Palavras do autor

Há quase uma década e meia, foi-me confiada a tarefa de escrever a história dos muçulmanos de Bengala. A ideia era escrever a história desse longo período, desde a primeira chegada dos muçulmanos a Bengala até a divisão da Índia, em 1947. Foi-me especialmente solicitado que mencionasse na história, com dados confiáveis, como haviam sido as atitudes do governo britânico e dos hindus para com os muçulmanos depois que os ingleses tomaram o poder governamental. Depois de escrever a história até o Government of India Act-1935, não encontrei absolutamente tempo para voltar a pegar na pena. Recentemente, pude concluir o trabalho de escrever esta história, após alguns anos de trabalho árduo e empenho; por isso, rendo infinitas graças a Allah Todo-Poderoso.

Em nenhum ponto desta história fiz a menor afirmação falsa, inventada por mim ou exagerada. Ela pode ser amarga para muitos, mas procurei registrar, do princípio ao fim, apenas acontecimentos verdadeiros.

Como fui um estudante dedicado de história, desde então surgiu em minha mente a inclinação para conhecer e escrever a história verdadeira. Quando era aluno do quarto ano do curso de bacharelado no Carmichael College de Rangpur, escrevi em inglês um artigo de pesquisa sobre Akbar e Aurangzeb. Apesar de alguma oposição e obstáculos, o artigo foi publicado na revista da faculdade.

Depois de concluir minha vida estudantil, passei vinte e cinco anos trabalhando em empregos públicos e privados. Fui completamente privado da oportunidade de realizar qualquer trabalho de pesquisa sobre história. Pelo contrário, comecei até a esquecer a própria história. Ao cumprir a tarefa que me fora confiada quase uma década e meia atrás, tive a oportunidade de retomar os estudos históricos.

A história infunde força vital em uma nação. Para destruir uma nação, é preciso fazê-la esquecer sua história passada ou apresentá-la de forma distorcida. Se um muçulmano assim chamado não tiver a oportunidade de adquirir uma concepção correta do Islã e for ignorante quanto à história passada de sua nação, sairão de sua boca palavras contra os muçulmanos e contra o Islã que um não muçulmano pensaria muitas vezes antes de proferir. O número desses muçulmanos extremamente ignorantes está aumentando gradualmente, e os inimigos jurados dos muçulmanos os recebem com guirlandas de flores.

Para preservar a existência da identidade nacional muçulmana, é absolutamente indispensável empreender um amplo esforço para transmitir à nova geração, juntamente com a história correta de seu passado, o conhecimento e a compreensão corretos do Islã. Na História dos Muçulmanos de Bengala, os princípios fundamentais do Islã foram brevemente discutidos de passagem. Para impedir a agressão cultural das forças dominadoras e expansionistas, é preciso apresentar em todos os níveis uma revisão da história e a essência da cultura islâmica.

A vida muçulmana é uma vida eternamente combativa. No Islã, não há lugar para a aversão à luta. Portanto, é preciso desempenhar um papel de vanguarda na luta contra as forças contrárias ao Islã e aos muçulmanos. Caso contrário, a nação terá de ser esmagada sob a mó da perseguição do inimigo e morrer aos poucos, definhando.

Em “A História dos Muçulmanos de Bengala”, é narrada a história da opressão e das injustiças cometidas pelos hindus contra os muçulmanos durante quase duzentos anos. Alguns poderão considerar inventado o relato do passado. Mas não veem o que está acontecendo na Índia atualmente? Não percebem que, nos horrendos tumultos que ocorrem continuamente naquele país, os muçulmanos estão sendo exterminados? Foi publicado recentemente o veredicto da comissão de inquérito judicial constituída para investigar os tumultos ocorridos em Bombaim. Em seu veredicto, a comissão responsabilizou a polícia por colaborar com os participantes dos tumultos. Também criticou a atitude discriminatória do governo estadual e do primeiro-ministro. Depois disso, onde está a segurança da vida e dos bens dos muçulmanos na Índia, país de fanáticos inimigos dos muçulmanos? Talvez, no futuro, seja escrita a história correta de tudo isso.

É motivo de profundo pesar que, como parte de uma conspiração, a nova geração da nação tenha sido mantida completamente ignorante de sua história passada. O espectro dessa conspiração também se abateu firmemente sobre os governantes paquistaneses do período posterior à Partição. Nada foi ensinado à nova geração sobre por que o Paquistão foi criado, qual era seu contexto ideológico, por que o Movimento do Paquistão foi conduzido incansável e intransigentemente durante longos sete anos, nem por que milhões de mulheres, homens e crianças atravessaram a mar de sangue para buscar refúgio no Paquistão.

De 1952 a 1962, tive de exercer a função de diretor de uma escola secundária. Nos livros de história usados na época, não havia qualquer menção à história do Movimento do Paquistão. Como resultado, os alicerces do Paquistão foram se enfraquecendo ainda mais por diversas razões. O descontentamento e a indignação do povo contra o Paquistão e seus governantes foram crescendo e, como consequência, a região oriental do Paquistão separou-se e surgiu como o Bangladesh independente.

Nesta obra, chama-se a atenção da nova geração para o glorioso passado histórico da nação muçulmana. A história da nação muçulmana não começou em um período específico do tempo nem terminou em outro período específico. Esta história teve início com a chegada do primeiro ser humano ao mundo, Hazrat Adão (a.s.). Desde então até os dias de hoje, ela prosseguiu ininterruptamente, atravessando os altos e baixos do tempo, das eras e das circunstâncias ambientais, e continuará enquanto o mundo existir. Os muçulmanos devem avançar, aprendendo com a história do passado.

Para escrever esta história, reuni material das obras de muitos historiadores renomados. Por isso, permanecerei eternamente grato a todos eles. Além disso, como o Centro Islâmico de Bangladesh assumiu a responsabilidade pela publicação desta obra, expresso minha ilimitada e sincera gratidão ao seu diretor, meu profundamente respeitado amigo, o professor A. K. M. Nazir Ahmad Sahib.

Respeitáveis leitores, se puderem obter desta obra algum ensinamento e inspiração islâmica, considerarei recompensados os vários anos de perseverança e trabalho que dediquei. Que Allah, o Altíssimo, aceite esta obra — amém.

Daca, 15 de Jumada al-Awwal

17 de Kartik

1º de novembro de 1993.

Autor

A história dos muçulmanos de Bengala

Primeiro capítulo

A chegada dos muçulmanos a Bengala

É uma tarefa extremamente difícil determinar quando ocorreu pela primeira vez a chegada dos muçulmanos a Bengala e estabelecer o ano e a data desse acontecimento. Sem dúvida, é muito difícil resgatar essa informação dos montes dispersos da história antiga. Ainda assim, considero desejável que os historiadores dediquem atenção a esse trabalho.

Os muçulmanos que chegaram do mundo exterior ao subcontinente indiano naquela época podem ser divididos em duas categorias. Os muçulmanos de uma dessas categorias chegaram a várias regiões da Índia para tratar de negócios e comércio e divulgaram a sublime mensagem do Islã. Alguns awliya, dervixes e fuqaha vieram exclusivamente para transmitir o convite ao Islã e realizar o tabligh; passaram toda a vida nessa nobre tarefa e morreram aqui mesmo.

Outra categoria de muçulmanos veio em trajes de conquistadores, numa expedição para conquistar o país. Como resultado de suas vitórias, os muçulmanos deste país alcançaram uma posição política estabelecida. É desnecessário dizer que, em 712 d.C., Muhammad ibn Qasim chegou pela primeira vez à província indiana de Sindh em trajes de conquistador, e essa foi uma grande vitória política do Islã. Sua vitória não ficou limitada à província de Sindh; pelo contrário, estendeu-se até Multan, no Punjab. Incluiremos sua descrição no devido lugar.

Por outro lado, embora a chegada dos muçulmanos a Bengala tenha ocorrido em algum momento auspicioso do passado remoto, sua consolidação política ocorreu no ano 600 da Hégira, isto é, em 1203 d.C. Durante o reinado do então imperador da Índia, Qutbuddin Aibak, Muhammad bin Bakhtiyar Khalji, pode-se dizer que de maneira miraculosa, estabeleceu seu poder político em Bengala. Os relatos detalhados dessas duas vitórias políticas dos muçulmanos estão registrados nas páginas da história. Mas também é uma verdade indiscutível que, muito antes de tudo isso, a semente do Islã havia sido plantada neste país e que, tendo germinado, ela posteriormente adquiriu a forma de uma grande árvore; determinar o período em que isso ocorreu, porém, é a verdadeira tarefa, extremamente necessária para todo estudante inquisitivo de história. Vamos tentar descobrir, uma vez, se é possível encontrar alguma orientação no horizonte histórico.

Antes do advento do Islã, os árabes não eram apenas um povo bárbaro, briguento e sedento de sangue. Pelo contrário, entre eles, os que eram nobres e abastados dedicavam-se ao comércio para ganhar a vida. Num país desértico, para obter alimentos e outros artigos de necessidade diária indispensáveis à sobrevivência, tinham de se dedicar ao comércio desde tempos imemoriais. O grupo de mercadores que resgatou o profeta José (a.s.) do poço e o vendeu a um nobre funcionário do governo egípcio era árabe. Portanto, a atividade comercial dos árabes era antiquíssima e se estendia de país em país.

Os árabes conduziam seus negócios tanto por terra quanto por água. Com a ajuda de camelos pelas rotas terrestres e de embarcações pelas rotas marítimas, viajavam de um país a outro a serviço do comércio. Já na era pré-islâmica, haviam ampliado sua esfera comercial, de um lado, por via marítima até a Abissínia e, de outro, até a longínqua China, no Extremo Oriente. Entre a Arábia e a distante China, possuíam vários pontos; um deles era um distrito litorâneo. Geograficamente, toda a península é chamada de Malabar(Árabe****)assim.

Maulana Akram Khan afirma em sua obra ‘História Social da Bengala Muçulmana’:

“A palavra MALI, usada pelos gregos modernos, contém uma referência ao nome atual de Malabar. Mas a conclusão do editor da enciclopédia — de que o nome completo ‘Malabar’ foi dado pelos árabes — é bastante razoável. Em nossa opinião, Malabar é uma palavra da língua árabe: Malay + abar = Malabar. Na transliteração árabe,(Árabe***)Malay + abar. Malay é originalmente o nome de uma montanha; abar significa conjunto de colinas ou reservatório de água. Os árabes também chamavam este país de Ma’bar(Árabe*****)assim. Seu significado é lugar de passagem, travessia. Na geografia atual, os Gates Orientais e os Gates Ocidentais. Como os mercadores e navegadores árabes atravessavam esses dois Gates para viajar a Madras e à província do Hejaz, e viajavam do Egito à China e a outras cidades e portos situados ao longo do caminho. Esses dois nomes também mostram que seu conhecimento deste país era muito antigo e que suas relações com ele eram muito estreitas”. (História Social da Bengala Muçulmana, pp. 47–48).

Muitos mercadores árabes chegaram a este país (Malabar) muito antes da vinda do profeta Muhammad Mustafa (s.a.w.) ao mundo. Eles viajavam constantemente por esta rota, isto é, passando por Malabar até Chittagong e, de lá, através de Sylhet e Kamrup, até a China. Assim, Chittagong, em Bengala, e Sylhet, no então Assam, também eram usados como bases de suas viagens. Disso fica claramente evidente que, já na era pré-islâmica, os árabes haviam estabelecido assentamentos em Malabar, Chittagong, Sylhet e outros lugares.

No final do século VI d.C., o profeta Mustafa (s.a.w.) nasceu na cidade de Meca, na Arábia, e aos quarenta anos de idade, isto é, no início do século VII, começou a pregar a religião do Islã. Seu movimento de pregação foi extremamente revolucionário. Não é preciso dizer que as ondas dessa revolução também chegaram, por meio dos mercadores árabes, a Malabar, Chittagong, Sylhet e à China. Assim como um grupo se opôs veementemente ao movimento revolucionário do profeta Muhammad (s.a.w.), outro grupo também o abraçou de todo o coração. É muito provável que os árabes de Malabar tenham aceitado o Islã já no início do calendário da Hégira. É também um fato histórico que, até o século VII, a mensagem do Islã foi difundida na Ásia e na África pelos mercadores árabes.

Os imigrantes árabes que, depois de aceitar o Islã, se estabeleceram permanentemente em Malabar são conhecidos como Mopla. Pescar com a ajuda de barcos pequenos e grandes, bem como transportar mercadorias e passageiros, era sua principal ocupação para ganhar a vida. Muitas vezes, para ganhar a vida e atender a outras necessidades, tinham de atravessar o Oceano Índico e viajar até a Arábia. Foi assim que entraram em contato com o chamado revolucionário do Islã.

Pretendo discutir os moplas em algum capítulo posterior. Aqui, quero apenas registrar a respeito deles que eram extremamente laboriosos e perseverantes. Eram donos de corpos belos e robustos. São célebres desde sempre por sua coragem. Deixam crescer a barba e usam gorro na cabeça; muitos deles pertencem ao grupo dos pescadores, e sua principal tarefa era pregar a mensagem do Islã entre os pescadores.

A influência do Islã também se fez notar gradualmente entre os habitantes não árabes de Malabar. Naquela época, o bramanismo hindu infligia cruéis e desumanas perseguições aos seguidores do budismo e do jainismo na Índia. Diante dessas perseguições e opressões, a companhia e a proximidade de santos muçulmanos os atraíram para o Islã.

A principal causa da rápida expansão do Islã entre os habitantes não árabes de Malabar foi a conversão ao Islã do rei local de Malabar. É narrada uma história extraordinária sobre a conversão do rei de Malabar ao Islã.

Maulana Akram Khan diz em sua obra anteriormente mencionada:

“Há algumas referências a Malabar nas antigas escrituras e na literatura da sociedade hindu. O editor da enciclopédia citou muitas delas. A maioria não passa de algumas lendas absurdas sobre os feitos de Paraçurama, extraídas do Mahabharata e de livros como os Puranas, extraídas do Mahabharata e de livros como os Puranas. Contudo, esse próprio enciclopedista mencionou um acontecimento especial a respeito do rei hindu de Malabar. Ele diz: ‘Segundo a história antiga, Cherumal Perumal, o último rei do reino de Chera, abdicou voluntariamente do trono e foi a Meca com o desejo de abraçar a religião muçulmana’ — (Enciclopédia, 14:234).”

No livro Tohfatul Mujahideen, de Sheikh Zainuddin, também é apresentado o relato de um rei que foi a Meca, compareceu perante o Mensageiro de Deus e abraçou voluntariamente o Islã. Por esse relato, sabe-se que era crença difundida entre os muçulmanos locais que o rei de Malabar havia viajado a Meca, comparecido perante o Profeta e recebido dele o pacto de fidelidade ao Islã.”

Maulana acrescenta ainda, em sua referida obra:

“Ainda que haja divergências quanto aos pormenores de lugar, época e outros aspectos, e ainda que estes sejam considerados inacreditáveis, não há razão para rejeitar como infundado o relato de que o rei foi a Meca, compareceu perante o Profeta e, depois de permanecer algum tempo em Meca, empreendeu a viagem de retorno ao seu país. De modo algum se pode considerar razoável rejeitar como anti-histórica e infundada a tradição que todos os habitantes de um país, muçulmanos e não muçulmanos indistintamente, vêm transmitindo coletivamente desde tempos imemoriais. Neste contexto, o relato da enciclopédia merece consideração especial. O enciclopedista diz: ‘Segundo a história antiga, Cherumal Perumal, o último rei do reino de Chera (Malabar), abdicou voluntariamente do trono e foi à cidade de Meca com o desejo de abraçar a religião muçulmana’. Portanto, de modo algum é legítimo rejeitar como infundado o relato de que o rei do reino de Malabar abandonou espontaneamente o trono, compareceu perante o Profeta e abraçou a religião islâmica.” (História Social dos Muçulmanos de Bengala)

Agora, à luz do relato da obra Tuhfat al-Mujahidin, composta pelo xeque Zainuddin, do relato da enciclopédia e da tradição secular de todos os habitantes do Malabar, muçulmanos e não muçulmanos sem distinção, não deveria haver hesitação ou constrangimento em aceitar como verdadeira a conversão do rei ao Islã. Contudo, permanece uma questão em nossa mente: por que um acontecimento tão grandioso não foi mencionado em nenhuma obra de hadith? Naturalmente, o xeque Zainuddin mencionou alguns narradores em seu relato. Mas foi registrado que, segundo os especialistas em hadith, eles “não estão isentos de dúvidas”. Qual foi, então, a verdadeira natureza do acontecimento? Se o aceitarmos como inteiramente desprovido de fundamento, não haveria motivo algum para sua menção nas obras de hadith. Mas também não seria de admirar que, assim como os emigrantes árabes do Malabar aceitaram o Islã em grupos no primeiro ano da Hégira, talvez o rei do Malabar tenha renunciado ao trono e abraçado o Islã juntamente com esses emigrantes árabes. Não é impossível que, depois de abdicar, ele tenha ocultado sua identidade — e talvez por isso sua conversão ao Islã não tenha despertado curiosidade entre os Companheiros do Profeta. De fato, o autor de Tuhfat al-Mujahidin mencionou alguns hadiths e narradores.

Depois da conversão dos emigrantes árabes do Malabar e do rei local ao Islã, os habitantes locais do Malabar também foram atraídos pelo Islã e abraçaram-no em grupos. Em seguida, dez mesquitas foram construídas sucessivamente no Malabar. A primeira foi construída por Malik ibn Dinar em Karnakror (Kodungallur), ou Cranganore, capital de Perumal. Assim, foram construídas mesquitas em Kurkbe, em Mיילור, no território de Travancore, na cidade de Dharmapattanam, na cidade de Chaliyam, em Surukundapuram, em Pantharinî e em Kanjarakot.

“O autor da enciclopédia diz: não há dúvida de que, juntamente com a fundação das mesquitas, a influência muçulmana se difundiu neste país. Muitas propriedades também foram doadas para custear as despesas dessas mesquitas. Naquele período, aumentou o número de muçulmanos habitantes do litoral e de habitantes nativos convertidos à religião islâmica. Gradualmente, eles passaram a exercer influência no reino.” (História social dos muçulmanos de Bengala)

A discussão acima torna evidente que, já no século VII da era cristã, o Malabar havia se desenvolvido como um poderoso centro dos muçulmanos da Índia. Eles não tinham nenhum objetivo político. O comércio e a propagação e expansão do Islã eram seu único propósito.

Depois do Malabar, chegamos a Chittagong e Sylhet, outros destinos nas rotas comerciais dos emigrantes árabes muçulmanos. Após o estabelecimento permanente dos emigrantes árabes no Malabar, formaram-se também assentamentos seus, em maior ou menor escala. Isso era perfeitamente natural. A questão agora é: assim como o Islã lançou raízes no Malabar já no primeiro século da Hégira, sua propagação em Chittagong ocorreu na mesma época ou muito mais tarde? Não é possível apresentar nenhuma informação confiável a esse respeito. Contudo, pode-se afirmar sem receio que, nos séculos VIII e IX da era cristã, os mercadores muçulmanos da Arábia estabeleceram relações estreitas com Chittagong.

O doutor Abdul Karim, em sua obra, afirma que havia relações entre Chittagong e os mercadores muçulmanos árabes. Posteriormente, encontraram-se mais provas da ida e vinda de comerciantes árabes a Chittagong. Embora os mercadores árabes não tenham fundado um reino independente em Chittagong, sua influência na cultura de Chittagong, resultante desses contatos, ainda pode ser observada. A língua de Chittagong emprega numerosas palavras árabes. O uso, na língua de Chittagong, da palavra indicativa “não” antes do verbo também é resultado da influência da língua árabe. Muitas famílias de Chittagong afirmam ser descendentes de árabes. Muitos também consideram que os traços faciais dos habitantes de Chittagong são semelhantes aos dos árabes. Além disso, várias áreas de Chittagong, como Alkaran, Suluk Bahar (Suluk-ul-Bahar), Bakalia e outras, ainda levam nomes árabes. Já foi dito que alguns eruditos consideram que as palavras árabes […] (District Gazetteer, Chittagong, p. 1).

Embora os muçulmanos tenham vivido em Chittagong durante vários séculos, não alcançaram nenhuma instituição política. Seu trabalho era o comércio e a propagação do Islã. Muito depois de Muhammad ibn Bakhtiyar Khalji estabelecer o governo muçulmano em Bengala, o sultão independente de Sonargaon, Fakhruddin Mubarak Shah (1338–1349 d.C.), foi o primeiro a conquistar Chittagong e incorporá-la ao domínio muçulmano.

Segundo capítulo

Muçulmanos na condição de conquistadores

É geralmente sabido por todos que Muhammad ibn Qasim, ao conduzir a guerra contra Dahir, rei de Sind, hasteou na província de Sind a bandeira vitoriosa do Islã. Na realidade, porém, as operações militares até a província de Sind haviam começado muito antes. A campanha de Sind teve início em meados do primeiro século da Hégira. Antes da conquista de Sind por Muhammad ibn Qasim, os muçulmanos travaram guerra contra a província várias vezes. Entretanto, antes de Muhammad ibn Qasim, os muçulmanos não tentaram estabelecer ali qualquer influência permanente. Como os mercadores muçulmanos eram repetidamente saqueados por piratas com o auxílio do rei de Sind, foi necessário guerrear contra eles. Depois de derrotá-los, recuperar os bens saqueados e libertar os mercadores cativos, os muçulmanos retornaram à sua terra natal.

No décimo quinto ano da Hégira, durante o califado de Umar — que Deus esteja satisfeito com ele —, Uthman ibn Abu Abi Saqafi foi nomeado governador do Barém e de Omã. Uthman deixou seu irmão Hakam no Barém e foi pessoalmente para Omã. De lá, enviou um exército à fronteira da Índia. Após essa expedição, enviou novamente seu irmão Mughirah, à frente de um exército, em direção a Debal (a atual Karachi). Mughirah derrotou os piratas de Sind e as forças que os apoiavam e retornou à sua terra natal.

No início do ano 39 da Hégira, durante o califado de Ali — que Deus esteja satisfeito com ele —, Harith ibn Murrah al-Abdi conduziu uma expedição à fronteira de Sind e saiu vitorioso. Fez muitos soldados inimigos prisioneiros e apoderou-se de grande quantidade de despojos de guerra.

Durante o governo do emir Muawiya — que Deus esteja satisfeito com ele —, Muhallab ibn Abu Sufra atacou a fronteira de Sind e avançou até Banna e Ahwaz, lugares situados entre Multan e Cabul.

Quando, durante o governo do califa Walid, Hajjaj ibn Yusuf foi nomeado governador do Iraque, ele enviou sucessivamente Muhammad ibn Harun Nasiri, Ubaydullah ibn Nabhan e Budayl ibn Tuhfa Bajali com o objetivo de empreender a campanha de Sind. Finalmente, no ano 93 da Hégira, Muhammad ibn Qasim conduziu uma expedição por terra e por mar e conquistou Sind.

Muito antes de a província de Sind ser finalmente conquistada por Muhammad ibn Qasim, o Islã já havia sido propagado e estabelecido na região ocidental da Índia de então. A prova disso é que, depois de o rei Dahir ser morto na batalha, toda a província de Sind caiu nas mãos dos muçulmanos. Após estabelecer a ordem administrativa ali, Muhammad ibn Qasim, ao avançar, teve de enfrentar os habitantes de Sawandar. O surpreendente é que os habitantes da localidade atacada eram muçulmanos. Naturalmente, depois de chegar a um acordo com eles, Muhammad ibn Qasim conquistou muitos outros lugares e chegou a Multan, localidade do Punjab. Multan também caiu em suas mãos.

O estabelecimento político dos muçulmanos em Bengala

A conquista de Bengala por Malik Ikhtiyaruddin Muhammad Bakhtiyar resultou no primeiro estabelecimento político dos muçulmanos neste país. A partir desse momento, inúmeros muçulmanos começaram a chegar continuamente a Bengala, vindos das regiões ocidentais da Índia, do Afeganistão, do Irã, da Arábia e da Turquia. A maioria veio como soldados; os demais, para dedicar-se ao comércio, à propagação do Islã e em busca de refúgio. Assim, o número de muçulmanos em Bengala aumentava continuamente.

A conquista de Bengala por Muhammad bin Bakhtiyar foi um acontecimento extraordinariamente surpreendente. Pode-se dizer que o próprio homem foi uma maravilha histórica. Ele era descendente da dinastia Khalaj, do Turquestão. Por isso, as palavras Khalaji ou Khilji foram acrescentadas ao final de seu nome para indicar sua linhagem. A terra natal de seus antepassados situava-se na fronteira oriental da fronteira, em Garamsir ou Dasht-i Margō. Ikhtiyaruddin Muhammad Bakhtiyar Khalji deixou sua terra natal em busca de meios de subsistência e foi para Ghazni e, depois, para Badaun, na Índia. Seu corpo era baixo e seus dois braços, excepcionalmente longos. Provavelmente por essa razão, seu pedido de ingresso nos exércitos de Ghazni e Délhi não foi aceito. Contudo, percebendo nele uma coragem ilimitada e capacidade para conduzir expedições audaciosas, o sipahsalār de Badaun o incorporou ao exército. Foi então que começou sua ascensão. Após a batalha de Tirouri ou Tarain, seu tio Bakhtiyar obteve de Ali Nagauri, governador de Nagaur e subordinado de Muhammad-i-Mahmud, o domínio de Kashmandi ou Kashtamandi. Depois da morte de seu tio, Bakhtiyar assumiu esse domínio. Algum tempo depois, dirigiu-se a Muazzam Hisamuddin, malik de Ayodhya. Nessa época, reuniu cavalos e armas. Segundo alguns, as duas aldeias eram Bhagwat e Doili; segundo outros, Sahland e Sahili, ou Kampila e Patiyali. No Riyaz-us-Salatin, de Ghulam Husain Salim, os nomes dessas duas aldeias são dados como Kambala e Betali.

A partir daí, Muhammad Bakhtiyar avançou em direção a Bihar, derrotou os proprietários de terras ou chefes de vários lugares e apoderou-se de grande quantidade de espólio. Com esse espólio, continuou a reunir numerosos cavalos e armas. A fama de seu valor também se espalhou por toda parte. Como repetidos atos de rebelião, guerras e derramamento de sangue ocorriam em regiões como Ghur, Ghazni e Khorasan, numerosos habitantes dessas áreas abandonavam sua terra e chegavam à Índia, vagando em busca de fortuna. Ao ouvirem a fama e a reputação de Bakhtiyar, juntavam-se em grupos ao seu exército. Desse modo, Bakhtiyar tornou-se extremamente poderoso.

Ao tomar conhecimento do valor incomparável de Bakhtiyar, o sultão de Délhi daquela época, Qutbuddin Aibak, enviou-lhe um khilat em sua homenagem; com isso, a força e a coragem de Bakhtiyar aumentaram muitas vezes. Em seguida, ele conseguiu estender seu domínio por toda a província de Bihar. Depois, dirigiu sua expedição para Bengala e, em 1203, conquistou as regiões de Rarh e Varendra, em Bengala.

Na época da invasão de Bengala, seu governante era Rai Lakshman Sen. A capital era Nadia. Essa região, juntamente com a capital, era chamada Lakshmanavati. Sobre isso, o Tabaqat-i Nasiri relata uma história curiosa.

Um grupo de brâmanes astrólogos da corte real fez uma profecia, declarando que este país em breve cairia nas mãos dos muçulmanos turcos. Se o país fosse atacado, o rei teria de submeter-se. Caso contrário, a população enfrentaria grande derramamento de sangue e humilhação.

O rei perguntou aos eruditos brâmanes se as antigas escrituras religiosas descreviam algum sinal daquele tipo de invasor muçulmano, pelo qual fosse possível reconhecê-lo no momento oportuno. Eles responderam que, quando o soldado turco permanecesse em pé, ereto, seus dois braços chegariam até os joelhos. O rei Rai Lakshman Sen encarregou um grupo de homens de confiança de investigar o assunto. Depois da investigação, eles disseram ao rei que Muhammad Bakhtiyar possuía o sinal mencionado. Enquanto isso, as audaciosas expedições de Muhammad Bakhtiyar e seus triunfos não eram desconhecidos de ninguém. Os eruditos brâmanes, as pessoas honradas e instruídas, os proprietários de terras e os principais notáveis abandonaram o país e buscaram refúgio em Jagannath, Kamarupa e outros lugares seguros. O rei, contudo, ainda não considerava prudente abandonar sua capital. De repente, Muhammad Bakhtiyar atacou Nadia e entrou na capital; então o rei fugiu pelo portão dos fundos do palácio real e refugiou-se em Vikrampur. Assim, toda Lakshmanavati caiu nas mãos de Bakhtiyar. O surpreendente é que Muhammad Bakhtiyar atacou e conquistou Nadia com apenas dezessete cavaleiros.

Depois disso, sua campanha se expandiu, e Nadia e Gaur caíram em suas mãos. No Tarikh-i Firishta, afirma-se que Muhammad Bakhtiyar construiu em Bangladesh uma nova capital chamada Rangpur. Isso permite compreender que, com exceção apenas da região oriental de Bengala, toda a região de Rarh e Varendra, isto é, a Bengala ocidental e setentrional, ficou sob seu domínio. Embora Rai Lakshman Sen tenha buscado refúgio em Vikrampur, Bakhtiyar não o perseguiu. Por isso, a região oriental de Bengala permaneceu fora de seu domínio. Um século depois, em 1330, Muhammad Tughluq Shah conquistou a região oriental e estabeleceu capitais respectivamente em Satgaon e Sonargaon.

Seja como for, em consequência da conquista de Bengala por Maomé Bakhtiyar, muçulmanos vindos de fora estabeleceram-se em grande número nesta terra. Inúmeros muçulmanos vieram para cá em busca de meios de subsistência por meio do comércio, do serviço no exército e de diversas outras atividades, e esse fluxo de chegadas continuou ininterruptamente até meados do século XVIII.

Desde a conquista de Bengala por Maomé Bakhtiyar Khalji até a queda do reino muçulmano no campo de Plassey, em 1757 d.C., durante quinhentos e cinquenta e quatro anos, cento e um ou mais governantes administraram Bengala.

O governo muçulmano de Bengala pode ser dividido em várias partes:

Bengala — sob os Khaljis — 1230–1227 d.C.

Bengala — sob o domínio de Deli — 1227–1341 d.C.

Bengala — sob a dinastia Ilyas Shahi (primeiro período) — 1342–1413 d.C.

Bengala — sob Ganesh Jalaluddin — 1414–1441 d.C.

Bengala — sob a dinastia Ilyas Shahi (segundo período) — 1442–1487 d.C.

Bengala sob o domínio habshi — 1487–1493 d.C.

Bengala sob a dinastia Hussain Shahi — 1493–1583 d.C.

Bengala sob os afegãos (Sher Shah e a dinastia Sur) — 1538–1564 d.C.

Bengala sob a dinastia Karrani — 1565–1576 d.C.

Bengala sob o domínio mogol — 1576–1757 d.C.

Entre aqueles que permaneceram sentados no trono de Bengala por mais de quinhentos e cinquenta anos, alguns foram homens que, por sua própria força, ascenderam ao trono de Bengala e obtiveram a aprovação do imperador de Deli. Alguns governantes eram completamente independentes. E os restantes, recebendo cartas de nomeação da corte de Deli, governaram Bengala como governadores ou nazims.

Depois de chegarem a este país na condição de conquistadores, os muçulmanos passaram a amar profundamente esta terra, aceitaram-na como sua morada permanente e desejaram viver em harmonia com os habitantes não muçulmanos do país. Como governantes, não cometeram qualquer injustiça ou opressão contra os governados. O povo também aceitou o seu governo. Após a conquista de Bengala, Muhammad Bakhtiyar estabeleceu a ordem e a segurança internas. Embora tenha fundado mesquitas e madraças em diversas partes do país para os muçulmanos, adotou uma política liberal em relação aos não muçulmanos. Se quisesse, poderia ter perseguido o fugitivo Lakshman Sen e derrotá-lo. Mas de modo algum deu espaço a essa ideia. Jadunath Sarkar diz em sua “História de Bengala”:

“……mas ele não era sanguinário. Não gostava de matar pessoas nem de oprimir os súditos. Ao estabelecer no país uma espécie de sistema de jagir ou um governo feudal, satisfazia a administração interna e os chefes militares”…

-(História de Bengala, vol. 2, período muçulmano, p. 9)

Os governantes de BengalaOs imperadores contemporâneos de Délhi

1203–1206 d.C. Muhammad Bakhtiyar Khalji Qutbuddin Aibak

1206–1208 d.C. Malik Izzuddin Muhammad Shirin Khalji Idem

1208–1210 d.C. Husamuddin Iwaz Idem

1210–1213 d.C. Ali Mardan (Sultão Alauddin Khalji) Idem

1213–1227 d.C. Sultão Ghiyasuddin Iwaz Khalji Aram Shah (filho de Qutbuddin Aibak)

Os sultões independentes de Bengala

O primeiro sultão independente de todo o Bengala foi Shamsuddin Ilyas Shah. Contudo, o imperador de Délhi, Firoz Shah Tughlaq, marchou em guerra contra ele e retornou frustrado. Em 1358, Sikandar Shah, filho de Ilyas Shah, subiu ao trono como sultão independente do Bengala e enviou cinquenta elefantes a Délhi como presente, com o objetivo de conquistar a benevolência do imperador de Délhi. De então até 1409, os que ocuparam o trono do Bengala foram:

Sikandar Shah (I) 1358–1391 d.C.

Ghiyasuddin Azam Shah 1391–1396 d.C.

Saifuddin Hamza Shah 1396–1406 d.C.

Shamsuddin 1406–1409 d.C.

Raja Ganesh

No início do século XV, começou no Bengala um movimento de renascimento da comunidade hindu. Desde a conquista do Bengala por Muhammad Bakhtiyar até o final do século XIV, os governantes muçulmanos administraram o Bengala ora como governadores nomeados pelos sultões de Délhi, ora como sultões independentes e ora mantendo a corte de Délhi satisfeita e favorável por meio de presentes e tributos. Ao examinar a história desses dois séculos, percebe-se que os muçulmanos não puderam reinar em paz e com segurança. A intensa discórdia interna entre eles e o forte desejo de tomar o poder à força foram as causas que perturbaram essa paz. Isso, porém, não significa que os governantes muçulmanos tenham jamais oprimido a comunidade hindu ou perseguido os súditos. Como resultado, os súditos, sem distinção de casta ou religião, desfrutaram de felicidade, paz e plena segurança para suas vidas e seus bens. Antes de Bakhtiyar Khalji, viviam nesta terra muitos reis hindus independentes. Depois do estabelecimento do governo muçulmano, embora não o aceitassem de coração, não consideraram conveniente entrar em conflito com os muçulmanos. Pode haver apenas duas razões para isso. A primeira é que o poder político do Bengala estava nas mãos dos muçulmanos e, desde Bakhtiyar, numerosos muçulmanos começaram a chegar continuamente ao Bengala vindos de terras estrangeiras. Pregadores muçulmanos, santos e dervixes vieram a esta terra e começaram a propagar a sublime mensagem do Islã, bem como a igualdade e a fraternidade do Islã. Como consequência, a população hindu, oprimida pelo bramanismo, começou a sentir-se atraída pelo Islã. Ainda assim, os hindus de casta elevada desta região poderiam ter se aproveitado da fraqueza interna e das discórdias dos governantes muçulmanos para proclamar uma rebelião. Mas não o fizeram. E há também uma razão para isso.

“A segunda razão é que eles estavam agindo com base em um plano de longo prazo. Isto é, sem incorrer no desagrado dos governantes muçulmanos, eles se estabeleciam nos diversos níveis da administração, para se revelarem em algum momento. Em meados do século XVIII, alcançaram pleno êxito nesse plano. Contudo, naquela época, em vez de tomarem o poder para si, sentiram-se satisfeitos por abolir o governo muçulmano e entregar o poder aos ingleses. Embora seu êxito no início do século XV não tenha sido duradouro, este foi o primeiro surgimento de seu plano de longo prazo.”

Nessa época, um zamindar hindu de Bengala tornou-se extremamente poderoso. Nas histórias escritas em persa, seu nome é mencionado como “Kans”. Kans era, na realidade, “Kংস” ou “Ganesh”. Durante o reinado de Ghiyasuddin Azam Shah, ele se tornou chefe dos departamentos de arrecadação e administração. Segundo o relato do Riyaz-us-Salatin, Ganesh matou Ghiyasuddin Azam Shah, neto de Shamsuddin. Depois, matou também Shamsuddin, neto de Ghiyasuddin, e ascendeu ao trono de Gaur e de Bengala.

Dinastia Iliyas Shahi

Shamsuddin Iliyas Shah (1339–1358 d.C.)

Sikandar Shah (1358–1389 d.C.)

Ghiyasuddin Azam Shah (1389–1396 d.C.)

Saifuddin Hamza Shah (1396–1406 d.C.)

Shamsuddin (1406–1409 d.C.)                Shahabuddin Bayezid Shah (1409–1414 d.C.)

Blockman afirma que Ganesh não ascendeu pessoalmente ao trono. Contudo, depois de matar Shamsuddin, ele deixou o irmão deste, Shahabuddin Bayezid Shah, como uma marionete e governou de fato. Em sua História de Bengala, volume II, Rakhaldas Bandyopadhyay menciona os nomes de dois governantes do trono de Bengala entre 1409 e 1414 d.C. São eles: Shahabuddin Bayezid Shah e Ganesh.

O rei Ganesha era um brâmane bengali de Varendra. Ganesha, o poderoso rei da pargana de Bhaturia, no norte de Bengala (Dinajpur), mantinha um exército próprio. Recrutava seus soldados da temível tribo Sangla. Devido à sua influência e poder, foi nomeado para servir sob o sultão de Bengala e, gradualmente, tornou-se o único administrador do tesouro do reino, o mukhtar (Sahib-i-Ikhtiyar-i-Mulk wa Mal). Como retribuição por essa posição, por meio de uma profunda conspiração, primeiro assassinou Ghiyasuddin Azam Shah e, alguns anos depois, matou Shamsuddin Shah, ascendendo ao trono de Bengala.

A ascensão de Ganesha ao trono de Bengala foi resultado de um planejamento de longa data e de uma profunda conspiração. Ganesha e os nobres hindus que compartilhavam suas ideias não conseguiam aceitar de coração o governo dos muçulmanos em Bengala. Embora a história dos dois séculos anteriores não registre qualquer exemplo de perseguição aos não muçulmanos pelos governantes muçulmanos, eles consideravam o domínio muçulmano uma extrema humilhação para a nação hindu. Assim, depois de ascender ao trono, Ganesha dedicou-se à opressão dos muçulmanos. Desse modo, manifestou-se seu ressentimento acumulado durante muitos anos contra os muçulmanos.

Na descrição de Dinajpur escrita por Buchanan Hamilton, consta que Ganesha matou um certo xeique Badre Islam e seu filho Faiz Islam por não o saudarem com a cabeça inclinada. Não apenas isso: Ganesha matou cruelmente muitos awliya e dervixes, sábios, eruditos e estudiosos das escrituras muçulmanos. Certa vez, ficou extremamente irado porque o xeique Badrul Islam, pai do xeique Muinuddin Abbas, não saudou o rei herege Ganesha. Então, um dia, convocou o referido xeique à corte. A porta de entrada de seu aposento foi construída tão estreita e baixa que quem entrasse teria de fazê-lo de bruços. Percebendo a intenção do rei, o xeique primeiro colocou os dois pés dentro do aposento e entrou sem inclinar a cabeça. Pois, segundo os preceitos do Islã, nenhum muçulmano pode inclinar a cabeça diante de alguém além de Allah. O rei Ganesha matou-o imediatamente e matou os demais ulemás, lançando-os ao fundo do rio em um barco.

Ao ouvir esse relato horripilante do massacre dos muçulmanos, o xeique Nur Qutb al-Alam ficou profundamente angustiado e pediu ao governador de Jaunpur, o sultão Ibrahim Sharqi, que viesse a Bengala para proteger a religião islâmica. O sultão Ibrahim marchou em direção a Bengala com um enorme exército e estabeleceu acampamento em Sarai Firozpur. Ao saber disso, o rei Ganesha, tomado de medo e terror, procurou refúgio junto a Qutb al-Alam. Qutb al-Alam disse que poderia aconselhar o sultão Ibrahim a retornar sob a condição de Ganesha aceitar o Islã. Ganesha concordou, mas sua esposa o impediu. Por fim, propuseram que seu filho Yadu fosse iniciado no Islã e que Ganesha lhe cedesse o trono. Ganesha aceitou. Yadu recebeu o nome muçulmano Jalaluddin e foi proclamado sultão de Bengala. O sultão Ibrahim retornou profundamente contrariado. Assim que recebeu a notícia de seu retorno, Ganesha recuperou o trono das mãos de Jalaluddin. O ingênuo Qutb al-Alam não percebeu a astúcia de Ganesha. Por isso, quando ele quis iniciar o filho na religião islâmica, perdoou o crime de homicídio cometido pelo pai.

Depois de recuperar o trono, Ganesha realizou a purificação de Yadu, que havia abandonado sua religião, por meio do ritual da Suvarnadhenu. Isto é, o método de purificação consistia em entrar pela boca de uma vaca dourada construída e sair pelo orifício destinado à evacuação de suas fezes, segundo um procedimento religioso especial das escrituras hindus.

Depois desse ritual de purificação, Ganesha iniciou a tarefa de erradicar os muçulmanos do país. Prosseguiu com o massacre dos muçulmanos com uma ferocidade ainda maior que antes. Enviou o filho de Qutb al-Alam, o xeique Anwar, e seu neto, o xeique Zahid, presos para Sonargaon. Depois, eles foram submetidos a vários tipos de tortura para que revelassem o paradeiro das riquezas de seu pai e avô. Mais tarde, o xeique Anwar foi morto. Desse modo, Ganesha estabeleceu em Bengala um reinado de terror durante sete anos e tornou insuportável a vida dos muçulmanos.

Após a morte de Ganesha, Jalaluddin (Yadu) voltou a ascender ao trono.

O ressurgimento da nação hindu

Rakhaldas Bandyopadhyay escreveu no segundo volume de sua História de Bengala: “Ganesh havia tentado estabelecer a predominância da religião hindu no reino recém-fundado. A expiação de Yadu por meio do voto da vaca dourada é apenas uma pequena evidência disso. Desde a época do rei Ganesh, começou o estudo do sânscrito em Gauda e Bengala. Também começou a composição de obras em língua sânscrita, e teve início o desenvolvimento da língua bengali. Por todas essas razões, Ganesh conquistou uma posição elevada na história de Bengala, na história da Índia e na história da literatura indiana”. (Obra citada, pp. 135-136)

É naturalmente difícil dizer qual foi a verdadeira razão pela qual o filho mais velho de Ganesh se tornou muçulmano. Contudo, alguém, considerando isso uma extrema humilhação para a nação hindu, elaborou muitas histórias fantasiosas.

Rakhaldas afirma em sua referida história: “Segundo a lenda corrente na terra de Varendra, Yadu havia renunciado à sua própria religião, tendo se apaixonado pela beleza de uma nobre mulher muçulmana, descendente da linhagem de Ilyas Shah”.

Rakhaldas atribui a seguidores de outra religião a desonra de seu próprio povo e diz:

“O historiador Stewart supõe que Yadu, ou Jalaluddin, era filho de uma concubina muçulmana de Ganem”.

A descrição acima é um exemplo flagrante de como a história do povo muçulmano foi difamada.

É uma verdade incontestável que, naquela época, a degradação moral dos muçulmanos não havia chegado ao ponto de as mulheres muçulmanas começarem a se prostituir ou aceitarem um não muçulmano como marido. Tampouco elas circulavam, como nos tempos atuais, sem véu diante de homens estranhos, levando Yadu, filho de Ganesh, a apaixonar-se por alguma bela jovem muçulmana e a tornar-se muçulmano para se casar com ela. A história testemunha que, naquele período, numerosos faquires e dervixes muçulmanos pregavam neste país a grandiosa mensagem do Islã, e muitos deles também participavam da administração do governo. Eles exerciam enorme influência sobre os governantes.

Tomemos como exemplo a época de Ganesh. O famoso wali Nur Qutb al-Alam e seu filho, Shaykh Anwar, eram contemporâneos de Ganesh. Sua influência não se restringia aos muçulmanos e governantes de Bengala; estendia-se também ao sultão Ibrahim Sharqi, governador de Awadh, já mencionado anteriormente. Ao observarem sua conduta, seu caráter puro e ouvirem de seus lábios a mensagem doce do Islã, muitos hindus aceitaram voluntária e alegremente o Islã — entre eles, Yadu, filho de Ganesh. Apesar de exercerem tamanha influência na sociedade, é absolutamente inimaginável que uma mulher muçulmana se prostituísse, isto é, se tornasse concubina de algum homem, ou que, por circular sem qualquer restrição, despertasse a paixão de um hindu; isso está além de toda imaginação. Portanto, a alegação de que Ganesh mantinha uma concubina muçulmana e de que Yadu se apaixonara por uma mulher muçulmana é inteiramente inventada e maliciosa. Não passa de uma tentativa ridícula de transferir a própria desonra para os ombros de outrem.

Há ainda outro aspecto que merece especial menção. Trata-se do fato de que os muçulmanos chegaram a este país com a aparência de conquistadores. Naturalmente, entre os muçulmanos conquistadores vindos de fora havia um sentimento de superioridade (complexo de superioridade). Por muçulmano nobre entendia-se precisamente o muçulmano vindo de fora. Que alguma mulher deles aceitasse um hindu como marido — isso estava além de qualquer cogitação.

Além disso, é preciso considerar que, depois que membros das castas inferiores hindus aceitaram o Islã, também era irrealista que alguma mulher deles aceitasse Ganesh como marido. Pois Ganesh era um brâmane e portador e propagador de um bramanismo extremado. Para Ganesh, casar na família de um hindu que, após aceitar o Islã, se tornara um yavana e um mleccha, era algo inconcebível. Portanto, não há dúvida de que essas histórias são apenas fruto de uma fantasia irreal.

Alguns dizem que Yadu se tornou muçulmano por ambição ao trono. Para nós, isso também não é verdade. É certo que, para se proteger do ataque do sultão Ibrahim Sharqi, Ganesh entregou seu filho a Nur Qutb-e Alam para que ele aceitasse o Islã. Depois que Yadu aceitou o Islã e foi proclamado sultão, o sultão Ibrahim Sharqi retornou sem atacar Bengala. Imediatamente depois, Ganesh novamente depôs Yadu e voltou a subir ao trono. Em seguida, Yadu cumpriu a penitência segundo os preceitos hindus. Ganesh reinou durante sete anos com grande poder. Não foi possível, de modo algum, destroná-lo. Se Yadu tivesse aceitado o Islã unicamente para obter o reino, depois de sua penitência e da purificação pela vaca de ouro, poderia ter subido tranquilamente ao trono de seu pai como hindu. Mas Yadu não abandonou o Islã.

Além disso, o ser humano possui uma consciência por meio da qual pode discernir a verdade da falsidade. Junto com ela, há no ser humano um sentimento moral. Ao ver a competência e a capacidade de trabalho de Ganesh, o sultão de Bengala o nomeou para o cargo mais elevado do reino.

Mas ele tomou o trono de Bengala por meio de conspirações e assassinatos. Primeiro, traiu seu senhor e, depois, iniciou um massacre de muçulmanos inocentes. Apesar disso, Nur Qutb-e Alam perdoou todos os seus crimes por causa da conversão de seu filho ao Islã. Certamente Yadu deve ter ficado impressionado com a conduta do xeique Nur Qutb-e Alam e com a tolerância e a generosidade do Islã. A traição, a ingratidão e a crueldade de seu pai certamente deixaram uma marca profunda no coração de Yadusen. Além disso, no contato com um santo perfeito, Yadu foi verdadeiramente iluminado pela luz do Islã. Essa é a nossa opinião. Ela não é de modo algum irracional nem impossível.

Agora, segundo os historiadores hostis aos muçulmanos, como Yadu permanecera firme no Islã, era preciso difamá-lo de várias maneiras. Primeiro, disseram que ele era filho de uma concubina muçulmana. Em outras palavras, o que afirmavam era que ele, na realidade, nem sequer era hindu, mas filho ilegítimo (?) .

Rakhaldas Bandyopadhyay narrou em sua história um episódio extraordinário desse período. Na página 137 de sua História de Bengala, volume 2, ele diz: “Aquilo que Ganesh ou Yadu não puderam fazer, ou não ousaram fazer, foi realizado sem dificuldade por outro rei hindu bengali.

Seu nome era Danujamardana Deva”.

Depois, ele repete a afirmação na página 139 da referida obra e diz: “Ganesh ou Yadu não puderam fazer aquilo que nenhum rei hindu em Aryavarta pôde fazer; por isso, os nomes de Danujmardan Dev e Mahendra Dev permanecerão eternamente lembrados na história”.

O mais curioso é que, embora em sua obra não haja qualquer menção ao que Danujmardan Dev fez, há menção ao que Ganesh-Yadu não puderam fazer.

A esse respeito, Sir Jadunath Sarkar diz:

“Neste mesmo ano, encontramos moedas com inscrições em caracteres bengalis emitidas em Pandua e Chatgaon por um rei chamado Mahendra Dev, exatamente semelhantes às de Danujmardan Dev. Ele era, muito provavelmente, o filho mais novo de Ganesh, que permaneceu hindu e a quem seu irmão mais velho, Jadusen Jalaluddin, oferecera deixar o trono paterno caso não lhe fosse permitido abraçar o Islã. Mahendra foi evidentemente colocado no trono por ministros hindus logo após a morte de Ganesh. Creio que Mahendra — então com não mais de 12 anos — era apenas um fantoche nas mãos de uma facção ministerial egoísta… A tentativa dos fazedores de reis teve curta duração e terminou com sua rápida derrota, pois nenhuma moeda foi cunhada em nome de Mahendra depois daquele único ano, 1418 d.C.”

“Exatamente nesse ano, encontramos moedas com o nome de Mahendra Dev, em caracteres bengalis, emitidas em Pandua e Chatgaon. Elas são exatamente semelhantes às moedas de Danujmardan Dev. Muito provavelmente, ele era o filho mais novo de Ganesh. Ele permaneceu hindu, e Jadusen Jalaluddin lhe dissera que, caso não lhe fosse permitido tornar-se muçulmano, deveria renunciar ao trono paterno. Logo após a morte de Ganesh, os ministros hindus colocaram Mahendra no trono. Creio que Mahendra — que não tinha mais de doze anos — era apenas um fantoche nas mãos de um círculo ministerial egoísta. A tentativa desses ministros de fazê-lo rei não durou muito, e eles foram derrotados pouco depois. Pois, depois daquele único ano, 1418 d.C., nenhuma outra moeda foi cunhada em nome de Mahendra”.

Jadunath Sarkar prossegue dizendo:

“Ganesh colocou seu filho, um rapaz de apenas doze anos, sob vigilância protetora em seu harém e governou por conta própria sob o orgulhoso título de Danujmardan Dev.”

“Ganesh manteve seu filho de doze anos sob vigilância protetora dentro do harém e, assumindo pessoalmente o honroso título de ‘Danujmardan Dev’, governou a seu bel-prazer”.

Disso se entende que Ganesh era, na verdade, Danuj Mardan Deb. Ou então Danuj Mardan era um título que ele considerava glorioso para si e para toda a comunidade hindu.

Foi justamente aqui que Rakhaldas se equivocou. Considerando Danuj Mardan uma pessoa diferente, ele cantou seus infinitos louvores.

Vejamos agora qual é o significado da palavra Danuj Mardan. Danuj Mardan significa “aquele que massacra demônios”. Ganesh, desejoso de estabelecer um hinduísmo extremista, não podia de modo algum tolerar os muçulmanos nem o domínio muçulmano. Seu desejo ardente era eliminar os muçulmanos de Bengala e estabelecer um reino hindu extremista. Assim como Ganesh, os hindus consideravam os muçulmanos estrangeiros “yavanas-mlecchas”. Contudo, os muçulmanos eram mais robustos que os hindus em constituição física e coragem marcial. Por isso, eram vistos como demônios yavanas e mlecchas. Esmagar e exterminar esses yavanas e mlecchas de aspecto demoníaco era o propósito de Ganesh. Depois do retorno de Ibrahim Sharqi à sua terra natal, Ganesh prosseguiu com essa campanha de esmagamento e extermínio em escala cem vezes maior que antes. Elogiando efusivamente as atividades de extermínio dos muçulmanos realizadas por Danuj Mardan, Rakhaldas disse: “Como realizou aquilo que nenhum rei hindu de Aryavarta havia conseguido realizar, os nomes de Danuj Mardan Deb e Mahendra Deb serão eternamente lembrados na história”.

Imediatamente após a morte de Ganesh, os ministros hindus por ele nomeados colocaram no trono seu filho de doze anos, Mahendra, e, seguindo os passos de Ganesh, continuaram a campanha de repressão aos muçulmanos. Assim, o senhor Rakhal, extasiado com as atividades de Ganesh e de seu filho Mahendra, teceu-lhes elogios entusiásticos. Contudo, o reinado de Mahendra durou pouco tempo.

A linhagem de Ganesh

Ganesh — Danuj Mardan

Yadusen, também conhecido como Jalaluddin Muhammad Shah (1414–1431 d.C.) — Mahendra

Shamsuddin Ahmad Shah (1413–1442 d.C.)

Ressurgimento da dinastia Ilias Shahi

Foi mencionado acima que Ganesh matou dois sultões da dinastia Ilias Shahi e tomou o trono. Depois que matou Shamsuddin Ahmad Shah, neto de Ganesh, a dinastia Ilias Shahi foi novamente reinstaurada no trono de Bengala.

Nasiruddin Mahmud Shah (1442–1459 d.C.)

Ruknuddin Barrak Shah (1459–1474 d.C.)

Shamsuddin Yusuf Shah (1474–1482 d.C.)

Segundo Sikandar Shah (1482 d.C.)

Jalaluddin Fateh Shah (1482–1486 d.C.)

Sultões Habshi no trono de Bengala

Durante algum tempo, os abissínios começaram a chegar a Bengala. Barrak Shah e Yusuf Shah nomearam-nos para vários cargos importantes. Irritado com a conduta deles, Fateh Shah tentou reprimi-los, mas foi morto, e um certo sultão, o príncipe Shahzada Barrak, ascendeu ao trono.

Sultão Shahzada Barrak (1486–1487 d.C.)

Saifuddin Firoz Shah (1487–1490 d.C.)

Nasiruddin Mahmud Shah (1490–1491 d.C.)

Shamsuddin Muzaffar Mah (1491–1493 d.C.)

Alauddin Hossain Shah (1493–1519 d.C.)

O quarto sultão abissínio mencionado acima, Shamsuddin Muzaffar Mah, nomeou para um cargo em seu governo um homem de linhagem nobre desconhecida chamado Hossain. Ele foi sendo gradualmente promovido e, por fim, matou seu próprio senhor, Muzaffar Shah, e tomou posse do trono de Bengala. Na história de Bengala, ele é conhecido como Alauddin Hossain Shah Sharif Makki. Mais tarde, também adotou o título de “Khalifatullah”.

Hossain Shah

Hussein Shah é uma das maiores maravilhas da história. Enormes volumes foram escritos em seu louvor exuberante. Contudo, hoje surgem na mente do estudante de história interessado em investigação diversas perguntas a seu respeito. É preciso buscar as respostas na própria história.

Ao discutir Hussein Shah em sua obra História Social dos Muçulmanos de Bengala, Maulana Akram Khan afirma:

“Apesar de muitas pesquisas, até o momento não conseguimos encontrar nenhuma prova confiável sobre a raça, a religião, a origem e o título desse cavalheiro conhecido pelo nome de sultão Hussein Shah”.

Na realidade, formou-se a seu respeito uma verdadeira miscelânea de história, lendas e narrativas fantasiosas.

Sir Jadunath Sarkar afirma em sua História de Bengala:

“Em quase todos os relatos históricos, ele é mencionado como um árabe. Veio para Bengala com seu pai e ali passou a viver. Os acontecimentos de sua juventude tornaram-se tema de muitos relatos populares e histórias tradicionais. O centro da maioria desses acontecimentos é uma aldeia da subdivisão de Jangipur, no distrito de Murshidabad, chamada— ‘numa aldeia de Rarh chamada Ek Ani Chandpara, hospedou-se na casa de um cádi muçulmano local. Ao tomar conhecimento da linhagem do hóspede, o cádi casou sua filha com Hussein, seu filho mais novo. Depois de receber instrução, Hussein conseguiu em Gaur um pequeno emprego sob o sultão habexim Muzaffar Shah. Salim registrou esse tipo de narrativa citando um opúsculo anônimo.”

Também circula a respeito dele a história de que, durante a infância, Hussein trabalhava sob as ordens de um brâmane local. Ao perceber nele sinais sobrenaturais de que aquele menino se tornaria futuramente uma grande personalidade, o referido brâmane levou-o para Gaur.

Mais tarde, quando Hussein se tornou sultão de Bengala, concedeu ao referido brâmane a aldeia de Chandpara em troca de um tributo de apenas uma ana. Essa história é exatamente semelhante ao relato da infância de Hasan Gangu Bahmani. Contudo, não se pode aceitá-la como verdadeira sem exame. Quando alguém, partindo de uma posição humilde, torna-se senhor absoluto de um reino, criam-se a seu respeito todo tipo de histórias absurdas. Nossa impressão é que o mesmo aconteceu com Hussein Shah.

Alguns historiadores afirmam que o pai de Hussein, Sayyid Ashraf, era o sharif de Meca, mas que viveu durante muito tempo em Tirmiz. Buchanan Hamilton diz que também corre o rumor de que Hussein era natural do distrito de Rangpur. Ele nasceu na aldeia de Debnagar, situada a dezesseis milhas de Gobindaganj. Alguns historiadores chegam a mencioná-lo como bisneto do sultão Ibrahim Shah de Gaur. Portanto, vê-se que há considerável divergência entre os historiadores quanto à sua linhagem e ao seu local de nascimento.

Alguns historiadores afirmam que ele não era apenas árabe, mas também descendente dos sayyids. Depois, numa tentativa de enaltecer sua linhagem com um toque de imaginação, afirmou-se que seu pai, Sayyid Ashraf, era o sharif de Meca. Em busca de fortuna, ele teria vindo para Bengala com seus dois filhos.

Agora surge, com toda a justiça, a pergunta: quanto mais não fosse o sharif de Meca, o pai de Hussein era sequer árabe? Há razões suficientes para considerar que não só a condição de sayyid de Hussein, mas até mesmo o fato de ele ser muçulmano, não está livre de dúvidas. Seu comportamento e suas atividades depois de assumir o poder dão testemunho disso.

Tomemos, em primeiro lugar, a questão de sua linhagem. Não há na história nenhuma prova confiável de que seu pai, Sayyid Ashraf, fosse natural de Meca e seu sharif. Além disso, a ideia de que o sharif de Meca veio para Bengala com seus dois filhos em busca de fortuna não passa de uma fantasia. Por que motivo teria sido afastado de sua posição de sharif e privado de seus bens móveis e imóveis, a ponto de ter de vir para Bengala em busca de alimento e vestuário? Alguns também o chamaram de natural de Tirmiz. Então, qual dessas versões se pode aceitar como verdadeira? Convém lembrar que, naquela época, o sharif de Meca era o soberano absoluto do Hejaz, um rei autocrático, dono de imensa riqueza e senhor de um palácio real incomparável. Não se encontra na história informação alguma de que algum sharif de Meca tenha abandonado seu trono e vindo certa vez para Bengala com a esposa e os filhos em busca de fortuna, tornando-se dependente da proteção alheia. É provável que o astuto e fraudulento Hussein, apresentando-se como descendente dos sayyids e filho de um sharif, tenha atraído a devoção e o respeito dos muçulmanos.

Eis então algo curioso: depois de conquistar o trono, Hussein doou toda a aldeia de Chandpara ao qazi da aldeia (seu sogro), ou, segundo outra versão, a um certo brâmane ठाकুর que fora seu senhor na infância, em troca de uma receita de apenas um anna; mais tarde, essa aldeia ou mouza passou a ser chamada de “Chandpara de um anna”. Mas não há em parte alguma da história qualquer relato sobre se Hussein tomou alguma providência para garantir o sustento de seu desafortunado pai e de seu irmão mais velho.

Observe-se ainda que o suposto pai de Hussein, Sayyid Ashraf, refugiou-se na casa de um certo qazi da aldeia de Chandpur, na subdivisão de Jiaganj, em Murshidabad. Ao ver que ele pertencia à linhagem dos sayyids, o qazi apressou-se em dar-lhe sua filha em casamento com Hussein. Também é igualmente difundido o relato de que Hussein trabalhou como pastor sob as ordens de um certo brâmane da aldeia de Chandpara. Certa vez, por uma falta grave, o brâmane espancou-o impiedosamente com uma vara. Em outra versão, Hussein é apresentado como natural da aldeia de Debnagar, no distrito de Rangpur. Esses relatos contraditórios deixam claro que Hussein era, na realidade, de origem desconhecida. Não seria de admirar que alguém de origem desconhecida, por interesse próprio e aproveitando a ocasião, se apresentasse como muçulmano mesmo não o sendo. Em suma, depois de ascender ao trono de Bengala por meio de conspirações e fraudes, foram criadas várias histórias fictícias sobre sua linhagem e sua infância. Os contadores de histórias dados à fantasia talvez pudessem ter descoberto algum túmulo do suposto pai de Hussein e mencionado que Hussein erigira junto dele uma grande mesquita e uma madrassa; mas estavam tão ocupados compondo a história do poderosíssimo rei de Bengala, Hussein, que esqueceram completamente o desafortunado pai e o irmão.

Vejamos também em detalhe como Hussein chegou ao poder e quais foram suas atividades depois de conquistá-lo.

O governante habshi Muzaffar Shah primeiro nomeou Hussein para um cargo modesto. Depois, graças à sua inteligência astuta, Hussein conquistou o apreço e a satisfação de seu senhor e, por fim, obteve o cargo de primeiro-ministro. O astuto Hussein compreendeu que os governantes habshi eram indesejados pelo povo de Bengala. Assim, fazendo com que seu próprio senhor se tornasse cada vez mais impopular entre o exército, os dignitários e o povo, Hussein envolveu-se numa conspiração para tomar o poder. Ele continuou a dar maus conselhos, de várias maneiras, a seu senhor Muzaffar Shah.

Rakhaldas Bandyopadhyay diz: “Sayyid Husayn foi nomeado vizir e principal funcionário de Muzaffar Shah, o Sharif de Meca. Seguindo seu conselho, Muzaffar Shah reduziu os salários dos soldados e concentrou-se na acumulação de riquezas”. (História de Bengala, vol. 2, p. 187).

No Riyaz-us-Salatin e no Tarikh-i-Ferishta, afirma-se que, depois de se tornar vizir, Husayn passou a tratar bem o povo. Ao mesmo tempo, dizia-lhes também que Muzaffar Shah era um homem de caráter extremamente baixo e totalmente indigno de ser rei. Seguindo o conselho de Husayn Shah, Muzaffar Shah praticava atos indesejáveis. Assim, Husayn tinha a oportunidade de apresentá-lo ao povo como culpado e desprezível. Desse modo, incitou o exército, os emires e nobres e o povo contra Muzaffar Shah. Por fim, sob sua liderança, um grande exército entrou em guerra contra Muzaffar Shah. Os historiadores dizem que, na batalha, morreram cento e vinte mil soldados de ambos os lados. Não se sabe de outra parte do mundo onde, naquela época, tenha ocorrido uma guerra tão sangrenta.

Muzaffar Shah morreu na batalha. Alguns dizem que, depois de subornar os guardas do palácio, Husayn entrou no interior do palácio e matou pessoalmente o próprio senhor.

Maulana Akram Khan, citando a enciclopédia em sua obra História social da Bengala muçulmana, diz:

“Os senhores feudais muçulmanos de todas as classes e os reis hindus consideraram-no (Sayyid Husayn) digno do trono real e o entronizaram. Para lhes agradar, ele também ordenou, no momento determinado, o saque da capital, Gaur. Naquela ocasião, muitos súditos hindus ricos da cidade de Gaur perderam todos os seus bens”.

O curioso é que aqueles que haviam sido saqueados por ordem do próprio Husayn foram novamente mortos por ordem dele. Eram mais de doze mil. Para satisfazer seus próprios interesses mesquinhos, Husayn manchou as mãos com o sangue de milhões de pessoas. Talvez a ordem de saquear tenha sido apenas um pretexto para matar certo número de muçulmanos.

Depois de tamanho massacre, no qual estavam incluídos membros do exército, emires e nobres, altos funcionários, sábios e eruditos, entre outros, não restou ninguém que ousasse sequer proferir uma palavra contra Husayn. Assim, ele se tornou o senhor absoluto do país.

Os leitores não deixarão de sentir curiosidade sobre o papel desempenhado por Sayyid Husayn Makki (?) depois de conquistar o trono. Após assumir o poder, ele reorganizou completamente seu conselho de ministros. Seu vizir e principal funcionário era Gopinath Basu, também conhecido como Purandar Khan; o médico real era Mukunda Das; o chefe de sua guarda pessoal era Keshab Chhatri; e o chefe da casa da moeda era Anup. Também se tornaram seus ministros Shri Rupa e Sanatana, profundos conhecedores de várias escrituras e joias da tradição vaishnava. Sir Jadunath Sarkar, citando autores vaishnavas, diz que Husayn Shah acreditava de todo o coração que Shri Chaitanya era uma encarnação divina. Quando Chaitanya chegou à cidade de Gaur, Husayn prestou-lhe especial reverência e emitiu um firman aos funcionários reais para que prestassem homenagem ao Senhor Chaitanya e lhe proporcionassem todas as facilidades para viajar livremente por onde desejasse.

O respeitável Akram Khan afirma, na página 98 de sua obra acima mencionada:

“Segundo os escritores hindus, desde a ascensão de Hussain Shah ao trono, começou no país de Gaur o ‘reino de Rama’. O ilustre Dinesh Chandra Sen, como introdução a este assunto, diz: Não importa que os muçulmanos tenham vindo do Irã, Turan ou de outros lugares; ao chegarem a este país, tornaram-se completamente bengalis. Ao lado das mesquitas, começaram a realizar-se os festivais de Durga, de Rama e de Dol… Foi nesse contexto que surgiu o sultão Hussain. Livre das preocupações do governo, muito provavelmente foi o primeiro a comparecer perante Chaitanya-deva e tornou-se membro de sua comunidade de devotos. Está escrito no ‘Chaitanya Charitamrita’ que ele (Hussain) se tornou um devoto de Sri Chaitanya”.

O sultão Hussain e Sri Chaitanya foram contemporâneos, e o profundo relacionamento de Hussain com Chaitanya é um fato histórico. Portanto, certamente não será inadequado discutir aqui brevemente Sri Chaitanya.

Sri Chaitanya

A comunidade vaishnava acredita, de todo o coração, que Sri Chaitanya é uma encarnação de Sri Krishna, ou até mesmo o próprio Sri Krishna. Sri Chaitanya criou um novo despertar em toda a sociedade hindu.

Sir Yadunath Sarkar afirma:

“Foi uma época em que a plena expressão do espírito bengali ocorreu sob a forma simbólica do Senhor Gauranga. Sua mensagem de amor e perdão encantou toda a Índia. O coração e a mente dos bengalis, rompendo todos os vínculos, ficaram enfeitiçados pelos poemas e canções dos passatempos de Radha e Krishna. O entusiasmo do espírito vaishnava — na emoção, na poesia, na música, na tolerância social e na devoção religiosa — continuou incessantemente durante o século e meio seguinte. Este Renascimento hindu está intimamente ligado à dinastia Hussain Shahi. Ao se procurar compreender o progresso e o desenvolvimento alcançados pela religião vaishnava e pela literatura bengali naquela época, é inevitável recordar o governo liberal e culturalmente refinado dos senhores muçulmanos de Gaur”.

‘Yadunath Sarkar, The History of Bengal, 2.º volume, p. 147)

Na realidade, podemos saber claramente, pelas próprias palavras de Chaitanya, qual era o propósito de seu aparecimento. No Chaitanya Charitamrita, Adi-lila, página 120, ele diz em linguagem inequívoca:

“Esta minha encarnação é para exterminar os pāṣaṇḍīs.

Depois de exterminar os pāṣaṇḍīs, propagarei a devoção”.

Agora ficou claro que exterminar os pāṣaṇḍīs era o verdadeiro objetivo de sua vida. Ao examinar a história, sabe-se que, quando os muçulmanos conquistaram Bengala, a doutrina budista já havia desaparecido do país. Os brâmanes recusaram-se a acolher na religião a enorme quantidade de hindus de castas inferiores que vivia nesta terra. Como resultado, eles começaram a ingressar na comunidade vaisnava. Portanto, naquela época, além dos hindus, da comunidade vaisnava e dos muçulmanos, não existiam no país seguidores de nenhuma outra religião. Então, quem eram os pāṣaṇḍīs cujo extermínio motivou o aparecimento de Chaitanya?

Mawlānā Akram Khan diz em sua obra anteriormente mencionada:

“Segundo Manu, todos os não hindus que professam religiões diferentes pertencem a esta categoria (Saral Bangla Abhidhan). O lexicógrafo Subal Chandra Mitra, em seu Beng-Eng Dictionary, dá o seguinte significado para a palavra pāṣaṇḍī: “Not conforming himself to the tenets Vedas: Atheistic. Jaina or Buddha. A non-Hindu – aquele que não aceita os Vedas, que ostenta os sinais de outra casta e o não hindu — estas três interpretações de pāṣaṇḍī foram reconhecidas em toda parte”.

Agora não resta mais margem para dúvida de que, por pāṣaṇḍīs, se entendiam exclusivamente os muçulmanos.

A questão agora é esta: será que Chaitanya realmente conseguiu expulsar os pāṣaṇḍīs, isto é, os muçulmanos, desta terra? À primeira vista, vê-se que, mesmo depois do sultão Hussain Shah, contemporâneo de Chaitanya, o domínio muçulmano permaneceu estabelecido nesta terra por vários séculos. Contudo, a aceitação de Chaitanya como mestre por Hussain Shah e a ajuda e cooperação que ele lhe ofereceu no estabelecimento da comunidade vaisnava fizeram com que o lixo de shirk e bid‘ah acumulado na crença e na aqidah dos muçulmanos se tornasse, em épocas posteriores, a causa do declínio da sociedade muçulmana.

O autor da obra ‘História social dos muçulmanos de Bengala’ diz:

“A verdade é que, depois de expulsarem completamente a sociedade budista e a religião budista de sua terra natal, seu olhar benevolente voltou-se para a sociedade muçulmana. Assim, começaram simultaneamente a tentar destruir e lançar em desordem os reis yavanas por meio de intrigas políticas. Por outro lado, espalhavam uma rede de ilusões em nome da religião, a fim de manter a sociedade muçulmana esquecida de si mesma e hipnotizada. Como já disse, esse era o objetivo último e supremo do avatar daquela época, de seus devotos e de seus colaboradores”.

O método de culto de Satya Narayan é mencionado nos Puranas hindus. Esse culto é realizado em quase todos os lares hindus. Porém, de modo algum era possível fazer um muçulmano realizar o culto de Satya Narayan. Por isso, com o grandioso (?) objetivo de eliminar a divisão entre hindus e muçulmanos, o sultão Husain Shah estabeleceu Satya Pir e introduziu seu método de culto. Na realidade, a fundação do dargah de Satya Pir, a formulação de votos e a distribuição de oferendas em seu nome, bem como a realização de cerimônias no dargah de Satya Pir acompanhadas de tambores e instrumentos musicais, eram, na realidade, uma versão muçulmana do próprio culto de Satya Narayan, cuja introdução se deveu a Husain Shah. Por todas essas razões, a sociedade hindu considera Husain Shah um avatar.

Tornou-se o rei Husain Shah, grande e sábio,

de suprema fama no quinto Gaur.

Versadíssimo nas armas, de glória incomparável,

na era de Kali, tornou-se como um avatar de Krishna.

(‘Língua e literatura bengali’, Dinesh Chandra Sen).

Dinesh Chandra Sen afirma em sua obra «A língua e a literatura bengalis»:

«Kavindra Parameshvar descreveu-o (Husain Shah) como uma encarnação de Krishna. Vê-se no Chaitanya Charitamrita e no Chaitanya Bhagavata que ele reconhecia Chaitanya Prabhu como uma encarnação de Deus. Pela mesma qualidade que faz de Akbar um colar na garganta da história da Índia, Husain Shah será considerado uma joia brilhante na história de Bengala».

Segundo a crença religiosa geral dos hindus, Chaitanya é uma encarnação de Shri Krishna, ou o próprio Shri Krishna. Por isso, seus devotos ficaram intensamente atraídos pelos passatempos de Krishna. A imitação completa dos passatempos amorosos extremamente sedutores entre vaishnavas e vaishnavis, em nome da religião, é descrita em detalhe em muitas escrituras hindus. Os pensadores da sociedade hindu reconhecem a ruína causada pelos desvios sexuais no seio da sociedade hindu em consequência da propagação da religião vaishnava. É profundamente lamentável que um poderoso muçulmano de Bengala tenha feito com que milhões de bengalis também adotassem todos esses costumes e rituais imundos e obscenos como ideal de vida, amaldiçoando e degradando a sociedade muçulmana. Não será exagero dizer que, desse modo, Shri Chaitanya alcançou pleno êxito na aniquilação dos hereges.

Neste ponto, queremos repetir a afirmação de Rakhaldas Bandyopadhyay, introduzindo nela algumas correções:

«O nome do sultão Husain Shah permanecerá eternamente lembrado na história, pois ele realizou aquilo que Danuzmardan Dev-Ganesh não pôde realizar, e que nenhum rei hindu de Aryavarta pôde realizar».

Depois de toda essa discussão, as dúvidas sobre a linhagem e a religião de Husain Shah estão agora se tornando ainda mais fortes. É possível que Husain Shah nem sequer fosse muçulmano. Talvez tenha alcançado gradualmente o mais alto poder por meio de fraude, apresentando-se como muçulmano da linhagem dos sayyids e atraindo a devoção e o respeito dos muçulmanos. Ou talvez algum brâmane de uma aldeia chamada Chandpara, em Murshidabad, tenha acolhido e empregado como pastor um menino desamparado, hindu ou muçulmano, de origem desconhecida, mas bengali. O referido brâmane teria percebido nesse menino um talento extraordinário e, depois de treiná-lo «para a aniquilação dos hereges», tê-lo-ia apresentado à corte de Muzaffar Shah. Graças ao favor de Muzaffar Shah, sua fortuna começou a mudar rapidamente. Depois de observar toda a sua vida, os relatos contraditórios dos historiadores a seu respeito, suas crenças religiosas posteriores, suas atividades e conduta, o assassinato de incontáveis muçulmanos talentosos e a ornamentação de seu ministério e de sua corte por pessoas da sociedade hindu e vaishnava, seria errado sustentar a concepção acima sobre sua origem e religião?

Em suma, fosse Husain Shah muçulmano ou qualquer outra coisa, depois de matar incontáveis soldados muçulmanos, amires, nobres e muçulmanos eminentes, e de agradar aos poderosos senhores feudais hindus, quando teria tido ele ocasião de refletir sobre a devastação que causou à sociedade muçulmana? Em diferentes períodos da história, os inimigos do Islã alcançaram seus objetivos transformando cada um desses muçulmanos em uma marionete. Por isso, vemos historiadores e literatos não muçulmanos elogiando Husain Shah com extremo entusiasmo.

Durante seu reinado, o movimento renascentista da nação hindu se fortaleceu por meio da língua bengali. Os autores bengalis Maladhar Basu, Bipradas, Vijayagupta e Yashoraj Khan expressaram, em suas obras, gratidão e elogios entusiásticos a Husain Shah. Maladhar Basu traduziu para o bengali o décimo e o décimo primeiro cantos do Bhagavata. Compôs também um épico bengali intitulado «Shri Krishna Vijaya», sobre os passatempos amorosos de Shri Krishna. Encantado, Husain conferiu-lhe o título de «Gunraj Khan». Ele disse:

“Eu, indigno e desprovido de virtudes, não tenho mérito algum

o Senhor de Gaur deu-me o nome de Gunraj Khan”.

Gopinath Basu, irmão de Maladhar Basu, também conhecido como Purandar Khan, compôs um poema épico intitulado Krishnamangal sobre os amores de Sri Krishna. O brâmane Bipradas compôs o poema Manasamangal. Hossain concedeu a Paragal Khan vastas propriedades fundiárias em Chittagong.

Essas obras e o poema épico Manasamangal exerceram tamanha influência sobre as crenças religiosas dos muçulmanos que, posteriormente, o culto de Manasa se difundiu na sociedade muçulmana. Para conhecimento dos leitores, transcrevo aqui um pequeno trecho da obra de Maulana Akram Khan.

“No Mahabharata e no Devi Bhagavata encontramos um relato parcial de Manasa. Embora haja divergências quanto à sua origem, podemos considerá-la filha de Shiva. Não é possível narrar a história de Manasa preservando a decência da linguagem. Em suma, imediatamente após nascer, ela alcançou a plena maturidade e Shiva, ou Mahadeva, levou-a para sua própria casa. Chandí, ou Durga, esposa de Shiva, por qualquer que tenha sido a razão, explodiu de ira assim que a viu. Como resultado do conflito que irrompeu entre as duas deusas, Manasa perdeu um dos olhos. Manasa enfureceu-se contra Durga. Nem mesmo Shiva foi poupado de sua ira. (O relato da dança das serpentes é omitido aqui — Manasa, contudo, é adorada como a deusa das serpentes.) Manasa jurou que não deixaria de vingar-se dessa humilhação. Depois de consultar sua companheira Netravati, decidiu obrigar os devotos de Shiva e Durga a cultuarem Manasa. Com esse objetivo, ela apareceu em Bengala sob uma forma especial e, com extrema facilidade, conseguiu gradualmente induzir pastores, pescadores e muçulmanos pobres a cultuá-la. (Bangla Sahityer Katha, p. 16)”

A esposa de Chand Saudagar era uma mulher devota de Manasa. Seu marido, porém, de modo algum se dispôs a cultuar Manasa. Enfurecida, Manasa começou a lançá-lo em diversas calamidades e perdas. Mas, embora todos os seus navios, juntamente com seus sete filhos e suas vastas riquezas, tenham naufragado no mar, o comerciante permaneceu firme em sua posição. Por fim, apesar das severas advertências, seu único filho vivo, Lakhindar, foi morto pela picada de uma serpente, e sua esposa, Behula, conseguiu trazê-lo de volta à vida graças à sua profunda devoção e à misericórdia de Manasa. Todos os filhos e toda a riqueza perdidos por Chand Saudagar foram-lhe devolvidos. Esse culto de Manasa e a imersão de Behula a ele associada continuaram difundidos entre os muçulmanos de Jessore, Khulna, Bachsish Pargana e outras regiões até o primeiro quartel do século XX.” (História Social da Bengala Muçulmana, pp. 78–79)

Não apenas no sul de Bengala, mas em quase todas as regiões de Bengala, uma parcela dos muçulmanos, sustentando as ideias de shirk e kufr acima mencionadas, organizava com entusiasmo e empenho, aldeia após aldeia, a imersão de Behula, ou a procissão de imersão.

Agora podemos ver claramente como, com a ajuda de Hossain Shah e de seus descendentes, o vapor venenoso da idolatria contaminou as crenças religiosas dos muçulmanos. Como consequência, posteriormente prosseguiu a ridícula tentativa de tornar una e idêntica a sociedade e a cultura hindu-muçulmanas.

Dinastia Husain Shahi

Alauddin Husain Shah (1493–1519 d.C.)

Danial                 Nasiruddin Nasrat Shah                                     Ghiyasuddin Mahmud Shah

                                    (1519–32 d.C.                                       (1532–38 d.C.)

                         Alauddin Firoz Shah (1532 d.C.)

Ao analisar a história de Bengala, sabe-se que foi precisamente durante o período Husain Shahi que, pela primeira vez, a idolatria se infiltrou nos costumes e crenças religiosas dos muçulmanos. Não há dúvida de que a enorme influência de Sri Chaitanya e da comunidade vaishnava corrompeu as crenças religiosas dos muçulmanos. O fato de Husain Shah ter matado centenas de milhares de muçulmanos nobres — amires e omras, religiosos e pirs e awliya — e de o próprio Husain Shah ter-se tornado discípulo de Sri Chaitanya facilitou a infiltração de correntes de pensamento idólatras na sociedade muçulmana.

M. R. Tarafdar afirma em seu livro Husain Shahi Bengal:

“Alguns muçulmanos influentes costumavam adorar a deusa-serpente Manasa, por medo da picada de cobra. Isso provavelmente foi resultado da influência hindu sobre os muçulmanos. Nasrat Shah construiu um edifício para o Profeta. Mas a preservação da pegada do Profeta não encontra apoio no Islã ortodoxo”

(Bengala Hussain Shahi, M.R. Tarafdar. pp. 164, 166, 167, 89-91)

“Alguns muçulmanos influentes adoravam o altar de Manasa por medo de serem picados por serpentes. Isso foi provavelmente resultado da influência hindu sobre os muçulmanos. Nasrat Shah construiu edifícios. A veneração das marcas dos pés do Profeta não é verdadeiramente apoiada pelo Islã”.

O Dr. James Wise diz que os brâmanes de Gaya obtêm grandes rendimentos mostrando aos peregrinos o Vishnupad (a marca dos pés de Vishnu). Seguindo o exemplo deles, o culto ao Kadam Rasul começou a se difundir na sociedade muçulmana durante o período da Bengala Hussain Shahi.

Depois de a dinastia Hussain Shahi ter governado Bengala por quarenta e cinco anos, não se encontrou mais nenhum vestígio dela. Em seguida, Sher Shah e as dinastias Sur e Karrani permaneceram no trono de Bengala até 1575. Depois disso, os governadores nomeados sob o Império Mughal de Deli passaram a administrar Bengala. Contudo, após a morte do imperador Akbar em 1605, não foi possível governar Bengala pacificamente até que Jahangir nomeasse Man Singh governador de Bengala pela segunda vez. A dominação mughal de Bengala foi repetidamente resistida e posta em perigo. Depois de Man Singh, Jahangir nomeou Qutbuddin Khan Koka subadar de Bengala. Em 1607, Jahangir nomeou Quli Khan, e até 1639 outros nove governadores administraram Bengala como subadares. Depois que o príncipe Shuja foi nomeado governador de Bengala em 1639, os ingleses chegaram pela primeira vez a Bengala disfarçados de comerciantes e, em 1757, extirparam definitivamente o domínio muçulmano, tornando-se os donos e governantes de Bengala e Bihar.

Os que ocuparam o trono de Bengala depois do príncipe Muhammad Shuja, até 1757, foram:

Príncipe Muhammad Shuja — 1639-60 d.C.

Muazzam Khan Mir Jumla — 1660-63 d.C.

Dilir Khan–Daud Khan — 1663-64 d.C.

Shaista Khan (irmão de Mumtaz Mahal) — 1664–1678 d.C.

Fida Khan Ajn Khan Koka — 1678 d.C.

Príncipe herdeiro Muhammad Azam — 1678–1679 d.C.

Shaista Khan — 1679–1688 d.C.

Khane Jahan — 1688–1689 d.C.

Ibrahim Khan — 1689–1698 d.C.

Príncipe herdeiro Azim-ud-Din — 1698–1717 d.C.

Murshid Quli Khan — 1717–1727 d.C.

Sujauddin Muhammad Khan — 1727–39 d.C.

Sarfaraz Khan — 1739–40 d.C.

Alivardi Khan — 1740–56 d.C.

Sirajuddaula — 1756–57 d.C.

Terceiro capítulo

A chegada da Companhia das Índias Orientais a Bengala

É necessário que conheçamos bem a chegada a este país e as atividades posteriores daqueles sob cuja Companhia das Índias Orientais os ingleses, após mais de um século de esforços incessantes e empenho incansável, passaram de comerciantes a governantes, erradicaram o domínio muçulmano estabelecido durante quinhentos e cinquenta anos e acorrentaram os habitantes deste país às cadeias da escravidão.

No final do século XVI (1599 d.C.), a Companhia das Índias Orientais foi criada em Londres pelo esforço conjunto de alguns comerciantes. Com a aprovação da rainha Isabel, eles iniciaram o comércio com a Índia. Em 1612 d.C., após obter um salvo-conduto do imperador Jahangir, a companhia estabeleceu sua primeira feitoria comercial no porto de Surat.

A princípio, como tiveram de enfrentar muitas adversidades, não conseguiram obter grandes vantagens no comércio. Em 1644, enquanto o imperador Shah Jahan se encontrava no Decão, sua filha sofreu queimaduras em um incêndio. O Dr. Gabriel Boughton, hábil cirurgião enviado pelo diretor da feitoria inglesa de Surat para tratá-la, conseguiu curá-la. O imperador Shah Jahan ficou extremamente impressionado com ele e, a pedido de Boughton, os mercadores ingleses obtiveram o direito de comerciar em Bengala sem pagar impostos. Quando chegaram a Bengala, em 1644, munidos do firman do imperador, o príncipe Muhammad Shah Shuja era o governador de Bengala, Bihar e Orissa.

Foi uma grande felicidade para a Companhia que o tratamento de um membro da família de Shah Shuja tivesse sido confiado ao Dr. Boughton, que também aqui conquistou fama por sua habilidade médica. Assim, Shah Shuja concedeu aos ingleses a oportunidade de comerciar livremente em Bengala em troca de apenas três mil takas como salam. A extrema generosidade e benevolência demonstradas pelo imperador Shah Jahan e por seu filho para com os ingleses foram posteriormente usadas pelos ingratos mercadores ingleses como uma sentença de morte para o Império Mogol e para a independência de Bengala e Bihar.

Por força do firman de Shah Shuja, os mercadores ingleses estabeleceram sua feitoria comercial em Hugli e uma agência em Patna.

De Mir Jumla a Sirajuddaula

Depois de Shah Shuja, Mir Jumla, comandante de Aurangzeb, foi nomeado governador de Bengala. O prudente Mir Jumla mantinha um olhar atento sobre as atividades dos ingleses. Certa vez, Mir Jumla apreendeu várias embarcações carregadas de mercadorias que iam de Patna para Hugli. Em retaliação, o responsável pela feitoria inglesa de Hugli apreendeu uma embarcação carregada de mercadorias pertencentes a um muçulmano e confiscou os produtos. Por causa dessa insolência, Mir Jumla emitiu uma ordem para tomar a feitoria de Hugli. Vendo-se em dificuldades, o responsável pela feitoria devolveu ao proprietário a embarcação e as mercadorias apreendidas e pediu perdão a Mir Jumla.

Nawab Shaista Khan

Depois de Mir Jumla, Shaista Khan foi nomeado para o cargo de governador e nawab de Bengala. Os ingleses viviam aterrorizados em toda parte por causa de Shaista Khan. Devido à insolência deles, Shaista Khan cancelou os firmanes anteriores. Quando eles pediram desculpas por sua conduta e prometeram comerciar honestamente, os firmanes anteriores foram restabelecidos. Depois disso, Shaista Khan deixou Bengala.

Fida Khan e o príncipe Muhammad Azam

Depois de Shaista Khan, Fida Khan e o príncipe Muhammad Azam, filho do imperador Aurangzeb, foram nomeados sucessivamente subadares de Bengala. Depois que Muhammad Azam foi nomeado subadar, em 1678, a Companhia ofereceu-lhe um suborno de vinte e um mil rúpias para alcançar seus interesses mesquinhos. Ao tomar conhecimento disso, o imperador Aurangzeb destituiu-o e enviou novamente Shaista Khan para Bengala. Nessa época, a insolência dos ingleses chegou ao extremo. Um indivíduo chamado Akbar envolveu-se numa conspiração contra o imperador, e os ingleses ajudaram-no com armas. Ao descobrir essa conspiração, Shaista Khan mandou prender o senhor Peacock, comandante da feitoria de Patna. Como os negócios da Companhia haviam sido prejudicados, vários navios de guerra foram enviados da Inglaterra para a Índia sob o comando do capitão Nicholson, com ordens de conquistar Chittagong. Mas o capitão Nicholson foi derrotado. Por causa dessas más intenções dos ingleses, o nababo Shaista Khan expulsou-os de Sutanuti. Em 1687, quando Job Charnock, chefe da feitoria de Cossimbazar, aceitou todas as condições impostas pelo nababo, foi-lhes novamente concedida autorização para comerciar. Quando chegou à Inglaterra a notícia de que Job Charnock aceitara as condições impostas pelo nababo, os dirigentes da Companhia consideraram isso humilhante. Em seguida, enviaram à Índia um navio de guerra chamado “Defence”, equipado com diversas armas e sob o comando do capitão Heath, um marinheiro audacioso. Ao chegar a Sutanuti, Heath dirigiu-se a Baleswar com os homens da Companhia, com o objetivo de guerrear contra os mogóis. Ali infligiram crueldades desumanas à população e saquearam todos os seus bens. Depois, Heath foi de Baleswar a Chittagong e pediu a ajuda do rei de Arracão. Também ali fracassou e, desanimado, partiu para Madras. Ao tomar conhecimento dessas más intenções e conspirações, o imperador Aurangzeb confiscou as feitorias comerciais inglesas de Masulipatão e Vizagapatão. Desse modo, a Companhia enfrentou uma catástrofe completa por causa de seus atos criminosos.

O subadar Ibrahim Khan

Depois de Shaista Khan, Khan-i Jahan tornou-se subadar de Bengala por pouco tempo, e, em 1689, Ibrahim Khan foi nomeado subadar de Bengala, Bihar e Orissa. Para promover a expansão do comércio neste país, a questão da Companhia foi reconsiderada. Em seguida, os ingleses presos em Orissa foram libertados, e Job Charnock recebeu novamente autorização para estabelecer uma feitoria comercial em Bengala. Job Charnock havia fugido e encontrava-se em Madras. Assim que obteve a autorização, o astuto Job Charnock retornou a Bengala em 1691 com os comerciantes ingleses e fundou a cidade de Calcutá, estabelecendo-os de tal modo que, como consequência de longo alcance, os ingleses mantiveram intactos seu domínio e imperialismo em Bengala e em todo o território indiano até 1947.

Nessa época, foi apresentada uma grave acusação contra os ingleses. O xeique do Islã de Constantinopla informou ao imperador Aurangzeb que a grande quantidade de salitre que os ingleses recolhiam na Índia era exportada para a Europa e utilizada para fabricar munição, empregada contra os muçulmanos. Aurangzeb proibiu a compra de salitre. Mas eles continuaram a contrabandeá-lo secretamente. Depois, o imperador Aurangzeb promulgou um firman proibindo o comércio com os europeus. Quando o chefe da feitoria de Hugli apelou ao subadar de Bengala, este atenuou o rigor da proibição.

O subadar Azim-ush-Shan

Devido à incompetência de Ibrahim Khan, o imperador Aurangzeb nomeou em seu lugar seu próprio neto, Azim-ush-Shan, como subadar de Bengala.

Azim-ush-Shan era extremamente amante do conforto e ganancioso. Aproveitando-se disso, os ingleses ofereceram-lhe numerosos presentes e obtiveram autorização para fortificar a feitoria comercial de Sutanuti. Depois, mediante o pagamento de mais dezesseis mil rúpias como nazrana e de presentes valiosos, obtiveram as três aldeias de Sutanuti, Govindapur e Calcutá.

Após a morte de Aurangzeb, em 1707, o pai de Azim-ush-Shan, Bahadur Shah, ascendeu ao trono de Deli. Assim, Azim-ush-Shan foi novamente nomeado subadar de Bengala, Bihar e Orissa. Para ajudar o subadar incompetente, ineficiente e amante do conforto nos assuntos relacionados à arrecadação de receitas, Murshid Quli Khan foi nomeado diwan e enviado a Bengala.

Murshid Quli Khan

Após a morte de Bahadur Shah, Azim-ush-Shan foi morto por Farrukhsiyar ao disputar a sucessão ao trono, e Farrukhsiyar nomeou o próprio Murshid Quli Khan como subadar de Bengala. Murshid Quli Khan não era homem que se prestasse a ser um fantoche nas mãos dos ingleses ou que pudesse ser subjugado pelo dinheiro. Portanto, os ingleses fracassaram em obter dele vantagens e facilidades ilegais. Vendo que a situação se tornara desfavorável, enviaram uma delegação ao imperador. Entre eles havia um médico muito habilidoso chamado Hamilton. O subadar de Bengala era hostil aos ingleses. O imperador não queria fazer nada contra a vontade dele. Entretanto, teve início ali um drama amoroso, em consequência do qual a sorte dos ingleses se tornou extremamente favorável.

O jovem imperador Farrukhsiyar apaixonou-se pela filha de extraordinária beleza do marajá de Udaipur, Singh. Depois que o casamento foi acertado, ele subitamente foi acometido por uma doença terrível. O casamento foi adiado por tempo indeterminado. Nenhum tratamento produzia resultado. Por fim, o imperador ficou sob os cuidados do doutor Hamilton. Seu tratamento também não produziu resultado. Por fim, o imperador ficou sob os cuidados do doutor Hamilton. Após recuperar-se completamente com o tratamento dele, realizou-se o casamento com a filha da filha do marajá.

Depois de conquistar a amada, o imperador Farrukhsiyar ficou extremamente encantado com o doutor Hamilton e concedeu aos mercadores ingleses trinta e oito aldeias situadas em ambas as margens do rio Hugli, ao sul de Calcutá. O tributo anual nominal foi fixado em apenas oito mil cento e vinte e uma rupias. Mesmo depois de obterem tantos benefícios do imperador, eles não conseguiram alcançar nenhuma vantagem especial por medo de Murshid Quli Khan.

Sujauddin

Após a morte de Murshid Quli, em 1725, seu genro Sujauddin assumiu o cargo de subadar de Bengala, Bihar e Orissa. Durante seu governo, os ingleses fizeram progressos extraordinários no comércio, e sua arrogância também aumentou muitas vezes. Certa vez, o faujdar de Hugli apreendeu, por uma razão justa, uma embarcação carregada de mercadorias pertencente aos ingleses. Ao saberem disso, os ingleses enviaram um grupo de soldados e tomaram a embarcação dos guardas. Quando o subadar soube dessa arrogância, eles reconheceram prontamente o delito, pagaram uma pesada multa e pediram perdão. Assim, conseguiram escapar.

Sarfaraz Khan

Após a morte de Sujauddin, seu filho Sarfaraz Khan foi nomeado subadar. A invasão da Índia por Nader Shah ocorreu durante seu governo.

Alivardi Khan

Sarfaraz Khan era incompetente e de espírito fraco. Foi morto num confronto com seu comandante, Alivardi Khan, que se tornou subadar de Bengala em 1741.

Durante o governo de Alivardi Khan, os bandidos bargis atacaram Bengala repetidas vezes. Para proteger o país de suas depredações, ele várias vezes extorquiu grandes somas de dinheiro dos ingleses e de outros comerciantes estrangeiros. Para promover o desenvolvimento econômico do país, incentivava o comércio e os negócios.

Apesar de terem sido adotadas muitas medidas preventivas, os bandidos bargis uma vez conseguiram entrar no país, saqueando e perpetrando massacres. Para reprimir os bargis que chegavam pelas vias fluviais, Alivardi Khan sentia a necessidade da ajuda e cooperação dos ingleses, pois Bengala não possuía praticamente nenhuma força naval. Em contrapartida, os ingleses dispunham de uma poderosa frota. Certa vez, o principal comandante de Alivardi aconselhou-o a expulsar do país uma força maligna e crescente como os ingleses. Em resposta, o idoso Alivardi disse que, de um lado, os bargis haviam posto fogo nas estradas terrestres; se também enfurecesse os ingleses, eles ateariam fogo pelas vias marítimas, e Bengala não tinha capacidade para apagá-lo. Aproveitando-se da velhice de Alivardi e da fragilidade da situação, os ingleses se consolidaram e elaboraram planos para estabelecer seu domínio político neste país, o que se consumou quinze anos depois, em 1757.

Sirajuddaula

Em 1756, depois de permanecer acamado por longo tempo, Alivardi morreu, e Sirajuddaula tornou-se seu sucessor. Após ascender ao trono, ele habilmente frustrou todas as conspirações de Ghасeti Begum, filha de Alivardi, e de seu neto Shaukat Jang, governador de Purnia. Logo após a morte de Alivardi Khan e a ascensão de Sirajuddaula ao trono, Ghaseti Begum conseguiu reunir vinte mil soldados em seu lado e partiu em direção a Murshidabad. Sirajuddaula derrotou rapidamente o exército de Ghaseti Begum e confinou a begum no palácio real. Por outro lado, quando Shaukat Jang se proclamou subadar de Bengala, foi morto por Sirajuddaula em batalha.

Rajballabh, diwan de Nawajesh Muhammad, incitava a rebelião de Ghaseti Begum e Shaukat Jang. Ao descobrir isso, Sirajuddaula exigiu que Rajballabh apresentasse as contas. Como diwan sob Nawajesh Muhammad, governador de Daca, cabia-lhe arrecadar as receitas. Como não conseguia prestar contas, por ter desviado uma enorme quantia do dinheiro arrecadado, o nababo Sirajuddaula ordenou a apreensão dos bens de Rajballabh em Daca. Vendo que a situação se tornara insustentável, o filho de Rajballabh, Krishnaballabh, fugiu fingindo ir banhar-se no Ganges, levando consigo as receitas arrecadadas e toda a riqueza obtida ilegalmente, e, em 1756, refugiou-se junto aos ingleses em Calcutá. Sirajuddaula ordenou ao governador de Calcutá, Mr. Drake, que lhe entregasse Krishnaballabh, que havia fugido com seus tesouros. Seguindo o conselho de Mahatab Chand, então o maior magnata da Índia e um dos hindus mais influentes do reino, e de outros comerciantes e negociantes hindus, Drake recusou-se a cumprir a ordem de Sirajuddaula. Então, a conspiração que os ingleses ingratos e ávidos de poder, juntamente com seus principais colaboradores hindus, haviam tramado para depor Sirajuddaula e abolir para sempre o governo muçulmano foi finalmente executada no campo de Plassey. Antes de discutir a Batalha de Plassey, seus antecedentes e a queda de Sirajuddaula, precisamos saber qual era, naquela época, a situação religiosa, social e cultural dos muçulmanos de Bengala.

Quarto capítulo

Contexto do desaparecimento do domínio muçulmano em Bengala

Não há como negar que, após o declínio do Império Mogol, uma calamidade extrema se abateu sobre a vida dos muçulmanos indianos. Embora restasse em Délhi apenas um governo central nominal, ele era extremamente fraco, e, aproveitando-se disso, os governantes muçulmanos de várias regiões gozavam de uma espécie de independência. Eles faziam esforços desesperados para satisfazer as classes dos zamindares, jagirdares e ricos comerciantes. Como consequência, tornaram-se naturalmente vítimas de um complexo de inferioridade. A nação conquistada, sempre à espreita de oportunidades, ousou então penetrar nas crenças religiosas e no campo cultural dos muçulmanos. A tradução, divulgação e difusão das escrituras religiosas hindus para as línguas bengali e sânscrita, a introdução da religião vaishnava por Shri Chaitanya e as atividades imundas, obscenas e sexualmente excitantes da sociedade vaishnava mergulharam a sociedade muçulmana no abismo da decadência. Quando não se pode derrotar o inimigo em combate frontal, é possível vencê-lo facilmente conquistando a predominância em sua fé religiosa e em seu campo cultural. A astuta comunidade hindu da Índia, especialmente a de Bengala, vingou-se assim das frustrações acumuladas ao longo de vários séculos. Além disso, em diferentes fases da história, acelerou o declínio da comunidade muçulmana e, para alcançar seus objetivos, escolheu para ocupar o poder um muçulmano nominal que lhes fosse inteiramente favorável. Por meio desse fantoche, conseguiu satisfazer plenamente seus interesses. Junto com a penetração da descrença e da idolatria na fé e na aqidah islâmicas, a predominância da comunidade hindu sobre a cultura muçulmana transformou os muçulmanos em seus escravos mentais. O resultado absolutamente natural disso foi exatamente o que seria de esperar.

O Dr. A. R. Mallick observa em sua obra:

“Assim, após longos anos de convivência com um povo não muçulmano que os superava em número por larga margem, afastados da terra natal do Islã e vivendo com convertidos incompletos do hinduísmo, os muçulmanos haviam se afastado grandemente da fé e se indianizado. À parte esse afastamento da fé, os muçulmanos indianos, ao adotarem o sistema de castas dos hindus, desferiram um golpe desastroso contra a concepção islâmica de fraternidade e igualdade, na qual sua força havia se apoiado no passado, e apresentavam, assim, no século XIX, o quadro de uma sociedade desintegrada, degenerada e enfraquecida pela divisão e subdivisão a tal ponto que parecia estar além de qualquer possibilidade de reparação. Não é de admirar que Sir Mohammad Iqbal tenha dito: certamente superamos o próprio hindu em hinduísmo — sofremos com um sistema social de castas e um sistema religioso de castas, um sistema sectário e social de castas — que aprendemos ou herdamos dos hindus. Esta é uma das maneiras silenciosas pelas quais a nação conquistada se vingou de seus conquistadores.” (British Policy and the Muslims in Bengal — A. R. Mallick)

—“Os muçulmanos, tendo sido separados da fonte original do Islã, vivendo durante muitos anos junto à maioria não muçulmana da Índia, incluindo muçulmanos parcialmente convertidos, afastaram-se da fé original e tornaram-se indianos. Além disso, ao adotarem o sistema de castas dos hindus, esses muçulmanos indianos desferiram um golpe extremo contra a fraternidade e a igualdade islâmicas, nas quais sua força estivera fundada no passado. Como resultado, no século XIX foram retratados como uma comunidade dividida em muitas partes, fragmentada e degenerada, sem qualquer possibilidade de correção. Portanto, não há nada de surpreendente na declaração de Sir Muhammad Iqbal:

Certamente superamos os hindus. Estamos acometidos pela doença de um sistema duplo de castas — castas religiosas, seitas e subseitas, e castas sociais — que aprendemos ou herdamos dos hindus. Esta é uma das maneiras silenciosas pelas quais os conquistados se vingam de seus conquistadores”.

É uma verdade incontestável que a comunidade hindu de Bengala e da Índia jamais pôde aceitar de modo algum o domínio muçulmano. Por isso, trabalhou silenciosamente durante séculos para destruir pela raiz a solidariedade muçulmana. Por meio de seus esforços, alcançou pleno sucesso. Afastou os muçulmanos das crenças fundamentais do Islã e manchou seu tahzib e tamaddun com a mácula da idolatria. Eles sabiam muito bem que era extremamente fácil, sem convertê-los ao hinduísmo, transformar muçulmanos em pessoas de mentalidade hindu e, por meio deles, satisfazer os interesses hindus; e foi precisamente nessa tarefa que obtiveram pleno êxito.

Situação religiosa, social e cultural dos muçulmanos

Para compreender plenamente por quais caminhos ocorreu a decadência dos muçulmanos de Bengala e que força maléfica, por trás dos bastidores, lhe acrescentava combustível, precisamos saber até que ponto suas crenças religiosas, sua sociedade e sua cultura haviam se corrompido naquela época.

Na realidade, a infiltração do paganismo nas crenças de ʿaqīdah, na sociedade e na cultura dos muçulmanos de Bengala teve início durante o governo de ʿAlāʾ al-Dīn Ḥusayn Shāh. Governado por um ministério repleto e cercado de defensores e promotores do movimento de renascimento hindu, Ḥusayn Shāh sentiu-se atraído por Śrī Caitanya e tornou-se seu discípulo. Se for verdadeira essa afirmação transmitida pelos historiadores, pode-se facilmente imaginar quão grande era, então, a fé de Ḥusayn Shāh no tawḥīd. Sob seu patrocínio, a poderosa inundação do vaiṣṇavismo arrastou a sociedade muçulmana de Bengala. Os métodos criminosos, obscenos e abomináveis de prática dos tantristas hindus, o pañcatattva dos vāmācāris, isto é, ritos imundos de natureza sexual, e os jogos amorosos dos vaiṣṇavas, entre outros, atraíram e influenciaram facilmente os muçulmanos convertidos do hinduísmo das classes inferiores. Embora esses ritos e jogos amorosos tenham destruído em grande medida a pureza, o senso de gosto e o sentimento moral da sociedade hindu, essa arma de cortar o próprio nariz para estragar a viagem alheia corroeu as crenças religiosas dos poetas e escritores nominalmente muçulmanos da época, que foram usados como marionetes pelos porta-estandartes do movimento de renascimento hindu, na realidade em nome do desenvolvimento da língua bengali. Tomando os poetas hindus da segunda época como modelo, esses poetas muçulmanos passaram a compor poemas, padāvalī e obras literárias de louvor às divindades hindus. Compuseram muitas obras em forma de puthi baseadas nos jogos amorosos de Śrī Kṛṣṇa, nos kīrtans de apelo sexual, nas canções bhāsān de Manasā, nos hinos a Durgā e Gaṅgā e nas narrativas mitológicas hindus.

Sheikh Foyzullah compôs um poema épico intitulado ‘Goraksha Bijoy’ e, tornando-se devoto de Goraksh Nath, fundador da comunidade Nāth de Bengala e do templo de Kālī em Calcutá, compôs um hino a Gaṅgā em sânscrito (Bengali e Literatura: Dinesh Chandra Sen). De modo semelhante, Abdus Shukur e Syed Sultan, atraídos pelas doutrinas shaiva e tântrica, escreveram obras literárias. (Veja-se Shukur Mahmud-er Pāñchāli, publicado por Golam Rasul.)

Os poetas Alaol e Mirza Hafez compuseram poemas descrevendo, respectivamente, louvores a Shiva e a Kālī (Bengali e Literatura: Dinesh Chandra Sen). Syed Sultan incluiu Brahmā, Viṣṇu, Shiva e Kṛṣṇa na lista da linhagem dos profetas (A Política Britânica e os Muçulmanos de Bengala: A. R. Mallik). Durante o reinado de Ḥusayn Shāh, os muçulmanos começaram a adorar Satya Nārāyaṇ sob o nome de Satya Pīr. Isso já foi mencionado anteriormente.

Não há como saber nada sobre as convicções religiosas e as biografias dos poetas e escritores acima mencionados. No campo literário, encontram-se apenas seus nomes. Talvez tenham simplesmente nascido em famílias de muçulmanos convertidos e sua vida tenha sido formada em um ambiente inteiramente hindu. Ou talvez tenham se convertido do islamismo e se tornado apóstatas, como Haridas. Contudo, sua poesia, literatura, panchali, música e outras obras exerceram influência sobre a sociedade e a cultura muçulmanas daquela época.

Mais tarde, os inimigos do Islã conseguiram utilizar o imperador Akbar para alcançar seus objetivos. Jodhabai, a bela e formosa filha do rei Bihari Mal, de Jaipur, tornou-se esposa principal de Akbar e embelezou o harém mogol. Sabe-se que Akbar teve várias esposas hindus. Naquela época, os reis hindus entregavam suas filhas a Akbar e o utilizavam em benefício de seus próprios interesses. Essas esposas hindus receberam plena liberdade para praticar a idolatria e todos os ritos religiosos dentro do palácio real. O palácio imperial do soberano muçulmano mogol transformou-se em templo de idolatria e culto ao fogo. Assim, Akbar sofreu a enorme influência não apenas de suas esposas principais hindus, mas também do hinduísmo. Não é difícil imaginar quão direta foi a influência do paganismo sobre os filhos nascidos dessas esposas principais, que abriram os olhos do entendimento em semelhante ambiente e nele foram criados e educados. Como consequência natural, vemos que o imperador Jahangir, filho de uma esposa principal hindu, celebrava o culto de Diwali e, durante o Shivaratri, convidava brâmanes eruditos e iogues para jantar com ele. No oitavo ano de seu reinado, realizou, segundo os costumes hindus, o rito fúnebre em homenagem a seu pai no mausoléu de Akbar, em Sikandra.

Dara Shikoh, filho de Shah Jahan, tentou, em sua obra ‘Majma-ul-Bahrain’, estabelecer uma conciliação entre o hinduísmo e o islamismo.

Em meados do século XVIII, Shahamat Jang e Saulat Jang, sobrinhos de Alivardi Khan, celebraram durante sete dias os ritos do Holi no palácio real de Motijhil. Nesse evento, amontoavam-se abir e kumkum. Mir Jafar também participava das festividades do Holi junto com as pessoas importantes da cidade. Conta-se que, ao morrer, Mir Jafar bebeu a água dos pés da deusa Kiriteshwari (água usada para lavar a estátua). (A Política Britânica e os Muçulmanos de Bengala: A. R. Mallik; História Social dos Muçulmanos de Bengala: Maulana Akram Khan)

Holi, em termos gerais, é o festival do balanço de Shri Krishna. Shri Chaitanya, uma encarnação de Shri Krishna, estabeleceu o vaishnavismo. Entre as cerimônias de adoração deles, o festival do balanço de Shri Krishna é uma das principais. Portanto, a descrição acima deixa claro que, naquela época, a influência do vaishnavismo havia penetrado profundamente na base da sociedade muçulmana.

Ao determinar as causas de tal decadência religiosa da sociedade muçulmana, os historiadores dizem que a principal causa da entrada de ideias pagãs na sociedade muçulmana foi o fato de os novos muçulmanos indianos terem passado do paganismo a uma conversão parcial ao islamismo (Half-Conversion). Em outras palavras, um pagão tornava-se muçulmano sem compreender o Islã. Depois disso, não havia qualquer ব্যবস্থা de treinamento islâmico para ele. Seu pensamento não era purificado. Ele não tinha oportunidade de aprender sobre a futilidade do paganismo e sobre a verdade e a beleza do Islã, que lhe é contrário. Vivendo em um ambiente islâmico, não passava por nenhuma mudança ou correção em seus costumes, comportamento, caráter e mentalidade. Por isso, esse tipo de muçulmano, imitando o festival hindu de Durga, tenta talvez obter algum divertimento por meio de iluminações, queima de fogos de artifício e coisas semelhantes na noite de Shab-e-Barat. Akbar, Jahangir e os governantes posteriores de Bengala não hesitaram em participar publicamente de cerimônias de adoração hindus.

O historiador M. Grassin de Tassy diz que o tazia de Muharram é uma imitação exata da puja hindu de Durga. Assim como o festival de Durga dura dez dias e, no último dia, os adoradores fazem uma procissão com a imagem, ao som de tambores e outros instrumentos, para depois imergi-la em um rio ou lagoa, os muçulmanos também celebram o festival de Muharram durante dez dias. No último dia, à semelhança da imersão de Durga, fazem uma procissão ao som de tambores e imergem o tazia na água.

O Dr. James Wise descreveu o festival de Muharram como semelhante ao festival hindu da Rath Yatra. A Sra. H. Ali diz que, após viverem por longo tempo em contato com os hindus, os muçulmanos transformaram seus festivais religiosos em procissões externamente pomposas, imitando os hindus. Assim como os europeus, os muçulmanos estrangeiros consideraram esse tipo de festival religioso dos muçulmanos de Bengala uma distorção e uma profanação do Islã. (British Policy e os Muçulmanos de Bengala: A. R. Mallik).

Durante essa decadência do Islã e dos muçulmanos, a doença da veneração dos pirs e dos túmulos espalhou-se pela sociedade muçulmana. Segundo o historiador M. T. Titus, essa superstição foi importada do Afeganistão, da Pérsia e do Iraque. O antigo sistema hindu de guru e discípulo, juntamente com sua irrefreável fé na adoração de numerosas divindades locais, incentivou a sociedade muçulmana a entregar-se a essa superstição. Ele diz que eles praticam a veneração dos pirs com um entusiasmo e um fervor muitas vezes maiores do que os dedicados aos ritos religiosos obrigatórios do Islã. Os muçulmanos ignorantes transformaram posteriormente em centros de culto os túmulos dos awliya e dervixes que, no passado, haviam pregado a grandiosa mensagem do Islã.

Somente em Bengala, o Dr. James Wise apresenta da seguinte forma o número de awliya e dervixes em cujos túmulos os muçulmanos ofereciam flores, shirni e nazr-niyaz para obter a realização de seus desejos:

Shah Jalal de Sylhet, os Cinco Pirs, o dervixe Munnashah, Khondkar Muhammad Yusuf de Sonargaon, Shah Ali Baghdadi de Mirpur, Pir Badr de Chittagong, Shah Jalal de Daca e Adam Shahid de Bikrampur. Em Chittagong existe, segundo se diz, um dargah de Bayazid Bostami; talvez seja um dargah inteiramente imaginário, provavelmente descoberto pelo Dr. James Wise em época posterior.

A obra de Blockmann menciona numerosos dargahs desse tipo em Bengala e Bihar.

Diz-se que tanto os hindus quanto os muçulmanos de Sonargaon realizavam cerimônias e festividades religiosas. Para obter uma boa colheita de arroz, o camponês levava alguns feixes de arroz à dargah. Para se proteger de todos os tipos de doenças e perigos, ofereciam arroz e ar na dargah.

A leste da cidade de Daca, junto ao rio Shitalakshya, havia uma pedra negra guardada em uma dargah, chamada Qadam Rasul (a pegada do Profeta (sa)). Diz-se que ela ainda existe até hoje. O Dr. James Wise afirma que os brâmanes de Gaya ganham muito dinheiro mostrando aos peregrinos o Vishnupad (a pegada de Vishnu). Do mesmo modo, o mutawalli da dargah obtém grandes somas mostrando o Qadam Rasul aos aldeões ignorantes e crédulos.

Em Ajmer, os intermediários do mausoléu de Khwaja Muinuddin Chishti (que Allah tenha misericórdia dele), removendo a cobertura do mausoléu e mostrando a porta do paraíso (?), ganham muito dinheiro dos visitantes que vêm prestar ziyarat.

Uma classe de grupos de falsos pirs e faquires encheu Bangladesh, a Índia e o Paquistão, tanto quanto restava deles, com incontáveis túmulos e dargahs desse tipo. Além disso, em nome da religião, eles introduziram até a depravação sexual, imitando os vaishnavas e os tântricos vamacharis. Como a doutrina e o caminho que adotam sob o nome de muçulmanos têm sua origem no vaishnavismo bengali, considero necessário mencionar aqui brevemente os costumes, cerimônias e práticas dos vaishnavas. Maulana Akram Khan discutiu detalhadamente esse assunto em sua obra História Social dos Muçulmanos de Bengala. Apresento aos leitores um breve trecho de seu livro.

“Chaitanyadeva é a divindade adorada da comunidade Chaitanya dos vaishnavas de Bengala. Segundo a crença comum dos hindus, Chaitanya é um avatar de Shri Krishna ou, em sentido pleno, o próprio Shri Krishna. Por essa razão, após sua morte, seus devotos excluíram o Chaitanya humano de sua essência e o elevaram completamente a Krishnachaitanya, passando a sentir uma atração extremamente intensa pelos jogos amorosos de Krishna. O fluxo de depravação sexual abominável que corre, em nome da religião, entre os vaishnavas e vaishnavis de cabeça raspada, os chamados nedas e nêdis, nada mais é que a repetição ou representação dos jogos amorosos de natureza sexual e passional de Shri Krishna descritos nos Puranas.”

O tântrico declara, em linguagem inequívoca, que, na Era de Kali (a era atual), beber álcool não é apenas permitido; pelo contrário, a prática de beber álcool era consagrada, e, do mesmo modo, também nesta Era de Kali, todos vocês, independentemente de casta ou religião, devem bebê-lo — (Mahanirvana Tantra, 4º ullasa, 56º verso).”

“Mahadeva diz a Gauri: assim como é impossível que uma semente plantada numa pedra brote, igualmente a adoração e o culto sem os panchatattvas são inúteis. Além disso, se alguém realizar adoração e culto sem os panchatattvas, o adorador terá de enfrentar diversos perigos, calamidades, obstáculos e adversidades — (Mahanirvana Tantra, 5º ullasa, versos 23–24).”

Convidamos os leitores a ouvir, da própria boca de Mahadeva, a explicação do mistério desses panchatattvas:

‘Ó Adya, na prática do culto de Shakti, prescreve-se como indispensável o consumo de álcool, carne, peixe e mudra, bem como a relação sexual’.

(Madyaṃ māṃsaṃ tato matsyaṃ maithune, meraś ca; śaktipūjā vivāhādy e pañcatattvaṃ prakīrtitam — Mahānirvāṇatantra, 5.º ullāsa, śloka 22).

“Swami Dayananda, fundador da Sociedade Arya, escreve sobre esse método de culto dos tântricos vamacharis: os vamacharis aceitaram como religião suprema todos esses atos de grande impiedade, contrários aos Vedas. Consideram desejável uma repugnante mistura de álcool, carne, peixe, mudra e relação sexual. No que diz respeito ao pañcatattva, isto é, à relação sexual, cada homem pode imaginar-se como Shiva e cada mulher como Parvati e, pronunciando mantras, entregar-se à relação como se fosse uma cerimônia religiosa. As escrituras proíbem a relação sexual com mulheres menstruadas. Mas os vamacharis consideram-nas, isto é, as mulheres menstruadas, extremamente sagradas.”

“O Rudramaṅgalatantra, escritura dos vamacharis, declara: a relação com uma mulher menstruada equivale a banhar-se num lago; a relação com uma chandala equivale a uma peregrinação a Kashi; a relação com uma mulher da casta dos curtidores equivale a banhar-se em Prayaga; a relação com uma lavadeira equivale a uma peregrinação a Mathura; e a relação com a filha de um caçador equivale a visitar o lugar sagrado de Ayodhya”.

“Quando os vamacharis se reúnem no chakra Bhairavi (um círculo de homens e mulheres reunidos para a prática irrestrita e indiscriminada de relações sexuais), não há distinção entre brâmanes e chandalas. Um grupo de homens e mulheres reúne-se num lugar ermo, inacessível às outras pessoas, forma um círculo chamado bhairavī-cakra e senta-se ou permanece de pé. Todos os homens desse grupo de libertinos escolhem uma mulher, despem-na e prestam-lhe culto. Do mesmo modo, todas as mulheres escolhem um homem, despem-no e prestam-lhe culto. Terminada a parte do culto, começa a orgia de consumo de álcool. Quando, em consequência da bebida, a excitação sexual aumenta, atiram para longe todas as roupas, ficam completamente nus e entregam-se desenfreadamente a relações sexuais com quem quer que desejem e com tantas pessoas quanto possível — mesmo que o parceiro sexual seja a mãe, a irmã ou a filha, isso não lhes importa. As escrituras tântricas dos vamacharis determinam que, com exceção apenas da mãe, nenhuma outra mulher deve ser excluída da relação sexual; seja filha ou irmã, devem praticar o ato sexual com todas as demais mulheres. (Jñānasaṅkalinītantra: mātṛṃ yoniṃ parityājya vihāreṃ sarvayoṇīṣu.) — Esses vamacharis vaishnavas-tântricos têm ainda tantas práticas obscenas e abomináveis que é impossível exprimi-las em palavras.” — (História Social de Bengala Muçulmana, Maulana Akram Khan).

Sob a influência do ambiente abjeto e imundo descrito acima, a sociedade muçulmana de Bengala daquele período desceu a um estágio extremamente deplorável de decadência religiosa e moral, bem como de desordem social e civilizacional. Para tornar claramente visível à sociedade leitora o quadro dessa decadência, é necessário mencionar aqui os métodos de prática dos pirs e faquires marfatis ou neras que se intitulavam muçulmanos. Esses grupos de faquires impostores estavam divididos em várias seitas e subseitas, tais como Aul, Baul, Kartabhaja, Sahajiya e outras. Eram versões muçulmanas das seitas vaishnavas hindus e da seita de Chaitanya, destinadas a desencaminhar os muçulmanos comuns e ignorantes.

Entre eles, a seita Baul parece ser a mais abjeta e sexualmente desregrada. O consumo de álcool e a prática sexual irrestrita entre homens e mulheres estão necessariamente incluídos nos métodos de prática de todas as suas seitas. Contudo, assim como os vamacharis tântricos descritos acima, os Bauls consideram a relação sexual como culto sexual ou verdadeiro culto. Em seu culto sexual, devem realizar um rito chamado ‘bheda dos quatro Chandras’. Consideram-no uma prática sagrada indispensável. Segundo eles, o ser humano obtém do testículo do pai e do útero da mãe esse chachichandra, ou essência do corpo humano, a saber, sangue, sêmen, fezes e urina. Por isso, juntamente com a prática dos quatro Chandras, praticam também a ‘prática dos cinco sabores’. Os cinco sabores são, em sua linguagem, o negro, o branco, o vermelho, o amarelo e a palavra do murshid. Essas quatro cores significam, respectivamente, álcool, sêmen, sangue menstrual e fezes. Depois da relação sexual com a própria esposa ou com a esposa de outro homem, para cumprir a palavra do murshid, eles consomem as substâncias correspondentes a essas quatro cores.

O respeitável Maulana Akram Khan diz o seguinte sobre esses Bauls na obra mencionada acima:

“A explicação que esse bando de faquires demoníacos de cabeça raspada dá às diversas palavras e aos princípios fundamentais do Alcorão Majid também é extraordinária. Por ‘Hawz-e Kawthar’, eles entendem o sangue menstrual ou a menstruação das mulheres, em vez do elixir vivificante do Paraíso. No início do ritual em que esse desprezível bando de faquires bebe sêmen, pronunciam a palavra ‘Bismillah’ no sentido de ‘Bīj me Allah’ (‘Allah está no sêmen’) — que Allah nos livre, que Allah nos livre.”

“Os sacerdotes ou pirs desse grupo de faquires muçulmanos mendicantes e de cabeça raspada realizam uma encenação semelhante ao roubo das vestes das gopīs por Sri Krishna. Quando o pir visita a casa de seus murids, todas as jovens e moças solteiras da aldeia, vestidas com suas melhores roupas, reúnem-se com o pir num aposento, imitando as gopīs de Vrindavan. No primeiro ato da peça, todas essas mulheres começam a dançar e cantar. Apresenta-se abaixo a versão em prosa dessa canção das sakhīs:”

Ó irmã, se queres amar Sri Krishna,

vem depressa, sem mais te enganares,

levanta os olhos e olha para ele,

o guru veio para a tua salvação,

não encontrarás em parte alguma um guru assim.

sim, aquilo que dá prazer ao guru

Não tenha vergonha de fazê-lo.

‘Depois que a canção é entoada, todas essas mulheres tiram as vestes, ficam completamente nuas e passam a dançar alegremente, girando sem parar. Aqui, o pir assume o papel de Krishna e, assim como Shri Krishna rouba as roupas das gopis, leva-as para uma árvore e as guarda no alto de uma casa. Como esse pir-Krishna não possui uma flauta, ele excita sexualmente essas mulheres nuas cantando com a própria boca da seguinte maneira:

‘Ó jovens! O caminho para a vossa moksha é oferecer o vosso corpo, como oferenda, ao sacerdote da comunidade dos devotos’.

É evidente que o principal dever religioso delas consistia em satisfazer, sem qualquer constrangimento, a luxúria sexual do pir.” (História Social dos Muçulmanos de Bengala).

Não há dúvida de que o ato sexual é agradável e prazeroso. Mas as pessoas sentem medo e apreensão diante da relação sexual ilícita e experimentam vergonha e constrangimento — por temor do pecado, por temor da religião. Mas, se a própria religião declarar que esse ato não é pecado, mas mérito, e que por meio dele se alcança a moksha, por que as pessoas não seriam atraídas por esse caminho? Uma classe de pessoas libertinas e pecadoras enganou e desviou, desse modo, pessoas ignorantes e tolas, usando a religião como pretexto.

O grupo de falsos pirs e faquires descrito acima cometeu muitas outras más ações e práticas obscenas. Acima, foram discutidos apenas alguns exemplos. Sem dúvida, os leitores poderão perceber, por isso, a decadência religiosa e moral da sociedade muçulmana daquela época. Embora a decadência não tivesse atingido toda a sociedade muçulmana em tal medida, a sociedade muçulmana não tinha capacidade para resistir à poderosa inundação das doutrinas da idolatria e do vaishnavismo, que arrastava os sentimentos religiosos dos muçulmanos, misturando-os com os dessas doutrinas. Isso acontecia porque os governantes muçulmanos daquele período apoiavam, direta ou indiretamente, a idolatria e o vaishnavismo. Na primeira metade do século XIX, o movimento islâmico de Sayyid Ahmad Shahid (que Allah tenha misericórdia dele) ergueu uma forte barreira de resistência contra tudo isso; na história, ele recebeu erroneamente o nome de ‘Movimento Wahhabi’. Essa questão será discutida no devido lugar. Sayyid Titumir e Haji Shariatullah também lutaram contra essas coisas. Apesar disso, o veneno dessas heresias e desvios continuou atormentando uma parte da sociedade muçulmana até as primeiras décadas do século XX. A prova disso encontra-se no relatório do censo de 1911 d.C., que afirma que, durante a contagem da população, foram encontradas algumas comunidades que declararam que não eram nem hindus nem muçulmanas, mas uma combinação de ambas. (Census of India Report, 1911 A.D.)

Mas alguns poetas muçulmanos devotos do vaishnavismo e inclinados à idolatria, que escreviam em língua bengali, ainda mantiveram viva, em alguns muçulmanos, a essência da mentalidade idólatra. O poeta devoto Lal Mamud era um dos mais destacados entre eles. Ele se tornou tão crente no vaishnavismo que colocou uma planta de tulsi ao pé de uma figueira-de-bengala e passou a prestar-lhe regularmente serviço e culto. No dia em que Goswami Prabhu chegou ao ashram de Lalu, ele prestou homenagem ao mestre cantando a seguinte canção.

Ó Hari misericordioso, onde está o meu?

Caí na prisão da existência mundana; quem me libertará?

Considerado culpado de cem faltas, nasci na linhagem dos yavanas,

e meus dias passaram em vão.

Depois, vem a obra do poeta Lalon Shah. Apresentam-se abaixo algumas de suas canções: ‘Faze-me atravessar, ó Chand Gaur, o dia está se pondo

e, por minha negligência, indiferença e descaso, meus dias foram passando.

Há uma travessia no rio da existência,

e Nitai Chand é o barqueiro.

Ó Chand Gaur, se eu puder alcançar-te, ó Chand Gaur,

Reduzindo a cinzas a linhagem

O faquir Lalon diz: tornar-me-ei serva dos sagrados pés.

Acima, o poeta Lal Mamud lamenta que, tendo nascido numa família muçulmana, sua vida tenha sido desperdiçada. Lalon Shah diz que, ao encontrar Gaur e Nitai, abandonará o islamismo e se dedicará ao serviço de seus sagrados pés.

Canção de Lalon Shah sobre o amor por Krishna:

Dizendo que amarei Krishna, perambulo por toda a vida

Dizendo que amarei esse amor por inteiro

Nem sequer satisfiz o desejo de uma rati.

O peso da dívida de Radharani

Gaur chegou a Nadia; Kanai e Balai de Vrindavan

Em Naida, Gaur e Nitai começaram a entoar o Nome.

Uma classe de pessoas de tendência idólatra da sociedade muçulmana tenta manter viva, na sociedade muçulmana, a doutrina de Lalon Shah.

Descrevendo as causas de tal decadência da sociedade muçulmana, os historiadores comentam:

“Assim como as demais nações do mundo foram influenciadas pelas nações conquistadas, também os muçulmanos indianos foram especialmente influenciados pela nação hindu conquistada. Essa influência ainda é evidente nos costumes, na visão da vida e até mesmo nas crenças. A força da interação entre o Islã e o hinduísmo atuou durante o período do domínio muçulmano. Em diferentes épocas, essa interação foi intensificada pela política liberal dos governantes muçulmanos. Como resultado, no início do século XIX, o Islã na Índia assumiu uma forma que fez surgir o movimento da Renascença Islâmica. Os muçulmanos indianos, especialmente os muçulmanos de Bengala e Bihar, adotaram, juntamente com sua fé religiosa, práticas e costumes de kufr que eram raros entre os muçulmanos de outros países. Assim como era enorme o número de muçulmanos em Bengala e Bihar, seus costumes e práticas eram igualmente irreligiosos e moralmente degradados.” —(‘A política britânica e os muçulmanos de Bengala’: A. R. Mallik).

“A razão da infiltração de costumes e práticas não islâmicos no Islã indiano é que a conversão dos não muçulmanos era incompleta.” (‘História da Índia’ — Elliot e Dowson). Acima foi descrita uma imagem da situação religiosa, social e cultural dos muçulmanos de Bengala desde o século XVI até a primeira metade do século XVIII. Quando os muçulmanos seguidores do tawhid estavam presos em tal rede de distorções, e forças hostis, de dentro e de fora, lançavam um ataque de pinça para derrotá-los e aniquilá-los, já não havia força vital capaz de repelir esse ataque. Aqueles dos quais apenas dezessete haviam outrora estabelecido o domínio político sobre Bengala, alguns séculos depois, mesmo reunindo-se aos milhões, não conseguiram preservar esse domínio político.

As causas políticas da queda de Bengala

A derrota do nababo Sirajuddaula e a queda de Bengala na quinta década do século XVIII não foram resultado de um acontecimento isolado. Os leitores interessados em descobrir a verdade devem necessariamente conhecer o conjunto de acontecimentos políticos que culminou no desfecho do drama trágico de Plassey. Na realidade, a queda do Império Mughal provocou a queda do domínio muçulmano em todo o subcontinente. Nos cinquenta anos entre a morte do imperador Aurangzeb, em 1707, e a batalha de Plassey, ocorrida em 1757, pelo menos sete pessoas ascenderam ao trono de Deli. Mas nenhum deles possuía a capacidade de salvar o império que se encaminhava para a ruína. Certamente, alguns historiadores imprudentes responsabilizam Aurangzeb pela destruição do Império Mughal. Um exame e uma análise minuciosos da história deixam claro que a semente da destruição havia sido lançada muito antes pelo próprio imperador Akbar e, pouco a pouco, vinha assumindo a forma de uma gigantesca árvore. Aurangzeb conteve essa destruição durante toda a sua vida, com todas as suas forças. Se seus sucessores tivessem sido tão poderosos e prudentes quanto ele, provavelmente a história da Índia teria sido escrita de outra maneira. O venerável Akram Khan comenta em sua obra ‘História social dos muçulmanos de Bengala’:

“As consequências de todas as más ações do reinado de Akbar não cessaram com a sua morte. Até o último momento da existência do Império Mogol, todos os seus sucessores tiveram de pagar, com tudo o que possuíam na vida, pelos frutos dessas más ações. Os cem milhões de muçulmanos da Índia, até hoje, não foram exonerados da responsabilidade hereditária residual de reparar os danos causados pelas más ações de Akbar. Não julgamos necessário, perante os leitores muçulmanos, fazer uma discussão detalhada sobre a natureza dessa herança.”

Pode-se dizer que Akbar era analfabeto ou muito pouco instruído. Subiu ao trono aos quinze ou dezesseis anos. A um jovem príncipe analfabeto teria sido absolutamente impossível governar Délhi, cercada de inimigos, se o extremamente sagaz e competente Bairam Khan não o tivesse ajudado de todas as formas como primeiro-ministro. Por falta de boas companhias, depois de conquistar um vasto império, Akbar naturalmente mergulhou no luxo, na desregrada conduta e na decadência moral. Apesar de todos os esforços, Bairam Khan não conseguiu conduzi-lo ao caminho correto. O consumo de álcool, os vícios naturalmente associados a ele e seus sucessos políticos além de toda expectativa não lhe deram nenhuma oportunidade de formar ou corrigir seu caráter. Contudo, esse seu talento enfermo lançou as sementes de seus futuros descendentes. Ao esgotar todas as forças da vida cultural e política dos muçulmanos e transformá-los em escravos políticos e mentais de outros, o gênio agudo, porém doentio, de Akbar foi seu perfeito instrumento. Para manter intacto seu poder político na Índia, Akbar não se limitou a estabelecer vínculos matrimoniais com os hindus; pelo contrário, para agradá-los, fez um esforço desesperado para destruir a religião e a civilização dos muçulmanos, fundando uma absurda doutrina religiosa chamada ‘Dīn-i Ilāhī’. Pode-se encontrar um relato detalhado disso no Akbarnama.

