Prefácio

Um grande grupo de autores ocidentais e de orientalistas influenciados por eles sustenta a ideia de que a cultura islâmica se originou das culturas que a precederam, especialmente das culturas grega e romana, e que, como a mente árabe reorganizou esses antigos elementos de uma nova maneira e modificou sua aparência exterior, ela assumiu a forma de uma cultura distinta. É justamente por causa dessa perspectiva que esse grupo procura elementos da cultura islâmica nas culturas persa, babilônica, sármata, fenícia, egípcia, grega e romana. Em seguida, procura na natureza árabe os elementos da mentalidade que tomou, conforme sua conveniência, materiais dessas culturas e os organizou à sua própria maneira.

Conceito equivocado

Mas esta é uma concepção gravemente equivocada. Embora seja verdade que o presente da humanidade sempre é influenciado pelo passado e que, por isso, toda nova criação recorre aos elementos estruturais anteriores, é inegável que a cultura islâmica, em sua essência vital e em seus elementos fundamentais, é inteiramente islâmica, sem a menor influência de qualquer cultura não islâmica. Naturalmente, em seus aspectos externos e secundários, ela recebeu alguma influência do pensamento árabe, da tradição árabe e das culturas anteriores e posteriores. Um aspecto de um edifício é seu projeto, sua técnica de construção e sua formação de acordo com sua finalidade; isso constitui sua substância e seu elemento essencial. Outro aspecto são sua cor, sua variedade, seus ornamentos e seu esplendor e beleza; isso pertence aos seus detalhes e aspectos menores. Portanto, ao julgar a construção cultural em sua totalidade e sob o ponto de vista de sua substância, percebe-se que a construção da cultura islâmica é inteiramente resultado do processo formativo do Islã. Seu projeto é próprio. Nesse sentido, não se buscou auxílio em nenhum outro projeto. Sua técnica de construção foi inventada por ela mesma; nesse campo, não se imitou nenhum outro modelo. Sua finalidade construtiva é completamente singular e original; quanto ao propósito, nenhum outro edifício foi construído antes nem depois.

Da mesma forma, a cultura islâmica assumiu precisamente a forma da estrutura necessária para alcançar esse objetivo. Em tudo o que construiu para esse fim, nenhum engenheiro externo tem o poder de realizar reformas ou correções, nem de fazer qualquer acréscimo. Restam os detalhes e os aspectos menores;

Também nesse aspecto, o Islã tomou muito poucas coisas de outras culturas. Pode-se até dizer que, em sua maior parte, isso também é próprio do Islã. Naturalmente, os muçulmanos utilizaram de outras culturas materiais relativos à cor, à variedade, aos ornamentos e ao esplendor e à beleza, enriquecendo um pouco esses aspectos. E isso se tornou tão evidente aos olhos dos observadores que eles procuram imputar à construção inteira a acusação de imitação.

Definição de cultura

Para resolver esta questão, é preciso antes de tudo obter a resposta à pergunta: o que é cultura? As pessoas pensam que cultura significa o conhecimento científico, a literatura e a filosofia, as artes e a técnica, as belas-artes, os costumes sociais, o modo de vida, a política de Estado e assim por diante de uma nação; mas, na realidade, essas coisas não são a essência da cultura, e sim apenas seus resultados e manifestações exteriores. A cultura não é a raiz nem o tronco da árvore, mas apenas seus ramos, ramificações, folhas e folhagem. Não se pode determinar o valor de uma cultura com base nesses sinais e nessa casca exteriores. Portanto, precisamos deixar essas coisas de lado e alcançar a essência vital da cultura; é necessário investigar seus fundamentos e seus elementos fundamentais.

Elementos fundamentais da cultura:

Sob esse ponto de vista, a primeira coisa que se deve procurar em qualquer cultura é: qual é a sua concepção da vida terrena? Que posição ela confere ao ser humano neste mundo? O que é o mundo, segundo a sua perspectiva? Qual é a relação do ser humano com este mundo? Como o ser humano deve desfrutar e utilizar este mundo? Na realidade, tudo isso exerce uma influência profunda sobre todas as atividades da vida. Quando essa visão muda, toda a natureza da cultura também se transforma radicalmente.

A segunda questão intimamente ligada à visão da vida é o objetivo supremo da vida. Qual é o propósito da vida humana neste mundo? Para que servem todos os planos, todos os esforços e empenhos, todo o trabalho e labor, todos os conflitos e lutas do ser humano? Em direção a que objetivo desejado ele deve se lançar? Para alcançar que destino o filho de Adão deve se esforçar e empenhar-se? Que desfecho o ser humano deve ter em mente em cada ação e em cada esforço? Na realidade, é justamente essa questão do objetivo e da aspiração que determina e orienta o curso da vida prática do ser humano; e, de acordo com ela, adotam-se os métodos de ação e os meios de alcançar o sucesso na vida.

A terceira questão é: com base em que princípios fundamentais e concepções se forma o caráter humano na cultura em análise? Como ela molda a mente e a personalidade das pessoas? Que tipo de pensamento cria na mente e no intelecto humanos? E que força atuante existe nela que, em vista de seus objetivos e propósitos, impele o ser humano a adotar um tipo específico de vida prática? Não há dúvida de que a força de ação do ser humano está sob a influência de sua força de pensamento. A consciência que põe suas mãos e seus pés em movimento vem de sua mente e de seu intelecto. E quaisquer crenças, reflexões e concepções que se fixem em sua mente e em seu intelecto farão com que toda a sua força de ação se torne ativa precisamente sob a influência delas. Em outras palavras, conforme o molde em que sua mente e personalidade forem formadas, assim também nascerão seus sentimentos, emoções, desejos e aspirações, e seus membros continuarão a agir sob o comando deles. Na realidade, nenhuma cultura do mundo pode estabelecer-se sem uma crença fundamental e uma linha de pensamento básica. Portanto, para compreender e avaliar qualquer cultura, é necessário primeiro entender sua crença e sua linha de pensamento e medir sua excelência ou deficiência — assim como, para conhecer a solidez e a durabilidade de um edifício, é indispensável conhecer a profundidade e a firmeza de seus alicerces.

A quarta questão é: que tipo de pessoa a cultura em análise forma no ser humano enquanto ser humano? Isto é, com que tipo de treinamento moral ela prepara a pessoa para levar uma vida bem-sucedida segundo o seu próprio ideal? Que tipo de natureza, qualidades e mentalidade ela produz na pessoa e procura desenvolver e aperfeiçoar? Em que tipo de ser o indivíduo se transforma por meio de sua formação moral específica? Embora o verdadeiro objetivo da cultura seja a reconstrução da ordem social, essa estrutura social é edificada com os elementos constituídos pelos indivíduos. E a firmeza e a durabilidade dessa estrutura dependem de cada pedra ser devidamente talhada, de cada tijolo ser sólido e bem cozido, de cada viga ser resistente, de não haver em parte alguma madeira corroída e de não serem utilizados materiais crus, inferiores ou frágeis. A quinta questão é: como, nessa cultura, se estabelecem as relações entre as pessoas em diferentes circunstâncias? Que tipo de relação se mantém com a própria família, com os vizinhos, com os amigos, com as pessoas que vivem junto delas, com os subordinados, com os superiores, com os seguidores de sua própria cultura e com os que estão fora dela? Que direitos ela determina que uma pessoa tem sobre as outras e que as outras têm sobre ela? A que limites ela a submete? Quando lhe concede liberdade, até que ponto a concede, e quando a mantém cativa, até que ponto a restringe? Na realidade, todas as questões relativas ao caráter moral, à sociabilidade, às leis, à política e às relações internacionais estão incluídas nessas perguntas. E é por meio delas que se pode saber que tipo de família, sociedade e Estado a cultura em análise forma.

Desta discussão, ficou claro que aquilo que se denomina cultura é constituído por cinco elementos fundamentais:

(1) A concepção da vida terrena,

(2) O objetivo supremo da vida,

(3) Crenças fundamentais e linha de pensamento

(4) Formação do indivíduo e (5) organização social.

Toda cultura do mundo foi formada por esses cinco elementos fundamentais. É evidente que a cultura islâmica também foi criada com a ajuda desses elementos. Na presente obra, examinei três elementos da cultura islâmica e expliquei sobre que concepção particular da vida, que objetivo específico para a vida e que crenças e linhas de pensamento fundamentais essa cultura foi estabelecida, e como eles lhe deram a forma de um tipo especial de cultura, distinto das demais culturas do mundo. Neste livro, não foi feita nenhuma discussão sobre os dois elementos restantes. Quanto à organização do indivíduo, serão úteis os dois livros que escrevi, “Uma visão investigativa sobre a adoração islâmica” e “Khutubat” *1 (sermões de número 20 a 28). Quanto à organização social, pode-se obter uma visão geral nas minhas palestras radiofônicas publicadas sob o título “Islam ka Nizam-e-Hayat” (O sistema de vida do Islã).

Fonte:

1: Esta é uma coletânea de nove palestras do autor, publicada na forma de vários livretos, a saber: A realidade do Islã, A realidade da fé, A realidade do jihad, A realidade do hajj, A realidade do zakat e A realidade da oração e do jejum

 

Um

A concepção do Islã sobre a vida terrena:

Desde os primórdios, o ser humano vem alimentando uma concepção enormemente equivocada sobre si mesmo, e essa concepção errônea ainda permanece até hoje. Às vezes, ele adota o caminho do exagero e passa a considerar-se o ser mais elevado do mundo. Sua mente e seu coração ficam repletos de arrogância, orgulho e espírito de rebeldia. Ele não está disposto a considerar nenhuma força superior à sua, muito menos a considerar alguma como sua igual. Pelo contrário, proclama: *********** (Quem é mais poderoso do que eu?) e ************ (Eu sou o vosso senhor supremo), e, julgando-se completamente livre de responsabilidades, manifesta-se como uma divindade da opressão e da tirania, a personificação da injustiça, da iniquidade, da destruição e da ruína. Outras vezes, é acometido pela doença da submissão extrema e passa a considerar-se o ser mais inferior do mundo. Inclina a cabeça diante de toda e qualquer coisa em que perceba algum tipo de poder ou a capacidade de causar benefício ou dano: árvores, pedras, rios, montanhas, animais, vento, fogo, nuvens, relâmpagos, lua, sol e estrelas. Em suma, se perceber algum poder até mesmo em alguém semelhante a ele, não hesita nem por um instante em reconhecê-lo como divindade e objeto de adoração.

A identidade fundamental do ser humano:

O Islam rejeitou essas duas concepções extremas e apresentou ao ser humano sua verdadeira identidade. Ele diz: *************

“O ser humano deve refletir sobre de que foi criado. Ele foi criado de uma água ejetada com força, que sai de entre a coluna vertebral e os ossos do peito.” – (Surata At-Táriq: 5–7)

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“Porventura o ser humano não vê que o criamos de uma gota de água? Porém, ei-lo agora um inimigo declarado, que apresenta argumentos contra Nós e esquece sua própria origem.”

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“Ele iniciou a criação do ser humano a partir do barro; depois, perpetuou sua descendência a partir do extrato do barro, que é um líquido desprezível. Em seguida, aperfeiçoou sua formação e soprou nele Seu espírito.” [Surata As-Sajda: 7–9]

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“Nós vos criamos do pó, depois de uma gota de água, em seguida de um coágulo de sangue e, depois, de um pedaço de carne formado ou não formado, para vos mostrar o Nosso poder. E conservamos no ventre materno, pelo período determinado, a gota de esperma que desejamos; depois, fazemos com que saiais como crianças e, em seguida, vos fazemos crescer até atingirdes a maturidade. Entre vós, alguns morrem, enquanto outros chegam à idade mais decrépita, na qual, depois de terem adquirido entendimento, tornam-se novamente incapazes de compreender.” [Surata Al-Hajj: 5]

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“Ó ser humano! O que te enganou a respeito do teu Senhor Misericordioso? Ele te criou, aperfeiçoou os teus membros, estabeleceu equilíbrio entre as tuas forças e capacidades e reuniu os teus elementos na forma que quis.” [Surata Al-Infitar: 6-8]

“E Allah vos fez sair do ventre de vossas mães; quando saístes, nada sabíeis. Ele vos concedeu ouvidos, olhos e corações, para que agradecêsseis.”

( *************)

“Já refletistes sobre a gota de esperma que lançais no ventre das mulheres? Sois vós que, a partir dela, dais origem à criança, ou somos Nós que a criamos? E não somos incapazes de transformar vossa forma física e criar-vos sob outra aparência que desconheceis. Certamente conheceis a vossa primeira criação; por que, então, não tirais dela uma lição? E observastes as plantações que cultivais? Sois vós que as fazeis crescer ou somos Nós que as fazemos crescer? Se quiséssemos, poderíamos transformá-las em palha seca, e ficaríeis apenas a dizer: ‘Estamos arruinados; mais que isso, fomos completamente privados.’ E observastes a água que bebeis? Sois vós que a fizestes descer das nuvens ou somos Nós que a fazemos descer? Se quiséssemos, poderíamos torná-la amarga. Por que, então, não agradeceis? E observastes o fogo que acendeis? Fostes vós que criastes a madeira com que ele é alimentado ou somos Nós os Criadores? Criamo-lo como lembrança e provisão para os viajantes. Portanto, ó ser humano, glorifica a santidade do teu Senhor Majestoso.” — (Surata Al-Waqi’ah: 58-74)

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“Quando a calamidade da tempestade vos atingiu no mar, esquecestes todos os vossos falsos deuses e somente Allah vos veio à mente. Mas, quando Ele vos salvou e vos conduziu à terra firme, voltastes novamente à rebeldia; o ser humano é, de fato, muito ingrato. Acaso vos sentis seguros de que Allah não fará a terra vos engolir, ou de que não enviará sobre vós uma tempestade de vento, sem que encontreis alguém que vos socorra? Ou acaso vos sentis seguros de que Ele não vos fará retornar ao mar e não enviará sobre vós uma violenta rajada de vento que, por causa da vossa desobediência, vos afogará, sem que encontreis qualquer auxílio contra Nós?” — (Surata Bani Isra’il: 67-69)

Nesses versículos, o orgulho e a arrogância do ser humano são completamente pulverizados. Sua atenção é chamada para que observe um pouco sua verdadeira natureza. Uma gota de água impura e insignificante entra no ventre materno e, sendo ampliada por várias formas de impureza, transforma-se em um pedaço de carne. Se Allah quisesse, poderia não dar vida a esse pedaço de carne, e ele poderia sair ainda em estado incompleto. Por Seu próprio poder, Allah infunde vida nesse pedaço de carne, cria nele sensibilidade e consciência, e equipa o ser humano com as forças e os instrumentos necessários para a vida terrena. Assim, você vem ao mundo. Porém, seu estado inicial é este: você chega transformado em uma criança indefesa, sem capacidade de satisfazer sequer as próprias necessidades. É Allah quem, por Seu próprio poder, providencia para que você seja criado e cuidado, cresça, entre na juventude, se torne forte e poderoso; depois, começa novamente o declínio de sua força e capacidade, você passa da juventude à velhice; até que, em determinado momento, uma condição de desamparo semelhante à da infância se apodera de você. Sua capacidade de consciência o abandona; sua força e capacidade enfraquecem, seu conhecimento e sua inteligência desaparecem; por fim, a lâmpada de sua vida se apaga para sempre. Abandonando riquezas, filhos, amigos e parentes, você precisa buscar refúgio no túmulo. Durante esse breve período de vida, você não é capaz de manter a si mesmo vivo nem por um instante. Ao contrário, um poder superior ao seu o mantém vivo e, quando quer, obriga você a deixar o mundo. Além disso, enquanto permanece vivo, você precisa apegar-se às leis da natureza. Este ar, esta água, esta luz, este calor, os frutos desta terra e todos estes recursos naturais dos quais sua vida depende não estão sob seu domínio. Você não os cria, nem eles obedecem às suas ordens. Quando essas mesmas coisas se levantam contra você, torna-se extremamente indefeso diante delas. Uma tempestade de vento destrói suas cidades. Uma inundação tempestuosa o afoga. Um terremoto o reduz a pó. Por mais que você esteja equipado com armas, por mais que desenvolva meios utilizando seu conhecimento e sua inteligência (que não foram criados por você), por mais que reúna recursos com sua consciência (que não foi adquirida por você), tudo isso se torna inútil diante das forças da natureza. E, apesar de possuir uma força assim, você se vangloria, exulta de alegria, não se importa com ninguém, demonstra o auge da tirania faraônica e da arrogância de Nimrod, torna-se um opressor cruel, um tirano sem limites ou um arrogante extremo, rebela-se contra Allah, senta-se como divindade (ma‘bud) dos servos de Allah e cria desordem e corrupção no mundo de Allah.

A dignidade do ser humano na natureza do universo:

Isso diz respeito à eliminação da arrogância. Por outro lado, o Islã ensinou ao ser humano que ele não é tão insignificante quanto passou a considerar a si mesmo. Assim diz: ( **************)

“Honramos os filhos de Adão, proporcionamos-lhes meios de transporte por terra e por mar e concedemos-lhes superioridade sobre muitas das coisas que criamos.” — (Surata Banī Isrā’īl: 70)

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“Ó ser humano! Não vês que Allah submeteu a vós tudo quanto existe na terra?” — (Surata Al-Hajj: 65)

( ****************)

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“E Ele criou os animais, nos quais há, para vós, aquilo que vos protege do frio e outros benefícios, e dos quais alguns servis de alimento. Neles há também beleza para vós, quando os conduzis pela manhã e os trazeis de volta ao entardecer. Eles carregam as vossas cargas até lugares aos quais não poderíeis chegar senão com grande sofrimento. Na verdade, o vosso Senhor é Bondoso e Misericordioso. Ele criou os cavalos, as mulas e os jumentos para que cavalgueis e para servirem de adorno à vida. E Allah cria muitas outras coisas que vós ainda não conheceis. Ele faz descer água do céu: parte dela é para beberdes e parte serve para regar as plantas, das quais alimentais os vossos animais. Com essa água, Allah produz para vós plantações, oliveiras, tamareiras, videiras e todos os frutos. Nisso há um sinal para aqueles que refletem. Ele submeteu a vós a noite e o dia, o sol e a lua; e as estrelas também estão submetidas por Sua ordem. Nisso há sinais para aqueles que usam o entendimento. E criou para vós, na terra, coisas de muitas cores. Nisso há um grande sinal para os que tiram ensinamento. E foi Ele quem submeteu o mar, para que dele comais carne fresca (peixe) e retireis adornos (como pérolas) que usais. Vedes também os navios e embarcações sulcando as águas e navegando pelo mar. E Ele submeteu o mar para que busqueis a graça de Allah (isto é, para que façais comércio), e para que talvez sejais gratos. Ele fixou montanhas na terra, para que ela não se inclinasse convosco, e criou rios e caminhos, para que encontrásseis o rumo do destino. E criou muitos outros sinais; até mesmo pelas estrelas as pessoas encontram o caminho. E, se contardes as bênçãos de Allah, descobrireis que são incontáveis.”

— (Surata An-Nahl: 5–18)

Nos versículos acima, foi dito ao ser humano que tudo o que existe no mundo foi submetido para o vosso serviço e benefício, e o mesmo se aplica às coisas do céu. Estas plantas e árvores, estes rios, este mar, estas montanhas, estes animais, esta noite e este dia, esta luz e esta escuridão, este sol e esta lua, estas estrelas — em suma, tudo o que vedes é vosso servidor, foi destinado ao vosso benefício e criado para ser útil a vós. Vós fostes colocados acima deles; recebestes mais honra do que eles e fostes criados aptos a servi-los. Então, por que vos prostrais diante desses vossos servidores? Por que os considerais capazes de satisfazer as vossas necessidades? Por que estendeis diante deles as mãos em súplica? Por que lhes pedis ajuda? Por que os temeis e vos atemorizais diante deles? Por que cantais a sua superioridade e a sua grandeza? Desse modo, sois vós mesmos que vos rebaixais e humilhais, que prejudicais a vossa própria dignidade e vos transformais em servidores dos vossos servidores e escravos dos vossos escravos!”

O ser humano é representante de Allah

Disso se soube que o ser humano não é tão elevado quanto se considera por arrogância, nem tão inferior e desprezível quanto se fez. Agora surge a pergunta: qual é, então, a verdadeira posição do ser humano no mundo? Em resposta, o Islã diz: (******************)

“E quando teu Senhor disse aos anjos: ‘Quero enviar à Terra um representante’, eles disseram: ‘Queres estabelecer nela alguém que causará corrupção e derramará sangue, enquanto nós proclamamos a Tua grandeza e glorificamos a Tua santidade?’ Allah disse: ‘Eu sei o que vós não sabeis’. E ensinou a Adão os nomes de todas as coisas; depois, apresentou-o aos anjos e disse: ‘Dizei-me os nomes dessas coisas, se sois verazes’. Eles disseram: ‘Glorificado sejas! Não temos conhecimento além do que nos ensinaste. Certamente, Tu és o Onisciente, o Sapientíssimo’. Allah disse: ‘Ó Adão, informa-os dos nomes dessas coisas’. Quando Adão lhes informou os nomes dessas coisas, Allah disse: ‘Não vos disse que conheço todos os segredos dos céus e da Terra e sei tudo o que manifestais e o que ocultais?’ E quando ordenei aos anjos: ‘Prostrai-vos diante de Adão’, todos se prostraram, exceto Iblis. Ele recusou, mostrou arrogância e tornou-se um dos desobedientes. E dissemos a Adão: ‘Ó Adão, habita, tu e tua esposa, no Paraíso e comei dele com satisfação o que encontrardes, mas não vos aproximeis daquela árvore, pois então sereis dos injustos’. Porém, Satanás fez com que ambos escorregassem e os expulsou da condição de felicidade e prosperidade em que se encontravam.” (Surata Al-Baqarah: 30-36)

“…………………Texto em árabe……………”

“E quando teu Senhor disse aos anjos: ‘Quero criar um ser humano a partir de argila seca e descolorida. Quando lhe der uma forma perfeita e soprar nele algo do Meu espírito, prostrai-vos diante dele’. Então, todos os anjos se prostraram, exceto Iblis; ele recusou fazer parte dos que se prostraram. Allah disse: ‘Ó Iblis! O que te aconteceu, para te recusares a fazer parte dos que se prostraram?’ Iblis respondeu: ‘Não sou daqueles que se prostrariam diante desse ser humano que Tu criaste de argila seca, escura e descolorida’. Allah disse: ‘Sai daqui, pois és um expulso. E sobre ti haverá maldição até o Dia da Retribuição’.” (Surata Al-Hijr: 28-35)

Este assunto foi descrito de várias maneiras em diferentes passagens do Alcorão Sagrado. Em resumo: Allah criou o ser humano como Seu representante (na’ib) na Terra, concedeu-lhe mais conhecimento do que aos anjos, elevou o seu conhecimento acima da recitação do tasbih e da proclamação da santidade pelos anjos, ordenou aos anjos que se prostrassem diante desse Seu representante, e eles se prostraram; assim, todos os anjos inclinaram-se diante dele. Mas Iblis recusou-se a fazê-lo e, desse modo, as forças satânicas não se inclinaram diante dele. Naquela época, ele ainda era apenas uma insignificante figura de barro; porém, Allah soprou nele o ruh e concedeu-lhe conhecimento, tornando-o digno de representar Allah. Os anjos reconheceram a sua superioridade e inclinaram-se diante dele. Mas Satanás não o reconheceu. Por esse crime, a maldição recaiu sobre Satanás. Contudo, ele obteve uma oportunidade até o Dia do Juízo para sussurrar más sugestões ao ser humano. Assim, tentou o ser humano, fez com que fosse expulso do Paraíso e, desde então, começou o conflito entre o ser humano e Satanás. Allah disse ao ser humano: se seguires a orientação que Eu te enviarei, poderás entrar no Paraíso; mas, se obedeceres às ordens de Satanás, teu inimigo original, teu destino será o Inferno.

A importância do cargo de representante:

Desta discussão, ficaram conhecidos os seguintes pontos:

A dignidade do ser humano neste mundo consiste em ele ser o khalifa de Allah. Khalifa é aquele que se chama na’ib ou representante. O dever do representante é obedecer Àquele de quem é representante. Ele não pode obedecer a ninguém além d’Ele, nem pode transformar os súditos, servos, auxiliares e escravos do seu próprio Senhor em seus próprios súditos, servos, auxiliares e escravos. Se agir assim, será acusado de rebelião e será punido em ambos os casos. No lugar onde foi nomeado representante, pode utilizar os bens do seu Senhor, governar os Seus súditos, receber deles serviços e supervisioná-los; mas não por considerar-se ele próprio o senhor, nem por estar subordinado a alguém que não seja esse Senhor, e sim por ser representante do seu Senhor e administrador fiduciário, nomeado por Ele para tudo o que está sob a sua autoridade. Por isso, ele só pode ser um representante verdadeiro, agradável e digno de recompensa quando não trair o depósito que lhe foi confiado pelo seu Senhor, seguir a orientação que Ele lhe deu e não violar os Seus mandamentos; ao governar os bens, os súditos, os servos, os auxiliares e os escravos d’Ele, ao receber deles serviços e ao lidar com eles e supervisioná-los, deverá seguir as leis e normas estabelecidas por Ele. Se não agir assim, não será representante, mas rebelde; não será agradável, mas rejeitado; não será digno de recompensa, mas merecedor de punição. Allah diz:

“…………………texto em árabe……………”

“Aqueles que seguirem a orientação que Eu lhes concedi não terão medo de qualquer punição nem terão motivo para se entristecer. Mas aqueles que forem desobedientes e quiserem declarar falsas as Minhas palavras e os Meus sinais terão o fogo do Inferno; nele permanecerão para sempre.” (Surata Al-Baqara: 38–39)

O representante ou administrador fiduciário jamais é tão independente que possa fazer o que quiser, segundo a própria vontade; que possa agir como desejar em relação à riqueza do seu Senhor e aos Seus súditos, sem que ninguém o questione a esse respeito. Pelo contrário, ele deve prestar contas diante do seu Senhor, apresentar um registro de cada mínimo detalhe, e o seu Senhor pode questioná-lo sobre cada uma de suas ações, responsabilizá-lo por tudo o que fez com o depósito que lhe foi confiado, com os Seus bens e com os Seus súditos, e conceder-lhe punição ou recompensa.

O primeiro dever do representante é obedecer Àquele de quem é representante e reconhecer o Seu governo e a Sua autoridade suprema. Se não estiver disposto a agir assim, não poderá compreender a importância do seu cargo de representante, nem formará em sua mente uma concepção correta da sua investidura no cargo de administrador fiduciário; não despertará nele qualquer sentimento de responsabilidade e prestação de contas, nem adquirirá a capacidade de cumprir corretamente a sua responsabilidade e os seus deveres em relação ao depósito que lhe foi confiado. É absolutamente impossível que o ser humano adote uma determinada ética de ação com base, inicialmente, na concepção desse depósito e dessa representação e, depois, siga exatamente a mesma ética com base em qualquer outra concepção. E, mesmo que se admitisse que o impossível se tornasse possível para ele, isso ainda não teria valor algum, pois ele já teria se tornado rebelde ao negar a obediência ao seu Senhor. Se, então, ao seguir os próprios desejos e inclinações ou ao obedecer a outra pessoa, ele praticasse boas ações, deveria pedir a recompensa Àquele a quem obedeceu. Para o seu Senhor, tais boas ações seriam completamente sem valor.

Em sua essência, o ser humano não passa de uma criatura insignificante. Tudo o que ele alcançou em dignidade deve-se unicamente ao espírito insuflado nele e ao fato de Allah tê-lo feito Seu representante na Terra. Agora, a preservação dessa dignidade depende de ele não corromper seu espírito obedecendo a Satanás e de não se afastar da dignidade da representação, rebaixando-se à condição de rebelde. Se negligenciar essa responsabilidade, permanecerá sendo apenas aquela criatura insignificante.

As forças do mundo invisível (as forças do mundo oculto) reconheceram a representação do ser humano por Allah e, como representante de Allah, prostraram-se diante dele; porém, as forças satânicas não reconhecem sua representação; ao contrário, querem torná-lo submissos a elas. Se o ser humano cumprir, neste mundo, os deveres da representação e seguir o caminho indicado por Allah, as forças do mundo invisível o auxiliarão. Exércitos de anjos descerão em seu auxílio. O mundo invisível jamais se afastará dele. Com o auxílio de todas essas forças, ele derrotará Satanás e seus seguidores. Mas, se hesitar em cumprir plenamente o direito da representação e não seguir o caminho indicado por Allah, as forças do mundo invisível abandonarão sua companhia, pois, com isso, ele próprio se afastará da dignidade de sua representação. E, quando não restar nenhuma outra força capaz de ajudá-lo e ele se transformar simplesmente numa marionete de barro, as forças satânicas prevalecerão sobre ele. Então, Satanás e seus seguidores serão seus únicos apoiadores e auxiliares; ele obedecerá às suas leis e normas, e seu destino será como o deles.

Por ser representante de Allah, a posição do ser humano é superior e mais elevada que a de todas as coisas do mundo. Cada coisa do mundo está submetida a ele, foi destinada ao seu uso, e ele tem o direito de dela obter benefício segundo o método indicado por Allah. Prostrar-se diante dessas coisas submetidas a ele seria para o ser humano uma extrema humilhação. Ao prostrar-se diante delas, ele próprio cometeria injustiça contra si e se afastaria da dignidade de representante de Allah. Existe, porém, um Ser diante de Quem se prostrar e a Quem obedecer constitui seu dever indispensável (fard), e em cuja prostração está contida sua dignidade e honra. Quem é esse Ser? Allah é seu Senhor, Aquele que designou o ser humano como Seu representante.

Nenhum indivíduo ou classe específica da humanidade é representante de Allah; toda a humanidade foi investida da dignidade da representação, e, como representantes ou califas, todos os seres humanos são iguais entre si. Por isso, nenhum ser humano deve se prostrar diante de outro, nem alguém tem o direito de fazer outra pessoa se curvar diante de si. Um ser humano só pode exigir de outro que obedeça à ordem e à orientação do Senhor. Nesse sentido, o obediente será ‘amir’ (quem ordena), e o desobediente será ‘ma’mur’ (a quem se ordena). Pois aquele que cumpriu o direito da representação é superior àquele que não o cumpriu. Mas superioridade não significa que ele próprio seja o seu Senhor.

Cada ser humano recebeu individualmente a dignidade da confiança e da representação. Por isso, cada indivíduo será questionado, em sua própria posição, sobre a responsabilidade inerente a esse cargo. A responsabilidade pelos atos dos outros não será atribuída a uma pessoa, nem alguém poderá beneficiar-se dos atos praticados por outra. Da mesma forma, ninguém poderá isentar outra pessoa dessa responsabilidade, nem o peso dos atos perversos de alguém será colocado sobre os ombros de outra pessoa.

Enquanto o ser humano permanecer no mundo e continuar existindo a relação entre a marionete de barro (o corpo humano) e o espírito insuflado por Allah, ele continuará sendo representante. Assim que essa relação for rompida, ele perderá a dignidade do califado na Terra. As ações praticadas durante seu período de representação devem ser examinadas e avaliadas; deve-se prestar contas da confiança que lhe foi confiada e investigar como cumpriu a responsabilidade que lhe foi atribuída como representante. Se tiver demonstrado traição, quebra de confiança, desobediência, rebeldia e irresponsabilidade, deverá ser punido. Por outro lado, se tiver cumprido seu dever com honestidade, fidelidade, senso de responsabilidade e obediência, também deverá receber sua recompensa.

A concepção islâmica da vida

As duas palavras mencionadas acima, ‘califado’ e ‘representação’, dão ainda uma indicação sobre outra questão importante. O verdadeiro dever do representante é esforçar-se para cumprir plenamente o direito de sua representação nos bens e propriedades de seu Senhor e, tanto quanto possível, usufruir e administrar esses bens da mesma forma que o verdadeiro Proprietário o faz. Se um rei nomeasse alguém como representante (na’ib) sobre seus súditos, a melhor maneira de esse representante exercer o poder da representação seria assumir, na proteção e manutenção dos súditos, no afeto e no cuidado, na benevolência, na segurança, na justiça e, quando necessário, na severidade, exatamente o papel que o próprio rei assumiria; e usufruir e administrar os bens, propriedades e riquezas do rei com a mesma inteligência (hikma), sabedoria, discernimento e cautela.

Assim, o significado de chamar o ser humano de representante-califa de Deus é que ele só poderá cumprir plenamente a responsabilidade de representar a Deus e exercer o califado quando o princípio que orientar seu trato com a criação de Deus for semelhante ao do próprio Deus. Isto é, assim como Deus cuida e sustenta Sua criação com a grandeza própria de quem provê e protege, o ser humano, dentro de seu limitado campo de ação, conservará e cuidará das coisas que Deus colocou sob seu domínio com a mesma grandeza. Do mesmo modo, ele tratará aquilo sobre o qual recebeu autoridade e que foi colocado sob sua sujeição — ainda que em grau relativamente menor — exatamente de maneira semelhante à forma como Deus utiliza Seus bens com grandeza misericordiosa, mantém a ordem entre Suas criaturas com justiça e imparcialidade e manifesta os atributos de jabr e qahr (isto é, atributos indicativos de ausência de misericórdia) com misericórdia e compaixão.

É precisamente esse significado que está contido na frase sábia de ******. Mas o ser humano só pode alcançar essa elevada dignidade moral quando compreender plenamente que, neste mundo, não é um governante independente, mas apenas o representante do verdadeiro Governante. Essa é a verdadeira responsabilidade do cargo de representante. É isso que define a natureza e os limites de sua relação com cada coisa do mundo, inclusive com seu próprio corpo e com suas forças físicas e mentais.

Tudo o que foi dito até aqui a respeito da análise da representação encontra uma explicação detalhada em cada uma de suas partes no Alcorão Sagrado. Assim, todos os aspectos da relação mútua entre o mundo e o ser humano tornam-se claros e luminosos.

O ser humano é representante, não proprietário

Diz-se no Alcorão:

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“Foi Ele quem vos fez representantes na Terra e elevou alguns de vós acima de outros em grau, para testar-vos por meio daquilo que vos concedeu.” — (Surata Al-An’am: 165)

قَالُوا أُوذِينَا مِن قَبْلِ أَن تَأْتِيَنَا وَمِن بَعْدِ مَا جِئْتَنَا ۚ قَالَ عَسَىٰ رَبُّكُمْ أَن يُهْلِكَ عَدُوَّكُمْ وَيَسْتَخْلِفَكُمْ فِي الْأَرْضِ فَيَنظُرَ كَيْفَ تَعْمَلُونَ

“Moisés disse aos Filhos de Israel: ‘Em breve Allah destruirá o vosso inimigo e vos fará califas na terra, para ver como agireis.’” — (Surata Al-A‘raf: 129)

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“Ó Davi! Nós te fizemos representante na terra; portanto, governa entre as pessoas com a verdade e não sigas os teus próprios desejos, pois eles te desviarão do caminho de Allah. Para os que se desviam do caminho de Allah haverá um castigo severo, porque se esqueceram do Dia do Juízo.” — (Surata Sad: 26)

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“Allah não é o soberano de todos os soberanos?” — (Surata At-Tin: 8)

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“A soberania não pertence a ninguém senão a Allah.” — (Surata Al-An‘am: 57)

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“Dize: Ó Allah, Soberano de todos os reinos! Tu concedes o reino a quem queres e dele o retiras de quem queres. Honras a quem queres e humilhas a quem queres.”

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“Obedecei somente ao que foi revelado a vós por vosso Senhor, e não obedeçais a nenhum outro protetor além d’Ele.” — (Surata Al-A’raf: 3)

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“Dize: Minha oração, minha adoração, minha vida e minha morte — tudo pertence a Allah, o Senhor dos mundos.” — (Surata Al-An’am: 162)

É claramente evidente, a partir destes versículos, que nenhuma das coisas que, no mundo, estão sob o usufruto, uso e autoridade do ser humano lhe pertence — nem sequer a propriedade de sua própria pessoa. O verdadeiro Proprietário, Governante e Administrador de todas elas é Allah. O ser humano não tem o direito de usufruir e utilizar essas coisas segundo seus próprios caprichos, como se fosse o verdadeiro proprietário. Sua posição no mundo é a de um mero representante, e sua autoridade limita-se a seguir o caminho indicado por Allah e a usufruir e utilizar essas coisas da maneira por Ele mostrada. Ultrapassar esses limites estabelecidos, seguir os próprios desejos ou obedecer às ordens de qualquer governante que não seja o verdadeiro Governante não é senão rebelião e desvio.

Condição fundamental para o sucesso na vida mundana:

No Alcorão, é dito:

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“Aqueles que acreditaram na falsidade e negaram Allah são, na verdade, os que estão entre os perdedores.” — (Surata Al-Ankabut: 52)

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“E quem quer que, dentre vós, abandone a sua religião (isto é, a obediência a Allah) e morra como incrédulo, terá as suas obras anuladas neste mundo e na Outra Vida.”

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“Quem quer que se recuse a crer terá todas as suas obras anuladas e, na Outra Vida, estará entre os perdedores.” — (Surata Al-Maida: 5)

Destes versículos, soube-se que o sucesso do ser humano, na vida mundana, como representante de Allah, depende de reconhecer a autoridade governante do seu próprio Senhor e de realizar todas as tarefas considerando-se Seu representante e depositário. Sem esse reconhecimento, tudo o que ele desfrutar e utilizar dos bens e recursos de Allah será apenas um usufruto rebelde. E é uma questão de bom senso que, mesmo que um rebelde conquiste um país e ofereça um excelente exemplo de serviço ao país, o verdadeiro rei desse país jamais reconhecerá esse seu “bom trabalho”. Para o rei, um rebelde é sempre um rebelde. Que o caráter pessoal dele seja bom ou mau, que ele governe o país adequadamente após rebelar-se ou não, isso não faz diferença alguma.

O mundo existe para ser desfrutado e utilizado

Foi dito no Alcorão:

“Ó humanidade! Comei do que é lícito e puro que há na terra, e não obedeçais ao Satanás em coisa alguma; certamente, ele é vosso inimigo declarado. Ele ordena-vos a prática do pecado, da obscenidade e a dizerdes sobre Allah aquilo que não sabeis.” — (Surata Al-Baqarah: 168–169)

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“Ó crentes! Não torneis ilícitas para vós as coisas puras que Allah vos tornou lícitas, e não transgridais; certamente, Allah não ama os transgressores. E comei do sustento lícito e puro que Allah vos concedeu, e afastai-vos da desobediência a Allah, em Quem credes.” — (Surata Al-Ma’idah: 87–88)

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“(Ó Profeta! Dize: quem proibiu os adornos (zinat) que Allah produziu para os Seus servos

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“(O nosso Profeta) ordena-lhes a prática do bem e proíbe-os da injustiça e do pecado; torna lícitas para eles as coisas puras e ilícitas as coisas impuras, e remove deles os fardos e os grilhões que pesavam sobre eles.”

– (Surata Al-A’raf: 157)

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“Buscareis o favor de vosso Senhor (isto é, o sustento por meio do comércio), e nisso não há mal algum para vós.”

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“Os seguidores do Messias inventaram por si mesmos o monasticismo, apenas na esperança de obter a satisfação de Deus; não o prescrevemos para eles.”

– (Surata Al-Hadid: 27)

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“Criamos para o Inferno muitos gênios e seres humanos. Eles têm corações, mas não refletem por meio deles; têm olhos, mas não veem por meio deles; têm ouvidos, mas não ouvem por meio deles. São como animais, ou ainda mais desviados. Esses são os que permanecem imersos na negligência.” – (Surata Al-A’raf: 179)

É claro nestes versículos que abandonar este mundo não é tarefa do ser humano. Este mundo não é algo que deva ser rejeitado, do qual se deva manter distância, nem cujos negócios, assuntos, meios de prazer e beleza se deva proibir a si mesmo. Este mundo foi criado para o ser humano; portanto, sua tarefa é desfrutá-lo e utilizá-lo, desfrutá-lo e utilizá-lo amplamente. Contudo, deve fazê-lo levando em consideração a diferença entre o bom e o mau, o puro e o impuro, o adequado e o inadequado. Allah lhe deu olhos para que pudesse ver. Se o ser humano não utilizar seus membros físicos, seus sentidos e suas faculdades mentais, ou se os utilizar pelo caminho errado, não haverá diferença alguma entre ele e um animal.

O mistério da vida mundana:

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“A promessa de Allah (a respeito da Vida Futura) é certamente verdadeira; portanto, que a vida mundana não vos engane, e que o enganador (Satanás) não vos faça sentir seguros a respeito de Allah.” — (Surata Fátir: 5)

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“Aqueles que cometeram injustiça contra si mesmos deixaram para trás os prazeres e deleites mundanos que lhes haviam sido concedidos; estes eram os criminosos.” — (Surata Hud: 116)

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“Apresenta-lhes o exemplo da vida mundana. É como se tivéssemos feito descer água do céu, e, por causa dela, a terra se tornasse verdejante e coberta de plantações. Mas, no fim, essas plantações transformaram-se em palha seca, que o vento impetuoso espalha para todos os lados. Allah tem poder sobre todas as coisas. As riquezas e os filhos são apenas os adornos da vida mundana; porém, aos olhos do teu Senhor, as boas ações permanentes são melhores, tanto em recompensa quanto como esperança para o futuro.”

-(Surata Al-Kahf: 45-46)

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“Ó crentes! Que vossas riquezas e vossos filhos não vos distraiam da lembrança de Allah. E aqueles que assim procederem serão, verdadeiramente, os perdedores.” -(Surata Al-Munafiqun: 9)

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“Vossas riquezas e vossos filhos não são coisas que possam aproximar-vos de Nós. Somente aqueles que creem e praticam boas ações se aproximam de Nós.”

“Sabei que a vida mundana é apenas um jogo, uma diversão, uma ostentação exterior, a vanglória mútua entre vós e a busca de superar uns aos outros em riqueza e filhos. Seu exemplo é como o de uma chuva: a vegetação que dela brota alegra o agricultor; depois, ela amadurece, e tu a vês tornar-se amarelada; por fim, transforma-se em palha seca.”

-(Surata Al-Hadid: 20)

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“Estais construindo, em todo lugar elevado, monumentos memoriais inúteis e grandes edifícios? Talvez com a ideia de que permanecereis aqui para sempre.”

-(Surata Ash-Shu’ara: 128-129)

“Esperais certamente ser deixados em meio às coisas daqui: estes jardins, estas nascentes, estes campos de cultivo e estes jardins de tamareiras com belas coberturas? E estais escavando as montanhas para construir casas, vivendo alegres.”

-(Surata Ash-Shu’ara: 146-149)

“Onde quer que estejais, a morte vos alcançará, ainda que estejais em fortalezas muito bem protegidas.”

-(Surata An-Nisa: 78)

“Todos terão de morrer; depois, todos sereis conduzidos de volta a Nós.”-(Surata Al-Ankabut: 57)

“Acaso pensais que vos criamos sem propósito e que não sereis reconduzidos a Nós?”

Anteriormente foi dito que o mundo foi criado para vocês; desfrutem dele e utilizem-no da melhor maneira. Agora é apresentada a outra perspectiva da questão. Diz-se que, embora o mundo seja para vocês, vocês não são para o mundo. Ele também não foi criado para usar vocês e fazer com que se dissolvam nele. Nunca se deixem enganar pela vida mundana a ponto de imaginar que permanecerão aqui para sempre. Saibam muito bem que todas estas riquezas, bens, honras, esplendor e pertences são coisas temporárias. Tudo isso não passa de uma ilusão do tempo. O destino de tudo isso é a destruição. Assim como vocês, cada uma dessas coisas se misturará à terra. Neste mundo transitório, a única coisa que merece permanecer são as boas ações do ser humano; a bondade do seu coração e da sua alma; a bondade de seus atos e de sua conduta.

Responsabilidade e prestação de contas pelos atos praticados

Depois, foi dito:

“Aquilo que desejamos manter oculto no momento do julgamento certamente se apresentará, para que cada um receba o resultado de acordo com o seu esforço.” — (Surata Ta-Ha, 15)

“Acaso sereis recompensados por algo que não sejam os vossos atos?” — (Surata An-Naml, 90)

“E o ser humano obterá apenas o resultado daquilo por que se esforçou; em breve, seu esforço será visto. Depois, ele receberá plenamente o resultado. E, por fim, todos terão de chegar à presença de vosso Senhor.”

— (Surata An-Najm, 39–42)

“Quem for cego neste mundo também será cego na Vida Futura e estará ainda mais distante do caminho reto.” — (Surata Bani Isra’il, 72)

“Tudo de bom que enviarem deste mundo para si mesmos, encontrarão exatamente isso junto de Allah. E Allah vê tudo o que fazem.”

-(Surata Al-Baqarah: 110)

“Temei o dia em que sereis levados à presença de Allah. Então, cada um receberá a recompensa por seus atos, e jamais será cometida injustiça contra eles.” -(Surata Al-Baqarah: 281)

“Nesse dia, cada um encontrará diante de si o bem que praticou e o mal que praticou.” -(Surata Al Imran: 30)

“Nesse dia, a pesagem de todos os atos será uma verdade incontestável. Aqueles cujas obras forem pesadas serão os únicos a alcançar a felicidade, e aqueles cujas obras forem leves serão os que causarão a própria perdição, pois cometiam injustiça contra os Nossos versículos.”

“Quem fizer uma boa ação do peso de um átomo verá sua recompensa; e quem cometer um pecado do peso de um átomo também verá sua recompensa.” -(Surata Az-Zalzalah: 7-8)

“Allah aceitou a súplica deles e disse: ‘Não permitirei que se perca o ato de nenhum de vós que pratique boas obras, seja homem ou mulher.’” -(Surata Al Imran: 195)

“Gastai daquilo que vos concedemos, antes que a morte chegue a algum de vós. Então ele dirá: ‘Ó meu Senhor! Se me concedesses mais algum tempo, eu gastaria no Teu caminho e estaria entre os virtuosos.’ Mas Allah jamais concede prazo a alguém depois que chega o seu termo determinado.” -(Surata Al-Munafiqun: 10-11)

(Árabe************)

“Ai de mim!” Se pudesses ver aquele momento em que o criminoso, de cabeça baixa, estará diante do seu Senhor e dirá: “Ó nosso Sustentador! Agora vimos e também ouvimos; portanto, faze-nos voltar, e praticaremos boas obras; agora estamos convencidos.” Mas ser-lhes-á dito: “Agora provai o castigo da negligência que vos fez esquecer que compareceríeis diante de Nós neste dia. Hoje também Nós vos esquecemos. Portanto, em troca das ações que praticáveis, provai hoje o castigo eterno.” — (Surata As-Sajdah: 12–14

Aqui foi dito que este mundo é o campo das ações; o lugar do esforço e da dedicação. Já a vida do além é o campo da recompensa; o lugar onde se recebem os frutos das boas e más ações e a retribuição pelos atos praticados. O ser humano teve a oportunidade de agir neste mundo até o momento de sua morte. Depois disso, jamais terá outra oportunidade de agir. Portanto, nesta vida, deve agir lembrando que cada uma de suas ações, cada comportamento e cada ato, bom ou mau, possui efeito e importância próprios; e é em função desse efeito e dessa importância que obterei, na vida do além, um resultado bom ou mau. Tudo o que eu receber será a consequência dos esforços e empenhos desta vida e das ações de agora; nenhuma boa obra minha será desperdiçada, nem nenhum pecado será deixado sem consideração.

Responsabilidade pessoal

Para tornar ainda mais forte esse senso de responsabilidade, também foi declarado que cada pessoa é responsável por suas próprias ações. No que diz respeito a essa responsabilidade, ninguém participa dela, nem pode alguém salvar outra pessoa das consequências de seus atos.

(Árabe**********)“A responsabilidade por vós mesmos recai sobre vós. Se vos guiardes, nenhuma pessoa desviada poderá causar-vos dano.” — (Surata Al-Ma’idah: 105)

(Árabe***********)

“Tudo o que cada pessoa adquire, o seu peso recai sobre ela; ninguém carregará o fardo de outra pessoa.” — (Surata Al-An’am: 164)

(Árabe**********)

“No Dia da Ressurreição, vossos parentes e vossos filhos não vos serão de nenhuma utilidade. Nesse dia, Allah julgará entre vós, e Ele observa vossas obras.” — (Surata Al-Mumtahanah: 3)

(Árabe*************)

“Se praticardes boas obras, será em vosso próprio benefício; e, se praticardes más ações, será também em vosso próprio prejuízo.” — (Surata Bani Isra’il: 7)

(Árabe***************)

“Ninguém carregará o fardo do pecado de outra pessoa; e, se alguém, sobrecarregado por um grande fardo de pecado, chamar alguém para ajudá-lo a carregá-lo, nada desse fardo será colocado sobre a cabeça do outro — ainda que seja um parente próximo.” — (Surata Al-Fatir: 18)

(Árabe***************)

“Ó humanidade! Temei vosso Senhor e temei o dia em que nenhum pai poderá ser útil ao seu filho, nem o filho poderá ser minimamente útil ao seu pai.” — (Surata Luqman: 33)

(Árabe*************)

“O peso da incredulidade daquele que cometeu incredulidade recairá sobre ele próprio; e aqueles que praticaram boas ações estão abrindo o caminho para o seu próprio bem.” — (Surata Ar-Rum: 44)

Aqui, a responsabilidade pelos atos bons e maus de cada pessoa foi atribuída individualmente a ela. Não há espaço para alimentar a esperança de que alguém expiará nossas falhas ou negligências; tampouco há lugar para esperar que, por causa de algum parentesco ou vínculo, sejamos isentados da responsabilidade por nossos crimes. Também não há motivo para temer que a maldade de alguém afete nossas boas ações, ou que a satisfação de qualquer outro além de Allah possa influenciar a aceitação ou a rejeição de nossos atos. Se alguém colocar a mão no fogo, nada poderá protegê-lo de sua queimadura natural. Da mesma forma, se alguém beber mel, nada poderá impedi-lo de sentir seu sabor doce. Ninguém pode compartilhar com outro a dor da queimadura, nem privar alguém da experiência do sabor doce. Do mesmo modo, no que diz respeito às consequências do pecado e aos benefícios das boas ações, cada pessoa é independente e imparcial. Portanto, é indispensável que cada pessoa tenha plena consciência de sua responsabilidade ao usufruir e utilizar o mundo. Ela deve afastar o olhar do mundo e das coisas que nele existem e viver com a consciência de que é ela própria responsável por cada um de seus atos; o peso do pecado recai somente sobre ela, e somente ela desfrutará do benefício das boas ações.

Na explicação apresentada acima sobre a concepção islâmica da vida terrena, foram examinadas suas diversas partes e elementos. Agora, vejamos sua estrutura e organização; vejamos também até que ponto a concepção completa que se forma pela combinação dessas partes dispersas é compatível com a natureza e a realidade, qual pode ser seu valor em comparação com as concepções de outras culturas sobre a vida terrena e como a cultura fundada sobre essa filosofia de vida molda o pensamento e as ações humanas segundo um determinado padrão.

A concepção natural da vida

Por um momento, afaste de sua mente as concepções apresentadas por outras religiões sobre o mundo e a vida mundana. Depois, como um observador perspicaz, lance o olhar sobre o mundo ao seu redor e observe atentamente qual é a sua posição em todo esse ambiente. Como resultado dessa observação, algumas coisas se tornarão extremamente claras aos seus olhos.

Você verá que o alcance de todas as faculdades que recebeu é extremamente limitado. As faculdades sensoriais das quais depende o seu conhecimento não podem ultrapassar os limites do seu ambiente mais próximo. Os membros dos quais depende toda a sua atividade só conseguem manter sob seu controle algumas poucas coisas. As inúmeras coisas ao seu redor são muito maiores que o seu corpo e suas forças, e, diante delas, o seu ser individual parece extremamente insignificante e fraco. Nenhuma das formidáveis forças que atuam nessa vasta fábrica que é o mundo está sob seu controle; ao contrário, diante dessas forças, você se sente completamente impotente. Fisicamente, você é um animal de porte médio. Você triunfa sobre as coisas menores que você, mas é derrotado diante das coisas maiores que você.

Mas outra força dentro de você lhe concedeu superioridade sobre todas essas coisas. Graças a essa força, você domina todos os seres da mesma espécie e os submete à sua autoridade, embora sua força física seja muito maior que a sua. É por causa dessa força que você usufrui e utiliza as coisas ao seu redor e delas obtém serviços conforme a sua vontade. Graças a essa força, você descobre novas fontes de energia, extrai-as e utiliza-as de novas maneiras. É por causa dessa força que você amplia os meios e recursos para adquirir conhecimento e alcança até mesmo as coisas que estão fora do alcance de suas forças naturais. Em suma, graças a essa força especial, todas as coisas do mundo se transformam em seus servos, e você alcança a ventura de receber seus serviços.

Além disso, todas as forças superiores da fábrica do universo que não estão sob o seu controle também atuam de tal maneira que, em geral, não podem ser consideradas suas inimigas ou adversárias; pelo contrário, são suas auxiliares e favoráveis ao seu bem-estar e às suas conveniências. O ar, a água, a luz, o calor e todas as demais forças das quais depende a sua vida operam sob uma regra especial cujo objetivo é ajudá-lo. Nesse sentido, você pode dizer que as coisas mencionadas lhe são obedientes.

Quando observa profundamente todo esse ambiente, você vê em ação uma lei de imenso poder. Desde as coisas minúsculas até as maiores entre as maiores, tudo está igualmente preso aos tentáculos dessa poderosa lei. Além disso, a estabilidade do mundo inteiro depende absolutamente de sua ordem e de seu controle. Você também está submetido a essa lei. Mas existe uma enorme diferença entre você e as demais coisas do mundo. As outras coisas não possuem nem o mínimo poder de se rebelar contra essa lei. Você, porém, tem o poder de se rebelar contra ela. E não apenas isso: quando você deseja rebelar-se contra ela, ela também o auxilia nessa tarefa. Naturalmente, cada ato desse tipo deixa imediatamente alguma reação, e você também não pode escapar de suas más consequências depois de se rebelar contra ela.

Sob essa lei universal e imutável, vocês veem as diversas cenas da criação e da destruição. Em todo o universo, prossegue incessantemente um ciclo de demolição e construção. Pela mesma lei segundo a qual algo é criado e desenvolvido, ele também é destruído e eliminado. Nada no mundo está livre dos laços dessa lei. Mesmo as coisas que aparentemente parecem livres dela e que se suspeita serem imóveis e inertes, quando examinadas profundamente, revelam que também nelas continuam os processos de transformação e mudança, e que elas tampouco escapam ao domínio da criação e da destruição. Como os demais elementos da natureza não possuem consciência e capacidade de compreensão, ou pelo menos nada sabemos a esse respeito, não percebemos neles sinais de alegria ou tristeza decorrentes dessa criação e destruição. O ser humano, porém, sendo uma criatura consciente e dotada de compreensão, sente uma intensa reação de alegria e tristeza ao observar essas mudanças ao seu redor. Às vezes, ao ver o surgimento de algo favorável, sente uma alegria tão intensa que esquece por completo que também existe a possibilidade de destruição neste mundo. Outras vezes, ao ver algo desfavorável, sua tristeza se torna tão intensa que ele só consegue ver destruição e mais destruição neste mundo, esquecendo o fato de que a criação ainda é possível.

