Introdução

Neste livro, tentei explicar detalhadamente o método de tabligh dos profetas e mensageiros. Atualmente, assim como as pessoas possuem um conhecimento incompleto e imperfeito sobre a religião, também têm uma concepção extremamente limitada e defeituosa sobre a propagação da religião. Neste livro, apresentei o Islã como um sistema de vida — e, na realidade, ele o é. Em conformidade com isso, também discuti detalhadamente as medidas que devem ser tomadas para estabelecer esse sistema de vida e as exigências de esforço e empenho que devem ser cumpridas. Baseei cada capítulo deste livro em provas e argumentos sólidos do Alcorão Majid. Além disso, onde considerei necessário, também forneci sua explicação com o auxílio de hadiths autênticos. Espero que aquele que ler este livro com profunda atenção também receba, por meio dele, ajuda para compreender o Alcorão.

Alguns amigos me acusam de apresentar o conteúdo de forma muito sucinta. Não presto atenção ao fato de cada leitor conseguir ou não compreender bem a exposição. Por meio deste livro, tentei eliminar a acusação levantada contra mim. Que Allah, o Altíssimo, me conceda sucesso nesse assunto, e que as pessoas possam obter dele o máximo benefício.

Humildemente,
Amin Ahsan

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Defeitos no método corrente de tabligh

Durante um período considerável, assim que se ouve a palavra tabligh (pregação), a mente, o cérebro e o pensamento das pessoas dirigem-se imediatamente aos meios e métodos que se tornaram correntes e aceitos entre os muçulmanos para a divulgação e o estabelecimento do Islã. Quando uma longa prática torna um método bem conhecido para realizar determinada tarefa, sua marca se imprime de tal modo no coração que as pessoas já não conseguem pensar separadamente dele. Para realizar essa tarefa, considera-se esse mesmo método como o método natural e completo. Todo aquele que se dispõe a empreendê-la também adota esse método. Às vezes, alguém sai de casa decidido a evitar esse caminho, mas, ao avançar, acaba novamente se voltando para aquilo de que havia saído decidido a fugir. Por isso, é necessário descrever primeiro, ainda que resumidamente, os erros do método atual de tabligh.
Em nossa opinião, o método corrente de tabligh contém erros tanto teóricos quanto práticos. Em outras palavras, pode-se dizer que esse método é equivocado também do ponto de vista filosófico. Por essa razão, a maioria das medidas tomadas até agora em nome da divulgação do Islã não apenas se mostrou, na maior parte dos casos, infrutífera quanto ao objetivo, como também causou considerável dano à missão islâmica. Primeiramente, indicarei os erros teóricos desse método.
Erros intelectuais no método corrente de tabligh
Primeiro erro: o maior erro cometido até hoje ao apresentar o Islã foi que os responsáveis pela pregação não compreenderam corretamente o papel deles próprios e o do Islã. Por isso, não puderam apresentar o Islã exatamente como o Alcorão o apresentou à humanidade. O Alcorão Sagrado apresentou o Islã como a religião escolhida por Deus desde o início da criação. Sempre que Deus Todo-Poderoso enviou um profeta a algum povo, enviou-o com esta religião. Os diversos povos introduziram continuamente falhas e defeitos nessa religião escolhida por Deus, e Deus, por meio de Seus profetas, continuou corrigindo esses defeitos. Finalmente, Ele enviou Seu último Mensageiro, revelou a religião de todos os Seus profetas e mensageiros em estado completamente correto e perfeito, e a preservou para sempre de qualquer mistura, alteração ou distorção. Essa religião está preservada na forma do Alcorão Sagrado. Não é a religião de uma nação específica; é a religião de toda a humanidade e a religião trazida por todos os profetas de Deus. Quem a aceitar será conhecido como muçulmano, e quem não a aceitar será considerado não muçulmano. Essa religião não faz qualquer distinção entre os profetas de Deus, não rejeita nenhum dos Livros enviados por Ele e não reivindica supremacia exclusiva sobre ninguém. Sua única reivindicação é ser o resumo confiável dos ensinamentos de todos os profetas e a conclusão e perfeição de seus ensinamentos.
Entretanto, nossos pregadores e escritores apresentaram essa religião exatamente ao contrário: como a religião da nação muçulmana e como inimiga de todas as religiões do mundo. Para provar sua veracidade, ridicularizaram os ensinamentos dos demais Livros celestiais. Às vezes, levados pela emoção e pela agitação, exageraram tanto que, embora se declarassem muçulmanos e afirmassem crer em todos os profetas, zombaram até mesmo dos ensinamentos desses Livros nos quais tinham a maior responsabilidade de acreditar. Compararam o Profeta — que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele — com os demais profetas e tentaram demonstrar a inferioridade destes. Contudo, o Alcorão Sagrado afirma que Deus concedeu a cada um de Seus profetas uma distinção particular em certos aspectos. Também esclareceu especificamente o aspecto pelo qual concedeu honra ao Mensageiro de Deus — que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele. O próprio Profeta — que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele — proibiu severamente que se reivindicasse uma distinção especial sobre os demais profetas. Mas os muçulmanos apresentaram o Islã e o Profeta — que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele — movidos pela emoção do fanatismo religioso cego. Não foram apenas os oradores e pregadores profissionais comuns que caíram nesse erro; nossos ilustres escritores, autores e compiladores também se envolveram nele, embora os livros que escreveram fossem o único meio pelo qual muçulmanos e não muçulmanos podiam compreender o Islã. Abra os livros dos autores ilustres escritos sobre o Islã. Neles encontrará, a respeito dos outros profetas e de seus ensinamentos, palavras tão venenosas que ficará claro que, assim como os judeus e cristãos haviam sido acometidos pela doença de criar divisão entre Deus e Seus mensageiros, os muçulmanos também foram acometidos pela mesma doença. Ainda assim, os muçulmanos pegaram esses livros com honra e respeito e ouviram com entusiasmo sermões e discursos desse tipo, pois eles fazem brilhar o verniz de sua arrogância e orgulho.
Por outro lado, aqueles cujas obras e discursos não continham essa mistura de amargura e doçura não conseguiram alcançar popularidade nem entre o público em geral, nem obtiveram importância nos círculos especiais. Não se pode negar que os críticos do Islã também tiveram grande participação na criação dessa literatura de tabligh venenosa. Mas, em nossa opinião, os próprios escritores muçulmanos foram os que erraram. Como consequência da adoção desse método de resposta equivocado, surgiu confusão nas mentes dos não muçulmanos. Eles não passaram a considerar o Islã como algo que havia vindo para recordar-lhes a verdade esquecida e fazer os herdeiros de seus profetas e mensageiros retornarem a eles. Ao contrário, olharam para o Islã com os olhos do ódio, como para um inimigo e um conquistador que queria arrancar-lhes sua religião e triunfar sobre eles.
Segundo erro: o segundo erro intelectual cometido ao apresentar o Islã foi não apresentá-lo como um sistema de vida, que concentra numa unidade os problemas pessoais, coletivos, práticos e doutrinários da vida humana e os resolve de maneira racional e conforme a natureza humana. Em vez disso, nossos missionários e polemistas gastaram toda a sua energia em certos temas que surgiram dos conflitos religiosos com cristãos e hindus, como a questão da eternidade ou da origem da alma e da matéria, a doutrina da reencarnação, a divindade do Messias — que a paz esteja sobre ele —, a controvérsia da Trindade e assuntos semelhantes. Um grupo de polemistas profissionais de cada religião sente grande atração por temas desse tipo. Seu verdadeiro objetivo não é resolver esses problemas, mas torná-los ainda mais sensíveis. Tentar silenciar pessoas assim significa desperdiçar as próprias forças e capacidades e perder o próprio tempo.
No entanto, nossos missionários consumiram a vida nesses campos de conflito. Nem sequer sentiram necessidade de refletir que esses são apenas temas atraentes para pessoas inclinadas à controvérsia, que não desejam resolvê-los, mas torná-los ainda mais complicados. O restante do mundo enfrenta hoje problemas de natureza diferente. O mundo está inquieto para encontrar soluções para eles, e sua salvação depende de que sejam solucionados. A religião que avançar e apresentar uma solução aceitável para esses problemas será a religião do futuro do mundo inteiro. Se, num mundo que se exauriu experimentando métodos inventados por ele próprio e não encontra solução para seus problemas culturais e coletivos, o Islã tivesse sido apresentado não na forma de algumas crenças e ritos, mas como um sistema de vida completo, o cenário do mundo hoje seria diferente.
Mas aqueles que entre nós atuaram com o objetivo de divulgar o Islã, ou que escreveram livros sobre o Islã, provavelmente tinham diante de si a filosofia cristã da religião, que é um conjunto de algumas reivindicações sem qualquer relação positiva com os problemas reais da vida. O resultado foi que, assim como a comunidade intelectual do mundo não sentiu atração pela conversa vazia do cristianismo, a sociedade instruída também não deu atenção à solução islâmica para esses problemas do Islã. Assim, toda a atividade de divulgação do Islã permaneceu limitada a um pequeno número de seguidores de uma religião reduzida a cerimônias. Além do desperdício de tempo e recursos, não se obteve nenhum resultado especial.
Terceiro erro: outro erro intelectual nesse assunto é que, até hoje, os livros escritos entre nós sobre o Islã foram apresentados como obras teóricas, polêmicas, apologéticas ou no estilo da teologia especulativa. Pode-se afirmar sem hesitação que nenhum desses tipos foi útil para a missão da religião. Uma discussão teórica só pode beneficiar aqueles que desejam adquirir amplo conhecimento sobre algum aspecto específico do Islã. Porém, ela não é escrita com o objetivo de pregação e tabligh, nem seus autores possuem aptidão para cumprir esse objetivo. A discussão polêmica, primeiro, está ligada a alguns temas específicos e não tem relação com a perspectiva islâmica. Segundo, contém em plena medida os defeitos que fazem com que as coisas, em vez de aproximarem o coração e a mente do Islã, os afastem ainda mais. Por obras escritas num estilo apologético entendemos os livros sobre temas religiosos escritos por pessoas influenciadas pelo Ocidente e elogiados pelos europeus. Elas tentam introduzir no Islã correntes de pensamento influenciadas pelo Ocidente, embora não tenham com o Islã sequer a relação mais distante. Do mesmo modo, reuniram argumentos para provar que eram exteriores ao Islã aquelas coisas que o Ocidente condenava, ainda que pertencessem aos pilares ou princípios fundamentais do Islã. Tudo o que essas pessoas de espírito fraco e mentalidade derrotada escreveram não representa corretamente o Islã, nem contém uma convicção firme capaz de atrair a mente para o Islã e fazer um forte apelo à consciência.
O que foi escrito do ponto de vista filosófico é ainda mais decepcionante. O método de argumentação dos teólogos especulativos é contrário à razão, à consciência e à natureza humana. Por meio dele pode-se aumentar o nó de qualquer problema, mas não é possível desatá-lo. Esse tipo de argumentação talvez seja adequado apenas para debates tortuosos. Não há nele atração nem beleza. Ele não se harmoniza com a consciência saudável nem com a natureza humana. Transformá-lo em meio de apresentar o Islã significa levar as pessoas a fugir do Islã e criar nelas uma má impressão sobre ele.
O único método de apresentar o Islã ao mundo era aquele adotado pelo Livro de Deus e pelo Mensageiro — que a paz esteja sobre ele. Entretanto, nossos teólogos especulativos foram tão influenciados pela filosofia grega que não apenas ignoraram o método argumentativo do Alcorão, mas foram ainda mais longe, criticaram-no e o desvalorizaram. Nossos teólogos tradicionalistas também cometeram esse erro, e nossos teólogos modernos igualmente foram vítimas dele. O resultado foi que, diante dos não muçulmanos, os muçulmanos instruídos que desejavam manter-se muçulmanos, ou pelo menos ser considerados muçulmanos, começaram a dizer que o Islã é algo que se aceita apenas no coração, e não algo que possa ser compreendido pelo uso da razão e da consciência. Os que eram destemidos e insolentes começaram a ridicularizar abertamente o Islã. E, exceto pelo nome, libertaram-se completamente dos vínculos do Islã em todos os demais aspectos.

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Falhas práticas e operacionais no método habitual de tabligh

Não são poucos os erros, também do ponto de vista prático, no método corrente de tabligh. Indicaremos alguns desses erros.
Primeiro erro: o primeiro erro prático é a política dúplice dos muçulmanos. Em outras palavras, por um lado afirmam ser uma comunidade fundamental, formada sobre os princípios básicos do Islã e da fé. Mas, por outro lado, reuniram entre si características que se encontram em uma nação formada com base na linhagem, na tribo, na regionalidade e na língua. Por um lado, dizem que muçulmano é aquele que crê em Allah, em Seu Mensageiro, em Seu Livro e na Vida Futura, e que, em todos os aspectos de suas atividades, de sua vida social e de sua existência como um todo, segue o caminho indicado por Allah e por Seus mensageiros. Por outro lado, há entre eles inúmeras pessoas das quais resta apenas o nome de muçulmanas e que nasceram em famílias muçulmanas. Fora isso, em nenhum aspecto há qualquer compatibilidade entre elas e o Islã.
Por um lado, afirmam que seu guia em todos os aspectos e setores da vida é Muhammadur Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por outro lado, entregaram as rédeas de sua liderança e autoridade a pessoas que, tanto em conhecimento quanto em ação, estão completamente afastadas da orientação de Allah e de Seu Mensageiro. Por um lado, apresentam um sistema completo de moralidade e conduta e afirmam que ninguém pode continuar sendo muçulmano se dele se desviar. Por outro lado, eles próprios exibem exemplos de todas as formas e espécies de mau caráter e más ações encontradas entre outras nações. E isso não lhes causa nenhum dano enquanto muçulmanos. Por um lado, demonstram sua inteira ligação com uma religião verdadeira e afirmam que não é permitido voltar-lhe as costas nem fugir dela. Mas, por outro lado, fazem passar como história do Islã toda a história desde Rasulullah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, até Mustafa Kemal (Turquia). No entanto, uma grande parte dessa história não tem a menor compatibilidade com o verdadeiro sistema de vida do Islã.
Por um lado, afirmam que o Islã é um sistema de vida completo e que, se hoje existe alguma lei capaz de trazer a salvação ao mundo, ela está justamente na adoção desse sistema. Mas, por outro lado, viajam pela Europa e pela América tentando descobrir se o sistema dos ingleses é mais islâmico ou se o sistema americano é.
Quer os muçulmanos consigam ou não perceber essa sua política dúplice, não há razão para que os membros de outras nações tenham dificuldade em compreendê-la. Eles ficam perplexos ao ver a contradição entre as palavras e as ações dos muçulmanos. Depois, mesmo que algum deles tenha atração pelo Islã, detém-se ao ver essa contradição e passa a pensar que os muçulmanos são apenas uma nação como a sua. Assim, que sentido poderia haver em abandonar uma nação desse tipo para tornar-se membro de outra?
Apesar dessa duplicidade nossa, se algum não muçulmano chegar a aceitar o Islã, deve-se acreditar que ele não o aceitou por ter recebido nossa da’wah. Pelo contrário, Allah, ao mostrar-lhe os erros de sua própria religião, também lhe esclareceu os erros dos muçulmanos. Ele vê o Islã como algo distinto dos muçulmanos.
Segundo erro: o segundo erro prático é que os muçulmanos, imitando os missionários cristãos, mantêm constantemente sua atenção voltada para as classes inferiores da sociedade no trabalho de tabligh. Contudo, esse método é completamente equivocado. Ao fazer o convite ao deen, deve-se primeiro dirigir-se à classe sob cuja liderança intelectual e filosófica se organiza a sociedade. São precisamente essas pessoas que constroem uma nação ou causam sua queda. Se forem conduzidas ao caminho reto, toda a estrutura social passará espontaneamente a seguir o caminho reto. Se permanecerem no caminho equivocado, em primeiro lugar as classes inferiores não possuem capacidade suficiente para corrigi-las. Mesmo que alguma capacidade desse tipo exista entre elas, isso será apenas uma exceção. Pelo contrário, sua mentalidade derrotada aceita muito rapidamente os erros da classe intelectual. O exemplo é semelhante ao do coração e dos membros. Se o coração for corrigido, todo o corpo se torna saudável por si mesmo. Mas, se houver uma doença no coração, não haverá benefício em massagear os membros com óleo.
Diante dos missionários cristãos, a única questão era aumentar o próprio número. Portanto, esse método podia ser eficaz para eles. Mas, para os muçulmanos, não é permitido fazer tabligh com o simples objetivo de aumentar o número. Sua tarefa é conduzir as pessoas perdidas ao caminho correto, estabelecer sua relação com Allah e reconstruir suas vidas na direção certa. A reconstrução do indivíduo só é possível quando toda a sociedade puder ser reconstruída. Só se pode esperar a reconstrução da sociedade quando seus líderes adotarem o processo de reforma. Quem observa, ainda que minimamente, a sociedade e as organizações não pode negar esta verdade: uma revolução popular ou um movimento revolucionário pode começar de baixo e desorganizar a estrutura superior. Mas uma da’wah reformadora e intelectual só pode firmar suas raízes quando consegue exercer influência de cima para baixo.
Todos os que, entre os muçulmanos, realizaram o trabalho de da’wah, seja entre muçulmanos ou fora deles, geralmente cometeram o erro de manter sua atenção sempre voltada para as classes inferiores. Faziam com que recitassem apenas a kalima ou lhes ensinavam a oração e então imaginavam que já haviam sido reformados. Sem dúvida, desse modo pode ocorrer alguma reforma parcial. Mas não é possível provocar assim uma transformação na vida como um todo. Quando o ambiente geral está corrompido, em vez de apenas tratar a doença, deve-se tentar extirpar as causas da doença. Deve-se tentar preencher com terra os canais cheios de lixo que espalham germes e poluem o ar. Caso contrário, o processo de reforma será como prender uma pessoa em uma região assolada por uma epidemia e aplicar-lhe uma injeção de vacina. Talvez isso possa impedir temporariamente o ataque da epidemia, mas não é possível obter um resultado permanente.
É por isso que os profetas e mensageiros, em vez de se dirigirem primeiro ao povo em geral, procuraram provocar uma mudança na mentalidade dos líderes da sociedade e fizeram da reforma destes um meio para reformar o povo em geral.
Terceiro erro: o terceiro erro prático é que os muçulmanos aceitaram somente o conselho verbal como meio de tabligh. Não tentaram apresentar um exemplo real de uma vida verdadeiramente islâmica. No entanto, ao contemplar isoladamente a beleza dos princípios básicos do Islã, somente um número muito pequeno de pessoas inteligentes e dotadas de extraordinária capacidade moral pode aceitá-lo. A grande maioria das pessoas do mundo só reconhecerá a veracidade desses princípios quando puder vê-los funcionando na vida real e produzindo bons resultados. Mas o único segredo do esforço que aqui se realiza em nome do tabligh do Islã é que os oradores, com vozes eloquentes, os pregadores, com emoção e entusiasmo, e os escritores conduzem as pessoas do mundo em um passeio pelo paraíso imaginário do modo de vida islâmico. Mais curioso ainda é que, por um lado, enchem o espaço entre o céu e a terra com louvores aos benefícios sociais e culturais do Islã, enquanto, por outro, toda a sociedade muçulmana, acumulando todas as imundícies de sua jahiliyyah, comprova que suas afirmações são falsas. A linguagem silenciosa das ações é mais influente do que todas as linguagens das afirmações. Por isso, todas essas exortações e conselhos se dissiparam no vazio, e nenhum efeito duradouro deles permaneceu sobre a terra.
Assim, em vez de apenas discursos verbais, se alguns servos de Allah tivessem tentado estabelecer uma ordem social com base nos princípios nos quais criam, mesmo que não tivessem sido bem-sucedidos nesse esforço, poderiam ter prestado um serviço mais eficaz do que aquele que os oradores não conseguiram prestar, embora tenham sido bem-sucedidos em seus sermões e exortações. Para provar que o Islã é benéfico para toda a humanidade, não basta narrar apenas alguns acontecimentos extraordinários da história passada. Também não há benefício em escrever artigos e fazer discursos para sustentar que o Islã ainda pode trazer à humanidade os mesmos benefícios que trouxe no passado. O único caminho é que uma jamaat que creia nos princípios fundamentais do Islã se una e apresente exemplos concretos desses princípios. É lamentável que tudo tenha acontecido, exceto precisamente isso.
Quarto erro: o quarto erro é que, na propagação do Islã, os muçulmanos também adotaram certos métodos superficiais, semelhantes aos dos missionários cristãos. Os cristãos converteram as classes marginalizadas do mundo mostrando-lhes tentações, desejos e vantagens pessoais; os muçulmanos também querem adotar esses métodos. Os brâmanes utilizam certas iscas em benefício próprio, e os muçulmanos também querem utilizá-las. Nos debates, os outros empregam exageros, métodos tortuosos e punhos ameaçadores, e os muçulmanos não ficam de modo algum atrás deles.
Quando alguém entre os muçulmanos adotava a religião hindu, fosse por ter sido vítima de uma tentação ou de um erro, os brâmanes celebravam sua vitória. Do mesmo modo, assim que algum hindu declarava ter aceitado o Islã, os muçulmanos tentavam elevá-lo aos céus. Assim como induzir jovens tolos a desviar-se era uma parte importante do programa de propagação religiosa dos outros, entre os muçulmanos também se passou a considerar esse método legítimo. Se alguma mulher hindu, tomada por uma excitação emocional, fugisse segurando a mão de um muçulmano libertino, isso era considerado uma grande vitória do trabalho de propagação do Islã. Esse tipo de despudor e libertinagem transformou-se em um elemento de apoio à religião. Como resultado, inúmeras mulheres desviadas e homens libertinos fizeram da conversão religiosa uma profissão. Pela manhã, apresentavam-se como muçulmanos e montavam nos ombros dos muçulmanos; à tarde, declaravam-se hindus ou cristãos e obtinham dinheiro deles.
Quando as organizações de shuddhi exerciam grande influência em várias regiões da Índia, um ancião muçulmano pediu às prostitutas muçulmanas de Délhi que pregassem o Islã a seus clientes não muçulmanos. Como resultado, aos olhos dos não muçulmanos o Islã transformou-se em algo sem valor. Eles passaram a pensar que o Islã era apenas um sistema destinado a aumentar o número de sua própria nação. Para enganar o povo comum, os muçulmanos apresentavam-no diante deles como o deen de Allah. Era perfeitamente compreensível que chegassem a essa conclusão. Pois, quando viram os muçulmanos usando sua religião exatamente com o mesmo objetivo e da mesma maneira com que os não muçulmanos usavam suas próprias religiões, como poderia surgir em seus corações qualquer impressão da superioridade do Islã?
Quinto erro: o quinto erro prático é que os muçulmanos sentem a necessidade de alguma qualificação para qualquer trabalho no mundo. Mas não consideram necessária qualquer qualificação para duas tarefas: dirigir as orações na mesquita e fazer tabligh do deen. Houve uma época em que o imam das orações era o governante do Estado Islâmico ou seu representante. Hoje, porém, os muçulmanos procuram para nomear como imam de suas mesquitas justamente a pessoa que não tem capacidade para realizar nenhum trabalho no mundo. Os muçulmanos de uma época abençoada pensavam que Allah havia escolhido esta ummah para transmitir o deen às pessoas com o mesmo senso de responsabilidade, atividade e dedicação com que o Mensageiro de Allah o havia transmitido à humanidade. E o khilafah islâmico, com todos os seus departamentos e funcionários, era um meio de cumprir essa responsabilidade da missão profética. Essa responsabilidade havia sido confiada a esta ummah por parte do Mensageiro de Allah. Hoje, porém, a situação é que toda a sociedade muçulmana, com todos os seus membros inteligentes e ativos, está empenhada em servir a um sistema jahili.
Indicamos alguns dos grandes erros intelectuais e práticos existentes no método corrente de tabligh. Uma avaliação abrangente desses erros revelaria muitos outros, mas não queremos prolongar ainda mais a discussão. O objetivo de mencionar esses erros é mostrar que o método atualmente corrente não tem a menor relação com o método pelo qual os profetas e mensageiros realizaram a propagação do deen. O objetivo e a meta que estavam diante dos profetas estão ausentes diante dessas pessoas. Seu método de trabalho não tem ligação alguma com o método deles. A imitação de organizações não muçulmanas se expandiu em seus objetivos, metas e métodos de trabalho. Por isso, queremos discutir detalhadamente com que objetivo os profetas e mensageiros fizeram tabligh e como o fizeram. Também mencionaremos quais meios, instrumentos e métodos adotaram para isso. Discutiremos quais etapas tiveram de atravessar no trabalho de propagação, como cumpriram as exigências e responsabilidades de cada etapa e quais benefícios o mundo obteve como resultado dessa luta.

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Por que o Tabligh?

A necessidade dos profetas e mensageiros

Deus Todo-Poderoso colocou na natureza humana a capacidade de distinguir o bem do mal, o desejo de aceitar o bem e de evitar o mal. Por meio de sua capacidade de compreensão, o ser humano pode aceitar o bem, rejeitar o mal e tornar-se merecedor de recompensa junto a Deus. Por outro lado, ao adotar, contra sua própria natureza, o caminho do mal em vez do bem, pode tornar-se merecedor de punição por parte do Criador. Embora sua natureza contenha aspectos de beleza e perfeição, ela também possui falhas e imperfeições. Por isso, Deus Todo-Poderoso não deixou, neste mundo, a orientação e o desvio do ser humano exclusivamente nas mãos de sua natureza, nem considerou suficiente, na vida futura, a orientação natural para puni-lo ou recompensá-lo. Ao contrário, enviou os profetas e mensageiros para manifestar as exigências da natureza primordial, revelar suas capacidades ocultas e apresentar Sua prova definitiva à criação, para que, no Dia do Juízo, as pessoas não pudessem alegar que desconheciam o caminho do bem e do mal e que, por isso, haviam mergulhado no pântano do desvio. Essa verdade foi apresentada nos seguintes versículos do Alcorão Sagrado.رُسُلًا مُبَشِّرِينَ وَمُنْذِرِينَ لِئَلَّا يَكُونَ لِلنَّاسِ عَلَى اللَّهِ حُجَّةٌ بَعْدَ الرُّسُلِ وَكَانَ اللَّهُ عَزِيزًا حَكِيمً“Enviamos os mensageiros como anunciadores de boas-novas e admoestadores, para que as pessoas não tivessem qualquer argumento contra Deus depois da vinda dos mensageiros. E Deus é Poderoso, Sábio.”
(Surata An-Nissá: 165)يَا أَهْلَ الْكِتَابِ قَدْ جَاءَكُمْ رَسُولُنَا يُبَيِّنُ لَكُمْ عَلَى فَتْرَةٍ مِنَ الرُّسُلِ أَنْ تَقُولُوا مَا جَاءَنَا مِنْ بَشِيرٍ وَلَا نَذِيرٍ فَقَدْ جَاءَكُمْ بَشِيرٌ وَنَذِيرٌ وَاللَّهُ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ“Ó Povos do Livro! Nosso Mensageiro veio até vós, esclarecendo-vos a verdade, depois de um longo intervalo entre os mensageiros, para que não dissésseis: ‘Não nos chegou nenhum anunciador de boas-novas nem admoestador’. Pois chegou-vos um anunciador de boas-novas e um admoestador. E Deus tem poder sobre todas as coisas.” (Surata Al-Má’ida: 19)

A determinação de Deus a respeito dos profetas

Com esse propósito, Deus Todo-Poderoso enviou profetas e mensageiros a cada povo, para que a verdade se manifestasse plenamente diante das pessoas e não lhes restasse desculpa para permanecerem firmes no caminho da perversidade e do desvio. A determinação de Deus a respeito dos profetas era que todos, sem exceção, viessem da humanidade; não vieram dos anjos nem dos gênios. Eles foram enviados dentre os seres humanos para que as exigências da natureza humana fossem esclarecidas às pessoas por meio de seres humanos. Assim, ninguém poderia dizer: ‘Como o conhecimento e a conduta de um ser não humano, de outra criatura, poderiam servir de modelo para os seres humanos?’ Por isso, Deus enviou a cada povo um profeta e mensageiro dentre eles, para que a origem estrangeira não se tornasse um obstáculo à aceitação da verdade. Os profetas de Deus convidaram seus próprios povos, em suas próprias línguas, para a religião de Deus, a fim de que a verdade lhes fosse apresentada claramente. Suas línguas eram extremamente claras, compreensíveis e atraentes. Além disso, os mensageiros não se limitaram a chamar as pessoas uma única vez para a verdade; dedicaram toda a vida a esse propósito. Eles próprios praticaram aquilo para o qual convocavam as pessoas, e seus companheiros também o praticaram em suas vidas ativas. Tudo isso foi estabelecido para que não houvesse qualquer falha ou imperfeição ao explicar tudo o que a criação precisava saber para obter a satisfação do Criador e viver neste mundo, e para que, no Dia do Juízo, as pessoas não pudessem atribuir a Deus a culpa por suas más ações.

A vinda do último profeta

Enquanto o mundo ainda não havia desenvolvido meios sociais e culturais capazes de reunir toda a humanidade para responder ao chamado de um único convocador, Deus Todo-Poderoso continuou enviando profetas e mensageiros separadamente a cada povo. Quando, por meio do ensino e da formação dos profetas, a consciência moral e social dos povos se tornou suficientemente desperta para que pudessem viver sob um sistema de vida universal, e quando os meios materiais sociais e culturais haviam avançado a tal ponto que o chamado de um único guia pudesse alcançar facilmente todo o mundo, Deus Todo-Poderoso, por Sua graça, enviou ao mundo o último profeta, Muhammad, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. Por meio dele, concedeu às pessoas do mundo um sistema de vida completo. Esse sistema é plenamente compatível com a natureza de toda a humanidade, sem distinção de tribo ou cor, e com suas condições, ambientes e necessidades. Esse é o sistema de vida divino que conhecemos pelo nome de “Islã”.

Em sua essência, o Islã é a mesma religião com a qual vieram todos os profetas. Havia apenas pequenas diferenças em alguns aspectos. Os primeiros profetas ensinaram a crença de acordo com a capacidade de compreensão de seus respectivos povos. O Selo dos Profetas, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, ensinou a crença à humanidade conforme a capacidade de compreensão que Deus lhe concedeu. Os demais profetas, ao ensinar as leis, levaram em consideração a natureza particular e as doenças específicas de seus povos. Já as leis islâmicas não consideraram uma natureza ou tendência étnica ou social específica; consideraram apenas a natureza humana. Os sistemas de vida concedidos por Deus aos outros profetas correspondiam somente às necessidades de seus respectivos povos. Porém, o sistema de vida recebido pelas pessoas do mundo por meio do Profeta, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, não atende apenas às necessidades de um povo específico; atende também a todas as necessidades individuais e coletivas de toda a humanidade.

