O apelo do autor

Há quatro anos escrevi uma série de artigos sobre o purdah. Eles foram publicados em alguns números de “Tarjumān al-Qur’ān”. Naquela ocasião, alguns aspectos da discussão foram deliberadamente deixados de lado; certos temas tiveram de permanecer incompletos — pois, naquele momento, não era meu propósito escrever um livro, mas um artigo. Incorporando todos esses temas, com os acréscimos e análises necessários, deu-se-lhes a forma da presente obra. Quanto ao assunto em discussão, ainda não se pode afirmar que esta seja a palavra definitiva e final. Contudo, aqueles que verdadeiramente desejam compreender o tema encontrarão aqui, em grande medida, conhecimentos e informações capazes de saciar a sede, bem como argumentos e provas — e, ao menos, é nisso que certamente depositarei minha esperança.

O tawfīq está somente nas mãos de Allah; é a Ele que peço ajuda. Amém.

22 de Muharram de 1351 da Hégira — Abul A‘la

O problema fundamental da sociedade humana

Natureza e características do problema

Há dois problemas de máxima importância e complexidade para a civilização humana. O bem-estar e o progresso da humanidade dependem da solução correta e equilibrada desses dois problemas. É por isso que, desde tempos imemoriais, os círculos instruídos do mundo têm-se mostrado perplexos e preocupados com sua solução.

O primeiro problema é como podem ser estabelecidas as relações entre homens e mulheres na vida social. Isso porque, na realidade, esse é a pedra fundamental da civilização; se houver nele o mínimo desvio, o edifício que se erguer apoiado nele será necessariamente também tortuoso.

O segundo problema é a relação individual e coletiva da humanidade. Se permanecer a menor incoerência que seja na harmonização dessa relação, a humanidade terá de suportar seus amargos frutos durante eras e eras.

Se, por um lado, a importância dos dois problemas é tal, por outro, sua complexidade cresce a tal ponto que ninguém será capaz de resolvê-los sem uma análise minuciosa de todos os dados da natureza humana. É verdadeiramente acertada a observação de que o ser humano é um mundo em miniatura; sua constituição física, sua disposição natural, suas capacidades e aptidões, seus desejos, inspirações e sentimentos, bem como suas relações reais com as inumeráveis criações exteriores ao seu próprio ser, entre outros aspectos, existem em seu interior como um universo. Sem lançar um olhar claro sobre cada recanto de semelhante mundo, não é possível conhecer verdadeiramente o ser humano; e, sem um conhecimento pleno e verdadeiro, também é impossível resolver seus problemas fundamentais.

Além disso, o assunto é tão complexo que, desde os tempos mais remotos até os dias atuais, tem permanecido como campo de atuação do conhecimento, da ciência e da pesquisa. Em primeiro lugar, todos os dados do mundo ainda não foram revelados ao ser humano. Até hoje, nenhum conhecimento humano alcançou a perfeição absoluta; isto é, ninguém pode afirmar que tem sob seu domínio todos os dados relacionados ao conhecimento em questão. Ademais, os dados sobre os quais até agora se lançou luz são tão vastos e sutis que, para não falar de um indivíduo, nem mesmo um grupo consegue dirigir para eles um olhar atento ao mesmo tempo. Se um de seus aspectos é captado pelo olhar do conhecimento, o outro permanece envolto em trevas. Em alguns pontos, a visão se torna estreita; em outros, as inclinações pessoais mantêm obscurecido o caminho da visão. Sob o peso dessa dupla debilidade, o ser humano, apesar de todos os esforços para resolver esses problemas de sua própria vida, permanece fracassado, e, por fim, seus erros e desvios é que se tornam manifestos. Uma solução adequada para o problema só é possível quando se alcança uma visão equânime de todos os dados a ele relacionados. E, enquanto todos os aspectos dos dados descobertos, ainda que não sejam todos os dados, não forem iluminados simultaneamente pela luz do conhecimento, não se alcançará essa visão equânime. Mas, por outro lado, a extensão do panorama é naturalmente tão grande que não cabe inteiro no campo de visão; além disso, os desejos, interesses e aversões da natureza são tão intensos que se chega a desviar o olhar até mesmo daquilo que se mostra claramente visível. Em tal situação, será algum dia possível alcançar o poder de ver de maneira equânime? Nessas circunstâncias, a solução adotada inevitavelmente incorrerá em exagero excessivo e ultrapassará os limites razoáveis, ou então sofrerá de insuficiência e deficiência.

Entre os dois principais problemas acima mencionados, é o primeiro que constitui aqui o tema de nossa discussão. Ao examinarmos a história passada a esse respeito, vemos apenas um espantoso vaivém entre o exagero excessivo e a extrema deficiência. Por um lado, vemos a mulher, como mãe, alimentar os filhos e, como esposa, ajudar o homem nas subidas e descidas da vida. Por outro, essa mesma mulher foi empregada como criada ou escrava. Foi comprada e vendida como gado. Foi privada da propriedade e da herança. Foi mantida como símbolo do pecado, da imundície e da humilhação. Não lhe foi dada oportunidade alguma para o desenvolvimento ou a evolução de sua personalidade. E, mesmo quando, em alguma época, a mulher foi elevada e desenvolvida, ela foi simultaneamente mergulhada na falta de caráter e na devassidão. Foi transformada em brinquedo dos instintos bestiais. Em outras ocasiões, foi rotulada de ‘agente de Satanás’; e, juntamente com seu chamado desenvolvimento e elevação, começou também o declínio da humanidade.

Não chamamos esses dois extremos apenas de ultrapassagem dos limites razoáveis e extrema deficiência do ponto de vista das perspectivas; quando, pela experiência, vemos suas consequências venenosas, é então que, em termos morais, chamamos um deles de ultrapassagem dos limites razoáveis e o outro de extrema insuficiência ou deficiência. O pano de fundo da história acima mencionada ensina-nos precisamente isto: quando uma nação ultrapassa a era da vida selvagem e avança em direção à civilização e ao estabelecimento de assentamentos, suas mulheres passam a viver com os homens como escravas e criadas. A princípio, forças infames conduzem-nas gradualmente ao progresso. Porém, quando o desenvolvimento civilizacional chega a uma etapa notável, elas percebem que não podem avançar no caminho do progresso mantendo suas esposas em atraso. Então, considerando bloqueado o caminho de seu próprio progresso, tornam, conforme a necessidade, a metade da nação (as mulheres) apta a avançar junto com a primeira metade (os homens). Assim, continuam a compensar a deficiência e, não satisfeitas apenas com a compensação, continuam avançando cada vez mais. Por fim, a ordem da linhagem — chamada fundamento da civilização — é destruída e eliminada pela liberdade feminina. Junto com a decadência moral, manifesta-se inevitavelmente também a decadência das forças mentais, físicas e materiais. Que outro poderia ser o resultado final disso senão a destruição?

Como a apresentação de exemplos amplos extraídos da história aumentaria o volume deste tratado, julgamos conveniente mencionar aqui apenas dois ou quatro deles.

 

Grécia

Entre as nações antigas, a civilização da Grécia foi a mais gloriosa de todas. Nos primórdios dessa nação, a condição da mulher era extremamente degradada no que dizia respeito à perspectiva moral, aos direitos legais, aos costumes sociais e a outros aspectos. Na mitologia grega, a mulher ‘Pandora’ é descrita como a causa das dores e desgraças da humanidade, assim como Hazrat Hawwa (A) foi responsabilizada por esse assunto na mitologia judaica. Não é desconhecido de ninguém o quanto a história fictícia e falsa relacionada a Hazrat Hawwa (A) influenciou profundamente os costumes e normas, as leis, o âmbito social e o caráter moral das comunidades judaica e cristã, entre outros aspectos. A concepção que os gregos mantinham acerca de ‘Pandora’ também influenciou da mesma forma sua mentalidade. A seus olhos, a mulher era um ser inferior. No âmbito social, a mulher não possuía dignidade alguma, e a posição honrosa era reservada exclusivamente ao homem.

Nos estágios iniciais do desenvolvimento gradual da civilização, este sistema continuou vigente, com algumas modificações. O pequeno efeito da civilização e da luz do conhecimento que se fez sentir foi que os direitos legais das mulheres permaneceram como antes, mas, no âmbito social, foi-lhes concedido um status mais elevado. Ela tornou-se a rainha do lar dos gregos. Suas funções permaneceram limitadas ao interior da casa. Dentro desses limites, ela também possuía plena autoridade. Sua castidade era extremamente valiosa, e esta era respeitada. Nas famílias gregas nobres, vigorava a prática do véu. No interior de suas casas, os aposentos de homens e mulheres eram separados. Suas mulheres não participavam de reuniões conjuntas de homens e mulheres. Não eram vistas nos teatros públicos. Consideravam honroso estabelecer uma relação com um homem por meio do casamento. Viver como prostituta era extremamente desprezado e amaldiçoado. Esse era o estado das coisas quando a nação grega era muito poderosa e ocupava rapidamente os mais altos degraus do progresso. Embora a corrupção moral existisse nessa época, ela era limitada. As mulheres gregas podiam reivindicar pureza, decoro e castidade, ao passo que os homens eram o oposto disso. Não se esperavam deles tais virtudes, nem se podia esperar que levassem uma vida pura. A classe das prostitutas era uma parte integrante da sociedade grega. Para os homens, relacionar-se com essa classe de modo algum era considerado condenável.

Entre os gregos, a influência do culto aos instintos e da excitação sexual começou gradualmente a se espalhar, e, nessa época, a classe das prostitutas alcançou uma posição tão elevada que são raros os exemplos semelhantes na história. O bordel transformou-se no centro e ponto de encontro de toda a sociedade grega. Filósofos, poetas, historiadores, literatos, especialistas e outras constelações de notáveis rodeavam essa lua. As prostitutas não apenas ocupavam a presidência das assembleias de ciência, conhecimento e literatura; importantes discussões políticas também eram realizadas diante delas. Mesmo nas questões relacionadas à vida ou à morte da nação, suas opiniões eram consideradas definitivas. Contudo, em seus julgamentos e deliberações, jamais se fazia justiça a qualquer pessoa. O culto à beleza acendeu entre os gregos um fogo de desejo sexual de grande intensidade. As estátuas ou os ideais nus da arte pelos quais manifestavam desejo de beleza passaram a alimentar esse fogo. Por fim, sua mentalidade tornou-se tão pervertida que não consideravam de modo algum condenável, do ponto de vista moral, o culto ao fogo do desejo. Seus padrões morais haviam mudado tanto que grandes filósofos e moralistas não consideravam o adultério e a obscenidade feios ou condenáveis. Em geral, os gregos consideravam o casamento um costume desnecessário e julgavam razoável a união pública entre homens e mulheres fora do casamento. Por fim, sua religião também se rendeu às suas tendências bestiais. O culto à deusa do amor (Aphrodite) espalhou-se por toda a Grécia. Na mitologia grega, conta-se a respeito da deusa do amor que, embora fosse esposa de um deus, estabeleceu relações físicas amorosas com outros três deuses e com um mortal. O filho nascido dessas relações sexuais veio mais tarde a ser chamado de deus do amor (Cupido). Esse deus do amor era objeto de adoração, ou ma‘bud, dos gregos. Não é difícil imaginar quão baixos eram os padrões morais de um povo que adotara um caráter tão abominável não apenas como ideal, mas também como objeto de adoração. Depois de semelhante decadência moral, nenhum povo pode se reerguer. Foi justamente nessa época de decadência moral que, na Índia, se propagou a doutrina ‘Vāmamārgī’, e, no Irã, a doutrina ‘Mazdakita’. Em tal situação, a prostituição alcançou na Babilônia o status de pureza religiosa. Como consequência, mais tarde a Babilônia acabou pertencendo apenas às histórias do passado, e sua existência desapareceu para sempre do mundo.

Quando o culto à deusa do amor começou na Grécia, os bordéis transformaram-se em templos de adoração. A mulher prostituta desavergonhada transformou-se em uma devayani ou deusa, e o ato de adultério foi elevado à condição de prática religiosa.

A segunda consequência evidente de tal culto ao desejo foi que, entre a nação grega, os atos perversos do povo de Lot se disseminaram como uma epidemia e receberam apoio religioso e moral. Durante o governo de ‘Homero’ e ‘Hesíodo’, tais práticas não existiam. Porém, quando o progresso cultural, em nome da estética (Aesthetics), introduziu o culto à nudez e ao prazer sexual, as chamas ardentes do desejo atingiram tal intensidade que desviaram a nação grega do caminho natural e a conduziram por uma via contrária à natureza. Os especialistas em arte chamaram isso de ‘forte relação de amizade’ entre duas pessoas. Os gregos ‘Harmódias’ e ‘Aristogíton’ foram os primeiros a alcançar tamanha honra que estátuas suas foram erguidas em sua pátria em sua memória. Entre eles havia uma relação amorosa mútua, ilícita e anormal. A história testemunha que, depois dessa época, nenhum novo período teve início na vida nacional dos gregos.

 

Roma

Depois da nação grega, surgiu no mundo a oportunidade para o progresso romano. Também aqui vemos, como antes, o quadro de ascensão e queda. Quando os romanos saíram das trevas da barbárie e surgiram no luminoso palco da história, o quadro de sua organização social era o seguinte: o homem havia se tornado o chefe de sua família e exercia domínio absoluto sobre a esposa e os filhos. Em alguns casos, chegava a ter autoridade até para matar a própria esposa.

Quando a barbárie diminuiu em certa medida e os romanos começaram a avançar no campo da civilização e da cultura, embora os antigos costumes familiares fossem mantidos, sua rigidez foi atenuada e a situação tornou-se um pouco mais moderada. Durante o desenvolvimento da república romana, a prática do véu não se difundiu como entre os gregos. Contudo, as mulheres e os jovens de ambos os sexos eram mantidos respeitáveis dentro da disciplina familiar. A castidade e a virtude, especialmente no caso das mulheres, eram uma joia inestimável, e constituíam a pedra de toque do respeito. O padrão moral também era elevado. Certa vez, um membro do Senado romano beijou sua esposa diante da filha. Considerou-se que isso representava grave desonra para o caráter nacional, e, na casa do Senado, foi aprovada contra ele uma votação de censura. Naquela época, o casamento era o único meio legal e honrado de união entre homem e mulher. A honra da mulher dependia de sua maternidade. Embora existisse a classe das prostitutas e os homens tivessem até certo limite o direito de se relacionar com elas, o povo romano considerava isso extremamente vil e os homens que mantinham relações com elas eram vistos com desprezo.

À medida que a civilização e a cultura progrediam, também começou a mudar a atitude dos romanos em relação às mulheres. Gradualmente, ocorreram mudanças tão profundas nas leis sobre casamento e divórcio e nos costumes familiares que a situação se tornou o oposto da anterior. O casamento transformou-se apenas num contrato legal (Civil Contract), cuja duração e dissolução dependiam do marido e da esposa. A responsabilidade da relação conjugal perdeu importância. À mulher foi concedido pleno direito à herança e à propriedade de bens e riquezas. A lei romana libertou-a da autoridade do pai e do marido. As mulheres romanas não conquistaram liberdade apenas no âmbito social; uma grande parte da riqueza nacional também passou gradualmente para o seu controle. Elas começaram a emprestar dinheiro aos maridos a juros elevados. Como resultado, o marido transformou-se em escravo da esposa rica. O divórcio tornou-se algo tão fácil que a relação conjugal passou a ser rompida por qualquer motivo. O famoso filósofo e erudito romano Sêneca (56 a.C. – 4 a.C.), lamentando a abundância dos divórcios, disse: “Hoje em dia, em Roma, o divórcio não é motivo de vergonha. A mulher calcula a própria idade pelo número de seus maridos.”

Nessa época, as mulheres passaram a tomar sucessivamente muitos maridos. Marcial (43–104 d.C.) mencionou uma mulher que havia tido dez maridos. Judniel (60–140 d.C.) comentou a respeito de uma mulher que, em cinco anos, havia tido oito maridos. São Jerônimo (340–420 d.C.) descreveu uma mulher que, ao longo da vida, tivera trinta e dois maridos e fora a vigésima primeira esposa de seu marido.

Também começou a desaparecer da mente das pessoas, naquela época, a ideia de que a relação sexual entre homem e mulher fora do casamento era condenável. Até os grandes moralistas consideravam o adultério uma prática comum. Em 184 a.C., Catão (Cato) foi nomeado censor e supervisor da moralidade em Roma. Ele também declarou aceitável a libertinagem sexual. Cícero aconselhou que se afrouxassem os vínculos morais para as jovens. Epicteto, pleno seguidor dos princípios filosóficos dos estoicos (Stoics), como o autocontrole, a indiferença, a apatia, a tolerância ao sofrimento e a solidão, dava aos seus discípulos o seguinte conselho:

Na medida do possível, abstenham-se do contato com mulheres antes do casamento. Mas, se alguém não conseguir ser moderado nesse assunto, não o repreendam.

Por fim, os vínculos do caráter moral e da vida social tornaram-se tão frouxos que o Império Romano ficou submerso numa inundação de sensualidade, nudez e obscenidade. Começaram a ser encenadas no teatro cenas de despudor e nudez. Considerou-se necessário adornar as casas com imagens nuas, excitantes e obscenas. A prostituição espalhou-se tanto que, durante o reinado do imperador romano Tibério (14–37 d.C.), tornou-se necessário promulgar uma lei para impedir que as moças de famílias nobres exercessem atividades de prostitutas e dançarinas. Um espetáculo chamado Flora (Flora) tornou-se muito popular naquela época, pois nele se realizavam competições de corrida entre mulheres nuas. Tornou-se costume que todos, homens e mulheres indistintamente, tomassem banho juntos. Na literatura romana, eram publicados sem constrangimento textos que continham imagens nuas e obscenas, e era justamente esse tipo de literatura que o público em geral lia com prazer e apreciava. O nível da literatura era tão baixo que nem sequer se sentia necessidade de empregar linguagem figurada ou jogos de palavras na composição desses textos grosseiros e indecentes.

Depois de ser subjugado por instintos bestiais, o glorioso edifício do Império Romano foi reduzido a pó de tal maneira que nem sequer restou a sua última pedra.

A Europa cristã

O cristianismo surgiu para remediar semelhante decadência moral do mundo ocidental. No início, observaram-se resultados bastante positivos. As portas da obscenidade foram fechadas, a nudez foi afastada de todos os aspectos da vida, foram adotadas medidas para abolir a prostituição; prostitutas, cantoras e dançarinas foram impedidas de praticar o vício, e a noção de um caráter puro e virtuoso foi implantada no ser humano. Contudo, a concepção que os sacerdotes cristãos tinham acerca da mulher e das relações sexuais ultrapassou os limites extremos. Com isso, declarou-se uma luta contra a natureza humana.

A sua perspectiva inicial e fundamental era que a mulher constituía a fonte primordial do pecado. Para o homem, a mulher era a origem da tentação pecaminosa e como que a porta do inferno. Todas as dores e desgraças da humanidade tinham vindo da mulher. Nascer mulher era uma questão vergonhosa. Ela deveria envergonhar-se da sua aparência e beleza, pois estas eram precisamente os instrumentos mortais de Satanás. Por ter trazido maldição ao mundo e aos seus habitantes, deveria fazer penitência por toda a vida.

Tertuliano, um líder religioso dos primeiros tempos da comunidade cristã, fez o seguinte comentário sobre a mulher:

Ela é a porta de entrada de Satanás, aquela que atrai para a árvore proibida, a transgressora da lei de Deus e a destruidora do homem.

O grande asceta cristão Crisóstomo falou o seguinte sobre a mulher:

— um pecado inevitável, uma perversa tentação congénita, um perigo agradável, uma ameaça familiar, uma amante destrutiva, um obstáculo adornado.

A sua perspectiva era que, mesmo quando a relação sexual entre homem e mulher ocorria por meio do casamento, ela era essencialmente um ato impuro e que era desejável abster-se dela. Essa concepção ascética do caráter moral começou a espalhar-se primeiro no Ocidente sob a influência da filosofia sem sensualidade (neoplatonismo). A doutrina cristã levou-a ao extremo. A castidade e a virgindade passaram então a ser a pedra de toque do caráter moral. A vida conjugal passou a ser considerada odiosa e degradante do ponto de vista do caráter moral. As pessoas começaram a considerar a abstenção do casamento uma obra de virtude e um sinal de caráter elevado. O modo de levar uma vida santa passou a ser não casar de maneira alguma ou, mesmo casando, romper a relação conjugal entre homem e mulher. Em várias assembleias e reuniões religiosas foram promulgadas leis segundo as quais os funcionários da Igreja não poderiam ficar a sós com as suas esposas; mesmo para se encontrarem, deveriam fazê-lo num lugar aberto, na presença de pelo menos dois homens. A ideia de que a relação conjugal era impura começou a enraizar-se entre os diversos grupos de cristãos. Pode-se dar aqui um exemplo de um costume então vigente. No dia em que se realizava qualquer cerimónia religiosa na igreja, não se permitia que os maridos e as esposas que haviam vivido juntos na noite anterior participassem dela. Isso porque, por meio da união sexual, se haviam tornado pecadores e, em tal estado, não se lhes poderia permitir entrar em qualquer lugar sagrado. Essa atitude ascética tornou mais amargas todas as relações familiares, até mesmo a relação entre mãe e filho, e as relações que se formavam em consequência do casamento eram consideradas impuras e pecaminosas.

As duas perspectivas acima não apenas depreciaram excessivamente a dignidade da mulher do ponto de vista moral e social, mas também influenciaram de tal modo as leis e normas culturais que, por um lado, a vida conjugal se tornou perigosa para homens e mulheres e, por outro, a dignidade da mulher na sociedade passou a ser diminuída e desprezada sob todos os aspectos. As características das diversas leis que, de acordo com os preceitos cristãos, foram instituídas no mundo ocidental eram as seguintes:

1. No campo da subsistência, a mulher foi tornada completamente desamparada e mantida sob a dependência do homem. Os seus direitos em matéria de herança eram extremamente limitados, e os seus direitos sobre bens e propriedades eram ainda mais restritos. Ela não tinha sequer autoridade sobre o dinheiro que ganhava por si própria. O marido detinha plena autoridade sobre todos os assuntos.

2. Não era permitido o “talak” nem o “khula”. Por maior que fosse a discórdia entre marido e mulher, por mais que o lar se tornasse semelhante ao inferno devido às relações amargas entre ambos, ainda assim tanto a religião quanto a lei obrigavam marido e mulher a permanecer unidos por um vínculo indissolúvel. Quando a situação se tornava extremamente insustentável, permitia-se a ambos dissolver o casamento sob a condição de que nenhum deles pudesse casar-se novamente com outra pessoa. Isto era ainda mais rigoroso que o princípio anteriormente mencionado. Pois, em tal situação, ao homem e à mulher separados não restava, durante toda a vida, outra alternativa senão praticar o ascetismo ou entregar-se à imoralidade sexual.

3. Após a morte do marido, era completamente proibido e considerado pecaminoso que a esposa voltasse a casar-se; e, após a morte da esposa, o mesmo se aplicava ao marido. Os sacerdotes cristãos diziam que isso não passava de escravidão aos instintos bestiais e de desejo de prazer. Chamavam-no de “adultério refinado”. Para os funcionários da Igreja, um segundo casamento era considerado um crime. Segundo a lei geral do país, em alguns lugares nem sequer era permitido. Em outros, embora não houvesse impedimento legal, o povo de espírito religioso não o considerava legítimo.

A Europa moderna

Quando, no século XVIII cristão, os filósofos e escritores da Europa começaram a revoltar-se contra a sociedade em defesa dos direitos individuais e da liberdade individual, tinham diante de si aqueles costumes civilizacionais equivocados, formados pela combinação repugnante do governo moral cristão, da filosofia de vida e do feudalismo. Isso havia aprisionado a alma humana em grilhões antinaturais e fechado todos os caminhos do progresso. Como resultado da visão apresentada pelos fundadores da nova Europa para destruir esses costumes vigentes e introduzir em seu lugar essa nova ordem de costumes, nasceu a Revolução Francesa. Depois disso, o progresso da civilização ocidental foi conduzido por um caminho cujo resultado final chegou ao estágio atual.

No início da nova era, tudo o que foi feito para elevar a mulher de sua degradação produziu seus bons frutos na vida social. As antigas restrições ao casamento e ao divórcio foram reduzidas. O direito das mulheres de ganhar a própria subsistência foi restabelecido. Foi corrigida a visão moral com base na qual a mulher havia sido mantida em posição humilhada e negligenciada. Também foram corrigidos os princípios sociais que faziam a mulher viver como uma escrava. Assim como para o homem, abriram-se para a mulher os caminhos do ensino superior. Como resultado dessas diversas boas disposições, as capacidades e os talentos das mulheres, oprimidos sob o peso dos costumes sociais defeituosos e das concepções morais da era das trevas, começaram gradualmente a manifestar-se. Elas cuidaram do lar, trouxeram pureza à sociedade e promoveram o bem-estar do povo. A melhoria da saúde, a criação dos filhos, o cuidado dos enfermos e as qualidades relacionadas ao progresso do lar e da ciência, entre outras, que se manifestaram nas mulheres juntamente com a nova civilização, foram os primeiros resultados daquele movimento. Contudo, as visões de cujo seio nasceu esse movimento já continham, desde o princípio, o desejo de ultrapassar os limites razoáveis. De acordo com esse desejo do século XIX, as atividades haviam avançado bastante e, até o início do século XX, a sociedade europeia alcançou o segundo extremo da falta de moderação e do excesso.

As visões sobre as quais foi fundado o novo sistema social ocidental podem ser expressas sob os três títulos seguintes:

a) Estabelecimento da igualdade entre a mulher e o homem,

b) Independência econômica da mulher e

c) A livre convivência entre mulheres e homens.

Por fim, tornou-se evidente o resultado que poderia advir da edificação do sistema social sobre esses três fundamentos básicos.

Primeiramente, definiu-se a igualdade de tal modo que mulheres e homens não seriam apenas iguais em dignidade moral e direitos humanos; elas também desempenhariam, na vida civilizada, todas as atividades desempenhadas pelos homens, e as restrições morais, assim como haviam sido relaxadas para os homens, seriam igualmente relaxadas para as mulheres. Por causa dessa concepção equivocada de igualdade, a mulher tornou-se indiferente e rebelde em relação às suas atividades diárias. Na realidade, a estabilidade da civilização e da humanidade depende da realização de todas essas atividades naturais do cotidiano. As tendências econômicas, políticas e partidárias tornaram sua personalidade egocêntrica. A participação em campanhas eleitorais, a aceitação de empregos em escritórios e fábricas, a competição com os homens nos negócios independentes e nas empresas industriais, os jogos, os esportes, os exercícios físicos e a participação nas atividades recreativas da sociedade, o desperdício de tempo em clubes, palcos, danças, músicas e eventos, além de muitas outras atividades impróprias e indescritíveis, influenciaram sua mente e seu cérebro de tal maneira que as grandes responsabilidades da vida conjugal, a criação dos filhos, o cuidado e o serviço à família, a boa organização do lar e todas as demais tarefas necessárias foram excluídas de seu programa de vida. Além disso, nasceu nelas uma sincera aversão às suas atividades naturais. Nesse contexto, a disciplina familiar ocidental — chamada de pedra fundamental da civilização — começou a expandir-se de modo repulsivo. A vida doméstica, de cuja felicidade e paz depende o desenvolvimento da capacidade de ação humana, começou, na realidade, a chegar ao fim. Sob os cuidados da civilização, o relacionamento conjugal — que é o modo saudável de interação entre mulher e homem — tornou-se agora mais frágil que uma teia de aranha. O caminho para o crescimento da descendência começou a ser bloqueado pelo controle da natalidade, pelo aborto e pelo infanticídio. A concepção equivocada da igualdade moral trouxe entre mulheres e homens uma igualdade na falta de caráter. Aquilo que era vergonhoso até para os homens deixou de ser vergonhoso para as mulheres.

Em segundo lugar, a independência econômica da mulher tornou-a temerária diante do homem. Segundo os costumes anteriores, o homem ganhava o sustento e a mulher cuidava do lar. Agora isso mudou. Estabeleceu-se que tanto a mulher quanto o homem trabalhariam para ganhar a vida, enquanto a responsabilidade pela disciplina doméstica seria confiada a uma terceira pessoa de fora. Assim, além da relação sexual, não restou entre a mulher e o homem nenhum outro vínculo que os obrigasse a permanecer ligados um ao outro. Para satisfazer o inimigo da paixão, é acaso necessário que mulher e homem permaneçam inevitavelmente unidos por um vínculo perpétuo de relação mútua e vivam juntos em uma mesma casa? Se uma mulher pode prover o próprio sustento, satisfazer todas as suas necessidades e não depende da segurança nem da ajuda de outra pessoa, por que haveria de aceitar a submissão a um homem apenas para obter prazer sexual? Por que haveria de impor sobre si restrições morais e legais? E por que haveria de carregar a pesada responsabilidade de uma família? Especialmente quando a ideia de igualdade moral tornou desimpedido o caminho para o prazer sexual, por que abandonaria ela um meio tão fácil, agradável e decoroso de satisfazer seus desejos para adotar o antigo caminho de sacrifício e responsabilidade? Junto com a religião, também desapareceu o temor do pecado. Como a sociedade já não a repreenderia por sua obscenidade, desapareceu também de seu íntimo o temor da sociedade. Seu único medo era ter um filho ilegítimo. Mas há também meios de evitá-lo por meio da contracepção. Mesmo que, apesar disso, ocorra uma gravidez, não há razão para recusar o aborto. E, se ainda assim seu desejo não for satisfeito, a mãe poderá ser morta secretamente. Mas, se o desejo de maternidade da infeliz — que, para sua desgraça, ainda não desapareceu — a impedir de matar o bebê, que mal haveria nisso? Pois atualmente há tantos movimentos em defesa da ‘mãe solteira’ e dos filhos ilegítimos que qualquer pessoa que tiver a coragem de olhá-los com repugnância será acusada de ser preconceituosa.

Foi isso que desarraigou o sistema social ocidental. Hoje, em todos os países, milhões de mulheres jovens abraçam a virgindade perpétua e levam uma vida dominada pela paixão. Muitas outras, porém, caem subitamente na armadilha do amor e se unem pelo casamento. Mas, além da relação sexual, não existe entre marido e mulher nenhum outro vínculo necessário capaz de mantê-los unidos pelo laço de uma união permanente. Por isso, atualmente não há espaço para estabilidade e firmeza nas relações conjugais. Como nenhum dos cônjuges se importa com o outro, eles tampouco estão dispostos a qualquer reflexão, consideração ou acordo sobre sua relação matrimonial. O simples amor e afeto sexual logo se enfraquecem; em consequência, divergências insignificantes, ou mesmo, na maioria das vezes, apenas a indiferença, provocam sua separação. É somente por essa razão que a maioria dos casamentos termina em divórcio ou separação legal. A contracepção, o aborto, o assassinato de fetos e recém-nascidos, a baixa taxa de natalidade e o aumento do número de filhos ilegítimos são, em grande parte, as consequências finais das causas acima mencionadas. As más ações, a falta de pudor e a disseminação de doenças venéreas também ocorrem pelas mesmas causas.

Em terceiro lugar, a livre convivência entre mulheres e homens aumentou excessivamente entre as mulheres o desejo de exibir a beleza, a nudez e a obscenidade. A atração sexual existe naturalmente com grande intensidade entre homens e mulheres, e, em consequência de sua convivência livre, essa atração sexual aumenta ainda mais. Além disso, em uma sociedade mista desse tipo, nasce naturalmente entre homens e mulheres um desejo irresistível: devem adornar-se de modo atraente para as pessoas do sexo oposto. Como, devido à mudança da perspectiva moral, tal conduta não é considerada censurável; pelo contrário, a manifestação pública é considerada digna de louvor como declaração de amor, o exibicionismo da beleza e da formosura ultrapassa gradualmente todos os limites. Por fim, chega ao extremo da nudez. Esta é a situação atual da civilização ocidental. Hoje, o desejo das mulheres de se tornarem atraentes como um ímã para o sexo oposto é tão intenso que elas não se satisfazem com roupas elegantes e encantadoras, nem com a maquiagem ornamentada, o batom, o rouge e outros cosméticos. Por fim, os grupos de infelizes acabam despindo-se. Enquanto isso, da parte dos homens, surge a exigência de uma nudez ainda maior. Pois a chama ardente da luxúria, em vez de ser apagada pela beleza nua, torna-se ainda mais intensa e exige uma nudez maior. Assim como um gole de água apenas aumenta a sede do viajante sedento, açoitado pelo samum do deserto, a sede sexual desses infelizes transformou-se em uma sede extrema. Insatisfeitos com uma sede sexual ilimitada, esses grupos dominados pela luxúria estão sempre fornecendo, por todos os meios possíveis, os instrumentos para a satisfação sexual mútua. Para que servem as imagens de nus, a literatura sexualmente estimulante, as histórias amorosas, os bailes de nudez e os filmes repletos de paixão sexual? Tudo isso serve para apagar o referido fogo — na verdade, para atiçá-lo ainda mais —, como exemplos daquilo que esse sistema social equivocado mantém junto ao pescoço de cada pessoa e que chama de ‘arte’ para encobrir sua própria fraqueza.

Agora, a força vital das nações ocidentais corroídas está chegando ao fim. Na verdade, até hoje nenhuma nação corroída conseguiu sobreviver. Todas as forças físicas e mentais que Allah Ta’ala concedeu ao ser humano para a manutenção da vida e o progresso foram destruídas por essa corrosão. Com efeito, como poderão aqueles que vivem oprimidos por todos os lados pelo tormento da excitação sexual, cujas emoções e sentimentos são a cada instante submetidos a novas provocações e novos estímulos, e que permanecem sob a influência de um ambiente excitante, proporcionar aquela segurança, paz e serenidade de espírito que são absolutamente indispensáveis às atividades construtivas e criativas? Imagens de nudez, literatura obscena, música cativante, danças provocantes, filmes românticos, cenas vivas que arrebatam o espírito e as oportunidades de encontros cotidianos com o sexo oposto no curso da vida mantêm suas células sanguíneas aquecidas e excitadas. Em meio a tamanha excitação, onde está, para seus jovens descendentes, aquele campo tranquilo e fresco no qual seja possível desenvolver suas forças mentais e morais? Assim que obtêm companhia, o demônio dos instintos bestiais os devora. Depois de serem apanhados nas garras de tal demônio, onde estará a possibilidade de seu progresso?

Desesperança dolorosa no pensamento humano

A narrativa de ascensão e queda histórica de três mil anos está relacionada a um vasto território que, no passado, foi o berço de duas grandes civilizações e cujo triunfo civilizacional ainda hoje ressoa no mundo. Histórias semelhantes existem também no Egito, na Babilônia, no Irã e em outros países. No antigo subcontinente indiano, durante centenas de anos, também se abateu a maldição da transgressão dos limites apropriados e da extrema inferioridade. De um lado, a mulher foi considerada uma escrava; o homem tornou-se seu marido, senhor e divindade adorada; ela teve de permanecer subordinada ao pai na infância, ao marido na juventude e ao filho na viuvez. Ela aceitou morrer na pira funerária do marido. Foi privada de autoridade e de herança. No casamento, leis tão cruéis foram aplicadas contra ela que, contra a sua vontade, foi entregue às mãos de um homem e não conseguiu libertar-se, até o último momento da vida, do laço de autoridade e submissão que a prendia. Como entre os judeus e os gregos, ela foi considerada a personificação do pecado e da degradação moral e espiritual. Recusou-se reconhecer sua personalidade eterna.

Por outro lado, quando se demonstrou compaixão por ela, foi transformada em brinquedo dos instintos bestiais. Tornou-se companheira corporal do homem de maneira tão íntima que, por fim, foi destruída juntamente com seu povo. O que evocam o culto do lingam e da yoni, as imagens nuas de casais nos templos, as prostitutas religiosas, os jogos amorosos de Holi e os banhos seminus nos rios? Depois dos movimentos tântricos da antiga Índia, o pecado e a libertinagem permaneceram como resultado final; após o progresso da civilização e da cultura da Índia, assim como do Irã, da Babilônia, da Grécia e de Roma, espalharam-se como uma doença contagiosa e mergulharam a nação hindu, por vários séculos, no abismo da vergonha e da decadência.

Ao lançar uma profunda visão interior sobre essa história, pode-se compreender quão difícil se revelou para o ser humano conhecer a igualdade e a justiça em relação à mulher, compreendê-las e permanecer firme nelas. O significado da igualdade e da justiça pode ser oferecer à mulher, por um lado, oportunidades suficientes para demonstrar sua personalidade e suas aptidões, de modo que ela possa participar, com elevada competência, do aprimoramento da civilização e da cultura humanas. Por outro lado, porém, é preciso manter uma vigilância cuidadosa, para que ela não se torne causa da degradação moral e da destruição da humanidade. Além disso, deve-se determinar uma forma de sua ajuda e cooperação nas atividades do homem para que a atuação conjunta de ambos seja benéfica à civilização. Há centenas de milhares de anos o mundo conta os dias à espera dessa igualdade e justiça, mas até hoje isso não foi possível. Às vezes, chega a um extremo e mantém uma parte da humanidade inativa. Outras vezes, chega ao extremo oposto, reúne as duas partes da humanidade e as mergulha juntas no abismo da destruição.

Ainda assim, a igualdade e a justiça não estão ausentes; sua existência é real. Contudo, por ter evoluído durante centenas de milhares de anos em meio à transgressão dos limites apropriados e ao extremo vazio, o ser humano se desviou tanto do bom senso que, mesmo vendo com os próprios olhos, não consegue reconhecer que este é precisamente o objeto que sempre desejou, cuja busca vem empreendendo há eras. Ao ver esse objeto tão desejado, enruga o nariz por engano e zomba dele. Tenta-se tornar ridículo aquele em quem isso pode ser encontrado. É como uma criança que nasceu no interior de uma mina de carvão e ali foi criada e cresceu. Não há dúvida de que o ar impregnado de carvão e o lugar envolto em trevas lhe parecerão naturais. Depois, quando a tiram do interior da escura mina de carvão e a levam à superfície, ao contemplar cada objeto das planícies naturais, puras e iluminadas pelo sol, ela certamente enrugará o nariz a princípio. Mas, na realidade, ela é um ser humano. Quanto tempo levará para distinguir o teto de carvão do céu adornado de estrelas? Quantos dias passará distinguindo o ar poluído do ar puro?

O muçulmano da nova era

Somente o muçulmano era capaz de mostrar o caminho correto ao mundo, confuso no labirinto dos dois extremos opostos. Pois somente ele possuía a solução correta para todos os complexos problemas da vida social. Mas é uma ironia surpreendente e dolorosa do destino do mundo que justamente o desventurado que trazia a tocha nas mãos na escuridão desta noite sem fim tenha ficado cego no escuro. Longe de orientar os outros, ele próprio se perdeu como um cego e passou a seguir, um após outro, aqueles que haviam perdido o caminho.

As determinações da Sharia cujo conjunto é designado pelo termo purdah constituem, na realidade, uma parte especialmente importante do sistema social islâmico. Quando essas determinações são devidamente situadas segundo os critérios desse sistema social, qualquer pessoa dotada de percepção natural não pode deixar de reconhecer que, na organização da sociedade, não pode haver outro meio de moderação e equilíbrio além deste. Se essas normas e disposições puderem ser verdadeiramente concretizadas na vida real, o mundo afligido pela dor e pelo sofrimento avançará rapidamente, sem protesto, em direção a essa fonte de paz e, sem dúvida, obterá o remédio mais eficaz para as enfermidades sociais. Mas por quem será realizada essa tarefa? Aquele que tinha capacidade para realizá-la é precisamente quem vem sofrendo há muito tempo. Portanto, antes de avançar, é necessário examinar um pouco também a sua enfermidade.

Antecedentes históricos

No final do século XVIII e no início do século XIX, a inundação da conquista territorial pelas nações ocidentais submergiu os países muçulmanos com a força de uma violenta tempestade. Nesse período, os muçulmanos encontravam-se entre o sono e a vigília e, num abrir e fechar de olhos, essa tempestade inundadora, começando no Oriente, engoliu todo o mundo muçulmano do Ocidente. Antes mesmo de se chegar à segunda metade do século XIX, a maioria dos Estados muçulmanos tornou-se escrava da Europa, enquanto os demais, embora não se tornassem escravos, foram derrotados e submetidos à sua influência. Depois que essa revolução destruidora se consolidou plenamente, os olhos dos muçulmanos começaram a abrir-se. O orgulho nacional criado pelos muçulmanos em ascensão no campo das conquistas e da expansão territorial foi inesperadamente reduzido a pó. Então, golpeados repetidamente pelo inimigo poderoso, começaram a investigar as causas da própria derrota e da vitória dos europeus, como um embriagado que recuperou a sobriedade. Mas, ainda assim, suas mentes não haviam recuperado a lucidez. Embora a embriaguez tivesse passado, o equilíbrio mental continuava abalado. Por um lado, o intenso sentimento de humilhação e desonra pressionava-os a mudar aquela condição degradante; por outro, o modo de vida luxuoso e avesso ao trabalho, cultivado durante muitos séculos, levava-os a procurar o caminho mais fácil e mais próximo para mudar a situação. Além disso, haviam perdido o hábito de empregar na prática as debilitadas forças do conhecimento, da inteligência, do pensamento e da reflexão. Somava-se a isso o pavor e a consternação que, de modo inesperado, se apoderam de uma nação derrotada e escravizada; esses sentimentos também se haviam disseminado entre eles. Da combinação de todas essas causas, os muçulmanos inclinados à reforma acabaram entregando-se a diversos pecados imaginários e práticos. A maioria deles não conseguiu compreender as verdadeiras causas da própria inferioridade e corrupção, nem do progresso europeu. E aqueles que as compreenderam não possuíam coragem, perseverança e espírito combativo suficientes para atravessar o árduo caminho do progresso. Em ambos os grupos, a fraqueza e o pavor estavam igualmente presentes. Nesse estado mental confuso, o caminho mais fácil para seu progresso pareceu-lhes ser reproduzir em sua vida as aparências externas da civilização ocidental e transformar-se em um espelho em cujo interior se refletissem as belas paisagens de jardins encantadores e das luzes primaveris, embora não existisse, de fato, jardim algum nem qualquer beleza ou esplendor.

Escravidão mental

No estágio extremo dessa enfermidade, passaram a ser imitadas as vestimentas ocidentais, o sistema social, a literatura, as artes, os costumes, os modos de agir e de se comportar, entre outras coisas. Até na maneira de falar, a imitação do Ocidente tornou-se evidente. Começou a tentativa de moldar e adornar a sociedade muçulmana segundo o modelo ocidental. A rebeldia contra Deus, o ateísmo e o materialismo foram adotados cegamente como uma “moda”. Passou-se a considerar sinal de pensamento esclarecido acreditar cegamente nas correntes de pensamento e doutrinas, explícitas ou implícitas, importadas do Ocidente, e apresentá-las nas reuniões como temas de discussão. O consumo de álcool, os jogos de azar, a loteria, as corridas de cavalos, o teatro, a dança e a música, bem como outras coisas produzidas pela cultura ocidental, também foram adotados. Todas as perspectivas e formas de ação relativas à decência, à moralidade, às relações sociais, ao sustento, à política, às leis e até às crenças e práticas religiosas foram aceitas sem protesto nem investigação ou reflexão, como se fossem uma revelação descida do céu, com a atitude: “Ouvimos e aceitamos”. Assim como os inimigos do Islã do passado haviam nutrido aversão e protestado contra os acontecimentos históricos, as determinações da Sharia islâmica e as narrativas do Alcorão e dos hadiths, os muçulmanos dessa época também começaram a sentir vergonha dessas coisas e empenharam-se em eliminar essa suposta desonra.

Os senhores brancos do Ocidente fizeram uma crítica severa à jihad islâmica. E eles (os muçulmanos), prostrando-se aos pés dos senhores, disseram: “Senhor! Onde estamos nós e onde está a jihad!” Eles criticaram a escravidão. Estes responderam: “Isso é absolutamente proibido no Islã.” Quando criticaram a poligamia, imediatamente revogaram um versículo ou uma determinação do Alcorão. Eles disseram: “É desejável estabelecer plena igualdade entre mulheres e homens.” Estes responderam: “Essa é justamente a essência da nossa religião.” Quando criticaram o casamento e o divórcio, estes se apressaram a reformá-los. Eles disseram: “O Islã é inimigo das artes.” Estes responderam: “Senhor! O Islã sempre apoiou a dança, a música, a pintura e a escultura.”

Introdução ao tema do purdah

Este é o período mais condenável e vergonhoso da história nacional dos muçulmanos, pois foi justamente nele que teve início a controvérsia acerca do purdah. Se o tema da discussão fosse qual o limite estabelecido pelo Islã para a liberdade das mulheres, a resposta não seria de modo algum difícil. Isso porque, quanto a essa questão, a divergência observada se resume a saber se a mulher pode manter descobertos o rosto e as mãos; não se trata de uma divergência importante. Mas a verdadeira questão é outra. Essa pergunta surgiu entre os muçulmanos porque a Europa passou a olhar com desprezo para o ‘harém’, o purdah e o véu exterior das mulheres. Em sua literatura, os europeus traçaram imagens repulsivas e satíricas dessas coisas e deram lugar de destaque ao ‘confinamento’ das mulheres (purdah) na lista dos defeitos e falhas do Islã. Quando a Europa abandonou o purdah por considerá-lo odioso, como poderiam os muçulmanos, que eram seus escravos mentais, deixar naturalmente de sentir vergonha disso? Assim como procederam em relação ao jihad, à escravidão, à poligamia e a outras questões semelhantes, procederam também neste caso. Começaram a folhear as páginas do Alcorão, dos hadiths e das obras resultantes das profundas pesquisas dos imames especialistas em fiqh. O objetivo era descobrir nelas algum meio ou recurso para remover aquela feia mancha de infâmia. Descobriu-se que alguns imames haviam permitido que as mãos e o rosto permanecessem descobertos. Soube-se também que a mulher podia sair de casa para realizar suas necessidades. Além disso, descobriu-se que ela podia levar água aos soldados no campo de batalha e cuidar dos feridos. Podia ir à mesquita para a oração e a outros lugares para aprender e ensinar. Isso lhes bastou. Então proclamaram: ‘O Islã concedeu plena liberdade à mulher. O purdah não passa de um antigo costume da era cega e bárbara. Muito depois do período inicial do Islã (o califado dos rashidun), muçulmanos de mente estreita e supersticiosos introduziram essa prática. Não há no Alcorão e nos hadiths nenhuma determinação sobre o purdah. Neles apenas se ensina uma educação moral relativa à modéstia e ao pudor. Nenhum princípio foi estabelecido pelo qual a liberdade de circulação das mulheres possa ser limitada.’

O ponto fundamental

É uma fraqueza natural do ser humano que, quando adota um caminho na vida prática, geralmente seja conduzido por uma inclinação emocional, em vez de escolher esse caminho com mente serena e ponderada, recorrendo à razão e ao discernimento. Depois, para provar que a decisão oriunda dessa inclinação emocional é correta, ele recorre a argumentos e provas. O mesmo ocorreu com a questão do purdah. A controvérsia que surgiu a esse respeito não foi motivada por nenhuma necessidade racional ou relacionada à sharia. A atração, o sentimento e a emotividade que se formaram por causa da influência da cultura exteriormente brilhante da nação vitoriosa e da perturbação provocada por sua intensa propaganda contra a civilização islâmica foram a única causa do início da controvérsia sobre o purdah.

Quando nossa sociedade instruída e afeita às reformas contemplou, com os olhos arregalados de espanto, a beleza, o luxo e os adornos das damas europeias, sua circulação livre e desenfreada por toda parte e sua atividade em sua própria sociedade, surgiu inevitavelmente em seu espírito o desejo de que suas próprias mulheres também pudessem viver daquela maneira e de que sua civilização alcançasse o nível da cultura europeia. Quando as novas ideias sobre a liberdade feminina, a educação das mulheres e a igualdade entre homens e mulheres eram derramadas sobre eles, como uma chuva incessante, em letras impressas atraentes e numa linguagem vigorosa e autorizada, eles se deixaram atrair por elas. Sob a poderosa influência dessa literatura, perderam a capacidade de distinguir o bem do mal. Enraizou-se em suas mentes a ideia de que, para se tornar verdadeiramente progressista e libertar-se da marca da antiguidade e da decadência, era necessário acreditar cegamente em todas aquelas correntes de pensamento e perspectivas, promovê-las por meio da escrita e dos discursos e concretizá-las corajosamente na vida real. Ao verem mulheres cobertas de branco, com o rosto velado, como tendas ambulantes ou envoltas em vestes funerárias semelhantes a mortalhas, esse grupo de infelizes que enganava a si mesmo sentia-se humilhado e prostrava-se no chão. Por quanto tempo isso ainda poderia ser suportado? Por fim, obrigados ou como que hipnotizados, prepararam-se para remover essa marca vergonhosa.

Na última parte do século XIX, o movimento pela liberdade feminina que se ergueu entre os muçulmanos tinha como fundamento as emoções, os sentimentos e a emotividade acima mencionados. Essas emoções e sentimentos, por sua vez, estavam ocultos, em alguns casos, por trás de uma sutil percepção interior. Eles próprios não tinham consciência de para onde esse movimento os conduzia. Eram vítimas do autoengano. Outros, por outro lado, estavam conscientes dessas emoções e sentimentos, mas hesitavam em revelar aos demais a verdadeira comoção que os movia. Embora não fossem vítimas do autoengano, tentaram enganar o mundo exterior criando uma névoa de confusão. De qualquer modo, ambos os grupos atiravam suas flechas na mesma direção: ocultando a inspiração fundamental de seu movimento, procuraram conduzir, em lugar de um movimento guiado pela emoção, um movimento que parecesse racional. A saúde das mulheres, seu aperfeiçoamento na aquisição de conhecimento e nos campos práticos, a preservação de seus direitos naturais e inatos, plena liberdade para ganhar o próprio sustento, libertação da opressão e do arbítrio dos homens, a dependência do progresso civilizacional do progresso das mulheres enquanto metade da nação e outras técnicas importadas diretamente da Europa foram aplicadas à condução desse movimento de tal maneira que o povo muçulmano fosse enganado. Adotou-se também uma estratégia para que o segredo oculto — isto é, que o objetivo principal desse movimento era incentivar as mulheres muçulmanas a adotar os modos de comportamento das mulheres europeias e o sistema social europeu — não fosse revelado ao povo muçulmano.

 

A grande fraude

A fraude mais grave neste assunto consistiu em tentar provar, mediante argumentos extraídos do Alcorão e dos hadiths, que este movimento era favorável ao Islã. Contudo, existe uma diferença abissal entre os objetivos da civilização islâmica e os da civilização ocidental, bem como entre os princípios fundamentais de suas respectivas organizações sociais. O objetivo inerente à civilização islâmica é controlar a energia sexual humana (Sex Energy) por meio de uma disciplina moral, de tal modo que ela não seja consumida sob o domínio da libertinagem e da excitação sensual, mas seja empregada na formação de uma civilização pura, santa e virtuosa. Em contrapartida, o objetivo da civilização e da cultura ocidentais é acelerar o curso do progresso material, empregando homens e mulheres igualmente nas atividades da vida e no cumprimento das responsabilidades. Além disso, utiliza a excitação sexual em atividades que transformam a amargura da luta pela vida em doce fruição de prazeres. Essa divergência de objetivos exige inevitavelmente uma diferença fundamental também nos modos de vida do Islã e da cultura ocidental. O Islã exige uma organização social na qual os campos de atuação de homens e mulheres sejam distintos. A livre convivência entre ambos foi proibida, e foram extirpados todos os meios e fatores contrários ao controle dessa disciplina. Já o objetivo e a reivindicação da cultura ocidental são trazer homens e mulheres para o mesmo campo da vida e remover todos os obstáculos ao convívio mútuo desregrado e desenfreado e à atuação conjunta de ambos. Além disso, foram-lhes oferecidas oportunidades ilimitadas para contemplarem a beleza um do outro e desfrutarem de prazeres sexuais.

Agora, qualquer pessoa dotada de consciência pode imaginar até que ponto aqueles que, por um lado, desejam seguir a cultura ocidental e, por outro, apresentam as normas da organização social islâmica como prova em seu favor estão enganando a si mesmos e aos outros. Na organização social islâmica, o limite extremo da liberdade feminina foi estabelecido de tal modo que a mulher pode manter descobertas as mãos e o rosto e, quando necessário, pode também sair de casa. Mas essas pessoas — os seguidores do Ocidente — tomaram justamente o limite extremo estabelecido pelo Islã como o primeiro passo de seu caminho. Começam onde a jornada do Islã terminou e chegam a um estágio em que abandonam a modéstia, o decoro e a castidade. Não se tornam visíveis apenas as mãos e o rosto, mas também a cabeça descoberta, adornada com os cabelos e com uma linha harmoniosa na testa, os ombros, as mangas, as tranças e o peito elevado, parcialmente desnudo. O que resta do gracioso brilho do corpo é coberto com um tecido tão fino que, através dele, tornam-se visíveis partes capazes de satisfazer a sede de desejo dos homens. Depois, esposas, filhas e irmãs, assim vestidas e adornadas, são apresentadas não diante de homens mahram (aqueles com quem o casamento é proibido segundo a lei islâmica), mas diante de amigos, e recebem liberdade para rir, brincar, conversar e divertir-se com homens estranhos de uma maneira que nenhuma mulher muçulmana poderia sequer ter com seu meio-irmão por parte de pai ou por parte de mãe. A liberdade de sair de casa, concedida apenas para necessidades indispensáveis e com cobertura completa do corpo conforme a sharia, é empregada para passear pelas vias públicas com sáris atraentes, blusas seminuas e olhares descomedidos; para circular em parques de recreação; para divertir-se em clubes e hotéis; e para assistir a filmes. A liberdade que o Islã concedeu à mulher, sob condições especiais, para exercer atividades além das tarefas domésticas é apresentada como justificativa para que a mulher muçulmana, à maneira da europeia, abandone a vida doméstica e as responsabilidades familiares, vagueie por toda parte em busca de agitação política e econômica e trabalhe arduamente, lado a lado com os homens, no campo profissional.

A situação do subcontinente indiano chegou, em linhas gerais, a este ponto. Os escravos mentais do Egito, da Turquia e do Irã, que conquistaram a independência política, avançaram dez passos além disso. As muçulmanas desses países vestem-se à semelhança das mulheres europeias. Com isso, desejam apagar a diferença entre o original e a imitação. A Turquia avançou tanto nesse assunto que, em fotografias de mulheres turcas, elas são vistas na praia usando trajes de banho. O corpo das mulheres que usam tais trajes permanece três quartos descoberto. A parte restante é coberta por um tecido tão fino que as partes salientes e recuadas do corpo se delineiam e se destacam sobre o tecido que as cobre.

Pode-se encontrar em algum lugar do Alcorão e dos hadiths qualquer fundamento que apoie semelhante modo de vida? Se alguém quiser seguir esse caminho, deveria declarar abertamente que é um opositor manifesto do Islã e das leis islâmicas. Aquele sistema social e modo de vida, cada um de cujos princípios fundamentais, objetivos e métodos de ação o Alcorão declarou proibido, não está apenas sendo adotado aberta e conscientemente; além disso, o primeiro passo desse caminho está sendo dado justamente em nome do Alcorão. O objetivo é desorientar e enganar o mundo para que, em nome do Alcorão, os passos seguintes sejam dados por esse mesmo caminho. Que grande hipocrisia, baixeza e falsidade!

O tema de nossa presente discussão

A situação dos muçulmanos da era moderna foi descrita acima. Agora, temos diante de nós dois aspectos a discutir. Nesta obra, devemos concentrar nossa atenção na discussão de ambos.

Primeiramente, será preciso explicar a toda a humanidade, muçulmana e não muçulmana sem distinção, a organização social islâmica, e também esclarecer por que as determinações do recato foram estabelecidas nesse sistema.

Em segundo lugar, será preciso apresentar comparativamente aos muçulmanos desta era moderna, de um lado, as determinações do Alcorão e dos hadiths e, de outro, a perspectiva da cultura e da sociedade ocidentais e suas consequências, para que cesse sua conduta ambígua e eles possam escolher um dos dois caminhos. Se desejarem viver como verdadeiros muçulmanos, deverão obedecer plenamente aos preceitos islâmicos; caso contrário, abandonando qualquer vínculo com o Islã, deverão adotar o caminho para o qual a organização social ocidental os atrai, com seu resultado vergonhoso e terrível.

Discussão teórica

As razões pelas quais a prática do purdah é combatida não são meramente negativas. Na realidade, ela se fundamenta numa base positiva e comprovável. A base da oposição do grupo contrário não é apenas o fato de as pessoas considerarem uma restrição injusta manter as mulheres confinadas em casa e fazê-las sair de casa com o corpo coberto; portanto, não se deve abolir a prática do purdah. O fato é, antes, que elas têm diante de si uma imagem própria da vida feminina. Elas sustentam uma concepção particular e permanente acerca da convivência entre homens e mulheres. Desejam que a mulher faça algo diferente disso. Opõem-se ao purdah porque, permanecendo confinada em casa e velada, a mulher não pode tornar manifesta aquela imagem desejada da vida. Tampouco pode fazer “algo diferente”.

Agora é necessário examinar o que é esse “algo diferente” que as mulheres devem fazer. Que concepção e princípios fundamentais estão por trás disso, até que ponto isso é justo e racional, e quais resultados produziu na prática? É evidente que, se aceitarmos diretamente os princípios de sua concepção, então a prática do purdah e o sistema social — do qual o purdah é parte inseparável — ficarão, na realidade, inteiramente refutados. Mas por que aceitaríamos a concepção deles sem verificação e exame racional? Acaso devemos aceitar algo sem exame apenas por ser novo e por ter alcançado ampla difusão entre o público em geral?

A concepção de liberdade no século XVIII

Já foi dito que os filósofos, naturalistas e escritores que, no século XVIII, empreenderam esforços para reformar a sociedade tiveram, na realidade, de se defrontar com um sistema civilizacional no qual existiam numerosas complexidades e no qual não havia o menor traço de elegância. Ele era repleto de costumes e ritos tradicionais irracionais, bem como de incoerências contrárias ao conhecimento e à natureza humana. Séculos de decadência contínua haviam bloqueado seu caminho para o progresso. De um lado, o renascimento do conhecimento e da razão agitava a classe média burguesa e a inspirava a ultrapassar os limites do esforço e da iniciativa individuais; de outro, os líderes sociais e religiosos estavam ocupados em fortalecer os laços das lendas e crenças tradicionais. Da igreja às forças armadas e aos tribunais, e do palácio real às atividades agrícolas e às transações econômicas, cada setor da vida e cada instituição da organização funcionava de tal maneira que os frutos de todo o trabalho e talento do grupo recém-desperto ligado à classe burguesa eram usurpados, em nome de direitos anteriormente estabelecidos, por algumas classes decadentes. Em tal situação, todos os esforços de reforma e correção começaram a fracassar diante do egoísmo e da ignorância do grupo no poder. Por todas essas razões, uma inspiração cega para a revolução despertava dia após dia entre os reformadores e agentes da mudança. Por fim, acendeu-se o incêndio da revolta contra todo o sistema social então vigente e contra cada um de seus setores e componentes. Depois disso, ganhou aceitação popular uma doutrina extremada de liberdade individual cujo objetivo era conceder ao indivíduo, contra a sociedade, liberdade completa e emancipação absoluta. Começou a ser difundida a ideia de que, assim como se deveria conceder ao indivíduo o direito de realizar, com plena liberdade e conforme sua própria vontade, aquilo que desejasse, ele também deveria ter a liberdade de se abster daquilo que não desejasse. A sociedade não teria nenhum direito de privar alguém de sua liberdade individual. O único dever do governo seria preservar intacta a liberdade de ação dos indivíduos. As instituições públicas apenas ajudariam o indivíduo no caminho para alcançar seus objetivos.

A doutrina extremada de liberdade que nasceu em meio à indignação e à cólera naturais contra o sistema social cruel continha em si o germe de um mal e de uma destruição ainda maiores. Aqueles que primeiro apresentaram essa doutrina também não estavam plenamente conscientes de suas consequências inevitáveis. Se as consequências de uma liberdade desenfreada e da arbitrariedade desse tipo tivessem se manifestado durante sua vida, provavelmente eles próprios teriam ficado aterrorizados. Em sua época, quiseram introduzir essa doutrina como uma arma para extirpar todos os excessos incoerentes e as restrições irracionais existentes na sociedade. Porém, por fim, ela se arraigou na mente dos habitantes do Ocidente e começou a desenvolver-se gradualmente.

{Foi dessa concepção de liberdade individual que nasceram o atual sistema social democrático, o sistema cultural democrático e a licenciosidade moral (Licenciosidade). Durante cerca de um século e meio, essa doutrina fez fluir sobre a Europa e a América uma torrente de desordem e opressão, fazendo a humanidade rebelar-se contra ela. Pois esse sistema social, ao conceder à arbitrariedade o direito irrestrito de agir contra os interesses do povo, pisoteou o interesse público e destruiu a sociedade. Gradualmente, por meio dessa revolta, o socialismo e o fascismo vieram à tona. Contudo, já na origem da criação dos novos ismos permaneceu oculto o germe da desordem e do mal. Na realidade, para resolver uma doutrina extremada, foi erigida outra doutrina extremada. O defeito do movimento pela liberdade individual do século XVIII é que ele sacrificou o coletivo em favor do indivíduo.