Contudo, por mais sentimentos opostos de alegria e tristeza que existam em você e por mais rigorosa ou exagerada que seja, sob a influência deles, a sua visão da vida mundana, por sua própria natureza você é obrigado a usufruir e utilizar efetivamente este mundo e a empregar o conjunto de forças que há em seu interior. A sua natureza contém o desejo de viver e, para satisfazê-lo, foi colocada em você uma força poderosa chamada fome, que o impele constantemente a agir. A natureza deseja ocupá-lo na tarefa de preservar a sua descendência; por isso, infundiu em você uma força indomável chamada instinto sexual, que o impulsiona a cumprir o seu propósito. Do mesmo modo, várias outras forças foram reunidas na sua natureza para outros objetivos, e cada uma delas procura fazer com que você alcance o seu próprio propósito. Se você cumprirá excelentemente ou mal esses diversos objetivos da natureza, se os realizará com alegria ou sob pressão e coerção, isso depende inteiramente da sua razão e do seu discernimento. Mais ainda: a própria natureza concedeu-lhe uma capacidade especial de realizar ou não realizar as tarefas destinadas a alcançar esses objetivos. Ao mesmo tempo, porém, a natureza estabeleceu esta lei: cumprir seus objetivos com alegria e da melhor maneira é benéfico para você, enquanto recusar-se a cumpri-los, ou cumpri-los de modo deficiente, é prejudicial para você mesmo.

Conceitos de diferentes religiões e ideologias:

Quando uma pessoa de natureza equilibrada e dotada de visão perspicaz contempla o mundo e este mundo

observa a sua própria condição nesse contexto, todos os aspectos descritos acima se apresentarão diante de seus olhos. No entanto, os diversos grupos da humanidade contemplaram todo esse cenário de diferentes ângulos e, com frequência, aconteceu que cada um formou uma concepção sobre a vida mundana a partir do aspecto que se destacou luminosamente aos seus olhos, sem sequer tentar observar os demais aspectos.

Pode-se citar como exemplo um grupo que, observando a fraqueza e a impotência do ser humano e, em contraste com elas, a influência e o poder das grandes forças da natureza, chegou à conclusão de que o ser humano é uma coisa absolutamente insignificante no mundo e que essas forças benéficas e nocivas do mundo não estão submetidas a nenhuma lei universal, sendo independentes ou semidependentes. Essa ideia dominou de tal modo suas mentes que o aspecto correspondente desapareceu de seu campo de visão. Esqueceram o lado luminoso da própria existência e, ao reconhecerem excessivamente a sua fraqueza e incapacidade, sacrificaram o sentimento de sua honra e dignidade. A adoração de ídolos, de árvores, de estrelas e de outras forças naturais é o resultado direto dessa concepção.

Outro grupo viu o mundo apenas como um palco de calamidades. Todo o universo estaria sendo conduzido unicamente para que os seres humanos sofressem dores, aflições e opressões. Todas as relações e vínculos do mundo seriam armadilhas destinadas a enredar o ser humano numa rede de inquietações e perigos. E por que falar apenas dos seres humanos? O universo inteiro está aprisionado nas garras da tristeza e da destruição. Tudo o que é criado aqui o é somente para ser destruído. A primavera chega para que o inverno venha e lhe roube o verdor. A árvore da vida se cobre de folhas para que Satanás, sob a forma da morte, venha saquear sua beleza. A beleza da estabilidade se apresenta com tamanha perfeição para que o deus da destruição tenha ampla oportunidade de brincar com ela. Essa doutrina não deixou para essas pessoas nenhum atrativo no mundo nem em sua vida. Elas viram o caminho da libertação na renúncia ao mundo, na mortificação e no ascetismo, com o objetivo de extinguir todos os sentimentos interiores, e em romper a lei da natureza que transformou o ser humano em instrumento apenas para fazer funcionar sua própria fábrica.

Outro grupo viu que há no mundo abundantes meios de alegria e prazer para o ser humano, e que ele teve a oportunidade de desfrutá-los por um breve período. O sentimento de tristeza e melancolia torna esse desfrute insípido; portanto, se o ser humano eliminasse esse sentimento e não permitisse que coisa alguma se tornasse causa de tristeza ou melancolia para si, aqui se veriam apenas alegria e diversão. Tudo o que existe para o ser humano está neste mundo; todos os prazeres que ele puder desfrutar deverá desfrutá-los nesta vida terrena. Depois da morte, não haverá ser humano, nem mundo, nem seus prazeres e alegrias; tudo desaparecerá no abismo do esquecimento.

Há, em oposição a estes, outro grupo que considera pecado completo tanto as alegrias e prazeres do mundo quanto a própria vida terrena em sua totalidade. Segundo eles, para a alma humana, os recursos materiais do mundo equivalem a uma espécie de impureza e corrupção. Não há pureza nem benefício para o ser humano em desfrutar e utilizar este mundo, participar de suas atividades e saborear suas alegrias e prazeres. Quem deseja ser afortunado no reino celestial deve manter-se afastado do mundo. E quem deseja desfrutar a riqueza, o poder e os prazeres da vida terrena deve saber com certeza que não há lugar para ele no reino celestial. Esse grupo também percebeu que o ser humano, impelido por sua própria natureza, é obrigado a desfrutar e utilizar o mundo e a envolver-se em suas atividades; por mais atraente que seja a ideia de entrar no reino celestial, ela jamais pode ser tão poderosa que permita ao ser humano, apoiando-se nela, enfrentar a própria natureza. Por isso, descobriram um atalho para chegar ao reino celestial: aqueles que tiverem fé numa entidade especial serão libertados, por meio da expiação dela, da responsabilidade por seus atos.

Outro grupo, observando a abrangência da lei natural, passou a considerar o ser humano simplesmente um ser incapaz e fraco. Viu que o ser humano não é, de modo algum, uma entidade livre e singular; os testemunhos da psicologia, da fisiologia, da biologia e das leis da hereditariedade comprovaram justamente essa verdade. A lei natural o mantém firmemente acorrentado. Ele não pode pensar em nada contra essa lei, nem desejar coisa alguma, nem tem capacidade para realizar qualquer ação. Portanto, nenhuma responsabilidade por seus atos lhe é atribuída.

Segundo outro grupo, inteiramente oposto, o ser humano não é apenas um ser dotado de vontade, mas também não está submetido nem é obediente a nenhuma vontade superior, e tampouco é obrigado a prestar contas de seus atos diante de qualquer pessoa além de sua própria consciência ou das leis do reino humano. Ele é o senhor deste mundo. Todas as coisas do mundo estão submetidas a ele. Ele tem o direito de desfrutá-las e utilizá-las livremente. Para edificar sua vida de modo harmonioso e manter uma disciplina equilibrada em seus atos e conduta, ele próprio estabeleceu regras e restrições para sua vida pessoal. Mas, em termos gerais, é completamente livre, e a ideia de prestar contas a uma entidade superior a esse respeito é inteiramente absurda.

Estas são as diferentes concepções das diversas religiões e ideologias acerca da vida terrena. Foi com base na maioria dessas concepções que se ergueram os edifícios de diferentes culturas. A verdadeira razão pela qual os diversos tipos e naturezas que vemos nos edifícios dessas culturas assumiram formas distintas e particulares é que em sua base existe uma concepção específica sobre a vida terrena. É essa concepção que exige a adoção dessa forma particular. Se examinássemos cada uma delas em profundidade e investigássemos como deu origem a um tipo específico de cultura, isso constituiria, sem dúvida, uma discussão interessante. Mas tal discussão não tem relação com o tema que estamos tratando, pois desejamos apenas expor claramente as características da cultura islâmica. Nossa afirmação é que todas as concepções sobre a vida anteriormente apresentadas são apenas resultado de observar o mundo a partir de uma perspectiva particular. Nenhuma dessas doutrinas foi formada depois de contemplar integralmente todo o universo e determinar corretamente o lugar de cada coisa neste mundo. É por isso que, quando abandonamos uma perspectiva específica e examinamos o mundo a partir de outra, a doutrina formada com base na primeira perspectiva nos parece falsa e equivocada. E, quando contemplamos o mundo de modo abrangente, a falsidade de todas as doutrinas se torna evidente.

Características da concepção islâmica:

Agora pode-se compreender claramente que, na realidade, entre todas as doutrinas, a doutrina islâmica é a única compatível com a natureza e a verdade real. Somente nessa doutrina se estabeleceu uma relação correta entre o mundo e o ser humano. Nela vemos que o mundo não é algo desprezível ou rejeitável, mas também não é algo que leve o ser humano a apegar-se a ele e dissolver-se em seus meios de prazer. Aqui não está ocorrendo uma ação inteiramente construtiva, nem uma calamidade unilateral. Não é correto evitá-lo, assim como também não é apropriado mergulhar completamente nele. Ele não é inteiramente impuro e corrupto, mas tampouco é totalmente puro e livre de impureza. A relação do ser humano com este mundo também não é semelhante à relação de um rei com seu próprio reino. Tampouco é semelhante à relação de um prisioneiro com uma prisão. O ser humano não é tão insignificante que qualquer força do mundo seja digna de sua prostração, nem é tão poderoso e forte que receba a prostração de todas as coisas do mundo. Não é tão incapaz e desamparado que seus desejos e intenções pessoais não tenham valor algum, nem é tão poderoso que sua vontade e seus impulsos estejam acima de tudo. Assim como não é o soberano absoluto da natureza universal, também não é o escravo indefeso de milhões de senhores. Seu verdadeiro lugar está numa posição intermediária entre esses extremos.

Até aqui, a natureza e a sã razão nos orientam. Mas o Islã avança ainda mais e determina com precisão qual é a verdadeira dignidade do ser humano. Ele esclarece: que tipo de relação existe entre o ser humano e o mundo? Com que propósito o ser humano deve usufruir e utilizar o mundo? Ele abre os olhos do ser humano dizendo-lhe: tu não és como as demais criaturas. Pelo contrário, és o representante responsável (Viceroy) de Allah, o Senhor dos Mundos, na Terra. O mundo e suas forças foram submetidos a ti. És governante de todos, mas governado por Um; obediente a todos, mas submisso às ordens de Um só. Tua honra está acima de toda a criação, mas só podes ser digno dessa honra quando te submeteres e obedeceres Àquele que te conferiu essa honra na Terra, investindo-te da dignidade de representante, e quando seguires os preceitos e as leis que Ele te deu. Foste enviado ao mundo para usufruí-lo e utilizá-lo. Depois, qualquer que seja o bem ou o mal, a pureza ou a impureza, que pratiques nesta vida terrena, com base nisso encontrarás o bem ou o mal na vida futura. Portanto, durante esta vida passageira no mundo, deve permanecer sempre desperto em ti o senso de responsabilidade pessoal e prestação de contas; e jamais deves esquecer, nem por um instante, que será feito um exame minucioso de cada coisa que Allah, o Senhor dos Mundos, confiou a ti, como Seu representante.

Não há dúvida de que essa concepção não está presente de modo amplo e detalhado na mente de todo muçulmano. Na verdade, salvo uma parcela específica da comunidade instruída, ninguém sequer possui uma compreensão clara a esse respeito. Contudo, como essa concepção está arraigada no próprio âmago da cultura islâmica, mesmo que o caráter dos muçulmanos tenha se afastado muito de sua verdadeira dignidade e de suas características genuínas, eles ainda não se libertaram por completo de sua influência. Por mais inferior que tenha se tornado, sob influências externas, a conduta e as ações do muçulmano criado sob a cultura islâmica, estas coisas necessariamente penetrarão em cada uma de suas veias: o senso de dignidade e autorrespeito; não se curvar diante de ninguém senão Allah; não temer ninguém senão Allah; não considerar ninguém além de Allah como proprietário e senhor; considerar-se pessoalmente responsável no mundo; crer que o mundo é o campo de ação e a vida futura o campo da recompensa; acreditar que o sucesso ou o fracasso na vida futura depende exclusivamente da excelência ou da deficiência das próprias ações; considerar o mundo, sua riqueza e seus meios de prazer como transitórios, e somente as ações pessoais e seus resultados como eternos. E uma pessoa perspicaz certamente perceberá, nas palavras e atividades desse indivíduo, a influência — por mais tênue que seja — daquela crença e convicção profundamente arraigadas em sua alma e em seu coração.

Ao examinar a história da cultura islâmica, qualquer pessoa poderá compreender claramente esta verdade: enquanto o verdadeiro Islã esteve presente nela em sentido pleno, ela foi uma cultura genuína e real. Para seus seguidores, o mundo era o campo da vida futura. Eles procuravam dedicar cada momento da vida terrena ao cultivo desse campo, à semeadura e a outras tarefas semelhantes, para que pudessem obter uma colheita maior na vida futura. Utilizavam o mundo em uma posição equilibrada entre o ascetismo e o materialismo, equilíbrio cuja menor semelhança sequer encontramos em qualquer outra cultura. A concepção do califado de Allah os incentivava a envolver-se plenamente na vida terrena e a desempenhar seus negócios com total empenho; ao mesmo tempo, o senso de responsabilidade e prestação de contas jamais lhes permitia ultrapassar os limites. Como representantes de Allah, possuíam grande dignidade própria. Essa mesma concepção, porém, os impedia de se tornarem arrogantes e orgulhosos. Eram apegados a cada coisa terrena necessária ao cumprimento adequado da responsabilidade do califado. Mas, ao mesmo tempo, não tinham qualquer apego às coisas que envolvem o ser humano no luxo mundano e o fazem esquecer suas responsabilidades e deveres. Em suma, conduziam os assuntos do mundo como se não fossem permanecer nele para sempre; e abstinham-se de mergulhar em seu luxo, pensando que este mundo era para eles uma hospedaria de viajantes, onde haviam se instalado apenas por alguns dias.

Mais tarde, com o enfraquecimento da influência do Islã e a influência de outras culturas, as características plenamente islâmicas deixaram de permanecer no caráter dos muçulmanos. Como resultado, fizeram tudo o que era contrário à concepção islâmica da vida terrena. Entregaram-se ao luxo e à ostentação. Construíram enormes edifícios. Sentiram-se atraídos pela música, pela pintura, pela escultura e pelas belas-artes. Na sociabilidade e nos costumes, acostumaram-se ao desperdício e à pompa, completamente contrários ao gosto islâmico. Na administração do Estado, na política e em outros assuntos mundanos, seguiram métodos inteiramente não islâmicos. Apesar disso, a concepção islâmica da vida terrena, firmemente arraigada em seus corações, manifestava claramente sua influência em algum lugar ou outro. E era justamente essa influência que lhes conferia uma dignidade especial diante dos demais. Certo rei muçulmano construiu às margens do Jamuna um enorme edifício e nele instalou todo tipo de entretenimento e esplendor, coisas inimagináveis naquela época. Mas, na parte posterior do edifício, isto é, voltada para a qibla, foi gravado este poema:

“Tens grilhões nos pés, teu coração está trancado,

teus olhos queimados pelo fogo e teus pés feridos pelos espinhos;

desejas viajar para o Ocidente,

contudo, caminhas voltado para o Oriente,”

Quem és tu que, deixando para trás o destino, caminhas?

Ainda fica atento.”

Esse palácio não era incomparável por suas características próprias. Palácios mais grandiosos que ele podem ser encontrados entre outras nações do mundo. Mas, entre todas as nações do mundo, não se encontrará outro exemplo de uma concepção que advirta os construtores de paraísos na terra, dizendo: “Quem és tu que, deixando para trás o destino, caminhas rumo ao incerto? Fica atento!”¹

¹. Trata-se do Forte Vermelho de Délhi.

Na história islâmica, encontram-se inúmeros exemplos de governantes de impérios do tipo de César e Kisra que, em vez de expressarem sua arrogância de poder derrotando algum inimigo, prostraram-se em سجدة diante do Todo-Poderoso Allah. Quando grandes governantes tirânicos e arrogantes queriam contrariar a Sharia islâmica, algum servo de Allah os repreendia abertamente, e, como resultado, eles tremiam de temor a Allah. Até indivíduos inteiramente perversos e depravados se tornavam conscientes por causa de uma simples palavra, e imediatamente a cor de suas vidas mudava. Quando a preocupação com a impermanência deste mundo e com o interrogatório na vida futura despertava no coração daqueles que estavam fascinados pelas riquezas mundanas, eles distribuíam imediatamente tudo entre os servos de Allah e adotavam um modo de vida ideal e moderado. Em suma, por mais que influências não islâmicas se espalhem na vida dos muçulmanos, em cada aspecto de sua vida nacional você inevitavelmente perceberá, de uma forma ou de outra, o brilho da doutrina islâmica. E, ao ver isso, terá a impressão de que, de repente, uma luz surgiu em meio à escuridão.

 

।।II

O objetivo da vida

Depois da filosofia de vida, a segunda questão especialmente importante para determinar a excelência ou a decadência de uma cultura é: que objetivo ela apresenta ao ser humano? Essa questão é importante porque todos os desejos e esforços práticos daquele que estabelece determinado objeto como seu objetivo e propósito passam a seguir esse objetivo. É da pureza ou impureza desse objetivo que dependem a qualidade da mentalidade e a correção ou corrupção de seu modo de vida. Do seu progresso ou declínio dependem o progresso ou declínio do pensamento e das correntes de ideias, a excelência ou decadência do caráter moral e o desenvolvimento ou retrocesso da economia e da vida social. Da clareza e precisão desse objetivo dependem a organização ou dispersão dos desejos e pensamentos humanos, a ordem ou desordem de todas as atividades de sua vida e a concentração ou dispersão de sua capacidade, competência e talento. Em uma palavra, é graças a esse objetivo de vida que o ser humano escolhe um único caminho entre os diversos caminhos do pensamento e da ação e emprega nesse caminho suas forças físicas e mentais, bem como seus meios e recursos materiais e espirituais. Portanto, para avaliar qualquer cultura segundo um critério correto, é absolutamente necessário investigar seu objetivo fundamental.

Características indispensáveis de um objetivo coletivo correto:

Antes de avançarmos na discussão e na investigação, devemos determinar o que se entende por objetivo da cultura. É evidente que, quando pronunciamos a palavra «cultura», não nos referimos à cultura individual, mas à cultura coletiva. Por isso, o objetivo da vida individual de cada pessoa não pode ser o objetivo da cultura. Inversamente, aquilo que for o objetivo de uma cultura deve necessariamente ser o objetivo da vida individual de cada um de seus seguidores, tenham eles consciência disso ou não. Sob esse ponto de vista, seja consciente ou inconscientemente, aquilo que constitui o objetivo da vida coletiva de um grande grupo de pessoas é o objetivo da cultura; e esse objetivo deve adquirir tal predominância sobre os objetivos da vida individual dessas pessoas que cada indivíduo tenha de adotar o objetivo da vida do grupo como o objetivo de sua própria vida.

Uma condição indispensável para esse tipo de objetivo coletivo de vida é que ele esteja em plena conformidade e harmonia com os objetivos da vida individual das pessoas e possua, em si mesmo, a capacidade de ser simultaneamente um objetivo individual e coletivo de vida. Pois, se o objetivo coletivo de vida for contrário aos objetivos da vida individual das pessoas, será difícil, antes de mais nada, que ele se torne um objetivo coletivo de vida. Isso porque uma ideia que as pessoas não aceitem individualmente jamais poderá alcançar o status de ideia coletiva. Mesmo que, sob a influência de um inimigo poderoso, ela se transforme em um objetivo coletivo de vida, ainda assim continuará ocorrendo, inconscientemente, um conflito entre o objetivo da vida do indivíduo e o objetivo da vida da sociedade. Depois, assim que a influência desse poder vitorioso diminuir, as pessoas voltarão a inclinar-se para seus próprios objetivos de vida. Com isso, o objetivo da vida da sociedade desaparecerá. A força de atração e de coesão da sociedade se dissolverá e, por fim, até o nome e os vestígios da cultura desaparecerão. É por isso que aquilo que constitui o objetivo natural da vida humana pode, na realidade, ser precisamente o objetivo correto da cultura. E a verdadeira característica de qualquer cultura é que ela deve apresentar um objetivo coletivo de vida que também possa ser, exatamente, um objetivo individual de vida.

Dessa perspectiva, duas questões se levantam diante de nós, e não podemos avançar sem resolvê-las:

Primeira: qual é, naturalmente, o objetivo da vida individual do ser humano?

Segunda: até que ponto os objetivos apresentados pelas demais culturas do mundo estão de acordo com esse objetivo natural da vida humana?

O objetivo natural da vida humana

A questão do objetivo natural da vida humana é a seguinte: com que finalidade o ser humano naturalmente se esforça e trabalha no mundo, e que coisa sua natureza deseja? Se, para descobrir isso, você perguntar a cada pessoa qual é o seu objetivo no mundo, receberá respostas variadas de pessoas diferentes. E provavelmente não encontrará sequer duas pessoas cujos objetivos, desejos, esperanças e aspirações sejam completa e identicamente iguais. Mas, se analisar todas as respostas, verá que as coisas às quais as pessoas chamam de seus objetivos não são, de fato, objetivos finais, mas apenas meios para alcançar um objetivo específico; e esse objetivo específico é o conforto e a tranquilidade mental. Por mais elevado que seja o nível de reflexão e de capacidade intelectual de uma pessoa, por mais refinada que seja sua cultura, e qualquer que seja o campo ou aspecto da vida em que atue, na base de todos os seus esforços e empenhos encontra-se um único objetivo: alcançar paz, segurança, alegria e tranquilidade. Portanto, podemos chamar a isso o objetivo natural da vida do ser humano como indivíduo.

Dois objetivos coletivos populares e sua análise

Ao examinar minuciosamente os objetivos coletivos apresentados pelas diversas culturas do mundo, constataremos que há muitas diferenças entre eles. Não é nosso propósito, nem é possível, determinar todas elas aqui. Contudo, do ponto de vista dos princípios fundamentais, podemos dividi-los em duas categorias:

Primeiro: as culturas cuja base não está assentada em nenhuma concepção religiosa ou espiritual apresentam a seus seguidores o objetivo de alcançar superioridade e predominância. Esse objetivo é composto por alguns elementos fundamentais. Seus elementos mais específicos e importantes são os seguintes:

* O desejo de alcançar predominância e hegemonia política.

* A aspiração de alcançar superioridade sobre todos em riqueza e bens, seja por meio da conquista de países, seja estabelecendo hegemonia no campo da indústria e do comércio.

* O desejo de alcançar prioridade sobre todos no progresso social, seja nos campos do conhecimento, da ciência e das artes, seja no esplendor e na pompa da cultura e da civilização.

Aparentemente, esse objetivo coletivo de vida não é contrário ao objetivo individual de vida mencionado acima. Pois pode-se dizer, sem qualquer reflexão, que, uma vez definido esse objetivo para a sociedade, o objetivo de vida do indivíduo também fica determinado ao mesmo tempo. É justamente por causa desse enigma aparente desse objetivo que milhões e milhões de pessoas de uma nação dissolvem nele seu objetivo individual de vida. Contudo, a visão de longo alcance e a experiência prática provaram que, na realidade, esse objetivo coletivo é absolutamente contrário ao objetivo natural de vida do indivíduo. É evidente que não há no mundo apenas uma nação desejosa de alcançar predominância e superioridade; ao contrário, na mesma época, várias nações alimentam esse objetivo e todas se esforçam para alcançá-lo. Como consequência inevitável, começam entre elas intensos conflitos políticos, econômicos e civilizacionais; surge um violento tumulto de resistência, competição e rivalidade, e, em meio a esse alvoroço e desordem, torna-se quase impossível ao indivíduo alcançar paz, tranquilidade, conforto e serenidade mental. Hoje, é exatamente essa a situação que prevalece diante de nossos olhos nos países ocidentais. Ainda que se admita que, em determinada época, somente uma nação se empenhe em alcançar esse objetivo e que nenhuma outra nação lhe crie obstáculos nesse caminho, mesmo assim a presença de objetivos individuais de vida entre as pessoas não será possível com o êxito desse objetivo. Pois é da natureza de tal objetivo coletivo não apenas criar rivalidade internacional, mas também despertar um espírito de competição mútua entre os próprios membros de uma nação. Como resultado, a dominação sobre os membros de outras nações, a superioridade sobre todos em riqueza, autoridade, poder, esplendor e luxo, a apropriação das chaves do sustento alheio, o estabelecimento do próprio monopólio sobre todos os meios e recursos possíveis de obter riqueza, o desejo de ficar com todo o lucro e benefício e deixar o prejuízo e o fracasso para os outros, e o esforço para fazer de si mesmo aquele que dá ordens e manter os demais subordinados e obedientes tornam-se o objetivo de vida de cada indivíduo da nação. Primeiro, os desejos e aspirações dessas pessoas jamais encontram satisfação; por isso, permanecem sempre inquietas e inseguras. Segundo, quando esse tipo de rivalidade surge entre os membros de uma nação, cada casa e cada mercado se transforma em um campo de batalha. Consequentemente, por maior que seja o acúmulo de riqueza, autoridade e luxo, paz e tranquilidade, segurança e sossego, alegria e conforto tornam-se extremamente raros.

Além disso, é natural que o progresso puramente material — no qual não há lugar para a espiritualidade — jamais possa proporcionar tranquilidade ao ser humano, pois a obtenção de prazeres puramente sensoriais é um objetivo meramente biológico; e, se é verdade que o ser humano não é apenas um ser vivo comum, mas ocupa uma posição superior a isso, então também deve ser certamente verdade que o ser humano não pode sentir-se seguro simplesmente alcançando aquelas coisas cujo desfrute é suficiente para satisfazer desejos puramente biológicos.

Segundo: as culturas cuja base se assenta em concepções religiosas e espirituais geralmente declararam a salvação, ou najat, como seu objetivo. Sem dúvida, o elemento espiritual que proporciona conforto e tranquilidade mental ao ser humano está presente nesse objetivo. E é verdade que a salvação pode ser o objetivo de uma nação. Mas, examinando a questão um pouco mais profundamente, compreende-se que ela também não pode, na realidade, ser um objetivo de vida perfeito. Há algumas razões para isso.

Primeiramente, há uma espécie de autocentrismo oculto no objetivo da salvação. Sua natureza consiste em enfraquecer o todo e fortalecer o indivíduo. Quando uma pessoa pode alcançar a salvação simplesmente realizando algumas ações específicas, esse objetivo deixa de conter qualquer elemento capaz de levá-la a atribuir dignidade ao todo em vez de ao individualismo, ou de incentivá-la a adotar, em conjunto com a sociedade, os mesmos princípios de ação para organizar esse todo. Portanto, essa concepção individualista é completamente contrária ao verdadeiro objetivo da cultura.

Em segundo lugar, a questão da salvação está, na realidade, profundamente ligada ao método para alcançá-la. Assim, a pureza ou impureza desse objetivo depende em grande medida da pureza ou impureza do método concebido para alcançá-lo. Por exemplo, as religiões que prescreveram o abandono do mundo e o ascetismo como método de salvação não podem fazer da salvação nem um objetivo da vida individual, nem um objetivo coletivo. Os seguidores de tais religiões acabaram sendo obrigados a separar a religião do mundo e a inventar métodos intermediários para a salvação das pessoas mundanas, como o serviço prestado pelos religiosos, a penitência e assim por diante. O resultado foi que esse objetivo deixou de ser um objetivo comum e unificado do indivíduo e da sociedade. Em segundo lugar, exceto por um número insignificante de religiosos, esse objetivo deixou de possuir, para toda a sociedade, qualquer grandeza, importância ou poder de atração capaz de preservá-lo intacto. Por isso, todas as pessoas mundanas o abandonaram e passaram a correr em direção ao objetivo material mencionado anteriormente. Por outro lado, entre as religiões que declararam a salvação dependente da satisfação de diversos deuses e divindades, não se mantém nenhuma unidade. Diferentes grupos inclinam-se para diferentes divindades, e a verdadeira unidade — cuja criação dentro do objetivo e cujo vínculo deveria reunir todos os seguidores constituem a verdadeira tarefa da cultura — deixa de existir. Assim, os seguidores dessas religiões também acabam necessitando adotar um objetivo diferente quando desejam avançar no caminho do desenvolvimento terreno e organizar solidamente a própria sociedade.

Há ainda outro tipo de religião, cujo chamado não se dirige a toda a humanidade, mas a uma determinada linhagem ou tribo, ou a um povo que vive em uma determinada região geográfica. Consequentemente, em sua perspectiva, a salvação é reservada exclusivamente a essa determinada tribo ou nação. Sem dúvida, esse objetivo pode transformar-se em um objetivo coletivo bem-sucedido nos estágios iniciais da civilização e da cultura. Mas também não passa completamente pelo critério do discernimento e da razão corretos. Sobretudo, a consciência e a razão humanas não aceitam a ideia de que a salvação esteja reservada a uma determinada tribo. Por isso, assim que avançam alguns passos no caminho do desenvolvimento racional, os seguidores de tais religiões rebelam-se contra esse objetivo, apagam-no do coração e adotam outro objetivo.

Em terceiro lugar, por mais sagrado que o objetivo da salvação possa parecer do ponto de vista religioso e espiritual, do ponto de vista terreno não há nele nada que possa inspirar uma nação e gerar a consciência, o entusiasmo, a força e a atividade necessários ao desenvolvimento nacional. É por isso que, até hoje, nenhuma nação empenhada no progresso o adotou como seu objetivo coletivo; ao contrário, entre as nações cuja religião apresentou apenas esse objetivo, ele sempre recebeu o status de objetivo individual.

Por todas essas razões, nem o objetivo material nem o espiritual passa completamente pelo critério de um padrão perfeito. Agora veremos que coisa a cultura islâmica declarou como seu objetivo e quais características dessa coisa a estabeleceram como um objetivo perfeito.

O objetivo da cultura islâmica e suas características:

Logo no início desta discussão, é necessário ter bem presente que a questão do objetivo da vida está, na realidade, profundamente relacionada à questão da filosofia de vida. A concepção que temos da vida terrena e a doutrina em que acreditamos acerca da nossa posição no mundo e da posição do mundo em relação a nós determinam naturalmente um objetivo para a vida e empregamos todas as nossas forças e capacidades no caminho para alcançá-lo. Se considerarmos o mundo um pasto e entendermos a vida apenas como uma oportunidade para obter satisfação por meio da comida, da bebida e dos prazeres terrenos, essa concepção biológica certamente despertará em nós um objetivo biológico para a vida, e passaremos a vida inteira tentando apenas reunir os meios de prazer dos sentidos. Por outro lado, se nos considerarmos pecadores por nascimento e pecadores por natureza, e, por causa desse pecado original, considerarmos este mundo uma prisão e um cárcere, despertará em nós o desejo de libertar-nos dessa condição de prisioneiros e, por essa razão, declararemos a salvação como nosso objetivo de vida. Mas, se a nossa concepção do mundo for superior à de um pasto ou de uma prisão, e se, como seres humanos, nos considerarmos superiores aos animais comuns e aos criminosos, então certamente buscaremos um objetivo superior tanto à procura de bens materiais de prazer quanto à obtenção da salvação, e nosso olhar não se fixará em nada trivial ou insignificante.

Tendo este princípio em mente, quando você perceber que o Islã declarou o ser humano califa de Allah e Seu representante na Terra, sua consciência e razão naturalmente chegarão ao objetivo que, de modo espontâneo, pode e deve surgir dessa visão de vida. Que outro objetivo pode ter um representante além de conquistar a satisfação e o agrado de seu senhor e ser considerado, aos olhos dele, um funcionário excelente, obediente, fiel e cumpridor de seus deveres? Se ele for sincero e bem-intencionado, poderá ter algum outro propósito além de obedecer às ordens de seu senhor e conquistar sua satisfação? Cumprirá ele seus deveres seduzido pela esperança de aumentar seu salário, obter algum benefício pessoal, conseguir uma promoção ou recompensa, ou elevar sua fama, prestígio e posição? Naturalmente, se o senhor, satisfeito, lhe conceder essas coisas, isso é outra questão. O senhor também pode prometer conceder-lhe tais coisas em troca de um serviço bem prestado; ele pode até saber que, se cumprir corretamente seus deveres, seu senhor, satisfeito, lhe dará determinadas recompensas. Mas, se ele fizer da recompensa seu próprio objetivo e cumprir seus deveres unicamente com a finalidade de obter vantagens pessoais, algum homem sensato poderia chamar tal funcionário de dedicado ao dever? Por meio desse exemplo, você também pode compreender a questão de Allah e de Seu representante. Quando o ser humano é representante de Allah na Terra, que outro objetivo de vida pode ter além de conquistar o agrado e a satisfação de Allah?

“Sim, aquele que se submeteu a Allah e praticou boas ações terá sua recompensa junto ao seu Senhor; para pessoas assim não haverá temor, nem elas ficarão jamais entristecidas.” — (Surata Al-Baqarah: 112)

“Sabei que é somente pela lembrança de Allah que os corações alcançam tranquilidade e segurança.” — (Surata Ar-Ra‘d: 28)

A segunda coisa que o ser humano deseja obter na vida terrena é o bem-estar, isto é, uma vida livre de preocupações e ansiedade. O Alcorão diz que, quando se crê em Allah, se evita Sua ira e se adota, por Sua causa, a piedade e a prática de boas ações, essa bênção também é alcançada naturalmente.

“Se os habitantes dessas cidades tivessem acreditado e adotado a piedade, teríamos aberto para eles as portas das bênçãos do céu e da terra.” — (Surata Al-A‘raf: 96)

“A quem praticar boas ações enquanto for crente — seja homem ou mulher — certamente concederemos uma vida confortável. E certamente lhes daremos uma recompensa muito melhor do que suas obras.” — (Surata An-Nahl: 97)

A terceira coisa mais desejada e almejada pelo ser humano é o Estado, o poder de governar, o domínio e a elevada posição. O Alcorão diz que, se vocês se dedicarem inteiramente a Allah, essa bênção virá por si mesma aos seus pés.

“Quem tomar Allah, Seu Mensageiro e os crentes como aliados terá ingressado no partido de Allah; e o partido de Allah certamente será vitorioso.” — (Surata Al-Ma’idah: 56)

“E escrevemos no Zabur, depois da exortação e da admoestação, que os Nossos servos virtuosos herdarão a Terra.”

“Allah prometeu àqueles dentre vós que creem e praticam boas ações que certamente lhes concederá o califado na Terra, assim como fez califas os que vieram antes deles. E certamente consolidará para eles a religião que escolheu para eles, e transformará o seu estado de medo em segurança.” — (Surata An-Nur: 55)

Do mesmo modo, a salvação na vida futura é algo ardentemente desejado pelo ser humano. A respeito disso, o Alcorão também afirma que ela é apenas o resultado da obtenção da satisfação de Allah:

“Ó alma tranquila, retorna ao teu Senhor, satisfeita com Ele e Ele satisfeito contigo. Entra, então, para o número dos Meus servos e ingressa no Meu Paraíso.” — (Surata Al-Fajr: 27–30)

Com isso, ficou claro que o Islã nem sequer voltou os olhos para tudo aquilo que os outros declararam desejável e almejável; pelo contrário, fez do objeto de seu objetivo justamente aquilo cuja obtenção faz com que todas essas coisas sejam alcançadas por si mesmas. Para o muçulmano, não é nem um pouco útil ocupar o coração, ainda que por um instante, na busca das coisas que os outros chamam de seus objetivos. Diante dele existe um objetivo grandioso, mais elevado e sublime do que todos esses objetivos e do que cada coisa do universo. Ele sabe muito bem que, quando alcançar esse objetivo supremo, obterá espontaneamente tudo o que está subordinado a ele. Assim como, ao subir ao andar mais alto de um edifício, os andares intermediários ficam sob os pés de quem sobe, o muçulmano, ao alcançar seu objetivo, depara-se exatamente com essa situação.

Seis: a taqwa é o melhor incentivo à prática do bem — Outra característica desse objetivo é que ele constitui a única meta nobre e pura capaz de incentivar as pessoas a observar o elevado padrão de piedade e prática do bem estabelecido pelo Islã, bem como as normas e proibições de justiça e injustiça que ele apresentou para esse fim.

Não faltam pessoas que afirmam que uma boa ação deve ser praticada simplesmente por ser uma boa ação, e que o mal deve ser rejeitado apenas por ser mal. Contudo, aqueles que dizem coisas desse tipo nem sequer conhecem seu verdadeiro significado. Praticar o bem simplesmente pelo bem significa que o bem não tem qualquer relação com benefício ou utilidade; o bem é bem, e justamente por isso pode ser desejado pelo ser humano. Do mesmo modo, abster-se do mal apenas por ser mal significa que, separado de todo dano e prejuízo, o mal seria mal por seu próprio caráter, como se fosse precisamente esse caráter que o tornasse rejeitável para o ser humano. Na realidade, porém, não existe para as pessoas do mundo uma boa ação absolutamente pura, livre de qualquer benefício e bem-estar que possa ser atribuído à pessoa humana. Tampouco existe um mal absolutamente puro, vazio de qualquer nocividade capaz de afetar a pessoa humana. A verdade é, antes, que a noção de bem e mal surgiu na mente humana da experiência do benefício e do dano, isto é, da utilidade e da nocividade. As pessoas chamam de boa a ação que realmente lhes traz algum benefício, mesmo que aparentemente contenha algum prejuízo. E chamam de má a ação que de fato lhes causa algum dano, mesmo que, à primeira vista, contenha alguma utilidade. Se retirarmos de uma ação as qualificações de benefício e dano, deixando-a apenas como uma ação, não poderemos classificá-la nem como boa nem como má. Sem dúvida, depois que o hábito de praticar o bem se fortalece e o ser humano alcança um nível intelectual mais elevado, pode tornar-se possível praticar o bem simplesmente pelo bem e abster-se do mal simplesmente por ser mal, mesmo libertando-se da noção de benefício e dano. Mas, em primeiro lugar, isso é apenas um esquecimento da origem do bem e do mal, não a eliminação dessa origem; em segundo lugar, é apenas uma ascensão ao céu imaginário dos filósofos — na prática, nem mesmo os grandes cientistas tiveram a felicidade de chegar a esse ponto. Como, então, pode o povo comum adotar como objetivo a prática do bem simplesmente pelo bem e a rejeição do mal simplesmente por ser mal?

Com isso, tornou-se evidente que a noção de bem e mal não pode ser separada da noção de benefício e dano. Enquanto não houver alguma utilidade benéfica contida numa boa ação, ela não poderá ser benéfica para o ser humano. Do mesmo modo, se não houver alguma nocividade oculta no mal, ele não poderá ser classificado como algo que deve ser rejeitado. Ora, se quisermos elevar a piedade e a prática do bem do nível insignificante do egoísmo ao elevado nível da abnegação e da sinceridade, e considerá-las a base de um princípio moral imparcial e universal, o melhor caminho será estabelecer um critério de benefício e dano superior ao materialismo e ao egoísmo. Com base nesse critério, uma boa ação, ainda que esteja repleta de todo tipo de prejuízo material e humano, aparecerá aos olhos das pessoas como puramente benéfica; e uma ação pecaminosa, ainda que seja benéfica sob todos os aspectos, será considerada puramente prejudicial. Foi esse o caminho adotado pelo Islã. Ele declarou que obter ou não obter a satisfação de Allah é o único critério de benefício e dano. Esse critério é completamente puro da imundície dos interesses materiais e egoístas. Segundo esse critério, uma pessoa virtuosa, mesmo sacrificando sua vida, seus bens, seus filhos, sua reputação, sua fama e tudo o mais pela satisfação de Allah, acredita que saiu beneficiada. Já uma pessoa malfazeja, mesmo depois de provocar a ira de Allah e obter todos os benefícios materiais e egoístas do mundo, teme estar em prejuízo. É isso que torna a pessoa indiferente aos ganhos e perdas mundanos e a incentiva a adotar, com espírito altruísta, a piedade e a prática do bem.

Até aqui, foram explicados dois pontos. Primeiro: que coisa o Islã declarou ser o objetivo da vida? Segundo: por que razões isso foi considerado um objetivo excelente? Agora devemos voltar nossa atenção para o terceiro aspecto dessa questão. Isto é: qual é o papel desse objetivo em dar à cultura islâmica a forma de uma cultura distinta e que posição especial ele concedeu a essa cultura?

A influência da definição do objetivo na determinação dos métodos

Já foi assinalada a verdade de que, em todos os assuntos da vida, assim como é indispensável definir um objetivo, também é indispensável determinar os meios para alcançá-lo. E os meios jamais podem ser determinados com base em algo que não seja sua relação com o objetivo. Se uma pessoa não tiver diante de si nenhum objetivo específico, além de simplesmente vagar, e passar apenas limpando a poeira das estradas, ruas e becos, nós a chamaremos de louca ou errante. E se, embora tenha um objetivo, ela não seguir nenhum método específico entre os diversos meios para alcançá-lo, mas estiver pronta a adotar qualquer método que lhe pareça conduzir ao seu objetivo, também a chamaremos de insensata. Pois, segundo a razão e o bom senso, uma pessoa que tenta chegar a determinado lugar por dez caminhos diferentes jamais alcançará seu destino. Do mesmo modo, se alguém declarar determinada coisa como seu objetivo e, para alcançá-la, adotar um método que siga na direção oposta, não o consideraremos inteligente. Ele se assemelha ao beduíno que, para chegar à Caaba, tomou o caminho do Turquestão. Portanto, para o sucesso real do ser humano, é necessário primeiro estabelecer um objetivo para a caminhada; depois, direcionar para esse objetivo todos os seus desejos, aspirações, esforços e empenhos; e, se houver vários caminhos para chegar ao destino, adotar entre eles o melhor método e abandonar todos os demais.

Essa aceitação e rejeição são inteiramente conformes à razão. O resultado da definição de um objetivo é que se deve adotar o método que tenha especial afinidade com esse objetivo e evitar todos os demais. Quando uma pessoa inteligente parte em viagem, segue pelo melhor caminho para chegar ao destino. Mesmo que durante a viagem encontre outros dez ou vinte caminhos, não lhes dá sequer atenção. O estudante inteligente adota, no caminho para alcançar seu objetivo, o ramo do conhecimento que mais o auxilia. Não gosta de gastar seu tempo em ramos que não tenham relação com ele. Para o comerciante inteligente e previdente, o método comercial considerado o melhor meio de alcançar o sucesso é aquele que ele adota para si. Ele considera insensatez investir capital em qualquer atividade ou empregar seu trabalho em qualquer profissão. Um crítico pode apenas opinar se o caminho seguido nessa aceitação e rejeição é ou não o melhor para alcançar o destino. Mas não é possível levantar objeção alguma contra a própria aceitação e rejeição.

Essa verdade se aplica tanto aos pormenores da vida quanto à vida inteira em seu conjunto. Se uma pessoa não tiver nenhum objetivo para sua vida, ou se seu objetivo for simplesmente viver para continuar viva, poderá adotar, para viver, qualquer método que desejar. Para ela, não fará absolutamente sentido distinguir, entre os diversos métodos, o bom do mau, o correto do incorreto e o excelente do inferior; poderá satisfazer seus desejos e necessidades como quiser. Ainda que as causas externas a obriguem, em certa medida, a seguir determinado método, elas não poderão fazê-la submeter toda a sua vida a qualquer ordem, disciplina e conjunto de normas. Pois não haverá nela nenhuma motivação fundamental para a ordem e a disciplina. Por outro lado, se tiver um objetivo para sua vida — ou, falando claramente, se em sua mente se consolidar um objetivo humano racional, acima do objetivo biológico inato da vida —, então certamente distinguirá entre os diversos métodos. E, se for de fato uma pessoa inteligente, deverá necessariamente adotar, entre os vários métodos de vida, aquele que for mais útil para alcançar seu objetivo. Depois de estabelecer um objetivo, de modo algum lhe será legítimo desfrutar, na escolha dos métodos, da mesma liberdade que uma pessoa sem objetivo.

Agora ampliemos um pouco esse princípio. Em vez de considerar o indivíduo, consideremos a sociedade: o mesmo princípio se aplica igualmente a muitas pessoas. Enquanto uma sociedade permanecer nos estágios iniciais da civilização e não tiver diante de si nenhum objetivo elevado ou mais elevado acima do objetivo biológico inato da vida, permanecerá tão livre em seus costumes e comportamentos quanto uma pessoa sem objetivo. Mas, quando, com o desenvolvimento gradual da razão e a chegada a um estágio mais elevado de civilização, nascer nela uma cultura e essa cultura estabelecer um objetivo racional para sua vida coletiva, torna-se absolutamente necessário, em função desse objetivo, elaborar um sistema específico para as crenças, concepções, transações, caráter moral, relações sociais, economia e outros aspectos; fazer com que os seguidores da cultura sigam esse sistema; e não conceder a ninguém, sob sua jurisdição, liberdade para adotar qualquer crença ou princípio de ação externo a ele.

A severidade absoluta na preservação de seu próprio sistema de normas é compatível com a própria natureza da cultura. A cultura cujos vínculos se tornarem frouxos nesse aspecto e cujo sistema de normas sofrer fraqueza e laxismo jamais poderá sobreviver. Pois a existência de uma cultura depende de que seus seguidores sigam as crenças e os métodos de ação que ela própria elaborou. Quando os seguidores não seguirem suas crenças e métodos de ação, e concepções, costumes, normas e práticas estranhos a esse sistema dominarem sua vida real, na prática não restará existência alguma da cultura. Portanto, é inteiramente justo que uma cultura exija de seus seguidores a observância do sistema que ela própria elaborou e exerça pressão para que rompam com outros sistemas externos. Um crítico pode, no máximo, discutir se seu objetivo é correto ou incorreto, julgar se esse método específico é adequado a tal objetivo ou opinar se, em todas as circunstâncias, é possível seguir esse sistema. Mas não pode de modo algum afirmar que a cultura em questão não tem o direito de exigir de seus seguidores a observância do sistema que ela própria elaborou.

Além disso, uma vez reconhecido o princípio de que o caminho e o método específicos determinados para a vida mental e prática dependem, na realidade, da natureza do objetivo, e de que a diversidade dos objetivos necessariamente implica a diversidade dos caminhos e métodos, também se deve admitir que as culturas cujos objetivos próprios diferem em direção terão inevitavelmente métodos práticos e doutrinários diferentes entre si. Pode haver semelhança entre algumas partes desses métodos, e certos pormenores de um método podem entrar em outro; mas, a partir dessas pequenas semelhanças, não se pode concluir que haja semelhança global, nem o empréstimo de alguns pormenores torna inevitável que todo o método tenha sido tomado de outro.

Deste princípio derivam ainda duas conclusões:

A primeira é que, para avaliar o método prático de uma cultura que adota um objetivo específico, não se pode tomar como padrão o método de uma cultura que adota um objetivo diferente. Em outras palavras, não é válido julgar esse método como correto ou incorreto simplesmente conforme ele se assemelhe ou não àquele outro método.

A segunda é que não se pode preservar uma cultura e, ao mesmo tempo, substituir seus métodos práticos e doutrinários pelos de outra. Tampouco é possível introduzir os órgãos fundamentais de um método em outro. Quem considera possível ou legítima uma mistura desse tipo desconhece os próprios princípios fundamentais da cultura e é incapaz de compreender seu temperamento e sua natureza.

Na configuração da cultura islâmica

O papel de seu objetivo fundamental

Depois de ter em mente essas considerações preliminares, pode-se compreender facilmente qual é o papel de seu objetivo fundamental em conferir à cultura islâmica a forma de uma cultura inteiramente distinta e singular. Foi explicado detalhadamente na discussão anterior que o objetivo de vida estabelecido pelo Islã é fundamentalmente diferente dos objetivos das outras religiões e culturas. Também foi demonstrado que, em consequência da diversidade dos objetivos, surgem diferenças fundamentais nos métodos da crença e da ação. Portanto, a conclusão lógica é que o objetivo do Islã lhe deu a forma de uma cultura singular, fundamentalmente diferente das demais culturas, e que há uma diferença fundamental entre seus métodos de crença e de prática e os outros métodos. Algumas partes desse método talvez também possam ser encontradas em outros métodos. Contudo, as partes que foram incorporadas nos outros métodos não estão incorporadas aqui da mesma maneira. Depois de ser incorporada a um método, uma parte perde sua natureza própria e assume a natureza do conjunto; e, quando a natureza de um conjunto difere da de outro, a natureza de cada uma de suas partes necessariamente será diferente da natureza das partes do outro, por maior que seja a semelhança entre a aparência externa de algumas partes de um e a de algumas partes do outro.

Já foi dito que o Islã declarou o ser humano representante de Allah na Terra e estabeleceu como objetivo de sua vida alcançar a satisfação do Grande Senhor de quem ele é representante. Como esse objetivo é o objetivo de toda a sua vida, todas as suas atividades devem voltar-se para ele; toda a força de seu corpo e de seu espírito deve ser empregada em seu caminho, e é necessário que esse objetivo exerça autoridade sobre seus pensamentos, imaginação, contemplação, concepções e movimentos. Sua vida e sua morte, seu sono e sua vigília, sua alimentação e sua bebida, suas transações, relações, amizades e inimizades, sua economia e sua vida social — em suma, tudo nele — deve ser dedicado a esse único objetivo. Além disso, esse objetivo deve exercer dentro dele uma influência tão forte e ativa que ele permaneça vivo e atuante justamente por causa dessa consciência vital. Agora se compreende claramente que quem adota tal objetivo para sua vida e vive precisamente para alcançá-lo jamais poderá viver como uma pessoa sem objetivo ou como alguém que adota um objetivo diferente. Esse objetivo, por sua própria natureza, transforma o ser humano em um trabalhador habilidoso e um servidor ativo: um trabalhador e servidor que vive apenas para alcançar o objetivo de sua vida.

Assim, depois de estabelecer esse objetivo, o Islã escolhe, entre os diversos caminhos para viver, um caminho específico e obriga a não desperdiçar o precioso tempo e a valiosa energia seguindo qualquer outro caminho além dele. De acordo com a natureza e a essência desse objetivo, estabelece um sistema distinto de crenças e práticas e exige das pessoas que, em nenhuma circunstância, ultrapassem os limites desse sistema específico. Declara diretamente que esse sistema específico é obediência e submissão, e por isso o denomina dīn, isto é, obediência e submissão. Diz: “A religião perante Allah é somente o Islã.”

Com base nesse dīn, o Islã traça uma linha de distinção entre seus seguidores e os que não o seguem. Aqueles que, de acordo com esse objetivo específico, seguem esse sistema são chamados de “muçulmanos” (submissos) e “crentes” (os que professam a fé). Já aqueles que não concordam com esse objetivo e não seguem esse sistema são declarados “kāfirs” (descrentes).¹ Ele elimina todas as distinções e discriminações de linhagem, tribo, nação, comunidade, língua, país e de todas as categorias semelhantes,

¹ Até no uso da palavra kāfir foi adotado um estilo linguístico extremamente elevado. Nos dicionários árabes, o significado original de “kufr” é ocultar. Por isso, a noite é chamada de kāfir, porque oculta as coisas; o agricultor também é chamado de kāfir, porque esconde a semente na terra; e a casca é chamada de kāfūr, porque mantém o fruto oculto dentro da semente. Assim, por analogia, ocultar uma dádiva e não agradecer foram chamados de “kufr” ou “kufrān”. O Islã declarou a palavra kufr como o oposto de īmān. Com isso, aponta-se para esta profunda verdade: aqueles que se recusam a aceitar o Islã, na realidade, cobrem sua própria natureza e disposição inatas.

Ele elimina, entre os filhos de Adão, todas as distinções, exceto esta única distinção entre “kufr” e “īmān”. Quem seguir esse sistema — seja do Oriente ou do Ocidente — é considerado próximo. Por outro lado, quem não seguir esse sistema — ainda que viva sob as próprias muralhas da Caaba, e ainda que seu sangue e sua carne sejam formados pelas tâmaras de Meca e pela água de Zamzam — não é considerado próximo.

Com base nessas crenças e práticas, assim como estabeleceu entre as pessoas a distinção entre “kufr” e “īmān”, também estabeleceu, nos modos de viver e entre todas as coisas do mundo, as distinções entre haram e halal, permitido e não permitido, makruh e mustahabb. As ações e costumes que ajudam a alcançar aquele objetivo e a cumprir a responsabilidade do califado são, conforme sua posição específica, halal, permitidos ou mustahabb. Já aqueles que constituem obstáculos e impedimentos nesse caminho são, conforme sua posição específica, haram, não permitidos ou makruh. O crente que respeita essa distinção é um “muttaqi” (piedoso), enquanto aquele que não a respeita é um “fāsiq” (transgressor). Entre os membros do partido de Allah, as diferenças entre grande e pequeno, elevado e inferior, não se estabelecem com base na riqueza, na nobreza de linhagem, na posição social ou na cor da pele, mas com base na “taqwā”.

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“Certamente, os mais honrados entre vós, perante Allah, são os que têm mais taqwā.” — (Surata Al-Hujurāt: 13)

Assim, em todos os aspectos da vida humana — concepções e ideias, pensamentos e imaginação, natureza e disposição, moral e caráter, economia, vida social, cultura, civilização, política e administração do Estado — o caminho da cultura islâmica torna-se completamente diferente do caminho das demais culturas. Isso ocorre porque a concepção islâmica da vida é inteiramente distinta da concepção das outras culturas. O objetivo que as demais culturas estabeleceram para a vida é de natureza diferente do objetivo do Islã. Portanto, o comportamento e os princípios de ação que o Islã adota, de acordo com sua concepção, em relação ao mundo e às coisas que nele existem, bem como o modo de agir que formula para alcançar seu objetivo na vida terrena, também diferem fundamentalmente do comportamento e do modo de agir adotados pelas demais culturas. Há muitos pensamentos e concepções da mente, muitos desejos e inclinações dos impulsos e muitos modos de viver cuja adoção, segundo a perspectiva de outras culturas, não é apenas legítima, mas às vezes absolutamente indispensável para a própria cultura. O Islã, porém, é obrigado a declarar alguns deles não permitidos, outros makruh e, em certos casos, haram. Isso porque eles são inteiramente compatíveis com a filosofia de vida dessas culturas e ajudam a alcançar seus objetivos vitais. Nada têm a ver, contudo, com a filosofia de vida islâmica ou constituem obstáculos ao alcance de seu objetivo vital. Como exemplo, pode-se dizer que, para muitas culturas do mundo, as belas-artes são como a própria alma, e as pessoas hábeis e talentosas nessas artes recebem o status de “heróis nacionais”. O Islã, porém, declara algumas delas haram, outras makruh e outras ainda permitidas apenas em certa medida. Suas leis permitem o amor à beleza e o desfrute da beleza artificial somente na medida em que a pessoa continue lembrando-se de Allah, trabalhando para alcançar Sua satisfação e cumprindo a responsabilidade do califado. Mas, quando esse amor à beleza se torna mais forte que o senso de responsabilidade; quando o excesso de prazer transforma a pessoa, em vez de adoradora de Allah, em adoradora da beleza; quando o gosto pelas belas-artes a embriaga com o amor ao luxo, ensurdece os ouvidos do coração à voz da consciência e já não conserva obediência e senso de responsabilidade suficientes para ouvir o chamado do dever, é precisamente nesse ponto que o Islã ergue a barreira do desprezo, da ilegalidade e da proibição. Por isso, seu objetivo não é criar Tansen, Bandadin, Mani, Behzad, Charlie Chaplin e Mary Pickford, mas criar Abu Bakr Siddiq (r.a.), Umar Faruq (r.a.), Ali ibn Abu Talib (r.a.), Husayn ibn Ali (r.a.) e Rabia Basri (r.a.).

Com a ajuda deste exemplo, pode-se inferir a situação em que se encontram a sociedade, a civilização e muitos outros aspectos. Particularmente no que diz respeito à relação entre mulheres e homens, ao tratamento dispensado aos ricos e aos pobres, à relação entre senhores e súditos e ao comportamento recíproco das demais classes humanas, o método indicado pelo Islã difere, em princípio, dos métodos desenvolvidos por todas as civilizações antigas e modernas. Fazer dos métodos seguidos por outras civilizações um padrão para avaliar o método adotado pelo Islã é, em si mesmo, um sinal de erro. Aqueles que procedem assim são extremamente superficiais e profundamente ignorantes da verdadeira realidade.

