A escravidão mental dos muçulmanos e suas causas
O governo do Estado, a monarquia, a conquista e a dominação são de dois tipos: o primeiro é a dominação mental e moral, e o segundo, a dominação política e material. A dominação da primeira categoria ocorre quando uma nação alcança enorme progresso no pensamento, na pesquisa, nas descobertas e na força intelectual; então, as demais nações passam naturalmente a depositar sua fé em sua visão de mundo. Suas concepções, crenças religiosas e ideologia dominam a mente e o intelecto das outras nações; a mentalidade delas se forma segundo o seu molde. A civilização dessa nação transforma-se na civilização que as outras consideram sua. Elas passam a aceitar seus conhecimentos e suas ciências como se fossem próprios. Chegam até a considerar o que ela julga bom ou mau, verdadeiro ou falso, como o critério do bom e do mau, do verdadeiro e do falso. O segundo tipo de dominação ocorre quando uma nação se torna extremamente poderosa em termos de riqueza material; diante dela, as outras nações tornam-se incapazes de preservar sua independência política e econômica. Em tal situação, essa nação se impõe, total ou parcialmente, sobre os sistemas econômicos e políticos das demais nações.
Por outro lado, a escravidão ou subjugação também é de dois tipos: a primeira é mental e a segunda, política. As duas categorias de escravidão são exatamente o oposto das definições dadas acima a respeito das duas categorias de dominação.
Sob certo aspecto, essas duas categorias de dominação são completamente distintas. Não é inevitável que, onde se estabeleça a supremacia mental, também se estabeleça a dominação política. Do mesmo modo, não há regra fixa segundo a qual, uma vez estabelecida a dominação política, a supremacia mental também se imponha. Entretanto, a lei da natureza é que, quando uma nação avança no cultivo do pensamento e da atividade intelectual, na busca do conhecimento e na investigação dos fatos, ela alcança, juntamente com o progresso mental, também o progresso material. Inversamente, quando uma nação fica para trás na competição do pensamento e da pesquisa do conhecimento, seu declínio material começa juntamente com sua decadência mental. Além disso, como a dominação e o poder são consequências da força, e a subjugação, da fraqueza, as nações mental e materialmente fracas e impotentes, à medida que avançam no caminho de sua fraqueza e impotência, tornam-se, na mesma proporção, vítimas da escravidão e da subjugação; enquanto as nações fortes em ambos os aspectos passam a exercer autoridade sobre sua mente, seu intelecto e sua própria existência física.
Hoje, os muçulmanos são vítimas desses dois tipos de escravidão. Em alguns lugares, ambos os tipos de escravidão estão plenamente presentes; em outros, embora a escravidão política seja um pouco menor, a escravidão mental é ainda maior. Infelizmente, atualmente nenhum território muçulmano é verdadeiramente totalmente independente, tanto política quanto mentalmente. Mesmo onde desfrutam de independência política e do direito de autodeterminação, não estão de modo algum livres da escravidão moral e mental. Suas instituições de ensino, escritórios e tribunais, mercados, assembleias e associações, suas casas e até mesmo seus próprios corpos testemunham que a civilização e a cultura ocidentais, o pensamento e os conhecimentos científicos ocidentais exercem pleno domínio sobre eles. Eles pensam com o cérebro do Ocidente, veem com os olhos do Ocidente e seguem o caminho indicado pelo Ocidente. Quer percebam isso, quer não, está arraigada em suas mentes a ideia de que aquilo que o Ocidente considera verdadeiro é verdadeiro, e aquilo que ele declara falso é falso. Para eles, no que diz respeito à veracidade, correção, civilização, moralidade, educação, decoro e coisas semelhantes, os padrões estabelecidos pelo Ocidente são os únicos padrões absolutamente corretos. Eles chegam a avaliar segundo esses padrões tudo: sua religião e sua fé, seus pensamentos e concepções, sua civilização e seu decoro, seu caráter e seus costumes. Consideram correto tudo o que passa plenamente por esses padrões; sentem-se inteiramente tranquilos a seu respeito e orgulham-se de que tal coisa tenha sido aprovada pelos padrões ocidentais. E tudo aquilo que não passa pelo julgamento desses padrões, consideram errado, consciente ou inconscientemente. Alguns rejeitam-no abertamente; outros sentem aversão por ele no íntimo e tentam, de algum modo, arrastá-lo e fazê-lo passar pelos padrões ocidentais. [O autor fez este comentário há 41 anos. Ao longo desse período, é verdade que a escravidão política do mundo muçulmano se tornou um pouco menos severa, mas sua escravidão mental não diminuiu nem um pouco. — O editor] Se esta é a situação de nossas nações independentes, que proveito há em discutir a escravidão mental dos muçulmanos submetidos às nações ocidentais?
Agora, a pergunta é: qual é a causa dessa escravidão? Para explicá-la detalhadamente, seria necessário escrever uma obra à parte. Em resumo, porém, ela pode ser apresentada da seguinte forma:
A base da predominância mental e intelectual assenta-se no pensamento, na pesquisa e na busca do conhecimento. A nação que se encontra à frente nesse caminho é a que ocupa o lugar de liderança e autoridade no mundo; sua maneira de pensar envolve o mundo inteiro. Em contrapartida, a nação que fica para trás nesse campo é naturalmente obrigada a permanecer subordinada e seguidora de outras. Sua maneira de pensar e sua ideologia já não conservam força capaz de exercer domínio sobre a mente das pessoas. A torrente dos pensamentos poderosos e das convicções da nação dedicada ao conhecimento e à busca da verdade arrasta-a consigo. Ela já não possui sequer força e capacidade para permanecer firme em sua própria posição. Enquanto os muçulmanos avançaram pelo caminho da busca da verdade e do conhecimento, todas as nações do mundo os seguiram e permaneceram subordinadas a eles. O pensamento islâmico envolveu a visão de mundo de toda a humanidade. Os critérios estabelecidos pelo Islã acerca do bem e do mal, da virtude e do vício, do erro e da verdade, consciente ou inconscientemente, foram reconhecidos pelo mundo inteiro como os únicos critérios. E os povos do mundo, voluntária ou involuntariamente, moldaram sua maneira de pensar e suas ações segundo esses critérios. Mas, quando cessou entre os muçulmanos o surgimento de líderes do pensamento e pesquisadores, quando abandonaram a reflexão e a busca da verdade e se cansaram do estudo, da pesquisa e do pensamento, foi como se tivessem se aposentado da própria liderança mundial. Enquanto isso, as nações ocidentais avançaram rapidamente em todos esses campos. Utilizaram a força do pensamento e da pesquisa; dedicaram-se a desvendar os mistérios do universo; buscaram as fontes das forças ocultas da natureza. O resultado inevitável foi justamente o que tinha de ser. As nações ocidentais tomaram posse do lugar de liderança e autoridade no mundo. Assim como outrora os povos do mundo haviam se curvado diante da autoridade dos muçulmanos, também tiveram de aceitar a autoridade das nações ocidentais. Durante quatro ou cinco séculos, os muçulmanos dormiam profundamente no leito de conforto preparado por seus antepassados, enquanto as nações ocidentais se ocupavam de seu próprio desenvolvimento. Então, subitamente, ocorreu a ascensão das potências ocidentais e, em apenas um século, elas se espalharam por toda a face da Terra. Ao abrir os olhos, ainda atordoados pelo sono, os muçulmanos viram que a Europa cristã estava equipada tanto com a pena quanto com a espada; e, com o auxílio dessas duas forças, governava o mundo inteiro. Um pequeno grupo tentou defender-se contra ela; mas não possuía nem a força da pena nem o vigor da espada. Por isso, só continuou sofrendo derrotas. O restante da nação, isto é, a maioria, adotou a política que os fracos e covardes sempre adotam. As ideias, ideologias e costumes vindos do Ocidente, acompanhados do fio da espada, da força da argumentação, do apoio de provas e evidências científicas e de uma beleza deslumbrante, foram elevados pelo intelecto acomodado e pela mentalidade derrotada quase à condição de fé. As antigas crenças religiosas, os valores morais e as leis sociais, assentados apenas sobre bases tradicionais, foram levados como palha pela corrente dessa nova e poderosa inundação. E, nesse caminho de inconsciência, firmou-se nas mentes das pessoas a convicção de que tudo o que vem do Ocidente é verdadeiro e constitui o único critério de civilização e pureza.
Entre as nações que entraram em conflito com a civilização ocidental, algumas nem sequer possuíam uma civilização permanente e independente. Algumas dispunham, de fato, de uma civilização própria, mas ela não era suficientemente forte para preservar sua singularidade diante de outras civilizações. E, no caso de algumas, não havia nenhuma diferença fundamental entre sua civilização e essa civilização recém-chegada. Assim, todas essas nações foram facilmente tingidas pelas cores da civilização ocidental, sem que surgisse necessidade de qualquer grande conflito. Mas a situação dos muçulmanos era completamente diferente. Eles possuíam uma civilização permanente, independente e completa. Sua civilização contava com um sistema próprio e completo de princípios, regras e leis, que abrangia todos os campos da vida, tanto no pensamento quanto na ação. Os princípios e fundamentos da civilização ocidental são inteiramente contrários aos dessa civilização. Por isso, a cada passo foram se formando conflitos e confrontos entre essas duas civilizações. E, como resultado desse conflito, estão sendo produzidas reações destrutivas em todos os campos do pensamento, da crença e da vida prática dos muçulmanos.
A filosofia e a ciência no seio das quais a civilização ocidental foi criada vêm avançando, há cinco ou seis séculos, exclusivamente pelos caminhos do ateísmo, da irreligião e do materialismo. Desde o próprio dia em que nasceu, essa civilização iniciou seu conflito com a religião; pode-se dizer, antes, que foi o conflito da razão e do intelecto contra a religião que deu origem a essa civilização. Embora observar os sinais do universo, desvendar seus variados mistérios, investigar suas leis e sua ordem internas, refletir e pesquisar sobre suas aparências externas e, mediante a combinação de tudo isso, chegar a conclusões com o auxílio de hipóteses, testemunhos e provas — nada disso seja contrário à religião —, aconteceu que, assim que o novo movimento científico começou na Europa durante o Renascimento, surgiu uma intensa oposição e um violento conflito entre ele e os sacerdotes cristãos. Isso porque essa classe sacerdotal havia estabelecido as bases de suas crenças religiosas sobre a antiga filosofia e ciência gregas. Alimentava a esperança de que, se a pesquisa científica moderna e a investigação intelectual produzissem a menor fissura que fosse nessa base, todo o edifício da religião desmoronaria no pó. Dominados por essa concepção equivocada, opuseram-se ao novo movimento científico e chegaram até a usar a força para impedi-lo. Estabeleceram tribunais religiosos e, por meio deles, passaram a impor punições severas, cruéis e terríveis aos líderes e porta-estandartes desse movimento. Mas esse movimento era fruto de uma consciência e de uma mentalidade irresistíveis; por isso, em vez de enfraquecer sob a opressão e a perseguição, tornou-se ainda mais forte.
Por fim, a torrente do pensamento livre acabou completamente com a autoridade religiosa.
No início, essa luta estava limitada aos pioneiros do livre-pensamento e aos sacerdotes. Mas, como os sacerdotes lutavam contra os pensadores independentes em nome da religião, muito rapidamente ela se transformou num conflito entre o cristianismo e os defensores do livre-pensamento. Em seguida, a própria religião — qualquer que fosse — foi declarada adversária desse movimento. O pensamento segundo o método científico foi declarado completamente contrário ao método de pensamento religioso. Tornou-se obrigatório que aquele que refletisse cientificamente sobre os fenômenos do universo rejeitasse as doutrinas religiosas e seguisse o seu próprio caminho. O fundamento das doutrinas religiosas sobre o universo é que se deve declarar uma força superior a este mundo como a causa de todos os sinais e fenômenos do mundo natural. Como essa era a doutrina dos inimigos do movimento científico moderno, os líderes desse novo movimento consideraram indispensável desvendar os mistérios do universo sem a ideia de Deus ou de qualquer entidade sobrenatural, e declarar não científica toda abordagem dos fenômenos naturais que levasse em conta a existência de Deus. Assim, entre os cientistas e filósofos da era moderna surgiu um intenso ódio contra Deus, a alma, o espiritualismo e o sobrenaturalismo. Contudo, isso de modo algum era o resultado natural da razão e do racionalismo; era, antes, apenas o produto de um excesso de emoção. Eles não odiavam Deus porque a sua inexistência ou ausência tivesse sido demonstrada por provas e evidências; pelo contrário, sentiam aversão por Ele porque era o Senhor deles e dos seus inimigos do livre-pensamento (o seu objeto de adoração). Durante os cinco séculos seguintes, essa emoção irracional esteve na raiz de tudo o que a sua razão, inteligência e pensamento, bem como o seu movimento científico, realizaram.
Quando a filosofia e a ciência ocidentais iniciaram a sua verdadeira marcha, o seu objetivo estava orientado precisamente na direção oposta ao teísmo. Contudo, por estarem inicialmente cercadas por um ambiente religioso, continuaram a levar o naturalismo juntamente com o teísmo. Mas, quanto mais avançavam em direção ao seu objetivo, mais o naturalismo se impunha sobre o teísmo. Por fim, a ideia da existência de Deus e a ideia de tudo o que é sobrenatural relacionado com Ele desapareceram completamente dos filósofos e cientistas. Chegaram a um extremo em que, para eles, nada mais existia além da matéria e do movimento. Declararam que a ciência era partidária do naturalismo. Toda a comunidade científica e filosófica passou a acreditar na doutrina de que aquilo que não pode ser medido ou pesado não existe.
A história da filosofia e da ciência ocidentais dá testemunho disso. Descartes (morto em 1650), conhecido como o pai da filosofia ocidental, por um lado acreditava profundamente na existência de Deus e, por outro, reconhecia igualmente a existência independente da alma em relação à matéria. Ao mesmo tempo, foi ele quem iniciou o método de análise mecânica dos fenômenos do universo. Mais do que isso, o método de pensamento que ele introduziu posteriormente transformou-se em materialismo puro. Hobbes (morto em 1679) avançou mais um passo e opôs-se abertamente ao sobrenaturalismo. Declarou que o universo e cada uma das suas coisas eram passíveis de análise mecânica e negou a possibilidade de qualquer força espiritual ou incorpórea influente neste mundo material; mas, ao mesmo tempo, também acreditava na existência de Deus. Isso porque, do ponto de vista intelectual, era necessário reconhecer uma força causal desse tipo. Foi então que surgiu Spinoza (morto em 1677), o maior pioneiro do racionalismo do século XVII. Ele não deixou nenhuma distinção entre matéria, alma e Deus. Fundiu Deus e o universo numa entidade inseparável e negou o poder supremo de Deus. Os seus sucessores, Leibniz (morto em 1716) e Locke (morto em 1704), acreditavam na existência de Deus. Contudo, a tendência mental de ambos inclinava-se para o naturalismo.
Assim, vê-se que, na filosofia do século XVII, o teísmo e o naturalismo caminhavam lado a lado. Do mesmo modo, até o século XVII a ciência também não havia se transformado completamente em materialismo. Nenhum dos pioneiros da ciência — Copérnico, Kepler, Galileu, Newton e outros — era descrente da existência de Deus. Contudo, ao desvendar os mistérios do universo, eles desejavam deixar de lado a doutrina divina e investigar as forças e leis que governavam esse sistema. O abandono dessa doutrina divina era, na realidade, semelhante à semente do ateísmo e do naturalismo. Essa mesma semente desenvolveu-se mais tarde como a árvore do livre-pensamento. Mas os cientistas do século XVII não tinham consciência disso. Não conseguiram traçar uma linha divisória entre o naturalismo e o teísmo; pelo contrário, pensavam que essas duas doutrinas podiam caminhar lado a lado.
No século XVIII, porém, tornou-se evidente que um método de pensamento que, ignorando a existência de Deus, investigasse os mistérios do universo e as suas leis não poderia deixar de chegar ao materialismo, à irreligião e ao mecanicismo. Nesse século surgiram John Toland, David Hartley, Joseph Priestley, Voltaire, La Mettrie, Holbach, Cabanis, Denis Diderot, Montesquieu, Rousseau e vários outros filósofos e cientistas de pensamento independente. Ou negavam abertamente a existência de Deus ou, mesmo reconhecendo-a, não Lhe atribuíam, em termos de dignidade, maior importância do que a um monarca constitucional. Em outras palavras, o Deus reconhecido por eles pôs o universo em movimento uma única vez e depois se retirou dele. Já não desempenhava qualquer papel na condução desse sistema. Os filósofos e cientistas dessa categoria não reconheciam a existência de nada além do universo, do mundo material e do movimento. Segundo eles, somente é verdadeiro aquilo que está ao alcance da observação e da experiência. Hume apoiou vigorosamente esse método de pensamento por meio do seu empirismo e ceticismo. Chegou até a declarar a experiência como critério supremo para a validade das questões racionalmente demonstradas. Berkeley, naturalmente, fez esforços desesperados para conter o ímpeto dessa crescente torrente do materialismo. Mas, no fim, também não conseguiu detê-la. Depois, Hegel tentou introduzir o idealismo no lugar do materialismo. Contudo, ninguém aceitou o ideal sutil em oposição à matéria concreta. Kant concebeu um caminho intermediário. Disse: ‘A existência de Deus, a permanência da alma, a liberdade da vontade e coisas semelhantes não são compreensíveis para nós; portanto, não é possível segui-las como conhecimento; contudo, pode-se ter fé nelas. Pois o nosso senso prático de julgamento exige precisamente que tenhamos fé nelas.’ Essa foi a última tentativa de criar um compromisso entre o teísmo e o naturalismo. Mas essa tentativa também terminou em fracasso. Pois, depois que os erros da razão e do pensamento declararam a existência de Deus uma mera invenção da imaginação ou, no máximo, a existência de um ser inativo e impotente, aceitá-Lo, temê-Lo e buscar a Sua satisfação apenas para preservar a moralidade era algo absolutamente irracional.
No século XIX, o materialismo atingiu o auge de seu desenvolvimento. Vogt, Büchner, Jolly, Comte, Moleschott e outros cientistas e filósofos rejeitaram a existência de tudo, exceto a matéria e suas propriedades. Mill introduziu o empirismo na filosofia e o utilitarismo na ética. Depois, Spencer promoveu com grande firmeza o evolucionismo filosófico, a criação natural do universo e a ideia do surgimento espontâneo da vida. Além disso, as descobertas da biologia, da fisiologia, da geologia e da zoologia, o extremo progresso das ciências inventivas e aplicadas e a abundância de recursos materiais arraigaram profundamente nas mentes das pessoas a ideia de que o universo havia surgido por si mesmo; ninguém o havia criado; ele era governado por si próprio segundo uma lei fixa; atravessava por si mesmo as etapas da evolução e do progresso; nenhuma entidade sobrenatural exercia influência sobre essa máquina automática. A vida não era insuflada na matéria inanimada por ordem de alguém; ao contrário, a vida surgia quando a matéria continuava a evoluir segundo seu próprio curso. Evolução, vontade, sensação, consciência, intelecto e semelhantes eram propriedades qualitativas da própria matéria evoluída. O ser humano e os animais eram apenas máquinas, movidos pelas leis naturais. Conforme seus mecanismos fossem dispostos, assim seriam os atos que realizariam. Neles não existia qualquer ikhtiyar ou “livre-arbítrio”. Quando sua ordem e regularidade se desviassem e sua força vital se esgotasse, ocorreria a morte. Essa morte seria apenas outro nome para a extinção natural. Em outras palavras, quando a máquina se quebrasse e se desfizesse, suas qualidades e características também desapareceriam. Já não haveria qualquer possibilidade de ressurreição ou de voltar à vida.
O evolucionismo de Darwin desempenhou o papel mais importante na consolidação desse naturalismo e materialismo e em sua transformação em uma doutrina autorizada e sistemática. Seu livro intitulado “A Origem das Espécies” (Origin of Species) foi publicado pela primeira vez no ano cristão de 1589. A obra foi considerada um livro que provocou enorme agitação no mundo científico. A linha de argumentação nela apresentada era, para os cientistas do século XIX, o melhor método de raciocínio. A partir dessa linha de argumentação, fortaleceu-se ainda mais a doutrina de que todas as atividades do universo podem transcorrer sem a existência de Deus. Para os sinais e fenômenos da natureza, não seria necessária nenhuma causa além de suas próprias leis. O desenvolvimento e a evolução de todas as coisas, desde os níveis inferiores da vida até os estágios superiores, seriam apenas o resultado da ação sequencial de uma natureza desprovida de razão e discernimento. Nenhum ser sábio e prudente teria criado o ser humano e os demais animais; ao contrário, a máquina de matéria viva que um dia se movia na forma de um verme teria finalmente se manifestado como um ser humano dotado de vontade, sentimentos e capacidade de compreensão, por meio da luta pela sobrevivência, da sobrevivência do mais apto e da seleção natural.
Foi dessa filosofia que nasceram a cultura e a civilização ocidentais. Nelas não há lugar para o temor de um Deus sábio e poderoso; tampouco a profecia, a revelação (wahy) e a inspiração (ilhām) têm qualquer importância. Nelas não há espaço para a ideia de uma outra vida depois da morte, para a preocupação com a prestação de contas pelos atos praticados nesta vida, para a questão do senso de responsabilidade individual do ser humano, nem para a possibilidade de um objetivo e propósito mais elevados que o propósito biológico da vida. Esta é uma civilização puramente materialista. Toda a sua estrutura está livre das ideias de temor a Deus, simplicidade, veracidade, busca da verdade, bom caráter, senso de responsabilidade, lealdade, prática do bem, modéstia, piedade e pureza. Em contrapartida, é precisamente sobre todas essas ideias que se funda a civilização islâmica. Em suma, toda a ideologia ocidental é completamente contrária à ideologia islâmica. Seu caminho é inteiramente oposto ao caminho seguido pelo Islã. A civilização ocidental deseja arrancar pela raiz as coisas sobre as quais o Islã estabelece as bases do comportamento humano e da civilização. Por outro lado, o edifício do Islã não pode permanecer nem por um instante sobre as bases nas quais essa civilização deseja construir o caráter individual das pessoas e o sistema social. Em suma, o Islã e a civilização ocidental são como duas embarcações que se dirigem a objetivos opostos. Quem embarcar em uma delas terá de abandonar a outra. E quem embarcar nas duas ao mesmo tempo será dividido em duas partes.
Infelizmente, no mesmo século em que essa nova civilização chegou ao extremo de seu materialismo, heresia e ateísmo, todo o mundo muçulmano, do Marrocos ao Extremo Oriente, ficou preso nos tentáculos do polvo do poder político e da supremacia administrativa das nações ocidentais. Assim, os muçulmanos foram atacados simultaneamente pela espada e pela pena do Ocidente. Para aqueles cujas mentes haviam sido subjugadas e atemorizadas pela supremacia política das potências ocidentais, tornou-se difícil proteger-se do esplendor da filosofia, da ciência e da cultura e civilização criadas pelo Ocidente. Particularmente delicada era a situação das regiões muçulmanas que haviam caído diretamente sob o domínio de algum império ocidental. Para preservar seus interesses mundanos e pessoais, foram obrigadas a adquirir o conhecimento ocidental; e, como essa aquisição de conhecimento não era mero aprendizado, mas sim “sentar-se de joelhos, com uma mentalidade derrotada, diante dos mestres ocidentais”, a nova geração de muçulmanos foi profundamente influenciada pelo pensamento ocidental e pelas doutrinas científicas; sua visão de mundo e sua mentalidade começaram a ser moldadas segundo o padrão ocidental; seus corações e mentes aceitaram a submissão à civilização ocidental. Neles não se desenvolveu sequer a capacidade de distinguir o bem do mal e de adotar o bem puro! Tampouco se desenvolveu neles a capacidade de pensar livremente e tomar decisões com a ajuda de seu próprio discernimento e razão. Por isso vemos hoje toda a base da civilização e cultura islâmicas tornar-se instável. A própria estrutura mental necessária para pensar segundo o método islâmico foi desorganizada. Na verdade, a formação mental daqueles que pensam à maneira ocidental e depositam confiança nos princípios da civilização ocidental é de natureza estranha. Essa mentalidade não pode de modo algum se harmonizar com os princípios do Islã. E, quando os próprios princípios não se ajustam, não é de modo algum anormal que surjam diversas dúvidas e novas incertezas sobre questões secundárias e pormenores.
É indubitável que a maioria dos muçulmanos ainda tem fé na civilização do Islã e deseja viver como muçulmana. Contudo, sob a influência do pensamento e da civilização ocidentais, suas mentes e corações estão se afastando progressivamente do Islã, e esse afastamento aumenta dia após dia. Mesmo deixando de lado a supremacia e o domínio políticos, a influência e o prestígio do conhecimento, da ciência e do intelecto ocidentais tomaram conta das mentes de todos no mundo inteiro. Como resultado, a visão das pessoas mudou; tornou-se difícil para qualquer um enxergar sob uma perspectiva muçulmana e pensar segundo a orientação islâmica. Portanto, enquanto não surgirem entre os muçulmanos pensadores independentes, essa situação de submissão não chegará ao fim. Na verdade, hoje se tornou necessário um novo despertar do Islã. Os conhecimentos preservados pelos antigos pensadores e pesquisadores islâmicos não podem ser frutíferos nos dias atuais, pois o mundo avançou muito. Não é de modo algum possível empurrar novamente para trás o mundo atual, fazendo-o atravessar outra vez as etapas que já havia superado seiscentos anos atrás. Hoje, aquele que for capaz de conduzir o mundo para a frente será o único apto a liderá-lo nos campos do conhecimento e da ação.
Assim, para que o Islã volte hoje a ocupar o lugar de liderança do mundo, o único meio é que surjam na sociedade muçulmana pensadores e pesquisadores capazes de demolir, por meio do pensamento, da investigação e da pesquisa, toda a base da civilização ocidental. Eles deverão observar os sinais da natureza e investigar seus mistérios segundo o método de pensamento e pesquisa indicado pelo Alcorão, lançando os fundamentos de uma nova filosofia sobre uma linha de pensamento puramente islâmica. Deverão erguer, com base no esboço traçado pelo Alcorão, o edifício de uma nova ciência natural. Rejeitando as doutrinas que se afastam de Allah, deverão estabelecer as bases do pensamento e da pesquisa sobre a doutrina divina. Acima de tudo, deverão construir o edifício desse pensamento e dessa pesquisa modernos com tamanha solidez que ele envolva o mundo inteiro, e que, em todos os lugares, a civilização islâmica, baseada na verdade e na justiça, surja em lugar da civilização materialista ocidental.
Tudo o que foi discutido acima pode ser apresentado por meio de uma comparação: o mundo é como um trem. O motor que o move é o pensamento, a pesquisa e a investigação. E os pensadores e pesquisadores são os maquinistas desse motor. Eles conduzem o trem na direção que desejam, e é nessa direção que ele avança. Os que estão a bordo são obrigados, queiram ou não, a seguir seu movimento. Se algum passageiro não quiser seguir na direção em que o trem avança, sentado no trem em movimento ele nada poderá fazer além de virar seu assento para um lado ou para o outro. Mas virar o assento não muda a direção de seu movimento; para isso, é preciso tomar o motor do trem e desviar seu movimento para o caminho desejado. Somente assim é possível mudar a direção do movimento.
Atualmente, todos aqueles que controlam esse motor estão afastados de Allah e são também profundamente ignorantes a respeito do pensamento islâmico. É por isso que o trem, levando seus passageiros, corre velozmente pelo caminho da apostasia e do materialismo. Consequentemente, todos os passageiros se afastam cada vez mais do destino do Islã. Portanto, para mudar hoje essa trajetória, é preciso tentar assumir o controle do motor. Enquanto isso não acontecer, de modo algum será possível mudar o curso do trem; ao contrário, apesar de todas as nossas objeções, irritação e gritos, ele continuará seguindo o caminho indicado pelos maquinistas que se rebelaram contra Allah. (Tarjumanul Qur’an, setembro de 1934)
2
A decadência da civilização islâmica no subcontinente
Ao examinar a história, verifica-se que a maioria dos países do atual mundo muçulmano foi conquistada pelos mujahidin da era dourada. Aqueles que conquistaram esses países não abandonaram seus lares e arriscaram a vida movidos pela ambição de expandir reinos ou acumular riquezas; fizeram-no com o propósito de elevar a palavra de Allah sobre a face da Terra. Em vez de se entregarem ao prazer mundano, estavam profundamente absorvidos pelo desejo da felicidade na vida futura. Por isso, não se limitaram a tornar os povos conquistados seus súditos e tributários; também tomaram providências para tingi-los com a cor do Islã. Incorporaram toda a população, ou a maior parte dela, à comunidade islâmica. Além disso, por meio do cultivo do conhecimento e do esforço na ação, enraizaram tão firmemente entre eles o pensamento e a civilização islâmicos que, mais tarde, esses povos se tornaram eles próprios porta-estandartes da cultura e civilização islâmicas e mestres das ciências e do conhecimento islâmicos. Os demais países foram conquistados muito depois da era dourada. Naquele tempo, o espírito e a consciência islâmicos haviam enfraquecido, e no coração dos conquistadores o desejo de expandir seus reinos se mostrava muito mais forte do que o jihad sincero no caminho de Allah. Apesar disso, o trabalho de difusão e consolidação do Islã nesses países foi amplamente bem-sucedido. O Islã chegou até mesmo a obter nesses países o status de cultura e civilização nacional absoluta.
Infelizmente, o caso deste subcontinente é completamente diferente dos dois tipos de países mencionados acima. Na era dourada, apenas uma parte muito pequena deste país foi conquistada. E mesmo nessa pequena parte, a influência que a educação e a civilização islâmicas haviam exercido foi apagada pela torrente da chamada Ma‘rifat. Foi então que teve início aqui a verdadeira sequência das campanhas de conquista dos muçulmanos. Contudo, naquele momento, os conquistadores já não possuíam as características e qualidades dos muçulmanos da era dourada. Em vez de dedicar-se à propagação do Islã, empregaram todas as suas forças na expansão de seus reinos. Exigiam do povo obediência e tributos a eles próprios, em vez de obediência a Allah e ao Mensageiro. Como consequência inevitável, mesmo após vários séculos de governo, a maioria dos habitantes do subcontinente permaneceu não muçulmana, e a cultura e a civilização islâmicas não conseguiram criar raízes aqui. Além disso, não foi tomada nenhuma providência especial para oferecer educação e treinamento islâmicos aos habitantes que aceitaram o Islã. Como resultado, entre os novos muçulmanos permaneceram, em maior ou menor grau, as antigas concepções hindus, crenças religiosas e costumes. Até os próprios antigos muçulmanos estrangeiros, em consequência de sua convivência com os habitantes deste país, começaram a tratar com indulgência a política politeísta e a seguir numerosas práticas da jahiliyyah.
Ao examinar a história da Índia muçulmana e sua situação atual, torna-se evidente que, mesmo quando o poder estatal dos muçulmanos estava plenamente estabelecido neste país, a influência do Islã era extremamente fraca. O ambiente daqui não era verdadeiramente islâmico. Naturalmente, a religião e a civilização dos hindus também eram extremamente débeis. Além disso, por serem a religião e a civilização de uma nação derrotada e subjugada, haviam se tornado ainda mais apagadas. Contudo, por permanecerem sem rival no ambiente de liberalidade e negligência dos governantes muçulmanos, e porque os muçulmanos não receberam plenamente a educação e o treinamento islâmicos, uma grande parte dos muçulmanos daqui não conseguiu tornar-se, no que dizia respeito à sua fé religiosa e à sua cultura e civilização, tão madura e plenamente muçulmana quanto poderia ter sido em um ambiente genuinamente islâmico.
Por fim, no século XVIII cristão, até mesmo o poder estatal — o maior sustentáculo da civilização islâmica na Índia — escapou das mãos dos muçulmanos. Primeiro, o império muçulmano se fragmentou e se dividiu em pequenos Estados. Depois, uma após outra, as torrentes dos maratas, dos siques e dos ingleses vieram e eliminaram a existência da maioria desses Estados. Em seguida, naturalmente, o poder estatal deste país passou para as mãos dos ingleses. Num país governado pelos muçulmanos durante vários séculos, eles foram expulsos de todo o território em apenas cem anos e se tornaram derrotados e subjugados. E os meios pelos quais a cultura e a civilização islâmicas se mantinham de algum modo na Índia começaram a escapar das mãos dos muçulmanos assim que os ingleses ampliaram seu domínio. Eles substituíram o persa e o árabe pelo inglês como meio de instrução. Ao mesmo tempo, aboliram o sistema jurídico islâmico, dissolveram os tribunais da sharia e introduziram suas próprias leis nos assuntos civis e criminais. Além disso, limitaram a aplicação da lei islâmica, inclusive para os próprios muçulmanos, apenas a questões como casamento e divórcio, e até mesmo essa autoridade limitada de aplicação foi transferida dos cádis para os tribunais civis comuns. Como os juízes desses tribunais eram geralmente não muçulmanos, a chamada ‘Lei Maometana’ foi sendo cada vez mais distorcida em suas mãos. Ademais, desde o início, a política dos governantes ingleses era eliminar, por meio da privação econômica e da opressão, o orgulho e o senso de dignidade que, como nação governante, haviam sido cultivados e fortalecidos no coração dos muçulmanos durante séculos. Assim, em apenas um século, conseguiram transformar essa nação em pobre, ignorante, mesquinha, sem caráter, humilhada e desonrada.
O golpe final contra essa nação em declínio veio durante os distúrbios de 1857. Esse golpe não apenas pôs fim ao poder político dos muçulmanos, mas também destruiu completamente seu moral. Uma noite escura de desespero e sentimento de inferioridade desceu sobre seus corações. Ficaram tão fascinados pelo poder e pela autoridade do governo inglês que não restou entre eles o menor vestígio de consciência nacional. Chegando ao extremo da humilhação e da desonra, foram obrigados a pensar que o meio de alcançar paz e segurança era obedecer aos ingleses; o caminho para obter honra e respeito era servir aos ingleses; e o meio de alcançar progresso e desenvolvimento era seguir e imitar os ingleses — não havia qualquer outro caminho. Por outro lado, tudo o que possuíam em matéria de conhecimento, ciência, cultura e civilização era considerado a principal causa de sua pobreza e inferioridade.
Quando, na segunda metade do século XIX, os muçulmanos tentaram novamente erguer a cabeça, havia entre eles dois tipos de fraqueza. A primeira era que, no pensamento e na ação, já não eram maduros nos princípios, na cultura e na civilização islâmicos. Além disso, um ambiente não islâmico os cercava, com suas concepções e sua civilização pagãs. A segunda era que a escravidão, com todos os seus defeitos, não havia se imposto apenas sobre seus corpos; havia também se abatido sobre seus corações e suas almas. Como consequência, ficaram privados das forças por meio das quais uma nação pode preservar sua civilização e sua cultura.
Foi em meio a essa dupla fraqueza que os muçulmanos abriram os olhos e perceberam que os governantes ingleses haviam fechado, com extrema astúcia, todas as portas do progresso econômico para eles, deixando a chave dentro das escolas e faculdades inglesas. Agora, não restava aos muçulmanos outro caminho senão obter educação inglesa. Assim, sob a liderança de Sir Syed Ahmad, surgiu um poderoso movimento. Sob sua influência, despertou-se entre os muçulmanos de todo o subcontinente a consciência da necessidade da educação inglesa. A oposição dos tradicionalistas a esse respeito revelou-se completamente inútil. Isso porque aqueles em cujas mãos se encontrava a verdadeira força da nação em termos de riqueza, honra, prestígio e influência acolheram o novo movimento e vieram apoiá-lo diretamente. Consequentemente, os muçulmanos da Índia avançaram muito rapidamente rumo à educação inglesa. A parte inútil e incapaz da nação foi deixada para as antigas madraças religiosas, para que pudesse desempenhar as funções de imam nas mesquitas e de professor nas escolas corânicas e madraças. Já as melhores crianças das classes prósperas e confortáveis foram enviadas para escolas e faculdades inglesas, para que as marcas do conhecimento, da ciência e das artes dos estrangeiros pudessem ser impressas em suas mentes e corações puros.
Essa era a situação no último quarto do século XIX. Naquela época, o materialismo alcançava seu auge na Europa. Já no século XVIII, a ciência havia derrotado completamente a religião. Sob a liderança da filosofia moderna e da nova ciência, todas as antigas teorias da política, da economia, das ciências sociais e da ética foram rejeitadas, e novas teorias foram estabelecidas. Em suma, com base nessas teorias modernas, nasceu na Europa um tipo específico de cultura e civilização. Essa grande revolução baniu a religião e as normas orientadas pela religião das atividades práticas da vida; contudo, no mundo do pensamento e da imaginação, ainda restava alguma influência das convicções religiosas. Por isso, iniciou-se então uma luta intensa contra elas. Embora nenhum princípio das ciências e do conhecimento tivesse conseguido apresentar qualquer prova — que pudesse realmente ser chamada de prova — contra a concepção divina do universo, os cientistas continuaram, ainda assim, a alimentar descontentamento para com Deus e hostilidade contra a concepção divina, sem qualquer argumento ou prova, simplesmente por razões emocionais. E, como naquela época eles ocupavam o posto de liderança mundial no conhecimento, na ciência e na atividade intelectual, sob sua influência a doença da aversão a Deus (teofobia) espalhou-se como uma vasta epidemia. Assim, negar a existência de Deus; considerar o universo algo criado espontaneamente e movido segundo as leis naturais; chamar a devoção a Deus de superstição; qualificar a religião de inútil e a religiosidade de estreiteza e cegueira; e considerar o naturalismo sinônimo de liberalidade e visão clara tornou-se então uma moda. Até mesmo uma pessoa sem o menor conhecimento de filosofia e ciência, que não tivesse feito sequer o mínimo esforço para pesquisar e investigar essas questões complexas, proclamava tais teorias apenas pelo desejo de ser considerada uma pessoa esclarecida na sociedade. Consequentemente, dizer ou escrever algo em defesa do espiritualismo ou do sobrenaturalismo era, naquela época, um crime semelhante à incredulidade. Mesmo que um cientista famoso expressasse uma opinião desse tipo, perderia todo o prestígio entre os cientistas; todas as suas realizações se apagariam completamente, e ele se tornaria indigno de ocupar um lugar na sociedade erudita.
Em 1859, foi publicada a famosa obra de Darwin, «A origem das espécies» (Origin of Species). Essa obra serviu para lançar óleo sobre o fogo do naturalismo e do ateísmo. Naturalmente, as provas e os argumentos apresentados por Darwin em favor da teoria da evolução que ele havia formulado eram extremamente frágeis e sujeitos a comprovação. Em sua evolução imaginária, não faltava apenas um estágio; ao contrário, diante e atrás de cada estágio existente, muitos estágios estavam ausentes. Por isso, os cientistas não puderam então se certificar dessa teoria. Até mesmo Huxley, seu maior defensor, não conseguiu depositar fé nela. Apesar disso, o darwinismo foi aceito simplesmente por causa da rebeldia contra Deus. Não apenas isso: promoveu-se uma propaganda excessiva em seu favor e ele foi usado como uma arma gigantesca contra a religião. Isso porque essa teoria havia comprovado uma grande reivindicação presente nas concepções equivocadas dos cientistas — embora a própria reivindicação fundamental do darwinismo também estivesse sujeita a comprovação —, a saber: que toda a natureza do universo funciona segundo leis naturais ordinárias, sem o auxílio de qualquer força sobrenatural. Os religiosos se opuseram veementemente a essa teoria. Nas reuniões da Associação Britânica, os bispos de Oxford e Gladstone proferiram discursos contra ela, empregando todas as suas forças, mas, apesar disso, foram derrotados. Por fim, os religiosos europeus foram tão subjugados diante do ateísmo científico que, quando Darwin morreu, em 1882, a Igreja da Inglaterra o honrou com a mais alta distinção. Isto é, foi-lhe concedida permissão para ser sepultado na Abadia de Westminster. E, no entanto, ele era o principal entre os artífices do sepultamento da religião na Europa. Foi ele quem desempenhou o papel principal em conduzir o pensamento pelo caminho do materialismo, do ateísmo e da heresia. A mentalidade que ele fundou deu à Europa a oportunidade de desenvolver e expandir o bolchevismo e o fascismo.
Na realidade, foi precisamente nessa época que nossa juventude foi enviada às escolas e faculdades inglesas, para ser agraciada pela educação inglesa e pela cultura estrangeira. Eles já eram inexperientes na educação islâmica e imaturos na cultura islâmica. Por outro lado, haviam sido derrotados diante do poder governante inglês e estavam deslumbrados com o esplendor da civilização estrangeira. Como resultado, assim que ingressaram nas escolas inglesas, sua estrutura mental mudou. Suas inclinações e tendências se afastaram da religião. Pois o primeiro efeito daquele ambiente era aceitar sem discussão o nome de qualquer escritor ou pesquisador europeu que fosse apresentado, mas exigir provas quando algo fosse dito por parte do Alcorão, dos hadiths ou dos sábios muçulmanos. Com essa mentalidade transformada, estudaram as ciências e os conhecimentos ocidentais, cujos princípios fundamentais e a maior parte de seus ramos eram contrários aos princípios fundamentais e aos ramos do Islã.
No Islã, o conceito de religião é o de um sistema de vida para o ser humano. Em contrapartida, no Ocidente, o conceito de religião é o de uma mera crença pessoal, sem qualquer relação com a vida prática. No Islã, a primeira coisa é a fé em Allah; no Ocidente, a existência de Allah nem sequer é reconhecida. Toda a cultura e civilização islâmicas estão fundamentadas nas convicções relativas à revelação e à missão profética. Já no Ocidente há dúvida quanto à verdade da revelação e incerteza quanto à autenticidade da missão profética. No Islã, a crença na Vida Futura é a base de todo o sistema de vida e de conduta; no Ocidente, essa própria base é considerada sem fundamento. Os atos de adoração e as práticas que no Islã são considerados obrigatórios são, no Ocidente, apenas práticas sem sentido da era da ignorância. Assim, toda a civilização e cultura islâmicas são completamente diferentes da cultura e civilização ocidentais. No campo da lei, o princípio fundamental do Islã é que Allah é o Legislador; o Mensageiro é o intérprete da lei, e o ser humano é apenas obediente à lei. No Ocidente, porém, nenhum direito de Deus de legislar é reconhecido. Ali, o parlamento é o legislador, e o povo é o eleitor do parlamento. Na política de Estado, o objetivo do Islã é estabelecer o governo divino, enquanto o objetivo do Ocidente é o Estado nacional. O objetivo do Islã é o internacionalismo, ao passo que o destino do Ocidente é o nacionalismo. Na economia, o Islã dá importância aos ganhos lícitos, ao pagamento da zakat e da sadaqa e à abstenção da usura; todo o sistema econômico ocidental, por sua vez, funciona com base na usura e no lucro. Na ética, o objetivo do Islã é o sucesso na Vida Futura, enquanto o objetivo do Ocidente é o bem-estar neste mundo.
Da mesma forma, também nas questões sociais o caminho do Islã difere do caminho do Ocidente em quase todos os aspectos. O véu e o vestuário, as relações entre homens e mulheres, a poligamia, as leis relativas ao casamento e ao divórcio, o controle da natalidade, os direitos dos pais, os direitos do marido e da esposa e muitos outros assuntos semelhantes apresentam diferenças tão numerosas e tão marcantes entre essas duas civilizações que não é necessário descrevê-las extensamente. A razão dessa diferença é que os princípios fundamentais das duas civilizações são distintos. Quando nossa juventude, com uma mentalidade de derrotados e servil, uma educação islâmica incompleta e um treinamento insuficiente, recebeu educação nas ciências e nos conhecimentos ocidentais e foi treinada sob a influência da cultura ocidental, o resultado foi exatamente o que era de esperar. Não se desenvolveu nela qualquer capacidade para distinguir o bem do mal. Tudo o que aprendia do Ocidente era aceito como critério do que era correto e autêntico. Depois, com conhecimentos incompletos e defeituosos, começou a avaliar os princípios e as leis do Islã segundo esse padrão; e, quando percebia uma diferença entre os dois em algum assunto, nunca conseguia compreender o erro do Ocidente. Ao contrário, julgava o próprio Islã defeituoso e se preparava para corrigir e modificar seus princípios e suas leis.
Em suma, por mais benefícios que a educação moderna possa ter proporcionado aos muçulmanos do subcontinente himalaio nos aspectos econômico e político, o enorme dano que ela causou à sua religião e à sua civilização não pode ser compensado por benefício algum. (Tarjuman-ul-Qur’an: outubro de 1934)
3
As nações enfermas da era moderna
Hoje, sem distinção entre Oriente e Ocidente, muçulmanos e não muçulmanos, todos estão envolvidos no mesmo perigo. Trata-se de uma civilização e uma cultura, nutridas no regaço do materialismo puro, que se impuseram sobre todos. Por isso, tanto a estrutura do método de pensamento quanto a do modo de ação da civilização foram erguidas sobre fundamentos equivocados. Sua filosofia, ciência, ética, vida social, política, leis e tudo o mais partiram de um ponto equivocado e alcançaram excelência por um caminho equivocado. E agora chegaram a tal estágio que o limite final de sua destruição se tornou muito próximo.
Esta civilização teve início entre pessoas que, na realidade, não possuíam nenhuma fonte clara e pura de conhecimento e ciência divinos. Certamente havia entre elas líderes religiosos ou sacerdotes; mas não possuíam inteligência, conhecimento científico nem qualquer lei divina. Embora a doutrina religiosa distorcida que tinham pretendesse orientar a humanidade pelo caminho correto no pensamento e na ação, era totalmente incapaz de fazê-lo. Pelo contrário, só conseguia criar obstáculos ao progresso e ao desenvolvimento do conhecimento e da ciência. E foi exatamente isso que fez. Como consequência dessa obstrução, aqueles que ansiavam pelo progresso e pelo desenvolvimento atacaram a religião e a devoção e seguiram por um caminho diferente. Nesse caminho, não havia outro guia além da experiência, da observação, da conjectura e da investigação. Esse guia era completamente pouco confiável e também necessitava de orientação e de luz. Ainda assim, tornou-se seu principal apoio. Com sua ajuda, empenharam-se intensamente no pensamento, na pesquisa, na prática e na reconstrução das organizações. Porém, em todos os campos, acabaram dando início ao erro; como resultado, todo o curso de seu progresso foi direcionado para um objetivo equivocado. Eles partiram do centro da irreligião e do materialismo. Consideraram a natureza do universo como se ela não tivesse Criador nem Governante (Deus). Olharam para o universo e para o mundo dos seres vivos como se a verdade residisse apenas na observação e na percepção sensorial. Para eles, não existia nada por trás desse véu visível. Assim, embora tenham conseguido conhecer e compreender as leis naturais com a ajuda da experiência e da conjectura, não conseguiram chegar ao Criador da natureza.
Da mesma forma, encontraram sob seu domínio as coisas úteis do mundo e fizeram uso delas conforme suas necessidades. Mas suas mentes estavam completamente vazias da noção de que, na realidade, não eram seus proprietários nem seus administradores; eram apenas representantes do verdadeiro Proprietário. Essa ignorância e inconsciência os tornaram alheios ao conceito fundamental de responsabilidade e prestação de contas. Como resultado, toda a sua cultura e civilização foi construída sobre uma base equivocada. Abandonaram Allah e tornaram-se adoradores da “alma”; e a “alma”, ocupando o lugar de Allah, lançou-os em severas tentações e desvios. É a devoção a esse falso deus que hoje os arrasta, em todos os campos do pensamento e da ação, por um caminho perigoso. Embora as etapas desse caminho sejam extremamente assustadoras e deslumbrantes, seu fim não é senão a destruição. Esse falso deus transformou a ciência em instrumento da destruição humana. Moldou a moralidade segundo os padrões da adoração do ego, do desejo de ostentação, da desobediência e da devassidão. Impôs o egoísmo e Satanás ao sistema econômico. Injetou o veneno da adoração do ego, do amor ao luxo e do egocentrismo nas veias e artérias da vida social. Corrompeu a política com o nacionalismo, o patriotismo, as distinções de raça e tribo e a adoração do poder, transformando-a numa das piores maldições para a humanidade. Em suma, a semente da árvore venenosa plantada pela Renascença ocidental transformou-se, em poucos séculos, numa enorme árvore da cultura e da civilização. Embora os frutos dessa árvore sejam doces, na realidade estão envenenados; embora tenham aparência bela e agradável, são, de fato, cobertos de espinhos; e, embora seus galhos exibam o esplendor da primavera, o ar venenoso que deles flui continua envenenando, internamente, toda a humanidade.
Os ocidentais que plantaram com as próprias mãos essa árvore venenosa hoje sentem repugnância por ela. Isso porque essa árvore criou tanta confusão, complexidade e aflição em todos os aspectos e setores da vida que qualquer tentativa sua acaba trazendo inúmeras complicações. Sempre que cortam um de seus galhos, dali brotam inúmeros galhos espinhosos. Por exemplo, investiram contra o capitalismo e, imediatamente, surgiu o comunismo. Atacaram a democracia e, no mesmo instante, o ditatorialismo veio à tona. Tentaram resolver os problemas sociais e, imediatamente, surgiram o feminismo e o controle da natalidade. Tentaram aplicar a lei para remediar a licenciosidade moral e, como resultado, a violação da lei e a tendência à criminalidade ergueram a cabeça. Em suma, dessa árvore venenosa da cultura e da civilização brota um fluxo interminável de deformação e desordem, e a vida ocidental sente, em cada veia, capilar e centro nervoso, a ardência e o tormento de uma enorme ferida, cheia de dores, sofrimentos e aflições, que a aflige da cabeça aos pés.
Hoje, as nações ocidentais estão soltando gritos de dor sob o intenso sofrimento causado por esse abscesso. Seus corações e mentes estão profundamente agitados. Suas almas anseiam por algum elixir da imortalidade. Mas elas não sabem onde encontrar esse elixir. A maioria delas ainda permanece presa à ilusão de que a verdadeira origem do problema se encontra apenas nos galhos e ramos daquela árvore venenosa. Por isso, dedicaram todo o seu tempo e esforço a cortar seus galhos e ramos. Contudo, ainda não conseguem compreender que a deformação não está nos galhos, mas nas próprias raízes profundas da árvore. E esperar que bons galhos e ramos brotem de raízes más não passa de pura insensatez.
Por outro lado, há também ali um pequeno grupo que conseguiu compreender a maldade fundamental da árvore de sua própria civilização. Mas, como há vários séculos vem sendo criado à sombra dessa árvore, e como seus ossos e sua carne foram formados pelos frutos e produtos dela, sua mente é incapaz de compreender que bons galhos e ramos possam se desenvolver a partir de qualquer outra raiz que não a dela. Assim, a situação de ambos os grupos acabou sendo a mesma. Eles procuram, com extrema ansiedade, algo que alivie seu sofrimento; mas não sabem qual é o objeto que desejam nem onde ele pode ser encontrado.
De fato, este é o momento oportuno para apresentar às nações ocidentais o ideal e os princípios de ação do Alcorão e de Maomé (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Hoje é preciso dizer-lhes: aquilo pelo qual seus corações e suas mentes anseiam intensamente é isto. O néctar pelo qual vocês têm sede, como o pássaro chataka, é isto. Este é um tão puro e sagrado árvore majestosa, cujas raízes, tronco e ramos são todos bons. Suas flores são perfumadas e sem espinhos. Seus frutos são saborosos e vivificantes. Sua brisa é agradável e refresca o coração e a mente. Aqui vocês encontrarão o discernimento prático e racional, um ponto central correto para o pensamento e a visão, e o conhecimento necessário à formação do melhor caráter humano. Aqui vocês encontrarão uma espiritualidade que não se destina aos monges e aos ascetas que renunciaram ao mundo; antes, é a única fonte de paz espiritual e tranquilidade mental para aqueles que lutam no campo de ação deste mundo. Aqui vocês verão um sistema elevado e sólido de moralidade e leis, fundado num conhecimento completo da natureza humana e que jamais pode ser alterado pelo impulso dos instintos. Aqui vocês encontrarão princípios exatos para a cultura e a civilização, que eliminam as desigualdades de classe ilegítimas e as divisões artificiais entre povos, organizando a sociedade humana sobre uma base puramente racional. Esses princípios criam um ambiente vigoroso e harmonioso de igualdade, justiça, generosidade, caridade e boa conduta, no qual não há espaço para que surjam conflitos, confrontos ou lutas entre indivíduos, classes e comunidades por causa de interesses, direitos e necessidades; pelo contrário, todos podem trabalhar aqui, com alegria e satisfação, pelo bem-estar individual e social, com base na cooperação mútua. Portanto, se quiserem salvar-se da destruição, apaguem de seus corações todo o ódio contra o Islã antes que um golpe terrível esmague sua cultura e civilização e as junte às civilizações destruídas pela história. Abandonem o ódio que herdaram dos fanáticos religiosos da Idade Média e ao qual ainda se apegam, mesmo depois de romperem com todas as coisas daquela era de trevas; informem-se, com mente aberta, sobre os grandiosos ensinamentos do Alcorão e de Maomé (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), e aceitem-nos.
A situação das nações muçulmanas é, em certa medida, diferente da das nações ocidentais. Sua doença é diferente, assim como sua causa. Mas o tratamento é semelhante ao dos ocidentais. Em outras palavras, seu tratamento consiste em retornar ao conhecimento e à orientação que Deus enviou por meio de Seu último Livro e de Seu último Profeta.
A situação em que se travou o conflito entre o Islã e a civilização ocidental era inteiramente diferente dos conflitos anteriores entre o Islã e as demais civilizações. Quando o Islã entrou em conflito com as civilizações romana, persa, indiana e chinesa, exercia plena autoridade sobre o pensamento e a capacidade de ação de seus seguidores. Neles atuava uma poderosa corrente de jihad e Ijtihad. Tanto espiritual quanto materialmente, haviam conquistado no mundo a glória de uma nação vitoriosa e sido investidos da dignidade de liderança sobre todas as demais nações. Naquela época, nenhuma cultura ou civilização do mundo era capaz de se colocar diante da sua civilização. Aonde quer que chegassem, e a qualquer nação que alcançassem, produziam mudanças revolucionárias em sua visão de pensamento, ideologia, ciência e conhecimento, caráter e organização social. Entre eles, a força de exercer influência era muito maior que a capacidade de receber influências externas. Sem dúvida, também aceitaram muitas coisas de outros povos; porém, o temperamento de sua civilização era tão firme e poderoso que tudo o que a ela se acrescentava vindo de fora se ajustava completamente à sua natureza, e nenhuma influência externa havia produzido a menor alteração em seu temperamento. Em contrapartida, a influência que exerceram sobre os outros revelou-se inteiramente revolucionária. Como resultado, algumas civilizações não muçulmanas chegaram a dissolver-se no Islã, abrindo mão da própria identidade. E aquelas que possuíam grande força vital também foram tão profundamente influenciadas pelo Islã que muitos aspectos de seus princípios fundamentais se modificaram. Mas isso se refere àquela época em que, dentro dos muçulmanos, a chama do ideal permanecia imaculada e inextinguível.