Por outro lado, o defeito da atual doutrina democrática do século XX é que ela sacrificou o indivíduo no altar do coletivo. Para o bem da humanidade, existe ainda hoje, assim como no século XVIII, uma doutrina equilibrada.}

As transformações do século XIX

A Revolução Francesa foi alimentada no seio dessa liberdade. Por meio dessa revolução, muitas concepções morais, costumes culturais e práticas religiosas anteriores foram abolidos. Quando se observaram progressos como resultado dessas abolições, os indivíduos de mentalidade revolucionária começaram a dizer que o código moral desgastado, vigente desde tempos imemoriais, se tornara um obstáculo no caminho do progresso. Sem substituí-lo, não seria possível avançar. Depois que os falsos princípios fundamentais da moralidade cristã foram abolidos, as armas de sua crítica foram rapidamente lançadas contra os princípios basilares da moralidade humana. O respeito e a castidade — que perigo representavam? E por que impor à juventude o peso do temor a Allah? Se alguém se apaixonasse por outra pessoa sem se casar, onde estaria o mal? Depois do casamento, o ser humano se tornaria tão cruel a ponto de ser privado do direito de oferecer amor a outra pessoa? Perguntas desse tipo ecoaram por toda a nova sociedade revolucionária; em particular, foram formuladas em tom ousado por meio da literatura romanesca. No início do século XIX, (George Sand) era a líder desse grupo. Essa mulher destruiu pessoalmente os princípios morais dos quais dependiam a civilização humana e, em especial, a honra e a castidade das mulheres. Embora fosse esposa casada de um homem, violou o vínculo matrimonial e estabeleceu uma relação ilícita com outro. Por fim, rompeu a relação com o marido. Depois começou a alternar os amantes, e não lhe foi possível viver por mais de dois anos com nenhum deles. Em sua biografia, podem ser identificados seis homens com os quais manteve publicamente relações amorosas. Um de seus amantes fez o seguinte comentário em seu louvor:

—George Sand primeiro captura uma borboleta e a mantém presa numa gaiola de flores — esse é o período em que lhe declara seu amor. Depois, quando a fere com a ponta de sua probóscide, ela começa a se debater, e com isso ele obtém um prazer extremo. — Então, um dia, seu amor por ela esfria. — Depois, arranca-lhe as asas e a inclui na categoria daqueles insetos que são escolhidos como personagens principais de seus romances.

O poeta francês Alfred Musse também foi um de seus amantes. Por fim, ele ficou tão profundamente ferido por sua traição que, ao morrer, deixou em testamento a determinação de que George Sand não pudesse comparecer ao seu funeral. Esse era o caráter moral pessoal daquela mulher. Durante trinta anos, por meio de sua literatura, ela influenciou o caráter da juventude francesa. Em seu romance Lelia (Lelia), escrito por ela própria, ela escreve a Stenio em nome de Lelia:

—Tanto quanto tive oportunidade de observar o mundo, percebo quão equivocada é a concepção de nossos jovens e nossas jovens sobre o amor. É absolutamente errada a ideia de que o amor deve ser reservado a uma única pessoa, de que se deve conquistar seu coração e isso para sempre. É preciso, sem dúvida, dar lugar no coração a todas as demais imaginações. Estou disposta a admitir que algumas pessoas têm o direito de demonstrar fidelidade em sua vida conjugal. Mas a maioria sente necessidade de algo diferente e também possui capacidade para obtê-lo. Para isso, é necessário que homens e mulheres concedam plena liberdade uns aos outros, demonstrem generosidade recíproca e eliminem do íntimo todas as causas que geram ciúme e competição no amor; todo amor é legítimo, seja ele ardente ou sereno, sensual ou não sensual, firme ou mutável, autodestrutivo ou prazeroso—

Em outro romance seu, chamado Jacus (Jacus), ela descreveu um marido que apresentou à sociedade como um marido ideal. A esposa de Jacus, personagem principal do romance, abraça secretamente outro homem, enquanto o marido de espírito liberal não faz qualquer objeção. O marido explica a razão, dizendo:

Que direito tenho eu de pisotear a flor que deseja oferecer sua fragrância a outro além de mim?

Em outra passagem, a escritora faz o seguinte comentário nas palavras de “Jacus”:

Não mudei de opinião, nem fiz qualquer concessão à sociedade. Entre todos os tipos de instituições sociais, o casamento, na minha opinião, é uma forma extremamente animalesca. Creio que, se os seres humanos desejarem aperfeiçoar a razão e o intelecto, certamente abolirão essa instituição. Em seu lugar, escolherão então uma forma humana e sagrada. Nessa altura, os filhos da humanidade estarão mais avançados do que esses homens e mulheres e não criarão qualquer impedimento à liberdade uns dos outros. Atualmente, os homens são tão egoístas e as mulheres tão tímidas que não exigem, em lugar dos costumes vigentes, costumes melhores e mais nobres. Sim, aqueles que carecem de consciência e virtude terão de permanecer presos a grilhões rigorosos.

Todas essas doutrinas e concepções eram divulgadas em 1833 d.C. e na época contemporânea. George Sand só conseguira chegar até esse ponto. Não ousara levar suas doutrinas e concepções às suas consequências finais inevitáveis. Ainda assim, havia em sua mente e em seu espírito algum vestígio de espírito libertário e progressista, bem como da obscuridade da antiga moralidade tradicional. Trinta ou trinta e cinco anos depois, surgiu na França uma segunda leva de dramaturgos, escritores e filósofos moralistas, entre outros. Alexandre Dumas (Alexander Dumas) e Alfred Naquet (Alfred Naquet) estavam entre seus líderes. Eles empregaram todas as suas forças na divulgação da doutrina de que o ser humano tem um direito inato à liberdade e aos prazeres da vida. Impor regras morais e vínculos sociais sobre esse direito constituía, para o indivíduo, uma forma especial de opressão da sociedade. Antes disso, a reivindicação da liberdade de ação do indivíduo era feita apenas em nome do amor. Para os sucessores, tal fundamento puramente sentimental parecia fraco. Por isso, tentaram estabelecer a arrogância pessoal, a libertinagem e a liberdade desenfreada sobre bases sólidas de lógica, filosofia e ciência. O objetivo era que os jovens, quaisquer que fossem suas ações, pudessem realizá-las com plena satisfação da mente e da consciência, e que a sociedade, em vez de se irritar com a exuberância da juventude, a considerasse moralmente legítima e apropriada.

No final do século XIX, escritores como Paul Adam, Henry Betaille e Pierrelouis empregaram todas as suas forças, por meio da literatura, para incutir coragem à libertinagem entre os jovens. Assim, também se extinguiu por completo o sentimento de hesitação e constrangimento que a antiga concepção de moralidade mantivera vivo na natureza humana. Na verdade, em “La-Morale-De-La Amour”, Poul Adam censurou a insensatez dos jovens por fazerem, no momento de amar, promessas desnecessárias como dar a vida pela amada, amá-la sinceramente, pertencer-lhe para sempre e assim por diante. Paul Adam diz:

Tudo isso é dito porque o desejo de relação carnal — que existe naturalmente em todo ser humano e no qual não há pecado — é considerado impuro segundo a antiga doutrina. Por isso, as pessoas tentam inutilmente ocultá-lo sob o manto da mentira. A fraqueza fatal da nação é que seus amantes sentem constrangimento em dizer claramente que o objetivo de seus encontros é simplesmente satisfazer o desejo físico, desfrutar do prazer e alcançar o êxtase supremo.

Depois, ele aconselhava os jovens e as jovens, dizendo:

Sede pessoas amáveis e racionais. Não façais de vossos desejos e do companheiro de vossos prazeres o vosso ma’bud. (Que ninguém se engane quanto ao significado disso. Refere-se aos homens e mulheres que podem usar uns aos outros com o objetivo de satisfazer os próprios desejos.) Aquele que, depois de construir um templo do amor, permanece adorando o mesmo ídolo é verdadeiramente tolo. Ele deveria escolher um novo visitante a cada momento de prazer.

Pierre Louis foi vários passos além dos outros e passou a declarar abertamente que os vínculos morais, na realidade, impedem o florescimento do talento humano e da capacidade intelectual. Enquanto não se der aos seres humanos plena liberdade e a oportunidade de desfrutar dos prazeres físicos, rompendo todos esses vínculos, não será possível qualquer desenvolvimento da razão ou qualquer progresso material e espiritual. Em sua obra Afrodite, tentou provar firmemente que Babilônia, Alexandria, Atenas, Roma, Veneza e outros centros de cultura e civilização atingiram seu mais alto desenvolvimento precisamente quando a imoralidade, a libertinagem e a escravidão aos desejos reinavam plenamente nesses lugares. Mas, assim que os vínculos da moral e das leis foram impostos aos desejos humanos, a própria alma humana, juntamente com os desejos e apetites, ficou aprisionada nesses vínculos.

Na França daquela época, Pierre Louis era um escritor renomado e redigia ensaios segundo seu próprio método. Era também diretor de uma instituição literária bem estabelecida. Sob sua direção, um grupo de contistas, dramaturgos e moralistas, entre outros, ocupava-se de divulgar suas doutrinas e perspectivas. Com todo o poder de sua escrita, promoveu amplamente a nudez e a livre mistura entre homens e mulheres. Em sua obra Afrodite, ele elogia entusiasticamente um período da Grécia nos seguintes termos:

Quando a humanidade nua, plena imagem da beleza inconcebível, sobre a qual os religiosos haviam assegurado que Deus a criara à Sua própria imagem, apresentava seu corpo, com diversos adornos e gestos graciosos, diante de vinte mil espectadores, sob a forma de uma prostituta sagrada, então oferecer-lhe amor com plena paixão era aquele amor puro, sagrado e celestial pelo qual todos nós fomos criados—

nenhum ato pecaminoso, vergonhoso ou impuro era considerado como tal.

Em suma, ele removeu todos os véus da poesia e declarou claramente o seguinte:

Por meio de uma sólida educação moral, devemos erradicar esta prática abominável: tornar-se mãe nunca é, em circunstância alguma, vergonhoso, injusto ou desonroso para uma mulher.

O progresso do século XX

No século XIX, as ideias e opiniões haviam chegado somente até esse ponto. No início do século XX, surgiu no firmamento um novo falcão que tentou voar mais alto do que seus predecessores. Em 1908, foi publicada uma peça de Peorr Wolff e Caston Leronx, intitulada Lelys. Nessa peça, duas moças discutem com o pai, diante do irmão jovem, afirmando que têm o direito de declarar livremente seu amor segundo a própria vontade. Dizem também quão dolorosa pode ser a vida de uma jovem sem amor! Um pai idoso repreende a filha por manter um amor ilícito com um jovem. Em resposta, a filha diz:

Como hei de fazer-te compreender? Que uma moça permaneça solteirona sem amar—ninguém tem o direito de dizer isso a moça alguma, seja ela sua irmã ou sua filha; isso é algo que não conseguiste compreender de modo algum.

A Primeira Guerra Mundial não apenas ampliou esse movimento pela liberdade, como também o levou ao extremo. O movimento pelo controle da natalidade teve um impacto ainda maior sobre a França. Durante quarenta anos consecutivos, a taxa de natalidade da França vinha caindo. Entre seus vinte e sete departamentos, apenas em vinte a taxa de natalidade era superior à taxa de mortalidade. Em algumas regiões do país, a situação era tal que, para cada cem nascimentos, a taxa de mortalidade ficava entre 130 e 160. Quando começou a grande guerra decisiva para a vida ou a morte da nação francesa, os pensadores do país perceberam que o número de jovens aptos para a guerra no seio da nação era extremamente reduzido. Talvez fosse possível garantir a vida nacional sacrificando esse pequeno número de jovens, mas seria difícil sobreviver ao ataque seguinte do inimigo. Esse sentimento despertou em toda a França uma intensa inspiração para aumentar a taxa de natalidade. De todos os lados, escritores, jornalistas, oradores, intelectuais e políticos começaram a proclamar em uníssono: “Tende filhos. Não temais os laços matrimoniais tradicionais. Todas as moças solteiras e viúvas que se dispuserem a conceber filhos em seu ventre para o bem da pátria, em vez de serem condenadas pela sociedade, terão direito à honra.”

Nesse período, naturalmente surgiu uma oportunidade de ouro para os cavalheiros amantes da liberdade. Aproveitando-a, começaram a propagar todas as doutrinas e correntes de pensamento que ainda restavam no alforje de Satanás.

Um destacado escritor da época, editor do Lo-Lyon Republican, comentou o seguinte num artigo intitulado «Por que o estupro forçado é considerado crime?»:

Quando o pobre faminto, atormentado pela fome, envolve-se em furtos e saques, diz-se que se deve providenciar alimento e vestuário para ele, e os furtos e saques cessarão por si mesmos. Mas é surpreendente que, quando se trata de satisfazer uma necessidade natural do corpo, se ofereçam ajuda e compaixão, enquanto não se faz o mesmo para satisfazer uma segunda necessidade natural e importante, isto é, aplacar a fome sexual. Assim como a intensa pressão da fome leva o ser humano a envolver-se em furtos, também o estupro forçado e, na maioria dos casos, até mesmo o homicídio ocorrem como resultado de uma pressão igualmente intensa da fome sexual — que não é menos natural que a fome e a sede. Um jovem saudável e vigoroso não consegue conter à força o próprio desejo sexual, assim como não consegue conter a fome com a promessa de que terá alimento na semana seguinte. Em nossas cidades há abundância de todas as coisas. Mas, assim como é dolorosa para um indigente a falta de alimento para o estômago, também é extremamente dolorosa a falta de prazer sexual. Assim como se distribui alimento gratuitamente aos famintos, também é nosso dever tomar alguma providência em favor daqueles que são atormentados por esse segundo tipo de fome.

É necessário lembrar que este não é um artigo satírico. Assim como foi escrito com grande responsabilidade e seriedade, também foi divulgado na França com a máxima seriedade.

Nessa época, a Faculdade de Medicina de Paris conferiu o título de «doutor» a um médico experiente por causa de um de seus artigos. O artigo também foi publicado no órgão oficial. Em certo trecho do referido artigo, encontra-se o seguinte comentário:

Hoje afirmamos sem hesitação que fui enviado ao cume de uma montanha para abandonar a expectoração de sangue (cuspe). Cremos que também chegará o dia em que poderemos dizer, sem orgulho nem vergonha artificiais: aos vinte anos, tive sífilis. Essas doenças são, afinal, um preço especial dos prazeres da vida. A vida de quem passa por ela sem contrair doença alguma é incompleta. Essa pessoa, por covardia, temperamento dócil ou confusão religiosa, abstém-se de satisfazer suas necessidades físicas naturais, embora esta seja apenas uma necessidade insignificante entre suas necessidades naturais.

Literatura neomalthusiana

Antes de prosseguir, considero necessário lançar um olhar sobre as doutrinas e correntes de pensamento discutidas a respeito do movimento de controle ou prevenção da gravidez. Quando, no final do século XVIII, Malthus, o maior economista inglês, propôs o controle da natalidade para controlar o crescimento populacional, jamais imaginou, nem em sonhos, que seu conselho, um século mais tarde, serviria de auxílio à propagação do adultério e da obscenidade. Malthus aconselhava o autocontrole, o casamento em idade mais avançada e outras medidas para impedir o crescimento populacional. Porém, quando o movimento neomalthusiano (New Multhusian Movement) começou, no final do século XIX, seu princípio fundamental era satisfazer livremente o desejo sexual e, como consequência natural disso, impedir cientificamente o nascimento de filhos. Com isso, também foi removido o último obstáculo que ainda restava à formação de relações sexuais ilícitas, e o caminho para o pecado tornou-se livre de obstáculos. Pois agora uma mulher podia entregar livremente seus atributos corporais a outro homem. Depois disso, já não havia qualquer preocupação quanto a ter filhos ou à responsabilidade de criá-los. Não há espaço aqui para descrever as terríveis consequências de tudo isso; contudo, darei aqui alguns exemplos das doutrinas propagadas na literatura relacionada ao controle da natalidade.

Segue-se um breve resumo dos argumentos e provas com que foram escritos os preâmbulos neomalthusianos em toda essa literatura:

Por natureza, todo ser humano se vê diante de três necessidades vastas e intensas. A primeira é o alimento, a segunda, o descanso, e a terceira, a satisfação do desejo sexual. A natureza depositou essas três coisas no ser humano com toda a sua força. Também derramou um prazer especial na satisfação dessas necessidades. Por isso, o ser humano deseja naturalmente satisfazê-las. A razão e o raciocínio obrigam-no a correr velozmente em sua busca. Nas duas primeiras questões, seu modo de agir é o mesmo. Mas, surpreendentemente, no que diz respeito à terceira, seu modo de agir é diferente. A norma moral da sociedade impôs-lhe a obrigação de que o desejo sexual não pode ser satisfeito sem casamento. Dentro dos limites matrimoniais, a fidelidade e a honra da castidade foram tornadas obrigatórias para homens e mulheres. Além disso, estabeleceu-se também como condição que não se pode impedir o nascimento de filhos. Regras desse tipo são completamente errôneas e revelam insensatez. São contrárias ao conhecimento e à natureza. Também são errôneas em princípio e prenunciam consequências terríveis para a humanidade.

Observe também, por uma vez, os edifícios de ideias que são construídos sobre tal fundamento. O líder do Partido Social-Democrata alemão, Babel, escreve claramente:

  • A mulher e o homem não passam de animais. Por acaso surge entre um casal de animais a questão do casamento — do casamento permanente —?

Diz o Dr. Drysdale:

Entre todos os nossos desejos, o amor também é algo mutável. Determiná-lo por um único caminho significa corrigir as leis da natureza. Os jovens desejam essa mudança com uma característica própria. Segundo a grande e justa ordem da natureza, desejamos que, nesse assunto, suas experiências sejam variadas. A relação livre é expressão de um caráter superior porque se assemelha mais às leis e aos princípios naturais. Além disso, manifesta-se diretamente da emotividade, do sentimento e do amor altruísta. A inspiração e o desejo pelos quais essa relação é criada têm um enorme valor moral. Como seria possível tal felicidade por meio daquela troca de caráter comercial que, na realidade, transforma o casamento em uma profissão?

O leitor deve observar como e quando a perspectiva está mudando e como, gradualmente, uma ideologia oposta está sendo adotada. Inicialmente, tentou-se considerar o adultério moralmente inocente e colocar o casamento e o adultério no mesmo nível. Mas agora se avança e o próprio casamento passa a ser considerado censurável, enquanto ao adultério se confere um status superior.

O referido doutor diz em outro lugar:

É necessário adotar um sistema pelo qual o amor fora do casamento possa ser considerado honroso. É motivo de satisfação que, com o abrandamento das normas relativas ao divórcio, o caminho do casamento também esteja se fechando. Pois agora o casamento é um contrato entre duas pessoas para viverem juntas, e qualquer uma das partes pode encerrá-lo quando quiser. Este é o único método adequado para a união sexual.

O famoso líder neomalthusiano francês Paul Robin escreve:

Nos últimos vinte e cinco anos, alcançamos tanto sucesso que quase elevamos o filho ilegítimo à condição do filho legítimo. Agora só falta fazer com que passem a nascer exclusivamente filhos bastardos ou ilegítimos. Pois, nesse caso, já não haveria questão de competição.

O famoso filósofo inglês senhor ‘Mill’ afirma categoricamente, em sua obra On Liberty, que a pessoa que não puder provar que dispõe de meios e recursos suficientes para viver deverá ser impedida de se casar por força da lei. Contudo, quando surgiu na Inglaterra a questão de proibir a prostituição, esse mesmo sábio filósofo opôs-se veementemente a isso. Seu argumento era que tal medida constituiria uma interferência na liberdade individual e uma humilhação dos trabalhadores. Pois, por meio dela, eles seriam tratados como crianças.

Pensem bem: deve-se conferir dignidade à liberdade individual para que, valendo-se dela, se pratique o adultério. Mas, se algum tolo quiser casar-se em nome da liberdade individual, não terá o direito de ver essa liberdade protegida. A intervenção da lei em sua liberdade não é apenas aceitável; antes, a consciência do filósofo amante da liberdade considera-a necessária. Aqui, a revolução da perspectiva moral está chegando ao limite extremo. O que era condenável tornou-se agora inocente, e o que era inocente tornou-se agora condenável.

 

Consequências

A literatura marcha na vanguarda, e a opinião pública vem atrás dela. Por fim, o caráter social, as normas e os costumes, as leis e regulamentos do Estado rendem-se diante dela. Onde, durante continuamente um século e meio, a filosofia, a história, a moralidade, a ciência, os romances, o teatro, as artes e outros meios e recursos capazes de produzir uma revolução mental continuam, com força conjunta, a introduzir na mente das pessoas o mesmo tipo de perspectiva e linha de pensamento, é extremamente impossível que a sociedade daquele lugar não seja influenciada por essa linha de pensamento. Além disso, onde o governo e todo o sistema social estão estabelecidos sobre princípios democráticos, também é impossível que as leis não mudem juntamente com a mudança da opinião pública.

A Revolução Industrial e sua reação

Sem dificuldade, os demais instrumentos civilizacionais também se tornaram plenamente adequados ao momento. Foi precisamente nessa época que ocorreu a Revolução Industrial (Industrial Revolution). As mudanças que ela provocou na vida econômica e os efeitos que nela se manifestaram na vida cultural conduziam o curso dos acontecimentos justamente na direção para a qual as literaturas revolucionárias desejavam conduzi-lo. A possibilidade das invenções mecânicas e da produção em massa (Mass Production) conferiu uma força extraordinária à concepção de liberdade individual sobre a qual se estabelecera o sistema capitalista. A classe rica fundou grandes empresas industriais e comerciais. Os novos centros da indústria e do comércio transformaram-se em cidades enormes. Milhões de homens e mulheres foram atraídos das áreas rurais para as cidades. O custo da subsistência tornou-se excessivamente elevado. A habitação, os alimentos, as roupas e os artigos indispensáveis para a vida cotidiana tornaram-se caríssimos. Em parte devido ao progresso cultural e em parte pelos esforços dos capitalistas, inúmeros artigos de luxo passaram a ocupar lugar entre os bens necessários à vida. Contudo, no sistema capitalista, não se distribuiu a riqueza de tal modo que todos pudessem desfrutar igualmente dos meios para obter os confortos, prazeres e adornos luxuosos que os capitalistas haviam criado na vida cotidiana. Depois que os capitalistas atraíram as massas das áreas rurais para as cidades, teria sido fácil prover-lhes os artigos indispensáveis à vida, como moradia, alimento e vestuário. O resultado foi que a esposa se tornou um peso para o marido, e os filhos, um peso para o pai. Longe de poder carregar o fardo dos parentes e familiares, tornou-se extremamente difícil até mesmo cuidar de si próprio. A situação econômica obrigou cada indivíduo a ganhar a vida. Mulheres de todas as classes — solteiras, casadas, viúvas e outras — tiveram de sair de casa para obter seu sustento. Depois, quando aumentaram as oportunidades de convivência entre mulheres e homens e se manifestaram suas consequências inevitáveis, a concepção de liberdade e a nova filosofia do caráter consolaram pais e filhas, irmãos e irmãs, maridos e esposas, dizendo: “Não vos inquieteis; o que está acontecendo está muito bem! Isto não é decadência; na realidade, isto é progresso e emancipação (Emancipation). Este abismo sem fundo no qual os capitalistas vos estão lançando não é uma fornalha infernal; é o paraíso, o mais perfeito paraíso.”

O interesse individual capitalista

As demais questões não ficaram limitadas a isso. O sistema capitalista, estabelecido sobre uma espécie de concepção da liberdade individual, concedeu ao indivíduo o direito absoluto, incondicional e ilimitado de adquirir riqueza por todos os meios possíveis. Qualquer que fosse o meio pelo qual a riqueza fosse obtida, mesmo que a aquisição de riqueza por alguém causasse a ruína de quantas pessoas fossem, a nova filosofia do caráter considerava isso legítimo e sagrado. Assim, todo o sistema cultural foi estabelecido de tal maneira que, em todos os aspectos, o indivíduo foi apoiado contra a coletividade. Em contrapartida, não restou nenhum meio de proteger os direitos da coletividade contra os interesses pessoais do indivíduo. Para os indivíduos egoístas, abriram-se todos os caminhos para destruir a sociedade. Eles começaram a adotar novos métodos para satisfazer seus próprios interesses, aproveitando-se de todas as fraquezas humanas. Surgiu um homem que, para encher o próprio bolso, levava outro ao vício da embriaguez. Ninguém avançava para proteger a sociedade desse rato da peste. Surgiu outro homem, que espalhava a rede dos juros. Não havia ninguém para proteger as pessoas das garras dessa sanguessuga que lhes sugava o sangue. Além disso, todas as leis protegiam os interesses dessa sanguessuga, para que ninguém pudesse conservar a salvo sequer uma gota de sangue fora de suas garras. Surgiu um terceiro homem, que inventava um método extraordinário de jogo. Sua expansão tornou-se tão ampla que nenhum setor da indústria e do comércio ficou livre da influência do jogo. Não havia ninguém para proteger a vida econômica das pessoas desse fogo devorador. Numa época em que era possível aproveitar a mais grave fraqueza humana, a paixão sexual, para obter enormes vantagens, seria impossível que, naquela era impura de arrogância individual, rebeldia e hostilidade, os indivíduos cegos pelo interesse não voltassem sua atenção para semelhantes fraquezas humanas. Na realidade, a licenciosidade sexual foi explorada tanto quanto possível. Nos palcos, nos salões de dança e nos centros de produção cinematográfica, todas as atividades giravam em torno da mulher bela. A participação da mulher nessas atividades era inevitável. A mulher era apresentada ao público em formas cada vez mais nuas e em poses provocantes. Por esse meio, aumentava-se a sede sexual das pessoas e roubava-se seu dinheiro. Algumas pessoas começaram a alugar mulheres e, promovendo a prostituição, transformaram-na em um negócio internacional bem organizado. Outros inventaram novos artigos de beleza e luxo; por meio deles, ampliaram o instinto inato das mulheres de exibir sua beleza, aperfeiçoando-as, e os grupos de comerciantes interessados começaram a ganhar enormes somas com isso. Alguns outros inventaram novas vestimentas sexualmente estimulantes e modas de nudez; fizeram as mulheres belas vesti-las e as incentivaram a circular na sociedade, enquanto grupos de jovens modernos começaram a aglomerar-se ao seu redor, com olhos e corações ávidos. As moças ficaram atraídas pelas novas e vistosas roupas descobertas, e o mercado de roupas novas também se aqueceu. Alguns, aproveitando a oportunidade, começaram a divulgar fotografias nuas e literatura obscena e, desse modo, infectando as massas com a lepra, passaram a ganhar um bom dinheiro. Gradualmente, a situação chegou a tal ponto que nenhum setor do comércio e dos negócios permaneceu livre dos meios e instrumentos da excitação sexual. Observe os anúncios de qualquer estabelecimento comercial: verá que, sem a imagem nua ou seminua de uma mulher, qualquer anúncio é absolutamente sem valor. Em hotéis, restaurantes, vitrines de lojas ou salas de exposição e lugares semelhantes, as figuras femininas eram colocadas de tal maneira que os homens fossem atraídos precisamente para aquele lado. Em tal situação, o único meio de proteger os interesses das massas desamparadas e desafortunadas era repelir todos esses ataques por meio de sua força moral e proteger-se da influência da excitação sexual. Contudo, o sistema capitalista estava estabelecido sobre uma base tão frágil que seu ataque podia ser repelido. Eles possuíam uma filosofia de vida completa e uma poderosa força satânica, isto é, uma literatura, que imediatamente derrotava e subjugava a perspectiva moral. O mérito do assassino consiste em preparar a vítima voluntariamente e com o coração satisfeito para o sacrifício.

O sistema político democrático

O perigo não terminou aqui. Além disso, essa concepção de liberdade deu origem ao sistema de governo democrático ocidental, que se transformou numa arma poderosa para completar, em todos os seus aspectos, esse tipo de revolução moral.

O princípio fundamental da nova democracia era que o próprio ser humano seria seu governante e elaboraria, para si mesmo, a constituição do governo e as leis. Eles elaborariam as leis conforme desejassem e revogariam ou alterariam qualquer lei segundo a sua vontade. Acima deles não havia nenhuma força ou autoridade superior, livre das fraquezas humanas, cuja orientação pudessem aceitar de cabeça baixa e, assim, salvar-se do caminho do erro. Não possuíam nenhuma lei fundamental, imutável e eterna, acima do poder humano. Não tinham uma pedra de toque firme e inabalável, que não se alterasse sob o impulso das más tendências humanas e por meio da qual pudessem distinguir o verdadeiro do falso. Assim, a nova perspectiva da democracia tornou o ser humano plenamente autônomo (Autonomous) e irresponsável. Eles próprios se tornaram seus governantes e aceitaram a opinião pública como fonte de todas as leis.

É evidente que, onde todas as leis da vida social ficam subordinadas à opinião pública e onde a autoridade governamental se torna escrava desse novo deus-democracia, as leis e o poder estatal não conseguem proteger a sociedade da desordem moral; pelo contrário, acabam tornando-se instrumentos de sua destruição. As leis também vão mudando juntamente com as mudanças da opinião pública. À medida que se transformar a perspectiva do povo, os princípios e as restrições das leis irão sendo moldados de modo correspondente. A direção para a qual pender a maioria dos votos tornar-se-á a pedra de toque para determinar a verdade e o bem. Se uma proposta, por mais nociva e incoerente que seja, conseguir o apoio de cinquenta e um por cento das pessoas, nada impedirá que seja transformada em lei. Um exemplo extremamente horrendo e repugnante disso encontra-se na Alemanha da era anterior ao nazismo. Um filósofo alemão chamado Dr. Magnus Herschfield (Dr. Magnus Herschfield) era presidente da Liga Mundial para a Reforma Sexual (World League of Sexual Reform). Durante seis anos, promoveu uma intensa campanha em defesa da prática do povo de Lot. Por fim, o deus-democracia concordou em declarar essa prática ilícita como “halal” ou lícita, e o Parlamento alemão decidiu, por ampla maioria de votos, que, se o ato mencionado fosse praticado com o consentimento de ambas as partes, deixaria de ser ilegal. Ficou estabelecido que, se a pessoa contra a qual o ato fosse praticado fosse menor de idade, seu responsável legal votaria em seu nome.

Essa lei parece um pouco lenta no cumprimento da servidão a esse deus-democracia; suas ordens são de fato obedecidas, mas com preguiça e indiferença. As falhas que permanecem no cumprimento completo dessa servidão são compensadas pelo conjunto de todos os setores da administração do Estado. Aqueles que dirigem esses sistemas de governo democrático aceitam, ainda antes de elaborar as leis, a influência da literatura ao seu redor, da filosofia moral e da sensibilidade do povo. Todas as formas de desregramento moral que se difundem entre o povo são reconhecidas e aceitas em cada nível oficial, graças à condescendência dos administradores do governo. Em relação às questões que até então permanecem proibidas, a polícia e os tribunais deixam de fazer cumprir a lei. Essas práticas proibidas também passam a ser consideradas lícitas. Tomemos, por exemplo, a questão do aborto. Ele ainda é proibido pelas leis ocidentais. Contudo, não existe país onde não seja praticado abertamente e em grande escala. Na Inglaterra, realizam-se aproximadamente noventa mil abortos por ano. Entre as mulheres casadas, há nada menos que vinte e cinco por cento que fazem aborto por conta própria ou recorrem à ajuda de algum especialista para isso. Em certos lugares, existem clubes propriamente ditos de aborto. Senhoras da elite pagam ali uma taxa semanal e, quando necessário, recebem os cuidados de especialistas em aborto. Há muitos hospitais de enfermagem em Londres onde são tratadas pacientes que abortaram. (O professor Jud registrou uma descrição detalhada desse assunto em seu livro Guide to Modern weekedness. A obra foi publicada há vários anos.) Apesar disso, o aborto ainda está registrado como crime nos códigos legais da Inglaterra.

Princípios fundamentais e provas

Agora desejo descrever detalhadamente até que ponto o caráter social e as relações sexuais entre homens e mulheres estão sendo influenciados e em que medida isso se manifesta pela combinação desses três elementos: a perspectiva moral moderna, o sistema cultural capitalista e o governo político democrático. Como até aqui mencionei principalmente a França — país onde esse movimento teve início —, apresentarei primeiro a própria França como prova. (Consulte-se a obra do sociólogo francês Paul Bureau, Towards Moral bankruptcy. Ela foi publicada em 1925.)

A eliminação do sentimento moral

O resultado inicial da propagação das perspectivas descritas no capítulo anterior foi que o sentimento moral das pessoas em relação à conduta sexual ficou debilitado. A vergonha, a decência, a repulsa, o desprezo e coisas semelhantes começaram a desaparecer dia após dia. A distinção entre casamento e adultério apagou-se do coração. Por fim, o adultério transformou-se em algo tão inocente que já não se sentia necessidade de escondê-lo com repugnância.

Até o final do século XIX, a perspectiva moral do povo francês havia mudado apenas no sentido de que, para os homens, o adultério era considerado algo extraordinariamente natural. Se os filhos jovens e adultos não contraíssem doenças venéreas nem corressem o risco de ser enviados aos tribunais, os pais, satisfeitos, toleravam sua libertinagem sexual. Além disso, ficavam extremamente satisfeitos se obtivessem algum benefício material com isso. Tinham a concepção de que as relações sexuais entre homens e mulheres fora do casamento não eram condenáveis. Há também exemplos de pais que incentivavam os filhos jovens e adultos a estabelecer relações com mulheres influentes ou ricas, a fim de garantir-lhes um futuro brilhante. Contudo, naquela época, sua atitude em relação aos homens era diferente da que adotariam posteriormente. A castidade da mulher era considerada valiosa. Os mesmos pais que, considerando a libertinagem sexual dos próprios filhos um entusiasmo da juventude, a ignoravam, não conseguiam tolerar qualquer mácula ou mancha no caráter de suas filhas. Embora o homem imoral fosse considerado inocente, a mulher imoral não era. Ainda que franzissem a testa com repugnância ao pronunciar o nome de uma prostituta comercial, não demonstravam repulsa pelo homem que compartilhava seu leito. Do mesmo modo, na vida conjugal, as responsabilidades morais do homem e da mulher não eram iguais. Embora a falta de caráter do marido fosse tolerada, a da esposa era considerada gravemente condenável.

No início do século XX, essa situação mudou. O movimento pela emancipação feminina tocou a flauta da igualdade moral entre homens e mulheres, e o resultado foi que, assim como os atos imorais dos homens, também os atos imorais das mulheres passaram a ser considerados inocentes. Também mudou a ideia de que uma mulher poderia sofrer um golpe em sua nobreza ou honra caso mantivesse relações sexuais com um homem sem se casar com ele. Paul Bureau diz:

Não apenas nas grandes cidades, mas também nas pequenas cidades e aldeias da França, grupos de jovens modernos aceitaram o princípio de que, já que eles próprios não são castos, não têm o direito de exigir do casamenteiro uma mulher casta ou virgem. Na Borgonha, em Beaune e em outras regiões, é algo comum que, antes do casamento, uma moça desfrute da companhia de muitos amigos e, no momento do casamento, não sinta necessidade de ocultar do casamenteiro os acontecimentos de sua vida passada. Eles conversam francamente sobre suas relações ilícitas com outros homens, assim como conversam sobre esportes ou sobre meios de ganhar a vida. No casamento, o noivo não apenas fica informado sobre a vida passada da noiva, mas também toma conhecimento de todos os amigos que, até então, haviam desfrutado de seu corpo. Em tais circunstâncias, o ilustre noivo se mostra particularmente cuidadoso para que ninguém possa suspeitar que ele tem qualquer objeção às atividades desse tipo realizadas pela noiva. — Da referida obra, p. 94

Ele acrescenta:

É muito comum ver as moças instruídas da classe média educada da França trabalhando em escritórios ou estabelecimentos comerciais. Elas também convivem livremente na sociedade respeitável, e nenhuma dessas condutas é de modo algum considerada contrária à moral. Depois, quando alguma dessas moças se sente atraída por um jovem e passa a viver com ele, o casamento entre os dois é considerado inteiramente desnecessário. Elas consideram preferível viver juntas sem se casar. Naturalmente, depois de satisfazerem os desejos de ambos, têm pleno direito de se separar e oferecer seu amor a outra pessoa em outro lugar. Essas relações não permanecem desconhecidas da sociedade. Os dois frequentam juntos os círculos respeitáveis. Também não escondem esse tipo de relação mútua, e ninguém vê nada de mau nesse modo de vida. Esse comportamento surgiu primeiro entre as mulheres que trabalham nas fábricas. Mais tarde, era considerado extremamente censurável. Mas passou a ser um acontecimento comum e cotidiano nas famílias nobres. O modo de vida desse tipo alcançou agora, na vida social, a mesma consideração que o casamento possuía. — Da referida obra, pp. 94–96

Desse modo, a amante também passou a ser devidamente aceita. Monsieur Barthélemy (M. Berthelemy) foi professor de Direito na Universidade de Paris. Ele diz que: “Gradualmente, a mulher mantida está adquirindo status jurídico semelhante ao da esposa casada. No Parlamento, começaram a discutir sua situação. Agora o governo começou a proteger seus interesses. Após a morte de um soldado, sua amante também recebe, de modo semelhante à esposa, uma pensão equivalente à concedida à esposa casada desse soldado.”

A razão pela qual, segundo a ciência moral francesa, o adultério é considerado inocente pode ser deduzida do seguinte acontecimento:

Em 1918, uma professora de uma instituição de ensino engravidou embora fosse solteira. Havia no departamento de educação algumas pessoas tradicionalistas, que começaram a fazer algum alarde sobre o assunto. Então, uma delegação de pessoas respeitáveis foi ao ministro da Educação e apresentou os argumentos e provas abaixo de tal maneira que o caso da professora foi abafado.

1. Que direito tem outra pessoa de interferir na vida privada de alguém?

2. Afinal, que crime tão grave ela cometeu?

3. Ser mãe de um filho sem se casar não será mais democrático?

Entre a instrução ministrada aos soldados das forças armadas francesas incluíam-se ensinamentos sobre como se proteger das doenças venéreas e também sobre contracepção, pois é uma verdade inegável que os soldados certamente cometerão adultério. Em 3 de maio de 1919, o comandante da ala da 127.ª Divisão francesa divulgou aos soldados a seguinte declaração:

Soube-se que havia queixas sobre a aglomeração de soldados armados nos bordéis militares. A queixa era que os soldados armados haviam estabelecido ali um verdadeiro monopólio, não dando oportunidade alguma a mais ninguém. Com o aumento do número de soldados, o alto comando está tentando aumentar o número de prostitutas. Mas, enquanto isso não for providenciado, informa-se por meio deste aos soldados armados que não permaneçam ali por muito tempo. Que se apressem um pouco para satisfazer seus desejos sexuais.

Pensem bem: este comunicado está sendo devidamente divulgado de forma oficial pelo departamento militar de um governo civilizado do mundo. Isso significa que a ideia de que o adultério pudesse ser condenável do ponto de vista moral havia sido completamente apagada de suas mentes. Essa noção havia sido eliminada da sociedade, das leis do país e da mente de todos. (Quando soldados cujo estado moral é assim entram em algum país como vencedores, pode-se facilmente imaginar quão terríveis podem ser as consequências para a honra e a castidade das mulheres daquele país. Esse é um tipo de padrão moral das forças armadas. O Alcorão apresenta outro tipo de padrão moral: “Quando os muçulmanos obtêm autoridade no mundo, estabelecem a oração, pagam o zakat, ordenam o bem e impedem as ações reprováveis.” Um tipo de soldado vagueia como um animal. O outro tipo de soldado toma o poder para preservar a dignidade moral humana e ensinar a pureza às pessoas. Será que o ser humano ficou tão cego que não consegue distinguir a diferença entre os dois?)

Algum tempo antes da Primeira Guerra Mundial, foi fundada na França uma agência. Qualquer que fosse a condição e a conduta moral de uma mulher, a função dessa agência era, em todos os casos, induzi-la a submeter-se a uma nova experiência. Quando um homem desejava ter relações sexuais com uma mulher, bastava que fornecesse o endereço dela. Além disso, tinha de depositar na agência vinte e cinco francos como taxa inicial. Depois disso, cabia à agência convencer a mulher a consentir nesse ato.

Pelos registros dessa agência, soube-se que não havia classe alguma da sociedade francesa cujos membros, em grande número, não tivessem recorrido aos serviços dessa agência. Todas essas atividades eram conhecidas do governo francês. — Paul Bureau, p. 16

Sobre quão extremo havia chegado o declínio moral deles, Paul Bureau diz:

Em alguns distritos da França e nas áreas densamente povoadas das grandes cidades, não eram raros os casos de relações sexuais entre parentes próximos, inclusive entre pais e filhas e entre irmãos e irmãs.

A proliferação da obscenidade

Antes da Primeira Guerra Mundial, o procurador-geral da França, monsieur Bulot (M. Bulot), informou em um de seus relatórios que havia quinhentas mil mulheres que ganhavam a vida alugando seus corpos. Contudo, não se pode comparar as prostitutas dali com as cortesãs do subcontinente indiano. A França é um país altamente civilizado e desenvolvido. Ali, todas as atividades são realizadas em grande escala, com decoro e boa organização. Por meio de jornais, imagens, cartões-postais, telefones, convites pessoais e todos os demais métodos considerados respeitáveis, atraía-se a atenção dos clientes. A consciência das pessoas jamais censurava essas atividades; pelo contrário, as mulheres que tinham a oportunidade de alcançar maior fortuna nesse negócio, na maioria das vezes, conseguiam exercer considerável autoridade na política, na economia e entre as classes nobres do país. O que acontecera com as mulheres dessa classe na época da civilização grega também acontecera com estas.

Um membro do Senado francês, monsieur Ferdinand Dreyfus (M. Ferdinand Dreyfus), afirma que a prostituição já não é uma questão privada. Com os lucros financeiros obtidos por meio de suas agências, ela se transformou em um negócio e em uma indústria bem organizada. Agentes encarregados de fornecer sua matéria-prima importam e exportam meninas independentes e muito jovens como mercadorias desse negócio. Aqui, a procura por meninas com menos de dez anos é extremamente elevada.

Paul Bureau diz:

É uma instituição poderosa. É administrada de maneira bem organizada por altos funcionários e empregados assalariados. Promotores, escritores, oradores, médicos, parteiras, comerciantes e turistas trabalham nela. Recorre-se à publicidade e adotam-se métodos sempre novos de exibição.

Mesmo fora desses antros de obscenidade, a prostituição é praticada abertamente em hotéis, casas de chá, salões de dança e outros lugares semelhantes. Às vezes, ocorrem também abusos bestiais e extrema crueldade. Em 1914, certa vez, na França, o prefeito de uma cidade teve de intervir para salvar a vida de uma menina. Essa menina tivera de satisfazer, durante todo o dia, os desejos de vinte e sete clientes, e mesmo depois disso muitos clientes ainda aguardavam.

Durante a Primeira Guerra Mundial, além dos bordéis comerciais, alcançou-se também a distinção de estabelecer uma espécie de bordel filantrópico. As mulheres patriotas que, durante a guerra, haviam prestado grande serviço aos heróis que protegiam a segurança da França e tido filhos ilegítimos sem pai receberam esse título honorífico. Não é possível traduzir em palavras uma ideia tão vil. Essas mulheres continuavam a praticar a prostituição de maneira bem organizada, e ajudar essas mulheres tornou-se um dever moral das pessoas da classe dos malfeitores. As revistas amplamente divulgadas Frantasio (Frantasio) e Lavie Parisiemme (Lavie Parisiemme) demonstraram o máximo de empenho em atrair a atenção de pessoas ativas para essas mulheres. No início de 1917, uma edição desta última revista publicou 199 anúncios dessas mulheres.

 

A doença contagiosa da loucura sexual e da obscenidade

Doenças sexuais

Como consequência natural do fogo ardente das tendências sexuais, a falta de pudor e a libertinagem alcançaram ampla aceitação pública; na raiz disso estavam aquela literatura, aqueles anúncios, fotografias, representações teatrais, danças e canções, nudez e obscenidade.

Um exército de capitalistas interessados em seus próprios lucros permanece empenhado em alimentar, por todos os meios possíveis, a sede sexual e, desse modo, expandir seus negócios. Jornais diários, semanais, quinzenais e mensais publicam artigos e imagens de extrema obscenidade. Isso porque constitui uma arma especialmente eficaz para aumentar enormemente a circulação de seus jornais. Nessa atividade empregam-se talento refinado, astúcia e habilidade psicológica, para que a vítima não consiga, de modo algum, defender-se. Além disso, literatura extremamente impura e folhetos de propaganda relacionados com questões sexuais são publicados em forma de livros. Tudo isso é divulgado em tamanha quantidade que cada edição chega a ser impressa em vinte e cinco ou trinta mil exemplares. Muitas vezes chega-se a publicar até a sexagésima edição dessas obras. Há editoras que se dedicam exclusivamente a esse trabalho. Existem muitos autores e literatos que alcançam fama e honra justamente por realizar esse tipo de trabalho. A composição de uma obra obscena já não é de modo algum vergonhosa; ao contrário, se ela for aceita pelo público, seu autor torna-se digno de ser membro da Academia Francesa ou, pelo menos, de receber a Croix d’Honneur.

O governo permanece em silêncio, ignorando toda essa falta de vergonha e incitação à luxúria. Se alguma coisa extremamente vergonhosa chega a ser publicada, a polícia, embora contrariada, encaminha o culpado às autoridades. Além disso, existem os benevolentes tribunais. De seus tribunais de justiça, o criminoso é liberado depois de receber apenas uma advertência. Isso porque aqueles que ocupam os assentos judiciais também apreciam esse tipo de literatura. A pena de alguns juízes, por sua vez, dedica-se à composição de literatura sexual obscena. Se, por acaso, algum juiz se revela antiquado e há o risco de que profira uma sentença inconveniente, então grandes literatos e escritores famosos intervêm coletivamente no assunto, e os jornais fazem severas críticas, alegando que é necessário um campo livre para o progresso da literatura e das artes. Impor restrições morais com a mentalidade de uma era obscura significa sufocar a voz da estética. Por quais meios essa estética se desenvolve? Imagens de nudez e filmes são especialmente eficazes nesse aspecto. Produzem-se milhões de álbuns desse tipo, que são colocados não apenas nos mercados, hotéis e casas de chá. No relatório apresentado por Émile Puresi na segunda sessão da Liga contra a Obscenidade, ele diz:

Essas pinturas a óleo impuras e vis provocam, nos sentidos humanos, excitação e uma sede extrema. Elas incitam os infelizes compradores a tais atos pecaminosos que o corpo se arrepia só de pensar neles. Seu efeito ruinoso sobre meninos e meninas é indescritível. Muitas escolas e faculdades foram destruídas por causa delas, tanto moral quanto fisicamente; especialmente para as meninas, nada poderia ser mais nocivo do que isso.

Nos teatros, salas de cinema, casas de música e cafés, cultiva-se essa estética por meio do entretenimento. Cada uma das peças teatrais que a elite da sociedade francesa assiste com prazer, e sobre cujos dramaturgos e talentosas atrizes são lançadas flores acompanhadas de aplausos elogiosos, é repleta de incitação à luxúria. A característica marcante é que o personagem moralmente mais desprezível é apresentado como o ideal mais elevado e sublime. Nas palavras de Paul Bureau:

Se alguém quiser formar uma ideia de nossa vida cultural observando o quadro da vida que nossos dramaturgos vêm retratando há trinta ou quarenta anos, compreenderá ao menos isto: todos os casais casados de nossa sociedade são ingratos e desconfiam uns dos outros na vida conjugal. Talvez o marido seja um tolo, ou talvez sua esposa seja uma inimiga mortal. Se a esposa possui alguma grande virtude, esta consiste em estar sempre ressentida com o marido e pronta para declarar seu amor a outra pessoa.

Se este é o estado das representações teatrais da classe aristocrática, é fácil imaginar qual pode ser a natureza dos teatros e dos locais de entretenimento do público em geral! A linguagem, os gestos graciosos e o prazer da nudez que os amantes dos jogos sexuais apreciam são representados descaradamente no palco. Com antecedência, informa-se ao público que ali estarão disponíveis todos os elementos para satisfazer sua sede sexual. Diz-se ainda: nosso palco é desprovido de convencionalismos e naturalista (Realistic).

Emil Puresi registrou muitos exemplos em seu relatório. Ele visitou diversos locais de entretenimento e reuniu esses exemplos; para explicá-los, usou letras em vez de nomes.

B. «Aqui, as canções, os monólogos e os gestos das atrizes eram extremamente obscenos. A cena que se desenrolava no palco ficou interrompida justamente quando estava prestes a chegar à fase final da relação sexual. Mais de mil espectadores haviam se reunido ali. Entre eles havia também muitas pessoas respeitáveis. Todos, absortos, soltavam exclamações de aprovação.»

N. «Aqui, as canções breves, as breves falas intercaladas, os gestos e os silêncios haviam atingido o limite máximo da indecência. Crianças e jovens menores de idade também se sentavam com os pais, desfrutando desse entretenimento, e cada menino aplaudia com todo o entusiasmo ao assistir à representação obscena.»

L. «Aqui, o público, depois de fazer algazarra cinco vezes, obrigou repetidamente a atriz a realizar uma apresentação que teve de terminar com uma canção extremamente obscena.»

R. «Aqui, o público insistia repetidamente para que uma atriz realizasse uma apresentação extremamente obscena.»

Por fim, a atriz exclamou, irritada: “Vocês são tão sem-vergonhas? Não estão vendo que há algumas crianças aqui?” Dito isso, foi embora sem sequer terminar a apresentação. Era algo tão obsceno que nem a mulher mais depravada poderia suportar sua repetição.

J. «Ao final da apresentação, foi realizado um sorteio das atrizes. Elas começaram a vender cada bilhete por dez santims (um santim equivalia aproximadamente a duas anás). A atriz cujo nome saísse no sorteio de um homem tornava-se sua por aquela noite.»

Paul Bureau diz: «Na maioria das vezes, leva-se ao palco uma mulher cujo corpo não tem o menor vestígio de roupa. Adolphe Biason (Adlophe Biason) certa vez escreveu no famoso jornal francês “Tamps” (Tamps), protestando contra essas coisas: agora, no palco, resta apenas realizar o ato sexual. Na realidade, só então a arte alcançará a perfeição.»

A literatura associada ao movimento contraceptivo e ao chamado conhecimento profundo e à farmacologia da sexologia desempenhou um papel destacado na promoção da despudorada indecência e na destruição do caráter moral das pessoas. Em palestras públicas, fotografias obscenas e livros, por meio de imagens e de suas análises, a gravidez, os assuntos a ela relacionados e as instruções para o uso dos instrumentos contraceptivos são analisados de tal maneira que, depois disso, não resta necessidade de revelar mais nada. Nesses livros de sexologia, começando pela análise do corpo, nenhum aspecto do ato sexual é deixado sem ser exposto. Exteriormente, tudo isso foi revestido com uma aparência de conhecimento e ciência, como se não houvesse possibilidade de contestá-lo. Além disso, alcançou tamanho desenvolvimento que passou a ser chamado de serviço social. Alega-se, como justificativa, que se deseja proteger os outros de equívocos acerca do ato sexual. Mas a realidade é que, por meio da divulgação de toda essa literatura e educação, cria-se uma indecência abominável entre homens e mulheres e entre jovens de ambos os sexos. Graças a tudo isso, chegou-se a uma situação em que uma menina ainda não adulta, ao vir estudar na biblioteca, adquire conhecimentos relacionados ao sexo que nem mesmo as mulheres casadas conseguem obter. A situação dos meninos também é a mesma. Sua inclinação sexual desperta prematuramente. Como resultado, nasce em sua mente o desejo de experimentar a masturbação. Antes de alcançarem a plena maturidade, caem nas garras da paixão lasciva. Para o casamento, há um limite de idade estabelecido; porém, para experimentar o ato sexual, não há limite de idade estabelecido. Assim, essas práticas começam desde os doze ou treze anos.

Prelúdio da decadência nacional

Onde a ausência de castidade, a adoração dos desejos e a escravidão aos prazeres e gozos corporais chegam ao extremo; onde todos, homens e mulheres, jovens e idosos sem distinção, se entregam ao luxo e ao prazer; e onde o fogo ardente da loucura leva as pessoas para além de seu controle, é perfeitamente natural que se manifestem todas as causas da decadência nacional. Ao ver uma nação desse tipo, inclinada à destruição, elevar-se ao ápice, as pessoas concluem que seus prazeres não são um obstáculo ao progresso, mas, pelo contrário, um auxílio. Dizem, além disso, que o desenvolvimento máximo de uma nação só ocorre quando ela alcança o grau máximo de luxo e prazer. Mas tal conclusão é inteiramente equivocada. Onde as forças da criação e da destruição atuam conjuntamente e, em termos gerais, as atividades construtivas são claramente visíveis, só alguém cuja razão e inteligência tenham sido corrompidas pode incluir as forças destrutivas entre as causas da criação.

Por exemplo, se um comerciante prudente, por meio de inteligência, trabalho e experiência, acumula uma imensa fortuna e, ao mesmo tempo, se entrega à bebida, ao jogo e aos prazeres, que poderia ser mais insensato do que considerar ambos os aspectos de sua vida como causas de bem-estar e progresso? Na realidade, as causas de seu progresso e o conjunto desses últimos vícios estão empenhados em provocar sua ruína. O fato de ele permanecer estabelecido em uma mansão graças à força das primeiras qualidades não significa que as forças destrutivas não estejam exercendo influência sobre ele. Observando com um pouco mais de perspicácia, ficará evidente que essas forças destrutivas estão continuamente consumindo, por dentro, a força de seu cérebro e de seu corpo. Estão saqueando o dinheiro que ganhou com seu trabalho. Ao mesmo tempo que o destroem, essas forças estão sempre à espera de uma oportunidade para acabar com ele, desferindo um ataque decisivo logo ao primeiro golpe. O demônio do jogo pode, num momento funesto, destruir num instante todo o dinheiro que ele acumulou ao longo da vida, e fica à espera justamente desse momento. O demônio da bebida pode, no momento oportuno, aproveitando-se de sua inconsciência, levá-lo a cometer um erro fatal, em consequência do qual ele pode ir à falência em um instante. Também está à procura dessa oportunidade. O demônio da perversidade também espera o momento em que poderá envolvê-lo em um assassinato, suicídio ou destruição repentina. Não se pode sequer imaginar como teria sido o progresso daquele homem se ele não tivesse caído nas garras desses demônios!

O mesmo acontece com uma nação. Ela progride por meio de suas forças construtivas. Mas, por falta de uma força de direção adequada, depois de avançar alguns passos no caminho do progresso, começa a criar as causas de sua própria destruição. Durante algum tempo, as forças criadoras continuam a conduzi-la para a frente. Ao mesmo tempo, porém, as forças destrutivas continuam consumindo sua força vital por dentro, como um caruncho. Por fim, deixam-na tão oca que, com um único golpe repentino, derrubam ao pó o edifício de sua glória. Descreverei aqui brevemente as grandes e evidentes causas da destruição que o sistema social equivocado da nação francesa trouxe sobre ela.

Destruição da força física

O efeito nocivo inicial do domínio absoluto do desejo sexual foi que a força física dos franceses começou gradualmente a desaparecer. A escravidão aos desejos havia esgotado entre eles as forças de autocontrole e paciência. A abundância de doenças venéreas exerceu um efeito devastador sobre sua saúde. Desde o início do século XX, criou-se uma situação em que as autoridades militares eram obrigadas, a cada poucos anos, a reduzir o padrão de aptidão física para o recrutamento de novos soldados (New Reqruits). Isso acontecia porque, posteriormente, encontrava-se um número muito pequeno de jovens que correspondesse ao padrão de aptidão originalmente estabelecido. Esse é um indicador confiável que, tal como um termômetro (Thermometre), quase sempre informa com certeza a rapidez com que a força física da nação francesa estava diminuindo. Entre as causas dessa decadência, as doenças venéreas constituíam uma causa particularmente importante. Durante os dois primeiros anos da Primeira Guerra Mundial, o número de soldados enviados aos hospitais por causa da sífilis foi de setenta e cinco mil. Em apenas um quartel militar de porte médio, 242 soldados foram acometidos por essa doença ao mesmo tempo. De um lado, considerem a situação cheia de perigos em que a nação francesa oscilava entre a vida e a morte, quando era necessário o esforço máximo de cada soldado pela existência de toda a nação e cada franco era extremamente valioso. Era necessário empregar em quantidade excessiva o tempo, a força, todos os recursos e cada coisa na defesa do país; de outro lado, observem os jovens dessa nação: entre eles, milhares de jovens, por causa dos prazeres sexuais, não apenas se tornaram incapazes de trabalhar por longos períodos, mas, naquele momento de crise, fizeram com que o dinheiro e os recursos da nação fossem gastos em seu tratamento.

Um especialista francês, o Dr. Laredde (Dr. Laredde), afirma que, na França, todos os anos, trinta mil pessoas morrem somente de sífilis e das doenças dela decorrentes. Depois da febre, esta é a maior causa de morte. Eis a situação de uma doença venérea! Além desta, existem muitas outras doenças desse tipo.

Abolição da disciplina familiar

A disseminação universal dessa desenfreada loucura sexual e desse gosto pela libertinagem trouxe à civilização francesa um segundo grande mal: a abolição da disciplina familiar. O relacionamento permanente e sólido entre o homem e a mulher, por meio do qual se estabelece a disciplina familiar, chama-se casamento. É por meio desse relacionamento que se estabelecem na vida humana a paz, a harmonia, a estabilidade e a permanência. É isso que transforma a vida pessoal em vida social. É isso que, para conter a maldição da desordem, torna-os servos da civilização. Dentro dos limites dessa disciplina, cria-se uma atmosfera tão tranquila e sublime de amor, paz e sacrifício que uma nova geração pode ser criada e educada com a formação de caráter correto, educação adequada e caráter puro. Mas onde a ideia do casamento e de seu grandioso propósito foi completamente banida do coração do homem e da mulher, onde nenhum outro objetivo além da satisfação do inimigo da paixão encontra lugar na mente nas relações sexuais, e onde grupos de homens e mulheres sedentos de luxúria vagueiam como abelhas, bebendo o mel de flor em flor, aí essa disciplina não pode ser estabelecida nem pode permanecer. Quando o homem e a mulher não possuem a capacidade de carregar o pesado fardo das grandes responsabilidades da vida conjugal, de seus direitos, deveres e princípios morais, o resultado de sua condição mental e moral é que a educação de cada nova geração se torna inferior à da geração anterior. O egoísmo e o arbítrio entre as pessoas aumentam tanto que os laços da civilização começam a se romper. A hesitação das pessoas em mudar de posição e tomar decisões aumenta tanto que não resta estabilidade alguma na política nacional e internacional. Por não haver paz familiar, suas vidas tornam-se cada vez mais amargas, e uma preocupação eterna não lhes permite encontrar paz nem por um momento. Este é o inferno terreno que as pessoas compram na loucura de um desejo insensato de prazer.

Na França, todos os anos, apenas sete ou oito pessoas em cada mil se unem pelo vínculo do casamento. Essa proporção é tão insignificante que, por meio dela, pode-se facilmente imaginar que parte enorme dos habitantes franceses permanece solteira.

Além disso, entre o pequeno número de pessoas que se unem pelo vínculo do casamento, são pouquíssimas as que se casam com o propósito de levar uma vida honesta e pura. Naturalmente, elas tinham outros objetivos além desse único objetivo. Chegava-se até mesmo a considerar uma prática desejável e corrente na sociedade que um homem se casasse com uma mulher que tivesse dado à luz um filho ilegítimo, a fim de declarar legítimo o filho dela. Paul Bureau diz:

Entre a classe trabalhadora da França, era geralmente costumeiro que, antes do casamento, a mulher que pretendia casar-se obtivesse de seu futuro marido a promessa de que ele reconheceria seu filho ilegítimo como seu próprio filho legítimo.

Em 1917, uma mulher prestou o seguinte depoimento no tribunal civil do Sena (Saine):

Antes do casamento, eu havia advertido meu marido sobre isso: o único objetivo do meu casamento era que o filho que eu havia dado à luz quando era solteira fosse declarado legítimo. Agora, a questão é saber se continuarei a viver com ele como marido e mulher. Eu não tinha tal intenção naquela época, nem a tenho agora. Foi por isso que, no próprio dia em que nos casamos, às cinco e meia, divorciei-me do meu marido. Até hoje, não tive relações com ele, pois não tinha intenção alguma de cumprir as responsabilidades da vida conjugal.

—Paul Bureau, obra anteriormente citada, p. 55

O diretor de uma faculdade importante de Paris comentou com Paul Bureau que, em geral, o único objetivo do casamento dos jovens modernos é obter também em sua própria casa os serviços de uma amante. Durante dez ou doze anos, eles andam por toda parte desfrutando livremente dos prazeres. Depois chega um momento em que, cansados e exaustos de tamanha libertinagem e devassidão, acabam casando-se com uma mulher, para que possam obter ao menos um pouco de paz no lar e também desfrutar dos prazeres como um homem independente e amante dos deleites. —Da obra citada.