 

“Três”

Crenças fundamentais e concepções

1. O significado e a importância da fé

Depois da filosofia de vida e do objetivo da vida, surge agora diante de nós a terceira pergunta: sobre que fundamento o Islã reconstrói o caráter humano?

O caráter e seu fundamento psicológico

A mente é a fonte de todas as ações e atividades do ser humano. Como fonte das ações, a mente apresenta dois estados. O primeiro estado é aquele em que nenhuma forma específica de pensamento se fixa; pensamentos variados, fragmentados e dispersos continuam a penetrá-la, e aquele que for mais forte entre eles é o que impulsiona a ação. O segundo estado é aquele em que ela não permanece como campo de circulação de pensamentos dispersos; ao contrário, certos pensamentos específicos se enraízam tão firmemente em seu interior que toda a sua vida prática fica permanentemente sob sua influência, e, em vez de ações dispersas, realizam-se atividades organizadas e harmoniosas. O primeiro estado pode ser comparado a uma estrada principal: ela é livre e aberta a todo viajante. Nela, ninguém possui qualquer característica distintiva. O segundo estado é como um molde; de dentro dele sempre se fundem e saem objetos de uma forma e configuração determinadas. Quando a mente humana se encontra no primeiro estado, dizemos que a pessoa não tem caráter. Ela pode ser um demônio ou, desta vez, um anjo. Sua natureza contém disposições multiformes. Não há certeza sobre que tipo de atividade ela realizará em determinado momento. Por outro lado, se chegar ao segundo estado, dizemos que possui um caráter próprio. Sua vida prática tem ordem, disciplina e continuidade. Além disso, pode-se afirmar com segurança que ação realizará em cada situação.

A primeira condição da disciplina das ações:

Disso se compreende que, na vida prática do ser humano, a adoção de uma ordem e disciplina confiáveis depende da formação de um caráter definido. E, para formar tal caráter, sua mente deve estar livre da confusão de pensamentos; certas ideias específicas devem estar firmemente arraigadas nela; e essas ideias devem adquirir tal estabilidade, firmeza e inflexibilidade que nenhum outro pensamento possa penetrar e causar confusão em seu mundo interior. Quanto mais profundamente essas ideias estiverem enraizadas, tanto mais forte será o caráter, e tanto mais organizada, harmoniosa e confiável será a vida prática do ser humano. Por outro lado, quanto maior for a fraqueza nesse aspecto e quanto mais espaço houver para pensamentos contrários abrirem caminho, tanto mais fraco será o caráter, e a vida prática se tornará igualmente desordenada e não confiável.

O significado do iman:

Na linguagem do Alcorão, essa base mental do caráter é chamada de “iman”. A palavra “iman” deriva da raiz “amn” (*******). O significado original de “amn” é alcançar a tranquilidade e a ausência de medo da alma. Dessa mesma raiz formou-se “amanat”, palavra oposta a traição. Ou seja, aquilo em relação ao qual não há temor de traição é amanat. Amin é chamado assim porque o coração se sente seguro quanto à sua boa conduta e confia que ele não agirá mal. Da mesma forma, o camelo que é dócil e obediente é chamado de amun (***), pois não há temor de que ele desobedeça ou cause dano. Dessa mesma raiz surge ainda outra forma, “iman” (****). Seu significado é que uma ideia deve ser firmemente arraigada na mente, com profunda convicção e certeza, de tal modo que não reste sequer o receio de que algo contrário a ela encontre um caminho e penetre. A fraqueza do iman significa que a mente ainda não está plenamente convencida dessa ideia, que o coração ainda não alcançou completa tranquilidade; ao contrário, ainda existe a possibilidade de que uma ideia oposta penetre na mente. Como resultado, o caráter se enfraqueceu, e isso causou desordem na vida prática. A força e a firmeza do iman são o oposto disso. Um iman sólido significa que o caráter foi estabelecido sobre uma base precisamente firme e segura. Então pode-se confiar que os pensamentos e ideias arraigados na mente, pelos quais se moldou o caráter, orientarão exatamente as ações práticas.

O lugar do iman na construção dos fundamentos da cultura:

Se diferentes pessoas tiverem iman em diferentes tipos de crenças e ideias, e seus caracteres estiverem estabelecidos sobre fundamentos diversos e mutuamente contraditórios, nenhuma organização social ou coletiva poderá ser formada. Seu exemplo é como o de muitas pedras espalhadas por um campo: cada pedra possui, sem dúvida, sua própria solidez, mas não há entre elas nenhum elo de ligação. Por outro lado, se uma visão de mundo indivisa se enraizar como iman na mente de grande número de pessoas, esse vínculo de unidade do iman as transformará em uma nação — assim como, quando essas pedras dispersas são unidas com cal, argamassa e cimento, ergue-se uma parede sólida. Então começarão entre elas o auxílio e a cooperação adequados, e, como resultado, o ritmo de seu progresso se tornará cada vez mais rápido. Esse tipo de iman criará harmonia em seu caráter e similitude em suas ações práticas. Como consequência, uma civilização específica triunfará, uma cultura distinta surgirá, uma nova nação se erguerá e construirá o edifício da cultura segundo um novo método.

Desta discussão compreende-se que a importância, em uma cultura, das ideias fundamentais que se enraízam como iman entre seus seguidores é extremamente ampla e duradoura.

Há dois tipos de iman:

Agora precisamos observar como se apresenta a condição das diversas culturas do mundo sob o aspecto do iman. A palavra iman é, na realidade, um termo religioso. Mas, como aqui a usamos no sentido de uma visão de mundo fundamental, nesse sentido ela pode ser dividida em duas categorias. Uma é de natureza religiosa; a outra, de natureza mundana. O iman de natureza religiosa pode ser a base fundamental somente de uma cultura fundada na religião, pois, nesse caso, o mesmo iman exerce autoridade tanto no âmbito da religião quanto no do mundo. Porém, numa cultura que não se baseia na religião, o iman mundano se separa do iman religioso, e este não exerce influência alguma na vida individual e nacional.

Fé religiosa:

A fé religiosa geralmente se compõe de determinados elementos que edificam o caráter humano sobre bases espirituais e morais. Por exemplo, uma ou mais divindades dotadas de qualidades excelsas, livros reconhecidos como de origem divina e os ensinamentos, normas e princípios dos líderes religiosos, sobre os quais se fundamentam a convicção e a ação. Deixando de lado a perspectiva religiosa, e considerando a questão apenas do ponto de vista mundano, o êxito desse tipo de fé depende de duas coisas. A primeira é que os temas que a religião apresenta como verdadeiros e em relação aos quais exige convicção devem ser verdadeiros à luz da razão e do discernimento. A segunda é que esses temas devem ser concebidos de tal maneira que, com base neles, o caráter humano possa ser adequadamente reconstruído. Ou seja, o caráter deve ser formado de modo que sua espiritualidade estabeleça as bases de uma ordem moral elevada e que seu caráter moral, além de sua própria pureza e integridade, torne a pessoa apta a alcançar sucesso e realização também na vida mundana.

A primeira condição é necessária porque, se a fé for apenas um conjunto de superstições, ou se nela houver muitas superstições e pouca razão, sua predominância na mente humana ficará inteiramente sujeita à influência da ignorância e da insensatez. Assim que o conhecimento e a inteligência humanos começarem a avançar em direção a estágios mais elevados de desenvolvimento, começará a dissipar-se o encantamento pelas superstições falsas, a base da fé começará a tremer e, com isso, todo o sistema sobre o qual haviam sido edificados os fundamentos do caráter individual e nacional, espiritual e moral, será despedaçado. Como exemplo, podemos mencionar as concepções e crenças que várias religiões baseadas no shirk apresentam sobre deuses e deusas, divindades, Alá e líderes religiosos. Os atributos com que eles foram dotados, os atos que lhes foram atribuídos e as histórias compostas a seu respeito são rejeitados pela consciência e pela razão imparciais, que se recusam a aceitá-los como verdadeiros e a depositar fé neles. Frequentemente se vê também que a nação que acredita nessas coisas se torna incapaz de alcançar desenvolvimento e progresso no mundo. As superstições falsas exercem uma influência tão nociva sobre sua mente que até suas melhores energias de ação ficam completamente paralisadas. Sob sua inspiração, não nasce grandeza, nem há firmeza nas resoluções. Seu olhar não ganha amplitude, seu cérebro não recebe luz e seu coração não adquire coragem virtuosa. Por fim, isso se torna para aquela nação a causa de pobreza permanente, humilhação, inutilidade e escravidão. Em contrapartida, as nações entre as quais se abre o caminho do progresso, à medida que avançam em conhecimento e inteligência, vão perdendo cada vez mais a fé em seu próprio Senhor, nas divindades e nos líderes religiosos. No início, naturalmente, tenta-se manter aquela fé equivocada, apesar das grandes dificuldades, apenas em nome da segurança da organização social. Mas, pouco a pouco, a mente e o intelecto se rebelam contra ela com tamanha intensidade que, por fim, não resta no espírito da nação nenhum vínculo com essas crenças. Elas são deixadas a um pequeno grupo espiritual, para uma fé genuína ou profissional nelas. No coração e na mente do restante da nação inteira, porém, instala-se o domínio de um tipo diferente de fé — aquela que chamamos de fé mundana.

A necessidade da segunda condição é absolutamente evidente. A fé que não consegue preparar as pessoas para alcançar êxito na vida mundana limita sua influência à vida moral e espiritual, sem conseguir alcançar a vida material. Quanto às consequências, há também duas possibilidades. Ou a nação que acredita nessas coisas não alcançará nenhum progresso; ou, mesmo que progrida, libertar-se-á muito rapidamente dos grilhões delas, e a fé religiosa cederá lugar à fé cultural. Quando a atividade da nação nos esforços da vida material aumentar, ela se libertará da influência da moralidade, da espiritualidade e da fé religiosa.

Não desejo deliberadamente procurar defeitos em nenhuma religião. Por isso, não farei aqui uma discussão detalhada sobre as convicções das diversas religiões. Se examinarem atentamente as religiões do mundo, certamente perceberão como a fé das diversas religiões impediu seus seguidores de alcançar progresso na vida mundana e como elas não conseguiram acompanhar o desenvolvimento do conhecimento e da inteligência. Além disso, verão também que as outras nações conservaram a fé em suas questões religiosas durante seus períodos de declínio e as abandonaram durante seus períodos de ascensão. Já o muçulmano foi mais firme em sua fé precisamente quando era mais desenvolvido e avançado no mundo. E, quando ficou para trás em conhecimento, inteligência e progresso material, e outras nações o subjugaram, foi justamente então que sua fé começou a enfraquecer. Hoje os muçulmanos se encontram em extremo declínio e, ao mesmo tempo, estão gravemente acometidos pela doença da fraqueza da fé. Mas, há cerca de mil e duzentos anos, encontravam-se no ápice do progresso e, ao mesmo tempo, eram extremamente firmes em sua fé. Por outro lado, quando os cristãos da Europa e os budistas do Japão eram verdadeiramente cristãos e budistas, encontravam-se no mais elevado grau de decadência. E, quando alcançaram desenvolvimento e progresso, já não conservaram fé no cristianismo e no budismo. Na realidade, esta é uma diferença tão clara entre a fé do Islã e a fé das demais religiões que qualquer pessoa inteligente e perspicaz pode compreendê-la sem dificuldade.

Fé mundana

Voltemos agora nossa atenção para os elementos que chamamos de fé mundana. Não há nela nenhum elemento religioso. Aqui não há Deus nem líder religioso; não há livro de origem divina, nem ensinamentos capazes de formar o caráter humano sobre bases morais e espirituais. Trata-se de uma questão puramente mundana.

O maior elemento entre eles é a “nação”. As pessoas que vivem dentro de uma determinada fronteira geográfica fazem dela uma divindade e a adoram com total devoção e concentração. Nesse sentido, todos os “adoradores da nação” professam a fé de que a nação é dona de seus bens e de suas vidas; servi-la é um dever obrigatório, e sacrificar por ela o corpo, a mente, os bens e a vida é uma grande felicidade. Não apenas isso: eles também acreditam que somente sua nação está do lado da verdade, que somente eles são herdeiros e legítimos reivindicadores da terra, que todas as terras do mundo são espólios de guerra destinados a eles e que todas as demais nações são semelhantes a prisioneiros de guerra. Por isso, é dever de cada indivíduo hastear a bandeira de sua própria nação em todo o mundo.

A segunda divindade são as “leis e regulamentos” do país. Eles próprios os elaboram e também eles próprios os adoram. Essa adoração é o que garante a ordem e a disciplina social e coletiva deles.

A terceira divindade é o seu próprio “nafs”, ou seja, suas inclinações. Eles estão sempre atentos a alimentá-lo, satisfazer seus desejos e necessidades e realizar suas exigências e aspirações.

A quarta divindade é o “conhecimento” e a “sabedoria” (ilm e hikmat). Depositando fé neles, avançam no caminho do progresso e do desenvolvimento, sob sua luz e orientação.

Essa fé é certamente benéfica em certa medida para a vida terrena. Mas, mesmo deixando de lado a questão de qual seja seu valor do ponto de vista da verdade e da honestidade, pode-se dizer, até mesmo sob uma perspectiva puramente terrena, que seu benefício não é nem genuíno nem duradouro. Seu maior defeito é não conter nenhum elemento espiritual ou moral; por isso, assim que os vínculos da religião se enfraquecem, abre-se a porta para a degeneração moral. Além disso, não é função da lei criar consciência moral no coração das pessoas nem estabelecer, de fato, qualquer padrão de moralidade. Tampouco existe nela força capaz de preservar a moralidade na vida individual e social. Sua influência e seu campo de ação são muito limitados. Particularmente no caso de leis e regulamentos elaborados pelas próprias pessoas, sua impotência nesse aspecto torna-se ainda mais evidente. Por isso, afrouxar e restringir os vínculos de uma lei desse tipo depende inteiramente da vontade das pessoas; quanto mais cresce entre elas o desejo de liberdade de ação, mais os antigos vínculos morais lhes parecem restritivos e insuportáveis. E, quando esse sentimento em relação aos vínculos morais se torna generalizado, a lei é naturalmente obrigada, sob a pressão da opinião pública, a afrouxar seus próprios vínculos. Desse modo, pouco a pouco, todos os vínculos da moralidade se desfazem e começa uma ampla decadência moral. A decadência moral é algo cujo efeito destrutivo não pode ser contido nem pela abundância de riquezas, nem pelo poder do Estado, nem pelos recursos materiais, nem pelo conhecimento e pela razão. Essa corrosão começa a agir por dentro e derruba até mesmo o edifício mais sólido, com toda a sua ornamentação.

Além disso, os demais malefícios do culto à nação e do culto ao próprio eu são tão evidentes que não há necessidade de descrevê-los minuciosa e extensamente. Hoje, para compreendê-los, já não é necessária qualquer discussão ou reflexão. Isso porque eles ultrapassaram a condição de meras doutrinas e chegaram ao nível da experiência e da observação. Hoje podemos ver com nossos próprios olhos que, por causa deles, uma grande civilização chegou à beira da destruição e da ruína. Isso é o resultado inevitável de tudo aquilo cuja manifestação concreta hoje enche o mundo inteiro de medo e terror.

Alguns princípios gerais

De toda essa discussão, estabelecem-se alguns princípios gerais. Antes de prosseguir para a discussão seguinte, é necessário gravá-los firmemente no coração, em sua correta sequência e relação mútua.

Um: a ordem e a coesão de todas as atividades humanas dependem da formação de um caráter estável e definido. Sem um caráter estável, a vida prática do ser humano permanece desordenada, mutável e pouco confiável.

Dois: É sobre as ideias que se enraízam profundamente na mente humana, com toda a força, e adquirem tal predominância que passam a dirigir toda a sua energia de ação sob a própria influência, que se estabelece a base do caráter. Na terminologia islâmica, esse enraizamento é chamado de “fé” (iman), e chamamos de “imaniyat” todas as ideias assim enraizadas.

Três: O bom e o mau, o correto e o incorreto, o forte e o fraco do caráter dependem inteiramente da correção e da firmeza desses assuntos da “imaniyat”, isto é, da fé. Se eles forem corretos, o caráter também será correto; se forem firmes, o caráter também será firme. Caso contrário, a situação será exatamente o oposto. Portanto, para estabelecer na vida humana uma ordem correta e de alto nível, é indispensável fundamentar seu caráter em uma fé impecável e sólida.

Quatro: Assim como a fé é necessária para libertar as atividades da vida individual do domínio da dispersão e torná-las integradas e disciplinadas, também é indispensável enraizar firmemente essa fé indivisa no coração de todos, para resgatar muitas pessoas da desunião e do isolamento e formar uma sociedade bem-ordenada e coesa. A sociedade e a civilização assim o exigem.

Cinco: Quando, sob a influência de uma fé indivisa, se forma entre muitas pessoas um caráter nacional indiviso e, pela influência desse caráter, surge certa semelhança nas atividades de sua vida, então nasce uma cultura de determinado tipo e natureza. Sob esse ponto de vista, em toda cultura, os assuntos da fé que determinam e consolidam a organização, a fundação e o caráter nacional exercem uma influência extremamente poderosa.

Seis: Para uma nação cuja fé integra assuntos espirituais, sua religião e sua cultura são uma só e a mesma coisa. Já para uma nação cuja fé integra assuntos mundanos, sua cultura permanece separada de sua religião. Nessa última situação, a religião não conserva nenhuma influência especial na vida individual e nacional.

Sete: A separação da cultura em relação à religião acaba tornando-se causa de decadência moral e destruição.

Oito: Para que a cultura permaneça sob a influência da religião, a “imaniyat” da religião deve integrar assuntos espirituais capazes de auxiliar o desenvolvimento intelectual humano desde o nível mais comum até o mais elevado. Ao mesmo tempo, o caráter humano deve ser formado por meio de elementos que lhe permitam ser simultaneamente uma pessoa de elevada devoção religiosa e de elevada atuação no mundo. Na verdade, sua vida mundana deve transformar-se precisamente em vida religiosa, e sua vida religiosa, precisamente em vida mundana.

Nove: Para uma nação cuja religião e cultura são uma só e a mesma coisa, sua fé não é apenas uma fé religiosa; é também, simultaneamente, uma fé mundana. Portanto, o abalo de sua fé é fatal tanto para sua religião quanto para sua cultura, e destrutivo tanto para sua vida religiosa quanto para sua vida mundana.

É à luz desses princípios gerais que devemos lançar um olhar crítico sobre o papel do Islã em relação à fé.

Depois de analisarmos o significado da fé, sua importância fundamental no caráter individual e seu papel essencial na cultura social e abrangente, vejamos agora: a que coisas o Islã convocou as pessoas a dedicar sua fé? Em que medida seus elementos de fé passam pelo crivo da crítica racional? Qual é o papel da fé em seu modo de vida? E em que medida ela influencia o caráter individual e o caráter coletivo das pessoas?

 

2. Os objetos da fé no Islã

No Alcorão Sagrado, o tema da fé foi discutido de maneira tão abrangente que não há espaço para qualquer divergência a seu respeito. Entretanto, entre aqueles que não compreenderam o estilo do discurso do Alcorão ou não foram capazes de acompanhar o tema de sua mensagem, surgiu certa concepção equivocada. O estilo do discurso corânico é tal que, em alguns lugares, ele apresenta toda a doutrina de uma só vez; em outros, conforme o tempo e a ocasião, apresenta algumas de suas partes e dá ênfase a elas. Por causa disso, algumas pessoas passaram a pensar que a doutrina islâmica pode ser particularizada e dividida. Isto é, que seria suficiente ter fé em um ou em alguns de seus elementos, e que a pessoa poderia alcançar a salvação mesmo negando outros. Contudo, a decisão definitiva do Alcorão é que é necessário aceitar tudo aquilo que ele apresentou como elementos da doutrina. De modo algum se pode separar um deles dos demais. Todos eles, juntos, constituem uma realidade única e indivisível, e é dever aceitá-la em sua totalidade. Se alguém negar qualquer um deles, essa negação invalidará a aceitação de todos os restantes.

Em uma passagem do Alcorão, foi dito:

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“Certamente, sobre aqueles que dizem: ‘Nosso Senhor é Allah’, e depois permanecem firmes, descem os anjos.” (Surata Ha-Mim as-Sajdah: 30)

Neste versículo, menciona-se apenas a fé em Allah, e declara-se que o sucesso neste mundo e no Além depende dela.

Em outro lugar, o Último Dia também é mencionado juntamente com Allah:

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“Para aqueles que creem em Allah e no Último Dia e praticam boas ações, haverá recompensa junto ao seu Senhor.” (Surata Al-Baqara: 62)

O mesmo conteúdo também se encontra em Al Imran (12), Al-Maida (10) e Ar-Ra’d (4).

Num terceiro lugar, é feito o convite a crer em Allah e no Mensageiro:

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“Portanto, crede em Allah e em Seus Mensageiros. Se crerdes e adotardes a taqwa, haverá para vós uma grande recompensa.” (Surata Al Imran: 179)

Uma declaração semelhante também se encontra em Al-Hadid (4).

Em outro lugar, aquele que crê em Allah e em Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é chamado de crente:

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“Certamente, são crentes aqueles que creem em Allah e em Seu Mensageiro.” (Surata An-Nur: 62)

Em Muhammad (4), Al-Jinn (2) e Al-Fath (2), este mesmo tema é reiterado.

Em um lugar, é ordenado que se creia nestas três coisas: Allah, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e o Alcorão:

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“Portanto, crede em Allah, em Seu Mensageiro e na luz (o Alcorão) que fizemos descer.” (Surata At-Taghabun: 8)

Em um lugar, são mencionadas estas quatro coisas: Allah, o Livro de Allah, o Alcorão e o Último Dia:

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“E os crentes creem no que foi revelado a ti e no que foi revelado antes de ti… e creem em Allah e no Último Dia.” (Sura An-Nissá: 162)

Em outro lugar, a descrença em Allah, nos anjos, nos profetas e no Alcorão foi declarada kufr e fisq:

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“Aqueles que são inimigos de Allah, de Seus anjos, de Seus mensageiros, de Gabriel e de Miguel, saibam que Allah é inimigo dos incrédulos. E certamente revelamos a ti versículos claros; ninguém os rejeita, exceto os perversos.” (Sura Al-Baqara: 98–99)

Em um lugar, aquele que crê em Allah, nos anjos, no Livro de Allah, nos profetas e no Alcorão é chamado de mu’min:

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“O Mensageiro creu no que lhe foi revelado por seu Senhor, e os crentes também. Todos creram em Allah, em Seus anjos, em Seus Livros e em Seus mensageiros.” (Sura Al-Baqara: 285)

Em outro lugar, são mencionados os cinco elementos da fé: a fé em Allah, no Último Dia, nos anjos, no Livro de Allah e nos profetas.

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“Ao contrário, a verdadeira piedade consiste em que a pessoa creia em Allah, no Último Dia, nos anjos, no Livro revelado por Allah e em Seus profetas, com devoção e sinceridade. Na verdade, estes são os verdadeiramente sinceros; estes são os tementes a Allah.” (Surata Al-Baqarah: 177)

Além dos cinco pontos mencionados na surata, também foi enfatizada a necessidade de crer em Muhammad (que a paz esteja com ele) e no Alcorão; e aquele que mantém a descrença em qualquer um deles foi chamado de kafir e desviado.

Em um lugar, deu-se importância apenas à afirmação do Último Dia, e foi declarado que negá-lo é causa de fracasso.

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Há uma repetição disso em Al-A’raf (17), Yunus (1), Al-Furqan (2), An-Naml (1) e As-Saffat (1).

Em outro lugar, a descrença no Livro de Allah, juntamente com a descrença no Último Dia, foi apontada como causa do mais severo castigo:

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“Eles não esperavam qualquer prestação de contas e negavam os Nossos versículos, considerando-os completamente falsos”.

(Surata An-Naba: 27)

Em um terceiro lugar, o Último Dia e o Alcorão também foram incluídos nos fundamentos da fé, juntamente com o Livro de Allah.

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“Creem no Livro que foi revelado a ti (isto é, o Alcorão) e nos livros que foram revelados antes de ti, e têm firme convicção na Vida Futura. Na verdade, são essas pessoas que seguem o sistema de vida revelado por Allah e são elas que têm direito à prosperidade.”

(Surata Al-Baqarah: 4–5)

Em um quarto lugar, foi dito que, devido à descrença no Último Dia, no Livro de Allah e nos profetas, todas as ações se tornam vãs. Tal pessoa descrente está destinada ao Inferno, e seu ‘amal’ não tem qualquer valor.

Acima, mencionou-se repetidamente a necessidade de crer no Livro de Allah, e foram citados explicitamente a Torá, o Evangelho, os Salmos e as Folhas de Abraão. Contudo, em vinte passagens do Alcorão também foi declarado claramente que não basta crer apenas nesses Livros; é igualmente necessário crer no Alcorão. Se alguém crer em todos os Livros, mas descrer do Alcorão, será um incrédulo, tal como aquele que descrê de todos os Livros.

[Nota: Al-Baqarah (11, 12, 14, 16), An-Nisa (7), Al-Ma’idah (2–10), Ar-Ra’d (3), Al-‘Ankabut (5) e Az-Zumar (4)]

Não somente isso: é obrigatório crer em cada Livro enviado por Allah.

“Se alguém crer em uma parte dele e não crer em outra, também será um incrédulo.”

(Surata Al-Baqarah — 10)

Da mesma forma, foi declarado claramente a respeito dos profetas que é necessário crer em todos eles. Deve-se crer individualmente naqueles cujos nomes foram mencionados e, de modo geral, naqueles cujos nomes não foram mencionados. Porém, se alguém crer em todos os profetas, mas descrer apenas da missão profética de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), será certamente um incrédulo. Isso foi declarado no Alcorão não em uma única passagem, mas em vinte, e o reconhecimento da missão profética de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), juntamente com a de todos os profetas, foi estabelecido como condição necessária da fé.

[Nota: Al-Baqarah (14), An-Nisa (23), Al-Ma’idah (3–11), Al-An’am (19), Al-A’raf (19–20), Al-Anfal (3), Al-Mu’minun (4), Ash-Shura (5), Muhammad (1) e At-Talaq (2)] Na maioria das passagens contidas nessas suratas, os seguidores de Moisés e de Jesus são convocados a crer no Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e é dito que não poderão alcançar a orientação enquanto não crerem no teu Alcorão e em Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Desta discussão, ficou claro que, no Islã, os objetos da fé são cinco: (1) Allah; (2) os anjos; (3) o Livro de Allah (que inclui também o Alcorão); (4) os profetas [incluindo o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)]; (5) o Último Dia, isto é, a Ressurreição.

Esta é uma apresentação geral da fé. O que é a crença detalhada em cada um de seus elementos, qual é a relação mútua entre eles, por que não podem ser separados, como a rejeição de um inevitavelmente resulta na rejeição de todos e qual é o benefício de incluir cada um deles entre os artigos da fé — tudo isso será explicado adiante.

Crítica racionalista

Essas cinco convicções pertencem todas ao domínio do invisível e situam-se completamente fora do mundo material. Por isso, segundo a nossa classificação, são convicções religiosas e espirituais. Sua característica, porém, é que o Islã não estabeleceu sobre elas apenas o seu sistema espiritual, mas também os fundamentos de seu sistema moral, político e civilizacional. Ao combinar a religião e o mundo, ele elaborou um sistema sob o qual todos os aspectos e setores da vida humana podem funcionar. Toda a força necessária para estabelecer, consolidar e aplicar esse sistema é obtida dessas cinco convicções. Elas constituem uma fonte inesgotável de força para ele; seu fluxo jamais é interrompido. Agora veremos em que medida, do ponto de vista da razão, a fé por meio da qual uma obra tão grandiosa foi realizada merece reconhecimento e quão apta ela é para servir de fundamento e fonte de força para um sistema tão amplo e progressista.

Antes de buscar a resposta a essa pergunta, devemos gravar firmemente em nossa mente que o Islã deseja construir os fundamentos de uma cultura verdadeiramente humana. Isto é, sua relação não é com os habitantes de um país ou tribo específicos, nem possui uma particularidade ligada a uma raça ou a um povo de determinada língua; ao contrário, seu objetivo é o bem-estar de toda a humanidade. Além disso, deseja estabelecer, sob sua influência, um sistema social no qual tudo o que é benéfico e vantajoso para as pessoas seja cultivado, e tudo o que lhes seja prejudicial e nocivo seja eliminado. Os fundamentos de uma cultura tão genuinamente humana não podem ser estabelecidos sobre crenças relacionadas ao mundo material. Pois há duas situações possíveis quanto às substâncias materiais e às coisas perceptíveis pelos sentidos: ou a relação de todas as pessoas com elas é igual — como no caso do sol, da lua, da terra, do ar, da luz etc. — ou a relação de todas as pessoas com elas não é igual — como no caso do país, da tribo, da raça e da língua etc. Entre as coisas da primeira categoria, não há sequer algo que possa ser objeto de fé, pois crer na existência delas é simplesmente sem sentido; e acreditar que exercem alguma influência intencional sobre o bem-estar humano é, do ponto de vista do conhecimento e do bom senso, um erro. Além disso, a fé nelas não produz benefício algum na vida moral, espiritual ou prática das pessoas, sob qualquer aspecto. Restam então as coisas da segunda categoria. É evidente que elas não podem servir de fundamento para uma cultura humana mais ampla, pois são fruto da discriminação e do espírito de distinção, não da unidade ou da unicidade. Portanto, é absolutamente indispensável estabelecer os fundamentos de uma cultura desse tipo sobre objetos de fé distintos das substâncias materiais e das coisas perceptíveis pelos sentidos.

Mas não basta que elas sejam distintas das substâncias materiais e das coisas perceptíveis pelos sentidos; é necessário também que possuam algumas outras características.

Primeiro: não serão supersticiosas nem irracionais; ao contrário, a razão saudável estará inclinada a reconhecer sua veracidade.

Segundo: não serão coisas distantes; ao contrário, estarão profundamente relacionadas com a nossa vida.

Terceiro: conterão uma força latente tal que o sistema cultural poderá obter delas pleno auxílio para exercer domínio sobre o pensamento e a capacidade de ação das pessoas.

Sob essa perspectiva, ao examinarmos as questões da fé islâmica, podemos constatar que ela é plenamente aprovada nesses três testes.

Em primeiro lugar, não há nada de irracional na concepção que o Islã apresenta acerca de Deus, dos anjos, da revelação, da profecia e da vida após a morte. Não é de modo algum impossível que qualquer uma dessas coisas seja verdadeira. E a sã razão jamais se recusa a aceitar qualquer uma de suas afirmações. É claro que o intelecto não pode determinar os limites dessas coisas, alcançar suas extremidades nem compreender plenamente seu significado profundo; disso não há dúvida. Mas todos os objetos cuja existência nossos eruditos e cientistas provaram até hoje encontram-se exatamente na mesma situação. Não admitimos a existência da energia, da vida, da gravidade, da evolução e de outras coisas semelhantes por termos compreendido plenamente seu significado profundo. Pelo contrário, admitimo-la porque, em nossa opinião, é necessário que essas coisas existam para explicar as causas e os fatores fundamentais dos diversos fenômenos específicos que observamos. E as teorias que formulamos acerca da organização invisível das coisas visíveis também exigem que essas coisas existam. Portanto, para reconhecer a veracidade das coisas invisíveis nas quais o Islã exige que creiamos, não é necessário que nosso intelecto compreenda plenamente seu significado oculto nem que determine seus limites; basta compreender, como argumento, apenas isto: que a natureza do universo e

a concepção ideológica que o Islã apresenta acerca do ser humano não é de modo algum irracional; sua correção é evidente, e ela exige a existência das cinco coisas da fé apresentadas pelo Islã.

A concepção islâmica é a seguinte: primeiro: toda a ordem e regularidade da natureza do universo foi estabelecida por um Poder Soberano, e foi Ele quem a governa. Segundo: sob a autoridade desse Poder Soberano, inúmeras forças de outra categoria supervisionam a natureza do universo de acordo com Suas ordens. Terceiro: o Criador do ser humano colocou em sua natureza duas tendências, para o bem e para o mal; a inteligência e a tolice, o conhecimento e a ignorância, foram reunidos dentro dele. Ele pode seguir tanto o caminho certo quanto o errado. Entre essas forças opostas e tendências de diferentes tipos, aquela que prevalece faz com que o ser humano passe a segui-la. Quarto: para auxiliar as tendências boas nesse conflito entre o bem e o mal e guiar o ser humano pelo caminho reto, seu Criador escolhe, dentre a própria humanidade, uma pessoa excelente, concede-lhe conhecimento infalível e encarrega-a de guiar as pessoas pelo caminho correto. Quinto: o ser humano não é uma criatura sem responsabilidade nem sem prestação de contas. Ele é obrigado a responder diante de seu Criador por todos os seus atos voluntários. Um dia terá de prestar contas de cada átomo e experimentará o resultado, bom ou mau, de seus próprios atos.

Essa concepção exige a existência das cinco coisas: Deus, os anjos, a revelação, a profecia e o Dia do Juízo Final. Nenhuma de suas afirmações é irreal do ponto de vista da razão. Nenhuma dessas coisas pode ser classificada como superstição ou crença irracional. E quanto mais refletimos sobre isso, mais cresce nosso interesse por sua veracidade.

Talvez não consigamos compreender plenamente o significado de Deus, mas não temos como deixar de reconhecer Sua existência. Trata-se de uma necessidade tal que, sem ela, é absolutamente impossível resolver a complexa questão da natureza do universo.

Não conseguimos determinar os sinais da existência dos anjos, mas não há margem para qualquer dúvida quanto à sua existência. Todos os eruditos e cientistas do mundo os reconheceram de alguma forma. Naturalmente, não se referiram a eles pelo nome com que o Alcorão os denomina.

A vinda da Ressurreição e o fato de que, um dia, toda a ordem da Terra será destruída não são apenas altamente prováveis do ponto de vista da inferência intelectual; são quase certos.

Embora não seja possível estabelecer, mediante provas e evidências claras, que o ser humano é responsável perante o seu próprio Allah e que merece recompensa ou castigo por seus atos, a sã razão é obrigada a reconhecer pelo menos isto: entre todas as doutrinas formuladas acerca do pós-morte e da condição após a morte do ser humano, a doutrina apresentada pelo Islã é a melhor, a mais proveitosa e a mais próxima de uma conjectura fundamentada.

Resta a questão da Revelação e da profecia; é absolutamente claro que não se pode apresentar uma prova científica disso. Mas, refletindo profundamente sobre o conteúdo dos Livros apresentados como Revelação de Allah e sobre a vida e o caráter daqueles chamados Mensageiros de Allah, podemos chegar à conclusão de que nenhum outro livro ou líder foi capaz de exercer sobre o pensamento e a conduta da humanidade uma influência tão profunda, abrangente, sólida e benéfica quanto a exercida por eles. Isso é suficiente para acreditarmos que havia neles alguma qualidade extraordinária, da qual foram privados os livros escritos por seres humanos e os líderes humanos comuns.

Esta discussão deixa absolutamente claro que os objetos do iman no Islã não são contrários à razão. Não há neles nada que ofereça à inteligência qualquer fundamento para negá-los. Neles não existe nada que obrigue o ser humano, ao alcançar qualquer estágio da evolução científica e intelectual, a rejeitá-los. Pelo contrário, a inteligência testemunha a sua certeza. Resta a questão do iman e da convicção. A relação disso não é com a razão, mas com a mente e a consciência. Tudo aquilo que acreditamos ser invisível e incorpóreo depende, na realidade, da nossa consciência para a sua existência. Se não quisermos aceitar alguma realidade invisível, ou se a nossa mente não estiver segura a seu respeito, não podemos ser obrigados, por nenhuma prova intelectual, a reconhecê-la como verdadeira. Como exemplo, pode-se mencionar que nenhuma das provas apresentadas acerca da existência do “éter” (Ether) é capaz de estabelecê-la com certeza e livrá-la completamente da dúvida e da incerteza. Pois, ao examinarem essas provas, alguns filósofos acreditam nele, enquanto outros as consideram insuficientes e se recusam a crer. Portanto, a questão do iman e do conhecimento da verdade depende essencialmente da tranquilidade da mente e do testemunho da consciência. A influência da inteligência, contudo, certamente se manifesta no seguinte: quando se estabelece que o conhecimento verdadeiro de certas coisas é contrário à razão, começa um conflito entre a consciência e a inteligência a respeito delas, e, como resultado, o iman se enfraquece. Já no caso das coisas cujo conhecimento verdadeiro não é contrário às conclusões intelectuais, ou cujo conhecimento verdadeiro recebe também algum auxílio da inteligência, aumenta a tranquilidade mental a seu respeito e, como consequência, o iman ganha força.

Em segundo lugar, a maioria dos objetos invisíveis consiste em questões teóricas; isto é, eles não têm qualquer relação com a nossa vida prática. Por exemplo, existem o éter (Ether), as formas primária e geral da matéria, a matéria, a natureza e as leis naturais, a lei da causalidade e muitas outras questões ou hipóteses teóricas semelhantes, cuja aceitação ou rejeição não produz qualquer efeito sobre a nossa vida. Contudo, os objetos invisíveis aos quais o Islã nos convocou a ter iman não são questões meramente teóricas. Pelo contrário, estão profundamente ligados à nossa vida moral e prática. A razão pela qual o seu reconhecimento é chamado de fonte dos princípios é que eles não são apenas verdades teóricas; o conhecimento correto a seu respeito e o iman pleno neles exercem uma influência intensa sobre as nossas próprias qualidades, o nosso temperamento e a nossa natureza, as nossas ações pessoais e as nossas questões sociais e coletivas.

Em terceiro lugar, para estabelecer a autoridade da cultura islâmica e do sistema de vida islâmico sobre uma vasta sociedade humana, composta por pessoas de diferentes níveis intelectuais e educacionais, alcançando até os setores ocultos e os menores detalhes de suas vidas, e para fortalecer os seus vínculos, é necessária uma força que só pode ser obtida por meio daquela crença apresentada pelo Islã. A crença de que um Allah Onisciente e Onividente, Poderoso e Majestoso, Misericordioso e Benevolente, exerce autoridade sobre nós; de que os Seus incontáveis exércitos estão presentes em toda parte e em todas as circunstâncias; de que foi Ele quem enviou os profetas para a humanidade; de que as leis e normas que esse profeta nos transmitiu não foram elaboradas por ele próprio, mas recebidas integralmente de Allah; e de que certamente teremos de sofrer as boas ou más consequências da nossa obediência ou desobediência — essa crença encerra uma força tão poderosa e abrangente que não pode ser obtida por nenhum outro meio. A força material só pode cercar o corpo; a influência moral da educação e do treinamento só pode alcançar as classes superiores da sociedade humana. A lei só pode ser eficaz onde os seus guardiões conseguem chegar. Mas a força dessa crença conquista a própria mente e o coração do ser humano. Ela envolve em si a todos, comuns e extraordinários, ignorantes e instruídos, inteligentes e tolos. Atua na solidão da floresta e na escuridão da noite. Onde não há ninguém para impedir a injustiça e o pecado, censurá-los e repreendê-los, ou sequer observá-los, a crença na presença constante de Allah, a fé na verdade dos ensinamentos transmitidos pelo profeta e a convicção acerca do interrogatório no Dia do Juízo realizam algo que nenhum policial, juiz de tribunal ou ensinamento de um professor poderia de modo algum realizar. Além disso, a maneira como essa crença reuniu incontáveis pessoas de diferentes orientações e mutuamente conflitantes, espalhadas e dispersas pelo mundo; como, unindo-as, formou uma grande nação; como criou a máxima uniformidade em seus pensamentos, atividades e costumes; como, apesar das diferenças ambientais e intelectuais entre elas, difundiu uma única cultura; e como inspirou nelas o impulso de se sacrificarem por um objetivo supremo — não encontra exemplo em nenhum outro lugar.

Tudo o que foi estabelecido até aqui é que, na terminologia islâmica, iman significa crer em Allah, nos anjos, nos Livros, nos Mensageiros e no Dia do Juízo Final. Essas cinco crenças formam uma realidade única, indivisível e inseparável. Ou seja, existe entre elas uma relação tão indissolúvel que negar qualquer uma de suas partes torna inevitável a negação de toda a crença. Além disso, por meio de uma análise racional, foi demonstrado que, para a cultura que o Islã deseja estabelecer, somente esses conteúdos podem alcançar o status de crenças e que esse tipo de crença é necessário. Ademais, não há nela nada que seja incapaz de cooperar com o progresso científico e intelectual.

Agora devemos voltar a nossa atenção para a terceira questão. E ela é: qual é o valor do iman, e por que ele possui esse valor? Ao tentar compreender essa questão, as pessoas têm cometido muitos erros, e alguns estudiosos renomados tropeçaram nesse assunto. Por isso, é necessário expô-lo com um pouco mais de clareza.

A importância do iman no Islã

Se alguém perguntar qual é o tema central da mensagem do Alcorão Sagrado, a resposta pode ser dada em uma única palavra: “fé”. O propósito da revelação do Alcorão Sagrado e da vinda do Profeta (que a paz esteja com ele) é chamar as pessoas à fé. O Alcorão declara claramente, a respeito daquele que o recebeu e transmitiu, que ele é um chamador à fé.

Versículo

“Ó nosso Senhor, certamente atendemos ao chamado de um convocador que chama à fé”.

E declara, a seu próprio respeito, que somente guiará pelo caminho reto aqueles que estão dispostos a crer nas coisas ocultas, isto é, nas verdades da fé mencionadas anteriormente.

Versículo

“O Alcorão é uma orientação para os tementes a Deus, que creem no oculto.” (Surata Al-Baqara, 2–3)

Por meio de exortações, bons conselhos, promessas e advertências, argumentos e provas, contos e histórias, ele chama as pessoas nessa mesma direção. Sua primeira exigência para o ser humano é que creia. Depois, ele passa à purificação da alma, à reforma moral e às leis sociais e estatais. Para ele, a fé é verdade, honestidade, conhecimento, orientação e luz. A ausência da fé, isto é, a descrença, equivale à ignorância, à injustiça, à falsidade, à mentira e ao desvio.

O Alcorão Sapientíssimo traça uma linha divisória clara e divide toda a humanidade em duas categorias. Uma é a dos que possuem fé, e a segunda é a dos descrentes. Aos olhos dele, o primeiro grupo está apegado à verdade e enriquecido com o tesouro do conhecimento e da luz; para ele, o caminho da orientação está aberto, assim como as portas do temor a Deus e da piedade; somente ele é digno de alcançar o bem. O segundo grupo, aos seus olhos, é composto de incrédulos, injustos, ignorantes e envoltos em trevas; o caminho da orientação está fechado para ele. Não lhe cabe nenhuma parcela de temor a Deus nem de piedade. Para ele, foi decretada a perda, a destruição e o fracasso. Ele apresenta o exemplo desses dois grupos desta forma: um é cego e surdo, enquanto o outro possui visão e audição. Ele afirma que o caminho da fé é a “sirat al-mustaqim”, o caminho reto, e que todos os demais caminhos devem ser abandonados. Declara com toda clareza que aquele que crê em Deus, em Seu Mensageiro e em Seu Livro possui uma lâmpada luminosa, por meio da qual pode caminhar pelo caminho reto. Enquanto essa lâmpada estiver presente, não haverá para ele qualquer risco de se desviar. Ele verá o caminho reto completamente separado do caminho tortuoso e chegará, em segurança e sem obstáculos, ao destino do bem. Em contrapartida, aquele que não possui a lâmpada da fé não dispõe de luz alguma. Para ele, distinguir entre o caminho reto e o tortuoso é extremamente difícil. Como um cego, avançará tateando no escuro, guiando-se por conjecturas e suposições. Talvez, por acaso, algum de seus passos caia no caminho reto; mas isso não é um meio seguro de seguir por ele. Pelo contrário, é muito maior a possibilidade de se desviar do caminho reto. Às vezes poderá cair num buraco; outras vezes, ficará preso entre espinhos.

A respeito do primeiro grupo, o Alcorão diz:

{Árabe}

“Portanto, aqueles que creem no Mensageiro, que o ajudaram e apoiaram, e que seguiram a luz que lhe foi revelada, são, verdadeiramente, os que alcançarão o bem.” — (Surata Al-A‘raf: 150)

Em outra passagem, é dito:

{Árabe}

“Ó humanidade, temei a Deus e crede em Seu Mensageiro. Ele vos concederá uma dupla porção de Sua misericórdia, providenciará para vós uma luz com a qual caminhareis e vos perdoará.”

— (Surata Al-Hadid: 28)

E, a respeito do segundo grupo, é dito:

{Árabe}

“Sabem a quem obedecem aqueles que invocam outros associados além de Allah? Eles apenas seguem conjecturas e caminham com base em meras suposições.” — (Sura Yunus: 66)

{Árabe}

“Eles apenas seguem conjecturas, e a natureza da conjectura é que ela nada pode substituir da verdade.” — (Sura An-Najm: 28)

{Árabe}

“Quem é mais extraviado do que aquele que, abandonando a orientação concedida por Allah, seguiu seus próprios desejos? Allah jamais guia pelo caminho reto os injustos.” — (Sura Al-Qasas: 50)

{Árabe}

“Para aquele a quem Allah não concedeu luz, não haverá luz alguma.” — (Sura An-Nur: 40)

A explicação de todo este assunto encontra-se na surata Al-Baqara. A partir dela torna-se evidente a verdade de que, em consequência da diferença entre a fé e a descrença, surge uma enorme diferença entre esses dois grupos da humanidade.

{Árabe}

“Não há compulsão na religião; o caminho da orientação foi claramente distinguido do extravio. Assim, quem rejeitar o ‘taghut’ (as forças satânicas) e crer em Allah terá segurado uma corda firme e indissolúvel. E Allah ouve tudo e sabe tudo. Allah é o Protetor dos crentes; Ele os conduz das trevas para a luz. Quanto aos incrédulos, seus protetores são os demônios, que os conduzem da luz para as trevas. Estes são os habitantes do Inferno, onde permanecerão eternamente”.

A prioridade da fé sobre as obras

Além disso, a diferença entre a fé e a descrença também criou uma diferença entre as ações humanas. Segundo o Alcorão, somente o crente pode ser piedoso e praticar boas obras. Sem fé, nenhum ato pode receber os atributos de piedade e retidão — por mais que, aos olhos dos habitantes do mundo, essa ação seja considerada uma boa obra. O Alcorão diz:

{Árabe}

“Aqueles que trouxeram a verdade e aqueles que a reconheceram como verdadeira, esses são os tementes.” — (Surata Az-Zumar: 33)

{Árabe}

“O Alcorão é uma orientação para os tementes a Deus, que creem nas coisas invisíveis, estabelecem a oração e gastam da provisão que lhes concedemos; que creem no Livro que te foi revelado e nos Livros que foram revelados antes de ti, e que têm certeza da Vida Futura.” — (Surata Al-Baqara: 2–4)

Portanto, segundo o Alcorão, a fé é a base fundamental da taqwa e da piedade. As boas obras daquele que possui fé florescem e se adornam exatamente como as árvores plantadas num jardim, em terra boa e sob um clima favorável, tornam-se viçosas e se enchem de frutos e flores. Em contrapartida, aquele que pratica ações sem fé é como alguém que planta um jardim numa terra estéril e pedregosa, sob um clima desfavorável.¹ [1. Este assunto foi exposto no Alcorão Sagrado com uma parábola quase semelhante. Consulte-se a Surata Al-Baqara, rukū’ 36.] É por isso que, em todo o Alcorão Sagrado, a fé foi colocada à frente das boas obras. E em parte alguma as boas obras sem fé foram declaradas como meio de salvação e prosperidade.² [2. Como exemplos, vejam Al-Baqara (3–9, 38), An-Nissá (24), Al-Máida (2), Hud (2), An-Nahl (13), Tá-Há (3–6), At-Tin e Al-Asr.] Ao contrário, se lerem o Alcorão com atenção, saberão que tudo aquilo que o Alcorão Sagrado apresentou como instruções morais e disposições legais tem como destinatários os crentes. Esses versículos começam com **********, ou, pelo próprio modo de exposição, deixam de alguma forma claro que o apelo se dirige somente aos crentes. Quanto aos incrédulos, eles não foram chamados às boas obras, mas à fé; e foi claramente declarado que as ações daqueles que não são crentes não têm valor algum: são vãs, sem sentido e destinadas a desaparecer por completo.

***********

“O exemplo das ações daqueles que renegaram a fé é como uma miragem no deserto. O sedento pensa, de longe, que ela é água; mas, quando chega até ela, não encontra nada.” — (Surata An-Nur: 39)

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“Dize-lhes: Quereis que vos informemos quem são os mais perdedores em relação às suas obras? São aqueles cujo esforço se perdeu inutilmente na vida terrena, enquanto pensavam que estavam fazendo boas obras. São esses que negaram os sinais de seu Senhor e nem sequer reconheceram a verdade de que teriam de comparecer diante d’Ele. Por isso, suas ações se tornaram vãs. No Dia da Ressurreição, não lhes atribuiremos valor algum às suas obras, e eles entrarão no Inferno. Isso será a retribuição por terem renegado a fé e ridicularizado os Meus sinais e os Meus mensageiros.” — (Surata Al-Kahf: 103–106)

Este mesmo assunto foi exposto nas Suratas Al-Máida (rukū’ 1), Al-An‘am (10), Al-A‘raf (17), At-Tauba (3), Hud (2), Az-Zumar (7) e Muhammad (1). E na Surata At-Tauba foi claramente declarado que, mesmo que o incrédulo pratique aparentemente boas obras, jamais poderá ser igual ao crente:

***********

“Acaso considerastes iguais aqueles que dão de beber aos peregrinos e mantêm a Mesquita Sagrada e aquele que crê em Allah e no Último Dia e luta pela causa de Allah? Esses dois jamais podem ser iguais perante Allah. E Allah não guia os injustos. Aqueles que creem, emigram e lutam pela causa de Allah com seus bens e suas vidas são os mais honrados perante Allah. E são esses os bem-sucedidos.” — (Surata At-Tawbah: 19-20)

Resumo

Desta discussão e dos versículos do Alcorão Sagrado apresentados em seu apoio, algumas questões ficam comprovadas sem qualquer dúvida:

Primeiro: a fé é a pedra fundamental do sistema de vida islâmico. É sobre ela que se ergue todo o edifício desse sistema. E a diferença entre a incredulidade e o Islã está estabelecida apenas sobre a diferença fundamental entre a fé e a ausência dela.

Segundo: a primeira exigência do Islã para o ser humano é a fé; somente depois de aceitar essa exigência de estabelecer a fé é que uma pessoa entra nos limites do Islã. E é para isso que existem todas as normas morais e leis sociais do Islã. Em contrapartida, aquele que rejeita essa exigência encontra-se fora dos limites definidos do Islã: nenhuma norma moral nem qualquer lei social se aplica a ele.

Terceiro: segundo o Islã, a fé é o fundamento das ações. Somente a obra realizada com base na fé é, a seus olhos, valiosa e importante. Onde esse fundamento não existe de modo algum, todas as ações são infrutíferas e sem sentido.

Uma pergunta:

Algumas pessoas não conseguem compreender essa importância da fé. Dizem que não há nenhum mistério em aceitar certas doutrinas intelectuais que permita, com base nisso, dividir toda a humanidade em dois grupos; a nosso ver, o que realmente importa é a moralidade e o caráter, e é sobre isso que se baseia a distinção entre o bem e o mal, a verdade e a falsidade, o correto e o incorreto. Aquele que possui elevada moralidade, natureza pura e bom caráter, quer aceite ou não essas doutrinas, isto é, as crenças do Islã, nós o chamaremos de homem bom e o incluiremos entre os virtuosos. Para aquele que não possui essas qualidades, a diferença doutrinária entre a fé e a incredulidade é completamente sem sentido. Qualquer que seja a crença que professe, nós o consideraremos mau. Segundo eles, resta ainda outra questão: a importância e o valor das ações dependem da fé, e nenhuma obra pode ser considerada uma boa ação sem a fé. Na realidade, isso é uma demonstração de estreiteza. Não se pode aceitar, sem uma prova racional, que a superioridade moral e as boas ações de alguém que simplesmente discorda do Islã acerca de Allah, do Mensageiro, do Livro ou do Dia do Juízo sejam anuladas. Se o Islã considera determinada crença verdadeira, certamente pode divulgá-la, convidar as pessoas para ela e convocá-las a crer nela; mas até que ponto pode ser razoável estender a questão da crença aos limites da moralidade e das ações, e fazer depender da fé a superioridade moral, a pureza de caráter e a excelência das obras?

Aparentemente, esta questão é tão importante que até alguns muçulmanos, influenciados por ela, se prepararam para reformar os princípios fundamentais do Islã. Mas, depois de compreender o significado da fé e sua relação com a natureza e o caráter, essa objeção se desfaz por si mesma.

Determinação da veracidade ou falsidade da questão

Antes de tudo, é preciso saber que a diferença entre o bem e o mal nos seres humanos depende, essencialmente, de duas bases distintas. A primeira é a natureza inata do ser humano; sua excelência ou deficiência não está sob o controle de sua própria vontade. A segunda é aquilo que se adquire; ser lícito ou ilícito depende, na realidade, do uso correto ou inferior da inteligência, da capacidade de pensar, da vontade e da capacidade. Essas duas coisas estão tão entrelaçadas na vida humana, quanto aos seus respectivos efeitos, que não conseguimos separá-las, nem separar umas das outras as esferas de influência de ambas. Contudo, como princípio, sabemos ao menos que essas duas bases da excelência e da deficiência estão presentes separadamente na vida intelectual e prática do ser humano. A excelência ou deficiência fundada na natureza inata não pode ter importância, por sua própria originalidade, segundo o critério de julgamento. Importância só pode ter a excelência ou deficiência fundada naquilo que se adquire.¹ [1. É exatamente isto que foi declarado no Alcorão. ************ Ou seja, Deus não responsabiliza ninguém por uma tarefa além de sua capacidade. Receberá o benefício daquilo que tiver adquirido. E sobre ele recairá a responsabilidade por aquilo que tiver adquirido. Quanto à natureza inata, Deus a concede a cada um como deseja. *********** E Deus sabe muito bem quanto da natureza inata e quanto daquilo que se adquire existe na vida de cada pessoa. ***********] Por mais esforços que sejam empreendidos em favor da educação, dos bons conselhos, da cultura e assim por diante, nada disso está relacionado à primeira base (isto é, à natureza inata), pois é impossível transformar sua excelência em deficiência ou sua deficiência em excelência. Ao contrário, tudo isso está relacionado à segunda base (aquilo que se adquire). Por meio da educação correta e do treinamento adequado, pode-se conduzir alguém na direção da excelência; e, por meio da educação defeituosa e do treinamento equivocado, na direção da deficiência.

De acordo com este princípio, qual pode ser o procedimento correto para quem deseja conduzir as capacidades adquiridas pelo ser humano em direção à excelência e desenvolvê-las nesse caminho? É adquirir um conhecimento correto do ser humano e, com base nesse conhecimento, elaborar para ele um método de treinamento capaz de moldar sua moral e seu caráter (na medida em que estejam relacionados àquilo que se adquire) segundo um bom modelo. Nesse assunto, é absolutamente indispensável que o conhecimento tenha precedência sobre o treinamento. Nenhuma pessoa sensata pode negar essa prioridade. Pois o conhecimento, ou ilm, é a base da ação; sem conhecimento correto, nenhuma ação pode ser infalível.