Os muçulmanos governaram durante vários séculos com o auxílio da pena e da espada, até que, por fim, caíram exaustos. Sua força vital jihadista enfraqueceu. Sua força do Ijtihad perdeu o brilho. O Grande Livro que lhes havia fornecido a luz do conhecimento e a força para agir, eles o transformaram num mero livro de memórias sagradas e o mantiveram envolto em tecido. Abandonaram o caminho seguido pelo grande líder, cujo princípio havia moldado sua cultura e civilização como um ideal de vida intelectual e prática plenamente integrado. Em consequência, o curso de seu progresso e desenvolvimento estagnou. A correnteza impetuosa, ao chegar de repente a um vale imóvel, perdeu o movimento e transformou-se num pequeno lago. Os muçulmanos foram afastados dos assentos da liderança e da autoridade. O domínio que seus pensamentos, conhecimentos científicos, artes, civilização e poder político haviam exercido sobre as demais nações do mundo começou a se desfazer. Além disso, no Ocidente surgiu uma civilização diferente, em oposição ao Islã. As nações ocidentais ergueram com as próprias mãos a bandeira do jihad e do Ijtihad que os muçulmanos haviam lançado para longe. Enquanto os muçulmanos permaneciam deitados em comodidade, os ocidentais avançavam nos campos do conhecimento, da ciência e da ação, levando consigo a bandeira abandonada por eles. Chegaram até a ocupar o mesmo assento de liderança do qual os muçulmanos haviam sido afastados. Sua espada conquistou a maior parte das regiões do mundo. Seus pensamentos, ideologias, conhecimentos científicos, artes e os princípios de sua cultura e civilização espalharam-se por todo o mundo. Sua autoridade governamental submeteu não apenas os corpos das pessoas, mas também seus corações e mentes. Por fim, ao despertar de um sono de vários séculos, os muçulmanos abriram os olhos e viram que o campo lhes havia escapado completamente das mãos e que outros haviam chegado para se instalar sobre ele. Agora, tudo o que existe em matéria de conhecimento, ciência, cultura, civilização, leis e poder estatal está nas mãos deles; aos muçulmanos nada mais resta. Conservam apenas uma lâmpada sem brilho.
Hoje, o conflito entre o Islã e a civilização ocidental se desenrola de uma nova maneira. Sem dúvida, a civilização ocidental não é capaz, sob aspecto algum, de enfrentar a civilização islâmica. Além disso, se houver um confronto com o Islã, nenhuma força do mundo poderá permanecer diante dele. Mas a questão é: onde está o Islã? Assim como não há, entre os muçulmanos de hoje, qualquer vestígio de natureza, disposição e caráter moral islâmicos, também não há pensamento islâmico nem motivação para agir. Em suas mesquitas, madrassas e khanqahs, em lugar algum existe uma verdadeira consciência vital islâmica. Sua vida prática não tem qualquer relação com o Islã. Assim como a lei islâmica não é aplicada em sua vida pessoal, tampouco o é em sua vida social. A organização de qualquer ramo de sua civilização e cultura não está fundamentada em um verdadeiro sistema islâmico. Nessas circunstâncias, a disputa não se dá entre o Islã e a civilização ocidental; trata-se, antes, da disputa entre uma civilização viva, dinâmica, iluminada pelo conhecimento e ativa, e a civilização imóvel, decadente e atrasada dos muçulmanos. E está acontecendo justamente aquilo que se poderia esperar como resultado de uma competição tão desigual. Os muçulmanos recuam continuamente. Sua civilização está sendo derrotada. Aos poucos, estão desaparecendo dentro da cultura ocidental. O ocidentalismo se instala cada vez mais em suas mentes. Está se formando uma estrutura mental em molde ocidental. Seu pensamento e sua capacidade de percepção estão sendo refinados à luz dos princípios ocidentais. Suas concepções, sua moralidade, sua economia, sua vida social, sua política e todas as demais coisas estão sendo tingidas pelas cores do Ocidente. Na mente e no coração das novas gerações de muçulmanos, arraiga-se a ideia de que o sistema de vida recebido do Ocidente é o verdadeiro sistema de vida. Portanto, esta derrota é, na realidade, a derrota dos muçulmanos — não a derrota do Islã. Infelizmente, porém, ela está sendo considerada como a derrota do Islã.
Neste grave perigo, não está cercado apenas um país. Não é apenas uma nação que enfrenta esta crise. Hoje, todo o mundo muçulmano atravessa a fase desta terrível revolução. Na realidade, desde o momento em que essa revolução começava, era dever dos ulama assumir uma atitude consciente, compreender os princípios e fundamentos da civilização que se aproximava e percorrer os países ocidentais para estudar seus conhecimentos científicos básicos. Eles deveriam ter apropriado, por meio da força do ijtihad, as descobertas científicas práticas e os processos concretos sobre os quais as nações ocidentais haviam construído seu progresso, aplicando-os adequadamente à educação e à vida social dos muçulmanos à luz dos princípios islâmicos. Dessa forma, não só se compensariam os prejuízos causados por centenas de anos de inatividade, como também o carro do Islã poderia novamente avançar em sintonia com o ritmo da época. Mas o lamentável é que os próprios ulama — salvo algumas exceções — haviam então se afastado da verdadeira consciência vital do Islã. Neles não havia força para o ijtihad, nem capacidade de reflexão e pesquisa. Sua inteligência e sua força de ação também haviam desaparecido. Não possuíam qualquer capacidade para deduzir, do Livro de Deus e da orientação ideal e prática do Mensageiro de Deus, os princípios tradicionais e dinâmicos do Islã e aplicá-los às condições transformadas da época. A enfermidade da imitação cega e rígida dos antepassados havia-se espalhado completamente entre eles. Por isso, procuravam cada coisa em livros que não eram livros divinos transcendentes ao tempo. Em todos os assuntos, dependiam de pessoas que não possuíam, como os profetas, uma visão ampla e longínqua, livre das limitações do tempo e do ambiente. Como poderiam, então, liderar os muçulmanos com êxito em circunstâncias completamente transformadas? Naquele momento, havia começado, no campo do conhecimento, da ciência e da realização prática, uma mudança tão revolucionária que somente Deus poderia contemplá-la. Mas nenhum ser humano comum possuía uma visão capaz de atravessar as camadas acumuladas ao longo das eras e alcançá-la.
É indubitável que os ulama fizeram esforços consideráveis para enfrentar a nova civilização e cultura. Mas não dispunham dos meios, recursos e equipamentos necessários para esse confronto. Pois não se pode enfrentar o dinamismo com a estagnação. Não se pode alterar o curso da época pela força da lógica. Diante das novas armas, ferramentas inúteis e enferrujadas não servem para nada. Os métodos pelos quais os ulama pretendiam liderar a nação não ofereciam qualquer possibilidade de sucesso. A nação que havia sido cercada pela torrente da civilização ocidental poderia, com os olhos vendados e os sentidos inativados, negar a existência da inundação e manter-se a salvo de sua influência por quanto tempo? Sobre a nação à qual a civilização e a cultura modernas se impunham junto com o poder do Estado, como poderia ela, derrotada e subjugada, proteger sua vida prática da influência e do domínio dessa civilização? Na realidade, nessas circunstâncias, acabou acontecendo exatamente o que tinha de acontecer. Depois de sofrer a derrota no campo político, os muçulmanos também foram lamentavelmente derrotados nos campos do conhecimento, da ciência e do tahzib wa tamaddun. Hoje podemos ver que, em todos os países do mundo muçulmano, a tempestade do ocidentalismo se espalha com a velocidade de uma epidemia. E, flutuando nessa torrente, as novas gerações de muçulmanos afastam-se cada vez mais do centro do Islã.
É lamentável que nossos ulemas ainda não tenham percebido seus erros. A orientação e a perspectiva pelas quais, no início, os ulemas aceitaram a humilhação do fracasso continuam sendo hoje, em quase todos os países muçulmanos, aquelas mesmas às quais permanecem firmemente apegados. Com exceção de algumas personalidades notáveis, a situação geral dos ulemas é que eles não fazem esforço algum para compreender o atual curso e a natureza da época, nem a nova formação da mentalidade contemporânea. Estão dispostos a manifestar todo o ódio que quiserem contra as coisas que afastam do Islã as novas gerações de muçulmanos; mas são incapazes de correr o risco necessário para remediar esse veneno. Quase sempre são incapazes de resolver os complexos problemas científicos e práticos que as circunstâncias modernas criaram para os muçulmanos. Isso ocorre porque não é possível resolver esses problemas sem ijtihad. No entanto, eles tornaram o ijtihad ilícito para si mesmos. Na verdade, o método que nossos ulemas adotam hoje para divulgar os ensinamentos do Islã e seu sistema jurídico, em vez de familiarizar as pessoas instruídas modernas com o Islã, acaba por fazê-las sentir aversão por ele. Às vezes, depois de ouvirem seus sermões e exortações ou de lerem seus escritos, chegam espontaneamente a dizer do fundo do coração: “Que Deus não permita que nenhum não muçulmano ou muçulmano desviado sequer ouça esses delírios sem sentido!” Em suma, nossos ulemas criaram ao seu redor um ambiente de duzentos anos atrás. É nesse ambiente que pensam, dentro dele vivem e de acordo com ele falam. Sem dúvida, é graças a esses homens respeitáveis que até hoje os inestimáveis tesouros do acervo do conhecimento islâmico do mundo foram preservados, e foi graças aos seus esforços que o ensino islâmico alcançou a expansão que possui. Mas a enorme distância que estabeleceram entre si mesmos e a época contemporânea é justamente o que impede o estabelecimento de qualquer relação entre o Islã e o mundo moderno. Como resultado, aqueles que avançam em direção ao ensino islâmico deixam de ser aptos para qualquer atividade no mundo; e quem deseja tornar-se apto para as atividades mundanas permanece completamente alheio ao ensino islâmico. É por isso que hoje existem no mundo muçulmano dois grupos totalmente opostos. Um deles é o porta-estandarte do conhecimento e da ciência islâmicos e da civilização islâmica, mas é incapaz de liderar os muçulmanos em todos os campos da vida. O segundo grupo, embora tenha conduzido o carro do conhecimento e da ciência, das artes e da literatura e da política dos muçulmanos, é completamente ignorante, alheio e desinformado quanto aos princípios e fundamentos do Islã, à essência da civilização islâmica e ao sistema social e às normas culturais do Islã. Há, sem dúvida, alguma luz da fé no recanto de seus corações; em todos os demais aspectos, não há diferença alguma entre eles e os não muçulmanos. Mas, como o conhecimento, a ciência e a capacidade prática estão sob o controle desse grupo, e como é em seus braços que se encontra a força para conduzir o carro, eles estão levando rapidamente todo o carro da comunidade muçulmana pelo caminho do erro e da perdição. Hoje já não há ninguém capaz de fazê-los retornar do caminho e guiá-los para a senda correta.
Observo esta situação e consigo ver com meus próprios olhos suas terríveis consequências. Embora eu não possua o conhecimento, a inteligência, a experiência e a capacidade necessárias para exercer a liderança, nem tenha força para reformar uma nação tão grande em um ambiente tão deformado, Deus colocou uma dor em meu coração. Essa dor obrigou-me a usar o pouco conhecimento e discernimento que Ele hoje me concedeu para convocar os dois grupos de muçulmanos a voltarem sua atenção para a fonte verdadeira e genuína do ensino e da cultura islâmicos, e a prosseguirem em seus esforços sem se importar com o sucesso ou o fracasso. Diante da grandeza da tarefa e da minha própria fraqueza, meu esforço parece insignificante até para mim mesmo; mas o sucesso e o fracasso estão inteiramente nas mãos do Deus Todo-Poderoso. Meu dever é apenas continuar tentando. Por isso, na medida das minhas possibilidades, desejo ampliar o alcance dos meus esforços.
(Tarjumān al-Qurʾān: outubro de 1935)
4
A lei humana versus a lei de Deus
Em dezembro de 1933, a lei de proibição das bebidas alcoólicas na América foi oficialmente revogada. Como resultado, depois de quase quatorze anos, os habitantes do mundo civilizado atravessaram novamente os limites da insipidez e entraram no território do sabor. Na verdade, a posse da presidência dos Estados Unidos pelo Sr. Roosevelt foi o anúncio inicial da vitória do sabor sobre a insipidez. Em abril de 1933, por meio de uma lei, foram legalizadas as bebidas com 3,2% de álcool. Poucos meses depois, a Décima Oitava Emenda à Constituição dos Estados Unidos foi revogada. De acordo com essa emenda, haviam sido proibidos, dentro dos limites dos Estados Unidos, a compra e venda de bebidas alcoólicas, sua importação e exportação e sua fabricação clandestina.
Na realidade, este foi o maior esforço já empreendido por meio da lei para reformar a moralidade e a sociedade. Não se encontra na história do mundo nenhum exemplo de esforço tão grandioso. Antes da Décima Oitava Emenda, uma organização chamada “Liga Antissaloon” passou vários anos tentando fixar nas mentes dos americanos os malefícios do álcool por meio de jornais e revistas, discursos, declarações, panfletos, desenhos, gravuras, lanternas mágicas, filmes e inúmeros outros recursos. Nessa imensa campanha de propaganda, a organização lançou uma torrente de dinheiro como se fosse água. Estima-se que, desde o início do movimento até 1926, somente a propaganda tenha consumido 65 milhões de dólares, e que o número total de páginas das obras publicadas contra o álcool tenha chegado a cerca de 9 bilhões!
Além disso, foi mencionado que, durante os quatorze anos de aplicação da lei de proibição do álcool, o enorme custo suportado pelo povo americano totalizou aproximadamente 650 milhões de libras. Ademais, as estatísticas recentemente divulgadas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, referentes ao período de janeiro de 1920 a outubro de 1933, revelam que, na aplicação dessa lei, ao todo duzentas pessoas foram mortas, 534.335 foram presas, foram impostas multas no valor de 16 milhões de libras e foram confiscados bens no valor de 404 milhões de libras.
Esta terrível perda de vidas e bens foi tolerada para que a chamada nação “civilizada” do século XX, cujo sol do conhecimento havia alcançado o zênite, fosse informada dos incontáveis danos espirituais, morais e físicos provenientes da fonte da depravação. Contudo, anos de esforços contínuos antes e depois da proibição — nos quais até mesmo o poder governamental participou — fracassaram diante da determinação da nação americana em relação ao consumo de álcool e, por fim, a “maior tentativa de reforma da história mundial” foi frustrada.
A razão desse fracasso da tentativa de combater o consumo de álcool e da revogação da lei proibitiva não é, de modo algum, que os malefícios do álcool, contra os quais haviam sido empregados propaganda e força legal, tenham agora se tornado benéficos, ou que alguma descoberta científica tenha provado serem errôneas as concepções anteriormente anunciadas; pelo contrário, com base em experiências hoje mais amplas e numerosas do que antes, reconhece-se atualmente esta verdade: a prostituição, o adultério, o homossexualismo, o roubo, o jogo, o homicídio e outros crimes morais semelhantes são os parentes mais próximos desse centro do pecado. Além disso, ele desempenha um papel imenso na destruição da moralidade, da saúde, da economia e da vida social das nações ocidentais. Ainda assim, o governo americano foi obrigado a revogar sua lei e a tornar halal o que era haram, porque a grande maioria da nação americana não estava de modo algum disposta a abandonar o álcool. Assim, a opinião pública americana que, quatorze anos antes, havia declarado o álcool haram voltou a empenhar-se para torná-lo halal.
Até onde sabemos, nenhum defensor ferrenho das bebidas alcoólicas foi capaz, até hoje, de negar os danos do consumo de álcool, nem os opositores da lei proibitiva conseguiram apresentar uma lista de “bênçãos do álcool” que pudesse ser considerada minimamente significativa em comparação com seus danos. Quando a Décima Oitava Emenda Constitucional, apoiada pela opinião pública, foi apresentada no Congresso americano, todos os aspectos da “sobriedade” e do “mar de bebidas” foram analisados minuciosamente. E foi tendo em vista esses danos e malefícios que o Congresso aprovou o projeto da referida emenda. Quarenta e seis estados apoiaram a emenda, e a Câmara dos Representantes e o Senado aprovaram a lei proibitiva de acordo com ela. Tudo isso foi realizado conforme a vontade da nação americana e, enquanto a questão da proibição se limitou aos documentos e ao discurso popular, toda a nação a apoiou alegremente. Porém, assim que a proibição foi aplicada na prática, a fisionomia de toda a nação americana mudou. Depois de passar uma única noite sem depravação, a nação mais civilizada, instruída, consciente, amante da verdade e progressista do mundo enlouqueceu completamente e, tomada pela emoção da separação, começou a praticar atos tais que surgiu a dúvida de que essa nação talvez realmente fosse, como os amantes imaginários da poesia oriental, bater a própria cabeça até despedaçá-la.
Como resultado, assim que os estabelecimentos de bebidas autorizados foram fechados, inúmeros bares clandestinos foram estabelecidos por todo o país. Nesses locais, adotavam-se métodos variados para consumir e comercializar álcool, ludibriando a vigilância da lei. Se alguém informasse a um amigo ou ente querido sobre esses bares clandestinos e seus sinais específicos, isso era considerado um favor especial. Antes, o governo podia acompanhar o número de estabelecimentos licenciados, os tipos de bebidas neles consumidos e a situação das pessoas que os frequentavam. Mas esses antros de depravação estavam fora do alcance do controle governamental. Seu número era várias vezes maior que o dos bares autorizados existentes antes da proibição. Além disso, nesses locais começou a ser vendida bebida de qualidade inferior, extremamente prejudicial à saúde. Com isso, aumentou muito a frequência de meninos e meninas menores de idade. Ao observar as terríveis consequências, os círculos esclarecidos dos Estados Unidos ficaram profundamente preocupados. O preço do álcool subiu várias vezes em relação ao período anterior. A venda de bebidas tornou-se um negócio altamente lucrativo. Consequentemente, milhões de pessoas se dedicaram a esse comércio. Por outro lado, além dos bares clandestinos, surgiu um número incontável de vendedores ambulantes de bebidas. Esses bares móveis chegavam a escolas e faculdades, repartições e tribunais, hotéis e restaurantes, centros de diversão e até às casas das pessoas, vendendo álcool e conquistando novos clientes. Estimou-se que, depois da proibição, o número de vendedores de bebidas nos Estados Unidos aumentou pelo menos dez vezes em relação ao período anterior. Além disso, esse comércio ultrapassou os limites das cidades e se expandiu até as zonas rurais. Fábricas clandestinas para a produção de bebidas alcoólicas foram instaladas de casa em casa. Antes da proibição, havia nos Estados Unidos apenas quatrocentas fábricas autorizadas de destilação de bebidas alcoólicas. Nos apenas sete anos seguintes à proibição, 79.437 proprietários de fábricas foram presos e 93.831 lojas de bebidas foram confiscadas. Apesar de tudo isso, o comércio de álcool não diminuiu nem um pouco. Em uma declaração, um ex-comissário do Departamento de Repressão às Atividades Ilegais afirmou: “Conseguimos capturar apenas um décimo de todas as fábricas e lojas”.
Desse modo, a quantidade de álcool consumida no país aumentou de maneira anormal. Estimou-se que, durante o período da proibição, o povo americano se habituou a consumir 200 milhões de galões de álcool por ano. Essa quantidade era muito maior que a consumida antes da proibição.
O álcool consumido em quantidade tão imensa era, quanto à qualidade, extremamente inferior e prejudicial à saúde. A opinião dos médicos a esse respeito é a seguinte: “Seria mais razoável chamar esta substância de veneno do que de bebida alcoólica. Pois, assim que desce pela garganta, seus efeitos tóxicos começam a atingir o fígado e o cérebro. Esses dois órgãos permanecem afetados por ela durante até dois dias. Sob seu efeito, a pessoa deixa de estar apta a qualquer pensamento ou ação virtuosos; ao contrário, seu caráter e sua natureza são impelidos para a desordem, a indisciplina e a tendência ao crime.
Como consequência do consumo excessivo desse tipo de álcool, a saúde física dos americanos foi completamente destruída. Por exemplo, as estatísticas da cidade de Nova York mostram que, antes da proibição, em 1918, o número de pessoas doentes em decorrência do álcool era de 3.741, e o número de mortos era de 252. Já em 1926, o número de doentes chegou a 11 mil, e o de mortos alcançou 7.500. Além desses, é impossível estimar o número daqueles que morreram ou ficaram como mortos-vivos por terem sido diretamente afetados pelo álcool.
Da mesma forma, a criminalidade, especialmente a tendência ao crime entre adolescentes e jovens, aumentou de maneira anormal. Uma declaração de juízes americanos afirmou: “Em toda a nossa história, nunca se encontrou um exemplo de prender tantos adolescentes em estado de embriaguez”. Depois que a tendência ao crime entre adolescentes e menores de idade aumentou excessivamente, também foi realizada uma investigação sobre os jovens. Como resultado, comprovou-se que, desde 1920, o consumo de álcool e a delinquência na sociedade vinham aumentando enormemente a cada ano. Em algumas cidades, chegaram até a aumentar 200% em oito anos. Em 1933, o diretor do Conselho Nacional de Crimes dos Estados Unidos (National Crime Council), o coronel Moss (Col. Moss), divulgou esta informação: “Atualmente, uma em cada três pessoas nos Estados Unidos é criminosa profissional. Além disso, os crimes de homicídio aumentaram aqui em 300%”.
Em suma, o resumo aproximado dos resultados que a proibição do álcool produziu na América ao longo de quatorze anos é o seguinte:
– O respeito pela lei desapareceu da mente das pessoas, e a enfermidade da violação das leis espalhou-se por todos os estratos da sociedade.
– O objetivo real da proibição do consumo de álcool não foi alcançado; pelo contrário, depois que ele foi proibido, passou a ser consumido em quantidade ainda maior do que antes.
– A aplicação da lei de proibição causou, por um lado, enormes perdas financeiras ao governo e, por outro, ao povo em geral, devido à compra clandestina de álcool; desse modo, a espinha dorsal de todo o país foi quebrada.
– A incidência de doenças, a deterioração da saúde, o aumento da mortalidade, a ruína do caráter público, a propagação do vício e do pecado em todos os estratos da sociedade, especialmente entre as novas gerações, e as atividades criminosas aumentaram de maneira anormal.
Esses foram os resultados morais e civilizacionais da referida lei.
Esses resultados foram alcançados em um país considerado o mais civilizado na era iluminada do século XX. Seus habitantes receberam educação e treinamento de alto nível. Suas mentes eram iluminadas pela luz do conhecimento, da ciência e da inteligência. Eles eram plenamente capazes de compreender o que lhes era bom ou mau e quais eram seus ganhos e perdas.
Esse resultado veio à luz numa situação em que, depois de gastar milhões e milhões e publicar centenas de milhões de jornais, revistas e livros, toda a nação havia sido conscientizada sobre os malefícios do álcool.
Esse resultado veio à luz em uma situação na qual uma grande maioria da nação americana havia sentido a necessidade da proibição, e a lei proibitiva fora aprovada de acordo com a sua vontade.
Além disso, esse desfecho se manifestou numa situação em que um vasto Estado como a América permaneceu firme durante nada menos que catorze anos, com o auxílio do mais avançado aparato governamental do século XX, para erradicar o consumo e a venda de bebidas alcoólicas.
Na verdade, até que esse resultado se tornasse evidente, a maioria tanto do governo quanto do povo era favorável à proibição do consumo de bebidas alcoólicas, e foi por isso que ele foi proibido. Mas, quando se constatou que os habitantes do país não estavam de modo algum dispostos a abandonar o consumo de bebidas alcoólicas e que, ao serem forçados a renunciá-lo, a situação havia ficado pior do que antes, o mesmo governo e a maioria da população chegaram novamente a um consenso em favor da legalização das bebidas alcoólicas.
Agora, voltemos nosso olhar para um país cujos habitantes, há cerca de mil e trezentos e cinquenta anos, numa era de trevas — considerada a mais obscura de todas — eram iletrados. Entre eles não havia sequer vestígio de conhecimento, ciência ou artes. Nada sabiam sobre civilização e cultura. Talvez se encontrasse uma pessoa alfabetizada em cada dez mil, e mesmo o nível dessa pessoa era tão baixo que uma pessoa comum de hoje possui mais conhecimento do que ela. Naquela época, não existiam de modo algum as instituições organizacionais, os meios e os recursos da era atual. O aparato administrativo do Estado encontrava-se num estágio absolutamente rudimentar, e, desde a sua implantação, não haviam transcorrido mais que alguns anos. O povo daquela época era apaixonadamente devotado às bebidas alcoólicas. Em sua língua, havia cerca de duzentos e cinquenta nomes para elas. É provável que nenhuma outra língua do mundo tivesse tantos nomes para essa bebida. Isso era uma prova de seu apego às bebidas alcoólicas. Outra prova disso encontra-se em sua literatura poética. Dela se sabe que o consumo de bebidas alcoólicas lhes era habitual e era considerado indispensável à sua subsistência.
Nessa situação, surgiu ali a questão das bebidas alcoólicas. Perguntaram ao Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, qual era a determinação da Shariah a esse respeito. Ele respondeu: “A palavra de Allah é a seguinte:”
(Árabe)
Significado: “Eles te perguntam sobre as bebidas alcoólicas e o jogo. Dize: ‘Em ambos há grandes males e também alguns benefícios para as pessoas. Mas o mal de ambos é muito maior que o benefício.’” (Surata Al-Baqara: 219)
Isso não era uma determinação sobre as bebidas alcoólicas; antes, descrevia sua natureza e suas qualidades, afirmando que nelas estavam presentes tanto o bem quanto o mal. Contudo, o aspecto negativo era muito mais forte. Como resultado dessa declaração instrutiva, uma parte da nação abandonou imediatamente o consumo de bebidas alcoólicas. Apesar disso, os consumidores de bebidas alcoólicas continuaram sendo a maioria.
Depois, voltou-se a perguntar sobre o vinho, pois algumas pessoas, ao rezarem em estado de embriaguez, cometiam erros. Nessa ocasião, o Nobre Mensageiro (s.) transmitiu este mandamento de Allah:
Significado: “Ó crentes! Não vos aproximeis da oração enquanto estiverdes embriagados; (deveis orar quando) souberdes o que dizeis.” (Surata An-Nissá: 43)
Assim que ouviram essa ordem, as pessoas determinaram horários específicos para beber. Desde então, em geral, passaram a beber entre o Fajr e o Zuhr ou depois do Isha, para não terem de rezar embriagadas nem correrem o risco de abandonar a oração por causa da embriaguez.
Mas o verdadeiro aspecto nocivo do vinho ainda não havia sido revelado. Em estado de embriaguez, as pessoas frequentemente provocavam tumultos e desordens, cujas consequências chegavam até ao homicídio. Por isso, tornou-se necessário transmitir uma instrução clara e definitiva a esse respeito. Então foi dito:
(Árabe)
Significado: “Ó crentes! O vinho, o jogo de azar, os ídolos, os jogos de dados e semelhantes são atos imundos inventados por Satanás; portanto, evitai-os. Talvez, por meio dessa abstinência, sejais bem-sucedidos. Satanás deseja, por meio do vinho e do jogo de azar, suscitar entre vós inimizade e rancor e afastar-vos da recordação de Allah. Mesmo depois de saberdes disso, não vos abstereis deles? Obedecei a Allah, escutai o Mensageiro e abstende-vos. Mas, se desobedecerdes, sabei que a função do Meu Mensageiro é apenas transmitir claramente a instrução.” (Surata Al-Máida: 90–91)
Assim que essa instrução chegou, os apreciadores e amantes do vinho, que estavam dispostos a sacrificar a própria vida por ele, passaram a sentir aversão por essa bebida. Logo que ouviram o anúncio sobre a proibição do vinho, os recipientes foram quebrados. Um fluxo de vinho percorreu as vielas de Medina. Em uma reunião, dez ou onze Companheiros haviam bebido vinho e estavam completamente embriagados. Nesse momento, chegou aos seus ouvidos a voz do anunciador do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, informando que o vinho fora proibido para sempre. Mesmo sob o efeito da embriaguez, demonstraram tamanho respeito pelo mandamento divino que os Companheiros imediatamente pararam de beber e quebraram completamente os recipientes. Certa pessoa estava sentada em algum lugar bebendo vinho. Tinha acabado de levar a taça aos lábios quando alguém chegou e lhe recitou o versículo que proibia o vinho. Imediatamente, a taça se afastou de sua boca, e ele não conseguiu engolir sequer uma gota de vinho.
Depois disso, todo aquele que bebia vinho era punido com sapatos, bastões, pontapés, socos e coisas semelhantes. Mais tarde, como punição, passaram a ser aplicadas quarenta chibatadas. Por fim, foi estabelecida a pena de oitenta chibatadas. Assim, até o menor vestígio do consumo de vinho desapareceu da Arábia. Depois disso, onde quer que o Islã tenha chegado, ele naturalmente tornou os diversos povos ‘abstêmios’ e piedosos. Mesmo hoje, apesar de a influência do Islã ser extremamente fraca, centenas de milhões de pessoas em todo o mundo continuam a rejeitar completamente o vinho sem qualquer ‘lei proibitiva’ ou código penal. Se fosse contado o número de bebedores entre a nação muçulmana, talvez ainda hoje ela se mostrasse mais piedosa do que as demais nações do mundo. Além disso, aqueles entre essa nação que bebem também consideram isso um pecado gravíssimo. Seus corações se arrependem por causa disso e, muitas vezes, abandonam por si mesmos esse mau hábito, fazendo tawba.
Com efeito, no mundo da justiça, da ética e da razão, a decisão final depende da experiência e da observação. Jamais se pode provar que o testemunho delas é falso. Aqui estão diante de todos duas experiências: uma da América e a segunda do Islã. A diferença entre ambas é evidente. Compará-las e aprender com elas é dever de toda pessoa inteligente.
Na América, durante anos e anos, foram realizadas campanhas contra o álcool. Gastaram-se milhões e milhões na divulgação e na demonstração de seus malefícios. Por meio da ciência médica, de provas estatísticas e de argumentos, seus danos físicos, morais e financeiros foram demonstrados de tal maneira que era absolutamente impossível negá-los. Com o auxílio de imagens, seus malefícios foram apresentados de modo que pudessem ser vistos com os próprios olhos. Empregaram-se todos os esforços para que o povo, compreendendo por si mesmo os danos do álcool, se dispusesse a abandoná-lo. Além disso, o órgão mais representativo da nação, o Congresso, decidiu proibir o álcool por esmagadora maioria e aprovou as leis necessárias para isso. Por fim, o governo — um dos maiores poderes do mundo naquela época — empregou toda a sua força para impedir sua compra e venda, sua produção clandestina e sua importação e exportação. Mas a nação — então líder entre as nações instruídas e esclarecidas — não concordou em abandoná-lo. Finalmente, em um breve período de catorze ou quinze anos, foram obrigados a tornar novamente lícito o que era haram.
Por outro lado, no Estado islâmico, não foi realizada nenhuma campanha contra o álcool. Não se gastou sequer um centavo em propaganda. Não foi formada nenhuma “Liga Antissalões”. Ali, o Mensageiro de Allah limitou-se a dizer: “Allah tornou o álcool haram para vocês.” Assim que essa ordem saiu de sua boca, toda a nação — uma nação ainda mais avançada que a América no amor ao álcool, e à qual ninguém se igualava em conhecimento técnico e inteligência — absteve-se de beber. Abandonaram o álcool de tal maneira que, permanecendo dentro dos limites do Islã, tornou-se impossível para eles retornar da “ausência de prazer” ao “mar do prazer”. Além disso, para mantê-los nessa “ausência de prazer”, não foi necessário nenhum regulamento, interrogatório ou código penal. Pois eles se manteriam afastados da bebida mesmo sem a presença de qualquer força coercitiva. E, acima de tudo, não se tratava de algo haram que pudesse de algum modo voltar a ser halal. Mesmo que todos os muçulmanos do mundo votassem unanimemente a favor do álcool, esse haram jamais poderia tornar-se halal.
Ao investigar a causa dessa enorme diferença, descobrem-se algumas questões importantes. Essas questões não se aplicam apenas ao álcool; pelo contrário, são princípios fundamentais aplicáveis a todas as questões da legislação e da ética.
A primeira questão é que existe uma diferença fundamental entre o Islã e o sistema de leis mundano na organização e na condução dos assuntos humanos. O sistema de leis mundano baseia-se inteiramente na opinião humana. Por essa razão, não apenas nas questões gerais e fundamentais, mas também em cada mínimo detalhe, ele é obrigado a recorrer à opinião das pessoas comuns ou das pessoas de destaque. E a condição da opinião humana — seja a das pessoas comuns ou a das pessoas de destaque — é que, a cada momento, ela continua sendo influenciada pelas tendências e inclinações internas, pelas causas e circunstâncias externas e pelas orientações mutáveis do conhecimento e da razão — sem que haja qualquer garantia de que estas sejam sempre corretas. Como resultado dessa influência, surgem constantes mudanças no pensamento e na perspectiva. O resultado inevitável dessas mudanças é que os critérios do bom e do mau, do certo e do errado, do lícito e do ilícito, do haram e do halal continuam mudando. E, em consequência dessas mudanças, a mudança das leis também se torna inevitável. Assim, não se pode estabelecer ali nenhum critério permanente, sólido e imutável de moralidade e civilização. A diversidade humana exerce autoridade sobre a lei, e a diversidade da lei exerce autoridade sobre a vida humana. O exemplo disso é como se um motorista inexperiente estivesse dirigindo um carro. Com suas mãos imaturas, ele gira irregularmente o volante para um lado e para o outro. Como resultado dessa condução irregular, o movimento do carro também será irregular e imprevisível. Ele não conseguirá seguir firmemente por uma estrada determinada. E, quando o carro continuar avançando de modo desordenado, o próprio motorista será afetado. Às vezes seguirá por uma estrada reta, e outras vezes por uma estrada sinuosa. Às vezes cairá num buraco, e outras vezes colidirá com um muro. Outras vezes, ao avançar por um caminho elevado e baixo, áspero e acidentado, tropeçará.
Em contraste, todo o fundamento da lei e da ética islâmicas, bem como a maioria de seus pormenores, foi determinado por Allah e pelo Mensageiro. Ali não há o menor espaço para a opinião humana. Contudo, diante das condições mutáveis da vida, o ser humano tem o direito de formular novas leis para questões menores, conforme a necessidade, com base nessas normas fundamentais e nesses exemplos detalhados. Mas essas leis também devem necessariamente ser formuladas à luz dos princípios da Sharia. Na realidade, é precisamente graças a essa lei divina que possuímos um critério permanente e imutável de moralidade e civilização. Em nosso sistema moral e social não há sequer o menor vestígio de diversidade ou de orientações divergentes. O que ontem era haram para nós não pode tornar-se halal hoje e voltar a ser haram amanhã. Aqui, aquilo que foi declarado haram é haram para sempre, e aquilo que foi declarado halal permanecerá halal até o Dia do Juízo. Entregamos o volante de nosso carro às mãos de um motorista habilidoso e experiente. Estamos tranquilos quanto ao fato de que ele conduzirá nosso carro pelo caminho reto:
يُثَبِّتُ اللَّهُ الَّذِينَ آمَنُوا بِالْقَوْلِ الثَّابِتِ فِي الْحَيَاةِ الدُّنْيَا وَفِي الْآخِرَةِ ۖ وَيُضِلُّ اللَّهُ الظَّالِمِينَ ۚ وَيَفْعَلُ اللَّهُ مَا يَشَاءُ
Significado: Allah concede aos crentes firmeza e estabilidade na vida deste mundo e na vida do Além por meio de uma palavra segura, e desvia os injustos e desobedientes, para que não possam alcançar estabilidade em lugar algum.” (Surata Ibrahim: 27)
Nisso está contida ainda outra questão importante. Isto é: num Estado materialista, para formular qualquer sistema de normas para a vida humana, ou para tomar qualquer medida prática destinada a reformar o caráter moral, a organização social e a estrutura civilizacional, é preciso aguardar o consentimento do povo até mesmo nos mínimos detalhes. Para pôr em prática cada artigo de suas leis e regulamentos, é necessário depender da opinião pública. Qualquer reforma ou lei construtiva que seja aplicada contra a opinião do povo acaba, no fim, tendo de ser revogada. Isso não é apenas a experiência da América; antes, toda a experiência do mundo testemunha esse fato. Disso se prova claramente que, na reforma do caráter humano e da organização social, a lei terrena é completamente impotente e inadequada. Pois essa lei tenta reformar uma coletividade corrompida e, para sua aprovação, desaprovação, retorno ou revogação, também precisa depender dessa mesma opinião pública.
O Islã resolveu essa complexidade por outro meio; e, refletindo um pouco mais profundamente, verá que, além dele, não há outra solução para esse problema. O ponto é que, antes de levantar questões relativas ao caráter moral, à política social e à civilização, e de exigir obediência às normas da Sharia, ele convida toda a humanidade a crer em Allah, em Seu Mensageiro e em Seu Livro. Naturalmente, crer ou não crer depende da vontade humana. Mas, depois de abraçar a fé, já não há lugar para a questão de sua vontade ou falta de vontade. Daí em diante, qualquer ordem que o Mensageiro transmita da parte de Allah e qualquer lei que o Livro de Allah estabeleça tornam-se obrigatoriamente vinculantes para essa pessoa. Depois de estabelecida essa base, todo o sistema de normas da Sharia islâmica será aplicado a ela. A partir de então, já não haverá lugar para sua vontade ou falta de vontade, seja em questões secundárias, seja em questões fundamentais. É por isso que aquilo que não foi possível realizar na América, apesar do desperdício de centenas de milhões, de uma propaganda incomparável e dos esforços imensuráveis do poder estatal, foi realizado no Estado islâmico por uma única declaração do Mensageiro da parte de Allah.
A terceira lição é que, por mais iluminada que uma sociedade humana seja pelo esplendor do conhecimento, da ciência e das artes, e por mais que alcance os cumes do progresso intelectual, jamais poderá libertar-se das garras de seus instintos desenfreados se não obedecer às leis divinas e não possuir em seu interior a força da fé. O desejo irresistível dos instintos se apoderará dela. Assim, mesmo que se demonstre com uma clareza mais brilhante que a luz do sol a nocividade do objeto pelo qual seus instintos se sentem atraídos; mesmo que se coloque a ciência — isto é, o objeto de adoração dos adoradores da razão — como testemunha contra ele; mesmo que se apresentem provas estatísticas contra ele — provas que, aos olhos dos cientistas, jamais podem ser falsas —; e mesmo que sua nocividade seja comprovada por meio do conhecimento obtido da experiência e da observação, ela jamais abandonará esse objeto amado. Disso fica claro que incutir consciência moral no ser humano, orientar sua razão e consciência e criar nele a força capaz de subjugar seus próprios instintos não são tarefas da filosofia, da ciência ou do intelecto. Essa tarefa não pode ser realizada por nenhum meio além da fé. (Primeira publicação: Tarjumān al-Qur’an, janeiro de 1934.)
5
O suicídio da civilização ocidental
O extraordinário desenvolvimento e progresso das nações ocidentais nos campos da política, do comércio, das artes e do conhecimento e da ciência deixou profundamente aterrorizadas as mentes de certa classe de pessoas. Surgiu em seu íntimo a ideia de que talvez o desenvolvimento e o progresso dessas nações fossem imperecíveis e indestrutíveis. Seu domínio e hegemonia no mundo haviam sido estabelecidos para sempre. No que dizia respeito ao governo da Terra e ao controle dos meios e recursos, fora-lhes concedido um verdadeiro «acordo perpétuo». Sua força e poder estavam fundamentados em bases tão sólidas que ninguém seria capaz de derrubá-los.
Na verdade, essa não é uma ideia nova; ao contrário, tal ideia foi nutrida acerca das nações poderosas de todas as épocas. A dinastia dos faraós do Egito, ‘Ad e Thamud da Arábia, os caldeus do Iraque, os reis sassânidas do Irã, os heróis conquistadores da Grécia, os célebres imperadores de Roma, os mujahidin muçulmanos conquistadores do mundo, os exércitos mundialmente famosos dos tártaros e outros semelhantes — todos eles exibiram no palco deste mundo o mesmo espetáculo de glória e poder. Sucessivamente, cada um deles demonstrou sua própria habilidade de prestidigitação e, da mesma maneira, deixou maravilhado o povo do mundo. Sempre que uma nação ergueu a cabeça, espalhou-se assim sobre o mundo. Dessa forma, fez ressoar por toda parte o tambor de sua fama, glória e bravura, e assim o povo do mundo passou a imaginar que sua força e poder eram imperecíveis e indestrutíveis. Porém, quando sua duração chegou ao fim e o Imperador, detentor de um poder imperecível e indestrutível, decretou o término de sua autoridade, sua queda foi tal que a maioria dessas nações desapareceu da face da Terra. Mesmo que o nome e os vestígios de algumas ainda permaneçam no mundo, elas sobrevivem sob o domínio daqueles que antes governavam, como escravas de escravos e subjugadas entre os subjugados:
قَدْ خَلَتْ مِن قَبْلِكُمْ سُنَنٌ فَسِيرُوا فِي الْأَرْضِ فَانظُرُوا كَيْفَ كَانَ عَاقِبَةُ الْمُكَذِّبِينَ
Significado: Muitas eras passaram antes de vós. Percorrei a terra e vede qual foi o fim daqueles que negaram (a lei de Allah)! (Surata Al Imran: versículo 137)
Com efeito, toda a organização do universo possui uma característica tal que nela não há espaço para estabilidade ou pausa. Nela existem movimento, mudança e alternância incessantes. Ela não permite que coisa alguma permaneça numa única condição. Nela, a criação e a dissolução, a destruição e a construção, a ascensão e a queda caminham de mãos dadas. Do mesmo modo, também vigora a regra inversa. Hoje, uma semente do tamanho de uma pequena ervilha vagueia, levada pela força do vento; amanhã, ela se fixa no solo e se transforma numa árvore gigantesca, com grandes galhos e ramificações. No dia seguinte, porém, seca e se mistura completamente à terra. Depois, as forças vivificantes da natureza abandonam-na e dedicam-se a nutrir alguma outra semente. Essa é a lei da destruição e construção, da ascensão e queda da vida. Mas, quando o ser humano vê qualquer uma dessas condições perdurar um pouco mais, imagina que ela será absolutamente permanente. Se a condição for descendente, pensa que permanecerá assim para sempre. Se for ascendente, julga que continuará ascendente eternamente. A única diferença aqui é entre o que demora e o que ocorre prontamente; na realidade, nenhuma condição é permanente:
إِن يَمْسَسْكُمْ قَرْحٌ فَقَدْ مَسَّ الْقَوْمَ قَرْحٌ مِّثْلُهُ ۚ وَتِلْكَ الْأَيَّامُ نُدَاوِلُهَا بَيْنَ النَّاسِ وَلِيَعْلَمَ اللَّهُ الَّذِينَ آمَنُوا وَيَتَّخِذَ مِنكُمْ شُهَدَاءَ ۗ وَاللَّهُ لَا يُحِبُّ الظَّالِمِينَ
Significado: Faço circular entre os seres humanos a ascensão e a queda dos tempos. (Surata Al Imran: versículo 140)
Todo o ambiente do mundo gira dentro de um determinado ciclo de movimento. Nascimento e morte, juventude e velhice, força e fraqueza, inverno e primavera, aridez e vitalidade: tudo isso são apenas diferentes formas desse ciclo. Nesse curso alternado, cada coisa tem, por sua vez, o seu período favorável. Então começam o seu desenvolvimento e crescimento; manifestam-se a sua força e bravura, e ela revela o ápice da sua forma e beleza. Um dia, chega até mesmo ao extremo do progresso e do desenvolvimento. Nesse momento, torna-se débil, diminuta, fraca e incapaz, e as mesmas forças que haviam iniciado o seu desenvolvimento e crescimento acabam por destruí-la.
Esta é a lei estabelecida por Allah, o Altíssimo, em toda a criação. Assim como para todas as outras coisas do mundo, essa lei também se aplica plenamente aos seres humanos. Seja considerada individualmente ou do ponto de vista das nações, a honra e a humilhação, a felicidade e a tristeza, o progresso e o declínio, bem como todos os demais sinais desse tipo, continuam a distribuir-se entre diferentes indivíduos e nações de acordo com esse curso. Não há aqui ninguém que, nessa distribuição, tenha sido completamente privado de tudo, nem ninguém sobre quem alguma condição tenha sido tornada permanente. Seja nos tempos favoráveis ou nos tempos difíceis, isso jamais foge à regra:
سُنَّةَ اللَّهِ فِي الَّذِينَ خَلَوْا مِن قَبْلُ ۖ وَلَن تَجِدَ لِسُنَّةِ اللَّهِ تَبْدِيلًا
Significado: Esta era a prática de Allah em relação àqueles que existiram anteriormente. Jamais encontrarás mudança na prática de Allah. (Surata Al Ahzab: versículo 62)
Em todos os recantos desta terra, vemos muitos vestígios das nações do passado. Elas deixaram abundantes monumentos de sua cultura e civilização, de suas obras artísticas e de sua habilidade técnica. Ao observar esses vestígios, parece que elas não eram de modo algum inferiores às nações progressistas e poderosas de hoje; pelo contrário, sua influência e seu prestígio sobre as nações contemporâneas eram ainda maiores que os destas:
أَوَلَمْ يَسِيرُوا فِي الْأَرْضِ فَيَنظُرُوا كَيْفَ كَانَ عَاقِبَةُ الَّذِينَ مِن قَبْلِهِمْ ۚ كَانُوا أَشَدَّ مِنْهُمْ قُوَّةً وَأَثَارُوا الْأَرْضَ وَعَمَرُوهَا أَكْثَرَ مِمَّا عَمَرُوهَا وَجَاءَتْهُمْ رُسُلُهُم بِالْبَيِّنَاتِ ۖ فَمَا كَانَ اللَّهُ لِيَظْلِمَهُمْ وَلَٰكِن كَانُوا أَنفُسَهُمْ يَظْلِمُونَ
Significado: Elas eram mais poderosas do que estas. Cultivaram a terra diligentemente e a desenvolveram mais do que estas o fizeram.” (Surata Ar-Rum: versículo 9)
Mas, ainda assim, qual foi o seu destino? Embriagadas pela aparente boa fortuna, foram enganadas. A riqueza e o luxo ostensivo lançaram-nas no abismo da arrogância. O conforto tornou-se para elas uma calamidade (fitna). Orgulhosas de sua influência e do poder estatal, transformaram-se em personificações da iniquidade. Assim, por meio de suas próprias más ações, começaram a cometer injustiça contra si mesmas:
فَلَوْلَا كَانَ مِنَ الْقُرُونِ مِن قَبْلِكُمْ أُولُو بَقِيَّةٍ يَنْهَوْنَ عَنِ الْفَسَادِ فِي الْأَرْضِ إِلَّا قَلِيلًا مِّمَّنْ أَنجَيْنَا مِنْهُمْ ۗ وَاتَّبَعَ الَّذِينَ ظَلَمُوا مَا أُتْرِفُوا فِيهِ وَكَانُوا مُجْرِمِينَ
Significado: E os injustos estavam entregues ao desfrute das coisas que lhes haviam sido concedidas em abundância. E eram grandes criminosos.” (Surata Hud: versículo 116)
Apesar de sua rebelião e desobediência, Allah concedeu-lhes um prazo:
وَكَأَيِّن مِّن قَرْيَةٍ أَمْلَيْتُ لَهَا وَهِيَ ظَالِمَةٌ ثُمَّ أَخَذْتُهَا وَإِلَيَّ الْمَصِيرُ
Significado: Quantas cidades havia que eram injustas. Primeiro, concedi-lhes prazo; depois, apanhei-as. (Surata Al-Hajj: versículo 48)
E esse prazo tampouco era um prazo comum; pelo contrário, a várias nações foi concedido prazo durante séculos. Mas cada prazo acabou se tornando, para elas, uma nova calamidade:
وَيَسْتَعْجِلُونَكَ بِالْعَذَابِ وَلَن يُخْلِفَ اللَّهُ وَعْدَهُ ۚ وَإِنَّ يَوْمًا عِندَ رَبِّكَ كَأَلْفِ سَنَةٍ مِّمَّا تَعُدُّونَ
Significado: Mas, para Allah, um dia equivale a mil anos da vossa contagem. (Surata Al-Hajj: versículo 47)
Eles pensaram que Allah era impotente diante da sua astúcia. Portanto, agora não era o domínio de Allah sobre o mundo, mas o deles. Porém, por fim, a ira de Deus começou a fervilhar. O Seu favor afastou-se deles. Em vez de dias prósperos, aproximaram-se dias de desgraça. Para enfrentar as suas artimanhas, Allah também empregou uma artimanha difícil. Mas eles não conseguiram perceber a artimanha de Allah; de onde poderiam oferecer resistência?
(Árabe)
Significado: Eles tramaram uma conspiração, mas Nós também havíamos planejado algo que eles nem perceberam. (Surata An-Naml: versículo 50)
O plano de Allah nunca se manifesta diretamente; ao contrário, os seus efeitos venenosos começam no interior do próprio ser humano, depois de penetrarem no seu coração e na sua mente. Ele ataca a consciência, a inteligência, os sentimentos, o discernimento, a capacidade de pensar e a compreensão do ser humano. Cega a sua visão interior. Não cega, é verdade, os seus olhos físicos, mas cega os olhos do seu conhecimento:
(Árabe)
Significado: “Na verdade, não são os olhos que ficam cegos, mas ficam cegos os corações que estão nos peitos.” (Surata Al-Hajj: versículo 46)
Cego! E quando o olho do coração fica cego, qualquer artimanha que empregue em seu próprio benefício acaba sendo prejudicial para ele. O passo que dá, na esperança do sucesso, leva-o justamente à destruição. Todas as suas forças proclamam rebelião contra ele. Sua própria mão aperta sua própria garganta, por si mesma:
(Árabe)
Significado: Lança uma só vez o olhar e vê quão terrível foi o desfecho de sua conspiração: destruí completamente a eles e ao seu povo. (Surata An-Naml: versículo 51)
Encontramos um quadro completo desses dias de prosperidade e de adversidade na história da família do Faraó e dos Filhos de Israel. Quando os egípcios alcançaram o auge do desenvolvimento e do progresso, entregaram-se com afinco à tirania, à opressão e a atividades rebeldes. Seu rei, o Faraó, reivindicou uma condição divina. Pouco antes disso, no tempo de Hazrat Yusuf, que a paz esteja com ele, os Filhos de Israel haviam ido para lá e se estabelecido. O Faraó transformou esse povo fraco em alvo de opressão e perseguição. Por fim, a desobediência dos egípcios ultrapassou todos os limites. Por isso, Allah decidiu humilhá-los e elevar aquele povo que eles desprezavam. Finalmente, a decisão de Allah prevaleceu. Do seio daquele povo fraco nasceu Hazrat Musa, que a paz esteja com ele. Ele foi criado na casa do Faraó, pelas próprias mãos dele. Depois, foi encarregado de libertar seu povo da escravidão dos egípcios. Ele explicou gentilmente a questão ao Faraó, mas este não desistiu. Da parte de Allah, o Faraó e seu povo foram advertidos repetidas vezes; sucessivas secas e inundações os atingiram, e uma torrente de sangue caiu do céu. Os ataques de gafanhotos deixaram estéreis os campos de suas colheitas.
Eles ficaram atormentados pela infestação de piolhos e rãs. Ainda assim, sua arrogância não diminuiu nem um pouco:
(Árabe)
Significado: Eles se entregaram à arrogância, e era um povo arrogante. (Surata Al-A’raf: versículo 133)
Quando, uma após outra, todas as provas e evidências chegaram ao ponto culminante, a decisão do castigo divino foi executada. Por ordem de Allah, o profeta Moisés, que a paz esteja com ele, deixou o Egito levando consigo o seu povo. O Faraó e todo o seu séquito foram afogados no mar. Como consequência, o poder estatal do Egito ficou tão devastado que, durante vários séculos, não conseguiu voltar a erguer a cabeça:
(Árabe)
Significado: Nós capturamos ele e seu exército e, em seguida, afogamo-los no mar. Vê, então, quão terrível foi o destino desses opressores. (Surata Al-Qasas: versículo 40)
Depois chegou a vez de Israel. Após devastar o povo egípcio, o Senhor dos mundos concedeu justamente àquele povo humilhado e desonrado o poder estatal sobre a terra:
(Árabe)
Significado: E, em lugar deles, fizemos dos oprimidos herdeiros das regiões leste e oeste daquela terra, que havíamos preenchido de abundância até transbordar. Assim, por terem perseverado, cumpriu-se para os Filhos de Israel a promessa benéfica do teu Senhor. (Surata Al-A’raf: versículo 137)
E concedeu-lhe superioridade sobre todos os povos do mundo:
(Árabe)
Significado: E concedi-vos superioridade sobre todas as nações do mundo. (Surata Al-Baqara: versículo 47)
Mas essa superioridade e o poder estatal estavam condicionados à prática de boas ações e à conduta virtuosa. Já havia sido declarado, pela boca do venerável Moisés, que certamente vos seria concedida a sucessão na Terra; porém, também se observaria que tipo de ações praticaríeis (*****). Na realidade, essa condição não se aplica somente aos Filhos de Israel; antes, ela é imposta a toda nação à qual seja concedido poder estatal no mundo:
(Árabe)
Significado: Depois, fizemos-vos sucessores deles, para observar como agiríeis. (Surata Yunus: versículo 14)
Assim, quando os Filhos de Israel desobedeceram ao seu Senhor, corromperam e deturparam Sua mensagem e Sua palavra, trocaram a verdade pela mentira, adotaram os princípios do consumo do ilícito, da mentira, da deslealdade e da quebra de promessas, tornaram-se ávidos por riquezas, gananciosos, covardes e amantes do conforto, começaram a matar os profetas de Deus, iniciaram hostilidades contra os que convocavam ao caminho da verdade, mostraram-se descontentes com a liderança justa e aceitaram obedecer à liderança injusta, então a benevolência de Allah, Senhor dos Mundos, retirou-se deles. A liderança e a autoridade sobre a Terra foram-lhes arrebatadas. Foram subjugados pelos formidáveis imperadores do Iraque, da Grécia e de Roma. Foram expulsos de seus lares. Como vagabundos, foram conduzidos de país em país, em humilhação e desonra. O poder estatal foi-lhes arrancado. Durante dois mil anos, ficaram de tal modo envolvidos na maldição que não conseguiram encontrar em parte alguma do mundo sequer um lugar digno para si.
([Alguns anos após a publicação deste artigo, foi estabelecido o Estado de Israel na Palestina. Em consequência disso, pode surgir na mente das pessoas a dúvida de que isso contradiz o prognóstico do Alcorão. Mas, na realidade, esse Estado não foi estabelecido por sua própria força; antes, foi fundado dependendo dos Estados Unidos, da Inglaterra e da França, e, para mantê-lo, judeus estão vindo de todas as partes do mundo e reunindo-se nesse pequeno território. Porém, no dia em que essas potências ocidentais se envolverem em uma grande guerra e se tornarem incapazes de apoiar Israel, nesse dia a mensagem da morte descerá sobre ele, e os Estados árabes vizinhos recolherão esse invólucro de lixo e o lançarão ao mar. Na realidade, com a ajuda das potências ocidentais, os judeus conseguiram estabelecer à força seu próprio território de habitação em terras árabes; aparentemente, isso parece ser o seu sucesso. Mas, na verdade, isso não é mais que o nome de sua enorme punição])
(Árabe)
Significado: Como consequência, a humilhação, a decadência e a miséria os dominaram, e ficaram cercados pela ira de Allah. (Surata Al-Bácara: versículo 61)
Hoje, mais uma vez, podemos ver a repetição da lei divina. O mesmo destino que envolveu as nações anteriores hoje alcançou as nações ocidentais. Quase todas as advertências que lhes podiam ser feitas já foram feitas. A devastação da Grande Guerra, a calamidade econômica, o excesso de desemprego, a propagação de doenças repugnantes e o colapso da estrutura familiar são seus sinais evidentes. Se tivessem olhos, poderiam compreender, apenas ao observar essas coisas, quais são as consequências da opressão, da desobediência, da adoração de si mesmos e da distorção da verdade. Mas não estão aprendendo com esses sinais; ao contrário, tem-se observado apenas sua obstinação crescente em virar as costas à verdade. Seu olhar não alcança a causa fundamental da doença. Eles veem apenas os sintomas e empregam todos os seus esforços e cuidados em tentar remediá-los. Por isso, quanto mais remédios são aplicados, mais a doença se agrava. Agora, à luz da situação, parece que a fase das advertências e das provas argumentativas está chegando ao fim, e o momento do julgamento final está muito próximo.