Os dois aspectos da vinda do Mensageiro de Deus

Ao Profeta, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, foi confiada a responsabilidade de orientar e guiar o mundo inteiro e apresentar a prova definitiva diante de toda a criação. Depois dele, não há necessidade de outro profeta. Por isso, Deus o enviou com duas responsabilidades proféticas: uma missão específica e outra geral. Ele foi enviado especificamente aos árabes. Devido a essa relação especial com os árabes, é chamado de Profeta iletrado ou Mensageiro Árabe, e a língua da revelação que lhe foi enviada também é o árabe. Sob esse aspecto, ele cumpriu diretamente sua responsabilidade de transmitir a mensagem e completar a prova.

Ele foi enviado, de modo geral, a todas as pessoas do mundo. Para cumprir essa missão, Deus lhe concedeu uma comunidade e ordenou-lhe que essa comunidade continuasse transmitindo aos demais a religião da verdade que o Mensageiro pregava entre eles. O Deus Todo-Poderoso disse:وَكَذَلِكَ جَعَلْنَاكُمْ أُمَّةً وَسَطًا لِتَكُونُوا شُهَدَاءَ عَلَى النَّاسِ وَيَكُونَ الرَّسُولُ عَلَيْكُمْ شَهِيدًا“E assim fizemos de vós uma comunidade moderada, para que sejais testemunhas perante as pessoas e para que o Mensageiro seja testemunha perante vós.” (Surata Al-Bácara: 143)وَأُوحِيَ إِلَيَّ هَذَا الْقُرْآنُ لِأُنْذِرَكُمْ بِهِ“E este Alcorão foi-me revelado para que, por meio dele, eu vos admoeste, bem como todos aqueles a quem ele chegar.” (Surata Al-An’am: 19)

Duas medidas especiais para a preservação da religião

Para completar o propósito do envio geral do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, Deus Todo-Poderoso fez surgir uma comunidade completa. Sua responsabilidade é fazer com que cada país, cada povo e o mundo inteiro deixem de depender, para sempre, da necessidade de receber revelações em diferentes línguas, pois depois dele não virá outro profeta. Assim, a responsabilidade de orientar a criação e completar a prova da religião da verdade foi confiada inteiramente e para sempre à sua comunidade. Por isso, Deus estabeleceu duas medidas especiais para preservar a religião.

Primeiro: protegeu completamente o Alcorão Sagrado contra qualquer alteração, acréscimo, distorção, correção ou redução, para que as pessoas do mundo não sentissem necessidade de um novo profeta para conhecer as determinações de Deus.

Segundo: manteve permanentemente um grupo dessa comunidade firme na verdade. Isso também é comprovado por hadices autênticos. Assim, para aqueles que buscam a verdade, o conhecimento e a conduta desse grupo continuarão servindo como uma luz orientadora.

Um grupo desse tipo, por menor que seja seu número, permanecerá nesta comunidade. Venham as calamidades que vierem, esse grupo virtuoso manterá vivos o conhecimento e a conduta do Mensageiro de Deus e de seus companheiros. Mesmo quando a influência do desvio percorrer as veias dessa comunidade como o veneno de um cão raivoso se espalha pelo corpo de uma pessoa ferida, Deus manterá uma parte dela protegida do desvio. Quando a natureza das pessoas do mundo se corromper a tal ponto que a justiça seja considerada injustiça, e a injustiça e a obscenidade sejam consideradas justiça e decoro; quando a força dos adeptos das inovações crescer tanto que os que convocam à justiça se tornem como estrangeiros no mundo, essas pessoas continuarão convidando a criação para a verdadeira religião e tentando corrigir a corrupção provocada pelos seres humanos, mesmo enfrentando oposição a cada passo.

O propósito de Deus ao manter ativo um grupo desse tipo em cada época é que, assim como preservou o conhecimento da revelação na forma do Alcorão até o Dia do Juízo, também preserve para sempre, por meio desse grupo, o conhecimento e a conduta do Mensageiro de Deus e de seus companheiros, para que a luz necessária à orientação da criação e à conclusão da prova do Mensageiro nunca se apague. Nas palavras de Jesus, que a paz esteja com ele, essas pessoas serão lâmpadas nas montanhas, por meio das quais o perdido encontrará o caminho. Serão o sal da terra, por meio do qual as coisas podem ser salgadas.

A transmissão da mensagem como responsabilidade da missão profética

A discussão anterior deixou claro que testemunhar perante as pessoas ou realizar a divulgação da religião não é apenas uma boa ação, nem tem como único objetivo aumentar o número de muçulmanos. É, antes, precisamente a exigência da transmissão da mensagem, por meio da qual esta comunidade deve completar o propósito do envio geral do Profeta, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. Cada pessoa pertencente à comunidade do Mensageiro de Deus deve necessariamente cumprir a responsabilidade de transmitir a mensagem. Ele confiou à sua comunidade a tarefa de divulgar a religião. Se os muçulmanos falharem de algum modo nessa responsabilidade, estarão, em consequência, falhando no cumprimento da própria missão profética. Foi o próprio Deus Todo-Poderoso quem lhes confiou essa responsabilidade. A consequência inevitável será que Deus os privará da posição de “melhor comunidade”, à qual os elevou para cumprir essa responsabilidade, e colocará sobre eles toda a responsabilidade pelo desvio dos habitantes do mundo. Afinal, agora são eles o meio pelo qual a religião deve ser apresentada definitivamente diante da criação de Deus. Se não cumprirem essa responsabilidade, no Dia do Juízo as pessoas do mundo terão a oportunidade de apresentar a Deus a seguinte desculpa: ‘Tu fizeste deles testemunhas perante as pessoas e lhes confiaste a tarefa de nos orientar, mas eles não nos apresentaram o convite para a Tua religião. Caso contrário, não teríamos caído no desvio.’ Naquele momento, os muçulmanos não poderão responder a essa acusação.

Condições da transmissão da mensagem

A responsabilidade de testemunhar perante as pessoas, ou de divulgar e transmitir a mensagem em geral, não pode ser cumprida no mundo simplesmente porque existe uma nação chamada muçulmana, quer seus membros cumpram ou não a responsabilidade de testemunhar perante as pessoas. Essa é uma das responsabilidades mais importantes da missão profética. Por isso, a divulgação da religião de Deus deve ser realizada somente depois de cumprir as condições que Deus estabeleceu para a transmissão e que os profetas e mensageiros observaram ao realizar esse trabalho. Mencionaremos aqui algumas condições importantes que devem ser consideradas no cumprimento dessa responsabilidade.

Primeira condição: A primeira condição da divulgação é que nós, que testemunhamos a religião da verdade, devemos primeiro crer nela com sinceridade. Os profetas e mensageiros primeiro acreditavam na religião que pregavam. Não se consideravam acima dessa religião. “O Mensageiro creu no que lhe foi revelado, e também os crentes.”

Depois de crerem nessa religião verdadeira, foram os primeiros a abandonar tudo o que lhes parecia contrário a ela, fosse a religião dos antepassados, os vínculos tribais e comunitários, ou seus interesses pessoais e coletivos. Diante de qualquer perigo que surgisse nesse processo, diziam: “Sou o primeiro dos crentes; sou o primeiro dos muçulmanos.” Jamais se mantiveram a uma distância segura do perigo para depois incitar os outros, dizendo: ‘Se quereis a salvação, lançai-vos nesse perigo.’

Segunda condição: A segunda condição da divulgação da religião da verdade é que aqueles que creem na verdade devem testemunhá-la verbalmente. Quem crê em uma verdade e, embora tenha capacidade de proclamá-la, não a manifesta, é um demônio mudo. No Dia do Juízo, será considerado culpado por ocultar a verdade, assim como os judeus foram considerados culpados por esse crime. Diz o Alcorão:
وَإِذْ أَخَذَ اللَّهُ مِيثَاقَ الَّذِينَ أُوتُوا الْكِتَابَ لَتُبَيِّنُنَّهُ لِلنَّاسِ وَلَا تَكْتُمُونَهُ فَنَبَذُوهُ وَرَاءَ ظُهُورِهِمْ وَاشْتَرَوْا بِهِ ثَمَنًا قَلِيلًا فَبِئْسَ مَا يَشْتَرُونَ“Quando Deus firmou o pacto com aqueles que receberam o Livro: ‘Deveis explicá-lo às pessoas e não ocultá-lo’, eles o lançaram para trás das costas e venderam-no por um preço insignificante. Quão terrível é o que compraram!” (Surata Ál Imran: 187)

A precaução que deve ser tomada nesse assunto deve ser tomada essencialmente em benefício da religião da verdade. Isso significa que essa religião deve ser divulgada de maneira correta, no lugar correto e diante da pessoa adequada. Assim, o convite à verdadeira religião poderá alcançar o coração da pessoa. Se alguém, ignorando completamente a verdade e considerando apenas seus interesses pessoais, deixar de divulgar a religião da verdade ou demonstrar desinteresse por essa tarefa, será ou um hipócrita ou um covarde sem personalidade. Só é permitido deixar temporariamente de manifestar a verdade em circunstâncias especiais, por exemplo, quando isso representar perigo real de morte e o divulgador considerar que, do ponto de vista de servir à religião da verdade, é preferível preservar a própria vida naquele momento.

Terceira condição: A terceira condição é que não basta prestar esse testemunho apenas verbalmente; é preciso prestá-lo por meio de ações concretas. No Islã, um testemunho que não seja acompanhado de ações reais não é considerado confiável. Algumas pessoas iam até o Profeta, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, e juravam diante dele: ‘Testemunhamos que tu és o Mensageiro de Deus.’ Porém, Deus Todo-Poderoso não aceitou esse testemunho. Declarou que eles eram hipócritas e mentirosos, apresentando diante deles suas ações e palavras. Com isso, tornou-se evidente sua atitude negativa em relação ao Islã e aos muçulmanos e sua hostilidade contra a verdade.

Quem aceita uma verdade e convida os demais a ela tem o dever indispensável de fazer com que suas ações estejam de acordo com essa verdade. Caso contrário, será considerado seguidor dos passos dos sábios judeus que o Alcorão Sagrado criticou severamente. Eles convocavam os outros a se tornarem devotos de Deus, mas esqueciam de si mesmos. A pessoa ou grupo cujas ações contradizem seu convite está apresentando, por si mesmo, a prova de que rejeita seu próprio convite. A prova apresentada por meio de ações concretas é mais forte que a prova verbal. Suas próprias ações carregam uma prova tão forte contra suas alegações que, depois disso, não resta necessidade de qualquer outra prova para rejeitar seu convite.

Se os muçulmanos são testemunhas da religião de Deus, a exigência indispensável disso é que creiam nessa religião, transmitam seu convite aos outros e ajam de acordo com ela em todos os aspectos de sua vida individual e coletiva. Sem isso, não poderão cumprir o direito desse testemunho, para o qual Deus os escolheu. Não ter relação com essa religião na vida prática e, ao mesmo tempo, testemunhar verbalmente que ela é a verdadeira religião é, diante da criação, algo inteiramente ridículo do ponto de vista de completar a prova. Se Deus declarasse culpada Sua criação com base nos sermões desses oradores que não praticam, isso seria contrário à Sua justiça. A consequência inevitável será que a prova dessa religião será completada definitivamente contra os muçulmanos, e no Dia do Juízo eles serão responsabilizados com base em sua própria confissão.

O próprio Alcorão descreveu quais formas de desvio da religião na prática podem ser perdoadas e também indicou o tratamento para elas. Uma forma perdoável de desvio é quando, por emoção, agitação ou impulso dos desejos, uma pessoa pratica algo contrário à verdade. O tratamento é arrepender-se imediatamente e pedir perdão a Deus. Outra forma é quando alguém é forçado a praticar algo contrário à verdade. O tratamento consiste em esforçar-se tanto quanto possível para libertar-se dessa situação. Porém, se, em vez de arrepender-se e tentar corrigir-se, a pessoa fizer de seu erro uma cobertura e uma cama, e transformar em sua própria religião a situação difícil em que caiu, esse crime não será perdoável. Por permanecer satisfeita com a falsidade, será removida da posição honrosa para a qual havia sido elevada como testemunha perante as pessoas.

Quarta condição: A quarta condição da transmissão é manter o testemunho livre de todo tipo de fanatismo étnico ou tribal. A hostilidade ou a amizade de qualquer povo não deve nos desviar do caminho da religião da verdade que apresentamos. O Alcorão Sagrado ensinou, nas seguintes palavras, como devemos permanecer imparciais diante de nossos adversários:يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا كُونُوا قَوَّامِينَ لِلَّهِ شُهَدَاءَ بِالْقِسْطِ وَلَا يَجْرِمَنَّكُمْ شَنَآنُ قَوْمٍ عَلَى أَلَّا تَعْدِلُوا اعْدِلُوا هُوَ أَقْرَبُ لِلتَّقْوَى وَاتَّقُوا اللَّهَ إِنَّ اللَّهَ خَبِيرٌ بِمَا تَعْمَلُونَ“Ó crentes! Sede firmes pela causa de Deus, testemunhando com justiça. Que a aversão por um povo não vos leve a deixar de agir com justiça. Sede justos; isso está mais próximo da piedade.” (Surata Al-Má’ida: 8)

O Alcorão Sagrado também apresentou, no versículo seguinte, o ensinamento sobre como manter a imparcialidade em relação aos nossos amigos e parentes:يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا كُونُوا قَوَّامِينَ بِالْقِسْطِ شُهَدَاءَ لِلَّهِ وَلَوْ عَلَى أَنْفُسِكُمْ أَوِ الْوَالِدَيْنِ وَالْأَقْرَبِينَ إِنْ يَكُنْ غَنِيًّا أَوْ فَقِيرًا فَاللَّهُ أَوْلَى بِهِمَا فَلَا تَتَّبِعُوا الْهَوَى أَنْ تَعْدِلُوا وَإِنْ تَلْوُوا أَوْ تُعْرِضُوا فَإِنَّ اللَّهَ كَانَ بِمَا تَعْمَلُونَ خَبِيرًا“Ó crentes! Sede firmes na justiça e testemunhas por Deus, ainda que seja contra vós mesmos, contra os vossos pais ou contra os vossos parentes, seja a pessoa rica ou pobre; Deus está mais próximo de ambos. Não sigais as paixões, para não vos desviardes da justiça.” (Surata An-Nissá: 135)

Quinta condição: A quinta condição da divulgação da religião é testemunhar de modo abrangente toda a religião completa e perfeita que recebemos de Deus. Nada dela deve ser omitido por medo de censura ou oposição. Cada pessoa deve testemunhar, em sua vida individual, os assuntos relacionados aos deveres pessoais. Todos devem rezar e jejuar; todo rico deve pagar o zakat, e toda pessoa capaz deve realizar o hajj. Cada muçulmano deve adotar boas ações, fidelidade e uma vida pura.

Entretanto, quando o testemunho de certos assuntos exige uma vida coletiva, o dever do indivíduo é esforçar-se ao máximo para estabelecer essa vida coletiva. Quando ela existir, deverá testemunhar esses assuntos. Por exemplo, um indivíduo sozinho não pode estabelecer a estrutura social, econômica e política de um país. É necessária uma força organizada para moldá-las segundo o modelo islâmico. Por isso, é absolutamente necessário, antes de tudo, formar uma comunidade justa. Depois que essa organização for estabelecida, será indispensável testemunhar a religião da verdade em cada nível da vida coletiva. Citaremos abaixo alguns versículos, pelos quais se saberá com que ênfase foi ordenado ao Profeta, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, que testemunhasse toda a religião, sem acréscimo nem redução.يَا أَيُّهَا الرَّسُولُ بَلِّغْ مَا أُنْزِلَ إِلَيْكَ مِنْ رَبِّكَ وَإِنْ لَمْ تَفْعَلْ فَمَا بَلَّغْتَ رِسَالَتَهُ وَاللَّهُ يَعْصِمُكَ مِنَ النَّاسِ إِنَّ اللَّهَ لَا يَهْدِي الْقَوْمَ الْكَافِرِينَ“Ó Mensageiro! Transmite o que te foi revelado por teu Senhor. Se não o fizeres, não terás transmitido Sua mensagem. Deus te protegerá das pessoas.” (Surata Al-Má’ida: 67)الَّذِينَ يُبَلِّغُونَ رِسَالَاتِ اللَّهِ وَيَخْشَوْنَهُ وَلَا يَخْشَوْنَ أَحَدًا إِلَّا اللَّهَ وَكَفَى بِاللَّهِ حَسِيبًا“Aqueles que transmitem as mensagens de Deus, temem-No e não temem ninguém senão a Deus. E Deus basta como Aquele que presta contas.” (Surata Al-Ahzab: 39)(Árabe****)“Não obedeças aos incrédulos e hipócritas, não dês importância às suas perseguições e confia em Deus.” (Surata Al-Ahzab: 48)فَلِذَلِكَ فَادْعُ وَاسْتَقِمْ كَمَا أُمِرْتَ وَلَا تَتَّبِعْ أَهْوَاءَهُمْ وَقُلْ آمَنْتُ بِمَا أَنْزَلَ اللَّهُ مِنْ كِتَابٍ“Portanto, convida para essa religião e mantém-te firme como te foi ordenado. Não sigas os desejos deles e dize: ‘Creio no Livro que Deus revelou’.” (Surata Ash-Shura: 15)

Sexta condição: A sexta condição da divulgação da religião é que aqueles que convidam para a religião de Deus estejam dispostos, quando necessário, a dar a vida e realmente a entreguem. Esse é o grau mais elevado do testemunho. Por isso, aqueles que partiram para o jihad pela religião de Deus e testemunharam, mesmo sob a sombra das espadas, que a verdade em que criam era verdadeira, foram chamados de mártires. Quem, além dessas pessoas que sacrificam a vida, pode merecer o grande título de mártir? Para quem ele poderia ser mais apropriado? Deus Todo-Poderoso pode fazer com que milhares e milhões de pessoas se levantem para cumprir a responsabilidade confiada a esta comunidade de testemunhar perante as pessoas, e cada uma delas receberá de Deus a recompensa por seu esforço. Porém, aqueles que dedicaram toda a vida a esse caminho e testemunharam a verdade com o sacrifício da própria vida são, na realidade, os que merecem o título de “mártir”. Pois que testemunho maior pode haver da verdade de algo do que uma pessoa entregar sua preciosa vida para ajudar a verdadeira religião? Aquele que testemunha a verdade colocando a própria vida em risco, depois do qual não resta grau algum de testemunho, é o verdadeiro mártir.

A responsabilidade dos muçulmanos

É por causa dessa responsabilidade da missão profética que a comunidade muçulmana foi chamada de “a melhor comunidade”. Se os muçulmanos esquecerem essa responsabilidade, serão apenas uma nação como as demais nações do mundo. Não haverá neles nenhuma beleza especial nem motivo para receber uma distinção particular. Deus não terá razão para considerar se vivem honradamente no mundo ou em humilhação. Ao contrário, depois de esquecerem essa responsabilidade, também se tornarão uma nação sujeita à maldição de Deus, assim como outras nações antes deles receberam essa responsabilidade e foram amaldiçoadas por não a cumprirem. Portanto, o versículo que declara os muçulmanos como a melhor comunidade também esclarece suas responsabilidades e deveres.كُنْتُمْ خَيْرَ أُمَّةٍ أُخْرِجَتْ لِلنَّاسِ تَأْمُرُونَ بِالْمَعْرُوفِ وَتَنْهَوْنَ عَنِ الْمُنْكَرِ وَتُؤْمِنُونَ بِاللَّهِ وَلَوْ آمَنَ أَهْلُ الْكِتَابِ لَكَانَ خَيْرًا لَهُمْ مِنْهُمُ الْمُؤْمِنُونَ وَأَكْثَرُهُمُ الْفَاسِقُونَ“Sois a melhor comunidade que surgiu para o benefício da humanidade: ordenais o bem, proibis o mal e credes em Deus.” (Surata Ál Imran: 110)

Deus Todo-Poderoso também indicou o modo de cumprir essa responsabilidade coletiva:(Árabe*****************)“Que haja entre vós um grupo que convoque para o bem, ordene o que é correto e proíba o que é errado. Esses serão os bem-sucedidos.” (Surata Ál Imran: 104)

Ao cumprir essa ordem, a primeira coisa que os muçulmanos fizeram depois do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, foi estabelecer o califado exatamente segundo o método da profecia. Essa instituição funcionava como uma organização para convidar ao bem, ordenar o correto e impedir o errado. Eles estabeleceram essa instituição para cumprir a responsabilidade coletiva pela religião da verdade que fora confiada aos muçulmanos depois do Mensageiro de Deus. Como representante dos muçulmanos, ela cumpria a responsabilidade de mantê-los firmes na verdade e convidar as pessoas do mundo para ela. Enquanto essa instituição chamada califado permaneceu corretamente estabelecida, muçulmanos e não muçulmanos estavam ativos no cumprimento de suas responsabilidades. Até então, a divulgação da mensagem estava no nível de uma obrigação coletiva. O sistema do califado cumpria essa tarefa e libertava cada membro da comunidade da responsabilidade individual diante de Deus. Porém, quando esse sistema se desorganizou, a responsabilidade de testemunhar a verdade recaiu novamente sobre cada membro da sociedade. Assim como, após o colapso de um sistema estatal, a responsabilidade pela proteção da vida e dos bens de seus habitantes passa do Estado para eles próprios, permanecendo sobre eles até que consigam reconstruir seu sistema estatal, da mesma forma, depois do colapso do sistema do califado, a responsabilidade de testemunhar perante as pessoas recaiu sobre cada membro da comunidade. Enquanto não conseguirem estabelecer novamente um sistema estatal islâmico correto para cumprir essa responsabilidade, o pecado de não cumpri-la recairá sobre cada muçulmano. Cada indivíduo terá de responder por isso no Dia do Juízo.

Resumo

O resumo de toda esta discussão é o seguinte:

(a) A responsabilidade de divulgar a religião de Deus em todo o mundo até o Dia do Juízo, confiada ao Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, foi transferida por ele, por ordem de Deus, à comunidade, para que fosse completada. Agora, essa comunidade continuará divulgando a religião de Deus, até o Dia do Juízo, em cada país, a cada povo e a todos os falantes de diferentes línguas.

(b) Deus estabeleceu que a divulgação deve ser feita verbalmente, sinceramente e por meio de ações concretas. Toda a religião deve ser transmitida, sem distinção nem classificação. Deve ser feita com imparcialidade, ignorando a censura dos censuradores. Quando necessário, o divulgador deve cumprir essa responsabilidade sacrificando a própria vida.

(c) Para cumprir essa responsabilidade coletiva, existia devidamente a instituição chamada califado. Enquanto essa instituição permaneceu estabelecida, cada muçulmano estava livre dessa responsabilidade.

(d) Depois da extinção dessa instituição, a responsabilidade de divulgar o Islã recaiu sobre cada membro da comunidade. Ela será distribuída entre eles conforme as diferenças de capacidade e posição.

(e) Agora há dois caminhos abertos aos muçulmanos para responder por essa obrigação e libertar-se da responsabilidade: ou restabelecerão a instituição chamada califado, ou pelo menos colocarão a própria vida em risco para estabelecê-la.

(f) Se os muçulmanos não fizerem nenhuma dessas duas coisas, serão considerados culpados por não cumprirem a responsabilidade da missão profética que Deus lhes confiou. Não terão de carregar apenas o peso de sua própria culpa; também sofrerão a punição pelo desvio de toda a criação.

Esta discussão mostrou que a principal força motriz para cumprir a grande responsabilidade de divulgar a religião, confiada por Deus aos muçulmanos, é sua consciência e sensibilidade. Sua atenção deve voltar-se para o restabelecimento do sistema do califado, que convoca ao bem. Por meio desse sistema, os servos de Deus podem ser facilmente guiados para a religião de Deus, e a prova definitiva pode ser apresentada diante do mundo. Enquanto esse sistema não for estabelecido no mundo, o objetivo mais importante, maior e supremo dos muçulmanos deverá ser fazer algo para restabelecê-lo. Essa deve ser a única preocupação de cada muçulmano, em seu sono e em sua vigília. Para isso devem comer e beber; para isso devem viver e morrer. Caso contrário, se a vida dos muçulmanos permanecer completamente contrária à vontade de Deus, eles não poderão apresentar a Deus qualquer desculpa aceitável por essa falha. Estabelecer o califado de Deus na terra de Deus é o propósito de sua vida. Se esquecerem esse propósito, não poderão reivindicar na terra uma importância maior que a de insetos ou palha, jamais poderão alcançar a dignidade de uma comunidade moderada ou da melhor comunidade, nem poderão esperar qualquer ajuda ou apoio da parte de Deus.
4

A quem os profetas e mensageiros se dirigiam primeiro?

A quem os nobres profetas — que a paz esteja com eles — se dirigiam primeiro para divulgar seu propósito, e de que modo se dirigiam a eles?

A primeira parte da pergunta significa o seguinte: embora os profetas tenham sido enviados a toda a nação, será que, logo no início de seu trabalho, convocavam todas as pessoas, ou se dirigiam inicialmente a uma camada específica da sociedade? Se começavam por uma camada especial, que camada era essa? Eles convidavam primeiro as pessoas comuns ou aqueles que lideravam o povo em geral?

A segunda parte da pergunta é esta: é um fato que, no início, a mensagem de cada profeta parecia desconhecida à sua comunidade; na verdade, eles a combatiam intensamente. Então os profetas começavam sua missão considerando todos como incrédulos ou rejeitadores, dizendo: “Ó incrédulos, crede! Ó idólatras, reconhecei Allah como Único!”, ou sua forma de se dirigir a eles era diferente?

Essas duas perguntas são muito importantes. Por não compreendê-las corretamente, as pessoas também erraram ao determinar o ponto de partida da pregação. Além disso, exageraram ao tentar compreender a posição correta de si mesmas e daqueles a quem se dirigiam. Como resultado, ou toda a pregação permaneceu ineficaz por ter começado de um ponto equivocado, ou, por não se determinar corretamente a posição do pregador e dos destinatários, ela assumiu a forma de uma sedição, e, em vez de reforma, provocou grandes desastres.

Os profetas se dirigiram aos líderes de seu tempo

Neste capítulo tentaremos responder à primeira parte da pergunta. À luz da história apresentada pelo Alcorão, nossa resposta é que os profetas — que a paz esteja com eles — primeiro convidavam as pessoas influentes da nação a aceitar a religião de Allah. Faziam da reforma dessas pessoas um meio para reformar o povo em geral. O profeta Abraão — que a paz esteja com ele — apresentou primeiro a mensagem da religião aos membros de sua própria linhagem. Naquele tempo, eles ocupavam os postos de liderança religiosa do povo. Depois, apresentou a mensagem ao rei de seu tempo, em cujas mãos estava concentrado o poder político da nação e que se considerava senhor da vida e da morte das pessoas.(Árabe**************)“Não viste aquele que discutiu de modo insolente com Abraão acerca de seu Senhor? Isso ocorreu porque Allah lhe havia concedido o reino.” — (Surata Al-Baqara: 257)

Allah, o Altíssimo, ordenou ao profeta Moisés — que a paz esteja com ele — que primeiro convidasse o Faraó para a Sua religião.(Árabe********************************)“Vai ao Faraó; ele transgrediu os limites. Pergunta-lhe: ‘Estás disposto a purificar-te? E queres que te guie até teu Senhor, para que O temas?’” — Surata An-Nazi‘at: 17–19.

O profeta Daniel — que a paz esteja com ele — convidou primeiro à religião o poderoso rei de seu tempo, Nabucodonosor. O profeta Jeremias apresentou sua reivindicação profética diante do rei de Sham. O Messias — que a paz esteja com ele — dirigiu-se primeiro aos sábios judeus. Do mesmo modo, as pregações de Noé, Hud, Lot e Shu‘aib — que a paz esteja com eles — são mencionadas no Alcorão. Cada um deles convidou primeiro à religião de Allah os líderes sociais de seu tempo e aqueles que se enchiam de orgulho e arrogância, atacando suas ideias e doutrinas.

Por fim, surgiu o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Foi-lhe ordenado que advertisse seus parentes da tribo dos coraixitas sobre o castigo. Essas pessoas dirigiam a vida religiosa dos árabes e o Estado governado pelos chefes tribais. Por meio delas, ele realizou a orientação moral e política de toda a Arábia.

Para levar a mensagem do Islã ao restante do mundo, fora da Arábia, ele ensinou à comunidade um método: escreveu cartas aos governantes de diferentes países e apresentou o Islã primeiro a eles. Disse-lhes: “Aceitai o Islã e vivereis em paz. Caso contrário, a responsabilidade pelo desvio de vós e de vossos subordinados recairá sobre vós mesmos.” A afirmação mencionada indica que os líderes da comunidade também deveriam seguir esse método para transmitir a mensagem de modo geral. Toda a história do Califado Bem-Guiado testemunha que os Companheiros — que Allah esteja satisfeito com eles — cumpriram, segundo o método mostrado pelo Mensageiro, a responsabilidade que Allah e Seu Mensageiro lhes confiaram de serem testemunhas diante das nações.

O chamado de Jesus

É uma realidade que aqueles às portas dos quais o sol da orientação irradiou primeiro foram justamente os que mais tardaram a aceitar a religião de Allah. Quem conhece a história dos profetas não pode negar isso. Bilal, da Abissínia; Suhaib, da Ásia Menor; Salman, da Pérsia; e os agricultores de Medina vinham de lugares distantes, aceitavam o Islã e partiam. Entretanto, os líderes coraixitas Abu Lahab, Abu Jahl, Umayya ibn Khalaf e outros, bem como os nobres de Ta’if, diante dos quais o Mensageiro de Allah pregou a verdade dia e noite, permaneceram privados de seus benefícios. Foram antes as pessoas comuns da Arábia que se beneficiaram dessa mensagem e foram honradas por ela, embora a mensagem ainda não lhes tivesse chegado diretamente, mas apenas indiretamente.

Aqueles que recebem primeiro a mensagem ficam para trás em aceitá-la; os que a recebem mais tarde são os primeiros a aceitá-la. A palavra do profeta Jesus — que a paz esteja com ele — mostrou-se verdadeira. Ele disse: “Muitos que estão à frente ficarão atrás, e muitos que estão atrás avançarão.”

