmano, mas seu tio se opunha. Por isso, adiou essa decisão, esperando que o tio mudasse de opinião. Passaram-se anos, mas o tio não mostrou nenhum sinal de mudança. Assim, no início do nono ano da permanência do Profeta em Medina, Abdullah decidiu que já não podia esperar por ele. Abdullah respeitava o tio e não queria dar esse grande passo sem informá-lo. Disse ao tio que esperara por ele para que se juntasse a ele ao tornar-se muçulmano. O tio ficou furioso e disse a Abdullah que, se ele se tornasse muçulmano, tiraria tudo dele e o deixaria sem nada. Abdullah respondeu que não se importava com bens materiais e que seguiria adiante para juntar-se ao Profeta. O tio fez o que ameaçara: tirou-lhe tudo, inclusive as roupas, deixando-o apenas com a roupa íntima. A mãe de Abdullah deu-lhe uma esteira para cobrir-se. Ele a cortou em duas, envolvendo uma parte da cintura para baixo e colocando a outra sobre os ombros. Então foi a Medina, encontrou o Profeta e aceitou o Islã. Seu nome original era Abd al-Uzza. O Profeta mudou-o para Abdullah e deu-lhe o apelido Dhul-Bijadayn, que significa “o homem com duas esteiras”. O Profeta cuidou dele e ensinou-lhe o Alcorão. Abdullah memorizou boa parte do Alcorão e frequentemente o recitava em voz alta na mesquita. Algumas pessoas queixaram-se ao Profeta. Consideravam que elevar demais a voz era contrário a uma atitude respeitosa para com o Alcorão e podia perturbar a concentração dos demais. O Profeta, contudo, disse-lhes que deixassem Abdullah em paz, acrescentando que o jovem havia abandonado voluntariamente sua casa pela causa de Deus. Abdullah Dhul-Bijadayn juntou-se ao exército muçulmano na Expedição de Tabuk. Queria que o Profeta orasse para que se tornasse um mártir. Contudo, o Profeta orou para que nenhum incrédulo derramasse seu sangue. Informou-lhe que uma pessoa em uma campanha de jihad será mártir mesmo que morra de doença durante a campanha. Foi o que aconteceu com ele: morreu de febre no caminho de volta. Abdullah ibn Mas’ud relata que esteve presente no enterro, realizado à noite, com o Profeta dentro da sepultura enquanto Abu Bakr e Umar seguravam o corpo e o baixavam para entregá-lo ao Profeta, que orou por ele, dizendo: “Meu Senhor, estou muito satisfeito com ele; portanto, fica satisfeito com ele.” Ibn Mas’ud comentou: “Eu gostaria de ser aquele que está sendo enterrado naquela sepultura.”6 Essa expedição ocorreu no ano 9 AH (o nono ano da permanência do Profeta em Medina), o que significa que Dhul-Bijadayn foi muçulmano por menos de um ano quando morreu.
Quando pessoas boas erram
A capacidade do Profeta de lidar com os graves deslizes cometidos por seus Companheiros era uma marca de seu caráter. Ele compreendia que as pessoas podem enfraquecer diante da tentação ou ao enfrentar a ameaça de perigo para si mesmas ou para seus parentes próximos. Quando essa fraqueza leva alguém a comunicar-se com o inimigo em momentos críticos, isso pode ter sérias consequências. Foi esse o caso de Hatib ibn Abi Balta’ah. Os coraixitas eram a principal tribo árabe. O Profeta pertencia a ela, mas a maioria de seu povo opunha-se firmemente ao Islã e forçou o Profeta e os muçulmanos a emigrar para Medina. Depois, tentaram suprimir o Islã pela força, enviando vários exércitos para lutar contra a comunidade muçulmana. Em grande parte, não tiveram sucesso. Por fim, assinaram com o Profeta um acordo de paz que deveria durar dez anos. Antes de transcorridos dois anos, os coraixitas violaram descaradamente o acordo, lutando contra uma tribo aliada do Profeta. O Profeta decidiu agir contra os coraixitas, ordenando a mobilização e tomando todas as medidas para manter secretas suas preparações e intenções. Queria que os coraixitas se deparassem subitamente com o poder crescente da comunidade muçulmana, para que se alcançasse um fim pacífico para um conflito prolongado. Embora precisasse estar pronto para lutar se as circunstâncias impusessem uma batalha, seu objetivo era obter uma vitória rápida, com o mínimo de derramamento de sangue. Hatib ibn Abi Balta’ah era um dos primeiros Companheiros do Profeta e emigrara com ele para Medina. Lutara em todas as batalhas que envolveram os muçulmanos depois que estabeleceram sua cidade-Estado em Medina. Contudo, naquele momento, alguma fraqueza se insinuou nele. Temia por seus parentes em Meca, vulneráveis a uma ação de retaliação dos coraixitas, embora não fossem muçulmanos. Queria protegê-los fazendo um favor aos coraixitas e, por isso, escreveu-lhes uma carta informando as intenções do Profeta. Porém, a carta foi recuperada e a ação de Hatib foi descoberta. Vozes levantaram-se exigindo sua execução, pois seu ato era traição. Qualquer tribunal, em qualquer lugar do mundo, tê-lo-ia declarado culpado de alta traição por transmitir segredos militares importantes ao inimigo. Contudo, o Profeta acalmou toda a agitação. Perguntou a Hatib sobre seus motivos, e Hatib explicou: Sou certamente um crente em Deus e em Seu Mensageiro. Não mudei de modo algum. Não tenho dúvidas em assuntos de fé. Apenas considerei minha situação em Meca, onde tenho família e filhos. Eu era somente um aliado dos coraixitas, não tendo nascido entre eles. Outros emigrantes que têm família ou propriedades em Meca possuem parentes e clãs para protegê-los. Pensei apenas que, se fizesse um favor aos coraixitas avisando-os, eles retribuiriam protegendo meus filhos e minha família. Não há mais nada além disso. Eu jamais voltaria à incredulidade depois de Deus ter-me guiado à fé correta.7 O Profeta aceitou a explicação e o pedido de desculpas de Hatib, lembrou a seus Companheiros os serviços passados de Hatib ao Islã e disse-lhes que não o julgassem de maneira negativa. Seu perdão pela ação de Hatib foi completo.8
Cuidado pessoal
Em muitas ocasiões, o Profeta demonstrou interesse especial pelos assuntos pessoais de seus Companheiros. Perguntava por eles e dava conselhos; também os ajudava a resolver seus problemas pessoais. Por exemplo, Jabir ibn Abdullah era um jovem, com cerca de vinte anos, quando o Profeta chegou a Medina. Era próximo do Profeta. Enquanto o exército muçulmano voltava de uma expedição, Jabir cavalgava com o Profeta e respondeu a uma pergunta dele, dizendo que se casara recentemente, pouco antes da expedição. O Profeta perguntou-lhe sobre sua esposa e se ela era uma jovem virgem ou uma mulher madura. Jabir disse que era a última: O Profeta disse: “Não teria sido melhor que você se casasse com uma jovem virgem com quem pudesse brincar e divertir-se?” Jabir respondeu: “Mensageiro de Deus, meu pai foi recentemente morto em Uhud, deixando-me sete irmãs para cuidar. Por isso, casei-me com uma mulher que pudesse cuidar delas e manter a família unida.” O Profeta respondeu: “Então você fez a coisa certa, se Deus quiser. Quando chegarmos a Sirar, mandaremos abater alguns camelos e celebraremos. Sua esposa ouvirá então que celebramos seu casamento e colocará suas almofadas.”9 Jabir disse: “Mas não temos almofadas, Mensageiro de Deus.” O Profeta respondeu: “Mas terão. Quando chegarem a Medina, organizem uma boa festa.” Quando o exército muçulmano chegou a Sirar, que ficava a apenas cerca de cinco quilômetros de Medina, o Profeta mandou abater e cozinhar vários camelos. Todo o exército participou da celebração do recente casamento de um de seus soldados.10 Numerosos relatos mostram como o Profeta se interessava pelos assuntos pessoais de seus Companheiros. Ajudava a todos, independentemente de sua posição ou condição social. Um dos servos do Profeta era Rabi’ah ibn Ka’b al-Aslami. Era muito dedicado ao serviço, permanecendo acordado até tarde e atendendo a tudo de que o Profeta precisava. O Profeta sugeriu que ele se casasse, mas Rabi’ah preferia permanecer solteiro para ficar livre e servir ao Profeta. Quando o Profeta repetiu a sugestão várias vezes, Rabi’ah pensou que não deveria recusá-la novamente. Contudo, não tinha dinheiro. Contou isso ao Profeta, que o enviou a um determinado clã dos Ansar, levando a mensagem do Profeta de que lhe deveriam dar em casamento a mulher que ele indicaria. Eles concordaram sem hesitar. O Profeta então disse a alguns de seus Companheiros que reunissem um dote para Rabi’ah e conseguissem uma ovelha para ele abater e cozinhar. Depois, conseguiu para ele toda a cevada que o Profeta tinha em casa, para assar pão. Convidou várias pessoas para celebrar o casamento.11 Rabi’ah era um servo exemplar do Profeta. Permanecia sempre a seu serviço até ter certeza de que o Profeta adormecera. Estava pronto para fazer tudo o que o Profeta lhe pedisse. Em reconhecimento, o Profeta disse-lhe certa vez: “Darei a você tudo o que pedir.” Rabi’ah ficou encantado, mas queria um bom prêmio, sabendo que o Profeta sempre honrava suas promessas. Por isso, pediu algum tempo para pensar. Mais tarde, foi ao Profeta e disse: “Meu pedido é que eu esteja em sua companhia no paraíso.” O Profeta perguntou-lhe: “Quem lhe deu esse conselho?” Rabi’ah respondeu: “Por Aquele que o enviou com a mensagem da verdade, ninguém me deu conselho algum. Apenas pensei em sua posição próxima de Deus Todo-Poderoso e lembrei que esta vida é curta e que certamente acontecerá tudo o que Deus me destinou. Por isso, decidi fazer meu pedido para a vida futura.” O Profeta ficou em silêncio por um longo tempo. Então disse a Rabi’ah: “Certamente orarei por você, mas gostaria que me ajudasse contra si mesmo, prostrando-se frequentemente em oração.”12 Não vemos aqui nada semelhante à relação entre senhor e servo; vemos, ao contrário, um respeito que pouco tem a ver com a posição social. Não há qualquer sugestão de que um servo deva reduzir suas aspirações, deixando de almejar o lugar mais elevado no paraíso. Vemos o conselho que garantiria o cumprimento do pedido. Nada é mais precioso do que estar na companhia do Mensageiro de Deus no paraíso. Portanto, é preciso trabalhar arduamente para isso. A prostração na oração é o ápice da submissão a Deus. Manter isso sempre diante dos olhos certamente conserva a pessoa no caminho correto; daí o conselho do Profeta a Rabi’ah.
Mais querido que a própria pessoa
Como os Companheiros do Profeta retribuíam seu excelente tratamento? Dizer que ele lhes era mais querido que tudo na terra é dizer pouco. Na verdade, amavam-no mais do que a si mesmos. Compreendiam que suas ações eram a marca de um verdadeiro crente. Antes de tudo, apreciavam a bondade que ele lhes demonstrava a cada instante. Não podiam esperar tratamento melhor de ninguém e percebiam que o bem-estar deles era fundamental em seus pensamentos. De fato, ele amava toda a humanidade e alegrava-se quando alguém reconhecia a verdade da unicidade de Deus e acreditava n’Ele: essa era sua esperança para todas as pessoas. Por isso, era extremamente bondoso com aqueles que se apresentavam e declaravam sua fé diante da oposição de seus chefes tribais e de forças hostis. Queria protegê-los e conduzi-los ao que fosse melhor. Os Companheiros do Profeta também estavam profundamente conscientes da grande transformação ocorrida em suas vidas depois de aceitarem a verdade da mensagem islâmica. Comparavam sua vida presente com seus antigos costumes, quando adoravam as estátuas que eles próprios fabricavam com as mãos. Sentiam vergonha do passado e gratidão pelo presente. Suas antigas tradições, monótonas e arbitrárias, não faziam sentido; enquanto sua crença atual na unicidade de Deus os elevava a um nível superior, digno do ser humano. Seu sentimento de gratidão a Muhammad, como o Profeta que transmitira a mensagem de Deus, era infinito. Por isso, estavam sempre prontos a sacrificar a vida para defendê-lo. Quando os coraixitas tentaram matar o Profeta, alguns de seus Companheiros protegeram-no com o próprio corpo, enquanto outros lutaram com bravura, apesar dos múltiplos ferimentos, para defendê-lo. As gerações posteriores de muçulmanos não podem realizar ações assim, pois o Profeta não vive entre elas. Contudo, compartilham o mesmo grau de gratidão pelo homem que transmitiu a mensagem final de Deus, destinada a trazer felicidade à vida humana. O mundo é um lugar muito melhor porque o Islã orienta a vida de grande parte da humanidade.
CAPÍTULO 12
a transformação da sociedade
O Profeta faleceu vinte e três anos depois do dia em que foi informado de que Deus o havia escolhido para ser Seu último Mensageiro à humanidade. Esses vinte e três anos testemunharam a revelação gradual do Alcorão, que contém a mensagem divina que constitui a fé islâmica. Durante esse período, ocorreu uma transformação profundamente radical na sociedade árabe, e essa mudança teve repercussões no mundo em geral.
A sociedade árabe na época de Muhammad era tribal, com uma hierarquia rígida. As tribos estavam espalhadas por toda a Arábia. Algumas eram pequenas e humildes, enquanto outras eram grandes e altamente respeitadas. O status, contudo, não se baseava apenas no tamanho de uma tribo: também era influenciado por fatores como sua história e suas glórias passadas na guerra ou na paz, suas relações com os vizinhos e as pessoas que haviam saído de suas fileiras para se tornar famosas.
Os coraixitas eram a tribo mais importante da Arábia. Viviam em Meca e eram os guardiões de sua Grande Mesquita, o Haram. No centro de Meca estava a Caaba, o primeiro edifício consagrado exclusivamente à adoração de Deus. Os coraixitas obtinham grande orgulho e honra por cuidarem da Mesquita e de seus visitantes. Peregrinos vinham a Meca de toda a Arábia, e reconheciam a importância do Haram (ou “a Casa”, como era frequentemente chamado). Também honravam os coraixitas por sua função de guardiões e estavam dispostos a reconhecer a autoridade dessa tribo, particularmente em questões religiosas.
Uma grande tribo como a dos coraixitas era composta por vários clãs, e um clã podia tornar-se suficientemente grande para ser uma tribo por direito próprio. Alguns dos clãs coraixitas eram candidatos adequados a esse status, mas preferiam continuar fazendo parte dos coraixitas, dado o prestígio que lhes era atribuído. Entretanto, os clãs rivalizavam entre si por honra e distinção.
Meca não possuía agricultura, portanto seu povo dependia do comércio exterior e organizava duas grandes viagens anuais à Síria e ao Iêmen para garantir seu sustento. Como os coraixitas eram hábeis comerciantes, Meca tornou-se uma cidade rica, e seu povo levava uma vida confortável e ociosa. Não realizavam trabalho manual; em vez disso, dependiam de seus escravos e servos para cuidar dessas tarefas. Possuíam grande número de escravos e aliados. Estes últimos eram pessoas que não pertenciam à tribo, mas estavam ligadas a ela: sem essa ligação, qualquer indivíduo que não pertencesse a uma tribo estava sempre vulnerável a ataques.
O orgulho era uma característica comum dos árabes da época, e eles se orgulhavam de sua ascendência, tribo e raça. A poesia daquele período geralmente estava repleta de elogios à família e à tribo do poeta. A rivalidade entre as tribos alimentava a competição literária, e os poetas usavam seu talento da melhor maneira possível para exaltar suas comunidades. O surgimento de um poeta em uma tribo exigia grandes comemorações, pois um bom poeta seria capaz de colocar a tribo em posição de destaque e talvez enfraquecer a posição de seus rivais. Na verdade, o papel desempenhado pelos poetas na sociedade pode ser comparado ao dos meios de comunicação de massa em nossa época.
A rivalidade entre as tribos, contudo, nem sempre se limitava à poesia de exaltação: frequentemente explodia em incursões armadas que talvez não tivessem outra razão além da obtenção de algum saque, particularmente quando os tempos eram difíceis. Uma incursão muitas vezes provocava outra, em retaliação, por parte da tribo atacada. Isso levava a uma série de incursões e guerras que podiam durar muito tempo.
A riqueza acumulada pelos coraixitas e por outras grandes tribos conduziu a uma vida repleta de vícios. O consumo de bebidas alcoólicas e os jogos de azar eram comuns, assim como a imoralidade sexual. Além disso, a injustiça era frequente, especialmente quando o autor do ato, fosse um indivíduo ou uma tribo, sentia que poderia sair impune. Por exemplo, não era incomum que um comerciante rico e poderoso se recusasse a pagar a alguém o que lhe era devido, porque não havia uma autoridade para fazer cumprir a justiça. Os escravos e os membros mais fracos da sociedade eram particularmente vulneráveis a esse tipo de injustiça. De fato, um senhor podia matar seu escravo sem temer ser responsabilizado pelo crime.
Ainda assim, a sociedade árabe também possuía virtudes. Entre as mais importantes estavam a coragem, a generosidade, a hospitalidade para com os hóspedes e a preservação da honra. Esses eram valores que todos os árabes respeitavam e valorizavam. O fato de tais valores serem reconhecidos e observados conduzia a algumas contradições no comportamento. Por exemplo, a justiça era sempre altamente elogiada, mas a injustiça era bastante comum.
Zuhayr ibn Abi Sulma, um famoso poeta árabe da época, cuja poesia ainda é estudada nas escolas e universidades de todo o mundo árabe, afirma:
“Aquele que não age injustamente certamente sofrerá injustiça.”
Em contraste, os clãs coraixitas fizeram um pacto para apoiar qualquer pessoa que sofresse injustiça entre eles.
A Transformação da Sociedade
A mensagem do Islã foi revelada nessa sociedade: destinava-se a produzir uma mudança total na vida humana, e começou transformando a sociedade árabe. Desde o início, o Islã declarou que era uma mensagem para toda a humanidade. Assim, o Profeta tratava todas as pessoas como iguais, garantindo que ninguém fosse ignorado nos esforços de divulgação da nova mensagem por causa de seu status social, raça, cor ou gênero.
Além disso, o Profeta deixou claro a todos os novos muçulmanos que eles eram irmãos e irmãs na fé. Nos primeiros anos do Islã em Meca, o Profeta estabeleceu um vínculo de fraternidade entre os muçulmanos e, ao designar um deles como irmão de outro, não considerava suas tribos ou clãs, sua riqueza, nem se eram homens livres ou escravos. Em vez disso, eram tratados como uma única comunidade unida pelo vínculo da fé.
Para reforçar ainda mais esse conceito, o Profeta disse-lhes que as gerações de crentes das antigas religiões divinas, desde o tempo de Adão até os dias atuais, eram seus irmãos. Ele sempre se referia aos profetas anteriores como seus próprios irmãos e dizia: “Que Deus tenha misericórdia de meu irmão Moisés” (ou Noé, ou o profeta mencionado).
Quando os muçulmanos de Meca tiveram de emigrar para Medina, foram recebidos por seus irmãos que ali viviam, os quais os hospedaram em suas casas e compartilharam tudo com eles. O Profeta, porém, foi além e disse-lhes que cada pessoa de Medina (isto é, dos Ansar) deveria ter um irmão entre os Muhajirun (isto é, os emigrantes de Meca).
O Vínculo de Fraternidade
Os muçulmanos levaram muito a sério esse vínculo de fraternidade. Um exemplo disso é fornecido por Sa‘d ibn al-Rabi‘ e ‘Abd al-Rahman ibn ‘Awf, que foram tornados irmãos pelo Mensageiro de Deus. Sa‘d, um ansari, disse a ‘Abd al-Rahman, que viera de Meca:
“Sou abastado e lhe darei metade dos meus bens. Também tenho duas esposas. Escolha uma delas, e eu me divorciarei dela para que você possa casar-se com ela depois que terminar seu período de espera.”
‘Abd al-Rahman agradeceu-lhe e disse:
“Que Deus abençoe você, sua família e seus bens. Não preciso de nada disso. Apenas indique-me o caminho até o mercado, e tentarei cuidar de mim mesmo.”
Ele era um homem com bom tino para os negócios. Em poucos dias, ganhou algum dinheiro. Pouco tempo depois, casou-se.1
Não é preciso dizer que ambos foram magnânimos em sua atitude. Essa era uma característica da comunidade estabelecida pelo Profeta.
1 O hadith é relatado integralmente por al-Bukhari em vários trechos. Também se encontra em al-Tirmidhi, al-Nasa’i, Ahmad e al-Hakim.
O Profeta aboliu o sistema de classes que funcionava dentro da ordem tribal. Pouco antes de o povo de Medina tomar conhecimento do Islã, havia sido enfraquecido por uma guerra feroz entre as duas principais tribos árabes, os Aws e os Khazraj. O Profeta pôs fim a isso e substituiu sua rivalidade pelo vínculo da fé. Eles começaram a chamar uns aos outros de irmãos.
De fato, a população muçulmana de Medina, composta por pessoas tanto dos Aws quanto dos Khazraj, assim como pelos Muhajirun que vieram de Meca, formava uma única comunidade. Isso foi estabelecido no pacto de Medina, a primeira constituição escrita da história da humanidade. O pacto organizava as relações com outras comunidades, incluindo os judeus e os descrentes de Medina. Nessa nova comunidade, havia uma única classe à qual pertenciam todos os muçulmanos.
O Profeta não tentou estabelecer uma nova ordem social pela força. Percebeu que impor uma mudança social por meio do mero poder não era a maneira adequada de erradicar as injustiças sociais predominantes em muitas sociedades. Em vez disso, promoveu uma mudança de mentalidade, na qual as pessoas começaram a questionar as antigas normas e a avaliá-las à luz do Alcorão. Tudo o que era inconsistente com o Alcorão foi descartado, e aquilo que estava de acordo com ele foi fortalecido.
Ele não promulgou um decreto abolindo a escravidão, mas fez da libertação de um escravo da servidão uma das ações mais recompensadas que um muçulmano poderia realizar. O Islã também estabelece a libertação de um escravo como punição para muitos tipos de violação da lei islâmica. Além disso, o Profeta incutiu em seus Companheiros a ideia de que os escravos eram seus irmãos na fé.
Certa vez, dois de seus Companheiros tiveram uma grave discussão. Um deles, Bilal, era um antigo escravo de origem abissínia. No calor da discussão, o outro, Abu Dharr, chamou-o de “filho de uma mulher abissínia”. Quando o Profeta soube disso, ficou zangado. Disse a Abu Dharr:
“Você está tentando humilhá-lo por causa de sua mãe? Você é um homem que ainda conserva vestígios da jahiliyyah.”
(Jahiliyyah é o termo islâmico que se refere a uma ordem social contrária aos princípios da fé divina; deriva da raiz jahala, que significa ignorância.)
Abu Dharr ficou muito abalado. Reconheceu seu erro e pediu desculpas
CAPÍTULO 13
mudando a condição das mulheres
Tal como muitas sociedades — antigas e modernas — a Arábia pré-islâmica tratava as mulheres como inferiores aos homens. Havia, contudo, diferenças entre as tribos quanto ao tratamento dado às mulheres. Embora algumas tribos as respeitassem, não as tratavam como iguais aos homens; o quadro geral colocava as mulheres numa posição inferior, mas o grau dessa inferioridade variava. Como mencionei no capítulo anterior, às vezes as meninas eram enterradas vivas por medo da pobreza. Escusado será dizer que esse não era o destino de todas as meninas, mas, ainda assim, era considerado uma prática aceitável. Algumas pessoas bondosas tentavam salvar as meninas de tal destino, assumindo os seus cuidados e criando-as. Contudo, essa prática indica a condição das mulheres na Arábia no início da mensagem islâmica. As mulheres praticamente não tinham direitos na Arábia pré-islâmica, a menos que fossem ricas. Um pai podia casar a filha com alguém sem sequer consultá-la. Ela não tinha direitos de herança; pelo contrário, em alguns casos era considerada parte dos bens deixados pelo marido falecido. Nessa situação, o chefe da família podia herdá-la como esposa ou dá-la a quem quisesse. As mulheres também não eram consultadas nos assuntos familiares. A Arábia pré-islâmica era, por excelência, um mundo dos homens.