O Todo-Poderoso Allah impôs duas terríveis tentações demoníacas às nações ocidentais. Elas as arrastam para a destruição e a ruína. Uma é o demônio do extermínio da descendência, e a segunda é o demônio do nacionalismo. O primeiro se apoderou dos indivíduos, e o segundo se instalou nas nações e em seus Estados. O primeiro corrompeu a consciência e a razão de seus homens e mulheres. Faz com que exterminem seus descendentes com as próprias mãos. Ensina-lhes as técnicas e os métodos de contracepção. Incita-os ao aborto. Mostra-lhes as supostas virtudes da esterilização. Como resultado, eles próprios destroem as forças de que necessitam. Isso os tornou tão desprovidos de compaixão que matam os próprios filhos. Em suma, esse demônio os induz progressivamente ao suicídio.
O segundo demônio lhes tirou, dos grandes estadistas e comandantes militares, a capacidade de adotar um pensamento correto e uma linha de ação adequada. Gerou entre eles as repugnantes inclinações do egoísmo, da rivalidade, da vingança, do ódio, da hostilidade e da ganância. Está dividindo-os em diversos grupos e facções em conflito e hostis entre si:
(Árabe)
Significado: Ou Ele vos dividirá em diversos grupos e facções e fará com que uns provem a força dos outros. (Surata Al-An’am; versículo 65)
Incitou-os a fazerem uns aos outros provar sua força e seu poder. Isso também é uma espécie de castigo divino. Em suma, preparou-os para um suicídio em massa e terrível. Isso não ocorrerá gradualmente; ao contrário, acontecerá de repente. Ele acumulou munições em todo o mundo e instalou centros de perigo em diversos lugares. Agora aguarda apenas um momento específico. Assim que esse momento chegar, fará uma faísca atingir algum depósito de munições. Então, num piscar de olhos, explodirá uma destruição tão grande que até a devastação das nações anteriores parecerá insignificante.
Não há espaço para qualquer exagero em tudo o que disse até aqui. Pelo contrário, ao verem os imensos preparativos para a Grande Guerra iminente na Europa, na América e no Japão ([aqui convém lembrar que o artigo foi escrito alguns anos antes da Segunda Guerra Mundial]), os próprios líderes previdentes dessas regiões estremeceram e, pensando nas consequências dessa guerra terrível, ficaram extremamente desorientados. Recentemente, o ex-membro do Estado-Maior Militar americano Sergel Newman (sergel neuman) escreveu um artigo sobre a guerra iminente. Nele, afirmou que a guerra iminente não seria apenas uma luta entre soldados; seria mais apropriado chamá-la de massacre em larga escala. Nessa carnificina, nem sequer mulheres e crianças seriam poupadas. Os cientistas arrancaram das mãos do exército a responsabilidade pela guerra intelectual e a entregaram às substâncias químicas e às máquinas inanimadas. Essas armas mortíferas são absolutamente incapazes de distinguir entre militares e civis. Além disso, a luta entre as potências beligerantes não ocorrerá em campos de batalha ou fortalezas, mas em cidades, portos e áreas povoadas. Pois, segundo a estratégia moderna de guerra, a verdadeira força do inimigo não está no exército, mas em suas populações, centros comerciais e fábricas. Por isso, agora serão lançadas do alto dos aviões de guerra bombas de vários tipos. Delas serão liberados materiais incendiários, gases venenosos e germes de doenças, que simultaneamente devastarão milhões de pessoas. Entre elas há um tipo de bomba automática cuja única carga pode reduzir a escombros o maior edifício de Londres ([posteriormente foram inventadas armas mortíferas ainda mais terríveis, chamadas bomba atômica e bomba de hidrogênio, e uma pequena amostra de sua devastação foi apresentada em Nagasaki e Hiroshima]). Existe um tipo de gás venenoso conhecido como gás Green Cross (green cross gas). Sua característica é que, quando entra pelo nariz de uma pessoa, ela sente como se estivesse se afogando na água. Outro tipo de gás venenoso chama-se gás Yellow Cross (yellow cross gas). Sua natureza é semelhante à do veneno de uma cobra. Quando entra pelo nariz, provoca exatamente os efeitos tóxicos de uma picada de serpente. Existem ainda muitos outros gases desse tipo. Esses gases são quase invisíveis. No início, seus efeitos não são sentidos de modo algum. Mais tarde, quando são percebidos, já não há qualquer possibilidade de reação ou tratamento. Entre eles, há um tipo especial de gás que sobe a grande altura e se espalha. Se um avião atravessar a área afetada por ele, seu piloto ficará subitamente cego. Calculou-se que, se uma tonelada de certos gases venenosos fosse liberada sobre a cidade de Paris, toda a cidade poderia ser completamente destruída em apenas uma hora. E apenas cem aviões seriam suficientes para realizar essa tarefa.
Recentemente, foi inventado um projétil elétrico incendiário. Seu peso é de apenas um quilograma. Contudo, há tanta energia dentro desse pequeno projétil que, quando ele colide com qualquer objeto, produz subitamente uma temperatura de três mil graus Fahrenheit e provoca uma explosão de fogo tão intensa que é impossível apagá-la. Quando se lança água sobre ela, esta age como a gasolina. Até hoje, a ciência não conseguiu inventar nenhum método para apagá-la. Supõe-se que ele será lançado nos grandes mercados das cidades portuárias, de modo que o fogo se espalhe de uma extremidade à outra. Depois, quando as pessoas, aterrorizadas, começarem a fugir, bombas de gás venenoso serão lançadas de aviões para completar a destruição.
Ao observar a invenção dessas armas mortíferas, especialistas militares estimaram que, com a ajuda de apenas alguns aviões bombardeiros, até a maior e mais protegida capital do mundo poderia ser reduzida a pó em duas horas. As áreas habitadas por milhões de pessoas poderiam ser envenenadas de tal maneira que, embora dormissem tranquilamente à noite, ninguém se levantaria vivo pela manhã. Desse modo, por meio de substâncias venenosas, os animais de um país inteiro poderiam ser envenenados, o gado destruído e os campos, fazendas e pomares completamente arrasados. Até hoje, não foi descoberto nenhum meio eficaz de defesa contra esse ataque destruidor. Assim, os dois lados em guerra só poderiam atacar-se mutuamente e ser completamente destruídos; ninguém poderia escapar da destruição.
Esta é uma breve descrição dos preparativos para a iminente grande guerra. Para saber mais detalhes a esse respeito, consultem o livro intitulado What would be The Character of a New War. Essa obra foi publicada pela organização denominada União Interparlamentar de Genebra, após as pesquisas e investigações habituais.
Ao ler isto, poderão facilmente compreender como a civilização ocidental reuniu com as próprias mãos os instrumentos de sua destruição. Agora, sua duração de vida se estende apenas até a data em que declarar guerra.¹ ([Um exemplo do que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial — de 1939 a 1945 — pode ser visto na devastação de Nagasaki. Para ver um exemplo mais amplo, leiam o livro de Lord Russell intitulado Seourge of Swastika e observem como uma civilização sem Deus pode transformar uma nação inteira em seres inferiores até mesmo aos animais ferozes.])
No dia em que eclodir uma guerra entre as duas maiores potências do mundo, deverá considerar-se que o decreto divino para a destruição da civilização ocidental foi posto em execução, pois, depois que as duas grandes potências entrarem em campo, a guerra não poderá deixar de assumir uma dimensão mundial. E, se a guerra se tornar mundial, a destruição também será mundial, sem dúvida.
(Árabe)
Significado: Por causa do que as pessoas adquiriram com as próprias mãos, a corrupção surgiu em toda parte, na terra e no mar, para que elas provassem parte do fruto de suas ações. Talvez ainda possam retornar (ao caminho correto).” Surata Ar-Rum: 41)
De qualquer modo, aproxima-se o momento de estabelecer uma nova ordem quanto à liderança e à autoridade no mundo, derrubar os injustos e opressores e investir outra nação — provavelmente uma nação oprimida — com a dignidade do califado mundial. A questão que agora deve ser observada é quem Allah, o Senhor dos mundos, escolherá para essa dignidade.
Depois disso, não temos como saber qual povo do mundo será elevado. Esta é uma questão inteiramente subordinada à vontade de Allah, o Altíssimo. Ele retira a autoridade de quem deseja e a concede a quem deseja:
(Árabe)
Significado: Dize: Ó Allah, Senhor de todo o reino e império! Concedes o reino a quem desejas e retiras o reino de quem desejas. (Surata Al Imran: 26.) Mas também há uma lei determinada a esse respeito. Ele a declarou em Seu Livro amado. Essa lei é que Ele estabelece outro povo no poder, que não será perverso e desobediente como aquele povo amaldiçoado.
(Árabe)
Significado: Se desobedecerdes, Ele vos substituirá por outro povo, que não será como vós. (Surata Muhammad: versículo 38.)
Por essa razão, à luz dos sinais exteriores, parece que os povos fracos e subjugados que hoje imitam a civilização ocidental, abandonando as virtudes dos povos europeus — aquelas poucas que ainda lhes restam — e adotando seus defeitos — que são a causa de sua maldição — não têm qualquer possibilidade de alcançar êxito na revolução iminente. (Primeira publicação: Tarjumanul Qur’an, outubro de 1932.)
6
O lamento da civilização ocidental
(Discurso de Lord Lothian)
[O artigo foi publicado pela primeira vez em março de 1939 na revista Tarjumān al-Qur’ān.]
Na última semana de janeiro de 1938, por ocasião da cerimônia de formatura da Universidade de Aligarh (a assembleia de distribuição dos diplomas), Lord Lothian proferiu um discurso. Este seu discurso é especialmente digno de atenção para os partidários das correntes modernas e antigas da comunidade instruída da Índia (indivisa). Ele contém muitas lições para eles. Nesse discurso, um homem revelou diante de nós o que se passava por trás de seu coração e de sua mente: alguém que não contemplou de longe a ciência e o conhecimento modernos e a civilização criada por eles; pelo contrário, nasceu no seio dessa própria civilização e passou os longos 56 anos de sua vida revolvendo esse oceano. Por nascimento e linhagem, ele é europeu e recebeu sua educação superior em Oxford. Foi editor da famosa revista Round Table e, durante cerca de 21 anos, ocupou importantes cargos de responsabilidade no governo britânico. Ele não é um observador estrangeiro; é um homem da própria casa da civilização ocidental. É nessa condição que nos descreveu a verdadeira deformação daquela casa, suas causas e aquilo por que atualmente anseiam os que nela vivem.
Por um lado, este discurso é ainda mais instrutivo para as pessoas modernas e instruídas entre nós. Pois, por meio dele, elas poderão saber que todo o conhecimento e a ciência ocidentais e a civilização criada por eles não são apenas um elixir da vida; ao contrário, contêm também uma grande mistura de veneno. Aqueles que prepararam esse remédio e o experimentaram durante várias centenas de anos são hoje os próprios a adverti-los para que não o consumam inteiramente. Eles dizem: “Esta coisa nos levou à beira da destruição e também os destruirá. Nós mesmos esperamos um elixir puro da vida. Embora não tenhamos certeza, supomos que esse elixir se encontra justamente com vocês. Portanto, não destruam o seu próprio elixir da vida para começar a provar o nosso remédio envenenado.”
Por outro lado, este discurso também oferece amplo alimento para a reflexão à nossa comunidade de ulemás e religiosos. A partir dele, eles poderão compreender quais aspectos dos ensinamentos islâmicos precisam ser apresentados de forma mais luminosa à sociedade na qual vivem atualmente. Este mundo, depois de experimentar a civilização materialista durante vários séculos, chegou hoje a tal estado de exaustão. Séculos atrás, fornecemos aos europeus o elixir do espírito investigador e do pensamento livre; por pura ignorância, eles o misturaram aos venenos da irreligião e do materialismo e deram origem a um novo elixir civilizacional. É verdade que esse elixir, por sua própria força, os elevou ao ápice do progresso, mas, ao mesmo tempo, sua ação venenosa permaneceu continuamente ativa. A ponto de esse elixir ter hoje se tornado completamente envenenado. Depois de sofrer plenamente as amargas consequências dele, eles agora voltam a olhar em todas as direções em busca de um novo elixir da vida. Compreenderam quais substâncias venenosas existem em seu elixir e que graves efeitos elas estão produzindo em suas vidas. Também conseguem perceber que tipo de elixir lhes é necessário para eliminar esses efeitos. Mas não sabem que o elixir que procuram não se encontra, além do Islã, com ninguém no mundo, nem que o último comprimido será encontrado justamente na mesma farmácia de onde obtiveram o primeiro. Mesmo depois de chegar a esse ponto, se continuarem correndo em busca do elixir desejado e, não o encontrando, persistirem em envenenar o mundo inteiro com halāhal, então nossa comunidade de ulemás terá de compartilhar igualmente com eles esse grande pecado. Hoje não é tempo de a comunidade de ulemás permanecer envolvida em debates e controvérsias sobre a teologia, o sobrenaturalismo e questões jurídicas minuciosas. O Mensageiro tinha conhecimento do invisível? Deus pode mentir? É possível qualquer comparação com o Mensageiro? Qual é o estatuto jurídico islâmico de transmitir a recompensa espiritual e de visitar os túmulos? Deve-se dizer “amém” em voz alta e fazer raf‘ al-yadayn? Que diferença deve haver entre o minarete e o minbar da mesquita, e assim por diante? Hoje, nossos líderes religiosos desperdiçam toda a sua força e capacidade tentando resolver questões minuciosas desse tipo. Entretanto, no mundo de hoje, nenhuma dessas questões tem qualquer importância, e resolvê-las não pode pôr fim à luta mundial entre a verdade e a falsidade, entre a orientação e o extravio; pelo contrário, a maior necessidade de hoje é compreender devidamente os complexos problemas que surgiram como resultado do desenvolvimento progressivo da ciência, do conhecimento, da sociedade e da civilização sobre a base da alienação de Deus e da irreligião ao longo de vários séculos, e a verdadeira tarefa de hoje é analisá-los por completo e apresentar soluções aceitáveis à luz dos princípios islâmicos. Se nossa comunidade de ulemás não se tornar apta para esse trabalho e não procurar realizá-lo de maneira adequada, o destino que aguarda a Europa e a América certamente se cumprirá, mas o próprio mundo muçulmano também será completamente destruído. Pois os problemas que afligem os países ocidentais estão surgindo hoje, com extrema intensidade, em todo o mundo muçulmano e na Índia. E, por não ser apresentada nenhuma solução correta para eles, todos, muçulmanos e não muçulmanos indistintamente, continuam hoje usando a própria “receita” dos que sofrem dessas doenças. Portanto, a questão já não é apenas da Europa e da América; é, antes, um problema da nossa própria casa e das futuras gerações.
Por todas essas razões, é dever da nossa sociedade moderna e instruída e da comunidade de ulemás prestar atenção ao discurso de Lord Lothian. Para que possamos compreender o sentido de suas palavras, citaremos aqui o discurso, de tempos em tempos, acompanhado das explicações necessárias.
Lord Lothian começa seu discurso dizendo:
Hoje quero chamar sua atenção para outra questão digna de consideração. Poderá a Índia escapar dos efeitos nefastos da educação científica e intelectual da era moderna, dos quais a Europa e a América sofrem hoje? O progresso da ciência moderna produziu no Ocidente duas grandes consequências. Por um lado, ampliou enormemente o poder de controle do ser humano sobre a natureza e suas forças. Por outro, enfraqueceu, entre os jovens formados nas universidades e, de modo geral, no mundo inteiro, os preceitos religiosos recebidos por herança. Pelo menos metade da deformação do mundo moderno surgiu dessas duas causas. É verdade que o homem civilizado de hoje está extasiado pela embriaguez das forças descobertas pela ciência, mas, juntamente com o progresso do conhecimento, da ciência, da sociedade e da civilização, não conseguiu alcançar um desenvolvimento equilibrado no campo moral. E, no entanto, isso poderia ter garantido que as forças científicas fossem empregadas para o bem-estar do ser humano, em vez de para sua destruição.”
Nesta introdução, Lord Lothian apontou, na realidade, para os problemas fundamentais da civilização e da cultura humanas. A ciência, enquanto ciência pura, não é mais do que o interesse pela reflexão, pela investigação e pela exploração. Graças a ela, o ser humano toma conhecimento da natureza das forças latentes no universo e reúne os meios e instrumentos para utilizá-las. Quando começa a empregar na vida cotidiana as novas forças que adquire em consequência do desenvolvimento desse acervo de conhecimentos, isso é chamado de progresso da civilização. Contudo, essas duas coisas, por si mesmas, não podem garantir o bem-estar humano. Elas podem ser tanto causas de benefício quanto causas de destruição. Em vez de trabalhar com as mãos, o ser humano começou a trabalhar com a ajuda de máquinas. Em vez de viajar montado em animais, começou a deslocar-se de trem, automóvel, navio e avião. Em vez de mensageiros dos correios, as notícias passaram a ser transmitidas por telégrafo elétrico e sem fio. Isso não significa que o ser humano tenha se tornado mais feliz e próspero do que antes. Na mesma medida em que essas coisas podem aumentar seu conforto, também podem aumentar os perigos e as possibilidades de destruição. Pois, em comparação com a época em que os únicos instrumentos de guerra à disposição das pessoas eram armas como arco, flecha e espada, a civilização que lhes colocou nas mãos metralhadoras, gases venenosos, aviões e submarinos pode ser muito mais mortífera. O fato de o desenvolvimento da ciência e da cultura ser causa de benefício ou de destruição depende inteiramente da civilização sob cuja influência se desenvolvem a ciência, o conhecimento, as artes e a cultura. Na realidade, cabe à civilização determinar a direção do progresso, o objetivo dos esforços humanos e os campos apropriados para a aplicação das forças adquiridas. É ela que determina a natureza das relações mútuas entre as pessoas, estabelece as normas da vida social e cria os preceitos morais para os assuntos individuais, nacionais e internacionais. Em suma, é essa mesma coisa que capacita a mente humana a decidir como, com que finalidade e de que maneira as forças adquiridas pelo desenvolvimento da ciência e do conhecimento serão aplicadas em sua civilização, e quais, entre os diversos modos de utilização, deverão ser rejeitados ou aceitos.
Na verdade, a observação do mundo material e a aquisição de conhecimento sobre as leis da natureza não podem, por si sós, constituir a base de uma civilização superior. Pois, à luz delas, a dignidade humana não ultrapassa a de um ser inteligente. Com a ajuda delas, só é possível estabelecer uma visão de vida materialista. Isto é, para o ser humano, a vida neste mundo seria a única vida. Seu objetivo supremo e último seria satisfazer, tanto quanto possível, seus desejos e impulsos biológicos. Aceita como verdade última a lei que vigora na natureza — a luta pela sobrevivência, a seleção natural e a supremacia do mais apto —, e considera que a verdadeira aplicação da força consiste em esmagar todas as criaturas ao redor e estabelecer sua própria autoridade acima de todas elas. Essa visão de vida é a base fundamental da cultura e da civilização seguidas pela Europa. Como resultado, todas as forças que o progresso da ciência e da civilização colocou nas mãos humanas começaram a ser empregadas no caminho da destruição, em vez de promover o bem da humanidade. Hoje, os próprios europeus conseguem sentir que necessitam de uma civilização humana superior à sua civilização biológica. E a base dessa civilização não pode ser outra senão a religião.
Prosseguindo, Lord Lothian diz:
Não há dúvida de que o espírito científico (a atitude investigativa) removeu gradualmente das pessoas as antigas superstições, ampliou o campo da ciência e do conhecimento e, assim, libertou homens e mulheres de muitos grilhões do passado; mas, ao mesmo tempo, tornou o ser humano extremamente dependente das verdades espirituais e religiosas. Contudo, não conseguiu indicar-lhe nenhum caminho para alcançar a verdade. Hoje, a maioria dos ocidentais está absorta numa impulsividade infantil, no gosto pela variedade e na embriaguez dos prazeres sensoriais. A capacidade de levar uma vida simples praticamente desapareceu entre eles. Na realidade, não têm qualquer ligação com as verdades primitivas, infinitas e eternas apresentadas pela religião.
A religião é uma guia indispensável para o ser humano. É o único meio de alcançar os objetivos morais, a dignidade e o significado necessários à vida humana. Com o enfraquecimento de seu poder regulador, vemos o mundo ocidental tornar-se apegado às manobras políticas fundadas em bases hereditárias e de classe, e depositar sua fé na ciência que declara o progresso material como objetivo supremo e torna a vida cada dia mais complexa e insuportável. Além disso, para libertar-se do domínio do nacionalismo, o maior flagelo da época atual, tornou-se difícil para a Europa de hoje estabelecer a unidade necessária entre a alma e a vida. Isso também é um resultado significativo do declínio da autoridade religiosa.
Em seguida, Lord Lothian levantou a seguinte questão diante dos indianos modernos e instruídos:
As duas grandes religiões da Índia, o hinduísmo e o islamismo, serão capazes de enfrentar a crítica e o espírito investigativo da era moderna com maior sucesso do que o fizeram diante da hostilidade religiosa do Ocidente? Esta é a questão mais importante. Se for necessário proteger a Índia dos perigos que se abateram sobre o Ocidente, os pensadores e líderes religiosos deste país deveriam voltar sua atenção para essa questão. É indubitável que o espírito investigativo eliminará gradualmente, entre o povo indiano, os produtos da superstição e da ignorância, e isso será muito bom. Mas será que essa mesma coisa também expulsará da mente dos futuros líderes da vida política, cultural e artística da Índia os princípios morais e espirituais de ambas as religiões? Não reivindico grande familiaridade com a vida interior do hinduísmo e do islamismo. Ainda assim, creio que essas duas religiões contêm elementos capazes de tornar qualquer uma delas apta a manter sob seu domínio homens e mulheres formados nas universidades. O cristianismo fracassou nesse aspecto por causa de certos grilhões oriundos de crenças equivocadas, que acabaram ocultando a própria verdade apresentada pelo grande fundador dessa religião.
Aqui, o próprio Lord Lothian admitiu que, na realidade, não possui muito conhecimento sobre o hindutva e o Islã. Ele apenas pôde observar, à distância, alguns aspectos significativos do hinduísmo e do Islã. Em sua opinião, esses aspectos podem ser bem-sucedidos em manter as pessoas instruídas firmadas em princípios morais e espirituais elevados diante da crítica moderna e da mentalidade investigativa. Mas, para aqueles que conhecem a situação interna dessas duas religiões, bem como de todas as religiões da Índia, não há absolutamente nenhum segredo: se alguma religião quiser resistir à crítica e à mentalidade investigativa, somente o Islã poderá fazê-lo; ou, para dizê-lo com a máxima clareza, nenhuma religião, exceto o Islã, tem capacidade para avançar com seus seguidores sob tal mentalidade e ser reconhecida, na era do progresso e da iluminação, como a religião de toda a humanidade. Por que o cristianismo fracassou? Simplesmente porque não é uma ideologia social; pelo contrário, é um adversário ferrenho da vida em sociedade. Ele se ocupa apenas da salvação do indivíduo e, mesmo para essa salvação, indica como único caminho voltar as costas ao mundo e depender do reino celestial. É por isso que, à medida que as nações europeias começaram a avançar no caminho do desenvolvimento e do progresso, o cristianismo, em vez de ajudá-las, tornou-se um obstáculo. Consequentemente, tiveram de avançar rompendo seus grilhões. A situação do hinduísmo é semelhante. Também nele não existe uma filosofia progressista de vida, nem um código moral racional, nem um sistema social em expansão. Até hoje, a maior força que atuou para manter os hindus presos a um sistema social e impedi-los de aceitar a influência de outras civilizações foi o sistema de castas e ashramas. Mas ele está fadado a desaparecer, e será rompido. Depois disso, nada mais poderá salvar a sociedade hindu da desintegração. Assim, suas portas fechadas se abrirão às influências externas. Além disso, é digno de nota que a antiga civilização e organização social dos hindus, suas velhas superstições idólatras e suas concepções filosóficas irracionais e anticientíficas não podem resistir ao desenvolvimento científico e à consciência social da era moderna. Por isso, os hindus estão se aproximando cada vez mais de um momento decisivo em que o destino deles e, em grande medida, o da Índia será determinado. Talvez, como os cristãos europeus da época do Renascimento, adotem o caminho da civilização materialista, tornando-se avessos ao Islã e cegos de ódio contra ele; ou então continuem entrando no Islã em massa.
Esse desfecho depende, em grande medida, da atuação dos muçulmanos, especialmente dos instruídos segundo a educação antiga e a moderna. Isso porque o Islã não pode realizar nenhum milagre apenas pelo poder de seu nome. Se seus princípios e ideais permanecerem registrados somente nas páginas de um livro, também lhe será impossível realizar qualquer milagre. Diante da desunião, da desordem e da inatividade em que os muçulmanos se encontram atualmente envolvidos; da apatia e da estagnação que dominam sua classe dos ulemás; e da timidez e do acanhamento quase femininos observados entre seus descendentes recém-instruídos, não se pode esperar que os que reivindicam o Islã consigam permanecer sequer em seu próprio lugar, quanto mais conquistar a alma da Índia. É impossível que uma nação permaneça firmemente de pé diante da corrente impetuosa de uma revolução. Ela terá de ser levada pela correnteza ou levantar-se com toda a sua força e mudar a direção do fluxo. Essa segunda situação só pode ser criada da seguinte maneira: primeiro, é preciso corrigir a condição moral dos muçulmanos comuns e reavivar neles o espírito fundamental da vida islâmica. Segundo, a classe dos ulemás e os muçulmanos recém-instruídos devem, em conjunto, compreender os problemas modernos da vida à luz dos princípios islâmicos e apresentar soluções adequadas para eles, tanto no aspecto ideal quanto no prático — para que toda pessoa racional, exceto os cegos pelo ódio, seja obrigada a reconhecer que, para uma sociedade progressista, nenhuma base, além da cultura e da civilização islâmicas, pode ser tão sólida e irrepreensível.
Na Índia, o tipo de conflito que hoje existe entre a religião e a ciência é o mesmo que existia na Europa há cinquenta ou sessenta anos. Mas também na Índia, que se alimenta dos restos da Europa, uma mudança de cenário ocorrerá muito em breve. Portanto, não está distante o dia em que não existirá mais, pelo menos do ponto de vista da razão e do conhecimento, essa hostilidade contra a religião. Naturalmente, a condição para isso é que nos preparemos desde já para aproveitar devidamente essa oportunidade. Lord Lothian também indicou brevemente essa profunda verdade: há sessenta anos, não havia qualquer expectativa de que a luta entre a ciência e a religião chegasse ao fim; pelo contrário, surgira tamanha dúvida sobre essa guerra entre as concepções espiritual e mecânica da vida que se pensava que ela não terminaria até que uma das duas morresse. Mas hoje ambos os lados em conflito abandonaram a batalha. Nem o cientista nem o religioso afirmam hoje, com segurança, ter desvendado todos os mistérios da natureza do universo ou resolvido todas as suas complexidades; pelo contrário, surgiu na mente de ambos uma dúvida tal que nem sabem se, na realidade, conhecem algo sobre esse mistério. Assim, surgiu hoje uma possibilidade que parecia impossível em meio aos progressos sempre novos do conhecimento e da ciência.
É claro que Lord Lothian não está livre da influência das concepções cristãs sobre a religião. Além disso, ele não encontrou a concepção racional que o Islã tem da religião. Por essa razão, ele pode, no máximo, pensar que hoje talvez seja possível alguma conciliação entre religião e ciência. Nós, porém, consideramos totalmente sem sentido a conciliação entre religião e ciência. Se hoje existe algum obstáculo ao Islã no caminho de se tornar a força vital da ciência, esse obstáculo não é uma deficiência intrínseca sua; é, antes, a preguiça ilimitada de seus seguidores e a ignorância e a hostilidade de caráter jahilí dos porta-bandeiras da ciência. Removidos esses dois obstáculos, o Islã certamente continuará sendo uma força vital dentro da estrutura da ciência.
Prosseguindo, o sábio orador lançou luz sobre outro assunto. Trata-se da questão de saber se algum tipo de religião pode sobreviver diante do despertar científico e da crítica baseada na razão da era atual. Que características deveria ter a religião que as pessoas buscam na atual era iluminada? E por quais necessidades fundamentais as pessoas de hoje procuram a orientação da religião?
Este é o aspecto mais notável do discurso em questão. Ele disse:
Se minha compreensão da situação não estiver equivocada, deve-se necessariamente admitir esta verdade: a religião dos tempos atuais encontra-se diante de uma difícil prova. Ela só poderá sair vitoriosa dessa prova quando as novas gerações examinarem e testarem suas normas e disposições internas e se convencerem plenamente de que nela se encontra a solução adequada para todas as questões e complexidades práticas da vida. O tempo da religião pessoal já passou. Esse dia ficou para trás há muito. Hoje ninguém precisa de uma religião meramente sentimental. Também chegou ao fim a época da religião que só pode oferecer alguma orientação sobre a conduta moral das pessoas e, no máximo, prometer a salvação na vida futura. O ser humano racionalista da era atual quer verificar cada coisa — até mesmo a verdade — pelo critério dos resultados concretos. Se tiver de obedecer à religião, deverá antes de tudo obter resposta para esta pergunta: que solução a religião oferece para seus problemas práticos? A expectativa de alcançar o nirvana depois de atravessar muitas vidas e reencarnações, ou a espera de chegar ao reino celestial após ultrapassar o estágio da morte, não é algo em que ele possa confiar para simplesmente aceitar uma religião. Por causa de sua busca filosófica, a religião deve primeiro fornecer-lhe uma chave com a qual possa encontrar uma solução satisfatória para os mistérios ocultos da natureza do universo. Além disso, deve demonstrar, por métodos científicos apropriados, a relação direta entre ação e causa — isto é, entre motivo e resultado — e mostrar como pode submeter ao controle as forças arrogantes e indisciplinadas que hoje ameaçam destruir a humanidade em vez de promover seu bem-estar. Do mesmo modo, deve indicar como eliminará o problema do desemprego, a desigualdade irracional, a injustiça e a opressão, a exploração econômica, as guerras e os conflitos e outras deformações sociais; como impedirá as agressões mútuas entre as pessoas e o colapso da estrutura familiar; e assim por diante. Pois são esses problemas que roubaram da humanidade toda a sua alegria. A única razão pela qual as pessoas hoje dependem tanto da religião é que a ciência, em vez de resolver seus problemas, tornou-os ainda maiores. Por isso, nunca antes estiveram tão ansiosas como agora para obter da religião a solução de suas dúvidas e problemas. Portanto, se a religião quiser proteger seu território e recuperar sua dignidade perdida, terá de oferecer respostas espirituais, porém científicas, às questões mencionadas — respostas cuja veracidade possa ser verificada e testada, ainda neste mundo, pelo critério dos resultados. Em outras palavras, essas respostas não podem ser guardadas numa prateleira para o mundo após a morte. Nós, ocidentais, sabemos que este é o maior problema de nossa época. Vocês, habitantes da Índia, que resposta podem dar a isso?
Depois de ler esta parte do discurso de Lord Lothian, tem-se realmente a impressão de que uma pessoa sedenta se contorce em agonia. Ela nada sabe sobre a água; mas sente perfeitamente os sinais da sede e também declara com clareza que tipo de coisa seu coração ardente deseja. Se, nessas circunstâncias, lhe trouxessem água e a colocassem diante dela, sua própria natureza exclamaria: “É justamente por esta coisa que estou sofrendo de sede.” Ela não hesitaria nem um pouco sequer em levar o recipiente aos lábios. Esse estado não é apenas o de Lord Lothian; onde quer que, na Europa, na América ou em qualquer parte do mundo, as pessoas tenham sido queimadas pelo fogo da civilização ocidental e, atravessando a faixa verde às margens do deserto da filosofia e da ciência, tenham chegado à planície intermediária, sem água, erva ou trepadeira, todas estão hoje igualmente sedentas e, como Lord Lothian, desejam uma coisa com essas mesmas qualidades. Nenhuma delas conhece o nome da água, nem sabe onde encontrá-la; mas, de tempos em tempos, apenas grita: “Tragam depressa aquilo que pode apagar o fogo do coração!”
É claro que já ouviram o nome da água; mas nunca viram sua verdadeira aparência. Pelo contrário, vêm ouvindo de antepassados ignorantes e cegos pelo preconceito: “Cuidado! Nem sequer se aproximem da água; é uma coisa venenosa e terrível.” Por isso têm temido esse nome. Mas hoje a situação chegou a tal ponto que, se a coisa verdadeira lhes fosse apresentada diante dos olhos com o nome ocultado, certamente exclamariam: “Sim, era por esta coisa que estávamos sedentos.” Então, se lhes dissessem: “Senhores! Esta água é justamente aquilo cujo nome vocês temem”, eles, estupefatos de espanto, diriam: “Durante todo esse tempo, em que engano não estivemos!”
O ser humano racionalista da era atual examinou e testou muito bem o cristianismo. Tornou-se claro como a luz do dia que essa religião não é remédio algum para sua enfermidade. Às vezes ele se encanta ao observar a filosofia enigmática das religiões hindu e budista e seu reacionarismo histórico, mas seu fracasso se torna evidente ao primeiro golpe da crítica e da análise científicas. O budismo é, em grande medida, uma versão indiana do próprio cristianismo. Já o hinduísmo continua criando problemas e complexidades dos quais o ser humano racionalista da era atual deseja justamente escapar — e é por esperar libertar-se deles que sente a necessidade da religião. É dentro de seus limites que se observa a maior desigualdade irracional entre as pessoas. A pior forma de exploração econômica — isto é, a usura e o agiotismo — tornou-se parte inseparável de suas normas e instituições. A causa fundamental das guerras e conflitos — a divisão das pessoas em grupos e a hostilidade entre elas — penetrou em seus próprios alicerces. O sistema social que estabeleceu não une as pessoas; ao contrário, divide-as em incontáveis classes e grupos. Sua legislação social é tão antiga e decadente que, na era da consciência científica e prática atual, até mesmo hindus de linhagem familiar milenar são obrigados a transgredi-la. Isso ocorre porque seus fundamentos não se apoiam no conhecimento, na inteligência e no racionalismo, mas na hostilidade e na superstição. Além de todas essas questões terrenas, ele parece ainda mais inútil no campo da ética e da espiritualidade. Não possui nenhuma chave capaz de oferecer uma solução satisfatória para os mistérios ocultos da natureza do universo. Suas convicções são meras criações da imaginação, e não se pode apresentar qualquer prova científica ou racional em favor de nenhuma delas. No campo da ética, certamente cria uma espécie de magia de imaginação cativante — tal como também Mahatma Gandhi criou uma magia semelhante. Mas ela é absolutamente desprovida de provas lógicas e de sabedoria prática (Practical wisdom). Portanto, pode-se afirmar com segurança que, na era da consciência científica atual, seu fracasso se tornará evidente muito em breve.
Depois disso, resta apenas o Islã. Na realidade, o Islã atende plenamente a cada um dos critérios que o ser humano racionalista de hoje apresentou ou pode apresentar para a religião que deseja.
A ideia de que a religião é apenas um assunto pessoal e que se relaciona exclusivamente com a moralidade individual tornou-se hoje obsoleta. Na realidade, trata-se apenas de uma peculiar excentricidade do século XIX. Apesar disso, mesmo estando na quarta década do século XX, uma classe de reacionários de nosso país continua propagando essa doutrina. Embora gritem “progresso”, “progresso”, os membros dessa classe estão firmemente determinados a permanecer sempre cinquenta anos atrás do mundo em movimento. Hoje pode-se dizer que é quase universalmente reconhecido que não se pode conceber o indivíduo isoladamente da sociedade. Cada indivíduo da sociedade está ligado aos demais por incontáveis relações, grandes e pequenas. A sociedade é, em termos gerais, semelhante a um corpo. Nela, a posição do indivíduo é como a dos membros de um corpo vivo. Se a religião é necessária, não o é apenas para a satisfação íntima do indivíduo ou para sua salvação na vida futura; ela é necessária sobretudo para a organização de toda a sociedade e para a condução de todos os negócios da vida terrena. E, se não for necessária para isso, não o será para ninguém, nem para o indivíduo nem para a sociedade. Dizer que as leis e instituições da sociedade terão uma forma, enquanto a fé e a prática religiosa do indivíduo terão outra, não passa de uma afirmação infantil. Se a fé e a prática religiosas não tiverem relação com a vida social, então tal fé e tal prática serão absolutamente inúteis. E não apenas inúteis: numa sociedade em que não estejam dispostas a cooperar com as demais partes do sistema social, seu desaparecimento será inevitável. Portanto, entre os dois caminhos, apenas um pode ser adotado: ou todo o sistema social deverá tornar-se completamente irreligioso, banindo definitivamente a religião da vida humana segundo a doutrina comunista; ou a vida social deverá ser edificada inteiramente sobre a base da religião, reconhecendo-se, conforme a exigência do Islã, a religião como a única guia tanto no campo do conhecimento e da ciência quanto no da cultura e da civilização. O primeiro caminho vem sendo experimentado pelos homens há muito tempo. O fruto venenoso de que Lorde Lothian falou é precisamente o que poderia resultar dele, e precisamente o que dele resultou. E também no futuro não haverá exceção a essa regra. Nessas circunstâncias, a salvação do mundo reside unicamente no segundo caminho, e a possibilidade de sua realização torna-se cada dia mais evidente.
Mas, como disse anteriormente, aproveitar plenamente esta oportunidade ou perdê-la para sempre depende inteiramente da vontade dos muçulmanos. Os acontecimentos concretos trouxeram o mundo e, como parte dele, nosso país a uma situação a partir da qual seu curso pode voltar-se para o Islã, mas também pode chegar ao abismo sem fundo do materialismo e da anarquia moral. Até agora, seu curso parece estar seguindo o segundo caminho, pois o mundo vem avançando por essa senda há um período muito longo. Naturalmente, ao ver os diversos perigos e horrores desse caminho, ele se tornou amedrontado e apreensivo; além disso, lança olhares investigativos ao redor para verificar se existe algum outro meio de salvação. Contudo, nenhum caminho de salvação se torna visível aos seus olhos. Na realidade, eles aguardam líderes poderosos capazes de remover a venda de seus olhos e demonstrar que o caminho simples e direto do Islã é o único caminho para a salvação. Se entre os muçulmanos surgir algum grupo de tais mujahid e mujtahid, somente eles poderão servir de guia para o mundo inteiro. Nessas circunstâncias, poderão recuperar o lugar de honra em que anteriormente foram investidos e que hoje cobiçam ao ver as nações ocidentais ocupá-lo. Mas, se a maioria desta nação continuar sentada, como hoje, em desespero e desânimo; se sua juventude considerar o consumo das sobras alheias a realização suprema; se seus sábios permanecerem envolvidos em discussões vazias de conteúdo sobre o fiqh e o kalam antigos; se a mentalidade mesquinha de seus líderes políticos considerar seguir as pegadas de nações estrangeiras o mais elevado ideal do “espírito jihadista” e imaginar que lançar sua própria nação na armadilha do maior engano do século XX seja uma grande façanha e prova de inteligência — em suma, se todo o corpo dessa vasta nação permanecer mergulhado na inércia e na incapacidade de agir, e se nem mesmo alguns homens verdadeiramente crentes, dentre esses milhões e milhões de pessoas, conseguirem avançar com firmeza para o jihad, o ijtihad e o esforço no caminho de Allah, então esta nação também será um dia lançada no abismo para o qual o mundo está se precipitando. Então a ira de Allah rugirá mais uma vez:
(Árabe)
(Ou seja: pereça a comunidade dos sábios religiosos.)
7
O conflito da Turquia entre o Oriente e o Ocidente
O artigo foi publicado pela primeira vez em fevereiro de 1936, na revista mensal Tarjumanul Qur’an. — O editor
O discurso de Khaleda Edib Khanum
[A pronúncia turca do nome é ‘Halide Edib Hanum’.]
A célebre intelectual e mulher militante turca Halide Edib Hanum veio à Índia em meados de 1935, a convite da ‘Jamia Islamia’. Os vários discursos que proferiu em Deli foram publicados em tradução urdu pelo professor da Jamia, Dr. Sayyid Abid Husain, sob o título ‘O conflito entre o Oriente e o Ocidente na Turquia’. No presente artigo, lançaremos alguma luz sobre esses discursos.
Atualmente, no mundo muçulmano, dois Estados, cada um por uma via diferente, foram investidos da honra de liderar os muçulmanos do mundo: o Egito no aspecto intelectual e a Turquia no aspecto político. A relação do Egito com a nação muçulmana é relativamente mais profunda, pois sua língua é a nossa própria língua internacional — o árabe. Seus livros são divulgados entre os muçulmanos de todo o mundo. Sua influência intelectual estende-se da China ao Marrocos. Em uma palavra, o Egito é o único elo de contato, compreensão e conhecimento mútuo entre os muçulmanos. Em contrapartida, a vida combativa da nação turca, sua heroica defesa contra as ofensivas ocidentais e seus enormes sacrifícios pela dignidade nacional influenciaram, sem dúvida, todo o mundo muçulmano. É por isso que ela ocupa, no mundo muçulmano, o posto de liderança e autoridade. Entretanto, a estranheza linguística e a falta de contato e compreensão mútuos criaram uma profunda barreira entre a Turquia e a maioria dos países muçulmanos. Como resultado, nosso conhecimento sobre a evolução intelectual da nação turca, sua formação intelectual e seus progressos sociais, políticos, religiosos e científicos é muito limitado. Sobretudo nos dez ou doze anos mais recentes, tivemos pouquíssimas oportunidades de conhecer e compreender as causas internas e a corrente de pensamento fundamental da grande revolução ocorrida na Turquia. Muitas pessoas estão extremamente descontentes com os turcos. Outras nutrem uma boa opinião a respeito deles. Alguns chegaram até a tomar sua simpatia pelo Ocidente como prova definitiva para justificar sua própria adoração do Ocidente. Mas nenhum deles dispõe de informações autênticas e confiáveis. Embora alguns possuam informações escassas, elas de modo algum são suficientes para compreender a essência da Turquia moderna.
Nessas circunstâncias, é uma grande felicidade para nós que uma das principais construtoras da Turquia moderna tenha vindo aqui e exposto a situação interna de sua própria nação. Ela não foi apenas uma atriz no palco da revolução recente; foi, antes, uma de suas forças ativas de destaque. Além disso, pela graça de Allah, é dotada de visão perspicaz de erudita, compreensão filosófica e inteligência própria de uma grande pensadora. Por isso, pode compreender as causas subjacentes ao fluxo dos acontecimentos externos e também explicá-las. Pela primeira vez, tivemos a oportunidade de conhecer e compreender corretamente a Turquia por meio de uma fonte tão autêntica e confiável. Ela procurou revelar diante de nós a essência da Turquia moderna. A nação que hoje não apenas oferece liderança política ao mundo muçulmano, mas também busca conquistar a liderança intelectual. Qual é, na realidade, sua situação interna; por quais elementos ela foi constituída; quais forças atuam em seu interior; quais causas a conduziram ao lugar que ocupa atualmente; e em que direção está avançando hoje — tudo isso ela nos explicou com plena honestidade e fidelidade. Esse repositório autêntico de informações é extremamente útil para nós sob vários aspectos. Seu único benefício não é ter tornado manifesta diante de nós a verdadeira situação da nação turca; um benefício ainda maior é que agora podemos compreender melhor a corrente de pensamento fundamental da orientação que nossos novos descendentes estão recebendo da Turquia. Em suma, ganhamos mais uma oportunidade de compreender o funcionamento interno da revolução que atualmente está se formando no mundo muçulmano.
Naturalmente, antes de compreender a Turquia moderna por intermédio de Halide Hanum, é preciso primeiro compreendê-la bem. Não há dúvida de que o coração de Halide Hanum é inteiramente muçulmano e está repleto de consciência da fé. E sua fé tampouco é algo comum; é digna de inveja. Pois é a fé de uma mulher mujāhidah. [Infelizmente, em consequência de estudos posteriores, não me foi possível permanecer firme nessa opinião (1943)]
Nem sequer se percebem em seu pensamento sinais de ateísmo ou irreligiosidade. Ela tem uma profunda devoção ao Islã; uma devoção tal como a de uma mulher muçulmana sincera.
Mas, embora seu coração seja muçulmano, seu intelecto não o é na mesma medida. Ela foi educada inteiramente segundo os moldes ocidentais e estudou apenas os conhecimentos e as ciências do Ocidente. Viu o mundo, o Islã e sua própria nação através das lentes ocidentais, e todos os seus pensamentos e perspectivas foram moldados segundo padrões ocidentais. Naturalmente, o Islã oculto em seu coração e sua simpatia pelo Oriente resistem em grande medida ao domínio intelectual e mental do ocidentalismo. É justamente dessa resistência que resulta o considerável equilíbrio observado em seu pensamento, em comparação com o dos demais líderes revolucionários turcos. Mas essa resistência não conseguiu protegê-la completamente do domínio da simpatia pelo Ocidente.
Seu conhecimento sobre o Islã parece ser muito limitado. Do tempo que dedicou ao estudo da filosofia, da história e da sociologia ocidentais, provavelmente não dedicou sequer um décimo ao estudo do Alcorão, da Sunna e da história do Islã. É por isso que, no vislumbre de seu pensamento sobre o Islã que pudemos perceber em seus discursos, há boas intenções, sem dúvida, mas muito pouca compreensão profunda e visão perspicaz.
Em seu último discurso, ela disse: “A personalidade de Gandhi é um exemplo completo do Islã moderno.” Somente alguém que não sabe absolutamente o que é o Islã, quão grandioso e superior ele é em comparação tanto com o antigo quanto com o moderno, e como deve ser seu exemplo completo poderia dizer isso. Aos olhos de quem presta alguma atenção às características do caráter islâmico e chegou a vislumbrar sequer um lampejo desse caráter, que importância teria Gandhi? Até mesmo os grandes heróis da história mundial seriam insignificantes. Isso não é uma afirmação motivada por hostilidade nacional; é, antes, uma verdade histórica incontestável. Coloquem diante de si os caracteres de Abu Bakr al-Siddiq, que Deus esteja satisfeito com ele, Umar al-Faruq, que Deus esteja satisfeito com ele, Ali al-Murtada, que Deus esteja satisfeito com ele, Hasan ibn Ali, que Deus esteja satisfeito com ele, Abu Hanifa, que Deus tenha misericórdia dele, Ahmad ibn Hanbal, que Deus tenha misericórdia dele, Abd al-Qadir al-Jilani, que Deus tenha misericórdia dele, e outros. Depois, digam com justiça: deixando de lado os profetas, que personalidade da história mundial pode ser colocada diante desses caracteres?
Na formação da sociedade política da nação otomana, percebe-se a influência de tudo, desde as antigas características hereditárias do povo turco até a Grécia, Bizâncio, Roma e até mesmo a democracia de Platão. Mas não se percebe apenas a influência do Alcorão e dos ensinamentos de Muhammad, que a paz esteja com ele. E, no entanto, foi justamente essa influência que, pelas mãos dos turcos beduínos da Ásia Central, ergueu o farol da cultura e da civilização, criou entre eles a capacidade de se expandirem pelo mundo e alcançarem fama universal, e os transformou, em vez de uma força destrutiva para a humanidade, numa força bem organizada. Khaleda Khanum conseguiu perceber, no máximo, alguma influência da igualdade e da justiça do Islã entre os otomanos. A situação foi a seguinte: quando o sultão Selim quis propagar o Islã entre seus súditos pela força da espada, o xeique al-Islam Jamal Afendi ordenou-lhe que se abstivesse disso, e até mesmo um governante autocrático como Selim curvou a cabeça diante dessa ordem. Mas, nesse grande acontecimento, em vez da justiça islâmica, o que Khaleda Khanum percebeu foi o sentimento de “nacionalidade otomana” e o impulso de preservar a “política de governo do Estado otomano”. Ela não compreende que, na fatwa de Jamal Afendi, estava contido o espírito de “não há coação na religião”.
Foi a força do fervor pela verdade islâmica que lhe deu coragem para emitir uma fatwa diante de Selim. E foi a superioridade e a grandeza do Islã que obrigaram Selim a curvar a cabeça diante de sua fatwa.
Khaleda Khanum parece estar insatisfeita com o secularismo radical, a opressão e a perseguição, a organização social coercitiva, a ilimitada paixão pelo Ocidente, a mentalidade materialista e a atitude em relação à religião do atual grupo governante da Turquia. Ela deseja uma combinação equilibrada entre os costumes e as normas do Oriente e do Ocidente. É favorável a estabelecer uma harmonia entre o “materialismo” e o “espiritualismo”. Ela também reconhece que a síntese realizada pelo Islã entre essas duas concepções da vida é a melhor de todas. Mas ela própria não possui uma visão suficientemente profunda sobre o Islã. Por isso, não sabe qual é, segundo os princípios islâmicos, o modo correto de realizar essa síntese nem qual é a linha reta do equilíbrio entre os dois extremos. Ainda assim, deixando de lado suas opiniões pessoais, em seu discurso podemos encontrar uma descrição clara e precisa da mentalidade da Turquia moderna, de sua corrente de pensamento e das causas históricas efetivas da revolução recente; e é isso que desejamos.
Quando os turcos entraram no Islã, já havia começado o declínio moral e espiritual dos muçulmanos. [Por “turcos” entende-se aqui a Turquia otomana.] Entre eles, a mentalidade jihadista ainda sobrevivia, mas a mentalidade do ijtihad havia morrido. Os pensadores dotados de visão profunda sobre o Islã e os faqihs eruditos (juristas) haviam desaparecido. A cultura e a civilização islâmicas estavam semimortas, e o pensamento islâmico havia ficado quase sem vida. No campo das normas da sharia, prevalecia o taqlid cego. Os costumes dos não árabes e dos romanos haviam penetrado na sociedade e na civilização. O orientalismo havia se arraigado no tasawwuf, e o neoplatonismo, na filosofia. Surgira uma carência de pessoas capacitadas para adquirir conhecimento diretamente do Alcorão e da Sunna. A maior parte dos ulama estava envolvida nas complexas disputas do kalam, repletas de jogos de palavras, e fazia soprar ventos tempestuosos de interpretações e análises pelos caminhos seguidos pelos predecessores. A maioria dos governantes estava ocupada imitando cegamente os césares e os cosroés. As comunidades sufis e os líderes espirituais haviam abandonado o verdadeiro sufismo da época áurea do Islã e seguiam os monges e os iogues. O progresso dos muçulmanos nas ciências, no conhecimento e nas artes havia sido interrompido. Seu avanço no pensamento, na pesquisa e nas descobertas havia praticamente cessado. Em suma, naquela época, sinais evidentes de decadência após a ascensão já podiam ser vistos em todo o mundo muçulmano.
Assim, o aparecimento dos turcos na história do Islã já trazia uma fraqueza fundamental. E foi quase na mesma época em que, na Europa, começavam o desenvolvimento intelectual e a jornada científica que se lançaram as bases do Império Otomano.
É verdade que, nos primeiros dois séculos e meio, os otomanos derrotaram repetidamente a Europa e hastearam o estandarte da vitória do Islã. Mas, naquela época, os turcos, juntamente com as demais nações muçulmanas, desciam gradualmente rumo à decadência, enquanto as nações ocidentais rivais avançavam rapidamente em direção ao progresso material e intelectual. No século XVII da era cristã, a situação assumiu uma forma completamente diferente. A organização militar dos europeus e seu poder material e humano haviam crescido tanto que, na batalha de São Gotardo, eles derrotaram pela primeira vez, de modo lastimável, os turcos em decadência. Mas nem isso abriu os olhos dos turcos. Eles continuaram a avançar rumo à decadência, enquanto os europeus ascendiam proporcionalmente ao ápice do progresso. Assim, no século XVIII, a situação moral, religiosa, política, intelectual e civilizacional dos turcos chegou ao extremo da decadência. E a supremacia dos europeus tornou-se plenamente evidente.
No início do século XIX, o sultão Selim percebeu essa fraqueza geral da nação turca. Começou a reformar o sistema de governo, difundir os conhecimentos e as ciências modernas, organizar o exército segundo novos métodos e introduzir armamentos de guerra ocidentais modernos. Mas as comunidades sufis ignorantes e tolas e os ulama de mentalidade estreita, desconhecedores do ensinamento e do espírito do Islã, opuseram-se a essas reformas em nome da religião. Eles qualificaram a organização militar segundo o modelo europeu como apostasia. Chamaram o uniforme militar moderno de imitação dos cristãos. Segundo eles, usar baionetas era pecado. Além disso, difundiu-se contra Selim o ódio, sob a alegação de que, ao introduzir os princípios dos infiéis, ele havia distorcido o Islã.
O Shaykh al-Islam Ataullah Efendi emitiu uma fatwa: o soberano que age contra o Alcorão não é digno de governar. Por fim, em 1707 d.C., Selim foi deposto. Pela primeira vez, os líderes religiosos, com sua ignorância e cegueira, criaram a impressão de que o Islã era um obstáculo ao progresso.
As circunstâncias da época estavam mudando rapidamente, e o impacto dessa mudança sobre os turcos era extremamente intenso em comparação com os demais muçulmanos. Eles estavam frente a frente com a Europa e, ao mesmo tempo, em guerra uns com os outros. Mantinham profundas relações políticas, culturais e comerciais precisamente com as nações ocidentais. Até mesmo as nações europeias sob seu domínio estavam adotando rapidamente a influência ocidental. Entretanto, os líderes religiosos turcos, desprovidos de domínio do conhecimento islâmico e da capacidade de ijtihad, e completamente ignorantes dos verdadeiros ensinamentos do Islã, permaneciam totalmente indiferentes a essa mudança. Como consequência, obrigaram a nação turca a não avançar sequer um passo além da situação de setecentos anos antes.
Depois de Selim, o sultão Mahmud tentou empreender reformas. A comunidade dos ulemás e os líderes religiosos voltaram a opor-se a ele. Depois de superar muitos obstáculos e dificuldades, em 1826 Mahmud conseguiu introduzir os princípios da organização militar moderna. Mas os ulemás e os sufis continuaram propagando incessantemente que esse tipo de reforma equivalia a uma bid‘ah e que, por meio dela, o Islã estava sendo distorcido; que o sultão se tornara um descrente e que os muçulmanos que se alistassem num exército organizado segundo os métodos modernos inevitavelmente perderiam a fé.
Foi também nessa época que surgiu, entre os turcos de espírito reflexivo, um sentimento generalizado acerca do declínio nacional. Eles refletiram sobre as causas do progresso das nações ocidentais, estudaram seus conhecimentos, ciências, costumes e métodos, e lançaram um olhar atento sobre seu sistema administrativo; ao mesmo tempo, tentaram introduzir reformas e mudanças nas leis, nos assuntos administrativos, nas instituições educacionais e no sistema militar de seu próprio Estado, para que pudessem progredir no mesmo ritmo que as nações ocidentais. Nas palavras de Khaleda Khanam, corria pelas veias e artérias desses homens o fluxo vital do pensamento islâmico. Tanto seus corações quanto suas mentes eram muçulmanos. É verdade que possuíam consciência de suas próprias fraquezas; mas de modo algum sentiam inferioridade diante do Ocidente. Não estavam fascinados pelo Ocidente. Não estavam prontos para aceitar indiscriminadamente cada uma de suas coisas; pelo contrário, seu único objetivo era eliminar as fraquezas de seu Estado e de sua nação por meio dos elementos bons do Ocidente e competir em todos os campos da vida em igualdade de condições com os europeus. Durante o reinado do sultão Abdülmecid Khan, reformaram o sistema de governo e reorganizaram as forças armadas. Insuflaram o sopro da vida na cultura e na civilização de sua nação. Fundaram novas escolas e colégios. Assim, em apenas alguns anos, formaram uma nova nação que possuía, em seu interior, juntamente com todas as joias da civilização islâmica, um talento elevado o bastante para realizar pesquisas e reflexões. Até a deposição do sultão Abdülaziz, em 1876, esse grupo, apesar dos inúmeros obstáculos internos e externos, executou muito bem a tarefa de reconstrução nacional. Foi por isso que surgiram generais como Omar Paxá, organizadores como Midhat Paxá e autênticos pensadores e literatos muçulmanos como Namık Kemal e Abdülhak Hamid.