O interessante é que, embora diversos interesses políticos e pessoais o exigissem, o maior sonho da vida de Akbar — essa sua autoinventada ‘Dīn-i Ilāhī’ — não conseguiu de modo algum atrair a nação hindu. Com exceção de Birbal, ninguém concordou em aceitar essa nova doutrina religiosa. Man Singh e Todar Mal, dois dos navaratnas de sua corte, rejeitaram essa doutrina. Quando Akbar comparecia à corte vestido como um asceta hindu, com um colar de contas de rudraksha no pescoço e o corpo untado de sândalo, os eruditos hindus e os cortesãos enchiam os céus e os ares com os brados de ‘Dillīśvaro’ ou ‘Jagadīśvaro’; embora, fazendo esses brados ecoarem de uma extremidade à outra da Índia, demonstrassem artificialmente lealdade e prestassem homenagem a ele, não manifestavam sequer a mínima lealdade à sua religião excêntrica. Portanto, qualquer pessoa dotada de consciência pode facilmente compreender que alguma força extremamente perversa utilizou o talento de Akbar apenas para destruir a crença monoteísta dos muçulmanos e a civilização islâmica. Contudo, Akbar fracassou completamente em realizar o sonho de sua vida.

Esse foi apenas um aspecto de sua vida. Sua vida política também foi marcada pela extrema frustração do fracasso e do desespero.

Akbar havia destruído a então existente força afegã da Índia, isto é, a formidável força militar muçulmana. Longe de construir uma força muçulmana alternativa a essa força militar devastada, ele enfraqueceu e aniquilou também o que dela restava. A política destrutiva de Akbar manifesta-se nos assassinatos de Bairam Khan, Ahsan Khan, Muazzam Khan e outros. Ele adotou medidas repressivas até mesmo contra várias distintas famílias muçulmanas estrangeiras. Assim, instigado pelo inimigo, ateou fogo à própria casa com as próprias mãos e a reduziu a cinzas. Ao destruir todas as forças e talentos que poderiam ser úteis em tempos de futuros perigos para o Império Mogol, ficou tomado pelo medo. Ele havia observado que as nações cristãs do Ocidente expandiam rapidamente seu poder político e que as ondas de suas atividades maléficas vinham atingir as fronteiras do Império Mogol. Tendo destruído o Islã, não conseguiu impedir o caminho da destruição do Império Mogol, nem mesmo estabelecendo tratados humilhantes com os interesses políticos dos cristãos e prestando reverente lealdade à sua religião.

Assim como as potências estrangeiras infiéis, a força hindu que rapidamente se erguia no interior do país também não passava despercebida aos olhos de Akbar. Politicamente, porém, ele havia se tornado completamente dependente da força hindu da Índia. Por isso, adotou diversos meios para agradá-la. Mesmo trazendo mulheres hindus para o palácio imperial como rainhas e realizando ali regularmente cerimônias de adoração de ídolos e do fogo, não conseguiu salvar o Império Mogol da destruição. Abandonando o Deus da terra e dos céus, o Ser Todo-Poderoso, e buscando refúgio em vários outros deuses, tampouco obteve qualquer benefício.

Também fracassou seu plano ridículo de transformar completamente o Islã em um molde de paganismo, manter intacto o hinduísmo e fazer dos hindus e muçulmanos da Índia uma só nação sob a sombra de uma nova religião chamada Dīn-i Ilāhī. Contudo, a mentalidade que criou a esse respeito e a funesta herança que deixou não foram abraçadas apenas por seu capaz filho Jahangir; ainda na segunda metade do século XX, uma classe de muçulmanos vem sendo criada e educada por essa herança.

Sem dúvida, este é um exemplo extremamente doloroso da decadência religiosa, nacional e cultural dos muçulmanos.

Jahangir acelerou a destruição do Império Mogol. Quando o capitão Hawkins chegou a Agra, em 1609, foi-lhe oferecida uma recepção real. O imperador Jahangir aceitou-o como companheiro íntimo, concedeu-lhe um título e uma pensão. Quando ele manifestou o desejo de casar-se e viver na Índia, foi-lhe proposta em casamento uma jovem europeia do palácio imperial.

A influência do cristianismo no palácio imperial havia-se estabelecido de tal maneira que alguns príncipes foram iniciados no cristianismo e, juntamente com outros cristãos residentes, sob a liderança de Hawkins, iam à igreja em procissão, escoltados por cinquenta cavaleiros. Jahangir passava a noite inteira embriagado no palácio imperial, na companhia de seus amigos europeus. Já foi dito que o próprio Akbar havia iniciado a construção do túmulo do Império Mogol. Depois dele, seu filho Jahangir, um alcoólatra sem ideais, juntamente com Sir Thomas Roe e seu conselheiro e mentor, o astuto diplomata Reverendo E. Febi, aceleraram a construção desse túmulo. Thomas Roe persuadiu Jahangir a aceitar suas diversas exigências e reivindicações. A feitoria estabelecida em Surat não proporcionou aos ingleses apenas oportunidades de obter vantagens comerciais; ela se transformou, ao contrário, numa poderosa base militar. De acordo com os termos do decreto imperial, não somente em Surat, mas também em outros lugares do Império Mogol — como Agra, Ahmadabad e Broach — foram estabelecidas feitorias inglesas, isto é, bases militares. Assim, já foi dito que o próprio Akbar havia feito isso. Depois dele, seu filho Jahangir, um alcoólatra sem ideais, juntamente com Sir Thomas Roe e seu conselheiro e mentor, o astuto diplomata Reverendo E. Febi, aceleraram a construção desse túmulo. Thomas Roe persuadiu Jahangir a aceitar suas diversas exigências e reivindicações. A feitoria estabelecida em Surat transformou-se numa poderosa base militar. De acordo com os termos do decreto imperial, não somente em Surat, mas também em outros lugares do Império Mogol, como Agra, Ahmadabad e Broach, foram estabelecidas feitorias inglesas, isto é, bases militares. Desse modo, Akbar e Jahangir abriram canais no interior do Império Mogol para importar de terras distantes crocodilos devoradores de tudo.

De um lado, a potência estrangeira inglesa veio à Índia e instalou-se nela; de outro, as forças hindus da Índia também se fortaleceram. As forças rajputes e maratas tornaram-se os maiores inimigos do Império Mogol. Aurangzeb, o imperador e ghazi, dedicou toda a vida à recuperação do poder muçulmano que Akbar havia destruído. Durante muito tempo, teve de permanecer ocupado em subjugar as forças maratas e rajputes. Se, depois dele, seus sucessores tivessem sido fortes e prudentes, talvez fosse possível salvar o império que caminhava para a ruína. Mas, para grande pesar, todos os que, desde sua morte até a Batalha de Plassey, ocuparam o trono de Deli eram incapazes de governar, amantes do luxo e imprevidentes.

É especialmente digno de nota que os historiadores não muçulmanos atribuem exclusivamente a Aurangzeb a decadência do Império Mogol. Assim como exaltavam grandemente Hुसain Shah de Bengala e o imperador Akbar, também eram veementes ao macular o caráter de Aurangzeb. Ele foi retratado como um extremo inimigo dos hindus, e afirmou-se que sua política de governo, contrária aos interesses hindus, especialmente a reintrodução do jizya, obrigou os hindus da Índia a se voltarem contra os mogóis. Mas essas acusações são puramente imaginárias e mal-intencionadas. Não se pode apresentar nenhuma prova delas na história. A verdade é que os rajputes e os maratas jamais conseguiram aceitar de coração o domínio muçulmano na Índia. Observando sua força crescente e sua atitude hostil, Akbar, embora tenha adotado uma política extremamente liberal para apaziguá-los, fracassou. Sob a liderança de Shivaji, os maratas opuseram-se intensamente a Aurangzeb. Shivaji morreu em 1679, um ano antes de ele introduzir o imposto jizya. Portanto, não é de modo algum justo afirmar que o imposto jizya foi a causa da oposição dos hindus.

É inegável que, falando de modo geral, todos os que escreveram a história da Índia daquela época eram muçulmanos. Portanto, para conhecer a verdadeira história daquele período, será necessário estudar obras como Badauni, Akbarnama, Kafi Khan, Tarikh-i-Firishta, Ma’āsir-i-‘Ālamgīrī e outras. Entretanto, os historiadores cristãos europeus apresentaram de forma distorcida muitos acontecimentos da história. Mais tarde, seu império expandiu-se por metade do mundo. Em todo o vasto território de seu império, a língua inglesa era usada como língua oficial. Por meio dessa língua inglesa, sob a proteção do poder político, eles apresentaram aos estudantes de história de língua inglesa uma versão distorcida e fictícia da história dos muçulmanos. Durante os duzentos anos de domínio inglês na Índia, essa história distorcida e falsa foi fixada nas mentes dos estudantes.

Havia também razões para essa distorção. Tomemos o caso do imperador Aurangzeb. Como resultado do tratamento injustamente excessivamente indulgente dispensado aos ingleses pelos imperadores Akbar e Jahangir, eles estavam se organizando como uma força contra o Império Mogol. O imperador Aurangzeb compreendeu isso. Durante seu reinado, Mir Jumla, em Bengala, e o nababo Shaista Khan reprimiram e contiveram repetidamente a arrogância dos ingleses. Por causa de corrupção comercial, contrabando, conspirações contra o Império Mogol e outros motivos, eles foram punidos várias vezes, e suas feitorias foram confiscadas. Finalmente, em determinado momento, o imperador Aurangzeb emitiu um decreto proibindo todo o comércio deles com os europeus. Akbar havia destruído o poder militar muçulmano e lançado o Império Mogol às garras dos inimigos; o imperador Aurangzeb dedicou toda a vida à reconstrução desse poder militar muçulmano. Por essas razões, Aurangzeb era considerado culpado pelos cristãos e pelos hindus. Por isso, eles se empenharam em retratar seu reinado como infame e em espalhar contra ele diversas calúnias. Em sua obra “Uma Visão de Aurangzeb Alamgir”, Shibli Nomani refutou, com provas históricas confiáveis, todas as manchas que historiadores não muçulmanos, movidos por interesses próprios, lançaram sobre o caráter de Alamgir Aurangzeb. Nesse breve, porém informativo livro, ele ofereceu uma resposta adequada às acusações levantadas contra Aurangzeb.

Portanto, do ponto de vista histórico, pode-se afirmar sem hesitação que não há o menor vestígio de verdade nas acusações feitas contra Aurangzeb. Ele não pode ser responsabilizado nem minimamente pela queda do Império Mogol. O fato é que a dependência de Akbar em relação aos hindus maratas e rajputes da Índia, após a eliminação do formidável exército muçulmano; o acúmulo de poder político pelos ingleses estrangeiros e infiéis sob o pretexto do comércio; a funesta aliança entre hindus e ingleses para derrubar o domínio muçulmano; e, além disso, a decadência religiosa e cultural dos muçulmanos — tudo isso levou à eliminação do domínio muçulmano de Bengala e, consequentemente, da Índia. Diante dessa situação, vemos como, no campo de Plassey, o sol da independência de Bengala e Bihar se pôs, lançando as bases do domínio inglês.

Por trás da criação de centros comerciais ingleses em várias partes da Índia ocultava-se um vasto desígnio político. Tornar-se proprietário e senhor de um enorme império depois de chegar para fazer comércio não foi resultado de qualquer acontecimento acidental ou milagroso. Nos séculos XV e XVI, as descobertas geográficas abriram o caminho para o comércio internacional, e começou, entre as nações europeias, uma competição e rivalidade colonial e comercial recíproca. Como consequência, estabeleceram-se o império espanhol na América, o império holandês nas Ilhas das Especiarias, o império francês no Sudeste Asiático e o império britânico no Sul da Ásia. No final do século XVII, a Companhia das Índias Orientais da Inglaterra adotou na Índia a política de avanço (Forward Policy), e era seu ardente desejo que as áreas comerciais onde viviam seus representantes se transformassem em uma força política. Em 1682, os ingleses foram derrotados pelos holandeses na Indonésia e retiraram-se dali. No ano seguinte (1683), com base na carta concedida à Companhia das Índias Orientais pela corte real inglesa, ela podia fazer guerra, celebrar tratados de paz ou firmar qualquer acordo com qualquer governante da Índia. A carta concedida por Jaime II conferiu-lhe poderes ainda maiores. Em consequência, em 1686, declarou guerra aos mongóis e sofreu uma derrota. Como já foi mencionado, um navio de guerra chamado ‘Defence’, equipado com armas e munições, foi enviado à Índia sob o comando do capitão Heath. Heath avançou de Sutanuti para combater, mas deparou-se com o fracasso. Embora os diretores da Companhia tenham ficado um tanto desanimados, os representantes que permaneciam na Índia continuaram trabalhando com renovado entusiasmo e vigor. Dessa vez, voltaram sua atenção para os comerciantes franceses. O principal centro comercial francês era Pondicherry, e, sob sua administração, havia fábricas estabelecidas em Masulipatão, Karikal, Mahé, Surat e outros lugares. Por outro lado, a sede comercial dos ingleses ficava em Madras, e, sob sua administração, eles possuíam importantes fábricas em Bombaim e Calcutá. Entre eles começou uma intensa rivalidade, que por fim assumiu a forma de guerra. Os franceses ajudaram seus protegidos, Muzaffar Jang e Chanda Sahib, respectivamente, a conquistar os tronos de Hyderabad e Carnático. Em 1751, Robert Clive tomou Arcot, a capital do Carnático. Assim, os ingleses tornaram-se extremamente poderosos.

A ambição dos ingleses de conquistar o poder político em Bengala

Com o objetivo de realizar suas ambições políticas em Bengala, os ingleses continuaram intensamente os trabalhos de construção de uma fortaleza em Calcutá. O nababo de Bengala, Alivardi Khan, havia então envelhecido muito e encontrava-se debilitado; aproveitando-se dessa fraqueza, os astutos ingleses aceleravam a construção de sua fortaleza. E quem lhes dava coragem e incentivo nesse trabalho eram as classes hindus dos sheths e banians de Bengala. Desde o final do século XVII até o segundo quartel do século XVIII, uma classe de hindus havia se tornado extremamente rica e influente, trabalhando como agentes e empregados do comércio inglês que se desenvolvera em Bengala. Além disso, ocupavam diversos cargos de responsabilidade na administração da receita durante o governo dos nababos. Por meio da usura, do negócio de agiotagem e das atividades bancárias, também estavam firmemente estabelecidos no campo econômico. Não conseguiam aceitar de coração e alma o domínio muçulmano. Não tinham coragem de se revoltar abertamente contra ele, nem consideravam isso adequado nas circunstâncias. Portanto, para pôr fim ao domínio muçulmano, não havia alternativa senão obter a ajuda e a cooperação dos ingleses. Os ingleses aproveitaram muito bem essa oportunidade de ouro. Os hindus haviam adquirido tamanha influência nos campos administrativo e econômico que se tornaram os fazedores de reis (Kingmakers) dos nababos de Bengala. Após a morte de Murshid Quli Khan, em 1727, quando seu neto Sarfaraz Khan foi nomeado sucessor, os principais hindus opuseram-se. Consideravam-no contrário aos seus interesses. Eles colocaram no trono Shuja-ud-Din, pai de Sarfaraz Khan. Durante seu governo (1727–1739), esses sheths e banians hindus tornaram-se, na prática, os principais articuladores das intrigas palacianas. Seus líderes, Alam Chand e Jagat Seth, tornaram-se os verdadeiros governantes do país (De facto ruler).

Após a morte de Shuja-ud-Din, esse grupo conspirador ajudou Alivardi Khan, o vice-nababo de Orissa, a conquistar o trono de Bengala. Durante seu governo, as intrigas palacianas chegaram ao auge. Aproveitando-se dessa situação, os maratas lançaram repetidos ataques contra Bengala. Diante das dificuldades, Alivardi Khan tornou-se completamente dependente desses conspiradores palacianos. Ele os acolheu. Nomeou-os para cargos importantes. Como resultado, sob a liderança de Rai Durlabh Rai, Mahtab Rai, Swarup Chand, Raja Janaki Rai, Raja Ram Narayan, Raja Manik Chand e outros, esse grupo tornou-se extremamente poderoso. Depois de Murshid Quli Khan, o número de funcionários muçulmanos nobres foi diminuindo gradualmente até chegar praticamente a zero e, nessa época, eles foram efetivamente lançados para trás da cortina. O grupo Jagat Seth–Manik Chand só podia obter alguns cargos importantes sob o nababo. Portanto, somente pondo fim ao domínio muçulmano em conluio com a Companhia das Índias Orientais poderiam apagar o fogo de sua vingança contra os governantes muçulmanos.

Sob a liderança do círculo Jagat Seth–Manik Chand, os hindus de Bengala tinham dois objetivos. Um era político; o outro, econômico. Realizar seus interesses políticos por meio da mudança ou transferência do governo de Bengala e obter vantagens econômicas colocando a Companhia das Índias Orientais no poder político. Para alcançar esses dois objetivos, estavam sempre prontos e extremamente ansiosos por formar uma aliança com a Companhia.

Por outro lado, a própria Companhia das Índias Orientais também estava ligada aos hindus por laços de gratidão, em razão da expansão e do desenvolvimento de seus negócios. Isso porque seu comércio não poderia funcionar sem a ajuda de agentes, gomastas e contratantes hindus. Além disso, entre 1736 e 1740, cinquenta e dois comerciantes locais participaram do investimento de capital da Companhia em Calcutá, e todos eram hindus. Vinte e cinco comerciantes hindus participaram da instalação da fábrica de Cossimbazar, e todos eram hindus. Na instalação da fábrica de Cossimbazar, eles estavam associados a vinte e cinco comerciantes hindus. Somente em Daca, entre seus doze sócios, apenas dois eram muçulmanos. (A queda de Siraj-ud-Daulah – Dr. Mohar Ali)

Em uma carta escrita ao coronel Scott, engenheiro militar da fortaleza de Fort William, em Calcutá, Charles F. Noble afirmou que os reis hindus e os habitantes estavam extremamente revoltados contra o domínio muçulmano. Como pôr fim a esse governo era seu desejo secreto. Declararam sua opinião de que, se os ingleses conseguissem realizar alguma revolução, eles se juntariam a eles.

Noble disse: “Acredito que Umichand nos será de grande utilidade. O sacerdote Nimu Gosain exerce considerável influência sobre os reis hindus e sobre o povo do país. Um grupo armado muito numeroso é inteiramente leal a ele. Também podemos utilizar o grupo dos sannyasis em nosso trabalho. Tenho confiança de que, por meio de Nimu Gosain, isso será possível”.

Nimu Gosai fornecia ao coronel Scott notícias importantes e conselhos sobre a situação do país, e dizia que, se necessário, poderia apresentar, com a ajuda dos ingleses, mil homens armados em apenas quatro dias. (A queda de Sirajuddaula — Dr. Mohar Ali, p. 11)

É preciso lembrar que, como resultado do movimento de renascimento da nação hindu, um grupo armado havia sido secretamente formado em Bengala sob o nome de movimento dos sannyasis, e que eles também haviam contribuído para o fim do domínio muçulmano. Para alcançar seus objetivos políticos, o Conselho de Fort William concluiu a construção da fortaleza em Calcutá. Por outro lado, estabeleceram também direitos soberanos sobre a zamindari que a Companhia das Índias Orientais havia obtido do nababo de Bengala. Para evitar a punição prevista pelas leis do país, os criminosos começaram a buscar refúgio sob a zamindari da Companhia. Todos esses criminosos eram hindus. A Companhia deu abrigo a um comerciante chamado Ramakrishna Seth, considerado culpado de contrabando, e recusou-se a cumprir a ordem do nababo de entregá-lo às suas autoridades. Do mesmo modo, violaram muitas outras ordens legais do nababo. Além disso, violaram numerosos contratos relacionados ao comércio.

Não que o nababo Alivardi não soubesse das conspirações, dos atos perversos e da conduta vil dos ingleses. Contudo, o nababo, acamado e à beira da morte, não tinha capacidade para fazer coisa alguma. Como seu futuro sucessor, Sirajuddaula, queria frustrar as conspirações dos ingleses, acabou incorrendo no desagrado deles. Depois de Alivardi, surgiram dois pretendentes ao trono de Bengala: sua filha viúva, Ghaseti Begum, e o nababo de Purnia, Shaukat Jang. Os ingleses apoiaram a reivindicação de Ghaseti Begum. A begum e seu diwan Rajballabh colocaram todos os seus bens sob a custódia da Companhia em Calcutá, para mantê-los em segurança. Enviaram Rajballabh para buscar refúgio sob a proteção da Companhia. Ao dar abrigo a Krishnaballabh, os ingleses cometeram uma traição extrema contra o nababo e, ao instigá-lo a marchar contra Siraj com os vinte mil soldados de Ghaseti Begum, cometeram um ato de sedição. Sabendo de tudo isso, Siraj, em vez de adotar medidas rigorosas contra eles, procurou avançar por meio de discussões mútuas. Mas os ingleses não estavam dispostos a dar atenção a nenhuma de suas palavras.

Um certo proprietário inglês de uma feitoria, William Tooke, afirma que, segundo os antigos costumes do Oriente, após a coroação de um novo rei, os cidadãos estrangeiros costumam visitá-lo, ou ao novo nababo, levando diversos presentes e oferendas. Mas esta foi a primeira vez que violaram esse costume. Ele afirma ainda que o fato de terem dado abrigo a Krishnaballabh e se recusado a entregá-lo ao nababo prova que a Companhia das Índias Orientais mantinha uma profunda conspiração com os inimigos políticos de Sirajuddaula, razão pela qual ousaram demonstrar tamanha arrogância. (História de Hill, vol. 1, e A queda de Sirajuddaula — Dr. Mohar Ali)

A conduta arrogante do Conselho de Fort William da Companhia das Índias Orientais era semelhante à de um governo rival do governo de Bengala. Sirajuddaula fracassou em todas as tentativas de chegar a um acordo com eles. Depois disso, decidiu expulsá-los do país. Sobre esse assunto, enviou uma carta a Khwaja Wajid, um comerciante influente de Hugli, cujo teor era o seguinte (1º de junho de 1756):

Principalmente por três razões, não se pode mais permitir que os ingleses permaneçam neste país. A primeira razão é que, violando as leis do país, construíram uma fortaleza muito sólida em Calcutá. Em segundo lugar, romperam os contratos comerciais, recorreram a meios desonestos e causaram enormes prejuízos financeiros ao governo ao sonegar o imposto comercial. Em terceiro lugar, ao dar abrigo a um desfalqueador de fundos públicos, cometeram o crime de sedição.

Em 3 de junho, Sirajuddaula tomou a feitoria inglesa em Cossimbazar e pressionou-os a chegar a um acordo. Depois de tomar a feitoria, demonstrou generosidade: trancou-a e providenciou uma guarda rigorosa para impedir que fosse saqueada. William Watts e Matthew Collett eram os diretores dessa feitoria, e foram eles que fizeram o comentário acima. (História de Hill, vol. 2)

Siraj libertou todos os funcionários da feitoria de Cossimbazar. Partiu em direção a Calcutá levando consigo apenas Watts e Collett. Antes da partida, escreveu repetidas vezes ao Conselho de Fort William, pedindo que chegasse a um acordo pacífico. Mas eles não deram a menor atenção. Pelo contrário, estavam sempre prontos para se envolver em um conflito. Depois de receberem ajuda militar do Decão, sua coragem aumentou consideravelmente. Uma semana antes de o nababo chegar a Calcutá, Drake enviou tropas para tomar o forte de Thana, situado na parte baixa do rio Hugli, e Sukhsagar, entre Hugli e Calcutá. A vanguarda enviada pelo nababo repeliu os ataques ingleses em ambos os lugares. Em 16 de junho, Siraj chegou às portas de Fort William com trinta mil soldados. Depois de dois dias de combate, Drake fugiu para Fulta com seu exército principal. Para facilitar a fuga, Holwell foi deixado encarregado do combate, com a instrução de que, no dia seguinte, também buscasse refúgio em Fulta com seu punhado de soldados. Contudo, Holwell foi obrigado a se render às tropas do nababo. No testemunho prestado por William Tooke (William Tokke) diante da Comissão Seletiva da Câmara dos Comuns, afirma-se que não houve qualquer maus-tratos contra os soldados ingleses que se renderam. (História de Hill, vol. 1.) À noite, depois que alguns soldados ingleses começaram a praticar atos violentos após beberem grande quantidade de álcool, foram confinados em uma sala de 18”14” de tamanho. A sala havia sido construída por eles próprios justamente para manter confinados soldados desobedientes e insolentes; entre quarenta e sessenta pessoas foram encerradas nela. Por causa do extremo cansaço provocado pela batalha, cerca de vinte soldados morreram. Esse acontecimento foi extremamente exagerado e colocado nas páginas da história. Para tornar memorável esse acontecimento fictício, os governantes vitoriosos ergueram em Calcutá, na Dalhousie Square, um monumento chamado Monumento de Holwell. Esse pilar foi erguido pelo nababo como um monumento em Calcutá, na Dalhousie Square. Esse pilar, carregando a fictícia mancha de infâmia de Sirajuddaula, permaneceu de pé até a primeira metade do século XX. Sendo uma fonte de propaganda deliberada e puramente maliciosa, esse pilar foi demolido antes de 1937, diante de veementes protestos.

De qualquer modo, todos, exceto Holwell e os outros três indivíduos, foram libertados. Em 24 de junho, nomeando Manik Chand para administrar Calcutá, Siraj-ud-Daulah retornou a Murshidabad acompanhado de Holwell e seus três companheiros. Em 26 de junho, os soldados ingleses restantes partiram de Calcutá para Fulta.

Em 30 de junho, Siraj-ud-Daulah escreveu ao governador de Fort St. George, George Pigot. O teor da carta era que, se os ingleses chegassem a um acordo pacífico, renunciassem à ambição de obter poder político e continuassem a observar as condições comerciais, lhes seriam concedidas na Bengala todas as oportunidades para exercer plenamente o comércio.

Os ingleses em Fulta

Siraj-ud-Daulah desejava sinceramente chegar a um acordo justo com os ingleses. Mas a atitude deles era completamente oposta. Essa atitude se revela na rede de conspirações que, instalados em Fulta, tramavam com os principais líderes hindus locais.

Roger Drake contava os dias à espera do auxílio militar que havia sido solicitado a Madras. Enquanto isso, com o propósito de enganar o nababo, em 6 de julho eles iniciaram conversações para chegar a um acordo. Contudo, não havia sinceridade alguma nisso. Assim que o auxílio militar chegasse de Madras, eles voltariam a testar suas forças. A esse respeito, os chefes locais e a classe mercantil continuavam a encorajar os ingleses de todas as maneiras. Em particular, um influente personagem chamado Shiva Babu, principal assistente de Khwaja Wajid, dizia constantemente aos ingleses que o nababo Siraj-ud-Daulah já não era alguém que lhes concederia qualquer facilidade ou oportunidade comercial. Depois de sofrerem uma derrota em Calcutá, não seria de modo algum honroso para eles chegar a um acordo. Outro homem, chamado Gobindaram, havia criado obstáculos durante a campanha de Siraj-ud-Daulah contra Calcutá, arrancando árvores e deixando-as no caminho. Agora, começou a fornecer informações secretas em favor dos ingleses. Manik Chand, a quem fora confiada a administração de Calcutá, passou, por sua traição, a ajudar de todas as formas os ingleses instalados em Fulta. Ele continuava a apresentar ao nababo informações enganosas, afirmando que os ingleses ansiavam por chegar a um acordo pacífico. Pensando que nada poderia ser feito com poucas tropas, o major Kilpatrick absteve-se por enquanto de entrar em guerra e solicitou a Madras um auxílio militar maior e uma frota. Em 15 de agosto de 1756, Kilpatrick informou ao nababo que eles buscavam seu favor. Por outro lado, escreveu a Manik Chand, Jagat Seth e outros chefes hindus, pedindo-lhes que ajudassem os ingleses de todas as maneiras.

Confundido pelas falsas garantias de Manik Chand, o nababo declarou que, se os ingleses não quisessem guerrear, lhes seriam concedidas todas as facilidades comerciais. Na prática, o nababo não possuía força naval alguma. Mesmo que expulsasse os comerciantes estrangeiros do território da Bengala, não tinha capacidade para expulsá-los do litoral. Os ingleses aproveitaram-se plenamente disso. Em segundo lugar, um novo perigo surgiu diante de Siraj-ud-Daulah. Shaukat Jang, de Purnia, conseguiu obter do imperador mogol um firman que o nomeava subadar da Bengala, de Bihar e de Orissa. Os ingleses tomaram o partido de Shaukat Jang e alimentavam a esperança de sua vitória. Contudo, como Shaukat Jang morreu na batalha de 6 de agosto, essa esperança foi, por enquanto, reduzida a pó.

Em resposta às cartas escritas por Drake e Kilpatrick em meados de agosto sobre a queda de Calcutá, uma quantidade considerável de auxílio militar chegou de Inglaterra a Madras. Em setembro, os dois navios da Companhia, Chesterfield e Walpole, chegaram a Madras. Em outubro, o Conselho de Fort St. George decidiu enviar à Bengala uma expedição militar sob o comando de Robert Clive e do almirante Watson. O coronel Clive recebeu ordens de iniciar uma guerra intensa imediatamente após chegar à Bengala. Em nome do Conselho de Fort St. George, foram enviadas cartas aos nababos adjuntos de Daca, Purnia e Cuttack, solicitando que cooperassem com Clive. Por outro lado, também foi enviada uma carta ao nababo, expressando indignação pelo fato de os ingleses terem sido maltratados. Na carta do governador do referido Conselho, George Pigot, dizia-se: “Estou enviando um poderoso comandante chamado Clive. Ele parte com soldados e infantaria e governará em meu lugar. Será necessário dar uma compensação satisfatória pelos danos que nos foram causados. Certamente sabeis que sempre fomos vitoriosos na guerra.” (História de Hill, vol. 1)

O teor dessa carta deixa claro que já não restava caminho algum para um acordo. Em 15 de dezembro, Clive chegou a Fulta. Naquele mesmo dia, Clive escreveu a Manik Chand, agradecendo-lhe o comportamento amistoso, a ajuda e a cooperação que prestara à Companhia. Manik Chand respondeu à carta, expressando sua alegria pela chegada segura de Clive. Informou também que se dedicaria inteiramente a servir a Companhia tanto quanto possível. Além disso, enviou a Clive um homem chamado Radhakrishna para trocar informações secretas. Que traição maior poderia um bengali cometer contra a Bengala?

Capítulo quinto

O ataque dos ingleses e a derrota do nababo

Em 29 de dezembro, o navio de guerra de Clive avançou pelo rio Hugli e tomou Bajbaj. Quatro dias antes, na carta que Clive escrevera ao nababo por intermédio de Manikchand, dizia-se: “Viemos cobrar a compensação pelos danos que o nababo nos causou; não viemos pedir-lhe perdão. Nosso exército é suficiente para fazer valer nossas reivindicações.” Não se sabe se Manikchand entregou a carta ao nababo. Talvez não a tenha entregado. Se o tivesse feito, o nababo certamente teria adotado medidas preventivas. Manikchand manteve o nababo constantemente desorientado. Como resultado, Clive, sem encontrar resistência, retomou o Forte Thana em 31 de dezembro e a fortaleza de Fort William em 1º de janeiro de 1757. Se quisesse, Manikchand poderia facilmente ter repelido o ataque inglês com a ajuda do enorme exército do nababo. Não fez qualquer tentativa nesse sentido, pois se alegrava ao ver os ingleses realizarem as ambições dele e de seu povo. Chegou a não considerar necessário informar ao nababo sequer que aqueles lugares haviam sido ocupados pelos ingleses.

Pode-se dizer que ele entregou a fortaleza de Fort William aos ingleses, partiu para Hugli e começou a criar as condições para entregar também Hugli aos ingleses. Em uma carta escrita em seu nome em Hugli, Clive pediu-lhe que também ali demonstrasse amizade, como antes. Dois dias depois, Clive atacou Hugli e facilmente a tomou. Depois que tantos postos importantes foram ocupados pelos ingleses, Manikchand informou ao nababo que a atitude dos ingleses havia mudado. Após a tomada de Hugli, as tropas inglesas espalharam enorme terror por toda a cidade com saques, incêndios e atos de destruição.

Assim que recebeu a notícia da queda de Hugli e da devastação, Sirajuddaula chegou, em 20 de janeiro, aos arredores de Hugli com um enorme exército. Os ingleses então fugiram apressadamente de Hugli e buscaram refúgio em Calcutá.

O nababo Sirajuddaula pediu-lhes repetidamente que chegassem a um acordo. Após muitas conversas e negociações, em 9 de fevereiro foi assinado um tratado de paz entre o nababo e os ingleses. A história o conhece como o Tratado de Alinagar. Segundo esse tratado, todas as aldeias deveriam ser devolvidas aos ingleses conforme o firman de 1717. Suas mercadorias ficariam isentas de impostos, e eles poderiam tornar Calcutá ainda mais segura. Além disso, poderiam construir ali sua própria casa da moeda.

Sirajuddaula foi obrigado a assinar um tratado tão desonroso. A primeira razão foi a extrema traição de seus homens de absoluta confiança, como Manikchand. A segunda foi a invasão da Índia por Ahmad Shah Abdali e a possibilidade de uma campanha contra Bengala.

Por outro lado, para o astuto Clive, esse tratado era apenas uma necessidade temporária. Ao mesmo tempo, os ingleses consideravam necessário depor o nababo e expulsar os franceses de Bengala. Para esse fim, Clive enviou Watts e Umichand a Sirajuddaula para dizer-lhe que queriam tomar Chandernagore, cidade ocupada pelos franceses, e que o nababo deveria ajudá-los nisso. Tratava-se de uma grande estratégia (Strategy) da parte deles. O nababo viu-se diante de um problema terrível. Dentro de seu reino, sempre adotara uma política de neutralidade em relação aos comerciantes estrangeiros. Como poderia violar essa política? A dificuldade, porém, era que, se não ajudasse os ingleses, eles o acusariam de hostilidade contra eles e de favorecer os franceses. Por fim, decidiu permanecer firme em sua política de neutralidade. De acordo com isso, ordenou ao comandante Nandakumar que, se os ingleses atacassem Chandernagore, deveria ajudar os franceses. Do mesmo modo, se os franceses atacassem os ingleses, deveria ajudar os ingleses. Clive subornou Nandakumar com dez a doze mil takas e o conquistou para sua causa. Pelo mesmo método, também subornou o chefe do serviço de inteligência do nababo. Assim, Clive espalhou por todos os lados uma rede de subornos e traições tão extensa que Sirajuddaula não conseguia demonstrar firmeza em questão alguma. Além disso, os shéths e banians hindus, bem como seus funcionários desleais, que desejavam de todo o coração o fim do domínio muçulmano, continuavam a dar constantemente maus conselhos a Sirajuddaula. Diziam que não se devia de modo algum irritar os ingleses. Por outro lado, davam-lhe o mau conselho de enviar para aquela direção um enorme exército com o objetivo de defender Bengala e Bihar. Desse modo, o caminho para o avanço dos ingleses foi facilitado.

Enquanto isso, em 5 de março, um novo navio, o “Cumberland”, chegou a Calcutá vindo da Inglaterra, trazendo tropas e equipamentos. Em 8 de março, Clive sitiou Chandernagor. O nababo enviou um exército sob o comando de Raydurlabh Ram e Mir Jafar em direção a Chandernagor. Porém, antes que eles chegassem, os franceses se renderam. Eles concordaram em deixar Chandernagor e entregar todas as suas feitorias situadas em Bengala ao almirante Watson e ao nababo. Depois disso, Clive exigiu do nababo a erradicação dos franceses do território de Bengala. Além disso, solicitou a permissão do nababo para que dois mil soldados da Companhia avançassem por terra com o objetivo de perseguir os franceses até Patna. O nababo rejeitou esse pedido injusto. Por isso, acusaram o nababo de ter ajudado os franceses. Em 23 de abril, o comitê do Conselho de Fort William aprovou uma proposta para depor o nababo. Acusaram-no ainda de ter violado o Tratado de Alinagar.

Com o objetivo de depor o nababo, foi tramada uma conspiração bem consolidada com Raydurlabh Ram, Umichand e os irmãos Jagat Seth, os chamados próprios homens de Siraj. Por conselho deles, Mir Jafar, o bakhshi do nababo (funcionário responsável pelo pagamento dos salários), foi nomeado para sucedê-lo. Os ingleses e Mir Jafar também chegaram a uma decisão final sobre todos os assuntos. Apenas Umichand criou certa dificuldade. Ele exigiu cinco por cento de toda a riqueza do nababo. Caso contrário, ameaçou revelar toda a conspiração. Para agradar Umichand, Clive preparou um documento com uma assinatura falsificada de Watson. No tratado celebrado com Mir Jafar, este reconheceu que seria obrigado a cumprir integralmente todas as condições do Tratado de Alinagar. Além disso, reconheceu que deveria pagar, como indenização, um crore de rupias à Companhia, cinquenta lakhs aos europeus, vinte lakhs aos principais hindus e sete lakhs aos armênios. Toda a área de Calcutá e ao sul dela deveria ser cedida à Companhia para sempre.

O astuto Clive retirou as tropas de Chandernagor para dissipar as suspeitas do nababo. Mir Jafar concordou em dar a Clive mais cinquenta e dois lakhs de rupias como recompensa por acelerar a revolta planejada.

Depois que Ahmad Shah Abdali deixou a Índia, Sirajuddaula ordenou a Mir Jafar que, à frente de um exército, impedisse os ingleses de avançar para o norte, caso eles prosseguissem em perseguição aos franceses. Clive informou a Sirajuddaula que, como ele havia fracassado em cumprir o Tratado de Alinagar, Mir Jafar, Jagat Seth, Raydurlabh Ram, Mir Madan e Mohanlal deveriam ser encarregados de revisar a questão. Entretanto, ao mesmo tempo, Clive enviou suas tropas em direção a Murshidabad. Siraj enfrentou as tropas inglesas no campo de batalha de Plassey. Mir Jafar, Raydurlabh Ram e outros estavam encarregados de comandar as tropas do nababo. No momento decisivo, eles se abstiveram de conduzi-las. Assim, Clive obteve a vitória sem sequer travar uma batalha. O desafortunado Siraj fugiu do campo de batalha, mas, no caminho, Miran, filho de Mir Jafar, matou-o. Desse modo, caiu o pano sobre o doloroso drama político de Plassey.

Da descrição detalhada dos antecedentes da batalha de Plassey, algumas questões ficam claramente comprovadas.

Um. Os principais zamindares de Bengala, os ricos comerciantes e o grupo dos baniãs envolveram-se em uma conspiração com os ingleses, ainda que ao preço da independência do país, com o objetivo de pôr fim ao governo muçulmano.

Dois. Ao compreenderem a atitude dos principais hindus, os ingleses utilizaram completamente os hindus para alcançar seus interesses políticos.

Três. Todos aqueles que ocupavam os cargos de responsabilidade do nababo eram hindus, e ele tinha de depender inteiramente deles. Contudo, justamente aqueles de quem dependia estavam envolvidos em uma conspiração para provocar sua queda.

Quatro. A batalha de Plassey não pode ser chamada de batalha. Foi uma farsa de batalha. O número de soldados do nababo era muitas vezes maior que o dos ingleses. Se o exército do nababo tivesse lutado, o exército inglês teria sido aniquilado e a história teria sido escrita de outra maneira. Ou, se Sirajuddaula tivesse comandado pessoalmente a batalha, também não teria tido de aceitar a derrota.

Cinco. Foi um erro fatal de Siraj não compreender que aqueles a quem considerava patriotas e seus benfeitores venderiam a independência do país para satisfazer seus mesquinhos interesses. Ou talvez, mesmo tendo compreendido isso, ele nada pudesse fazer. A serpente venenosa que ele e seus predecessores haviam alimentado e criado com leite e bananas acabou por mordê-lo e pôr fim ao drama de sua vida.

Após o trágico drama de Plassey

A derrota de Sirajuddaula nos campos de Plassey não foi apenas a derrota de um indivíduo. Foi a derrota de Bengala, Bihar e de todo o subcontinente indiano. Essa derrota revelou a dominação colonial britânica sobre a Índia. E não apenas isso: revelou a derrota da Ásia diante da Europa e do Oriente diante do Ocidente. A sequência posterior dos acontecimentos dá testemunho disso. No mínimo, a supremacia e a dominação britânicas sobre o subcontinente indiano duraram cento e noventa anos.

A história não deixou de descobrir quem dirigiu esse doloroso drama político de Plassey e quem colocou no pescoço de Bengala, Bihar e de todo o subcontinente indiano as correntes da sujeição durante duzentos anos. Valendo-se de uma conspiração abominável, de traição, da compra de cabeças por meio de subornos e de uma política feroz de vingança baseada em acusações imaginárias, Clive e seu grupo conseguiram derrotar e matar Sirajuddaula sem sequer manejar armas no campo de batalha, estabelecendo assim seu domínio neste país.

A história foi distorcida ao se tentar determinar as causas da queda de Sirajuddaula. Na história inventada e fabricada segundo os desejos daqueles cujo grito de vitória, depois de 1757, ecoou por quase duzentos anos em vastas regiões da Índia e da Ásia, e que desempenharam um papel ativo como forças auxiliares dessa vitória, tentou-se atribuir a culpa justamente a Sirajuddaula. Mas será essa a verdadeira história?

O vasto Império Mogol havia se fragmentado — em várias partes da Índia, governantes independentes e semi-independentes começavam a se afirmar. A força marata avançava, planejando engolir o norte e o centro da Índia. Mas Ahmad Shah Abdali, depois de esmagar completamente seu poder na Terceira Batalha de Panipat (1761), retornou à sua pátria. O imperador Akbar havia destruído a formidável força militar muçulmana da Índia. Não foi possível formar nenhuma força militar alternativa. Pode-se dizer que os muçulmanos praticamente não dispunham de poder naval. Os comerciantes ingleses vieram a este país com um duplo objetivo. Sob o pretexto do comércio, foram-se fortalecendo gradualmente por meio da construção de fortes em vários lugares, do estabelecimento de uma frota naval e da importação de tropas de sua pátria, com o objetivo de estabelecer a supremacia política. A classe rica e mercantil hindu bengali, patriótica (?) de Bengala, prestou-lhes toda a ajuda e cooperação para a realização desse objetivo.

Desde a época de Murshid Quli Khan, os muçulmanos foram removidos de todos os setores administrativos de Bengala, abrindo-se ali espaço para os hindus bengalis. Esse foi o resultado de um patriotismo extremo e de uma generosidade unilateral. Embora, mais tarde, tenha sido necessário pagar por isso até o último centavo. Desde a época de Alivardi, eles passaram a ser os donos absolutos do Estado. A conquista do trono de Bengala dependia inteiramente de sua benevolência. Eles eram os criadores de reis de Bengala (King-Makers).

Quando Sirajd-daula foi designado para suceder ao nababo Alivardi, os irmãos Jagat Seth, Manik Chand, Durlabh Ram e outros eram tão poderosos que, para Siraj, era impossível permanecer no poder caso incorresse no desagrado deles. Contudo, embora esses poderosos funcionários do Estado fossem sustentados e alimentados pelo tesouro real, não demonstravam sequer um mínimo de gratidão para com seu senhor. Eles não se limitavam a dar continuamente maus conselhos a Siraj; pelo contrário, secretamente mantinham uma estreita aliança com a Companhia. Empenharam-se com todas as forças para, por meio da queda de Siraj, pôr fim ao governo muçulmano e estabelecer neste país o domínio inglês.

Sirajd-daula não era apenas um patriota. Era também um homem extremamente corajoso e valoroso. A rapidez com que, logo após assumir o poder, reprimiu as rebeliões de Ghaseti Begum e Shaukat Jang demonstra sua coragem genuína e sua perspicácia. Ele também obteve vitórias em vários confrontos com os ingleses. Se os líderes hindus, como Alam Chand e Jagat Seth, não tivessem desempenhado um papel de extrema traição, a história de Bengala teria sido escrita de outra maneira. O papel de Mir Jafar tampouco é menos condenável. Contudo, ele foi transformado na pessoa mais odiosa e amaldiçoada do drama de Plassey. Depois de derrotar os ingleses de forma esmagadora na batalha do Forte William, em Calcutá, o nababo Sirajd-daula confiou a Manik Chand a administração de Calcutá. Manik Chand restabeleceu os ingleses em Calcutá e Hugli. A conspiração para depor o nababo consolidou-se por conselho de Ray Durlabh Ram, Umichand e dos irmãos Jagat Seth. Não há dúvida de que Mir Jafar era culpado dessa ação. Mas qual foi, afinal, sua participação nessa vil conspiração? No máximo, uma anna. Contudo, é preciso dizer que, por uma ironia de seu infortúnio, não há na história pessoa mais odiada do que ele. Por isso, a expressão “Mir Jafar” é sempre usada como epíteto antes do nome de uma pessoa traidora.

O patriota Sirajd-daula suplicou repetidamente aos líderes hindus, inclusive Mir Jafar, que não vendessem a independência de Bengala e Bihar a potências estrangeiras. Mas todos os seus apelos e súplicas se perderam como clamores no deserto.

O grupo de traidores vingou seus ressentimentos acumulados durante muitos anos ao preço da independência do país. Mesmo assim, sua vingança não foi plenamente satisfeita. Foi somente assassinando Sirajd-daula de maneira diabólica que apagaram o fogo ardente de sua vingança.

O objetivo dos ingleses não era simplesmente remover Sirajd-daula da face da terra e instalar outra pessoa no trono de Bengala. Eles queriam estabelecer sua supremacia política neste país. Como Mir Jafar não conseguiu satisfazer suas exigências cada vez mais injustas, também ele acabou tendo de se afastar. Sirajd-daula não era o único que desagradava aos líderes hindus. Se fosse esse o caso, Mir Qasim não lhes teria desagradado em seu lugar. Seu único objeto de desejo era o fim do governo muçulmano. Por isso, não hesitaram em sacrificar a independência de seu próprio país e voluntariamente colocar no pescoço as correntes do domínio estrangeiro em lugar do governo muçulmano. Depois de Mir Jafar, Mir Qasim desejou sinceramente promover um grande aprimoramento da administração do país e, juntamente com isso, restabelecer a estabilidade econômica. Mas, como também não conseguiu alimentar a fome insaciável dos ingleses, teve de deixar o cenário político de Bengala. (Hill, Jadunath Sarkar; Malleson, Dr. Mohar Ali)

Nos duzentos anos que se seguiram ao estabelecimento do domínio britânico em Bengala, Bihar e, de modo geral, na Índia, aconteceu ao povo do país tudo o que poderia acontecer. Embora alguns benefícios materiais tenham sido alcançados, a maldição da subjugação e as humilhações e desonras afligiram a nação; a exploração e a opressão exercidas sobre os muçulmanos têm poucos precedentes na história. Fome, epidemias e pobreza devoraram o país. Esse assunto será discutido detalhadamente no capítulo seguinte.

A situação econômica de Bengala após a queda de Sirajd-daula

Após as batalhas de Plassey e Buxar, a independência de Bengala foi completamente extinta. Em 1765, depois que o imperador mogol nominal de Deli, Alamgir II, concedeu à Companhia das Índias Orientais o diwani de Bengala, Bihar e Orissa, seus direitos legais sobre essa região foram firmemente estabelecidos. A partir de então, o quadro econômico de Bengala revelou-se extremamente doloroso e desesperador. Após a batalha de Plassey, embora Mir Jafar e outros permanecessem como nababos nominais, quem controlava o poder militar era a Companhia das Índias Orientais. Depois de 1765, a economia do país também ficou inteiramente sob seu controle. Como resultado, a sociedade muçulmana de Bengala foi a mais prejudicada, em todos os sentidos.

Para cumprir as exigências financeiras do acordo conspiratório celebrado entre a Companhia, Umichand e Mir Jafar com o objetivo de depor Sirajuddoula, o tesouro de Bengala ficou vazio. Como já foi dito, segundo os termos desse acordo, a Companhia deveria receber cem lakh de takas como falsa indenização: cinquenta lakh para os europeus, vinte lakh para os principais hindus e sete lakh para os armênios. Para acelerar a revolução, antes mesmo da assinatura do acordo, Clive recebeu cinquenta e dois lakh de takas (Fall of Sirajuddowla—Dr. Mohar Ali).

Depois que Mir Jafar ascendeu ao trono de Bengala como um nababo fantoche, as exigências da Companhia aumentaram cada vez mais. Mir Jafar foi obrigado a mantê-los satisfeitos e contentes. Depois que o departamento da receita passou a ser administrado pela Companhia, os cobradores hindus e ingleses, para satisfazer as autoridades, continuaram arrecadando a receita por meio de exploração e opressão excessivas, enchendo com ela o tesouro da Companhia. Antes, todo o dinheiro arrecadado dos súditos era gasto entre a população do país, em benefício dela própria. A partir de então, passou a ser transferido para os bancos e centros comerciais da Inglaterra.

Na fome de 1776, um terço da população de Bengala morreu. Contudo, nenhuma clemência foi demonstrada na arrecadação da receita. Quando a fome atingiu seu auge, arrecadaram-se seis lakh de takas a mais do que no ano anterior; no ano seguinte, arrecadaram-se mais quatorze lakh de takas de Bengala e Bihar. Enquanto os seres humanos gemiam de fome, sede e agonia da morte, os ingleses e seus cobradores de impostos dançavam em júbilo demoníaco, sugando-lhes o sangue. Esses cobradores eram os comerciantes hindus de Calcutá, agiotas e negociantes. Que crueldade e demonismo maiores contra a humanidade poderiam existir? (Baden Power—Land system etc.—British Policy & the Muslim in Bengal—A. R. Mallick).

As riquezas deste país eram saqueadas por outro método igualmente abominável. A Companhia e seus funcionários podiam elevar quem quisessem ao cargo de nababo e depor quem quisessem. Em apenas oito ou nove anos, de 1757 a 1765, pelo menos 6.261.165 libras foram parar nos bolsos da Companhia e de seus funcionários locais e estrangeiros por esse meio. Cada nababo, além de conceder à Companhia diversos privilégios e facilidades comerciais, mantinha-a satisfeita com muitos presentes valiosos.

Abdul Mawdud diz:

Às vésperas da batalha de Plassey, ainda não foi feito um balanço exato do preço exorbitante pelo qual o grupo conspirador comprou, para os habitantes deste país, o cetro britânico. Isso não é possível. Pois só se pode conhecer parte desse montante por meio dos relatos escritos. Mas como medir a enorme quantia que foi enviada para além-mar e ficou fora dos registros?

A economia de Bengala durante o período britânico é, em si, uma história dolorosa de exploração meticulosamente planejada. Os historiadores calcularam aproximadamente que, em apenas vinte e três anos, de 1757 a 1780, cerca de trinta e oito milhões de libras foram enviadas de Bengala para a Inglaterra, equivalentes a seiscentos milhões de takas em valores da época. Em valores de 1900, porém, correspondiam a três bilhões de takas (I. O. Miller, citado por Misra, p. 15).

Do tesouro de Murshidabad foram obtidos quinze lakh de libras, naturalmente sob a forma de pedras preciosas de enorme valor. Como indenização, o exército terrestre e a marinha britânicos receberam quatrocentas mil libras; os seis membros do Comitê Seleto receberam novecentas mil libras; os membros do Conselho receberam, cada um, entre cinquenta e oitenta mil libras; e o próprio Clive recebeu duzentas e trinta e quatro mil libras, além do título concedido pelo imperador, ‘Sabat Jang’, e de uma zamindari com renda anual de trinta mil libras. Naturalmente, nas palavras de Clive, o vencedor de Plassey, ‘ele próprio se espanta por ter demonstrado tamanha moderação’. Mir Qasim entregou duzentas mil libras em dinheiro para auxiliar o Conselho. Najmuddoula, filho de Mir Jafar, entregou cento e trinta e nove mil libras. Além disso, é difícil dizer quantos milhões em moedas foram apropriados pelos soldados comuns e pelos ingleses das feitorias. O famoso agrimensor James Rennell foi contratado em 1764, aos vinte e dois anos, por mil libras anuais, e retornou à Inglaterra em 1777 depois de apropriar-se de trinta a quarenta mil libras. Isso permite estimar quanto dinheiro os funcionários da Companhia apropriavam-se. Como representantes do domínio da Companhia neste país e, depois de se aposentarem do serviço, ao retornarem à pátria, viviam com tamanho luxo principesco que eram chamados de ‘nabाबes indianos’.

…o próprio Clive admitiu: “Só posso reconhecer que em nenhum outro lugar além de Bangladesh se viu um quadro tão bestial de anarquia, desordem, recebimento de subornos, corrupção e espoliação forçada de riquezas”. No entanto, o desavergonhado Clive era justamente o principal sacerdote desse ritual de exploração. (O desenvolvimento da sociedade de classe média: a transformação da cultura, Abdul Mawdud, pp. 60–62).

6º capítulo

A situação miserável da sociedade muçulmana

As consequências da ilimitada miséria que se abateu sobre a sociedade muçulmana após a destruição da independência de Bengala pela Companhia das Índias Orientais ficarão claras na discussão a seguir.

Antes da Batalha de Plassey, os muçulmanos nobres predominavam nos empregos militares e civis. Depois de tomar o poder, a Companhia desmantelou o exército muçulmano já na primeira etapa da reorganização administrativa. Como resultado, alguns funcionários das classes superiores ficaram desempregados. Assim, milhões de pessoas foram lançadas à face do desemprego e da pobreza.

Em segundo lugar, a reorganização de todo o departamento de receitas do país segundo o modelo inglês fez com que um grande número de muçulmanos perdesse o emprego. De acordo com a política governamental de receitas fundiárias, muitos zamindares muçulmanos foram expulsos de suas zamindaris. A abolição do sistema de polícia rural, em 1793, também deixou milhares de muçulmanos desempregados. Desse modo, com o estabelecimento do domínio britânico neste país, os muçulmanos das classes superiores não foram apenas privados dos empregos públicos, mas também de outras oportunidades e meios de subsistência.

As ocupações dos muçulmanos das classes inferiores eram geralmente a agricultura e a tecelagem. A partir do terceiro quartel do século XVIII, a importação em grandes quantidades de tecidos produzidos nas fábricas de Manchester destruiu a indústria de tecelagem de Bengala, e milhões de tecelões também foram lançados à ruína. Depois disso, tornou-se difícil para eles viver dependendo apenas da agricultura.

Desde a chegada da Companhia a este país, os comerciantes hindus de Calcutá enriqueceram enormemente trabalhando a seu serviço. Eram chamados de “gomastas”. Após a Batalha de Plassey, a nova situação política foi para eles uma grande oportunidade. Esses gomastas desempenharam um papel importante no monopólio do comércio de sal da Companhia e em outros negócios e transações internos, acumulando enormes riquezas. Mas destruíram o comércio local e lançaram a população numa situação de extrema miséria. Os funcionários nativos e estrangeiros da Companhia obrigavam o povo a comprar a preços exorbitantemente altos as mercadorias importadas da Inglaterra e a vender a preços irrisórios os produtos do país. Seria necessário escrever um livro à parte para relatar suas opressões e perseguições. Os funcionários hindus de Bengala prestaram pleno apoio às atrocidades e opressões da Companhia. Em 1786, um gomasta chamado Kalicharan foi removido da região de Tripura e nomeado diwan, ou administrador, do departamento de receitas em Chittagong, como punição por ter levado aquela região à beira da ruína com sua tirania e exploração. Em um único ano, ele extorquiu injustamente trinta mil rúpias dos zamindares de Chittagong. Quando o assunto foi apresentado a Lord Cornwallis, o Sr. Bird, controlador das receitas de Chittagong, declarou que Kalicharan seria demitido e que, em seu lugar, seria nomeado seu gomasta Nityanandan. Contudo, devido à intervenção do extremamente influente gomasta de Calcutá, Joy Narayan Gosai, o assunto foi encerrado naquele ponto, e Kalicharan permaneceu honrosamente em seu cargo.

Pode-se inferir, a partir desse único acontecimento, que papel desastroso desempenharam os funcionários hindus da Companhia na destruição das aldeias de Bengala. Certo inglês comentou: a única classe que os ingleses e suas leis salvaram da ruína foi a dos gomastas, intermediários e representantes nativos empregados sob seu comando. Essas pessoas, ao devorarem rapidamente as aldeias de Bengala como gafanhotos, estavam atacando as próprias bases da existência da Índia. — (Muinuddin Ahmad Khan, Muslim Struggle for Freedom in Bengal, p. 8).

A política dos ingleses consistia em estabelecer, em todos os estratos da sociedade, aqueles com cuja ajuda haviam privado este país de sua independência e conquistado aqui a supremacia política, eliminando completamente os muçulmanos, para que estes jamais pudessem adquirir força suficiente para recuperar a independência. Em consequência da política de arrendamento de terras de Hastings e do Acordo Permanente de Cornwallis, os hindus ocuparam o lugar dos zamindares muçulmanos. Como a política de arrendamento das terras ao maior ofertante em dinheiro foi posta em prática, os antigos e nobres zamindares muçulmanos subitamente se viram incapazes de pagar em espécie o maior lance. Em contrapartida, a classe hindu dos baniás, os agiotas, banqueiros e a classe hindu de ricos comerciantes aproveitaram essa oportunidade de ouro. A maior parte das antigas propriedades zamindárias foi, em pouco tempo, transferida para esses ricos comerciantes em consequência do Acordo Permanente. O objetivo implícito do Acordo Permanente era reconhecer os naibues, administradores e outros funcionários hindus empregados sob os zamindares muçulmanos. Segundo os dados publicados na Calcutta Review de 1844, entre uma dúzia de zamindaris cuja extensão equivalia à de um distrito cada uma, apenas duas permaneceram nas mãos dos antigos zamindares, enquanto as restantes passaram para os descendentes dos funcionários subalternos dos antigos zamindares. Assim, por toda Bengala surgiu uma nova classe de zamindares, que se tornou inteiramente leal e digna da confiança dos novos senhores estrangeiros.

Hunter afirma em sua obra The Indian Mussalmans: os cobradores de impostos hindus que, até então, ocupavam cargos inferiores foram elevados à classe dos zamindares graças ao novo sistema. O novo sistema lhes concedeu direitos de propriedade sobre a terra e oportunidades e facilidades para acumular riqueza. Contudo, durante seu próprio governo, os muçulmanos haviam desfrutado exclusivamente dessas oportunidades e facilidades. — (Hunter, The Indian Mussalmans: tradução de Anisuzzaman, p. 141).

Durante o governo muçulmano, a lei determinava que os zamindares mantivessem vigilância rigorosa sobre os antissociais, criminosos e bandidos e ladrões. Quando fossem capturados, deveriam entregá-los ao governo juntamente com os bens roubados. Em 1772, a Companhia revogou essa lei. Como resultado, em vez de entregar os bandidos e ladrões, os novos zamindares passaram a protegê-los e a tornar-se parceiros nos bens saqueados. Não deve ser difícil imaginar quem eram esses bandidos e ladrões e quem constituía o grupo dos desafortunados saqueados das aldeias de Bengala. Segundo os dados publicados na Calcutta Review em 1944, esses novos zamindares protegiam os bandidos e ladrões com o objetivo de adquirir riqueza. O relatório do magistrado de Daca-Jalalpur, publicado em 1799, também reconheceu como verdadeiros esses atos criminosos.

— (Muinuddin Ahmad Khan – Muslim Struggle for freedom in India – p. 10).

O Acordo Permanente não apenas instituiu uma nova classe de zamindares ao expulsar os zamindares muçulmanos; também lhes concedeu plenos poderes para fixar novamente os impostos sobre a terra. Nesse aspecto, eles demonstraram extrema arbitrariedade. Esses zamindares confiavam a administração de suas zamindaris a contratantes, isto é, pattanidars, mediante taxas muito elevadas, sob a forma de receita governamental. Estes, por sua vez, transferiam a responsabilidade aos subpattanidars em troca de impostos exorbitantes. Assim, cobravam dos camponeses, à força e por meio de coerção, uma quantia quatro a dez vezes maior que a receita que chegava aos cofres do governo. Pode-se dizer que essa nova classe de zamindares tornou-se senhora absoluta da vida e da morte dos raiyats.

Em alguns documentos oficiais encontrados no escritório do magistrado do distrito de Faridpur, revela-se que pelo menos vinte e três tipos de abwab “injustos e ilegais” eram cobrados dos raiyats. Buchanan afirma: “Era algo comum capturar os raiyats em suas casas, mantê-los presos por vários dias, espancá-los e cobrar-lhes os impostos. Além disso, cobravam dos camponeses analfabetos os impostos do zamindar por meio de recibos falsos e apropriavam-se do dinheiro”. (M. Martin – The History, Antiquities, Topography & Statistics of Eastern India, Londres, 1838, vol. 2).

Os relatos das atrocidades desumanas cometidas pelos zamindares hindus e o movimento de Titumir contra os zamindares serão discutidos no lugar apropriado.

Para traçar um quadro preciso da situação da sociedade muçulmana de Bengala em geral no início do século XIX, é necessário saber qual era a condição de seus três principais elementos ou partes constituintes. Essas três partes da sociedade eram: os nababos, a classe alta e a comunidade camponesa.

1. Os nababos

Após a Batalha de Plassey, os nababos de Bengala haviam se tornado marionetes nas mãos da Companhia. Tiveram de ceder à Companhia os distritos de Vinte e Quatro Parganas, Bardhaman, Midnapore e Chittagong. Foi-lhe concedido o monopólio do comércio no interior do país. Além disso, era preciso oferecer grandes presentes à Companhia e a seus funcionários brancos e nativos. Segundo os registros do Comitê Secreto da Companhia de 1772, o valor dos presentes oferecidos por Mir Jafar era de um milhão e duzentas e cinquenta mil libras. Depois de 1865, foi concedida ao nababo uma pensão anual de 5.386.000 takas. Em 1770, ela foi reduzida para três milhões e duzentos mil, e em 1772, para apenas um milhão e seiscentos mil takas. Antes, os nababos empregavam muitos muçulmanos em seus serviços. Concediam ampla assistência financeira, jagires e outros benefícios às famílias nobres. Com a interrupção de tudo isso, elas caíram em extrema desgraça. Alguns abandonaram Bengala e partiram para outros lugares em busca de fortuna, enquanto os restantes continuaram sendo esmagados pela pobreza.

2. Os muçulmanos nobres ou da classe alta

Os muçulmanos nobres chegaram a este país em diferentes épocas, como conquistadores ou como aventureiros corajosos em busca de fortuna. Depois, passaram a amar este país de todo o coração e o adotaram como sua pátria para sempre. Como conquistadores, naturalmente tinham o direito de ocupar os vários altos cargos do governo. Hunter diz que uma família muçulmana nobre obtinha sua riqueza de três fontes principais: a liderança do departamento militar, a arrecadação de receitas e o serviço nos setores judiciário e administrativo.

A primeira fonte, pode-se dizer, era inteiramente monopólio deles. O próprio Mir Jafar dispensou do serviço oitenta mil soldados. Nazmuddaula só podia manter o número de soldados necessário para preservar sua própria dignidade. Como resultado, várias centenas de milhares de muçulmanos de Bengala e Bihar passaram a ser esmagados pelo desemprego e pela pobreza.

Hunter diz que a primeira fonte de subsistência era o exército. O acesso dos muçulmanos a ele foi bloqueado. Nenhum filho de uma família muçulmana nobre podia mais ingressar em nosso exército. Embora ocasionalmente lhes fosse concedido algum posto por nossas necessidades militares, isso não lhes oferecia qualquer oportunidade de obter renda.

A segunda fonte de renda deles eram os cargos importantes na arrecadação de receitas. Contudo, já foi descrito acima como os arrecadadores hindus de receitas, que ocupavam cargos inferiores, tornaram-se de um salto proprietários das zamindaris muçulmanas graças ao favor da Companhia.

Lord Metcalfe comentou em 1820: as terras do país foram tomadas de seus verdadeiros proprietários e transferidas para uma classe de babus, que haviam enriquecido por meio de subornos e de extrema corrupção. Isso foi feito com base em uma política tão terrivelmente opressiva que são raros no mundo os seus semelhantes.

-(E. Thompson, The Life of Charls Lord Metcalfe; A.R. Mallick: British Policy and the Muslims of Bengal).

Antes mesmo do século XIX, os ingleses e os hindus ocuparam o lugar dos funcionários muçulmanos que exerciam altos cargos no departamento da receita e dos verdadeiros proprietários das terras.

Desde tempos imemoriais, os governantes muçulmanos da Índia concediam aos eruditos muçulmanos propriedades fundiárias isentas de impostos, com nomes como jagir, tamgha, ayma e maddad-i-ma’ash, para promover a educação do povo. Segundo Buchanan

, somente nos distritos de Bihar e Patna haviam sido concedidos a várias pessoas e instituições vinte e um tipos de terras isentas de impostos. Durante o governo inglês, esses detentores de terras isentas de impostos foram expulsos de sua propriedade sob diversos pretextos. Como exemplo, pode-se mencionar que, em Bardhaman, o Sr. Taylor, Special Deputy Collector, proferiu em um único dia decisões contra 429 detentores de terras isentas de impostos, na ausência deles.

As propriedades isentas de impostos foram retomadas pelo governo sob os Tribunals of Resumption do governo inglês. Um oficial do Board of Revenue de Chittagong fez o seguinte comentário: não haverá nada de surpreendente se os detentores de terras isentas de impostos passarem a suspeitar das intenções do governo. Isso é perfeitamente natural. Em todos os 1.463 processos, a decisão foi tomada em favor do governo, na ausência dos detentores de terras isentas de impostos. Depois dessa amarga experiência, era de esperar que perdessem a confiança nos Tribunals of Resumption (Comentário de Smith no Relatório de Harvey de 19º de junho de 1840; A.R. Mallick, British Policy and the Muslims of Bengal).

Para expulsar os detentores muçulmanos de terras isentas de impostos de sua legítima propriedade fundiária, empregavam-se diversos métodos vis e, entre os funcionários ingleses, prevalecia a esse respeito uma mentalidade tendenciosa e hostil. Muitas terras isentas de impostos foram confiscadas porque os certificados dos detentores não eram registrados. Os coletores distritais deliberadamente protelavam o registro dos certificados no prazo devido. Por isso, mesmo tentando, os detentores de terras isentas de impostos não conseguiam registrar seus certificados.

Em Chittagong, não se dava aos detentores de terras isentas de impostos qualquer aviso para comparecerem ao tribunal. Em muitos casos, chegou-se a constatar que as propriedades haviam sido transferidas para outro lugar muito antes da emissão da decisão judicial. Entre 1828 e 1851, por toda Bengala e Bihar, espiões, falsas testemunhas e oficiais de retomada espalharam-se em todas as direções como gafanhotos para reunir informações falsas sobre os detentores de terras isentas de impostos e envolver os muçulmanos em processos. Nesses processos, além do governo, uma terceira parte também obteve enormes lucros. Aqueles que prestavam falso testemunho e os que forneciam informações inventadas aos funcionários do governo ganhavam muito dinheiro. Em contrapartida, as classes alta e média muçulmanas foram arruinadas. Como consequência do confisco das propriedades isentas de impostos, muitas instituições educacionais também foram fechadas.

O pandit Jawaharlal Nehru diz:

Depois que os ingleses se estabeleceram em Bengala, havia ali muitas propriedades fundiárias «muafi», isto é, terras lakhraj isentas de impostos. Muitas eram propriedades privadas, mas a maioria havia sido dedicada em waqf para custear instituições de ensino. Quase todas as escolas primárias, maktabs e muitas instituições de ensino superior dependiam da renda dessas propriedades «muafi». A Companhia das Índias Orientais sentiu a necessidade de levantar dinheiro rapidamente para pagar lucros aos seus acionistas na Inglaterra, pois os diretores da Companhia exerciam forte pressão nesse sentido. Então foi adotada uma política de confiscar, de maneira cuidadosamente planejada, as propriedades fundiárias «muafi». Foi emitida uma ordem para que fossem apresentados fortes documentos comprobatórios em defesa dessas propriedades.

Mas os antigos certificados e documentos relacionados já haviam desaparecido em algum lugar ou tinham sido destruídos pelas traças. Assim, quase todas as propriedades «muafi», ou lakhraj, foram confiscadas. Muitos proprietários fundiários de antigas famílias perderam seus direitos. As fontes de renda de muitas escolas e faculdades foram interrompidas. Desse modo, muitas terras passaram à posse direta do governo, e muitas famílias tradicionais foram desalojadas. As instituições de ensino que até então dependiam da renda das propriedades «muafi» acima mencionadas foram fechadas. Um grande número de professores e funcionários do departamento de educação ficou desempregado. — (Pandit Jawaharlal Nehru: The Discovery of India, pp. 376–77)

O terceiro meio de subsistência dos muçulmanos das classes altas e nobres era o serviço sob o governo — nos departamentos judicial e administrativo. Mesmo depois de a Companhia obter o diwani, eles permaneceram empregados por cerca de cinquenta anos, pois, até então, a língua oficial era o persa. Mas, de repente, o inglês foi adotado como língua oficial em lugar do persa. Os muçulmanos não estavam de modo algum previamente preparados para isso. Em 1832, diante do Comitê Seleto, o capitão T. Macam apresentou a proposta de que a língua inglesa fosse introduzida gradualmente e que os funcionários muçulmanos recebessem uma notificação com um prazo de pelo menos cinco ou seis anos. Hunt Mackenzie também apresentou proposta semelhante. Ele disse que o inglês deveria ser introduzido gradualmente e sucessivamente nos distritos. Porém, como a mudança foi realizada subitamente em toda parte, milhares de funcionários muçulmanos foram afastados dos cargos dos quais dependia inteiramente sua subsistência. Em 1829, começou o ensino da língua inglesa nas escolas e faculdades como meio de toda a educação. A partir de 1º de abril de 1837 — o primeiro dia do então ano financeiro — o inglês foi subitamente introduzido como língua oficial.

O senhor Hunter também reconheceu esses fatos e disse ironicamente:

“Agora, em nenhum lugar, exceto por um ou outro cargo subalterno nas prisões, esses antigos senhores da Índia conseguem encontrar lugar. Nos diversos escritórios, nos cargos de escriturários, nos postos de responsabilidade dos tribunais e até mesmo nos postos superiores do serviço policial, estão sendo nomeados jovens hindus entusiásticos das escolas governamentais”.

Como resultado dessa mudança, a comunidade hindu desfrutou de todos os benefícios. Aprendendo inglês nas diversas faculdades, eles conquistaram o monopólio dos empregos públicos em toda parte. Em contrapartida, devido à mudança ocorrida no cenário político, as famílias muçulmanas nobres foram privadas de todas as oportunidades e facilidades de ganhar a vida, sendo lançadas à pobreza, à fome e à ruína.

3. Muçulmanos das classes inferiores: camponeses e tecelões

Acima, foi dada uma pequena ideia da extrema miséria em que os camponeses mergulharam em consequência do Acordo Permanente.

Também foi mencionado que entre os zamindares e os verdadeiros camponeses existiam ainda dois outros estratos: os pattnidars e os subpattnidars. Por meio dessas duas classes, cobrava-se dos raiyats várias vezes mais do que a receita devida ao zamindar, e, assim, não havia limite para a exploração e a opressão dos raiyats ou camponeses. Sob a tirania dos zamindares e pattnidars, sua vida tornava-se insuportável. Forçados pelas circunstâncias, tinham de recorrer aos agiotas hindus. Precisavam tomar dinheiro emprestado a juros que variavam de 37 a 60 por cento. Além disso, tinham de penhorar seus bois ou búfalos ao agiota. Se, devido à necessidade, recebiam do agiota algum grão adiantado, tinham de devolver o dobro. E, como a colheita produzida tinha de ser levada para a própria casa do agiota, também ali eram enganados. Em suma, esses zamindares e agiotas divertiam-se e sentiam prazer brincando com a vida dos infelizes camponeses.

Os camponeses tampouco dispunham de qualquer meio para remediar tamanho sofrimento e miséria, pois isso era extremamente dispendioso. Além disso, os zamindares e seus agentes, por meio de subornos e de toda sorte de corrupção, faziam as despesas aumentar várias vezes. O resultado era que os zamindares e agiotas os expulsavam de suas casas e terras, transformando-os em mendigos.

Além de produzir arroz e outros cereais, a comunidade camponesa também cultivava índigo. O cultivo do índigo já era praticado neste país havia muito tempo. Em meados do século XVII, o corante índigo foi exportado pela primeira vez da Índia para a Europa. Os britânicos organizaram o cultivo do índigo em suas colônias americanas e das Índias Ocidentais. Depois que estas lhes foram tomadas, Bengala tornou-se o principal país fornecedor de índigo. Em 1805, a quantidade de índigo cultivada em Bengala era de 64.803 maunds, e em 1843 havia dobrado. Em Bengala, Bihar e, especialmente, nos distritos de maioria muçulmana como Daca, Faridpur, Rajshahi, Pabna, Nadia e Murshidabad, o cultivo do índigo era praticado em grande escala, sob a supervisão dos britânicos, em meados do século XVIII. Porém, os governantes estrangeiros fixaram um preço tão baixo para o índigo que os cultivadores sofriam uma perda de sete takas por bigha, quantia sete vezes maior que a receita por bigha. Apesar disso, os cultivadores eram obrigados a plantar índigo. A história registra relatos dolorosos e horripilantes da desumanidade e da opressão infligidas pelos governantes aos cultivadores de índigo de Bengala. Os governantes embriagados pelo poder e seus agentes haviam perdido completamente o senso de humanidade. Caso contrário, os gritos lancinantes de homens, mulheres, crianças e idosos da comunidade camponesa, causados por sua opressão, não teriam dilacerado os céus e a atmosfera de Bengala.

Os camponeses pobres e necessitados esperavam ganhar algum dinheiro por meio do cultivo do índigo, para poder sobreviver. Aproveitando-se de sua pobreza e desamparo, os plantadores ingleses de índigo obrigavam-nos a firmar diversos contratos contrários aos interesses dos camponeses. Muitas vezes, capturavam os camponeses relutantes e ateavam-lhes fogo. Quando nem mesmo assim conseguiam fazê-los concordar, os plantadores de índigo, valendo-se de contratos falsos, usurpavam à força suas terras e mandavam seus empregados cultivar índigo nelas. Às vezes, um zamindar tirânico, para punir um camponês, tomava-lhe a terra e a entregava aos plantadores de índigo. Certa vez, ao depor perante a Comissão do Índigo, em 1860, Ashley Eden declarou que, segundo diversos registros criminais, haviam ocorrido quarenta e nove casos em que plantadores de índigo estiveram envolvidos em crimes graves como tumulto, assassinato, incêndio criminoso, banditismo, pilhagem e sequestro forçado. Muitos anos antes disso, certo magistrado comentou diante de um missionário cristão que nem uma caixa de índigo era enviada à Inglaterra sem estar tingida com sangue humano. (Relatório da Comissão do Índigo de 1861 e Calcutta Christian Observer, novembro de 1855.)

Não havia qualquer meio de remediar o sofrimento e a miséria dos cultivadores de índigo. Mesmo quando os camponeses eram cruelmente torturados diante dos chowkidars e dafadares, estes não tinham sequer a capacidade de revelar o fato com uma única palavra. Certa vez, quando os cruéis plantadores de índigo incendiaram uma aldeia, um homem gritou e reuniu pessoas para apagar o fogo. Por isso, foi brutalmente espancado e mantido, ferido, durante quatro meses em um quarto escuro. Enquanto isso, os plantadores de índigo mantinham a polícia sob seu controle por meio de pesados subornos. (Relatório da Comissão do Índigo de 1861.)

Os infelizes e indefesos camponeses não podiam esperar qualquer reparação ou justiça dos magistrados. O referido Relatório da Comissão do Índigo afirma que os magistrados de pele branca sempre tomavam o partido de seus compatriotas. As leis e normas criminais haviam sido elaboradas de tal modo que era praticamente impossível punir um súdito inglês. Um pobre camponês não tinha coragem de deixar sua esposa, filhos e familiares numa região remota e distante e ir a Calcutá para abrir um processo. Isso porque, durante sua ausência, a vida, os bens e a honra de sua esposa, filhos e familiares seriam destruídos pelos plantadores de índigo. O cultivo do índigo era praticado em maior escala nas regiões de maioria muçulmana. Assim, os muçulmanos das classes inferiores tornaram-se vítimas permanentes da extrema tortura e opressão dos plantadores de índigo.

Tecelões

Assim como a classe camponesa, também a classe dos tecelões deste país caiu em extrema miséria. Milhões de tecelões muçulmanos de Bengala e Bihar ganhavam seu sustento com a indústria têxtil. Antes mesmo do fim do século XIX, a tecelagem havia morrido como atividade lucrativa. No entanto, por não terem outra alternativa, os muçulmanos que até então se agarravam à tecelagem somavam, segundo o censo de 1891, 7,71237 na província de Bihar e em alguns distritos de Bengala. Os tecelões de Nadia, Dinajpur, Rangpur, Bogra, Jalpaiguri, Noakhali, Tripura e Chittagong estavam fora desse número. Portanto, pode-se afirmar sem hesitação que, no início do período da Companhia, o número de tecelões muçulmanos em toda Bengala e Bihar era pelo menos dez vezes superior ao número acima mencionado. Apresenta-se a seguir um breve relato de como esses comerciantes tecelões foram arruinados.

Antes da chegada da Companhia das Índias Orientais a este país, a indústria têxtil local havia alcançado extraordinário apogeu. Em cada distrito eram produzidos tecidos de tecelagem de qualidade excepcional e de tipos característicos. Para atender à demanda, importavam-se grandes quantidades de algodão. Essas tecelagens produziam tecidos tanto grossos quanto finos. A Índia era o mercado dos tecidos grossos, enquanto os tecidos finos e superfino eram exportados para várias partes da Europa. Com o auxílio, a cooperação e o patrocínio dos governantes muçulmanos, os tecidos superfino de seda produzidos em Daca eram exportados para várias partes da Europa. Sob o auxílio, a cooperação e o patrocínio dos governantes muçulmanos, o tecido de seda superfino de Daca, a ‘musselina’, havia criado enorme atração nos mercados europeus durante dois séculos. Fosse tecido grosso ou tecido de seda superfino, ambos constituíam uma grandiosa contribuição dos tecelões muçulmanos. Um comerciante inglês chamado William Bolts, ao descrever a indescritível opressão exercida pela Companhia sobre os tecelões, afirma que todo o comércio era monopólio das companhias. Os ingleses, seus subordinados negociantes hindus e gomastas fixavam os preços dos tecidos conforme sua vontade e obrigavam os tecelões a fornecer determinada quantidade de tecido por aquele preço. Assim como os cultivadores de índigo, também obrigavam os tecelões a assinar contratos contrários aos seus interesses. Os tecelões eram obrigados a fornecer, dentro de um prazo determinado, tecidos de qualidade e quantidade especificadas, pelo preço fixado por eles — eram esses os chamados contratos. O preço fixado por eles era, por sua vez, de quinze a quarenta por cento inferior ao preço de mercado. Quando não conseguiam satisfazer a Companhia e seus agentes opressores, os tecelões eram açoitados. Era como arrancar a pele de uma pessoa viva e devorar sua carne. Ouve-se dizer que, nos tempos primitivos, os homens selvagens e bárbaros que viviam nas florestas, quando necessário, saciavam a fome com a carne de homens e mulheres. Mas em que aspecto esses ingleses ditos civilizados e seus agentes eram superiores a eles?

Mais tarde, os diretores da Companhia desferiram um golpe extremo contra a indústria têxtil de Bengala. Em vez de importar para a Inglaterra os tecidos fabricados em Bengala, passaram a importar algodão e seda como matérias-primas. Em seguida, recomendaram que os artesãos de tecidos de seda fossem obrigados a trabalhar nas próprias fábricas da Companhia, em vez de trabalhar em seus próprios teares. Como resultado, este país, cuja principal indústria era a tecelagem, transformou-se no mercado de matérias-primas dos fabricantes de tecidos ingleses. Depois de 1789, as exportações dos finos tecidos de seda de Daca começaram a diminuir. Em 1799, somente de Daca, foram exportados tecidos no valor de 12 lakhs de rúpias. Os doze lakhs daquela época podem facilmente ser considerados hoje equivalentes a doze crores de rúpias. Em 1813, as exportações diminuíram para três lakhs de rúpias. Em 1817, a exportação dos tecidos produzidos em Daca foi completamente interrompida.

Em suma, destruindo a indústria têxtil de Bengala e Bihar, a indústria têxtil de Manchester foi construída com o sangue e a carne da comunidade de tecelões privados de seus ganhos. Gradualmente, o país exportador transformou-se em mercado para produtos importados. De 1786 a 1790, importavam-se anualmente para este país tecidos no valor de doze milhões de libras. Em 1809, esse valor chegou a cento e oitenta e quatro milhões de libras. A política dos britânicos era eliminar gradualmente a comunidade dos tecelões deste país, que em sua maioria eram muçulmanos. (Abdul Mawdud: O desenvolvimento da sociedade de classe média).

O erudito Jawaharlal Nehru retratou, em seu livro The Discovery of India, o quadro doloroso do sofrimento e da miséria dos tecelões. Ele afirma: a antiga profissão desses tecelões foi completamente extinta. Nenhuma porta para uma nova profissão estava aberta. A única porta aberta era a da morte. Milhões morreram. Lord Bentinck declarou em seu relatório de 1834 que não havia paralelo, na história do comércio, para o sofrimento e a miséria deles. As estradas e caminhos da Índia foram preenchidos com os ossos dos tecelões. — (Pandit Nehru: The Discovery of India, p. 352).

Em suma, depois que a independência e a soberania deste país foram entregues aos imperialistas estrangeiros na batalha de Plassey, os fatos e a história exata dos cem anos seguintes deixam claro que a história desse período é a história da exploração, pilhagem, perseguição e opressão, fraude e engano, e massacres dos muçulmanos de Bengala. E nessa tarefa incitou e prestou toda espécie de ajuda e cooperação o grupo de ‘babus’ nativos favorecidos pelo governo da Companhia. Eles também receberam plenamente o preço de sua traição ao país. E esse preço foi o seguinte: todas as zamindaris e jotdaris do país foram arrancadas de seus verdadeiros proprietários e entregues a esses ‘babus’ para serem desfrutadas para sempre por seus filhos e netos. E eles se tornaram proprietários de imensa riqueza por meio de subornos e corrupção. — (E. Thompson: The Life of Charles Lord Metcalfe; A. R. Mallic: British Policy & the Muslims of Bengal).

Um exemplo trágico da exploração e da opressão é o seguinte: durante a ‘Grande Fome de 1770’, um terço da população de Bengala morreu e a agricultura sofreu um declínio extremo. Mas Warren Hastings, fazendo cálculos e exercendo forte pressão, arrecadou mais dinheiro do que a receita fixada e não gastou nada para aliviar o sofrimento dos camponeses moribundos. Pelo contrário, vendeu 33.913 man de arroz do distrito de Bakarganj e saqueou um lucro de 67.593 rúpias. Armazenou 40.000 man de arroz de Daca no acantonamento de Bankipur, afirma Abdul Mawdud em seu livro O desenvolvimento da sociedade de classe média (p. 63).

Abdul Mawdud acrescenta que o Taj Mahal, que os arquitetos apontam como o maior exemplar da arte arquitetônica na face da Terra, cuja construção custou 230 milhões de dólares e cujo projeto, em sua concepção, ofusca e envergonha até mesmo a mente do maior conquistador do mundo — esse Taj Mahal, para demolir e apropriar-se de seus materiais, Lord Bentinck, celebrado na Índia como um dos vice-reis mais misericordiosos e benéficos, chegou certa vez a fazer um acordo para vendê-lo a um empreiteiro hindu por apenas 150.000 dólares. (The Round the World Traveller, Loreng: p. 379). Warren Hastings arrancou o hammam do Diwan-i-Khas e o enviou como presente a Jorge IV, na Inglaterra; e Lord Bentinck aumentou a receita da Índia vendendo outras partes do palácio (India: Chirol, p. 54; The Story of Civilization, Our Oriental Heritage, de Will Durant, pp. 609–610).

Assim, o preciosíssimo ‘Koh-i-Noor’, saqueado, ainda hoje realça o esplendor do palácio real da Inglaterra. Por meio de tal pilhagem, revela-se a extrema baixeza dos ingleses orgulhosos de sua instrução, educação e civilização.

Edmund Burke proferiu realmente uma afirmação contundente: se hoje tivermos de deixar a Índia, não restará nada que prove sob o domínio de que animal melhor que um orangotango ou um tigre este país esteve. (Abdul Mawdud: O desenvolvimento da sociedade de classe média, p. 64)

Pouco antes do fim do período do governo da Companhia, John Bright disse: “Os cem anos de história sobre o povo inocente da Índia são uma história de crimes indescritíveis” (Oxford History of India: p. 680).

Relações entre hindus e muçulmanos: religião e cultura

Desde o início da Idade Média, os muçulmanos vieram de países como a Arábia, a Turquia, o Irã-Turão e o Afeganistão para Bengala e para o subcontinente indiano. Depois, amaram este país de todo o coração, aceitaram-no como sua pátria permanente e, durante séculos, viveram lado a lado com os hindus desta terra. Mas a cruel verdade histórica é que, embora hindus e muçulmanos tenham vivido juntos e lado a lado por mais de mil anos, crescido sob o mesmo céu e no mesmo clima, essas duas nações não apenas não se fundiram numa só, como também não conseguiram estabelecer entre si uma relação espiritual. É claro que, durante esse longo período, não deixaram de trabalhar juntos ocasionalmente nem de compartilhar as alegrias e tristezas uns dos outros. Isso, porém, ocorreu em lugares, épocas e campos específicos — não como nações, mas como vizinhos. E, mesmo assim, apenas temporariamente. Entre eles, as raízes duradouras da cordialidade e da identificação mútua jamais puderam se firmar. Ao explicar a razão pela qual, apesar de viverem lado a lado, a distância entre ambos permaneceu intacta, o doutor Ramesh Chandra Majumdar diz:

As crenças religiosas e as normas sociais dessas duas comunidades são completamente opostas… Os hindus encontram no sânscrito a inspiração para a literatura bengali, enquanto os muçulmanos a encontram no árabe e no persa. O fanatismo religioso dos muçulmanos também os havia tornado igualmente hostis a eles. … Para que os hindus não pudessem demonstrar sequer a menor simpatia pela sociedade muçulmana, os líderes da sociedade hindu haviam instituído regras rigorosas. (Ramesh Chandra Majumdar: História de Bangladesh na Idade Média, pp. 242–243 e 334–350).

O poeta Rabindranath Tagore descreveu a razão pela qual a distância entre as duas comunidades não foi eliminada e uma relação de afinidade não se estabeleceu. Ele disse:

“A corrente do parentesco mais profundo de todos corre nas veias, não nas palavras. Se, entre aqueles que se imaginam uma grande nação, o caminho para a união das veias permanecer para sempre bloqueado pelo domínio da religião, então sua união jamais será uma união de almas. — [Obras completas de Rabindranath (edição do centenário), vol. 13, p. 308]

Portanto, vê-se que essa diferença e distância não são apenas externas e artificiais. Em sua raiz profunda encontram-se as crenças religiosas e as culturas distintas e opostas de ambos. Pode-se citar aqui o comentário feito pelo conselheiro constitucional do antigo vice-rei da Índia, Lord Linlithgow, H. V. Hodson, sobre as duas nações, hindu e muçulmana, da Índia. Ele diz:

“…..Aqui existem duas grandes comunidades que vivem no mesmo país, por assim dizer, na mesma aldeia, compartilhando as mesmas alegrias e tristezas e submetidas ao mesmo governo. Também não são distintas quanto à origem racial. Pois a maioria dos muçulmanos indianos descende dos próprios antepassados remotos de seus vizinhos hindus. Contudo, são separadas e distintas. Não são distintas apenas no que diz respeito às crenças e práticas religiosas, mas também quanto ao sistema integral da vida e à perspectiva mental. Cada grupo ou comunidade está permanentemente baseado na descendência. Entre eles não existe o costume de casamentos mútuos, nem a possibilidade de se misturarem e se fundirem numa só unidade.” — (H. V. Hodson, The Great Divide, p. 10).

Em Bengala, assim como no subcontinente indiano, hindus e muçulmanos têm preservado, desde tempos imemoriais, sua distinção religiosa e cultural. O Dr. Ramesh Chandra Majumdar diz:

“Desde o início até o fim da Idade Média, os muçulmanos, em certas regiões, viveram lado a lado com os hindus durante 1.300 a 700 anos e continuam exatamente como antes. … Quando, no início do século VIII, os muçulmanos conquistaram Sind e estabeleceram pela primeira vez uma colônia na Índia, as diferenças fundamentais que existiam entre hindus e muçulmanos permaneceram exatamente as mesmas mesmo mil anos depois, exceto pela diferença de língua. ….Desde o início do século atual, difundiu-se em nosso país a teoria de que, na Idade Média, ambos perderam sua distinção em consequência da mistura das culturas hindu e muçulmana, e que se formou uma nova cultura que não era cultura hindu nem cultura islâmica — a cultura indiana. Na primeira metade do século XIX, Raja Rammohun Roy, Dwarakanath Tagore e outros, e, na segunda metade, Bankimchandra Chattopadhyay e outros dos maiores heróis de Bengala daquela época sustentavam precisamente a opinião contrária, e a literatura bengali do século XIX também apoia essa opinião contrária. A verdade ficará comprovada se compararmos o que eram a sociedade e a religião hindus em 1200 d.C. com o que haviam se tornado a religião e a sociedade hindus em 1800 d.C.” — (Ramesh Chandra Majumdar, História de Bangladesh: Idade Média, pp. 242–243 e 334–350).

Depois da chegada dos muçulmanos à Índia, após viverem com os hindus por mais de mil anos, em vez de ambos formarem uma única nação, sua distinção tornou-se ainda mais evidente e sólida. K. M. Panikkar observa em sua obra Survey of Indian History: “A principal consequência social da introdução do Islã na Índia como religião foi que o corpo social foi dividido verticalmente em duas partes. As divisões que haviam surgido na sociedade hindu antes do século XIII tinham uma natureza algo horizontal. Naquela época, o budismo conseguira absorver essas subdivisões religiosas e, com o passar do tempo, elas haviam estabelecido seus próprios habitats regionais dentro dos limites do hinduísmo. O Islã, por outro lado, dividiu claramente a sociedade indiana de alto a baixo em duas partes. E aquilo que, na linguagem de hoje, conhecemos como a teoria das duas nações nasceu naquele mesmo primeiro momento. A partir de então, duas sociedades paralelas passaram a existir, verticalmente divididas, sobre a mesma base. Em todos os campos da vida, as duas sociedades tornaram-se separadas e distintas e manifestaram-se separadamente. Não restou entre elas qualquer relação social ou intercâmbio em nenhum âmbito da vida. Naturalmente, a conversão do hinduísmo ao Islã continuou incessantemente. Mas, ao mesmo tempo, surgiram novas doutrinas e comunidades, bem como uma nova atitude defensiva de segurança. Como resultado, o corpo da sociedade hindu mostrou-se progressivamente mais forte”.

Pode-se apresentar aos leitores a contundente verdade proferida pelo ilustre Dr. Syed Mujtaba Ali, educado na Visva-Bharati fundada por Rabindranath Tagore. Ele diz:

“Os filhos e netos, orgulhosos da tradição, dos grandes sábios arianos criadores de sistemas filosóficos estudaram filosofia durante centenas de anos em suas próprias escolas tradicionais, mas não tiveram conhecimento algum da filosofia que, durante centenas de anos, foi estudada em árabe na madrassa da aldeia vizinha, começando por Platão e passando pelo neoplatonismo, bem como pelos pensamentos de sábios como al-Kindi, al-Farabi, Avicena, al-Ghazali e Averróis. E os maulanas muçulmanos também não foram menos negligentes — nem uma única vez procuraram saber o que era estudado na escola tradicional vizinha. …Dizem que Sri Chaitanya conhecia o Islã …mas não sabemos que Chaitanya Deva tenha tentado promover um encontro doutrinal entre as duas religiões. O principal objetivo de sua vida era organizar e reformar o hinduísmo e conduzi-lo do caminho da destruição ao caminho de uma nova juventude. ….Os eruditos e filósofos hindus versados nas escrituras religiosas não obtiveram o menor benefício do conhecimento científico, da religião e da filosofia que os muçulmanos trouxeram, nem dos milhares de poetas, eruditos, teólogos e filósofos que, especialmente no período posterior, durante a era mogol, de Akbar a Aurangzeb, vieram a este país do Irã e do Turã devastados pelos mogóis e ofereceram todo o seu talento poético e erudição na corte mogol… Não se estabeleceu qualquer vínculo entre eles e os eruditos hindus.” — (Barobabu, Syed Mujtaba Ali).

A mensagem revolucionária do tawhid islâmico, que agitava o coração; a entrega de tudo ao Criador; a fraternidade universal e o amor do Islã; sua mensagem de igualdade e justiça; e seu ideal democrático produziam no coração humano uma atração e uma emoção irresistíveis. Como resultado, grupos e mais grupos de hindus passaram a buscar refúgio sob a sombra refrescante do Islã. Então, a tarefa do hinduísmo passou a ser a autodefesa. Diante da mensagem do Islã, a autodefesa não era nada fácil. Por isso, aqui e ali na Índia, através dos tempos, foram proclamadas e ecoaram mensagens de síntese e unidade religiosa, com o surgimento de pregadores e santos como Ramananda, Ekalavya, Dadu, Nanak e Kabir. Tomando como base o monoteísmo do Islã, eles quiseram reformar o hinduísmo com o objetivo de defendê-lo do Islã. Ou apenas tentaram introduzir a influência e a penetração do hinduísmo na religião islâmica, empurrando o Islã, como o budismo e o jainismo, diante do hinduísmo absorvente e totalizante.

A esse respeito, Abdul Mawdud diz:

“Esses movimentos, naturalmente, surgiram no campo político do século XX graças às amplas oportunidades e facilidades oferecidas aos brâmanes, e foram os próprios políticos hindus que, sob o rótulo de ‘nacionalistas’, levantaram a fumaça de uma cultura indiana; além disso, em pouco tempo, envolveram-se em esforços ativos para obstruir o Islã e a força muçulmana portadora do bastão e, se possível, expulsá-la. Então, sua atuação política e suas necessidades estatais tornaram evidente o discurso dessa tentativa de síntese. (Abdul Mawdud: O desenvolvimento da sociedade de classe média: a transformação da cultura, p. 25).”

Abdul Mawdud, citando a obra ‘Literatura em versos muçulmanos’, de Ahmad Sharif (revista Sahitya, edição das chuvas, 1367), diz:

“Há muitas provas de que esse objetivo se tornou evidente nos movimentos Sikh ou Vaishnava. Por necessidades estatais, o caminho da síntese manteve-se aberto desde o imperador Akbar até a época de Gandhi. A música ‘Ramdhun’, de Gandhi, e alguns poemas de Nazrul podem ser considerados as últimas tentativas nesse caminho”.

Depois, ele diz que, na realidade, essas foram novas tentativas do hinduísmo brâmane, ávido por tudo abarcar — esforços desesperados para, por esse caminho, absorver o Islã como uma jiboia. Por necessidades estatais, esse grande mantra da síntese religiosa e da unidade cultural foi entoado no passado e continua a ser entoado até hoje. (Abdul Mawdud, mesma obra, p. 25).

A breve discussão acima deixou claramente demonstrada esta verdade: a ridícula tentativa, levada a cabo desde o imperador Akbar até o segundo quartel do século XX, por motivos puramente políticos, de fabricar uma mistura confusa entre hindus e muçulmanos e fazê-la passar por uma única nação e cultura indianas, ou por uma única nação e cultura bengalis, foi rejeitada pelos que prezam a verdade, como uma moeda falsa e sem valor. Isso porque era anormal, irrelevante e impossível.

 Conflitos comunitários

É tão claro quanto a luz do dia que as duas grandes nações de Bengala e do subcontinente indiano — hindus e muçulmanos — são portadoras de duas crenças religiosas e culturas distintas. Mas a questão é: por que os seguidores dessas duas crenças religiosas distintas não conseguiram viver juntos, em paz e sem conflitos, no mesmo país? Por que, apesar de professarem religiões diferentes, não conseguiram construir entre si boa vontade, cordialidade e relações afetuosas? Quem é responsável por isso? Ambos ou apenas um dos grupos? Certamente, não será muito difícil encontrar a resposta correta nas páginas da história.

Não há dúvida de que a principal causa da oposição e dos conflitos entre hindus e muçulmanos é, sobretudo, política. Para alcançar esses objetivos políticos, convocou-se o próprio povo em nome da religião e o adversário foi qualificado como destruidor da religião e usurpador dos bens alheios. O adversário foi qualificado como estrangeiro invasor, assassino de homens e estuprador de mulheres. Retratando-o como estrangeiro invasor, assassino de homens, estuprador de mulheres e destruidor de ídolos e templos, criou-se entre o próprio povo um fanatismo religioso.

Como já foi mencionado, a população hindu deste subcontinente não conseguiu aceitar de coração e alma o governo muçulmano que se estabelecera em substituição ao governo hindu. Do século VIII até os séculos seguintes, durante várias centenas de anos, a força militar muçulmana — pode-se dizer, como ondas de uma maré de juventude — espalhava uma inundação por terras próximas e distantes. Diante dessa força irresistível, as forças políticas indianas não conseguiram sobreviver e, por isso, não foi possível impedir o governo muçulmano. Mas isso não significa que os hindus conquistados deste país tenham conseguido aceitar interiormente o governo muçulmano, por causa da dor, da humilhação e da vergonha pela perda de seus reinos. Sua alma ardia de revolta. A explosão do fogo de revolta e vingança acumulado ao longo de muitos séculos ocorreu por meio das rebeliões dos rajputs, maratas e siques na Índia Central, e alcançou êxito com a queda de Sirajuddaula, em 1757. A partir de então, até o fim do século XIX, durante um século e meio, desceu sobre a vida dos muçulmanos uma época de extrema desgraça. Empregaram-se todos os tipos de esforços e estratégias para expulsá-los da face da terra com a força conjunta dos hindus e dos ingleses. Nesse período, os hindus fizeram elogios exuberantes aos ingleses e espalharam calúnias indescritíveis contra o antigo governo muçulmano e seus governantes. A literatura e a poesia bengalis estão repletas de calúnias imaginárias contra o Islã e os muçulmanos. Desde os poetas Ishwar Chandra Gupta, Rangalal Bandyopadhyay, Hemchandra Bandyopadhyay e Nabin Chandra, e o literato e romancista Bankim Chandra Chattopadhyay, até todos os poetas e literatos hindus, grandes e pequenos, adotaram como missão lançar mácula sobre o caráter do Islã e dos muçulmanos. Muitos pensam que Sarat Chandra Chattopadhyay ficou atrás de todos na deformação do caráter dos muçulmanos; ainda assim, sua pena não foi menos venenosa.

Não foram poucos os esforços e as tentativas para promover a união entre hindus e muçulmanos no subcontinente indiano. Enquanto esforços desse tipo estavam em andamento, a pena de Sarat Babu não deixou de alfinetar os muçulmanos; em certa passagem de seu ensaio intitulado “A história de alguns aspectos”, ele diz:

“…ouvimos dizer que a unidade hindu-muçulmana foi finalmente concluída um dia no congresso nacional. Todos saíram e, suspirando aliviados, começaram a dizer: ‘Ainda bem, estamos salvos, não há mais com que nos preocupar. Os líderes resolveram o problema hindu-muçulmano; agora resta apenas trabalhar, apenas salvar o país.’ Depois de receberem folga, os representantes saíram em grupos, alugando tanga, ekka e automóveis, para ver todos os antigos monumentos. E não eram apenas um ou dois, mas muitos. Com guias ao lado e papel e lápis nas mãos, começaram a percorrer os lugares e voltar, recolhendo muitas informações: quais mesquitas foram construídas demolindo quantos templos hindus; quanto de cada ruína era hindu e quanto era muçulmano; quem, e quando, cortara o nariz e as orelhas de qual ídolo, e assim por diante. Por fim, ao término do dia, sentaram-se sob uma árvore, exaustos, e muitos começaram a deixar escapar da boca, entre longos suspiros: ‘Ah! A unidade hindu-muçulmana’.” — (Bijli, 25 de Ashwin de 1330).

O senhor Chattopadhyay acrescenta:

“Quaisquer que sejam os outros defeitos dos ingleses, eles não quebram o pináculo nem mesmo de um templo no qual não acreditam; não cortam o nariz e as orelhas nem mesmo do ídolo que não adoram. Portanto, basta olhar para o topo de qualquer santuário para compreender sua idade. O Swamiji nos mostrou: ‘Aquele é o templo de tal divindade — o imperador Aurangzeb o destruiu; aquele é o templo de tal divindade — tal imperador o arrasou; aquele santuário foi demolido e uma mesquita foi construída em seu lugar pelos ingleses’, e, com o coração inteiramente adoçado por histórias tão piedosas, voltamos ao ashram já tarde da noite.”

— (Bijli, 23 de Kartik de 1330).

Com a mesma pena, derramam-se flores e elogios sobre os ingleses, enquanto se decapitam os antigos governantes muçulmanos. Não só isso: nos templos hindus, instigam-se as pessoas contra os muçulmanos. Então é preciso dizer que os esforços pela união entre hindus e muçulmanos não passam de uma farsa, sem o menor vestígio de sinceridade.

O poeta Hemchandra Bandyopadhyay entoou, em exaltado louvor ao senhor inglês:

“Se não existisse este inglês,

hoje, neste ermo, quem ensinaria, quem mostraria

quem nos levaria pelo caminho

que abandonaste por tanto tempo”.

— (Shatabdi Parikrama, editado pelo Dr. Hasan Zaman, p. 284)

No primeiro quartel do século XIX, os muçulmanos de Bengala estavam sendo perseguidos, oprimidos e atormentados pelos zamindares hindus e pelo governo da Companhia; em protesto contra isso, o movimento Faraizi e o movimento de Saiyid Titumir assumiram proporções intensas em Bengala. Mais tarde, o movimento jihadista de Saiyid Ahmad Shahid provocou uma comoção em toda a Índia. Em seguida, o primeiro movimento de independência da Índia começou em 1857. Como todos esses movimentos terminaram em fracasso, será discutido no lugar apropriado o tipo de vida insuportável que os muçulmanos indianos levavam, submetidos à ira dos ingleses. Quando o corpo da sociedade muçulmana estava atormentado por prisões, enforcamentos, deportações para as ilhas, confisco de bens móveis e imóveis e diversos outros tormentos desumanos e diabólicos infligidos pelos ingleses, Bankimchandra Chattopadhyay começou a desferir os golpes cruéis de sua pena sobre o corpo já dilacerado da nação muçulmana. Nos romances Anandamath, Rajsingha, Durgेशनandini, Devi Chaudhurani e outros, suas invectivas contra os muçulmanos eram de tal natureza que era de esperar que o leitor ficasse arrepiado. Por meio de sua literatura, fez-se uma tentativa bem-sucedida de criar hostilidade contra os muçulmanos e de acender o fogo da vingança dos hindus mediante afirmações, conforme sua descrição, de que os muçulmanos haviam ‘destruído templos hindus’, ‘estuprado mulheres hindus’ e assim por diante. Em 1898, por iniciativa do Nawab Nawab Ali Chowdhury, foi aprovada, numa sessão da Muslim Education Society, uma resolução que protestava energicamente contra a propaganda de hostilidade aos muçulmanos na literatura bengali. A resolução foi publicada em inglês e enviada para publicação nos jornais e periódicos hindus. Nenhum jornal a publicou; somente o periódico Bharati fez um comentário sarcástico. — (Bengali Muslim Public Opinion as reflected in the Bengal Press-1901-30: Mustafa Nural Islam, pp. 141–42).

Como exemplos da propaganda de hostilidade de Bankimchandra contra os muçulmanos por meio da literatura, apresentam-se abaixo algumas citações:

“A princesa disse: ‘Estou colocando no chão este retrato do imperador Alamgir; que todos deem um pontapé com o pé esquerdo no rosto dele. Quero ver com o pontapé de quem o nariz dele se quebra’.” — [Rajsingha, 1º volume, 2º capítulo, Chitrodolona.]

“Aurangzeb tinha duas irmãs — Jahanara e Rauشنara. Jahanara era o principal apoio do reinado de Shah Jahan. … Ela era particularmente benéfica para o pai. Mas, na mesma medida em que possuía todas essas virtudes, era ainda mais devotada aos sentidos. Inúmeras pessoas eram objeto de sua atenção, para a satisfação dos sentidos. Entre essas pessoas, viajantes europeus mencionam o nome de um indivíduo cuja identificação não pude escrever sem macular minha pena!” — (Rajsingha, 2º volume, 2º capítulo: Jeb-un-Nissa.)

“Aurangzeb tinha três filhas. … A mais velha, Jeb-un-Nissa, não se casou. Como suas tias paternas, passou a vagar de flor em flor, bebendo o mel como uma abelha da primavera.” — (Rajsingha, 2º volume, 2º capítulo: Jeb-un-Nissa.)

Todo estudante de história há de reconhecer quanta mácula foi lançada sobre o caráter das castas e virtuosas mulheres muçulmanas. Bankimchandra lamentou, dizendo: ‘não pude macular minha pena’. Mas não deve restar ao leitor qualquer dúvida sobre o quanto a consciência e o gosto de uma pessoa precisam estar pervertidos e enfermos pelo simples ódio aos muçulmanos para que ela possa difamar de tal maneira o caráter de alguma mulher muçulmana, reclusa nos aposentos internos, coberta pelo purdah, casta, devota e temente a Deus.

Bankim não sentiu a menor hesitação em retratar de modo ainda mais abominável o caráter da virtuosa Jeb-un-Nissa. Não poderia ser de outro modo. Movido por um ódio cego aos muçulmanos, Bankimchandra satisfez seu desejo, deformando de ponta a ponta, de maneira abominável, o caráter do imperador Aurangzeb-Alamgir e de sua erudita filha Jen-un-Nissa.

No livro ‘Durgेशनandini’, é narrada a história de um amor ilícito entre Jagat Singh e uma mulher muçulmana fictícia chamada Ayesha. Sir Jadunath Sarkar diz sobre ‘Durgेशनandini’: “Quanto de história verdadeira há em ‘Durgेशनandini’, de Bankimchandra? Man Singh, Jagat Singh, Kutlu Khan, Khwaja Isa e Usman — todos eles são personagens históricos …. Fora isso, todo o restante de ‘Durgेशनandini’ é fictício.…

Ayesha, Tilottama e Bimala são todas fictícias. Elas provêm dos escritos de um historiador extremamente fantasioso, embora célebre na história, o capitão Alexander Dow (Alexnder Dow). Esse senhor, alegando traduzir frequentemente para o inglês a história do Industão escrita por Firishta, e acrescentando o nome de Firishta ao título de sua própria obra, fez circular uma quantidade insuficiente de relatos falsificados — coisas que Firishta não escreveu e que tampouco poderiam ter sido escritas por qualquer autor persa.” — [Obras de Bankim, 6ª edição, 1382 [calendário bengali] (Sobre os romances), pp. 29–30.]

É verdade que tanto os ingleses quanto os hindus demonstraram eloquência ao distorcer a história e o caráter dos muçulmanos. Contudo, é difícil dizer quem foi mais avançado nesse aspecto.

Em ‘Anandamath’, Bankimchandra, lançando invectivas contra o domínio muçulmano, diz: “Vejam todos os países que existem: Magadha, Mithila, Kashi, Kanchi, Délhi, Caxemira. Em que país há tamanha desgraça? Em que país as pessoas, por não terem o que comer, comem capim? Comem espinhos? Comem terra de cupinzeiro? Comem trepadeiras da floresta? Em que país as pessoas comem raposas e cães, comem cadáveres? Em que país as pessoas não têm tranquilidade para guardar dinheiro no cofre, não têm tranquilidade para colocar um shalagrama no trono, não têm tranquilidade para manter moças e noras em casa, não têm tranquilidade para gerar filhos no ventre das moças e noras? Abrem o ventre e retiram o filho. … Onde está o nosso rei muçulmano para nos proteger? A religião se foi, a casta se foi, a honra se foi, a linhagem se foi; agora até a própria vida se vai. Se não expulsarmos esses bêbados neṛe, o que restará do hinduísmo dos hindus?” — (‘Anandamath’, primeiro volume, décimo capítulo.)

Bankimchandra e seus discípulos doutrinários consideravam pecado empunhar a pena, em sua literatura, poesia e ensaios, sem usar, antes dos nomes dos muçulmanos, epítetos como ‘neṛe’, ‘mero neṛe’ e ‘mleccha’. Em ‘Durgēśanandinī’, Jagatsingh e a imaginária Ayesha são apresentados como apaixonados um pelo outro. Ainda assim, obtém-se satisfação pessoal chamando Ayesha de yavani. Ao final do vigésimo segundo capítulo, lê-se: ‘Embora Ayesha fosse uma yavani, era Tilottama e, por causa do grande afeto de Jagatsingh por ela, passou a viver no gineceu da fortaleza junto com suas companheiras’.

Zombando de Allah, do Alcorão Sagrado e das cinco orações diárias, no quarto volume, quinto capítulo, de ‘Anandamath’, lê-se:

Os muçulmanos começaram a dizer: ‘Allahu Akbar! Depois de tantos jejuns, será que o Alcorão Sagrado se tornou completamente inútil? Nós fazemos as cinco orações diárias, e mesmo assim não conseguimos vencer esse bando de hindus besuntados de óleo?’

Bipin Chandra Pal comenta sobre ‘Anandamath’:

“Em Anandamath, ele colocou a mãe-pátria como parte de Mahavishnu ou Narayana e uniu nosso amor pela pátria e nosso voto de serviço à terra natal ao amor pela humanidade em geral e ao serviço da humanidade universal. Não há culto à mãe-pátria sem Mahavishnu, ou Narayana, ou a humanidade universal. Esta é uma das ideias mais importantes de Anandamath.” — (‘A literatura bengali da nova era’, p. 109.)

Ramesh Chandra Dutt, em seu artigo intitulado “Bankimchandra Chattopadhyay” na ‘Encyclopaedia Britannica’ (11.ª edição, sexto volume, p. 110), diz:

“A essência de ‘Anandamath’ é pôr fim ao opressivo domínio muçulmano mediante a adoção do domínio britânico e do sistema educacional britânico. … Cedo ou tarde, ‘Anandamath’ está inspirado no ideal de estabelecer um reino hindu na Índia.”

Em suma, ao escrever ‘Anandamath’, Bankim Chandra, por um lado, incitou seus compatriotas contra a comunidade muçulmana e, por meio da canção ‘Vande Mataram’, em nome da religião — em nome da deusa-mãe pátria — criou entre os hindus um impulso de renascimento. A ideia de que esse renascimento seria possível mediante a opressão dos muçulmanos e mediante acolher e consolidar o domínio britânico neste país perpassa cada linha de Anandamath. A manifestação plena do mantra ‘Vande Mataram’ de ‘Anandamath’ ocorreu no movimento pela anulação da Partição de Bengala, no início do século XX.

A Partição de Bengala e o movimento contra a Partição de Bengala serão discutidos no lugar apropriado. Contudo, apresento aqui um breve vislumbre do terrorismo que nasceu sob a ideologia de ‘Vande Mataram’.

Abdul Maudud afirma:

O terrorismo não encontrou lugar em solo bengali no século XIX, nem recebeu a simpatia dos bhadralok. Antes de 1903, Barindra Kumar Ghosh retornou de Londres a Calcutá e tentou aumentar a agitação, mas não obteve nenhuma simpatia.

…Tendo fracassado, foi a Baroda procurar Aurobindo Ghosh. Aurobindo havia recebido educação superior na Inglaterra. Naquela época, era vice-presidente do Colégio Gaekwad. Em Baroda, Barindra compreendeu que a ação puramente política não teria êxito se a política não fosse integrada à religião. Por isso, planejou a ‘Samiti Anushilan’ com o objetivo de ensinar política junto com o estudo do Gita e ficou esperando o momento adequado.

“A oportunidade surgiu em 1904, e Aurobindo juntou-se em 1905. A divisão de Bengala entrou em vigor, e a comunidade educada dos hindus bengalis explodiu em revolta. A divisão recebeu uma forma religiosa, sendo apresentada como o desmembramento da ‘mãe Bengala’, e toda a Bengala hindu entregou-se ao movimento.” — (Abdul Maudud: Desenvolvimento da sociedade de classe média: transformação cultural, p. 202.)

Foi precisamente após receber a iniciação no mantra ‘Vande Mataram’ de ‘Anandamath’ que o terrorismo nasceu em solo bengali. O reconhecimento de Aurobindo Ghosh é a prova disso. Em 16 de abril de 1907, ele escreveu um artigo em inglês mencionando a contribuição de Bankim Chandra. Apresentamos abaixo um pequeno trecho:

“O primeiro Bankim era apenas um poeta e estilista — o último Bankim era um santo e construtor de uma nação”.

Isto é, “o Bankim dos primeiros tempos era um poeta e artista — o Bankim dos últimos tempos, um rishi e formador da nação”. Ele prossegue dizendo:

“Foi há trinta e dois anos que Bankim escreveu sua grande canção. O Maitra foi dado, e em um único dia todo um povo foi convertido à religião do patriotismo. A Mãe havia se revelado. Uma grande nação que teve essa visão jamais poderá novamente ser colocada sob os pés do conquistador”.

Isto é: “Há trinta e dois anos, Bankim compôs sua famosa canção ‘Vande Mataram’. O mantra foi entoado, e em um só dia toda a nação foi iniciada na religião da Mãe Pátria. A Mãe Pátria se revelou… Uma grande nação que alimentava esse sonho jamais será novamente pilhada aos pés do conquistador”. — [Shri Jogeshchandra Bagal — autor da apresentação sobre Bankim na introdução às Obras de Bankim, pp. 25–26.]

Na primeira parte do século XX, os periódicos muçulmanos publicaram fortes protestos e manifestações contra o envenenamento da sociedade muçulmana por meio da literatura de Bankim. Mas isso não produziu resultado algum. Pelo contrário, o terrorismo e a violência por parte dos hindus continuavam a aumentar progressivamente. O número de Jaistha de 1314 do calendário bengali (1907 d.C.) do periódico mensal Islam Prachar, publicado em Calcutá, divulgou a seguinte notícia sensacional:

“Com o propósito de expulsar os ingleses e os muçulmanos, hindus de todas as classes — desde os altamente instruídos até os alunos das escolas — estão sendo recrutados em grupos para aprender lathi e luta livre. Seus movimentos aterrorizantes acenderam o fogo da rebelião por toda Bengala. Esses bandidos mataram um muçulmano em Comilla, degolaram dois em Jamalpur e, disfarçados de faquires e sannyasis hindus e muçulmanos, estão espalhando o terror por toda Bengala. Disfarçados de maulvis, estão incitando os muçulmanos a saquear hindus, casar-se com viúvas hindus e estuprar mulheres hindus, dizendo que, nesse assunto, se pode obter ajuda garantida do governo e do nababo de Daca.”

O mesmo número de Islam Prachar também publicou a notícia de que, no Punjab, estavam sendo realizadas reuniões de protesto por parte das associações muçulmanas contra as atividades terroristas dos hindus e, em particular, contra as atividades dos vigaristas congressistas arianos-samajistas. Eles declaravam em termos inequívocos que os muçulmanos não tinham absolutamente nenhuma relação com esse terrorismo e essa anarquia hindus.

O tema de nossa discussão neste capítulo é o “conflito comunal”. A principal origem desse conflito comunal é a literatura de Bankim. Na literatura de Bankim, os muçulmanos são chamados por termos vis e insultuosos como “yavana”, “mleccha”, “nerê” e “patinê”; o extermínio desses yavanas e mlecchas é apresentado como o voto sagrado e a obra meritória da nação hindu. O mantra “Vande Mataram” inspira-os a exterminar os yavanas. Contudo, na primeira parte do século XX, enquanto por todo o país se entoavam canções de união hindu-muçulmana, a canção “Vande Mataram” era inevitavelmente cantada em reuniões e assembleias conjuntas de hindus e muçulmanos. Apesar das muitas objeções e protestos dos muçulmanos, eles não desistiram.

No número de Agrahayan de 1335 do calendário bengali (1928 d.C.), o periódico mensal Shariyate Islam publicou um editorial exigindo que a canção “Vande Mataram” fosse interrompida nas reuniões conjuntas de hindus e muçulmanos. O editor do The Mussalman, Maulvi Mujibur Rahman, apresentou uma resolução à Comissão Nacional do Congresso, solicitando que “Vande Mataram” fosse proibida em reuniões e assembleias. Mas nem isso produziu resultado algum.

Outra causa dos conflitos entre hindus e muçulmanos era o uso de instrumentos musicais pelos hindus diante das mesquitas, bem como a obstrução do sacrifício de bovinos pelos muçulmanos sob zamindares hindus e em áreas de maioria hindu. Muitas discussões e protestos a esse respeito não tiveram resultado algum.

Os movimentos de ‘shuddhi’ e ‘sangathan’ dos membros do Arya Samaj desferiram um golpe extremo contra a Índia muçulmana. Numa declaração feita por Lala Hardayal, um dos líderes desse movimento, publicada no Times of India em 25 de julho de 1925, dizia-se:

“Ou os muçulmanos terão de adotar o hinduísmo, ou terão de abandonar a Índia com a vida e a honra.” Satya Dev, principal discípulo de Swami Shraddhanand, do Arya Samaj, declarou na mesma época:

“Depois de adquirirmos poder, apresentaremos estas condições aos muçulmanos: ‘O Alcorão não poderá mais ser considerado um livro divino; não será permitido reconhecer Maomé como profeta de Deus; será preciso abandonar os ritos e festivais muçulmanos e observar os festivais hindus. Deverão abandonar os nomes muçulmanos e adotar nomes como Ramdhin, Krishnakhan etc. Em vez de prestar culto em árabe, deverão fazê-lo em hindi’”. Extraído de A History of the Freedom Movement, p. 262. — (Mustafa Nurul Islam: Bengali Muslim Public Opinion as refcted in the Bengal Press 1901-1930, p. 125).

A agitação política começou em Bombaim, quando o líder hindu Bal Gangadhar Tilak passou a dar destaque a dois festivais religiosos hindus, inflamando e excitando a opinião pública hindu. Um desses festivais era o culto de ‘Ganesh’, e o segundo, o festival de ‘Shivaji’. Por meio da instrução militar dos jovens das escolas e faculdades, e tomando esses dois festivais como centro, despertava-se a força kshatriya hindu. Durante a presidência do festival de Shivaji, Tilak citou a Bhagavad Gita e declarou que, quando não se trata de interesse pessoal, matar o guru e os parentes em nome da nação ou da mãe pátria não constitui pecado. Sob sua influência, estudantes e professores de escolas e faculdades, estimulados e exaltados, começaram a formar sociedades secretas para atividades violentas.

Após a Partição de Bengala, em 1906, esse movimento subitamente ganhou força, e passou-se a tentar reviver o hinduísmo mediante a celebração do ‘festival de Shivaji’ em toda a Índia. Todos os renomados líderes sociais hindus, políticos, poetas e escritores participaram alegremente desse festival. O poeta Rabindranath participou diretamente do movimento de renascimento do hinduísmo ao escrever ‘Festival de Shivaji’. Pronunciando ‘Que Shivaji triunfe ao auspicioso toque da concha’, ele recebeu iniciação nesse ‘mantra de meditação’:

Farei tremular como bandeira a veste ocre do asceta—

A força dos pobres.

‘Haverá um Estado de uma só religião nesta Índia’, este grande dizer

tomou como apoio.

(Indian Sedition Committee Report, 1918, p. 2; B. B. Misra: The Indian Middle Class: Their Growth; Abdul Maudud: O desenvolvimento da sociedade de classe média, ver).

Na Bengala e em toda a Índia, a política e o movimento de reavivamento do hinduísmo tornaram-se uma só coisa. O fanatismo religioso tornou venenoso e corrompido o ambiente político e, como resultado, começaram por toda parte as divergências e os conflitos entre hindus e muçulmanos. Começaram a tingir as mãos com o sangue uns dos outros.

Durante o movimento do Califado, ainda que temporariamente, as relações entre hindus e muçulmanos haviam melhorado. Mas, nessa época, a comunidade hindu foi, por assim dizer, acometida pela doença do ‘pânico muçulmano’. Essa doença era propagada principalmente por Bipin Chandra Pal, Pandit Madan Mohan Malaviya, Lala Lajpat Rai e Swami Shraddhanand. Esses quatro homens eram os promotores do movimento ‘Shuddhi-Sangathan’, e sua contribuição foi a maior para estabelecer a predominância do hinduísmo na política nacional do Congresso. Além disso, defendiam vigorosamente a introdução do hindi, escrito na grafia devanágari, em toda a Índia.

No editorial intitulado ‘O terror de Rabi Babu’, publicado no mês de Jaishtha de 1923 pelo semanário de Calcutá ‘Sultan’, editado por Riazuddin Ahmad e Maulana Moniruzzaman Islamabadi, lamentava-se:

“Lamentamos que até Rabindranath Tagore tenha sido acometido por essa doença. Ouviu-se dizer que ele afirmou: ‘Se o autogoverno for estabelecido na Índia, será instaurado o domínio muçulmano. Por isso, seria um erro fatal para os hindus aderirem ao movimento do Califado. Os muçulmanos transformaram Mahatma Gandhi em um fantoche. Os interesses hindus não têm absolutamente nenhuma relação com a Turquia e o Califado’.”

Concluindo, ‘Sultan’ diz: “É claro que reconhecemos Rabindranath como um poeta, um poeta célebre, um poeta mundialmente famoso… mas ele não é um político; está aterrorizado pelo pânico imaginário do domínio muçulmano na Índia”.

-(Mustafa Nurul Islam, Bengali Muslim Public Opinion as Reflected in the Bengali Press 1901-1930, pp. 147-148).

Em suma, não havia absolutamente nenhuma sinceridade na adesão do Congresso ao movimento do Califado; os muçulmanos pensaram que, desta vez, talvez chegasse ao fim o conflito entre hindus e muçulmanos. Mas isso não aconteceu.

S. K. Majumdar afirma em sua obra ‘Jinnah e Gandhi’:

“Durante o movimento do Califado, a unidade hindu-muçulmana não se estabeleceu sobre nenhuma base sólida. Para os muçulmanos, tratava-se de um movimento religioso; nele não havia qualquer intenção de tornar a Índia independente. Gandhi, por outro lado, adotou-o como o principal instrumento para alcançar seus próprios objetivos. Gandhi disse: ‘Creio que o Califado era uma questão central para nós dois — para Maulana Muhammad Ali, era sua religião. E, para mim, significa garantir a proteção e a segurança das vacas, sacrificando a vida pela causa do Califado. Ou seja, estou protegendo minha religião contra a faca do muçulmano’.”

Não é preciso dizer que, por “religião”, Gandhi-ji se referia aqui justamente à “religião da vaca”. Proteger a “religião da vaca”, ou a espécie bovina, da faca dos muçulmanos significava proibir para sempre o sacrifício de bovinos pelos muçulmanos em território indiano.

Ao examinar o registro de todos os conflitos entre hindus e muçulmanos ocorridos de 1870 a 1893, saber-se-á que sua causa imediata (Immediate cause) era esta: durante os primeiros quatro anos, a Durga Puja dos hindus e o sacrifício dos muçulmanos ocorriam ao mesmo tempo, praticamente no mesmo dia. Se a questão fosse simplesmente que cada um celebrasse sua própria festividade — os hindus realizando a Durga Puja e os muçulmanos o sacrifício —, tudo bem. Mas não era assim. Os muçulmanos não podiam de modo algum sacrificar bovinos. Já os hindus certamente realizariam sua Durga Puja. Pelo contrário, no dia da imersão, passariam diante das mesquitas em procissão, tocando tambores e instrumentos musicais. Assim, os tumultos e conflitos eram inevitáveis. Criavam deliberadamente a agitação, provocavam conflitos e colocavam o muçulmano no banco dos réus como acusado de assassinato, para então proferir a sentença: “Meu filho, agora volte para o país de onde veio, levando consigo sua vida, seus bens, sua honra e seu respeito”. Há motivos razoáveis para pensar que tudo isso era feito segundo um plano previamente elaborado. Mais tarde, os membros do Arya Samaj e os líderes do Hindu Mahasabha repetiram várias vezes exatamente isso. Bankim, em Anandamath, iniciara os discípulos, por meio do mantra Vande Mataram, no sacrifício ritual destinado ao extermínio dos “yavanas e mlecchas”; e o que diziam era: “Depois do massacre, vocês que tiverem sobrevivido, abandonem a Índia”.

Os ingleses também tinham grande interesse em apoiar o lado hindu nos conflitos planejados. Pois, até o fim do século XIX, os muçulmanos eram um espinho em seus olhos. Em 1883, John Bright fundou em Londres uma associação chamada Indian Committee e fez dela membros cinquenta parlamentares ingleses. Em 1885, Allan Hume fundou o Congresso Indiano. Hume era um oficial aposentado do Serviço Civil Provincial de Bengala. Três ingleses tornaram-se presidentes desse Congresso, e foram eles que promoveram o Congresso na Inglaterra, apresentando-o aos ingleses como uma instituição popular. Em 1888, Charles Bradlaugh foi nomeado funcionário assalariado em tempo integral do Congresso. William Digby foi encarregado da propaganda do Congresso em Londres. Em 1889, foram gastas 2.500 libras na propaganda do Congresso. Digby promovia a ideia de que o Congresso era o único porta-voz de todas as nações, comunidades e classes da Índia — inclusive dos muçulmanos.

Enquanto a terra da Índia se tingia de sangue nos conflitos entre hindus e muçulmanos, não havia nem uma pessoa nem uma instituição que falasse em favor dos muçulmanos. Entretanto, o Indian Committee da Grã-Bretanha, apoiando o próprio Congresso, dizia: “A harmonia entre as comunidades permanece intacta na Índia”.

Nas eleições britânicas de 1905, vários oficiais aposentados do ICS que haviam retornado da Índia tornaram-se membros da Câmara dos Comuns. Eles formaram o Comitê Parlamentar Indiano. Sir Henry Cotton era um de seus membros. Ele se orgulhava de cumprir a responsabilidade de apresentar no Parlamento britânico as esperanças e aspirações dos indianos. Costumava proclamar: “Todos os indianos, independentemente de raça ou religião, orgulham-se de pertencer a uma única nacionalidade”. Quando violentos tumultos comunais ocorriam em lugares como Lahore e Karnal, e os terroristas hindus criavam pânico por meio de saques e pilhagens no movimento contra a Partição de Bengala, Henry Cotton dizia: “Os interesses dos muçulmanos não são apoiados em nenhum lugar além da imprensa hindu”. No que diz respeito à revogação da Partição de Bengala, essa questão não era apoiada em nenhum lugar além da imprensa. O comportamento dos cavalheiros ingleses, aliados dos hindus, em relação à revogação da Partição de Bengala já foi discutido no capítulo anterior.

Foi dito acima que se tentou promover a união entre hindus e muçulmanos por meio do movimento Khilafat. Entretanto, depois que a mentalidade da nação hindu se revelou claramente em Bengala e em toda a Índia após a Partição de Bengala, também fracassou a tentativa de aplicar sobre ela, no movimento Khilafat, uma espécie de revestimento artificial. O acontecimento mais doloroso e horripilante desse período foi a perseguição e a opressão desumanas e demoníacas infligidas à comunidade muçulmana Mappila.

Notícias contraditórias sobre esse assunto começaram a ser publicadas nos jornais da Índia. Os jornais e líderes hindus, especialmente os dirigentes do Mahasabha Hindu e do Arya Samaj, exageraram excessivamente os acontecimentos reais, provocando tumultos e distúrbios na Índia hindu. Em 1922, foi publicado em Amritsar um folheto intitulado “Dastane Zulm”. Outro folheto, intitulado “A Narrativa Sangrenta de Malabar”, foi publicado em Saharanpur. A maior parte das notícias contidas nesses dois folhetos era exagerada, fictícia e baseada em fontes não confiáveis.

O resumo das informações publicadas no primeiro folheto é o seguinte:

A comunidade Mappila armada de Malabar estaria envolvida em assassinatos, saques, estupros de mulheres, conversões forçadas de hindus ao Islã, entre outras atividades. Dizia-se que, primeiro, eles davam banho em um homem hindu. Em seguida, cortavam-lhe o cabelo à maneira muçulmana e, depois, obrigavam-no a recitar a profissão de fé muçulmana. Depois de vestir as meninas com roupas dos Mappilas, furavam-lhes as orelhas e colocavam-lhes brincos.

O segundo folheto afirmava que os muçulmanos de Malabar obrigavam os hindus a aderir ao movimento Khilafat e a se tornarem muçulmanos. Se a pessoa não consentisse, prendiam-na em casa e enfiavam carne de vaca em sua boca. Seus entes queridos e parentes eram espancados diante de seus olhos. Se, ainda assim, ela não aceitasse tornar-se muçulmana, era morta, esquartejada e lançada em um poço, e sua casa era incendiada. Os templos estavam sendo destruídos e as imagens, despedaçadas. Os ascetas hindus estavam sendo obrigados a vestir peles cruas de vaca. — (A. Hamid, Muslim Scparalismin India, pp. 158–159): (Dastane Zulm — Secretário da Associação Hindu Auxiliar de Malabar, Amritsar, 1922).

Fazia-se um veemente apelo à nação hindu, nos seguintes termos:

“Ó nação hindu, desperta! Teu sono trará tua morte. Determina-te a defender-te. Tua fraqueza te destruirá. A morte é cem vezes preferível a viver uma vida de humilhação. O sofrimento e a miséria de teus irmãos são também teus.” — (A. Hamid, Muslim Separation in India, p. 159, Dastane Zulm, idem).

Para conhecer os fatos reais, foi atribuída a responsabilidade a uma comissão formada em nome da organização central do Khilafat. O resumo do relatório apresentado por essa comissão após investigar a situação no local é o seguinte: não é correta a caracterização, na declaração oficial do governo, dos acontecimentos de Malabar como uma “rebelião contra o governo”. A situação era normal e não havia o menor sinal de rebelião. Assim como os muçulmanos de outras partes da Índia, os Moplahs também aderiram ao movimento do Khilafat. Contudo, o secretário do comitê local do Khilafat foi capturado e amarrado a uma árvore. Sua esposa foi levada até ali, e, diante de seus olhos, sua pele foi arrancada. Depois, um policial deu um tapa no rosto de uma pessoa respeitada entre os Moplahs por uma insignificante infração às leis de trânsito. Outro ativista do Khilafat foi injustamente envolvido na acusação de fabricação de armas. Por fim, a polícia entrou à força nas casas dos Moplahs, saqueou todos os seus pertences e submeteu os proprietários a torturas bárbaras. Não satisfeita com isso, a polícia disparou indiscriminadamente contra eles. A comunidade Moplah era extremamente corajosa e guerreira. Por isso, saiu vitoriosa no confronto com a polícia. Então, enfurecidos, os Moplahs danificaram os fios telegráficos e as linhas ferroviárias. Até aquele momento, mantinham plena cordialidade com os hindus. Embora fossem ativistas do Khilafat, eram congressistas. Pregavam a união hindu-muçulmana e protegiam os bairros hindus e seus bens. — (A. Hamid, Muslim Separation in India, p. 159-160; Kashfe Haqeeqat-e Malabar-Badaun, 1923).

Duas semanas depois, numerosas forças policiais e militares, equipadas com armamento pesado, retornaram e controlaram a situação. A maioria dos hindus começou a atuar como informante, fornecendo notícias sobre os Moplahs “rebeldes”. Como resultado, os Moplahs ficaram ressentidos com os hindus. A polícia instigou os hindus contra os Moplahs. Os ativistas do Arya Samaj também os ajudaram. A polícia e as forças militares, agindo conjuntamente, passaram a vingar-se dos Moplahs. Sob o regime militar, tiveram de suportar torturas desumanas. Centenas de Moplahs ficaram desabrigados e reduzidos à miséria. Centenas de pessoas foram presas, e duzentas foram condenadas à morte — (A. Hamid, ibid., p. 160; Kashfe Haqeeqat-e Malabar).