Consideremos agora a questão do conhecimento. Um tipo de conhecimento está relacionado aos detalhes de nossa vida prática. Nós o aprendemos ou ensinamos nas escolas e faculdades, e ele é formado pela combinação de incontáveis áreas do conhecimento, das ciências e das artes. O segundo tipo é o conhecimento verdadeiro; na terminologia do Alcorão, ele é chamado de (******), ou conhecimento único. Ele não está relacionado às nossas atividades práticas, mas sim a “nós”. Seu objeto de estudo é: quem somos nós? Qual é a nossa posição neste mundo em que vivemos? Quem criou a nós e a este mundo? Qual é a nossa relação com esse Criador? Qual pode ser o modo correto de viver para nós (a orientação e o caminho reto), e como podemos conhecê-lo? Qual é o objetivo final de nossa jornada pela vida? Na realidade, entre esses dois tipos de conhecimento, apenas o segundo pode reivindicar primazia. Todo o nosso conhecimento detalhado não passa de seus ramos e ramificações, e a correção ou incorreção de todo o nosso pensamento e de todas as nossas ações depende da veracidade ou do erro desse conhecimento. Portanto, qualquer sistema que seja elaborado para a educação e a cultura humanas deverá ser fundamentado nesse conhecimento verdadeiro. Se o conhecimento fundamental for correto e preciso, o sistema de educação e cultura também será adequado. Mas, se houver alguma distorção nesse conhecimento, por causa dela todo o sistema de educação e cultura será distorcido.

As crenças mencionadas no Alcorão Sagrado a respeito de Deus, dos anjos, do Livro, dos mensageiros e do Dia do Juízo Final estão relacionadas precisamente a esse conhecimento fundamental. A razão pela qual se exige, em termos tão enfáticos, a fé nessas crenças é que todo o sistema cultural e educacional do Islã depende inteiramente desse conhecimento fundamental. Do ponto de vista do Islã, entre os sistemas de aperfeiçoamento das capacidades adquiridas pelo ser humano e de organização da cultura, apenas aquele que se fundamenta exclusivamente no conhecimento correto é um sistema correto. O sistema estabelecido sem o conhecimento verdadeiro, ou que não se baseia no conhecimento correto, é essencialmente equivocado. Por meio dele, as capacidades adquiridas pelo ser humano foram conduzidas por um caminho errado. Por mais correta que pareça, à primeira vista, a dedicação humana despendida nesses caminhos, na realidade é o seu uso que está equivocado. Seu movimento não está orientado para o verdadeiro objetivo final. Ele jamais pode alcançar o nível do sucesso. Por isso, será destruído, e o ser humano não poderá obter dele benefício algum. É por essa razão que o Islã chama seu próprio caminho de

“caminho reto”, ou caminho fácil e direto, e exige o abandono de todos os caminhos baseados na ignorância ou no conhecimento equivocado:

********************************************* E é por isso que o Islã declara que todas as obras daquele cuja fé não é pura são inúteis e que, no fim, ele permanecerá fracassado. *************

As convicções apresentadas pelo Islã são, para ele, o único conhecimento, a única verdade, a única orientação e a única luz. Sendo essa a sua natureza, as convicções contrárias devem ser necessariamente a única ignorância, a única falsidade, o único desvio e a única escuridão. Se o Islã não exigisse o repúdio tão veemente delas e atribuísse aos adeptos dessas convicções equivocadas o mesmo valor que aos que professam a fé correta, estaria, em última análise, admitindo que suas convicções não são a única verdade e que ele próprio não tem plena convicção de que elas sejam verdade, orientação e luz. Nessas condições, apresentar tais convicções, elaborar com base nelas um sistema de educação e cultura e convocar as pessoas a integrar esse sistema tornar-se-ia completamente inútil. Isso porque, se ele admitisse que outros conhecimentos contrários a esse conhecimento absoluto são igualmente autênticos, ou que não há problema algum mesmo que não exista qualquer conhecimento absoluto, então apresentar esse conhecimento absoluto e convocar à fé nele seria inteiramente inútil. Do mesmo modo, se admitisse que, por meio de um sistema de educação e cultura elaborado com base em conhecimentos contrários a esse conhecimento absoluto, ou sem qualquer conhecimento absoluto, as pessoas também podem alcançar o bem-estar, o convite a seguir o sistema islâmico perderia completamente a sua importância.

Além disso, se nos lembrarmos da discussão anterior sobre o significado da fé, compreenderemos facilmente por que o Islã atribuiu tamanha importância à fé. Os habitantes do mundo da imaginação podem construir palácios sobre a areia, a água e até mesmo o ar. O Islã, porém, é uma religião baseada na prudência. Não pode construir o palácio de sua educação e cultura sobre uma base frágil. Pelo contrário, antes de tudo estabelece uma base sólida nas profundezas da alma humana e de sua capacidade de pensar.

Sobre essa base, ergue uma construção que não se inclina quando alguém tenta fazê-la tombar. Primeiro, fixa firmemente na mente humana esta verdade: acima de ti existe um único Deus; Ele é teu juiz e legislador tanto neste mundo quanto no além; de modo algum podes escapar de Seu reino e de Sua autoridade. Nenhuma de tuas palavras está oculta para Ele. Para te guiar, Ele enviou mensageiros e, por meio deles, concedeu-te o Livro e a Sharia. Seguindo-os, podes obter a satisfação desse verdadeiro governante, juiz e legislador. Se praticares algo contrário a Ele, por mais oculta que permaneça a tua desobediência, Ele certamente te alcançará e não deixará de te punir por isso. Depois de gravar profundamente essa impressão no coração humano, o Islã ensina a boa disposição e o caráter virtuoso. Esclarece as normas relativas ao justo e ao injusto e, pela força dessa impressão da fé, faz com que as pessoas sigam seus próprios ensinamentos e obedeçam às suas normas. Quanto mais profunda for essa impressão, mais completa será a observância das pessoas, mais firme será a obediência na mesma proporção, e mais forte será também o método de cultura e treinamento. Mas, se essa impressão for fraca e superficial, se estiver ausente ou se nenhuma outra impressão tiver sido gravada na mente em seu lugar, todo o sistema de educação moral se tornará absolutamente sem sentido; as normas do justo e do injusto ficarão completamente frágeis e frouxas, e toda a organização da educação e da cultura se transformará numa casa de brinquedos para crianças. Consequentemente, na prática, não haverá qualquer garantia de sua implantação ou estabilidade. Pode ser bela, ampla e elevada, mas onde estarão sua firmeza e estabilidade? É justamente isso que o Alcorão Sagrado descreveu por meio de uma parábola:

**************

“Não viste como Allah apresenta o exemplo da palavra pura (a convicção correta)? Ela é como uma árvore boa: suas raízes estão firmemente fixadas no subsolo, e seus ramos se elevam até o céu. Ela produz continuamente seus frutos, pela vontade de seu Senhor. Allah apresenta exemplos às pessoas, para que possam aprender. E o exemplo da palavra impura (a convicção equivocada) é como uma árvore ruim: pode ser arrancada desde a superfície da terra. Não há nela qualquer firmeza ou solidez. Allah fortalece os crentes, com uma palavra firme (uma fé amadurecida), tanto na vida deste mundo quanto na vida futura, e abandona os injustos em seu estado de desvio. Allah faz o que quer.” — (Surata Ibrahim: 24–27)

Até aqui, foram abordados de modo geral cinco temas incluídos na fé. Agora será necessário examinar detalhadamente: que convicção o Islã apresenta acerca de cada um desses temas? Qual é a necessidade e a razão de ser de cada convicção? Que influência ela exerce sobre a capacidade humana de pensar e, depois de se enraizar na mente e no coração das pessoas, como se forma e se estrutura um caráter virtuoso e firme?

 

3. A fé em Allah

A importância da fé em Allah

Na estrutura abrangente das convicções e práticas do Islã, a primeira e fundamental coisa é a fé em Allah. Todos os demais aspectos e ramificações da convicção e da fé são apenas os ramos desse único tronco principal. Todas as normas morais e leis sociais do Islã extraem sua força desse ponto central. A essência de Allah é a fonte e o destino de tudo o que existe neste sistema. A razão para crer nos anjos é que eles são os anjos de Allah. A razão para crer nos profetas é que eles foram enviados por Allah. A razão para crer no Dia do Juízo é que ele é o dia do julgamento e da prestação de contas determinado por Allah. As obrigações tornaram-se obrigatórias porque foram prescritas por Allah. Os direitos mútuos são chamados direitos porque dependem da ordem de Allah. A promoção do bem e a prevenção do mal são necessárias porque Allah as ordenou. Em suma, tudo no Islã, seja uma questão de convicção ou de prática, está fundamentado nesta fé em Allah. Se esta única coisa for apartada, os anjos e o Dia do Juízo perdem completamente sua importância. Os profetas, mensageiros e os Livros que trouxeram tornam-se incapazes de exigir obediência. As obrigações, os deveres, a obediência, os direitos e tudo o mais perdem seu significado. As ordens, proibições, normas e regulamentos deixam de ter qualquer caráter vinculante. Em suma, assim que este único ponto central é removido, todo o sistema do Islã se desfaz e desmorona; na verdade, nada chamado Islã permanece existente.

A concepção abrangente da fé em Allah

A convicção que atua como ponto central e fonte de força neste vasto sistema ideológico e prático não consiste apenas em afirmar: “Allah existe”. Ela também contém uma concepção completa e correta dos atributos de Allah — na medida em que é possível ao ser humano concebê-los — e dessa concepção dos Seus atributos deriva uma força que se espalha por todo o conjunto das capacidades ideológicas e práticas do ser humano e o domina. O simples reconhecimento da existência do Criador não é algo que possa ser considerado uma característica distintiva do Islã. Outros povos também reconheceram, de alguma forma, a existência do Criador. Na realidade, o que elevou o Islã acima de todas as religiões e formas de devoção foi o fato de ele ter apresentado uma concepção correta, completa e abrangente dos atributos do Criador. Além disso, fazendo desse conhecimento uma fé — ou melhor, a base da fé — e valendo-se dele, realizou-se um trabalho tão grandioso na purificação da alma, na correção moral, na organização das ações, na promoção do bem, na prevenção do mal e na fundação da civilização, que nenhuma religião ou povo do mundo foi capaz de realizar algo semelhante.

A forma concisa da fé em Allah — cuja declaração verbal e crença sincera foram estabelecidas como condição inicial e indispensável para entrar no Islã — é a fórmula “La ilaha illallah”. Isto significa reconhecer com a língua e crer com o coração que não existe outro ilah (senhor) além do Ser Supremo conhecido pelo nome de Allah. Em outras palavras, seu significado é que a divindade deve ser separada de todas as coisas do universo e atribuída exclusivamente a um único Ser; e todos os sentimentos, percepções, pensamentos, imaginações, crenças, atos de adoração e obediência próprios da divindade devem ser vinculados a esse único Ser. Os elementos fundamentais desta fórmula concisa são três:

Primeiro: a concepção da soberania divina.

Segundo: sua rejeição em relação a todas as coisas.

Terceiro: sua afirmação exclusivamente para Allah.

Na realidade, tudo o que foi dito no Alcorão Sagrado sobre a essência e os atributos de Allah não passa de uma explicação detalhada destes três pontos.

Primeiramente, ele apresentou uma concepção tão abrangente e correta da “divindade” (*****) que não encontramos igual em nenhum livro ou religião do mundo. É indubitável que essa concepção existe, de alguma forma, entre todas as nações e comunidades. Contudo, em toda parte ela é equivocada ou incompleta. Em alguns lugares, chamou-se “divindade” (*****) ao princípio originário; em outros, ela foi entendida apenas no sentido de começo. Em alguns lugares, foi considerada a fonte de força e poder; em outros, tornou-se apenas objeto de medo e terror. Em alguns lugares, é somente o centro do amor; em outros, significa apenas satisfazer necessidades e atender a súplicas. Em alguns lugares, foi maculada por ídolos e imagens. Em alguns lugares, diz-se que ela reside no céu; em outros, que desce ao mundo assumindo forma humana. Todas essas concepções equivocadas e incompletas foram purificadas e aperfeiçoadas unicamente pelo Alcorão, o Livro grandioso. Foi esse Livro sagrado que conferiu pureza e grandeza à divindade (******). Ele nos ensinou que somente pode ser “Ilah” ou Senhor aquele que é independente de tudo, não depende de ninguém, é autossuficiente e eterno; que sempre existiu e sempre existirá; que é o soberano absoluto e onipotente; cujo conhecimento abrange tudo; cuja misericórdia e benevolência se estendem a todos; cujo poder prevalece sobre todos; cuja sabedoria e inteligência não contêm qualquer falha ou desvio; cuja justiça não apresenta sequer o menor vestígio de opressão; que dá a vida e fornece os meios necessários à sua manutenção; que possui todo poder sobre o bem e o mal, o benefício e o dano; de cuja benevolência e proteção todos dependem; para quem retornam todas as criaturas; que toma contas de todos e é o único dono da punição e da recompensa. Além disso, esses atributos da divindade não são divisíveis nem fragmentáveis, de modo que existam vários Allahs (*****) ao mesmo tempo, dotados dos atributos mencionados ou de parte deles; tampouco são algo temporário e sujeito ao tempo, de modo que um Allah seja dotado deles em certa ocasião e não em outra; nem são algo transferível, cuja existência hoje se encontre em um Allah e amanhã em outro.

Depois de apresentar essa concepção abrangente e pura da divindade, o Alcorão, com seu estilo incomparável, demonstrou que não é correto aplicar esse significado a nenhuma das coisas ou forças do universo. Isso porque todas as criaturas do mundo dependem de outras, são subjugadas e estão sujeitas à destruição e à extinção. Longe de poderem beneficiar ou prejudicar os outros, elas sequer são capazes de afastar de si mesmas o dano. A origem de suas ações e de seus efeitos e reações não está em sua própria essência; ao contrário, todas obtêm de alguma outra fonte a força vital, a força para agir e a força de influenciar. Portanto, não há no universo coisa alguma que possua sequer o menor atributo de divindade ou que tenha direito a receber, ainda que minimamente, nossa servidão e obediência.

Depois dessa negação, ele restringe a divindade a uma única Essência, cujo nome é “Allah”. Ao mesmo tempo, exige dos seres humanos: creiam somente n’Ele, rejeitando todos os demais; prostrem-se diante d’Ele; honrem somente a Ele; amem somente a Ele; temam somente a Ele; depositem suas esperanças somente n’Ele; dirijam suas súplicas somente a Ele; confiem n’Ele em todas as circunstâncias; mantenham-n’O sempre em mente; um dia terão de retornar a Ele; diante d’Ele terão de prestar contas; e seu bom ou mau destino dependerá exclusivamente de Seu julgamento.

Benefícios morais da fé em Allah

A fé em Allah que se firma no coração humano juntamente com essa concepção abrangente dos atributos da divindade contém benefícios extraordinários, que não podem ser alcançados por nenhuma outra crença ou convicção.

Amplitude da visão

O primeiro benefício da fé em Allah é que ela amplia a visão do ser humano tanto quanto é vasto o reino infinito de Allah. Enquanto contempla o mundo considerando seus próprios interesses, o ser humano mantém sua visão confinada a um círculo estreito, dentro do qual estão limitados sua força e poder, seu conhecimento e entendimento, seus desejos e aspirações; é dentro desse círculo que ele procura aquilo que satisfaça suas necessidades. Nesse círculo, teme e se retrai diante dos poderosos, enquanto exerce autoridade sobre os fracos e debilitados. É também dentro desse círculo que ficam limitadas sua amizade e inimizade, afeição e ódio, respeito e desprezo — e, para tudo isso, ele não possui outro critério senão o interesse pessoal. Mas, depois de crer em Allah, sua visão ultrapassa os limites de seu ambiente particular e se estende por todo o universo. Então, ele contempla o universo não do ponto de vista de seus próprios interesses, mas em relação ao Senhor Generoso. Assim, estabelece-se uma relação diferente entre ele e cada coisa desse vasto mundo. Agora, ele não vê em nada disso aquilo que satisfaz necessidades, nem um poderoso, um prejudicial ou um benfeitor. Já não encontra ninguém que mereça respeito ou desprezo, medo ou esperança. Sua amizade ou inimizade, afeição ou ódio, não são mais determinados em benefício próprio, mas por Allah. Ele percebe que o Allah em quem creio não é apenas o Criador e Sustentador de mim, de minha família ou de meus compatriotas; Ele é o Criador dos céus e da terra e o Sustentador de todo o universo. Seu domínio e soberania não se limitam ao meu país; Ele é o Rei dos céus e da terra e o Sustentador de toda a criação. Não sou somente eu que O adoro e sirvo; todas as coisas dos céus e da terra se submetem diante d’Ele. ************* (**********)********** Todos estão ocupados louvando-O, proclamando Sua pureza e glorificando-O. **********************(********)******* Quando, nesse contexto, ele contempla o universo, ninguém permanece oculto à sua visão; todos se apresentam espontaneamente diante de seus olhos. Sua compaixão, Seu amor e Seu serviço não ficam confinados a nenhum círculo cujos limites sejam determinados por relações pessoais.

Portanto, aquele que crê em Allah jamais pode ter uma visão estreita. Sua visão é tão ampla que até a palavra “internacionalismo” (Internationalism) é estreita para descrevê-la. Ele deveria ser chamado de “universalista” e “criacionista”.

Dignidade pessoal

Além disso, é precisamente esta fé em Allah que resgata o ser humano da humilhação e o eleva aos níveis mais elevados de respeito próprio e dignidade pessoal. Enquanto não conhecia Allah, ele se curvava diante de cada coisa poderosa do mundo, de cada coisa benéfica ou nociva, de cada objeto grandioso e imponente. Temia-as. Estendia as mãos diante delas. Dirigia-lhes súplicas e nelas depositava suas esperanças. Mas, quando conheceu Allah, compreendeu que aqueles diante dos quais estendia as mãos eram eles próprios dependentes de outros, necessitados(************)-**************; aqueles a quem ele adorava e obedecia eram eles mesmos apenas escravos como ele. :***********

Aqueles de quem esperava ajuda não eram capazes sequer de ajudar a si mesmos, quanto mais de ajudá-lo. *************(*********)-*********** Pois o verdadeiro detentor do poder é Allah. (************)-*************** Ele é o governante, o legislador e aquele que dá as ordens. (*************)-************** Fora d’Ele, não há ajudador, protetor nem amparador. *********** A ajuda vem somente d’Ele.

****(************)-************ Somente Ele é o provedor. (**************)-**************** As chaves dos céus e da terra estão em Suas mãos. *************(*********)-***** Somente Ele dá a morte e a vida; sem Sua permissão, ninguém pode matar ninguém nem salvar ninguém. *************

O verdadeiro poder de causar benefício ou dano está sob Seu domínio. *************

Depois de adquirir tal conhecimento, ele se torna independente, destemido e intrépido diante de todas as forças do mundo. Não se curva diante de nenhum poder além de Allah. Não estende as mãos diante de ninguém além de Allah. No coração, não há lugar para a superioridade e a grandeza de ninguém além de Allah. Não dirige súplicas nem deposita esperanças em ninguém além de Allah.

Humildade e modéstia

Mas esse respeito próprio não é um falso respeito próprio adquirido por meio de sua força, riqueza, capacidade ou talento. Essa dignidade pessoal também não é aquela que surge, mesmo numa pessoa desviada, por causa do orgulho e da arrogância. Pelo contrário, é o resultado de compreender corretamente a relação entre si mesmo, Allah e toda a criação. É por isso que, entre os que creem em Allah, estabelece-se uma relação inseparável entre o respeito próprio e a humildade, e entre a dignidade pessoal e a modéstia e a ternura. Ele sabe que, diante do poder e da força de Allah, sou completamente impotente. *********** Nem eu nem qualquer outra criatura somos capazes de escapar à autoridade de Allah. ************** O que sou eu, afinal? O universo inteiro depende de Allah, enquanto Allah é independente e não necessita de ninguém. *********** Tudo o que há nos céus e na terra pertence a Allah. *********** E tudo aquilo que recebi como graça e riqueza, recebi de Allah. Depois de uma crença assim, onde pode haver orgulho e arrogância? O fruto inevitável da fé em Allah é precisamente este: ela torna o ser humano humilde da cabeça aos pés.

************

“Os servos especiais do Misericordioso são aqueles que caminham humildemente pela terra e, quando os ignorantes lhes dirigem palavras ignorantes, afastam-se dizendo: ‘Paz!’” — (Surata Al-Furqan: 63)

Desaparecimento das expectativas ilusórias

Outro benefício de conhecer corretamente a relação entre o Criador e a criação é que, por meio disso, chegam ao fim todas as expectativas ilusórias e falsas esperanças decorrentes da ignorância. Ao mesmo tempo, a pessoa compreende muito bem que, para ela, não há outro caminho para a salvação e o bem-estar além da crença correta e das boas ações. Por outro lado, alguns daqueles que são privados desse conhecimento pensam que existem muitas pequenas divindades associadas à obra de Allah; bajulá-las-emos e obteremos sua intercessão. ************ Alguns pensam que Allah tem um filho, e que esse filho expiou os nossos pecados, assegurando-nos o direito à salvação. Outros pensam que nós mesmos somos filhos de Allah e Seus favoritos. ************ Façamos o que fizermos, não poderemos ser punidos.

Muitas expectativas ilusórias desse tipo mantêm continuamente as pessoas presas ao pecado e ao ciclo das transgressões. Pois, confiando em tudo isso, elas se tornam indiferentes à purificação da alma e à correção de suas ações. Contudo, no ensinamento de fé em Allah transmitido pelo Alcorão, não há lugar para expectativas ilusórias. Ele declara que nenhuma nação ou comunidade possui uma relação especial com Allah. Todos são Sua criação, e Ele é o Criador de todos***********. Toda grandeza e distinção dependem da taqwa. **************** Allah não tem filho, nem associado ou ajudante. ***************** Aqueles que considerais Seus filhos ou associados são todos Seus servos e escravos.(Árabe*****)Ninguém tem sequer a ousadia de interceder sem a Sua permissão.(Árabe*****)Se desobedecerdes, nenhum intercessor ou ajudante poderá salvar-vos do Seu domínio.(Árabe*****)

Esperança e paz mental

Junto com isso, a fé em Allah cria no ser humano uma atitude esperançosa que, em nenhuma circunstância, é vencida pelo desespero e pelo desânimo. Na verdade, para o mu’min, a fé é um tesouro inesgotável de esperança e aspirações, do qual ele continua a obter força interior e recursos permanentes e ininterruptos de tranquilidade espiritual. Mesmo que todas as portas do mundo lhe sejam fechadas, que ele seja privado de todos os recursos e que os meios e instrumentos o abandonem um a um, o apoio do Deus Único nunca o abandona. Confiando n’Ele, permanece sempre animado pela esperança e pelas aspirações. Isso ocorre porque Aquele em Quem ele depositou sua fé disse: “Estou muito próximo de vós; ouço a vossa súplica.”(Árabe*****)Não temais a injustiça da Minha parte, pois não sou injusto.(Árabe*****)Pelo contrário, esperai a Minha misericórdia, pois a Minha misericórdia se estende sobre todas as coisas.(Árabe*****)Somente aquele que não crê em Mim desespera da Minha misericórdia.(Árabe*****)Por outro lado, não há lugar para o desespero no caso do mu’min. Se ele cometer algum pecado, que peça-Me perdão; Eu o perdoarei.(Árabe*****)Em outro lugar,(Árabe*****)se os recursos mundanos não o ajudarem, que abandone a confiança neles e se apegue a Mim; então o medo, o temor e a apreensão não se aproximarão dele. A Minha lembrança é(Árabe*****)algo por meio do qual o coração humano alcança estabilidade e tranquilidade.(Árabe*****)

Paciência, perseverança e confiança(Árabe*****)

Além disso, essa esperança se desenvolve e se eleva ao ápice da paciência, da perseverança e da confiança em Allah, onde o coração do crente se torna firme e sólido como uma terra rochosa. Nem todos os perigos, hostilidades, sofrimentos, perdas e forças adversárias do mundo inteiro, reunidos, conseguem fazê-lo vacilar de sua posição. O ser humano não pode adquirir essa força por nenhum outro meio senão pela fé em Allah. Pois aquele que não crê em Allah apoia-se em meios e recursos materiais ou imaginários que, na realidade, não possuem força alguma. Quem depende deles, em última análise, apoia-se numa teia de aranha.(Árabe*****)Para aquele cuja vida depende de um apoio tão frágil, é inevitável que se torne fraco.(Árabe*****)Mas aquele que confia em Allah e se apega a Ele tem um apoio tão forte que jamais pode ser destruído.(Árabe*****)Ele conta com a força invencível do Senhor dos mundos; que força poderia prevalecer sobre ela? Nem mesmo as calamidades do universo inteiro, reunidas, conseguem afastá-lo da paciência, da perseverança, da determinação e da firmeza. Pois, segundo sua convicção, tudo o que é bom ou mau provém de Allah.(Árabe*****)Tudo o que sobrevém de adversidade e calamidade ocorre de acordo com o decreto determinado por Allah, e ninguém além de Allah pode adiá-lo.(Árabe*****)

A força sobre-humana com que os profetas (A.S.) enfrentaram no mundo perigos terríveis, lutaram sozinhos contra grandes impérios e povos poderosos, avançaram determinados a conquistar o mundo sem recursos materiais e continuaram sua missão mesmo diante das violentas tempestades das adversidades é a força do sabr e do tawakkul, isto é, da paciência, da perseverança e da confiança em Allah. Veja, por exemplo, a história de vida de Ibrahim (A.S.). Ele debateu com o governante tirânico de seu país, lançou-se destemidamente ao fogo e, por fim,(Árabe******)saiu do país sem qualquer meio ou apoio. Do mesmo modo, veja a história de vida de Hud (A.S.). Como ele desafiou a imensa força do povo de ‘Ad:

(Árabe*****************************)

“Conspirai todos juntos contra mim e não me deis trégua alguma. Eu confiei em Allah, meu Senhor e vosso Senhor. Não há criatura alguma cuja rédea não esteja em Suas mãos.” — (Surata Hud: 55–56)

Da mesma forma, veja a história de vida de Musa (A.S.). Confiando unicamente em Allah, ele enfrentou o imenso poder do Faraó. Quando o Faraó o ameaçou de morte, ele respondeu: “Busquei refúgio n’Ele contra todo arrogante, pois Ele é o Senhor tanto meu quanto teu.”(Árabe******)Quando estava deixando o Egito, o Faraó o perseguia com todas as suas tropas. Seu povo, tomado de medo, dizia: “Os inimigos nos cercaram.”(Árabe*****)Mas ele respondeu com extrema tranquilidade: “De modo algum! Allah está comigo; Ele me guiará para o caminho da paz e da segurança.”(Árabe*******)Por fim, veja o Profeta (S.A.) Durante a Hégira, ele refugiou-se numa caverna nas montanhas. Tinha consigo apenas um companheiro. Os incrédulos sedentos de sangue chegaram até a entrada da caverna. Mesmo assim, ele não demonstrou qualquer inquietação. Pelo contrário, disse ao seu companheiro:(Árabe******)“Não te aflijas de modo algum; Allah está conosco.” Como poderiam ser adquiridas, senão pela fé em Allah, uma força invencível como essa, uma determinação dura como o aço e uma firmeza semelhante a uma montanha?

Coragem

De modo semelhante, outra qualidade é produzida de forma extraordinária pela fé em Allah: coragem, destemor, bravura e audácia. Duas coisas tornam o ser humano medroso e covarde. A primeira é o amor pela própria vida, pela família e pelos bens. A segunda é o medo, originado da falsa crença de que o verdadeiro poder de causar dano, destruição e perda reside nos objetos usados como armas. A fé em Allah remove essas duas coisas do coração humano. Pelas veias e artérias do crente corre a convicção de que Allah é quem mais merece ser amado.(Árabe********)Firma-se em sua mente a certeza de que as riquezas, os filhos e a descendência são apenas os adornos deste mundo; sua destruição está inevitavelmente destinada a ocorrer em algum momento. Aquilo que se recebe de Allah é o que permanece e é indestrutível, jamais sujeito à destruição.(Árabe*******)A vida mundana dura apenas alguns dias; ainda que façamos milhares de esforços para preservá-la, a morte certamente chegará um dia.(Árabe********)

Portanto, não deveríamos dedicar esta vida passageira àquela vida prazerosa e feliz que será recebida de Allah?(Árabe******)

Não devemos dedicar os prazeres passageiros do mundo e os interesses temporários à obtenção da satisfação daquele Allah que é o verdadeiro dono de nossas vidas e bens, e que, em troca disso, tem o poder de nos conceder uma vida melhor e benefícios ainda maiores?

(Árabe******************)

Quanto ao medo, o crente foi ensinado que o verdadeiro poder de causar dano e destruição não está nos seres humanos, nos animais, nas munições, nas espadas, na madeira ou nas pedras; ele está, antes, nas mãos do poder absoluto de Allah. Mesmo que todas as forças do mundo se unissem para prejudicar alguém, se Allah não o permitisse, nem mesmo um fio de cabelo dessa pessoa poderia ser deslocado.(Árabe*****)Ninguém pode morrer antes do momento que Allah determinou para sua morte. ***** E, quando chega o momento determinado da morte, ela tampouco pode ser adiada por qualquer pretexto.(Árabe*****)Assim, sendo essa a realidade, deve-se temer Allah, e não os seres humanos.(Árabe****)Na verdade, somente Ele é o Ser a quem se deve temer.(Árabe****)Hesitar em lutar no caminho de Allah é atitude daqueles que não têm fé no coração, pois temem mais os seres humanos do que Allah.(Árabe***)Já o verdadeiro crente, em vez de se assustar ao ver o inimigo, torna-se ainda mais corajoso e destemido, pois não depende de nenhum poder terreno, mas de Allah. Na surata Aal ‘Imran, foi dito:(Árabe****)

Contentamento com pouco e satisfação interior

Essa fé em Allah elimina do coração humano as desprezíveis tendências da cobiça, da avidez, da inveja e do rancor, que o induzem a adotar meios vis e ilícitos para alcançar seus interesses e provocam desordem na sociedade humana. Com a fé, surgem na pessoa o contentamento com pouco e a satisfação interior. Ela não compete nem rivaliza com outras pessoas. Nunca se apressa em revidar a opressão e a injustiça. Busca continuamente a graça e os bens de seu Senhor por meios honrosos; e tudo o que recebe, seja muito ou pouco, aceita com reverência, considerando-o uma dádiva de Allah. O crente foi ensinado que a superioridade e a primazia estão nas mãos de Allah; Ele as concede a quem quer.(Árabe************************)O sustento está nas mãos de Allah; Ele o concede a quem quer e na medida que quer.(Árabe************)O poder do Estado e a autoridade de governar estão sob o domínio de Allah, o Altíssimo; Ele faz governante quem quer.(Árabe***********)A riqueza e a honra estão em Suas mãos; Ele honra quem quer e humilha quem quer.(Árabe************)Além disso, a distribuição das honras, riquezas, forças, beleza, fama e demais dádivas mundanas — fazendo com que alguns recebam mais e outros menos — foi determinada pelo próprio Allah. Allah conhece melhor que ninguém a justeza e a sabedoria de Seus atos. Não é apropriado ao ser humano tentar alterar a ordem por Ele estabelecida, e tampouco há possibilidade de êxito nisso.(Árabe*************)

Reforma da moral e disciplina das ações

É a vida social que mais se beneficia da fé em Allah. Por meio dela, desperta-se nas pessoas da sociedade o senso de responsabilidade. A pureza surge em suas almas e a piedade em suas ações. Suas relações mútuas tornam-se saudáveis e puras; desperta-se o espírito de obediência à lei; desenvolvem-se a capacidade de obedecer, a moderação e a disciplina, e as pessoas, purificadas interiormente por uma poderosa força invisível, tornam-se aptas a formar uma sociedade íntegra e coesa. Na verdade, esse é o poder milagroso da fé em Allah, e é por isso que ela foi estabelecida. Nenhuma força mundana, por mais sagaz que seja, nem a educação ou a exortação religiosa consegue realizar a reforma moral e o estabelecimento da disciplina nas ações de modo tão amplo e sobre bases tão profundas. O alcance das forças terrenas não chega à alma, mas apenas ao corpo; e, mesmo sobre o corpo, seu controle não é universal nem permanente. A influência da educação e da exortação religiosa também se limita à razão e aos impulsos; ela não apenas deixa de libertar os próprios impulsos de sua influência, como também não deixa de subjugar e obscurecer a razão. A fé é algo que, levando consigo todo o seu conjunto de forças reformadoras e organizadoras, penetra nas regiões mais profundas do coração e da alma humana. Ali, faz nascer uma consciência forte e vigilante, que sempre e em toda parte orienta a pessoa pelo caminho simples e reto da piedade e da obediência. Mesmo entre os impulsos mais profundamente maus, ela não deixa de produzir algum efeito por meio de sua censura e repreensão.

Esse benefício extraordinário é obtido unicamente pela convicção no poder de Allah, que é uma parte indispensável da fé. Em vários lugares do Alcorão Sagrado, as pessoas foram advertidas de que o conhecimento de Allah abrange todas as coisas e que nada pode permanecer oculto para Ele.

(Árabe**************)

O Oriente e o Ocidente pertencem a Allah; para qualquer direção que volteis o rosto, ali estará Allah. Sem dúvida, Allah é Amplo e Sapientíssimo.

(Árabe***************)

“Onde quer que estejais, Allah vos reunirá a todos; sem dúvida, Allah é Poderoso sobre todas as coisas.”

(Árabe*************)

Sem dúvida, nada nos céus e na terra está oculto a Allah. — (Surata Al Imran: 5)

(Árabe**************)

“Com Ele estão as chaves do invisível; ninguém conhece o invisível além d’Ele. Ele conhece tudo o que há na terra e no mar. Nem mesmo uma folha que caia ao chão deixa de ser conhecida por Allah. E não há grão algum nas trevas profundas da terra, nem coisa seca ou úmida, que não esteja registrada num Livro luminoso.” — (Surata Al An’am: 59)

(Árabe************)

”Fomos Nós que criamos o ser humano e sabemos também aquilo que sua alma concebe dentro de si. E estamos mais próximos dele do que sua veia jugular.” — (Surata Qaf: 16)

(Árabe***********)

”Não há conversa secreta entre três pessoas sem que Allah seja a quarta, nem entre cinco sem que Allah seja a sexta. Da mesma forma, não há reunião entre menos ou mais pessoas do que isso sem que Ele esteja com elas, onde quer que estejam.” — (Surata Al-Mujadila: 7)

(Árabe************)

”Eles podem esconder-se das pessoas, mas não podem esconder-se de Allah; Ele está com eles quando, à noite, conversam contra a Sua satisfação. E Allah abrange tudo o que fazem.” — (Surata An-Nissá: 108)

(Árabe************)

”Acaso não sabem que Allah tem conhecimento de tudo o que fazem, em segredo e em público?” — (Surata Al-Bácara: 77)

(Árabe***********)

“Dois anjos vigilantes sentam-se à direita e à esquerda de cada pessoa, vigiando-a; não sai de sua boca palavra alguma sem que haja um guardião pronto para registrá-la.” – (Surata Qaf: 17-18)

(Árabe***********)

“Quer alguém dentre vós fale em segredo ou em voz alta, quer se esconda na escuridão da noite ou se mova à luz do dia, há vigilantes de Allah à sua frente e atrás, que observam seus movimentos por ordem de Allah.” – (Surata Ar-Ra‘d: 10-11)

Ao mesmo tempo, foi firmemente gravado na mente humana que um dia ela certamente terá de comparecer diante de Allah(Árabe***********) e terá de prestar contas de cada coisa.(Árabe*****************) A punição de Allah, o Altíssimo, é extremamente severa.(Árabe**************)

Essa convicção, que se procurou firmar de diversas maneiras na mente humana, é, na realidade, a força atuante de todo o sistema jurídico do Islã. Os limites que o Islã estabeleceu entre o haram e o halal, e todas as normas que determinou acerca da moralidade, da vida social e das relações mútuas, não dependem, para sua implementação, de soldados, da polícia, da educação ou de bons conselhos; ao contrário, adquirem sua força atuante da convicção de que seu regulador é um governante onipotente, cujo conhecimento e poder abrangem todas as coisas. Quem desobedece às Suas ordens e determinações não é capaz de ocultar seu crime, nem consegue proteger-se de qualquer forma de Seu interrogatório. Por isso, em vários lugares do Alcorão Sagrado, depois de mencionar ordens e determinações, foi proferido este aviso: estes são limites específicos estabelecidos por Allah, o Altíssimo; cuidado! Não os transgridas.(Árabe***************)Lembrai-vos: tudo quanto fizerdes, Allah o vê inteiramente.(Árabe************)

 

4. Fé nos anjos

O propósito da fé nos anjos

A fé nos anjos é, na realidade, a perfeição da fé em Allah e apenas seu complemento necessário. Seu propósito não é somente reconhecer a existência dos anjos; o verdadeiro objetivo é compreender seu lugar correto na ordem universal, para que a fé em Allah se estabeleça sobre o tawhid puro e se liberte de toda mistura de shirk e adoração de outro que não Allah.

Como já foi dito, existe, de uma forma ou de outra, em todas as nações e religiões uma noção geral a respeito dos anjos. Sobre essa noção, as diferentes religiões ergueram edifícios de crenças de diferentes formas. Segundo alguns, os anjos são filhos da natureza e forças da natureza que administram os diversos ramos e ramificações da ordem universal. Na concepção de outros, são deuses, cada um dos quais chefe de um setor da fábrica do universo: um seria senhor do vento, outro da chuva, outro da luz, outro do calor e outro do fogo. Segundo a crença de alguns, são representantes e auxiliares de Allah. Para outros, são senhores da diversidade; para alguns, são apenas consciência; segundo outros, são apenas uma criação da imaginação de Allah. E há ainda quem os considere filhos de Allah.

Alguns, por sua vez, acreditam que eles possuem corpos materiais. Outros os consideraram abstratos e incorpóreos. Alguns os identificaram com estrelas luminosas e corpos celestes em movimento. E há ainda quem tenha criado a respeito deles outras concepções extraordinárias. Em suma, entre os fundadores de religiões difundiu-se geralmente a ideia de que os anjos são, de alguma forma, parceiros de Allah em Sua divindade. Por isso, foram dirigidas orações a eles; foram chamados de realizadores das necessidades, ouvintes das queixas e intercessores. E é por essa razão que o domínio do shirk no mundo é tão forte.

O lugar dos anjos na ordem universal: por um lado, o Alcorão estabeleceu o tawhid puro e completo quanto à existência, aos atributos e às ações de Allah; por outro, apresentou uma concepção correta e autêntica sobre os anjos, a fim de fechar para sempre a porta do shirk. O Alcorão não discutiu o mistério dos anjos, pois essa discussão é inteiramente irrelevante e não contém substância alguma. Ela não traz qualquer benefício ao ser humano, nem o ser humano é capaz de compreendê-la. A verdadeira questão a ser considerada era: qual é o lugar dos anjos na ordem universal? O Alcorão Majid deu uma resposta extremamente clara a essa pergunta. Foi declarado que os anjos não são filhos de Allah, nem parceiros em Suas obras; são apenas Seus servos e escravos.

(Árabe***************)

“Os incrédulos disseram: ‘O Misericordioso tomou alguém como filho.’ Glorificado seja Ele! Eles — os anjos — são apenas Seus servos honrados; não podem sequer falar diante d’Ele sem Sua permissão. Eles fazem somente aquilo que Ele ordena. Allah sabe tudo o que está diante deles e atrás deles. Eles não podem interceder em favor de ninguém, exceto daqueles com quem Ele está satisfeito.” — (Surata Al-Anbiya: 26-28)

Eles são administradores ou secretários executivos (Árabe*******). Ou seja, administram apenas as tarefas cuja responsabilidade Allah lhes confia. Longe de serem parceiros na divindade, eles sequer possuem força suficiente para mover uma única coisa. Seu trabalho consiste apenas em servir, submeter-se e obedecer. Nem por um instante deixam de orar e recitar suas devoções; ao contrário, passam cada momento louvando e glorificando seu Senhor.

(Árabe*************)

“O trovão glorifica-O com louvor, e os anjos glorificam a Sua santidade com temor. (Surata Ar-Ra‘d: 13)”

“Tudo o que há nos céus e tudo o que se move sobre a terra prostra-se diante de Allah. E os anjos também não se rebelam nem desobedecem; temem o seu Senhor majestoso e cumprem tudo aquilo que lhes é ordenado.” — (Surata An-Nahl: 49–50)

(Árabe*************)

“Tudo o que há nos céus e na terra, e tudo o que está junto dEle, pertence-Lhe. Eles (os anjos)

não desobedecem à Sua adoração, não se cansam; ao contrário, ocupam-se noite e dia em glorificá-Lo e jamais demonstram negligência.” — (Surata Al-Anbiya: 19–20)

(Árabe*************)

“Eles jamais desobedecem àquilo que Allah lhes ordenou e executam somente o que lhes é ordenado.”

Não há qualquer espaço para o politeísmo nessa concepção. Pois aqueles acerca dos quais se poderia imaginar uma divindade foram reconhecidos como servos submissos e obedientes, assim como nós. Então, além de Allah, quem pode ser o centro da nossa adoração e devoção, submissão e obediência, súplica por ajuda e confiança?

A posição comparativa dos seres humanos e dos anjos: isso não termina aqui. O Nobre Alcorão avançou ainda mais e esclareceu também a posição comparativa dos seres humanos e dos anjos, para que o ser humano pudesse compreender devidamente sua própria posição em relação a eles. Onde a Palavra de Allah menciona a criação de Adão, esse assunto também foi explicado claramente. Quando Allah, o Altíssimo, conferiu ao primeiro ser humano, Adão (a.s.), a dignidade de Seu califado, ordenou aos anjos que se prostrassem diante dele, e todos se prostraram, exceto Iblis. (Al-Baqarah: 4; Al-A‘raf: 2; Bani Isra’il: 7; Al-Kahf: 7; Ta-Ha: 7; Sad: 5.) Os anjos reivindicaram superioridade sobre Adão (a.s.), com base em sua glorificação e proclamação da santidade de Allah. Então Allah, o Altíssimo, rejeitou a reivindicação deles e provou, por meio de um teste, que havia concedido a Adão (a.s.) mais conhecimento do que a eles. Iblis, considerando o material de sua criação como critério de superioridade, recusou-se a reconhecer a elevada posição de Adão (a.s.) e a curvar-se em prostração diante dele. Como resultado, foi expulso para sempre da presença de Allah e condenado ao desvio.

Isso, por um lado, desperta no ser humano o senso de dignidade própria e, por outro, reúne todo o seu desejo de adoração no centro da devoção a Allah. Isso prova que, em todo o universo, ninguém é superior ao ser humano, exceto Allah, o Altíssimo. Embora os anjos sejam servos honrados(Árabe*******) e superiores às demais criaturas, eles também se curvaram em prostração diante do ser humano. Portanto, quem, além de Allah, o Único Sábio, pode ser digno da servidão e da prostração do ser humano, seu auxiliador e Aquele que ouve suas súplicas?

Assim, quando a fé nos anjos se fundamenta no conhecimento divino correto e na sabedoria, a fé em Allah também se torna completamente sincera, pura e imaculada.

O segundo objetivo de crer nos anjos

O Nobre Alcorão menciona ainda outra dignidade dos anjos. Trata-se do fato de que Allah, o Altíssimo, envia por meio deles Suas mensagens e Suas leis aos profetas. E é também por meio deles que Ele garante que essa mensagem chegue aos profetas pura de toda adulteração, dúvida e conjectura. Em primeiro lugar, esses anjos são eles próprios obedientes e de natureza virtuosa. Estão livres e purificados de toda inclinação maligna e de todo egoísmo. Temem Allah e obedecem sem hesitação às Suas ordens. Por isso, não fazem qualquer acréscimo ou redução na mensagem que lhes é confiada. Em segundo lugar, são tão poderosos que nenhuma força satânica pode interferir sequer na medida de um átomo em sua transmissão e proteção dessa mensagem. Esse assunto também foi descrito em vários lugares do Nobre Alcorão:

(Árabe**************)

“Isso está registrado em um Livro honrado, elevado e puro (as-Suhuf), escrito por escribas extremamente respeitáveis e virtuosos.” — (Surata ‘Abasa: 13–16)

 (Árabe**************)

“Sem dúvida, esta é a descrição de um anjo nobre, muito poderoso e altamente honrado perante o Senhor do Trono, obediente e digno de confiança.”

(Árabe***************)

“Ele (Allah) conhece o invisível e não revela a ninguém o Seu conhecimento do invisível, exceto ao Mensageiro que Ele escolheu. Em seguida, Ele coloca anjos vigilantes ao redor dele, para que fique comprovado que os mensageiros transmitiram devidamente as Mensagens de seu Senhor. E Allah os abrange, e mantém a conta de todas as coisas.” – (Surata Al-Jinn: 26–28)

****************

“O Espírito Santo o fez descer devidamente da parte de teu Senhor.” – (Surata An-Nahl: 102)

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“Sem dúvida, este é um Livro revelado pelo Senhor dos mundos, com o qual Ruhul Amin (o Espírito digno de confiança) desceu.” – (Surata Ash-Shu’ara: 192–193)

***************

“Certamente, este honrado Alcorão está registrado em um documento oculto. Ninguém pode tocá-lo, exceto os puros (anjos). Ele foi revelado pelo Senhor dos mundos.” – (Surata Al-Waqi’a: 77-80)

Com isso, soube-se que a fé nos anjos é necessária não apenas para a fé em Allah, mas também para a fé no Livro e no Mensageiro. Em suma, ter fé nos anjos significa reconhecer como fiel e confiável o meio pelo qual a mensagem de Allah chega ao Mensageiro. A fé nessa mensagem e em seus propagadores, os profetas, não pode ser completa enquanto não depositarmos plena confiança no meio que estabelece a ligação entre Allah e Seus profetas.

Terceiro objetivo

Além disso, o Nobre Alcorão mencionou ainda outra dignidade dos anjos. Trata-se do fato de serem servidores do reino de Allah. Esses anjos são os servidores por meio dos quais Allah administra todo o sistema da natureza e do universo. A posição ocupada pelos servidores nos Estados do mundo é exatamente a mesma que eles ocupam no reino de Allah. Por meio deles, Ele faz descer o castigo sobre uns e a misericórdia sobre outros. Tira a vida de alguns e concede vida a outros. Em um lugar, faz chover; em outro, envia a fome. Eles registram continuamente as ações, as palavras e até os pensamentos de cada pessoa, além de observarem todas as suas atividades. Enquanto o ser humano age dentro do prazo concedido por Allah, esses servidores, embora cientes de tudo o que há de bom e de mau nele, continuam a cooperar com ele por ordem de Allah e executam todas as suas tarefas. Mas, assim que seu período de atuação chega ao fim, a oficina de seu califado, que ele conduzia, é interrompida. O vento cuja força um dia permitiu que os seres humanos vivessem de repente devasta seus povoados. A água pela qual as pessoas sustentam a vida subitamente as afoga. A terra onde viviam tranquilamente, como no colo da mãe, de repente, com um único tremor, as reduz a ruínas. Basta o atraso de uma única ordem: assim que ela chega, o servidor mais próximo do senhor califa imediatamente coloca algemas em suas mãos. Essa cena foi retratada com grande clareza em diversos lugares do Nobre Alcorão.

Sob esse aspecto, a fé nos anjos é uma parte indispensável da fé em Allah. Isso significa que o ser humano deve reconhecer, juntamente com o Soberano do universo, também os Seus servidores. Além disso, o ser humano não pode compreender corretamente sua própria posição neste vasto reino, nem agir permanecendo plenamente consciente dela.

5.

Fé no Mensageiro

O significado da profecia

Depois do Tawhid, a segunda crença fundamental do Islã é a “profecia” (risalat). Assim como, no campo da convicção, o Tawhid é a verdadeira religião, no campo da obediência a profecia é a verdadeira religião. O significado lexical de profecia (risalat) é profecia ou mensageiro. Aquele que leva a mensagem de uma pessoa a outra é chamado nabi (rasul), ou portador da mensagem. Contudo, na terminologia islâmica, nabi é aquele que leva a mensagem de Allah aos Seus servos e os conduz ao caminho reto de acordo com a ordem de Allah. Por essa razão, no Alcorão, para o profeta ou mensageiro, foi usado o termo “guia”(Árabe******) também. Ou seja, ele não apenas transmite a mensagem, mas também conduz as pessoas pelo caminho fácil e reto.

Allah estabeleceu um guia dentro do próprio coração humano. À luz da inspiração divina, ele distingue entre pensamentos bons e maus e entre ações corretas e equivocadas, mostrando ao ser humano o caminho reto no pensamento e na ação. Como foi dito:

(Árabe************)

“Pela natureza humana e por Aquele que a aperfeiçoou, e depois lhe inspirou sua perversidade e sua piedade. Sem dúvida, alcançou o bem aquele que purificou seu nafs, e fracassou aquele que o corrompeu.” — (Surata Ash-Shams: 7–10)

Mas, como a orientação desse guia não é clara e, além disso, muitas forças mentais e externas se associam a ele para atrair o ser humano para as más ações, a orientação isolada desse guia natural não pode ser suficiente para que o ser humano encontre o caminho reto da verdade entre os inúmeros caminhos tortuosos do mundo e percorra esse caminho sem temor. Por essa razão, Allah, o Altíssimo, supriu externamente essa deficiência. Enviou Seus profetas aos seres humanos, para que eles pudessem auxiliar esse guia interior à luz do conhecimento e da sabedoria divinos. E, quando o brilho da inspiração natural e indistinta se enfraquece sob a pressão da ignorância e das forças desviadoras, eles o tornam claro com a ajuda de sinais luminosos.

Esta é a verdadeira base da dignidade da profecia. Àqueles que foram investidos dessa dignidade, Allah, o Altíssimo, concedeu um conhecimento e uma percepção extraordinários. Com sua ajuda, eles compreenderam, não com base em conjecturas, suposições ou imaginação, mas com base no conhecimento certo, o significado de questões sobre as quais as pessoas comuns costumam divergir. Além disso, por meio dessa percepção, reconheceram com precisão, entre os caminhos tortuosos do mundo, o caminho reto e claro da verdade.

A diferença entre os profetas e os líderes comuns

Em todas as épocas, as pessoas reconheceram a necessidade de uma liderança externa. Ninguém jamais afirmou que, para o ser humano, bastava apenas a orientação de seu guia interior. Os antepassados, os nobres das linhagens, tribos e nações, professores eruditos, líderes religiosos, líderes políticos, reformadores sociais e outras pessoas desse tipo, cuja inteligência parecia confiável, frequentemente recebiam a posição de guias e eram seguidos. Mas aquilo que distingue um profeta dos demais líderes é o “conhecimento divino”. Os demais líderes não possuem conhecimento divino. Eles formam opiniões e tomam decisões apenas com base em conjecturas, suposições e imaginação. O desejo das paixões também se mistura às suas opiniões e decisões. Por isso, as crenças e leis que formulam contêm uma mistura tanto de verdade quanto de falsidade. Em seus sistemas nunca há verdade completa. É precisamente para essa verdade profunda que o Alcorão sempre advertiu:

(Árabe**********)“Aquilo que eles seguem não passa de conjectura e do desejo das paixões.” – (Surata An-Najm: 23)

“Eles não possuem conhecimento verdadeiro algum; apenas seguem conjecturas e suposições. E a condição da suposição é que ela não satisfaz em nada a necessidade da verdade.” – (Surata An-Najm: 28)

(Árabe**************)

“Mas os injustos seguiram os desejos de suas paixões, sem qualquer conhecimento.” – (Surata Ar-Rum: 29)

(Árabe**************)

“E entre as pessoas há quem discuta acerca de Allah, desviando-se com arrogância, sem conhecimento, orientação ou Livro luminoso, a fim de desviar as pessoas do caminho de Allah.” – (Surata Al-Hajj: 8–9)

(Árabe************)

“E quem é mais extraviado do que aquele que segue suas próprias paixões em vez da orientação proveniente de Allah?”

Por outro lado, ao profeta ou mensageiro é concedido “conhecimento” da parte de Allah. Sua liderança não é guiada por conjecturas nem pelos desejos das paixões; pelo contrário, ele conduz as pessoas na direção do caminho reto que vê com clareza e nitidez à luz do conhecimento concedido por Allah. Por isso, sempre que o Alcorão menciona a investidura dos profetas na dignidade da “profecia” (risalat), também afirma que lhes foi concedido “conhecimento”. Por exemplo, a proclamação da profecia de Hazrat Ibrahim (A.S.) é apresentada da seguinte forma:

(Árabe*************)

“Ó querido pai! Crê: chegou-me um conhecimento que não te chegou. Portanto, segue-me, e eu te conduzirei pelo caminho reto.” – (Surata Maryam: 43)

A concessão da profecia a Hazrat Lut (A.S.) é mencionada da seguinte forma:

(Árabe**************)

“Concedemos a Lut capacidade de julgamento e conhecimento.” – (Surata Al-Anbiya: 74)

Sobre Hazrat Musa (A.S.), é relatado:

(Árabe**************)

“Quando ele atingiu a plena maturidade e se tornou um homem completo, concedemos-lhe capacidade de discernimento e conhecimento.” – (Surata Al-Qasas: 2)

A concessão da profecia a Hazrat Davi (que a paz esteja com ele) e a Hazrat Salomão (que a paz esteja com ele) também é mencionada desta forma:

(Árabe**************)

“A cada um deles concedemos sabedoria e conhecimento.”

Ao último Profeta, Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), foi dito:

(Árabe**************)

“Se, mesmo depois de teres recebido o conhecimento, seguires os desejos deles, não terás, da parte de Allah, nenhum protetor ou ajudante que te possa proteger.” – (Surata Al-Baqarah: 120)

A posição da profecia: depois de termos lançado luz sobre a superioridade e as características do Profeta em comparação com os líderes comuns, devemos agora voltar nossa atenção para os princípios apresentados pelo Alcorão a respeito da profecia.

A relação entre a fé em Allah e a fé no Profeta

A primeira coisa é que, quando o Profeta dispõe de um meio extraordinário de conhecimento e Allah lhe concedeu uma percepção excepcional, somente a crença por ele apresentada acerca de Allah pode ser correta. Se alguém determinar uma crença com base em seus próprios pensamentos e reflexões, ou nas ideias de outros cientistas e filósofos, sua convicção acerca de Allah não será apenas incorreta; além disso, não será possível obter nenhum conhecimento verdadeiro nem sobre as questões fundamentais da religião, nem sobre os assuntos sobrenaturais que estão além dos limites do julgamento e da razão humanos comuns. Em suma, a retidão da fé e da convicção depende inteiramente da fé no Profeta. Romper esse vínculo e preencher o recipiente do pensamento com conhecimento correto é absolutamente impossível. É por isso que, em diversos lugares do Alcorão Sagrado, foi dada extrema importância à fé no Profeta. Foi dito:

(Árabe**************)

“Quantas cidades, por terem desobedecido à ordem de seu Senhor e de Seus profetas, foram submetidas por Nós a uma prestação de contas rigorosa. E infligimos-lhes grandes castigos, para que provassem o resultado de suas ações. E, por fim, seu destino foi funesto.” – (Surata At-Talaq: 8–9)

(Árabe**************)

“Certamente é um descrente aquele que renega Allah e o Mensageiro, procura criar distinção entre Allah e Seu Mensageiro, dizendo: ‘Creremos em alguns e negaremos outros’, e deseja seguir um caminho intermediário entre ambos. Para os descrentes, preparamos um castigo humilhante. Quanto àqueles que creem em Allah e em Seus mensageiros e não fazem distinção entre nenhum deles, Allah lhes concederá em breve suas recompensas. Allah é perdoador e misericordioso.” – (Surata An-Nissa: 150–152)

(Árabe*************)

“Aquele que discutir com o Mensageiro, mesmo depois de a orientação ter-se tornado clara, e seguir um caminho diferente do dos crentes, Nós o deixaremos seguir o caminho que ele próprio escolheu e, por fim, o enviaremos para o Inferno; e que péssimo destino!” – (Surata An-Nissa: 115)

Em numerosos versículos desse tipo, afirma-se com extrema clareza que a relação entre a fé em Allah e a fé no Mensageiro é inseparável. Aquele que nega os profetas de Allah e não quer aceitar seus ensinamentos, quer creia em Allah, quer não creia, encontra-se igualmente no extravio em ambos os casos. Isso porque a crença formada acerca de Allah sem conhecimento verdadeiro, mesmo sendo uma crença baseada no tawhid, raramente pode ser correta e pura.