Mas o sultão Abdülhamid chegou e, de repente, mudou todo o curso dos acontecimentos. Seu reinado durou 33 anos, de 1876 a 1909. Durante esse período, outra nação oriental — o Japão — subiu a escada do progresso e avançou de onde estava para uma posição completamente diferente. Já esse sultão egoísta passou seu tempo apenas bloqueando, por causa de sua obsessão pelo poder pessoal, o caminho do desenvolvimento mental, intelectual, cultural, político e administrativo da nação turca, e entorpecendo sua vitalidade. Não há espaço aqui para uma crítica detalhada dos feitos desse homem. Em resumo, porém, pode-se dizer que ele gastou em obras destrutivas o melhor período para empreendimentos construtivos — período em que cada hora era extremamente valiosa. Desperdiçou os maiores talentos da nação turca. Chegou até a destruir uma personalidade incomparável como Jamaluddin Afghani. Mas o maior dano causado por ele, não apenas à nação turca, mas a todo o mundo muçulmano, foi ter usado a força religiosa do Califado e a influência dos ulemás e líderes religiosos reacionários para desarraigar os fundamentos construídos pelos reformadores turcos da era da organização, bem como suas reformas políticas e administrativas. Como resultado de sua atitude egoísta e míope, surgiu entre os jovens turcos uma reação revolucionária. Em consequência, começaram a considerar a própria religião um obstáculo ao progresso. Suas mentes e seus corações tornaram-se rebeldes aos ensinamentos islâmicos. O ódio e a aversão que naturalmente haviam surgido neles contra os ulemás e líderes religiosos reacionários, sob o excesso do revolucionarismo, desviaram-se em direção à religião. Eles passaram a pensar — e os ulemás e líderes religiosos ignorantes os obrigaram a pensar — que o Islã era uma religião obsoleta e imóvel, incapaz de acompanhar o ritmo dos tempos. Suas leis não podiam adaptar-se às mudanças das circunstâncias. Além de algumas crenças fundamentais, nada sólido ou vigoroso existia em seu interior. Durante esses 33 anos, a opressão e a tirania — que, infelizmente, haviam assumido uma aparência religiosa — geraram entre as novas gerações turcas o ateísmo, o materialismo, o fascínio pelo Ocidente, a imitação cega das ideias ocidentais, a aversão às próprias tradições, a revolta contra tudo o que era antigo e um intenso ódio ao Califado e à unidade islâmica, que o sultão Abdülhamid havia transformado em instrumentos para satisfazer seus interesses pessoais. Ao mesmo tempo, consolidou-se entre eles a ideia de que, para alcançar o progresso e a prosperidade no mundo, era necessário destruir todos os fundamentos do passado e erguer o edifício do turquismo inteiramente à maneira ocidental.
A revolução de 1908 destronou o sultão Abdul Hamid. Como resultado, o poder absoluto do Estado passou às mãos de jovens extremamente entusiasmados, exaltados e de mentalidade rebelde. Nas palavras de Khaleda Khanam, essas pessoas eram diferentes dos reformistas da Era da Organização. Nenhum deles se igualava aos pensadores da Era da Organização em qualificação educacional, reflexão, pesquisa e inteligência refinada. Não tinham diante de si aquele grande objetivo, nem possuíam em seu caráter a mesma firmeza. Em civilidade, cortesia e educação, não havia comparação alguma entre eles e nós. Não possuíam aquele intenso sentimento nacionalista, nem a capacidade de discernir corretamente a diferença entre o antigo e o moderno. Esse pequeno grupo de jovens era ignorante das ciências e conhecimentos islâmicos e imaturo na educação islâmica. Tampouco possuía uma visão profunda das ciências e conhecimentos ocidentais. Em suas mentes e corações havia se acumulado um intenso ódio contra a própria religião, civilização, conhecimentos, costumes e antigas instituições sociais. O progresso e o desenvolvimento do Ocidente haviam produzido neles um completo encantamento. Tornaram-se inquietos, desejando transformar cada uma de suas próprias coisas. Quando o poder do Estado caiu em suas mãos, foi como se a água estagnada e contaminada de trinta e três anos tivesse rompido e saído com a força de uma inundação. Foi nessa época que os turcos passaram a carregar o demônio do nacionalismo e do orgulho racial turaniano [A palavra turaniano vem de “Tura” ou “Turã”, nome de um lugar situado na Ásia Central, terra ancestral dos turcos. É provável que, durante a invasão mongol, um ramo das tribos turcas dali tenha se estabelecido na atual Turquia, dando origem aos “turcos otomanos” ou à Turquia moderna]. Começou a manifestar-se indiferença para com a unidade islâmica. A crítica da religião teve início em toda a sua extensão. Grandes esforços passaram a ser empregados para aceitar completamente a antiga civilização pré-islâmica. Propôs-se a adoção do alfabeto latino para romper com o passado e aproximar-se do Ocidente. Um grupo de ulemás oficiais avançou para moldar o Islã segundo o modelo das ideologias modernas. Ziya Gökalp era o líder desse grupo. Ele fez intensa propaganda em favor da unidade turaniana, em oposição à unidade islâmica. Despertando nos turcos ódio e repulsa pela história da era islâmica e por seus célebres heróis, ensinou-os a orgulhar-se dos antigos tártaros bárbaros (entre os quais as figuras de Gengis e Hulagu são as mais notáveis). Tentou libertar a língua turca da influência da literatura islâmica. Insistiu na imitação completa do Ocidente na sociedade, civilização, cultura, costumes e em todos os comportamentos da vida prática dos turcos. Uma pessoa com essa visão tornou-se o líder do moderno partido revolucionário. Junto com seus seguidores, tentou oferecer uma interpretação dos ensinamentos islâmicos que permitisse modificar e moldar segundo o modelo ocidental tudo no Islã, exceto algumas poucas crenças e normas morais.
Enquanto uma revolução tão grandiosa começava entre a nação turca, a sociedade dos ulemás e os líderes religiosos turcos ainda não estavam dispostos a sair do ambiente do século VII; sua incapacidade, superstição, reacionarismo e extrema recusa em adaptar-se à época continuavam exatamente como no período do sultão Selim. Ainda diziam que, depois do quarto século da Hégira, a porta do ijtihad havia sido fechada. Entretanto, diante de seus próprios olhos, a porta da apostasia estava se abrindo. Continuavam ocupados estudando e ensinando livros de filosofia e de teologia especulativa que, depois de serem lançados para longe, haviam deixado o curso dos tempos avançar quinhentos anos. Ainda pregavam, em suas exortações, as antigas interpretações do Alcorão e aqueles hadiths fracos que, embora fizessem as pessoas de cem anos antes suspirarem de pesar, levavam os contemporâneos dotados de inteligência a sentir repulsa não apenas por esses exegetas e estudiosos de hadith, mas também pelo próprio Alcorão e pelos hadiths. Continuavam ainda teimosamente a introduzir entre os turcos o sistema jurídico escrito em “Shami” e “Kanz al-Daqa’iq”; mesmo quando essa teimosia levava os turcos a abandonar a obediência às normas prescritas pelo Alcorão e pela Sunna, eles não estavam dispostos a mudar de opinião.
Em suma, a sociedade dos ulemás e os líderes religiosos seguiam uma política tão equivocada que, em apenas cem anos, desviou a nação turca da etapa organizacional e a conduziu a este estágio do revolucionarismo. Por outro lado, embora os líderes revolucionários turcos fossem muçulmanos de coração e alma, afastavam-se progressivamente do Islã no mundo real do pensamento, da razão e da ação. Foi justamente nesse momento que soaram os tambores da Primeira Guerra Mundial. Nela, os desafortunados muçulmanos árabes e indianos, aliados aos inimigos do Islã, degolaram os turcos. Depois, quando, ao fim da Grande Guerra, os turcos se empenharam em lutar para salvar sua vida nacional da destruição completa, foram o então califa e o Shaykh al-Islam que mais se opuseram a eles. Para os revolucionários e para a consciência islâmica já semimorta dos turcos, esses últimos golpes foram destrutivos. O resultado inevitável disso pode ser visto no modernismo sem limites da nova Turquia. A corrente de pensamento revolucionário que em 1908 ainda era imatura e cuja maturação havia sido impedida pelas preocupações com a Guerra de Trípoli, a Guerra dos Bálcãs e o ataque grego amadureceu subitamente após a Conferência de Lausanne [Lausanne é uma cidade da Suíça. Em 1923, realizou-se ali uma importante conferência entre ingleses e turcos. Foi logo depois dessa conferência que a Turquia caiu completamente sob o domínio do secularismo] e começou a assumir uma forma inteiramente prática. Assim, houve a implantação completa dos princípios ocidentais na sociedade e na civilização; a expressão plena do nacionalismo na língua, na literatura e na política; e, após a queda do Califado, a criação de uma separação entre religião e Estado. Nas palavras de Khaleda Khanam, o Estado foi libertado da influência da religião, e a própria religião foi submetida ao Estado. Foram introduzidas as leis da Suíça em lugar da lei islâmica; até as instruções claras do Alcorão foram alteradas em questões como herança, casamento e divórcio; as mulheres foram abandonadas a uma liberdade desenfreada, completamente contrária aos ensinamentos islâmicos e semelhante à das mulheres europeias no período posterior à Grande Guerra. Tudo isso foi o resultado natural da incapacidade dos ulemás ignorantes, dos erros dos sufis que adoravam a si mesmos, do egoísmo dos sultões que obtinham vantagens ilícitas de sua posição no Califado e da terrível ignorância dos líderes revolucionários acerca do conhecimento do Alcorão e da Sunna. É lamentável que, ao longo deste século, a nação turca não tenha produzido sequer um talento dotado de profundo conhecimento do Alcorão e dos hadiths e capaz de compreender o espírito fundamental dos ensinamentos islâmicos; alguém que pudesse observar atentamente as condições mutáveis da época, utilizar a capacidade de ijtihad, aplicar os princípios islâmicos a essas condições e construir um modo de vida harmonioso, baseado no Alcorão e na Sunna e apto a acompanhar o curso dos tempos.
Aqueles que não conhecem o curso da história turca entregam-se a um tipo espantoso de erro. Pessoas de antiga orientação religiosa continuam proclamando fatwas de kufr e de fusuq contra os novos turcos. Mas não sabem que os ulemás e líderes religiosos turcos são mais pecadores do que esses novos turcos. A incapacidade desses ulemás e líderes religiosos empurrou para longe do Islã, em direção à ocidentalização, o povo mujahid que durante quinhentos anos lutara sozinho pelo Islã. Se uma incapacidade desse tipo um dia empurrar também outros povos muçulmanos na mesma direção, não haverá motivo para espanto.
Por outro lado, os progressistas apresentam cada “revelação” descida de Ancara diante dos muçulmanos como se o Alcorão tivesse sido ab-rogado e a missão profética de Maomé tivesse chegado ao fim. Agora, se existe orientação, ela está apenas no modo de vida de Atatürk; se há raios de conhecimento, eles estão na “revelação” descida do céu de Ancara. Entretanto, a situação do pobre Atatürk e de seus seguidores é a seguinte:
(Árabe)
(No entanto, eles não têm conhecimento disso; apenas seguem conjecturas. — Surata Az-Zukhruf: 20)
8
A fraude do racionalismo
[O artigo foi publicado pela primeira vez em dezembro de 1934, na revista mensal Tarjumanul Quran]
Um
A profunda influência que a educação, a cultura e a civilização ocidentais exercem sobre a visão religiosa de jovens imaturos na formação islâmica ou completamente inexperientes pode ser avaliada pelos escritos e discursos publicados por pessoas dessa categoria. Como exemplo, recentemente chegou ao nosso conhecimento um artigo de um graduado muçulmano das Províncias Unidas. Nesse artigo, ao descrever suas experiências de viagem pela China e pelo Japão, ele escreveu:
Os nossos companheiros chineses são extremamente glutões e bebedores. A carne de porco é para eles como a própria vida. Agora consegui compreender o segredo do progresso do cristianismo. Os chineses consideram a adesão à sua antiga religião incompatível com a educação moderna. Se conseguissem compreender isso, não teriam dificuldade em aceitar o Islã. Mas o Islã os priva de todos os seus alimentos preferidos; por isso, obrigados, aceitam o cristianismo. Nessas circunstâncias, se no futuro o cristianismo se tornar a religião oficial da China, isso não será de modo algum surpreendente. No que diz respeito à carne de porco, sou favorável a conceder certa facilidade aos novos muçulmanos da Europa e da China. Tenho até dúvidas, com base no Alcorão, quanto à clareza de sua proibição. No máximo, talvez ela tenha sido proibida aos árabes por alguma razão especial. Mas, num país onde, sem ela, ‘famanid turba ghaira baghiyin wala adin’ (isto é, torna-se impossível viver), que mal há em consumi-la? Em suma, não compreendi o significado desta única prescrição do Alcorão, isto é, a razão de sua proibição geral. Caso contrário, se, em princípio, apesar de existir tamanha distância entre o estômago e a consciência moral, a religião pode elaborar para nós uma dieta, por que não nos ensinaria também a trabalhar o ferro, fabricar ornamentos, exercer a alfaiataria e assim por diante? Na minha opinião, a razão profunda pela qual o Islã não progride nem se expande no mundo é que ele priva o ser humano de todos os seus direitos humanos, transformando-o em uma massa inerte e numa criança completamente incapaz de compreender. Como resultado, ele perde até mesmo o caminho do seu progresso terreno. Caso contrário, a nossa religião deveria ser exatamente como os cristãos compreenderam que a deles deve ser.
Em seguida, ao descrever a situação de Xangai, ele escreve:
Ao ver estas incontáveis pessoas felizes e prósperas, criadas por Deus, meu coração não consegue de modo algum aceitar que, depois de apenas alguns anos, elas se transformarão em combustível do Inferno — como se esse fosse o único propósito de Deus ao criá-las. Além disso, se, com exceção de algumas delas, todas as demais forem incrédulas e idólatras, será considerado crime suficiente para lançá-las no Inferno o fato de terem enriquecido e embelezado o mundo de Deus? Elas não matam peregrinos nem praticam assaltos! Não há entre elas a perversidade do povo de Lot. Elas não se apropriam dos bens de ninguém, nem apresentam qualquer argumento ou discussão para tornar isso ‘lícito’. Vivem tranquilamente e de maneira ordeira. Apesar de tudo isso, por que seriam consideradas merecedoras do Inferno? A concepção politeísta é, sem dúvida, uma coisa tola e vazia. Mas diga-me: se uma pessoa considera, por natureza, determinado ser como o senhor da sua vida e da sua morte, mas é tão incapaz quanto nós de compreender seus mistérios profundos, ou não acredita que o árabe seja a língua de Deus — somente por essa razão vocês se tornarão seus inimigos e ele se tornará inimigo de vocês? Mas não: aos olhos de vocês, nem sequer é preciso tudo isso. O que é necessário é vestir um determinado tipo de calça e uma camisa de corte especial. É preciso comer determinado tipo de alimento. É preciso deixar no rosto uma barba de quatro dedos de comprimento. Não se pode ingressar nas instituições de ensino do país, pois ali não se ensinam a língua e as ciências religiosas.
A respeito do porto de Kobe, no Japão, ele escreve:
Passei duas horas percorrendo o porto de Kobe. Não vi um único mendigo em lugar algum; tampouco meus olhos encontraram algum pobre vestido com roupas gastas e rasgadas. Como é possível que uma nação que sequer conhece o nome da religião ou de Deus tenha alcançado tamanho progresso!
Em seguida, ele próprio começou a distribuir ‘bons conselhos’:
Lembrem-se: o ‘ihsan’ é a essência da religião. Mas ele não depende de nenhuma língua ou ciência religiosa. Seu objetivo natural é tornar-nos responsáveis, na vida futura ou na vida terrena, por nossos próprios atos. Esta é a verdadeira religião do Islã. Tudo o mais que vocês chamaram de religião não passa de autoengano ou perturbação mental. No dia em que limitarem a religião a essas duas coisas e romperem todos os vínculos da Sharia, vocês também poderão alcançar o ápice do progresso junto com as outras nações; ou melhor, digam que, nesse dia, despertarão a consciência e a inteligência entre os povos. Se o domínio do mundo não for retirado das mãos de alguém, tampouco será retirada a ‘realeza celestial’. Vocês próprios não são uma nação, mas reformadores das outras nações. Mas, pelo amor de Deus, não permitam que se diga: ‘Tal nação ascendeu ao ápice do progresso, mas a situação dos muçulmanos entre ela é extremamente deplorável.’ Sem dúvida, a responsável por essa situação deplorável é a religião de natureza estranha que eles possuem.
Este trecho citado é um exemplo claro do estado mental geral da nossa juventude recém-educada. Eles nasceram em famílias muçulmanas, foram criados como membros da sociedade muçulmana e estão ligados aos muçulmanos pelos laços da sociedade e da civilização. Por isso, o apego ao Islã, a simpatia pelos muçulmanos e o desejo de viver como muçulmanos são inatos neles. Esse desejo arraigou-se em suas mentes sem a influência de sua vontade, de seu intelecto ou de sua capacidade de pensar. Contudo, teria sido absolutamente necessário transformar, por meio da educação, esse Islã involuntário e inconsciente em um Islã voluntário e consciente; compreender plenamente os ensinamentos islâmicos antes de se identificarem como muçulmanos; e desenvolver a capacidade de praticar e experimentar, na vida real, as normas, os regulamentos e as leis islâmicas. Mas, antes disso, foram enviados às escolas e colégios para receber educação inglesa. Ali, em meio a uma educação inteiramente não islâmica, desenvolveram-se sua mente, sua personalidade e sua capacidade de pensar. A civilização e o pensamento ocidentais exerceram profunda influência sobre suas mentes. Como resultado, passaram a observar tudo sob uma perspectiva ocidental. Começaram a julgar cada problema com uma mentalidade ocidental. Em suma, tornou-se impossível para eles pensar e observar de qualquer maneira que os libertasse da influência total do ocidentalismo. Eles de fato aprenderam no Ocidente as lições do racionalismo, mas não possuíam qualquer conhecimento racional próprio. Sua razão era tomada de empréstimo da Europa. Por isso, seu racionalismo transformou-se essencialmente em racionalismo estrangeiro, deixando de ser de modo algum um racionalismo independente. Eles também aprenderam no Ocidente a crítica; mas esta tampouco era uma educação para a crítica independente. Ao contrário, sua essência era a seguinte: considerar infalíveis os costumes e as normas ocidentais, julgar tudo no Oriente segundo esse padrão, mas considerar os próprios costumes e normas ocidentais acima de qualquer crítica.
Depois de receberem esse tipo de educação e formação, quando ultrapassaram os limites da faculdade e ingressaram no campo de trabalho da vida, surgiu uma enorme distância entre seus corações e seus cérebros. Seus corações eram muçulmanos, mas seus cérebros eram não muçulmanos. Viviam na sociedade muçulmana. Dia e noite, realizavam todas as suas atividades junto com os muçulmanos. Estavam ligados aos muçulmanos pelos laços da sociedade e da civilização. Ao seu redor, observavam apenas as atividades religiosas e culturais dos muçulmanos. Suas relações de amor e simpatia estavam ligadas exclusivamente aos muçulmanos; contudo, toda a capacidade de pensar, refletir, julgar e formar opiniões havia sido moldada segundo os padrões ocidentais. Ela não tinha absolutamente nenhuma compatibilidade com qualquer costume do Islã ou comportamento dos muçulmanos. Como resultado, começaram a julgar cada aspecto do Islã e dos muçulmanos pelos critérios ocidentais. Tudo o que contrariava esse critério — fosse um princípio fundamental ou um detalhe do Islã, fosse algum comportamento dos muçulmanos — eles consideravam equivocado e necessitado de correção. Alguns deles chegaram a estudar um pouco sobre o Islã para fins de pesquisa e observação. Mas os critérios de sua crítica e pesquisa continuavam sendo igualmente de tipo ocidental. Sendo assim, como poderia o prego reto do Islã encaixar-se no orifício tortuoso de sua mentalidade?
Quando esses cavalheiros dessa classe expressam opiniões sobre assuntos religiosos, suas palavras deixam claramente a impressão de que estão proferindo um discurso interminável, sem qualquer reflexão. Sua posição não é coerente, tampouco é organizada de acordo com as regras da lógica. Eles sequer fazem qualquer esforço para chegar a uma conclusão correta. O mais surpreendente é que, ao falar, nem sequer definem sua própria posição. Ao tratar de um mesmo assunto, passam tranquilamente a assumir posições diversas — enquanto falam de uma determinada posição, de repente adotam outra e começam eles próprios a argumentar contra a posição anterior. O pensamento frouxo é uma característica marcante de suas discussões religiosas. Sobre qualquer assunto que não seja religião, falam com extrema prudência e cautela. Pois sabem muito bem que, se disserem algo incoerente nesses campos, perderão todo o prestígio aos olhos das pessoas instruídas. Mas, como a religião não tem para eles nenhum valor ou importância, quando falam sobre ela não sentem necessidade alguma de exercer sua inteligência. É por isso que, nesse campo, podem falar com toda a segurança de maneira completamente desconexa. Pela sua atitude, parece que estão apenas repousando numa cadeira de balanço depois da refeição, entretendo-se com uma conversa agradável; por isso, não veem necessidade alguma de observar as regras de falar sobre esse assunto.
Nas obras escritas por pessoas desse tipo, a segunda coisa que se evidencia é a superficialidade de seu pensamento e a pobreza de seus conhecimentos. Sobre qualquer assunto que não seja religião, elas não têm coragem de falar com tão pouco conhecimento e reflexão tão insignificante. Isso porque, se disserem algo sem conhecer os fatos verdadeiros, correm o risco de perder o respeito. Mas, no que diz respeito à religião, não sentem necessidade alguma de investigar, estudar e refletir. Com base no pouco que conseguem conhecer superficialmente, chegam a conclusões e as proclamam sem constrangimento. Isso porque aqui não há medo de serem contestados. Talvez os mulás os contestem; mas já se pressupôs deliberadamente que os mulás são cegos, antiquados e tacanhos.
O artigo em questão, escrito pelo competente autor, preserva plenamente ambas essas características. Em primeiro lugar, não fica de modo algum claro, a partir de seu ensaio, se ele fala como muçulmano ou como não muçulmano. No entanto, quem falar sobre o Islã só pode assumir uma de duas posições: ou adotará a posição dos muçulmanos, ou falará como não muçulmano. Quem falar como muçulmano, seja um crente ortodoxo (Orthodox), um espírito independente ou um reformista, terá necessariamente de falar dentro dos limites do Islã. Isto é, deverá aceitar sem hesitação o Alcorão Sagrado como autoridade final (Final Authority), bem como os princípios religiosos e as normas da sharia estabelecidos pelo Alcorão. Pois, se não acreditar na autenticidade do Alcorão e considerar admissível criticar qualquer coisa comprovada pelo Alcorão, terá de sair para fora do Islã. Depois de ultrapassar esse limite, já não poderá falar na posição de muçulmano. Por outro lado, se adotar a segunda posição, isto é, se se declarar não muçulmano, poderá criticar livremente os princípios e as normas do Alcorão. Isso porque não reconhece o Alcorão como prova final. Mas, depois de adotar essa posição, não poderá ter direito algum de falar como muçulmano, de se fazer passar por muçulmano para explicar aos muçulmanos o significado do Islã e indicar um caminho de progresso para o Islã. Quando uma pessoa inteligente e consciente discute deliberadamente o Islã, também levará em consideração as condições lógicas relativas a qual dessas duas posições é aceitável para ela. Pois declarar-se muçulmano e, ao mesmo tempo, criticar os princípios e as normas estabelecidos pelo Alcorão, ou questionar a autenticidade do Alcorão e, ao mesmo tempo, oferecer conselhos aos muçulmanos — nada disso pode ser obra de uma pessoa inteligente. Trata-se apenas de uma tentativa fracassada de combinar duas coisas opostas. Isso significa que, ao mesmo tempo, uma pessoa se identifica tanto como muçulmana quanto como não muçulmana — ao mesmo tempo, permanece dentro e fora dos limites do Islã.
Não temos uma opinião tão desfavorável sobre a formação e a inteligência do autor a ponto de imaginar que, ao falar sobre qualquer assunto que não fosse o Islã, ele adotaria igualmente duas posições contraditórias. Tampouco esperamos dele a audácia de, sentado na corte do Imperador da Índia [é preciso lembrar que o artigo foi escrito em 1934], criticar o sistema de leis instituído pelo próprio Imperador da Índia. Também não esperamos dele a temeridade de, depois de declarar sua adesão a uma religião ou ideologia (Escola de Pensamento), dedicar-se a criticar os princípios fundamentais dessa mesma religião. O surpreendente, porém, é que, a respeito do Islã, ele adotou duas posições inteiramente contraditórias. Mais ainda: ele nem sequer percebe que está mudando de posição repetidamente. Por um lado, apresenta-se como muçulmano, identifica-se como tal, lamenta o sofrimento dos muçulmanos, manifesta interesse pelo progresso do Islã e aconselha os muçulmanos em nome do “ihsan”, isto é, da “religião autêntica”. Por outro lado, critica de maneira irresponsável os princípios e o sistema jurídico do Livro sobre o qual se fundamenta o Islã e cuja aceitação como documento definitivo é condição indispensável para ser muçulmano. O Alcorão não declarou a carne de porco haram apenas em um ou outro lugar, mas, pelo menos, em quatro passagens, fez isso em termos claros [ver Al-Baqara, versículo 173; Al-Ma’ida, versículo 3; Al-An’am, versículo 145; An-Nahl, versículo 115]. Ele, porém, é favorável a conceder às pessoas uma facilitação nesse assunto. O curioso é que esse desejo de facilitar as coisas também seria, ao que parece, em nome do “progresso do Islã”! Parece que a preocupação com o progresso do Islã se apoderou dele mais do que o próprio Alcorão. Ou então ele se tornou ansioso pelo progresso de algum Islã alheio ao Alcorão! Na realidade, porém, o Alcorão, assim como estabelece outras coisas para o ser humano, também prepara uma lista de alimentos (menu) e determina, entre os alimentos, a distinção entre o halal e o haram, entre o puro e o impuro. Afirma claramente, inclusive: “Não tendes o direito de declarar halal ou haram qualquer coisa segundo os vossos desejos.” [An-Nahl, versículo 116] Ele, contudo, insiste justamente em seu próprio direito nesse assunto e hesita em reconhecer o direito do Alcorão. Em outras palavras, não está disposto a admitir qualquer intervenção da religião na questão da alimentação! Na verdade, ao contrário dos seguidores de São Paulo [este foi um dos principais discípulos de Jesus Cristo. Morreu aproximadamente em 67 d.C. O atual mundo cristão segue suas opiniões — Editor] (e não de Jesus Cristo), o Alcorão não confinou a religião a nenhum campo específico. Pelo contrário, fornece leis para cada assunto: vestuário, alimentação, casamento e divórcio, herança, transações, política, tribunais, direito penal e assim por diante. No entanto, ele considera isso um obstáculo ao progresso e ao desenvolvimento do Islã. Acusou essa lei de transformar o ser humano em um cadáver sem vida e numa criança ingênua. Por isso, propôs que a nossa religião deveria ser exatamente como os cristãos (na realidade, os seguidores de Paulo) a compreendem. O próprio Alcorão estabeleceu as normas da sharia e, chamando-as de limites determinados por Alá, ordenou que fossem obedecidas. Ele, porém, chamou esses limites da sharia de grilhões. Assim como São Paulo, considerou necessário romper esses grilhões para a propagação e o progresso da religião. Na perspectiva do Alcorão, a fé é a primeira e indispensável condição para a salvação. Sobre aquele que não crê em Alá, o Alcorão declara claramente que ele se tornará combustível do Inferno. [Al-Anbiya, versículo 98] Não importa que sejam inúmeros ou poucos, abastados ou pobres. Mas a situação dele é esta: ao ver a imensa população de incrédulos e idólatras feliz, próspera e rica, seu coração não consegue aceitar de modo algum que, dentro de alguns anos, eles se transformarão em combustível do Inferno! Não consegue compreender que outro crime eles cometeram além de tornar próspero e belo o mundo de Deus! A questão é: como pode ele continuar sendo muçulmano mantendo uma divergência tão aberta em relação ao Alcorão? Ou, sendo muçulmano, como pode discordar do Alcorão? Se é muçulmano, não deveria discordar do Alcorão. E, se deseja discordar, deveria fazê-lo saindo dos limites estabelecidos pelo Islã. Diante da pessoa que não está satisfeita com os princípios e o sistema jurídico de uma religião, cujo coração não aceita a verdade desse sistema, que é incapaz de compreender sua finalidade e sua lógica e que considera censuráveis alguns ou a maioria de seus aspectos, há apenas dois caminhos abertos: ou sair dessa religião e conquistar o direito de criticar livremente qualquer de suas regras e normas; ou, se quiser permanecer nela com uma atitude de insatisfação, abster-se de manifestar publicamente sua indignação contra ela e, em vez de assumir a pose de “mujtahid” e serrar seu sistema jurídico, tentar eliminar suas próprias dúvidas como um verdadeiro estudante. Segundo o bom senso e o discernimento saudável, somente esses dois caminhos podem ser razoáveis. E, se uma pessoa verdadeiramente consciente se encontrasse em tal situação, adotaria qualquer um deles. A situação, porém, do ilustre autor e de muitos outros que receberam educação estrangeira é esta: não têm coragem moral para escolher o primeiro caminho e sentem vergonha de seguir o segundo. Por isso adotaram um caminho intermediário e irracional: por um lado, juntam-se aos muçulmanos, desejam o progresso e o desenvolvimento do Islã e demonstram aflição e compaixão pelos sofrimentos do Islã e dos muçulmanos; por outro, dizem e fazem contra o Islã tudo aquilo que somente não muçulmanos poderiam dizer e fazer. Nem sequer hesitam em criticar o próprio Alcorão Sagrado, para não falar do hadith e da fiqh. Atacam tranquilamente cada um dos fundamentos do Islã. Esses cavalheiros afirmam ser os únicos racionalistas da sociedade; portanto, dizem não poder aceitar nada que seja contrário à razão. E sua maior acusação contra os “mullahs” é que estes não aplicam o discernimento e a inteligência a assunto algum. Mas a situação deles mesmos é esta: em matéria de religião, proferem claramente afirmações contraditórias, adotam linhas de ação opostas e continuam refutando uma de suas próprias afirmações por meio de outra — que espécie de racionalismo é esse que os pesquisadores progressistas descobriram e com o qual conquistam mérito?
Agora examine um pouco mais profundamente a extensão de seus conhecimentos e a profundidade de seu pensamento.
O ilustre autor considera necessário, para o progresso do Islã, abolir todas as prescrições e proibições da sharia, tal como no cristianismo, e manter o Islã como uma religião puramente baseada na fé. Pois ele percebeu que o segredo do progresso do cristianismo está no fato de que nele não há qualquer limite entre o haram e o halal. Não há nenhuma preocupação com preceitos e proibições morais. Ali, os direitos humanos das pessoas não foram usurpados, transformando-as em cadáveres sem vida e crianças irracionais; pelo contrário, foi-lhes dada liberdade para fazerem o que quisessem, desde que acreditassem em Cristo. Mas ele não refletiu profundamente sobre o fato de que aquilo que se chama Islã está contido no Alcorão. E o Alcorão chamou de Islã o nome abrangente tanto da fé quanto das boas ações. Além disso, estabeleceu limites claros para as boas ações, criou normas e leis e indicou um sistema completo de conduta para a vida individual e coletiva. Sem tal sistema, o Islã jamais poderá se estabelecer como uma religião (din, sistema de vida) e uma civilização. E nenhum muçulmano recebeu o direito de abolir esse sistema e esses limites. Pois sua abolição nada mais é que a própria abolição do Islã. E, se o próprio Islã for abolido, que sentido poderá haver em seu progresso? Se quiser, ele pode inventar uma religião por conta própria e propagá-la; mas que direito tem de fazer passar por Islã algo contrário ao Alcorão e chamar seu progresso de “progresso do Islã”?
Ele quer chamar de Islã uma única crença, a saber: somos responsáveis por nossos atos tanto nesta vida quanto na outra. Talvez tenha dito isso na esperança de que, assim, o Islã se tornasse limitado, sua natureza se tornasse simples e suave e ele continuasse a se expandir rapidamente.
Mas, se tivesse refletido um pouco mais profundamente sobre o significado dessa crença, poderia ter compreendido que, mesmo limitado dessa maneira, o Islã não poderia agradá-lo. Pois, para chamar essa crença de religião, torna-se indispensável, antes de tudo, crer na vida após a morte. Além disso, a prestação de contas, ou o senso de responsabilidade, depende de três coisas. Primeiro, determinar a natureza daquele perante quem se terá de prestar contas e reconhecer sua soberania. Segundo, determinar a natureza da prestação de contas e, de acordo com isso, distinguir, na vida prática, entre os atos bem-sucedidos e os fracassados. Terceiro, determinar resultados distintos para o sucesso e o fracasso na prestação de contas. Pois, se os resultados do fracasso e do sucesso forem iguais, ou se não houver resultado algum, a própria prestação de contas se tornará completamente sem sentido. Essa é a exigência lógica da crença que o ilustre autor quer chamar de “religião pura”. Mesmo que, conforme sua proposta, se erga o Islã sobre essa crença, o problema do qual ele quer escapar inevitavelmente se imporá. Como consequência, será novamente necessário reconhecer aquele Deus sem o qual parece que o Japão ascendeu ao auge do progresso. Novamente serão criados os vínculos da sharia e as disciplinas morais que ele quer romper e dentro dos quais, segundo ele, reside o segredo de o Islã não progredir. Novamente surgirá a questão do castigo e da recompensa, isto é, da punição e do prêmio, e, ao ver as incontáveis criaturas de Deus felizes e prósperas sem crer, sua consciência se recusará a aceitar que, depois de apenas alguns anos, elas serão lançadas no castigo.
Portanto, depois de refletir um pouco, que ele dê o nome de Islã a algo em que não haja lugar para qualquer norma ou proibição; algo em que o resultado final tanto do crente quanto do incrédulo seja o mesmo; algo em que, para alcançar o sucesso na outra vida, bastará tornar próspero e bem organizado o mundo de Deus, e cuja incontável criação incrédula, ao ser vista feliz e próspera, permitirá à sua consciência aceitar que, depois de alguns anos, todos serão transformados em rouxinóis do Paraíso.
Na opinião do autor, a questão de a carne de porco ser definitivamente haram segundo as normas do Alcorão não é correta nem comprovada. Ele suspeitou que talvez ela tivesse sido proibida para os árabes por alguma razão especial. Mas, antes de expressar essa opinião, bastaria abrir o Alcorão e examiná-lo um pouco para que sua dúvida desaparecesse. O Alcorão diz claramente:
(Árabe)
Significado: Ó Profeta! Dize: Na revelação que me foi feita, não foi proibido a nenhum comensal qualquer alimento, exceto a carniça, o sangue derramado e a carne de porco — pois são, sem dúvida, impuros — ou um animal abatido em nome de alguém que não seja Allah, por desobediência. Contudo, quem se encontrar em necessidade (e comer alguma dessas coisas), sem ser desobediente nem transgressor, terá seu Senhor como perdoador e misericordioso.” (Surata Al-An’am, 145)
Neste versículo, a carne de porco foi proibida a todo “comensal”. A razão apresentada para sua proibição é que ela é “impura”. A questão é: por comensal se entende aqui o comensal árabe? Além disso, pode uma mesma coisa ser pura para os árabes e impura para os não árabes? Seguindo essa linha de raciocínio, o autor também gostaria de conceder facilidades aos que comem carniça? Se quiser conceder facilidades no caso da carne de porco, que o faça por sua própria conta. Mas onde encontrou o direito de afirmar, contra a declaração explícita do Alcorão, que a questão de sua proibição definitiva pelo Alcorão não está livre de dúvidas?
Os neomujtahides de hoje inventaram um princípio peculiar para o ijtihad. Um de seus princípios distintivos é este: a respeito de qualquer norma do Islã à qual desejem se opor, afirmam sem hesitação que essa disposição específica foi estabelecida para os árabes. Embora não haja no Alcorão sequer a mais tênue indicação dessa particularização, nem qualquer argumento ou exemplo que a sustente, eles não sentem a menor relutância em fazer afirmações desse tipo. Se essa tendência continuar, talvez num futuro próximo cheguem um dia a querer restringir o próprio Alcorão aos árabes.
Além disso, apresentar um argumento com base na expressão árabe que significa “a pessoa que, sem ser desobediente nem transgressora, se vê em situação de necessidade extrema” é tão ridículo que dá vontade de elogiar a inteligência e o discernimento do autor do relato de viagem. É provável que ele tenha entendido o versículo neste sentido: “Quando surgir espontaneamente o desejo de comer carne de porco, coma-a, mas não se sente no jardim para comê-la e tampouco faça disso um hábito.”
Na realidade, somente alguém que não compreenda o significado de nenhuma das palavras “necessitado”, “desobediente” e “habituado” poderia extrair deste versículo uma permissão para favorecer europeus e chineses no que diz respeito à carne de porco. Caso contrário, é impossível que alguém que conheça o significado dessas palavras demonstre tamanha audácia. Na verdade, o versículo não significa que todos aqueles que são habituados a comer carniça ou a beber sangue, que dariam a própria vida por carne de porco, ou entre os quais seja comum comer a carne de animais abatidos em nome de alguém que não seja Deus, estejam incluídos entre os necessitados. Se fosse assim, toda a proibição se tornaria sem sentido. Pois, se a proibição se aplicasse aos consumidores dessas coisas, eles continuariam a comê-las conforme seus hábitos, aproveitando a exceção concedida em situações extremas; e, se a proibição se destinasse àqueles que já rejeitam essas coisas, ela também não teria qualquer necessidade. Na realidade, a exceção foi criada ao acrescentar à palavra “necessitado” a condição “sem ser desobediente nem transgressor”. Isso significa que, se uma pessoa estiver prestes a morrer de fome e não puder obter nenhum alimento além de algo proibido, poderá comer desse alimento apenas para salvar a vida, mas sob a condição de não ultrapassar os limites da permissão. Ou seja, não comerá mais do que o indispensável para preservar a vida e não abrigará no coração o desejo de transgredir os limites estabelecidos por Deus. É exatamente isso que, em outra passagem, foi declarado ao tratar da proibição da carne de porco, da carniça e de coisas semelhantes:
(Árabe)
Isto é: se alguém se vir reduzido à necessidade extrema pela fome e não tiver no coração atração pelo pecado, poderá, nessa situação, comer algo proibido. Onde está a norma do Alcorão e onde está a defesa do autor em favor dos europeus e dos chineses! Como os habitantes desses países dariam a própria vida por carne de porco, seria preciso, aproveitando-se da expressão árabe, tornar a carne de porco lícita para eles — e ainda por cima para que ingressassem no Islã. Que argumento absurdo! Se começasse assim uma tendência de conceder facilidades nas normas islâmicas, levando em conta os apegos e as inclinações de cada povo, seria necessário tornar lícitas, uma após outra, todas as coisas proibidas, como o álcool, o adultério, a usura e outras semelhantes. A questão é: que necessidade há de fazer ingressar no Islã pessoas que não estão dispostas a obedecer às determinações de Deus, a respeitar os limites por Ele estabelecidos e sequer a considerar o que é proibido como proibido? Quando o Islã jamais dependeu de pessoas desse tipo, por que seria necessário negociar para obter o consentimento delas?
A princípio, o autor simplesmente não compreendeu a razão pela qual a carne de porco é proibida. Mas, depois de alguma reflexão, entendeu que, em princípio, existe uma enorme distância entre o estômago e a consciência moral. Chegou, portanto, à conclusão de que a religião não tem o direito de estabelecer distinções entre o lícito e o ilícito nos alimentos. Sua declaração também revelou este mistério: tudo o que sabe sobre o Alcorão não é, de modo algum, mais do que sabe sobre a ciência física. É verdade que não conhecer o Alcorão não constitui uma vergonha tão grande para uma pessoa instruída e esclarecida; mas tamanha ignorância em relação à ciência é, sem dúvida, extremamente vergonhosa. Até agora, ele nem sequer sabe qual é a relação entre a alma humana e sua constituição física, nem entre a constituição física e a alimentação. Que uma substância que fornece os elementos desgastados do corpo e por meio da qual se formam todas as artérias, veias e o sistema nervoso do corpo não exerça uma influência natural sobre o coração e a alma seria, isso sim, algo surpreendente. O mundo científico também permaneceu geralmente indiferente a essa verdade no passado; porém, pelas pesquisas recentemente realizadas no campo da dietética, tornou-se evidente que a alimentação exerce necessariamente influência sobre o caráter moral e a força mental do ser humano. Por isso, os cientistas modernos estão investigando que tipo de influência os diferentes alimentos exercem sobre nossa alma e nossa capacidade de pensar. Parece que o conhecimento de nosso amigo graduado acerca da ciência está longe de ser atualizado. Caso contrário, ele não poderia afirmar com tamanha presunção que, em princípio, existe uma enorme distância entre o estômago e a consciência moral.
9
A fraude do racionalismo
[O artigo foi publicado pela primeira vez em junho de 1936, na revista mensal Tarjuman al-Qur’an — o editor.]
Dois
O Racionalismo (Rationalism) e o Naturalismo (Naturalism) são duas correntes cuja divulgação os ocidentais vêm promovendo com grande intensidade há duas décadas. Quem pode negar o poder da propaganda? Quando algo é continuamente, repetidamente e de modo insistente apresentado diante dos olhos das pessoas e introduzido em seus ouvidos, por quanto tempo elas conseguirão proteger sua mente e seu cérebro de sua influência? Assim, por força da propaganda, o mundo acabou admitindo que o conhecimento científico ocidental e sua civilização estão fundamentados num racionalismo e num naturalismo absolutos. Contudo, um estudo crítico da civilização ocidental torna completamente evidente que sua base não se apoia nem no racionalismo nem em qualquer lei natural; ao contrário, toda a estrutura da civilização ocidental está fundada simplesmente nos sentimentos, nos desejos e nas necessidades. Na realidade, o Renascimento ocidental foi apenas uma revolta violenta contra o intelecto e a natureza. Esse despertar avançou pelo caminho das sensações e do materialismo, abandonando a razão. Em vez da consciência racional, apoiou-se nos sentimentos. Rejeitou as orientações da consciência, as provas racionalmente coerentes e os instintos naturais, proclamando os resultados materiais perceptíveis pelos sentidos como o verdadeiro e genuíno critério. Considerou equivocadas as orientações da natureza e adotou os desejos e as necessidades como seus guias. Julgou insensato e sem fundamento tudo o que estivesse além dos limites da medição. Classificou como inútil e desnecessário tudo aquilo que não proporcionasse algum tipo de benefício material perceptível pelos sentidos. No início, essa verdade estava oculta até mesmo para os próprios ocidentais. Por isso, embora seguissem em oposição à razão e à natureza, mantinham a convicção de que a nova era do ‘intelectualismo livre’ que haviam inaugurado estava fundamentada no ‘racionalismo’ e no ‘naturalismo’. Mais tarde, porém, o verdadeiro mistério veio à tona. Mas eles não tiveram a coragem moral de admiti-lo. Por isso, com extrema astúcia, encobriam a idolatria da matéria, a escravidão aos instintos e a submissão aos sentidos com um manto de argumentos, provas e naturalismo. Mas, segundo o provérbio inglês, hoje ‘o gato saiu completamente do saco’. A irracionalidade e a oposição à natureza tornaram-se tão evidentes que já não é possível lançar qualquer cobertura sobre elas. Por isso, hoje se proclama uma revolta aberta tanto contra a razão quanto contra a natureza. Desde o sagrado horizonte das ciências até a sociedade, a economia e a política, em toda parte se ergueu a bandeira da revolta. Consequentemente, com exceção de um grupo de hipócritas ‘voltados para o passado’, todos os líderes do mundo moderno passaram a reconhecer, sobre sua civilização, apenas a autoridade dos desejos e das necessidades.
Os ocidentalistas e os partidários dos firangis ainda estão alguns passos atrás de seus mestres. A educação, o ambiente humano, a cultura e a civilização em que se desenvolveu seu intelecto naturalmente tiveram de produzir neles também a adoração das sensações e do materialismo, bem como a servidão aos desejos e às necessidades. E, de fato, é isso que está sendo produzido. Mas eles ainda não chegaram ao ponto em que o gato sai do saco. Ainda afirmam, em seus discursos e escritos, que só reconhecemos as orientações da razão e da natureza. Apresentem diante de nós apenas argumentos e provas. Se algo não for demonstrado por argumentos, provas e evidências naturais, não o aceitaremos. Contudo, dentro do saco dessas grandes palavras está escondido um gato que não é nem racional nem natural. Ao analisar seus escritos, ficará absolutamente claro que sua mente é incapaz de investigar e compreender argumentos, provas e os instintos naturais. Se examinarmos o significado daquilo que chamam de ‘bem racional’, descobriremos que, na realidade, se trata do ‘bem derivado da experiência’. E o bem derivado da experiência é aquilo que é sólido, pesado, calculável e mensurável. Eles não estão de modo algum dispostos a aceitar qualquer benefício ou utilidade que não possa ser demonstrado por meio de cálculos matemáticos, pesado numa balança ou medido com uma régua. E, enquanto sua utilidade não for comprovada nesse sentido específico, crer nela e obedecer-lhe é, aos seus olhos, uma atitude inteiramente ‘irracional’. Eles também afirmam seguir as orientações da natureza, mas, ao investigar um pouco mais profundamente, o mistério dessa afirmação se torna igualmente evidente. Para eles, natureza não significa natureza humana, mas natureza biológica. E na natureza biológica não há lugar para a consciência racional nem para os sentimentos do coração; ela é apenas sensação, desejo e submissão aos sentidos. Em sua opinião, só é digno de confiança aquilo que é capaz de influenciar os sentidos humanos, satisfazer seus desejos e vontades e atender às suas exigências físicas e mentais; só é confiável aquilo cuja utilidade pode ser facilmente examinada, cujo prejuízo não é visível ou é menos perceptível que sua utilidade. Em contrapartida, tudo aquilo que faz parte da natureza humana, cuja importância o ser humano sente por meio de sua própria consciência e cujo benefício ou prejuízo não é material nem sensorial, mas espiritual e interior, é considerado superstição, absurdo, inútil e desnecessário.
Atribuir qualquer importância a coisas desse tipo — ou até mesmo reconhecer sua existência — é, para eles, cegueira, superstição e antiquamento. De um lado, demonstram tamanho repúdio à razão e à natureza; de outro, reivindicam o racionalismo e o progressismo! Sua consciência e sua razão chegaram a tal grau de falência que eles não conseguem perceber a contradição entre essas posições.
A educação, a cultura e a civilização deveriam necessariamente proporcionar ao coração humano pelo menos este benefício: que seus pensamentos, sua consciência e suas reflexões não sejam dispersos, desconexos e desordenados. Ele deveria adotar um método de pensamento claro e simples. Ordenando corretamente o curso dos acontecimentos, deveria chegar a conclusões precisas. Deveria manter-se afastado de erros evidentes, como a autocontradição e o palavreado sem sentido. Contudo, salvo algumas exceções, nossos homens comuns, educados e respeitáveis parecem privados até desses benefícios elementares do aprimoramento mental. Antes de discutir qualquer assunto, não se observa neles sequer o discernimento necessário para determinar por si mesmos a posição correta, compreender as consequências intelectuais dessa posição e, tendo-a em vista, adotar uma linha de argumentação coerente com ela. Ao conversar com eles ou examinar seus escritos, logo à primeira vista se terá a impressão de que seu pensamento é extremamente desconexo. Começam uma discussão partindo de uma determinada premissa, mas, depois de avançar um pouco, mudam de posição; avançando mais um pouco, assumem uma posição completamente diferente. Nem sequer selecionam criteriosamente os fatos para provar sua afirmação, nem os organizam segundo os princípios da lógica. Qual é exatamente sua tese? Que questão pretendiam esclarecer e que conclusão finalmente alcançaram? Mesmo depois de investigar tudo do princípio ao fim, não se encontram respostas para essas perguntas. A causa subjacente a essa situação é que o principal objetivo da civilização atual e do moderno sistema educacional sob sua influência está voltado para o sensualismo e o materialismo. Ela desperta as paixões e os desejos do ser humano, estimula seu senso de necessidade e grava profundamente em seu coração e em sua mente a importância dos objetos perceptíveis pelos sentidos, mas não promove o aprimoramento de seu intelecto e de sua mentalidade. É verdade que cria nele a presunção de discernimento, reflexão e capacidade de pensar, e essa presunção também o incentiva a fazer uma crítica ‘racional’ de todas as coisas e a rejeitar tudo aquilo que, a seus olhos, não seja ‘racionalmente aceitável’; mas, na realidade, sua mente e seu espírito são inteiramente avessos ao racionalismo. Ele não adquire absolutamente a capacidade de resolver uma questão por meio de uma cadeia lógica rigorosa ou de tomar uma decisão sobre qualquer assunto.
A prova mais evidente do ‘racionalismo’ irracional desses orgulhosos da educação moderna encontra-se nas questões religiosas. Isso porque as doutrinas ocidentais estão em conflito, em todos os aspectos, com os fundamentos espirituais, morais, sociais e culturais da religião.
Para comprovar a veracidade disso, converse com uma pessoa instruída em inglês sobre alguma questão religiosa e, para avaliar seu estado mental, obtenha dela o reconhecimento de que é muçulmana. Em seguida, apresente-lhe alguma determinação da Sharia e exponha as provas em seu favor. Imediatamente o cavalheiro se sacudirá e, com ar de extrema inteligência, dirá: ‘Isto não passa de mero “mullahismo”. Traga-me argumentos e provas. Se, além de simples descrições ou citações, você não tiver argumentos e provas, não aceitarei nada do que disser.’ Pois bem, apenas essas poucas palavras revelarão o segredo: o cavalheiro sequer foi tocado pela brisa do racionalismo. Mesmo após longos anos de educação, estudo e cultivo do conhecimento, o pobre homem não conseguiu compreender qual é a consequência intelectual de exigir argumentos e provas sobre qualquer assunto, nem qual é a verdadeira posição daquele que faz tal exigência.
Do ponto de vista do Islã, legitimamente, uma pessoa só pode ocupar uma de duas posições: ou será muçulmana, ou será não muçulmana, isto é, incrédula. Ser muçulmano significa que ela aceitou de coração e alma Allah e Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Significa também que declarou que obedecerá sem questionar qualquer ordem que o Mensageiro transmitir da parte de Allah. Nessas circunstâncias, ela já não tem o direito de exigir argumentos e provas em apoio a cada determinação individualmente. Como muçulmano, seu dever é apenas investigar se o Mensageiro de Deus deu ou não determinada ordem. Depois disso, mesmo que uma ordem não seja comprovada por uma justificativa racional convencional, deve obedecer-lhe imediatamente. Naturalmente, pode exigir argumentos e provas para alcançar tranquilidade mental e visão ampla. Mas essa exigência só pode ser feita quando estiver disposto a cumprir a ordem. Exigir argumentos e provas como condição prévia para obedecer, e recusar-se a obedecer caso não receba tais argumentos e provas ou não alcance tranquilidade mental, significa, na realidade, negar a autoridade do Mensageiro de Deus; e essa negação equivale à incredulidade. No entanto, inicialmente ele havia declarado ser muçulmano. Se agora assumir a posição de um incrédulo, seu lugar legítimo não será dentro dos limites do Islã, mas fora deles. Em primeiro lugar, deveria ter a coragem honesta de sair de uma religião na qual, de fato, não acredita. Só então adquirirá o direito de exigir argumentos e provas, e sua exigência poderá ser respondida.
Esta é a regra ditada pelo saudável bom senso e pelo discernimento. De outro modo, nenhuma ordem ou sistema do mundo poderia estabelecer-se. Se os cidadãos de um Estado exigissem a justificativa racional de toda ordem governamental e se recusassem a obedecer sem argumentos, esse Estado não poderia subsistir sequer por um instante. Se cada soldado de um exército perguntasse a razão de cada ordem do comandante e, em todos os assuntos, apresentasse seu próprio conforto mental como condição prévia para obedecer, então, na realidade, exército algum poderia ser formado. Em suma, não se pode estabelecer escola, faculdade, associação — em uma palavra, nenhum sistema social — com base no princípio de que se deve tentar satisfazer cada pessoa envolvida e que nenhuma ordem será cumprida até que todos alcancem tranquilidade. Em geral, uma pessoa ingressa em uma instituição com esta compreensão elementar e fundamental: tem plena confiança na autoridade superior daquela instituição e reconhece sua autoridade. Depois, enquanto permanecer parte dessa instituição, será seu dever obedecer às ordens da autoridade superior; mesmo que não esteja satisfeita com alguma questão menor, é absolutamente seu dever obedecer. É diferente o caso de contrariar uma ordem na condição de infrator. Uma pessoa pode continuar pertencendo a uma instituição apesar de desobedecer em questões menores; mas, se alguém declarar que, até nos assuntos mais insignificantes, sua satisfação pessoal é condição prévia para obedecer, deve-se entender que está se recusando a reconhecer a autoridade da autoridade superior. Isso equivale a uma rebelião manifesta. Se tal princípio de ação fosse adotado em um Estado, seria instaurado contra essa pessoa um processo por traição ao Estado. Se isso ocorresse em um exército, ela seria submetida a uma corte marcial. Se ocorresse em uma escola ou faculdade, seria imediatamente expulsa. Se algo assim ocorresse no âmbito de uma religião, seria emitida contra ela uma fatwa de incredulidade. Ninguém pode receber o direito de exigir argumentos e provas desse tipo enquanto permanece dentro de uma instituição. O lugar verdadeiro de tal exigente não é dentro dela, mas fora. Portanto, primeiro deveria sair; depois poderia apresentar quantas objeções e protestos quisesse.
Este é um princípio fundamental, ou algo equivalente a uma base, no âmbito organizacional do Islã. O Islã não começou por dar ordens ao ser humano; antes de tudo, convidou-o a crer em Allah e no Mensageiro. Em apoio a essa única questão, foram apresentados todos os argumentos e provas. Por meio de cada prova acompanhada de argumentos e dos sinais da natureza, procurou-se tranquilizar o ser humano quanto ao fato de que Allah é o seu Senhor e Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, é o Mensageiro de Allah. Você pode examinar e verificar essa questão fundamental por meio de quantos argumentos e debates quiser. Se não ficar satisfeito com algum argumento ou prova, jamais será obrigado a aceitar o Islã. Nenhuma norma ou disposição islâmica será aplicada a você. Mas, no instante em que aceitar voluntariamente o Islã, você se tornará um ‘muçulmano’. E o próprio significado da palavra muçulmano é obediente. Depois disso, não há necessidade de lhe apresentar argumentos e provas a respeito de cada ordem do Islã, nem de deixar a questão do cumprimento das ordens depender da sua tranquilidade mental; ao contrário, toda ordem que lhe chegar da parte de Allah e do Mensageiro deve ser obedecida sem contestação — essa é a sua primeira obrigação como muçulmano:
(Árabe)
Sentido: O dever dos crentes é que, quando forem chamados a Allah e ao Mensageiro, para que o Mensageiro julgue entre eles, digam: “Ouvimos e obedecemos”. (Surata An-Nur, 51)
Na verdade, exigir argumentos e provas como condição para a fé e a obediência é algo totalmente contraditório. Combinar essas duas coisas é completamente contrário ao bom senso e ao discernimento. Nenhum crente pode exigir argumentos e provas dessa maneira. Por outro lado, também não é possível que alguém que adote esse tipo de racionalismo seja um crente:
(Árabe)
Sentido: Quando Allah e o Mensageiro decidem uma questão, os crentes, homens e mulheres, não têm absolutamente nenhum direito de tomar uma decisão independente sobre ela. (Surata Al-Ahzab, 36)
A extraordinária eficácia alcançada pelo Islã nos campos da reforma e da organização teve como causa direta a aplicação desse princípio. Depois de firmar profundamente nos corações das pessoas o espírito da fé, sempre que algo era proibido, toda a comunidade dos crentes se abstinha disso. Por outro lado, sempre que algo era ordenado, bastava uma única indicação para que fosse posto em prática entre dezenas de milhões de pessoas. Se fosse necessário apresentar argumentos e provas em cada questão, e se a observância da lei dependesse da compreensão da lógica e do significado de cada proibição e ordenamento, então a reforma e a organização do caráter e da conduta humanas realizadas pelo Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, em apenas 23 anos não teriam sido possíveis nem até o Dia da Ressurreição.