Apesar disso, os profetas e mensageiros não alteraram a sequência de sua pregação. Primeiro apresentavam a mensagem às pessoas influentes da sociedade. Quando os excessos e a obstinação dessas pessoas os deixavam desanimados, dirigiam-se ao povo comum. Desde o início de sua missão profética, Jesus continuou atacando a inflexibilidade dos sábios judeus. Mas, depois de um esforço considerável, quando não foi possível romper a pedra de seu orgulho, arrogância e diplomacia altiva, abandonou-os e foi até os pescadores às margens do lago. Chamou-os e disse: “Ó pescadores! Vinde, e farei de vós pescadores de homens.” Allah concedeu, dentre eles, uma comunidade de crentes que se tornou famosa por Seu nome.(Árabe**************************)“Quando Jesus percebeu a persistência deles — dos sábios judeus — na incredulidade, disse, dirigindo-se ao povo comum: ‘Quem são os meus auxiliares na causa de Allah?’ Disseram: ‘Nós somos os auxiliares de Allah. Cremos em Allah; testemunha que nos submetemos a Ele.’” — (Surata Al ‘Imran: 52)

Este versículo aponta para o chamado geral de Jesus — que a paz esteja com ele — quando ele pregava de modo geral e já havia perdido a esperança de que os líderes religiosos e sociais de seu tempo aceitassem a verdade. Nesse momento, apresentou a mensagem da religião às classes pobres e ao povo comum. Pregou com emoção, e isso derreteu como cera o coração dos pescadores junto ao rio. Mas essa mensagem não conseguiu derreter o coração dos bem-arrumados líderes religiosos de Jerusalém. Por fim, dentre esse povo comum surgiu um grupo de servidores portadores da bandeira da verdade, que, depois de passar pela grande prova da fé, tornou a religião de Allah vitoriosa neste mundo. A Surata As-Saff aponta para essa mesma realidade.(Árabe******************************)“Ó crentes! Sede auxiliares de Allah, como Jesus, filho de Maria, disse aos discípulos: ‘Quem será meu auxiliar na causa de Allah?’ Os discípulos responderam: ‘Nós somos os auxiliares de Allah.’ Então um grupo dos filhos de Israel creu, e outro grupo descreu. Apoiamos os crentes contra seus inimigos, e eles se tornaram vitoriosos.” — (Surata As-Saff: 14)

Jesus, o Messias — que a paz esteja com ele — apresentou uma verdade muito importante sobre a orientação e o desvio: “Aquele que está atrás avançará.” Embora as pessoas comuns tenham sido as primeiras a avançar para aceitar a religião de Allah, os profetas e mensageiros não se dirigiam diretamente ao povo comum enquanto não perdessem a esperança nos líderes de seu tempo.

O chamado do Mensageiro de Allah

Ao refletir profundamente, essa mesma situação pode ser vista na pregação do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Por ordem de Allah, ele apresentou primeiro a mensagem da religião aos membros da tribo dos coraixitas. Naquele tempo, eles eram os líderes religiosos e políticos de toda a Arábia. Ele apresentou a mensagem, um por um, a cada líder dos coraixitas. Quando deles surgiram ódio, hostilidade e oposição, também suplicou a Allah pela orientação deles. Chegou a mencionar pelo nome alguns dos mais importantes, dizendo: “Ó Allah, fortalece o Islã concedendo orientação a ‘Umar ou a Abu Jahl.”

Ele estava tão ansioso pela orientação dessas pessoas que, muitas vezes, não cuidava de seu próprio conforto nem de sua dignidade. Por isso, às vezes não encontrava tempo para ensinar e treinar devidamente aqueles que já haviam aceitado o Islã e necessitavam de formação. Apesar disso, continuou ocupado com essas pessoas durante um período considerável, suportando todo tipo de censura, zombaria, ódio, hostilidade e oposição. Quando o dever de estabelecer a prova havia sido cumprido, Allah proibiu-o de desperdiçar tempo com elas e ordenou-lhe que se voltasse para aqueles de quem ainda se podia esperar a fé. Estes estavam livres da doença especial da liderança; por isso, esperava-se que ouvissem e aceitassem o conselho da verdade. Nesse ponto, Allah ordenou a Seu Profeta que ignorasse os que se consumiam de orgulho e arrogância.(Árabe******************************)“Afasta-te, pois, deles, e não serás censurado por isso. Continua a admoestar, pois a admoestação beneficia os crentes.” — (Surata Adh-Dhariyat: 54–55)(Árabe***************************)“Ele franziu a testa e virou o rosto, porque o cego se aproximou dele. E quem te faria saber? Talvez ele se purificasse, ou recebesse a admoestação, e isso lhe fosse útil. Quanto àquele que se mostra arrogante, tu te ocupaste com ele, embora não te incumba que ele não se purifique. Mas, quanto àquele que vem a ti com empenho e teme a Allah, tu o negligencias. De modo algum! Isto é uma admoestação; quem quiser, que a aceite. Está registrada em folhas honradas, elevadas e puras, nas mãos de escribas nobres e virtuosos.” — (Surata ‘Abasa: 1–16)(Árabe*******************************)“Não fixes teus olhos nos bens deste mundo que concedemos a alguns grupos dos incrédulos. Não te entristeças por causa de sua desventura e estende as asas de tua misericórdia sobre os crentes.” — (Surata Al-Hijr: 88)

A razão desse método de pregação

A adoção dessa sequência na apresentação da mensagem pelos profetas e mensageiros não foi acidental. Ela possui várias razões especiais, algumas das quais mencionaremos aqui.

Primeira razão: a maior e mais evidente razão é que as pessoas comuns seguem, em conhecimento, prática, caráter e moralidade, aqueles que possuem influência e autoridade na sociedade. Como diz o provérbio: “O povo segue o rei.” Portanto, se os dirigentes da sociedade e do Estado aceitarem o programa de reforma, o povo comum se reformará espontaneamente. Se eles se tornarem obstáculos, o povo geralmente não toma iniciativa alguma; e, mesmo que aceite a mensagem, sua influência desaparece rapidamente.

Segunda razão: os profetas e mensageiros não se entregam a vingança política ou econômica contra as classes distintas da sociedade, nem nutrem favoritismo injustificado pela classe oprimida. Nunca incitam as classes inferiores a travar luta de classes contra as superiores, nem procuram rebaixar estas e elevar aquelas. A missão com que vieram ao mundo não pode ser cumprida substituindo uma corrupção por outra corrupção ou um mal por outro mal. Ela só pode ser cumprida estabelecendo toda a sociedade sobre o temor de Allah, os vínculos de parentesco e o temor do Além.

Por isso, veem tanto as classes comuns quanto as especiais com igual amor e compaixão e trabalham igualmente para que ambas se libertem de suas próprias doenças e alcancem a saúde. Contudo, nesse esforço dão prioridade à reforma da classe especial, porque ela é normalmente a primeira a adoecer na sociedade e, pelo contato com ela, os demais também adoecem. Se ela for curada, será mais fácil curar os outros.

Em contrapartida, aqueles movidos por vingança econômica contra a classe superior seguem um método completamente oposto ao dos profetas. Lançam as pessoas comuns contra os capitalistas e provocam luta de classes. Como resultado, estabelecem, segundo sua concepção, uma ditadura das massas, apresentada como chave de todo bem e salvação. Na realidade, o resultado do derramamento de sangue é apenas o fim do domínio exclusivo dos antigos capitalistas e sua substituição pela ditadura de novos capitalistas. O monopólio da opressão, perseguição e injustiça, antes nas mãos de algumas antigas famílias ricas, passa às mãos de algumas novas famílias.

Se essa revolução traz algum benefício ao mundo, é somente o de apagar o fogo da vingança de um grupo e abrir caminho para que sejam expressos o desejo de praticar opressão e injustiça e de exibir força e poder, desejos anteriormente reprimidos, iniciando-se um novo jogo. Aqueles cujo horizonte se limita a esse tipo de reforma podem, sem dúvida, usar o povo como instrumento para alcançar seus próprios interesses.

Mas a revolução para a qual os profetas e mensageiros vieram não pode ser completada simplesmente substituindo os czares por Stalin e Lenin. Ela só pode ser completada eliminando, em grandes e pequenos, a tendência à opressão, à perseguição, à injustiça e à iniquidade. Por isso, tumultos e conflitos desse tipo são totalmente contrários ao seu objetivo.

Terceira razão: as pessoas que ocupam posições elevadas na nação geralmente também são superiores intelectualmente. É justamente essa superioridade intelectual que as coloca em posições de liderança. Portanto, uma mensagem cujo objetivo é produzir uma importante revolução intelectual e prática não pode ignorá-las. Se aceitarem uma concepção correta, poderão conduzir, com base nela, um sistema cada vez mais amplo. Nesse aspecto, têm valor especial. Eliminá-las não as prejudica apenas; prejudica a própria sociedade da qual foram eliminadas.

Quando são destruídas por uma revolução popular, toda a sociedade fica como leite desnatado. Depois que a sociedade se recupera da violência revolucionária e tenta elaborar um novo plano para reconstruir a vida, percebe sua própria falência. Então vê claramente que precisa de capacidade intelectual e teórica para a tarefa futura, mas perdeu completamente esse grupo qualificado.

Foi essa a situação criada depois da primeira fase da Revolução Russa. Quando a revolução terminou, os que chegaram ao poder não sabiam de modo algum como administrar o Estado com base em sua ideologia. Assim, não conseguiram administrar o poder conquistado em meio a fogo e sangue. Tiveram de confiá-lo àqueles de quem o haviam tomado. Esse grupo havia se curvado à nova doutrina, influenciado pelo clamor das massas, mas escondia no coração intenso ódio e hostilidade contra ela. Por isso utilizou o poder estatal de modo inteiramente hipócrita, e a primeira revolução socialista teve, em suas mãos, o destino habitual das revoluções conduzidas hipocritamente.

O método de pregação dos profetas é completamente livre desse erro. Eles apresentaram primeiro sua mensagem às comunidades talentosas. Quando as pessoas desse nível, além de sabedoria, possuíam bom caráter pessoal, a força da mensagem aumentava com seu apoio.خياركم في الجاهلية خياركم في الاسلام“Os melhores dentre vós na época da ignorância serão os melhores no Islã, quando adquirirem conhecimento da religião.”

Este hadith aponta para essa verdade. É uma bênção desse método de pregação que o Islã tenha recebido pessoas como Abu Bakr e ‘Umar — que Allah esteja satisfeito com ambos. Por um lado, graças a seus talentos, absorveram tão profundamente a essência viva da mensagem que se tornaram seus próprios intérpretes teóricos. Por outro, devido às suas elevadas qualidades morais e de caráter, possuíam força suficiente para estabelecer e administrar, com base nessa mensagem, uma sociedade completa, mostrando ao mundo que o Islã pretende realizar tudo isso na prática.

Quarta razão: as pessoas dessa classe também costumam ser superiores no aspecto material. Essa superioridade material, por si só, não é algo mau que deva necessariamente ser odiado. Ela só se torna má quando resulta em apoiar e fortalecer a falsidade. Se, em vez disso, se transforma em meio de ajudar, apoiar e fortalecer a verdade, então, assim como o esplendor de Salomão — que a paz esteja com ele — e o reino de Dhul-Qarnayn foram uma grande dádiva e bênção, toda superioridade material também é uma grande dádiva de Allah.

O Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — estava tão empenhado em transmitir a mensagem aos líderes coraixitas porque tinha diante dos olhos a possibilidade de que, se aceitassem a mensagem, os recursos materiais sob seu controle fossem espontaneamente empregados no auxílio e no apoio ao Islã. Assim, por um lado, uma grande força seria retirada das mãos da falsidade; por outro, essa força, passando para as mãos da religião da verdade, tornar-se-ia uma espada poderosa contra a falsidade.

Toda mensagem da verdade começa sem apoio nem recursos. Depois, gradualmente, apodera-se dos meios materiais de seu tempo, subordina as forças da invenção, da descoberta e do conhecimento e, quando surge a oportunidade, usa-as contra a falsidade. Os líderes de outros movimentos esperam isso, e os nobres profetas também o desejam. Porém, existe uma diferença entre o desejo deles e o dos outros. Para eles, os meios materiais nunca podem adquirir tanta importância que o objetivo fundamental se torne insignificante. Por isso, quando o desejo pelos recursos materiais ameaça ultrapassar os limites estabelecidos, Allah detém Seus profetas.

Ele ordena: “Não olheis para os bens mundanos dos incrédulos. Vossa mensagem traz consigo seu próprio sustento, seu veículo, sua segurança e os meios de seu desenvolvimento. Allah é o Protetor de vossa mensagem e da nossa.”وَلَا تَمُدَّنَّ عَيْنَيْكَ إِلَى مَا مَتَّعْنَا بِهِ أَزْوَاجًا مِنْهُمْ زَهْرَةَ الْحَيَاةِ الدُّنْيَا لِنَفْتِنَهُمْ فِيهِ وَرِزْقُ رَبِّكَ خَيْرٌ وَأَبْقَى وَأْمُرْ أَهْلَكَ بِالصَّلَاةِ وَاصْطَبِرْ عَلَيْهَا لَا نَسْأَلُكَ رِزْقًا نَحْنُ نَرْزُقُكَ وَالْعَاقِبَةُ لِلتَّقْوَى“Não fixes teus olhos no esplendor dos bens mundanos que concedemos a alguns grupos dos incrédulos, para testá-los com isso. O sustento de teu Senhor é melhor e mais duradouro. Ordena a teu povo que ore e persevera nisso. Não te pedimos sustento; Nós te sustentamos. E o bom fim pertence ao temor de Allah.” — (Surata Ta-Ha: 131–132)

Quinta razão: os nobres profetas — que a paz esteja com eles — vieram ao mundo para estabelecer um verdadeiro sistema de vida, fundamentado na adoração de Allah, na reflexão própria dos crentes, na crítica imparcial, na investigação e no princípio de realizar os assuntos por meio da consulta mútua — a shura. Não há lugar nele para o culto à personalidade. Por isso, naturalmente, eles primeiro procuram pessoas capazes de seguir suas ideias e decisões, em vez de seguir personalidades. Aqueles que não possuem essa qualidade não são aptos a tornar vitoriosa a missão dos profetas.

Pessoas com essa capacidade podem existir em qualquer classe social. Contudo, procura-se uma joia primeiro numa mina, não no lixo. Por isso, os profetas e mensageiros se dirigiam inicialmente à classe talentosa e não voltavam sua atenção para as outras enquanto não perdessem a esperança nela.

Em contrapartida, aqueles que desejam que se cultue sua personalidade em vez de princípios e objetivos sempre evitam a classe intelectual e conduzem seus movimentos entre as massas. Se possuem capacidade e força políticas, estabelecem sua ditadura. Se não possuem capacidade política, ou se possuem capacidade mas não a força necessária, permanecem como líderes comuns. Se são hábeis em fraude, hipocrisia e artifícios nos assuntos religiosos, estabelecem o comércio de mestre e discípulo. Essas pessoas temem a classe talentosa como o ladrão teme a luz do dia. Todo o seu jogo prospera melhor na escuridão; por isso preferem a escuridão.

Sexta razão: se um movimento é iniciado por meio das pessoas comuns, ignorando a camada talentosa da sociedade, os que o aceitam entre as massas tornam-se vítimas de dúvidas. Desenvolvem um complexo de inferioridade e, enquanto algumas pessoas das classes elevadas não seguirem o movimento, não adquirem a confiança necessária para se arriscar pela revolução.

A razão psicológica é clara: embora tenham aceitado o movimento de todo o coração, percebem ao mesmo tempo que as pessoas cuja superioridade intelectual e material sempre reconheceram não o aceitaram. Pensam que talvez isso seja uma falha dessas pessoas, mas às vezes imaginam que há alguma fraqueza na própria filosofia do movimento, visível para eles, mas não para as pessoas superiores. Essa indecisão torna-os totalmente inaptos para o movimento; mesmo aceitando-o, permanecem como se estivessem na fileira dos que o rejeitam.

O método dos nobres profetas é completamente livre desse defeito. Eles atacam primeiro as ideias e doutrinas daqueles sob cuja liderança funciona a ordem social. Depois de algum tempo de conflito, por um lado destroem as filosofias morais, políticas e metafísicas de seu tempo; por outro, depõem os que administram a sociedade e o Estado com base em filosofias falsas.

Nesse momento, as pessoas comuns permanecem imparciais e observam qual lado possui a verdade. Os pensadores conseguem compreender desde a primeira fase que a verdade está com os profetas e a aceitam. Os que não possuem discernimento agudo permanecem por algum tempo indecisos. Mas, quando o conflito entre a verdade e a falsidade chega ao ponto em que a falsidade recorre a instrumentos desprezíveis para se defender e provar que a verdade é falsa, a verdade também se torna inteiramente clara para eles, e eles se submetem a ela.

Esses dois grupos do povo comum podem estar um pouco à frente ou atrás na aceitação da verdade, mas ambos a aceitam com visão de longo alcance. Por isso, ficam protegidos do complexo de inferioridade que afetava o grupo mencionado anteriormente. A influência dos opositores da verdade desaparece completamente de seus corações. Eles percebem que esses opositores não possuem prova alguma para validar sua visão além de obstinação, teimosia e insistência. Sua fraude, egoísmo e artificialidade também se tornam evidentes. Assim, o respeito pela antiga liderança, influência e prestígio desaparece de seus corações.

Essa observação produz neles, em lugar de inferioridade, um sentimento de superioridade. Em vez de sofrerem dúvidas e medo por se oporem aos “grandes”, começam, ao ajudar a verdade, a sentir extraordinária honra e elevação. Isso os eleva tanto mental e moralmente que, ainda que sejam poucos, disponham de poucos recursos e suas espadas estejam gastas, quando colocados diante de grandes exércitos, conseguem derrotá-los.

Sétima razão: a sétima razão é que, para a permanência de qualquer mensagem, é essencial recrutar seus trabalhadores entre as pessoas talentosas e das classes elevadas. Se isso não for possível, a mensagem não alcançará estabilidade, e os adeptos da inovação logo abrirão nela uma brecha e destruirão toda a mensagem. [Há uma palavra ilegível no original, p. 57.]

Já foi mencionado que nenhum dos sábios e homens honrados dos filhos de Israel aceitou a mensagem de Jesus — que a paz esteja com ele. Ele conseguiu reunir apenas alguns seguidores das classes comuns. Não há dúvida quanto à sinceridade, devoção e cumprimento do dever desses seguidores. Eles fizeram todo o possível para propagar a mensagem. Apesar disso, São Paulo logo corrompeu a religião de Jesus. O principal instrumento que usou nessa corrupção foi a propaganda de que os seguidores de Jesus eram pessoas comuns e incultas, incapazes de compreender os segredos e o significado de seus ensinamentos.

Ele próprio era especialista em filosofia grega e misticismo. Afirmava compreender o significado dos ensinamentos do Messias melhor que seus seguidores diretos. Assim, sua influência encantou o povo, e sua propaganda tornou-se tão eficaz que não foi possível enfrentá-la; a religião de Jesus rapidamente assumiu uma forma completamente diferente.

Em contrapartida, entre os que aceitaram o Islã havia pessoas talentosas como Abu Bakr e ‘Umar. Por isso, os adeptos da inovação não conseguiram abrir tão facilmente uma brecha no Islã. Pode-se dizer que, apesar de milhares de revoluções, transformações e ataques extremos dos inovadores, a mensagem original do Islã permanece intacta até hoje.

Conclusão

Por essas razões, o método de pregação dos nobres profetas sempre foi convidar primeiro a comunidade talentosa. Onde é necessária uma reforma total, em vez de uma reforma parcial, esse método pode ser eficaz. Se um sistema islâmico já estiver estabelecido em algum lugar e surgir nele uma corrupção parcial, para corrigi-la deve-se dirigir-se às pessoas responsáveis especificamente por essa corrupção.

Mas onde não existe de modo algum um sistema islâmico e é necessária uma reforma completa, e não parcial, deve-se necessariamente apresentar a mensagem de modo geral, segundo o método dos profetas, convidando primeiro a classe intelectual e influente do país — quer pertença à nação muçulmana, quer a uma nação não muçulmana. Essa foi a primeira resposta à pergunta. Agora trataremos da segunda parte. 5

A maneira de os profetas se dirigirem às pessoas

É evidente que os profetas chegam numa época em que se torna impossível distinguir o verdadeiro do falso e a verdade da mentira sem a ajuda da revelação de Deus, e em que, na prática, todo o sistema de vida passa das mãos da verdade para as mãos da falsidade. Numa época assim, a verdade encontra-se somente com os profetas. Fora dos limites por eles determinados, pode-se encontrar alguma parte da verdade, mas a verdade completa não pode ser encontrada. Por isso, não poderia ser adequado nem coerente que os nobres profetas, desde o início, se dirigissem às pessoas dessa maneira. A realidade é que, fora do âmbito de sua missão, tudo é apenas incredulidade e idolatria. Porém, quem quer que leia a história dos profetas sabe que eles não se dirigiam assim às pessoas. Ao contrário, dirigiam-se a elas com expressões como: “Ó povo!”, “Ó gente!”, “Ó meu povo!”, “Ó comunidade dos detentores do Livro!”, “Ó comunidade judaica!”, “Ó comunidade dos cristãos!”, “Ó vós que credes!”, e semelhantes.
Os profetas e mensageiros mantinham esse modo de convocação enquanto as pessoas, por sua obstinação, teimosia e oposição à verdade, não os levassem a tal desespero que chegasse o momento de se separarem de sua comunidade ou de emigrar. Quando uma nação avançava tanto na oposição à verdade que já não estava de modo algum disposta a apoiar a existência dos seguidores da verdade em seu meio, e quando até as maiores provas dos defensores da verdade se tornavam inúteis diante de sua teimosia, então os profetas abandonavam suas respectivas nações. Era nesse momento que passavam claramente a empregar para elas termos como incrédulos, idólatras e semelhantes.

O exemplo de Abraão

Essa verdade já se manifesta na pregação de cada profeta; porém, quem conhece especialmente as diferentes etapas da pregação de Abraão — que a paz esteja sobre ele — e do Mensageiro de Deus — que Deus o abençoe e lhe conceda paz — não pode de modo algum negar essa verdade. Abraão dirigiu-se a seu pai, a seu povo e ao rei de sua época com determinadas palavras. Mas, quando já havia passado um período significativo de pregação e transmissão da mensagem, e quando a força total das provas e dos milagres não apenas se tornou ineficaz diante da teimosia do povo, mas passou a ser considerada uma ameaça, eles anunciaram sua ruptura com suas respectivas nações, usando palavras que deixavam claro que havia chegado ao fim o último limite possível de tolerância e indulgência para com a incredulidade e a idolatria de sua nação. Depois disso, também anunciaram seu ódio e sua inimizade para com os membros de suas respectivas nações. Esse conflito continuou até que eles cressem na Unicidade de Deus.قَدْ كَانَتْ لَكُمْ أُسْوَةٌ حَسَنَةٌ فِي إِبْرَاهِيمَ وَالَّذِينَ مَعَهُ إِذْ قَالُوا لِقَوْمِهِمْ إِنَّا بُرَآءُ مِنْكُمْ وَمِمَّا تَعْبُدُونَ مِنْ دُونِ اللَّهِ كَفَرْنَا بِكُمْ وَبَدَا بَيْنَنَا وَبَيْنَكُمُ الْعَدَاوَةُ وَالْبَغْضَاءُ أَبَدًا حَتَّى تُؤْمِنُوا بِاللَّهِ وَحْدَهُ“Há para vós um excelente exemplo em Abraão e nos que estavam com ele, quando disseram ao seu povo: ‘Estamos livres de vós e daquilo que adorais em vez de Deus. Rejeitamos-vos. Entre nós e vós foi declarada inimizade e ódio para sempre, até que creiais somente em Deus.’” — (Surata Al-Mumtahanah, 4)

O exemplo do Mensageiro de Deus

A situação da pregação do Profeta — que Deus o abençoe e lhe conceda paz — era exatamente assim. Não se encontrará, em nenhuma surata anterior ao período próximo da Hégira, prova de que ele tenha se dirigido abertamente a seu povo ou à comunidade dos Povos do Livro por meio de termos como incrédulos, idólatras ou hipócritas. Ele se dirigia a eles dizendo: “Ó humanidade!”, “Ó sociedade humana!”, “Ó povo!”, e assim por diante. Do mesmo modo, para os Povos do Livro eram usadas expressões como “Ó Povos do Livro” ou outras de significado equivalente. Até mesmo para os hipócritas, até depois da conquista de Meca, continuou a ser usada aquela expressão geral: “Ó vós que credes!”. Em lugar algum eles foram abertamente chamados: “Ó hipócritas!”.

Entretanto, quando, após um período específico de pregação e transmissão da mensagem, a prova final de Deus contra a nação se completou, e os que rejeitavam a religião não se limitaram a rejeitá-la, mas decidiram matar seu Profeta — que Deus o abençoe e lhe conceda paz —, ele emigrou e dirigiu-se aos incrédulos coraixitas claramente com a expressão “Ó incrédulos”, declarando sua ruptura com a religião deles. Foi às vésperas dessa Hégira que foi revelada a surata que contém não apenas o anúncio da ruptura com os coraixitas, mas também uma declaração de guerra:قُلْ يَا أَيُّهَا الْكَافِرُونَ (1) لَا أَعْبُدُ مَا تَعْبُدُونَ (2) وَلَا أَنْتُمْ عَابِدُونَ مَا أَعْبُدُ (3) وَلَا أَنَا عَابِدٌ مَا عَبَدْتُمْ (4) وَلَا أَنْتُمْ عَابِدُونَ مَا أَعْبُدُ (5) لَكُمْ دِينُكُمْ وَلِيَ دِينِ (6)
“Dize: ‘Ó incrédulos! Não adoro aquilo que adorais. E vós não adorais Aquele que adoro. Não estou disposto a adorar aquilo que adorais. E vós não adorais Aquele que adoro. Para vós, a vossa religião; e para mim, a minha religião.’” [As pessoas querem considerar a declaração final desta surata como uma declaração de liberalidade e tolerância. Mas isso é completamente errado. Na realidade, trata-se de uma declaração de ruptura e de guerra. Para mais detalhes, consulte-se o Tafsir da Surata Al-Kafirun, do Maulana Hamiduddin Farahi.

A diferença entre um incrédulo e uma pessoa envolvida em atos de incredulidade

Os nobres profetas adotavam todas essas precauções e cuidados apenas até o limite em que não demonstravam nenhuma indulgência ao declarar como incredulidade e idolatria as ações de caráter incrédulo e idólatra das pessoas. Se, por alguma razão, quisessem mostrar a menor flexibilidade nesse assunto, não lhes era concedida permissão para isso por parte de Deus, o Altíssimo. Mesmo em situações de intensa oposição, recebiam a orientação de que não deveriam temer perigo algum ao declarar que qualquer ato de incredulidade ou idolatria era incredulidade ou idolatria. Tampouco deveriam levar em consideração qualquer interesse social ou coletivo. A razão certamente não podia ser que eles — que Deus nos preserve — quisessem declarar as pessoas incrédulas e idólatras. Pelo contrário, abstinham-se disso apenas por receio de que surgisse uma perturbação desnecessária ou por medo de que as pessoas se afastassem do chamado à verdade. Se esse tipo de prudência lhes fosse permitido, poderiam aceitar as propostas de conciliação apresentadas pelos incrédulos e resolver facilmente todos os conflitos. Mas nenhum profeta jamais levou em consideração esse tipo de prudência em matéria de religião, por maior que fosse o perigo que tivesse de enfrentar por causa disso.

Por isso, é necessário refletir profundamente sobre esta questão: se eles eram tão destemidos e tão ousados ao declarar que a incredulidade e a idolatria eram incredulidade e idolatria, por que foram tão cautelosos ao chamar de incrédulas e idólatras as pessoas envolvidas em incredulidade e idolatria? E por que demoraram tanto para anunciar sua ruptura com elas?

Duas razões para essa diferença

Em nossa opinião, há duas razões extremamente importantes para que os nobres profetas — que a paz esteja sobre todos eles —, embora declarassem que os atos de incredulidade e idolatria eram incredulidade e idolatria, demorassem a chamar de incrédulas e idólatras as pessoas envolvidas nesses atos e a anunciar sua ruptura com elas.

Primeira razão: a primeira razão é que, perante Deus, a repreensão e a censura dirigidas aos servos só ocorrem depois que a prova final foi apresentada e a transmissão completa da mensagem foi realizada. Se fosse permitido deter as pessoas ou manifestar desagrado contra elas sem apresentar a prova final e sem transmitir a mensagem, Deus não teria enviado profetas. Por isso, antes de declarar as pessoas incrédulas e anunciar a ruptura com elas, os profetas precisavam dar-lhes oportunidade para que a prova de Deus contra elas se completasse, de modo que, para rejeitar a religião de Deus, não lhes restasse nenhuma razão além da teimosia e da obstinação.

Para completar a prova, é necessário divulgar e ensinar a religião durante um período específico. Durante a época em que os profetas não estão presentes, a escuridão do desvio que se espalha é tão profunda que nem mesmo as pessoas ilustres conseguem encontrar o caminho, quanto mais as pessoas comuns. Por isso, toda comunidade necessita de divulgação e formação. Como todos os tipos de desvio criam raízes no coração sob a forma dos costumes e tradições dos antepassados, e como os interesses de algumas pessoas também estão ligados a eles, torna-se necessário lutar e esforçar-se durante um período considerável para arrancá-los pela raiz. Os profetas e mensageiros empenham-se nessa luta durante longo tempo, com plena paciência. Por fim, a verdade torna-se tão clara que ninguém, exceto aqueles cujos interesses estão ligados à falsidade, consegue rejeitá-la. Quando a transmissão da mensagem se completa até esse ponto, torna-se lícito aos profetas afastarem-se dos que rejeitam a verdade, declarando abertamente sua incredulidade e idolatria.

Segunda razão: a segunda razão é que, quando toda a estrutura social continua estabelecida sobre os fundamentos da falsidade em vez da verdade, torna-se impossível até mesmo para aqueles que desejam seguir a verdade praticá-la. Nesse momento, a corrupção penetra em todos os aspectos da vida de tal maneira que nem mesmo uma pessoa consciente e vigilante consegue respirar sem engolir parte de seu veneno. Se, nessa situação, os profetas e mensageiros, sem considerar a delicadeza das circunstâncias, tivessem imposto às pessoas o veredito de incredulidade e idolatria e anunciado sua ruptura com elas, isso teria constituído uma extrema injustiça para muitas delas. Por essa razão, não iniciaram uma campanha de condenação por incredulidade nem anunciaram a ruptura com as pessoas. Em vez disso, por meio da pregação e dos pregadores, procuraram criar um ambiente favorável no qual os seguidores da verdade pudessem viver de acordo com seus princípios. Quando esse ambiente começa a se formar e se abre um caminho adequado à vida dos seguidores da verdade — ainda que estreito e difícil —, chega o momento de declarar a natureza incrédula dos atos daqueles que abandonam o caminho da verdade e avançam rapidamente pelo caminho da falsidade apenas em busca de satisfação pessoal, luxo, ostentação e uma mentalidade exibicionista.

No ambiente atual

Se quisermos obter orientação para o ambiente atual a partir desse excelente exemplo dos profetas, é evidente que o ambiente hoje existente no mundo inteiro se assemelha, sob muitos aspectos, ao período em que a sucessão dos profetas havia sido interrompida. Não há dúvida de que o Livro de Deus ainda está entre nós hoje, preservado exatamente como era. Por isso, o mundo atual não necessita de um novo profeta, nem necessitará de um novo profeta até o Dia da Ressurreição. Porém, o sistema aprovado pela nossa lei religiosa para orientar a criação e manter os muçulmanos firmes na verdade era o sistema do califado. Esse sistema desapareceu há muito tempo. Por isso, pode-se dizer que os habitantes do mundo estão hoje, em grande medida, incapacitados diante da corrupção e do desvio em que estão imersos.