Na França, o adultério cometido por pessoas casadas não é de modo algum considerado vergonhoso ou condenável. Se alguém mantém em casa uma amante além da esposa, não há necessidade de ocultá-lo. A sociedade também considera isso algo comum e possível.

—Da obra citada, pp. 76–77

Em tais condições, a relação conjugal tornou-se tão frágil que se rompe à menor palavra. Muitas vezes, a vida matrimonial desses desafortunados não dura mais que algumas horas. Como exemplo, pode-se mencionar um homem respeitado da França, que ocupou várias vezes um cargo ministerial e se divorciou de sua esposa apenas cinco horas depois do casamento. O divórcio ocorre por motivos tão insignificantes que, ao ouvi-los, dá vontade de rir. Assim, se um dos cônjuges ronca durante o sono ou se um não gosta do cachorro do outro, a separação torna-se inevitável. Certa vez, no Tribunal Civil do Sena, ocorreram duzentos e noventa e quatro divórcios no mesmo dia. Em 1844, quando foi aprovada a nova lei do casamento, foram realizados quatro mil divórcios. Em 1900, esse número chegou a sete mil e quinhentos; em 1913, a dezesseis mil; e, em 1931, a vinte e um mil.

Extermínio da descendência

A criação dos filhos é uma forma elevada de atividade moral. Para isso, são necessários o controle dos instintos, o abandono da cobiça e dos desejos, a aceitação do sofrimento e do trabalho, e o sacrifício da riqueza e da própria vida. Os egoístas e escravos dos instintos não estão de modo algum preparados para essa grande tarefa. Pois a solidão, o isolamento e a bestialidade tomam conta deles.

Há quase um século vem ocorrendo na França um movimento de controle da natalidade. Como resultado desse movimento, todos os homens e mulheres franceses aprenderam métodos pelos quais podem desfrutar do prazer sexual e, ao mesmo tempo, evitar suas consequências naturais: a concepção, o nascimento de filhos e a multiplicação da descendência. Não há cidade, subúrbio ou aldeia onde medicamentos e instrumentos contraceptivos não sejam vendidos abertamente. Consequentemente, o uso dessas coisas não se limita apenas aos amantes desenfreados do prazer sexual; homens e mulheres casados também as utilizam em grande quantidade e desejam precisamente que o nascimento de um filho não crie qualquer obstáculo à sua satisfação e ao gozo dos prazeres. Observando a proporção em que a taxa de natalidade da França vem diminuindo, os especialistas estimaram que essa ampla epidemia de controle da natalidade impede, a cada ano, o nascimento de pelo menos seiscentas mil crianças. Apesar de todos esses métodos, as concepções que ocorrem são destruídas por meio do aborto. Desse modo, impede-se a vinda ao mundo de mais trezentas ou quatrocentas mil crianças humanas. O aborto não é praticado apenas por mulheres solteiras; as mulheres casadas também são iguais a elas nesse assunto. Do ponto de vista moral, esse ato é considerado acima de qualquer crítica e um direito da mulher. Parece que a lei do país fechou os olhos para esse assunto. Embora ainda esteja registrado nos códigos como crime, o fato é que, entre trezentas pessoas, apenas uma é de algum modo processada por esse delito. E, entre as que são processadas, setenta e cinco por cento são absolvidas pelo tribunal. A técnica médica do aborto é tão simples e tão amplamente conhecida que a maioria das mulheres pode realizá-lo por conta própria. As que não conseguem fazê-lo não têm dificuldade em obter a ajuda de um médico. Matar o feto ou a criança no ventre tornou-se para elas algo tão comum quanto a extração dolorosa de um dente.

Tal mentalidade transformou a natureza materna de tal modo que a mãe, que sempre reconheceu o amor e a ternura como os valores supremos e últimos do mundo, não apenas se tornou avessa e indiferente aos próprios filhos, como também passou a ser sua inimiga. Aos filhos que nascem mesmo depois das tentativas frustradas de provocar o aborto são dispensados tratamentos cruéis. Paul Bureau expressa este fato doloroso nas seguintes palavras:

Todos os dias os jornais divulgam a desgraça daqueles filhos cujos pais os trataram de maneira cruel e desumana. Nos jornais, porém, só são mencionados os casos extraordinários; mas todos sabem muito bem como, em geral, os pais tratam cruelmente esses infelizes hóspedes indesejados. Seus pais ficam tristes e indiferentes para com eles porque esse grupo de desafortunados arruinou completamente os prazeres e a felicidade de suas vidas. Em muitos casos, a falta de coragem impede o aborto, e assim a criança inocente vem ao mundo. Mas, logo após sua chegada, é obrigada a sofrer um castigo completo. -Da mesma obra, p. 74

A aversão e o ódio aos filhos chegaram a tal extremo que, certa vez, quando morreu o bebê de seis meses de uma mulher, ela realizou uma festa de dança e música diante do cadáver do filho morto e disse aos vizinhos:

Agora não permitiremos que nasça um segundo filho. Com a morte desta criança, meu marido e eu alcançamos a mais profunda paz. Pense: o que é uma criança? Ela está sempre chorando e resmungando, fazendo sujeira; e há algum meio de escapar disso? -Da mesma obra, p. 75

Mais doloroso ainda é o fato de que o infanticídio está se espalhando como uma doença contagiosa. O governo francês e os tribunais daquele país continuam ignorando esse crime grave, assim como ignoram o aborto. Pode-se mencionar, por exemplo, que, em 1918, duas mulheres foram levadas ao tribunal de ‘Loir’ acusadas de assassinato de crianças, e ambas foram posteriormente libertadas. Uma delas matou seu filho pequeno afogando-o na água. Seu primeiro filho estava sendo criado por um parente, e ela também manifestou o desejo de criar o segundo. Mas a mãe decidiu que eliminaria de qualquer maneira aquele inimigo. No tribunal, seu crime foi considerado perdoável. A segunda mulher começou estrangulando o próprio filho. Como julgou que isso não havia extinguido completamente sua vida, atirou-o contra a parede e esmagou-lhe a cabeça. Na opinião do juiz e dos jurados, ela não era digna da pena de morte. Nesse mesmo ano, uma dançarina foi levada ao tribunal do Sena por crime semelhante. Ela tentou arrancar a língua do filho; depois esmagou-lhe a cabeça e cortou-lhe a garganta, matando-o. Também esta mulher foi declarada inocente pelo juiz e pelos jurados.

Uma nação que pode chegar a tal extremo na hostilidade contra os próprios descendentes não pode ser salva da destruição por nenhuma boa organização do mundo. O nascimento de uma nova geração é indispensável para manter intacta a continuidade de uma nação. A nação que se torna inimiga de seus próprios descendentes torna-se, na realidade, inimiga de si mesma. Ela continua cometendo suicídio e, mesmo sem ter inimigos externos, vai destruindo por si própria a sua existência. Já foi mencionado que, nos últimos sessenta anos, a taxa de natalidade francesa vem diminuindo continuamente. Em alguns anos, a taxa de mortalidade supera a taxa de natalidade. Em certos anos, ambas permanecem iguais. Em outras ocasiões, a taxa de natalidade aumenta, com grande dificuldade, na proporção de um por mil em relação à taxa de mortalidade. Por outro lado, o número de imigrantes estrangeiros na França continua crescendo dia após dia. Em 1931, entre os 41 milhões e 800 mil habitantes da França, havia 2 milhões e 890 mil estrangeiros imigrantes. Se essa situação continuar, não haverá nada de surpreendente no fato de que, na parte final do século XX, a nação francesa se torne minoria em sua própria pátria.

Este é o resultado final de todas essas teorias e perspectivas, com base nas quais foi conduzido, no início do século XIX, o movimento pelos direitos das mulheres.

 

Mais alguns exemplos

Descrevemos as doutrinas da França e suas consequências apenas para preservar a continuidade dos acontecimentos históricos. Contudo, seria injusto considerar a França a única responsável por esse assunto. Na realidade, a situação dos países que adotaram as chamadas doutrinas e os princípios anteriormente mencionados, incompatíveis com a vida social, é quase sempre semelhante. Tomemos, por exemplo, os Estados Unidos da América, cujo sistema social se encontra plenamente desenvolvido.

A influência sexual do ambiente sobre os jovens

O famoso George Ben Lindsey (Ben Lindsey) foi certa vez presidente do Tribunal Juvenil de Denver (Chairman of the Juvenile Court of Denver), instituído para julgar os delitos dos jovens daquela cidade. Por essa razão, teve a oportunidade de conhecer bem a situação moral da juventude americana. Em seu livro intitulado “Revolt of Modern Youth”, ele escreveu que os meninos e meninas americanos começam a atingir a maturidade antes do tempo determinado. O despertar da inclinação sexual ocorre entre eles em idade muito precoce. Como exemplo, examinou a situação de trezentas e doze meninas e constatou que duzentas e cinquenta delas haviam atingido a maturidade sexual entre os onze e os treze anos, apresentando sinais de tal sede sexual e necessidades físicas que não seria possível encontrar em uma menina de dezoito anos. —Da referida obra, pp. 82–86

A Dra. Edith Hooker (Edith Hooker) escreveu em seu livro intitulado “Laws of Sex”:

Entre as classes distintas, respeitáveis e abastadas, é muito comum que uma menina de sete ou oito anos estabeleça relações amorosas com meninos da mesma idade e, na maioria das vezes, também mantenha relações sexuais com eles.

Ela acrescenta:

Uma menina de sete anos, uma joia preciosa de alguma família, relaciona-se com seu irmão mais velho e alguns amigos. Em outro caso, foi visto um grupo formado por duas meninas e três meninos envolvido em relações sexuais mútuas. Eles também incentivavam outros meninos e meninas da mesma idade a praticar o referido ato. Entre os membros desse grupo, a menina de dez anos era a mais velha de todos. Ainda assim, alcançou a distinção de receber declarações de amor de vários pretendentes. —Da referida obra, p. 328

De acordo com o relatório de um médico de Baltimore, soube-se que, naquela cidade, em um único ano, foram instaurados mais de mil processos sob acusação de manter relações sexuais com meninas menores de doze anos.

— mesma obra, p. 177

Este é o primeiro resultado de um ambiente estimulante, repleto de todos os meios e recursos para despertar o desejo sexual. Um escritor americano diz:

A condição em que passa a vida a maior parte dos nossos habitantes é tão anormal que, já aos dez ou quinze anos de idade, surge entre meninos e meninas o desejo de se apaixonarem uns pelos outros. É natural que as consequências dessa prematura inclinação sexual sejam extremamente graves e terríveis. Pelo menos, o resultado é que as jovens menores de idade fogem de casa com os amigos ou se casam muito cedo. Porém, se fracassam no jogo do amor, acabam cometendo suicídio.

Prática sexual nas escolas

Assim, para os meninos e meninas nos quais se desperta prematuramente a inclinação sexual, as escolas tornam-se o primeiro campo de experimentação. Há dois tipos de escolas. Em um tipo, matriculam-se apenas estudantes do mesmo sexo; no outro, oferece-se educação conjunta para meninos e meninas.

Nas escolas do primeiro tipo, a relação sexual homossexual (Homo Sexuality) e a masturbação (Masturbation) estão se espalhando como uma doença contagiosa. Isso ocorre porque, para satisfazer o tipo de emoções e sentimentos despertados ainda na infância, cuja plena excitação é produzida pelo ambiente circundante, torna-se indispensável adotar algum meio ou outro. O doutor Hooker diz que, nesses centros educacionais, colégios, escolas de treinamento de enfermeiras e instituições de ensino religioso, ocorrem constantemente casos em que duas pessoas do mesmo sexo se envolvem em atividade sexual entre si e não demonstram qualquer interesse pelo sexo oposto. — mesma obra, p. 331

A esse respeito, ele menciona ainda muitos outros casos e diz que meninas se envolveram em atividade sexual com meninas, e meninos com meninos, enfrentando consequências terríveis. Pode-se saber, pela leitura de outras obras, quão rapidamente essa relação sexual homossexual se espalha, como uma doença contagiosa. O Dr. Lowry mencionou em sua obra “Herselt” que, certa vez, o diretor de uma escola informou secretamente, por carta, a quarenta famílias que já não era possível manter seus filhos na escola. Isso porque entre eles se havia criado uma situação terrível de depravação moral. — mesma obra, p. 179

Agora discutiremos o segundo tipo de escola, onde há educação conjunta para meninos e meninas. Aqui, assim como estão presentes os elementos que produzem a excitação sexual, também existem os meios para satisfazê-la. O desejo e a inclinação sexual despertados na infância encontram, depois da entrada nesse tipo de escola, a oportunidade de serem satisfeitos. Meninos e meninas acostumam-se a estudar literatura extremamente vil e obscena. Histórias e romances amorosos, folhetos de suposta arte, obras obscenas que tratam de problemas sexuais e artigos informativos sobre contracepção tornam-se os objetos mais atraentes para os alunos e alunas de escolas e colégios, sob a influência sexual. O renomado escritor americano Hindrich von Loewen diz que a literatura mais procurada nas universidades americanas não passa de um compêndio de toda espécie de impureza, sujeira, obscenidade e desfaçatez. Nunca antes esse tipo de literatura havia sido divulgado entre o público com tamanha liberdade.

Os conhecimentos adquiridos por meio dessa literatura são livremente discutidos pelos jovens de ambos os sexos, que assim se preparam para experimentá-los diretamente. Meninos e meninas, rapazes e moças, saem juntos para festas de pegação e, ali, entregam-se livremente ao álcool e aos cigarros, desfrutando plenamente a vida por meio da dança e da música.* A estimativa do senhor Lindsey é que 45 por cento das alunas do ensino médio já se corromperam antes de deixar a escola.

Nas etapas posteriores da educação, essa proporção é muito maior. O senhor Lindsey afirma que os rapazes do ensino médio estão muito mais atrasados que as moças no que diz respeito à sede sexual. Em geral, são as moças que, de uma forma ou de outra, tomam a iniciativa, enquanto os rapazes dançam conforme suas instruções.

Três principais fatores de incitação

Nas escolas e faculdades ainda existe certo tipo de disciplina, que cria alguma restrição à convivência entre os estudantes. Mas quando esses grupos de jovens de ambos os sexos, com o fogo ardente da fome sexual e uma natureza desenfreada, deixam a escola e ingressam na vida, sua agitação e seus excessos ultrapassam todas as barreiras e limitações. Ali existe um verdadeiro paiol para excitar suas inclinações sexuais, e também se encontram facilmente os meios e recursos para apaziguar essa excitação.

Sobre as diversas causas pelas quais a depravação moral vem alcançando uma propagação extraordinária na América, uma revista norte-americana faz o seguinte comentário:

Existem três forças satânicas, e sua trindade, ao exercer hoje sua influência sobre esta terra, criou um inferno. Essas três forças são:

1. Literatura obscena, que, desde a Primeira Guerra Mundial, vem disseminando a falta de pudor com rapidez surpreendente e em larga escala.

2. O cinema; ele não se limita a incitar tendências amorosas lascivas, mas também lhes oferece instrução prática.

3. O nível moral degradado das mulheres; por causa de suas vestimentas, de sua nudez na maioria das vezes, do hábito cada vez mais frequente de fumar cigarros e da convivência livre com os homens, entre outras coisas, seus vínculos se estreitam até mesmo com desconhecidos.

Essas três coisas estão se disseminando amplamente entre nós. Como resultado, a decadência e, por fim, o desaparecimento da civilização e da organização social cristãs tornar-se-ão inevitáveis. Se ainda não conseguirmos deter seu avanço, então nossa história será escrita de modo semelhante: a mesma idolatria dos instintos e a loucura sexual que lançaram Roma e outras nações no abismo da destruição, juntamente com seu álcool, suas mulheres e suas danças e músicas, lançarão também a nós nesse abismo.

Essas três forças satânicas, que exercem influência sobre a civilização e a organização social, provocam uma agitação eterna nas emoções e nos sentimentos de todos os jovens e moças que possuem sequer uma gota de sangue quente. Na verdade, o excesso de obscenidade é o resultado inevitável de tal agitação.

*. How I can get married, p. 172

O excesso de obscenidade

O número de mulheres na América que adotaram a prostituição como meio de vida permanente situa-se entre aproximadamente quatrocentas e quinhentas mil. * Contudo, não se deve considerar as prostitutas americanas semelhantes às prostitutas deste país. Elas não são prostitutas hereditárias. A prostituta americana é uma mulher que, até ontem, exercia uma profissão independente, perdeu a honra por viver em má companhia e buscou refúgio num bordel. Ela passará algum tempo ali. Depois, abandonará a prostituição e aceitará um emprego num escritório ou numa fábrica. Investigações revelaram que cinquenta por cento das prostitutas americanas entram na prostituição procedentes do grupo das empregadas domésticas (Domestic Servant). Os cinquenta por cento restantes abandonam seus empregos em hospitais, escritórios e lojas e vão para os bordéis. Em geral, esse ofício é iniciado entre os quinze e os vinte anos de idade e, ao chegar aos vinte e cinco ou trinta anos, abandonam novamente o bordel e começam algum negócio independente. **

A partir desta discussão, pode-se compreender facilmente qual é o significado subjacente à existência das quatrocentas ou quinhentas mil prostitutas americanas.

Como foi descrito no capítulo anterior, nos países ocidentais a prostituição transformou-se num negócio internacional bem organizado. Nova York, no continente americano, o Rio de Janeiro e Buenos Aires são centros importantes desse negócio. Cada um dos dois grandes centros de negócios de Nova York possui seu próprio conselho administrativo, cujo presidente e secretário são devidamente eleitos. Cada um conta com um consultor jurídico que atua como advogado em seu nome. Milhares de intermediários são contratados para seduzir e sequestrar mulheres jovens. Eles percorrem todos os lugares em busca de vítimas. Pode-se avaliar a competência desses caçadores por meio do seguinte relato: o presidente da Associação de Imigrantes que chegavam a Chicago certa vez contou o número de chegadas ao longo de quinze meses. Descobriu-se que, durante esse período, foram recebidas cartas de 7.200 meninas que pretendiam ir para Chicago, informando que estavam a caminho. Mas apenas 1.700 chegaram ao destino. Não se encontrou qualquer vestígio das meninas restantes.

Além dos bordéis, há também muitos Assignation Houses e Call Houses. O objetivo é que, se homens e mulheres de posição respeitável desejarem encontrar-se, sejam tomadas no local as devidas providências para eles. Uma investigação revelou que somente em uma cidade há 78 casas desse tipo. Em outras duas cidades, há respectivamente 43 e 33 casas semelhantes.*

Não são apenas homens e mulheres solteiros que frequentam todas essas casas; muitos homens e mulheres casados também as frequentam. Um famoso reformador social comentou: “Um terço dos habitantes de Nova York, em termos de caráter e

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­*.Prostitution in U.S.A., p. 64-69

**.Heself, p. 116

não cumpre as responsabilidades da vida conjugal no aspecto físico. Não há diferença significativa entre a situação de Nova York e a das outras regiões do país.**

Uma associação de reformadores morais da América é denominada ‘Committee of Fourteen’. Em seu nome, são realizadas amplamente investigações de antros de imoralidade, pesquisas sobre a situação moral do país e medidas eficazes para promover a reforma moral. Seus relatórios afirmam que todos os salões de dança, clubes noturnos, salões de beleza [Beauty Saloons], lojas de manicure [Manleure Shops], salas de massagem [Massage Rooms] e salões de cabeleireiro [Hair Dressing saloons] da América frequentemente se transformaram em bordéis. Não seria exagero dizer que alguns são ainda piores do que isso. Pois os atos vis praticados ali são indescritíveis.

Doenças venéreas

As doenças venéreas são a consequência inevitável da promiscuidade sexual. Estima-se que 90% dos habitantes da América estejam afetados por essas doenças. Segundo a Encyclopedia Britannica, nos dispensários públicos daquele país são tratados, em média, todos os anos, 200 mil pacientes com sífilis e 160 mil com gonorreia. Sessenta e cinco dispensários são destinados exclusivamente ao tratamento dessas doenças. Contudo, a afluência de pacientes aos médicos particulares é maior do que aos dispensários públicos. Ali são tratados 61% de pacientes com sífilis (ferida gomosa) e 89% com gonorreia. —Obra citada, vol. 23, p. 45

Todos os anos, de trinta a quarenta mil crianças morrem de sífilis congênita. Entre todas as doenças que causam a morte, excetuando-se as doenças febris graves, a taxa de mortalidade causada pela sífilis é excessivamente alta.

Quanto a essa gonorreia, os especialistas consideram que 60% dos jovens são afetados por essa doença. Entre eles encontram-se tanto casados quanto solteiros.

Os ginecologistas concordam que, entre as mulheres casadas submetidas a cirurgias, são encontrados germes da sífilis em 75% delas.*

*.Prostitution in U.S.A., p. 64-69

**.Heself, p. 116

Talak e separação

Em tais condições, como podem permanecer intactas a disciplina familiar e a relação conjugal? As mulheres independentes que não sentem necessidade de um homem em sua vida, exceto para satisfazer o desejo sexual, e que podem relacionar-se com homens sem se casar consideram o casamento algo desnecessário. A filosofia moderna e a perspectiva materialista apagaram de seu íntimo a ideia de que possa haver alguma falta ou pecado em estabelecer uma relação com outro homem sem o casamento. Esse ambiente também tornou a sociedade tão insensível que ela não considera esse tipo de mulher digno de ódio ou censura. George Lindsay expressou nos seguintes termos a atitude das mulheres americanas em geral:

Por que eu me casaria? Entre minhas companheiras que se casaram nos últimos dois anos, cinco em cada dez tiveram o casamento transformado em divórcio. Creio que toda moça da época atual tem o direito natural de adotar uma conduta independente nos assuntos amorosos. Temos conhecimento suficiente sobre contracepção. Com isso, também foi eliminada nossa preocupação de que o nascimento de um filho ilegítimo pudesse complicar nossa situação atual. Acreditamos que, segundo os métodos modernos, é dever da consciência substituir os costumes e práticas tradicionais.

A única coisa capaz de induzir ao casamento uma mulher desavergonhada com uma mentalidade assim é um intenso amor apaixonado. Mas, na maioria das vezes, esse amor não é sincero; existe apenas sob o efeito de uma excitação passageira. Depois que passa a embriaguez da excitação, já não resta amor entre marido e mulher. Uma pequena incompatibilidade de natureza e de hábitos faz nascer entre ambos o ódio. Por fim, recorrem aos tribunais, requerendo o divórcio ou a separação.

Diz Lindsey:

Em 1922, todo casamento em Denver terminou em separação, e foi apresentado um processo de divórcio para cada dois casamentos. Isso não se limitou apenas a Denver; fenômeno semelhante ocorreu em quase todas as cidades da América. Ele acrescenta: os divórcios e as separações continuam aumentando dia após dia. Se essa situação continuar — e há grandes possibilidades de que isso aconteça —, então, em quase todas as regiões do país, serão apresentados aos tribunais exatamente tantos processos de divórcio quantas forem as licenças concedidas para o casamento.*

Certa vez, foi publicado no jornal ‘Free Press’, de Detroit, um artigo. Reproduzimos abaixo uma parte dele:

*. Laws of sex, p. 204

A escassez de casamentos, a abundância de divórcios e a ampla disseminação de relações sexuais permanentes ou temporárias fora do casamento provam que estamos correndo rapidamente em direção à animalidade. O desejo natural de gerar filhos está desaparecendo; nasce a aversão aos recém-nascidos; apaga-se da mente das pessoas a consciência de que a disciplina familiar e doméstica é indispensável à continuidade da civilização e de um Estado independente. Por outro lado, uma negligência cruel vai se consolidando por meio da civilização e do poder governamental.

Como meio de remediar a disseminação do divórcio e da separação, introduziu-se o Companionate Marriage, isto é, o casamento experimental. Mas essa solução mostrou-se pior do que a própria doença. Casamento experimental significa que, em vez de se unirem no ‘casamento do tipo antigo’, o homem e a mulher viverão juntos por algum tempo. Se, durante essa convivência, houver entre eles harmonia de sentimentos, ambos se unirão pelos laços do matrimônio; caso contrário, separar-se-ão e continuarão a buscar fortuna em outro lugar. Durante o período experimental, deverão abster-se de gerar filhos. Pois, se um filho for gerado, então o vínculo matrimonial entre eles se tornará obrigatoriamente válido como de costume. É isso que na Rússia é chamado de Free Love, isto é, ‘amor livre’.

Suicídio nacional

O culto dos instintos, a aversão ao cumprimento dos deveres conjugais, o desinteresse pela vida familiar e a instabilidade das relações conjugais destruíram muitas vezes a emoção e o afeto maternais naturais da mulher. Na realidade, porém, este é o maior afeto espiritual do sexo feminino, e não apenas a civilização e a cultura, mas também a existência da humanidade dependem da sua existência. Foi justamente da ausência desse afeto que nasceu a paixão satânica pela contracepção, pelo aborto e pelo infanticídio. Apesar dos obstáculos legais, toda jovem mulher na América tem pleno acesso ao conhecimento relacionado à contracepção. Medicamentos e dispositivos contraceptivos são vendidos livremente no mercado. Sem falar nas mulheres comuns, até mesmo as estudantes de escolas e faculdades carregam consigo esses produtos, para que o seu doce “encontro noturno” com o namorado não seja frustrado caso ele, por engano, deixe de trazê-los consigo.

George Lindsay diz:

495 moças do ensino médio confessaram espontaneamente a mim que haviam tido relações sexuais com rapazes. Apenas 25 delas engravidaram. As demais

*. Revolt of Modern Youth. P. 211-214

entre elas, algumas escaparam por sorte. Mas a maioria possuía conhecimento suficiente sobre contracepção. Esse conhecimento havia se tornado para elas algo tão comum que as pessoas nem conseguem imaginá-lo.

As moças solteiras usam esses medicamentos e dispositivos para que nenhum obstáculo seja criado em seu caminho para a liberdade. O objetivo das mulheres casadas ao usá-los é que, se tiverem filhos, não terão apenas de assumir a responsabilidade por sua criação e educação, mas, por causa disso, também ficará bloqueado o caminho para que o marido se divorcie delas. É para evitar todos esses perigos que as mulheres casadas usam medicamentos contraceptivos. Todas as mulheres sentem aversão a tornar-se mães porque, para desfrutar plenamente da vida, é absolutamente desejável libertar-se desse perigo chamado filho. Além disso, o parto também prejudica a sua beleza.*

Qualquer que seja a causa, entre aqueles que estabelecem esse tipo de relação entre homem e mulher, o caminho para o seu desfecho natural é bloqueado por contraceptivos em 95% dos casos. Se, por infortúnio, ocorrer uma gravidez nos 5% restantes, permanece aberto para eles o caminho do feticídio e do infanticídio. George Lindsay diz que, na América, são realizados um milhão e quinhentos mil abortos por ano e que milhares de recém-nascidos são mortos. —Da referida obra, p. 220

A situação na Inglaterra

Não queremos prolongar mais este assunto. Mas não consideramos apropriado encerrar esta discussão sem citar um trecho da obra de George Raleigh Scott intitulada “História da Prostituição” [A History of Prostitution]. O autor é inglês e retratou sua pátria nas seguintes palavras:

Mesmo deixando de lado as mulheres que adotaram a prostituição como único meio de ganhar a vida, existe ainda outra classe de mulheres — e seu número também cresce dia após dia — que recorre a outros meios para obter os artigos necessários à vida e, a fim de ganhar alguns centavos a mais, envolve-se incidentalmente em adultério. Não há diferença alguma entre as prostitutas profissionais e estas. A única diferença é que estas não são chamadas de prostitutas. Podemos, naturalmente, chamá-las de Amateur Prostitutes, isto é, “prostitutas amadoras”.

O número dessas prostitutas lascivas ou amadoras que se vê atualmente jamais foi observado em outra época. Mulheres dessa classe são encontradas em todos os estratos, altos e baixos, da sociedade. Se essas senhoras respeitáveis forem alguma vez chamadas, ainda que por insinuação, de prostitutas, ficam furiosas. Mas

*.Macfeddin, masculinidade e casamento hs.C

A expressão de seu desagrado e de sua cólera não altera em nada o fato real. O fato real é que não há a mínima diferença entre elas e as prostitutas notórias e descaradas de Piccadilly.

…….A conduta imoral e a falta de temor a esse respeito, chegando até mesmo à conduta de prostitutas, tornaram-se uma moda entre as jovens daqui. Fumar cigarros, beber intensamente, pintar os lábios de vermelho, exibir conhecimentos sobre ciência sexual e contracepção, conversar e discutir sobre literatura obscena — tudo isso se tornou uma moda entre elas. …… O número de moças e mulheres que, antes do casamento, estabeleceram sem constrangimento relações sexuais com outros homens continua crescendo dia após dia. As verdadeiras moças virgens, tímidas e recatadas, que antes eram vistas fazendo votos diante do altar de consagração nas igrejas, tornaram-se hoje extremamente raras.

Ao descrever as causas que levaram a situação a esse ponto, o autor diz:

O intenso desejo de se enfeitar havia despertado nas moças uma paixão indomável e, dominadas por ela, ficaram fascinadas pelas roupas caras das novas modas e pelos diversos artigos de embelezamento. Esta é uma das principais causas dessa prostituição contrária aos princípios morais. Todos os dias podem ser vistas nas ruas centenas de milhares de moças e mulheres jovens adornadas com roupas caras e atraentes. Ao observá-las, toda pessoa dotada de consciência dirá que o dinheiro obtido por meios honestos não pode arcar com as despesas de tais trajes. Portanto, não será exagero dizer que são exclusivamente os homens que compram suas roupas.

Tal afirmação era tão exata há cinquenta anos quanto o é hoje; a única diferença, porém, é que, antes, os homens que lhes compravam as roupas talvez fossem seus maridos, pais ou irmãos. Agora, entretanto, são outras pessoas que as compram em lugar deles.

A liberdade feminina também é, em grande medida, responsável por tal situação. Há alguns anos, a supervisão e a proteção dos pais em relação às moças diminuíram tanto que, em consequência disso, as moças se tornaram hoje tão independentes e imprudentes que nem mesmo os rapazes, trinta ou quarenta anos atrás, poderiam ter chegado a esse ponto.

Uma das principais causas da ampla disseminação da licenciosidade sexual na sociedade é que as moças, em número cada vez maior, estão aceitando empregos em estabelecimentos comerciais, escritórios e outros lugares. Nesses locais, têm oportunidade de conviver dia e noite com homens. Isso rebaixou a níveis muito baixos o padrão moral de homens e mulheres. Quando o homem toma a iniciativa e quer fazer algo, a mulher não tem poder para impedi-lo. Assim, desenvolve-se uma relação sexual entre os dois, ultrapassando todos os limites da moralidade. Hoje, a ideia de casamento e de uma vida virtuosa sequer encontra lugar na mente da jovem. O período de prazeres inebriantes que antes apenas os libertinos procuravam é agora desejado por toda jovem. A virgindade e a castidade são hoje consideradas costumes de uma época antiga, e as moças da era moderna veem-nas como um perigo. Segundo elas, a alegria da vida consiste em beber até saciar-se o vinho inebriante e colorido do prazer sexual durante a juventude. É por isso que vagueiam em torno de salões de dança, clubes noturnos, hotéis, bordéis e lugares semelhantes. Na esperança desses prazeres, preparam-se para sair em passeios de prazer de automóvel com homens inteiramente desconhecidos. Em suma, voluntária e conscientemente, lançam-se — e continuam a lançar-se — num ambiente que, por sua própria natureza, acende no coração humano o fogo do desejo. Depois, não sentem qualquer temor diante do inevitável resultado natural disso; pelo contrário, saúdam-no.

A questão decisiva

Diante daqueles que, em nosso país e em outros países, se opõem ao sistema do purdá, encontra-se, na realidade, precisamente esse quadro da vida. As cenas brilhantes de tal vida subjugaram completamente os seus sentidos. Essas perspectivas, esses princípios morais e o lado luminoso dos prazeres materiais e físicos influenciaram suas mentes. Eles detestam o purdá porque a filosofia moral ocidental na qual depositaram sua fé é inteiramente contrária à filosofia moral relacionada ao purdá, e porque o purdá é um obstáculo aos benefícios materiais e aos prazeres que desejam. A questão agora é saber se estão dispostos a aceitar o lado obscuro desse modo de vida, isto é, suas consequências venenosas. A esse respeito, contudo, nem todos concordam.

Há um grupo que está disposto a aceitar todas essas consequências. Na realidade, segundo eles, isso também é o lado luminoso — e não o lado obscuro — da filosofia de vida ocidental.

O segundo grupo considera isso o lado obscuro do quadro e não está disposto a aceitar suas consequências. Entretanto, ficou fascinado por todos os objetos de prazer associados a esse modo de vida.

Há um terceiro grupo que não possui conhecimento para compreender essas perspectivas, nem qualquer percepção de suas consequências. Tampouco está disposto a fazer o esforço de refletir e investigar se existe alguma relação de causa e efeito entre essas perspectivas e suas consequências. Seu dever, segundo pensa, é entregar-se à corrente do rebanho e continuar imitando cegamente a época.

Esses três grupos encontram-se tão misturados que, nas conversas e discussões, torna-se difícil determinar a que grupo pertence aquele que delas participa. Como resultado dessa mistura, o assunto em discussão geralmente se transforma numa completa confusão. Por isso, considero necessário separar cuidadosamente cada grupo e, depois, discutir cada um de acordo com a sua natureza.

O grupo iniciado nos princípios da civilização ocidental

O primeiro grupo abraçou conscientemente aqueles princípios ideológicos e culturais sobre os quais se edificaram a civilização e a cultura ocidentais. Pensa exatamente com a mesma mente com que pensam os artífices sociais da nova Europa e observa os problemas da vida sob a mesma perspectiva. Deseja também tingir a vida cultural de seus próprios países com essa cor ocidental. Seu objetivo supremo para a educação feminina é que as mulheres adquiram a capacidade de ganhar o próprio sustento e, além disso, dominem a arte e as técnicas de conquistar o coração de homens que não sejam seus maridos. Segundo esse grupo, o lugar da mulher na família é ser, tal como o homem, uma pessoa economicamente produtiva e contribuir com a sua parte para o orçamento comum. Na sociedade, sua posição seria acrescentar um elemento de prazer à vida social por meio de sua beleza, seus adornos e seus modos graciosos. Com sua voz de rouxinol, ela despertaria uma agradável emoção no coração. Com sua arte musical, refrescaria os ouvidos. Com sua dança lasciva, faria correr pela alma uma corrente revigorante. Com seus modos de “ao andar, os quadris oscilam e o corpo juvenil treme”, divertiria os filhos de Adão. Os espectadores desfrutariam do espetáculo até fartar os olhos, enquanto correntes elétricas percorreriam suas frias células sanguíneas. Ela se dedicaria ao serviço social, seria membro de municipalidades e conselhos e participaria de conferências, reuniões e associações. Empregaria seu tempo e sua inteligência na solução de problemas políticos, culturais e sociais. Participaria de esportes, diversões e jogos. Bateria recordes na natação, na corrida, nos saltos, no voo e em atividades semelhantes. Segundo esse grupo, não há mais nada que a mulher deva fazer na vida nacional. Em suma, ela fará tudo o que diz respeito ao exterior da casa e não se aproximará nem dos limites mais remotos do que pertence ao interior do lar. Consideram essa vida a vida ideal. Creem que esse é o único caminho para o progresso terreno e que todas as antigas concepções morais que se opõem a esse caminho são sem sentido e equivocadas. Assim como a Europa substituiu os antigos valores morais por novos valores, eles fizeram o mesmo. O progresso material e os prazeres e confortos do corpo são, para eles, os únicos objetivos valiosos e desejáveis. A modéstia, a castidade e a pureza, o caráter moral, as responsabilidades e a fidelidade da vida conjugal, a preservação da linhagem e outros assuntos semelhantes não são apenas desprovidos de valor para eles; são, antes, meras fraudes bárbaras e supersticiosas. Sem extirpar tudo isso pela raiz, não é possível dar sequer um passo rumo ao progresso.

Na realidade, eles são os verdadeiros crentes da religião ocidental. Pelos mesmos meios com que a Europa difundiu suas ideias e sua visão de mundo, eles, tendo abraçado essas ideias, tentam propagá-las amplamente nos países do Oriente.

A nova literatura

Primeiramente, observem a literatura deles, que é uma força especialmente poderosa na formação da mente e do espírito. Por meio dessa chamada literatura (?) [na realidade, má literatura], faz-se todo o esforço para apresentar claramente às futuras gerações uma nova concepção de caráter e arrancar dos átomos e moléculas da mente e do espírito os antigos valores morais, lançando-os para longe. Apresentarei aqui alguns exemplos disso extraídos da literatura urdu.

Numa revista mensal de grande prestígio no campo literário deste país, foi publicada uma história intitulada “A lição de Shirin”. O autor da história era altamente instruído, famoso no meio literário e ocupava um cargo elevado. O resumo da história é o seguinte: uma jovem sentou-se para estudar com seu professor. Durante a aula, apresentou-lhe, para que o discutisse, uma carta de amor de um jovem apaixonado por ela. Ela conhecera esse amigo apaixonado pela primeira vez numa festa do chá. Ali, uma mulher os apresentou um ao outro. Desde aquele dia, começaram a encontrar-se e a trocar cartas. O desejo da jovem era que o professor escrevesse uma resposta àquela carta de amor. O professor tentava afastá-la de todas aquelas tolices e atraí-la para os estudos. Entre a jovem e o professor desenvolveu-se, sobre esse assunto, a seguinte conversa:

Jovem: Eu quero estudar, sim. Mas quero estudar algo que me ajude a realizar a esperança do sonho desperto. Não quero estudar algo que me condene, desde já, a ficar solteirona.

Professor: Está bem, além deste mahatma, você tem algum outro amigo jovem?

Jovem: Sim, tenho alguns. A peculiaridade deste rapaz, porém, é que ele repreende com uma voz muito doce.

Professor: Está bem, diga-me, o que aconteceria se seu pai soubesse do conteúdo desta carta?

Jovem: Ora essa! Por acaso meu pai não escreveu cartas de amor desse tipo na juventude? Ele era um cavalheiro muito elegante. E que haveria de extraordinário se ainda escrevesse? Afinal, ele ainda não ficou velho!

Professor: Há cinquenta anos, era simplesmente inconcebível que alguém escrevesse uma carta de amor desse tipo a uma moça de família nobre.

Jovem: Então, as pessoas daquela época se apaixonavam apenas por pessoas das classes inferiores? Ah! Nesse caso, naquela época os das classes inferiores viviam muito confortavelmente, enquanto os das classes nobres eram bastante perversos.

Nas últimas palavras de Shirin ressoa o tom da filosofia literária do autor do conto.

Shirin diz: As jovens modernas como nós têm uma responsabilidade dupla. É nosso dever recuperar todas as alegrias e diversões que nossos mais velhos perderam e eliminar todos os hábitos de ira e mentira que existem.

Há alguns anos, foi publicada numa outra famosa revista literária uma narrativa não muito longa intitulada «Arrependimento». Eis o seu resumo, em linguagem simples e clara:

Uma jovem solteira de família nobre apaixona-se por um rapaz. Sem o conhecimento dos pais, ela o chama para o seu quarto. Em seguida, como consequência de uma relação sexual ilícita, engravida. Depois, para provar a si mesma a legitimidade de tal ato desprezível e impuro, murmura consigo mesma:

Por que estou tão inquieta? E por que meu coração também palpita assim?… Será que minha consciência me atormenta? Tenho vergonha por causa da minha fraqueza? Mas o acontecimento daquela bela noite de luar foi escrito com letras douradas no livro da minha vida. Considero a lembrança daqueles momentos inebriantes da juventude um valioso tesouro da minha vida. Para recuperar aqueles momentos, não estou acaso pronta a sacrificar tudo?….

Então por que meu coração treme? Será por causa de um pecado? Cometi algum pecado? Não, não cometi pecado algum. Contra quem pequei? Quem foi prejudicado pelo meu pecado? Eu me ofereci. Foi por ele que me ofereci. Ah, se eu pudesse ter me oferecido ainda mais por ele! Não temo o pecado. Mas, sim, temo esta sociedade bruxa. Como é estranho o olhar suspeito e cheio de significado que ela lança sobre mim….

E por que eu deveria ter medo dela? Será então por causa do meu próprio pecado? Mas qual é o meu pecado? O que fiz, acaso nenhuma outra moça da sociedade faria? Ah, naquela noite doce, o toque do néctar dos lábios dele em meus lábios! O estreito abraço! E, no peito perfumado e doce, eu me perdi num êxtase de alegria indescritível; e daí? O que outra pessoa faria? Será que outra mulher o rejeitaria naquele momento?

Pecado? Eu nunca cometi pecado. Nunca me arrependerei. Estou pronta para fazê-lo novamente. .. Castidade? Afinal, o que é a castidade? A santa virgindade ou a pureza do coração? Já não sou virgem. Será que perdi a castidade?

Que a sociedade bruxa, amiga da desordem, faça o que quiser. O que ela pode fazer contra mim? Nada. Por que eu temeria suas zombarias insolentes? E por que teria medo de seus cochichos? Por que empalideceria o meu rosto? E por que esconderia a face por causa de suas ironias e gracejos? Meu coração me diz que agi corretamente. Então por que eu me tornaria uma ladra? Por que não anunciaria, ao som de tambores, que fiz isso e fiz muito bem?

Os novos escritores, apresentando argumentos e provas desse tipo, querem ensinar a todas as moças da era moderna — talvez também às suas próprias irmãs e filhas — esse modo de pensar e essa mentalidade. O ensinamento deles é o seguinte: se, numa noite de luar, for possível a uma jovem mulher receber o abraço de outro homem, deverá então dissolver-se no peito ardente dele. Pois, em tal situação, somente isso é possível. Quando uma mulher se encontrar em semelhante circunstância, não poderá fazer outra coisa senão isso. Isso não é um ato pecaminoso, mas sim sacrifício e oferenda. Com isso, tampouco se diminui a dignidade da castidade. Se alguém renuncia à virgindade com pureza de coração, o que tem a castidade a ver com isso? Isso fica escrito com letras douradas na vida de uma mulher. Sua conduta e seu caráter também deveriam ser tais que todo o livro de sua vida fosse escrito com semelhantes letras douradas.

Resta agora a sociedade. Portanto, se a sociedade lançar acusações contra uma mulher tão casta e virtuosa, deverá chamá-la simplesmente de perturbadora da paz e bruxa. Quem acusa essas moças que se entregam é culpado, ou são culpadas aquelas jovens de famílias nobres que, numa bela noite enluarada, não conseguem resistir ao doce abraço de um peito descoberto? A sociedade opressora que chama um ato tão belo de repulsivo não pode ter direito algum que obrigue as pessoas a respeitá-la e a esconder o rosto, temendo-a, depois de praticarem um ato tão belo. Toda moça deve demonstrar publicamente e com coração destemido essa grandeza moral e, em vez de sentir vergonha, deve envergonhar a própria sociedade.

Tal audácia e atrevimento jamais foram demonstrados nem mesmo pelas prostitutas profissionais. Pois essas desventuradas não possuíam nenhuma filosofia moral capaz de transformar o pecado em virtude e a virtude em pecado. As prostitutas de antigamente certamente perdiam a própria castidade, mas consideravam-se vis e pecadoras. Agora, porém, a nova literatura quer fazer avançar a filha e a nora de cada família muitos passos à frente das prostitutas de outrora. Pois está inventando uma nova filosofia para encobrir as más ações e a obscenidade.

Há ainda outra revista que goza de grande prestígio nos círculos literários de nosso país. Nessa revista foi publicada uma história intitulada ‘O cunhado’. O pai do autor da história conquistou grande respeito na sociedade ao escrever literatura moral de alto nível para as mulheres. Por esse grande trabalho, ele também era estimado pela comunidade feminina. Contudo, em sua história, o próprio filho apresenta de maneira atraente, diante de suas irmãs, o caráter de uma moça que, antes do casamento, sente no corpo e na mente um arrepio de prazer indescritível ao imaginar a plena juventude e o ardor sexual de seu cunhado imaginário. Ainda solteira, sua visão de mundo era tal que ela pensava: ‘A juventude que termina silenciosa e tranquilamente é sinal de inutilidade. Na minha opinião, agitação e exuberância são inevitáveis na juventude, e a atração e a repulsão da beleza e do amor são sua oferenda.’ Com essa visão e essas ideias, quando a moça viu, na cerimônia de casamento, o rosto do marido adornado por uma barba, suas delicadas disposições ficaram envoltas em névoa. Então, de acordo com os desejos que havia imaginado anteriormente, decidiu que se prenderia aos laços amorosos do irmão consanguíneo do marido. A oportunidade surgiu pouco depois. Quando o marido foi à Inglaterra para estudar, o cunhado e a cunhada entregaram-se plenamente ao prazer e ambos cometeram uma extrema traição contra o irmão e o marido. O autor revela essa má conduta pela própria escrita da moça adúltera. Ela envia à amiga solteira, em forma de cartas, o relato de todas as suas atividades. Escreve-lhe em detalhes como, depois de ultrapassarem todas as etapas iniciais, o amor entre o cunhado e a cunhada alcançou seu desfecho máximo. Nada do êxtase do corpo e da mente durante os abraços estreitos e a relação sexual foi deixado sem revelar nas cartas. Resta apenas a representação do próprio ato sexual. Provavelmente, essa lacuna foi deixada com a ideia de que os leitores e leitoras a preencheriam por si mesmos com o pincel da imaginação.

Se compararmos a literatura nova com o exemplo da França anteriormente descrito, ficará claramente evidente que esse último grupo de aventureiros percorreu o mesmo caminho em direção ao mesmo destino. É precisamente para esse sistema de vida que se estão formando as mentes e os pensamentos do ponto de vista da visão de mundo e da moralidade; seu olhar está voltado especialmente para as mulheres, para que nelas não reste sequer o último vestígio de pudor e decoro.

A nova cultura

Na prática, não se encontra apenas esta filosofia moral e este modo de vida; juntamente com eles, também se tornaram atuantes um sistema cultural de cunho capitalista e os princípios fundamentais da democracia ocidental. É isso que essas três forças, agindo em conjunto, estão produzindo: o quadro da vida ocidental que foi construído. A mais vil literatura obscena sobre ciência sexual está sendo escrita e amplamente disseminada entre os estudantes das escolas e colégios. Imagens de nudez e de mulheres sem caráter adornam cada jornal, folheto, casa e loja. Em todos os lares, nos mercados e nas feiras, tocam-se discos de gramofone extremamente obscenos e de mau gosto. Todas as atividades do cinema aumentam a excitação sexual. Na tela branca e luminosa, ele apresenta todas as noites a obscenidade e a falta de pudor de maneira tão atraente que cada menino e menina passa a aceitar a vida dos atores e atrizes como um modelo excelente. Ao assistir a representações que despertam tais desejos e paixões, quando os jovens deixam o palco, ficam procurando, com impaciência e ardor, oportunidades para espalhar por toda parte armadilhas de amor. Tudo isso são diferentes formas das facilidades proporcionadas pelo capitalismo. Graças a este sistema de vida capitalista, nas grandes cidades está surgindo rapidamente uma situação tal que, ali, torna-se indispensável que as mulheres procurem seu próprio sustento. É com o auxílio desse sistema opressor que se iniciou a propaganda, acompanhada de medicamentos e equipamentos.

As bênçãos do moderno sistema democrático chegaram principalmente aos países do Oriente por intermédio da Inglaterra e da França. Ele abriu sobretudo às mulheres o caminho para a atividade política e social.

Em segundo lugar, ele estabeleceu certas instituições nas quais se torna indispensável a livre convivência entre homens e mulheres. Em terceiro lugar, afrouxou de tal modo os vínculos da lei que não somente a expressão do desejo de obscenidade, mas também sua transformação em ato, na maioria das vezes, de modo algum é considerada crime.

Nestas circunstâncias, aqueles que decidiram seguir este caminho da vida com plena autoconfiança sofreram uma revolução quase completa em sua moralidade e sociabilidade. Agora, suas mulheres saem vestidas de tal maneira que, ao vê-las, pode-se tomá-las por atrizes de cinema. A insolência delas chegou a tal extremo que, pela nudez de suas vestes, pela expressão desavergonhada de sua beleza, pelo excesso de seus adornos e por cada gesto gracioso, torna-se evidente que, exceto tornar-se um ímã sexual, essas mulheres não têm qualquer outro objetivo ou propósito. Sua falta de pudor chegou a tal extremo que, para qualquer mulher respeitável dessa classe, não é considerado vergonhoso banhar-se com homens usando traje de banho, tirar fotografias nessa condição e publicá-las nos jornais. Nem sequer se levanta ali a questão da vergonha. Segundo a doutrina moral moderna, todas as partes do corpo humano são iguais. Se é permitido manter descobertas as palmas das mãos e as plantas dos pés, que mal há em deixar descobertas as nádegas e as partes íntimas? Para elas, o gozo dos prazeres da vida — cuja manifestação exterior é chamada, em seu conjunto, de arte — está acima de toda moralidade. Mais que isso, ele é a pedra de toque de seu caráter. Com base nisso, o pai e o irmão enchem o peito de alegria e orgulho quando veem sua filha ou irmã, diante deles, no palco, conquistando os aplausos de centenas de ouvintes e espectadores ávidos por meio de danças, cantos e graciosos gestos amorosos. O sucesso material — cujo segundo nome é objetivo da vida… Segundo elas, nada é mais valioso do que aquelas coisas às quais se renuncia para obtê-lo: se uma mulher se tornou o objeto desejado e adquiriu a capacidade de conquistar a popularidade da sociedade, mesmo que tenha perdido a castidade, não perdeu coisa alguma; pelo contrário, ganhou tudo. Por isso, elas são absolutamente incapazes de compreender por que seria censurável que uma menina estudasse em regime misto na faculdade com rapazes ou que, no auge da juventude, viajasse sozinha à Europa com o propósito de estudar.

Os servilíssimos do Ocidente terão de tomar uma decisão

Depois destes, há outro grupo. No primeiro grupo encontram-se tanto não muçulmanos quanto pessoas que são muçulmanas apenas de nome. Mas o segundo grupo é composto inteiramente de muçulmanos. Hoje se observa entre eles uma estranha combinação de meio-purdah e meio-progresso. Eles não estão nem de um lado nem do outro; são como um grupo vacilante. Por um lado, cultivam uma inclinação islâmica e seguem a pedra de toque apresentada pelo Islã para o caráter, a civilização, a nobreza e os bons modos; desejam adornar suas mulheres com a honra e a castidade e proteger seus lares da impureza moral. Também não estão dispostos a aceitar os resultados que naturalmente decorrem dos princípios fundamentais da cultura e da sociabilidade ocidentais. Mas, por outro lado, esmagando os princípios fundamentais e as leis do sistema social islâmico, mantêm-se parcialmente contidos e parcialmente hesitantes, conduzindo suas esposas, irmãs e filhas justamente pelo caminho da civilização ocidental. Eles alimentam a ilusória ideia de que, combinando os métodos meio ocidentais e meio islâmicos, desfrutarão das vantagens de ambas as civilizações; isto é, que em seus lares o caráter islâmico permanecerá intacto e a disciplina da vida familiar também se manterá. Além disso, sua sociabilidade incluirá não apenas os efeitos nocivos do sistema social ocidental, mas também sua autoilusão, seu hedonismo e suas vantagens materiais. Mas, antes de tudo, não será justo entrelaçar as duas metades de duas civilizações opostas, com ideais e objetivos diferentes. Pois, quando se unem tais elementos incompatíveis, há maior risco de que se reúnam os defeitos de ambas, em vez de suas qualidades.

Portanto, examinemos com esta pedra de toque, por meio de uma verificação e prova, se, na divergência quanto aos valores, estamos no caminho correto ou se sois vós que estais. Trazei as provas e os argumentos da ciência e do conhecimento que possuís; nós apresentaremos os que temos. Depois, observai atentamente, como pessoas instruídas e justas, de que lado está a importância. Se, por este método, demonstrarmos o critério dos valores, então podereis, se quiserdes, aceitar os valores estabelecidos sobre a base do conhecimento puro e da razão, ou seguir os valores adotados pelo mero apego aos instintos. Mas lembrai-vos: se adotardes este segundo caminho, vossa condição se tornará tão lamentável que, em vez de zombardes de nosso modo de agir, sereis vós mesmos motivo de riso.

O segundo grupo

Depois destes, há outro grupo. No primeiro grupo encontram-se tanto não muçulmanos quanto pessoas que são muçulmanas apenas de nome. Mas o segundo grupo é composto inteiramente de muçulmanos. Hoje se observa entre eles uma estranha combinação de meio-purdah e meio-progresso. Eles não estão nem de um lado nem do outro; são como um grupo vacilante. Por um lado, cultivam uma inclinação islâmica e seguem a pedra de toque apresentada pelo Islã para o caráter, a civilização, a nobreza e os bons modos; desejam adornar suas mulheres com a honra e a castidade e proteger seus lares da impureza moral. Também não estão dispostos a aceitar os resultados que naturalmente decorrem dos princípios fundamentais da cultura e da sociabilidade ocidentais. Mas, por outro lado, esmagando os princípios fundamentais e as leis do sistema social islâmico, mantêm-se parcialmente contidos e parcialmente hesitantes, conduzindo suas esposas, irmãs e filhas justamente pelo caminho da civilização ocidental. Eles alimentam a ilusória ideia de que, combinando os métodos meio ocidentais e meio islâmicos, desfrutarão das vantagens de ambas as civilizações; isto é, que em seus lares o caráter islâmico permanecerá intacto e a disciplina da vida familiar também se manterá. Além disso, sua sociabilidade incluirá não apenas os efeitos nocivos do sistema social ocidental, mas também sua autoilusão, seu hedonismo e suas vantagens materiais. Mas, antes de tudo, não será justo entrelaçar as duas metades de duas civilizações opostas, com ideais e objetivos diferentes. Pois, quando se unem tais elementos incompatíveis, há maior risco de que se reúnam os defeitos de ambas, em vez de suas qualidades.

Em segundo lugar, também é irracional e contrário à natureza pensar que, depois de afrouxar uma vez os laços do sólido sistema moral do Islã e depois de as pessoas começarem a sentir prazer em violar a lei, será possível confiná-las dentro de uma linha divisória que não ofereça qualquer risco de dano. A mudança para essas vestimentas seminuas, essa avidez por beleza e adornos, essas reuniões entre amigos como educação inicial para a impavidez e a desvergonha, esse interesse crescente por cinemas, imagens nuas e histórias e peças românticas, essa educação das meninas à maneira ocidental — talvez não consigam desenvolver plenamente todos os seus efeitos, e talvez a geração atual também permaneça a salvo de suas consequências funestas. Mas pensar que, por isso, as gerações futuras também estarão a salvo dessas consequências seria sinal de insensatez. Na cultura e no sistema social, os erros começam justamente por coisas insignificantes. Contudo, esse pequeno desvio cresce de geração em geração e assume uma forma terrível. Os resultados das falsas bases fundamentais sobre as quais foi edificada a forma moderna da organização social na Europa e na América não se manifestaram imediatamente; seu resultado pleno só recentemente, na terceira e na quarta gerações, veio a revelar-se por completo. Portanto, essa combinação dos sistemas ocidental e islâmico e esse progresso parcial não constituem, na realidade, algo permanente e inabalável; sua inclinação natural dirige-se, antes, ao ocidentalismo. Aqueles que seguem esse caminho devem saber que, mesmo que não consigam chegar pessoalmente ao destino da jornada que iniciaram, seus filhos e netos certamente chegarão lá e não irão além.

A questão decisiva

Nessas circunstâncias, antes de avançar, todos devem refletir e investigar profundamente, e resolver a seguinte questão fundamental. Ei-la:

Estais preparados para sofrer todas aquelas consequências do sistema social ocidental que vieram à tona na Europa e na América e que constituem o resultado natural desse mesmo sistema social? É isso que desejais: que também em vossa sociedade se crie um ambiente de excitação e loucura sexual semelhante? Que entre vosso povo se espalhe uma onda semelhante de desvergonha, falta de castidade e obscenidade? Que as doenças venéreas se espalhem em proporções epidêmicas? Que a ordem da família e do lar seja destruída? Que o divórcio, a dissolução do casamento e a separação se tornem amplamente difundidos? Que rapazes e moças se acostumem a relações sexuais livres? Que a procriação seja impedida por meio do controle da natalidade, do aborto, do infanticídio e de práticas semelhantes? Que rapazes e moças destruam sua maior força produtiva e sua saúde por causa de uma promiscuidade sexual excessiva? E que até entre meninos e meninas menores de idade comece a surgir prematuramente a tendência sexual, fazendo com que desde o princípio se estabeleça uma debilidade no desenvolvimento mental e físico?

Se estais dispostos a aceitar tudo isso em troca de ganhos materiais e de desejos sensuais, então segui sem hesitação o caminho da civilização ocidental e, a partir de então, não pronuncieis mais o nome do Islã. Antes de seguir por esse caminho, deveis também declarar que rompestes vossa relação com o Islã, para que depois não possais enganar ninguém em nome do Islã e para que vosso estado humilhante não se torne motivo de vergonha ou culpa para o Islã e os muçulmanos.

Mas, se não estais dispostos a aceitar todas essas consequências, se reconheceis a necessidade de uma cultura grandiosa e pura, na qual possam ser preservados o caráter casto e a dignidade honrosa; na qual o ser humano possa encontrar um ambiente tranquilo para seu desenvolvimento mental, espiritual e material; na qual homens e mulheres, protegidos dos desvios e falhas da excitação mútua, possam cumprir seus deveres culturais de acordo com suas melhores capacidades; na qual a pedra fundamental da cultura, isto é, a família, possa ser firmemente estabelecida; na qual a descendência esteja segura e não haja sequer o risco de mistura entre os povos; na qual a vida familiar do ser humano se torne uma morada de alegria e paz, um campo de educação amistosa para os filhos, e todos os membros da família possam trabalhar conjuntamente, com mútua compaixão — então, para alcançar todos esses grandes objetivos, não vos é permitido voltar-vos para o Ocidente. Pois o Ocidente empreendeu uma marcha em direção completamente oposta, e, do ponto de vista lógico, é impossível chegar ao Oriente marchando para o Ocidente. Se este é verdadeiramente vosso desejo, então deveis adotar o caminho do Islã.

Mas, antes de dar um passo nesse caminho, deveis afastar da mente o desejo por todos aqueles ganhos materiais e prazeres sensuais; também deveis apagar da mente e do coração a visão exterior e a mentalidade autoenganadoras do Ocidente. Deveis igualmente rejeitar todos os princípios fundamentais adotados da cultura e do sistema social ocidentais. O Islã possui seus próprios princípios e objetivos fundamentais. Possui também sua própria perspectiva sociológica eterna. De acordo com as exigências naturais de seus princípios fundamentais, objetivos e perspectiva social, elaborou um sistema social correspondente. Depois, mantém esse sistema social por meio de uma disciplina especial e de rigorosa observância das regras. Ao estabelecer todas essas regras, princípios e disciplina, empregou-se extrema habilidade e deu-se especial atenção à psicologia humana. Pois, sem isso, esse sistema social não pode ficar livre de falhas, desvios e desordem. Ele não é um sistema imaginário como a república de Platão, nem o reino feliz imaginado por Sir Thomas More — a Utopia —, nem o Ram Rajya; é, antes, um sistema que passou pela prova de fogo de mil e quatrocentos anos. Durante todo esse longo período, em nenhum país ou entre nenhum povo se viu manifestar-se, sob sua influência, sequer um décimo daqueles males que vieram à luz na civilização ocidental em apenas um século. Se desejais beneficiar-vos desse sistema social sólido e bem planejado, deveis seguir integralmente sua disciplina, suas regras e seus princípios. Além disso, não tendes direito algum de inserir nele qualquer método contrário à natureza desse sistema social, seja inventado por vós mesmos, seja aprendido de outros, já obsoleto e condenado.

Como o terceiro grupo é composto por alguns tolos desprovidos de consciência e discernimento, que não têm capacidade para julgar e chegar a uma decisão correta, eles merecem ser ignorados. Portanto, é preferível avançar sem discutir sobre eles.

 

Leis naturais

A natureza criou o ser humano, tal como todos os demais seres vivos, dividido em duas categorias: homem e mulher; e ambos possuem uma atração natural recíproca. Contudo, sabe-se, por meio do estudo dos outros seres vivos, que o propósito de sua divisão em machos e fêmeas e da atração natural existente entre eles é unicamente assegurar a perpetuação de sua espécie. É por isso que neles o sentimento de atração — em outras palavras, o desejo sexual — foi concedido apenas na medida necessária à reprodução e, portanto, à perpetuação da espécie. Em sua natureza existe uma força de controle que não lhes permite ultrapassar determinados limites nas questões sexuais. No ser humano, ao contrário, o desejo sexual é ilimitado e irreprimível, e muito mais intenso do que nos demais seres vivos. Sua atividade sexual não sofre qualquer restrição de tempo ou estação. Não existe em sua natureza nenhuma força capaz de mantê-lo confinado a uma determinada linha-limite. Há, tanto no homem quanto na mulher, um desejo sexual recíproco e permanente. Neles existem elementos inesgotáveis de atração mútua e desejo sexual. Em seu íntimo há um enorme anseio de desejo e amor. Sua constituição física, a beleza do corpo, o encanto, o sentido do tato e cada um de seus membros despertam um sentimento de desejo pelo sexo oposto. Em sua voz, em seu modo de andar, na beleza de seus membros, em seus gestos graciosos e assim por diante, há plenamente uma força de atração. Além disso, a natureza que os circunda foi preenchida com incontáveis elementos que despertam seu desejo sexual e os fazem apaixonar-se uns pelos outros. A brisa suave, o murmúrio dos rios, a encantadora verdura sobre a terra, o perfume das flores, o canto dos pássaros, o ribombar das nuvens, a beleza e o esplendor da noite enluarada — em suma, cada visão da beleza natural e cada beleza do mundo criado, direta ou indiretamente, desperta o desejo sexual humano.