Entretanto, essa visão das mulheres não era de modo algum exclusiva da Arábia. No Império Persa, por exemplo, florescia a fé zoroastrista. Na sua versão posterior, conhecida como zarvanismo, desenvolveu o conceito de dualismo, sendo Ahriman o deus do mal. As mulheres eram o meio de que ele se servia para desviar as pessoas. Assim, elas passaram a fazer parte do domínio do mal… Os antigos gregos classificavam as mulheres como criaturas inferiores cuja única função era perpetuar a espécie e cuidar das tarefas domésticas. Uma mulher era forçada a ter relações sexuais com homens escolhidos e a praticar a prostituição. Aristóteles colocava-a ao lado dos escravos e dizia que ela deveria receber o mesmo tratamento dado aos servos, porque era um ser inferior, de personalidade fraca e sem vontade própria. A mulher ocupa uma posição muito baixa em A República, de Platão: “A coragem do homem está em comandar; a da mulher, em cumprir deveres humildes…”. A Lei de Manu, da Índia, diz que “a mulher pertence ao pai durante a infância e ao marido durante a juventude. Se o marido morrer, ela pertence aos filhos e, se não os tiver, pertence aos parentes homens do marido, porque em nenhuma circunstância deve ser deixada por conta própria”. Esperava-se até que a esposa morresse com o marido e ardesse com o seu cadáver. Se escapasse da morte, seria condenada por toda a eternidade.1
Desde o primeiro dia, o Profeta foi instruído de que a sua mensagem se dirigia igualmente a homens e mulheres. Por isso, procurou remover todos os obstáculos à igualdade e dirigiu-se a homens e mulheres da mesma maneira. De fato, a primeira pessoa a acreditar na sua mensagem foi uma mulher: a sua esposa, Khadijah. Quando analisamos os deveres religiosos que o Islam exige dos seus seguidores, verificamos que todos se aplicam igualmente a homens e mulheres. Da mesma forma, a recompensa que Deus lhes concede é a mesma. Há, contudo, algumas diferenças em certos tipos de adoração. Essas diferenças levam em conta diferenças biológicas e sociais, mas não afetam, em última instância, a posição da pessoa perante Deus. A principal diferença é que as mulheres não são obrigadas a fazer as cinco orações diárias obrigatórias nem a jejuar no Ramadan durante o período menstrual. Elas compensam isso jejuando, mais tarde no ano, o mesmo número de dias, escolhendo os dias que lhes forem convenientes. Em tudo o mais, aplica-se o princípio básico repetidamente afirmado no Alcorão: “Quem pratica boas ações, seja homem ou mulher, e é crente, certamente lhe concederemos uma vida boa. E certamente os recompensaremos de acordo com o melhor que fizeram.” (16:97)
O Islam baseia-se no fato de que homens e mulheres desempenham papéis diferentes na vida humana: as mulheres geralmente cuidam da geração seguinte, assegurando assim o bem-estar futuro da comunidade; os homens, por sua vez, ganham o sustento da família e cuidam do presente. Como as mulheres cuidam dos filhos e da família, não são obrigadas a trabalhar para ganhar o próprio sustento. Os maridos, pais ou outros parentes próximos devem cuidar delas. A mulher que não tem nenhum parente homem para sustentá-la é amparada pelo Estado muçulmano.
1 M. H. Al-Khayyat, Al-Mar’ah al-Muslimah wa Qadaya al-Asr, Damasco, 2008, pp. 25–28.
Mudando a condição das mulheres
Independência financeira
Esses são os principais princípios que o Islam exige que os seus seguidores ponham em prática. O Profeta forneceu os detalhes e deu o melhor exemplo da sua aplicação prática. Estabeleceu a regra de que a mulher pode ganhar e possuir o seu próprio dinheiro e os seus bens. Cabe exclusivamente a ela decidir como esse dinheiro será gasto ou investido, desde que respeite as disposições da lei islâmica. Ela não precisa arcar com nenhuma despesa da família, pois essa é responsabilidade do marido. O seu direito de propriedade é garantido pelo Alcorão: “Não cobicem os favores com que Deus agraciou mais uns do que outros. Os homens terão uma parte do que ganharem e as mulheres terão uma parte do que ganharem. Portanto, peçam a Deus algo da Sua graça.” (4:32)
O Profeta deixou isso absolutamente claro aos seus Companheiros, oferecendo exemplos práticos. Uma das suas esposas, Zaynab bint Jahsh, “fazia trabalhos manuais e dava os seus ganhos em caridade”. (Relatado por Muslim.) O Profeta incentivou as mulheres a doarem em caridade, “mesmo que ofereçam algumas das suas joias”. Depois de ouvir isso do Profeta, quando ele se dirigia às mulheres na mesquita, uma mulher chamada Zaynab foi mais tarde procurá-lo. Ela perguntou se poderia dar a sua caridade ao marido pobre e aos órfãos de quem cuidava — esses órfãos eram seus parentes. A resposta dele foi: “Se ela o fizer, terá uma recompensa dupla: uma por ser bondosa para com os parentes e outra pela caridade.” (Relatado por al-Bukhari e Muslim.)
Da mesma forma, Jabir ibn Abdallah relata que a sua tia materna havia sido divorciada. Ela queria ir à sua plantação de tamareiras para supervisionar a colheita das tâmaras. Algumas pessoas da sua família tentaram impedi-la, alegando que ela ainda estava no período de espera. Ela foi ao Profeta perguntar se podia realizar essa tarefa. Ele disse: “Sim, podes ir colher as tuas tâmaras. Talvez dês algumas em caridade ou faças algo útil.” (Relatado por Muslim.) Todos esses exemplos, e vários outros, confirmam o fato de que, no Islam, as mulheres desfrutam de total independência financeira. A mulher muçulmana tem um privilégio ainda maior. Um homem não pode pagar o seu zakat — a caridade obrigatória — à esposa, porque é responsável pelo seu sustento; ela, porém, pode pagar o seu zakat a ele, pois não tem essa responsabilidade, mesmo que seja muito mais rica do que ele.2
2 O zakat é um dos atos mais importantes de adoração islâmica e um dos cinco pilares do Islam. Todo muçulmano que possui mais do que determinado limite — equivalente a 85 gramas de ouro — deve pagar zakat à taxa de 2,5% de todo o dinheiro que possui. O zakat é distribuído por oito categorias de pessoas, incluindo os pobres, os necessitados e os devedores insolventes. É uma obrigação anual. Além disso, é uma instituição autossustentável, pois aqueles que trabalham na sua administração são pagos com a sua receita. Na ausência de um governo islâmico, os muçulmanos individualmente devem distribuí-lo aos seus beneficiários. Como incide sobre bens e rendimentos, a sua arrecadação é enorme, e houve vários exemplos na história em que a pobreza foi erradicada por meio dele.
Na sociedade moldada pelo Profeta, as mulheres também participavam de atividades políticas e sociais ao lado dos homens. Essa participação reafirmava o fato de que, no Islam, as mulheres desfrutam de igualdade em todos os aspectos da vida. Contudo, o Profeta estabeleceu certos valores que deveriam ser observados em todas as situações, para que os princípios islâmicos gerais permanecessem em vigor.
Emancipação por ordem de Deus
A emancipação das mulheres ocorrida na Arábia com o advento do Islam não foi motivada por circunstâncias sociais ou econômicas. A única necessidade era que Deus queria transmitir à humanidade uma mensagem que oferecesse às sociedades uma base sólida, a fim de assegurar a felicidade dos indivíduos e da comunidade. Por isso, ela cuidou das necessidades de homens e mulheres e desenvolveu as suas capacidades, para que todos pudessem contribuir num ambiente de unidade, complementaridade e coesão.
A pedra angular da relação entre os dois sexos sob a mensagem de Deus é que esposas, irmãs, filhas e mães sejam bem cuidadas e tratadas com bondade pelos homens da família, em todas as situações. Como as esposas são as mais propensas a sofrer maus-tratos, o Profeta sempre incentivou a bondade para com elas. Ele próprio deu o melhor exemplo a ser seguido por todos os muçulmanos. Disse: “Os melhores dentre vocês são os que melhor tratam as suas esposas. E eu sou o melhor de vocês para com as minhas esposas.” Essa breve afirmação apresenta um princípio na primeira frase e um exemplo prático na segunda. Devemos lembrar que os muçulmanos são obrigados a seguir o exemplo dado pelo Profeta em todos os assuntos. Ele nunca foi indelicado com nenhuma mulher.
Certa vez, irritou-se com uma criada que havia feito algo totalmente inaceitável. Na sociedade árabe, ela poderia ter esperado um castigo severo. O Profeta limitou-se a dizer-lhe: “Se não fosse o meu temor a Deus, eu ter-te-ia castigado com esta escova de dentes.” (Relatado por Muslim.) Escusado será dizer que bater em alguém com uma escova de dentes pode causar apenas uma dor ligeira. Contudo, até isso era inaceitável para o Profeta.
Apesar do que dissemos sobre a condição das mulheres no Islam, as pessoas tendem a pensar que o Islam confere às mulheres uma posição inferior à dos homens. A crítica costuma concentrar-se em certas áreas: a permissão para bater numa esposa desobediente, a poligamia, a desigualdade na herança e o testemunho nos tribunais. Discutiremos brevemente abaixo essas quatro áreas, para esclarecer a verdadeira atitude islâmica e a orientação do Profeta.
Bater na esposa
Muitas declarações autênticas do Profeta deixam claro que ele detestava intensamente a ideia de bater na própria esposa. Em mais de uma ocasião, destacou a situação profundamente repugnante a que tal agressão conduz: “Algum de vocês poderia bater na esposa como bateria num escravo e depois deitar-se com ela à noite?” (Relatado por al-Bukhari e Muslim.) Ele disse aos seus Companheiros: “As pessoas boas entre vocês não recorrem a bater nas suas esposas.” Essa é uma declaração clara de que tal agressão é contrária à bondade de caráter. Como o Islam procura fazer surgir o melhor nas pessoas, é evidente que bater na esposa é contrário ao que o Islam promove.
Contudo, a permissão para bater na esposa é mencionada no Alcorão. Por isso, precisamos examiná-la no seu contexto e tentar compreendê-la à luz da orientação do Profeta. O único versículo corânico que a menciona diz: “Os homens devem cuidar plenamente das mulheres, com as graças com que Deus favoreceu uns mais do que outros e com aquilo que gastam dos seus próprios bens. As mulheres virtuosas são devotas e guardam a intimidade que Deus ordenou que fosse guardada. Quanto àquelas de quem temem rebeldia, admoestem-nas primeiro; depois, deixem-nas sozinhas na cama; depois, batam-lhes. Então, se elas lhes obedecerem, não procurem pretexto para prejudicá-las. Deus é Altíssimo, Grandioso.” (4:34)
É claro, nesse versículo, que cabe aos homens cuidar plenamente das mulheres, provendo o seu sustento e tratando-as com bondade. O versículo também elogia as mulheres virtuosas e o seu comportamento. Em seguida, aborda a grave situação da rebeldia e apresenta três formas de lidar com ela. A abordagem é gradual, o que significa que o primeiro método, a admoestação, deve ser utilizado em todos os casos. Somente quando ele falhar completamente e a rebeldia continuar se recorre ao segundo método, deixar a mulher sozinha na cama. O terceiro método, o castigo corporal, só é permitido quando o segundo método tiver claramente falhado.
Surgem aqui duas perguntas: 1) Existe alguma indicação clara que explique o tipo de situação em que esse terceiro método pode ser aplicado? 2) Qual pode ser o grau de severidade? Para responder a ambas, podemos citar a nota de rodapé de Asad sobre o versículo mencionado: “[O Profeta] proibiu bater em qualquer mulher, dizendo: ‘Nunca batam nas servas de Deus’ (Abu Dawud, al-Nasa’i, Ibn Majah, Ibn Hibban e Hakim.) Essa é uma proibição clara de bater em qualquer mulher. Quando foi revelado o versículo do Alcorão que autorizava bater numa esposa rebelde, relata-se que o Profeta disse: ‘Eu queria uma coisa, mas Deus quis outra — e o que Deus quis deve ser melhor’ (ver Manar V. 74). Apesar disso, ele estipulou no seu sermão por ocasião da Peregrinação de Despedida, pouco antes da sua morte, que só se deveria recorrer a bater se a esposa ‘fosse culpada, de maneira evidente, de conduta imoral’, e que isso deveria ser feito ‘de modo a não causar dor (ghayr mubarrih)’; há Tradições autênticas nesse sentido em Muslim, al-Tirmidhi, Abu Dawud, al-Nasa’i e Ibn Majah. Com base nessas Tradições, todas as autoridades enfatizam que essa ‘agressão’, se de todo utilizada, deveria ser mais ou menos simbólica — ‘com uma escova de dentes ou algo semelhante’ (Tabari, citando as opiniões dos primeiros estudiosos), ou mesmo ‘com um lenço dobrado’ (Razi); e alguns dos maiores estudiosos muçulmanos, como al-Shafi‘i, consideram que ela é apenas minimamente permitida e deveria ser preferencialmente evitada. Eles justificam essa opinião pelos sentimentos pessoais do Profeta quanto a esse problema.”3
3 Muhammad Asad, The Message of the Qur’an, Gibraltar, 1997, pp. 109–110.
Mais de uma esposa
A poligamia foi permitida na maioria das sociedades durante muito tempo. Também foi permitida nas sociedades cristãs durante o seu período inicial, embora posteriormente tenha sido proibida pela Igreja. O Islam permite a poligamia, mas limita o marido a um máximo de quatro esposas ao mesmo tempo. O Islam também estipula que o marido deve tratar as suas esposas igualmente em todas as situações: não pode favorecer uma com algo que negue às outras. Além disso, deve dividir igualmente as noites entre elas. O Profeta costumava visitar todas as suas esposas durante a tarde, mas passava a noite com aquela cuja vez era.
O Islam enfatiza que, quando um homem teme não ser capaz de manter um tratamento justo entre as suas esposas, não deve casar-se com mais de uma. O Alcorão afirma: “Podem casar-se com outras mulheres que lhes pareçam boas, duas, três ou quatro. Mas, se temerem não poder manter a justiça entre elas, então casem-se apenas com uma.” (4:3)
Assim, o Islam permite que um homem tenha mais de uma esposa, mas estabelece como requisito rigoroso a justiça no tratamento. Isso se aplica a tudo, incluindo moradia, padrão de vida, presentes e herança. O Islam considera a poligamia uma solução adequada para diversas situações sociais e estabelece um código rigoroso de moralidade. Por isso, regulamenta as relações entre os dois sexos, tornando todo ato sexual fora do vínculo matrimonial um pecado grave. Como pode haver situações em que as condições do lar exigem outra mulher para cuidar da família, o Islam quer que ela seja uma esposa legítima. Isso é melhor para ela, pois lhe garante os seus direitos, e melhor para os seus filhos, que serão irmãos dos filhos que o pai tiver com a outra esposa ou esposas. Os seus direitos à educação, criação, sustento e herança são garantidos em igualdade de condições.
Contudo, permanece o fato de que, na maioria dos casos, ter uma única esposa é a melhor situação. As sociedades que restringiram o casamento a uma única esposa não conseguiram encontrar solução para vários tipos de problemas que poderiam afetar seriamente a continuidade do casamento. Em geral, tiveram de fechar os olhos para relações ilícitas ou, como ocorre nas sociedades não muçulmanas contemporâneas, adotar uma atitude permissiva que permite relações sexuais extraconjugais. Os efeitos disso são frequentemente muito graves para as famílias, sobretudo para as crianças pequenas.
Herança das mulheres
Embora o Islam trate homens e mulheres como iguais, existem diferenças em certas disposições da lei islâmica. As pessoas frequentemente usam essas diferenças para sustentar as suas alegações de que o Islam considera as mulheres inferiores. Infelizmente, esses críticos não analisam o quadro completo. Sempre que a lei islâmica estabelece disposições especiais para as mulheres, a vantagem favorece as mulheres. Os melhores exemplos disso são a herança e o testemunho no tribunal.
O sistema islâmico de herança define uma linha direta de herdeiros que considera cônjuges, pais e filhos herdeiros de primeiro grau. Quando o falecido deixa esses familiares, ninguém mais herda coisa alguma. O sistema determina certas quotas para os cônjuges e os pais, que variam conforme a presença ou ausência de outros herdeiros. Por exemplo, a parte dos pais corresponde a um sexto do patrimônio do filho se ele tiver filhos. Se não tiver filhos, o pai recebe dois terços e a mãe um terço. Essa diferença deve-se ao fato de que o pai é obrigado a cuidar da esposa — a mãe do falecido — e atender a todas as suas necessidades.
Da mesma forma, a esposa do falecido recebe um quarto do patrimônio se ele não tiver filhos, enquanto a sua parte diminui para um oitavo quando há filhos. A razão dessa diferença é que os filhos são responsáveis por atender a todas as suas necessidades. Os filhos recebem o que sobra depois de a esposa e os pais terem recebido as suas partes. Os filhos homens recebem o dobro das filhas. É essa diferença que leva as pessoas a afirmar que o Islam discrimina as mulheres. Mais uma vez, a diferença entre o que é atribuído aos filhos e às filhas deve-se às responsabilidades financeiras de cada um.
Essas diferenças nas quotas de homens e mulheres não se aplicam a todos os casos de herança. O sistema islâmico de herança é muito elaborado e não deixa espaço para disputas entre herdeiros e parentes, porque a parte de cada herdeiro é atribuída por Deus e estabelecida no Alcorão. Esse sistema baseia-se na justiça, mas a justiça não funciona por meio de números rígidos; funciona de forma abrangente, levando em consideração as responsabilidades financeiras de cada herdeiro. O seu princípio orientador é que não somos proprietários absolutos daquilo que possuímos, pois tudo pertence a Deus, que nos concede essas coisas. Quando morremos, tudo retorna a Deus, que o distribui segundo esse sistema que combina uma divisão minuciosa com justiça para todos.
Testemunho no tribunal
Quanto ao testemunho no tribunal, o versículo corânico que trata das disposições relativas a empréstimos e transações comerciais inclui a seguinte afirmação: “Chamem dois dos vossos homens para servirem de testemunhas. Se não houver dois homens, então um homem e duas mulheres que considerem aceitáveis como testemunhas, para que, se uma delas se enganar, a outra lhe recorde.” (2:282)
Isso deu origem a críticas ao sistema islâmico, baseadas na acusação de que o Islam discrimina as mulheres nesse caso. Contudo, tal indignação resulta de uma incompreensão da exigência islâmica, que na realidade favorece as mulheres. A lei islâmica foi concebida para ser aplicada numa sociedade islâmica, na qual o homem é responsável pelo sustento das mulheres da sua família. Por isso, a maioria das mulheres muçulmanas escolhe ser dona de casa, cuidando dos filhos e construindo o futuro da sua comunidade. Algumas mulheres continuam a trabalhar e podem envolver-se em negócios ou em todo tipo de atividade.
Os especialistas em direito explicam que a aplicação prática dessa disposição não equivale duas mulheres a um homem. Pelo contrário, a disposição confere às mulheres um privilégio que as testemunhas homens não possuem. No seu livro Woman in Islam, Ahmad Zaki Yamani escreve:
“O Dr. Muhammad Saleem al-Awa menciona a aplicação prática da disposição que exige duas testemunhas mulheres em lugar de um homem. O fato, segundo ele, é que a afirmação atribuída ao Profeta, segundo a qual o testemunho de uma mulher valeria metade do testemunho de um homem, deve ser entendida em sentido figurado.
O procedimento seguido nos tribunais islâmicos ao longo da história da lei islâmica é que, quando entram duas testemunhas mulheres, o juiz lhes pergunta qual delas é a testemunha e qual é aquela que deverá lembrá-la. Cada uma declara o seu papel. O juiz então ordena à testemunha que ocupe o lugar das testemunhas e manda a outra mulher ficar atrás dela, numa posição em que seja vista pelo juiz, mas não pela testemunha. Instrui ainda a mulher que atua como lembradora a fazer-lhe um sinal com a mão se quiser dizer alguma coisa.
O juiz escuta então integralmente o testemunho da mulher. Se a outra mulher lhe tiver feito um sinal, ele pede-lhe que diga o que tem a dizer. Se verificar que isso afeta o conteúdo do testemunho, ordena que seja incluído no registro da sessão do tribunal. Depois pergunta à testemunha se aceita essa informação como correta. Se ela a aprovar e as duas mulheres concordarem, não haverá problema. Se discordarem e a testemunha insistir que a sua versão está correta, o juiz decidirá entre as duas e adotará aquilo que considerar correto.
Isso significa que, na realidade, temos uma única testemunha mulher cujo testemunho pode permanecer tal como foi, sem que a testemunha que a lembra tenha algo a acrescentar; ou então esta pode recordar à outra mulher certos fatos, e ambas concordam quanto aos acontecimentos.
O Dr. al-Awa explica que a testemunha mulher tem um privilégio sobre o homem que atua como testemunha. Esse privilégio consiste no fato de poder levar alguém para lembrá-la de fatos que talvez tenha esquecido. Depois, o tribunal aceita aquilo em que as duas mulheres concordam, e isso se torna a base da decisão no caso em julgamento. Uma testemunha homem que esquece certos fatos não possui esse privilégio. O seu testemunho é rejeitado.
Segundo al-Awa, a lei islâmica concedeu esse privilégio à testemunha mulher e determinou a sua aplicação. O texto corânico refere-se a um testemunho previamente preparado, relacionado com direitos comprovados por documentos, e não ao testemunho sobre acontecimentos. Esse último tipo é comprovado pelo testemunho das pessoas que estavam presentes no momento e no local do acontecimento. Assim, quando os estudiosos tornaram a decisão relativa ao testemunho sobre ações das pessoas também aplicável ao testemunho sobre acontecimentos que elas realmente presenciaram, exerceram o seu discernimento jurídico, ou ijtihad, de maneira a conceder às mulheres um privilégio que o homem não possui. Isso não rebaixa de modo algum a sua posição jurídica ou social.”
Sobre esse ponto, cita-se o Imam Ibn Taymiyah: “O Alcorão não menciona as duas testemunhas, nem o homem e as duas mulheres testemunhas, como prova para estabelecer um caso. Esses dois métodos de prova são mencionados como meios de proteger os direitos de uma pessoa. O que prova o direito de alguém é completamente diferente de uma decisão proferida por um juiz. Os meios para chegar a tal decisão são muito mais amplos do que o testemunho de um número específico de testemunhas.”4
4 Ahmad Zaki Yamani, Al-Islam wa’l-Mar’ah, edição árabe, Londres, 2004, pp. 180–182.
Participação na vida pública
A primeira geração de muçulmanos, isto é, as pessoas que aprenderam o Islam diretamente do Profeta e começaram a aplicá-lo nas suas vidas, percebeu a grande mudança na condição das mulheres trazida pelo Islam. Elas estavam felizes por viver de acordo com os novos padrões do Islam. Numerosos relatos oferecem um quadro completo da participação das mulheres em todos os aspectos da vida, incluindo as campanhas militares.
O Profeta deu-lhes o exemplo prático: sempre que viajava à frente de uma expedição militar ou pacífica, tirava a sorte entre as suas esposas e levava consigo aquela que fosse escolhida. Enquanto muitas mulheres participavam na prestação de serviços de apoio, como cuidar dos feridos e fornecer água aos combatentes, algumas delas, incluindo Nasibah bint Ka‘b, participavam dos próprios combates.
Durante a marcha, podia haver tempo para algum esporte. A’ishah relata: “Acompanhei o Mensageiro de Deus numa das suas expedições. Eu ainda era jovem e magra. Em certo momento, ele disse às pessoas que avançassem. Quando avançaram, disse-me: ‘Vem, vamos correr’. Corremos e eu ganhei. Ele ficou calado. Mais tarde, depois de eu ter engordado e esquecido o acontecimento, viajei com ele noutra expedição. Ele voltou a dizer às pessoas que avançassem, e elas avançaram. Disse-me: ‘Vem, vamos correr’. Corremos e ele ganhou. Riu-se e disse: ‘Estamos quites’.” (Relatado por Ahmad, Abu Dawud, Ibn Majah e Ibn Hibban.)
Essa participação na vida pública encorajou as mulheres a aproveitar plenamente a sua nova posição. Elas estavam dispostas a apresentar-se e declarar em público aquilo que as mulheres muçulmanas normalmente têm demasiada vergonha de discutir. Asma’ bint Yazid relata: “Estávamos na presença do Mensageiro de Deus, enquanto homens e mulheres estavam sentados. Ele disse-nos: ‘Algum homem entre vocês pode contar aos outros o que faz com a sua esposa, e alguma mulher pode contar o que faz com o seu marido?’ Todos permaneceram em silêncio. Eu disse: ‘Sim, Mensageiro de Deus. Por Deus, algumas mulheres fazem isso e alguns homens também’. Ele disse: ‘Não façam isso. É como um demônio macho e uma demônia copulando em público’.” (Relatado por Ahmad.)
Assim, o Profeta estabeleceu padrões de decoro. Referia-se a homens conversando com homens e mulheres conversando com outras mulheres sobre os seus hábitos e práticas sexuais. Queria que essa conversa permanecesse em ambientes privados e apenas entre marido e mulher; nunca deveria ser assunto de conversa social.
Mais significativo nesse hadith, contudo, é que uma mulher falou numa reunião mista, confirmando aquilo que o Profeta suspeitava. Ninguém a censurou por isso. Isso exigia um grau de coragem que talvez nenhuma mulher pudesse ter tido nos tempos pré-islâmicos. Asma’ possuía esse tipo de coragem e expressava-se bem. Como mencionado no Capítulo 5, ela era a porta-voz das mulheres e frequentemente perguntava ao Profeta sobre a posição das mulheres em comparação com a dos homens.
É útil repetir o que ela disse ao Profeta naquela ocasião: “Mensageiro de Deus, falo em nome de um grupo de mulheres muçulmanas que partilham todas a minha opinião. Deus enviou-te como Mensageiro tanto para homens como para mulheres. Acreditamos em ti e seguimos-te. Contudo, nós, mulheres, permanecemos em casa, sendo donas de casa. Satisfazemos os desejos dos homens e damos à luz os seus filhos. Os homens têm o privilégio de participar nas orações de sexta-feira e nos funerais, além de participarem nas expedições de jihad. Quando partem numa dessas expedições, cuidamos dos seus bens e dos seus filhos. Recebemos uma parte da recompensa deles por isso, Mensageiro de Deus?”