Já explicamos detalhadamente, no capítulo “Defeitos nos métodos correntes de transmissão da mensagem” desta obra, que, depois do Mensageiro de Deus — que Deus o abençoe e lhe conceda paz —, Deus confiou aos muçulmanos a responsabilidade de apresentar definitivamente a prova diante do mundo até o Dia da Ressurreição. Deus também indicou o modo de cumprir essa responsabilidade: os muçulmanos estabelecerão o sistema do califado. Por um lado, ele convocará os habitantes do mundo ao bem e à prosperidade; por outro, manterá os muçulmanos firmes no caminho reto, ordenando o que é correto e proibindo o que é errado — o amr bil-ma’ruf e o nahy ‘an al-munkar.

Devido à ausência do sistema do califado, este mundo ficou aprisionado sob um sistema de falsidade. A falsidade espalhou-se por todos os aspectos e setores da vida com tamanha força e esplendor que, no sistema de vida atual, não restou lugar algum para a verdade. Os sistemas educacional, cultural, social, político e todos os demais setores afastaram-se da verdade e estão empenhados em ajudar e apoiar a falsidade. Mesmo que, sob esse sistema, alguma obra pequena ou grande seja realizada em nome do Islã, devido ao ambiente adverso da época atual, ela acaba ajudando a própria falsidade.

As pessoas piedosas que desejam sinceramente seguir o caminho da verdade hoje não conseguem avançar nem sequer alguns passos por esse caminho sem obstáculos. Se uma pessoa distante lhes concede espaço, ainda que por algum tempo, a pessoa próxima as envolve em problemas e não tolera de modo algum que avancem, de qualquer maneira, pelo caminho que escolheram.

O Messias — que a paz esteja sobre ele — disse: “O caminho do pecado é largo e são muitos os viajantes que o percorrem. Mas o caminho da virtude é estreito e são muito poucos os seus viajantes.”

Hoje se pode ver essa verdade com os próprios olhos. Para chegar ao destino da falsidade, há uma estrada larga e sem obstáculos. De ambos os lados há árvores densas que proporcionam sombra. Há também veículos velozes e guias para garantir a segurança. Em cada destino há abundância de luxo. Pode-se chegar ao destino seguro a qualquer momento que se deseje.

Por outro lado, no caminho da verdade, a pessoa encontra obstáculos já no primeiro passo. Mesmo que consiga removê-los com coragem, cada passo seguinte traz o risco de algum perigo. Do início ao fim da jornada, a cada passo encontrará perigos e nada além de perigos. Hoje, pouquíssimas pessoas têm a ousadia de pôr os pés nesse caminho levando consigo a própria cabeça. Nesta época delicada e confusa, não há motivo para espanto se as pessoas se desviarem do caminho da orientação e seguirem o caminho do erro. Se há algo surpreendente, é que elas merecem louvor em vez de censura e merecem ser acolhidas ao peito em vez de serem afastadas e lançadas para longe.

As pessoas que, apesar de uma situação tão adversa, mantiveram viva a luz de sua fé, teriam se tornado excelentes muçulmanas se tivessem encontrado um ambiente favorável. Por isso, em vez de declarar que estão privadas da fé e odiá-las com base em seus erros e enganos, ou no fato de se envolverem no desvio por ignorância ou por extrema necessidade, deve-se procurar despertar nelas consciência e sentimento quanto às verdadeiras exigências da fé e do Islã.
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A sequência da pregação do Din

Os nobres profetas, que a paz esteja com eles, seguiam uma sequência específica ao convocar as pessoas. Essa sequência baseava-se numa grande estratégia do trabalho de pregação. Quando essa ordem é invertida, desaparecem a estratégia e a sabedoria nela contidas. Já mencionamos isso anteriormente. Do mesmo modo, os profetas e mensageiros também observavam uma ordem específica ao apresentar às pessoas aquilo que lhes expunham. Essa sequência tem grande importância na divulgação da religião. Se ela for ignorada, todo o esforço poderá ser desperdiçado; mais ainda, há o risco de o objetivo da divulgação da religião ser prejudicado. Por isso, trataremos aqui da sequência que é absolutamente necessária ao apresentar às pessoas o chamado da religião.

O início do chamado dos profetas

Os profetas sempre surgem numa época em que o sistema da religião verdadeira se encontra completamente desorganizado e um sistema de jahiliyyah assume o controle de toda a sociedade. Por isso, eles primeiro elevam o chamado aos princípios fundamentais sobre os quais se constrói uma sociedade islâmica pura. Esses princípios fundamentais são três:

1. Fé em Allah, com pleno monoteísmo.
2. Fé na Risalah, com plena obediência.
3. Fé na Última Vida, com plena responsabilidade.

Essas três coisas — quando se corrompem, a sociedade começa a se encaminhar para a jahiliyyah. Quando a corrupção se espalha amplamente entre elas, a escuridão da jahiliyyah cobre toda a sociedade. Por outro lado, à medida que essas três coisas se tornam claras, a sociedade começa a avançar em direção ao Islã; e, quando se manifestam plenamente, a sociedade entra na luz completa da religião. A crença nessas três coisas está tão profundamente arraigada na natureza humana que raramente foi negada no mundo. Porém, como Shaytan sabe muito bem que o verdadeiro sistema de vida se fundamenta nessas três coisas, ele se esforça continuamente para criar nelas, de qualquer maneira, alguma brecha. Assim, o fato é que, tal como essas três coisas raramente foram negadas, também raramente foram aceitas de modo correto, devido aos esforços destrutivos de Shaytan. No campo da aqidah e da crença, o mundo nunca as rejeitou completamente, mas também nunca as aceitou corretamente. Pelo contrário, na maioria dos casos, a aceitação vem acompanhada de rejeição. Foi para libertar as pessoas dessa situação que Allah, o Altíssimo, enviou profetas e mensageiros em todas as épocas.

Um problema no caminho do chamado

A mistura entre a verdade e a falsidade torna difícil e demorado o trabalho de الدعوة e reforma. Se fosse necessário enfrentar apenas a falsidade, ela poderia ser facilmente derrotada. Mas, quando a verdade e a falsidade estão misturadas e a verdade é usada como escudo em favor da falsidade, os que convocam para a verdade precisam travar uma grande batalha antes de tomar qualquer medida eficaz em apoio à verdade. O objetivo dessa jihad é provar às pessoas que, se no sistema vigente ainda existe alguma parcela de verdade, ela não está a serviço da verdade, mas sim a serviço da falsidade. Os profetas e mensageiros, bem como aqueles que convocam o mundo para a religião verdadeira, geralmente precisam lutar contra pessoas de crenças corrompidas que estabelecem um sistema novo e diferente, conciliando a religião de Allah com os desejos de seus próprios egos, e depois o apresentam como se fosse o sistema antigo. Como essas pessoas usam a religião de Allah como escudo para proteger a própria falsidade, não é possível atacá-las diretamente com plena liberdade. Pelo contrário, é preciso separar gradualmente a parte da verdade da parte da falsidade presente em suas crenças e ações. E, como cada elemento de falsidade se acumula sob a aparência de verdade, a separação se torna tão difícil que eles constroem uma fortaleza em torno de cada um desses elementos. Enquanto não perdem a esperança de defendê-los, não estão dispostos a abandoná-los.

Esse trabalho exige muito tempo. Ele requer visão de longo alcance, extrema paciência e profundo discernimento. Quando alguém supõe que a rejeição dessas pessoas está ligada à aceitação, naturalmente trata a falsidade com indulgência. Mas, por causa dessa indulgência, quem se beneficia não é a verdade, e sim a falsidade.

Duas coisas a considerar na educação e formação

Como resultado desse conflito, as pessoas que se comprometem sinceramente a se unir à verdade pura e romper sua relação com a falsidade tornam-se uma jama‘ah. Os profetas e mensageiros ensinavam primeiro a essas pessoas aquilo que, por um lado, estabelecia da melhor maneira sua relação com Allah e, por outro, as unia como uma parede solidamente fundida. Os princípios para ligar corretamente o servo a Allah derivam dos três princípios mencionados acima. Para aqueles que aceitaram esses três princípios fundamentais, não é difícil aceitar suas implicações. Depois de aceitar um princípio fundamental, uma pessoa religiosa não pode se recusar a aceitar sua consequência inevitável. Pois, na realidade, depois de descrever resumidamente o assunto principal, pode-se apresentar uma explicação ampla de seus elementos indispensáveis. Como as pessoas haviam aceitado o assunto principal, os profetas poderiam supor que elas aceitariam facilmente seus elementos indispensáveis; contudo, não lançavam esses elementos diante delas de maneira aleatória. Em vez disso, adotavam uma sequência racional. O sucesso de sua missão estava justamente nessa atividade ordenada. Ao organizar os níveis dessa sequência, levavam em consideração duas coisas: (1) a capacidade mental e intelectual da jama‘ah; (2) a força coletiva da jama‘ah. Essas duas coisas exigem certa reflexão.

Capacidade mental e intelectual

Por capacidade mental e intelectual queremos dizer que existe uma cadeia, ou ligação, entre as instruções e os ensinamentos da religião. (Aqui não se compreende uma palavra. Última palavra da última linha da página 68.) Existem princípios fundamentais; deles derivam alguns princípios preliminares; com base neles formam-se os ensinamentos básicos; e, depois, deles surgem os ramos e subdivisões secundários. A pessoa que aprende a religião seguindo essa sequência desenvolve, em cada nível, a capacidade necessária para o nível seguinte; ao mesmo tempo, consegue compreender todo o sistema nele contido. Um exemplo completo disso é que primeiro se ensinam a uma criança as vogais e as consoantes; depois, ensina-se a formar palavras com elas; em seguida, a ler palavras e frases; e, por fim, apresenta-se diante dela uma exposição completa. Como ela seguiu gradualmente uma cadeia desde as letras até a frase, em cada nível assimilou naturalmente a capacidade necessária para o nível seguinte, e nada se tornou um peso para sua natureza. Como cada capacidade exige uma atividade, ela sente naturalmente, em sua própria disposição, um impulso para passar de um nível ao outro.

Por outro lado, há uma pessoa que não recebeu a religião dessa maneira; suas diferentes partes foram colocadas diante dela sem dificuldades aparentes, mas sem qualquer sequência. Ela pode ser comparada a uma criança diante da qual foi deixada uma frase pronta, sem que tivesse passado pelos níveis iniciais. Talvez consiga repeti-la e até memorizá-la com a ajuda da memória. Mas isso permanecerá para sempre como um peso sobre sua memória e jamais poderá tornar-se parte de sua capacidade natural.

Os nobres profetas, que a paz esteja com eles, nunca adotaram esse método ao apresentar a religião. Pelo contrário, seguiam uma sequência natural e racional. Assim, quem aceitava a religião fazia-o pelo impulso de sua própria natureza. Toda a religião se instalava profundamente em seu pensamento, consciência, coração e espírito. É por meio desse processo que se produz no indivíduo uma fé firme, que não se separa do coração mesmo depois de ser cortada e dividida por uma serra. Por meio desse processo, continua sendo cultivado o sabor da taqwa, que não está disposto a tolerar, nem nos cantos mais remotos das múltiplas atividades da vida, qualquer coisa contrária ao espírito da religião.

Aqueles que não querem compreender esse sistema da religião e a beleza do método de الدعوة dos profetas desejam tornar as pessoas disciplinadas não apenas nas orações obrigatórias, mas também nas orações de Tahajjud, Ishraq e outras, antes de lhes ensinar o conhecimento de Allah. Antes de criar a crença na necessidade do profeta e na obediência a ele, ficam medindo o comprimento e a largura das barbas, dos bigodes e das roupas das pessoas. Antes de produzir uma fé firme na Última Vida, querem ver nas pessoas a beleza da taqwa, do temor de Allah, da sinceridade, da cortesia, da humildade e da gentileza. Como resultado de seus esforços invertidos, a barba cresce até um comprimento excessivo, a calça chega ao seu limite inferior, e talvez surja uma pobreza artificial em cada aspecto do andar, do sentar, do levantar e da fala; no comer e beber e em todos os assuntos, talvez a pessoa se torne exteriormente seguidora da Sunnah. Mas, como essas coisas são produzidas de maneira irracional e antinatural, a característica dessa taqwa ostensiva não passa de: “Escolhem-se as moscas e jogam-se fora, mas engole-se o camelo.”

Os que possuem esse tipo de taqwa não observam se o bocado de comida que desce por sua garganta é puro e lícito ou se foi obtido a serviço do Taghut. No entanto, depois de engolirem esse bocado de comida haram, dão uma importância imensa a beber água com a mão direita, em vez de usar a esquerda. A visão religiosa dessas pessoas é que, se a intenção de alguém estiver correta, ele pode agradar a Allah e elevar a bandeira do Islã mesmo ocupando, sob um sistema falso, cargos como inspetor de polícia, administrador distrital ou membro do parlamento. Entre esses supostos muttaqin também se encontrará alguém orgulhoso de sua sorte por ter encontrado para a filha um noivo religioso cuja calça nunca fica abaixo das panturrilhas e que é discípulo de certo hazrat. Mas nunca considera que o meio adotado pelo genro para ganhar a vida é algo que nenhum muçulmano dotado de sensibilidade de fé poderia sequer imaginar.

A causa fundamental dessa falência é que, durante muito tempo, não surgiu entre os muçulmanos nenhum chamado que apresentasse toda a religião com seu método ordenado e esclarecesse às pessoas, em cada nível, a parte da religião que precisava ser apresentada, juntamente com suas consequências inevitáveis. Pelo contrário, os que iniciaram algum trabalho de الدعوة, por não perceberem a necessidade fundamental e por não conhecerem o sistema da religião, começaram de onde quiseram. E, mesmo quando havia algum sentimento religioso, ele era tão contraditório e sem vida que, longe de poder servir de base para um chamado correto, talvez nem fosse possível iniciar um chamado correto mantendo-o como estava.

Capacidade organizacional

Consideremos também a força coletiva que os nobres profetas levavam em conta ao apresentar a religião. Ao refletir sobre as instruções da religião, percebe-se que elas são de dois tipos: (1) instruções individuais; (2) instruções coletivas. As instruções individuais destinam-se às pessoas e devem ser cumpridas por cada indivíduo em seu âmbito pessoal, como a oração, o jejum e gastar no caminho de Allah. As instruções coletivas relacionam-se à jama‘ah. Quando a jama‘ah passa a existir, cumprir essas instruções torna-se obrigatório para ela, como as leis relacionadas à sociedade, à política e à jihad.

Ao convocar para as instruções individuais e ensiná-las, é preciso considerar a capacidade de compreensão e assimilação da pessoa. Não é correto fazer chover sobre ela ordens e proibições. Caso contrário, ela poderá ficar assustada e abandonar tudo. Também é extremamente difícil avaliar se ela tem capacidade para suportar o peso das instruções do segundo tipo que está sendo colocado sobre seus ombros. Os profetas, que a paz esteja com eles, recebiam diretamente de Allah a orientação sobre esse assunto, pois os mandamentos e proibições eram revelados levando em conta a capacidade de compreensão da coletividade. Aqueles que desejam conduzir uma jama‘ah segundo o método dos profetas, porém, precisam agir nesse assunto inteiramente por meio de ijtihad. Enquanto não avaliarem plenamente as etapas da revelação das instruções da religião, as circunstâncias especiais de seu próprio tempo e a diferença entre a jama‘ah de um profeta e a jama‘ah de alguém que não é profeta, seus passos jamais poderão seguir o caminho correto. Há sempre o temor de que a organização que lideram se choque contra algum rochedo e seja despedaçada antes de alcançar a margem.

Aqueles que desconhecem esse assunto imaginam, ao ver todo o Alcorão Sagrado diante de si, que ele inteiro foi revelado num único dia e que todas as suas ordens e proibições deveriam entrar em vigor ao mesmo tempo. Assim, de um lado continuam pregando o Tawhid e, de outro, tentam implementar o sistema judicial islâmico. Começam a explicar o kufr e o Taghut e, ao mesmo tempo, enviam um ultimato ao Taghut. Esses fatos deixam claro que os muçulmanos não têm consciência alguma do grau de avaliação correta da força e capacidade totais da organização necessário antes de agir num movimento surgido para substituir o sistema jahiliyyah de uma região pelo sistema islâmico, nem dos danos que podem resultar do menor erro nessa avaliação.

Não é necessário explicar detalhadamente aqui que, no Alcorão Sagrado, as instruções relacionadas à sociedade e à política foram reveladas somente quando o Estado Islâmico já estava efetivamente estabelecido. Na revelação dessas instruções há um equilíbrio perfeito de gradualidade. Somente quando a força numérica dos muçulmanos atingiu o nível necessário para construir uma sociedade independente e eles obtiveram um território soberano independente para alcançar esse objetivo é que receberam a instrução final de romper as relações com o sistema de kufr. Com base nisso, pode-se dizer que, atualmente, quando os muçulmanos forem capazes de administrar um sistema social e econômico independente, também poderão tornar-se aplicáveis as instruções para romper qualquer tipo de relação social com o sistema de kufr. Depois, quando os muçulmanos alcançarem força invencível e estiverem em condições de estabelecer e fazer cumprir a lei de Allah na terra de Allah, serão apresentados a eles os regulamentos islâmicos relacionados à política internacional.

Assim como a capacidade mental e intelectual de um estudante, a força material e a capacidade de uma organização também crescem gradualmente. Aqueles que lideram essa organização devem medir sua força e capacidade com uma mente extremamente vigilante. Se algum peso for lançado sobre a organização sem uma avaliação correta, o resultado será que toda a força que ela criou ao longo de muito tempo será completamente destruída. Foi para essa verdade que Hazrat Aishah, que Allah esteja satisfeito com ela, apontou.Árabe*****“A primeira coisa que foi revelada no Alcorão foi uma surata mufassal na qual havia menção ao Paraíso e ao Inferno. Depois, quando as pessoas ingressaram nos limites do Islã, foram reveladas as regras do lícito e do ilícito. Mas, se no início tivesse sido revelada a ordem: ‘Não bebam vinho’, as pessoas teriam dito: ‘Jamais abandonaremos o vinho’. Se tivesse sido revelado: ‘Não cometam adultério’, certamente teriam dito: ‘Jamais abandonaremos o adultério’.” — (Bukhari, Fada’il al-Qur’an, capítulo: Compilação e organização do Alcorão.)

7.

O método da da‘wah

Em certos círculos religiosos, sabe Deus de onde se espalhou a ideia de que o método ideal da tabligh e o método seguido pelos profetas consiste em sair para pregar a religião levando um bastão na mão e alguns grãos-de-bico na bolsa. Não se deve usar sapatos nos pés nem boné na cabeça. Deve-se andar de aldeia em aldeia e, sempre que se encontrar alguém, começar a fazer tabligh diante dele, queira ele ouvir ou não. Ao passar por uma cidade, se forem encontrados dois, três ou quatro homens reunidos em algum lugar ou numa encruzilhada, deve-se começar a fazer sermão e exortação diante deles. Nos vagões dos trens, nas estações, nos mercados, nas ruas—onde quer que se veja uma multidão—deve-se começar a pregar. Deve-se entrar em qualquer reunião, ocupar um lugar em cada conferência e subir a qualquer plataforma; as pessoas, perseguidas por eles, ficarão apavoradas, mas eles, como exércitos de Deus, montarão sobre o pescoço de cada uma delas. As pessoas se esconderão por medo de suas perguntas e respostas; às vezes, irritadas, agirão com insolência e maus modos, mas eles continuarão seu trabalho com fervor e agitação. Onde houver uma roda de sermões, farão um sermão. Onde houver interesse em recitar um milad, recitarão o milad. Onde surgir necessidade de travar uma guerra de debates com os opositores, entrarão nessa guerra de debates.

Esta é a verdadeira maneira da tabligh; esta é a visão de um muballigh sincero, visão que existe na mente e no coração de muitos de nossos religiosos. Eles não negam que os métodos atuais, desenvolvidos e científicos, de tabligh e ensino tenham alguma superioridade; contudo, segundo eles, o método cheio de bem e bênçãos é aquele que, conforme sua imaginação, os profetas e mensageiros adotaram.

Em nossa opinião, o fato de considerarem esse método como o método dos profetas deve-se, em parte, à sua ignorância sobre os métodos dos profetas e, em parte, ao desejo de provar que o método por eles adotado—método para o qual não têm capacidade de substituir por outro—é nobre e sagrado. Pelo que estudamos sobre o método de tabligh dos profetas, chegamos à conclusão de que o método adotado pelos profetas e mensageiros era, para a época deles, extremamente desenvolvido e o melhor possível. Esse método também foi mudando conforme mudavam as circunstâncias e avançava a civilização. Isso prova que não é correto permanecer rigidamente preso a um único método nesse assunto. Pelo contrário, deve-se adotar o método da verdade que tenha sido descoberto em cada época e por meio do qual seja possível tornar mais produtivos o esforço e a capacidade de cada um.

O método da da’wah também se desenvolveu com o progresso do conhecimento e da ciência

O ponto mais importante é que os profetas honrados não dependeram de um único método de da’wah. À medida que o conhecimento e a ciência avançavam no mundo, seus métodos de pregação e educação também se modificavam. No estágio inicial da civilização, quando as técnicas de leitura e escrita ainda não existiam, a pregação e a educação dos profetas eram feitas oralmente. Eles ensinavam às pessoas, de boca em boca, alguns princípios fundamentais de piedade e veracidade, e elas os memorizavam. Esses ensinamentos chegavam aos seus seguidores, geração após geração, em forma de relatos. Finalmente, quando se apagavam com o passar do tempo ou se misturavam com outras coisas, Deus Altíssimo enviava um profeta, que vinha e tornava esses ensinamentos vivos novamente, de modo totalmente renovado. Enquanto as técnicas de escrita não haviam sido inventadas, a tabligh dependia apenas da assistência pessoal, da expressão oral, da transmissão e da memória dos ouvintes. Mas, quando as pessoas conseguiram inventar a escrita e foi descoberto um método melhor para transmitir algo aos outros e preservá-lo entre eles, os profetas também adotaram esse método. Assim, o profeta Moisés, que a paz esteja com ele, em vez de ensinar oralmente, escrevia os mandamentos da Torá em tábuas para os membros de seu povo. Da mesma maneira, os árabes receberam os ensinamentos da religião por escrito, com o auxílio da pena. Deus Altíssimo, mencionando essa graça, afirmou que eles foram ensinados por meio da escrita, em vez de apenas oralmente. Esse é um método desenvolvido e seguro de educação. A palavra do Alcorão Sagrado:اقْرَأْ وَرَبُّكَ الْأَكْرَمُ الَّذِي عَلَّمَ بِالْقَلَمِ عَلَّمَ الْإِنْسَانَ مَا لَمْ يَعْلَمْ
“Lê! E teu Senhor é o Mais Generoso, que ensinou pela pena. Ensinou ao ser humano aquilo que ele não sabia.” (Surata Al-‘Alaq: 3-5)

Este versículo deixa claro que é uma graça especial de Deus Altíssimo ter ensinado ao ser humano a maneira de usar a pena e ter transformado esse método desenvolvido em meio de divulgação e educação religiosa. Por isso, eles receberam o maior dos favores de Deus Altíssimo: o Alcorão. Em vários lugares, o Alcorão também indica a superioridade do método de ensino baseado na pena e nos livros em relação ao método oral. Não é este o lugar para uma longa discussão sobre isso. O que queremos destacar aqui é que o método de tabligh instituído pelos profetas não é imóvel, sem vida ou sem movimento. Ao contrário, ele também continua mudando e desenvolvendo-se junto com o progresso mental e intelectual da humanidade. Com o avanço da ciência e da civilização, aumentaram também os meios e instrumentos de trabalho das pessoas e os meios de adquirir conhecimento. Os que convocam para a verdade são os primeiros e os mais dignos de beneficiar-se disso. A prática dos profetas aponta nessa direção. Por exemplo, no mundo atual o rádio, a televisão, o cinema, a imprensa e outros meios elevaram a capacidade humana de divulgação, propaganda e educação de um nível a outro. Uma mensagem de qualquer tamanho pode ser transmitida de uma extremidade do mundo à outra em poucos minutos. Em poucos dias, pessoas conscientes de todo o mundo podem ser informadas sobre qualquer grande movimento. Até uma mensagem extremamente difícil pode ser explicada com facilidade a todos, comuns ou especiais. Nesta época, os seguidores do falso utilizam esses meios e instrumentos para espalhar à vontade seus falsos ideais por todo o mundo. As descobertas atuais da ciência reduziram enormemente as distâncias. As montanhas intransponíveis e os mares que separavam duas nações já não constituem obstáculo significativo. Até ontem, um professor só podia falar como quisesse aos alunos presentes diante dele; hoje, se desejar, pode fazer sua voz ser ouvida por todas as pessoas do mundo ao mesmo tempo. Aquilo que até ontem não podia ser assimilado mesmo após meses de ensino pode hoje, com o auxílio de equipamentos científicos modernos, ser explicado facilmente, de poucas em poucas horas, a todos os habitantes de uma cidade, comuns ou especiais.

Por isso, hoje é absolutamente necessário obter esses meios e instrumentos para a divulgação da verdade. Se os seguidores da verdade ignorarem esses meios, pensando que os profetas não os utilizaram para divulgar a religião de Deus, mas foram pessoalmente a cada indivíduo e levaram-lhe a da’wah, e que, portanto, o melhor para nós é também não tocar sequer nessas coisas, mas ir de casa em casa dando a da’wah—caso contrário não estaremos seguindo o método de tabligh dos profetas—isso é uma enorme fraude e engano de Satanás. Ele armou essa trama para os que convocam à religião. Enquanto alguém, seguindo seu método supostamente religioso, conseguir levar sua mensagem a apenas duas pessoas, os seguidores do falso, utilizando os meios científicos, levarão sua própria falsidade a milhares, centenas de milhares e até milhões de pessoas, de maneira extremamente influente. Com esse tipo de engano, Satanás prejudicou os esforços e as capacidades da maioria dos seguidores da verdade e manteve a balança mais pesada a seu favor. Por fim, eles ficaram para trás em todos os campos da vida, enquanto Satanás avançou e passou a liderar as nações. Já não resta qualquer relação entre os esforços dos dois grupos. Essa situação continuará enquanto os seguidores da verdade não aprenderem a utilizar essa enorme força a serviço da verdade. Hoje, essa força está completamente nas mãos das forças satânicas e empregada a serviço da falsidade.

Também se deve utilizar o progresso social no trabalho da da’wah

Assim como o método da da’wah deve ser extremamente elevado e desenvolvido do ponto de vista científico, para que se possa enfrentar a falsidade com toda a força, também é necessário aproveitar o progresso alcançado no modo de vida nos aspectos social e coletivo, a fim de tornar a da’wah plenamente eficaz segundo os padrões da época. Para isso, é indispensável viver em harmonia na sociedade, conviver, trocar opiniões, expor a própria opinião aos outros e ouvir a opinião alheia. Se o método já existente de realizar uma tarefa coletivamente não contiver nenhum mal moral ou jurídico-religioso, os seguidores da verdade também devem participar dele e utilizá-lo na divulgação da verdade. Na época do Mensageiro de Deus, que as bênçãos e a paz de Deus estejam sobre ele, entre os métodos praticados na sociedade, ele aproveitou para a da’wah aqueles que eram adequados a esse trabalho. Quando, no início, quis informar sobre seu objetivo os líderes de sua família, que eram também os líderes do povo, adotou o método de ordenar a Ali que organizasse um banquete e convidasse todo o clã dos Muttalib. Ali cumpriu a ordem. Todos os membros do clã dos Muttalib reuniram-se. Hamza, Abu Talib e Abbas participaram do banquete. Quando terminaram de comer, o Profeta, que as bênçãos e a paz de Deus estejam sobre ele, levantou-se e fez um discurso. Seu resumo era: “Trouxe-vos algo que é a chave da felicidade tanto nesta vida quanto na vida futura.” Ao final do discurso, perguntou aos presentes: “Quem dentre vós está pronto para ser meu companheiro no carregamento deste pesado fardo?” Todos permaneceram em silêncio. Depois de esperar algum tempo, Ali levantou-se de um canto e disse com emoção: “Embora meus olhos doam, embora eu seja fraco e embora seja o mais jovem de todos, ainda assim serei eu o teu companheiro.”

Além desse método, o Mensageiro de Deus, que as bênçãos e a paz de Deus estejam sobre ele, também adotou outros métodos comuns úteis para a tabligh. Por exemplo, para apresentar a da’wah aos líderes de Meca e Taife, ele próprio ia encontrar-se com eles. Durante a temporada do hajj, encontrava-se com os chefes das tribos que armavam tendas nos arredores de Meca e convidava-os ao Islã. Enviava representantes a pessoas importantes de diferentes regiões. Havia no território árabe algumas feiras sazonais, frequentadas por pessoas de vários níveis. Elas não eram apenas centros de compra e venda, comércio e diversão; também se realizavam nelas feiras de conhecimento, ciência e literatura. O Mensageiro de Deus também comparecia a essas feiras e criava oportunidades para apresentar a da’wah da religião às pessoas. Ele convidou muitas pessoas também por meio de cartas.

Em suma, entre os métodos inventados naquela época para aproximar as pessoas de algo ou aproximar-se delas, o Profeta, que as bênçãos e a paz de Deus estejam sobre ele, utilizava plenamente na da’wah todos os que não continham defeito moral. As pessoas de cada época conhecem os métodos desenvolvidos na vida social e cultural de seu tempo. Por isso, para trabalhar e relacionar-se com as pessoas, é necessário adotar métodos compatíveis com sua disposição. Deve-se encontrá-las da maneira como desejam encontrar-se. Deve-se tentar falar-lhes da maneira como desejam ouvir. Deve-se aceitar o método de trabalho que as pessoas consideram eficaz.

Se alguém se abstiver de adotar esses métodos apenas porque são contrários ao seu gosto, porque não tem capacidade para empregá-los ou porque os antepassados não os adotaram e, portanto, em sua opinião, não são métodos ideais, o resultado inevitável será o fracasso de sua atividade de pregação. Por mais nobre e puro que seja o objetivo, isso não poderá salvar sua pregação desse desfecho lamentável. Se hoje alguém for a um país da Europa ou da América levando a mensagem da religião, será necessário que adote os meios e métodos correntes na vida social e cultural daquele lugar, para ampliar seu contato com as pessoas e difundir entre elas suas ideias. Se não puder ou não quiser fazer isso, mas insistir em andar pelas ruas ensinando às pessoas a profissão de fé e a oração, por mais sincero que seja, destruirá todos os seus esforços por causa dessa atitude irracional, e a honra da profissão de fé e da oração também será humilhada.