A unidade da Palavra

O segundo ponto importante é que somente a fé no Profeta pode unir toda a humanidade com base em uma única crença. A base da divergência é, na realidade, a ignorância. Quando as pessoas não compreendem o significado de algo, tomarão decisões apenas com base em conjecturas e, como consequência natural, surgirão divergências entre elas. Pois tomar decisões com a ajuda de conjecturas e imaginação é como tatear no escuro. Se não houver luz em algum lugar, cinquenta pessoas, ao tatearem um objeto, expressarão cinquenta opiniões diferentes sobre sua forma. Mas, depois que a luz surgir, não restará nenhuma divergência; ao contrário, todos os que enxergam chegarão a um consenso sobre o mesmo assunto. Portanto, quando os profetas foram dotados de conhecimento sobrenatural e discernimento, é absolutamente impossível que surjam divergências em suas concepções, ensinamentos e métodos de ação. Por isso o Alcorão afirma que todos os profetas pertencem ao mesmo grupo; os ensinamentos e a religião de todos são essencialmente os mesmos. Todos convocaram as pessoas para o mesmo caminho reto. E é obrigatório para o crente ter fé em todos eles. Quem negar sequer um dos profetas será considerado culpado do crime de negar todos os profetas. E não restará em seu coração sequer o menor sinal de fé. Isso porque o ensinamento que ele está negando não é apenas o ensinamento de um profeta, mas o ensinamento de todos os profetas.

****************

“(Allah disse aos profetas:) Ó profetas! Comei das coisas puras e praticai boas ações; na verdade, todos pertenceis ao mesmo grupo, e Eu sou o vosso Senhor. Portanto, temei a Mim. Mas, posteriormente, as pessoas divergiram entre si e dividiram sua religião em diferentes religiões. E agora a situação é tal que cada grupo se regozija com aquilo que possui.” — (Surata al-Mu’minun: 51–53)

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“Ó Muhammad! Nós te enviamos a revelação assim como a enviamos a Noé e aos profetas que vieram depois dele. E assim também enviamos a revelação a Abraão, Ismael, Isaac, Jacó, aos descendentes de Jacó, a Jesus, Jó, Jonas, Aarão e Salomão; e concedemos a Davi o Zabur. E enviamos profetas sobre os quais já te falamos anteriormente, assim como outros sobre os quais não te falamos. E, antes de ti, Allah falou também com Moisés.” — (Surata an-Nisa: 163–164)

Numerosos versículos desse tipo comprovam que todos os profetas vieram convocar as pessoas para a mesma religião verdadeira e foram enviados a cada povo.

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É obrigatório ter uma fé clara em todos os profetas entre aqueles que são mencionados explicitamente no Alcorão Sagrado. Quanto aos profetas cujos nomes não nos foram revelados, a convicção correta é que todos eles foram convocadores ao Islã. Porém, diferentes povos alteraram seus ensinamentos e, divergindo entre si, criaram religiões distintas para si mesmos. Não podemos chamar Buda, Krishna, Zaratustra, Confúcio e outros de profetas precisamente porque nada explícito é mencionado sobre eles no Alcorão. Entretanto, nossa convicção é que profetas de Allah vieram à Índia, à China, ao Japão, ao Irã, à África, à Europa e a todos os demais países, e que todos convocaram as pessoas ao mesmo Islã, tal como fez Muhammad (que a paz esteja com ele). Portanto, não queremos declarar falsos os líderes religiosos de nenhuma nação; rejeitamos apenas as opiniões e os caminhos equivocados atualmente difundidos no mundo, que se desviaram da Sirat al-Mustaqim do Islã.

Obediência e seguimento do Profeta

O resultado inevitável da crença na profecia é que se deve seguir o caminho adotado pelo Mensageiro de Allah não apenas nas questões da fé e da adoração, mas também em todos os aspectos práticos da vida. Isso porque, por meio do “conhecimento” e da “percepção interior” com que Allah os honrou, eles podiam distinguir com absoluta certeza os caminhos equivocados dos corretos. Por essa razão, tudo o que rejeitavam ou aceitavam, e tudo o que ordenavam, faziam sob a orientação de Allah. As pessoas comuns, mesmo adquirindo experiência durante anos, ou até décadas, não poderiam alcançar pleno sucesso ao distinguir o erro da verdade; e, mesmo que obtivessem algum êxito, este não se fundamentaria na base firme de uma convicção irrefutável. Ao contrário, dependeria apenas de conjecturas e investigações, permanecendo sempre a possibilidade de erro. Já os profetas de Allah adotaram, nas atividades da vida, e ensinaram o caminho a seguir com base no conhecimento. Por isso, não há possibilidade de erro nele. É por essa razão que o Alcorão Sagrado ordena repetidamente a obediência e o seguimento dos profetas. Ele denomina o caminho seguido por eles de Shariah, caminho reto e Sirat al-Mustaqim, e insiste que se abandone a obediência a outras pessoas para obedecer somente aos profetas e seguir apenas seus passos. Isso porque obedecer-lhes é exatamente obedecer a Allah, e segui-los é seguir a vontade divina.

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“Enviamos os profetas somente para que fossem obedecidos, com a permissão de Allah.” — (Surata An-Nissa: 64)

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“Quem obedece ao Profeta obedece ao próprio Allah.” — (Surata An-Nissa: 80)

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“Ó Muhammad! Dize: Se quereis amar a Allah, então obedecei-me. Assim, Allah vos amará e perdoará os vossos pecados. Allah é extremamente perdoador e misericordioso. Dize: Obedecei a Allah e ao Mensageiro; mas, se depois disso se afastarem, sabei com certeza que Allah não aprecia os incrédulos.” — (Sura آل Imran: 31–32)

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“Ó crentes! Obedecei a Allah e ao Seu Mensageiro, e não vos afasteis dele quando estiverdes ouvindo a Sua ordem. Não sejais como aqueles que dizem: ‘Ouvimos’, embora nada ouçam. Perante Allah, as piores criaturas são aqueles que nada compreendem.” — (Sura Al-Anfal: 20–22)

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“Quando Allah e o Seu Mensageiro decidem sobre uma questão, não é permitido a nenhum homem crente nem a nenhuma mulher crente conservar qualquer direito de decisão sobre seus próprios assuntos. E quem desobedece a Allah e ao Seu Mensageiro caiu em evidente perdição.” — (Sura Al-Ahzab: 36)

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“E, se eles não atenderem ao que dizes, sabe que apenas seguem os desejos de suas próprias paixões. E quem é mais desviado do que aquele que abandona a orientação de Allah e segue os seus próprios desejos?” (Sura Al-Qasas: 50)

Muitos outros versículos semelhantes também enfatizam a obediência e o seguimento do Profeta. Além disso, na Surata Al-Ahzab, afirma-se de modo muito claro que, para aqueles que esperam o sucesso na vida futura e a recompensa de Allah, a vida do Mensageiro de Allah é um modelo digno de ser imitado.

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“Na verdade, na vida do Mensageiro de Allah havia um excelente exemplo para todo aquele que espera em Allah e no Dia Final e se recorda muito de Allah.” — (Surata Al-Ahzab: 21)

A importância da crença na profecia

Juntamente com as instruções relativas à obediência e ao seguimento, a convicção relacionada à profecia é, na realidade, a essência da cultura estabelecida pelo Islã, sua força vital, sua força de sustentação e a base fundamental de sua natureza distintiva.

Em toda cultura e em todo sistema social, três coisas desempenham o papel de fundamentos. Primeiro, o sistema de pensamento; segundo, os princípios morais; e terceiro, a legislação social. Em todas as culturas do mundo, essas três coisas são obtidas de três maneiras diferentes. O sistema de pensamento é extraído dos ensinamentos de pensadores e cientistas que, por alguma razão, exerceram influência sobre a mentalidade de grandes grupos humanos. Os princípios morais são adotados de estadistas, reformadores e líderes religiosos que, em diferentes épocas, conquistaram autoridade sobre povos específicos. Já a legislação social é elaborada por pessoas de cuja competência e habilidade se depende nos diversos aspectos e setores da vida. O sistema social que se estabelece dessa maneira apresenta inevitavelmente três falhas fundamentais:

Primeiro: os elementos reunidos dessas três fontes diferentes formam uma mistura tão heterogênea que talvez leve séculos para que seu temperamento se estabeleça. Ainda assim, muitas incoerências, desigualdades e desarmonias permanecem em seu interior. No mundo existem inúmeros cientistas e filósofos. O sistema de pensamento de cada um é diferente e essencialmente distinto do dos demais. Em geral, eles não têm nenhuma relação estreita com os problemas práticos da vida humana; ao contrário, a maioria deles tornou-se célebre por sua aversão à humanidade. É de fontes como essas que as pessoas do mundo extraem seus sistemas de pensamento. Também entre o grupo do qual se reúne o segundo elemento observam-se muitas divergências quanto às concepções pessoais, às correntes de pensamento e à mentalidade. Se há alguma unidade entre os membros desse grupo, ela consiste no fato de que cada um deles é habitante do mundo da imaginação e adepto de um excessivo sentimentalismo e entusiasmo. Sua relação com os problemas concretos da realidade é muito limitada. As fontes do terceiro elemento também são diversas entre si; contudo, possuem uma coisa em comum: há muito pouca sensibilidade delicada entre seus integrantes. O realismo excessivo os tornou cruéis e insípidos. É evidente que a mistura correta e harmoniosa de elementos tão heterogêneos e contraditórios é extremamente difícil, e sua desunião e oposição inevitavelmente fazem sobressair suas características próprias.

Segundo: os três elementos obtidos desses meios não possuem nem força de permanência nem capacidade de abrangência. Diferentes pensadores, líderes de Estado e legisladores exercem influência sobre diferentes povos e, como resultado, surgem diferenças fundamentais em seus sistemas de pensamento, princípios morais e legislação social. Além disso, mesmo dentro de uma mesma nação, a influência dos eminentes pensadores, estadistas e legisladores que a marcaram nos primeiros tempos não se mantém nas épocas posteriores; pelo contrário, com a mudança das eras, mudam também esses agentes de influência e a influência que exercem. Assim, por um lado, as culturas assumem um caráter nacional e, devido à sua oposição, acende-se entre os povos um fogo de hostilidade que, na realidade, é semelhante a um raio incendiário que ateia fogo à palha da paz. Por outro lado, a civilização e a cultura próprias de cada povo permanecem permanentemente em um estado vacilante e instável e, em vez de se desenvolverem em uma direção definida, ora avançam rumo à evolução, ora rumo à revolução.

Terceiro: nenhuma das fontes mencionadas dos três elementos possui sequer o menor sinal de sacralidade. O método de pensamento que uma nação recebe de seus pensadores, os princípios morais que recebe de seus orientadores e o sistema social que recebe de seus legisladores são todos produtos do esforço humano, e seus seguidores permanecem plenamente conscientes de que são produtos desse esforço humano. O resultado inevitável disso é que a adesão jamais alcança a perfeição. Mesmo no auge de sua adesão, os seguidores não conseguem impregnar-se de uma disposição de fé. Eles próprios percebem que há possibilidade de erro e necessidade de correção nos elementos fundamentais de sua cultura. Além disso, a experiência prática e as provas continuam a demonstrar seus erros. Como resultado, surgem naturalmente dúvidas, hesitações e conflitos interiores. Desse modo, nenhum método de pensamento ou sistema jurídico consegue jamais exercer controle pleno sobre uma nação nem tem oportunidade de conferir estabilidade à sociedade e à civilização.

Em contrapartida, a cultura estabelecida com base na fé no profeta permanece livre das três referidas distorções e desvios.

Primeiro, nela, os três componentes da cultura são extraídos da mesma fonte. A mesma pessoa determina o método de pensamento, define os princípios morais e também formula os princípios do sistema social. Ela é simultaneamente a orientadora do mundo do pensamento, do mundo moral e do mundo da ação. Seu olhar se estende igualmente aos problemas dos três mundos. Nela ocorre uma combinação equilibrada de tolerância, sensibilidade delicada e habilidade prática, e ela incorpora esses três elementos na fórmula da cultura, cada um na medida adequada, de tal modo que não haja excesso nem falta em nenhuma parte. Não se observa qualquer falta de conexão ou desarmonia entre as partes. Isso está, na realidade, acima das forças e capacidades humanas. Contudo, realizá-lo é absolutamente impossível sem a orientação do Senhor.

Segundo, nenhum de seus elementos é étnico ou temporal. O método de pensamento, os princípios morais e o sistema social estabelecidos pelo profeta de Allah não se baseiam em tendências étnicas ou características temporais; ao contrário, fundamentam-se na verdade e na retidão. A verdade e a retidão são coisas que estão acima de todas as fronteiras entre Oriente e Ocidente, negros e brancos, não arianos e arianos, antigos e modernos. Aquilo que é verdadeiro e se apoia na verdade permanece igualmente verdadeiro e fiel à verdade em todos os recantos do mundo, entre todos os povos e em cada ciclo do tempo e da história. O sol é sol no Japão, assim como é sol em Gibraltar. Assim como era o sol mil anos atrás, continuará sendo exatamente o mesmo mil anos depois. Portanto, se alguma cultura pode tornar-se universal, humana e duradoura, só pode ser a cultura estabelecida pelo Mensageiro de Allah. Isso porque somente ela possui a capacidade de adaptar-se a cada país, povo e época, mantendo inalterados seus princípios e fundamentos essenciais.

Terceiro, esta cultura possui a dignidade de uma pureza completa. Seus seguidores mantêm a convicção e a fé de que o fundador desta cultura é o profeta de Allah e de que ele possui o conhecimento concedido por Allah. Não há o menor traço de dúvida ou hesitação em seu conhecimento. Em suas palavras não há lugar para conjecturas ou suposições, nem para o impulso das paixões. Tudo o que ele apresenta, apresenta da parte de Allah. Não há qualquer possibilidade de que ele tropece ou seja conduzido por um caminho errado. “Vosso companheiro não se desviou nem se extraviou. Ele não fala por sua própria vontade. Isto não é senão uma revelação que lhe foi revelada. O Poderoso ensinou-lhe.” — (Surata An-Najm: 2–5). Quando essa fé e convicção penetram nas veias e nos vasos sanguíneos dos seguidores do profeta, eles passam a seguir o profeta com plena tranquilidade mental. Não resta em seu coração lugar para dúvida, hesitação ou conflito interior. Jamais surge em seu coração o temor de que esse caminho talvez não seja correto e de que algum outro caminho seja fiel à verdade ou, pelo menos, melhor do que ele. Evidentemente, uma cultura assim será sólida no grau desejado; sua adesão será extremamente firme; nela se observará mais disciplina do que nas demais culturas do mundo. Em seu método de pensamento, em seus princípios morais e em seu sistema social serão estabelecidas maior coesão, equilíbrio e estabilidade.

Na verdade, os profetas de Allah foram os construtores dessa mesma cultura. Durante centenas de anos, eles prepararam o terreno para ela em todas as partes do mundo. Quando o terreno ficou completamente preparado, o último profeta, Muhammad (que a paz esteja com ele), veio e ergueu para ela um edifício completo.

A natureza distintiva da profecia de Muhammad

Tudo o que foi exposto até aqui estava relacionado às normas gerais referentes à profecia. Mas, além disso, há alguns aspectos especificamente relacionados à profecia muhammadiana. Não há dúvida de que, quanto à dignidade profética, não existe diferença fundamental entre Muhammad (que a paz esteja com ele) e os demais profetas. Pois a declaração clara do Alcorão Sagrado é que não é permitido estabelecer qualquer distinção entre os profetas. Portanto, em princípio, isso se aplica a todos os profetas: todos foram enviados da parte de Allah. A todos foram concedidas “sabedoria” e “conhecimento”. Todos convidam ao mesmo caminho reto. Todos são guias e orientadores da humanidade. A obediência a todos é obrigatória, e a vida de todos é um modelo digno de imitação para a humanidade. Contudo, na prática, Allah, o Altíssimo, concedeu ao último profeta, Muhammad (que a paz esteja com ele), uma distinção especial em alguns aspectos, em comparação com os demais profetas. Essa distinção não é algo trivial ou insignificante, cuja observância ou não observância não produza qualquer consequência; na realidade, ela possui importância fundamental em todo o sistema do Islã. De fato, todos os conceitos e leis do Islã estão fundamentados nessa posição distintiva da profecia muhammadiana. Por isso, a fé de uma pessoa em relação à profecia não pode ser purificada enquanto ela não crer em Muhammad, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), levando em consideração essa posição especial e distintiva.

A diferença entre as profecias anteriores e a profecia de Muhammad

Para compreender isso, é necessário ter em mente alguns pontos.

Um: Indicações corânicas, a história antiga e a inferência racional levam à conclusão de que o número de profetas deve ter sido de vários milhares. O Alcorão diz: “Não houve povo algum ao qual não tivesse sido enviado um admoestador.” É evidente que passaram pelo mundo tantos grupos humanos que a nossa história não conseguiu nem consegue registrar todos eles. Portanto, mesmo que tivesse vindo um único profeta para cada povo, o número de profetas deveria ultrapassar a casa dos milhares. Alguns hadiths também apoiam essa afirmação. Neles, o número de profetas é mencionado como chegando a cento e vinte e quatro mil. Contudo, entre essa quantidade imensa, os profetas cujos nomes são mencionados no Alcorão Sagrado podem ser contados nos dedos. Mesmo que incluamos entre eles os nomes daqueles líderes religiosos cuja profecia não é sequer indicada no Alcorão Sagrado, esse número ainda não ultrapassa a casa das dezenas. O desaparecimento até dos nomes e vestígios de tantos profetas, bem como o apagamento dos vestígios de seus ensinamentos, prova que eles vieram para épocas específicas e povos específicos. Eles não trouxeram nada que pudesse conferir estabilidade, permanência e alcance universal aos seus ensinamentos.

Dois: Além disso, sobre as biografias e os ensinamentos dos profetas e líderes religiosos cujos nomes conhecemos acumularam-se tantas camadas de lendas e distorções que a nossa ignorância a respeito deles é incomparável. Basta examinar, pelo mero critério histórico, os vestígios deles que existem no mundo atual, deixando de lado as crenças fantasiosas, para ser obrigado a admitir que não se pode confiar em nenhum deles. Não somos capazes sequer de determinar o período exato em que viveram. Nem conhecemos seus nomes verdadeiros. Também não podemos afirmar definitivamente se eles realmente existiram no mundo. Historiadores chegaram a duvidar de que figuras famosas como Buda, Zaratustra e Jesus tenham sido personagens históricos, considerando-as meras criações da imaginação. Além disso, tudo o que sabemos sobre suas vidas é tão breve e impreciso que não é possível tomá-los como modelos dignos de imitação em nenhum aspecto da vida. O estado dos ensinamentos que eles difundiram é praticamente o mesmo. A autenticidade de nenhum dos livros e ensinamentos que circulam em seus nomes remonta de fato a eles. Pelo contrário, existem provas sólidas, tanto internas quanto externas, de que esses livros e ensinamentos sofreram amplas alterações e modificações. Isso demonstra claramente que a profecia e a liderança religiosa de todos os profetas e líderes religiosos que vieram antes de Muhammad (que a paz esteja com ele) chegaram ao fim.

Três: Está comprovado a respeito de quase todos os profetas e líderes religiosos que seus ensinamentos eram destinados precisamente aos povos entre os quais haviam surgido. Alguns deles próprios declararam isso, enquanto, no caso de outros, o curso dos acontecimentos o demonstrou. Os ensinamentos de Abraão, Moisés, Confúcio, Zaratustra e Krishna jamais ultrapassaram os limites de seus próprios povos. O mesmo se aplica aos demais profetas e líderes religiosos das raças semíticas e arianas. É verdade que os seguidores de Buda e Jesus conseguiram levar seus ensinamentos a outros povos. Mas eles próprios jamais se empenharam nisso, nem afirmaram que sua mensagem se destinava ao mundo inteiro. Pelo contrário, o próprio Evangelho cita Jesus dizendo que ele veio ao mundo somente para orientar os filhos de Israel.

Quatro: Entre todos os profetas e líderes religiosos, somente Muhammad (que a paz esteja com ele) é o homem sobre cuja vida e ensinamentos possuímos informações autênticas e absolutamente confiáveis, cuja veracidade não deixa margem alguma para dúvida. Por isso, pode-se afirmar, sem receio de qualquer contestação, que hoje não existe, a respeito de nenhuma figura histórica do mundo, um acervo de informações tão preciso e confiável. Se até mesmo uma pessoa cética duvidar de sua autenticidade, terá de lançar numa fogueira todos os arquivos da história mundial. Pois, depois de duvidar da autenticidade de um acervo documental tão grandioso, ela terá necessariamente de admitir que todo o conhecimento histórico não passa de um amontoado de mentiras e que não se pode confiar sequer em uma linha dele.

Cinco: Assim, entre todos os profetas e líderes religiosos, somente a trajetória e a biografia de Muhammad (que a paz esteja com ele) estão disponíveis diante de nós em detalhes. Não apenas entre os líderes religiosos dos povos, mas entre todas as figuras históricas do mundo, não há, além de Muhammad (que a paz esteja com ele), homem algum cuja biografia tenha preservado nas páginas da história tantos detalhes minuciosos. Se existe alguma diferença entre a época de Muhammad (que a paz esteja com ele) e a época atual, é que naquela época sua presença física estava entre nós, enquanto hoje ela não está. Mas, se não impusermos a condição da existência física para que alguém esteja vivo, podemos dizer que ele ainda vive hoje e continuará vivendo enquanto sua biografia permanecer no mundo. Nas coletâneas de hadiths e nas obras biográficas, as pessoas de hoje ainda podem contemplar a vida de Muhammad (que a paz esteja com ele) com a mesma proximidade com que podiam contemplá-la seus contemporâneos. Portanto, é perfeitamente justo dizer que, entre os profetas e os demais líderes religiosos, somente Muhammad (que a paz esteja com ele) pode ser seguido de maneira verdadeira e completa.

Seis: O mesmo se aplica aos ensinamentos de Muhammad (que a paz esteja com ele). Já foi dito anteriormente que não existe, entre os profetas e líderes religiosos, nenhum cuja escritura sagrada trazida por ele e cujos ensinamentos difundidos por ele ainda estejam hoje preservados de forma autêntica, permitindo estabelecer, por meios seguros e confiáveis, uma ligação com seu portador original e seu pregador. Muhammad (que a paz esteja com ele) é o único que possui essa ventura. O livro que ele trouxe, o Alcorão, permanece exatamente na língua em que ele o apresentou. Além do Alcorão, as orientações que ele transmitiu com suas próprias palavras também estão preservadas de modo praticamente autêntico e, inshallah, permanecerão preservadas para sempre. Portanto, entre os profetas e líderes religiosos, somente os ensinamentos de Muhammad (que a paz esteja com ele) podem ser seguidos com segurança e sem qualquer dúvida.

Sétimo: examine todo o acervo de informações atualmente disponível no mundo sobre os ensinamentos e as biografias dos profetas e dos mestres religiosos do passado. Todos os exemplos sagrados de verdade e sinceridade, bondade e benevolência, bom caráter e boa conduta que encontrar, encontrará cada um deles nos ensinamentos e na biografia de Muhammad (que a paz esteja com ele). Do mesmo modo, nos ensinamentos e nas vidas dos líderes que surgiram na sociedade humana depois dele, não encontrará nenhuma verdade, sinceridade, virtude ou bondade que não esteja presente nos ensinamentos e no caráter de vida de Muhammad (que a paz esteja com ele). Além disso, nos ensinamentos e na biografia do venerável Muhammad (que a paz esteja com ele), encontra-se um acervo tão rico de conhecimento verdadeiro, boas obras e princípios virtuosos que não pode ser encontrado nos ensinamentos e nas biografias de nenhum mestre religioso passado ou presente do mundo. O mais importante é que, fora do Islã, o ser humano não consegue conceber nenhuma afirmação correta sobre o conhecimento divino, o caráter moral e a conduta terrena. Portanto, é uma verdade inegável que os ensinamentos e o caráter de Muhammad (que a paz esteja com ele) constituem a totalidade de todo o bem. Tudo o que havia de verdadeiro, Muhammad tornou manifesto; o caminho reto, como era chamado, ele tornou luminoso. Para manter saudável o caráter moral e a conduta das pessoas, tanto individual quanto coletivamente, e para viver corretamente no mundo, ele apresentou claramente todos os bons princípios e normas que poderiam existir. Agora já não há qualquer possibilidade de acrescentar ou ampliar isso.

Oitavo: entre todo o grupo de profetas e mestres religiosos, somente Muhammad (que a paz esteja com ele) afirmou que sua mensagem se destinava a toda a humanidade e, de fato, ainda durante sua vida, enviou cartas-convite aos soberanos de diferentes países; sua mensagem chegou a todas as regiões da Terra e a todos os grupos da humanidade. Essa distinção ninguém além do venerável (que a paz esteja com ele) conseguiu alcançar. Alguns sequer reivindicaram a universalidade, nem alcançaram a condição de universalidade. A religião de alguns outros, por sua vez, alcançou uma condição universal; mas eles próprios jamais fizeram tal reivindicação, nem se esforçaram por isso. Na realidade, o venerável Muhammad (que a paz esteja com ele) é a única pessoa que reivindicou a universalidade, esforçou-se por ela e, de fato, alcançou-a.

Nono: só pode haver três razões para a vinda de profetas ao mundo. Primeiro, nenhum profeta veio anteriormente para orientar determinado povo e, de acordo com **********, é necessário um ou mais profetas para ele. Segundo, um profeta havia vindo anteriormente, mas os sinais de sua profecia desapareceram; seus ensinamentos e o Livro que trouxe foram corrompidos; os vestígios relacionados à sua vida foram apagados, e tornou-se impossível para as pessoas seguir seu excelente exemplo. Terceiro, como os ensinamentos do profeta ou dos profetas anteriores eram incompletos, tornou-se necessário acrescentar-lhes e ampliá-los ainda mais. Além dessas três razões, não há uma quarta razão para a vinda de profetas, nem ela pode existir do ponto de vista da razão.¹ Se um profeta já veio para um povo, seus ensinamentos e sua biografia estão preservados de forma autêntica, não há necessidade de qualquer acréscimo ou ampliação e, apesar disso, um segundo profeta fosse enviado depois, isso seria absolutamente impossível. O cargo de profeta não é simplesmente uma questão de distinção, a ser concedido como recompensa por alguma boa ação. Pelo contrário, é um tipo especial de serviço, confiado a alguém conforme a necessidade, para uma tarefa específica. Além disso, esse cargo não é tão pequeno e insignificante que seja conferido a alguém apenas para chamar a atenção para um ensinamento anterior. Para esse trabalho, bastam os eruditos fiéis à verdade e os renovadores. Portanto, a razão exige definitivamente que nenhum profeta possa vir enquanto não ocorrer uma das três razões mencionadas. E ficou comprovado em nossa discussão anterior que, com a Profecia de Muhammad (que a paz esteja com ele), essas três razões foram eliminadas. Sua mensagem se destina a toda a humanidade; portanto, agora não há necessidade de profetas distintos para diferentes povos. O Livro que ele trouxe e os sinais de sua profecia estão preservados de forma completamente autêntica; não há necessidade de um novo Livro ou de uma nova orientação. Seus ensinamentos e sua orientação são completos e perfeitos. Neste âmbito, nada do conhecimento verdadeiro permaneceu oculto, nem ficou algo a ser apresentado como orientação e exemplo a ser seguido para a prática do bem

¹ Uma razão pode, naturalmente, ser a necessidade de enviar outro profeta junto de um profeta para ajudá-lo. Alguns exemplos disso também são encontrados no Alcorão. Mas esse não é o tema de nossa discussão. Isso porque a profecia do profeta auxiliar é apenas um complemento da profecia para a qual ele foi nomeado como ministro, a fim de prestar assistência.

não apresenta qualquer falha. Portanto, também não há necessidade de alguém que a amplie. Quando essas três razões não estão presentes — embora a vinda de um profeta dependa justamente dessas três coisas —, é naturalmente necessário reconhecer que, depois da Profecia de Muhammad (que a paz esteja com ele), a porta da profecia foi definitivamente fechada. Se hoje essa porta permanecesse aberta, isso significaria que Allah também realiza atos inúteis, embora Allah esteja livre, puro e santificado de tudo isso. Jamais é realizado por Ele qualquer ato inútil.¹

O Alcorão apresentou de maneira extremamente abrangente e clara as três distinções especiais da Profecia de Muhammad (que a paz esteja com ele).

A mensagem universal

O Alcorão diz

“(Ó Muhammad!) Dize: Ó humanidade! Sou o Mensageiro de Allah para todos vós, d’Aquele que possui o reino dos céus e da terra; não há divindade além d’Ele, que dá a vida e causa a morte. Crede, pois, em Allah e em Seu Profeta e Mensageiro iletrado, que crê em Allah e em Suas palavras. Segui-o, para que possais seguir o caminho reto. — (Surata Al-A‘raf: 158)

“(Ó Muhammad!) Enviámos-te para toda a humanidade como anunciador de boas-novas e admoestador, mas a maioria das pessoas não sabe disso.” — (Surata Saba: 28)

1. A questão não é apenas que enviar um profeta sem necessidade seria uma ação inútil; isso também seria contrário à razão. Depois de concluída a missão profética, sua porta deveria necessariamente ser fechada, para que as pessoas de todo o mundo pudessem unir-se seguindo um único profeta. Caso contrário, se essa porta permanecesse aberta, a chegada de cada novo profeta provocaria novamente entre as pessoas uma distinção entre incredulidade e fé, e aqueles que estavam unidos começariam a separar-se uns dos outros.

“Ó humanidade! Este Profeta veio até vós com a verdade, da parte de vosso Senhor; crede, pois, e isso será melhor para vós. Mas, se persistirdes na incredulidade, sabei que a Allah pertence o domínio dos céus e da terra.” — (Surata An-Nissá: 170)

“(Ó Muhammad!) Enviámos-te como misericórdia para todos os mundos.” — (Surata Al-Anbiyá: 107)

“Bendito seja Aquele que revelou a Seu servo o Livro que distingue a verdade da falsidade, para que ele fosse um admoestador para todos os mundos.” — (Surata Al-Furqan: 1)

Disso tornam-se claras várias questões:

Primeiro: a missão de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não se limita a nenhuma época, povo ou país; pelo contrário, ele é, para sempre, o guia e orientador de toda a humanidade.

Em segundo lugar, toda a humanidade foi ordenada a crer nele e a segui-lo.

Em terceiro lugar, não se pode encontrar a orientação correta sem crer nele e segui-lo.

Esses três pontos fazem parte da doutrina da convicção, pois a universalidade e a infinitude da cultura universal chamada Islã dependem justamente dessa convicção. Na verdade, se se admitir que é possível encontrar o caminho correto fora da religião pregada pelo Nobre Profeta (S.A.), a universalidade do convite islâmico desaparece e a universalidade do ideal islâmico também perde todo o sentido.

A perfeição da religião do Islã

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Ele é Quem enviou Seu Mensageiro com a orientação e a verdadeira religião, para fazê-la prevalecer sobre todas as religiões.” — (Surata At-Tawbah: 33)

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“Hoje, aperfeiçoei para vós a vossa religião, completei sobre vós a Minha graça e escolhi para vós o Islã como religião.” Disso se soube que aquilo que se chama orientação e aquilo que se entende por verdadeira religião foram enviados de modo completo e perfeito por meio do Profeta árabe (S.A.). Sua profecia se estendeu sobre todas as religiões. Foi por meio dele que a religião foi aperfeiçoada. E o fluxo puro da orientação, que vinha descendo pouco a pouco por meio dos profetas anteriores, chegou agora ao estágio da plenitude. Depois disso, não resta, na orientação, na religião e no verdadeiro conhecimento, coisa alguma cuja divulgação possa exigir a vinda de outro profeta ou mensageiro. Como consequência natural da declaração, em linguagem tão clara, da perfeição da religião e da conclusão completa das bênçãos, era inevitável que se rompesse a relação de obediência e seguimento para com as profecias anteriores e que a porta da profecia se fechasse para o futuro. Essas duas coisas — isto é, a revogação das religiões anteriores e o encerramento da profecia — são características distintivas da missão de Muhammad (S.A.). O Alcorão Majide declarou expressamente essas duas coisas.

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A ab-rogação das religiões anteriores

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O significado da expressão “a ab-rogação das religiões anteriores” é que tudo o que os profetas anteriores haviam apresentado foi agora revogado. É, sem dúvida, necessário ter uma fé geral em sua missão profética e em sua veracidade, pois todos eles foram convocadores da missão islâmica. Crer neles é, em última análise, crer no Islã. Contudo, na prática, a relação de obediência e seguimento foi rompida com eles e passou a estar ligada exclusivamente aos ensinamentos e ao modelo de vida de Muhammad (s.a.w.). Isso porque, em princípio, depois da perfeição, não havia necessidade alguma de imperfeição. Em segundo lugar, os ensinamentos e as biografias dos profetas anteriores foram distorcidos e desapareceram; consequentemente, já não era possível segui-los corretamente. Por essa razão, onde quer que o Alcorão Sagrado ordene obedecer e seguir o Mensageiro, são usadas as palavras **** ou ****. Com isso, refere-se especificamente a Muhammad (s.a.w.). Assim, foi dito:

“Dize-lhes: Aceitai obedecer a Allah e ao Mensageiro. Mas, se não aceitarem o vosso convite, Allah certamente não ama aqueles que se recusam a obedecer a Ele e ao Mensageiro.” — (Surata Aal Imran: 32)

Obedecei a Allah. Obedecei ao Mensageiro e também àqueles dentre vós que têm autoridade geral. (Surata An-Nissá: 59)

“Quem obedece ao Mensageiro obedece, na realidade, ao próprio Allah.” (

E é por essa razão que também foi ordenado aos povos que creem em algum dos profetas anteriores que tenham fé em Muhammad (s.a.w.) e o sigam. Por isso, foi dito:

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“Ó adeptos do Livro! Meu Mensageiro veio até vós, expondo-vos muitas coisas que ocultastes do Livro, embora também vos perdoe muitas outras. Chegou-vos, da parte de Allah, uma luz e um Livro esclarecedor. Por meio dele, Allah guiará para os caminhos da paz aqueles que seguem o Seu agrado, tirá-los-á das trevas para a luz e os conduzirá pelo caminho reto.” (Surata Al-Ma’idah: 15–16)

Em outro lugar, foi dito:

“Entre os adeptos do Livro, os verdadeiros crentes são aqueles que seguem este Profeta-Mensageiro Ummi, cuja descrição encontram registrada na própria Torá e no Evangelho. Ele lhes ordena o bem e os proíbe do mal; torna lícitas para eles as coisas puras, declara ilícitas as coisas impuras e remove deles todos os fardos e grilhões. Portanto, os que creem nele, o apoiam e auxiliam e seguem a luz que lhe foi revelada são os bem-aventurados. Ó Muhammad! Dize: ‘Ó humanidade! Sou o Mensageiro de Allah para todos vós, d’Aquele a Quem pertence o reino dos céus e da terra. Não há divindade além d’Ele; Ele dá a vida e causa a morte. Crede, pois, em Allah, em Seu Mensageiro e Profeta Ummi, que crê em Allah e em Suas palavras, e segui-o, para que sejais guiados pelo caminho reto.’” (Surata Al-A’raf: 157–158)

Nesses versículos claros, foi explicado o tema da ab-rogação das religiões anteriores. Seu significado e sua importância foram esclarecidos; sua causa foi exposta e também foi indicado seu resultado natural. Foi igualmente declarado que, a partir de agora, a obtenção da orientação e da felicidade está intrinsecamente ligada ao seguimento do Profeta Ummi (que a paz esteja com ele). Além disso, foi explicado que a religião transmitida pelo Profeta Ummi (que a paz esteja com ele) é, na realidade, a reforma e o aperfeiçoamento da mesma religião que havia sido enviada aos que criam na Torá e no Evangelho e às demais nações.

O selo da profecia

Assim, o Alcorão Sagrado também expôs em termos ainda mais claros o outro resultado da perfeição da religião: o selo da profecia. Foi dito:

“Muhammad não é o pai de nenhum dos vossos homens, mas é o Mensageiro de Allah e o Selo dos Profetas. E Allah é conhecedor de todas as coisas.” (Surata Al-Ahzab: 40)

Esta declaração sobre o encerramento da porta da profecia é tão clara que, se não houver desvio ou perversidade no coração de alguém, depois dela essa pessoa não poderá encontrar qualquer possibilidade de abrir novamente a porta da profecia dentro do Islã. Quer se leia a palavra **** mencionada no versículo com a letra ** portando jabar, quer com jer, o resultado será o mesmo em ambos os casos; a saber: a porta da profecia foi encerrada para sempre, de acordo com o conhecimento de Allah, contra o qual nada pode acontecer.

Elemento indispensável da fé na profecia de Muhammad

A perfeição da religião do Islã, a ab-rogação das religiões anteriores e o encerramento da profecia — essas três crenças, na realidade, fazem parte do credo islâmico, e a base da profecia constitui um elemento indispensável dessa crença. A base do chamado universal do Islã é que, para a humanidade, foi instituída, sob a forma do chamado de Muhammad, uma religião completa, na qual foram supridas as deficiências de todos os chamados anteriores. E não foi deixada para o futuro qualquer deficiência que algum dia pudesse precisar ser completada. Essa religião completa estabeleceu para sempre uma distinção clara e permanente entre o Islã e a incredulidade, a verdade e a falsidade. Depois disso, até o Dia da Ressurreição, não haverá necessidade de qualquer acréscimo ou redução nela. Na verdade, tudo aquilo que é Islã e verdade foi claramente indicado por Muhammad (que a paz esteja com ele). Depois dele, não há possibilidade de surgir algo novo desse tipo, cuja aceitação determine que alguém seja muçulmano e esteja na verdade. Por outro lado, aquilo que Muhammad (que a paz esteja com ele) classificou como incredulidade e falsidade será incredulidade e falsidade para sempre. Assim como algo que ele declarou não pode hoje tornar-se verdade e Islã, também não se pode estabelecer uma nova distinção entre incredulidade e Islã com base em qualquer outra coisa além disso. Sobre uma base tão sólida e imutável foi erguido o grandioso edifício da comunidade universal e permanente e da cultura islâmica. Sua construção sobre tal fundamento foi feita para que os povos do mundo pudessem unir-se para sempre seguindo a mesma comunidade, a mesma religião e a mesma cultura. Essa comunidade seria tal que eles não teriam receio quanto à sua perfeição e permanência. O chamado universal do Islã está fundamentado na confiança e na certeza, e é sobre isso que dependem a estabilidade e a permanência do Islã. Quem diz que, mesmo depois da revelação do Islã, é válido seguir as religiões anteriores, na realidade quer retirar do Islã o direito ao chamado universal. Pois, se for possível obter orientação por outros caminhos além do Islã, conclamar toda a humanidade ao Islã tornar-se-á inútil. E quem diz que os ensinamentos de Muhammad (que a paz esteja com ele) podem ser corrigidos, modificados e ampliados de acordo com as necessidades e circunstâncias de cada época, na realidade quer privar o Islã do direito à permanência. Pois, se uma religião é incompleta e sujeita a mudanças e acréscimos, sua pretensão de ser um meio de orientação para todos os tempos é falsa. Por outro lado, quem diz que ainda há possibilidade de um profeta surgir no Islã depois de Muhammad (que a paz esteja com ele), na realidade quer atacar a própria estabilidade do Islã. Pois manter aberta a porta da profecia significa que, dentro da unidade e da coesão do Islã, sempre permanecerá o risco de divisão e desagregação. Além disso, com o surgimento de um novo profeta, nasceria uma nova distinção entre a incredulidade e o Islã e, em cada caso desse tipo, as pessoas que creem em Allah, em Muhammad (que a paz esteja com ele) e no Alcorão sairiam do Islã em grupos. Portanto, abrir a porta da profecia equivale, na realidade, a abrir a porta da sedição e do extravio. Entre todas as possíveis causas da destruição do Islã, a reivindicação de uma nova profecia é a mais grave e perigosa. A organização da nação muçulmana foi estabelecida sobre este fundamento: todos os que creem em Muhammad (que a paz esteja com ele) e no Alcorão são muçulmanos e crentes. Eles constituem uma única comunidade e uma única nação. São irmãos uns dos outros. Na felicidade e na tristeza, na alegria e na dor, participam uns da vida dos outros. Agora, se algumas pessoas vierem dizer que não basta crer em Muhammad (que a paz esteja com ele) e no Alcorão, que também é obrigatório crer em mim, e que aquele que não crer em mim é incrédulo, apesar de crer em Muhammad (que a paz esteja com ele) e no Alcorão, então, com base nisso, essa pessoa cria entre os muçulmanos uma distinção entre incredulidade e Islã, fragmenta a nação formada por Muhammad (que a paz esteja com ele), rompe o vínculo de fraternidade entre aqueles que o Alcorão declarou irmãos, separa suas orações e outras práticas, desfaz seus vínculos matrimoniais e chega ao ponto de não deixar entre eles sequer as relações de cuidado aos doentes, solidariedade no luto e participação nos funerais — quem poderia ser inimigo maior do Islã, da nacionalidade islâmica, da cultura islâmica e do sistema social islâmico?

A partir desta discussão, pode-se compreender facilmente quão importantes são, em relação à profecia de Muhammad, a perfeição da religião do Islã, a ab-rogação das religiões anteriores e a crença no encerramento da profecia, bem como por que sua inclusão na fé é indispensável para a estabilidade e a permanência do Islã e para sua instituição.

 

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A fé no Livro

Na terminologia islâmica, “Livro” designa a escritura que é revelada por Allah ao Mensageiro para orientar a humanidade. Nesse sentido, o Livro é a declaração oficial (Official Version) dessa mensagem ou, segundo a terminologia islâmica, a “Palavra divina”, para transmitir a qual às pessoas, explicá-la e interpretá-la e concretizá-la na prática os profetas são enviados ao mundo. Não cabe aqui discutir em que sentido o “Livro” é a palavra de Allah e qual é a natureza de ser Sua Palavra. Trata-se de uma discussão puramente teológica, sem relação com o tema em questão. A esse respeito, apenas lançaremos luz sobre este aspecto: qual é o papel da fé no Livro na construção dos fundamentos da cultura islâmica? Para isso, basta saber que os princípios e os assuntos fundamentais do ensinamento que se pretende transmitir às pessoas por meio do profeta são inspirados por Allah no coração do profeta. Nem em sua linguagem nem em seu significado há a mínima interferência da inteligência e do pensamento próprios do profeta, nem de sua vontade ou de seus desejos. Por essa razão, tanto em palavras quanto em significado, ele é a Palavra de Allah, e não uma composição própria do profeta. Como mensageiro fiel, o profeta transmite essa Palavra aos servos de Allah. Além disso, com a percepção concedida por Allah, explica seu significado e sua essência. Com base em todos esses princípios divinos, ele constrói uma estrutura completa de moralidade, vida social, civilização e cultura. Por meio do ensino, da pregação, dos bons conselhos e de seu próprio caráter puro e virtuoso, produz uma transformação fundamental nas concepções, inclinações e pensamentos das pessoas. Infunde nelas o espírito do temor reverente a Allah, da pureza, da sinceridade e da boa conduta. Por meio da educação e da orientação prática, consolida-as de tal modo que surge uma nova sociedade, com uma nova mentalidade, novos pensamentos e concepções, novos costumes e novas leis. Além disso, deixa entre elas o Livro de Allah e, juntamente com ele, exemplos de seus próprios ensinamentos e de seu caráter puro, que servem continuamente como um farol para essa sociedade e para as gerações posteriores.

A relação entre a profecia e o Livro

Tanto a ‘profecia’ quanto o ‘Livro’ provêm do Deus Único. Ambos são partes indispensáveis de uma mesma realidade divina e meios para completar o mesmo propósito e a mesma mensagem. O conhecimento de Deus e Sua sabedoria estão presentes no Mensageiro, assim como estão nas páginas do Livro. A educação cuja exposição verbal é chamada de ‘Livro’ tem sua expressão prática na vida do Mensageiro.

A própria natureza humana (fitrah) é tal que não consegue obter nenhum benefício extraordinário apenas do ensinamento livresco. Junto com o conhecimento, ela também precisa de um mestre e guia humano que, por meio de seu próprio ensino, faça esse conhecimento criar raízes firmes no coração das pessoas e que, tornando-se sua personificação, infunda nelas, por meio de suas ações, o espírito vivo pretendido por esse ensinamento. Em toda a história da humanidade, não encontrareis sequer um exemplo de um livro que, sem a orientação e a educação de um mestre humano, tenha conseguido provocar uma revolução na mentalidade, na visão de mundo e no modo de vida de qualquer povo. Se os guias que provocaram intensas revoluções no pensamento e nas ações de diferentes povos não tivessem nascido como a expressão prática completa de seus próprios ensinamentos, e se sua educação e seu idealismo tivessem sido apresentados apenas em forma de livro, nenhum intrépido investigador dos mistérios da natureza humana poderia afirmar que as revoluções produzidas pelos ensinamentos práticos desses guias teriam sido realizadas por um Livro isolado.

Por outro lado, também é uma característica da natureza humana que, juntamente com um guia humano, ela deseja receber uma explicação autêntica e confiável dos ensinamentos por ele transmitidos — esteja ela registrada no papel ou preservada no coração. Se os princípios sobre os quais um guia estabelece as bases do pensamento, das ações, da moralidade e da cultura de um povo não forem preservados em sua forma original, a marca de seu ensinamento começa gradualmente a desaparecer. À medida que essa marca se apaga, também se enfraquecem progressivamente as bases do modo de vida individual, da organização social e das leis. Até que, por fim, restam para esse povo apenas histórias e lendas. Ele já não conserva a força necessária para manter intactas uma sociedade e uma civilização poderosas. É por isso que os seguidores dos guias cujos ensinamentos não foram preservados caíram no turbilhão do erro e do desvio. Os povos por eles organizados acabaram envolvidos em toda espécie de distorção de pensamento, crença, conduta, moralidade e cultura. Após o desaparecimento daqueles sob cuja orientação esses povos haviam sido inicialmente organizados com base em princípios corretos e infalíveis, nada mais restou que pudesse preservar tais princípios.

O Criador do universo conhecia perfeitamente essa natureza de Sua criação. Por isso, desde o momento em que assumiu a responsabilidade de orientar a humanidade, instituiu para ela, simultaneamente, as duas vias da profecia e da revelação. Por um lado, elevou à posição de liderança pessoas dotadas do mais nobre caráter; por outro, fez descer sobre elas Sua própria palavra. Assim, essas duas coisas poderiam satisfazer as duas exigências da natureza humana. Se um profeta viesse sem um Livro, ou se um Livro viesse sem um profeta, o propósito da razão jamais seria plenamente realizado.

O exemplo corânico da tocha e do guia

O Alcorão Majestoso descreveu essa relação entre a profecia e o Livro por meio de uma parábola. Em diversas passagens, comparou o profeta a um pioneiro e guia, cuja tarefa é indicar o caminho correto aos que se desviaram. Assim foi dito:

*************

Por outro lado, qualificou o Livro com adjetivos como “luz radiante” (***), “luminosidade” (***), “brilhante” (***), “prova” (***), “diferenciador” (***), “iluminador” (***), “explicador” e outros. Como foi dito:

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Essas metáforas não são mera poesia; ao contrário, indicam uma verdade importante. Seu sentido essencial é que as pessoas comuns não obtêm da inteligência natural e do conhecimento adquirido luz e orientação suficientes “pelas quais” possam seguir o caminho simples e reto da verdade. Nesse caminho conhecido e escuro, elas precisam de um guia extraordinário, plenamente familiarizado com as regras desse percurso. É necessário que ele tenha nas mãos uma tocha, para que, com sua ajuda, possa avançar sabendo onde há buracos, onde se pode escorregar, onde existem moitas de espinhos, de onde partem caminhos tortuosos e equivocados, e assim por diante. Seus seguidores também poderão, sob essa luz, observar os sinais do caminho, conhecer as indicações da estrada reta e, conscientes das curvas e desvios do caminho tortuoso, segui-lo com plena visão e discernimento. Na verdade, a relação que se estabelece entre o guia e a tocha na escuridão da noite é exatamente a mesma que existe entre o Profeta e o Livro. Se arrancarmos a tocha das mãos do guia e começarmos a caminhar sozinhos com ele, encontraremos pelo caminho bifurcações, encruzilhadas e estradas de diversos tipos; ao chegar a esses pontos, teremos de parar, confusos e aflitos, ou seguir por algum caminho equivocado à luz daquela tocha. Isso porque a simples existência da lâmpada não torna a pessoa independente da ajuda do guia. Do mesmo modo, se o guia não tiver uma tocha nas mãos, teremos de agarrar-nos a ele e segui-lo como seguidores cegos; sem luz, não adquiriremos sequer o discernimento necessário para distinguir o caminho reto do tortuoso, nem para reconhecer os pontos delicados do caminho reto onde as pessoas tropeçam ou escorregam. Portanto, assim como, para percorrer à noite um caminho desconhecido, precisamos de um guia experiente e familiarizado com o percurso, bem como de uma lâmpada adequada para observar seus sinais, e não podemos prescindir de nenhum dos dois, também no mundo desconhecido das verdades que transcendem os sentidos — onde a simples luz da nossa razão e consciência não serve para nada — precisamos igualmente do Mensageiro e do Livro. Não podemos encontrar o caminho reto abandonando o seguimento de qualquer um deles.

O Profeta é um guia experiente que, com o discernimento concedido por Allah, conheceu o caminho reto da orientação. Ele está familiarizado com os mínimos detalhes desse caminho, assim como um guia que, depois de percorrer inúmeras vezes uma estrada, conhece minuciosamente cada um de seus passos.

Esse discernimento é chamado de “sabedoria” (***), “conhecimento” (***), “compreensão plena” (******), “ensinamento divino” (*********) e “orientação divina” (**********); o Alcorão menciona repetidamente que essas dádivas foram concedidas especialmente aos profetas. Como foi dito:

*************

E o Livro é uma tocha tão luminosa que, com sua ajuda, o Profeta não apenas conduz seus seguidores pelo caminho reto, mas também os reveste do esplendor do conhecimento, da luz do pensamento e do brilho da verdade que ele recebeu de Allah em um nível superior. Além disso, por meio de instrução e formação, ele os capacita a tal ponto que, se seguirem suas pegadas e mantiverem essa tocha nas mãos, não apenas encontrarão o caminho correto, mas também se tornarão guias e orientadores para outras pessoas.

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“Revelamos-te este Livro com o propósito de que conduzas as pessoas das trevas para a luz.” (Surata Ibrāhīm: 1)

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“E fizemos descer sobre ti a Recordação (o Alcorão), para que tornes clara às pessoas a orientação que lhes foi revelada; talvez reflitam. (Surata

Além disso, afirmou de maneira elevada que a diferença existente, no mundo material, entre a lâmpada e o guia não existe, no mundo espiritual, entre o Profeta e o Livro. Pelo contrário, entre ambos há um elo de unidade. Por isso, em alguns lugares, aquilo que é usado como comparação para o Livro é usado, em outros, como comparação para o Mensageiro. Também foi feita a comparação inversa:

******************

“Ó Profeta! Enviámos-te como testemunha, anunciador de boas-novas e admoestador, e como aquele que, com a permissão de Allah, convida para Ele, e como uma lâmpada luminosa.” Novamente

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“Na verdade, este Alcorão guia para o caminho completamente reto.” Neste versículo, o Livro é chamado de guia.

Disto se soube que a relação entre o Livro e o Mensageiro é, em essência, inseparável. Ambos são igualmente necessários para que os seres humanos recebam orientação. Para estabelecer, manter e preservar intactos e inalterados o sistema intelectual e prático de ação, bem como a cultura e a civilização que o Islã deseja instituir, é indispensável manter sempre sua relação com a profecia e o Livro. Com base nessa necessidade urgente, a profecia e o Livro foram declarados separadamente como dois pilares indispensáveis da fé, e foi reiteradamente enfatizada a necessidade de crer em cada um deles. Se não fosse esse o objetivo da ênfase, não haveria necessidade alguma de fazê-lo, pois reconhecer a veracidade do Mensageiro implica provar a veracidade do Livro que ele trouxe, e reconhecer a veracidade do Livro equivale a provar a veracidade daquele que o trouxe e o transmitiu.

Fé em todos os Livros celestiais

Foi nesse contexto da fé que o Islã ordenou crer em todos os Livros que foram revelados por Allah aos Seus profetas. Assim como é necessário, para ser muçulmano, crer em todos os profetas e Mensageiros, também é necessário crer em todos os Livros. Por isso, é repetidamente dito no Qur’an:**************

“Os tementes são aqueles que creem no Livro que foi revelado a ti e também nos Livros que foram revelados antes de ti.” (Surata Al-Baqarah: 4)

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“O Mensageiro e todos os crentes creem em Allah, em Seus anjos, em todos os Seus Livros e em Seus profetas.” (Surata Al-Baqarah: 285)

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“Allah revelou a ti o Livro com a verdade, confirmando a veracidade de todos os Livros que vieram anteriormente.” (Surata Aal Imran: 3)

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“Dize: Cremos em Allah, no Livro que nos foi revelado e nos Livros que foram revelados a Abraão, Ismael, Isaac e Jacó e aos descendentes de Jacó, e no que foi concedido a Moisés, Jesus e aos demais profetas por parte de seu Senhor. Não fazemos distinção entre nenhum deles e somos obedientes a eles.” — (Surata آل عمران: 84)

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“Aqueles que rejeitaram este Livro e os outros Livros com os quais enviamos os profetas saberão muito em breve as consequências disso. Quando estiverem com grilhões e correntes em seus pescoços, serão arrastados para a água fervente e, em seguida, lançados no fogo ardente.” — (Surata المؤمن: 70–72)

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“Com efeito, enviamos os profetas com sinais claros e, juntamente com eles, fizemos descer o Livro e a balança, para que as pessoas se estabelecessem na verdade.” — (Surata الحديد: 25)

Além dessa descrição geral, também foi ordenado que se cresse neles mediante a menção dos nomes de alguns Livros. Por exemplo, a Torá foi denominada orientação, luz (***), Furqan, esplendor (****), guia e misericórdia — (Al-Qasas: 5; Al-Ma’idah: 6; Al-Anbiya: 4; Al-Ahqaf: 2) —, e o Evangelho também foi chamado de orientação, luz (***) e exortação (***), (Al-Ma’idah: 4). Em suma, crer detalhadamente nos Livros mencionados amplamente no Alcorão e, de modo geral, naqueles que não foram mencionados é um dos princípios do Islã. Segundo a concepção islâmica, não existe no mundo povo algum ao qual o profeta de Allah não tenha vindo trazendo um Livro da parte d’Ele. E todos os Livros que chegaram às diferentes regiões e aos diferentes povos do mundo eram correntes brotadas da mesma fonte e raios de luz irradiados pelo mesmo sol. Todos os Livros vieram com a verdade, a veracidade, a orientação e a luz chamadas “Islã”. Por isso, todo muçulmano crê em todos eles. E quem rejeita qualquer um desses Livros é culpado de negar tudo e de negar a Fonte verdadeira.