O Profeta voltou-se para os seus Companheiros e disse: “Alguma vez ouviram uma mulher formular uma pergunta sobre a sua religião de maneira melhor do que esta senhora?” Eles disseram: “Isso é absolutamente verdadeiro, Mensageiro de Deus.” Ele disse: “Podes ir agora, Asma’, e dizer a todas as mulheres que, quando qualquer uma de vocês cuida da sua casa e do seu marido, procurando agradá-lo, recebe tanta recompensa quanto todos os privilégios dos homens que mencionaste.” Asma’ partiu, expressando a sua alegria pelo que o Mensageiro de Deus lhe havia dito, louvando e glorificando a Deus.5
5 Ibn Abd al-Barr al-Qurtubi, Al-Isti‘ab fi Ma‘rifat al-Ashab, vol. 4, p. 237.
Cuidem bem das mulheres
O Profeta empenhava-se em garantir que as mulheres fossem bem tratadas. Nunca se cansava de dizer às pessoas que tratar as mulheres com bondade era sinal de bom caráter. Para ele, maltratar as mulheres era contrário aos modos islâmicos. Contudo, estava consciente de que, às vezes, quando os homens criticavam as mulheres, podia haver uma queixa legítima.
Há nas mulheres uma característica de impulsividade que Deus colocou na sua natureza; ela é necessária para lidar com crianças pequenas, especialmente bebês. Por exemplo, é instintivo para uma mãe responder imediatamente ao choro de uma criança pequena. Uma mãe que ouve um ruído vindo do quarto onde deixou uma criança pequena corre imediatamente para lá, para saber se o filho está bem. Esquece tudo o mais até se certificar de que nada aconteceu à criança.
Quando essa impulsividade é levada para o mundo adulto, porém, pode tornar-se muito irritante, especialmente quando conduz a uma abordagem superficial de algo que exige consideração cuidadosa. O Profeta tratou disso de maneira refinada. Referiu-se a essa característica impulsiva como uma “curvatura” que deveria ser aceita e explicou que fazia parte da natureza.
Abu Hurayrah cita o Profeta dizendo: “Cuidem bem das mulheres. Elas foram criadas de uma costela. A costela é mais torta na parte superior. Se tentares endireitá-la, ela se quebrará. Se a deixares, continuará torta. Portanto, cuidem bem das mulheres.” (Relatado por al-Bukhari.)
Esse hadith resume o cuidado que o Profeta tinha com as mulheres: queria que todo muçulmano fosse bondoso e compreensivo na maneira de tratar as mulheres. Começa por incentivar os homens muçulmanos a cuidarem bem das suas mulheres. Depois explica a origem da característica que pode causar irritação. Identifica-a como algo que elas não podem evitar e descreve-a de maneira expressiva, apontando as duas alternativas: ser compreensivo e tolerante ou tentar mudar uma parte da natureza. Explica que a segunda alternativa conduz a uma ruptura, que neste caso significa o divórcio. Conclui repetindo a opção que prefere: cuidar bem das mulheres, pois é isso que garante uma vida familiar feliz.
Ao mesmo tempo, o Profeta enfatizava, por palavras e atos, a independência das mulheres. Como, sob o Islam, as mulheres têm plena independência financeira, uma mulher pode conduzir os seus negócios e lidar com os outros como quiser.
Abu Sa’id al-Khudri relatou que um beduíno foi ao Profeta pedir o pagamento de uma dívida que o Profeta lhe devia. Ele insistia demasiadamente para que o Profeta o pagasse naquele momento. Chegou a dizer-lhe que, se o pagamento não fosse feito, as coisas ficariam desagradáveis. Os Companheiros do Profeta repreenderam o beduíno, dizendo: “Sabes com quem estás a falar dessa maneira?” Ele respondeu: “Estou apenas a exigir o meu direito.” O Profeta disse-lhes: “Seria melhor que tomassem o partido de quem tem um direito legítimo.”
O Profeta então enviou uma mensagem a Khawlah bint Hakim: “Se tens tâmaras suficientes, empresta-nos algumas até recebermos as nossas tâmaras, e então iremos devolver-tas.” Ela respondeu: “Sim, farei isso com prazer.” Ela emprestou-lhe as tâmaras. Ele pagou o beduíno e deu-lhe algo a mais. O beduíno disse: “Pagaste integralmente. Que Deus te conceda abundância.” O Profeta comentou então: “Assim são as pessoas boas. Quando uma pessoa fraca não pode reivindicar o seu direito sem sofrer algum dano, toda a comunidade fica privada de bondade.” (Relatado por Ibn Majah, al-Tabarani e al-Bayhaqi.)
Deve notar-se que isso ocorreu há catorze séculos. Naquela época, em nenhuma parte do mundo as mulheres desfrutavam de tal independência financeira. Naquele tempo, o Profeta era o chefe do Estado muçulmano. Poderia ter dado ordens para pagar ao beduíno, mas não o fez. Em vez disso, pediu emprestado a uma das suas Companheiras. Enviou o pedido diretamente a ela, e não ao marido ou tutor. Ela era a proprietária das tâmaras, e o pedido deveria ser feito diretamente a ela.
Talvez não seja surpreendente que, com o desenvolvimento do Estado muçulmano, os sucessores do Profeta tenham empregado mulheres em cargos de responsabilidade. Por exemplo, Umar ibn al-Khattab, o segundo Califa, nomeou al-Shifa’ bint Abdallah fiscal do mercado em Madinah. Ela tinha plena autoridade para garantir que as transações fossem realizadas corretamente e que as pessoas tratassem umas às outras com justiça. Isso indica que havia comerciantes mulheres, assim como mulheres compradoras. A nomeação foi muito bem-sucedida. Quando Umar precisou preencher o mesmo cargo em Makkah, nomeou novamente uma mulher. Samra’ bint Nuhayk foi a sua fiscal do mercado nessa cidade. Ela era firme ao lidar com todas as situações e trazia um chicote para castigar quem merecesse punição. O próprio Umar fez comentários, admirado com a grande mudança na condição das mulheres que o Profeta havia realizado.
CAPÍTULO 14
por que nove esposas para Maomé? O sussurro espalhou-se rapidamente, enquanto várias centenas de árabes procuravam seus parentes próximos e amigos íntimos para lhes dar a notícia e discutir seu impacto. Todos perceberam que a notícia tinha relação com os resultados de sua conquista recente: apenas um mês antes haviam realizado uma missão extremamente bem-sucedida, mas agora tinham de reconsiderar o que fazer com seus ganhos mais valiosos. Isso ocorreu no quinto ano após a imigração do Profeta para Medina (onde ele havia estabelecido o primeiro Estado islâmico). Foram anos repletos de problemas, com muitos inimigos atacando o novo Estado enquanto ele rompia com o modelo tribal da Arábia. Até o início da mensagem islâmica, os árabes não reconheciam nenhum vínculo além da lealdade às suas tribos; agora, o Estado islâmico em Medina estava forjando uma nova comunidade que dava prioridade máxima à fé, um vínculo social totalmente diferente. Naquele momento, havia muçulmanos na maioria das tribos árabes; porém, enquanto algumas tribos tinham apenas um punhado de muçulmanos, as duas tribos de Medina, os Aws e os Khazraj, eram em sua esmagadora maioria muçulmanas e constituíam a maior parte da comunidade muçulmana. Como chefe do Estado muçulmano, o Profeta precisava manter-se vigilante para não permitir que conspirações e planos fossem tramados contra o Islã. Várias tribos árabes cogitavam lançar ataques surpresa contra o Estado muçulmano em Medina. O Profeta precisava de uma rede ativa de informações para estar ciente do que acontecia em diferentes regiões da Arábia. Certo dia, soube que a tribo dos Mustalaq, liderada por al-Harith ibn Abi Dirar, estava tramando um ataque contra Medina. O Profeta adotou uma estratégia preventiva: utilizou ao máximo o elemento surpresa, mas sem jamais lançar um ataque para pegar seu inimigo desprevenido.
Por que nove esposas para Maomé? O Profeta rapidamente reuniu uma pequena força de algumas centenas de seus Companheiros e marchou com rapidez, para aparecer subitamente às portas da tribo dos Mustalaq. Avisou à tribo que ela não seria páreo para os muçulmanos e que, se decidisse lutar, seria logo derrotada. Ainda assim, escolheu lutar, e em pouco tempo ficou claro para ela que uma derrota humilhante a aguardava. Rendeu-se depois de perder apenas dez de seus homens, e muitos de seus homens e mulheres foram feitos prisioneiros. Segundo as regras de guerra vigentes na época, eles tinham de comprar sua liberdade ou ser escravizados. O Profeta, porém, não estava satisfeito com nenhuma das duas opções, pois isso aprofundaria a hostilidade e colocaria o Islã e o Estado muçulmano no mesmo nível do restante do mundo. Ele queria que as pessoas encarassem sua mensagem, se não favoravelmente, pelo menos com neutralidade. Por isso, anunciou rapidamente seu casamento com Barrah, filha de al-Harith ibn Abi Dirar, o chefe dos Mustalaq que conspirava contra ele. O casamento do Profeta foi o tema do sussurro que percorreu o acampamento muçulmano. Se o Profeta se casasse com uma mulher dos Mustalaq, então toda a tribo se tornaria sua família por afinidade: como poderiam os muçulmanos manter tais pessoas detidas por muito tempo ou, de fato, obter qualquer tipo de ganho com elas? Todos os muçulmanos amavam o Profeta mais do que amavam suas próprias famílias e mais do que amavam a si mesmos. Poderiam constrangê-lo mantendo seus parentes por afinidade sob custódia? De modo algum. Ao anoitecer, todos os prisioneiros dos Mustalaq, homens e mulheres, foram libertados em honra do Profeta. Esse casamento do Profeta foi, portanto, uma astuta decisão política e social. Ele conquistou para o Islã uma tribo inteira que, de outro modo, poderia ter se unido às forças aliadas de outras grandes tribos que, pouco depois, sitiariam Medina por um longo período. O Profeta mudou o nome de Barrah, chamando-a de Juwayriyyah: Barrah significa “obediente, que escolhe toda coisa boa”. Ele considerou que esse nome fazia uma afirmação que não podia ser comprovada. Mudou-o em pelo menos outro caso, quando chamou sua enteada de Zaynab. Juwayriyyah é uma forma carinhosa derivada de Jariyah, que significa “jovem senhora”.
A filha do arqui-inimigo
Um caso semelhante foi o casamento do Profeta com Safiyyah bint Huyayy, uma judia com quem o Profeta se casou depois de infligir uma pesada derrota ao seu povo. O próprio pai dela era extremamente hostil ao Profeta, formando alianças e levantando exércitos contra ele. Havia sido morto dezesseis ou dezessete meses antes. Agora Safiyyah fora feita prisioneira, assim como muitos de seu povo.
Ainda assim, o Profeta ofereceu-se para casar com ela, deixando claro aos judeus que era possível uma vida de paz entre eles e os muçulmanos, caso honrassem seu compromisso com a paz. Ele havia firmado um pacto com eles pouco depois de se mudar para Medina e, ao fazê-lo, estabelecera a primeira sociedade pluralista que o mundo já conhecera. Entretanto, uma tribo judaica após outra violou o pacto e provocou sua própria evacuação de Medina. Desde então, as tribos judaicas estavam concentradas em Khaybar e conspiravam novamente para lançar um ataque contra o Estado muçulmano. Mais uma vez, o Profeta e seu exército avançaram rapidamente, e os judeus os encontraram certa manhã às portas de suas fortalezas. Retiraram-se imediatamente para dentro delas, e o Profeta os sitiou. Depois de uma batalha difícil, renderam-se, e foi firmado entre as duas partes um tratado generoso, permitindo que os judeus permanecessem em Khaybar e cuidassem de sua agricultura em troca de metade da produção. O casamento do Profeta com Safiyyah foi um anúncio de grande importância aos judeus e a todas as pessoas de que os muçulmanos não alimentam inimizade permanente contra nenhum povo. Assim, a atitude das outras pessoas determinava a relação: aqueles que desejassem viver em paz com o Islã eram bem-vindos. Safiyyah precisou de tempo para superar o luto pelo marido, morto na batalha, e pelo pai, morto anteriormente, mas logo percebeu que seu último marido, o Profeta, era o melhor homem com quem ela ou qualquer mulher poderia ter se casado, e amou-o profundamente.
Nem Juwayriyyah nem Safiyyah eram idosas, mas também não eram muito jovens, e ambas eram viúvas. Juwayriyyah havia se casado anteriormente com um primo seu, [Abdullah, e Safiyyah havia sido casada duas vezes antes do Profeta. Ambas eram bonitas, mas nem a beleza nem a idade foram fatores em seus casamentos com o Profeta. Ele considerava o efeito que tais casamentos teriam sobre os povos de ambas as mulheres e sobre a comunidade muçulmana.
Outra filha de um inimigo
O casamento do Profeta com Umm Habibah também ocorreu em circunstâncias especiais. Ela pertencia a uma família muito nobre da tribo dos coraixitas. Seu pai não era outro senão Abu Sufyan Sakhr ibn Harb, do clã dos omíadas. Desde o início, ele foi hostil ao Islã e lutou contra ele. Tornou-se o chefe geral dos coraixitas depois da Batalha de Badr, na qual muitos dos chefes coraixitas foram mortos. Em sua nova posição, liderou uma luta após outra contra o Islã, até finalmente tornar-se muçulmano no dia em que Meca caiu diante do Islã.
Umm Habibah, cujo nome era Ramlah, abraçou o Islã em seus primeiros dias, juntando-se ao marido, [Ubaydullah ibn Jahsh. Os dois estavam entre os imigrantes que foram para a Abissínia no quinto ano do início do Islã. Os imigrantes muçulmanos viveram na Abissínia durante vários anos. Contudo, [Ubaydullah tornou-se amigo de alguns sacerdotes cristãos dali, que por fim conseguiram convertê-lo ao cristianismo. Sua esposa ficou, assim, em uma situação terrível: era uma firme crente no Islã e havia emigrado para um país estrangeiro a serviço de sua fé, mas seu marido agora se opunha ao Islã. Ainda assim, continuaram vivendo juntos até [Ubaydullah morrer. Sua situação piorou naquele momento, pois ficou sozinha com sua jovem filha, nascida na Abissínia.
Ainda havia com ela alguns muçulmanos dos coraixitas, e havia muitos muçulmanos abissínios, mas sua situação pessoal era insustentável. Ela não podia retornar ao pai, que liderava a luta contra o Islã. Não podia viajar para Medina, que agora era a principal base do Islã. Tinha de permanecer entre seu povo, onde contava apenas com alguns primos distantes. Certo dia, ouviu uma batida à porta. Abriu-a e encontrou uma senhora do palácio do Negus, o rei da Abissínia, informando-lhe que ele recebera uma mensagem do Profeta em Medina, pedindo-lhe que organizasse seu casamento com o Profeta. Ela ficou encantada com a notícia. Nomeou Khalid ibn Sa[id, um primo seu, como seu tutor matrimonial. Naquela noite, os muçulmanos dos coraixitas foram convidados ao palácio do rei, onde o próprio Negus celebrou o casamento e entregou a Ramlah seu dote em nome do Profeta. Ela então viajou com o emissário do Profeta, [Amr ibn Umayyah, para Medina.
Quando Abu Sufyan recebeu a notícia de seu casamento com o Profeta, disse sobre ele: “É um homem honrado, de quem não se pode apontar defeito.” Não sabemos a data de seu casamento com o Profeta nem a data exata de sua viagem para Medina. Os historiadores daquela época não davam muita importância às datas dos acontecimentos que relatavam, pois se concentravam no próprio acontecimento. Podemos dizer, contudo, que o casamento ocorreu alguns anos depois da imigração do Profeta para Medina: possivelmente no quarto ano, mas certamente antes do fim do sexto ano. No sexto ano, o Profeta enviou um emissário ao Negus solicitando o repatriamento dos imigrantes muçulmanos da Abissínia. Não podemos afirmar se Ramlah estava entre esse último grupo
CAPÍTULO 15
maomé: o comandante militar
Pouco antes do início da Batalha de Badr, a primeira grande batalha da história do Islã, Maomé (que a paz esteja com ele) enviou uma mensagem aos coraixitas dizendo-lhes que, quando se tratava de guerra, preferia não lutar contra eles. Indicou que eles não tinham motivo para lutar contra ele e seus Companheiros e que, portanto, um acordo de paz deveria ser facilmente alcançado. Um dos líderes dos coraixitas, [Utbah ibn Rabi[ah, aceitou a lógica de que uma batalha era desnecessária e tentou persuadir seu povo a abandonar sua atitude hostil. No entanto, Abu Jahl e outros radicais estavam determinados a partir para a guerra e logo conseguiram arrastar todos para uma batalha desnecessária, que terminou com um grande triunfo do exército muçulmano sobre uma força muito maior de incrédulos.
Isso resume a atitude do Islã em relação à guerra: ela deve ser evitada tanto quanto possível, mas não pode ser totalmente descartada, porque outros podem recorrer à batalha. Portanto, um Estado muçulmano que se encontre em conflito com outros deve estar preparado para a batalha, ao mesmo tempo que tenta afastar-se dessa situação tanto quanto possível. A visão islâmica da guerra é que ela deve ser sempre defensiva, visando estabelecer o direito e a justiça para todos. Uma batalha só pode ser travada para eliminar a injustiça, a tirania e a agressão.
Entretanto, o Islã adota uma visão ampla da vida humana. Toda a humanidade é destinatária da mensagem divina. Os muçulmanos afirmam, portanto, que é correto apresentar essa mensagem às pessoas onde quer que vivam. Hoje em dia, fala-se muito de direitos humanos. O Islã estabeleceu sua visão dos direitos humanos desde o início de sua mensagem, há quatorze séculos. O Islã faz do direito à liberdade o direito mais importante de todo homem e toda mulher. Esse direito tem precedência até mesmo sobre o direito à vida. É desnecessário dizer que o direito à vida é concedido por Deus Todo-Poderoso a toda criança, de qualquer sexo. No entanto, Deus declara no Alcorão: “A opressão é ainda pior do que o homicídio” (2:191) e “A perseguição religiosa é pior do que o homicídio” (2:217).
O termo árabe fitnah é usado em ambas as declarações, mas é traduzido como “opressão” em um caso e “perseguição religiosa” no outro, a fim de refletir o sentido dos contextos em que aparece. Ao fazer da liberdade o direito humano básico e mais essencial, o Islã enobrece o ser humano. Quando a liberdade é negada, as pessoas ficam incapazes de exercer sua humanidade e tornam-se como máquinas; isto é, ficam ainda piores do que os animais, que agem por instinto.
O Islã exige que a comunidade muçulmana remova qualquer impedimento ao exercício do direito à liberdade. O Islã afirma que criar obstáculos à liberdade é injusto e exige a remoção da injustiça. Isso faz parte da visão islâmica geral da humanidade, do nosso lugar na terra e do papel que Deus nos atribuiu. A liberdade permite que as pessoas façam escolhas e sejam criativas, para que cada pessoa possa cumprir seu papel. Onde quer que reine uma ditadura, as pessoas que vivem sob seu jugo primeiro perdem sua capacidade criativa, depois estagnam e, por fim, mergulham em um nível profundo de humilhação e falta de respeito próprio. Nesse ponto, sua humanidade se perde, sua dignidade é desperdiçada e a vida que levam é indigna da criatura que Deus colocou no comando da terra.
Portanto, a remoção dos impedimentos à liberdade é uma tarefa essencial da comunidade muçulmana enquanto ela proclama a mensagem de Deus e convida as pessoas a aceitá-la e implementá-la. Assim, quando os impedimentos são impostos pela força, devem ser removidos com uma força contrária; se isso levar à guerra, tal guerra é considerada defensiva, pois defende o direito do ser humano à liberdade.
O Profeta e seus Companheiros permaneceram em Meca durante treze anos, proclamando sua fé diante de uma perseguição brutal e da injustiça. Durante todo esse período, foram instruídos a abster-se de usar a força contra seus perseguidores. Foi-lhes dito que permanecessem pacíficos e se dedicassem à adoração. Isso significava que, apesar de estarem recebendo claramente toda sorte de injustiças, suportavam qualquer dificuldade que enfrentassem, mantendo uma atitude de paciência e resignação.
Como relatado no Capítulo 2, houve uma grande mudança quando o Islã começou a se espalhar entre o povo de Medina. Dezenas de novos muçulmanos encontraram o Profeta em Mina durante a época da peregrinação, pedindo-lhe que se juntasse a eles em sua cidade, levando consigo todos os muçulmanos de Meca. Eles prometeram-lhe apoio total, o que incluía lutar contra qualquer força atacante que procurasse suprimir sua mensagem. Chegaram a sugerir que estavam prontos para combater os incrédulos no dia seguinte. O Profeta, porém, disse-lhes que Deus ainda não havia permitido qualquer luta.
Pouco depois da migração do Profeta para Medina, no início do décimo quarto ano de sua missão, foi dada no Alcorão a permissão para lutar contra a opressão:
Maomé: O comandante militar
“É dada permissão para lutar àqueles contra os quais a guerra é travada, porque foram injustiçados. Certamente, Deus tem poder para lhes conceder a vitória. São aqueles que foram expulsos de suas pátrias injustamente, apenas por dizerem: ‘Nosso Senhor é Deus!’ Se Deus não repelisse algumas pessoas por meio de outras, mosteiros, igrejas, sinagogas e mesquitas — nas quais o nome de Deus é abundantemente exaltado — certamente teriam sido destruídos. Deus certamente ajudará quem ajuda a causa de Deus. Deus é, sem dúvida, Poderosíssimo, Onipotente.” (22:39-40)
Os motivos para conceder essa permissão estão claramente declarados. A luta é permitida às vítimas da injustiça. Como os muçulmanos eram aqueles contra os quais se lutava, foi-lhes permitido defender a si mesmos e sua liberdade. Como os imigrantes para Medina haviam sido “expulsos de sua pátria injustamente” e por nenhuma outra razão além da fé, foi-lhes permitido agir para combater a injustiça. Os versículos são claros ao defender o direito à fé como parte da liberdade humana: mosteiros, igrejas, sinagogas e mesquitas devem ser respeitados, e às pessoas deve ser concedida liberdade de culto.
Durante o período em que o Profeta proclamou o Islã em Meca, os coraixitas perceberam que não tinham nenhuma queixa real contra o Profeta e seus seguidores. Em certo momento, quando a situação caminhava para a polarização, um de seus chefes mais sensatos, [Utbah ibn Rabi[ah, fez ofertas tentadoras ao Profeta para que abandonasse sua mensagem. A única resposta do Profeta foi ler-lhe uma longa passagem do Alcorão. Com isso, [Utbah entendeu claramente que Maomé não se interessava por riquezas nem por ganhos materiais de qualquer espécie, e que sua única preocupação era transmitir uma mensagem que evidentemente vinha de uma fonte não humana. Ele voltou ao seu povo e disse-lhes:
“Ouvi algo como nunca ouvi em toda a minha vida. Não é poesia nem feitiçaria. Aceitai a sugestão que vos faço e deixai a responsabilidade pelo resultado à minha porta. Deixai esse homem em paz. O que ouvi dele certamente dará origem a grandes acontecimentos. Se os demais árabes o matarem, vós tereis sido poupados desse problema. Se ele vencer, qualquer glória que alcançar será vossa.”1
Isso é semelhante ao conselho que [Utbah deu aos coraixitas pouco antes do início da Batalha de Badr. Naquela ocasião, disse-lhes que eles não tinham nenhuma queixa real contra Maomé e seus seguidores e que, portanto, seria mais vantajoso para eles deixar as coisas como estavam:
“Escutai-me e não luteis contra esse homem [referindo-se ao Profeta] e seus Companheiros. Eu assumirei toda a responsabilidade. Podeis atribuir a mim toda a culpa por esta covardia. Entre essas pessoas há muitos de nossos parentes. Se vencermos, muitos entre nós olharão ao redor e verão o assassino de seu pai ou irmão. Isso provocará muita inimizade e hostilidade em nossas fileiras. Não podereis matar todos eles antes que eles matem um número equivalente de vós. Mas então a maré poderá voltar-se contra vós. O que pretendeis vingar, além de um morto e da caravana que eles saquearam? Eu assumirei tudo isso. Meus companheiros, se Maomé for um mentiroso, os lobos entre os árabes vos livrarão dele. Se ele for um rei, vós vos beneficiareis do reino de vosso sobrinho. Se, por outro lado, ele for verdadeiramente um Profeta, sereis as pessoas mais felizes por tê-lo entre vós. Meus companheiros, não rejeiteis meu conselho nem menosprezeis minha opinião.”2
Entretanto, bons conselhos raramente são aceitos quando as pessoas se tornam polarizadas. Ainda hoje, belicistas e radicais frequentemente prevalecem quando a guerra parece iminente. Os coraixitas acusaram [Utbah de covardia, levando-o a ser o primeiro a iniciar as hostilidades. O Profeta teria preferido que os coraixitas percebessem o bom senso e entendessem que a guerra os colocaria em um caminho que não lhes traria benefício. Pouco antes de [Utbah fazer seu discurso, o Profeta declarou que ele era o mais sensato entre eles e que fariam bem em ouvir seu conselho. Quando bons conselhos são rejeitados, a alternativa costuma ser desastrosa, e a Batalha de Badr foi de fato um desastre para os coraixitas. Os muçulmanos obtiveram uma vitória retumbante que deixou os coraixitas humilhados.