Foi relatado no Indian Annual Register que, depois de derrotarem a polícia e a administração governamental, os Moplahs estabeleceram o Khilafat e declararam jihad contra os governantes. A notícia de conversões em massa de hindus era infundada. Os Moplahs escondiam-se nas florestas e selvas e empreendiam atividades de guerrilha.

O referido registro menciona uma barbaridade sem paralelo. Cem prisioneiros Moplahs foram colocados em um vagão de carga ferroviário, cujas portas foram fechadas, e enviados para outro lugar. Quando as portas foram abertas ao chegarem ao destino, constatou-se que 66 haviam morrido e que os restantes estavam em estado agonizante. O registro comenta: somente o futuro poderá revelar quantos acontecimentos desumanos e horripilantes desse período permanecem desconhecidos nos capítulos sombrios da história de Malabar — (A. Hamid, Muslim Separatism in India, p. 160; Indian Annual Register 1922, p. 266).

Esses acontecimentos atraíram a atenção dos hindus e muçulmanos de toda a Índia. A Índia muçulmana ficou profundamente consternada e lançou um apelo por ajuda aos Moplahs. De todos os lados veio uma resposta extraordinária. Por outro lado, os jornais e líderes hindus continuaram a incitar os hindus a buscar vingança.

Novos conflitos entre hindus e muçulmanos começaram em todo o país. O primeiro ocorreu por ocasião do festival de Muharram. Em 1923, ele se repetiu, e houve violentos confrontos em Saharanpur. Diz-se que ali o número de mortos foi superior a trezentos. No ano seguinte, em dezoito tumultos, 86 pessoas morreram e 776 ficaram feridas. O confronto mais extremo ocorreu em Kohat. Sua causa principal foi a publicação, por um hindu, de um poema contrário ao Islã. Nos tumultos que duraram dois dias, 36 pessoas morreram e 145 ficaram feridas; lojas foram saqueadas e propriedades no valor de aproximadamente setenta mil rúpias foram destruídas. Embora a situação tenha ficado um pouco mais tranquila no ano seguinte, 1925, em 1926 o fogo voltou a arder intensamente. Nesse ano, ocorreram ao todo 36 tumultos em todo o país, resultando na morte de duas mil pessoas. Os tumultos daquele ano começaram na cidade de Calcutá, por causa da música tocada pelos hindus diante de uma mesquita. Antes que a situação fosse controlada, duzentas lojas foram saqueadas, doze locais sagrados foram destruídos ou danificados, ocorreram 150 casos de incêndio criminoso e o número de mortos e feridos chegou a 1.450.

Em 1927, ocorreram 31 tumultos em todo o país, quebrando todos os recordes anteriores. Dessa vez, o número de mortos e feridos foi de 1.600. O número de mortos foi de 140.

Em 1928, a situação se acalmou um pouco. Porém, entre fevereiro e maio de 1929, ocorreram tumultos na cidade de Bombaim, fazendo com que o número de mortos e feridos chegasse a 1.100. Assim como nos tumultos anteriores de Calcutá, lojas também foram saqueadas aqui. Em 1931, violentos tumultos começaram em Kanpur, e assassinatos, saques e incêndios continuaram durante três dias. O conflito entre hindus e muçulmanos começou quando se tentou fechar lojas à força em homenagem a um assassino hindu; numerosas mesquitas e templos foram destruídos, e muitas casas foram incendiadas. — (A. Hamid, Muslim Separation in India, p. 162; Cumming, Political India, p. 114-17).

Quando os relatos desses confrontos, apresentados em nome de hindus e muçulmanos, foram expostos a Gandhi, ele lançou a culpa sobre os próprios muçulmanos. Gandhi comentou: “Não tenho dúvida alguma de que, na maioria das disputas, os hindus ocupam o segundo lugar. Minha opinião, baseada em minha experiência pessoal, é que os muçulmanos são por natureza de índole goonda, enquanto os hindus são naturalmente covardes. E, onde quer que haja pessoas covardes, sempre haverá uma gangue de goondas.”

(The Indian Quarterly Register, p. 647; A. Hamid: Separation in India, p. 105).

O Sr. Gandhi não foi útil para reprimir a desunião e os conflitos entre hindus e muçulmanos. Pelo contrário, seu comentário acima declarou os muçulmanos culpados e tornou-se um poderoso certificado de legitimação para os desordeiros hindus.

Ao compreender que a desunião ou os conflitos entre hindus e muçulmanos eram um obstáculo no caminho da conquista da independência da Índia, não se pode dizer que o Sr. Gandhi não tenha ficado perturbado. Contudo, não se observou qualquer esforço seu para encontrar uma solução adequada e duradoura para a união entre hindus e muçulmanos.

Certa vez, ele disse que uma solução permanente entre hindus e muçulmanos só poderia ser alcançada com base em um acordo ou pacto. Mas, posteriormente, disse: “Um pacto pode produzir unidade. Mas não pode fazer com que nos tornemos um só. Se o pacto for a base para nos tornarmos um só, será completamente sem sentido, ou antes, pior do que isso. A própria natureza do pacto é o separatismo. O pacto não desperta o desejo de aproximar uns dos outros, não cria um espírito de sacrifício e tampouco consegue unir os grupos para alcançar o objetivo principal. Em vez de aproximarem-se uns dos outros, os grupos submetidos ao pacto tentam obter uns dos outros tanto quanto possível. Em vez de fazer sacrifícios para promover o interesse comum de todos, os grupos submetidos ao pacto cuidam sempre para que o sacrifício de um grupo não resulte no benefício do outro. …Sem a união dos corações entre hindus e muçulmanos, o ‘swaraj’ permanecerá apenas um sonho.”

Mas, logo depois, ele disse novamente: “O problema do ‘swaraj’ não é menos importante que o problema da proteção das vacas; enquanto não formos capazes de proteger as vacas, não poderemos alcançar a independência.” Essas declarações de Gandhi provam que a independência indiana era apenas outro nome para a realização dos estreitos interesses do hinduísmo. Em um discurso como presidente de uma conferência de união realizada em Lahore, ele expressou temor diante da maioria muçulmana no Punjab. Também manifestou receio de que, se num futuro próximo o Punjab se tornasse a terra natal de uma nação versada na guerra, a paz do subcontinente seria destruída. — (Muhammad Amin Zuberi, Sirasat-e Millia, pp. 175–84).

Quando o corpo social hindu e muçulmano estava ensanguentado pelos motins e tumultos, ele poderia ter usado sua enorme personalidade e influência em benefício de ambos. Em vez disso, afastou-se da política, começou uma vida reclusa no ashram de Sabarmati, próximo de Ahmedabad, e passou seus dias como espectador imparcial da política indiana. Contudo, em vez de permanecer completamente ocioso, escreveu artigos sobre a grandeza do khadi e dos tecidos feitos à mão, os benefícios do leite de cabra, os malefícios das vacinas e injeções, o valor nutritivo da soja, entre outros assuntos; quanto às relações entre hindus e muçulmanos, manteve-se calado. (Muhammad Amin Zuberi: Sirasat-e Millia, p. 170).

A verdadeira face da nação hindu da Índia foi desmascarada por meio do Congresso Nacional Indiano depois de 1937, quando, depois de 1935, quando, sob a Lei da Índia de 1935, foram formados ministérios nas províncias da Índia com base na autonomia provincial; foram formados ministérios nas províncias muçulmanas com base na autonomia provincial, e ele recebeu a responsabilidade de formar ministérios em quatro províncias muçulmanas e sete províncias hindus. O Congresso Indiano — a única instituição política representativa de todas as nações e comunidades da Índia, sem distinção entre hindus e muçulmanos. O poder governamental futuro da Índia deveria ser confiado unicamente ao Congresso. Por outro lado, a Liga Muçulmana, a única instituição representativa dos muçulmanos indianos, vinha expressando o temor de que, se o poder de governar fosse transferido para as mãos do Congresso, todos os interesses dos muçulmanos indianos seriam esmagados, e a nação muçulmana teria de abandonar sua religião, suas tradições e sua tahzib-tamaddun, tornando-se escrava dos hindus.

Depois de 1937, as reivindicações do Congresso foram comprovadas como falsas, e os temores dos muçulmanos tornaram-se realidade. O Congresso formou ministérios majoritários em Madras, nas Províncias Unidas, nas Províncias Centrais, em Bihar, Orissa, Bombaim e na Província da Fronteira Noroeste.

Antes das eleições, esperava-se que, nas províncias de maioria muçulmana, especialmente nas Províncias Unidas e em Bombaim, o Congresso formasse ministérios de coalizão com membros da Liga Muçulmana. Foi dada instrução aos governadores de que eles deveriam ser incluídos no ministério. Nas Províncias Unidas, os muçulmanos constituíam um sexto da população total. Ali, sua influência e coesão eram muito maiores em proporção ao seu número e, por isso, havia um entendimento não escrito entre o Congresso e a Liga Muçulmana de que pelo menos dois ministros seriam escolhidos da Liga Muçulmana. Contudo, nenhum membro da Liga Muçulmana recebeu lugar no ministério nas Províncias Unidas e em Bombaim. Foi nesse ponto que o Congresso cometeu um erro fatal. O Congresso declarou, em termos inequívocos, que somente ele representava toda a Índia. Para os muçulmanos, isso equivalia à submissão ao domínio hindu. Como consequência, surgiu o brado “o Islã está em perigo”, e o “governo do Congresso” passou a ser considerado muito pior que o domínio britânico. Na troca de cartas entre o Pandit Jawaharlal Nehru e o Sr. Jinnah, ocorrida no início de 1938, a reivindicação de Nehru era a de uma Índia unida e secular, enquanto a reivindicação do Sr. Jinnah era que a Liga fosse reconhecida como detentora de status igual ao do próprio Congresso. Não foi possível resolver a questão com base em qualquer fórmula ou acordo — (H.V. Hodson: The Great Divide, p. 63, pp. 66-67).

Depois de 1937, as grandes declarações do Congresso — de que, uma vez estabelecido o governo do Congresso na Índia, seria feita justiça a todas as classes e comunidades, os interesses das minorias seriam protegidos, e assim por diante — foram comprovadas como falsas. De 1937 a 1939, os dois anos e meio de governo do Congresso em sete províncias da Índia ganharam notoriedade como o “Ram Raj hindu”; por meio da injustiça e da opressão contra os muçulmanos, das tentativas de eliminar sua religião, cultura e civilização, entre outras coisas, o Congresso perdeu completamente a confiança dos muçulmanos de toda a Índia. Na sessão da Liga Muçulmana realizada em Patna, em dezembro de 1938, o Sr. Muhammad Ali Jinnah declarou que todas as esperanças de paz e harmonia comunitárias haviam sido despedaçadas pelo “fascismo do Congresso”. Em toda a Índia, começaram a ocorrer manifestações dos muçulmanos exigindo o fim do opressivo governo do Congresso.

A Liga Muçulmana formou um comitê para investigar as injustiças e os maus-tratos cometidos contra os muçulmanos nas províncias governadas pelo Congresso. O relatório apresentado por esse comitê ficou conhecido como “Relatório Pirpur”. Um comitê formado pela Liga Muçulmana provincial de Bihar apresentou um relatório intitulado “Queixas e privações dos muçulmanos de Bihar”. Ele foi denominado “Relatório Sharif”. O “Relatório Sharif” foi apresentado em março de 1939, depois do “Relatório Pirpur”. Em seguida, em dezembro, o primeiro-ministro de Bengala, Sr. A. K. Fazlul Huq, apresentou um relatório intitulado “O sofrimento e as dificuldades dos muçulmanos sob o governo do Congresso”. Os jornais e periódicos hindus negaram as acusações descritas nos relatórios, e o governo de Bihar rejeitou o “Relatório Pirpur”.

H.V. Hodson diz em seu livro The Great Divide:

“É um fato bem conhecido da história da Índia que, desde que hindus e muçulmanos começaram a viver lado a lado neste país, sempre existiu certo grau de tensão religiosa. Tomemos, por exemplo, a adoração da vaca, a obstrução ao chamado para a oração, a profanação de mesquitas, o estupro e o rapto de mulheres, entre outros ataques pessoais. Por outro lado, existem novas queixas de natureza política e administrativa, especialmente as descritas no razoável ‘Relatório Pirpur’. O hindi está sendo favorecido e o urdu, marginalizado; a polícia e os magistrados estão demonstrando parcialidade; os muçulmanos estão sendo privados de sua parcela justa nos empregos públicos; eles não esperam qualquer justiça dos ministérios do Congresso; governos paralelos semelhantes estão sendo autorizados pelos comitês do Congresso; o governo do Congresso, isto é, o governo hindu; por toda parte a bandeira do Congresso está sendo hasteada, a canção anti-islâmica ‘Bande Mataram’ está sendo cantada como hino nacional e o sistema de educação rural está sendo introduzido de acordo com o ‘Plano de Wardha’. Este é o ideal imaginado pelo Sr. Gandhi, fundamentado na não violência, na produção e tecelagem de fios e na abstinência da religião. Os muçulmanos têm de se rebelar contra isso, pois sua educação primária sempre se baseou no Alcorão.” — (H.V. Hodson, The Great Divide, pp. 73-74).

O Sr. Hodson prossegue:

“Os governadores britânicos das províncias governadas pelo Congresso geralmente sustentavam a opinião de que, embora seus ministros tentassem, em muitos casos, permanecer imparciais em questões comunitárias, nas cidades distritais e nas áreas rurais a tendência dos congressistas ao poder os levava a envolver-se em comportamentos arrogantes e provocadores. Em suma, no futuro, o país seria governado por um centro majoritário. E por trás dele haveria uma organização que jamais toleraria oposição nem aceitaria compartilhar seu poder com quem quer que fosse. Não há dúvida de que os dois anos e meio de autonomia provincial, de 1937 a 1939, foram a causa da propagação da teoria das duas nações e do movimento pelo Paquistão.” — (H.V. Hodson: The Great Divide, p. 74)

Para resolver os conflitos e as divergências entre hindus e muçulmanos na Índia, o poeta Iqbal aconselhou, em 21 de junho de 1937, a divisão do pátio. Em 7 de julho, o poeta Rabindranath Tagore, dirigindo-se à comunidade estudantil muçulmana, disse:

Tornai preciosa essa calamidade em nome da religião

Insultai Deus

Dividindo o pátio, tu e eu em lados opostos

A que demônio adoramos?

Depois disso, transcorreram dez anos em meio a maiores divergências e conflitos. Acima já foi feita referência aos dois anos e meio do infame governo do Congresso. Em 17 de outubro de 1939, durante a Segunda Guerra Mundial, o vice-rei da Índia, Lord Linlithgow, divulgou uma declaração conclamando o Congresso e a Liga Muçulmana a ajudar e apoiar o governo britânico na guerra. Não por demonstrar simpatia pelos protestos dos muçulmanos, mas por não poder concordar com a declaração do vice-rei, o alto comando do Congresso ordenou que os ministérios renunciassem. Eles cumpriram silenciosamente essa ordem, e o mau governo do Congresso chegou ao fim nas sete províncias. Por isso, sob a liderança da Liga Muçulmana, os muçulmanos celebraram em todo o país o “Dia da Salvação”.

Fosse ou não justa a celebração do “Dia da Salvação” em todo o país por iniciativa da Liga Muçulmana, uma coisa se tornou tão clara quanto a luz do dia: neste país, a unidade e a concórdia entre hindus e muçulmanos no campo do governo já não eram de modo algum possíveis. Portanto, conforme o conselho de Allama Iqbal, não restava outro caminho para uma solução permanente senão dividir o pátio. Mas não havia disposição alguma para dividir o pátio. Por isso, um conflito ainda maior entre os dois lados era inevitável. Por fim, o pátio foi dividido após dez anos sangrentos. Isto é, dividindo o pátio da Índia, em 14 de agosto de 1947 nasceu o Estado do Paquistão para os muçulmanos. Porém, os muçulmanos que permaneceram no pátio da Índia tiveram de pagar um alto preço durante muitos anos, pelo “crime” de terem desejado a divisão do pátio.

Sétimo capítulo

A educação tradicional dos muçulmanos

Os muçulmanos sempre atribuíram importância imensa ao estudo e à aquisição de conhecimento. Pois essa era a instrução de seu Profeta. Por mais dispendioso e difícil que fosse, e, se necessário, mesmo viajando de um país a outro, era preciso estudar e adquirir conhecimento — essa era a instrução clara do Profeta do Islã, Muhammad Mustafa (SA). No passado, a nação muçulmana cumpriu essa instrução à risca. Foram eles que, em certa época, acendendo a tocha do conhecimento, iluminaram a Europa mergulhada nas trevas, conduzindo-a ao mundo da educação e do saber. Este é um fato histórico. Em todo o mundo muçulmano, as pessoas instruídas são vistas com especial honra e respeito. Um pai muçulmano procura, tanto quanto pode, proporcionar educação aos seus filhos, considerando isso seu dever e preceito religioso.

Ao se examinar a história passada dos muçulmanos indianos, sabe-se que, quando uma criança completava quatro anos e quatro dias de idade, iniciava-se sua educação. Em uma cerimônia especial, recitavam-se para a criança alguns trechos do Sagrado Alcorão, e a criança os repetia. Essa era uma prática indispensável em toda família muçulmana. (A.R. Mallick, Br. Policy & the Muslims in Bengal, p. 149; M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & Eng. Education, P. I; L.F. Smith, Appendix to Chahar Darvesh, p. 253).

O Sr. Smith presenciou essa cerimônia em 1801, na Província da Fronteira Noroeste, e a descreveu em sua obra ‘Chahar Darvesh’.

Os governantes muçulmanos da Índia incentivaram de várias maneiras o estudo e a aquisição de conhecimento, destinando para isso enormes quantias. Na corte real, os sábios, eruditos e estudiosos eram especialmente honrados. Para promover a educação, grandes extensões de terras lakhraj eram doadas em diferentes partes do reino. Não havia mesquita ou imambara onde não houvesse professores encarregados de lecionar em árabe e persa.

Onde o número de muçulmanos era maior, abriam-se maktabs para a educação primária, e as crianças muçulmanas aprendiam ali árabe, persa e ensinamentos islâmicos. Os sultões de Bengala, em particular, eram ainda mais devotados à educação e prestavam todo tipo de ajuda e apoio à sua expansão. Inspirados por eles, zamindares muçulmanos, lakhrajdares, aymadaras e outros nobres líderes muçulmanos fundavam maktabs e madraças em suas respectivas regiões, doando grandes riquezas e terras para custear suas despesas.

Muhammad Bakhtiyar Khilji, o primeiro sultão de Bengala, era extremamente dedicado à educação e, seguindo o exemplo do imperador de Délhi, Qutbuddin Aibak, estabeleceu mesquitas, colégios e dargahs (centros de ensino do Alcorão e dos hadiths) em diversas partes do país. (S.M. Jaffar, Education in Muslim India, 1935, p. 66; N.N. Law, Promotion of Learning in India during Muhammadan Rule, pp. 19–22).

Logo depois de ascender ao trono de Bengala, o primeiro Ghiyasuddin (1212–27 d.C.) construiu na capital de Bengala, Lakhnauti ou Lakshmanavati, uma mesquita belíssima, um colégio e uma hospedaria. O segundo Ghiyasuddin (1367–1373) era ele próprio um poeta renomado. Ele fundou um colégio em Darsbari, nas proximidades da aldeia de Ompur. (M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & English Education, p. 4). Também durante o reinado de sultões como Hussain Shah e Nasrat Shah houve enorme progresso na educação.

Murshid Quli Khan era extremamente erudito e um excelente homem de letras, e sempre honrava os sábios e as pessoas virtuosas. Mantinha aproximadamente dois mil ulemás e membros da comunidade de eruditos. Eles estavam sempre ocupados recitando o Sagrado Alcorão, estudando a religião e realizando ritos e cerimônias religiosas. Ghulam Husain relata em sua história que, inspirado por Murshid Quli Khan, um zamindar de Birbhum chamado Asadullah gastava metade de sua renda com o sustento de pessoas instruídas e outras obras de bem-estar. Ghulam Husain acrescenta que Alivardi Khan convidou eruditos instruídos das regiões ocidentais da Índia para se estabelecerem em Murshidabad e providenciou uma generosa pensão para cada um deles. Eles trouxeram consigo um número tão grande de livros valiosos que, somente na biblioteca de um certo Mir Muhammad Ali, havia dois mil ou mais volumes. — (M. Fazlur Rahman: The Bengali Muslims & English Education, p. 5; Ghulam Husain, Seiyere-Mutakherin, vol. 2, pp. 63, 69, 70 e 165).

É extremamente difícil obter um relato preciso das inúmeras instituições educacionais, maktabs, madraças, colégios e outras que existiam no interior do país para o ensino e o cultivo do conhecimento durante o período do governo muçulmano. Após o fim do governo muçulmano, essas instituições educacionais quase desapareceram. Algum relato fragmentário do que ainda existia pode ser encontrado nos relatórios sobre educação elaborados por Buchanan Hamilton e W. Adam, respectivamente entre 1807 e 1814 e entre 1835 e 1838. W. Adam afirma que, em Kasba Bagha, no distrito de Rajshahi, quarenta e duas aldeias foram doadas para instituições educacionais e obras de serviço público. (Adam, Second Report, p. 37). Todas as despesas dos estudantes que frequentavam a instituição educacional de Kasba Bagha — como alojamento, alimentação, vestuário, livros, papel e lápis, tinta e caneta, artigos de higiene e outros — eram custeadas pela própria instituição. — (A.R. Mallik, Br. Policy & Muslims in Bengal, p. 150).

Inspiradas pelo Alcorão e pelo hadith, as pessoas abastadas da sociedade providenciavam os estudos dos alunos pobres. Entre as famílias ricas e nobres também existia o costume de assegurar a educação dos filhos por meio de tutores particulares qualificados. Os alunos pobres também recebiam educação gratuitamente junto a elas. Em Pandua, era costume que os proprietários muçulmanos contratassem, às suas próprias custas, professores para educar os alunos pobres das redondezas. Não havia proprietário rico ou chefe de aldeia que não contratasse um professor para esse propósito. — Adam, First Report, p. 55; M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims and English Education, p. 6).

O ensino do Alcorão, do hadith e da educação islâmica era considerado uma obra meritória, e quase sempre uma única pessoa arcava com todas as despesas de uma instituição educacional, diretamente ou por meio de doações, waqf ou trustes. Essas pessoas pagavam os salários dos professores e cobriam todas as despesas da instituição, de seus edifícios e de tudo o mais. Como naquela época não havia livros didáticos, o ensino era oferecido gratuitamente. Os professores geralmente ganhavam seu sustento de forma independente — como imãs de mesquitas ou por meio de algum pequeno emprego público. Por isso, ensinavam os alunos sem cobrar salário. Assim, foram criadas muitas instituições educacionais privadas dos muçulmanos, cujas despesas eram custeadas por pessoas abastadas e caridosas. Entre os professores e esses generosos benfeitores, observava-se especialmente a concepção de que o objetivo do ensino não era ganhar a vida. Pelo contrário, seu objetivo era elevar o padrão religioso e moral da comunidade por meio da difusão da educação. — (M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & English Education, pp. 7–8).

O relatório de W. Adam também deixa claramente evidente que, naquela época, era possível obter educação a um custo muito baixo, ou até mesmo, pode-se dizer, gratuitamente. Cada mesquita era um centro de atração para a população muçulmana, e nas madraças existentes em cada mesquita qualquer menino podia aprender a ler e escrever sem pagar. Como não havia livros didáticos impressos, não havia qualquer despesa com a compra de livros. Tinta e canetas podiam ser preparadas em casa. Naturalmente, era preciso pagar alguma taxa pelo ensino superior, mas ela também era muito pequena. Após a chegada dos ingleses, ensinava-se inglês nas escolas missionárias cristãs. Nelas, ninguém podia estudar gratuitamente. Quando alguém adotava a religião cristã, seus filhos recebiam a oportunidade de estudar sem pagar. A única razão pela qual os muçulmanos tinham acesso à educação gratuitamente ou a um custo muito baixo era que os governantes muçulmanos e os muçulmanos abastados doavam generosamente riquezas, terras e outros bens para fins educacionais. — (M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & English Education, p. 11).

Após a chegada dos ingleses

Por trás da educação e do desenvolvimento cultural de qualquer nação estão o apoio, a assistência e a cooperação. É desnecessário dizer que, pouco depois de o governo muçulmano de Bengala ser abolido no campo de Plassey, a “economia política” entrou em colapso, o país inteiro foi assolado pela pobreza, pelo sofrimento e pela miséria e, especialmente na vida nacional dos muçulmanos, desceu o horror da destruição. Já nos primeiros tempos do governo da Companhia, os muçulmanos de Bengala se encontravam ameaçados e em situação miserável. Esmagada pelo moinho da opressão e da tirania ilimitadas decorrentes do certificado de “Diwani” que a Companhia das Índias Orientais obteve para permanecer no poder sem qualquer responsabilidade (Power without responsibility), a ordem social estabelecida pelos muçulmanos começou a se desintegrar completamente.

Depois de serem afastados do poder político, todos os meios de ganhar a vida começaram a ser fechados para eles; como resultado, a estrutura social se desintegrou e também se romperam os vínculos e as relações mútuas entre as diversas classes. — (M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & English Education, p. 14).

Como consequência da transferência do poder das mãos dos muçulmanos para as mãos dos ingleses, a educação dos muçulmanos sofreu tanto quanto sua vida política e econômica. Como foi descrito acima, seu sistema educacional dependia inteiramente da ajuda governamental e das doações dos chefes muçulmanos, de propriedades waqf, fundos fiduciários e outros recursos semelhantes. Os muçulmanos consideravam a promoção e a expansão da educação uma obra religiosa extremamente meritória e, para esse fim, doavam generosamente grandes quantias de dinheiro, bens e terras. Em muitos lugares, por meio de fundos ou instituições religiosas, os filhos de todos, ricos ou pobres indistintamente, podiam estudar gratuitamente, sem mensalidades nem despesas. Depois de serem afastados do poder político, esse sistema educacional dos muçulmanos foi destruído. Os muçulmanos foram afastados de todos os empregos governamentais, grandes ou pequenos; os chefes militares muçulmanos partiram para outros países ou foram para regiões remotas do país em busca de meios de subsistência — onde os cargos modernos, isto é, os cargos em inglês, eram distribuídos entre os hindus —, com o resultado de que a classe média muçulmana desapareceu e surgiu uma nova classe média hindu. Portanto, era perfeitamente natural que, na ausência de um governo muçulmano, de funcionários muçulmanos de alto escalão e de uma classe média muçulmana, o sistema educacional dos muçulmanos fosse completamente destruído — e foi isso que aconteceu.

Quanto à educação dos muçulmanos, isso estava fora de cogitação; na verdade, durante um século após o início do domínio inglês, a própria existência da nação muçulmana esteve, na prática, ameaçada. Quando sua única preocupação era sobreviver, como poderiam pensar na educação de seus filhos?

Foi provado no capítulo anterior que a Companhia das Índias Orientais pôs fim ao domínio muçulmano por meio de uma profunda conspiração com os ricos comerciantes hindus, a classe dos banians, os banqueiros e outros grupos semelhantes de Bengala. É desnecessário dizer que os interesses de ambos estavam igualmente envolvidos nisso. De um lado, estava a conquista do poder pela Companhia, ambiciosa de poder político; de outro, os hindus, que desejavam o fim do domínio muçulmano, obtinham da Companhia vantagens materiais, comerciais e econômicas. Depois que a Companhia assumiu o poder, os hindus se aproximaram dela. Para conseguir empregos sob seu comando e dedicar-se ao comércio e aos negócios, aprenderam a língua inglesa por considerá-lo necessário.

Calcutá havia se desenvolvido como um centro comercial e, pode-se dizer, seus habitantes eram quase todos hindus. Os comerciantes hindus, banqueiros, banians e a classe média queriam construir seu futuro tendo a cidade de Calcutá como centro. Para conseguir empregos sob a Companhia e dedicar-se ao comércio e aos negócios, acreditavam que “English is money” — o inglês era outro nome para dinheiro — e, por isso, passaram a demonstrar intenso interesse em aprender o máximo possível da língua inglesa. Na segunda metade do século XVIII, escolas inglesas surgiram por toda parte, como cogumelos, em Calcutá e nas áreas circundantes, e os hindus aprenderam nessas escolas um inglês suficiente para suas necessidades práticas.

Vejamos também, ainda que brevemente, qual era a situação dos muçulmanos. W. W. Hunter diz em sua obra: “Centenas de famílias muçulmanas antigas foram destruídas. Consequentemente, o sistema educacional dos muçulmanos, que era mantido por propriedades de terras lakheraj, também foi encerrado para sempre.” — (W. W. Hunter: The Indian Mussalmans, edição de Bangladesh, 1975, p. 167).

Isso sem falar dos muçulmanos comuns: o próprio senhor Hunter retratou em sua obra, de maneira dolorosa, o tratamento bárbaro e opressivo que os ingleses dispensaram à sociedade muçulmana após sua chegada e o destino trágico que, em consequência, coube aos descendentes dos nababos:

“Em cada distrito, algum descendente dos antigos nababos está morrendo lentamente, consumido por uma angústia interior, em um palácio arruinado sem teto ou à margem de um tanque em ruínas, coberto de musgo e algas. Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente muitas dessas famílias. Nos edifícios destruídos dessas famílias, seus filhos já adultos, netos, sobrinhos e sobrinhas se aglomeram, e nenhum desses descendentes famintos tem qualquer oportunidade de fazer algo na vida. Sentados em varandas deterioradas ou em salas de recepção com telhados esburacados, contam as horas até a morte e afundam no profundo abismo das dívidas. Por fim, o agiota hindu vizinho provoca uma discussão com eles e cria uma situação em que, de repente, são obrigados a hipotecar tudo o que possuem para pagar suas dívidas. Desse modo, a dívida os devora, e a existência das antigas famílias muçulmanas desaparece da face da terra.” — (W. W. Hunter, The Indian Mussalmans. Edição de Daca, 1975, p. 138).

Após a chegada dos ingleses, toda a nação muçulmana da Índia daquele período foi prejudicada. Contudo, os mais prejudicados foram os muçulmanos de Bengala.

Hunter afirma: “Estou particularmente familiarizado com os acontecimentos desta província. Por isso, tanto quanto sei, foram os habitantes muçulmanos daqui os que mais sofreram durante o domínio inglês.” — (W. W. Hunter, The Indian Mussalmans, pp. 140-141).

Naquela época, por Bengala entendiam-se Bengala, Bihar e Orissa. Um requerimento enviado então, em nome dos muçulmanos de Orissa, ao comissário divisional Sr. E. W. Solony, C.S., retrata vividamente a sua situação lastimável. O requerimento dizia:

“Como súditos leais de Sua Majestade, a benevolente Rainha, acreditamos ter direitos iguais a todos os cargos da administração do país. Mas, para dizer a verdade, os muçulmanos de Orissa estão sendo progressivamente oprimidos, e não têm qualquer esperança de voltar a erguer a cabeça. Embora nascidos em famílias nobres, tornamo-nos pobres porque os meios de subsistência foram bloqueados; e, privados do patrocínio do Estado, nossa situação tornou-se semelhante à de peixes retirados da água e postos em terra. Apresentamos diante de Vossa Senhoria esta triste condição dos muçulmanos, confiantes de que sois o representante da Rainha na divisão de Orissa, e esperamos que administreis justiça a todas as classes, sem distinção de casta, comunidade ou religião. Privados dos empregos públicos, ficamos sem um centavo. Nossa situação tornou-se tão deplorável que estamos dispostos a ir a qualquer região remota do mundo — seja aos picos nevados do Himalaia, seja às regiões escassamente povoadas da Sibéria — se recebermos a garantia de que, viajando assim de um país a outro, obteremos algum emprego público com um salário de apenas dez xelins por semana.” — (W. W. Hunter, The Indian Mussalmans, pp. 158-159).

Após a chegada dos ingleses, aqueles membros de famílias muçulmanas nobres que ocupavam diversos cargos públicos foram privados de seus empregos; não foram apenas essas famílias que, assoladas pela pobreza, desapareceram, mas também a situação das famílias muçulmanas comuns de Bengala tornou-se semelhante. As comunidades de agricultores e tecelões de Bengala também enfrentaram uma extrema calamidade.

Nos primeiros tempos do domínio da Companhia, não havia fim para os sofrimentos e as misérias dos muçulmanos. O sistema social estabelecido foi despedaçado pela opressão e pela tirania da administração diwani, exercida com “poder sem responsabilidade” (Power without responsibility). Antes da obtenção do diwani, o imposto sobre a terra não era arrecadado com a mesma severidade que se vê agora. Além disso, anteriormente, de qualquer modo, a receita do Estado era gasta dentro deste país, fazendo com que seus habitantes se beneficiassem de uma forma ou de outra. Nas palavras de um poeta indiano, o imposto arrecadado pelo rei é como a umidade da terra. Essa umidade seca sob o calor do sol e retorna à terra sob a forma de chuva, que lhe devolve a fertilidade. Mas, atualmente, a umidade que está sendo extraída do solo indiano desce sob a forma de uma chuva semelhante em outro país, e não na terra da Índia. (R. C. Dutt, Economic Hist. of India, pp. 11-12). Após a chegada dos ingleses, um terço da receita total era enviado para a Inglaterra. O tesouro real já não era o “Bayt al-Mal”, do qual o povo poderia receber ajuda em tempos de dificuldade. A receita fundiária também foi duplicada. O chamado último nababo de Bengala arrecadou, em seu último ano (1764), 817.553 libras de receita; posteriormente, apenas trinta anos depois, os ingleses arrecadaram 2.680.000 libras. (R. C. Dutt, Economic History of India, p. 9; M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & English Education, p. 14).

Ninguém ignora a extrema destruição que a comunidade camponesa enfrentou nos anos seguintes à batalha de Plassey e depois dela. Por um lado, a riqueza do país ia sendo levada para fora dele em escala cada vez maior; por outro, em consequência do Acordo Permanente, os novos zamindares submetiam os camponeses a uma opressão desumana. Por isso, eles jamais conseguiram melhorar sua sorte e, até hoje, continuam trabalhando na agricultura em benefício dos próprios zamindares, como escravos. (M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & Eng. Education, p. 20; R. C. Dutt, p. 27).

Vejamos também brevemente até que ponto a sorte da sociedade hindu havia prosperado. Assim como no comércio, eles foram extremamente afortunados também no sistema fundiário. Em consequência do Acordo Permanente de Cornwallis, quase todos os zamindari dos muçulmanos passaram para as mãos dos hindus. Mas nenhum zamindari hindu foi perdido. É verdade que, em alguns casos, antigos zamindari hindus enfrentaram dificuldades, mas sua administração foi confiada a novos hindus favorecidos e a arrivistas. No lugar da antiga comunidade aristocrática surgiu uma nova classe rica. O desenvolvimento da sociedade hindu e, no lugar da comunidade, o surgimento de uma nova classe rica. Este foi um aspecto importante do desenvolvimento e da expansão da sociedade hindu. Para os muçulmanos, ao contrário, isso ficou no nível zero. — (M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & English Education, p. 25).

Os muçulmanos foram expulsos dos empregos públicos, dos zamindari, das jagirdari, das indústrias domésticas e de outras áreas, enquanto se estabelecia a crescente classe média hindu. A história de Bengala no início do século XIX é precisamente a história dessa nova classe média. E essa classe havia surgido da classe mercantil hindu. Portanto, não é de surpreender que ela atraísse plenamente a atenção do governo. — (M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & English Education, p. 118).

O sistema de castas da sociedade hindu facilitou o surgimento dessa classe média. Isso porque foi precisamente esse sistema de castas que separou uma classe específica para ganhar o sustento por meio do comércio. As pessoas dessa classe demonstravam interesse por essa nova educação inglesa. Como estavam estreitamente ligadas à Companhia e ocupavam cargos de intermediários comerciais e postos inferiores no governo, conseguiram atrair especialmente a atenção dos novos governantes. Pela leitura dos pequenos folhetos que os primeiros funcionários e missionários escreveram sobre a administração do país, sabe-se que o governo mencionava repetidamente esses cavalheiros hindus (a classe média) e estava extremamente preocupado em agradá-los e melhorar sua condição. O governo também foi influenciado por vários outros fatores nesse assunto. O primeiro era que considerava o domínio muçulmano um imperialismo estrangeiro sob o qual os habitantes deste país, isto é, os hindus, haviam sido oprimidos. Em segundo lugar, quando algumas medidas estavam sendo tomadas para melhorar a situação, os muçulmanos desventurados haviam deixado as cidades e se dirigido a áreas remotas para sobreviver. Consequentemente, não conseguiram atrair a atenção do governo.

Em terceiro lugar, o governo adotou uma política de laissez-faire extremo em relação aos muçulmanos, pois nutria uma desconfiança e uma falta de confiança naturais em relação àqueles de quem havia tomado o poder. Em contrapartida, os hindus de Bengala e os hindus de outras regiões ocupadas pelos ingleses atraíram a atenção do governo de tal maneira que este se concentrou em agradá-los. Além disso, os missionários cristãos consideravam os hindus mais sensíveis que os muçulmanos à doutrina e à propaganda cristãs e, por isso, os governantes ingleses passaram a dar atenção excessiva aos hindus. Estes, no mínimo, ficaram ansiosos por adquirir algum conhecimento rudimentar da língua inglesa. Nesse aspecto, os muçulmanos não tiveram oportunidade alguma. O mais importante é que não existia entre os muçulmanos uma classe média que pudesse apresentar suas reivindicações e obter alguma vantagem na situação modificada. Mais tarde, o General Committee of Public Instruction, constituído pelo governo, observou sinceramente que, como entre eles não existia aquela classe média que era ‘a riqueza nacional, a força e a verdadeira guardiã’ de uma comunidade, eles não puderam aproveitar as oportunidades de educação e outros benefícios. — (M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & English Education, pp. 25-27; C. E. Trevelyan, On the Education of the People of India, pp. 4-8).

Os missionários cristãos e o início da educação inglesa

Como foram destruídas as numerosas instituições de ensino que existiam por toda parte durante o domínio muçulmano, de acordo com seu próprio sistema educacional, foi discutido no capítulo anterior. Isso era perfeitamente natural. A classe hindu compreendeu muito bem a situação modificada e, por isso, avançou rapidamente para aprender a língua inglesa. Não é que os muçulmanos não a tenham compreendido de modo algum. Contudo, queremos discutir aqui quais eram os obstáculos à adoção da nova educação, isto é, da educação inglesa, e por que, apesar de muitas vezes terem feito grandes esforços nesse sentido, não conseguiram alcançar o sucesso.

Na realidade, o ensino da língua inglesa em Bengala e, de modo geral, na Índia estava relacionado à pregação da palavra de Jesus, ou do Evangelho, pelos missionários britânicos. Em uma mensagem de 1659, a Corte de Diretores expressou profundo apoio à propagação da palavra de Jesus por todos os meios possíveis. Permitia-se que os missionários viajassem para a Índia nos navios da Companhia e, ao chegarem aqui, eles eram incentivados a aprender a língua nativa do país com o objetivo de pregar a palavra de Jesus entre os pobres e ignorantes. No estatuto concedido à Companhia das Índias Orientais em 1698, enfatizava-se que eles deveriam aprender a língua nativa do lugar onde a Companhia residisse, para que pudessem formá-los. Isso porque seriam servos ou escravos da Companhia, ou seus representantes na religião protestante. — (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & Eng. Education, p. 28; Shap, p. 3, Parochial Annals of Bengal, de H. B. Hyde; carta da Court of Directors a Fort St. George, 25 de fevereiro de 1695; LAW: Promotion of Learning in India by Early European Settlers, p. 19).

Sir John Shore, governador-geral de Bengala, afirma que, mais do que por razões religiosas, é necessário converter os habitantes deste país ao cristianismo por razões políticas.

Enquanto nossos súditos não se tornarem unidos a nós por uma fé religiosa comum, o reino que ocupamos não estará seguro contra invasões externas nem contra agitações e convulsões internas. — (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & English Education, p. 34; Sharp, Review of Buchanan’s Treatise, vol. 1, p. 113).

Fica agora claramente demonstrado que, para consolidar e prolongar o domínio britânico em Bengala e na Índia, eles consideraram necessário aprender a língua dos habitantes deste país, a fim de poderem propagar facilmente a doutrina cristã entre eles.

A expansão da educação pelos ingleses neste país ocorreu de forma gradual. Na primeira fase, os missionários cristãos estabeleceram escolas de língua bengali com o patrocínio do governo. Na segunda fase, criaram instituições de ensino da língua inglesa com o objetivo de ministrar a educação ocidental e ensinar a cultura e a civilização ocidentais.

Os missionários continuaram trabalhando ininterruptamente durante anos. Estabeleceram uma tipografia em Hugli e Serampore, por meio da qual publicaram muitos livros em língua bengali. Em sua campanha de pregação, não enfrentaram nenhum obstáculo; pelo contrário, receberam incentivo. Assim, como resultado de seu esforço incansável, até 1815 haviam estabelecido 202 escolas somente nas proximidades de Calcutá. Muito antes disso, em 1794, um certo Carey estabeleceu em Maldá uma escola com alojamento gratuito. Depois de vir para Bengala, começou a trabalhar como supervisor em uma fazenda de cultivo de índigo. Na escola que fundou, ensinavam-se sânscrito, persa e bengali. Além disso, ministravam-se conhecimentos sobre várias matérias e também ensinava-se a doutrina cristã. Um certo Sr. Archer estabeleceu, em 1780, uma escola para meninos e, pouco tempo depois, outra para meninos e meninas. Outra foi estabelecida por John Stranshenow. A característica da escola fundada por Brown, porém, era que ela havia sido estabelecida para jovens hindus.

(M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & Eng. Education, p. 30; Calcutta Review-1913: “Old Calcutta”: Its Schoolmaster, de K. N. Dhas, p. 338).

Para a propagação da doutrina cristã, foram estabelecidas na Inglaterra, com apoio estatal, várias sociedades. Entre elas, merecem especial menção a SPCK (Society for Promotion of Christian Knowledge), a S. P. G. (Society for the Propagation of the Gospel), a CMS (Church Missionary Society) e outras. Sua contribuição para a propagação da doutrina cristã em Bengala é indiscutível. Os missionários de Bengala apresentaram às suas respectivas sociedades o seguinte relatório:

“O comércio revelou uma nova linha de pensamento e uma nova energia para o trabalho. Se pudermos oferecer educação gratuita com eficiência, centenas se aglomerarão para aprender a língua inglesa. Espero que, em algum momento, sejamos capazes de fazê-lo e que, por esse meio, se abra um caminho agradável para a propagação da mensagem de Jesus Cristo”. (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & Eng. Education, p. 35; Mussalmans-Vol. 1, pp. 130-131).

Ao propagar a doutrina cristã sob o pretexto de estabelecer escolas bengalis e inglesas, os missionários cristãos não hesitaram em fazer propaganda contra o Islã e seu grande Profeta. Cornwallis proibiu a pregação do cristianismo nas vias públicas e nas aldeias (Beveridge: Hist. of India. Vol. 2. pp. 850-51).

Apesar disso, continuaram realizando esse trabalho. Finalmente, depois que Minto assumiu suas responsabilidades, tomou medidas rigorosas contra os missionários por publicarem panfletos contendo declarações indecorosas e irrelevantes sobre o Islã e o Profeta Maomé (que a paz esteja com ele). (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & Eng. Education, p. 36; Lethbridge, p. 59).

Em 1818, foi fundado o Colégio de Serampore (Hugli), sob a presidência de William Carey. O objetivo da fundação desse colégio era ministrar conhecimentos orientais e ocidentais e converter ao cristianismo os habitantes deste país por meio de sua língua materna. Naquela época, o Colégio de Serampore era o único colégio que concedia diplomas em toda a Ásia. (Mc. Cully, p. 41; M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & Eng. Education, pp. 39-40).

Como foi mencionado anteriormente, o objetivo primordial do Serampore College era a divulgação e a expansão do cristianismo na Índia; para isso, era necessário formar cristãos nativos que também realizassem o trabalho de traduzir e publicar a doutrina cristã em bengali. Para esse fim, as portas do colégio permaneciam abertas aos não cristãos, e os habitantes locais influentes eram incentivados a ajudar e cooperar na propagação da doutrina cristã. Até dezembro de 1838, verificou-se que, entre os 101 alunos do colégio, havia apenas 34 não cristãos. Eram filhos de brâmanes e de outras castas de Serampore e das áreas vizinhas (Mc. Cully, pp. 64, 65).

Não havia alunos muçulmanos por duas razões. Primeiro, o objetivo do ensino nesse colégio era a propagação do cristianismo; segundo, ensinava-se ali um bengali que era incompreensível para os muçulmanos. Isso porque esse bengali era derivado do conhecimento da gramática sânscrita, que os muçulmanos não tinham, de modo algum, motivo para conhecer. — (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & English Education, p. 140).

Nas escolas e colégios fundados pelos missionários, bem como no Fort William College, fundado pelo governo em 1800, o bengali foi sendo enriquecido, com a colaboração de professores hindus, segundo os moldes da língua sânscrita; e esse tipo de bengali era desconhecido dos muçulmanos. Embora os muçulmanos do Baixo Bengala falassem bengali, o bengali deles era misturado com árabe e persa. D. H. H. Wilson, ao depor perante o Comitê Seleto da Câmara dos Comuns britânica, afirmou que o bengali e o hindi têm uma estreita relação com o sânscrito. Segundo ele, no Shakiespear’s Hindustanee Dictionary, 305 das 500 palavras eram sânscritas. No livro didático de colégio bengali intitulado Hitopadesha, entre as primeiras 147 palavras, apenas 5 não eram sânscritas. [A. R. Mallik: Br. Policy and the Muslims in Bengal, p. 156; Sixth Report, Select Committee (HC), 1853, Minutes of Evidence, p. 9. Em resposta a uma pergunta, Wilson afirmou que ninguém poderia compreender o bengali sem algum conhecimento de sânscrito.]

Nas escolas de língua materna ensinava-se um bengali repleto de palavras sânscritas — as portas dessas escolas estavam fechadas aos muçulmanos. Além disso, em Bihar ensinava-se hindi na escrita devanágari, que também era completamente desconhecida dos muçulmanos. — (Report of Bengal Provincial Committee, Education Commission, p. 215. Depoimento de Abdul Latif em resposta à Q1).

Além disso, Dakshina, Amar Singh, Chanakya, Saraswati Vandana, Manbhanjan, Kalanka Bhanjan, entre outros.

Livros hindus, como Dan Lila, Dadhi Lila e outros, que tratavam dos passatempos amorosos de Krishna durante sua infância. Em Bihar, ensinavam-se, entre outros, Sudam Charit e Ram Yamuna. — (A. R. Mallick: British Policy and the Muslims in Bengal, p. 156).

Essas informações provam claramente que era um plano conspiratório dos missionários cristãos, dos governantes ingleses e dos intermediários locais deste país privar os muçulmanos da luz da educação. Alexander Duff fundou em Calcutá uma instituição de ensino para a educação em inglês, que, graças aos esforços de Duff, se tornou uma instituição educacional especialmente importante. Contudo, ela se destinava exclusivamente aos hindus das classes inferiores e foi estabelecida com a colaboração de Raja Rammohan Roy. Deliberadamente, essa escola foi instalada num bairro hindu e em um terreno onde outrora havia sido fundado o Hindu College. Duff não fez qualquer tentativa de estabelecer uma escola em nenhuma área muçulmana. — (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & English Education, p. 41; N. Chattaerhce: Life of Mahatma Raja Rammohan Roy (Bengali), p. 394).

Entre 1807 e 1814, o Dr. Francis Buchanan, por ordem do governo, realizou um levantamento dos distritos de Bengala e Bihar. Em 1938, seu relatório foi publicado em três volumes por R. S. Martin. Durante o governo de Lord Bentinck, entre 1835 e 1838, W. Adam elaborou três relatórios com base nos documentos de Buchanan. O terceiro relatório foi elaborado em 1938, após seu próprio exame e suas observações realizadas em campo. Ele apresentou um quadro comparativo da situação educacional das comunidades hindu e muçulmana, como segue:

Hindus                              Muçulmanos

(a) Escolas primárias nativas                          11                                16

(b) Escolas secundárias                                    38                               0

(c) Famílias nas quais os pais ou amigos

ensinavam os meninos e as meninas         1277                           311

O quadro acima é apresentado como exemplo para a delegacia de Natore, no distrito de Rajshahi, onde, naquela época, a população hindu era de 656.558 e a muçulmana, de 1.296.401. Em uma delegacia tão densamente povoada por muçulmanos, a proporção de muçulmanos na educação era tão insignificante quanto a descrita acima. No referido quadro, é indicado o número total de professores, entre os quais havia apenas um professor muçulmano.

Descrevendo a causa de tal situação dos muçulmanos no campo da educação, ele diz que, financeiramente, viviam uma vida extremamente miserável. Diz ainda que, nessas condições, aconselhá-los a buscar instrução equivalia a subir ao céu com o auxílio de uma escada, algo completamente impossível e absurdo. Adam diz que, em todo o distrito de Rajshahi, havia apenas uma escola para a educação dos muçulmanos, em Kasbabaghata, na delegacia de Bilmaria, uma escola com várias centenas de anos de existência, fundada sob o patrocínio dos sultões muçulmanos de Bengala e de nobres líderes muçulmanos magnânimos

W. Adam elaborou seu terceiro relatório (1838) após visitar cinco distritos de Bengala e Bihar. Com base nisso, elaborou o seguinte quadro:

Quadro nº 1: escolas árabe-persa, seu número e número de alunos, hindus e muçulmanos.

Distrito Persa Árabe Escolas Alunos hindus Alunos muçulmanos Total

Murshidabad 17 2 62 47 109

Bardhaman 93 8 477 494 971

Birbhum 71 2 245 245 490

Tirhut 234 4 445 153 598

Sul de Bihar 279 12 867 619 1.486

Total 694 28 2.096 1.558 3.654

O interessante é que o número de estudantes hindus que frequentavam as escolas árabe-persas era superior numa proporção de três para quatro. Além disso, considerando o número de estudantes hindus que frequentavam as escolas sânscritas, o total deles chegava a 4.651, enquanto o número de muçulmanos era de 1.558. Quadro nº 2: Escolas da língua materna — seu número, número de alunos e hindus e muçulmanos.

Distrito Escolas bengalis Escolas hindis Alunos hindus Alunos muçulmanos Outros Total

Murshidabad 62 5 998 82 0 1.080

Bardhaman 630 0 12.408 769 13 13.190

Birbhum 407 0 6.125 232 26 6.383

Tirhut 0 80 502 5 0 507

Bihar do Sul 0 286 2.918 172 0 3.090

Total 1.099 376 22.951 1.260 39 2.425

Do quadro acima, sabe-se que os muçulmanos ficavam muito atrás dos hindus no ensino da língua materna. A razão disso também é bastante evidente. Primeiro, a língua bengali repleta de sânscrito era incompreensível para eles; segundo, os temas dos livros didáticos estavam repletos de ensaios e histórias impregnados de idolatria. Terceiro, como não havia escolas equivalentes às escolas hindis, os muçulmanos permaneciam atrasados na educação. W. Adam recomendou a abertura de escolas urdu para os muçulmanos e a elaboração de livros didáticos bengalis adequados a eles. Mas o governo não deu nenhuma atenção a isso.

Nota: A. R. Mallick, British Policy and Muslims in Bengal, pp. 161–165.

Por iniciativa da filial de Calcutá da Sociedade Missionária Cristã (C.M.S.), foi fundada em Bərdəuam, em 1819, uma escola inglesa para hindus. Quando os representantes da filial de Calcutá, Mr. Shew e Mr. Thompson, transferiram regularmente a escola para suas instalações, ela entrou em decadência, pois se temia que os alunos fossem convertidos ao cristianismo. De modo semelhante, em 1832, o bispo Corrie fundou uma escola inglesa em Kalinga, uma área de Calcutá habitada por muçulmanos. Porém, quando uma igreja foi construída ao lado dela, a maioria dos alunos muçulmanos abandonou a escola. Em seu relatório, Mr. Thomson explicou a redução do número de alunos e afirmou (1841) que, assim como os hindus eram atraídos pelas línguas e pela literatura ocidentais, os muçulmanos não o eram. — (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & English Education, pp. 44–45; Long, Handbook of Bengal Mission, p. 125).

Mr. Thomson ocultou a verdadeira causa e atribuiu a culpa aos próprios muçulmanos. A verdadeira causa era que a questão da religião ocidental estava intimamente ligada às línguas e à literatura do Ocidente. Para os muçulmanos, era muito mais difícil preparar-se mentalmente para frequentar uma escola missionária do que para os hindus. Os muçulmanos tinham aversão ao cristianismo — pode-se dizer até que o odiavam. Isso porque construíram sua fé religiosa rejeitando o cristianismo. Os hindus, por outro lado, não possuíam nenhum conhecimento prévio desse tipo e, por isso, eram facilmente influenciados pelo cristianismo.

Os missionários sabiam que, por meio de seus contatos, um número maior de hindus havia adotado o cristianismo. Por isso, dirigiam todos os seus esforços aos hindus. Em 1858, um missionário observou, em uma brochura que escreveu, que nenhum esforço verdadeiramente sincero havia sido empreendido para disseminar a educação entre os muçulmanos. Os europeus encarregados de inspecionar as instituições educacionais governamentais não tinham nenhum conhecimento da língua, do caráter e dos costumes dos muçulmanos. — (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & English Education, p. 46; India Office Tract, 242).

O fim do governo muçulmano na segunda metade do século XVIII e a obtenção do diwani pela Companhia das Índias Orientais transformaram, por assim dizer, os ingleses nos senhores absolutos deste país. Como resultado, seu comércio, tendo Calcutá como centro, cresceu cem vezes. Grandes mansões começaram a ser construídas em Calcutá. Os hindus com cuja ajuda e cooperação foi possível estabelecer o domínio inglês neste país avançaram em massa para ocupar empregos sob a Companhia, tornar-se sócios de seus negócios ou trabalhar como corretores comerciais. Eles perceberam a necessidade urgente de aprender a língua inglesa. Por isso, o primeiro passo para fundar escolas inglesas foi dado por eles. Comerciantes e ricos negociantes hindus, com a ajuda e a cooperação de seus amigos comerciantes europeus, fundaram escolas inglesas em vários lugares, em âmbito privado. Na década de 1790 do século XVIII, um certo Nityananda Sen fundou uma escola desse tipo em Kalutola, Calcutá.

Cabe mencionar aqui outro fato importante. Neste país, os missionários dedicaram-se amplamente à propagação do cristianismo por meio da fundação de escolas de língua bengali. Quando começaram a exceder-se consideravelmente nesse assunto, o governo britânico impôs algumas restrições às suas atividades. Contudo, a Charter Act of 1813 aboliu as restrições impostas a eles. Essa lei abriu caminho para o estabelecimento do episcopado (Episcopacy) na Índia. Em 1814, o bispo Middleton chegou a Calcutá. Estimulados por seu entusiasmo e energia, os missionários começaram a trabalhar com todo o vigor. Ele envolveu-se estreitamente com o Bishop’s College de Calcutá. A seu pedido, o governador-geral doou sessenta e dois bighas de terra para esse colégio. Posteriormente, foi concedida uma ajuda governamental ainda maior. O próprio bispo Middleton doou quinhentas libras para a construção da igreja do colégio e quinhentos livros para a biblioteca do colégio.

Os comerciantes europeus ofereceram sua ajuda e cooperação ao trabalho dos missionários e, na realidade, foram eles que lançaram as bases da educação inglesa em Bengala. Graças aos seus esforços, especialmente com a ajuda e a cooperação de Mr. David Hare e Sir Edward Hyde East, foi fundado em Calcutá, em 1817, o Hindu College, para a educação de jovens hindus. Em 27 de agosto de 1816, em uma assembleia geral realizada na residência de Sir Edward, com a presença de hindus, foram formulados o estatuto e o regulamento do colégio proposto. Declarou-se que o objetivo primordial dessa instituição era ensinar aos filhos de hindus nobres as línguas inglesa e indianas, bem como a literatura e as ciências da Europa e da Ásia. — (M. Fazlur Rahman, The Bengali Muslims & English Education, pp. 48–51, citado das regras aprovadas pelos subscritores e pela assembleia geral realizada em 27 de agosto de 1816, Calcutta Christian Observer, julho de 1832, p. 72).

Este Hindu College transformou-se em um college governamental em 1832. Dessa forma, o governo patrocinou uma comunidade específica no campo da educação. Geralmente, os muçulmanos são acusados de ter uma profunda aversão ao inglês e à educação ocidental. Até mesmo em relação à língua bengali eram indiferentes. Já foi mencionado acima como a língua bengali foi impregnada de sânscrito para manter os muçulmanos afastados do campo da educação. Essa foi a verdadeira razão pela qual os muçulmanos teriam recusado aprender a língua inglesa? Pensar assim seria cometer uma injustiça contra eles. Estudar em escolas e colleges ingleses era extremamente dispendioso, e os muçulmanos estavam assolados pela pobreza. Os ricos comerciantes e agiotas hindus, com a ajuda e a cooperação de seus amigos ingleses, fundaram escolas particulares de inglês e, sem auxílio governamental, abriram caminho para a educação inglesa de seus próprios filhos. Para os muçulmanos, tais esforços eram impossíveis e impraticáveis. Pode-se afirmar sem hesitação que os muçulmanos, por natureza, por origem étnica e por sua religião, eram mais inclinados à educação do que qualquer outro povo. Contudo, como suas estruturas política e econômica haviam sido destruídas, ficaram atrasados no campo educacional. Também eram favoráveis à educação inglesa, isto é, à educação ocidental. Mas, nesse aspecto, não conseguiram atrair sequer a mínima simpatia do governo. Como instituição governamental destinada ao sistema educacional dos muçulmanos, a Madrassa de Calcutá foi fundada em 1780 por Warren Hastings. Entretanto, a história dessa madrassa durante os quarenta anos entre 1780 e 1829 é extremamente dolorosa. O governo poderia ter transformado essa instituição em uma instituição de ensino superior para os muçulmanos, incluindo a educação inglesa e ocidental. Mas não o fez. Apesar das repetidas exigências para a abertura de aulas de inglês na Madrassa de Calcutá, o governo passou longos anos protelando a questão. Além do Hindu College, numerosas escolas de inglês foram fundadas para o ensino superior dos hindus por hindus, ingleses, missionários e pela Calcutta School Society. Mas em lugar algum havia qualquer possibilidade de entrada para os muçulmanos. Segundo a descrição do senhor Adam, em Calcutá havia duas escolas, uma fundada por um cristão e outra por um hindu, na Upper Circular Road e em Bara Bazar. Eles também lecionavam nessas escolas. Havia outra em Shobhabazar. Trezentos alunos estudavam ali. Essa escola também era administrada por um cristão e um hindu. Como essas escolas eram particulares, eram administradas junto aos alunos. Como eram privadas, cobravam dos alunos mensalidades elevadas. Não se sabe se os muçulmanos tinham permissão para ingressar nelas. Mas, mesmo que tivessem, pode-se afirmar com certeza que, por falta de recursos, não poderiam enviar seus filhos para lá. A Calcutta Review (1850) mencionou várias outras escolas desse tipo, entre as quais se destacava especialmente a Oriental Seminery. A escola foi fundada em 1823. Em 1850, tinha 585 alunos. Ocupava a segunda posição, logo depois do Hindu College. Diz-se que um certo Gaur Mohan Addy fundou a escola para seus compatriotas e nomeou um certo senhor Charnbull e um certo advogado, Herman Geoffery, para lecionar nela. É muito provável que também ali os alunos muçulmanos não tivessem permissão para ingressar. Além dessas, foram fundadas algumas escolas especiais para os filhos dos cristãos, nas quais hindus e muçulmanos tinham permissão para entrar. Eram elas: The Calcutta High Schoo, The Parental Academic Institution, The Philanthropy-Academy, The Verulam Academy, entre outras. A Parental Academy ficava situada em um local onde muçulmanos abastados podiam enviar seus filhos. Muçulmanos nobres e abastados enviavam seus filhos à St. Paul’s School e à Parental Academy. A razão para enviá-los a essas duas era que ali os meninos adquiriam proficiência na língua inglesa, e nenhuma das duas era uma escola de tipo missionário. Explicando a razão pela qual os muçulmanos frequentavam essas duas escolas, o senhor Mouat (Mouat 1952) — [F. J. Mouat. Secretário do Committee of Education.] — diz que, como os estudos não eram bons na Madrassa de Calcutá e havia ainda algumas outras falhas e deficiências, eles tiveram de procurar outro lugar. — (M. Fazlur Rahman: The Bengali Muslims & English Education, pp. 57-58. Calcutta Review 1850, p. 457; Adam, op. cit., pp. 37, 41).

A Madrassa de Calcutá, fundada em 1780 para a educação dos muçulmanos, recebeu da Companhia e do governo britânico tamanha negligência que parece que o objetivo das autoridades era oferecer ignorância e má educação em vez de educação. É necessário lançar alguma luz sobre esse assunto.

Atendendo ao pedido de um número considerável de renomados eruditos muçulmanos, Hastings fundou em 1780 a Madrassa de Calcutá para a educação dos muçulmanos. Até aquele momento, os muçulmanos ocupavam diversas funções nos tribunais criminais e civis e no departamento de polícia; além disso, como a língua persa era usada na administração, o governo da Companhia também precisava manter um sistema educacional para os muçulmanos, ao menos com o objetivo de conduzir a administração. A responsabilidade pela administração da madrassa foi atribuída. Contudo, de 1780 a 1791, não se observou nenhum progresso na madrassa. Foram identificadas falhas na administração de Majduddin, que foi removido, e a responsabilidade foi confiada a um certo Muhammad Israel. O comitê da madrassa foi reorganizado e foi elaborado o seguinte currículo:

Filosofia Natural (Natural Philosophy), jurisprudência islâmica, direito, astronomia, geometria, matemática, lógica e gramática. Entretanto, até 1922 não houve nenhuma mudança na situação. Assim, o Dr. Lamsden (Lamsden), um influente membro do comitê da madrassa, recomendou em seu relatório a nomeação de um diretor europeu. O governo rejeitou essa recomendação, mas solicitou que Lamsden, em seu relatório, recomendasse novamente a nomeação de um diretor europeu. Em 1818, o comitê propôs a nomeação de um secretário europeu. O governo aceitou a proposta, mas transferiu a responsabilidade financeira para o comitê, para que não houvesse qualquer pressão sobre a receita governamental. É lamentável que o governo tenha rejeitado, ou permanecido protelando por muitos anos, a proposta do Dr. M. Lamsden de traduzir para o árabe e o persa os livros de conhecimento e ciência ocidentais, introduzir o ensino de inglês na madrassa e ensinar inglês aos estudantes muçulmanos. — (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & English Education, pp. 68-70; A. R. Mallick, British Policy & the Muslims of Bengal, p. 176).

Quando um membro responsável do comitê, o Dr. M. Lamsden, propôs a abertura de aulas de inglês na madrassa, deve-se certamente entender que os estudantes muçulmanos e seus responsáveis eram favoráveis ao ensino de inglês. Caso contrário, teriam se oposto à proposta. Convém lembrar que, em 1815, foi apresentada uma proposta para a abertura de aulas de inglês no Benares Sanskrit College. O comitê da madrassa ficou para trás nesse aspecto. Por outro lado, o Hindu College foi fundado em 1816 e começou a ministrar ensino em inglês. Em 1854, atendendo às petições e solicitações dos muçulmanos, esse Hindu College foi transformado em Presidency College, e suas portas foram abertas a estudantes de todas as religiões e grupos. (Abdul Moudud, O desenvolvimento da sociedade de classe média: a transformação da cultura, p. 94; A trajetória através dos séculos: Dr. Hasan Zaman, professor Abdur Rahim, p. 239).

De qualquer modo, conforme a proposta de Lamsden, o capitão Irwin foi nomeado secretário do comitê, com um salário mensal de trezentas rúpias. Em agosto de 1821 realizou-se o primeiro exame segundo o novo regulamento, e o resultado foi satisfatório. Os resultados dos dois anos seguintes também foram bons. Em 1823, o senhor John Adam constituiu o Comitê Geral de Instrução Pública (General Committee of Public Instruction). O comitê declarou satisfatórios os resultados dos exames de 1824 e 1825. Lamsden propôs novamente que os livros didáticos ingleses fossem traduzidos para o árabe e o persa, com o objetivo de criar nos alunos o incentivo para aprender inglês. Ele insistiu especialmente na necessidade de fundar uma escola preparatória (Preparatory), a fim de elevar a qualidade do ensino básico da madrassa. Contudo, o comitê da madrassa, influenciado pelos europeus, aceitou todas as propostas de Lamsden, mas recusou-se a aceitar a cláusula relativa à expansão do ensino europeu. A maioria dos membros expressou a opinião de que, se o ensino inglês ou europeu fosse introduzido, fracassaria o propósito para o qual a madrassa havia sido fundada. (Board’s Collection, 909, p.321. pp.365-67,909. p.322; Lamsden to Madrasah Committee, 30 May, 1823; Madrasah Committee to Governor-General, 3 July 1832). Consequentemente, essa recusa do comitê criou um obstáculo extremo ao ensino de inglês para os alunos muçulmanos. Em contrapartida, o Comitê de Instrução Pública considerou com entusiasmo a proposta de abrir aulas de inglês no Colégio Sânscrito de Calcutá e assumiu o Colégio Hindu para assegurar uma administração adequada. O Dr. H. H. Wilson foi nomeado inspetor oficial desse colégio e secretário do comitê. Para isso, também foram destinados consideráveis recursos públicos. Embora se fizessem repetidos pedidos para introduzir o ensino de inglês na madrassa, uma instituição oficial de ensino, o governo não lhe dava qualquer importância. Enquanto isso, a benevolência, a ajuda, a simpatia e as doações do governo transbordavam em favor do Colégio Hindu, uma instituição privada. Compreende-se claramente, assim, quão indiferente o governo era para com os muçulmanos e, especialmente, para com o ensino de inglês entre eles. Isso também prova que era infundada a acusação feita contra os muçulmanos de que haviam rejeitado o ensino de inglês. Também era infundada a acusação feita contra eles por pertencerem a uma classe específica. A culpa foi lançada sobre os muçulmanos justamente para encobrir o crime de favorecer uma classe específica. Quem conhece bem a história da atividade dos missionários cristãos e da propagação do cristianismo entre os hindus, e até mesmo a história da própria instituição hindu, o Colégio Hindu, certamente reconhecerá que a repulsa ou a indiferença dos hindus em relação ao ensino de inglês não era maior que a dos muçulmanos. — (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & English Education, p. 73-74).

Após o exame anual da madrassa em 1825, os examinadores, os senhores Mill e Thomson, observando o louvável desempenho dos alunos, propuseram que lhes fossem ensinados os conhecimentos e as ciências ocidentais. Estimulado pela proposta deles, Lamsden pressionou pela introdução do ensino de inglês na madrassa. No relatório que enviou ao comitê, afirmou que, devido à sua longa e estreita relação com os alunos muçulmanos e com o público em geral, chegara à conclusão de que, se a língua inglesa fosse aceita apenas como instrumento para adquirir os conhecimentos necessários, os muçulmanos não fariam qualquer objeção; pelo contrário, aceitá-la-iam com entusiasmo. Contudo, se os livros didáticos facilitassem a propagação da Bíblia, ou se ferissem as crenças religiosas dos muçulmanos, seria natural que surgissem objeções. — (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & English Education, p.74; Board’s Collection, 909, pppp. 713; Lamsden to General Committee, 19 February 1825). Lamsden propôs ainda que fosse concedida a cada aluno uma bolsa de oito rúpias, a fim de incentivar o ensino de inglês. Macaulay protestou veementemente, e a proposta foi rejeitada.

Embora não se abrissem aulas de inglês na madrassa, os alunos haviam ficado tão interessados em aprender inglês que começaram a aprender alguma coisa com os professores, pagando-lhes uma remuneração irrisória. Com isso, porém, não conseguiam aprender bem o inglês. Lamsden propôs então ao comitê a nomeação de um professor de língua inglesa. Nem mesmo isso produziu qualquer resultado. Assim, não por culpa dos muçulmanos, mas devido à atitude tendenciosa das autoridades e à falta de sinceridade delas em promover a educação dos muçulmanos, os alunos da madrassa ficaram privados do ensino de inglês.

Enquanto isso, o influentíssimo educador Dr. H. H. Wilson, por estar ligado ao Colégio Hindu, reivindicava maior auxílio governamental para o desenvolvimento progressivo daquele colégio. O senhor Holt Mackenzie, responsável pelo departamento de educação, propôs a criação de um colégio privado para uma classe e comunidade específicas. Contudo, o governo rejeitou a proposta por causa das enormes despesas que ela acarretaria. Essa rejeição tornou-se uma grande bênção para o Colégio Hindu. A partir de então, toda a atenção favorável do comitê voltou-se para esse Colégio Hindu, que foi estabelecido como o único centro do ensino de inglês. No relatório de 1825 sobre esse colégio, o Comitê Geral declarou-se satisfeito e afirmou que o número de alunos havia passado de cem para duzentos; e, se fosse possível dar a esse número de alunos o conhecimento necessário e treinamento na língua inglesa, seria sem dúvida possível esperar o desenvolvimento e o aprimoramento das qualidades intelectuais dos principais e mais proeminentes habitantes da cidade de Calcutá (Principal Inhabitants of Calcutta). Aqui, a expressão “principais e mais proeminentes habitantes da cidade de Calcutá” merece especial atenção. Não há dúvida de que, por meio dela, se pretendia designar exclusivamente a “classe média hindu” de Calcutá. Essa expressão revelou claramente a verdadeira atitude do governo britânico no campo da educação.

Na realidade, a política ou diretriz educacional dos governantes ingleses era a política de filtragem (Policy fo filtration), por meio da qual as oportunidades e facilidades do ensino superior, isto é, da aprendizagem dos conhecimentos e das ciências ocidentais por meio da língua inglesa, eram limitadas a uma classe selecionada de hindus, chamada Principal Inhabitants of Calcutta (os principais e mais proeminentes habitantes de Calcutá), ou seja, a classe média hindu. Eles receberiam educação inglesa e se dedicariam à expansão dessa educação no país. Em outras palavras, nas instituições educacionais que fossem fundadas por eles, tanto os professores quanto os alunos seriam hindus. Foi exatamente o que aconteceu. Em suma, esse ensino ficou novamente limitado sobretudo aos hindus das classes superiores, isto é, aos brâmanes. A classe mercantil hindu também se beneficiou dessa política de filtragem. Sem falar nos muçulmanos, até as outras classes da comunidade hindu foram privadas dela. O reverendo Lal Behari Dey comenta: “O filtro das classes superiores na Índia não é, sob nenhum aspecto, um filtro. É um recipiente de barro cuja abertura está fechada de tal maneira que nenhuma luz ou ar do exterior pode entrar. De um lado, um brâmane alimenta-se até a saciedade do conhecimento da lógica, da metafísica e das escrituras religiosas; de outro, o shudra, juntamente com os atingidos pela lepra, olha avidamente, perguntando-se quando lhe caberá um pedaço de alimento da mesa de seu senhor.” (L.B. Dey in reply to Babu Kishori Chand, Meeting of British India Association, 1868 — citado por H.A. Stark, Vernacular Education in Bengal, p.89).

De acordo com essa política de filtragem, o governo dedicou sua máxima atenção ao Hindu College. Foram concedidas aos estudantes oito bolsas de dezesseis rúpias e uma ajuda mensal de trezentas rúpias. Em seguida, foram destinados 49.376 rúpias para a impressão de livros didáticos elementares e 5.000 rúpias para a aquisição de livros na Inglaterra.

Depois de dar ao Hindu College a oportunidade de ascender ao auge do progresso, Wilson voltou sua atenção para o Sanskrit College. Assim que foi anunciada a abertura de aulas de inglês, 40 dos 136 estudantes manifestaram interesse em estudar inglês. Um certo Sr. Tytler (Tytler), professor do Hindu College, foi contratado para lecionar no Sanskrit College como responsabilidade adicional. Depois de tudo isso, talvez tomado pela vergonha, o governo decidiu, em 1829, abrir aulas de inglês na Madrassa de Calcutá. No relatório de abril do primeiro ano, soube-se que o número de estudantes havia diminuído de 136 para 102. A pobreza foi apontada como a principal causa. Isso porque a maioria dos estudantes muçulmanos vinha de áreas remotas da província para estudar inglês. Devido à sua pobreza, estudavam nos alojamentos dos cozinheiros dos cavalheiros ingleses e com a ajuda financeira dos sahibs. (M. Fazlur Rahman, Bengali Muslims & English Education, p. 74–80; Hunter, The India Mussalmans, p. 203).

A longa discussão sobre a educação dos muçulmanos durante o período britânico foi feita por duas razões. Uma delas foi demonstrar o tratamento madrasto do governo inglês para com os muçulmanos. A segunda foi provar que era infundada a acusação feita contra eles de que haviam rejeitado a educação inglesa. Espero que esses dois pontos tenham ficado claros na discussão acima. Como prova, acrescentarei ainda mais uma ou duas observações.

Lord Macaulay foi nomeado membro jurídico do Parlamento britânico em 1834. Ao descrever o objetivo da política educacional do governo britânico na Índia, ele disse:

“Atualmente, precisamos formar uma classe que, na sociedade, atue como intérprete entre os governantes e os governados. Ela será indiana na constituição de sua carne e na cor de seu corpo, mas será autenticamente inglesa em seus gostos, opiniões, princípios morais e intelecto. (Woodrow, Macaulay’s Minutes on Education in India, 1862; Abdul Mawdūd, O desenvolvimento da sociedade de classe média: a transformação da cultura, p. 97).

Macaulay disse ainda: “Tenho a firme convicção de que, se nossa política educacional for implementada, dentro de trinta anos não haverá nenhum idólatra na sociedade bengali instruída e respeitável.” (Trevelyan, Life and Letters of Lord Macaulay, vol. 1, p. 455).

Talvez o Sr. Macaulay não tenha podido ver, da Inglaterra, que aquilo que desejara ver trinta anos depois em sua primeira declaração já começara a acontecer. Em 1832, foram coletados dados sobre o quanto havia aumentado a demanda por produtos britânicos. O relatório desses dados afirmava que, entre a classe média de Calcutá, não havia aumentado apenas a demanda por tecidos britânicos; ao contrário, também haviam crescido a demanda e a valorização das bebidas alcoólicas britânicas. A atração pelos artigos de luxo britânicos aumentara entre eles. Possuíam casas mobiliadas com móveis britânicos, carruagens de parelha e também consumiam bebidas alcoólicas. Os nativos certamente bebem mais. Isso parece querer provar que não têm aversão, ódio ou repulsa à imitação dos europeus — isto é, nas palavras de Macaulay, que se tornariam autenticamente ingleses em gostos, opiniões e princípios morais. Bebem uísque, brandy e cerveja. (Select Committee Report, House of Commons, 1831–32; Mawdūd, p. 10).

Explicando a “política de filtragem” do governo no campo da educação, o Sr. Trevelyan disse: “Os ricos comerciantes e a comunidade instruída serão os primeiros a se beneficiar; surgirá um grupo de novos professores; serão publicados mais livros nas línguas nativas. Então, por meio deles, avançaremos das cidades para as aldeias, de poucos para os lares da vasta população — serão fundadas escolas primárias, mas nossos recursos são limitados, enquanto milhões de pessoas precisam ser educadas. É por isso que é necessário fazer uma seleção, e inicialmente voltou-se a atenção para as pessoas da classe média alta. Pois, se elas forem educadas, a oportunidade também se espalhará entre o povo em geral”.

(Abdul Mawdud: O desenvolvimento da sociedade de classe média, pp. 97–98; Trevelyan, p. 48).

Pela boca do senhor Trevelyan acabou por escapar o que os governantes ingleses pensavam. Com a colaboração das classes hindus ricas, mercantis e de classe média, eles usurparam dos muçulmanos o poder político. Por meio do comércio e dos negócios, sua aliança com essa classe média tornou-se cada vez mais estreita. Mantendo-os plenamente satisfeitos, conseguiriam conservar intacto o poder de governar este país. Portanto, não é de admirar que, mesmo sendo injusto, todo o seu favor fosse derramado sobre essa classe específica. Os missionários cristãos empreenderam esforços para difundir a educação neste país. Contudo, seus objetivos não eram de modo algum nobres. Como seus apelos e convites aos muçulmanos, em nome da educação, para que aceitassem o seu “Evangelho” terminaram em fracasso, não conseguiam olhar os muçulmanos com benevolência. Esse fracasso acabou levando-os a envolver-se em propaganda contra o Islã e seu grande Profeta. Assim, no círculo formado pelos missionários, pelos governantes ingleses e pela classe média hindu, sua aliada, o destino dos muçulmanos foi esmagado; eles foram expulsos do campo da educação e dos meios de subsistência, e privados de todas as demais oportunidades e benefícios.

Os habitantes deste país não precisavam trazer da Grã-Bretanha o dinheiro necessário para a educação e o bem-estar. O dinheiro deste país deveria ser gasto com o povo deste país. E isso jamais era considerado uma concessão ou favor. Era um direito dos habitantes do país. Mas os muçulmanos foram privados desse direito. Longe de destinarem recursos dos fundos públicos à educação dos muçulmanos, eles também se apropriaram das doações destinadas à educação muçulmana e as empregaram indevidamente. Tomemos como exemplo a doação do filantropo Haji Muhammad Muhsin. Em vez de apresentar a posição dos muçulmanos a esse respeito, será reproduzido o que disse o ilustre inglês e cristão senhor Hunter:

Em 1806, ao morrer, um rico e nobre muçulmano do distrito de Hugli doou sua enorme propriedade zamindari para ser empregada em obras de caridade. Mais tarde, começou uma disputa entre seus dois curadores. Quando, em 1810, eles se acusaram mutuamente de uso indevido da propriedade, a crise atingiu o auge, e o coletor inglês do distrito tomou posse dela, sujeito à decisão do tribunal. Como o processo se prolongou até 1816, ele demitiu ambos os curadores e o governo assumiu diretamente a administração da referida propriedade. O próprio governo assumiu a responsabilidade de um dos curadores e nomeou outra pessoa para substituir o segundo. No ano seguinte, toda a propriedade foi arrendada sob a condição do pagamento da receita fixada. Durante o processo, o total da renda recebida com o arrendamento, incluindo os valores em atraso, chegou a 105.700 libras esterlinas. (Foi dessa renda que se pagou o custo do edifício do colégio.) Além disso, até o momento, houve um excedente de mais de 12.000 libras esterlinas da renda anual da propriedade zamindari.

“Como já disse, o trust foi constituído para que a renda da propriedade zamindari fosse empregada em diversas obras de caridade. Entre as obras em que o testamento determinava que se gastasse o dinheiro estavam a realização de certos eventos de pregação religiosa, a manutenção do Imambara de Hugli ou da Grande Mesquita, um cemitério, algumas bolsas de estudo e o custeio de várias instituições religiosas. Financiar uma instituição de ensino enquadra-se nos objetivos para os quais o trust foi constituído. Mas, conforme a vontade do fundador, ela teria de ser uma instituição de ensino propriamente destinada aos muçulmanos. Nos países muçulmanos, fundar colégios para estudantes pobres e talentosos é considerado uma obra religiosa. Contudo, gastar o dinheiro desse testamento em um colégio não muçulmano seria contrário à vontade do testador e seria considerado um grave abuso dos poderes dos curadores.

“Assim, é fácil imaginar com que indignação os muçulmanos poderiam acusar o governo inglês de apropriação indevida dos fundos por gastar o dinheiro desse fundo na criação de um colégio inglês. E foi exatamente isso que aconteceu. Com o dinheiro de uma propriedade destinado exclusivamente a obras religiosas islâmicas, o governo criou uma instituição de ensino onde se ensinavam matérias contrárias aos princípios do Islã e da qual os muçulmanos eram, na prática, excluídos.

Atualmente, o diretor dessa instituição é um cavalheiro inglês que não conhece sequer uma letra das línguas persa ou árabe. Para ensinar todas essas matérias que os muçulmanos detestam, esse diretor recebe um salário anual de 1.500 libras esterlinas, pago com o fundo destinado exclusivamente às necessidades dos muçulmanos. Naturalmente, isso não constitui culpa do diretor. Os culpados são os governantes que o nomearam para essa função. Há trinta e cinco anos o governo vem apropriando-se deliberadamente do dinheiro desse enorme fundo educacional. Como uma tentativa frustrada de encobrir seu grave crime de quebra de confiança, o governo anexou uma pequena escola muçulmana (a Madrassa de Hugli) ao colégio inglês. Além de apropriar-se do dinheiro do referido fundo para construir o edifício do colégio, são gastas anualmente 5.000 libras esterlinas do fundo para sua manutenção. Em outras palavras, a situação real é que, de uma renda de 5.260 libras esterlinas do fundo, apenas 250 libras esterlinas são gastas com a referida pequena escola muçulmana, e somente essa pequena escola muçulmana permanece como prova da natureza fundamental do trust.

“É muito difícil discutir a acusação de apropriação indevida, pois não é possível refutá-la. Os muçulmanos andam acusando o governo inglês infiel de ter-se aproveitado da má administração dos curadores muçulmanos da grande propriedade religiosa dos muçulmanos, com o objetivo de usurpar sua propriedade; depois, contrariando o propósito religioso sagrado do doador, o governo criou uma instituição de ensino contrária aos interesses dos muçulmanos, tornando assim ainda mais grave o crime cometido pelo governo. Foi dito que, alguns anos atrás, entre os trezentos estudantes do colégio inglês em questão, nem sequer um por cento era muçulmano. Embora essa discriminação humilhante tenha diminuído posteriormente, o descontentamento dos muçulmanos diante da injustiça continua até hoje. Um civil que examinou profundamente a questão escreveu—

ergueu-a, onde se ensinavam matérias contrárias aos princípios do Islã e de cuja instituição os muçulmanos foram, na prática, excluídos.

Atualmente, o diretor dessa instituição é um cavalheiro inglês que não conhece sequer uma letra das línguas persa ou árabe. Para ensinar todas aquelas matérias que os muçulmanos detestam, esse diretor recebe um salário anual de 1.500 libras esterlinas, pago com o fundo destinado exclusivamente às necessidades dos muçulmanos. Naturalmente, isso não constitui culpa alguma do referido diretor. Os culpados são os governantes que o nomearam para essa função. Há trinta e cinco anos, o governo vem desviando deliberadamente os recursos daquele enorme fundo educacional. O governo vinculou ao colégio uma pequena escola muçulmana (a Madrassa de Hugli). Além de desviar o dinheiro do referido fundo para a construção do edifício do colégio, são gastos anualmente 5.000 libras esterlinas do fundo na manutenção do colégio. Em outras palavras, a situação real é que, de uma receita de 5.260 libras esterlinas do fundo, apenas 250 libras esterlinas são gastas com a referida pequena escola muçulmana; e, como prova da característica essencial do fundo fiduciário, somente essa pequena escola muçulmana continua existindo.

“É muito difícil discutir a acusação de desvio, pois não é possível refutá-la. Os muçulmanos vêm afirmando que o governo inglês infiel, com o desonesto propósito de apoderar-se da propriedade desse enorme patrimônio religioso muçulmano, aproveitou-se da má administração muçulmana da propriedade; e, depois, violando o propósito religioso sagrado do doador, o governo criou uma instituição educacional contrária aos interesses dos muçulmanos, tornando assim ainda mais grave o crime cometido pelo governo. Foi dito que, alguns anos atrás, entre os trezentos alunos do colégio inglês em questão, nem sequer um por cento era muçulmano. Embora essa discriminação humilhante tenha diminuído posteriormente, o descontentamento dos muçulmanos com a injustiça ainda persiste. Um funcionário civil que examinou profundamente a questão escreveu:”

“Posso demonstrar que não é difícil exagerar o ódio e a humilhação que o governo britânico conquistou por meio de seus próprios atos nessa questão: durante os vinte e oito anos em que vivi na Índia, verifiquei a veracidade do assunto (poucas semanas depois de chegar pela primeira vez a este país, visitei Hugli) e posso dizer que, naquela época, não ouvi nada diferente de ninguém, fosse nativo ou europeu. Seja isso justo ou não, os muçulmanos acreditam que, nesse assunto, o governo agiu para com eles de maneira injusta e tacanha, e isso se transformou, para eles, numa experiência permanentemente amarga”.

(W. W. Hunter, The Indian Mussalmans, tradução bengali de M. Anisuzzaman, pp. 163–165).

Essas foram as declarações explícitas de dois cavalheiros ingleses que vieram a este país como funcionários extremamente responsáveis do governo britânico. Ao verem a extrema injustiça cometida contra os muçulmanos, talvez suas consciências tenham irrompido em pranto. Foi essa reação que se manifestou em seus escritos. Mas será que, mesmo assim, o governo insensato e opressor tomou consciência? Eles consideravam uma classe deste país sua inimiga e outra classe sua amiga íntima. Apropriando-se do direito legítimo do inimigo, com isso procuravam satisfazer a amiga. Essa injustiça continuou até o fim do domínio britânico. O autor passou sua infância, de 1925 a 1930, na pequena escola muçulmana adjacente ao referido colégio. Naquela época, não se via nenhuma mudança na situação descrita pelo senhor Hunter. Pode-se afirmar sem hesitação que, em toda a história da humanidade, não se encontrará em parte alguma um desvio e mau uso de doações religiosas maior do que este. É preciso dizer que foi um infortúnio dos muçulmanos que, depois que os britânicos deixaram este país, os antigos cúmplices deles herdaram as propriedades e os fundos da referida doação. Portanto, uma mudança na situação era inconcebível.

Foi como resultado da profunda conspiração desse tríplice círculo — a classe governante inglesa, os missionários cristãos e a classe média hindu de Bengala — que os muçulmanos foram privados do patrocínio estatal e, consequentemente, tiveram bloqueado o caminho da educação e dos meios de subsistência. A partir de 1º de abril de 1837, a língua inglesa foi introduzida nos trabalhos do governo, nos escritórios e nos tribunais. É significativo que os ingleses, recorrendo à astúcia, tenham introduzido secretamente a política de anglicização, executando sua decisão sem conscientizar a população. Contudo, a classe favorecida por eles conhecia essa conspiração secreta. Assim, tão logo a língua inglesa foi subitamente introduzida em 1º de abril, seus integrantes se instalaram em todos os escritórios do governo. Enquanto isso, pela manobra ardilosa dos missionários ingleses, criou-se também a língua hindustani, repleta de palavras sânscritas, que deslocou até mesmo o urdu — a maior contribuição linguística dos muçulmanos, baseada em palavras árabes e persas — e foi reconhecida como a única língua vernácula aprovada pelo governo e como certificado para a obtenção de emprego.

(Abdul Maudud: O desenvolvimento da sociedade de classe média…, pp. 98–99). Seu objetivo era fechar aos muçulmanos as portas de todos os empregos.

Assim, a introdução da educação inglesa ocorreu principalmente por necessidade política e para promover o bem-estar de uma única classe urbana. Na realidade, a educação inglesa era o único passaporte dos nativos para obter empregos nos escritórios e tribunais do governo. Por isso, o ensino dessa língua se expandiu de forma rápida, segura e abrangente. Contudo, o aspecto mais grave dessa política educacional foi que ela ficou limitada à sociedade respeitável de classe média, enquanto o povo foi tragicamente negligenciado. Além disso, os hindus da classe média apropriaram-se de todas as oportunidades e benefícios da educação inglesa; os hindus da elite e a totalidade dos muçulmanos ficaram de fora. Nessa batalha de penetração para anglicizar o país, os seguidores de Macaulay saíram vitoriosos. (Abdul Mawdud: O desenvolvimento da sociedade de classe média, pp. 99–100; John Marshal, An Advanced History of India, pp. 818–819).

Para uma compreensão completa da situação dos muçulmanos no campo da educação e no setor de empregos durante o século XIX, seguem abaixo alguns quadros estatísticos.

Número de estudantes hindus e muçulmanos nas escolas e faculdades públicas em 30 de abril de 1852:

Instituição de ensino Hindus Muçulmanos Outros Total

Hindu College 471 0 0 471

Pathmala 216 0 0 216

Escola filial 255 0 0 255

Faculdade de Sânscrito 299 0 0 299

Madrassa 0 433 0 433

Colégio de Hooghly 389 6 2 397

Escola filial de Hooghly 160 2 2 164

Madrassa de Hooghly 18 145 0 163

Maktab de Hooghly 9 47 0 56

Madrassa de Sitapur 0 40 0 40

Colégio de Daca 323 29 31 383

Colégio de Krishnanagar 205 7 1 213

Colégio de Chittagong 97 8 20 125

Colégio de Comilla 81 6 4 91

Colégio de Sylhet 80 11 1 92

Colégio de Bauliya 83 0 2 85

Colégio de Medinipur 117 7 1 125

Colégio de Jessore 96 7 0 103

Colégio de Burdwan 71 3 0 74

Colégio de Bankura 74 0 0 74

Faculdade de Barasat              174                 0                                  0                                  174

Faculdade de Howrah                123                 6                                  0                                  129

Faculdade de Uttarpara            175                 0                                  0                                  175

Faculdade de Barrackpur            88                   2                                  0                                  90

Faculdade de Raspagla            10                    37                               0                                  47

Total                              3841               796                             64                               4674

(A.R. Mallick, British Policy & the Muslims in Bengal, p. 280)

O número de alunos dessas instituições de ensino em abril de 1856. Nesse ínterim, o Hindu College tornou-se o Presidency College, e na Madrassa de Calcutá foi aberto um departamento anglo-persa (A.P.) para o ensino do inglês.

Instituição de ensino                            Hindus                  Muçulmanos                       Outros             Total

Presidency College                      ১২৭                 ০                                  ৫                      ১৩২

Hindu College                               ৪৬২                 ০                                  ০                      ৪৬২

Escola de Kolutola                             ৫৬৭                 ০                                  ৪                      ৫৭১

Madrasa (árabe)             ০                      ৫৯                               ০                      ৫৯

Madrasa (E.P.)                ০                      ১১১                              ০                      ১১১

Escola de Kalinga                                ১২৪                 ১৫                                ৪                      ১৪৩

Sanskrit College                            ৩৩৯                 ০                                  ০                      ৩৩৯

Escola primária                                  ৩৪৫                 ০                                  ০                      ৩৪৫

Faculdade de Medicina                       ১৪৮                 ৯৬                                ৩৪                   ২৭৮

Madrassa de Hooghly                             ৪                      ১৭৫                             ০                      ১৭৯

Escola filial de Hooghly                           ১৬৯                  ৮                                  ০                      ১৭৭

Faculdade de Daca                               ৩৯০                 ২৪                               ৪১                    ৪৫৫

Faculdade de Krishnagar                         ২৪০                 ৭                                  ০                      ২৪৭

Faculdade de Berhampore                         ২২৭                 ১০                                ৫                      ২৪২

Escola de Howrah                                 ২২৯                 ৩                                  ৪                      ২৩৬

Escola de Uttarpara 203 0 0 203

Escola de Birbhum 104 10 0 114

Escola de Medinipur 145 10 0 155

Escola de Bankura 146 1 0 147

Escola de Baulia 129 5 0 134

Escola de Raspagala 40 63 0 103

Escola de Barasat 192 3 0 195

Escola de Barrackpur 116 2 0 118

Escola de Jessore 134 5 2 141

Escola de Patna 144 4 0 148

Escola de Faridpur 102 4 0 106

Escola de Barisal 209 22 3 234

Escola de Comilla 93 16 7 116

Escola de Noakhali 66 1 4 71

Escola de Chittagong 166 42 14 222

Escola de Bogra 85 6 0 91

Escola de Dinajpur                            114                  8                                  4                      126

Escola de Mymensingh                        167                 9                                  8                      184

Escola de Sylhet                                157                 5                                  2                      164

Total                                        6338              731                             147                 2216

(A.R. Mallick, British Policy & the Muslims in Bengal, p. 281)

Em sua obra, o senhor Hunter acrescenta um quadro da posição ocupada pelos muçulmanos no setor de empregos sob o patrocínio estatal em Bengala, em abril de 1871. É o seguinte:

Europeus                Hindus                  Muçulmanos          Total

Serviço civil contratado

(Da Inglaterra, pela Rainha

nomeados 260 0 0 260

Nos distritos não abrangidos pelo Regulamento

Oficiais do departamento judicial 47 0 0 47

Comissários Assistentes Extraordinários 26 7 0 33

Magistrados-Adjuntos e Coletores-Adjuntos 53 113 30 196

Avaliadores do imposto de renda 11 43 6 60

Departamento de registro 33 25 2 60

Juiz do Tribunal de Pequenas Causas e

Juiz subordinado                        14                             25                   8                      47

Munsife                                       0                               178                 37                   216

Departamento de Polícia, de todas as categorias

Oficiais gazetted                     106                           3                      0                      109

Departamento de Obras Públicas, quadro de engenharia

Quadro                     154                                  19                    0                      173

Departamento de Obras Públicas, subalterno

Quadro de pessoal                             72                            125                 4                      201

Departamento de Obras Públicas, Contas

Quadro de pessoal                             22                             54                   0                      76

Departamento Médico,

nos colégios médicos, nas prisões,

nos dispensários de caridade, saúde

e no departamento de conservação da saúde e prevenção de doenças

funcionários empregados e distrito

Oficiais médicos etc.            89                            65                   4                      158

Departamento de educação pública                             38                            14                    1                      53

Alfândega, navegação, levantamento topográfico, ópio

controle e diversos outros departamentos         412              10                    0                      422

                                    Total         1334                        681                 92                    2111

W. W. Hunter, The Indian Mussalmans, edição de Bangladesh, 1975, p. 152).

Após acrescentar o quadro acima, o senhor Hunter faz o seguinte comentário:

Há cem anos, todos os cargos públicos eram monopólio dos muçulmanos. Quando, muito ocasionalmente, os governantes distribuíam algumas concessões, os hindus também as aceitavam e se davam por satisfeitos; e, aqui e ali, podiam ser vistos um ou dois europeus em pequenos cargos, ou dois ou quatro na função de escriturários. Mas os cálculos acima mostram que, posteriormente, a proporção dos muçulmanos, em comparação com a dos hindus, caiu para menos de um sétimo. E o número de hindus é mais da metade do número de europeus. Já o número de muçulmanos é inferior a um quarto do número de europeus. Há cem anos, aqueles que detinham o monopólio dos empregos públicos hoje reduziram sua proporção a um vigésimo terceiro do total. Isso ocorre até mesmo no caso dos cargos gazetted, nos quais se observa bastante cautela na distribuição do patrocínio estatal. A nomeação de muçulmanos para os cargos públicos relativamente subalternos da cidade da Presidência praticamente cessou. Há poucos dias, constatou-se que não havia, em nenhum departamento, sequer um funcionário que conhecesse a língua dos muçulmanos, e raramente se vê, em Calcutá, um escritório público onde haja um único muçulmano ocupando cargo acima dos de chaprasi e de criado.

Será que a razão de tudo isso é que os hindus são mais capazes do que os muçulmanos e que somente eles têm direito à justiça? Ou será que a questão é que eles não querem ingressar no serviço público e deixaram seus postos de trabalho para os hindus? É certo que os hindus possuem um intelecto superior; mas, para desfrutar do monopólio dos cargos públicos, é necessário um tipo de talento universal e extraordinário que eles atualmente não possuem, e sua história passada também depõe contra essa afirmação. A verdade é que, até o momento em que o poder de governar este país passou para nossas mãos, os muçulmanos eram a raça superior. Eram superiores não apenas em coragem moral e força física, mas também na capacidade de conduzir organizações políticas e no conhecimento prático da administração do Estado. Apesar disso, o acesso dos muçulmanos aos campos de trabalho públicos e privados foi bloqueado. (W. W. Hunter: The Indian Mussalmans, pp. 152-53).

O estado dos muçulmanos no Departamento de Educação Popular, tal como apresentado no quadro acima, deixa claramente evidente como eles foram mantidos afastados do campo da educação para fechar-lhes os caminhos de subsistência. Reiteradamente foram apresentadas ao governo exigências para que se providenciasse a educação inglesa para os muçulmanos. Mas tudo se perdeu em lamentos no deserto. Os muçulmanos estavam esmagados pela pobreza. Não lhes era possível arcar com as despesas do ensino superior. Além disso, o dinheiro das doações dos muçulmanos tampouco foi utilizado adequadamente para esse fim; pelo contrário, foi apropriado indevidamente.

Em 1837, um muçulmano de Patna chamado Syed Amir Hossain foi nomeado membro da Assembleia Legislativa de Bengala, no lugar de Ishwar Chandra Mitra. Entre os muçulmanos, ele publicou um folheto sobre a educação dos muçulmanos e insistiu especialmente na expansão de sua educação. Ele disse:

A educação inglesa dos muçulmanos não está progredindo. O governo é indiferente a esse respeito. Por não receberem educação inglesa, os muçulmanos não conseguem competir com as outras comunidades da Índia. No entanto, os muçulmanos têm interesse na educação inglesa… Ouve-se muitos eruditos em árabe e persa lamentarem não ter tido a oportunidade de estudar inglês. Por isso, não têm meios de subsistência. O tipo de educação madrasa oferecido em Hugli, Rajshahi e Chittagong com o dinheiro do Fundo Mohsin não traz qualquer benefício. Portanto, que a Madrasa de Hugli seja abolida. Que se reduzam as despesas das madrasas de Rajshahi e Chittagong. Desse modo, com os 93 mil takas que ficarão excedentes no Fundo Mohsin, que se abra uma faculdade independente para a concessão de diplomas nas instalações da Madrasa de Calcutá. Como resultado, o ensino superior em inglês entre os muçulmanos aumentará, sem que o governo tenha de fazer despesas adicionais.

Mas um argumento tão razoável não foi aceito pelo governo. O governador da época não deu atenção à proposta de Amir Hossain. Sob esse pretexto, declarou: “O interesse dos muçulmanos pelo ensino das madrasas ainda não diminuiu, e seu interesse pela educação inglesa ainda não aumentou. Em toda Bengala, em média, 32 rapazes muçulmanos são aprovados no exame de admissão por ano. No máximo 20 deles frequentam a faculdade. Não seria razoável abrir uma faculdade como a Presidency com um número tão reduzido de estudantes. Será suficiente providenciar que os estudantes muçulmanos estudem nas faculdades de Calcutá pagando um terço das mensalidades”.

De um lado, a opressão, a indiferença e a negligência causadas pela atitude hostil do poder estrangeiro dominante; de outro, a privação desumana, por parte da comunidade vizinha favorecida por esse mesmo poder, e sua insistência em proteger os próprios interesses — a expulsão sistemática dos muçulmanos de todos os campos da educação e dos meios de subsistência: essa foi a causa do atraso dos muçulmanos.

(Abdul Mawdud: O desenvolvimento da sociedade de classe média, pp. 332-34).

Ao compreenderem a necessidade da educação inglesa, não eram somente os rapazes muçulmanos que ansiavam por ela. Também as meninas muçulmanas, por trás do véu, tinham interesse nela. Mas nenhuma providência foi tomada em seu favor. Embora a Escola Bethune de Calcutá tenha sido fundada em 1849 — mais tarde transformada no Bethune College —, as meninas muçulmanas não tinham permissão para ingressar nela. Abdul Mawdud, citando o periódico Muslim Bangla, publicado no dia 23 de Magh do ano 1309, afirma em sua obra:

Um artigo da revista “Mihir o Sudhakar”, intitulado “A educação inglesa na sociedade das mulheres muçulmanas”, escreveu o seguinte:

Nunca havíamos sequer sonhado que o recenseamento de 1901 nos daria a conhecer a existência de 400 (quatrocentas) mulheres muçulmanas com educação inglesa. Depois que isso foi divulgado, qual é o nosso dever? Se é possível introduzir a educação inglesa no harém, por que haveria objeção à fundação de escolas para educar as meninas? As meninas muçulmanas não têm direito de प्रवेशo à Escola Bethun, em Calcutá. Fora a Escola Bethun, podem estudar nas demais escolas. Sobretudo, se forem criadas condições para o ensino inglês em nossas madraças para meninas, estaremos adotando o melhor caminho. (Abdul Mawdud: O desenvolvimento da sociedade de classe média…, p. 335).

Contudo, todas as petições e súplicas dos muçulmanos, todas as suas reivindicações pela afirmação de seus direitos, transformaram-se em clamor no deserto. Como resultado, a desafortunada sociedade muçulmana permaneceu privada da luz da educação durante quase um século. No primeiro quarto do século XX, em 1925, foi fundada a Escola Feminina Calcutta Memorial para o ensino superior das muçulmanas. Pouco antes da Partição da Índia, foi fundado em Calcutá o Lady Brabourne College para as muçulmanas.

Os muçulmanos de Bengala e a nova língua bengali despertada

Os eruditos da língua bengali dedicaram longas discussões ao nascimento e ao desenvolvimento gradual da língua bengali e também escreveram enormes obras sobre o assunto. Não há espaço aqui para essa discussão. Contudo, seria injusto para com a história excluir dela a discussão da língua bengali na história dos muçulmanos de Bengala. Por isso, ainda que brevemente, é necessário registrar alguns pontos essenciais sobre o tema. Ao discutir a história da língua bengali, vê-se que antes de 1778 sua forma e configuração eram de um tipo, e depois a língua assumiu outra forma.

Antes da chegada dos ingleses a este país, a forma da língua bengali continha uma profusão de palavras árabes e persas. Era a língua materna de toda Bengala naquela época. O desenvolvimento dessa literatura ocorreu principalmente em verso. A literatura em prosa não era tão difundida; e, mesmo quando existia, não se empreendia nenhum esforço para aprimorá-la. Essa língua bengali repleta de palavras árabes e persas não era apenas a língua dos muçulmanos deste país. Era a língua de todos, hindus e muçulmanos indistintamente. Tanto hindus quanto muçulmanos usavam essa língua em cartas, escrituras e documentos, bem como em petições e súplicas dirigidas ao governo. Como exemplo, apresenta-se a seguir o trecho de uma carta escrita por certo hindu, extraído de registros antigos:

Sri Ram. Garib Nawaz, salamat. Em minha zamindari, no pargana de Kakjol, suas duas aldeias foram devastadas; essas duas aldeias foram restauradas — Sri Hare Krishta Ray Chowdhury, de Chakla Ekbelpur, hoje as tomou à força e delas desfruta. Estou sendo arruinado no fornecimento da receita fundiária — rogo que o governo envie também um chupdar para chegar ao local, convoque a outra parte, realize uma audiência e faça entregar o que me é de direito. Fim. Ano 1185, dia 11 de Shravan. Vosso servo, Jagatadhib Ray. (A data inglesa da carta corresponde a 26 de julho de 1778.)

Fazendo referência a essa carta, Sajanikanta teceu o seguinte comentário sobre a literatura e a cultura bengalis de seu tempo:

Em certo sentido, a manifestação autêntica da língua que se observa em 1778 foi resultado da influência muçulmana no país. Mais tarde, Henry-Peter Fromter e William Carey defenderam vigorosamente a língua bengali como filha da mãe sânscrita, fazendo campanha contra a intrusão indevida do árabe e do persa. (História da literatura bengali, p. 62).

Sajanikanta acrescenta: mas, se os ingleses não tivessem chegado, ainda hoje teríamos de começar dizendo “Garib Newaz Salamat” e terminar dizendo “fidavi”. Se isso teria sido auspicioso ou funesto, não adianta julgá-lo agora. … Em 1778 começou esse ritual de extermínio do árabe e do persa, e em 1838, com a ajuda da lei, a substituição do árabe e do persa pelo bengali e pelo inglês nos tribunais das sedes e dos distritos, durante o período da Companhia, consumou esse ritual. Bankimchandra também nasceu nesse ano. A história desse ritual é extremamente interessante. Naquela época, foram compilados e publicados vários dicionários para declarar impuro o árabe e o persa e divulgar vocábulos puros. Sempre que tinham oportunidade, os ingleses se opunham ao árabe e ao persa e davam primazia ao bengali e ao sânscrito. Como resultado, em dez ou quinze anos, a forma e a natureza da prosa bengali haviam mudado completamente. (História da literatura em prosa bengali, p. 32).

O William Carey mencionado acima tinha razões para fazer campanha contra o árabe e o persa. Abdul Mawdud afirmou corretamente: a campanha de conquista da Europa no Oriente ocorreu por três meios cuidadosamente planejados: como mercadores transportadores de mercadorias; atrás deles, com armas, sob o pretexto de proteger as mercadorias; e, atrás destes, com missionários, com o nobre objetivo de ministrar educação e cultura ocidentais. (Abdul Mawdud: O desenvolvimento da classe média… p. 363).

No terceiro estágio, vieram os missionários cristãos para ministrar educação e cultura ocidentais. Isso é extremamente significativo. Na Inglaterra, haviam sido formadas algumas organizações religiosas para propagar o cristianismo nos países sob o domínio do Império Britânico; entre elas, destacava-se o grupo de Clapham (Clapham Seer), liderado por Wilberforce. Charles Grant era membro desse grupo e diretor da Companhia das Índias Orientais. Depois de visitar a Índia, ele apresentou um quadro desalentador da situação religiosa e moral dos habitantes deste país e disse: “A única solução para a escuridão em que estão mergulhados é acender entre eles a luz do cristianismo. Os hindus erram porque são ignorantes. Seus erros não lhes foram mostrados. A melhor maneira de eliminar a desordem e os pecados aos quais estão entregues é distribuir entre eles a nossa luz e o nosso conhecimento”.

(Observações de Grant, publicadas no documento parlamentar impresso relativo aos assuntos da Índia, Several Vol. 8 (734), Apêndice 1. Publicado em 1832, pp. 3–60; M. Fazlur Rahman: Os muçulmanos bengalis e a educação inglesa, pp. 30–32).

Os missionários cristãos escolheram principalmente os hindus deste país para propagar sua religião. Para esse trabalho, precisaram inevitavelmente aprender e ensinar a língua bengali. Com esse objetivo, estabeleceram uma gráfica em Serampore, Hugli. Como já foi dito, a forma que a língua bengali havia adquirido até então era um bengali misto, isto é, um bengali mesclado com palavras árabes e persas. Embora esse bengali fosse a língua falada tanto por hindus quanto por muçulmanos, os eruditos brâmanes hindus o desprezavam. Para eles, a nação muçulmana era formada por “mlecchas”, “yavanas” e seres desprezíveis. A língua árabe e persa deles também era desprezada. É provável que os eruditos hindus ortodoxos sentissem, nas palavras árabes e persas, o cheiro da “carne bovina”. Eles amaldiçoaram essa língua, chamando-a de prácrita ou vernácula. Anteriormente, durante o reinado dos sultões muçulmanos, muitos textos da religião hindu haviam sido traduzidos para essa língua. Os eruditos daquela época emitiram o seguinte fatwa:

Os dezoito Purāṇas e a história de Rāma,

quanto à língua, isto é, na língua vernácula, quem quer que ouça os dezoito Purāṇas, a história de Rāma e outras obras semelhantes será destinado ao inferno de Raurava.

(Abdul Mawdud: O desenvolvimento da sociedade de classe média…, p. 344).

Os missionários cristãos também compreenderam muito bem que seria difícil atrair ao cristianismo por meio de uma língua que os eruditos hindus desprezavam, sem antes purificá-la. Assim, avançaram com o plano de matar dois pássaros com uma só pedra. Seu objetivo era proteger a língua do contato com o árabe e o persa, tornando-a aceitável aos hindus, e realizar o que Sajanikanta mencionou como o sacrifício de aniquilação, ou destruição, da língua materna bengali dos muçulmanos. Com esse grandioso (?) propósito, Nathaniel Brassey Halhed (Halhed) elaborou, em 1778, uma gramática bengali intitulada A Grammar of the Bengali Literature, que foi publicada pela Serampore Press. Como obra impressa, esta foi a primeira a utilizar letras bengalis. Por meio dessa gramática, em lugar da língua bengali até então corrente, criou-se uma nova língua bengali. Essa língua era inteiramente desprovida de palavras árabes e persas e repleta de palavras sânscritas. No prefácio da gramática, Halhed afirma: “Nesta época, falam em linguagem refinada aqueles que misturam inúmeros substantivos árabes e persas aos verbos indianos”. Portanto, não há dúvida de que a língua falada refinada e a estrutura da língua em prosa do século XVIII continham uma mistura de inúmeras palavras árabes e persas — como observamos na carta de um certo Jagadadhip Ray, hindu, mencionada acima.

É digno de nota que, em 1801, foi aberto um departamento de língua bengali no Fort William College, para ensinar bengali aos civis ingleses da Companhia. William Carey tornou-se o diretor desse departamento. Sob sua direção, foram nomeados oito eruditos. Entre eles, os nomes de Mrityunjay Tarkalankar e Ramram Basu são os mais famosos. Com a ajuda deles, Carey começou a escrever e publicar livros de prosa bengali. Primeiro foi escrito Kathopokathan e, depois, Itihasamala. É desnecessário dizer que a linguagem das duas obras seguia o estilo sânscrito e que seu conteúdo também excluía os muçulmanos. Pratapaditya, Rup Sanatan e Birbal eram os personagens centrais da história indiana. Portanto, no que diz respeito à língua e ao conteúdo, sob o patrocínio inglês abriu-se amplo espaço para os esforços dos eruditos e para o estabelecimento da grandeza do hinduísmo. De um lado, havia entre os missionários a arrogância de conduzir uma nação incivilizada das trevas à luz. De outro, havia nos eruditos um empenho e entusiasmo ilimitados para estabelecer firmemente o bengali como filha do sânscrito e manifestar a grandeza dos hindus. Esses dois objetivos se refletem plenamente na avaliação da língua e do conteúdo das obras daquele período escritas pelos eruditos sob o comando de Carey.

(História da literatura bengali em prosa, Sajanikanta Das, p. 112; Abdul Mawdud: O desenvolvimento da sociedade de classe média: A transformação da cultura, p. 364).

Portanto, com base nesses fatos, está hoje tão claro quanto a luz do dia que, por conluio entre ingleses e hindus, os muçulmanos não foram expulsos apenas dos campos político e econômico. A língua materna que haviam desenvolvido ao longo dos séculos passados também foi anulada. Foram lançados do topo da sociedade para baixo. Tiraram-lhes o alimento da boca e deram-no a outros, e até sua última possessão, a língua falada, foi destruída por meio do “sacrifício de aniquilação”.

O respeitável Abdul Mawdud diz: “Justamente quando a literatura começava a se desenvolver nessa língua bengali de estilo misto, a balança do mercador transformou-se em cetro do governo, e também os missionários, carregadores das bagagens dos mercadores, mudaram a orientação da língua literária.

Os introdutores da educação ocidental também moldaram a estrutura da língua bengali segundo um novo padrão — para a comunidade dos babus. Como resultado, a cultura dos babus foi introduzida numa língua que não era apenas próxima do sânscrito, mas inteiramente sânscrita. E isso também ocorreu com a perspectiva de uma nova introdução da língua e da cultura, enquanto os missionários se empenhavam em arrancar a língua da boca dos muçulmanos e empobrecê-los também nos campos da literatura e da cultura”.

(Abdul Mawdud: O desenvolvimento da sociedade de classe média, p. 358).

A nova língua bengali que se formou entre os muçulmanos com base no bengali anterior ao inglês e aos missionários, e na qual o árabe e o persa infundiam força e inspiração, pode ser chamada de bengali muçulmano. Naturalmente, ela não era de modo algum aceitável para os hindus. Depois de 1837, quando o bengali hindu (um bengali repleto de palavras sânscritas e desprovido de palavras árabes e persas) foi reconhecido pelo governo como língua materna provincial, o caminho para o progresso do bengali muçulmano foi bloqueado. O persa, usado até então nos escritórios e tribunais, perdeu sua dignidade própria, enquanto a nova língua bengali oficializada começou a receber o patrocínio do Estado. O novo bengali avançou passo a passo e, após a fundação da Universidade de Calcutá, essa língua alcançou a posição de veículo da cultura hindu e das esperanças e aspirações nacionais.

Essa nova língua bengali foi tornada obrigatória nas escolas e colégios como língua materna. Até mesmo na Madrasa de Calcutá, onde muitos alunos nem sequer conheciam o bengali muçulmano, esse novo bengali foi incluído no currículo. Professores europeus, como o professor Wilson, começaram a fazer uma defesa tão veemente da língua sânscrita que o aprendizado do sânscrito pelos ingleses se transformou numa verdadeira obsessão. Wilson escreveu uma gramática simples do sânscrito, facilitando aos ingleses o caminho para aprender essa língua. Em 1828, tornou-se presidente da Sociedade para a Tradução do Conhecimento e das Ciências Europeias para a Língua Bengali e, sob o patrocínio do General Committee of Public Instruction, ou Comitê Geral da Instrução Pública, escreveu numerosos livros no novo bengali. Esses livros transformaram-se em manuais escolares. Entre o bengali muçulmano e o novo bengali havia uma diferença tão abismal não apenas no aspecto linguístico, mas também no conteúdo, na cultura e nas crenças religiosas, que a adoção da nova língua se tornou extremamente perigosa para os muçulmanos.

Como exemplo, apresentam-se abaixo os nomes de algumas obras:

Karuna Nidhan Bilas, Padanka Dut, Bishwa Mangal, Gita Govinda — relacionadas a Sri Krishna,

Chandi, Ananda Mangal — relacionadas a Durga,

Mahima Stab, Ganga Bhakti — relacionadas a Shiva e ao Ganges

Chaitanya Charitamrita, Rasa Manjari, Adirasa, Padavali, Ratikal, Rati Bilas — estimulantes do amor

Adotadas como livros didáticos nas escolas:

Shishu Bodhak era amplamente ensinado nas escolas urbanas e rurais de Bengala. Continha traduções de muitos versos sânscritos, escritos principalmente sobre os deuses e deusas hindus. Suas primeiras lições começavam com orações dirigidas a Sarasvati, Ganga e outras divindades.

Depois vem a história de Anandamangal. Ela também é, do princípio ao fim, repleta de louvores ao hinduísmo e a seus deuses e deusas. Encontram-se os nomes de muitos outros livros didáticos desse tipo. M. Fazlur Rahman: The Bengali Muslims & English Education, pp. 106-108).

É digno de nota que, antes do bengali hindu de estilo sânscrito, a língua bengali que vinha sendo cultivada e desenvolvida havia vários séculos era principalmente a literatura poética Bhil, ou literatura de puthi. Nos tempos modernos, essa literatura é identificada justamente como literatura de puthi. Entretanto, dois dos que a praticaram, Male Muhammad e Muhammad Danish, chamaram seu estilo de “bengali corrente”, enquanto Rezaullah (1861) o chamou de “bengali islâmico”. Em 1855, o reverendo Long, em sua bibliografia, chamou essa língua de “bengali muçulmano” e deu à literatura nela escrita o nome de “literatura bengali muçulmana”.

(Abdul Maudud: O desenvolvimento da sociedade de classe média… A transformação da cultura, p. 355).

A literatura despertou a atenção do senhor Hunter, que disse:

Até hoje, a sociedade camponesa da região do delta é muçulmana. No Baixo Bengala, o Islã está tão profundamente enraizado que deu origem a uma literatura religiosa própria e a um dialeto coloquial. Assim como o urdu do norte da Índia se distingue do persa de Herat, o dialeto conhecido como “bengali muçulmano” distingue-se do urdu.” (W. W. Hunter: The Indian Mussalmans, p. 146).

Qualquer que seja o nome dado a essa literatura, ela não era desprovida de vitalidade. Durante vários séculos, fez vibrar ondas literárias no coração de milhões de homens e mulheres. Influenciou seus pensamentos, reflexões, esperanças e aspirações. Shri Shri Kumar Bandyopadhyay diz:

O acervo de histórias da literatura muçulmana tampouco era de modo algum pobre. Narrativas como “Os romances árabes”, “Hatim Tai”, “Layla Majnun”, “Chahar Darvesh” e “Gul-e-Bakavali” certamente abriram diante dos leitores bengalis um mundo de mistério e beleza até então inimaginável. Quando, em meados do século XIX, nossa literatura de romances se formava gradualmente sob o modelo da literatura inglesa, a tradução desse tipo de história muçulmana tornou-se uma parte importante de nosso esforço literário. Se elas não tivessem tocado o coração dos leitores e atraído seu gosto, uma parte essencial de nosso empreendimento literário jamais poderia ter sido dedicada à sua tradução. Essas histórias possuem, pelo menos, uma abundância extraordinária de elementos sensacionais (Sensational), de colorido romântico (Romance) e de um deleite ilimitado com uma beleza sem regras nem restrições; foi precisamente isso que, com força irresistível, atraiu o gosto de uma parcela nossa, exaurido pelo consumo de escrituras religiosas e debilitado pelo tédio. (A trajetória do romance na literatura bengali, Shri Shri Kumar Bandyopadhyay — 4.ª ed., pp. 18-19).

A literatura bengali moderna e o comunalismo

Entre aqueles que contribuíram para a criação, o enriquecimento e o desenvolvimento da literatura bengali, destacam-se especialmente os nomes de Rāmram Basu, Mrityunjay Vidyalankar e Raja Rammohan. Os dois primeiros faziam parte do grupo de eruditos contratados por William Carey. A obra de Rāmram Basu, «Pratāpaditya», foi publicada em 1801. Mrityunjay Vidyalankar escreveu cinco obras, entre as quais se destaca «Rājābalī» (1808). Depois, surge o nome de Rammohan. Sua literatura em prosa era vigorosa e cheia de vida. Contudo, não havia comunalismo nem hostilidade aos muçulmanos na literatura desses autores. Naturalmente, a «Rājābalī» de Mrityunjay foi a primeira tentativa de escrever uma história contínua, desde «Bichitrābalī», sobre os filhos ilegítimos da dinastia lunar, até o estabelecimento do domínio da Companhia em Bengala; e o período muçulmano foi escrito com extrema negligência e num tom impregnado de hostilidade.

Mais tarde, surgiram no cenário da literatura bengali dois grandes luminares: Michael Madhusudan na literatura em verso e Bankimchandra na literatura em prosa. Sua contribuição suprema para a literatura bengali é incontestável.

Abdul Maudud diz:

Quando o céu do meio-dia pairava sobre o campo de desenvolvimento do talento de Bankimchandra, também o céu político de Bengala havia mudado de rumo. Naquele momento, uma das partes, consciente de si, reivindicava vigorosamente sua parcela integral do favor inglês. O problema do desemprego começava a surgir na sociedade educada dos hindus de casta superior. E, em consequência disso, o sentimento de desespero em seus corações era filho do espírito da época. Ele surgiu no firmamento literário de Bengala como representante do espírito da sociedade hindu conservadora e como o sábio pioneiro do mantra da nacionalidade hindu. E, dessa maneira, ao espalhar pela sua escrita as marcas venenosas de um comunalismo intenso, deixou na história do mundo um exemplo sem segundo. Embora fosse dotado de erudição profunda, inteligência afiada e grande capacidade de análise, tornou-se um joguete dos ideais e objetivos da estreita sociedade hindu reacionária e conservadora; o mal e a desonra que infligiu à humanidade não têm paralelo na história do mundo. A ferida causada pela lâmina de uma arma também desaparece sob o bálsamo do tempo.

Mas a ferida causada pela pena não desaparece nem encontra cura: de geração em geração, ela continua a sangrar.

—(Abdul Maudud: O desenvolvimento da sociedade de classe média: a transformação da cultura, pp. 369–370).

Já discutimos, com exemplos, em um capítulo anterior, parte do incêndio venenoso que Bankim acendeu por meio da literatura contra a sociedade e a nação muçulmanas. Sua literatura é a principal responsável pela extrema deterioração das relações entre hindus e muçulmanos em Bengala e, de modo geral, no subcontinente indiano.

Em seus romances ‘Rajsingha’ e ‘Anandamath’, Bankim exalou um fogo venenoso de ódio aos muçulmanos; sob a ardência desse veneno, o fio subterrâneo de concórdia que ainda existia entre as duas grandes comunidades deste vasto subcontinente foi completamente seco e apagado. … Bankim Chandra também negou a existência dos muçulmanos neste subcontinente e, defendendo sua expulsão, tornou-se repetidamente eloquente ao conclamar e estabelecer a benevolente nação britânica. (Ibidem… p. 370).

A atividade literária dos muçulmanos anterior à literatura bengali moderna não refletia a vida cotidiana, nem em sua influência doutrinária e intenção alegórica disfarçada, nem em seus acontecimentos. Era impregnada pela delicada emoção da imaginação de um ideal superior nascido da vida e iluminada pelo toque do extraordinário.

— (A evolução do romance na literatura bengali, Shri Shri Kumar Bandyopadhyay, 4.ª ed., pp. 18–19).

É digno de nota que o primeiro a semear a semente do sectarismo no campo da literatura foi Bhudeb Mukhopadhyay, em sua obra ‘Anguri Binimaye’ (1857). Provavelmente inspirado por ele, Bankim transformou essa semente numa enorme árvore venenosa do sectarismo. Após a morte de Bankim, a literatura bengali não conseguiu libertar-se da lama do sectarismo. Seguindo seus passos, também posteriormente escreveram os hindus de casta superior — eruditos e não eruditos, literatos e não literatos.

As obras dos dois eminentes poetas — Rabindranath Tagore e Sarat Chandra Chattopadhyay — que adornaram e coroaram a literatura bengali com esplendor, também não conseguiram manter-se livres do contato com essa lama. Já apresentamos acima uma citação da escrita de Sarat Chandra, corrompida pelo veneno do sectarismo.

Mas, quando vejo também o poeta Rabindranath mergulhar nesse turbilhão, então, tomado de indignação e vergonha, um muçulmano naturalmente se ergue e, com voz dolorida, sem expressar uma opinião pessoal sobre Júlio César, peço ao público leitor que leia o conto ‘Durasha’ e o poema ‘Shivaji Utsav’, de Rabindranath.

(Abdul Mawdud: A transformação da cultura, p. 317).

Capítulo Oitavo

A literatura bengali moderna e os muçulmanos

Quando a atividade literária de Bankimchandra estava no auge do sucesso, um muçulmano seu contemporâneo surgiu no firmamento da literatura bengali. Era Mir Mosharraf Hossain. Sua literatura era genuinamente moderna e estava muito acima da política e do comunalismo. Quando Bankimchandra espalhava o veneno do comunalismo no campo literário, Mosharraf Hossain, sem lhe dar a menor atenção, dedicou-se, com uma atitude própria de artista, à criação de uma literatura instrutiva para os muçulmanos. Dedicou-se à literatura por mais de quarenta anos, e sua produção literária incluía romances, biografias, narrativas históricas, peças teatrais, textos humorísticos, poemas e canções. Sua obra máxima foi ‘Bishad Sindhu’. Embora os personagens de Bishad Sindhu tenham sido extraídos da história, não se pode chamar a obra de livro histórico. Ainda assim, na sociedade muçulmana, era o livro mais lido.

No firmamento da literatura bengali contemporânea surgiu mais um astro: o poeta rebelde Nazrul Islam. Na mesma época, muitos outros poetas e escritores muçulmanos também chegaram ao cenário da literatura bengali, como Kaykobad, Ismail Hossain Siraji, Moniruzzaman Islamabadi, Munshi Meherullah e outros. Criando literatura em suas próprias correntes distintas, eles despertaram na nação muçulmana a consciência de si e o senso de sua identidade própria. Mesmo antes de Nazrul, muitos poetas e escritores muçulmanos haviam surgido no cenário da literatura bengali. Mas havia uma diferença clara entre a corrente literária deles e a de Nazrul. Os demais parecem ter entrado no cenário literário com passos tímidos, tomados pela fraqueza de espírito. Considerando a literatura bengali como pertencente aos hindus, filha do sânscrito, evitavam cuidadosamente tocá-la com as palavras árabes, urdus e persas dos muçulmanos; até mesmo nas comparações, nos ornamentos e no estilo de composição, mantinham-se cautelosamente afastados dos sinais e marcas muçulmanos. Mas o súbito aparecimento de Nazrul na história da literatura bengali, assim como causou espanto, também inaugurou uma era revolucionária. A língua e a literatura bengalis dos muçulmanos haviam sido despertadas e orientadas para os Vedas, os Puranas e a identidade hindu; Nazrul reverteu sua direção e voltou-a para a qibla dos muçulmanos. Retornando do campo de batalha, tingido de vermelho pelo sangue fresco dos homens, entrou com ímpeto intenso e bravura heroica — do mesmo modo, retornando do campo de batalha, entrou com ímpeto intenso e bravura heroica — no campo da literatura. A hesitação, a timidez e a covardia jamais tiveram lugar em seu coração. Por isso pôde hastear seu estandarte da vitória no campo literário. Ao dissipar a hesitação dos poetas e escritores muçulmanos de seu tempo, trouxe ao campo literário uma liberdade própria dos muçulmanos. O ressoar do árabe e do persa voltou a ser ouvido em cada verso de seus poemas. Seu método de empregar palavras árabes e persas era tão hábil, ordenado e vigoroso que a língua adquiriu seu movimento espontâneo, o ritmo tornou-se fluente e a ressonância da melodia tornou-se doce e cativante. Ao introduzir palavras árabes e persas na língua bengali moderna, ele não apenas embelezou a língua, mas também restabeleceu nela a identidade e os direitos próprios dos muçulmanos. Abriu um novo horizonte na língua bengali para os cultores da literatura muçulmana. O poeta Nazrul foi uma maravilha extraordinária no mundo da poesia e da literatura. Seu talento era inteiramente concedido por Deus. Surgiu como um cometa numa época em que Rabindranath Tagore já havia conquistado seu lugar de honra nos círculos da literatura mundial. O poeta revolucionário teve de reconhecer o talento de Nazrul nestas palavras de louvor:

Vem, vem, ó cometa

Ergue uma ponte de fogo na escuridão

Sobre o cume daquela fortaleza dos dias sombrios—

Has tei o teu estandarte da vitória.

A marca na testa do mau agouro

Que se escreva ao ritmo da noite

Desperta-os com um clarão

Aqueles que estão semiconscientes

Assim como o talento poético de Nazrul o elevou a um lugar de grande destaque no mundo literário, sua poesia revolucionária também despertou a mente adormecida dos muçulmanos, dando-lhes inspiração indomável e força vital para seguirem por um novo caminho. Até então, os muçulmanos haviam sido marginalizados no campo literário; essa vergonha passou. Sua apatia foi rompida. Eles se lançaram a todas as atividades da vida com novo entusiasmo e vigor. Nazrul chamou os muçulmanos adormecidos, dizendo-lhes:

Em todas as direções, volta a arder a vermelha tocha do Dīn islâmico,

Ó desatento, levanta-te também, desperta e acende também a lâmpada da tua vida.

Seu chamado não foi em vão. Não apenas no campo literário, mas também no campo político, a nova caravana dos muçulmanos iniciou sua marcha em ritmo incessante.

Os muçulmanos no século XIX

Os muçulmanos diante da prova de fogo suprema

De 1800 a 1857, e por várias décadas depois, houve uma era de fogo para os muçulmanos. Nesse período, os muçulmanos de Bengala, como povo, encontravam-se à beira de um abismo de fogo. Depois que o poder político lhes foi retirado, também surgiram crises extremas nos campos econômico, religioso e cultural. Mesmo sob a perseguição e a opressão dos governantes estrangeiros e de seus colaboradores locais favorecidos, os muçulmanos não puderam aceitar seu governo e sua exploração. Isso se manifestou muitas vezes e em muitos lugares deste século por meio de revoltas e conflitos isolados contra os governantes. A Revolta dos Faquires, o Movimento Faraizi, o movimento de Titumir, o movimento jihadista de Saiyid Ahmad e o movimento de independência de 1857 foram explosões violentas contra o tratamento desumano e brutal que os britânicos e os hindus dispensavam aos muçulmanos. A discussão separada de cada um deles constitui o tema principal deste capítulo.

O movimento dos faquires

Tanto quanto se pode conhecer da história do movimento dos faquires, fica provado que a Revolta dos Faquires começou depois da Batalha de Plassey e, sobretudo, depois da derrota de Mir Qasim, em 1764, quando a Companhia das Índias Orientais obteve a «Diwani» e começou a impor seu regime opressivo; ela terminou em 1833 ou 1834. É difícil dizer se havia algum grande objetivo por trás da Revolta dos Faquires e se existia alguma força bem organizada e disciplinada para conduzir a revolta. Também é difícil dizer se havia alguma ligação entre as revoltas dos faquires ocorridas em diferentes épocas e lugares. Contudo, a razão pela qual declararam a revolta foi a opressão e a perseguição desumanas exercidas conjuntamente pela Companhia das Índias Orientais e pelos novos zamindares e agiotas hindus favorecidos por ela.

O objetivo principal de suas expedições era expulsar os zamindares exploradores criados e protegidos pela Companhia das Índias Orientais e saquear seus tesouros. Em Bengala do Norte, em consequência dessas expedições, muitos zamindares já haviam vindo refugiar-se em diferentes lugares do distrito de Mymensingh (1773). (Expedição dos faquires em Mymensingh, Khalekdad Chowdhury, em «Shatabdi Parikrama», editado por Dr. Hasan Zaman, p. 26).

Entre os que lideraram o movimento dos faquires, destacam-se Majnu Shah, Maju Shah, Tipu Pagal e Gaznafar Turkshah. Em seu ensaio «Expedição dos faquires em Mymensingh», Khalekdad Chowdhury menciona Majnu Shah como o irmão mais velho de Maju Shah. Sabe-se muito pouco sobre ele, além de que formou uma força armada contra o governo da Companhia das Índias Orientais. Com a derrota de Mir Qasim Ali, em 1764, o domínio inglês neste país se consolidou. Mas, simultaneamente, em Kumarkhali, no atual distrito de Kushtia, na região sul, as forças britânicas tiveram de aceitar a derrota diante dos seguidores de Majnu (Majnu Shah). («A contribuição do sul de Bengala para o movimento revolucionário» — Azizur Rahman, em «Shatabdi Parikrama», editado por Hasan Zaman, p. 180).

Em 1784, Maju Shah saqueou todos os bens dos zamindares das parganas de Mymensingh, Alapsing, Jafarshahi e Sherpur. Espalhou-se ali a notícia de que o irmão de Maju Shah, Majnu Shah, estava chegando à pargana de Jafarshahi com duzentos faquires ferozes. Temendo sua expedição, os zamindares e os camponeses fugiram para outros lugares. Contudo, pelo relatório do Sr. Day, chefe de Dhaka, sabe-se que foi o exército de Begambari que repeliu aquela expedição. Como resultado, os faquires recuaram. O relatório do Sr. Day também menciona que não era verdadeira a alegação de que os bens dos zamindares haviam sido saqueados. Para sonegar o pagamento das receitas, zamindares astutos e desonestos haviam enviado essa falsa notícia ao Comitê da Receita. («Shatabdi Parikrama», p. 27).

As expedições dos faquires recomeçaram dois anos depois, em 1786. O tenente Field foi enviado a Dhaka para proteger Mymensingh dos ataques dos faquires. O capitão Creighton foi enviado de Goalpara, em Assam, para ajudar Routen, o coletor de Mymensingh. No violento confronto entre os faquires e as tropas inglesas bem equipadas, o exército dos faquires foi derrotado e dispersou-se. Depois disso, por muito tempo, não se teve notícia de nenhuma atividade sua.

Após o fim das expedições dos faquires, os zamindares passaram a cobrar dos camponeses uma receita aumentada, sob o pretexto de compensar suas perdas, e a impor novos impostos. Com isso, a miséria dos camponeses chegou ao extremo.

Com o objetivo de pôr fim à opressão dos camponeses, em 1826 um faquir influente chamado Tipu Pagal formou, com camponeses, uma poderosa força. Os zamindares, ignorando todos os princípios de justiça e o Regulamento nº 8 de 1793, continuaram a impor diversos “abwab” aos camponeses. Esses abwab e novos impostos opressivos eram cobrados à força. Além disso, os zamindares arrendavam temporariamente suas zamindaris a pessoas influentes por preços elevados. Dentro do prazo determinado, os arrendatários cobravam dos camponeses altas taxas de receita por meio da opressão. Tipu organizou os camponeses para pôr fim a essas opressões.