Isso não significa que as normas do Islã sejam contrárias à razão, nem que algum de seus pormenores careça de significado. Também não significa que o Islã exija de seus seguidores uma imitação cega, ou que os proíba de investigar os fundamentos racionais e naturais de suas normas e de compreender seus significados. A realidade é o oposto disso. Para seguir o Islã corretamente, são indispensáveis uma inteligência aguçada e discernimento. Quanto mais profundamente uma pessoa compreender o significado e a racionalidade das normas islâmicas, mais perfeitamente poderá segui-las. O Islã não proíbe esse tipo de conhecimento e visão profunda; ao contrário, incentiva-o. Mas há uma diferença entre a busca intelectual posterior à manifestação da obediência e a reflexão e o julgamento exigidos como condição anterior à obediência — uma diferença como a que existe entre o céu e a terra. O muçulmano manifesta, antes de tudo, uma obediência incondicional. Depois, procura compreender o significado e a racionalidade das normas islâmicas. Isso, porém, não significa que a racionalidade de cada norma necessariamente lhe será compreensível. Na realidade, ele tem plena confiança e satisfação na soberania de Allah e na missão profética do Mensageiro. Depois disso, deseja alcançar uma satisfação ainda maior, inclusive nos pormenores, a fim de obter uma visão mais ampla. Quando alcança essa satisfação, expressa gratidão a Allah; mas, quando não a alcança, com base em sua plena satisfação com Allah e com o Mensageiro, continua obedecendo sem hesitação às normas islâmicas. Que comparação pode haver entre isso e a exigência de argumentos e provas feita por aquele que, a cada passo, diz: ‘Só avançarei se você conseguir me satisfazer; caso contrário, recuarei’?
Recentemente, chegou ao nosso conhecimento um panfleto publicado por um grupo muçulmano. Esse grupo é formado por muçulmanos altamente instruídos. Seus membros tampouco são contrários à religião; pelo contrário, em sua própria concepção, vêm prestando um grande serviço à religião. Entre os temas que divulgam em nome da “reforma” religiosa, um dos mais destacados é a proibição de que os muçulmanos realizem o sacrifício todos os anos por ocasião do Eid al-Adha. Além disso, aconselham os muçulmanos a empregar, na assistência a instituições nacionais, no sustento de órfãos e viúvas e na criação de empregos para os desempregados, o dinheiro que gastam com o objetivo de abater animais. Não chegou às nossas mãos o relato completo da objeção apresentada por certo muçulmano a essa propaganda. Contudo, em resposta à sua objeção, foi dito:
Até hoje, ninguém lançou luz sobre os benefícios lógicos e práticos do sacrifício, além do cumprimento ritual e da imitação cega. …… Se alguém nos informar sobre a racionalidade do sacrifício, terá nossa gratidão.
Este é o exemplo dos escritos daqueles que se proclamam “instruídos” e “iluminados”. De um lado, uma exigência vociferante de “racionalismo”; de outro, tamanho ápice da “irracionalidade”! Essas duas frases, saídas da “pena sagrada” de certo indivíduo, provam que ele nem sequer determinou corretamente o seu próprio papel. Se quer falar como muçulmano, deve curvar a cabeça diante da “tradição”. Só então poderá reivindicar o direito de exigir argumentos e provas. Mas não como condição de obediência; apenas para sua satisfação mental. Se, porém, exige argumentos e provas antes de declarar obediência, e isso constitui uma condição para sua obediência, então não tem o direito de falar como “muçulmano”. Quem faz esse tipo de exigência argumentativa deveria primeiro assumir o papel de um não muçulmano. Só depois terá o direito de levantar livremente objeções sobre qualquer assunto. Mas isso não lhe dará o direito de se fazer passar por um “mufti” e emitir uma fatwa sobre qualquer questão religiosa dos muçulmanos. Ele desempenha simultaneamente dois papéis contraditórios, sem cumprir a responsabilidade intelectual de um deles. De um lado, não se apresenta apenas como “muçulmano”; chega até a se fazer passar por “mufti do Islã”; de outro, considera inútil a “tradição autorizada”. Quando uma ordem é comprovada por meio de uma “tradição” autorizada, ele se recusa a obedecê-la e, desde logo, estabelece como condição que se lance luz sobre a racionalidade e os benefícios práticos dessa ordem. Em outras palavras, não está disposto a obedecer a uma ordem simplesmente por ser uma ordem de Allah e do Mensageiro; obedecerá a ela somente com base em sua racionalidade e em seus benefícios práticos. Se não conseguir perceber tais benefícios, ou se, segundo seu próprio critério, eles não se mostrarem benéficos, revogará a lei divina e fará campanha contra ela. Chamá-la-á de prática “irrelevante”, “sem sentido”, “supérflua”, ou mesmo prejudicial e desperdiçadora. Não apenas isso: empregará todas as suas forças para impedir os muçulmanos de segui-la. Pode alguém considerar sensato esse comportamento autocontraditório e esses papéis mutuamente contraditórios? Sem dúvida, a exigência do ilustre autor por argumentos e provas é legítima. Mas que ele primeiro prove que ele próprio é um homem dotado de discernimento e bom senso.
O benefício lógico e o benefício derivado da experiência não são o nome de alguma coisa específica e determinada; são, antes, algo relativo e qualitativo. O discernimento de uma pessoa considera algo benéfico, enquanto o discernimento de outra sustenta opinião contrária. Uma terceira pessoa reconhece algum benefício nisso, mas não lhe atribui importância alguma; pelo contrário, considera algo diferente ainda mais benéfico. No que diz respeito ao benefício derivado da experiência, há divergências ainda maiores. Isso porque a concepção que cada pessoa tem do benefício é diferente. De acordo com essa concepção, cada indivíduo, com base em sua própria experiência ou na experiência alheia, julga algo benéfico ou prejudicial. Para uma pessoa, somente o ganho aparente é desejável e somente o prejuízo aparente deve ser evitado. Sua preferência necessariamente será diferente da de uma pessoa dotada de visão de longo alcance. Além disso, em muitas coisas há uma espécie de benefício e outra espécie de prejuízo. Uma pessoa aceita essas coisas por considerar o prejuízo insignificante em comparação com o benefício; outra as evita por considerar o prejuízo maior que o benefício.
Além disso, às vezes se observa contradição no caso do benefício racional e do benefício derivado da experiência. Do ponto de vista da experiência, algo pode ser prejudicial; mas, segundo o julgamento do discernimento, esse dano deve ser tolerado em vista de algum benefício racional de grande importância. Outra coisa pode ser benéfica do ponto de vista da experiência, mas, segundo a orientação da consciência, é dever evitá-la para escapar de algum prejuízo racional. Enquanto existirem contradições ou conflitos desse tipo, não será possível chegar a uma decisão consensual sobre o benefício “racional” e o benefício “derivado da experiência” de qualquer coisa. Também é impossível que todos concordem sobre o benefício de algo, sem que ninguém tenha a oportunidade de sustentar opinião diferente ou negá-lo. Por que mencionar apenas o sacrifício? Entre as orações, o jejum, o hajj, o zakat e os demais mandamentos e proibições da sharia, acaso a racionalidade e o benefício derivado da experiência de alguma coisa se tornaram tão claros quanto a luz do dia, e todas as pessoas passaram a obedecer conscientemente? Se assim fosse, não se encontraria no mundo uma única pessoa que abandonasse a oração ou o jejum, ou que não acreditasse no hajj e no zakat. É por isso que o sistema normativo não depende do discernimento e da experiência de cada indivíduo; sua base é, antes, a fé e a obediência. O muçulmano jamais deposita sua fé na racionalidade e nos benefícios derivados da experiência; sua fé está em Allah e em Seu Mensageiro. Sua religião não consiste em aceitar algo somente quando sua racionalidade e utilidade tiverem sido demonstradas, e em rejeitá-lo assim que sua irracionalidade e inutilidade se tornarem aparentes. Sua religião consiste, antes, em que aquilo que for comprovado como uma ordem de Allah e do Mensageiro é obrigatório, enquanto aquilo que não for autorizado não é digno de ser praticado.
Portanto, a questão agora é: a fé do autor está na racionalidade e no benefício, ou em Allah e no Mensageiro? Se a primeira hipótese for verdadeira, ele não tem a menor relação com o Islã. Que direito tem, então, de falar fazendo-se passar por muçulmano e aconselhar o povo a “abandonar a chamada sunnah do deserto”? Se a segunda hipótese for verdadeira, ele não deveria tomar a racionalidade e a utilidade como base da discussão. Deveria, antes, perguntar: o sacrifício é apenas um costume inventado pelos muçulmanos? Ou é uma prática de adoração escolhida por Allah e pelo Mensageiro, que o próprio Mensageiro de Allah instituiu entre sua comunidade?
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A retórica vazia do progressismo
[O artigo foi publicado pela primeira vez em junho de 1933 na revista Tarjumanul Qur’an — Editor]
No número de junho de 1933 da revista ‘Nigar’, o senhor Niaz Fatehpuri publicou uma extensa crítica sobre a ‘Tarjumanul Qur’an’, que edito. Agradeço ao senhor Fatehpuri por isso. Em geral, não é costume discutir ou publicar uma crítica em resposta à crítica de uma revista. Contudo, o ilustre crítico expressou, em seu artigo, certas opiniões relacionadas aos princípios fundamentais de sua religião do progresso, e corrigir esses princípios é um dos principais objetivos da Tarjumanul Qur’an. Por essa razão, considero absolutamente necessário aproveitar esta primeira oportunidade de expressar minha própria opinião a esse respeito. Ele escreveu:
O objetivo desta revista transparece desde o próprio nome: divulgar corretamente entre as pessoas o significado, a importância e os ensinamentos do Alcorão. Sem dúvida, ninguém pode negar a utilidade desse objetivo. Mas, como o próprio ilustre editor reconheceu, alcançar essa meta na época atual não é de modo algum fácil. Isso porque, no passado, por religião entendia-se apenas a imitação cega dos antepassados e atividades retrógradas. Naquela época, não era nada difícil para alguém apresentar-se como pregador ou reformador religioso. Porém, o conhecimento moderno e as novas descobertas científicas de todos os dias deram ao ‘pensamento e à ação’ humanos uma forma inteiramente nova, enriquecendo suas mentes com a ‘liberdade de pensamento e de expressão’. Portanto, hoje já não é possível preservar a existência da religião simplesmente apresentando como prova os costumes, os princípios de ação e as correntes de pensamento dos antepassados. Antigamente, talvez se discutisse ou debatesse a unicidade de Deus; hoje, porém, a própria existência de Deus é considerada absolutamente impossível. Nos tempos antigos, talvez fosse possível provar, por meio de milagres, a orientação do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele; hoje, porém, com base justamente nesses milagres, a ‘ciência do magnetismo’ se empenhou em criar inúmeros profetas e mensageiros. No passado, um pregador podia olhar para o céu e invocar Deus, o Senhor do Trono e do Kursi; hoje, porém, não existe sequer algo chamado céu. Nessas circunstâncias, se alguém fizer tal coisa, isso não poderá ser de modo algum benéfico. Em suma, já não é tempo de ‘fé no invisível’; chegou o tempo da fé na experiência e na observação. Em um período tão crítico, avançar em auxílio da religião não é de modo algum uma tarefa fácil. E, sobretudo, como a própria ideia atual de religião não é muito aceitável para as pessoas, a tarefa parece ainda mais difícil.
Prosseguindo, ele escreveu ainda:
O Alcorão Sagrado divide-se, quanto ao seu conteúdo, em três partes. A primeira contém ensinamentos morais. A segunda apresenta crenças doutrinárias. A terceira contém narrativas e exemplos históricos. Não é necessário escrever muito sobre a primeira parte, nem é preciso apresentar qualquer prova documental a seu respeito, pois a ética de todas as religiões é praticamente a mesma. E todos são obrigados a admitir que a ética islâmica não é diferente nem inferior à ética das demais religiões. Deve-se, contudo, lançar mais luz sobre a segunda e a terceira partes, pois o conhecimento moderno e as descobertas científicas criaram, na mente das pessoas, dúvidas e hesitações acerca dessas duas partes. E, na verdade, se alguém conseguir dissipar essas dúvidas e suspeitas, será reconhecido como o reformador do século atual. É por isso que aconselharei a criação de uma seção permanente sobre esse assunto. Por meio dessa seção, deveriam ser analisados todos os versículos corânicos relacionados às crenças doutrinárias e às narrativas. Em seguida, depois de determinar o verdadeiro propósito e significado desses versículos, seria necessário refutar todas as objeções e contestações levantadas por eruditos e pesquisadores modernos.
Em conclusão, ele escreve:
No futuro, convido-o, antes de tudo, a discutir o significado da revelação e do conhecimento. Pois a compreensão do Kalamullah depende justamente da compreensão dessas coisas. Ao mesmo tempo, deveria ser discutida também a questão da vida futura, pois da solução dessa questão depende o problema da religiosidade e da irreligiosidade. Quero ver que explicação ele dará sobre a Palavra Divina e sobre a vida futura. Só então apresentarei minhas dúvidas, suspeitas e objeções; se, por seus esforços, elas forem eliminadas, ficarei extremamente feliz. Pois atualmente muitos estão afligidos pela terrível maldição de ‘fingir-se muçulmano por necessidade’. Uma das principais causas disso é a crença na vida após a morte.
Deixando de lado os pormenores aos quais o ilustre crítico aludiu nessa citação, quero concentrar minha atenção apenas nas questões fundamentais.
Ele dividiu a discussão do Alcorão Majide em três partes. Nós, porém, podemos facilmente dividi-la em duas. O conteúdo da primeira parte está além dos limites do nosso conhecimento, entendimento e capacidade de julgamento. Não podemos declarar definitivamente que qualquer um de seus temas seja falso ou verdadeiro. Por isso, no que diz respeito a eles, o Alcorão nos convoca a ter fé no invisível. Os temas da segunda categoria não estão além dos limites do nosso conhecimento, e também nos é possível chegar a uma conclusão racional a respeito deles. Assim, além de temas como a existência e os atributos de Allah, os anjos, a revelação, os Livros divinos, o significado da profecia, a ressurreição após a morte e o castigo e a recompensa na vida futura, pertencem à primeira categoria também todos os assuntos narrados em histórias e exemplos históricos que estão além dos limites do conhecimento, da razão e da capacidade de julgamento. Não faz diferença se esses temas estão além dos limites da capacidade comum de julgamento humano ou se somos simplesmente incapazes, no atual nível intelectual e científico, de chegar a uma conclusão sobre sua veracidade e validade. Em contrapartida, todos os temas relativos aos ensinamentos morais do Islã, à purificação da alma e à vida humana pertencem à segunda categoria.
Segundo o digno crítico, não há necessidade alguma de discutir a segunda parte, pois, nesse aspecto, os ensinamentos do Islã são semelhantes aos das demais religiões. Para ele, porém, é absolutamente necessário discutir a primeira parte, porque foi justamente em relação aos temas nela incluídos que surgiram entre as pessoas dúvidas e hesitações. Mas a questão é: por que surgem dúvidas e hesitações a respeito desses temas? Em resposta, ele disse que, no passado, por causa do atraso e da ignorância, as pessoas tinham fé nas coisas invisíveis. Hoje, porém, o conhecimento moderno, a ciência e as novas descobertas científicas deram uma nova forma ao pensamento e à ação humanos — enriqueceram sua mente por meio da liberdade de pensamento e de consciência. Por isso, já não é tempo de ter ‘fé no invisível’; em seu lugar, chegou o tempo de ter ‘fé na experiência e na observação’.
Essa opinião está fundada em vários erros. O primeiro deles é não compreender a verdadeira diferença entre o passado e o presente. Infelizmente, o senhor Niaz não é o único; ao contrário, uma grande parcela das pessoas está mergulhada na concepção equivocada de que a lâmpada da religião só podia irradiar luz na escuridão dos tempos passados, mas que, após o nascer do sol do conhecimento e da ciência modernos, já não lhe é possível brilhar. No entanto, a ciência racional que eles chamam de raio de luz não é patrimônio exclusivo desta época. Esses conhecimentos e ciências também ofuscaram, no passado, a visão das pessoas da mesma maneira. E aqueles cuja visão havia sido ofuscada naquela época também pensaram que a lâmpada da religião já não podia permanecer luminosa. Segundo eles, o conhecimento e a ciência modernos daqueles dias, bem como as novas descobertas científicas, haviam dado uma nova forma ao pensamento e à ação e, por meio da razão do pensamento e da consciência, haviam enriquecido de tal modo as mentes das pessoas que, naquela era luminosa, não havia qualquer espaço para ter fé no invisível. Não foi essa a situação que prevaleceu do segundo ao quarto século da Hégira? Quando as ideias de filósofos e cientistas como Platão, Aristóteles, Epicuro, Zenão, Berkeley, Alexandre, Ferdusi, Plotino e outros se difundiram nos países muçulmanos, inaugurando uma nova era no campo do pensamento filosófico e da investigação intelectual, não havia também então um grupo de pessoas que sustentava uma concepção semelhante? A liberdade de pensamento e de intelecto daqueles dias, e a nova forma de conduta e de concepções, não geraram igualmente entre as pessoas dúvidas e hesitações em sua fé religiosa? Mas o que aconteceu depois? Muitas das doutrinas e conclusões especulativas dos filósofos nas quais as pessoas daquela época depositaram sua fé foram posteriormente demonstradas falsas. A intensa luz do conhecimento e da ciência sob a qual a lâmpada da religião lhes parecia estar quase apagada tornou-se completamente inerte com uma única virada do tempo. Seu ‘conhecimento e ciência modernos’ transformaram-se em coisas antiquadas. Suas novas ‘descobertas científicas’ perderam a capacidade de dar nova forma ao pensamento e à ação. Aquilo ao qual haviam dado uma nova forma foi considerado antigo. Além disso, a maioria dos argumentos e provas que apresentaram, depositando plena fé e confiança nas descobertas científicas contemporâneas, e das doutrinas filosóficas que construíram com base neles, poderia ser classificada hoje, sem a menor hesitação, como sem sentido e inútil até por um estudante medíocre.
Sendo assim, se alguém disser que a lâmpada da religião só podia brilhar na era sombria do passado, mas que hoje não é capaz de brilhar nesta era luminosa, seremos obrigados a pensar que a própria história está se repetindo. Temos absoluta certeza de que a maior parte das coisas hoje reivindicadas, como no passado, em nome do conhecimento e da ciência modernos e das novas descobertas e invenções, acabará tendo o mesmo destino do ‘conhecimento e da ciência modernos’ e das novas descobertas dos povos anteriores, e que as ‘novas formas do pensamento e da ação’ se tornarão antigas e obsoletas com o giro dos tempos. Que o crítico lance um olhar profundo sobre todos os conhecimentos, ciências e descobertas que lhe causam orgulho e pergunte a seus verdadeiros inventores e descobridores; então compreenderá que, assim como no conhecimento e na ciência do passado, há muito pouco de certo também neles. Quase não há, entre esses conhecimentos e ciências, coisa alguma sobre a qual se possa dizer, com absoluta segurança, que não existe qualquer possibilidade de se provar sua falsidade. As demais coisas estão baseadas apenas em conjecturas, imaginação, dúvidas, opiniões e hesitações. Pode-se afirmar sobre elas, com plena firmeza e certeza, que, à medida que o curso dos tempos avançar rumo ao progresso, esse ‘conhecimento e ciência modernos’ e essas ‘novas descobertas contínuas’ se transformarão cada vez mais em coisas antigas e obsoletas. E, juntamente com isso, os novos métodos de pensamento e ação dependentes desses frágeis conhecimentos, ciências e descobertas também serão obrigados a ceder lugar a algum outro método novo.
Assim, sendo esta a situação, não há razão para que qualquer pessoa consciente e de visão madura se assuste ao pensar no futuro da religião. O ‘conhecimento e a ciência modernos’ e as ‘novas descobertas e invenções’ teriam hoje criado uma nova base para o pensamento e a ação e enriquecido as mentes das pessoas por meio da ‘liberdade de pensamento e de intelecto’; portanto, não há motivo para se alarmar com a preocupação de qual será o destino da religião — só Deus sabe. Basta lançar um olhar investigativo sobre todos esses conhecimentos, ciências e descobertas para ver se aquilo que está em conflito com a religião é comprovado e indiscutível. Se for realmente comprovado e indiscutível, e também entrar em conflito com as crenças fundamentais da religião, então, sem dúvida, essa pessoa se verá diante da pergunta: a qual dos dois terá fé, à religião ou à descoberta científica? Mas, se isso for apenas algo baseado em conjecturas, imaginação, dúvidas e hesitações, não há motivo para se assustar com seu conflito com a religião. Pois, se a religião estiver fundada na fé e na convicção, conjecturas, imaginação, dúvidas e descrença não terão importância alguma diante dela. Por outro lado, se a religião for algo conjectural e imaginário, as teorias científicas modernas também dependem de conjecturas e imaginação. Então, que razão poderia haver para avaliar a diferença entre as duas?
É apropriado que alguém, deslumbrado pelo conhecimento científico moderno e pelas novas descobertas diárias, lance um olhar de desprezo sobre a religião somente quando estiver firmemente convencido de que toda coisa nova é uma descoberta científica e que, para acompanhar o curso dos tempos, é absolutamente necessário aceitá-la ou ter fé nela. Mesmo que se trate apenas de algo aproximado e imaginário, e ainda que não tenha sido examinado por meio de uma profunda visão científica e de critérios infalíveis, deve-se, ainda assim, adotá-lo. Na verdade, é entre as pessoas dotadas desse tipo de visão que hoje surgiu o interesse por “elaborar novos métodos de pensamento e ação”. No entanto, elas sequer sabem como se elaboram novos métodos de pensamento e ação, qual método é racional e qual é simplesmente infantil. Do mesmo modo, a pretensão de enriquecer-se com a liberdade do pensamento e da razão tornou-se uma característica dessas pessoas de visão superficial. Mas elas não têm a menor consciência de que a simples liberdade do pensamento e da razão é uma fitna, ou melhor, algo terrível. Em especial, se ela não for acompanhada de conhecimentos amplos e amadurecidos, de uma visão profunda e madura e de uma capacidade de pensamento equilibrada e lúcida, é inevitável que assuma proporções graves. E a natureza não concedeu essas coisas com a generosidade que hoje se costuma supor.
A segunda opinião que surgiu da doutrina anteriormente mencionada é a de que já não estamos na era da “fé no invisível”; ao contrário, este é o tempo da “fé na experiência e na observação”. Mesmo depois de muito pensar e refletir, não consegui compreender o que o orador realmente pretende dizer com essas palavras. Se o significado for que, na época atual, não se aceita coisa alguma pertencente ao invisível ou ao oculto, nem se admite qualquer coisa sem experiência e observação, então isso é simplesmente errado. Em outras palavras, isso significaria que as pessoas da época atual decidiram limitar-se a um círculo estreito no qual somente a experiência e a observação podem ser meios de adquirir conhecimento, e no qual apenas os sentidos podem permanecer ativos. O ser humano teria abandonado a reflexão sobre aquilo que está fora desse círculo e a tarefa de chegar a conclusões sobre isso por meio da investigação e da inferência. Mas quem quer que tenha estudado, ainda que apenas superficialmente, o “conhecimento científico moderno e as novas descobertas” jamais aceitará essa afirmação. Deixemos de lado a filosofia e a metafísica, pois todo o objeto de ambas são as coisas invisíveis. Consideremos a própria ciência material e a física, nas quais o ilustre crítico baseia seu apelo à “fé na experiência e na observação”. Qual ramo da pesquisa e da investigação dessa ciência não depende da aceitação de coisas como força, energia, leis naturais, princípios fundamentais, causalidade e outras semelhantes? Que físico não acredita nelas? Mas vá perguntar a algum grande cientista: qual dos mistérios profundos dessas coisas ele conhece? Quanto compreendeu de cada uma delas? A existência de qual delas conseguiu perceber e observar diretamente, e em favor de qual delas pode apresentar uma prova genuína? Na realidade, como se pode chamar tudo isso senão de fé no invisível?
O segundo significado dessas palavras pode ser que, na época atual, somente se reconhece aquilo que está ao alcance da percepção direta de cada pessoa e que foi diretamente percebido e observado por toda a sociedade humana. Mas tal afirmação não poderia sair da boca de nenhuma pessoa sensata. Pois é absolutamente claro que nenhum ser humano possui individualmente todo o conhecimento humano; ao contrário, grandes áreas dele constituem a especialidade de grupos e indivíduos específicos. Cada ramo desse tesouro de conhecimentos especializados é diretamente conhecido apenas pelos especialistas correspondentes e invisível para todas as demais pessoas. Nessas circunstâncias, as pessoas comuns têm de depositar sua fé no invisível justamente nesses especialistas e grupos de especialistas.
O terceiro significado da afirmação também pode ser que as pessoas desta época só reconhecem aquilo que obtiveram por meio de sua experiência e observação pessoais e não acreditam em nada que seja invisível para elas. Na realidade, porém, nenhuma afirmação poderia ser mais irreal do que essa. Pois pessoas desse tipo jamais existiram no mundo, não existem hoje e não há qualquer possibilidade de que venham a existir até o Dia da Ressurreição. Se tal pessoa realmente existir em algum lugar, não se deve perder tempo em encontrá-la. Afinal, entre as “descobertas recentes”, esta seria a descoberta mais importante de todas. Em suma, por qualquer ângulo que se examine a afirmação, não se encontrará nela nenhum sinal de verdade. A própria experiência e observação testemunham que a época atual também acredita no invisível, tal como as épocas passadas, e que o ser humano jamais pode escapar da crença no invisível. Cada pessoa é obrigada a acreditar no invisível na maioria de mais de 999 casos em cada mil. Ora, se ela decidir ter fé somente na própria experiência e observação, terá de abandonar todo o vasto tesouro de conhecimentos que acumulou confiando nos outros. Terá de renunciar a todos os meios e fontes de aquisição de conhecimento, exceto a própria experiência e observação. Nessas circunstâncias, para não falar da possibilidade de realizar qualquer trabalho no mundo, ela nem sequer poderá manter a própria existência. Na verdade, assim como é impossível, nesta época, negar completamente a crença no invisível e depender inteiramente da experiência e da observação, isso também não seria possível em nenhuma época mais esclarecida do que esta. Em qualquer época e sob quaisquer condições, o ser humano é obrigado a aceitar inúmeras coisas apoiando-se exclusivamente nos outros, sem sua própria experiência e observação. Algumas coisas têm de ser aceitas apenas como noções correntes; por exemplo, é corrente a ideia de que o veneno da cobra-de-escama mata quem o ingere. No entanto, nem todos o experimentaram pessoalmente, nem viram alguém ingeri-lo e morrer. Outras coisas têm de ser aceitas com base no relato de uma ou mais pessoas confiáveis. Por exemplo, se não se acreditasse no testemunho prestado perante um tribunal, o mecanismo da lei não poderia funcionar nem por um instante. Em alguns casos, é preciso simplesmente confiar na palavra de um erudito ou especialista. Para os alunos de escolas e faculdades, essa é a situação normal. Se eles não depositarem uma confiança cega nas pesquisas, descobertas e concepções dos eruditos e especialistas das diversas disciplinas, não poderão avançar nem um passo no campo do conhecimento e da ciência. Consequentemente, jamais adquirirão a capacidade de realizar pesquisas, investigar fatos e obter conhecimentos como esses eruditos e especialistas.
Disso se comprova que, nas questões sobre as quais não adquirimos conhecimento por meio da experiência e da observação, somos obrigados a depositar uma confiança cega em outras pessoas. Resta apenas a questão de saber em que assunto devemos confiar cegamente em quem; e é disso que depende a decisão. Em princípio, todos reconhecerão que, numa questão em que constatarmos que determinada pessoa ou grupo possui bom conhecimento e dispõe também de bons meios para adquiri-lo, devemos confiar somente nessa pessoa ou nesse grupo. De acordo com essa regra geral, um doente não deixa de consultar um médico para buscar o conselho de um advogado. Em questões judiciais, ninguém abandona um jurista para procurar a ajuda de um engenheiro. Contudo, é justamente nas questões de teologia e espiritualidade que se observa divergência a esse respeito. Somente aí surge a pergunta: nessas questões devemos aceitar a opinião de filósofos e especialistas em lógica, ou ouvir as palavras dos mestres religiosos e espirituais? Sobre assuntos invisíveis como Deus, os anjos, a revelação, a inspiração, a alma, a ressurreição e as recompensas e punições da vida futura, devemos ouvir Kant, Spencer, Einstein, Bergson e outros, ou Abraão, Moisés, Jesus e Muhammad, que a paz esteja com eles? A inclinação mental dos que reivindicam a “liberdade de pensamento e de razão” é para o primeiro grupo. Eles submetem as palavras dos profetas aos critérios que eles próprios reuniram e aceitam apenas aquilo que passa por essa verificação. Não reconhecem tal coisa como palavra dos profetas; aceitam-na somente porque filósofos e cientistas lhe concederam um certificado de aceitabilidade. (Infelizmente, tais coisas são muito poucas; na verdade, pode-se dizer que praticamente não existem.) Por outro lado, rejeitam como não confiável aquilo que não passa por esse critério. Já os “tradicionalistas” e os seguidores da autoridade dizem: não consultem teólogos e espiritualistas sobre naturalismo e racionalismo. Como os campos de atuação de ambos são completamente distintos, perguntar a um especialista de uma disciplina sua opinião sobre outra disciplina é, em essência, um erro. Por mais versados que sejam filósofos e cientistas em suas próprias áreas, em teologia e espiritualidade sua posição não é de modo algum superior à de uma pessoa comum. Isso porque, quanto aos meios de obter conhecimento e informação sobre esse assunto, uma pessoa comum possui exatamente os mesmos meios que eles têm ao seu alcance. Na realidade, essa disciplina é reservada apenas aos profetas. Eles são os especialistas nela. Os verdadeiros meios de obter conhecimento e informação a seu respeito estão à disposição somente deles. Portanto, nessas questões, é neles que se deve depositar “fé no invisível”. No máximo, pode-se levantar a questão de saber se eles são de fato verazes e possuem plena visão na área da teologia. Mas, uma vez comprovado que realmente são qualificados nesse assunto, você terá de aceitar como verdade tudo o que fizeram segundo sua própria visão e conhecimento. Negar a verdade que eles proclamaram e apresentar argumentos contra ela equivale a um cego negar a existência do sol e apresentar documentos contra a existência do sol para confundir uma pessoa que enxerga. Por maior filósofo que tal pessoa se considere, é desnecessário dizer que opinião terá sobre esse cego aquele que viu o sol com os próprios olhos.
Talvez o crítico diga que aquilo que os profetas afirmaram sobre as coisas invisíveis não é confirmado pelo “conhecimento científico moderno” nem pelas “recentes descobertas e invenções”. Por isso, as pessoas foram lançadas na “dúvida e na hesitação” e sofreram a maldição de “fingir-se muçulmano por necessidade”. Mas eu pergunto: que certeza existe, afinal, dentro desse conhecimento científico e dessas descobertas e invenções que seja contrária aos princípios islâmicos? Se houver alguma coisa assim, mencionem-na, para que também possamos refletir sobre qual dos dois devemos seguir: o Nobre Alcorão ou as descobertas científicas modernas! Se isso não existe — e de modo algum pode existir, como também se comprova pelas suas próprias expressões, “dúvida e hesitação” e “fingir-se muçulmano por necessidade” — então será que, no arsenal do conhecimento científico moderno e das recentes descobertas e invenções, só existem as armas das ideias, das imaginações e das conjecturas, com base nas quais se declara rebelião contra a religião? E será que, ao ver apenas o brilho e o esplendor dessas armas, os adoradores do “pensamento livre” alimentaram a esperança de que a religião seria obrigada a abandonar o campo só ao ouvir seu nome? Por maior importância que você atribua a esse conhecimento e a essas descobertas, lembre-se de que eles não constituem de modo algum uma certeza no que diz respeito às coisas invisíveis. Sob sua influência, no máximo, você próprio pode ser lançado na “dúvida e na hesitação” e dizer que não podemos chegar a nenhuma conclusão positiva ou negativa sobre a revelação, a inspiração, a ressurreição, as recompensas e punições da vida futura, a existência dos anjos e até mesmo a existência de Deus. Mas esse conhecimento científico não pode ajudá-lo nem um pouco a libertar-se da maldição de “fingir-se muçulmano por necessidade” ou a obter a bênção de “fingir-se infiel alegremente”. Pois esse conhecimento não pode conter qualquer argumento ou prova capaz de negar definitivamente as coisas mencionadas. Além disso, para chegar a uma conclusão sobre a inexistência de algo, não basta o simples argumento de que o “conhecimento científico moderno” e as “recentes descobertas” estão levando você apenas ao extremo da “dúvida e da hesitação”, um lugar que, do ponto de vista mental e intelectual, é o mais baixo de todos. Na verdade, um conhecimento que não pode proporcionar ao ser humano certeza, tranquilidade e convicção, que o lança a oscilar no vazio e não lhe permite encontrar estabilidade alguma, deixando-o numa situação vergonhosa como “não seja infiel; torne-se muçulmano por necessidade”, é sem dúvida pior do que a ignorância.
Somente a “fé no invisível”, ou a crença no invisível, pode salvar o ser humano dessa situação de crise. Se você aceitar alguém como profeta e, ao mesmo tempo, reconhecer que ele possui pleno domínio da ciência divina e que jamais diz uma mentira, então não poderá haver em sua mente espaço para dúvida ou hesitação quanto às coisas invisíveis. Com isso, sua fé e convicção religiosa se estabelecem sobre uma base tão sólida que não é abalada por nenhum conhecimento moderno ou nova descoberta, por nenhuma nova corrente de pensamento e ação, nem pelo impacto de qualquer “razão livre”. Por isso, o Alcorão declarou claramente que este Livro é uma orientação para os piedosos. E a primeira característica dos piedosos é que eles creem nas coisas invisíveis:
(Árabe)
Isto é: “Este Alcorão é uma orientação para os piedosos, que creem no invisível.”
Na verdade, todo o edifício da religião está estabelecido sobre a “fé no invisível”, ou crença no invisível. Portanto, uma vez destruída essa base fundamental, você não poderá chegar a nenhuma conclusão firme sobre essas crenças fundamentais da religião — cujos mistérios profundos você não tem nenhum meio de conhecer. Nessas circunstâncias, você próprio não terá plena confiança na correção da conclusão a que chegar, nem será capaz de convencer outras pessoas de sua veracidade.
A questão final a este respeito é: como saber que uma pessoa é um profeta de Allah e possui pleno domínio da teologia? Como compreender que ele é tão veraz que, mesmo quando fala sobre assuntos invisíveis, para além dos limites do nosso conhecimento e intelecto, devemos confiar nele e declarar com firmeza que jamais mente? A solução desta questão depende de duas coisas. Primeiro, devemos examinar o seu caráter pessoal por todos os meios possíveis e segundo os critérios mais rigorosos. Segundo, devemos analisar, entre os assuntos que ele apresenta, aqueles que estão ao alcance do nosso conhecimento, intelecto e capacidade de julgamento. Se, nesses dois testes, alguém se mostrar incomparavelmente veraz e, além disso, não formos capazes de apontar qualquer falha no sistema sábio e benéfico que ele ofereceu para todos os aspectos e áreas do pensamento e da ação da vida humana, não haverá razão alguma para não reconhecê-lo como veraz. Tampouco haverá qualquer fundamento lógico para suspeitar que ele, sem investigação ou conhecimento, tenha tramado uma enorme conspiração envolvendo Allah, os anjos, o Trono, o Escabelo, a revelação, a inspiração, a ressurreição, o Paraíso e o Inferno, apenas para enganar os habitantes do mundo — que Allah nos perdoe.
Assim, o terceiro equívoco do senhor Niaz é que ele nem sequer considera digno de discussão o primeiro segmento do Alcorão (que nós mencionamos como o segundo segmento); ao contrário, sustenta a ideia de que “neste aspecto, todas as religiões são praticamente iguais, e os ensinamentos do Islã não são diferentes nem inferiores aos das demais religiões”. Nossa posição, porém, é que, segundo a sua análise, para determinar a veracidade do segundo ou terceiro segmento do Alcorão (ou, segundo a nossa análise, do primeiro segmento), é indispensável examinarmos o caráter da vida de Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda a paz — e os assuntos invisíveis, além do mundo sensível, mencionados no Alcorão. Além disso, não basta contentar-se com a ideia de que esta parte dos ensinamentos islâmicos “não é diferente nem inferior às demais religiões”; é necessário também demonstrar, por meio de argumentos e provas, que ela é superior e melhor do que todas as religiões não islâmicas. Portanto, é fundamentalmente errado introduzir outro assunto antes de chegar a uma conclusão sobre este tema da discussão. Ademais, enquanto este assunto não for resolvido, também não será possível resolver os demais.
O desejo do senhor Niaz é que nos dediquemos à análise e ao exame dos versículos relativos à “vida futura”, ao “Kalām Ilāhī” e às crenças e à história. Em nossa opinião, porém, esta discussão tem dois aspectos, relacionados a dois grupos diferentes. O primeiro grupo é formado por aqueles que não creem sequer na profecia do Nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda a paz, e que, por essa razão, duvidam desses assuntos. O segundo grupo é formado por aqueles que reconhecem a sua profecia, mas têm dúvidas a respeito dos assuntos invisíveis. O método de diálogo com esses dois grupos também é diferente. Portanto, até sabermos a qual desses grupos pertence o contestador, não podemos iniciar uma discussão com ele.
Discutir com o primeiro grupo sobre a vida futura, o Kalām Ilāhī e os demais assuntos invisíveis é inteiramente inútil. Pois, mantendo-se a divergência quanto à questão fundamental, não é possível chegar a uma conclusão discutindo questões secundárias. A base da fé e da convicção que temos na vida futura, no Kalām Ilāhī e até mesmo na existência e nos atributos de Allah não é que tenhamos adquirido um conhecimento final e certo por meio de nossa própria investigação intelectual ou de nossa experiência e observação pessoais, contra o qual nenhum argumento ou prova possa ser apresentado. Se fosse assim, sem dúvida seria possível discutir a profecia. Nossa fé firme e inabalável nesses assuntos, porém, está de fato fundamentada na crença de que Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda a paz — é veraz. Tudo o que ele declarou sobre a sua profecia e sobre o Kalām Ilāhī é absolutamente infalível. É precisamente por essa razão fundamental que não concordamos em discutir qualquer questão secundária com uma pessoa que não creia em Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda a paz — enquanto ela não aceitar esta questão básica.
Não reconhecemos ao segundo grupo o direito de reconhecer a veracidade de Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda a paz — e, ao mesmo tempo, levantar questões sobre a veracidade ou falsidade das descrições do Alcorão Majestoso e de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda a paz, acerca dos assuntos invisíveis. Pois, ao adotar tal postura, eles imediatamente se juntarão ao primeiro grupo. Na realidade, para permanecerem incluídos no segundo grupo, devem reconhecer que cada palavra do Alcorão é infalível e que tudo o que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda a paz, apresentou está completamente livre de erro. É claro que, a este respeito, podem levantar questões sob dois aspectos. Primeiro: será que assuntos desse tipo estão realmente descritos no Alcorão Sagrado? E será que o Nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda a paz, realmente disse tais coisas? Segundo: qual pode ser o significado e o sentido corretos daquilo que se encontra no Alcorão e na Sunnah a esse respeito?
Por fim, devo acrescentar mais uma coisa. O senhor Niaz solicitou que fosse aberta uma seção de debates no Targuman-ul-Qur’an. Ao mesmo tempo, expressou a intenção de apresentar nessa seção todas as suas dúvidas, perguntas e objeções. Eu, porém, sempre me mantive afastado de debates e controvérsias profissionais e continuo desejando manter-me afastado deles. Isso porque não apoio de modo algum debates cujo objetivo seja exercitar cérebros obtusos e conquistar aplausos exibindo a destreza intelectual. Estou sempre, contudo, pronto para uma discussão erudita e profunda, se o seu objetivo for a busca da verdade e se ambas as partes participarem com tal sinceridade que, depois de a verdade essencial ser demonstrada, cada uma a reconheça. Assim, as dúvidas e objeções que forem publicadas na revista Nigar serão reproduzidas no Targuman-ul-Qur’an, juntamente com as respectivas respostas. Da mesma forma, espero que, se o senhor Niaz fizer algum comentário sobre as respostas do Targuman-ul-Qur’an, ele também publique junto delas a resposta original, para que os leitores de ambas as revistas conheçam os dois lados da discussão e possam formar a sua própria conclusão a respeito. Por outro lado, considero que mencionar apenas um lado e evitar o outro equivale a reconhecer a própria fraqueza.
[Observação: os leitores talvez se surpreendam ao saber que, em resposta a este artigo, o intercâmbio entre a revista Nigar e o Targuman-ul-Qur’an foi interrompido e permanece suspenso até hoje. Certas pessoas podem até conseguir confundir bastante a nossa juventude imatura com algumas frases atraentes; mas, quando são devidamente convidadas a discutir com base no conhecimento e nos fatos, a sua vacuidade interior torna-se completamente evidente.]
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O caminho correto para a reconstrução nacional
[O artigo foi publicado pela primeira vez em julho de 1934, na revista Tarjumān al-Qur’ān. —Editor]
Tanto a reforma quanto a revolução têm por objetivo transformar uma situação corrompida. Contudo, há uma diferença fundamental entre suas motivações e seus métodos de ação. O esforço reformista começa com a reflexão. Nele, a pessoa examina calmamente a situação, investiga as causas da corrupção e da desordem, avalia os limites da corrupção, concebe meios para eliminá-la e emprega apenas a força destrutiva absolutamente indispensável para removê-la. Já a revolução começa com um intenso fogo de ira e um agudo desejo de vingança. Em resposta a uma corrupção, introduz-se outra corrupção. O excesso que havia produzido a corrupção é enfrentado por outro excesso, o qual, juntamente com o mal, acaba eliminando também o bem. Sem dúvida, às vezes um reformista também precisa realizar ações que seriam próprias de um revolucionário. Ambos operam cirurgicamente nas partes deterioradas do corpo. A diferença, porém, é que o reformista primeiro determina onde está a corrupção e qual é sua extensão. Depois, emprega exatamente a quantidade de força necessária para removê-la. Além disso, antes da cirurgia, providencia o remédio para cicatrizar a ferida. O revolucionário, porém, em seu excesso de ira, continua manejando o bisturi de modo inteiramente cego. E vai cortando tudo, sem distinguir entre o bom e o mau. Assim, depois de realizar muitos cortes e amputações e de eliminar uma parte bastante saudável do corpo, talvez só então perceba o próprio erro e se lembre do remédio.
Geralmente, quando a corrupção ultrapassa todos os limites, as pessoas perdem a paciência e a serenidade. Diante do sofrimento que suportam em um ambiente corrompido, elas não encontram oportunidade para empreender uma reforma com calma e reflexão. Por isso, em situações desse tipo, em vez de um movimento reformista, costuma ganhar força um movimento revolucionário. Desenvolve-se um conflito intenso entre os grupos conservadores e revolucionários. Com isso, o fogo da ira e da vingança recebe ainda mais combustível. Ambos os lados chegam ao extremo da obstinação e da imprudência. Ambos golpeiam impiedosamente a garganta da verdade e da honestidade. Um lado emprega toda a sua força para defender a mentira em lugar da verdade; o outro ataca indiscriminadamente a todos, sem distinguir entre verdade e mentira. Por fim, quando os revolucionários triunfam, destroem completamente tudo o que pertence aos conservadores, sem distinguir entre verdade e mentira, entre bem e mal. Na realidade, a revolução avança como uma inundação. Arrasta todos consigo, sem distinguir entre o bom e o mau, e empurra-os para o abismo da extinção. Depois, quando, após muita destruição, a razão recupera a tranquilidade e a estabilidade, sente-se a necessidade de reconstrução. Mas a mentalidade revolucionária encontra também aqui um método inovador. Ela tenta rejeitar tudo o que pertence aos antigos conservadores. Por mais correta que seja uma coisa, se estiver relacionada à antiga organização, aos olhos da revolução não existe defeito maior que esse. Assim, durante certo tempo, fazem-se esforços para erguer o edifício da vida sobre princípios revolucionários. Quando a mente revolucionária se exaure em consequência de novas experiências, testes e fracassos, é obrigada, por algum caminho, a retornar à via do equilíbrio — a mesma que já se encontrava diante dos reformistas desde o início. Em outras palavras, os inteligentes fazem aquilo que os tolos também fazem, mas somente depois de turvar muito as águas.
Na época atual, o exemplo mais evidente disso é a revolução bolchevique da Rússia. Quando a extrema corrupção do sistema social existente na Rússia monárquica se tornou absolutamente insuportável para a população, formou-se, como reação, um movimento revolucionário. As ideologias socialistas e democráticas da Europa começaram a desenvolver-se na Rússia. Por outro lado, a dinastia e as classes que a serviam empregaram o poder autocrático para preservar seus interesses ilegítimos. Como resultado, não se acendeu apenas uma intensa revolta contra a autocracia imperial e a distribuição desigual da riqueza, mas também contra o sistema civilizacional que vinha sendo transmitido por herança havia séculos. Por fim, o fantasma de Karl Marx assumiu a forma de Lênin. O governo dos czares foi completamente derrubado. Ao mesmo tempo, foram igualmente eliminados todos os princípios políticos, econômicos, civilizacionais, morais e religiosos sobre os quais se fundava a ordem social anterior à revolução. Depois dessa destruição em tão grande escala, começou a construção de uma nova sociedade baseada em princípios comunistas inteiramente novos. Para impedir que qualquer coisa abandonada pela classe burguesa fosse incorporada a esse novo edifício social, os novos organizadores empenharam toda a sua energia mental. Chegou-se até a notificar Deus de que deveria deixar a Rússia soviética. Mas, à medida que os dias passavam, a inteligência construtiva começou a ocupar cada vez mais o lugar da loucura revolucionária. Assim, o bolchevismo extremo que atuara no início da revolução foi gradualmente retornando ao caminho do equilíbrio.
Esse tipo de extremismo também foi visto durante a Revolução Francesa. Naquela época, sob o entusiasmo revolucionário, tentava-se igualmente eliminar tudo o que pertencia ao passado, e novos princípios revolucionários eram inventados e impostos. Mas foi justamente por causa dessa mentalidade revolucionária extrema que, até hoje, não se conseguiu estabelecer um equilíbrio completo na natureza política, social e moral da França. Atualmente, não há em nenhum aspecto ou setor de sua vida nacional uma estabilidade semelhante à da Grã-Bretanha.
Outro exemplo disso é a revolução turca. Ali também foi essa mesma mentalidade revolucionária que tentou, como por encanto e da noite para o dia, transformar uma nação inteira em uma nação diferente. Sob o pretexto dessa tentativa, ao operar os furúnculos e as pústulas, cortou-se também uma parte bastante saudável do corpo turco e, em seu lugar, trouxeram-se da Europa alguns novos membros para serem enxertados. Chegou-se até a adquirir um novo cérebro, coberto por um chapéu novo, para substituir o cérebro antigo. Mas, com o avanço do tempo, os turcos revolucionários aprenderam gradualmente que o princípio geral que haviam adotado — considerar mau tudo o que fosse antigo e bom tudo o que fosse novo — estava longe de ser infalível. Por isso, depois de causarem enormes prejuízos por meio de experiências e testes, estão tendo de retornar do caminho dos excessos ao caminho do equilíbrio.
A razão para dizer estas coisas é que, atualmente, observa-se uma mentalidade revolucionária extrema entre os muçulmanos indianos. Antes que surjam as más consequências dessa situação extrema, queremos convidar tanto os tradicionalistas quanto os revolucionários a refletir.
Na realidade, a situação de distorção que existia e ainda existe na Turquia e em outros países muçulmanos é exatamente a mesma situação atual. Durante os últimos séculos, o grupo que detém a liderança religiosa em nossas mãos transformou o Islã em algo inerte e passivo. É provável que, desde o século VI ou VII da Hégira, o progresso do tempo tenha estagnado para eles. Em suas discussões sobre filosofia e jurisprudência, eles certamente liam e ensinavam que o universo é mutável e que toda mudança constitui algo novo. Mas, na prática, fecharam os olhos para as mudanças do mundo, a evolução das épocas, o progresso do tempo e as novidades. O mundo mudou e chegou de um lugar a outro; quantas mudanças e transformações ocorreram na situação do mundo, nas concepções, correntes de pensamento, ideologias e assim por diante! Quantas reviravoltas ocorreram nas questões e nos problemas sociais! Contudo, nossos líderes religiosos ainda se consideram no ambiente de quinhentos ou seiscentos anos atrás. Não alcançaram progresso algum juntamente com o avanço da época! Permaneceram imunes às mudanças constantes! Não mantiveram qualquer relação com os novos problemas da vida. Começaram a tentar impedir que seu próprio povo avançasse com a época; ao contrário, passaram a arrastá-lo do futuro para o passado. Uma tentativa desse tipo poderia ser bem-sucedida apenas por algum tempo, e assim aconteceu. Mas é impossível que tais esforços sejam bem-sucedidos para sempre. Quanto tempo pode uma nação que mantém contato e relações com o mundo permanecer imune à influência das ideias do mundo e dos novos problemas da vida? Se seus líderes não a conduzirem, tomando a dianteira, por novos caminhos científicos, intelectuais e práticos, ela naturalmente se preparará para retirar de seus próprios ombros o jugo de sua liderança e lançá-lo para longe.
Na verdade, a raiz principal dessa distorção é outra coisa. Nossos líderes religiosos envolveram-se tanto em minúcias que, como resultado, perderam de vista os próprios fundamentos. Depois, as minúcias ocuparam o lugar dos princípios fundamentais, e delas surgiram inúmeras outras minúcias, que passaram a ser chamadas de Islã verdadeiro. Entretanto, no Islã, elas não tinham absolutamente nenhuma importância. Na realidade, o edifício da nacionalidade islâmica havia sido erguido sobre a seguinte sequência: primeiro, o Alcorão Sagrado; depois, a Sunna do Mensageiro (que a paz esteja com ele); e, por último, o ijtihad dos sábios e eruditos. Infelizmente, essa sequência foi completamente invertida, e uma nova sequência foi estabelecida: primeiro, o ijtihad dos eruditos de uma época específica; depois, a Sunna do Mensageiro (que a paz esteja com ele); e, por fim, o Alcorão Sagrado! É precisamente essa nova sequência a responsável por toda a inércia e impotência que transformaram o Islã em algo inútil e passivo.
Ninguém pode negar o conhecimento, a erudição e a posição dos juristas, teólogos, exegetas e muhaddithun (que Deus tenha misericórdia deles). Mas eles eram seres humanos. Os meios e métodos pelos quais adquiriam conhecimento eram os mesmos das pessoas comuns. A revelação não lhes chegava; antes, com a ajuda de seu próprio discernimento e conhecimento, refletiam e pesquisavam sobre a Palavra de Deus e a Sunna do Mensageiro. Assim, com base nos princípios que lhes pareciam corretos, determinavam os pormenores das leis e das questões de aqida. Todos esses ijtihads podem ser úteis e servir de orientação para nós, mas não podem constituir os próprios princípios e fundamentos. Quer o ser humano faça ijtihad unicamente com a ajuda de seu discernimento, quer o faça com informações extraídas de um Livro revelado, em nenhuma circunstância seu ijtihad pode adquirir, para o mundo, o status de uma norma permanente e de uma regra imutável. Isso porque o conhecimento e o discernimento humanos estão sempre limitados pelas fronteiras do espaço e do tempo.
Acima de todas as limitações do espaço e do tempo está somente Allah, o Senhor dos mundos. Somente Ele possui o verdadeiro tesouro do conhecimento. Com o passar do tempo, não ocorre nem sequer a menor mudança no domínio de Seu conhecimento. Esse conhecimento se refletiu nos versículos do Alcorão Sagrado e no peito purificado de seu portador e transmissor. Na realidade, esta é uma fonte de conhecimento da qual as pessoas de todas as épocas podem sempre extrair conhecimento, ciência, concepções e sistemas normativos de acordo com suas circunstâncias e necessidades específicas. Enquanto os sábios da comunidade extraíam conhecimento dessa fonte e desse fundamento e, por meio do ijtihad baseado em pensamento correto e discernimento, resolviam os problemas ideológicos e práticos, o Islã também acompanhava o ritmo da época. Porém, a partir do dia em que se abandonou a reflexão e a pesquisa sobre o Alcorão, cessaram a investigação da autenticidade dos hadiths e sua análise crítica, começou a imitação cega e indiscriminada dos exegetas e muhaddithun anteriores, o ijtihad dos juristas e teólogos do passado foi transformado em uma norma rígida e eterna, e, abandonando os princípios do Alcorão e da Sunna, as minúcias inventadas pelos veneráveis foram adotadas como princípios fundamentais, nesse mesmo dia o progresso do Islã foi bloqueado. Em vez de avançar, começou a recuar. Seus portadores e transmissores, em vez de orientar o mundo nos novos campos do conhecimento e da ação, passaram a dedicar-se apenas à explicação e à análise de questões antigas e das ciências e conhecimentos do passado. Permaneceram envolvidos em disputas sobre questões pequenas e secundárias. Continuaram criando novos madhhabs e seitas em torno de questões controversas cada vez menores. Como consequência, fatwas de incredulidade e de impiedade passaram a ser emitidas livremente contra os muçulmanos, de modo que as pessoas do mundo, em vez de verem “as pessoas entrando na religião de Allah em grupos”, passaram a assistir ao espetáculo de “as pessoas saindo em grupos da religião de Allah”. Por outro lado, em vez de “severos para com os descrentes e compassivos entre si”, passou a manifestar-se por toda parte a cena de “os crentes sendo compassivos para com os descrentes e severos entre si”. Finalmente, a condição descrita a respeito dos hipócritas e descrentes — “tu os julgarás unidos, embora seus corações estejam separados uns dos outros” — acabou tornando-se a condição dos próprios muçulmanos.