1 Ibn Hisham, Al-Sirah al-Nabawiyyah, vol. 1, pp. 313-314.
Preparativos cautelosos
Por mais que odiasse a guerra, o Profeta não se esquivava do conflito quando este era necessário ou inevitável. De fato, quando foi dada permissão para lutar contra os incrédulos, percebeu que era preciso fazer preparativos para que a comunidade muçulmana não fosse pega desprevenida. Alguns meses depois de ele e seus Companheiros se estabelecerem em Medina, começou a enviar expedições a todas as áreas vizinhas. Essas expedições eram compostas apenas por seus Companheiros de Meca, pois o Profeta não desejava enviar o povo de Medina para fora de sua cidade. O compromisso de apoio deles consistia
CAPÍTULO 16
conquistar o coração do inimigo
Os primeiros catorze anos da mensagem islâmica transcorreram sem qualquer confronto militar com um inimigo. Durante toda a permanência do Profeta em Meca, que durou treze anos depois de ele começar a receber a mensagem de Deus, os muçulmanos foram expressamente ordenados a não recorrer a qualquer combate, independentemente das pressões e dos maus-tratos físicos a que eram submetidos.1 Por volta da época em que o Profeta emigrou para Medina, foi dada aos muçulmanos permissão para combater os agressores. O Profeta enviou expedições à região em torno de Medina, mas elas foram em grande parte pacíficas. Serviram como bom treinamento para os muçulmanos e dissuadiram possíveis invasores de tentar atacar Medina. A facção dos coraixitas conduziu deliberadamente a situação ao primeiro confronto militar. A atitude do Profeta em relação à guerra era coerente com sua busca do que é justo. Ele considerava que era direito da comunidade muçulmana viver e praticar sua religião em paz. Também acreditava que era direito de cada indivíduo escolher suas crenças e viver de acordo com sua fé. Portanto, considerava que recorrer à força para afastar as pessoas de sua fé era contrário ao que é justo. Ele compreendia perfeitamente que sua missão era um ato de graça que Deus concedera à humanidade. Por isso, evitava a guerra, exceto quando o inimigo a impunha a ele. Além da derrota na Batalha de Uhud e do assassinato traiçoeiro de seus Companheiros em al-Raji‘ e Bi’r Ma‘unah, o Profeta venceu todos os confrontos militares. Pode-se obter uma compreensão do ensinamento do Profeta examinando a maneira como ele lidava com os inimigos derrotados. 1 Para uma discussão completa das razões pelas quais os muçulmanos foram impedidos de combater a agressão dos coraixitas, ver Sayyid Qutb, À Sombra do Alcorão, vol. 3, The Islamic Foundation, Leicestershire, 2001, pp. 233–236.
A primeira coisa a observar sobre as vitórias do Profeta é que ele nunca perseguiu um exército derrotado que começasse a recuar. Deixava seus inimigos partir sem que temessem um ataque pela retaguarda. Ele nunca buscou infligir uma derrota esmagadora; queria apenas que a comunidade muçulmana pudesse viver em paz e transmitir sua mensagem em paz. Aqueles inimigos derrotados, fossem quem fossem, eram, na verdade, destinatários da mensagem divina que ele transmitia. Por isso, o Profeta decidiu que eles deveriam ter a oportunidade de voltar para casa e refletir sobre sua atitude, pois talvez reconsiderassem sua posição e aceitassem o Islã. Quando teve setenta prisioneiros de guerra, depois da Batalha de Badr, a primeira coisa que o Profeta disse aos seus Companheiros foi que ordenassem que os prisioneiros fossem bem tratados. Seus seguidores foram exemplares em sua obediência. Quando consultou seus Companheiros a respeito dos prisioneiros e do que fazer com eles, uma parcela considerável da comunidade muçulmana queria que todos fossem mortos, a fim de enfraquecer o inimigo e demonstrar o caráter definitivo de sua ruptura com os incrédulos. O Profeta, porém, escolheu aceitar um resgate em troca de deixá-los partir em liberdade. Os que sabiam ler e escrever podiam comprar sua liberdade ensinando dez crianças muçulmanas a ler e escrever.
No Capítulo 13, discuti o caso da tribo dos Mustalaq, que se preparava para atacar Medina, embora não tivesse motivo para isso. O confronto resultou na captura de muitos de seus homens e mulheres, o que significava que eles seriam escravizados ou teriam de comprar sua liberdade. O Profeta casou-se com uma de suas mulheres, Juwayriyyah, tornando-a uma “mãe dos crentes”. Como resultado, todos os seus homens e mulheres foram libertados sem resgate, pois os muçulmanos sentiram que não podiam manter cativos os parentes por casamento do Profeta.
A situação em Medina estava longe de ser fácil naquela época. Os recursos eram escassos, e o afluxo dos muçulmanos que emigravam de Meca constituía um peso para a economia do nascente Estado muçulmano. Além disso, o fato de terem de lutar em várias batalhas num curto período tornava a situação em Medina muito instável. O resgate que poderiam ter obtido de mais de cem prisioneiros de guerra teria aliviado consideravelmente as dificuldades econômicas que sofriam. No entanto, o Profeta considerou o quadro mais amplo. Queria que a hostilidade dos Mustalaq fosse substituída pela amizade, para que pudessem considerar o Islã de maneira objetiva, sem qualquer resíduo dos sentimentos provocados pela derrota que haviam sofrido: isso constituiria um ganho muito melhor para o Islã. De fato, a visão do Profeta foi expressa em sua declaração: “Se Deus fizer de você o meio pelo qual uma pessoa siga Sua orientação, isso será melhor para você do que tudo o que existe sob o sol.”
A maneira como o Profeta lidou com o chefe dos Mustalaq sintetiza sua atitude. O Profeta garantiu que al-Harith ibn Abi Dirar reconhecesse a verdade do Islã. O Profeta também agiu de modo a levar à libertação de todos os cativos da guerra com al-Mustalaq. Al-Harith tomou a decisão correta e abraçou o Islã, juntamente com um número significativo de seus membros da tribo.
Libertar todos os cativos
A Batalha de Hunayn ocorreu perto do fim do oitavo ano do calendário islâmico, pouco depois de Meca ter caído para o Islã com muito pouco combate. A vitória do Profeta em Meca levou o povo de Hawazin, uma tribo muito grande que ainda se apegava à idolatria, a unir-se a outra grande tribo, os Thaqif, numa última tentativa de esmagar o Islã e os muçulmanos. No entanto, o chefe dos Hawazin, Malik ibn ‘Awf, decidiu por uma mobilização total, levando consigo, com seu exército, todas as suas mulheres e crianças, além do gado. Pensava que, quando seus homens percebessem que uma derrota significaria a perda absoluta de tudo o que possuíam, lutariam com afinco e permaneceriam firmes até o fim, até alcançarem a vitória. Apesar de bons conselhos em contrário, prosseguiu para o combate, colocando as mulheres e as crianças na retaguarda.
A batalha resultou numa derrota esmagadora para os Hawazin, enquanto os Thaqif permaneceram em sua cidade fortificada de Taif. Os muçulmanos fizeram prisioneiras todas as mulheres e crianças hawazin e tomaram como espólio todo o gado e o dinheiro. A regra islâmica relativa aos ganhos de guerra é que vinte por cento vão para o Estado e oitenta por cento sejam divididos igualmente entre o exército. Nesse caso, os ganhos incluíam 24.000 camelos, 40.000 ovelhas e 4.000 onças de prata, além de 6.000 prisioneiros de guerra. Esse foi o maior conjunto de ganhos de guerra já obtido pelos muçulmanos. Por isso, havia muita pressão sobre o Profeta para que dividisse esses ganhos, pois todos queriam ter certeza de suas parcelas.
O Profeta, porém, queria algo diferente. O verdadeiro ganho seria pôr fim à hostilidade dos Hawazin e incentivá-los a considerar a possibilidade de se juntar às fileiras dos muçulmanos. Por isso, adiou a divisão dos ganhos de guerra. Os pensamentos do Profeta estavam com os Hawazin, que haviam perdido tudo. Entretanto, não cabia a ele decidir o que fazer com os ganhos de guerra. Ele tinha plena autoridade sobre um quinto desses ganhos, mas isso não ofereceria uma solução satisfatória, considerando que tinha outras áreas a atender que exigiam uma parte considerável desse quinto.
Por fim, os Hawazin foram até o Profeta e apelaram a ele, pedindo compaixão: “Mensageiro de Deus, somos o seu povo e o seu próprio clã. Você sabe que tipo de desastre nos atingiu. Pedimos-lhe que tenha misericórdia de nós; que Deus lhe conceda Sua graça.” Seu porta-voz disse ao Profeta: “Mensageiro de Deus, entre as mulheres que caíram cativas em suas mãos há algumas que são suas tias e algumas que foram suas amas de leite quando você era jovem. Se tivéssemos tido esse tipo de relação com o rei de Ghassan, na Síria, ou com o rei de al-Manadhirah, no Iraque, e se um desastre desse tipo tivesse recaído sobre nós pelas mãos deles, ainda esperaríamos que nos tratassem com indulgência. Você, Mensageiro de Deus, é o mais indicado para retribuir a bondade.”2 A referência às tias do Profeta entre os Hawazin diz respeito ao fato de que, quando era bebê, o Profeta foi cuidado por Halimah, uma ama de leite de Sa‘d, um clã dos Hawazin.
O Profeta disse-lhes que já havia esperado mais de duas semanas para que se apresentassem. Explicou que os ganhos de guerra pertenciam, em grande parte, aos combatentes. Exortou-os a adotar o Islã e a tornar isso conhecido dos muçulmanos. Ensinou-lhes o que dizer para fazer um apelo à comunidade muçulmana. Também lhes disse que tinham de escolher entre suas mulheres e crianças ou seus bens. Não poderiam ter ambos. Eles escolheram que suas mulheres e crianças lhes fossem devolvidas.
No dia seguinte, depois da oração do Zuhr, fizeram como o Profeta lhes havia instruído. Levantaram-se e apelaram ao Profeta e aos muçulmanos em geral. O Profeta respondeu-lhes, exortando os muçulmanos a serem bondosos com eles. Em seguida, disse que tudo o que ele e seu clã, os haxemitas, possuíam deveria ser devolvido aos Hawazin. Os Muhajirun e os Ansar responderam imediatamente, dizendo que renunciavam às suas parcelas em favor do Mensageiro de Deus. O Profeta disse a todos que quem estivesse disposto a abrir mão de sua parcela seria recompensado por Deus, embora ninguém fosse obrigado a fazê-lo. Um pequeno número insistiu em manter suas parcelas, e o Profeta os compensou generosamente em troca da renúncia às mulheres e crianças. Assim, todos os cativos de guerra hawazin foram libertados.
Outro aspecto da maneira como o Profeta lidava com os vencidos foi a forma como conquistou o líder dos Hawazin. Malik ibn ‘Awf tinha apenas trinta anos quando conduziu seu povo à batalha desastrosa contra os muçulmanos. Era um jovem promissor, corajoso e inteligente, mas estava equivocado e não queria ouvir conselhos. Quando a situação se voltou contra ele na batalha e viu a derrota diante de seus olhos, fugiu para Taif, onde se juntou aos Thaqif, talvez esperando obter melhores resultados num confronto futuro. O Profeta, porém, disse aos anciãos dos Hawazin: “Informem Malik de que, se vier até mim e declarar-se muçulmano, devolver-lhe-ei sua família e seus bens e acrescentarei cem camelos.” Quando Malik recebeu essa mensagem, percebeu que seu melhor caminho era ir até o Profeta e fazer as pazes com ele. Precisava sair furtivamente de Taif, temendo que seus anfitriões o detivessem caso soubessem de sua intenção. Alcançou o Profeta quando este se dirigia para Meca. O Profeta o reuniu novamente com sua família, devolveu-lhe tudo o que lhe pertencia e deu-lhe cem camelos.
Devemos lembrar aqui que, para os árabes daquela época, a riqueza era estimada pelo número de camelos e de cabeças de gado que as pessoas possuíam: uma camela era muito valiosa por causa da grande quantidade de leite que produzia. O Profeta também nomeou Malik líder dos muçulmanos entre seu povo. Ele se tornou um soldado sincero do Islã. Essa era a marca da maneira como o Profeta lidava com antigos adversários: buscava conquistá-los para o Islã. Como resultado, muitos responderam e descobriram que ele era fiel à sua palavra. Isso foi suficiente para consolidarem sua conversão ao Islã. Quanto mais liam o Alcorão e aprendiam os princípios e valores do Islã, melhores muçulmanos se tornavam.
Amor em lugar de hostilidade
O maior exemplo da maneira como o Profeta lidou com os vencidos foi a forma como tratou os coraixitas quando Meca caiu para o Islã. Os coraixitas eram seu povo, mas foram eles que se opuseram a ele desde o primeiro dia de sua missão. Ele lhes estendera a mão do amor e da amizade, mas eles haviam respondido persistentemente com ódio e hostilidade. Expulsaram-no, juntamente com seus seguidores, de sua cidade natal. Quando ele estabeleceu seu Estado em Medina, partiram para a guerra e tentaram repetidas vezes esmagar os muçulmanos, enviando exércitos para combatê-los e unindo forças com outras grandes tribos, como os Ghatafan e os judeus. Quando os muçulmanos assinaram um acordo de paz com os coraixitas, estes o violaram e ajudaram a matar os aliados do Profeta num ataque traiçoeiro. Assim, haviam perdido todo direito a qualquer tratamento generoso. Tinham de pagar por sua traição: que preço o Profeta lhes exigiu?
Em primeiro lugar, quando o Profeta ordenou a mobilização, manteve o máximo segredo para que os coraixitas não soubessem de sua intenção de marchar contra eles. Queria usar o elemento surpresa com a máxima vantagem. Quando chegou perto de Meca, acampou ali, mudando sua estratégia do segredo para a máxima publicidade e ordenando a todos no exército que acendessem fogueiras durante a noite. Isso funcionou perfeitamente, fazendo com que os chefes dos coraixitas, ao verem aquelas fogueiras, percebessem que, por maior que fosse a resistência que pudessem oferecer, não seriam páreo para os muçulmanos. Então declarou que estaria a salvo quem entrasse na Grande Mesquita da Caaba, permanecesse com Abu Sufyan, o chefe dos coraixitas, ou ficasse dentro de casa. Assim, tudo o que alguém precisava fazer para garantir sua segurança era permanecer em casa.
Seu exército entrou então na cidade por suas quatro direções, sob instruções rigorosas de não iniciar nenhum combate, a menos que fosse atacado. O próprio Profeta entrou em Meca, a capital da Arábia, o bastião da idolatria e a cidade que o havia expulsado apenas oito anos antes, com a cabeça baixa, quase tocando o dorso de seu camelo, em reconhecimento à graça de Deus. Começou oferecendo adoração na Caaba.
No dia seguinte, quando o povo de Meca se reuniu para ouvir seu discurso, ele lhes ofereceu um futuro radiante. Perguntou-lhes: “O que vocês acham que farei com vocês?” Eles haviam feito a si mesmos a mesma pergunta: o que faria esse comandante que conquistara sua cidade e os submetera completamente? Sabiam o que haviam feito contra ele e seus seguidores durante vinte e um anos de hostilidade e guerra; portanto, o que poderiam esperar? Sua resposta refletia o que conheciam de seu caráter, quando disseram: “Esperamos de você apenas o bem. Você é um irmão nobre e filho de um irmão nobre.” Ele respondeu: “Podem todos partir em liberdade.”
Tal nobreza e magnanimidade não têm paralelo nas conquistas militares ao longo da história da humanidade. No entanto, esse conquistador era excepcional. Sua conquista foi a dos corações, não a da terra. Assim, Meca foi conquistada para o Islã. Em poucos dias, sua população começou a aderir a ele, declarando-se muçulmana. Nenhuma coerção ou pressão foi usada contra ninguém. Foram deixados livres para considerar o Islã de maneira objetiva, sem a distorção da hostilidade ou de pensamentos de vingança por suas derrotas anteriores. Até mesmo aqueles que ocupavam posições privilegiadas ou funções honrosas puderam mantê-las. O Profeta poderia tê-las tomado e dado ao seu próprio povo, mas não faria nada disso. Em vez disso, declarou: “Este é um dia de honestidade, em que as promessas são cumpridas.”3
2 Ibn Hisham, Al-Sirah al-Nabawiyyah, vol. 4, p. 134.
3 Ibn Hisham, ibid., vol. 4, p. 32.
CAPÍTULO 17
as relações do Profeta com os judeus A imigração do Profeta de Meca para Iátrib (que veio a ser conhecida como Medina)1 estabeleceu o primeiro Estado islâmico. Tratava-se de uma cidade-Estado com potencial para se expandir. No entanto, a sociedade existente em Medina era fundamentalmente diferente daquela que o Profeta e seus Companheiros haviam deixado em Meca. Meca era uma sociedade homogênea, pois a tribo de Coraix fornecia a maior parte da população. Eles tinham seus escravos e outros indivíduos ligados à tribo, mas que não pertenciam a ela (aos quais chamavam de aliados), que prestavam serviços manuais. Os coraixitas dependiam do comércio para viver. Eram hábeis no comércio internacional e frequentemente organizavam viagens comerciais à Síria e ao Iêmen. Era um negócio próspero que proporcionava riqueza e uma vida confortável ao povo de Meca. Em contraste, Medina era uma sociedade muito complexa. A população árabe era constituída por duas tribos principais: os Aus e os Cazraj. Ambas eram originárias do Iêmen e tinham as mesmas raízes, mas frequentemente estavam em conflito, e as batalhas travadas entre elas haviam enfraquecido ambas. Além disso, havia uma grande comunidade judaica em Medina. Ela era composta por várias tribos, as mais importantes das quais eram os Cainucá, os Nadir e os Coraizá. Cada uma podia mobilizar uma força de 700 a 800 combatentes. Os judeus viviam em fortalezas a sudeste de Medina. Essas três tribos formaram alianças com os Aus ou com os Cazraj e provocavam conflitos entre eles. Quando eclodia uma batalha, os judeus podiam lutar ao lado de seus aliados árabes contra seus próprios correligionários judeus. A economia de Medina 1 Medina é abreviação de Madinat al-Rasul (que significa “a cidade do Profeta”). Medina significa simplesmente “a cidade”. Medina dependia da agricultura, com plantações de tamareiras que se estendiam por uma vasta área. Tanto os árabes quanto os judeus dependiam principalmente delas para viver, mas, antes da imigração do Profeta, os judeus cainucá haviam sido expulsos de sua região pelas outras duas tribos judaicas e se mudado para Medina. Eles tinham seu próprio mercado, onde se dedicavam ao comércio e ao artesanato. Havia joalheiros entre eles. Quando o Profeta e seus Companheiros de Meca, os Muhajirun, começaram sua imigração, uma parcela considerável da população árabe, tanto dos Aus quanto dos Cazraj, havia adotado o Islã. No entanto, um número significativo deles ainda era idólatra: é difícil estimar a porcentagem de idólatras entre a população árabe quando o Profeta chegou a Medina, mas essa porcentagem estava sempre diminuindo. Um número cada vez maior de árabes abraçou o Islã ao ver seus companheiros de tribo, vizinhos e familiares adaptarem suas vidas aos elevados valores ensinados pelo Profeta. Isso significava que havia três religiões diferentes vivendo lado a lado em Medina, que, segundo os padrões modernos, era uma cidade pequena. Essa mesma população também pertencia a diferentes grupos étnicos: os árabes de Meca pertenciam ao ramo Adnanita dos árabes, enquanto os árabes de Medina pertenciam ao ramo Qahtanita. Os judeus eram hábeis no comércio e nos negócios, enquanto os árabes de Medina dependiam exclusivamente da agricultura. Os Muhajirun de Meca também estavam envolvidos no comércio, e muitos deles eram comerciantes perspicazes. Tratava-se, portanto, de uma situação nova e muito complexa dentro de uma área geográfica limitada. Havia também a complexidade adicional da ameaça externa. Os coraixitas de Meca, que constituíam uma força a ser levada em conta, estavam muito descontentes com a imigração dos muçulmanos para Medina. Enquanto os muçulmanos estavam em Meca, os coraixitas sentiam que tinham a situação sob controle. Agora que o Islã possuía sua própria base e podia atuar livremente, os coraixitas perceberam um perigo para sua posição de supremacia na Arábia e uma ameaça ao seu comércio internacional. Pouco depois de se estabelecer em Medina, o Profeta procurou organizar a nova sociedade. Tomou quatro medidas muito importantes. Primeiro, construiu a mesquita, que servia como local de adoração, centro para discutir os assuntos da comunidade muçulmana e lugar para realizar consultas sobre qualquer questão séria. Ela também servia como local onde os muçulmanos podiam ser instruídos em sua fé. Segundo, estabeleceu um vínculo de fraternidade entre os muçulmanos, fazendo com que um dos Muhajirun se tornasse irmão especial de um dos Ansar (os muçulmanos de Medina). Terceiro, enviou grupos de seus Companheiros em expedições militares para demonstrar que o novo Estado estava preparado para qualquer eventualidade. Como observado anteriormente, essas expedições não envolveram confrontos militares, exceto no caso de um pequeno grupo de oito homens, quando um homem dos coraixitas foi morto. As relações do Profeta com os judeus Quarto, o Profeta regulamentou as relações entre os diferentes setores da população de Medina. Foi elaborado um pacto que definia as responsabilidades de cada grupo dentro da comunidade muçulmana e delineava a natureza de suas relações com os judeus.2 O documento talvez tenha sido a primeira constituição escrita produzida em qualquer lugar do mundo e estabelecia uma sociedade pluralista. Eis algumas de suas disposições que refletem sua natureza pluralista: Os Muhajirun dos coraixitas são responsáveis pelo pagamento do preço de sangue que lhes couber.3 Eles pagam pela libertação dos prisioneiros tomados entre eles, de acordo com o que é razoável e justo entre os crentes. O clã de Auf permanece como antes, sendo responsável pelo pagamento do preço de sangue que lhe couber. Cada grupo paga pela libertação de seus prisioneiros, de acordo com o que é razoável e justo entre os crentes. Os crentes tementes a Deus devem se levantar contra qualquer um de seu meio que transgrida, seja culpado de opressão, cometa pecado, agressão ou corrupção entre os crentes. Devem unir-se contra ele, ainda que seja filho de qualquer um deles… O menos ilustre entre os crentes pode oferecer uma garantia de proteção que será obrigatória para todos eles. Os crentes são aliados uns dos outros contra todas as pessoas. Qualquer judeu que se juntar a nós terá nosso apoio e os mesmos direitos que nós, sem sofrer opressão nem temer qualquer aliança contra ele. Os crentes terão um único pacto de paz… Cada grupo que se juntar a nós em uma expedição de jihad levará consigo seus próprios homens. Os crentes são iguais no que diz respeito a sacrificar suas vidas pela causa de Deus… Nenhum não crente deverá conceder proteção a qualquer propriedade ou pessoa pertencente aos coraixitas, nem deverá interpor-se entre eles e qualquer crente. Quem matar um crente e for considerado culpado deverá sofrer retaliação, a menos que o parente mais próximo da vítima renuncie ao seu direito. Todos os crentes deverão unir-se contra o assassino, e não lhes será lícito fazer outra coisa senão levá-lo à justiça. 2 Para uma tradução completa deste documento, ver Adil Salahi, Muhammad: Man and Prophet, The Islamic Foundation, Leicestershire, 2008, pp. 239-242. 