Muitos historiadores chamaram esses faquires expedicionários de bandidos saqueadores. Na realidade, não era assim. Na verdade, eram pessoas da classe dos wali-darvesh, respeitadas pelo povo.

Tipu Pagal era o mastan de um faquir influente da aldeia de Letirkanda, na pargana de Sabub. Todos acreditavam que ele era um darvesh kamil. Ainda hoje circulam muitas histórias milagrosas a seu respeito, e até hoje muitas pessoas se reúnem em seu mazar por ocasião do urs (Khalekdad Chowdhury, Shatabdi Parikram, pp. 28–29).

A tarefa desses faquires era ensinar às pessoas os deveres e práticas religiosas. Mas, ao verem a extrema miséria do povo, sua alma se comoveu. Por isso, ao verem a extrema miséria do povo, sua alma se comoveu. Por isso, lançavam ocasionalmente expedições contra os opressores.

Também não é verdade que esses grupos de faquires fossem incivilizados e bárbaros. Eram instruídos e dotados de bom gosto. Até a mãe de Tipu possuía extraordinária capacidade organizacional. A mãe de Tipu inspirava Tipu e sua força. Em 1825, sob a liderança de Tipu, o grupo de faquires iniciou um movimento para interromper o pagamento da receita aos zamindares. Em um confronto entre a força de barkandazes dos zamindares e os faquires, a força de karkandazes foi aniquilada. Em um confronto entre os zamindares, a força de barkandazes foi aniquilada. Os zamindares buscaram a proteção da Companhia. A Companhia enviou uma força militar armada para prender Tipu e seu auxiliar, Gazanfar Turkshah. Uma tropa foi derrotada e fugiu, mas outra tropa prendeu Tipu. Turkshah atacou, com seu grupo, aquela tropa da Companhia e libertou Tipu.

Depois desse acontecimento, o magistrado Dempier chegou a Sherpur com uma força militar poderosa e bem treinada. Em uma batalha feroz contra a força de Tipu, Tipu foi capturado junto com sua mãe.

Mais tarde, em 1833, o grupo de faquires voltou a se organizar sob a liderança de dois poderosos companheiros de Tipu e atacou a delegacia de Sherpur, incendiando-a. Em seguida, uma força militar sob o comando do capitão Seal e do tenente Younghusband foi enviada para reprimir a força dos faquires. Ocorreu um confronto feroz e, nele, a força dos faquires foi derrotada e dispersada.

Acima foram apresentados alguns relatos da revolta dos faquires. Contudo, há razões suficientes para supor que a concepção equivocada sobre os faquires, registrada nas obras de escritores e historiadores ingleses, foi deliberadamente formulada. Warren Hastings chamou-os de beduínos, enquanto Hunter os chamou de “bandidos”. Durante várias décadas, seus ataques deixaram aqui vacilante o recém-estabelecido domínio britânico; provavelmente foi movido por esse ressentimento que sua história foi escrita de forma deturpada. Acima, Majnu Shah e Maju Shah foram apresentados como irmãos. Não dispomos de nenhum dado ou fonte histórica para verificar a veracidade disso. Alguns, porém, afirmam que Majnu Shah nasceu na região de Mewat, no estado indiano de Gwalior. Majnu Shah residia no dargah de Shah Madar, situado em Makanpur, a quarenta milhas de Kanpur. Dali, acompanhado por milhares de seguidores armados, lançou expedições em várias partes de Bengala e Bihar contra os ingleses e os zamindares opressores. Diz-se que seu campo de atuação abrangia a região de Purnia, em Bihar, e Rangpur, Dinajpur, Jalpaiguri, Cooch Behar, Rajshahi, Maldah, Pabna e Mymensingh, em Bengala.

No início de 1772, Majnu Shah surgiu no norte de Bengala acompanhado por um grande número de seguidores armados. Essa aparição é mencionada numa carta enviada à Companhia pelo supervisor de Rajshahi em 22 de janeiro de 1772. Nela se dizia que um grupo de trezentos faquires havia levado mil takas da receita arrecadada, e temia-se que talvez viesse a ocupar a própria repartição do pargana. Eles estavam armados com espadas, lanças, mosquetes de mecha e armas de fogos de artifício. Alguns diziam que supostamente possuíam até canhões giratórios. (História da luta pela independência, Abu Jafar, p. 33)

Em 1776, Majnu Shah chegou a Mahasthan, em Bogra, e construiu uma fortaleza. Naquela época, o responsável pelo distrito de Bogra era o Sr. Gladwin. Aterrorizado, ele solicitou auxílio militar ao Conselho Provincial. Nos meses de agosto e setembro de 1786, o chefe dos faquires (Majnu Shah) foi obrigado a enfrentar, sucessivamente, dois confrontos contra os ingleses. Em ambos os casos, assim como alguns faquires foram mortos ou feridos, os ingleses também tiveram de sofrer perdas semelhantes. … A partir dos dados históricos, presume-se que depois disso Majnu Shah atravessou o Ganges e retornou à sua terra. Nunca mais foi visto em Bangladesh. Segundo fontes oficiais, ele morreu por volta de 1787 na região de Makhanpur, no distrito de Kanpur. Seu corpo foi levado dali para Mewan, sua terra natal, onde foi sepultado (História da luta pela independência, Abu Jafar, pp. 40–41).

Após a morte de Majnu Shah, seus discípulos, entre eles seu filho Parag Ali, seu filho adotivo Cherag Ali e seus devotos íntimos Musa Shah, Sobhan Shah e Shamsher Shah, continuaram a luta contra os ingleses até o final do século XVIII.

Nono capítulo

O movimento Faraizi

Os ingleses não se contentaram em derrotar Siraj ud-Daulah por meio de intrigas e artimanhas, encenando uma batalha no campo de Plassey, nem em obter o cetro governamental de Bengala, Bihar e Orissa após derrotar Mir Qasim em 1764. Pelo contrário, começaram a buscar novos estratagemas para exterminar a nação muçulmana. Sua insaciável cobiça por riquezas levou-os a entregar-se à opressão dos súditos. Os ayma e os lakhraj dos muçulmanos foram confiscados. Para arrecadar impostos dos muçulmanos, começaram a impor aos súditos uma exploração e opressão cruéis. Para criar um mercado para os tecidos britânicos, iniciou-se o trabalho de exterminar os tecelões (1770–1825). Em 1766, cobrando um imposto de duas rúpias por maund de sal, o comércio do sal foi colocado sob o monopólio exclusivo dos europeus. Assim, os muçulmanos foram expulsos de todos os setores econômicos e passaram a ser esmagados pela pobreza.

Além disso, os muçulmanos começaram a ser impedidos de praticar suas cerimônias religiosas. Nas áreas dos zamindares hindus opressores, foram proibidos o sacrifício de gado e a convocação para a oração. Os zamindares hindus impuseram um imposto sobre as barbas dos camponeses muçulmanos. Eles foram obrigados a contribuir em dinheiro para as festas e celebrações hindus, a fornecer oferendas para as cerimônias e a prestar trabalho forçado. Os muçulmanos foram obrigados a vestir dhotis, raspar a barba e conservar o bigode. Iniciou-se um plano calamitoso para destruir a religião e a cultura dos muçulmanos e dissolvê-los no povo hindu. Os muçulmanos devotos ficaram desorientados. No período de extrema adversidade dos muçulmanos de Bengala, Haji Shariatullah nasceu em 1784, na pargana de Bandar, distrito de Faridpur. Aos dezoito anos, permanecendo ali, estudou religião, ciências sociais e política; aos dezoito anos, permanecendo ali, estudou religião, ciências sociais e política. Foi provavelmente nessa época que adquiriu uma compreensão clara do Islã e conhecimento da visão islâmica de vida. O Islã não é simplesmente um conjunto de alguns ritos e cerimônias; é, antes, um sistema completo de vida. Ele também compreendeu que é impossível observar plenamente os preceitos islâmicos em todos os aspectos da vida sem poder político. Depois disso, retornou à sua terra natal em 1820.

Durante sua estada em Meca, ele também tomou conhecimento do movimento de reforma islâmica de Muhammad ibn Abd al-Wahhab Najdi e sentiu-se atraído por esse movimento.

Também na Índia, sob a liderança de Shah Abdul Aziz Dehlavi, iniciou-se um movimento de reforma islâmica seguindo o exemplo de Abdul Wahhab Najdi — movimento ao qual os historiadores deram o nome deturpado de “movimento wahabita”. Ele declarou a Índia como “Dar al-Harb” e Sayyid Ahmad Barelvi, Shah Ismail, sobrinho de Shah Abdul Aziz, e o genro Maulana Abdul Hai dedicaram-se ativamente à transformação de “Dar al-Harb” em “Dar al-Islam”, isto é, em um Estado islâmico.

Haji Shariatullah também declarou este país como “Dar al-Harb” e anunciou que, enquanto este país não se tornasse “Dar al-Islam”, não seria apropriado realizar aqui as orações de “Jumu’ah” e do Eid. Ele qualificou como contrária ao Islã — shirk e haram — qualquer tipo de ajuda ou cooperação financeira ou física nas festividades religiosas dos hindus. Disse ainda que os muçulmanos deveriam abandonar o dhoti e vestir tahband-pijama, deixar crescer a barba e arrepender-se de toda espécie de superstição. Em suma, deveriam abandonar todos os atos pecaminosos e passar a viver uma vida islâmica renovada.

As massas muçulmanas exploradas, privadas de seus direitos e oprimidas sentiram um novo sopro de vida ao chamado de Haji Shariatullah e começaram a receber instrução junto a ele, em grupos cada vez maiores. Em pouco tempo, dez mil muçulmanos se juntaram ao seu grupo. Isso representou uma fonte de grande pavor para os zamindares hindus. A opressão dos muçulmanos agora cessaria, e até mesmo os muçulmanos pobres das classes inferiores, que eles haviam transformado em seus servos mais submissos e expulsado da religião islâmica, escapariam de suas mãos. Portanto, era natural que ficassem preocupados e aterrorizados. “Os zamindares ficaram alarmados com a disseminação do novo credo, que unia os camponeses muçulmanos como um só homem” — (Dr. James Wise; Journal of Asiatic Society of Bengal, vol. LXII, 1894, nº 1).

Os zamindares hindus uniram-se e decidiram firmemente suprimir Haji Shariatullah. A eles juntaram-se alguns muçulmanos apenas pela metade, interessados em seus próprios benefícios, que eram os servos mais submissos dos zamindares hindus. Mullahs, maulavis e pirs míopes, que ganhavam algumas moedas em nome de superstições como shirk e bid’ah entre os muçulmanos, também se posicionaram contra o movimento Faraizi.

De um lado os britânicos e, de outro, os contínuos abusos e a opressão dos tirânicos zamindares e agiotas hindus haviam deixado os muçulmanos sem alternativa, obrigando-os a baixar a cabeça e suportar tudo. Ao chamado de Shariatullah, os muçulmanos oprimidos começaram a reunir-se junto a ele em grupos e fizeram o juramento de construir um movimento irresistível contra os britânicos e os hindus. É provável que os Faraizi, cujo nome deriva da palavra “fard”, estivessem começando a esquecê-la e tivessem introduzido na sociedade muçulmana muitos costumes e cerimônias não islâmicos. Abandonar todos os costumes contrários ao Islã e restabelecer o Islã instituído pelo Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) era o principal objetivo dos movimentos de homens notáveis como Muhammad ibn Abd al-Wahhab Najdi, da Arábia, Sayyid Ahmad Shahid, Haji Shariatullah e Syed Nisar Ali, conhecido como Titumir, entre outros. Abandonar todos os costumes contrários ao Islã e restabelecer o Islã instituído pelo Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) era o principal objetivo dos movimentos de homens notáveis como Muhammad ibn Abd al-Wahhab Najdi, da Arábia, Sayyid Ahmad Shahid, Haji Shariatullah e Syed Nisar Ali, conhecido como Titumir, entre outros.

Como o movimento de Haji Shariatullah havia atingido duramente os interesses hindus, eles empregaram todas as suas forças para suprimi-lo, com a ajuda dos governantes ingleses. Uma prova do grau de hostilidade da sociedade hindu da época para com Haji Shariatullah encontra-se em uma carta publicada no “Samachar Darpan” de 22 de abril de 1837. A carta é reproduzida abaixo:

Recentemente, na aldeia de Bahadurpur, situada nos limites da delegacia de Shibchar, no distrito de Faridpur, um homem chamado Saritulla, desejoso de tornar-se soberano, reuniu cerca de doze mil tecelões e muçulmanos, promulgou uma nova sharia e, fazendo com que seus seguidores deixassem crescer a barba, removessem a parte inferior da vestimenta e atassem uma corda religiosa à cintura, passou a atacar as casas dos hindus dos arredores, causando inúmeros danos ao culto de deuses e deusas. Ele quebrou e lançou ao rio os doze lingas de Shiva instalados por Dewan Mrityunjay Roy, residente em Rajnagar, na delegacia de Matlabganj, pertencente ao distrito de Daca; depois, na aldeia de Poragacha, dentro dos limites da mesma delegacia, atacou à noite a casa de um cavalheiro, saqueou todos os seus bens e incendiou sua residência, reduzindo a cinzas o que restava. Por causa disso, um desses yavanas morreu e foi entregue à justiça em Daca.

E ouviu-se ainda que os perversos yavanas pertencentes ao grupo de Shariatullah haviam cometido toda espécie de violência contra o babu Tarini Charan Majumdar, da aldeia de Patkanda, situada no distrito de Faridpur; isto é, tendo provocado perturbações no culto aos deuses e deusas realizado em sua casa e praticado más ações como o abate de vacas, o babu Majumdar, considerando permissível um combate aberto contra os yavanas, comunicou todas essas violências ao magistrado de Faridpur. O senhor magistrado, depois de julgar o caso, mandou prender vários yavanas e está realizando uma investigação minuciosa sobre o assunto. Senhor editor, os perversos yavanas, não se contentando com todos esses abusos e violências no interior, passaram antes a preparar um ataque ao tribunal. Ouviu-se que todos os amlas e mukhtars contratados no gabinete do magistrado de Faridpur são seguidores do yavana Shariatullah; o costume deles é este: quando se quer apresentar uma acusação falsa contra alguém, um deles se torna queixoso e outro testemunha, e assim instauram um processo; desse modo, há doze mil pessoas organizadas em grupo. Que defeito pode haver, então, no queixoso ou na testemunha? … Creio que, à medida que os yavanas de Shariatullah se organizam cada vez mais, dentro de poucos dias a religião hindu desaparecerá e ocorrerá prematuramente a destruição do mundo. Titumir não praticou nem a centésima parte das violências de Shariatullah. Fim. Ano 1243, dia 24 de Chaitra.” (“Relatos daquela época nos jornais” — editado por Brajendranath Bandyopadhyay — Shatabdi Parikrama, pp. 194–195).

Em cada linha dessa carta se revela claramente a atitude mental da sociedade hindu em relação aos muçulmanos.

Atraído também pelo movimento de Saiyid Ahmad Barelvi para estabelecer um Estado islâmico, Haji Shariatullah enviava de Bangladesh para o centro de Sittana, no oeste da Índia, numerosos mujahidin, grandes quantias arrecadadas por meio de zakat, fitra e lillah, além de várias formas de auxílio.

O novo campo de ação de Shariatullah foi estabelecido inicialmente em Naya Bari, no distrito de Daca. Porém, devido à extrema oposição dos zamindares hindus, ele teve de voltar à sua própria aldeia e iniciar ali sua atividade de pregação. Seu movimento se espalhou pelos distritos de Daca, Barisal, Nadia, Pabna, Mymensingh e outros. A promoção das orações e do jejum entre muçulmanos analfabetos, camponeses, tecelões e outros membros do povo, o uso do tahband e do gorro em lugar do dhoti, a reforma das mesquitas e outras atividades prosseguiam com grande vigor. O próprio Haji Shariatullah usava na cabeça um enorme turbante e, sobre a camisa, vestia um hudriya — uma roupa que, em geral, nenhum muçulmano usava. Depois de sua morte, em 1840, seu digno filho Dudu Mia deu continuidade ao seu movimento.

Mohammad Muhsin, filho de Haji Shariatullah, também conhecido como Dudu Mia, nasceu em 1819. Em 1831, foi a Meca para cumprir o hajj e permaneceu ali por cinco anos; ao retornar, ajudou seu pai em seu trabalho.

Assim como seu pai, Dudu Mia também iniciou um movimento contra os zamindares opressores. Teve de entrar repetidamente em conflito com os zamindares. Em 1842, atacou a residência de um zamindar em Faridpur e capturou, para depois matar, Madan Narayan Ghosh. A polícia prendeu 117 farayezis, incluindo Dudu Mia. No julgamento, 22 foram condenados à prisão. Dudu Mia, porém, foi absolvido por falta de provas. Em 1846, Kali Prasad, o gomasta de Andrew Anderson, lançou-se contra a casa de Dudu Mia com setecentas ou oitocentas pessoas, por ordem de seu patrão, e levou consigo muitos bens e riquezas, incluindo joias avaliadas em quase cento e cinquenta mil. Embora tenha recorrido ao magistrado em busca de justiça, nenhum resultado foi obtido.

Depois de buscar justiça contra as atrocidades dos zamindares e dos plantadores de índigo sem obter uma decisão justa, Dudu Mia decidiu então aplicar pessoalmente aos inimigos o castigo que mereciam. Em novembro de 1846, um mês depois de sua casa ter sido saqueada, incendiou e reduziu a cinzas a fábrica do plantador de índigo Dunlop, que fomentava as atrocidades e opressões dos inimigos, e matou o gomasta Kali Prasad. Depois de o processo se prolongar por dois anos, Dudu Mia foi absolvido das acusações apresentadas contra ele.

O governo ficou perturbado ao observar a extraordinária influência e autoridade de Dudu Mia entre o povo. Durante o movimento de independência de 1857, ele foi mantido preso sob o pretexto de que poderia provocar agitação. Primeiro foi mantido em Alipur e depois na prisão de Faridpur. Ao ser libertado em 1859, foi para Daca, onde morreu.

Dudu Mia fortaleceu ainda mais o movimento de seu pai. Contudo, no que diz respeito aos princípios, alterou em certa medida os ideais de seu pai. Os seis pontos sobre os quais Haji Shariatullah fundamentou seu movimento são os seguintes

>> A oração de sexta-feira e as orações do Eid não são válidas em nenhum lugar, exceto nos países governados por muçulmanos;

>> A observância das festividades e cerimônias de Muharram é contrária ao Islã e constitui pecado;

>> Em lugar dos termos ‘pir’ e ‘murid’, deveriam ser usados os termos ‘ustad’ e ‘shagored’. Isso porque o ‘murid’ entrega todos os seus bens ao ‘pir’, o que não é correto. O ‘shagored’, por outro lado, não é obrigado a fazê-lo.

>> Entre aqueles que aderirem a este movimento não haverá qualquer distinção entre alto e baixo, ‘ashraf’ e ‘atraf’. Pelo contrário, será estabelecida entre todos uma igualdade de dignidade, ausente entre os ‘pir’ e ‘murid’.

>> Declarou que a adoração dos pirs e a adoração dos túmulos são condenáveis pelo Islã e protestou veementemente contra elas.

>> Em lugar do costume então vigente de fazer a ‘bayat’, colocando a mão na mão do pir, aquele que aderisse ao movimento ‘Faraizi’ deveria apenas arrepender-se sinceramente de todos os atos pecaminosos e comprometer-se a levar uma vida plenamente islâmica.

>> Declarou também contrária ao Islã a prática de a parteira cortar o cordão umbilical do recém-nascido, afirmando que essa tarefa cabe ao pai, e não a uma parteira não-mahram.

James Taylor afirma que o objetivo do movimento Faraizi era seguir o Alcorão ao pé da letra, e que tudo aquilo que o Alcorão não apoia deve ser abandonado. Não era proibido apenas celebrar as cerimônias de Muharram; também era proibido assistir às atividades dessas cerimônias. (Dr. A. R. Mallick: British Policy & the Muslims in Bengal. P. 69).

Após a morte de Haji Shariatullah, para fortalecer o movimento, Dudu Mia dividiu todo o Bengala Oriental em várias áreas e nomeou um califa para cada área. A tarefa deles era convocar as pessoas para o movimento, recrutar ativistas e arrecadar fundos para administrar a organização. Assim, no topo da estrutura organizacional que foi criada, Dudu Mia passou a ocupar o lugar de “pir”, embora seu pai tivesse rejeitado a instituição dos pirs. (Journal of the Asiatic Society of Bengal, Vol. LXIII, pt. 2, No.1,1894, p.50; Encyclopedia of Islam, Vol.2, p-59).

O movimento conduzido durante a vida de Haji Shariatullah era sobretudo um movimento de reforma religiosa. Com exceção de um ou dois conflitos provocados por zamindares opressores, seu movimento não entrou em conflito com os interesses estabelecidos. Contudo, na época de Dudu Mia, o movimento assumiu em grande medida um caráter político. Todos os zamindares e os plantadores de índigo se uniram contra seu movimento. Por isso, toda a vida de Dudu Mia transcorreu em luta contra eles. Por um lado, os diversos tipos de opressão infligidos pelos zamindares e plantadores de índigo aos pobres camponeses arrendatários e, por outro, os esforços totais de Dudu Mia para aliviar seu sofrimento uniram-nos sob a liderança de Dudu Mia. A capacidade organizacional de Dudu Mia também era extraordinária. Os zamindares de Bengala eram quase sempre hindus, os plantadores de índigo eram cristãos ingleses, e seus empregados, os gomastas, eram todos hindus. Também por essa razão, os camponeses arrendatários se uniram sob a liderança de Dudu Mia contra os zamindares e os plantadores de índigo. Toda a vida de Dudu Mia transcorreu em luta contra os zamindares e os plantadores de índigo. Ele era envolvido em processos judiciais sempre novos e falsos. Por causa disso, acabou sendo obrigado a suportar a pobreza.

Após a morte de Dudu Mia, seus dois primeiros filhos, respectivamente Giasuddin Haidar e Naya Mia, lideraram o movimento Faraizi. Depois da morte de Naya Mia, o terceiro filho de Dudu Mia, Aladin Ahmad, dirigiu o movimento. Ele cooperou com o nababo Salimullah em apoio à Partição de Bengala de 1905. Depois de Aladin, seu filho Badshah Mia dirigiu o movimento. Em 1922, ele aderiu ao movimento do Califado, e nessa época o governo o prendeu. Depois disso, o movimento Faraizi entrou em declínio. O movimento de reforma religiosa com o qual este movimento havia começado foi gradualmente enfraquecendo e fluindo para outra direção. A relação pir-murid que Haji Shariatullah havia rejeitado, dando ao movimento a forma de um autêntico movimento de reforma islâmica, acabou por transformar-se justamente nessa relação pir-murid. Consequentemente, a antiga inspiração jihadista e o espírito combativo desapareceram das atividades e dos métodos de ação dos seguidores do movimento.

Décimo capítulo

O mártir Titu Mir

O mártir Titu Mir foi uma pessoa extremamente oprimida de seu tempo. Assim como Haji Shariatullah, ele também iniciou um movimento de reforma na sociedade muçulmana decadente. Em seu movimento de reforma puramente religiosa, os zamindares hindus não apenas criaram obstáculos; seu ódio cego contra o Islã e contra a comunidade muçulmana tornou-se evidente. É extremamente lamentável que, na historiografia contemporânea, o caráter de Titu Mir tenha sido apresentado de forma profundamente distorcida. A razão disso também é muito clara. Os comentários feitos por pessoas tomadas pelo ódio são distorcidos, fruto da imaginação e motivados por objetivos específicos. Um sábio de caráter puro e devoto de Deus como Titu Mir foi chamado de homem depravado, criminoso e bandido. O Dr. A. R. Mallick, na página 76 de sua obra British Policy & the Muslims in Bengal, apresentou informações distorcidas citando Calcutta Review, Boards Collections, 54222, p-401, Colvin to Barwell, 8 March 1832 para 6, Magistrate of Banaset to Commissioner of Ciccuit, 18 Div.28 November, 1831, para 35, entre outras fontes. Afirmou-se que Titu Mir não nascera em nenhuma família importante, mas que se casara com alguém da família de um certo nobre proprietário de terras chamado Munshi Amir. Afirmou-se ainda que Titu Mir era conhecido como um criminoso depravado e que trabalhara como capanga contratado sob as ordens de um zamindar hindu de Nadia. Essas afirmações não passam de completa negação da verdade. Com base nesses relatos, ou cegado pelo ódio ao Islã, o senhor Hunter também declarou: “Entre os discípulos, subordinados e seguidores dos líderes religiosos que havia então em Calcutá, havia um homem chamado Titu Mir, de natureza de lutador profissional e bandido. Embora esse homem tivesse começado a vida como filho de um camponês nobre, melhorou sua posição casando-se na casa de um zamindar. Mas, devido ao seu caráter feroz e indomável, não conseguiu conservar essa posição”. (W.W. Hunter The Indian Mussalmans. B. D. First Edition, 1975, pp.34-35).

O cristão inglês senhor Hunter também fez afirmações infundadas a respeito de Sayyid Ahmad Shahid, o sábio ilustre e eternamente lembrado do mundo muçulmano. Sua discussão será feita no lugar apropriado. Discutiremos o movimento e as atividades do mártir Titu Mir com base nas informações confiáveis que chegaram até nós sobre ele. Espero que, assim, fique provado que não há a menor relação entre sua educação, seu caráter, seu amor a Deus e sua atitude combativa, mantida ao longo de toda a vida contra a falsidade, a injustiça e a opressão, e a descrição imaginária apresentada acima.

Vinte e cinco anos após a batalha de Plassey e setenta e cinco anos antes da luta pela independência em toda a Índia (1857), ocorrida na quinta década do século XIX, em 1782, Sayyid Nisar Ali, conhecido como Titumir, nasceu na aldeia de Chandpur, no distrito de Twenty-Four Parganas, no oeste de Bengala. Seu pai chamava-se Mir (Sayyid) Hasan Ali, e sua mãe, Abeda Rokaiya Khatun. (Shahid Titumir, Abdul Gafur Siddiqi, p. 1).

Os historiadores ingleses, com desprezo e com o propósito de diminuir Titumir, descreveram-no como alguém oriundo de uma família camponesa insignificante. Na realidade, porém, ele nasceu na célebre linhagem Sayyid. Entre os santos e dervixes que vieram a Bengala nos tempos antigos com o propósito de divulgar o Islã, os nomes de Sayyid Shah Hasan Razi e Sayyid Shah Jalal Razi aparecem em antigos documentos e registros. Mir Nisar Ali, conhecido como Titumir, descendia de dois irmãos consanguíneos, Sayyid Abbas Ali e Sayyid Shah Shahadat Ali, que nasceram, respectivamente, na trigésima geração descendente de Sayyid Shah Jalal Razi e Sayyid Shah Hashmat Ali. (Shahid Titumir, Abdul Gafur Siddiqi, pp. 3–4).

Titumir casou-se com Maymuna Khatun Siddika, neta do então célebre dervixe Shah Sufi Muhammad Asmatullah Siddiqi e filha de Shah Sufi Muhammad Rahimullah Siddiqi. (Shahid Titumir, Abdul Gafur Siddiqi, p. 16).

Abu Jafar afirma que o pai de Mir Nisar Ali se chamava Mir Hasan Ali e sua mãe, Abeda Rokaiya Khatun. Titumir casou-se com Maymuna Siddika, filha de Hazrat Shah Sufi Muhammad Rahimullah Siddiqi. Catorze dias após o casamento, seu avô paterno mais jovem, Sayyid Omar Daraz Razi, faleceu. Seis meses depois, morreu seu pai, Mir Hasan Ali. (História da luta pela independência, Abu Jafar, pp. 117–118). Seu avô paterno, Sayyid Shah Kadam Rasul, havia falecido antes do nascimento de Nisar Ali. Foi pelas mãos de seu irmão mais novo, Shah Omar Daraz Razi, que o pai de Nisar Ali, Mir Hasan Ali, se tornou murid.

Essas informações provam que Sayyid Nisar Ali, conhecido como Titumir, nasceu numa linhagem extremamente nobre. Ainda assim, ele foi retratado como um jovem indisciplinado e de má índole, além de membro assalariado do bando de capangas de certo zamindar hindu. Com base em informações confiáveis sobre sua educação e formação de caráter, uma análise demonstrará que os comentários acima a seu respeito são infundados.

Segundo o costume então vigente nas famílias nobres da sociedade muçulmana, quando Nisar Ali tinha quatro anos, quatro meses e quatro dias de idade, seus pais nomearam o ustad Munshi Lalmia para ensinar-lhe árabe, persa e urdu. Seus pais de modo algum foram negligentes quanto ao ensino de sua língua materna. Para isso, nomearam Pandit Rarakamal Bhattacharya, da aldeia vizinha de Sherpur, para ensinar-lhe bengali, aritmética elementar, matemática e outras matérias. Nessa época, quando um erudito professor chamado Hafiz Niamatullah veio de Bihar Sharif à aldeia de Chandpur, os responsáveis da aldeia o nomearam diretor da escola, e ele tornou-se um hafiz do Alcorão. Além disso, adquiriu especial erudição em gramática árabe, na ciência dos faraiz, hadith e filosofia, lógica, tasawwuf e poesia e literatura árabe e persa. Ele era capaz de proferir discursos fluentemente em árabe, persa e bengali.

Na época em que Titumir nasceu, os adolescentes e jovens de Bengala praticavam exercícios físicos regularmente. O recinto da madrasa situada entre as aldeias de Chandpur e Haidarpur era um centro de treinamento físico. Sheikh Muhammad Hanif, residente de Haidarpur, ensinava exercícios físicos. Nesse centro ensinavam-se luta livre, o jogo hadudu, luta com bastões, combate com escudo e espada, manejo da espada, arco e funda, uso de armas de bambu e outras práticas. Hafiz Niamatullah continuava ensinando não apenas árabe e persa, mas também o Alcorão. Diariamente, nas sessões e à noite, ensinava várias técnicas de exercícios físicos e manejo de armas. Os dois alunos principais desse centro eram Sheikh Muhammad Hanif e Sayyid Nisar Ali, conhecido como Titumir.

Provavelmente, ele se casou na primeira década do século XX. Cerca de um ano e meio depois, passou a permanecer com seu ustad, Hafiz Niamatullah, em Calcutá e em Talibtola (atualmente chamada Taltala), na casa de Hafiz Muhammad Israel. Hafiz Israel também era residente de Bihar Sharif. Ele foi nomeado imam principal da mesquita congregacional de Taltala e, depois de se casar ali, tornou-se residente de Calcutá. Naquela época, uma parte de Talibtola ou Taltala era chamada Misriganj. Ali havia um centro ou arena de competições de luta livre, cujo presidente era Jamaluddin Afendi. Naquela época, as competições profissionais de luta livre ainda não eram praticadas. Pessoas ricas ofereciam prêmios e uma vestimenta de honra ao vencedor, para incentivar a conquista de força física e bravura, e davam apenas um prêmio ao derrotado. A ideia de ganhar dinheiro lutando não havia ainda encontrado lugar na mente dos pehlwans.

Durante a permanência de Titumir em Calcutá, realizavam-se competições de luta livre no akhara de Misriganj, e o lutador vencedor recebia um generoso prêmio. Titumir conquistou grande renome nas competições de luta livre realizadas ali. Hafiz Niamatullah e Hafiz Muhammad Israel eram particularmente aficionados por esse esporte.

Outro grande aficionado pela luta livre era Mirza Ghulam Ambia. Não será irrelevante apresentar aqui algumas informações sobre ele. Pertencia a uma família real e não tinha filhos. Era zamindar e, por não ter filhos, gastava em boas obras a maior parte da renda de suas terras.

Sua residência zamindari situava-se na área de Mirzapur, na época anterior à Partição da Índia, na região da Amherst Street, na cidade de Calcutá. Sua casa chamava-se Mirza Manzil. A Mirzapur Street recebeu esse nome em sua homenagem. Ao sul de Mirza Manzil ficavam Mirza Talab e Mirzabagh. Mais tarde, esse Mirzabagh passou a ser chamado de Mirzapur Park. O local onde ficava sua sala de reuniões recebeu posteriormente o nome de Baithakkhana Road. O senhor Mirza dedicava-se constantemente à adoração e à devoção. Já idoso, doou à Municipalidade de Calcutá as terras de Mirzapur e da Baithakkhana Road, Mirza Talab, Mirzabagh e outras propriedades; vendeu sua casa e demais bens e fez a hijra para Meca. Mirza Talab e Mirzabagh, conhecidos e designados como Mirzapur Park quase até o fim do domínio britânico, receberam, na década de 1930, o nome de Swami Shraddhanand Park. A municipalidade não tinha, legalmente, esse direito. Vinte a vinte e cinco mil muçulmanos indignados reuniram-se no Mirzapur Park para protestar contra essa injustiça. Mas nada adiantou.

Depois de aproximar-se do referido Mirza Ghulam Ambia, Mir Nisar Ali sentiu um forte desejo de prestar bay’ah a um murshid perfeito. Mais tarde, quando um dervixe chamado Zaki Shah chegou a Talibtola, em Calcutá, Nisar Ali compareceu à sua corte e expressou o desejo de tornar-se seu discípulo. Shah Sahib fitou seu rosto por algum tempo e disse: “Se não visitares a Casa de Deus, não encontrarás o pir que te foi destinado”.

Por fim, na esperança de encontrar o verdadeiro murshid, Mir Nisar Ali foi a Meca, onde se encontrou com Sayyid Ahmad Barelvi. Foi ali mesmo que Mir Nisar Ali prestou bay’ah a ele e se tornou seu discípulo.

Depois de concluir o hajj e os demais ritos, Sayyid Ahmad Barelvi deu as seguintes instruções a seus califas, Maulana Shah Muhammad Ismail e Maulana Ishaq:

“Depois de chegarem às suas respectivas casas, vocês descansarão por quinze dias. Então, quando chegarem a Bareli, viajarei com vocês por diferentes lugares da Índia. Após descansar alguns dias em Patna, iremos a Calcutá.

Suas instruções aos califas de Bangladesh eram as seguintes:

Ao chegar a Patna, informarei o Maulana Abdul Bari Khan (pai do Maulana Akram Khan), o Maulana Muhammad Hossain, o Maulana Haji Shariatullah, o Maulana Saiyid Nisar Ali (Titumir), o Maulana Sufi Khodadad Siddiqui e o Maulana Karamat Ali. Vocês poderão saber com eles a data da minha chegada a Calcutá. Na reunião que realizaremos em Calcutá, será adotado nosso programa final de ação.

Depois disso, todos retornaram de Meca para suas respectivas casas. Mais tarde, no momento determinado, reuniram-se na casa ajardinada de Shansunnisa Khanam, em Calcutá. Após as discussões, decidiu-se que Patna seria a capital central dos mujahidins e que haveria uma capital provincial em cada província. Os recursos para conduzir o jihad seriam enviados das capitais provinciais ao centro.

Após essas decisões, o discurso proferido pelo Maulana Saiyid Nisar Ali (Titumir) na referida reunião é especialmente digno de nota. Ele disse:

A fé dos muçulmanos de Bangladesh tornou-se muito fraca. Seria perigoso enviá-los ao jihad enquanto não se tornassem muçulmanos verdadeiros. Assumo a responsabilidade de levar a dawah islâmica até eles. Além disso, creio que os hindus das castas inferiores também podem juntar-se à nossa luta. ….Isso porque os hindus das castas inferiores não estão satisfeitos com as castas dos brâmanes, vaidias, xátrias e कायस्थ. Se pudermos tornar os muçulmanos verdadeiros muçulmanos e unir os hindus das castas inferiores aos muçulmanos, então …não será difícil para nós estabelecer comunicação com o centro e ajudá-lo.

A assembleia consultiva decidiu então que Bengala ajudaria secretamente o centro em todos os demais assuntos. Contudo, não participaria publicamente do jihad. Entretanto, aqueles que desejassem juntar-se ao centro não seriam impedidos.

(Shahid Titumir, Abdul Gafur Siddiqui, pp. 22–37).

Depois, Saiyid Nisar Ali iniciou suas atividades; pretendemos discutir detalhadamente essas atividades a seguir. Acima, foram apresentados os relatos de suas atividades, desde sua vida estudantil, passando por sua vida em Calcutá, suas viagens em busca de um pir, a realização do Hajj e a obtenção do discipulado de Saiyid Ahmad Barelvi, entre outras. É absolutamente infundada e sem base a afirmação de que ele alguma vez tenha trabalhado como lathial mercenário no bando de capangas de algum zamindar hindu. Trata-se de uma tentativa deliberada de distorcer seus grandes ideais, caráter e nobreza, a fim de humilhá-lo e torná-lo desprezível aos olhos do povo.

Em seu discurso acima mencionado, Titumir havia dito: “A fé dos muçulmanos de Bangladesh tornou-se muito fraca”. Antes de discutir suas atividades e o movimento que liderou, precisamos saber quão fraca era a fé dos muçulmanos e em que ambiente ele iniciou seu trabalho de dawah islâmica. A comunidade hindu de Bengala, conspirando com os ingleses e cometendo uma extrema traição contra sua própria pátria, não apenas despojou os muçulmanos de seu reino, como também fechou todos os caminhos para que obtivessem seu sustento e não poupou esforços para tentar destruir até mesmo a fé, o maior patrimônio de um muçulmano. Mantendo os muçulmanos muçulmanos apenas de nome, afastando-os da fé, do modo de vida islâmico e da cultura, queria transformá-los em seres inferiores até mesmo aos hindus das castas inferiores e reduzi-los à condição de escravos dos escravos.

Já discutimos no capítulo anterior, intitulado “A situação religiosa, social e cultural dos muçulmanos”, até que ponto a comunidade muçulmana havia decaído, do ponto de vista religioso e cultural, no início do século XVIII. Sinto também a necessidade de discutir brevemente até que ponto essa situação havia se deteriorado na época de Titumir.

Os novos zamindares hindus de Bengala haviam se tornado os grandes favoritos dos ingleses. Seu domínio permanente neste país dependia inteiramente, por um lado, de mantê-los satisfeitos em todos os aspectos e, por outro, de manter os muçulmanos subjugados. Assim, os zamindares hindus ousavam emitir ordens justas ou injustas contra os muçulmanos das classes comuns.

Assim como os brâmanes haviam privado os hindus das classes inferiores da liberdade de praticar sua religião e do direito de entrar nos templos, da mesma forma os hindus das classes superiores fizeram surgir, entre os muçulmanos, um grupo de pessoas como “brâmanes muçulmanos” e privaram as massas muçulmanas da luz do Islã.

Abdul Gafur Siddiqui diz em sua obra:

Os zamindares hindus e os hindus das castas superiores de Bengala Ocidental explicaram aos muçulmanos analfabetos: “Vocês são pobres. Se não trabalharem na agricultura e como diaristas, não conseguem sustentar suas famílias. Nessas condições, quando terão tempo para cumprir suas orações diárias, semanais e anuais, o jejum, o hajj, o zakat, a oração fúnebre, as preces, a lavagem dos mortos e os demais deveres religiosos? E, depois de realizar todas essas atividades, quando encontrarão tempo para ganhar dinheiro e como sustentarão suas famílias? Portanto, nós também cumpriremos seus deveres religiosos, e vocês não perderão tempo.”

Os muçulmanos das classes de agricultores e trabalhadores agrícolas da Bengala Ocidental, privados do ensinamento da religião do Islã, aceitaram sinceramente esse conselho dos babus. Gradualmente, essa doença também se espalhou pela sociedade muçulmana da Bengala Oriental. Ao mesmo tempo, Satã, Azazil, e o nafs ammara os incitaram. Em resposta às palavras dos babus, eles disseram:

“Babu, o senhor tem toda a razão. Até agora, ninguém nos havia dado um conselho tão benéfico. Somos ignorantes, não entendemos nada. Faça conosco o que o senhor considerar apropriado.”

(Shahid Titumir, Abdul Gafur Siddiqui, pp. 5–6).

Desnecessário dizer que também não faltaram pessoas que se vestissem de brâmanes entre os muçulmanos. Nos tempos antigos, na corte real muçulmana, certa classe de muçulmanos era agraciada com bons títulos como recompensa por sua competência; além disso, recebia ayma, lakhraj e diversos tipos de propriedades fundiárias para seu sustento. Após a chegada dos ingleses, esses bens foram confiscados. Eles ficaram destituídos, sem recursos. Como não estavam habituados ao trabalho físico, também perderam seus meios de subsistência. Tampouco tinham capacidade para adquirir instrução.

Em suma, haviam se transformado num grupo de mendigos nobres. Entre eles havia algumas pessoas que ostentavam nomes como Sheikh, Sayyid, Mir e Qazi. Eram descendentes de antigas famílias tradicionais. Mas, pressionados pela necessidade, agora tinham de recorrer aos camponeses, trabalhadores e assalariados. Aproveitando-se de sua situação indefesa, os hindus das castas superiores começaram a dizer-lhes, em tom de compaixão:

Os muçulmanos das classes inferiores, como camponeses e trabalhadores, já não os respeitam como antes, nem querem respeitá-los. Tampouco lhes demonstram devoção e reverência. Nós também sentimos grande dor no coração diante de tal comportamento deles. O que se pode fazer? É a Era de Kali. Queremos ajudá-los, confiando-lhes a responsabilidade de realizar os atos religiosos deles. Aceitem cargos como akhanji, molla, ustadji, munshi e qazi na sociedade muçulmana e exerçam influência sobre eles. Assim, seu futuro será brilhante. Eles também lhes permanecerão obedientes. O grupo de Sheikhs, Sayyids, Mirs e Qazis, desprovidos de riqueza, ignorantes ou semianalfabetos e reivindicadores de nobreza, deixou-se enganar pelas palavras dos babus hindus brâmanes, kayasthas e vaidyas. Eles aceitaram os cargos de akhanji, molla, ustadji e munshi e instalaram-se como brâmanes da nação muçulmana. Abriram o caminho para a ruína nacional da comunidade muçulmana. À imagem do brâmane na sociedade hindu, criou-se também na sociedade muçulmana o cargo de brâmane. Os muçulmanos comuns, extasiados pelo modo aparentemente doce, desviaram-se para muito longe do caminho do Islã e da sharia islâmica. Em consequência da conspiração política da casta brâmane hindu, cometeram suicídio. (Ver Shahid Titumir — Abdul Gafur Siddiqi, p. 7).

As instituições educacionais tradicionais e nacionais dos muçulmanos haviam sido devastadas. Em todas as aldeias, foram estabelecidas escolas rurais por eruditos hindus. Os muçulmanos das classes comuns tinham de conviver nessas escolas com os mestres, oleiros, lavadeiros, barbeiros e adivinhos hindus, entre outros. Todos eles, juntos, prepararam o terreno para os brâmanes muçulmanos.

Entre os muçulmanos, aqueles que tinham condições enviavam seus filhos para essas escolas. Ali, juntamente com os alunos hindus, os alunos muçulmanos também tinham de decorar hinos e louvores a várias divindades, especialmente a veneração de Saraswati.

Os livros didáticos estavam repletos de louvores à grandeza do hinduísmo, venerações às divindades e hinos de louvor. A marca do hinduísmo ficava gravada no gosto e no coração sensível dos alunos muçulmanos. Depois das aulas, eles tinham de recitar a seguinte rima, saudar o mestre com uma reverência e voltar para casa —

Saraswati, ó Bhagavati, concede-me uma bênção,

Vamos, irmão, todos estudar; vamos para casa.

            Cintila, brilha, reluz o campo dourado,

            Leva o pat-dot contigo, glória ao Gurudev.

Depois restava o aspecto moral. No século XVI, após a introdução da doutrina vaishnava por Sri Chaitanya, ocorreu a extrema decadência moral da sociedade hindu. O fluxo de depravação sexual dos vaishnavas e vaishnavis, com os jogos amorosos de Sri Krishna e os homens e mulheres de cabeça raspada em nome da religião, não apenas arrastou consigo uma grande parte da sociedade hindu, mas também atraiu os muçulmanos comuns e iletrados para essa depravação. Influenciada pela depravação sexual dos tântricos vamáchári, surgiu também entre os muçulmanos uma classe de falsos praticantes de libertinagem sexual, que mergulhou os muçulmanos comuns no lodaçal da libertinagem sexual (ANARQUIA SEXUAL) em nome da religião. Além disso, a ampla disseminação do culto aos pirs e aos túmulos havia levado os muçulmanos ao mesmo nível da comunidade hindu idólatra.

Depois, os hindus também não deixaram de interferir injustamente na questão da nomeação dos muçulmanos. Em nome do nacionalismo baseado na língua bengali, eles conduziram os muçulmanos para o caminho errado. Os mestres hindus começaram a dizer:

Assim, segundo a orientação dos mestres, os muçulmanos passaram a receber nomes como Gopal, Nepal, Gobardhan, Nabai, Kushai, Padma, Chini, Champa, Badal, Patal, Mukta e outros. Desde pequeno, eu havia conhecido muitos muçulmanos das áreas rurais com nomes desse tipo.

Depois, confundidos pelos conselhos dos mestres, os muçulmanos começaram a abandonar o tahband e a vestir o dhoti; passaram a raspar a barba e a usar bigode. Pode-se dizer que não havia mais meio algum de reconhecer um muçulmano como muçulmano.

Foi nesse período de extrema decadência religiosa e moral dos muçulmanos que surgiu Sayyid Nisar Ali, conhecido como Titumir. É verdade que ele não pôde concluir sua grande obra, mas a luta total que iniciou contra a depravação religiosa e moral e contra a opressão injusta dos zamindares hindus serviu posteriormente como um farol no caminho da liberdade política, econômica e religiosa dos muçulmanos.

Depois de concluir em Calcutá a reunião consultiva de Sayyid Ahmad Barelvi, Titumir voltou à sua aldeia natal, Chandpur, e, após descansar por alguns dias, iniciou seu trabalho de da’wah islâmica.

O essencial da da‘wah de Titumir era estabelecer uma fé plena no Islã e seguir, em cada ação, as instruções de Alá e de Seu Mensageiro. Ele não podia ignorar a opressão e a perseguição dos zamindares hindus e dos plantadores de índigo. Por isso, dizia que era necessário unir-se aos hindus da comunidade camponesa e organizar uma resistência contra a opressão deles. A pedido dos habitantes da aldeia chamada Sarfarazpur, ele restaurou a mesquita em ruínas da época do governo imperial que ali existia e estabeleceu uma khanqah para a pregação. Depois da oração de sexta-feira, o sermão que proferiu diante dos hindus e muçulmanos reunidos foi muito significativo. Ele disse:

O Islã é a religião da paz. Alá e Seu Mensageiro de modo algum aprovam que se provoquem disputas e conflitos com aqueles que não são muçulmanos apenas por serem diferentes no aspecto religioso. Contudo, o Islã ensina que, se um não muçulmano poderoso e forte cometer uma opressão injusta contra um muçulmano fraco, os muçulmanos são obrigados a ajudar esse fraco.

Ele também disse que os muçulmanos deveriam ser verdadeiros muçulmanos em suas palavras, costumes e conduta. Se apreciassem os costumes, o modo de vida e as ações dos não muçulmanos, no Dia do Juízo Alá lhes daria um lugar junto aos não muçulmanos. Titumir disse que a sharia islâmica, a tariqa, a haqiqa e a ma‘rifa, tomadas em conjunto, constituem a vida plena dos muçulmanos, e que nelas se encontra a salvação deles neste mundo e no além. Se alguém demonstrasse negligência para com isso, Alá lhe infligiria um castigo severo. Fazer a oração, jejuar, deixar crescer a barba e aparar o bigode são deveres obrigatórios dos muçulmanos. Alá castigará severamente aqueles que abandonarem essas práticas segundo os modelos dos não muçulmanos.

Esse era o essencial de sua da‘wah inicial. Ele era capaz de discursar incessantemente em uma linguagem cativante, e seus discursos e atividades de pregação despertaram uma consciência sem precedentes entre os muçulmanos desviados e adormecidos.

Não havia nada de injusto no trabalho que Titumir havia iniciado. Pelo contrário, como muçulmano, esse era seu dever e sua responsabilidade. Mas por que os hindus de casta elevada tolerariam isso? A profunda conspiração deles para exterminar a comunidade muçulmana fora frustrada, e eles ficaram furiosos com Titumir e seus seguidores. Começou então uma nova conspiração para eliminá-los.

A restauração da mesquita em ruínas de Sarfarazpur, a organização das orações novamente em congregação e o inflamado discurso de Titumir diante das pessoas reunidas após a oração deixaram Krishnadev Ray, o zamindar de Pura, alarmado e inquieto. A responsabilidade de coletar informações sobre os movimentos e as atividades de pregação de Titumir foi confiada a Moti, um paik muçulmano leal e de confiança do zamindar. O zamindar disse a Moti:

Titu é adepto da religião wahabita. Os wahabitas são os maiores inimigos da religião de vosso Hazrat Muhammad. Mas são tão astutos que não se pode reconhecê-los como wahabitas pelo que dizem. Portanto, não posso permitir que meus súditos muçulmanos se desviem. A partir de hoje, fique de olho nos movimentos de Titu e informe-me de tudo.

Depois disso, Krishnadev Ray, após consultar Debnath Ray, o zamindar de Gobra-Gobindapur, e Kali Prasanna Mukhopadhyay, o zamindar de Gobardanga, obrigou alguns súditos a apresentar uma queixa contra Titumir por violação da paz. Em seguida, por ordem do zamindar, Matiullah compareceu à repartição do zamindar acompanhado de seu tio Gopal e de seus parentes Nepal e Gobardhan, e apresentou a queixa. Seu resumo era o seguinte:

Titumir, residente em Chandpur, veio à nossa aldeia de Sarparajpur (cujo nome muçulmano é Sarfrazpur) para propagar sua religião wahabita e instalou ali seu acampamento, obrigando-nos de várias maneiras a nos convertermos à doutrina wahabita. Titumir está impedindo-nos de praticar a religião de nossos antepassados, como temos feito por gerações. Apresentamos esta queixa à presença de Vossa Senhoria, nosso senhor, para que Titumir e os membros de seu grupo não possam oprimir de modo algum os habitantes de Sarparajpur e convertê-los à sua religião, nem nos obrigar à força a deixar crescer a barba, aparar o bigode, abater vacas ou adotar nomes de países árabes, nem provocar conflitos entre hindus e muçulmanos, e para que sejam tomadas as medidas cabíveis contra ele. Vossa Senhoria é nosso senhor. Vossa Senhoria é nosso pai e nossa mãe.

Depois de receber a referida petição, marcada com as impressões digitais de Gopal, Nepal e Gobardhan, o zamindar Krishnadev Ray expediu uma ordem.

1. Aqueles que se tornarem wahabitas ao aceitar a condição de discípulos de Titumir, deixarem crescer a barba e apararem o bigode deverão pagar ao governo do zamindar um imposto de duas rúpias e meia por cada barba e de cinco siccas por cada bigode.

2. Quem construir uma mesquita deverá pagar ao governo do zamindar quinhentas rúpias por cada mesquita de barro e mil rúpias por cada mesquita de alvenaria.

3. Se alguém mudar os nomes dados aos filhos pelos antepassados e lhes der nomes árabes segundo a doutrina wahabita, deverá depositar no governo do zamindar uma taxa de alteração de cinquenta rúpias por cada nome.

4. Quem abater uma vaca terá a mão direita cortada, para que nunca mais possa abater uma vaca.

5. Quem der abrigo em sua casa a um wahabita que siga Titumir será expulso de sua propriedade e de seu lar.

(Shahid Titumir — Abdul Gafur Siddiqui, pp. 48–49; História da luta pela independência, Abu Jafar, p. 119; Bengal Criminal Judicial Consultation, 3 de abril de 1832, nos. 5 e 6).

Os nomes do zamindar de Taragunia, Ram Narayan, de Gour Prasad Chowdhury, nayeb do zamindar de Kurgachhi e residente em Nagarpur, e do zamindar de Pura, Krishnadeb Roy, aparecem nos registros do Bengal Criminal Judicial Consultancy, de 3 de abril de 1832, nº 5. (Dr. AR Mallick, British Policy & the Muslims in Bengal, p. 76).

Na corte do magistrado adjunto de Barasat, foi instaurado um processo contra o zamindar Ram Narayan, no qual certa testemunha declarou que o referido zamindar lhe aplicara uma multa de vinte e cinco rúpias por deixar crescer a barba e ordenara que ela fosse arrancada. Bengal Criminal Judicial Consultancy, 3 de abril de 1832, nº 5; (Dr. AR Mallick, British Policy & the Muslims in Bengal, p. 76).

Por meio de uma carta, Titumir informou a Krishnadeb Roy que não havia cometido nenhuma injustiça; estava apenas pregando o Islã entre os muçulmanos. Interferir nesse trabalho não poderia, de modo algum, ser justo. Fazer a oração, jejuar, deixar crescer a barba e aparar o bigode, entre outras coisas, são preceitos religiosos para os muçulmanos. Impedir tais práticas equivalia a interferir na religião alheia.

É necessário também que os leitores saibam qual foi a reação de Krishnadeb Roy depois que um mensageiro de Titumir lhe entregou a carta; por isso, relato-a aqui.

Quando lhe perguntaram quem havia entregue a carta, o mensageiro mencionou o nome do senhor Titumir, de Chandpur. Assim que ouviu o nome de Titumir, o zamindar ficou furioso. Resmungando de raiva, disse: “Quem é esse Titu wahhabi? E quem é você, seu miserável?”

Um certo Muchiram Bhandari estava presente nas proximidades. Ele disse: “O nome dele é Aman Mondal. O nome de seu pai é Kaman Mondal. Ele é súdito de Vossa Senhoria. Antes raspava a barba, mas agora Vossa Senhoria não o reconhece porque ele deixou crescer a barba.”

O mensageiro disse: “Senhor, meu nome é Aminullah, e o nome de meu pai é Kamaluddin. As pessoas nos chamam de Aman-Kaman. Deixar crescer a barba é uma ordem da nossa religião. Por isso, cumpri-a.”

Krishnadeb, tremendo de raiva, disse: “Seu miserável, você pagou o imposto da barba? Pagou o imposto por mudar de nome? Muito bem, vou lhe mostrar uma coisa. Você ousa discutir comigo? É tamanha a sua insolência?” Dito isso, ordenou a Muchiram que o prendesse na cadeia e lhe aplicasse o castigo merecido. Desnecessário dizer que, em consequência das torturas e agressões desumanas, Aminullah tornou-se o primeiro mártir do movimento islâmico de Titumir. A notícia espalhou-se por toda parte. Os muçulmanos ficaram profundamente abalados, mas, não podendo fazer nada contra o poderosíssimo zamindar por falta de testemunhas e provas, permaneceram em silêncio.”

Reunião conspiratória dos zamindares em Calcutá

Com o objetivo de reprimir Titumir e seus seguidores, realizou-se esta reunião na casa de um certo Latu Babu, em Calcutá, à qual compareceram as seguintes pessoas: Latu Babu (Calcutá), o zamindar de Gobardanga, Kali Prasanna Mukhopadhyay, Debnath Ray, de Gobra-Gobindapur, o administrador do zamindar de Nurnagar, o naib-chefe do zamindar de Taki, o administrador do zamindar de Ranaghat, Krishnadev Ray, de Pura, o daroga da delegacia de Bashirhat, Ramram Chakravarti, Durgacharan Chakravarti, de Yadur Ati, e outros.

Decidiu-se na reunião que, como a queda da nação hindu seria inevitável se Titumir não fosse reprimido, ele deveria ser subjugado de qualquer maneira, e que todos os zamindares prestariam toda a ajuda e cooperação possíveis para esse fim. Decidiu-se também que seria solicitada a ajuda dos plantadores ingleses de índigo. Ser-lhes-ia explicado que Titumir havia iniciado uma luta também contra os ingleses. Deveria ser divulgado entre o povo hindu que Titu havia destruído a casta ao obrigar pessoas a comer carne de vaca. Solicitou-se ao daroga Chakravarti, de Bashirhat, que prestasse toda espécie de ajuda nesse assunto. Kali Prasanna Mukhopadhyay disse ao daroga: “Você é brâmane, e nós também somos brâmanes. Além disso, você é nosso parente. Nesta nossa dificuldade, deve ajudar-nos de todas as maneiras.” O daroga respondeu: “Ajudarei mesmo à custa da minha vida e provarei que Titumir é um rebelde.”

Após a reunião conspiratória de Calcutá, Krishnadev Ray enviou homens para cobrar do povo de Sarfarazpur o imposto sobre barba e bigode e as taxas de kharijana pela adoção de nomes árabes. Porém, quando eles se recusaram a pagar o imposto, o funcionário do zamindar voltou e informou-o do ocorrido. Em seguida, foram enviados doze barkandazes armados para capturar Titumir e levá-lo até lá. Mas eles não tiveram coragem de capturá-lo.

Em seguida, Krishnadev enviou as pessoas abaixo a diferentes lugares para pedir conselho:

1. Anukul Chandra Mukhopadhyay, a Gobardanga,

2. Khadreshwar Mukhopadhyay, a Gobra-Gobindapur,

3. Lal Bihari Chattopadhyay, à presença do senhor Benjamin, da fábrica de índigo de Serpur,

4. Banamali Mukhopadhyay, à fábrica de índigo de Hugli,

5. Loknath Chakrabarti, à delegacia de polícia de Bashirhat.

É digno de nota que Loknath Chakrabarti era cunhado de Ramram Chakrabarti, o daroga de Bashirhat.

Depois disso, mais de mil guerreiros valentes, armados com bastões, lanças, escudos e espadas, chegaram de vários lugares à casa de Krishna Deb, em Pura, para ajudá-lo. No dia seguinte, sexta-feira, foi dada a ordem de atacar Titumir e seus homens em Sarfarazpur.

No dia seguinte, sexta-feira, quando Krishna Deb Ray, montado a cavalo e à frente, chegou a Sarfarazpur com suas forças armadas atrás dele, os fiéis haviam se levantado para a oração após o khutba de sexta-feira. Os soldados de Krishna Deb cercaram a mesquita, proferindo vários gritos contra os muçulmanos, e atearam-lhe fogo. Quando Titumir e os fiéis saíram da mesquita, parcialmente queimados, foram atacados. Dois foram mortos como mártires, atingidos por lanças, e muitos ficaram feridos.

Depois disso, os muçulmanos apresentaram na delegacia de polícia de Kalinga uma queixa contra Krishna Deb Ray e suas tropas por assassinato, ferimentos, agressão e outros crimes. O funcionário responsável pela delegacia aceitou a declaração, é verdade. Mas ordenou que os cadáveres fossem enterrados sem sequer comparecer ao local do incidente.

No relatório de J. R. Colvin, afirma-se que, quando os funcionários do zamindar foram a Sarfarazpur para cobrar impostos sobre barba, bigode e coisas semelhantes, foram espancados e um deles foi detido. Depois, Krishna Deb Ray os atacou com uma força armada e incendiou a mesquita.

(Board’s Collection 54222, p. 405-6, relatório de Colvin, parágrafo 9, Dr. A. R. Mallick: British Policy & the Muslims in Bengal, p. 79).

Dezoito dias após o referido incidente, Krishnadeb Rai apresentou uma queixa contra Titumir e seus seguidores, alegando que eles haviam espancado seus homens e que, para incriminá-lo, eles próprios haviam incendiado a mesquita. (Bengal Criminal Judicial Consulations, 3 April 1832, No.6).

Krishnadeb Rai também alegou em seu ijahar: «Um muçulmano wahhabi de natureza feroz, chamado Titumil, inimigo do cultivo do índigo, dos zamindares e da Companhia das Índias Orientais, e mais de mil de seus discípulos detiveram ilegal e injustamente dois barkandazes e um gomasta do senhor Krishnadeb Rai, zamindar de Pura, e fizeram-nos desaparecer. Apesar de muitas buscas, não conseguimos encontrá-los. Os referidos paiks e o gomasta haviam ido à propriedade para cobrar os impostos dos camponeses do mahal de Sarfarazpur. Como discutiram com os camponeses sobre o pagamento e o recebimento do dinheiro dos impostos, os homens do grupo de Titumir, por ordem dele, os nossos gomastas e paiks, à força, detiveram-nos em algum lugar, que não se sabe qual. Titumir proclama arrogantemente que é o rei deste país. Portanto, não será mais necessário pagar impostos ao zamindar». (Shahid Titumir — Abdul Gafur Siddiqui, p. 60).

Ramram Chakrabarti sabia muito bem, pelo menos, como forjar um processo falso. Pois estava determinado a provar que Titumir era um traidor do Estado. De qualquer modo, nem é preciso dizer que o ijahar do zamindar, apresentado dezoito dias após o incidente, não era digno de crédito. Fora feito apenas para salvar a própria pele. Ainda assim, começou a investigação dos dois processos.

O jamadar do posto policial de Kalinga iniciou a investigação preliminar do processo. Seu relatório afirmava que as acusações de ambas as partes eram extremamente graves. Acrescentava: «Vi muitas provas das acusações dos muçulmanos». Ao investigar o processo que o naib do zamindar Krishnadeb Rai havia movido contra Titumir e seu grupo, descobriu-se que todos os empregados cuja abdução havia sido alegada estavam com o naib. A resposta do naib foi que, depois que ele foi para o interior, os homens de Titu os haviam libertado. Na minha opinião, a responsabilidade pela investigação desses dois complexos processos e pela apresentação do relatório final deveria ser confiada a Ramram Chakrabarti, o experiente daroga de Bashirhat.

Enquanto isso, o magistrado conjunto de Barasat convocou Krishnadeb Rai ao tribunal e concedeu-lhe fiança, ordenando a Ramram Chakrabarti que conduzisse a investigação e apresentasse o relatório final.

Ramram Chakrabarti foi a Sarfarazpur sob o pretexto de investigar, insultou Titumir e os aldeões com linguagem indescritível e espancou-os; depois de passar alguns dias na casa do zamindar Krishnadeb Rai, sendo tratado como um genro querido, apresentou o seguinte relatório:

1. Os gomastas e paiks do zamindar Krishnadeb Rai haviam sido ilegalmente mantidos presos por Titu e seus homens. Mais tarde, fugiram astutamente e se esconderam. Após a chegada da polícia, reapareceram. Portanto, este processo é insustentável e deve ser arquivado.

2. Titumir e seus homens armados com bastões apresentaram acusações falsas de homicídio e ferimentos, saque, incêndio criminoso e outros delitos contra o zamindar Krishnadeb Rai e seus paiks e barkandazes.

3. Titu e seus homens atearam fogo à sala de oração por conta própria. Portanto, este processo não pode prosseguir.

O relatório do daroga é inteiramente inventado e não passa de uma expressão de sua mente tendenciosa. Ainda que os muçulmanos tivessem centenas de defeitos, jamais teriam a coragem de cometer um ato pecaminoso como incendiar uma mesquita.

É profundamente lamentável que a questão da cobrança ilegal de impostos não tenha atraído a atenção do hakim, embora fosse a causa principal do conflito. Em consequência, o zamindar não apenas venceu o processo, como também teve legalizada sua cobrança ilegal de impostos. O comissário da divisão afirmou que a sentença proferida pelo magistrado adjunto, por um lado, não tinha o objetivo de impedir a cobrança ilegal e opressiva de impostos pelos zamindares e, por outro, nada fazia para diminuir a atitude provocadora da parte adversária. (Bengal Criminal Judicial Consultations, 3 April 1832, No.3; Commissioner to Deputy Secretary; 28 Nov. 1831. para 3).

Como resultado dessa sentença injusta do magistrado, o zamindar ganhou coragem para adotar medidas fraudulentas e opressivas. De acordo com o Regulamento nº 7 de 1799, obteve o poder de prender os camponeses e mantê-los detidos sob a alegação de impostos atrasados. Até mesmo pessoas que não eram camponeses do zamindar, mas haviam testemunhado contra ele, foram falsamente acusadas de dever 38 rúpias, presas e detidas, além de sofrerem diversas formas de punição física. Depois, foram obrigadas a assinar uma confissão escrita, mediante a cobrança de uma parte da dívida e a promessa de pagar o restante, para que não pudessem recorrer ao tribunal. (Board’s Collection, 54222, Enclosure No 4, the Colvin’s Report; Also in Bengal Criminal Judicial Consultations, 3 April 1832 No.6).

Em 25 de setembro de 1831, os muçulmanos foram a Calcutá para recorrer ao tribunal do comissário, levando uma cópia da sentença do processo. Porém, devido à ausência do comissário, não conseguiram apresentar o recurso e retornaram desanimados.

A mesquita da aldeia de Sarfarazpur foi destruída, muitas pessoas foram mortas ou feridas, e as casas de Habibullah, Hafizullah, Gholam Nabi, Ramzan Ali e Rahman Bakhsh foram reduzidas a escombros; muitas riquezas foram queimadas e saqueadas, mas o governo inglês não tomou qualquer providência. Como a vida dos moradores de Sarfarazpur, especialmente a de Saiyid Nisar Ali, estava em perigo, por conselho de todos, Saiyid Nisar Ali, também conhecido como Titumir, transferiu-se de Sarfarazpur para a aldeia de Narikelbaria em 17 de outubro, embora extremamente contrariado, acompanhado dos cinco homens acima mencionados, que haviam perdido suas casas. Em 29 de outubro de 1831, Krishnadeb Roy atacou a aldeia de Narikelbaria com mais de mil homens armados com bastões e uma tropa de bandidos portando diversas armas, espancando e ferindo muitos homens e mulheres. Em 30 de outubro, foi apresentada uma queixa no posto policial. Mas nada resultou disso. A polícia sequer compareceu para realizar qualquer investigação.

Diante dos ataques sucessivos das forças dos zamindares, os muçulmanos ficaram desorientados. Então foram obrigados a se preparar para a autodefesa. Em 6 de novembro, quando Krishnadeb Roy voltou a atacar os muçulmanos com suas forças, ocorreu um violento confronto, com muitas baixas de ambos os lados. Depois disso, Krishnadeb Roy espalhou por toda a sociedade hindu que os muçulmanos estavam, sem motivo, perseguindo os hindus. Essa propaganda provocou grande agitação entre os hindus, e o zamindar plantador de índigo Kaliprasanna Mukhopadhyay, de Gobardanga, incitou o sr. Davis, gerente da fábrica de índigo de Mollaati, contra os muçulmanos. Davis atacou Narikelbaria com cerca de quatrocentos guerreiros abissínios e diversas armas mortais. Novamente, houve muitas baixas de ambos os lados. Davis fugiu. Os muçulmanos destruíram sua bajra. Alguns dias depois desse acontecimento, Debnath Roy, zamindar de Gobra-Gobindapur, atacou Narikelbaria com uma enorme força. Na batalha feroz, Debnath Roy foi morto por um golpe de lança.

A carta que, após os acontecimentos acima, o zamindar Manohar Roy, de Chatuna, escreveu a Krishnadeb Roy, zamindar de Pura, é particularmente digna de nota. Ele escreveu:

A fascinação pelo cultivo do índigo tomou conta de vocês. Foi por causa disso que hoje perdemos um homem valente como Debnath Ray. Ainda há tempo. Sem continuar com esses excessos, deixem Titumir fazer o trabalho dele e façam o de vocês. Titumir está propagando sua religião; por que vocês se unem para obstruí-lo? Tomados pela paixão pelo cultivo do índigo, vocês se aliaram aos plantadores ingleses de índigo e aos missionários, causando a ruína dos habitantes do país e da comunidade camponesa; como eles poderiam esquecer isso? Se continuarem a oprimir os habitantes do país dessa maneira, avançarei, por obrigação, em auxílio de Titumir. Digo novamente: não atraiam sobre si a maldição dos habitantes do país por causa do cultivo do índigo.

— Srimanohar Ray Bhushan (Shahid Titumir, Abdul Gafur Siddiqui, p. 79).

Se tivessem aceitado o bom conselho de Manohar Ray, não teria sido encenado um drama histórico tão desastroso. Mas, de um lado, a ilimitada cobiça de riqueza de Krishnadev Ray e, de outro, sua extrema hostilidade os haviam privado do discernimento. Por isso, ele não conseguiu abandonar suas atividades demoníacas.

Os relatórios que o daroga de Basirhat, Ramram Chakravarti, apresentou ao governo contra Titumir e seus homens eram fictícios, distorcidos e tendenciosos; além disso, os zamindares hindus enviaram cartas ao coletor e ao magistrado conjunto, pedindo ao governador que reprimisse Titumir. O governador, por sua vez, deu instruções ao coletor de Nadia e ao juiz de Alipore, juntamente com os relatórios acima mencionados. Enquanto isso, assim que recebeu a ordem do governador, o coletor de Nadia pediu a Krishnadev Ray que fosse encontrá-lo o mais depressa possível. O juiz de Alipore encontrava-se então em Nadia. Quando Krishnadev Ray chegou no momento determinado, partiu, como guia, na bajra do coletor e do senhor juiz em direção a Narikelbaria.

Enquanto isso, círculos interessados espalharam a notícia de que o gerente da fábrica de índigo de Sherpur, o Sr. Benjamin, havia partido para atacar Narikelbaria acompanhado de muitos homens armados com bastões e espadas curtas. Ao receber essa notícia, Golam Masum avançou com os homens do grupo de Titumir para impedi-los e ficou escondido entre a mata e os arbustos da aldeia de Bargharia. Quando a bajra chegou e atracou no cais de Bargharia, os homens de Titumir viram que nela havia dois ingleses e, com eles, seu arqui-inimigo Krishnadev. Supondo que os dois ingleses fossem Davis e Benjamin, prepararam-se para atacar. Krishnadev disse: “Senhor, olhe ali. O principal comandante de Titumir, Golam Masum, veio até aqui para atacar a bajra.” O sahib então ordenou que abrissem fogo. O outro lado também começou a disparar flechas e espadas curtas. Depois que alguns homens de ambos os lados foram mortos ou feridos, o coletor suspendeu o combate e foi para o meio do rio, onde se protegeu.

Círculos interessados enganaram o grupo de Titumir com notícias falsas. Eles atacaram a bajra acreditando que Davis e Benjamin estavam nela. Esses círculos queriam, assim, enfurecer o governo da Companhia das Índias Orientais contra o grupo de Titumir. Seu objetivo foi alcançado. Se tivessem conhecido os fatos verdadeiros, não teriam vindo atacar a bajra daquela maneira. Em especial, ao ver Krishnadev Ray na bajra, consideraram-no um inimigo.

O curioso é que, ao subir às pressas na bajra a partir do cais de Bargharia, Krishnadev não conseguiu embarcar enquanto ela se afastava para o meio do rio, em busca de segurança. Assim, aconteceu-lhe o que tinha de acontecer. Contudo, os muçulmanos não o mataram. Ele morreu de forma desonrosa ao se afogar no rio.

Titumir não tinha qualquer desejo de entrar em conflito com o governo das Índias Orientais. O curso dos acontecimentos, alguns rumores infundados e um determinado círculo interessado provocaram o conflito entre Titumir e o governo. Da parte de alguns missionários, plantadores de índigo nativos e estrangeiros e zamindares hindus, chegavam continuamente ao magistrado conjunto de Barasat, Sr. Alexander, relatórios inflamados contra Titumir. Como resultado, a impressão que o Sr. Alexander formou sobre Titumir e seu grupo tornou-o firmemente decidido a reprimi-lo. É provável que, depois de Ramram Chakravarti ter sido morto no confronto, um novo daroga tenha sido nomeado para a delegacia de Basirhat. Recebeu instruções para ir a Narikelbaria com alguns sipaios e um jamadar, advertir Titumir e depois apresentar um relatório sobre tudo o que acontecesse. O daroga, provavelmente sem ir a Narikelbaria, apresentou o relatório sentado na delegacia, afirmando que havia escapado por pouco com vida após o ataque dos homens de Titu. Como consequência, Alexander teve de enviar às autoridades um relatório severo sobre Titumir.

Em 14 de novembro de 1831, o Sr. Alexander chegou a Baduria, a três krosh de Narikelbaria, acompanhado de um havildar, um jemadar e cinquenta sipaios armados com armas de fogo e espadas. O daroga de Basirhat juntou-se a Alexander em Baduria, acompanhado de um jemadar e de sipaios. O total das tropas de ambos era de cento e vinte homens. Em seguida, ocorreu um intenso confronto, no qual houve baixas de ambos os lados. Alexander ficou espantado ao ver a bravura dos muçulmanos sob a liderança de Gholam Masum, e o daroga e um jemadar foram capturados pelos muçulmanos. Vendo que a situação se tornara desfavorável, Alexander fugiu para salvar a vida.

O relatório de Alexander e suas repercussões

Ao retornar a Barasat, o magistrado adjunto, Sr. Alexander, apresentou um relatório às autoridades superiores, solicitando que derrotassem Titumir. As autoridades, isto é, o governo da Companhia das Índias Orientais, nomearam o coronel Stuart comandante e ordenaram-lhe que marchasse em direção a Narikelbaria à frente de cem soldados europeus montados, trezentos soldados nativos de infantaria e dois canhões. Na noite de 13 de novembro, as tropas da Companhia chegaram a Narikelbaria e mantiveram a aldeia cercada.

Para se protegerem do ataque inimigo, Titumir e seus homens cercaram por todos os lados, com grossos e resistentes postes de bambu, a hujra de Titumir, estrutura que a história conhece como “o forte de bambu de Titumir”.

Abdul Gafur Siddiqui, descrevendo alguns acontecimentos anteriores ao início da batalha, diz que o coronel Stuart chegou diante da entrada principal, situada em frente à casa-hujra de Titumir, e viu um homem vestido de pirhan branco e com um turbante branco, embelezando sua aparência, absorto na recordação de Deus com um tasbih na mão. Stuart, encantado e estupefato, perguntou ao guia Ramchandra Bandyopadhyay: “Este homem é Titumir? Ele não parece um rebelde, parece?”

Ramchandra respondeu: “Este homem é Titumir. Ele se apresenta como o rei Titu. Hoje, com a chegada de vocês, mudou de atitude e está fingindo ser um santo.”

Então Stuart disse a Ramchandra: “Diga a Titu que vim como comandante, em nome do governador-geral Lord Bentinck. Que Titumir se renda. Ou transmita-me, palavra por palavra, o que ele disser.”

Ramchandra disse a Titumir: “O senhor guerreou contra o governo da Companhia e agora está usando um rosário; venha, empunhe a espada e mostre-se digno do título de rei.”

Titumir disse: “Não guerreiei contra o governo da Companhia. Assim como os hindus, também somos súditos do governo da Companhia. Apenas fiz um pequeno esforço para conter a opressão dos zamindares e dos plantadores de índigo e para transformar em muçulmanos verdadeiros aqueles que apenas levam o nome de muçulmanos.”

Depois de ouvir a resposta de Titumir, Ramchandra disse a Stuart, por meio do intérprete, que o rebelde Titumir afirmava que não se renderia, mas lutaria. Dizia que não se importava com canhões nem com tiros. Dizia que, valendo-se de seu poder, engoliria todos, um por um. Ele era o soberano deste país; quem era a Companhia, afinal? (Abdul Gafur Siddiqi, Shahid Titumir, pp. 95–96).

Não é difícil para nenhum leitor compreender que espécie de incêndio Ramchandra provocou ao desempenhar o papel de intérprete.

O resultado da batalha que se seguiu pode ser facilmente previsto. Quanto tempo poderiam bastões, flechas e lanças resistir diante dos soldados ingleses bem treinados e dos disparos de seus pesados canhões? Todavia, a maneira como Sayyid Nisar Ali, conhecido como Titumir, Gholam Masum e seus companheiros enfrentaram o inimigo com serenidade até o último momento da vida, sem se deixarem dominar pelo medo nem curvarem a cabeça em submissão diante do adversário, bebendo o néctar do martírio, permanecerá eternamente, por um lado, como um feito imperecível da história e, por outro, manterá viva, para as futuras gerações humanas, a inspiração e a consciência da luta extrema contra a falsidade, a injustiça e a opressão.

Quarenta anos depois do referido acontecimento, foi publicado na Calcutta Review um artigo anônimo. Nele, o governo da Companhia, contemporâneo de Titumir, era criticado por ter permanecido indiferente às atividades sediciosas de Titumir. Segundo o autor do artigo, Titumir ambicionava conquistar o poder político. Portanto, o governo deveria ter adotado previamente medidas rigorosas contra ele. O autor acrescenta que Titumir e seus seguidores exigiam o fim do domínio da Companhia e reivindicavam que os muçulmanos destituídos do poder pelos ingleses eram os herdeiros do poder soberano. Hunter também fez comentários semelhantes. (Calcutta Review, nº Cl, p. 36).

O senhor Hunter acreditou cegamente nas acusações infundadas e tendenciosas de zamindares hindus, plantadores de índigo e alguns sacerdotes, e as incluiu em sua obra. Hunter também fez comentários extremamente vis e indecentes sobre Sayyid Ahmad Shahid. Isso será discutido no lugar apropriado.

J. R. Colvin foi encarregado de determinar as causas e a natureza da agitação em Narikelbaria, sob a jurisdição de Barasat. O relatório que apresentou, com base em informações obtidas de fontes autênticas, merece aqui especial atenção. Ele afirma com segurança que a agitação foi um assunto inteiramente local e que os habitantes envolvidos direta ou indiretamente nela não possuíam qualquer personalidade de destaque. Com exceção de um ou dois, todos eram habitantes da região norte de Barasat. Eram todos súditos (raiyats), tecelões e muçulmanos das classes comuns. (Board’s Collection, 54222, p. 400; Colvin to Barwell, 8 March 1832, para. 4; A. R. Mallick, British Policy & the Muslims in Bengal, p. 87).

Depois do referido relatório de Colvin, o governo não deu grande importância ao assunto. Citando a Board’s Collection e as Bengal Criminal Judicial Consultations, o Dr. A. R. Mallick afirma que as tropas da Companhia foram comandadas pelo major Scott. Cerca de cinquenta pessoas, incluindo Titumir, foram mortas, e 250 foram presas. Os cadáveres foram queimados. As casas dos homens de Titumir foram saqueadas, e também foram presos indivíduos suspeitos. (Dr. A. R. Mallick, British Policy & the Muslims in Bengal, p. 86).

Ao todo, 197 pessoas foram julgadas. Entre elas, Ghulam Masum foi condenado à morte, 11 pessoas à prisão perpétua e 128 pessoas a penas de prisão de diferentes durações.

Quatro pessoas morreram durante o julgamento. Cinquenta e três foram absolvidas.

Como o braço direito de Saiyed Gawhar Ali, filho mais velho de Titumir, foi arrancado pelo impacto de um projétil, ele foi libertado da pena de prisão. O outro filho, Torab Ali, era menor de idade e, por isso, foi condenado a dois anos de prisão com trabalhos forçados. Mais tarde, o governo da época, ao perceber o próprio erro, providenciou pensões para os três filhos de Titumir. Entretanto, posteriormente, isso foi suspenso pelos esforços dos hindus. (Shahid Titumir, Abdul Gafur Siddiqi, p. 100).

A discussão acima demonstra claramente que, se o governo tivesse conhecimento dos fatos reais, talvez o caso não tivesse chegado tão longe. A hostilidade dos zamindares contra os muçulmanos, a propaganda falsa, a influência ilimitada que exerciam sobre os pobres camponeses e, além disso, o relatório unilateral, tendencioso e inventado do daroga Ramram Chakravarti mantiveram as autoridades afastadas dos fatos reais. Por outro lado, a injustiça e a opressão desumanas e ilimitadas dos zamindares plantadores de índigo, bem como a frustração dos adversários que, depois de recorrerem ao governo em busca de justiça, não obtiveram resultado, obrigaram-nos a adotar uma postura extremista. Além disso, não tinham outra alternativa. O relatório de Colvin também afirma exatamente isso. Os zamindares tinham poder ilimitado para oprimir e perseguir os camponeses por quaisquer meios. Colvin descreve isso como a principal causa da agitação. Ele acrescenta que, em tais circunstâncias, quando o culpado é proprietário de uma riqueza considerável, era impossível chegar a uma decisão correta. (A.R. Mallick: British Policy & the Muslims in Bengal, p. 88; Board’s Collection, 54222, Colvin’s Report, para 36).

Capítulo Onze

O movimento jihadista do mártir Sayyed Ahmad

O movimento jihadista de Sayyed Ahmad Barelvi foi descrito na história como o movimento wahabita. Essa afirmação é completamente contrária à verdade. Pode-se dizer sem receio que se trata de uma apresentação extremamente distorcida dos fatos históricos. Na realidade, não existiu em lugar algum do mundo nenhum movimento chamado movimento wahabita. No início do século XVIII, Muhammad ibn Abd al-Wahhab Najdi iniciou na Arábia um movimento de reforma islâmica. Seu movimento era simplesmente um movimento islâmico. Foi esse movimento que passou a ser chamado de movimento wahabita. Esse nome foi dado pelos europeus hostis ao Islã. Ele foi chamado de WAHABISM ou WAHABI MOVEMENT. O último e mais grandioso profeta, o venerável Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, deu forma completa ao Islã, a religião prescrita por Allah. Em vez de chamar de “Islã” o Islã pregado por Muhammad (que a paz esteja com ele), eles o chamaram de “maometanismo” e chamaram os muçulmanos de “maometanos” (MEHOMEDAN). Até a década de 1930 do século atual, os muçulmanos eram chamados oficialmente de MEHOMEDAN. Durante o período em que Sher-e-Bangla ocupou o cargo de primeiro-ministro, por meio de uma proclamação oficial, a palavra MEHOMEDAN foi substituída pelas palavras MUSSALMAN ou MUSLIM. Do mesmo modo, o movimento islâmico de Muhammad ibn Abd al-Wahhab não foi apenas chamado de movimento wahabita; para criar ódio e hostilidade dos muçulmanos contra ele, também se fez propaganda dele como sendo extremamente contrário ao Islã. O movimento wahabita foi classificado na história como contrário ao Islã, e a palavra “wahabita” como um insulto. Essa propaganda também influenciou e enganou alguns muçulmanos. Por isso, para rebaixar alguém e torná-lo desprezado e odiado na sociedade muçulmana, chama-se essa pessoa de “wahabita” como insulto. Há quase três séculos, algumas pessoas permanecem imersas em um erro extremo. Portanto, é inegável a necessidade de uma discussão e explicação especiais sobre o assunto.

Muhammad ibn Wahhab

No início do século XVIII, nasceu na Arábia um dos maiores reformadores religiosos ou mujahids; seu nome era Muhammad. O nome de seu pai era Abdul Wahhab. De acordo com o costume corrente na Arábia, o nome do pai era acrescentado ao nome, por isso seu nome completo era Muhammad bin Abdul Wahhab. Wahhab é um dos nomes atributivos de Alá e significa o Doador Supremo. Muhammad bin Abdul Wahhab desejava erradicar toda espécie de infiltração pagã no Islã, estabelecer firmemente a glória da pura mensagem do tawhid e, pondo fim a toda espécie de desordem política na Arábia, unificar toda a terra árabe em um só Estado, com base exclusivamente nos princípios islâmicos de igualdade e fraternidade.

No início de sua vida, ao realizar a peregrinação, ele ficou profundamente angustiado ao ver os rituais não islâmicos praticados pelos muçulmanos em Meca e Medina. Naquela época, grande parte da Arábia estava sob o domínio dos sultões turcos. Tendo entrado em contato com a civilização europeia, os turcos, especialmente a classe governante turca, haviam adotado muitos costumes e rituais europeus. Estes haviam se espalhado pelos países árabes, inclusive por Meca e Medina. Grandes mausoléus haviam sido construídos em torno dos túmulos, e os muçulmanos, de pé junto às sepulturas, rogavam por prosperidade neste mundo e bem-aventurança no outro. Praticavam-se atos como acender lâmpadas nos túmulos, adorná-los com guirlandas de flores, apresentar oferendas, fazer votos e assim por diante. Tudo isso era imitação do paganismo. Maulana Masud Alam Nadwi observou, em sua biografia intitulada Muhammad bin Abdul Wahhab Najdi, que naquela época havia na Arábia certas árvores junto às quais os muçulmanos realizavam uma espécie de culto e festividades, imitando os pagãos. Chegavam a praticar atos ainda mais abomináveis do que o culto hindu ao shivlinga. Em suma, ao ver uma forma extremamente deformada do Islã, Muhammad bin Abdul Wahhab levantou uma voz vigorosa contra tudo isso. Ele iniciou esse movimento de reforma na cidade de Damasco. Também se manifestava vigorosamente contra os rituais anti-islâmicos da classe governante turca. Por isso caiu sob a ira da classe governante e foi expulso de Damasco. Por fim, depois de percorrer vários lugares, chegou a um local chamado Dariyah ou Deraiyah, na província de Najd, sua terra natal. (O chefe ou governante de Dariyah apoiou seu movimento de reforma e casou-se com sua filha. Depois disso, com o auxílio do governante de Dariyah, Muhammad bin Saud, prosseguiram simultaneamente o movimento de reforma islâmica e o movimento político, mediante a formação da Liga Árabe.

Não há espaço aqui para uma discussão detalhada de seu movimento político. Contudo, é verdade que, sem poder político, a plena implementação do Islã não é de modo algum possível. Milhões de beduínos aderiram ao poderoso movimento político que começou com a ajuda e a cooperação de Muhammad bin Saud. Como consequência, depois de atravessar repetidas catástrofes, eles finalmente conquistaram toda a Arábia. A monarquia da dinastia Saud foi estabelecida em toda a terra árabe, e é por isso que esse país passou a ser conhecido como Arábia Saudita. O êxito do movimento de reforma islâmica de Muhammad bin Abdul Wahhab teve como resultado direto a conquista desse poder político.

Como mencionado acima, Muhammad bin Saud, governante de Dariyah, casou-se com a filha de Muhammad bin Abdul Wahhab. Em pouco tempo, a autoridade de Muhammad bin Abdul Wahhab foi estabelecida nas regiões desérticas, especialmente em Najd. Ele transferiu todo o poder governamental para seu genro, Muhammad bin Saud, e permaneceu como autoridade suprema apenas nos assuntos religiosos, isto é, no movimento de reforma islâmica. Depois disso, ocorreram repetidos conflitos com os governantes turcos. Tanto vitórias quanto derrotas couberam ao destino de ambos os lados. Depois que seu poder governamental foi estabelecido em todo o Najd, segundo muitos, pela primeira vez desde a época do quarto califa empreendeu-se, em um país, a construção de um sistema religioso, político, social e econômico baseado no Alcorão. Segundo muitos, como Masud-Alam Nadwi, Muhammad bin Abdul Wahhab foi um mujaddid bem-sucedido, que chegou a ver em vida o pleno êxito de seu mujaddidismo, ou trabalho de reforma.

Examinemos agora alguns dos princípios fundamentais de seu movimento de reforma. Já foi dito que ele não pregou nenhuma nova doutrina contrária ao Islã, razão pela qual sua doutrina não pode ser denominada doutrina wahhabi. Na Arábia não existe nenhuma escola jurídica ou tariqa denominada wahhabi. Essa denominação difundiu-se fora da Arábia; a palavra wahhabi foi criada pelos inimigos estrangeiros dos seguidores dessa doutrina, especialmente turcos e europeus, e difundiu-se entre eles. Alguns escritores europeus, como Neibuhr (Neibuhr), chamaram Muhammad bin Abdul Wahhab de profeta. Essas ideias absurdas também não têm fundamento algum. Na realidade, Muhammad bin Abdul Wahhab não criou sequer uma escola jurídica. Ele era seguidor do Imam Ahmad bin Hanbal, um dos quatro imames, e seu esforço consistia em retornar ao Islã original, simples e descomplicado, tal como existia na época do Profeta do mundo e dos califas bem guiados. Ensinava também que a religião não é monopólio de nenhuma classe específica. A interpretação do Alcorão e do Hadith tampouco é monopólio de qualquer indivíduo ou classe específica, nem está limitada a nenhuma época particular; todo alim tem o direito de interpretar o Alcorão e o Hadith. Seus ensinamentos e sua doutrina foram influenciados principalmente pelas ideias registradas nos escritos de Ibn Taymiyya e de seus discípulos, embora em muitos assuntos ele não concordasse com eles. — (O Movimento Wahhabi, Abdul Maudud, p. 116).

Os princípios fundamentais do movimento de reforma de Muhammad bin Abdul Wahhab, que ele incorporou em seu Kitab al-Tawhid, são, em linhas gerais, os seguintes:

1. Não existe, além de Alá, nenhuma outra entidade ou poder a quem se possa prestar culto e adoração, servir, obedecer ou cujos mandamentos e governo se possa seguir.

2. A maioria das pessoas não é adepta do tawhid. Elas vão até os wali, dervixes e outros para pedir suas bênçãos. Esses rituais são semelhantes aos dos politeístas de Meca descritos no Alcorão.

3. Durante a adoração, invocar e rezar mencionando os nomes de profetas, santos e anjos é tão condenável quanto o shirk ou a adoração de muitos deuses.

4. Buscar a intercessão de qualquer outro além de Allah é apenas shirk.

5. Fazer um voto em nome de qualquer outro além de Allah também é shirk.

6. Buscar apoio em qualquer conhecimento além da orientação clara e inevitável do Alcorão, dos hadiths e da razão é kufr.

7. Nutrir dúvidas quanto à crença no qadar ou taqdir é ateísmo.

Além disso, ele deu especial ênfase à erradicação das bid’ahs (inovações na religião islâmica que não são aprovadas pelo Alcorão e pelos hadiths ou que não foram introduzidas pelo próprio Profeta) que favorecem o shirk e o kufr. Seu ensinamento fundamental era a dependência exclusiva e inabalável de Allah, o Único, e a eliminação da existência ou do conceito de toda intermediação entre o Criador e os seres humanos. Foi em nome dessa intermediação que se estabeleceu o pirismo ou o bramanismo muçulmano, mantendo os muçulmanos afastados dos ensinamentos do verdadeiro Islã. Ele desejava abolir a adoração dos muçulmanos aos pirs e aos santos, bem como aos seus túmulos, e até mesmo a concepção semidivina de Hazrat Muhammad (SAAS). (A observância dessa doutrina também é encontrada entre os muçulmanos. Por exemplo,

O véu daquele mīm de Ahmad

manteve-te oculto para os outros.)

A construção de mausoléus sobre sepulturas é apenas o último vestígio do paganismo, sobre o qual o Profeta de Allah deixou uma severa advertência. Por isso, foi ordenada a demolição deles, para que os muçulmanos não pudessem demonstrar-lhes veneração e reverência, nem ir até lá para pedir o próprio bem-estar.

O resultado natural de seu movimento foi que duas classes de muçulmanos ficaram extremamente hostis. A primeira era formada por aqueles que, parados junto às sepulturas, rogavam por prosperidade neste mundo e bem-aventurança no Além, e que ganhavam o sustento cobrando dinheiro dos visitantes em nome da proteção e do serviço das sepulturas. A segunda era formada pelos governantes turcos, pois sua autoridade sobre Meca e Medina havia sido abolida. O sultão turco era então o califa autoproclamado do mundo muçulmano. Com a perda, para eles, dos dois mais importantes — na verdade, dos únicos dois — lugares de peregrinação do Islã, Meca e Medina, a reivindicação do califado tornou-se sem sentido. Como não era fácil reconquistar Meca e Medina pela força, levantaram-se várias acusações infundadas e falsas contra Muhammad ibn Abd al-Wahhab e seus seguidores, incitando os muçulmanos do mundo inteiro contra eles. Por mais contrário ao Islã que fosse o caráter dos governantes turcos, quando foi emitida uma fatwa contra Muhammad ibn Abd al-Wahhab em nome do califa dos muçulmanos, estes acreditaram nela sem hesitação. Como resultado dessa propaganda maliciosa, de 1803 a 1806 o número de peregrinos que chegavam a Meca vindos de países estrangeiros foi insignificante.

Na Bengala e na Índia, grandes homens como Sayyid Ahmad Shahid, Haji Shariatullah e Titumir levantaram a voz, tal como Muhammad ibn Abd al-Wahhab, contra as diversas superstições dos muçulmanos. O governo britânico, então, em benefício de seus próprios interesses, passou a chamar esses grandes homens de wahhabitas e entregou-se à propaganda contra eles. Que poderia haver de mais contrário à verdade e de ironia mais cruel do que isso?

Muhammad Waliullah diz:

Temendo que, uma vez despertado o ódio aos não muçulmanos entre as massas muçulmanas, seus impérios na Ásia e na África desmoronassem como um castelo de cartas, os imperialistas britânicos começaram a derramar lágrimas de crocodilo pelo Islã. Assim, vê-se que, no século XIX, sempre que algum patriota muçulmano na Índia tentava levantar-se contra a sujeição, os ingleses o rotulavam de “wahhabita” e lançavam contra ele as massas ignorantes; oferecendo milhões em subornos e, em alternativa, ameaçando com perseguições, obtinham dos seus ulama subservientes fatwas contra ele; e conseguiam certificados para si junto de funcionários obedientes aos xerifes assalariados dos turcos. Chegaram até a trazer pregadores da própria Arábia para que, por suas bocas, divulgassem contra ele histórias fantasiosas inventadas por eles. Além disso, por meio dos magistrados distritais e de altos funcionários, fizeram com que, com a ajuda de muçulmanos reacionários, fossem estabelecidas em cada distrito organizações como a “Anjuman Islamia”, a “Associação Hizbullah” e a “Anjuman Ishaat-e-Islam”, utilizando-as contra os muçulmanos patriotas. Em troca disso, não se pode dizer se Allah, o Altíssimo, lhes concederá o Paraíso de Firdaws. Mas é verdade que, nessa campanha de defesa do Islã, conseguiram abrir caminho para a salvação deles no Além, incriminando centenas de muçulmanos, enforcando-os e enviando-os para o exílio na longínqua Andamão.

(Nossa luta pela libertação, Muhammad Waliullah, pp. 60–61).

Cronologia da ascensão e queda do Estado fundado por Muhammad ibn Abd al-Wahhab e por seu genro, Muhammad ibn Saud

1703 d.C. — Nascimento de Muhammad ibn Abd al-Wahhab na região de Uyayna, na linhagem Banu Sinan, um ramo da tribo Tamim, na Arábia.

1747 d.C. — Confronto com o xeque de Riade.

1773 d.C. — Dâham, governante de Riade, é derrotado.

1787 d.C. — Falecimento de Muhammad bin Abd al-Wahhab.

1791 d.C. — Ataque a Meca.

1797 d.C. — Todo o domínio turco na Ásia passa às mãos de Saud, neto de Muhammad bin Saud.

1803 d.C. — Conquista de Meca.

1804 d.C. — Conquista de Medina.

1806 d.C. — Reconquista de Meca.

1811 d.C. — Nas mãos de Saud, desde Alepo, ao norte, até o Oceano Índico e, a leste, além das fronteiras do Golfo Pérsico e do Iraque, até o Mar Vermelho.

1811 d.C. — Nas mãos de Saud, desde Alepo, ao norte, até o Oceano Índico e, além das fronteiras do Golfo Pérsico e do Iraque, até o Mar Vermelho.

1811 d.C. — O exército egípcio conquista Medina.

1812 d.C. — O exército egípcio conquista Medina.

1812 d.C. — O exército egípcio conquista Meca.

1814 d.C. — Morte de Saud.

1818 d.C. — A capital de Dariyah é destruída.

1904 d.C. — Restabelecimento. Abdul Aziz bin Abdur Rahman, neto de Saud, estabelece seu poder no Najd.

1924 d.C. – Conquista de Meca.

1925 d.C. – Conquista de Medina e Jidá.

Assim, quase toda a Jazirat al-Arab (excetuando alguns pequenos domínios de emires) transformou-se no Estado nacional árabe denominado Arábia Saudita, que ainda existe. (Cf. O movimento wahhabita, Abdul Maudud, pp. 112–115.)

Também é reproduzido o comentário que o senhor Hunter fez em sua obra a respeito de Muhammad ibn Abd al-Wahhab.

Os princípios que eles registraram em letras de sangue eram grandiosos. O primeiro ponto ao qual davam ênfase era que os turcos haviam maculado a Cidade Sagrada (Meca) com sua sensualidade. Nem mesmo a poligamia lhes bastava. Ao chegar para o hajj, levavam consigo mulheres da pior índole e entregavam-se a práticas tão perversas que eram completamente proibidas pelo Alcorão. Bebiam publicamente vinho e consumiam ópio nas principais ruas da Cidade Sagrada. Os grupos de peregrinos turcos comportavam-se com a mais abjeta libertinagem no caminho para Meca. Muhammad ibn Abd al-Wahhab foi o primeiro a levantar uma voz de veemente protesto contra todas essas práticas ignóbeis. Gradualmente, suas opiniões assumiram a forma de uma doutrina religiosa e difundiram-se sob o nome de doutrina wahhabita. — [O termo “wahhabita” ou “ohabita” é uma criação do mundo imaginário do mundo exterior, especialmente dos europeus.] Atualmente, a maioria dos muçulmanos indianos segue essa doutrina. Segundo ela, a religião instituída por Muhammad havia sido transformada em puro teísmo e estava fundada em sete princípios. Primeiro — fé inabalável em um único Deus. Segundo — negar a existência de qualquer intermediário entre o Criador e os seres humanos. Rezar aos santos e dervixes, e até mesmo conceber Muhammad como uma figura semidivina, deve ser rejeitado. Terceiro — o direito à interpretação pessoal das escrituras muçulmanas e a rejeição da interpretação clerical dos textos sagrados. Quarto — rejeitar os costumes, tradições e cerimônias externas que os muçulmanos da Idade Média e da era moderna impuseram à crença sagrada no tawhid. Quinto — aguardar o imã sob cuja liderança os verdadeiros crentes triunfarão na luta contra os infiéis. Sexto — reconhecer sempre, em teoria e na prática, que é dever obrigatório dos muçulmanos lutar contra todos os infiéis. Sétimo — lealdade firme ao guia espiritual.

Segundo Hunter, graças aos esforços de Muhammad ibn Abd al-Wahhab, a religião instituída por Muhammad — isto é, o Islã — foi transformada em puro teísmo. Em outras palavras, sua tarefa consistia em libertar o Islã da infiltração de irreligião, heresia e idolatria que ocorrera em seu interior, devolvendo-lhe sua verdadeira forma e configuração islâmicas. Com isso, ele serviu ao verdadeiro Islã. Essa é precisamente a tarefa do verdadeiro muçulmano. Para transformar a forma deformada do Islã e restabelecê-lo em sua forma verdadeira, o Profeta do Islã predisse que, de tempos em tempos, surgiriam reformadores; na terminologia islâmica, eles são chamados de “mujaddid”. Mas por que suas atividades foram consideradas contrárias ao Islã e sua doutrina foi classificada como uma doutrina distinta do Islã, sob o nome de doutrina “ohabita”? Que resposta têm os europeus e uma classe de muçulmanos mergulhados no profundo oceano do erro? Os cristãos europeus podem ter agido assim por causa de sua atitude de hostilidade eterna para com o Islã e os muçulmanos. Isso lhes é natural — não há motivo para espanto. Mas aqueles que deformaram o Islã, introduziram nele diversos costumes idólatras e não islâmicos, transformaram-no em uma religião reduzida a cerimônias externas e mantiveram — e ainda mantêm — próspero o mercado de seus negócios, esses realmente não têm resposta alguma. Os governantes turcos ímpios e libertinos iniciaram uma vil campanha de difamação contra o mujaddid Muhammad ibn Abd al-Wahhab. Mais tarde, quando Sayyid Ahmad Barelvi iniciou na Índia britânica um movimento reformista semelhante, os britânicos, movidos por interesses próprios e pelo imperialismo, chamaram-no de “ohabita” e, por meio de indivíduos mercenários que se autodenominavam ulemás, passaram a disparar continuamente contra ele, como uma rajada de metralhadora de fatwas. Entretanto, durante o movimento jihadista de Sayyid Ahmad, as balas e os projéteis dessas metralhadoras acabaram fracassando. Por isso Hunter afirmou: “A maioria dos muçulmanos indianos segue agora essa doutrina”.

Shah Waliullah

Quatro anos antes da morte do imperador Aurangzeb Alamgir, em 1703, Shah Waliullah nasceu na cidade de Deli, em uma família muito nobre. Seu pai, Shah Abd al-Rahim, era um célebre erudito religioso. Os antepassados de Shah Waliullah eram descendentes do segundo califa do Islã, o venerável Umar al-Faruq (que Deus esteja satisfeito com ele).

Shah Waliullah recebeu sua educação e formação junto de seu pai, Shah Abdur Rahim. Mais tarde, lecionou durante doze anos na escola fundada por seu pai. Depois, partiu para a Arábia e passou um longo período em Meca e Medina. Durante sua permanência em Meca e Medina, Shah Sahib adquiriu as qualidades e a competência necessárias para o ijtihad. Shibli afirma que, após Ibn Rushd e o imã Ibn Taymiyya, Shah Waliullah Dehlavi (que Deus tenha misericórdia dele) reavivou o mundo muçulmano, que havia sofrido um extremo declínio. A inspiração obtida em sua longa viagem a Meca e Medina levou-o a empreender o início de um movimento revolucionário.

Após a morte de Aurangzeb, instalou-se uma situação de anarquia e desordem; em consequência, pouco a pouco o Império Mogol, isto é, o sultanato na Índia, foi reduzido a ruínas, enquanto os ingleses chegaram a este país disfarçados de comerciantes e gradualmente o dominaram diante dos olhos de Waliullah. Essa situação causou grande dor e sofrimento a Shah Sahib. Ele compreendeu plenamente que a principal causa do declínio dos muçulmanos era seu declínio moral e religioso.

Como resultado de seu conhecimento completo do Islã e de sua reflexão e pesquisa, formou-se em sua mente um esboço do Estado islâmico. Contudo, compreendeu plenamente que nenhum Estado poderia ser estabelecido apenas pela força das armas enquanto não houvesse pessoas dotadas de verdadeira competência e qualidades. Formar pessoas possuidoras de conhecimento verdadeiramente islâmico e de caráter para administrar o Estado islâmico era um pré-requisito. Entretanto, não apenas faltavam pessoas com tais qualidades e competência; os muçulmanos estavam, além disso, presos numa rede de diversas superstições jahiliyyah, ou não islâmicas. Para libertar a sociedade muçulmana dessa barreira, ele se dedicou, antes de tudo, ao movimento de reforma islâmica. O principal objetivo de seu movimento era, por meio da reforma islâmica, devolver o Islã à sua pureza original e à sua força vital, destruir a força inglesa em contínuo crescimento no país e hastear novamente a bandeira vitoriosa do Islã. Por isso, à semelhança do mujaddid e mujahid árabe Muhammad ibn Abd al-Wahhab, Shah Waliullah tentou extirpar dos muçulmanos os costumes não islâmicos, as superstições e as práticas corruptas.

Shah Waliullah havia observado que a indiferença e o desprezo dos sufis de tendência tasawwuf em relação à sharia do Islã eram prejudiciais ao Islã e à sociedade muçulmana; a infiltração de muitas práticas corruptas por eles adotadas e de doutrinas contrárias ao Islã por eles propagadas havia deixado a vida religiosa muçulmana contaminada e deformada. A infiltração dos sufis mercenários havia deixado a vida religiosa muçulmana contaminada e deformada. A proliferação dos sufis mercenários e a prática de venerar pirs e túmulos também continuavam a crescer. Waliullah, naturalmente, não desejava abolir o tasawwuf; desejava sua reforma e purificação completas. Queria reformar o sufismo e torná-lo orientado para o bem. Em seu Wasiatnama há muitos argumentos irrefutáveis e instruções contra pirs profissionais, faquires, a veneração de túmulos, demonstrações de milagres e práticas semelhantes.

Percebendo a necessidade de formar o caráter das pessoas num ambiente pacífico e livre de perturbações, Shah Waliullah iniciou seu movimento de reforma, ou trabalho construtivo. Por meio de sua pena afiada, ele, por um lado, apontou as falhas e superstições da sociedade muçulmana e, por outro, esclareceu seu correto modo de agir. Compôs muitas obras valiosas. Entre elas, destacam-se especialmente Fath al-Kabir, Hujjatullah al-Baligha e outras. Com os golpes de sua pena, fez o máximo para dar vida e despertar à nação morta, adormecida e desviada, conduzindo-a pelo caminho correto. Em 1762, esse talentoso sábio deixou este mundo.

Shah Abdul Aziz Dehlavi (que Deus tenha misericórdia dele)

Após o falecimento de Shah Waliullah, seu capaz filho mais velho, Shah Abdul Aziz (1746–1823), avançou seguindo o caminho que ele havia indicado. Entre os ulemas indianos, foi a primeira pessoa a emitir destemidamente uma fatwa declarando este país dar al-harb. A questão de qual seria a situação social e religiosa dos muçulmanos num país governado pelos ingleses infiéis mantinha agitada a mente e o coração dos muçulmanos. O heróico mujahid Shah Abdul Aziz declarou em voz alta e sem medo que era contrário à fé dos muçulmanos viver numa sociedade e num Estado não islâmicos. Eles deveriam fazer jihad para transformar este país num Estado islâmico; caso contrário, deveriam emigrar, fazendo hijra, para outro lugar. Essa declaração fez fluir no coração e na alma dos muçulmanos uma onda de irresistível inspiração para a jihad.

Movido pelo intenso desejo de libertar a Índia muçulmana da influência dos tiranos, Shah Abdul Aziz lançou um movimento de reforma social chamado Tahrik-e-Muhammadiya. O objetivo desse movimento era extirpar os costumes, ritos e superstições contrários ao Islã que haviam penetrado na sociedade muçulmana e inspirar os muçulmanos nos verdadeiros ensinamentos e ideais islâmicos. Por meio de um método bem planejado, Shah Sahib dirigiu esse movimento por toda a Índia e, para esse trabalho, recrutou um grupo de pessoas abnegadas e incansáveis, educadas por ele próprio. Com o passar do tempo, em pouquíssimo tempo, o movimento Tahrik-e-Muhammadiya assumiu a forma de um movimento jihadista e iniciou um movimento de libertação contra os opressores siques e ingleses. Quem deu forma concreta a esse movimento foi Sayyid Ahmad Shahid Barelvi; seus principais colaboradores foram o sobrinho de Shah Sahib, Shah Ismail Shahid, e seu genro, Maulana Abdul Hayy.

Genealogia de Shah Waliullah

                                                Shah Waliullah (1703–1762 d.C.)

(1) Shah Abdul Aziz (2) Shah Rafiuddin (3) Shah Abdul Qader (4) Shah Abdul Ghani

(5) Maulana Abdul Hai (genro) (6) Shah Mahfuzullah (7) Shah Ismail

(5_1) Maulana Ishaq (5_2) Maulana Yaqub

Sayyid Ahmad Shahid

No início do século XIX, surgiu em toda a Índia um amplo movimento de independência, bem organizado. Esse movimento foi conduzido exclusivamente pelos muçulmanos indianos. A força vital desse movimento era Sayyid Ahmad Shahid Barelvi (que Deus tenha misericórdia dele). Na história, esse movimento foi chamado de “Movimento Wahhabi”, embora fosse simultaneamente um movimento islâmico e de independência. O objetivo desse movimento era estabelecer, do mar até o Himalaia, um Estado islâmico independente e indiviso. Contudo, devido à extrema traição de algumas pessoas, não foi possível alcançar o objetivo almejado. Ainda assim, o modo como esse movimento avançou do início ao fim, secretamente e por meio de um programa de ação extremamente habilidoso, surpreende e deixa atônita até a imaginação.

Sayyid Ahmad nasceu no dia 6 de Safar de 1201 da Hégira (1786 d.C.), em Rai Bareilly, Allahabad. Seus biógrafos mencionaram um acontecimento extraordinário relacionado ao seu nascimento. Quando ele ainda estava no ventre materno, sua piedosa mãe sonhou que uma folha de papel, com uma inscrição escrita em seu sangue, voava tremulando. Ao ouvir o sonho, um de seus parentes próximos disse: “Não há motivo para preocupação. Aquele que nascerá de seu ventre será uma pessoa de grande fama na história.” — (Sayyid Ahmad Shahid, Ghulam Rasul Mehr, p. 56).

Esse sonho tornou-se realidade em todos os seus pormenores. A terra da Índia, de Bangladesh a Balakot, foi tingida com o sangue fresco de Sayyid Ahmad Shahid e de seus seguidores. Essa memória, escrita com o sangue deles, continuou a inspirar os muçulmanos com um ímpeto jihadista incessante durante um século, culminando, em 1947, na criação do Paquistão — libertando os muçulmanos do jugo da dominação e exploração estrangeira e não muçulmana.

Quando Sayyid Ahmad tinha quatro anos, quatro meses e quatro dias de idade, foi enviado ao maktab, conforme o costume dos muçulmanos nobres. Mas o pequeno Sayyid Ahmad não demonstrava qualquer interesse pelos estudos.

Ghulam Rasul Mehr diz que é difícil explicar por que, na infância, ele demonstrava aversão aos estudos. Mais tarde, porém, constatou-se que havia aprendido muito bem o persa e conseguia falar nessa língua fluentemente. Também aprendera árabe o suficiente para ler Mishkat al-Masabih por conta própria. Sabia recitar poemas de Hafiz, Bedil e outros poetas. Ainda assim, de acordo com a tradição familiar, sua educação na infância não era satisfatória. Seus irmãos mais velhos, Sayyid Ibrahim e Sayyid Ishaq, insistiam bastante para que ele estudasse. Mas seu pai dizia, com desânimo: “Deixem o assunto por conta dele”.

Mais tarde, quando foi para Délhi, Shah Abdul Aziz providenciou sua hospedagem na mesquita Akbarabadi e designou Shah Abdul Qadir para cuidar de sua educação. Sayyid Ahmad estudava árabe e persa com ele. É verdade que não alcançou uma formação acadêmica como a de Shah Ismail ou Maulana Abdul Hai, mas conseguia falar árabe e persa e compreendê-las facilmente.

Moulvi Saiyid Jafar Ali Naqvi diz que Shah Ismail explicava hadith todos os dias depois da oração do fajr. O próprio Sayyid Sahib também discorria sobre a importância de certos hadith, e os ouvintes tiravam grande proveito disso. — (Sayyid Ahmad Shahid, Ghulam Rasul Mehr, pp. 56, 71, 73)

Desde a infância, Sayyid Ahmad praticava exercícios físicos e possuía uma força corporal extraordinária. Desde pequeno, o impulso para o jihad estava desperto nele, e ele dizia frequentemente diante de seus companheiros de idade: “Eu farei jihad”, “Eu farei jihad”. Todos consideravam isso uma declaração infantil e presunçosa. Mas sua mãe acreditava que as palavras da criança eram verdadeiras. Ghulam Rasul Mehr, citando Tarikh-i Azmiya, diz que o menino Sayyid Ahmad formava, entre os meninos do bairro, um grupo chamado Lashkar-e-Islam e, com gritos de guerra jihadistas, atacava um imaginário Lashkar-e-Kuffar; depois fazia ressoar o céu e o ar, gritando que o “exército islâmico” havia vencido e o “exército dos infiéis” havia sido derrotado. — (Sayyid Ahmad Shahid, Ghulam Rasul Mehr, p. 59).

Assim, imaginando de um lado “soldados islâmicos” e, do outro, “soldados não muçulmanos”, e travando ataques e contra-ataques, Sayyid Ahmad tornou-se, desde a infância, um homem inclinado ao jihad; isso se refletiria mais tarde em sua vida real.

Aos dezoito anos, Sayyid Ahmad Ahmad foi para Lucknow acompanhado de um grupo de oito pessoas. O objetivo dos demais era buscar meios de subsistência. Mas o objetivo de Sayyid Sahib era diferente. Depois de permanecer quatro meses em Lucknow, convenceu seus companheiros a abandonar o desejo de conseguir emprego e a ir a Délhi para receber iniciação espiritual junto de Imam al-Hind Shah Abdul Aziz. Em seguida, chegaram a pé, em poucos dias, à corte de Shah Sahib; prestaram-lhe bay‘ah e tornaram-se seus murids.

Como foi descrito acima, enquanto permanecia na mesquita de Akbarabadi, Sayyid Ahmad dedicava-se simultaneamente ao estudo do Alcorão, dos hadiths, do fiqh e de outras disciplinas, e recebia iniciação espiritual de Shah Abdul Aziz. Após cinco anos de formação e educação, Sayyid Ahmad retornou a Rai Bareli, seu local de nascimento. Tinha então acabado de completar vinte e três anos. Nessa época, casou-se com uma jovem de família nobre chamada Sayyida Zohra. No ano seguinte, teve uma filha. Contudo, a inspiração jihadista que nutria no coração desde a infância não permitiu que os laços de afeto, encanto e amor pelo lar o mantivessem preso. Abandonou a casa e ingressou no exército do Nawab Amir Khan. Seu objetivo era inspirar Amir Khan ao jihad e, com seu apoio, formar um exército de mujahidins. Após permanecer sete anos no exército de Amir Khan, abandonou seu grupo, decepcionado. Suas esperanças e aspirações foram completamente destruídas quando Amir Khan se aliou, por meio de um tratado, aos ingleses contra os quais planejava empreender o jihad. Abaixo transcreve-se a carta que enviou a Shah Abdul Aziz: “O plano de formar um exército aqui fracassou. O senhor Nawab aliou-se aos ingleses. Não há mais como permanecer aqui”. —

(Sayyid Ahmad Shahid, Ghulam Rasul Mehr, p. 109).

Depois de abandonar o exército do Nawab Amir Khan, Sayyid Sahib voltou a colocar-se a serviço de Shah Abdul Aziz. O objetivo e a finalidade de sua vida eram formar os muçulmanos como verdadeiros muçulmanos, reviver a inspiração jihadista que se encontrava desperta entre os muçulmanos da primeira época e estabelecer na Índia os fundamentos de um verdadeiro Estado islâmico.

Sayyid Sahib havia alcançado uma posição tão elevada no plano espiritual que pessoas de alta consideração da linhagem de Shah Waliullah, como Mawlavi Muhammad Yusuf, Shah Ismail e Maulana Abdul Hai, fizeram bay’at em suas mãos. A partir de então, pessoas passaram a tornar-se seus discípulos em grupos cada vez maiores. O propósito do ensinamento de jihad com o qual ele iniciava seus seguidores era lutar pelo caminho da verdade e seguir a via reta e correta indicada por Allah. Foi por esse caminho que ele conduziu seus seguidores durante toda a vida.

Descrevendo o jihad em uma carta escrita a Shah Ismail, ele disse:

“O objetivo do jihad não é adquirir riqueza e bens. Tampouco é conquistar diferentes regiões, satisfazer interesses próprios ou estabelecer um reino para si. O verdadeiro objetivo do jihad é agradar a Allah e destruir as superstições existentes na sociedade muçulmana”. — (História da luta pela independência, Abu Zafar, p. 83)

Sobre aquele cujo objetivo era tão grandioso e sagrado, cujo caráter era puro e imaculado, que estava muito acima dos interesses pessoais e cuja única meta na vida era alcançar a satisfação [de Allah], Hunter diz: — “A origem dessa influência extraordinária não se encontrava unicamente em uma base maléfica; Sayyid Ahmad iniciou sua vida como líder religioso na qualidade de defensor de dois grandes princípios. Esses dois princípios são a unicidade de Deus e a igualdade dos homens. Todos os verdadeiros pregadores da religião seguem esses dois princípios. O sentimento religioso que durante muito tempo permanecera adormecido no coração dos habitantes do país, e as superstições criadas pela convivência com a religião hindu, que ao longo dos séculos haviam crescido excessivamente, obscurecendo a mente dos muçulmanos e deixando a religião islâmica quase sem fôlego, Sayyid Ahmad, inspirado por um impulso espontâneo, bateu às portas daquele coração religioso dos muçulmanos. Embora seja verdade que ele e seus discípulos mais próximos haviam se transformado em um grupo de impostores, não posso deixar de acreditar que houve um período intermediário na vida de Sayyid Ahmad em que, com o coração profundamente angustiado e com todo o seu ser, ele desejou a libertação de seus compatriotas, e seu coração estava dedicado unicamente a Allah”.

[W. W. Hunter, The Indian Mussalmans — tradução de Anisuzzaman (com algumas alterações), p. 36]

Qualquer pessoa dotada de bom senso poderá compreender que tipo de afirmações contraditórias o senhor Hunter fez em sua obra. Àquele cujo “coração estava ligado a Alá” e que “desejava, com o coração dolorido e do mais profundo de sua alma, a libertação dos habitantes de seu país”, Hunter chamou de bandido, criminoso e hipócrita.

O senhor Hunter diz ainda: “Ele ficava tão absorvido na meditação religiosa que, segundo a ciência ocidental, isso poderia ser chamado de epilepsia.” [W. W. Hunter, The Indian Mussalmans — tradução de Anisuzzaman (com algumas alterações), p. 36]

Na terminologia do tasawwuf, estar absorto na meditação de Alá é chamado de muraqaba-mushahada. Os cientistas ocidentais ateus como Hunter chamam isso de epilepsia. É fácil imaginar até que ponto a doença do ódio ao Islã deve ter afetado a mente e o cérebro para que se pudessem fazer afirmações tão indecorosas. Se Sayyid Ahmad tivesse ficado apenas “absorvido na meditação religiosa”, provavelmente os escritores ocidentais não o teriam criticado de modo tão desfavorável. Mas, como ele “desejava a libertação dos habitantes de seu país do domínio dos infiéis e dos estrangeiros”, aos olhos deles era um criminoso “acometido de epilepsia” e um hipócrita. Isso revelava sua mentalidade dominada pelo ódio e distorcida.

O célebre erudito Shah Ismail, sobrinho de Shah Abdul Aziz Dehlavi, e seu genro, Maulana Abdul Hai, tornaram-se discípulos de Sayyid Sahib; como resultado, a fama de Sayyid Sahib espalhou-se com a velocidade de um raio pelo centro da Índia. Pessoas de todas as partes continuaram a convidá-lo, e, com a permissão de seu murshid, Shah Abdul Aziz, ele realizou extensas viagens por Ghaziabad, Meerut, Muzaffarpur, Saharanpur, Deoband e outros lugares da região do Doab. Cerca de quarenta mil pessoas receberam dele a iniciação, e muitos não muçulmanos também abraçaram o Islã sob sua orientação. Durante essa viagem, ele ouviu pela primeira vez relatos da perseguição dos muçulmanos pelas mãos dos siques, e seu coração derreteu de compaixão. Em 1819, retornou a Délhi pela última vez e, pouco depois, voltou a Rae Bareli.

Ele passou algum tempo em Rae Bareli. Ali, o modo de vida desses devotos de Deus era exemplar e digno de servir de ensinamento aos visitantes. Na região assolada pela fome, cerca de setenta ou oitenta pessoas construíram com as próprias mãos cabanas e viviam no pátio da antiga mesquita da família Sayyid, situada às margens do rio Sai. Naquele ano (1819), durante o verão, caíram chuvas torrenciais e os rios transbordaram violentamente. Os alimentos tornaram-se caros e escassos. Mas Sayyid Sahib, com espírito sereno, permaneceu dia e noite ocupado com seus oitenta companheiros devotos e tementes a Deus na adoração, no serviço ao povo e na obra de pregação. Em sua intensa atividade daquela época, percebe-se a observância literal dos famosos ensinamentos de Hazrat Jesus (A.S.) no “Sermão da Montanha”: não vos preocupeis com o que haveis de comer e beber em vossa vida; nem sequer vos preocupeis com o corpo, pensando no que vestireis. Estabelecei, porém, o reino do amor de Alá, e todas essas coisas vos serão concedidas.

— O Movimento Wahhabi, Abdul Maudud, pp. 154–155

Entre o grupo acima encontravam-se muitos luminares do conhecimento do mundo islâmico, como Hujjat al-Islam Maulana Shah Muhammad Ismail, Shaykh al-Islam Maulana Abdul Hai, Qutb-i-Waqt Maulana Muhammad Yusuf, entre outros. Shah Ismail, com sua imensa erudição e conhecimento, permaneceu como uma sombra ao lado de seu próprio pir e murshid até o último momento de sua vida, e com ele bebeu o néctar do martírio. Pregar, proferir sermões e exortações e explicar o Alcorão e os hadiths pela manhã; realizar duro trabalho físico durante o dia; e passar toda a noite em tahajjud e adoração — esse era o programa diário daqueles devotos amantes de Deus.

A principal característica dos ensinamentos de Sayyid Sahib era eliminar da religião a hipocrisia e a ostentação e seguir, em todos os níveis da vida, o modo de vida simples e despretensioso do Profeta do mundo. Em matéria de fé, era inteiramente um defensor do tawhid, acreditava sem hesitação na soberania de Alá e era um fiel observante da sunnah nas práticas religiosas. Manter-se afastado de toda forma de shirk, como pedir aos pirs e aos santos o bem neste mundo e no outro, implorar auxílio oculto, praticar diferentes formas de culto aos túmulos e seguir os ritos e cerimônias dos idólatras e de outros infiéis — tudo isso, entre outras coisas. Em vez de reduzir o Islã a um conjunto de meras formalidades, ele dava maior ênfase à vivência de uma vida verdadeiramente piedosa, pois por meio dela a pessoa passa a depender de uma grande misericórdia. É tão verdadeiro quanto a luz do dia que ele havia submetido inteiramente sua vontade e suas esperanças e aspirações à vontade e à satisfação de Alá; por isso, estava sempre pronto, em cada instante de sua vida, a agir de acordo unicamente com a vontade de Alá.

Antes de avançar pelo caminho que se propusera seguir, Sayyid Sahib expressou o desejo de realizar o Hajj na Casa de Deus. Homens e mulheres começaram a reunir-se em grupos ao seu redor para acompanhá-lo no sagrado Hajj. No dia 30 de Shawwal de 1236 H., em julho de 1821 d.C., uma grande caravana de cerca de quatrocentas mulheres e homens chegou a contar setecentos integrantes. Pessoas, em grupos, começaram a receber dele a iniciação. Ele conclamou o povo a viver uma vida verdadeiramente muçulmana e explicou também a importância do Hajj.

A caravana do Hajj chegou a Azimabad de barco, passando de Allahabad por Benares, Mirzapur, Chunargarh, Ghazipur, Danapur, Phulwari Sharif e vários outros lugares.

Durante sua permanência em Azimabad, um grupo do Tibete foi visitá-lo. Ele lhes confiou a tarefa de realizar a da’wah islâmica no Tibete e disse que deveriam prosseguir nesse trabalho com infinita paciência. Desse modo, a da’wah da religião de Sayyid Sahib começou também a ser divulgada no Tibete.

Quando a caravana do Hajj chegou a Hugli, saindo de Azimabad, um certo Munshi Aminuddin, residente em Calcutá, levou toda a caravana para Calcutá como seus hóspedes. Ali, milhares de homens e mulheres, enlouquecidos de amor por Deus e vindos de todas as direções, tornaram-se seus murids. Muitas pessoas ofereceram numerosos presentes e dádivas para o Hajj. Sayyid Sahib, por sua vez, saciou sua sede espiritual com seus discursos melodiosos e doces. Ghulam Rasul Mehr registrou em sua obra um relato detalhado de toda a viagem do Hajj. Contudo, não registrou a data da partida de Calcutá para Meca por navio.

A caravana de Sayyid Sahib contava ao todo com setecentos e cinquenta e três peregrinos do Hajj. Eles foram divididos entre dez navios. Sayyid Sahib partiu com cento e cinquenta peregrinos em um navio antigo chamado ‘Dariya Baka’. Reservou os navios melhores para os demais.

Dez meses depois de partir de Rae Bareli, no dia 28 de Sha’ban de 1237 H., 21 de maio de 1822 d.C., Sayyid Sahib entrou na sagrada cidade de Meca acompanhado da caravana.

Após o Hajj, Sayyid Sahib permaneceu alguns meses em Meca. Passou todo o mês de Ramadã no Haram Sharif. Depois, no início do mês de Dhu al-Qadah, deixou Jedá rumo à sua casa e chegou a Bombaim no dia 20 de Dhu al-Hijjah. De Bombaim foi para Calcutá e, posteriormente, no dia 29 de abril de 1824 d.C., chegou a Rae Bareli, seu local de nascimento.

Depois de retornar do Hajj, onde quer que fosse, inúmeras pessoas se aglomeravam para vê-lo ao menos uma vez e prestar-lhe bay’ah pelas suas mãos sagradas. Milhares de pessoas recebiam dele a iniciação e passavam a integrar seu grupo.

Depois de chegar a Rae Bareli, Sayyed Sahib continuou a preparar-se para a luta total, ou jihad. Para libertar os muçulmanos das superstições não islâmicas e torná-los verdadeiros seguidores do tawhid, Shah Ismail iniciou o trabalho de reforma e correção. A obra que ele compôs, “Taqwiyat al-Iman”, é um livro autorizado e valioso sobre o assunto. Naturalmente, também houve oposição por parte daqueles que, baseando seus negócios no culto aos pirs e aos túmulos, os haviam feito prosperar.

Quando os olhos do entendimento de Sayyed Sahib se abriram, ele viu claramente que o vasto Império Mogol deste país havia sido completamente despedaçado e destruído. Os poucos Estados muçulmanos que haviam erguido a cabeça sobre suas ruínas também haviam chegado ao fim. Embora os ingleses tivessem estendido seu domínio sobre toda a Índia, um Estado sikh havia sido estabelecido numa vasta região. Os muçulmanos não haviam apenas perdido o reino; também se haviam afastado muito de seu próprio din e da “Sirat al-Mustaqim”. Suas crenças de aqidah, seus pensamentos e concepções, bem como seus costumes e práticas, estavam influenciados por ideias e práticas religiosas não islâmicas. Os amires e nobres muçulmanos que ainda restavam estavam entregues ao luxo e ao prazer, e não tinham outro objetivo na vida senão garantir, de qualquer maneira, que os meios e recursos para desfrutar da felicidade e dos prazeres de sua existência permanecessem intactos. Quaisquer que fossem as consequências para a nação, não tinham disponibilidade para refletir sobre isso. A situação da maioria do povo era como se um raio tivesse caído sobre eles e os tivesse deixado privados de entendimento e consciência, ou como se tivesse começado um terremoto devastador e eles tivessem perdido toda a orientação. Aqueles que possuíam algum conhecimento e discernimento não conseguiam encontrar solução alguma. Consideravam o futuro sombrio como algo escrito pelo destino e permaneciam sentados, quietos, recolhendo braços e pernas, pensando que aconteceria o que tivesse de acontecer. Mas, quando um barco cai num redemoinho no meio do rio, suas velas são despedaçadas, a âncora não serve para nada e não se encontra o timoneiro, resta alguma esperança de salvar a vida dos passageiros? Naquele momento, os muçulmanos estavam submergindo num mar semelhante de desespero.

Foi nessa situação tão desesperadora da vida nacional dos muçulmanos que Sayyed Sahib abriu os olhos do entendimento. Viu que diante dele havia apenas três caminhos abertos.

Primeiro — abandonar o Haqq e estabelecer relações e vínculos com o batil.

Segundo — não abandonar o Haqq; ao contrário, suportar silenciosamente os perigos, dificuldades, sofrimentos e pobreza que surgissem por permanecer ligado ao Haqq.

Terceiro — com coragem e bravura viris, enfrentar o batil e empenhar-se com todas as forças para criar uma situação que estabelecesse as condições para o início da vitória e do sucesso do Haqq.

O primeiro é o caminho da morte, não o caminho da vida. O resultado do segundo poderia ser que, pouco a pouco, entre definhamento e sofrimento, a chama da vida da nação se extinguisse. O terceiro caminho é o caminho da dignidade nacional, da bravura e da coragem justa. É o caminho de alcançar uma nova vida e ser novamente estabelecido na dignidade. Sayyed Sahib escolheu precisamente esse terceiro caminho. Todas as qualidades e aptidões necessárias para seguir por ele existiam nele em plenitude.

Durante vários anos após retornar de Meca Sharif a Rae Bareli, ele se dedicou à preparação e à propaganda do jihad. Enviou cartas aos líderes religiosos do país para que compreendessem a importância e a necessidade do jihad como uma obrigação religiosa. Ele próprio havia compreendido claramente que, para reformar e organizar a sociedade, era absolutamente necessário estabelecer força e um Estado. Pediu a alguns muçulmanos ilustres que participassem plenamente do jihad e também oferecessem sua ajuda. Numa carta, escreveu ao nababo Suleiman Jang:

Por obra do nosso destino, a Índia esteve durante algum tempo sob o domínio de cristãos e hindus, e eles começaram a infligir ampla opressão aos muçulmanos. O país foi tomado pela incredulidade e pelas inovações religiosas, e o modo de vida islâmico quase desapareceu. Meu coração encheu-se de dor ao ver e ouvir tudo isso. Decidi empreender a hégira ou o jihad.

-(O Movimento Wahhabi, Abdul Mawdud, p. 157)

Saiyid Sahib adotou o jihad no caminho de Allah como o único objetivo de sua vida e como o único caminho para a salvação na vida futura. Não apenas para si mesmo, mas também para inspirá-los ao jihad, escreveu numerosas cartas, em linguagem inflamada, a muitos governantes e amires e nobres muçulmanos do país e do exterior. Em sua obra, Ghulam Rasul Mehr mencionou algumas dessas numerosas cartas.

Saiyid Sahib enviou cartas aos seguintes governantes:

1. Amir Dost Muhammad Khan Barakzai — Cabul.

2. Yar Muhammad Khan — Peshawar.

3. Sultão Muhammad — Kohat e Bannu.

4. Saiyid Muhammad Khan — Hashtnagar.

5. Shah Mahmud Durrani – Herat.

6. Zaman Shah Durrani.

7. Nasrullah – Bukhara.

8. Suleiman Shah – Chitral.

9. Ahmad Ali – Rampur.

10. Muhammad Bahawal Khan Abbasi Nasrat Jang – Bahawalpur.

Além disso, ele enviou cartas a trinta ou trinta e cinco dos amires e nobres mais influentes da Índia, convocando-os a se juntarem ao jihad e a oferecerem todo tipo de ajuda e cooperação. Entre eles, enviou também uma carta a Hindu Rao, um certo rei hindu de Gwalior. O teor da carta era o seguinte:

“Comerciantes estrangeiros se tornaram os governantes deste país. Eles estão nos conduzindo à destruição em todos os aspectos. Aqueles que são os responsáveis pelo reino agora desempenham o papel de espectadores silenciosos. Em tal situação, compelidos pelo mero dever, alguns homens desprovidos e pobres saíram de suas casas, confiando em Allah, para servir à Sua religião. Eles não desejam as riquezas mundanas nem posição ou prestígio. Seu objetivo é que, se obtiverem a vitória, o governo deste país seja entregue às mãos do próprio povo deste país”.

Com o objetivo de preparar amplamente o movimento, Sayyid Sahib estabeleceu uma organização e nomeou seus khalifas ou representantes de confiança nas principais cidades da Índia. Entre eles, destacam-se as seguintes pessoas:

1. Maulana Sayyid Muhammad Ali Rampuri foi enviado a Hyderabad (Decão) com três colegas.

2. Quando Sayyid Muhammad Ali partiu posteriormente para Madras, Maulana Belayet Ali Azimabadi foi enviado em seu lugar.

3. Maulana Enayet Ali Azimabadi foi enviado para Bengala.

4. Maulana Sayyid Awlad Hasan Kanauji e Sayyid Hafizuddin foram encarregados da UP.

5. Mian Din Muhammad, Mian Pir Muhammad e muitos outros receberam a responsabilidade de percorrer várias regiões da Índia, levar o apelo ao jihad e arrecadar fundos.

Patna foi escolhida como o principal centro para conduzir as atividades do jihad. Em 1822, quando Sayyid Ahmad foi escolhido para estabelecer Patna como o principal centro. Em 1822, quando Sayyid Ahmad foi a Patna, Belayet Ali e Muhammad Hossain ofereceram-lhe uma grandiosa recepção. Ao estabelecer Patna como o principal centro do movimento, Sayyid Sahib nomeou quatro representantes. Eram eles: Maulana Belayet Ali, Muhammad Hossain, Enayet Ali e Farhad Hossain.

Depois de concluir em toda a Índia a propaganda e os preparativos para o jihad, Sayyid Ahmad deixou, em 1826, sua terra natal, Rae Bareli. Depois disso, não teve mais oportunidade de retornar para lá. Passou o restante de sua vida continuamente no jihad pelo caminho de Allah e glorificou sua vida bebendo o néctar do martírio.