Nesse caso, o convocador da verdade deve apenas tomar o cuidado de não adotar, entre os métodos reconhecidos e correntes de sua época, aqueles que contenham algum defeito moral. Se, por alguma necessidade especial, for indispensável utilizar um método defeituoso, deve primeiro purificá-lo do defeito moral e só então adotá-lo. No início, o Profeta, que as bênçãos e a paz de Deus estejam sobre ele, subiu ao topo do monte Safa e chamou as pessoas, a fim de despertar sua comunidade da desatenção e da indiferença e atraí-la para sua mensagem. Na Arábia pagã, a forma original desse chamado era que, para expressar a gravidade do perigo, o arauto tirava todas as roupas e ficava completamente nu. Na terminologia árabe, isso era chamado de “nazir al-uryan” (o advertidor nu). O Mensageiro de Deus adotou o método do advertidor nu para despertar as pessoas; porém, como ficar nu era extrema indecência e falta de caráter, ele purificou esse método do defeito mencionado. Desse exemplo podemos concluir que, se houver algum aspecto negativo nos métodos coletivos e de reunião desenvolvidos na época atual para a divulgação, não é necessário rejeitá-los de uma vez. O que se deve fazer é purificar esses métodos de seus defeitos e utilizá-los para alcançar o objetivo da verdade.أَمَّا مَنِ اسْتَغْنَى فَأَنْتَ لَهُ تَصَدَّى وَمَا عَلَيْكَ أَلَّا يَزَّكَّى وَأَمَّا مَنْ جَاءَكَ يَسْعَى وَهُوَ يَخْشَى فَأَنْتَ عَنْهُ تَلَهَّى كَلَّا إِنَّهَا تَذْكِرَةٌ فَمَنْ شَاءَ ذَكَرَهُ فِي صُحُفٍ مُكَرَّمَةٍ مَرْفُوعَةٍ مُطَهَّرَةٍ بِأَيْدِي سَفَرَةٍ كِرَامٍ بَرَرَةٍ
“Tu te ocupaste daquele que se mostra autossuficiente, embora não tenhas responsabilidade se ele não se purificar. Mas aquele que vem a ti com interesse e teme a Deus, tu o negligencias. Nunca! Isto é apenas uma exortação; quem quiser, que a aceite. Ela está registrada em folhas honradas, elevadas e purificadas, nas mãos de escribas nobres e virtuosos.” (Surata ‘Abasa: 5-16)

Nunca é permitido que o convocador, tomado pelo fervor da tabligh, entre em qualquer reunião e repreenda as pessoas, insistindo em expor sua mensagem, tenham ou não os ouvintes qualquer atenção. Não deve perseguir todo viajante que encontrar e abandoná-lo apenas depois de conseguir fazer-lhe ouvir algo ou ouvi-lo. Foi narrado por Ibn Abbas, que Deus esteja satisfeito com ele, que:
(Árabe****************)
“Não quero ver-te passando por um grupo enquanto seus membros estão ocupados com alguma tarefa e, nessa situação, começando a fazer-lhes teu sermão. Ao contrário, deves permanecer calado. Quando eles te derem oportunidade de falar, então apresenta-lhes tua mensagem; assim, ouvirão tuas palavras com interesse.” (Bukhari)

Também é absolutamente necessário evitar qualquer método que faça com que a questão da da’wah se torne um fardo para as pessoas e as leve a afastar-se dela.
(Árabe***********************)
“Relatado por Shaqiq, um tabi’i. Ele disse: Abdullah ibn Mas’ud, que Deus esteja satisfeito com ele, costumava fazer sermões e exortações às pessoas todas as quintas-feiras. Um homem lhe disse: ‘Ó Abu Abdur-Rahman, eu gostaria que fizesses sermões para nós todos os dias.’ Abdullah respondeu: ‘O que me impede de fazer isso é que não gosto de causar-vos aborrecimento. Por isso, faço sermões para vós apenas de vez em quando, assim como o Mensageiro de Deus, que as bênçãos e a paz de Deus estejam sobre ele, fazia sermões para nós apenas de vez em quando, por medo de nos entediar.’” (Bukhari e Muslim)

Métodos contrários ao objetivo devem ser abandonados

O convocador da verdade nunca deve adotar um método que, por sua própria natureza, seja totalmente contrário ao objetivo e à finalidade da da’wah. Um exemplo é a guerra de debates. Embora durante bastante tempo esse método tenha sido considerado o mais eficaz para a da’wah e a tabligh, e nossos autores tenham escrito livros sobre o assunto por causa de sua importância, livros que chegaram a ser incluídos nos currículos de nossas madrassas árabes, nenhum outro método tem relação tão distante quanto este com a essência do movimento da verdade. Não há dúvida de que Deus Altíssimo permitiu o debate no Alcorão Sagrado. Contudo, é completamente errado entender que os termos mujádala e muhájja mencionados no Alcorão significam o tipo de “debate” ensinado em nossas instituições religiosas e praticado durante todo o dia por nossos pregadores e debatedores. Como nossos especialistas em argumentação usam essas duas palavras corânicas como prova a favor de suas guerras de debate, tentaremos explicar brevemente seu significado com a ajuda do próprio Alcorão. Assim ficará clara a diferença entre a mujádala e a muhájja dos profetas e mensageiros e a guerra de debates atualmente praticada.

O tipo de debate permitido pelo Alcorão

O Alcorão Sagrado menciona dois tipos de mujádala, ou debate: a mujádala de maneira falsa e a mujádala da melhor maneira. No debate falso, o Alcorão relaciona esse comportamento aos descrentes e aos inimigos do Islã. As características que descreve são praticamente as mesmas observadas nos debates geralmente praticados hoje: insistir na própria opinião sem prova racional e pressionar o outro para que a aceite; misturar o assunto principal com questões irrelevantes; desperdiçar tempo em discussões tortuosas e inúteis; não ouvir o argumento do oponente nem permitir que outros o ouçam; e a conversa vazia e a gritaria improdutiva que, em geral, fazem parte das características dos debatedores atuais. O Alcorão Sagrado mencionou tudo isso como característica do debate falso e ordenou severamente aos seguidores da verdade que se mantivessem afastados dele. Só lhes permitiu debater da melhor maneira. Explicou essa melhor maneira tanto do ponto de vista intelectual quanto prático, para que todos pudessem compreendê-la bem.

O método intelectual desse debate, segundo o Alcorão, é que, em vez de entrar em guerra com a pessoa a quem se dirige, deve-se esforçar para apresentar detalhadamente aquilo em que há concordância e afinidade entre ela e o pregador e que ela não se recusa a aceitar. Assim, ela terá interesse em ouvir a mensagem do pregador. Depois, deve-se apresentar diante dela a conclusão que necessariamente decorre dos princípios que ela própria reconhece. Desse modo, estará pronta para aceitar essa conclusão como se fosse sua própria ideia, e não surgirá nela a reação de rejeitá-la por considerá-la uma exigência do adversário. O próprio Alcorão apresentou o melhor exemplo disso.وَلَا تُجَادِلُوا أَهْلَ الْكِتَابِ إِلَّا بِالَّتِي هِيَ أَحْسَنُ إِلَّا الَّذِينَ ظَلَمُوا مِنْهُمْ وَقُولُوا آمَنَّا بِالَّذِي أُنْزِلَ إِلَيْنَا وَأُنْزِلَ إِلَيْكُمْ وَإِلَهُنَا وَإِلَهُكُمْ وَاحِدٌ وَنَحْنُ لَهُ مُسْلِمُونَ
“E não debatais com o Povo do Livro, salvo da maneira mais nobre, exceto com aqueles dentre eles que cometem injustiça. E dizei: ‘Cremos no que foi revelado a nós e no que foi revelado a vós. Nosso Deus e vosso Deus é um só, e a Ele somos submissos.’”

Este versículo declara, em primeiro lugar, que não há necessidade de conversar com pessoas de natureza vil e perturbadora, acostumadas apenas a brigar e que não têm qualquer interesse em compreender ou aceitar a verdade. Mas é necessário conversar e dialogar com aqueles que buscam a verdade. O método é começar discutindo os princípios reconhecidos por eles e por nós.

De acordo com esse princípio, a da’wah do tawhid deve ser apresentada ao Povo do Livro de modo a deixar claro o seguinte: se o tawhid é reconhecido como princípio fundamental tanto pelos crentes, os muçulmanos, quanto pelo Povo do Livro, por que deveria haver divergência entre eles quanto às suas consequências e exigências? Se o Povo do Livro aceita esse princípio, deve também aceitar seu resultado inevitável. O Alcorão Sagrado diz:قُلْ يَا أَهْلَ الْكِتَابِ تَعَالَوْا إِلَى كَلِمَةٍ سَوَاءٍ بَيْنَنَا وَبَيْنَكُمْ أَلَّا نَعْبُدَ إِلَّا اللَّهَ وَلَا نُشْرِكَ بِهِ شَيْئًا وَلَا يَتَّخِذَ بَعْضُنَا بَعْضًا أَرْبَابًا مِنْ دُونِ اللَّهِ فَإِنْ تَوَلَّوْا فَقُولُوا اشْهَدُوا بِأَنَّا مُسْلِمُونَ
“Dize: ‘Ó Povo do Livro! Vinde a uma palavra comum entre nós e vós: que não adoremos senão a Deus, que não associemos nada a Ele e que nenhum de nós tome outros como senhores além de Deus. Se eles se afastarem, dizei: “Testemunhai que somos muçulmanos”—que nos submetemos exclusivamente à adoração e à obediência a Deus.’” (Surata Al ‘Imran: 64)

Ao refletir sobre o exemplo prático de debate que o Alcorão Sagrado apresentou e elogiou, compreende-se que mujádala, ou debate, consiste essencialmente em conquistar o oponente para a própria mensagem por meio de amor, confiança, bom caráter e argumentos excelentes. No fim, influenciado pela sinceridade, imparcialidade e dedicação do convocador da verdade, o oponente estará pronto para refletir sobre a veracidade de sua mensagem e aceitá-la.

O Alcorão Sagrado apresentou vários exemplos desse tipo de debate. Se os descrevêssemos todos, a discussão ficaria longa. Como exemplo, mencionaremos aqui apenas um episódio. Ele deixará claro que tipo de expressão afetuosa e concentração foi explicado e elogiado pelo termo mujádala, ou debate.

Ao elogiar a mujádala que o profeta Abraão, que a paz esteja com ele, fez com Deus Altíssimo a respeito do povo de Lot, o Alcorão Sagrado afirmou que essa mujádala foi resultado da sincera compaixão, ternura e sofrimento de Abraão. Vejamos agora em detalhes como foi o debate de Abraão elogiado pelo Alcorão. O Alcorão apenas o elogiou, sem apresentar sua descrição detalhada. Por isso, recolhemos os detalhes do Livro da Torá. Segundo a narrativa da Torá, Abraão falou da seguinte maneira com os anjos que haviam chegado para executar a punição sobre o povo de Lot:

“Então Abraão aproximou-se e disse: ‘Destruirás o justo com o perverso? Talvez haja cinquenta justos nesta cidade. Destruirás também o lugar e não o pouparás por causa dos cinquenta justos que nele se encontram? Longe de ti fazer tal coisa: matar o justo com o perverso, tratando o justo e o perverso da mesma maneira. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?’ Deus respondeu: ‘Se eu encontrar cinquenta justos na cidade de Sodoma, pouparei todo o lugar por causa deles.’ Então Abraão disse: ‘Eis que me atrevi a falar com Deus, embora eu seja apenas um servo insignificante. Talvez faltem cinco para chegar a cinquenta justos. Destruirás toda a cidade por causa desses cinco?’ Ele respondeu: ‘Se eu encontrar ali quarenta e cinco, não a destruirei.’ Abraão tornou a falar: ‘E se houver ali quarenta?’ O anjo respondeu: ‘Mesmo que se encontrem quarenta, não a destruirei. Tampouco destruirei a cidade se forem encontrados trinta justos.’ Abraão disse novamente: ‘Atrevi-me a falar com Deus. Talvez se encontrem ali vinte justos.’ O anjo respondeu: ‘Também não destruirei a cidade por causa dos vinte.’ Abraão disse: ‘Se Deus não se irritar, falarei mais uma vez. Talvez se encontrem ali dez justos.’ O anjo respondeu: ‘Não a destruirei por causa desses dez.’ Quando Deus terminou de falar com Abraão, os anjos partiram, e Abraão voltou para casa.” (Gênesis, capítulo 18, versículos 23-33)

Esse modo de conversar, essa forma de dirigir-se ao interlocutor, esse método de apresentar argumentos e essa expressão cheia de afeto são precisamente aquilo que o Alcorão explicou por meio do termo mujádala, ou debate. O Alcorão elogiou esse tipo de mujádala. Se as pessoas quiserem usar essa mujádala como prova da legitimidade de suas guerras de debate, terão de criar em seus debates a força vital que existia nessa mujádala e apresentar sua mensagem ao oponente com a mesma beleza, amor, ternura e compaixão. Travar conflitos, confrontos e guerras em nome da mujádala, chamar isso de debate e buscar na vida dos profetas provas de sua legitimidade é algo inadmissível.

Da mesma forma, o Alcorão Sagrado menciona outro debate de Abraão e o expressa por meio do termo muhájja. Nesse debate, Abraão disse a um rei tirano de sua época: “Meu Senhor é Aquele que dá a morte e dá a vida.” O rei respondeu: “Eu também dou a morte e dou a vida.” Então Abraão disse: “Meu Senhor faz o sol nascer do Oriente; faze-o nascer do Ocidente, se és capaz.”

Se esse debate fosse avaliado segundo os princípios da ciência dos debates atuais, ensinados em nossos livros sobre argumentação, Abraão não seria considerado um debatedor muito competente. Pois poderia ter exigido muitas coisas para provar a afirmação do rei: “Eu também dou a morte e dou a vida.” Mas não o fez. No entanto, para um debatedor, aquela era a oportunidade perfeita de construir uma linha de defesa. Ele fez justamente o oposto dos princípios da guerra de debates de um argumentador profissional: considerou adequado recuar. Assim que percebeu que aquele homem estava empenhado em criar discussão e usar artimanhas verbais, encerrou o assunto com uma frase decisiva e afastou-se rapidamente. Esse episódio prova que, se o convocador da verdade perceber que a pessoa a quem se dirige não consegue ouvir nem compreender, mas deseja apenas criar oposição e debate, não há necessidade de persegui-la. Pelo contrário, deve resumir a conversa e retirar-se.
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A linguagem do convite e a forma de expressão dos que convocam para a verdade

Agora discutiremos a linguagem da da‘wah e o estilo de expressão dos profetas. O objetivo de um pregador não é simplesmente revelar uma verdade, mas manifestá-la plenamente, de modo que pessoas instruídas possam compreendê-la bem e que nenhuma dificuldade permaneça para que as pessoas comuns também a assimilem. Além disso, a verdade deve ser apresentada da maneira mais bela, para que aqueles entre os ouvintes que ainda possuam alguma capacidade de aceitá-la possam acolhê-la, e para que, diante dos que a rejeitam, além de sua perversidade e obstinação, não reste nenhuma outra justificativa para recusá-la. Uma exigência essencial desse objetivo é que a linguagem da da‘wah seja extremamente influente e que o estilo do pregador seja natural e cativante. Contudo, existem muitos métodos artificiais e contrários à natureza para criar atração e impacto. Por meio deles, pode-se conferir à fala uma aparência de atração e cativação. Por exemplo, os adivinhos da Arábia da Jāhiliyyah tentavam tornar suas palavras atraentes por meio de poesia rimada. Os oradores aumentavam a força e o impacto de seus discursos por meio da construção elaborada das frases e de discursos inflamados.

De modo semelhante, também na época atual os oradores tentam causar impacto em suas falas com poemas e histórias. Jornalistas e políticos enganadores conduzem seus negócios por meio de mentiras e exageros. Médicos que vivem apenas de placas aumentam sua credibilidade por meio de falsos juramentos. Essas coisas realmente produzem certo impacto na fala, mas isso não passa de um revestimento artificial. Por isso, aqueles que se levantam no mundo para difundir a verdade jamais podem adotar como método o embelezamento de sua da‘wah com a ajuda de mentiras moldadas à aparência da verdade. Tampouco podem macular sua língua e suas palavras com esse tipo de falsidade. Em vez dessas coisas falsas e artificiais, adotam outros meios para alcançar seu objetivo. Esses meios não são apenas lícitos e corretos; também estão profundamente de acordo com a natureza humana. Por isso, o impacto produzido por eles não se confirma de uma só vez, como a falsidade e a artificialidade. Ao contrário, depois de ser aquecido no cadinho das provações, seu brilho aparece ainda mais radiante.

A natureza do trabalho do pregador

O trabalho da da‘wah não pode ser realizado apenas por meio de uma forma de expressão e de um discurso adequados a discussões acadêmicas e formais. Isso é tão evidente que não precisa ser explicado. O trabalho do pregador da verdade é completamente diferente do trabalho do historiador que narra acontecimentos, do jurista que expõe os artigos da lei e do filósofo ou matemático que apresenta os princípios da filosofia e da matemática. Seu objeto é tão amplo que abrange toda a vida humana; por outro lado, aqueles a quem ele apresenta a da‘wah diferem uns dos outros em temperamento e natureza. Também existem diferenças entre eles nos aspectos psicológico e intelectual. Além disso, a relação do pregador da verdade com a missão da religião não é como a relação do autor com um artigo de seminário, nem como a relação do advogado com um processo. Em vez disso, ele negocia a própria vida e morte por essa missão. Precisa colocar a vida em risco para levar a missão à sua etapa final. Não pode contentar-se com palavras desse tipo; deve expressar com clareza e beleza aquilo que deseja dizer, para que nenhum aspecto permaneça obscuro. Deve apresentar sua mensagem de modo tão influente e cativante que ela penetre no coração de qualquer pessoa que possua sequer uma pequena capacidade de ouvir o chamado da verdade. Por isso, com esse sentimento, o nobre Moisés, que a paz esteja sobre ele, fez a seguinte súplica a Allah:قَالَ رَبِّ اشْرَحْ لِي صَدْرِي(25)وَيَسِّرْ لِي أَمْرِي(26)وَاحْلُلْ عُقْدَةً مِنْ لِسَانِي(27)يَفْقَهُوا قَوْلِي
“Ó meu Senhor! Expande o meu peito, facilita a minha tarefa e desfaz o nó da minha língua, para que compreendam bem as minhas palavras.” — (Surata Tā-Hā, 25–28)

Depois, ele suplicou pelo nobre Aarão, que a paz esteja sobre ele, pedindo que também fosse associado à sua tarefa, para que, por meio de sua eloquência, pudesse corrigir as deficiências de sua mensagem e impedir que a tarefa da da‘wah que lhe fora confiada permanecesse incompleta.

Características das palavras dos pregadores da verdade

Aqui discutiremos brevemente as características das palavras dos profetas, mensageiros e trabalhadores do movimento islâmico. São essas características que tornam suas falas influentes. Em nenhuma época as palavras dos trabalhadores do movimento islâmico podem estar desprovidas delas. Depois da elevada conduta dos profetas e de seus ensinamentos imaculados, são essas características, mais do que qualquer outra coisa, que tornam as palavras dos pregadores da verdade mais influentes.

Primeira característica: em todos os tempos e épocas, a primeira característica das palavras dos profetas, mensageiros e demais pregadores sempre foi apresentar a mensagem da religião na língua do povo diante do qual a transmitiam, para que a prova definitiva de Allah se completasse contra cada comunidade e cada classe de pessoas.وَمَا أَرْسَلْنَا مِنْ رَسُولٍ إِلَّا بِلِسَانِ قَوْمِهِ لِيُبَيِّنَ لَهُمْ
“Cada vez que enviamos um mensageiro, ele transmitiu a mensagem na língua de seu próprio povo, para que pudesse explicá-la claramente a eles.” — (Surata Ibrāhīm, 4)

O verdadeiro campo da da‘wah do pregador da verdade deve ser sua própria nação. Isso é natural e racional. Não lhe convém deixar seu próprio povo no desvio e viajar por terra e mar para guiar outro povo. Portanto, o pregador da verdade deve fazer da língua de sua própria nação o meio de apresentar a da‘wah entre ela. Esse é o método natural e razoável. Quem se opõe a esse método viola o direito daqueles que têm direito à verdade e destrói sua própria capacidade de atuação. Terá de prestar contas disso diante de Allah. Uma pessoa consegue trabalhar entre o povo no qual nasceu com uma beleza que não consegue alcançar entre outro povo. Sua da‘wah pode ser muito mais forte e influente em sua própria língua do que em outra. Por isso, o método correto para cada trabalhador do movimento islâmico é fazer da língua de sua própria nação o meio de sua da‘wah e de seu tablīgh.

Por mais desenvolvida e ampla que seja a língua de outro povo em comparação com a sua, por mais que falar ou escrever nessa língua possa fazer suas opiniões chegarem a um número maior de pessoas e possa ser um meio de obter mais honra e fama, ele não deve dar a isso a menor atenção. A primeira preocupação do pregador da verdade não deve ser descobrir como fazer a da‘wah que trouxe alcançar o maior número possível de ouvidos. Deve, antes de tudo, procurar o meio mais eficaz e próximo de penetrar no coração daqueles que Allah e a natureza lhe confiaram para guiar e servir. Mesmo que esse meio seja estreito e limitado, e ainda que seu uso prejudique sua posição e reputação, ele não deve se importar com isso. Pelo contrário, deve escolhê-lo, pois é o meio de alcançar o objetivo que tem diante de si.

O agricultor que possui apenas algumas sementes em sua bolsa e deseja semeá-las em seu pequeno pedaço de terra não deve invejar os grandes proprietários de terras. Deve concentrar sua atenção no pequeno pedaço que lhe coube. O nobre Jesus Cristo, que a paz esteja sobre ele, disse: “A quantidade de pão que tenho é suficiente apenas para as crianças. Não posso lançá-lo diante dos cães e deixar as crianças com fome.” Algumas pessoas, por ignorância, levantaram objeções contra essa afirmação do nobre Jesus e — que Allah nos livre — acusaram-no de visão estreita. Entretanto, o que ele disse é inteiramente realista.

Cada pessoa possui um campo natural de atuação. Enquanto limitar todos os seus esforços a esse campo, será capaz de realizar um trabalho correto e produtivo. Se tentar ultrapassá-lo e estender braços e pernas em todas as direções, talvez imagine erroneamente que seu campo de prática se tornou muito mais amplo do que antes. Na realidade, porém, estará desperdiçando sua força e seu trabalho.

Segunda característica: a segunda característica das palavras dos profetas, mensageiros e pregadores da verdade é que sua mensagem é clara. Uma mensagem clara significa que o pregador apresenta suas palavras na linguagem falada corrente de seu tempo, de modo que elas possam chegar a cada pessoa de sua comunidade. Sua linguagem é extremamente refinada, limpa e bela. Não é obscura nem excessivamente concisa. Não se prolonga sem necessidade, não fica sobrecarregada de linguagem metafórica nem contém excesso de comparações. Não possui metáforas em quantidade que lance a razão em complicações, não está repleta de palavras difíceis e desconhecidas e é completamente livre de expressões desagradáveis e repugnantes.

Em vez disso, emprega linguagem fluente, comparações simples e fáceis, metáforas e exemplos que apresentam indiretamente verdades reais. Além disso, em suas palavras há sinceridade em lugar de ira, gentileza em lugar de dureza e simplicidade e clareza em lugar de ornamentos artificiais. Entre os diversos estilos correntes em sua época, o pregador adota somente aquele que é mais adequado e elevado para transmitir solenidade, influência e o objetivo da mensagem. Sua personalidade elevada, seu entusiasmo e concentração no trabalho da da‘wah, o conhecimento que produz fé e autoconfiança e seu sincero desejo de apresentar bem suas palavras aperfeiçoam tanto esse método que ele acaba criando um novo estilo próprio. Esse estilo passa a servir como modelo e exemplo a ser seguido.

A principal característica desse método é sua concentração e sua capacidade de ser assimilado. Além disso, por causa de seu dinamismo, concentração e dedicação, desenvolve-se nele tal senso de beleza literária que, diante dele, até as palavras de escritores famosos parecem completamente sem vida. De cada palavra goteja doçura, e em cada frase encontra-se alimento para a alma. Sob sua influência, não apenas a vida de algumas pessoas, mas o curso da vida de toda uma nação se transforma. Nas mãos do pregador da verdade, isso é uma força que nem mesmo um exército equipado consegue enfrentar.

Foi por isso que os profetas e mensageiros suplicaram a Allah por uma forma adequada de apresentar suas palavras. Mas é assustador observar a situação oprimida da da‘wah da religião em nosso país: aqueles que aqui poderiam cumprir essa obrigação — isto é, a comunidade dos estudiosos — sempre foram difamados por suas expressões tortuosas. Primeiro, a língua que havia recebido o status de “língua nacional” passou a ser considerada pelos estudiosos uma língua na qual eram incapazes de escrever e falar. Segundo, embora tenham começado a escrever e falar nessa língua, ela se transformou em um idioma particular deles. Por ser difícil, árida e excessivamente concisa, essa linguagem não é fácil de compreender. A ponto de bastar dizer, para criar uma impressão desfavorável sobre um livro, que seu estilo de exposição é inteiramente “mullaviano”. Essa situação era extremamente desagradável. Mais lamentável ainda é que os estudiosos colheram apenas má reputação por causa dessa linguagem difícil, enquanto aqueles que não tinham relação com a religião ou eram contrários a ela se apoderaram da “língua da nação”. E, até hoje, aparentemente, continuam dominando-a.

Terceira característica: a terceira característica das palavras dos profetas e dos demais pregadores é que eles se aproximam do mesmo objetivo por caminhos diferentes. Na terminologia do Alcorão Sagrado, isso é explicado como “diversificação dos versículos”, isto é, tentar fazer com que aquele a quem a mensagem da religião é apresentada compreenda por diferentes meios e de diferentes maneiras.

Nas palavras do falecido Mīr Anīs:

“Descrevo uma única flor
em cem palavras.”

A presença dessa variedade nas palavras do pregador é absolutamente necessária para alcançar seu verdadeiro objetivo: fazer a mensagem ser assimilada e estabelecer a prova definitiva. Aquilo que não é compreendido de uma maneira, quando apresentado de outra, fixa-se tão profundamente na mente que parece ser o próprio pensamento daquele a quem a da‘wah é dirigida.

Assim como os gostos e as inclinações da natureza humana são variados, também variam a capacidade mental e intelectual das pessoas. Sua perspectiva muda conforme a diversidade dos ambientes e das circunstâncias. Quem deseja fixar no coração daquele a quem prega uma determinada orientação para a vida deve apresentar-lhe a da‘wah de diferentes ângulos, levando em conta a diversidade de sua capacidade intelectual e as mudanças de sua perspectiva. Se vier ao encontro da pessoa-alvo sempre pelo mesmo caminho e com a mesma aparência, fracassará completamente em seu objetivo como pregador. Isso porque uma política unilateral é totalmente contrária à natureza humana, que é continuamente mutável e multifacetada.

Quem não conhece a natureza da responsabilidade do pregador nem essa condição da natureza humana, ao ouvir uma mensagem de da‘wah franze a testa e começa a comentar: “O discurso foi prolongado sem necessidade; a mesma coisa foi repetida; é extremamente tedioso, cansativo”, e assim por diante. Não considera que o trabalho de um pregador é completamente diferente do trabalho de um simples autor de ensaios. A atenção do ensaísta está voltada apenas para expor sua opinião diante de algumas pessoas. O pregador da verdade, por outro lado, precisa ter o cuidado de apresentar sua mensagem a pessoas de temperamentos, naturezas e capacidades muito variados. Para o sucesso de um ensaísta, basta que ele consiga apresentar sua opinião de maneira muito bela. Já para o sucesso do pregador da verdade é necessário que amigos e inimigos, juntos, testemunhem: “Você cumpriu o dever de transmitir a da‘wah.”وَكَذَلِكَ نُصَرِّفُ الْآيَاتِ وَلِيَقُولُوا دَرَسْتَ وَلِنُبَيِّنَهُ لِقَوْمٍ يَعْلَمُونَ
“Assim explicamos os sinais de diversas maneiras, para que compreendam bem e digam: ‘Tu estudaste’; e para que o expliquemos claramente às pessoas que possuem conhecimento.” — (Surata al-An‘ām, 105)

Quarta característica: a quarta característica das palavras dos pregadores da verdade é que, assim como sua mensagem é rica em provas irrefutáveis, também é cheia de emoção e entusiasmo. Eles não se dirigem apenas ao intelecto, como os filósofos áridos, mas também apelam às emoções elevadas do ser humano. Apelar às emoções não é algo mau. Se há algo prejudicial, é apelar às emoções animalescas do ser humano. Os defensores da verdade sempre se abstiveram disso.

A verdadeira força que provoca movimento nas pessoas não é o conhecimento, mas a emoção. Por isso, qualquer pregador da verdade que se levante para convidar à mudança de um sistema de vida, ou que queira reformá-lo completamente e estabelecê-lo sobre novos fundamentos, não pode avançar sequer um passo em direção ao seu objetivo sem despertar as emoções humanas.

Aquele que fez do objetivo de sua vida descrever a excelência e a beleza de suas pesquisas acadêmicas para entusiasmar os outros e obter satisfação pessoal considera esse tom próprio de um pregador como um tom de alguém que faz reivindicações. Entretanto, o fervor e o entusiasmo encontrados nas palavras de um pregador não são resultado de uma reivindicação. São fruto de sua fé inabalável, que se agita em seu coração, ou do efeito da compaixão e da concentração cuja chama ardente brilha em seu peito.

Quem desconhece a condição especial de um pregador e, por estar ocupado apenas com papel e caneta, considera isso uma profissão comum, quando percebe que seu discurso não é inanimado como o do ensaísta, mas vivo e vivificante, relaciona sua emoção ao próprio orgulho e às suas pretensões. Essa concepção, porém, está errada. Apesar da semelhança exterior, a natureza e o temperamento podem ser diferentes. Nem todo objeto branco é necessariamente gordura. Há uma tradição sobre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz:(Árabe******************)
“Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazia um sermão, seus olhos ficavam vermelhos, sua voz se tornava grave e sua emoção e agitação aumentavam. Parecia até advertir sobre o iminente ataque de um exército inimigo, como se dissesse: ‘Eles cairão sobre vocês pela manhã ou ao entardecer.’” — (Muslim, Livro da Sexta-feira)

É evidente que esse calor em suas palavras surgia de sua autoconfiança e de sua emoção compassiva para com a nação. Na realidade, uma condição semelhante pode manifestar-se em todo pregador. Não há dúvida de que algumas pessoas podem exibir emoção e entusiasmo de maneira inteiramente artificial. Às vezes podem até proferir palavras tolas e delírios sem sentido. Mas isso não significa que todos sejam assim. Os mentirosos não conseguem esconder suas mentiras por muito tempo. O curso do tempo acaba distinguindo o genuíno do falso. Por quanto tempo o corvo poderá esconder sua verdadeira identidade, fazendo-se passar por pavão com penas artificiais?