3 Essa condição assegurava a responsabilidade coletiva de uma família, clã ou tribo de pagar o preço de sangue à família de qualquer pessoa morta acidentalmente por um de seus membros. Nenhum crente que aceite este tratado e creia em Deus e no Último Dia poderá apoiar ou abrigar qualquer criminoso… Em qualquer questão sobre a qual divergirem, a decisão final caberá a Deus e a Muhammad (que a paz esteja com ele). Os judeus compartilharão as despesas com os crentes enquanto estiverem em guerra [com outros]. Os aliados judeus do clã de Auf constituem uma única comunidade com os crentes. Os judeus têm sua própria religião e os muçulmanos têm a sua. Isso se aplica a eles e a seus aliados. Quem for culpado de opressão ou cometer um pecado trará a ruína apenas sobre si mesmo e sua família. Os aliados judeus dos clãs de Najjar, Harith, Saíida, Jusham, Aus e Tha‘laba gozam dos mesmos direitos que os aliados judeus de Auf. Quem cometer injustiça ou um pecado trará a ruína apenas sobre si mesmo e sua família… Os judeus arcarão com suas despesas e os muçulmanos arcarão com as suas. Devem prestar apoio contra qualquer pessoa que combata qualquer parte deste acordo. Devem uns aos outros um conselho sincero… Nada que pertença aos coraixitas ou àqueles que os apoiam será protegido. As partes deste acordo deverão apoiar-se mutuamente contra qualquer pessoa que ataque Iátrib. Se forem chamadas a firmar qualquer acordo de paz, deverão fazê-lo. Se forem convidadas para algo semelhante, os crentes deverão apoiá-lo, exceto no caso daqueles que lutam para suprimir a fé. Cada grupo assumirá sua parcela de responsabilidade na parte que lhe for mais próxima. Os aliados judeus dos Aus, seu próprio povo e seus aliados terão os mesmos direitos e obrigações que as partes deste acordo, e isso será fielmente honrado pelas partes deste acordo… Cada um será responsável por qualquer ação que cometer. Deus aprova o que há de melhor e mais verdadeiro neste acordo. Este acordo não concede imunidade contra a punição a ninguém culpado de opressão ou pecado. Quem deixar Medina estará seguro, e quem permanecer estará seguro, a menos que seja culpado de injustiça ou pecado. Deus é o protetor daqueles que cumprem seus compromissos e temem a Deus, e assim também Muhammad, Mensageiro de Deus. Essa sociedade pluralista poderia ter vivido em paz em seu território por muito tempo, mas isso não aconteceu. A natureza dos diferentes grupos contribuiu para enfraquecer o esforço de estabelecer uma sociedade na qual todos os grupos vivessem em paz e respeito mútuo. A história de Medina (como Iátrib) antes do advento do Islã As relações do Profeta com os judeus nos mostram que, quando a rivalidade entre suas comunidades árabe e judaica se intensificou, os judeus ameaçaram os árabes, falando-lhes do iminente aparecimento de um Profeta “a quem seguiremos e então poderemos esmagá-los até o último homem”. Os seis homens de Iátrib que foram os primeiros a encontrar o Profeta em Meca e ouvi-lo explicar sua mensagem disseram uns aos outros: “Este é o Profeta de quem os judeus lhes falaram. Não permitam que eles o procurem antes de vocês.” Era de esperar que surgisse uma rivalidade entre os árabes de Medina e os judeus, pois cada comunidade competiria para atrair o Profeta para seu lado. Os judeus, contudo, escolheram manter-se afastados do Profeta. Seus rabinos adotaram, em sua maioria, uma atitude hostil em relação a ele e à sua mensagem, embora dois deles logo tenham reconhecido a veracidade de sua mensagem e declarado sua aceitação do Islã. Vários outros reconheceram nele o Mensageiro de Deus pouco depois de sua chegada, mas, apesar disso, recusaram-se a admitir publicamente que sabiam disso. Outros, como Huyayy ibn Akhtab, adotaram uma atitude muito hostil e disseram que jamais acreditariam nele. O Profeta, contudo, jamais pressionou alguém a aceitar sua mensagem, pois queria que as pessoas a aceitassem somente quando estivessem convencidas de sua veracidade. Ele estava disposto a deixar que os judeus determinassem sua posição como quisessem. Queria apenas que cumprissem o pacto que haviam firmado com ele, o qual dava a todos em Medina a oportunidade de viver em paz e seguir sua fé. O surgimento de uma hostilidade oculta Os acontecimentos dos anos seguintes mostraram que aqueles judeus nunca estiveram satisfeitos em seguir uma política de coexistência cordial com os vizinhos. Queriam conservar sua posição, mas perceberam que o Islã estava destinado a se espalhar e, portanto, representava para eles um perigo sério. Quando os muçulmanos alcançaram uma vitória retumbante na Batalha de Badr, seu primeiro grande confronto com os coraixitas, os judeus de Medina demonstraram grande simpatia pela derrota dos coraixitas. Alguns chegaram a viajar a Meca para oferecer condolências aos coraixitas pela perda de vários de seus chefes. Alguns ridicularizaram a vitória dos muçulmanos e disseram-lhes que ela era vazia, enfatizando que os muçulmanos teriam um resultado diferente caso lutassem contra os judeus. Os judeus cainucá foram ainda mais longe: humilharam uma muçulmana em seu mercado, o que provocou um confronto no qual um judeu e um muçulmano foram mortos. Esse último acontecimento constituiu uma clara violação do pacto que haviam firmado com o Profeta. Por isso, ele sitiou os judeus cainucá. O cerco durou quinze dias, mas não houve luta. Por fim, eles concordaram em evacuar Medina, deixando para trás suas propriedades. O Profeta deu-lhes três dias para se prepararem para a partida. Chegou mesmo a nomear seu aliado, Ubadah ibn al-Samit, para supervisionar sua partida. Ubadah era amigo íntimo deles, mas era um bom muçulmano. Sua nomeação destinava-se a garantir que ninguém lhes faria mal quando partissem. Eles se dirigiram a uma região que hoje se encontra no sul da Síria.4 O que aconteceu aos cainucá deveria ter servido de advertência aos demais judeus de Medina, deixando claro que o Profeta e os muçulmanos não aceitariam hostilidade de ninguém. Se os judeus cumprissem os termos do pacto, viveriam em paz com os muçulmanos; mas qualquer violação do pacto acarretaria graves consequências. Uma tentativa de assassinato A tribo dos Nadir era chefiada por Huyayy ibn Akhtab, seu rabino principal. Segundo relatos, Huyayy ibn Akhtab reconheceu o Profeta quando este chegou a Medina e confirmou que ele era o Mensageiro de Deus. Apesar disso, Huyayy ibn Akhtab declarou que permaneceria inimigo do Profeta até o último dia de sua vida.5 E foi fiel à sua palavra. No entanto, essa inimizade não tinha outra razão além do fato de que Muhammad (que a paz esteja com ele) não pertencia aos judeus. Parece ter refletido uma disputa com o próprio Deus por ter escolhido um não judeu para ser Seu Mensageiro final, quando “Deus sabe melhor a quem confiar Sua mensagem”. (6:124) Depois da derrota sofrida pelos muçulmanos na Batalha de Uhud, no terceiro ano do calendário da Hégira, e dos dois ataques traiçoeiros contra seu povo em al-Raji e Bi’r Ma‘unah, o inimigo interno (representado pelos hipócritas e pelos judeus) ganhou confiança e tornou-se mais explícito em sua hostilidade. Por isso, o Profeta quis testar o grau de compromisso que os judeus sentiam para com o pacto firmado com ele. Foi aos aposentos dos Nadir com alguns de seus Companheiros, pedindo ajuda para levantar o preço de sangue que os muçulmanos deveriam pagar por dois homens mortos acidentalmente. Os chefes dos Nadir disseram ao Profeta que tratariam de reunir o dinheiro, mas tramaram assassiná-lo lançando uma pedra do alto de um telhado sobre sua cabeça. O Profeta foi informado da conspiração pelo anjo e partiu imediatamente.6 O Profeta enviou-lhes uma mensagem informando que, por causa de sua traição, deveriam deixar Medina no prazo de dez dias. Poderiam conservar suas propriedades e nomear agentes para cuidar de suas plantações. A princípio, concordaram, mas então Abdullah ibn Ubayy, o chefe dos hipócritas (aqueles que fingiam ser muçulmanos, mas na realidade não eram), enviou-lhes uma mensagem dizendo que estava pronto para apoiá-los com 2.000 combatentes caso rejeitassem a proposta de Muhammad. Contra o conselho de alguns de seus rabinos mais instruídos, enviaram ao Profeta uma mensagem declarando que não partiriam, acontecesse o que acontecesse. Em resposta, o Profeta sitiou seus aposentos, e o apoio que esperavam não se concretizou. Depois de suportarem o cerco, que durou vários dias, pediram ao Profeta que os deixasse partir nas condições inicialmente oferecidas. O Profeta informou-lhes que teriam de renunciar à maior parte de seus bens: só poderiam levar uma carga de camelo cada um com seus pertences. Eles concordaram e receberam permissão para partir. Se os Nadir tivessem permanecido fiéis ao pacto com o Profeta, não teriam sofrido nenhum dano. Teriam continuado a viver em paz em Medina e a cooperar com os muçulmanos: foi sua traição que lhes causou problemas. Antes disso (pouco depois de o Profeta ter deixado seus aposentos, quando se preparavam para assassiná-lo), um de seus rabinos muito instruídos, Kinanah ibn Suwayra’, dissera-lhes que sabia o motivo da partida do Profeta. Acrescentou: Não se enganem. Por Deus, ele é o último Profeta. Vocês esperavam que o último Profeta fosse descendente de Aarão, mas Deus escolheu aquele que quis. O que lemos em nossos livros e na Torá que não foi alterada afirma claramente que o último Mensageiro nasceria em Meca e emigraria para Iátrib. A descrição dada na Torá aplica-se a ele em todos os pormenores.7 Ele prosseguiu aconselhando-os a aceitar o Islã ou aceitar a proposta que o Profeta lhes enviaria de partir conservando suas propriedades. Acrescentou que a primeira opção era a melhor. Eles, contudo, rejeitaram seu conselho e seguiram Huyayy ibn Akhtab. O tratamento dispensado pelo Profeta aos Nadir foi moderado sob qualquer critério. Poucos chefes de Estado que tivessem vencido aqueles que haviam tramado assassiná-los simplesmente lhes permitiriam partir em paz sem ao menos prender os responsáveis pela conspiração e lançá-los na prisão, quando não os matassem sumariamente. Permitir que partissem, ficando livres para tentar novamente agir contra ele — e isso de fato aconteceu —, poderia parecer indulgente demais. No entanto, o Profeta jamais perdeu a esperança de que alguém visse a luz da verdade de sua mensagem. Esse era seu papel como “misericórdia para todos os mundos”, e ele o cumpriu da melhor maneira possível. Os Nadir deixaram Medina: a maioria se estabeleceu em Khaybar, ao norte, embora alguns tenham continuado mais para o norte, em direção à Síria e além. A única grande tribo judaica que restou em Medina foi a dos Coraizá. Seu rabino principal, Ka‘b ibn Asad, até então permanecera fiel ao pacto firmado com a comunidade muçulmana. Contudo, isso não duraria muito. Devido à situação especial dos judeus coraizá, tratarei deles no próximo capítulo. Algumas pequenas tribos judaicas permaneceram em Medina depois que suas principais tribos foram evacuadas. Os livros dos historiadores muçulmanos pouco dizem sobre elas. Isso se deve ao fato de haver pouco a relatar nessa área, pois acontecimentos importantes ocorriam em outras frentes. A principal concentração de judeus que restou na Arábia estava em Khaybar, uma cidade cercada por terras férteis. Khaybar acolheu uma parcela considerável das tribos judaicas evacuadas de Medina, além de sua própria população judaica. Khaybar, Fadak e Tayma’ Ao retornar a Medina depois de assinar o acordo de paz de Hudaybiyyah (no final do sexto ano), o Profeta soube que os judeus de Khaybar estavam formando uma aliança de forças hostis à comunidade muçulmana. No Capítulo 2, incluí um breve relato da Batalha de Khaybar e da vitória alcançada ali pelo pequeno exército muçulmano. O Profeta queria evacuar os judeus de Khaybar, mas, depois de concordarem em partir, mudaram de ideia. Eram apegados à sua cidade e às suas terras, mas perceberam que não podiam derrotar os muçulmanos. Por isso, fizeram uma proposta ao Profeta: ele lhes permitiria permanecer e cuidar da terra em troca da metade de sua produção. O Profeta concordou, mas estipulou que os muçulmanos teriam liberdade para rescindir esse acordo em uma data futura. Havia outras localidades judaicas no norte da Arábia, como Fadak, Wadi al-Qura e Tayma’. Ao saber da vitória dos muçulmanos em Khaybar, o povo de Fadak enviou uma delegação ao Profeta, pedindo-lhe que assinasse com eles um acordo de paz nos mesmos termos concedidos ao povo de Khaybar. O Profeta concordou. Contudo, segundo as normas islâmicas, o pagamento que faziam ao Profeta (metade da produção de suas terras) pertencia somente a ele, pois não havia envolvido mobilização nem combate para obtê-lo. O Profeta utilizava essa renda para ajudar os pobres da comunidade muçulmana. Wadi al-Qura e Tayma’ eram casos diferentes. O Profeta sitiou-as, e alguns combates individuais levaram à morte de alguns de seus melhores combatentes. Eles perceberam que continuar a luta apenas conduziria a um número maior de baixas e se submeteram. O Profeta concedeu-lhes os mesmos termos oferecidos aos judeus de Khaybar. Árabes e judeus Algumas pessoas afirmaram que havia uma diferença marcante entre a maneira como o Profeta tratou os árabes derrotados e os judeus que se opuseram a ele. Em nenhum caso, entre as tribos árabes que lutaram contra ele, ele as forçou a deixar suas terras: elas permaneceram em suas cidades, povoados ou acampamentos. Em contraste, quando o Profeta triunfou sobre os judeus, eles foram evacuados. A diferença de tratamento refletiria uma atitude discriminatória? Antes de tirarmos qualquer conclusão, precisamos considerar os seguintes pontos: 1. Os árabes que se opuseram ao Profeta (como os coraixitas e os Gatafan) manifestaram abertamente sua hostilidade desde o início. Os judeus estavam em Medina quando o Profeta chegou e se estabeleceu ali. Ele fez com eles um pacto para que vivessem lado a lado, com as responsabilidades de cada grupo claramente definidas. O pacto considerava os muçulmanos e os judeus de Medina como uma única nação. Estabelecia uma sociedade pluralista, na qual todos eram livres para fazer suas escolhas e viver como desejassem. Mas os judeus violaram o pacto repetidas vezes, adotando uma atitude hostil injustificável. Como poderia a coexistência continuar nesse caso? 2. As três tribos judaicas que foram evacuadas viviam em Medina, enquanto nenhum dos árabes que lutaram contra os muçulmanos vivia ali. Assim, quando essas tribos escolheram violar o pacto e passar à ofensiva, tornaram-se um inimigo interno. Isso não podia ser tolerado. 3. O Profeta deixou claro, desde o primeiro momento, que não toleraria qualquer absurdo: o pacto era obrigatório para todos e devia ser respeitado. Quando a primeira tribo foi evacuada, isso deveria ter servido de advertência clara às demais de que sofreriam o mesmo destino, a menos que cumprissem os termos do pacto. No entanto, a tribo dos Nadir quis matar o Profeta quando ele estava em seus aposentos, e os Coraizá juntaram-se às forças determinadas a aniquilar a comunidade muçulmana. 4. Ao violarem seu pacto, os judeus refletiram uma atitude voltada para dentro. Tinham plena consciência da iminente aparição do Mensageiro final de Deus. De fato, escolheram estabelecer-se em Medina porque sabiam que ele emigraria para lá, conforme declarado na Torá e confirmado por alguns de seus rabinos mais instruídos. Esperavam que esse Mensageiro fosse um deles. Quando perceberam que Deus havia escolhido um árabe para ser Seu Mensageiro final, ressentiram-se dessa honra concedida a ele. Ele não os forçou a abandonar sua religião; apenas os chamou a fazer o que seu livro sagrado queria que fizessem. 5. Embora os judeus de Khaybar também merecessem ser evacuados, por terem tentado reunir forças para combater os muçulmanos, o Profeta permitiu que permanecessem e fez com eles um acordo de paz. Firmou acordos semelhantes com outras concentrações judaicas na Península Arábica. Assim, demonstrou que não era hostil à coexistência pacífica e à cooperação com eles: simplesmente queria impedir qualquer perigo para a comunidade muçulmana. 6. Os termos da evacuação não eram de modo algum severos. Aos evacuados foi permitido levar uma carga de camelo cada um com seus pertences, exceto armas. Essa concessão lhes permitiria estabelecer-se onde escolhessem. Além disso, não havia restrições de fronteira que os impedissem de ir para onde quisessem. Na verdade, sua presença em Medina fora uma escolha. Vieram como imigrantes e poderiam escolher seu local de assentamento da mesma maneira. Uma análise cuidadosa do tratamento dispensado pelo Profeta aos judeus que escolheram hostilizá-lo mostra que ele foi extremamente indulgente com eles. Nenhum outro vencedor na história tratou seus inimigos com o mesmo espírito de respeito e clemência demonstrado por Muhammad (que a paz esteja com ele).
CAPÍTULO 18
o destino dos judeus de Qurayzah
Vários dos líderes da tribo judaica de al-Nadir estabeleceram-se em Khaybar (no norte da Arábia) depois de a tribo ter sido evacuada de Madinah. Eles nutriam forte rancor contra o Islã e seu Profeta. Alguns deles foram a Makkah e falaram com os chefes dos Quraysh e, depois, com os Ghatafan, para obter seu apoio. O plano, conforme acordado pelos três grupos, era reunir a maior força possível e marchar até Madinah a fim de pôr fim ao Islã e aos muçulmanos. Contudo, como observei no Capítulo 2, o Profeta recebeu informações sobre o grande exército que se dirigia a Madinah. Ele e seus Companheiros fortificaram a cidade cavando um fosso seco em sua entrada. O exército dos incrédulos teve de acampar do outro lado do fosso, pois não conseguiu atravessá-lo. A única grande tribo judaica que restava em Madinah era Qurayzah, que, até então, havia honrado seu pacto com os muçulmanos e vivido em paz com eles. No entanto, Huyayy ibn Akhtab, o rabino judeu que arquitetara a aliança, considerou que um longo cerco não traria resultados, pois os muçulmanos em Madinah tinham seus suprimentos dentro da cidade (na realidade, o cerco era mais difícil para os atacantes). Percebendo isso, Huyayy foi até Qurayzah e persuadiu Ka[b ibn Asad, seu rabino-chefe, a concordar em romper o pacto com o Profeta e juntar-se à aliança inimiga. A ideia era lançar um ataque de pinça pelo norte e pelo sul de Madinah para esmagar sua população muçulmana. Os preparativos para esse ataque estavam bem avançados quando Deus interveio, enviando uma forte tempestade que fez os Quraysh e os Ghatafan recuarem. Os muçulmanos então sitiaram Qurayzah. Depois de vinte e cinco dias de cerco, os judeus de Qurayzah concordaram em submeter-se à decisão do Profeta. Ele permitiu que escolhessem seu juiz entre seus Companheiros. Eles escolheram Sa[d ibn Mu[adh, pois ele fora seu aliado nos dias pré-islâmicos.
O que aconteceu depois é objeto de controvérsia. A maioria dos historiadores muçulmanos sustenta a versão apresentada por Muhammad ibn Ishaq (falecido em 151 AH / 768 EC), que relata que o veredicto de Sa[d ibn Mu[adh foi matar todos os homens e escravizar todas as mulheres e crianças.1 Essa história, porém, está longe de ser exata: na verdade, é fundamentalmente falha e contradizida por outros acontecimentos.2 Ibn Ishaq, cuja biografia do Profeta foi preservada por Ibn Hisham, menciona que, quando o cerco começou a tornar-se insuportável, Qurayzah pediu ao Profeta que lhes enviasse um de seus Companheiros, Abu Lubabah ibn [Abd al-Mundhir, pois desejavam consultá-lo sobre sua situação. Quando Abu Lubabah entrou em sua fortaleza, os homens se levantaram para saudá-lo, e as mulheres e crianças foram ao seu encontro chorando. Ele sentiu grande compaixão. Perguntaram-lhe se deveriam submeter-se à decisão de Muhammad. “Ele disse: ‘sim’, e fez um sinal com a mão atravessando o pescoço, dando a entender que isso significaria sua execução.” Ibn Ishaq cita suas palavras: “Mal dei um passo e percebi que havia traído Deus e Seu Mensageiro.” Ele deixou o bairro de Qurayzah sem saber para onde ir, mas não voltou ao Profeta. Por fim, amarrou-se a uma coluna da mesquita, declarando que não sairia dali até ter certeza de que Deus aceitara seu arrependimento.3 Ibn Ishaq acrescenta que Abu Lubabah permaneceu amarrado à coluna durante seis noites, até que foi revelado um versículo corânico indicando que Deus aceitara seu arrependimento. O versículo diz: “E há outros que reconheceram seus pecados, tendo misturado boas ações com más. Pode ser que Deus aceite seu arrependimento. Deus é Perdoador, Misericordioso.”4 (9: 102)
Essa parte da história é falha em três aspectos, que apresentarei aqui: Primeiro, Qurayzah pediu especificamente Abu Lubabah porque sabia que ele lhes desejava o bem. Isso fica claro pelo que se diz sobre a maneira como lhe mostraram sua aflição: ele quase chorou por causa do sofrimento deles. Depois, somos informados de que ele os aconselhou a submeter-se à decisão do Profeta e, ao mesmo tempo, lhes indicou que a decisão seria sua execução. Isso implica que, quando o Profeta lhes permitiu escolher seu juiz, o veredicto a ser dado pelo juiz já havia sido discutido e decidido no campo muçulmano. O tribunal de Sa[d teria, portanto, apenas oficializado um veredicto que já fora pronunciado. O Profeta nunca tratou ninguém dessa maneira, pois tal procedimento é totalmente inaceitável no Islã. Além disso, quando Qurayzah escolheu Sa[d ibn Mu[adh, que era seu aliado e chefe dos Aws, como juiz, alguns de seus membros da tribo lhe disseram: “O Mensageiro de Deus lhe confiou essa tarefa para que você seja bondoso com eles.” Se essa era a percepção do povo dos Aws, como seria possível que um deles, Abu Lubabah, considerasse que o veredicto iminente seria a morte deles? Ademais, se a morte deles tivesse sido decidida previamente e Abu Lubabah soubesse disso, o Profeta teria concordado que ele os encontrasse sem adverti-lo de que não revelasse o segredo?
Segundo, seria possível, ou lógico, que Abu Lubabah aconselhasse Qurayzah a submeter-se ao veredicto do Profeta e, ao mesmo tempo, lhes desse a entender que o veredicto seria sua morte? Sendo seu amigo e tendo muitas relações com eles, não os aconselharia ele a buscar outro caminho, em vez de convencê-los a aceitar uma sentença de morte predeterminada? Além disso, eles acabaram seguindo seu conselho e submeteram-se ao veredicto do Profeta, fosse ele qual fosse. Se soubessem que o veredicto já fora decidido como execução, parece improvável que tivessem escolhido deliberadamente esse curso de ação.
Por fim, um relato mais autêntico sobre Abu Lubabah amarrar-se a uma coluna da mesquita menciona que isso ocorreu quatro anos depois, isto é, após a expedição a Tabuk. Segundo esse relato, o Profeta ordenou que todos os muçulmanos participassem da expedição; contudo, algumas pessoas ficaram para trás. A maioria delas era composta de hipócritas (fingiam ser muçulmanos, mas não eram), embora alguns, menos de dez, fossem crentes sinceros que não haviam cumprido o que lhes fora ordenado. Três deles foram ao Profeta e admitiram sua culpa. Receberam tratamento especial.5 Os outros amarraram-se a colunas da mesquita como gesto de admissão da culpa e pedido de desculpas ao Profeta. Esperavam que o Profeta os perdoasse e ordenasse que fossem libertados. O Profeta deixou o assunto para que Deus decidisse. Alguns dias depois, seu perdão foi revelado no versículo corânico citado acima (9: 102).6 Toda essa surata comenta a atitude dos hipócritas, tal como se manifestou durante os preparativos para a Expedição de Tabuk e nos acontecimentos posteriores. O relato de Ibn Ishaq também cita esse versículo como o perdão de Abu Lubabah. O episódio de Qurayzah ocorreu no quinto ano, quatro anos antes da revelação desta surata; é improvável que Abu Lubabah tenha se amarrado a uma coluna da mesquita em duas ocasiões, com quatro anos de intervalo, e tenha recebido seu perdão pelo mesmo versículo, revelado na segunda ocasião.
Quando o cerco começou a tornar-se insuportável para eles, Qurayzah enviou uma mensagem ao Profeta, declarando que estava disposta a render-se e aceitar qualquer decisão que ele proferisse contra ela. Os muçulmanos dos Aws falaram com o Profeta, intercedendo por Qurayzah porque eram seus aliados. O Profeta lhes disse: “Ficareis satisfeitos se um homem dentre vós proferir a decisão?” Eles responderam: “Sim, ficaremos.” O Profeta então atribuiu essa tarefa a Sa[d ibn Mu[adh. Outro relato menciona que o Profeta disse a Qurayzah que escolhesse seu juiz entre seus Companheiros, e eles escolheram Sa[d, porque ele era seu aliado e esperavam que fosse indulgente. Sa[d ibn Mu[adh havia sido ferido por uma flecha perdida e recebia cuidados durante o cerco de Qurayzah. Foi levado à tenda do Profeta para proferir sua decisão. Começou certificando-se de que seu veredicto seria vinculante tanto para os judeus quanto para os muçulmanos. Ambos confirmaram que assim seria. Então disse: “Decido que os combatentes de Qurayzah sejam mortos, que seus bens sejam divididos, que suas mulheres e crianças sejam feitas prisioneiras e que seus bens sejam distribuídos.” (Relatado por al-Bukhari.) O Profeta endossou a decisão e disse que ela era de Deus. O julgamento foi então executado. Por ordem do Profeta, os condenados de Qurayzah foram levados a Madinah: ali, os homens foram detidos na casa de Usamah ibn Zayd, enquanto as mulheres e crianças foram detidas na casa de uma mulher chamada Kayyisah bint al-Harith.7 Seus armamentos e bens móveis também foram levados para Madinah, e seu gado foi deixado nos campos. Deram-lhes tâmaras para comer.