De todo modo, antes da partida, começaram a chegar de várias partes da Índia dinheiro, armas e equipamentos de guerra, cavalos, provisões e outros recursos. Milhares de mujahideen começaram a reunir-se sob sua bandeira para oferecer a vida no caminho de Allah. Assim, no momento da partida, o número de seus mujahideen chegava a doze mil. O Nawab de Tonk, devotado e afeiçoado ao Sayyid Sahib, convidou o exército mujahid e, depois de fornecer sob sua própria supervisão todo o equipamento necessário para o jihad, despediu-o.

Em seguida, o exército mujahid partiu de Tonk, atravessou Sindh, Hyderabad, Shikarpur e outros lugares e entrou no Kandahar, no Afeganistão, pelo passo de Bolan.

Antes disso, Mir Rustam Ali, de Khairpur, em Sindh, tornou-se murid do Sayyid Sahib e, à semelhança do Nawab de Tonk, prestou-lhe substancial auxílio financeiro. Ao chegar ao Afeganistão, o Sayyid Sahib solicitou a ajuda do emir afegão. O emir recusou-se a prometer-lhe qualquer tipo de ajuda. De todo modo, dali o exército mujahid chegou a Nowshera, na fronteira. Ao longo desse extenso percurso, o exército mujahid teve de suportar extremas dificuldades e sofrimentos. Entretanto, por onde passavam, sardares, governantes, funcionários locais e o povo em geral prestavam lealdade ao Sayyid Sahib. Alguns ofereciam diversos presentes, outros faziam bay‘at em suas mãos e outros ainda juntavam-se ao seu exército. Pessoas de várias províncias da Índia juntaram-se às suas fileiras — inclusive numerosos mujahideen do distante Bangla. Entre eles destacava-se o sufi Nur Muhammad Nizam­puri, de Chittagong, que, após a tragédia de Balakot, retornou à sua terra natal como ghazi. Seu murid e khalifa era o sufi Fateh Ali Sahib, que repousa em sono eterno em Maniktala, Calcutá. Numerosos bangladeshianos alcançaram o martírio, e muitos outros estabeleceram residência permanente em Balakot, Swat e outros lugares. Seus descendentes ainda existem. Em 1963, o autor teve a felicidade de encontrar-se em Balakot com um de seus descendentes.

Quando o Sayyid Sahib partiu de Rae Bareli para Delhi e recebia instrução e formação junto a Shah Abdul Aziz, soube da extrema perseguição sofrida pelos muçulmanos sob o domínio sikh no Punjab. Seu coração compadeceu-se dos muçulmanos oprimidos, e naquele momento resolveu remediar essa situação. Ele desejava estabelecer um Estado islâmico na região fronteiriça de população muçulmana e, a partir dali, lançar expedições contra as forças inimigas dos muçulmanos em outras regiões. Por isso, escolhera a fronteira como centro inicial de sua luta. Mas é profundamente lamentável que a extrema traição dos muçulmanos da fronteira, cuja ajuda e cooperação o Sayyid Sahib esperava ao traçar o plano de seu jihad, tenha acabado por conduzir sua luta ao fracasso. Depois de chegar a Nowshera e até a batalha de Balakot, em onze ou mais ocasiões, segundo os procedimentos estabelecidos, ele convocou publicamente os sikhs a abraçar o Islã, submeter-se ou enfrentar as armas. Por fim, houve batalha, e, numa batalha noturna, apenas novecentos mujahideen derrotaram o grande exército sikh. Entusiasmados com sua vitória, os habitantes da fronteira passaram a elogiá-los e juntaram-se em massa ao exército mujahid. Muitos sardares locais, especialmente os Yusufzai, aderiram ao grupo do Sayyid Sahib.

Algum tempo depois, os sikhs também sofreram uma derrota em Manpuri Panjtar. Em consequência desse êxito dos mujahideen, os dez mil guerreiros de Garhi Imazi reconheceram o Sayyid Sahib como imã. Os habitantes de Peshawar solicitaram ao Sayyid Sahib que estabelecesse uma base em Nowshera e iniciasse uma campanha geral contra os sikhs. Nessa ocasião, mais de cem mil pessoas juntaram-se ao exército mujahid.

Entretanto, os sardares da fronteira eram extremamente egoístas e ávidos por dinheiro. O comandante sikh Budh Singh conseguiu subornar o sardar de Peshawar mediante a promessa de dinheiro. Eles chegaram a tamanha baixeza que, por dinheiro, envenenaram secretamente o Sayyid Sahib. Mas, pela infinita graça de Allah, ele sobreviveu milagrosamente. Na batalha travada contra os sikhs nesse período, os sardares tomaram o partido dos sikhs, e o exército mujahid foi derrotado.

Por causa das reviravoltas e traições dos sardares pashtuns da fronteira, o exército mujahid enfrentou grandes dificuldades. Numa carta escrita pelo Sayyid Sahib ao Nawab de Tonk, sabe-se que cerca de trezentas mil pessoas fizeram bay‘at e juntaram-se ao seu grupo. Contudo, quase todas eram habitantes locais. É provável que tenham aderido ao grupo do Sayyid Sahib apenas com o objetivo de saquear os espólios de guerra. Não possuíam qualquer caráter islâmico. Por sua extrema simplicidade, o Sayyid Sahib foi enganado por eles. Seus únicos colaboradores confiáveis eram aqueles que haviam vindo de fora. Em tempos de perigo e adversidade, permaneciam ao lado do Sayyid Sahib como sombras e, quando necessário, ofereciam a vida sem hesitação. Eram cerca de mil. Quando alguns deles alcançavam o martírio na guerra, eram substituídos por novos grupos de recém-chegados. Caravanas vinham de regiões distantes trazendo pessoas desejosas de juntar-se ao jihad, dinheiro, provisões e cartas. O abastecimento deles era providenciado pela atuação secreta da organização “Targhib-e-Muhammadiya”, espalhada por toda a Índia. Desafiando a vigilância do serviço de inteligência do governo britânico, dinheiro chegava de Bihar e Bangla. Com ele, chegavam também grupos de mujahideen dedicados ao caminho de Allah.

As provisões de guerra, os alimentos, o dinheiro e tudo mais que chegava eram depositados no bait al-mal, cujo guardião era Maulana Muhammad Yusuf, sobrinho de Shah Waliullah e qutb do exército mujahid. As provisões e o dinheiro eram distribuídos entre os mujahideen com extrema justiça, imparcialidade e disciplina. O próprio Sayyid Sahib não recebia nada além do que recebia um mujahid comum.

Eis a ironia do destino: esses amados servos de Alá, consagrados ao caminho de Alá, tiveram de enfrentar três grupos. Os sikhs, o traiçoeiro chefe patano e Khade Khan, senhor da fortaleza de Hund — essas três forças eram inimigas do exército dos mujahidin. Eles tiveram de enfrentar simultaneamente essas três forças.

As guerras contra os sikhs eram quase contínuas. Os mujahidin de Bengala, Bihar e das Províncias Centrais combatiam com bravura. Os sikhs e os patanos traidores eram derrotados por suas mãos. Os chefes durrani de Peshawar também se juntaram abertamente aos sikhs, enquanto Khade Khan incitava constantemente os patanos locais contra os mujahidin.

Desta vez, para punir Khade Khan, Sayyid Sahib enviou Shah Ismail com apenas cento e cinquenta mujahidin para conquistar a fortaleza de Hund. No escuro da noite, eles atacaram Hund de surpresa, tomaram-na e Khade Khan foi morto. Seu irmão, Yar Muhammad, avançou com um grande exército para reconquistar a fortaleza de Hund. Seguiu-se um confronto violento, no qual Yar Muhammad foi morto. Muitos canhões do inimigo foram capturados, e grande quantidade de equipamento e materiais de guerra caiu nas mãos do exército dos mujahidin. Contudo, os habitantes locais saquearam a maior parte deles. Após a morte dos principais inimigos traidores do exército dos mujahidin — Khade Khan, Yar Muhammad Khan e Amir Khan — restavam agora apenas Mik e o sultão Muhammad Khan de Peshawar como adversários. Depois da batalha de Hund, quando Sayyid Sahib decidiu estabelecer uma base em Peshawar, Payenda Khan, de Amb, opôs-se a ele. Também aqui o exército dos mujahidin teve de enfrentar a força combinada de Mik e dos patanos. Eles foram derrotados novamente, e o domínio do exército dos mujahidin foi reconhecido desde Amb até Mardan. Agora já não havia qualquer obstáculo para que avançassem até Peshawar.

Vendo que a situação se tornara desesperadora, o astuto sultão Muhammad prestou bay‘ah a Sayyid Sahib e pediu perdão. Quando prometeu governar de acordo com a sharia islâmica, Sayyid Sahib perdoou-o e confiou-lhe a responsabilidade do governo. Maulana Jafar Thaneshwari observa em sua obra Sirat-i Sayyid Ahmad Shahid que Sayyid Sahib, por causa de sua simplicidade, errou ao confiar desinteressadamente a responsabilidade ao sultão Muhammad. Muitos tinham dúvidas, mas ninguém teve coragem de protestar contra a decisão de Sayyid Sahib. Maulana Shah Mazhar Ali foi nomeado cádi para julgar segundo a lei da sharia.

Sayyid Sahib e os mujahidin formados sob sua liderança não tinham qualquer desejo de obter posição ou prestígio. Estabelecer a religião de Alá e fazer vigorar a lei de Deus na vida social era o objetivo de suas vidas. A atribuição da responsabilidade ao sultão Muhammad também tinha um propósito político: embora houvesse pessoas qualificadas entre os mujahidin vindos de fora, ele confiou a responsabilidade a um homem local. Pois seu objetivo era fazer vigorar as disposições da sharia, e não desfrutar pessoalmente do poder.

De qualquer modo, aparentemente o domínio islâmico foi estabelecido sobre uma vasta região. Sayyid Sahib começou a empreender esforços especiais para introduzir a sociedade islâmica e a lei islâmica. Grupos de pregadores foram enviados por Peshawar e por toda a região fronteiriça. Eles se dedicaram, aldeia após aldeia, a divulgar o modo de vida islâmico e as leis e normas da sharia.

Mas, lamentavelmente, os habitantes locais eram pobres, ignorantes, gananciosos e presos às amarras de superstições jahiliya cultivadas durante muito tempo. Quando os pregadores começaram a exortá-los a abandonar essas superstições e a viver uma vida islâmica, seus interesses familiares, sociais, tribais e econômicos sofreram um golpe extremo. Por isso, iniciaram uma campanha de não cooperação. O grupo de mulás ávidos por poder e dinheiro, cuja influência provinha da ignorância e da superstição, também ofereceu forte resistência. Como resultado, os habitantes locais explodiram em uma fúria cega contra Sayyid Sahib. O traiçoeiro sultão Muhammad também desejava isso e aproveitou plenamente a oportunidade. Uma profunda rede de conspiração foi espalhada em absoluto segredo por toda a região, e, no mesmo dia e à mesma hora, durante a oração do fajr, o grupo de pregadores mujahidin, ocupado em orar, foi cruelmente exterminado. Um deles conseguiu salvar-se milagrosamente e, fugindo, relatou o ocorrido a Sayyid Sahib.

Sayyid Sahib ficou profundamente abalado. Com aquele único golpe, várias centenas de seus trabalhadores consagrados ao caminho de Alá perderam a vida. Também desapareceu sua esperança de construir uma sociedade islâmica ideal. Ele decidiu abandonar a terra dos traidores e dos ingratos e partir para outro lugar.

Jafar Thaneshwari diz que, em seguida, o Saíde Sahib reuniu seus trabalhadores e disse: “Fui reduzido a pedaços. Os pastós cometeram uma traição extrema. Aqui já não há esperança alguma de formar uma sociedade islâmica. Agora, para mim, não resta alternativa senão fazer a hégira. Partirei para outro país pelo caminho de Balakot e Gilgit. Se Allah conceder Sua graça, retomarei este trabalho. O caminho que desejo seguir é extremamente difícil, com perigos à espreita a cada passo. Não os convocarei a seguir por esse caminho. Se quiserem, cada um de vocês pode retornar à sua própria casa”.

Então todos disseram a uma só voz: “Depois de dar o primeiro passo no jihad, recuar é contrário à fé. Queremos permanecer, em todas as circunstâncias, como companheiros inseparáveis do Huzur”.

Em seguida, o Saíde Sahib partiu em direção a Balakot com os mujahidin que lhe restavam. Naquele momento, as tropas de Sher Singh estavam frente a frente com os mujahidin.

O conteúdo da carta que o Saíde Sahib escreveu de Balakot ao nababo Uzír-ud-Daulá é o seguinte:

“O povo de Peshawar é tão desafortunado que não se juntou às nossas tropas de mujahidin no jihad. Além disso, caiu em tentação e matou muitos dos nossos homens nobres, que estavam ocupados em diversas atividades por todo o país. …O verdadeiro objetivo da nossa permanência ali era obter a ajuda e a simpatia de um grande número de muçulmanos locais no jihad contra os infiéis. Agora que já não resta esperança alguma, decidimos transferir-nos dali para a região montanhosa de Pakhli. Os inimigos nem sequer conseguirão encontrar-nos. Continuem a suplicar dia e noite na corte de Allah pelo progresso do Islã e pelo sucesso das tropas de mujahidin”.

—(O Movimento Wahhabi, Abdul Mawdud, p. 164)

O Saíde Sahib escolhera, para o descanso, o vale embelezado de Balakot, juntamente com suas tropas de mujahidin. A leste, o rio montanhoso Kunhar, ou Kaghan, corria incessantemente, murmurando. Do noroeste, o estreito riacho montanhoso Barna brincava de esconder-se entre grandes blocos de pedras; ao norte do riacho estendia-se a tranquila planície de Nuri. Ao entrar nesse campo de jogos da natureza, tem-se a impressão de que alguém acena do outro lado do rio da vida. Embora os mujahidin exaustos da batalha tenham montado acampamento ali para descansar, talvez o chamado do além não tenha escapado aos seus olhos. Por isso, o descanso não lhes coube em sorte.

Enquanto isso, os siques procuravam as tropas de mujahidin. Pensavam que, dos mais de cem mil mujahidin do Saíde Sahib, apenas algumas centenas haviam sobrevivido e que eles estavam desanimados. Era justamente nessa oportunidade que deveriam desferir o ataque.

Naquela época, havia apenas dois caminhos para Balakot. Um deles era tão densamente coberto por florestas montanhosas que percorrê-lo sem um guia local era extremamente perigoso. O outro passava por um estreito desfiladeiro e por uma ponte. Naturalmente, foram providenciadas sentinelas em ambos os caminhos. Contudo, alguns traidores, atraídos por uma grande soma de dinheiro, mostraram aos sikhs justamente o caminho coberto pela floresta. Como resultado, eles cercaram de surpresa o exército dos mujahidins. Embora o exército dos mujahidins estivesse completamente despreparado, lutou com extraordinária bravura. Sayyid Ahmad, Shah Ismail e os demais principais companheiros de Sayyid Sahib alcançaram o martírio enquanto combatiam na jihad.

Abdul Mawdud diz: “O grande movimento que ele liderava não foi paralisado, não foi paralisado. Mesmo após esse massacre, muitos dos que sobreviveram estabeleceram centros desse movimento em Tonk ou em Chatanah, em Bihar Sharif, sob a liderança dos fiéis servidores de Sayyid Sahib. Mais tarde, quando os ingleses imperialistas do Punjab começaram a exercer a opressão como os sikhs, toda a ira dos mujahidins se voltou contra eles. Mas o que lhes coube foi a punição cruel da prisão, da perseguição e da morte na forca; e ainda mais vil foi a difamação gratuita e os discursos falsos proferidos contra esses pioneiros combatentes por mullahs de baixa categoria e pelos chamados alems”.

Ele acrescenta: “Chegou o momento de reconhecer e honrar os feitos gloriosos e de coragem incomparável desses bravos mujahidins, pois foram eles que, de fato, muito antes, ao lançarem os fundamentos do Paquistão neste subcontinente, travaram a jihad contra toda forma de injustiça. Embora o Paquistão não tenha sido obtido por meio da instituição de Sayyid Sahib, é inegável que nela estava o mantra-semente; e toda pessoa informada compreenderá que a contribuição de Sayyid Ahmad Shahid de Rae Bareli para despertar essa consciência foi imensa”.

-(O movimento wahabita, Abdul Mawdud, pp. 165–166)

Como foi dito acima, no movimento de jihad de Sayyid Ahmad Shahid, vários milhares de mujahids e uma enorme quantia de dinheiro foram enviados de Bangladesh. Quando muitos bengaleses partiram de Rae Bareli com o objetivo de participar do jihad, tornaram-se companheiros de Sayyid Sahib; e, durante o jihad, assim como grandes recursos financeiros chegaram de Bangladesh à fronteira, também chegaram milhares de mujahids.

Ghulam Rasul Mehr afirma: “Por diferentes rotas, os mujahids juntavam-se a Sayyid Sahib em grupos. Em um desses grupos estava Maulvi Fateh Ali Azimabadi. Entre aqueles cuja lista de seu grupo ele apresentou — naturalmente, apenas os nomes de que se lembrava — havia seis bengaleses. Seus nomes eram:”

1. Maulvi Imamuddin

2. Zahurullah

3. Lutfullá

4. Talebulá

5. Faizudim

6. Cádi Madani

(Saiyid Ahmad Shahid, Golam Rasul Meher, p. 412, apêndice) Houve cerca de onze ou doze confrontos violentos entre os mujahidins e os siques e patanes. Naturalmente, muitos mujahidins também foram martirizados nessas batalhas. Não se conhecem os nomes nem os dados pessoais deles, tampouco os nomes das várias centenas que foram martirizadas certa manhã durante a oração do fajr. Contudo, Golam Rasul Meher apresentou uma lista com os nomes daqueles que foram martirizados em Balakot. Segundo a lista que ele forneceu, ao todo cento e trinta e cinco mujahidins foram martirizados em Balakot. Entre eles, cinco eram de Bangladesh. Seus nomes eram: Alimudim, Faizudim, Lutfullá, Sarafudim e Saiyid Muzaffar Hossain. Nessa lista aparecem também os nomes de Cader Bakhsh, Abdul Cader, Gaziudim e Bakhshulá. Porém, não foi informado de onde eram esses quatro homens. Apenas ao final do nome de Bakhshulá se diz: ‘irmão de Meher Ali’. — (Saiyid Ahmad Shahid, Golam Rasul Meher, pp. 432–434)

Enquanto os mujahidins vindos de toda a Índia se empenhavam no jihad na fronteira, exatamente nesse período Saiyid Nisar Ali, conhecido como Titumir, também se empenhava no jihad contra os zamindares hindus, os plantadores de índigo e os ingleses. Titumir era discípulo do Saiyid Sahib. Contudo, estava tão envolvido em sua própria terra natal que não teve a sorte de alcançar o martírio na companhia do Saiyid Sahib. Entretanto, o mártir Titumir seguiu o mesmo caminho pelo qual seu mestre espiritual se uniu a Deus. No dia 6 de maio de 1831, uma sexta-feira, por volta do meio-dia, o maior dos mujahidins do subcontinente, Saiyid Ahmad de Bareli (que a misericórdia de Deus esteja sobre ele), alcançou o martírio. Em 19 de novembro de 1931, Saiyid Titumir alcançou o martírio sob os disparos de canhão das tropas inglesas.

Causas da catástrofe de Balakot

Devemos certamente investigar as causas do movimento irresistível que, sob a liderança de Saiyid Ahmad de Bareli, os eminentes pensadores Shah Muhammad Ismail, Maulana Abdul Hai e outros haviam construído na Índia para introduzir a liberdade islâmica, isto é, o governo ou sistema de administração islâmico, e que, tendo avançado até as portas do sucesso, acabou enfrentando o fracasso. Isso porque uma análise minuciosa e uma investigação rigorosa da história passada podem determinar corretamente a orientação das ações futuras. Apresentemos brevemente as causas do fracasso do movimento descritas pelos eminentes pensadores. Embora o movimento tenha fracassado temporariamente, suas repercussões foram de longo alcance. A inspiração irresistível para que os muçulmanos indianos percorressem o caminho tingido de sangue, transmitida por Saiyid Ahmad Shahid, levou os muçulmanos indianos — fossem bengalis, biharis, panjabis, sindis ou patanes — a seguir incansavelmente esse caminho por quase um século. Prisões e perseguições, execuções, deportações para ilhas, confisco de bens imóveis e móveis e torturas físicas desumanas e bestiais não conseguiram desviá-los desse caminho nem por um instante. Ainda assim, também precisamos identificar por que o próprio líder desse movimento não pôde contemplar esse sucesso durante sua vida. Muitos expressaram a opinião de que as principais causas foram as seguintes.

1. Para conduzir o movimento islâmico, isto é, o jihad no caminho de Allah, cada membro do corpo de trabalhadores necessário deve ter um caráter formado segundo o puro ideal islâmico. Eles devem ser consagrados ao caminho de Allah. Sem dúvida, os mujahidin que o próprio Sayed Sahib levou consigo de fora possuíam esse caráter. E também possuíam um caráter semelhante, eram detentores desse caráter. E também possuíam um caráter semelhante aqueles que, durante o jihad, deixaram parentes, lares, terras e campos em regiões como Bengala, Bihar e as Províncias Centrais, e se juntaram ao corpo de mujahidin de Sayed Sahib unicamente com o objetivo de obter a satisfação de Allah. Contudo, seu número sempre permaneceu limitado entre mil e dois mil. Ao ouvirem os inflamados discursos de Sayed Sahib sobre o jihad e, no início, ao verem a inesperada vitória sobre os siques, os paquistaneses juntaram-se ao grupo de Sayed Sahib. Mas eles não possuíam um verdadeiro caráter islâmico. Havia neles muita inspiração e entusiasmo islâmicos. Porém, a maioria era pobre, ignorante, ávida por dinheiro e presa nas malhas de superstições acumuladas ao longo de muitos anos. Os que eram sardares ou governantes tribais também eram extremamente egoístas e oportunistas. Em certas ocasiões, o número de mujahidin chegou a trezentos mil. Eram quase todos membros de várias tribos pashtuns. Traíram por ganância, juntaram-se aos soldados siques adversários no momento crucial ou, enquanto combatiam contra o corpo de mujahidin, entregaram-se apenas à pilhagem dos despojos, rompendo a disciplina e a regularidade dentro do exército. Na poderosa inundação do interesse pessoal cego e da ganância, sua inspiração e seu entusiasmo islâmicos, semelhantes a bolhas de água, foram arrastados e desapareceram sem deixar vestígios.

2. Embora o próprio Sayed Sahib e Shah Ismail fossem guerreiros destemidos e estrategistas militares, todo o corpo de mujahidin não foi treinado na ciência militar da época.

3. Também não foi correto depositar plena confiança nos pashtuns traidores e sem caráter. Não foi correto confiar a administração de Peshawar a Sultan Muhammad Khan, que, juntamente com seus irmãos, se opunha ferrenhamente a Sayed Sahib. Por fim, foi o próprio Sultan Muhammad quem desferiu um golpe extremo contra o movimento e, na mesma noite, por meio de uma conspiração cuidadosamente planejada, matou várias centenas dos melhores mujahidin de Sayed Sahib. Em consequência, Sayed Sahib teve de retirar-se de Peshawar.

4. O objetivo dos pashtuns locais era salvar a própria vida e obter ganhos materiais, e não dar a vida no caminho de Allah. Por isso, durante as batalhas, obrigavam os verdadeiros mujahidin a permanecer na linha de frente, enquanto eles próprios permaneciam o mais inativos possível e procuravam oportunidades de pilhagem.

5. Depois de conquistar o controle do país, também se agiu de maneira contrária à hikmah no que dizia respeito à aplicação da lei da sharia. As diversas superstições existentes entre o povo havia muitos anos estavam tão profundamente arraigadas que, ao se aplicar a lei da sharia, elas sofreram um golpe extremo. Os grupos de mulás ignorantes que ganhavam seu sustento mantendo vivas essas superstições ficaram enfurecidos. Os sardares oportunistas também aproveitaram-se disso. Assim, o povo, os grupos de mulás e os sardares começaram conjuntamente a opor-se aos mujahidin. Primeiro, deveria ter-se iniciado o trabalho de reformar e corrigir o caráter do povo e, quando suas mentes e corações estivessem preparados para obedecer à lei da sharia, ela deveria ter sido aplicada gradualmente. O povo, sem dúvida, acreditava firmemente no Islã e era formado por corajosos combatentes da luta pela liberdade, mas sua vida social e estatal não era, em nenhum aspecto, superior à dos pré-islâmicos “dias da jahiliyyah”.

Entre o povo local e os habitantes nativos estavam disseminados costumes tão maus que eram completamente contrários à sharia islâmica. Por exemplo, casar alguém à força com quem quer que se desejasse, vender a filha por um preço elevado para o casamento, repartir as viúvas entre os herdeiros do falecido, ter mais de quatro esposas, não permitir o casamento de viúvas, dar aos mulás uma quantia determinada de dinheiro pela salvação do falecido, entre outros. Entre as leis da sharia promulgadas por Sayed Ahmad estava a determinação de que todos os tipos de cerimônias, costumes, usos e práticas contrários à sharia seriam totalmente abolidos. A lei da sharia também estabelecia que tribunais shariais seriam instituídos para decidir os processos civis e criminais; depois de recolhidos o ‘ushr’, ou décimo, da produção agrícola, e o zakat, os valores seriam depositados no baitulmal; desse baitulmal seriam distribuídos igualmente entre os mujahidin e os demais; se surgisse alguma disputa entre os habitantes nativos e as tribos, o direito de decisão final caberia exclusivamente ao califa; seria criado um departamento de polícia cuja função seria controlar a vida religiosa e moral do povo; e todo muçulmano seria obrigado a observar o siyam (jejum) e a salat (oração). Muitas outras leis construtivas e voltadas ao bem-estar também foram promulgadas. Sem dúvida, tratava-se de um sistema ideal, adotado à imitação do método de ação do Profeta Mustafa e dos califas rashidun. Mas os habitantes nativos, os pashtuns tribais, o povo e os grupos de mulás não haviam desenvolvido uma mentalidade capaz de aceitar essas medidas. Portanto, como a lei da sharia lhes foi imposta repentinamente, em vez de ser introduzida gradualmente, eles se recusaram a obedecê-la.

Outra causa principal da oposição dos pashtuns nativos era que, para garantir a paz e a ordem, todos haviam sido submetidos a uma autoridade central. Mas a inclinação inata dos pashtuns nativos era não se submeter à ordem de ninguém. Para eles, liberdade significava arbitrariedade desenfreada. Porém, quando qualquer governo civilizado tentou controlar sua arbitrariedade em nome da lei e da ordem, eles adotaram uma atitude rebelde contra o governo islâmico.

Abdul Maudud diz: “Em uma situação desse tipo, é digno de consideração até que ponto foi conveniente introduzir subitamente a lei da sharia. Julgando à luz das lições da história e dos critérios da visão de longo alcance, parece que não era possível realizar essa mudança dessa maneira. É preciso, gradualmente, transformar e corrigir o curso da vida nacional, procurando moldá-lo de modo adequado à mentalidade do povo. Se se tentar mudá-la da noite para o dia, ignorando a mentalidade popular, o povo se afastará dela em razão da dúvida e do conflito mental, e não poderá aceitá-la de coração. Ignorar a mentalidade popular e o ambiente e tentar transformar rapidamente o modo de vida fracassou dolorosamente e tornou-se infrutífero em muitos casos”.

-(O movimento wahhabita, Abdul Mawdud, p. 177)

Enfrentar o governante opressor: este foi o vigoroso anúncio do Profeta universal, e o melhor dos jihads. Quando, sob o governo opressivo da Companhia em Bengala e devido à opressão e perseguição dos zamindares hindus, agiotas, plantadores de índigo e seus agentes nativos, a sociedade muçulmana caminhava para a extinção, Haji Shariatullah e, depois dele, o digno califa de Saiyid Ahmad Barelvi, Saiyid Nisar Ali, conhecido como Titumir, levantaram a voz contra eles. Do mesmo modo, Saiyid Ahmad declarou publicamente o jihad, com um amplo programa de ação, contra o domínio estrangeiro e herético dos ingleses. Esta era a exigência da fé de um verdadeiro muçulmano. Pela adoção de qualquer uma destas três opções — hijra, jihad ou shahadat — o muçulmano dá testemunho de sua fé. Por isso, Maulana Muhammad Ali Jauhar disse: a história da vida de um muçulmano compreende apenas três capítulos: hijra, jihad e shahadat. A vida de Saiyid Ahmad e Shah Ismail é a personificação desses três capítulos.

Após o desastre de Balakot

Embora os mujahidin tenham enfrentado um desastre extremo no campo de Balakot, e embora Saiyid Ahmad Barelvi, comandante do exército dos mujahidin, e Shah Ismail tenham alcançado a shahadat juntamente com outros, as atividades daqueles que tiveram a fortuna de se tornar ghazis não diminuíram de modo algum. Muitos deles mantiveram vivo o movimento jihadista entre os muçulmanos indianos, movimento que culminou na revolta dos sipais de 1857, isto é, no movimento de independência de toda a Índia. Esse movimento não foi sufocado em 1857; pelo contrário, até 1868 manteve o governo britânico perturbado e em perigo. À frente desse movimento estavam os califas de Saiyid Ahmad Shahid, entre os quais Maulana Belayat Ali, Maulana Mahmudullah e o sufi Nur Muhammad Nizam Puri. Sem uma breve discussão sobre eles, não será possível obter um quadro completo do movimento jihadista.

Maulana Belayat Ali

Maulana Belayat Ali era filho do maulvi Fateh Ali, de Patna, e descendente do célebre Amir Rafiuddin Husain Khan, daquela região. Belayat Ali foi criado no seio de grande riqueza. Sua adolescência e juventude transcorreram em Lucknow, a gloriosa cidade dos amires e nobres. Quando, nessa época, Saiyid Ahmad veio a Lucknow para apresentar o convite ao jihad, Belayat Ali abandonou sua vida luxuosa, respondeu ao chamado do jihad e partiu para Rae Bareli. Ali, começou a estudar a ciência dos hadith com Maulana Shah Muhammad Ismail e, em lugar da vida luxuosa, passou a viver uma vida de faquir. Trabalhou como pedreiro junto com Saiyid Ahmad Shahid e cozinhava com as próprias mãos, recolhendo lenha nas florestas. Saiyid Sahib amava profundamente uma alma tão dedicada ao caminho de Allah. Quando partiu para Meca com o propósito de realizar o hajj, nomeou-o seu substituto e confiou-lhe a responsabilidade de propagar o Islã. Por ordem de Saiyid Sahib, ele realizou atividades de pregação no Afeganistão durante dois meses. Juntamente com um certo Maulana Muhammad Ali, continuou as atividades de pregação em Swat, Hyderabad e no Decão. Enquanto ele se encontrava no Decão, Saiyid Sahib alcançou a shahadat em Balakot.

Após o desastre de Balakot, Maulana Belayat Ali entrou na Índia britânica e retomou a obra inacabada de Saiyid Sahib. Enviou várias pessoas para realizar atividades de pregação em diferentes lugares. Enviou seu irmão de sangue, Maulana Enayat Ali, para Bengala. Nomeou Maulana Zainul Abedin e Maulana Abbas Ali como muballighs, respectivamente, em Orissa e nas Províncias Unidas.

Depois de estabelecer uma sede central em Patna, Maulana Belayat Ali iniciou as atividades de pregação. Dois anos depois, partiu para Meca com o propósito de realizar o hajj. Após o hajj, visitou o Iêmen, o Najd, Mascate, Hadramaut e outros lugares. Nessa época, recebeu uma certificação na ciência dos hadith do célebre muhaddith Qadi Muhammad ibn Ali al-Shawkani.

Após retornar da Arábia, ele enviou à fronteira uma força de mujahidin, sob a liderança de seu irmão Enayet Ali, para travar o jihad contra Golab Singh. Vendo a situação se agravar, Golab Singh firmou um tratado de paz com os britânicos. Como resultado, começaram conflitos internos entre os muçulmanos da fronteira, e a força de mujahidin de Enayet Ali se dispersou.

Após o fracasso da expedição à fronteira, Maulana Belayet Ali retornou a Lahore. O comissário de polícia de Lahore obrigou os dois irmãos Maulana a assinarem um termo de compromisso pelo qual se abstinham de qualquer tipo de atividade durante dois anos. Depois disso, eles retornaram a Patna e começaram a trabalhar na propagação do Islã.

Após o término do prazo de dois anos do termo de compromisso, Maulana Belayet Ali foi de Patna a Délhi, acompanhado de alguns colaboradores, com o propósito de realizar a hégira. Nessa época, continuou a apresentar o convite ao Islã na Jama Masjid de Délhi e na mesquita de Fatehpur. Isso ocorreu apenas alguns anos antes do movimento de independência de 1857. Nessa época, a convite de Bahadur Shah, ele se encontrou uma vez com ele no Forte Vermelho.

Após permanecer algum tempo em Délhi, Maulana Belayet Ali foi para Sittana, na fronteira do Punjab, passando por Ludhiana. Sittana era o principal centro da força de mujahidin. Ali haviam sido fundadas uma khanqah e uma madrassa. Para os mujahidin, khanqah significava o centro de suas expedições. Patna era chamada de Pequena Khanqah, e Sittana, de Grande Khanqah. Da Pequena Khanqah eram enviados dinheiro, suprimentos e mujahidin para a Grande Khanqah.

Ao chegar a Sittana, Maulana Belayet Ali constatou que a atividade ali havia diminuído consideravelmente. Ele era um orador inflamado. Reanimou a força de mujahidin.

Nessa época, foi instaurado contra Maulana Belayet Ali um processo por conspiração contra o governo britânico. Durante o processo, seus bens móveis e imóveis, no valor de várias centenas de milhares de rúpias, incluindo suas duas residências e sua casa ajardinada em Sadeqpur, Patna, foram reduzidos a ruínas. Os moradores da casa, especialmente as crianças e as mulheres, foram deixados sem recursos e sem abrigo. Em 1853, ele adoeceu e faleceu.

Sobre os irmãos Maulana Belayet Ali e Maulana Enayet Ali, Hunter afirma em seu relatório The Indian Muslim que os dois califas mencionados (Maulana Belayet Ali e Maulana Enayet Ali) eram amplamente conhecidos no Punjab como mujahidin e, por isso, foram presos e enviados a Patna sob custódia policial. O magistrado obteve deles, assim como de dois de seus correligionários abastados, termos de compromisso sob a condição de que mantivessem boa conduta no futuro. Contudo, em 1850, eu os vi realizando propaganda sediciosa no distrito de Rajshahi, na planície de Bengala. Por realizarem esse tipo de propaganda, foram expulsos de Rajshahi duas vezes, em ocasiões distintas. Por mais que esses dois califas fossem mantidos confinados em suas próprias casas, em Patna, mediante fiança e termo de compromisso, já em 1851 voltaram a ser vistos lançando chamas contra o domínio inglês na fronteira do Punjab.

O revolucionário Ahmadullah

Assim como os muçulmanos de toda a Índia, bengalis e não bengalis indistintamente, participaram ativamente do movimento jihadista de Sayyid Ahmad, também participaram muçulmanos de todas as regiões da Índia. Agricultores, trabalhadores, alfaiates, açougueiros, mullahs, maulvis, maulanas e funcionários de alto escalão dos departamentos governamentais participaram do movimento jihadista, assumindo todos os riscos da vida unicamente para alcançar a satisfação de Deus. O deputado magistrado Ahmadullah era um deles.

O pai de Ahmadullah chamava-se Elahi Bakhsh. Ahmadullah nasceu na primeira década do século XIX, numa família muito distinta de Sadikpur, historicamente célebre, no distrito de Patna. Ahmadullah recebeu educação superior em árabe, persa e urdu. Também possuía grande domínio da língua inglesa. Seu pai não se tornou discípulo de Sayyid Shahid, nem fez de seus três filhos — Yahya Ali, Faiz Ali e Ahmadullah — discípulos do senhor Sayyid. No início da vida, Ahmadullah foi nomeado para o departamento de educação do governo inglês. O nome dado a Ahmadullah por seu pai era Ahmad Bakhan. Sayyid Sahib mudou-o e deu-lhe o novo nome de Ahmadullah. Seu primeiro nome caiu em desuso, e ele passou a ser conhecido apenas como Ahmadullah.

Durante a guerra contra os sikhs na fronteira, o exército do senhor Sayyid contava com mais de duzentos mil homens. Para esse enorme exército, homens e recursos foram reunidos de quase todas as províncias da Índia daquela época, especialmente de Bengala, Bihar, Orissa, Províncias Unidas, Províncias Centrais, Sind e Província da Fronteira. Esse trabalho era realizado por meio de uma organização secreta bem estruturada, da qual o governo inglês não teve o menor conhecimento durante vinte e cinco anos, até 1852. Até que ponto o funcionário governamental de alto escalão Ahmadullah estava intimamente envolvido com essa organização secreta e todas as suas atividades fica evidente em um relatório apresentado por Mr. Raven Shaw ao governo de Bengala em 9-5-1865. O relatório dizia:

Em 1852, as autoridades do Punjab apreenderam uma carta conspiratória. Por meio dela, obtiveram-se provas de que os fanáticos religiosos hindustanis (os mujahidins) haviam tentado provocar uma perturbação, a partir dos picos das montanhas, junto ao Quarto Regimento Indiano (Regimento da Infantaria Nativa). Verificou-se que muitos maulvis da família de Sadikpur e numerosas caravanas armadas haviam então partido em direção à fronteira. Uma carta sem assinatura, vinda de Peshawar, informava que os maulvis Belayat Ali, Enayat Ali, Faiz Ali e Yahya Ali (os dois irmãos de Ahmadullah), juntamente com um alfaiate de Dinajpur, o maulvi Karam Ali, haviam montado acampamento em Sittana, no distrito de Surat, e estavam se preparando para lutar contra o governo com a ajuda do rei Sayyid Akbar. Já disse anteriormente que Sayyid Akbar era um rei de Swat nomeado pelo governo. A carta trazia a seguinte descrição: o maulvi Farhat Ali, irmão do maulvi Belayat Ali, em Azimabad; Ahmadullah, irmão do maulvi Faiz Ali; e o maulvi Yahya Ali estavam arrecadando dinheiro em suas próprias casas, em seus respectivos bairros, e enviando armas e suprimentos. Outras cartas informavam que tropas e suprimentos eram enviados de Patna por Meerut e Rawalpindi. Agentes distintos permaneciam nessas duas localidades e providenciavam todo o abastecimento necessário para o jihad na fronteira.

“A pedido do governo do Punjab, o magistrado de Patna, Hossain Ali Khan, realizou uma busca domiciliar. Tratava-se da residência de Ahmadullah, e as cartas circulavam em seu nome. Na realidade, porém, a notícia da busca domiciliar ordenada pelo magistrado já havia sido divulgada, dois dias antes, por intermédio de um hakim (médico nativo) que retornara do Punjab, e toda a correspondência da casa deles havia sido destruída. De qualquer modo, em seu relatório de 10 de agosto de 1852, o magistrado informou ao governo que os wahabitas haviam aumentado bastante em número e que, nas casas do maulvi Belayat Ali, de Ahmadullah e de seu pai, Elahi Bakhsh, realizavam-se todos os tipos de consultas secretas para o jihad, a partir das quais também se desenvolvia a pregação. Informou ainda que os wahabitas mantinham contato com a polícia local. Por esse motivo, nenhuma prova confiável de suas atividades chegara às suas mãos. Contudo, na casa do maulvi Ahmadullah, seiscentos ou setecentos homens armados estavam preparados para resistir à busca domiciliar do magistrado e erguer a bandeira da rebelião.”

“Na reunião do Conselho de 7 de setembro de 1852, foi registrada uma nota — redigida com base na carta do governo do Punjab — sobre essas correspondências, na qual também se reconhecia a necessidade de declarar guerra contra os habitantes da fronteira. Munshi Muhammad Wali, do Quarto Regimento Nativo, foi entregue ao tribunal criminal, julgado e punido em Rawalpindi em 12 de maio de 1853. Naquela ocasião, os nomes do maulvi Ahmadullah e de outros habitantes de Patna voltaram a surgir nas provas testemunhais, e também foi discutido o envio de suprimentos à fronteira por parte deles.”

“É extremamente lamentável que o governo não tenha adotado nenhuma medida ativa e também não tenha destruído a conspiração de Patna. A rebelião certamente teria ocorrido, não haveria perdas de tropas na expedição de Ambala, e os funcionários do governo teriam sido poupados de muito trabalho e de humilhações desnecessárias, pois o rebelde armado Ahmadullah de 1852 é o mesmo ‘simples homem dos livros’ e o ‘cavalheiro wahabita’ de 1857.”

-(O movimento wahabita, Abdul Mawdud, pp. 198–200)

Quando o movimento de independência de 1857 irrompeu por toda a Índia, o então comissário Sr. Taylor prendeu e encarcerou muitos muçulmanos de Patna, entre eles Ahmadullah. Taylor suspeitava que esses muçulmanos estivessem envolvidos no movimento daquele ano. Sem julgamento, Taylor passou a enforcar diariamente alguns dos muçulmanos capturados, de maneira extremamente cruel e diabólica, no cadafalso situado no pátio de seu bangalô, encontrando nisso uma perversa satisfação. Contudo, assim que essa cruel e injusta atrocidade chegou aos ouvidos das autoridades, ordenou-se a libertação dos prisioneiros restantes e exigiram-se explicações de Taylor. Desse modo, Ahmadullah escapou do morticínio de Taylor. Por esse massacre diabólico, Taylor foi removido do cargo de comissário.

Depois que o movimento de independência de 1857 foi reprimido e apaziguado, os ingleses adotaram uma política destinada a conquistar o coração dos muçulmanos. Por outro lado, Sir Syed Ahmad também fez esforços incansáveis para restabelecer as relações entre os muçulmanos e os ingleses. O governo passou a demonstrar simpatia também por Ahmadullah. Como resultado, por meio de uma proclamação de 21 de setembro de 1860, ele foi nomeado magistrado-adjunto. Entretanto, a partir da grande khanqah de Patna, ou principal centro, continuavam sendo regularmente enviados mujahids e suprimentos para Mulka e Sittana. Embora fosse um funcionário graduado do governo, Ahmadullah cooperava plenamente com o exército de mujahids, tendo como único objetivo obter a satisfação de Deus. Sob sua supervisão, prosseguia com grande empenho a coleta de mujahids e suprimentos em Bengala e Bihar. Sua própria casa era a principal base para esse trabalho. Todas as sextas-feiras, após a oração do maghrib, realizava-se um milad em sua casa; sob o pretexto do milad, os mujahids se reuniam ali e definiam seu programa diário. Para suas atividades, utilizavam um sistema de sinais (CODE) que ninguém além deles conseguia compreender. Cada um era conhecido entre os demais por um nome diferente.

Em Bengala e Bihar, Ahmadullah tinha agentes fiéis, diligentes e consagrados ao caminho de Deus. O agente de Bengala era Haji Badruddin, famoso comerciante de couro de Daca. Ele recolhia todo o dinheiro da região oriental e o enviava por hundi, em nome de um comerciante de Patna chamado Farulal. No bairro de Murigunge, em Calcutá, eram seus agentes Abdul Jabbar e outro advogado do High Court chamado Muksed Ali. Muksed Ali também tinha uma casa em Patna. Além disso, havia agentes nos distritos de Vinte e Quatro Parganas, Jessore, Faridpur, Murshidabad, Maldah, Rangpur e outros. Também foram nomeados agentes nas grandes cidades de Bihar, Orissa, das Províncias Unidas e da Província Central. O senhor Ahmadullah trocava correspondência com eles em linguagem cifrada. De 1860 a 1865, o maulvi Ahmadullah foi o principal dirigente do movimento de jihad. Era perfeitamente natural que, aproveitando plenamente sua elevada posição governamental, ele conduzisse esse movimento sem qualquer impedimento. Pois, para o sucesso de qualquer revolução, é indispensável a ajuda e a cooperação da polícia, das forças militares, do departamento administrativo e de outros setores do governo estabelecido.

O exército de mujahids inspirou o movimento revolucionário que ocorreu em toda a Índia em 1857. O exército de mujahids participou ativamente dele. Embora, devido às circunstâncias adversas, esse movimento não tenha produzido resultados, os mujahids não se deixaram subjugar nem perderam o ânimo. Sua motivação para agir não diminuiu em absoluto. Embora não tenha sido possível alcançar a vitória final, mesmo após a catástrofe de 1857 eles levaram esse movimento adiante durante uma década, quase até o limiar do sucesso.

Milhares de muçulmanos de toda a Bengala reuniam-se na casa do senhor Ahmadullah, em Sadikpur, Patna, desejosos de se tornarem ghazis ou mártires, e dali partiam para Sittana, divididos em pequenos grupos. Quatro muçulmanos bengalis de um desses grupos foram capturados no caminho para Ambala por um sargento punjabi chamado Gujar Khan. Foram apresentados diante do magistrado. Quando declararam ser viajantes inocentes e inofensivos, o magistrado os libertou. Gujar Khan ficou muito pesaroso e informou que um certo Jafar Ali, residente em Thaneswar, se ocupava de enviar mujahids e suprimentos para Sittana. Assim que receberam a notícia, as autoridades revistaram a casa de Jafar Ali em Thaneswar e apreenderam muitos documentos suspeitos. Jafar Ali fugiu, mas foi capturado em Aligarh junto com muitos mujahids. Por seus depoimentos, soube-se que eles eram espiões de Elahi Baksh, de Sadikpur. Mesmo após a busca na casa de Elahi Baksh, foram encontrados ali muitos documentos comprometedores.

A partir desses documentos, as autoridades descobriram uma conspiração terrível, e o magistrado de Patna, Raven Shaw, recebeu a incumbência da investigação. Ao mesmo tempo que a investigação começou, o senhor Ahmadullah foi preso e demitido do serviço. Após quatro meses de investigação, foram formuladas contra Ahmadullah oito acusações, entre elas sedição, e ele foi entregue à prisão. No julgamento, o juiz de sessões condenou-o à morte. Foi interposto recurso em Calcutá contra essa sentença. Os juízes Trevor e O. Lock (Trevor and O. Lock J.J.) proferiram sua decisão em 13 de abril de 1865. Na sentença, declararam: “Em vez de aprovar a ordem de execução, ordenamos que ele seja deportado para a prisão perpétua e que todos os seus bens e propriedades sejam confiscados pelo governo.”

Já em junho daquele mesmo ano, ele foi enviado para as ilhas Andamão e, depois de viver cerca de dezesseis anos como prisioneiro, esse valente mujahid abraçou a morte com um sorriso em 1881.

Seu irmão mais novo, Yahya Ali, também foi condenado à deportação para as ilhas por toda a vida e já havia falecido em Andamão. O último desejo de Ahmadullah era ser sepultado ao lado de seu irmão. Contudo, o governo inglês nem sequer satisfez esse seu inocente e inofensivo desejo.

A residência da família Sadiqpur era uma das residências mais ilustres e famosas de Patna. Ela foi arrasada e, em seu lugar, foi construído o Mercado Municipal de Patna. As despesas dessa construção foram custeadas com o dinheiro obtido da venda de outras propriedades da família.

É raro encontrar na história exemplo de como essa ilustre e célebre família de Sadiqpur foi completamente destruída ao seguir o caminho de Allah, deixando como legado um testemunho incomparável de sacrifício e abnegação. Cada membro da família, sem distinção entre mulheres e crianças, foi lentamente consumido pelo fogo da ira do governo. O mais trágico é que, no dia sagrado e alegre do Eid dos muçulmanos, o governo inglês expulsou a família de Ahmadullah de sua residência, deixando-a apenas com a roupa do corpo e de mãos vazias, e obteve com isso extrema satisfação. Não se encontrará semelhante humilhação na história de nenhuma nação civilizada. Naquele dia, os gritos silenciosos e os lamentos das crianças inocentes e das mulheres rasgaram os céus. Talvez por isso Ahmadullah, lembrando-se desse dia, tenha composto a seguinte elegia:

Quando transformaram a noite do Eid em alvorada

Expulsaram-nos de nossa casa

Nossa alegria tornou-se luto

Nosso Eid tornou-se Muharram

Quando, ao fim da noite do Eid, surgiu a luz da alvorada, fomos todos expulsos de nossa casa. Toda a exuberância da alegria assumiu a forma do luto — nosso Eid transformou-se na Karbala de Muharram.

A bestialidade não terminou aí. O enorme cemitério familiar da família Sadiqpur foi destruído com o arado, e suas terras foram distribuídas entre hindus.

Maulana Yahya Ali

Maulana Yahya Ali era o irmão mais velho do revolucionário Ahmadullah. O modo como ele manteve vivo o movimento contra os britânicos, mantendo contato com os mujahidins de uma extremidade da Índia à outra, a fim de completar a obra inacabada de Sayyid Ahmad Shahid Barelvi, é algo extraordinariamente admirável. Para esse trabalho, sacrificou a própria vida e todos os seus bens no caminho de Deus. Pode-se dizer que, após o martírio de Sayyid Sahib, Maulana Yahya Ali foi o líder espiritual, ou imame, dos mujahidins. Depois de dirigir o movimento jihadista até 1864, tornou-se, juntamente com outros, réu no processo de conspiração contra os britânicos.

Hunter afirma em sua obra: “O imame principal, Yahya Ali, tinha numerosas responsabilidades. Como diretor espiritual da comunidade wahabita na Índia, precisava manter correspondência regular com os pregadores subordinados. Tinha de redigir cartas numa espécie de linguagem secreta, inventada por ele próprio. Também cabia a ele organizar o envio regular de grandes quantias de dinheiro aos acampamentos rebeldes da fronteira. Dirigir as orações como imame na mesquita, examinar os rifles dos fanáticos e entregá-los a eles, proferir palestras religiosas aos estudantes e, por meio de estudos pessoais, aprofundar o conhecimento da doutrina transmitida pelos mestres religiosos árabes — tudo isso fazia parte de seu programa de atividades”.

Em suma, ele era simultaneamente o dirigente das forças mujahidins, seu instrutor militar, o imame da mesquita, o murshid do ilm-e tasawwuf e o inventor de um sistema de sinais para conduzir a guerra. Citando a sentença proferida pelo juiz de sessões de Ambala, Sir Herbert Edwardes, em julho de 1864, Hunter afirma: “Com o objetivo de estabelecer na Índia o domínio do crescente (islâmico), ele (Yahya Ali) estava empenhado em propaganda religiosa na mesquita de Patna. Para arrecadar fundos e conduzir o jihad dos muçulmanos, nomeou numerosos agentes subordinados”.

Ele acrescenta: “Do julgamento do processo emergiram três fatos particularmente surpreendentes: a perspicácia dos organizadores na construção de uma organização que se estendia por uma vasta área; a habilidade dos agentes em preservar o sigilo durante a condução de suas atividades; e a confiança absoluta que depositavam uns nos outros. A base de seu sucesso consistia, em grande parte, no sistema de adoção de pseudônimos e na introdução de uma espécie de linguagem secreta para a troca de mensagens.

Havia ao todo onze réus neste processo. Os líderes do movimento foram condenados à morte. Contudo, aceitaram a sentença de morte com tamanha satisfação que isso surpreendeu o governo britânico. Isso ocorreu porque a visão desses mujahidins sobre a vida e a morte era diferente da visão dos governantes. Estavam firmemente convencidos de que alcançar o martírio no caminho de Deus era o maior êxito da vida. Por isso, o mais alto tribunal da província anulou as sentenças de morte e as comutou para prisão perpétua. O senhor Hunter reconhece esse fato ao declarar: “O governo britânico demonstrou prudência ao não permitir que nem mesmo aqueles que eram os principais líderes da conspiração tivessem a oportunidade de se tornarem mártires”.

Os réus deste processo eram:

Maulana Yahya Ali; Abdul Ghaffar, tesoureiro do centro de pregação de Patna; Jafar Thaneshwari; Muhammad Shafi, o contratante que fornecia carne ao acampamento militar britânico; Abdur Rahim; Elahi Baksh; Muhammad Husain; Qazi Mianjan; Abdul Karim; Husaini de Thaneshwar; e Abdul Ghaffar (2).

Os mujahidin bengalis reuniam-se e permaneciam na casa do quinto acusado, Abdur Rahim. O khadem guardava o dinheiro deles, providenciava-lhes comida, tratava-os com hospitalidade e devolvia-lhes o dinheiro quando partiam. Yahya Ali incutia neles o espírito do jihad.

Elahi Bakhsh enviava os fundos arrecadados a Jafar Thaneshwari, que os encaminhava aos acampamentos rebeldes em Mulka e Sittana.

Muhammad Husain, de Patna, era o khadem de Elahi Bakhsh. Ele costurou moedas de ouro dentro da manga, viajou de Patna a Délhi e, conforme as instruções, entregou-as a Jafar Thaneshwari.

Qazi Mianjan encarregava-se de recrutar mujahidin; também arrecadava e enviava dinheiro e cuidava da troca de correspondência.

Abdul Karim era espião de Muhammad Shafi, o fornecedor de carne. Ele também transportava dinheiro de Patna. Muhammad Jafar Thaneshwari afirma em sua obra Tawarikhe-Ajib que Mianjan era residente de Kumarkhali, no distrito de Kushtia. Ele morreu na prisão.

Husaini, de Thaneshwar, mantinha contato com Muhammad Jafar Thaneshwari e Muhammad Shafi. Certo dia, quando levava 290 moedas de ouro de Muhammad Jafar Thaneshwari para Muhammad Shafi, foi apanhado em flagrante.

Maulana Yahya Ali faleceu em Andamão enquanto cumpria prisão perpétua. Assim, um dos principais líderes do movimento para estabelecer o domínio islâmico na Índia terminou a vida sob a opressão dos governantes ingleses.

Entre os três condenados à morte — Maulana Yahya Ali, Haji Muhammad Shafi e Muhammad Jafar Thaneshwari — estava Jafar Thaneshwari. Ele era uma pessoa extremamente influente de Thaneshwar. Sua sentença de morte foi comutada, e ele foi condenado à prisão perpétua. Depois de cumprir dezoito anos de prisão em Andamão, retornou ao país. Escreveu uma obra intitulada Tawarikhe-Ajib. Nessa obra, reuniu muitas informações valiosas sobre sua longa experiência em Andamão, o tratamento desumano dispensado aos prisioneiros, o movimento de independência de 1857 e o movimento do jihad. Ele também reuniu nessa obra muitas informações valiosas sobre seu movimento. Apresentou ainda um relato surpreendente da batalha de Ambala de 1863. Ele diz:

“Ano de 1863. Como resultado da extrema coerção do governo britânico, eclodiu uma guerra terrível na fronteira ocidental da Índia. O general Chamberlain era o comandante das forças inglesas. Em sua base de Ambala, suas tropas tiveram de suportar grandes sofrimentos. Isso equivalia a uma invasão de território estrangeiro e a uma violação de fronteiras. Por isso, o famoso pir de Swat Sahib também marchou para combater os soldados ingleses, levando consigo numerosos discípulos, com o objetivo de ajudar as forças mujahid muçulmanas. Os afegãos lançaram-se à guerra para defender a honra de seu país e de sua nação.”

A terrível guerra continuou. O próprio general Chamberlain ficou gravemente ferido. Cerca de sete mil soldados ingleses foram mortos ou feridos. O governo britânico enviara essa expedição, mesmo para o interior de um território estrangeiro, com o objetivo de destruir completamente as forças mujahid. A resolução dos mujahid era: ou a vitória, ou o martírio. Eles empenharam-se em demonstrar o máximo de bravura. Assim, a guerra assumiu proporções violentas.

Enquanto isso, o vice-rei da Índia, Lord Elgin, caiu subitamente vítima da morte no cume das montanhas de Kumban, consumido pelas consequências de suas ações irracionais e de sua agressão injusta. A Índia ficou sem representante do governo. A guerra e a morte do vice-rei ocorrendo simultaneamente criaram, sem dúvida, uma crise. Foi então que, em 11 de dezembro de 1866, o policial pathan montado Gujan Khan, encarregado do posto de Panipat, no distrito de Karnal, descobriu, por alguma fonte, minha ligação com as forças mujahid. Naturalmente, ele considerou isso uma oportunidade de ouro para sua promoção. Então comunicou o fato ao subcomissário de Karnal em uma longa declaração. Informou que, na terrível luta em curso na fronteira com as forças mujahid, Muhammad Jafar, o numbedar da cidade de Thanesar, fornecia dinheiro e homens para ajudá-las. Assim que recebeu a notícia, o subcomissário comunicou-a por telegrama às autoridades do distrito de Ambala, sob cuja jurisdição se encontrava a cidade de Thanesar. Logo que o informante saiu, um amigo meu da polícia foi ao bangalô do subcomissário. Ao tomar conhecimento da informação secreta, este enviou um oficial de polícia para me avisar; como eu havia adormecido, o oficial foi embora, pensando em informar-me no dia seguinte. Infelizmente, antes que meu amigo da polícia pudesse fazê-lo, o superintendente de polícia, capitão Parson, cercou minha casa”.

(Tawarikh-i-Ajib, tradução bengali de ‘Andaman’, autobiografia de um prisioneiro, pp. 1–2).

Maulana Imamuddin

Maulana Imamuddin nasceu na aldeia de Hajipur (Sadullapur), sob a delegacia central do distrito de Noakhali, em Bangladesh. Ainda criança, foi a Calcutá para prosseguir os estudos e, de lá, dirigiu-se a Délhi para estudar com Shah Abdul Aziz Dehlavi. Durante sua estada em Délhi, encontrou-se com Saiyid Ahmad Shahid. Contudo, naquela ocasião, não recebeu sua iniciação. Mais tarde, encontrou novamente Saiyid Ahmad na cidade de Lucknow. Dessa vez, prestou-lhe o ‘bay‘at’ e ingressou nas forças mujahid; algum tempo depois, Saiyid Sahib o aceitou como seu khalifa.

Quando Saiyid Sahib partiu para o Hijaz com o propósito de realizar o hajj, Maulana Imamuddin despediu-se de seu próprio murshid em Calcutá e foi a Noakhali visitar seu idoso pai. Depois, acompanhado de seu irmão mais novo Alimuddin e de trinta ou quarenta homens, foi ao Hijaz e juntou-se à caravana de Saiyid Sahib.

Após o hajj, ele participou da campanha de jihad e tornou-se companheiro de Saiyid Sahib no campo de Balakot. Seu irmão Alimuddin foi martirizado na batalha, e ele retornou como um ghazi. Após o desastre de Balakot, foi ao reino de Tonk a convite do nababo Waziruddaula de Tonk. O nababo aprendeu com ele sobre muitos assuntos.

Sufi Nur Muhammad Nizampuri

Sufi Nur Muhammad era residente de Chittagong. Embora não se conheça sua biografia detalhada, ele foi um dos principais califas de Sayyid Ahmad Shahid. Como de costume, ingressou no exército dos mujahidin, cumpriu o Hajj integrado à caravana de Sayyid Sahib e, na campanha do jihad, participou até o fim ao lado de Sayyid Sahib. Após a batalha de Balakot, também teve a felicidade de se tornar um ghazi.

O famoso pir Shah Sufi Fateh Ali Sahib, de Bengala Ocidental, recebeu de Sufi Nur Muhammad a iniciação no conhecimento do tasawwuf e tornou-se seu sucessor. O mazar de Sufi Fateh Sahib situa-se em Maniktala, Calcutá. Seu califa e sucessor foi Maulana Shah Sufi Abu Bakr Siddiqi, residente de Furfura, no distrito de Hugli.

Capítulo décimo segundo

A primeira luta pela liberdade na Índia britânica

No ano de 1857, iniciou-se em toda a Índia uma poderosa luta contra os britânicos. A classe dominante deu-lhe o nome de “Revolta dos Sipaios”. A luta iniciada em 1857 por sipaios, pelo povo e pelos mujahidin abalou os próprios fundamentos do domínio britânico neste país. Do ponto de vista dos governantes, ela pode ser chamada de “revolta”. Na realidade, porém, foi uma verdadeira luta pela liberdade contra o domínio e a exploração estrangeiros.

Entre os acontecimentos dos últimos dois séculos na Índia, três acontecimentos históricos são especialmente memoráveis. Esses três acontecimentos ocorreram nos anos de 1757, 1857 e 1947. Em 1757, ocorreu a batalha de Plassey. Por meio de conspiração, fraude e traição, o astuto Clive saiu vitorioso sem sequer travar uma batalha e pôs fim a um bem estabelecido governo muçulmano no leste da Índia. A campanha de Plassey foi resultado da conspiração conjunta da Companhia Inglesa das Índias Orientais e dos hindus da classe média. Para isso, naturalmente, Mir Jafar Ali foi colocado como um testa de ferro. Em 1857, ocorreu a batalha de Plassey. Por meio de conspiração, fraude e traição, o astuto Clive saiu vitorioso sem sequer travar uma batalha e pôs fim a um bem estabelecido governo muçulmano no leste da Índia. A campanha de Plassey foi resultado da conspiração conjunta da Companhia Inglesa das Índias Orientais e dos hindus da classe média. Para isso, naturalmente, Mir Jafar Ali foi colocado como um testa de ferro. A luta de 1857 foi a luta dos sipaios e do povo para libertar a terra indiana das correntes da escravidão impostas pelos arbitrários governantes britânicos. Noventa anos depois, em 1947, a luta dos muçulmanos indianos consistiu em expulsar os britânicos e estabelecer sua própria pátria independente, sem ficar sob o domínio da maioria hindu. Os muçulmanos foram vitoriosos nesta última luta.

Não é objetivo deste texto distorcer a longa história da luta pela liberdade de 1857. Seu propósito é apenas mencionar brevemente seu contexto, os acontecimentos mais importantes da luta e as principais causas da derrota.

Antecedentes

Para determinar os antecedentes e as causas desta luta, teremos de voltar o olhar para a história de mais cem anos atrás. Após a Batalha de Plassey, os muçulmanos não perderam apenas o poder político. Pelo contrário, juntamente com ele, sua identidade estatal, situação econômica, educação e cultura também ficaram ameaçadas. Durante o domínio muçulmano, os comerciantes ingleses vieram à Índia sob o pretexto de fazer negócios e comércio. Para obter oportunidades e facilidades comerciais, eles se prostravam às portas dos soberanos muçulmanos e passavam os dias esperando conquistar sua benevolência. Os soberanos muçulmanos, com espírito generoso, concederam-lhes neste país amplas oportunidades e facilidades para o comércio. Mas eles continuaram abusando repetidamente dessas oportunidades. Por isso, às vezes foi necessário adotar medidas rigorosas contra eles. Assim, em seus corações acendeu-se uma chama de vingança contra os soberanos muçulmanos e o domínio muçulmano. Eles planejaram pôr fim ao domínio muçulmano neste país e tomar o cetro do poder. A sociedade hindu de classe média de Bengala alimentou esse plano.

É uma ironia do destino que, quando aqueles mesmos comerciantes ingleses se apoderaram dos tronos de Bengala e de Délhi, passaram a olhar com ódio e desconfiança para os antigos senhores da Índia, por cuja graça haviam conseguido espalhar neste país sua rede comercial. Considerando os muçulmanos um obstáculo à expansão de seu domínio, adotaram contra eles uma política de extrema repressão. Em contrapartida, sua compaixão e suas bênçãos começaram a ser derramadas em profusão sobre a comunidade hindu.

No aspecto econômico, os governantes ingleses adotaram uma política de oprimir e eliminar toda a sociedade muçulmana. Durante o período muçulmano, a maior parte dos cargos públicos de todos os tipos era ocupada por muçulmanos. Depois que os ingleses se tornaram os senhores absolutos deste país, os muçulmanos começaram gradualmente a ser expulsos dos cargos de todos os departamentos. Por fim, a política oficialmente declarada do governo passou a ser a seguinte: sempre que surgia uma vaga em qualquer departamento, o anúncio especificava expressamente que ninguém além de um muçulmano poderia ser candidato. Em segundo lugar, o governo inglês aprovou uma lei de confisco e tomou das mãos dos muçulmanos todas as terras concedidas pelos soberanos muçulmanos — jagirs, ayma, lakhيرaj, altamgha, maddad-e-ma’ash e outras propriedades fundiárias —, reduzindo-os à condição de mendigos. Somente em Bengala foram confiscadas pelo menos cinquenta mil propriedades lakhيرaj, e, por meio da Comissão Inam, vinte mil propriedades lakhيرaj no Decão. O governo manteve injustamente sob sua administração as propriedades waqf de Haji Muhammad Muhsin, que rendiam muitos lakhs de rúpias, privando os legítimos beneficiários. Como consequência dessas medidas repressivas do governo, muitas antigas famílias muçulmanas foram destruídas, e numerosas khanqahs, madrassas, mesquitas e outras instituições muçulmanas de educação e bem-estar público desapareceram.

Em terceiro lugar, por meio do Assentamento Permanente de Bengala e da Lei do Pôr do Sol, todos os zamindaris, talukdaris, arrendamentos e outros direitos dos muçulmanos foram retirados e distribuídos entre os hindus. Como resultado, as famílias muçulmanas nobres foram expulsas de suas terras. Entre os camponeses de Bengala, setenta e cinco por cento eram muçulmanos. Em consequência do Assentamento Permanente, a classe dos zamindares tornou-se hindu e passou a ser a proprietária exclusiva das terras. Os camponeses ficaram inteiramente dependentes de sua benevolência e vontade. Restou-lhes apenas a permissão para cultivar a terra; não conservaram nenhum direito ou título sobre ela. Os zamindares hindus começaram a sugar o sangue dos camponeses de diversas maneiras. Com o aumento contínuo do aluguel da terra, os abwabs, a selami, o nazarana e vários tipos de impostos, a espinha dorsal dos camponeses quase se partiu. Os zamindares hindus passaram a cobrar coercitivamente dos muçulmanos imposto sobre a barba, imposto sobre as mesquitas, imposto por dar nomes muçulmanos e imposto sobre festividades religiosas, entre outros. Contra tais práticas lutaram sábios como Haji Shariatullah e Titumir. Esses assuntos foram discutidos no lugar apropriado.

Em quarto lugar, os muçulmanos também foram lançados para muito longe dos campos do comércio e da educação. O comércio e a indústria desapareceram.

Abdul Maudud afirma: “Esmagando cruelmente a classe dos artesãos nativos, também se interrompeu a produção de artigos industriais nativos. Por causa disso, aos trabalhadores não restou outro meio de subsistência senão cultivar a terra. No comércio, sob a proteção das fábricas do rei comerciante, surgiu também uma nova classe de comerciantes intermediários, com os títulos de baniã, mutsuddi, munshi e diwã. A classe intermediária que criaram, assumindo o controle de todos os aspectos do comércio exterior e interior, também se tornou hostil à indústria e ao artesanato nativos, por sua ganância de desfrutar os benefícios próprios. Como resultado dessa nova estrutura econômica, surgiu uma nova comunidade de proprietários de terras e intermediários; nenhum deles era muçulmano — os muçulmanos nem sequer tinham acesso àquela sociedade —, e essa comunidade foi o principal inimigo das amplas revoltas populares ou do despertar nacional. Lord Bentinck também reconheceu este fato—

“É verdade que o Assentamento Permanente tem muitas falhas importantes; contudo, por meio dele foi criada uma grande classe de ricos proprietários de terras, plenamente dominante sobre o povo. Uma grande vantagem disso é que, se a continuidade da administração for perturbada por uma ampla revolta popular ou por uma revolução, essa classe estará sempre pronta, em defesa de seus próprios interesses, a manter o domínio britânico”.

-[O contexto da Revolta dos Sipaios, Abdul Maudud (Shatabdir Parikrama), p. 62].

A esse respeito, Abdul Maudud afirma:

“Não faltam também pessoas deste país que apoiam essa teoria. Ainda recentemente, ao proferir uma palestra sobre o povo de Bengala na Visva-Bharati, o senhor Kazi Abdul Wadud disse: naquele tempo, pelo menos em Bengala, em Calcutá, o centro vital de Bengala, não se sentiu nenhum efeito da Revolta dos Sipaios. Harish Mukherjee, editor do Hindu Patriot, comentou sobre essa revolta: a Revolta dos Sipaios não passou de uma ação de sipaios supersticiosos; não tinha qualquer relação com os camponeses do país. O povo estava dedicado e grato ao governo inglês, e sua lealdade ao soberano permanecia inabalável”.

O senhor Kazi acrescenta que uma boa prova de que, em termos gerais, essa era a opinião de Bengala naquela época, conforme a visão do editor do Hindu Patriot, é que até bengalis de espírito independente, como Vidyasagar e Debendranath, não demonstraram naquela ocasião qualquer interesse pela Revolta dos Sipaios. …Naquele tempo, a Revolta dos Sipaios não provocou reação entre os bengalis instruídos, nem abalou os bengalis hindus analfabetos” (O contexto da Revolta dos Sipaios, Abdul Maudud, p. 58).

O comentário do senhor Kazi está correto, e o comentário do editor do Hindu Patriot também está correto. Por “bengalis”, o senhor Kazi, e por “povo”, Harish Mukherjee, referiam-se à comunidade hindu. É verdade, naturalmente, que, salvo algumas exceções, a comunidade hindu de Bengala e de toda a Índia não participou da Revolta dos Sipaios, isto é, do movimento de independência da Índia. Os hindus que, fora de Bengala, participaram dessa luta sofreram um golpe extremo em seus interesses por parte do governo inglês. Especialmente a comunidade hindu de Bengala: por que haveria de se revoltar contra os britânicos? O próprio governo britânico havia consolidado sua posição na sociedade e aberto para eles as portas de todos os tipos de oportunidades e benefícios do país. Em todos os campos da vida, eles haviam sido estabelecidos no lugar dos muçulmanos. Eram os únicos amigos fiéis e benfeitores dos senhores ingleses. Os muçulmanos, ao contrário, eram vistos como suspeitos e inimigos. Portanto, era perfeitamente natural que Vidyasagar, Debendranath e, consequentemente, o povo hindu permanecessem dedicados e gratos ao governo inglês, e que sua lealdade ao soberano continuasse inabalável. Foi por isso que, após a derrota na luta, somente os muçulmanos da Índia foram consumidos pelo fogo da ira britânica: foram mortos em massa, expulsos de todos os tipos de bens móveis e imóveis e obrigados a suportar prisão, enforcamento e prisão perpétua.

Sir Saiyid Ahmad Khan determinou algumas causas da “Revolta dos Sipaios” em seu opúsculo intitulado Risala Asbab-e Baghawat-e Hind. O senhor Saiyid era um funcionário público leal aos britânicos. Quando trabalhava em Bijnor, a revolta começou. Os revoltosos arrombaram as portas da prisão e saquearam alimentos. Nessa ocasião, Sir Saiyid salvou a vida de muitos ingleses em perigo.

Antes de descrever em seu opúsculo as causas da revolta, Sir Saiyid Ahmad afirma que os revoltosos não aderiram à luta com o objetivo de travar o jihad; segundo ele, aqueles que ergueram o brado do jihad não eram religiosos nem estudiosos das escrituras. Eram pessoas depravadas e imundas da classe vil, embriagadas pelo vinho (Depraved and filthy bacchanals). Nenhum muçulmano do passado ou do presente concordava, ou concorda, com Saiyid Ahmad. Naturalmente, ele deve ter feito esse comentário depois de testemunhar diante dos próprios olhos os saques e assassinatos que ocorreram. Contudo, as atividades revolucionárias de 1857 estavam fora do controle daqueles que, desde várias décadas antes, haviam incutido nos muçulmanos o espírito do jihad. Essa revolta não foi conduzida sob uma liderança central. As massas populares explodiram em furiosa indignação contra os britânicos; foram elas mesmas que cometeram os saques e os assassinatos brutais, sem qualquer impedimento. Entretanto, não há qualquer exemplo de tal comportamento da parte daqueles que, com verdadeiro espírito e inspiração de jihad, haviam lutado durante várias décadas.

De qualquer modo, voltemos ao ponto principal. As causas da Revolta dos Sipaios apresentadas por Saiyid Ahmad são as seguintes:

1. A causa da intensa revolta do povo contra o governo da Companhia era a atividade de conversão religiosa dos missionários cristãos. A crença geral de todos era que o governo inglês, gradual e certamente, acabaria por iniciar os habitantes deste país no cristianismo. Seu plano avançava secretamente e, devido à pobreza e à ignorância do povo, este seria um dia convertido ao cristianismo. Essa acusação contra eles foi amplamente divulgada quando, durante a fome de 1837, um grande número de crianças órfãs foi entregue aos missionários para ser criado como cristão. Em 1856, um funcionário chamado Edmund, a partir do edifício do governador-geral situado em Calcutá, enviou uma carta aos funcionários de todos os níveis da Companhia, pressionando-os a refletir sobre a verdade da religião cristã. Além disso, pressionava-se o povo a dar forma definitiva à unidade indiana com base nos vínculos espirituais do cristianismo, por meio dos modernos meios de transporte. Isso foi interpretado como um apelo geral aos apóstatas, e essa suspeita se confirmou quando se constatou que o governo passou a nomear missionários e a pagar seus salários com fundos públicos. Os funcionários de alto escalão continuaram a contribuir generosamente para os fundos missionários e a travar debates religiosos com os funcionários indianos subordinados. Obrigavam os funcionários de baixos salários a ir às suas casas para ouvir a pregação e a divulgação do cristianismo. Os missionários passaram a espalhar publicamente entre o povo folhetos de propaganda contendo declarações indecorosas contra as demais religiões. De acordo com a política governamental de 1854, todas as escolas missionárias receberiam auxílio do governo; por isso, escolas missionárias começaram a surgir por toda parte como cogumelos. Funcionários do governo visitavam frequentemente essas escolas e incentivavam os alunos a ler a Bíblia, dizendo que seriam premiados se conseguissem responder às perguntas de acordo com a fé cristã. Nas escolas rurais ensinava-se apenas urdu, e o árabe e o persa haviam sido excluídos do currículo.

2. Os prisioneiros de todas as comunidades recebiam comida preparada na mesma cozinha. Isso era contrário ao seu costume tradicional de casta. Em 1950, uma lei declarou que privar um apóstata de sua herança seria legalmente punível. Assim, ninguém deixou de compreender que essa lei incentivava a adoção do cristianismo. Uma lei de 1856 incentivou o casamento de viúvas. Com isso, o hinduísmo foi atingido.

3. A insaciável cobiça da classe dos agiotas usurários pela exploração financeira e a excessiva carga imposta aos súditos levaram muitas famílias nobres à ruína, fazendo com que adotassem uma atitude hostil à lealdade britânica. A introdução do sistema de selos para requerer justiça era considerada uma forma de vender a justiça ou de negar justiça. Em algumas províncias, foram concedidos poderes arbitrários aos juízes.

4. Sob o governo da Companhia, inúmeras famílias foram destruídas pelo confisco das propriedades lakhraj. A indústria e o comércio nativos foram destruídos, e a economia do país foi levada à falência.

5. Como última causa, Sir Sayyid afirma que os muçulmanos haviam sido afastados dos cargos públicos de alto escalão. O objetivo principal era nomear para os cargos públicos pessoas qualificadas por meio de exames competitivos. Contudo, os cargos importantes eram preenchidos por pessoas que eram de ‘baixa origem’ (Low form), vulgares e grosseiras (Vulgar) e mal-educadas (ill-bed). Elas não conseguiam conquistar o respeito do povo.

— Muslim Separatism in India, Abdul Hamid, pp. 2–4 e 6.

Sayyid Ahmad apresentou, ao final de seu panfleto, a solução para esta revolta. Ele diz:

“A solução para essas dificuldades estava em aproximar o governante e os governados mediante a admissão de membros indianos na Assembleia Legislativa, para assegurar que as leis aprovadas por esse órgão satisfizessem as necessidades do país e não fossem meramente acadêmicas. Não desejo entrar na questão de como se poderia permitir que as pessoas ignorantes e sem instrução do Hindustão participassem das deliberações do Conselho Legislativo, nem de como deveriam ser escolhidas para formar uma assembleia semelhante ao Parlamento britânico. Esses são pontos difíceis.” Ibid., p. 4.

—“Somente será possível resolver essas divergências se, admitindo membros indianos na Assembleia Legislativa, conseguirmos estreitar as relações entre governantes e governados. Para que as leis não sejam irreais e ineficazes, é preciso garantir que todas as leis aprovadas na Assembleia Legislativa possam atender às necessidades do país. Não desejo, contudo, entrar no debate sobre como se dará aos indianos incultos e inexperientes a oportunidade de participar das discussões na Assembleia Legislativa e como serão escolhidos para uma assembleia legislativa semelhante ao Parlamento britânico”.

Altaf Hussain Hali menciona, em sua obra Hayat-e-Javid, um exemplo que demonstra que as relações entre governantes e governados não eram de modo algum boas; pelo contrário, a classe governante olhava os nativos com desprezo. Em 1867, realizou-se uma exposição em Agra e, depois, celebrou-se a cerimônia do durbar do governador. O magistrado distrital de Agra determinou que, no durbar, os europeus e os indianos ocupassem assentos separados. Um ilustre convidado indiano, vendo um assento vazio, sentou-se no lugar reservado a um funcionário britânico. Imediatamente, ordenaram-lhe que deixasse aquele assento e se sentasse entre os seus. Sir Sayyid sentiu-se profundamente humilhado com isso e ficou extremamente indignado diante daquela descarada manifestação de preconceito racial. Houve também uma acalorada discussão com um funcionário britânico a esse respeito. Certo Thornhill pareceu consumir-se de raiva e começou a rosnar furiosamente: —“Vocês tiveram uma conduta da pior espécie durante a revolta. Como esperam, depois disso, sentar-se em condições de igualdade conosco e com nossas mulheres?” (Durante a revolta dos sipaios, vocês tiveram uma conduta da pior espécie. Como podem esperar, depois disso, sentar-se em condições de igualdade conosco e com nossas mulheres?) Sayyid Ahmad deixou o local da reunião, furioso e humilhado. Seus superiores manifestaram grande descontentamento com o ocorrido, e ele teve de prestar contas por isso.

(Muslim Separatism in India, A. Hamid, p. 6).

Esses relatos provam que as causas pelas quais toda a Índia explodiu em furiosa revolta contra os britânicos em 1857 foram numerosas e variadas. O ressentimento acumulado ao longo de séculos irrompeu naquele ano como um vulcão. A inspiração jihadista transmitida por Shah Waliullah e pelos shahid tornou-se como um fósforo aceso sobre um depósito de pólvora. Por toda parte, o fogo da revolução ardeu intensamente. Impelidas pela própria vontade, as pessoas juntaram-se à luta onde quer que pudessem. Ao lado da maioria dos sipaios, que não possuíam um verdadeiro caráter islâmico, juntou-se o povo comum — camponeses, trabalhadores e muitos funcionários públicos e privados. A luta não foi conduzida sob o controle de uma liderança central orientada por ideais. Além disso, muitos oportunistas também se juntaram ao movimento. Por isso, em alguns lugares, os princípios islâmicos foram violados, ocorreram saques e assassinatos desnecessários. Durante a vida do Profeta Mustafa (que a paz esteja com ele), houve muitas guerras; na era dourada dos califas corretamente guiados, país após país foi conquistado; Salahuddin Ayyubi e Nuruddin Zangi travaram guerra após guerra. Contudo, em nenhuma delas os princípios islâmicos foram violados, os direitos humanos foram infringidos ou sangue foi derramado injusta e desnecessariamente. Também não se observou qualquer conduta contrária aos princípios entre os seguidores iniciados por Sayyid Ahmad Shahid.

Certas medidas repressivas do governo inglês aceleraram a revolução. Em 1843, o governo inglês tomou a região de Sindh das mãos dos emires. Em 1849, Lord Dalhousie incorporou toda a província do Punjab ao Império Britânico. Antes disso, o governo da Companhia promulgara uma lei que anulava o direito de sucessão do filho adotivo de um rei sem descendentes. De acordo com essa política de anexação por falta de herdeiro (Doctrine of Lapse), Lord Dalhousie tomou posse dos estados de Satara, Jhansi, Nagpur, Sambalpur e outros. Além disso, suspendeu as pensões dos filhos adotivos dos reis de estados como Anjor e Carnatic. Após a guerra de 1818, o Peshwa Baji Rao II, privado de seu reino, vivia em Bithur, perto de Kanpur, recebendo uma pensão anual de oitocentas mil rúpias. Após sua morte, a pensão de seu filho adotivo foi suspensa. Em 1850, quando Dalhousie promulgou uma lei que concedia direitos de herança aos cristãos recém-convertidos, um abaixo-assinado de sessenta mil cidadãos da cidade de Calcutá foi apresentado ao governador-geral em protesto, mas sem resultado. Em consequência, nasceu na mente do povo a firme convicção de que o governo inglês desejava converter os habitantes do país ao cristianismo. Em 1856, Dalhousie incorporou injustamente ao Império Britânico Awadh, o último reino independente dos muçulmanos. Toda a riqueza do desafortunado nababo de Awadh, Wajid Ali Shah, foi vendida em leilão público para encher os cofres da Companhia, inclusive os manuscritos de sua biblioteca pessoal, avaliados em duzentas mil rúpias. Tratamento ainda mais demoníaco e bárbaro foi dispensado às begums residentes no harém. Elas foram forçosamente retiradas do harém, e seus objetos valiosos foram destruídos e saqueados. Em troca de uma pensão anual de um milhão e duzentas mil rúpias, o inocente nababo foi levado a Calcutá e mantido sob custódia. Para executar esse ato demoníaco, Sir Charles Outram foi pessoalmente a Awadh. Ele reconheceu que, ao presenciarem aquela obra cruel e bárbara, os sipaios de sua própria guarda foram tomados de profunda indignação e tristeza. Essas crueldades, atos desumanos e a insaciável cobiça pela expansão imperial transformaram a opressão e a exploração em dolorosos lamentos e gritos de agonia, que fizeram estremecer o ar e a atmosfera da Índia e se manifestaram, em 1857, como uma grande revolução.

Relatos detalhados da revolta dos sipaios podem ser encontrados em Annals of the Indian Rebellion, em History of the Sepoy War, de Sir J. W. Keay, e em History of the Indian Mutiny, de Col. J. B. Malleson. Um claro prenúncio da revolução surgiu em janeiro de 1857, em Barrackpore, então situado em Bengala. Em 22 de janeiro, o capitão Wright (Captain Wright), da Escola de Mosquete, em Dum Dum, informou que havia provocado grande indignação e agitação entre os sipaios a notícia dos ingredientes utilizados para engordurar os cartuchos dos novos fuzis Enfield. Em 28 de janeiro, o major-general Hearsey, do acantonamento de Barrackpore, informou ao ajudante-geral do Exército britânico que, como resultado da propaganda dos opositores do casamento de viúvas em Calcutá, surgira a ideia de que os sipaios seriam obrigados a aceitar o cristianismo e que, com esse objetivo, haviam sido distribuídos os novos cartuchos dos fuzis Enfield. Esses cartuchos continham gordura de vaca e de porco e precisavam ser mordidos para ser utilizados. Com isso, hindus e muçulmanos perderiam sua religião. Hearsey informou ainda que três bangalôs, incluindo o de um cirurgião em Raniগঞ্জ e o do oficial telegráfico de Barrackpore, haviam sido consumidos pelo fogo.

Em 11 de fevereiro, Hearsey informou novamente ao secretário do Governo da Índia:

Estamos vivendo em Barrackpore sobre uma mina prestes a explodir.

Em 26 de fevereiro, o 18º regimento de Baharampur recusou-se a usar os cartuchos durante o desfile. O tenente-coronel Mitchell disse então aos sipaios, em tom severo, que, se não usassem os cartuchos, seriam enviados para a China e Rangum. Os sipaios ficaram ainda mais furiosos e consideraram preferível morrer na própria pátria a morrer no estrangeiro. Por causa dessa desobediência, foram levados de Baharampur para Barrackpore, onde o regimento foi dissolvido. Entre os mil sipaios desse 19º regimento, havia 409 brâmanes, 250 rajputs, 150 muçulmanos, e os restantes eram hindus de castas inferiores.

Eles foram colocados diante de canhões prontos para disparar, desarmados e conduzidos através de Faltaghat sob a guarda do 85º regimento europeu. Essa operação de desarmamento foi realizada em 31 de março.

Disso se pode compreender que a principal causa imediata da revolta dos sipaios de Bengala foi obrigá-los a usar cartuchos misturados com gordura. A maioria desses sipaios era composta por hindus de castas elevadas e brâmanes.

Enquanto isso, no fim de março, espalhou-se a notícia de que soldados europeus, transportados em navios, estavam chegando a Barrackpore para subjugar os revoltosos. Ao ouvir essa notícia, Mangal Pandey, da 5ª companhia do 34º regimento, pensou que a hora da destruição deles estava próxima. Então, quase enlouquecido, saiu armado e disparou contra o sargento Hewson e Hearsey. Mas errou o alvo. Pandey foi condenado à forca. Em 6 de maio, o 34º regimento foi demitido em massa.

A notícia de Baharampur chegou rapidamente a Ambala. Os acantonamentos dali foram reduzidos a cinzas pelo fogo. Sob a liderança do nababo Ahmadullah Khan de Nagina, a revolução começou em Bijnor em 1º de maio. Em 30 de maio, os sipaios do 48º regimento incendiaram os bangalôs dos europeus no acantonamento. Em combate aberto, as tropas de Sir Henry Lawrence sofreram uma derrota desastrosa. Os soldados ingleses foram obrigados a refugiar-se na Residência, onde passaram três meses sitiados.

Há razões suficientes para pensar que muitos episódios da luta pela independência de 1857 permanecem ocultos por trás da cortina. Sikandar Dara Shikoh diz:

Num momento crucial da revolução, Birjis Qadr foi colocado no trono de Awadh por iniciativa de Dilawar Jang e do maulvi Ahmadullah, e Begum Hazrat Mahal assumiu, como regente, a responsabilidade de supervisionar a administração do país.

Ahmadullah Shah e Hazrat travaram uma luta desesperada contra as forças britânicas. …Shah Sahib estabeleceu um “governo islâmico” em Muhammadipur. O príncipe Firoz Shah e Rana Rao foram nomeados vizires desse governo. O general Bakht Khan foi nomeado comandante.

…mas o próprio Firoz Shah sonhava tornar-se imperador. Por isso, Ahmadullah não conseguiu permanecer ali por muito tempo. A convite do rei Baldev Singh, partiu em direção a Goddi. Certo dia, instigado pelos traidores, montou no dorso de um elefante e, nessa condição, foi martirizado pelos tiros do inimigo. Sua cabeça foi decepada e pendurada na kotwali, enquanto seu corpo foi esquartejado e queimado. Alguns dias depois, sua sagrada cabeça foi sepultada no bairro de Ahmadpur. O rei (Balved Singh) concedeu uma recompensa de cinquenta mil rupias ao assassino de Ahmadullah Shah. — (Shatabdi Parikrama, pp. 147–148)

Uma das razões pelas quais a luta da Índia pela independência, em 1857, fracassou quando chegou às portas da liberdade foi a extrema traição de alguns interessados em seus próprios benefícios.

A principal fábrica de fabricação dos cartuchos para os fuzis Enfield ficava em Meerut. Quando 85 sipaios do Terceiro Regimento de Cavalaria se recusaram a tocar nos novos cartuchos, foram enviados à prisão, acorrentados, em 9 de maio, após o julgamento militar. Na tarde do dia seguinte, os arredores ressoaram com o som dos tiros disparados pela multidão de sipaios. Eles libertaram da prisão os 85 sipaios acorrentados e incendiaram os bangalôs dos europeus. Nesse episódio, os habitantes da cidade e do mercado central mostraram-se ainda mais ativos que os sipaios. Saiyid Hasan Ali Barelvī era o dirigente dos revolucionários. A multidão civil e os sipaios cometeram então um erro fatal. Sem dar atenção aos dois regimentos europeus, ao acantonamento e ao arsenal, partiram à noite em direção a Délhi.

De todo modo, depois de percorrerem quarenta milhas, conseguiram, de alguma forma, entrar na cidade de Délhi. Naquela época, havia em Délhi um total de 35.000 soldados nativos, pertencentes aos três regimentos de infantaria n.º 38, 54 e 74 e a duas companhias, além de 50 oficiais ingleses. Às sete da manhã, um grupo de cavaleiros revolucionários pediu uma audiência com Bahadur Shah. O capitão Douglas, o residente Fraser e o magistrado Hábenson morreram ao tentar impedi-los. Às três da tarde, quando os revolucionários entraram em dois pontos do arsenal, a situação se tornou desesperadora; por ordem do tenente Willoughby, chefe do paiol, Scully ateou fogo à pilha de pólvora. Então começou o apocalipse na cidade de Délhi. Com um estrondo terrível, o paiol explodiu. Cerca de quinhentas pessoas nas proximidades morreram. Muitas sofreram queimaduras. Furiosos, os revolucionários começaram a incendiar e saquear. Saquearam o tesouro, apoderaram-se de 2.184.000 rupias e colocaram o dinheiro sob a custódia do imperador. À noite, vinte e um canhões troaram sucessivamente, prestando assim uma saudação real ao imperador Bahadur Shah Zafar.

Em 12 de maio, o próprio imperador montou num elefante, percorreu a cidade e providenciou a abertura das lojas do mercado. Os príncipes foram enviados aos diversos portões da cidade com o objetivo de manter a paz.

Em 16 de maio, alguns sipaios revolucionários informaram ao imperador, por meio de uma carta secreta selada, que o médico do imperador, Hakim Ahsanullah, e o conselheiro, Nawab Mahbub Ali Khan, estavam envolvidos numa conspiração com os britânicos. Os acusados negaram a denúncia, afirmando que a carta era falsificada. Com isso, o imperador foi enganado. Os príncipes foram nomeados comandantes da infantaria, e seu neto, Mirza Abu Bakr, comandante da cavalaria. O príncipe Mirza Jawan Bakht foi nomeado grão-vizir. Hakim Ahsanullah, com a intenção de afastar Mirza Abu Bakr de Délhi, providenciou sua nomeação para o cargo de comandante de Meerut. Em 31 de maio, suas tropas foram derrotadas pelos ingleses às margens do rio Hindon, por falta da munição necessária.

O fogo da revolta ardia intensamente por toda parte. Os sipaios nativos haviam se rebelado em Firozpur, Bareli, Kanpur, Jaunpur, Sitapur e diversos outros lugares. Todos os soldados europeus de Kanpur haviam se refugiado em dois hospitais militares. Em 6 de junho, o comandante Sir Hugh Wheeler soube que os revoltosos atacariam a base onde estavam refugiados. A “Safeda Kothi”, de Nana Sahib, havia se transformado no ministério dos revolucionários. Os conselheiros eram Azimullah Khan, e os comandantes Tika Singh, Tatya Tope, Jwala Prasad e Bal Rao. Baba Bhatt e Minabai assumiram a direção do exército nacional. As mulheres e crianças europeias foram transferidas da “Safeda Kothi” para a “Bibighar”, enquanto o coronel Havelock partiu em direção a Kanpur com o 64.º Regimento europeu. Eles entraram em confronto com Jwala Prasad em Fatehpur. No campo de batalha, o comandante Renaud foi morto num confronto com as tropas de Bal Rao. Enlouquecidos pela euforia da vitória, os soldados nativos mataram cruelmente as mulheres e crianças confinadas na Bibighar. Profundamente abalado por esse massacre cruel e contrário aos princípios, Azimullah Khan deixou Kanpur, dirigiu-se a Lucknow e juntou-se ao exército mujahid do maulvi Ahmadullah. Morreu no Nepal.

Isso comprova que aqueles que foram instruídos no espírito do jihad no caminho de Allah para libertar o país do domínio estrangeiro mantiveram-se afastados de assassinatos injustos e de atividades contrárias aos princípios. Havia entre eles tolerância e temor de Deus, e seu único objetivo era alcançar a satisfação de Deus. “Combatei, no caminho de Allah, aqueles que vos combatem, mas não transgridais os limites. Allah não ama os transgressores” —

Eles tentaram viver preservando a dignidade desta palavra de Deus.

De qualquer modo, os ingleses não estavam de forma alguma parados. Começaram a recrutar soldados de vários lugares. Europeus foram trazidos da China, do Ceilão e de outros lugares, e gurkhas foram trazidos das regiões montanhosas. Três exércitos foram trazidos da Pérsia para Bengala. Os soldados ingleses reuniram-se numa colina perto de Délhi e estabeleceram ali sua base. Ambos os lados começaram a preparar-se para a batalha final. Em 29 de maio, alguns soldados sikhs do rei Narendra Singh, do lado inglês, juntaram-se aos revolucionários. Então, para reconquistar os sikhs, os ingleses começaram uma propaganda vil, revolvendo o lixo da história passada. O traidor Rajab Ali ajudou os ingleses nesse assunto. Ele fornecia aos ingleses informações secretas favoráveis ao imperador a partir da corte imperial, e também estabeleceu um conluio com Hakim Ahsanullah.

Infelizmente, fortes chuvas começaram em Délhi. Faltaram na cidade os artigos de primeira necessidade. As mercadorias encareceram. Enquanto isso, os ingleses cercaram Délhi por todos os lados e interromperam o fornecimento de alimentos e de outros artigos essenciais. Em 23 de junho, os ingleses tomaram Sabzimandi. Na primeira semana de julho, o general Muhammad Bakht Khan, comandante do exército de Bareli, chegou a Délhi com quatro regimentos de infantaria, 700 cavaleiros, 14 elefantes, grande quantidade de dinheiro e armas. O total de soldados em Délhi passou então a ser de 90.000. Contudo, como o arsenal de Wazirabad fora saqueado pelos bandidos, surgiu uma escassez de munição na fortaleza. Em agosto, uma explosão repentina destruiu a fábrica de pólvora. Todos suspeitaram que Hakim Ahsanullah tivesse tramado isso. Mas ele já havia fugido e não pôde ser encontrado. Naturalmente, sua casa foi saqueada. Em 7 de setembro, por ordem do comandante inglês Wilson, canhões foram posicionados diante de todos os portões de Délhi. Em 11 de setembro, começou um intenso bombardeio a partir desses canhões. Após repetidos impactos, o portão da Caxemira finalmente desabou. Em 18 de setembro, o portão do Diwan-i-Khas foi fechado. O general Bakht Khan continuou a combater o inimigo com extraordinária bravura. Mas onde quer que Mirza Mughal comandasse as tropas, ocorria um desastre. O bombardeio inglês abriu brechas nas muralhas da cidade em dois pontos. Instalou-se uma desordem extrema no exército nacional. Em 20 de setembro, o general Bakht Khan disse ao imperador: “Há conspirações de traidores por todos os lados. Todos os nossos planos estão chegando ao conhecimento do inimigo. Milhares de rohilas ainda estão prontos para sacrificar a vida. Saia, e nós nos reuniremos novamente e venceremos a guerra”.

Mas, como Mirza Ilahi Bakhsh e Begum Zeenat Mahal não concordaram, o imperador rejeitou o pedido do general Bakht Khan. Sem alternativa, Bakht Khan foi para Awadh, juntou-se ao exército de Ahmadullah e participou das batalhas de Lucknow e Shahjahanpur. Contudo, quando a sombra negra da catástrofe caiu sobre todos os lados, ele, com o coração despedaçado, foi para o vale do Nepal e ali deu o último suspiro.

Foi devido à espionagem dos traidores Hakim Ahsanullah Khan, Sheikh Rajab Ali e Mirza Ilahi Bakhsh que o imperador Bahadur Shah, Begum Zeenat Mahal e o príncipe Jawan Bakht foram capturados pelo capitão Hodson. Três príncipes refugiaram-se no túmulo de Humayun. Quando os levaram dali como prisioneiros, o monstruoso Hodson atirou neles e matou-os com as próprias mãos durante o trajeto. Para espalhar o terror, seus cadáveres foram pendurados publicamente diante da kotwali. Depois disso, os ingleses transformaram a cidade de Délhi num terrível cemitério. As principais ruas da cidade ficaram repletas dos cadáveres de cidadãos inocentes.

Para esmagar a revolução em todas as direções, eles iniciaram por toda parte uma demoníaca carnificina humana. Nos centros revolucionários de Aligarh, Allahabad, Lucknow, Bareli, Kanpur, Fatehpur, Jhansi, Gwalior, Danapur, Chota Nagpur e outros lugares, iniciaram uma campanha desumana de tortura e extermínio.

Assim que os sipaios de Chittagong iniciaram a revolução, os ingleses fugiram pelas florestas para salvar a vida. Os sipaios saquearam sem oposição o tesouro, libertaram os prisioneiros, incendiaram o acantonamento e explodiram o paiol; depois seguiram pelas vias inundadas em direção a Sylhet e às montanhas.

Na manhã de 22 de novembro, ocorreu um ato bárbaro na cidade de Daca: os ingleses atacaram de surpresa o Lal Qila. Ali travou-se um violento confronto com os revolucionários; por fim, os revolucionários fugiram atravessando o rio a nado. Os que foram capturados foram levados ao campo de Andaghar (atual Parque Bahadur Shah), a Sadarghat, Lalbagh e Chowkbazar, onde foram enforcados.

Uma comissão militar constituída por ordem de Sir John Lawrence julgou o imperador Bahadur Shah. A acusação contra ele era que havia se proclamado imperador da Índia e travado guerra contra o governo britânico. É uma cruel ironia da história que o dono da casa tenha se tornado o bandido, e o bandido, o dono da casa. A verdade histórica é que, em 1765, por meio de um tratado assinado pela Companhia das Índias Orientais, esta reconheceu o imperador da Índia como a fonte da autoridade suprema. Depois disso, nenhum outro tratado foi celebrado entre a Companhia e o imperador. Portanto, na realidade, o imperador Bahadur Shah era o verdadeiro governante legal da Índia daquela época, e foi a Companhia das Índias Orientais que, contra a autoridade estatal, cometeu deslealdade e rebelião. Assim, aquilo que era uma luta pela preservação da liberdade e da soberania, o grupo dos interesses estabelecidos chamou de rebelião. Com o julgamento da comissão militar, o último vestígio de vários séculos de domínio muçulmano na Índia desapareceu para sempre.

As principais razões pelas quais este movimento de independência da Índia fracassou foram:

Um — diante das armas modernas e avançadas dos ingleses, as armas dos revolucionários eram antigas e inadequadas.

Dois — entre os soldados nativos havia falta de unidade e disciplina.

Três — embora a revolta tenha começado espontaneamente em toda a vasta região que se estendia de Chittagong, Daca, Barrackpore e Baharampur até Deli, não havia uma liderança central. Também não havia qualquer ligação mútua entre eles.

Quatro — as atividades de alguns traidores trouxeram desastre para os revolucionários. Todo tipo de informação secreta dos revolucionários era fornecido ao inimigo e, no momento crucial, como os depósitos de pólvora foram explodidos duas vezes por traidores, os soldados nativos enfrentaram falta de munição.

Cinco — muitos dos soldados nativos careciam de caráter exemplar. Muitas pessoas indesejáveis juntaram-se ao grupo dos revolucionários com o objetivo de saquear e cometer assassinatos injustos. A isso somou-se a desconfiança mútua entre hindus e muçulmanos.

Seis — as forças de Haiderabade, Gwalior, Nepal e dos sikhs, entre outras, eram, em geral, inativas ou favoráveis aos ingleses.

Sétimo — os soldados nativos não tinham outro grande ideal além de expulsar os ingleses. Antes que aqueles que, desde o tempo de Sayyid Ahmad Shahid, vinham despertando entre os muçulmanos deste país o espírito da jihad tomassem qualquer decisão bem planejada, a revolta já havia começado, e o curso dessa ação revolucionária estava fora de seu controle.

Embora esse movimento de independência tenha fracassado temporariamente, suas consequências foram extremamente abrangentes. É verdade que, durante a guerra, alguns atos demoníacos foram cometidos aqui e ali por soldados nativos enfurecidos. Mas a vingança que os ingleses exerceram com tamanha crueldade acrescentou um capítulo de enorme vergonha à história da civilização humana. Mesmo depois disso, os mujahideen muçulmanos continuaram por uma década sua luta contra os ingleses.

A condição de silêncio e tranquilidade que prevaleceu na Índia depois da sexta década do século XIX pode ser descrita como o silêncio de um cemitério. Os muçulmanos da Índia daquela época foram considerados os únicos responsáveis pelo movimento de independência. Como consequência, a sociedade muçulmana foi dilacerada pela ira feroz dos britânicos e pela opressão esmagadora que impuseram. De Bengala distante até a fronteira, sobre a sociedade muçulmana desceu a sombra negra, silenciosa e imóvel de um cemitério, por meio de prisões em massa, encarceramentos, execuções, deportações para as ilhas e confisco de propriedades móveis e imóveis, entre outras medidas. Ainda assim, esse silêncio era militar. O brilhante ideal de amor à liberdade que os muçulmanos haviam erguido ao longo de uma luta prolongada permaneceu gravado nas páginas da história. Foi esse grande ideal que mais tarde inspirou o povo da Índia. Como resultado, noventa anos depois de 1857, o povo indiano conseguiu romper para sempre as correntes da escravidão inglesa.

Contudo, é uma verdade incontestável que, depois que a luta de Sayyid Ahmad Shahid, o movimento Faraizi e a luta de Titumir, a luta de independência de 1857 e, posteriormente, a luta ant britânica na fronteira terminaram em fracasso, a nação muçulmana da Índia enfrentou extrema adversidade e tempos difíceis. Nesse período de infortúnio, o papel de Sir Sayyid Ahmad Khan deu uma contribuição especial para aliviar o sofrimento dos muçulmanos.

Capítulo Décimo Terceiro

Sir Sayyid Ahmad Khan

Já foi mencionado que Sir Sayyid Ahmad Khan ocupava um cargo elevado no governo britânico. Ele havia chegado à convicção de que, sobre as ruínas do Império Mogol, um governo britânico bem organizado havia se consolidado na Índia. Em conhecimento moderno, ciência e também na arte da guerra moderna, eles eram muitas vezes superiores aos muçulmanos. Não era fácil expulsá-los prontamente deste país. Nessas circunstâncias, envolver-se em um conflito com eles equivaleria ao suicídio dos muçulmanos. Ele apoiou os britânicos na guerra de independência. Porém, ficou profundamente angustiado com a opressão desumana em massa que era infligida aos muçulmanos, atribuindo-lhes toda a culpa pela luta de independência — ou, nas palavras dos britânicos, pela rebelião. Por meio de seus famosos panfletos intitulados ‘Asbab-i-Baghawat-i-Hind’ e ‘Os Muçulmanos Indianos’, tentou apaziguar a ira feroz dos britânicos contra os muçulmanos. Ele apontou o atraso dos muçulmanos no conhecimento e na ciência ocidentais como a causa de seu declínio. Seu ensinamento era: ‘Cure primeiro a raiz da doença; então a árvore crescerá’. Em 1865, fundou em Ghazipur uma sociedade de tradução. Por meio dessa sociedade, muitas obras estrangeiras foram traduzidas e publicadas.

Sua maior contribuição para o progresso da sociedade muçulmana foi fundar, em 1875, o Aligarh Muhammadan Oriental College, seguindo o modelo das universidades de Cambridge e Oxford. Nesse colégio, além do conhecimento e da ciência ocidentais, também se oferecia educação religiosa. Naquela época, como não havia educação religiosa nas escolas inglesas do governo, os muçulmanos hesitavam em enviar seus filhos para lá. Por meio do Aligarh College, esse obstáculo ao acesso à educação moderna foi removido.

Por meio da fundação deste colégio, o movimento de reforma da sociedade muçulmana e de expansão da educação que Sir Syed Ahmad desenvolveu tornou-se conhecido como “Movimento de Aligarh”. Intelectuais como o poeta Hali, Muhsinul Mulk, Nazir Ahmad e Chiragh Ali aderiram a este movimento de renascimento muçulmano e promoveram seu avanço.

Como salvaguarda dos interesses muçulmanos, Sir Syed Ahmad exigiu, nas instituições autônomas, um sistema separado de nomeação oficial para os muçulmanos. Ele afirmou que, se nessas instituições fosse introduzido o sistema de eleições conjuntas, os interesses dos muçulmanos seriam pisoteados. Em 12 de janeiro de 1883, diante do Conselho do Governador-Geral, apoiando um sistema separado de nomeação para os muçulmanos, ele disse: “Por meio do sistema de eleições conjuntas, são representados apenas a opinião e os interesses da maioria. Num país onde vive somente um povo e uma religião, esse sistema é aceitável. Mas na Índia vivem povos diversos: alguns são maioria, outros minoria, e entre eles existem diferenças de casta e de religião. Nessas circunstâncias, a introdução de eleições conjuntas inevitavelmente produzirá consequências nefastas. Se esse sistema for introduzido, os interesses das minorias serão pisoteados pelos povos majoritários. Com isso, o ódio entre as comunidades e o ódio religioso assumirão proporções intensas. O próprio governo terá de ser responsabilizado por isso”.

Essa proposta bem fundamentada abriu uma porta para a reflexão na sociedade muçulmana, e sua proposta produziu frutos vinte e seis anos depois. Em 1º de outubro de 1906, uma delegação de 36 muçulmanos eminentes da Índia, liderada pelo Aga Khan, apresentou um memorando ao Governador-Geral da Índia, Lord Minto, exigindo um sistema eleitoral separado. Essa exigência foi reconhecida nas reformas Morley-Minto de 1909. Com isso, a sociedade hindu, majoritária na Índia, ficou enfurecida. A razão era que a política declarada do Congresso Nacional Indiano era o nacionalismo de uma só nação. Por causa disso, durante muitos anos houve discussões e amargura entre hindus e muçulmanos. Finalmente, em 1916, realizaram-se na cidade de Lucknow as sessões anuais do Congresso e da Liga Muçulmana. Após as discussões, os representantes devidamente autorizados de ambas as organizações assinaram um acordo com base em suas decisões. Este ficou conhecido como o histórico Pacto de Lucknow. O pacto foi formalmente aprovado pelo Congresso e pela Liga Muçulmana. No Pacto de Lucknow, foi reconhecido aos muçulmanos o direito eleitoral separado na eleição dos membros dos conselhos legislativos. Assim, o Congresso hindu aceitou na Índia a teoria das duas nações em lugar do nacionalismo de uma só nação, o que constituiu a base principal da criação do Paquistão em 1947.

Pode-se não concordar com todos os princípios e palavras de Sir Syed Ahmad; contudo, graças à sua aguda visão política, ele advertiu os muçulmanos indianos contra a adesão ao Congresso, dizendo que o Congresso representaria apenas os interesses hindus da Índia e que os interesses muçulmanos seriam ignorados. Embora, a princípio, eminentes muçulmanos como Maulana Muhammad Ali e o Sr. Muhammad Ali Jinnah não tenham percebido essa verdade, mais tarde a veracidade da advertência de Sir Syed tornou-se para eles clara como a luz do dia. Como resultado, despertou-se entre os muçulmanos o impulso de uma nacionalidade distinta, e a consciência muçulmana avançou por esse caminho. Portanto, deve-se dizer que Sir Syed Ahmad havia lançado muito antes a semente ideológica para que os muçulmanos indianos sobrevivessem como uma nação distinta.

A Partição de Bengala

Antes de discutir a Partição de Bengala e suas reações, precisamos saber qual era a posição dos hindus e dos muçulmanos no cenário político de Bengala e de toda a Índia no último quarto do século XIX. Após 1857, a ferida que dilacerara todo o corpo da sociedade muçulmana ainda não havia cicatrizado, e dela ainda corria sangue. A sociedade hindu da Índia havia aceitado plenamente a educação e as ideias ocidentais e obtinha do governo britânico todos os benefícios possíveis. Ao adquirir conhecimento da língua inglesa e ingressar no serviço público, havia se estabelecido firmemente nos escritórios e tribunais. Sua estreita amizade com o governo britânico remontava ao período do domínio da Companhia. Ambos tinham necessidade de aprofundar essa amizade para subjugar adequadamente a nação muçulmana revolucionária. Os britânicos responsabilizaram os muçulmanos pelos movimentos Faraizi e de Titumir em Bengala, pelo movimento de Syed Ahmad Shahid e pelo primeiro movimento de independência da Índia, por meio da revolta dos sipaios de 1857, entre outros acontecimentos. Depois disso, planejaram extirpar completamente os muçulmanos ou deixá-los permanentemente incapacitados, e passaram a persegui-los. O segundo processo de Patna, classificado como antibr britânico, terminou no fim de 1871 ou em 1872.

Baseando-se unicamente num relatório incoerente do chefe do Departamento de Inteligência, Sr. J. H. Ryley, o governo prendeu e acusou sete pessoas. …Cinco réus foram condenados à deportação perpétua para as ilhas, e todos os seus bens e propriedades foram confiscados.

— (Mohammad Waliullah: Nossa Luta pela Libertação, p. 153)

Foi nesse momento crítico da sociedade muçulmana da Índia que Saiyid Ahmad Khan avançou. Ele percebeu que um conflito com os britânicos não traria nenhum benefício aos muçulmanos, mas apenas prejuízo. A sociedade hindu havia avançado enormemente na educação, no emprego, no comércio e em outros campos. Os muçulmanos teriam de adquirir educação, especialmente na língua inglesa e nas ciências e conhecimentos modernos, antes de entrar na luta pela vida. Segundo ele, o dever imediato da nação muçulmana era conquistar uma posição na sociedade demonstrando lealdade ao governo. Por isso, Saiyid Ahmad Khan deu especial ênfase à educação dos muçulmanos, por meio da língua inglesa, nos conhecimentos e nas ciências modernas e, graças aos seus esforços incansáveis, em 1877 foi fundada a English Public School, o Muhammadan Anglo-Oriental College (M.A.O. College). Em 1886, Saiyid Ahmad fundou a Muhammadan Educational Conference, proporcionando, pela primeira vez no subcontinente, aos muçulmanos uma oportunidade de expressar suas ideias.

Arya Samaj

Por outro lado, em 1857, Dayanand fundou a Arya Samaj na cidade de Bombaim. Mais tarde, sua sede principal foi transferida para Lahore. Dayanand iniciou na Índia uma campanha pela proteção das vacas e, para esse fim, fundou uma associação.

Em nome da Arya Samaj, foi enviada ao governo uma enorme petição para pôr fim ao abate de vacas no país. Ele exortou a sociedade hindu a retornar às antigas crenças védicas e promoveu uma intensa campanha para erradicar religiões estrangeiras, como o Islã e o cristianismo. “A Índia para os indianos”: esse apelo à luta provocou enormes consequências políticas.

-(A Hamid, Muslim Separatism in India, p. 27; Farquhar, Modern Religious Movement in India, p. 205)

Quanto aos muçulmanos, nem se fala; embora existisse uma profunda amizade, por razões políticas, entre os hindus e o governo britânico, a atitude dos governantes para com os governados era inteiramente diferente. Sir Bampfyde Fuller afirma, em seu livro baseado em suas experiências pessoais: “Alguns ingleses que vieram para a Índia haviam esquecido até as regras elementares da conduta civilizada. Nos círculos, restaurantes e clubes ingleses, era proibida a entrada de indianos. Em Kanpur, fora criado um jardim em memória dos ingleses mortos na revolta dos sipaios, e nenhum indiano podia entrar ali. Nos lugares frequentados pelos ingleses, a circulação dos indianos era perigosa. Seu ódio e aversão pelos indianos haviam chegado a tal extremo que frequentemente praticavam brutalidades contra eles e até os matavam. Os culpados não recebiam punição alguma ou, quando recebiam, ela se limitava a uma multa irrisória. Para eles, a vida dos indianos não tinha valor algum. Há também exemplos de acusados que eram fuzilados ou condenados à morte sem julgamento. Os abusos cometidos pelos oficiais nesse assunto também eram ignorados. Sir Bampfyde registrou ainda em seu diário que, quando passava pelas ruas de Kanpur, o chefe do distrito chicoteava os transeuntes para obrigá-los a sair do caminho.

-(Sir Fuller Bampfylde: Some Personal Experiences, p. 56, Muorag, Londres, 1930; A. Hamid: Muslim Separatism in India, p. 28)

Congresso Nacional Indiano

Ocorreram muitos incidentes isolados, grandes e pequenos, em consequência dos quais um descontentamento abafado contra os britânicos vinha ganhando força. Foi nesse período, em 1885, que se formou o Congresso Nacional Indiano. O curioso é que o fundador do Congresso foi um certo civil britânico aposentado chamado “Allan Hume”. Ele não só possuía qualidades, como também era dono de uma enorme fortuna. Assim como se empenhou sinceramente na criação da organização do Congresso, esta também contou com a bênção do então vice-rei da Índia, Dufferin. Após aposentar-se do Serviço Civil de Bengala, o senhor Hume permaneceu na Índia e percebeu a necessidade de uma organização pan-indiana, com o objetivo de alcançar o progresso político por meio da reforma social da Índia. Para esse fim, por meio de uma carta aberta, apelou aos graduados da Universidade de Calcutá em favor da unidade e da organização. Ele enfatizou que o governo permanecia distante do povo e, por essa razão, havia fracassado em resolver os problemas econômicos deste país. A tarefa de reconstrução teria de ser realizada pelos próprios habitantes do país; isso não seria possível por estrangeiros. Na segunda conferência anual do Congresso, o governador de Madras recebeu os delegados, oferecendo-lhes hospitalidade em uma reunião vespertina para tomar chá. Portanto, na fase inicial, existia uma relação cordial entre o Congresso e o governo. Os princípios e ideais dos dois líderes incontestáveis do Congresso, Bal Gangadhar Tilak e Surendranath Banerjee, permitem compreender seu objetivo fundamental.

Bal Gangadhar Tilak

Depois de receber uma educação superior na Universidade de Bombaim, Bal Gangadhar Tilak ingressou nos campos do jornalismo e da política na década de 1880 do século passado. Ele foi visto na vanguarda da agitação contra a partição de Bengala. Era um político extremamente habilidoso. Em vez da oposição pelo método parlamentar, acreditava no princípio da luta direta (Direct Action). Revivendo as tradições religiosas e políticas do belicoso povo marata, ele as introduziu no Congresso.

-(C.Y. Chintamoni, India Politics Since the Mutiny, p. 81, Universidade de Andhara, Waltar-1937; A. Hamid, Muslim Separatism in India, p. 29)

Na década de 1860 do século passado, Surendranath Banerjee ingressou no Serviço Civil. Alguns anos depois, após ser afastado do cargo, ingressou no jornalismo. Ele já havia percebido há muito tempo que o nacionalismo hindu jamais poderia adquirir força se não abandonasse sua forma secular. Por isso, alguns anos antes, ampliou as atividades da Sociedade de Prevenção do Abate de Vacas (Ati-cow-killinh society) e tomou providências para compor, publicar e distribuir uma música especial destinada à celebração do festival de Ganapati. Essas músicas estavam repletas de temas relacionados à histórica “guerra sangrenta entre hindus e muçulmanos” e à “chegada do dia do acerto de contas”. Ele despertou uma consciência de classe hindu extremista. Embora a Sociedade de Prevenção do Abate de Vacas de Tilak tenha sido fundada originalmente no Decão, suas atividades espalharam-se por todo o país. Grupos de propagandistas passaram a distribuir, nas cidades e aldeias do país, folhetos intitulados “O lamento da Mãe Vaca” — The cry of the cow. Em reuniões públicas, os hindus continuaram a aprovar resoluções de protesto contra o abate de vacas, e, por meio dos jornais, continuaram a provocar agitação entre o povo. Naturalmente, como consequência disso, também começaram a ocorrer conflitos entre hindus e muçulmanos em vários lugares.

-(A. Hamid, Muslim Separatism in India, pp. 45, 48)

Enquanto uma situação tão tensa prevalecia em todo o país, em 1899 Lorde Curzon assumiu o cargo de vice-rei da Índia. Cumpre observar que, naquela época, a capital da Índia britânica era Calcutá. Durante os primeiros anos, Curzon foi muito querido pelos hindus bengalis. Porém, quando passou a dar importância excessiva à eficiência administrativa e concentrou-se em elevar o padrão da administração, eliminando a incompetência, a corrupção, a negligência no cumprimento dos deveres e outros males, os círculos interessados começaram a substituí-lo por censuras e críticas, em vez de elogios, exaltações e louvores. Curzon realizou muitas mudanças e ampliações no campo administrativo. Embora nem todas fossem do agrado de todos, foram aceitas sem contestação. Entretanto, sua partição de Bengala enfureceu sobremaneira os reacionários.

A partição de Bengala foi a medida mais benéfica da administração de Curzon. Ainda assim, trouxe consequências nefastas, alterou o curso da futura evolução política da Índia e criou ódio, hostilidade e desconfiança entre hindus e muçulmanos. Entre os muçulmanos, que durante algum tempo haviam se afastado da arena política, despertou-se novamente a consciência política. Portanto, não há dúvida de que a partição de Bengala ocupa um lugar extremamente importante na política indiana.

Agora é necessário discutir, com uma perspectiva imparcial, qual foi realmente a causa da Partição de Bengala e por que ela foi anulada meio século depois.

A Partição de Bengala foi realizada por razões administrativas sólidas e benéficas. Naquela época, Bengala era a principal província da Índia Britânica. Bihar e Orissa faziam parte dessa mesma província. Sua área era de 179.000 milhas quadradas e sua população, de 79.000.000 habitantes. Uma província tão extensa estava sob o governo de um único vice-governador ou governador. Era absolutamente impossível administrar adequadamente uma província tão grande, manter firme a lei e a ordem e atentar para o desenvolvimento de todas as regiões. Como a parte oriental de Bengala era cortada por numerosos rios e não dispunha de boas vias de comunicação, o vice-governador não conseguia supervisionar essa região. Durante os cinco anos de seu mandato, ele não tinha oportunidade de visitar a região sequer uma vez; por isso, essa área era extremamente negligenciada e subdesenvolvida. (A. R. Mallick, Parition of Bengal, p. 2; M. A. Rahim: História dos muçulmanos de Bengala, p. 201).

Na década de 1860 do século passado, a comissão de investigação nomeada para descrever as causas da fome em Orissa declarou que a desorganização administrativa da vasta província de Bengala era a causa daquela fome. O governador de Bengala, William Grey, em 1867, e Sir John Campbell, em 1872, queixaram-se de que era extremamente difícil para uma só pessoa administrar uma província tão grande. Como consequência, Sylhet, Cachar e Goalpara foram colocados sob a administração de um comissário-chefe. Ainda assim, a extensão da província de Bengala continuava enorme, o que criava dificuldades para sua administração. Novamente, em 1892 e em 1896, círculos governamentais propuseram que se formasse uma nova província reunindo Assam, a divisão de Chittagong, no leste de Bengala, e os distritos de Daca e Mymensingh. No fim daquele século, quando Lord Curzon assumiu o cargo de vice-rei, essa proposta lhe foi apresentada.

Antes de considerar a referida proposta, outra questão grave chamou a atenção de Lord Curzon. Sir Andrew Fraser, comissário-chefe das Províncias Centrais, propôs que, como a língua oriya era usada nos tribunais de Sambalpur, que estava sob a administração das Províncias Centrais, embora não fosse falada em toda a província, ela fosse substituída pelo hindi ou que Sambalpur fosse incorporado a Orissa. Deve-se observar que Orissa estava ligada a Bengala. Também foi proposta, caso contrário, a separação de toda Orissa de Bengala e sua incorporação às Províncias Unidas.

De um lado, a proposta dos governadores de Bengala para reduzir a extensão da província e, de outro, a proposta de Sir Andrew Fraser deixaram Lord Curzon perplexo. Ele próprio estava empenhado em associar Berar à Índia Britânica. Em maio de 1902, registrou no arquivo do Secretariado o seguinte comentário: a questão de Berar poderia ser considerada juntamente com o problema de Bengala.

Após as discussões, foi apresentada a proposta de anexar o porto de Chittagong a Assam. Argumentou-se que isso reduziria o pesado encargo administrativo do governo de Bengala, eliminaria as falhas e deficiências observadas na administração dos distritos do leste de Bengala e supriria, mediante a incorporação de Chittagong, a necessidade absolutamente essencial de uma via marítima para Assam. Em 1903, Lord Curzon aprovou a proposta e informou o Secretário de Estado para a Índia. Em seguida, observou a opinião e a reação do povo sobre a questão. Percebeu claramente que a população de modo algum aceitaria a incorporação do leste de Bengala a Assam.

Depois disso, Lord Curzon foi para a Inglaterra e retornou a Bengala no início de 1905. Durante sua ausência, foi adotado o plano de formação de um Assam ampliado. Após o retorno de Curzon, o plano foi apresentado ao Secretário de Estado para a Índia, Brodrick. Brodrick deu à nova província planejada o nome de Bengala Oriental e Assam (Bengala Oriental e Assam).

-(A. Hamid: Muslim Separatism in India, pp. 51-52)

Embora a divisão de Bengala tenha sido extremamente benéfica para a sociedade muçulmana, dilacerada e devastada por numerosos golpes e contragolpes, nenhum esforço seu contribuiu para isso. O enorme benefício que estava prestes a ser alcançado para eles após a divisão de Bengala era algo completamente inesperado. A divisão de Bengala foi planejada pelos governantes para tornar a administração mais fácil, rápida, eficiente e ordenada, e para que seus benefícios também pudessem ser desfrutados pela região oriental, negligenciada e subdesenvolvida, de Bengala — não pelos muçulmanos. Suas razões eram extremamente justas e são as seguintes:

Em primeiro lugar, essa região era subdesenvolvida em todos os aspectos. Os zamindares hindus exploravam os camponeses arrendatários da região e, sentados em Calcutá, esbanjavam em luxos o dinheiro obtido com essa exploração. Demonstravam extrema negligência e indiferença em relação à educação, ao bem-estar, ao conforto e às oportunidades econômicas dos arrendatários. A cidade de Calcutá e Bengala Ocidental ascendiam progressivamente aos mais altos patamares de desenvolvimento. O sistema administrativo também era defeituoso. Por isso, a região oriental estava sendo empurrada para a destruição. Como essa região era repleta de rios, os piratas saqueavam impunemente os bens dos passageiros das embarcações, sem que fosse possível tomar qualquer medida para remediar a situação. A força policial era insuficiente e fraca, fazendo com que a anarquia e a desordem prevalecessem em todos os níveis da sociedade. Os governantes da província haviam abandonado a responsabilidade pela administração dessa região, e todo o seu tempo e esforço eram despendidos em Calcutá. Ficavam amedrontados só de ouvir falar da região oriental e consideravam ser uma pena de exílio ser transferido para lá.

A divisão de Bengala foi realizada para solucionar os problemas acima descritos. A nova província foi formada por Assam, Bengala do Norte e Bengala Oriental, e sua área chegou a 106.500 milhas quadradas, das quais dois terços da população eram muçulmanos. Ou seja, a província tornou-se uma província de maioria muçulmana. A formação da nova província foi anunciada em 20 de julho de 1905, e suas atividades começaram em 16 de outubro. O primeiro governador da nova província, Sir Bampfylde Fuller (Sir Bampfylde Fuller), chegou a Daca no primeiro dia e ficou constrangido. Os muçulmanos deram calorosas boas-vindas ao novo governador, enquanto os hindus manifestaram protestos. Recusaram-se a cumprimentar o novo governador conforme o costume tradicional. Uma multidão enfurecida atacou três mulheres inglesas enquanto caminhavam pela rua.

(Fuller Some Personal Experiences –p.126; A Hamid Muslim Separatism in India, p.53)

A Bengala hindu assumiu uma postura extremista como resultado da divisão de Bengala. Inicialmente, os círculos hindus a qualificaram como um golpe contra a “unidade nacional”. Depois, passaram a interpretá-la de várias maneiras, chamando-a de “punição por liderarem o movimento político”, de “favoritismo do governo em relação aos muçulmanos” e, por fim, de “estabelecimento da autoridade dos muçulmanos”. Da noite para o dia, os hindus iniciaram um movimento contra a divisão de Bengala. Com declarações incendiárias como “a nação foi dividida em duas”, “a sagrada Bengala foi desmembrada” e “uma aliança nefasta entre o governo britânico e os muçulmanos traidores da pátria”, a sociedade hindu de Bengala começou a envenenar a atmosfera de todo o país.

Os advogados hindus levantaram a questão de sua validade jurídica, enquanto os literatos da língua bengali começaram a propagar que havia sido desferido um golpe extremo contra a língua e a literatura bengalis. Toda a Bengala hindu começou a proferir delírios desse tipo.

Qual era a razão dessa propaganda incoerente e irrealista? Por que começaram subitamente esses ataques e declarações indecorosas contra os muçulmanos? A verdadeira questão é que, com a divisão de Bengala, os interesses estabelecidos ficaram ameaçados e desorientados. O domínio monopolista que os hindus bengalis haviam estabelecido sobre os empregos e os meios de subsistência de ambas as regiões de Bengala, graças à sua superioridade numérica, foi destruído como resultado da divisão de Bengala. Na nova Bengala, os muçulmanos tornaram-se maioria. Os muçulmanos da região oriental de Bengala libertaram-se da submissão e da derrota diante da maioria hindu, e surgiu em seus corações a esperança de que, a partir de então, teriam o direito de fazer ouvir sua voz sobre os problemas locais. O escritor contemporâneo Sardar Ali Khan afirma: “Todo esse alvoroço e o movimento patriótico que começou repentinamente, da noite para o dia, não têm qualquer relação com o bem-estar da pátria ou da Índia. Nesse movimento não há outro objetivo nobre além de manter intacta a supremacia de classe dos hindus numa província onde eles são uma minoria evidente.” (Sardar Ali Khan, India of Today, p. 62. Bombaim, Times Press, 1908)

Um dos principais líderes do movimento contra a divisão de Bengala, Surendranath Banerjee, afirma:

A proclamação da Partição de Bengala foi como um raio inesperado. No dia 16 de outubro, quando teve início a nova Bengala (Bengala Oriental e Assam), os hindus de Calcutá observaram um dia nacional de luto. Nesse dia, usaram braçadeiras negras, cobriram a cabeça com cinzas, abstiveram-se de comer e beber e, marchando aos gritos de diversos slogans de protesto, banharam-se no Ganges. À tarde, reuniram-se numa assembleia pública e fizeram o juramento de revogar a Partição de Bengala.

Mohammad Waliullah afirma em sua obra Nossa Luta pela Libertação: “Na época a que se faz referência, Bengala, Bihar e Orissa estavam sob a administração do mesmo vice-governador. Para facilitar a administração, o governo britânico vinha há muito tempo considerando a formação de uma nova província, unindo Bengala Oriental a Assam. O vice-rei Lorde Curzon finalmente, após consultar o secretário de Estado para a Índia, tomou a decisão definitiva favorável à divisão de Bengala. Assim que essa decisão se tornou pública, a sociedade hindu instruída de Bengala levantou-se em protesto contra ela. Até mesmo em remotos distritos do interior começaram a ser aprovadas resoluções contra a Partição de Bengala em reuniões e assembleias”. (Nossa Luta pela Libertação, p. 177).

Referindo-se à maneira como o movimento contra a Partição de Bengala se expandiu e ganhou força, Waliullah afirma:

“O movimento continuou a expandir-se da cidade para as aldeias e das aldeias para outras aldeias. Os revolucionários que ocupavam posições de liderança, mantendo-se um pouco afastados, começaram a recrutar membros entre a sociedade estudantil sensível e, assim, fortalecer seu grupo. Nesse ínterim, Sri Aurobindo Ghosh demitiu-se do cargo no Estado de Baroda e retornou a Bengala. Os revolucionários receberam dele nova inspiração. Sri Bipin Chandra Pal, com sua eloquência vigorosa e característica, continuou a espalhar por todo o país as sementes da revolução por meio de seus discursos” — (Nossa Luta pela Libertação, p. 179).

Alguns muçulmanos, confundidos pela propaganda hindu e pelo chamado movimento patriótico, aderiram ao movimento contra a Partição de Bengala. Mas, quando viram que líderes hindus, como Bal Gangadhar Tilak, apresentavam Shivaji como símbolo do movimento e começavam a despertar o ódio e a hostilidade latentes da nação hindu contra os muçulmanos, compreenderam os benefícios de longo alcance da Partição de Bengala e o verdadeiro segredo por trás de sua oposição, e abandonaram o movimento. A esse respeito, Abdul Mawdud afirma em sua obra O Desenvolvimento da Sociedade de Classe Média: A Transformação da Cultura: “Entretanto, o violento movimento promovido pela comunidade hindu de casta elevada e instruída em torno da divisão de Bengala fez ecoar seus clamores nos jornais britânicos e entre os jornalistas assalariados. As notícias contraditórias que começaram a ser divulgadas nas cartas e despachos dos correspondentes próprios, no The Times e no Manchester Guardian, confundiram a opinião pública britânica, que se tornou incapaz de compreender a verdadeira situação. O Times publicou belos editoriais apoiando a Partição de Bengala e dando plena aprovação às ações de Curzon; no Manchester Guardian começaram a aparecer artigos inflamados condenando a divisão, além de relatos arrepiantes de seu correspondente próprio sobre o movimento, apoiando os protestos. Cotton, Nevinson e Hardy divulgaram declarações em apoio aos protestos. Nevinson era o correspondente do Manchester Guardian em Calcutá e pessoa próxima do Congresso. Na Grã-Bretanha, divulgou uma notícia pitoresca: ‘A comemoração do aniversário da injustiça nacional transformou-se na “Quarta-feira de Cinzas” da Índia. Nesse dia, milhares e milhares de indianos usam uma marca de cinzas na testa. Pela manhã, banham-se silenciosamente no Ganges e jejuam como parte de um rito religioso. Nas casas, cidades e mercados, todas as lojas fecham; as mulheres não cozinham e renunciam aos adornos e à ornamentação. Os homens amarram uns aos outros pulseiras de fio amarelo, com o propósito de tornar memorável esse dia de vergonha, e passam praticamente todo o dia em expiação, luto e jejum.’ (The New Spirit of India, pp. 167–170).

Certo advogado, Abdur Rasul, e alguns muçulmanos aderiram a esse movimento por interesses pessoais. Isso foi amplamente divulgado como prova de que hindus e muçulmanos haviam participado conjuntamente do movimento contra a Partição de Bengala. A informação publicada por Abdul Mawdud a esse respeito merece especial atenção. Ele afirma:

“Segundo relatórios policiais da época, o Sr. Rasul, por 125 takas, Liaquat Hossain, de Noakhali, por 60 takas, e certo Dilwar Ahmad, de Madaripur, por 40 takas mensais, haviam sido contratados pelo Congresso para promover o movimento entre os muçulmanos. O relatório dizia claramente: ‘O Sr. Rasul é um líder muçulmano dos hindus’.”

— (Abdul Mawdud, O Desenvolvimento da Sociedade de Classe Média: A Transformação da Cultura, p. 282)

O interessante é que, no final de 1907, o Sr. Hardy veio a este país para observar o movimento. Quando chegou a Bengala, o jornal Amrita Bazar publicou: “Ao vê-lo, o povo enlouqueceu de alegria. E Deus o enviou para revelar uma enorme conspiração contra os hindus”.

Assim, Hardy, o “deus concedido por Deus” aos hindus, recebeu deles imensa reverência e calorosas saudações e, ao retornar ao país, declarou que ambas as comunidades, hindu e muçulmana, se opunham veementemente à divisão de Bengala. Disse ter ouvido muçulmanos cantarem “Vande Mataram” em Sirajganj; em Barisal, hindus e muçulmanos haviam cantado essa canção para ele, e assim por diante. Porém, quando o editor do jornal Englishman lhe pediu que mencionasse o nome de dois ou três muçulmanos, ele respondeu que isso era extremamente confidencial. Deve-se dizer que, para seu infortúnio, talvez nem sequer conhecesse o nome de Abdur Rasul. O jornal Times o censurou severamente, e outros jornais o agraciaram com os títulos de “ignorante”, “ridículo”, “bufão e louco”.