Depois, ao examinar e analisar a estrutura física humana, pode-se perceber que a grande reserva de energia existente nela é uma combinação de força vital, força de trabalho e energia sexual. No corpo existem algumas glândulas endócrinas que, ao secretarem o fluido vital [Hormônio] em determinados órgãos, os excitam e estimulam.* Essas glândulas endócrinas produzem no ser humano capacidade de trabalho, eficiência, inteligência e outras qualidades. Além disso, essas glândulas despertam nele o desejo sexual e fazem surgir impulsos emocionais que estimulam a capacidade sexual. Para o surgimento desses impulsos e sentimentos, elas fornecem beleza, encanto, elegância e diversos recursos de adornos e enfeites. Em seguida, também criam em seus olhos, ouvidos, sentido do olfato, sentido do tato e poder de imaginação a capacidade de se sentirem atraídos por todos esses adornos e enfeites.

*No interior do corpo humano existem várias glândulas endócrinas. O fluido secretado por essas glândulas endócrinas é chamado de Hormônio. Os hormônios excitam e estimulam determinados órgãos e membros do corpo. No homem e na mulher existem as nove glândulas endócrinas a seguir:

Pineal, hipófise, tireoide e paratireoide, timo, pâncreas, suprarrenal, ovário, placenta.

Todas as mencionadas acima existem no corpo feminino, enquanto no masculino existem apenas algumas delas. — Tradutor

Essa mesma eficiência funcional da natureza também pode ser observada no conjunto das forças mentais humanas. Entre as forças estimulantes existentes em sua mente, há dois grandes desejos. O primeiro o impele a assegurar a própria existência e a cuidar de si mesmo. O segundo o obriga a estabelecer uma relação com o sexo oposto. Na juventude, quando a capacidade de trabalho do ser humano alcança seu pleno desenvolvimento, esse segundo desejo se torna tão forte que muitas vezes ele reprime o primeiro. Sob sua influência, o ser humano fica tão profundamente afetado que não hesita em sacrificar a própria vida e, voluntária e conscientemente, lançar-se à destruição.

A influência da atração sexual na formação da civilização

Para que serve tudo isso? Será apenas para assegurar a continuidade da existência da espécie — isto é, para a reprodução? De modo algum. Pois, para manter a existência da raça humana, não é necessária uma reprodução tão grande quanto a necessária aos peixes, às cabras e aos demais animais. Sendo assim, qual poderá ser a razão de a natureza ter criado no ser humano, mais do que em todas as outras criaturas, uma sexualidade e uma atração sexual mais intensas, e de ter criado, para isso, a maior quantidade de elementos estimulantes? Será então que tudo isso existe simplesmente para o deleite e o prazer do ser humano? Também não. A natureza não apresentou, em nenhum âmbito, o prazer como a única meta e finalidade da vida. Para levar o ser humano e os demais seres vivos à realização de algum propósito grandioso, ela apresentou o deleite e o prazer sexual como uma espécie de fruição, para que cada um pudesse realizar essa atividade como se ela fosse de sua própria escolha. Agora, reflita e veja que grandioso propósito a natureza tem diante de si nesse assunto. Por mais que se reflita e pesquise sobre isso, não se pode encontrar outra razão senão esta: a natureza deseja criar uma civilização tomando somente a raça humana, excluídos os demais animais.

Por isso, foi criado no coração humano um desejo tão intenso de paixão e amor que não exige apenas união física e procriação; exige, antes, a obtenção de uma companhia eterna, o estabelecimento de uma ligação íntima e de uma relação espiritual.

Por isso, foi concedido ao ser humano um sentimento sexual em maior medida do que a capacidade de união sexual. Se apenas um décimo do desejo e da atração sexual existentes nele fosse empregado na procriação, sua saúde seria destruída. Sua força física se esgotaria antes que alcançasse a idade natural da maturidade. O excesso de atração sexual existente no ser humano não tem por finalidade fazê-lo praticar mais atividades sexuais do que todos os animais e aves; sua única finalidade é unir a mulher e o homem e tornar duradoura e firme a relação entre ambos.

É por essa razão que, na natureza feminina, juntamente com a atração e o desejo, encontram-se a modéstia e o recato, uma relutância aparente na atividade sexual, certa disposição para fugir e uma inclinação natural para resistir. Isso existe, em maior ou menor grau, em toda mulher. Essa disposição para fugir e essa relutância aparente também podem ser observadas nas fêmeas dos animais. Porém, na mulher humana, sua força e intensidade são maiores. Isso foi ainda mais reforçado pelos sentimentos de modéstia e recato. Assim, pode-se compreender que a finalidade do magnetismo sexual no ser humano não é outra senão uma união duradoura. Isso não significa que todo desejo sexual necessariamente culminará apenas na atividade sexual.

Por essa razão, o filho humano foi criado mais fraco e indefeso do que todos os filhotes dos animais. Em comparação com os animais, a criança humana depende dos pais, durante vários anos, para sua segurança e criação. Ela adquire muito mais tarde a capacidade de se manter sobre os próprios pés e tornar-se autossuficiente. O propósito subjacente disso também é que a relação entre a mulher e o homem não se limite a uma relação puramente sexual; ao contrário, como consequência dessa relação, eles sejam obrigados a unir-se e a cooperar.

No coração humano foi derramada, em relação aos filhos, uma afeição e ternura maiores do que entre os demais animais. Os animais e as aves cuidam de suas crias por um período muito curto e depois as abandonam. A partir daí, não resta entre eles qualquer relação. Chegam até mesmo a não se reconhecer uns aos outros. O ser humano, porém, continua apegado ao afeto e à ternura por seus filhos mesmo depois de passado o período inicial de sua criação. Essa ternura continua através dos filhos e dos netos. A natureza animal egoísta do ser humano é tão influenciada por essa ternura, amor e afeição que ele deseja para seus filhos mais do que deseja para si próprio. Surge em seu coração uma aspiração tão elevada que ele procura proporcionar aos filhos a vida mais confortável possível. Ele deixa para eles o fruto de seu próprio trabalho e esforço. A finalidade da natureza pode ser transformar, mediante a criação desse intenso amor e afeição, a relação sexual entre o homem e a mulher numa união duradoura. Essa união e ligação permanentes são tornadas auxiliares da formação da família. Em seguida, a continuidade dos laços de afeto próprios da raça une muitas outras famílias por meio do casamento. Assim, pela combinação do amor e dos seres amados, estabelece-se entre eles uma organização de ajuda mútua, cooperação e intercâmbio. Desse modo, passa a existir uma relação social e civilizacional.

 

O problema fundamental da civilização

Por isso, compreendeu-se que o único propósito do desejo sexual derramado nos átomos e partículas do corpo humano e na alma interior, para cujo devido auxílio foram amplamente reunidos, em todos os níveis da criação, elementos e objetos estimulantes, é atrair o ser humano do individual para o coletivo. A natureza criou esse desejo precisamente como a verdadeira força estimulante da civilização humana. Como resultado desse desejo e dessa atração sexual, estabelece-se uma ligação entre os dois sexos da raça humana, e essa relação de ligação dá início à vida social.

Após a verificação e a análise, tornou-se evidente que o problema das relações entre homens e mulheres é, na realidade, um problema fundamental da civilização. Do seu solucionamento dependem o bem-estar e a corrupção, o progresso e o declínio, a firmeza e a fraqueza da civilização. Nesta parte da raça humana existe uma relação animalesca, que, em outras palavras, é chamada de meramente sexual e diretamente lasciva. Ela não tem outro objetivo além da preservação da existência da raça ou da procriação. A segunda relação é humana. Seu objetivo é que, por meio da força conjunta de ambos, cada um ajude e coopere com o outro, de acordo com suas próprias capacidades e aptidões naturais, para alcançar um objetivo comum. Para esse auxílio, o amor sexual entre eles atua como meio de conexão e cooperação. Esses elementos animalescos e humanos, juntos e ao mesmo tempo, conduzem por meio dele as atividades civilizacionais e reúnem indivíduos adicionais para manter tais atividades. O bem ou o mal da civilização depende de que se mantenha ou não plena harmonia e equilíbrio na combinação dos dois tipos de elementos.

Elementos indispensáveis para a formação de uma civilização pura e santa

Agora, após examinar e analisar este problema, precisamos compreender como pode ser possível, para uma civilização pura e virtuosa, a combinação natural e a perfeita harmonia das relações animalescas e humanas entre homens e mulheres. Além disso, precisamos compreender também por quais falhas e desvios na obtenção dessa harmonia uma civilização se torna desordenada.

1. Moderação no desejo sexual

A questão mais importante e primordial é como manter sob controle esse desejo e essa atração sexual. Foi mencionado acima que esse desejo existe nos seres humanos em maior medida do que nos demais animais. Não é apenas no interior do corpo humano que a força dos estímulos sexuais é intensa; por toda a vastidão do mundo exterior também estão espalhados inúmeros elementos excitantes. A própria natureza acumulou esses elementos em quantidade tão grande que, se o ser humano, com atenção, adotasse meios de ampliá-los e aperfeiçoá-los por sua capacidade inventiva, e adotasse uma civilização na qual sua sede sexual continuasse a aumentar e, depois, permanecesse procurando maneiras fáceis de saciá-la, então, nessa situação, ela inevitavelmente ultrapassaria os limites desejáveis. O elemento animalesco do ser humano venceria o elemento humano, e esse demônio animalesco devoraria tanto sua humanidade quanto sua civilização.

A natureza criou de modo agradável cada aspecto do início da relação sexual e de seus elementos excitantes. Porém, já foi indicado anteriormente que a natureza utilizou esse tipo de prazer apenas para seu próprio objetivo, isto é, para a formação da civilização. Se esse prazer exceder os limites e o ser humano ficar absorto nele, não somente destruirá a civilização, como também poderá, está e esteve muitas vezes no passado, tornar-se causa da destruição do próprio ser humano.

Examinem as instruções e a história dos povos que foram destruídos. A loucura sexual havia ultrapassado os limites entre eles. Sua literatura estava repleta de textos desse tipo, destinados à excitação. Suas ideias, histórias, poemas, imagens, estátuas, templos, casas e tudo o mais constituem provas evidentes disso. Observem também a situação dos povos que atualmente caminham para a destruição. Por mais que chamem sua loucura sexual de arte, literatura de fruição, apreciação da beleza ou qualquer outro nome belo e inocente, a verdadeira realidade não muda por meio de alterações na explicação. Não significa isso que, na sociedade, as mulheres anseiam pela companhia dos homens mais do que pela das mulheres, e os homens pela companhia das mulheres mais do que pela dos homens? Por que cresce entre homens e mulheres o desejo de cultivar a beleza e de se enfeitar? O que poderia explicar que, na sociedade mista de mulheres e homens, o corpo da mulher seja despido? Que coisa é essa pela qual a mulher expõe cada membro do seu corpo diante do público, enquanto da parte dos homens se ergue a exigência: “Queremos mais, queremos mais”? Qual é o significado de que imagens nuas, estátuas nuas e danças nuas sejam as mais apreciadas? Será por isso que, enquanto não se puder saborear o romance e o amor no cinema, e enquanto nele não tiver início a relação sexual nas palavras e nas ações, não se encontra nele prazer algum? Todas essas cenas e muitas outras semelhantes existem por causa da loucura sexual; se não, por causa de quê? Qual poderia ser, além da destruição, o resultado de uma civilização na qual se cria um ambiente sexualmente excitante e desproporcional como esse?

Em tal ambiente, como resultado inevitável da intensidade do desejo sexual, da excitação contínua e da atividade sexual constante, os descendentes se enfraquecem, suas forças físicas e mentais se debilitam, sua capacidade de pensar se dispersa e se desorganiza, a obscenidade aumenta, as doenças sexuais se espalham e começam movimentos a favor da contracepção, do aborto e do assassinato de fetos e parturientes.*

Homens e mulheres passam a envolver-se em relações sexuais como animais. A natureza concedeu-lhes um desejo sexual maior que o dos outros seres vivos, mas eles o utilizam para fins contrários ao propósito pretendido pela natureza, fazendo com que a sua bestialidade ultrapasse a de todos os animais. Até os macacos e os bodes ficam humilhados diante deles. Não há dúvida de que uma tão intensa propensão animal destruirá o tahdhib-tamaddun humano e até a humanidade inteira. Aqueles que nela se deixarem mergulhar sofrerão uma degradação moral que os fará descer a tal ponto que não restará qualquer esperança de que voltem a erguer-se.

1.Diz um médico: “O início da puberdade provoca muitas mudanças importantes. Nessa fase, ocorre uma transformação revolucionária nas funções da mente e do corpo, que se desenvolvem e se manifestam em todos os aspectos. Nesse período, são necessárias todas as forças para suportar essas mudanças e alcançar tal desenvolvimento e manifestação. Por isso, a resistência do ser humano às doenças é então muito reduzida. O longo período necessário para o desenvolvimento e a manifestação física geral, para o aperfeiçoamento e crescimento dos órgãos e membros e para as transformações mentais e físicas, após o qual o ser humano passa da infância à juventude, causa fadiga ao corpo humano. Isso ocorre porque, nesse período, o corpo humano se encontra empenhado num esforço extremo. Nessas condições, não seria razoável impor-lhe uma carga anormal; especialmente a atividade sexual e a excitação sexual seriam fatais para ele.”

Outro famoso psicólogo e sociólogo alemão diz: “Como os órgãos sexuais provocam uma sensação extraordinária de prazer extremo, satisfação e excitação emocional, estão sempre prontos a consumir também uma grande parte de nossas forças mentais. Se conseguirem assumir o predomínio, manterão o ser humano absorto no prazer pessoal, em vez de dedicado ao serviço da civilização. Por uma pequena falta de cautela, desequilibrarão a vida sexual humana e, em vez de benéfica, tornarão essa vida prejudicial. A prevenção desse perigo deveria ser o grande objetivo da educação.”

Do mesmo modo, o mesmo resultado ocorrerá numa civilização que adote uma extrema privação em lugar das necessidades naturais. Assim como é prejudicial ultrapassar os limites na satisfação do desejo sexual, também é prejudicial reprimi-lo excessivamente. O sistema civilizacional que pretende transformar o ser humano em celibatário e renunciante ao mundo luta contra a natureza. Mas a natureza nunca é derrotada por seu adversário; ao contrário, ela o reduz a pedaços. É absolutamente verdade que nenhuma civilização pode ser construída sobre a base do verdadeiro ascetismo. Na realidade, ele é contrário à formação do tahdhib-tamaddun. Naturalmente, ao firmar a doutrina ascética na mente, pode-se criar no sistema civilizacional um ambiente de abstinência no qual as relações sexuais sejam consideradas algo desprezível, repugnante e vulgar. Abster-se delas será considerado um padrão de caráter. Mas reprimir o desejo sexual significa reprimir a humanidade. Ele não será reprimido isoladamente; serão reprimidos juntamente o talento, a força de trabalho, a inteligência, o ímpeto e a coragem, a determinação e o heroísmo do ser humano. Como resultado dessa repressão, toda a força humana ficará paralisada. As suas células sanguíneas ficarão frias e coaguladas, e ele não terá qualquer capacidade de estimulá-las. Isso porque essa energia sexual é a mais poderosa força de estímulo do ser humano.

Portanto, o dever primordial de uma civilização virtuosa e justa será proteger o desejo sexual tanto do excesso quanto da extrema privação, conduzi-lo a uma condição intermediária de perfeito equilíbrio e regulá-lo rigorosamente por meio de normas e princípios adequados. A organização da vida social deve ser tal que, por um lado, elimine todas as excitações e estímulos anormais que o ser humano produz por meio de seus desejos e de sua inclinação ao prazer. Por outro lado, deve manter abertos todos os meios desejados pela natureza para acalmar e satisfazer a excitação natural.

2. Estabelecimento da base familiar

Surge naturalmente agora, no recanto da mente, a pergunta: qual é a vontade da natureza? Fomos acaso mantidos nas trevas a esse respeito, para que, de olhos fechados, ajamos como quisermos e chamemos isso de desejo da natureza? Ou, ao refletirmos e investigarmos os sinais da natureza, não poderemos conhecer a sua intenção? É provável que muitos sustentem justamente a primeira opinião. Por isso, sem prestar atenção aos sinais da natureza, quando algo acontece, afirmam arbitrariamente que isso é a intenção da natureza. Mas, quando um investigador sai em busca dos fatos, depois de avançar apenas alguns passos, parece-lhe que a natureza aponta claramente o dedo para a sua intenção.

É sabido que, assim como os outros animais, ao criar o ser humano como macho e fêmea e infundir atração sexual entre ambos, o propósito primordial da natureza é a procriação. Mas, em relação ao ser humano, o propósito primordial da natureza é a procriação. Porém, em relação ao ser humano, essa não é a única exigência da natureza; ao contrário, a natureza espera do ser humano algo mais além disso. Com uma reflexão e investigação moderadas, podemos saber qual é essa exigência e de que tipo ela é.

A primeira coisa que chama nossa atenção é que, ao contrário de todos os outros animais, somente a criança humana exige mais tempo, trabalho e atenção para sua manutenção e criação. Mesmo que a consideremos simplesmente um ser vivo independente, ainda assim vemos que se passam vários anos até que ela possa satisfazer suas necessidades biológicas, isto é, adquirir a capacidade de obter alimento e de se proteger. Durante os dois ou três primeiros anos, ela permanece tão indefesa que não consegue sobreviver sem os cuidados constantes da mãe.

Fica evidente que, qualquer que seja o estágio inicial de barbárie em que o ser humano se encontre, ele não é um simples animal. Algum nível de civilização torna-se indispensável à sua vida. Além disso, por causa dessa civilização, somam-se às exigências naturais da criação dos filhos outras duas exigências. Primeiro, todos os meios e recursos civilizacionais que o responsável pela criação puder obter deverão ser empregados na criação dos filhos. Segundo, a criança deverá ser educada de tal modo que possa preparar-se para desempenhar as funções do ambiente civilizacional em que nasceu e ocupar o lugar das gerações anteriores. Assim, quanto mais a civilização progredir, mais pesadas se tornarão essas duas exigências. De um lado, aumentará a necessidade dos meios indispensáveis à criação dos filhos e dos bens essenciais; de outro, a civilização não apenas exigirá, para sua própria existência, trabalhadores adequadamente educados e instruídos, conforme sua dignidade, mas também desejará, para seu desenvolvimento e progresso contínuo, que as gerações futuras sejam melhores que as presentes; em outras palavras, cada responsável pela criação de uma criança deverá esforçar-se para formá-la melhor do que ele próprio. Isso é um sacrifício extremo, que impele o ser humano a sacrificar seus interesses pessoais.

Tudo isso constitui uma exigência da natureza humana. A primeira porta-voz dessas exigências é a mulher. Depois de desfrutar por algum tempo da companhia da mulher, o homem pode libertar-se para sempre de sua responsabilidade. Mas a consequência natural dessa união é suportada pela mulher ano após ano, até mesmo por toda a vida. Desde a concepção, ela tem de suportar por pelo menos cinco anos as consequências dessa união. Mas, se for necessário atender plenamente às exigências da civilização, isso significa que a mulher que desfrutou, por um breve momento, do prazer da união com o homem terá de carregar sua pesada responsabilidade durante longos quinze anos. Surge então a pergunta: como pode apenas uma das partes avançar para assumir uma responsabilidade conjunta? Enquanto a mulher não estiver livre do temor de ser traída por seu parceiro, enquanto não estiver tranquila quanto à criação de seus filhos e enquanto não for dispensada de prover os bens necessários à sua própria vida, como poderá estar disposta a assumir uma responsabilidade tão pesada? Para a mulher que não tem tutor nem protetor, a concepção nada mais é que um acidente, um perigo — um perigo terrível. É perfeitamente natural que deseje livrar-se dele. Caso contrário, como poderia acolher uma concepção desse tipo?

Se se reconhece a necessidade de preservar a existência da humanidade e de estabelecer e desenvolver a civilização, então é indispensável que, quando o homem impõe algum pesado fardo à mulher, também se torne seu parceiro para carregá-lo. Mas como se pode levar o homem a consentir nessa participação? Ao refletirmos sobre a determinação inevitável da natureza para a preservação da existência da espécie, vemos que, nessa questão, o homem cumpre em um instante, por meio da relação sexual, tudo o que lhe cabe fazer. Depois disso, o pesado fardo permanece sozinho sobre a mulher e de modo algum se aplica ao homem. Mesmo considerando a atração sexual, vê-se que ela não obriga o homem a permanecer unido àquela mulher. Se quiser, o homem pode abandonar uma mulher e estabelecer uma relação com outra. Assim, pode continuar lançando sua semente em todos os campos. Portanto, se todas essas ações forem deixadas à sua vontade, não haverá razão alguma para que ele esteja disposto a assumir voluntariamente o fardo que vem depois. Nessas circunstâncias, haverá algo que o obrigue a gastar seu trabalho e seus ganhos com aquela mulher e com o filho que ela carrega no ventre? Por que haveria de continuar afeiçoado àquela mulher grávida, em vez de a uma jovem bela? Por que haveria de sustentar às suas próprias custas, sem necessidade, um inútil pedaço de carne? Depois, por que haveria de perder o sono com os gritos do recém-nascido? Por que haveria de sofrer prejuízo por causa desse pequeno demônio, que quebra tudo o que encontra, suja a casa inteira e não quer obedecer a nenhuma proibição ou restrição?

A natureza ofereceu por si mesma uma solução parcial para esse problema. Criou na mulher beleza, doçura, poder de cativar e capacidade de sacrificar-se e dedicar-se por amor e afeição. Com o uso dessas armas, ela pode vencer o egoísmo e a arbitrariedade do homem e subjugá-lo. Além disso, a natureza criou também na criança humana um poder tão extraordinário de cativar que, apesar de seu caráter doloroso, destrutivo e travesso, ela mantém os pais presos aos laços do carinho e do afeto. Mas somente isso não basta para obrigar o ser humano a suportar, ano após ano, perdas, sofrimentos e sacrifícios no cumprimento de seus deveres morais e civilizacionais. É preciso lembrar que Satanás, seu eterno inimigo, está sempre ligado ao ser humano. Ele tenta constantemente desviá-lo do caminho natural. Em sua bolsa de enganos, possui argumentos, provas e tentações inesgotáveis para desviar do caminho os habitantes de todas as nações, em todas as épocas.

É uma força fundamental da religião que ela inspira homens e mulheres a sacrificarem-se e dedicarem-se pela nação e pela civilização. Ela prepara o animal humano, cego de egoísmo, para o sacrifício. Somente os profetas enviados por Allah, conhecendo corretamente a vontade da natureza, propuseram o casamento como o meio adequado para a relação sexual entre homem e mulher e para a cooperação civilizacional. Foi por meio do ensinamento e da orientação deles que o casamento se difundiu entre todos os povos de toda a Terra. Foi sobre a base moral pregada por eles que se desenvolveu entre os seres humanos uma capacidade espiritual de ação tal que eles conseguem suportar sofrimento, dificuldades e perdas por sua causa. Caso contrário, na realidade, quem poderia ser maior inimigo dos filhos do que os próprios pais? As normas sociais estabelecidas pelos profetas lançaram os fundamentos da organização familiar, cujo firme punho obriga meninos e meninas a assumirem relações tão responsáveis e esse tipo de trabalho conjunto. Caso contrário, as exigências animalescas da juventude são tão fortes que, sem alguma disciplina externa, somente o senso de responsabilidade moral não consegue impedi-la da libertinagem sexual. A atração sexual é, por sua própria natureza, antissocial [anti-social]. Ela gera inclinação ao egoísmo, à arbitrariedade e à anarquia. Nela não há estabilidade nem senso de responsabilidade. Ela apenas produz estímulo para o prazer e a fruição momentâneos. Subjugar esse demônio e fazê-lo servir a uma vida social que exige paciência, tolerância, trabalho, abnegação, senso de responsabilidade e organização familiar não é fácil. É precisamente a organização familiar que introduz esse demônio numa pequena garrafa e lhe toma a agência [agency] do pecado e da devassidão. Depois, nomeia-o agente dessa cooperação contínua entre homem e mulher e desse trabalho conjunto, indispensáveis à construção da vida. Sem isso, a vida civilizacional humana chegaria ao fim; o ser humano viveria como um animal e, por fim, a humanidade desapareceria da face da Terra.

Portanto, para libertar o desejo sexual da arbitrariedade e do excesso e satisfazer sua exigência natural, o único caminho que a própria natureza deseja ver aberto é que haja uma união permanente entre homem e mulher por meio do casamento, e que, por meio dessa união, se estabeleçam os fundamentos da organização familiar. Assim como são necessários equipamentos para operar uma fábrica enorme e abrangente como a civilização, esses equipamentos são produzidos nesta pequena oficina [fábrica] que é a família. Assim que meninos e meninas entram na juventude, os administradores da oficina pensam em uma organização conjugal tão adequada quanto possível, para que, da união conjugal deles, possam nascer descendentes melhores. Depois, cada trabalhador dessa oficina se esforçará, com plena sinceridade, para formar da melhor maneira possível os descendentes que nascerem deles. Desde o primeiro momento em que inicia sua vida no campo de trabalho do mundo, o filho recém-nascido entra, dentro dos limites da família, num ambiente de amor, cuidado, proteção e educação, como se recebesse a ‘água da vida’ [elixir da vida] necessária ao seu desenvolvimento. Na realidade, somente dentro da família o filho encontra a companhia de duas pessoas que não apenas o amam, mas também nutrem no coração o desejo de que ele alcance uma posição mais elevada do que aquela em que nasceu. Somente os pais desejam ver seu filho, em todos os aspectos, melhor, mais feliz e mais próspero no mundo. Desse modo, involuntária e inconscientemente, eles tentam tornar a geração futura melhor do que a geração presente. Não há o menor vestígio de egoísmo nesse esforço. Eles nada desejam para si mesmos; desejam apenas o bem de seus filhos e encontram a recompensa de seu trabalho em vê-los levar uma vida plena e bem-sucedida. Onde se encontrarão, nesta fábrica familiar, trabalhadores tão dedicados e servidores tão altruístas, que não apenas prestem trabalho gratuito pelo bem da humanidade, mas também possam gastar em seu serviço todo o seu tempo, paz, força, capacidade e tudo o que obtiveram com seu trabalho? Quem mais existe que esteja disposto a sacrificar, por esse trabalho, cada coisa valiosa que possui, embora outro desfrute de seu resultado? Quem encontra a recompensa de seu trabalho em formar, para os outros, excelentes trabalhadores e servos? Poderá haver, na humanidade, aspiração mais pura e nobre do que esta?

A cada ano, para a existência da humanidade, para a continuidade da civilização humana e para seu progresso, são necessários muitos milhões de casais desse tipo, capazes de dedicar-se voluntária e alegremente à responsabilidade desse nobre serviço e, unidos pelo vínculo matrimonial, estabelecer os fundamentos de um campo de trabalho como esse. A grande fábrica que funciona no mundo só pode operar dessa maneira: voluntários desse tipo devem ser formados continuamente e devem recrutar pessoas para fazê-la funcionar. Se não houver novas admissões e, por essa razão natural, os antigos trabalhadores se tornarem incapazes para o trabalho, o número de trabalhadores diminuirá gradualmente. Um dia, essa entidade formadora ficará paralisada. O dever daqueles que operam essa máquina da civilização não é apenas continuar a fazê-la funcionar durante a própria vida; é também seu dever tentar reunir pessoas que os substituam.

Visto por esse ângulo, o casamento não é apenas um meio legítimo de apaziguar a atração sexual; é também um dever social indispensável. A sociedade tem um direito natural sobre o indivíduo, e nunca se pode conceder ao indivíduo o direito de reservar para si a decisão de casar-se ou não. Aqueles que se recusarem a casar sem uma razão razoável não são apenas parasitas da sociedade, mas também traidores e saqueadores. Toda pessoa nascida no mundo, desde o primeiro suspiro de sua vida até entrar na juventude, desfruta de todas as riquezas inesgotáveis que as gerações anteriores acumularam. É graças às instituições fundadas por elas que ela tem a oportunidade de viver, ser criada e desenvolvida e contribuir para o florescimento da humanidade. Durante esse período, ela apenas recebe e nada oferece. A sociedade gasta seus recursos e seu tempo para aperfeiçoar suas forças incompletas, na esperança de que, quando adquirir a capacidade de oferecer algo por si mesma, certamente o fará. Agora, se ao atingir a maturidade ela reivindicar sua liberdade individual e sua arbitrariedade, dizendo que satisfará apenas seus próprios impulsos, mas não cumprirá as responsabilidades e os deveres relacionados a esses impulsos, então estará traindo e enganando a sociedade. Cada momento de sua vida deverá ser considerado injustiça e iniquidade. Se houver sequer um pouco de consciência na sociedade, em vez de considerar esse criminoso um cavalheiro, uma dama ou uma pessoa honrada, ela o considerará um ladrão, bandido e fraudador. Quer tenhamos querido ou não, tornamo-nos herdeiros de todas as riquezas que nossos predecessores deixaram para nós. Como podemos agora ter a liberdade de decidir se cumpriremos ou não a vontade da lei natural pela qual recebemos essa herança? Criaremos ou não descendentes futuros que sejam herdeiros de semelhante riqueza da humanidade? Formaremos ou não um segundo grupo para administrar essas riquezas da mesma maneira como fomos formados?

3. Erradicação da devassidão sexual

Juntamente com o estabelecimento do casamento e da base familiar, é igualmente necessário fechar todos os caminhos para a satisfação dos desejos sexuais fora das muralhas da fortaleza matrimonial. Pois, se isso não for feito, a vontade da natureza, em nome da qual ela exige o casamento e o estabelecimento da base familiar, não poderá ser cumprida.

Assim como na jahiliyyah antiga, também na era da jahiliyyah atual a maioria das pessoas considera o adultério um ato natural. Segundo elas, o casamento é apenas algo artificial e supérfluo, uma mera invenção da civilização. Sua concepção é a de que, assim como a natureza criou um bode para cada cabra e um cão para cada cadela, também criou um homem para cada mulher. Portanto, a lei da natureza seria que, quando houvesse desejo e oportunidade, e quando homem e mulher consentissem mutuamente, ocorreria entre eles uma relação sexual tal como ocorre entre os animais! Mas, na realidade, isso é uma interpretação completamente equivocada da natureza humana. Elas consideraram o ser humano simplesmente um animal. Assim, sempre que usam a palavra “natureza”, por meio dela entendem a natureza animalesca, em vez da natureza humana. A relação sexual promíscua que chamam de “natural” pode até ser natural para os animais, mas não é natural para o ser humano! Ela não apenas é contrária à natureza humana, mas, considerando-se suas consequências finais, também é contrária à natureza animal que está inerente no ser humano. Isso porque, no ser humano, humanidade e animalidade não são duas coisas distintas. Na realidade, pela combinação de ambas dentro de uma mesma entidade, forma-se uma única personalidade, e as necessidades de ambas estão tão intimamente ligadas entre si que, quando uma é negligenciada, a outra se destrói por si mesma.

Aparentemente, pode parecer que o adultério satisfaz as necessidades da natureza animalesca. Pois o objetivo da procriação e da preservação da existência da humanidade é alcançado unicamente por meio da relação sexual, quer ela ocorra dentro do casamento, quer fora dele. Contudo, se lançarmos uma vez o olhar sobre o que descrevemos anteriormente, saberemos que esse ato, assim como frustra o objetivo da natureza humana, também frustra o objetivo da natureza animalesca. A natureza humana exige que a relação sexual seja sólida e duradoura, para que os pais possam criar juntos os filhos e para que, durante um período adequado, o homem possa assumir plena responsabilidade não apenas pelo filho, mas também pela mãe do filho. Se o homem não adquirir a convicção de que o filho é seu descendente, de modo algum fará sacrifícios e suportará dificuldades para criá-lo, nem aceitará que esse filho seja seu herdeiro. Do mesmo modo, se a mulher não adquirir a convicção de que o homem que a engravida está disposto a assumir a responsabilidade pela criação dela e de seu filho, também não consentirá em assumir o risco da gravidez. Se os pais não cooperarem na criação do filho, sua educação, formação moral, estado mental e situação econômica não poderão alcançar o nível que lhe permita tornar-se um trabalhador útil à civilização humana. Tudo isso constitui as exigências da natureza humana. Quando, pisoteando todas essas exigências, homem e mulher estabelecem uma relação temporária, como simples animais, então também negligenciam as exigências ou necessidades da natureza animal [isto é, a geração de filhos e a multiplicação da descendência]. Pois, nesse momento, não têm nem podem ter qualquer preocupação com a geração de filhos e a multiplicação da descendência. Nesse momento, a relação ocorre somente pelo desejo de prazer sexual entre eles. Isso é completamente contrário à vontade da natureza.

Os próprios porta-estandartes da era da jahiliyyah moderna padecem dessa fraqueza. Por isso, apresentam outro argumento e dizem: se duas pessoas da sociedade se unem e passam alguns momentos desfrutando de prazer, que dano isso causa à sociedade para que ela intervenha? Se uma parte usar força contra a outra, ou recorrer a fraude e engano, ou provocar algum perigo ou perturbação social, então, naturalmente, a sociedade tem o direito de intervir. Mas, quando nada disso ocorre e se trata apenas do desfrute do prazer por duas pessoas, que direito tem a sociedade de impedir o que fazem? Se, dessa maneira, houver intervenção nos assuntos privados [Private affairs] das pessoas, então a liberdade individual se torna sem sentido.

Essa concepção de liberdade individual é uma forma particular de ignorância dos séculos XVIII e XIX, que desaparece assim que surgem os primeiros raios do conhecimento e da busca da verdade. Após uma breve reflexão e investigação, as pessoas podem compreender que o tipo de liberdade reivindicado para o indivíduo não tem lugar na vida social. Para aqueles que desejam esse tipo de liberdade, seria melhor ir para as florestas e selvas e viver como os animais. A sociedade humana é, na realidade, uma rede de amor e relações, com a qual a vida de cada ser humano está intimamente ligada à de incontáveis outros seres humanos. Cada um influencia os demais, assim como é influenciado por eles. Onde existem relações mútuas desse tipo, nenhuma ação pode ser considerada inteiramente privada e individual. Não se pode sequer conceber uma ação pessoal que não exerça qualquer influência sobre a sociedade como um todo. Muito menos as ações dos membros do corpo: não há desejo algum oculto no recanto da mente que não atue sobre nossa existência e, depois de nela se refletir, também sobre os outros. As consequências de cada ação de nossa mente e de nosso corpo se deslocam de nós e alcançam distâncias tão remotas que ultrapassam nosso conhecimento. Nessas circunstâncias, como se pode dizer que o uso, por determinada pessoa, de suas próprias capacidades não influencia ninguém além dela mesma? Portanto, ninguém mais teria nada a fazer a esse respeito, e seria correto conceder plena liberdade à referida pessoa nessa questão? Se não tenho liberdade para mover na direção que quiser o pedaço de madeira que está em minha mão, para conduzir minhas duas pernas como quiser e ir para onde desejar, para dirigir meu veículo como bem entender e para acumular lixo em minha casa conforme minha vontade, e se é desejável que essas e inúmeras outras atividades pessoais estejam submetidas às regras e leis sociais, então por que apenas meu ato sexual teria adquirido uma posição tão especial que não deveria ser submetido a nenhuma regra ou norma social, e por que me deveria ser concedida uma liberdade tão completa que eu pudesse utilizá-lo como bem entendesse?

Dizer que a relação sexual mantida por um homem e uma mulher em segredo, num lugar isolado e sem que ninguém saiba, não tem qualquer efeito na vida social é apenas conversa infantil. Na realidade, as ações de qualquer pessoa que tenha uma relação direta com uma sociedade não afetam somente essa sociedade, mas toda a humanidade. Não afetam apenas as pessoas do presente; as gerações futuras também sofrem suas consequências. Ninguém pode, em circunstância alguma, permanecer separado e protegido num lugar seguro, livre dos laços das normas sociais e sociológicas que prendem toda a humanidade. Assim como está ligado à vida social quando se encontra em campo aberto, nos mercados, nas ruas ou em assembleias, também permanece ligado à vida social quando está protegido dentro de aposentos fechados e entre paredes. Quando, em segredo, desperdiça sua capacidade de gerar filhos num prazer passageiro, irrefletido e sensual, está, na realidade, espalhando desregramento na vida social, violando os direitos da nação e causando inúmeros danos morais, materiais e civilizacionais à sociedade. Em benefício próprio, ataca as instituições sociais pelas quais foi beneficiado como parte da sociedade e, para garantir a continuidade de sua existência, recusa-se a cumprir suas próprias responsabilidades. A sociedade estabeleceu instituições que vão da municipalidade ao Estado, das instituições educacionais às forças armadas, das fábricas e indústrias aos laboratórios de pesquisa científica, baseando-se unicamente na confiança de que cada pessoa beneficiada por elas participará necessariamente de sua manutenção e cumprirá a parte que lhe cabe. Mas, quando aquele infiel gastou sua potência sexual de tal modo que já não lhe restou qualquer desejo de gerar filhos, perpetuar a linhagem e assumir a responsabilidade de criá-los, destruiu de um só golpe os alicerces de todo esse sistema. Rompeu o contrato social ao qual estava ligado como ser humano. Em vez de cumprir sua responsabilidade, lançou-a sobre os ombros dos outros. Não pode ser uma pessoa honrada: é um ladrão, um fraudador e um usurpador dos bens alheios. Mostrar-lhe benevolência significa cometer injustiça contra toda a humanidade.

Depois de compreender a posição de uma pessoa na vida social, pode-se afirmar sem dúvida que a espécie de força concedida à nossa mente e ao nosso corpo não está depositada conosco para benefício de um indivíduo em particular, mas como um depósito confiado a nós em benefício de toda a humanidade. Teremos de prestar contas à humanidade por cada uma de nossas forças. Se desperdiçarmos nossa própria vida ou qualquer de nossas forças, ou se causarmos dano a nós mesmos por meio de nossas más ações, o verdadeiro resultado de nosso ato não será simplesmente termos desperdiçado ou danificado aquilo que possuíamos. Na realidade, isso será considerado como apropriação indevida daquilo que nos fora confiado como depósito em favor de toda a humanidade, prejudicando-a por meio disso. Nossa existência na Terra testemunha que só foi possível entrarmos neste mundo porque outros suportaram sofrimentos e responsabilidades e fizeram chegar até nós o fluxo luminoso da vida. Depois disso, a organização do Estado garantiu a segurança de nossa vida. O serviço de saúde empenhou-se em preservar nossa saúde. O esforço conjunto de milhões e milhões de pessoas providenciou os bens necessários à nossa vida cotidiana. Todas as instituições, em conjunto, nos forneceram força e capacidade, procuraram educar-nos e elevaram-nos à posição que ocupamos atualmente. Será essa a retribuição por tudo isso? Será justo destruirmos inutilmente, ou tornarmos prejudicial em vez de benéfica, a vida e a capacidade para cuja criação, manutenção e desenvolvimento outros contribuíram tanto? É por isso que o suicídio foi proibido. É por isso que o maior sábio e filósofo do mundo, o Profeta (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele), declarou amaldiçoado aquele que se masturba. (*********) Hadith sobre a maldição daquele que se masturba. É por isso também que a homossexualidade, isto é, a prática perversa do povo de Lot, foi considerada um crime abominável. É por isso que o adultério, mesmo quando tratado como entretenimento pessoal, não é um momento de prazer inofensivo, mas uma forma de injustiça contra toda a nação.

Pensando profundamente, veremos quantas injustiças sociais estão intimamente ligadas ao ato do adultério. Por exemplo:

1. Em primeiro lugar, o adúltero corre o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis. Desse modo, não prejudica apenas sua força diária, necessária às atividades de interesse público, mas também a sociedade e seus descendentes. Todos os médicos concordam que, no caso da gonorreia, a ferida que ela provoca no canal urinário é incurável na maioria dos casos. Um médico afirmou que, uma vez contraída a gonorreia, ela nunca mais é curada. Como consequência, órgãos como o fígado, a bexiga e os canais urinário e intestinal são frequentemente afetados. Ela também causa gota e outras doenças. Há ainda o risco de provocar esterilidade permanente. Além disso, torna-se contagiosa para outras pessoas. Considere então outra consequência terrível: a sífilis, ou ferida sifilítica. É amplamente sabido que ela envenena toda a constituição física. Seu efeito tóxico se espalha por cada órgão e membro, da cabeça aos pés. Ela não apenas destrói a força física da pessoa enferma, mas os germes da doença também se transmitem, por diversos meios, de uma pessoa para incontáveis outras. Os filhos inocentes do doente continuam sofrendo, de geração em geração, as consequências disso. Como consequência natural, o filho do pai imoral — que considerava alguns momentos de prazer sexual o objeto mais desejável de sua vida — nasce cego, mudo, surdo ou insano.

2. Nem todo adúltero necessariamente contrai uma doença sexualmente transmissível. Mas não lhe é possível escapar da fraqueza moral certamente associada ao ato do adultério. Despudor, fraude, falsas más intenções, egoísmo, servidão aos impulsos, incapacidade de dominar as inclinações perversas, pensamentos desonestos, disposição para desfrutar do prazer do ato sexual, inconstância e desconfiança são alguns dos efeitos morais nocivos do adultério que se refletem profundamente na mente do adúltero. O mal causado pela fraqueza de quem cultiva esses defeitos não se limita apenas ao ato sexual; pelo contrário, partindo dessa pessoa, ele se espalha pela sociedade em todos os aspectos da vida. Se esses defeitos se disseminarem entre a maioria das pessoas da sociedade, colocarão em perigo e paralisarão tudo: as artes, a literatura, o entretenimento, os esportes, as ciências e os negócios, a sociabilidade, a economia, a política, os tribunais, a organização militar, a administração do país e assim por diante. Particularmente num sistema democrático, é inevitável que as características morais de cada indivíduo se reflitam na vida de toda a nação. Como poderá haver estabilidade na política de uma nação cuja maioria não possui firmeza nem constância e cujas pessoas, em sua maioria, estão privadas de qualidades como lealdade, sacrifício e autocontrole?

3. Ao mesmo tempo que se concede lugar legítimo ao adultério, torna-se também necessário manter em vigor a prostituição na sociedade. Quem afirma que um jovem tem direito ao prazer reconhece, ao mesmo tempo, que a sociedade precisa de certo número de mulheres que levem, sob todos os aspectos, uma vida extremamente baixa e degradante. A questão agora é: de onde virão todas essas mulheres? Elas serão, necessariamente, membros da própria sociedade. Serão filhas ou irmãs de alguma pessoa da sociedade. Milhões de mulheres que poderiam ter sido as atrizes de seus próprios lares, fundadoras de suas próprias famílias e responsáveis por muitas crianças terão de ser expulsas da sociedade e instaladas em mercados e bazares, para que estes se transformem, à semelhança dos urinóis municipais, em lugares destinados à defecação dos homens de natureza libertina. Assim, poderão ser despojadas de todas as características próprias da dignidade feminina e ensinadas a vender sua beleza e juventude. Além disso, deverão ser preparadas de tal modo que possam vender, a cada momento, seu amor, corpo, espírito, beleza e maneiras graciosas a novos compradores, tornando-se, em vez de prestar qualquer serviço produtivo, brinquedos destinados por toda a vida à satisfação da luxúria alheia.

4. Quando o adultério é aceito como legítimo, as normas civilizadas do casamento são destruídas. Como consequência, em vez do casamento, resta em toda a sociedade apenas o adultério. A primeira questão a esse respeito é que homens e mulheres inclinados ao adultério raramente possuem capacidade para viver uma vida conjugal harmoniosa. Isso ocorre porque, por esse método, desenvolvem-se a má-fé, o complexo de inferioridade, a lascívia e a natureza desenfreada; nessas pessoas nascem a instabilidade dos desejos e paixões e a fraqueza para reprimir as más inclinações. Isso destrói pela raiz todas as qualidades necessárias a uma vida conjugal bem-sucedida. Mesmo que se unam pelo vínculo matrimonial, jamais se fortalecerão entre eles o tratamento afetuoso, a união, a confiança mútua e a relação de carinho e cordialidade que podem resultar na geração de bons filhos e na formação de uma família alegre. Além disso, onde o caminho do adultério é facilitado, torna-se, na prática, absolutamente impossível manter em vigor o princípio civilizado do casamento. Pois aqueles que tiverem a oportunidade de satisfazer suas más inclinações em vez de assumir responsabilidades terão alguma necessidade de tomar sobre os próprios ombros pesadas responsabilidades?

5. Foi demonstrado que a legalização e a disseminação do adultério não apenas arrancam pela raiz a civilização, mas também cortam pela raiz a própria linhagem humana. Como resultado das relações sexuais livres, nenhum homem ou mulher deseja, nem pode desejar, fazer algo pela permanência e pela força da raça humana.

6. Quando, por meio do adultério, se obtém um filho para a sociedade e para a raça humana, ele é necessariamente um filho ilegítimo. A distinção entre filhos legítimos e ilegítimos dentro da linhagem não é fruto de mera sensibilidade emocional — embora alguns tolos assim pensem —; na realidade, sob muitos aspectos, gerar um filho ilegítimo é cometer uma cruel injustiça contra o próprio filho e contra toda a civilização humana. Em primeiro lugar, o filho é concebido quando os pais estão dominados por um instinto bestial. O sentimento humano sagrado que surge durante a relação sexual entre um casal casado jamais é possível durante uma união sexual ilícita. É apenas uma excitação sexual bestial que une os dois, e, nesse momento, eles permanecem afastados de todas as características humanas. Nem a mãe nem o pai estão preparados para dar as boas-vindas a tal filho ilegítimo. Ele não é algo desejado; ao contrário, para os pais, é um peso ou um perigo indesejado. É privado do carinho, da afeição, da ajuda e da compaixão do pai. Seu destino é receber apenas a criação unilateral da mãe, e mesmo isso com descontentamento e com um entusiasmo e uma dedicação desprovidos de sinceridade. É privado do carinho e da criação por parte dos avós paternos e maternos, dos tios paternos, dos tios maternos e dos demais parentes próximos da família. Tal filho, por natureza, cresce em todas as circunstâncias como um ser humano defeituoso e incompleto. Seu caráter jamais pode ser formado adequadamente, nem seus talentos podem desenvolver-se. Não consegue obter os meios e recursos para o progresso e a eficiência. Ele próprio será incompleto e defeituoso, sem recursos, sem amigos, sem apoio ou amparo e oprimido; e, nessas condições, jamais poderá ser tão útil à formação da civilização quanto poderia ser como filho legítimo.

Os defensores das relações sexuais ilícitas dizem que deveria existir um sistema estatal para a criação e a educação dos filhos. Os pais gerariam o filho por meio de relações sexuais livres e o entregariam à responsabilidade do Estado para que fosse criado e educado de modo a tornar-se apto a servir à civilização. O objetivo de sua proposta é preservar, por meio dela, a liberdade e a individualidade de homens e mulheres. Além disso, o desejo de gerar e criar filhos que existe por trás do instinto sexual também seria satisfeito sem o casamento. Mas é espantoso que proponham, para as gerações atuais, um sistema de educação e criação governamental de tal natureza que, como resultado, não haverá qualquer meio de desenvolver a individualidade e aperfeiçoar a personalidade. No método em que milhões de crianças serão formadas simultaneamente segundo o mesmo ideal, as mesmas regras e o mesmo molde, jamais será possível o florescimento de suas personalidades individuais. No máximo, criar-se-á entre elas uma igualdade artificial, moldando-as todas da mesma maneira. As crianças sairão dessa fábrica com personalidades do mesmo tipo, assim como as peças de ferro saem de uma grande fábrica moldadas no mesmo molde. É algo digno de reflexão quão baixa e repugnante é a concepção que esses tolos têm do ser humano! Eles querem moldar os filhos humanos como os sapatos da Companhia Bata. Ignoram que formar a personalidade de uma criança é uma arte extremamente sutil (art). Essa arte só pode ser realizada numa pequena galeria, onde o olhar de cada pintor esteja fixado em um único quadro. Numa fábrica em que trabalhadores contratados produzem milhões de quadros do mesmo tipo, em vez de desenvolver-se uma arte sutil como a criação dos filhos, ela será destruída.

Depois disso, no campo da educação nacional, será necessário contar com um corpo de funcionários que assuma, em nome da sociedade, a responsabilidade pela criação dos filhos. É evidente que só poderão ser adequados para esse trabalho aqueles que conseguem controlar sua própria emotividade e suas más inclinações e nos quais se observa contenção e autocontrole moral. Caso contrário, como poderiam criar contenção e autocontrole nas crianças? A questão agora é: de onde serão importadas pessoas desse tipo? Eles querem estabelecer o sistema nacional de educação precisamente para deixar homens e mulheres sem rédeas, a fim de que satisfaçam suas más inclinações. Assim, quando a capacidade de contenção, autocontrole e repressão das inclinações tiver sido destruída desde o início na sociedade, onde se encontrará, numa aldeia de cegos, alguém que enxergue para ensinar a nova geração a seguir o caminho?

7. A vida da mulher que um homem egoísta torna mãe de um filho por meio do adultério fica destruída para sempre. A humilhação e o desprezo por parte do povo, juntamente com uma montanha de adversidades, desabam sobre ela de tal modo que permanece esmagada por isso durante toda a vida. O ideal moral moderno propõe a seguinte solução: toda forma de maternidade deve ser considerada igual, quer essa maternidade resulte do casamento, quer de qualquer outro meio. Diz-se que, em todas as circunstâncias, a maternidade é digna de respeito. Diz-se também que, por ingenuidade ou por negligência, tratar como amaldiçoada e desonrada a mulher que assumiu a responsabilidade da maternidade constitui, por parte da sociedade, uma enorme injustiça contra ela. Mas, a esse respeito, a primeira coisa a dizer é que, por maiores que sejam as vantagens disso para a mulher adúltera, para a sociedade como um todo isso constitui uma enorme calamidade. O desprezo e a humilhação com que a sociedade naturalmente olha para um filho ilegítimo são, por um lado, um grande obstáculo ao pecado e às más ações de homens e mulheres e, por outro, um sinal especial de que o sentimento moral permanece desperto na sociedade. Se a mãe de um filho legítimo e a mãe de um filho ilegítimo receberem a mesma honra, isso significará que da sociedade foram eliminadas as distinções entre bem e mal, entre o bom e o mau, e entre pecado e virtude. A segunda coisa é esta: mesmo que isso aconteça — isto é, mesmo que a mãe de um filho legítimo e a mãe de um filho ilegítimo sejam revestidas da mesma honra —, será que isso resolverá as dificuldades que a mãe de um filho ilegítimo terá de enfrentar? Ainda que os defensores da nova visão considerem iguais as duas mães, a natureza jamais as considerará iguais e, na realidade, elas nunca poderão receber a mesma honra. A igualdade entre elas é contrária à razão, à consciência, à lógica, à justiça e à verdade. Como poderia a mulher tola que, dominada pela excitação momentânea do impulso sexual, submeteu o próprio corpo a um homem egoísta que não está disposto a assumir qualquer responsabilidade por ela e pelo filho ser igual à mulher sensata que conteve os impulsos e sentimentos da sua juventude até encontrar um homem nobre e responsável para tomar como marido? Que razão ou consciência consideraria essas duas mulheres iguais? Pode-se fazer uma demonstração de que ambas são iguais; mas de onde obterá a adúltera tola o sustento, a proteção, o tratamento compassivo, o amor, o olhar afetuoso, os bons votos, a paz e a serenidade que uma mulher casada recebe? De que mercado se poderá importar, para o seu filho ilegítimo, o carinho do pai e o afeto amoroso da família paterna? Quando muito, poderá ser-lhe concedida assistência financeira por força da lei! Mas será que, no mundo, uma mãe e um filho necessitam apenas de dinheiro? Portanto, é verdade que, ainda que a concessão de direitos iguais à maternidade legítima e à ilegítima proporcione algum consolo exterior aos pecadores, ela não poderá protegê-los das consequências venenosas da sua insensatez, nem proteger os filhos ilegítimos do prejuízo natural que lhes é imposto pelo nascimento.

Pelas razões acima mencionadas, para a fundação e o florescimento da vida social, é absolutamente indispensável que a propagação das relações sexuais na sociedade seja totalmente interrompida e que se mantenha aberto um único caminho para apaziguar e satisfazer os impulsos da juventude. Esse caminho é o da vida conjugal. Dar a homens e mulheres liberdade para o adultério não significa apenas conceder-lhes uma indulgência injusta e cometer uma injustiça contra a sociedade; significa assassiná-la. A sociedade que considera esse assunto insignificante, deseja ignorar o adultério como se fosse simplesmente um momento de prazer (Having a good time) e pretende mostrar tolerância para com a semeadura desenfreada (Sowing wild oats) é, na realidade, uma sociedade ignorante. Ela não está consciente dos próprios direitos. Ela mesma age contra os seus interesses. Se estivesse consciente dos seus direitos e pudesse compreender o efeito venenoso que a liberdade individual produz sobre o interesse social no âmbito das relações sexuais, consideraria isso tal como considera o furto, o roubo, o homicídio e outros crimes; na verdade, considerá-lo-ia ainda mais grave do que o furto e o roubo. O ladrão, o assaltante e o homicida, no máximo, prejudicam uma pessoa ou algumas pessoas, mas o adúltero saqueia a sociedade inteira e as gerações futuras. Ao mesmo tempo, rouba os bens de milhões e milhões de seres humanos. A extensão do seu crime é muito mais ampla e de alcance muito mais longo do que a de outros crimes. Quando é universalmente reconhecido que, se alguém interferir nos direitos de outro para satisfazer o próprio interesse, é apropriado empregar a força da lei, com o auxílio da sociedade, contra ele, e quando, com base nisso, o furto, o homicídio, a pilhagem, a fraude e outros meios de usurpar os bens alheios são considerados crimes e têm o seu caminho bloqueado por meio de punições, então não há razão alguma para que a lei do país, como protetora da sociedade, não declare o adultério um crime punível.

Também do ponto de vista dos princípios, é evidente que o casamento e o adultério não podem, ao mesmo tempo, fazer parte de um mesmo sistema social. Se for permitido a uma pessoa satisfazer o impulso sexual sem casamento, então será sem sentido manter, para outra pessoa e para o mesmo ato, a instituição das regras matrimoniais. O exemplo é exatamente como declarar legal viajar de trem sem bilhete e, ao mesmo tempo, manter em funcionamento a venda de bilhetes. Nenhuma pessoa dotada de consciência pode aceitar ambos os sistemas simultaneamente. A medida lógica seria abolir por completo o costume da venda de bilhetes. Mas, se for necessário mantê-lo, então viajar sem bilhete deverá ser declarado crime. Do mesmo modo, aplicar simultaneamente o casamento e o adultério é injusto e incoerente. Se o sistema matrimonial for considerado necessário para a civilização — como já foi demonstrado anteriormente por meio de argumentos —, então será absolutamente necessário declarar o adultério um crime.*

É uma característica claramente manifesta da ignorância que só se percebam as consequências das coisas quando são muito limitadas e se tornam visíveis em pouco tempo. Mas aquilo cujas consequências, por serem amplas e de longo alcance, não podem ser percebidas e cujos resultados só aparecem tardiamente não recebe importância alguma — não se presta atenção alguma a isso. É essa a razão pela qual se dá importância ao furto, ao roubo e ao homicídio, entre outros crimes, mas nenhuma importância ao adultério. Nem mesmo uma sociedade bárbara considera digno de perdão aquele que mantém ratos portadores da peste em sua casa ou espalha uma doença contagiosa, porque o seu ato parece manifestamente prejudicial. Contudo, o adúltero que, para satisfazer o próprio interesse, corta as raízes da civilização recebe toda a indulgência dos bárbaros ignorantes, porque o dano causado por ele, embora racionalmente demonstrável, não é perceptível. Por isso, nem sequer entra na mente dos ignorantes o que pode haver de criminoso no adultério. Se a base da civilização, em vez da barbárie, fosse estabelecida sobre a consciência e a ciência da natureza, esse sistema jamais seria aceito.

4. Métodos de prevenção da obscenidade

Para impedir aquilo que é prejudicial à civilização, não será suficiente declará-lo crime por lei e estabelecer uma punição para isso; será necessário, além disso, adotar quatro tipos de medidas. Ei-las:

a) Por meio da educação e da instrução, é necessário reformar a mentalidade das pessoas a tal ponto que elas próprias vejam o referido ato com repulsa e o considerem um pecado; que sua consciência moral as impeça de cometer esse pecado.

b) O caráter social e a opinião pública devem ser formados de tal maneira contra esse pecado que o povo

1. Existe uma concepção geralmente difundida e pervertida de que um jovem deveria ter alguma oportunidade de satisfazer seu desejo sexual antes do casamento. Isso porque é difícil conter o desejo sexual na juventude e, quando ele é contido, a saúde é prejudicada. Mas todas as fontes das quais essa conclusão foi extraída baseiam-se no erro. O impulso sexual que não pode ser contido é algo anormal [abnormal], e essa condição anormal surge entre as pessoas comuns porque um sistema civilizacional equivocado as estimula à força. Nosso cinema, nossa literatura, nossas artes plásticas, nossa dança e música, e o contato livre com mulheres adornadas numa sociedade mista de homens e mulheres são justamente o que transforma uma pessoa normal em alguém anormalmente propenso ao sexo. Caso contrário, num ambiente tranquilo e puro, jamais poderia surgir entre homens e mulheres comuns uma excitação sexual que não pudesse ser contida por meio da formação mental e da educação moral. A ideia de que a saúde se deteriora quando não se pratica atividade sexual na juventude e, portanto, que a fornicação é necessária para a saúde, também é completamente errônea. Na realidade, para preservar tanto a saúde quanto a moralidade, é necessário modificar todas as estruturas equivocadas da sociedade e todos os padrões equivocados da vida luxuosa que tornaram o casamento difícil e a fornicação fácil.

o considere um crime e um ato vergonhoso, e o veja com tal repulsa que a opinião pública também possa impedir de cometer esse pecado aquelas pessoas cuja educação permaneceu incompleta ou cuja consciência moral é fraca.

c) Todos os meios e fatores que incitam e tentam as pessoas a cometer esse pecado devem ser eliminados do sistema civilizacional. Além disso, na medida do possível, também devem ser erradicados os meios e fatores que obrigam as pessoas a cometer o pecado.

d) Na vida civilizada, devem ser criados certos obstáculos contra esse pecado, de modo que, mesmo que alguém queira cometê-lo, não possa fazê-lo facilmente.

A consciência dá testemunho da veracidade e da necessidade dos quatro métodos acima, e a própria natureza assim o exige. Na prática, o procedimento seguido em todo o mundo também é este: para impedir aquilo que a lei social considera crime, juntamente com a aplicação de punições, adotam-se igualmente esses quatro tipos de medidas. Ora, se se reconhece que a propagação das relações sexuais destrói a civilização e constitui um grande crime contra a sociedade, então necessariamente também se deve reconhecer que, para bloquear o caminho da fornicação, juntamente com a aplicação de punições, devem ser adotadas todas as medidas reformadoras e preventivas acima mencionadas. Para isso, também é necessária a educação do povo. É preciso formar no povo uma atitude contrária. Tudo aquilo que provoca excitação sexual nas pessoas também deve ser afastado dos limites da civilização. Os obstáculos que surgem em relação ao casamento devem igualmente ser removidos da organização social. Também devem ser impostas restrições suficientemente rigorosas às relações entre homens e mulheres, de modo que, se alguém quiser estabelecer uma relação entre eles sem um vínculo matrimonial, esse caminho seja bloqueado. Depois de reconhecer a fornicação como pecado e crime, nenhuma pessoa dotada de consciência poderá sequer proferir uma palavra contra qualquer uma dessas medidas.

Alguns reconhecem os princípios morais e sociais com base nos quais a fornicação foi considerada um pecado. Mas sua obstinação está em afirmar que, em vez de medidas punitivas e preventivas contra a fornicação, deve-se confiar apenas em medidas reformadoras. Eles dizem: “Despertai, por meio da educação, um sentimento espiritual tão forte nas pessoas, fortalecei tanto as exigências de seu coração e sua consciência moral, que isso cesse por si mesmo. Caso contrário, adotar medidas punitivas e preventivas em vez da reforma e correção espiritual significará não apenas que estais tratando as pessoas de modo infantil, mas também que estais insultando a humanidade.”