Segundo Ibn Ishaq, porém, a decisão de Sa[d ibn Mu[adh aplicava-se a todos em Qurayzah, o que significava que todos os seus homens foram mortos e todas as suas mulheres e crianças foram escravizadas. A maioria dos historiadores muçulmanos o cita e aceita seu relato como exato; ainda assim, considero-o seriamente falho. Ibn Ishaq foi o primeiro a escrever uma biografia detalhada do Profeta e fornece muitos detalhes dos acontecimentos que registra. Contudo, como muitos outros historiadores muçulmanos antigos, concentra-se nas batalhas ocorridas durante a vida do Profeta. Os estudiosos do hadith criticam o método de Ibn Ishaq, porque ele combina relatos que aprendeu de várias pessoas para oferecer uma narrativa adequada e coerente de cada acontecimento. Assim, não atribui cada pequeno detalhe ao estudioso de quem o aprendeu. Em defesa de Ibn Ishaq, argumento que, como historiador, seu método era apropriado, apesar de não permitir um exame adequado de suas fontes. Para um leitor de história, um relato de acontecimentos importantes poderia tornar-se excessivamente pesado se cada pequeno detalhe fosse atribuído à sua fonte quando existem várias fontes. Por outro lado, se Ibn Ishaq narrasse separadamente os relatos de cada uma de suas fontes, haveria muita repetição em sua narrativa, e os leitores teriam dificuldade para identificar as versões mais confiáveis. Ainda assim, o método de Ibn Ishaq o deixa vulnerável à acusação de transmitir relatos falsos ou imprecisos. Para obter um relato mais exato do acontecimento, precisamos considerar o que está disponível em fontes mais confiáveis.
O Alcorão oferece um breve comentário sobre o destino da tribo de Qurayzah. Diz que Deus “fez descer de suas fortalezas aqueles dentre o Povo da Escritura que os haviam auxiliado [isto é, os idólatras], lançando o terror em seus corações: alguns matastes e outros tomastes cativos. E Ele vos concedeu sua terra, suas casas e seus bens, bem como uma terra na qual jamais havíeis pisado. Deus tem poder sobre todas as coisas.” (33: 26-27) O Alcorão comentou o fato de que os muçulmanos cortaram várias tamareiras durante o cerco à tribo judaica de al-Nadir e deu uma justificativa para isso. Do mesmo modo, se todo o povo de Qurayzah tivesse sido morto ou capturado, o Alcorão teria explicado a necessidade de tal tratamento. A outra fonte confiável é a coletânea de tradições autênticas do Profeta de al-Bukhari. Há duas declarações que falam da decisão de Sa[d ibn Mu[adh nesse caso, e ambas afirmam que ele decidiu que “seus combatentes fossem mortos e sua descendência fosse feita cativa.”8 A falha básica da história de Ibn Ishaq é fazer com que o julgamento se aplique a cada pessoa dos judeus de Qurayzah: assim, impõe uma sentença de morte a todos os homens adultos e cativeiro a todas as mulheres e crianças. Nada há nos textos corânicos ou nos textos de hadith que confirme isso. O Alcorão fala de algumas pessoas sendo mortas e de outras sendo feitas prisioneiras, e as duas tradições de hadith falam da execução dos combatentes e da prisão de sua descendência.
8 Ibn Hajar, Fath al-Bari (um comentário detalhado sobre a coletânea Sahih de al-Bukhari), vol. 7, pp. 411-412.
Vários pontos no relato de Ibn Ishaq servem para colocá-lo em dúvida. Para começar, ele menciona que, antes de sua execução, os homens foram colocados na casa de Usamah ibn Zayd, enquanto as mulheres foram colocadas na casa de Kayyisah bint al-Harith. Quantas pessoas essas duas casas poderiam acomodar? É sabido que a maioria dos muçulmanos vivia na pobreza (em particular, os que haviam migrado de Makka, e Usamah pertencia a esse grupo). O número de homens de Qurayzah mencionado nesses relatos varia entre 600 e 900. Que tipo de casa poderia abrigar todas essas pessoas? Na realidade, o número de mulheres e crianças que, segundo se sugere, foram colocadas na casa de Kayyisah teria sido muito maior. Além disso, afirma-se que foram cavados fossos no mercado para matar essas pessoas. Os lugares de Madinah onde ocorreram acontecimentos importantes durante o primeiro período do Islã são bem conhecidos e foram demarcados. As mesquitas construídas durante a vida do Profeta, como as mesquitas de Quba’ e Qiblatayn, continuam de pé. No entanto, não há marcações dos fossos que, supostamente, teriam sido cavados para essa execução em massa.
Também é costumeiro Ibn Ishaq mencionar os nomes das pessoas envolvidas em cada acontecimento importante que documenta. Ele menciona, por exemplo, os nomes de todos os Companheiros do Profeta que emigraram para a Abissínia (101 ao todo) e de todos os que participaram da Batalha de Badr, assim como seus antepassados e clãs (313 pessoas). Nesta ocasião, menciona apenas duas pessoas: Huyayy ibn Akhtab e al-Zubayr ibn Bata, e relata conversas que ocorreram antes de serem mortos. Menciona que o Profeta perdoou o último e lhe devolveu seus bens. Contudo, al-Zubayr ibn Bata preferiu morrer, porque os autores da traição de Qurayzah haviam recebido a justa punição. Ibn Ishaq relata os casos daqueles que receberam um perdão especial, dando seus nomes e identificando aqueles que intercederam por eles; não nos dá muitos detalhes sobre os que supostamente foram executados. Seria improvável que ele fornecesse os nomes de todo o povo de Qurayzah, pois eram várias centenas; poderia, contudo, ao menos ter-nos dado os nomes das figuras mais ilustres entre eles.
Por fim, Muhammad ibn [Umar al-Waqidi (130-207 AH / 748-822 EC) fornece mais detalhes. Al-Waqidi foi um historiador proeminente que escreveu extensamente sobre a história do Islã, muitas vezes recorrendo a fontes primárias e visitando todos os lugares onde ocorreram acontecimentos importantes da vida do Profeta. Al-Waqidi fornece os nomes de nove pessoas executadas em consequência da decisão de Sa[d ibn Mu[adh: Ka[b ibn Asad, o chefe de Qurayzah que concordou com a traição; Huyayy ibn Akhtab, aquele que se esforçou para reunir as forças atacantes que procuravam destruir o Islã e pôr fim a ele; al-Zubayr ibn Bata; Ghazzal ibn Samuel; Nabbash ibn Qays; Wahb ibn Zayd; [Uqbah ibn Zayd; e duas pessoas chamadas [Amr.9 Ele também menciona que duas pessoas foram enviadas a cada um de vários clãs dos Ansar, onde foram executadas. Isso eleva o total para menos de vinte e cinco. Quando essa informação é acrescentada à formulação mais confiável da decisão de Sa[d ibn Mu[adh, que condenava os combatentes de Qurayzah à morte, é possível concluir que eles eram os combatentes efetivos que participaram ativamente da traição que pretendia erradicar o Islã e todos os muçulmanos.
O relato de Ibn Ishaq sobre a vida do Profeta foi a principal fonte na qual historiadores posteriores se basearam ao analisar acontecimentos ocorridos durante a vida do Profeta. Contudo, neste caso, considero que esta discussão oferece bases sólidas para rejeitar seu relato sobre o destino da tribo judaica de Qurayzah. A primeira razão para rejeitar esse relato é que infligir tal punição coletiva é contrário aos ensinamentos islâmicos e à própria prática do Profeta. O Islã não aprova punir um grupo de pessoas pelo crime de uma só, nem punir muitos pelo crime de poucos. Ao contrário, pune todos os que efetivamente participam de um crime. Assim, se dez pessoas colaboram no assassinato de uma pessoa, todas são igualmente punidas. Num caso como o de Qurayzah, os líderes da tribo e alguns dos que lhes eram próximos acabam tomando uma decisão e garantindo que ela seja executada. A maioria dos membros da tribo apenas segue a decisão tomada e tem pouca influência sobre o que é decidido. Aplicar a todos a mesma punição, portanto, não estaria de acordo com os padrões islâmicos de justiça.
O Profeta compreendeu a natureza de sua missão desde o início. Nos primeiros dias de sua profecia, a essência de sua missão foi definida por Deus: “Nós te enviamos como [manifestação de Nossa] graça para todos os mundos.” (21: 107) Durante os vinte e três anos de sua missão, o Profeta manifestou esse aspecto de graça em tudo o que fez. Várias pessoas tentaram matá-lo em diferentes ocasiões, mas ele perdoou todas. No auge de seu triunfo, perdoou o povo dos Quraysh, que lhe fora muito hostil, incluindo a maioria das dezenove pessoas que já havia condenado à morte por sua persistente hostilidade ao Islã. Adotou a mesma atitude com os judeus, até mesmo com aqueles que tentaram assassiná-lo. O Profeta pode ter autorizado a morte de Sallam ibn Abi al-Huqayq; mas isso se deu apenas porque este participou da formação da aliança que tentou atacar Madinah e erradicar o Islã e os muçulmanos. Por outro lado, quando o Profeta derrotou os judeus de Khaybar, disse aos membros da família de Abi al-Huqayq, muitos dos quais eram ativamente hostis ao Islã, que não os puniria por sua atitude passada.9 Al-Waqidi, Kitab al-Maghazi, (1966), vol. 2, Oxford University Press, pp. 496-521.
Quando consideramos todas essas provas da misericórdia concedida a inimigos anteriores, o relato de Ibn Ishaq parece muito estranho.
Visão sobre a punição coletiva
Um fato muito importante, que também apoia a rejeição do relato de Ibn Ishaq, é que nenhum dos principais juristas da história islâmica parece ter considerado suas implicações. É sabido que as declarações e ações do Profeta serviram de base para decisões em casos semelhantes. Se tal punição coletiva tivesse sido aplicada ao povo de Qurayzah, esses juristas teriam considerado as condições que permitiriam infligir semelhante punição coletiva. O fato de nenhum jurista sequer permitir a punição coletiva (na qual muitos são punidos por um crime cometido por poucos) indica que o relato era inaceitável para eles.
Em um exemplo, encontramos o Imam al-Awza[i (m. 157 AH / 774 EC) opondo-se muito firmemente à punição coletiva. Surgiram conflitos entre uma comunidade de não muçulmanos no Líbano. Quando o governador, Salih ibn [Ali, reprimiu a sedição, quis que aquela comunidade deixasse sua terra e se estabelecesse em outro lugar. O Imam al-Awza[i objetou energicamente, dizendo ao governador: “Pelo que sei, não é uma regra de Deus que Deus puna a maioria pela falta da minoria, mas puna a minoria pela falta da maioria.”10 Ao citar isso, o Imam al-Qasim ibn Sallam demonstra, com absoluta clareza, que a punição coletiva é estranha aos valores, princípios e à legislação islâmicos. Ibn Sallam era um estudioso do mesmo calibre que os fundadores das quatro escolas de pensamento. Considera-se que tenha tido sua própria escola de pensamento, embora ela não tenha sobrevivido tempo suficiente para ser seguida pelas gerações posteriores.
O artigo acadêmico do Professor Walid Arafat no Journal of the Royal Society of Great Britain and Ireland (1976) discute o relato de Ibn Ishaq e o tratamento dado aos judeus em Madinah. Arafat analisa as fontes de Ibn Ishaq e sugere que a história provavelmente foi contada a Ibn Ishaq pelos descendentes de alguns dos judeus de Qurayzah, cujos antepassados foram punidos pelo Profeta. Ibn Ishaq era conhecido por procurar os descendentes e as famílias dos contemporâneos do Profeta e pedir-lhes detalhes, transmitidos por suas famílias, sobre acontecimentos ocorridos durante a vida do Profeta. Essa atitude de Ibn Ishaq é louvável, pois buscava fontes primárias. Contudo, ele deveria ter sido mais cuidadoso e verificado minuciosamente suas informações antes de registrá-las em seu livro.
Arafat compara esse relato ao caso de Masada, quando se acredita que 960 judeus cometeram suicídio em 73 EC para não serem capturados pelas forças bizantinas. Há fortes dúvidas sobre esse caso, até mesmo entre escritores judeus.11 Ainda assim, o episódio sempre recebeu tons heroicos na história judaica, especialmente depois da criação de Israel. É surpreendente que os números apresentados nos relatos baseados na narrativa de Ibn Ishaq forneçam um número semelhante de homens de Qurayzah que supostamente teriam sido executados. Outro ponto de semelhança entre os dois acontecimentos é que se diz que o chefe de Qurayzah, Ka[b ibn Asad, sugeriu a seus membros da tribo que matassem suas mulheres e crianças para lutar contra os muçulmanos até o fim.
Contrário à natureza do Profeta
A punição coletiva do tipo que se alega ter sido sofrida por Qurayzah não poderia ter sido aprovada por Muhammad (que a paz esteja sobre ele), pois isso era contrário à sua natureza. Recordemos a atitude do Profeta após sua viagem a Taif, oito anos antes. Ele ainda estava em Makkah, onde enfrentava a oposição de seu povo. Depois de dez anos divulgando sua mensagem com pouco progresso, pensou em levar sua atividade para além dali e foi a Taif, onde passou dez dias encontrando-se com o povo de Tahqif, a principal tribo que vivia ali. Eles não poderiam ter sido mais hostis: por fim, incitaram seus escravos e jovens contra ele. Expulsaram-no, apedrejando-o até que seus pés sangrassem (essa história é mencionada no Capítulo 2).
O importante aqui é o que aconteceu depois, quando o Profeta apelou a Deus com extrema devoção, deixando clara sua determinação de prosseguir com sua missão, mas buscando o apoio de Deus. O anjo das montanhas foi até ele, saudou-o e disse: “Estou às tuas ordens. Se quiseres, posso fechar as duas montanhas sobre o vale deles.” O Profeta disse: “Não. Espero que entre seus descendentes haja pessoas que adorem somente a Deus, sem associar parceiros a Ele.” (Relatado por al-Bukhari.) Esse acontecimento ocorreu quando o Profeta se sentia muito fraco diante da oposição e recebia hostilidade de todos os lados. Aquelas pessoas de Taif não eram parentes dele, e ele não tinha nenhuma razão especial para ser compassivo com elas. Ridicularizaram-no e o maltrataram mental e fisicamente durante dez dias consecutivos. Ainda assim, quando lhe ofereceram a possibilidade de puni-las com a maior severidade, sua reação imediata, embora bem ponderada, foi uma recusa categórica, porque esperava que entre seus descendentes houvesse pessoas que acreditassem em Deus.
Em contraste, o julgamento contra Qurayzah ocorreu quando a comunidade muçulmana via suas perspectivas melhorarem consideravelmente. O exército das tribos confederadas que havia sitiado Madinah por quase um mês acabara de partir ignominiosamente, depois de poucos combates. O Profeta comentou sua retirada, dizendo: “A partir de agora, eles jamais nos atacarão. Nós tomaremos a iniciativa.” Em seguida, sitiou Qurayzah, e eles se renderam, de modo que ele nunca mais estaria numa posição em que tivesse de temer algo da parte deles. A compaixão sempre foi uma característica marcante do Profeta: em tal momento de força, aprovaria ele uma punição de matança em massa que estigmatizaria o Islã pelo resto do tempo?
O que aconteceu com Qurayzah?
Outra razão para rejeitar o relato da punição coletiva dos judeus de Qurayzah é a ausência de relatos sobre acontecimentos posteriores que poderiam ter ocorrido mais tarde na comunidade muçulmana. O relato de Ibn Ishaq sugere que todas as mulheres e crianças foram capturadas. Surge a pergunta: o que aconteceu com elas depois disso? Segundo a tradição universal da época, teriam se tornado escravas e sido entregues àqueles que participaram do cerco às fortalezas de Qurayzah. Contudo, o Islã já havia estabelecido uma regra para os prisioneiros de guerra: exigir que os muçulmanos os libertassem, mediante resgate ou como gesto de generosidade. Não temos nenhum relato que sugira que tenham permanecido em Madinah como escravos, nem uma única história de qualquer dessas mulheres ter enfrentado problemas com a família junto à qual pudesse ter sido colocada. Não temos relato da morte de nenhuma mulher idosa nem de como teria sido sepultada. As crianças envolvidas teriam sido criadas como muçulmanas. Não possuímos um único relato de qualquer uma delas ter se destacado em algum campo da vida. Tampouco temos qualquer relato de conversa entre os Companheiros do Profeta que faça referência à punição dos judeus de Qurayzah ou ao destino de suas famílias. Como explicar essa ausência de relatos?
Uma ausência semelhante de relatos aplica-se às outras duas tribos judaicas que foram evacuadas de Madinah durante a vida do Profeta: Qaynuqa[ e Nadir. Isso sugere que os Companheiros do Profeta e os primeiros historiadores muçulmanos não se preocuparam em acompanhar o destino daqueles judeus evacuados depois que deixaram Madinah. O mesmo deve ter ocorrido com os judeus de Qurayzah. Concluímos, portanto, que, após a execução dos responsáveis pela traição, o restante da tribo recebeu permissão para deixar Madinah em termos semelhantes aos das outras tribos judaicas que haviam sido evacuadas anteriormente.
CAPÍTULO 19
Muhammad: o estadista. Talvez ninguém na Arábia odiasse o Mensageiro de Deus tanto quanto eu. Eu era um homem de nascimento nobre, cristão por religião, e fazia cumprir a regra que me dava um quarto de todos os despojos de guerra obtidos pela minha tribo.1 Isso significava que eu tinha a minha religião para mim mesmo e era verdadeiramente um rei do meu povo. Quando ouvi falar do Profeta, odiei-o.2 Estas foram as palavras de ʿAdiyy ibn Hatim, chefe da tribo de Tayy’, que vivia no norte da Arábia. Quando Meca se rendeu ao Islão, perto do fim do oitavo ano (isto é, vinte e um anos depois do início da missão do Profeta), ʿAdiyy percebeu que o Islão se espalharia pelo resto da Arábia e preparou-se para essa eventualidade. Quando soube que uma expedição muçulmana se aproximava da sua região, fugiu. A expedição, liderada pelo primo do Profeta, ʿAli ibn Abi Talib, destruiu al-Fuls, um dos principais ídolos adorados pelo povo do norte da Arábia, e fez alguns prisioneiros da tribo de Tayy’, entre eles a própria irmã de ʿAdiyy, Sufanah. Ela ficou muito aborrecida com o irmão, porque ele a deixara para trás, mas levara consigo a sua família mais próxima. Assim, Sufanah, cujo pai ainda hoje é considerado por todos os árabes um modelo de integridade e generosidade, viu-se cativa em Medina. Em pouco tempo compreendeu a posição do Profeta entre os muçulmanos e apelou a ele, explicando a sua aflição: “Mensageiro de Deus, os meus pais morreram e o meu tutor desapareceu. Sê generoso comigo, que Deus seja generoso contigo.”3 Depois de repetir o seu apelo durante três dias consecutivos, o Profeta 1 Isto era feito pelos chefes tribais que gozavam de autoridade incontestada entre o seu povo. 2 Ibn Hisham, Al-Sirah al-Nabawiyyah, vol. 4, p. 246. 3 Ibid., p. 247. concedeu-lhe a liberdade, mas disse-lhe que permanecesse em Medina até encontrar pessoas de confiança que a pudessem acompanhar até à sua terra. Disse-lhe que o informasse antes de viajar. Quando estava prestes a deixar Medina, o Profeta deu-lhe um camelo para montar, algumas roupas e algum dinheiro. Ela viajou para além da sua própria terra: foi, em vez disso, para a Síria, a fim de encontrar o irmão. Depois de o repreender severamente por a ter abandonado, aconselhou-o a ir a Medina e encontrar-se com o Profeta. Explicou-lhe que, quer Muhammad fosse um profeta ou um rei, não era do interesse de ʿAdiyy opor-se a ele. Escondeu dele o facto de ter aceitado o Islão. ʿAdiyy ibn Hatim seguiu o seu conselho e viajou para Medina. Ele apresenta um longo relato sobre a sua visita, mas aqui interessam-nos as suas primeiras impressões: Fui ver o Profeta na sua mesquita. Quando o cumprimentei, perguntou-me o meu nome, e eu disse: “ʿAdiyy ibn Hatim.” Então levantou-se e levou-me para sua casa. Enquanto caminhávamos até à sua residência, uma mulher idosa e fraca parou-o. Ele ficou muito tempo com ela enquanto ela explicava o que queria. Pensei comigo mesmo: “Ele certamente não é um rei.” Depois levou-me para os seus aposentos, deu-me uma almofada e disse: “Senta-te nesta.” Eu disse: “Não, senta-te tu nela.” Ele disse: “É tua.” Sentei-me na almofada e ele sentou-se no chão. Mais uma vez pensei comigo mesmo: “Ele certamente não é um rei.”4 Essa foi a primeira impressão de um homem que, pela sua própria admissão, comportava-se como um rei entre o seu povo. Ele viera avaliar se Muhammad (que a paz esteja com ele) era um rei ou um profeta, numa altura em que Muhammad estava no auge do seu poder. Poucos meses antes, o Profeta regressara a Medina depois de marchar até Meca e alcançar a vitória em Hunayn, garantindo grandes ganhos militares e materiais para o seu povo. Embora naquela época o Profeta fosse o líder incontestado da Arábia, ainda assim comportava-se de forma altruísta. Por exemplo, parava na rua para longas conversas com uma mulher idosa e fraca, atendendo ao seu pedido e assegurando-se de que ela tinha o que precisava. Do mesmo modo, sentava-se no chão da sua própria casa, dando a sua almofada ao convidado para que este se sentasse nela. Diz-se com razão que o poder corrompe, e há inúmeros exemplos de líderes que abandonam ou esquecem os seus ideais quando chegam ao poder. O Profeta nunca procurou o poder para si mesmo. Quando estabeleceu um grande Estado cujos habitantes lhe prestavam uma lealdade plena e sem reservas, nunca por um instante se considerou um rei ou chefe de Estado.4 Ibn Hisham, Al-Sirah al-Nabawiyyah, vol. 4, p. 246. Para os detalhes completos da história de ʿAdiyy ibn Hatim, ver Adil Salahi, Muhammad: Man and Prophet, The Islamic Foundation, Leicestershire, 2008, pp. 674-677. Muhammad: O estadista Continuou a comportar-se da mesma maneira de sempre. Contudo, nunca esqueceu o dever que Deus lhe confiara: transmitir a Sua mensagem e convidar as pessoas a aceitá-la. Quando os coraixitas se lhe opuseram e praticamente confinaram a sua mensagem aos limites de Meca, ele procurou divulgar a sua mensagem noutros lugares. Enviou um grande grupo dos seus seguidores para a Abissínia, a fim de estabelecer uma segunda base para a sua mensagem. Ao mesmo tempo, dirigia-se a outras tribos quando estas se reuniam em Meca durante a época da peregrinação. Percebeu que precisava de uma base segura a partir da qual pudesse falar às pessoas. Quando falava com diferentes tribos, perguntava sobre a sua capacidade e disposição para o defender enquanto transmitia a sua mensagem a outros. Também percebeu, nos primeiros anos da sua missão, que precisava do poder de um Estado para proporcionar um refúgio seguro aos defensores do Islão. Quando finalmente estabeleceu a sua base sólida em Medina, procurou antes de tudo garantir plena segurança aos seus seguidores e aos demais cidadãos de Medina. Como foi referido nos capítulos anteriores, celebrou um pacto ao qual todas as partes da população se comprometeram. Esse documento definia responsabilidades e compromissos e transformava todos os grupos — muçulmanos, judeus e idólatras — numa só nação, com direitos iguais em Medina; embora, quando surgissem divergências entre eles, o Profeta fosse o árbitro final. Assim, essas comunidades viviam lado a lado em paz. Cada comunidade cuidava do seu próprio povo e partilhava a responsabilidade pelo seu comportamento; mas estavam unidas perante qualquer agressão de uma potência ou grupo externo. Era um modelo de sociedade pluralista em que nenhum grupo procurava estabelecer autoridade sobre os outros. Embora mais tarde isso tenha corrido mal com alguns grupos, tal não se deveu a nenhuma falha do Islão ou dos muçulmanos; os outros grupos eram sempre os agressores. A primeira responsabilidade do Profeta era para com o seu próprio povo, os muçulmanos. Formou uma comunidade na qual a filiação tribal era uma questão muito secundária, pois o vínculo da fé substituía todos os outros vínculos. Cuidava deles de tal maneira que conquistou o seu amor de todo o coração. Asma’ bint ʿUmays, que estivera entre os imigrantes na Abissínia e foi a última a regressar, comparou o destino dos imigrantes com o dos muçulmanos em Medina: Vocês estavam com o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele), que alimentava os que entre vocês tinham fome e admoestava os ignorantes, enquanto nós estávamos numa terra de estrangeiros hostis, permanecendo lá apenas por amor a Deus e ao Seu Mensageiro… Éramos maltratados e muitas vezes sentíamos medo. (Relatado por al-Bukhari e Muslim.) Não há dúvida de que o Profeta cuidava da sua comunidade. Por exemplo, as pessoas conhecidas como Ahl al-Suffah, que se juntaram aos muçulmanos em Medina, vinham de diferentes tribos e regiões, mas eram todas pobres e sem abrigo. O Profeta instalou-as num abrigo junto à mesquita e assegurou que tivessem comida. Por vezes as circunstâncias eram muito difíceis, mas o Profeta conseguia sempre dar-lhes alguma coisa. O Profeta vivia uma vida de pobreza, mas nunca se esquecia dos necessitados. Muitas vezes Deus abençoava uma pequena refeição, de modo que ela fosse suficiente para um grande número de pessoas. Tudo isso era resposta às orações do Profeta, que ele fazia porque cuidava do seu povo e queria aliviar as suas dificuldades. Ao mesmo tempo, o Profeta tinha sempre em vista a justiça. Nunca tirava nada a ninguém de forma injusta, mesmo quando ninguém podia questionar as suas decisões. As instituições de honra recebiam uma importância muito elevada na Arábia. Tradicionalmente, estavam confiadas a certos clãs, e o clã fazia todos os esforços para provar que era digno dessa honra. Uma delas era transportar o estandarte no campo de batalha. Como o estandarte era o ponto de reunião durante uma batalha, era de grande importância mantê-lo erguido. Na Batalha de Badr, o estandarte dos coraixitas caiu pouco depois de o seu portador ser morto. O clã de ʿAbd al-Dar detinha tradicionalmente o estandarte dos coraixitas e, pouco antes do início da Batalha de Uhud, o líder dos coraixitas tentou motivar os ʿAbd al-Dar perguntando-lhes se poderiam perder o estandarte. Eles garantiram-lhe que o defenderiam com as