Seguir exclusivamente o Alcorão

Contudo, depois da fé começa aqui, na prática, o âmbito da adesão; por isso, é necessário romper a relação com os demais livros e manter relação somente com o Alcorão. Há algumas razões para isso:

Primeiro: muitos dos Livros celestiais já não existem. E, entre os que ainda estão disponíveis, nenhum livro além do Alcorão foi preservado em sua língua e significado originais. Neles, palavras humanas se misturaram às palavras divinas, tanto na linguagem quanto no significado. Como consequência inevitável da adoração das paixões, a orientação se misturou à perdição nesses livros. Hoje, tornou-se difícil distinguir quanto há neles de verdade e quanto de falsidade. Esse é o estado dos livros sobre os quais várias nações fundamentaram suas religiões e que são considerados, com alguma dúvida, Livros celestiais. Em alguns, já não existe sequer a noção de terem sido revelados por Deus. Sobre outros, nem mesmo se sabe, caso tenham sido revelados por Deus, a qual profeta e em que época foram revelados. Em alguns, a língua sofreu tal extinção que hoje é difícil até determinar corretamente seu significado. Em outros, percebe-se claramente a mistura de desejos humanos, doutrinas equivocadas e superstições. Alguns contêm ensinamentos explícitos sobre o shirk, a adoração de outros além de Deus e outras crenças e práticas igualmente falsas, que de modo algum podem ser verdadeiras. Livros nessa condição jamais podem conceder às pessoas conhecimento preciso e luz correta. E o ser humano, seguindo-os, tampouco pode estar a salvo da perdição.

Segundo: todos os livros existentes atualmente além do Alcorão, sejam celestiais ou considerados possivelmente celestiais, têm em seus ensinamentos e sistemas normativos ou a influência marcante de um nacionalismo tribal estreito, ou a predominância das necessidades de uma época específica. Eles jamais foram, nem podem ser, um meio de orientação e guia para toda a humanidade em todas as épocas.

Terceiro: não há dúvida de que cada um desses livros contém alguns ensinamentos verdadeiros e corretos, bem como muitos bons princípios e normas para a purificação da natureza, do caráter e da conduta humana; porém, nenhum deles reúne toda a virtude e todo o bem, e nenhum, por si só, pode oferecer orientação correta para todos os aspectos e dimensões da vida humana.

Mas o Nobre Alcorão está inteiramente livre dessas três deficiências:

Primeiro: o Alcorão está preservado exatamente na língua em que o Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) o apresentou. Desde o primeiro dia, centenas de milhares e milhões de pessoas o memorizaram em todas as épocas. Centenas de milhões de pessoas o recitam diariamente. Cópias dele têm sido continuamente registradas. Jamais se verificou qualquer diferença em seu significado ou em sua recitação. Portanto, não há espaço para qualquer dúvida ou suspeita quanto ao fato de que o Alcorão ouvido dos lábios do Nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) é o mesmo que existe hoje no mundo e que continuará existindo para sempre. Nele jamais ocorreu, nem poderá ocorrer, a alteração de uma única palavra.

Segundo: o Alcorão foi revelado em língua árabe, que ainda hoje é uma língua viva. Atualmente, há no mundo centenas de milhões de falantes de árabe. Os livros que eram a melhor e mais exemplar literatura nessa língua na época da revelação do Alcorão continuam existindo até hoje. As dificuldades que surgem atualmente para compreender os livros de línguas mortas não existem da mesma forma para compreender o significado e a essência dessa literatura.

Terceiro: o Alcorão é inteiramente verdadeiro e infalível, e está repleto de ensinamentos divinos do princípio ao fim. Nele não se encontra em parte alguma sequer o menor vestígio de emoções humanas, desejos das paixões, egoísmo nacional ou tribal, ou perdição originada da ignorância. Em seu interior, nenhuma quantidade, por mínima que fosse, de palavras humanas pôde misturar-se às palavras de Deus.

Quarto: nele, toda a humanidade é convidada, e são apresentados crenças, princípios de caráter e normas de conduta que não são específicos de nenhum país, povo ou época. Cada um de seus ensinamentos é tanto universal quanto eterno.

Quinto: nele foram incluídas todas as verdades, princípios fundamentais, benefícios e boas ações mencionados nos livros celestiais anteriores. De nenhum livro religioso se poderá extrair qualquer verdade ou boa ação cuja menção não se encontre no Alcorão. Diante de um livro tão abrangente, o ser humano naturalmente deixa de depender de outros livros.

Por todas essas razões, o Islã rompeu a relação de seguimento com todos os livros e declarou que somente o Alcorão é digno de ser seguido, convidando o mundo inteiro a aceitá-lo exclusivamente como código e método de conduta.

**************

إِنَّا أَنزَلْنَا إِلَيْكَ الْكِتَابَ بِالْحَقِّ لِتَحْكُمَ بَيْنَ النَّاسِ بِمَا أَرَاكَ اللّهُ وَلاَ تَكُن لِّلْخَآئِنِينَ خَصِيمًا

“Em verdade, fizemos descer para ti este Livro com a verdade, para que julgues entre as pessoas com o conhecimento da verdade que Allah te concedeu.” (Sura An-Nissá: 105)

“Portanto, aqueles que creem neste Profeta, que o apoiam e auxiliam, e que seguem a luz que foi enviada com ele, são os bem-aventurados.” — (Sura Al-A‘raf: 157)

E por essa razão também foram convidados a crer no Alcorão e a segui-lo os povos que já possuíam anteriormente algum Livro celestial. Por isso, o Alcorão ordena repetidamente:

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“Ó povo a quem foi concedido o Livro! Crede neste Livro que fizemos descer (o Alcorão), que confirma a autenticidade dos Livros que se encontram convosco.” – Surata An-Nissá: 47)

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“Ó adeptos do Livro! Nosso Mensageiro veio até vós; ele vos esclarece muitas coisas que ocultáveis do Livro e perdoa muitas outras. Chegaram-vos, da parte de Deus, uma luz e um Livro claro; por meio dele, Deus guia para os caminhos da paz aqueles que seguem a Sua satisfação, e, com a Sua permissão, tira-os das trevas para a luz e guia-os para o caminho reto.” – (Surata Al-Máida: 15-16)

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“Revelamos-te versículos claros, e somente os iníquos deixam de acreditar neles.” – (Surata Al-Bácara: 99)

Convicção abrangente acerca do Alcorão

O seguimento do Livro que foi designado como orientação infalível para o pensamento e a crença das pessoas, e que foi estabelecido como norma obrigatória para a vida prática, não pode ser completo enquanto a pessoa não mantiver uma firme convicção de que ele é infalível, fundamentado na verdade e livre de toda falha e deficiência. Pois, se surgir qualquer dúvida quanto à sua pureza, ela não terá confiança nem tranquilidade em relação a ele, e não poderá segui-lo com plena confiança. É por isso que os elementos indispensáveis da fé no Alcorão foram expostos pelo próprio Alcorão Majid. A saber:

Primeiro: o significado com que o Alcorão foi revelado permanece preservado. Não houve nele qualquer redução ou acréscimo. Os versículos seguintes testemunham isso:

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“Reuni-lo e fazê-lo ser recitado são nossa responsabilidade; portanto, quando o recitarmos, segue essa recitação. Além disso, também é nossa responsabilidade explicar seu significado.” — (Surata Al-Qiyamah: 17–19)

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“Nós te ensinaremos de tal modo que não esquecerás — exceto aquilo que Allah quiser que esqueças; isso é uma exceção.” — (Surata Al-A’la: 6–7)

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“Este Zikr (Alcorão) fomos Nós que o revelamos, e somos Nós que o preservamos.” — (Surata Al-Hijr: 9)

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“Recita o que te foi revelado por teu Senhor; ninguém tem o poder de alterar Suas palavras.” — (Surata Al-Kahf: 27)

Dois: nenhuma força satânica tem sequer a menor participação na descida do Alcorão.

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“Os satanases não o fizeram descer; isso não lhes compete, nem poderiam fazê-lo. Na verdade, foram mantidos afastados de ouvir a revelação.” — Surata Ash-Shu’ara: 210–212)

Três: no Alcorão não há lugar sequer para os desejos e aspirações do próprio Profeta.

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“Ele não fala por sua própria vontade; isto é apenas a revelação que lhe foi enviada.” — (Surata An-Najm: 3–4)

Quatro: no Alcorão não há absolutamente lugar para a mentira e a falsidade.

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“Certamente, este é um Livro firme e protegido; a falsidade não pode alcançá-lo nem pela frente nem por trás. Ele foi revelado por um Ser Sábio e digno de louvor.” – (Surata Ha-Mim as-Sajdah: 41–42)

Cinco: o Alcorão é inteiramente verdadeiro; não foi revelado com base em conjecturas ou suposições, mas fundamentado no conhecimento verdadeiro. Nele não há lugar para desvio ou tortuosidade; ele guia as pessoas pelo caminho reto.

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“Aqueles que possuem conhecimento consideram que este Livro, revelado a ti por teu Senhor, é realmente a verdade; ele conduz as pessoas a Allah, o Poderoso e digno de louvor.” – (Surata Sabá: 6)

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“Sem dúvida, isso é a verdade absoluta.” – (Surata Al-Haqqah: 51)

“Levamos-lhes um Livro que fizemos, com base no conhecimento verdadeiro, como orientação abrangente e misericórdia para os crentes.” – (Surata Al-A‘raf: 52)

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“Ó Muhammad! Dize que foi Ele quem revelou este Livro, Aquele que conhece todos os mistérios dos céus e da terra.” – (Surata Al-Furqan: 6)

“Neste Livro, nenhuma palavra foi proferida com base na dúvida.”

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“Allah não colocou nele nenhuma tortuosidade; ele é completamente reto.”

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“Sem dúvida, este Alcorão guia para um caminho completamente reto”

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Sexto: ninguém, nem mesmo o próprio Profeta, tem o direito de fazer qualquer alteração nas normas e nos ensinamentos do Alcorão.

“(Ó Muhammad!) Dize: não tenho autoridade para alterar este Livro por iniciativa própria. Apenas sigo a revelação que me é enviada. Se eu desobedecer ao meu Senhor, temo o castigo de um dia terrível.” — (Surata Yunus: 15)

Sétimo: nada que seja contrário ao Alcorão deve ser seguido de modo algum.

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“Segui o que vos foi revelado por vosso Senhor e não sigais, em vez disso, outros protetores.” — (Surata Al-A’raf: 3)

Esta é a concepção abrangente do Islã acerca do Alcorão Sagrado, e é indispensável crer em cada uma de suas partes. Aquele cuja convicção carecer de qualquer uma delas jamais poderá seguir o Alcorão de maneira correta e completa. Pelo contrário, desviará do caminho reto chamado “Islã”.

A pedra fundamental da cultura islâmica

A fé em um único Livro e em um único Mensageiro, a obediência e o seguimento dele, a reconstrução da mentalidade segundo o molde por ele formado, a derivação, de uma única fonte, de toda a crença, adoração, moralidade, transações e normas sociais, e a união de toda a sociedade muçulmana por meio dessa fé, obediência e seguimento transformam o Islã em uma cultura duradoura e, apesar de todas as diferenças hereditárias, linguísticas, raciais e geográficas, transformam os muçulmanos em uma única nação. Naturalmente, em razão das diferenças de conhecimento, intelecto, investigação, pesquisa, perspectiva e inclinações, podem surgir divergências na elaboração de leis a partir dos versículos do Alcorão e da Sunna do Mensageiro, bem como na compreensão de seu significado e objetivo. Contudo, essas divergências dizem respeito apenas a questões secundárias e pequenas; elas não transformam as diferentes escolas de jurisprudência e teologia em religiões distintas, nem seus seguidores em nações separadas. O verdadeiro fundamento da comunidade islâmica é aceitar Muhammad como o único modelo a ser seguido enquanto Mensageiro de Allah, reconhecer o Alcorão Sagrado como o único livro de leis enquanto Livro de Allah e declarar que essas duas coisas são a fonte de toda a crença e de toda a legislação. Aqueles que concordam nesse assunto fundamental constituem uma única nação, por maiores que sejam suas divergências em questões secundárias. E aqueles que não concordam nesse assunto fundamental constituem, aos olhos do Alcorão, uma nação diferente, ainda que se dividam entre si em quantas nações quiserem.

Na verdade, o Alcorão é a compilação completa de tudo aquilo sobre o qual se fundamenta o Islã. Aquele que creu no Alcorão também creu em Allah, em Seus anjos, em Seus Livros, em Seus profetas e na Vida Futura. Isso porque o Alcorão contém a descrição abrangente de todo esse conjunto de crenças. E o fruto certo da “fé no Alcorão” (iman bil Qur’an) é alcançar uma fé completa. Do mesmo modo, o Alcorão Majid menciona todos os princípios fundamentais e as disposições básicas da Sharia islâmica, e o Legislador da Sharia esclareceu esses princípios e disposições por meio de suas palavras e ações. Portanto, aquele que, com fé correta, declara o Alcorão e a Sunnah do Mensageiro como leis obrigatórias em todos os assuntos da vida é, sem dúvida, muçulmano tanto em sua crença quanto em suas ações. E ao conjunto dessa fé e da observância dessas leis dá-se o nome de Islã. Onde essas duas coisas estiverem presentes, ali também estará o Islã. E onde essas duas coisas não estiverem presentes, ali também não estará o Islã.

 

7.

Fé no Dia Final

O Dia Final significa a vida posterior à morte. Por isso, ele também é chamado de vida futura e Além. É provável que não se encontre no Alcorão Majid sequer uma página que não faça alguma menção à Vida Futura. Esse tema foi discutido de diversas maneiras e formas, e foi gravado firmemente no coração das pessoas. Foram apresentados argumentos e provas de sua veracidade. Sua descrição detalhada foi fornecida. Sua importância foi explicada. As pessoas foram conclamadas a crer nele. E foi declarado claramente: aquele que não crê nessa vida final terá todas as suas obras anuladas:

“Na verdade, quem quer que considere falsos os Nossos sinais e negue comparecer perante o tribunal na Vida Futura terá todas as suas obras anuladas.” – (Surata Al-A’raf: 147)

“Perderam aqueles que consideraram falsa a notícia de que se encontrariam com Allah.” – (Surata Al-An’am: 31)

Na verdade, pode-se considerar a crença na Vida Futura, apresentada com tamanha importância, uma resposta a certas perguntas que surgem naturalmente na mente humana.

Algumas perguntas naturais

O ser humano sente mais tristeza do que felicidade e mais sofrimento e aflição do que conforto. É perfeitamente natural que aquilo que fere mais intensamente os sentimentos de uma pessoa torne seu poder de reflexão mais ativo. Quando obtemos algo, na alegria, nem sequer pensamos de onde veio, como veio ou quanto tempo permanecerá. Mas, quando perdemos algo, o golpe do pesar desfere um forte chicote sobre nossa capacidade de pensar, e então começamos a perguntar: como isso pôde ser perdido? Para onde foi? Onde está? Será que algum dia poderá ser recuperado? É por isso que a questão da vida e de seu surgimento não assume para nós tanta importância quanto a questão da morte e de seu desfecho. Embora, ao observarmos o palco do mundo e nossa própria existência nele, certamente surja em nossa mente a pergunta: que espécie de agitação é esta? Como foi criada? Quem a criou? No entanto, tudo isso são pensamentos do momento presente. Com exceção das pessoas distintas e profundamente reflexivas, as pessoas comuns não se preocupam com essas questões. Em contrapartida, todo ser humano tem de se defrontar com a morte e sua amargura. Na vida de cada pessoa chegam muitos momentos em que ela vê, diante dos próprios olhos, parentes, familiares, amigos e entes queridos morrerem. Morrem também os desamparados e fracos, assim como morrem os poderosos e fortes. Há mortes dolorosas, e também se veem mortes instrutivas. Ao ver todos partirem dessa maneira, nasce no coração de cada pessoa a firme convicção de que ela própria também seguirá por esse caminho. Diante dessas cenas, talvez não exista alguém que não seja abalado pela questão da morte — o que é a morte, para onde vai a pessoa depois de atravessar essa porta, o que há atrás dela e, sobretudo, se existe realmente algo ali.

Esta é uma pergunta comum que todos, tanto as pessoas comuns quanto as extraordinárias, já se fizeram. Desde um simples camponês até um grande filósofo ou cientista, todos se ocupam dessa questão. Mas há ainda algumas outras perguntas relacionadas a esse tema, que continuam a inquietar a mente de quase toda pessoa reflexiva, e muitas experiências amargas da vida intensificam ainda mais essa inquietação. Nossos poucos anos de vida neste mundo, cada instante e cada segundo, são gastos em alguma atividade, em algum esforço. Aquilo que consideramos imobilidade também é uma forma de movimento. Aquilo que consideramos ociosidade também é uma espécie de atividade. Em cada ação, é absolutamente necessário que o resultado da boa ação seja bom e o da má ação seja mau. Os benefícios do esforço honesto e as consequências nocivas do esforço desonesto deveriam certamente manifestar-se. Mas, nesta vida mundana, recebemos o resultado de todos os nossos esforços, o fruto de todas as nossas tentativas e a recompensa de todas as nossas ações? Um malfeitor passou toda a vida praticando más ações. Sem dúvida, sofreu neste mundo as consequências de algumas delas. Por causa de uma má ação, adoeceu; por causa de outra, envolveu-se em sofrimento, aflição, calamidade e inquietação. Mas, ao mesmo tempo, não sofreu neste mundo plenamente as consequências de muitas de suas más ações. Muitas delas permaneceram ocultas aos olhos das pessoas, de modo que ele nem sequer foi difamado ou humilhado por causa delas. E, mesmo que tenha sido difamado, que reparação houve para o dano causado àquele pobre homem a quem ele havia oprimido? Então, serão em vão a opressão e a perseguição praticadas por esse malfeitor, bem como a paciência e a perseverança dos oprimidos indefesos? Será que os resultados de tudo isso jamais se manifestarão?

O caso das boas ações é semelhante. Muitas pessoas virtuosas passaram a vida inteira praticando o bem, mas não receberam neste mundo todos os seus benefícios. Pelo contrário, por causa de algumas boas ações, tiveram de suportar difamação e humilhação. Foram perseguidas por determinadas boas ações. Receberam severos castigos. E algumas boas ações nem sequer chegaram a manifestar-se diante do mundo. Então, terão sido em vão todas as boas ações dessas pobres pessoas? Depois de tamanho trabalho e esforço, alcançaram a tranquilidade do coração — será esse o único resultado suficiente?

Essa questão está relacionada apenas ao indivíduo e à pessoa em particular. Mas há ainda outra questão, relacionada ao destino das nações, das classes, das coisas e deste mundo inteiro. Vemos seres humanos morrerem e outros seres humanos nascerem em seu lugar. Plantas, animais e aves desaparecem, e outras plantas, animais e aves surgem em seu lugar. Mas continuará indefinidamente essa sucessão de nascimento e morte? Ela não chegará a um fim em algum lugar? Este grande mecanismo do universo, que é conduzido de determinada maneira com a ajuda do ar, da água, da terra, da luz, do calor e das forças naturais — será que tudo isso é indestrutível? Não foi estabelecida uma duração para todas essas coisas? Não ocorrerá nenhuma mudança em suas leis, sua ordem e seu sistema de organização?

O Islam ofereceu uma solução adequada para todas essas questões. Na verdade, a crença na vida após a morte é a resposta natural a esse conjunto de perguntas. Mas, antes de discutir essa solução, sua veracidade e seus resultados morais e civilizacionais, é necessário verificar até que ponto o próprio ser humano foi bem-sucedido em tentar resolver essas questões.

Negação da vida após a morte

Alguns dizem que tudo o que se entende por vida termina nesta vida mundana. A morte significa destruição e desaparecimento completos; depois dela, não existem consciência da vida, percepção nem recompensa pelas ações.

“Eles dizem: não há senão a nossa primeira morte, e não seremos ressuscitados depois.” — (Surata Ad-Dukhan: 34–35)

“Essas pessoas dizem: ‘A vida é apenas esta nossa vida terrena. A vida e a morte acontecem somente aqui. E ninguém nos destrói senão a passagem do tempo.’” — (Surata Al-Jathiyah: 24)

Por outro lado, esta máquina universal continuará funcionando eternamente, exatamente como funciona agora. Sua ordem e disciplina são tais que ela jamais será desorganizada.

Aqueles que dizem coisas desse tipo não as afirmam com base em alguma fonte de conhecimento que lhes tenha permitido saber, como um fato comprovado, que realmente não existe nada após a morte e que esta máquina universal é, de fato, indestrutível. Pelo contrário, dizem isso baseando-se apenas em suas próprias percepções sensoriais. A razão de chegarem a essa conclusão é que nunca perceberam qualquer estado posterior à morte. Tampouco viram qualquer sinal de que a ordem do universo fosse desorganizada. Mas a questão é: não perceber algo será prova suficiente para negá-lo? Então, será que nossa percepção indica a existência das coisas, e a ausência de percepção indica sua inexistência? Se assim fosse, eu diria: aquilo que percebo só passa a existir no momento em que o percebo; e, quando sai do alcance da minha percepção, também ocorre sua extinção natural. O rio que eu havia visto correndo teria sido criado no instante em que o vi correr e, quando desapareceu do meu campo de visão, sua existência também teria deixado de existir. Alguma pessoa sensata aceitaria como correta uma afirmação minha desse tipo? Se não, como poderia uma pessoa sensata considerar verdadeira a afirmação de que, como o estado posterior à morte não foi alcançado por nossa observação e experiência, por isso mesmo não existe estado algum após a morte?

Além disso, assim como é errado chegar a conclusões sobre a morte e a destruição baseando-se unicamente na percepção sensorial, também não têm fundamento as conclusões sobre a vida e a existência tomadas exclusivamente com o auxílio da percepção sensorial. Se, pelo simples fato de não termos visto a ordem do universo ser desorganizada, for correta a conclusão de que ela é eterna e indestrutível, então eu também poderia olhar para um edifício sólido e afirmar que ele permanecerá de pé para sempre, pois nunca o vi desabar, nem notei qualquer rachadura que indicasse que ele desabaria no futuro. Será que essa linha de raciocínio seria aceita por pessoas sensatas?

O efeito da descrença na Vida Futura sobre o caráter:

Filósofos e cientistas estão, de fato, quase de acordo quanto a isto: um dia, mais cedo ou mais tarde, a ordem deste universo certamente será desorganizada. Hoje, provavelmente, já não há ninguém nos círculos eruditos que defenda a antiga doutrina da eternidade do universo. Ainda assim, muitas pessoas continuam a considerar a morte como destruição definitiva, e essa ideia irracional acima mencionada constitui a base de sua doutrina. Mas, deixando de lado a irracionalidade dessa ideia, há uma verdade inegável: por meio dela, o ser humano jamais pode alcançar a tranquilidade de espírito. Pelo contrário, a maioria das perguntas que surgem na mente humana ao observar os acontecimentos da vida permanece sem resposta nessa doutrina. Acima de tudo, se a vida e a formação do caráter humano forem fundamentadas nessa doutrina, certamente enfrentarão duas situações. Primeiro, se as circunstâncias forem adversas, essa doutrina fará pesar sobre as pessoas um intenso desespero, frustração e falta de ânimo. Pois, quando alguém não vir no mundo qualquer resultado de suas boas ações, sua energia para agir se enfraquecerá e se extinguirá. Quando não encontrar nenhum meio de reparar a injustiça e a opressão, seu ânimo se quebrará. Quando observar no mundo o crescimento e a expansão da maldade, da depravação e da opressão, naturalmente pensará que, na criação, sucesso e prosperidade pertencem apenas à maldade, enquanto para o bem e as boas ações existe somente declínio. Por outro lado, se as circunstâncias forem favoráveis, sob a influência dessa doutrina o ser humano se transformará num animal adorador de si mesmo. Pensará que somente será proveitoso o dia passado em luxo, prazeres e deleites. Se for privado de algum prazer ou deleite deste mundo, não terá outra vida para recuperar aquilo que perdeu. Por isso, praticará opressão e perseguição sem restrições. Usurpará os direitos das pessoas. Para obter seu próprio benefício e satisfazer os desejos de sua natureza, não hesitará sequer em praticar os atos mais vis. Na concepção de uma pessoa assim, no máximo terão lugar aquelas boas ações, aquela cortesia e decência que lhe proporcionem boa reputação, fama, honra ou qualquer outro benefício mundano. Do mesmo modo, considerará crimes e pecados somente aqueles cujas consequências se manifestem como alguma punição mundana, sofrimento físico ou prejuízo material. Aos seus olhos, realizar boas ações cujos benefícios não se manifestem neste mundo não será mais que insensatez. E as maldades que não acarretarem qualquer prejuízo neste mundo serão consideradas, aos seus olhos, precisamente como atos virtuosos.

Se, em algum lugar, todo o sistema moral de uma sociedade for estabelecido sobre uma doutrina e uma mentalidade desse tipo, toda a sua concepção moral se transformará. Todo o seu sistema moral será fundado no egoísmo e na adoração de si mesmo. Ali, a boa ação será sinônimo de benefício mundano, e a maldade será outro nome para prejuízo material. Ali, a mentira será considerada pecado somente se causar prejuízo mundano; se for um meio de obter benefício, será reconhecida como uma verdadeira boa ação. Se a honestidade for um meio de obter benefícios neste mundo, será uma virtude; se for prejudicial, não haverá maldade maior que ela. O adultério será uma bênção quando servir ao luxo, à ostentação e aos prazeres; somente será considerado censurável se for prejudicial à saúde. Em suma, onde não houver medo nem esperança de qualquer consequência boa ou má após esta vida terrena, as pessoas se preocuparão apenas com os resultados das ações que se manifestarem neste mundo. Com isso, ocorrerá uma transformação tão profunda na avaliação moral de seus atos que ela não poderá de modo algum ser adequada a uma sociedade civilizada. Seria mais apropriado dizer que, com semelhante padrão moral, um grupo humano não terá como evitar descer a um nível inferior ao dos animais.

Alguém poderá dizer que, para a punição e a recompensa, não existem neste mundo apenas ganhos e perdas materiais e físicos; existe também, no ser humano, uma força chamada consciência. Seu sofrimento e seu clamor já constituem punição suficiente neste mundo pela maldade. E sua tranquilidade já é recompensa suficiente pelas boas ações. Mas eu diria que existem neste mundo muitas maldades cujos benefícios materiais levam a pessoa a se preparar para suportar a dor da consciência; e, por outro lado, há boas ações pelas quais a pessoa precisa fazer tantos sacrifícios que a simples tranquilidade da consciência não pode ser recompensa suficiente. Em segundo lugar, basta refletir sobre a natureza da consciência para perceber que não é função dela criar uma ideologia moral; pelo contrário, a consciência começa a apoiar o ideal moral que penetrou na mente humana como resultado de um determinado tipo de educação e treinamento. É por isso que a consciência de um hindu se sente atormentada por certas coisas que não causam qualquer tormento à consciência de um muçulmano. Portanto, se numa sociedade a ideologia moral mudar e também mudarem os critérios do bem e do mal, a direção da consciência igualmente mudará. Por aquelas ações que essa sociedade deixar passar como injustas, sua consciência não sentirá qualquer tormento; e pelas ações que não forem reconhecidas como boas, não sentirá qualquer tranquilidade.

Transmigração da alma

O segundo grupo apresenta a doutrina da transmigração. Em essência, ela significa que a morte não é destruição definitiva, mas apenas a passagem de um corpo para outro. Depois de abandonar este corpo, a alma adota algum outro corpo. A capacidade que a pessoa adquire em sua primeira vida por meio de suas ações e tendências naturais determina a adequação desse segundo corpo ou, em termos mais precisos, dessa segunda jaula. Se suas ações forem más e, por influência delas, se desenvolverem nela capacidades inferiores, sua alma descerá ao nível biológico ou vegetal inferior. E, se por meio de boas ações ela conseguir desenvolver boas capacidades, sua alma ascenderá a níveis superiores. Em suma, segundo essa doutrina, a punição e a recompensa estão inteiramente limitadas a este mundo e ao mundo corpóreo. As almas vêm continuamente trocando as jaulas deste mundo apenas para colher os frutos de suas ações anteriores.

Houve uma época em que essa doutrina era muito popular. Alguns séculos antes de Jesus (A.S.), filósofos como Pitágoras e Empédocles foram seus defensores na Grécia. Também se percebe alguma influência dela na história antiga do Egito. A transmigração penetrou igualmente entre os judeus em decorrência de influências externas. Atualmente, porém, essa doutrina é encontrada nas religiões originárias da Índia, como o bramanismo, o budismo e o jainismo, ou entre povos selvagens ou semisselvagens da África Ocidental, da África Meridional, da Austrália Central, da Indonésia e da América do Norte e do Sul. Todas as demais nações civilizadas a rejeitaram. Pois, com o progresso do conhecimento e da razão, o grau de compreensão que a humanidade alcançou até agora sobre o mundo e seu modo de vida nega todos os fundamentos da transmigração. Se examinarmos a história dessa doutrina nas próprias religiões originárias da Índia, veremos que, na antiga Índia védica, acreditava-se que, após a morte, a pessoa obtinha outra vida: inteiramente confortável para os virtuosos e inteiramente dolorosa para os malfeitores. Depois, subitamente, começou uma transformação dessa doutrina, e na literatura indiana de épocas posteriores a transmigração passou a aparecer como uma crença filosófica. A causa dessa transformação ainda não foi investigada. Alguns pesquisadores supõem que essa ideia chegou aos arianos por meio dos dravidianos. Outros dizem que ela já existia entre as classes inferiores dos próprios arianos. Sobre essa suposição de épocas posteriores foi erguido um enorme edifício. Do mesmo modo, embora a literatura budista apresente um amplo sistema relacionado à transmigração, no início ela não existia nessa religião. A literatura antiga informa que, nos primórdios, a crença budista era a seguinte: o ser vivo é como um rio, que flui continuamente em meio a ciclos e transformações. Essa ideia avançou até assumir a forma de que há no mundo inteiro uma só alma e uma só vida, que vão mudando de forma em forma e de jaula em jaula. Disso fica claro que, no início, os povos indianos alteraram o conhecimento que haviam adquirido por meio da revelação e da inspiração e inventaram uma doutrina religiosa filosófica e enigmática. Essa doutrina era inteiramente fruto de sua própria imaginação.

Crítica intelectual

Não há aqui oportunidade para uma discussão detalhada sobre a transmigração. Contudo, é necessário lançar ao menos alguma luz sobre o assunto para indicar que seu fundamento é inteiramente contrário à razão e ao julgamento, e incompatível com todo o conhecimento humano e científico adquirido sobre a vida e o mundo. Os defensores da transmigração sustentam que cada pessoa recebe neste mundo o resultado de suas ações: por meio de boas ações, ascende a um nível superior de vida, e por meio de más ações, desce a um nível inferior. Por exemplo, se uma pessoa praticar más ações nesta vida, descerá ao nível biológico ou vegetal. E, se um animal praticar boas ações em sua vida, ascenderá ao nível humano. Em outras palavras, a vida biológica e vegetal seria o resultado das más ações da vida humana, enquanto a vida humana seria o resultado das boas ações da vida vegetal e biológica. Dito de outro modo, as pessoas que hoje são humanas o são porque anteriormente praticaram boas ações em vidas vegetais e biológicas. E os que atualmente são plantas e animais encontram-se nessa condição porque praticaram más ações em uma vida humana. Para aceitar essa doutrina, é preciso ainda admitir algumas outras questões, todas contrárias à razão e ao bom senso. Por exemplo:

Primeiro: não é possível determinar um começo para o ciclo da transmigração. Pois, para tornar-se humano, é necessário ter sido antes planta ou animal. E, para tornar-se planta ou animal, é indispensável ter sido antes humano. A razão e o bom senso declaram irreal esse ciclo sem princípio.

Segundo: se o ciclo da transmigração for infinito, será preciso admitir que não apenas as almas que mudam repetidamente, mas também as matérias que fornecem jaulas para as almas, serão infinitas. A Terra, o sistema solar e o conjunto de forças atuantes em seu interior seriam todos infinitos. Contudo, a razão exige — e a investigação científica também o testemunha — que o sistema solar não é sem princípio nem infinito.

Terceiro: será preciso admitir que quaisquer características das plantas, dos animais e da espécie humana dizem respeito à sua beleza corporal, e não à vida. Pois a mesma vida que, ao entrar na jaula humana, adquiriu razão, discernimento e capacidade de pensar, ao entrar na jaula animal tornou-se desprovida de inteligência. E, ao entrar na jaula vegetal, essa pobre vida perdeu até mesmo a vontade e a capacidade de agir.

Quarto: somente as ações realizadas de modo ponderado e consciente podem ser classificadas como boas ou más, corretas ou incorretas. Sob esse ponto de vista, os atos e condutas dos seres humanos podem ser certos ou errados, e eles podem receber punição ou recompensa por isso; mas, assim como não é razoável classificar os atos das plantas e dos animais como certos ou errados, também não há razão lógica para puni-los ou recompensá-los por isso. Para chegar a tal conclusão, seria preciso admitir também que as plantas e os animais possuem a capacidade de agir de modo ponderado e consciente.

Quinto: se a vida posterior é o resultado dos atos praticados em nossa vida atual, então, naturalmente, o resultado de uma ação má deveria ser mau. E, se na segunda vida recebemos justamente esse resultado mau, como seria possível realizar boas ações a partir dele? Naturalmente, isso produziria apenas ações más, cujo resultado seria ainda pior na terceira vida. Desse modo, a alma do ser humano malfeitor continuaria descendo constantemente aos níveis inferiores no ciclo da transmigração. Ela jamais poderia esperar voltar a subir. Isso também significa que um ser humano pode tornar-se animal, mas que é impossível um animal tornar-se ser humano. Surge então a pergunta: por meio de que boas ações os seres humanos atuais se tornaram humanos, e de onde vieram?¹ [Para uma crítica mais detalhada da transmigração, consulte a nota 30 da surata Al-A‘raf, em Tafhim al-Qur’an.]

A influência da transmigração sobre a sociedade e a civilização

Além disso, há muitas outras razões pelas quais o discernimento saudável não pode aceitar a transmigração. É por isso que, à medida que a humanidade progride em capacidade intelectual e conhecimento científico, a transmigração vai sendo abandonada na mesma proporção. Atualmente, essa doutrina prevalece sobretudo entre os povos mais atrasados em desenvolvimento intelectual e científico. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que a transmigração reprime a coragem virtuosa e a força de vontade das pessoas, além de entorpecer a energia vital do progresso. Foi dessa doutrina que surgiu o princípio da não violência, extremamente destrutivo para a vida individual e nacional das pessoas. O espírito guerreiro de uma nação que acredita em tal princípio naturalmente desaparece. Sua força física se enfraquece. Mais ainda: ela fica privada das melhores motivações que promovem o desenvolvimento da força física. O povo dessa nação torna-se fraco não apenas fisicamente, mas também mentalmente. Como resultado dessa fraqueza dupla, ele é derrotado e subjugado e, por fim, ou desaparece da face da Terra, ou se dissolve entre outras nações poderosas.

O segundo prejuízo da transmigração é que ela é uma inimiga eterna da civilização e da cultura. Ela arrasta as pessoas para o ascetismo e para a renúncia ao mundo. Os adeptos da transmigração acreditam que é o desejo que torna a alma maculada pelo pecado. Por causa disso, a alma fica repetidamente aprisionada em uma jaula corporal e sofre as consequências de seus próprios atos. Portanto, se a pessoa dominar os desejos e não se envolver com o mundo e seu labirinto, a alma poderá libertar-se do ciclo da transmigração. E esse é o único caminho para alcançar a libertação. Pois, depois de envolver-se com as questões mundanas, é impossível ao ser humano livrar-se dos desejos e de suas exigências. O resultado inevitável disso é que aqueles que anseiam pela libertação terão de tornar-se ascetas e retirar-se para florestas, selvas, montanhas ou regiões desertas; e aqueles que não estiverem dispostos a fazê-lo terão de abandonar a esperança de libertação e preparar-se para circular pelos níveis dos animais e das plantas. Poderia uma crença como essa contribuir minimamente para o desenvolvimento da civilização e da cultura? E poderia alguma nação que sustenta tal crença alcançar o progresso neste mundo?

Não há dúvida de que, sob vários aspectos, a transmigração é pelo menos preferível à ideia de considerar a morte como destruição definitiva ou partida eterna. Isso porque existe no ser humano um desejo natural de tornar-se eterno, e a transmigração pode satisfazer esse desejo até certo ponto. Além disso, essa doutrina contém as ideias de punição e recompensa, e de resultados bons e maus dos atos; com base nelas, poderia servir de apoio a um sistema moral bom e sólido. Mas também apontamos repetidamente para esta verdade incontestável: uma doutrina que contradiz o conhecimento e a razão e constitui um obstáculo ao desenvolvimento da civilização e da cultura não pode manter-se estabelecida na mente e no intelecto humanos com igual

força. E, quando seu vínculo não pode permanecer firme, sua existência apenas nas páginas dos livros, como doutrina filosófica, não pode ser de modo algum útil à estabilidade e à solidez do sistema moral. Pois ela só será considerada útil quando, em vez de estar estabelecida nas páginas dos livros, estiver estabelecida nas páginas do coração e as pessoas acreditarem plenamente nela.

Em segundo lugar, essa doutrina também perdeu seu próprio valor moral em razão de suas consequências finais. Isso porque ela leva a pessoa a acreditar que o ciclo da transmigração é exatamente como uma máquina: o resultado consequente determinado para cada ação inevitavelmente se manifestará, e seu efeito e resultado não poderão ser alterados por arrependimento, perdão ou expiação. Nessas circunstâncias, depois de cometer um pecado uma vez, tal pessoa ficará envolvida para sempre no ciclo do pecado; então pensará: se de qualquer modo terei de me tornar um animal ou uma planta, por que não desfrutar plenamente de todos os confortos, prazeres e deleites desta vida humana?

A crença na vida do além

Acima foram apresentadas duas opiniões sobre o destino do mundo e do ser humano. Com isso, também se soube que essas duas opiniões não são corretas do ponto de vista do discernimento e da razão, nem oferecem uma resposta completa e satisfatória às perguntas que naturalmente surgem na mente humana ao observar os sinais de decadência e destruição no mundo. Além disso, elas não possuem a capacidade necessária para sustentar um sistema moral correto e sólido. Ouçamos agora a terceira opinião. Ela afirma:

Primeiro: assim como cada coisa do mundo tem uma duração própria, após a qual naturalmente surgem nela desordem e destruição, também este universo tem uma duração determinada; quando ela chegar ao fim, toda esta máquina do universo será despedaçada e outro mundo ocupará o seu lugar, cujas leis naturais serão completamente diferentes das leis naturais deste mundo.

Segundo: depois que este universo for despedaçado, Allah, o Altíssimo, estabelecerá um tribunal, onde tudo será submetido à prestação de contas. Naquele dia, o ser humano receberá uma nova vida corporal. Ele comparecerá diante de seu Senhor

. Todas as suas ações praticadas na vida anterior serão examinadas e pesadas com exatidão. Seu caso será julgado com verdade e justiça. Ele receberá recompensa pelas boas ações e castigo pelas más.

Terceiro: a vida terrena do ser humano é, essencialmente, apenas uma introdução à sua vida no além. Esta vida é efêmera; aquela é eterna. Esta é incompleta, enquanto aquela é plena. Nesta vida efêmera, o resultado completo de todas as ações não se manifesta. Nem todo broto pode dar frutos, acompanhando seu desenvolvimento natural, neste mundo incompleto. Essa incompletude alcançará sua plenitude na segunda vida. Além disso, tudo o que aqui permaneceu infrutífero e sem propósito manifestará ali seu verdadeiro resultado e sua realização. Portanto, o ser humano não deve prestar atenção apenas aos resultados incompletos e, às vezes, enganosos que se manifestam na vida terrena como consequência de suas ações. Pelo contrário, deve avaliar suas ações tendo em vista o curso completo de seus resultados.

Na verdade, foi precisamente essa opinião que os profetas de Allah apresentaram. E o Nobre Alcorão convocou a humanidade a ela em termos vigorosos. Porém, antes de discutir as consequências morais dessa opinião e seu valor e importância na cultura islâmica, queremos examinar quais argumentos e provas existem em seu favor e até que ponto o discernimento e a razão a aceitam.

O método correto para investigar a verdade intelectual

Na realidade, a questão de saber se existe alguma vida depois da morte está relacionada com algo que se encontra fora dos limites dos nossos sentidos e da experiência adquirida por meio deles. No máximo, percebemos que a pessoa que, até alguns instantes antes, respirava e agia conforme a própria vontade, agora foi privada de todos os sinais de vida. Desapareceu de seu corpo algo que havia infundido nessa matéria inerte, imóvel e inativa a força necessária ao desenvolvimento, à inteligência e ao movimento. Pode-se perguntar: para onde foi essa coisa? Embora separada do corpo, ela continua existindo ou desapareceu? E, depois disso, será que algum dia sua relação com este corpo ou com outro corpo semelhante será restabelecida? Com a ajuda das nossas percepções sensoriais e do conhecimento obtido pela experiência, não podemos dar a essa questão uma resposta negativa nem positiva. Isso porque, na prática, nunca percebemos essa coisa, nem a percebemos agora. Portanto, é preciso compreender desde o início que a ciência, isto é, o conhecimento baseado na realidade ou na experiência, não tem qualquer relação com essa questão. Se a ciência não pode chegar a uma conclusão positiva a esse respeito, também não tem o direito de chegar a uma conclusão negativa. A ciência só pode dizer: “Não sei o que acontece depois da morte.” Mas, se ela, afastando-se da justiça e da razão, afirmar: “Como não sei o que acontece depois da morte, sei que nada acontece depois da morte”, então certamente terá ultrapassado os limites do racionalismo.

Depois da experiência sensorial, a segunda fonte de conhecimento para nós é a reflexão(Árabe*****). O ser humano sempre se recusou a limitar-se ao âmbito das coisas apreendidas pelos sentidos. E sua natureza mental sempre exigiu que aplicasse o poder do pensamento para conhecer as verdades ocultas situadas além das coisas perceptíveis pelos sentidos. Essa investigação intelectual é chamada de reflexão. Ela possui dois métodos:

O primeiro método consiste em, fechando os olhos aos sinais do mundo e da própria existência humana, ou agindo com grande imprudência, chegar a conclusões por meio de questões puramente intelectuais e, por fim, manter indefinidamente a corrida da razão. Este é o campo da filosofia baseada apenas em conjecturas, e essa morada sombria é a fonte de toda confusão. Foi daí que surgiram as doutrinas filosóficas nas quais o ser humano se envolve e se perde no mundo da imaginação. Foi daí também que nasceram as diversas doutrinas, diferentes e contraditórias entre si, acerca de Allah, dos anjos, da ordem do universo e da vida no além; tudo isso não passa do resultado de tatear na escuridão e avançar com base em palpites, conjecturas e imaginação.

O segundo método consiste em contemplar, com os olhos abertos, a natureza do universo e a própria existência, observar os sinais que servem como portadores da tocha do caminho da verdade e, com o auxílio de um discernimento saudável e de uma capacidade de pensamento correta, utilizando essas luzes, alcançar a verdade fundamental oculta por trás desses sinais. Por esse método, a ciência e a filosofia avançam em conjunto. Naturalmente, este também não é um caminho absolutamente seguro para alcançar a verdade real; mas, deixando de lado a orientação celestial, ele é a única fonte de busca da verdade disponível ao ser humano. Com o auxílio dessa fonte, é possível chegar à verdade real ou aproximar-se dela. Contudo, para isso, é condição necessária que o poder de observação do ser humano seja aguçado, que sua capacidade de percepção seja pura e perspicaz, e que ele possua grande aptidão e talento para a reflexão e a investigação. Segundo a concepção filosófica, o desenvolvimento e o progresso humanos dependem da combinação entre observação e reflexão. Nenhuma das doutrinas sobre as quais a filosofia está hoje fundamentada, nem nenhum dos princípios em que um estudante de ciência precisa acreditar para poder avançar sequer um passo, depende exclusivamente da experiência e da observação. Cada doutrina e cada princípio fundamentam-se na concepção intelectual real para a qual a experiência e a observação são utilizadas como elementos. As leis da natureza, o princípio da atração e da repulsão, a cadeia de causa e efeito, o princípio da relatividade, a teoria da evolução, o princípio da sobrevivência do mais apto e todos os demais princípios e leis nos quais os grandes filósofos acreditam são resultado da reflexão e da investigação sobre os fenômenos externos e os sinais naturais, juntamente com a aplicação de inferências intelectuais. Caso contrário, até hoje ninguém observou sensorialmente nenhuma dessas leis ou princípios.

Além disso, a confiança que uma pessoa comum adquire por meio da observação sensorial de algo é exatamente igual à convicção que um filósofo adquire em relação às conclusões derivadas de sua própria observação e inferência. Apesar disso, nem mesmo o maior dos filósofos pode obrigar um incrédulo a aceitar essa conclusão. Isso porque, enquanto uma pessoa não observar os fenômenos externos e os sinais visíveis a partir da mesma perspectiva especial do filósofo, nem aplicar o poder de pensamento e investigação da mesma maneira que os filósofos, o único modo de dar um passo no caminho da filosofia e alcançar nele desenvolvimento e progresso será confiar na inteligência e no discernimento do filósofo e, abandonando as conclusões obtidas por sua própria observação e reflexão, manter uma fé invisível justamente na conclusão aceita por ele.

É preciso gravar firmemente esta premissa no coração. Compreendê-la é necessário para entender a descrição e a linha de argumentação do Alcorão Sagrado acerca das realidades sobrenaturais. É justamente por não compreendê-la que surgem muitas concepções equivocadas. Agora voltaremos nossa atenção para a exposição do Alcorão Sagrado sobre a vida no além.

As perguntas dos incrédulos sobre a vida no além

Quando o Alcorão Sagrado apresentou a doutrina relativa à vida no além, os incrédulos levantaram uma pergunta contra ela. Essa pergunta era exatamente semelhante à pergunta dos incrédulos de hoje. Na realidade, só é possível levantar uma pergunta a esse respeito: a ressurreição após a morte não é algo completamente contrário à razão e à compreensão? Como podemos aceitar que o morto cujo corpo apodreceu, se decompôs e se misturou à terra, cujos membros se dispersaram pela terra, pelo ar e pela água, volte novamente à vida?

Árabe*************

“Eles disseram: Quando formos absorvidos pela terra, seremos então ressuscitados de novo?” — (Surata As-Sajdah: 10)

 Árabe************

“Eles disseram: Quando a carne se dissolver e restarem apenas nossos ossos, e formos reduzidos a pó, seremos então recriados e ressuscitados

” — (Surata Bani Isra’il: 49)

 Árabe**************

“Depois de morrermos e nos misturarmos à terra, seremos novamente ressuscitados? Tal retorno está além da razão e da compreensão.” — (Surata Al-Qaf: 3)

 Árabe***************

“Depois que os ossos se deteriorarem e se desfizerem, quem o vivificará novamente?” — (Surata Yasin: 78)

A linha argumentativa do Alcorão Sagrado

Para enfrentar essa dúvida, o Alcorão Sagrado adotou uma linha argumentativa singular. Isto é: primeiro, o Alcorão convocou as pessoas a observar os sinais do poder de Allah e a refletir e ponderar sobre eles.

Ele diz: Árabe****************

“Mostraremos a eles os Nossos sinais no universo e em sua própria existência, até que se torne claro para eles que isto é a verdade.” — (Surata Ha-Mim as-Sajdah: 53)

 Árabe**************

“Acaso não refletem sobre a administração dos céus e da terra?

” — (Surata Al-A’raf: 185)

Árabe*************

“Há muitos sinais nos céus e na terra pelos quais eles passam, mas sobre eles não refletem” — (Surata Iúçuf: 105)

Por meio dessa indicação, afirma-se que não foi concedido ao ser humano o poder de observar diretamente as coisas ocultas aos seus sentidos, nem de determinar sua natureza com o auxílio da experiência. Contudo, se ele contemplar de olhos abertos os sinais que lhe são apresentados dia e noite, observar a administração dos céus e da terra, voltar o olhar para a própria criação e, refletindo e investigando esses dados sensoriais e observados, esforçar-se para alcançar a verdade, compreenderá facilmente que tudo quanto foi dito é exato, verdadeiro e racional.

A possibilidade da vida no Além

Em seguida, o Alcorão apresenta às pessoas as coisas entre esses fenômenos externos e sinais visíveis que são inteiramente claros e, por meio deles, demonstra este argumento: aquilo que considerais além do alcance da razão e da imaginação, por mais impossível que pareça à vossa razão e imaginação, na realidade não é de modo algum impossível.

Árabe************

“Foi Allah quem elevou os céus sem colunas visíveis para vós; depois, estabeleceu-Se sobre o Trono. Submeteu o sol e a lua; cada um deles se move por um prazo determinado. Ele administra todo o universo. Expõe claramente os Seus sinais, para que tenhais convicção do encontro com o vosso Senhor

e estejais convictos do encontro com Ele.” — (Surata Ar-Ra‘d: 2)

Árabe***********

“É mais difícil criar-vos ou criar o céu? Deus criou isto (uma coisa tão grandiosa).” — (Surata An-Nazi’at: 27)

Por meio desses grandiosos sinais celestiais, comprova-se esta verdade: somente Allah criou este universo tão vasto. Ele submeteu os grandes planetas e estrelas às leis próprias deles. Foi o Seu poder que conduziu este imenso mundo por meio de uma organização perfeita. Assim, nenhum planeta pode desviar-se sequer da largura de um fio de seu curso orbital; tampouco pode afastar-se, nem por um instante, do período de vida que lhe foi determinado. Foi o Seu poder infinito que estabeleceu as camadas do universo sobre bases invisíveis, imperceptíveis e fora do alcance humano. Como poderia ser uma demonstração de enorme capricho e insensatez imaginar que um Allah tão poderoso e forte seja incapaz de destruir uma criatura insignificante como o ser humano uma vez e depois fazê-la reviver?

 Árabe************

“Não veem eles que Allah, que criou os céus e a terra, é capaz também de criar seres humanos como eles?” — (Surata Bani Isra’il: 99)

Depois do céu, o Alcorão chama a nossa atenção para o nosso ambiente mais próximo, isto é, para os sinais da Terra:

Árabe************

“Percorrei a Terra e vede como Allah iniciou a criação.

E é esse mesmo Allah que dá novamente vida às coisas. Certamente, Allah tem poder sobre todas as coisas.” — (Surata Al-Ankabut: 20)

 Árabe****************

“Para eles, a terra morta é um sinal: nós lhe demos vida e dela fizemos brotar colheitas das quais eles comem.” — (Surata Yasin: 33)

Árabe****************

“Observa os sinais da misericórdia de Allah: como Ele dá vida à terra depois de ela estar morta. Certamente, Ele dará vida também aos mortos. Ele tem poder sobre todas as coisas.” — (Surata Ar-Rum: 50)

Árabe************

“E entre os Seus sinais está isto: vós vedes a terra seca e árida. Mas, quando fazemos descer água sobre ela, imediatamente brota e se reveste de flores e frutos. Portanto, Aquele que deu vida à terra dará vida também aos mortos.

Certamente, Allah tem poder sobre todas as coisas.” — (Surata Ha-Mim As-Sajdah: 39)

Árabe**********

“Deus é quem conduz os ventos. Então eles levantam as nuvens.

Em seguida, conduzimos essas nuvens para uma região desprovida de água, vegetação e trepadeiras. Então Ele vivifica, por meio da chuva, essa terra morta e estéril. Assim também vós sereis ressuscitados (no Dia da Ressurreição).” — (Surata Fátir: 9)

Depois, o Alcorão diz: fechai os olhos para tudo ao redor e refletí profundamente sobre a vossa própria existência. Então vereis que a prova do poder de Deus para dar vida aos mortos está presente dentro de vós mesmos.

 Árabe****************

“Certamente, passou sobre o ser humano um período da eternidade em que ele não era sequer algo digno de menção.” — (Surata Ad-Dahr: 1)

 Árabe***************

“Estáveis mortos, então Deus vos deu a vida. Depois, Ele vos fará morrer novamente e novamente vos dará a vida. Em seguida, tereis de retornar a Ele.” — (Surata Al-Bácara: 28)

Árabe***************

“Se tendes dúvida quanto à ressurreição após a morte, sabei que vos criamos de uma matéria inanimada semelhante à terra” — (Surata Al-Hajj: 5)

 Árabe**************

“Ele disse: Quem dará vida novamente aos ossos depois de se tornarem pó? Dize: Aquele que lhes deu vida pela primeira vez” — (Surata Yasin: 78–79)

Árabe***************

“Dize-lhes: Tornai-vos pedras, ferro ou qualquer outra coisa que, segundo vossa opinião, esteja além da compreensão e não possa voltar à vida. Então perguntarão: Quem nos dará vida novamente? Dize: Ele mesmo (dará vida)

que vos criou pela primeira vez” — (Surata Bani Isra’il: 50–51)

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“Criamos o ser humano a partir de um torrão de terra; depois transformamos esse torrão em uma gota de esperma e a colocamos em um lugar seguro. Em seguida, transformamos a gota de esperma em um coágulo; depois transformamos o coágulo em um pedaço de carne. Em seguida, fizemos um esqueleto para esse pedaço de carne; depois revestimos o esqueleto com carne. Em seguida, fizemos dele uma criação diferente e o estabelecemos. Bendito, pois, é Allah, o melhor dos criadores. Depois disso, certamente morrereis. Em seguida, no Dia da Ressurreição, sereis certamente ressuscitados. — (Surata Al-Mu’minun: 12–16)”

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“O ser humano não era apenas uma gota de esperma, lançada no ventre materno? Depois, tornou-se um coágulo. Então Allah lhe deu forma humana e o aperfeiçoou em sua constituição. Em seguida, dividiu-o em duas categorias e criou o par masculino e feminino. Acaso esse Allah não é capaz de dar vida aos mortos?” — (Surata Al-Qiyamah: 37–40)

Depois de apresentar essas provas claras e evidentes, próximas da nossa observação e da percepção dos nossos sentidos, o Alcorão Sagrado apresentou um argumento ligado precisamente ao conhecimento do senso comum. Ele disse que, depois de algo se dispersar e se separar, recriá-lo em sua forma anterior é mais difícil do que criá-lo a partir do absoluto nada. Portanto, se o poder que não foi incapaz de realizar essa tarefa mais difícil não será capaz de realizar a tarefa mais fácil? Se uma pessoa é capaz de inventar e fabricar um motor, será compreensível dizer que, depois de separar e desunir suas peças, ela não será capaz de uni-las novamente? Esse exemplo mostra que o Criador do universo, que vos criou a partir do nada, jamais pode ser incapaz de recriar-vos depois da morte.