Também reconhecemos até certo ponto que este é o caminho para reformar e corrigir a humanidade. Na realidade, o estágio final da civilização é precisamente este: criar no interior do ser humano uma força por meio da qual ele passe a respeitar, por si mesmo, as normas e instituições sociais, e sua consciência o impeça de romper os vínculos morais. É para esse objetivo que se empregam todos os esforços na educação das pessoas. Mas a questão é: nossa civilização chegou realmente a esse estágio? Através da educação geral e moral, a humanidade foi refinada a tal ponto que se possa confiar em sua espiritualidade e que não seja necessária nenhuma medida pública punitiva ou preventiva para preservar a ordem social? Deixemos de lado os tempos antigos. Para eles, em sua própria linguagem, aquilo era a “Idade das Trevas”. Eis diante de nós o século XX — esta “era luminosa”. Nesta era, olhemos para países civilizados como a Europa e a América. Todos os seus habitantes são instruídos. Os cidadãos orgulham-se de sua educação superior. Mas será que, ali, a educação e o refinamento espiritual acabaram com os crimes e as violações da lei? Será que ali não ocorrem furtos e roubos? Não acontecem fraudes, enganos, opressão e atos de depravação? Será que ali não há necessidade de polícia, tribunais, prisões, registros culturais e contabilidade? Será que entre o povo se criou um senso tão elevado de responsabilidade moral que já não é preciso tratá-lo como “crianças”? Se não é esse o caso; se, mesmo nesta era civilizada, não se pode deixar a lei e a ordem da sociedade unicamente nas mãos da consciência moral do povo; se ainda hoje, em toda parte, se “insulta a humanidade” adotando medidas tanto punitivas quanto preventivas para impedir os crimes, então qual pode ser a razão para que, apenas no que diz respeito às relações sexuais, o “insulto à humanidade” tenha se tornado intolerável? Por que o “insulto à humanidade” se tornou intolerável somente nesta questão? Por que se insiste tanto em tratar essas “crianças” como “adultos” apenas neste assunto? Pensem profundamente e vejam que tipo de ladrão está escondido no recanto de suas mentes.

Diz-se que as coisas consideradas sexualmente estimulantes e, por isso, excluídas dos limites da civilização são a própria essência da arte e do gosto pela beleza; se forem evitadas, a fonte da beleza da vida humana secará. Portanto, se se deseja fazer algo pela preservação da civilização e pela reforma social, isso deve ser feito de modo a não causar nenhum dano às belas-artes e ao desfrute da beleza. Também concordamos com esses cavalheiros em que a arte e o desfrute da beleza são, de fato, bens valiosos. É desejável preservá-los e desenvolvê-los. Mas a vida social e o bem-estar social são os bens mais valiosos. Eles não podem ser sacrificados por nenhuma arte ou prazer. Para desenvolver e aperfeiçoar a arte e o desfrute da beleza, será necessário descobrir um caminho capaz de conciliá-los com a vida social e seu bem-estar. A arte e o desfrute da beleza que, em vez de vida, trazem destruição, e, em vez de bem-estar, trazem calamidade, de modo algum podem receber a oportunidade de florescer dentro dos limites da sociedade. Essa não é uma visão pessoal ou doméstica nossa; é, antes, uma exigência da consciência e da natureza. O mundo inteiro a reconhece em princípio e a aplica em toda parte. As coisas consideradas destrutivas e causadoras de calamidade para a vida social em qualquer lugar do mundo não recebem incentivo sob o pretexto de arte e desfrute da beleza. Quando uma obra literária incita à desagregação, ao conflito, à violência, ao assassinato, à pilhagem e coisas semelhantes, ela não é tolerada simplesmente por ser literatura; do mesmo modo, quando alguma obra literária incita à disseminação de doenças mortais como a peste e a cólera, isso também não é tolerado em lugar algum. Nenhum governo do mundo permite que sejam exibidos publicamente os filmes ou peças de teatro que espalham agitação em favor da perturbação da paz e da rebelião. Por mais que sejam portadoras de talento artístico, nenhuma lei e nenhuma consciência social estão dispostas a olhar com respeito para as imagens que expressam impulsos de opressão, conflito, violência e depravação, ou que violam os ideais de moralidade universalmente reconhecidos. Embora a arte de furtar carteiras seja uma técnica extremamente sutil e a habilidade de mãos ligeiras possa ser considerada uma arte elevada, ninguém aprecia seu desenvolvimento. Para falsificar notas, cheques e documentos, são necessários extraordinário poder mental e habilidade, mas ninguém considera legítima essa arte. Na arte da fraude e da trapaça, a mente humana demonstrou, de muitas maneiras, o talento de seu poder inventivo. Contudo, nenhuma sociedade civilizada gosta de honrar esses talentos. É uma verdade reconhecida que a vida social, sua paz, segurança, progresso e bem-estar são mais valiosos do que qualquer bela-arte ou desfrute da beleza. Portanto, não se pode sacrificá-los por nenhuma arte. Naturalmente, o único ponto de divergência nesta questão é que aquilo que nós consideramos contrário à vida social e ao seu bem-estar, os outros não consideram assim. Se sua visão fosse como a nossa, eles também sentiriam, como nós, a necessidade de regular a arte e o desfrute da beleza.

Também se diz que estabelecer o véu entre homens e mulheres e restringir sua livre circulação na sociedade, com o objetivo de impedir relações sexuais ilícitas, significa, na realidade, alimentar suspeitas e dúvidas sobre seu caráter. Isso dá a entender que todas as pessoas foram consideradas sem caráter e que não se confia absolutamente no caráter de homens e mulheres. É um argumento muito razoável. Desenvolvamos um pouco mais esse raciocínio. A fechadura usada na porta de uma casa parece anunciar que o dono considera todos os habitantes do mundo ladrões. A existência da polícia testemunha que o governo considera todos os habitantes do país desonestos. O motivo pelo qual se assina um contrato nas transações financeiras também seria que uma das partes considera a outra uma apropriadora. As medidas preventivas adotadas para impedir crimes fazem com que todos aqueles afetados por elas sejam considerados possíveis criminosos. Segundo esse raciocínio, você também é considerado, a cada instante, ladrão, malandro, apropriador dos bens alheios e pessoa de caráter suspeito. Mas isso não fere nem um pouco sua autoestima. Por que, então, nesse único assunto, sua sensibilidade é tão fraca?

Na realidade, é exatamente esse o assunto ao qual se aludiu acima. Aqueles em cuja mente ainda permanece a influência desgastada das antigas concepções morais consideram o adultério e a depravação sexual condenáveis. Contudo, não os consideram tão condenáveis a ponto de ser necessário eliminá-los completamente. Por isso, sua perspectiva e a nossa diferem quanto à adoção de medidas de reforma e prevenção. Se os fatos naturais lhes fossem revelados e eles pudessem compreender corretamente a situação neste assunto, concordariam conosco que, enquanto o ser humano continuar sendo humano e enquanto permanecer nele o elemento da humanidade, o homem civilizado considerará o progresso da vida social mais querido do que as más inclinações humanas e o prazer delas; não poderá permanecer indiferente a todas essas medidas preventivas.

5. A situação correta das relações conjugais

Depois de estabelecer as bases da família e bloquear o caminho da permissividade sexual, o que é indispensável para uma civilização íntegra é isto: será necessário definir corretamente, na organização social, a relação entre homens e mulheres. Seus direitos deverão ser determinados com justiça. Será necessário repartir adequadamente entre eles as responsabilidades. Dentro da família, sua posição e suas provisões deverão ser estabelecidas de tal modo que não haja nenhuma discrepância entre moderação e igualdade. Entre todos os problemas da civilização, este é um dos mais difíceis. Contudo, a humanidade fracassou em sua solução na maior parte das vezes.

Há algumas nações que conferiram às mulheres autoridade sobre os homens. Mas não encontramos sequer um exemplo em que alguma dessas nações tenha alcançado algum elevado cume de cultura e civilização. Pelo menos nas páginas da história não se encontra nem o menor vestígio do nome de uma nação que, fazendo da mulher governante do homem, tenha conquistado no mundo qualquer força ou posição, ou realizado algum feito notável.

A maioria das nações do mundo concedeu ao homem superioridade sobre a mulher. Mas, na maioria dos casos, essa superioridade assumiu a forma de tirania e transformou a mulher em escrava. Ela foi humilhada e pisoteada. Não lhe foi concedido qualquer tipo de direito econômico ou civilizacional. Ela foi usada como uma serva insignificante da família e como um brinquedo para satisfazer os desejos sexuais do homem. É verdade que um grupo de mulheres fora da família foi adornado com certo grau de educação e com os ornamentos da civilização, mas isso ocorreu unicamente para que elas pudessem satisfazer mais plenamente as necessidades sexuais do homem

e torná-las mais atraentes ao coração. Assim, por meio de sua arte musical, poderiam proporcionar prazer aos ouvidos; por meio da dança e dos movimentos do corpo, prazer aos olhos; e, por meio da máxima e extrema sedução sexual, prazer físico. Esse foi o método extremamente vergonhoso de insulto e humilhação da feminilidade, inventado pelos maus instintos do homem. A nação que adotou esse método não conseguiu escapar da destruição.

A civilização ocidental moderna adotou um terceiro método. Trata-se de que deve haver igualdade e direitos iguais entre homens e mulheres. As responsabilidades de ambos devem ser semelhantes e quase as mesmas. Ambos competirão no mesmo campo de trabalho, ambos ganharão seu próprio sustento e serão autossuficientes. Esse método de organização social ainda não alcançou a perfeição. Pois a superioridade do homem ainda é evidente. Em nenhum setor da vida homens e mulheres conseguiram ainda ser iguais. Tudo aquilo que ela deveria ter conquistado sob a forma de igualdade plena, ainda não o conquistou. Mas, na medida em que a igualdade foi estabelecida, ela apenas criou uma desordem no sistema civilizacional. Já discutimos detalhadamente seus resultados anteriormente. Portanto, não consideramos necessário fazer aqui novos comentários. Esses três tipos de civilização aqui descritos estão privados de justiça, moderação e harmonia. Pois negligenciaram compreender as instruções da natureza e adotar devidamente um caminho de acordo com elas. Se refletirmos profundamente, com consciência e razão, poderemos saber que a própria natureza ofereceu uma solução adequada para tudo isso. Na verdade, isso também é uma grande força da natureza, sob cuja influência a mulher não pode descer a um nível tão baixo quanto aquele ao qual se tentou rebaixá-la, nem pode elevar-se tanto quanto desejou ou quanto o homem tentou elevá-la. Guiada por sua consciência obscurecida pelo erro e pelo autoengano, a humanidade adotou dois extremos opostos. Mas a natureza deseja adotar a justiça, o caminho intermediário e a moderação, e ela própria indica esse caminho.

Ninguém pode negar que, como seres humanos, a mulher e o homem são iguais. Mulheres e homens são duas partes da humanidade. Na formação da civilização, no estabelecimento e na concretização das bases da sociedade e no serviço à humanidade, ambos são participantes iguais. Ambos possuem mente e cérebro, consciência, sentimentos, instintos e necessidades humanas. Para a reforma e o progresso civilizacional, o aperfeiçoamento mental de ambos, o exercício do intelecto, o desenvolvimento da consciência e da capacidade de pensar são igualmente necessários, para que cada um possa desempenhar plenamente seu próprio papel no serviço civilizacional. Nesse sentido, a reivindicação de igualdade é inteiramente justificável. Também é uma exigência indispensável de uma civilização íntegra que se dê à mulher, assim como ao homem, a oportunidade de se aperfeiçoar tanto quanto possível, de acordo com suas forças e aptidões naturais. Deve-se proporcionar-lhe a oportunidade de adquirir conhecimento e obter educação superior. Assim como ao homem, também devem ser concedidos a ela direitos civisizacionais e econômicos. Deve-se conferir-lhe na sociedade uma posição tal que desperte nela o sentimento de respeito próprio e faça surgir aquelas qualidades humanas que só podem nascer desse sentimento. As nações que negaram esse tipo de igualdade, que mantiveram suas mulheres ignorantes, sem instrução, humilhadas e privadas de seus direitos sociais, caíram elas próprias no abismo da decadência. Pois rebaixar a metade da humanidade significa rebaixar a própria humanidade. É inútil esperar pessoas honradas do ventre de uma mãe inferiorizada e humilhada, pessoas instruídas do colo de uma mãe sem instrução, ou pessoas de pensamento elevado do berço de uma mãe degradada.

Mas há um segundo aspecto da igualdade. É este: o campo de trabalho de homens e mulheres deve ser o mesmo, e ambos devem realizar o mesmo tipo de trabalho. As grandes responsabilidades de todos os setores da vida devem ser atribuídas igualmente a ambos, e sua posição na organização civilizacional deve ser do mesmo tipo. Em apoio a isso, apresentam-se provas de experimentos e observações científicas, afirmando-se que homens e mulheres são iguais (Equipotential) quanto à força e à capacidade físicas. Encontra-se entre ambos esse tipo de igualdade. Para chegar a tal conclusão, porém, não basta dizer que o propósito da natureza também é obter de ambos o mesmo tipo de trabalho. Tal conclusão jamais será razoável enquanto não se provar que a constituição física de ambos é igualmente a mesma, que a natureza atribuiu a ambos o mesmo tipo de responsabilidades e que seus estados mentais são idênticos. Tudo o que a humanidade descobriu até hoje por meio de teorias científicas fornece justamente a resposta contrária a isso.

A configuração da natureza feminina na biologia

A investigação da biologia demonstrou que a mulher difere do homem em todos os aspectos, até mesmo em sua forma, constituição e nas moléculas de proteína das células dos tecidos. Quando ocorre a formação do sexo [formação-configuração] da criança no útero, a partir desse momento a constituição física das duas categorias começa a desenvolver-se de formas distintas. A constituição física da mulher é feita de tal modo que ela possa tornar-se apta a gerar e criar filhos. Desde a formação inicial do útero até a idade adulta, o pleno desenvolvimento de seu corpo ocorre precisamente para o aperfeiçoamento dessa aptidão, e é isso que determina o caminho de sua vida futura.

Depois de atingir a idade adulta, começa a menstruação. Ela afeta a capacidade funcional de todos os seus órgãos. Pelas observações dos fisiologistas, pode-se saber que, durante a menstruação, observam-se nas mulheres as seguintes mudanças:

1. A capacidade de conservar o calor no corpo diminui. Como resultado, o calor corporal é liberado em maior quantidade e a temperatura diminui.

2. O pulso se torna fraco, a pressão sanguínea diminui e observam-se alterações na respiração.

3. Observam-se alterações nas glândulas endócrinas, nas amígdalas e nas glândulas linfáticas.

4. O metabolismo das proteínas diminui.

5. Os fosfatos e cloretos são excretados em menor quantidade, e o metabolismo gasoso se deteriora.

6. A capacidade digestiva é prejudicada. A proporção de proteínas e gorduras dos alimentos torna-se insuficiente para a formação do corpo.

7. A capacidade respiratória diminui, e começam a ocorrer alterações nos órgãos da fala.

8. O sistema nervoso fica debilitado, e a capacidade sensorial se enfraquece.

9. A memória diminui, e não há concentração em assunto algum.

Todas essas alterações aproximam tanto uma mulher saudável de um estado de enfermidade que se torna difícil distinguir entre saúde e doença. É difícil encontrar até mesmo trinta mulheres em cada cem que não sintam dor ou desconforto durante a menstruação. Certa vez, após examinar mil e sessenta mulheres, constatou-se que, entre elas, 84 por cento haviam sofrido algum tipo de dor ou desconforto durante a menstruação. O especialista em fisiologia, doutor Elim Nudik, diz:

As alterações geralmente observadas entre as mulheres menstruadas são as seguintes:

Dor de cabeça, fadiga, dores nos membros, fraqueza nervosa, aspereza de temperamento, dor no trato urinário, diminuição da capacidade digestiva, em alguns casos prisão de ventre, náuseas ocasionais e vômitos. Um número considerável de mulheres sente uma dor leve nos seios, que às vezes aumenta excessivamente. Em algumas mulheres, nesse período, a voz fica rouca. Outras vezes, a capacidade digestiva é completamente prejudicada e há dificuldade para respirar.

Entre as mulheres examinadas pelo doutor Craeger, metade sofreu perturbações digestivas durante a menstruação e, no final, teve prisão de ventre.

O doutor Geeb Hard diz:

São muito poucas as mulheres que não sentem nenhum sofrimento durante a menstruação. Na maioria dos casos, elas sofrem de dor de cabeça, dor na parte inferior do umbigo e secura na garganta. Nesse período, ficam irritadiças e sentem vontade de chorar.

Nessas condições, não será exagero dizer que, durante a menstruação, a mulher fica realmente doente. Trata-se de uma espécie de enfermidade que acomete uma mulher todos os meses.1

Todas essas mudanças físicas exercem inevitavelmente influência sobre a força mental e os membros da mulher. Em 1909, após profundas observações, o Dr. Voicechevsky comentou que, nesse período, diminuem a capacidade de concentração e a capacidade de esforço mental da mulher. O professor Krschi Skevsky, depois de realizar observações psicológicas, chegou à conclusão de que, nesse período, o sistema nervoso das mulheres fica excitado. A capacidade de sentir se enfraquece e perde a harmonia. Diminui, e muitas vezes desaparece, a capacidade de tomar decisões baseadas em pensamentos organizados. Até mesmo as decisões firmes anteriormente formadas no íntimo da mente tornam-se instáveis. Em consequência disso, nesse período, também deixam de ser executadas corretamente as atividades da vida diária às quais ela está acostumada. Nesse período, a condutora do bonde cometerá erros ao entregar os bilhetes e contar o troco. A motorista conduzirá o automóvel com medo e lentamente, ficando atordoada em cada esquina. Uma datilógrafa cometerá erros de digitação, demorará para datilografar, apesar de seus esforços deixará escapar palavras, datilografará frases erradas e, ao tentar tocar uma letra com o dedo, tocará outra. A advogada não conseguirá provar corretamente o caso. Também cometerá erros de argumentação ao apresentar o processo. A capacidade de compreensão da magistrada diminuirá, e ela cometerá erros ao tomar decisões. Uma dentista não encontrará facilmente à mão os instrumentos para a extração dentária durante o trabalho. Uma cantora perderá o tom e o ritmo. Além disso, um especialista em voz poderá dizer, apenas ao ouvir a voz, que a cantora está menstruada. Em suma, durante a menstruação, a mente, o cérebro e o sistema nervoso da mulher tornam-se fracos e desordenados. Seus membros não conseguem agir de acordo com sua vontade; ao contrário, uma força interna influente encobre sua força de vontade e sua capacidade de discernimento. Ela passa a realizar atos involuntários. Nessa situação, já não conserva liberdade de ação e perde a capacidade de desempenhar tarefas que envolvam responsabilidade.

O professor Lapinsky, em seu livro intitulado The Development of Personality in Women, comenta que, durante a menstruação, a liberdade de ação das mulheres é destruída. Uma força influente torna-a submissa. A capacidade de decidir voluntariamente fazer ou não fazer algo fica quase destruída.

Todas essas mudanças ocorrem numa mulher saudável e gradualmente transformam-se em doença. Há muitos casos registrados em que, nessa situação, a mulher fica como uma louca. Não é impossível que, diante de uma pequena provocação, ela fique extremamente furiosa, faça algo como um animal ou uma pessoa irracional e até mesmo cometa suicídio. O doutor Kraft Ebing afirma que as mulheres que vemos diariamente humildes, educadas e alegres mudam repentinamente durante a menstruação. Esse período chega até elas como uma espécie de “tempestade”, e elas se tornam ásperas, briguentas e intolerantes. Os empregados da casa, os filhos e até o marido passam a mostrar aversão por ela. Elas não tratam bem nem mesmo as pessoas desconhecidas. Alguns especialistas, após investigação aprofundada, chegaram à conclusão de que a maioria dos atos criminosos das mulheres ocorre durante a menstruação. Isso acontece porque, nesse período, elas não conseguem controlar a si mesmas. Em tal momento, até uma mulher muito honesta pode cometer um furto e depois arrepender-se. Weinberg, após profundas observações, comentou:

Cinquenta por cento das mulheres que cometem suicídio realizam esse ato durante a menstruação. Com base nisso, o doutor Kraft Ebing comentou que, durante o julgamento de uma mulher adulta criminosa, as autoridades deveriam investigar se o crime foi cometido durante sua menstruação.

A gravidez é ainda mais difícil do que a menstruação. O Dr. Reprev afirma que, durante a gravidez, os elementos físicos excedentes da mulher são eliminados em quantidade maior do que quando ela está com fome. A capacidade de realizar trabalho físico e mental que a mulher possui em seu estado normal fica desorganizada durante a gravidez. O equilíbrio do cérebro é destruído. Todas as suas faculdades mentais caem numa desordem contínua. Ela permanece oscilando entre a doença e a saúde. Depois, por motivos insignificantes, chega ao limite da enfermidade. O doutor Fisher afirma que uma mulher saudável sofre de intensa agitação mental durante a gravidez. Nela surgem inquietação e ansiedade. Sua memória fica perturbada, e diminuem sua sensibilidade, sua capacidade de pensar e investigar e sua compreensão. A opinião unânime de Hulak, Elias, Albert Moll e outros especialistas é que o último mês da gravidez transcorre de tal maneira que, nesse período, a mulher não tem capacidade alguma para realizar qualquer tipo de trabalho físico ou mental.

Após o parto, há o risco de ser acometida por vários tipos de doenças. A parturiente também corre o risco de sofrer de uma doença séptica. Para retornar ao estado anterior à gravidez, ocorre nos membros uma agitação e movimentação, em razão da qual todo o sistema físico fica desorganizado. Mesmo quando não há qualquer motivo de preocupação, ela leva várias semanas para voltar ao estado normal. Assim, desde a concepção até o término de um ano inteiro, a mulher permanece, na realidade, doente ou parcialmente doente. Como resultado, sua capacidade de trabalho cai para a metade, ou menos, em comparação com seu estado normal.

Depois, o período de amamentação é tal que, durante esse tempo, ela não vive para si mesma; ao contrário, vive apenas para cumprir o depósito que a natureza confiou aos seus cuidados. Nesse período, as substâncias valiosas de seu corpo transformam-se em leite materno para seu filho. Do alimento, incorpora-se ao seu corpo somente a quantidade necessária para sua própria subsistência, e o restante transforma-se em leite materno. Depois disso, durante longo tempo, ela precisa manter toda a sua atenção voltada para a criação, a proteção, os cuidados e a educação do filho.

Na época atual, resolveu-se o problema da amamentação de tal modo que se deve fornecer alimento às crianças de fora. Mas isso não é uma solução adequada. Pois nada pode ser um substituto equivalente àquilo que a natureza reservou no leite materno para a criação da criança. Privá-la disso não é senão uma grande injustiça e egoísmo. Todos os especialistas concordam que, para o verdadeiro desenvolvimento da criança, não há alimento superior ao leite materno.

Para que a mãe possa, tranquila e despreocupada quanto ao filho, dedicar-se ao trabalho fora de casa, foi apresentada, no âmbito da educação e formação das crianças, a proposta de “lares de enfermagem” ou “creches”. Mas, em um “lar de enfermagem” ou “creche”, não é possível oferecer o genuíno amor materno. De onde virão ao coração de uma cuidadora contratada o carinho, o afeto e a benevolência necessários nos primeiros tempos da infância? Esse novo método de criação infantil ainda não foi testado. Esse novo método de criação infantil ainda não foi testado. Os descendentes produzidos pela nova fábrica das creches ainda não deram frutos. Até agora, sua natureza, caráter, costumes, conduta e atividades ainda não se tornaram observáveis. Portanto, não seria apropriado afirmar antecipadamente, quanto ao sucesso ou fracasso desse experimento, que o mundo descobriu um substituto adequado para o colo materno. A verdade de que o colo materno é o berço natural da criação e da educação da criança ainda é universalmente reconhecida.

Agora, é compreensível até para uma pessoa de bom senso comum que, mesmo que as forças físicas e mentais e as capacidades da mulher e do homem fossem iguais, a natureza não atribuiu a ambos responsabilidades iguais. Para a continuidade da linhagem, nenhuma tarefa foi imposta ao homem além de semear a semente. Depois disso, ele é completamente livre. Pode realizar qualquer outro trabalho da vida. À mulher, por outro lado, foi atribuída toda a responsabilidade de trabalhar pela continuidade da linhagem. Desde quando ela se encontrava no útero materno, numa espécie de incubadora fetal, começou a ser modificada e transformada para tornar-se capaz de assumir essa responsabilidade. Todos os órgãos de seu corpo foram formados precisamente para isso. É por isso que, durante toda a sua juventude, ocorre o ciclo menstrual. Nesse período, todos os meses, por três a dez dias, ela se torna incapaz de assumir a responsabilidade por qualquer trabalho mais importante ou de realizar qualquer esforço físico e mental árduo. É por isso que precisa suportar um sofrimento terrível durante o período da gestação e todo o ano posterior ao parto. Nesse tempo, ela permanece, na realidade, em estado de semivida. É por isso que os dois anos de amamentação transcorrem de tal maneira que ela irriga o campo da humanidade com o próprio sangue e o torna fértil e abundante com as correntes que brotam de seu peito. É por isso que os vários anos dedicados aos cuidados e à criação inicial dos filhos passam para ela em meio a tanto trabalho e sofrimento que, nesse período, o sono noturno e o descanso diurno se tornam proibidos para ela. Assim, ela sacrifica toda a sua felicidade e tranquilidade, seus prazeres e deleites, e todos os desejos naturais em favor da futura descendência.

Se a realidade é esta, reflita e veja o que é justiça. É justiça que a mulher cumpra sozinha todas as responsabilidades que lhe foram dadas pela natureza e, além disso, carregue sobre os ombros o peso de todas as responsabilidades civilizacionais, enquanto o homem é mantido livre de todas as responsabilidades que a natureza lhe atribuiu para cumpri-las? Deve-se dizer-lhe: “Ó mulher! Carrega também os fardos de sofrimento e dificuldades que a natureza colocou sobre ti e, além disso, junta-te a nós e trabalha para ganhar o sustento. Participa conosco, em igualdade, no governo do país, na administração da justiça, na indústria, no comércio, na agricultura, no estabelecimento da paz no país, na defesa nacional e em outras atividades. Entra em nossa sociedade e diverte-nos. Reúne os meios para nossos luxos e desejos, nossa alegria e euforia, nossos prazeres e deleites”.

Isso não é justiça, mas injustiça; não é igualdade, mas desigualdade manifesta. A verdadeira justiça deveria consistir em permitir que aquela sobre quem a natureza impôs muito mais responsabilidades realizasse os trabalhos leves e fáceis da sociedade. Por outro lado, aquele sobre quem a natureza não impôs responsabilidade alguma deveria realizar as tarefas importantes e mais trabalhosas da sociedade. Além disso, ele também deveria assumir a responsabilidade pelo sustento e pela manutenção da família.

Impor à mulher o trabalho fora de casa não é apenas uma injustiça; na realidade, ela também não possui plena capacidade para desempenhar as tarefas masculinas mencionadas acima. Somente pode ser apta para realizar todas essas tarefas a pessoa cuja capacidade de trabalho seja firme, que possa cumprir contínua e constantemente seus deveres com tal competência e em cuja força física e mental se possa confiar. Mas como poderão carregar o peso de todas essas responsabilidades aquelas trabalhadoras que, todos os meses, permanecem incapacitadas ou parcialmente aptas durante um período considerável, e cuja capacidade de trabalho cai repetidamente abaixo do nível desejado? Imagine um exército ou uma marinha composto por mulheres, no qual, precisamente durante a guerra, algumas tivessem sido internadas em maternidades e um grupo considerável tivesse engravidado e se tornado incapaz de trabalhar. Se dermos o exemplo do exército, você dirá que esse é um trabalho muito difícil. Mas falemos da polícia, do poder judiciário, do serviço diplomático, das ferrovias e da indústria e do comércio. Qual dessas responsabilidades não exige uma força de trabalho qualificada e sempre confiável? Então, o objetivo daqueles que querem tomar da mulher o trabalho do homem provavelmente é um dos seguintes: transformar toda a raça feminina em homens e destruir a humanidade; ou escolher compulsoriamente uma certa porcentagem de mulheres, disfarçá-las de homens e fazê-las sofrer como punição; ou rebaixar o padrão de competência exigido em todos os tipos de trabalho da sociedade.

Mas, qualquer que seja o método acima mencionado que você adote, preparar a mulher para o trabalho do homem é completamente contrário às exigências e aos costumes da natureza! Isso não é benéfico nem para a humanidade nem para a sociedade feminina. Como, segundo a fisiologia, a mulher foi criada para dar à luz e criar os filhos, por isso, também do ponto de vista psicológico, foram depositadas nela qualidades como amor, afeição, compaixão, ternura maternal, suavidade do coração, agudeza de percepção, flexibilidade emocional e efusividade — qualidades inteiramente adequadas às tarefas diárias que lhe foram dadas pela natureza.

Na vida conjugal, ao homem foi conferida dignidade pela ação, e à mulher por ser influenciada pela ação. Por isso, foram criadas na mulher qualidades que a preparam para agir apenas na direção de ser influenciada. Nela há, em vez de dureza, suavidade, ternura e flexibilidade. Em vez do elemento de exercer influência, há o de receber influência. Em vez da capacidade de agir, há a capacidade de receber a ação. Em vez de firmeza e inabalabilidade, há a tendência à submissão, à modéstia e à humildade. Em vez de arrogância e ousadia, há recusa, desejo de fugir e resistência. Como poderá a mulher alcançar êxito em todas aquelas tarefas e setores da vida em que são necessárias dureza, domínio, autoridade, oposição e indiferença, e em que, no lugar de emoções e desejos débeis, são necessários firmeza de propósito e convicção? Arrastar a mulher para esses setores da sociedade significa destruir a feminilidade e destruir também todos esses setores.

Com isso, em vez de promover o progresso da mulher, produz-se a sua degradação. Não se chama progresso a reprimir o talento natural de uma pessoa e criar nela uma capacidade artificial contrária à natureza; o verdadeiro progresso consiste, antes, em fortalecer e fazer florescer o homem e criar oportunidades para o exercício de seu trabalho.

Nisso não há qualquer êxito da feminilidade; há, ao contrário, fracasso. Em alguns aspectos da vida, a mulher é fraca, enquanto o homem é forte e avança; em outros, o homem é fraco e a mulher está à frente. Na competição com o homem, a infeliz mulher está sendo colocada justamente nos aspectos da vida em que é fraca. O resultado inevitável será que a mulher sempre se provará inferior ao homem. Por mais que se adotem todos os tipos de métodos, ainda que todos os homens do mundo se unam e se esforcem ao máximo, não poderão produzir, dentre a raça feminina, sequer uma mãe da classe comum de Aristóteles, Ibn Sina, Kant, Hegel, Omar Khayyam, Shakespeare, Alexandre, Napoleão, Saladino, Nizam al-Mulk Tusi e Bismarck.

Com isso, em vez de benefício para a civilização, produz-se apenas o seu malefício. Assim como a vida humana e a civilização necessitam de dureza e severidade, também necessitam de suavidade e flexibilidade. Tanto quanto precisam de um general hábil, de um conselheiro prudente e de um excelente governante, precisam de uma excelente mãe, de uma excelente esposa e de excelentes membros da família. Qualquer que seja a classe excluída entre as duas, a civilização será inevitavelmente prejudicada.

Esta é precisamente uma divisão do trabalho que a natureza estabeleceu entre as duas classes. Todas as ciências, como a biologia, a psicologia e a sociologia, apontam para essa divisão do trabalho. O fato de a responsabilidade pelo parto e pela criação dos filhos ser atribuída à mulher é uma verdade decisiva. Isso estabelece para ela uma linha demarcatória na civilização humana. Nenhum sistema artificial pode alterar essa decisão. Uma civilização justa só pode ser aquela que aceita integralmente essa decisão. Depois, colocará a mulher em seu lugar correto e lhe concederá consideração social. Reconhecerá seus legítimos direitos civis e econômicos. Confiará a ela somente as responsabilidades do lar e confiará ao homem as responsabilidades externas e a tutela da família. A civilização que tentar abolir essa divisão do trabalho poderá, temporariamente, exibir progresso material e ostentação, mas, no fim, a destruição da civilização será certa. Pois, quando responsabilidades econômicas e civis iguais às do homem forem impostas à mulher, ela lançará para longe o peso das responsabilidades naturais que lhe foram confiadas. Consequentemente, não somente a civilização será destruída por isso, mas também a humanidade. Se a mulher tentar algo contrário à sua natureza e à sua constituição natural, poderá assumir em alguma medida o trabalho do homem; porém, o homem jamais poderá tornar-se apto a dar à luz e criar os filhos.

Tendo em vista essa divisão natural do trabalho, apresentam-se abaixo as condições indispensáveis da organização familiar que deverá ser estabelecida e das atribuições que deverão ser definidas para a mulher e o homem:

1. Será tarefa do homem prover o sustento da família, prestar-lhe auxílio e assegurar sua manutenção, bem como realizar na civilização o trabalho que exige esforço. Sua educação e formação deverão ser de tal modo que ele se torne o mais apto possível para cumprir todos esses objetivos.

2. Será tarefa da mulher criar os filhos, realizar os trabalhos domésticos e moldar a vida familiar de modo a torná-la celestialmente agradável. Deve-se proporcionar-lhe educação adequada e prepará-la para esse objetivo.

3. Para manter intacta a disciplina familiar e protegê-la das mãos de tantos líderes quantas forem as cabeças, deve-se conferir autoridade legal a uma única pessoa, para que a família não se transforme num exército sem comandante. Deve-se lembrar que tal pessoa só pode ser um homem. Pois o membro da família cuja mente e cérebro se debilitam repetidamente durante a menstruação e a gravidez não pode, em circunstância alguma, ser considerado apto a exercer esse poder.

No sistema civilizacional, devem ser adotadas medidas preventivas necessárias para manter intactas essa divisão do trabalho, a educação e a administração, de modo que nenhum indivíduo ou grupo de indivíduos insensatos, por insensatez, unifique os campos de trabalho de homens e mulheres e destrua esse sistema civilizacional.

 

Deficiências e desvios humanos

Já se tentou demonstrar, por meio de discussões sólidas e eruditas e de exames e experimentos científicos, quais deveriam ser os princípios e as condições fundamentais de um sistema civilizacional harmonioso no que diz respeito à relação entre homens e mulheres, isto é, à relação sexual, levando em consideração as exigências da natureza humana, suas tendências humanas e todos os indícios de sua constituição física. Tudo o que foi dito nessa discussão foi expresso em linguagem inequívoca, não havendo nela qualquer espaço para repetição. Os temas discutidos são extremamente claros do ponto de vista do conhecimento e da ciência, e, em geral, todas as pessoas instruídas estão plenamente informadas a esse respeito. Contudo, o ápice da fraqueza humana é que, entre todos os tipos de sistemas civilizacionais que o ser humano elaborou por seus esforços, nenhum incorporou de maneira completa e harmoniosa todos esses ensinamentos claros e justos da natureza. Também é evidente que o ser humano não ignora suas exigências naturais. Seu próprio estado mental e suas características físicas não lhe são desconhecidos. Apesar disso, também é extremamente claro que, até agora, ele não foi capaz de elaborar nenhum sistema civilizacional harmonioso cujos princípios incorporassem de modo coerente todas essas exigências, características, significados e objetivos.

A verdadeira causa do desespero

A única causa do desespero é justamente aquela à qual se fez alusão no início deste livro. É uma fraqueza natural do ser humano que seu olhar não abranja de maneira integral todos os aspectos de uma questão. Sempre há algum aspecto que o atrai. Depois, quando ele se inclina para um lado, o outro fica fora de seu campo de visão, ou ele deliberadamente passa a ignorar os demais aspectos; nos assuntos pequenos e pessoais da vida, a fraqueza humana manifesta-se de modo particularmente claro.

Os problemas do refinamento e da civilização são numerosos e amplos. Esses problemas, por sua vez, têm inúmeras dimensões claras e obscuras. Portanto, como seria possível que todos esses problemas permanecessem livres da influência da fraqueza humana?

Certamente, o ser humano recebeu conhecimento e consciência. Mas, em geral, somente a consciência não o auxilia a resolver os problemas da vida. A afeição e a inclinação fazem com que ele adote uma orientação unilateral e, quando segue numa direção específica, recorre ao conhecimento e à consciência para apoiá-la. Nessas circunstâncias, mesmo que seu conhecimento queira conduzi-lo para outra direção e sua consciência se oponha à sua atitude unilateral, ele não reconhece sua culpa; ao contrário, obriga seu conhecimento e sua consciência a elaborar argumentos em favor de seus desejos e de sua afeição.

Alguns exemplos claros

Entre os problemas da sociedade atual que constituem objeto de nossa discussão, essa obstinação, esse extremo exagero e essa deficiência do ser humano manifestaram-se.

Um grupo de pessoas inclinou-se excessivamente para a moralidade e a espiritualidade e passou a considerar a relação sexual entre homens e mulheres como algo absolutamente abominável. Vemos essa incongruência nas doutrinas budista, cristã e hindu. Vemos que, sob sua influência, em grande parte do mundo, quer dentro dos limites da família, quer fora deles, essa relação sexual é considerada um ato condenável. Qual foi o seu resultado? A vida antinatural e contrária à civilização do ascetismo passou a ser considerada um objetivo da moralidade e da purificação da alma. Entre a humanidade, muitos homens e mulheres desperdiçaram suas forças mentais e físicas seguindo um caminho contrário à natureza, isto é, lutando contra a natureza. Aqueles que se uniram uns aos outros de acordo com as exigências da natureza uniram-se com tal disposição de espírito que parecia terem sido obrigados a cumprir uma necessidade abominável. É evidente que esse tipo de relação não pode gerar entre marido e mulher amor, afeto, auxílio ou compaixão. Por meio dela, não apenas nenhuma civilização virtuosa e progressista pode nascer, como também, justamente em consequência das chamadas concepções morais, a dignidade da mulher é prejudicada. Os defensores cegos do ascetismo chamaram a atração sexual de uma tentação satânica e a mulher de “agente do demônio”. Eles consideraram a mulher uma entidade impura desse tipo, de modo que, para aquele que deseja a pureza do coração, torna-se necessário odiá-la. A literatura cristã, budista e hindu apresenta esse tipo de concepção sobre a mulher; e é fácil imaginar qual pode ser a dignidade da mulher numa ordem social fundada sobre tais concepções e doutrinas.

Exatamente o oposto disso é outro grupo, partidário das exigências físicas, que avançou tanto nesse assunto que ultrapassou não apenas as exigências da natureza humana, mas até mesmo as da natureza animal. Na civilização ocidental, isso se tornou tão evidente que já não há possibilidade de mantê-lo oculto. Segundo a lei de lá, o adultério não é crime. O uso da força ou a interferência no direito legal de outra pessoa é considerado crime. Se não for cometido nenhum desses crimes, o adultério não é apenas uma infração punível, mas tampouco é considerado uma falta vergonhosa. Até esse ponto, eles permaneciam dentro dos limites da natureza animal. Mas depois avançaram ainda mais. Ignoraram até mesmo a finalidade da relação sexual entre os animais: a procriação. Transformaram a relação sexual em mero meio de desfrutar o prazer físico. O ser humano, criado como a melhor das criaturas, ao chegar a esse ponto transformou-se na mais inferior delas. Primeiro, desviando-se da natureza humana, estabelece, como um animal, relações sexuais tão desenfreadas que nenhuma civilização pode ser construída sobre sua base. Depois, desvia-se também da natureza animal e interrompe até mesmo o resultado natural da relação sexual — o nascimento de filhos. Seu objetivo é impedir que nasçam futuros descendentes capazes de assegurar a existência da raça humana.

Um grupo, de fato, reconheceu a importância da família, mas sua organização foi submetida a um sistema de regras tão rígido que se acorrentou o indivíduo e não se preservou nenhum equilíbrio entre direitos e deveres. O sistema familiar dos hindus é um exemplo brilhante disso. Aqui, a mulher não tem qualquer liberdade de vontade ou de ação. Não tem nenhum direito na civilização nem na obtenção do sustento; enquanto esposa, é escrava, e enquanto mãe, também é escrava. Na viuvez, sua vida é inferior à de uma escrava; em vida, é como uma morta. Seu destino consiste apenas no cumprimento de deveres; quanto a direitos, não possui nada. Sob esse sistema social, desde o início procura-se transformar a mulher em um ser sem voz, para que nela não surja qualquer sentimento de sua própria personalidade. Não há dúvida de que, por esse método, a base da família se fortalece e de que não existe nenhum receio de que a mulher se rebele nessa família. Mas, ao humilhar e degradar metade da nação, esse sistema social cometeu, na verdade, por seu próprio modo de organização, uma injustiça tão terrível que a sociedade hindu está agora sofrendo suas consequências.

O segundo grupo tentou elevar a dignidade da mulher e concedeu-lhe plena liberdade de vontade e de ação. Nesse assunto, ultrapassou-se tanto o limite que a disciplina familiar foi completamente destruída. A esposa é livre, a filha é livre, o filho é livre! Na realidade, dentro da família não há ninguém que seja cabeça ou ancião respeitado. Ninguém tem autoridade alguma. O marido não pode perguntar à esposa: “Onde passaste a noite?” O pai não pode dizer à filha: “Com quem te relacionas e aonde vais?” Marido e mulher são apenas dois amigos iguais, e administram o lar e a vida doméstica em condições de igualdade. O filho é como um membro menor dessa ‘confederação familiar’. Nesse grupo não se encontra o elemento de obediência indispensável diante das pequenas diferenças de temperamento e natureza. Este é o sistema social ocidental. É esse o sistema social ocidental cujos porta-estandartes afirmam ter trazido uma revolução à civilização e à organização social. Para conhecer a verdadeira natureza de sua revolução, é preciso ler e examinar o relato de algum tribunal europeu ou americano de casamento e divórcio, ou de um Juvenile Court‘1 É preciso ler e examinar o seu relato. Pelos números de crimes publicados recentemente pelo Home Office da Inglaterra, pode-se saber que a criminalidade entre meninos e meninas menores de idade está crescendo rapidamente. Também se afirmou que a verdadeira causa disso é que a disciplina familiar se tornou extremamente fraca.2

Nenhuma civilização humana conseguiu compreender corretamente o elemento de modéstia e pudor preservado na natureza humana, especialmente na natureza feminina, nem concretizá-lo, na prática, no vestuário e nos costumes sociais! A modéstia e o pudor são considerados uma virtude suprema do ser humano, especialmente da mulher. Contudo, esse atributo nunca se manifestou no vestuário e na vida social por meios racionais e através de costumes apropriados. Ninguém tentou definir corretamente os limites do “sitr-e aurat” e preservá-los de modo uniforme. Nenhum princípio foi estabelecido para determinar a expressão da modéstia no vestuário e no comportamento de homens e mulheres. Nas relações e encontros entre homens, entre mulheres e entre homens e mulheres, nunca foram definidos limites corretos e razoáveis quanto às partes do corpo que deveriam permanecer cobertas ou descobertas. Embora o assunto fosse tão importante do ponto de vista da civilização, da cortesia e da moralidade comum, ele foi igualmente negligenciado. Deixou-se que isso dependesse, em certa medida, dos costumes de cada país, pois os costumes tradicionais mudam conforme a situação geral. O problema foi deixado à vontade, ao gosto e à capacidade de escolha de cada indivíduo, sem que lhe fosse indicado um método correto a adotar. Como consequência, observa-se uma estranha mistura de modéstia e imodéstia no vestuário e na vida social de diferentes grupos. Não se encontra nisso nenhuma relação recíproca racional, nenhuma unidade, harmonia ou princípio. Nos países orientais, isso permaneceu simplesmente incongruente. Mas, no vestuário e na vida social das nações ocidentais, a obscenidade ultrapassou de tal modo todos os limites que elas chegaram a extirpar por completo a modéstia e o pudor. Sua nova perspectiva passou a ser a de que a modéstia e a decência não são sentimentos naturais, mas foram criadas pelo hábito de vestir roupas. O “satr-e aurat” e a modéstia não têm qualquer relação com a moralidade e a cortesia; ao contrário, seriam apenas um meio de despertar o desejo sexual humano.1A concretização prática dessa filosofia da imodéstia consiste em roupas seminus, concursos de beleza corporal, danças nuas, imagens de nudez, apresentações obscenas nos palcos, o movimento crescente do nudismo (Nudsim) e o retorno do ser humano à natureza animalesca da mulher casta, virtuosa e piedosa.

Esse extremismo também pode ser observado no outro lado desse problema. Aqueles que deram importância à moralidade e à pureza proporcionaram segurança às mulheres, não considerando a mulher um ser vivo dotado de consciência, mas uma ornamentação sem vida, como uma joia inestimável. Também evitaram abordar a questão de sua educação. No entanto, para o bem do tahzib e do tamaddun, essa questão é tão importante no caso do homem quanto no da mulher. Por outro lado, aqueles que reconheceram a importância da educação feminina, ignorando a importância da moralidade e da pureza, lançaram, por outro caminho, as sementes da destruição do tahzib e do tamaddun.

Aqueles que observaram a divisão natural do trabalho (Division of Labour) atribuíram à mulher, no serviço da civilização e da sociedade, apenas as tarefas domésticas e a criação dos filhos. O encargo de ganhar o sustento foi atribuído ao homem. Contudo, não conseguiram manter o equilíbrio nessa divisão do trabalho. Roubaram à mulher todos os seus direitos econômicos. Não lhe concederam direito algum à herança. A propriedade dos bens foi entregue integralmente aos homens. Assim, ao tornar a mulher economicamente incapaz, estabeleceram, na realidade, uma relação de senhor e escrava entre homens e mulheres. Para remediar isso, surgiu outro grupo. Ele quis conceder às mulheres direitos econômicos e culturais. Mas esse grupo cometeu outro erro. O materialismo havia obscurecido suas mentes. Por isso, entendeu que libertar a mulher da escravidão econômica e cultural significava que ela também deveria tornar-se, como o homem, uma pessoa economicamente ativa da família. Para assumir todas as responsabilidades da civilização, ela também teria de participar em igualdade com o homem. Segundo a perspectiva materialista, esse sistema tinha grande atrativo. Pois não apenas aliviou o pesado fardo do homem, como, em consequência da participação da mulher no trabalho remunerado, passou-se a obter dinheiro e meios de luxo em quantidade quase duplicada.

Além disso, para administrar o sistema econômico e social da nação, passou-se a contar com o dobro de mãos e mentes em comparação com o passado. Como resultado, o progresso cultural começou subitamente a acelerar-se. A inclinação excessiva para o aspecto material e econômico atingiu tal proporção que outros aspectos da vida civilizada foram negligenciados e abandonados, embora sua importância não fosse de modo algum menor do ponto de vista econômico e material. Assim, mesmo depois de conhecerem as leis naturais, continuaram a violá-las deliberadamente. Suas próprias pesquisas científicas dão testemunho disso. Reivindicaram justiça para as mulheres; mas, na realidade, a injustiça que cometeram foi comprovada por seus exames e observações. Quiseram conceder direitos iguais às mulheres, mas, na prática, estabeleceram a desigualdade entre homens e mulheres. Suas próprias ciências e tecnologias dão prova disso. Quiseram reformar o tamaddun e o tahzib, mas, na realidade, criaram instrumentos terríveis para sua destruição. Podemos conhecer os detalhes disso pelos acontecimentos e números que eles próprios relataram. Deve-se observar que não estão conscientes de todos esses fatos; mas, como já foi mencionado, é uma fraqueza humana não conseguir adotar, ao elaborar as leis da vida, medidas equilibradas e apropriadas para todos os princípios. Sua natureza o impele para algum extremo e, quando ele se dirige para esse lado, muitas coisas ficam fora de seu campo de visão. Mesmo quando muitos princípios chegam ao seu conhecimento, ele os ignora e fecha os olhos embora os veja. Aqui se apresenta o testemunho de um cego desse tipo. Com efeito, que prova mais evidente de cegueira deliberada poderia existir?

O cientista russo Anton Nemilov é um comunista convicto. Para provar, por meio de experimentos científicos, a desigualdade natural entre homens e mulheres, dedicou cerca de duzentas páginas de sua obra intitulada The Biological Tragedy of Woman¹. Contudo, ao registrar todos os dados científicos, ele próprio escreve:

Hoje em dia, se for proposto que, no sistema civilizado, sejam concedidos direitos limitados às mulheres, pelo menos as pessoas apoiarão isso. Nós, porém, somos veementemente contrários a essa proposta. Também não devemos iludir-nos, considerando fácil estabelecer, na vida real, a igualdade entre homens e mulheres. Em nenhum lugar do mundo se fez tanto esforço quanto na Rússia soviética para igualar homens e mulheres. Apesar disso, o fato é que, dentro da família, a posição da mulher sofreu pouquíssima mudança. — p. 76

Não ocorreu nenhuma mudança, não apenas na família, mas também na sociedade. A ideia firme de que mulheres e homens não podem ser iguais não está arraigada somente entre as classes comuns; está igualmente profundamente enraizada entre as pessoas altamente instruídas do Estado soviético. Entre as mulheres, essa ideia exerceu uma influência tão forte que, se fossem consideradas iguais aos homens, então

1. A tradução inglesa desta obra foi publicada em Londres no ano de 1932

elas considerariam que os homens haviam sido privados de sua própria dignidade. Além disso, chamá-los-iam de fracos e impotentes. Se tentarmos conhecer a opinião de qualquer cientista, escritor, estudante, comerciante e de cem comunistas sobre essa questão, descobriremos que eles jamais consideram as mulheres iguais a si mesmos. Se lermos qualquer romance contemporâneo, por mais independente que seja o seu autor, encontraremos em algum ponto dessa obra uma descrição que provará ser falsa a ideia acima mencionada (a igualdade entre mulheres e homens).

— pp. 95–194

Qual é a razão disso?

A razão é que aqui ocorre um conflito entre os princípios revolucionários e uma verdade muito importante. «Essa verdade é que, do ponto de vista da fisiologia, não é possível haver igualdade entre mulheres e homens, e não foram atribuídas responsabilidades iguais a ambos. — p. 77

O assunto ficará ainda mais claro mediante outra citação: em suma, a desregramento sexual tornou-se evidente entre todos os trabalhadores. Isso criou uma situação terrível e ameaça destruir o sistema socialista. É necessário combatê-lo por todos os meios possíveis. Pois é extremamente difícil lutar contra essa frente. Posso mencionar centenas de milhares de casos que provarão que a desregramento sexual não se espalhou apenas entre pessoas ignorantes, mas também entre funcionários superiores altamente instruídos e inteligentes.

— pp. 202–203

Quão claras e autênticas são as palavras acima! Por um lado, há o reconhecimento explícito de que a natureza não estabeleceu igualdade entre a mulher e o homem. A tentativa de estabelecer igualdade na vida prática fracassou. Na medida em que se estabeleceu uma espécie de igualdade em luta contra a natureza, nessa mesma medida fluiu uma corrente de obscenidade, e toda a estrutura da sociedade esteve prestes a desmoronar. Por outro lado, afirma-se que os direitos da mulher não serão restringidos na organização social e que, se isso for feito, nós nos oporemos a tal medida. Que prova maior poderia haver disso do que o fato de que o ser humano não é ignorante, mas instruído e consciente? E, contudo, quão grande escravo da natureza ele é! Ele considera falsas as verdades e teorias que descobriu e nega suas próprias experiências e observações. Fechando os olhos para todos os lados, segue unidirecionalmente atrás de seus impulsos e chega aos seus limites ilusórios. Por mais que seu próprio conhecimento, razão e consciência apresentem argumentos e provas irrefutáveis e vigorosos contra essa chegada a um extremo tão desmedido, e por mais que seus olhos contemplem consequências más e venenosas, tudo é em vão.

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Já observaste aquele que tomou seus caprichos como sua própria divindade? Allah, sabendo e deliberadamente, o desviou, selou seus ouvidos e seu coração e colocou uma cobertura sobre seus olhos. Portanto, quem o guiará? Ainda assim, não aceitaremos vós a admoestação?

— Surata Al-Játhiyah: 23

O princípio do equilíbrio da lei no Islã

Neste mundo de excessos extremos e deficiências sem equilíbrio, existe um único sistema civilizacional no qual se encontram plena justiça e equilíbrio, e no qual se levou em consideração cada aspecto da natureza humana, até mesmo seus aspectos ocultos. Seu funcionamento baseia-se num conhecimento completo e especial da constituição física do ser humano, incluindo seus impulsos animalescos, de sua natureza mental, de suas características mentais e de suas necessidades naturais. O propósito da natureza por trás de cada uma dessas criações foi plenamente cumprido de tal maneira que nenhum outro propósito — por mais minúsculo que seja — é impedido ou prejudicado. Finalmente, a combinação de todos os propósitos se torna um meio para alcançar um grande propósito, isto é, o propósito da vida humana. Essa justiça, esse equilíbrio e essa harmonização são tão perfeitos que nenhum ser humano pode produzi-los por meio de seu próprio conhecimento, esforço e conduta. Que uma lei feita pelo ser humano não apresente em parte alguma uma orientação unilateral é algo completamente impossível. Muito menos o próprio ato de criar leis: a verdade é que as pessoas comuns não poderão compreender plenamente o significado desse sistema justo, equilibrado e extremamente científico enquanto não possuírem capacidade intelectual extraordinária e não realizarem, durante anos e anos, pesquisas e experimentos a respeito. Não elogio essa lei por ser crente no Islã; pelo contrário, creio no Islã porque vejo nele equilíbrio e harmonia perfeitos, bem como plena conformidade com as leis da natureza. Ao contemplar tudo isso, meu coração testemunha que o autor de todas essas leis e normas só pode ser Ele, Aquele que criou os céus e a terra e que possui conhecimento do presente e do futuro. A verdade é que somente Ele pode indicar aos descendentes desviados de Adão, que avançam em diferentes direções, o caminho correto da justiça e da moderação.

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Sistema social islâmico

।।Um।।

Perspectiva fundamental

É uma característica do Islã que ele próprio lança luz sobre os mistérios de suas leis e normas. A respeito da norma islâmica para regular a relação entre homens e mulheres na sociedade, o próprio Islã nos informou sobre os princípios fundamentais das ciências e os mistérios naturais nos quais se baseia essa norma.

A essência fundamental da relação conjugal

O primeiro mistério desvendado a esse respeito é:

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Criei todas as coisas aos pares. — Surata Zariyat: 49

Neste versículo, faz-se alusão a um sentido abrangente da lei conjugal — Lei do Sexo. O Engenheiro da natureza universal revela assim a sua própria arte e técnica de engenharia: Ele construiu todas as máquinas desta natureza universal de acordo com a lei conjugal — Lei do Sexo —, isto é, construiu todas as partes dessas máquinas aos pares; e tudo quanto de habilidade técnica se manifesta neste mundo da criação é o resultado surpreendente dessas regras e leis dos pares!

Consideremos agora em que consiste a lei conjugal — Lei do Sexo. O princípio fundamental da lei conjugal é que, em um dos elementos, deve haver ação, e no outro, a tendência de receber a ação. Em um deve haver influência, e no outro, o reconhecimento da influência. Em um deve haver a capacidade de unir e envolver, e no outro, a tendência de ser unido e envolvido. A relação entre duas coisas consiste justamente nessa união e na concessão da oportunidade para ela, nessa ação e na tendência de recebê-la, nessa influência e no seu reconhecimento, e nessa autoridade e aceitação da autoridade. É dessa relação que se realiza todo trabalho de construção, e é por meio do trabalho de construção que funciona a fábrica de todo o universo criado. Tudo quanto existe no mundo da criação foi criado aos pares, cada coisa dentro da sua própria classe. Em cada par, o aspecto fundamental da relação conjugal que se observa é este: um é o agente e o outro é aquele que recebe a sua ação. Naturalmente, em cada classe do mundo criado, a forma dessa relação é diferente: um tipo de união entre pares encontra-se na matéria, e outro tipo encontra-se na matéria bruta em crescimento. Além disso, há um tipo de união entre pares, ou lei conjugal, que se observa entre os seres vivos. Todas essas leis conjugais são diferentes e distintas segundo as suas respectivas condições e finalidades naturais. Mas, entre todas elas, o princípio fundamental da lei conjugal é uno e idêntico, seja qual for o tipo ou a classe. Para o verdadeiro objetivo da natureza — isto é, para a realização da construção e a obtenção de uma forma construída — é indispensável que, em um dos elementos do par, haja a força de agir, e no outro, a força de receber a ação.

Depois de compreender o sentido do versículo mencionado acima, dele se comprovam três princípios fundamentais da lei conjugal:

1. A fórmula pela qual Allah Todo-Poderoso criou o universo inteiro e o método que determinou como meio de operar a Sua própria fábrica jamais podem ser impuros ou vis; ao contrário, em sua essência, são puros e honrosos. Portanto, é desejável que assim sejam. Os opositores da fábrica podem considerá-los impuros e detestáveis e afastar-se deles. Mas o Criador e Proprietário da fábrica jamais desejará que a Sua fábrica seja fechada. Ele também desejará que as partes e componentes das máquinas da fábrica permaneçam em funcionamento e continuem a realizar o seu trabalho.

2. Tanto a ação quanto a recepção da ação são igualmente necessárias para o funcionamento desta fábrica. A existência tanto do agente quanto daquele que recebe a sua ação é igualmente importante nesta fábrica. Não há honra especial na ação do agente, nem desonra na recepção da ação pelo outro. A excelência do agente consiste em possuir força ativa e as qualidades do agente, para que possa cumprir devidamente o aspecto ativo da relação conjugal. Se alguém utilizar as partes de uma máquina comum em uma tarefa diferente da sua função real, para a qual não foram fabricadas, essa pessoa será considerada insensata e inexperiente. Em primeiro lugar, essa tentativa fracassará; e, se se tentar fazê-lo à força, a máquina será destruída. A grande máquina deste universo criado encontra-se na mesma situação. Somente alguém insensato e inexperiente poderia imaginar colocar a parte ativa no lugar daquele que recebe a ação e aquele que recebe a ação no lugar da parte ativa. Além disso, poderia demonstrar uma insensatez ainda maior ao fazer essa tentativa e alimentar a esperança de obter êxito. Mas o Criador desta grande máquina jamais fará isso. Ele manterá a parte ativa na posição de agir e lhe dará a formação correspondente; e encarregará a parte receptiva da tarefa de receber, providenciando o desenvolvimento nela da capacidade de receber a ação.

3. A ação possui uma espécie de superioridade sobre a recepção da ação. Não se trata de superioridade no sentido de que haja honra na ação e desonra, por outro lado, na recepção da ação; trata-se, antes, de superioridade no sentido de que a ação contém, na realidade, excelência, força e influência. Quando uma coisa age sobre outra, isso se deve ao fato de que a primeira, em comparação com a segunda, é superior, mais forte e possui poder para exercer influência. A coisa que recebe a ação e é influenciada por ela recebe-a e é influenciada porque está vencida, é débil e possui aptidão para ser influenciada. Assim como a existência tanto do agente quanto daquele que recebe a ação é igualmente necessária para que a ação ocorra, também é necessário que o agente possua superioridade e capacidade de exercer influência, e que aquele que recebe a ação possua a capacidade de reconhecer a subordinação e receber a influência. Pois, se ambos fossem iguais em força e nenhum tivesse precedência sobre o outro, nenhum deles reconheceria a influência do outro, e a ação de modo algum se realizaria. Se a agulha tivesse a mesma dureza que o tecido, a costura não poderia ser realizada. Se a terra não tivesse suavidade para reconhecer a superioridade da enxada e do arado, a agricultura e o trabalho de construção tornar-se-iam impossíveis. Em suma, nenhum trabalho realizado no mundo poderia ocorrer se, para um agente, não houvesse um receptor da ação, dotado da capacidade de ser influenciado por ele. Portanto, a exigência da natureza daquele que é o agente no casal é que possua superioridade, firmeza e força de autoridade — aquilo a que se chama masculinidade. Isso é desejável para que possa cumprir o seu dever como parte ativa. Por outro lado, a exigência da natureza daquele que recebe a ação é que possua suavidade e tendência para receber influência — aquilo a que se chama feminilidade. Pois são essas qualidades que podem levá-lo ao êxito na função receptiva da relação conjugal. Aqueles que desconhecem esse segredo profundo usam a superioridade pessoal do agente no sentido de honra e dignidade, considerando inferior e desprezível aquele que recebe a ação; ou, negando por completo a superioridade, tentam criar naquele que recebe a ação todas as qualidades que deveriam existir no agente. Mas o Engenheiro que criou essas duas partes instala-as na máquina de tal maneira que, quanto à honra, ambas sejam iguais, e quanto à educação, à formação, à criação e à obtenção de benevolência, ambas recebam o mesmo tratamento. Entretanto, entre elas devem ser produzidas a dominação e a subordinação exigidas pela natureza da ação e da recepção da ação, para que se cumpra o objetivo da relação conjugal. Por outro lado, ambas não devem tornar-se como pedras duras — cujo resultado só poderia ser um conflito entre elas, sem que pudessem adotar qualquer forma de atuação conjunta ou qualquer método de cooperação mútua.

Estes são os princípios fundamentais que se depreendem do significado primordial da relação conjugal. O simples fato de homem e mulher existirem como seres materiais distintos, em pares, exige que esses princípios estejam presentes na relação entre eles. Ao avançarmos, veremos que, na lei social criada pelo Criador dos céus e da terra, foi dada atenção especial aos três pontos mencionados acima.