suas próprias almas. Embora o Profeta não tivesse obrigação de designar qualquer clã específico para transportar o seu estandarte, perguntou antes da batalha quem transportava o estandarte dos coraixitas. Quando lhe disseram que era o clã de ʿAbd al-Dar, ele afirmou: “É mais apropriado que nós mantenhamos a honra onde ela pertence.” Chamou Musʿab ibn ʿUmayr, que pertencia ao clã de ʿAbd al-Dar, e entregou-lhe o estandarte do exército muçulmano. Outras instituições de honra que o povo dos coraixitas se orgulhava de deter incluíam a siqayah (o fornecimento de água potável aos peregrinos enquanto permaneciam em Meca e na área da peregrinação), a rifadah (o fornecimento de comida aos peregrinos) e a sidanah (a custódia da Caaba). A última também pertencia ao clã de ʿAbd al-Dar, enquanto o fornecimento de comida e água pertencia ao próprio clã do Profeta, os Haxemitas. Quando Meca se rendeu ao Islão, o Profeta pediu a chave da porta da Caaba e ela foi-lhe entregue. Alguns dias depois, pessoas do seu clã pediram-lhe que lhes concedesse a honra de serem os guardiões da Caaba, além das outras duas instituições. Ninguém poderia censurar o Profeta se tivesse atendido a esse pedido, pois os coraixitas haviam sido hostis para com ele durante vinte e um anos. Agora que era o senhor de Meca, podia fazer o que quisesse; contudo, Muhammad: O estadista a sua resposta foi: “Este é um dia de honestidade, em que as promessas são cumpridas.”5 Mandou chamar ʿUthman ibn Talhah e devolveu-lhe as chaves. Esse cuidado e essa honestidade foram marcas da liderança do Profeta ao longo da sua carreira. Isso fez com que todos na sua comunidade o amassem, pois todos compreendiam que os seus direitos lhes seriam concedidos e que receberiam ainda mais do seu cuidado e amor. Esta é a marca de uma grande liderança e faz parte do seu objetivo constante de buscar o que é correto. Quando o Profeta estabeleceu o Estado muçulmano em Medina, tratava-se de uma cidade-Estado no meio de uma região desértica habitada por tribos que viviam onde quer que encontrassem água e terras férteis. Os coraixitas eram a mais forte e mais respeitada de todas as tribos árabes. Eram muito hostis ao Islão, e essa hostilidade aumentou depois de o Profeta e os seus Companheiros encontrarem apoio em Medina, com as suas duas tribos (os Aws e os Khazraj) a aderirem ao Islão em grande número. Todas as outras tribos adotaram em relação ao Islão uma atitude que variava entre a hostilidade e a espera para ver o que aconteceria. Apenas os Khuzaʿah, que viviam perto do mar (na região próxima de Jidá), eram amigos do Estado muçulmano. Havia alguns muçulmanos entre o povo dos Khuzaʿah, mas a maioria ainda adorava ídolos. Cercado pela hostilidade, o Profeta precisava de consolidar o seu Estado e assegurar a sua imunidade contra ataques de qualquer força hostil. Como foi referido nos capítulos anteriores, as expedições que o Profeta enviava em diferentes direções tinham por objetivo transmitir aos árabes da região em torno de Medina a sensação de que o Estado muçulmano era forte e estava pronto para enfrentar qualquer situação. O Profeta não participou nas primeiras expedições. Contudo, liderou uma expedição pela primeira vez depois de um ano da sua instalação em Medina. Queria interceptar uma caravana comercial pertencente aos coraixitas, mas esta escapou-lhe. Celebrou um tratado com a tribo de Damrah. O tratado estipulava que os dois lados não lançariam ataques um contra o outro: os Damrah não deveriam ajudar nem juntar-se a nenhum inimigo do Profeta. Eles e os seus bens estariam a salvo de ataques. Tinham direito a receber ajuda contra qualquer agressão de quem quer que fosse. Do mesmo modo, comprometiam-se a ajudar o Profeta a qualquer momento, a menos que fossem atacados. Se o Profeta lhes pedisse ajuda, certamente responderiam ao seu apelo.6 Este tipo de tratado é hoje conhecido como tratado de defesa mútua. O Profeta concluiu vários tratados desse tipo com diferentes tribos, particularmente com as que se encontravam na área entre Meca e Medina, e dessa forma negou aos coraixitas a oportunidade de fazer uma aliança com elas. Isso foi muito importante durante os primeiros anos, quando os coraixitas levantaram um exército atrás de outro para atacar os muçulmanos, numa série de tentativas de destruir o Estado muçulmano. Alguns anos mais tarde, quando o Profeta havia concluído o acordo de paz de Hudaybiyah com os coraixitas, também celebrou alguns tratados com tribos das regiões setentrionais da Arábia. Os termos desses acordos eram diferentes. O Estado muçulmano de Medina nada temia dessas tribos. Na verdade, as tribos precisavam da ajuda dos muçulmanos. Isso refletia-se nos termos e condições desses acordos. Quando o Profeta estava em Tabuk, no nono ano, Yuhanna ibn Ru’bah, um sacerdote cristão que governava um lugar chamado Aylah, foi encontrar-se com o Profeta. Usava um crucifixo de ouro. A sua aparência era contrária aos valores islâmicos, pois o Islão proíbe o ouro aos homens e nega a crucificação. Apesar disso, o Profeta recebeu-o, ofereceu-lhe roupas iemenitas e fez com ele um acordo escrito, que dizia: Em nome de Deus, o Misericordioso, o Beneficente. Esta é uma garantia de segurança concedida por Deus e por Muhammad, o Profeta, Mensageiro de Deus, a Yuhanna ibn Ru’bah e ao povo de Aylah, aos seus barcos e caravanas que viajam por terra e por mar. É-lhes concedido este pacto com Deus e com Muhammad, o Profeta, que inclui todos os que estão com eles, sejam eles do povo da Síria, do povo do Iémen ou marinheiros. Se algum deles cometer uma ofensa, os seus bens não o impedirão de ser pessoalmente punido. É bom para quem o aceitar. Não lhes é permitido impedir as pessoas de utilizar qualquer nascente de água que possuam em terra ou no mar.7 O Profeta também concluiu acordos com o povo de Adhruh, no sul da Palestina, e com o povo de Maqna, ambos judeus. Os acordos estipulavam que lhes eram dadas garantias de segurança e proteção contra os muçulmanos. Em troca, tinham de pagar anualmente uma determinada quantia ao Estado muçulmano: um quarto da sua produção no caso do povo de Maqna e cem dinares de ouro no caso do povo de Adhruh. Nestes tratados, o caso é claro: essas pessoas precisavam de estar em paz com o Estado muçulmano. Perceberam que os muçulmanos estavam a ganhar força e a tornar-se o Estado dominante na Arábia. Portanto, precisavam de assegurar a sua proteção contra ataques e de garantir que seriam ajudadas pelo Estado muçulmano caso fossem atacadas por outros. Os tratados com essas pessoas permitiam-lhes administrar os seus próprios assuntos como desejassem. Eram benéficos para o Estado muçulmano, pois tornavam pacíficas as suas fronteiras setentrionais. Além disso, asseguravam que os muçulmanos recebessem avisos antecipados caso o Império Bizantino tivesse planos para o seu vizinho meridional. O Profeta encarava todos os tratados com grande seriedade. Nunca quebrava uma promessa feita a alguém, nem violava um tratado que tivesse sido concluído e testemunhado por ambas as partes. Por exemplo, poucos momentos depois de concluir o acordo de paz de Hudaybiyah com os coraixitas, um muçulmano que estivera preso e fora torturado em Meca chegou e procurou refúgio junto dos muçulmanos. O seu pai era o negociador coraixita do acordo. Exigiu que o muçulmano, Abu Jandal, lhe fosse entregue. O Profeta pediu-lhe que permitisse que o filho permanecesse com os muçulmanos. No seu apelo ao pai, o Profeta disse: “A tinta do documento do acordo ainda nem secou.” O pai recusou categoricamente. O Profeta consolou Abu Jandal e entregou-o ao pai, dizendo-lhe: “Não é correto, na nossa fé, quebrarmos os nossos compromissos.”8 A observância rigorosa, pelo Profeta, dos compromissos assumidos nos tratados era acompanhada de uma atitude igualmente séria perante qualquer violação dos tratados pela outra parte. Cada uma das três tribos judaicas que faziam parte da convenção de Medina foi expulsa de Medina quando violou os seus termos e adotou uma atitude hostil. O Alcorão instrui o Profeta de que, se temesse traição por parte de qualquer signatário de um tratado, deveria anunciar-lhe a revogação do tratado, estabelecendo que um tratado não pode ser revogado sem tal aviso: “E se temeres traição de algum povo, devolve-lhes o seu pacto de maneira justa. Deus não ama os traidores.” (8:58) Mais tarde, quando a esmagadora maioria da população da Arábia havia adotado o Islão, foi decisão de Deus reivindicar toda a Península Arábica como terra do Islão. Portanto, todos os tratados que não especificavam uma data de expiração foram declarados revogados, com um aviso de quatro meses para dar às pessoas envolvidas algum tempo para decidir o que desejavam fazer. Os tratados que especificavam uma data de expiração deveriam vigorar até ao fim dos seus termos. Isso é claramente indicado nos quatro primeiros versículos da Surata 9. O Profeta fez o anúncio necessário no grande dia da peregrinação, para que fosse conhecido por todas as tribos ao mesmo tempo. Assim, todos tinham clareza sobre as suas perspetivas e as opções disponíveis, e podiam tomar a sua decisão plenamente conscientes das consequências.8 Ibn Hisham, Al-Sirah al-Nabawiyyah, vol. 3, p. 367. Endereço internacional Quando o Profeta concluiu o acordo de paz de Hudaybiyah com os coraixitas e depois alcançou a vitória sobre os judeus de Khaybar, percebeu que todas as ameaças provenientes de regiões dentro da Arábia haviam sido neutralizadas. Deu então um passo decisivo na sua missão, dirigindo a mensagem do Islão aos governantes dos países vizinhos da Arábia. Informou-os sobre a sua mensagem e convidou-os a aceitar o Islão. Estipulou que, caso contrário, seriam responsáveis por terem negado aos seus povos a oportunidade de aceitar a forma final da mensagem divina. As suas cartas a esses governantes refletem a sua plena consciência da situação de cada um desses Estados. Podemos analisar essa correspondência dividindo-a em várias categorias. A primeira foi a sua carta ao Negus. Como “Negus” é o título do governante da Abissínia, os estudiosos divergem quanto a saber se este Negus, a quem o Profeta escreveu convidando-o a aceitar o Islão, era o mesmo que havia recebido os imigrantes muçulmanos de Meca catorze anos antes ou se era o seu sucessor. Embora seja difícil responder com certeza a esta questão, é provável que o Negus que permitira aos imigrantes permanecer e divulgar o Islão, recusando-se a extraditá-los para os coraixitas, fosse antecessor do destinatário da carta do Profeta, pois acolhera os imigrantes e reconhecera a verdade do Islão desde o início. Como o Profeta manteve contacto com os imigrantes, é provável que o Negus tenha aceitado o Islão. Além disso, certa vez o Profeta ofereceu a oração gha’ib (a oração por uma pessoa falecida numa região distante) pelo Negus. Quando escreveu ao Negus, juntamente com as cartas enviadas a outros governantes, o Profeta escrevia a um não muçulmano. O Negus respondeu positivamente e declarou-se muçulmano. Escreveu uma carta muito amável ao Profeta, assegurando-lhe a sua lealdade, e enviou-lhe presentes. Na segunda categoria podemos reunir as suas cartas a Heráclio, o imperador bizantino, e a al-Muqawqis, o governante do Egito. As duas cartas são quase idênticas e citam o mesmo versículo corânico: Em nome de Deus, o Senhor da Graça, o Eternamente Misericordioso. De Muhammad, Mensageiro de Deus, para Heráclio, o governante bizantino. Paz esteja sobre aqueles que seguem a orientação correta. Convido-te a crer no Islão. Abraça o Islão e estarás salvo, e Deus dar-te-á uma recompensa dupla. Se recusares, carregarás a responsabilidade pelos arianos.9 9 Al-Bukhari, Sahih (Livro sobre o início das revelações ao Mensageiro de Deus). Os arianos eram os seguidores de Ário, o egípcio que acreditava na unicidade de Deus e negava que o Pai e o Filho fossem duas manifestações do Senhor. Muhammad: O estadista A única diferença entre as duas cartas dizia respeito ao destinatário e à sua posição, bem como à substituição da palavra arianos, na carta para Heráclio, pela palavra coptas, na carta para al-Muqawqis. Ambos eram cristãos, mas pertenciam a igrejas diferentes. Heráclio não interrogou Dihyah ibn Khalifah, o emissário do Profeta. Em vez disso, interrogou Abu Sufyan minuciosamente sobre o Profeta, exigindo respostas claras e verdadeiras. Depois declarou que as respostas sugeriam que Muhammad era verdadeiramente um Profeta de Deus. Al-Muqawqis interrogou Hatib ibn Abi Baltaʿah, que entregou a mensagem do Profeta e confirmou que esperava a vinda do último Mensageiro de Deus. Guardou cuidadosamente a carta do Profeta. Contudo, cada um deles sentia que aceitar o Islão significaria perder a sua posição de governante. Ambos enviaram presentes ao Profeta, mas os presentes de al-Muqawqis eram mais variados e valiosos. Um aspeto notável do discurso do Profeta aos dois governantes foi a explicação direta da sua mensagem, que indicava o ponto de divergência em relação às suas crenças. Ambos eram cristãos e conheciam bem as suas religiões. Al-Muqawqis era também o chefe da Igreja Copta. O Profeta declarou ainda claramente a sua responsabilidade, dizendo-lhes que, se recusassem aceitar a sua mensagem, seriam responsáveis por privar os seus povos da oportunidade de seguir a mensagem de Deus. Podemos incluir também nesta categoria a carta do Profeta a Hawdhah ibn ʿAli, governante de Yamamah (no leste da Arábia). A carta do Profeta era breve: explicava a essência do Islão e prometia que o governante de Yamamah continuaria no seu cargo se aceitasse o Islão. Hawdhah recebeu bem o mensageiro do Profeta, Salit ibn ʿAmr, e ofereceu-lhe algumas roupas de fabricação local, mas a sua resposta ao Profeta foi dececionante. Escreveu que aquilo que o Profeta pregava era absolutamente correto e atraente: “Contudo, sou o melhor poeta e orador do meu povo. Os árabes desta região têm-me em grande temor. Se estiveres disposto a conceder-me alguma autoridade, seguir-te-ei.” A reação do Profeta foi que não concederia ao homem nem sequer uma área de terra do tamanho de uma única tâmara. Enquanto Heráclio e al-Muqawqis decidiram virar as costas ao Islão por receio de perder os seus reinos, o governante de Yamamah queria um suborno para o seguir. O Profeta prometera que ele manteria a sua posição, mas ele queria mais. Em resposta, o Profeta deixou claro que ninguém podia exigir nada em troca de aceitar o Islão. A terceira categoria inclui as cartas do Profeta ao imperador persa e a al-Harith ibn Abi Shammar, o governante árabe da Síria. Al-Harith era apenas um governante provincial, subordinado à autoridade superior do imperador bizantino. Contudo, ficou muito descontente quando leu a carta do Profeta. Num acesso de fúria, atirou a carta ao chão e disse: “Quem pode tirar-me o meu reino? Marcharei contra ele, ainda que esteja no Iémen.” Começou a tomar medidas para mobilizar as suas forças e pôr a ameaça em prática. Embora pudesse comandar grandes forças para enfrentar qualquer oposição, precisava da aprovação do imperador bizantino para o seu plano antes de poder fazer alguma coisa. Heráclio respondeu à sua carta, deixando clara a sua reprovação dos planos de al-Harith. Por isso, al-Harith não avançou. A carta do Profeta a Khosrau, o imperador persa, dizia o seguinte: Em nome de Deus, o Senhor da Graça, o Eternamente Misericordioso. De Muhammad, Mensageiro de Deus, para Khosrau, o líder da Pérsia. Paz esteja sobre aquele que segue a orientação correta, crê em Deus e no Seu Mensageiro e declara que não há divindade senão Deus, o Deus único, que não tem parceiros, e que Muhammad é Seu servo e Mensageiro. Desejo transmitir-te o apelo de Deus, pois sou o Mensageiro de Deus para toda a humanidade, enviado com a missão de advertir todos os vivos de que o castigo recairá sobre os incrédulos. Se te submeteres a Deus, estarás salvo. Se recusares, carregarás a responsabilidade pelos magos.10 Esta carta difere substancialmente da que foi enviada a Heráclio. Aqui há forte ênfase na unicidade de Deus e no facto de o autor ser o Mensageiro de Deus. Há também uma ênfase específica na posição do Mensageiro de Deus como Seu servo. Isso destinava-se a esclarecer o estatuto do Profeta e a ideia central da unicidade de Deus. Heráclio era um cristão que acreditava em Deus como Um, embora o conceito da Trindade tornasse essa unidade vaga. Também conhecia o estatuto dos profetas e mensageiros de Deus. O conceito da unicidade de Deus estava fortemente deturpado na Pérsia, onde o dualismo ganhara grande aceitação e o fogo sagrado era mantido aceso e adorado. Era necessário, portanto, enfatizar o conceito islâmico central da unicidade de Deus. Quando leu a carta, Khosrau também ficou furioso, porque o Profeta se mencionara primeiro. Rasgou a carta sem a ler. Depois ordenou ao seu governador no Iémen que enviasse dois homens corajosos e fortes para prender o Profeta e levá-lo até ele. O governador do Iémen fez o que lhe fora ordenado. Quando esses homens chegaram a Medina e entregaram ao Profeta aquilo a que chamavam “as ordens do imperador” para que ele se rendesse, o Profeta disse-lhes que esperassem. No dia seguinte, disse-lhes: “O meu Senhor matou o vosso senhor na noite passada”, e depois deu-lhes mais informações: o imperador persa fora morto pelo próprio filho. Eles ficaram agitados e advertiram-no de que arriscava a vida por dizer aquilo. O Profeta disse-lhes que anotassem a mensagem e a entregassem ao governador iemenita: “A minha fé e o meu poder chegarão mais longe do que os de Khosrau… Se aceitares o Islão, manter-te-ei no teu cargo e dar-te-ei autoridade sobre o teu povo.” Deu aos dois mensageiros um cinto contendo algum ouro e prata, que recebera como presente de outro rei. Quando o governador iemenita confirmou a veracidade do que o Profeta dissera, aceitou o Islão. O Profeta manteve-o como governador de todo o Iémen até à sua morte. A categoria final contém as cartas do Profeta ao governante do Barém, que enviou muito mais tarde. Essas cartas foram enviadas no início do sétimo ano, mas a carta a al-Mundhir ibn Sawa, do Barém, foi enviada perto do fim do oitavo ano, depois de Meca se ter rendido ao Islão. A carta do Profeta foi redigida nos mesmos termos que as cartas que enviara a outros governantes. Al-Mundhir respondeu: “Mensageiro de Deus, li a tua carta ao povo do Barém. Alguns gostaram dela e aceitaram o Islão. Outros recusaram. Há magos e judeus entre a minha população e aguardo as tuas instruções.”11 O Profeta respondeu-lhe: Em nome de Deus, o Senhor da Graça, o Eternamente Misericordioso. De Muhammad, Mensageiro de Deus, para al-Mundhir ibn Sawa. Paz esteja contigo. Louvo diante de ti a Deus, que não tem parceiros, e testemunho que não há divindade senão Deus e que Muhammad é Seu servo e Mensageiro. Lembro-te de Deus, o Todo-Poderoso. Quem pratica o bem, pratica-o apenas em seu próprio benefício; e quem obedece aos meus mensageiros obedece-me; e quem lhes dá bons conselhos dá-mos a mim. Os meus mensageiros elogiaram-te perante mim, e aceito a tua intercessão em favor do teu povo. Permite aos muçulmanos entre o teu povo aquilo que têm em seu poder. Perdoo todos os que cometeram pecados; aceita, portanto, os seus compromissos. Não te afastaremos do teu cargo enquanto fizeres o bem. Os que desejarem permanecer judeus ou magos deverão pagar um tributo como sinal da sua lealdade.12 Ao observarmos as cartas do Profeta aos vários governantes, incluindo os dois líderes mais poderosos do mundo, podemos identificar várias características comuns a todas elas: 11 Ibn Saʿd, Al-Tabaqat al-Kubra, vol. 1, p. 263. 12 Ibn Sayyid al-Nas, ʿUyun al-Athar, Beirute, (s.d.), vol. 2, p. 267. 1. O discurso do Profeta é forte e decisivo, e não procura apaziguar ninguém nem deferir perante qualquer autoridade. 2. O Profeta expõe o seu propósito em termos muito claros: queria transmitir uma mensagem de Deus Todo-Poderoso e explicou as consequências da resposta do destinatário, sobretudo se fosse negativa. Especificamente, destacou que um governante que negasse ao povo a oportunidade de conhecer a mensagem de Deus seria responsável pela sua incredulidade contínua. 3. O Profeta deixou também claro que era um Mensageiro para toda a humanidade. Dissipou qualquer pensamento que o destinatário pudesse ter de que ele estaria a olhar para além da região que lhe fora atribuída. 4. O Profeta esclareceu ainda que não tinha ambição de estender o seu domínio sobre a terra do destinatário. Não tinha interesse em ampliar o seu papel político. 5. Cada pessoa era abordada na língua que compreendia. Quando o Profeta falava com governantes cristãos, o seu discurso levava em consideração o facto de eles crerem em Deus, embora o seu conceito d’Ele divergisse do conceito islâmico. 6. O Profeta explicou ainda que ninguém seria coagido ou pressionado a aceitar o Islão, pois era necessário respeitar o princípio corânico de que “não há compulsão na religião” (2:256). Imperadores, reis e governantes podem tentar forçar as suas populações a seguir determinada orientação, mas o Profeta deixou claro que nem judeus nem magos seriam obrigados a aceitar o Islão; apenas lhes seria exigido o pagamento de um imposto em troca da proteção do Estado islâmico.
CAPÍTULO 20
muhammad: o homem
Então, que tipo de homem era Muhammad? A resposta é que ele era um homem comum que, até receber a mensagem de Deus, levou uma vida muito comum. Teve uma infância difícil: perdeu o pai antes de nascer, a mãe aos seis anos e o avô dois anos depois. Contudo, apesar de todas essas perdas, não lhe faltaram pessoas carinhosas que cuidassem dele e que conseguiam ver que aquele menino poderia ter um futuro brilhante. Ele apreciava profundamente o amor que recebia, particularmente de seu tio, Abu Talib, e da esposa de Abu Talib, Fatimah bint Asad. Quando Makkah atravessou tempos difíceis durante a vida adulta de Muhammad, ele procurou aliviar o peso de Abu Talib, sugerindo a outro tio, al-[Abbas, que cada um deles assumisse os cuidados de um dos filhos de Abu Talib. Para Muhammad, isso foi apenas um gesto de gratidão por um favor que ele jamais esquecera. Desde os primeiros anos, Muhammad tinha um aguçado senso do que era correto e, confiando em seus instintos naturais, buscava o que era correto de todas as maneiras possíveis. Nunca contou uma mentira e era sempre justo. Talvez ter sido privado do cuidado que somente pais bondosos poderiam oferecer o tenha ajudado a compreender o que a perda significava para outras pessoas. Isso pode tê-lo incentivado a tentar impedir que alguém sofresse uma perda injustificada; daí seu desejo de buscar o que era correto e fazê-lo prevalecer por meios justos. Ele era um exemplo de bondade e, muito antes da profecia, sua reputação de honestidade e justiça não tinha igual. Seu tratamento para com um jovem escravo que lhe fora dado de presente por sua boa esposa foi tão benevolente que o rapaz preferiu permanecer com ele a ser reunido novamente aos pais e à família. Para amenizar o golpe sofrido pelo pai decepcionado do rapaz, Muhammad o adotou como filho, com plenos direitos de herança. Assim era Muhammad antes de tomar consciência do papel que Deus queria lhe atribuir. Então Deus lhe confiou Sua mensagem, que visa oferecer um modo de vida para toda a humanidade, em todas as gerações. Por definição, essa mensagem alcança tudo o que há de bom no ser humano e o aperfeiçoa, neutralizando ou combatendo cada traço negativo. Muhammad (que a paz esteja com ele) deveria tornar-se o modelo para todas as futuras gerações da humanidade. Sua vida depois de se tornar o Profeta e Mensageiro de Deus mostra que ele esteve à altura disso. Ele era o mestre de toda bondade. Ele define seu papel nestas palavras simples: “Fui enviado para aperfeiçoar as boas maneiras.” (Relatado por Ahmad, al-Bukhari em Al-Adab alMufrad, al-Hakim e al-Bayhaqi.) Sua esposa, [A’ishah, descreve suas maneiras como uma “implementação prática do Alcorão”. (Relatado por Ahmad e alBayhaqi.) A melhor descrição de seu caráter é a dada pelo próprio Deus: “E, com toda a certeza, possuis um caráter sublime.” (68: 4)
Vários hadiths, transmitidos por diferentes narradores, destacam o fato de que o Profeta nunca usava linguagem grosseira. Anas ibn Malik relata: “O Mensageiro de Deus não era dado ao uso de linguagem grosseira, a maldições ou a nomes ofensivos. Quando expressava desagrado por alguém, dizia: ‘O que há com ele? Que tenha poeira na testa.’”1 (Relatado por al-Bukhari.) Em resposta a uma pergunta sobre as maneiras do Profeta, [A’ishah disse: “Ele nunca usava linguagem grosseira ou obscena. Tampouco era briguento no mercado. Não retribuía uma ofensa com outra semelhante, mas preferia perdoar e tolerar.” (Relatado por Ahmad, al-Tirmidhi, al-Tabarani e al-Bayhaqi.) Outro hadith menciona que [Ata’ ibn Yasar perguntou a [Abdullah ibn [Amr sobre a descrição do Profeta na Torá. Ele disse: Ele é descrito na Torá em termos semelhantes aos de sua descrição no Alcorão. Nela se diz: “Ó Profeta! Nós te enviamos como testemunha, portador de boas-novas e admoestador. Tu és um guardião dos árabes. Tu és Meu servo e Mensageiro. Chamei-te de al-Mutawakkil [isto é, aquele que deposita sua confiança em Deus]. Não usas linguagem grosseira ou dura e não és briguento no mercado. Não retribuis o mal com o mal, mas perdoas e toleras. Este Mensageiro não será recolhido por Deus até que Deus tenha reconduzido a fé distorcida à sua forma correta, para que as pessoas declarem que ‘não há divindade além de Deus’, abrindo com isso olhos cegos, ouvidos surdos e corações endurecidos.” (Relatado por al-Bukhari.)