Quinta característica: a quinta característica das palavras dos pregadores da verdade é que, embora suas palavras assumam cores diversas, há unidade de propósito. Eles lançam cada flecha de sua aljava contra o mesmo alvo. Sua condição não é como a dos escritores e oradores profissionais, a quem se pode pedir, quando se quiser, que discursem em qualquer plataforma, escrevam um ensaio sobre qualquer tema ou presidam qualquer reunião. Em cada texto e discurso deles se ouve o mesmo eco. Por mais atraente que seja outro assunto, por maior que seja a honra e a fama que possam obter discursando ou escrevendo sobre ele, e ainda que aparentemente contenha algum aspecto de interesse religioso ou nacional, eles não desperdiçam a força de sua boca e de sua pena com temas irrelevantes ou secundários. No Alcorão Sagrado, isso é explicado como:(Árabe*****************)(“vagueiam confusos por todos os vales” — Surata al-Shu‘arā’, 225), e os profetas, mensageiros e pessoas virtuosas foram declarados livres disso. Toda a história do mundo testemunha que, quando uma revolução, boa ou má, ocorreu neste mundo, ela foi realizada pela pena e pela palavra daqueles que empregaram toda a sua força em um objetivo específico. Eles jamais lançaram flechas ao vazio sem um propósito.

Sexta característica: a sexta característica das palavras dos profetas, mensageiros e pregadores da verdade era que mantinham suas palavras livres de tudo aquilo que pudesse provocar obstinação e espírito de oposição no ouvinte, pois isso é totalmente contrário ao seu objetivo. Por exemplo, ao conversar com a pessoa visada, não exibiam sua própria superioridade nem faziam críticas desenfreadas para humilhar o sistema de vida equivocado do adversário. Ao contrário, tudo o que diziam era dito com gentileza e compaixão.اذْهَبَا إِلَى فِرْعَوْنَ إِنَّهُ طَغَى(43)فَقُولَا لَهُ قَوْلًا لَيِّنًا لَعَلَّهُ يَتَذَكَّرُ أَوْ يَخْشَى
“Ide ambos até o Faraó, pois ele se tornou arrogante e rebelde. Falai com ele de maneira suave; talvez aceite o conselho ou tema.” — (Surata Tā-Hā, 44–53)

Da mesma forma, não deixavam sair de sua boca palavras que pudessem ferir o sentimento religioso daquele a quem pregavam. Contestavam vigorosamente suas ideias equivocadas por meio de argumentos e provas, mas não prejudicavam com as próprias mãos seu objetivo usando palavras desnecessariamente grosseiras.وَلَا تَسُبُّوا الَّذِينَ يَدْعُونَ مِنْ دُونِ اللَّهِ فَيَسُبُّوا اللَّهَ عَدْوًا بِغَيْرِ عِلْمٍ
“Ó crentes, não insulteis aqueles que eles invocam além de Allah, para que, por ignorância e hostilidade, não insultem Allah.” — (Surata al-An‘ām, 108)

Eles respondiam ao comportamento rude e à linguagem áspera da pessoa interpelada com palavras doces, pois esse é o caminho pelo qual o pregador da verdade penetra no coração daquele a quem se dirige.وَلَا تَسْتَوِي الْحَسَنَةُ وَلَا السَّيِّئَةُ ادْفَعْ بِالَّتِي هِيَ أَحْسَنُ فَإِذَا الَّذِي بَيْنَكَ وَبَيْنَهُ عَدَاوَةٌ كَأَنَّهُ وَلِيٌّ حَمِيمٌ () وَمَا يُلَقَّاهَا إِلَّا الَّذِينَ صَبَرُوا وَمَا يُلَقَّاهَا إِلَّا ذُو حَظٍّ عَظِيمٍ () وَإِمَّا يَنْزَغَنَّكَ مِنَ الشَّيْطَانِ نَزْغٌ فَاسْتَعِذْ بِاللَّهِ إِنَّهُ هُوَ السَّمِيعُ الْعَلِيمُ
“O bem e o mal não são iguais. Repele o mal com aquilo que é melhor, e verás que aquele entre ti e quem havia inimizade se tornará como um amigo íntimo. Mas isso não é concedido senão aos que são pacientes, e não é concedido senão a quem possui uma grande parte de virtude. Se fores atingido por uma provocação de Satanás, busca refúgio em Allah. Ele é o Oniouvinte, o Onisciente.” — (Surata Fussilat, 34–36)

Eles sempre se mantinham afastados de disputas. Mesmo quando suspeitavam que a pessoa interpelada queria envolver-se em uma discussão, o pregador da verdade dizia “a paz esteja convosco” e se retirava. Isso porque existe incompatibilidade entre a disputa e a da‘wah da verdade.فَلَا يُنَازِعُنَّكَ فِي الْأَمْرِ وَادْعُ إِلَى رَبِّكَ إِنَّكَ لَعَلَى هُدًى مُسْتَقِيمٍ(67)وَإِنْ جَادَلُوكَ فَقُلِ اللَّهُ أَعْلَمُ بِمَا تَعْمَلُونَ(68)اللَّهُ يَحْكُمُ بَيْنَكُمْ يَوْمَ الْقِيَامَةِ فِيمَا كُنْتُمْ فِيهِ تَخْتَلِفُونَ
“Que eles não discutam contigo sobre esse assunto. Convoca para o teu Senhor; certamente estás sobre um caminho reto. Se discutirem contigo, dize: ‘Allah sabe melhor o que fazeis.’ Allah julgará entre vós, no Dia da Ressurreição, acerca daquilo em que divergíeis.” — (Surata al-Hajj, 67–69)

Se alguma vez entravam em discussão, faziam-no da melhor e mais elegante maneira: procuravam os pontos em que eles e a pessoa interpelada concordavam e, a partir deles, convidavam-na para a consequência inevitável dessa concordância.فَلَا يُنَازِعُنَّكَ فِي الْأَمْرِ وَادْعُ إِلَى رَبِّكَ إِنَّكَ لَعَلَى هُدًى مُسْتَقِيمٍ(67)وَإِنْ جَادَلُوكَ فَقُلِ اللَّهُ أَعْلَمُ بِمَا تَعْمَلُونَ(68)اللَّهُ يَحْكُمُ بَيْنَكُمْ يَوْمَ الْقِيَامَةِ فِيمَا كُنْتُمْ فِيهِ تَخْتَلِفُونَ
“E não disputeis com o Povo do Livro, senão da melhor maneira, exceto com aqueles que são injustos entre eles. Dizei: ‘Cremos no que nos foi revelado e no que vos foi revelado. Nosso Deus e vosso Deus é um só, e a Ele somos submissos.’” — (Surata al-‘Ankabūt, 46)

Sétima característica: a característica das palavras do pregador da verdade é que ele fala levando em consideração a mentalidade do ouvinte quanto à extensão ou brevidade das palavras e dos significados, bem como à forma de expressão. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Dai boas-novas e não crieis aversão entre as pessoas.” Do mesmo modo, enfatizou: “Quando aconselhardes, sede breves.” Ele considerou a capacidade de apresentar uma fala concisa um sinal de inteligência.(Árabe******)
“Ele dizia: ‘O fato de a oração de uma pessoa ser longa e seu sermão ser breve é sinal de sua inteligência. Portanto, alongai a oração e encurtai o sermão. Há sermões que possuem um efeito mágico.’” — (Muslim, Livro da Sexta-feira)

Se o ouvinte tiver pouco conhecimento, ou se o assunto for sutil, é necessário repetir as palavras para que ele possa ouvi-las e compreendê-las bem.(Árabe************************************)
“Quando o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia algo, repetia-o três vezes, para que as pessoas pudessem compreendê-lo bem.”
9

O método argumentativo dos nobres profetas

O objetivo para cuja realização vêm os profetas, mensageiros e aqueles que convocam à verdade é o convite à fé. A fé não é algo negativo, mas uma verdade positiva. Seu verdadeiro benefício só pode ser alcançado quando ela se estabelece plena e firmemente no coração. Para produzir essa firmeza da fé, é necessário que sua base esteja apoiada em provas sólidas. Se a fé não for firme, ela não pode tornar-se uma fonte de inspiração para a vida; por meio dela, tampouco podem ser realizados todos os aspectos doutrinais e práticos da religião, nem ela pode orientar o ser humano no amplo campo da vida. Por isso, o trabalho dos que convocam à verdade não pode ser realizado apenas pelo uso da força; eles não podem alcançar seu objetivo por meio da fraude, nem seus argumentos podem servir para esse fim. Tampouco podem cumprir seu propósito argumentos de estilo poético ou retórico que não sejam capazes de estabelecer qualquer fundamento na natureza e na capacidade de compreensão.
Aqueles que desejam alcançar seus objetivos deixando o ouvinte sem resposta ou lançando-o na confusão podem agir apenas por meio desse tipo de argumento. Mas aquele que não deseja silenciar o ouvinte, e sim despertar todas as suas forças e capacidades para que siga o caminho correto; que não deseja hipnotizar as pessoas ou conduzi-las à força por algum caminho, mas quer despertar sua natureza, seu conhecimento e sua sabedoria de tal modo que cada pessoa seja capaz de conduzir-se no caminho reto mesmo nas situações mais difíceis — esse, em primeiro lugar, nem sequer recorre a esse tipo de prova. E, se por acaso recorre, mantém sempre em vista que, para alcançar um objetivo puro e elevado, seus meios e instrumentos também devem ser extremamente puros e elevados. Foi justamente isso que tornou o método argumentativo dos nobres profetas e dos que convocam à verdade completamente distinto do método argumentativo dos demais. Aqui indicaremos algumas de suas características evidentes.
A universalidade do argumento
O argumento e a prova são necessidades gerais, como o ar e a água. Todo ser humano necessita da fé para viver corretamente. Uma fé firme não pode ser alcançada sem provas fortes. Por isso, são necessárias duas coisas para as provas.
Primeiro: o método das provas deve ser tão natural, simples e fácil que cada pessoa, assim como pode recolher, de acordo com sua necessidade, o ar e a água dos recursos da terra, do céu e da atmosfera sem enfrentar dificuldade especial, possa igualmente encontrar, nos sinais da terra e do céu, tantas provas quantas desejar para a tranquilidade de seu coração, não dependendo, para isso, de nada além da reflexão e da investigação.
Segundo: assim como, para a saúde física do ser humano, é necessário que a água que bebe seja pura, que o ar seja límpido e que o ar que respira esteja purificado, também é absolutamente necessário, para sua saúde intelectual, que as provas das quais extrai os princípios de sua vida sejam completamente genuínas e puras.
Para alcançar essas duas coisas, o método dos nobres profetas e dos que convocam à verdade foi afastar-se, por um lado, dos métodos artificiais de argumentação e descobrir um método próprio. Quando uma nação se desenvolve no campo do conhecimento e da ciência, surge entre ela um método artificial de provas do qual, exceto um grupo profissional específico, os demais não conseguem tirar proveito. Os profetas e os que convocam à verdade mantiveram-se afastados desse tipo de método artificial. Por outro lado, avaliaram as coisas usadas como provas. Entre elas, escolheram para esse fim somente aquelas que se mostraram livres da mistura com elementos irreais.
O primeiro benefício desse método de prova é que, antes, um grande número de pessoas da humanidade precisava seguir, como cegos e surdos, um pequeno grupo de indivíduos; logo elas se tornaram capazes de ver com os próprios olhos e ouvir com os próprios ouvidos. O segundo benefício é que, depois de engolir o amontoado de provas adulteradas que até então fazia prevalecer sobre o coração e a alma os sinais da morte, bastaram alguns goles desse tesouro de provas puras para que, assim que atravessassem a garganta, aqueles sinais de morte desaparecessem, e quem os consumia passasse a sentir-se completamente saudável, vigoroso e ativo.
Foi por causa dessa característica do método de prova dos que convocam à verdade e dos nobres profetas que o conhecimento humano mudou de direção em sua época e surgiu, em todos os níveis, um despertar intelectual geral. Criou-se até movimento nesse nível geral, de onde antes jamais se esperaria qualquer boa notícia. Em todos os níveis abriram-se os olhos para a crítica, a verificação e a avaliação. Cada olho começou a ver e cada boca começou a falar. Os métodos de reflexão, investigação e prova que até então eram extremamente populares passaram a parecer desgastados e antiquados. Muitas doutrinas que haviam usurpado a posição da revelação e da inspiração tornaram-se completamente sem valor e sem importância. Entre aqueles que consideravam suas antigas doutrinas mais queridas do que a verdade, surgiu uma liberdade mental e intelectual. O convocador à verdade deve estar muito atento para que essa liberdade flua no canal correto e para que nela não surjam desequilíbrio e descontrole. Eles cuidam sempre para que a liberdade de pensamento que concedem ao povo seja um meio de libertação, e não uma causa de destruição.
Semear o pensamento correto no ouvinte
A segunda característica do método argumentativo dos nobres profetas e dos que convocam à verdade é que eles não se limitam a apresentar provas; também criam no ouvinte a capacidade de apresentar provas. A revolução abrangente que trazem como convite para a vida individual e coletiva não pode estabelecer-se sobre uma base duradoura enquanto não despertar plenamente as capacidades intelectuais e ideológicas das pessoas. A vida não é algo separado ou homogêneo, de modo que bastaria ensinar alguns princípios básicos para conduzi-la corretamente. A vida é um conjunto de inúmeras exigências visíveis e ocultas, um vínculo de incontáveis relações individuais e coletivas, um tesouro de incontáveis direitos e deveres pessoais, familiares e comunitários. Nem todos os aspectos da vida permanecem plenamente presentes diante de nossa visão. Por isso, não existe de antemão uma determinação específica para cada pessoa em cada situação. Ao contrário, tanto seu passado como seu futuro estão ocultos por trás do invisível. Apenas uma pequena parte está diante dela; com base em seus indícios, precisa compreender o passado e, à sua luz, determinar o futuro.
Nessa situação, para orientar a vida, não basta apenas um sistema definido e limitado de regras e leis. É igualmente indispensável que exista no ser humano uma chama permanente de pensamento correto, capaz de orientá-lo também nas partes ocultas da vida, nas quais ele não dispõe de outro meio de orientação. É justamente pelo método de apresentação das provas dos profetas, mensageiros e dos que convocam à verdade que essa capacidade de pensamento correto é criada no ouvinte. Quando os profetas começam a ensinar os assuntos fundamentais, fazem-nos penetrar no aluno de tal maneira que o solo do coração e da alma se nivela para o plantio da semente do pensamento correto, e essa semente germina. Quando se retiram de seu trabalho, de um lado surge um jardim verdejante da Lei Sagrada e, de outro, forma-se dentro de cada alma saudável um jardim de sabedoria e discernimento. Embora ele não esteja visível diante dos olhos, sua primavera permanece sempre presente e seus ramos estão repletos de frutos em todas as estações.
Em comparação com os ensinamentos fundamentais dos profetas, isso pode ser chamado de cultivo secundário e subproduto. Contudo, em dignidade, valor e benefício ilimitado, ocupa posição igual à do original. Foi aludindo a isso que o Profeta — que a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele — disse:(Árabe*************)
“Saibam que me foi dado o Alcorão e, junto com o Alcorão, algo semelhante a ele.” (Abu Dawud, Ibn Majah, Darimi)
Esta é a flor e o fruto da árvore abençoada que recebemos sob a forma dos hadiths. É a isso que o Nobre Alcorão aludiu: “Quem conseguiu obter isso alcançou um tesouro inesgotável de bondade.” Em alguns hadiths, isso é comparado a um tesouro que jamais se esgota.
Apresentar provas segundo as regras da lógica
Essa característica criativa não pode ser encontrada exclusivamente no método de prova dos nobres profetas e dos partidários da verdade. Nossos eruditos dão grande importância à argumentação segundo o método lógico. Contudo, desse ponto de vista, a argumentação lógica é extremamente deficiente. O máximo de respeito que se pode conceder à lógica é que, examinando um argumento segundo seu próprio padrão, ela pode dizer se ele está correto ou não. Criar a capacidade de apresentar argumentos está além do poder da lógica. Só se pode utilizar a lógica para isso até certo limite. Nos discursos do Nobre Alcorão e dos profetas também se encontram provas de natureza simples, que não podem ser pesadas na balança da lógica como se fossem diamantes. Entretanto, alguns dos nossos teólogos, que concederam à lógica mais valor do que ela merece, quiseram pesar a moeda de ouro do Alcorão nessa balança destinada a medir carvão. Assim, acabaram declarando essa moeda de ouro menos valiosa que o carvão.
Quanto aos filósofos, não há dúvida de que treinam o pensamento humano de modo que ele possa demonstrar vigor nos diversos campos de criação e apresentação de argumentos. Porém, transformaram em uma mistura de tudo e de qualquer coisa os três elementos: o conteúdo de seus argumentos, o método de apresentá-los e os meios e instrumentos da argumentação. Por isso, quem tenta pensar segundo seu método fica aturdido e perplexo. Sob sua orientação, mesmo que as pessoas avancem alguns passos pelo caminho correto, são obrigadas imediatamente a avançar alguns passos também pelo caminho errado. O resultado é que toda a vida humana termina girando sem objetivo por diferentes desertos e lançando flechas de conjectura e suposição. Além de alguns pensamentos complexos e contraditórios, nada lhe cabe. Nisso, a filosofia antiga e a moderna estão na mesma situação. Há complexidade nos princípios do pensamento de todas elas, e instabilidade nos resultados do pensamento de cada uma.
Agora, o progresso científico colocou tudo no centro da experimentação e da observação, e o ser humano tornou-se vítima da tolice de não estar disposto a aceitar algo que não veja com os olhos físicos. O resultado foi que já não restou possibilidade alguma de o ser humano dar sequer um passo pelo caminho simples e direto. Dos princípios sobre os quais a filosofia se baseou até o presente, alguns eram falsos, mas outros eram corretos. Por isso, entre seus sonhos instáveis também surgiam alguns sonhos verdadeiros. Nesse caso, o problema do ser humano consistia apenas em distinguir entre verdade e falsidade. Mas agora todo o apoio ficou restrito à percepção sensorial e à observação. E é sabido quão limitada é a amplitude da percepção sensorial e da observação. Se hoje existe algo com o nome de filosofia além da filosofia materialista, é a filosofia dos céticos. Toda a sua base está estabelecida sobre a falta de confiabilidade da percepção sensorial e da inteligência. Em termos claros, isso não é filosofia alguma; ao contrário, torna completamente negativos todos os conhecimentos, ciências e filosofias. O mundo nada recebeu dela além da instabilidade.
O método de argumentação dos profetas não era estéril como o método dos lógicos, nem instável como o método dos filósofos. Pelo contrário, eles treinam o pensamento humano de tal modo que ele passa a avançar por si mesmo no caminho correto, e estabelecem nele, ao determinar o destino a ser alcançado, uma confiança tão grande que ele se convence de que o caminho que segue é correto e preciso. Primeiro, chamam a atenção para as provas reconhecidas: isto é, para as provas contidas no vasto e aberto universo e dentro do próprio ser humano. Por universo entende-se os sinais da organização do mundo e as leis que cada pessoa pode compreender simplesmente observando de modo geral. As provas dentro do próprio ser humano referem-se à força, capacidade, poder e autoconfiança que ele possui. Cada pessoa pode vê-los e senti-los dentro de si.
Os profetas apontam para esses sinais e apresentam diante das pessoas suas consequências inevitáveis. Por meio dessas provas, às vezes a argumentação inteira se torna clara diante delas como a luz do dia. Em outras ocasiões, com finalidade educativa, apenas se indica a consequência inevitável, deixando que a pessoa convocada avance por si mesma em direção a ela.
Um benefício disso é que se cria na pessoa convocada a capacidade de determinar o resultado correto, o que lhe será útil em cada etapa do percurso de sua vida. O segundo benefício é que ela não rejeita imediatamente o convite por considerá-lo uma afirmação de outra pessoa. Ao contrário, julgando-o resultado de seu próprio pensamento, avança para aceitá-lo. O terceiro benefício é que, por esse método, estabelece-se uma relação entre quem se dirige a alguém e aquele a quem se dirige. Assim, não pode surgir no convocado o sentimento de inferioridade de que chegou ao resultado conduzido pela mão de outra pessoa. Pelo contrário, ele pensa que o resultado correto foi alcançado pelo esforço conjunto de ambos.
Não é preciso explicar que o método de apresentar provas a partir dos sinais existentes na natureza do universo e no ser humano é o mais compatível com a natureza humana. Por isso, os profetas, mensageiros e os que convocam à verdade seguiam sobretudo esse método. Quando uma pessoa observa algo no universo aberto ou sente, em sua própria natureza, uma convicção a respeito disso, não pode negar sua consequência inevitável. A condição, porém, é que essas provas sejam apresentadas diante dela na ordem correta. Depois disso, se ainda as negar, poderá fazê-lo apenas com a boca; seu coração, contudo, não apoiará essa negação. Só poderá permanecer firme nela se for obstinada e teimosa.
O significado da consequência inevitável de algo é o seguinte. O assunto foi descrito brevemente antes e agora será explicado em detalhes. Enquanto restar numa pessoa a menor capacidade de seguir e apoiar a verdade, pode-se esperar que ela não hesite em aceitar também a forma detalhada e as consequências daquilo em que creu fundamentalmente. Aqueles que refletiram profundamente sobre as provas do Nobre Alcorão reconhecerão a verdade do que dizemos: a maioria dos argumentos do Alcorão tem justamente esse caráter. Por isso, quem estudar o Nobre Alcorão com uma mente pura sentirá que é ele próprio que está lendo o Livro. Cada um de seus chamados lhe parecerá ser seu próprio chamado.
É proibido basear-se em conclusões errôneas
A terceira característica importante do método argumentativo dos nobres profetas e dos partidários da verdade é que, diferentemente dos debatedores comuns, eles não faziam da conclusão errônea de uma pessoa a base de um argumento no assunto do convite. Se alguém sustenta uma crença equivocada, deve-se tentar corrigi-la. Mas não se pode obrigá-lo, por causa de um erro, a aceitar vários outros erros. Quem deseja deixar o interlocutor sem resposta, obrigá-lo a submeter-se às próprias palavras ou lançá-lo em algum erro encontra, em grande parte, esse elemento em seu método argumentativo. Os partidários da verdade, porém, jamais seguem esse método equivocado. Mesmo que encontrassem a oportunidade de estabelecer alguma verdade própria sobre uma conclusão errônea do interlocutor, não a aceitavam. Aos seus olhos, uma verdade cuja base é construída sobre a falsidade não tem valor. Algo tão vazio e sem fundamento pode ser aceitável apenas para debatedores profissionais. Pode até exibir seu brilho por algum tempo, mas não serve para nada na luta da vida. Na batalha da vida, somente a verdade pode ser útil — aquela cujas raízes se estendem profundamente na natureza humana. Essa extensão envolve todo o ambiente sob sua sombra.
O erro geralmente cometido pelos nossos teólogos foi o seguinte: quando não conseguiam estabelecer por conta própria uma base para demonstrar a verdade de algum princípio do Islã, adotavam como fundamento alguma doutrina ou ideia alheia e construíam sobre ela um palácio de imaginação. O dano causado ao Islã por essa defesa equivocada não foi menor que o causado pela oposição dos adversários do Islã. O fato de não se conseguir demonstrar algum princípio islâmico por meio de argumentos intelectuais e naturais corretos não significa — Deus me livre — que não existam argumentos intelectuais e naturais em favor da verdade dos princípios do Islã. A razão é apenas que os debatedores profissionais deformaram tanto seu gosto por meio de uma inteligência antinatural que foram incapazes de compreender o valor e a dignidade da inteligência islâmica.
Nessa situação, o caminho correto para eles teria sido permanecer ocupados com seus antigos interesses, em vez de assumir a responsabilidade de defender o Islã. Porém, a atração que sentiam pelo Islã como religião herdada continuou a incitá-los: a verdade da religião cujo nome invocavam precisava ser assentada sobre princípios intelectuais. Como seu gosto estava deformado e estavam privados da luz do Alcorão, a racionalidade islâmica não despertava apelo em seus corações. Por isso, quiseram demonstrar a verdade do Islã segundo o padrão da racionalidade que, em sua época, era aceitável para todos, comuns e eminentes. O resultado desse esforço equivocado foi que deslocaram todo o edifício dos ensinamentos firmes e corretos do Islã de sua base sólida e o colocaram sobre uma base extremamente fraca e quebradiça. Por mais que tenham feito isso com boas intenções, o resultado foi terrível.
Quando o curso do tempo e as descobertas científicas demonstraram que uma doutrina geralmente aceita até o dia anterior era infundada, o golpe atingiu os princípios islâmicos que haviam sido estabelecidos sobre essas doutrinas errôneas. Por isso, surgiu na mente de muitas pessoas ligadas ao Islã a ideia de que, assim como essa doutrina envelhecera, o Islã também envelhecera. Nossos teólogos tradicionalistas contribuíram para criar essa má impressão, e os teólogos da época atual também contribuem do mesmo modo. O erro comum aos dois grupos é que não consideraram a verdade suficiente para ajudar a verdade; julgaram necessário recorrer também à falsidade. Entretanto, verdade significa aquilo que está firmemente estabelecido, que prova a si mesmo e é sólido. Suas raízes se estendem profundamente no conhecimento e na natureza.
Nossos teólogos, porém, haviam se acostumado tanto a seguir os métodos de pensamento e argumentação indicados pelos filósofos gregos que foram incapazes de perceber a sutileza e a beleza do método de prova do Alcorão. Se tivessem abandonado os métodos contrários à natureza da argumentação e tentado compreender o método sábio de argumentação do Alcorão e dos profetas, teriam sabido que a base de cada afirmação do Alcorão está apoiada em provas tão firmes que se encontram completamente livres de todas as limitações do tempo e do espaço e de todos os efeitos das revoluções do pensamento.
A busca do ponto de convergência
A quarta característica do método argumentativo dos que convocam à verdade é que eles procuram um ponto de convergência entre si e a pessoa convocada, e o adotam como base da discussão e da argumentação. Não tentam, em todos os assuntos, exibir desnecessariamente seu isolamento e sua singularidade. Por mais diferente e dispersa que a humanidade possa parecer externamente, nas profundezas dessa diferença e dispersão encontram-se inúmeros princípios e crenças nos quais todos concordam. Nas leis da natureza do universo, nas conclusões da história, nas convicções da natureza humana e nos princípios básicos da moralidade há muitas coisas sobre as quais orientais e ocidentais, árabes e não árabes, mantêm a mesma visão.
Se essas coisas forem tomadas como base da argumentação e a discussão avançar a partir delas, as pessoas de natureza ponderada não hesitarão em aceitar suas consequências inevitáveis. A maioria das divergências que surgem nos assuntos secundários dos princípios de vida compartilhados por ambos nasce da má compreensão e do fanatismo. Se, por meio de um esforço sincero, essas divergências puderem ser eliminadas, cada pessoa continuará a olhar para esses princípios com respeito e dignidade, sobre uma base de participação igualitária.
Os profetas e mensageiros sempre adotaram esse método para apresentar provas. O Nobre Alcorão contém uma descrição detalhada da maneira como o Profeta — que a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele — apresentou argumentos diante dos politeístas árabes e do Povo do Livro. Ao estudá-la, não se encontra em lugar algum a impressão de que lhes tenha sido exigida algo completamente desconhecido e inovador. Suas raízes estavam presentes em sua história, seus costumes, seu senso de justiça e injustiça, suas crenças e sua moralidade. A diferença observada estava apenas na interpretação e na análise dessa raiz e de seus ramos. Por isso, a reivindicação do Mensageiro de Deus — que a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele — era que removessem a contradição surgida entre a raiz e seus assuntos secundários. Se aquilo que o Alcorão dizia fosse correto, deveriam aceitá-lo; e, se aquilo de que se declaravam defensores fosse verdadeiro, deveriam demonstrar sua correção.
O benefício de apresentar argumentos dessa maneira é que não pode surgir a respeito do convocador a falsa impressão de que ele é alguém que, por imaginar-se isolado, deseja negar todo o passado e está ocupado em fazer prevalecer sua personalidade. Pelo contrário, pensa-se que ele veio devolver-nos a herança ancestral de nossos antepassados. Se algumas pessoas, dominadas por sua natureza perversa, quiserem espalhar contra ele uma opinião negativa, não poderão divulgá-la por muito tempo. O sol da verdade surgirá e rapidamente afastará a escuridão.
A conduta daqueles que não conhecem o benefício e a beleza desse método de argumentação dos partidários da verdade costuma ser exatamente oposta. Eles não procuram nenhum ponto de convergência; e, mesmo quando encontram um, transformam-no em ponto de divergência. Para eles, a verdadeira beleza de seu argumento e de seu convite consiste em provar que aquilo que dizem jamais foi dito antes por ninguém sobre a terra ou sob o céu. Nossos debatedores que não conhecem o espírito correto do convite islâmico geralmente estão mergulhados nessa deformação. Sempre que apresentam alguma verdade do Islã, consideram que seu mérito consiste em demonstrá-la como uma verdade rara. Isso, em vez de criar amor na natureza humana, produz aversão; as pessoas, em vez de aceitá-la como algo seu, passam a considerá-la estranha e a rejeitá-la.
Evitar o método argumentativo de oposição
A quinta característica do método argumentativo dos que convocam à verdade é que jamais adotam o método de argumentação e resposta baseado na oposição. Um exemplo disso é levantar, contra uma religião, uma objeção semelhante a partir dos ensinamentos de outra religião. Nossos debatedores e filósofos adotam esse método pensando ter protegido o Islã das acusações. Na realidade, esse tipo de resposta está errado em princípio. O erro de outra pessoa não transforma nosso erro em verdade; longe disso, até a verdade que possuímos se torna duvidosa. Se algum benefício se obtém ao argumentar dessa maneira, é apenas calar a boca do acusador ou opositor, proporcionando algum consolo ao nosso espírito orgulhoso. Mas, por meio disso, o adversário não pode obter uma prova da verdade do Islã, nem nossos próprios corações podem abrir-se. Pelo contrário, isso evidencia nossa própria fraqueza, que nós mesmos apresentamos aos outros.
Toda verdade traz dentro de si a prova de sua própria veracidade. Sua prova não pode estar contida na falsidade de outra pessoa. Por isso, o caminho correto é apresentar a prova em favor da verdade a partir da própria verdade. Nesse assunto, o método dos nossos teólogos está errado por duas razões. A primeira é que, influenciados pela propaganda dos opositores, muitas vezes alguns princípios corretos do Islã passaram a parecer duvidosos aos seus próprios olhos. Assim, não lhes restava outra alternativa senão responder de modo oposicionista aos adversários e deixá-los sem resposta. A segunda é que essas pessoas não conseguiram limitar sua responsabilidade de defesa e auxílio aos limites do Islã. Ao tornarem-se vítimas do fanatismo nacional, assumiram também a responsabilidade de defender toda a história da comunidade muçulmana. Por isso, seu campo de batalha se ampliou enormemente. Precisaram demonstrar a verdade de muitas coisas que não poderiam ser provadas como verdadeiras enquanto não demonstrassem também a verdade de inúmeras falsidades alheias.
Os escritos dos nossos teólogos no último meio século — nos quais se discutem o jihad, a escravidão, a poligamia, o divórcio e a legitimidade das ações dos reis e governantes muçulmanos, entre outros assuntos — testemunham tudo o que foi dito acima. Ao lê-los, às vezes surge compaixão por seu estado indefeso e influenciado; outras vezes, sente-se vontade de bater a cabeça até morrer por causa de seus passos equivocados. Se não tivessem sido confundidos pela propaganda e não tivessem tomado para si as disputas alheias, mas tivessem limitado sua assistência aos limites do Islã, poderiam ter-se protegido de muitas coisas sem sentido.
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Levar em consideração a mentalidade da pessoa a quem se dirige

Para o crescimento e o desenvolvimento progressivo de uma muda, não basta observar apenas a capacidade da própria muda; é preciso também considerar a fertilidade da terra e a adequação da estação. Da mesma forma, ao apresentar o convite à profissão de fé da religião verdadeira, não se deve depender apenas da real excelência da verdade; é necessário observar também, sob o ponto de vista psicológico, qual é a condição das pessoas diante das quais ela está sendo apresentada. Assim como a terra, o coração e a mente também têm suas estações. Do mesmo modo que o agricultor conhece as estações e semeia na terra somente na estação favorável, o propagador da verdade também precisa conhecer as estações do coração. Aqueles que agem contra esse princípio, seja por simplicidade ou por erro, seja por pensar que a verdade, por sua própria beleza e atratividade, conseguirá ocupar um lugar no coração e que não é necessário considerar mais nada, receberão a punição de seu próprio equívoco por meio do fracasso de seu convite. Sua boa intenção não poderá protegê-los das consequências de sua imprudência. Por isso, é absolutamente necessário levar em consideração o estado mental daquele a quem o convite é apresentado.