A natureza animal do ser humano e sua necessidade

Agora, avancemos mais um passo. A existência da mulher e do homem não é apenas uma existência material; é também uma existência animal. Sob esse aspecto, que necessidade está por trás da existência de uma relação conjugal entre eles?

O Alcorão diz:

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Allah criou para vós pares dentre vós mesmos. E também criou pares entre os animais. Desse modo, Ele vos espalha pela terra. — Surata Ax-Shura: 11

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Vossas mulheres são para vós como um campo de cultivo.

-Surata Al-Baqara: 223

No primeiro versículo, fala-se conjuntamente da criação de seres humanos e animais em pares. Seu propósito comum é declarado como a multiplicação da descendência por meio de sua relação conjugal.

No segundo versículo, distinguindo o ser humano da classe geral dos animais, declara-se que, nesse tipo especial de relação conjugal entre os animais, existe uma relação de campo cultivado e agricultor. Isto é uma verdade biológica. Do ponto de vista da biologia, esta é a bela analogia que se pode fazer entre a mulher e o homem.

Destes dois versículos podem ser extraídos ainda três princípios fundamentais. São os seguintes:

  • Allah Ta’ala criou os pares humanos, assim como os de outros seres vivos, com o propósito de que sua descendência continuasse a multiplicar-se por meio das relações sexuais. Esta é uma exigência da natureza animal do ser humano, e deve ser-lhe dada a oportunidade de satisfazê-la. Ele não criou os próprios seres humanos para que alguns deles apenas se sustentassem na Terra e para manter a espécie humana, mas infundiu na natureza animal humana uma atração sexual para que os cônjuges pudessem unir-se e continuassem a multiplicar sua descendência, a fim de manter em funcionamento a Terra de Allah. Portanto, a lei que provém de Allah jamais pode reprimir e eliminar a atração sexual; ao contrário, deve necessariamente conter oportunidades para que o ser humano possa satisfazer essa exigência natural.

2. Depois de comparar a mulher e o homem ao agricultor e ao campo cultivado, declara-se que a relação entre os cônjuges humanos é diferente da relação conjugal dos demais seres vivos. Mesmo deixando de julgá-los como seres humanos e considerando-os como animais, vê-se que a constituição física desses dois [macho e fêmea] foi feita de tal modo que, entre eles, também deve existir a relação firme e indissolúvel que existe entre um agricultor e seu campo cultivado. O trabalho do agricultor não consiste apenas em lançar a semente em sua terra; cabe-lhe também irrigá-la, cuidar da semente e da colheita e garantir sua manutenção. Do mesmo modo, a mulher não é um campo cultivado no qual algum ser vivo, passando pelo caminho, lança uma semente e, depois, uma árvore surge dali espontaneamente. A questão é que, quando essa mulher engravida, ela se torna, na realidade, dependente do agricultor, para que ele a sustente, cuide dela e assuma plena responsabilidade.

3. Segundo a biologia, a atração sexual existente entre os cônjuges humanos é exatamente igual à existente entre os outros animais. Cada ser de uma espécie sente uma atração sexual animal por cada ser do sexo oposto, e o enorme desejo de multiplicar a descendência depositado neles atrai reciprocamente todos aqueles de ambas as categorias nos quais existe efetivamente a capacidade de gerar descendência. Portanto, a lei estabelecida pelo Criador do universo não pode ignorar este aspecto frágil da natureza animal humana. Pois nela está ocultada uma enorme tendência à anarquia sexual [Sexual anarchy], que não pode ser controlada sem métodos especiais de proteção. Se uma vez escapar ao controle, o ser humano se tornará ainda mais degradado que os animais.

(Árabe******************************)

Certamente, criámos o ser humano na mais bela constituição; depois, reduzi-lo-emos ao mais baixo dos inferiores — exceto aqueles que são crentes e praticam boas ações. — Surata At-Tin: 4–6

 

A natureza humana e os seus desejos

Foi anteriormente exposto que a natureza animal constitui o terreno e a base da criação humana. É sobre esse terreno que foi erguido o edifício da humanidade. Entre tudo aquilo que é necessário para preservar a existência individual e coletiva do ser humano, Allah colocou, justamente na sua dimensão animal, os desejos de cada pessoa e a capacidade de cada uma de os satisfazer. Portanto, não é de modo algum da vontade de Allah impedir a satisfação de qualquer desses desejos ou destruir qualquer dessas capacidades. Pois todas essas condições são necessárias, e sem elas o ser humano e a espécie humana não podem sobreviver. Contudo, a natureza exige que, ao satisfazer os seus desejos e utilizar todas as suas capacidades, o ser humano não adote um método puramente animal; pelo contrário, quanto aos assuntos pelos quais anseia na sua dimensão humana e às necessidades supra-animais que existem nele, é desejável que o seu método seja humano em todos esses aspetos. Com esse objetivo, Allah estabeleceu os limites da Sharia, para que as ações humanas se submetam a uma ordem e disciplina. Além disso, foi proferida esta advertência: se forem ultrapassados os limites ou adotado um método inferior, a destruição será inevitável.

(Árabe********************************)

Quem transgride as determinações de Allah oprime a si próprio. — Surata At-Talaq: 1

Observe agora para quais características e desejos da natureza humana o Alcorão Sagrado aponta no que diz respeito à vida conjugal.

A explicação do tipo de relação que foi depositado na natureza humana entre ambas as categorias [homens e mulheres] é a seguinte:

(Árabe**************************)

Entre os Seus sinais está o fato de Ele, Allah Ta’ala, ter criado para vocês cônjuges da vossa própria espécie, para que encontrem tranquilidade neles, e ter estabelecido entre vocês amor e misericórdia. — Surata Ar-Rum: 21

(Árabe**********************)

Elas são uma veste para vocês, e vocês são uma veste para elas. — Surata Al-Baqara: 187

No versículo anterior, onde se mencionou a criação de pares tanto para os seres humanos quanto para os animais, afirmou-se que o objetivo da criação de pares era apenas a preservação da descendência. Aqui, ao distinguir o ser humano dos animais, descreve-se esta característica: a criação de pares tem um objetivo mais elevado, isto é, sua relação não é meramente sexual; é uma relação de amor e afeto. Eles compartilham mutuamente suas alegrias e tristezas. Entre eles haverá uma companhia, uma união e uma proximidade como as que existem entre o corpo e a roupa que o cobre. Tal relação entre ambos é a pedra fundamental da civilização humana — como já foi mencionado anteriormente. Isso indica que, na mulher, há para o homem tranquilidade e fonte de alegria, e que o serviço natural da mulher consiste em espalhar tranquilidade e partículas de alegria neste mundo de luta e atividade — esta é a vida familiar humana. Os ocidentais, contudo, negligenciaram a importância da vida familiar em busca de conforto e facilidades materiais. Na verdade, assim como os demais setores têm importância nos campos da civilização e da organização social, o setor familiar também tem igual importância; e, para a vida civilizada, ele é tão indispensável quanto os outros setores.

2. Essa relação sexual não deseja apenas o amor mútuo entre marido e mulher; deseja também que se estabeleça uma relação profunda e íntima com os filhos que nascerão dessa relação. Para isso, o Criador do universo dispôs a constituição física do ser humano, especialmente da mulher, e as condições naturais da gravidez e da amamentação de tal modo que o afeto e a ternura pelos filhos se entrelaçam em seu sangue, em sua carne e em cada partícula de seu ser. O Alcorão Sagrado diz:(Árabe******************)

Sua mãe o carregou no ventre com grande sofrimento. Depois, após dois anos, ela o desmamou.

— Surata Luqman: 14

(Árabe********************************)

Sua mãe o carregou no ventre com grande dificuldade, deu-o à luz com grande dificuldade e passou trinta meses desde a concepção até o desmame. — Surata Al-Ahqaf: 15

O mesmo ocorre com o homem, embora, no que diz respeito ao amor pelos filhos, ele seja um pouco inferior à mulher.

(Árabe****************************)

O amor pelas coisas agradáveis estabelece entre as pessoas relações de linhagem e matrimoniais. Depois, dessas relações surgem as famílias; das famílias, as tribos; e das tribos, as nações. Em seguida, de todas essas relações forma-se a civilização.

(Árabe*******************************)

E Ele é Allah, que criou o ser humano a partir da água. Depois, estabeleceu entre eles relações de linhagem e matrimoniais. — Surata Al-Furqan: 54

(Árabe***************************)

Ó humanidade! Criamos-vos de um homem e de uma mulher. Depois, dividimo-vos em nações e tribos, para que vos reconheçais uns aos outros. — Surata Al-Hujurat

Portanto, as relações consanguíneas, genealógicas e matrimoniais constituem, na realidade, a base primordial e natural da civilização humana. O estabelecimento dessa civilização depende de uma condição na qual a identidade dos filhos seja conhecida por meio de seus pais e sua linhagem seja preservada.

3. É um desejo natural do ser humano que, se alguém quiser deixar para alguém algo obtido pelo trabalho de sua vida, então queira deixá-lo para os filhos e entes queridos com os quais esteve ligado por laços de sangue durante toda a vida.

(Árabe******************************)

De acordo com a disposição do Alcorão de Allah, entre os parentes, alguns têm mais direito do que outros no que diz respeito à herança. – Al-Anfal

(Árabe*******************************)

Aqueles que adotastes como filhos, Allah Ta’ala não os tomou como vossos filhos. – Surata Al-Ahzab

Portanto, a preservação da linhagem também é necessária para a distribuição da herança.

4. A tendência à modéstia na natureza humana é uma tendência extremamente natural. Allah Ta’ala criou, entre os elementos físicos do ser humano, o desejo de manter cobertas certas partes de seu corpo. Foi precisamente esse impulso físico e orgânico que, desde os tempos antigos, obrigou o ser humano a vestir algum tipo de roupa. Neste capítulo, o Alcorão refutou a doutrina moderna em linguagem inequívoca. O Alcorão afirma que sentir vergonha de expor as partes do corpo humano que despertam atração sexual entre homens e mulheres, e tentar mantê-las cobertas, é uma exigência natural da natureza humana. Naturalmente, Satanás deseja que as pessoas as mantenham descobertas.

(Árabe*******************************)

Depois que ambos provaram o fruto daquela árvore, as partes cobertas de seus corpos ficaram expostas, e começaram a cobri-las com as folhas e folhagens do Paraíso.

—Surata Al-A’raf:

Novamente, o Alcorão diz que Allah instituiu as vestimentas para que, por meio delas, por um lado se cubra a vergonha e, por outro, se realce a beleza. Não basta apenas cobrir a vergonha; juntamente com isso, é necessário que haja temor de Allah no coração.

(Árabe*********************)

Eu vos concedi vestimentas para cobrirdes vossas partes íntimas e para vos adornardes; e a vestimenta da piedade é a melhor. —Surata Al-A’raf, 26

Esta é a concepção fundamental do sistema social islâmico. Depois de acolherdes isso no coração, estudai a forma detalhada desse sistema social, que foi elaborada tendo essa concepção como base. Ao estudá-lo, deveis verificar com olhar perspicaz quanta fidelidade, utilidade, coerência e razoabilidade foram mantidas na aplicação, letra por letra, dos princípios que o Islã adotou como fundamento de sua legislação. Em todos os tipos de leis criadas pelo homem que temos observado, percebemos esta evidente fraqueza: não se mantém plena harmonia e coerência entre seus princípios fundamentais e seus detalhes práticos. Nota-se uma enorme disparidade entre os princípios e seus ramos e ramificações. A forma dos princípios tal como são descritos é uma, enquanto os pequenos detalhes determinados para lhes dar forma prática assumem outra. Elevando-se aos céus do pensamento, da investigação e da razão, apresenta-se um tipo de doutrina. Porém, ao descer do mundo superior ao campo da ação prática, quando o homem se vê em meio aos problemas, perde tudo isso de tal maneira que já não se lembra de sua própria doutrina. Observai, com uma lente de aumento e sob um olhar rigorosamente crítico, as leis humanas, para verificar se há nelas algum tipo de incoerência, falha ou desvio na doutrina que um jovem do deserto da Arábia apresentou ao mundo, sem que qualquer conselho legislativo ou comitê seleto tivesse sido consultado para sua elaboração.

 

Sistema social islâmico

Dois

Princípios fundamentais e disposições obrigatórias

O problema mais importante na construção da sociedade, como foi exposto em outro lugar, é proteger o impulso sexual da licenciosidade e submetê-lo a uma ordem e disciplina. Pois, sem isso, a ordem da civilização não pode ser preservada. Se houver alguma exceção a isso, não haverá meios de proteger as pessoas de uma terrível decadência moral e mental. Para esse fim, o Islã submeteu as relações entre homens e mulheres a limites distintos e vinculou-as a um único centro.

 

Homens e mulheres proibidos

Em primeiro lugar, a lei islâmica tornou proibidos um para o outro todos aqueles homens e mulheres que são obrigados a viver juntos ou a manter uma relação muito próxima. Por exemplo: mãe e filho, pai e filha, irmão e irmã, tia paterna e sobrinho, tio paterno e sobrinha, tia materna e sobrinho, tio materno e sobrinha, padrasto e enteada, madrasta e enteado, sogra e genro, sogro e nora, cunhada e cunhado [as duas irmãs juntas], e homens e mulheres ligados por amamentação. Ao proibir o vínculo matrimonial entre todos esses homens e mulheres, purificou-os da paixão sexual a tal ponto que eles não podem sequer conceber qualquer atração sexual. [Naturalmente, se houver pessoas de natureza animalesca que não estejam submetidas a nenhum vínculo moral, esse é um caso à parte.]

 

Proibição do adultério

Depois de estabelecer esses limites, a segunda restrição imposta é a seguinte: toda mulher ligada a outro homem pelo vínculo matrimonial é proibida. Quanto às mulheres que restam além dessas, foram proibidas as relações sexuais ilícitas com elas.

(Árabe*********************************)

Nem sequer vos aproximeis do adultério. Pois, por um lado, ele é uma obscenidade e, por outro, é um caminho equivocado.

— Surata Bani Isra’il: 32

 

Casamento

Desse modo, todos os caminhos da permissividade sexual foram bloqueados mediante controles, restrições e proibições. Contudo, foi deixado aberto um caminho para satisfazer os desejos e necessidades da natureza animalesca do ser humano e manter em funcionamento as regras e métodos determinados pela oficina da natureza. Foi dito: “Satisfazei essa necessidade e essa exigência, mas não por meio de relações isoladas e irregulares; tampouco às escondidas, nem pelo caminho da obscenidade pública. Pelo contrário, mediante um procedimento regular e um anúncio público, deve tornar-se conhecido e manifesto a todos em vossa sociedade que determinado homem e determinada mulher passaram a pertencer um ao outro.”

(Árabe************************)

Além dessas mulheres, as demais vos foram tornadas lícitas, para que pudésseis estabelecer com elas uma relação legal em troca de vossos bens [dote], e não uma relação sexual livre……….. Portanto, casai-vos com elas mediante a permissão de seus tutores…….. Que sejam unidas pelo vínculo matrimonial, e não para se apresentarem como amantes, pública ou secretamente. — Surata An-Nissá: 24–25

Observai aqui o equilíbrio do Islã. A relação sexual que, fora do vínculo matrimonial, era proibida e repugnante, ao ser inserida nos limites do casamento, não apenas se tornou lícita, mas transformou-se numa excelente obra de virtude. Ordena-se que ela seja aceita e desaprova-se que dela se abstenha. Tal relação entre marido e mulher torna-se uma forma de adoração. Assim, se a esposa jejuar voluntariamente, ou se ocupar com a oração e a recitação, para evitar satisfazer o desejo legítimo do marido, ela será pecadora. Neste contexto, escutai algumas das grandiosas palavras do Nobre Profeta (S):

(Árabe******************************)

Deveis casar-vos. Pois o casamento é um excelente meio de proteger os olhos dos olhares lascivos e de preservar as partes íntimas. Aquele dentre vós que não tiver condições de se casar deve jejuar, pois o jejum reprime o desejo sexual. —Tirmidhi

(Árabe***************************************)

Juro por Allah: no que diz respeito a temer Allah e evitar o Seu desagrado, sou o mais devoto entre vós. Ainda assim, jejuo, quebro o jejum, faço a oração, durmo à noite e me caso. Esta é a minha Sunnah; e aquele que se abstém da minha Sunnah não tem qualquer relação comigo. —Bukhari

(Árabe*********************************)

A esposa não deve jejuar [jejum voluntário] sem a permissão do seu marido. —Bukhari

(Árabe*****************************)

Quando uma mulher passa a noite separada do seu marido, os anjos lançam maldições sobre ela até que retorne ao marido. —Bukhari

(Árabe*************************************)

Quando algum de vós vir uma mulher e se sentir atraído por sua beleza, que vá ter com sua esposa. Pois tudo o que há naquela mulher também existe em sua esposa. —Tirmidhi

O objetivo da Shariah por trás de todas essas instruções é fechar todos os caminhos para a imoralidade sexual. As relações sexuais devem ser confinadas aos limites do vínculo matrimonial. Fora desses limites, não deve haver, tanto quanto possível, qualquer tipo de excitação sexual. Quando a excitação sexual surgir em resposta às exigências da natureza ou devido a algum acontecimento, deve ser estabelecido um centro para sua satisfação. Esse centro é a esposa para o marido e o marido para a esposa. Todas essas disposições foram feitas para que o ser humano se proteja de toda excitação antinatural e autogerada e de atividades desordenadas, podendo dedicar-se, com sua energia concentrada, à organização civilizacional. Para administrar essa “fábrica”, Allah, o Altíssimo, depositou em cada homem e mulher amor e atração sexual; que tudo isso seja empregado na formação da família e na garantia de sua estabilidade. A relação matrimonial é desejável sob todos os aspectos, pois satisfaz os impulsos da natureza humana e animal e cumpre o propósito da lei de Allah. Em contrapartida, abandonar a instituição do casamento é indesejável sob todos os aspectos, pois disso resultará necessariamente uma de duas ações condenáveis: ou a pessoa não satisfará de modo algum o impulso da lei natural e gastará sua energia lutando contra a natureza, ou, compelida pelas exigências da natureza, satisfará seu desejo por meios equivocados e ilícitos.

 

Organização da família

Depois de estabelecer a satisfação do desejo sexual como meio de criar a família e garantir sua estabilidade, o Islã organiza a família. Também aqui, com pleno equilíbrio, ele levou em consideração todos os aspectos da lei natural que foram discutidos anteriormente. Discuti detalhadamente, na obra intitulada Haqquz-Zawjain [Direitos do marido e da esposa], a medida de justiça observada na determinação dos direitos de homens e mulheres. Ao estudá-la, o leitor saberá que o Islã estabeleceu entre os dois grupos toda a igualdade que é possível estabelecer. Contudo, o Islã não apoia nenhuma igualdade contrária à lei natural. Como seres humanos, as mulheres têm exatamente tantos direitos quanto os homens.

(Árabe**********************************)

Mas, por ser o chefe, isso lhe foi concedido não no sentido de dignidade pessoal ou da honra do marido, mas no sentido de influência e autoridade. Foi concedido ao homem com justiça.

(Árabe********************************)

Assim, estabelecendo entre a mulher e o homem a relação natural de “giani” e “gian-pradatta”, o Islã organiza a família da seguinte maneira:

 

A autoridade e a supremacia do homem

No seio da família, o homem ocupa a posição de chefe e administrador; isto é, ele é o governante, o protetor e o responsável pelas questões morais e por todos os assuntos da família. A obediência a ele é obrigatória para sua esposa e seus filhos [desde que ele não ordene desobedecer a Allah e ao Mensageiro]. É responsabilidade do marido prover o sustento da família e adquirir os bens indispensáveis à vida cotidiana.

(Árabe************************************)

O homem exerce autoridade sobre a mulher com base no fato de que Allah concedeu a um dos dois uma posição superior à do outro. E também porque o homem gasta seus recursos com o dote e o sustento. — Surata An-Nissá: 34

(Árabe********************************)

O homem é o governante de sua esposa, de seus filhos e de sua família, e por isso terá de prestar contas perante Allah na outra vida. — Bukhari

(Árabe*********************************)

A mulher virtuosa é obediente ao marido e, pela graça de Allah, preserva sua honra na ausência dele. — Surata An-Nissá: 34

(Árabe************************************)

O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: quando uma mulher sai de casa sem a permissão de seu marido, todos os anjos do céu continuam a amaldiçoá-la; e, enquanto ela não retornar, todos, exceto os jinns e os seres humanos, censuram-na por onde quer que passe.

(Árabe***********************************)

Àquelas de vossas esposas cuja desobediência temeis, admoestai-as. Se com isso não desistirem, afastai-vos delas no leito. Se ainda assim não se corrigirem, castigai-as. Porém, se vos obedecerem, não procureis pretexto para tratá-las com rigor excessivo. — Surata An-Nissá, 34

(Árabe********************************)

Ordenei ao ser humano que trate bem seus pais. Mas, se eles insistirem contigo para que Me associes algo sobre o qual não tens conhecimento, então não lhes obedeças. — Surata Al-Ankabut, 8

(Árabe************************************)

A organização da família foi estabelecida de tal modo que nela haverá um chefe e governante. Sobre aqueles que tentarem destruir essa ordem e disciplina, o Profeta (que a paz esteja com ele) proferiu o seguinte aviso:

(Árabe************************************)

Quem tentar deteriorar a relação de uma esposa com seu marido não tem nenhuma relação comigo.

 

A esfera de atuação da mulher

Neste sistema, a mulher foi feita rainha do lar. A responsabilidade de prover o sustento cabe ao marido, e administrar o lar com o dinheiro obtido é tarefa da mulher.

(Árabe********************************)

A mulher é responsável pela administração do lar de seu marido e deverá prestar contas por essa administração. — Bukhari

Ela foi dispensada das responsabilidades externas ao lar; por exemplo, a oração de sexta-feira não lhe foi tornada obrigatória. O jihad também não é obrigatório para ela; contudo, se houver necessidade, poderá ir para servir os mujahidins. Isso será discutido adequadamente mais adiante. Não é necessário que participe dos funerais; pelo contrário, ela foi impedida de fazê-lo. — Bukhari

A oração em congregação e a presença na mesquita não lhe foram tornadas obrigatórias. Embora lhe tenha sido permitido ir à mesquita sob certas restrições, isso não foi considerado preferível.

Não lhe foi permitido viajar senão acompanhada de um homem mahram. —Tirmidhi

Em suma, sob todos os aspectos, a saída da mulher de casa é desaprovada; e, segundo a lei islâmica, o que lhe é preferível é permanecer em casa.(Árabe******************)—[Isto significa: permanecei no interior das vossas casas. Alguns dizem que esta ordem foi dirigida especificamente às esposas do Profeta (que a paz esteja com ele), porque o versículo começa com as palavras “Ó esposas do Profeta”. Mas, entre todas as instruções dadas neste versículo, qual delas é específica das esposas do Profeta? Foi dito: “Se sois piedosas, não faleis com ninguém de modo insinuante, para que aquele cujo coração está enfermo não alimente más esperanças a vosso respeito. Falai de maneira direta. Permanecei no interior das vossas casas. Não saiais exibindo adornos e enfeites, como as mulheres do período da ignorância. Cumpri a oração, pagai o zakat e obedecei a Allah e ao Mensageiro. Allah deseja afastar de vós a impureza”.]

Refleti sobre estas instruções. Qual delas não se aplica às mulheres em geral? As mulheres comuns não devem ser piedosas? Devem falar com homens que não sejam seus parentes de modo insinuante? Devem abster-se da oração, do zakat e da obediência a Allah e ao Mensageiro? Allah deseja mantê-las na impureza? Se todas estas instruções se dirigem às mulheres em geral, por que somente a frase “permanecei no interior das vossas casas” seria específica das esposas do Profeta?

Na realidade, surgiu uma concepção errônea sobre este assunto porque, no início do versículo, as pessoas veem estas palavras: “Ó esposas do Profeta! Vós não sois como as demais mulheres”. Mas a forma da expressão é exatamente como quando se diz aos filhos de uma família nobre: “Vós não sois como os filhos das pessoas comuns, para andar pelas ruas e mercados, cometendo más ações?”

É necessário que vos comporteis com um pouco de cautela. Isto não significa que seja aceitável ou desejável que os outros meninos e meninas andem pelos mercados como pessoas indisciplinadas e que não seja desejável que sejam bons; ao contrário, o objetivo dessa forma de expressão é estabelecer um padrão de bom caráter, para que todo menino ou menina que deseje tornar-se como os filhos de uma família nobre tente alcançar esse padrão. No Alcorão, este método de aconselhamento às mulheres foi adotado porque, na época da ignorância árabe, havia entre as mulheres uma liberdade semelhante à que existe hoje na Europa. Por meio do Santo Profeta (que a paz esteja com ele), elas estavam sendo gradualmente conduzidas a seguir a civilização islâmica, e para elas estavam sendo estabelecidos limites morais e vínculos de disciplina e ordem social. Nessa situação, a vida das Mães dos Crentes foi especialmente regulamentada, para que pudessem servir de modelo às demais mulheres e para que seu modo de vida pudesse ser seguido nos lares dos muçulmanos comuns. Exatamente a mesma opinião foi expressa pelo Allama Abu Bakr Hissam em sua obra intitulada Ahkam al-Qur’an. Ele diz que, embora esta instrução tenha sido revelada para o Profeta (que a paz esteja com ele) e suas esposas, sua aplicação se estende igualmente ao Profeta universal e aos muçulmanos em geral. Isso porque fomos ordenados a seguir o Profeta, e todos os mandamentos revelados ao Profeta também se aplicam a nós. Apenas no caso de alguns mandamentos específicos foi declarado claramente que se destinavam exclusivamente ao Profeta. Da referida obra, volume 3]

Este é o sentido claro do versículo. Contudo, não se impuseram restrições tão rigorosas sobre este assunto porque, em certas situações, torna-se necessário que as mulheres saiam de casa. Pode acontecer que uma mulher não tenha nenhum tutor ou responsável. Também pode acontecer que, devido à pobreza financeira, ao desemprego, à doença, à incapacidade ou a muitas outras razões semelhantes do chefe da família, a mulher tenha de trabalhar fora de casa. Em tais situações, a lei deixou uma margem considerável.

Está registrado num hadith:

(Árabe*****************************)

Allah Todo-Poderoso vos permitiu sair de casa conforme a necessidade.

— Bukhari

Mas o campo de atividade da mulher é a sua casa. Dentro deste sistema e destas normas da sociedade islâmica, uma permissão desse tipo, concedida em razão das circunstâncias e da necessidade, não introduz nenhuma alteração. Trata-se apenas de uma permissão para uma situação específica, e assim deve permanecer.

 

Restrições necessárias

À mulher adulta foi concedido um grau considerável de liberdade em seus assuntos pessoais. Contudo, ela não recebeu tanta liberdade quanto a concedida ao homem adulto. Por exemplo:

O homem pode ir aonde quiser. Mas a mulher — seja solteira, casada ou viúva — deve, em todas as situações, viajar acompanhada de um homem mahram.

(Árabe************)

Para a mulher que crê em Allah e no Além, não é permitido viajar por três dias ou mais sem estar acompanhada de seu pai, irmão, marido, filho ou de qualquer homem mahram.

(Árabe****************)

Foi narrado por Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A mulher não deve empreender uma viagem de um dia e uma noite sem que esteja acompanhada por um homem mahram.”

(Árabe*****************)

Também foi narrado por Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não é lícito a uma mulher muçulmana viajar nem sequer uma noite sem um homem mahram.” — Abu Dawud

A divergência existente nessas narrações quanto à duração da viagem — se um ou dois dias — não é tão importante. O importante, porém, é que não foi concedida à mulher a liberdade de viajar sozinha, pois isso é extremamente perigoso. Por isso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não deu tanta importância à determinação da duração da viagem. Ele mencionou diferentes períodos de tempo conforme as diversas condições, épocas e circunstâncias.

Ao homem foi concedida plena liberdade quanto ao seu casamento. Ele pode casar-se com qualquer mulher muçulmana ou do Povo do Livro, e também pode manter uma escrava. A mulher, porém, não é plenamente livre nesse assunto. Ela não pode casar-se com nenhum não muçulmano.

(Árabe************)

Ela não é lícita para eles, nem eles são lícitos para ela. — Surata Al-Mumtahana: 10

Ela também não pode ter relações sexuais com um escravo. Assim como o Alcorão permitiu ao homem ter relações sexuais com uma escrava, essa permissão não foi concedida à mulher. Durante o califado de Omar (que Deus esteja satisfeito com ele), uma mulher, interpretando mal o Alcorão, teve relações sexuais com seu escravo. Quando Omar (que Deus esteja satisfeito com ele) tomou conhecimento disso, apresentou o caso à assembleia consultiva dos Companheiros para discussão. Após a discussão, decidiu-se por unanimidade o seguinte:

(Árabe***********)

Ela interpretou mal o Livro de Deus.

Quando outra mulher pediu a Omar (que Deus esteja satisfeito com ele) permissão para praticar semelhante ato, ele aplicou-lhe uma punição severa e disse:

(Árabe************)

Enquanto as mulheres árabes se mantiverem protegidas de atos abomináveis, isso será melhor para elas.

A mulher pode escolher como marido qualquer homem muçulmano livre, exceto um escravo ou um incrédulo. Contudo, também nesse assunto, é necessário obter a permissão de seu pai, avô, irmão e dos demais tutores. O tutor tampouco tem o direito de casá-la com alguém contra a sua vontade. Pois, a esse respeito, há uma instrução do Profeta:

(Árabe***********)

Ao escolher o marido, a jovem tem mais direito de decisão do que o seu tutor.

(Árabe**********)

Que uma jovem virgem não seja dada em casamento sem a sua permissão.

Mas também não é apropriado que a mulher se case com quem quer, contra a opinião dos homens responsáveis da família. Por isso, onde quer que o Alcorão Majid mencione o casamento dos homens, afirma-se que eles próprios devem se casar. Por exemplo:

(Árabe***********)

Não vos caseis com mulheres politeístas.

(Árabe************)

Casai-vos com elas após obter a permissão dos membros de suas famílias.

Mas onde se menciona o casamento das mulheres, fala-se de casá-las. Por exemplo:

(Árabe**********)

Casai as mulheres viúvas.

(Árabe**************)

Não deis vossas mulheres em casamento a homens politeístas antes que eles creiam.

O significado de tudo isso é que, assim como a mulher casada está sob a autoridade do marido, da mesma forma a mulher solteira está sob a autoridade do responsável pela família. Mas essa sujeição não significa que ela não tenha liberdade de vontade e ação, nem que não tenha liberdade alguma em seus próprios assuntos. Seu verdadeiro significado é que cabe ao homem proteger a ordem social contra rupturas e desordem, bem como proteger o caráter e as atividades da família contra perigos internos e externos. Para preservar essa ordem, é dever indispensável da mulher obedecer àquele a quem foi confiada a responsabilidade de mantê-la, seja ele seu marido, seu pai ou seu irmão.

 

Os direitos da mulher

Dessa forma, o Islã—(Árabe*************)—não apenas reconheceu como uma verdade natural que Deus Altíssimo não concedeu a nenhum deles superioridade sobre o outro,(Árabe*********)mas também determinou corretamente que os homens têm certa superioridade sobre as mulheres. Ele reconhece corretamente também as diferenças biológicas e psicológicas existentes entre a mulher e o homem. Mantém exatamente as diferenças que existem e, de acordo com sua natureza, determina sua posição e sua provisão. Depois disso, surge a importante questão dos direitos da mulher. Ao determinar esses direitos, o Islã levou em consideração três aspectos.

Em primeiro lugar, o homem recebeu autoridade unicamente para manter a ordem da família, para que não possa aproveitar-se disso para cometer injustiças e para que a relação entre governante e governado não se transforme numa relação entre senhor e escrava.

Em segundo lugar, devem ser proporcionadas à mulher todas as oportunidades que lhe permitam manifestar os seus talentos naturais dentro dos limites da organização social e participar, tanto quanto possível, da melhor maneira na construção da civilização.

Em terceiro lugar, deve ser possível à mulher ascender aos mais altos patamares de progresso e sucesso. Contudo, tudo o que ela alcançar em termos de progresso e sucesso será alcançado como mulher. Ela não tem o direito de se apresentar como homem, e moldá-la para viver uma vida masculina não é benéfico nem para ela nem para a civilização. Além disso, ela não pode alcançar sucesso vivendo uma vida masculina.

Tendo plena consideração pelos três pontos acima mencionados, o Islã concedeu à mulher direitos civilizacionais e econômicos tão amplos, revestiu-a de tão elevada honra e dignidade e ofereceu, por meio de normas morais e legais, garantias tão permanentes para a preservação de todos esses direitos e dessa dignidade, que não se encontra exemplo semelhante em nenhum sistema social antigo ou moderno do mundo.

 

Direitos econômicos

O assunto mais importante e necessário, por meio do qual a dignidade da pessoa é estabelecida na sociedade e por meio do qual ela pode preservar essa dignidade intacta, é a sua independência econômica. Todas as leis e normas, exceto as do Islã, mantiveram a mulher economicamente enfraquecida, e a principal causa da escravização da mulher na sociedade é justamente a sua penúria financeira. A Europa quis pôr fim a essa situação e, para isso, tornou a mulher uma pessoa que aufere rendimentos. Como resultado, trouxe consigo outro grande mal. O Islã adotou um caminho intermediário entre os dois. Concedeu à mulher amplos direitos de herança. Ela recebe a herança do pai, do marido, dos filhos e de outros parentes próximos (pela lei da herança, foi concedida à mulher metade da parte concedida ao homem. A razão é que a mulher recebe do marido o dote e o sustento, enquanto o homem é privado dessas coisas. A obrigação de sustentar a mulher não recai apenas sobre o marido; se ela não tiver marido, o pai, o irmão, os filhos ou outros parentes responsáveis são obrigados a sustentá-la. Portanto, como as grandes responsabilidades impostas ao homem não foram atribuídas à mulher, a parte da herança concedida ao homem não foi concedida à mulher). Além disso, ela recebe do marido o dote. Os bens que obtém por todos esses meios tornam-se sua propriedade plena, e nem seu pai, nem seu marido, nem qualquer outra pessoa tem o direito pleno de dispor deles. Além disso, se investir capital em algum negócio ou ganhar dinheiro com o próprio trabalho, ela também será proprietária desse dinheiro. Apesar disso, a responsabilidade total pelo seu sustento cabe ao marido. Por mais rica que seja a esposa, o marido não pode ficar isento da responsabilidade de sustentá-la. Assim, no Islã, a situação financeira da mulher foi fortalecida de tal maneira que, muitas vezes, ela se encontra em condição melhor do que o homem.

 

Direitos civilizacionais

Foi concedido à mulher pleno direito de escolher o marido. Ninguém pode obrigá-la a casar-se com alguém contra a sua vontade, nem pode impedi-la de casar-se com quem quer que seja. Contudo, se ela escolher como marido alguém inferior à sua linhagem, nesse caso os seus responsáveis terão o direito de se opor.

Foi concedido à mulher pleno direito de divorciar-se de um marido desagradável, tirânico ou incapaz. O Islã ordenou que os direitos concedidos ao marido sobre a esposa fossem exercidos com bom tratamento e benevolência. O Alcorão diz:

(Árabe**************************)

Tratai bem as mulheres

(Árabe**************************)

Não vos esqueçais de tornar ternas e afetuosas as relações mútuas.

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

(Árabe**************************)

Os melhores dentre vós são aqueles que são melhores para suas esposas e que tratam com afeto os próprios familiares.

Isto não é apenas uma exortação moral. Se, no exercício da autoridade do marido sobre a esposa, forem cometidas injustiças e opressões, a esposa terá o direito de recorrer às medidas legais.

4. Às viúvas e às mulheres divorciadas, ou àquelas cujo casamento tenha sido dissolvido legalmente ou que tenham sido separadas do marido, foi concedido o pleno direito de contrair um segundo casamento; e foi claramente declarado, a esse respeito, que o ex-marido ou qualquer de seus parentes não têm qualquer direito sobre essas mulheres. A maior parte dos Estados da Europa e da América não concedeu às mulheres um direito semelhante.

5. Foi estabelecida plena igualdade entre homens e mulheres nas leis civis e penais. No que diz respeito à proteção da riqueza, da vida, da honra e da dignidade, o Islã não estabeleceu qualquer diferença entre homens e mulheres.

 

Educação das mulheres

À mulher não foi apenas permitido adquirir educação religiosa e secular; considerou-se que a educação delas era tão necessária quanto a dos homens. Assim como os homens recebiam do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) educação religiosa e moral, as mulheres também a recebiam. Eram estabelecidos horários para as mulheres, e, nesses horários, elas compareciam perante o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) para receber instrução. As esposas do Profeta, especialmente a venerável Aisha Siddiqah (que Deus esteja satisfeito com ela), eram instrutoras não apenas das mulheres, mas também dos homens; grandes companheiros e tabi’in aprendiam com ela hadith, tafsir e fiqh. Não se trata apenas de pessoas nobres: o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) ordenou que até mesmo as escravas recebessem instrução. Ele disse:

(Árabe********************************)

Aquele que tiver uma escrava sob sua posse, ensinar-lhe bem os conhecimentos, educá-la na cortesia e na modéstia, depois libertá-la e casar-se com ela receberá uma recompensa dupla.

Bukhari

Portanto, do ponto de vista da educação básica, não há diferença entre homens e mulheres segundo a perspectiva do Islã. Naturalmente, é necessária uma diferença quanto ao tipo de educação. Segundo a perspectiva do Islã, a verdadeira educação da mulher consiste em formá-la como uma excelente esposa, uma excelente mãe e uma excelente dona de casa. Uma vez que seu campo de atuação é o lar, é necessário proporcionar-lhe uma educação que possa torná-la mais apta para esse campo. Além disso, ela necessita daqueles conhecimentos que podem formar o ser humano como um verdadeiro ser humano, moldar seu caráter e ampliar sua visão. Esse tipo de educação é indispensável para toda mulher. Depois, se alguma mulher possuir inteligência excepcional e capacidade mental e, mesmo após essa educação, desejar obter instrução superior em outras ciências e conhecimentos, o Islã não será um obstáculo em seu caminho. Mas a condição é que ela não ultrapasse os limites estabelecidos pela sharia.

 

A verdadeira libertação da mulher (Emancipação)

Tudo isso diz respeito apenas aos direitos. Contudo, não é possível avaliar por meio disso a grande benevolência que o Islã concedeu à mulher. Toda a história da civilização humana testemunha que, no mundo, a mulher era considerada a personificação da humilhação, da vergonha e do pecado. Para o pai, o nascimento de uma filha era um enorme crime e motivo de vergonha. Para escapar da humilhação da relação com o sogro e a sogra, difundiu-se o costume de matar as filhas. O Alcorão descreve em palavras a mentalidade daquela era da jahiliyyah:

(Árabe********************************)

Quando qualquer um deles recebia a notícia de que lhe nascera uma filha, seu rosto se tornava sombrio, como se tivesse bebido veneno. Diante dessa notícia, ficava tão envergonhado que não conseguia mostrar o rosto. Não conseguia mostrá-lo. Pensava assim: “Deverei aceitar a filha com humilhação ou enterrá-la na terra?”

Sem falar dos ignorantes e analfabetos, até os líderes religiosos da sociedade instruída, durante muito tempo, enfrentaram a dúvida sobre se a mulher era de fato um ser humano, se Allah havia colocado alguma alma nelas e coisas semelhantes. Segundo a religião hindu, os Vedas eram proibidos às mulheres. Segundo o budismo, não havia caminho para o nirvana para quem mantivesse relações com mulheres. Segundo as religiões cristã e judaica, somente a mulher era responsável pelo pecado humano. Na Grécia, as donas de casa não tinham educação, civilização, cultura nem direitos sociais. Em Roma, no Irã, no Egito, na China e em outros centros de civilização, a condição da mulher era praticamente semelhante. Como resultado de séculos de escravidão, subjugação e ódio e humilhação universais, o sentimento de autoestima desaparecera do coração da mulher. Ela havia esquecido com que direitos nascera no mundo e que lugar de honra lhe pertencia. O homem considerava seu direito cometer injustiça e violência contra ela, e a mulher considerava seu dever suportar essas opressões. O espírito de escravidão fora profundamente inculcado nela, de modo que fora tão profundamente inculcado que ela se orgulhava de chamar-se escrava do próprio marido, e a adoração do marido era sua religião.

Em tal situação, aquele que trouxe uma grande revolução não apenas no âmbito jurídico, mas também no âmbito mental, foi o Islã. Somente o Islã mudou, entre mulheres e homens, a mentalidade acima mencionada. O slogan sobre os direitos das mulheres, a educação das mulheres e o despertar das mulheres que hoje se ouve é o eco daquela mensagem revolucionária que foi proferida pelos lábios de Hazrat Muhammad (S). Ele mudou o curso do pensamento humano e somente ele fez o mundo ouvir que a mulher é exatamente um ser humano, assim como o homem.

(Árabe***************************)

Allah criou todos vós a partir de um único ser humano e, dele, criou um casal. Aos olhos de Allah, não há qualquer diferença entre a mulher e o homem.

Surata An-Nissá: 1

(Árabe***************************)

O homem receberá o fruto de suas ações, e a mulher receberá exatamente o fruto de suas ações.

Surata An-Nissá: 32

Assim como o homem pode alcançar uma posição elevada por meio da fé, das boas obras e do progresso espiritual, o caminho para essa mesma posição também está aberto à mulher. Se um homem pode tornar-se Ibrahim bin Adham, ninguém pode impedir uma mulher de tornar-se Rabia Basri.

(Árabe***************************)

Seu Senhor respondeu às suas súplicas, dizendo: “Não farei perecer a obra de nenhum de vós que pratique boas ações, seja homem ou mulher; vós sois uns dos outros.”

– Al Imran: 195

(Árabe***************************)

E quem quer que pratique o bem — seja mulher ou homem — mas seja crente, esse tipo de pessoa entrará no Paraíso, e nenhuma injustiça, nem sequer do peso de um grão, lhe será feita.

_Nissá: 124

Além disso, Muhammad (S) foi a única pessoa que advertiu os homens de que, assim como os homens têm direitos sobre as mulheres, as mulheres também têm direitos sobre os homens.

(Árabe***************************)

Assim como a mulher tem responsabilidades e deveres, ela também tem direitos.

Além disso, Hazrat Muhammad (S) libertou as mulheres da vergonha, da humilhação e da desonra, revestindo-as de dignidade e honra. Ele disse aos pais que uma filha não é motivo de vergonha para eles; pelo contrário, ao criá-la e cumprir seus direitos, podem alcançar o Paraíso.

(Árabe***************************)

Se uma pessoa criar suas duas filhas até que atinjam a idade adulta, essa pessoa e eu compareceremos juntos no Dia da Ressurreição, assim como os meus dois dedos estão juntos.

Muslim

(Árabe***************************)

Se alguém tiver filhas e as criar, elas serão uma barreira contra o Inferno para essa pessoa.

—Nasa’i

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse ao marido que uma boa esposa é, para ele, a maior bênção do mundo.

(Árabe***************************)

Entre as bênçãos deste mundo, a melhor bênção é uma boa esposa

An-Nasa’i

(Árabe***************************)

Entre as coisas do mundo, as mulheres e o perfume são os mais amados por mim, e a oração é o refrigério dos meus olhos.

An-Nasa’i

(Árabe***************************)

Entre as bênçãos da terra, não há nada melhor do que uma excelente esposa.

Ibn Majah

Somente o Profeta do Islã, Hazrat Muhammad (S), declarou que, depois de Allah e do Mensageiro, a mãe é quem mais merece honra, dignidade e bom tratamento.

(Árabe***************************)

Um homem perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, quem tem o maior direito de receber de mim um bom tratamento?” O Mensageiro respondeu: “Tua mãe.” Ele perguntou: “E depois dela, quem?” Ele respondeu: “Tua mãe.” Ele perguntou: “E depois, quem?” Ele respondeu: “Tua mãe.” Ele perguntou: “E depois dela, quem?” Ele respondeu: “Teu pai.”

Bukhari.

(Árabe***************************)

Allah tornou ilícitos para ti a desobediência à mãe e a usurpação de seus direitos. — Bukhari

O nobre Profeta (S) também transmitiu às pessoas esta verdade: a intensidade da emotividade, a delicadeza das sensações e a inclinação para os extremos fazem parte da natureza da mulher. Allah a criou com essa natureza, e isso não é um defeito da feminilidade; pelo contrário, é precisamente a sua beleza. Tudo aquilo que o ser humano pode obter de benefício disso, só pode obtê-lo mantendo-a firmemente nessa natureza. Se alguém tentar torná-la reta e rígida como um homem, ela se quebrará.

Assim, o nobre Profeta (S) foi a primeira e a última pessoa a transformar, no que diz respeito à mulher, não apenas a mentalidade dos homens, mas também a das próprias mulheres, criando, em lugar da mentalidade da era da jahiliyyah, uma mentalidade correta, fundada não na emotividade, mas no conhecimento e na razão. Além disso, ele não se limitou à reforma e à correção espiritual: por meio da lei, também estabeleceu medidas para proteger os direitos das mulheres e impedir a injustiça e a opressão dos homens. Ademais, despertou nas mulheres um grau de consciência que lhes permitiu compreender seus direitos legítimos e recorrer à lei para preservá-los.

O Profeta (S) tinha tanta compaixão, ternura e afeição pelas mulheres e era um protetor tão grande delas que, se sofressem a menor injustiça ou arbitrariedade, imediatamente apresentavam uma queixa ao Profeta. Os homens também permaneciam temerosos e apreensivos, pensando que talvez, a qualquer momento, as mulheres pudessem apresentar uma queixa contra eles ao Profeta.

Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

Enquanto o Profeta (S) esteve vivo, éramos muito cautelosos em relação às nossas esposas, para que nenhuma ordem punitiva fosse subitamente revelada contra nós. Após o falecimento do Profeta (S), passamos a conversar livremente com elas. — Bukhari

Segundo um relato de Ibn Majah, sabe-se que o Profeta (S) proibiu levantar a mão contra a esposa. Certa vez, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) queixou-se de que as mulheres haviam se tornado muito insolentes. Disse que deveria haver permissão para espancá-las, a fim de torná-las obedientes. O Profeta (S) deu essa permissão. As pessoas pareciam estar preparadas para isso havia muito tempo. No próprio dia em que receberam a permissão, setenta mulheres foram espancadas pelos maridos. No dia seguinte, a casa do Profeta ficou repleta de mulheres queixosas. O Profeta (S) reuniu as pessoas e disse:

(Árabe************************************************)

Hoje, setenta mulheres cercaram a família do Profeta Muhammad (S). Cada uma delas apresentava uma queixa contra o marido. Aqueles que fizeram esse tipo de coisa não são boas pessoas entre vocês.

O resultado dessas reformas morais e jurídicas foi que, na sociedade islâmica, foi conferida à mulher uma posição tão elevada que não se encontra exemplo semelhante em nenhuma outra sociedade do mundo. Uma mulher muçulmana pode, na vida terrena e no âmbito da religião, alcançar, nos aspectos material, espiritual e da boa razão, um grau tão elevado de honra e progresso ao qual somente os homens podem ascender. O fato de ser mulher não constitui, de modo algum, um obstáculo nesse caminho. Neste vigésimo século, o mundo está muito atrás do Islam. O pensamento humano não conseguiu alcançar o ápice ao qual o Islam chegou. Tudo aquilo que os países ocidentais concederam à mulher não foi concedido a ela como mulher; ao contrário, foi concedido transformando-a em homem. Na realidade, aos olhos deles, a mulher ainda é desprezada, tal como era na época da ignorância. Rainha do lar, esposa do marido, mãe dos filhos — em suma, ainda não há dignidade para uma mulher verdadeiramente feminina. Se existe honra e prestígio, eles pertencem àquela ‘mulher masculinizada’ ou à mulher que se tornou semelhante a um homem — aquela que é mulher fisicamente, mas homem em sua mentalidade e que desempenha na civilização e na sociedade funções próprias dos homens. Isto é, não é a dignidade da feminilidade, mas a própria dignidade da masculinidade! Além disso, uma prova evidente do complexo de inferioridade [Inferiority Complex] e da perturbação mental é que a mulher ocidental veste com orgulho roupas masculinas, ao passo que nenhum homem ousa sequer pensar em sair em público vestindo roupas de mulher. Ser esposa é humilhante para as mulheres ocidentais. Contudo, ser marido não é humilhante para homem algum. A mulher sente honra ao realizar trabalhos masculinos. Entretanto, nenhum homem confere honra a trabalhos próprios da mulher, como cuidar do lar e criar os filhos. O único Islam realizou esta obra: mantendo a mulher em seu lugar natural, conferiu-lhe uma elevada posição na civilização e na sociedade. Na realidade, somente o Islam elevou a dignidade da feminilidade. A civilização islâmica mantém a mulher como mulher e o homem como homem, exigindo de cada um, separadamente, os trabalhos para os quais a natureza os criou. Além disso, mantendo cada um em seu próprio lugar, concedeu a ambos iguais oportunidades de honra, progresso e sucesso. Segundo sua perspectiva, tanto a feminilidade quanto a masculinidade são partes necessárias da humanidade. Ambas têm igual importância na formação da civilização. O serviço que ambos prestam, permanecendo dentro de seus respectivos limites, é igualmente benéfico e merece igual honra. Não há nobreza na masculinidade, nem humilhação na feminilidade. Assim como o homem obtém honra, progresso e sucesso ao permanecer homem e realizar trabalhos masculinos, da mesma forma a mulher obterá honra, progresso e sucesso precisamente ao permanecer mulher e realizar trabalhos femininos. Uma civilização justa deve manter a mulher em seu campo natural de atuação, conceder-lhe plenos direitos humanos, revesti-la de honra e respeito, desenvolver seus talentos ocultos por meio da educação e da formação, e abrir-lhe o caminho do progresso e do sucesso dentro desse campo de atuação e desses limites.

A estrutura da sociedade islâmica

।।Três।।

Proteção

Esta era a estrutura completa do sistema social islâmico. Antes de avançarmos, vejamos mais uma vez as características importantes dessa estrutura.

1. O objetivo deste sistema é manter o ambiente coletivo tão puro quanto possível da excitação e da agitação sexual, para que as energias físicas e mentais do ser humano tenham a oportunidade de se desenvolver em um ambiente puro e pacífico e possam participar da construção da civilização por meio de suas energias conservadas e concentradas.

2. As relações sexuais devem ser mantidas inteiramente dentro dos limites do matrimônio; e, fora desses limites, não somente a desordem nas ações deve ser impedida, mas também devem ser obstruídos, tanto quanto possível, todos os caminhos da desordem nos pensamentos.

3. O campo de trabalho da mulher será separado do campo de trabalho do homem. Levando em consideração a natureza de ambos, bem como suas capacidades mentais e físicas, diferentes responsabilidades na construção da civilização serão confiadas a eles. A organização de suas relações será estabelecida de tal modo que, dentro dos limites legítimos, um seja auxiliar do outro. Porém, ultrapassando esses limites, ninguém interferirá no trabalho de outrem.

4. No âmbito da disciplina familiar, o homem terá a dignidade de servidor, e todos os membros do lar obedecerão ao chefe da família.

5. Tanto a mulher quanto o homem terão direitos humanos, e deve ser dada a ambos a oportunidade de progredir. Porém, não poderão transgredir os limites que lhes foram estabelecidos na sociedade.

Para o sistema social cuja base foi estabelecida sobre este quadro, são necessárias certas medidas de preservação, por meio das quais sua disciplina possa permanecer intacta, com todas as suas características. Essas medidas de preservação do Islã são de três tipos:

a) reforma espiritual,

b) leis penais,

c) medidas preventivas.

Esses três tipos de medidas de preservação foram propostos levando em consideração a natureza e a finalidade do sistema social, e, em conjunto, desempenham a função de sua manutenção.

Por meio da reforma espiritual, a pessoa é educada de tal modo que, espontaneamente, se dispõe a obedecer a esse sistema social, exista ou não externamente alguma força que a obrigue a obedecer-lhe.

Por meio das leis penais, fecha-se o caminho para toda espécie de crime que destrua esse sistema.

Por meio das medidas preventivas, foi introduzido na vida social um método que purifica o ambiente da sociedade de excitações anormais e de movimentos artificiais, reduzindo por completo o risco da devassidão sexual. Para aqueles cuja reforma espiritual não foi realizada pela educação moral e que tampouco temem as leis penais, esse método cria tais obstáculos em seu caminho que, apesar de terem interesse e desejo pela devassidão sexual, torna-se difícil para eles tomar medidas efetivas. Além disso, é um método que separa os espaços de homens e mulheres, estabelece a disciplina familiar de maneira verdadeiramente islâmica e preserva os limites que o Islã determinou para manter a distinção entre homens e mulheres na vida social.

Reforma espiritual

No Islã, a base da obediência foi estabelecida inteiramente sobre a fé. Para aquele que crê em Allah, em Seu Livro e em Seu Mensageiro, são os mandamentos e as proibições da Sharia. Para obedecer aos mandamentos e abster-se das proibições, basta-lhe ter o conhecimento de que Allah ordenou determinada coisa e proibiu determinada outra. Portanto, quando um crente pode saber, por meio do Livro de Allah, que Allah proibiu a obscenidade e as ações injustas, sua fé exige que se abstenha dessas ações e também impeça seu coração de sentir atração por elas. Do mesmo modo, quando uma mulher sabe que posição Allah e Seu Mensageiro lhe atribuíram na sociedade, a exigência de sua fé é que ela aceite essa posição com satisfação e interesse, sem transgredir seus próprios limites. Assim, tal como nas demais esferas da vida, também no âmbito da moralidade e da vida social a obediência correta e completa ao Islã depende da fé. É por isso que, antes de dar qualquer instrução sobre moralidade e vida social, o Islã primeiro convocou à fé e tentou firmá-la profundamente no coração.

Este é um meio fundamental de reforma espiritual, cuja relação não é apenas com a moralidade, mas com todo o sistema islâmico. Além disso, especialmente no âmbito do caráter, o Islã adotou um método científico de educação e formação, cuja descrição resumida é apresentada a seguir:

Modéstia:

Já foi dito anteriormente que o ser humano, influenciado e conduzido por sua natureza animal, comete adultério, roubo, mentira e outros crimes; todos eles são contrários à natureza humana. Essas ações são chamadas de “munkar” na linguagem do Alcorão. A palavra “munkar” significa “ignorante” ou “desconhecido”. Chamar todas essas ações de “munkar” significa que são atos com os quais a natureza humana não tem familiaridade, mas que a natureza animal obriga a pessoa a praticar; por isso, ela verá todos esses atos “munkar”, ou desconhecidos, com repulsa. O sábio Legislador da Sharia apontou para esse objeto ou elemento, e ele é a “modéstia”.

A vergonha que a pessoa atraída pelas ações “munkar” sente diante de sua própria natureza e diante de Allah é chamada, na terminologia islâmica, de “haya”. Haya significa vergonha. Essa vergonha é uma força que impede a pessoa de cometer obscenidades e outras ações munkar ou reprováveis. Se, alguma vez, influenciada e conduzida por sua natureza animal, ela cometer uma ação má, então é precisamente esse elemento [a vergonha] que fere seu íntimo. O resumo da educação e formação moral islâmicas é retirar esse elemento oculto da vergonha do fundo da natureza humana e, por meio do conhecimento, da capacidade de compreensão e do elemento, retirá-lo do fundo da natureza humana e cultivá-lo pelos caminhos do conhecimento, da capacidade de compreensão e da consciência, criando assim um sentimento moral firme e designando-o como um guardião na mente humana. Isto é uma explicação do seguinte hadith:

(Árabe************************************************************************)

Cada religião tem um caráter, e o caráter do Islã é a modéstia.

Outro hadith também lança luz sobre isso:

(Árabe**********************************************)

Se não tens vergonha, faze então o que quiseres.

Pois, quando já não há vergonha, o impulso inicial da natureza animal prevalece sobre o ser humano, e então o Munkar deixa de ser Munkar para ele.

A vergonha natural do ser humano é como um elemento sem forma, que não assume forma alguma. Ela sente uma aversão instintiva por todos os atos abomináveis, mas não possui discernimento. Por isso, não sabe por que sente aversão por determinado ato; essa ignorância vai gradualmente enfraquecendo o sentimento de aversão. Então, sob a pressão dos impulsos animalescos, o ser humano começa a praticar atos reprováveis e, depois de repeti-los muitas vezes, acaba por perder o sentimento de vergonha. O objetivo da educação moral islâmica é eliminar essa ignorância. Ela não apenas o informa acerca dos atos de Munkar manifestos, mas também os torna claros nos recantos ocultos do coração. Adverte-o sobre a nocividade de cada ato reprovável, para que o odeie com discernimento interior. Em seguida, a educação moral torna essa vergonha instruída tão sensível que nem a menor inclinação para um ato reprovável lhe permanece oculta, e ele não deixa de emitir um aviso sequer diante da menor falha do desejo ou da vontade.

Na moral islâmica, o alcance da vergonha é tão amplo que nenhum setor da vida lhe é exterior. Assim, no setor da civilização e da sociedade relacionado com a vida sexual humana, o Islã também recorreu a ela para a reforma moral. Ele revela à vergonha o doce e delicado segredo da mente humana nas questões sexuais, adverte-a a esse respeito e a encarrega de sua supervisão. Não há aqui espaço para uma discussão detalhada. Contentar-me-ei com alguns exemplos.

O ladrão da mente

Do ponto de vista da lei, o adultério ocorre mediante a união e a relação física. Mas, do ponto de vista da moralidade, fora dos limites conjugais, a inclinação para o sexo oposto é adultério no que diz respeito ao desejo e à vontade. Deleitar os olhos com a beleza de uma pessoa desconhecida, desfrutar do prazer de sua voz nos recessos dos ouvidos, a maneira graciosa de falar durante a conversa, dirigir repetidamente os passos para sua residência — tudo isso é preliminar ao adultério e, em essência, adultério. A lei não pode detectar tal adultério. Ele é o ladrão da mente, e somente a polícia da mente pode prendê-lo. A esse respeito, o hadith adverte da seguinte maneira:

(Árabe************************************************************************)

Os dois olhos cometem adultério; o olhar é o adultério deles; as duas mãos cometem adultério; o toque é o adultério delas; os dois pés cometem adultério; caminhar por esse caminho é o adultério deles; a conversa é o adultério da língua; os desejos e aspirações são o adultério da mente; por fim, o órgão sexual comprova a veracidade ou a falsidade de tudo isso.

Os males do olhar

O olhar é o maior ladrão da mente. Por isso, o Sagrado Alcorão e os Hadiths Sagrados chamam primeiramente a atenção para isso. O Alcorão diz:

(Árabe*********************************************************)

Ó Profeta! Dize aos homens crentes que baixem o olhar diante das mulheres alheias e protejam as suas partes íntimas. Isso é o caminho mais puro para eles. Allah está bem informado sobre o que fazem. E, ó Profeta! Dize às mulheres crentes que baixem o olhar diante dos homens alheios e protejam as suas partes íntimas. — Surata An-Nur: 30–31

Está dito no Hadith:

(Árabe***********************************************)

Ó filhos da humanidade! O vosso primeiro olhar é perdoável. Mas cuidado: não lanceis um segundo olhar. — Jassas

Foi dito a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele):(Árabe*************************************************)

Ó Ali! Não lances um segundo olhar depois do primeiro. O primeiro é perdoável, mas o segundo não.

Hazrat Jabir perguntou: «O que devo fazer se o meu olhar cair subitamente sobre algo?» O Profeta respondeu: «Desvia imediatamente o olhar». — Abu Dawud

A tendência para exibir a beleza

O desejo, no coração da mulher, de exibir a sua beleza também é uma das causas dos efeitos nocivos do olhar. Esse desejo nem sempre se manifesta claramente. Oculto em algum lugar, por trás do véu da mente, permanece o desejo de exibir a beleza; e é ele que acaba por se revelar na beleza do vestuário, no arranjo dos cabelos, na escolha de roupas finas e luxuosas e em outras coisas semelhantes. O Alcorão empregou, para tudo isso, o termo abrangente «tabarruj da jahiliyyah». A exibição da beleza e o uso de adornos feitos com o propósito de agradar aos olhos de alguém que não seja o marido são chamados «tabarruj da jahiliyyah». Se algo de belo for feito com esse propósito, também será considerado «tabarruj da jahiliyyah». Nenhuma lei pode ser estabelecida para isso. Isso depende da consciência da mulher. Ela própria deve examinar o seu coração e verificar se nele se encontra oculto algum desejo impuro. Se assim for, para ela há esta orientação de Allah:(Árabe********************************)

Não vos exibaís agora com os adornos e a ostentação que costumavam exibir na época da jahiliyyah. — Alcorão, Al-Ahzab: 33

Os adornos por trás dos quais não há qualquer desejo ou intenção impura são adornos islâmicos. Aqueles que contêm sequer o menor desejo perverso são adornos da jahiliyyah.