-(Abdul Mawdud: mesma obra, pp. 282–283)

Um testemunho eloquente de que os muçulmanos não apoiavam o movimento contrário à divisão são os discursos e declarações de Khwaja Salimullah, de Daca, e de A. K. Fazlul Huq, então líder muçulmano emergente de Bengala e, mais tarde, conhecido como Sher-e-Bangla. Depois de fracassar apesar de suas muitas tentativas de impedir a anulação da divisão de Bengala, Khwaja Salimullah ficou profundamente entristecido; e, em seu discurso como presidente na sessão da Liga Muçulmana realizada em Calcutá, em março de 1912, suas palavras ecoaram a insatisfação e os protestos dos muçulmanos de Bengala. Ele disse que a anulação da divisão havia espalhado tristeza. Disse ainda que, em consequência da divisão, os muçulmanos da subdesenvolvida Bengala Oriental haviam sofrido um golpe extremo e que a tristeza havia penetrado em todos os seus lares. Acrescentou que, por não suportarem as oportunidades obtidas pelos habitantes negligenciados da subdesenvolvida Bengala Oriental e de Assam em virtude da divisão — especialmente as oportunidades de progresso dos muçulmanos —, seus opositores recorreram a uma conspiração sediciosa para frustrar a divisão de Bengala. Com isso, afirmou ele, o Governo britânico, ao se curvar diante desse movimento, maculou sua própria dignidade. O nababo Salimullah criticou severamente o Governo britânico, dizendo: “Até agora, em todo o Oriente, acreditava-se que, acontecesse o que acontecesse, o Governo britânico jamais quebrava suas promessas. Se, por qualquer motivo, essa crença for abalada, o prestígio britânico na Índia e no Oriente será prejudicado”.

-(Dr. M. A. Rahim: História dos muçulmanos de Bengala, pp. 209–210; A. Hamid, Muslim Separatism in India, pp. 94–95)

O nababo Salimullah disse ainda na referida sessão:

“Não obtivemos grande coisa com a divisão de Bengala. Ainda assim, como nossos compatriotas da outra comunidade não puderam suportá-la, criaram uma grande agitação, dos céus à terra, para arrancá-la de nós. Começaram a se vingar por meio de assassinatos e roubos. Boicotaram os produtos estrangeiros. Tudo isso era insignificante aos olhos do Governo. Os muçulmanos, sem participar desses atos criminosos, demonstraram lealdade ao Governo. …A comunidade dos camponeses muçulmanos havia se beneficiado com essa divisão. Seus zamindares hindus tentaram arrastá-los para a luta de oposição. Eles não deram ouvidos a isso.…

Isso provocou conflitos entre hindus e muçulmanos. …O Governo adotou uma política de repressão. Nem isso trouxe resultado. De um lado estava a comunidade rica e revoltada. Do outro, os muçulmanos pobres — que apoiavam o Governo. Assim se passou ano após ano. De repente, o Governo anulou a divisão de Bengala por razões administrativas. ….Antes disso, não haviam sequer nos consultado. Suportamos tudo em silêncio”. Depois, ele lamentou o título de G.C.I.E. que o Governo lhe conferiu no Durbar de Délhi, considerando esse título um suborno e um vínculo de humilhação em seu pescoço. (A. Hamid, Muslim Separatism in India, p. 92; Ahmad: Ruh-e Roushan Mustaqbel, pp. 58–59)

Mais tarde, Maulana Muhammad Ali disse:

Os muçulmanos de Bengala Oriental foram lançados à guerra por seus governantes…

…e, quando continuar a guerra deixou de ser conveniente, eles fizeram a paz no momento que lhes era conveniente.

Não se encontrará na história exemplo mais abominável do que este: os direitos recém-adquiridos foram retirados como recompensa pela lealdade, e demonstrar satisfação foi considerado um crime extremo e punido.

(Iqbal Select Writings and Speeches, p. 262)

Como resultado da Partição de Bengala, os desafortunados muçulmanos de Bengala Oriental vislumbraram a esperança de oportunidades e benefícios. Os políticos muçulmanos perspicazes ficaram alarmados com o intenso movimento iniciado pelos hindus de Bengala para anular a Partição de Bengala e destruir essas possibilidades. Todos os muçulmanos, intelectuais e políticos da Índia, começaram a esforçar-se para desmascarar a conspiração hindu e salvaguardar os interesses muçulmanos de Bengala e da Índia. Em 1906, o nababo Salimullah de Daca convocou, na cidade de Daca, uma conferência sob o nome de Conferência Educacional Muçulmana de Toda a Índia. Todos compreenderam a necessidade de uma conferência desse tipo naquele momento de crise para os muçulmanos, e oito mil delegados de diferentes partes da Índia participaram dela. Entre eles destacavam-se Muhsin-ul-Mulk, Vikhar-ul-Mulk, Aga Khan, Hakim Ajmal Khan e Maulana Muhammad Ali. Na reunião, por unanimidade, foi formado um partido separado para os muçulmanos indianos. Pois o trabalho do Congresso Nacional Indiano no movimento contra a Partição havia demonstrado claramente que o objetivo desse partido era apenas preservar os interesses hindus e esmagar os interesses muçulmanos. Para frustrar a Partição, foram adotadas várias manobras ardilosas. Após frequentes reuniões dos hindus de casta superior em Calcutá, anunciou-se: “O imperialismo britânico dividiu a mãe Bengala para exterminar a nação bengali, numa repugnante conspiração para empregar os camponeses bengalis como trabalhadores braçais nas plantações de chá de Assam. Portanto, ó nação bengali, aceitai a ‘anulação da Partição de Bengala’ como a ‘carta de libertação’ dos bengalis e lançai-vos à luta. Aqueles que não acreditam na ‘carta de libertação’ não são bengalis, mas traidores e agentes dos ingleses.” Na sessão da Liga Muçulmana, foi confiada ao nababo Salimullah a tarefa de manter os muçulmanos de Bengala afastados do movimento da ‘carta de libertação’, concebido pelos férteis cérebros dos hindus. Como resultado, toda a fúria dos hindus de casta superior recaiu sobre Khwaja Salimullah. Começaram atividades fascistas e terroristas. Quando o senhor Khwaja visitou Barisal, exibiram-lhe bandeiras negras e insultaram-no, chamando-o de agente dos ingleses e de ‘inimigo de Bengala’. Ele foi atacado numa assembleia pública em Kushillah. Enquanto estudantes, professores da madrassa Hosamia e a população muçulmana realizavam uma procissão com ele, um hindu chamado Jogiram Pal humilhou-o de uma varanda do segundo andar, exibindo repetidamente uma vassoura. Ao atravessar as ruas de Rajganj, dispararam contra ele. Embora tenha escapado com vida, um jovem chamado Saeed perdeu a vida. Embora o movimento terrorista de Bengala fosse ostensivamente dirigido contra os ingleses, o objetivo dos seus participantes era matar dois pássaros com uma só pedra: retratar os muçulmanos como agentes dos ingleses e exterminá-los, ao mesmo tempo que expulsavam os ingleses do país.

Em 30 de maio de 1908, o jornal Jugantar, de Calcutá, lançou um veemente apelo aos hindus e incitou o povo contra os apoiadores dos que haviam dividido a mãe Bengala. Dizia-se: “A mãe, sedenta, pergunta aos próprios filhos qual é a única coisa capaz de saciar sua sede. Nada além de sangue humano e cabeças decepadas pode satisfazê-la. Portanto, cabe aos filhos da mãe adorá-la e satisfazê-la com o objeto que ela deseja. Mesmo que, para alcançar isso, seja necessário sacrificar a própria vida, não se deve recuar. No dia em que a mãe for adorada dessa maneira em cada aldeia, nesse dia os habitantes da Índia serão ungidos com poder e bênçãos celestiais”.

-(Ibn Raihan: História da Partição de Bengala, pp. 6–7).

Depois do grandioso apelo lançado para agradar à Mãe Bengala, começaram as atividades violentas e o Holi de sangue.

Mohammad Waliullah afirma em sua obra “Nossa Luta pela Libertação”: “Foi principalmente tendo Calcutá e Daca como centros que se desenvolveu o movimento revolucionário. Os revolucionários de Calcutá organizaram sua associação sob o nome de ‘Jugantar’, e os revolucionários de Daca, sob o nome de ‘Anushilan’. Em geral, eram os membros dessas duas associações que providenciavam a fabricação de bombas e a importação de armas de fogo. Depois disso, associações secretas foram formadas em alguns lugares dos distritos sob outros nomes também”.

—(Mohammad Waliullah: Nossa Luta pela Libertação, p. 180)

Sir Surendranath Banerjee condenou veementemente a divisão de Bengala e afirmou que, ao dividir Bengala, os hindus haviam sido insultados e humilhados. Em protesto contra a divisão de Bengala, o Congresso Nacional Indiano iniciou o movimento Swadeshi em 7 de agosto de 1906. Os produtos britânicos foram boicotados e queimados. Os estudantes de escolas, colégios e universidades abandonaram as instituições de ensino. Bal Gangadhar Tilak, a fim de despertar e consolidar o nacionalismo hindu contra a divisão de Bengala, tomou providências para elevar o líder marata Shivaji à posição de herói nacional de todos os hindus da Índia. O aniversário de nascimento de Shivaji passou a ser celebrado oficialmente por todo o país. Em todas as reuniões, os líderes do Congresso começaram a elogiar a luta de Shivaji contra o imperador muçulmano. Referiam-se a Shivaji como herói nacional dos hindus e à sua luta como uma luta nacional. Nessa época, organizações terroristas surgiram entre os hindus de Bengala. Seu objetivo era anular a divisão de Bengala assassinando altos funcionários ingleses. —(M. A. Rahim: História dos Muçulmanos de Bengala, pp. 205–206; Surendranath Banerjee: Nation in Making, p. 18; A. Hamid: Muslim Separatism in India, pp. 57, 69–70).

Depois da divisão de Bengala, a Bengala hindu tornou-se tão hostil aos muçulmanos que jornais e reuniões públicas passaram a empregar contra eles análises de vários tipos, insultuosas e sarcásticas. Escrevia-se uma história fictícia, acompanhada de relatos sobre a suposta barbárie passada dos muçulmanos. Sir Sayyid Ahmad Khan era rotulado de traidor da pátria, e os muçulmanos, de agentes dos ingleses. …Todos os dias, os jornais publicavam notícias desse tipo: o governo estaria incitando os muçulmanos a atacar os hindus e demonstrando negligência quanto à sua segurança. Os hindus eram convocados a se armarem para fins de autodefesa. Um jornal chegou a afirmar que nem mesmo queimar vivos os bandidos muçulmanos e os funcionários públicos que os ajudavam seria uma vingança suficiente por parte da sociedade hindu. —(Khan, India of Today, p. 87; A. Hamid, Muslim Separatism in India, p. 61)

O Sr. N. C. Chowdhury afirma que a divisão de Bengala destruiu para sempre as relações entre hindus e muçulmanos e, em lugar da amizade, despertou em nossos corações ódio por eles. Nas ruas, nas escolas, nos mercados, esse sentimento de ódio manifestava-se por toda parte. Nas escolas, os meninos hindus demonstravam repulsa em sentar-se perto dos muçulmanos, dizendo que saía de sua boca cheiro de cebola. O Sr. Chowdhury afirma ter ido à escola e testemunhado esse comportamento com os próprios olhos. Como resultado, foram providenciados assentos separados para hindus e muçulmanos nas salas de aula. Ele prossegue: “Antes mesmo de aprendermos a ler e escrever, diziam-nos que, certa vez, os muçulmanos haviam governado este país e nos oprimido. Com o Alcorão em uma mão e a espada na outra, eles impuseram o Islã neste país. Os governantes muçulmanos raptaram nossas mulheres, destruíram nossos templos e profanaram nossos lugares religiosos. Portanto, não foi a divisão de Bengala que criou o ódio e a hostilidade dos hindus contra os muçulmanos. Isso já existia desde muito antes. A divisão de Bengala apenas os intensificou.”

—(N. C. Chowdhury: The Auto-biography of an Unknown Indian, pp. 227, 230; Zuberi, Tazkira Wadar, pp. 169–170; A. Hamid: Muslim Separatism in India, pp. 61–62)

Foi feita uma tentativa de confundir as gerações posteriores mediante a divulgação de uma história distorcida, fictícia e absurda, segundo a qual hindus e muçulmanos de ambas as Bengalas haviam conduzido conjuntamente o movimento pela anulação da divisão de Bengala. Afirma-se também que, com exceção de um único Khwaja Salimullah, nenhum muçulmano bengali havia aceitado a divisão de Bengala. Isso não passa de uma negação da verdade dos fatos. A discussão acima deixou claro que, como a divisão de Bengala havia criado a possibilidade de refletir as esperanças e aspirações da sociedade muçulmana negligenciada, a Bengala hindu, movida simplesmente pela inveja, iniciou o movimento contra a divisão. Seus discursos e declarações, seu comportamento, seus esforços para despertar o nacionalismo hindu trazendo à cena o líder marata Shivaji e tudo o mais anularam a unidade e a concórdia entre hindus e muçulmanos; tumultos e distúrbios começaram por toda parte, e teve início a perseguição aos muçulmanos. Depois de tudo isso, afirmar que hindus e muçulmanos se uniram para anular a divisão de Bengala é, sem dúvida, sinal de perturbação mental ou de intenção maliciosa.

Pode-se mencionar que, em consequência da Partição de Bengala, o terrorismo que os hindus de Bengala criaram na região, sem qualquer apoio dos muçulmanos — pelo contrário, colocando em perigo a vida e os bens dos muçulmanos — levou à convocação, em Daca, em 1906, da Conferência Educacional Muçulmana de Toda a Índia, com o objetivo de proteger os muçulmanos desse terrorismo e determinar seus deveres naquele momento de crise. A maior contribuição para o êxito dessa conferência foi dada por Abul Kasem Fazlul Huq, então líder muçulmano em ascensão de Bengala. A. K. Fazlul Huq e Bhikharul Mulk foram os secretários conjuntos do comitê preparatório formado para a referida conferência. Para assegurar o sucesso da conferência, o jovem A. K. Fazlul Huq, de 33 anos, percorreu toda a Índia com grande entusiasmo e empenho, graças ao que 8.000 delegados participaram da conferência. Foi justamente nessa conferência que se fundou a Liga Muçulmana, para proteger os interesses dos muçulmanos de Bengala e de toda a Índia e conduzir a comunidade pelo caminho correto. Em suma, foi o fogo do ódio, da ira e da vingança hindu que se acendeu contra os muçulmanos em consequência da Partição de Bengala que deu origem à Liga Muçulmana. Depois disso, Fazlul Huq não pôde desempenhar nenhum papel político, pois já em 1906 foi nomeado magistrado adjunto e permaneceu no serviço público até 1911. Após renunciar ao cargo em 1911, por conselho de Khwaja Salimullah, iniciou a prática da advocacia na Alta Corte de Calcutá. Em 1913, foi eleito membro do Conselho Legislativo de Bengala. Foi eleito pelo distrito eleitoral de Daca, derrotando por ampla maioria seu adversário, Rai Bahadur Kumar Mahendra Mitra. Posteriormente, em seu primeiro discurso na primeira sessão orçamentária do Conselho Legislativo, criticou duramente a anulação da Partição.

É inegável que não se pode pensar nos muçulmanos de Bengala sem A. K. Fazlul Huq. Portanto, quando ele era favorável à Partição de Bengala e manifestou protesto no Conselho Legislativo de Bengala contra sua anulação, é inacreditável, ridículo e inconcebível afirmar que hindus e muçulmanos, unidos, tenham liderado o movimento pela anulação da Partição. O discurso do senhor A. K. Fazlul Huq no Conselho Legislativo de Bengala torna ainda mais claro que a anulação da Partição era contrária aos interesses dos muçulmanos e lhes causou um dano irreparável. Em 4 de abril de 1913, na sessão orçamentária de 1913-1914 do Conselho Legislativo de Bengala, o popular líder dos muçulmanos de Bengala, o senhor A. K. Fazlul Huq, declarou em seu primeiro discurso:

“Gostaria apenas de lembrar aos funcionários que, por uma questão de honra, estão obrigados a conceder à comunidade muçulmana uma compensação adequada por toda a grave injustiça que lhe foi infligida pela anulação abrupta da Partição. Reivindicamos nossa parte como um direito indivisível, e reivindicamos o excedente como compensação pela injustiça que nos foi feita com a anulação da Partição. Esta é a opinião do público muçulmano em geral e, se os funcionários não atenderem plenamente às reivindicações, certamente haverá descontentamento na comunidade.”

— (Discurso orçamentário do Sr. A. K. Fazlul Huq de abril de 1913, Conselho Legislativo de Bengala, Bangladesh Historical Studies — Journal of the Bangladesh Itihash Samiti, vol. 1, 1976, p. 148)

Quero lembrar aos funcionários do governo que, ao anularem a Partição de Bengala de maneira tão abrupta, cometeram uma injustiça tão dolorosa contra a comunidade muçulmana que estão, por princípio, obrigados a oferecer uma compensação adequada. Reivindicamos nossa parte como um direito indivisível, e fazemos uma reivindicação adicional a título de compensação porque fomos injustiçados pela anulação da Partição. Esta é a reivindicação do público muçulmano, e, se ela não for atendida, é certo que a comunidade muçulmana ficará revoltada.”

No discurso orçamentário acima citado, o líder dos muçulmanos bengalis, o senhor Fazlul Huq, expressou os sentimentos mais profundos do povo muçulmano de Bengala. A extrema injustiça cometida contra os muçulmanos com a anulação da Partição de Bengala, e a dor e a revolta que isso lhes causou, manifestaram-se no discurso acima do senhor Huq. Como se pode então afirmar que a Partição de Bengala era indesejada pelos muçulmanos? E como se pode dizer que, para anulá-la, eles se uniram a uma classe cuja hostilidade aos muçulmanos e cuja política e programa de opressão dos muçulmanos haviam se tornado tão claros quanto a luz do dia em Bengala e em toda a Índia?

Como os interesses exclusivos e as vantagens dos hindus haviam sido prejudicados após a divisão de Bengala, toda a Bengala hindu, o Congresso Nacional Indiano e, pode-se dizer, a comunidade hindu de toda a Índia começaram a agitar céu e terra para anular essa divisão e iniciaram simultaneamente o terrorismo contra os governantes muçulmanos e ingleses, deixando os ingleses extremamente alarmados e perplexos. Como não tinham meios de conhecer a verdadeira situação da Índia e de Bengala, diversos jornais de Londres publicavam notícias contraditórias sobre os acontecimentos em Bengala e na Índia. Além disso, como o Congresso Nacional Indiano fora fundado por um inglês e muitos oficiais aposentados do Serviço Civil Indiano eram membros do Congresso, era natural que seu apoio e sua colaboração favorecessem o Congresso e a comunidade hindu.

Nas eleições realizadas para o Parlamento britânico em 1905, foram eleitos para a Câmara dos Comuns vários homens que eram oficiais aposentados do Serviço Civil Indiano. Eles mantinham estreito contato com o movimento contrário à Partição de Bengala e constrangiam o governo ao apresentar pergunta após pergunta no Parlamento. Um deles, chamado Sir William Wedderburn (William Wedderburn), foi eleito presidente do Comitê Parlamentar Indiano. Outro membro desse grupo, Sir Henry Cotton, orgulhava-se de representar as esperanças e aspirações dos indianos. Esses membros continuavam repetindo que o único caminho para estabelecer a paz na Índia era unir as duas Bengalas. Em uma carta escrita de Londres a um amigo indiano, um membro do Parlamento chegou a dizer: “Morley cederá; continuem o movimento”. A carta foi publicada nos jornais bengalis e, como resultado, o movimento foi ganhando força gradualmente. — (S. M. Mitra, Indian Problems, p. 72, Murray, Londres, 1908; A. Hamid, Muslim Separatism in India, p. 66)

Dois líderes do Partido Trabalhista, Ramsay MacDonald e Keir Hardie (Keir Hardie), vieram à Índia sob o pretexto de uma missão de paz. O Congresso Indiano elaborou o programa da visita deles e lhes ofereceu recepções reais por toda parte. Após viajar durante seis semanas, MacDonald comentou que a divisão de Bengala havia sido um erro grave. Ele assegurou a certo hindu que, se o governo britânico não atendesse às reivindicações deles, os membros do Partido Trabalhista não apoiariam o gabinete. Hardie permaneceu dois meses na Índia. Os jornais hindus de Calcutá publicavam amplamente seu itinerário e seus discursos. Ele afirmou que a situação de Bengala Oriental era mais dolorosa que a da Rússia. Aqui, os hindus estão sofrendo extrema opressão. Ele chegou a acusar os muçulmanos de desonrarem as viúvas hindus. Isso provocou uma deterioração extrema nas relações entre hindus e muçulmanos. “Deus enviou Hardie para frustrar todas as conspirações.” Ao retornar à Inglaterra, Hardie propôs que a próxima sessão do Congresso Indiano fosse realizada em Londres, a fim de chamar a atenção do mundo inteiro para as privações e queixas da Índia.

-(A. Hamid, Separatismo muçulmano na Índia, p. 67. The Times Edition, Londres, outubro de 1907, janeiro-abril de 1908, dezembro de 1910)

Lord MacDonald, conhecido como um ferrenho inimigo dos muçulmanos, qualificou a divisão de Bengala como o erro mais grave do governo britânico no campo administrativo na Índia, depois da vitória de Clive no campo de Plassey. (Times Weekly Edition, Londres, janeiro de 1908, p. 4)

No final de 1910, Lord Minto sucedeu ao vice-rei Curzon. No ano seguinte, o príncipe George (posteriormente rei George V) deveria visitar a Índia. Temendo que, durante sua visita, os hindus revoltados por causa da divisão de Bengala praticassem qualquer ato indesejável, o que seria um desrespeito ao príncipe e traria má reputação ao governo indiano, Lord Minto ficou extremamente preocupado. Por isso, ele ficou preocupado com Surendranath Banerjee e Gokhale. Por isso, encontrou-se com Surendranath Banerjee e Gokhale e tentou convencê-los de que não era de modo algum responsável pela divisão de Bengala. Nas conversas, conseguiu acalmá-los em boa medida. Consequentemente, Minto não pôde dedicar tanta atenção à plena implementação da divisão. Entretanto, nesse período ocorreram alguns acontecimentos que fizeram com que o movimento contrário à divisão voltasse a ganhar força, tendo Fuller como seu foco, embora ele não fosse de modo algum responsável por eles. O fato foi o seguinte: um tribunal inferior condenou certo Uday Pandey à morte pelo crime de homicídio. Quando a questão foi levantada na Câmara dos Comuns, na Inglaterra, o secretário de Estado para a Índia deu uma resposta que atribuía a culpa a Fuller. Ninguém ficou para apoiá-lo. Isso deu combustível ao movimento contrário à divisão. Um grupo de estudantes exaltados de uma escola atacou um funcionário inglês de banco e investiu contra uma carroça de bois carregada de tecidos britânicos. De acordo com as normas governamentais, Fuller pediu ao Senado da Universidade de Calcutá que retirasse a escola da lista de escolas reconhecidas. O governo da Índia considerou isso imprudente e ordenou a Fuller que retirasse seu pedido. Fuller recusou-se a obedecer à ordem do governo da Índia, alegando que isso revelaria a fraqueza do governador provincial. Caso contrário, ameaçou renunciar ao cargo. O vice-rei manteve sua decisão, e Fuller teve de renunciar. O vice-rei aceitou imediatamente sua renúncia. Assim, a remoção planejada de Fuller não trouxe nenhuma melhora à situação. O movimento cresceu cem vezes. A remoção de Fuller funcionou como o acendimento de um fogo sobre um depósito de pólvora. Os ativistas contrários à divisão pareciam ter recebido novo entusiasmo, energia e inspiração. Pode-se dizer que seus patronos de pele branca estavam tocando os tambores de guerra desde Londres. Além do círculo de amigos do Congresso Hindu Indiano, havia também numerosos membros do Parlamento britânico de 1905; e, embora não diretamente, o secretário de Estado para a Índia, Morley, juntou-se indiretamente a eles. Eles começaram a instigar os hindus da Índia a anular a divisão de Bengala.

Cabe observar que o Congresso Nacional Indiano, fundado em 1885 por um certo inglês, não proferiu sequer uma palavra contra os governantes ingleses antes de 1905. A ideia de “swaraj” jamais ocupou sequer um canto de sua mente. Embora instituições como a “Arya Samaj”, de Dayanand Saraswati, e a “Brahmo Samaj”, de Raja Rammohan Roy, entre outras, se levantassem vigorosamente contra os muçulmanos, nunca abriram a boca contra os senhores ingleses. Pelo contrário, dizia-se em nome da sociedade hindu de Bengala: “Rezamos sempre ao Todo-Poderoso para que possamos permanecer sob o domínio inglês de geração em geração. Quão virtuosa deve ter sido a terra da Índia para ter recebido um senhor inglês.” — Sangbad Bhaskar, 20 de junho de 1857, Calcutá — publicado com a cortesia da Society for Pakistan Studies, em “A Revolta dos Sipaios e a Sociedade Hindu Bengali”.

Até 1905, a sociedade mantinha essa atitude para com os ingleses. Desde a batalha de Plassey até o final do século XIX, os muçulmanos de Bengala e da Índia eram perseguidos e oprimidos pelos ingleses e pelos hindus. Mas, quando alguns sinais de melhoria na sorte dos muçulmanos de Bengala Oriental começaram a ser percebidos como resultado da divisão de Bengala, a sociedade hindu explodiu de inveja. A Bengala hindu lançou-se a um intenso movimento para anular a divisão de Bengala. O livro Glimpses of Old Dhaka afirma: “Esse movimento sinistro foi patrocinado e conduzido pelos babus Surendra Nath Banerjee (posteriormente condecorado com o título de cavaleiro) e Bepin Chandra Pal, líder e demagogo da juventude hindu. Eles começaram a boicotar e queimar produtos fabricados pelos britânicos, o que afetou as fábricas de Lancashire. Os terroristas e suas organizações secretas começaram a assediar os ingleses com bombas e revólveres. Essa gangue instruída começou a cometer assaltos para criar uma sensação de insegurança no país” (Glimpses of Old Dhaka, p. XXVII).

“Os iniciadores e dirigentes desse movimento sinistro eram Babu Surendra Banerjee (posteriormente condecorado com o título de cavaleiro) e Babu Bipin Chandra Pal, líderes da comunidade da juventude hindu. Eles também começaram a boicotar e queimar produtos britânicos, em consequência do que as fábricas de Lancashire estavam sendo prejudicadas. Os terroristas e suas organizações secretas começaram a perturbar os ingleses com ataques de bombas e revólveres. Sua gangue instruída também começou a praticar assaltos para provocar a ruptura da segurança no país”.

Um dos principais terroristas, Barindra Kumar Ghosh, veio de Londres para Calcutá em 1904, quando o plano da divisão de Bengala já estava consolidado. No ano seguinte veio seu irmão, Aurobindo. A divisão de Bengala recebeu uma forma religiosa, sendo apresentada como o desmembramento da “Mãe Bengala”. Toda a Bengala hindu lançou-se ao movimento terrorista.

O ódio dos hindus de toda a Índia aos muçulmanos aumentou cem vezes por mais duas razões. Até então, não havia nenhuma instituição que falasse dos interesses políticos dos muçulmanos. O movimento contra a divisão de Bengala deu origem, em 1906, a uma instituição política dos muçulmanos chamada Liga Muçulmana de Toda a Índia. Nesse mesmo ano, em 1º de outubro, uma delegação de 36 muçulmanos proeminentes, liderada pelo Aga Khan, encontrou-se com o vice-rei e apresentou a exigência de eleições separadas para os muçulmanos. O vice-rei concordou e, depois, devido à grande pressão e aos esforços incansáveis de Syed Amir Ali, o sistema de eleições separadas foi aprovado pelo Parlamento britânico em 1909. A instituição política separada dos muçulmanos, a “Liga Muçulmana”, e o sistema de eleições distintas para os muçulmanos — essas duas coisas incendiaram toda a Índia hindu. Como resultado, o terrorismo e o movimento “Swaraj” provocaram simultaneamente agitação em toda a Índia. Seu primeiro objetivo era frustrar a divisão de Bengala. Para ressuscitar e satisfazer a “Mãe Bengala” dividida em duas, as pessoas foram treinadas no uso de armas mortais. A destruição de repartições e tribunais governamentais por explosões de bombas, a interrupção de reuniões e assembleias, assassinatos, ferimentos, saques e outras ações semelhantes continuaram com pleno vigor. Khudiram, de Medinipur, e Prafulla Chaki dedicaram-se a essas atividades destrutivas e assassinatos. Se alguém não apoiasse o movimento contra a divisão, não havia mais salvação para essa pessoa. Mesmo quem criticava os atos de violência e os assassinatos era decapitado. Por essas razões, um advogado hindu do governo foi morto a tiros em 1909. Em 1910, o DSP Shamsul Alam também foi assassinado. O governador-lieutenant de Bengala foi atacado nada menos que quatro vezes. Uma bomba de mão foi lançada contra Allen, magistrado distrital de Daca.

Esses terroristas eram implacáveis contra os muçulmanos que apoiavam a divisão de Bengala. Por outro lado, para atrair para o movimento contra a divisão alguns muçulmanos inocentes e de natureza simples, os hindus adotaram outro caminho. Em “A história da divisão de Bengala”, Ibn Raihan diz:

As moças hindus iam de casa em casa dos muçulmanos e amarravam em suas mãos a pulseira rakhi, símbolo da união das duas almas — hindu e muçulmana — e, portanto, das duas Bengalas; para conquistar seus corações e mentes, de todos os lados chegavam melodias doces, entoadas por vozes melodiosas—

A terra de Bengala, as águas de Bengala,

O ar de Bengala, os frutos de Bengala.

Que sejam verdadeiros, que sejam verdadeiros, que sejam verdadeiros

ó Senhor.

A alma do bengalês, a mente do bengalês

Que todos os irmãos e irmãs nas casas bengalis

Sejam um, sejam um, sejam um

Ó Bhagavan.

-(A história da divisão de Bengala, Ibn Raihan, pp. 10–11)

Alguns muçulmanos ficaram confusos com esse arrebatador e veemente apelo de voz feminina. Entre eles estava o advogado Abdul Rasul, residente em Brahmanbaria. Sua história já foi relatada anteriormente. Contudo, a ilusão desses muçulmanos autoenganados se desfez quando viram a literatura e os panfletos de propaganda dos terroristas, repletos de veementes apelos ao renascimento do hinduísmo. À sua frente estavam brâmanes hindus, e os assassinatos eram dedicados. Isso era feito tocando a água do Ganges e recitando mantras específicos. A aprovação das escrituras religiosas hindus para os assassinatos brutais era obtida da seguinte maneira: no Bhagavad Gita está escrito que, para a proteção do hinduísmo, matar seres humanos não é condenável; ao contrário, é uma obra meritória. O juramento do movimento Swadeshi era prestado no recinto dos templos de Kali. Assim, o movimento contra a divisão era vivificado por meio dos ritos e práticas da religião hindu. Depois de observar tudo isso, era absolutamente impossível para qualquer muçulmano continuar ligado a esse movimento. (A. Hamid, Muslim Separatism in India, p. 60)

As escrituras religiosas hindus não apenas legitimam o assassinato de seres humanos, como também o consideram indispensável. Em Kapalkundala, de Bankim, vemos como o kapālik tântrico hindu praticava sua religião adorando Bhairavi com carne humana. Para recordar isso aos leitores, cito aqui duas ou três frases:

“O kapālik conduziu Nabakumar pela lateral da casa até aquela praia; nesse momento, uma mulher que ele já havia visto passou junto dele na margem, com a velocidade de uma flecha; ao passar, disse-lhe ao ouvido: ‘Fuja ainda agora. Sem carne humana não há culto tântrico; você não sabe disso?’

—Ao ver a resistência de Nabakumar, o kapālik disse: ‘Tolo! Por que manifestas resistência? Hoje o teu nascimento se cumpriu. Esta tua carne será oferecida no culto de Bhairavi; que outra ventura maior poderia haver para alguém como tu?’

-(Extraído de Kapalkundala, de Bankim: sexto capítulo, “Com o Kapalik”)

Portanto, o terrorismo e os assassinatos aos quais se havia dado uma forma religiosa — uma forma hindu — não podiam ter qualquer relação ou associação com os muçulmanos. E foi justamente por não poderem ter tal relação que os muçulmanos também se tornaram vítimas desse terrorismo e desses assassinatos.

Embora o terrorismo e a insegurança da vida dos cidadãos, especialmente dos ingleses, tivessem deixado o governo britânico bastante perturbado, provavelmente a política de boicote aos produtos britânicos o havia perturbado ainda mais. As fábricas de Manchester haviam sofrido enormes prejuízos. A Associação de Comerciantes Hindus exercia pressão contínua sobre a Câmara de Comércio de Manchester. Dizia-lhes, em termos inequívocos: “Se quiserem vender seus tecidos e outros produtos neste país, revoguem a divisão de Bengala”.

O Congresso Indiano também declarou que o único caminho para revogar a divisão de Bengala era boicotar os produtos britânicos. Contudo, o Congresso também afirmou que essa política de boicote permaneceria limitada apenas a Bengala.

É especialmente digno de nota aqui que o curso do movimento contrário à divisão estava gradualmente se desviando para outro rumo. Esse rumo era a eliminação completa da nação muçulmana do território da Índia. Quando o imperador Jorge V chegou à Índia, em 1911, petições apresentadas a ele por diversas organizações hindus afirmavam que, por meio de várias reformas, estavam sendo concedidos favores especiais aos muçulmanos. Os jornais hindus diziam que os muçulmanos eram traidores e desleais, que sua lealdade ao governo era apenas fingida, que não sentiam qualquer simpatia pela Grã-Bretanha e que mantinham conluio com os rebeldes egípcios — (A. Hamid, Muslim Separatism in India, p. 83). Sir Valentine, correspondente do The Times de Londres, afirma que se ouvia com frequência Tilak, as escolas fundadas em Pune de acordo com sua ideologia e os hindus nacionalistas do Punjab e de Bengala dizerem praticamente o seguinte: assim como os muçulmanos haviam sido exterminados da Espanha vários séculos antes, também seriam exterminados da Índia. Sir Walter Lawrence, ligado à equipe pessoal do vice-rei Curzon, comentou sobre o marajá Sir Pratap Singh, de Indore:

“Certa vez, Sir Pratap Singh veio como convidado a um jantar de despedida oferecido em Simla por Lord Curzon a mim e à minha esposa. Depois do jantar, conversei com ele sobre diversos assuntos até as duas da madrugada. Ele me revelou muitas das esperanças e aspirações de sua vida. Uma delas era exterminar os muçulmanos da Índia. Contradisse suas palavras, mencionando alguns amigos muçulmanos que eram amigos de ambos. Ele disse: ‘Sim, gosto deles, mas gosto ainda mais da morte deles’.”

Sir Lawrence diz: “Penso com frequência nesse tipo de conversa de Sir Pratap. Pode-se conhecer alguém durante muitos anos por meio dos indianos. Mas chegará um momento em que, de repente, eles abrirão as portas de seus corações e revelarão o segredo oculto em seu interior. Sir Pratap Singh é um bom hindu rajput. Viajou por muitos países. Conviveu com muitas pessoas. Conhece bem o inglês. Tem relações com pessoas de muitas nações. Pode-se dizer que é um portador e representante de uma civilização cosmopolita. Contudo, nos recônditos mais profundos de seu coração, instalou-se um ódio aos muçulmanos que não pode ser erradicado”.

(Sir Walter Lawrence: The India We Served, p. 209, Cassell, Londres, 1928; A. Hamid, Muslim Separatism in India, pp. 83–84)

Sir Lawrence revelou uma verdade extremamente decisiva. A eliminação dos muçulmanos da terra da Índia não era apenas o pensamento íntimo de um ou dois cavalheiros hindus, como Sir Pratap Singh; era, antes, o pensamento íntimo de toda a nação hindu. Mais tarde, durante o movimento pelo Paquistão na Índia, líderes da Mahasabha Hindu, como Shyamaprasad Mukherjee, expressaram repetidamente essa atitude em discursos e declarações públicas.

Décimo quarto capítulo

A revogação da divisão de Bengala e suas consequências

O governo havia adotado medidas rigorosas contra o terrorismo em Bengala. Como resultado, esse movimento foi gradualmente se enfraquecendo. No fim de 1910, a situação começava a voltar ao normal. Os soldados do movimento estavam, de certo modo, exaustos da batalha. Nesse mesmo ano, um hindu bengali fracassou ao tentar levantar novamente a questão na Assembleia Legislativa. Mais tarde, ele concordou em retirar sua proposta. Sir Surendranath Banerjee era um dos iniciadores do movimento. Por fim, também declarou, por meio de seu jornal ‘Bengali’: “Reconhecemos, naturalmente, que essa divisão foi feita para permanecer, e não queremos anulá-la”.

-(Fraser, India Under Cuzon and After, p. 391. A. Hamid: Muslim Separatism in India, p. 86)

Mas não se soube que mão poderosa, no distante coração de Londres, vinha fabricando armas mortais contra a divisão de Bengala.

O rei Jorge V veio à Índia em 1911 com a intenção de anunciar pessoalmente sua ascensão ao trono do Império Britânico. Vir a uma colônia distante, atravessando milhares de milhas, apenas com o propósito de anunciar a coroação, era um acontecimento sem precedentes e inaudito na história do domínio britânico na Índia. O temor da sinistra conspiração dos terroristas ainda não havia sido apagado das mentes. Na Índia, reinava então a fome. Os muçulmanos estavam agitados por causa da guerra ítalo-turca. Por essas razões, o gabinete de Jorge V considerou imprudente sua visita à Índia e tentou dissuadi-lo. O rei ignorou todos os conselhos e continuou a preparar sua viagem. Partiu em novembro com destino à Índia e desembarcou em Bombaim na primeira metade de dezembro. Ele brindou os habitantes da Índia com diversos prêmios e concessões. Por fim, chegou o momento decisivo. Numa assembleia extremamente suntuosa e em ambiente solene, o rei Jorge V começou a derramar, uma a uma, suas ilimitadas graças sobre seus queridos súditos. Foi proclamada uma anistia geral para todos os presos políticos; foi destinada uma quantia considerável ao desenvolvimento da educação; foi eliminada a inelegibilidade dos soldados indianos para receberem a honraria da ‘Victoria Cross’; os funcionários públicos de baixos salários receberam meio mês adicional de salário; a capital da Índia foi transferida de Calcutá para Délhi. Por fim, anunciou-se que a ‘divisão de Bengala’ havia sido revogada. Os hindus explodiram de alegria e júbilo. O benefício imediato do anúncio da revogação da divisão de Bengala foi garantir a viagem segura do casal real através das regiões do Império Indiano infestadas pelo crime.

Algum tempo depois, quando o rei chegou a Calcutá, os hindus bengalis, extasiados de alegria, organizaram enormes procissões para demonstrar sua inabalável lealdade do rei ao Império Britânico. Os jornais hindus chegaram ao ponto de propor a instalação de estátuas do rei e da rainha brancos nos templos hindus. O Congresso Nacional Indiano aprovou uma resolução de agradecimento ao rei e cobriu Lorde Hardinge de elogios.

Por outro lado, a anulação da divisão constituiu uma extrema traição aos muçulmanos. Curzon realizou a divisão, e Hardinge a anulou. Mas a grande diferença entre os procedimentos de ambos é que Curzon propôs publicamente a divisão de Bengala e apresentou argumentos justos em sua defesa. O assunto foi discutido durante muito tempo, e gastou-se muita tinta e papel. A proposta foi devidamente aprovada em decisão final e implementada no devido tempo. Hardinge, por sua vez, fez seu plano avançar de maneira extremamente secreta, e ele foi revelado ao público de forma muito repentina e causando enorme surpresa. Embora essa decisão do Governo britânico tenha causado a ruína de uns e trazido a prosperidade para outros, sua arrogância, suas reviravoltas e sua disposição injusta e desonesta de devolver os direitos legítimos de uma comunidade de uma região subdesenvolvida e depois deles privá-la novamente permanecerão indeléveis nas páginas da história.

Quanto às razões por trás dessa representação ridícula do Governo britânico, o pouco que se pode perceber é que o jogo da anulação da divisão havia ocupado a mente de ‘Crew’, então Secretário de Estado para a Índia. Sua intenção era apaziguar aqueles que estavam revoltados, chamando a divisão de um erro grave. Hardinge disse: “Mais tarde, fui informado de que, se quiséssemos estabelecer a paz em ambas as Bengalas, era absolutamente indispensável fazer algo para remover aquilo que todos os bengalis consideravam uma injustiça. Naturalmente, naquela época, também se esperava no exterior que algo fosse feito para eliminar essa ‘injustiça’. Percebi que, se nada fosse feito, no futuro teríamos de enfrentar perigos maiores do que no passado”.

-(Hardige of Penhurst My India Years, p.36, Murray London, 1948; A. Hamid Muslim Soparatism in India, p.88)

Pela declaração de Sir Surendranath Banerjee citada acima, pode-se compreender que os ativistas contrários à divisão haviam ficado, de certo modo, desanimados e apáticos, e até desejavam aceitar a divisão. Mas os amigos brancos que os incitavam em Londres não haviam desistido. Continuavam realizando seu trabalho, pelo qual o Secretário de Estado para a Índia, Crew, certamente foi influenciado.

Abdul Hamid diz que, entre os vários argumentos apresentados em favor da anulação da divisão, um deles é o seguinte: “Os hindus de ambas as Bengalas eram proprietários de quase todos os bens imóveis. Também exerciam domínio exclusivo sobre o comércio, os negócios e os empregos. Consequentemente, exerciam uma influência excessiva sobre a população. A riqueza e a cultura lhes haviam conferido influência e prestígio, mas, em consequência da divisão de Bengala, eles seriam privados dessa influência e desse prestígio. Trata-se, na verdade, de um argumento em defesa da preservação dos interesses estabelecidos e da supremacia de classe.

Ficou claro, pelas palavras acima, que por trás da anulação da divisão não havia qualquer propósito nobre; ao contrário, por assim dizer, havia uma extrema má-fé: o governo havia enganado os muçulmanos. Em troca de sua lealdade, eles foram privados de seus direitos legítimos. A esse respeito, Mushtaq Hossain diz em um de seus artigos:

“Os muçulmanos verão essa medida (a reunificação de ambas as Bengalas) com desprezo. O Gabinete britânico recusou-se a reconsiderar a decisão de Curzon. Consequentemente, a reunificação de ambas as Bengalas prova que as autoridades ficaram paralisadas. No futuro, ninguém poderá confiar nas promessas do Governo britânico. ….Não promoveremos nenhum movimento para reverter essa decisão definitiva. Mas nossa reivindicação é que, de qualquer maneira, as oportunidades e vantagens que os muçulmanos da Bengala Oriental obtiveram como resultado da divisão sejam asseguradas para eles. …A política britânica em relação a Trípoli e à Pérsia levou os muçulmanos ao limite de sua paciência. …Essa medida severa criou amargura no coração de nossa nação. Eles começaram a pensar que não haviam obtido nenhuma vantagem especial ao afastar-se do Congresso. Talvez alguns deixem a Liga Muçulmana e ingressem no Congresso. Era exatamente isso que o Congresso esperava havia tanto tempo. Mas não concordamos com essa linha de pensamento. Não podemos abandonar nossas próprias instituições e fundir-nos completamente em uma maioria poderosa. Esse é o caminho do suicídio. Depois que um rio caudaloso se junta ao mar, perde sua identidade. Não somos hostis ao Congresso por causa de nossa lealdade ao governo. A lealdade não é nosso objetivo principal; é apenas um meio para alcançar o objetivo. A lealdade é sempre condicional. A lealdade não pode suportar uma pressão excessiva.

….É tão claro quanto a luz do dia que os muçulmanos já não podem depositar confiança no governo. Teremos de depender de Deus e de nossos próprios esforços. ….Se conseguirmos nos organizar solidamente nesse aspecto, o governo será obrigado a respeitar nossos sentimentos. Devemos aprender com tudo o que aconteceu.

……O governo considera desnecessário consultar-nos e discutir conosco o nosso futuro. A proclamação em nome do rei passou a esmagar cruelmente os cadáveres dos muçulmanos, como uma força de artilharia.”

-(Zuberi, Tazkira Waqar, pp. 228–40; A. Hamid, Muslim Separatism in India, p. 91)

No discurso presidencial da sessão da Liga Muçulmana realizada em Calcutá, em março de 1912, o ferido soldado da luta contra a Partição de Bengala, Khwaja Salimullah, declarou:

Depois que o movimento contra a Partição de Bengala cessou, nenhuma pessoa responsável e dotada de consciência conseguiu descobrir qualquer razão justa para reabrir a questão. A partição foi realizada em 1905 e permaneceu em vigor até 1911. Nossos inimigos ficaram aflitos ao perceber as possibilidades das esperanças e aspirações dos muçulmanos. Na realidade, não obtivemos nenhum benefício particularmente significativo com a partição. O pouco que havíamos conquistado, a comunidade vizinha fez tudo estremecer e arrancou-o de nós. Eles se vingaram cometendo assassinatos e pilhagens e boicotaram os produtos britânicos. O governo não deu importância a isso. Embora os muçulmanos não participassem desses assassinatos, permaneceram leais ao governo. …A classe camponesa muçulmana beneficiou-se com a partição. Os zamindares hindus tentaram arrastá-la para o movimento, mas ela não lhes deu atenção. Com isso, começaram os conflitos entre hindus e muçulmanos. O governo adotou uma política de repressão, mas ela não produziu resultados. De um lado estava uma comunidade abastada e revoltada; do outro, os muçulmanos pobres, que permaneciam ao lado do governo. Assim transcorreram vários anos. De repente, o governo anulou a partição. Nem sequer nos consultou ou discutiu o assunto conosco. (Ahmed, Ruh-i-Raushan Mustaqbil, pp. 58–59; A. Hamid, Muslim Separatism in India, p. 92)

Na sessão especial do Congresso Nacional Indiano realizada em Cocanada, em 1923, Maulana Muhammad Ali protestou veementemente contra a anulação da Partição de Bengala em seu discurso presidencial, dizendo: “Como recompensa por sua lealdade, eles foram privados dos direitos que haviam acabado de conquistar, e a expressão de satisfação para com o governo foi punida como um crime extremo. É um exemplo tão odioso que seria difícil encontrar outro semelhante na história”.

-(Iqbal, Select Writings & Speeches, p. 162)

Muitos deles chegaram a reconhecer que o governo britânico havia traído os muçulmanos, dado uma reviravolta, cometido uma extrema injustiça contra eles e baixado a cabeça, antes sempre orgulhosa, por causa dos atos de terrorismo e violência de determinada classe. Também reconheceram que, ao alterar, sete anos depois, por meio de uma proclamação proferida pelo rei Jorge V, uma decisão ponderada durante longo tempo e aprovada pelo Parlamento britânico, haviam prejudicado sua reputação diante do mundo. Por isso, muitos tentaram preservar o prestígio do rei Jorge V, distorcendo a história das causas e circunstâncias da Partição de Bengala. Por fim, para consolar os muçulmanos de Bengala Oriental e compensá-los pela enorme perda que haviam sofrido em consequência da anulação da Partição de Bengala, o governo decidiu estabelecer uma universidade em Daca, a fim de proporcionar educação superior à população subdesenvolvida dessa região. É verdade que os hindus de Bengala ficaram extasiados com a reunificação das duas Bengalas, mas de modo algum estavam dispostos a tolerar qualquer progresso, felicidade ou prosperidade dos muçulmanos. Assim, a decisão do governo de estabelecer uma universidade em Daca caiu sobre suas cabeças como um novo raio. Alguns líderes do Congresso, enfurecidos, protestaram veementemente contra essa decisão. Como a Universidade de Calcutá era o principal centro de educação, cultura e influência hindus, começaram a propagar que sua dignidade seria prejudicada caso fosse estabelecido outro centro educacional concorrente. Uma delegação, liderada por Surendranath Banerjee, foi imediatamente entrevistar-se com o vice-rei Lord Hardinge. Eles disseram que o estabelecimento de outra universidade na província destruiria a paz e a harmonia da vida nacional. A desunião existente entre os habitantes das áreas abrangidas pelas duas universidades aumentaria progressivamente. Também advertiram o vice-rei de que o início da nova universidade seria extremamente insignificante e ridículo. Segundo eles, faltariam estudantes suficientemente instruídos e havia dúvidas de que uma instituição de ensino superior destinada principalmente aos camponeses muçulmanos tivesse qualquer valor.

-(Governo da Índia, Speeches by Lord Hardinge of Penhurst, vol. 1, pp. 203–20, Calcutá, 1916)

A esse respeito, cito brevemente o discurso proferido pelo falecido líder muçulmano de Bengala, A. K. Fazlul Huq, na Assembleia Legislativa de Bengala, durante a sessão orçamental de 1913–14, por considerá-lo especialmente digno de nota. Em seu discurso, ele disse:

“No relatório do Governo da Índia, datado de 25 de agosto, prometeu-se que os interesses muçulmanos não seriam prejudicados pelas mudanças decorrentes da anulação da Partição de Bengala. Entretanto, transcorreram dezoito meses, e chegou o momento de verificar em que medida eles cumpriram sua promessa. Pouco depois do anúncio do Durbar de Deli, quando Sua Excelência o Vice-Rei chegou a Daca, todos esperavam que ele fizesse algum anúncio para satisfazer os muçulmanos. Naturalmente, ouvimos o anúncio da fundação da Universidade de Daca. Mas devo dizer que, em comparação com o que esperávamos, isso é algo muito insignificante. Não quero diminuir a importância da Universidade de Daca, pois ela removerá o obstáculo que havia sido criado ao desenvolvimento da educação no leste de Bengala. Tampouco nego as imensas oportunidades e vantagens de uma universidade residencial em um centro muçulmano. Mas protesto contra a afirmação de que esta universidade está sendo criada apenas para benefício dos muçulmanos ou de que constitui uma medida especial para agradá-los. O Vice-Rei declarou claramente: ‘Esta universidade é para hindus e muçulmanos igualmente, e assim deve ser’. Isso foi restringido pelo temor de que pudesse despertar entre os hindus uma reação à Partição de Bengala. Um colégio muçulmano e uma Faculdade de Estudos Islâmicos planejados juntamente com esta universidade tampouco podem ser considerados uma concessão aos muçulmanos. Isso porque, há mais de meio século, o Governo mantém em Calcutá um colégio exclusivamente hindu, com todos os professores, funcionários e equipamentos necessários, e a criação de um colégio muçulmano em Daca seria o reconhecimento tardio de uma antiga reivindicação dos muçulmanos, há muito negligenciada. Quanto ao Departamento de Estudos Islâmicos, o fato é que, numa região onde os muçulmanos há muito desejam estudar árabe e persa, esse departamento é apenas o resultado natural do currículo da universidade local. Talvez nem todos saibam que um grande número de estudantes dos distritos do leste de Bengala frequenta as madraças de Bengala, e que, sem qualquer ব্যবস্থা para atender às necessidades dos habitantes dessa classe e permitir-lhes obter qualificações educacionais, uma universidade de modo algum seria justa. Espero que as autoridades governamentais compreendam que, embora os muçulmanos tenham votado a favor da Universidade de Daca, eles não consideram essa universidade — nem mesmo um colégio muçulmano e uma Faculdade de Estudos Islâmicos — uma concessão a eles.”

— Bangladesh Historical Studies, discurso sobre o orçamento de 1913–14, pp. 149–50

A discussão acima deixou claro qual foi a atitude e a mentalidade da Índia hindu e dos ingleses em relação à Partição de Bengala, à fundação de uma universidade em Daca e à concessão de quaisquer oportunidades ou benefícios aos muçulmanos.

Precisamos examinar e avaliar o que os muçulmanos ganharam e o que perderam como resultado da Partição de Bengala e de sua anulação.

Para estabelecer uma administração adequada e equilibrada, os funcionários britânicos da Índia vinham há muito tempo considerando a redistribuição e a reorganização de algumas áreas provinciais, e arquivo após arquivo havia sido preparado sobre o assunto no Secretariado. Com base nisso, Lord Curzon dividiu Bengala, a maior província, e formou uma nova província chamada ‘Bengala Oriental e Assam’. Os muçulmanos de Bengala não tinham qualquer ideia a respeito disso. Contudo, com a partição, passaram a ser planejadas todas as formas de bem-estar e desenvolvimento para os muçulmanos do leste de Bengala, de maioria muçulmana. Movidos por simples inveja das futuras oportunidades e benefícios dos muçulmanos, os líderes hindus de Bengala iniciaram uma intensa agitação contra a partição. Mais tarde, esse movimento assumiu a forma de terrorismo e atividades violentas. A atitude hindu para com os muçulmanos tornou-se claramente evidente nesse episódio. Os muçulmanos passaram a considerar ameaçadas, na terra da Índia, sua existência, civilização, cultura e tradição. Para sua autodefesa, foi fundada uma instituição política pan-indiana para os muçulmanos indianos, chamada ‘Liga Muçulmana’. Os muçulmanos também perceberam a conspiração para abolir sua distinção e assimilá-los à nacionalidade hindu sob o pretexto de uma nacionalidade única formada por hindus e muçulmanos da Índia. Uma delegação de 36 eminentes líderes muçulmanos, sob a liderança do Aga Khan, explicou suas esperanças e aspirações ao Vice-Rei e introduziu o sistema de eleições separadas. Os muçulmanos obtiveram reconhecimento como uma nação distinta; como consequência, a Índia foi dividida, e passaram a existir dois Estados independentes, chamados Índia e Paquistão.

Capítulo XV

De 1906 a 1936

A história dos trinta anos, de 1906 a 1936, constitui um capítulo importante do movimento de liberdade dos muçulmanos. Ainda assim, é preciso dizer que, durante essas três décadas, eles permaneceram atormentados pelo conflito entre esperança e desespero e, por vezes, vemos sua consciência política entorpecida pelo desânimo.

Os dois extremos dessas três décadas foram marcados por duas características distintas, luminosas e vibrantes. Em 1906, estavam iluminados pela luz radiante da esperança despertada pelo surgimento de uma nacionalidade distinta dos muçulmanos; e, em 1936, estavam empenhados em participar das eleições, com base em eleitorados separados, como uma nação distinta, de acordo com a Lei do Governo da Índia (India Act of 1935). O período intermediário transcorreu em conflitos e disputas com a comunidade hindu vizinha, na luta e na competição pela autoafirmação, na demonstração da autoconfiança dos muçulmanos perante o governo britânico e, paralelamente, também prosseguiu o movimento de liberdade.

Em 1905, Lorde Curzon havia proposto a divisão de Bengala por razões de conveniência administrativa. Porém, quando a divisão de Bengala se concretizou e se abriram as portas da educação e do desenvolvimento material para a população negligenciada da região oriental, de maioria muçulmana, toda a sociedade hindu iniciou uma intensa oposição à divisão. Essa oposição cega revelou precisamente a verdade de que hindus e muçulmanos constituíam duas nações distintas: suas esperanças e aspirações, práticas religiosas, visão da vida, sociedade e cultura, política e trajetória econômica eram completamente distintas e separadas. Inspirada por essa consciência, em 1906, uma poderosa delegação muçulmana apresentou ao governo a exigência de eleições separadas. Como a autonomia política era indispensável à autonomia nacional, em 1906 surgiu em Daca uma instituição política dos muçulmanos chamada ‘Liga Muçulmana’ — resultado inevitável da nova consciência política e nacional.

O slogan pomposo do Congresso Nacional Indiano era o nacionalismo único. Entretanto, o movimento unido de toda a comunidade hindu pela revogação da divisão de Bengala desmascarou seu nacionalismo de uma só nação. A distinção entre hindus e muçulmanos tornou-se evidente, a amargura mútua aumentou progressivamente e, por fim, assumiu a forma de conflitos comunitários. Desde o drama trágico de Plassey até o último quarto do século XIX, durante a opressão dos muçulmanos pelos ingleses, os hindus eram submissos servos e favoritos dos ingleses. Os muçulmanos, por outro lado, eram considerados por eles indignos de confiança e inimigos. Mas, quando a divisão de Bengala, as eleições separadas e outras medidas levaram os hindus a acreditar que a atitude britânica em relação aos muçulmanos havia mudado e que os britânicos se tornaram simpáticos a eles, a ira dos hindus também se voltou contra seus senhores britânicos. Então começou o terrorismo contra os britânicos.

O rei Jorge V e a rainha Maria vieram à Índia em 1911. Por ocasião de sua chegada, realizou-se em Deli um durbar grandioso e suntuoso. Ao final do durbar, o rei deixou todos atônitos ao anunciar que a capital da Índia seria transferida de Calcutá para Deli. O anúncio seguinte foi ainda mais surpreendente e inesperado. Ele anunciou que a divisão de Bengala havia sido revogada. Isso foi uma extrema traição aos muçulmanos, e a oposição aos britânicos entre eles se intensificou.

Por outro lado, os hindus explodiram de júbilo com a revogação da divisão de Bengala. Como consequência, por um lado, as diferenças e a distância ideológicas e políticas entre hindus e muçulmanos continuaram a aumentar; por outro, também cresceu a oposição dos muçulmanos aos britânicos. Entre os três objetivos da Liga Muçulmana, o primeiro mencionava a criação de lealdade aos britânicos. Porém, o segundo anúncio do rei Jorge V conduziu seu pensamento por uma direção diferente. Na sessão da Liga Muçulmana realizada em 1912, foi aprovada uma proposta para ampliar os objetivos da organização, em consonância com o crescente descontentamento dos muçulmanos. Era uma proposta extremamente importante. Essa proposta modificada estabeleceu diante da Liga o objetivo firme de alcançar a liberdade completa. Como resultado, a atenção também da classe média muçulmana se voltou para esse objetivo.

É digno de nota que Muhammad Ali Jinnah participou da referida sessão da Liga. Contudo, ainda não se percebia nele qualquer entusiasmo pela organização da Liga. A razão de sua falta de interesse pela Liga era que, até então, ele tinha a impressão de que a política da Liga era centrada nas comunidades. Era um membro extremamente entusiasta do Congresso e acreditava na unidade entre hindus e muçulmanos. Recebeu sua iniciação na política de Gopal Krishna Gokhale. Gokhale comentou: “Jinnah tem capacidade para ser o embaixador da unidade hindu-muçulmana”.

Como não considerava que tornar-se formalmente membro da Liga fosse incompatível com continuar sendo membro do Congresso, tornou-se membro da Liga. Seu desejo mais ardente era que, sendo membro da Liga e do Congresso, tentasse unir hindus e muçulmanos. E ele também fez esforços incansáveis. Contudo, em seus esforços incessantes pela união, percebeu que, longe de haver união entre hindus e muçulmanos, sua distinção se tornava evidente por meio dos conflitos comunitários. Seus objetivos e metas políticas eram diferentes, e suas linhas de ação também fluíam por canais distintos.

Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, em 1914, tanto o Congresso quanto a Liga Muçulmana ajudaram os britânicos. Nesse período, os esforços para promover a união entre hindus e muçulmanos se intensificaram bastante. Em 1916, foi celebrado o Pacto de Lucknow por um comitê conjunto do Congresso e da Liga. Esse pacto teve dois resultados. Primeiro, marcou o precedente da posterior união entre o Congresso e a Liga durante o movimento do Khilafat. Segundo, por meio desse pacto, o Congresso Nacional Indiano, porta-estandarte do nacionalismo unitário, reconheceu a existência e a importância política da Liga. O Congresso reconheceu a existência e a importância dos conselhos legislativos indianos. O Congresso concordou em conceder aos muçulmanos 40% das cadeiras em Bengala, 50% no Punjab, 25% em Bihar e 30% nas Províncias Unidas; ao aceitar também o sistema eleitoral separado, reconheceu a especificidade muçulmana.

Entretanto, começou uma forte oposição hindu ao Pacto de Lucknow, e tumultos comunitários também eclodiram em várias regiões da Índia.

Observou-se várias vezes que, sempre que se tentou promover a união entre hindus e muçulmanos com base em algum princípio, o grupo majoritário iniciou tumultos comunitários e fez fracassar a tentativa de união.

Três acontecimentos desse período ganharam notoriedade na história: o movimento do Khilafat, a revolta de Mopla e o movimento da Hégira. Considero necessário também descrever seu contexto.

Na Primeira Guerra Mundial, o Congresso e a Liga Muçulmana cooperaram plenamente com os britânicos. Em troca dessa cooperação, esperavam que o governo britânico aceitasse suas reivindicações mínimas. Em 1917, a declaração lida na Câmara dos Comuns pelo então Secretário de Estado continha a promessa do estabelecimento gradual de um governo responsável no subcontinente indiano. Contudo, o plano de reformas Montagu-Chelmsford, anunciado em 1919, era extremamente insuficiente diante das reivindicações analisadas no Pacto de Lucknow. Outra lei promulgada naquele ano, conhecida como Lei Rowlatt, deixou os indianos atônitos e indignados. Essa lei concedia ao governo o poder de tomar medidas rigorosas contra os opositores do Estado sem o parecer de um júri. Ninguém mais teve dúvidas de que ela fora aprovada justamente para reprimir qualquer movimento na Índia. Essa foi a recompensa oferecida aos indianos por seu apoio irrestrito durante a guerra. A lei foi aprovada em 18 de março, e Gandhi convocou uma greve geral em todo o país para 30 de março, em protesto. Durante a greve, houve confrontos violentos no Punjab. Como consequência, ocorreu um massacre brutal em Jallianwala Bagh. O general Dyer disparou cruelmente 1.650 tiros, matando 379 pessoas e ferindo 1.137, acrescentando um capítulo extremamente vergonhoso ao domínio britânico neste país.

O movimento do Khilafat

O movimento do Khilafat estava ligado a esses acontecimentos. Contudo, é preciso acrescentar algumas observações sobre o assunto. Os muçulmanos indianos haviam perdido o poder de governar este país e passavam os dias em sofrimento e orgulho ferido. Procuraram encontrar algum consolo para essa dor apoiando-se no sultão da Turquia. A Turquia não era apenas um Estado muçulmano; o sultão turco era considerado o califa do mundo muçulmano e um símbolo da unidade desse mundo. Naturalmente, enquanto o Império Mogol na Índia era poderoso, essa posição não era concedida ao sultão da Turquia. Mais tarde, porém, a consciência pan-islâmica entre os muçulmanos adotou a Turquia como símbolo da unidade muçulmana. Na Primeira Guerra Mundial, a Turquia juntou-se ao lado que se opunha aos britânicos. Os muçulmanos indianos esperavam que, devido ao seu apoio irrestrito aos britânicos, a Turquia fosse poupada de qualquer tipo de punição. Lloyd George também havia dado garantias nesse sentido. Mas o objetivo britânico era destruir o símbolo da unidade do mundo muçulmano. Para isso, Lawrence foi enviado como propagandista do venenoso credo do nacionalismo árabe entre os árabes. Influenciado pela propaganda de Lawrence, o xerife de Meca, Sharif Hussein Hachemita, sob o pretexto da “independência nacional dos árabes”, ignorou a unidade do mundo muçulmano, iniciou uma guerra contra os próprios muçulmanos e, assim, apunhalou a Turquia pelas costas. O objetivo britânico era destruir, por meio do veneno do nacionalismo regional estreito baseado na raça, o sultanato turco e, portanto, o símbolo da unidade do mundo muçulmano; e esse objetivo foi alcançado. As Potências Aliadas venceram a Primeira Guerra Mundial e, assim que triunfaram, dividiram o vasto Império Turco por meio de um tratado secreto, repartindo-o como um bolo. Em maio de 1919, restou na capital otomana apenas um sultão sem poder real. Todo o território, da Argélia ao Bahrein, foi fragmentado e distribuído entre a França, a Grécia e a Grã-Bretanha.

Assim, a fragmentação do Estado otomano provocou intenso descontentamento entre os muçulmanos indianos. Os líderes muçulmanos expressaram sua indignação ao vice-rei da Índia. Uma delegação de líderes, entre os quais Maulana Muhammad Ali Jauhar e Sayyid Sulaiman Nadwi, foi a Londres e apresentou sua posição às autoridades britânicas. Em resposta, declarou-se que, exceto o território da própria Turquia, as demais regiões não poderiam ser devolvidas à Turquia. Por isso, teve início na Índia um intenso movimento do Khilafat para a restauração do Califado na Turquia.

Na Índia, foi formado um poderoso Comitê do Khilafat. As dores e sofrimentos acumulados pelos muçulmanos ao longo de um século e meio, tendo a crise do Khilafat diante de si, fizeram arder intensamente as chamas de uma enorme agitação. Maulana Muhammad Ali Jauhar foi o pioneiro do despertar da consciência muçulmana. Ele era o visionário que sonhava estabelecer “um Islã livre numa Índia livre”. Por meio de um jornal inglês chamado Comrade, empenhava-se em promover um novo despertar entre os muçulmanos. Ele declarou que responder ao chamado do movimento do Khilafat era um dever obrigatório de todo muçulmano.

O Congresso e a Jamiat Ulama-e-Hind, apoiada pelo Congresso, manifestaram seu apoio irrestrito ao movimento do Khilafat. Em 10 de agosto de 1919, foi convocada a celebração do Dia do Khilafat em todo o país. Em toda parte, por meio de greves gerais, manifestações e assembleias, começou uma agitação sem precedentes e irresistível. No prazo de um mês, vinte mil muçulmanos se apresentaram para serem presos. Nos mercados e campos, nas cidades e portos, nas aldeias e no interior, só se falava do movimento do Khilafat e da disposição de fazer qualquer sacrifício e oferecer qualquer dádiva por sua causa.

Em novembro, começou em Délhi a sessão do Comitê do Khilafat. O Sr. Gandhi participou dela. Em seu discurso, aconselhou a adoção da política de “não cooperação” com o governo britânico.

Na conferência do Comitê do Khilafat realizada em maio de 1920, foi tomada a decisão de empreender o “Movimento de Não Cooperação” (Non-Cooperation Movement). Por meio do Movimento de Não Cooperação, os protestos contra os britânicos foram se intensificando.

Em 1922, frequentei pela primeira vez uma escola numa aldeia remota de Bangladesh. Tanto quanto me lembro, na minha infância vi estudantes e professores, camponeses e trabalhadores, pessoas humildes e distintas, e toda a população firme e inabalável em sua determinação de restabelecer o Khilafat. Todos estavam sempre prontos a aceitar qualquer sacrifício e a dar a vida com um sorriso no rosto.

Mas, apesar de tudo isso, esse vigoroso movimento do Khilafat enfrentou uma morte prematura. Kemal Atatürk, da Turquia, reconquistou muitos territórios das mãos dos ingleses com imensa coragem e bravura. Unificou o povo turco e devolveu à Turquia sua posição de glória. Contudo, assim que chegou ao poder, em novembro de 1922, depôs o sultão Muhammad Hashim e, em março de 1924, exilou do país o último califa da Turquia, o sultão Abdul Majid, uma figura de fachada, como um boneco de madeira, abolindo o Khilafat. Na Índia, o movimento do Khilafat terminou em fracasso. O desânimo abateu-se sobre os muçulmanos. O Dr. Moinul Haque diz: “A medida de Kemal Atatürk desferiu um golpe extremo no coração dos muçulmanos ligados ao movimento do Khilafat no subcontinente indiano. Quem mais sofreu esse golpe foi Maulana Muhammad Ali, pois ele próprio era a fonte e o centro vital desse movimento. Sharif Hussein, que era subserviente aos britânicos e que, por suas atividades, se tornara impopular no mundo muçulmano, declarou-se então pretendente ao Khilafat. Nesse assunto, os britânicos não lhe prestaram qualquer ajuda. Por outro lado, ele também não teve forças para impedir a campanha do líder wahhabi Ibn Saud. Assim que o ano terminou, Ibn Saud lançou uma campanha contra Meca e Taife, tomou-as e, desse modo, estendeu seu domínio sobre a maior parte da região do Hedjaz”.

-(Dr. Moyenal Huq, History of Freedom Movement, Vol. 3, Parte 1; Abul Afak – uma vida, uma linha de pensamento, um movimento – (obra em urdu), p. 69)

Movimento da Hégira

Durante o movimento do Califado, começou na Índia o movimento da Hégira. Maulana Abul Kalam Azad iniciou o movimento da Hégira após ser libertado da prisão de Ranchi. Os ulemás emitiram uma fatwa declarando que a Índia era Dar al-Harb e que se devia fazer a Hégira daqui para algum Dar al-Islam. O xá do Afeganistão, o emir Amanullah Khan, declarou em uma assembleia pública: “Os muçulmanos indianos podem certamente fazer a Hégira e vir para o nosso país”. Aceitando cegamente a proposta de Maulana Azad, os muçulmanos decidiram firmemente fazer a Hégira. Foi estabelecido em Délhi um Comitê da Hégira e, como de costume, abriu-se um escritório. Como consequência desse movimento, cujo inspirador era o próprio Maulana Abdul Kalam Azad, milhares de muçulmanos venderam tudo o que possuíam e partiram rumo ao Afeganistão. Somente em agosto de 1920, dezoito mil pessoas fizeram a Hégira e partiram. Entre quinhentos mil e dois milhões de muçulmanos ficaram desabrigados em consequência desse movimento, e seu destino foi uma miséria indescritível.

Contudo, a base desse movimento era simplesmente um impulso irrefletido. Lançaram-se a ele sem qualquer plano bem pensado e sem examinar ou avaliar as consequências da Hégira.

Ali Sufian Afaki diz: “Maulana Maududi e seu irmão decidiram fazer a Hégira. O secretário do Comitê da Hégira, Sr. Tajammul Husain, era parente deles. Ele incentivou os dois irmãos a fazer a Hégira. Mas, durante a discussão, soube-se que o Comitê da Hégira não tinha nenhum plano adequado para isso. Embora grupos de pessoas tivessem partido para o Afeganistão, nada havia sido discutido a esse respeito com o governo afegão. Mufti Kifayatullah e Maulana Ahmad Said estavam na vanguarda dessa questão. O senhor Maududi encontrou-se com os dois e apontou as falhas e deficiências de um movimento sem planejamento. Depois que eles reconheceram as falhas, pediram ao senhor Maududi que elaborasse um plano. O senhor Maududi disse que, antes de tudo, era preciso saber junto ao governo afegão se este estava disposto a reassentar os que fizessem a Hégira a partir do Hindustão e qual seria o método de reassentamento. Conversou-se com o embaixador afegão. Ele disse: ‘Atualmente, seu governo se encontra em uma situação muito difícil. Embora o governo naturalmente hesite em mandar de volta aqueles que foram para o Afeganistão, ainda assim está além de sua capacidade arcar com esse fardo’. Assim, a questão da Hégira terminou ali”.

— (Abul Afak: Uma vida, um pensamento, um movimento, pp. 77–78).

Assim, o poderoso ímpeto do movimento do Califado e do movimento da Hégira na Índia subitamente cessou, e ambos os movimentos fracassaram. Os muçulmanos indianos não foram de modo algum responsáveis por esse fracasso. A responsabilidade por esse fracasso cabia à Turquia. Kemal Paxá não apenas aboliu o Califado; dois anos depois, também enviou o califa para o exílio. A chama ardente que se acendera na Índia por ocasião do movimento do Califado e aterrorizara o governo indiano extinguiu-se, em grande medida, em meio a uma névoa, despedaçando as esperanças e o entusiasmo dos muçulmanos.

A tentativa de unidade entre hindus e muçulmanos que se desenvolvia por meio desse movimento também fracassou juntamente com o fracasso do movimento. Recomeçaram os conflitos sangrentos entre hindus e muçulmanos. Fosse ou não sincera a colaboração de Gandhi com o movimento do Califado, muitos membros hindus do Congresso não conseguiram apoiá-lo de todo o coração. Muitos deles se perguntavam: que benefício obteriam com o restabelecimento do Califado pelos muçulmanos? Assim, embora o movimento do Califado tivesse reprimido por algum tempo a tendência aos conflitos comunais entre eles, após o fracasso do movimento essa tendência voltou a levantar a cabeça. Eles deram início a tumultos sob o pretexto de tocar música à força diante das mesquitas, e esses tumultos assumiram a forma de confrontos sangrentos e começaram a se espalhar por toda parte. A diferença entre as comunidades tornou-se cada vez mais evidente. Sempre que os muçulmanos, negligenciados e atrasados durante o século e meio anterior, procuravam obter alguma oportunidade ou facilidade na vida, tornava-se inevitável um conflito com a comunidade majoritária e mais poderosa. Nessa época, os zamindares hindus de Bengala e os comerciantes do Punjab começaram a infligir extrema opressão aos seus súditos e devedores muçulmanos. A agitação que os movimentos do Califado e de Não Cooperação haviam despertado nos corações das pessoas como impulso para expressar seu descontentamento, depois que ambos os movimentos foram interrompidos, encontrou expressão nos conflitos comunais.

A revolta dos Moplahs

A revolta dos Moplahs daquela época estava ligada ao movimento do Califado. Na repressão dessa revolta dos Moplahs, por um lado, veio à luz o aspecto violento dos governantes ingleses; por outro, também se manifestou a atitude hostil dos hindus para com os muçulmanos.

No início da obra, foi apresentada alguma informação sobre os Moplás. Eram habitantes muçulmanos da região de Malabar, no sul da Índia, e afirmavam ser descendentes de comerciantes árabes. Eram extremamente corajosos e devotos. Por terem sido explorados e oprimidos pelos ingleses, rebelaram-se contra os britânicos em 1873, 1885, 1894 e 1896. Como consequência, foram repetidamente perseguidos pelos britânicos. A agricultura e a pesca eram seus principais meios de subsistência. Eram atrasados em matéria de educação, e os zamindares hindus, agiotas e tahsildares os submetiam a extrema opressão e tortura. Mesmo depois de apresentarem petições e súplicas aos governantes britânicos, não obtiveram resultado algum. Portanto, sua história de perseguição era antiga. Durante gerações, foram definhando sob a opressão dos zamindares e agiotas britânicos e hindus. Então, no final da segunda década do século XX, começaram na Índia o movimento Khilafat e o movimento de não cooperação. A onda desses movimentos também chegou a Malabar. Como já foi dito, os Moplás eram independentes, corajosos e devotos. Acreditando que a restauração do Khilafat islâmico e, com ela, a conquista da independência da Índia poriam fim à opressão que sofriam havia muito tempo, também aderiram ao movimento Khilafat e ao movimento de não cooperação com grande entusiasmo e fervor. Logo depois, começaram seus confrontos com os governantes. A população hindu vizinha ajudou de todas as formas a classe dominante em sua tarefa de reprimi-los. Assim, os Moplás tiveram de lutar simultaneamente contra o grupo governante e contra a comunidade hindu.

Não há palavras para descrever a história horripilante e dolorosa da barbárie e da crueldade demonstradas pelo governo britânico ao reprimir os Moplás. Durante a campanha de opressão e perseguição contra eles, o governo proibiu em todo o Malabar a realização de reuniões públicas, a entrada de notícias e jornais vindos de fora e o envio, de Malabar para o exterior, sem censura, de notícias, telegramas e cartas. Malabar foi mantido atrás de uma cortina de ferro. Ainda assim, caso de algum modo a história da perseguição contra eles viesse a público e as pessoas do mundo exterior, especialmente os muçulmanos, passassem a simpatizar com eles, setores interessados iniciavam uma intensa propaganda contra os próprios Moplás. Essas propagandas eram infundadas, fabricadas e fruto da imaginação. Em 1922, foram publicados por hindus dois panfletos, um em Saharanpur e outro em Amritsar.

No panfleto intitulado ‘Dastan-e Zulm’, publicado em Amritsar, tentou-se incitar a comunidade hindu contra os muçulmanos por meio do relato de histórias de atrocidades indescritíveis supostamente cometidas pelos Moplás contra os hindus. Os Moplás foram acusados de assassinato, pilhagem, incêndio criminoso, rapto de mulheres hindus, conversão forçada ao Islã, entre outras coisas. O relato dizia que, se a vítima da opressão fosse um homem hindu, primeiro ele seria banhado, depois teria o cabelo cortado à maneira muçulmana; em seguida, seria levado à mesquita e obrigado a recitar a kalima, circuncidado e vestido com roupas muçulmanas. Se fosse uma mulher, apenas lhe vestiriam um traje colorido típico dos Moplás e colocariam nela um tipo de brinco.

O panfleto ‘A sangrenta história de Malabar’, publicado em Saharanpur, afirmava que os Moplás convidavam os hindus vizinhos a aderir ao movimento Khilafat. Se aceitassem, tudo bem; caso contrário, os que recusassem eram trancados nas casas dos Moplás e forçados a comer carne bovina. Depois, seus parentes eram mortos diante deles. Se ainda assim não consentissem, eram assassinados, seus cadáveres esquartejados eram lançados em algum poço e suas casas eram incendiadas.

Enquanto, por um lado, prosseguiam os esforços pela união entre hindus e muçulmanos e, mediante o esforço conjunto de ambos, por meio do movimento Khilafat e do movimento de não cooperação, trabalhava-se para criar na Índia a disposição e a consciência necessárias ao movimento de independência, por outro lado, não apenas se incitava a comunidade hindu contra os muçulmanos para afastá-la do movimento Khilafat e do movimento de não cooperação, como também se faziam apelos, em todo o país, ao massacre em massa dos muçulmanos. Para certa classe de pessoas, o extermínio dos muçulmanos era mais desejável do que a conquista da independência. Assim, disseminaram histórias fictícias e envenenaram o ambiente comunitário, fazendo com que tumultos e conflitos eclodissem em toda a Índia sob uma nova forma.

Essa propaganda perniciosa não passou despercebida aos muçulmanos que participavam do movimento Khilafat. O Comitê Central do Khilafat enviou uma comissão para coletar informações corretas sobre os Moplás, e, no relatório apresentado, os funcionários do governo local foram considerados os principais e primeiros responsáveis pela revolta dos Moplás. A comissão afirmou que a situação era completamente normal e tranquila e que não havia qualquer sinal de revolta. Assim como os muçulmanos de outras regiões da Índia, os muçulmanos Moplás aderiram ao movimento Khilafat, e o governo local empenhou-se em reprimi-lo com mão de ferro. A brutalidade policial obrigou-os a se rebelar. O confronto começou da seguinte maneira: a polícia prendeu o secretário do comitê local do Khilafat e amarrou-o a uma árvore. Depois, sua esposa foi levada à sua frente e despida, enquanto ele permanecia olhando para ela, impotente. Um policial deu-lhe bofetadas. Em seguida, outro ativista do Khilafat foi acusado, sob uma alegação inventada, de fabricar armas. Por fim, a polícia atacou as casas dos Moplás, saqueou todos os seus pertences e, em alguns lugares, submeteu os moradores a torturas brutais. Sem se deter sequer diante disso, abriu fogo indiscriminadamente contra os Moplás. Os Moplás eram, por natureza, independentes, corajosos e guerreiros valentes. Quando foram submetidos a uma opressão tão cruel, resistiram à polícia com determinação de lutar até a morte e, por fim, decidiram firmemente prosseguir a luta. No conflito que então começou, a força combinada da polícia e dos magistrados foi derrotada e expulsa de seus postos. Eles fugiram, abandonando muitas armas. Depois disso, a situação ficou completamente sob o controle dos Moplás. Até então, suas relações com os hindus eram boas. Em meio à situação tensa, os Moplás protegeram a vida e os bens dos hindus. Em agosto de 1921, os Moplás proclamaram formalmente a independência. Dentro de uma semana do início da revolta, tomaram do governo britânico dois grandes taluks, Ernad e Valluvanad, e ali estabeleceram um Estado Khilafat independente.

Duas semanas depois, o governo britânico enviou a Malabar centenas de soldados, tanques de vários tamanhos, canhões, bombas, várias canhoneiras e navios de guerra, criando uma situação como se tivesse começado uma grande guerra contra uma potência imensa. Durante os primeiros combates, assim como alguns policiais, alguns zamindares e agiotas opressores perderam a vida sob a ira furiosa do povo. O governo britânico deu a isso um caráter comunitário e instigou os hindus contra os Moplás. Então, a população hindu, os zamindares e os agiotas avançaram com o apoio dos soldados e da polícia. A maioria dos hindus começou a espionar os Moplás e a entregá-los injustamente às autoridades. Consequentemente, os Moplás tiveram de lançar-se à luta contra britânicos e hindus. Mas por quanto tempo poderiam os desafortunados Moplás lutar contra um enorme exército britânico bem organizado? Centenas de voluntários da Arya Samaj foram da Índia a Malabar sob o pretexto de distribuir ajuda e passaram a auxiliar de várias maneiras a polícia e os soldados.

Os Moplas prosseguiram durante um mês sua luta contra os britânicos e os hindus com coragem ilimitada. O governo bombardeou indiscriminadamente as áreas dos Moplas a partir do ar, de navios de guerra e com canhões, causando a morte de quase dez mil homens, mulheres e crianças, e transformando suas casas, lojas e campos em ruínas. Em seguida, com o auxílio da população hindu, começaram prisões em massa, torturas demoníacas e perseguições. Um acontecimento serve de prova da crueldade e da barbárie do governo. Cerca de cem destacados líderes Mopla foram presos, amontoados num trem de carga e enviados, com as portas fechadas, para Calicute. Quando as portas foram abertas no destino, constatou-se que sessenta haviam morrido e que os restantes estavam agonizando. Nem mesmo aos corpos dos mortos foi prestada qualquer honra; um tratamento tão demoníaco e brutal de seres humanos por seres humanos não pode ser encontrado, muito menos na era da verdade, nem mesmo na história da era primitiva.

Começou o julgamento daqueles que haviam sobrevivido às atrocidades e perseguições da polícia e dos soldados do governo britânico. Cerca de vinte mil homens, mulheres e crianças Mopla foram presos. Mesmo nas prisões, foram submetidos a torturas desumanas. O governo criou tribunais especiais para julgá-los. Como não se permitiu que nenhum advogado de fora entrasse em Malabar, os desafortunados Moplas não tiveram sequer a oportunidade de se defender. Durante os julgamentos, começou, casa após casa dos acusados sob julgamento, o clamor pela falta de alimento e roupas. Muitos homens, mulheres e crianças morreram de fome. Nesse período, os céus e o ar de Malabar ressoavam com os lamentos e os prantos dolorosos dos oprimidos. Cerca de mil pessoas foram condenadas à morte. O número de Moplas condenados à prisão perpétua, a trabalhos forçados de longa duração ou deportados para ilhas ultrapassou dois mil. Apenas um número muito pequeno de Moplas foi absolvido. Cerca de oito mil Moplas receberam penas de cinco a dez anos de trabalhos forçados. Entre os restantes, ninguém recebeu pena inferior a seis meses de prisão. Quase todos os imames das mesquitas das áreas afetadas foram acusados de sedição. Assim, as próprias mesquitas também foram levadas à beira da destruição. Depois de os Moplas condenados terem suportado, durante vários anos, sofrimentos indescritíveis no exílio, o governo permitiu que suas famílias fossem para Andamão e vivessem com eles. Desse modo, o governo britânico obteve satisfação ao quase expulsar completamente os Moplas de Malabar.

Na história do movimento do Califado e do movimento de Não Cooperação na Índia, o relato das atrocidades e perseguições infligidas aos Moplas pelo governo britânico é o mais doloroso e comovente. Gandhi e o Congresso mantiveram uma atitude de completo silêncio a esse respeito.

Naquela época, em meio à poderosa inundação do movimento do Califado e do movimento de Não Cooperação, os muçulmanos encontravam-se como mortos-vivos, e a voz débil deles não chegou aos ouvidos do governo britânico. Com grande dificuldade, somente o Comitê do Califado conseguiu prestar alguma ajuda aos Moplas indefesos. Caso contrário, muitos outros homens, mulheres e crianças Mopla teriam caído prematuramente nos braços da morte. O comportamento do Congresso para com os Moplas causou dor a muitos de seus membros muçulmanos; o Congresso adotou o silêncio justamente porque contava com o apoio do Congresso.

Ao se examinar a história da Índia dos últimos séculos, colocando lado a lado o governo britânico, os hindus e os muçulmanos, torna-se claramente evidente que, neste subcontinente, os britânicos e a comunidade hindu não deixaram de desempenhar, sob nenhum aspecto, seus papéis como arqui-inimigos dos muçulmanos. Seu único objetivo era eliminar a nação muçulmana deste subcontinente. Esse fato se tornará ainda mais claro na discussão da história posterior.

(Consultar Muslim Separatism in India, de Abdul Hamid, e Nossa luta pela libertação, de Muhammad Waliullah.)

A repressão da revolta dos Moplas com extrema brutalidade, o fracasso do movimento do Califado e do movimento de Não Cooperação e a completa indiferença do Congresso e de Gandhi para com os Moplas voltaram a criar uma fissura nas relações entre hindus e muçulmanos. Em 1924, o Dr. Mahmud, enviado pelo Sr. Gandhi, coletou informações junto à comunidade hindu de Malabar e apresentou a Gandhi um relatório no qual se dizia que as acusações contra os Moplas eram infundadas. A acusação de que haviam convertido hindus ao islamismo à força era completamente falsa e sem fundamento. Em resposta, Gandhi disse: “Ninguém conhece a verdade real”.

-(Tha Indian Quarterly Register, 1942, Vol. 1, nº 2, p. 645; Muslim Separatism in India, A. Hamid, p. 160)

A afirmação acima de Gandhi demonstra precisamente que ele não acredita em nada do que dizem os muçulmanos e está disposto a aceitar tudo o que diga um hindu como se fosse uma palavra dos Vedas.

O que aconteceu depois desses acontecimentos dolorosos foi ainda mais doloroso. Em setembro de 1922, em Multan, os hindus atacaram os muçulmanos por ocasião da Muharram. No ano seguinte, a situação se agravou ao extremo em Saharanpur, de onde, no ano anterior, se vinha atiçando o fogo comunal hindu mediante a distribuição do panfleto intitulado “A História Sangrenta de Malabar”. Nesse conflito comunal de Saharanpur, 300 pessoas foram mortas, a maioria delas muçulmanas. Em 1924, ocorreram dezoito motins em diferentes lugares. Esses conflitos comunais espalharam-se rapidamente até Bihar e Bengala, assumindo grandes proporções até 1926.

Ataques cuidadosamente planejados contra o Islã e os muçulmanos

A Liga Muçulmana Indiana vinha perdendo gradualmente sua popularidade. Durante o movimento do Califado e o movimento de Não Cooperação, já havia ficado para trás em termos de popularidade. Em todo o país, durante os motins comunais entre hindus e muçulmanos, ela não conseguia fazer frente aos hindus apoiados pela polícia. Consequentemente, estava além de suas possibilidades prestar ajuda significativa aos muçulmanos durante os tumultos. Enquanto isso, como muitos membros do Congresso, que professavam a não violência e confiavam na harmonia comunal, continuavam incitando motins e tumultos, o Congresso também se tornou objeto de ódio aos olhos dos muçulmanos. Na esperança da harmonia comunal, os muçulmanos demonstraram uma generosidade excessiva, chegando a violar os princípios tradicionais do Islã. Eles permitiram que Swami Shraddhanand, líder da Arya Samaj, proferisse um discurso do sagrado púlpito da Mesquita Jama de Délhi. A generosidade sem precedentes que os muçulmanos demonstraram para com ele e, por meio dele, para com a sociedade hindu, violando a santidade da mesquita, foi retribuída por Swami Shraddhanand de tal maneira que permaneceu como um exemplo incomparável na história da traição.

É digno de nota que esse líder da Arya Samaj também era um membro proeminente do Congresso e fora preso por participar do movimento de Não Cooperação. Enquanto estava na prisão de Lahore, manteve consultas secretas com um alto funcionário inglês do Punjab e foi libertado antes do término de sua pena. Assim que saiu da prisão, seu objetivo era converter os muçulmanos ao hinduísmo e transformá-los em uma nova casta inferior de intocáveis. Desse modo, empenhou-se em rebaixar a comunidade muçulmana ao nível de uma casta impura. Em Gurgaon, Alwar, Bharatpur e outros lugares, grande número de muçulmanos analfabetos começou a ser convertido por meio de diversos atrativos e ameaças. Antes da conversão, os muçulmanos eram obrigados a beber água misturada com esterco de vaca e a lavar-se dos pés à cabeça, banhando-se nessa água. Assim, a conversão forçada desses muçulmanos inocentes e analfabetos ao hinduísmo prosseguiu com todo o vigor.

O governo britânico jamais nutriu qualquer respeito pelos muçulmanos ou por sua religião. Caso contrário, poderia facilmente ter posto fim a essa perseguição religiosa, se assim desejasse. Mas permaneceu em completo silêncio. Essa atividade perniciosa dos membros da Arya Samaj — provavelmente instigada por alguns poderosos funcionários britânicos — deixou os muçulmanos tão indignados e exaltados que um certo Abdul Rashid pôs fim a essa atividade perniciosa ao assassinar Shraddhanand em plena luz do dia. Quando esse Abdul Rashid, de origem desconhecida, foi condenado à morte no julgamento, subiu sorrindo ao cadafalso.

Depois desse acontecimento, o próprio Gandhi começou a fazer publicamente comentários insultuosos contra o Islã. Em reuniões públicas, passou a dizer: “O Islã inicia os seguidores de outras religiões no ensinamento de matar, e os muçulmanos consideram isso um meio de alcançar a salvação na vida futura”.

A afirmação acima de Gandhi deixou a Índia muçulmana consternada e indignada. Em certa ocasião, durante um discurso na Mesquita Jama de Délhi, Maulana Muhammad Ali expressou sua tristeza e disse: “É preciso dar uma resposta contundente à afirmação de Gandhiji, pois com essa afirmação ele está deturpando a pura e grandiosa jihad do Islã”.

Em seguida, Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi elaborou uma obra extremamente racional e fundamentada, intitulada “Al-Jihad fi al-Islam”. Nessa obra, ele apresenta uma discussão detalhada e erudita sobre os princípios fundamentais do Islã, seus objetivos e propósitos, a guerra e a trégua islâmicas, a política e as relações internacionais, entre outros temas, e refuta as concepções equivocadas que Gandhi tentou criar, por meio de suas declarações, acerca do Islã e do jihad islâmico.

Considero que não será descabido levar ao conhecimento dos leitores algumas informações sobre essa obra.

Nos cinco primeiros capítulos dessa vasta obra, é apresentada uma exposição detalhada das leis islâmicas relativas à dignidade do jihad islâmico, à guerra defensiva, à guerra reformadora, à propagação do Islã e à espada, bem como à guerra e à trégua.

O sexto capítulo discute os princípios de guerra das religiões hindu, budista, judaica e cristã.

O sétimo capítulo trata da guerra e da trégua conduzidas sob a civilização atual. Pode-se afirmar sem hesitação que, até hoje, ninguém escreveu, em nenhuma língua do mundo, uma obra tão informativa, racional e fundamentada sobre esse tema.

Essa honra foi concedida por Allah, o Altíssimo, exclusivamente a Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi.

Allama Iqbal teceu elevados elogios à obra. A obra foi traduzida para a língua bengali e tem 592 páginas.

Movimento de Organização

O líder do ‘Movimento Sangathan’, Lala Hardayal, declarou publicamente que os muçulmanos teriam de se converter ao hinduísmo ou então arrumar seus pertences e deixar a Índia.

Em 1925, um líder hindu chamado Satyadev declarou: “Sendo nós poderosos como maioria, apresentaremos aos muçulmanos as seguintes condições:

“Não será permitido considerar o Alcorão um livro divino, nem reconhecer Muhammad como profeta. Deverão abandonar as festividades muçulmanas e celebrar as festividades hindus. Deverão abandonar os nomes muçulmanos e adotar nomes como Ramdid, Krishnakhan e outros. Deverão realizar o culto em hindi, em vez de árabe”.

— (Uma História do Movimento pela Liberdade: a opinião pública muçulmana bengali refletida na imprensa bengali — 1901–1930, Mustafa Nurul Islam.)

Na mesma época do movimento de purificação Shuddhi do Arya Samaj, o Dr. Moonje e Bhai Parmanand, por meio do movimento Sangathan, incitaram os hindus contra os muçulmanos. Como resultado, eclodiram conflitos comunitários sangrentos em diversos lugares. Quando a situação se encaminhou para uma deterioração extrema, o Dr. Saifuddin Kitchlu também entrou em campo, juntamente com o movimento. Graças aos esforços incansáveis deles, o ímpeto devastador dos movimentos Shuddhi e Sangathan foi parcialmente contido.

Contudo, a chama do sectarismo de modo algum se extinguiu no coração dos hindus. Um certo Rajpal, membro do Arya Samaj em Lahore, voltou a atiçar o fogo do ódio aos muçulmanos. Publicou um livro intitulado ‘Rangila Rasul’, no qual eram atribuídas calúnias vis e abjetas ao caráter do Profeta de todo o mundo, Muhammad Mustafa. Com isso, os sentimentos religiosos dos muçulmanos foram profundamente feridos. Então, um muçulmano chamado Ilmuddin matou Rajpal e dirigiu-se sorridente ao cadafalso.

Reivindicação de autonomia das regiões de população muçulmana

Em vez de diminuir, a intensidade dos tumultos e conflitos comunitários continuou a aumentar progressivamente, assumindo proporções terríveis. Em 1927, Maulana Hasrat Mohani, de Kanpur, apresentou, por meio de uma declaração publicada nos jornais, uma proposta que reivindicava a autonomia das regiões da Índia habitadas predominantemente por muçulmanos. Pode-se dizer que esta foi o primeiro marco orientador do caminho do movimento pelo Paquistão.

Conferência de Todos os Partidos

Enquanto isso, Maulana Muhammad Ali, Sr. Muhammad Ali Jinnah, Maulana Abul Kalam Azad, Hakim Ajmal Khan, Sra. Sarojini Naidu, Raja Gopalacharia, Dr. Ansari e outros líderes empenhavam-se incansavelmente para restabelecer a harmonia comunitária, mas não conseguiam encontrar nenhum meio de impedir os tumultos. Finalmente, às vésperas da sessão do Congresso que seria realizada em Calcutá, em 1928, foi convocada uma Conferência de Todos os Partidos. Líderes proeminentes hindus, muçulmanos e siques da Índia participaram da conferência. O presidente cessante do Congresso, Dr. Mukhtar Ahmad Ansari, presidiu a conferência. Contudo, devido à obstinação dos hindus extremistas, a conferência acabou fracassando.

Com o objetivo de estabelecer a harmonia comunitária, os muçulmanos mostraram-se dispostos a ceder aos não muçulmanos alguns dos assentos que lhes cabiam nas assembleias legislativas das províncias onde constituíam maioria absoluta e, em troca, reivindicaram no Legislativo Central três por cento de assentos a mais do que sua cota justa. Tratava-se da reivindicação de obter um pequeno ganho no centro mediante a cessão de um número maior de assentos. Contudo, a maioria dos líderes hindus e siques da conferência opôs-se veementemente a essa proposta e manifestou sua discordância com extrema firmeza. Os repetidos apelos do Sr. Muhammad Ali Jinnah para que se demonstrasse um pouco de generosidade em troca da maior generosidade por parte dos muçulmanos fracassaram. Assim, a Conferência de Todos os Partidos terminou em completo fracasso, sem chegar a nenhuma decisão.

Os históricos Quatorze Pontos de Muhammad Ali Jinnah

O Sr. Muhammad Ali Jinnah foi inicialmente um membro extremamente entusiasta e dedicado do Congresso, e era o embaixador da união hindu-muçulmana. Contudo, seus esforços de longa data pela união fracassaram. Ele ficou profundamente angustiado com a conduta dos membros hindus do Congresso e com sua política hostil para com os muçulmanos. Posteriormente, na sessão do Congresso em Nagpur, em dezembro de 1921, rompeu sua longa relação com o Congresso. Entretanto, até a Conferência de Todos os Partidos realizada em 1928, absteve-se de opor-se publicamente ao Congresso. Ao observar a atitude hostil dos hindus e siques nessa conferência, ficou profundamente consternado. Logo depois, na Conferência Muçulmana realizada em Délhi, apresentou suas propostas dos Quatorze Pontos. Entre os aspectos especialmente importantes desses Quatorze Pontos estavam a separação de Sindh de Bombaim e a formação da província de Sindh; a introdução de reformas administrativas no Baluchistão e na Província da Fronteira; a distribuição de assentos nas assembleias legislativas das províncias de maioria muçulmana de acordo com a população; e a introdução de eleições separadas para os muçulmanos na escolha de representantes para as instituições autônomas do país. A partir de então, o Sr. Jinnah (posteriormente Quaid-e-Azam) tornou-se uma voz estridente na oposição ao Congresso. Mais tarde, a maioria dos pontos dos ‘Quatorze Pontos’ foi reconhecida no Comunicado Comunitário (Communal Award) do primeiro-ministro britânico Ramsay MacDonald. Além dos Quatorze Pontos, Orissa e Assam, de maioria hindu, receberam o status de duas províncias separadas.

Comissão Simon

Com o objetivo de determinar a futura política relativa à administração da Índia, ou de sufocar o movimento de independência da Índia, o governo britânico enviou à Índia, em 1928, uma comissão real. O presidente dessa comissão era Sir John Simon. Como nenhum membro indiano foi incluído na comissão, o Congresso, a Liga Muçulmana e outros partidos políticos decidiram boicotá-la. Quando os membros da comissão desembarcaram em Bombaim, foram recebidos com bandeiras negras. De todo modo, a Comissão Simon apresentou em Londres uma recomendação para a realização de uma conferência de mesa-redonda.

Conferência de Mesa-Redonda

De acordo com as recomendações da Comissão Simon, uma Conferência da Mesa-Redonda foi convocada em Londres, em 1930. O Congresso se absteve de participar dessa conferência. Aceitaram o convite líderes como Maulana Muhammad Ali, Sr. Muhammad Ali Jinnah, Sr. A. K. Fazlul Huq, Sir Muhammad Ismail, Aga Khan, Sir Abdul Qaiyum, Sir Abdul Halim Ghaznavi, Sir Hyderi, Sir Muhammad Shafi e Sir Shah Nawaz Bhutto. Ao chegarem a Londres, os membros muçulmanos elegeram Sua Alteza Aga Khan como seu líder.

A conferência durou cerca de dois meses. Maulana Muhammad Ali participou dela com a saúde debilitada e, embora doente, proferiu sentado em seu assento o mais longo de seus discursos, com noventa minutos de duração. O discurso inflamado desse homem ardoroso era, por um lado, uma obra literária de alto nível e, por outro, uma das maiores contribuições para a história do movimento de independência da Índia. Na conferência presidida pelo imperador Jorge V, a linguagem com que criticou severamente o governo britânico era, para ele, a coisa mais querida de toda a sua vida. Em certo momento de seu discurso, disse com voz extremamente emocionada: “Quero voltar à minha pátria levando a essência da independência da Índia. Se vocês não concederem a independência, prefiro morrer em um país livre a voltar para casa”.

Sua declaração sincera foi uma profecia que não tardou a se cumprir literalmente. Ele já não voltou à sua amada terra natal. A Índia não alcançou a independência; alguns dias depois, foi sua vida que chegou ao fim, ali mesmo em Londres.

Maulana Muhammad Ali, depois de ser preso repetidas vezes e passar longos períodos na prisão, ficou completamente debilitado. Sua morte súbita mergulhou milhões de homens e mulheres da Índia em um oceano de luto. Ele faleceu em 4 de janeiro de 1930, e essa notícia dolorosa espalhou-se rapidamente por todo o mundo muçulmano. A sociedade esclarecida de todo o mundo, profundamente comovida, continuou enviando telegramas para prestar sua última homenagem a esse leão da Índia.

Maulana Muhammad Ali, depois de ser preso repetidas vezes e passar longos períodos na prisão, ficou completamente debilitado. Sua morte súbita mergulhou milhões de homens e mulheres da Índia em um oceano de luto. Ele faleceu em 4 de janeiro de 1930, e essa notícia dolorosa espalhou-se rapidamente por todo o mundo muçulmano. A sociedade esclarecida de todo o mundo, profundamente comovida, continuou enviando telegramas para prestar sua última homenagem a esse leão da Índia.

De acordo com o último desejo de Maulana Muhammad Ali, seu corpo não foi levado para a terra da Índia subjugada, mas sepultado no pátio da Mesquita do Califa Omar, situada em Baitul-Muqaddas.

O vazio criado no cenário político da Índia pela morte do patriota, poeta e literato, jornalista e orador Maulana Muhammad Ali Jauhar jamais foi preenchido. Contudo, quando ele foi levado de maca ao navio no porto de Bombaim, durante sua viagem a Londres, muitos disseram com a voz embargada pelas lágrimas: “Quem o substituirá na Índia?”. Ele respondeu: “Entre vocês, está Muhammad Ali Jinnah”. Esse seu último desejo também se realizou. Mais tarde, as esperanças e aspirações dos muçulmanos foram concretizadas pelos esforços incansáveis de Muhammad Ali Jinnah.

A Segunda Conferência da Mesa-Redonda

O Congresso Nacional Indiano havia boicotado a primeira Conferência da Mesa-Redonda. Além disso, o Sr. Gandhi iniciou o movimento de desobediência à lei do sal, causando dificuldades ao governo britânico na Índia. O governo também tentou reprimir severamente os participantes do movimento. Nessas circunstâncias, líderes como Sir Tej Bahadur Sapru, o nababo de Bhopal Hamidullah Khan, Srinivasa Shastri e Shri Jayakar reuniram-se com o Sr. Gandhi para chegar a um acordo com o governo. Nas negociações, abriu-se espaço para um compromisso. Após conversas diretas entre Gandhiji e o vice-rei, o Congresso concordou em participar da segunda Conferência da Mesa-Redonda.

Em agosto de 1931, o Sr. Gandhi viajou a Londres como único representante do Congresso na Conferência da Mesa-Redonda que seria realizada naquele mês. Ao chegar a Londres, soube que o governo estava determinado a considerar a comunidade dos Intocáveis, assim como os muçulmanos, uma comunidade distinta. Gandhi não estava disposto a aceitar isso e, em protesto, retornou à Índia. Gandhi foi lançado na prisão juntamente com os participantes do movimento contra os britânicos.

Após a saída de Gandhi da Conferência da Mesa-Redonda, a reunião prosseguiu durante dois meses, e nela foram formados vários subcomitês. Para considerar os relatórios desses comitês, a terceira sessão da Conferência da Mesa-Redonda foi convocada em agosto do ano seguinte.

Terceira Conferência da Mesa-Redonda

Nas questões relativas ao número de assentos dos muçulmanos nas diversas assembleias legislativas e ao sistema eleitoral, os membros hindus desempenharam seu habitual papel hostil. Tentaram fazer com que a Conferência da Mesa-Redonda fracassasse da mesma maneira que haviam feito fracassar a conferência realizada em Calcutá, em 1928, ao manifestarem uma atitude intransigente. Contudo, sob a competente liderança do Aga Khan, os líderes muçulmanos, especialmente o Sr. Muhammad Ali Jinnah, apresentaram suas reivindicações legítimas com tal competência e argumentação que o governo britânico se mostrou disposto a aceitar a maior parte delas. Além do Aga Khan e do Sr. Muhammad Ali Jinnah, também foi particularmente notável o papel desempenhado por líderes como Sir Muhammad Shafi, Sir Abdul Halim Ghaznavi e Sir Akbar Haidari. Derrotados no debate, líderes como Pandit Madan Mohan Malaviya, Dr. Moonje e Shri Jayakar, após consultarem os demais membros hindus, confiaram ao então primeiro-ministro britânico, Ramsay MacDonald, a resolução da questão acima mencionada — a distribuição dos assentos dos muçulmanos nas assembleias legislativas e o sistema eleitoral.

Os hindus depositavam profunda confiança em MacDonald, pois ele havia demonstrado no passado simpatia pelos hindus e era um firme apoiador do Congresso. Contudo, no Comunicado Comunitário (Communal Award) que proclamou, foram especificados os números de assentos destinados aos muçulmanos e às demais comunidades nas diversas assembleias legislativas. O sistema eleitoral separado também foi reconhecido. Tentou-se apenas fazer algumas alterações no número de assentos, de modo a tornar a decisão aceitável para ambas as partes.

Os hindus ficaram surpresos e atônitos com o anúncio de MacDonald, pois jamais haviam esperado algo semelhante. Ficaram especialmente consternados com a proposta de eleições separadas também para os hindus pertencentes à comunidade dos Intocáveis. O Sr. Gandhi cumpria então pena na prisão de Yerwada. Em protesto contra as eleições separadas, anunciou que faria uma greve de fome até a morte.

O Pacto de Poona

Por um lado, os líderes hindus dirigiram-se a Pune e continuaram a pedir repetidamente a Gandhi que interrompesse o jejum; por outro, os hindus de casta continuaram a pressionar os intocáveis para alterar a parte correspondente da repartição. Foi realizada uma conferência sob a presidência do poeta Rabindranath. O Dr. Ambedkar, líder da comunidade dos intocáveis, submeteu-se aos hindus de casta, e ficou decidido que haveria assentos reservados para os intocáveis nas diversas assembleias legislativas, mas que eles teriam de ser eleitos por meio de um sistema eleitoral misto. Esse acordo tornou-se conhecido na história como o Pacto de Pune.

É digno de nota que o objetivo do Congresso Nacional Indiano, isto é, dos hindus de casta indianos, era esmagar todos os habitantes da Índia no moinho de uma nacionalidade única e criar uma nacionalidade cuja autoridade e liderança estivessem nas mãos da maioria hindu. Consequentemente, a nação muçulmana seria fundida a essa nacionalidade artificial e sua individualidade seria abolida. Contudo, mediante o reconhecimento, pelo governo, de eleições separadas para os muçulmanos, sua distinção nacional também foi reconhecida. Com isso, o antigo sonho dos hindus de casta foi completamente destruído, e toda a sua indignação recaiu sobre o governo britânico, que outrora fora seu grande amigo, benfeitor e tutor. Por causa disso, surgiu o terrorismo. Atividades destrutivas, saques de arsenais, assassinatos políticos e outros acontecimentos inéditos passaram a ocorrer continuamente. Entre os acontecimentos mais importantes de alguns anos desse período estiveram o saque do arsenal de Chittagong, sob a liderança do terrorista hindu Surya Sen; o assassinato de Khan Bahadur Ahsanullah, um dos principais oficiais do Departamento de Inteligência; o ataque ao Clube Europeu e o assassinato de vários homens e mulheres; o assassinato do magistrado distrital de Midnapore; a conspiração da dinamite, entre outros. Esses acontecimentos terroristas ocorreram no espaço de apenas dois ou três anos, enquanto a Conferência da Mesa-Redonda estava em andamento em Londres.

Lei do Governo da Índia

O acontecimento importante seguinte foi a Lei do Governo da Índia de 1935. O conteúdo ou objetivo dessa lei era estabelecer um governo parcialmente responsável nas províncias e um governo federal no centro. Na Lei do Governo da Índia, permaneceram nas mãos do vice-rei e dos governadores provinciais poderes maiores do que aqueles que o governo britânico havia concedido aos indianos nas reformas administrativas Montagu-Chelmsford. Também foi anunciado que essa nova Lei do Governo da Índia entraria em vigor a partir de abril de 1937.

As autoridades do Congresso não conseguiram de modo algum ficar satisfeitas com esse poder reduzido ou controlado (Controlled Power). Ainda assim, depois de várias evasivas, participaram das eleições realizadas sob a nova lei. Porém, recusaram-se a aceitar os ministérios. Mais adiante será discutido em detalhe como o Congresso formou ministérios em sete províncias da Índia e como, durante seus dois anos e meio de governo, cometeu injustiças e exerceu opressão contra os muçulmanos, abrindo, como reação, o caminho para o movimento pelo Paquistão dos muçulmanos.

Quando foi promulgada a Lei do Governo da Índia de 1935, o Sr. Muhammad Ali Jinnah lançou um fervoroso apelo para que todos se reunissem sob a bandeira da Liga Muçulmana. Nas eleições gerais de 1937, alguns membros chegaram a ser eleitos pela Liga Muçulmana. Até então, o movimento da Liga Muçulmana ainda não havia se transformado em um movimento de massas. Depois das eleições, o Sr. Jinnah estendeu a mão ao Congresso em busca de cooperação. Mas o Congresso rejeitou-a. Um jurista tão enérgico e renomado como Jinnah não podia submeter-se à arrogância acima mencionada do Congresso. Depois de muitas mágoas e ressentimentos, quando o Congresso concordou em formar um ministério após as palavras tranquilizadoras do vice-rei Linlithgow, o Sr. Jinnah ordenou aos membros da Liga que se opusessem a isso.

O movimento de independência da Índia continuou em meio ao conflito e à discórdia entre a Liga e o Congresso. O comportamento madrasto dos hindus para com os muçulmanos, o desprezo pela tahzib e tamaddun dos muçulmanos, a tentativa de estabelecer um Ram Raj hindu nas províncias governadas pelo Congresso e as injustiças cometidas pelo Congresso hindu contra os muçulmanos obrigaram estes últimos a lutar por uma pátria separada. Essa luta chegou ao fim com o nascimento, em 1947, de dois Estados independentes, chamados Índia e Paquistão.

Segunda parte

Primeiro capítulo

Na primeira parte de “A História dos Muçulmanos de Bengala”, foi discutida em detalhe a história do domínio muçulmano de Bengala, com duração de mais de quinhentos e cinquenta anos (1302–1757 d.C.), desde a primeira chegada dos muçulmanos a Bengala, isto é, à região oriental do subcontinente indiano. Em seguida, foi discutida a história do período que vai do início do domínio inglês neste território até antes da entrada em vigor da Lei de Governo da Índia de 1935 (Government of India Act, 1935).

Agora, na segunda parte desta história, pretendo discutir a história do período que vai da aplicação da referida lei de 1935 até a divisão da Índia, em 1947.

Embora para algumas pessoas a divisão da Índia possa parecer uma desgraça, ela foi uma realidade inevitável e natural. Depois que o domínio de um punhado de muçulmanos se estabeleceu sobre a maioria dos habitantes não muçulmanos daquele país, ele durou mil ou mil e duzentos anos; durante esse longo período, muçulmanos e não muçulmanos viveram lado a lado, juntos, em paz e harmonia. Por que, então, ao chegarem à metade do século XX, já não puderam continuar vivendo juntos? A história correta e objetiva disso deve ser conhecida pelas gerações presentes e futuras. Se a história contínua do comportamento dos hindus e dos britânicos para com os muçulmanos desde o estabelecimento do domínio inglês, especialmente os dois anos e meio de mau governo do Congresso na Índia britânica, for analisada com uma perspectiva imparcial, será possível chegar à verdade de que a divisão da Índia foi uma realidade inevitável e natural.

Com a entrada em vigor da Lei de Governo da Índia de 1935, estabeleceu-se uma autonomia limitada nas províncias. O Congresso conseguiu formar governos em sete províncias de maioria hindu sem a colaboração de outros partidos e, embriagado pelo poder, começou a tratar os muçulmanos de maneira tão desumana que estes passaram a considerar ameaçada a própria existência no subcontinente. As relações entre hindus e muçulmanos deterioraram-se profundamente; por todo o país começaram a ocorrer terríveis conflitos comunais, e a vida, os bens, a honra e o pudor dos muçulmanos passaram a ser saqueados. Por fim, a situação tomou um rumo do qual já não havia qualquer possibilidade de retorno. A Índia acabou dividida em dois Estados independentes distintos. Por trás dessa divisão estavam a fé e os ideais religiosos inabaláveis dos muçulmanos indianos, a ideia de uma nacionalidade distinta, sua própria história, tradição e civilização-cultura, bem como o forte temor de que sua existência nacional fosse eliminada juntamente com tudo isso. Um lado queria manter o outro escravizado ou, caso contrário, exterminá-lo do território da Índia. O outro queria viver com dignidade e com todos os seus direitos. Espero que esta verdade seja comprovada por uma análise imparcial da história.

Lei de Governo da Índia de 1935 (Govt. of India Act, 1935)

Esta lei entrou em vigor em 1º de abril de 1937. A segunda parte da lei relativa à Federação Indiana não entrou em vigor. Isso ocorreu porque um número determinado de Estados principescos indianos não pôde aceitar a Federação.

A característica especial desta lei foi que, pela primeira vez, ela conferiu às províncias uma existência jurídica separada. Sind foi separada de Bombaim e elevada à condição de província distinta. Pela primeira vez, a Província da Fronteira Noroeste recebeu plena condição provincial. A proporção de riqueza exigida dos eleitores foi reduzida, aumentando-se o número de votantes.

De acordo com a lei, haverá um conselho de ministros em cada província, e o governador seguirá suas recomendações. Contudo, em certos casos, ele poderá, se desejar, tomar decisões segundo seu próprio discernimento. O governo dual foi abolido. Cada província terá um gabinete ministerial segundo o modelo britânico, e o governador exercerá suas funções conforme o conselho desse gabinete.

Eleições para as assembleias provinciais

As eleições para as assembleias provinciais foram realizadas em fevereiro e março de 1937. No final de 1936, a Liga Muçulmana e o Congresso anunciaram seus manifestos eleitorais. As políticas sociais de ambos os manifestos eram semelhantes. Também nas questões políticas, nenhum dos dois estava muito distante do outro. Contudo, havia uma enorme divergência entre ambos em duas questões. A primeira era que a Liga Muçulmana estava comprometida com a preservação e o desenvolvimento da língua e do alfabeto urdu. O Congresso, por sua vez, estava determinado a fazer do hindi a língua nacional da Índia. Em segundo lugar, a Liga Muçulmana permanecia firme na defesa dos eleitorados separados. O Congresso, porém, opunha-se veementemente a eles. Em 1916, o Congresso aceitou os eleitorados separados e assinou um acordo com a Liga Muçulmana, que ficou conhecido como Pacto de Lucknow. Muitos líderes do Congresso elogiaram entusiasticamente o Pacto de Lucknow e consideraram-no uma ponte para a união entre hindus e muçulmanos. Mais tarde, porém, o Congresso violou esse acordo e começou a opor-se aos eleitorados separados. Apesar da forte oposição do Congresso, os eleitorados separados permaneceram em vigor até a Partição da Índia.

O manifesto da Liga Muçulmana não continha nada que criasse obstáculos à união entre hindus e muçulmanos. Pelo contrário, continha um claro apelo à cooperação. O Congresso rejeitou arrogantemente esse apelo à cooperação da Liga Muçulmana. A reivindicação do Congresso era que todos os indianos constituíam uma só nação e que o Congresso era a instituição política que representava os indianos. Contudo, as eleições de 1937 provaram ser falsa essa reivindicação.

Os resultados publicados das eleições mostraram que, do total de 1.771 assentos, o Congresso conquistou apenas 706, menos da metade. A maior parte dos assentos muçulmanos foi conquistada pelo Partido Unionista do Punjab, de Sir Fazle Hosain. Como a Liga Muçulmana ainda estava desorganizada, conquistou 102 dos 482 assentos. Mas quantos assentos muçulmanos o Congresso conquistou como partido representante tanto dos hindus quanto dos muçulmanos? Disputou 58 assentos e venceu apenas 26. No Punjab, conquistou 18 dos 175 assentos no total, e em Bengala, 60 dos 250.

(The Struggle for Pakistan, I. H. Qureshi. Retorno mostrando o resultado das eleições na Índia, nov. de 1937)

De um total de trinta e cinco milhões de votos, o Congresso obteve aproximadamente quinze milhões. Portanto, ficou provada como falsa a reivindicação de ser a única instituição política da Índia.

Nas Províncias Unidas, apenas um muçulmano foi eleito pela legenda do Congresso. Ele foi eleito em uma eleição conjunta por um distrito eleitoral universitário especial. O presidente provincial do Congresso — um muçulmano — foi derrotado na eleição. — (The Struggle for Pakistan, I. H. Qureshi)

Entre as onze províncias do país, o Congresso conseguiu obter a maioria dos assentos em seis. Estas eram Bombaim, Madras, UP, CP, Bihar e Orissa. Contudo, apesar de muitos esforços, não conseguiu reunir um número suficiente de candidatos muçulmanos nas províncias de maioria muçulmana. Em três das seis províncias mencionadas — Bombaim, CP (Províncias Centrais) e Orissa — nenhum candidato muçulmano indicado pelo Congresso conseguiu vencer.

De acordo com a nova lei em vigor, os governadores provinciais convocaram os líderes dos partidos majoritários nas assembleias legislativas provinciais, e foram formados ministérios em cinco províncias, incluindo a Província da Fronteira e Assam, que começaram a funcionar como unidades autônomas a partir de 1º de abril. Nas seis províncias restantes, o Congresso recusou-se a formar ministérios enquanto os governadores não garantissem que se absteriam de exercer seus poderes especiais previstos na Constituição. Os governadores recusaram-se a oferecer tal garantia. Em seguida, tomaram a iniciativa de formar ministérios provisórios com representantes dos partidos ou grupos dispostos a constituí-los. Ministérios provisórios foram formados sob liderança muçulmana em Bombaim, Bihar e UP, e alguns membros da Liga Muçulmana também receberam cargos nos ministérios. Contudo, eles não foram chamados de “ministérios da Liga Muçulmana”.

Impasse sobre a questão das salvaguardas

Nas instruções emitidas aos governadores das províncias nos termos da Lei do Governo da Índia de 1935, foi-lhes atribuída uma responsabilidade especial. Cabia especialmente aos governadores zelar pelas salvaguardas (Safeguard) garantidas pela lei para a proteção dos interesses das minorias.

Foi declarado:

Os instrumentos de instruções emitidos aos governadores nos termos da Lei do Governo da Índia de 1935 impuseram algumas responsabilidades especiais aos chefes provinciais. Entre elas estava a “salvaguarda de todos os interesses legítimos das minorias”, exigindo que ele assegurasse, de modo geral, que aquelas comunidades raciais ou religiosas cujos membros tivessem representação especial na legislatura, bem como aquelas classes da população sob sua responsabilidade que, seja por serem pouco numerosas, seja por sua falta de vantagens educacionais ou materiais, ou por qualquer outra causa, ainda não pudessem confiar plenamente na ação política conjunta na legislatura para seu bem-estar, não sofressem nem tivessem motivos razoáveis para temer negligência ou opressão.

A lei acima mencionada garantia a proteção de todos os interesses legítimos de todos os tipos de comunidades minoritárias. Aos governadores provinciais foi atribuída uma responsabilidade especial de zelar para que seus interesses fossem protegidos.

Existem algumas comunidades raciais e religiosas cujos membros receberam representação especial na legislatura e que, devido à supervisão do governador, à falta de vantagens materiais ou por qualquer outra razão, ainda não podem confiar plenamente nas medidas políticas conjuntas adotadas na legislatura para seu bem-estar. Essas comunidades e classes não sofrerão qualquer infortúnio, nem terão motivo para temer ser negligenciadas ou oprimidas. Assim, a responsabilidade pela proteção de seus interesses foi atribuída aos governadores.

Na Índia, quando se fala em minorias, refere-se principalmente aos muçulmanos, que há muito tempo vêm lutando pela preservação de todos os seus interesses, isto é, pelas salvaguardas.

Este subcontinente era a pátria de várias nações, entre as quais havia maiorias e minorias. O Congresso não reconhecia essa realidade. O Congresso afirmava que havia apenas uma organização representativa de todos os indianos, e essa organização era o Congresso. O sr. Gandhi disse ao representante do News Chronicle: “Aqui há apenas um partido capaz de promover o bem-estar, e esse é o Congresso. Não aceitaremos nenhum partido além do Congresso.”

Ele também disse: “Chamem-no pelo nome que quiserem; na Índia só pode haver um partido, e esse é o Congresso” — (Muslim Separatism in India, A. Hamid, p. 217).

A atitude de Jawaharlal Nehru também era semelhante. Ele disse: “Nem mesmo com o auxílio de um microscópio seria possível descobrir a existência de qualquer comunidade minoritária na Índia. No país há apenas dois partidos: o Congresso e o Governo. E os que existem devem aceitar nosso método de ação e permanecer conosco. Os que não estão conosco são nossos opositores.”

Esta foi precisamente a manifestação da mentalidade fascista acima referida do pandit Nehru. — Muslim Separatism in India, A. Hamid.

A Lei de 1935 previa salvaguardas para a proteção dos interesses das minorias e atribuía responsabilidades especiais aos governadores provinciais, para que os interesses das minorias não fossem prejudicados. Porém, segundo as palavras do pandit Jawaharlal Nehru, se neste país não existe absolutamente nada como uma minoria, então, na opinião do Congresso, não há necessidade de os governadores exercerem poderes especiais para cumprir suas responsabilidades especiais. O significado claro disso é que o Congresso de modo algum está disposto a proteger os interesses dos muçulmanos. Foi por essa razão que o Congresso se recusou a formar ministérios e manteve o impasse.

Por fim, chegou-se a um acordo de compromisso entre o Congresso e o vice-rei Lorde Linlithgow, com base no qual, em 7 de julho, o Congresso aprovou uma resolução autorizando o Congresso de Trabalho a formar ministérios.

Depois de obter secretamente plena garantia por parte do vice-rei, o Congresso abandonou todo o ressentimento e formou ministérios em sete províncias, em julho de 1937. Em 1938, após a renúncia do primeiro-ministro de Assam, Sir Muhammad Saadullah, foi formado em Assam um ministério de coalizão do Congresso por Gopinath Bordoloi. Nas províncias onde os interesses dos muçulmanos começaram a ser pisoteados. Este assunto poderá ser discutido mais adiante.

Resultados das eleições

Antes de examinarmos a intensa reação que surgiu na Índia muçulmana após a formação dos ministérios do Congresso, vejamos primeiro qual era a situação das províncias onde os governos foram formados desde o início de 1937.

Bengala

Após as eleições, a composição partidária da Assembleia Legislativa de Bengala era a seguinte:

Congresso 54

Hindus não pertencentes ao Congresso 42

Muçulmanos independentes 43

Liga Muçulmana 40

Outros muçulmanos 38

Europeus anglo-indianos 31

Muçulmanos independentes 2

Total >>> 250

Entre os muçulmanos que não pertenciam à Liga Muçulmana, 35 eram membros do Partido Krishak Praja. O líder desse partido era o Maulvi A. K. Fazlul Huq (Sher-e-Bangla). Aqui, não havia outra maneira de formar um ministério senão por meio de uma coalizão. Assim, em abril de 1937, foi formado um ministério de coalizão composto pela Liga Muçulmana, pelo Partido Krishak Praja, pelas Castas Programadas (Scheduled Castes) e por hindus de casta independentes ou não congressistas, cujo líder era Sher-e-Bangla A. K. Fazlul Huq. Ele formou um ministério de dez membros, dos quais cinco eram muçulmanos e cinco, hindus.

Convém mencionar que, após as eleições, na assembleia pública realizada em Munshiganj no dia 3 de fevereiro, o senhor Fazlul Huq anunciou o programa de seu partido. Em 15 de fevereiro, o comitê executivo do Partido Krishak Praja aprovou o acordo concluído com os líderes do referido partido com o objetivo de implementar a nova constituição da Liga Muçulmana. Em 6 de março, o senhor Fazlul Huq concordou em formar o ministério. A pedido do Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah, o senhor Huq ingressou na Liga Muçulmana. Posteriormente, prestou juramento como primeiro-ministro de Bengala.

O ministério de coalizão de Fazlul Huq não conseguiu trabalhar sem obstáculos, pois o Congresso se opôs firmemente a esse ministério a cada passo. Mas o resultado benéfico disso foi que, na mesma medida em que a oposição aumentava, a unidade muçulmana se consolidava e se fortalecia dentro e fora do Parlamento.

Após a formação do ministério de coalizão, as relações entre o Partido Krishak Praja e a Liga Muçulmana melhoraram. Na sessão da Liga Muçulmana de Toda a Índia realizada em Lucknow, em setembro de 1837, ele participou e declarou que os membros de seu partido ingressariam na Liga Muçulmana. Khwaja Nazimuddin e Huseyn Shaheed Suhrawardy fizeram parte de seu ministério.

Os quatro anos e meio de governo de Fazlul Haq Sahib trouxeram uma nova maré de vigor à sua vida e à força política muçulmana de Bengala indivisa. Seu gabinete conseguiu inspirar uma enorme esperança no povo e criar autoconfiança entre os muçulmanos. Seu antigo complexo de inferioridade foi eliminado, e eles passaram a considerar-se iguais aos hindus. Os discursos de Fazlul Haq e Suhrawardy no Parlamento, suas respostas contundentes às palavras dos adversários e sua presença de espírito eram de nível muito superior aos dos líderes do Congresso e da Hindu Mahasabha. Com sua vitalidade e sabedoria, a agudeza de seu intelecto, sua eloquência fluente e capacidade organizacional, bem como seu árduo trabalho e poder de discernimento, provaram no Parlamento sua superioridade sobre os membros hindus.

O renascimento que surgiu entre os muçulmanos de Bengala não ficou limitado às quatro paredes do edifício do Parlamento. Ele tornou-se visível em todos os campos da atividade humana, como a organização política, a literatura, as artes, o jornalismo e os esportes. A Liga Muçulmana estava se transformando em uma organização forte e viva, e infundia uma nova vida e confiança entre os muçulmanos.

O domínio que poetas e escritores hindus haviam exercido sobre a literatura bengali durante quase um século chegou ao fim com o surgimento de Kazi Nazrul Islam no firmamento literário. E ele não estava sozinho: as contribuições imortais ao mundo da poesia de poetas como Jasim Uddin, Golam Mostofa e Benazir Ahmad também são inegáveis. As canções islâmicas, murshedi e bhatiali, cantadas nas melodias arrebatadoras do imperador da música Abbasuddin, inspiravam os muçulmanos com um espírito islâmico.

A ascensão de uma nova imprensa muçulmana deu uma enorme contribuição a esse renascimento muçulmano. Embora alguns jornais mensais e semanais fossem publicados em Calcutá no mundo do jornalismo, não havia nenhum diário regular. Em 1936, Maulana Akram Khan prestou um grande serviço à nação muçulmana ao publicar o diário Azad, que recebeu o ativo apoio de Fazlul Haq em seu gabinete de coalizão. Naquela época, o diário Star of India, publicado por Abdul Karim Ghaznavi, e o diário Morning News, publicado por Khwaja Nuruddin, representavam as esperanças e aspirações dos muçulmanos.

O primeiro gabinete de Sher-e-Bangla A. K. Fazlul Haq (1937–1941) pode ser considerado uma era dourada na história do governo parlamentar de Bengala. Nesse período, ele visitou as províncias de Bihar, Orissa e Assam, organizou a Liga Muçulmana e transformou-a em uma organização forte. Ele discursou nas conferências da Liga Muçulmana realizadas em Lucknow, em 1937, em Karachi, em 1938, e em Cuttack, em 1939. Em 1940, realizou-se em Lahore, sob a presidência de Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah, a conferência da Liga Muçulmana, nos dias 22, 23 e 24 de março. Na sessão de 23 de março, ele apresentou a histórica Resolução do Paquistão.

Fazlul Haq havia compreendido que a educação era a chave do desenvolvimento e do progresso da nação muçulmana. Foi por isso que, em seu gabinete de coalizão, assumiu pessoalmente a responsabilidade pelo Ministério da Educação. Para promover o progresso dos muçulmanos no campo educacional, fundou numerosas instituições de ensino, entre elas: Lady Brabourne College (faculdade para mulheres), Calcutá; Eden Girls’ College, Daca; Agricultural College (Tejgaon, Daca); Fazlul Haq Muslim Hall, Daca; Fazlul Haq College, Chakhar, Barisal.

Ele desejava reduzir um pouco o orgulho e a arrogância da Universidade de Calcutá. Na realidade, ela era um templo do saber protegido dos hindus, uma poderosa ferramenta do renascimento hindu e do estabelecimento da supremacia intelectual hindu em Bengala. Era uma instituição enorme e indomável, que controlava até mesmo os exames de admissão e secundários. Portanto, sua influência sobre o ensino superior era muito maior que a do ministro da Educação e de seu departamento. Para proteger os candidatos dessa influência, ele tentou apresentar no Conselho Legislativo um projeto de lei destinado à criação de um Conselho de Educação Secundária. Como resultado, toda a comunidade hindu ficou furiosa e, esquecendo todas as suas divergências internas, uniu-se contra o projeto de lei proposto. Desde a Partição de Bengala de 1905, não se vira uma agitação tão intensa. Em 1940, realizou-se em Calcutá uma conferência de protesto presidida por uma personalidade erudita como Sir Prafulla Chandra Ray. Cerca de dez mil delegados de toda a província participaram da conferência. O poeta Rabindranath Tagore sofria então de uma enfermidade decorrente da velhice. Apesar disso, aproveitou a oportunidade para permitir que seu nome e prestígio fossem utilizados na referida conferência. Na parte final da mensagem que enviou à conferência, disse:

Minha velhice e minha saúde impedem-me de participar da conferência. Mas o perigo que lançou uma ameaça à existência cultural de nossa província deixou-me terrivelmente perturbado. Por isso, não pude deixar de enviar uma mensagem à conferência do meu leito de enfermo.

Devido à extrema oposição dos hindus, não foi implementado o plano que o primeiro-ministro de Bengala havia elaborado para a criação de um Conselho de Educação Secundária.

Contudo, a medida mais importante adotada por Sher-e-Bangla Fazlul Huq como primeiro-ministro foi garantir que, em todos os cargos públicos da província, cinquenta por cento fossem destinados aos hindus e cinquenta por cento aos muçulmanos. Como o estabelecimento do monopólio tradicional dos hindus no setor do serviço público vinha causando extrema injustiça aos muçulmanos, a adoção da medida acima suscitou grande esperança e alegria entre os jovens muçulmanos instruídos, abrindo-lhes vastas perspectivas na vida. Para a nação muçulmana, isso foi um grande serviço.

Punjab

Punjab, Sind e Assam estavam entre as poucas províncias onde não foi possível formar ministérios do Congresso. Como resultado das eleições, a posição dos partidos em Punjab era a seguinte:

Congresso 18

Hindus e siques não pertencentes ao Congresso 36

Liga Muçulmana 2

Outros muçulmanos 4

Unionistas 88

Independentes 27

Total >>> 175

Posteriormente, com a adesão de oito membros ao Partido Unionista, o número total de membros desse partido passou a ser 96. O Partido Sikh Nacionalista Khalsa também declarou seu apoio a Sir Sikandar Hayat, e ele aproveitou essa oportunidade para formar um gabinete. Após sua morte, em 1942, Malik Khizr Hayat Khan tornou-se primeiro-ministro, e esse gabinete permaneceu em vigor até a dissolução de todas as assembleias provinciais, em 1945.

Sinde

A posição dos partidos na província de Sinde era a seguinte:

Congresso 8

Hindus não pertencentes ao Congresso 14

Muçulmanos independentes 9

Outros muçulmanos 7

Partido Muçulmano Unido de Sind 18

Independentes 4

Total >>> 60

Como ninguém conseguiu obter a maioria, foi necessário formar um gabinete por meio de arranjos improvisados. Consequentemente, nenhum deles pôde ser estável. Os gabinetes continuaram a funcionar em meio a sucessivas rupturas e reconstruções. Primeiro, Sir Ghulam Hussain Hidayatullah formou o gabinete. Depois, a chefia do governo passou alternadamente entre Allah Bakhsh e Mir Bande Ali Khan.

Assam

A posição dos partidos aqui é a seguinte

Congresso 32

Hindus não congressistas 9

Muçulmanos independentes 30

Independentes 33

Total >>> 108

Também aqui não foi possível formar um governo estável. Sir Muhammad Saadullah formou um ministério e renunciou em setembro de 1938. Depois, a convite do governador, o líder do Congresso Gopinath Bordoloi formou um ministério. Após o início da Segunda Guerra Mundial, o ministério de Gopinath também renunciou, juntamente com todos os demais ministérios. Em seguida, Sir Muhammad Saadullah teve novamente a oportunidade de formar um ministério. Contudo, no final de 1941, seu ministério caiu, e o governador assumiu pessoalmente a administração da província, com base no artigo 93 da Lei do Governo da Índia de 1935.

Segundo capítulo

Ministérios do Congresso nas províncias

Vejamos agora a realidade da administração das províncias governadas por um breve período e que tipo de tratamento dispensavam aos muçulmanos.