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“Acaso não veem como Allah inicia a criação? Depois, assim também a repetirá. E isso é certamente mais fácil para Allah.” — (Surata Al-Ankabut: 19)

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“Ele é quem inicia a criação; depois, Ele a repete, e essa repetição é muito fácil para Ele.” — (Surata Ar-Rum: 27)

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“Será que fomos incapazes de criar pela primeira vez? (Não; eles não negam a primeira criação), mas têm dúvidas quanto à nova criação.” — (Surata Qaf: 15)

Permanece a dúvida: como aqueles cujos membros foram destruídos e desapareceram após a morte poderão novamente assumir o corpo anterior? Pois alguém morreu afogado, e seus ossos e sua carne tornaram-se alimento de peixes e animais aquáticos. Outro morreu queimado pelo fogo, ou foi queimado depois de morrer, e todo o seu corpo transformou-se em cinzas e fumaça. Outro foi sepultado na terra, e seu corpo dissolveu-se no solo. Como será então possível restaurar seu corpo anterior e insuflar nele novamente o mesmo espírito? As pessoas tentaram fortalecer essa dúvida dizendo que, para dar vida corpórea à alma, não é indispensável devolver-lhe o corpo anterior. Pode ser, ao contrário, que a alma permaneça a mesma e receba outro corpo semelhante ao anterior. Mas o Alcorão afirma que Deus é capaz de devolver o corpo anterior. Os membros corpóreos do ser humano não desapareceram simplesmente no vazio; cada uma de suas partes continua existindo, dispersa, em algum lugar. Elas se encontram, de diversas formas, no ar, na água, na terra, nos corpos de plantas ou animais e nos minerais. O conhecimento de Deus é tão abrangente que Ele conhece a localização de cada uma dessas partes. Seu poder e Sua capacidade são tão ilimitados que Ele pode reunir esses membros dispersos e devolver-lhes a forma anterior.

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“Sabemos o que a terra consome deles, e temos um Livro no qual o registro de todas as coisas está preservado.” — (Surata Qaf: 4)

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“Ele possui as chaves do mundo invisível; ninguém as conhece senão Ele. Ele conhece tudo o que há na terra e no mar. Nem sequer uma folha cai sem que Ele o saiba. Não há grão algum nas trevas da terra, nem coisa seca ou úmida, que não esteja registrada em um Livro claro.” — (Al-An’am: 59)

Tudo o que foi dito acima tem por objetivo remover as dúvidas que estão na base da descrença na vida após a morte. Naturalmente, a causa fundamental da descrença não é que os descrentes tenham chegado a conhecer, de modo definitivo e claro, a impossibilidade da vida depois da morte por meio de alguma experiência, observação ou outra fonte segura de conhecimento. O único fundamento da descrença é que eles não compreendem a ressurreição após a morte. Nunca viram semelhante cena; pelo contrário, veem continuamente que, uma vez morto, ninguém retorna. Assim, quando se afirma que aquele que morreu retornará, consideram essa afirmação contrária à natureza irreal, impossível e além do alcance do intelecto e do pensamento. Contudo, basta avançar um passo no caminho da reflexão e da investigação para que essas dúvidas desapareçam e aquilo que antes parecia impossível passe a parecer perfeitamente possível. As pessoas consideram possíveis, e até reais e verdadeiras, as coisas cuja ocorrência estão acostumadas a observar. Uma semente entra na terra, germina e manifesta-se como uma árvore enorme, com muitos galhos e folhas. Uma gota de esperma chega ao útero materno e de lá sai como um ser humano plenamente formado. A água é criada pela combinação de dois gases. E, segundo uma regra determinada, a água transforma-se repetidamente em vapor, e o vapor em água. Na vasta extensão do céu vazio, bilhões de planetas e estrelas movem-se como bolas e estão intimamente ligados uns aos outros sem qualquer conexão material. Não ocorre a mínima irregularidade em nenhum ponto do sistema de movimento, translação e rotação desses planetas e estrelas. As pessoas estão muito acostumadas a ver todas essas coisas e, por isso, consideram-nas comuns. Mas, se essas coisas não se manifestassem diante delas e estivessem acostumadas a algum outro sistema, considerariam justamente estas coisas além do intelecto e da compreensão e negariam firmemente sua possibilidade. Tomemos como exemplo o fato de que nenhuma planta cresce em Marte. Se fosse dito aos habitantes de lá que, bastaria plantar na terra uma semente do peso de um másha para ela se transformar numa árvore gigantesca, tornando-se milhares, ou até centenas de milhares de vezes maior que sua forma original, isso lhes pareceria tão surpreendente quanto a ressurreição após a morte parece aos habitantes da Terra. Eles também rejeitariam isso exatamente da mesma maneira. Mas é claro que esse veredicto de impossibilidade não se basearia em conhecimento e informação; não seria resultado de um julgamento racional acessível, mas fruto da ignorância e da tolice, e sim da incapacidade de compreender. A descrença na vida após a morte é exatamente assim. Se as pessoas compreenderem a natureza do espanto e da descrença, naturalmente perceberão que o fato de algo estar além de seu intelecto e de sua compreensão não constitui prova de sua impossibilidade ou irrealidade. As coisas que os seres humanos estão descobrindo hoje estavam, cem anos atrás, além do intelecto e da compreensão humana. Mas hoje os acontecimentos reais provaram que, na verdade, elas não eram impossíveis. Do mesmo modo, aquilo que as pessoas consideram impossível hoje se tornará possível pelas mãos humanas daqui a cem anos, e os acontecimentos reais provarão que nada havia de impossível nisso. Portanto, quando este é o mistério da inteligência humana, daquilo que está além dela e daquilo que está dentro de seu alcance, não se pode declarar algo impossível simplesmente porque não é acessível a esse intelecto limitado.

Para estabelecer a existência de algo oculto e além do alcance dos sentidos, é necessário, antes de tudo, demonstrar a sua possibilidade. Por isso, o Alcorão Sagrado, mediante argumentos e provas irrefutáveis, elimina todas as dúvidas e suspeitas relacionadas à vida após a morte e demonstra a sua possibilidade. Em seguida, como segundo passo, deve-se demonstrar a sua necessidade. Assim, a razão humana aceitará facilmente que algo dessa natureza é indispensável.

A ordem cósmica é uma ordem sábia

Será que a natureza deste mundo é criação de uma entidade sábia, ou surgiu espontaneamente, sem qualquer sabedoria? Na realidade, a necessidade da vida após a morte depende da resolução dessa questão. Os admiradores da ciência da era atual dizem que nenhum artífice sábio criou esta ordem cósmica. Ela surgiu espontaneamente e prossegue como uma máquina automática, com todos os seus órgãos e componentes — entre os quais o ser humano também está incluído. No dia em que cessar a interação entre matéria e energia, toda essa estrutura se romperá e será reduzida a fragmentos. É evidente que procurar qualquer propósito ou sabedoria numa organização conduzida por uma natureza cega, sem conhecimento, inteligência, consciência, vontade ou sabedoria, é um esforço absolutamente inútil. Por isso, a ciência materialista de hoje não apenas excluiu do seu campo a causalidade teleológica dos fenômenos naturais, mas também declarou esse modo de pensar completamente irrelevante e sem sentido. Ela afirmou categoricamente que não há propósito algum por trás da natureza do mundo, nem por trás de qualquer coisa ou processo nela existente. Por exemplo, o olho não existe para ver; a visão seria apenas o resultado da disposição particular da matéria no interior do olho. Do mesmo modo, o cérebro não é o centro do pensamento, dos sentimentos e da consciência; assim como a bile é secretada pelo fígado, o pensamento, a reflexão e a imaginação emanariam do cérebro. Na verdade, chamar as atividades naturais e espontâneas dos conjuntos materiais de seus propósitos e procurar inteligência e sabedoria em sua criação não passa de puro erro.

Se essa teoria for aceita, não resta nenhuma razão lógica para admitir a necessidade de outra vida depois da vida terrena. Pois um universo cuja ordem é conduzida por uma natureza ignorante, irracional e inconsciente, sem qualquer meta ou propósito, não pode ter dignidade maior que a de um brinquedo. Um mundo em que tudo é desprovido de propósito e que será destruído quando essa falta de propósito atingir a sua plenitude não pode ser objeto de expectativa de justiça, julgamento ou prestação de contas por parte de uma natureza cega. Mesmo que, apesar disso, se pudesse considerá-la dotada de justiça, ainda assim o ser humano, por brincar em suas mãos como um boneco indefeso e por não possuir, na realidade, qualquer poder ou vontade própria — quanto mais capacidade de realizar algo por sua própria força —, não deveria ser responsabilizado por nenhum ato bom ou mau, assim como não se atribui a um motor responsabilidade por percorrer uma estrada reta ou sinuosa. E, abandonada a questão da responsabilidade, desaparecem também as questões de julgamento, justiça, paz e recompensa neste mundo — quanto mais a necessidade de admitir uma vida independente para esse fim.

Mas essa teoria é inteiramente contrária à razão e ao discernimento. Nenhuma prova intelectual ou evidência científica foi apresentada para demonstrá-la. Em seu apoio, até agora, afirmou-se aproximadamente o seguinte: não vemos nenhum criador ou dirigente da natureza do universo, e não compreendemos qualquer propósito de sua criação. Vemo-la em movimento e funcionamento sem qualquer criador. Além disso, não nos é possível conhecer o propósito desse movimento, nem vemos necessidade de conhecê-lo. Contudo, o fato de não conhecermos a causa eficiente e a causa final de algo não prova que essas causas não existam. Suponhamos que uma criança veja uma máquina de impressão em funcionamento. Ela não compreende para que finalidade a máquina está sendo operada. Por isso, imagina que seja apenas um brinquedo, funcionando sem qualquer objetivo específico. Ela vê que, assim como a máquina produz ruídos, suas peças se movimentam e o chão treme, também o papel vai saindo impresso. Então conclui que, assim como aquelas atividades são consequências do funcionamento da máquina, a saída das folhas impressas é igualmente um resultado natural de seu movimento. Ela não consegue compreender que, em toda a atividade da máquina, há apenas uma finalidade — imprimir e produzir as folhas — e que todas as demais atividades são consequências naturais de seu funcionamento. Seu olhar infantil e investigativo ainda não adquiriu capacidade para compreender a disposição, a montagem e a ordem sistemática das peças da máquina. Ela também não percebe que cada peça foi fabricada de determinada forma e instalada em determinado lugar porque essa forma e esse lugar lhe são adequados, e que, para desempenhar a sua função específica no interior da máquina, é indispensável que permaneça daquela forma e naquele lugar. Por isso, a criança de inteligência imatura imagina que a máquina surgiu espontaneamente da união de alguns pedaços de ferro. Ela não possui a capacidade intelectual desenvolvida para inferir, ao observar o funcionamento e a variedade da disposição da máquina, que por trás dela existe necessariamente um Criador sábio, que a fabricou segundo um método excelente e um plano magnífico, sem deixar nenhuma de suas partes inativa, inadequada, desconexa ou desnecessária; tampouco consegue compreender que algo elaborado com tamanha inteligência e sabedoria não pode ser sem causa, sem propósito ou inútil. Ora, se, por meio dessa observação incompleta e desse pensamento imaturo sobre a máquina de impressão, essa criança tola formulasse a teoria de que a máquina não possui causa eficiente nem causa final, de que nenhuma inteligência ou sabedoria foi empregada em sua criação e de que não há diante de sua concepção nenhum objetivo elevado, algum adulto inteligente e maduro aceitaria como correta e válida essa teoria da criança sobre a máquina?

Se isso não é válido no caso de uma máquina de impressão, como poderia ser válido a respeito da ordem cósmica, cujo menor átomo testemunha o conhecimento, a inteligência, a vontade, a sabedoria e a previdência de seu Criador? Uma criança de inteligência imatura e visão estreita pode dizer o que quiser. Mas uma pessoa inteligente que, de olhos abertos, observou os sinais do universo não pode dizer arbitrariamente o que quiser sobre a criação, o propósito e a condução de uma ordem tão sábia, bem organizada, harmoniosa e perfeitamente planejada. Com efeito, ela não pode sequer por um instante suspeitar que uma ordem na qual nada é sem causa ou inútil, nada é menor ou maior do que o necessário, cada parte é perfeitamente adequada ao seu lugar e à sua função, e em cuja disciplina não se observa desvio algum, possa ter sido criada e conduzida sem conhecimento, inteligência, sabedoria ou vontade.

Uma ordem sábia não pode ser sem propósito e inútil

Os argumentos apresentados no Alcorão Majid acerca da vida após a morte dependem desta doutrina fundamental. Em suma: o Criador deste universo é uma entidade sábia. Nenhuma de Suas ações está isenta de propósito e nada contrário à sabedoria pode ser atribuído a Ele. Depois de estabelecer este fundamento, o Alcorão diz:

أَفَحَسِبْتُمْ أَنَّمَا خَلَقْنَاكُمْ عَبَثًا وَأَنَّكُمْ إِلَيْنَا لَا تُرْجَعُونَ {115} فَتَعَالَى اللَّهُ الْمَلِكُ الْحَقُّ لَا إِلَهَ إِلَّا هُوَ رَبُّ الْعَرْشِ الْكَرِيمِ {116}

“Acaso pensais que vos criamos sem propósito e que não sereis reconduzidos a Mim? Exaltado seja Allah, o Rei Verdadeiro; não há divindade além d’Ele, Senhor do Trono Nobre.” — (Surata Al-Mu’minun: 115–116)

أَيَحْسَبُ الْإِنسَانُ أَن يُتْرَكَ سُدًى {36}

“Acaso o ser humano pensa que será deixado sem propósito?” — (Surata Al-Qiyamah: 36)

} وَمَا خَلَقْنَا السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضَ وَمَا بَيْنَهُمَا لَاعِبِينَ {38} مَا خَلَقْنَاهُمَا إِلَّا بِالْحَقِّ وَلَكِنَّ أَكْثَرَهُمْ لَا يَعْلَمُونَ {39} إِنَّ يَوْمَ الْفَصْلِ مِيقَاتُهُمْ أَجْمَعِينَ {40}

“Não criamos os céus, a Terra e tudo quanto existe entre ambos como mero divertimento. Nós os criamos de acordo com as exigências da sabedoria. Mas a maioria das pessoas não sabe disso. Para eles, porém, foi fixado um prazo até o Dia do Juízo.” — (Surata Ad-Dukhan: 38–40)

 أَوَلَمْ يَتَفَكَّرُوا فِي أَنفُسِهِمْ مَا خَلَقَ اللَّهُ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضَ وَمَا بَيْنَهُمَا إِلَّا بِالْحَقِّ وَأَجَلٍ مُّسَمًّى وَإِنَّ كَثِيرًا مِّنَ النَّاسِ بِلِقَاء رَبِّهِمْ لَكَافِرُونَ {8}

“Acaso não refletiram em seu íntimo que Allah criou com sabedoria os céus, a terra e tudo quanto há entre ambos, e determinou para eles um prazo? Contudo, muitas pessoas não creem no encontro com seu Senhor.” — (Surata Ar-Rum: 8)

Os versículos acima indicam que, se esta vasta fábrica dos céus e da terra funcionasse apenas por algum tempo e depois fosse destruída e desaparecesse sem qualquer resultado ou desfecho, isso seria uma ação sem causa nem propósito — apenas um jogo e uma diversão. Isso jamais poderia ser obra de um ser sábio. Se as pessoas acreditam que Allah criou esta fábrica e consideram Allah um Ser sábio, então deveriam compreender também, mediante a razão, que nada da criação foi criado sem propósito; nada foi destinado a desaparecer inutilmente e sem resultado. Sobretudo, o ser humano é a melhor das criaturas do universo, o ashraful makhluqat. Sua consciência é a chave do desenvolvimento progressivo deste mundo e de todo o seu movimento. Ele foi dotado, com infinita sabedoria, de conhecimento, inteligência, capacidade de pensar, visão de futuro e força de vontade. Um ser humano assim viveria neste mundo apenas alguns anos, como uma máquina, e depois seria destruído e desapareceria? O propósito de sua criação não pode ser tão desprovido de sentido.

Qual deve ser, segundo as exigências da sabedoria, o destino do sistema do universo?

A discussão acima mostrou que a criação e a administração deste universo não são um jogo ou uma diversão sem sentido; nada nele existe sem causa ou propósito. A segunda questão é: de acordo com as exigências da razão, qual outro destino, além da destruição e do desaparecimento, pode ter esta vasta fábrica? A resposta detalhada a essa pergunta encontra-se no Alcorão Sagrado. Depois de ouvir essa resposta, uma razão sã fica inteiramente tranquila e satisfeita. Mas, antes de compreender essa resposta, é absolutamente necessário consolidar firmemente no coração alguns pontos.

Um: Todos os sinais da criação testemunham que, neste sistema, a direção de todo o ciclo e de toda mudança está voltada para o desenvolvimento progressivo. Conduzir a imperfeição das coisas rumo à perfeição e transformar sua forma incompleta em uma forma perfeita é o propósito de toda a sua evolução.

Dois: Como o princípio do desenvolvimento progressivo se manifesta sob a forma de mudança, toda criação requer uma dissolução. A criação de uma forma exige naturalmente a destruição ou dissolução da forma anterior. E o desaparecimento de uma forma incompleta constitui precisamente o início da criação da perfeição. Esse ciclo e essa mudança ocorrem a cada instante, mas somente após numerosas mudanças ocultas tem início uma grande mudança manifesta, na qual ocorre uma grande dissolução manifesta. É a essa segunda espécie de dissolução que, na linguagem comum, chamamos de “morte” ou queda. E ao período que vai da criação de uma forma até sua morte ou dissolução final chamamos de “vida”.

Três: Cada forma exige um abrigo ou suporte especial adequado à sua condição. Nenhuma forma pode viver em um abrigo que não seja apropriado à sua condição. Por exemplo, o corpo de um animal é inadequado à forma vegetal. Da mesma maneira, a essência humana requer exatamente a estrutura corporal específica que foi criada para o ser humano. Portanto, para dar a algo uma forma superior, é absolutamente indispensável destruir a habitação criada para a forma inferior e construir uma habitação adequada à nova forma.

Quatro: Para quem compreendeu devidamente a extensão do princípio do desenvolvimento progressivo nas diferentes partes do universo, a aplicação desse princípio a todo o sistema universal não pode de modo algum permanecer oculta. Não podemos dizer, observando este sistema, quantos outros sistemas passaram antes do início do processo de criação do sistema atual; cada um deles completou seu próprio período de existência, cedendo lugar a um sistema mais desenvolvido, e o processo da criação, atravessando os sucessivos estágios do desenvolvimento progressivo, chegou até o nosso sistema. Do mesmo modo, este sistema também não é o sistema final. Quando ele alcançar sua possível plenitude e já não tiver capacidade de elevar-se a um nível superior de perfeição, também será destruído e, em seu lugar, será estabelecido outro sistema. As leis e normas desse sistema serão diferentes, e nele permanecerá igualmente a capacidade de elevar a criação a um estágio mais elevado de perfeição.

Cinco: basta refletir profundamente sobre a organização atual do universo para perceber claramente que ela é incompleta e necessita de uma maior perfeição. As realidades fundamentais inerentes às coisas deste sistema estão tão encobertas pela impureza material que as realidades fundamentais são consideradas meras fantasias, enquanto o seu revestimento material adquiriu o status das próprias realidades fundamentais. Quanto mais sutil e livre da impureza material é algo, mais oculto, velado e distante do alcance da razão e da consciência ele se encontra neste sistema universal. Aqui, os corpos materiais sólidos têm importância, mas os princípios sutis e imateriais não têm nenhuma importância. Aqui, árvores, pedras e coisas semelhantes podem ser pesadas, mas não há neste sistema universal nenhum meio de medir ou pesar a razão, o pensamento e a imaginação, a reflexão e a contemplação, os desejos e as aspirações, os apelos e as sensações, ou a visão de longo alcance. Aqui, os alimentos podem ser pesados, mas não existe nenhum padrão para pesar o amor e o ódio. Aqui, há meios de medir tecidos, mas não existe atualmente nenhuma medida para avaliar a ira e a inveja. Aqui, pode-se determinar o valor do dinheiro, mas não é possível determinar o valor das ideias que atuam por trás da generosidade e da avareza. Esta é a deficiência do sistema universal atual. Por isso, a razão exige naturalmente um sistema superior a este, no qual as realidades fundamentais se manifestem claramente, sem depender de um revestimento material; no qual o sutil prevaleça sobre o grosseiro; e no qual as coisas hoje ocultas e veladas se tornem luminosas e mais claras. Do mesmo modo, outra deficiência deste mundo é que nele predominam as leis materiais; por isso, somente se manifestam os resultados das ações que são compatíveis com essas leis materiais. Já os resultados correspondentes à razão, à visão de longo alcance e à prudência não se manifestam de modo algum. Se aqui houver um incêndio, todos os materiais combustíveis serão queimados; se se derramar água, as coisas que absorvem umidade e se molham ficarão molhadas. Contudo, quando se pratica uma boa ação, seu resultado não se manifesta na forma de uma boa obra — que seria sua consequência natural e racional. Ao contrário, manifesta-se conforme as leis materiais, ainda que seja uma má ação, completamente oposta à boa obra. Ao observar essas imperfeições, a razão exige naturalmente que, depois deste sistema, seja estabelecido um sistema superior, no qual, em lugar das leis materiais, sejam instituídas leis baseadas na razão, e no qual se manifeste corretamente o resultado natural das ações, que não pode aparecer no sistema atual devido ao predomínio das leis materiais.

O fim do sistema universal

Depois de compreender essas considerações preliminares, veremos agora que resposta à questão principal pode ser encontrada na imagem da Ressurreição e da ressurreição na vida futura apresentada pelo Alcorão Sábio.

O Alcorão diz:

مَا خَلَقْنَا السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضَ وَمَا بَيْنَهُمَا إِلَّا بِالْحَقِّ وَأَجَلٍ مُّسَمًّى

“Criamos os céus, a terra e tudo o que existe entre ambos segundo o que a sabedoria exige e por um prazo determinado”.

— (Surata Al-Ahqaf: 3)

وَسَخَّرَ الشَّمْسَ وَالْقَمَرَ كُلٌّ يَجْرِي لأَجَلٍ مُّسَمًّى

“Ele submeteu o sol e a lua a uma lei específica. Tudo isso funciona por um período determinado”.

— (Surata Ar-Ra‘d: 2)

Em seguida, descreve a situação da Ressurreição da seguinte forma:

وَإِذَا الْقُبُورُ بُعْثِرَتْO وَإِذَا الْبِحَارُ فُجِّرَتْO وَإِذَا الْكَوَاكِبُ انتَثَرَOإِذَا السَّمَاء انفَطَرَتْO

Quando o céu se fender, as estrelas se dispersarem, os mares transbordarem e as sepulturas expelirem o que contêm”.

— (Al-Infitar: 1–4)

وَإِذَا الْجِبَالُ سُيِّرَتْ O وَإِذَا النُّجُومُ انكَدَرَتْOإِذَا الشَّمْسُ كُوِّرَتْ

“Quando o sol for encoberto, as estrelas se desmoronarem e as montanhas forem postas em movimento”. — (Surata At-Takwir: 1–3)

وَإِذَا الْجِبَالُ نُسِفَتْ O وَإِذَا السَّمَاء فُرِجَتْ O فَإِذَا النُّجُومُ طُمِسَتْ

“Quando as estrelas perderem seu brilho, o céu for fendido e as montanhas forem reduzidas a pó.” — (Surata Al-Mursalāt: 8–10)

وَجُمِعَ الشَّمْسُ وَالْقَمَرُ O وَخَسَفَ الْقَمَرُOفَإِذَا بَرِقَ الْبَصَرُ

“Quando os olhos se arregalarem, a lua perder o brilho, e o sol e a lua forem unidos.” — (Surata Al-Qiyāmah: 7–9)

وَحُمِلَتِ الْأَرْضُ وَالْجِبَالُ فَدُكَّتَا دَكَّةً وَاحِدَةً

“A terra e as montanhas serão abaladas e, com um só golpe, serão reduzidas a pedaços.” — (Surata Al-Ḥāqqah: 14)

يَوْمَ تُبَدَّلُ الأَرْضُ غَيْرَ الأَرْضِ وَالسَّمَاوَاتُ وَبَرَزُواْ للّهِ الْوَاحِدِ الْقَهَّارِ

“No dia em que a terra for transformada em outra terra, e assim também os céus, e todos comparecerão diante de Allah, o Único e Todo-Poderoso.” — (Surata Ibrāhīm: 48)

Nestes versículos, indica-se precisamente que a ordem mundial atual tem uma duração determinada. Não se trata de uma ordem eterna. Quando sua duração chegar ao fim, todo o sistema será desfeito e reduzido a pedaços. O Sol, a Terra, a Lua e todos os demais planetas e satélites, sobre cujas órbitas este sistema está fundamentado, serão dispersos e separados; colidirão uns com os outros, e este palácio temporário será reduzido a pedaços. Isso, porém, não significa que o universo criado será completamente extinto, nem que o processo da criação será interrompido. Pelo contrário, significa que esta concepção particular da criação, conduzida sob o sistema atual, será transformada, e que uma administração diferente será estabelecida para o universo criado. O versículo indica precisamente essa direção.

Como será a administração da vida do Além?

Pode surgir aqui a pergunta: como será esse sistema? A partir da descrição do Alcorão Sagrado, sabe-se claramente que ele será a realização daquilo que é incompleto na administração atual, sua forma desenvolvida e evoluída, exatamente de acordo com as exigências da razão e do discernimento. Nesse sistema, tudo será pesado, medido e submetido a julgamento. Mas isso não se aplicará a coisas materiais; serão pesados os princípios sutis e fundamentais e as realidades: o bem e o mal, a justiça e a injustiça, o benefício e o dano, a fé e a incredulidade, a moralidade e a imoralidade. As intenções, pensamentos, vontades e desejos das pessoas serão medidos. As atividades ocultas do coração serão examinadas e pesadas. Ali, não serão contabilizados o pão ou o dinheiro dados ao pobre, mas será examinada a intenção que atuou por trás dessa generosidade. Pois, ao contrário do que ocorre neste mundo, as leis daquele lugar não serão materiais, mas intelectuais.

إِنَّ السَّمْعَ وَالْبَصَرَ وَالْفُؤَادَ كُلُّ أُولـئِكَ كَانَ عَنْهُ مَسْؤُولاً

“Os olhos, os ouvidos e o coração, tudo será interrogado” — (Sura Bani Israil: 36)

وَنَضَعُ الْمَوَازِينَ الْقِسْطَ لِيَوْمِ الْقِيَامَةِ فَلَا تُظْلَمُ نَفْسٌ شَيْئًا وَإِن كَانَ مِثْقَالَ حَبَّةٍ مِّنْ خَرْدَلٍ أَتَيْنَا بِهَا وَكَفَى بِنَا حَاسِبِ

“No Dia da Ressurreição, colocaremos balanças precisas. Portanto, nenhuma injustiça, por mínima que seja, será cometida contra qualquer pessoa. Ao contrário, mesmo que seja um ato do peso de uma semente de mostarda, nós o traremos. E somos suficientes para fazer as contas” — (Sura Al-Anbiya: 47)

O وَالْوَزْنُ يَوْمَئِذٍ الْحَقُّ فَمَن ثَقُلَتْ مَوَازِينُهُ فَأُوْلَـئِكَ هُمُ الْمُفْلِحُونَ

وَمَنْ خَفَّتْ مَوَازِينُهُ فَأُوْلَـئِكَ الَّذِينَ خَسِرُواْ أَنفُسَهُم

“Naquele dia, as obras serão certamente pesadas. Então, aquele cujo peso das obras for maior, esse alcançará a prosperidade. E aqueles cujo peso das obras for leve serão os perdedores.” — (Surata Al-A‘raf: 8–9)

O فَمَن يَعْمَلْ مِثْقَالَ ذَرَّةٍ خَيْرًا يَرَهُ Oيَوْمَئِذٍ يَصْدُرُ النَّاسُ أَشْتَاتًا لِّيُرَوْا أَعْمَالَهُمْ

وَمَن يَعْمَلْ مِثْقَالَ ذَرَّةٍ شَرًّا يَرَهُ

“Naquele dia, as pessoas sairão separadamente, para que lhes sejam mostradas as suas próprias obras. Então, quem fizer o bem do peso de um átomo o verá; e quem fizer o mal do peso de uma partícula o verá.” — (Surata Az-Zilzal: 6–8)

Na ordem material vigente, tudo aquilo que, devido às restrições das leis materiais, está oculto e escondido dos olhos das pessoas será revelado nessa segunda ordem. As verdades ocultas, encobertas e sutis se apresentarão ali claramente. E o valor verdadeiro e genuíno de cada coisa será manifestado de forma resplandecente.

لَقَدْ كُنتَ فِي غَفْلَةٍ مِّنْ هَذَا فَكَشَفْنَا عَنكَ غِطَاءكَ فَبَصَرُكَ الْيَوْمَ حَدِيدٌ

“Será dito ao homem: ‘Tu permaneceste em negligência acerca disto; então removemos a cobertura dos teus olhos, e hoje a tua visão é extremamente aguçada.’” — (Surata Qaf: 22)

يَوْمَئِذٍ تُعْرَضُونَ لَا تَخْفَى مِنكُمْ خَافِيَةٌ

Naquele dia, sereis apresentados. Nenhum dos vossos segredos permanecerá oculto. — (Surata Al-Haqqah: 18)

Ali, o verdadeiro resultado das ações será manifestado segundo a razão, a perspicácia e a justiça. Sob a influência das leis materiais e dos meios e recursos materiais do sistema atual, o resultado exato e racional das ações não pode manifestar-se. Essas leis, meios e recursos não terão eficácia ali. Por isso, todas as coisas que aqui se interpõem no caminho da justiça e impedem a manifestação do resultado exato tornar-se-ão ali inativas e sem influência. Por exemplo, aqui a riqueza, a abundância de recursos materiais, a força dos amigos e conhecidos, os esforços e expedientes, a intercessão, a influência familiar, a própria astúcia, a cautela, a inteligência e outras coisas semelhantes protegem a pessoa das consequências de muitas de suas ações. Mas ali a influência de todas essas coisas desaparecerá completamente, e, de acordo com a justiça e a verdade, manifestar-se-á exatamente o resultado que deveria ser manifestado para cada coisa.

هُنَالِكَ تَبْلُو كُلُّ نَفْسٍ مَّا أَسْلَفَتْ

“Ali, cada pessoa examinará as ações que praticou anteriormente.” — (Surata Yunus: 30)

وَوُفِّيَتْ كُلُّ نَفْسٍ مَّا كَسَبَتْ وَهُمْ لاَ يُظْلَمُونَ

“A cada pessoa será concedida plenamente a recompensa por suas ações, e nenhuma injustiça lhes será feita, nem mesmo no mínimo.” — (Surata Al Imran: 25)

يَوْمَ تَجِدُ كُلُّ نَفْسٍ مَّا عَمِلَتْ مِنْ خَيْرٍ مُّحْضَرًا وَمَا عَمِلَتْ مِن سُوَءٍ

“Naquele dia, cada pessoa encontrará diante de si toda boa e má ação que tiver praticado.” — (Surata Al Imran: 30)

وَاتَّقُواْ يَوْماً لاَّ تَجْزِي نَفْسٌ عَن نَّفْسٍ شَيْئاً وَلاَ يُقْبَلُ مِنْهَا شَفَاعَةٌ وَلاَ يُؤْخَذُ مِنْهَا عَدْلٌ وَلاَ هُمْ يُنصَرُونَ

“Temei o dia em que uma pessoa de nada poderá servir a outra; nenhuma intercessão será aceita em favor de ninguém, nenhum resgate será aceito de ninguém e nenhum auxílio lhes será prestado.” (Surata Al Baqarah: 48)

O فَإِذَا نُفِخَ فِي الصُّورِ فَلَا أَنسَابَ بَيْنَهُمْ يَوْمَئِذٍ وَلَا يَتَسَاءلُونَ

O فَمَن ثَقُلَتْ مَوَازِينُهُ فَأُوْلَئِكَ هُمُ الْمُفْلِحُونَ

وَمَنْ خَفَّتْ مَوَازِينُهُ فَأُوْلَئِكَ الَّذِينَ خَسِرُوا أَنفُسَهُمْ فِي جَهَنَّمَ خَالِدُونَ

“Então, no dia em que for soprado o trompete, não haverá entre eles qualquer relação de parentesco, nem sequer perguntarão uns pelos outros. Naquele dia, aqueles cujas balanças das ações forem pesadas alcançarão a prosperidade; e aqueles cujas ações forem leves serão os perdedores.” — (Surata Al-Mu’minun: 101–103)

إِلَّا مَنْ أَتَى اللَّهَ بِقَلْبٍ سَلِيمٍ O يَوْمَ لَا يَنفَعُ مَالٌ وَلَا بَنُونَ

“Naquele dia, os bens e os filhos não beneficiarão ninguém; somente aquele que comparecer diante de Allah com o coração puro alcançará a salvação” — (Surata Ax-Shu‘ara: 88-89)

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“Viestes a Nós sozinhos, assim como vos criamos sozinhos pela primeira vez. Deixastes para trás tudo aquilo com que vos havíamos adornado. Hoje não vemos entre vós aqueles intercessores que consideráveis associados a Allah no que diz respeito à vossa manutenção e ao vosso sustento. Todos os laços entre vós foram rompidos e rejeitados.”

— (Surata Al-An‘am: 94)

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“No Dia da Ressurreição, vossos parentes e vossos filhos não vos serão minimamente úteis. Allah decidirá entre vós. Ele viu tudo o que fazíeis.”

— (Surata Al-Mumtahanah: 3)

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“Naquele dia, o homem fugirá de seu irmão, de seus pais, de sua esposa e de seus filhos. Naquele dia, cada um estará absorvido pela sua própria situação.”

— (Surata Abasa: 34-37)

Uma grande falha do sistema atual é que a distribuição das riquezas das bênçãos de Allah não depende das obras realizadas pelo ser humano nem de suas virtudes. Pelo contrário, ela depende de muitos fatores, entre os quais as obras pessoais, a capacidade e o talento constituem apenas causas parciais. Outros fatores poderosos enfraquecem o efeito das obras pessoais e, às vezes, chegam até mesmo a eliminá-lo por completo. Por isso, a distribuição das riquezas das bênçãos não reserva lugar algum, ou reserva um lugar muito pequeno, ao direito pessoal de recebê-las. Nesse sistema, uma pessoa pode, apesar de passar a vida inteira praticando opressão, perseguição e transgressão, ser agraciada com prosperidade, bem-estar e riqueza mundana. Outra pessoa, por sua vez, pode, apesar de passar a vida inteira em fé e piedade, permanecer afligida pela miséria, pela tristeza e pela pobreza. É necessário levar essa imperfeição à sua plena realização. A exigência da razão e da justiça é que o sistema atual seja aperfeiçoado e transformado em um sistema no qual os bons e os maus resultados sejam distribuídos com justiça, e cada pessoa, com base em suas qualidades individuais, receba exatamente aquilo que lhe é adequado. O Alcorão afirma que o sistema da vida futura será precisamente assim. Por exemplo:

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“Acaso faremos aqueles que causam desordem e corrupção na terra iguais aos crentes e aos que praticam boas ações? Acaso trataremos igualmente os tementes a Allah e os rebeldes contra Allah?”

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“Acaso os malfeitores pensam que os tornaremos iguais aos crentes e aos que praticam boas ações, e que sua vida e sua morte serão iguais? Que mau julgamento estão fazendo.”

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“Cada pessoa receberá uma recompensa exatamente correspondente às suas obras.”

— (Surata Al-An’am: 132)

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“O Paraíso será aproximado dos tementes, e o Inferno será apresentado aos desviados.”

— (Surata Ash-Shu’ara: 90-91)

Na verdade, este é o esboço resumido do segundo mundo de que o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) e os demais profetas falaram, depois do mundo atual. Aqueles que consideram este mundo e todo o seu mecanismo uma diversão, um brinquedo, uma agitação inútil e um labirinto inteiramente desprovido de propósito, talvez não encontrem nada digno de confiança nesse plano e nas suas provas e evidências; mas aqueles que consideram a ordem do universo uma criação de Allah e creem que Allah é um Ser sábio e dotado de discernimento e senso de justiça serão certamente obrigados, após refletirem sobre essas provas e evidências, a reconhecer a necessidade de uma ordem universal desse tipo. E, uma vez estabelecida a possibilidade de uma segunda vida após a morte, basta demonstrar a necessidade dessa possibilidade para crer que o Allah sábio e prudente certamente criará um mundo desse tipo, dotado de possibilidades.

Esta discussão deixou claro que a exigência do Islã de crer na vida do Além não está de modo algum fora do alcance da razão; pelo contrário, está plenamente de acordo com as exigências da razão e da prudência. Nenhum progresso no conhecimento, na ciência e no intelecto pode enfraquecer a fé nem sequer um pouco — desde que esse progresso seja real e genuíno, e não meramente externo e exibicionista. (1)

A necessidade de crer na vida do Além

Da discussão apresentada até aqui ficou comprovado que, depois desta vida terrena, a existência de uma segunda vida é altamente provável e está de acordo com as exigências da razão e do discernimento. A sã razão e o verdadeiro conhecimento científico não criam qualquer obstáculo à fé nessa segunda vida apresentada pelo Alcorão; pelo contrário, estimulam ainda mais o ser humano a aceitá-la. Mas a questão é: qual é a necessidade de crer nessa concepção da vida após a morte? Por que ela foi incorporada à fé e à convicção? Por que tanta importância foi atribuída a ela? Por que, para tornar-se muçulmano, a crença nela foi considerada indispensável, tornando impossível ser muçulmano sem essa crença? Por que, se ela for negada, a fé em Allah, no Rasul e no Livro não terá qualquer benefício? Por que todas as virtudes e boas ações da vida serão anuladas?

Alguém poderia dizer que a doutrina relativa à vida após a morte é apenas uma doutrina sobrenatural, tal como as demais doutrinas sobrenaturais. Admito que essa doutrina tenha sido fortalecida e consolidada por meio de provas e argumentos, e que existam razões suficientes para acreditar nela. Mas o fato de uma doutrina sobrenatural ser estabelecida por provas e argumentos não significa que seja obrigatório crer nela e que a fé e a descrença passem a depender dela. Existem muitas outras doutrinas sobrenaturais, assim como a vida após a morte, e também se encontram fortes argumentos e provas em seu apoio. Então, por que elas também não foram incluídas na fé?

Para uma discussão mais detalhada sobre a Akhirah, consulte, no segundo volume de Tafhimul Qur’an, o comentário da palavra “Akhirah” e, no apêndice desta obra, o artigo intitulado “Vida após a morte”.

A resposta é: se a concepção da vida após a morte fosse apenas uma doutrina sobrenatural, essa seria certamente uma questão forte. Nesse caso, não haveria qualquer razão racional para incluir essa doutrina na fé e na convicção. Pois, se uma doutrina fosse apenas uma doutrina sobrenatural, ela não teria relação alguma com a nossa vida prática; se permanecêssemos ignorantes a seu respeito ou a negássemos, ela não teria qualquer efeito sobre nosso caráter moral e nossas ações. Mas, ao refletir profundamente sobre a doutrina da vida após a morte, compreende-se que ela não é apenas uma doutrina filosófica; existe uma relação profunda entre ela e a vida moral e prática do ser humano. Como consequência da crença nela, a visão do ser humano sobre a vida terrena e todo o conjunto de suas atividades muda fundamentalmente. Aceitar essa doutrina significa que o ser humano se considerará uma criatura responsável e encarregada de si mesma. Ele realizará todas as atividades de sua vida pensando que é responsável por cada ato e cada ação. Na vida futura, terá de prestar contas de tudo o que fez, e sua felicidade ou infelicidade futura dependerá de suas boas ou más ações.

Por outro lado, não aceitar essa doutrina significa que o ser humano se considerará uma criatura sem responsabilidade. Ele planejará sua vida terrena sob a ideia de que não terá de prestar contas, em nenhuma outra vida, pelos atos cometidos nesta vida. Não haverá, no futuro, qualquer resultado bom ou mau decorrente dos atos e ações desta vida. Assim, o resultado inevitável de permanecer ignorante acerca dessa doutrina ou de negá-la será que a atenção do ser humano se concentrará apenas nos resultados das ações que se manifestam neste mundo. E ele determinará, à luz desses resultados, quais ações lhe são benéficas e quais são prejudiciais. Certamente se abstendrá de beber veneno e de pôr a mão no fogo, pois sabe que sofrerá neste mundo mesmo as más consequências dessas duas ações. Mas, como os resultados completos de atos como opressão e perseguição, injustiça, mentira, calúnia, quebra de confiança e adultério não se manifestam neste mundo, ele evitará esses atos apenas na medida em que houver receio de que suas más consequências se tornem visíveis aqui. Por outro lado, sempre que não houver expectativa de que alguma má consequência deles se manifeste, ou quando surgir a esperança de obter algum benefício com eles, não sentirá a menor hesitação em praticá-los.

Em suma, de acordo com essa doutrina, aos olhos do ser humano nenhuma ação moral terá qualquer valor moral definido. Ao contrário, o bem ou o mal de cada ação dependerá exclusivamente dos resultados bons ou maus manifestados neste mundo. Por outro lado, a pessoa que crê na vida após a morte não observará apenas os resultados manifestados neste mundo de uma ação moral; também atentará para os resultados que se manifestarão na vida seguinte e, à luz desses resultados, determinará a utilidade ou a nocividade da ação. Assim como acreditará no poder destrutivo do veneno e no poder ardente do fogo, também acreditará no poder destrutivo e ardente da quebra de confiança e da mentira. Assim como considerará o alimento e a bebida benéficos, também considerará a justiça, a fidelidade e a pureza benéficas. Acreditará que cada uma de suas ações tem um resultado determinado e certo, ainda que esse resultado talvez não se manifeste de modo algum nesta vida ou possa manifestar-se de forma oposta. Para ele, as ações morais terão valores morais definidos, e os benefícios ou prejuízos terrenos não produzirão a menor alteração nesses valores. Em seu sistema moral, a honestidade, a justiça e o cumprimento das promessas serão necessariamente considerados virtudes e boas ações, ainda que seu resultado neste mundo possa ser apenas prejudicial ou não trazer benefício algum. Por outro lado, a mentira, a opressão e a perseguição, e a quebra de promessas serão necessariamente reconhecidas como pecados e más ações, ainda que seu resultado neste mundo possa ser apenas benéfico e não trazer prejuízo algum.

Portanto, ser indiferente à vida após a morte ou descrer dela não significa apenas que o ser humano permaneceu indiferente a uma doutrina sobrenatural ou que a rejeitou. Significa, antes, que se tornou indiferente à sua própria condição de ser responsável e encarregado. Ele passou a considerar-se uma criatura livre, arbitrária e sem responsabilidade. Satisfez-se com a vida exterior do mundo e com seus resultados incompletos, e às vezes enganosos. Tornou-se indiferente aos ganhos e perdas finais da vida e passou a confiar nos ganhos e perdas iniciais, temporários e pouco confiáveis. E, com base nisso, estabeleceu para suas ações valores morais completamente mutáveis e enganosos. Ficou privado de um sistema moral correto e sólido, que só pode ser alcançado por meio do senso de responsabilidade, da atenção firme aos resultados finais e de valores morais definidos. Assim, enganado pela aparência incompleta e imperfeita do mundo, passou toda a sua vida submetido a um sistema moral fraco e equivocado, no qual a verdadeira perda se transformou em ganho, e a verdadeira perda se transformou em ganho, e o verdadeiro ganho e a perda receberam seus nomes. Nele, o que era verdadeiramente belo tornou-se feio, e o que era verdadeiramente feio recebeu o nome de belo; do mesmo modo, o verdadeiro pecado tornou-se virtude, e a verdadeira virtude transformou-se em pecado.

Na verdade, foram precisamente essas consequências de não ter fé na vida após a morte que o Alcorão Sagrado descreveu com grande riqueza de detalhes. Basta examinar os versículos corânicos a esse respeito para constatar que, nele, são mencionadas conjuntamente as distorções que surgem na vida moral e prática do ser humano em consequência de não reconhecer a vida futura.

Primeiro: o ser humano considera-se uma criatura sem propósito, arbitrária e irresponsável; julga, assim, a sua vida, em seu conjunto, vã e sem sentido. Pensando que não há ninguém para supervisionar os seus atos e exigir-lhe contas, realiza todas as suas ações:

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“Acaso pensais que vos criamos sem propósito e que não retornareis a Nós?” — (Surata Al-Mu’minun, 115)

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“Pensa o ser humano que será deixado assim, sem propósito?”

— (Surata Al-Qiyamah, 36)

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“Acaso o ser humano supôs que ninguém teria poder sobre ele? Ele diz: “Gastei uma grande quantidade de riqueza.” Acaso pensa que ninguém o viu?” – (Surata Al-Balad: 5–7)

Dois: a visão de tal pessoa se fixa apenas no aspecto exterior da vida mundana; ela toma os resultados iniciais e temporários como o resultado final e real e, enganada por isso, toma decisões erradas:

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“Eles conhecem apenas o aspecto exterior da vida mundana e são completamente negligentes quanto à vida futura.” – (Surata Ar-Rum: 7)

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“Aqueles que não esperam o encontro conosco e se satisfizeram e ficaram seguros da vida mundana.”) – (Surata Yunus: 7)

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“Não! Vós preferis o resultado que se obtém rapidamente e abandonais o resultado da vida futura.” – (Surata Al-Qiyamah: 20–21)

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“Vós dais preferência à vida terrena, embora a vida futura seja melhor e mais duradoura”

–(Surata Al-A‘la: 16-17)

“A vida terrena os enganou.”

Três: O resultado dessa visão superficial é que a avaliação que o ser humano faz do valor das coisas se inverte completamente. As coisas que, na realidade, são prejudiciais em termos de seus resultados finais, ele passa a considerá-las benéficas por se concentrar nos ganhos aparentes; e as ações que são equivocadas quanto aos seus resultados finais, ele começa a julgá-las benéficas por observar apenas os resultados imediatos. É por isso que seus esforços e empenhos terrenos se desviam do caminho correto e, por fim, tornam-se infrutíferos.

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“Aqueles que desejavam o bem-estar da vida terrena disseram: Ah! Se ao menos tivéssemos recebido o que foi dado a Qarun! Ele é realmente muito afortunado. E aqueles que haviam recebido conhecimento disseram: Ai de vós! A recompensa de Allah é melhor para aquele que crê e pratica boas ações.”

–(Surata Al-Qasas: 79-80)

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“Para aqueles que não creem na vida futura, tornamos suas ações muito atraentes, e eles permanecem extraviados.” – (Surata An-Naml: 8)

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“Acaso estão imersos nesta ilusão: por estarmos provendo-os de riquezas e filhos, estamos também empenhados em promover o bem deles? Mas eles não compreendem a verdadeira realidade.”

– (Surata Al-Mu’minun: 55–56)

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“Devemos dizer-vos quem são as pessoas mais prejudicadas quanto às obras? São aqueles cujo esforço e empenho foram conduzidos para o caminho do erro na vida mundana, embora pensassem estar fazendo uma obra excelente. Esses são os que negaram os sinais de seu Senhor e o encontro com Ele. Por isso, suas obras se tornaram vãs.” – (Surata Al-Kahf: 104–105)

Quarto: pessoas desse tipo jamais podem aceitar a verdadeira religião. Se lhes forem apresentados ideais morais, princípios de boas obras e de bom comportamento, eles os rejeitarão; mas, se lhes forem apresentadas crenças e práticas contrárias a tudo isso, eles as aceitarão. Isso porque todas as normas e princípios da verdadeira religião exigem o sacrifício de muitos benefícios, vantagens e diversos prazeres da vida mundana. Seu princípio e ensinamento são: para alcançar o bem superior e eterno da vida futura, deve-se sacrificar o bem temporário e passageiro deste mundo. Porém, a pessoa que não crê na vida futura considera o bem deste mundo o bem supremo. Por essa razão, assim como não pode preparar-se para qualquer sacrifício desse tipo, também não pode aceitar as normas da religiosidade que exigem tal sacrifício. Portanto, não crer na vida futura e seguir a verdadeira religião são duas coisas mutuamente incompatíveis. Quem não crê na vida futura jamais pode ser seguidor da verdadeira religião.

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“Afastarei dos Meus sinais aqueles que se ensoberbecem injustamente na terra. Mesmo que vejam algum dos Meus sinais, não crerão nele; e, ainda que vejam o caminho reto, não o seguirão. Mas, se virem o caminho do erro, seguirão por ele. Isso acontece porque rejeitaram os Meus sinais e permaneceram indiferentes a eles. Quanto àqueles que rejeitam os Meus sinais e o encontro com a Outra Vida, todas as suas obras serão anuladas. Serão recompensados de outra forma que não conforme aquilo que fizeram?” – (Surata Al-A’raf: 146–147)

Cinco: A descrença na Outra Vida influencia toda a vida moral e prática do ser humano. Ele se torna arrogante e rebelde:

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“Os corações daqueles que não creem na Outra Vida continuam rejeitando a verdade, e eles se tornam arrogantes.” – (Surata An-Nahl: 22)

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“O Faraó e seus exércitos se ensoberbeceram injustamente na terra e pensaram que jamais teriam de retornar a Mim. Sua conduta e suas obras tornaram-se corruptas.”

– (Surata Al-Qasas: 39)

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“A destruição é inevitável para esses homens desonestos, que, quando recebem dos outros, medem com toda exatidão, mas, quando medem para os outros, dão menos. Eles não se lembram de que serão ressuscitados num dia grandioso?” –( Surata Al-Mutaffifin: 1–5 )

Ele se torna duro de coração, estreito de visão, exibicionista, egoísta e avesso à adoração de Allah:

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“Viste aquele que nega o Dia da Retribuição? É ele quem repele o órfão com aspereza e não incentiva a alimentar o necessitado. Ai, pois, dos que oram, mas são negligentes quanto à sua oração. Eles praticam o bem apenas para serem vistos pelas pessoas. E negam-se até a dar às pessoas as coisas pequenas e comuns de que necessitam.”

–( Surata Al-Ma’un: 1–7 )

Em suma, ignorar a verdade e envolver-se em atos pecaminosos são consequências inevitáveis da descrença na vida futura.

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“Somente aqueles que ignoram a verdade e se entregam ao pecado negam o Dia da Retribuição.”

— (Surata Al-Mutaffifin: 12)

Na verdade, nenhuma pessoa sensata pode negar essas consequências de ser indiferente ou descrente em relação à fé na Vida Futura. Em especial, tivemos a oportunidade de observar os resultados de uma civilização cuja estrutura foi erguida sobre objetivos exclusivamente mundanos e materiais, sob o fascínio do brilho exterior da vida terrena, e na qual a fé na Vida Futura foi completamente rejeitada. Depois disso, não temos qualquer possibilidade de negar que seja absolutamente impossível estabelecer a adoração de Allah, a religiosidade e os ideais morais juntamente com a descrença na Vida Futura.

Contudo, é significativo que o Islã queira estabelecer precisamente essas coisas em sua totalidade. Ele convoca o ser humano ao bom caráter e às boas obras. Para isso, é necessário renunciar a muitos interesses e prazeres materiais deste mundo. Ele aconselha o ser humano a adorar Allah e a se purificar interiormente, benefícios cuja utilidade ou bem-estar não podem ser percebidos na vida terrena; ao contrário, o corpo e a mente precisam suportar diversas formas de sofrimento e aflição. Ao lidar com todos os aspectos da vida e com o uso dos recursos mundanos, ele distingue entre o lícito e o ilícito, entre a pureza e a impureza. Para alcançar objetivos espirituais elevados, exige do ser humano o sacrifício de seus interesses pessoais e de seus amores e afetos e, às vezes, até de sua vida e de seus bens. Ele quer organizar a vida humana por meio de um código moral no qual cada coisa recebe um valor específico, sem dar a mínima importância aos ganhos e perdas mundanos. Na verdade, poderia o ser humano ter êxito no estabelecimento de uma religião e de uma sharia como essa sem acreditar na Vida Futura? Mesmo sendo indiferente ou descrente em relação a essa crença, seria possível ao ser humano aceitar um ensinamento assim? Se a resposta for negativa — e certamente será negativa —, então é preciso reconhecer que, para estabelecer um sistema religioso e um código moral desse tipo, é indispensável, antes de tudo, firmar profundamente no coração humano a fé na Vida Futura. Foi precisamente por isso que o Islã incluiu cada uma dessas coisas nos fundamentos da fé e, depois da fé em Allah, atribuiu a essa crença a maior importância.

Vejamos agora de que forma o Islã apresentou essa convicção e que influência ela exerce sobre o caráter e o comportamento humanos.

A prioridade da Vida Futura sobre este mundo

A primeira coisa que o Alcorão Sagrado procurou firmar profundamente na mente humana foi que este mundo é uma morada temporária para o ser humano. Esta não é sua única vida; depois dela existe uma vida ainda melhor e eterna. O bem-estar dessa vida é muito mais amplo que o bem-estar presente, e seus males são muito mais severos que os males daqui. Aquele que, enganado pelo brilho exterior deste mundo, se deixa envolver pela esperança de obter seus prazeres e interesses e, como resultado de seus esforços para alcançá-los, é privado dos prazeres, riquezas e interesses da Vida Futura, compra algo extremamente ruim. Na realidade, todo o seu negócio é uma transação extremamente prejudicial. Da mesma forma, aquele que considera o prejuízo deste mundo como o prejuízo definitivo e, ao tentar escapar dele, torna-se digno do prejuízo da Vida Futura, age com a mais extrema insensatez, e seu ato jamais pode ser considerado inteligente. Esse assunto foi exposto tão detalhadamente no Alcorão Sagrado que não é possível reunir aqui todos os versículos a ele relacionados. Como exemplos, citaremos aqui alguns versículos:

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“Este mundo não é senão diversão e passatempo. A verdadeira morada da vida é a Outra Vida.” — (Surata al-Ankabut: 64)

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“(Ó Muhammad,) dize: os bens e prazeres deste mundo são muito insignificantes. Para aquele que vive com taqwa, a Outra Vida é melhor.” (Surata an-Nissa: 77)

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“Acaso vos contentastes com a vida deste mundo em troca da Outra Vida? Os bens e prazeres da vida deste mundo são muito insignificantes em comparação com a Outra Vida.” (Surata at-Tawba: 38)

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“Vós dais preferência à vida deste mundo, embora a Outra Vida seja melhor e mais duradoura.” — (Surata al-A‘la: 16–17)

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“Toda pessoa terá de provar o sabor da morte. E, no Dia da Ressurreição, recebereis a recompensa completa desta vida. Portanto, naquele dia, quem for salvo do castigo do Inferno e entrar no Paraíso, esse será verdadeiramente bem-sucedido. E a vida terrena não passa de um instrumento de engano.” — (Surata Al Imran: 185)

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“Aqueles que foram injustos consigo mesmos permanecem ocupados com os prazeres que lhes foram concedidos, e esses são os criminosos.” — (Surata Hud: 116)

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“(Ó Muhammad!) Dize: estão envolvidos numa perda terrível aqueles que, no Dia da Ressurreição, lançaram a si mesmos e aos seus próprios filhos na perdição. Essa é, de fato, a perda real e manifesta.” — (Surata Az-Zumar: 15)

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“Então, aquele que se rebelou e deu preferência à vida terrena, terá o Inferno como morada. Mas aquele que temeu comparecer diante de seu Senhor e protegeu sua alma dos desejos, terá o Paraíso como morada.” — (Surata An-Nazi’at: 37–41)

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“Sabei que a vida deste mundo é apenas diversão, entretenimento, ornamento, ostentação mútua e competição entre vós pela abundância de riquezas e filhos. Seu exemplo é como o da chuva: por meio dela, a plantação cresce plenamente, e o agricultor se alegra ao vê-la. Depois, ela seca e amadurece; então tu a vês amarelada e reduzida a palha. Depois disso vem a vida do Além, na qual alguns terão um castigo severo, enquanto outros terão o perdão e a satisfação de Allah. E a vida deste mundo não passa de um meio de engano.” — (Surata Al-Hadid: 20)

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“Foi embelezado para as pessoas o amor pelas mulheres, pelos filhos, pelos montes de ouro e prata, pelos cavalos marcados, pelos rebanhos e pelas plantações. Esses são os bens e os recursos da vida terrena. Mas, junto de Allah, há uma morada melhor. Ó Muhammad, dize: ‘Quereis que vos informe sobre algo melhor do que isso? Para aqueles que adotam a taqwa, junto de seu Senhor haverá jardins sob os quais correm rios; ali permanecerão eternamente, terão cônjuges purificados e serão agraciados com a satisfação de Allah’.” — (Al Imran: 14–15)

No Islã, o ensinamento de dar preferência ao Além em relação a este mundo, sacrificar ganhos temporários em prol do sucesso permanente no Além e suportar perdas passageiras neste mundo para escapar da perda permanente no Além foi transmitido de maneira extremamente firme e atraente. Seu objetivo é que a pessoa que crê no Alcorão e em Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realize, não por coerção ou imposição, mas pela sincera inclinação do coração, cada ação que Allah e o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) indicaram como meio de alcançar o sucesso no Além. Do mesmo modo, ela evitará tudo aquilo que ambos qualificaram como causa de prejuízo no Além, independentemente de isso ser considerado benéfico ou prejudicial na vida terrena.