Os males da língua

A língua é outro agente de Satanás dentro da mente. Não há limite para os males continuamente cometidos e propagados por meio da língua. Homens e mulheres conversam. Nenhum desejo mau é expresso claramente, mas o ladrão oculto da mente vai criando doçura na voz, atração no modo de falar e um encantamento na conversa. O Alcorão captura esse ladrão da mente:

(Árabe********************************)

Se tiverdes temor de Allah em vosso coração, não faleis com suavidade [com os outros]. Caso contrário, aquele cujo coração está enfermo [de maus desejos] alimentará uma esperança a vosso respeito. Quando falardes, falai de maneira simples e direta [como uma pessoa fala normalmente com outra]. —Alcorão, Al-Ahzab: 32

É esse ladrão da mente que se compraz em descrever e ouvir relatos sobre as relações sexuais lícitas ou ilícitas de outras pessoas. Para desfrutar desse prazer, cantam-se canções amorosas, contam-se histórias de amor verdadeiras ou falsas, e tudo isso é propagado na sociedade como o calor suave de um fogo brando.

O Alcorão diz:(Árabe***********************************************************************)

Aqueles que desejam que a indecência se espalhe entre os muçulmanos terão um castigo doloroso neste mundo e também no Além. An-Nur: 19

Há muitas outras categorias de males da língua, e em cada categoria há um ladrão da mente designado. O Islã investigou todas essas questões e advertiu a seu respeito. Não foi permitido a nenhuma mulher descrever ao próprio marido a situação de outra mulher. Foi dito no hadith:(Árabe*********************************************************)

Foi proibido aos homens e às mulheres que descrevam a outras pessoas os segredos de sua vida conjugal. Isso também promove a obscenidade e desperta a paixão no coração. — Abu Dawud

Se, durante a oração em congregação, o imame cometer um erro ou for necessário adverti-lo sobre alguma questão, foi permitido aos homens adverti-lo dizendo «Subhanallah». Às mulheres, porém, foi dito que não falassem nada, mas batessem uma mão contra a outra. — Abu Dawud, Bukhari.

O mal do som

Muitas vezes a língua permanece em silêncio. Mas a capacidade auditiva é atraída por outros movimentos. Isso também está relacionado a uma má intenção, e o Islã pronunciou uma advertência a esse respeito:(Árabe******************************************************)

Que elas não caminhem batendo os pés no chão; caso contrário, poderá ser percebida a condição dos adornos que mantêm ocultos. — Surata An-Nur: 31

O mal do perfume

Entre todos os mensageiros que levam notícias de uma mente perversa a outra mente perversa, o perfume é um deles. É um meio extremamente sutil de transmitir uma mensagem, que as pessoas consideram justamente sutil. Mas a modéstia islâmica é tão sensível que, diante de sua natureza delicada, até mesmo esse sutil movimento é algo grave. A modéstia islâmica não permite que uma mulher muçulmana caminhe ou vá a uma reunião vestida e adornada, banhada em perfume. Pois que proveito há em manter ocultos sua beleza e seus adornos? Seu aroma se espalhará pelo ar e despertará a excitação.

(Árabe*******************************************************************)

O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: a mulher que usa perfume ou fragrâncias e circula entre as pessoas é uma mulher desviada.

(Árabe****************************************************************)

Quando qualquer uma de vós for à mesquita, não deverá usar fragrâncias.

(Árabe************************************************************)

Para os homens, é apropriado um perfume de cor neutra e fragrância agradável; para as mulheres, um perfume de cor intensa e sem fragrância.

Os males da nudez

No capítulo sobre a awrah — isto é, segundo a Sharia islâmica, as partes do corpo de homens e mulheres que foram ordenadas que fossem cobertas — o Islã apresentou uma explicação correta da modéstia e da dignidade humanas que nenhuma civilização do mundo foi capaz de refutar. Hoje, até mesmo entre as nações consideradas mais civilizadas do mundo, homens e mulheres não hesitam em deixar descoberta qualquer parte do corpo. Para eles, o vestuário serve à beleza, não à cobertura da awrah. Porém, na perspectiva do Islã, a importância da awrah é maior que a da beleza; o Islã ordena a homens e mulheres que cubram aquelas partes do corpo nas quais existe atração sexual pelo outro. A nudez é uma obscenidade que a modéstia e a dignidade islâmicas não podem de modo algum tolerar. Quanto a homens estranhos, nem é preciso falar; o Islã tampouco aprova que marido e mulher fiquem nus diante um do outro. — Ibn Majah

(Árabe*************************************************************)

Quando qualquer um de vós se aproximar de sua esposa, deve cuidar de cobrir a sua awrah. Que ambos não fiquem nus como jumentos. — Ibn Majah

(Árabe*******************************************************************)

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que nunca viu o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em estado de nudez.

É uma modéstia e um pudor ainda maiores que o Islã não aprove nem mesmo ficar nu quando se está sozinho. A razão é que se deve ter ainda mais vergonha diante de Allah.

(Árabe*********************************************************************)

Cuidado! Nunca fiqueis nus. Pois os anjos de Allah estão convosco; eles não se separam de vós, exceto quando ides defecar ou quando vos aproximais de vossas esposas. Portanto, tende pudor diante deles e respeitai a sua honra.

A vestimenta através da qual se podem ver partes do corpo e a awrah fica exposta, na visão do Islã, não é vestimenta alguma.

(Árabe******************************************************************************)

O Mensageiro de Allah (S) disse: as mulheres que, embora vistam roupas, permanecem nuas, agradam aos outros e se deleitam com os outros, e andam com afetação, mantendo o pescoço curvado como os camelos bukhti, jamais entrarão no Paraíso, nem sequer sentirão o seu aroma.

Alguns exemplos foram apresentados aqui para que, por meio deles, se possa avaliar o padrão do caráter islâmico e sua força vital (espírito). O Islã deseja manter o ambiente social e sua atmosfera livres e purificados de todos os fatores que incitam à obscenidade e às ações reprováveis. A fonte de todas essas incitações está no íntimo do ser humano. É nesse lugar que se cultivam os germes da obscenidade e das ações reprováveis, e é dali que começam pequenos movimentos ou impulsos que, mais tarde, se tornam causa de inquietação e perturbação. O ignorante considera isso insignificante e o ignora; mas, aos olhos do sábio, é precisamente aí que se encontra a raiz da doença fatal que destrói o caráter, a civilização e a sociedade. Por isso, o ensinamento moral do Islã deseja criar, no íntimo do ser humano, um sentimento tão grandioso de vergonha que a pessoa passe a examinar a si mesma e, ao perceber a menor inclinação para uma má ação, possa destruí-la pela força de sua própria vontade, ainda em seu germe.

A lei penal

O princípio fundamental da lei penal do Islã é que, enquanto uma pessoa não cometer um crime capaz de destruir a ordem civilizada, ela não deve ser aprisionada nos tentáculos da política. Mas, uma vez que cometa tal crime, não se deve acostumá-la a pecar e a sofrer punição mediante penas leves. As condições para provar o crime devem ser rigorosas. (Na lei islâmica das provas, as condições para provar um crime foram geralmente estabelecidas como muito rigorosas. As condições para provar o adultério foram estabelecidas como as mais rigorosas de todas. De modo geral, em toda a matéria, a lei islâmica considera suficientes duas testemunhas. Porém, para provar o adultério, foram determinadas pelo menos quatro testemunhas.) Na medida do possível, as pessoas devem ser protegidas de cair sob a aplicação da lei. (O Profeta (S) disse: (Árabe*********************)Protegei os muçulmanos da punição tanto quanto possível. Se houver alguma maneira de salvar o culpado, deixai-o livre. Pois, para o imame, é melhor errar ao perdoar do que errar ao punir. —Tirmidhi.) Mas, quando alguém cair sob a aplicação da lei, deve receber uma punição tão severa que não apenas se mantenha afastado da repetição do pecado, mas também que centenas de milhares de outras pessoas inclinadas a esse pecado fiquem amedrontadas e apreensivas ao verem aquela punição severa. Pois o objetivo da lei é livrar a sociedade do crime. Não é fazer com que as pessoas cometam crimes repetidamente e sofram punições repetidamente.

Para a manutenção da ordem social, o sistema penal islâmico estabeleceu dois atos como crimes puníveis: um é o adultério, e o segundo é a acusação falsa.

A punição do adultério

Já foi dito anteriormente a respeito do adultério que, do ponto de vista moral, esse ato é o resultado da extrema degradação do ser humano.

A pessoa que pratica esse ato prova, na realidade, que sua humanidade foi vencida pela animalidade. Depois disso, ela não pode continuar sendo um membro honesto da sociedade humana. Entre os crimes que golpeiam pela raiz a civilização humana, este é, aos olhos da sociedade, um dos crimes mais graves. Por todas essas razões, o Islã estabeleceu esse ato como um pecado punível, quer outro crime seja cometido juntamente com ele, quer não. Isto é: quer seja praticado à força, quer não; quer envolva a usurpação do direito de outra pessoa, quer não.

A instrução do Alcorão é a seguinte:(Árabe*************************************************************)

Açoitai com cem golpes cada mulher adúltera e cada homem adúltero, e não vos compadeçais deles jamais quanto à lei de Deus, se credes em Deus e no Último Dia; e, quando lhes for aplicada a punição, que um grupo de muçulmanos esteja presente para testemunhar o castigo deles. — Surata An-Nur: 2

Neste capítulo existe uma enorme diferença entre a lei islâmica e a lei ocidental. Do ponto de vista da lei ocidental, o adultério, por si só, não é crime. Aos olhos deles, o adultério só será considerado crime quando for cometido à força ou com uma mulher que tenha marido. Em outras palavras, segundo a lei deles, o adultério em si constitui uma infração, enquanto o uso da força e a violação do direito alheio são infrações adicionais. Por causa dessa diferença fundamental, também se faz distinção entre ambas no que diz respeito à punição. A lei ocidental considera suficiente a prisão para o adultério cometido à força e, quando um homem comete adultério com uma mulher casada, concede ao marido dela o direito a uma indenização. Essa pena não impede o crime; pelo contrário, torna as pessoas ainda mais destemidas. Por isso, nos países onde essa lei está em vigor, a prática do adultério vem aumentando. Em contraste, a lei islâmica procura manter o adultério e seus praticantes afastados desse tipo de sociedade. Nos países onde se aplica esse tipo de punição ao adultério, esse crime jamais se torna generalizado. Uma vez aplicada a punição conforme a lei da sharia, instala-se entre todos os habitantes do país um terror tal que, durante vários anos, ninguém se atreve a cometer um crime desse tipo. Para a mente de uma pessoa inclinada a esse tipo de crime, isso funciona como uma espécie de operação psicológica, por meio da qual ocorre nela uma reforma espontânea.

No Ocidente, a mente encara com horror os cem açoites. A razão não é que ele não aprecie o castigo físico das pessoas; a verdadeira razão é que sua sensibilidade moral ainda não se desenvolveu. Antes, ele considerava o adultério uma falta. Agora, considera-o um simples jogo, uma diversão, por meio da qual dois seres humanos, um homem e uma mulher, podem se entreter por algum tempo. Por isso, deseja que a lei seja indulgente nessa questão e que, enquanto o adúltero não interferir na liberdade ou nos direitos legais de outra pessoa, não seja adotada nenhuma medida eficaz. Depois, quando há interferência na liberdade ou nos direitos alheios, isso é considerado um crime que prejudica apenas o direito de um indivíduo. Por essa razão, ele considera uma pena comum ou uma indenização punição suficiente para esse crime.

É evidente que quem sustenta tal concepção acerca do adultério considerará os cem açoites por esse ato uma punição opressiva. Mas, quando sua sensibilidade moral e social se desenvolver e ele souber que o adultério, seja voluntário ou cometido à força, é em todas as circunstâncias um crime social e que toda a sociedade é prejudicada por ele, sua visão sobre a punição mudará espontaneamente. Terá de admitir que a sociedade deve ser protegida desse mal e que, como os elementos que incitam ao adultério estão arraigados na natureza bestial do ser humano, e como sua erradicação não é possível apenas por meio de prisão e indenização, não há alternativa senão adotar medidas severas para bloquear todos os seus caminhos. Em vez de, poupando o criminoso do sofrimento da punição, prejudicar toda a nação e seus futuros descendentes inocentes, é muito melhor aplicar um severo castigo físico a uma ou duas pessoas e, assim, proteger milhões de seres humanos de incontáveis males morais e sociais.

Há outra razão para considerar os cem açoites uma tirania. Isso pode ser facilmente compreendido quando se reflete sobre os fundamentos da civilização ocidental. Já descrevi anteriormente que essa civilização começou com a tendência de apoiar o indivíduo contra a coletividade, e que toda a sua base foi construída sobre uma concepção exagerada dos interesses e direitos individuais. Por isso, por maior que seja a injustiça cometida pelo indivíduo contra a coletividade, isso não parece tão intolerável ao ocidental; ao contrário, na maioria das vezes, ele a acolhe com satisfação. Entretanto, quando se toca no indivíduo para preservar os direitos da coletividade, seu corpo se estremece e toda a sua simpatia se volta para o indivíduo, em vez de para a coletividade. Além disso, assim como os habitantes de toda a era da jahiliyyah, a característica distintiva desses adeptos da jahiliyyah ocidental é que dão mais importância à emoção do que à razão. Como o mal causado a um indivíduo é sentido de forma limitada, eles o consideram um grande veneno. Por outro lado, não conseguem perceber a importância do vasto mal causado à sociedade como um todo e aos seus futuros descendentes.

A disposição da sharia sobre a acusação infundada de adultério

O dano causado pelo falso adultério é quase semelhante ao dano causado pelo próprio adultério. Fazer uma falsa acusação de adultério contra uma mulher honrada não mancha apenas a reputação dela; isso também aumenta a inimizade entre diferentes famílias, lança suspeitas sobre a linhagem, destrói as relações conjugais e faz com que uma única pessoa, pronunciando algumas palavras apenas uma vez, castigue muitas pessoas durante muitos anos. O Alcorão estabeleceu uma punição severa para esse crime.

O Alcorão diz:(Árabe****************************************)

Aqueles que acusarem mulheres castas de adultério e não conseguirem apresentar quatro testemunhas em apoio à sua acusação, açoitai-os com oitenta açoites e jamais aceiteis o testemunho deles no futuro. Essas pessoas são, elas próprias, malfeitoras. — Surata An-Nur: 4

Medidas preventivas

Desse modo, a lei penal islâmica, por meio de seu poder político, por um lado elimina à força os atos injustos e, por outro, protege as pessoas honradas da sociedade contra as calúnias de indivíduos mal-intencionados. O ensinamento moral do Islã purifica o ser humano interiormente de tal maneira que, quando um desejo perverso surge na mente devido a deficiências na educação moral e é transformado à força em ação, a lei o impede. Entre esses dois métodos, adotou-se um método adicional para que ele auxiliasse o ensinamento moral na reforma espiritual. Por meio de todos esses métodos, a organização social foi corrigida de tal modo que as fraquezas que permanecem nos indivíduos por causa das deficiências da educação moral não se ampliem nem se tornem efetivas; que se crie na sociedade um ambiente no qual os desejos perversos não tenham oportunidade de se manifestar; e que sejam bloqueados todos os caminhos possíveis para a destruição da ordem civilizada.

Agora descreveremos, para uma discussão detalhada, cada um desses métodos.

A ordem sobre o vestuário e a cobertura do corpo

No que diz respeito às instruções sociais, a primeira coisa que o Islã fez foi erradicar a nudez e estabelecer os limites da cobertura obrigatória para homens e mulheres. Nesse aspecto, a situação da جاهلية árabe não era diferente. Eles ficavam nus sem hesitação na presença uns dos outros. — [Há um hadith: Hazrat Miswar bin Makhrama (que Allah esteja satisfeito com ele) trazia uma pedra. No caminho, sua tanga se desatou, mas ele continuou carregando a pedra nessa condição. Ao vê-lo, o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Cubra o seu corpo e não ande nu.” — Muslim] Eles consideravam desnecessário cobrir-se durante o banho e ao defecar. Fazia-se o tawaf da Caaba completamente nu, e isso era considerado uma excelente ibadah. — [Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Mujahid, Tawus e Zuhri (que Allah tenha misericórdia deles) afirmaram unanimemente que o tawaf da Caaba era realizado nu.] As mulheres também ficavam nuas durante o tawaf. — [Muslim, no Kitab at-Tafsir, descreveu este costume dos árabes: uma mulher fazia o tawaf nua e dizia às pessoas reunidas: “Quem me dará uma peça de roupa com a qual eu possa cobrir o meu corpo?” Considerava-se uma grande obra meritória dar uma roupa àquela mulher nua.] As roupas de suas mulheres eram tais que parte do peito ficava descoberta, assim como partes dos braços, da cintura e abaixo dos joelhos. Exatamente essa situação pode ser vista atualmente na Europa, na América e no Japão. Em nenhum dos países orientais existe um sistema social que determine quais partes do corpo devem ficar descobertas e quais devem permanecer cobertas.

Nesse aspecto, o Islã ensinou à humanidade a primeira lição da civilização.

(Árabe******************************************)

Ó filhos da humanidade! Allah, o Altíssimo, fez descer vestimentas para cobrir o vosso corpo, e elas são um adorno para vós. — Surata Al-A‘raf: 26

De acordo com o sentido deste versículo, cobrir o corpo foi tornado obrigatório para toda mulher e todo homem. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu uma instrução severa para que ninguém fique nu diante de outra pessoa.

(Árabe***********************************************)

Aquele que lançar o olhar sobre a awrah de seu irmão será amaldiçoado.

— Jassas: Ahkam al-Qur’an

(Árabe***********************************************)

Que nenhum homem veja outro homem nu, e que nenhuma mulher veja outra mulher nua. — Muslim

(Árabe********************************************************)

Juro por Allah: é preferível que eu seja lançado do céu e despedaçado a estar em uma situação em que eu veja as partes íntimas de alguém ou alguém veja as minhas partes íntimas. —Mabsut

(Árabe*********************************************************)

Cuidado! Nunca fiquem nus, pois aqueles que estão convosco nunca vos deixam, exceto durante a defecação e as relações sexuais. —Tirmidhi

(Árabe****************************************************)

Quando qualquer um de vós se aproxima de sua esposa, deve ainda assim manter cobertas as suas partes íntimas e não ficar completamente nu como um asno. —Ibn Majah

Certa vez, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi ao pasto dos camelos destinados à zakat e viu que o pastor dos camelos estava deitado nu. Imediatamente, demitiu-o do serviço e disse:

(Árabe*******************************)

Quem é desavergonhado não nos serve para nada.

Os limites da awrah para o homem

Juntamente com todas essas instruções, também foram determinados separadamente os limites para cobrir o corpo de homens e mulheres. A parte do corpo que é obrigatório manter coberta é chamada de awrah na terminologia da Sharia. A parte entre o umbigo e os joelhos do homem é considerada awrah, e foi ordenado que ela não seja descoberta diante de outros e que outros também não a vejam.

(Árabe****************************************************)

É narrado por Abu Ayyub Ansari que o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “O que está acima dos joelhos e abaixo do umbigo é uma parte que deve ser coberta.” — Daru Qutni

(Árabe*************************************************)

Para o homem, a parte que deve ser coberta vai do umbigo aos joelhos. — Mabsut

(Árabe************************************************************)

Foi narrado por Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Não mostreis a ninguém as vossas coxas, nem olheis para a coxa de qualquer pessoa, viva ou morta.» — Tafsir al-Kabir

Esta é uma determinação universal. Ninguém constitui exceção, exceto a esposa.

(Árabe*******************************************************)

Protegei o vosso satr diante de todos, exceto das vossas esposas e das escravas. — Ahkam al-Qur’an

Os limites do satr para as mulheres

Para as mulheres, os limites do satr foram estabelecidos de forma mais abrangente. Foi-lhes ordenado que cobrissem todo o corpo, exceto o rosto e as mãos. O pai, o irmão e todos os parentes próximos estão incluídos nesta determinação, e nenhuma exceção pode existir em relação a qualquer homem, exceto o marido.

(Árabe********************************************************)

O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: «Para a mulher que crê em Allah e no Além, não é permitido deixar descoberta mais do que isto.» Ao dizer isso, colocou a mão no meio do pulso dela. — Ibn Jarir

(Árabe****************************************************************)

Quando uma menina atinge a puberdade, nenhuma parte de seu corpo deve ficar à vista. Somente o rosto e as duas mãos até os pulsos podem ser vistos. — Abu Dawud

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Certa vez, apresentei-me, bem adornada, diante de meu sobrinho, Abdullah bin Tufayl, e o Profeta (que a paz esteja com ele) desaprovou isso. Eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah! Mas ele é meu sobrinho’. Então o Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

(Árabe************************************************)

“Quando uma menina atinge a puberdade, não lhe é permitido mostrar nenhuma parte do corpo, exceto o rosto e as duas mãos.” Ao dizer isso, ele colocou a mão sobre o pulso dela de tal modo que restou apenas a largura de um punho entre o meio do pulso e o lugar onde sua mão estava colocada. — Ibn Jarir

Certa vez, Hazrat Asma bint Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela), cunhada do nobre Profeta (que a paz esteja com ele), apresentou-se diante dele usando uma roupa fina. As partes de seu corpo podiam ser vistas através do tecido. Imediatamente, desviando o olhar, o Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

(Árabe*********************************************************)

“Ó Asma! Depois de atingir a puberdade, não é permitido a nenhuma mulher mostrar a outra pessoa qualquer parte do corpo, exceto isto e aquilo.” Ao dizer isso, o Profeta (que a paz esteja com ele) indicou o rosto e os pulsos das mãos dela. — Fath al-Qadir

Certa vez, Hafsa bint Abdur-Rahman compareceu à casa de Hazrat Aisha (r.a.) usando um dupatta fino. Então, ela o rasgou e cobriu-a com um xador grosso. —Imam Malik: Muwatta

O Profeta (s.a.w.) disse:

(Árabe**********************************************)

A maldição de Allah recai sobre aquelas mulheres que, embora vestidas, permanecem nuas.

Não permitais que as mulheres usem roupas tão apertadas que revelem o contorno do corpo.

Por essas narrações, pode-se saber que, exceto o rosto e as mãos até os pulsos, todo o corpo da mulher está incluído no satr. Esse satr deve ser mantido coberto até mesmo diante dos familiares mais próximos da casa. Ela não pode descobrir esse satr diante de homem algum além do marido, seja ele pai, irmão ou sobrinho. Também não se podem usar roupas através das quais se vejam as partes do corpo.

Todas as instruções dadas neste capítulo se dirigem às mulheres jovens. As instruções para cobrir o satr tornam-se aplicáveis quando uma menina atinge a puberdade e permanecem vigentes enquanto houver nela atração sexual. Depois que essa idade é ultrapassada, houve certa flexibilização.

O Alcorão Sagrado diz:

(Árabe********************************************************************)

As mulheres muito idosas que já não esperam casar-se novamente não cometerão falta se deixarem de usar o dupatta. A condição, porém, é que não tenham como objetivo exibir seus adornos. É melhor para elas que ajam com cautela nesse assunto. —Surata An-Nur: 60

Aqui, a razão para a redução da severidade é explicada claramente. O sentido da expressão “não esperam casar-se” é não possuir desejo nem atração sexual. Além disso, como precaução, foi imposta a condição de que não tenham como objetivo exibir seus adornos; isto é, se restar no peito sequer uma centelha de desejo sexual, não será permitido deixar de usar o dupatta. Essa regra foi flexibilizada somente para aquelas idosas que, por terem alcançado a velhice, estão livres das restrições relativas às vestimentas e sobre as quais não há receio de que recaia um olhar malicioso, mas apenas um olhar de respeito. Essas mulheres podem permanecer em casa sem o dupatta ou o xador.

Solicitar permissão

A segunda restrição imposta depois disso é a proibição de entrar numa casa sem a permissão de seus moradores, para que ninguém veja as mulheres da casa em uma condição em que não seria apropriado que um homem as visse.

(Árabe*******************************************************)

Quando vossos filhos atingirem a maturidade, deverão entrar em casa com permissão, assim como entravam com permissão os que os precederam. —Surata An-Nur: 59

Também aqui a razão é explicada claramente. A ordem de solicitar permissão aplica-se somente àqueles nos quais já despertou o sentimento sexual. Antes que esse sentimento desperte, não é necessário solicitar permissão.

Além disso, também foi ordenado às demais pessoas que não entrassem na casa de ninguém sem permissão.

(Árabe********************************************)

Ó crentes! Não entreis na casa de ninguém sem a permissão de seus moradores e, quando entrardes, saudai os habitantes da casa. — Surata An-Nur: 27

O verdadeiro objetivo aqui é estabelecer uma barreira entre o interior e o exterior da casa, para que a mulher possa permanecer protegida, na vida familiar, do olhar de homens que não sejam seus parentes próximos. Inicialmente, os árabes não conseguiam compreender a razão dessas instruções. Por isso, muitas vezes espiavam para dentro das casas a partir do lado de fora. Certa vez, algo semelhante aconteceu com o próprio Nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Um dia, ele estava em seu aposento quando um homem espiou pela janela. Ele disse:

Se eu soubesse que irias espiar, teria furado teus olhos. A ordem de pedir permissão foi dada justamente para proteger o olhar. — Bukhari

Depois disso, ele declarou:

Se alguém olhar para dentro da casa de outra pessoa sem permissão, o morador terá o direito de arrancar-lhe os olhos. — Muslim

Em seguida, foi ordenado às pessoas desconhecidas que, se precisassem pedir algo da casa de outra pessoa, o fizessem do lado de fora, por trás da cortina, sem entrar na casa.

(Árabe***************************************)

Quando pedirdes algo às mulheres, pedi-o de detrás de uma cortina. Isso é mais puro para os vossos corações e para os corações delas. — Surata Al-Ahzab: 53

Também aqui se lançou plena luz sobre o objetivo das restrições e proibições. O verdadeiro objetivo é proteger homens e mulheres do desejo e da excitação sexual; por meio desta orientação, foi impedida a livre convivência entre homens e mulheres.

Estas orientações não se destinam apenas aos desconhecidos, mas também aos criados da casa. É narrado que, certa vez, Hazrat Bilal (r.a.) ou Hazrat Anas (r.a.) quis receber de Hazrat Fátima (r.a.) um de seus filhos. Então ela lhe entregou a criança de detrás da cortina. — Fath al-Qadir

Contudo, ambos eram servos especiais do Santo Profeta (s.a.w.) e eram como membros da família.

Encontro a sós e contato físico

A terceira restrição e proibição é que ninguém, além do marido, pode ficar a sós com uma mulher nem tocar seu corpo, por mais íntimo amigo ou parente que seja.

(Árabe***********************************)

Foi narrado por Uqba bin Amén (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Cuidado! Não vos aproximeis das mulheres quando estiverdes a sós.” Um homem dos Ansar perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! Qual é a sua orientação acerca do cunhado?” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ele é como a morte!” — Bukhari, Muslim, Tirmidhi

(Árabe******************************)

Não vos aproximeis de nenhuma mulher na ausência do seu marido, pois Satanás fluirá por qualquer um de vós como o sangue. — Tirmidhi

(Árabe*******************************************)

Amr bin Al-As disse: “O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu-nos de nos aproximarmos de qualquer mulher na ausência do seu marido.” Tirmidhi

(Árabe***************************************)

A partir de hoje, que ninguém se aproxime de uma mulher na ausência do seu marido, até que haja junto dela uma ou duas pessoas. — Muslim

Há também uma orientação semelhante contra tocar:

(Árabe***************************************)

O Profeta (S.A.W.) disse: “Se alguém tocar a mão de uma mulher com quem não possui nenhuma relação legítima, no Além será colocado fogo ardente sobre sua mão”.

Hadrat Aisha (R.A.) disse que o Profeta (S.A.W.) recebia das mulheres apenas a bay’ah verbal. Ele não tomava as mãos delas entre as suas. Não tocou a mão de nenhuma mulher, exceto a de sua esposa. — Bukhari

Usayma bint Ruqayqa disse: “Fui ao encontro do Profeta (S.A.W.) acompanhada de algumas mulheres para prestar a bay’ah. Ele recebeu de nós o juramento de nos abstermos do shirk, do roubo, do adultério, da calúnia e da desobediência ao Profeta”. Depois de concluirmos o juramento, dissemos: “Venha, prestemos bay’ah em sua mão”. O Profeta disse: “Não toco as mãos das mulheres; aceito apenas o juramento verbal”. — Nasai e Ibn Majah

Estas instruções também se aplicam somente às mulheres idosas. É permitido sentar-se em reclusão junto de uma mulher idosa e tocar seu corpo. Hadrat Abu Bakr (R.A.) costumava visitar uma tribo onde havia sido amamentado. Ele apertava as mãos das mulheres idosas dessa tribo. Conta-se que Hadrat Abdullah bin Zubair permitia que uma mulher idosa lhe massageasse as mãos e os pés.

A distinção estabelecida entre mulheres jovens e idosas prova que é necessário impedir a livre mistura entre homens e mulheres, pois isso pode abrir o caminho para o mal.

 

A diferença entre mahram e não-mahram

Com exceção do marido, todos os homens, sejam mahram ou não-mahram, estão sujeitos às instruções acima. Diante de qualquer um deles, a mulher não pode deixar descoberto nenhum parte de seu corpo que faça parte de sua awrah, isto é, exceto o rosto e ambas as mãos; do mesmo modo que um homem não pode expor sua awrah [qualquer parte entre o umbigo e os joelhos] diante de outro homem.

Todos os homens devem entrar nas casas com permissão, e nenhum deles deve sentar-se a sós junto de uma mulher, nem é permitido tocar no corpo dela. –[Há uma diferença considerável entre o homem mahram e o homem não-mahram no que diz respeito a tocar o corpo ou pôr a mão nele. Um irmão pode segurar a mão da irmã para ajudá-la a subir em um veículo ou a descer dele. Fica claro que isso não é permitido a um não-mahram. Ao retornar de uma viagem, o Nobre Profeta (s.a.w.) puxava Hazrat Fátima (r.a.) para junto de si e beijava-lhe a testa. Hazrat Abu Bakr (r.a.) também beijava a testa de Hazrat Aisha (r.a.).]

 

Instruções sobre o recato

A seguir são apresentados os versículos do Sagrado Alcorão nos quais foi ordenado o recato:

(Árabe**************************************************************************************************************)

[Ó Profeta! Dize aos homens crentes que baixem o olhar e preservem a castidade. Isso é mais puro para eles. E dize às mulheres crentes que baixem o olhar, preservem a castidade e não exibam sua beleza, exceto aquilo que naturalmente se mostra. E que puxem seus véus sobre o peito e não exibam sua beleza [a ninguém] senão a estas pessoas: seus maridos, seus pais, seus sogros, seus filhos, os filhos deles, seus sobrinhos por parte de irmão, seus sobrinhos por parte de irmã, suas próprias mulheres, seus escravos, os criados sem desejo por mulheres e as crianças que ainda não têm conhecimento das partes íntimas das mulheres. [Além disso, ordena-lhes que] não façam seus passos ressoar ao caminhar, para que sua beleza oculta não seja revelada pelo som de seus passos.]

—Surata An-Nur: 30–31

(Árabe**************************************************)

Ó esposas do Profeta! Vós não sois como as demais mulheres. Se desejais adotar a piedade, não faleis de modo insinuante [ambíguo], pois aqueles em cujos corações há más intenções alimentarão esperanças a vosso respeito. Falai de maneira simples e direta. Permanecei em vossas casas e não vos exibaies como na época da ignorância passada, exibindo vossa beleza e juventude. —Surata Al-Ahzab: 32–33

(Árabe**********************************************************)

Ó Profeta! Dize a tuas esposas, a tuas filhas e às mulheres crentes que cubram o corpo e o rosto com seus mantos. — Surata Al-Ahzab: 59

Reflitam sobre todos esses versículos. Aos homens foi dada apenas a recomendação de baixarem o olhar e preservarem seu caráter da obscenidade sexual. Mas às mulheres, além dessas duas ordens mencionadas acima, foram dadas instruções adicionais acerca da sociabilidade e da conduta. O significado claro disso é que, para preservar seu caráter, não basta apenas controlar o olhar e proteger as partes íntimas; são necessárias ainda algumas outras normas. Agora devemos ver como o Profeta, que a paz esteja com ele, e os nobres Companheiros, que Deus esteja satisfeito com eles, concretizaram essas instruções na sociedade islâmica. Devemos também examinar qual é o verdadeiro sentido de todas essas instruções e se suas palavras e ações lançam alguma luz sobre como elas podem ser postas em prática.

Contenção do olhar

Em primeiro lugar, foi ordenado às mulheres e aos homens: “Baixai o olhar”. Isto é, em vez de lançar o olhar sobre o rosto de alguém, deve-se direcioná-lo para baixo. Esse é o significado literal da expressão corânica “baixar o olhar”. Mas isso não esclarece plenamente o seu sentido. O verdadeiro objetivo da ordem de Deus Todo-Poderoso não é que a pessoa olhe sempre para baixo e nunca para cima; o objetivo real é que se proteja daquilo que, na terminologia dos hadiths, é chamado de adultério dos olhos. Assim como contemplar a beleza e os encantos de uma mulher desconhecida e sentir prazer com isso é algo que provoca corrupção no homem, olhar fixamente para um homem desconhecido também provoca corrupção na mulher. O início da corrupção e da desordem ocorre natural e instintivamente justamente aqui. Por isso, esse caminho foi bloqueado em primeiro lugar, e esse é o verdadeiro objetivo da contenção do olhar, ou de baixá-lo.

É verdade que, vivendo no mundo de olhos abertos, o olhar cairá sobre todas as coisas. Não é possível que um homem jamais veja uma mulher, nem que uma mulher jamais veja um homem. Por isso, a orientação do Legislador da Sharia é que, se o olhar cair repentinamente sobre alguém e se sentir alguma atração por sua beleza, é proibido lançar um segundo olhar sobre essa pessoa.

Hadrat Jarir, que Deus esteja satisfeito com ele, narra: Perguntei ao Mensageiro de Deus, que a paz esteja com ele: “O que devo fazer se, de repente, meu olhar cair sobre alguém?” Ele respondeu: “Desvia o olhar”. — Abu Dawud

(Árabe********************************************************)

Hadrat Baridah (que Allah esteja satisfeito com ele) relata que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a Hadrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): «Ó Ali! Não olhes uma segunda vez depois do primeiro olhar. O primeiro olhar será perdoado; mas, se olhares uma segunda vez, isso não será perdoado». — Abu Dawud

(Árabe*********************************************)

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Aquele que lançar um olhar de desejo sexual para uma mulher desconhecida terá ferro fundido incandescente derramado nos olhos no Dia da Ressurreição». — Fath al-Qadir

Contudo, há muitas situações em que se torna necessário ver uma mulher desconhecida. Por exemplo: quando uma mulher está sob os cuidados de um médico; quando é testemunha diante de um juiz num processo; quando está se afogando; ou quando a castidade e a honra de uma mulher estão em perigo. Em tais circunstâncias, não só é permitido ver-lhe o rosto, como também, se necessário, podem ser vistas as suas partes íntimas. Seu corpo também pode ser tocado; mais que isso, quando uma mulher está sendo queimada pelo fogo ou submergindo na água, carregá-la nos braços e trazê-la para fora não é apenas permitido, mas torna-se obrigatório. A orientação do Legislador da Shariah é que, em tais situações, deve-se manter a intenção tão pura quanto possível. Porém, se, devido a um impulso humano, surgir o menor grau de excitação, não haverá pecado nisso. Pois esse olhar ocorreu por necessidade, e é impossível ao ser humano reprimir as exigências naturais.

Da mesma forma, não só é permitido ver uma mulher desconhecida com o propósito de casamento e observá-la atentamente, como também há instruções a esse respeito nos hadiths. O próprio Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também olhou para uma mulher com esse objetivo.

(Árabe******************************************************)

É narrado por Mughirah ibn Shu’bah que certa vez ele pediu uma mulher em casamento. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhe: «Olha para ela, pois isso será mais propício para criar amor e harmonia entre vocês». — Tirmidhi

(Árabe****************************************************)

É narrado por Sahl ibn Sa‘d que, certa vez, uma mulher foi até o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e disse: «Ó Mensageiro de Allah! Ofereço-me a ti em casamento». Então, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — olhou para ela. — Bukhari

(Árabe****************************************)

Hadrat Abu Huraira disse: «Eu estava sentado junto do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — quando um homem chegou e disse: “Decidi casar-me com uma mulher dos Ansar”. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — perguntou: “Tu já a viste?”. O homem respondeu: “Não”. O Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Olha para ela, pois geralmente há algum defeito nos olhos das mulheres dos Ansar”. — Muslim

(Árabe******************************************************************)

É narrado por Jabir ibn Abdullah que o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: «Se alguém dentre vós pedir uma mulher em casamento, deve olhá-la tanto quanto possível, para verificar se há nela algo que o incentive a casar-se com ela». — Abu Dawud

Ao refletir sobre todas essas exceções, compreende-se que não é propósito de Allah Ta‘ala proibir completamente que se olhe para as mulheres; seu verdadeiro propósito é fechar o caminho da fitna e da imoralidade. É proibido olhar quando não há necessidade, quando disso não resulta qualquer benefício civilizacional e quando tal olhar pode causar excitação sexual.

Todas essas instruções foram dadas aos homens e, exatamente da mesma forma, também às mulheres.

É narrado no hadith, por Hadrat Umm Salama, que certa vez ela e Hadrat Maymuna estavam sentadas junto do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Nesse momento, o cego Hadrat Ibn Umm Maktum chegou ali. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: «Cubram-se diante dele». Hadrat Umm Salama disse: «Ele não é cego? Ele não poderá ver-nos nem reconhecer-nos». O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: «Por acaso vós também sois cegas, para não poderdes vê-lo?»

Mas há uma pequena diferença, do ponto de vista psicológico, entre o homem olhar para a mulher e a mulher olhar para o homem. A natureza do homem tem uma tendência a agir de modo avançado. Depois que algo lhe agrada, ele se empenha em alcançá-lo. Já a natureza feminina contém a tendência de oferecer resistência e de fugir. Enquanto sua natureza não for modificada, ela não pode tornar-se tão destemida e audaciosa a ponto de correr em direção a alguém depois que ele lhe agrada. O Legislador da Sharia, levando em consideração essa diferença, não declarou, para a mulher, uma severidade tão grande quanto a que declarou para o homem no que diz respeito a olhar para a mulher. Isso porque é famosa nos livros de hadith a narrativa de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mostrou-lhe as apresentações dos abissínios por ocasião do Eid.” [Essa narrativa foi registrada de diferentes formas em Bukhari, Muslim, Nasa’i, Musnad Ahmad e outras obras. Alguns explicaram que esse acontecimento talvez tenha ocorrido quando Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) ainda era menor e quando a ordem do hijab ainda não havia sido revelada. Contudo, Ibn Huran afirmou, em uma discussão detalhada, que o acontecimento ocorreu quando uma delegação da Abissínia havia chegado a Medina. Está comprovado pela história que essa delegação chegou a Medina no sétimo ano da Hégira. Considerando isso, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) tinha então quinze ou dezesseis anos. Além disso, a narrativa de Bukhari afirma que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mantinha Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) coberta com um manto. Isso prova que as instruções relativas ao hijab já haviam sido reveladas.] Disso se sabe que não é absolutamente proibido às mulheres olhar para os homens. Porém, é proibido que ambos se reúnam e se sentem na mesma assembleia e que se olhem fixamente. Também não é permitido um olhar que possa resultar em qualquer transgressão ou mal. Foi na própria casa do companheiro cego Ibn Umm Maktum, de quem o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia ordenado a Umm Salama que se mantivesse coberta, que ele também ordenou a Fatima bint Qays (que Allah esteja satisfeito com ela) que cumprisse sua idda. Qadi Abu Bakr Ibn al-Arabi relatou o acontecimento desta forma em seu Ahkam al-Qur’an:

Ele disse que Fatima bint Qays desejava cumprir sua idda na casa de Umm Sharik. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “As pessoas entram e saem desta casa. Fique na casa de Ibn Umm Maktum, pois ele é cego e, ali, você pode permanecer sem o hijab.”

Disso se sabe que o objetivo é reduzir o risco de transgressão e infortúnio. Foi proibido que ela permanecesse onde o risco de transgressão era maior, e foi-lhe ordenado permanecer onde o risco era menor. Isso porque aquela mulher necessariamente teria de ficar em algum lugar; e, onde não havia necessidade de permanecer, foi proibido às mulheres reunirem-se no mesmo local com um homem não-mahram e encontrarem-se com ele face a face.

Quem possui a capacidade de compreender todas essas considerações, que são dignas, razoáveis e aptas a apreender o sentido da Sharia, pode facilmente entender quais são as razões lógicas das instruções sobre o controle do olhar e, sob esse aspecto, por que essas instruções são tornadas mais severas ou mais brandas. O verdadeiro objetivo do Legislador da Sharia é pôr fim ao jogo dos olhares; caso contrário, Ele não tem qualquer inimizade contra os olhos de ninguém. Os dois olhos veem primeiro com um olhar inocente. O demônio da mente continua a saboreá-lo, e isso é algo concedido pela natureza. Desfrute das demais alegrias da beleza natural. Portanto, contemple uma vez a beleza humana e extraia dela uma alegria espiritual. Mas, interiormente, Satanás continua aumentando o prazer e o gosto pelo deleite. Por fim, o gosto pela beleza eleva-se ao desejo de união. Há alguém capaz de negar que, de todos os pecados cometidos e ainda cometidos no mundo, o olhar dos olhos é sua primeira e maior causa? Pode alguém afirmar que o estado da mente ao contemplar uma flor é exatamente o mesmo que ao contemplar um belo rapaz ou uma bela moça? Se há diferença entre os dois estados, e um deles é mais sexualmente apelativo que o outro, como se pode dizer que a liberdade permitida para apreciar uma beleza será igualmente permitida para a outra? O Legislador da Sharia não deseja impedir ninguém de apreciar a beleza. Ele diz: escolha o par que desejar e, tendo-o como centro, satisfaça nele tanto quanto possível o desejo de apreciar a beleza que existe em você. Se, afastando-se desse centro, você andar olhando a beleza e a juventude dos outros, envolver-se-á em transgressão e obscenidade. Mesmo que, por causa do autocontrole e de outras restrições e proibições, não se envolva efetivamente em libertinagem, não conseguirá proteger-se da libertinagem no reino dos pensamentos. Grande parte de sua energia será desperdiçada pela excitação dos olhos. Seu coração será corrompido por muitos desejos pecaminosos ainda não realizados. Você será repetidamente atormentado por amores e decepções e passará muitas noites em claro, sonhando. Muitas belas serpentes o morderão. A vibração do coração e a excitação do sangue consumirão sua força vital — será isso um dano pequeno? Mantenha tudo isso sob controle. Deve-se evitar olhar sem motivo e olhar de tal maneira que possa resultar em transgressão e infortúnio. Se houver uma necessidade real de olhar e disso resultar algum benefício civilizacional, então isso será legítimo.

Restrições à exposição da beleza e seus limites

As ordens relativas ao controle do olhar aplicam-se igualmente a homens e mulheres. Há também algumas ordens específicas para as mulheres. A primeira delas é que não é permitido exibir a própria beleza além de um determinado limite.

Antes de refletir sobre o objetivo e os detalhes dessa ordem, é necessário recordar por um momento todas as instruções anteriormente mencionadas no capítulo sobre vestimenta e awrah. Com exceção do rosto e das duas mãos, todo o corpo da mulher — a awrah — não pode ser exposto nem diante do pai, do tio paterno, do irmão ou do filho. É até mesmo makruh que uma mulher exponha sua awrah diante de outra mulher. [É tão haram que uma mulher veja, para outra mulher, as partes entre o umbigo e os joelhos quanto é haram que um homem veja essas partes de outro homem. Ver as demais partes é makruh, mas não haram.] Tendo essa verdade em mente, é necessário discutir os limites da exposição da beleza.

1. É permitido à mulher exibir sua beleza diante do marido, do pai, do sogro, do filho, do enteado, do irmão, do sobrinho e do sobrinho por parte da irmã.

2. Também lhe foi permitido exibir sua beleza diante de seu próprio escravo (e não diante do escravo de qualquer outra pessoa).

3. Ela também pode apresentar-se adornada diante de alguém que lhe seja subordinado e submisso e que não tenha qualquer interesse ou desejo pelas mulheres. — Ao interpretar esta instrução, Hafiz Ibn Kathir diz:(Árabe******************) Isto se refere aos trabalhadores, servos e subordinados que não são astutos, mas extremamente simples de espírito e não têm desejo sexual pelas mulheres. Pode haver ausência de desejo sexual em duas situações. Primeiro, quando não há neles desejo sexual algum, como no caso dos idosos, dos débeis mentais ou dos eunucos congênitos. Segundo, quando possuem força masculina e o interesse e desejo naturais pelas mulheres, mas não podem nutrir desejo sexual pelas mulheres da casa sob cuja autoridade servem como empregados submissos, nem pelas mulheres da casa à qual vão pedir ajuda como mendigos. As palavras acima do Alcorão referem-se a essas duas categorias de homens. Contudo, é preciso lembrar que os homens diante dos quais foi permitido às mulheres exibir sua beleza devem necessariamente possuir duas qualidades. Primeiro, não devem sequer pensar em nutrir qualquer desejo sexual pelas mulheres da casa em que trabalham. Além disso, o dono de cada casa deve verificar se os servos autorizados a entrar nela correspondem realmente à avaliação inicialmente feita a seu respeito. Se, depois de concedida a permissão, surgir qualquer suspeita em relação a eles, sua entrada na casa deverá ser proibida. Um exemplo marcante disso é o do eunuco a quem o Profeta (que a paz esteja com ele) havia permitido entrar na casa.

O fato foi o seguinte: havia um eunuco em Medina. Ele costumava circular diante das esposas do Profeta. Certo dia, estava sentado junto de Hazrat Umm Salama (que Deus esteja satisfeito com ela), conversando com seu irmão, Hazrat Abdullah (que Deus esteja satisfeito com ele). Nesse momento, o Profeta (que a paz esteja com ele) chegou ali e, ao entrar na casa, ouviu o referido eunuco dizer a Abdullah as seguintes palavras:

Amanhã, se Taife for conquistada, mostrarei a você Badiya bint Ghaylan al-Thaqafi. A situação dela é tal que, quando vem pela frente, veem-se quatro dobras em sua barriga, e, quando se volta de costas, oito dobras. Depois, descreveu indecentemente seus órgãos íntimos. Ao ouvir isso, o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: Ó inimigo de Deus! Você a observou muito de perto. Em seguida, disse às suas esposas: Percebo que este homem conhece bem a condição das mulheres. Portanto, não permitam que ele se aproxime de vocês.

O Profeta (que a paz esteja com ele) não se limitou a isso. Expulsou-o de Medina. Como ele havia feito uma descrição dos órgãos íntimos de Badiya bint Ghaylan, o Profeta (que a paz esteja com ele) considerou que, ao perceberem seu jeito e seus modos femininos, as mulheres conviviam com ele sem constrangimento, como convivem com as mulheres de sua própria espécie. Aproveitando-se disso, aquele homem tomava conhecimento da condição íntima das mulheres e as elogiava diante dos homens. Disso poderia resultar uma enorme corrupção e graves males.

4. Ela também pode exibir sua beleza diante dos meninos nos quais ainda não tenha surgido o desejo sexual. O Alcorão diz:

(Árabe*******************************************)

meninos que ainda não adquiriram conhecimento dos assuntos íntimos das mulheres.

5. É permitido às mulheres exibir sua beleza e seus adornos diante daquelas mulheres com quem convivem habitualmente. No Alcorão, em vez da expressão “as mulheres em geral”, foi usada a expressão “vossas mulheres”. Com isso, entendem-se as “mulheres nobres”, ou as “parentas e familiares”, ou somente as “mulheres de sua própria classe”. Não é permitido à mulher em questão exibir sua beleza diante de mulheres ignorantes e tolas, de mulheres cuja conduta seja suspeita ou cujo caráter apresente sinais de corrupção e libertinagem, nem diante de qualquer mulher desse tipo. Isso porque elas também podem ser causa de desordem e males. Depois que os muçulmanos foram para a Síria e as muçulmanas começaram a conviver com mulheres judias e cristãs, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) escreveu a Hazrat Abu Ubaidah ibn al-Jarrah (que Allah esteja satisfeito com ele), governador da Síria, ordenando que se proibisse às muçulmanas entrar nos banhos públicos com as mulheres do Povo do Livro. — Tafsir de Ibn Jarir

Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) explicou que as muçulmanas podem mostrar diante de mulheres descrentes e dhimiss apenas aquilo que podem mostrar diante de homens estranhos. — Tafsir Kabir

O objetivo de tudo isso não era manter qualquer distinção religiosa; ao contrário, era proteger as muçulmanas da influência de mulheres cujo temperamento, caráter e cultura não fossem conhecidos ou que, quando conhecidos, fossem censuráveis do ponto de vista do Islã. Entre essas mulheres não muçulmanas, as que são nobres e recatadas estão, no Alcorão,(Árabe********)“incluídas entre vossas mulheres”.

Ao refletirmos sobre todos esses limites, podem ser percebidas duas categorias:

1. A beleza cuja exibição foi permitida dentro desses limites restritos consiste em usar adornos — isto é, partes do corpo que estão fora da área do awrah —, vestir-se com belas roupas, usar kohl e perfume, arrumar os cabelos e outras formas de adorno que as mulheres costumam usar em casa, de acordo com suas inclinações femininas.

2. Foi permitido exibir esse tipo de adorno diante dos homens que são permanentemente proibidos às mulheres, ou diante daqueles que não têm desejo sexual, ou ainda diante das pessoas que não serão causa de desordem e males. Para as mulheres, foi estabelecida a condição de serem “vossas mulheres”; para os subordinados, a de serem “sem desejo sexual”; e para os meninos, a de serem “ignorantes dos assuntos íntimos das mulheres”. Com isso, fica claro que o propósito do Legislador da Shariah é limitar a exibição da beleza das mulheres a tais limites que não haja, por meio de sua beleza e de seus adornos, qualquer possibilidade de provocar excitação ilícita ou de estimular a licenciosidade sexual.

Quanto a todos os homens que estão fora desses limites, foi ordenado que não se exibam diante deles a beleza e os adornos; além disso, ao caminhar, não se deve pisar de modo que a beleza e os adornos ocultos se revelem pelo som dos passos. Assim, o olhar dos homens se fixa naquela mulher. A beleza que, por essa ordem, se exige que seja ocultada dos homens estranhos é precisamente aquela cuja exibição foi permitida dentro dos limites restritos mencionados acima. O objetivo é muito claro. Se as mulheres se apresentam adornadas diante de pessoas que têm desejo sexual e cujos desejos, por não serem mahram, não foram transformados em sentimentos puros e inocentes, ninguém afirma que, como resultado dessa exibição da beleza, toda mulher se tornará desonrada e todo homem se tornará, na prática, pecador. Mas também ninguém pode negar que a circulação pública das mulheres em belos trajes e sua participação em aglomerações causam inúmeros prejuízos públicos e ocultos, mentais e materiais. Hoje, as mulheres da Europa e da América gastam consigo mesmas e com seus maridos a maior parte de seus rendimentos em roupas e adornos. Esse encargo cresce diariamente a tal ponto que elas já não têm condições financeiras de suportá-lo. — Recentemente, realizou-se uma exposição de produtos químicos. Segundo a descrição dos especialistas, soube-se que as mulheres da Inglaterra gastam vinte milhões de libras por ano, e as mulheres da América, cento e vinte e cinco milhões de libras por ano. Cerca de noventa por cento das mulheres desejam fazer algum tipo de maquiagem. (Nota: isso ocorreu quarenta anos antes, quando este artigo foi escrito. Atualmente, não há dúvida de que o luxo das mulheres aumentou muitas vezes em relação àquele período — o tradutor.) Não são justamente os olhares lascivos que recebem as mulheres nos mercados, escritórios e aglomerações que criam essa obsessão? Pense novamente: que outra razão pode haver para surgir entre as mulheres um desejo tão intenso de se enfeitar e para que ele cresça tão rapidamente? Não será porque desejam obter a admiração dos homens e parecer atraentes aos olhos deles? — A obsessão das mulheres por se tornar belas cresceu tanto que, por causa dela, chegam a sacrificar a própria vida. Seu esforço extremo é permanecerem magras e esbeltas, sem que haja no corpo sequer meio quilo de carne além do necessário. Para a beleza, os especialistas determinaram medidas para as panturrilhas, as coxas e o busto, e cada jovem deseja manter o próprio corpo dentro dessas medidas, como se, para essas infelizes, não houvesse outro objetivo na vida além de parecer agradável aos olhos dos outros. Para alcançar esse objetivo, passam fome, privam-se de alimentos nutritivos e vivem de bebidas leves, como suco de limão e café amargo. Sem orientação médica — na verdade, contrariando essa orientação — usam medicamentos que as deixam magras e fracas. Muitas mulheres já sacrificaram e continuam sacrificando a vida por causa dessa obsessão. Em 1937, a famosa atriz de Budapeste, Jucilabas, morreu subitamente devido a uma parada cardíaca. Mais tarde, a investigação revelou que, durante vários anos, ela vivera subalimentada e usara medicamentos patenteados para reduzir o peso. Então, certo dia, sua força vital subitamente cedeu. Depois disso, somente em Budapeste ocorreram consecutivamente mais três casos. A famosíssima bela húngara Magda Varsili sacrificou a vida para manter uma aparência esbelta. Em seguida, a cantora Luísa Zabu desmaiou subitamente no palco, diante de milhares de espectadores, e morreu. Sua tristeza era que seu corpo não correspondia ao padrão de beleza da era moderna. Para remediar isso, a pobre mulher recorreu a métodos artificiais e perdeu sessenta libras de peso em dois meses. O resultado foi que seu coração ficou extremamente debilitado e, certo dia, ela sacrificou a vida para satisfazer os apreciadores da beleza.

Depois disso, chegou a vez de uma atriz chamada ‘Imula’. Ela havia tornado o próprio corpo tão leve por meios artificiais que, por fim, foi acometida por uma doença cerebral permanente. Depois, em vez de ir ao palco, teve de ser internada num manicômio. Os acontecimentos envolvendo pessoas famosas desse tipo são publicados nos jornais. Mas quem sabe quantas saúdes e quantas vidas essa obsessão pela beleza e por parecer uma amante, que se espalhou de casa em casa, destrói todos os dias? Alguém dirá que isso é liberdade da mulher ou escravidão da mulher? Essa chamada liberdade apenas impôs ainda mais sobre elas o domínio do desejo sexual dos homens. Ela as transformou em escravas a tal ponto que até no que diz respeito à alimentação e à preservação da saúde foram privadas de liberdade. A vida e a morte dessas desafortunadas agora existem apenas para os homens. Para que serve isso? Será que é um desejo inteiramente inocente? Não se oculta em seu interior um desejo sexual que quer expandir-se para além de seus limites naturais e, para cuja satisfação, existe um desejo semelhante do outro lado? Se você negar isso, talvez amanhã não hesite em afirmar que a fumaça visível num vulcão não indica que alguma lava esteja prestes a sair de seu interior.

Você tem liberdade para fazer o que quiser e faça o que desejar. Mas não negue a verdade. Essa verdade já não está oculta. Seus resultados tornaram-se manifestos como a luz do dia. Você está aceitando conscientemente esses resultados. Mas o Islã quer deter isso justamente no ponto de onde começa a sua manifestação. Pois seu olhar não está fixado no início aparentemente inocente da exposição da beleza, mas no terrível desfecho que se espalha por toda a sociedade como a escuridão do Dia do Juízo.

Hadith:

(Árabe*****************************************)

A mulher que circula diante de homens estranhos exibindo adornos é como a escuridão do Dia do Juízo, sem luz. — Tirmidhi

No Alcorão, onde é proibido exibir a beleza diante de homens estranhos, há também uma exceção. A saber:(Árabe***********)Nisso não há culpa. As pessoas tentaram obter alguma vantagem dessa exceção. Mas o problema é que não há margem para obter mais vantagens dessas palavras. O Legislador da Shariah diz: não exiba voluntariamente a sua beleza diante de outros. Porém, ninguém será responsabilizado pelo traje que se revela por si mesmo ou que é inevitável revelar-se — esse é o significado bastante claro. Que a sua intenção não seja exibir a beleza e o traje. Você não deve ter, de modo algum, o impulso ou o desejo de mostrar seus adornos a outros, nem, ainda que não consiga mais do que isso, de atrair o olhar alheio para si fazendo ouvir o tilintar oculto de suas joias. Você deve fazer todo o possível para ocultar a sua beleza e os seus adornos. Depois disso, se algo vier a ficar exposto involuntariamente, Allah não a responsabilizará por isso. A roupa com que você cobre a sua beleza certamente ficará visível. Nela serão perceptíveis a constituição e a altura do seu corpo, sua compleição física e suas formas. Para realizar os trabalhos necessários, você terá de deixar descobertas as mãos e parte do rosto. Se for assim, não há culpa. Sua intenção não é expô-los; pelo contrário, você é obrigada a fazê-lo. Se alguma pessoa má sentir prazer com isso, que sinta. Ela sofrerá o castigo por seu desejo perverso. Você cumpriu, conforme sua capacidade, a responsabilidade que a civilização e a moralidade lhe haviam confiado.

Esse é o verdadeiro significado do versículo acima mencionado. Se investigarmos cuidadosamente todas as divergências entre os exegetas quanto ao significado desse versículo, saberemos que, apesar de todas as diferenças de opinião, o sentido de suas declarações acaba sendo precisamente aquele que foi exposto acima.

Segundo Ibn Mas‘ud, Ibrahim Nakha‘i e Hasan al-Basri, a beleza aparente significa aquelas vestimentas sob as quais a beleza interior pode ser ocultada, como o burca, o xador e semelhantes.

Segundo Ibn Abbas, Mujahid, Ata, Ibn Umar, Anas, Dahhak, Said ibn Jubair, al-Awza’i e os imames seguidores da escola hanafita, isso significa o rosto e ambas as mãos, bem como os elementos de adorno usados neles, tais como a hena nas mãos, os anéis, o kohl nos olhos e semelhantes.

Segundo Said ibn al-Musayyib, a única exceção é o rosto; e, de acordo com outra narração, Hasan al-Basri também apoiou essa opinião.

Hazrat Aisha (r.a.) era partidária de manter o rosto coberto. Segundo ela, o significado de beleza aparente são as mãos, as pulseiras, os anéis, os braceletes e semelhantes.

Miswar ibn Makhrama e Qatada permitem descobrir as mãos juntamente com os adornos; pelas suas palavras, parece que ele considera permitido deixar descobertos apenas os dois olhos, em vez de todo o rosto. — [Ibn Jarir e Ahkam al-Qur’an.]

Ponderem sobre o propósito de todas essas divergências. Destes exegetas(Árabe***********)compreende-se que Allah, o Altíssimo, permite a exposição de uma beleza que necessariamente acaba sendo exposta ou cuja exposição se torna necessária. Nenhum deles pretende exibir as mãos ou torná-las objeto do olhar de alguém.

Cada um deles, de acordo com o seu próprio discernimento e tendo em consideração as necessidades das mulheres, tentou compreender que parte do corpo pode ser obrigatoriamente descoberta quando necessário ou que naturalmente acaba ficando descoberta. Dizemos que,(Árabe**********)não se deve restringi-lo a nenhuma delas. A mulher crente que deseja obedecer às instruções de Allah e do Mensageiro e que não pretende envolver-se em transgressões e males pode decidir por si mesma, conforme a sua situação e necessidade, se descobrirá ou não o rosto e ambas as mãos; se desejar descobri-los, em que momentos o fará, quanto descobrirá e quanto manterá coberto. Sobre esse assunto, o Legislador não deu nenhuma instrução explícita. Tampouco corresponde ao bom senso prático estabelecer uma instrução explícita com base na diversidade das situações e nas necessidades. A mulher que, por necessidade, é obrigada a sair e trabalhar precisará, às vezes, descobrir as mãos e, outras vezes, o rosto. Para essa mulher há permissão conforme a necessidade. Mas, para a mulher cuja situação não é essa, não é apropriado descobrir voluntariamente as mãos e o rosto sem motivo.

Portanto, a intenção do Legislador é que, se alguma parte do corpo for descoberta com o propósito de exibir a própria beleza, isso será pecado. Se algo se tornar visível espontaneamente e sem intenção, não haverá pecado nisso. Se uma necessidade real obrigar a descobri-la, isso será permitido. A questão agora é: deixando de lado a diversidade das situações, que instrução existe especificamente sobre o rosto? O Legislador prefere que ele permaneça descoberto ou não o aprova? O rosto só pode ser descoberto em caso de necessidade, ou não é algo que deva ser ocultado dos olhares alheios?

Os versículos da Surata Al-Ahzab lançam luz sobre essas questões.

Instruções sobre a cobertura do rosto

Os versículos da Surata Al-Ahzab mencionados acima são os seguintes:

(Árabe*********************************************)

Ó Profeta! Dize às tuas esposas, às tuas filhas e às mulheres muçulmanas que puxem para baixo sobre si os seus véus, usando os seus mantos. Assim, espera-se que sejam reconhecidas e, consequentemente, não sejam molestadas. — Surata Al-Ahzab: 59

O versículo foi revelado especificamente para cobrir o rosto; (Árabe*********)o plural da palavra (Árabe*********)significa manto. (Árabe*********)A palavra significa pendurar. (Árabe*****************)O seu significado literal é pendurar uma parte do manto sobre si. Esse é também o significado de usar um véu. Contudo, o verdadeiro objetivo deste versículo não é o ‘véu’ no sentido geralmente conhecido, mas sim cobrir o rosto. Isso pode ser feito por meio de um véu, de uma cobertura ou de qualquer outro método. Foi declarado que o benefício disso é que, quando uma mulher muçulmana sair de casa coberta dessa maneira, as pessoas compreenderão que ela é uma mulher respeitável, e não uma mulher despudorada e desprovida de recato. Por essa razão, ninguém obstruirá a sua castidade.