Dez princípios para considerar o aspecto psicológico da pessoa interpelada

O propagador da verdade precisa relacionar-se com pessoas de naturezas diversas. Tendo em vista o estado mental delas, deve adotar métodos variados. Não é possível explicar tudo isso detalhadamente aqui. Contudo, mencionaremos, a título de exemplo, alguns princípios fundamentais que podemos extrair do método de ação dos profetas e mensageiros. Tendo esses princípios diante de si, as pessoas poderão extrair deles outros princípios necessários. Eles estão relacionados à razão humana comum. Se um propagador dotado de bom senso, movido por uma intenção sincera e plenamente consciente de seu objetivo mantiver esses exemplos diante de si, espera-se que consiga, em pouco tempo, ajustar seu método de ação no convite ao método dos profetas. Os princípios que julgamos necessário mencionar aqui são dez.

Primeiro princípio: uma mesma coisa pode ter diferentes aspectos. Alguns deles podem ser fáceis de compreender, enquanto outros podem ser difíceis. Se, no primeiro momento, ela for apresentada a alguém de maneira fácil de entender, não lhe parecerá de modo algum estranha. Mas, se já no primeiro encontro for apresentada por seu aspecto difícil, a pessoa convidada ficará assustada e fugirá. Talvez nunca mais esteja disposta a comparecer diante do propagador. O caso do convite à religião verdadeira é mais ou menos assim. Mesmo para uma pessoa completamente desconhecida, alguns de seus aspectos podem ser agradáveis e cativantes. Se o convite à religião lhe for apresentado por esse aspecto, ela se familiarizará gradualmente com a religião e aceitará tudo o que nela é fácil ou difícil. Por outro lado, até uma pessoa muito familiarizada com ela pode considerar difíceis e pesados alguns de seus aspectos. Se a religião lhe for apresentada justamente por esse lado difícil, longe de se tornar mais familiarizada com ela, sua familiaridade anterior poderá transformar-se em medo e apreensão.

Quem não conhece os diversos aspectos de uma coisa e as diferenças entre eles, ou não sabe de que aspecto deve apresentá-la ao interessado no primeiro convite, ou, por natureza, prefere realizar experiências em terreno pedregoso e considera a dureza, em todos os casos, como a plena religiosidade, quando assume a tarefa de convidar para a religião acaba fazendo com que as pessoas fujam para longe, em vez de se aproximarem. Isso ocorre porque o caminho que adotou para apresentar o convite é completamente contrário à disposição mental das pessoas. Em vez de boas-novas, espalha aversão; em vez de atração, descontentamento. Para impedir isso, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse:(Árabe********)(Dai boas-novas e não espalheis aversão) e, indicando o método correto para os propagadores da verdade, disse:(Árabe*************)(Fostes enviados para facilitar, não para impor dificuldades).

Segundo princípio: do ponto de vista psicológico, a segunda coisa à qual o propagador deve prestar atenção é a seguinte: em circunstância alguma deve dar ao inimigo da ignorância pré-islâmica a oportunidade de erguer a cabeça na pessoa convidada. Todo propagador da verdade deve lembrar que, assim como ele mantém uma relação com sua própria crença e convicção, as pessoas de cada povo também mantêm, em maior ou menor grau, uma relação semelhante com suas próprias crenças e convicções. Se essa relação for equivocada, o caminho para corrigi-la consiste em eliminar as ideias erradas que a mantêm. Não é correto, tomado pela emoção de remover essas ideias ou derrotado pela agitação da oposição à falsidade, atacar diretamente essa relação falsa em vez de corrigir suas causas ideológicas. O resultado desse tipo de ataque direto é apenas que a pessoa convidada, exaltada pelo fervor da hostilidade pagã, empenha-se intensamente em opor-se ao convite. Nesse fervor, torna-se tão cega e surda que começa a apanhar qualquer tijolo ou pedra que encontra e a lançá-lo contra o propagador. Na surata Al-An’am, os propagadores da verdade são advertidos a afastar-se desse método de ação,وَلَا تَسُبُّوا الَّذِينَ يَدْعُونَ مِنْ دُونِ اللَّهِ فَيَسُبُّوا اللَّهَ عَدْوًا بِغَيْرِ عِلْمٍ كَذَلِكَ زَيَّنَّا لِكُلِّ أُمَّةٍ عَمَلَهُمْ“Não insulteis aqueles que eles invocam além de Deus, para que, por hostilidade e sem conhecimento, não insultem Deus. Assim, fizemos atraente para cada comunidade a sua própria ação.” — (Surata Al-An’am, 108)

O Alcorão também oferece uma orientação condizente com isso: na tarefa de divulgar a verdade, toda a discussão deve ser limitada ao objetivo principal. Se a pessoa convidada fizer algo provocador, capaz de desencadear um conflito de classe e status entre os líderes e seguidores dos dois grupos, o dever dos propagadores da verdade é tentar conduzir a discussão para o rumo correto, em vez de se envolver na armadilha do debate infrutífero; e, em vez de humilhar os líderes e seguidores do lado convidado, devem demonstrar-lhes o respeito a que realmente têm direito.وَقُلْ لِعِبَادِي يَقُولُوا الَّتِي هِيَ أَحْسَنُ إِنَّ الشَّيْطَانَ يَنْزَغُ بَيْنَهُمْ إِنَّ الشَّيْطَانَ كَانَ لِلْإِنْسَانِ عَدُوًّا مُبِينًا(53)رَبُّكُمْ أَعْلَمُ بِكُمْ إِنْ يَشَأْ يَرْحَمْكُمْ أَوْ إِنْ يَشَأْ يُعَذِّبْكُمْ وَمَا أَرْسَلْنَاكَ عَلَيْهِمْ وَكِيلًا(54)وَرَبُّكَ أَعْلَمُ بِمَنْ فِي السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ وَلَقَدْ فَضَّلْنَا بَعْضَ النَّبِيِّينَ عَلَى بَعْضٍ وَآتَيْنَا دَاوُودَ زَبُورً“Dize aos Meus servos que digam aquilo que é melhor. Satanás semeia discórdia entre eles; certamente Satanás é um inimigo declarado do ser humano. Vosso Senhor conhece-vos melhor. Se quiser, terá misericórdia de vós; e, se quiser, castigar-vos-á. Não te enviamos para seres responsável por eles. Teu Senhor conhece melhor todos os que estão nos céus e na terra. E favorecemos alguns profetas sobre outros, e concedemos a Davi o Zabur.” — (Surata Al-Isra, 53–55)

O objetivo dessa orientação também é que o propagador da verdade evite todas as palavras capazes de empurrar as pessoas para o caminho da hostilidade pagã.

Terceiro princípio: há pessoas que, por ocuparem posições de honra, prestígio e liderança, estão acostumadas a receber dos outros tratamento respeitoso e reverente no modo como são interpeladas e nas conversas. Existe o risco de que, se forem contrariadas, o demônio de sua mente arrogante desperte e as impeça de ouvir a verdade. Nesses casos, o propagador da verdade deve levar em conta essa enfermidade até certo limite, para que, além da barreira existente no próprio coração da pessoa, não seja criada nenhuma nova barreira por parte do propagador. Foi com esse aspecto em mente que Moisés, que a paz esteja sobre ele, recebeu a orientação:اذْهَبَا إِلَى فِرْعَوْنَ إِنَّهُ طَغَى () فَقُولَا لَهُ قَوْلًا لَيِّنًا لَعَلَّهُ يَتَذَكَّرُ أَوْ يَخْشَى“Ide ao Faraó; ele transgrediu. Falai-lhe ambos com brandura; talvez ele aceite a exortação ou tema.” — (Surata Ta-Ha, 44)

Contudo, há também um limite para considerar a posição da pessoa convidada. Ao fazê-lo, não se pode ultrapassar a dignidade e a gravidade da verdade que o propagador lhe apresenta. Se, ao observar essa cautela, a grandeza e a dignidade da verdade forem de algum modo atingidas, isso não será permitido. O Alcorão proíbe claramente tal atitude.

Quarto princípio: assim como um médico experiente prescreve o tratamento levando em conta a idade do paciente, seu temperamento e a intensidade ou leveza de sua doença, o propagador da verdade também deve apresentar o convite levando em consideração a capacidade, as necessidades e o poder de compreensão da pessoa convidada. Para avaliá-los corretamente, não basta considerar apenas a capacidade individual e o poder de compreensão da pessoa; é necessário levar em conta também suas características coletivas e sua situação pessoal. Sem considerar esses fatores, não se pode esperar o êxito de nenhum convite. É por isso que o Alcorão Sagrado foi revelado gradualmente, em pequenas porções.وَقُرْآنًا فَرَقْنَاهُ لِتَقْرَأَهُ عَلَى النَّاسِ عَلَى مُكْثٍ وَنَزَّلْنَاهُ تَنْزِيلًا“E fizemos o Alcorão descer em partes, para que o recites às pessoas pausadamente, e o revelamos gradualmente.” — (Surata Al-Isra, 106)

Do Alcorão também se sabe que, no convite corânico, muitas coisas foram apresentadas tendo em vista o temperamento profundamente arraigado dos árabes. Como eram obstinados e inclinados à discussão, adotou-se com eles um método de conversa e debate adequado a uma nação argumentativa e inflexível. Além disso, o modo como o Profeta, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, apresentava o convite à religião verdadeira às pessoas vindas das regiões rurais era completamente diferente do modo como o apresentava aos habitantes de Meca e Medina. Uma delegação da tribo de Abdul Qays queixou-se a ele: “Entre nós e vós, a tribo dos coraixitas tornou-se uma barreira. Por causa da hostilidade deles, não podemos vir até vós em nenhum mês além dos meses sagrados — Muharram, Rajab, Dhu al-Qi’dah e Dhu al-Hijjah. Portanto, dizei-nos algumas palavras fundamentais que possamos seguir nós mesmos e para as quais possamos convidar os outros.” O Mensageiro de Deus, considerando suas necessidades e condições, ordenou-lhes apenas quatro coisas e proibiu-lhes quatro outras. Disse-lhes ainda que ordenassem essas coisas ao seu povo e o impedissem das demais. Não lhes disse nada além disso.

É evidente que essa diferença no método do convite se baseava unicamente nas diferenças psicológicas entre esses grupos. Àqueles cuja diferença estava dentro do padrão normal e que eram de natureza simples e direta, eram apresentadas as instruções simples da religião, para que pudessem praticá-las. Já às pessoas de natureza complexa, o convite era apresentado continuamente, segundo uma sequência apropriada, a fim de purificar suas mentes.

Quinto princípio: assim como um agricultor não deve semear sem preparar a terra e sem uma estação favorável, e como um médico não deve administrar remédio a um paciente em estado agonizante, também o propagador da verdade não deve apresentar o convite quando a pessoa convidada se inclina ao protesto, à réplica e à crítica. Não é necessário abster-se do convite apenas nessa situação; se, mesmo depois de o convite ser apresentado, a pessoa se tornar contestadora, o dever do propagador é encerrar a discussão naquele momento, em vez de prolongar o debate e a réplica, afastar-se e esperar uma ocasião apropriada. Quando a pessoa convidada se tornar receptiva, ou pelo menos perder a tendência de discutir e contestar, o convite deverá ser novamente apresentado a ela.وَإِذَا رَأَيْتَ الَّذِينَ يَخُوضُونَ فِي آيَاتِنَا فَأَعْرِضْ عَنْهُمْ حَتَّى يَخُوضُوا فِي حَدِيثٍ غَيْرِهِ وَإِمَّا يُنْسِيَنَّكَ الشَّيْطَانُ فَلَا تَقْعُدْ بَعْدَ الذِّكْرَى مَعَ الْقَوْمِ الظَّالِمِينَ“Quando vires aqueles que se ocupam de encontrar defeitos em Nossos versículos, afasta-te deles até que passem a outra conversa. E, se Satanás te fizer esquecer, depois de te lembrares, não te sentes com o povo injusto.” (Surata Al-An’am, 68)

Apesar de uma proibição tão clara, é surpreendente que nossos estudiosos tenham podido considerar permitido o método dos debates e disputas para divulgar a religião! Afinal, os dois grupos se enfrentam apenas com o objetivo de rejeitar e declarar falsa a fala do adversário, seja ela realmente verdadeira ou não. Aqueles que têm alguma experiência com sessões de debate sabem que, por meio delas, geralmente prevalece apenas o gosto deturpado de humilhar o oponente. A orientação corânica a esse respeito é que, assim que sentir esse odor, o propagador da verdade deve retirar-se respeitosamente. Mas nossos debatedores profissionais foram tão influenciados por esse odor que, quanto mais ele aumenta, mais crescem seu interesse e entusiasmo.

Sexto princípio: se a pessoa a quem será apresentado o convite estiver tão absorta em algum assunto que lhe seja atraente a ponto de considerar incômodo afastar-se dele para prestar atenção ao convite da verdade, o propagador deverá abster-se de convidá-la naquele momento. Embora essa situação seja diferente da hostilidade, do ressentimento e da oposição, não há diferença entre elas quanto à falta de preparo mental da pessoa convidada. Foi narrado no Sahih al-Bukhari, por Abdullah ibn Abbas, que ele disse:(Árabe**********)“Relato de Ikrimah: Ibn Abbas disse-me: ‘Prega e aconselha as pessoas apenas uma vez por semana. Se não aceitarem, duas vezes; e, se ainda não ficarem satisfeitas, três vezes por semana. Em suma, não torneis o Alcorão desagradável para as pessoas. Não aconteça que chegues às pessoas enquanto estão ocupadas em alguma conversa e comeces a pregar, interrompendo a conversa delas e causando-lhes incômodo. Em vez disso, permanece em silêncio nesse momento. Quando demonstrarem interesse por ti, aconselha-as; então ouvirão tuas palavras com interesse.’

Sétimo princípio: o propagador da verdade também deve cuidar para que a abordagem sem atrativo do convite, suas discussões desnecessárias e seus discursos longos e sem valor não causem tédio nos ouvintes.(Árabe************)“Relato de Shaqiq, um tabi’i: Abdullah ibn Mas’ud costumava pregar e aconselhar as pessoas todas as quintas-feiras. Um homem disse-lhe: ‘Ó Abu Abdur-Rahman, eu desejaria que pregasses e aconselhasses todos os dias.’ Ele respondeu: ‘O que me impede de fazê-lo é que não gosto de vos causar tédio; por isso, prego diante de vós com intervalos, assim como o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, costumava aconselhar-nos ocasionalmente, por receio de nos entediar.’ — (Bukhari e Muslim)

Ao escrever estas palavras, surgiu diante de nós a imagem de certo tipo de pregadores e de seus infelizes e oprimidos ouvintes. Sua maior habilidade na pregação é a prolixidade de seus discursos sem sentido. Eles nem sequer sabem que até as melhores palavras se tornam insípidas quando repetidas inutilmente, e que perseguir as pessoas para fazê-las ouvir sermões não apenas frustra o objetivo do convite à religião, como também prejudica gravemente esse objetivo.

O Mensageiro e seus companheiros pregavam e aconselhavam as pessoas com intervalos, para que elas não se entediassem. Seus sermões eram extremamente concisos. Também foi relatado nos hadiths que ele disse: “Quando aconselhardes, sede breves.” Em outras narrativas, consta que ele considerava o sermão breve um sinal da sabedoria e inteligência do orador, dizendo: “Há discursos que possuem um encanto mágico.” Com isso, indicou-se que o discurso deve ser breve e significativo, para exercer sobre o coração um efeito semelhante ao da magia. O discurso não deve ser de tal natureza que entorpeça o temperamento e a disposição dos ouvintes, deixando-os sem capacidade para ouvir ou aceitar qualquer palavra.

Oitavo princípio: o propagador da verdade deve avaliar com extrema atenção e competência o ambiente ao seu redor. Deve observar cuidadosamente quando surge o momento adequado para semear a semente do convite. Assim que perceber que se criou uma oportunidade para alcançar seu objetivo, deve tentar aproveitá-la sem demora. O melhor exemplo disso encontra-se na vida e no caráter de José, que a paz esteja sobre ele:وَدَخَلَ مَعَهُ السِّجْنَ فَتَيَانِ قَالَ أَحَدُهُمَا إِنِّي أَرَانِي أَعْصِرُ خَمْرًا وَقَالَ الْآخَرُ إِنِّي أَرَانِي أَحْمِلُ فَوْقَ رَأْسِي خُبْزًا تَأْكُلُ الطَّيْرُ مِنْهُ نَبِّئْنَا بِتَأْوِيلِهِ إِنَّا نَرَاكَ مِنَ الْمُحْسِنِينَ(36)قَالَ لَا يَأْتِيكُمَا طَعَامٌ تُرْزَقَانِهِ إِلَّا نَبَّأْتُكُمَا بِتَأْوِيلِهِ قَبْلَ أَنْ يَأْتِيَكُمَا ذَلِكُمَا مِمَّا عَلَّمَنِي رَبِّي إِنِّي تَرَكْتُ مِلَّةَ قَوْمٍ لَا يُؤْمِنُونَ بِاللَّهِ وَهُمْ بِالْآخِرَةِ هُمْ كَافِرُونَ(37)وَاتَّبَعْتُ مِلَّةَ آبَائِي إِبْرَاهِيمَ وَإِسْحَاقَ وَيَعْقُوبَ مَا كَانَ لَنَا أَنْ نُشْرِكَ بِاللَّهِ مِنْ شَيْءٍ ذَلِكَ مِنْ فَضْلِ اللَّهِ عَلَيْنَا وَعَلَى النَّاسِ وَلَكِنَّ أَكْثَرَ النَّاسِ لَا يَشْكُرُونَ(38)يَا صَاحِبَيِ السِّجْنِ أَأَرْبَابٌ مُتَفَرِّقُونَ خَيْرٌ أَمِ اللَّهُ الْوَاحِدُ الْقَهَّارُ(39)مَا تَعْبُدُونَ مِنْ دُونِهِ إِلَّا أَسْمَاءً سَمَّيْتُمُوهَا أَنْتُمْ وَآبَاؤُكُمْ مَا أَنْزَلَ اللَّهُ بِهَا مِنْ سُلْطَانٍ إِنِ الْحُكْمُ إِلَّا لِلَّهِ أَمَرَ أَلَّا تَعْبُدُوا إِلَّا إِيَّاهُ ذَلِكَ الدِّينُ الْقَيِّمُ وَلَكِنَّ أَكْثَرَ النَّاسِ لَا يَعْلَمُونَ(40)يَا صَاحِبَيِ السِّجْنِ أَمَّا أَحَدُكُمَا فَيَسْقِي رَبَّهُ خَمْرًا وَأَمَّا الْآخَرُ فَيُصْلَبُ فَتَأْكُلُ الطَّيْرُ مِنْ رَأْسِهِ قُضِيَ الْأَمْرُ الَّذِي فِيهِ تَسْتَفْتِيَانِ“Dois jovens entraram com ele na prisão. Um deles disse: ‘Sonhei que espremia uvas para fazer vinho.’ O outro disse: ‘Sonhei que carregava sobre a cabeça um pão, do qual as aves comiam. Dize-nos a interpretação; vemos que és um homem virtuoso.’ José respondeu: ‘Antes que vos chegue a comida que recebeis, informar-vos-ei da interpretação do sonho. Isso faz parte do conhecimento que meu Senhor me ensinou. Na verdade, abandonei a religião daqueles que não creem em Deus e negam a Outra Vida. E sigo a religião de meus antepassados, Abraão, Isaque e Jacó. Não nos é apropriado associar nada a Deus. Isso é uma graça de Deus para nós e para toda a humanidade, mas a maioria das pessoas não agradece. Ó meus dois companheiros de prisão! O que é melhor: vários senhores ou Deus, o Único, o Dominador? O que adorais além d’Ele não são mais que nomes que vós e vossos antepassados inventastes; Deus não vos concedeu nenhuma autoridade sobre eles. O julgamento pertence somente a Deus. Ele ordenou que não adoreis senão a Ele. Essa é a religião correta, mas a maioria das pessoas não sabe. Ó meus dois companheiros de prisão! Quanto a um de vós, dará vinho a beber ao seu senhor; quanto ao outro, será crucificado, e as aves comerão de sua cabeça. Está decidido o assunto sobre o qual me consultastes.’ — (Surata José, 36–41)

Lancemos um olhar sobre isso e coloquemos diante dos olhos da imaginação o quadro completo do acontecimento. Dois homens foram presos na mesma prisão que José, que a paz esteja sobre ele. Ambos tiveram sonhos e ficaram curiosos para saber sua interpretação. Entre todos os habitantes da prisão, por alguma razão, somente José lhes pareceu alguém a quem poderiam procurar com esse propósito. Assim, com reverência e respeito, revelaram-lhe seus sonhos. José não se despediu deles apenas depois de interpretar os sonhos, nem tentou explorar sua boa impressão para exercer sobre eles sua excelência pessoal e obter vantagens próprias. Pelo contrário, considerou essa atração uma oportunidade e apresentou-lhes o convite à religião, de modo que ele pudesse alcançar seus corações.

Por outro lado, apresentou a religião de tal maneira que suas palavras surgissem naturalmente no curso da conversa. Não criou deliberadamente uma ocasião para falar. Esse acontecimento revela uma verdade importante: assim como o agricultor espera atentamente pela chuva para semear, o propagador da verdade também deve observar o ambiente ao seu redor, esperando o momento em que o interesse pela verdade surja no coração de alguém e possa servir como uma estação favorável para semear a semente de seu convite.

Aprende-se também que, se alguém receber, pela graça de Deus, uma oportunidade desse tipo, não deve desperdiçá-la nem utilizá-la para qualquer objetivo que não seja o nobre propósito do convite. Quando uma oportunidade assim cai nas mãos de uma pessoa egoísta, ela tenta transformá-la em meio de obter vantagens pessoais, em vez de usá-la para o convite. Em nossa época, a classe dos estudiosos e os mestres espirituais em geral sofrem dessa enfermidade. Quando percebem alguém atraído por eles, sentem grande alegria. Mas a natureza dessa alegria é diferente da alegria de José, que a paz esteja sobre ele. Sua alegria pode ser comparada à de uma aranha. A aranha espalha uma teia ao seu redor e espera a chegada de uma mosca. Quando vê uma mosca aproximar-se, começa a dançar, arrebatada de alegria: uma presa gorda e saudável chegou às suas mãos.

Nono princípio: todo propagador da verdade deve considerar a capacidade e o nível da pessoa convidada ao apresentar uma discussão e argumentos. A maneira e a linguagem usadas para convidar os intelectuais devem ser diferentes daquelas usadas com pessoas comuns. Não é correto que o propagador, simplesmente por imaginar que possui toda a verdade, coloque todos os grupos que não possuem toda a verdade numa mesma categoria e os trate indistintamente. Seu dever é avaliar corretamente cada grupo, colocá-lo no nível correspondente à dignidade que lhe cabe e apresentar-lhe o convite de acordo com isso. Assim, para apresentar o convite aos Povos do Livro, o Alcorão Sagrado deu a seguinte orientação:وَلَا تُجَادِلُوا أَهْلَ الْكِتَابِ إِلَّا بِالَّتِي هِيَ أَحْسَنُ إِلَّا الَّذِينَ ظَلَمُوا مِنْهُمْ وَقُولُوا آمَنَّا بِالَّذِي أُنْزِلَ إِلَيْنَا وَأُنْزِلَ إِلَيْكُمْ وَإِلَهُنَا وَإِلَهُكُمْ وَاحِدٌ وَنَحْنُ لَهُ مُسْلِمُونَ“E não disputeis com os Povos do Livro, exceto da melhor maneira, salvo com os que entre eles cometem injustiça. Dizei: ‘Cremos no que foi revelado a nós e no que foi revelado a vós. Nosso Deus e vosso Deus são um só, e somos submissos a Ele.’ — (Surata Al-Ankabut, 46)

Aqui também é indicado o melhor método pelo qual foi permitido discutir e conversar com os Povos do Livro: reconhecer os aspectos em que eles têm dignidade semelhante à vossa e os assuntos em que existe algo compartilhado entre eles e vós. Assim, em vez de criar ódio e ressentimento entre eles e vós, surgirão amizade e amor; em vez de distância, proximidade. Depois, deve-se exigir deles que, com base nessa verdade reconhecida, concordem conosco também quanto às coisas que necessariamente decorrem dela.

O efeito psicológico desse método do convite sobre a pessoa convidada será o seguinte: ao ver que o propagador não se considera algo grandioso nem apresenta seu convite como uma nova descoberta, mas reconhece também a parte da verdade que já existe nesse convite, ela avançará para refletir sobre o assunto. Se não for obstinada, teimosa e desobediente, poderá até aceitar o convite. Se, ao contrário, os intelectuais e os Povos do Livro forem interpelados da mesma maneira que os ignorantes e analfabetos, aqueles que, como o propagador, reivindicam conhecimento, sabedoria e um Livro celestial naturalmente terão seu senso de honra ferido. Isso criará um grave obstáculo à aceitação da verdade.

Décimo princípio: se o propagador da verdade perceber na pessoa convidada sinais de desobediência, inflexibilidade e obstinação, não deve criar, de sua parte, nenhuma oportunidade para que essa enfermidade aumente. Pelo contrário, deve esforçar-se ao máximo para evitá-la. Mesmo que a pessoa interpelada se oponha a algum argumento do propagador de uma maneira que evidentemente não passe de discussão, em vez de insistir nesse argumento e apresentar mais provas a seu favor, ele deve adotar a estratégia de apresentar a verdade a partir de outro aspecto, para que ela não encontre oportunidade de manifestar sua obstinação. Se tiver capacidade para aceitar a verdade, irá aceitá-la. Se for apenas obstinada, ao menos ficará perplexa e não terá oportunidade de continuar debatendo e discutindo. O Alcorão Sagrado menciona o debate entre Abraão, que a paz esteja sobre ele, e um rei. Esse é o melhor exemplo para o caso:أَلَمْ تَرَ إِلَى الَّذِي حَاجَّ إِبْرَاهِيمَ فِي رَبِّهِ أَنْ آتَاهُ اللَّهُ الْمُلْكَ إِذْ قَالَ إِبْرَاهِيمُ رَبِّيَ الَّذِي يُحْيِي وَيُمِيتُ قَالَ أَنَا أُحْيِي وَأُمِيتُ قَالَ إِبْرَاهِيمُ فَإِنَّ اللَّهَ يَأْتِي بِالشَّمْسِ مِنَ الْمَشْرِقِ فَأْتِ بِهَا مِنَ الْمَغْرِبِ فَبُهِتَ الَّذِي كَفَرَ وَاللَّهُ لَا يَهْدِي الْقَوْمَ الظَّالِمِينَ“Não viste aquele que discutiu com Abraão sobre seu Senhor, por Deus lhe ter concedido o reino? Quando Abraão disse: ‘Meu Senhor é Quem dá a vida e causa a morte’, ele respondeu: ‘Eu também dou a vida e causo a morte.’ Abraão disse: ‘Deus faz o sol nascer no Oriente; faze-o nascer no Ocidente.’ Então, o incrédulo ficou confuso. Deus não guia o povo injusto.” — (Surata Al-Baqarah, 258)

A prova apresentada por Abraão, que a paz esteja sobre ele, não sofreu o menor dano por causa da objeção do contestador. Ele poderia, se quisesse, ter dito muitas outras coisas depois disso. Mas, depois de avaliar o estado psicológico da pessoa convidada, se tivesse continuado a falar sobre o assunto, isso teria sido completamente contrário ao método ensinado pelo Alcorão Sagrado:ادْعُ إِلَى سَبِيلِ رَبِّكَ بِالْحِكْمَةِ وَالْمَوْعِظَةِ الْحَسَنَةِ وَجَادِلْهُمْ بِالَّتِي هِيَ أَحْسَنُ“Convida para o caminho de teu Senhor com sabedoria e boa exortação, e debate com eles da melhor maneira.” — (Surata An-Nahl, 125)

11

Método de treinamento dos profetas

Nenhuma da‘wah da religião da verdade pode produzir frutos no mundo se não for acompanhada por um programa de formação organizado e permanente. Esse programa de formação é necessário para qualquer tipo de movimento, mas, especialmente no caso de uma da‘wah verdadeira, constitui uma parte inseparável dela. Não se pode sequer conceber a da‘wah da verdade sem um programa de formação. Esta revolução não influencia apenas um aspecto da vida; antes, ilumina todos os seus aspectos, manifestos e ocultos, com uma nova luz. Este movimento não se ergue para exigir uma mudança parcial; pelo contrário, apresenta um molde e um plano completamente novos para a nossa vida individual e coletiva. Por isso, a própria natureza do movimento exige que, assim como ele avança segundo uma determinada sequência, também disponha de um programa de formação plenamente equilibrado, seguindo uma sequência semelhante. Isso não é menos importante do que a da‘wah original. Pelo contrário, não seria exagero dizer que a formação é, em certa medida, ainda mais importante do que a da‘wah original. Pois é por meio dessa formação que uma da‘wah consegue criar raízes no coração; depois, desenvolve-se gradualmente; em seguida, floresce e dá frutos. Por fim, um dia, preenche toda a sociedade com seus benefícios e sua utilidade.