Esta é a reação natural do comportamento mencionado, que hoje vemos sob a forma de uma revolução terrível. Quando os muçulmanos perceberam que seus líderes religiosos não estavam cumprindo a responsabilidade de sua liderança, mas, em vez de conduzi-los para a frente, os puxavam para trás, eles então se libertaram de sua autoridade. Depois, como um exército disperso, começaram a vagar de um lado para outro. Um grupo atribuiu à própria religião todos os erros e fraquezas dos porta-estandartes da religião. Declarou que a religião era o maior obstáculo em seu caminho para o progresso. Começou a proclamar abertamente a imitação cega das nações “progressistas”, abandonando a religião. Outro grupo transformou em hábito insultar os sábios e os líderes religiosos, como se a chave do bem-estar e do progresso dos muçulmanos estivesse justamente nesses insultos e nessa verborragia. Um terceiro grupo começou imediatamente a cortar e alterar a religião. Alguns começaram a difamar os imames e os juristas. Outros colocaram o fiqh e os hadiths no mesmo nível. Outros ainda sentiram necessidade de reformar os ensinamentos, a educação e os sistemas normativos corânicos. E alguns passaram a defender a separação entre a religião e o mundo. Segundo eles, a religião deveria relacionar-se apenas com a aqida e a adoração, não tendo qualquer autoridade sobre os assuntos mundanos nem sobre os sistemas normativos religiosos.
Assim, foi justamente para mudar esse estado de deformação que surgiram diversos grupos e subgrupos. Mas seu interesse não está voltado para a reforma, e sim para a revolução. Eles não pararam para refletir calmamente: em que consiste realmente a deformação? Onde está sua origem? Qual é sua extensão e qual é o método correto para eliminá-la? Baseando-se apenas em suposições, presumiu-se que existe uma deformação. E, para removê-la, estão sendo usadas armas contra o corpo da ummah. Não se está refletindo profundamente sobre o fato de que, com a doença, o paciente também pode ser completamente arruinado.
Nos países independentes, pode-se dizer — e isso seria até certo ponto razoável — que não temos alternativa senão uma atividade revolucionária. Pois ali o poder de governar o Estado está concentrado nas mãos de um único partido. Para que outro partido ponha fim a esse poder, talvez não consiga obter êxito sem uma poderosa atividade revolucionária. Ao mesmo tempo, deve-se observar que, quando a responsabilidade efetiva de dirigir o Estado recai sobre os líderes revolucionários, a experiência da época rapidamente consolida seu discernimento. Assim, são obrigados a abandonar o caminho dos excessos e a seguir o caminho do equilíbrio. Mas não devemos esquecer que, atualmente [isto se refere a 1934. Entre a estrutura política da Índia britânica daquela época e a da atual Bengala-Paquistão-Índia independentes ocorreram muitas mudanças. — Editor], estamos vivendo sob dominação estrangeira. Nossa situação é completamente diferente da dos países independentes. Aqui, em primeiro lugar, não há necessidade de uma atividade revolucionária. Pois aqui não existe o temor de algum obstáculo tão poderoso e formidável que um movimento equilibrado de reforma não possa superar. Em segundo lugar, se uma atividade revolucionária for iniciada e alcançar êxito, não haverá por muito tempo qualquer possibilidade de que ela retorne ao caminho do equilíbrio. Isso porque os porta-bandeiras da revolução não receberão nenhuma responsabilidade plena e obrigatória que possa desviar seu extremismo em direção ao equilíbrio. Portanto, aqui nenhuma atividade revolucionária é justificável. Na verdade, se diversos tipos de atividades revolucionárias continuarem por muito tempo, suas consequências serão extremamente graves. A base sobre a qual se apoia a sociedade muçulmana começará a vacilar, e em seu lugar não será possível estabelecer uma base tão sólida sobre a qual se possa construir uma nova ordem social. Além disso, deve-se refletir sobre em que abismo profundo de decadência moral será lançada uma nação que já se encontra sob dominação estrangeira e em estado de impotência, caso sua ordem social seja assim despedaçada.
É por isso que, às vezes, somos obrigados a enfrentar os revolucionários com mais severidade do que os conservadores. De outro modo, concordamos com eles quanto à necessidade de transformar o estado de deformação. Também desejamos transformar em dinamismo a inércia e a passividade que foram introduzidas no Islã. Contudo, em nossa opinião, para criar esse dinamismo, abandonar os costumes islâmicos e agarrar-se ao estrangeirismo não é um caminho correto; tampouco é correto começar cegamente a cortar e modificar a religião sem qualquer pesquisa, conhecimento e reflexão. Também não é correto destruir sem motivo o enorme edifício que os mujtahids dos tempos antigos ergueram com árduo trabalho, esforço e luta; nem lançar ao fogo todo o tesouro dos hadiths constitui um caminho infalível. Tampouco é o verdadeiro caminho corrigir ou alterar, em Medina, o Kalam divino por meio do raciocínio humano. Na realidade, nenhum desses é um caminho de reforma; pelo contrário, é o caminho para criar uma calamidade ainda mais grave que a anterior. O único caminho para remediá-la corretamente é endireitar novamente a ordem que foi invertida. Deve-se devolver ao Alcorão a posição de liderança com a qual ele foi anteriormente investido. Atribui-se hoje ao hadith a mesma posição que, na época da profecia, os companheiros do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) e os membros de sua família atribuíam às suas palavras e ações. Aos juristas do fiqh, teólogos do Kalam, exegetas e estudiosos dos hadiths devemos conceder apenas a posição que eles mesmos atribuíam às suas próprias atividades.
Em suma, devemos beneficiar-nos de todos eles. As coisas que não precisam ser mudadas devem permanecer como estão. Mas jamais se deve imaginar que tudo o que os sábios escreveram constitui uma norma imutável e inalterável; ou que os livros escritos nos dispensaram de refletir sobre o Alcorão e de buscar a verdade no hadith do Mensageiro; ou que a porta para a aquisição direta de conhecimento a partir do Alcorão e da Sunnah tenha sido fechada.
Se essa ordem for restabelecida, o carro imóvel do Islã voltará a andar. Pois a verdadeira causa da imobilidade é que o motor foi separado do carro e deixado para trás. O motorista também foi retirado do motor e colocado em algum vagão traseiro, enquanto se depositou no vagão mais avançado a confiança de que ele próprio avançaria e, ao mesmo tempo, conduziria todo o trem.
Mas não há necessidade de ira nesse empreendimento. A ira só pode existir quando alguém comete uma injustiça deliberadamente. Mas nada do que aconteceu aqui foi intencional. Ninguém pode dizer que os ulama realizaram em algum lugar uma conferência e decidiram: continuaremos impondo inércia e passividade ao Islã e impediremos que seu carro em movimento avance. Na realidade, isso é apenas o resultado do declínio contínuo que, a partir dos séculos VI e VII da Hégira, se iniciou nas forças mental, científica e intelectual das nações muçulmanas, juntamente com seu poder político, militar, econômico e civilizacional. Esse declínio enfraqueceu do mesmo modo o espírito de jihad dos muçulmanos e corroeu seu senso histórico e sua consciência inventiva. Assim como mudou a visão dos muçulmanos sobre todos os problemas da vida, também mudou sua visão sobre as questões religiosas e educacionais. Como resultado, pouco a pouco e de modo inconsciente, a sombra negra da morte desceu sobre toda a sua força mental. Não se pode culpar por isso nem a comunidade dos ulama nem qualquer de seus seguidores. No máximo, pode-se apresentar uma queixa contra a natureza. Mas, assim como essa queixa não produzirá nenhum resultado, também não se alcançará nenhum bem por meio da ira ardente e dos impulsos destrutivos. O único método correto para o bem-estar ou a reforma é determinar calmamente a causa e a extensão da deformação e, com inteligência, despertar a virtude no lugar da deformação.
12
A manifestação da revolta
[O artigo foi publicado pela primeira vez em fevereiro de 1935 na revista Tarjuman al-Qur’an. — Editor]
Uma nação é formada por duas classes de pessoas: uma classe constituída pelo povo comum e outra por pessoas de destaque. As pessoas da classe comum são numerosas, e a força numérica da nação também depende delas. Contudo, essa classe não possui o intelecto necessário para refletir e liderar. Essas pessoas não são ricas em conhecimento nem dispõem de poder financeiro. Do mesmo modo, não ocupam cargos elevados, assim como o poder do Estado não está em suas mãos. Por isso, não lhes cabe conduzir a nação; sua função é seguir atrás dos condutores. Elas próprias não traçam nem descobrem caminho algum; seguem o caminho que lhes é preparado. Traçar o caminho e conduzir por ele toda a nação é, na realidade, tarefa das pessoas de destaque. Pois, por trás de cada palavra e ação delas, há o apoio da inteligência, do conhecimento, da riqueza, da honra e do poder estatal. E o povo, queira ou não, tem de seguir seus passos. Portanto, não seria absurdo dizer que a força motriz da nação não é o seu povo, mas suas pessoas de destaque. Delas dependem a ascensão e a queda da nação, sua construção e sua ruína. Sua boa conduta torna-se causa da boa conduta de toda a nação, e sua depravação, causa da depravação de toda a nação. Quando chegam dias auspiciosos na vida de uma nação, surgem nela muitas pessoas de destaque desse tipo. Assim como elas próprias seguem o caminho reto, também conduzem toda a nação pelo caminho reto:
(Árabe)
Isto é: “Eu os estabeleço como líderes, e eles guiam conforme a Minha ordem. E lhes inspiramos a prática de boas ações.” (Surata Al-Anbiya, versículo 73)
Por outro lado, quando se aproxima o momento da destruição de uma nação, sua corrupção começa por essas pessoas de destaque. Em consequência de sua desorientação e imoralidade, por fim toda a nação se envolve em maus costumes e pecado:
Isto é: “Quando queremos destruir uma cidade, fazemos com que seus malfeitores se entreguem à transgressão. Então o destino daquela cidade é determinado. E eu a destruo completamente.” (Surata Al-Isra, versículo 16)
Na linguagem do Alcorão, essas pessoas de destaque são chamadas de ————–. Ou seja, são pessoas a quem Deus concedeu abundantes graças. Segundo o testemunho de Deus, sempre foi assim: primeiro, são essas próprias pessoas de destaque (———) que iniciam na sociedade o pecado, a rebeldia contra Deus, a opressão e a injustiça. Depois, toda a cidade se envolve em corrupção e maus costumes.
Há espaço para alguma dúvida quanto à veracidade desse testemunho? Observem a situação da nossa própria nação: sua corrupção também não começou pelas nossas pessoas de destaque? Não foram precisamente as pessoas dessa classe que abandonaram o caminho dos pioneiros obedientes às leis divinas e começaram a seguir o caminho satânico? Não foram elas que, para satisfazer o culto às paixões, começaram a afrouxar os vínculos da Sharia? Não foram elas que, à semelhança do Faraó e de César, começaram a fazer os servos de Deus escravizá-las e habituaram sua própria nação, em vez da devoção a Deus, à devoção aos governantes e aos burocratas? Não foram elas que ensinaram as pessoas a curvar-se diante de servos, em vez de diante de Deus? Não foram elas que, sentadas em palácios magníficos e vestindo roupas vistosas, tornaram o pecado e as más ações atraentes? Não foram elas que, alimentando-se de bens ilícitos, criaram em sua nação o hábito de consumir e oferecer alimentos ilícitos? Não foram elas que usaram o conhecimento e a ciência para a desorientação, a inteligência para a perversidade, a perspicácia para a fraude e a conspiração, a riqueza para comprar a fé, o poder estatal para a opressão e a força para a arrogância? Além disso, não foram elas que fecharam a maior parte dos meios legítimos pelos quais as pessoas poderiam obter seus direitos, benefícios e progresso, obrigando-as a alcançar seus objetivos por caminhos desprezíveis, como a bajulação, o suborno e conspirações falsas? Em suma, não há corrupção do caráter moral e dos modos de conduta cuja origem não esteja nessas pessoas de destaque. Elas usaram de maneira equivocada os bens da graça que Deus lhes havia concedido. Assim como elas próprias se corromperam, também corromperam toda a nação.
Tudo isso vinha acontecendo havia vários séculos, e a deterioração moral estava corroendo internamente a força nacional dos muçulmanos. Apesar disso, ao menos a luz da fé ainda estava presente no coração das pessoas. Embora não cumprissem as ordens de Allah e do Mensageiro, conservavam em seus corações o senso da superioridade de Deus e do Mensageiro. Por mais que violassem a lei islâmica, o respeito por essa lei não havia desaparecido completamente de seus corações; por mais descontentes que estivessem com o sistema de governo islâmico, jamais haviam tido a audácia de se rebelar contra ele. Pelo contrário, aquilo que o Islã declarava verdadeiro era reconhecido como verdadeiro. Por mais exagero que demonstrassem ao abandonar isso e seguir a falsidade, ninguém tinha a insolência de chamar ou considerar falso o que o Islã declarava verdadeiro, verdadeiro o falso, supérfluo e irrelevante o obrigatório, ilícito o lícito, lícito o proibido, pecado a boa ação e boa ação o pecado. Sem dúvida, a depravação era praticada. As pessoas certamente se envolviam em crimes e más ações. Em muitos aspectos, os limites da sharia eram transgredidos. Mas, ao mesmo tempo, seus corações sentiam vergonha. Suas cabeças se curvavam de arrependimento. Pelo menos em seus corações reconheciam que estavam desobedecendo a Allah e ao Mensageiro.
A razão é que, apesar da fraqueza da fé e da corrupção dos costumes, o edifício da civilização dos muçulmanos continuava assentado sobre os pilares fundamentais construídos pelo Islã. Embora muitas formas de desvio tenham se espalhado devido à importação das ideias gregas e iranianas, elas jamais conseguiram transformar completamente a perspectiva dos muçulmanos nem tornar sua formação mental desfavorável ao Islã. Não conseguiram influenciar a tal ponto sua inteligência, seu pensamento e sua capacidade de julgamento que eles abandonassem por completo o modo muçulmano de ver e de pensar com uma mente muçulmana. Do mesmo modo, embora o desenvolvimento da cultura e da civilização, devido a influências externas, tenha seguido em grande medida um caminho diferente daquele determinado pelo Islã, os princípios sobre os quais a cultura e a civilização haviam sido fundadas continuavam presentes em sua base, como antes, e os princípios de outra cultura e civilização não vieram ocupar o seu lugar. O sistema educacional dos muçulmanos havia se deteriorado bastante, mas a teologia ainda ocupava nele um lugar de destaque. Nenhum muçulmano instruído desconhecia pelo menos os conhecimentos básicos das crenças islâmicas, das normas da sharia e dos costumes nacionais. Na vida prática dos muçulmanos, a força vinculante da lei islâmica havia se enfraquecido consideravelmente, mas, ainda assim, em todos os seus negócios e assuntos vigorava uma única lei: a lei islâmica. Em suma, apesar de toda a corrupção, a influência profunda do Islã permanecia nas ideias, no caráter e na conduta dos muçulmanos. Eles mantinham uma fé sincera em seus princípios; pelo menos, dentro dos limites de sua fé, os princípios contrários ao Islã não haviam tido oportunidade de penetrar. Além disso, os valores que o Islã havia estabelecido para o caráter e a conduta não haviam sido completamente subvertidos, nem ocorrera qualquer mudança que permitisse a outros valores contrários ocuparem o seu lugar.
Mas, depois que perderam o poder estatal no século XIX, as pessoas proeminentes de nossa nação perceberam que, juntamente com o poder estatal, estavam perdendo tudo: posição, honra, prestígio e riqueza; e que, para proteger essas coisas sob a dominação estrangeira e compensar as enormes perdas, não havia outro caminho senão adquirir competência na civilização ocidental e nas ciências e conhecimentos modernos. Nessa época, iniciou-se outra mudança em sua política de ação; na realidade, não era apenas uma mudança, mas uma “revolução”. Pois mudança significa transformar-se, enquanto revolução significa virar tudo de cabeça para baixo. E, de fato, deram uma cambalhota tão completa que seus objetivos, sua mentalidade e sua perspectiva mudaram inteiramente, passando a situar-se exatamente na direção oposta ao Islã.
A vergonha e o remorso que, no início, eram sentidos quando se violava a lei islâmica começaram gradualmente a desaparecer após o início dessa revolução; mais ainda, começou a desaparecer a própria percepção de que violar as normas da sharia constituía pecado e crime. Depois, pouco a pouco, a coragem e a desfaçatez tomaram o lugar da vergonha e do remorso. Toda espécie de lei passou a ser violada abertamente, e, em vez de vergonha, passou-se a demonstrar orgulho por isso. Mas a onda da revolução não parou sequer nesse ponto. Hoje, tudo o que se ouve e vê nos círculos inclinados ao Ocidente revela sinais claros de rebelião contra o Islã, ultrapassando a própria desfaçatez. A situação chegou ao ponto de que uma pessoa, embora viole abertamente a lei islâmica, longe de se arrepender de seu crime, tenta envergonhar justamente aquele que ainda segue a antiga lei. Parece que quem viola a lei islâmica já não é hoje o criminoso ou pecador; os criminosos, ao contrário, são os próprios seguidores do Islã. Hoje, não apenas se abandonam a oração e o jejum, mas também se demonstra orgulho disso. Faz-se propaganda pública em favor do abandono da oração e do jejum. Aqueles que rezam, recitam o Alcorão e jejuam são ridicularizados publicamente. Além disso, alimenta-se a esperança de que os praticantes da oração e do jejum, especialmente se forem instruídos, acabem eles próprios envergonhados de seus atos. Para uma pessoa, não é considerado defeito abandonar a oração e o jejum; pelo contrário, é o seu cumprimento que é tido como algo censurável e vergonhoso. Até mesmo se alguém que reza cometer algum ato reprovável, diz-se em tom extremamente sarcástico: “Mas ele não é alguém que reza?”. Ou seja, a verdadeira razão para considerar esse homem culpado seria justamente praticar aquilo que Allah declarou ser um meio de impedir a depravação e a obscenidade, e que Seu Mensageiro classificou como a mais excelente das ações.
Essa rebelião não se limita à oração e ao jejum; pelo contrário, espalhou-se por quase todos os campos da vida. Hoje, a obediência às normas islâmicas é chamada de “mullahismo”. E “mullahismo”, na linguagem de nossa nova era, é outro nome para uma mistura vil de visão estreita, cegueira, ignorância, arcaísmo e estupidez. A intenção é esta: o muçulmano firme e fiel à sharia é chamado de “mullah”, e “mullah” seria uma pessoa que não teria a menor relação com a civilização e o esclarecimento — alguém que não conseguiria de modo algum adaptar-se à chamada sociedade civilizada. Este é apenas um dos inúmeros insultos. Para expressar ódio e desprezo, nossos “anglicizados de pele escura”, em vez de usar algumas palavras nativas, concentram toda a sua carga emocional na palavra “mullah”, apresentada como o receptáculo de todos os defeitos. Esta obra foi escrita em 1934. Atualmente estamos em 2002. Nesse intervalo, muitas outras denominações foram impostas aos muçulmanos autênticos para atacá-los, como terrorista, extremista, fundamentalista, talibã, Al-Qaeda etc. — o editor.
Hoje, já não se aceita como prova em favor de qualquer palavra ou ação o fato de ela estar de acordo com o Alcorão e a Hadith. Não é apenas algum não muçulmano; infelizmente, até muçulmanos conhecidos como “instruídos e esclarecidos” rejeitam sem hesitação a autoridade do Alcorão e da Hadith. Eles não sentem a menor vergonha por isso; pelo contrário, esperam que aquele que apresenta o respaldo da lei islâmica é que acabe envergonhado. Longe de reconhecer o Alcorão e a Hadith como autoridades, chegamos ao ponto de ver que, quando algum assunto é apresentado em nome do Islã, imediatamente surge contra ele uma aversão. No entanto, quando esse mesmo assunto é apresentado com argumentos e provas, ou descrito com o auxílio de uma citação de algum autor ocidental, ele se torna absolutamente irrefutável. Em suma, sempre que se menciona o Islã, surgem de várias formas suspeitas e dúvidas na mente dos nossos muçulmanos inclinados ao Ocidente. Enraíza-se neles a dúvida de que deve haver alguma fraqueza nisso. A impressão é que, aos olhos deles, hoje a autoridade do Alcorão e da Hadith não fortalece uma questão; pelo contrário, torna-a ainda mais fraca e dependente de comprovação.
Há alguns anos, essa doença estava limitada apenas ao nosso meio masculino, e a sociedade feminina estava a salvo dela. Pelo menos no que diz respeito à civilização islâmica, podemos dizer que o “interior do lar” é o seu último refúgio. É ali que o Islã cuida e protege o seu tahzib e tamaddun. Uma das principais razões pelas quais o Islã deseja manter a mulher dentro do véu segundo a sharia é que, pelo menos, o seio do qual a criança muçulmana mama precisa estar iluminado pela luz da fé. O colo em que a criança muçulmana é criada precisa, pelo menos, estar protegido da descrença e do desvio, da imoralidade e dos maus costumes. Ao redor do berço em que os primeiros estágios da vida da criança muçulmana transcorrem, precisa existir, pelo menos, um ambiente genuinamente islâmico. As quatro paredes dentro das quais os primeiros traços de educação e experiência são gravados na mente simples da criança muçulmana precisam estar protegidas das influências externas. Portanto, o interior do lar é, na realidade, a mais sólida fortaleza da civilização islâmica. E essa fortaleza também está prestes a ser destruída. A epidemia da ocidentalização está hoje penetrando rapidamente até mesmo no nosso ambiente doméstico. Os nossos nobres inclinados ao Ocidente estão agora arrastando também suas esposas e filhas para fora, para que elas também possam ser influenciadas pelo efeito venenoso. Hoje, as meninas da nossa comunidade estão sendo enviadas, para aprender o desvio, a incredulidade, a imoralidade e a civilização ocidental, a instituições de ensino que já ensinaram tudo isso aos nossos meninos e os tornaram rebeldes contra o Islã.
Em nossa opinião, esse último passo levará a revolução mencionada acima à sua consumação completa. Isso não é apenas uma suposição nossa; tivemos também a infelicidade de ver e ouvir sinais dessa consumação da revolução. Hoje, a situação chegou ao ponto de uma mulher muçulmana, desobedecendo abertamente às determinações claras do Alcorão e da Hadith, exibir sem constrangimento a beleza do próprio corpo; ir a hotéis e restaurantes ingleses para almoçar e jantar; sentar-se entre homens nas salas de cinema; e andar pelo mercado fazendo compras sem qualquer acanhamento. Mais lamentável ainda é que, em vez de se sentirem envergonhadas e arrependidas por praticarem todas essas ações violando a lei islâmica, elas descrevem seus atos com ainda mais orgulho. Além disso, consideram digna de censura a pobre mulher que, primeiramente, se recusou a abandonar o véu segundo a sharia, depois, ao ser arrastada à força para fora pelo marido, sente vergonha de exibir descaradamente o corpo entre homens e, acima de tudo, não considera preferíveis as andanças pelos mercados, os prazeres das boates e o desfrute do ar dos centros turísticos ao tédio existente dentro dos limites das instruções de Allah e do Mensageiro. Isso significa que a atitude rebelde contra o Islã está rapidamente ultrapassando os limites dos homens e se espalhando também entre as mulheres. Assim como os homens, elas também consideram, para uma mulher muçulmana, não a transgressão da lei islâmica, mas a sua observância, algo vergonhoso e motivo de arrependimento.
Por Allah, que alguém me diga: se esta é a situação delas mesmo tendo sido criadas no colo de mulheres antigas e devotas, então, quando as meninas de suas próprias casas se tornarem estranhas à dignidade da fé e saírem dos limites da obediência a Allah e ao Mensageiro, qual será o futuro das crianças criadas no colo de mulheres recém-chegadas e inclinadas ao Ocidente? Pode-se esperar que a criança que, ao abrir os olhos, verá ao seu redor apenas sinais da ocidentalização; cujo olhar inocente não testemunhará sequer um sinal do tahzib e tamaddun islâmicos; em cujos ouvidos jamais entrarão as palavras de Allah e do Mensageiro; e em cuja mente, como numa folha imaculada, a imagem da ocidentalização será gravada desde o início, se forme como muçulmana em algum aspecto — em suas emoções, sentimentos, pensamentos, concepções, caráter moral ou ações, em suma?
O primeiro estágio do delito é quando a pessoa comete um delito, mas o considera um delito e se envergonha por isso. Esse tipo de delito é considerado punível apenas em razão de sua própria gravidade; porém, pode ser perdoado se houver arrependimento ou contrição. Isso porque, nesse caso, a responsabilidade será atribuída apenas à fraqueza humana.
O segundo estágio do delito é quando a pessoa comete um delito e, em vez de considerá-lo uma falta, considera-o uma virtude — e, além disso, o proclama publicamente com orgulho. Isso significa que, no coração dessa pessoa, não há o menor respeito pela lei que declara seu comportamento um delito.
O último estágio do delito é quando a pessoa não apenas comete um delito contra uma lei, mas, em oposição a ela, considera seu delito justificável e virtuoso de acordo com outra lei. Além disso, zomba da lei que declara tal conduta criminosa e considera injustos os que a seguem. Essa pessoa não apenas transgride a lei; ela a despreza completamente e se envolve em rebelião aberta contra ela.
Qualquer pessoa dotada de um mínimo de bom senso admitirá que, quando o ser humano chega a esse estágio final, já não pode permanecer dentro dos limites da lei contra a qual declara abertamente rebelião. Ainda assim, Satanás, o pecador, oferece às pessoas esta falsa garantia: podeis zombar e demonstrar desprezo pela lei islâmica e, mesmo declarando virtuosa a desobediência censurável aos seus preceitos, continuar sendo muçulmanos. Assim, por um lado, chamam de mau o que Allah e o Mensageiro consideram bom, e de bom o que consideram mau; consideram seus pecados boas ações e suas boas ações pecados; zombam de suas determinações e, em vez de se envergonharem de contrariar a lei por eles estabelecida, tentam, ao contrário, envergonhar aqueles que a seguem. Por outro lado, afirmam ser pessoas que creem em Allah e no Mensageiro, compreendem sua dignidade e excelência e seguem a religião do Islã por eles escolhida. Poderá alguma pessoa sensata considerar legítima uma reivindicação desse tipo acompanhada de tal conduta? Se a descrença puder coexistir com a fé e o desprezo com a reverência; se for possível honrar alguém no coração e zombar dele com a boca; se alguém que se orgulha da desobediência e se sente humilhado pela obediência puder ser considerado submisso e obediente, então teremos de aceitar a rebelião como obediência, o desprezo como reverência e a descrença como fé. Do mesmo modo, teremos de aceitar esta lógica invertida: aquele que golpeia é quem ama; aquele que zomba é quem verdadeiramente reverencia; e aquele que mente é quem se mostra veraz!
Na verdade, o Islã nada mais é que submissão, e a verdadeira submissão de modo algum pode ser genuína sem a fé. A primeira exigência da fé é que, assim que o mandamento de Allah e do Mensageiro chegar ao ser humano, ele incline a cabeça e jamais a erga em rejeição a ele:
(Árabe)
Significado: O dever dos crentes é que, quando forem chamados a Allah e ao Mensageiro para que seja proferida uma decisão entre eles, digam: “Ouvimos e obedecemos.” Na verdade, estes são os bem-aventurados. (Surata An-Nur: 51)
Além disso, essa submissão não deve ser feita com relutância e desagrado, mas voluntária e prontamente. Nem mesmo deve ser mantido no coração qualquer desagrado oculto ou insatisfação contra o mandamento de Allah e do Mensageiro. Aquele que inclina a cabeça apenas exteriormente, mas sente desagrado no coração, não é crente; é, antes, um hipócrita:
(Árabe)
Significado: “Sempre que lhes foi dito: ‘Vinde ao que Allah revelou e ao Mensageiro’, viste os hipócritas afastarem-se de ti com hesitação. …Por teu Senhor! Eles não serão crentes até que te aceitem como juiz nas divergências entre eles e, depois, não sintam no coração qualquer desagrado em relação à decisão que proferires, submetendo-se plenamente a ela.” (Surata An-Nissá: 61–65)
Mas aquele que desobedecer abertamente à lei de Allah, abandonar a lei de Allah e do Mensageiro para seguir outra lei e considerá-la verdadeira e correta, zombar da lei de Allah e do Mensageiro enquanto segue uma lei diferente e considerar censurável obedecer àquela lei, não pode de modo algum ser crente. Que tal pessoa reivindique ser muçulmana, que adote um nome de muçulmano ou que seja reconhecida como muçulmana no registro do censo — nada disso faz diferença. Uma pessoa pode permanecer crente mesmo cometendo um pecado; mas, para isso, é necessário que considere o pecado como pecado e se arrependa dele. Além disso, deve reconhecer a lei contra a qual cometeu uma transgressão por mera fraqueza de caráter. Porém, quando o pecado se mistura com descaramento e audácia, quando a pessoa demonstra orgulho e arrogância por causa dele e censura e repreende alguém por não se envolver nele, considerando-o uma boa ação — juro por Allah! — a fé jamais pode permanecer junto de tal iniquidade. Para entrar nesse estágio, a pessoa deve decidir de antemão se deseja permanecer muçulmana ou se, abandonando o Islã, deseja ingressar na esfera de obediência à lei cuja adesão lhe proporciona um senso de dignidade.
Pela graça de Allah, as massas muçulmanas continuam até agora protegidas contra esta torrente de ocidentalismo e rebelião semelhante à incredulidade. Até o presente, ainda permanece em seus corações o respeito pelas determinações de Allah e do Mensageiro. Entre elas, observa-se, em maior ou menor grau, a observância da lei islâmica. Contudo, assim como anteriormente os costumes e o comportamento da classe nobre exerceram influência sobre o caráter, a natureza e as maneiras do povo, existe também o temor de que os novos costumes venham gradualmente a exercer uma influência destrutiva sobre sua fé. O abandono da oração e do jejum, as más ações e práticas pecaminosas, a imitação dos costumes ocidentais e o crescente interesse dos muçulmanos comuns por diversões deslumbrantes e espetáculos vazios, que constituem apenas a aparência da civilização ocidental, são tão somente o toque de alarme desse perigo iminente. Se os pensamentos e a visão de mundo de nossa classe nobre não forem purificados e sua aversão ao Sirat al-Mustaqim do Islã continuar dessa maneira, não está distante o dia em que toda a nação afundará neste mar de pecado e esta sunna de Allah também se cumprirá:
(Árabe)
Isto significa: Quando queremos destruir uma cidade, fazemos com que seus malfeitores se entreguem à transgressão. Assim, o destino daquela cidade é determinado. Então, destruímo-la completamente. (Surata Al-Isra, versículo 16)
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Causas do colapso social e meios de evitá-lo
(O artigo foi publicado pela primeira vez em março de 1935, na revista Tarjumanul Qur’an. — Editor)
No Alcorão Majid, esta verdade foi enunciada como um princípio geral: se uma nação for virtuosa, Allah, o Altíssimo, não a destruirá sem motivo — Ele não é tal injusto:
(Árabe)
Significado: O vosso Senhor não é daqueles que destruiriam injustamente as cidades, se os seus habitantes fossem virtuosos. (Surata Hud: 117)
O significado de destruir e aniquilar não é apenas devastar as cidades e lançar os seus habitantes à morte; uma de suas formas específicas consiste em dispersar e separar os povos, reduzir a nada a sua força coletiva e subjugá-los, humilhá-los e desonrá-los. Contudo, com base no princípio acima mencionado, nenhuma destruição ou aniquilação pode recair sobre um povo enquanto ele não abandonar o caminho do bem e da reforma, persistindo no caminho do mal, da desordem, da desobediência e da rebelião, e, desse modo, não trouxer sobre si mesmo a opressão. Tendo esse princípio em vista, sempre que Allah, o Altíssimo, mencionou que lançaria um povo no castigo, também descreveu imediatamente os seus crimes, para que as pessoas pudessem compreender claramente que foi por causa de suas próprias más ações que a vida terrena e a vida futura deles foram arruinadas:
(Árabe)
Significado: “A cada um deles castigamos por seu pecado. Allah não foi injusto com eles; ao contrário, eles próprios foram injustos consigo mesmos”. (Surata Al-Ankabut: 40)
O segundo ponto decorrente desse princípio é que a causa da destruição e da ruína não é o pecado individual, mas o pecado coletivo, isto é, nacional. Em outras palavras, se a corrupção da fé e da conduta aparece de forma dispersa entre as pessoas, mas, de modo geral, o nível religioso e moral do povo permanece elevado e sua influência mantém ocultas as transgressões individuais, então, por pior que sejam os indivíduos separadamente, a nação como um todo continua a existir. Nessa situação, não surge nenhuma perturbação capaz de causar a destruição de toda a nação. Porém, quando a corrupção da fé e da conduta ultrapassa o indivíduo e se espalha por toda a nação, quando o senso religioso e a consciência moral da nação se corrompem completamente, e, em vez do bem, o mal continua a se desenvolver e a crescer, então o olhar misericordioso de Allah, o Altíssimo, se afasta por completo dessa nação. Depois disso, ela começa a descer do pedestal da honra ao nível mais baixo da humilhação. Até que, certo dia, o fogo da ira de Allah, o Altíssimo, se acende contra ela, e ela é completamente destruída e arruinada.
No Alcorão Sagrado, são mencionados muitos exemplos disso.
Quando, entre o povo de Hazrat Noé, a corrupção da fé e da conduta criou raízes e se espalhou por toda parte, e, juntamente com isso, desapareceu por completo a esperança de obter frutos doces dessa árvore venenosa, então ele foi destruído. Por fim, Hazrat Noé (que a paz esteja com ele), sentindo-se compelido, suplicou perante o Senhor dos mundos:
(Árabe)
Significado: Meu Senhor! Não deixes vivo sobre a terra sequer um dos incrédulos. Se os deixares viver, eles desviarão Teus servos e de sua descendência nascerão apenas transgressores e completos descrentes. (Sura Nuh: 26-27)
O povo de Ad só foi destruído quando o pecado se enraizou profundamente em seu seio, os injustos, perversos e corruptores alcançaram a posição de líderes e governantes, e não restou lugar algum no sistema social e coletivo para as pessoas que buscavam o bem e a prosperidade:
(Árabe)
Significado: O povo de Ad desobedeceu à ordem de seu Senhor, desobedeceu a Seus mensageiros, e cada um deles seguiu um insolente inimigo da verdade. (Sura Hud: 59)
O povo de Lot só foi destruído quando sua consciência moral sofreu uma degradação extrema e a falta de vergonha aumentou tanto que a fornicação passou a ocorrer até mesmo em assembleias públicas, mercados e bazares; além disso, entre as pessoas já não restava sequer a sensibilidade de considerar a fornicação como fornicação:
(Árabe)
Significado: (Lot disse:) Por que vos aproximais dos homens em vez das mulheres, importunais os viajantes e praticais fornicação abertamente nas assembleias?
(Sura Al-Ankabut: 9)
A ira só desceu sobre o povo de Madian quando toda a nação se tornou desonesta, fraudulenta e traiçoeira. Deixar de dar o peso devido e cobrar a mais deixou de ser considerado algo censurável. A consciência moral da nação desapareceu a tal ponto que, quando eram repreendidos por tais atos condenáveis, em vez de baixarem a cabeça envergonhados, repreendiam justamente quem os censurava. Chegaram ao ponto de não compreender sequer que algum de seus atos pudesse ser digno de censura. Não consideravam o adultério algo condenável; pelo contrário, julgavam desviado e digno de reprovação aquele que chamasse essa prática de má:
(Árabe)
Sentido: (Disse Shu‘aib:) “Ó meu povo! Medí e pesai com justiça, não diminuais as mercadorias das pessoas e não espalheis a corrupção pela terra.” Eles disseram: “Ó Shu‘aib! Não compreendemos a maior parte do que dizes. Vemos-te muito fraco. Se não fosse pelo teu clã, certamente te apedrejaríamos.” (Surata Hud: 85–91)
A decisão de lançar os Filhos de Israel na humilhação, na desonra, na ira e na maldição só foi executada quando eles começaram a precipitar-se na opressão, na perversidade e no consumo do ilícito. A doença do oportunismo espalhou-se entre seus líderes nacionais. Entre o povo comum surgiu uma atitude de acomodação com o pecado, e não restou nenhum grupo humano que chamasse a injustiça de injustiça e impedisse as pessoas de cometê-la:
(Árabe)
Sentido: Vês muitos deles correrem para o pecado, para a transgressão dos limites estabelecidos por Deus e para o consumo do ilícito. Que más ações praticavam! Por que seus líderes espirituais e seus eruditos não os proibiam de proferir palavras más e de consumir bens ilícitos? Praticavam, certamente, ações extremamente más. (Surata Al-Maida: 62–63)
(Árabe)
Sentido: Entre os Filhos de Israel que cometeram incredulidade, os que foram amaldiçoados pela boca de Davi e de Jesus, filho de Maria, assim o foram porque se rebelaram e transgrediram os limites. Eles não impediam uns aos outros de praticar más ações. (Surata Al-Maida: 78–79)
Os hadiths transmitidos pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a respeito da interpretação deste último versículo tornam ainda mais claro o propósito do Sagrado Alcorão. O resumo dos hadiths é o seguinte: o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:
Quando a imoralidade começou a se espalhar entre os Filhos de Israel, a situação era tal que, ao ver seu irmão, amigo ou vizinho cometendo uma má ação, uma pessoa o advertia, dizendo: “Ó homem! Teme a Deus e age com temor.” Mas, depois disso, essa mesma pessoa continuava convivendo e mantendo relações com ele. Mesmo testemunhando a má conduta daquele pecador, não deixava de conviver com ele nem de participar de suas refeições e bebidas. Quando a situação chegou a esse ponto, eles passaram a exercer influência uns sobre os outros. Então Allah tingiu todos com a mesma cor e os amaldiçoou por meio das palavras de seus profetas Davi e Jesus, filho de Maria.
O narrador relata que, ao chegar a esse ponto durante o sermão, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), tomado pela emoção, sentou-se e disse:
Juro por Aquele em cujas mãos está a minha vida! É vosso dever ordenardes às pessoas o bem e impedi-las de praticar o mal; ao verdes alguém cometendo uma má ação, deveis impedi-lo, conduzi-lo ao caminho reto e não demonstrar a menor indulgência nesse assunto. Caso contrário, Allah fará com que uns influenciem os corações dos outros e vos amaldiçoará, assim como amaldiçoou os Filhos de Israel.
Na verdade, a corrupção da fé e da conduta é semelhante a uma epidemia. Qualquer epidemia ataca inicialmente algumas pessoas vulneráveis. Nessa situação, se o clima for favorável, se os esforços do departamento de saúde forem adequados, se houver um sistema suficiente para limpar a sujeira e o lixo e se os doentes receberem tratamento no devido tempo, a doença não poderá assumir a forma de uma epidemia generalizada; ao contrário, o público poderá permanecer a salvo de seu ataque. Mas, no mesmo caso, se os médicos forem negligentes e irresponsáveis, se o departamento de saúde for indiferente e se os encarregados da higiene tolerarem a sujeira e o lixo, os germes começarão a se espalhar lentamente por toda parte e, misturando-se ao ar, tornarão o ambiente extremamente insalubre. Consequentemente, ele se tornará favorável à doença em vez de à saúde. Por fim, quando as pessoas comuns da sociedade não encontrarem nada — ar, água, alimentos, roupas, casas, em suma, coisa alguma — livre de sujeira e mau cheiro, sua vitalidade começará a enfraquecer e toda a sociedade será lançada nas garras de uma epidemia generalizada. Nessa situação, até para uma pessoa muito poderosa torna-se difícil proteger-se do domínio da doença. Até os próprios médicos, os encarregados da higiene e os responsáveis pela saúde pública acabam sendo atingidos pela doença. Como resultado, mesmo aqueles que, pelo menos em seu próprio caso, adotam medidas de preservação da saúde e tomam regularmente medicamentos não escapam da destruição. Pois que remédio têm eles contra a toxicidade do ar, a sujeira da água, a contaminação dos alimentos e a poluição do solo?
À luz disso, pode-se compreender a corrupção da moral e da conduta, bem como a desorientação do pensamento e da crença. Os sábios religiosos são os médicos da nação. Os governantes e os ricos são responsáveis por sua limpeza e preservação da saúde. A dignidade da fé da nação e a consciência moral da sociedade equivalem à vitalidade. O ambiente social corresponde ao ar, à água, aos alimentos, às roupas e às casas. E, na vida nacional, ordenar o bem e impedir o mal, do ponto de vista da religião e da moralidade, equivale aos esforços de higiene e preservação da saúde do ponto de vista da saúde física. Nessas circunstâncias, quando os sábios religiosos e os governantes abandonam seu verdadeiro dever — isto é, deixam de impedir o mal e passam a fazer concessões ao mal e à corrupção — a desordem, a imoralidade e a falta de ética começam a se espalhar entre a nação. Como resultado, a dignidade da fé da nação vai se enfraquecendo gradualmente. Por fim, todo o ambiente social fica corrompido. O ambiente da vida nacional torna-se desfavorável ao bem-estar e à virtude, e favorável ao mal e à corrupção. As pessoas passam a fugir do bem e, em vez de odiar o mal, começam a sentir-se atraídas por ele. Os valores morais das pessoas mudam completamente. O vício ocupa o lugar da virtude, e a virtude ocupa o lugar do vício. Nessas circunstâncias, o desvio, a depravação e a imoralidade florescem e se enfeitam de flores. Nenhuma semente de bem e virtude consegue germinar, desenvolver-se e cobrir-se de folhas e ramos. A terra e o ar, tudo se recusa a alimentá-la, pois toda a sua força passa a ser empregada no crescimento e desenvolvimento da árvore venenosa. Na realidade, quando a condição geral de uma nação chega a esse estágio, ela se torna apta a receber o castigo divino. Sobre ela começam a descer tamanhas calamidades destruidoras que ninguém consegue escapar de suas garras. Mesmo que alguém se esconda numa khanqah e passe dia e noite ocupado em adoração e devoção, não estará a salvo. É a respeito dessa situação que se afirma no Sagrado Alcorão:
(Árabe)
Ou seja: Temei a provação que não atingirá somente os injustos e pecadores entre vós, lançando-os na calamidade. (Surata Al-Anfal: 25)
A respeito da explicação deste versículo, Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “A intenção de Allah, o Altíssimo, é que não permitais que a iniquidade crie raízes diante de vós, pois, se fizerdes concessões à iniquidade e lhe derdes oportunidade de se espalhar, um castigo abrangente descerá da parte de Allah, e todos, bons e maus indistintamente, serão lançados sob o seu alcance.” De um hadith, sabe-se que o próprio Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ao explicar este versículo, disse:
(Árabe)
Isto significa: “Allah não castiga as pessoas comuns pelos atos das pessoas de destaque; porém, quando elas veem a iniquidade diante de si e, apesar de terem o poder de impedi-la, não se adiantam para combatê-la, Allah lança tanto os notáveis quanto as pessoas comuns sob o castigo.”
O maior meio de preservar intacta a saúde moral e religiosa de uma nação é que cada um de seus indivíduos possua honra baseada na fé e consciência moral. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) designou isso pela palavra de amplo significado “haya”, isto é, pudor. “Haya” é, na realidade, um ramo da fé. Ele disse: O pudor é parte da fé. Certa vez, chegou-se a dizer diante do Profeta que “haya” era, na verdade, uma parte da religião. Ele respondeu: — Pelo contrário, é a religião inteira.
O significado da palavra “haya”, mencionada no hadith, é que, assim que as pessoas presenciarem a iniquidade e o pecado, surgirá espontaneamente nelas o impulso de resistir, e o coração e a mente manifestarão aversão por isso. Quem possuir essa qualidade não apenas se absterá da injustiça, mas também não tolerará sua existência nos outros. Não demonstrará indulgência para com a iniquidade. Não lhe será possível fazer concessões à opressão e ao pecado. Quando algum ato perverso for cometido diante dele, sua honra baseada na fé será imediatamente despertada. Tentará eliminá-lo com a mão ou com a palavra ou, pelo menos, seu coração e sua mente se agitarão com o desejo de eliminá-lo:
(Árabe)
Isto significa: “Quem dentre vós vir alguma iniquidade, que a elimine com a própria mão; se não for capaz, que tente fazê-lo com a palavra; e, se ainda assim não for capaz, que a deteste no coração; e este é o sinal da fé mais fraca!” (Musnad Ahmad)
(Árabe)
A religião e a fé da nação em que essa qualidade estiver amplamente presente permanecerão protegidas. Sua consciência moral jamais se degradará. Pois cada indivíduo será responsável por zelar pelos demais e questioná-los. Nenhuma distorção de convicções e conduta encontrará nela oportunidade para se intrometer.
Na verdade, o objetivo do Nobre Alcorão é formar uma sociedade ideal em que cada indivíduo, impelido por suas inclinações sinceras, pelo natural recato e respeito e pelo estímulo de sua própria consciência, cumpra o dever de questionar e supervisionar os demais, atuando, sem qualquer remuneração, como um agente da justiça divina:
(Árabe)
Isto é: “Assim, fizemos de vós uma comunidade justa e equilibrada, para que sejais supervisores das pessoas e para que o Mensageiro seja supervisor de vós.” (Surata Al-Bácara: 143)
É por isso que os muçulmanos são repetidamente instruídos de que ordenar o bem e impedir o mal constituem sua característica nacional. Isso deve manifestar-se em todo homem e mulher crentes:
(Árabe)
Isto é: “Sois a melhor comunidade; fostes constituídos para o benefício das pessoas. Ordenais o bem, impedis o mal e credes em Allah.” (Surata Ál Imran: 110)
(Árabe)
Significado: Os homens e as mulheres crentes são aliados uns dos outros; ordenam o bem e impedem o mal. (Surata At-Tawbah: 71)
(Árabe)
Significado: Eles ordenam o bem, impedem o mal e preservam os limites estabelecidos por Allah. (Surata At-Tawbah: 112)
(Árabe)
Significado: Se lhes concedermos autoridade na Terra, eles estabelecerão a oração, darão o zakat, ordenarão o bem e impedirão o mal. (Surata Al-Hajj: 41)
Se a situação dos muçulmanos for assim, eles poderão ser comparados aos habitantes de uma localidade em que cada morador possui consciência de higiene e preservação da saúde. Eles não mantêm apenas seus próprios corpos e casas limpos; ao contrário, sempre que veem sujeira e resíduos em qualquer lugar da localidade, removem-nos. Não querem permitir que sujeira, resíduos e mau cheiro permaneçam em lugar algum. Evidentemente, o ambiente de uma localidade assim necessariamente permanecerá limpo e higienizado. Aqui, os germes das doenças não terão oportunidade alguma de se desenvolver. Se, por acaso, alguém ainda assim ficar fraco e adoecer, será tratado em tempo oportuno; ou, pelo menos, sua doença permanecerá limitada a uma enfermidade pessoal e não se espalhará entre os demais, transformando-se em uma epidemia generalizada.
Mas, se a nação muçulmana não puder manter esse elevado padrão moral, deverá existir entre ela, pelo menos, um grupo que preserve a saúde religiosa e moral da sociedade. Esse grupo estará sempre preparado para prestar esse serviço e continuará removendo a sujeira dos pensamentos e das crenças das pessoas, bem como a impureza de seus hábitos e caráter.
(Árabe)
Significado: Deve haver entre vós um grupo que convide as pessoas ao bem, ordene o bem e proíba o mal. (Sura Aal Imran: 104)
Esse grupo é constituído conjuntamente pelos ulama e pelos governantes. Para ele, ocupar-se de ordenar o bem e proibir o mal é tão indispensável quanto é necessário que o departamento responsável pela limpeza da cidade e pela proteção da saúde esteja atento ao cumprimento das suas atribuições. Se as pessoas dessa classe negligenciarem o cumprimento dos seus deveres e não houver na nação sequer um grupo que convide ao bem e impeça o mal, então, do ponto de vista religioso e moral, a destruição da nação será tão certa quanto é inevitável, do ponto de vista do corpo e da vida, a destruição de uma localidade sem serviços de limpeza e proteção da saúde. A razão pela qual a destruição se abateu sobre as nações antigas foi que, naquele tempo, não existia entre elas nenhum grupo que as impedisse do mal e as mantivesse estabelecidas no bem:
(Árabe)
Significado: Por que não houve, entre as nações que vos precederam, pelo menos pessoas instruídas e sábias que impedissem as pessoas de causar corrupção na Terra — salvo os poucos que Nós salvamos dentre elas? (Sura Hud: 116)
(Árabe)
Significado: Por que os seus ulama e pirs não os proibiram de proferir palavras más e consumir o ilícito? (Sura Al-Maida: 63)
Assim, fica comprovado que a responsabilidade dos ulama, pirs e governantes da nação é a mais importante de todas. Eles não são responsáveis apenas pelos seus próprios atos; antes, grande parte da responsabilidade pelos atos de toda a nação está depositada sobre eles. Que se pode dizer dos governantes injustos, opressores e amantes do luxo, e dos ulama e pirs que os bajulam? É desnecessário mencionar qual será o destino deles perante Allah. Mas os governantes, ulama e pirs que, sentados nas suas próprias localidades, no recanto dos seus lares e nas suas khanqahs, demonstram o mais elevado grau de taqwa, piedade, adoração e vida dervixe, também não escaparão de ser questionados por Allah. Pois, quando tempestades de desorientação e imoralidade avançam de todos os lados sobre a sua nação, não é seu dever simplesmente permanecerem sentados, de cabeça baixa, no recanto dos seus lares; ao contrário, seu dever é lançar-se ao campo como homens valentes e, com o auxílio de toda a força, capacidade, influência e prestígio que Allah lhes concedeu, construir uma resistência contra essas tempestades. A responsabilidade de afastar as tempestades não lhes cabe necessariamente, mas é certamente sua responsabilidade empregar contra elas todas as forças de que dispõem. Se demonstrarem a menor negligência nesse trabalho, a sua adoração, devoção, taqwa e piedade pessoais de modo algum os livrarão da prestação de contas na Vida Futura. Se uma epidemia se espalhar numa cidade e milhares de pessoas começarem a morrer, e, nessa situação, um funcionário do departamento de limpeza e proteção da saúde permanecer em sua casa, tentando apenas salvar a própria vida e a de seus filhos, ninguém jamais chamaria tal funcionário de responsável e inocente. Se um cidadão comum agisse assim, isso não seria tão censurável; porém, se um funcionário do departamento de limpeza e proteção da saúde agisse dessa maneira, não haveria qualquer dúvida quanto à sua culpabilidade.
14
Fé e obediência
[O artigo foi publicado pela primeira vez em dezembro de 1934, na revista Tarjuman-ul-Qur’an. — Editor]
Seja qual for o tipo e o objetivo de uma ordem social, duas coisas são sempre necessárias para a sua fundação, estabilidade e êxito. Primeiro, o princípio sobre o qual a sociedade será formada deve estar profundamente enraizado em toda a sociedade e em cada um de seus indivíduos, e cada membro da sociedade deve ter a máxima adesão a ele. Segundo, deve existir na sociedade um espírito de obediência e submissão. Isto é, deve obedecer plenamente às ordens daquele que reconhece como autoridade, seguir rigorosamente as normas e regulamentos por ele estabelecidos e jamais ultrapassar os limites que ele determinou. Essas são condições indispensáveis para o êxito de qualquer organização. Quer a organização seja militar ou política, social ou religiosa e moral, sem essas duas condições ela não pode ser estabelecida nem alcançar seu objetivo.
Examinem toda a história do mundo. Ninguém encontrará um único exemplo de um movimento que tenha alcançado êxito com pessoas covardes, hipócritas, desobedientes e insubmissas, e que tenha continuado a existir até o fim. Nem é preciso consultar a história para isso. Basta olhar ao redor. Que opinião se pode formar de um exército que não é leal e obediente ao seu próprio Estado e ao seu comandante supremo, cujos soldados se recusam a seguir as normas militares, nenhum dos quais se dispõe a sair de seu lugar quando a corneta toca para o desfile, e que ignoram qualquer ordem dada pelo comandante? Pode alguém chamar de “exército” tal reunião de soldados? Pode alguém esperar que uma força tão desorganizada vença alguma guerra? O que se pode dizer de um Estado cujos súditos não têm nenhum respeito pela lei, cujas normas são abertamente violadas, cujos órgãos não possuem qualquer disciplina e cujos funcionários não aceitam cumprir as ordens das autoridades superiores? Pode um Estado com súditos desse tipo e governantes semelhantes permanecer por muito tempo no mundo? Hoje, os exemplos da Alemanha e da Itália [isto se refere ao período anterior à Segunda Guerra Mundial. — Editor] estão diante dos olhos do mundo. O mundo inteiro sabe do enorme poder que Hitler e Mussolini conquistaram. Mas sabem qual foi a causa fundamental desse êxito? Aquelas duas coisas: fé e obediência. Se os partidos nazista e fascista não tivessem uma convicção tão firme em seus próprios princípios e ideais, nem fossem tão rigorosamente leais aos seus líderes, jamais poderiam ter se tornado tão poderosos e bem-sucedidos.
Não há exceção a essa regra geral. A fé e a obediência são, na realidade, a alma de uma organização. Quanto mais firme for a fé e mais completa a obediência, tanto mais bem-sucedida será a organização. Por outro lado, quanto maior for a fraqueza de sua fé e quanto maior for sua aversão à obediência, tanto mais fraca se tornará a organização e, na mesma proporção, fracassará em alcançar seu objetivo. É absolutamente impossível que uma sociedade ou organização seja tomada pelos males da hipocrisia, da incredulidade, da divergência de pensamento, da rebelião, da desobediência e da desordem e, ainda assim, mantenha a disciplina e avance rumo ao progresso em todos os campos da vida. Esses dois estados são completamente opostos. Desde que os seres humanos começaram a habitar o mundo até hoje, jamais houve uma combinação entre ambos. Se a lei natural é imutável, então esta lei também é imutável: esses dois estados jamais podem coexistir.
Voltemos agora o olhar para o povo que se identifica como muçulmano. Que tipo de hipocrisia e incredulidade imaginável não está presente entre os muçulmanos? Hoje, fazem parte da sociedade islâmica pessoas que nem sequer conhecem os ensinamentos básicos do Islã e continuam agarradas às crenças da jahiliyyah. Há aqui também pessoas que duvidam dos princípios fundamentais do Islã e divulgam abertamente essas dúvidas. Nesta sociedade há pessoas que manifestaram abertamente descontentamento e aversão à religião e à religiosidade. Há também aqueles que, diante dos ensinamentos transmitidos por Allah e pelo Mensageiro, dão preferência às ideias e concepções recebidas dos incrédulos. Há aqui pessoas que preferem os costumes da jahiliyyah e as leis da incredulidade às normas estabelecidas por Allah e pelo Mensageiro. Nesta sociedade há pessoas que, para agradar aos inimigos de Allah e do Mensageiro, continuam a menosprezar os preceitos islâmicos. Há ainda pessoas dispostas a causar um prejuízo gravíssimo ao Estado islâmico por causa de seus interesses mais mesquinhos e insignificantes — pessoas que ajudam a incredulidade contra o Islã, servem aos incrédulos contra os interesses do Islã e, por seu comportamento, demonstram que o Islã não é para elas nem sequer algo minimamente querido, não estando dispostas a aceitar por ele a menor perda. Em suma, à exceção de um pequeno grupo de muçulmanos dotados de fé firme e convicção correta, a maior parte desta nação está repleta de hipócritas e pessoas de crenças equivocadas desse tipo.
Isso quanto à fé. Voltemos agora nossa atenção para a obediência. Qualquer observador que visite um bairro muçulmano verá uma cena estranha. Ali se faz o adhan; mas muitos muçulmanos não têm sequer a consciência de quem o muazzin está chamando e para quê. Chega a hora da oração e ela passa novamente; mas, salvo um grupo insignificante, os demais muçulmanos não estão dispostos a abandonar por Allah seus negócios e divertimentos. Todos os anos chega o mês do Ramadan; mas, em muitas famílias muçulmanas, nem sequer se encontra a consciência de quão importante é esse mês. Durante esse período, muitos muçulmanos comem e bebem publicamente e não sentem a menor vergonha por não jejuarem; ao contrário, tentam envergonhar os que jejuam. Além disso, mesmo entre os que jejuam, pouquíssimos o fazem com pleno senso de responsabilidade e dever; alguns jejuam apenas como costume, outros porque consideram o jejum benéfico para a saúde, e outros, embora jejuem, praticam tudo o que Allah e o Mensageiro proibiram. A observância do zakat e do hajj é ainda inferior. A distinção entre halal e haram, entre puro e impuro, está quase desaparecendo entre os muçulmanos. Na verdade, que coisa proibida por Allah e pelo Mensageiro os muçulmanos não estão tornando lícita? Que limite estabelecido por Allah e pelo Mensageiro eles não estão transgredindo? Que norma instituída por Allah e pelo Mensageiro eles não estão violando? Segundo os dados populacionais, o número de muçulmanos chega a dezenas de milhões. Mas, entre essas dezenas de milhões, quantos, não por cento nem por milhar, mas por cada cem mil, são fiéis às normas de Allah e do Mensageiro e verdadeiramente obedientes à lei islâmica?