O registro das obras e o tribunal de Allah

Outra verdade que o Alcorão Sagrado procurou gravar profundamente na mente das pessoas é que, qualquer que seja a ação praticada por alguém nesta vida terrena — por mais secretamente que a pratique —, seu registro exato e impecável permanece preservado. No Dia da Ressurreição, esse registro será apresentado no tribunal. Cada átomo relacionado às ações da pessoa testemunhará sobre aquilo que ela fez. Até mesmo seus próprios membros comparecerão e se colocarão no banco das testemunhas para depor contra ela. Além disso, seu registro de obras, ou registro de ações, será pesado com absoluta precisão. Em um dos pratos da balança da justiça estarão suas boas obras, e no outro estarão suas más ações. Se o prato das boas ações for mais pesado, o sucesso no Além lhe dará as boas-vindas, e sua morada será o Paraíso. Mas, se o prato das más ações for mais pesado, seu destino será a destruição e a ruína, e lhe será designado o pior dos lugares: o Inferno. Nesse tribunal de Allah, cada pessoa comparecerá sozinha, levando seu próprio registro de ações. Ali, nenhum dos recursos deste mundo — honra, orgulho de linhagem, esforços e artifícios, riqueza, poder e capacidade, ou qualquer outro — lhe será útil.

O Alcorão também descreveu este assunto de maneira extremamente abrangente e atraente. Como exemplo, podem ser citados aqui alguns versículos:

Sobre a situação do registro de ações, foi dito:

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“Entre vocês, aquele que fala em segredo e aquele que fala em voz alta, aquele que se esconde na escuridão da noite e aquele que se movimenta à luz do dia — ambos estão na mesma situação. Certamente, há supervisores designados diante dele e atrás dele, que, por ordem de Allah, registram cada uma de suas palavras.” — (Surata Ar-Ra‘d: 10–11)

وَوُضِعَ الْكِتَابُ فَتَرَى الْمُجْرِمِينَ مُشْفِقِينَ مِمَّا فِيهِ وَيَقُولُونَ يَا وَيْلَتَنَا مَالِ هَٰذَا الْكِتَابِ لَا يُغَادِرُ صَغِيرَةً وَلَا كَبِيرَةً إِلَّا أَحْصَاهَا ۚ وَوَجَدُوا مَا عَمِلُوا حَاضِرًا ۗ وَلَا يَظْلِمُ رَبُّكَ أَحَدًا

“Quando o registro das obras for apresentado, verás os criminosos aterrorizados com o que nele estiver escrito. Dirão: ‘Ai de nós! Que livro é este! Não deixou de registrar nada, nem pequeno nem grande; tudo está presente nele.’ De fato, encontrarão diante de si tudo quanto fizeram.” — (Surata Al-Cahf: 49)

O testemunho dos membros do corpo e a confissão do ser humano:

يَوْمَ تَشْهَدُ عَلَيْهِمْ أَلْسِنَتُهُمْ وَأَيْدِيهِمْ وَأَرْجُلُهُمْ بِمَا كَانُوا يَعْمَلُونَ

“Nesse dia, suas próprias línguas, suas mãos e seus pés testemunharão contra eles acerca do que faziam.” — (Surata An-Nur: 24)

حَتَّىٰ إِذَا مَا جَاءُوهَا شَهِدَ عَلَيْهِمْ سَمْعُهُمْ وَأَبْصَارُهُمْ وَجُلُودُهُمْ بِمَا كَانُوا يَعْمَلُونَ

وَقَالُوا لِجُلُودِهِمْ لِمَ شَهِدْتُمْ عَلَيْنَا ۖ قَالُوا أَنْطَقَنَا اللَّهُ الَّذِي أَنْطَقَ كُلَّ شَيْءٍ وَهُوَ خَلَقَكُمْ أَوَّلَ مَرَّةٍ وَإِلَيْهِ تُرْجَعُونَ

وَمَا كُنْتُمْ تَسْتَتِرُونَ أَنْ يَشْهَدَ عَلَيْكُمْ سَمْعُكُمْ وَلَا أَبْصَارُكُمْ وَلَا جُلُودُكُمْ وَلَٰكِنْ ظَنَنْتُمْ أَنَّ اللَّهَ لَا يَعْلَمُ كَثِيرًا مِمَّا تَعْمَلُونَ

“Quando chegarem lá, seus ouvidos, seus olhos e sua pele testemunharão contra eles a respeito do que fizeram. Eles dirão à sua pele: ‘Por que testemunhaste contra mim?’ Ela responderá: ‘Foi Allah, que dá poder de fala a todas as coisas, quem me deu poder de fala. … Vós praticáveis vossas ações às escondidas e não sabíeis que vossos próprios ouvidos, olhos e peles testemunhariam contra vós a respeito do que fazíeis. Ao contrário, pensáveis que Allah desconhecia muitas das vossas ações.’” — (Surata Ha-Mim as-Sajdah: 20–22)

 وَشَهِدُوا عَلَىٰ أَنْفُسِهِمْ أَنَّهُمْ كَانُوا كَافِرِيَ

“Eles próprios testemunharão contra si mesmos que eram servos ingratos.” — (Surata Al-An’am: 130)

Com esse registro das ações e essas testemunhas, o ser humano comparecerá diante do tribunal de Allah. E como será sua condição ao comparecer? Ele se apresentará completamente sozinho e indefeso, de pé no banco dos réus.

وَلَقَدْ جِئْتُمُونَا فُرَادَىٰ كَمَا خَلَقْنَاكُمْ أَوَّلَ مَرَّةٍ وَتَرَكْتُمْ مَا خَوَّلْنَاكُمْ وَرَاءَ ظُهُورِكُمْ ۖ وَمَا نَرَىٰ مَعَكُمْ شُفَعَاءَكُمُ الَّذِينَ زَعَمْتُمْ أَنَّهُمْ فِيكُمْ شُرَكَاءُ ۚ لَقَدْ تَقَطَّعَ بَيْنَكُمْ وَضَلَّ عَنْكُمْ مَا كُنْتُمْ تَزْعُمُونَ

“Hoje vieste a Nós sozinho, tal como te criamos pela primeira vez. E deixaste para trás tudo aquilo que te havíamos concedido.” — (Surata Al-An’am: 94)

Ali, cada um apresentará a sua própria prestação de contas:

وَكُلَّ إِنْسَانٍ أَلْزَمْنَاهُ طَائِرَهُ فِي عُنُقِهِ ۖ وَنُخْرِجُ لَهُ يَوْمَ الْقِيَامَةِ كِتَابًا يَلْقَاهُ مَنْشُورًا

اقْرَأْ كِتَابَكَ كَفَىٰ بِنَفْسِكَ الْيَوْمَ عَلَيْكَ حَسِيبًا

“Amarramos ao pescoço de cada pessoa o registro de suas boas e más obras. No Dia da Ressurreição, tiraremos para ela um Livro, que encontrará aberto diante de si. Ser-lhe-á dito: ‘Lê o teu registro de obras. Hoje, tu mesmo és suficiente para prestar contas de ti.’” — (Surata Bani Isra’il: 13-14)

Ali, a influência e o prestígio hereditários não terão utilidade alguma:

لَنْ تَنْفَعَكُمْ أَرْحَامُكُمْ وَلَا أَوْلَادُكُمْ ۚ يَوْمَ الْقِيَامَةِ يَفْصِلُ بَيْنَكُمْ ۚ وَاللَّهُ بِمَا تَعْمَلُونَ بَصِيرٌ

“No Dia da Ressurreição, os vossos laços tribais e os vossos filhos não vos serão de utilidade alguma.” — (Surata Al-Mumtahanah: 3)

Ali, a intercessão não trará benefício algum:

 مَا لِلظَّالِمِينَ مِنْ حَمِيمٍ وَلَا شَفِيعٍ يُطَاعُ

“Para os opressores não haverá nenhum amigo, nem será aceita a intercessão de qualquer intercessor.” — (Surata Mu’min: 18)

Ali não haverá negócios de suborno:

 يَوْمَ لَا يَنْفَعُ مَالٌ وَلَا بَنُونَ

“Naquele dia, nem as riquezas nem os filhos serão de alguma utilidade.” — (Surata Ash-Shu‘ara: 88)

As obras praticadas pelas pessoas serão pesadas, e cada átomo será levado em conta:

وَنَضَعُ الْمَوَازِينَ الْقِسْطَ لِيَوْمِ الْقِيَامَةِ فَلَا تُظْلَمُ نَفْسٌ شَيْئًا ۖ وَإِنْ كَانَ مِثْقَالَ حَبَّةٍ مِنْ خَرْدَلٍ أَتَيْنَا بِهَا ۗ وَكَفَىٰ بِنَا حَاسِبِينَ

“No Dia da Ressurreição, estabeleceremos balanças precisas para a pesagem. Nenhuma injustiça, nem mesmo do peso de um ponto, será cometida contra ninguém. Se houver uma obra do peso de um grão de mostarda, Nós a apresentaremos. E somos suficientes para prestar contas.” — (Surata Al-Anbiya: 47)

Ali, toda paz e recompensa serão concedidas de acordo com as obras:

 الْيَوْمَ تُجْزَوْنَ مَا كُنْتُمْ تَعْمَلُونَ

“Hoje, ser-vos-á dada a retribuição exatamente conforme as obras que praticáveis.” — (Surata Al-Játhiya: 28)

 وَلِكُلٍّ دَرَجَاتٌ مِمَّا عَمِلُوا

“Cada um terá uma posição correspondente às obras que praticou.” — (Surata Al-An’am: 132)

Na verdade, é o temor desta polícia e deste tribunal que foi profundamente arraigado no coração das pessoas. Não se trata da polícia deste mundo, de cujo olhar uma pessoa possa esconder-se. Tampouco se trata do tribunal deste mundo, do qual uma pessoa possa escapar caso as provas não sejam reunidas, caso sejam obtidos testemunhos falsos ou caso se exerça influência ilícita. Pelo contrário, esta polícia supervisiona a pessoa em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Ela não pode, de modo algum, escapar ao olhar das testemunhas deste tribunal. Perante ele, está presente o registro de cada pensamento e de cada ato humano. Seu veredicto é tão perfeitamente justo que nenhuma má ação pode escapar da punição, nem uma boa ação deixar de receber recompensa.

Benefícios da crença na vida após a morte

Assim, o Islã estabeleceu a crença na vida após a morte como uma grandiosa base para seu código moral e seu sistema da sharia. Por um lado, nela existe uma motivação intelectual para adotar a virtude e o bem e proteger-se da destruição e da ruína; por outro, nela também está o temor da recompensa certa pelas boas ações e do castigo certo pelas más ações. Para sua firmeza e permanência, esse código e sistema islâmicos não dependem de qualquer força material ou autoridade administrativa. Pelo contrário, por meio da crença na vida após a morte, ele desperta na mente humana uma poderosa força de consciência. Sem qualquer incentivo ou ameaça externa, essa força naturalmente impele as pessoas a praticarem aquelas boas ações que o Islã classificou como boas ações em vista de suas consequências finais. Do mesmo modo, ela inspira as pessoas a protegerem-se daquelas más ações que o Islã declarou más à luz de suas consequências finais.

Basta observar o Alcorão Majíd para ver que, em vários lugares, essa convicção foi utilizada para ensinar ideais morais. Ao ordenar às pessoas que temessem a Allah e fossem piedosas, foi dito imediatamente: وَاتَّقُوا اللَّهَ وَاعْلَمُوا أَنَّكُمْ مُلَاقُوهُ“Temei a Allah e sabei que tereis de comparecer diante d’Ele” (Surata Al-Baqara: 223). Ao mesmo tempo que se incentivava o sacrifício no caminho de Allah, também se dava a garantia de que, ao morrerdes, na realidade não morreríeis, mas alcançaríeis a vida eterna. وَلَا تَقُولُوا لِمَنْ يُقْتَلُ فِي سَبِيلِ اللَّهِ أَمْوَاتٌ ۚ بَلْ أَحْيَاءٌ وَلَٰكِنْ لَا تَشْعُرُونَ(Surata Al-Baqara: 154). Ao recomendar paciência diante da tristeza e das dificuldades, também foi declarado que, junto de Allah, há misericórdia e graça ilimitadas para os pacientes:

أُولَٰئِكَ عَلَيْهِمْ صَلَوَاتٌ مِنْ رَبِّهِمْ وَرَحْمَةٌ

O estímulo à destemor e à coragem foi criado da seguinte maneira:

قَالَ الَّذِينَ يَظُنُّونَ أَنَّهُمْ مُلَاقُو اللَّهِ كَمْ مِنْ فِئَةٍ قَلِيلَةٍ غَلَبَتْ فِئَةً كَثِيرَةً بِإِذْنِ اللَّهِ

“Aqueles que acreditavam que teriam de comparecer diante de Allah disseram: pela ordem de Allah, um pequeno grupo vence um grande exército.” (Surata Al-Baqara: 249)

Foi concedida força para permanecer firmemente de pé diante dos perigos mais terríveis, dizendo-se:

نَارُ جَهَنَّمَ أَشَدُّ حَرًّاۚ “O fogo do Inferno é muito mais intenso do que o calor deste mundo.” (At-Tawba: 81)

As pessoas foram incentivadas a gastar seus recursos em boas ações, dizendo-se:

 وَمَا تُنْفِقُوا مِنْ خَيْرٍ يُوَفَّ إِلَيْكُمْ وَأَنْتُمْ لَا تُظْلَمُونَ

“Tudo o que doardes, recebereis sua plena recompensa, e nenhuma injustiça vos será feita.” — (Surata Al-Baqarah: 172)

Para dissuadir da avareza, foi dito:

 وَلَا يَحْسَبَنَّ الَّذِينَ يَبْخَلُونَ بِمَا آتَاهُمُ اللَّهُ مِنْ فَضْلِهِ هُوَ خَيْرًا لَهُمْ ۖ بَلْ هُوَ شَرٌّ لَهُمْ ۖ سَيُطَوَّقُونَ مَا بَخِلُوا بِهِ يَوْمَ الْقِيَامَةِ

“Que aqueles a quem Allah enriqueceu com a Sua graça, mas que são avarentos com isso, não pensem que isso é bom para eles; ao contrário, é muito nocivo para eles. No Dia da Ressurreição, a riqueza com que foram avarentos será transformada em grilhões e colocada em seus pescoços.” — (Surata Aal Imran: 180)

A usura foi proibida com estas palavras:تُرْجَعُونَ فِيهِ إِلَى اللَّهِ“Temei o dia em que retornareis a Allah.” — (Surata Al-Baqarah: 281)

Foi ensinada a indiferença diante dos adornos mundanos e a não invejar o conforto dos transgressores, da seguinte maneira:

لَا يَغُرَّنَّكَ تَقَلُّبُ الَّذِينَ كَفَرُوا فِي الْبِلَادِ مَتَاعٌ قَلِيلٌ ثُمَّ مَأْوَاهُمْ جَهَنَّمُ ۚ وَبِئْسَ الْمِهَادُ لَٰكِنِ الَّذِينَ اتَّقَوْا رَبَّهُمْ لَهُمْ جَنَّاتٌ تَجْرِي مِنْ تَحْتِهَا الْأَنْهَارُ خَالِدِينَ فِيهَا نُزُلًا مِنْ عِنْدِ اللَّهِ ۗ وَمَا عِنْدَ اللَّهِ خَيْرٌ لِلْأَبْرَارِ

“Ó Profeta, que a movimentação dos desobedientes a Allah pelas cidades do mundo não te engane. Isso é apenas o prazer de uma vida passageira. Depois, todos irão para um Inferno que é a pior das moradas. Em contrapartida, para aqueles que vivem temendo o seu Senhor há jardins sob os quais correm rios, nos quais permanecerão eternamente. Esta é a sua hospitalidade da parte de Allah. E o que há junto de Allah é o melhor para os servos virtuosos.” — (Surata آل عمران: 196–198)

 

8.

A importância da fé na cultura islâmica

Uma análise geral dos conteúdos da fé

Discutiu-se detalhadamente os cinco temas da fé. Com isso, tornou-se claramente conhecido, a respeito de cada um deles, o amplo conceito islâmico, seu valor intelectual segundo critérios precisos, seu impacto sobre o caráter humano e seu papel na construção dos fundamentos da cultura. Agora é necessário lançar um olhar abrangente sobre a fé.

Nos capítulos iniciais desta obra, foi dito que a pedra fundamental da cultura islâmica é uma concepção específica acerca da vida terrena. Essa concepção é que a posição do ser humano neste mundo não é como a de uma criatura comum; ao contrário, ele foi enviado para cá como representante do Senhor do universo. Diante dessa concepção, alcançar a satisfação do próprio Criador e Senhor torna-se, como consequência lógica, o objetivo natural da vida humana; e, para alcançar esse objetivo, torna-se necessário:

Primeiro, adquirir conhecimento correto sobre Allah.

Segundo, considerar somente Allah digno de ordenar e proibir, de estabelecer leis e normas, e de receber adoração e obediência, submetendo todos os próprios poderes e autoridade inteiramente à lei divina.

Terceiro, conhecer os meios e métodos específicos para alcançar a satisfação de Allah.

Quarto, estar ciente dos benefícios de obter a satisfação de Allah e das consequências nefastas de incorrer em Sua insatisfação, para que ninguém seja enganado pelos resultados incompletos da vida terrena.

Na verdade, as cinco convicções anteriormente discutidas em detalhe satisfazem precisamente essa necessidade fundamental.

Tudo o que foi declarado no Alcorão acerca da essência e dos atributos de Allah tem como objetivo permitir que o ser humano adquira um conhecimento correto sobre Aquele por cuja vontade foi enviado ao mundo como representante e cuja satisfação constitui o objetivo supremo de sua vida. Do mesmo modo, tudo o que foi dito acerca dos anjos tem como objetivo impedir que o ser humano tome qualquer uma das forças atuantes na natureza universal por um senhor e declare alguém, além de Allah, associado à Sua soberania. Depois de adquirir esse conhecimento correto, crer em Allah significa que, assim como a autoridade absoluta de Allah prevalece sobre o universo e até mesmo sobre o aspecto inconsciente da própria vida humana, o ser humano reconhecerá somente a autoridade de Allah também sobre o aspecto consciente e deliberado da vida. Em todas as questões, reconhecerá Allah como o Legislador e a si mesmo como aquele que segue a Sua lei. Submeterá seu poder e sua liberdade de escolha aos limites estabelecidos por Allah. Com efeito, somente esse vigor da fé pode levar o ser humano a curvar-se voluntária e entusiasticamente diante da soberania e da autoridade de Allah. Por meio dele, cria-se no homem crente uma consciência de tipo especial e forma-se um caráter específico — algo que não é imposto pelas leis e normas de Allah, mas é indispensável para a obediência voluntária.

A terceira necessidade é satisfeita pela crença na profecia e no Livro. É por meio desses dois elementos que o ser humano adquire um conhecimento amplo das leis, normas e sistemas de preceitos estabelecidos por Allah para ele. É por meio deles que pode conhecer os limites aos quais Allah submeteu o poder e a liberdade de escolha humanos. “Crer na Mensagem” e “crer no Livro” significa considerar os ensinamentos do Mensageiro como ensinamentos de Allah e o Livro que ele apresentou como o Livro de Allah. E é graças a essa fé que o ser humano pode adquirir a capacidade de observar, com firmeza e determinação, as normas, leis e costumes apresentados pelo Mensageiro de Allah e por Seu Livro.

Para satisfazer a quarta, ou última, necessidade, existe o conhecimento relativo à vida futura. Por meio dele, a visão do ser humano torna-se tão aguçada que, por trás da aparência externa desta vida terrena, ele consegue perceber a existência de um mundo distinto. Torna-se-lhe claro que o bem e o mal, o benefício e o prejuízo deste mundo não constituem qualquer critério da satisfação ou insatisfação de Allah. Os efeitos benéficos e nefastos das ações, da parte de Allah, não terminam neste mundo; pelo contrário, sua decisão e resultado finais serão anunciados em um mundo distinto. E essa decisão será inteiramente correta e confiável. Para alcançar o sucesso e a prosperidade nessa decisão, o único meio é seguir corretamente, neste mundo, as leis e normas divinas e preservar plenamente os limites estabelecidos por Ele. A convicção firme nesse conhecimento e nessa crença é chamada de fé na vida futura. Com efeito, depois da fé em Allah, esta é a força mais eficaz para incentivar o ser humano a seguir as leis islâmicas. E essa convicção também desempenha um papel enorme em tornar o ser humano, mentalmente, apto e capaz de viver segundo a cultura islâmica.

Esta discussão deixou claro que as convicções fundamentais aqui examinadas estabeleceram a organização e a base da cultura exatamente nas linhas traçadas anteriormente pela concepção particular e pelo objetivo específico do Islã em relação à vida terrena. Do ponto de vista intelectual, as convicções fundamentais necessárias para uma cultura desse tipo podem ser constituídas por esses cinco elementos. Fora deles, nenhuma outra convicção possui a aptidão necessária para servir de base a esse tipo específico de cultura, pois nenhuma outra é compatível com essa concepção e esse objetivo particulares acerca da vida.

A estrutura da cultura islâmica

Basta observar a ampla discussão acima sobre o iman, isto é, a concepção islâmica, para que se apresente diante de nós uma estrutura completa da cultura edificada sobre essa base. Suas características mais importantes são as seguintes:

Um: A organização dessa cultura é semelhante à administração de um reino. Nela, a posição de Allah não é, segundo a concepção religiosa comum, a de uma simples “divindade a ser adorada”. Pelo contrário, segundo a concepção mundana, Ele é também o Governante Supremo. Na realidade, Ele é o rei, o imperador deste vasto reino. O Mensageiro é Seu representante. O Alcorão é Seu livro de leis. Aquele que reconhece Sua soberania, obedece ao Seu representante e segue Seu livro de leis é súdito desse reino. Ser muçulmano significa aceitar, sem contestação, as leis e normas que esse Rei estabeleceu por meio de Seu representante e de Seu livro de leis — sejam sua aplicação e sua racionalidade compreensíveis ou não. Para aquele que não aceitar colocar a autoridade suprema de Allah e Suas leis acima das decisões pessoais e sociais, e que reservar para si o direito de obedecer ou não às Suas ordens, não há o menor lugar em parte alguma do reino.

Dois: O objetivo fundamental dessa cultura é preparar o ser humano para o sucesso definitivo — isto é, para ser agraciado, no julgamento da Outra Vida, com a satisfação do Senhor do Universo —, e, segundo sua perspectiva, a conquista desse sucesso depende da conduta correta do ser humano na vida presente. Além disso, o ser humano não é capaz de saber quais ações são benéficas e quais são prejudiciais do ponto de vista do resultado final; somente Allah, que proferirá a sentença na Outra Vida, tem pleno conhecimento disso. Por essa razão, essa cultura exige que o ser humano siga, em todos os assuntos da vida, o caminho indicado por Allah e limite e submeta sua liberdade de ação à Sharia divina. Do mesmo modo, essa cultura é uma grandiosa síntese da religião e do mundo. Não pode ser chamada de “religião” no sentido estreito e convencional do termo. Ela é um sistema de vida mais abrangente, que se estende a todos os pensamentos e imaginações, disposições e caráter, condutas e comportamentos, atividades familiares, ações sociais, práticas políticas, civilização e sociabilidade do ser humano. O conjunto dos métodos e das leis que Allah estabeleceu para todos esses assuntos chama-se “Din do Islã” ou “cultura islâmica”.

Três: Essa cultura não é uma cultura nacional — no sentido geográfico ou linguístico —, nem uma cultura local ou tribal. Pelo contrário, em seu verdadeiro sentido, é uma cultura humana. Ela se dirige ao ser humano simplesmente enquanto ser humano. Aceita dentro de seus limites todo aquele que crê no Tawhid, na Risalat, no Kitab e na Outra Vida. Assim, forma uma nacionalidade universal e liberal, na qual podem ingressar todos os seres humanos, independentemente de raça, tribo ou língua. Possui uma capacidade singular de se espalhar por todo o mundo. Também é capaz de unir todos os filhos de Adão por um mesmo vínculo nacional e de torná-los seguidores de uma mesma cultura. Contudo, ao estabelecer essa fraternidade humana universal, seu verdadeiro objetivo não é apenas aumentar o número de seus próprios seguidores; seu principal propósito é fazer com que toda a humanidade participe dos benefícios do conhecimento correto e do modo de ação que o Senhor da humanidade concedeu para seu bem e sua prosperidade. Por isso, para ingressar nessa fraternidade, ela estabeleceu primeiro a condição do iman e, ao mesmo tempo, selecionou para essa associação somente aqueles que estão dispostos a curvar-se diante da autoridade suprema de Allah e desejam cumprir os limites e as leis estabelecidos pelo Mensageiro de Allah e por Seu Kitab. Isso porque somente pessoas desse tipo — ainda que sejam muito poucas — podem adaptar-se a esse sistema cultural, e somente por meio delas pode ser estabelecido um sistema de vida correto e sólido. A presença, nesse sistema, de incrédulos, hipócritas ou pessoas de fé fraca não é sinal de sua força, mas de sua fraqueza.

Quatro: Junto à sua ausência de limites e universalidade, uma característica notável dessa cultura é sua intensa disciplina e seus fortes vínculos. É por meio deles que ela torna seus seguidores obedientes às suas próprias leis, tanto no âmbito pessoal quanto no social. Isso ocorre porque, antes de formular leis e estabelecer limites, ela providencia a obediência às leis e a preservação dos limites. Em outras palavras, antes de dar ordens, ela garante que as ordens serão cumpridas. Por isso, primeiro leva o ser humano a reconhecer a soberania e a autoridade de Allah. Depois, assegura-lhe que as normas transmitidas por meio do Mensageiro e do Kitab são as próprias normas de Allah, e que obedecer-lhes é exatamente obedecer a Allah. Além disso, instala dentro de seu coração um vigilante incansável, que o incentiva a cumprir as normas divinas sempre e em todas as circunstâncias, censura-o por transgredi-las e o faz temer o castigo na Outra Vida. Desse modo, quando essa força eficaz é firmemente estabelecida na mente e na consciência de cada indivíduo, criando entre seus seguidores a capacidade de obedecer voluntária e entusiasticamente às leis, cumprir as normas e proibições e adornar-se com virtudes, só então ela lhes apresenta suas próprias leis, define seus limites de ação, estabelece para eles um modo de vida e exige deles sacrifícios ainda maiores para alcançar seu próprio objetivo. Na verdade, esse é um método de ação extremamente científico; não poderia haver método mais prudente. Por esse método, a cultura islâmica alcançou uma influência e um prestígio enormes, que nenhuma outra cultura conseguiu alcançar.

Cinco: Do ponto de vista mundano, essa cultura deseja estabelecer um sistema social correto e formar uma sociedade honesta e pura. Contudo, enquanto as pessoas que dela fazem parte não estiverem adornadas com um caráter virtuoso e excelentes qualidades, tal sociedade não poderá ser formada. Por isso, é absolutamente necessário corrigir o caráter individual de seus membros, para que neles se desenvolva um caráter firme, capaz de conduzi-los naturalmente à prática de boas ações. De fato, o Islã observou plenamente esse princípio em seu sistema cultural. Para treinar as pessoas, o Islã primeiro enraíza nelas o iman e a convicção, pois esse é o único meio de criar nelas um caráter forte e elevado. É pela força desse iman que ele desenvolve nas pessoas honestidade, confiabilidade, bom caráter, autodisciplina, amor à verdade, autocontrole, organização, generosidade, visão ampla, dignidade, humildade e modéstia, ambição elevada, coragem virtuosa, abnegação, senso do dever, paciência, firmeza de espírito, bravura, contentamento, obediência à liderança, observância das leis e outras excelentes qualidades. Ao mesmo tempo, prepara-as de modo que, como consequência natural de sua união, se forme uma sociedade excelente.

Seis: a fé, ou seja, a doutrina desta cultura, contém, por um lado, todas as forças necessárias para criar virtudes morais e boas qualidades, bem como para cultivá-las e preservá-las. Por outro lado, encerra também a força capaz de preparar o ser humano para utilizar devidamente os meios e recursos terrenos e aplicar de modo equilibrado as forças que Allah lhe concedeu. Além disso, é precisamente essa doutrina que cria nas pessoas as excelentes qualidades necessárias ao verdadeiro progresso do mundo. Nela existe uma força extraordinária para organizar as energias humanas e empregá-las de maneira planejada. Ao mesmo tempo, nela está a força para impedir que essas energias ultrapassem os limites e para evitar que se desviem do verdadeiro caminho do bem. Assim, todas as qualidades que se encontram separadamente em outras doutrinas religiosas e mundanas estão presentes, de forma conjunta e excelente, na doutrina islâmica. E ela está completamente livre de todas as deformações observadas nas diversas doutrinas religiosas e mundanas.

A importância da fé na cultura islâmica

Este é o esboço resumido da cultura estabelecida pelo Islã. Se, por exemplo, a considerarmos um edifício, devemos dizer que, para torná-lo sólido, seu terreno fundamental foi profundamente escavado. Depois, tijolos ainda mais resistentes foram cuidadosamente selecionados e reunidos para sua construção, sendo assentados com cimento de excelente qualidade. Em seguida, o edifício foi construído de maneira tão magnífica que, em altura, se elevou até o céu e, em extensão, alcançou o horizonte. Apesar de sua grande largura e altura, suas paredes e colunas não tremem nem um pouco; ao contrário, permanecem firmes como montanhas. As portas e janelas desse edifício foram construídas de tal modo que a luz exterior e o ar puro podem entrar nele harmoniosamente, mas não permitem de forma alguma a entrada de poeira, areia, lixo ou ar poluído. Todas essas qualidades e características do edifício em questão foram produzidas por uma única coisa: a fé. Foi ela que fortaleceu seus alicerces. Foi ela que rejeitou os elementos inúteis e inativos e adotou os elementos de excelência. Foi ela que transformou a argila crua, depois de cozida, em tijolos resistentes. É dela que dependem a largura, a altura e a solidez do edifício; assim como lhe conferiu largura, altura e firmeza, ela também o protegeu dos danos externos e permitiu a entrada de toda espécie de coisa pura e irrepreensível. Portanto, a fé é como a alma desse edifício. Sem ela, não apenas seria impossível mantê-lo de pé, como sequer seria possível construí-lo. E, se ela se enfraquecer, isso significará que todo o alicerce do edifício está fraco, que seus tijolos estão crus, que sua cal e seu cimento são ruins, que suas colunas estão vacilantes e que suas paredes não estão bem estruturadas. Ele não terá capacidade alguma de extensão e altura. Não terá força para repelir os males externos nem para proteger suas coisas puras e irrepreensíveis.

Em suma, a ausência da fé equivale à própria ausência do Islã. Do mesmo modo, a fraqueza da fé significa a fraqueza do Islã, e a força da fé é outro nome para a força do Islã. Além disso, como o Islã não é apenas uma religião, mas a integração de civilização, cultura, moralidade, vida social, política e tudo o mais, a importância da fé aqui não se limita a uma configuração meramente religiosa; toda a conduta moral e o modo de vida das pessoas dependem inteiramente dela. Ela é o principal suporte da saúde e da pureza de suas relações mútuas. É ela que as une e as transforma em uma nação. É ela que garante a segurança de sua nacionalidade e de sua cultura. É ela que constitui a essência vital de sua civilização, vida social e política. Sem ela, o Islã não pode estabelecer-se apenas como uma “religião”; tampouco pode estabelecer-se como civilização, cultura ou sistema de governo. Quando a fé se enfraquece, isso não pode ser chamado apenas de enfraquecimento da crença religiosa; significa que a vida moral dos muçulmanos se deteriorou. Seu caráter e sua natureza se enfraqueceram. Suas relações mútuas se corromperam. Sua civilização e seu sistema social ruíram. Os laços de sua nacionalidade foram rompidos. Tornaram-se incapazes de viver como uma nação independente, honrada e poderosa. Na verdade, é por essa razão que, no sistema islâmico, a fé foi adotada como critério de distinção entre o Islã e a descrença. Quando uma pessoa aceita a fé, ingressa na nação muçulmana; torna-se igualmente participante da civilização, da vida social e da política dos muçulmanos, e todos os costumes, normas e leis passam a ser obrigatórios para ela. Mas, se não aceitar a fé, de modo algum poderá entrar nos limites do Islã. De modo algum poderá tornar-se participante da comunidade islâmica, pois, nesse sistema, é-lhe completamente impossível adaptar-se. Não poderá cumprir de maneira alguma suas leis, normas e regulamentos.

O perigo da hipocrisia

A situação daqueles que rejeitam abertamente o chamado à fé é clara. Entre eles e os muçulmanos existe uma fronteira muito clara e intransponível entre a descrença e a fé. Ao atravessarem essa fronteira e entrarem no Islã, eles jamais podem causar dano. Mas a presença daqueles que, sem serem crentes, afirmam ter fé e se infiltraram no grupo dos muçulmanos, daqueles em cujo coração se oculta a doença da dúvida ou cuja crença é extremamente fraca, é muito perigosa para o sistema islâmico. Embora tenham entrado nos limites do Islã, não adotaram o caráter islâmico nem o modo de vida islâmico. Não seguiram a lei islâmica nem preservaram os mandamentos de Allah; ao contrário, por meio de seu caráter e comportamento corrompidos, também estão corrompendo a civilização e a cultura dos muçulmanos, com o auxílio de suas doenças mentais estão arrancando as raízes da nacionalidade e do sistema político dos muçulmanos, e participam ativamente da criação de diversas sedições contra o Islã, tanto de dentro quanto de fora. No Alcorão Sagrado, são precisamente essas pessoas que foram denominadas hipócritas, ou falsos crentes, e nele também são mencionadas detalhadamente as sedições que surgem na sociedade muçulmana em consequência de sua infiltração.

A característica dessas pessoas é que afirmam ter fé, mas, na realidade, não são crentes:

———— Texto em árabe ——————-

“Aqueles que dizem: ‘Cremos em Allah e no Dia do Juízo’, embora não sejam crentes.” – (Surata Al-Baqarah: 8)

Eles falam com os muçulmanos como muçulmanos e com os incrédulos como incrédulos:

———— Texto em árabe ——————-

“Quando encontram os crentes, dizem: ‘Cremos’; mas, quando vão ter com seus demônios, dizem: ‘Estamos convosco’.” – (Surata Al-Baqarah: 14)

Eles zombam da palavra divina e, espalhando dúvidas entre as pessoas, desencaminham-nas:

———— Texto em árabe ——————-

“Quando virdes que descreem nos versículos de Allah e deles zombam, não vos senteis com eles” – (Surata An-Nisā’: 140)

Eles relutam em cumprir os deveres religiosos e, mesmo quando os cumprem, fazem-no apenas por obrigação e para serem vistos pelos muçulmanos; na realidade, seus corações sentem profunda aversão a obedecer às determinações de Allah:

———— Texto em árabe ——————-

“Quando se levantam para a oração, levantam-se com extrema relutância e só o fazem para serem vistos pelas pessoas; caso contrário, não se lembram de Allah. E, mesmo quando se lembram, fazem-no muito pouco. Estão indecisos entre os dois lados; não pertencem inteiramente nem a este lado nem àquele.” – (Surata An-Nissá: 142–143)

———— Texto em árabe ——————-

Eles não vão à oração senão com relutância e não gastam no caminho de Allah senão com aversão.” – (Surata At-Tawbah: 54)

———— Texto em árabe ——————-

“Entre os beduínos, há alguns que consideram qualquer coisa que gastem no caminho de Allah uma multa obrigatória.” – (Surata At-Tawbah: 98)

Eles professam o Islã, é verdade, mas não seguem a lei islâmica; ao contrário, em seus próprios assuntos, seguem leis de incredulidade:

———— Texto em árabe ——————

“Não viste aqueles que afirmam crer em ti e no Livro revelado antes de ti, mas querem levar suas questões e assuntos aos juízes satânicos? Contudo, foi-lhes ordenado que não obedecessem às ordens dele (do poder satânico).” –(Surata An-Nissá: 60)

Eles não apenas corrompem suas próprias ações e condutas, mas também procuram corromper a crença e as práticas dos muçulmanos:

————- Texto em árabe —————–

“Eles ordenam a prática do mal, impedem a prática do bem e mantêm suas mãos fechadas para o bem. Esqueceram-se de Allah; por isso, Allah também Se esqueceu deles.” –(Surata At-Taubah: 67)

————– Texto em árabe ——————-

“Eles desejam que também cometais kufr, assim como eles cometeram kufr, para que fôsseis iguais.” –(Surata An-Nissá: 89)

Eles permanecem com os muçulmanos apenas enquanto têm interesses a defender. Onde não há interesse, ou onde ele é menor, abandonam imediatamente a companhia dos muçulmanos.

————– Texto em árabe —————

“Alguns deles lançam sarcasmos contra ti por ocasião da distribuição das esmolas; se lhes é dada uma parte delas, ficam satisfeitos, mas, se não lhes é dada, descontentam-se.” — (Surata At-Tawbah: 58)

Assim, quando o perigo se abate sobre o Islã e os muçulmanos, eles se recusam a combater; pois, não tendo de fato amor pelo Islã, não estão dispostos a fazer qualquer sacrifício por ele, nem esperam receber recompensa por tal sacrifício. Além disso, não creem sequer na verdade do Islã; por isso não estão preparados para arriscar a vida em sua defesa. Tentam, de várias maneiras, manter-se afastados da guerra e salvar a própria vida. E, quando participam de uma guerra, fazem-no com extrema contrariedade. Consequentemente, sua participação se torna causa de fraqueza para os muçulmanos, em vez de força. Essa sua condição é descrita detalhadamente na Surata Aal Imran (rukūʿs 12–17), na Surata An-Nisa (rukūʿs 10, 11, 12 e 20), na Surata At-Tawbah (rukūʿs 7, 11 e 12) e na Surata Al-Ahzab (rukūʿ 2).

A característica mais perigosa deles é que, quando uma onda de calamidades recai sobre os muçulmanos, eles se juntam ao lado dos incrédulos. Fornecem-lhes informações sobre o que ocorre entre os muçulmanos. Demonstram-lhes simpatia. Alegram-se ao ver os muçulmanos em dificuldade. Traem seu próprio povo e obtêm interesses e prestígio dos incrédulos. Avançam e participam de toda fitna contrária ao Islã. E continuam conspirando para criar desunião e desordem entre os muçulmanos. Essa característica também é descrita detalhadamente nas suratas Aal Imran, An-Nisa, At-Tawbah, Al-Ahzab e Al-Munafiqun.

Disso pode-se compreender claramente que uma fé pura, correta e genuína é absolutamente indispensável para o estabelecimento, a estabilidade e a consolidação do sistema de vida islâmico. A fraqueza da fé torna vazio todo esse sistema, desde suas raízes até seus ramos. Civilização, cultura, moralidade, vida social e política — nada pode proteger-se de seus efeitos devastadores.

 

9

A vida no Além

Existe alguma vida depois da morte? Se existe, que tipo de vida é essa? Essa questão está, em essência, além dos limites de nosso conhecimento e de nossa razão. Pois não temos olhos capazes de espiar o que existe — ou não existe — além dos limites da morte. Não temos ouvidos capazes de ouvir qualquer voz do além. Nem sequer dispomos de qualquer instrumento que nos permita saber com certeza se há de fato algo além. Portanto, do ponto de vista científico, essa questão está completamente além de seus limites. Quem, invocando a ciência, nega a vida após a morte, certamente afirma algo anticientífico. Do ponto de vista da ciência, não se pode dizer que exista alguma vida ali, assim como também não se pode dizer que não exista vida alguma. Assim, enquanto não obtivermos ao menos uma fonte segura de conhecimento sobre isso, a verdadeira atitude científica poderia ser não afirmar nem negar a vida no Além.

Mas será possível adotar essa atitude científica na vida prática? De modo algum. Do ponto de vista intelectual, pode ser possível não chegar a nenhuma conclusão, positiva ou negativa, sobre algo enquanto os meios e instrumentos para conhecê-lo não estiverem completamente sob nosso domínio. Porém, quando nossa vida prática passa a estar ligada a esse objeto, não há alternativa senão determinar nossa conduta com base em sua aceitação ou rejeição. Por exemplo, suponha que você nada saiba sobre determinada pessoa. Se tiver de negociar com ela, será obrigado a agir considerando-a honesta ou desonesta. É claro que você pode pensar consigo mesmo: “Enquanto não se provar se essa pessoa é honesta ou desonesta, agirei com desconfiança.” Mas, se agir considerando duvidosa a honestidade dela, na prática sua conduta será exatamente como se a considerasse desonesta. Portanto, na prática, o estado de dúvida entre aceitar e rejeitar pode existir apenas na mente; a conduta prática jamais pode ser determinada com base na dúvida. Para isso, a aceitação ou a rejeição é absolutamente indispensável.

Com um pouco de reflexão mais profunda, pode-se compreender que a questão da vida após a morte não é meramente uma questão filosófica; pelo contrário, ela tem uma relação muito profunda com a nossa vida prática. Na realidade, toda a nossa perspectiva moral depende dessa questão. Se eu acreditar que tudo na vida termina nesta existência terrena e que não existe nenhuma outra vida depois dela, então meu comportamento moral será de um tipo. Mas, se eu acreditar que existe outra vida depois desta, na qual terei de prestar contas de todas as ações da minha vida presente e na qual, com base nos atos praticados nesta vida, terei de experimentar uma consequência boa ou má, então certamente meu comportamento moral será de natureza completamente diferente. Vejamos um exemplo. Suponhamos que uma pessoa esteja viajando com a ideia de que precisa apenas ir daqui até Karachi. Ao chegar a Karachi, sua viagem não somente terminará para sempre, como também ali ela ficará completamente fora do alcance da polícia, dos tribunais e de todas as autoridades investigadoras.

Por outro lado, outra pessoa pensa que sua viagem daqui até Karachi é apenas uma etapa. Depois disso, terá de ir para outro país além-mar, cujo rei também é o rei deste país. No escritório real desse país existe um registro secreto de todas as suas ações durante sua permanência no Paquistão. Ali, examinando e avaliando esse registro, será determinado que posição ela merece em virtude de seus atos. Agora, vocês podem facilmente imaginar quão opostas serão as condutas desses dois indivíduos. O primeiro se preparará para viajar daqui somente até Karachi, enquanto o segundo continuará se preparando também para as longas etapas seguintes. O primeiro pensará que todo ganho ou perda existe apenas até chegar a Karachi; depois disso, não haverá mais nada. Já o segundo entenderá que o verdadeiro ganho ou perda não está na primeira etapa da viagem, mas na etapa final. O primeiro prestará atenção apenas aos resultados de suas ações que possam manifestar-se durante a viagem até Karachi. O segundo, porém, terá em vista os resultados que se manifestarão ao chegar àquele país além-mar. É evidente que a diferença entre as condutas desses dois indivíduos é consequência direta de suas concepções sobre a viagem. Do mesmo modo, a crença na existência de uma vida após a morte influencia profundamente nossa vida moral e determina definitivamente sua direção. Ao tomar qualquer decisão no campo da ação prática, a direção dessa decisão depende da questão de saber se estamos agindo considerando esta vida como a primeira e a última, ou se estamos tendo em vista uma vida posterior e seus resultados. No primeiro caso, nossas decisões serão de um tipo; no segundo, serão completamente diferentes.

Disso se conclui que a questão da vida após a morte não é meramente uma questão filosófica e intelectual; é, antes, uma questão da vida prática. Nessas circunstâncias, não há qualquer margem para permanecer em dúvida ou hesitação a esse respeito. Seja qual for a perspectiva que adotemos na vida enquanto permanecermos em dúvida, em última análise ela será a perspectiva de um descrente. Portanto, qualquer que seja o modo pelo qual a examinemos, somos obrigados a chegar a uma conclusão definitiva sobre a questão de saber se existe ou não uma vida após a morte. Se a ciência não nos ajudar nesse assunto, teremos de recorrer à ajuda de argumentos e provas intelectuais.

Vejamos agora quais recursos temos à nossa disposição para obter argumentos e provas intelectuais. O primeiro recurso diante de nós é o ser humano, e o segundo é este sistema universal. Colocaremos o ser humano no contexto deste sistema universal e examinaremos se, como ser humano, todas as suas necessidades e reivindicações são satisfeitas por este sistema, ou se, por permanecer algo insatisfeito, é necessário para ele um sistema de natureza diferente. Observe apenas o corpo humano: ele é uma combinação de numerosos minerais, sais, água e gases. Paralelamente, no universo também existem terra, pedras, metais, sais, gases, rios e outras coisas semelhantes. É necessário haver leis para que essas coisas desempenhem suas respectivas funções. Essas leis estão ativas em todo o universo. Assim como essa lei permite que, no ambiente externo, montanhas, rios e ventos desempenhem suas respectivas funções, também o corpo humano tem a oportunidade de funcionar sob sua autoridade.

Em segundo lugar, o corpo humano alimenta-se das coisas ao seu redor e cresce e se desenvolve. Regras desse tipo também existem no mundo criado, entre árvores, trepadeiras, arbustos, ervas e semelhantes; e aqui também se observa a existência das leis necessárias aos seres dotados de corpos em crescimento.

Em terceiro lugar, o corpo humano é um ser vivo que se move por sua própria vontade, obtém seu próprio alimento, assume por si mesmo a responsabilidade por sua proteção e providencia por si mesmo a preservação de sua descendência. No mundo criado existem muitas outras formas de vida desse tipo; nas águas, na terra e na atmosfera, observam-se inúmeros seres vivos, e aqui também estão plenamente ativas as leis adequadas para abranger toda a sua vida.

Além de tudo isso, o ser humano possui outra entidade, que chamamos de entidade moral. Ele tem em si a percepção de praticar o bem e o mal. Possui a capacidade de distinguir entre o bem e o mal. Tem o poder de praticar o bem e o mal. Sua natureza espera o bom resultado do bem e o mau resultado do mal. Ele distingue naturalmente entre diversas qualidades morais, como opressão, justiça, veracidade, mentira, o direito e o ilícito, compaixão, crueldade, gratidão, generosidade, avareza e traição da confiança, entre outras. Essas qualidades podem ser observadas efetivamente em sua vida. Não são coisas imaginárias; pelo contrário, exercem influência sobre as sociedades e civilizações humanas na realidade. Portanto, por natureza, o ser humano espera intensamente consequências morais para suas ações, assim como espera suas consequências naturais.

Mas olhem profundamente para a ordem mundial atual: será que, sob essa ordem, os resultados morais das ações humanas podem manifestar-se plenamente? Posso afirmar com toda a certeza que aqui não há qualquer possibilidade disso. Pois, pelo menos que eu saiba, aqui não existe nenhum outro ser dotado de consciência moral. Além disso, todo o universo é regido de acordo com as leis naturais. Em parte alguma se vê a lei moral em ação. Aqui, a prata tem peso e valor, mas a verdade não tem nem peso nem valor. Aqui, da semente de uma mangueira sempre nasce uma mangueira; mas, para aqueles que semeiam as sementes da verdade, às vezes chovem flores e, outras vezes — ou melhor, na maioria dos casos — lançam-se sapatos contra eles. Aqui existem leis específicas para os elementos materiais, e, de acordo com essas leis, resultados específicos manifestam-se sempre. Mas não existe nenhuma lei específica para os elementos morais; por isso, da ação deles não resultam sempre efeitos determinados. Devido à autoridade e à predominância das leis naturais, os resultados morais nunca podem manifestar-se plenamente aqui; e, mesmo quando se manifestam, só o fazem na medida permitida pelas leis naturais. Além disso, muitas vezes acontece que, embora do ponto de vista moral uma ação tenha possibilidade de produzir determinado resultado, pela intervenção das leis naturais o resultado acaba sendo completamente oposto. O próprio ser humano, por meio de suas instituições sociais, culturais e políticas, tentou em certa medida fazer com que as consequências morais de suas ações se manifestassem de maneira regular. Mas esse esforço revelou-se muito limitado e extremamente imperfeito. Por um lado, as leis naturais o mantiveram limitado e imperfeito; por outro, a própria fraqueza humana agravou ainda mais essa imperfeição.

Quero esclarecer minha afirmação com alguns exemplos. Suponhamos que uma pessoa seja inimiga de outra e ateie fogo à sua casa; a casa será destruída pelo fogo. Esse é o resultado natural ou físico de seu ato. Como consequência moral, essa pessoa deveria receber uma punição proporcional ao dano que causou à família. Mas a manifestação desse resultado depende de vários fatores — por exemplo, que se encontre o incendiário, que ele seja entregue à polícia, que seu crime seja comprovado, que o tribunal determine corretamente os danos sofridos pela família atingida pelo incêndio e por seus futuros descendentes, e que o criminoso seja punido com justiça exatamente na medida correspondente. Se qualquer uma dessas condições não for cumprida, o resultado moral não se manifestará de modo algum, ou apenas uma pequena parte dele se manifestará. Também pode acontecer que, depois de destruir completamente seu inimigo, essa pessoa continue vivendo no mundo em plena felicidade.

Vejamos um exemplo ainda mais grandioso. Algumas pessoas passam a exercer enorme influência sobre sua própria nação, e toda a nação passa a seguir seus gestos. Aproveitando-se dessa situação, elas incutem no povo um fanatismo exacerbado pelo culto à nação e uma loucura imperialista. Assim, provocam guerras com as nações vizinhas, matam milhões e milhões de inocentes, destroem país após país e obrigam milhões e

milhões de pessoas a viverem uma vida de humilhação e degradação. Seus feitos naturalmente provocarão uma reação terrível na história da humanidade, e essa reação continuará de geração em geração, ao longo dos séculos. Você acha que essas poucas pessoas poderão algum dia receber, nesta vida terrena, a punição justa e adequada pelos grandes crimes que cometeram? É evidente que, mesmo que toda a carne de seus corpos fosse cortada, ou que fossem queimadas vivas, ou que lhes fosse aplicada qualquer outra punição severa ao alcance dos seres humanos, ainda assim jamais poderiam receber uma punição equivalente ao dano que causaram a bilhões de pessoas e a seus futuros descendentes. Pois, de acordo com as leis naturais que regem a ordem mundial atual, é absolutamente impossível receber uma punição equivalente ao crime.

Da mesma forma, podemos falar dos grandes homens exemplares do mundo. Eles ensinaram honestidade e justiça à humanidade e indicaram um caminho luminoso para a vida. Graças à sua generosidade inesgotável, inúmeras pessoas, de geração em geração e ao longo dos séculos, vêm obtendo benefícios, e não há como saber por quanto tempo continuarão a obtê-los no futuro. Será que esses grandes homens poderão receber neste mundo a recompensa completa por suas obras? Você consegue imaginar que, de acordo com as leis naturais atuais, uma pessoa possa receber a recompensa por uma ação cujos efeitos talvez se estendam, mesmo após sua morte, por milhares de anos e alcancem inúmeras pessoas?

Já disse anteriormente que, em primeiro lugar, na ordem mundial atual, regida pelas leis que a governam, não há qualquer possibilidade de se obter o pleno resultado moral das ações humanas. Em segundo lugar, os efeitos dos atos praticados pelas pessoas durante esta vida passageira são tão amplos e duradouros que, para desfrutar plenamente de seus resultados, seria necessária uma vida de milhares, ou melhor, de milhões de anos. Mas, de acordo com as leis naturais atuais, é impossível ao ser humano viver por tanto tempo. Assim, fica claro que, para os elementos materiais, orgânicos e biológicos do ser humano, o mundo natural atual (mundo físico) e suas leis naturais são suficientes. Mas, para seus elementos morais, este mundo é completamente inadequado. É necessário outro sistema mundial, no qual a lei moral seja a lei governante, enquanto a lei natural, subordinada a ela, atue apenas como auxiliar. Ali, a vida não será limitada, mas infinita, e todos os resultados morais que aqui permanecem ocultos ou se manifestam de forma diferente serão ali revelados de maneira correta e completa. Ali, em vez do ouro e da prata, terão peso e valor as boas obras e a verdade. Ali, o fogo queimará somente aquele que, por razões morais, for digno de ser queimado. Ali, os justos desfrutarão felicidade e paz, enquanto os malfeitores sofrerão e padecerão. A razão, a natureza e a própria disposição humana exigem naturalmente um sistema mundial assim.

A razão nos conduz, a esse respeito, apenas até aquilo que “deveria ser”, e então conclui sua tarefa. Agora, tanto nossa razão quanto nosso conhecimento são incapazes de chegar a uma decisão definitiva sobre se existe realmente um mundo desse tipo. A esse respeito, somente o Alcorão nos auxilia. Sua declaração é que aquilo que sua razão e sua natureza exigem, de fato ocorrerá exatamente assim. O sistema mundial fundado nas leis naturais atuais será um dia despedaçado, e então um novo sistema será estabelecido. Nele, os céus, a terra e tudo o que há entre ambos assumirão uma forma diferente. Depois, Allah Todo-Poderoso ressuscitará todos os que vieram ao mundo desde o início da criação até a Qiyamat, e todos comparecerão juntos diante d’Ele. Ali, o registro das ações de cada indivíduo, de cada nação e de toda a humanidade será preservado em estado exato e perfeito. Ali estará disponível o relato completo de toda a extensão das consequências que cada ação de cada pessoa produziu neste mundo. Cada grupo humano relacionado a essas consequências estará presente no banco das testemunhas. Também as partículas e os átomos sobre os quais ficaram impressas as palavras e ações humanas apresentarão suas próprias histórias. As próprias mãos e pés, os olhos e ouvidos, a língua e os demais membros do corpo humano testemunharão para que fins foram utilizados. Então, com base nesses relatos das ações, o Juiz Supremo declarará, com plena justiça, quem é digno de quanto prêmio e de quanto castigo. A extensão desse prêmio ou castigo será tão vasta que será impossível compreendê-la com base nas limitadas medidas do mundo atual. Ali, as medidas de tempo e espaço serão diferentes, e as leis naturais também serão outras. Ali se poderá receber a plena retribuição pelas boas ações do ser humano cujas consequências continuam se manifestando no mundo há milhares de anos. A morte, a doença e a velhice não poderão causar a menor perturbação à sua felicidade e paz. Do mesmo modo, ele terá de sofrer o castigo completo por suas más ações, cujas consequências se estenderam no mundo, ao longo de milhares de anos, até inúmeras pessoas. A morte ou a inconsciência não poderão salvá-lo desse castigo.

Sinto compaixão pela estreiteza mental daqueles que consideram impossível uma vida e um mundo assim. Se nosso sistema mundial atual pode existir juntamente com as leis naturais atuais, por que outro sistema mundial não poderia existir juntamente com outras leis naturais? Naturalmente, a possibilidade de um mundo desse tipo não pode ser determinada por qualquer evidência ou prova empírica. Para isso, é absolutamente necessário ter iman bil-ghayb, isto é, fé no invisível.

— Fim —