Já soubemos anteriormente que o Congresso não concordaria em formar governo se não recebesse a garantia de que os governadores não exerceriam os poderes especiais que lhes haviam sido conferidos por lei para proteger os interesses das minorias. Em outras palavras, sua posição clara era que não estava de modo algum disposto a proteger os interesses das minorias, isto é, dos muçulmanos. O ponto central da política britânica na administração da Índia era manter satisfeita, a qualquer custo, a nação hindu indiana, isto é, o Congresso. No passado, houve muitos exemplos de satisfazer os hindus pisoteando os interesses muçulmanos. Desta vez também, o vice-rei, Lorde Linlithgow, deu secretamente ao Congresso a garantia de que os governadores não exerceriam os poderes especiais que lhes haviam sido conferidos pela Lei de 1935, a fim de levá-lo a concordar em formar o governo. Somente depois dessa garantia o Congresso concordou em formar o ministério.

O Congresso formou ministérios em sete províncias, e toda a política partidária provincial ficou inteiramente sob seu controle.

Em Madras, o Congresso conquistou 74 cadeiras, e Raja Gopalacharia formou o ministério. Em Bombaim, o Congresso conseguiu conquistar apenas 48 cadeiras. B. J. Kher formou o ministério com vários outros pequenos partidos de orientação semelhante. Em Bombaim, o Congresso conseguiu conquistar apenas 48 cadeiras. B. J. Kher formou o ministério com vários outros pequenos partidos de orientação semelhante.

Nas Províncias Unidas, o Congresso conquistou 59% das cadeiras, e G. B. Pant tornou-se primeiro-ministro. Em Bihar, depois de conquistar 62% das cadeiras, Shri Krishna Sinha formou o governo. Nas Províncias Centrais, depois de conquistar 63% das cadeiras, o Dr. Khare e, posteriormente, Shukla tornaram-se primeiros-ministros.

Na Província da Fronteira Noroeste, embora o Congresso tenha obtido apenas 38% das cadeiras, o Dr. Khan formou o governo.

Em Orissa, ocorreu uma ligeira exceção. Antes do ministério do Congresso, o marajá de Parlakimedi formou um governo de curta duração por quatro meses (abril-julho). Biswanath Das dirigiu o ministério do Congresso até julho de 1937. Após a renúncia do ministério do Congresso, o governador assumiu o governo. No final de 1941, alguns membros da assembleia, liderados por Godavari Misra, rebelaram-se contra o alto comando do Congresso e ajudaram o marajá de Parlakimedi a formar um ministério. O marajá formou um ministério com três pessoas — ele próprio, Misra e um ministro muçulmano. Apesar da oposição extrema do alto comando do Congresso, o ministério continuou funcionando.

O governo do Congresso nas províncias

O governo do Congresso durante cerca de dois anos e meio (de julho de 1937 a outubro de 1939) em sete das onze províncias da Índia, incluindo a Província da Fronteira, constitui um capítulo extremamente doloroso da história das relações entre hindus e muçulmanos. Nessas províncias, as chaves de todo o poder estavam nas mãos do Congresso. Vejamos agora como o Congresso utilizou esse poder e quais consequências nefastas isso acarretou para o progresso político e constitucional.

Recusa em formar um governo de coalizão

Logo após as eleições de 1937, o presidente da Liga Muçulmana, Sr. Muhammad Ali Jinnah, declarou em um comunicado:

A Constituição e a política da Liga Muçulmana não nos impedem de cooperar em benefício dos interesses de outros partidos. Podemos cooperar com qualquer partido, tanto dentro quanto fora da assembleia legislativa.

Todos, inclusive alguns partidários do Congresso, esperavam que fossem formados governos de coalizão entre o Congresso e a Liga Muçulmana nas províncias de maioria hindu. No entanto, a recusa do Congresso em cooperar de qualquer forma com a Liga Muçulmana não permitiu que essa esperança se concretizasse. Como exemplo, pode-se descrever aqui a situação das Províncias Unidas. Ali, das 228 cadeiras da assembleia legislativa, 64 eram reservadas aos muçulmanos. Dessas, o Congresso conquistou uma, a Liga Muçulmana 26, os muçulmanos independentes 28 e o Partido Agrícola Nacional 9. Houve longas discussões entre a Liga Muçulmana e o Congresso sobre a formação de uma coalizão entre o Congresso e a Liga Muçulmana. Finalmente, Maulana Abul Kalam Azad, um dos membros do alto comando do Congresso, informou ao líder da Liga Muçulmana, Chaudhry Khaliquzzaman, sob quais condições a Liga Muçulmana poderia integrar os governos provinciais. As condições eram as seguintes:

1. A Liga Muçulmana não atuará como um partido separado na Assembleia Legislativa das Províncias Unidas.

2. O atual grupo da Liga Muçulmana na Assembleia Legislativa das Províncias Unidas será considerado parte do Congresso; como membros do Partido do Congresso, eles desfrutarão de todos os benefícios e privilégios dos demais membros do partido. Também terão o direito de participar das deliberações do partido. Também terão o direito de participar das deliberações do partido. Todas as questões serão decididas por maioria de votos. Cada membro terá direito a apenas um voto.

3. Os membros do Congresso e esses membros deverão seguir a política que o Comitê de Trabalho do Congresso definir para os membros da assembleia legislativa, bem como as instruções que emitir.

4. O U.P. e o Conselho Parlamentar da Liga Muçulmana deveriam ser dissolvidos. No futuro, esse Conselho não poderia indicar nenhum candidato em qualquer eleição suplementar. Se algum assento ficasse vago, deveria apoiar o candidato que o Congresso indicasse para a eleição.

5. Se o Congresso decidisse pela renúncia dos cargos ministeriais e dos cargos de membros da Assembleia Legislativa, os membros oriundos da Liga Muçulmana seriam obrigados a acatar essa decisão.

As condições acima impostas à Liga Muçulmana pelo Alto Comando do Congresso eram ridículas, motivadas por intenções desonestas e reveladoras de uma mentalidade fascista. Nenhuma pessoa ou partido dotado do mínimo senso de dignidade poderia aceitar sequer uma dessas condições. Isso equivaleria ao suicídio.

Não é nada difícil determinar a causa dessa arrogância irrefletida do Congresso. O Sr. Gandhi e Jawaharlal Nehru não estavam dispostos a reconhecer na Índia a existência de qualquer partido além do Congresso. Tampouco estavam preparados para admitir que existisse neste país um problema hindu-muçulmano. Em 12 de maio de 1937, Jawaharlal Nehru disse a Chaudhri Khaliquzzaman que acreditava que o problema hindu-muçulmano na Índia se limitava apenas a um pequeno número de intelectuais, zamindares e capitalistas, que estavam criando um problema que o povo não reconhecia. Ele lançou uma flecha de escárnio contra a ideia de que haveria um partido muçulmano separado dentro da Assembleia Legislativa.

De acordo com a política anunciada pelo Congresso, os muçulmanos líderes eram convidados a dissolver seus próprios partidos e ingressar no Congresso a fim de se qualificarem para ocupar cargos ministeriais. Nas Províncias Unidas, Hafiz Muhammad Ibrahim, e em Bombaim, M. Y. Noori, assinaram o juramento do Congresso e ingressaram nos ministérios do Congresso. Em Orissa, nenhum muçulmano foi incluído no ministério. Nas Províncias Centrais, certo Sharif foi incluído, mas posteriormente foi removido e substituído por um hindu.

Nas províncias onde o Congresso era dominante, a questão de um governo de coalizão nem sequer se colocava. Porém, nas províncias onde o Congresso não era dominante, permitia-se que ele participasse de coalizões. Com isso, abriu-se o caminho para criar divisões na comunidade muçulmana. Em um discurso proferido na Conferência da Liga Muçulmana de Calcutá, em 1938, o primeiro-ministro de Bengala, Fazlul Huq, disse que o Congresso pressionava repetidamente, afirmando que um governo de coalizão com o Congresso, excluindo a Liga Muçulmana, seria mais estável. Em Sinde, em razão das vantagens estratégicas obtidas pelos hindus graças ao Ato de Representação Comunal (Communal Award), eles criaram enormes obstáculos à formação de um grupo da Liga Muçulmana no Conselho Legislativo de Sinde. O ministério não congressista da Província da Fronteira Noroeste foi derrubado após cair nas garras do Congresso. O Congresso queria dissolver todos os demais partidos e surgir como o único partido do país. O Congresso acreditava no princípio de “um país, um partido, um líder”. Essa liderança estava nas mãos do Sr. Gandhi. Todos os governos do Congresso recorriam a Gandhi para cada decisão política e obedeciam às suas instruções como se fossem escrituras sagradas. Quando surgia uma crise constitucional, havia algum conflito ou disputa com o governador, ou se tratava da adoção de uma política geral, os primeiros-ministros das províncias governadas pelo Congresso recorriam a ele para receber instruções e conselhos. O Sr. Gandhi conduzia conversações com o vice-rei em nome do Congresso, mas se apresentava como um observador político neutro. Embora sua autoridade e controle ditatoriais sobre o Congresso fossem evidentes, seu nome não constava da lista de membros do Congresso. Um de seus admiradores, Seth Govind Das, disse que, para os congressistas, a posição de Gandhi era semelhante à de Mussolini para os fascistas, à de Hitler para os nazistas e à de Stalin para os comunistas (Muslim Separatism in India, Abdul Hamid, p. 218).

A afirmação do Congresso de que a mentalidade parlamentar permaneceria intacta em seu seio revelou-se infundada. Isso porque os ministros do Congresso não eram responsáveis nem perante o eleitorado nem perante a Assembleia Legislativa. Eram como súditos obedientes submetidos ao Comitê de Trabalho do Congresso. A maneira como o Alto Comando do Congresso tratou o primeiro-ministro das Províncias Centrais, Dr. Khare, e Subhas Chandra Bose, de Calcutá, comprova seu caráter ditatorial.

Subhas Chandra Bose foi eleito presidente do Congresso Nacional Indiano em 1938. No ano seguinte, também concorreu à eleição e foi devidamente reeleito. Alguns líderes do Congresso se opuseram à sua candidatura e criaram enormes obstáculos à eleição. Muitos consideraram isso uma derrota do Sr. Gandhi. Os membros do Comitê de Trabalho do Congresso renunciaram em conjunto. Por fim, para manter Gandhi satisfeito, o presidente eleito do Congresso foi destituído.

O governo do Congresso e os muçulmanos

O governo ministerial nas províncias de maioria hindu era um terrível pesadelo para os muçulmanos. A recusa do Congresso em formar governos de coalizão com a Liga Muçulmana nessas províncias foi, para os muçulmanos, um aviso. Mas, quando o Congresso efetivamente implementou nessas províncias a autonomia provincial que havia planejado, os muçulmanos se viram diante de uma situação muito mais intolerável do que aquela que haviam temido. Surgiu o temor extremo de que suas crenças religiosas, sua civilização e sua cultura fossem extintas, e começou uma campanha sistemática para removê-los também dos campos social, administrativo e econômico. Até mesmo suas vidas, propriedades, honra e dignidade passaram a ser completamente saqueadas sob o governo do Congresso.

Entre as condutas do governo do Congresso e da população hindu que feriam gravemente os sentimentos religiosos dos muçulmanos estavam o canto de “Vande Mataram”, a obstrução ao azan da oração, os ataques aos fiéis enquanto rezavam, a realização de procissões com música diante das mesquitas e a proibição da carne bovina, entre outras.

Apesar da oposição dos muçulmanos, o hino “Vande Mataram” era inevitavelmente cantado antes do início dos trabalhos diários da Assembleia Legislativa. Bankim Chandra Chatterjee compôs o hino “Vande Mataram” como um grito de guerra dos hindus contra os muçulmanos em seu romance Anandamath, publicado em 1882. Depois de 1905, o hino Vande Mataram foi cantado como “hino nacional” no movimento hindu pela anulação da Partição de Bengala. O objetivo dessa canção era criar ódio e hostilidade dos hindus contra os muçulmanos.

Não apenas a honra, a dignidade e a influência dos poucos muçulmanos que ocupavam cargos públicos foram prejudicadas, como também a duração de seus empregos foi colocada em risco. Entre os muitos casos, pode-se mencionar aqui um como exemplo. Em uma entrevista, o primeiro-ministro das Províncias Centrais declarou que seu gabinete se opunha veementemente à efetivação do único oficial distrital civil muçulmano da província. A única razão era que ele era muçulmano.

A população muçulmana tornou-se vítima da extrema arbitrariedade de seus vizinhos hindus e do aparato administrativo. Em algumas favelas das Províncias Centrais, casas de muçulmanos foram incendiadas e a honra das mulheres muçulmanas foi violada. Cento e cinquenta homens muçulmanos de uma aldeia, acusados de assassinato, foram mantidos por vários dias na delegacia sem comida nem água, além de serem humilhados e torturados de diversas maneiras. Mais tarde, o tribunal os absolveu. Durante o julgamento dos muçulmanos acusados nos tribunais das Províncias Centrais (em casos sub judice), os ministros da província expressavam suas opiniões, deixando os juízes extremamente constrangidos. O presidente do Tribunal Superior de Nagpur declarou corajosamente, na sentença de um processo, que a polícia, os líderes do Congresso, os magistrados, os juízes e os ministros empurravam conjuntamente pessoas inocentes para a forca. Esses desafortunados não tinham outro crime além de serem muçulmanos. (Muslim Separatism in India, Abdul Hamid, p. 122)

Com o objetivo de remediar as diversas formas de perseguição e opressão sofridas pelos muçulmanos nas províncias governadas pelo Congresso, a sessão do Conselho da Liga Muçulmana de Toda a Índia, realizada em 20 de março de 1938, decidiu criar uma comissão de investigação. Foi formada uma comissão de oito membros, tendo como presidente o Raja Saiyid Muhammad Mahdi de Pírpur. Essa comissão apresentou seu relatório completo em 15 de novembro do mesmo ano. O relatório foi elaborado após investigações pessoais realizadas no próprio local.

No mês de março do ano seguinte, foi publicado outro relatório, chamado Relatório Sharif. Esse relatório descrevia os episódios de perseguição dos hindus contra os muçulmanos na província de Bihar. Em dezembro de 1939, foi publicado outro relatório repleto de acusações por escrito contra os governos do Congresso. Seu autor era A. K. Fazlul Huq, primeiro-ministro de Bengala.

Estes três documentos informativos e valiosos, juntamente com os arquivos dos acontecimentos publicados nos jornais muçulmanos contemporâneos, apresentam os elementos e materiais fundamentais das acusações dos muçulmanos contra o papel antidemocrático e hostil aos muçulmanos dos ministérios provinciais do Congresso. Uma vez que a natureza e o temperamento habituais do governo do Congresso posteriormente tornaram popular a ideia e a doutrina do Paquistão e afastaram os muçulmanos da ideologia de uma Índia indivisa, é necessário apresentar em detalhe e examinar as informações reveladas no relatório da investigação.

Relatório de Pirpur

O Relatório de Pirpur enfatizou os seguintes pontos:

1. O governo do Congresso fracassou em garantir liberdade religiosa e cultural às minorias (aos muçulmanos).

2. Ficou comprovado que o Congresso é uma organização sectária hindu.

3. A adoção, pelo Congresso embriagado pelo poder, de uma política de portas fechadas (Closed door policy) e sua recusa em formar um governo de coalizão provocaram uma deterioração extrema das relações entre hindus e muçulmanos.

4. De acordo com a concepção de nacionalismo do Congresso, nada pode ser mais opressivo do que o domínio da maioria e a opressão resultante da injustiça.

5. Foram apresentadas à Liga Muçulmana propostas extremamente humilhantes, tais como: dissolver o Partido Parlamentar da Liga, dissolver o grupo da Liga na legislatura e assinar sem hesitação o juramento do Congresso, entre outras.

6. O Movimento de Contacto em Massa (Mass Contact Movement), com o objetivo de criar divisões entre os muçulmanos, e o recrutamento, de várias maneiras, de alguns muçulmanos para fazer propaganda contra a Liga Muçulmana, mediante a sua compra, e

7. Conflitos comunitários generalizados nas províncias sob o governo do Congresso e enormes perdas de vidas e bens entre os muçulmanos.

Declaração do senhor Fazlul Haq

Imediatamente após a demissão dos ministérios do Congresso, a declaração proferida pelo primeiro-ministro de Bengala, senhor A. K. Fazlul Haq, foi republicada sob a forma de um panfleto. Na sua declaração, ele afirmou:

Com o objetivo de levar a paciência ao limite, o Congresso lançou hindus belicosos em campo para exibirem extrema arrogância. O Congresso iniciou esse ato para impor a sua vontade e determinação à minoria muçulmana. O que quer o Congresso? Quer que a vaca sagrada seja protegida e que não se permita aos muçulmanos comer carne bovina. A religião dos muçulmanos deve ser humilhada e mantida sob opressão. Afinal, este não é o país dos hindus?

Depois começaram as restrições e proibições ao azan. Atacavam os fiéis nas mesquitas. Durante as orações, procissões passavam diante das mesquitas, tocando tambores e outros instrumentos. Que há de surpreendente no facto de um acontecimento doloroso provocar outro acontecimento doloroso em retaliação?

Em seguida, a declaração mencionava setenta e dois incidentes ocorridos em Bihar, trinta e três nas Províncias Unidas e vários no Madhya Pradesh. Sempre que um muçulmano, em qualquer lugar, sacrificava uma vaca para a qurbani, muçulmanos eram mortos, as suas casas eram incendiadas e mulheres e crianças muçulmanas eram submetidas a abusos. Nenhuma medida era tomada para remediar isso. Como resultado, os muçulmanos da minoria passaram a levar uma vida extremamente insuportável.

Os jornais hindus abstiveram-se de publicar a declaração do senhor Fazlul Haq, que descrevia a extrema miséria dos muçulmanos sob o governo do Congresso. Pelo contrário, continuaram a publicar e a divulgar amplamente acusações inventadas contra os muçulmanos. (I. H. Qureshi — The Struggle for Pakistan; A. Hamid — Muslim Separatism in India)

No campo da educação, também começaram a ser cometidas graves injustiças contra os muçulmanos, o que deixou os intelectuais muçulmanos extremamente preocupados e perturbados. Durante o domínio britânico, os muçulmanos estavam muito atrasados no campo da educação e, por isso, tinham de enfrentar muitas dificuldades. Durante o domínio do Congresso, sua política educacional deixou-os profundamente apreensivos e perturbados. No final de 1938, na 52ª sessão da Conferência Educacional Muçulmana de Toda a Índia (All India Muslim Educational Conference), realizada em Calcutá, decidiu-se formar um comitê sob a presidência de Nawab Kamal Yar Jung Bahadur.

O objetivo era examinar minuciosamente o sistema educacional da Índia e elaborar um plano para a educação muçulmana, de modo que as características de sua cultura e de sua organização social fossem preservadas. Formou-se um subcomitê sob a liderança de Sir Azizul Haque, presidente da Assembleia Legislativa de Bengala e vice-chanceler da Universidade de Calcutá. O subcomitê percorreu várias partes da Índia com o objetivo de reunir informações corretas e apresentou seu relatório final em 1942. O relatório criticou severamente o Wardha Scheme of Education, que havia sido introduzido nas instituições educacionais. Especialmente nas Províncias Centrais, ele assumiu uma forma abominável. Apesar da veemente oposição dos muçulmanos, foi apresentado naquela assembleia legislativa um projeto de lei contrário ao Islã e aos muçulmanos. Todos os membros muçulmanos e alguns membros hindus, incluindo o Dr. Khare, opuseram-se a ele. Ignorando toda a oposição, o projeto foi aprovado.

Segundo esse sistema, o comitê gestor das escolas seria eleito por meio de eleitorados conjuntos. Não foi tomada nenhuma medida especial para as escolas muçulmanas. Os alunos e as alunas tinham de ficar diante do retrato do Sr. Gandhi, com as mãos postas, à maneira da adoração hindu, e cantar louvores a ele (ao Sr. Gandhi). O plano fundamental — o Wardha Scheme — era uma criação da mentalidade gandhiana: inculcar nas mentes das crianças ideias religiosas hindus e criar nelas uma atitude de devoção e reverência pelos sábios mitológicos hindus. Assim, o objetivo desse sistema educacional era afastar os muçulmanos de sua religião, cultura e tradições herdadas. Além dos princípios fundamentais do sistema educacional do Congresso, alguns de seus detalhes também causaram profunda preocupação entre os muçulmanos. Pode-se citar, por exemplo, que, na província de Bombaim, nas escolas, o currículo era elaborado a partir de muitos novos livros didáticos elementares. A forte objeção dos muçulmanos era que esses livros elogiavam as tradições hindus e as cerimônias religiosas e empregavam exclusivamente vocabulário hindu.

A Liga Muçulmana Provincial de Bombaim expressou intensa indignação contra isso, afirmando que, ao elaborar esse tipo de livro didático elementar, o Congresso queria destruir a civilização e a cultura muçulmanas na Índia, mantendo as futuras gerações de muçulmanos completamente ignorantes de sua civilização e cultura e incutindo em suas mentes infantis as ideias da civilização e da cultura hindus.

Quando os membros muçulmanos da Corporação Municipal de Bombaim apresentaram uma proposta para retirar os livros didáticos elementares, ela foi rejeitada. Em protesto, os membros da Liga Muçulmana abandonaram a sessão. Após a renúncia dos ministérios do Congresso, o Comitê de Livros Didáticos em Urdu examinou novamente os referidos livros e informou que eles não eram adequados para o ensino; em consequência, foram retirados da lista aprovada.

(Times of India, de 11 e 26 de julho e 14 de dezembro de 1939)

Os dois anos e meio de governo do Congresso em sete das onze províncias do subcontinente demonstram que, sob o domínio do Congresso, continuará a tentativa de apagar a própria existência dos muçulmanos minoritários, juntamente com sua civilização, cultura e tradição. Em outubro de 1938, o Sr. Jinnah afirmou que o Congresso estava tentando estabelecer o domínio hindu em todo o subcontinente. Em uma entrevista ao Manchester Guardian, declarou que qualquer pessoa que observasse o cenário político da Índia entre 1937 e 1939 perceberia que o objetivo e a finalidade do Congresso eram eliminar do país todas as demais organizações e estabelecer uma organização fascista do tipo mais degradado. Nessas circunstâncias, é impossível administrar um governo parlamentar na Índia. Aqui, democracia significa domínio hindu. Os muçulmanos não podem aceitar essa situação de maneira alguma. [Jamiluddin Ammed (Ed.) – Some Recent Speeches & Writtings of Mr. Jinnah (Lahore, 1952]

Até círculos imparciais reconhecem abertamente, a respeito da atitude antimuçulmana dos ministérios do Congresso, que, sob o domínio da maioria, os temores dos muçulmanos aqui não são infundados. Segundo um cristão indiano, o Congresso é a versão indiana do Partido Nazista da Alemanha. (Rev. Pitt Banarjee – Letter of Manchester Guardian, 18 de agosto de 1942; I.H. Qureshi – The Struggle for Pakistan)

A opinião de vários jornais

Sobre a forma extremamente agressiva que o nacionalismo hindu assumiu e o aumento da amargura comunal após o Congresso ter formado governos em sete províncias, o jornal The Statesman, de Calcutá, escreveu: Todo patriota indiano ficará alarmado ao ver o terrível aumento da tensão comunal provocado pelo estabelecimento da autonomia provincial. O jornal The Economist comentou que as províncias podem ser diretamente divididas em duas partes: Índia muçulmana e Índia do Congresso. Um antigo editor do The Times of India afirmou que o conflito hindu-muçulmano não se devia apenas a razões religiosas; havia uma enorme diferença entre as duas comunidades em seus modos de vida. Os governos provinciais congressistas continuaram a governar sob as instruções do Comitê de Congresso de Toda a Índia. Por isso, os apoiadores do Congresso na Grã-Bretanha começaram a sentir desconforto diante dessa manifestação de domínio congressista abrangente. A política de hinduização do Congresso, a introdução do hino Vande Mataram e da adoração do retrato de Gandhi nas instituições de ensino, entre outras medidas, provam facilmente que o novo sistema de governo havia estabelecido plenamente um governo hindu. (The British Achivement in India: A Survey, Rawlinson; p.214; O desenvolvimento da sociedade de classe média: a transformação da cultura, Abdul Mawdud, p. 287)

O bramanismo hindu não está disposto a tolerar de modo algum qualquer outra comunidade, especialmente os muçulmanos. Por essa razão, a união entre hindus e muçulmanos não foi possível na Índia. Os muçulmanos não são de modo algum responsáveis por isso. A Índia hindu rotula o Sr. Muhammad Ali Jinnah de comunalista. Mas alguém poderá negar que ele foi um pioneiro da união hindu-muçulmana? Durante muitos anos, ele se esforçou incansavelmente por essa união e, decepcionado, deixou a Índia, prometendo nunca mais voltar. Mais tarde, porém, teve de retornar à Índia e assumir a liderança da Liga Muçulmana com o objetivo de lutar pela obtenção das reivindicações e dos direitos legítimos dos muçulmanos.

Longe de haver união entre hindus e muçulmanos, devido ao extremo ódio dos hindus pelos muçulmanos, o país inteiro foi devastado por tumultos comunais durante oito anos, a partir de 1920. Em 1923, ocorreram 11 grandes tumultos; em 1924, 18; em 1925, 16; em 1926, 35; e até novembro de 1927, 31. Um inglês escreveu na Fortnightly Review: a união entre hindus e muçulmanos é uma impossibilidade, como muitas outras coisas impossíveis no mundo. Na revista Asiatic Review, um certo Patrick Fagan escreveu: os muçulmanos da Índia subjugada têm dois caminhos abertos: ou se fundirem à nação hindu, ou, por meio da força física, estabelecerem Estados independentes em algumas regiões da Índia. (O desenvolvimento da sociedade de classe média: a transformação da cultura, Abdul Mawdud—286)

Na Índia, não houve um único ano em que os tumultos e distúrbios comunais cessassem. Esses tumultos ocorreram nas regiões de maioria hindu. Também é verdade que a comunidade hindu majoritária foi a instigadora desses tumultos e que foi essencialmente responsável por eles. Mas o Sr. Gandhi, fechando os olhos, culpou os muçulmanos em todos os casos. Com isso, os verdadeiros culpados foram encorajados.

Acima, foi feita uma breve discussão sobre o exemplo de um governo hindu de Ram Rajya estabelecido durante os dois anos e meio de governo do Congresso e sobre a extrema calamidade que se abateu sobre o destino dos muçulmanos. Nesse período, em 1938, Subhas Chandra Bose foi eleito presidente do Congresso. Ele era considerado relativamente mais liberal do que os outros. Manteve uma longa troca de correspondência com Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah. Quaid-e-Azam repetidamente disse ao Sr. Subhas Chandra Bose que o Congresso e a Liga Muçulmana deveriam se unir para resolver todas as disputas e diferenças de opinião. Quaid-e-Azam fez a última tentativa de reconciliação entre o Congresso e a Liga Muçulmana, isto é, entre hindus e muçulmanos. Mas Subhas Bose respondeu à carta de Quaid-e-Azam dizendo:

Não há mais nada que o Comitê de Trabalho possa fazer quanto às conversações com a Liga. (Muslim Political Thiught the Ages 1562-1947-G.Allana Moqbul, Lahore, p-242)

Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah, em seu discurso presidencial na sessão da Liga Muçulmana realizada em Patna, em 1938, disse:

Os líderes do Congresso querem que os muçulmanos aceitem incondicionalmente o domínio hindu na Índia. … Vocês certamente sabem que o Congresso bloqueou todos os caminhos para um entendimento hindu-muçulmano com o objetivo de exercer uma dominação e autoridade fascistas. Ele disse que há quatro forças atuando na Índia: (1) os britânicos, (2) os governantes dos Estados indianos, (3) os hindus e (4) os muçulmanos. Por mais que os jornais e periódicos do Congresso publiquem isso em letras garrafais, lancem edições ao meio-dia, à tarde e à noite, e por mais que os líderes do Congresso façam discursos inflamados afirmando que o Congresso é uma organização nacional, eu digo que isso não é absolutamente verdade. Não passa de uma organização hindu. Essa é a verdade, e os líderes do Congresso sabem disso muito bem. O fato de alguns poucos — alguns muçulmanos confusos e desviados — estarem envolvidos com más intenções não transforma, nem pode transformar, o Congresso em uma organização nacional. O Congresso é, sobretudo, uma organização hindu, e desafio qualquer pessoa a negá-lo. Pergunto: o Congresso representa os muçulmanos?

Os ouvintes respondem em uníssono: — Não, não, não.

Pergunto: o Congresso representa a comunidade cristã? Representa as comunidades das castas registradas? Representa os não brâmanes? A multidão responde em uníssono a cada pergunta: não, não, não.

Ele acrescenta que o Congresso também não representa todos os hindus. Não representa tampouco a Hindu Mahasabha nem a Federação Liberal. Contudo, sem dúvida, o Congresso é um partido de maioria absoluta. Nada mais.

Ele diz que é uma desgraça para o país o fato de a alta direção do Congresso estar absolutamente determinada a eliminar as outras comunidades e culturas para estabelecer o domínio hindu.

O Quaid-e-Azam então menciona, uma a uma, as ações do Congresso e prova que ele não é uma organização nacional. Ele diz: o que o Congresso faz quando chega ao poder? Embora finja defender o nacionalismo, começa seus trabalhos com ‘Vande Mataram’. É universalmente reconhecido que ‘Vande Mataram’ não é um hino nacional.

Apesar disso, é cantado como hino nacional e imposto aos demais. Não é cantado apenas em suas reuniões partidárias. Pelo contrário, todos são obrigados a cantá-lo também nas escolas públicas e municipais. Independentemente de suas crenças religiosas permitirem ou não que o cantem, os muçulmanos são obrigados a aceitar ‘Vande Mataram’ como hino nacional. Trata-se de idolatria e de um canto laudatório que incita o ódio contra os muçulmanos.

Ele diz: tomemos agora a questão da bandeira do Congresso. Ela não é a bandeira nacional universalmente reconhecida da Índia. Mesmo assim, todos devem demonstrar respeito por ela, e ela deve ser hasteada em todas as residências públicas e privadas. Por mais que os muçulmanos protestem contra isso, não faz diferença. A bandeira do Congresso deve ser necessariamente hasteada como a bandeira nacional da Índia e imposta à força aos muçulmanos. Em seguida, falando sobre o projeto Hindi-Hindustani, ele diz que seu objetivo é subjugar o urdu e sufocá-lo até a morte.

Projeto Educacional de Wardha

As terríveis consequências do projeto educacional de Wardha, concebido pelo Sr. Gandhi (Warda Scheme of Education), foram apresentadas na discussão acima.

Em seu discurso, o Quaid-e-Azam disse: Atualmente, a mentalidade e a visão de mundo hindus estão sendo cuidadosamente promovidas, e os muçulmanos estão sendo obrigados a adotar ideais e concepções hindus em sua vida cotidiana. Os muçulmanos estão fazendo algo desse tipo em algum lugar? Estão impondo a cultura muçulmana aos hindus em algum lugar? Pelo contrário, basta que façam o menor protesto contra a imposição da cultura hindu aos muçulmanos para serem chamados de sectários. São acusados de perturbar a paz e, imediatamente, o aparato administrativo governamental despótico entra em ação contra eles. Considerem, por exemplo, os acontecimentos ocorridos em Bihar: sob o governo do Congresso, contra a cultura de quem foi desferido o golpe? Contra a dos muçulmanos. Contra quem foram adotadas medidas repressivas, impostas proibições e efetuadas prisões? Tudo isso foi feito contra os muçulmanos. Mas alguém pode apresentar sequer um exemplo em que a Liga Muçulmana ou algum muçulmano tenha tentado impor a cultura muçulmana aos hindus? (Creation of Pakistan, Justice Syed Shameem Hossain Kadir, pp. 139–143)

Terceiro capítulo

Discussões entre a Liga Muçulmana e o Congresso

De 1935 até o início da Segunda Guerra Mundial, foram feitas muitas tentativas por parte da Liga Muçulmana para chegar a um acordo com o Congresso. Para esse fim, o Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah reuniu-se várias vezes com Babu Rajendra Prasad, presidente do Congresso. Mas essas reuniões não produziram resultado algum. Por fim, foi divulgada uma declaração conjunta dos dois líderes, na qual se dizia que eles lamentavam que os esforços empreendidos para encontrar uma solução para o problema comunal, aceitável por todos os partidos envolvidos, tivessem finalmente fracassado.

No início de 1938, Jinnah e Gandhi trocaram cartas. A diferença fundamental de opiniões entre os dois partidos tornou-se clara por meio dessa troca de correspondência. Na carta que o Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah escreveu ao Sr. Gandhi em 3 de março de 1938, ele expôs, em duas frases, o tema central de sua discussão. Disse: Aceite a Liga Muçulmana como o único partido confiável e representativo dos muçulmanos da Índia e, por outro lado, represente o Congresso e todo o país. Somente com base nisso poderemos avançar e desenvolver um processo de progresso. Em resposta, o Sr. Gandhi disse, em 8 de março: No sentido em que o senhor o afirmou, não represento nem o Congresso nem os hindus. Contudo, para chegarmos a uma solução honrosa, exercerei minha influência moral sobre os hindus. (The full Text of Jinnah-Gandhi letters in Durlab Singh, pp. 16–32. The Struggle for Pakistan — I. H. Quershi, p. 109)

A resposta acima do Sr. Gandhi não continha verdade nem sinceridade. Qualquer que seja a política declarada de uma organização, sua verdadeira identidade é revelada por suas atividades e conduta efetivas. Negar que o Congresso era uma organização inteiramente hindu seria negar a verdade. A conduta do Congresso sempre expressou a consciência e os interesses hindus. A colaboração do Congresso com o movimento Khilafat na Índia pode ter criado uma impressão equivocada na mente de alguns. Mas não havia sinceridade alguma nessa colaboração. Ela ocultava uma intenção maliciosa, como prova a própria declaração de Gandhi. Ele disse: Creio que a questão do Khilafat é central para nós dois — para Muhammad Ali, ela é sua religião; para mim, consiste em tornar certa a proteção das vacas, sacrificando minha vida pela causa do Khilafat. Ou seja, Jinnah & Gandh, p. 61; Desenvolvimento da sociedade de classe média: transformação da cultura, Abdul Mawdud, p. 168.

O Sr. Gandhi disse ao representante do New Chronicle: “Na Índia há um único partido capaz de promover o progresso e o bem-estar. E esse partido é o Congresso. Não estou disposto a aceitar nenhum outro partido além do Congresso.”

Ele acrescentou que, qualquer que fosse o nome depreciativo pelo qual o chamassem, havia na Índia um único partido, e esse partido era o Congresso. (Muslim Separatism in India, Abdul Hamid, p. 217)

O Quaid-e-Azam também trocou correspondência com o Pandit Jawaharlal Nehru. É importante mencionar que, após as eleições para as assembleias provinciais, o Pandit Jawaharlal Nehru havia declarado que no país havia apenas dois partidos — o Congresso e o Governo. E os demais deveriam necessariamente seguir o método de atuação do Congresso. Aqueles que não estão conosco estão contra nós. (Muslim Separatism in India, Abdul Hamid, p. 217)

Apesar de conhecer a mentalidade fascista de Jawaharlal Nehru, o Quaid-e-Azam continuou empreendendo esforços sinceros para alcançar uma solução conciliatória entre os dois partidos. Em uma longa carta escrita em 6 de abril de 1938, o Pandit Nehru negou todas as acusações do Quaid-e-Azam. Ele disse que o Congresso não estava disposto a abandonar a canção “Vande Mataram”, pois não seria apropriado que uma organização nacional fizesse algo desse tipo. Também não vejo que alguém tenha qualquer objeção ao uso da bandeira do Congresso. Como a Liga Muçulmana é uma importante organização comunitária, nós a tratamos dessa maneira. As demais organizações muçulmanas também não podem ser ignoradas. Portanto, não se coloca a questão de reconhecer a Liga Muçulmana como a única organização dos muçulmanos indianos.

Na carta, ele acrescentou que não sabia de nenhuma tentativa do Congresso de menosprezar o urdu ou de estabelecer o Ram Rajya. Quem está fazendo essas coisas? Acrescentou também que não sabia o que significava um ministério de coalizão.

O significado simples e direto de suas palavras era que o Congresso não estava de modo algum disposto a compartilhar o poder nas províncias com a Liga Muçulmana ou com qualquer outro partido, e permanecia firme nessa posição. Ao final da carta, Nehru disse: “Pessoalmente, não gosto de nenhum tratado ou acordo, nem de qualquer coisa desse tipo.”

Subhas Chandra Bose foi eleito presidente do Congresso em 1938. Depois de fracassar na troca de correspondência com Gandhi e Nehru, o Quaid-e-Azam trocou cartas com Subhas Bose. Em maio, o Quaid-e-Azam apresentou ao Conselho Executivo da Liga Muçulmana, para discussão, a carta escrita pelo Sr. Bose. A resolução adotada sobre o assunto dizia que a Liga Muçulmana não concordaria em discutir com o Congresso qualquer questão relativa à solução das divergências entre hindus e muçulmanos enquanto a Liga Muçulmana não fosse reconhecida como a organização de confiança e representativa dos muçulmanos indianos. Em conformidade com isso, o Quaid-e-Azam disse ao Sr. Bose, em uma carta escrita em 2 de agosto:

No pacto Congresso–Liga Muçulmana assinado em Lucknow, em 1916, a Liga Muçulmana foi reconhecida como a organização de confiança e representativa dos muçulmanos indianos. Desde então até as conversações entre Jinnah e Rajendra Prasad, em 1935, nenhuma questão foi levantada a esse respeito. Os muçulmanos que estão no Congresso não podem representar os muçulmanos indianos. A Liga Muçulmana tampouco sabe de qualquer partido político muçulmano que tenha reivindicado representar os muçulmanos indianos. Da parte do Congresso veio uma resposta surpreendente: isto é, o Congresso não estava disposto a aceitar nenhuma das reivindicações da Liga Muçulmana. (The Struggle for Pakistan, I. H. Qureshi, pp. 107–112)

Como resultado das discussões e da troca de cartas entre o Congresso e a Liga Muçulmana, tornaram-se claros vários pontos de grande importância. Primeiro: o Congresso nega as acusações de opressão e injustiça contra os ministérios do Congresso. Segundo: o Congresso não considera de modo algum a questão hindu-muçulmana um problema. Segundo sua opinião, trata-se apenas de uma emoção e de um entusiasmo passageiros. Com a mudança dos tempos, isso mergulhará no abismo do esquecimento. Terceiro: a reivindicação do Congresso é a de ser uma organização representativa do movimento nacionalista de toda a Índia. O Congresso é a única organização nacional genuína, que representa todos, independentemente de raça ou religião. Muitos partidos políticos muçulmanos apoiam o Congresso. Somente a Liga Muçulmana permanece afastada. Por quanto tempo continuarão assim? Talvez em breve se juntem ao Congresso. Portanto, que necessidade há de dar importância às reivindicações da Liga Muçulmana?

A visão acima exposta do Congresso naturalmente provoca uma reação dentro da Liga Muçulmana e torna a Liga Muçulmana unida, coesa e forte. Nessa longa discussão, torna-se claro que o Congresso é um partido que representa a Índia hindu. Seu objetivo não é apenas manter os muçulmanos subjugados no campo político; é também eliminá-los. O movimento de Bal Gangadhar Tilak, o movimento de shuddhi de Swami Shraddhanand, e as filosofias políticas do Congresso e da Hindu Mahasabha tinham o mesmo objetivo: manter os muçulmanos oprimidos e subjugados, ou eliminá-los, e estabelecer um Ram Rajya hindu.

Cabe mencionar que, em 1906, durante o movimento pela anulação da Partição de Bengala, o “Festival de Shivaji” foi celebrado em toda a Índia com o objetivo de revitalizar o hinduísmo. Todos os líderes da sociedade hindu, políticos, poetas, escritores e educadores participaram alegremente desse festival. Nessa ocasião, o poeta Rabindranath Tagore juntou-se diretamente ao trabalho de revitalização do hinduísmo ao escrever “Festival de Shivaji” e, pronunciando “Vitória a Shivaji ao auspicioso toque da concha”, recebeu a iniciação neste mantra de meditação:

Segurando a bandeira, hastearei o manto superior do asceta—

a força dos pobres.

“Haverá um reino de uma só religião nesta Índia”: farei desta grande palavra

o meu apoio.

A política e a revitalização do hinduísmo fundiram-se inseparavelmente. No ambiente aquecido pela consciência religiosa, tentou-se transformar a política em um movimento de massas.

(B. B. Misra, The Indian Class: Their Growth). Abdul Moudud: O desenvolvimento da sociedade de classe média: a transformação da cultura)

Antes da Primeira Guerra Mundial, um amigo muçulmano do correspondente do The Times, Sir Valentine Chirol, disse-lhe que se ouvia Tilak, seus seguidores e os nacionalistas hindus do Punjab e de Bengala declararem abertamente que, assim como os muçulmanos haviam sido expulsos da Espanha no passado, seriam igualmente expulsos da Índia. Sir Walter Lawrence também fez observações semelhantes. Ele era membro da equipe do vice-rei Curzon. Ouviu o marajá de Indore, Sir Pratap Singh, expressar sentimentos semelhantes. Ele disse: anteriormente, não havia percebido a profundidade desse seu ódio. Lord Curzon foi a Shimla em minha homenagem e à de minha esposa. Sir Pratap também foi a Shimla para participar do jantar oferecido por ele. Depois do jantar, Sir Pratap conversou até as duas da madrugada sobre suas esperanças e ambições. Entre suas ambições estava a de exterminar os muçulmanos do território da Índia.

…Ele conhecia bem o inglês, convivera com muitas nações e era adepto de uma civilização cosmopolita. Mas, sob seu nobre coração, havia um ódio implacável pelos muçulmanos.

(Sir Walter Lawrence: The India We Served, p. 209; Abdul Hamid: Muslim Separatism in India, pp. 83–84)

Quem quer que tenha conseguido analisar minuciosamente, com espírito imparcial, as relações entre hindus e muçulmanos no subcontinente, deparou-se com essa mesma mentalidade hindu em relação aos muçulmanos. Por isso, Patrick Fagan afirmou em um artigo publicado na revista Asiatic Review que, na Índia sob dominação estrangeira, os muçulmanos tinham apenas dois caminhos abertos: um era fundir-se na sociedade hindu; o outro, usando a força física, criar Estados independentes em algumas regiões da Índia. Por fim, não restou aos cem milhões de muçulmanos da Índia outra alternativa senão uma luta desesperada pela criação de uma pátria própria e independente.

Quarto capítulo

O movimento pelo Paquistão

O movimento para estabelecer, no subcontinente, uma pátria independente e soberana para os muçulmanos, denominada “Paquistão”, era extremamente natural e, à luz de todos os argumentos e debates, sumamente justo. Pois a existência dos muçulmanos do subcontinente dependia inteiramente da criação do Paquistão. Se, por um lado, o governo britânico não pôde aceitar a reivindicação do movimento pelo Paquistão, por outro, o Congresso Hindu não apenas se recusou a aceitá-la, como também se opôs a ela empregando todas as suas forças. Apesar disso, como resultado da luta unida dos cem milhões de muçulmanos do subcontinente ao longo de sete anos consecutivos e do sangue de milhões de homens e mulheres muçulmanos, um país independente chamado Paquistão conquistou um lugar no mapa-múndi. A consciência ideológica e islâmica que atuou e prevaleceu por trás desse movimento pelo Paquistão é um legado eternamente memorável da nação muçulmana, e é absolutamente necessário que as futuras gerações muçulmanas conheçam e mantenham na memória sua história objetiva.

Neste livro, foram discutidos em detalhe a Partição de Bengala de 1905, realizada por Lord Curzon unicamente por razões administrativas, o movimento dos hindus pela anulação da Partição de Bengala e sua revogação em 1911; os conflitos comunitários provocados pelos hindus, em toda parte e a qualquer momento, contra os muçulmanos, causando enormes danos às vidas e aos bens destes; e os dois anos e meio de mau governo do Congresso em sete províncias. Essa discussão deixou claro que, por serem esmagadoramente majoritários e poderosos neste subcontinente, os hindus desejam manter a nação muçulmana como seus escravos mais submissos ou eliminá-la. Foi para alcançar esse objetivo que a reivindicação do Congresso era que o Congresso Nacional Indiano constituía a única instituição política dos habitantes deste subcontinente e que o governo britânico deveria transferir-lhe todo o poder. Além disso, o Congresso fazia outra reivindicação estranha e irrealista: todos os que vivem neste subcontinente formariam uma única nação — a nação indiana. A realidade, porém, é que este subcontinente não pertence a uma só nação; é a pátria de muitas nações. Entre elas, as principais e mais importantes são as nações hindu e muçulmana. O único objetivo do Congresso era o renascimento da civilização e da cultura hindus, o renascimento do hinduísmo e o estabelecimento do Ramrajya hindu. Os diversos comportamentos do Congresso e de seus dirigentes em diferentes momentos arraigaram essa convicção no coração dos muçulmanos; por isso, eles foram obrigados a empreender o movimento pelo Paquistão.

Vejamos agora o que dizem os historiadores hindus sobre a nacionalidade indiana do Congresso e o estabelecimento do Ramrajya.

O Dr. Ramesh Chandra Majumdar afirma: O despertar da consciência nacional hindu ocorrido na segunda metade do século XIX era, em sua verdadeira forma, um renascimento do hinduísmo cujo único objetivo era estabelecer o “Ramrajya”. A fundação da Hindu Mela em Bengala, da Sarbajanin Sabha em Pune e da Mahajan Sabha em Madras visava essencialmente ao renascimento do antigo hinduísmo. A fundação da “Gorakshini Samiti” por Dayanand, em 1882, e a realização do “Shivaji Utsav” por Bal Gangadhar Tilak, em 1896, nasceram da mesma inspiração. A atividade literária de Bankim Chandra também foi impulsionada pelo mesmo objetivo. Sua obra “Anandamath” e o hino “Vande Mataram” proclamavam em uníssono que o hinduísmo, a nação e a consciência nacional eram um único tema indivisível — expressões de uma mesma corrente de pensamento. Por isso, ele não poupou nem um pouco suas maldições, insultos e torrentes de ódio contra os muçulmanos. … Naquela época, foi necessário importar biografias de heróis. O patriotismo do Raja Pratap e os feitos heroicos de Shivaji eram celebrados em todas as nossas casas. Não se encontra na literatura de nenhum outro país poesia tão heroica quanto os poemas que Rabindranath escreveu sobre Shivaji e sobre os gurus sikhs Banda e Guru Gobind. Na verdade, o intenso movimento de hostilidade entre comunidades que surgiu e se intensificou por meio da literatura e da imprensa bengalis contemporâneas não tem paralelo na literatura de nenhum país do mundo. (Dr. R.C. Majumdar, History of Freedom Movement, pp. 202–205; Abdul Mawud, Desenvolvimento da sociedade de classe média: transformação da cultura, p. 267.)

Pelas próprias palavras do historiador Dr. Ramesh Chandra Majumdar, ficou claro que a nacionalidade do Congresso significava o renascimento do hinduísmo e o estabelecimento do Ramrajya hindu. Como poderiam os muçulmanos ter lugar nessa nacionalidade? Ainda assim, a reivindicação do Congresso à nacionalidade indiana poderia ser algo além de uma fraude extrema? O Dr. Majumdar também lançou luz sobre essa reivindicação. Ele afirma: Existia uma nacionalidade indiana em 1833? A resposta é não….. Naquela época, os líderes bengalis, inclusive Rammohun Roy, rezavam a Deus pela vitória dos britânicos na guerra contra as demais forças indianas. …. Em 1833, havia no Bengala pessoas de duas nações — hindus e muçulmanos. Embora fossem habitantes do mesmo país, eram diferentes em todos os aspectos, exceto na língua. Na religião, na educação e na vida social e cultural, haviam vivido durante seiscentos anos como se estivessem em dois mundos diferentes. Rammohun Roy, Dwarkanath Tagore, Prasanna Kumar Tagore e outros cidadãos ilustres de Calcutá consideravam os muçulmanos a fonte de todas as desgraças e infortúnios dos hindus, que estes haviam sido obrigados a suportar durante novecentos anos. Consideravam o domínio britânico uma bênção divina, graças à qual os hindus haviam sido libertados do infame domínio muçulmano. Em toda a literatura e em todos os periódicos bengalis, os muçulmanos eram mencionados como “yavanas”; naquela época, não havia qualquer desejo de expulsar os britânicos e estabelecer um governo hindu ou indiano. Nem mesmo Rammohun Roy alimentava tal desejo. Cidadãos ilustres como Prasanna Kumar Tagore declaravam publicamente que, se Deus lhe pedisse que escolhesse entre o “swaraj” e o domínio britânico, ele escolheria este último sem hesitação. (Dr. R.C. Majumdar, History of Freedom Movement, p. 193.)

O Dr. Majumdar provou que hindus e muçulmanos eram duas nações distintas. Os intelectuais hindus mencionados acima consideravam os muçulmanos inimigos da nação hindu. Como seria possível formar uma única nação indiana reunindo essas duas nações distintas e antagônicas? Quando surgiu essa ideia e quem foi o promotor dessa nacionalidade única?

O falecido Maulana Abul Kalam Azad, sem qualquer razão lógica, permaneceu ligado ao Congresso hindu até o último momento de sua vida. Ele próprio também considerava hindus e muçulmanos duas nações distintas. Certa vez, no jornal diário Al-Hilal, publicado em Calcutá sob sua direção, afirmou em termos inequívocos:

“Que espécie de coisa é construir uma nacionalidade unindo hindus e muçulmanos? Por acaso, entre eles, um não é óleo e o outro água?”

“Como é ridículo formar uma única nação unindo hindus e muçulmanos! Por acaso, um deles não é óleo e o outro água?”

O Dr. Majumdar também destacou as características completamente distintas de hindus e muçulmanos. Portanto, deve-se dizer que a ideia de uma nacionalidade indiana era puramente imaginária e enganosa. Em 1857, a nação hindu também se opôs ao primeiro movimento de libertação do subcontinente, iniciado pelos esforços dos soldados muçulmanos. Raja Rammohun Roy chegou a rezar a ‘Deus’ pela vitória britânica nessa guerra de independência. A esse respeito, o historiador Binoy Ghosh afirma: durante a revolta dos sipais (o movimento de libertação dos sipais), nossa imprensa nacional não demonstrou qualquer simpatia pelos revoltosos………. Toda a imprensa, então, elogiou os benefícios do domínio britânico e insultou os revoltosos, chamando-os de membros das classes inferiores da sociedade. Quase todos os jornais e revistas desempenharam o mesmo papel. Isso ocorreu porque a classe média hindu daquela época não estava disposta a tolerar qualquer tipo de revolta contra o domínio britânico (Benoy Ghosh, History of Bengal 1757-1905. C.U. Contribution, pp. 227-28).

A declaração do Sr. Nirad Chandra Chaudhuri comprova quão absurda era a ideia de uma nacionalidade indiana que reunisse hindus e muçulmanos do subcontinente. Ele afirma: a Partição de Bengala criou uma separação eterna entre hindus e muçulmanos e, despertando em nós ódio por eles, rompeu para sempre os laços de amizade. Isso se manifestou nas ruas, nos mercados, nas instituições de ensino e conquistou um lugar no coração das pessoas.

Ele afirma ainda que, na escola onde estudava, eles sentiam repulsa por se sentarem junto dos colegas muçulmanos, pois deles vinha cheiro de cebola. Assim, atendendo à exigência dos hindus, os lugares onde os alunos hindus e muçulmanos se sentavam foram separados.

O Sr. Chaudhuri afirma que, antes mesmo de começarmos a estudar, nos diziam que, outrora, durante o domínio muçulmano naquele país, eles nos haviam oprimido e perseguido, além de propagarem sua religião na Índia, levando o Alcorão em uma mão e a espada na outra. Além disso, diziam que os governantes muçulmanos haviam raptado nossas mulheres, destruído nossos templos e profanado nossos lugares sagrados. (N. C. Chaudhury: The Autobiography of an Unknown Indian: Abdul Hamid: Muslim Separatism in India)

Essa propaganda difamatória e incessante contra os muçulmanos ao longo dos séculos, a designação dos muçulmanos pelos poetas e escritores hindus como ‘yavanas’ e ‘mlecchas’ e, depois, a formação de uma nação com eles significavam mantê-los, segundo as normas religiosas hindus, como uma classe extremamente inferior, como escravos dos escravos dos hindus. Ou então exterminá-los completamente pela força. ‘Os muçulmanos estavam extremamente conscientes disso e de modo algum puderam aceitar a ideia de uma nacionalidade única.

Examinemos uma vez a história do nascimento do Congresso, que se proclama a única organização representativa do subcontinente e reivindica uma nacionalidade indiana, para verificar se ele era de fato amigo e representante dos muçulmanos.

A fundação do Congresso

Dois anos antes do nascimento do Congresso, em 1883, John Bright criou o ‘Comitê da Índia’ e tornou cinquenta parlamentares britânicos seus membros. Em 1885, o influente funcionário civil britânico aposentado do Indian Civil Service, Allan Octavian Hume (A. O. Hume), fundou o Congresso Nacional Indiano. Mesmo depois de se aposentar do serviço, ele permaneceu na Índia. Ele tinha a ideia de fundar uma organização pan-indiana para a renovação social da Índia, que pudesse contribuir para o progresso político. Em consequência, enviou uma carta aberta aos formados da Universidade de Calcutá. Na carta, enfatizou a necessidade de fundar uma associação e uma organização e afirmou categoricamente que o governo havia fracassado em resolver os problemas econômicos por não manter contato e comunicação com o povo. O trabalho de reconstrução teria de ser realizado pelos próprios habitantes do país, algo que não se poderia esperar dos estrangeiros, por mais que amassem este país.

De qualquer modo, como resultado das ideias e dos esforços acima mencionados de Allan Hume, foi formado o Congresso Nacional Indiano. Embora o vice-rei Lord Dufferin lhe concedesse considerável apoio, não quis envolver-se diretamente com ele. Contudo, esperava que a organização se fortalecesse e se consolidasse, tornando-se capaz de desempenhar o papel de uma oposição responsável. Hume propôs que fosse permitido a um governador provincial presidir a organização. Lord Dufferin discordou. Após a segunda sessão anual do Congresso, o governador de Madras ofereceu um jantar aos representantes. Assim, como o governo e o Congresso foram formados, um grupo de ingleses declarou seu pleno apoio a este último. Entre eles destacavam-se Sir William Wedderburn (WEDDERBURN), George Yule (YULE) e Charles Bradlaugh (BRADLAUGH). Charles Bradlaugh (BRADLAUGH) foi nomeado funcionário assalariado do Congresso em 1888. William Digby era um propagandista especial em Londres. Por meio do jornal India, o programa do Congresso e as questões indianas foram apresentados de modo especial ao público inglês. William Hunter era um grande apoiador do Congresso, e seu biógrafo afirma que, para influenciar a opinião pública britânica, o mérito de Hunter foi o único efetivo. O professor Seeley ensinava aos estudantes de Oxford. Ele dizia que a Índia não podia ser comparada à Inglaterra ou à França. Assim como na Europa existem muitas nações, na Índia também vivem muitas nações. Segundo Sir Henry James, os costumes religiosos dos hindus eram responsáveis pelos conflitos comunitários na Índia. Sir Theodore Morrison dizia que, embora os muçulmanos não fossem uma nação segundo a definição europeia, consideravam-se distintos dos demais indianos e estavam se formando como uma nação. (Abdul Hamid: Muslim Separatism in India, p. 29; Justice Syed Shameem Hussain Kadir: Creation of Pakistan, p. 12; Abdul Mawudud, O desenvolvimento da sociedade de classe média; A transformação da cultura: pp. 279–80)

O caráter e as características que o Congresso poderia assumir como organização política podiam ser claramente inferidos dos métodos, da filosofia política e dos princípios fundamentais de dois de seus líderes mais famosos e extremamente influentes. Eles eram Bal Gangadhar Tilak e Surendranath Banerjee.

Após sua graduação, Tilak abraçou a carreira jornalística e entrou no campo da política no início da década de 1880 do século passado. Contudo, esteve na vanguarda do movimento pela anulação da Partição de Bengala. Era um político habilidoso e acreditava na luta direta (direct action). Reviveu as tradições religiosas e políticas da guerreira nação marata e inspirou o Congresso com esse espírito. Formou a Sociedade para a Prevenção do Abate de Vacas (anti-cow-slaughter society) e lançou um movimento contra os muçulmanos e em protesto contra a proibição de instrumentos musicais diante das mesquitas, o que provocou tumultos comunitários na Índia. Portanto, a atividade de renascimento hindu iniciada em todos os campos sob a liderança de Tilak era certamente antimulçumana, e não havia qualquer diferença entre seu ‘nacionalismo indiano’ e seu ‘nacionalismo hindu’. (Abdul Hamid, Muslim Separatism in India, p. 30)

Surendranath Banerjee ingressou no Indian Civil Service (ICS) na década de 1860 do século XIX. Contudo, alguns anos depois, após ser afastado do cargo, entrou na política. Era uma figura central extremamente influente do Congresso. Entretanto, empregou todas as suas qualidades e capacidades em atividades contrárias aos interesses muçulmanos.

Foi ele quem primeiro deu o sinal de alarme no movimento contra a Partição de Bengala. Ele disse que, ao ouvir o anúncio da divisão de Bengala, sentiu como se um raio tivesse caído do céu sobre nós. Fomos insultados, humilhados e enganados. Depois disso, por sua iniciativa, o dia 16 de outubro de 1905 foi observado em Calcutá como Dia Nacional de Luto. Todos os hindus usaram distintivos negros e cobriram a cabeça com cinzas. Jejuaram e banharam-se no Ganges. Surendranath Banerjee liderou esse movimento.

Como resultado do intenso movimento terrorista dos hindus durante seis anos, a Partição de Bengala foi revogada em 1911. Para consolar os muçulmanos revoltados, o governo anunciou a criação de uma universidade em Daca. Alguns líderes do Congresso expressaram forte indignação diante dessa decisão do governo. Disseram que, se outra universidade fosse estabelecida em Bengala, a imagem da Universidade de Calcutá seria prejudicada. Assim, uma delegação liderada por Surendranath Banerjee reuniu-se com o vice-rei Lord Hardinge. O porta-voz, Surendranath Banerjee, disse que, se houvesse outra universidade na província, as divergências existentes entre os habitantes das duas regiões aumentariam muitas vezes. (A. Hamid: Muslim Separatism in India, pp. 30, 93)

Esses exemplos provam que o Congresso é uma instituição hindu. Seu objetivo é o renascimento do hinduísmo e o estabelecimento do Ram Rajya.

Entre os muçulmanos do subcontinente, Sir Syed Ahmad Khan foi a primeira pessoa que não conseguiu ver o Congresso com bons olhos. Analisando a história do nascimento do Congresso, sua estrutura central, seus dirigentes, sua política, seus objetivos e suas metas, o perspicaz e previdente Syed Ahmad havia percebido que,

O Congresso golpeará os interesses muçulmanos a cada passo. Por isso, ele exortou os muçulmanos do subcontinente a se absterem de ingressar no Congresso. Disse que, mesmo que o vice-rei, o Secretário de Estado e até toda a Câmara dos Comuns apoiassem publicamente o Congresso, ele se oporia firmemente a ele. Disse ainda: “Tenho a firme convicção de que, se as propostas do Congresso forem implementadas, será impossível ao governo britânico manter a paz ou impedir a violência e uma inevitável guerra civil.” (Justice Syed Sharneem Hussain Kadir, Creation of Pakistan, p. 12; I. H. Qurrshi, Struggle for Pakistan, p. 29; The Times, 12 nov. 1888)

As apreensões e as previsões de Saiyid Ahmad vieram posteriormente a se refletir nos acontecimentos. Os jornais e periódicos muçulmanos contemporâneos também expressaram suas opiniões contra o Congresso. Entre eles, destacavam-se o Muhamedan Observer, o Victoria Paper, o Muslim Herald, o Rafiq-e-Hind, entre outros. As seguintes organizações e instituições muçulmanas também apelaram conjuntamente ao Congresso:

Central National Muhamedan Association, The Muhamedan Literary Society of Bengal, The Anjuman-i-Islam of Madras, Dindigal Anjuman, Muhamedan Central Association of the Punjab. (Justice Syed Shameem Kadir, Creation of Pakistan, p. 13–14)

O Congresso tentou enganar os muçulmanos e o mundo exterior por meio de propaganda falsa e hipócrita. Alguns ingleses favoráveis ao Congresso também fizeram propaganda do mesmo tipo. Digby, agente de propaganda do Congresso no Reino Unido, dizia que o Congresso era porta-voz de todas as nações e classes, inclusive dos muçulmanos. Allan Hume, fundador do Congresso, não conseguia tolerar críticas ao Congresso. O India Committee, formado na Inglaterra, também falava em sintonia com o Congresso. Apesar de tudo isso, os muçulmanos do subcontinente passaram a ser reconhecidos como uma nação distinta, e essa foi a base do Paquistão.

 

A base ideológica do Paquistão

Com base na fé religiosa, nos ideais, em sua própria civilização e cultura, história e tradição, em uma visão de vida e um sistema de vida distintos, e na prestação de contas perante o Criador e o Mensageiro dos mundos na vida futura, os muçulmanos constituem uma nação, rejeitando todas as demais definições de nacionalidade. A base dessa nacionalidade, isto é, da nacionalidade islâmica, foi estabelecida no subcontinente no mês de Rajab do ano 93 da Hégira — ou seja, em 712 d.C. — quando um jovem comandante de dezessete anos chamado Imad ad-Din Muhammad bin Qasim desembarcou no porto de Debal (atual Karachi) e libertou as mulheres e crianças muçulmanas da prisão do rei Dahir. Após derrotar o rei Dahir, construiu ali a primeira mesquita.

Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah disse que o movimento pelo Paquistão começou no momento em que o primeiro muçulmano pôs os pés no território do Sindh. (Justice Shameem Hussain Kadir, Creation of Pakistan, p. 1.) Depois de Debal, isto é, Karachi, e em seguida de Nirun (atual Hyderabad), a bandeira vitoriosa do Islã foi hasteada em Sehwan. Posteriormente, no dia 10 de Ramadã al-Mubarak (93 da Hégira), o forte de Rawar foi conquistado, e o rei de Debal foi derrotado e morto em batalha. Em pouco tempo, Brahmanabad (atual Sanghar) e Alor (cidade situada a leste da atual Rohri) caíram nas mãos dos muçulmanos, em consequência do que Multan se rendeu. No ano 96 da Hégira, o norte da Índia também se preparava para reconhecer voluntariamente a soberania de Muhammad bin Qasim, quando o califa o convocou a Damasco.

O habilidoso comandante muçulmano Muhammad bin Qasim estabeleceu nos territórios sob seu domínio um sistema exemplar de governo islâmico, capaz de conquistar de tal modo o coração dos súditos hindus e budistas que um grande número de não muçulmanos aceitou voluntariamente o Islã. A influência dos ensinamentos islâmicos sobre os que aceitaram o Islã foi tão grande que eles reformularam suas vidas de acordo com as instruções do Alcorão e da Sunnah. O alfabeto árabe também foi adotado para a língua sindi.

O estabelecimento, a ascensão e a queda do Estado islâmico no subcontinente

Muhammad bin Qasim não foi apenas o fundador de um Estado islâmico neste subcontinente; foi também um pioneiro no estabelecimento da civilização e da cultura islâmicas. O governo islâmico e a civilização e cultura islâmicas criaram a principal inspiração para a fundação do Paquistão. A semente da civilização e da cultura que foi plantada germinou, desenvolveu-se e cresceu com o curso do tempo; mais tarde, com a chegada de muitos governantes muçulmanos ao subcontinente em trajes de conquistadores, a bandeira islâmica passou a tremular por todo o subcontinente. Após a conquista do Sind por Muhammad bin Qasim, em meados do século XVIII, o governo muçulmano no subcontinente chegou ao fim em consequência de intensos conflitos internos, decadência moral e ataques de potências estrangeiras.

As características inatas e naturais do Islã

Islã significa submeter-se espontaneamente à servidão e à obediência absolutas a Allah Todo-Poderoso; sua característica natural é que os seguidores do Islã não podem aceitar um sistema sem Deus nem a supremacia dos não muçulmanos. O Islã apresenta à humanidade um sistema de vida completo, e seus princípios fundamentais aplicam-se igualmente a todos os aspectos espirituais e materiais da vida. No Islã, Estado e religião não estão separados um do outro; ao contrário, os aspectos materiais e mundanos da vida estão integrados aos seus aspectos espirituais. Um muçulmano, seja como chefe de Estado, seja como cidadão comum, realiza todas as suas atividades com a firme convicção de que Allah Todo-Poderoso observa todos os seus atos e de que, por fim, terá de prestar contas diante d’Ele por tudo o que fez. Foi com base nos princípios fundamentais, ideais e valores éticos acima mencionados do Islã que o governo muçulmano foi estabelecido no subcontinente e permaneceu vigente durante vários séculos. Embora a lei do país (Law of the land) fosse islâmica, no que dizia respeito às leis pessoais e familiares, cada uma das demais comunidades tinha o direito de conduzir sua vida segundo suas próprias normas religiosas.

Entre os governantes muçulmanos do subcontinente, todos, exceto Akbar, foram portadores da civilização e da cultura islâmicas. Embora alguns deles tenham fracassado em seguir plenamente os preceitos islâmicos na vida pessoal — 414, História dos muçulmanos de Bengala —, o caráter do país era islâmico em todos os lugares. Os governantes não promoveram diretamente a divulgação e a expansão do Islã. Esse trabalho foi realizado com devoção por muitos sábios, pirs e dervixes vindos de outras regiões. Entretanto, os governantes muçulmanos fundaram inúmeras mesquitas, madrassas e khanqahs para expandir a educação islâmica. Para custear essas instituições, doaram centenas de milhares de acres de terras lakhraj. Sem dúvida, essas instituições desempenharam um papel eficaz na expansão da educação islâmica e da da‘wa islâmica no subcontinente. Como resultado, os não muçulmanos do subcontinente, maravilhados com a beleza do Islã, buscaram em grupos o abrigo de sua sombra refrescante. Com o passar do tempo, as regiões noroeste e sudeste do subcontinente tornaram-se de maioria muçulmana, transformando-se posteriormente no Estado do Paquistão.

Após o estabelecimento do domínio britânico no subcontinente, o governo islâmico foi gradualmente abolido, e foram introduzidos e impostos o Indian Civil and Criminal Codes of Procedure e o Indian Penal Code, em conflito com as crenças e os princípios fundamentais do Islã. Os muçulmanos foram mantidos completamente despojados no âmbito econômico.

Por meio da colaboração e da conspiração entre os britânicos e a comunidade hindu, os muçulmanos foram despojados de tudo e esmagados pela fome e pela pobreza. Apesar disso, não foi possível eliminar de suas mentes e corações as crenças fundamentais do Islã nem o pensamento e a consciência islâmicos. Como reação natural, no século passado houve protestos contra o governo britânico e foram proclamadas rebeliões. O Tah||||reek-e Mujahideen e a jihad armada de Sayyid Ahmad Shahid Barelvi, o movimento Faraizi em Bangladesh, o movimento islâmico de Titumir e outros foram expressões da irresistível consciência islâmica. O estabelecimento da civilização e da cultura islâmicas no subcontinente, seu cultivo durante vários séculos e a luta para preservá-las intactas constituíram a base do movimento pelo Paquistão.

Os muçulmanos são uma nação

A discussão acima deixou claro que muçulmano é o nome de uma nação. Em todos os aspectos — fé e aqidah (crença religiosa), práticas religiosas, determinação do bem e do mal, do justo e do injusto, do lícito e do ilícito com base na religião, sentimento de ter de prestar contas a Allah Todo-Poderoso na vida futura por cada ato público ou secreto da vida, civilização e cultura, gosto e capacidade intelectual, pensamento e consciência — os muçulmanos constituem uma nação distinta. Esse sentimento de distinção deriva da crença religiosa. Aqueles que creem verdadeiramente no tawhid, na missão profética e no Além, e que cumprem plenamente, em todos os aspectos da vida, as responsabilidades confiadas por Deus, formam uma nação distinta entre toda a humanidade; e Allah Todo-Poderoso reconheceu essa nação como a “Ummah Muçulmana”. O conjunto humano dotado das qualidades acima constitui a nação muçulmana, enquanto o conjunto humano dotado das qualidades opostas constitui as nações não muçulmanas — entre elas, hindus, cristãos, judeus, budistas e outros. Um muçulmano não pode tornar-se uma só nação com qualquer uma delas. No subcontinente, hindus e muçulmanos são duas nações distintas; como suas crenças religiosas, práticas religiosas e critérios do justo e do injusto, do lícito e do ilícito são completamente diferentes e opostos, eles constituem duas nações separadas. Foi com base nessa teoria das duas nações que o Paquistão foi criado.

A teoria de que os muçulmanos constituem uma nação distinta não é uma invenção da era moderna. O primeiro ser humano do mundo era muçulmano, profeta e califa de Allah. Allah concedeu-lhe um imenso tesouro de conhecimento. Foi a partir dele que começaram o Islã e a nacionalidade islâmica. Para preservar a existência dos muçulmanos no subcontinente, reivindicou-se, com base nessa teoria, uma pátria separada e independente. Essa nacionalidade é uma “teoria”, ou doutrina, eterna do Islã. Para estabelecer o domínio dos hindus majoritários sobre os muçulmanos minoritários do subcontinente, o Congresso Hindu criou a confusão da nacionalidade única; um renomado erudito, o xeique dos hadiths de Deoband, Maulana Saiyid Husain Ahmad Madani, declarou, acompanhando o tom do Congresso, que todos os habitantes da mesma delimitação geográfica, sem distinção de religião, formavam uma só nação. Mais tarde, a Liga Muçulmana reivindicou o Paquistão precisamente com base na teoria das duas nações (Two Nation Theory). A declaração acima de Maulana Madani deixou não apenas a Liga Muçulmana, mas também a comunidade dos eruditos religiosos e os muçulmanos comuns, surpresos e atônitos. Embora a reivindicação do Paquistão ainda não tivesse sido apresentada, todos conheciam a verdade de que os muçulmanos constituem uma nação distinta, e isso foi declarado repetidamente em diferentes ocasiões.

A declaração de Maulana Madani foi levada ao conhecimento do poeta filósofo Allama Iqbal, o visionário do Paquistão. Ele estava acamado, enfermo. Lentamente, com o corpo trêmulo, sentou-se na cama e, poeta por natureza, apesar das dores da doença, criticou duramente a declaração do senhor Madani em alguns versos, com a melodia da poesia:

Ajam ainda não compreendeu o segredo da religião,

que Deoband e Husain Ahmad são uma estranha maravilha.

Canta do alto do púlpito que a nação provém da pátria,

quão alheio está ao lugar de Muhammad, o Árabe.

Liga-te a Mustafa, pois toda a religião está nele,

Se não o alcançares, tudo será Abu Lahab.

(Allama Iqbal: Armagã de Hijaz, p. 278)

Significado: Os habitantes de Ajam não compreenderam de modo algum a essência da religião.

Por isso, que palavra tão estranha a de Husain Ahmad de Deoband!

Do minbar, declara: «A millat deriva da pátria»

Ele desconhece a dignidade de Muhammad al-Arabi. Se não puder alcançá-lo, tudo será Abu Lahab.

Embora os poucos versos do Dr. Iqbal tenham refutado a doutrina do Maulana Madani, ainda assim não foram suficientes para provar a falsidade da teoria de uma só nacionalidade. Nessa época, o Maulana Sayyid Abul Ala Maududi, após examinar minuciosamente os aspectos políticos, religiosos e culturais do subcontinente, escreveu em série, no mensário Tarjuman al-Qur’an, que editava, um longo artigo intitulado «Muçulmanos e a atual luta política», no qual lançou uma luz esclarecedora sobre a nacionalidade islâmica. Foi publicada uma obra independente, com mais de cem páginas, sobre esse tema. Nessa obra, ao descrever os fundamentos da nacionalidade islâmica, ele diz:

«As bases limitadas, materiais, sensíveis e supersticiosas sobre as quais foram construídos os palácios das diversas nacionalidades do mundo, Allah e Seu Mensageiro reduziram-nos a pedaços. Por causa das diferenças de raça, tribo, pátria, economia e política, a humanidade havia sido dividida em diversos fragmentos cada vez menores; o Islã concedeu a todas as suas classes igual dignidade e direitos iguais.

“Na nacionalidade islâmica, de fato se faz distinção entre as pessoas, mas não por qualquer motivo material, mundano ou externo. Ela é feita com base em aspectos espirituais, morais e humanitários. Apresenta-se à humanidade uma lei natural e verdadeira chamada Islã. Toda a humanidade é convidada à servidão e à obediência a Allah, à pureza e à purificação do coração e da mente, à integridade das ações, à honestidade e à observância da religião. Em seguida, diz-se que aqueles que aceitarem esse convite serão considerados uma única nação, enquanto aqueles que o rejeitarem pertencerão inteiramente a uma nação diferente. Em outras palavras, uma delas é a nação da fé e do Islã, e o conjunto de todos os seus indivíduos forma uma ummah. A outra é a nação da incredulidade e do desvio. Seus seguidores, apesar de suas divergências e diferenças mútuas, são considerados um único grupo e uma única comunidade.”

“Entre essas duas nações não há diferença quanto à descendência ou à tribo. A diferença está na crença e nas ações. Assim, até mesmo dois filhos do mesmo pai podem ser considerados membros de duas nações distintas em razão da diferença mencionada entre o Islã e a incredulidade, enquanto duas pessoas sem qualquer parentesco ou relação podem pertencer a uma mesma nação por terem abraçado o Islã.”

“A diferença de pátria também não pode ser a causa da separação entre essas duas nações. Aqui, a distinção é feita com base na verdade e na falsidade. E a verdade e a falsidade não têm ‘pátria’ ou terra natal. A nacionalidade de duas pessoas da mesma cidade, do mesmo bairro e da mesma casa pode ser diferente devido à distinção entre o Islã e a incredulidade. Um negro pode, por meio do Islã, tornar-se irmão de um marroquino.”

“A diferença de raça também não é causa de diferença nacional. No Islã, a cor da aparência externa é insignificante. Aqui, somente a cor de Allah tem importância. E essa é a cor mais excelente.”

“A diversidade linguística também não é causa da diferença entre o Islã e a incredulidade. No Islã, a língua da boca não tem valor algum. O que tem valor é a linguagem sem palavras da mente e do coração.”

“O ponto central do círculo da nacionalidade islâmica é a kalimah: Lā ilāha illā Allāh, Muhammadur Rasūlullāh. A amizade e a inimizade baseiam-se nessa kalimah. Seu reconhecimento une as pessoas, e sua rejeição provoca uma separação definitiva entre elas. Aquele que essa kalimah separa não pode ser unido a nós por qualquer vínculo ou parentesco, seja o sangue, a terra, a língua, a raça, o alimento, o sistema de governo ou qualquer outra coisa. Do mesmo modo, nada pode separar aqueles que essa kalimah une.”

O Maulana acrescenta:”

“É importante observar que a relação entre a nação muçulmana e as nações não muçulmanas tem dois aspectos. O primeiro é que, por serem seres humanos, muçulmanos e não muçulmanos são todos iguais. O segundo é que, devido à diferença entre o Islã e a incredulidade, devemos tratá-los com compaixão, bondade, generosidade e cortesia. Pois, do ponto de vista da humanidade, é esse o tratamento que eles podem receber. Além disso, se eles não forem inimigos do Islã, também se pode estabelecer com eles amizade, paz e cooperação em objetivos comuns (Common Cause). Mas nenhum tipo de relação material ou mundana pode unir-nos a eles e transformar-nos em ‘uma única nação’.”

Essa obra de Maulana Maududi sobre a nacionalidade islâmica causou grande agitação na sociedade muçulmana intelectual da época, dissipando completamente a confusão criada pelos discursos e panfletos de Maulana Madani. Os líderes e ativistas do movimento pelo Paquistão utilizaram-na como uma arma afiada. Na realidade, foi essa obra que estabeleceu a base científica da teoria das duas nações, tornando-se a principal causa da criação do Paquistão. A obra refutou os argumentos do plano do Congresso para estabelecer o perigoso Ram Rajya e da teoria da nacionalidade regional de Maulana Husain Ahmad Madani, provando que eram anticientíficos, irracionais, anti-islâmicos e vazios de conteúdo.

É precisamente por essas razões fundamentais acima descritas que, desde o início da criação humana, surgiram duas identidades nacionais distintas: muçulmanos e não muçulmanos; isso permanece vigente até hoje e assim permanecerá para sempre. Pela mesma razão, no subcontinente, os muçulmanos e as demais comunidades são completamente distintos. Aqui, hindus e muçulmanos vivem juntos há centenas de anos — na mesma cidade, aldeia e vizinhança, em lados opostos do mesmo pátio. Falam a mesma língua, nascem na mesma terra e são criados, nutridos e crescem sob a mesma luz e o mesmo ar. Contudo, não se fundiram nem se tornaram uma só coisa, e não se transformaram em uma única nação. Muitos eruditos do subcontinente também reconhecem essa verdade. Tomemos as próprias palavras do poeta Rabindranath, por exemplo. Ele diz:

“Não há mais necessidade de dizer mentiras. Agora temos de admitir que existe um conflito entre hindus e muçulmanos. Não somos apenas distintos; somos também opostos.

Vivemos lado a lado durante muitos séculos, desfrutando dos frutos do mesmo campo, da água do mesmo rio e da luz do mesmo sol. Falamos a mesma língua, somos pessoas que compartilham as mesmas alegrias e tristezas. No entanto, entre nós não se estabeleceu a relação humana e prescrita pela religião que deveria existir entre vizinhos. Entre nós, durante um longo período

alimentamos um pecado tal que, mesmo unidos, não conseguimos impedir a separação.

Sabemos que, em muitos lugares de Bangladesh, hindus e muçulmanos não se sentam no mesmo tapete; quando um muçulmano entra numa casa, uma parte do tapete é retirada, e a água do narguilé é jogada fora.” (Rabindra Rachanabali, vol. 12, p. 909; Abdul Maudud: O desenvolvimento da sociedade de classe média: a transformação da cultura; p. 420)

Babu Nirad Chaudhuri diz:

“Para dizer a verdade, a teoria das duas nações surgiu muito antes de Mr. Jinnah ou da Liga Muçulmana. E não se trata apenas de uma teoria, mas de um fato histórico real. Todos sabiam de sua existência no início do presente século. Até nós, quando éramos crianças, já sabíamos disso, desde antes do movimento Swadeshi.” (Autobiography of an Unknown Indian, pp. 229–31)

Essa verdade também não escapou à atenção dos europeus. Um historiador inglês afirma claramente o seguinte:

“Embora hindus e muçulmanos vivessem na mesma aldeia, na mesma cidade e no mesmo distrito, sempre mantiveram sua existência como duas nações distintas. Especialmente no âmbito religioso, permaneceram ainda mais separados do que duas nações europeias. Como exemplo, pode-se dizer que as nações francesa e alemã são, aos olhos dos europeus, duas nações inimigas ferrenhas. Ainda assim, um jovem francês que vá à Alemanha para negócios ou estudos pode facilmente morar em qualquer família alemã, comer junto com ela e entrar no mesmo templo de culto. Mas nenhum muçulmano tem tal acesso a uma família hindu.” (S. T. Morison: Political India, p. 103)

A extrema estreiteza, o fanatismo, as superstições e a absoluta falta de tolerância para com outras religiões, presentes nas normas religiosas imaginadas pelo próprio hinduísmo ou pelos brâmanes, são responsáveis pelo tratamento desumano dispensado aos muçulmanos. Uma característica do hinduísmo é seu sistema de castas (caste system). Segundo esse sistema, certo número de pessoas consideradas pertencentes ao hinduísmo é classificado como classe inferior. O hinduísmo não lhes concede nenhum direito humano. São considerados desprezíveis, impuros e intocáveis; ao serem declarados integrantes do hinduísmo, incutiu-se-lhes a ideia de que foram criados apenas para servir aos hindus das classes superiores, e que essa é a sua religião e sua maior obra meritória. Um hindu de classe inferior não pode estudar na mesma escola que um hindu de classe superior. Embora seja hindu, o hindu de classe inferior não pode ler os livros religiosos nem entrar nos templos. Se a sociedade hindu trata de maneira tão bárbara alguém tido como pertencente ao hinduísmo, é natural que trate os muçulmanos de modo ainda mais bárbaro. Assim, tudo o que se relaciona com os muçulmanos torna-se impuro e inaceitável aos olhos dos hindus. Contudo, foi depois do fim do domínio muçulmano e do estabelecimento do domínio britânico que se adotou uma dureza ainda maior no tratamento dos muçulmanos; para eles, a própria existência dos muçulmanos no subcontinente era insuportável.

Movidos pelo ódio e pela hostilidade contra os muçulmanos, os hindus procuravam pretextos e subterfúgios para entrar em conflito com eles. Como exemplo, antigamente não era proibido aos hindus comer carne bovina. A carne bovina é um alimento muito saboroso, consumido por todas as pessoas do mundo, inclusive pelos muçulmanos. O Islã ordena aos muçulmanos que sacrifiquem animais em busca da satisfação de Alá. Entre os animais cujo sacrifício é permitido, o boi é um dos principais. No subcontinente, a vaca foi colocada no lugar de uma divindade adorada pelos hindus como pretexto para provocar conflitos com os muçulmanos. Depois, foram fundadas organizações como a Sociedade para a Prevenção do Abate de Vacas e a Sociedade de Proteção às Vacas, dando início a conflitos comunitários com os muçulmanos. A mesma coisa é alimento para uma nação e divindade adorada por outra. Depois de reconhecer a vaca como divindade, eliminar todos os que comem carne bovina no mundo seria o principal dever religioso do hinduísmo. Portanto, como poderiam as duas nações — a dos que comem carne bovina e a dos adoradores da vaca — aceitar a formação de uma nação de adoradores da vaca? A tentativa de unir essas duas nações para formar uma só não é apenas ridícula, mas também motivada por más intenções.

Que hindus e muçulmanos são duas nações distintas também foi provado com argumentos irrefutáveis pelo Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah. Em seu discurso presidencial na 27ª sessão anual da Liga Muçulmana, realizada em 22 de março de 1940, no Parque Minto, em Lahore, ele declarou:

“É muito difícil entender por que nossos irmãos hindus não conseguem compreender a verdadeira natureza do Islã e do hinduísmo. Na realidade, estes dois não são religiões, mas, na verdade, duas ordens sociais distintas e claramente definidas (Social order), e a formação de uma nacionalidade unindo hindus e muçulmanos não passa de uma fantasia. A concepção equivocada de um nacionalismo indiano ultrapassou todos os limites e tornou-se a causa de nossa instabilidade política. Se não mudarmos nossa perspectiva no momento oportuno, a Índia será empurrada para a destruição. Hindus e muçulmanos têm filosofias religiosas, costumes sociais e literaturas distintos. São também herdeiros de duas civilizações e culturas distintas, formadas com base em concepções e crenças opostas. A história de suas vidas inspira-se em fontes diferentes. Possuem epopeias distintas, grandes escrituras distintas, heróis nacionais distintos e elementos relevantes e cronologias de acontecimentos distintas.

Na maioria dos casos, o herói nacional de um é o inimigo do outro. Se duas nações tão opostas, uma majoritária e a outra minoritária, forem unidas no mesmo Estado, a agitação continuará aumentando, e qualquer estrutura criada para governar tal Estado acabará sendo destruída.

Segundo qualquer definição de nação, os muçulmanos constituem uma nação e devem necessariamente ter uma pátria, um território ou região e um Estado. Nosso desejo é que nossa nação, de acordo com sua capacidade, progrida na vida espiritual, cultural, econômica, social e política com base em seus próprios ideais.”

Por fim, Quaid-e-Azam disse:

“Avancem como servos devotados do Islã. Organizem o povo nos campos econômico, social, político e educacional. Tenho certeza de que vocês se transformarão em uma força que nenhuma potência do mundo poderá derrotar.”

No dia seguinte, isto é, em 23 de março, foi aprovada por unanimidade a proposta de formar um Estado independente abrangendo a região noroeste do subcontinente, de maioria muçulmana, e a região oriental, também de maioria muçulmana. A proposta foi apresentada pelo primeiro-ministro de Bengala, Sher-e-Bangla Maulvi A. K. Fazlul Huq. O texto original da proposta era o seguinte:

Fica resolvido que é entendimento ponderado desta Sessão da Liga Muçulmana de Toda a Índia que nenhum plano constitucional será viável neste país ou aceitável para os muçulmanos, a menos que seja elaborado com base nos seguintes princípios fundamentais: que as unidades geograficamente contíguas sejam demarcadas e submetidas aos reajustes territoriais que se fizerem necessários; que as áreas nas quais os muçulmanos constituem maioria numérica, como as zonas noroeste e oriental da Índia, sejam agrupadas para constituir “Estados independentes”, nos quais as unidades constituintes sejam autônomas e soberanas.

Que sejam especialmente previstas na Constituição salvaguardas adequadas, eficazes e obrigatórias para as minorias nessas unidades e nas regiões onde existam minorias, a fim de proteger, mediante consulta a elas, seus direitos e interesses religiosos, culturais, econômicos, políticos, administrativos e outros; e que, nas demais partes da Índia onde os muçulmanos sejam minoria, sejam especialmente previstas na Constituição salvaguardas adequadas, eficazes e obrigatórias para eles e para as demais minorias, a fim de proteger, mediante consulta a elas, seus direitos e interesses religiosos, culturais, econômicos, políticos, administrativos e outros.

Justice Syed Shameem Husain Kadir, Creation of Pakistan, p. 192.

Juntamente com a Resolução de Lahore, foi também declarado claramente que, mediante consulta às comunidades minoritárias que residissem nessas áreas, seus direitos e interesses religiosos, culturais, econômicos, políticos e administrativos seriam protegidos. Da mesma forma, nas regiões da Índia onde os muçulmanos fossem minoria, seus direitos e interesses religiosos, culturais, econômicos, políticos e administrativos deveriam ser protegidos com base em consultas realizadas com eles.

A oposição dos hindus

Sem qualquer consideração pelos aspectos positivos da Resolução de Lahore, começaram a ser publicadas, por parte dos hindus, declarações e discursos indecentes em sua veemente oposição a ela. Começaram todas as atividades destinadas a confundir os muçulmanos e a criar divisões entre eles. Wardha também continuou a falar no mesmo tom. O Sr. Gandhi esperava que os líderes e vários jornais influenciados pelos hindus permanecessem firmes em relação à Resolução de Lahore. Ele disse: “Ainda espero que os hindus conscientes examinem profundamente a nossa proposta. Pois nela está contida a possibilidade de alcançar a independência em pouco tempo. Poderemos preservar pacificamente essa independência dentro e fora do país.” Em 26 de maio de 1940, realizou-se a conferência da Liga Muçulmana Provincial de Bombaim. Referindo-se à falsa propaganda do Congresso, o Quaid-e-Azam disse:

É extremamente surpreendente que pessoas como o Sr. Gandhi e o Sr. Rajagopalachari estejam qualificando a Resolução de Lahore como a “vivissecção da Índia” (Vivisection of India) e como “cortar uma criança em duas”. A Índia, naturalmente, já está dividida pela própria natureza. No mapa geográfico da Índia, a Índia muçulmana e a Índia hindu ocupam seus lugares. Então, por que todo esse alvoroço, quando aquilo que está sendo dividido e separado em duas partes é a Índia? Onde está o governo central cuja autoridade está sendo violada? O fato de a Índia estar sob o domínio britânico criou a concepção de uma Índia indivisa e de um único governo central. Nunca existiram uma nação indiana nem um governo central. Isso não passa de um capricho do alto comando do Congresso. … Nosso ideal e nossa luta não se destinam a prejudicar os interesses de ninguém; destinam-se, antes, à nossa própria autodefesa.

(Justice Syed Shameem Husain Kadir, Creation of Pakistan, pp. 193-94)

É digno de nota que, embora a palavra “Paquistão” não aparecesse na Resolução de Lahore, foi a própria Índia hindu que a chamou de Resolução do Paquistão. E isso era apropriado. O nome dado muitos anos antes por Choudhary Rahmat Ali acabou se tornando realidade.

A ideia do Paquistão

A ideia ou o plano do Paquistão não é uma filosofia política inovadora. O verdadeiro significado desse termo é um sistema de Estado islâmico. Por isso, o Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah disse que o início do Paquistão remonta ao momento em que Muhammad bin Qasim entrou no Sindh com o aspecto de um conquistador. Depois disso, durante várias centenas de anos, vigorou neste subcontinente um sistema de Estado islâmico. No final do domínio britânico, recomeçaram na Índia britânica os pensamentos e esforços pela distinção da nação muçulmana e pela fundação de um Estado. O fato de os muçulmanos serem maioria nas regiões noroeste e sudeste do subcontinente não passou despercebido aos pensadores políticos. Assim, Sayyid Jamaluddin, pioneiro da unidade islâmica mundial, foi o primeiro a refletir sobre a possibilidade de formar uma república muçulmana abrangendo o Afeganistão e a região noroeste do subcontinente; muitos chamaram isso de pan-islamismo.

Em 1915, durante um discurso na ocasião de “Bazm-e Shibli”, Choudhary Rahmat Ali afirmou que, por o norte da Índia ser habitado predominantemente por muçulmanos, deveria ser considerado um país muçulmano. Não apenas isso: ele disse: “Nós o transformaremos em um Estado muçulmano. Isso só será possível quando nós e nossa região setentrional deixarmos de ser indianos. Esta é a condição prévia. Portanto, quanto mais cedo abandonarmos o indianismo (indianism), mais benéfico isso será para nós e para o Islã. (I. H. Qureshi, The Struggle for Pakistan, pp. 115-116)

Posteriormente, em 1917, o Dr. Abdul Jabbar Khairi e o Professor Abdus Sattar Khairi — conhecidos como os irmãos Khairi — apresentaram, numa conferência realizada em Estocolmo, uma proposta para o plano de divisão da Índia. (Syed Sharifuddin Pirzada: Evolution of Pakistan, (Lahore, 1963, pp. 68-90)

Na revista ‘Zulqarnain’, de Badaun, foi publicada, em março-abril de 1920, uma carta aberta dirigida ao Sr. Gandhi por um certo Abdul Qadir Bilgrami. Nessa carta, ele apresentou os argumentos a favor da divisão do subcontinente. Para essa divisão, apresentou também uma lista dos distritos de maioria muçulmana, que era quase compatível com os limites geográficos das duas partes do Paquistão posteriormente estabelecido. Como os assuntos mencionados na carta atraíram a atenção de muitas pessoas, ela foi publicada duas vezes em forma de folheto. A segunda edição foi publicada em 1925. (Muhammd Abdul Qadir Bilgrami Hindu Muslim Ittehad par Khula Khat Mahatma Gandhi Ken am Aligarh, 1925)

No início da Primeira Guerra Mundial, Lovatt Fraser, editor do Times of India, publicou no Daily Express de Londres um mapa no qual estava desenhada uma seta de Constantinopla em direção a Saharanpur, na Índia. Nele, era mostrado um corredor muçulmano em direção às regiões de maioria muçulmana. (I.H Qureshi The Muslim Community of the indo-pakistan Subcontinent, pp. 295-96)

Savarkar, presidente do Hindu Mahasabha, costumava mencionar que hindus e muçulmanos eram duas nações distintas. Lala Lajpat Rai, outro líder do Congresso e do Hindu Mahasabha, propôs a divisão da Índia em 1924. (LH. Qureshi: The Struggle for Pakistan, p. 116: Richard Symonds The Naking of Pakistan, 1950,p.59)

Sardar Muhammad Gul Khan, do distrito de Dera Ismail Khan, apresentou em 1923, perante o Frontier Inquiry Committee, argumentos a favor da divisão da Índia, em defesa dos interesses de hindus e muçulmanos. Reivindicou que a região de Peshawar até Agra fosse destinada aos muçulmanos. (I.H> Qureshi The Struggle for Pakistan, p.116-17)

Em 1928, o Aga Khan apresentou, na Convenção de Todos os Partidos realizada em Calcutá, a reivindicação da autonomia de cada província. (obra citada)

Em 1930, após discutir os diversos problemas da Índia na conferência anual da Liga Muçulmana realizada em Allahabad, o Dr. Muhammad Iqbal apresentou a proposta de criação de um Estado independente para os muçulmanos, dentro ou fora do Império Britânico.

O Dr. Iqbal não deu nenhum nome ao Estado muçulmano que propôs. Essa tarefa foi realizada por Chaudhry Rahmat Ali. Em janeiro de 1933, Chaudhry Rahmat Ali e três de seus colegas de Cambridge publicaram um panfleto intitulado Now or Never (Agora ou Nunca).

Chaudhry Rahmat Ali enviou seu panfleto aos líderes muçulmanos da Índia, aos delegados muçulmanos que participaram da Terceira Conferência da Mesa-Redonda realizada em Londres e aos principais líderes políticos da Inglaterra. Junto com uma carta, foi enviado um panfleto no qual se dizia: “Por meio desta, apresento diante de vocês, em nome dos trinta milhões de muçulmanos do Paquistão, uma petição daqueles que vivem nas cinco províncias da região setentrional da Índia, a saber: Punjab, Província da Fronteira Noroeste, Caxemira, Sinde e Baluchistão.” {Observação: Chaudhry Rahmat Ali reivindicou a formação de um Estado muçulmano com essas cinco províncias, ao qual deu o nome de Paquistão}

Este apelo foi feito num momento decisivo de vida ou morte para os muçulmanos. Dizia-se que a Índia não era o país de uma só nação, mas sim de muitas nações. ………. A nossa religião e cultura, história e tradição, os nossos costumes sociais e sistema econômico, as nossas leis relativas à herança e ao casamento são fundamentalmente diferentes dos das outras nações que vivem na Índia. Temos costumes e práticas nacionais distintos, bem como calendários de anos, meses e dias diferentes. Até mesmo a nossa alimentação e o nosso vestuário são completamente distintos. Se nós, os muçulmanos do Paquistão, com as características claras da nossa nacionalidade, formos enganados e incluídos na proposta federação indiana, seremos transformados numa minoria. Esta proposta equivale ao toque fúnebre da nossa nação. – (G. Allana, Muslim Political Thought Through the Ages 1562-1947, pp. 295-300)

Pode-se afirmar sem dúvida que o nome “Paquistão” foi uma criação do próprio Chaudhry Rahmat Ali — nome que, por meio da Resolução de Lahore, se estabeleceu no cenário político da Índia e, cerca de sete anos depois, tornou-se uma realidade.

Syed Sharifuddin Pirzada afirma em sua obra (Evolution of Pakistan): todas essas propostas e sugestões apresentadas por personalidades como Sir Abdullah Haroon, Maulana Maududi e Chaudhry Khaliquzzaman foram, em certo sentido, orientações para o caminho da criação do Paquistão.

Por fim, em 1940, a Liga Muçulmana aprovou por unanimidade, em linguagem inequívoca, a Resolução de Lahore, isto é, a Resolução do Paquistão.

 

Sexto capítulo

Oposição ao movimento pelo Paquistão

Os hindus não podiam aceitar a proposta do Paquistão, ou seja, da divisão da Índia, considerando-a contrária aos seus interesses; por isso, começaram a opor-se intensamente. O Pandit Jawaharlal Nehru disse em Pune, no dia 6 de maio, que a Mahasabha Hindu e a Liga Muçulmana não tinham nenhum programa construtivo. Classificando a proposta do Paquistão como uma insensatez, afirmou que ela não duraria mais de vinte e quatro horas. Em 19 de maio, a Mahasabha Hindu declarou que a proposta do Paquistão era anti-hindu e antinacional.

Apesar da extrema oposição e dos obstáculos por parte do Congresso e da nação hindu, o movimento pelo Paquistão continuou, e a oposição e a propaganda difamatória dos hindus continuaram a fortalecer a unidade dos muçulmanos.

Com o objetivo de tornar popular e fortalecer o movimento pelo Paquistão, empreendeu-se um esforço abrangente na história da Índia muçulmana para realizar ampla propaganda: foi formado um comitê de escritores tendo como convocador Jamiluddin Ahmad, da Universidade Muçulmana de Aligarh. Notáveis ensaístas redigiram diversos folhetos de propaganda, publicados em Lahore por Sheikh Muhammad Ashraf sob o título de série Pakistan Literature. Jamiluddin Ahmad afirmou que o Paquistão independente e o Hindustão independente continuariam a coexistir em um ambiente amistoso e fraternal. A unidade indiana é uma fantasia ilusória, contrária à verdade histórica. (I.H. Qureshi, The Struggle for Pakistan, p. 136)

Em 1º de julho de 1940, enquanto estava em Simla, o Quaid-e-Azam apresentou ao vice-rei algumas propostas e qualificou-as de “experimentais”. As propostas eram as seguintes:

Nenhuma declaração poderá ser divulgada pelo governo que seja contrária aos princípios fundamentais da resolução de Lahore, aprovada para a divisão da Índia e a criação de Estados muçulmanos nas regiões noroeste e oriental.

O governo deve dar aos muçulmanos da Índia uma garantia clara de que nenhum projeto constitucional provisório ou definitivo será elaborado sem a autorização da Índia muçulmana. Diante da rápida mudança da situação na Europa e do fato de a Índia estar enfrentando perigos, compreendemos plenamente que o esforço de guerra deve ser intensificado, para que seja possível assegurar a segurança interna, a paz e a ordem, caso o governo britânico esteja disposto a aceitar a liderança muçulmana como parceira em igualdade de condições na administração dos governos central e provinciais.

Temporariamente e durante a guerra, deverão ser adotadas as medidas abaixo, para que se possa seguir uma fórmula de cooperação com o governo com base na participação igualitária dentro da jurisdição das autoridades governamentais:

a. O Conselho Executivo do vice-rei deverá ser ampliado dentro dos limites da atual lei constitucional. O número de membros adicionais será determinado somente após as discussões. Contudo, a representação muçulmana deverá ser necessariamente igual à hindu se o Congresso aderir. Caso contrário, a maioria dos membros adicionais deverá ser muçulmana, pois o principal e grave encargo deverá ser assumido pelos muçulmanos.

b. Nas províncias onde estiver em vigor a Seção 93 da lei, deverão ser nomeados conselheiros não oficiais. O número será determinado após as discussões. Entretanto, a maioria dos conselheiros deverá ser composta por representantes muçulmanos. Porém, nas províncias onde houver governos de coalizão, caberá aos partidos envolvidos tomar uma decisão com base nas discussões.

c. Será formado um Conselho de Guerra (War Council) composto por quinze pessoas, incluindo o presidente. O vice-rei exercerá a presidência. Também nesse caso, o número de muçulmanos deverá ser igual ao de hindus se o Congresso aderir.

Por fim, os representantes muçulmanos no Conselho de Guerra, no Conselho Executivo do Vice-Rei (Executive Council) e entre os assessores não oficiais do Governador seriam escolhidos pela Liga Muçulmana.

Em 1º de julho, Subhas Chandra Bose foi preso e, em 3 de julho, o Sr. Gandhi apelou a todos os cidadãos da Grã-Bretanha para que adotassem a política da não violência e renunciassem às armas. Imediatamente, na reunião do Comitê de Trabalho do Congresso realizada em Déli, foi renovada a exigência da declaração da independência plena da Índia. Ao mesmo tempo, também foi exigida a formação de um governo nacional no centro.

A respeito da proposta experimental (Tentative) que o Sr. Jinnah apresentou ao Vice-Rei, este comunicou-lhe sua posição em uma carta datada de 6 de julho. Ele concordou com a ampliação de seu Conselho, mas discordou da participação muçulmana nele. Também não estava disposto a aceitar a exigência de que a Liga Muçulmana indicasse os membros muçulmanos do Conselho. Segundo ele, isso era prerrogativa do Secretário de Estado para a Índia, e os membros do Conselho não seriam indicados por partidos políticos. Tampouco podia aceitar a nomeação de assessores não oficiais dos Governadores provinciais. A formação do Conselho de Guerra (War Council) era uma questão importante. Seus detalhes minuciosos seriam determinados posteriormente.

As condições da proposta experimental do Sr. Jinnah foram rejeitadas. Mas o experiente político Sr. Jinnah não era homem de se deixar abater. Ele continuou suas conversações.

A Proposta de Agosto do Governo Britânico

O Governo Britânico não ficou desanimado devido às divergências entre o Congresso e a Liga Muçulmana, nem devido às divergências entre a Liga do Congresso e o Vice-Rei. A declaração feita pelo Governo Britânico em 8 de agosto de 1940 ficou conhecida como a Proposta de Agosto. Essa declaração apresentava algumas ideias novas. Primeiro, pela primeira vez na história indo-britânica, foi feita a promessa de formar uma assembleia constituinte com a participação dos indianos. Até então, a vontade do Parlamento britânico era definitiva, e a Lei do Governo da Índia de 1935 reconhecia sua primazia. Agora, a ideia de uma assembleia constituinte indiana não apenas foi apoiada, como também foi feita a promessa de sua formação. Segundo, a concepção do Congresso sobre a assembleia constituinte foi rejeitada. Também se declarou claramente que a assembleia constituinte não adotaria nenhuma medida que prejudicasse os direitos das minorias. Terceiro, o status de domínio foi considerado o objetivo da Índia. Essas medidas seriam adotadas depois do fim da guerra. A Proposta de Agosto também tinha alguns aspectos negativos, que foram apontados nas propostas da Liga e do Congresso.

O Sr. Jinnah trocou opiniões sobre a proposta acima mencionada nos dias 12 e 14 de agosto. Contudo, a decisão final foi tomada na reunião do Comitê de Trabalho da Liga Muçulmana realizada em Bombaim nos dias 1º e 2 de setembro. A Liga Muçulmana expressou satisfação com a aceitação da exigência de que a futura constituição do país não fosse elaborada sem sua aprovação. Ao mesmo tempo, o Comitê de Trabalho considerou apropriado declarar que permanecia firme nos princípios fundamentais da Proposta de Lahore e de suas condições, a saber: os muçulmanos da Índia constituem uma nação e são eles os únicos que têm o direito de determinar seu futuro destino. A proposta do Governo para um arranjo intermediário era insatisfatória. As exigências apresentadas pela Liga Muçulmana ao Comitê de Trabalho em 16 de junho não foram aceitas. A Liga Muçulmana declarou que não aceitava a Proposta de Agosto do Governo pelas seguintes razões:

1. Não houve nenhuma discussão com o presidente da Liga ou com o Comitê de Trabalho a respeito da proposta sobre o número de membros do Conselho Executivo do Vice-Rei.

2. O Comitê de Trabalho não foi informado sobre a forma como o Conselho seria constituído.

3. O Comitê de Trabalho não foi informado sobre com que outro partido a Liga seria chamada a trabalhar.

4. A Liga não tinha qualquer ideia sobre quais cargos (Portfolios) seriam atribuídos aos novos membros do Conselho.

5. A proposta apresentada a respeito do Conselho Consultivo de Guerra (War Advisory Council) era vaga e incompreensível.

O Comitê de Trabalho da Liga Muçulmana conferiu ao seu presidente autoridade para solicitar ao vice-rei explicações sobre a Constituição proposta, o método de composição, as responsabilidades e os deveres do Conselho Consultivo de Guerra, bem como sobre a ampliação do Conselho Executivo do vice-rei.

O sr. Jinnah encontrou-se com o vice-rei em 20 de setembro e, no dia seguinte, o vice-rei respondeu às questões levantadas pela Liga. Na reunião do Comitê de Trabalho da Liga, realizada em Nova Délhi em 28 de setembro, discutiram-se as respostas do vice-rei. O Comitê expressou a opinião de que as explicações do vice-rei não eram satisfatórias. A reação do Congresso à proposta de agosto do governo foi extremamente intensa. O presidente do Congresso, Maulana Abul Kalam Azad, recusou-se a encontrar-se com o vice-rei em 10 de agosto. O Congresso rejeitou a proposta. Afirmou-se que o governo não estava disposto a abrir mão do poder e que a proposta estava diretamente incitando à luta de confronto. A questão das minorias constituía um obstáculo intransponível ao progresso da Índia. O Congresso foi atemorizado com a perspectiva de ter de empreender uma luta direta.

A proposta de agosto do governo não foi aceita pelos partidos políticos. Mas os muçulmanos obtiveram alguns benefícios com ela. O governo prometeu que, no futuro sistema constitucional, fosse ele provisório ou definitivo, seria obtida a aprovação satisfatória dos muçulmanos. Não é pequeno o mérito da Liga Muçulmana por essa declaração inequívoca do governo, feita no prazo de um ano após o início da guerra e cinco meses depois da Resolução de Lahore. Esse mérito foi alcançado em consequência da atitude do Congresso para com os muçulmanos. O governo não considerou conveniente deixar o destino dos muçulmanos nas mãos do Congresso.

 O movimento de não cooperação do Congresso e os muçulmanos

O Sr. Gandhi encontrou-se com o vice-rei, Lord Linlithgow, nos dias 27 e 30 de setembro, mas não pôde aceitar esse ponto de vista. Ele disse que, embora um opositor consciencioso não pudesse fazer a guerra, poderia apresentar seu ponto de vista ao povo. Contudo, não se lhe poderia permitir que incitasse outros a impedir a guerra. Em 11 de outubro, o Comitê de Trabalho do Congresso decidiu iniciar a satyagraha.

Sob as instruções de Gandhi, Vinoba Bhave foi o primeiro a oferecer-se para ser preso. Raja Gopalachari e Abul Kalam Azad também foram encarcerados. O encarceramento em massa dos congressistas não produziu qualquer emoção entre o povo em geral. Especialmente nas províncias muçulmanas, essa satyagraha não conseguiu atrair o povo. Em toda a Índia, a resposta mais fraca foi registrada na Província da Fronteira Noroeste. No início, o Dr. Khan mostrou relutância em aderir ao movimento. Porém, sua prisão, em 14 de dezembro, apenas provocou uma pequena onda sobre a atmosfera de tranquilidade existente na opinião pública.

Em abril de 1941, o Sr. Gandhi abriu a satyagraha a todos os congressistas. Como resultado, cerca de 20.000 pessoas foram voluntariamente encarceradas. Para o Congresso, esse número era muito insignificante. O movimento foi gradualmente perdendo força.

Os muçulmanos não puderam aceitar o movimento de satyagraha do Congresso, pois compreenderam as más intenções do Congresso. Em novembro de 1940, em um discurso proferido em Déli, o Sr. Jinnah ridicularizou as reivindicações do Congresso, dizendo que o Congresso estava fazendo um movimento pela liberdade. Para ele e para o Governo Britânico, estava claro que o Congresso queria intimidar o governo para obter o reconhecimento de que era a única organização representativa do povo da Índia. A atitude do Congresso era: “Rejeitem as reivindicações dos muçulmanos e de outras minorias e aceitem as nossas reivindicações. O Congresso quer conquistar o poder e quer pressionar o Governo Britânico para que transfira para ele o poder de usar a força contra as demais comunidades, além de querer pressionar o Governo Britânico.”

Nas resoluções adotadas em apoio ao discurso do Sr. Jinnah na sessão do Conselho da Liga Muçulmana realizada em fevereiro de 1941 e na sessão anual da Liga Muçulmana de Madras, realizada em abril, declarou-se que, se o governo rompesse as promessas feitas em diferentes ocasiões e aceitasse as reivindicações do Congresso, a Liga Muçulmana estaria pronta para tomar qualquer medida a fim de enfrentar a situação daí resultante.

(The Struggle for Pakistan, Ishtiaq Hussain Qureshi, pp. 163-64)

Proposta do Partido Liberal — 1941

Depois de discutirmos as políticas dos dois principais partidos, o Congresso e a Liga Muçulmana, vejamos qual é a atitude da Federação Liberal Nacional. Eles têm um pequeno grupo na Assembleia Legislativa. Entre eles, contudo, há também pessoas experientes e qualificadas, como Sir Tej Bahadur Sapru, Sir Chimanlal Setalvad e Sir Srinivasa Sastri. É necessário conhecer seu ponto de vista e sua atitude. Em sua sessão anual realizada em Calcutá, em dezembro de 1940, os liberais anunciaram os princípios de sua política de ação política, princípios que, segundo eles, deveriam ser adotados como base para a solução. A proposta que fizeram sobre esse assunto é a seguinte:

1. Prestar pleno apoio ao esforço de guerra.

2. O Governo britânico deveria declarar, dentro de dois anos após o fim da guerra, que

a Índia se tornaria um domínio.

3. O governo central deve ser reorganizado para que o vice-rei possa tornar-se o chefe constitucional de um governo nacional plenamente constituído.

4. A divisão da Índia deve ser rejeitada, e o sistema eleitoral comunitário deve ser gradualmente abolido.

5. O movimento de não cooperação do Congresso é lamentável. Em março de 1941, os liberais reuniram-se em Bombaim numa conferência apartidária. Embora a conferência fosse chamada de apartidária, ela era influenciada pelo Hindu Mahasabha; apesar de três ou quatro muçulmanos terem participado, eles não puderam dizer nada em defesa dos interesses muçulmanos. Três líderes do Hindu Mahasabha — Savarkar, o Dr. Moonje e o Dr. Shyama Prasad Mukherjee — participaram da conferência. Tej Bahadur Sapru presidiu-a, e Sir Nripendra Nath Sarkar apresentou várias propostas, que foram aprovadas. As propostas foram rejeitadas pelo governo. Com isso, os chamados liberais expressaram indignação, e, em 29 de junho, realizou-se em Pune uma sessão do conselho da National Liberal Federation. O governo foi duramente criticado por rejeitar as propostas apresentadas por eles para resolver a crise. Expressou-se indignação com a recusa do Secretário de Estado para a Índia em aceitar qualquer medida sem o consentimento da Liga Muçulmana. A proposta de divisão da Índia foi rejeitada, e fez-se um apelo a todos os indianos para que resistissem à divisão proposta.

Ao reagir à proposta ou recomendação de Sapru, o Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah declarou que a exigência apresentada pelo Congresso de formar um governo nacional no centro equivalia a anular a proposta de Sapru. O Secretário de Estado para a Índia, L. M. Amery, ao discursar na Câmara dos Comuns em 22 de abril de 1941 sobre o assunto, afirmou que o impasse constitucional existente na Índia não se devia ao fato de a Grã-Bretanha não estar disposta a conceder a independência à Índia, mas sim ao fato de a Índia não ter conseguido chegar a um acordo sobre suas reivindicações. O novo tipo de Executivo, dotado de poderes mais amplos, cuja criação fora proposta, em vez de apaziguar a desunião entre hindus e muçulmanos, ampliá-la-ia ainda mais. Apelarei a pessoas como Sapru para que tentem estabelecer a unidade entre o Congresso e a Liga Muçulmana.

A reação de Gandhi

O Sr. Gandhi protestou veementemente contra a declaração do Secretário de Estado para a Índia. Disse que Amery insultara a inteligência indiana ao afirmar que a independência da Índia estava sendo adiada por causa da desunião. Os políticos britânicos eram os próprios responsáveis pelas divisões de classe na Índia. Enquanto mantivessem a Índia subjugada por meio das armas britânicas, essa divisão e essa divergência continuariam. Reconheço que, infelizmente, existe uma distância intransponível entre o Congresso e a Liga Muçulmana. Os políticos britânicos não admitem que isto é uma disputa doméstica (Domestic quarrel)? Que deixem a Índia e partam; então prometo que o Congresso, a Liga e os demais partidos, movidos por seus próprios interesses, se unirão e encontrarão uma solução para formar o governo da Índia. … Se concordarmos em não solicitar qualquer intervenção externa, talvez esta crise dure apenas uma quinzena. Em outras palavras, se os britânicos abandonarem o poder e partirem, os hindus se tornarão suficientemente fortes para fazer as minorias, especialmente os muçulmanos, recobrarem o juízo. Ninguém poderia deixar de compreender o que Gandhi quis dizer com isso. Até julho de 1947, ele continuou repetindo essas palavras. A intolerância à existência da nação muçulmana e a declaração indecorosa acima aceleraram a criação do Paquistão.

Formação do Conselho de Defesa (Defence Council)

Em 20 de julho de 1941, o governador de Bombaim, Sir Roger Lumley, transmitiu ao Sr. Jinnah uma mensagem do vice-rei informando que, com a aprovação do Governo britânico, o vice-rei decidira ampliar seu Conselho Executivo (Executive Council), acrescentando cinco pastas. Os que aceitaram assumir os novos cargos foram Sir Homi Mody, Sir Akbar Hydari, R. Rao, M. S. Aney e Sir Firoz Khan Noon. Ao mesmo tempo, foi anunciada a formação de um Conselho de Defesa (Defence Council) composto por trinta membros. Dez membros também seriam escolhidos entre os Estados principescos. Como era indispensável assegurar a representação da comunidade muçulmana, os primeiros-ministros de Bengala, Assam, Punjab e Sindh também foram convidados a aceitar a condição de membros.

No dia seguinte, em resposta à carta de Sir Roger Lumley, o Sr. Jinnah expressou forte descontentamento com a medida do vice-rei e afirmou que era contrário aos princípios convidar essas pessoas, ignorando o presidente e o Comitê de Trabalho da Liga Muçulmana. Nos dias 24, 25 e 26 de agosto, realizou-se em Bombaim uma reunião do Comitê de Trabalho da Liga Muçulmana. Na resolução adotada no dia 25, foi ordenado aos primeiros-ministros de Punjab, Bengala e Assam — respectivamente Sir Sikandar Hayat Khan, Fazlul Huq e Sir Saadullah — que renunciassem ao Conselho Nacional de Defesa.

Oito muçulmanos aceitaram o convite para ingressar no Conselho de Defesa. Entre eles, cinco — Sikandar Hayat, Fazlul Huq, Saadullah, Begum Shah Nawaz e o Nawab de Chhatar — renunciaram ao Conselho de Defesa em 11 de setembro, seguindo as instruções da Liga, assim como os primeiros-ministros de Punjab, Bengala e Assam. O Nawab de Chhatar renunciara anteriormente por ter se tornado presidente do Conselho Executivo de Hyderabad. Begum Shah Nawaz e Sir Sultan Ahmad foram expulsos da Liga por cinco anos por não renunciarem. Em sua reunião de 26 e 27 de agosto, em Déli, a Liga decidiu retirar-se de toda a sessão da Assembleia Central. Consequentemente, no dia 28, o partido da Liga Muçulmana abandonou a Câmara. Eles acusaram o Governo britânico de se recusar a conceder à Liga sua verdadeira parcela de responsabilidades e direitos, tanto no centro quanto nas províncias. (The Struggle for Pakistan, I. H. Qureshi, pp. 169-191)

Em meados de outubro, foi concluída a ampliação do Conselho Executivo do vice-rei. No mesmo dia, muitos congressistas envolvidos no movimento de não cooperação foram libertados da prisão. Uma ala do Congresso propôs que se retomasse o exercício do poder nas províncias. Mas o Sr. Gandhi não concordou.

Enquanto isso, a situação da Liga não estava livre de crises. Isso porque os partidos que consideravam seus interesses prejudicados se uniram contra a Liga Muçulmana. Embora A. K. Fazlul Huq, primeiro-ministro de Bengala, tenha renunciado ao Conselho de Defesa, fez isso contra a vontade. Os círculos contrários à Liga asseguraram-lhe indiretamente seu apoio. Uma ala da Liga Muçulmana exigia a expulsão de Fazlul Huq da Liga. Outra defendia uma atitude flexível. O próprio Quaid-e-Azam era favorável a conceder algum prazo, para que o primeiro-ministro de Bengala pudesse retornar à posição anterior. O assunto foi encerrado depois que o Comitê de Trabalho da Liga discutiu a carta em que Fazlul Huq expressava seu pesar.

Mas, no fim do ano, o Sr. Fazlul Huq e um de seus colegas, o Nawab de Dhaka, saíram do grupo da Liga no Conselho Legislativo de Bengala e, unindo-se ao Congresso e a outros partidos hindus, formaram um governo de coalizão. O grupo europeu do Conselho também declarou seu apoio. O novo governo de coalizão provava que, de um lado, o Congresso e, de outro, o Governo britânico queriam destruir a influência da Liga Muçulmana em Bengala. Quando a Liga solicitou explicações ao Sr. Fazlul Huq, ele continuou protelando. Como resultado, em 11 de dezembro de 1941, o Sr. Fazlul Huq foi expulso da Liga. (Creation of Pakistan, Justice Sayed Shameem Husain Kadir, pp. 226-27)

Capítulo Oito

A Missão Cripps

No final de 1941, a Segunda Guerra Mundial assumiu uma forma terrível e continuou avançando em direção ao subcontinente indiano. Singapura, a fortaleza da Grã-Bretanha e de suas potências aliadas, caiu nas mãos do Japão, e a queda da Birmânia também era iminente. Algumas pessoas simpatizavam com o Japão. Muitos líderes do Congresso viam a Grã-Bretanha e seus inimigos sob a mesma perspectiva. Gandhi afirmou que Deus havia enviado Hitler como punição pelos atos perversos do Império Britânico. O Congresso acreditava que, se a Grã-Bretanha ficasse encurralada na guerra, seria possível obter dela cada vez mais vantagens políticas.

Em 7 de março de 1942, o Japão ocupou a Birmânia. Apenas quatro dias depois, em 11 de março, após o primeiro-ministro britânico, Sir Winston Churchill, fazer uma importante declaração na Câmara dos Comuns, o Gabinete de Guerra (War Cabinet) chegou a algumas decisões. Essas decisões foram incorporadas a uma declaração preliminar. Sir Stafford Cripps chegou à Índia em 29 de março com essa declaração preliminar. Em sua introdução, afirmava-se que o objetivo da declaração era formar um novo Domínio indiano.

O resumo da declaração preliminar é o seguinte:

Assim que a guerra terminasse, seria formado na Índia um “órgão” ou conselho para redigir a Constituição. Esse conselho seria eleito com base na representação proporcional das assembleias provinciais do país. Ele incluiria representantes dos Estados principescos.

A Grã-Bretanha aceitaria qualquer Constituição elaborada por esse órgão ou conselho sob três condições:

1. Qualquer província poderia abster-se de ingressar na União proposta, mantendo seu status constitucional. Se desejassem, essas províncias também poderiam formar suas próprias uniões separadas, semelhantes à União proposta.

2. Como o poder está prestes a ser plenamente transferido das mãos dos britânicos para as mãos dos indianos, será celebrado um acordo entre a Grã-Bretanha e a Assembleia Constituinte sobre todas as questões relacionadas a isso. Esse acordo providenciará a proteção dos interesses das minorias.

3. Se os Estados principescos não aceitarem a Constituição, será necessário negociar com eles algumas alterações em seus acordos.

Sir Stafford Cripps explicou o projeto de declaração em um discurso radiofônico no dia 30 de março. Após o discurso, Cripps apelou a todos os indianos para que aceitassem o Plano Cripps.

A reação indiana

Sir Stafford Cripps continuou as conversações com os líderes políticos da Índia. As discussões prosseguiram em torno de três questões: (1) a liberdade de as províncias da proposta União Indiana não aderirem; (2) a representação dos Estados principescos na Assembleia Constituinte; e (3) a formação imediata de um governo responsável.

A cláusula de não adesão (Non-accession Clause) do projeto de declaração concedia às províncias a liberdade de não aderirem à União Indiana, permitindo que uma ou várias províncias se abstivessem de fazê-lo. A reação do Congresso a esse respeito foi extremamente veemente. Em sua opinião, isso constituiria um golpe extremo contra a integridade da Índia. Portanto, não poderia ser aceito de modo algum.

A reação do Congresso à questão da representação dos Estados principescos foi extremamente veemente. Em sua opinião, isso constituiria um golpe extremo contra a integridade da Índia. Portanto, não poderia ser aceito de modo algum.

Quanto à representação dos Estados principescos, a exigência do Congresso era que os representantes fossem eleitos por um sistema eleitoral conjunto. A vantagem disso para o Congresso seria que os representantes eleitos apoiariam o Congresso majoritário. A Liga Muçulmana, porém, não podia aceitar esse sistema. Em terceiro lugar, a exigência insistente do Congresso era que um governo responsável fosse formado imediatamente no centro. Como isso reduziria a Liga Muçulmana a uma pequena minoria, ela não podia aceitar essa exigência.

O presidente do Congresso trocou correspondência durante alguns dias com Sir Stafford Cripps. Porém, como as exigências do Congresso não foram aceitas, em 11 de abril o Congresso anunciou que rejeitava a proposta de Cripps.

A Liga Muçulmana também não pôde aceitar a proposta de Cripps. A posição da Liga Muçulmana era que, enquanto os princípios fundamentais do plano do Paquistão não fossem aceitos e o direito dos muçulmanos à autodeterminação não fosse reconhecido por algum método que refletisse um verdadeiro veredicto da Índia muçulmana, a Liga Muçulmana não poderia aceitar nenhum plano ou proposta futura.

Após o fracasso da missão de Cripps

Depois que a missão de Cripps fracassou, o Congresso foi vítima de um fracasso extremo e do desespero. O Congresso queria estabelecer seu poder de governo sobre o subcontinente por meio da formação de um governo nacional. Tratava-se de uma cruel conspiração para manter os muçulmanos indianos subjugados. De qualquer modo, o governo britânico não pôde aceitar essa exigência injusta do Congresso, justamente em defesa de seus próprios interesses.

Tomando como fato consumado que a Grã-Bretanha havia perdido a guerra, Gandhi escreveu ao vice-rei, em maio de 1940: “É preciso pôr fim a esta carnificina. Vocês estão perdendo. Se, ainda assim, persistirem obstinadamente, haverá mais derramamento de sangue. Hitler não é um homem mau. Se vocês encerrarem a guerra hoje, ele também os seguirá”. O vice-rei respondeu a essa arrogância e traição com extrema delicadeza, dizendo: “Estamos agora em guerra. Não recuaremos antes de alcançar nosso objetivo. Compreendo sua preocupação conosco. Contudo, tudo ficará bem.”

Não satisfeito com a resposta do vice-rei, Gandhi dirigiu, em 6 de julho, um apelo a todos os habitantes da Inglaterra, dizendo: “Abandonem as armas. Pois elas não conseguiram proteger vocês mesmos nem a humanidade. Vocês trarão Hitler e Mussolini, e eles lhes tomarão tudo. Muito bem, deixem que eles ocupem sua bela ilha, juntamente com seus agradáveis palácios.”

-(A Luta pelo Paquistão, I. H. Quershi: ambas as cartas são citadas em G. D. Birla, Nas Sombras do Mahatma: Uma Memória Pessoal (Bombaim, 1953, p. 302)

O discurso radiofônico de Cripps

Sir Stafford Cripps, em seu discurso radiofônico proferido em 26 de julho para os americanos, explicou o contexto da política do Congresso desde sua visita à Índia até a mais recente ameaça. Disse que nenhum governo responsável poderia considerar as exigências do Congresso. Os muçulmanos, ferrenhos opositores da dominação do Congresso, e também vários milhões de membros das comunidades atrasadas não poderiam aceitar essa exigência. Aceitar as exigências de Gandhi significaria criar extrema anarquia e desordem.

Acrescentou ainda: não podemos permitir que um fantasista obstrua, no Oriente, os esforços vitoriosos das Nações Unidas, por maior que tenha sido sua dedicação à luta pela liberdade no passado.

Em protesto contra o referido discurso radiofônico, Pandit Nehru chamou Stafford Cripps de ‘advogado do diabo’ (Devil’s Advocate). Disse que, pelo mal que a Grã-Bretanha havia causado e continuava causando à Índia, ele deveria ter se arrependido e apresentado humildemente um pedido a nós.

Nehru rejeitou a oposição dos muçulmanos às exigências do Congresso, dizendo: conheço meus compatriotas muçulmanos muito melhor do que Sir Stafford Cripps, e o que foi dito a respeito deles não passa de calúnia. (The Struggle for Pakistan, I.H. Quershi; Documents in the Indian Situations Since the Cripps Mission, pp. 47–48)

Movimento ‘Deixem a Índia’ (Quite India Movement)

O Comitê de Toda a Índia do Congresso, em sua sessão realizada em Bombaim em 8 de agosto de 1942, adotou a resolução ‘Deixem a Índia’ (Quite India). Sua causa psicológica é profundamente lamentável.

Os líderes do Congresso haviam pensado que a derrota das potências aliadas na guerra era inevitável. Aproveitar essa oportunidade para criar extrema desordem no país e tomar o controle administrativo de todo o território fazia parte do plano do Congresso. Desse modo, seria possível rejeitar todas as reivindicações dos muçulmanos e estabelecer o domínio hindu no subcontinente. A confirmação desse plano do Congresso encontra-se no livro de Maulana Abul Kalam Azad, ‘India Wins Freedom’. Ele diz:

Ele tinha em mente o plano de que, assim que os japoneses chegassem a Bengala e as tropas britânicas recuassem para Bihar, o Congresso assumiria o controle de todo o país. Porém, esse plano do Congresso revelou-se infundado e irrealista.

Contudo, em sua resolução adotada em 8 de agosto, o Congresso declarou que a exigência do momento era o fim do domínio britânico na Índia. Qualquer promessa ou garantia para o futuro não produziria nenhuma melhoria na situação presente. Portanto, a independência da Índia deveria ser proclamada imediatamente. Em seguida, seria formado um governo provisório com a cooperação dos principais partidos do país. Sua tarefa seria defender a Índia e repelir a agressão. O Comitê do Congresso aprovou a proposta de iniciar, por meios não violentos, um movimento popular extremo em apoio à independência da Índia. Gandhi chamou-o de rebelião aberta (Open rebellion), que nenhum governo poderia tolerar. Assim, no dia seguinte, 9 de agosto, todos os líderes do Congresso foram presos, e o Congresso foi declarado ilegal.

Mesmo após a adoção de medidas tão imediatas, não foi possível interromper o programa do Congresso. Aquilo que Gandhi chamava de não violência era, na realidade, violência. Assim, viu-se o início de desordens generalizadas e atividades destrutivas em todas as províncias hindus. Atividades “não violentas” (?) como incendiar estações ferroviárias, arrancar trilhos, cortar fios telegráficos, saquear e incendiar postos dos correios continuaram em plena escala. Assassinatos também foram cometidos em muitos lugares.

Além da Liga Muçulmana, muitas organizações hindus também não puderam apoiar um programa tão temerário do Congresso. O Dr. Ambedkar criticou duramente a campanha do Congresso. Os liberais, bem como Tej Bahadur Sapru e Jayakar, fizeram comentários desfavoráveis. A Liga Nacionalista Indiana condenou esse comportamento insensato de Gandhi. O Partido Comunista da Índia também se manteve afastado desse movimento. Bhai Parmanand, vice-presidente da Hindu Mahasabha, criticou o movimento “Quit India”, e o presidente V.V. Savarkar instruiu seus seguidores a não apoiarem a campanha do Congresso. (The Struggle for Pakistan, I.H. Wuershi, p. 190)

Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah considerava o movimento “Quit India” equivalente a obrigar, pela força e à ponta da baioneta, a aceitação de suas exigências, bem como a uma devastadora guerra civil. Essa rebelião contra o governo era, na realidade, uma declaração de guerra contra a Liga Muçulmana e outras organizações não congressistas. Não há dúvida de que esse movimento do Congresso era ilegal e inconstitucional, pois seu objetivo era derrubar um governo estabelecido.

Os britânicos e os diversos jornais daquele país criticaram duramente esse movimento. Os jornais da Europa e da América também fizeram críticas desfavoráveis ao movimento de agosto.

Em um período crítico da Segunda Guerra Mundial, o objetivo da declaração de rebelião do Congresso contra o governo britânico era apoderar-se rapidamente do poder em toda a Índia. Para isso, foram realizadas atividades destrutivas em larga escala. Foi por essa razão que a proposta de Cripps foi rejeitada.

Outra razão para esse movimento de agosto era que, se a transferência de poder fosse adiada após o fim da guerra, a divisão do país, isto é, a criação do Paquistão, tornar-se-ia certa. Portanto, para impedir a divisão da Índia e a criação do Paquistão, não havia alternativa senão tomar o poder na Índia. Esse era o pensamento e a política míopes do Congresso.

Fórmula C. R.

A atitude hostil do Congresso hindu em relação aos muçulmanos no subcontinente, bem como o sonho dos líderes do Congresso de estabelecer o Ram Rajya, eliminando-os ou, no mínimo, mantendo-os subjugados, havia destruído o equilíbrio deles. Por isso, sua política, do princípio ao fim, consistia em não permitir de modo algum que, em qualquer questão, os muçulmanos obtivessem sequer pequenas vantagens, como alguém que corta o próprio nariz para prejudicar a viagem de outra pessoa. Ao descobrir no Plano Cripps certo indício de um Paquistão ou da divisão da Índia, o Congresso o rejeitou. Depois, considerando inevitável a derrota britânica na guerra, iniciou o movimento “Quit India” — isto é, atividades extremamente destrutivas por toda a Índia, especialmente nas províncias de maioria hindu. Esperava que, se os japoneses ocupassem parte da Índia, o governo britânico seria obrigado a aceitar as exigências do Congresso, permitindo-lhe estabelecer seu domínio em toda a Índia. Mas o resultado foi o oposto. Nenhum setor apoiou o movimento “Quit India”. Até mesmo o Hindu Mahasabha e o Partido Comunista o criticaram severamente. O Congresso foi declarado ilegal, e todos os seus líderes, incluindo Gandhi, foram presos e enviados para a prisão.

Por outro lado, a política previdente da Liga Muçulmana aumentou sua popularidade tanto dentro quanto fora do país. Em 1943 e 1944, havia ministérios da Liga Muçulmana em Bengala, Assam, Sind e na Província da Fronteira Noroeste. Embora em Punjab estivesse em vigor um ministério do Partido Unionista, seus membros apoiavam a Liga Muçulmana e a divisão da Índia. Assim, devido ao seu estreito contato com o povo, a popularidade da Liga Muçulmana continuou a crescer, e o movimento pelo Paquistão também se fortaleceu. Com isso, os líderes do Congresso ficaram profundamente desanimados.

Em uma carta escrita ao vice-rei, Lord Wavell, em 27 de julho de 1943, Gandhi declarou estar disposto a aconselhar o Comitê de Trabalho do Congresso a retirar o movimento de não cooperação e oferecer plena colaboração ao esforço de guerra, desde que a independência da Índia fosse proclamada imediatamente, sob a condição de que, durante a guerra, as operações militares continuassem como antes, mas nenhum encargo financeiro fosse imposto à Índia.

O vice-rei respondeu a essa carta em 15 de agosto. Nela, a proposta de Gandhi foi rejeitada. Afirmou-se que, depois do fim da guerra, caso fosse elaborada uma constituição consensual, o governo britânico estaria pronto para declarar a independência da Índia. Antes disso, também teria de ser celebrado um tratado com a Grã-Bretanha. Para formar, conforme a exigência de Gandhi, um governo nacional responsável perante o Parlamento Central, seria necessário alterar a constituição vigente. Isso não era de modo algum possível naquele momento. Contudo, o vice-rei declarou: “Nas circunstâncias atuais, apelo a todos para que cooperem na formação de um governo de transição (Transitional Govt.) sob a constituição vigente.” Se todos os partidos chegassem a um acordo de princípio sobre os meios e métodos de elaborar a futura constituição, o governo proposto poderia funcionar bem.

Gandhi, expressando sua reação característica, afirmou que o governo britânico não estava disposto a transferir o poder de governar 400 milhões de pessoas enquanto os indianos não tivessem adquirido a capacidade de arrancá-lo.

As palavras do Sr. Gandhi continham uma ameaça velada de outro movimento violento.

Entretanto, diante da resposta decepcionante do vice-rei, alguns líderes do Congresso sentiram a necessidade de entrar em contato com Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah. Eles pensavam que teria sido muito bom se o Congresso conseguisse chegar a um acordo com o governo por meio de seus esforços. Mas, quando isso se mostrou impossível, tornou-se indispensável chegar a um acordo com a Liga Muçulmana.