Com efeito, o destino que necessariamente aguarda uma nação na qual se dissemina a doença da hipocrisia e da fraqueza da fé, na qual não existe nenhum senso de responsabilidade e dever e de cujo seio desaparecem a obediência e o respeito à lei, é precisamente o destino que os muçulmanos estão enfrentando. Hoje, os muçulmanos estão subjugados e derrotados em todo o mundo. Mesmo onde possuem poder estatal próprio, não estão livres da dominação moral, mental e material de outros. Sua ignorância, analfabetismo, pobreza e miséria tornaram-se proverbiais. A decadência moral os levou ao extremo da humilhação. Certa vez, graças a qualidades como honestidade, lealdade, veracidade e cumprimento das promessas, ocupavam a mais elevada posição; hoje, essas qualidades passaram deles para outros e, em seu lugar, instalaram-se a quebra da confiança, a mentira, a fraude, a violação das promessas e a má conduta. No que diz respeito à taqwa, à piedade e à pureza moral, estão se tornando quase destituídos de substância. O senso de honra social e nacional está desaparecendo pouco a pouco entre eles. Não há entre eles o menor vestígio de disciplina e ordem. Seus corações estão cheios de aversão e repulsa uns pelos outros. Já não lhes resta capacidade para trabalhar unidos por um interesse ou objetivo comum. Aos olhos das demais nações, estão profundamente humilhados e desonrados. A confiança das outras nações neles desapareceu e o pouco que resta também está desaparecendo. Sua força nacional, social e geral enfraqueceu-se. Sua civilização e cultura nacionais estão prestes a desaparecer. Tornaram-se incapazes de preservar seus direitos e garantir a segurança de sua dignidade nacional. A educação se disseminou entre eles, e também aumenta a proporção de graduados, pós-graduados e pessoas educadas à europeia; é verdade que cresce dia após dia o número dos que vivem em bangalôs de estilo moderno, andam de automóvel, vestem ternos, ostentam grandes títulos e ocupam altos cargos; mas hoje estão completamente privados das elevadíssimas qualidades morais que antes os adornavam. Já não resta sequer sinal da influência e do prestígio que exerciam sobre as nações vizinhas. Do respeito, da honra, da força e da capacidade de que antes eram detentores, nada mais existe hoje; e, no futuro, sinais ainda mais graves se tornarão evidentes.
Em relação a qualquer religião, civilização ou sistema social, só podem ser aceitas duas linhas de conduta. Se alguém fizer parte dele, deverá manter plena fé em seus princípios fundamentais. Deverá seguir integralmente suas leis, normas e regulamentos. Se não puder fazer isso, não poderá fazer parte dele; ou, se já fizer parte, deverá dele sair publicamente. Não pode haver uma terceira via racional entre essas duas. Não pode ser uma linha de conduta razoável que uma pessoa pertença a determinado sistema estatal, seja reconhecida como parte dele e alegue ser-lhe leal, mas, ao mesmo tempo, desobedeça total ou parcialmente a seus princípios fundamentais, contrarie suas leis estabelecidas e se isente de seguir seus costumes, normas e regulamentos. O resultado inevitável de tal conduta será o surgimento de um caráter hipócrita nas pessoas. A sinceridade e o altruísmo abandonarão seus corações. Não poderá surgir em seus corações entusiasmo nem firme determinação por qualquer objetivo nobre. O senso de responsabilidade, a consciência do dever, a obediência à lei e a disciplina os abandonarão. Consequentemente, não conservarão sequer a capacidade de se tornarem membros úteis e civilizados de qualquer sistema social. Com tamanha fraqueza, incapacidade e vícios, qualquer sociedade da qual façam parte será por eles grandemente amaldiçoada. Na civilização em cujo corpo penetrarem, provarão ser verdadeiros germes da lepra. A religião que seguirem será completamente deformada por eles. Com todas essas qualidades, é cem vezes melhor que, em vez de se tornarem muçulmanos, ingressem no grupo cuja política e ideais aprovam e cuja linha de conduta desejam seguir. Na verdade, um cáfir que crê de coração e alma em sua religião e civilização e segue seus costumes, normas e regulamentos é, pelo menos, melhor do que um muçulmano hipócrita.
Aqueles que consideram a educação ocidental, a civilização moderna, a prosperidade econômica e a conquista de direitos políticos como remédio para a doença nacional dos muçulmanos estão, sem dúvida, equivocados. Juro por Allah! Mesmo que todo muçulmano se torne mestre, Ph.D. ou advogado, enriqueça abundantemente, se vista da cabeça aos pés com roupas ocidentais e passe a ocupar todos os cargos do governo e todos os assentos dos conselhos [É preciso lembrar que aqui se faz referência aos cargos e assentos dos órgãos governamentais da Índia britânica. — Editor]
— e eles se apoderem deles, enquanto a doença da hipocrisia permanecer oculta em seus corações, não considerarem o dever como dever e se habituarem à desobediência, à rebelião e à conduta desregrada, continuarão mergulhados, como hoje, na desonra, na humilhação e na fraqueza. Na verdade, nenhum desses recursos — educação, modos de vida, riqueza ou poder estatal — poderá resgatá-los do profundo abismo [aqui, “abismo” significa subjugação] em que caíram por causa de seu caráter, comportamento e moralidade. Se os muçulmanos quiserem alcançar o desenvolvimento e o progresso e erguer-se como uma nação poderosa e digna, deverão, antes de tudo, cultivar as qualidades da fé e da obediência à lei. Sem isso, não poderá haver força em sua vida individual, nem a ordem e a disciplina poderão retornar à sua vida nacional. Além disso, sua força coletiva não poderá adquirir intensidade suficiente para que se elevem na vida deste mundo. Pois uma nação dispersa e desarticulada, cuja condição moral e interior de sua população é extremamente deplorável, jamais poderá erguer a cabeça diante das nações firmes, poderosas e bem organizadas do mundo. Por maior que seja uma pilha de palha, ela jamais poderá ser considerada uma fortaleza.
Aqueles que propagam a descrença e a desobediência entre os muçulmanos são os piores inimigos do Islã e dos muçulmanos. Pertencem à pior categoria de hipócritas; sua existência é mais perigosa para os muçulmanos do que a dos cáfirdes armados. Pois eles nunca atacam de fora; ao contrário, sentados dentro de casa, ficam secretamente espalhando dinamite. Querem humilhar os muçulmanos tanto no âmbito da religião quanto no mundo. Sobre essa categoria de pessoas, o Alcorão Sagrado diz que, assim como eles próprios se tornaram cáfirs, também desejam transformar vocês em cáfirs: (árabe) “Eles desejam que vocês também mergulhem na descrença, assim como eles mergulharam, e que desse modo se tornem iguais a eles.” (Surata An-Nissá: 89) O mínimo necessário para se proteger de sua maldade é que aqueles que são muçulmanos de coração e alma e desejam permanecer muçulmanos rompam relações com eles — (árabe) “Não os tomeis como amigos e protetores”; caso contrário, o Alcorão decretou para eles esta punição extrema: deverão ser combatidos.
(Árabe)
(Se não aceitarem isso, então capturai-os e matai-os onde quer que os encontreis.)
15
O verdadeiro significado da palavra muçulmano
[O artigo foi publicado pela primeira vez em novembro de 1933, na revista Tarjumān al-Qur’an. —Editor]
Em nossa conversa cotidiana, usamos frequentemente certas palavras e expressões que, embora sejam pronunciadas por todos, são compreendidas em seu sentido por pouquíssimas pessoas. Devido ao uso generalizado, apenas um significado aproximado delas se fixou na mente das pessoas. Quando quem fala pronuncia essas palavras, tem em mente esse tipo de significado. E, quando quem ouve as escuta, apreende igualmente esse tipo de significado. Mas o sentido amplo e profundo para o qual essas palavras foram criadas é desconhecido não apenas pelas pessoas incultas, mas até mesmo por muitos dos mais instruídos.
Como exemplo, podem ser mencionadas as duas palavras “Islã” e “muçulmano”. Com que enorme frequência essas duas palavras são pronunciadas, e quão amplamente elas influenciam nossa capacidade de expressão! Mas quantos dos que as pronunciam o fazem compreendendo-as? E quantos dos que as ouvem compreendem seu verdadeiro significado, o significado para o qual foram criadas? Deixemos de lado os não muçulmanos. Mais de 99 por cento dos próprios muçulmanos se identificam como “muçulmanos” e pronunciam a palavra Islã para expressar sua religião; mas o que significa ser “muçulmano”? E qual é o verdadeiro significado da palavra “Islã”? Eles não sabem. Por isso, apresentemos aqui uma breve explicação dessas duas palavras.
Ao examinarmos a situação das pessoas do ponto de vista da crença religiosa e da conduta, geralmente encontramos três categorias de pessoas:
1. A primeira categoria é formada pelos que reivindicam liberdade de opinião e de ação. Eles confiam em sua própria opinião em todas as questões. Consideram infalível a decisão de sua própria consciência e razão. Adotam o modo de agir que, segundo seu próprio entendimento, é correto. Não têm qualquer relação com a adesão a uma religião específica.
2. As pessoas da segunda categoria aparentemente seguem alguma religião, mas, na realidade, seguem suas próprias concepções. Não recorrem à religião para obter suas crenças doutrinárias e regras de conduta; pelo contrário, com base em sua própria natureza mental, inclinações, interesses e necessidades, consolidam em sua mente certas crenças que elas mesmas conceberam, adotam alguns métodos de ação inventados por si mesmas e depois procuram moldar a religião de acordo com eles — como se não fossem elas as seguidoras da religião, mas a religião é que fosse sua seguidora.
3. As pessoas da terceira categoria não realizam nenhuma ação com o auxílio de seu próprio discernimento e razão. Mantêm inativas a consciência e a razão e, de olhos fechados, limitam-se a imitar os outros — sejam eles seus pais e antepassados ou outras pessoas de seu tempo.
O primeiro grupo se sacrifica em nome da liberdade, mas não sabe qual é o seu limite correto. Não há dúvida de que a liberdade de pensamento e de ação é, em certa medida, legítima. Porém, quando ultrapassa os seus próprios limites, torna-se causa de erro. Aquele que, em todas as questões, depende da própria opinião e, em cada assunto, segue apenas as instruções da razão, está, na realidade, envolvido no erro de supor que seu intelecto dominou todas as questões do mundo do conhecimento; que nenhuma verdade ou complexidade está oculta ao seu olhar; que conhece os caminhos de cada destino; que está plenamente familiarizado com a lógica de cada doutrina; e que conhece, assim como o início de cada caminho, também o seu limite final. Essa ideia de conhecimento e consciência é, na realidade, apenas uma concepção equivocada. Se o ser humano fizer verdadeiramente do seu intelecto o seu guia, o próprio intelecto lhe dirá que, na realidade, ele não possui as qualidades com as quais o seu seguidor cego imagina adorná-lo. Quem o considera seu único guia e deseja caminhar seguindo apenas as suas instruções não poderá, de modo algum, escapar dos golpes, tropeços, desvios, erros e da destruição.
Na realidade, esse tipo de liberdade de pensamento e ação é prejudicial à cultura e à civilização. A reivindicação da liberdade consiste em que o indivíduo professe apenas a crença religiosa que, segundo a sua própria concepção, lhe pareça correta, e siga apenas o caminho que, aos olhos do seu intelecto, seja considerado correto. Em contrapartida, a exigência da cultura e da civilização é que os membros subordinados a essa ordem social concordem em determinados princípios e pensamentos fundamentais e sigam, na vida prática, as regras e disposições específicas estabelecidas para organizar e administrar a vida em sociedade. Portanto, existe uma clara oposição entre a liberdade de pensamento e ação e a cultura e a civilização. A liberdade cria no indivíduo arrogância, falta de disciplina e anarquia. A civilização exige dele obediência, submissão, cumprimento e sujeição. Onde houver liberdade plena, não haverá civilização nem vida em sociedade. E onde houver civilização, o indivíduo terá de sacrificar em grande medida a liberdade de pensamento e ação.
A situação do segundo grupo é ainda pior que a do primeiro. O primeiro grupo está apenas equivocado; o segundo, além disso, é mentiroso, hipócrita, enganador e invejoso. Se uma pessoa consegue, dentro dos limites razoáveis da interpretação e da análise, harmonizar a sua religião com o seu modo de pensar e as suas inclinações, então pode obedecer à religião mesmo mantendo a liberdade de pensamento e ação. Se as inclinações de uma pessoa forem contrárias à religião e, apesar disso, ela considerar correta a religião e equivocadas as suas próprias inclinações, ainda se poderá dizer, em grande medida, que é verdadeira a sua afirmação de que realmente segue a religião da qual se declara adepta. Mas, quando os ensinamentos claros da religião
e os seus preceitos são completamente diferentes das suas crenças e conduta, e ela considera verdadeiras as suas próprias ideias e equivocados os ensinamentos da religião, mas, ainda assim, tenta moldar os ensinamentos religiosos segundo as suas próprias ideias e costumes para se manter dentro dos limites da religião, não diremos que tal pessoa é tola; pois como poderia um tolo realizar uma ação tão cautelosa? Somos obrigados a chamá-la de infiel. Também somos obrigados a concluir que lhe falta a coragem moral suficiente para declarar abertamente uma rebelião contra a religião; por isso, seguindo o caminho da hipocrisia, finge ser adepta dela. Caso contrário, se os ensinamentos da religião são contrários às suas conclusões intelectuais e completamente opostos aos seus pensamentos e convicções reais, que coisa a impediu de abandonar essa religião? E quem a impediu de seguir os caminhos pelos quais deseja ardentemente andar?
O terceiro grupo é, do ponto de vista intelectual, o mais inferior de todos. O erro dos dois primeiros grupos é querer exigir do intelecto aquilo que ele é incapaz de fazer. O erro deste grupo, porém, é não aplicar de modo algum o intelecto ou, mesmo quando o aplica, fazê-lo como se não o aplicasse! O que poderia ser mais vergonhoso para uma pessoa inteligente do que não ter, em apoio à doutrina religiosa em que crê, outra prova além do fato de que seus antepassados também acreditavam nela ou de que determinada nação progressista também adere a essa doutrina? Do mesmo modo, a pessoa que segue certos costumes em assuntos religiosos ou mundanos apenas porque existem desde o tempo de seus antepassados, ou adota certos costumes apenas porque são praticados entre as nações influentes da época, demonstra, na realidade, que não possui em sua mente capacidade alguma para distinguir entre a verdade e a mentira, ou entre o certo e o errado. Por acaso ter nascido numa família hindu a levou a considerar correta a religião hindu. Da mesma forma, se tivesse nascido numa família muçulmana, consideraria o Islã baseado na verdade. E, se fosse filho de cristãos, sacrificaria a própria vida pelo cristianismo. Do mesmo modo, por mero acaso, em sua época considerou os costumes dos europeus o padrão da civilização. Se os chineses fossem poderosos, certamente os costumes chineses seriam reconhecidos por ele como o padrão da civilização. E hoje começaria a considerar os negros do mundo como o padrão da humanidade.
Não é prova de que algo seja verdadeiro e correto o fato de existir assim desde os nossos antepassados ou de ser praticado atualmente no mundo. Muitas coisas insensatas já aconteceram no mundo e continuam acontecendo. Nossa tarefa não é seguir cegamente essas insensatezes.
Também não é nossa tarefa seguir de olhos fechados qualquer prática antiga ou moderna e avançar ombro a ombro com qualquer viajante, quer ele nos leve para uma floresta de espinhos, quer para um enorme abismo. Pois Allah nos concedeu inteligência e conhecimento para distinguir o bem do mal no mundo, examinar o falso e o genuíno e, antes de tomar alguém como guia, observar cuidadosamente para que direção ele conduz. O Islã considera desviados os três grupos.
A respeito do primeiro grupo, Ele diz que, assim como essas pessoas não reconhecem como guia alguém que tenha recebido luz, também não possuem nenhuma luz adequada para orientá-las no caminho. O exemplo delas é como o de uma pessoa que, na escuridão, avança tateando apenas por conjecturas. Talvez às vezes siga pelo caminho reto, mas em outras caia num buraco. Isso porque a conjectura não é algo certo. Nela há possibilidade tanto de erro quanto de acerto; na verdade, a possibilidade de erro é maior:
وما يتبع الذين يدعون من دون الله شركاء ان يتبعون الا الظن وانهم ال يخرصون
Significado: Aqueles que consideram outros, além de Allah, como parceiros na divindade e os invocam, sabes o que seguem? Seguem apenas conjecturas e imaginações, e caminham meramente às cegas, guiados por suposições. (Surata Yunus: 66)
ان يتبعون الا الظن وان الظن لايغنى من الحق شيئا
Significado: Eles seguem apoiando-se apenas em conjecturas, mas a conjectura não orienta para a verdade nem sequer na medida de um átomo. (Surata Najm: 28)
ان يتبعون الا الظن وما تهوى الانفس ولقد جاءهم من ربهم الهدى ط ام للانسان ما تمنى
Significado: Eles não seguem nada além de conjecturas e dos desejos de suas próprias paixões, embora lhes tenha chegado a orientação de seu Senhor. Porventura, para o ser humano, será verdadeiro apenas aquilo que ele deseja? (Surata Najm: 23–24)
افرءيت من اتخذ الهه هوه واضله الله على علم وختم على سمعه وقلبه وجعل على بصره غشاوة فمن يهديه من بعد الله
Significado: Viste aquele que tomou os desejos de sua própria paixão como seu deus? Allah o desviou, apesar de seu conhecimento, selou seus ouvidos e seu coração e colocou uma cobertura sobre seus olhos. Então, além de Allah, quem poderá guiá-lo? (Surata Jathiya: 23)
ومن اضل ممن اتبع هواه بغير هدى من الله ط ان الله لا يهدى القوم الظلمين
Sentido: Quem é mais extraviado do que aquele que segue a própria paixão em vez da orientação dada por Deus? Deus jamais concede orientação a pessoas injustas desse tipo.’ (Surata Al-Qasas: 50)
Na época da revelação do Alcorão, os Filhos de Israel eram os representantes do segundo grupo. Eles alegavam ser seguidores de Moisés (que a paz esteja com ele) e obedecer à Torá. Contudo, a maior parte de suas crenças e condutas era contrária ao caminho seguido por Moisés e aos ensinamentos expostos na Torá. Além disso, o mais curioso era que eles não sentiam a menor vergonha por cometer tais injustiças. Em vez de moldarem seus pensamentos e suas ações de acordo com os ensinamentos da Torá, alteravam a própria Torá, literal e semanticamente, e a moldavam segundo seus pensamentos e ações. Ocultavam os verdadeiros ensinamentos da Torá e propagavam suas próprias concepções como se fossem os ensinamentos da Torá. Por causa desses atos de extravio e desvio, eles insultavam os servos de Deus que os advertiam e os convocavam a seguir a mensagem divina, contrariando seus desejos; chamavam-nos de mentirosos e chegavam até mesmo a matá-los. Por isso, o Alcorão diz a respeito deles:
يحرفون الكلم من مواضعه ونسوا حظا مما ذكروا به ولا تزال تطلع على خائنة منهم الا قليلا منهم
Sentido: Eles deslocam as palavras de seus devidos lugares e esqueceram grande parte dos bons conselhos que lhes foram dados. Continuamente tomais conhecimento de alguma traição cometida por eles. Poucos deles escaparam dessa traição.’ (Surata Al-Ma’idah: 13)
يااهل الكتب لم تلبسون الحق بالباطل وتكتمون الحق وانتم تعلمون
Sentido: Ó Povo do Livro! Por que misturais a verdade com a falsidade e por que ocultais a verdade conscientemente?’ (Surata Al-i Imran: 71)
كلما جاءهم رسول بما لاتهوى انفسهم فريقا كذبوا وفريقا يقتلون
Significado: Quando algum profeta lhes trouxe uma mensagem contrária às paixões de seus egos, a alguns chamaram de mentirosos e a outros mataram.” (Surata Al-Ma’ida: 70)
Em seguida, foi-lhes dito claramente:
(Árabe)
Significado: Não encontrareis o caminho correto enquanto não estabelecerdes a Torá e o Evangelho e não acreditardes no Livro que vos foi revelado pelo vosso Senhor (isto é, o Alcorão).” (Surata Al-Ma’ida: 68)
Sobre o terceiro grupo, o Alcorão diz:
(Árabe)
Significado: Quando lhes foi dito: “Segui as determinações reveladas por Allah”, eles responderam: “Seguiremos somente o caminho no qual vimos nossos antepassados caminharem.” E mesmo que seus antepassados nada tivessem compreendido, nada soubessem e não tivessem encontrado o caminho reto, ainda assim eles seguiriam seus antepassados? (Surata Al-Bácara: 170)
(Árabe)
Sentido: Sempre que lhes foi dito: “Vinde ao que Allah revelou e ao Mensageiro”, eles deram esta resposta: “Para nós é suficiente o caminho no qual vimos nossos antepassados caminharem.” Mas, mesmo que seus antepassados nada soubessem e não tivessem encontrado o caminho reto, ainda assim esse caminho seria suficiente para eles? (Surata Al-Ma’idah: 104)
(Árabe)
Sentido: Se obedeceres à maioria dos habitantes da Terra, eles te desviarão do caminho de Allah; eles apenas seguem conjecturas. O caminho deles baseia-se inteiramente em suposições e conjecturas. (Surata Al-An‘am: 116)
Aqueles que não usam sua própria razão, que não distinguem o genuíno do falso, mas simplesmente seguem cegamente a imitação dos outros — o Alcorão os qualificou como cegos, mudos e surdos:
(Árabe)
Sentido: Eles são cegos, mudos e surdos. Por isso, nada compreendem. (Surata Al-Baqarah: 171)
E eles foram comparados aos animais; na verdade, foram considerados ainda piores do que eles. Isso porque os animais, de fato, não possuem razão; mas, embora possuam razão, eles não a utilizam:
(Árabe)
Isto é: O exemplo destes é o dos animais; antes, eles são ainda piores do que estes e estão inconscientes.” (Surata Al-A‘raf: 179)
Depois de rejeitar esses três grupos extremistas, o Alcorão pretende formar um grupo composto por pessoas que sigam unidamente o caminho do meio (árabe). Esse grupo permanecerá sempre estabelecido na equidade e na justiça” (árabe).
Em que consiste esse caminho do meio? Consiste em romper o véu que os costumes antigos e a educação moderna lançaram sobre a visão das pessoas — abrir os olhos à luz clara de um discernimento saudável e investigar profundamente o que é verdadeiro e o que é falso. Deve-se julgar: o ateísmo está correto ou a doutrina divina? O tawhid está correto ou o shirk? É ou não necessário o mandamento divino para que o ser humano siga o caminho reto? Os profetas, que a paz esteja com eles, e Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, eram verazes ou — que Deus nos perdoe — mentirosos? O caminho de vida apresentado pelo Alcorão é reto ou tortuoso? Se o coração das pessoas testemunhar que a crença em Allah é uma exigência natural da natureza humana e que, na realidade, Ele é Allah, sem associado algum; se a consciência delas reconhecer que a luz concedida por Allah é absolutamente necessária para que o ser humano siga o caminho reto, e que esta é a luz trazida pelos profetas, que a paz esteja com eles, os verdadeiros guias da humanidade; se, ao observar a vida pura de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, as pessoas adquirirem a convicção de que alguém de caráter tão elevado jamais poderia enganar o mundo e de que sua afirmação de ser o Mensageiro de Allah é, sem dúvida, verdadeira; se, depois de estudar o Alcorão, o discernimento das pessoas chegar à conclusão de que tudo o que esse Livro grandioso apresenta é o único caminho reto para as crenças e as ações humanas — então é absolutamente necessário, sem temor da censura e da oposição do mundo inteiro, e purificando o coração e a mente de todo medo de prejuízo e de toda atração pelo ganho, crer naquela realidade cuja veracidade é testemunhada pela consciência das pessoas.
Além disso, quando, com o auxílio de um intelecto sadio, se distinguiu entre a verdade e a falsidade, abandonou-se a falsidade e se adotou a fé na verdade, terminou também o trabalho de verificação, exame e crítica do intelecto. Depois da adoção da fé, a autoridade para tomar decisões e emitir instruções passou das mãos do intelecto para as mãos de Allah, de Seu Mensageiro e de Seu Livro. A partir de então, não cabe às pessoas tomar decisões; cabe-lhes apenas aceitar, de cabeça baixa, cada mandamento de Allah e de Seu Mensageiro. Elas podem usar o próprio intelecto para compreender esse mandamento, descobrir suas sutilezas e sua lógica e aplicá-lo aos pormenores de sua própria vida. Mas ninguém tem o direito de fazer a menor alteração em qualquer mandamento divino. Quer a lógica e a conveniência de um mandamento sejam compreensíveis para as pessoas, quer não sejam; quer um mandamento passe pelo critério do intelecto, quer não passe; quer o mandamento de Allah e a ordem do Mensageiro sejam compatíveis com os costumes, usos e tradições do mundo, quer sejam contrários a eles — a tarefa das pessoas é submeter-se incondicionalmente diante dele. Quando aceitaram Allah, reconheceram o Mensageiro como Mensageiro de Allah e mantiveram a crença de que tudo aquilo que o Mensageiro apresenta vem de Allah e que ele não apresenta nada inventado por si mesmo (árabe), a exigência lógica dessa crença e convicção é que as pessoas deem precedência ao Livro de Allah e à Sunnah do Mensageiro sobre o próprio intelecto e se abstenham de avaliar todos os princípios e mandamentos explicados pelo Mensageiro em nome de Allah segundo os critérios de seu próprio intelecto, conhecimento, experiência ou segundo o pensamento e as ações de outras pessoas. Aquele que se declara crente e, ao mesmo tempo, desobedece ao mandamento divino contradiz ele próprio a sua afirmação. Pois não sabe que entre a fé e a desobediência existe uma contradição evidente. Também não sabe que a disciplina e a observância das regras (árabe) só se estabelecem por meio da aceitação e da obediência. A desobediência nada mais é que outro nome para a anarquia. O nome desse equilíbrio e desse caminho do meio é Islam. E aqueles que seguem esse caminho são chamados muçulmanos.
O significado de Islam é obediência, submissão às ordens e aceitação. E aquele que aceita, sem protestar, a ordem de quem ordena e a proibição de quem proíbe é chamado de muçulmano. Portanto, esse nome, por si só, revela a verdade de que, abandonando os três grupos mencionados e os caminhos por eles seguidos, este quarto grupo foi estabelecido com uma nova ideologia. Isso porque seus membros seguirão as ordens de Allah e do Mensageiro e se curvarão diante delas. A tarefa desse grupo não é seguir, em todos os assuntos, apenas o próprio discernimento. Tampouco lhe é permitido aceitar somente a parte do mandamento de Allah que é compatível com seus interesses e rejeitar a parte que se opõe a eles; nem abandonar o Livro de Allah e a Sunnah do Mensageiro para seguir indiscriminadamente todas as pessoas, vivas ou mortas. Isso também não pode ser sua conduta.
De fato, a explicação do Glorioso Alcorão sobre este assunto é extremamente clara. O Alcorão diz que, quando chega uma ordem de Allah e do Mensageiro sobre qualquer assunto, os crentes já não têm a opção de aceitá-la ou não:
(Árabe)
Isto é: Nenhum homem ou mulher crente tem o direito de, quando Allah e Seu Mensageiro tiverem decidido sobre algum assunto, conservar para si a opção de decidir sobre esse assunto; e quem desobedecer à ordem de Allah e de Seu Mensageiro terá caído em evidente desvio” (Surata Al-Ahzab: 36)
Ele diz: abolir parte do Livro de Allah é extremamente humilhante neste mundo e na Outra Vida:
(Árabe)
Significado: Credes em uma parte do Livro de Allah e rejeitais outra? Quem dentre vós fizer isso não terá outra punição senão ser profundamente humilhado na vida deste mundo, e, na Outra Vida, será impelido para o mais severo dos castigos. Allah não está desatento ao que fazeis.” (Surata Al-Baqara: 85)
Ele diz: o julgamento deve ser feito de acordo com o Livro de Allah, quer agrade às pessoas, quer não:
(Árabe)
Significado: Portanto, julga entre eles de acordo com o Livro que Allah revelou e não sigas os seus desejos, afastando-te da verdade que veio de Allah.” (Surata Al-Maida: 48)
Ele diz: aquele que não julga de acordo com o Livro de Allah é um transgressor:
(Árabe)
Significado: Todo julgamento contrário ao Livro de Allah é um julgamento da Jahiliyyah.’ (Surata Al-Ma’idah: 47)
(Árabe)
Significado: Será que eles desejam o julgamento da Jahiliyyah? Quem poderia oferecer aos crentes um julgamento melhor que o de Allah?’ (Surata Al-Ma’idah: 50)
Ele diz: Ó crentes! Obedecei a Allah, ao Seu Mensageiro e às autoridades encarregadas de vós. E, se realmente credes em Allah e no Dia do Juízo, sempre que surgir entre vós qualquer divergência, recorrei a Allah e ao Seu Mensageiro para resolvê-la — esse é o melhor caminho e também o melhor quanto ao resultado. (Ó Profeta!) Não viste aqueles que afirmam crer no Livro que te foi revelado e nos Livros revelados antes de ti, mas querem fazer dos desobedientes a Allah seus juízes em seus assuntos, embora lhes tivesse sido ordenado rejeitá-los? E Satanás deseja desviá-los, confundindo-os e afastando-os do caminho reto. Quando lhes é dito: “Vinde ao Livro enviado por Allah e vinde ao Mensageiro”, vês os hipócritas afastarem-se de ti. … Não enviamos Mensageiro algum senão com o propósito de que fosse obedecido, segundo a lei de Allah. … Não! Por teu Senhor, eles não serão crentes até que te tomem como juiz em suas disputas mútuas. E não basta isso; devem não sentir em seus corações qualquer hesitação quanto ao julgamento que proferires e submeter-se inteiramente a ele, sem contestação.’ (Surata An-Nisa: versículos 59–65)
A partir desta análise, tornou-se clara a justificativa dos nomes “Islam” e “muçulmano”. Agora, todos devemos refletir profundamente sobre até que ponto a palavra “muçulmano” pode aplicar-se a nós — que registramos o nome muçulmano nas listas do recenseamento — e até que ponto é justo chamar de Islam nossa conduta e nosso modo de agir.
16
A verdadeira fonte da força dos muçulmanos
[O artigo foi publicado pela primeira vez em janeiro de 1935, na revista Tarjuman-ul-Qur’an. — O editor]
Foi no início do segundo século da Hégira. Sajistão e Durkhaj
[Antigo nome do atual Afeganistão.]
O governante da época, cujo título de família era Rutbel, havia deixado de pagar tributo ao representante dos Banu Omíadas. Por isso, eram continuamente realizadas expedições militares contra ele. Mas ele não se submeteu de modo algum. Certa vez, Yazid ibn Abd al-Malik enviou-lhe um emissário para cobrar o tributo. Então ele perguntou ao emissário muçulmano: «Onde foram os homens que costumavam vir cobrar tributos? Seus ventres ficavam colados às costas como os dos famintos, havia manchas negras em suas testas e eles vestiam folhas de palmeira.»
Responderam-lhe que eles haviam sido derrotados. Rutbel disse: «Embora a aparência de vocês seja mais imponente que a deles, eles eram mais fiéis às suas promessas e mais fortes que vocês.»
Os historiadores dizem que, depois de dizer isso, Rutbel recusou-se a pagar tributo e permaneceu independente do Estado islâmico por quase meio século.
Isso ocorreu numa época em que estavam presentes numerosos tabi’un e tabi al-tabi’in. Era a era dos imames mujtahids. Naquele momento, havia transcorrido apenas um século desde o falecimento do nobre Profeta. Os muçulmanos predominavam no mundo como uma nação viva e poderosa. Haviam adquirido o poder governamental sobre países como o Irã, o Iraque, Roma, o Egito, a África e a Espanha. Em termos de equipamentos, esplendor e riqueza, nenhuma nação do mundo lhes era então igual. Tudo isso estava plenamente presente. A fé também permanecia vigorosa em seus corações. A observância das normas da Sharia era muito maior que hoje. Havia autoridade de liderança e um sistema para obedecer às suas ordens. Reinava na nação inteira uma disciplina extraordinária. Apesar disso, aqueles que haviam medido forças com os famintos, pobres e habitantes do deserto da época dos Companheiros perceberam uma diferença entre o céu e a terra ao comparar-se, equipados como estavam, com aqueles homens desprovidos de tais recursos. De que natureza era essa diferença? Talvez os historiadores queiram chamá-la simplesmente de diferença entre a civilização rural e a civilização antiga. Dirão que os antigos habitantes do deserto eram mais resistentes às dificuldades, enquanto os homens posteriores, graças à riqueza e à prosperidade civilizacional, haviam se tornado amantes do luxo. Mas eu direi: na realidade, essa diferença era a diferença entre fé, sinceridade, virtude de caráter e obediência a Deus e ao Mensageiro. A verdadeira força dos muçulmanos residia precisamente nessas coisas. A abundância numérica, o excesso de equipamentos, a prosperidade da riqueza, a excelência nas ciências e nas artes, os recursos da civilização e da cultura: nada disso era a fonte de sua força. Eles avançaram confiando apenas na fé e nas boas ações. Foi isso que os elevou no mundo. Foi isso que lhes estabeleceu um lugar de prestígio nos corações das outras nações. Enquanto possuíam esse patrimônio de força e dignidade, eram poderosos e respeitados apesar da inferioridade numérica e da falta de equipamentos. Quando esse patrimônio desapareceu, começaram a tornar-se fracos e sem dignidade, apesar da abundância numérica e do excesso de equipamentos.
O que Rutbel disse como inimigo é mais instrutivo que milhares de sermões de aliados e bons conselheiros. Na verdade, ele destacou esta verdade: a verdadeira força de uma nação não reside em seu exército bem equipado, em suas armas de guerra, em seus soldados e comandantes habilidosos nem na abundância de seus meios e recursos; ela reside, sim, em sua boa natureza, seu caráter firme, sua conduta correta e seu pensamento elevado. Trata-se de uma força espiritual que exerce sua autoridade no mundo sem recursos materiais. Ela faz com que os que se sentam no chão triunfem sobre os que ocupam tronos. Ela não lhes concede apenas a posse da terra, mas também a dos corações das pessoas. Por meio dessa força, os portadores de espadas envoltas em trapos, vestidos com folhas de palmeira, de corpos secos e esqueléticos, rostos sem brilho, podem estabelecer no mundo uma fama, influência, bravura, honra, dignidade e autoridade governamental que, sem essa força, nem mesmo os homens de roupas esplêndidas, corpos enormes e robustos, rostos radiantes, cortes elevadas, grandes canhões e imenso poderio conseguem estabelecer. Com efeito, a abundância de força moral pode compensar a falta de recursos materiais, mas a abundância de recursos materiais jamais pode compensar a falta de força moral. Sem essa força, mesmo que se conquiste influência apenas com recursos materiais, ela será incompleta e temporária; jamais será plena e sólida. Não fará os corações das pessoas se curvarem: apenas suas cabeças se inclinarão. E mesmo isso ocorrerá enquanto estiverem prontos para rebelar-se na primeira oportunidade.
Um edifício não se sustenta por sua variedade de cores, seus ornamentos, seu esplendor e beleza, seus pátios floridos e sua magnificência exterior. A abundância de moradores, o excesso de equipamentos e a profusão de meios e recursos não podem torná-lo sólido. Se seus alicerces forem fracos, se suas paredes forem frágeis e seus pilares estiverem corroídos pelos cupins, então, por mais cheio que esteja de moradores, por mais que contenha bens e móveis no valor de milhões, por mais que sua decoração ofusque os olhos das pessoas e encante seus corações, nada disso poderá impedi-lo de desabar. As pessoas veem apenas a aparência exterior; seu olhar fica preso ao objeto visível. Mas o curso dos acontecimentos da época vem confrontar não a aparência exterior, mas a verdade interior. Ele testa a resistência dos alicerces do edifício. Examina a firmeza e a solidez de suas paredes. Põe à prova a disposição e a instalação de seus pilares. Se essas coisas forem corretas, sólidas e estáveis, o curso dos acontecimentos da época será obrigado a recuar depois de colidir com tal edifício. Mesmo que o edifício não possua nenhum ornamento ou beleza estética, certamente triunfará sobre o curso dos acontecimentos. Caso contrário, o conflito dos acontecimentos acabará por reduzi-lo a pedaços, e ele será destruído levando consigo todos os seus habitantes e seus ornamentos.
A situação da vida nacional é semelhante. Uma nação não se torna viva, forte e elevada apenas por causa de suas casas, roupas, montarias, artigos de luxo, belas-artes, fábricas e escolas; antes, o que a eleva e fortalece é o ideal fundamental de sua civilização, a implantação desse ideal em seu coração e o estabelecimento de sua autoridade sobre sua conduta. Essas três coisas — isto é, a fé firme na pureza do ideal e sua plena autoridade na vida prática — têm na vida nacional a mesma importância que, num edifício, têm seus alicerces sólidos, suas paredes resistentes e seus pilares robustos. A nação em que essas três coisas estiverem plenamente presentes triunfará no mundo. Sua palavra prevalecerá. Sua autoridade governará no mundo de Allah. Nos corações das pessoas, será estabelecido o trono de sua reputação. Suas cabeças se inclinarão diante de suas ordens. Mesmo que habite numa cabana arruinada, vista roupas totalmente esfarrapadas, jejue a ponto de a pele de seu ventre se colar às costas, não possua sequer uma faculdade em seu país, não se veja uma única fábrica em suas localidades e esteja completamente atrasada nas ciências e nas artes industriais, ainda assim será ela a merecedora de respeito no mundo. Aquilo que as pessoas consideram instrumentos do progresso não passa de ornamentos arquitetônicos do edifício, não de suas paredes ou colunas. Contudo, mesmo que se cubra uma parede frágil com folhas de ouro, não será possível impedir que ela desabe. É precisamente isso que o Nobre Alcorão declara repetidamente.
O Alcorão afirmou, a respeito dos princípios fundamentais do Islã, que a orientação do Islã está de acordo com a natureza imutável e inalterável sobre a qual Allah criou o ser humano. Portanto, o Din sobre o qual esse princípio foi estabelecido é o “Din bem estabelecido”, isto é, um Din que estabelece corretamente todas as questões relativas a este mundo e ao mundo vindouro:
(Árabe)
Significado: Volta-te inteiramente para este Din. Não há mudança na natureza sobre a qual Allah criou os seres humanos. Esse é o Din correto. Porém, a maioria das pessoas não sabe disso.” (Surata Ar-Rum: 30)
Depois, Ele diz: Permanecei firmes sobre este Din bem estabelecido, crede nele e agi de acordo com ele. Seus frutos se manifestarão por si mesmos. Vós sereis elevados no mundo. A autoridade governamental sobre a terra vos será concedida. Vós sereis investidos da dignidade do Califado.
(Árabe)
Por outro lado, aqueles que aparentemente entraram nos limites do Din do Islã, mas em cujo coração o Din não estabeleceu seu assento, nem o Islã se tornou seu sistema de vida — sua aparência exterior é, sem dúvida, muito esplêndida;
(Árabe)
Suas palavras também são muito doces; (árabe)
Mas, na realidade, são bonecos de madeira sem vida.” (árabe)
Eles temem mais as pessoas do que a Allah: ” (árabe)
Suas ações são como uma miragem; embora pareçam água quando vistas, na realidade não são nada: ” (árabe)
Tais pessoas jamais conseguem alcançar força coletiva. Isso porque seus corações permanecem separados uns dos outros. Elas não conseguem participar unidamente de qualquer obra com devoção e sinceridade: ” (árabe)
Eles jamais poderão possuir força como os crentes e os virtuosos: ” (árabe) Jamais poderão alcançar a posição de liderança no mundo: ” (árabe) Para eles, tanto neste mundo quanto no além, não há senão humilhação e desonra neste mundo e um castigo severo no outro: ” (árabe)
Talvez muitos se surpreendam com o fato de o Alcorão ter declarado que somente a fé e as boas obras são o único meio para o progresso dos muçulmanos, para que obtenham força e autoridade e triunfem sobre todas as demais nações. Eles se espantarão porque em nenhum lugar se diz aos muçulmanos que construam universidades, abram escolas e faculdades, estabeleçam fábricas, construam navios, criem empresas, abram bancos, inventem instrumentos científicos ou imitem as nações avançadas em vestuário, costumes sociais e modos de vida. Por outro lado, o Alcorão qualificou a hipocrisia como a única causa do retrocesso, da decadência, da humilhação e da desonra neste mundo e no além — em nenhum lugar mencionou como causa da queda a ausência daquelas coisas que, no mundo de hoje, são consideradas fatores de progresso.
Mas, se for possível compreender a orientação fundamental do Alcorão, essa surpresa desaparecerá naturalmente. A primeira coisa a compreender a esse respeito é que aquilo que é chamado de “muçulmano” não tem outro fundamento senão o Islam. Sua identidade como muçulmano só pode ser determinada pelo Islam. Se ele crê na mensagem trazida por Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e obedece às normas reveladas por seu intermédio, então, mesmo que não possua consigo qualquer outra coisa além do Islam, este alcançará sua plenitude. Por outro lado, se ele estiver adornado com todos os recursos de beleza da vida terrena, mas não houver em seu coração a influência da fé e, em sua vida prática, estiver livre da obediência às normas islâmicas, poderá ser graduado, médico, industrial, banqueiro, comandante militar e tudo o mais, mas não poderá ser muçulmano. Portanto, se a essência da mensagem do Islam não estiver firmemente arraigada primeiro em uma pessoa ou em uma nação, nenhum de seus progressos poderá ser chamado de progresso de uma pessoa ou nação muçulmana. Nessas circunstâncias, por maior que seja o progresso realizado, ele jamais será considerado progresso dos muçulmanos. E é evidente que tal progresso jamais poderá ser o objetivo do Islam.
Naturalmente, é outra coisa quando uma nação não é de modo algum muçulmana e os fundamentos de seu pensamento, caráter moral e sistema social são diferentes do Islã. Sem dúvida, uma nação assim pode basear-se em princípios morais, sociais, políticos, econômicos e sociológicos diferentes dos do Islã e pode até alcançar o limite máximo do progresso que almeja. Mas é completamente diferente uma nação ter seu pensamento, caráter moral, economia e política fundamentados no Islã e, ao mesmo tempo, ser fraca tanto em sua convicção quanto em sua conduta no que diz respeito ao próprio Islã. Por mais abundantes que sejam os meios e recursos de desenvolvimento material que uma nação assim acumule, ser-lhe-á absolutamente impossível erguer-se como uma nação firme e poderosa e alcançar uma posição elevada no mundo. Isso ocorre porque os próprios fundamentos de sua nacionalidade, caráter moral, civilização e cultura são frágeis. A fraqueza de seus alicerces é tão grave que meros ornamentos exteriores jamais poderão eliminá-la.
Isso não significa negar a verdadeira importância da ciência, do conhecimento, das artes e dos diversos meios e recursos do desenvolvimento material. O verdadeiro significado é que, para a nação muçulmana, a importância dessas coisas é secundária. A solidez e a estabilidade dos fundamentos são mais importantes que todas elas. Uma vez que os fundamentos estejam estáveis, pode-se — e deve-se — recorrer a todos os recursos materiais compatíveis com eles. Mas, se esses fundamentos se enfraquecerem, se suas raízes não se firmarem no coração e seu controle se tornar frouxo na vida prática, o caráter moral, a disposição natural e as atividades da nação se deformarão, desorganizarão e mergulharão no caos, tanto no plano individual quanto no social; seu sistema social se enfraquecerá, suas forças e capacidades se dispersarão e se fragmentarão, e sua importância na competição internacional diminuirá. Como consequência, outras nações poderão até exercer domínio sobre ela. Em tal situação, a abundância de recursos materiais, a profusão de pessoas diplomadas e eruditas e o brilho da ostentação e da beleza exterior não terão utilidade alguma.
Há uma questão ainda mais importante. O Alcorão Sagrado declarou com extrema firmeza: “Se sois crentes, sereis vós os que triunfarão”, “O partido de Allah será vitorioso” e “Aqueles que forem adornados com a fé e as boas ações certamente obterão o califado na Terra”. Qual é a base dessa certeza? Por maior que seja a posse de recursos materiais por outras nações, com base em que fundamento se fez uma afirmação tão grandiosa: os muçulmanos triunfarão sobre elas apenas pela força das armas da fé e das boas ações?
O próprio Alcorão resolveu essa complexa questão:
(Árabe)
Significado: Ó humanidade! Está sendo apresentada uma parábola; escutai-a com atenção. Aqueles que invocais em vez de Allah não têm poder sequer para criar uma mosca. Mesmo que todos se unissem e empregassem sua força nessa tarefa, ainda assim não poderiam fazê-lo. Do mesmo modo, se uma mosca lhes arrebatasse alguma coisa, eles não teriam poder para recuperar dela aquilo que lhes tomou. Tanto o invocador quanto aquele que é invocado são fracos. Eles não atribuem a Allah a dignidade que Lhe é devida. Contudo, Allah é o verdadeiramente Poderoso e Digno de honra.” (Surata Al-Hajj: 73–74)
(Árabe)
Significado: Aqueles que tomam outras forças além de Allah como protetoras são semelhantes à aranha: ela constrói uma casa, mas, entre todas as casas, a casa da aranha é a mais frágil.” (Surata Al-Ankabut: 41)
Ou seja, aqueles que dependem apenas da força material têm como objetos de dependência coisas que, por si mesmas, não possuem força alguma. Como consequência natural de depender de um conjunto de coisas sem força, eles próprios se tornam impotentes. A fortaleza inexpugnável que constroem, segundo sua própria concepção, é tão frágil quanto uma teia de aranha. Os verdadeiramente poderosos e dignos de respeito erguem-se confiando em Allah; jamais se desenvolve entre estes a força capaz de enfrentá-los:
(Árabe)
Significado: Quem renunciou ao Ṭāghūt, ou às forças rebeldes contra Deus, e creu em Allah agarrou-se a uma corda firme que jamais será rompida.’ (Surata Al-Baqarah: 256)
O Alcorão também declarou firmemente que, sempre que houver uma disputa entre os crentes e os infiéis, os crentes serão os vencedores.
(Árabe)
Significado: Se os infiéis combaterem vocês, certamente darão as costas; depois, não encontrarão amigo nem ajudador. Essa é a lei de Allah, que vigora desde tempos imemoriais. E jamais encontrarão alteração na lei de Allah.’ (Surata Al-Fath: 22–23)
(Árabe)
Significado: Lançaremos o medo nos corações dos infiéis, porque associaram a Allah coisas às quais Ele não concedeu autoridade alguma.’ (Surata Āl ʿImrān: 151)
Isso se deve ao fato de que, quando uma pessoa luta pela causa de Allah, a força de Allah a auxilia; e contra aquele a quem Allah auxilia, o esforço de qualquer pessoa jamais pode prevalecer:
(Árabe)
Significado: “Isso se deve ao fato de que Allah é o Auxiliador dos crentes, enquanto os incrédulos não têm nenhum auxiliador.” (Surata Muhammad: 11)
(Árabe)
Significado: “Quando lançaste a flecha, não foste tu que a lançaste; foi Allah que a lançou.” (Surata Al-Anfal: 17)
Esta é a força dos crentes e das pessoas virtuosas. Por outro lado, também é uma lei eterna de Allah que, para aquele que é crente e de bom caráter, cujo comportamento e cujas ações estão livres da corrupção do egoísmo, e que, em vez de seguir as inclinações dos desejos e os impulsos biológicos, segue devidamente a lei estabelecida por Allah, um lugar de afeição se estabelece no coração das pessoas. O coração delas naturalmente se sente atraído por ele. Seus olhares respeitosos se fixam nele. Nas transações e nos negócios, pode-se confiar nele com tranquilidade. Todos, sem distinção entre inimigos e amigos, consideram-no veraz e confiam em sua cortesia, justiça e lealdade:
(Árabe)
Significado: “Aqueles que creem e praticam boas ações, Allah fará com que as pessoas abriguem amor por eles em seus corações.” (Surata Maryam: 96)
(Árabe)
Significado: Allah firma os crentes por meio de uma palavra firme, na vida terrena e também na Derradeira Vida.” (Surata Ibrahim: 27)
(Árabe)
Significado: Quem praticar boas ações, seja homem ou mulher, sendo crente, certamente lhe concederemos uma vida excelente e lhe concederemos a recompensa de suas melhores obras.” (Surata An-Nahl: 97)
Mas qual é a causa desses resultados? Eles não são simplesmente o resultado de pronunciar com a boca “Lā ilāha illā Allāh”, adotar o nome de muçulmano, aceitar certos costumes sociais específicos e cumprir alguns ritos e tradições calculados. Para que esses resultados se manifestem, o Alcorão Sábio estabeleceu como condição a fé e as boas obras. Seu objetivo é que a Sua autoridade se estabeleça em toda parte: nos pensamentos, nas concepções, no caráter moral e em todas as atividades dessas pessoas. Toda a sua maneira de viver será moldada segundo o verdadeiro molde desta palavra sagrada; nenhuma concepção contrária a ela encontrará lugar em suas mentes, e elas não se envolverão em nenhuma ação que se oponha a ela. Com efeito, o resultado de pronunciar com a boca Lā ilāha illā Allāh deve manifestar-se de tal modo que, no próprio instante da pronúncia, uma revolução poderosa se produza na vida das pessoas, e o espírito da taqwá penetre em suas veias e artérias. Elas não se prostrarão diante de nenhum poder além de Allah. Não estenderão as mãos diante de ninguém além de Allah. Em seus corações não haverá temor de ninguém além de Allah. Seu amor e sua inimizade não serão por ninguém além de Allah. Nenhuma lei além da lei de Allah vigorará em suas vidas. Estarão sempre prontas a sacrificar, pela satisfação de Allah, seus desejos pessoais, todas as suas aspirações e tudo aquilo que desejam e lhes agrada. Diante da ordem de Allah e de Seu Mensageiro, não terão outra palavra ou ação além de dizer: “Ouvimos e obedecemos”. Quando tal estado se estabelecer, sua força não será apenas a força de suas próprias almas e corpos; antes, será a força d’Aquele Todo-Poderoso diante de Quem todas as coisas dos céus e da terra estão submetidas. Elas resplandecerão com o brilho d’Aquele que é a verdadeira Amada e o verdadeiro Objeto de amor de todo o universo.
Foi justamente essa realidade que estava sob o domínio dos muçulmanos durante a época do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e dos Califas Bem-Guiados. A história é testemunha dos resultados que então se manifestaram. Naquela época, qualquer pessoa que pronunciasse as palavras “Lā ilāha illā Allāh” transformava-se por completo. De cobre bruto, subitamente se convertia em ouro puro; dentro dela surgia tal poder de atração que os corações das pessoas eram naturalmente atraídos por ela. Bastava alguém lançar-lhe um olhar para sentir como se estivesse contemplando a personificação viva da taqwá e da piedade. Talvez fosse analfabeta, pobre, estivesse em jejum, vestisse roupas rasgadas e estivesse sentada sobre uma esteira; ainda assim, o temor que inspirava nos corações das pessoas ocupava um lugar que nem mesmo os grandes e pomposos governantes tinham a sorte de alcançar. A existência de um muçulmano era como uma ilha: onde quer que estivesse ou para onde quer que fosse, seu brilho se espalhava ao redor. Com o auxílio dessa lâmpada, milhões de lâmpadas se iluminavam. Além disso, ele também tinha o poder de queimar e reduzir a cinzas quem não aceitasse essa luz ou quisesse entrar em conflito com ela.
Eram muçulmanos dotados de tal força de fé e caráter que, quando seu número era de apenas cerca de trezentos e cinquenta, desafiaram toda a Arábia para um confronto. E quando seu número chegou a várias centenas de milhares, avançaram com a determinação invencível de submeter o mundo inteiro; então, qualquer força que se levantasse para enfrentá-los era reduzida a pedaços.
Como foi dito acima, a verdadeira força dos muçulmanos é precisamente a força da fé e do bom caráter. Essa força só pode ser alcançada quando o significado das palavras “Lā ilāha illā Allāh” se enraíza firmemente no coração e na mente. Mas, se esse significado não estiver firmemente enraizado no coração, se essas palavras continuarem a ser pronunciadas apenas com a boca e nenhuma revolução ocorrer na visão de mundo e na vida prática — se, mesmo depois de dizer Lā ilāha illā Allāh, a condição da pessoa permanecer exatamente como antes, se ela temer as coisas além de Allah, como os descrentes dessa palavra, buscar a satisfação delas e se apegar ao seu amor, se tornar escrava dos desejos e impulsos, como eles, abandonar a lei de Allah e seguir as leis humanas ou seus próprios desejos, se em seus pensamentos, vontades, aspirações e capacidade de reflexão permanecer a mesma impureza existente nos pensamentos, desejos e reflexões de um não muçulmano, e se suas palavras, ações e conduta forem também iguais às de um não muçulmano — então, com base em quê o muçulmano obterá ascendência sobre o não muçulmano? Sem a força da fé e da taqwá, o muçulmano não é senão um ser humano exatamente como o não muçulmano! Consequentemente, a competição entre muçulmanos e não muçulmanos ocorrerá apenas com base na força física e nos recursos materiais; e, nessa competição, o mais forte vencerá o mais fraco.
A diferença entre essas duas situações está tão claramente estampada nas páginas da história que pode ser percebida de imediato. Em alguns lugares, vê-se que um pequeno número de muçulmanos derrotou grandes potências estatais e estendeu o domínio do Islã desde as duas margens do Atak [um afluente do Indo situado entre o Punjab e a Fronteira] até a costa do Atlântico. Por outro lado, hoje vemos que milhões e milhões de muçulmanos vivem no mundo, mas se encontram subjugados por potências não muçulmanas. Além disso, mesmo nas regiões onde milhões de muçulmanos vivem há vários séculos, hoje prevalecem o kufr e o shirk.
17
A religião é para homens corajosos, não para covardes
[O artigo foi publicado pela primeira vez em maio de 1936, na revista Tarjumān al-Qur’ān.]