Todos os comentaristas do Sagrado Alcorão expressaram precisamente esse significado deste versículo. O venerável Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse, ao comentá-lo:

Allah, o Altíssimo, ordenou às mulheres muçulmanas que, quando saírem de casa por alguma necessidade, deixem cair sobre o rosto a extremidade do manto a partir do alto da cabeça. — Tafsir de Ibn Jarir

O Imam Muhammad ibn Sirin perguntou ao venerável Ubayda ibn Sufyan ibn al-Harith al-Hadrami como se deveria cumprir essa ordem. Em resposta, ele próprio demonstrou, levantando o manto: cobriu a testa, o nariz e um dos olhos, deixando apenas um olho descoberto. — Tafsir de Ibn Jarir

O erudito Ibn Jarir Tabari diz, em seu tafsir deste versículo:

Ó Profeta! Dize a tuas esposas, a tuas filhas e às mulheres muçulmanas que, quando saírem de suas casas por alguma necessidade, não usem roupas de escravas, que deixam a cabeça e o rosto descobertos; ao contrário, que puxem sobre si o véu do manto, para que os homens ímpios não atentem contra sua castidade e saibam que são mulheres nobres. — Tafsir de Ibn Jarir

O erudito Abu Bakr Jassas diz:

Este versículo prova que foi ordenado à mulher jovem que cubra o rosto diante de homens que não sejam seus parentes próximos, e que, ao sair de casa, demonstre recato e dignidade, para que aqueles que nutrem más intenções não sejam atraídos por ela. — Ahkam al-Qur’an, terceiro volume

O erudito Nishapuri diz, em seu tafsir ‘Ghara’ib al-Qur’an’:

Nos primórdios do Islã, as mulheres saíam usando camisas e lenços, como na época da ignorância. As roupas das mulheres nobres também não se distinguiam das roupas das mulheres das classes inferiores. Então foi ordenado que elas lançassem um manto sobre si e cobrissem o rosto com ele, para que as pessoas pudessem reconhecer que eram mulheres nobres, e não mulheres de má conduta.

O Imam Razi diz:

Na época da ignorância, tanto as mulheres nobres quanto as escravas andavam sem véu, e os homens perversos as perseguiam. Allah, o Altíssimo, ordenou às mulheres nobres que se cobrissem com um manto.(Árabe********************)Isso pode ter dois sentidos. Primeiro, por essa vestimenta seria possível reconhecer que se tratava de uma mulher nobre, e elas não seriam perseguidas. Segundo, ela indicaria que não eram mulheres de caráter corrompido. Pois, quando uma mulher mantém o rosto coberto — ou quando o rosto não é considerado parte da ‘awrah’ [a parte do corpo que, segundo a terminologia corânica, deve permanecer coberta diante de todos, exceto do cônjuge; a parte do corpo do homem entre o umbigo e os joelhos também é chamada de ‘awrah’ nesse sentido] — ninguém poderia esperar que ela estivesse disposta a descobrir sua ‘awrah’. Portanto, essa vestimenta provaria que ela é uma mulher que observa o recato, e seria inútil esperar dela qualquer conduta indecorosa. — Tafsir Kabir

O cádi Baydawi diz:

(Árabe******************************************)

Isto significa que, quando saíssem para atender às suas necessidades, deveriam cobrir o corpo e o rosto com um manto. Aqui, (Árabe********) a palavra (Árabe*******) foi usada para indicar que ele deveria ser envolvido por cima do manto. Isso (Árabe*********************) estabeleceu uma distinção entre as mulheres nobres, as escravas e as cantoras. Isso (Árabe**********) significa que pessoas suspeitas não ousariam atentar contra a honra delas. — Tafsir al-Baydawi

Todas essas afirmações comprovam que, desde a época sagrada dos nobres Companheiros (que Deus esteja satisfeito com eles) até o século VIII, o versículo em questão foi compreendido da mesma maneira em todas as épocas, e esse significado é precisamente aquele que pudemos entender de suas palavras. Além disso, ao examinarmos os hadiths, torna-se evidente que, desde a revelação deste versículo, na época do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), as mulheres muçulmanas em geral começaram a cobrir o rosto, e deixou de ser costume andar com o rosto descoberto. Consta em Abu Dawud, at-Tirmidhi, al-Muwatta e outras coletâneas de hadiths que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) proibiu as mulheres de cobrir o rosto e de usar luvas durante o ihram. Isso comprova que, já naquela época sagrada, havia o costume de usar um véu para cobrir o rosto e luvas para cobrir as mãos. A proibição referia-se apenas ao uso desses itens durante o ihram. Contudo, o objetivo, durante o hajj, não era deixar o rosto da mulher exposto ao olhar do público; ao contrário, o objetivo era que, no traje ritual do ihram, o véu do rosto não pudesse tornar-se parte integrante da roupa das mulheres, como normalmente acontecia em outras ocasiões. Outros hadiths afirmam que, mesmo durante o ihram, as esposas do Profeta e as demais mulheres muçulmanas comuns ocultavam seus rostos descobertos do olhar de homens desconhecidos.

(Árabe************************************************)

Hazrat Ayema (que Deus esteja satisfeito com ela) disse: «As montarias passavam diante de nós, enquanto estávamos em estado de ihram com o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Quando alguém se aproximava de nós, puxávamos nossos mantos da cabeça sobre o rosto. Quando passavam, descobríamos novamente o rosto».

— Abu Dawud

(Árabe***************************************************)

Fátima bint al-Mundhir disse: “Durante o ihram, costumávamos cobrir o rosto com um pano. Connosco estava Hazrat Asma, filha de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela não nos proibiu disso.” — Imam Malik: Al-Muwatta

No Fath al-Bari, no Livro do Hajj, há uma narração de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela):

(Árabe**********************************************_)

Durante o ihram, as mulheres devem deixar os seus mantos penderem da cabeça sobre o rosto.

Cobertura

Quem observar as palavras do Sagrado Alcorão, a sua aceitação pelo povo em geral, a exegese consensual e a sua aplicação na época do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), não poderá negar esta verdade: na Sharia islâmica existe a instrução de que as mulheres cubram o rosto diante de homens estranhos, e essa ordem era cumprida na época do Profeta (que a paz esteja com ele). Ainda que não o seja pelo termo “niqab” ou “cobertura”, é, em significado e essência, algo proposto pelo Sagrado Alcorão. Diante dos olhos do Ser Sagrado sobre quem o Alcorão foi revelado, as mulheres muçulmanas haviam-no adotado como parte do vestuário usado fora de casa; e naquela época também se chamava “niqab”, isto é, véu ou cobertura.

É lamentável que este seja precisamente o “niqab” (véu), que a Europa considera extremamente desagradável e detestável. Até a simples ideia de usá-lo é insuportável para a consciência ocidental. Eles o consideram um sinal de opressão, estreiteza e barbárie. É algo cujo nome também é mencionado quando se fala da ignorância e do atraso dos povos orientais. E, quando se diz que algum povo oriental está a progredir em civilização e cultura, a primeira coisa proclamada com grande ênfase é que o “niqab” desapareceu desse povo. Agora, incline a cabeça de vergonha ao saber que ele não foi uma invenção de épocas posteriores; foi, antes, uma instituição do próprio Sagrado Alcorão, e o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) tornou-o uma prática corrente. Mas não basta simplesmente baixar a cabeça. Se a avestruz esconde a cabeça na areia ao ver o caçador, a existência do caçador não desaparece. Você também pode inclinar a cabeça dessa maneira, mas com isso os versículos do Alcorão não serão apagados, nem desaparecerão os fatos comprovados pela história. Se, por meio de interpretações complexas, você lançar uma cortina sobre isso, essa “mancha de vergonha” tornar-se-á ainda mais evidente. Depois de professar fé na “Palavra Divina” ocidental e aceitar que ela é uma “mancha de desonra”, resta-lhe apenas um meio de eliminá-la: declare a sua libertação do Islão que ordena até mesmo aquilo que é “detestável”, como o “niqab”, o véu e a cobertura do rosto. Você deseja “progresso”; aquilo de que necessita é “civilização”. Como, então, poderá aceitar uma religião que impede as mulheres de se adornarem como luminárias de assembleias e reuniões? Que ensina modéstia, véu, honra e castidade, e as proíbe de se enfeitarem para deleite dos olhos de outros que não os habitantes da casa? Onde está o “progresso” numa religião assim? Que relação tem uma religião assim com a “civilização”? Para o “progresso” e a “civilização”, é necessário que a mulher — não uma mulher, mas uma senhora — antes de sair, se liberte durante duas horas de todas as tarefas e se dedique apenas ao aperfeiçoamento da beleza e aos adornos; que encha todo o corpo de perfume; que se vista com roupas extremamente atraentes quanto à cor e ao corte; que maquilhe o rosto e os dois braços; que torne os lábios rubros com batom; que avive os olhos para que as sobrancelhas arqueadas lancem olhares certeiros e penetrantes. Quando sair de casa adornada com todos esses encantos, a situação será tal que cada gesto parecerá atrair o coração e a mente, dizendo: “Eis o verdadeiro lugar.” E, se nem mesmo isso satisfizer o desejo de exibir os próprios adornos, manterá sempre consigo um espelho e os instrumentos de cosmética, para que, caso surja a menor falha no arranjo, possa corrigi-la de tempos a tempos.

Temos repetido muitas vezes que existe uma diferença tão grande quanto o céu e a terra entre os objetivos do Islão e os da civilização ocidental; e, se alguém interpretar as instruções islâmicas a partir do ponto de vista ocidental, cometerá um erro grave. O padrão de valor e dignidade aplicado às coisas no Ocidente é completamente diferente do padrão do Islão. As coisas que o Ocidente considera extremamente importantes e desejáveis na vida não têm, do ponto de vista islâmico, importância alguma. E aquilo a que o Islão dá importância é, aos olhos do Ocidente, desprovido de valor. Assim, para quem acredita no padrão ocidental, cada elemento do Islão parecerá necessitar de correção. Quando se sentar para interpretar as instruções islâmicas, acabará inevitavelmente por alterá-las e, mesmo depois de as alterar, não será capaz de as aplicar na própria vida, pois a cada passo a interpretação do Alcorão e da Sunnah lhe criará obstáculos. Antes de examinar os pormenores dos métodos para pôr em prática as ordens de Allah, uma pessoa assim deveria refletir sobre o propósito para o qual esses métodos foram adotados e sobre até que ponto são aceitáveis. Se ela nem sequer consegue concordar com esses objetivos, por que haveria de suportar o esforço inútil de discutir os meios para alcançá-los e de tentar alterá-los? Por que não abandona simplesmente a religião cujos objetivos e finalidades considera defeituosos? Mas, se concorda com os seus objetivos, então a discussão fica limitada à questão de saber se os meios eficazes propostos para alcançar esses objetivos são apropriados ou não. Essa discussão pode ser facilmente resolvida. Contudo, somente pessoas nobres podem adotar este caminho. Resta agora o grupo dos hipócritas. Estes são os piores entre as criaturas de Allah Todo-Poderoso. É próprio deles alegar que acreditam em alguma coisa, quando, na realidade, a sua fé está depositada em outra coisa.

A controvérsia que se trava em torno do “niqab” e da “burca” baseia-se, na realidade, na hipocrisia. Com todas as forças, tentou-se provar que esse tipo de véu era comum entre os povos da era pré-islâmica e que essa herança da jahiliyyah foi distribuída entre os muçulmanos muito depois da época do Profeta. Por que essa preocupação com investigações históricas contra um versículo claro do Alcorão, a prática comprovada da época do Profeta e as explicações explícitas dos Companheiros e dos tabi’un? A única razão é que diante deles estavam, e ainda estão, todos aqueles objetivos e ideais aceitos pelo público ocidental. Enraizaram-se em seus corações aquelas concepções de “progresso” e “civilização” que foram imitadas dos ocidentais. Como usar a burca e cobrir o rosto é contrário a esses objetivos e incompatível com tais concepções, tentaram, por meio de investigações históricas, eliminar todas essas questões registradas na jurisprudência islâmica. Trata-se de uma hipocrisia manifesta, praticada também nesta questão, como nas demais. A verdadeira causa é aquela falta de princípios, escassez de inteligência e ausência de coragem moral que foram mencionadas acima. Se não fosse assim, apesar de alegar submissão ao Islã, jamais lhe ocorreria pensar em apresentar uma história do Alcorão. Ou teria harmonizado seus objetivos com os objetivos do Islã [se desejasse continuar sendo muçulmano], ou teria se separado abertamente desta religião, que considera um obstáculo ao progresso segundo seu próprio critério de progresso.

Para quem compreende os objetivos da lei islâmica e possui também algum bom senso [Bom senso], não é difícil compreender que permitir às mulheres circular em público com o rosto descoberto é contrário àqueles objetivos aos quais o Islã dá tanta importância. A coisa que mais atrai uma pessoa na outra é o seu rosto. A beleza natural do ser humano — em outras palavras, a mais grandiosa expressão da beleza humana — está no rosto. É ele que mais chama a atenção. É ele que agita as emoções e os sentimentos. É ele o maior agente do desejo e da excitação sexual. Não é necessário possuir profundos conhecimentos de psicologia para compreender isso. Pergunte à sua própria mente. Peça o veredicto aos seus próprios olhos. Examine e verifique isso por meio de sua própria experiência mental. A hipocrisia é outra questão. Se o hipócrita e falso achar que até reconhecer a existência do sol é contrário aos seus interesses, negará a existência do sol em plena luz do dia. Se você se apegar à verdade, terá de reconhecer que, no que diz respeito ao apelo sexual [Apelo sexual], Deus Altíssimo concedeu ao rosto a maior parte de toda a beleza do corpo. Se você tivesse de se casar com uma moça, como decidiria depois de vê-la? Uma possibilidade seria que ela permanecesse diante de você cobrindo todo o corpo, exceto o rosto. A segunda possibilidade seria que ela mostrasse o rosto por uma abertura de uma janela. Diga agora: qual das duas você escolheria? Diga sinceramente: em comparação com o corpo inteiro, a beleza do rosto não é mais importante para você?

Depois de reconhecer esta verdade, prossiga. Se não for desejável impedir a libertinagem sexual da sociedade e a excitação sexual descentrada, então deveria haver liberdade para deixar tudo descoberto — não apenas o rosto, mas também o peito, os braços, as coxas, as panturrilhas e assim por diante — como ocorre na civilização ocidental. Nesse caso, não haveria necessidade alguma daqueles limites e restrições descritos acima a respeito do sistema islâmico de recato. Mas, se o objetivo for impedir a tempestade da excitação sexual, que poderia ser mais contrário ao bom senso e mais anticientífico do que acorrentar as pequenas portas e deixar a grande porta completamente aberta?

Agora pode surgir a pergunta: se a situação é essa, por que o Islã permitiu descobrir o rosto em caso de necessidade indispensável? A resposta é que a lei islâmica não é desequilibrada nem unilateral. Por um lado, leva em consideração as consequências morais; por outro, julga tendo diante de si as necessidades reais do ser humano, mantendo entre ambas a mais perfeita harmonia e equilíbrio. Ela deseja fechar o caminho à imoralidade e, ao mesmo tempo, não quer impor a ninguém restrições que o impeçam de satisfazer suas necessidades legítimas. Esta é a única razão por que, quanto a cobrir as partes pudendas e ocultar a beleza, foram dadas instruções tão claras, mas não foram dadas instruções do mesmo modo quanto ao rosto e às mãos. Pois ocultar as partes pudendas e a beleza não causa nenhuma dificuldade para satisfazer as necessidades da vida. Mas manter sempre cobertos os dois braços e o rosto causaria às mulheres enormes dificuldades para satisfazer suas necessidades. Por isso, em geral, foi estabelecido para as mulheres que mantenham sobre o rosto um véu e uma cobertura e (Árabe**********)— segundo o princípio de –, foi concedida esta facilidade: se houver realmente necessidade de descobrir o rosto, ele poderá ser descoberto. A condição, porém, é que o objetivo não seja exibir a beleza; o verdadeiro objetivo deverá ser apenas satisfazer a necessidade. Além disso, o caminho para a corrupção e o mal que se temia do outro lado também foi bloqueado ao se ordenar aos homens que baixassem o olhar. Se uma mulher honrada descobrir o rosto por necessidade própria, o homem deverá baixar o olhar e abster-se de qualquer outro uso indevido desse olhar.

Ao refletir sobre estas instruções relativas à observância do recato, compreende-se que o recato islâmico não é um costume da jahiliyyah, mas uma lei baseada no conhecimento e na razão. O costume da jahiliyyah é rígido e imutável. O costume, uma vez estabelecido de determinada maneira, não pode ser alterado em circunstância alguma. O que foi ocultado permanece oculto para sempre; mesmo depois da morte, não pode ser revelado. Em contrapartida, a lei baseada na razão e na consciência contém flexibilidade. Conforme as circunstâncias, há nela espaço tanto para a rigidez quanto para a concessão. Conforme as circunstâncias, também se estabelecem exceções às suas regras e princípios. Uma lei desse tipo não pode ser seguida cegamente. Para isso são necessários entendimento e discernimento. A pessoa consciente que observa a lei pode decidir por si mesma em que momento deve seguir as regras gerais e em que momento existe uma necessidade real, do ponto de vista da lei, para a qual se pode aproveitar a possibilidade de exceção. Depois, ela própria pode decidir em que circunstância uma permissão lhe trará algum benefício e como, ao buscar esse benefício, poderá manter intacto o objetivo da lei. Em todas essas questões, na realidade, somente uma intenção ou desejo sagrado pode transformar o coração do crente em um verdadeiro mufti. O Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

(Árabe*************************************))

Peça o veredicto ao seu próprio coração e abandone aquilo que desperta nele inquietação ou dúvida.

É por essa razão que não é possível obedecer ao Islã com ignorância e sem compreensão. Trata-se de uma lei baseada na consciência e na razão, e, para segui-la, são necessários a cada passo sensibilidade e discernimento.

 

Leis para sair de casa

Depois de estabelecer os limites da vestimenta e da cobertura, a última instrução dada às mulheres é esta:

(Árabe**********************************)

Permanecei em vossas casas com dignidade e não saiais exibindo adornos, como na época da Jahiliyyah. — Surata Al-Ahzab: 33

(Árabe***************************************************)

Que elas não batam os pés no chão de modo que sua beleza oculta se torne conhecida. — Surata An-Nur: 31

(Árabe******************************************)

Não faleis em tom insinuante, para que aqueles em cujo coração há uma doença não se sintam tentados. — Surata Al-Ahzab: 32

(Árabe******)Há divergência quanto à pronúncia da palavra. A maioria dos habitantes de Medina e alguns habitantes de Kufa (Árabe*******) leram-na [com fatḥa sobre o kaf]. Ela deriva originalmente de (Árabe********) palavra. Desse modo, seu significado seria: permanecei tranquilamente em vossas casas. Por outro lado, a maioria dos habitantes de Basra e de Kufa (Árabe******) leu-na [com kasra sob o kaf]. Ela é derivada da palavra (Árabe********) . Seu significado seria: «Permanecei em vossas casas com dignidade e tranquilidade».

(Árabe***********)A palavra tem dois significados. O primeiro é a manifestação da beleza e do adorno. O segundo é exibir elegância e ostentação ao caminhar, andar rebolando — como se diz: «ela caminha fazendo oscilar os quadris» —, isto é, caminhar desse modo, com movimentos graciosos. Ambos os sentidos estão indicados no versículo corânico. Na época da primeira Jāhiliyya, as mulheres saíam exibindo adornos atraentes, assim como as mulheres da sociedade da Jāhiliyya moderna circulam em público. Além disso, seu modo de caminhar era deliberadamente tal que cada passo não caía sobre o chão, mas sobre o coração do observador. O célebre tābiʿī e comentarista do Alcorão Qatādah disse:

(Árabe***************************************)

Para compreender esse estado, não é necessário recorrer a nenhum relato histórico. Vá a uma sociedade onde as moças aparecem vestidas à moda ocidental. Você verá com os próprios olhos os modos da época da primeira Jāhiliyya. O Islã ordena que se evite isso. Ele diz que, antes de tudo, o seu verdadeiro lugar de permanência é a sua casa. Você foi dispensada das responsabilidades externas para que pudesse permanecer em casa com tranquilidade e dignidade e cumprir as responsabilidades da vida familiar. Contudo, se houver necessidade, também lhe é permitido sair de casa. Mas, ao sair, cuide plenamente de sua castidade e honra. Sua roupa e seu adorno não devem conter qualquer ostentação ou brilho que atraia para você os olhares alheios, nem deve haver em você tal ansiedade de exibir sua beleza que, ao caminhar, ora mostre o brilho do rosto, ora exiba as duas mãos. Não deve haver em seu modo de andar qualquer graciosidade que faça os olhares alheios se fixarem em você. Não saia usando adornos cujo tilintar derrame mel nos ouvidos dos outros. Não eleve deliberadamente a voz para que outros a ouçam. Sim, se houver necessidade de falar, fale, mas não tente falar com uma voz melosa. Observando todas essas regras e limites, você pode sair de casa.

Este é o ensinamento do Alcorão Sagrado. Vejamos agora, por um momento, o Hadith. Observemos que conduta o Profeta (que a paz esteja com ele) estabeleceu para as mulheres na sociedade de acordo com esse ensinamento, e como os nobres Companheiros (que Deus esteja satisfeito com eles) e suas mulheres o puseram em prática.

Permissão para sair por necessidade

Está registrado no Hadith que, antes da revelação das instruções sobre o véu, ʿUmar (que Deus esteja satisfeito com ele) costumava insistir: «Ó Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele), ordene que as mulheres observem o véu». Certa vez, quando a Mãe dos Crentes Sawdah bint Zamʿah (que Deus esteja satisfeito com ela) saiu de casa à noite, ʿUmar a viu. Ele a chamou e disse: «Sawdah! Nós reconhecemos você». Com isso, sua intenção era que fosse proibido às mulheres sair de casa de qualquer maneira. Depois que foi revelada a ordem do véu, chegou a oportunidade de ʿUmar. Ele começou a impedir severamente as mulheres de sair. O episódio anterior com Sawdah (que Deus esteja satisfeito com ela) repetiu-se. Assim que ela saiu de casa, ʿUmar (que Deus esteja satisfeito com ele) a impediu. Sawdah (que Deus esteja satisfeito com ela) queixou-se disso ao Nobre Profeta (que a paz esteja com ele). O Profeta disse:(Árabe******************************************)

Deus Todo-Poderoso vos permitiu sair conforme a necessidade. — Muslim, Bukhari e outros.

Por isso, pode-se compreender que(Árabe******************)o sentido corânico de — não é que as mulheres jamais devam pôr os pés para além dos limites de suas casas; pelo contrário, elas têm plena permissão para sair a fim de atender às suas necessidades. Contudo, essa permissão não é incondicional nem ilimitada. Não é lícito às mulheres circularem livremente por toda parte e misturarem-se às aglomerações de homens. Por necessidade, a Lei Islâmica entende uma situação em que sair se torna absolutamente indispensável para as mulheres. Deve-se observar que não é possível estabelecer, para todas as mulheres e em todas as épocas, um único método quanto a sair ou não sair. Contudo, a maneira de sair que o Legislador estabeleceu para as mulheres nas circunstâncias ordinárias da vida, bem como o modo como flexibilizou os limites do véu, permite inferir o espírito e a orientação da lei islâmica. Compreendendo isso plenamente, cada pessoa pode, por si mesma, conhecer o princípio de ajustar esses limites às circunstâncias pessoais e às questões menores, levando em consideração os limites do véu e a situação. Para explicá-lo, mencionaremos, como exemplos, alguns assuntos.

A permissão para ir à mesquita e seus limites

É amplamente conhecido que a oração obrigatória é a mais importante. Foi dada ênfase especial à presença na mesquita para a oração e à participação na congregação. Contudo, no capítulo sobre a oração em congregação, foram dadas às mulheres instruções completamente opostas às dadas aos homens. Para o homem, é melhor aquela oração que é realizada em casa, na mais absoluta reclusão. O Imam Ahmad e At-Tabarani narraram de Umm Humayd as-Sa’idiyyah o seguinte hadith:

(Árabe******************************************)

Ela disse: “Ó Mensageiro de Allah (s.), desejo rezar com você”. O Profeta (s.) disse: “Eu sei. Mas para ti é melhor rezar num lugar reservado do que rezar no teu próprio quarto; rezar no teu quarto é melhor do que rezar no alpendre da tua casa; e rezar na mesquita do teu bairro é melhor do que rezar na mesquita congregacional”. — [As próprias mulheres podem compreender melhor a razão pela qual lhes foi ordenado rezar em tal reclusão. Durante alguns dias do mês, elas são obrigadas a deixar de rezar. Assim, acaba sendo revelado algo que nenhuma mulher modesta gostaria que fosse conhecido nem mesmo por seus irmãos e irmãs. Por causa dessa vergonha, muitas mulheres acabam abandonando completamente a oração. Percebendo isso, o Legislador aconselhou: “Rezai discretamente e em reclusão, para que ninguém saiba quando rezais e quando deixais de rezar”. Naturalmente, isso é apenas uma recomendação, não uma ordem. As mulheres podem formar uma congregação separada dentro de casa, e uma mulher pode conduzi-la. O Profeta (s.) permitiu que Umm Waraqah bint Nawfal conduzisse a congregação das mulheres (Abu Dawud). É narrado por Ad-Daraqutni e Al-Bayhaqi que Aisha (r.a.) conduzia as mulheres em oração e permanecia no meio da fileira. Disso se depreende a seguinte regra: quando uma mulher conduz outras mulheres em oração congregacional, ela deve ficar no meio da fileira, e não à frente dela, como um homem.]

Sobre este assunto, Abu Dawud narrou um hadith de Ibn Mas’ud (r.a.):

(Árabe*****************************)

Para a mulher, rezar num aposento reservado é melhor do que rezar em seu próprio quarto.

Observem que, neste assunto, o procedimento foi tornado inteiramente oposto. Para o homem, rezar sozinho e em reclusão foi considerado a pior das orações, enquanto rezar numa congregação cada vez maior é, para ele, a melhor oração. Exatamente ao contrário, para a mulher, rezar em reclusão foi considerado melhor; e essa oração solitária não foi apenas preferida à oração em congregação, mas foi considerada superior até mesmo à oração cuja excelência não pode ser superada por qualquer outra bênção para um muçulmano — isto é, a oração em congregação na Mesquita do Profeta, dirigida pelo próprio Imame dos Profetas, o ilustre Muhammad (que a paz esteja com ele). Qual é, então, a razão dessa diferença e desigualdade? A única razão é que o Legislador da Lei Islâmica não aprovou que as mulheres saíssem e desejou impedir a reunião conjunta de homens e mulheres na congregação. Contudo, a oração é um ato de adoração sagrado, e a mesquita é um lugar sagrado. O sábio Legislador da Lei Islâmica expressou seu propósito de impedir a mistura entre homens e mulheres por meio da exposição da excelência e da não excelência. No entanto, não proibiu as mulheres de irem a um lugar sagrado para realizar uma obra tão virtuosa. As palavras usadas no hadith para conceder essa permissão demonstram a incomparável sabedoria do Legislador da Lei Islâmica.

(Árabe**********************************************)

Não proíbam as servas de Allah de irem às mesquitas de Allah. Se a esposa de qualquer um de vocês pedir permissão para ir à mesquita, não a impeçam. — Bukhari, Muslim

(Árabe*************************************************)

Não impeçam suas esposas de irem à mesquita. Contudo, suas casas são melhores para elas. — Abu Dawud

Estas palavras deixam claro que o Legislador da Lei Islâmica não proibiu as mulheres de irem à mesquita. Afinal, ir à mesquita para rezar não é algo mau que possa ser declarado ilícito. Mas também não se pode afirmar que deva haver uma reunião mista de homens e mulheres na mesquita. Foi-lhes concedida permissão para ir à mesquita. Entretanto, não foi dito que deveriam ser enviadas à mesquita ou levadas para lá; foi dito apenas que, se quisessem ir à mesquita para abandonar a melhor oração e realizar a pior oração, e pedissem permissão para isso, não poderiam ser impedidas. O ilustre Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) era um erudito da Lei Islâmica e compreendeu esse propósito do Legislador. É narrado no Muwatta que ele discutia continuamente sobre esse assunto com sua esposa, Atika bint Zaid. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) não gostava que sua esposa fosse à mesquita, mas ela insistia em ir. Quando pedia permissão para ir, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) permanecia em silêncio, cumprindo rigorosamente a ordem do Profeta (que a paz esteja com ele). Isso significa que ele não a impedia de ir, mas também não lhe dava permissão expressa. Sua esposa, por sua vez, era muito firme nesse assunto. Ela dizia: ‘Por Allah, continuarei indo até que você me proíba expressamente.’ — [Isso não se limitava à esposa de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Pelo contrário, na época do Profeta (que a paz esteja com ele), numerosas mulheres iam à mesquita para rezar em congregação. Consta em Abu Dawud que, na Mesquita do Profeta, havia duas fileiras de mulheres, cada uma com duas fileiras.]

Condições para ir à mesquita

Juntamente com a permissão para comparecer à mesquita, algumas condições também foram impostas. A primeira condição é que não se deve ir à mesquita durante o dia. Pode-se ir para realizar as orações do período noturno, a saber, a oração de Ishá e a oração de Fajr.

(Árabe**********************************************)

Foi narrado por Hazrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: “Deixai as mulheres irem à mesquita à noite.” — Tirmidhi

(Árabe*************************************************)

Hazrat Nafi’, eminente discípulo de Hazrat Ibn Umar, disse: “Foi determinado que isso ocorresse à noite para que fosse possível observar adequadamente o purdah na escuridão da noite.” — Tirmidhi

(Árabe*************************************************)

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “O Profeta (que a paz esteja sobre ele) costumava realizar a oração do fajr em um horário tal que, depois da oração, quando as mulheres voltavam para suas casas envoltas em seus xales, não era possível reconhecê-las na escuridão.” — Tirmidhi

A segunda condição é que não se deve ir à mesquita adornada nem usando perfumes. Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Certa vez, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) estava sentado na mesquita. Nesse momento, uma mulher da tribo de Muzayna chegou ali adornada e com grande ostentação. Então o Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: ‘Não permitais que vossas mulheres venham à mesquita adornadas e com grande ostentação’.” — Ibn Majah

A respeito do perfume, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: “Na noite em que vierdes à oração, não venhais usando qualquer tipo de perfume. Vinde com roupas absolutamente simples. A oração da mulher que vier usando perfume não será aceita.” — Muwatta do Imam Malik

A terceira condição é que elas não se misturem aos homens na mesma fileira nem permaneçam na fileira da frente. Elas deverão permanecer na fileira atrás dos homens.

(Árabe*****************************************)

O Profeta (s) disse: «Para os homens, o melhor lugar é a fileira da frente e o pior lugar é a fileira de trás. Para as mulheres, o melhor lugar é a fileira de trás e o pior lugar é a fileira da frente.»

No capítulo sobre a oração em congregação, o Profeta (s) estabeleceu que mulheres e homens não devem rezar lado a lado, sejam eles marido e mulher ou mãe e filho.

Hazrat Anas (r) disse: «Certa vez, minha avó Mulayka convidou o Profeta (s). Depois da refeição, quando ele [o Profeta] se levantou para a oração, eu e Yatīn ficamos atrás do Profeta, e Mulayka ficou atrás de nós.» —Tirmidhi

Há um segundo relato transmitido por Hazrat Anas (r), no qual ele disse: «Certa vez, o Profeta (s) rezou em nossa casa. Eu e Yatīm ficamos atrás dele, e minha mãe, Umm Sulaym, ficou atrás de nós.» —Bukhari

Hazrat Ibn Abbas (r) disse: «Certa vez, quando o Profeta (s) se levantou para a oração, fiquei ao lado dele, e Hazrat Aisha (r) ficou atrás de nós.» —Nasai

A quarta condição é que as mulheres não levantem a voz durante a oração. Foi estabelecido o seguinte procedimento: se, durante a oração, for necessário alertar o imã sobre alguma questão, o homem dirá “Subhanallah”, enquanto a mulher produzirá um som com a mão. —Bukhari

Mesmo depois de impor todos esses limites e restrições, Hazrat Omar (que Deus esteja satisfeito com ele) temeu a mistura de homens e mulheres na congregação. Por isso, designou uma porta separada para as mulheres na mesquita e proibiu os homens de entrar e sair por essa porta. — Abu Dawud

Procedimentos a serem observados pelas mulheres no Hajj

O Hajj é o segundo dever coletivo do Islã. Assim como para os homens, ele também é obrigatório para as mulheres. Contudo, foi proibido que elas se misturem aos homens durante o tawaf. No Sahih al-Bukhari, é narrado por Ata que, na época do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), as mulheres faziam o tawaf junto com os homens, mas não se misturavam uns com os outros. No livro Fath al-Bari, é narrado por Ibrahim al-Nakha’i que Hazrat Omar (que Deus esteja satisfeito com ele) proibiu a mistura de homens e mulheres durante o tawaf. Certa vez, viu um homem entre as mulheres reunidas, agarrou-o e bateu nele com um bastão. — Fath al-Bari, volume 3, p. 312

É narrado no Muwatta que Hazrat Abdullah ibn Omar (que Deus esteja satisfeito com ele) costumava enviar sua família de Muzdalifah para Mina antes de todos, para que pudessem realizar suas orações e o apedrejamento antes da chegada das pessoas. Inclusive, Hazrat Asma, filha de Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele), ia para Mina na escuridão do amanhecer. Essa era a prática para as mulheres na época do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). — Muwatta do Imam Malik

Jum’’ah e participação das mulheres no Eid

As reuniões da Jum’ah e do Eid são tão importantes no Islã que sua descrição é desnecessária. Considerando sua importância, o Legislador aboliu especialmente para essas reuniões algumas das condições impostas para as orações comuns; a saber: não se pode participar da congregação durante o dia. Embora tenha sido claramente declarado, no que diz respeito à Jum’ah, que ela não é obrigatória para as mulheres [Abu Dawud], tampouco é necessário que participem das congregações dos dois Eids. Mas, se desejarem, poderão participar dessas congregações, observando as demais condições. Está comprovado pelos hadiths que o próprio Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) levava suas mulheres para a oração do Eid.

(Árabe*********************************************************)

É narrado por Umm Atiyyah que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) levava ao campo do Eid as virgens, as jovens, as mulheres casadas e as mulheres menstruadas. As mulheres que não podiam realizar a oração permaneciam separadas da congregação e participavam somente da súplica. — Tirmidhi

(Árabe****************************************_)

Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Profeta (que a paz esteja com ele) costumava ir ao Eid acompanhado de suas esposas e filhas. — Ibn Majah

Visita aos túmulos e participação na oração fúnebre

Na sharia, participar da oração fúnebre de um muçulmano é considerado fard kifaya. As pessoas instruídas não desconhecem as diversas orientações necessárias a esse respeito. Contudo, tudo isso se aplica somente aos homens; foi proibido às mulheres participar da oração fúnebre. Naturalmente, essa proibição não foi aplicada com rigor, mas em algumas ocasiões também foi concedida permissão. Entretanto, fica claro, pelas instruções do Legislador da sharia, que a participação das mulheres na oração fúnebre não está isenta de inconvenientes.

No Sahih de Bukhari, foi narrado um hadith de Umm Atiyya:

(Árabe************************************************)

Fomos proibidas de participar das orações fúnebres, mas não de forma rigorosa. — Bukhari

Foi narrado por Ibn Majah e An-Nasa’i que, certa vez, o Profeta (que a paz esteja com ele) participou de uma oração fúnebre. Ali, foi vista uma certa mulher. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) repreendeu-a. O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Umar, deixe-a. Parece que a mulher era uma parente próxima do falecido. Ela havia vindo com o falecido, tomada pela dor.” O Profeta (que a paz esteja com ele), considerando seu estado mental, proibiu Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) de repreendê-la.

O caso da visita aos túmulos é semelhante. O coração da mulher é muito sensível. A lembrança de seus entes queridos falecidos deixa uma profunda marca em seu coração. O Legislador da Shariah não considerou correto ignorar essa intensidade de seu pesar. Contudo, declarou claramente que é proibido às mulheres visitar os túmulos com frequência. Em Tirmidhi, foi narrado um hadith de Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele):
(Árabe*******************************************)

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amaldiçoou as mulheres que visitam os túmulos com frequência.

Depois de visitar o túmulo de seu irmão, Hazrat Abdur Rahman bin Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Por Allah, se eu tivesse estado presente no momento de sua morte, não teria vindo visitar seu túmulo.” — Tirmidhi

Anas bin Malik relata que, certa vez, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu uma mulher sentada junto a um túmulo e chorando, mas não a proibiu. Apenas disse: “Teme a Allah e sê paciente”.

Reflita sobre estas instruções. A oração é um ato de adoração sagrado. A mesquita é um lugar de virtude. No Hajj, a pessoa se apresenta perante Allah com pensamentos sagrados. No funeral e junto ao túmulo, o pensamento da morte surge na mente de todos, e o coração fica tomado pela tristeza e pelo pesar. Em todas essas situações, o desejo sexual desaparece completamente ou, mesmo quando permanece, é influenciado por outros sentimentos sagrados. Ainda assim, a Shariah não aprovou a mistura de homens e mulheres nessas reuniões. Considerando a santidade da situação, a pureza da intenção e os sentimentos das mulheres, permitiu-se que elas saíssem de casa e, em algumas ocasiões, o próprio Profeta as levou consigo; porém, impôs tantas restrições e exigências quanto ao véu que não restou sequer a mais remota possibilidade de imoralidade ou malefício. Depois, com relação a outros assuntos além do Hajj, foi declarado que era preferível que as mulheres não participassem dessas atividades.

Diante de uma lei com tal tendência, você pode esperar que ela permita reuniões mistas de homens e mulheres em escolas e faculdades, escritórios e fábricas, parques e locais de entretenimento, cinemas e teatros, cafés e salões de dança?

A participação das mulheres na guerra

Você observou os limites e o rigor do véu. Agora veja onde e por que eles foram flexibilizados. Os muçulmanos entram em guerra em uma situação de perigo geral para todos. As circunstâncias exigem que toda a força da nação seja empregada na autodefesa. Nessa situação, o Islã concede às mulheres uma permissão geral para participarem do serviço militar. Mas, ao mesmo tempo, ressalta esta verdade: aquela que foi criada para ser mãe não foi criada para decepar cabeças ou derramar sangue. Colocar uma arma de guerra em suas mãos significa destruir sua natureza. Por isso, o Islã apenas permitiu que as mulheres portassem armas para proteger sua vida e sua honra e castidade. Porém, em termos gerais, atribuir às mulheres o trabalho de soldados e admiti-las nas forças armadas é contrário aos princípios islâmicos. No campo de batalha, pode-se solicitar delas apenas o seguinte serviço: enfaixar os soldados feridos, dar água aos sedentos, cozinhar para os soldados e cuidar dos acampamentos atrás deles. Para esses trabalhos, os limites do véu foram flexibilizados ao extremo. Para tais serviços, o vestuário das superioras dos conventos cristãos, com pequenas modificações, será permitido segundo a Shariah.

Está comprovado nos livros de hadith que as esposas do Profeta e outras mulheres muçulmanas acompanhavam o Profeta (s) aos campos de batalha. Elas davam água aos sedentos e faziam curativos nos feridos. Esse trabalho continuou mesmo depois da revelação da ordem do purdah. -[Bukhari]

No livro de hadith de Tirmidhi consta que Umm Sulaym e outras mulheres ansaritas costumavam acompanhar o Profeta (s) nas batalhas. No Sahih de Bukhari consta que, certa vez, uma mulher pediu ao Profeta (s): ‘Rogue para que eu possa acompanhar os guerreiros navais’. O Profeta (s) fez a seguinte súplica (Árabe**********) ‘Ó Allah! Faze-a uma delas’.

Quando os mujahidin muçulmanos ficaram enfraquecidos na batalha de Uhud, Aisha (ra) e Umm Sulaym carregavam odres de água aos ombros e davam água aos soldados. Anas (ra) relata que as viu correndo de um lado para o outro, levantando as calças, de modo que a parte inferior das pernas ficava descoberta. [Bukhari, Muslim

No fim da página 265] A respeito de outra mulher chamada Umm Sulayt, Umar (ra) ouviu pessoalmente o Profeta (s) dizer: ‘Na batalha de Uhud, para onde quer que eu olhasse, à direita ou à esquerda, via Umm Sulayt combatendo para me proteger’. Nessa mesma batalha, Rubayyi bint Mu’awwidh e um grupo de mulheres que a acompanhava ocupavam-se de fazer curativos nos feridos. Eram elas que transportavam os soldados feridos para Medina. [Bukhari] Na batalha de Hunayn, Umm Sulaym circulava de um lado para o outro com um punhal na mão. O Profeta (s) perguntou: ‘O que estás fazendo?’ Ela respondeu: ‘Se algum politeísta passar perto de mim, rasgarei sua barriga’. [Muslim] Umm Atiyya participou de sete batalhas. A responsabilidade pela manutenção do acampamento, pelo preparo da comida para os soldados e pelo cuidado dos feridos e doentes foi confiada a ela. [Ibn Majah] Ibn Abbas (ra) relata que às mulheres que prestavam esse tipo de serviço no campo de batalha era dada uma parte dos espólios. -Muslim

Pode-se deduzir disso que a forma do purdah islâmico não era como algum costume da Jahiliyyah, que não pudesse ser reduzido ou ampliado conforme as circunstâncias e as necessidades. Se necessário, seus limites podem ser reduzidos. Não somente o rosto e as duas mãos podem ser descobertos; também se podem descobrir, quando necessário, algumas das partes do corpo incluídas no satr al-awrah. Mas, quando a necessidade terminar, o purdah deve ser restabelecido dentro dos limites estabelecidos para as condições normais. Assim como esse costume do purdah não é um costume da Jahiliyyah, sua redução tampouco se assemelha à liberdade da Jahiliyyah. Por necessidade da guerra, as mulheres europeias ultrapassaram seus limites. Mas, terminada a guerra, recusaram-se a retornar novamente para dentro deles. A situação das mulheres muçulmanas não é como a delas.

 

Apêndice

Este é um ponto de vista justo e um caminho equilibrado de que o mundo necessita — necessita desesperadamente — para seu progresso, conforto e segurança moral. Como disse logo no início, há centenas e milhares de anos o mundo tem se debatido para determinar o lugar da mulher na civilização [isto é, da metade da humanidade]. Ora avançou em direção ao extremo do excesso, ora em direção ao extremo da deficiência, e ambos esses extremos se mostraram prejudiciais para ele; a experiência e a observação testemunham esse prejuízo. Entre esses dois extremos, a justiça e o caminho equilibrado são precisamente aquilo que o Islã apresentou. Isso é conforme ao conhecimento e à natureza, e inteiramente adequado às necessidades humanas. Mas é lamentável que, na era moderna, tenham surgido tantos obstáculos e impedimentos que se tornou difícil para as pessoas compreenderem a ‘Sirat al-Mustaqim’ e reconhecerem seu valor.

Entre todos esses obstáculos e impedimentos, o principal é que o homem da era moderna foi acometido de icterícia, e sobre os orientais inclinados ao Ocidente recaiu outro ataque letal dessa mesma doença, que pode ser chamado de icterícia branca. Peço perdão aos meus amigos e irmãos por esta afirmação franca; mas nenhuma amargura deve impedir a expressão daquilo que é verdade. É um fato real que não há no Islã nenhuma orientação nem questão contrária aos fatos filosóficos comprovados; antes, a verdade mais profunda é que tudo o que constitui fato filosófico constitui o Islã. Porém, para vê-lo, é necessária uma visão sem coloração, para que cada coisa possa ser vista em sua verdadeira cor. É necessária uma mente aberta e uma natureza sã, para que os fatos sejam recebidos exatamente como são, e não sejam submetidos às próprias inclinações; ao contrário, as inclinações da natureza devem ser submetidas a eles. Onde isso faltar, mesmo havendo conhecimento, ele será inútil. Tudo o que se vê com uma visão colorida é visto na própria cor. A visão estreita só consegue alcançar, dos problemas e assuntos, o lado que se apresenta e ocorre diante do ângulo [angle] a partir do qual a pessoa os observa. Além disso, mesmo os fatos filosóficos que chegarem à mente em seu estado real serão afetados pela estreiteza mental e pela deformidade da natureza e do temperamento. A exigência dessas pessoas será que os fatos se tornem conformes às necessidades, emoções, sentimentos e inclinações de sua mente. Se algo não estiver de acordo com sua mente, continuarão a ignorá-lo mesmo depois de saberem que é verdadeiro e seguirão apenas suas próprias paixões. É evidente que, quando uma pessoa é acometida por essa doença, nem o conhecimento, nem a experiência, nem a observação podem guiá-la. É absolutamente impossível para um doente desse tipo compreender corretamente qualquer orientação do Islã. Pois o Islã é a ‘religião natural’, isto é, a própria natureza. É difícil para o mundo ocidental compreender o Islã porque está acometido por essa doença. Todo o conhecimento que possui é ‘Islã’, mas sua visão é colorida. Depois, essa icterícia das cores tornou colorida a visão do grupo recém-educado do Oriente. Essa doença impede que se extraiam conclusões corretas dos fatos filosóficos e que se vejam os problemas da vida em suas cores naturais. Entre eles, aqueles que podem ser muçulmanos creem na religião do Islã, reconhecem sua veracidade e não estão privados do desejo de obedecer à religião. Mas o que pode fazer o infeliz com a icterícia de seus olhos? Com esses olhos, tudo o que veem aparece-lhes em oposição à cor de Allah.

A segunda causa que impede a correta compreensão é que, em geral, quando as pessoas refletem sobre qualquer questão do Islã, não contemplam de modo abrangente o sistema ao qual essa questão está ligada; antes, separam a questão desse sistema e discorrem sobre ela isoladamente. O resultado é que a questão parece estar além de todo conhecimento e consideração, e nela começam a surgir dúvidas de várias espécies. Foi isso que aconteceu com os juros: eles foram analisados separadamente do Islã — e dos princípios econômicos fundamentais e do sistema econômico da natureza. Consequentemente, começaram a aparecer neles mil males. Até mesmo grandes eruditos islâmicos sentiram a necessidade de introduzir neles reformas contrárias à Sharia. Com a escravidão, a poligamia, os direitos do marido e da esposa e muitas outras questões desse tipo, cometeu-se o mesmo erro fundamental. O problema do purdah também se tornou vítima disso. Se, em vez de contemplar todo o edifício, você olhar apenas para um de seus pilares, ficará maravilhado, perguntando por que ele foi erguido. Sua instalação lhe parecerá estar acima de toda razão e consideração. Você jamais poderá compreender com que elegância e utilidade o engenheiro o colocou para manter o edifício firme, nem como, se ele fosse demolido, todo o edifício seria prejudicado. O exemplo do purdah é exatamente assim. Se ele for separado do sistema abrangente em que foi estabelecido, por necessidade, como um pilar do edifício, tornar-se-á inteiramente contrário à razão e à consideração. De modo algum se poderá compreender por que foi traçada essa linha divisória entre os dois sexos da humanidade. Portanto, para compreender corretamente a lógica do pilar, é preciso contemplar por inteiro o edifício no qual ele foi instalado.

Agora, o verdadeiro purdah do Islã está diante de você. Também está diante de você o sistema social cuja manutenção determinou as normas do purdah. Estão diante de você também os principais fundamentos desse sistema, aos quais foram acrescentados os principais elementos do purdah, mantendo-se com eles um equilíbrio especial. Estão diante de você todos os fatos filosóficos comprovados sobre os quais esse sistema social foi construído. Depois de contemplar tudo isso, diga: há nele algum ponto fraco? Há, em algum lugar, o menor vestígio de desequilíbrio? Existe algum ponto em que se possa propor uma reforma apenas com base no conhecimento e na razão, abandonando qualquer tendência partidária particular? Com profunda percepção, afirmo que, assim como a terra e o céu estão estabelecidos sobre a justiça, assim como se observa perfeita igualdade e ordem na administração do universo, e assim como você vê equilíbrio e harmonia completos na estrutura de um átomo e na ligação do sistema solar, exatamente desse mesmo modo existem justiça, igualdade, ordem, equilíbrio e beleza neste sistema social. Os excessos extremos, as deficiências extremas e a unilateralidade são fraquezas inevitáveis das obras humanas. Este sistema [o sistema islâmico] está inteiramente livre de todas essas fraquezas. Reformá-lo ou corrigi-lo está além da capacidade humana. Se o ser humano, por meio de seu conhecimento falho, tentar alterá-lo sequer minimamente, em vez de reformá-lo, destruirá o seu equilíbrio.

É lamentável que eu não disponha de meios pelos quais possa levar a minha mensagem àqueles irmãos que vivem na Europa, na América, na Rússia e no Japão. Por não encontrarem um sistema civilizacional equilibrado e saudável, eles estão destruindo a própria vida e tornando-se causa da destruição das demais nações do mundo. Ah, se eu pudesse levar-lhes este elixir da vida, pelo qual estão verdadeiramente sedentos! Talvez não consigam sentir essa sede. Seja como for, os hindus, cristãos e parses do meu país vizinho estão ao meu alcance. A maioria deles pode compreender a minha língua. Faço-lhes um apelo: limpem a mente do ressentimento contra o Islã que surgiu em seus corações por causa dos conflitos históricos e políticos com os muçulmanos e, como simples buscadores da verdade, conheçam, compreendam e examinem este sistema social islâmico que descrevi neste livro. Depois, comparem-no com o sistema social ocidental para o qual estão se precipitando. Por fim, não por mim nem por qualquer outra pessoa, mas em benefício próprio, decidam qual caminho conduz ao verdadeiro bem-estar.

Depois, desviando o olhar dos leitores em geral, quero dizer algumas palavras àqueles irmãos desencaminhados que são chamados de muçulmanos.

Alguns de nossos irmãos muçulmanos recém-educados reconhecem tudo o que foi exposto acima. Mas dizem:

É inegável que, à luz das circunstâncias e da época, há ampla margem para aliviar a severidade das leis e normas islâmicas. Portanto, nosso único desejo é aproveitar essa oportunidade para obter algumas vantagens. As circunstâncias atuais exigem um alívio do purdah. Tornou-se necessário que as mulheres muçulmanas frequentem escolas e faculdades, para que possam receber educação superior. É necessário que recebam uma educação que lhes permita compreender os problemas civilizacionais, sociais, econômicos e políticos e adquirir a capacidade de resolvê-los. Sem isso, os muçulmanos ficarão atrás das nações vizinhas na luta pela vida. No futuro, há o temor de perdas ainda maiores. Se as mulheres muçulmanas não adquirirem a capacidade de usufruir dos direitos que estão sendo concedidos às mulheres na vida política do país, e se, por causa dos obstáculos e restrições do purdah, não puderem aproveitar essas oportunidades e vantagens, o peso dos muçulmanos na balança política do país diminuirá consideravelmente. Considerando as condições da era islâmica, reduziram em grande medida o purdah islâmico. — [Por amor à argumentação, usa-se apenas a palavra “redução”; na realidade, eles não o reduziram, mas o aboliram.] Poucos anos depois, alcançou-se um progresso considerável. Que mal haverá se também seguirmos os passos deles?

Por mais que se descrevam os perigos, nós os admitimos todos; mesmo que os perigos fossem dez vezes maiores, isso não faria diferença. Na realidade, por causa de perigos desse tipo, nenhuma alteração ou flexibilização das leis islâmicas pode ser permitida. De fato, por insensatez desse tipo ou por ser compelido a isso, você vive, devido à sua própria fraqueza, num lugar imundo e insalubre. Ali, não apenas se torna difícil para você observar as regras de preservação da saúde, como também passa a ser difícil, numa favela de pessoas imundas, não permanecer imundo. Em tal situação, nem sequer se pode levantar a questão de alterar ou flexibilizar as regras de preservação da saúde. Se você considera corretas essas regras, seu dever será esforçar-se e lutar para tornar limpo o seu ambiente. Se não possui força nem coragem para lutar e, por causa da sua fraqueza, é vencido pelo ambiente, então, por mais sujeira que seja lançada sobre você, banhe-se nela. Por que as regras de preservação da saúde deveriam ser modificadas para você? Mas, se de fato considera erradas essas regras e já se acostumou com essa imundície, então estabeleça para si as regras que quiser. Para aqueles que são apegados à imundície, não há lugar para sua vontade ou aversão nas regras de pureza e limpeza.

Não há dúvida de que, assim como toda lei, também a lei islâmica admite, em determinadas circunstâncias, rigor e flexibilização. Porém, assim como toda lei, a lei islâmica também exige que, para decidir pelo rigor ou pela flexibilização, a situação seja examinada com uma visão e um espírito que sejam os da própria Islã. Examinar a situação de uma perspectiva diferente e, depois, atacar os artigos da lei com a tesoura da flexibilização não se chama flexibilização; chama-se, antes, alteração manifesta. Se a situação cuja flexibilização da lei islâmica se reivindica é examinada de uma perspectiva islâmica, deve-se chegar à conclusão de que, em tal situação, é necessário adotar maior rigor, e não flexibilização. A flexibilização só pode ser adotada quando o objetivo da lei é facilmente alcançado por outros meios e não há necessidade de maior rigor na sua preservação. Mas, quando o objetivo da lei não pode ser alcançado por outros meios, e todas as demais forças estão empenhadas em destruí-lo, de modo que o seu cumprimento depende justamente da sua preservação, nessas circunstâncias só pode pensar em flexibilização aquele que desconhece o espírito da lei.

Já foi explicado em detalhes acima que o objetivo das leis do sistema social islâmico é preservar as normas da vida conjugal, impedir a licenciosidade sexual e conter a excitação sexual excessiva. Para esse fim, o Legislador da sharia adotou três meios. Primeiro, a reforma do caráter; segundo, as leis punitivas; e terceiro, as medidas preventivas, isto é, a cobertura das partes íntimas e o purdah. É como se fossem três pilares sobre os quais se ergue este edifício: sua firmeza depende da firmeza deles, e sua ruína depende da ruína deles. Venha, observe por um momento a situação atual do seu país e veja o que aconteceu com esses três pilares.

Primeiro, observe o ambiente moral. Você vive num país — a Índia antes da partição — em que setenta e cinco por cento dos habitantes são governados por uma nação não muçulmana, e uma civilização não muçulmana o cobriu como uma violenta tempestade. Como germes de peste e cólera, os princípios do caráter não islâmico e as ideias da civilização não islâmica infectaram o ambiente. A atmosfera foi envenenada por isso. A ação desse veneno cercou você por todos os lados. As palavras obscenas e indecentes que, pouco tempo atrás, faziam seu corpo arrepiar-se transformaram-se agora em algo tão comum que você as considera parte do cotidiano. Seus filhos veem diariamente imagens obscenas em jornais, revistas e anúncios, e acostumam-se à falta de pudor. Todos os membros da sua sociedade, dos mais jovens aos mais velhos, assistem a filmes nos quais nada é mais agradável do que a nudez, a obscenidade e as cenas amorosas carregadas de frenesi sexual. Pais e filhos, irmãos e irmãos, mães e filhas sentam-se lado a lado e assistem a cenas de beijos e abraços públicos, aos encontros de amantes e às declarações de amor, sem sentir a mínima vergonha. Canções extremamente obscenas e sexualmente provocantes são cantadas em todas as casas e lojas. Ninguém consegue manter os ouvidos livres delas. Mulheres nativas das classes superiores e mulheres inglesas circulam com roupas seminuas, e os olhos já se acostumaram tanto a isso que ninguém sente qualquer falta de pudor. Graças à concepção de moralidade que se difunde por meio da educação e da cultura ocidentais, o casamento é considerado um costume antigo e desgastado; o adultério, uma diversão; a convivência entre homens e mulheres, algo irrepreensível, e até louvável; o divórcio, um jogo; o cumprimento das responsabilidades conjugais, um vínculo insuportável; gerar filhos e perpetuar a descendência, uma tolice; a obediência ao marido, uma espécie de escravidão; ser esposa, um perigo; e apresentar-se como amante, um paraíso imaginário.

Em seguida, observe que tipo de efeito esse ambiente está produzindo sobre o seu povo. Há, em algum lugar da sua sociedade, algum controle do olhar? Entre centenas de milhares de pessoas, será possível encontrar sequer uma que tema contemplar a beleza de uma mulher desconhecida? Não estão os olhos e a língua cometendo adultério abertamente? As suas mulheres também se abstêm dos adornos e da exibição da beleza da época da jahiliah? Ainda se usam em sua casa roupas a respeito das quais o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Malditas sejam aquelas mulheres que, embora vestidas, permanecem nuas”? Você não vê sua mãe, sua irmã e sua filha usando roupas que uma mulher muçulmana não pode vestir diante de nenhum homem além do seu marido? Em sua sociedade, não são narradas e ouvidas sem hesitação histórias obscenas e episódios de amor indescritíveis e indecentes? Nas reuniões, as pessoas sentem alguma vergonha ao relatar os atos perversos que cometeram? Se essa é a situação, diga-me: onde está o primeiro e mais sólido pilar da pureza moral sobre o qual foi construído o edifício da sociedade islâmica? O senso de honra islâmico desapareceu a tal ponto que a mulher muçulmana se torna companheira de leito não apenas de um muçulmano, mas também de um não muçulmano! Isso não ocorre apenas no domínio britânico; mesmo ao ver esse tipo de acontecimento em reinos muçulmanos, o sangue dos muçulmanos não se exalta. Também foram vistos muçulmanos tão destituídos de honra que, quando sua própria irmã se tornou esposa de um não muçulmano, esse homem declarou orgulhosamente ser cunhado de um certo grande rico kafir. — [Este é um caso do sul da Índia. Um amigo meu contou um caso ainda mais doloroso que este. No leste da Índia, uma mulher muçulmana mantinha publicamente um relacionamento com um rico não muçulmano. Como resultado, tornou-se possuidora de grande riqueza. Meu amigo viu os chamados muçulmanos locais orgulharem-se disso.] Depois disso, resta ainda alguma coisa da falta de pudor e da decadência moral?

Agora, observe por um momento a situação do segundo pilar. Em toda a Índia, as leis penais do Islã foram abolidas. Em nenhum lugar dos Estados britânicos e muçulmanos está em vigor a punição pelo adultério. Não só isso: a lei atualmente vigente nem sequer considera o adultério um crime. Se alguém quiser seduzir a filha de uma família respeitável e induzi-la ao vício, não existe lei alguma pela qual sua castidade e sua honra possam ser protegidas. Se alguém mantiver relações sexuais ilícitas com uma mulher maior de idade, com o consentimento dela, não poderá ser punido por força de lei alguma. Se alguma mulher se envolver publicamente em adultério, não há autoridade capaz de impedi-la. A lei do país considera crime apenas o adultério cometido à força. Mas pergunte a um advogado quão difícil é provar um estupro! O rapto de uma mulher casada também é crime. Mas pergunte aos juristas britânicos que recurso existe nos tribunais do governo quando uma mulher casada vai voluntariamente morar na casa de alguém.

Pense bem: ambos esses pilares desabaram. Agora, todo o edifício do seu sistema social está apoiado sobre um único pilar. Você também quer destruí-lo? Compare e examine, de um lado, os prejuízos do sistema do purdah que você mencionou e, de outro, a destruição completa do caráter moral e da ordem social caso o purdah seja abolido. Ambos são perigosos, e será preciso aceitar um deles. Agora, pergunte a si mesmo qual dos dois perigos é relativamente menor.

Se for preciso tomar uma decisão com base nas condições da época, direi que a situação da Índia não favorece a flexibilização do purdah; pelo contrário, exige que ele seja aplicado com maior rigor. Pois os dois pilares que sustentavam a ordem social desabaram, e agora tudo depende de um único pilar. Sentem-se com a mente tranquila e reflitam sobre como resolver os problemas culturais, econômicos e políticos. Talvez se encontrem outras formas de resolvê-los dentro dos limites islâmicos. Mas não enfraqueçam ainda mais este único pilar restante, que já se tornou fraco. Antes de flexibilizá-lo, será preciso reunir força suficiente para que, se uma mulher muçulmana se mostrar sem purdah e em algum lugar houver dois olhos para contemplá-la, haja cinquenta mãos prontas para arrancar esses dois olhos.

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1. Nas zonas rurais, as mulheres chamam o período menstrual de “doença mensal”. — Tradutor

1. Cabe observar que a obra original intitulada ‘Purdah’ foi escrita há aproximadamente sessenta e um anos, e pode-se facilmente supor que, com o avanço do chamado progresso ou da modernidade, a tendência para o crime também tenha aumentado continuamente.

2. Blue Book of Crime Statistics for 1934, consulte

1. Wester Marck sustentou exatamente esta opinião em sua obra The History of Human Marriage.