1 “Que tenha poeira na testa” era uma expressão metafórica de desagrado usada com frequência. Seu significado nada tem a ver com o sentido literal de suas palavras. Alguns linguistas dizem que se trata de uma oração para que a pessoa em questão seja devota e reze com frequência.
Muhammad: O Homem
Algumas pessoas assumem uma aparência quando saem e encontram outras pessoas. O Profeta, porém, não apresentava outra aparência além de suas maneiras reais. Por exemplo: “Alguns de seus Companheiros visitaram Umm Salamah, sua esposa. Disseram-lhe: ‘Mãe dos crentes, diga-nos como é o Mensageiro de Deus na intimidade de sua casa.’ Ela respondeu: ‘Ele é sempre o mesmo em público e em particular.’ Depois se arrependeu de lhes ter respondido, sentindo que lhes havia revelado algo que ele talvez não quisesse revelar. Ela relata: ‘Quando ele chegou em casa, contei-lhe.’ Ele disse: ‘Fizeste bem.’” (Relatado por Ahmad e al-Tabarani.) Esses hadiths juntos nos oferecem a imagem de uma pessoa que se afasta de tudo o que é impróprio e para quem a boa conduta surge naturalmente; ele compreende que tudo o que vem de Deus é bom. É o primeiro a colocá-la em prática, em casa e em público. O Profeta era o mesmo em público e com sua própria família: nunca usava linguagem abusiva ou insultante, não amaldiçoava nem se envolvia em discussões verbais. Tinha consciência de sua tarefa de “aperfeiçoar as boas maneiras”. Possuía uma natureza generosa. Quando, no espaço de poucos anos, sua situação mudou — de ser expulso de sua cidade natal, com um grande prêmio pela sua captura, a tornar-se o senhor incontestado de toda a Arábia — o Profeta poderia ter levado uma vida extremamente luxuosa. No entanto, preferiu levar uma vida simples, livre de toda pretensão de poder, grandeza ou luxo material. Às vezes, podia ter muito em suas mãos, mas dava tudo em um período muito curto. Jabir relata: “O Mensageiro de Deus nunca disse ‘Não’ a nada que lhe pedissem.” Mesmo quando ele e sua família passavam necessidade, dava tudo o que possuía. Não se importava em comer a comida mais simples. Anas relata: Levei ao Profeta pão de cevada e um pouco de gordura que já começara a estragar. Ele chegou a penhorar sua armadura com um penhorista judeu para comprar cevada para sua família. Eu o ouvi dizer: “A família de Muhammad não possui sequer uma pequena quantidade de trigo ou grãos.” Naquela época, ele tinha nove esposas. (Relatado por al-Bukhari.) Parece que o Profeta queria levar uma vida muito simples, para não se distinguir dos pobres de sua comunidade. Isso está de acordo com a visão islâmica desta vida presente como transitória: a vida futura é mais importante, porque é eterna, e o destino das pessoas nela é determinado pelo que fazem durante sua vida presente na terra. Outro relato que ilustra sua interação com sua comunidade é transmitido por [Uthman, que diz: “Acompanhamos o Mensageiro de Deus em viagem e na cidade. Ele visitava os doentes, participava de nossos funerais e lutava conosco. Apoiava-nos com tudo o que possuía.” (Relatado por Ahmad e al-Bazzar.)
Algumas pessoas pensam que, quanto mais se esforçam no cumprimento dos deveres religiosos, mais elevada será a posição que alcançarão aos olhos de Deus. Contudo, o Islã não exige que as pessoas se sobrecarreguem, pois segue um caminho intermediário. De fato, em alguns textos religiosos, ele é chamado de “o caminho intermediário”. O exemplo prático do Profeta mostra que ele compreendia isso e o colocava em prática. [A’ishah relata: Sempre que o Profeta recebia a escolha entre duas opções, escolhia a mais fácil, a menos que fosse pecaminosa. Se fosse pecaminosa, afastava-se dela o máximo possível. Ele nunca buscava vingança para si mesmo. Entretanto, se algo que Deus proibira fosse violado, procurava vingá-lo por amor a Deus. (Relatado por al-Bukhari e Muslim.) Um hadith semelhante menciona que “o Mensageiro de Deus nunca bateu em ninguém com a mão: nunca bateu em uma mulher nem em um servo. Usava a mão somente quando estava em jihad pela causa de Deus. Nunca se vingava por algo que lhe tivesse sido feito. Somente quando algo que Deus proibira era violado procurava vingá-lo por amor a Deus.” (Relatado por Muslim.) O caráter do Profeta resplandece como o de um homem muito modesto, que nunca procurava tirar vantagem de uma situação. Ao mesmo tempo, era claramente dedicado à sua mensagem e fazia tudo ao seu alcance para assegurar que as pessoas a compreendessem claramente e vissem como colocá-la em prática. Ele se compadecia dos outros e se esforçava para tornar fácil que compreendessem a mensagem de Deus e implementassem o que Ele lhes exigia. Em seu discurso durante a peregrinação de despedida, por exemplo, expôs os principais princípios do Islã. Ao final de cada ponto que enfatizava, perguntava à audiência: “Transmiti a mensagem de Deus?” Quando confirmavam que sim, rogava a Deus que testemunhasse seu reconhecimento.
A modéstia do Profeta era evidente na maneira como tratava seus seguidores. Ele sabia que seus Companheiros seriam imitados pelas gerações posteriores de muçulmanos. Por isso, fez questão de explicar como deveria ser tratado por eles e por todos os muçulmanos. [Umar ibn al-Khattab cita-o dizendo: “Não me exalteis excessivamente como os cristãos exaltam Jesus, filho de Maria. Sou apenas um servo de Deus. Ao referirdes-vos a mim, dizei: servo e Mensageiro de Deus.” (Relatado por al-Bukhari e Ibn Hibban.) Como reagiram a isso? Anas ibn Malik diz: “Ninguém lhes era mais querido que o Mensageiro de Deus. Contudo, quando o viam chegando, não se levantavam, pois sabiam que ele não gostava disso.” (Relatado por Ahmad e alTirmidhi.) Ele queria ser visto como um deles.
Muhammad: O Homem
O Profeta também incutiu em seus Companheiros que as pessoas se distinguem apenas por suas maneiras e seu comportamento. Em seu discurso durante a peregrinação de despedida, disse: “Ó povo, vosso Senhor é um só e vosso pai é um só. Nenhum árabe tem vantagem sobre um não árabe, nem um não árabe sobre um árabe; tampouco um homem de pele vermelha sobre um homem de pele negra, nem um homem de pele negra sobre um homem de pele vermelha, exceto pelo temor a Deus.” (Relatado por Ahmad.)
O que podemos dizer em conclusão? Qualquer elogio que possamos fazer ficará sempre aquém do que Muhammad, o Mensageiro de Deus, merece. Ele foi o homem que mostrou o caminho e ensinou a bondade à humanidade, para cumprir o objetivo de sua missão, que expressou com suas próprias palavras: “Fui enviado para aperfeiçoar as boas maneiras.” Que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre Muhammad, servo e Mensageiro de Deus.
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ÍNDICE
A
Al-[Abbas, tio do Profeta, 9-10, 34-5, 41, 86-7, 96, 145, 203, 207, 219, 227, 269 [Abd al-Muttalib ibn Hashim, avô do Profeta, 3-4 [Abd al-Rahman ibn [Awf 129, 167 [Abdullah ibn [Abd al-Asad, Abu Salamah, 207 [Abdullah ibn [Abd Nuhm, DhulBijadayn, 159-60 [Abdullah ibn [Amr ibn al-[As 66, 107, 174, 178, 270 [Abdullah ibn [Amr ibn Haram, 158 [Abdullah ibn Ja[far 136 [Abdullah ibn Jahsh 218, 220 [Abdullah ibn Mas[ud 72, 160, 179 [Abdullah ibn Rawahah 92 [Abdullah ibn Ubayy 25, 123, 223, 243 [Abdullah ibn [Umar 175 [Abdullah ibn Unays 217 [Abdullah, pai do Profeta, 3 Abraão 2-3, 27, 20, 28, 40, 52, 61, 90, 99 Abu Ayyub al-Ansari 78 Abu Bakr 15, 22, 39-40, 76, 100, 160, 168, 171, 204, 206 Abu Busayr 31 Abu Dharr al-Ghifari 142, 146, 154, Abu Hurayrah 120, 126, 128, 135, 140, 142, 149, 157, 177-8, 180, 192 Abu Jahl, [Amr ibn Hisham, 76, 87, 122, 213 Abu Jandal ibn Suhayl 29, 263 Abu Lahab, tio do Profeta, 15 Abu Lubabah ibn [Abd al-Mundhir 248-50 Abu Mas[ud al-Badri 116, 138 Abu Rifa[ah 73 Abu Ruhm ibn Abd al-[Uzza 207 Abu Sa[id al-Khudri 156, 193 Abu Sayf 129 Abu Sufyan 23, 27, 34, 157, 196-7, 227, 235, 265 Abu Talhah 144 Abu Talib, tio do Profeta, 5-9, 18-19, 50, 269 Abu Usayd al-Ansari 134 Al-Abwa’ 3 [Adiyy ibn Hatim 257-8 [Adnan, a principal tribo árabe, 2 Ahmad Zaki Yamani 189 [A’ishah bint Abu Bakr, esposa do Profeta, 96, 107, 109, 111-12, 139, 141-2, 146-9, 152, 173, 190, 210,
ÍNDICE
270, 272; sua idade à época do casamento, xi, 203-6 ʿAli ibn Abi Talib 22, 39-40, 46-7, 92, 122, 145, 149, 154-5, 157, 206, 257 ʿAli Zayn al-ʿAbidin, bisneto do Profeta, 134 Aminah bint Wahb, mãe do Profeta, 3-4, 7 ʿAmmar ibn Yasir 15 ʿAmr ibn al-ʿAs 32, 179 ʿAmr ibn al-Jamuh 89-90 ʿAmrah bint Rawahah 92 Anas ibn Malik 11, 69, 95, 120, 129, 132, 137, 141-2, 144-5, 151-4, 158, 270-2 Ansar 22-3, 26, 33, 35, 37, 48-9, 70, 91, 123, 136, 143-5, 156-8, 162, 179, 234, 238, 253 ʿAqil ibn Abi Talib 87, 218 Al-Aqraʿ ibn Habis 126 Asmaʾ bint Abi Bakr 130, 171 Asmaʾ bint Yazid 191 Asmaʾ bint Yazid ibn al-Sakan 73 Al-Aswad 141 ʿAttab ibn Usayd 37 Aws, a tribo, 21, 64, 168, 194, 237-8, 240, 249-50, 261
B
Badr 23-5, 84-6, 101, 117, 122-3, 196, 213, 215-6, 218-22, 229, 232, 241, 252, 260 Bahira 50 Al-Baraʾ ibn ʿAzib 10-11, 79, 125 Barrah bint al-Harith ibn Abi Dirar, renomeada Juwayriyyah pelo Profeta, 195, 207 Bashir ibn Saʿd 92 Bilal ibn Rabah 168 Bujayr ibn Zuhayr 122 Dihyah ibn Khalifah 265
F
Al-Fadl ibn ʿAbbas 87 Fatimah bint Asad 5, 7, 15, 269 Fatimah bint Muhammad, filha do Profeta, 112, 149, 157, 173, 206 Fudalah 113
G
Gabriel, o anjo, 19-20, 25, 60, 68, 76, 88, 99, 117, 140, 179 Ghassan, a tribo, 33, 241 Ghatafan, a tribo, 26-7, 30, 219-21, 224-5, 235, 245, 247 Ghazzal ibn Samuel 253
H
Hafsah bint [Umar, esposa do Profeta, 150, 206 Halimah, ama de leite do Profeta, 3-4, 6-7, 36, 44, 147, 234 Hamra’ al-Asad 223 Hamzah ibn [Abd al-Muttalib 172 Al-Harith ibn Abi Dirar 86, 194-5, 232 Al-Harith ibn Abi Shammar 265 Al-Hasan ibn [Ali 126-8, 132 Hatib ibn Abi Balta[ah 160-1, 265 Hawazin, a tribo, 3, 35-6, 124, 147, 233-4 Hawdhah ibn [Ali 265 Heraculas, o imperador bizantino, 208, 264-6 Al-Hubab ibn al-Mundhir 219-20 Al-Hudaybiyah 28-33, 43, 63, 74, 84, 224, 244, 262-4 Hunayn 35-6, 71, 78, 116, 145, 225, 229, 233, 258
Al-Husayn ibn [Ali 131-2, 154-5, 249 Huyayy ibn Akhtab 27, 241-3, 247
Ibn Taymiyah 190 Ibrahim, filho do Profeta, 129, 208 [Ikrimah ibn Abi Jahl 113, 122 Imam al-Awza[i, [Abd al-Rahman,
[Imran ibn Husayn 92
J
Ja[far ibn Abi Talib 16, 30, 45 Jabir ibn [Abdullah 91, 94, 112, 143, 161, 183 Jarir ibn [Abdullah 153, 156 Jesus 2, 20, 60-1, 110, 141, 272 Jurhum, a tribo, 3 Juwayriyyah bint al-Harith, esposa do Profeta, 195-6, 198, 207, 232
K
Ka[b ibn Asad 244, 247, 252, 255 Ka[b ibn Zuhayr 122-3 Kayyisah bint al-Harith 250 Khabbab ibn al-Aratt 100 Khadijah bint Khuwaylid, primeira esposa do Profeta, 5, 10, 14-15, 19, 47, 68, 146-8, 182, 199, 202-3, 205, 210, 218 Khalid ibn al-Walid 32-4 Khalid ibn Sa[id 197 Khawlah bint Hakim 193, 203 Khaybar 29-31, 40, 74, 78, 85, 208, 221, 225, 229, 244-7, 253, 264 Khazraj, a tribo, 21, 174, 194, 237-8,
Khunays ibn Hudhafah 206 Khusru, o imperador persa, x, 266-7 Khuwaylah bint Tha[labah 63-4 Khuza[ah, a tribo, 2, 29, 33, 261
Al-Mada’in 79 Madinah 3, 16, 22-7, 29-31, 37-8, 40, 49, 71, 79, 86, 91, 122-3, 130, 137, 144-5, 148, 151, 159-62, 167-8, 194, 196-7, 206, 214, 216-7, 219, 221-2, 229, 231-2, 237-8, 240-2, 244-5, 247, 252, 256, 258-9, 261-3 Mahmood S. Khattab 218 Makkah 2-4, 7, 10-11, 16-17, 19, 20-3, 28-9, 31-2, 34-5, 40, 44-7, 50-1, 63, 72, 76, 80, 84, 86, 100, 110, 121-2, 125, 161, 165-7, 170, 199-200, 205, 207, 214, 217-19, 221, 224-5, 227-8, 232-3, 235-8, 259-60 Malik ibn [Awf 45, 233-4 Malik ibn al-Huwayrith 133 Maria, a copta egípcia, 207-10 Maymunah bint al-Harith, esposa do Profeta, originalmente chamada Barrah, 207, 209 Maysarah 10 Mikraz ibn Hafs 46 Al-Miqdad ibn al-Aswad 179 Moisés 2, 20, 53, 55, 60-1, 72, 82-3, 117, 167 Monte Hira’ 13 Mu[adh ibn Anas 135 Mu[adh ibn Jabal 130 Al-Mughirah (Abu Sufyan) ibn alHarith ibn [Abd al-Muttalib 121-2 Muhajirun 22-3, 32-3, 35, 37, 91, 161, 167-8, 218, 234, 239 Muhammad: como Mensageiro de Deus, 55-118; como servo de Deus, 97-107; como líder, 151-64; como homem, 269-73; como pastor, 7-8, 148, 202; como estadista, 257-68; como comandante militar, 213-30; atitude em relação à guerra, 24, 30, 36-7, 71-2, 120, 125,
ÍNDICE
213-36; comportamento em suas reuniões, 21-2, 138, 153-6; convivência com as pessoas comuns, 141-3; bravura, 144-5; cuidado com os animais, 33, 135-6; cuidado com as crianças, 126-33, 151-2, 157, 173-7, 179-80; cuidado com os servos, 151-2, 162-3, 272; liderança atenciosa, 151-62; mudança de nomes de mau significado, 157, 159, 195, 207; compaixão, 76-7, 11214, 119-20, 124-6, 129-30, 132-6, 198; controle das emoções negativas, 114-18; lidar com queixas pessoais, 156-7; relações com os judeus, xi, 22, 24-5, 30, 48-50, 69-71, 94, 142, 168, 179, 195-6, 219, 221, 225, 237-46, 259, 263-4, 267-8, 271; devoção na adoração, 102-7; participação inicial em boas causas, 10, 44; acontecimentos de sua vida, 14-42; justiça para com todos, 47-8, 50, 72, 170-3, 177-8, 199, 260, 269; perdão aos inimigos, 120-5; anos de formação, 1-13; generosidade, 141-3; interação com as pessoas que o atendiam, 154-6; justiça, 170-3; chave de seu caráter, 43-54; afetuoso para com, 112-14; lealdade aos amigos e parentes, 146-7; casamentos, 194-212; misericórdia para com todos, 118-36; modéstia, 139-41; aversão natural aos ídolos, 9, 34, 50-1, 120, 169, 202, 217; nunca recusava um pedido, 143-4, 258; viagem noturna a Jerusalém, 20, 76; nobreza, 137-50; tolerância com os erros das pessoas, 160-1; pagamento das dívidas dos Companheiros falecidos, 157-8; pobreza, 147-50; anúncio público da mensagem, 15, 45-6; senso de humor, 1456; resolução dos problemas pessoais das pessoas, 161-3; tratamento dos vizinhos, 177-80 tratamento dos pais, 173-7; tratamento dos parentes, 177-80; tratamento dos escravos, 11, 64, 125, 134-5, 168, 2089; tratamento das mulheres, 181-93; tratamento dos judeus de Qurayzah, xi, 220-1, 223, 247-57; confiança em Deus, 100-1; conquista dos corações dos inimigos, 231-6 Muhammad al-Ghazali 106 Muhammad ibn [Umar al-Waqidi
Muhammad ibn Ishaq 204, 248, 2502, 254 Muhammad Saleem al-Awa 189 Al-Muqawqis, o governante do Egito, 208, 264-5 Mus[ab ibn [Umayr 21, 265 Al-Mustalaq, a tribo, 26, 91, 123, 194-5, 221, 229, 232 Al-Mut[im ibn [Adiyy 19
N
Nabbash ibn Qays 253 Al-Nadir, a tribo, 25-7, 92, 237, 2425, 247, 251, 256 Najran 40 Nasibah bint Ka[b 190 Nawfal ibn al-[Harith 87 Negus, rei da Abissínia, 16, 30-1, 45, 73, 197, 208, 264 Noé 2, 20, 167 Al-Nu[man ibn Bashir 176
Q
Qahtan, a principal tribo árabe, 2 Qaynuqa[, a tribo, 24, 238, 241-2,
Qays [Aylan, a tribo, 10
Quraysh, a tribo, 2-3, 8-12, 15-20, 22-9, 31-4, 40, 43-8, 69, 72, 74-5, 80-1, 85-6, 92, 100-1, 113-15, 1601, 164-6, 173, 196-7, 202, 205-6, 213, 215-26, 231, 235, 237-41, 245, 247, 253, 259-64 Qurayzah, a tribo, xi, 26-7, 30, 2201, 223, 225, 229, 237, 244-5, 247-56 Qutham ibn [Abbas 87
R
Rabi[ah ibn Ka[b al-Aslami 162 Ruqayyah bint Muhammad, filha do Profeta, 206
S
Sa[d ibn [Ubadah 37, 109, 130 Sa[d ibn Abi Waqqas 15 Sa[d ibn al-Rabi[ 167 Sa[d ibn Bakr, a tribo, 3, 8, 36 Sa[d ibn Mu[adh 27, 247-53 Sa[id ibn Zayd 15 Safiyyah bint [Abd al-Muttalib 130 Safiyyah bint Huyayy, esposa do Profeta, 78, 157, 195-6 Safwan ibn Umayyah 85 Sahl ibn Sa[d 143 Al-Sakran ibn [Amr 205 Salih ibn [Ali 254 Salih, o profeta, 56 Sallam ibn Abi al-Huqayq 253 Samra’ bint Nuhayk 193 Sanaa 79, 100-1 Sawdah bint Zam[ah, esposa do Profeta, 205 Sayyid Qutb 49, 212 Shaybah ibn Rabi[ah 19 Shayma’ bint al-Harith 147 Al-Shifa’ bint [Abdullah 193 Sufanah bint Hatim 257 Suhayl ibn [Amr 28 Sulayman ibn Surad 116 Sumayyah bint Khubat 15 Suraqah ibn Malik x
T
Tabuk 38, 160, 228-9, 249, 262 Taife 19-20, 35-6, 72, 121, 170, 218, 220, 229, 233-5, 255 Talhah ibn [Ubaydillah 15 Thaqif, a tribo, 19, 35-6, 38, 233-4
U
[Ubadah ibn al-Samit 242 Ubayy ibn Ka[b 130 [Ubaydillah ibn Jahsh 196 Uhud 24-5, 116, 123, 158, 162, 204, 206, 219 222-3, 225-7, 229, 231, 242, 260 Umamah bint Abi al-[As 127 [Umar ibn Al-Khattab 70-1, 94, 124, 141, 148, 157, 160, 168, 193, 206, 208, 211, 272 Umaymah bint [Abd al-Muttalib, tia do Profeta, 140, 200 [Umayr ibn Wahb 85 Umm al-Fadl, esposa de al-[Abbas, 87, 207 Umm Ayman, ama de leite do Profeta, 3-5, 7, 9, 15, 200 Umm Habibah, Ramlah bint Abi Sufyan, esposa do Profeta, 196-8 Umm Kulthum bint Muhammad, filha do Profeta, 206 Umm Ma[bad 93-4 Umm Qays ibn Mihsan 131 Umm Salamah Hind bint Abi Umayyah, esposa do Profeta, 121, 206-7, 210-11, 271 Umm Sulaym 151 [Uqbah ibn [Amir 178 [Uqbah ibn Zayd 253 Usamah ibn Zayd 129, 173, 250, 252 Usayd ibn Hudayr 156
ÍNDICE
[Utbah ibn [Amr 87 [Utbah ibn Rabi[ah 114, 213 [Uthman ibn [Affan 28, 38, 206, 271 [Uthman ibn Maz[un 130 [Uthman ibn Talhah 32, 261
W
Wahb ibn Zayd 253 Walid Arafat 254 Waraqah ibn Nawfal 50, 53, 68
Y
Iatrebe, mais tarde renomeada Medina, 21-2, 80, 237, 240-1, 243 Yuhanna ibn Ru’bah 262
Z
Zahir 145-6 Zayd ibn ‘Amr 50, 52 Zayd ibn Harithah 5, 15; adoção pelo Profeta, 11-12, 140, 199-200; casamento com Zaynab, 140, 199-201 Zayd ibn Sa‘nah 69, 71 Zayd ibn Thabit 130 Zaynab bint Jahsh, esposa do Profeta, 140, 183, 199-200, 207 Zaynab bint Khuzaymah, esposa do Profeta, 206-7, 209 Al-Zubayr ibn al-‘Awwam 15, 130 Al-Zubayr ibn Bata 252-3 Zuhayr ibn Abi Sulma 166