Ao verem meu livro (Usura e sistema bancário moderno), repetidamente fazem um comentário. É o seguinte: na época atual, o sistema capitalista, apoiado pelo poder político, domina o mundo financeiro ao nosso redor. Toda a máquina da economia é conduzida pelo caminho indicado pelos princípios capitalistas. Os capitalistas são seus dirigentes, e, com sua ajuda, avançam no caminho do progresso aquelas nações que, na produção e no gasto da riqueza, não estão sujeitas a qualquer restrição religiosa ou moral. Por outro lado, nossas forças sociais e coletivas estão hoje dispersas e fragmentadas. Para não falar em transformar todo o sistema econômico do mundo, sequer somos capazes de estabelecer plenamente o sistema econômico islâmico entre nosso próprio povo. Nessas circunstâncias, se nossos vínculos religiosos nos impedirem de participar plenamente do sistema econômico vigente em nossa época, nosso povo não terá outro resultado senão ficar para trás das demais nações no aproveitamento dos meios e recursos do desenvolvimento e da prosperidade econômica. Como consequência, continuaremos a empobrecer, enquanto as nações vizinhas continuarão a enriquecer. Além disso, essa fraqueza econômica nos tornará débeis e impotentes também nos aspectos moral, político e civilizacional. Isso não é mera conjectura; no mundo real, vemos essa mesma situação há anos. E os sinais do destino que teremos de enfrentar no futuro tampouco são tão obscuros que não possam ser percebidos por ninguém. Qual é, então, o benefício de elaborar apenas as leis da Sharia? E que proveito há em enunciar a política econômica do Islã? Pelo contrário, nessas circunstâncias, queremos saber se, juntamente com a observância da lei islâmica, existe algum caminho para remediar nossa situação econômica e avançar rumo a um progresso cada vez maior. Se não houver, teremos inevitavelmente de enfrentar uma de duas situações: ou os muçulmanos serão completamente destruídos, ou, como os demais povos, também se libertarão dos grilhões das leis incapazes de acompanhar o curso dos tempos. Mas nosso argumento a esse respeito é que essa questão não se limita apenas à usura; seu alcance é extremamente amplo. Se, entre todos os aspectos e setores da vida, somente no setor econômico houvesse um negócio não islâmico estabelecido, a questão talvez fosse relativamente mais simples. Mas a realidade é diferente. Olhem para o mundo ao seu redor; examinem a própria situação. Que aspecto da vida está livre da influência e do domínio não islâmicos? Sobre as crenças, as correntes de pensamento e as ideologias, não prevalecem o materialismo e o ateísmo, ou pelo menos a dúvida e a incerteza? A irreligiosidade não domina o sistema educacional? A influência estrangeira não se estabeleceu sobre a cultura e a civilização? A ocidentalização não está profundamente enraizada até as camadas mais profundas da sociedade? O caráter moral está a salvo de sua influência? Está livre de seu domínio nas transações? Há sequer um entre as leis e regulamentos, a política estatal, as políticas e atividades governamentais, as ideologias e as ações que esteja livre de sua influência?
Dada a situação, por que querem limitar a questão em discussão a apenas um de seus aspectos? Tornem-na mais ampla e abrangente, e estendam-na à vida inteira. Digam, antes, que o rio da vida mudou seu curso. Primeiro, ele fluía pelo caminho do Islã; agora, corre por um caminho não islâmico. Não somos capazes de mudar seu curso. Nem sequer temos força e capacidade para nadar contra sua correnteza. Contudo, permanecer parados também traz o terror da morte. Nessas circunstâncias, que nos mostrem algum caminho pelo qual possamos continuar muçulmanos e, ao mesmo tempo, lançar nossa embarcação na correnteza desse rio que flui. Ou seja, continuaremos peregrinos da Caaba e também manteremos relações com a caravana que se dirige ao Turquestão. Em nossos pensamentos, ideologias, objetivos de vida, ideais de vida e métodos de ação, seremos não muçulmanos e, ainda assim, continuaremos muçulmanos. Se ninguém puder indicar um caminho para conciliar essas contradições, o resultado será que ou nos sentaremos às margens desse rio, ou um dia arrancaremos o rótulo do Islã afixado em nossa embarcação. Depois disso, veremos também nossa embarcação navegando uniformemente na correnteza do rio junto com as demais embarcações.
Quando nossos “iluminados” e “progressistas” discutem algum problema, apresentam como argumento final — considerado por eles o mais forte — que isso é a tendência da época, que o vento sopra nessa direção, que é assim que as coisas acontecem no mundo! Portanto, como podemos opor-nos a isso? E, mesmo que nos oponhamos, como poderemos sobreviver? Quando se levanta a questão da moralidade, dizem que os padrões morais do mundo mudaram. Isto significa: como podem os muçulmanos continuar agarrados àquele antigo padrão moral? Sobre o véu, dizem que o uso do véu desapareceu do mundo. Ou seja, como podem os muçulmanos não abandonar algo que já desapareceu do mundo? Quando se discute a educação, apresentam como prova final que não há demanda por educação islâmica no mundo. A intenção é esta: como pode uma criança muçulmana tornar-se algo que não tem demanda no mercado? E por que ela não haveria de tornar-se uma mercadoria do tipo que tem demanda? Sempre que se levanta uma objeção aos juros, dizem que hoje o mundo não pode funcionar sem juros. E como pode um muçulmano evitar aquilo que é absolutamente indispensável para o funcionamento do mundo? Em suma, em qualquer área da vida — educação, moralidade, sociedade, civilização, economia, leis, política e todas as demais — quando querem abandonar os princípios islâmicos e seguir o ocidentalismo, a tendência da época, o rumo do vento e o curso do mundo tornam-se, para eles, provas irrefutáveis. E essa prova é apresentada como arma para legitimar a imitação do Ocidente, isto é, o abandono parcial da religião; imagina-se que, por meio dela, seja dever demolir qualquer parte do edifício islâmico que se consiga atacar.
Nós dizemos: em vez de apresentar separadamente essas propostas de demolição, por que não formulam uma proposta completa reunindo-as todas? A elaboração de propostas distintas para destruir cada parede, cada pilar e cada aposento da casa, bem como a discussão separada de cada questão, apenas desperdiça tempo inutilmente. Por que não dizem, em vez disso, que é preciso demolir a casa inteira? Afinal, sua cor é diferente da cor da época, seu curso é contrário ao curso do vento, e sua estrutura é incompatível com a estrutura dos edifícios correntes no mundo.
É inútil discutir com aqueles que realmente defendem esse tipo de pensamento. A resposta direta e clara para eles é: por que vocês assumiram o risco de demolir esta casa e construir outra em seu lugar? Vão morar em qualquer das belas, elegantes e magníficas casas de que gostam. Se desejam deixar-se levar pela correnteza do rio, por que se dar ao trabalho de arrancar o rótulo desta embarcação? Instalem-se em qualquer uma das embarcações que já estão sendo levadas pela correnteza. Aqueles que não são muçulmanos em nenhum aspecto de seu pensamento, moralidade, vida social, economia, educação ou qualquer outra área da vida, e que não desejam permanecer muçulmanos, não trazem benefício algum ao Islã por continuarem nominalmente muçulmanos; pelo contrário, o dano é muito maior. Eles não adoram a Deus, adoram o vento. Se a idolatria se tornar predominante no mundo, certamente começarão a praticá-la. Se a nudez se disseminar no mundo, certamente tirarão as roupas que vestem. Se começar a consumir-se toda espécie de coisa impura, sem dúvida chamarão a impureza de pureza e a pureza de impureza. Sua mente é escrava; por isso anseiam pela escravidão. O ocidentalismo predomina em sua vida; por isso desejam tornar-se ocidentais em todos os campos, do privado ao público. E se amanhã os abissínios passarem a predominar, certamente tentarão tornar-se abissínios: cobrirão o rosto de tinta preta, engrossarão os lábios, encaracolarão os cabelos à maneira dos abissínios e começarão a venerar tudo o que vier deles. O Islã não precisa absolutamente de escravos desse tipo. Se os nomes dessas pessoas hipócritas e de tendências servis forem retirados da lista dos milhões de pessoas:
(Árabe)
Significado: “Eles amam a Allah, e Ele os ama. São humildes para com os crentes e firmes para com os incrédulos. Lutam e se esforçam no caminho de Allah e não temem a censura de ninguém por isso.” (Surata Al-Ma’ida: 54)
e restarem apenas alguns milhares de muçulmanos com esse caráter, o Islã será muito mais forte do que é atualmente. A saída daqueles milhões será, para ele, semelhante à extração do sangue corrompido do corpo de um doente.
(árabe) “Tememos que alguma calamidade nos atinja.” — Esta não é uma voz nova. Essa voz vem sendo proferida há muito tempo pelos lábios dos hipócritas. É justamente essa voz que revela a hipocrisia oculta no coração dessas pessoas. Os que proferem essa voz estão sempre olhando para o campo dos adversários do Islã. Eles sempre consideram os limites e as proibições estabelecidos por Allah como grilhões nos pés e uma corda no pescoço. A obediência a Allah e ao Mensageiro sempre lhes foi desagradável. Sempre viram na obediência a Allah prejuízo para a vida e os bens, e na desobediência a Ele todo o sucesso desta vida terrena. Portanto, as leis de Allah nunca foram alteradas para agradá-los; não podem ser alteradas agora, nem serão alteradas no futuro. As leis de Allah não foram reveladas para covardes e pusilânimes. Não foram reveladas para escravos do ego e do mundo. Não foram reveladas para palhas levadas pela força do vento, insetos arrastados pela correnteza da água e incolores que assumem todas as cores. Foram reveladas para leões humanos audazes, que têm a firme vontade de mudar o curso do vento, que possuem a coragem de lutar contra as ondas do rio e desviar sua correnteza. Para aqueles que amam a cor de Allah mais do que todas as cores do mundo e desejam tingir o mundo inteiro com essa cor. Quem é muçulmano não foi criado para ser levado pela correnteza do rio. O próprio propósito de sua criação é conduzir o rio da vida pelo caminho reto e direto indicado por sua fé e convicção. Se o rio desviar sua corrente desse caminho reto e ele consentir em deixar-se levar por essa corrente alterada, então sua alegação de ser muçulmano é completamente falsa. Na verdade, o verdadeiro muçulmano lutará contra essa corrente desviada, tentará com todas as suas forças mudar seu curso e não se importará nem com o sucesso nem com o fracasso. Ele aceitará qualquer dano que essa luta possa acarretar. Mesmo que, lutando contra a corrente do rio, seu braço se quebre, ou sua força se enfraqueça e as ondas da água o atirem, quase morto, contra alguma margem, ainda assim sua alma jamais aceitará a derrota. Em seu coração não surgirá, nem por um instante, qualquer arrependimento por esse fracasso exterior, nem haverá espaço para inveja ou complacência diante do sucesso dos incrédulos e hipócritas que se deixam levar pela correnteza do rio.
O Alcorão está diante dos muçulmanos. O exemplo e a vida dos profetas estão diante deles. Desde o início até hoje, a vida e a história dos imortais porta-estandartes do Islã estão diante deles. Será que eles aprendem com tudo isso que devem voar na direção para a qual sopra o vento? Que devem flutuar para onde a água flui? Que devem assumir a cor que a época assumir? Se esse fosse o propósito, que necessidade haveria de revelar algum Livro ou enviar algum profeta? Para sua orientação, o vento e as ondas; para guiá-los, o fluxo da vida mundana; e, para ensiná-los o caráter do lagarto, a inconstância da época já seriam suficientes. Allah não revelou nenhum Livro para esse tipo de ensinamento impuro, nem enviou profeta com esse propósito. A mensagem que veio da Entidade Suprema tem precisamente este objetivo: abandonar os caminhos equivocados pelos quais o mundo avança, construir um caminho reto, eliminar os caminhos opostos e tentar afastar o mundo desses caminhos. É preciso formar uma comunidade de crentes, e essa comunidade não deve apenas seguir o caminho reto por si mesma; deve também tentar conduzir o mundo nessa direção.
Os profetas, mensageiros e seus seguidores sempre se empenharam nesse propósito. Nesse empenho, não suportaram apenas sofrimento e dificuldades; fizeram sacrifícios ilimitados, chegando até a dar a própria vida. Ainda assim, nenhum deles jamais tomou o curso da época como seu padrão, por medo do perigo ou por tentação de interesses pessoais. Agora, se uma pessoa ou um grupo enxergar prejuízo, dificuldade ou perigo no caminho indicado pela orientação celestial e, assustado com tudo isso, quiser seguir um caminho cujos viajantes pareçam prósperos, bem-sucedidos e progressistas, poderá alegremente seguir o caminho de sua preferência. Mas que benefício esse tolo e ganancioso pretende obter ao tentar enganar a si mesmo e ao mundo inteiro, alegando ser seguidor do Livro de Allah e do caminho indicado pelo Profeta, embora os abandone? A desobediência, por si só, já é um grande pecado; que vantagem poderá ser obtida acrescentando-lhe mentira, fraude e hipocrisia?
A ideia de que, uma vez que o rio da vida flui em determinada direção, não se pode mais fazê-lo mudar de curso é tão equivocada do ponto de vista lógico quanto contrariada pelo testemunho da experiência e da observação. Não uma só vez, mas inúmeras vezes, ocorreram revoluções no mundo, e cada revolução mudou o curso do rio. O exemplo mais brilhante disso encontra-se justamente na história do Islã. Quando Hazrat Muhammad, que a paz esteja sobre ele, veio ao mundo, em que direção fluía então esse rio da vida? Não predominavam o kufr e o shirk em todo o mundo? Não estavam estabelecidos os poderes governantes tirânicos e despóticos? A desigualdade opressiva entre as classes não havia coberto a humanidade de manchas? Não predominavam a obscenidade na moralidade, a adoração do próprio ego na vida social, o feudalismo e o capitalismo opressivos na economia e a injustiça nas leis? Mas um único homem levantou-se e desafiou o mundo inteiro! Ele aboliu todos os pensamentos, doutrinas e métodos equivocados do mundo de então e, por meio da divulgação de uma doutrina própria e do jihad contra eles, desviou o curso do mundo e, desse modo, também mudou a cor da época.
O exemplo mais recente disso é o movimento comunista. No século XIX, o domínio do capitalismo havia chegado ao extremo. Ninguém tolo ou covarde poderia sequer imaginar, então, que seria possível derrubar o sistema estabelecido no mundo sob a proteção de tão terrível poder político e militar. Foi justamente em tal situação que um homem chamado Karl Marx começou a propagar o comunismo. Os governos de vários países se opuseram a ele. Ele foi expulso de sua própria terra. Percorreu diversos países, enfrentando a pobreza, a tristeza e as dificuldades. Mas, antes de morrer, criou um poderoso grupo de comunistas. Em apenas quarenta anos, esse grupo não apenas derrubou a força mais temível da Rússia; também abalou os alicerces do capitalismo em todo o mundo. Ao mesmo tempo, apresentou um sistema econômico e civilizacional tão poderoso que hoje o número de seus seguidores no mundo continua aumentando dia após dia.
Até mesmo as leis dos países onde a autoridade do capitalismo está profundamente arraigada hoje são influenciadas por ele. (Observação: trata-se da época do triunfo do regime comunista na Rússia. O artigo foi escrito em 1936.) Mas essa revolução ocorreu sob o efeito da força, e força significa moldar, não ser moldado. Em outras palavras, mudar algo de direção é força, não deixar-se desviar. Os covardes e tolos jamais criaram uma revolução no mundo. Pessoas sem princípios próprios ou objetivo de vida, sem disposição para sacrificar-se por uma grande causa, sem coragem para enfrentar sofrimento, dificuldades e perigos; pessoas que desejam acima de tudo conforto e facilidades no mundo, cujo hábito é deixar-se moldar por qualquer molde e curvar-se sob qualquer pressão — pessoas assim não têm nenhum feito significativo na história da humanidade. Isso porque somente os homens heroicos podem criar a história. Foram eles que, por meio de esforço incansável, sacrifício e jihad, mudaram o curso do rio da vida. Transformaram as concepções do mundo. Criaram uma revolução nos comportamentos e nos princípios de ação. Além disso, em vez de se tingirem com a cor da época, coloriram a época com a sua própria cor.
Portanto, não há nenhuma base para dizer: “Não se pode fazer o mundo retornar do caminho pelo qual avança; não há outra alternativa senão seguir a religião da época.” Em vez de fazer a falsa alegação de incapacidade, deve-se reconhecer a verdade da própria fraqueza. E, quando isso for reconhecido, também será preciso admitir que, para os fracos, não pode haver no mundo nem religião, nem princípio ou norma. Uma pessoa assim terá de curvar-se diante de qualquer poderoso. Terá de permanecer paralisada pelo medo de qualquer homem forte. Jamais poderá obedecer a qualquer princípio ou norma. E, se alguma religião continuar mudando seus próprios princípios por causa de tal pessoa, então, na realidade, ela não é religião alguma.
“As restrições islâmicas são um obstáculo ao caminho da prosperidade e do progresso” — isso também não passa de uma fraude. A questão é: qual das restrições do Islã os muçulmanos estão observando? Qual limite eles não transgrediram? Das coisas que os estão destruindo, qual delas o Islã lhes permitiu? Eles estão sendo destruídos pelo desperdício e pela extravagância. Por causa disso, todos os anos bilhões de unidades monetárias saem de seus bolsos e vão para os cofres dos agiotas. Propriedades no valor de bilhões lhes escapam das mãos. O Islã lhes permitiu isso? São seus próprios maus hábitos que os estão destruindo. Mesmo em meio a essa extrema pobreza, os cinemas e as diversões permanecem lotados de gente. Cada indivíduo gasta com roupas e produtos de beleza mais do que pode. Todos os meses, milhões saem de seus bolsos em costumes sem sentido, atividades ostensivas e divertimentos tolos. Qual dessas práticas o Islã tornou lícita para eles? O que mais os está destruindo é a negligência no pagamento da zakat e a atitude irresponsável para com a cooperação mútua. O Islã não tornou essas coisas obrigatórias para eles? Portanto, a realidade é que sua miséria econômica não é resultado da observância das restrições islâmicas; pelo contrário, é consequência de terem se libertado delas. Resta apenas a proibição dos juros; mas onde ela está sendo aplicada? Pelo menos 95% dos muçulmanos contraem empréstimos com juros sem qualquer incapacidade genuína. É isso que se chama observar as restrições da lei islâmica? Uma grande parte dos muçulmanos ricos recebe juros de uma forma ou de outra. Que importância tem não exercer formalmente o negócio de agiotagem? Os juros de bancos, seguros, títulos do governo, fundos de previdência e coisas semelhantes são recebidos pela maioria dos muçulmanos ricos! Então, onde está a existência da proibição dos juros, à qual eles atribuem sua situação financeira precária?
Mais espantoso e irônico ainda é que se argumente que a honra e a força nacional dos muçulmanos dependem da riqueza, e que a riqueza depende da legalidade dos juros! Parece que esses argumentadores nem sabem, afinal, de que depende a honra e a força. Na realidade, a mera riqueza jamais tornou qualquer povo honrado e poderoso. Mesmo que cada muçulmano se torne milionário ou bilionário, se não tiver força de caráter, acreditem: ninguém no mundo o respeitará. Por outro lado, se houver neles um verdadeiro caráter islâmico, se forem sinceros e dignos de confiança, livres da tentação e do medo, firmes nos princípios e honestos nas transações, se reconhecerem a verdade como verdade e o dever como dever, mantiverem sempre em vista a diferença entre o haram e o halal, e se sua força moral interior não permitir que o medo de qualquer prejuízo ou o atrativo de qualquer ganho os desviem da justiça nem que sua fé seja comprada por preço algum, então sua reputação se estabelecerá no mundo. Eles conquistarão um lugar de honra no coração das pessoas. Suas palavras serão mais importantes do que toda a riqueza de um milionário. Mesmo que vivam numa cabana de palha e vistam roupas remendadas, serão vistos com mais respeito do que aqueles que vivem sobre montanhas de riquezas. Como povo, adquirirão tanta força que jamais poderão ser derrotados. Quão atingidos pela pobreza eram os muçulmanos da época dos Companheiros! Viviam em cobertores, tendas e cabanas de palha. Eram completamente estranhos ao esplendor da civilização urbana. Suas roupas, alimentos e armas não eram adequados, e eles tampouco possuíam montarias luxuosas. Mas a reputação e a fama que tinham não foram alcançadas nem pelos muçulmanos dos períodos omíada e abássida, nem pelos muçulmanos de qualquer época posterior. Não possuíam riquezas, mas tinham força de caráter — e foi essa força que consolidou as bases de sua honra e superioridade. As gerações posteriores acumularam riquezas, conquistaram o poder estatal e construíram cidades e civilizações esplêndidas; mas nada disso pôde oferecer uma alternativa à sua fraqueza de caráter.
Os muçulmanos já esqueceram a lição da história islâmica; mas podem olhar para a história de qualquer povo do mundo. Não encontrarão um único exemplo de um povo que tenha alcançado força e honra apenas por meio do oportunismo, do amor ao conforto e do culto aos próprios interesses. Não encontrarão nenhum povo honrado e elevado que não siga algum princípio e alguma disciplina, que não seja capaz de suportar sofrimento, trabalho, esforço e austeridade por uma grande finalidade, e que não tenha a inspiração de sacrificar as exigências dos próprios impulsos e o próprio ser por um princípio e um objetivo. Em toda parte verão alguma forma dessa disciplina, dessa fidelidade aos princípios e do abandono do conforto e dos interesses pessoais em favor de grandes objetivos. No Islã, isso assume uma forma. Mesmo que saiam dele e se integrem a outra sociedade, terão necessariamente de seguir algum conjunto de regras, sob uma forma diferente. Terão de aceitar os laços de algum tipo de disciplina. Serão inevitavelmente presos às correntes de certos princípios definidos, e algum sacrifício lhes será exigido em nome de um princípio e de um objetivo. Se não tiverem esse desejo, se forem sedentos apenas de suavidade e doçura e não tiverem força para aceitar qualquer dureza ou amargura, podem sair das restrições do Islã e ir para onde quiserem para verificar: em lugar algum ocuparão um assento de honra. De lugar algum poderão obter força. O Islã expressa essa regra geral em apenas quatro palavras. E toda a história do mundo testemunhou a verdade dessas quatro palavras: “Certamente, com a dificuldade vem a facilidade”. Essa facilidade está sempre ligada à dificuldade. Quem não tem força para suportar a dificuldade jamais poderá ser adornado com a virtude da facilidade.
18
A doença e seu remédio
[O artigo foi publicado pela primeira vez em dezembro de 1937, na revista Tarjumanul Qur’an. — Editor]
O Islã não é apenas uma crença, nem tampouco um conjunto de certos rituais e costumes “religiosos”; antes, é um plano abrangente para toda a vida humana (Scheme). Nele, a crença religiosa, a adoração e as normas da vida prática não são coisas separadas; ao contrário, todas elas formam um conjunto único e indivisível, cujas partes se relacionam entre si exatamente como se relacionam os órgãos de um corpo vivo.
Corte os braços e as pernas de uma pessoa viva. Separe seus olhos, ouvidos e língua. Retire seu estômago e fígado. Separe seus pulmões e sua bexiga. Remova também algumas partes, maiores ou menores, de seu cérebro e deixe apenas o coração em seu peito. Poderá esse órgão manter vivos os demais componentes do corpo? E, mesmo que os mantenha vivos, eles permanecerão aptos para alguma função?
A situação do Islã é exatamente assim. A convicção, ou fé, é o seu coração. E a atitude mental, o ideal de vida, o objetivo da vida e os valores que brotam dessa convicção são o seu cérebro. A adoração e as práticas religiosas são os seus membros. É apoiando-se neles que ele permanece de pé e cumpre continuamente os seus deveres. Os princípios que o Islã estabeleceu acerca da economia, da vida social, da política e da administração geral equivalem ao seu estômago, fígado e demais órgãos vitais. Ele precisa de olhos sãos e límpidos e de ouvidos intactos, para fornecer ao cérebro informações corretas sobre o curso dos acontecimentos de sua época, permitindo que o cérebro tome decisões precisas a respeito deles. Precisa de uma língua sob seu próprio controle, para poder expressar adequadamente a sua personalidade. Precisa de uma atmosfera limpa e pura para respirar. Precisa de alimento puro e lícito, capaz de produzir sangue saudável em harmonia com o seu estômago.
Em todo esse sistema, embora o coração, isto é, a convicção, seja importante, sua importância se deve precisamente ao fato de conceder força vital a todos os membros. Quando a maioria dos membros é cortada, separada do corpo ou destruída, como pode o coração, sozinho, permanecer vivo junto dos poucos membros restantes, aleijados e enfermos? E, ainda que permanecesse vivo, que valor poderia ter essa vida?
Agora, pensem por um momento na situação que o Islã apresenta nesta Índia — Bengala, Paquistão e Índia — (é preciso lembrar que o artigo foi escrito em 1937, tendo em vista o período de servidão; contudo, o seu conteúdo continua inteiramente aplicável ao ambiente de independência atual — Editor). Aqui, as leis islâmicas estão quase completamente inativas. Na moralidade, na vida social, na economia e em todos os demais aspectos da vida, os princípios islâmicos não são efetivos em mais de cinco por cento. A educação, o treinamento e o ambiente não islâmicos transformaram as mentes e os intelectos das pessoas em não muçulmanos, em alguns casos completamente e, em outros, em maior ou menor grau. Seus olhos conseguem ver, mas sua perspectiva mudou. Seus ouvidos conseguem ouvir, mas o filtro mudou. Palavras saem de suas bocas, mas há uma diferença em seu modo de falar. Como há uma atmosfera venenosa por toda parte, seus pulmões não conseguem respirar ar puro. Como todo o depósito de alimentos foi contaminado, o estômago não recebe alimento puro e lícito. Dos membros do corpo islâmico que são as práticas de adoração, sessenta por cento estão paralisados. Mesmo os quarenta por cento restantes, embora saudáveis, não produzem efeito algum, pois não têm relação com os outros órgãos. É por isso que a doença da paralisia se espalhou progressivamente entre eles. Nessas condições, pode-se chamar de Islã completo aquilo que temos diante de nós? Alguns de seus órgãos foram cortados, outros foram abandonados e outros, embora ainda presentes, estão enfermos e incapazes de funcionar corretamente. Junto deles resta apenas um coração, e ele também está enfermo. Pois, assim como concedia força vital àqueles órgãos, também extraía força deles. Portanto, quando as funções do cérebro, dos pulmões, do estômago, do fígado e assim por diante foram destruídas, como pode o coração, sozinho, permanecer saudável e forte? Ainda assim, graças à tremenda força contida nesse coração, ele não apenas continua vivo, como também consegue, de algum modo, manter os demais membros em funcionamento. Mas terá ele força para estabelecer uma influência própria na vida dos habitantes do país? Pelo contrário — Deus não permita —, quero fazer justamente esta pergunta: diante da onda de calamidade que avança dia após dia com intensidade cada vez maior, poderá ele, nessas condições, salvar os demais membros de sofrerem mutilações ainda maiores e salvar a si mesmo das garras da morte? Na realidade, é precisamente por isso que a doença da rebelião e da aversão ao Islã, completamente oposta à entrada da sociedade muçulmana em massa na religião de Allah (em árabe: “eles entram na religião de Allah em grupos”), está se espalhando rapidamente hoje. Em toda a Índia e nas regiões próximas, não se vê em parte alguma o modo de vida islâmico funcionando com toda a sua maquinaria. Por isso, as pessoas também não conseguem contemplar a sua beleza e perfeição, nem conhecer a árvore por meio de suas flores. Vendo apenas esse Islã sem membros, pensam: “Pronto, isso é tudo o que existe no Islã.” Ao vê-lo assim, alguns chegam a declarar abertamente: “Nós não somos muçulmanos.” Outros não negam que sejam muçulmanos, mas, pelo que dizem, não se encontra diferença alguma entre eles e os que não creem no Islã. Muitos já se afastaram interiormente, mas, como ainda não surgiu uma rebelião aberta, permanecem entre os muçulmanos juntamente com os hipócritas. Naturalmente, para que também possam erguer uma bandeira quando começar uma grande desordem, espalham secretamente as sementes da rebelião. Contudo, mesmo sem dizê-lo claramente, as pessoas murmuram: “Preparem-se para se dissolver no novo nacionalismo e numa civilização ainda mais nova. Pois o cadáver que vocês têm diante de si não apenas é incapaz de lhes trazer qualquer benefício; ao contrário, ao dissolverem-se em outros, ele também não lhes permite obter a prosperidade que talvez pudessem alcançar.” Segundo alguns, a única solução para esse problema é despedaçar o Islã. Dizem que os muçulmanos deveriam permanecer muçulmanos apenas até o limite das práticas religiosas. No restante da vida, deveríamos aceitar o que os não muçulmanos nos ensinam e os programas que eles seguem. Não sei se essas pessoas estão enganadas ou se querem enganar os outros. Mas esqueceram — ou querem fazer os outros esquecer — esta verdade: depois de adotar uma ideologia não islâmica em todos os assuntos da vida e habituar-se a regras e normas não islâmicas, a convicção religiosa e as práticas religiosas inevitavelmente se tornam completamente frágeis. Pois a convicção e a adoração são a verdadeira base; foram estabelecidas precisamente para construir sobre elas todo o edifício da vida. Se esse edifício for erguido sobre uma fundação diferente, por quanto tempo permanecerá o atrativo inútil e desnecessário desses antigos vestígios? A criança que for criada segundo um novo modo de vida e chegar à juventude certamente perguntará: “Por que colocaram em meu pescoço as correntes de algumas crenças sem sentido e de alguns costumes? Por que devo ler o Alcorão, cujas disposições e leis se tornaram hoje inteiramente inúteis, e por que devo ter fé nele? Por que devo reconhecer como Mensageiro de Allah aquele homem que partiu há mais de mil e trezentos anos? Se ele não pode orientar a minha própria vida, que benefício há em reconhecer verbalmente apenas a sua profecia, e que prejuízo há em negá-la? No modo de vida que sigo, que diferença faz orar ou não orar, jejuar ou não jejuar? Que relação existe entre esse modo de vida e essas práticas? Por que devem ser mantidas juntas, de forma tão inadequada, na minha vida?” Esta é a consequência mais natural de dividir a religião e o mundo. Quando essa divisão se completar em princípio e na prática, esse resultado inevitavelmente aparecerá. Assim como o coração se torna completamente inútil depois de ser separado do corpo, também a convicção e as práticas de adoração perdem toda a importância depois de se desligarem da vida real. A convicção e as práticas de adoração concedem força vital à vida islâmica, e a vida islâmica, por sua vez, fornece força à convicção e às práticas de adoração. Como disse acima, existe entre essas duas coisas uma relação semelhante à dos membros de um corpo vivo. Se essa relação for rompida, a morte de ambos será inevitável. Além disso, unir a convicção e as práticas de adoração islâmicas a um modo de vida não islâmico será tão absurdo quanto enxertar o cérebro, as mãos ou os pés de um ser humano no corpo de um gorila.
Que ninguém pense que apenas um pequeno grupo de pessoas instruídas pela educação moderna está sendo afetado pela atual situação deplorável do Islã; de modo algum. Hoje, todos os que são muçulmanos sinceros, em cujo coração estão presentes o amor e o respeito por esta religião — tanto os antigos quanto os novos, sem exceção — estão sendo afetados, em maior ou menor grau, por essa situação. O colapso do modo de vida islâmico é uma calamidade geral; nenhum muçulmano está a salvo de suas consequências naturais, nem é possível permanecer a salvo. Todos nós participamos dela na medida de nossas próprias capacidades. Nisso, nossos alim e nossos pirs sahib participam tanto quanto as pessoas instruídas em escolas e faculdades.
Mas quem se encontra em meio à maior calamidade são as dezenas de milhões de pessoas comuns que vivem nesta vasta região de 1,6 milhão de milhas quadradas. Para elas, restou apenas o nome do Islã, pelo qual, contudo, nutrem um amor extraordinário. Mas pode-se dizer que, do ponto de vista do conhecimento, elas não têm consciência alguma daquilo pelo qual estão sacrificando a própria vida dessa maneira. E, na prática, não existe atualmente nenhum modo de vida capaz de protegê-las das influências não islâmicas. Aproveitando-se de sua ignorância, qualquer força enganadora pode desviar sua fé, sua aqida e sua vida prática do Sirat al-Mustaqim do Islã. Basta dar-lhes este falso consolo: que a desorientação e o desvio apresentados diante delas constituem o verdadeiro caminho reto ou, pelo menos, que não são contrários ao Islã. Depois, elas podem ser empurradas, à vontade, por qualquer caminho — qadიანismo, comunismo, fascismo e assim por diante. Isso porque, na situação atual de desordem e confusão, não se está fazendo nenhuma tentativa de resolver, à luz dos princípios islâmicos, os problemas surgidos de sua pobreza crescente e de sua terrível miséria.
Entre os muçulmanos não existe nenhum grupo organizado capaz de avançar, diante do comunismo de hoje, com os ideais econômicos e civilizacionais do Islã, nem de apresentar soluções para os problemas de extrema importância para as pessoas comuns. Como resultado, essas dezenas de milhões de muçulmanos pobres e famintos tornaram-se presas fáceis para os propagandistas comunistas. Entre a classe burguesa, os que são um pouco mais ousados e ávidos de poder estão sempre procurando novos artifícios e expedientes para conquistar o poder do Estado. Depois da Revolução Russa, essas pessoas encontraram uma nova estratégia: fingir simpatia pelos camponeses e trabalhadores e colocar as massas pobres sob seu controle. Acender nelas o fogo do egoísmo, da cobiça e da vingança. Seduzi-las com a promessa de lhes dar mais riqueza do que seus direitos legítimos. Prometer tomar até mesmo os bens legítimos dos ricos e distribuí-los entre elas. Desse modo, depois de colocar a maioria da população sob seu controle, querem arrancar o poder do Estado das mãos dos imperadores, diretores e magnatas do sistema capitalista. São mais esperançosos quanto à população muçulmana do que quanto à não muçulmana, pois, economicamente, os muçulmanos são os mais miseráveis! Para conquistar seus corações, estão abrindo caminho pelo estômago, pois, no corpo inteiro de uma pessoa faminta, essa é a parte mais vulnerável! Dizem-lhes: “Venham, deixem-me mostrar-lhes o caminho para apagar a desigualdade entre ricos e pobres e trazer conforto econômico”. Ao ouvir isso, o pobre muçulmano faminto corre atrás deles na esperança de obter dois pedaços de pão e um punhado de arroz. Então eles o aconselham a adotar, em lugar da adoração de Deus, a religião da adoração do estômago. Isto é, procuram criar a ideia de que a religião e a fé não servem para nada; o que importa é o alimento do estômago. O meio pelo qual ele puder obtê-lo será sua religião, e nele estarão sua salvação e seu bem-estar:
“Os despossuídos, pobres e escravos não têm religião nem civilização. Sua maior religião é um pedaço de pão. Sua maior civilização é uma muda de roupa velha. Sua maior fé é libertar-se da pobreza e da humilhação. Pois é por causa desse pão e dessa roupa que ele é obrigado a roubar. No mundo atual de pobreza e escravidão, ele não tem outra religião.”
Esta é a primeira lição da religião comunista (Comunismo). Ao transmitir essa lição, também se oferece ao pobre e ignorante muçulmano este falso consolo: “Nós não interferimos na sua religião. Fiquem tranquilos:”
Que motivo há para a religião e a fé religiosa temerem essas questões? Que relação elas têm com isso? A religião permanece sempre viva e radiante por sua própria força moral e espiritual. [Estas duas passagens foram citadas de um artigo de um escritor muçulmano. O artigo havia sido publicado em uma revista muçulmana de ampla circulação.]
Todos os que estão bem informados sabem que influência o comunismo exerceu sobre a juventude muçulmana da Rússia em vinte anos. Um futuro igualmente calamitoso aproxima-se também dos muçulmanos do subcontinente, com uma ameaça terrível. A fome espalhou suas chamas devoradoras para incinerar o patrimônio de sua fé. Por enquanto, sua brecha é pequena e pode ser fechada com uma única costura. Mas, se mais alguns anos passarem assim, em meio à negligência, ela virá com uma força de inundação tão enorme que, para enfrentá-la, até mesmo uma represa colossal será arrastada como palha.
Nessas circunstâncias, é absolutamente inútil sair pregando o Islã apenas à maneira dos missionários cristãos. Mesmo que se publiquem não um, mas milhões de folhetos para purificar a aqida e a fé, a situação não mudará. De que adianta exaltar a grandeza do Islã apenas com palavras ou por escrito? Hoje é necessário demonstrar o estabelecimento da beleza do Islã no mundo real. O simples fato de dizer que a solução dos problemas de nossa vida está contida no ideal islâmico não resolverá automaticamente nossos problemas. É necessário tornar efetivas todas as forças e belezas existentes no Islã. Este mundo é um mundo de conflitos e lutas. Seu curso não pode ser mudado por meras palavras. Para mudá-lo, é necessária uma jihad revolucionária. Se os comunistas, com seu ideal equivocado, conseguiram estabelecer sua influência e seu poder em uma vasta parte do mundo em meio século; se os fascistas, com um método incoerente, conseguiram estabelecer sua fama e reputação no mundo; se a política de não violência de Gandhi, apesar de ser algo anormal, conseguiu manifestar-se apenas por meio de esforço e perseverança, então não há razão alguma para que os muçulmanos, portadores do ideal eterno de honestidade e justiça, não voltem a se estabelecer no mundo. Mas esse estabelecimento não pode ser alcançado apenas por sermões, exortações e bons conselhos. Para isso, são necessários esforços e iniciativas práticas, e é preciso agir pelo caminho escolhido por Allah.
“Luta revolucionária” é uma expressão ambígua. Na prática, ela possui muitos métodos, e muitos outros métodos ainda podem existir. Contudo, qualquer que seja o tipo de revolução desejado, deve-se adotar um método plenamente compatível com a natureza da revolução. Para a revolução que desejamos realizar, não há necessidade de procurar um método novo. Isso porque essa revolução já foi realizada no mundo antes. O grande homem que realizou essa revolução pela primeira vez conhecia perfeitamente também a sua natureza. Ainda hoje é possível realizar essa revolução seguindo o caminho por ele seguido. A vida e o caráter desse grande homem são algo extraordinário. Mas, por outro lado, constituem também um modelo perfeito. Quem pode apresentar hoje um exemplo tão grandioso de caráter elevado, piedade, discernimento, justiça, personalidade forte e qualidades próprias de um grande homem? E quem seria capaz de realizar uma revolução de tão alto nível? Sob esse aspecto, sua vida e seu caráter são realmente algo extraordinário, e não há dúvida de que esse prodígio continuará a fascinar a humanidade até o Dia da Ressurreição. Contudo, o modelo deixado por esse grande homem conserva, em seu espírito e em sua natureza, o mesmo caráter revolucionário que tinha há mil e trezentos e tantos anos. Quanto mais esse modelo for seguido e imitado, mais resultados revolucionários se manifestarão. Além disso, esses resultados se aproximarão cada vez mais dos resultados da revolução realizada pela força do modelo original. Sob esse aspecto, não há dúvida de que ele é um modelo perfeito. Esse modelo pode ser imitado pelos seres humanos até o Dia da Ressurreição. Seguindo esse grande modelo, uma revolução desse tipo pode ser realizada em qualquer época e em qualquer país — no século XX ou no século XXIV, no subcontinente, na América ou na Rússia.
Não há espaço aqui para descrever em detalhes o método pelo qual o Nobre Mensageiro (s.a.) realizou uma revolução no mundo há mil e trezentos e tantos anos. Meu objetivo aqui é apenas dar uma breve indicação de que o plano da instituição Darul Islam [Esta instituição foi fundada em 1938. Mais tarde, quando a Jamaat-e-Islami foi formada, em agosto de 1941, essa instituição foi incorporada a ela.] surgiu de um estudo aprofundado desse grande modelo.
Quando o Grande Profeta (s.a.) surgiu, não havia sequer uma pessoa muçulmana no mundo. Foi nessa situação que ele apresentou seu chamado ao mundo. Gradualmente, as pessoas começaram a aceitar o Islã, uma ou duas de cada vez, de forma isolada. Essas pessoas possuíam uma fé mais firme que as montanhas. Eram tão devotadas ao Islã que não há exemplo igual no mundo. Contudo, por estarem isoladas e cercadas pelos descrentes, eram naturalmente indefesas e fracas. Por isso, sua força se consumia apenas na luta contínua contra o próprio ambiente; mas não conseguiam transformar a situação que elas e seu grande líder lutavam com todas as forças para mudar. Assim, o Nobre Mensageiro (s.a.) empreendeu esforços incessantes durante treze anos. Nesse período, conseguiu organizar apenas um pequeno grupo de pessoas crentes e devotadas. Depois, Allah, o Altíssimo, ordenou-lhe que adotasse um método diferente. Esse método consistia em abandonar o ambiente de incredulidade com aquelas pessoas devotadas, reuni-las num só lugar e criar um ambiente islâmico; construir uma morada adequada para implementar todo o programa do modo de vida islâmico; estabelecer um centro para produzir força social e coletiva entre os muçulmanos; reunir toda a energia elétrica num só lugar e distribuí-la de maneira bem regulada; e construir uma central elétrica (Power House) para iluminar e fazer resplandecer, por meio dela, cada região do mundo. Com esse objetivo, ele migrou para “Medina Tayyiba”. Foi ordenado a todos os muçulmanos que viviam dispersos entre as diversas tribos da Arábia que se reunissem nesse centro. Ali, o Islã foi demonstrado na prática por meio do exercício concreto. Nessa atmosfera pura e sagrada, todo o grupo recebeu um treinamento tão intenso no modo de vida islâmico que cada indivíduo se transformou num Islã vivo. Ao olhar para qualquer um deles, podia-se compreender o que é o Islã e por que ele veio. Eles foram tão profundamente imbuídos da cor de Allah:
(Árabe)
que, em vez de aceitar a cor dos outros, tingissem os demais com a sua própria cor. Neles foi criada uma força de caráter tal que jamais fossem influenciados por outros; ao contrário, qualquer pessoa que entrasse em contato com eles acabaria influenciada. O objetivo do modo de vida islâmico foi introduzido em suas veias e artérias de tal maneira que recebesse prioridade em cada ato da vida, enquanto todos os demais objetivos mundanos ocupassem uma posição secundária. Por meio da educação e do treinamento, foram capacitados de tal modo que pudessem implementar, a qualquer custo, o modo de vida transmitido pelo Alcorão e pela Sunnah, destruir toda forma de distorção e reconstruí-la à sua luz.
Cada parte dessa organização extraordinária merece ser profundamente estudada e ponderada. Toda a atividade dessa organização foi dividida em quatro grandes áreas:
1. Formar um grupo de pessoas para adquirir proficiência na religião do Islã e explicar adequadamente às pessoas as normas e disposições do Islã:
(Árabe)
2. Deve-se preparar algumas pessoas para concretizar o código de conduta do Islã e dedicar a própria vida à sua divulgação e propagação. É dever da organização isentar essas pessoas da responsabilidade de ganhar o próprio sustento. Mas elas mesmas não se importarão com isso. Haja ou não algum meio de prover os recursos necessários, movidas por seu interesse sincero e desprezando todo tipo de sofrimento e dificuldade, continuarão empenhadas em realizar o objetivo supremo de sua vida:
(Árabe)
3. Deve-se despertar entre todos os membros do grupo uma disposição tal que cada um considere a propagação da palavra de Alá o objetivo de sua vida. Eles continuarão cuidando dos assuntos mundanos, é verdade, mas terão esse objetivo diante de si em cada atividade. O comerciante não o esquecerá em seus negócios, o agricultor em seu trabalho agrícola, o industrial em sua atividade industrial, nem o empregado em seu emprego. Lembrarão sempre que essas atividades existem para que possam viver, e que viver existe para realizar essa tarefa. Qualquer que seja o campo em que atuem, observarão os princípios e ideais do Islã em suas palavras e ações, caráter e comportamento; se em algum lugar surgir conflito entre os interesses mundanos e os ideais islâmicos, pisotearão os interesses, mas não se desviarão dos princípios nem desonrarão o Islã. Além disso, dedicarão ao serviço do Islã todo o tempo e os bens que conseguirem economizar de suas necessidades pessoais e ajudarão e apoiarão aqueles que estão dedicando a própria vida a essa tarefa: (árabe)
4. Deve-se permitir que pessoas de fora venham ao Dar al-Islam, para que possam compreender melhor o Alcorão por meio do modo de vida real da Palavra de Alá e do ambiente islâmico, e possam retornar levando uma influência relativamente mais profunda:
(Árabe)
Assim, em apenas oito breves anos, a central elétrica de Medina, a maior guia e pioneira do mundo, gerou uma força tremenda; antes que se percebesse, essa força iluminou toda a terra da Arábia. Depois, seus raios de luz saíram da Arábia e se espalharam por todos os cantos do mundo. Mesmo hoje, após o transcurso de mais de mil e trezentos e cinquenta anos, essa central elétrica continua repleta de energia e recursos.
Logo após o Califado dos Rashidun, quando vários tipos de desordem surgiram no sistema de vida islâmico, nossa comunidade sufi também, imitando esse processo, estabeleceu khanqahs em diversos lugares. Hoje, o significado da palavra khanqah foi tão deturpado que, ao ouvi-la, surge na mente das pessoas a imagem de um lugar grotesco, privado de luz e ar. Na realidade, porém, essa khanqah era apenas uma imitação do ideal estabelecido pelo Profeta do mundo em Medina. As pessoas nas quais se descobria algum talento eram isoladas do mundo exterior pela respeitável comunidade sufi e mantidas por algum tempo na khanqah, onde recebiam treinamento de alto nível, à imitação do Profeta e dos nobres Companheiros.
Aqueles que hoje desejam criar uma revolução de tipo islâmico também deveriam adotar um processo semelhante. Se em algum lugar fora deste subcontinente não for possível encontrar um ambiente livre adequado para estabelecer um “Dar al-Islam” como o de Medina, então ao menos neste país deveria ser criado um centro de treinamento semelhante, onde se estabelecesse um ambiente puramente islâmico. Um lugar onde o caráter e a sociabilidade islâmicos se refletissem, onde se desenvolvesse uma maneira de pensar prática como a dos muçulmanos e onde, por todos os lados, resplandecessem o espírito e as formas islâmicas. Um lugar onde somente a permissão ou a ordem de Alá e do Mensageiro bastasse para declarar algo correto, e onde a proibição ou a reprovação de Alá e do Mensageiro fosse reconhecida como o único critério para considerar algo errado. Um lugar onde não existisse esse ambiente de desobediência total e rebeldia, nem esse entorno não islâmico; onde houvesse ao menos capacidade para aceitar as influências externas favoráveis ao espírito islâmico e proteger o modo de vida, a mente e o coração das influências adversas. Um lugar onde pudéssemos criar um ambiente adequado para pensar como muçulmanos, desenvolver a percepção interior muçulmana e fazer florescer as virtudes quase extintas na atmosfera venenosa do Dar al-Kufr. Acima de tudo, um lugar onde pudéssemos purificar nossa vida da sujeira e da impureza que, por termos nascido e sido criados em um ambiente não islâmico, penetraram em nossos pensamentos, ideias e ações; sujeira que às vezes nem percebemos e que, mesmo quando percebida, se ergue com uma força tão terrível que, apesar de todos os esforços, não conseguimos nos proteger dela. Nesse tipo de centro de treinamento seriam reunidas apenas pessoas de coração sincero, desejosas de servir ao Islã, e ali elas receberiam educação e treinamento adequados para serem preparadas para esse serviço. Ali deveria ser adotado o plano seguido pelo nobre Profeta. Do mesmo modo, todo o trabalho deveria ser dividido em diferentes setores, e em cada setor a humanidade deveria ser remodelada segundo o molde do Islã.
1. Um grupo deverá incluir pessoas altamente qualificadas. Entre elas, as que forem versadas nas ciências e nos conhecimentos islâmicos deverão ser familiarizadas com as línguas ocidentais e com as ciências e os conhecimentos modernos. E as que tiverem estudado as ciências e os conhecimentos modernos deverão receber ensino da língua árabe e das ciências e dos conhecimentos islâmicos. Ao mesmo tempo, deverão estudar profundamente o Alcorão e a Sunna, adquirindo erudição e discernimento acerca da religião do Islã. Depois, deverão ser divididas em diferentes grupos. Cada grupo deverá dedicar-se a um ramo do conhecimento, nele incorporando os princípios e a ideologia islâmicos segundo métodos modernos e, compreendendo os problemas modernos da vida, buscar suas soluções à luz dos princípios islâmicos. Além disso, deverão expulsar a visão de mundo ocidental que penetrou nos fundamentos das ciências e dos conhecimentos, reorganizá-los a partir da perspectiva islâmica e, com o auxílio de suas próprias pesquisas e investigações, produzir literatura honesta capaz de provocar uma revolução mental em defesa do Islã.
2. No segundo grupo, deverá ser feito um esforço para formar quadros dedicados ao serviço do Islã. Somente deverão ser admitidas pessoas de bom caráter, caráter firme, determinadas e prontas a sacrificar tudo em prol de seu objetivo. Elas se organizarão na forma de um poderoso grupo revolucionário. Seu modo de vida será simples e despretensioso. Haverá entre elas resistência às dificuldades e plena disciplina. Sua vida prática será como a de muçulmanos autênticos. Esse grupo avançará com um programa destinado a construir, sobre os princípios islâmicos, uma nova ordem social e uma nova civilização; apresentará esse programa ao povo, acumulará o máximo possível de força política e, por fim, tomará o controle da máquina estatal para transformar o sistema de governo baseado na opressão vigente em um sistema de governo baseado na justiça.
3. No terceiro grupo, deverão ser admitidas pessoas que, depois de permanecerem algum tempo no centro de treinamento, retornarão para suas vidas. Elas serão liberadas após receberem conhecimento correto e treinamento moral. Onde quer que vivam, viverão como muçulmanas. Em vez de serem influenciadas por outros, exercerão sua própria influência sobre eles. Permanecerão firmes em seus princípios e sólidas em suas próprias opiniões e crenças. Jamais viverão uma vida sem propósito. Um objetivo claro estará sempre diante delas. Ganharão seu sustento por meios halal e estarão prontas a ajudar, por todos os meios possíveis, as pessoas que trabalham no segundo grupo. Dar-lhes-ão também ajuda financeira e participarão de seu trabalho prático. Além disso, procurarão tornar seu próprio ambiente favorável ao grupo revolucionário.
4. O quarto grupo será destinado a muçulmanos e não muçulmanos que desejem visitar temporariamente o centro de treinamento para obter algum benefício educacional ou observar seu modo de vida. Deverão receber o máximo de facilidades, para que possam retornar levando consigo uma profunda impressão do Islã e de seus ensinamentos.
Este é um plano geral. É apenas um esboço do sistema que consideramos indispensável para criar uma revolução islâmica. O êxito desse sistema dependerá inteiramente de sua essência e de suas qualidades. Para alcançar o êxito almejado, será necessário estabelecer uma semelhança cada vez maior entre ele e a ordem social ideal fundada pelo nobre Profeta, que a paz esteja com ele, em Medina.
Estabelecer semelhança com a Medina Iluminada não significa que sejamos favoráveis à semelhança na forma exterior, nem que desejemos recuar do atual estágio civilizacional e voltar ao estágio civilizacional da Arábia de mil e trezentos e tantos anos atrás. É absolutamente equivocada essa concepção acerca da obediência ao nobre Mensageiro, que a paz esteja com ele, e aos seus nobres Companheiros. Infelizmente, a maioria dos nossos religiosos sustenta precisamente essa ideia equivocada. Segundo eles, vestir-se e alimentar-se como os antigos piedosos e sábios é o que se chama segui-los. Da mesma forma, conservar até o Dia do Juízo, em forma inteiramente arcaica e fossilizada, seus costumes familiares, sua civilização e sua cultura cívica; fechar os olhos às mudanças ocorridas fora do próprio ambiente; erguer um muro ao redor da própria mente, pensamento e modo de vida; e não permitir que nele entrem o curso do tempo e as mudanças da época — esse seria o dever dos que lhes são fiéis. Na realidade, essa concepção, que durante vários séculos da era do declínio predominou na mente dos muçulmanos religiosos, é totalmente contrária ao espírito islâmico. Pois permanecer, ainda em vida, como um vestígio da antiguidade e transformar a própria vida em uma peça histórica da civilização antiga não é de modo algum ensinamento do Islã. Ele jamais ensina o ascetismo ou o reacionarismo. O objetivo do Islã não é criar no mundo uma nação que apenas tente impedir a mudança e o desenvolvimento progressivo; pelo contrário, deseja criar uma nação que procure fazer a mudança e o desenvolvimento progressivo retornarem do caminho equivocado e conduzi-los pelo caminho correto. O Islã nos dá a essência, não a casca. Ele deseja que, quaisquer que sejam as diferentes cascas da vida criadas até o Dia do Juízo pelas mudanças do espaço e do tempo, continuemos a infundir nelas essa mesma essência. Como muçulmanos, esse é o nosso propósito no mundo. O objetivo de nos tornar a melhor comunidade não é que permaneçamos como retaguarda dos povos que avançam pelo caminho do desenvolvimento; ao contrário, nossa tarefa é oferecer imamato e liderança. Fomos criados para ser pioneiros, e o segredo de sermos a melhor comunidade está contido nas palavras (árabes).
O verdadeiro exemplo do nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) e de seus nobres Companheiros, que devemos seguir, é que eles cumpriram plenamente o direito da vice-gerência divina no mundo, utilizando as leis naturais à luz das leis morais. Dentro da casca da condição civilizacional existente em sua época, eles insuflaram a essência vital da civilização islâmica. Fizeram das forças naturais então submetidas ao domínio humano servidoras dessa civilização. Quanto a utilizar todos os meios e recursos que a civilização de então havia reunido para seu progresso e influência, eles estavam à frente até mesmo dos incrédulos e idólatras, para que, em oposição à civilização dos rebeldes contra Deus, pudessem construir a civilização dos obedientes a Deus. Deus Todo-Poderoso ensinou precisamente isso em Seu Livro (árabe): foi-lhes ensinado que, no aproveitamento das forças criadas por Deus, os muçulmanos têm mais direito do que os incrédulos; na verdade, os muçulmanos são os legítimos detentores desse direito. Portanto, a verdadeira obediência ao nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e a seus Companheiros consiste em esforçar-se para transformar em servidoras da civilização islâmica, tal como na primeira época, as ferramentas e os recursos hoje reunidos em consequência do desenvolvimento civilizacional e da descoberta das forças naturais. Não há sujeira nem impureza nesses recursos; elas estão na civilização da incredulidade que deles se serve. O rádio não é uma coisa impura; impura é a civilização que transformou o diretor de rádio em organizador de danças e músicas ou em propagador de mentiras e falsidades. O avião não é um objeto impuro; impura é a civilização que, em vez da lei divina, utilizou-o a serviço de conspirações satânicas, como se o tivesse recebido do anjo do ar. Do mesmo modo, o cinema ou a película cinematográfica também não é algo impuro; impura é, na realidade, a civilização que emprega essa força criada por Deus na propagação da obscenidade e da indecência. [Isso também se aplica igualmente à televisão dos tempos atuais — editor.] A razão pela qual a civilização impura se desenvolve e prospera hoje é que essas forças estão sendo utilizadas para seu desenvolvimento e prosperidade. Se quisermos cumprir devidamente o dever que nos foi imposto de promover hoje o desenvolvimento e a prosperidade da civilização divina, teremos de utilizar essas mesmas forças. Na realidade, essas forças são como uma espada: quem a utilizar, seja para um propósito impuro ou para um propósito puro, alcançará seu objetivo. Se aquele que tem um propósito puro simplesmente permanecer sentado, confiando na pureza de sua intenção, sem utilizar a espada, isso será um grave pecado, e ele terá inevitavelmente de sofrer a punição por esse pecado. Pois, neste mundo regido pela causalidade, a lei instituída por Deus não pode ser alterada por consideração à vontade de ninguém.
A partir desta explicação, torna-se claro que o movimento que estou prestes a apresentar não é um movimento reacionário, nem um movimento progressista cujo objetivo seja apenas alcançar o desenvolvimento material. Para o centro de treinamento que tenho em mente, Gurukul Kangri, Satyagraha Ashram, Shantiniketan e Dayalbagh [estas são instituições semelhantes a ashrams dos hindus — editor] não servem de modelo. Do mesmo modo, para o partido revolucionário que imagino, nem os fascistas da Itália nem o Partido Nacional-Socialista da Alemanha servem de modelo. Seu único modelo encontra-se em Medina, a cidade do Mensageiro, e no Hizbullah (o partido de Deus) formado pelo Profeta (que a paz esteja com ele).
— Fim —