Antes que o Congresso mudasse esse tipo de atitude, o veterano líder congressista C. Rajagopalachari chegou à conclusão de que a divisão da Índia era indispensável para pôr fim ao impasse constitucional. Ele continuou a expressar sua posição em reuniões públicas, a fim de convencer os líderes do Congresso a esse respeito. Em abril de 1943, numa reunião pública em Madras, declarou: “Sou a favor do Paquistão. Pois não quero um Estado onde nem os hindus nem os muçulmanos tenham dignidade e honra. Que os muçulmanos obtenham o Paquistão. Nós podemos garantir a dignidade e a honra tanto dos hindus quanto dos muçulmanos. Se o governo britânico criar dificuldades, nós as enfrentaremos. …Sou a favor do Paquistão — mas creio que o Congresso não concordará com isso.” (The Struggle for Pakistan, I. H. Quershi, p. 205, discurso em Madras — abril de 1943, citado em Khaliquzzaman, p. 309)

Raja Gopalacharia disse ainda: queremos o fim do domínio britânico. Também queremos resolver as divergências políticas entre hindus e muçulmanos. Temos de aceitar a Liga Muçulmana como representante dos muçulmanos. Eles querem que aceitemos as suas reivindicações. A mais importante de suas reivindicações é o Paquistão.

(The Struggle for Pakistan, I.H. Quershi, pp. 205)

Em 1943, Raja Gopalacharia elaborou uma fórmula que ficou conhecida como Fórmula C. R. Ele acreditava que a fórmula serviria de base para um acordo entre o Congresso e a Liga. Enquanto Gandhi estava em jejum na prisão, a fórmula foi-lhe apresentada durante uma visita, e Gandhi a aprovou. Em seguida, em 10 de julho de 1943, a fórmula foi publicada nos jornais.

Aceitando a fórmula como base para um acordo entre o Congresso e a Liga Muçulmana, Mahatma Gandhi e o Sr. Jinnah procurariam, respectivamente, fazer com que o Congresso e a Liga Muçulmana a aceitassem. O conteúdo da fórmula era o seguinte:

1. Sujeita às condições a seguir relativas à constituição da Índia independente, a Liga Muçulmana apoiará a reivindicação de independência da Índia e cooperará com o Congresso na formação de um governo interino temporário durante o período de transição.

2. Nas regiões noroeste e oriental da Índia, onde os muçulmanos constituem maioria absoluta, será nomeada uma comissão para delimitar as fronteiras. Em seguida, nessas regiões, realizar-se-á um plebiscito com base no sufrágio dos adultos, e a questão da separação da Índia será decidida pelo plebiscito. Se for obtida uma maioria de votos a favor de um Estado soberano separado da Índia, a decisão será efetivada. Contudo, os distritos fronteiriços terão o direito de aderir a qualquer um dos Estados.

3. Antes da realização do plebiscito, todos os partidos terão o direito de apresentar suas posições.

4. Após a decisão de separar-se da Índia, deverão ser celebrados acordos mútuos para a defesa, o comércio e os sistemas de comunicação.

5. A transferência dos habitantes será inteiramente voluntária e facultativa.

6. As condições da fórmula deverão ser obrigatoriamente cumpridas quando a Grã-Bretanha transferir todos os poderes e responsabilidades para o governo da Índia.

Depois de examinar e analisar a fórmula, o Comitê de Trabalho da Liga Muçulmana confiou a Jinnah a responsabilidade de tomar uma decisão sobre o assunto.

Gandhi e Jinnah trocaram numerosas cartas sobre o assunto. Jinnah levantou algumas questões. Gandhi não conseguiu dar respostas satisfatórias a todas elas.

Causas do fracasso da fórmula C. R.

Ao investigar as causas do fracasso da fórmula de Raja Gopalachari, surgem algumas perguntas. Qual era o objetivo da longa troca de cartas entre Gandhi e Jinnah sobre esse assunto? Qual era a atitude do Congresso a esse respeito? Qual era a opinião dos outros partidos?

A principal causa do fracasso das negociações foi que Gandhi não conseguiu, de modo algum, aceitar a reivindicação dos muçulmanos pelo Paquistão. Ele rejeitou a Teoria das Duas Nações e acreditava que somente o Congresso era a organização representativa de todos os habitantes da Índia. O objetivo das negociações era mostrar ao mundo que ele havia tentado chegar a um acordo.

As propostas de Sapru

Após o fracasso da Fórmula C. R., Sir Tej Bahadur Sapru apresentou algumas propostas e tentou criar um entendimento entre o Congresso e a Liga Muçulmana. No ano anterior, em 1941, convocou uma conferência apartidária. Nada resultou dela.

O comitê permanente da Conferência Apartidária de Sapru reuniu-se em Allahabad, em 3 de dezembro de 1944, e formou um Comitê de Conciliação. Seus membros eram Sir Tej Bahadur Sapru (presidente), M. R. Jayakar (que não compareceu), o bispo Foss Westcott, S. Radhakrishnan, Sir Homi Mody, Sir Maharaj Singh, Muhammad Yunus, N. R. Sarkar, Flank Anthony e Sant Singh.

Em seguida, em uma carta escrita a Jinnah em 10 de dezembro, Sapru descreveu os objetivos do Comitê de Conciliação e solicitou uma reunião.

Em resposta à carta, em 14 de dezembro, Jinnah declarou que não estava disposto a reconhecer de modo algum qualquer conferência apartidária ou seu comitê permanente. No ano seguinte, em 8 de abril de 1945, Sapru anunciou as propostas de seu Comitê de Conciliação.

As propostas do comitê revelaram claramente sua atitude. A primeira cláusula da proposta opunha-se firmemente à divisão da Índia. Também se propunha a abolição dos eleitorados separados. Não é preciso dizer que essas propostas eram absolutamente inaceitáveis para os muçulmanos. Jinnah comparou esse comitê à criada doméstica do Congresso e declarou que ele falava em uníssono com Gandhi.

Pacto Desai–Liaquat

Após a chegada do novo ano, 1945, novos ventos políticos começaram a soprar. Os dirigentes do Congresso ainda estavam na prisão, acusados do Movimento de Agosto anterior. Notícias ou rumores de um acordo entre o Congresso e a Liga começaram a ser publicados nos jornais indianos. Durante vários meses, os membros do Congresso na Assembleia Legislativa Central passaram a comparecer regularmente às sessões e a trabalhar em harmonia com os membros da Liga Muçulmana na Assembleia. Ouviu-se dizer que Bhulabhai Desai, líder do Partido Parlamentar do Congresso, estava trabalhando em completa concordância com Liaquat Ali Khan, líder do grupo da Liga. Também se ouviu dizer que ambos os líderes haviam chegado a um entendimento sobre a constituição de um governo nacional temporário. Em 13 de janeiro, Desai reuniu-se com Sir Evan Jenkins, secretário particular do vice-rei, e, em 20 de janeiro, com o próprio vice-rei. Nesta reunião, o vice-rei foi informado de que havia um acordo entre Desai e Liaquat. Desai declarou que Gandhi apoiava esse acordo. Acrescentou ainda que Jinnah estava informado sobre o conteúdo das discussões com Liaquat Ali e aprovava o chamado acordo.

O chamado acordo era o seguinte:

O Congresso e a Liga concordam em participar de um governo interino no centro. Ele será formado da seguinte maneira:

(a) O Congresso e a Liga nomearão igual número de membros (não será necessário que as pessoas nomeadas sejam membros da Assembleia Legislativa Central).

(b) Representantes das minorias (especialmente das comunidades catalogadas e dos siques).

(c) O comandante das forças armadas.

Depois de formado, o governo continuará a funcionar sob a Lei do Governo da Índia (1935). Se o Gabinete não conseguir aprovar na legislatura determinado curso de ação ou medida, não deverá recorrer aos poderes especiais do Governador-Geral ou do Vice-Rei para impô-lo. Isso lhe daria a oportunidade de trabalhar de forma independente, livre da influência do Vice-Rei.

Também nesse ponto o Congresso e a Liga chegaram a um consenso: se um governo interino desse tipo fosse formado, sua primeira tarefa seria libertar da prisão os membros do Comitê de Trabalho do Congresso.

Com base neste acordo, o Governador-Geral será instado a apresentar ao governo uma proposta declarando que está interessado na formação de um governo interino com base no acordo entre o Congresso e a Liga.

O Governador-Geral comunicou ao Secretário de Estado para a Índia as propostas do acordo Desai-Liaquat. Ele levantou várias questões a esse respeito e solicitou explicações.

Quando o Governador-Geral iria reunir-se com Desai e Liaquat Ali, Jinnah declarou, por meio de um comunicado, que nada sabia sobre o acordo. Sem se deixar desanimar, Desai continuou a manifestar confiança na validade do acordo. Para examinar a questão, o Governador-Geral pediu ao Governador de Bombaim, Sir John Colvin, que se encontrasse com Jinnah e lhe solicitasse que ficaria satisfeito se Jinnah se encontrasse com ele em Deli. Jinnah afirmou que nada sabia sobre o acordo Desai-Liaquat e que este havia sido celebrado sem a autorização da Liga Muçulmana.

Enquanto isso, embora tivesse a aprovação de Gandhi, os líderes do Congresso criticaram Desai. Tanto o Congresso quanto a Liga Muçulmana rejeitaram o acordo.

Nono capítulo

O Plano Wavell de 1945

Após o fracasso do acordo Desai-Liaquat, o Vice-Rei foi a Londres, em maio, para realizar consultas e negociações com o Governo britânico. Depois, retornou à Índia trazendo, em nome do Governo, uma proposta para pôr fim ao impasse.

Em 14 de junho, o Secretário de Estado para a Índia apresentou, por meio de uma declaração na Câmara dos Comuns, uma proposta destinada a resolver os futuros problemas constitucionais da Índia. A proposta dizia que o Vice-Rei reorganizaria seu Conselho Executivo de modo a poder nomear como conselheiros algumas pessoas escolhidas entre os partidos políticos indianos. Haveria nele uma representação equilibrada das principais comunidades, em proporção igual entre muçulmanos e hindus de casta. Nesse Conselho, todos, exceto o Vice-Rei e o Comandante-em-Chefe, seriam indianos. Depois de obter a cooperação de todos para a reorganização desse Conselho, a Seção 93 seria retirada de todas as províncias, para que pudessem ser formados ministérios populares.

No mesmo dia, explicando essa proposta, o Vice-Rei, Lord Wavell, fez um discurso radiofônico de Deli. Gandhi e o Congresso recusaram-se a aceitar no Conselho uma representação em número igual de muçulmanos e hindus de casta.

A Conferência de Shimla

Para dar continuidade aos seus esforços, o vice-rei convocou, em 25 de junho, uma conferência de todos os partidos em Simla. Vinte e uma pessoas do Congresso, da Liga Muçulmana e de outros partidos participaram da conferência — entre elas, seis membros da Liga Muçulmana, incluindo Jinnah e Liaquat Ali. Na conferência, observou-se uma extrema divergência de opiniões entre o Congresso e a Liga Muçulmana. Maulana Abul Kalam Azad declarou que o Congresso não poderia aceitar qualquer arranjo, temporário ou permanente, que ferisse sua dignidade nacional, obstruísse o progresso da reivindicação de uma única nacionalidade e transformasse o Congresso em uma organização comunal. Jinnah declarou que a Liga não poderia aceitar uma constituição baseada em qualquer coisa que não fosse o Paquistão. As discussões continuaram nos dias 26 e 27. Como Jinnah estava em conversações com o ex-primeiro-ministro da UP, G. B. Pant (PANT), a reunião do dia 27 foi adiada pouco depois de começar. Em seguida, as sessões da conferência foram realizadas nos dias 28 e 29. Soube-se que as conversações entre Jinnah e Pant haviam fracassado. O vice-rei adotou uma via diferente para as discussões e pediu a cada partido participante da conferência que apresentasse uma lista de nomes daqueles que seriam membros do Conselho do Vice-Rei. Ele expressou a esperança de que tanto o Congresso quanto a Liga Muçulmana apresentassem uma lista com os nomes de oito a doze pessoas.

Em 3 de julho, o Congresso enviou sua lista de nomes ao vice-rei. Em 6 de julho, após consultar o Comitê de Trabalho da Liga Muçulmana, Jinnah apresentou, no dia seguinte, ao vice-rei as seguintes propostas:

1. Em vez de aceitar uma lista de nomes em nome da Liga Muçulmana, os representantes para o Conselho seriam escolhidos após uma discussão pessoal entre Jinnah e o vice-rei.

2. Todos os membros muçulmanos do Conselho seriam escolhidos pela Liga Muçulmana.

3. Devem ser estabelecidas salvaguardas eficazes para proteger os interesses muçulmanos das decisões da maioria dos membros do Conselho.

Após a última rodada de conversações entre o vice-rei e Jinnah, em 11 de julho, o vice-rei declarou que quatro membros muçulmanos seriam escolhidos pela Liga Muçulmana para o Conselho, e a quinta pessoa seria, e a quinta pessoa seria, um muçulmano punjabi não pertencente à Liga.

Depois disso, Jinnah declarou que a Liga não poderia cooperar com o governo na formação do Conselho. Assim, a conferência de Simla do vice-rei também fracassou.

Causas do fracasso

A mesma razão que causou o fracasso da Conferência de Shimla anulou todos os esforços de conciliação entre o Congresso e a Liga. De modo algum podem pessoas que creem no Tawhid, na Risalat e na Akhirah formar uma única nação juntamente com aqueles que negam o Tawhid, a Risalat e a Akhirah. Portanto, a reivindicação da Liga Muçulmana de que os muçulmanos constituem uma nação distinta é uma verdade irrefutável, comprovada por inúmeros acontecimentos no território deste subcontinente. Assim, se Jinnah afirma que, por os muçulmanos constituírem uma nação distinta, o direito de nomear representantes muçulmanos para o Conselho do Vice-Rei pertence à Liga Muçulmana, a organização representativa da nação muçulmana, todos deveriam aceitar isso em princípio. E foi precisamente por os muçulmanos constituírem uma nação distinta que se reivindicou para eles um Estado independente separado, o Paquistão, e a luta por ele continua. A reivindicação injusta e irrealista do Congresso, porém, é que todos os hindus e muçulmanos do subcontinente, sem distinção, constituem uma só nação, representada pelo Congresso. O Congresso reivindica o futuro poder governamental do país e, se o obtiver, os muçulmanos poderão ser exterminados sob o domínio da maioria hindu. O temor dos muçulmanos não é fruto da imaginação, mas uma verdade comprovada. O Congresso não está disposto a aceitar essa verdade. Quando a proposta de Jinnah foi rejeitada, fracassando diante do Vice-Rei e do apoio às reivindicações do Congresso, a conferência fracassou.

Eleições gerais

Após a rendição do Japão, a Segunda Guerra Mundial terminou em 15 de agosto de 1945.

Antes disso, no fim de julho, o Partido Trabalhista obteve uma ampla maioria nas eleições gerais da Inglaterra. O Partido Trabalhista mantinha relações estreitas com o Congresso desde muito tempo antes, e o resultado dessas eleições deixou o Congresso extremamente eufórico. O Congresso começou a agir para tirar proveito político disso. A política britânica era favorável à unidade da Índia, e o Congresso esperava obter um apoio ainda maior do Partido Trabalhista nessa questão. Era justamente essa questão que mantinha uma enorme distância entre o Congresso e a Liga Muçulmana. A reivindicação do Congresso era uma só nação, muçulmanos e não muçulmanos indistintamente, e o governo do partido majoritário numa Índia indivisa. A reivindicação da Liga Muçulmana, por outro lado, era que os muçulmanos constituíam uma nação completamente distinta e que, por essa razão, deveriam ter um Estado independente separado. O governo anunciou que, para a decisão final entre essas duas reivindicações opostas, seriam realizadas, no inverno do fim daquele ano, eleições gerais para as assembleias legislativas central e provinciais.

Nas eleições, a reivindicação da Liga Muçulmana obteve pleno reconhecimento. A Liga Muçulmana conquistou todos os assentos muçulmanos da assembleia legislativa central. Dos 495 assentos muçulmanos das assembleias legislativas provinciais, a Liga Muçulmana conquistou 446. O Congresso obteve a maioria nas províncias de maioria hindu, o que era perfeitamente natural. Em Bengala, dos 119 assentos muçulmanos, a Liga Muçulmana conquistou 113. Por causa de A. K. Fazlul Huq, a Liga Muçulmana perdeu seis assentos. Ali, Huseyn Shaheed Suhrawardy formou um ministério.

No Punjab, dos 86 assentos muçulmanos, a Liga Muçulmana conquistou 79. Também no Sindh foi formado um ministério da Liga Muçulmana. Na Província da Fronteira, devido à enorme influência de Abdul Ghaffar Khan, o extremista pró-Congresso conhecido como o Gandhi da Fronteira, a Liga Muçulmana conquistou 17 dos 36 assentos, e o Dr. Khan formou um ministério.

É, contudo, inegável que estas eleições gerais provaram de maneira irrefutável que somente a Liga Muçulmana era a instituição política representativa da Índia. Com isso, a oposição do Congresso à Liga Muçulmana assumiu uma forma mais intensa. Em vez de reconhecer o caráter representativo da Liga Muçulmana e chegar a um entendimento político com ela, o Congresso adotou uma política de criar divisões entre os muçulmanos e recusou-se a transferir o poder político para as mãos de representantes que gozavam da confiança dos muçulmanos, até mesmo nas províncias de maioria muçulmana. Como resultado, as divergências comunais se intensificaram e tornou-se impossível chegar a um acordo entre os dois lados.

A política adotada pelo Congresso em relação ao Punjab é um exemplo notável de sua atitude hostil. No Punjab, a Liga Muçulmana conquistou 79 dos 86 assentos muçulmanos. Esse grupo tinha apenas dez membros, dos quais três eram não muçulmanos. O Congresso tinha 51 e os Akali Sikhs, 22. Era inteiramente justo que o maior partido, a Liga Muçulmana, formasse o ministério. A Liga Muçulmana poderia ter formado um ministério com hindus e sikhs. Mas isso não foi possível devido ao ódio cego do Congresso aos muçulmanos e à imprudência dos sikhs. O presidente do Congresso, Abul Kalam Azad, e Baldev Singh persuadiram e convenceram Khizr Hayat, líder do Partido Unionista, a formar um ministério com a cooperação do Congresso e do partido dos Akali Sikhs. Essa aliança sem princípios foi formada com o objetivo de impedir que a Liga Muçulmana assumisse o poder no Punjab, de maioria muçulmana. Abul Kalam Azad sentiu enorme satisfação consigo mesmo e orgulho por ter conseguido formar no Punjab um ministério que não era da Liga Muçulmana. (Maulana Abul Kalam Azad: India Wins Freedom, p. 137)

Jawaharlal Nehru condenou a entrada do Congresso no ministério do Punjab, e Gandhi, apoiando Abul Kalam Azad, afirmou que, do ponto de vista do Congresso, não havia solução melhor do que essa. (The Emergence of Pakistan: Choudhury Muhammad Ali, p.49)

Décimo capítulo

O plano da Missão do Gabinete

Em 19 de fevereiro de 1946, o Governo britânico anunciou que uma missão especial, composta por três ministros do Gabinete, seria enviada à Índia com o objetivo de, após discussões com o vice-rei Lord Wavell e os líderes indianos, chegar a um acordo sobre a questão constitucional.

A esse respeito, durante um debate na Câmara dos Comuns, em 15 de março, o primeiro-ministro Attlee declarou: “A remoção da complexa situação que se criou na Índia, um país de muitas raças, religiões e línguas, será obra dos próprios indianos. Estamos conscientes dos direitos das minorias. … Isso, porém, não significa que possamos permitir que a minoria exerça veto sobre o progresso da maioria.”

O Congresso ficou extremamente exultante com a declaração do primeiro-ministro. Mas isso suscitou dúvidas entre os membros da Liga, e Jinnah apresentou o exemplo do convite feito a uma mosca para entrar na teia de uma aranha, dizendo: “Se a mosca recusa, diz-se que está exercendo um veto e que a mosca é intransigente” (quando a mosca rejeita o convite da aranha, diz-se que ela está exercendo um veto e que não é conciliadora).

-(Cabinet Mission and after, Muhammad Ashraf, p.1-3, Choudhury Mohammad Ali: Emergnce of Pakistan, p.52)

Não poderia haver exemplo mais apropriado. Quando a minoria não aceita cair na armadilha da supremacia e dominação exclusivas da maioria, o primeiro-ministro britânico considera isso equivalente a um veto e afirma que não se pode permitir tal coisa. Com isso, torna-se evidente a atitude de Attlee e, consequentemente, do Governo britânico.

Entretanto, a Missão do Gabinete, composta por Pethick-Lawrence (Secretário de Estado para a Índia), Sir Stafford Cripps (Presidente da Junta de Comércio) e o Sr. A. D. Alexander (Primeiro Lorde do Almirantado), chegou a Nova Deli em 24 de março de 1946.

Os membros da missão encontraram-se e trocaram opiniões com os líderes dos partidos políticos, com os primeiros-ministros provinciais e com várias outras personalidades representativas. Também conversaram com os governantes e ministros dos Estados principescos.

Ao saber que Cripps fazia parte da Missão do Gabinete, Abul Kalam Azad expressou profunda satisfação. Isso porque ele era um antigo amigo íntimo dos congressistas. Cripps já havia estado na Índia e fora hóspede de um hindu indiano chamado Sudhir Chandra Gupta. (Moulana Abul Kalam Azad: ‘India Wins Freedom’, p. 146)

Azad encontrou-se com a missão em 3 de abril. Ele havia construído o edifício de seus argumentos sobre a base da independência. Sua ideia era que uma Assembleia Constituinte elaboraria a futura constituição, e a reivindicação do Congresso era a formação de um governo federal em cujas mãos ficariam, pelo menos, a defesa do país, as comunicações e as relações exteriores. O Congresso não aceitaria de modo algum a divisão da Índia.

Jinnah encontrou-se com a missão em 4 de abril. Em 7 de abril, Azad voltou a encontrar-se com ela. Tanto o Congresso quanto a Liga Muçulmana apresentaram suas respectivas posições. A posição da Liga Muçulmana foi comunicada ao presidente do Congresso.

O Congresso queria que houvesse uma única Assembleia Constituinte, que elaboraria a constituição para o governo federal de toda a Índia e para a legislatura. O governo federal central teria sob sua responsabilidade as relações exteriores, a defesa, as comunicações, os direitos fundamentais, a moeda, as alfândegas e o planejamento.

Na convenção realizada em Deli, em 9 de abril de 1946, com a participação dos membros da Liga Muçulmana das legislaturas central e provinciais, foi aprovada uma resolução exigindo a formação de um Estado soberano e independente do Paquistão, constituído, no nordeste, por Bengala e Assam e, no oeste, pelo Punjab, pela Província da Fronteira Noroeste, pelo Sind e pelo Baluchistão, bem como a formação de duas Assembleias Constituintes distintas, compostas pelos habitantes do Paquistão e do Hindustão, para elaborar suas respectivas constituições. De acordo com essa resolução, a Liga Muçulmana apresentou à Missão do Gabinete a proposta de que fosse formada uma Assembleia Constituinte para as seis províncias do grupo do Paquistão e outra para as seis províncias do grupo do Hindustão.

O Congresso e a Liga Muçulmana não conseguiram aceitar as propostas um do outro. A principal questão controversa era saber se haveria no subcontinente um único Estado independente e soberano ou dois Estados independentes e soberanos. Em ambos os casos, existia o problema das minorias. A Missão do Gabinete foi incapaz de eliminar as divergências entre os dois partidos.

Por fim, a Missão do Gabinete e o vice-rei publicaram, em 16 de maio, uma declaração com o objetivo de resolver o problema constitucional. O tema central da declaração era a preservação de um único Estado na Índia. Por razões administrativas, econômicas e militares, o Governo britânico rejeitou a proposta de dois Estados independentes e soberanos.

A Missão do Gabinete chegou à Índia em 24 de março de 1946 e, após permanecer por mais de três meses, deixou o país em 29 de junho. O objetivo do envio da Missão do Gabinete à Índia pelo Governo britânico era apresentar uma solução constitucional para a situação surgida. Os membros da Missão do Gabinete não pouparam esforços nesse sentido. Contudo, é verdade que, na solução do problema, deram prioridade aos interesses do Congresso e, portanto, da comunidade hindu, especialmente porque o seu membro mais influente, Stafford Cripps, era amigo íntimo do Congresso.

Maulana Abul Kalam Azad diz que a Missão do Gabinete chegou à Índia em 23 de março. Quando Stafford Cripps veio anteriormente à Índia, J. C. Gupta assumiu a responsabilidade por sua hospitalidade. Ele me disse que estava indo a Délhi para encontrar-se com Cripps. Entreguei-lhe uma carta para que transmitisse a Cripps minhas felicitações por sua nova vinda à Índia. (Abul Kalam Azad: India Wind Freedom, p. 140)

Ele acrescenta que, durante a permanência de Cripps na Índia, mantive continuamente correspondência com ele. (Abul Kalam Azad: India Wins Freedom, p. 172)

Ishtiaq Husain Qureshi mencionou, na nota de rodapé da página 266 de sua obra The Struggle for Pakistan, que—

Sudihir Ghosh, em Gandhi’s Emissary (Bombaim, 1967), apresenta um relato revelador das negociações secretas de bastidores entre a Missão do Gabinete e os líderes do Congresso. Não houve contatos íntimos semelhantes entre a Liga Muçulmana e o Governo britânico; as relações trabalharam contra os interesses muçulmanos em todas as etapas críticas. Os britânicos tinham em vista a vantagem futura que poderiam obter da amizade com a comunidade maior e mais poderosa e estavam dispostos, de fato, a ir muito longe para atender aos seus desejos.

Como mencionado anteriormente, a questão que constitui a causa principal do conflito entre o Congresso e a Liga Muçulmana é a exigência da criação de um Estado independente e soberano chamado Paquistão. Essa era a exigência dos muçulmanos do subcontinente, que o Congresso e o Governo britânico de modo algum estavam dispostos a aceitar. Por meio do plano da Missão do Gabinete, o Congresso tentou de todas as formas encurralar a Liga Muçulmana e estabelecer seu domínio exclusivo. O político perspicaz Quaid-i-Azam Muhammad Ali Jinnah compreendeu plenamente essa conspiração para encurralá-los e concordou em aceitar condicionalmente as propostas da Missão do Gabinete. Contudo, tudo fracassou devido à obstinação do Congresso.

Ao descrever a longa história das atividades da Missão do Gabinete durante mais de três meses e de suas discussões com o Congresso, a Liga Muçulmana e o vice-rei, quero dizer brevemente que o Congresso criou enormes obstáculos para se chegar a uma decisão de compromisso. Isso porque a aspiração do Congresso era obter domínio e autoridade exclusivos sobre a futura Índia independente. O Congresso não estava de modo algum disposto a compartilhar o poder com a Liga Muçulmana. Nessa época, em uma carta escrita a Cripps, Gandhi disse: “Se vocês têm coragem, façam desde o início o que venho dizendo. … Escolham uma entre o Congresso e a Liga Muçulmana.” (Pyarelal, Mohatma Gandhi: The Lasy Phase vol. 1, p. 225; Chudhury Muhammad Ali: The Emergence of Pakistan, p. 62)

Por fim, a Missão do Gabinete e o vice-rei decidiram emitir uma declaração com o objetivo de formar um governo interino forte e representativo. Na declaração publicada em 16 de maio, foram anunciados os nomes de catorze pessoas, às quais o vice-rei convidaria a integrar o Gabinete interino. Este seria composto por seis membros do Congresso, cinco da Liga Muçulmana, um sique, um cristão indiano, um parsi e um representante da comunidade das castas catalogadas.

Cabe mencionar que o parágrafo 8 da declaração publicada em 16 de maio assegurava que, se os dois principais partidos, ou qualquer um deles, não aceitassem integrar um governo de coalizão pelo procedimento acima mencionado, o vice-rei avançaria para a formação de um governo interino. Esse governo seria tão representativo quanto possível, reunindo aqueles que estivessem dispostos a ingressar nele aceitando a declaração publicada em 16 de maio.

Em seguida, durante uma semana, os líderes do Congresso, funcionários hindus de alto escalão e a imprensa hindu desencadearam uma violenta campanha contra a Missão do Gabinete e o vice-rei. Espalharam-se rumores de que os membros da Liga Muçulmana ocupariam as vagas destinadas aos muçulmanos no Gabinete. Repetia-se que os membros da Liga Muçulmana ocupariam as vagas destinadas aos muçulmanos no Gabinete. Gandhi ameaçou deixar Délhi caso um muçulmano nacionalista não fosse incluído no Gabinete, embora o presidente do Congresso, Abul Kalam Azad, tivesse assegurado por escrito que o Comitê de Trabalho não insistiria nessa questão. Gandhi declarou, em tom ameaçador, que, nesse caso, a Assembleia Constituinte se transformaria em uma organização rebelde. Quando Cripps correu a pedir a intervenção de Gandhi, este afirmou que a Missão do Gabinete teria de escolher um dos dois partidos; não se tentaria nenhuma combinação.

-(Pyarelal, Mahatma Gandhi: The Last Phase, vol. 1, p. 234–37; Chodhury Muhammad Ali, The Emergence of Pakistan, p. 62–63)

No espaço de uma semana, a Missão do Gabinete capitulou diante de Gandhi. Em 22 de junho, Sudhir Ghosh, amigo de Cripps, disse a Gandhi que havia se encontrado com Cripps. Disse que, se o Congresso não concordasse em participar, não se poderia depender apenas da Liga Muçulmana.

Sudhir Ghosh encontrou-se novamente com Cripps e foi dizer a Gandhi que a Missão do Gabinete havia decidido que, se o Congresso rejeitasse a proposta de curto prazo e aceitasse o plano de longo prazo, tudo o que havia sido feito até então para formar o governo interino seria anulado e uma nova tentativa seria feita. Eles pediram para se encontrar com Gandhi e Patel. Gandhi foi encontrar-se com a Missão do Gabinete acompanhado de Patel (Sardar Vallabhbhai Patel) e Sudhir Ghosh. Patel já havia conversado com Pethick-Lawrence. Pethick-Lawrence disse a Gandhi: “Entendi que o senhor quer rejeitar todo o plano do governo interino que elaboramos até agora e reconsiderar a situação do zero. Muito bem.”

Em seguida, o entendimento alcançado entre a Missão do Gabinete e Gandhi foi comunicado ao Comitê de Trabalho; depois, em 25 de junho, o presidente do Congresso informou por escrito ao vice-rei que o Congresso rejeitava a proposta de governo interino e aceitava o plano de longo prazo.

Até o momento imediatamente anterior à divisão da Índia, encontraram-se evidências dessa atitude mental do Congresso e de Gandhi. Na breve discussão acima, a face repulsiva da mentalidade de Gandhi e da Missão do Gabinete ficou patente nas páginas da história.

Reação da Liga

A luz de esperança que havia surgido para a solução do problema constitucional da Índia apagou-se devido à violação das promessas feitas pela Missão do Gabinete e pelo vice-rei. Para discutir essa situação, realizou-se uma sessão do Conselho da Liga em Bombaim, na última semana de julho. Nessa sessão, Jinnah declarou que, nas negociações com a Missão do Gabinete, a Liga Muçulmana havia feito concessão após concessão ao Congresso, (fez concessão após concessão). Isso porque desejávamos chegar a um acordo amistoso e pacífico, para que não apenas hindus e muçulmanos, mas todos os povos que habitavam o subcontinente pudessem avançar rumo à liberdade. Contudo, por meio de sua retórica vil e de suas negociações, o Congresso causou um enorme prejuízo ao povo da Índia. Durante todas as discussões, a Missão do Gabinete tornou-se vítima do terror e da intimidação do Congresso. Tudo isso prova, sem dúvida, que a única solução para todos os problemas da Índia é o Paquistão.

Creio que não deixamos nenhum argumento ou prova por apresentar. Agora não existe nenhum tribunal ao qual possamos recorrer. A nação muçulmana é o nosso único tribunal.

Em seguida, por meio de uma resolução adotada na sessão, foi retirada a aceitação da proposta da Missão do Gabinete, e o secretário de Estado para a Índia foi informado disso.

CAPÍTULO XI

Ação Direta

Nessa sessão, foi também aprovada uma resolução declarando que havia chegado o momento de a nação muçulmana adotar a Ação Direta com o objetivo de conquistar o Paquistão e libertar-se da escravidão britânica e do futuro domínio dos hindus de casta. Solicitou-se a elaboração de um programa para organizar os muçulmanos e empreender a luta no momento necessário. Além disso, apelou-se às pessoas interessadas para que renunciassem a todos os títulos concedidos por governos estrangeiros, em protesto contra a atitude e o comportamento britânicos.

Numa entrevista coletiva convocada em 31 de julho, Jinnah declarou em tom inequívoco que a Ação Direta não era uma declaração de guerra contra ninguém. Disse que somente a Liga Muçulmana havia atuado por meios constitucionais, dentro dos limites da Constituição. Durante as discussões sobre o plano da Missão do Gabinete, a Liga Muçulmana percebeu que o Governo britânico estava apavorado e aterrorizado pelo Congresso. Seu temor era que, se não conseguissem satisfazer o Congresso, este se lançaria numa luta mil vezes mais perigosa do que a luta de 1942. Os britânicos têm metralhadoras e podem usá-las à vontade. O Congresso está equipado com outro tipo de arma, e não pode ser menosprezado. Portanto, somos agora obrigados a abandonar os meios constitucionais para nossa autodefesa e preservação. Decidimos preparar-nos para empreender a luta no momento oportuno. (Cabinet Mission and After, Muhammad Ashraf, pp. 311–319; Emergence of Pakistan — Choudhury Mohammad Ali — pp. 69–70)

O dia 16 de agosto foi definido para a Ação Direta. Dois dias antes, em uma declaração que fez, Jinnah afirmou que, para a população muçulmana da Índia, aquele dia se destinava a explicar a resolução adotada pelo Conselho da Liga Muçulmana em 29 de julho, e não a iniciar qualquer tipo de confronto direto. Portanto, apelo aos muçulmanos para que sigam integralmente nossas instruções, mantenham uma conduta extremamente pacífica e ordeira e não se tornem marionetes nas mãos do inimigo.

A declaração de Abul Kalam Azad

Percebi entre o povo o sentimento de que, em 16 de agosto, a Liga Muçulmana atacaria os membros do Congresso e pilharia seus bens. O dia 16 de agosto é um dia negro na história da Índia. Naquele dia, centenas de pessoas perderam a vida e riquezas no valor de centenas de milhões de rúpias foram saqueadas. As procissões da Liga Muçulmana começaram a saquear e a incendiar propriedades. (Abul Kalam Azad, India Wins Freedom, pp. 168–169)

Apesar de minha sincera e profunda reverência pelo Maulana Azad, direi que ele expressou exatamente o que estava no coração do Congresso hindu. Naquele dia, ele estava em Delhi. Portanto, sem ter testemunhado os acontecimentos, fez o comentário acima apenas com base no que ouviu de outras pessoas.

Em sua obra mencionada, ele afirma que o dia da Ação Direta da Liga Muçulmana parecia ser de natureza diferente. Em Calcutá, percebi o sentimento geral de que, em 16 de agosto, a Liga Muçulmana atacaria os partidários do Congresso e pilharia seus bens. A declaração de 16 de agosto como feriado oficial pelo governo de Bengala espalhou um pânico ainda maior. O grupo do Congresso na Assembleia Legislativa de Bengala protestou contra essa decisão. Como o protesto não produziu resultado, seus membros abandonaram o edifício da Assembleia. Havia uma terrível apreensão entre a população de Calcutá, e essa apreensão aumentava porque um governo da Liga Muçulmana estava estabelecido e Husein Shaheed Suhrawardy era o primeiro-ministro. (India Wins Freedom, de Abul Kalam Azad, pp. 168–169)

A declaração acima do Maulana Abul Kalam Azad identificou as verdadeiras causas dos horripilantes confrontos comunitários em Calcutá. As causas eram:

1. Em Bengala, havia sido estabelecido um ministério da Liga Muçulmana, algo que era intolerável para os hindus.

2. O primeiro-ministro era Husein Shaheed Suhrawardy, a quem os hindus consideravam hostil aos hindus.

3. Alguns dias antes de 16 de agosto, espalhou-se o falso rumor de que a Liga Muçulmana, ou melhor, os muçulmanos de Calcutá, atacariam os hindus e saqueariam seus bens. O objetivo de espalhar esse rumor era preparar os hindus para exterminar os muçulmanos de Calcutá, que constituíam quase vinte e cinco por cento da população.

Embora eu (o autor desta obra) ocupasse então um cargo importante no serviço público, apoiava de todo o coração o movimento pelo Paquistão. Não chegou aos meus ouvidos sequer o menor indício de qualquer plano, por parte da Liga Muçulmana, de atacar os hindus. Eu morava então em Calcutá com minha família; em casa, além de mim, estavam apenas minha esposa e minha filha de quatro anos. Se houvesse qualquer possibilidade de distúrbios, eu jamais poderia ter ido tranquilamente ao comício da Liga Muçulmana em 16 de agosto, deixando-as sozinhas.

Muitas outras pessoas, como eu, participaram do comício realizado no Maidan. Ao chegarmos, vimos o Raja Ghazanfar Ali Khan fazendo um discurso em inglês.

Quanto a armas nas mãos dos membros da Liga Muçulmana, nem pensar: não vimos sequer um bastão ou um porrete. No entanto, vimos todos radiantes e entusiasmados, na esperança de conquistar o Paquistão.

Depois do senhor Raja, quando o senhor Suhrawardy subiu ao palco, começaram a chegar notícias de ataques armados de hindus contra os cortejos da Liga Muçulmana e contra os que vinham ao comício. Em seguida, muitos dos muçulmanos atacados chegaram à reunião com as roupas ensanguentadas e começaram a relatar os ataques armados dos hindus. A alegria dos ouvintes transformou-se em tristeza. A terrível tensão, o medo e a apreensão continuaram a crescer. Em Calcutá, os muçulmanos constituíam entre vinte e vinte e cinco por cento da população. Quase todos eram pobres. Cerca de cinco por cento deles eram pessoas de fora, que trabalhavam em diferentes lugares.

A preocupação sobre como os participantes do comício voltariam para casa em segurança e sobre o que aconteceria com suas famílias desprotegidas tornou-se visível no rosto de todos. O primeiro-ministro compreendeu a situação. Não me lembro de nada do seu discurso. Contudo, para consolar a multidão, disse “Ham sab dekh lenge” e pediu a todos que voltassem para casa em ordem. De algum modo, repetindo “Alá, Alá”, conseguimos voltar para casa. Como morávamos no bairro muçulmano de Park Circus, em Calcutá, sobrevivemos; caso contrário, certamente teríamos sido vítimas dos ataques dos hindus.

Sobre esse acontecimento aterrador, Lan Stepens, editor do diário Statesman, de Calcutá, daquela época, disse: “Provavelmente, nos combates do primeiro dia e, certamente, no segundo e no terceiro dias, os muçulmanos sofreram as maiores perdas de vidas e propriedades.

(lan Stephens, Pakistan, Londin, Ernest Bena, 1963, p. 106; Choudhury Mohammad Ali, The Emergence of Pakistan, p. 76)

Esses acontecimentos provam, sem sombra de dúvida, que a Liga Muçulmana não tinha nenhum plano de atacar os hindus em 16 de agosto. Pelo contrário, o Congresso elaborou um plano meticuloso para exterminar os muçulmanos, a fim de utilizar a Ação Direta da Liga em benefício de seus próprios interesses mesquinhos. Contudo, disso resultaram benefícios para os muçulmanos. A criação do Paquistão foi acelerada — uma possibilidade que havia se tornado um pouco mais remota após as propostas da Missão do Gabinete. Jinnah condenou aberta e francamente as atrocidades ocorridas em Calcutá e expressou profunda compaixão pelos mortos e pelos prejudicados.

Após a Ação Direta da Liga Muçulmana

O conflito comunal de Calcutá tornou-se objeto de um debate controverso. De tempos em tempos, ocorriam tumultos entre hindus e muçulmanos aqui e ali no subcontinente. Mas a crueldade e a brutalidade perpetradas em 16 de agosto de 1946 foram incomparáveis. Esse massacre foi realizado sob um plano cuidadosamente elaborado para exterminar os muçulmanos de Calcutá.

Em 24 de agosto, o vice-rei anunciou os nomes dos membros do Governo Interino.

Eles deveriam assumir suas funções em 2 de setembro.

É digno de nota que, em 6 de agosto, o vice-rei convidou Nehru a formar um Governo Interino. Em 7 de agosto, o Comitê de Trabalho do Congresso consentiu em formar o governo. Em 17 de agosto, Nehru disse ao vice-rei que queria formar um governo forte preenchendo os assentos muçulmanos com pessoas de fora da Liga. O vice-rei discordou e disse que, por enquanto, os assentos muçulmanos deveriam permanecer vagos durante algum tempo. Nehru não aceitou essa proposta e manteve-se firme em sua própria proposta.

Mais tarde, veio a público que, às vésperas da posse do Governo Interino do Congresso, o vice-rei havia dito ao Governo britânico que a cerimônia de posse deveria ser adiada até que a Liga Muçulmana concordasse em ingressar no governo. O primeiro-ministro Attlee rejeitou o argumento do vice-rei, afirmando que qualquer novo adiamento naquele momento agravaria o ressentimento dos líderes do Congresso e provocaria uma ruptura entre o Congresso e o Governo britânico. Em seguida, um comunicado oficial emitido de Délhi declarou que o novo Conselho assumiria suas funções em 2 de setembro.

Os membros que ingressaram no novo Conselho (The New Executive Council) eram: Nehru, Patel, Raja Gopalachari, Rajendra Prasad, Asaf Ali, Sarat Chandra Bose, John Matthai, Baldev Singh, Sir Shafayat Ahmad Khan, Jagjivan Ram, Ali Zaheer e C. H. Bhabha. Dois muçulmanos seriam admitidos posteriormente. (The Indian Register, 1946, vol. 2, p. 228, Ishtiaq Hossain Qureshi, The Struggle for Pakistan, pp. 274–275).

Após concluir uma ação contrária à sua natureza, o vice-rei visitou Calcutá, devastada pelos conflitos comunais. Depois da visita a Calcutá, convenceu-se de que, se não houvesse um entendimento entre o Congresso e a Liga, toda a Índia seria vítima de uma terrível guerra civil. Ao retornar de Calcutá, tentou convencer os líderes do Congresso e, com esse objetivo, encontrou-se com Gandhi em 27 de agosto. Propôs a formação de governos de coalizão em Bengala e no centro, e apresentou uma fórmula. Em 28 de agosto, Nehru informou ao vice-rei que o Comitê de Trabalho havia rejeitado a fórmula.

O vice-rei, Lord Wavell, fracassou apesar de seus esforços desesperados para chegar a um acordo. O Congresso interpretou essa iniciativa de maneira diferente. Considerou Wavell um obstáculo à instauração do domínio e da autoridade exclusivos do Congresso sobre o subcontinente e empenhou-se em puni-lo. Depois de retornar das conversas com Wavell, Gandhi e Nehru puseram-se ambos a escrever cartas. Primeiro, Gandhi enviou um telegrama a Attlee, informando que o estado de espírito do vice-rei era tal que era necessário tomar providências rapidamente. A acusação contra ele era a de que havia perdido o equilíbrio mental por causa dos acontecimentos de Calcutá. Gandhi exigiu que ele fosse substituído por uma pessoa mais competente. Gandhi também advertiu Wavell, por carta, de que ele queria submeter o Congresso à sua vontade por meio de ameaças. Acrescentou que, se o vice-rei estivesse assustado com a deterioração das relações comunais e quisesse usar a força para reprimi-la, os britânicos deveriam deixar a Índia imediatamente, e a responsabilidade de estabelecer a paz na Índia deveria ser confiada ao Congresso.

Por outro lado, Nehru informou por carta a alguns de seus influentes amigos na Grã-Bretanha que o vice-rei era um homem extremamente fraco e havia perdido a flexibilidade mental. Para agradar a Jinnah, ele estava empurrando a Índia para a beira do perigo. Disse que o vice-rei estava seguindo os conselhos de Sir Francis Mudie e George Abel e, segundo Nehru, os dois eram abertamente pró-muçulmanos (Rabidly pro-Muslim). Nehru também os chamou de mulás ingleses. Em suma, o teor das cartas de Nehru era: “Wavell tem de ir embora”.

-(Leonard Mosley, op. cit., p. 44; a carta de Gandhi a Wavell reproduzida na íntegra em Pyarelal, Miahatma Gandhi, The Last Phase (Ahmedabad, 1956); I. H. Qureshi, The Struggle for Pakistan, p. 276).

Capítulo XII

A participação da Liga no Conselho Executivo

O governo interino assumiu suas funções na data prevista, isto é, em 2 de setembro de 1946. O Congresso estava extremamente exultante. Pattabhi Sitaramayya declarou que, dentro de alguns anos, um governo nacional seria estabelecido na Índia. Não importa se a Liga Muçulmana vier ou não — isso não faz diferença. A caravana continuará avançando. Agora devemos considerar-nos os governantes desta terra. (I. H. Qureshi: The Struggle for Pakistan, p. 277)

Vários observadores políticos da Índia muçulmana e da Grã-Bretanha expressaram profunda tristeza diante da instauração de um governo de partido único na Índia. Em 25 de agosto, Jinnah fez uma declaração em termos extremamente severos. Lamentando a decisão do vice-rei, disse que ela era incompatível com as garantias e as promessas que haviam sido dadas à Liga Muçulmana. No dia em que o novo governo assumiu suas funções, os muçulmanos hastearam bandeiras negras em suas casas e lojas por toda a Índia.

Na Grã-Bretanha, Sir Winston Churchill protestou veementemente contra a decisão do governo e advertiu que a tentativa de estabelecer o domínio da maioria hindu não teria êxito sem uma guerra civil. Cripps utilizou injustamente sua influência para conceder vantagens aos hindus. Mais tarde, afirmou que tinha sido um erro fundamental confiar a responsabilidade do Governo da Índia ao Sr. Nehru, um hindu de casta superior. Lord Templewood, um dos autores da Lei do Governo da Índia de 1935, advertiu contra a formação de um governo com a colaboração de uma única comunidade. Lord Scarborough previu que seria exercida uma pressão terrível sobre o Governo britânico, a partir da Índia, para transferir o poder às mãos de um único partido, e expressou a esperança de que isso fosse impedido. Lord Crasborne criticou severamente o governo por permitir que o Congresso formasse um governo em agosto, rompendo a promessa feita aos muçulmanos em junho. Assim, diferentes setores da Grã-Bretanha manifestaram suas reações. (I.H. Qureshi: The Struggle for Pakistan, pp. 277-278

Antes de completar um mês da formação do governo interino, a Liga Muçulmana percebeu que permanecer fora do governo era extremamente contrário aos interesses muçulmanos. Em princípio, a Liga Muçulmana havia se recusado a ingressar no governo. Essa política permaneceria em vigor. Contudo, as necessidades políticas e, juntamente com elas, o estabelecimento no país de um governo hindu hostil obrigaram a Liga a mudar sua política. Enquanto a Liga Muçulmana permanecesse fora, os muçulmanos continuariam a sofrer. A ordem pública estava se deteriorando, e havia o temor de que os muçulmanos fossem eliminados de muitas regiões. O Congresso não demonstrava a menor preocupação. Como o governo hindu estava no poder, parecia que os malfeitores estavam sendo encorajados. Portanto, nessas circunstâncias, a Liga Muçulmana necessariamente teria de ingressar no governo para proteger a Índia muçulmana. Segundo Jinnah, ele poderia conduzir melhor a luta pela criação do Paquistão de dentro do que de fora do governo de coalizão.

O próprio vice-rei estava muito interessado em incluir a Liga Muçulmana no governo de coalizão, pois estava consciente das crises futuras. Por essa razão, longas e complexas negociações prosseguiram, de um lado, entre Jinnah e Nehru e, de outro, entre Jinnah e o vice-rei. Finalmente, em 25 de outubro de 1946, o Conselho Executivo foi reorganizado da seguinte forma:

Congresso

Jawaharlal Nehru – (Relações Exteriores e Relações com a Commonwealth)

Vallabhbhai Patel – (Interior, Informação e Radiodifusão)

Sr. Rajagopalachari – (Educação e Artes)

Asaf Ali – (Transportes e Ferrovias)

Jagjivan Ram – (Trabalho)

Liga Muçulmana

Liaquat Ali Khan – (Finanças)

I. I. Chundrigar – (Comércio)

Abdur Rab Nishtar – (Comunicações)

Ghazanfar Ali Khan – (Saúde)

Jogendra Nath Mandal – (Legislativo)

Minorias

John Mathai – (Indústrias e Abastecimentos)

C. H. Bhabha – (Obras, Minas e Energia)

Baldev Singh – (Defesa)

Nehru não viu com bons olhos a entrada da Liga Muçulmana no governo de coalizão. Além disso, demonstrou extrema obstinação na distribuição das pastas. O vice-rei queria que uma das três pastas de grande importância — Relações Exteriores, Interior ou Defesa — fosse entregue à Liga Muçulmana. Nehru opôs-se veementemente a isso. Por fim, entre as cinco pastas entregues à Liga Muçulmana estava a das Finanças. O Congresso concordara em entregar a pasta das Finanças à Liga Muçulmana porque acreditava que ela seria incapaz de administrá-la — ou melhor, que acabaria fazendo papel de tola ao tentar fazê-lo. Maulana Abul Kalam Azad lamentou essa decisão do Congresso e disse que seus colegas haviam tomado uma decisão equivocada. Abul Kalam Azad discutiu esse assunto de maneira muito interessante em sua obra ‘India Wins Freedom’; apresentamos aqui esse relato para deleite dos leitores.

Maulana Azad disse:

Como a Liga concordara em entrar no governo, o Congresso teria de reorganizá-lo e abrir espaço para os representantes da Liga Muçulmana. A questão agora era saber quem deixaria o governo. Considerou-se que Sarat Chandra Bose, Sir Shafaat Ahmad Khan e Syed Ali Zaheer renunciariam para abrir espaço aos indicados pela Liga. A proposta do vice-rei era que a pasta do Interior fosse entregue à Liga Muçulmana. Sardar Patel opôs-se veementemente a essa proposta. Na minha opinião, a lei e a ordem são inevitavelmente uma questão provincial; no quadro apresentado pelo plano da Missão do Gabinete, o centro tem muito pouco a fazer nesse assunto. Portanto, na nova estrutura governamental, o Ministério do Interior no centro não tem grande importância. Por essa razão, eu era favorável à proposta de Lord Wavell. Mas Patel era absolutamente inflexível. Ele disse: ‘Prefiro sair do governo, mas não abrirei mão do Ministério do Interior.’

Então pensamos em uma alternativa. Rafi Ahmad Kidwai propôs que o Ministério das Finanças fosse entregue à Liga Muçulmana. Acrescentou que se tratava de uma pasta extremamente importante. Mas era uma área altamente técnica, e não havia ninguém entre os membros da Liga Muçulmana capaz de administrá-la bem. Kidwai achava que a Liga Muçulmana se recusaria a aceitar essa pasta. O Congresso não teria nada a perder com isso. E, se aceitasse a pasta, a Liga acabaria demonstrando sua incompetência.

Patel agarrou-se à proposta e deu-lhe seu mais forte apoio (Patel jumped at the proposal and gave it his strongest support). Tentei salientar que o Ministério das Finanças era a chave de um governo e que, se ficasse sob o controle da Liga Muçulmana, enfrentaríamos enormes dificuldades. Patel contestou-me, dizendo que a Liga não seria capaz de administrar essa pasta e seria obrigada a rejeitar a proposta. Não pude ficar satisfeito com essa decisão. Contudo, como todos estavam de acordo, tive de aceitá-la.

Quando Lorde Wavell informou Jinnah sobre a proposta, ele disse que daria sua resposta no dia seguinte.

Jinnah também tinha dúvidas quanto à possibilidade de Liaquat Ali, o principal representante da Liga no gabinete, dirigir esse departamento. Depois de tomarem conhecimento do assunto, alguns funcionários muçulmanos do Departamento de Finanças foram encontrar-se com Jinnah. Disseram que a proposta do Congresso era como um fruto maduro e inimaginável, e que ela anunciava uma grande vitória para a Liga. …Como resultado do controle do Departamento de Finanças, a autoridade da Liga se estenderia a cada departamento do governo. Garantiram a Jinnah que ele não tinha motivo para temer. Prometeram ajudar e cooperar com Liaquat Ali de todas as formas, para que ele pudesse desempenhar devidamente suas responsabilidades.

O Congresso logo percebeu que havia cometido um grande erro ao entregar o Departamento de Finanças à Liga. (Abul Kalam Azad: India Wins Freedom, pp. 177-179)

A esse respeito, Chowdhury Mohammad Ali diz:

Em junho, quando surgiu pela primeira vez a possibilidade de formar um governo interino, o Quaid-i-Azam discutiu comigo os possíveis departamentos que caberiam à Liga. Ele expressou o desejo de assumir os departamentos do Interior e da Defesa (Home & Defence). Eu disse que a lei e a ordem, bem como a polícia, eram assuntos provinciais sobre os quais o centro não tinha qualquer controle. As províncias do Congresso não dariam a menor atenção ao Ministro do Interior da Liga. Do mesmo modo, os governos provinciais da Liga Muçulmana não sentiriam necessidade de seguir seus conselhos. Eu disse que o Departamento da Defesa era certamente vantajoso. Mas, se a Liga quisesse influenciar a política do governo em cada departamento, deveria assumir o Departamento de Finanças. Naquela ocasião, não consegui explicar-lhe a importância estratégica do Departamento de Finanças. Entretanto, agora, por uma reviravolta dos acontecimentos, o Departamento de Finanças havia caído nas mãos da Liga. Quando fui novamente convocado, repeti com muita ênfase meu conselho anterior. Ele estava hesitante porque o Departamento de Finanças seria confiado a Liaquat Ali como principal representante da Liga. Propus oferecer toda a ajuda e cooperação possíveis e assegurei tanto ao Quaid-i-Azam quanto a Liaquat Ali Khan um resultado bem-sucedido. Minha proposta foi aceita, e Liaquat Ali tornou-se Ministro das Finanças. (Chowdhury Mohammad Ali: The Emergence of Pakistan, p. 84).

Governo de coalizão

Devido à completa desconfiança e à atitude hostil do Congresso em relação à Liga, o Congresso queria reconhecer Nehru como líder de todo o gabinete. A Liga recusou-se a aceitar isso. Em uma entrevista coletiva, Liaquat Ali Khan declarou claramente que, no gabinete, Nehru não era líder de ninguém além do Partido do Congresso. Embora rejeitasse a responsabilidade coletiva no sentido constitucional, afirmou que os ministros da Liga trabalhariam em harmonia com seus colegas, não apenas no interesse dos muçulmanos, mas também no interesse de todos os habitantes da Índia.

Como os conflitos comunitários continuavam a aumentar, havia uma necessidade extrema de unidade e cooperação. Na segunda semana de outubro, começaram distúrbios nos distritos de Noakhali e Comilla, no leste de Bengala, e a situação foi controlada antes do fim do mês. Depois de uma investigação no local, o governador Sir Frederick Burrows comentou que ali não havia nenhuma campanha ofensiva da população muçulmana contra os hindus. Os distúrbios haviam sido provocados por pessoas de natureza criminosa. O tenente-general Sir Francis Tuker, General Officer Commanding-in-Chief do Comando, afirmou que o número de mortos era inferior a trezentos. Mas a imprensa hindu, transtornada, criou deliberadamente histórias fictícias terríveis e horripilantes e as difundiu por todo o mundo. Essas propagandas despertaram entre os hindus de Bihar e das Províncias Unidas um desejo intenso de vingança. [E.W.R. Lumby: The Transfer of Power in India -1945-47 (London George Allen and Unwin, 1954), p.120; Sir Francis Tuker, While Memory Server (London-Casell, 1950), p.176; Choudhury Mohammad Ali The Emergence of Pakistan, p.85].

Na primeira semana de novembro, o massacre planejado de muçulmanos começou em Bihar. Entre todos os terríveis distúrbios de 1946, o massacre de Bihar foi o mais horrendo e doloroso. O aspecto mais covarde foi que a população hindu, com todos os preparativos feitos conforme o plano, lançou-se subitamente contra os muçulmanos. Esses muçulmanos e seus antepassados haviam vivido pacificamente com seus vizinhos hindus. O número de mulheres, homens e crianças mortos nesse distúrbio foi de sete a oito mil. (Sir Francis Tuker: While Memory Server, pp. 181–82; Choudhury Mohammad Ali: Emergence of Pakistan, p. 86).

O vice-rei e os ministros do governo central visitaram as regiões afetadas por distúrbios entre hindus e muçulmanos e fizeram apelos pela harmonia comunitária e pela paz. Apesar de estar ciente dos acontecimentos em Bihar, Gandhi encontrava-se então em Calcutá, a caminho de Noakhali. Muçulmanos congressistas pediram repetidamente a Gandhi que fosse a Bihar para conter os hindus sedentos de sangue. Apesar disso, em vez de dirigir-se a Bihar, Gandhi foi para Noakhali, onde permaneceu por quatro meses.

Por fim, em março de 1947, Gandhi foi convencido a ir a Bihar. Então seus olhos se abriram. O gabinete provincial esquivou-se de tudo por meio de artifícios e não demonstrava qualquer arrependimento. O general Tuker disse que o que mais surpreendera nossos oficiais era como os ministros hindus haviam aceitado calmamente o massacre brutal. Eles diziam ter feito tudo o que estava ao seu alcance. Mas, quando Gandhi observou que até então nenhuma comissão de investigação havia sido formada, o primeiro-ministro Shri Krishna Sinha expressou o temor de que a Liga obtivesse ganhos políticos com isso.

As provas do massacre de Bihar são tão fortes que ninguém pode criar confusão a respeito. Piarilal intitulou um capítulo de sua obra ‘Mahatma Gandhi: The Last Phase’ como ‘The veil lifted’. Nele, afirma que os distúrbios de Bihar de 1946 destruíram o sonho de uma Índia unida. Esse massacre também abalou a fé de Gandhi no pacifismo inato dos hindus (Pacifism). A partir desse momento, iniciou-se nele uma mudança notável. Anteriormente, em todos os distúrbios comunitários, sua principal preocupação era proteger os hindus. Agora passou também a preocupar-se com a proteção dos muçulmanos. Apesar de tentar estabelecer a supremacia política hindu sobre toda a Índia, empenhou-se intensamente em evitar o derramamento de sangue. Seus sentimentos humanitários haviam despertado, e ele teve de pagar por isso com a própria vida.

Pouco depois do massacre de Bihar, outro massacre de muçulmanos ocorreu em Garhmukteshwar, na província de UP. Ali realizava-se todos os anos uma feira hindu. Alguns comerciantes muçulmanos montaram lojas na feira. De repente, foram atacados. O general Tuker diz:

Todas as mulheres, homens e crianças muçulmanos foram brutalmente mortos. Nenhuma notícia do massacre conseguiu atravessar a cortina de ferro e chegar ao mundo exterior. O governo provincial, com a colaboração da administração hindu, manteve o massacre cometido pelos hindus oculto. Nos jornais hindus, divulgou-se deliberadamente, com grande alarde, que os muçulmanos haviam se vingado várias vezes. Isso foi feito para encobrir os crimes dos hindus. O primeiro-ministro, Pandit Pant, anunciou que seria formada uma comissão de investigação judicial. Mas nada foi feito. (Sir Francis Tuker: While Memory Server; pp. 196–201; Chowdhury Mohammad Ali: Emergence of Pakistan, p. 87).

Décimo terceiro capítulo

Assembleia Constituinte

No final de julho de 1946, foram eleitos 296 representantes para a Assembleia Constituinte. O Congresso venceu em todos os assentos gerais, exceto nove, e a Liga venceu em todos os assentos muçulmanos, exceto cinco, e a Liga venceu em todos os assentos muçulmanos, exceto cinco. A primeira sessão da Assembleia Constituinte deveria ocorrer em 9 de dezembro de 1946. Contudo, a Liga recusou-se a participar. Ela nem sequer estava disposta a reconhecê-la como legítima enquanto o Congresso não aceitasse a interpretação da Liga Muçulmana do parágrafo 19 da declaração da Missão do Gabinete de 16 de maio. O vice-rei solicitou ao Congresso que aceitasse essa interpretação. A recompensa por esse pedido foi dada da seguinte maneira: Gandhi e Nehru enviaram telegramas e cartas ao governo britânico pedindo a remoção do vice-rei. Sem ver outra alternativa, o vice-rei convidou, em 20 de novembro, a participação na Assembleia Constituinte sob o plano da Missão do Gabinete. Jinnah imediatamente classificou isso como uma medida gravemente equivocada. Disse que o vice-rei não conseguira compreender a terrível situação e sua realidade, e estava tentando agradar ao Congresso. Em 9 de dezembro, nenhum representante da Liga participou da sessão da Assembleia Constituinte.

Nessa situação, com o objetivo de fazer uma última tentativa, o governo britânico convidou dois líderes do Congresso e dois líderes da Liga para Londres. A conselho do vice-rei, também foi convidado um representante sikh.

Em 2 de dezembro de 1987, Lord Wavell viajou para Londres acompanhado de Nehru, Jinnah, Liaquat Ali Khan e Baldev Singh. As discussões duraram quatro dias.

A divergência fundamental entre o Congresso e a Liga dizia respeito à interpretação da declaração da Missão do Gabinete de 16 de maio, isto é, ao agrupamento das províncias. A própria Missão do Gabinete apresentou a interpretação que correspondia à da Liga Muçulmana. Nehru, porém, de modo algum estava disposto a aceitar essa interpretação. Criou-se um impasse político extremo.

Como não se alcançou nenhum acordo ou solução de compromisso devido à obstinação e à precipitação do Congresso, o governo britânico publicou uma declaração em 6 de dezembro. O último parágrafo da declaração dizia que não se podia esperar o êxito da Assembleia Constituinte sem uma decisão baseada em um procedimento consensual. Se a Assembleia Constituinte elaborasse uma Constituição sem a representação de uma grande parte do povo da Índia durante sua elaboração, o governo britânico não poderia impor pela força tal Constituição a uma população relutante.

A declaração acima mencionada do governo e a declaração da Missão do Gabinete de 25 de maio não conseguiram provocar qualquer mudança no Congresso. Nehru e Baldev Singh retornaram à Índia com o objetivo de participar da Assembleia Constituinte. Jinnah e Liaquat Ali permaneceram no Reino Unido por mais alguns dias. Em uma coletiva de imprensa em Londres, Jinnah disse: se o Congresso aceitar, em linguagem inequívoca, a interpretação do governo britânico sobre a declaração publicada em 16 de maio, pedirei ao Conselho da Liga que reconsidere a questão. Em um discurso em Londres, Jinnah demonstrou que a população do Paquistão era maior que a população de qualquer outro Estado do mundo. Estamos aceitando o controle do Congresso sobre três quartos da Índia. A objeção do Congresso a aceitar o Paquistão deve-se ao fato de querer toda a Índia. Então, onde ficamos nós? A questão agora é: o governo britânico quer transferir o poder, pela força de suas baionetas, para a maioria hindu? Se assim for, diremos que vocês perderam até o último fragmento de sua honra, retidão, justiça, imparcialidade e conduta virtuosa. [Some Recent Writings of Mr. Jinnah, Vol 2-ed. By Jamiluddin Ahmad, (Lahore, Muhammad Ashraf 1947) –pp.496-508; Chowdhury Mohammad Ali The Emergence of Pakistan, pp.91-92).

Por um lado, na Índia, o Congresso continuava a exigir em voz enérgica que a Liga fosse expulsa do governo interino caso não participasse da Assembleia Constituinte; por outro, a declaração do governo britânico de 6 de dezembro trazia o indício de uma nova mudança no cenário político em um futuro próximo.

E. W. R. Lumby, ligado ao Secretariado da Missão do Gabinete, afirma que esta foi a primeira declaração do governo britânico de que o plano da Missão do Gabinete seria abandonado. Depois das propostas de Cripps, esta foi a primeira declaração oficial que continha, de uma forma ou de outra, uma indicação do Paquistão. Ao discursar na Câmara dos Comuns, Cripps afirmou claramente, no último parágrafo da declaração oficial, que, se não fosse possível convencer a Liga a participar da Assembleia Constituinte, as regiões do país nas quais ela era majoritária não poderiam ser obrigadas por qualquer decisão. (E.W.R. Lumby, op.cit, p.129; I.H. Wuershi The Struggle for Pakistan, pp.184-

Agora resta uma pergunta: por que o Congresso era tão inflexível em sua exigência de expulsar a Liga do governo? Havia várias razões. O Congresso chamava o governo interino de governo nacional, e sua responsabilidade era coletiva. Nehru era considerado o primeiro-ministro desse governo. Na Grã-Bretanha, a imprensa pró-Congresso e de esquerda também cantava a mesma canção no mesmo tom. Por exemplo, o The New Statesman descreveu o governo como um gabinete de responsabilidade coletiva cujo primeiro-ministro era Nehru (7 de setembro de 1946). Lord Ismay, chefe do Estado-Maior de Mountbatten na Índia, referiu-se a Nehru como vice-primeiro-ministro (The Memories of General the Lord Ismay, Londres, 1960, p. 418). Sua afirmação era extremamente ridícula. Pois, se Nehru era o primeiro-ministro, o vice-rei era então o quê, primeiro-ministro?

Os conselheiros da Liga recusavam-se a reconhecer Nehru como chefe do governo interino; nem mesmo o chefe do bloco não pertencente à Liga o reconhecia como tal. Jinnah declarou que o governo interino não era outra coisa senão o Conselho Executivo do vice-rei. Politicamente, ele havia sido reconstituído. O vice-rei, com seus poderes especiais, era seu chefe. Nehru era apenas o vice-presidente do Conselho. Sua função consistia somente em presidi-lo na ausência do vice-rei. Ele não possuía mais poder ou dignidade do que os demais conselheiros.

Isso feriu profundamente o orgulho de Nehru, levando-o a continuar fazendo a injusta exigência de expulsar a Liga. (I. H. Quershi: The Struggle for Pakistan, pp. 282–283).

Capítulo XIV

A Missão Mountbatten

No início do novo ano, 1947, a situação política e constitucional da Índia era tal que, no centro, havia um governo interino, ou Conselho Executivo do vice-rei, no qual o Congresso e a Liga Muçulmana permaneciam em meio a enormes divergências. Desde 9 de dezembro de 1946, realizavam-se as sessões da Assembleia Constituinte, boicotadas pela Liga. Em consequência, o Congresso exigia a expulsão da Liga do Conselho do vice-rei. Em 13 de fevereiro, Nehru exigiu por carta ao vice-rei a expulsão da Liga. Em 15 de fevereiro, Patel ameaçou, declarando que, se a Liga não deixasse o governo, o Congresso abandonaria o governo interino. (The Indian Annual Register 1847, vol. 1, p. 35; I. H. Quershi, The Struggle for Pakistan, p. 287).

Em uma situação tão tensa, em 20 de fevereiro de 1947, o primeiro-ministro Attlee publicou uma declaração. Ele afirmou que não se podia permitir que uma situação tão incerta se prolongasse. O governo britânico queria declarar claramente que, dentro do mês de junho, adotaria as medidas necessárias para transferir o poder às mãos de indianos responsáveis. Se, nesse período, uma Constituição consensual não fosse elaborada por uma Assembleia Constituinte plenamente representativa, o governo consideraria a quem o poder na Índia britânica deveria ser transferido no devido tempo — às mãos de que tipo de governo central na Índia britânica, ou por qualquer meio então existente que fosse considerado extremamente razoável e favorável aos interesses do povo indiano.

Ao final da declaração, anunciou-se também que, no lugar de Wavell, o almirante visconde Mountbatten seria nomeado vice-rei.

Quatro dias depois, o Secretário de Estado para a Índia declarou na Câmara dos Lordes que essa decisão havia sido tomada por recomendação das personalidades responsáveis da Índia. O objetivo era exercer pressão para que os partidos indianos chegassem a um acordo.

Não será difícil compreender que, aqui, por “personalidades responsáveis da Índia” se entendiam Gandhi e Nehru, e que, por “acordo”, se entendia a aceitação, pela Liga, da exigência do Congresso.

Os leitores certamente podem ter curiosidade em saber por que Lord Wavell foi removido no momento crítico da política indiana. Por mais que diga alguém simpático ao Congresso, certos acontecimentos testemunham que a punição de Wavell ocorreu justamente para agradar ao Congresso, especialmente a Gandhi e Nehru.

Houve alguma divergência extrema entre o Primeiro-Ministro Clement Attlee e seu Gabinete, pela qual Lord Wavell teve de pagar o preço? Não há qualquer prova disso na história. A razão era outra. Vejamos, portanto, investigá-la.

Convém observar que Lord Wavell foi inicialmente uma figura muito querida pelo Congresso. Em junho de 1946, quando a Liga Muçulmana quis formar um governo interino, Wavell opôs-se. Mais tarde, voltou a permitir que o Congresso formasse o governo, excluindo a Liga. Antes, ele havia declarado com bastante firmeza que a unidade geográfica, ou integridade territorial, da Índia não poderia de modo algum ser negada. Por isso, a Liga expressou intensa indignação. Posteriormente, o calor das relações entre o vice-rei e o Congresso começou a diminuir. Depois dos sangrentos distúrbios de Calcutá, o Congresso pediu ao vice-rei que dissolvesse o ministério da Liga em Bengala, mesmo que isso violasse os direitos conferidos pelo Ato do Governo da Índia de 1935. O vice-rei não concordou. Em consequência, tornou-se alvo do desagrado do Congresso. Depois, quando o vice-rei continuou recusando-se a aceitar as repetidas exigências de expulsão dos conselheiros da Liga do Executive Council do vice-rei, a ruptura das relações chegou ao ponto culminante. Em seguida, Gandhi enviou telegramas e cartas ao Governo britânico para pedir a remoção do vice-rei, enquanto Nehru enviou cartas, com o mesmo objetivo, a seus amigos na Grã-Bretanha; o Secretário de Estado para a Índia chamou tudo isso de “a conselho das personalidades responsáveis da Índia”. Nehru ficou extremamente satisfeito com a remoção de Wavell e com a chegada de Mountbatten à Índia como vice-rei.

Lord Mountbatten chegou a Délhi em 22 de março. Sua nomeação deixou o Congresso eufórico. Ele já mantinha relações com Nehru. Não era um desconhecido na Índia, pois, durante a Segunda Guerra Mundial, fora o Comandante Supremo das forças aliadas no Sudeste Asiático. Por isso, tinha de vir repetidamente à Índia, que era a base de operações da guerra (Base for operation). Dois anos antes, ele havia encontrado Nehru na Malásia, e os dois sentiram-se atraídos um pelo outro. Contudo, não se sabia que ele fosse um devoto do Congresso. Seu próximo conselheiro, Lord Ismay, temia que Mountbatten fosse visto como devoto dos hindus e hostil à Liga Muçulmana. (Cempbell-Johnson, Allan: Mission with Mountbatten, p.23; Abdul Hamid Muslim Separatism in India, p.239).

Como de praxe, Mountbatten recebeu autorização para formar uma secretaria pessoal adicional ao staff do vice-rei. Essa era seu “gabinete de cozinha”. A personalidade mais poderosa na base de seu sucesso era V. P. Menon. O vice-rei o trouxe para seu círculo de formulação de políticas. O cavalheiro vinha atuando, desde 1942, como conselheiro constitucional do Governo Central. Além de competência administrativa, possuía considerável discernimento político. Era devotado a Patel. A leitura de seu próprio livro, The Transfer fo Power, Calcutta, 1957’, deixa claro que, mesmo antes de se vincular à secretaria pessoal do vice-rei, ele sempre expressara opiniões contrárias à Liga. Agora, tornou-se uma força imensa por trás do poder governamental.

-(Abdul Hamid Muslim Separatism in India, p.239).

Mountbatten havia escolhido cuidadosamente e com grande cautela, na Inglaterra, os membros de sua equipe que trouxe consigo. Entre eles estava Lord Ismay, que durante a Segunda Guerra Mundial fora o principal conselheiro pessoal de Churchill. Havia também Eric Civil, antigo secretário particular de Lord Wavell e secretário particular assistente de Jorge VI. Esses dois eram os principais conselheiros do vice-rei nos assuntos gerais e civis, enquanto Lord Ismay era o chefe de gabinete. V. P. Menon era o conselheiro constitucional. Reuniões da equipe eram realizadas com frequência. A princípio, Menon era convocado apenas ocasionalmente para as reuniões. Mais tarde, passou a ser convocado para todas elas. O vice-rei e todos os demais sabiam que Menon era um homem extremamente leal a Patel. Consequentemente, Patel não apenas conhecia todas as informações secretas internas do Conselho do Vice-Rei, como também, por meio desse seu porta-voz, influenciava a política do vice-rei. Se, no lugar de Menon, houvesse um muçulmano que mantivesse contato com Jinnah, nem o vice-rei nem o Congresso o teriam tolerado. Poderiam os muçulmanos da Índia, e a Liga Muçulmana em particular, esperar justiça dessas pessoas?

A evolução do Plano de 3 de junho

Mountbatten fora nomeado vice-rei da Índia com o objetivo de buscar uma solução consensual para uma Índia unida, com base no Plano da Missão do Gabinete. Porém, depois de chegar à Índia e observar o curso dos acontecimentos e as visões divergentes dos líderes políticos, não se vislumbrava qualquer possibilidade de uma solução consensual nem de uma Índia unida. Portanto, o vice-rei concentrou-se na elaboração de um plano tendo como ponto de partida a declaração do primeiro-ministro de 20 de fevereiro.

Depois de consultar seus conselheiros, ele elaborou um plano para a transferência do poder. Sua base era que o poder e os direitos seriam transferidos para as províncias, ou para as confederações das províncias que decidissem agrupar-se antes da efetiva transferência do poder. Em 1º de abril, Ismay entregou a Menon o esboço do plano para que este preparasse um cronograma, juntamente com as emendas. Menon cumpriu a ordem e, ao mesmo tempo, expressou sua opinião, dizendo que aquele era um plano ruim e que não funcionaria. O plano final foi apresentado na conferência dos governadores e aprovado. Em 2 de maio, Lord Ismay e George Abell partiram para Londres levando o plano para a aprovação de Whitehall. O vice-rei esperava obter a aprovação até 10 de maio e pedir que os líderes partidários se reunissem em conjunto em 17 de maio para conhecer suas reações.

Em seguida, Mountbatten foi para Shimla acompanhado de Sir Eric Civil e Menon. Ali, Menon teve a oportunidade de conversar reservadamente com o vice-rei e, apresentando argumentos contra o plano enviado a Londres, disse que ele não funcionaria. Antes que o vice-rei ouvisse todos os argumentos de Menon, Nehru e Krishna Menon chegaram inesperadamente a Shimla, em 8 de maio, para permanecer com o vice-rei. O vice-rei pediu a Menon que falasse com Nehru. Em 9 de maio, Menon disse a Nehru que, com base no status de domínio, o poder seria transferido para duas Índias — e não para as confederações das províncias. Em 10 de maio, o vice-rei discutiu o plano com Nehru, Menon e Sir Eric Civil; essa discussão foi registrada nas atas e passou a ser considerada parte dos registros do Governo da Índia.

Ainda naquele dia, o plano aprovado chegou às mãos do vice-rei, vindo de Londres, embora com algumas emendas. Depois do jantar, o vice-rei chamou Nehru e mostrou-lhe o plano que fora aprovado. Ao lê-lo, Nehru ficou furioso e disse: “Eu, o Congresso e a Índia — ninguém o aceitará.”

Em 11 de maio, Mountbatten chamou Menon, comunicou-lhe a reação de Nehru e perguntou o que se poderia fazer então. Menon disse: “A implementação do plano que apresentei em 9 e 10 de maio fará com que o país se divida em muitas unidades, ao passo que meu plano preservará a unidade essencial da Índia. E as regiões que não desejarem permanecer como parte da Índia terão permissão para se separar.”

Uma reunião da equipe foi convocada às pressas, e Nehru também foi convidado. O vice-rei perguntou a Nehru se ele aprovava o plano de Menon. Depois de examiná-lo, Nehru o aprovou.

Depois disso, o vice-rei retornou a Délhi em 14 de maio e viajou para Londres em 18 de maio, a fim de persuadir o Gabinete a aprovar o plano. Lord Ismay e George Abell se opuseram ao plano de Menon. O vice-rei declarou enfaticamente: “Se o Governo britânico não aprovar este plano, renunciarei.” O Gabinete aprovou o plano em apenas cinco minutos, sem alterar sequer uma “vírgula”. O vice-rei retornou à Índia em 31 de maio, acompanhado de sua equipe, com ares de vencedor.

É agora evidente como a luz do dia que o plano que aceleraria o fim do Império Britânico na Índia e daria início a uma transformação no mapa da Ásia e do mundo foi elaborado por um conselheiro hindu do vice-rei, devoto do Congresso, com a colaboração de Nehru e Krishna Menon. Durante um mês, o vice-rei discutiu esse plano, destinado a mudar o destino do país e de várias dezenas de milhões de pessoas, com um pequeno grupo de seus favoritos; contudo, em nenhum momento Jinnah foi chamado, nem sequer uma única vez. Isso revela claramente a mentalidade extremamente estreita e intensamente hostil aos muçulmanos de Mountbatten e, por extensão, do Governo britânico. Isso ficará para sempre registrado nas páginas da história.

Uma pergunta que agita a mente

O plano para a partição da Índia foi finalmente aprovado pelo Governo britânico. Ele seria anunciado oficialmente em 3 de junho. Antes mesmo de o plano ser aprovado pelo Governo, Nehru já havia dado seu consentimento a ele. A questão agora é: como isso foi possível? Como o Congresso, a Índia hindu e seus principais porta-vozes, Gandhi, Nehru e Patel, concordaram com a mutilação da Mãe Índia? Teriam eles abandonado o antigo e dourado sonho de estabelecer o Ram Rajya em uma Índia indivisa?

O general Tuker, lançando luz sobre a atitude vingativa da maioria hindu, disse:

Por fim, disseram: “Muito bem, se a Liga Muçulmana quer o Paquistão, está certo, deixem que o obtenha. Nós lhes arrancaremos centímetro por centímetro de seu território, para que pareça que ele não poderá sobreviver e, mesmo aquilo que restar, não poderá ser administrado economicamente.” (Sir Francis Tuker: White Memory Server, Londres, Cassel, 1950, p. 257; Choudhury Mohammad Ali: The Emergence of Pakistan, p. 123).

O discurso proferido por Patel na Assembleia Constituinte da Índia, em 1949, comprova a exatidão do comentário acima de Tuker. Em seu discurso, Patel disse: “Concordei com a partição do país como último recurso, quando já havíamos perdido tudo. O Sr. Jinnah nunca quis um Paquistão mutilado. Mas, no fim, teve de engoli-lo.” (Citado em Kewnl L. Panjabi, The Indemiable Sardar, Bombaim, Bharatiya Vidya Bhaban, 1962, p. 124; Choudhury Mohammad Ali—Ibid., p. 123).

A aceitação da partição do país pelo Congresso foi uma medida estratégica. Mas o objetivo permanecia inalterado; para alcançá-lo, era necessário—

1. O Hindustão, ou União Indiana, deveria ser reconhecido como o sucessor do Governo britânico na Índia. O Paquistão seria considerado como tendo se separado, juntamente com alguns territórios.

2. As áreas que seriam associadas ao Paquistão seriam extremamente pequenas e ficariam limitadas ao Bengala Oriental, ao Punjab Ocidental, ao Sind e ao Baluchistão. A Província da Fronteira permaneceria fora do Paquistão. Assim, o Paquistão seria estrategicamente cercado.

3. O Paquistão seria privado de tempo, meios, recursos, efetivos militares e civis, bem como de materiais e suprimentos, criando-se enormes obstáculos para que não pudesse se consolidar.

4. Tudo o que fosse necessário seria feito para impedir que o Paquistão sobrevivesse. (Os líderes do Congresso estavam certos de que o Paquistão não conseguiria sobreviver por muito tempo. Por isso, seu objetivo era tentar destruir a economia do Paquistão.)

Para alcançar esses objetivos vis, a Índia hindu precisava da ajuda dos britânicos, que controlavam toda a administração civil e as forças armadas. Às vésperas da partida, toda a administração, incluindo Mountbatten e Radcliffe, trabalhou em favor da Índia hindu, como será mencionado mais adiante.

—(Chudhury Mohammad Ali: The Emergence of Pakistan, pp. 123–124).

QUINTO CAPÍTULO

O processo de transferência do poder

Iniciou-se o processo de transferência do poder para a Índia. As assembleias legislativas provinciais de Bengala e do Panjabe receberam instruções para se reunirem, cada uma, em duas partes: uma composta pelos distritos de maioria muçulmana e outra pelos demais distritos. Os membros das duas partes de cada assembleia se reuniriam separadamente e teriam o direito de decidir se desejavam ou não a divisão de sua província. Se a maioria simples (Simple majority) de qualquer das partes decidisse a favor da divisão, esta entraria em vigor. Após a decisão sobre a divisão, cada parte da assembleia decidiria, em nome das áreas que representava, se ingressaria na atual Assembleia Constituinte ou em uma nova Assembleia Constituinte. Depois dessa decisão, o Governador-Geral nomearia uma “Comissão de Fronteiras” para demarcar as fronteiras entre as duas partes do Panjabe. Isso seria feito com base na identificação das áreas contíguas de maioria muçulmana e não muçulmana. Recomendou-se também à comissão que considerasse outros fatores. Instruções semelhantes foram dadas à Comissão de Fronteiras de Bengala.

Os membros da assembleia legislativa de Sinde, excetuando-se os membros europeus, reunir-se-iam conjuntamente para decidir se ingressariam na atual Assembleia Constituinte ou em uma nova Assembleia Constituinte. Na Província da Fronteira Noroeste, seria realizado um plebiscito para determinar em qual Assembleia Constituinte os eleitores daquela província ingressariam.

Também seria dada ao Baluchistão a oportunidade de expressar sua opinião sobre essa questão. Se a província de Bengala decidisse a favor da divisão, seria realizado um plebiscito no distrito de Sylhet, em Assam. Com isso, decidir-se-ia se desejavam que Sylhet permanecesse como parte de Assam ou se desejavam unir-se à Bengala Oriental. Caso desejassem unir-se à nova província, a “Comissão de Fronteiras” demarcaria a fronteira.

Se fosse tomada a decisão a favor da divisão do Panjabe e de Bengala, seriam realizadas novas eleições para a Assembleia Constituinte com base no seguinte:

Província                           Assentos gerais                    Muçulmanos                  Sikhs                  Total

Distrito de Sylhet                1                                     2                                0                     3

Bengala Ocidental                15                                   4                                0                    19

Bengala Oriental                  12                                  29                               0                    41

Punjab Ocidental                     ৩                                          ১২                               ২                     ১৭

Punjab Oriental                         ৬                                            ৪                                ২                     ১২

Como o Governo britânico desejava transferir o poder antes de junho de 1948, uma lei seria aprovada na sessão parlamentar em curso, para que, ainda naquele ano, o poder pudesse ser transferido a uma ou duas autoridades com base no “status de domínio”.

O vice-rei convocou, em 2 de junho, uma reunião de discussão com sete líderes. Eram eles Nehru, Patel, Kripalani, Jinnah, Liaquat Ali Khan, Abdur Rab Nishtar e Baldev Singh. O plano foi apresentado a eles e aprovado. Ao visitar Gandhi, Mountbatten tentou convencê-lo, dizendo que, nas circunstâncias presentes, o plano era o melhor possível. Embora Gandhi tivesse apoiado o plano antes de ele ser enviado à Grã-Bretanha, agora se opunha a ele — apenas para enganar o mundo e a Liga.

O plano de 3 de junho foi divulgado diante do mundo inteiro. Em uma coletiva de imprensa realizada em 4 de junho, o vice-rei declarou que havia trabalhado de mãos dadas com os líderes em cada etapa e a cada momento. Por isso, o plano não lhes causara indignação nem surpresa.

Para enganar o mundo, sua consciência não o impediu de dizer uma mentira tão descarada, apesar de ser uma pessoa tão responsável. Ninguém, além dos membros de sua equipe, do autor do plano, V. P. Menon, e de Nehru, tinha sequer o menor conhecimento do plano. Ele também foi mantido em segredo da Liga.

De qualquer modo, naquela coletiva de imprensa foi anunciado que 15 de agosto de 1947 havia sido fixado como a data experimental para a transferência do poder.

O Comitê do Congresso de Toda a Índia reuniu-se em 14 de junho e aprovou uma resolução para aceitar o plano. Ao mesmo tempo, afirmou enfaticamente, a respeito da divisão da Índia, que nenhuma organização humana poderia alterar a forma e a configuração que a geografia, as cadeias montanhosas e o mar haviam dado à Índia tal como ela existia, nem poderia obstruir o caminho para a determinação de seu destino final. O Comitê acreditava que, quando as emoções atuais se acalmassem, os problemas da Índia seriam considerados em sua perspectiva apropriada, e que a falsa doutrina das duas nações seria desonrada e abandonada. Abul Kalam Azad declarou: “Estou certo de que a divisão será temporária.” A Hindu Mahasabha afirmou que a Índia era una e indivisível e que nenhuma paz seria estabelecida enquanto as áreas separadas não fossem incorporadas à União Indiana.

Vários líderes, escritores e jornais hindus alimentavam a esperança de que, no futuro, a Índia se tornaria una e indivisa, e expressaram essa esperança antes, durante e depois da Partição. Em 15 de agosto, Gandhi declarou: “Estou certo de que chegará um tempo em que esta Partição será abandonada.” O órgão oficial do Congresso, o ‘The Hindustan Times’, também expressou esperança semelhante em seu editorial. O próprio Menon, autor do plano de Partição, declarou que não era esse o objetivo de agosto de 1947: romper o vínculo que havia unido a Índia por mais de cento e cinquenta anos. Entre os hindus, era uma crença generalizada que o Paquistão não duraria muito e que, sob o Congresso, a Índia se transformaria numa Índia indivisa — (Economist, 17 May 1947; Sunday Times 1 June 1947; Manchester Guardian 15 Auh. 1947, Round Table Sept. 1947 p.370; Guy Wint, The British in Asia, p.179; I.H. Quershi, The Struggle for Pakistan, pp.195-96).

Essas declarações e reações demonstram claramente que a Índia hindu não conseguiu aceitar de coração a existência do Paquistão. Não apenas isso: desde 15 de agosto de 1947 até o momento em que estas palavras são escritas (outubro de 1993), a Índia hindu vem empreendendo todos os esforços para engolir todo o território chamado Paquistão e estabelecer o Ramrajya numa Índia indivisa. Atualmente, afirma-se abertamente, em diversos seminários e reuniões públicas, que se deve restaurar a situação geográfica da Índia anterior a 1947. Para esse fim, a agressão econômica e cultural por parte da Índia foi intensificada enormemente.

Campanha e debate em torno do cargo de vice-rei

Naquela situação tensa da Índia, tanto o Congresso quanto a residência do vice-rei sustentavam a ideia de que os governadores-gerais dos dois novos Domínios seriam a mesma pessoa, isto é, Mountbatten.

Poucos dias antes, Jinnah havia dito que deveria haver um supergovernador-geral acima dos governadores-gerais dos dois Domínios. Essa ideia provavelmente foi formulada para que o processo relacionado à Partição fosse concluído facilmente, com uma perspectiva imparcial. Mountbatten, porém, opôs-se a ela, e Whitehall apoiou Mountbatten.

Quando Nehru propôs que Mountbatten se tornasse governador-geral da Índia, ele disse a Nehru e Patel que também esperava uma proposta semelhante da Liga Muçulmana.

Apesar de seus muitos esforços, Mountbatten não conseguiu convencer Jinnah.

Em 2 de julho, Jinnah informou-lhe que havia decidido tornar-se ele próprio governador-geral do Paquistão. Mesmo assim, Mountbatten não abandonou a esperança. Ele também tentou por intermédio do nababo de Bhopal, mas fracassou. Com isso, Mountbatten sofreu um enorme golpe em seu amor-próprio. É verdade, porém, que, se Mountbatten tivesse sido nomeado governador-geral do Paquistão, ele teria sido o governador-geral indiano do Paquistão. Jinnah salvou o país desse perigo. (I.H. Wureshi: The Struggle for Pakistan, pp.296-300).

Implementação do Plano de 3 de junho

A Assembleia Legislativa de Bengala reuniu-se em 20 de julho e, por 126 votos contra 90, decidiu aderir à nova Assembleia Constituinte. Em seguida, os membros das áreas de maioria não muçulmana decidiram, por 58 votos contra 21, a divisão da província e a adesão à Assembleia Constituinte existente. Os membros das áreas de maioria muçulmana de Bengala Oriental decidiram, por 106 votos contra 35, rejeitar a divisão da província e, ao mesmo tempo, aderir à nova Assembleia Constituinte. Depois, os membros das áreas de maioria muçulmana da província votaram, por 69 votos contra 27, contra a divisão da província. Em contrapartida, os membros das áreas de maioria hindu votaram, por 50 votos contra 22, a favor da divisão e da adesão à Assembleia Constituinte indiana.

A Assembleia Legislativa de Sind reuniu-se em 26 de junho e decidiu, por 30 votos contra 20, aderir à nova Assembleia Constituinte. No Baluchistão, a Shahi Jirga e os membros não oficiais da Municipalidade de Quetta reuniram-se e decidiram por unanimidade aderir à nova Assembleia Constituinte.

Por outro lado, no referendo realizado em Sylhet no início de julho, uma esmagadora maioria dos eleitores votou a favor de separar-se de Assam e juntar-se a Bengala Oriental.

A condição do referendo na Província da Fronteira Noroeste era que os eleitores votassem a favor da adesão à Assembleia Constituinte indiana ou da adesão à nova Assembleia Constituinte. Abdul Ghaffar Khan exigiu que fosse dada aos eleitores a oportunidade de votar a favor de um Pachtunistão independente. Gandhi e Nehru apoiaram a exigência de Abdul Ghaffar Khan. O vice-rei rejeitou-a, alegando que o procedimento incorporado ao Plano de 3 de junho não poderia ser alterado sem o consentimento de ambas as partes. Jinnah não estava disposto a aceitar essa alteração. Ghaffar Khan instruiu seus seguidores a absterem-se de votar. Ainda assim, foram registrados 289.244 votos a favor da nova Assembleia Constituinte e apenas 2.874 votos a favor da Assembleia Constituinte indiana.

O primeiro-ministro Attlee apresentou o Projeto de Independência da Índia à Câmara dos Comuns em 4 de julho. Ele foi aprovado pela Câmara dos Comuns em 15 de julho e pela Câmara dos Lordes em 16 de julho. O projeto recebeu aprovação real em 18 de julho. Em seguida, em 20 de julho, foram estabelecidos dois governos provisórios separados, um para a Índia e outro para o Paquistão.

Como fruto da luta dos sete anos anteriores, foi estabelecido um novo Estado independente e soberano chamado Paquistão. A criação de um Estado desse tipo foi a primeira na história do mundo.

O Paquistão foi de fato estabelecido, mas, quando o Congresso, a Índia hindu e o governo britânico fracassaram em sua oposição extrema a ele, consentiram subitamente, em um período muito curto, com um Paquistão reduzido (Truncated Pakistan). O plano de transferência do poder foi elaborado por um oficial hindu favorável ao Congresso. Jinnah foi mantido completamente às escuras sobre o assunto. O plano foi divulgado apenas dois meses e meio antes da transferência definitiva do poder, para que a Liga Muçulmana não tivesse qualquer oportunidade de refletir sobre ele. Foi como atacar subitamente o acampamento inimigo enquanto este dormia. A Comissão de Fronteiras reduziu ainda mais o Paquistão já reduzido. Muitas áreas de maioria muçulmana que pertenciam legitimamente ao Paquistão foram incorporadas à Índia à força. Além disso, após a divisão, o Paquistão foi totalmente privado dos bens estatais que lhe eram legitimamente devidos. Possivelmente, essa foi a penalidade financeira pelo “crime” de exigir o Paquistão. Tudo isso foi feito por meio da conspiração do Congresso e dos britânicos, para que o Paquistão não pudesse sobreviver nem sequer por algum tempo.

A principal razão da reivindicação do Paquistão era que, se o poder da Índia fosse transferido para a maioria hindu, não apenas a vida, os bens e a honra dos muçulmanos estariam ameaçados, mas sua própria identidade nacional seria exterminada. Os dois anos e meio de governo do Congresso nas províncias de maioria hindu, antes de 1940, constituem uma prova contundente disso.

Mas, mesmo após a divisão da Índia, o massacre dos muçulmanos não cessou naquele país. Atravessando um mar de sangue, milhões de homens, mulheres e crianças muçulmanos cruzaram a fronteira e buscaram refúgio no Paquistão.

Um alto funcionário do governo do Paquistão, o senhor Altaf Gauhar, disse:

Cheguei a Carachi antes que os massacres começassem em Deli. … O número dos desventurados que chegavam atravessando a fronteira em busca de refúgio aumentava continuamente, e os relatos aterradores do genocídio em massa obrigavam cada pessoa a dedicar-se ainda mais ao serviço nacional. (Artigo publicado numa edição especial de um jornal diário paquistanês.)

Altaf Gauhar aludiu aos massacres na própria Deli, capital da Índia. Com o objetivo de pôr fim aos horripilantes massacres em várias partes de Deli, o senhor Gandhi continuou jejuando. Mas, no fim, nem mesmo dando a vida conseguiu fazê-los cessar.

Maulana Abul Kalam Azad disse:

Gandhi começou a enunciar as condições para interromper seu jejum. Eram as seguintes:

1. Os ataques dos hindus e sikhs contra os muçulmanos devem cessar imediatamente. Deve-se dar-lhes a garantia de que poderão viver juntos como irmãos.

2. Devem ser feitos todos os esforços para assegurar aos hindus e aos siques que nenhum muçulmano deixe a Índia por falta de segurança para sua vida e seus bens.

3. Devem ser interrompidos os ataques contra muçulmanos nos trens em movimento, e os hindus e siques que estão realizando esses ataques devem ser imediatamente impedidos de prosseguir.

4. Os muçulmanos que viviam nas proximidades dos santuários de Nizamuddin Auliya, Khwaja Qutbuddin Bakhtiar Kaki e Nasiruddin Chiragh Dehlavi e que partiram de suas casas devem ser levados de volta às suas comunidades e reassentados.

5. O santuário de Qutbuddin Bakhtiar Kaki foi danificado. Naturalmente, o governo pode providenciar esses reparos. Mas os próprios hindus e siques devem realizar esse trabalho como expiação.

6. O mais importante de tudo é que é necessária uma mudança de atitude. Sua importância é maior do que a da realização dessas condições. Os líderes hindus e siques devem dar essa garantia, para que não seja mais necessário insistir nesse assunto. Depois, Gandhiji disse: “Que este seja meu último jejum.” (Abul Kalam Azad, India Wins Freedom, p. 238).

Maulana Azad disse:

Após a Partição, a situação chegou ao extremo. Um grupo de hindus, sob a liderança do Hindu Mahasabha e da Rashtriya Swayamsevak Sangh, começou a declarar abertamente que Gandhiji estava ajudando os muçulmanos contra os hindus. Também foram distribuídos panfletos sobre o assunto. Um desses panfletos dizia que, se Gandhiji não mudasse sua política, seriam tomadas medidas para assassiná-lo. (Abul Kalam Azad, India Wins Freedom, p. 240–241).

Por fim, Gandhi teve de dar a vida em 30 de janeiro de 1948. Maulana Azad disse: “Voltei à Birla House e fiquei surpreso ao ver o portão fechado. Vi milhares de pessoas aglomeradas. Entendi o que havia acontecido. Desci do carro e caminhei até a porta de seu quarto. Também vi que a porta do quarto estava fechada por dentro. Um homem me viu pela janela de vidro e me conduziu para dentro. Alguém disse, com a voz embargada pelo choro: ‘Gandhiji foi atingido por tiros.’ Vi-o deitado no chão. Seu rosto estava pálido e seus olhos, fechados; seus dois netos seguravam-lhe os pés e choravam. Ouvi, como num sonho, que Gandhiji estava morto.” (Abul Kalam Azad, India Wins Freedom, p. 141–142).

Após a Partição, transcorreram várias décadas. Durante esse período, mais de cem mil muçulmanos foram mortos na Índia independente, e muitas de suas mesquitas e locais religiosos foram destruídos. Ninguém foi visto fazendo greve de fome em protesto contra isso. Contudo, se alguém tivesse tido essa coragem, teria tido de enfrentar o mesmo destino de Gandhi. Na Índia independente, falar em favor dos muçulmanos é considerado um crime gravíssimo. Nos massacres, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças muçulmanos foram mortos; suas lojas e casas foram incendiadas, e seus bens foram saqueados. Mas o governo não toma, ou não consegue tomar, qualquer medida para encontrar os assassinos e puni-los. Após a destruição da histórica Mesquita Babri, longe de punir os criminosos, o governo da Índia acabou refém deles. Foi por compreender com certeza que tudo isso aconteceria que os muçulmanos tiveram de exigir uma pátria separada e independente. Na realidade, foi o extremo ódio aos muçulmanos por parte da comunidade hindu e de seus líderes que deu origem ao Paquistão.

Décimo sexto capítulo

 

Conclusão

Na parte final desta história, também foi necessário escrever brevemente a história do movimento pelo Paquistão. Isso porque os muçulmanos de Bengala estavam intimamente ligados a esse movimento. Além disso, coube ao ilustre filho da Bengala indivisa, amigo dos muçulmanos, e primeiro-ministro de Bengala, Maulvi Abul Kasem Fazlul Haque (Sher-e-Bangla), a honra de apresentar a histórica Resolução de Lahore, ou seja, a Resolução do Paquistão. Embora o Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah estivesse à frente do movimento pelo Paquistão, a contribuição dos muçulmanos de Bengala para esse movimento foi a maior.

O anúncio da divisão de Bengala, em 20 de julho de 1905, e sua implementação a partir de 16 de outubro deixaram a comunidade hindu de Bengala e de toda a Índia extremamente furiosa, dando início a um intenso movimento pela anulação da divisão de Bengala. Esse movimento criou uma nova onda de consciência entre os muçulmanos e despertou neles a inspiração de uma identidade nacional muçulmana distinta. Como resultado, em 1906, nasceu em Daca a Liga Muçulmana, a única organização política dos muçulmanos do subcontinente. Em 1º de outubro daquele ano, uma delegação de 36 muçulmanos, liderada pelo Aga Khan, encontrou-se com o vice-rei em Simla e, ao exigir a introdução de um sistema eleitoral separado para os muçulmanos, por serem uma nação distinta, teve sua reivindicação aceita. As Reformas Morley-Minto, promulgadas em 1909, reconheceram o sistema eleitoral separado. Assim, este se transformou em um documento constitucional.

Após a Partição, alguns círculos levantaram a questão de saber se, por trás da reivindicação do Paquistão, atuava apenas uma emoção passageira, ou se suas causas eram exclusivamente políticas e econômicas. Ou os muçulmanos reivindicaram o Paquistão como reação ao comportamento hostil do Congresso?

Nenhuma dessas foi a causa principal do movimento pelo Paquistão. Certamente havia emoção. Era essa emoção que impelia as pessoas a oferecer a própria vida para alcançar seu objetivo. Mas essa emoção não era passageira nem sem sentido. Uma simples emoção não pode provocar uma revolução histórica de tamanha magnitude. Gandhi, muitos líderes hindus e os jornais fizeram comentários do tipo: quando essa emoção passageira dos muçulmanos se acalmasse, eles voltariam a fazer parte de uma Índia unida. Porém, depois de transcorridas mais de quatro décadas, quando a emoção dos muçulmanos favoráveis ao Paquistão não havia diminuído nem um pouco, ficou claro que ela não era algo passageiro. Por trás da criação dessa emoção havia um objetivo nobre.

Sobre o grande objetivo pelo qual o Paquistão foi reivindicado e pelo qual se empreendeu o movimento, o Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah afirmou, em termos inequívocos, em seu discurso proferido na sessão da Liga Muçulmana realizada em março de 1940:

É extremamente difícil entender por que nossos amigos hindus não conseguem compreender a verdadeira natureza do Islã e do hinduísmo. Eles não são religiosos no sentido estrito da palavra, mas, na realidade, constituem ordens sociais diferentes e distintas. É um sonho imaginar que hindus e muçulmanos possam algum dia desenvolver uma nacionalidade comum, e esse equívoco sobre uma única nação indiana foi levado muito além dos limites e conduzirá a Índia à destruição se não revisarmos nossas concepções a tempo. Hindus e muçulmanos pertencem a duas filosofias religiosas, costumes sociais e literaturas diferentes. Eles não se casam entre si nem fazem refeições juntos e, na verdade, pertencem a duas civilizações diferentes, baseadas principalmente em ideias e concepções conflitantes. Sua visão da vida e da existência é diferente. É bastante claro que hindus e muçulmanos extraem suas aspirações de fontes diferentes e têm episódios históricos diferentes. Com muita frequência, o herói de uns é inimigo dos outros, e, do mesmo modo, suas vitórias e derrotas se sobrepõem. Submeter duas nações assim a um único Estado, uma como minoria numérica e a outra como maioria, necessariamente conduzirá a um descontentamento crescente e à destruição final de qualquer estrutura que possa ser erguida para governar tal Estado — (Ideological Foundations of Pakistan, do Dr. Waheed Qurashy, pp. 96-97).

Em seu discurso, Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah apresentou precisamente esta verdade: hindus e muçulmanos são, sob muitos aspectos, duas nações separadas e distintas, e é impossível e irrealista formar um Estado unindo-os à força. A Índia foi dividida com base nessa teoria das duas nações.

Mas será que a teoria de que hindus e muçulmanos constituem duas identidades nacionais completamente distintas e opostas foi uma nova descoberta de Jinnah ou dos muçulmanos? Da resposta correta a essa pergunta dependerá saber se o Paquistão foi reivindicado sob o impulso de emoções e agitações ou por razões políticas e econômicas.

O sistema de vida islâmico

Para obter a resposta correta à pergunta acima, é necessário adquirir conhecimento sobre o sistema de vida islâmico. A concepção correta do Islã apresentada por Allah, o Altíssimo, e por Seus profetas e mensageiros é a seguinte: o Islã não é, como as demais religiões, apenas um conjunto de alguns ritos e cerimônias. O Islã é um sistema de vida completo, estabelecido com base no Alcorão, o Livro Magnífico revelado por Allah, e na Sunnah do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Considerando a concepção de religião atualmente difundida no mundo, o Islã é muito mais do que uma religião. Não é simplesmente o nome da relação entre o Criador e o ser humano. A concepção religiosa do Islã é extremamente abrangente. Desde a fé e a aqidah até a adoração, ele estabelece pleno controle sobre todos os aspectos e áreas da vida. O Islã possui sua própria civilização e cultura, sua própria história e tradição, e seus próprios sistemas moral, político e econômico. Possui um sistema jurídico, um sistema judiciário, sistemas familiar e educacional, além de sua própria política de guerra e paz e de relações exteriores. Assim como existe uma relação inseparável entre as raízes, os galhos, as folhas, a folhagem, as flores e os frutos de uma árvore, esses sistemas também estão inseparavelmente e intimamente ligados uns aos outros.

Na realidade, o Islã é um sistema de vida completo para que a humanidade viva uma vida bem-sucedida neste mundo. O Islã ensina o modo de viver uma vida bem-sucedida tanto neste mundo quanto no Além. Por isso, a concepção religiosa do Islã é inteiramente diferente da concepção das demais religiões.

Segundo a concepção histórica do Islã, esta verdadeira religião, o Islã, foi revelada pela primeira vez por Allah, o Altíssimo, a Adão (que a paz esteja sobre ele). Adão foi o primeiro ser humano. A partir dele, a humanidade começou a espalhar-se pelo mundo. Desde então, esta verdadeira religião — o Islã — passou a ser praticada no mundo. Depois dele, ao longo das eras, em diferentes países e entre diferentes povos, profetas e mensageiros vieram e continuaram a apresentar o convite à verdadeira religião. Por fim, o Islã alcançou sua plenitude por meio do Profeta Muhammad Mustafa (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

O conceito de nacionalidade no Islã

Aqueles que aceitam de todo o coração este dīn e este sistema são chamados de ‘mumin’, e aqueles que o rejeitam são chamados de ‘kafir’. Mumin e kafir jamais podem tornar-se um só. Quando Allah enviou ao mundo o primeiro ser humano e o primeiro profeta, o honorável Adão (A), deu a seguinte orientação:

“Eu disse: ‘Descei todos daqui. Depois, quando vos chegar, da Minha parte, um sistema de vida, aqueles que seguirem esse Meu sistema não terão motivo para preocupação. Mas aqueles que se recusarem a aceitá-lo e rejeitarem a Minha mensagem, bem como os Meus mandamentos e proibições, serão certamente habitantes do Jahannam e permanecerão ali para sempre’ (Surata Al-Baqara: 38–39).

O versículo acima do Alcorão Sagrado deixa claro que a orientação divina dividiu a humanidade em dois grupos ou duas nações: uma é a dos mumin, e a outra, a dos kafir. Essa divisão foi estabelecida no mundo desde o primeiro dia da vida humana. Cada profeta manteve essa divisão em sua época. O honorável Shu‘aib (A) explicou esses dois grupos como duas millat ou nações distintas. Assim: ‘Os seus chefes e líderes, que se orgulhavam de sua superioridade, disseram-lhe: “Ó Shu‘aib! Expulsaremos-te desta cidade, juntamente com aqueles que creem em ti, ou então tereis de retornar à nossa millat.” Shu‘aib respondeu: “Seremos forçados a retornar, ainda que não queiramos?”

Seríamos inventores de mentiras contra Deus se retornássemos à vossa millat, depois de Allah nos ter libertado dela.

(Surata Al-A‘raf: 89–90)

Também este versículo deixa claro que, mesmo na época do honorável Shu‘aib (A), a millat dos muçulmanos era distinta e a millat dos kafir era distinta. Essa divisão e essa terminologia também são vigentes na ummat de Muhammad e continuam sendo usadas até hoje.

O conceito de nacionalidade no Islã é universal. Qualquer pessoa de qualquer país e de qualquer nação, depois de recitar a kalima da shahada, entra no dīn do Islã e torna-se participante igual da nacionalidade islâmica. No Islã, o reconhecimento da fé e da aqida é suficiente para adquirir a nacionalidade. Quanto à aquisição da nacionalidade, o método do Islã é diferente dos métodos das demais nações do mundo. Para adquirir a nacionalidade judaica, é necessário, além da crença judaica, ser de origem judaica. Para adquirir a nacionalidade hindu, basta participar do culto hindu e das cerimônias religiosas.

Sistema social independente

A exigência lógica do abrangente modo de vida islâmico e da nacionalidade distinta é que, para isso, se estabeleça um sistema social independente. Deve haver um Estado independente onde seja possível seguir as ordens e proibições do Islã. Porém, vivendo sob subjugação, não é possível cumprir a maioria dos mandamentos.

Após viver durante treze anos em uma sociedade controlada pelos politeístas em Meca, quando o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) chegou ao ambiente favorável de Medina, estabeleceu ali o sistema social e o Estado islâmicos. Ele era o dirigente desse Estado. Ali, aplicou plenamente a lei islâmica. Então, Deus Altíssimo revelou o seguinte versículo:

“Completei para vós a religião.”

A religião alcançou sua perfeição quando, para sua plena realização, implementação, pregação e expansão, foi encontrada uma pátria separada e estabelecido um sistema social independente.

A palavra “Paquistão” não foi usada no sentido de uma região geográfica; foi usada no sentido de um Estado islâmico distinto e independente. Foi nesse sentido que Allama Shabbir Ahmad Usmani chamou o Estado islâmico de Medina de “primeiro Paquistão”. Ele disse:

Por fim, pela mão do poder divino, Deus Altíssimo estabeleceu em Medina uma espécie de “Paquistão” por meio da histórica Hégira do Mensageiro Amado (que a paz esteja com ele).

(Khutbaye Usmani, Allama Shabbir Ahmad Usmani, p. 140; Tarikh-e Nazariye Pakistan, professor Muhammad Salim, p. 31).

Na resolução de Lahore, a terra natal independente cuja reivindicação havia sido apresentada não foi chamada de Paquistão. Esse nome foi escolhido por Choudhury Rahmat Ali. Ele foi o primeiro a utilizá-lo, em 1915, ao discursar no evento ‘Bazm-e-Shivri’, dizendo: “O norte da Índia é ‘muçulmano’, e nós o manteremos ‘muçulmano’. Não apenas isso: faremos dele um Estado muçulmano. Só poderemos fazê-lo quando nós e esta nossa região setentrional deixarmos de ser indianos. Essa é a sua pré-condição. Quanto mais cedo abandonarmos o indianismo, melhor será para nós e para o Islã” (Chudhury Rahmat Ali: p. 172; I. H. Qureshi: The Struggle for Pakistan, pp. 115-116).

Choudhury Rahmat Ali também não utilizou inicialmente o nome Paquistão. Ele falou de um Estado muçulmano ou islâmico.

Ao analisar a história, fica indubitavelmente provado que o movimento pelo Paquistão começou no mês de Rajab do ano 93 da Hégira (712 d.C.), quando Imaduddin Muhammad bin Qasim, comandante militar de dezessete anos, desembarcou no porto de Debal, atual Karachi, libertou da prisão do rei Dahir as mulheres e crianças muçulmanas oprimidas e construiu ali a primeira mesquita. Quaid-e-Azam disse que o movimento pelo Paquistão começou quando o primeiro muçulmano pisou no solo do Sind, que era a porta de entrada do Islã na Índia.

Depois de Debal, Nirun, atual Hyderabad, e, em seguida, Sehwan inclinaram a cabeça diante da bandeira islâmica. No dia 10 de Ramadã, o forte de Rawar foi conquistado, e o rei Dahir foi derrotado e morto na batalha. Mais tarde, Brahmanabad, atual Sanghar, e Alwar foram conquistadas. No ano 96 da Hégira, Multan rendeu-se, e o norte da Índia preparou-se para reconhecer voluntariamente a sujeição a Muhammad bin Qasim. Mas, infelizmente, Muhammad bin Qasim foi convocado a Damasco. Ele estabeleceu um verdadeiro sistema de governo islâmico nas regiões sob seu domínio. Esse sistema impressionou tanto os hindus e budistas que um grande número deles buscou refúgio sob a sombra refrescante do Islã (Justice Syed Shameem Husain Kadri: Creation of Pakistan, pp. 1-2).

As características inerentes do Islã

Uma característica inerente do Islã é que o muçulmano não pode aceitar a sujeição, a autoridade, o domínio, a lei ou o governo de ninguém além de Allah, o Único e sem parceiro. O Islã é um sistema de vida completo, e seus princípios abrangem os aspectos espirituais e mundanos da vida humana. O Estado e a religião não podem ser separados nem dissociados um do outro. Por meio da Kalima Tayyiba, aceita-se a soberania de Allah e a liderança do Mensageiro (que a paz esteja com ele).

Estabelecimento do governo da lei islâmica no subcontinente

Muhammad bin Qasim não foi apenas o fundador do Estado islâmico neste subcontinente. Pelo contrário, foi o pioneiro da civilização e cultura islâmicas. A árvore da civilização e cultura que ele plantou continuou a crescer e a desenvolver-se com o passar do tempo, e a bandeira islâmica passou a tremular em todo o subcontinente indiano. Os muçulmanos continuaram a chegar à Índia na condição de conquistadores. Com eles vieram soldados, poetas, escritores, líderes espirituais, intelectuais e artistas. Muitos desses governantes não eram bons muçulmanos em sua vida pessoal, e muitos também eram pessoas de natureza dervixe. Contudo, durante todo o período do governo muçulmano, a lei islâmica esteve em vigor no país.

Mas, após o fim do domínio muçulmano, as leis de autoria humana do Ocidente foram introduzidas no lugar da lei islâmica; foram introduzidos o Indian Civil and Criminal Codes of Procedure e o Indian Penal Code. Assim, os muçulmanos não apenas perderam o Estado, como também lhes foram impostas leis kufr em substituição à lei islâmica, isto é, à lei de Allah. Como todos os meios de subsistência lhes foram fechados, como lhes foram confiscadas muitas centenas de milhares de propriedades lakhraj e como foram reduzidos a mendigos das ruas — tudo isso foi discutido detalhadamente nesta obra.

Em uma entrevista à Rádio Paquistão, ao descrever o contexto ideológico do Paquistão, Maulana Maududi disse:

Se limitarmos nossa discussão às palavras e à terminologia do “Movimento pelo Paquistão”, não faremos justiça alguma a esta questão. Pois uma coisa são a palavra e a terminologia “Paquistão”, e outra é um objetivo que esteve diante dos muçulmanos deste subcontinente durante um longo período e que eles finalmente levaram a tal ponto que puderam lutar não apenas por essa terminologia, mas também pela obtenção de um país. Esse objetivo só se tornou claro para os muçulmanos indianos quando o domínio muçulmano caiu neste subcontinente. Eles então compreenderam que, por adotarem uma visão particular do mundo e da vida e por serem seguidores de uma civilização específica, só poderiam preservar sua identidade nacional se o poder governamental permanecesse em suas mãos. Se o poder governamental passasse às mãos dos não muçulmanos, eles não poderiam viver como muçulmanos neste país, e não lhes restaria vida alguma como muçulmanos. Esse sentimento começou a surgir entre eles imediatamente após a queda do domínio muçulmano na Índia. E esse sentimento assumiu formas diferentes em épocas diferentes.

Às vezes, esse sentimento se manifestava quando Hazrat Sayyid Ahmad Shahid Barelvi e Hazrat Shah Ismail Shahid surgiam com um movimento de jihad. Eles sacrificavam suas vidas sem hesitação pela formação de um Estado islâmico. Em outras ocasiões, esse sentimento assumia a forma da criação de madrassas religiosas em vários lugares, para que os muçulmanos, esquecendo sua religião, não fossem arrastados pela poderosa inundação da civilização ateísta importada da Europa e das correntes de pensamento e doutrinas sem religião.

Então começou a segunda fase: o domínio inglês consolidou-se aqui e, gradualmente, os ingleses começaram a aplicar neste país um processo democrático do tipo que vigorava em seu próprio país. Sua concepção de nacionalidade e democracia era que todos os habitantes da Inglaterra constituíam uma nação e que os direitos do grupo majoritário eram reconhecidos. Os ingleses quiseram introduzir esse princípio democrático também na Índia. Segundo eles, todos os habitantes da Índia constituíam igualmente uma nação, e o governo da maioria também poderia vigorar entre eles. Foi isso que despertou nos muçulmanos o sentimento de que, se aqui se estabelecesse um governo do grupo majoritário, eles teriam de permanecer para sempre como minoria, e sua civilização, cultura e identidade nacional seriam destruídas. Pois, sob esse governo, os muçulmanos não poderiam formular leis de acordo com sua perspectiva. Não teriam qualquer direito na administração do governo nem na definição de outras políticas. Em outras palavras, não poderiam concretizar sua civilização, cultura e visão de vida. Pelo contrário, uma civilização e uma visão de vida não islâmicas lhes seriam impostas à força.

Maulana diz que essa era a situação que, após o estabelecimento do domínio inglês, surgiu diante dos muçulmanos sob a forma de uma questão ou desafio. Levou muito tempo para que os muçulmanos encontrassem sua resposta. Durante um longo período, tentaram resolver esta difícil questão: num sistema de governo em que os habitantes da Índia seriam considerados uma só nação e se adotaria o método de formar um governo da maioria, que forma poderia assumir a segurança política, cultural e social dos muçulmanos como minoria? Para obter essa segurança e determiná-la, avaliaram-se diversos fatores. Em certa etapa, exigiu-se, para esse fim, um sistema eleitoral separado (Delegação de Simla, 1906). Depois, com base nisso, houve um acordo entre a Liga e o Congresso (Pacto de Lucknow, 1916). Também posteriormente foram analisadas várias propostas. Gradualmente, os muçulmanos compreenderam que qualquer garantia legal dentro de um sistema democrático desse tipo não lhes serviria de nada. Sentiram isso claramente quando, em 1937, o governo do Congresso se estabeleceu nas províncias de maioria hindu. Naquela época, os muçulmanos tiveram a experiência direta de que um governo do grupo majoritário neste subcontinente e a vivência como minoria sob seu domínio significavam a gradual extinção de sua identidade nacional. Após essa experiência, começaram a pensar que a direção pela qual se vinha tentando resolver esse problema até então era sem sentido e irrealista.

Maulana diz que, naquela época, assegurava-se repetidamente aos muçulmanos que os muçulmanos e os não muçulmanos da Índia constituíam uma só nação. Mas a realidade é que eles jamais foram uma só nação, nem poderiam vir a sê-lo. Desde que os muçulmanos chegaram a este país e passaram a viver nele, nunca viveram com os não muçulmanos como uma só nação. … Se fossem uma só nação, de onde surgiu a doença da intocabilidade entre hindus e muçulmanos? Por que seus heróis nacionais são diferentes? Por que são diferentes as fontes de sua inspiração, emoção e sentimento? Se fossem uma só nação, como poderiam viver como uma nação distinta dos hindus? Portanto, é uma verdade absoluta que jamais foram uma só nação e jamais poderiam sê-lo, em época alguma. Agora tenta-se impor à força aos muçulmanos uma hipótese irrealista. Que ela não poderia ser eficaz nem produzir resultados tornou-se claro como a luz do dia depois que o Congresso formou governos em várias províncias (1937–39). Aqueles que proclamavam que hindus e muçulmanos constituíam uma só nação provaram, por suas próprias ações, que hindus e muçulmanos não são uma só nação. Pelo contrário, isso era uma enorme fraude política por meio da qual pretendiam manter os muçulmanos reduzidos a uma nação escravizada.

Maulana diz:

Era uma época em que, em 1937, comecei a escrever aqueles artigos por meio dos quais despertei entre os muçulmanos o sentimento de que vocês não poderão preservar sua existência nacional sob o domínio de um partido de maioria não muçulmana. ……Então senti profundamente que nenhuma garantia legal poderia salvar os muçulmanos. Por isso, não havia alternativa senão pensar em outro meio de garantir a segurança dos muçulmanos neste subcontinente. A alternativa que eu tinha em mente e que apresentei claramente era que, antes de tudo, se despertasse plenamente entre os muçulmanos a consciência de sua distinção nacional, por meio da qual eles poderiam conhecer sua própria identidade. Eles saberiam quais são os princípios fundamentais de sua vida, como são diferentes e distintos das outras nações — sendo, antes, uma millat — e qual é o meio de manter desperta essa consciência de sua distinção nacional. Naquela época, o movimento pelo Paquistão ainda nem havia começado. Naquele momento, a primeira tarefa era, como eu disse, descobrir como salvar os muçulmanos da armadilha de uma única nacionalidade que estava sendo espalhada ao seu redor. — [Como resultado da obra intitulada ‘Mas’ala-e Qaumiyat’, que o Maulana escreveu para provar a nacionalidade distinta dos muçulmanos, consolidou-se entre eles a ideia de uma nacionalidade separada.]

O Maulana prossegue dizendo que, à medida que a ideia de uma nacionalidade separada se consolidava entre os muçulmanos, também crescia entre eles a percepção da necessidade de estabelecer um Estado separado. Assim, o movimento pelo Paquistão assumiu uma forma organizada e clara. Nessa situação, surgiram duas questões importantes. A primeira era que as regiões onde os muçulmanos eram maioria estavam muito distantes umas das outras. Nada além do Islã poderia ser, nem poderia tornar-se, o elemento de união. A segunda questão era que os muçulmanos eram minoria em grande parte da Índia. Se um governo democrático fosse estabelecido, inevitavelmente os muçulmanos teriam de submeter-se à servidão da maioria. Nessas circunstâncias, qual seria o meio de garantir sua segurança? Não havia resposta clara para essa pergunta. Mas isso tornou evidente que, em última análise, as ideias que inspiraram os muçulmanos indianos na luta pela criação do Paquistão e os uniram não eram uma emoção política ou econômica. Pelo contrário, tratava-se de uma emoção e devoção religiosa pura. Caso contrário, não haveria razão alguma para os muçulmanos de regiões como Madras, Bombaim, CP e UP lutarem pela conquista do Paquistão. Eles jamais poderiam esperar que suas regiões fossem incluídas no Paquistão. O fato é que, nas regiões que posteriormente formaram o Paquistão, o movimento pelo Paquistão não foi tão forte quanto nas regiões onde os muçulmanos eram minoria. Que outra razão poderia haver senão que o único fator motivador desse movimento era o sentimento islâmico? Os muçulmanos tinham plena consciência de que, qualquer que fosse o seu destino, por meio de seu sacrifício pelo menos um Estado em nome do Islã viria a existir, onde a mensagem do Islã seria elevada e o sistema social islâmico seria estabelecido na prática. Foi essa emoção e devoção que se expressou no slogan: “Qual é a origem do Paquistão? — Não há divindade senão Deus”. Era um slogan que, ao ouvi-lo, fazia os muçulmanos lançarem-se ao fogo do movimento pelo Paquistão como mariposas. Depois, um número tão grande de pessoas apoiou o movimento pelo Paquistão que, no máximo, apenas um ou dois por cento dos muçulmanos discordava. Para mim, o movimento pelo Paquistão tinha apenas dois fundamentos. O primeiro era que não somos parte de nenhuma outra nação do mundo; somos, antes, uma nação distinta. Tampouco podemos formar uma nacionalidade mista unindo-nos a qualquer outra nação. O segundo é que o fundamento de nossa nacionalidade é nossa religião. Fora isso, nossa nacionalidade não tem nenhum outro fundamento. Para mim, esse é o único significado da ideia do Paquistão.

— (Uma entrevista histórica. A Rádio Paquistão gravou essa entrevista e, quatro anos depois, em 1980, ela foi transcrita e publicada.)

Agora está claro como a luz do dia que o movimento pelo Paquistão não foi realizado por uma razão puramente política ou econômica, nem guiado por uma emoção passageira. É verdade que havia uma emoção por trás do movimento. Mas a fonte dessa emoção era a fé e a crença dos muçulmanos, cuja origem remontava ao próprio início da criação da humanidade.

Cerca de meio século após a criação do Paquistão, proclama-se em alto e bom som que a teoria das duas nações foi comprovada como falsa. Os propagandistas são tão dados a fantasias que, partindo do pressuposto de que a teoria das duas nações foi comprovada como falsa, estão promovendo um movimento para restaurar o subcontinente à sua configuração geográfica anterior a 1947.

Enquanto, por um lado, o massacre de muçulmanos prossegue em plena escala na Índia e na Caxemira, mesquitas são destruídas e templos são construídos em seu lugar; por outro, promove-se uma propaganda falsa e enganosa de uma única nacionalidade. Contudo, assim como esse tipo de propaganda não lhes serviu de nada no passado, também não lhes servirá de nada no futuro.

Na História dos Muçulmanos de Bengala ficou provado que os hindus quiseram vingar-se de vários séculos de governo muçulmano no subcontinente, mantendo os muçulmanos como seus escravos ou exterminando-os. Para isso, a história foi distorcida da seguinte maneira: dizia-se que, durante o governo muçulmano, os hindus eram perseguidos, eram convertidos à força ao Islã e que as mulheres hindus eram abusadas livremente, entre outras coisas. Escritores hindus, por meio de sua literatura, propagaram o ódio aos muçulmanos e incitaram os hindus contra eles. Nesse assunto, a nação hindu e o governo britânico prestaram plena ajuda e cooperação um ao outro; sem a ajuda ativa dos hindus, os ingleses não poderiam ter consolidado seu trono neste país, assim como, sem a bênção dos ingleses, os hindus não poderiam ter tratado os muçulmanos de maneira desumana e demoníaca. Por fim, o processo de transferência do poder na Índia foi elaborado às pressas, mantendo os muçulmanos no escuro; o Paquistão foi reduzido e contraído pela divisão do Punjab e de Bengala; e, ao cometer extrema injustiça contra os muçulmanos na demarcação das fronteiras, o governo britânico, agradando aos hindus, vingou-se dos muçulmanos pelo ódio acumulado durante muitos anos. Além disso, ao incluir subitamente no território indiano, dois dias depois, o distrito de Gurdaspur, que pertencia legitimamente ao Paquistão, lançou-se a semente de um conflito permanente entre o Paquistão e a Índia em torno da questão da Caxemira. Uma injustiça semelhante também foi cometida na demarcação das fronteiras de Bengala dividida.

Esta história termina aqui. Acreditamos que não faltam na sociedade pessoas capazes de escrever uma história ainda melhor, a partir do contexto e da perspectiva em que esta foi escrita. Encerro meus escritos deixando o apelo para que os pensadores se apresentem com o objetivo de transmitir à nova geração o conhecimento correto de sua história passada e infundir nova força vital na identidade nacional muçulmana.

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Referências

1. História social da Bengala muçulmana, Maulana Akram Khan.

2. Tohfatul Mujahidin, Sheikh Zaynuddin.

3. Eastern Bengal District Gazetteer, Chittagong. Relatório da Comissão do Índigo — 1861.

4. Riyaz-us-Salatin, Ghulam Husain Salim. Tabaqat-i-Nasiri.

5. História de Bengala, Sir Jadunath Sarkar.

6. História de Bengala, Rakhaldas Bandyopadhyay.

7. Língua e Literatura Bengali, Dinesh Chandra Sen.

8. A História da Literatura Bengali, Maulana Akram Khan.

9. Bengala Hussain Shahi, M.R. Tarafdar.

10. A Política Britânica e os Muçulmanos em Bengala, A.R. Mallick.

11. Mahanirvana Tantra, quarto e quinto Ullasa.

12. A Queda de Siraj-ud-Daulah, Dr. Mohr Ali.

13. Relatório do Censo da Índia, 1911 d.C. História de Hill, volumes 1 e 2.

14. O Desenvolvimento da Sociedade de Classe Média: A Transformação da Cultura, Abdul Maudud.

১৫. A luta muçulmana pela liberdade na Índia, Muinuddin Ahmad Khan.

১৬. Calcutta Review, 1850, 1913 e várias edições.

১৭. Os muçulmanos indianos, W.W. Hunter, edição de Bangladesh, 1975.

১৮. A história, as antiguidades, a topografia e as estatísticas da Índia Oriental, M. Martin, Londres, 1938, vol. 2.

১৯. Calcutta Christian Observer, julho de 1832, novembro de 1855.

২০. A descoberta da Índia, Pandit Jawaherlal Nehru.

২১. História da Índia de Oxford.

২২. A vida de Charles Lord Metcalfe.

23. História de Bangladesh, Idade Média, Ramesh Chandra Majumdar.

24. Obras de Rabindranath, edição do centenário.

25. The Great Divide, H. V. Hodson.

26. Survey of Indian History, K. M. Panikkar.

27. Borobabu, Syed Mujtaba Ali.

28. Percurso dos séculos, editado pelo Dr. Hasan Zaman.

29. Bengali Muslim Public Opinion as reflected in the Bengali Press-1901-1930, Mustafa Nuril Islam.

30. Rajsingha; Kapalkundala; Anandamath — Bankim Chandra Chattopadhyay.

31. Bankim Rachanavali, sexta edição, 1382. A Bengala da Nova Era, Bipinchandra Pal.

32. Mensário «Islam Pracharak», número de Jyaishtha, 1314.

33. Times of India, julho de 1925, julho e dezembro de 1918.

34. Semanário «Sultan», Riazuluddin Ahmad e Maulana Moniruzzaman Islamabadi, número de Jyaishtha, (1923).

35. Indian Sedition Committee Report 1918.

36. The Indian Middle Class: Their Growth, B.B. Misra

37. Jinnah and Gandhi, S.K. Majumdar.

38. Muslim Separatism in India, A. Hamid.

৩৯. «Dastane Zulm», publicado pelo secretário da Associação de Auxílio aos Hindus de Malabar, Amritshahar, 1922, folheto «A narrativa sangrenta de Malabar».

৪০. Political India, Cumming.

৪১. Siyasat-e Milliya, Muhammad Amin Zuberi.

৪২. Os muçulmanos bengalis e a educação inglesa, M. Fazlur Rahman.

৪৩. Apêndice a Chahar Darvesh, I. F. Smith.

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৪৬. História econômica da Índia, R. C. Dutt

47. Sobre a Educação do Povo da Índia, C.E. Trevalyan.

48. Resenha dos Tratados de Buchanan, Sharp.

49. Relatório do Comitê Provincial de Bengala, Comissão de Educação.

50. Vida e Cartas de Lord Macaulay, Trevelyan, vol. 1.

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৫৭। História da literatura em prosa bengali, Sajanikanta Das.

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৬১। Relatos de outrora nos jornais, Brajendranath Bandyopadhyay.

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63. Shahid Titumir, Abdul Gafur Siddiqui.

64. Bengal Criminal Judical Consultations, 1832.

65. Colvin’s Report, J. R. Colvin.

66. O movimento wahabita, Abdul Maudud.

67. Sayyid Ahmad Shahid, Golam Rasul Mehr.

68. Tawarikh-i-Ajib, («A autobiografia de um prisioneiro de Andamão»), Maulana Zafar Thaneshwari.

69. Os antecedentes da Revolta dos Sipaios, Abdul Maudud.

70. Modern Religious Movement in India, Faepuhar.

71. Nossa luta de libertação, Mohammad Waliullah.

72. Algumas experiências pessoais, Sir Fuller Bampfylde.

73. A política indiana desde o Motim, C. Y. Chintamoni.

74. História do Motim Indiano, Con. J. B. Mallcson.

75. A Partição de Bengala, A. R. Mallik.

76. História dos muçulmanos de Bengala, Dr. M. A. Rahim.

77. A Índia de hoje, Sardar Ali Khan, Bombaim, 1908.

78. Iqbal: escritos e discursos selecionados.

79. História da Partição de Bengala, Ibn Raihan.

80. Nations in the Making, Surendranath Banerjee.

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84. Sambad Bhaskar, Calcutá, junho de 1857.

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86. The India We Served, Sir Walter Lawence, Londres, 1928.

87. História do Movimento pela Liberdade, Dr. Moyenal Huq.

88. Uma vida, uma linha de pensamento, um movimento (urdu), Abul Afak.

89. A Luta pelo Paquistão, Istiap Husain Qureshi.

90. Alguns discursos recentes e escritos do Sr. Jinnah, Lahore, 1952.

91. A Conquista Britânica na Índia: um levantamento, Rawlingson.

92. O Pensamento Político Muçulmano através dos Tempos, 1562–1947, G. Allama Mopbul Academy, Lahore.

93. A Criação do Paquistão, Juiz Syed Shameem Hussain Kadir.

94. Texto Completo das Cartas de Jinnah e Handhi, Durlab Singh.

95. História de Bengala, Benoy Ghosh.

96. Armaghan-e-Hijaz, Allama Iqbal.

97. A evolução do Paquistão, Syed Sharifuddin Pirzada, Lahore, 1963.

98. Khulakhat sobre a união hindu-muçulmana, em nome de Mahatma Gandhi — Muhammad Abdul Qadir Bilgrami, Aligarh, 192.

99. A comunidade muçulmana do subcontinente indo-paquistanês — I. H. Qureshi.

100. A formação do Paquistão, Richars Symonds.

101. A Índia conquista a liberdade, Maulana Abul Kalam Azad.

102. O surgimento do Paquistão, Choudhuty Muhammad Ali.

১০৩. Cabinet Mission and after, Muhammad Ashraf.

১০৪. Mahatma Gandhi: A Última Fase, Pyarelal, vol. 1.

১০৫. Paquistão, Ian Steshens, (editor do jornal ‘Statesman’).

১০৬. Leonard Moseley.

১০৭. A Transferência do Poder na Índia, E. W. R. Lumby.

১০৮. Enquanto a Memória Servir, Sir Francis Tuker.

১০৯. As Memórias do General Lord Ismay.

১১০. The Indian Annual Register 1947, e várias edições.

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112. Economist, maio de 1947, Sunday Times, junho de 1947, Manchester Guardian, agosto de 1947, Round Table, setembro de 1947.

113. Os britânicos na Ásia, Guy Eint.

114. Fundamentos ideológicos do Paquistão, Dr. Waheen Qurashy.

115. Khutbat-e-Usmani, Allama Shabbir Ahmad Usmani.

116. Tarikh-e Nazriya-e Paquistão, Professor Muhammad Salim.

117. Entrevista de rádio de Maulana Maududi, que mais tarde foi publicada em forma de folheto.

— Fim —