O trabalho de um propagador da verdade pode ser corretamente exemplificado pelo trabalho de um agricultor. Assim como um agricultor não pode alcançar seu objetivo simplesmente espalhando algumas sementes em algum lugar, da mesma forma o trabalho de um propagador da verdade não pode terminar apenas fazendo as pessoas ouvirem alguns sermões e exortações. Pelo contrário, para cumprir seu objetivo, ele precisa manter uma ligação profunda com a da‘wah que se expandiu dentro dele, tal como a ligação de um agricultor diligente com as sementes. Ele permanece sempre atento para que as mudas criem raízes na terra, sejam regadas no momento certo, permaneçam protegidas das adversidades das estações, não sejam impedidas por ervas daninhas em seu crescimento e estejam a salvo dos ataques de insetos, animais e aves. Para cuidar de tudo isso, ele sacrifica o sono da noite e o descanso do dia. Trabalha incessantemente e permanece ocupado cuidando da plantação. Depois de algum tempo, colhe o fruto do próprio esforço. Da mesma forma, o propagador da verdade também chega a uma etapa em que vê sua da‘wah florescer e dar frutos, quando possui a coragem e a capacidade de suportar, juntamente com a da‘wah, o esforço penoso e o longo exercício da formação. Caso contrário, assim como as sementes plantadas por um agricultor negligente são destruídas pelas adversidades da terra e do clima e pelos ataques de animais, aves e insetos, também a da‘wah de um pregador pode transformar-se no clamor inútil de um deserto.

Se refletirmos profundamente sobre os métodos de da‘wah e formação dos profetas, mencionaremos aqui alguns dos princípios importantes encontrados para a formação organizacional.

Primeiro princípio da formação organizacional

O primeiro e mais importante princípio da formação organizacional é que o propagador deve abster-se de agir precipitadamente no trabalho da da‘wah e da formação. Deve observar constantemente se o alimento de conhecimento e formação que forneceu foi bem digerido e se tornou parte do pensamento e das ações das pessoas. Se lhes for dado mais alimento sem uma avaliação correta disso, o resultado aparecerá sob a forma de perturbação do estômago e indigestão. Quem tiver estudado a história dos propagadores da verdade não desconhece que podem existir várias razões para a precipitação de cada propagador no assunto da da‘wah.

As pessoas que aceitaram a da‘wah acabaram de conhecer o sabor da verdade. Esse novo contato desperta nelas um interesse tão grande pela verdade que o programa contínuo de formação lhes parece muito difícil. Elas ficam tão absorvidas pelo desejo da verdade que não conseguem avaliar corretamente a própria fome e capacidade de digestão, nem estão dispostas a levar em consideração a fraqueza dos demais membros frágeis da organização. Consideram a si mesmas superiores à sua verdadeira posição e também estimam seus companheiros acima de sua capacidade real. Por isso, exigem constantemente: “Há ainda mais?”

Além dessas, existe outro grupo que ainda é identificado como opositor da da‘wah. Essas pessoas estão sempre procurando os pontos fracos da da‘wah. Se não encontram oportunidade de se intrometer no programa apresentado, exigem: “Apresentem todo o vosso plano.” O único objetivo delas é que, se nada for apresentado imediatamente em resposta à sua exigência, possam sair dizendo ao povo que esse é um grupo sem propósito nem objetivo. Que não possui diante de si nenhum destino definido, nem um programa claro e completo para alcançar esse destino. E, se algo lhes for apresentado, tentam abrir uma brecha nele, caso não encontrem alguma falha.

Além disso, no coração de um verdadeiro propagador da verdade existe um forte anseio pela verdade. Ele é tão poderoso que, se a sabedoria concedida por Allah não o apoiasse, ele ultrapassaria todos os limites e condições da paciência, da espera, da continuidade e da formação. Quando esse interesse é estimulado pelas duas exigências mencionadas, muitas vezes acontece que o propagador se desvia do caminho da moderação. Contudo, a adoção dessa via moderada é extremamente necessária para o êxito de seu objetivo e para a correta formação da organização. Embora o verdadeiro amor pela verdade exija que a pessoa tenha por ela uma fome ávida, que a deixe inquieta, impaciente e a obrigue a agir precipitadamente, a exigência da formação da organização e o senso de respeito e amor pela verdade não são menos importantes. Por isso, o pregador precisa manter um equilíbrio correto entre essas duas coisas. Se a exigência da primeira o deixa ansioso para agir precipitadamente, a exigência da segunda deve obrigá-lo a esperar. Se o entusiasmo de chamar à verdade e a emoção de apoiar a verdade o obrigam a não deixar os interessados sedentos e a não cessar até apresentar a prova decisiva diante dos que obstruem o caminho da religião, então, ao compreender a importância da formação, ele não deve despejar mais água do que o recipiente é capaz de conter.

Se alguma vez a emoção do primeiro elemento se tornou tão intensa que não foi possível dar plena atenção ao segundo, então permaneceu na formação da organização uma falha cuja correção mais tarde já não foi possível. Por essa brecha, Satanás entrou no interior da organização, produziu ovos e filhotes, e toda a comunidade ficou submetida à desordem e à corrupção que ele espalhou. O exemplo mais doloroso disso pode ser visto na história dos Filhos de Israel. Quando Moisés, que a paz esteja sobre ele, saiu do Egito e chegou ao vale do Sinai, Allah, o Altíssimo, levou-o ao monte Tur para informá-lo sobre as instruções da Lei e determinou para esse propósito um dia específico. O profeta Moisés, que a paz esteja sobre ele, chegou ao monte Tur antes desse dia determinado. O entusiasmo que havia nele por conhecer as instruções de Allah e alcançar Sua satisfação era, em primeiro lugar, tão intenso que, depois de receber a indicação da parte de Allah, foi difícil para ele seguir o horário e a data estabelecidos. Em segundo lugar, esse entusiasmo pode também ter sido intensificado pelas exigências sucessivas apresentadas por seu povo. Embora fosse um entusiasmo elevado e louvável, o fato de ter chegado ao monte Tur antes do tempo determinado também demonstrava que ele estava muito ansioso e inquieto para conhecer as instruções de Allah.

Entretanto, havia outro aspecto que permitia fazer uma objeção a esse assunto, aspecto ao qual Moisés, que a paz esteja sobre ele, não atentou. Ao determinar para ele um prazo específico, em vez de chamá-lo imediatamente, o propósito de Allah era que Moisés dedicasse esse intervalo à formação do seu povo e fixasse firmemente em seus corações os princípios que lhes haviam sido ensinados. Assim, eles poderiam preservar a fé e o Islã mesmo depois de enfrentarem provas difíceis e perigos. Contudo, o desejo de receber mais instruções de Allah tornou-se tão dominante sobre ele que o senso da importância da formação foi vencido por esse desejo. O resultado foi que os inimigos da religião de Allah aproveitaram plenamente sua ausência e a fraqueza do povo, levando uma grande parte dele a entregar-se à adoração do bezerro.

Naquele momento de transgressão, Allah, o Altíssimo, atribuiu a responsabilidade à predileção de Moisés, que a paz esteja sobre ele, pela precipitação. Embora ele estivesse ocupado justamente com o ensino, a formação e a da‘wah, essa precipitação foi considerada causa de negligência em relação à responsabilidade da formação. Por isso, o Alcorão Sagrado menciona sua precipitação e suas consequências nas seguintes palavras:

“E por que te afastaste de teu povo e vieste antes do tempo determinado, ó Moisés?” Ele respondeu: “Eles estão vindo atrás de mim. E apressei-me em vir até Ti, ó meu Senhor, para alcançar a Tua satisfação.” Ele disse: “Está bem, então escuta! Nós submetemos teu povo a uma prova depois que partiste, e o Samiri os desviou.” – (Surata Ta-Ha: 83–85)
وَمَا أَعْجَلَكَ عَنْ قَوْمِكَ يَا مُوسَى () قَالَ هُمْ أُولَاءِ عَلَى أَثَرِي وَعَجِلْتُ إِلَيْكَ رَبِّ لِتَرْضَى () قَالَ فَإِنَّا قَدْ فَتَنَّا قَوْمَكَ مِنْ بَعْدِكَ وَأَضَلَّهُمُ السَّامِرِيُّDeste versículo se compreende que, assim como é dever indispensável de um pregador informar o povo sobre as ordens de Allah e Suas leis e normas, também é seu dever indispensável treiná-lo com plena atenção e visão prudente. Assim, o ensinamento da religião se fortalecerá tanto em seus pensamentos e consciência quanto em sua vida prática, de modo que poderão permanecer firmes nesse ensinamento mesmo diante de provas severas.

O pregador que se concentra apenas no aspecto do ensino e treinamento, e cuja atração por esse trabalho se torna tão dominante que ele não consegue cumprir devidamente a paciência e a serenidade necessárias ao treinamento, assemelha-se ao conquistador impaciente que avança continuamente sem pensar em consolidar sua posição na região conquistada. O resultado dessa pressa só pode ser que, por um lado, a rebelião se espalhe naquela região como um incêndio numa floresta.

Na Surata Ta-Ha, ao apresentar o exemplo instrutivo do povo de Moisés, Allah, o Altíssimo, advertiu o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — contra a pressa que existia nele por seu desejo de conhecer as ordens de Allah. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — também, devido ao seu interesse natural pelo conhecimento e à pressa de seu povo, desejava que a revelação de Allah descesse rapidamente. Assim, poderia satisfazer tanto seu próprio anseio de adquirir conhecimento quanto atender à exigência de seu povo. Por isso, quando a revelação descia, ele, levado pela intensidade desse interesse, apressava-se em assimilá-la, como um aluno entusiasmado.

Allah, o Altíssimo, advertiu-o em diversos lugares do Nobre Alcorão para que não se apressasse em fazer descer todo o Alcorão antes do prazo determinado para a conclusão da revelação. Esse intervalo e essa pausa estavam sendo concedidos para fortalecer teu coração e para treinar teu povo. Assim, poderias assimilar tudo o que te era ensinado, e teu povo também adquiriria capacidade para recebê-lo.
وَلَا تَعْجَلْ بِالْقُرْآنِ مِنْ قَبْلِ أَنْ يُقْضَى إِلَيْكَ وَحْيُهُ وَقُلْ رَبِّ زِدْنِي عِلْمًا(114)وَلَقَدْ عَهِدْنَا إِلَى آدَمَ مِنْ قَبْلُ فَنَسِيَ وَلَمْ نَجِدْ لَهُ عَزْمًا“Não te apresses com o Alcorão até que sua revelação a ti esteja concluída. [Mas] continua a suplicar: ‘Ó meu Senhor, concede-me mais conhecimento’. Antes disso, havíamos confiado a Adão uma responsabilidade, mas ele a esqueceu, e não encontramos nele firmeza de resolução.” – (Surata Ta-Ha: 114–115)

Na parte final deste versículo, são expostos claramente a importância de evitar a pressa e o valor do treinamento. Afirma-se que existe no ser humano uma fraqueza natural: diante de suas esperanças, desejos e interesses, sua determinação se enfraquece. Por isso, é necessário treiná-lo adequadamente, para criar nele plena consciência e percepção da responsabilidade que lhe será confiada. Então poderá permanecer firme mesmo ao enfrentar provações.

De acordo com essa exigência do treinamento, o Nobre Alcorão era revelado gradualmente. Os opositores impacientes levantavam a seguinte objeção: se o Nobre Alcorão é o Livro de Allah, por que é revelado pouco a pouco? O conhecimento de Allah abrange todas as coisas, presentes e futuras; Ele não precisa refletir, nem realizar testes e experimentos, nem considerar qualquer benefício geral. Por que, então, não revela todo o Alcorão de uma só vez? Isso, diziam eles, prova claramente que se trata de uma obra composta pelo próprio Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, que apresenta aquilo que consegue produzir após reflexão, esforço e prática.

Naturalmente, essa acusação também afetou muitos muçulmanos e foi extremamente dolorosa para o coração puro do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Contudo, Allah, o Altíssimo, não deu importância às acusações dos opositores, nem à dor causada ao Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e a seus companheiros por causa dessas acusações dos críticos e de seu desejo natural de adquirir conhecimento. Pelo contrário, Ele declarou: a exigência do treinamento para ti e para teus companheiros é que Minhas ordens sejam reveladas pouco a pouco e de modo contínuo. Assim, teu coração se fortalecerá plenamente para suportá-las, e tanto os fortes quanto os fracos da comunidade poderão recebê-las adequadamente. Se te apressares, permanecerá fraqueza em tua comunidade. E, assim como o Samiri desviou o povo dos Filhos de Israel, algum Samiri surgirá em tua comunidade e os lançará no erro.

A continuidade que observamos na revelação do Alcorão foi igualmente observada pelos Companheiros e pelas gerações posteriores no aprendizado e no ensino. O benefício geral disso consistia precisamente em que aqueles que o aprendessem o fariam de tal forma que ele se fixasse em suas mentes e corações, e sua vida real fosse tingida por sua cor. Isso só seria possível se o conhecimento do Alcorão fosse transmitido às pessoas gradualmente, pouco a pouco, e se elas fossem treinadas simultaneamente de acordo com esse conhecimento. Assim, é narrado de Abdullah ibn Masud — que Allah esteja satisfeito com ele — que ele disse:(Árabe****************************)“Quem quer que aprendesse dez versículos do Alcorão entre nós não avançava antes de conhecer seu significado e moldar sua vida prática de acordo com ele.”

Segundo princípio

O segundo princípio do treinamento organizacional é que o pregador deve prestar mais atenção à qualidade do que à quantidade. Às vezes acontece que o desejo de “procurar a ovelha perdida” domina tanto o pregador que ele se torna negligente em relação às ovelhas do rebanho. O resultado dessa negligência é que ele percorre campos e florestas em busca da ovelha perdida, enquanto as ovelhas do rebanho morrem por falta de alimento ou algum lobo entra no cercado e as dilacera. Esse desejo de negligenciar os seus e tornar próximo aquele que é estranho nasce no pregador da verdade de uma emoção, em si mesma, nobre. O entusiasmo pela propagação torna-se tão intenso que o senso de responsabilidade pelo treinamento é vencido por ele ou, pelo menos, fica relegado a segundo plano. Ele passa a dar maior importância à ideia de que os que são rebeldes contra Allah e desobedientes devem primeiro tornar-se pessoas que pronunciam o nome de Allah; seu treinamento e correção poderão vir depois.

Aparentemente, esse é um objetivo nobre. Porém, se for analisado profundamente, verá-se que a causa fundamental de dar prioridade à quantidade sobre a qualidade e o padrão está precisamente aí. Depois, avançando ainda mais nessa direção, surge a visão equivocada segundo a qual as pessoas ficam plenamente satisfeitas com estatísticas de cabeças, em vez de corações. Para proteger os pregadores dessa concepção errônea, o Nobre Alcorão ensinou-lhes que o desejo de chamar e tornar próximos aqueles que não conhecem o chamado da verdade não deve ser tão intenso a ponto de prejudicar os direitos das pessoas que aceitaram o chamado e que agora aguardam treinamento e purificação espiritual, sentindo sua necessidade.لَا تَمُدَّنَّ عَيْنَيْكَ إِلَى مَا مَتَّعْنَا بِهِ أَزْوَاجًا مِنْهُمْ وَلَا تَحْزَنْ عَلَيْهِمْ وَاخْفِضْ جَنَاحَكَ لِلْمُؤْمِنِينَ“E não dirijas teus olhos para aquilo com que concedemos o desfrute a alguns grupos deles [os incrédulos], nem te entristeças por sua rejeição e negação; ao contrário, acolhe os crentes sob a sombra de tua proteção.” – (Surata Al-Hijr: 88)وَاصْبِرْ نَفْسَكَ مَعَ الَّذِينَ يَدْعُونَ رَبَّهُمْ بِالْغَدَاةِ وَالْعَشِيِّ يُرِيدُونَ وَجْهَهُ وَلَا تَعْدُ عَيْنَاكَ عَنْهُمْ تُرِيدُ زِينَةَ الْحَيَاةِ الدُّنْيَا“E mantém teu coração junto daqueles que invocam seu Senhor pela manhã e ao entardecer, buscando Sua satisfação. Não deixes que teus olhos se afastem deles, desejando os adornos da vida mundana.” – (Surata Al-Kahf: 28)عَبَسَ وَتَوَلَّى () أَنْ جَاءَهُ الْأَعْمَى () وَمَا يُدْرِيكَ لَعَلَّهُ يَزَّكَّى () أَوْ يَذَّكَّرُ فَتَنْفَعَهُ الذِّكْرَى () أَمَّا مَنِ اسْتَغْنَى () فَأَنْتَ لَهُ تَصَدَّى“Ele franziu as sobrancelhas e virou o rosto, porque um cego veio até ele. E o que te fará saber? Talvez ele se purificasse ou recebesse o conselho, e o conselho lhe fosse útil. Quanto àquele que se considera autossuficiente, tu te dedicas a ele.” – (Surata Abasa: 1–6)

Em todos os versículos citados, foi dada ao pregador a orientação de que, embora aqueles que aceitaram o chamado sejam poucos em número e comuns em posição, o tempo que deveria ser gasto em seu treinamento não deve ser desperdiçado atrás de pessoas influentes. Pois, embora exista a possibilidade de que sua influência beneficie o chamado, elas estão embriagadas pelo orgulho e pela arrogância e descontentes com o chamado.

Terceiro princípio

O terceiro princípio do treinamento organizacional é que nenhum setor da organização deve desviar-se dos princípios sobre os quais ela foi fundada, nem criar oportunidade para que a doença da rebelião contra eles se espalhe. Se alguma desordem desse tipo começar a aparecer, é dever dos dirigentes e responsáveis pela organização pensar em eliminá-la pela raiz antes que se espalhe. No cumprimento dessa responsabilidade, nenhum interesse, liberalidade, ameaça de qualquer espécie ou amor por alguém deve tornar-se um obstáculo. Uma pequena negligência nesse assunto pode causar um enorme prejuízo. Foi assim que, aproveitando-se de uma negligência semelhante, grande parte do povo de Moisés se entregou à adoração do bezerro em vez de adorar Allah. Para eliminar pela raiz esse tipo de desordem, não basta que os líderes da organização tenham corações fortes; não há mal algum em que sejam também um pouco severos. Assim poderão arrancar impiedosamente essa desordem desde suas raízes e lançá-la para longe.

Quando Moisés soube que a tentação do politeísmo se espalhara entre seu povo, retornou do monte Tur e, antes de tudo, repreendeu severamente aqueles que haviam sido encarregados de supervisionar o povo durante sua ausência e cuja flexibilidade e liberalidade haviam permitido que a calamidade se espalhasse. Depois, fez com que os verdadeiros culpados fossem mortos pelos membros de suas próprias tribos, para que todos compreendessem claramente que aqueles que espalhassem semelhante desordem dentro da organização não poderiam esperar qualquer ajuda ou solidariedade nem mesmo de seus parentes consanguíneos. Além disso, destruiu completamente a estátua feita pelo Samiri, para que não restasse no povo sequer um vestígio da tentação. Impôs ao Samiri um castigo exemplar que permaneceu como uma corrente em seu pescoço durante toda a vida.

Para manter a organização livre desse tipo de calamidade, o Islã estabeleceu que, quando for encontrada em qualquer pessoa da organização uma desvião dos princípios organizacionais, toda a organização tem o dever de resistir a isso e tentar corrigi-lo. Se a organização não o fizer, permitindo que as pessoas façam o que quiserem, as consequências de seus crimes não ficarão limitadas a elas. Ao contrário, todos os membros da organização, tanto os pecadores quanto os piedosos, tornar-se-ão participantes delas. O Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — explicou o significado disso por meio do exemplo de um navio. Se um passageiro decidir perfurar o fundo do navio e os demais passageiros não o impedirem, o resultado inevitável será que o navio afundará, e todos terão de sofrer o castigo pelo delito de uma só pessoa. Da mesma forma, se uma organização tratar liberalmente os malfeitores que se encontram em seu interior, o resultado inevitável será que toda a organização sofrerá o perigo provocado por esses malfeitores. O Nobre Alcorão advertiu sobre esse perigo nas seguintes palavras:
وَاتَّقُوا فِتْنَةً لَا تُصِيبَنَّ الَّذِينَ ظَلَمُوا مِنْكُمْ خَاصَّةً وَاعْلَمُوا أَنَّ اللَّهَ شَدِيدُ الْعِقَابِ“E guardai-vos de uma provação cuja consequência nefasta não atingirá exclusivamente aqueles dentre vós que cometeram injustiça. E sabei que Allah é severo no castigo.” – (Surata Al-Anfal: 25)

Para cumprir essa obrigação, os métodos variarão de acordo com os diferentes níveis da organização. Mas a organização jamais poderá eximir-se da responsabilidade pela obrigação fundamental.

Na fase inicial, quando a organização ainda não possui força nem influência política, ela vai separando de seu próprio seio as pessoas que violam seus princípios. Em primeiro lugar, não dá espaço em seu interior àqueles que não estejam devidamente impregnados de sua orientação. Se, de algum modo, uma pessoa inerte desse tipo entrar na organização, assim como uma mosca que entre no estômago de uma pessoa saudável não consegue permanecer ali por muito tempo, da mesma forma esse tipo de pessoa não consegue subsistir nesse sistema. Se já na fase inicial a situação de uma organização for tal que pessoas que violam seus princípios possam ser tranquilamente criadas e mantidas em seu interior, isso significa que nenhuma personalidade organizacional foi formada e que a organização rapidamente será vítima da desintegração.

No segundo estágio, isto é, quando a organização adquire força política, a instituição política da organização procura impedir que elementos causadores de desordem nasçam ou se infiltrem em seu interior. Para resistir a eles, além dos meios comuns de propaganda e treinamento, utiliza também a força, se considerar necessário. Se essa instituição política cumprir sua responsabilidade com pleno senso de dever, toda a organização fica isenta dessa responsabilidade. Mas, que Allah não permita, se essa instituição se desviar, será dever de toda a organização avançar, levando a bandeira do ‘comando do bem e proibição do mal’ — o estabelecimento da justiça e a resistência à injustiça — para corrigi-la, e não poderá dormir tranquilamente enquanto sua correção não for alcançada. Os pregadores dessa correção não se contentarão apenas em levantar a voz pela reforma; ao expressar indignação e repulsa contra a conduta dos culpados, também se libertarão desse crime.

Quarto princípio

O quarto princípio do treinamento organizacional é que, na fase inicial do chamado, deve-se insistir tanto quanto possível para que as pessoas permaneçam ligadas ao centro principal do ensino e do chamado, providenciando também os meios necessários para isso. Na fase em que a personalidade da organização está apenas se formando, um ambiente adequado e a ligação direta com o centro principal são os elementos mais necessários para um treinamento correto. Se essas duas coisas forem negligenciadas nessa fase, serão poucos os membros da organização que se tornarão tão fortes intelectual e moralmente a ponto de poderem impregnar-se dessa orientação e também transmiti-la a outros. Pelo contrário, surgirão muitas pessoas sobre as quais a marca do chamado será tão superficial que desaparecerá assim que atravessarem uma única etapa difícil de provação. Essas pessoas não serão intelectualmente maduras o bastante para criar nos outros a consciência correta do chamado, nem serão suficientemente firmes em sua conduta para continuar sua atividade de propagação em qualquer circunstância, favorável ou adversa. O resultado será que, enquanto alguma personalidade influente estiver presente, a prática desse chamado permanecerá entre as pessoas; mas, assim que ela desaparecer, todo o tumulto se aquietará.

Entre as muitas sabedorias contidas na ordem de emigrar estabelecida pelo Islã, uma das mais importantes era que todos os muçulmanos poderiam aproximar-se diretamente do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, beneficiar-se de sua companhia e, vivendo num ambiente favorável, receber plenamente a marca do Islã. A exigência do chamado para cada pessoa é que pessoas talentosas e virtuosas de cada região venham ao centro do chamado e do treinamento e, depois de adquirirem conhecimento da religião, retornem à sua região e informem seu povo sobre a religião.
وَمَا كَانَ الْمُؤْمِنُونَ لِيَنْفِرُوا كَافَّةً فَلَوْلَا نَفَرَ مِنْ كُلِّ فِرْقَةٍ مِنْهُمْ طَائِفَةٌ لِيَتَفَقَّهُوا فِي الدِّينِ وَلِيُنْذِرُوا قَوْمَهُمْ إِذَا رَجَعُوا إِلَيْهِمْ لَعَلَّهُمْ يَحْذَرُونَ“Não era possível que todos os crentes partissem para adquirir conhecimento. Por que, então, não deveria partir de cada grupo uma delegação para adquirir profundo conhecimento da religião e, quando retornasse, advertir seu povo, para que também adotasse o caminho do temor a Allah?” – (Surata At-Tawbah: 122)

Quinto princípio

O quinto princípio do treinamento organizacional é que, durante as oportunidades de prova que surgirem diante da organização, deve-se manter plena atenção aos seus erros, falhas e à sua estagnação. Quando o momento da prova terminar e chegar a oportunidade de respirar em paz, cada erro e cada estagnação devem ser analisados de maneira imparcial. A estagnação intelectual indicada por essas deficiências doutrinárias deve ser apresentada claramente às pessoas.

No início, essa análise deve ser dirigida de maneira geral. Seu benefício será que cada pessoa poderá ser alertada em sua própria posição por meio dela e, se tiver disposição natural para a correção, também poderá beneficiar-se dela. Se, logo na primeira fase, forem repreendidos especificamente apenas os culpados, mencionando seus nomes, surgirá neles um sentimento de humilhação. Em vez de criar condições para sua correção, isso produzirá uma atitude de obstinação e teimosia.

Entretanto, quando, depois de repetidas investigações sobre determinado grupo, ficar comprovado que eles não violam os princípios da organização apenas por alguma complicação mental ou por circunstâncias ocasionais, mas que deliberadamente transformaram a política da hipocrisia em seu hábito, então deverão ser advertidos diretamente por seus erros, e o método de sigilo e compaixão deverá ser abandonado em relação a eles. Esta será sua advertência final. Se, mesmo depois disso, não se corrigirem, será dever da organização eliminá-los de seu interior.

O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — adotou esse mesmo procedimento em relação aos hipócritas, e, do ponto de vista do treinamento organizacional, isso é compatível com a razão e com a natureza humana. Quem mantém os olhos fixos no Nobre Alcorão sabe que a Batalha de Badr foi a primeira oportunidade de prova na história do Islã. Foi nessa batalha que se comprovou que alguns hipócritas estavam escondidos no interior da organização. Depois de passada a situação da batalha, o Nobre Alcorão criticou severamente as ações dessas pessoas. Há testemunho disso na Surata Al-Anfal. Contudo, naquela ocasião, eles não foram especificamente interpelados e repreendidos diretamente, nem expulsos da organização.

Depois disso, em cada prova, essas pessoas continuaram demonstrando sua fraqueza. Mas, além de críticas gerais e conselhos, o Nobre Alcorão não desferiu diretamente nenhum golpe contra elas. Essa situação permaneceu até perto da Batalha de Tabuk. Porém, quando as provas contra essas pessoas se tornaram conclusivas e ficou plenamente comprovado que suas más ações e arrogância não eram resultado de ignorância ou de uma derrota temporária, mas que faziam tudo conscientemente e com plena intenção, elas foram eliminadas e expulsas da organização.
12

Responsabilidades e deveres do pregador da verdade

Seja um chamador da verdade ou um chamador da falsidade, Allah, o Altíssimo, não concedeu a nenhum deles poder além do de convocar e inspirar. Nenhum profeta tinha o poder de infundir orientação no coração de alguém, e Satanás não tem o poder de lançar uma pessoa no caminho do erro. Cada um deles possui apenas o poder de chamar as criaturas de Allah para o seu próprio caminho. Adotar a orientação ou o desvio depende da escolha da pessoa convocada e do auxílio especial ou da facilidade concedida por Allah. Para esse auxílio e essa facilidade, Allah estabeleceu uma regra. De acordo com essa regra, Ele concede aos Seus servos de natureza sã e desejosos de orientação a capacidade de seguir o caminho dos profetas, e concede aos servos de natureza tortuosa e inclinados ao desvio a facilidade de seguir o caminho de Satanás. Por meio dos versículos seguintes, esta verdade foi apresentada ao Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele:إِنَّكَ لَا تَهْدِي مَنْ أَحْبَبْتَ وَلَكِنَّ اللَّهَ يَهْدِي مَنْ يَشَاءُ وَهُوَ أَعْلَمُ بِالْمُهْتَدِينَ“Tu não podes guiar quem amas; mas Allah guia quem quer. E Ele conhece melhor os que seguem a orientação.” — (Surata Al-Qasas: 56)إِنْ تَحْرِصْ عَلَى هُدَاهُمْ فَإِنَّ اللَّهَ لَا يَهْدِي مَنْ يُضِلُّ وَمَا لَهُمْ مِنْ نَاصِرِينَ“Se te empenhares para guiá-los, sabe que Allah não guia aqueles que Ele deixa extraviar-se, e eles não terão quem os ajude.” — (Surata An-Nahl: 37)كِتَابٌ أَنْزَلْنَاهُ إِلَيْكَ لِتُخْرِجَ النَّاسَ مِنَ الظُّلُمَاتِ إِلَى النُّورِ بِإِذْنِ رَبِّهِمْ إِلَى صِرَاطِ الْعَزِيزِ الْحَمِيدِ“Este é um Livro que te revelamos para que, com a permissão de seu Senhor, tires as pessoas das trevas para a luz.” — (Surata Ibrahim: 1)إِنَّ عِبَادِي لَيْسَ لَكَ عَلَيْهِمْ سُلْطَانٌ إِلَّا مَنِ اتَّبَعَكَ مِنَ الْغَاوِينَ“Tu não terás autoridade sobre os Meus servos, exceto sobre os desviados que te seguirem.” — (Surata Al-Hijr: 42)وَمَا كَانَ لِيَ عَلَيْكُمْ مِنْ سُلْطَانٍ إِلَّا أَنْ دَعَوْتُكُمْ فَاسْتَجَبْتُمْ لِي فَلَا تَلُومُونِي وَلُومُوا أَنْفُسَكُمْ“Eu não tinha autoridade sobre vós; apenas vos convoquei, e vós respondestes ao meu chamado. Portanto, não me repreendais, mas repreendei a vós mesmos.” — (Surata Ibrahim: 22)
Diante desta realidade, o chamador da verdade não se preocupa em saber se as pessoas escutam atentamente o seu chamado. Não se preocupa, nem precisa preocupar-se, em saber se a época é favorável ao seu chamado. Depois de decidir firmemente que é seu dever chamar as pessoas para aquilo em que crê como verdade e considera igualmente benéfico para o mundo inteiro, ele não se inquieta pensando se as pessoas aceitarão o seu chamado, cumprindo assim o seu dever, ou se Allah espalhará esse chamado pelo mundo.
Quanto à aceitação ou rejeição do chamado pelas pessoas, sua responsabilidade permanece integral em ambos os casos, quer elas respondam ou não ao seu convite. Se aceitarem o chamado, abrir-se-á para elas o caminho do sucesso e da salvação neste mundo e no Além, e ele receberá de Allah a recompensa por cumprir sua responsabilidade e por fazer o chamado. Se não o aceitarem, por meio dele a prova definitiva de Allah estará estabelecida diante delas, e o chamador será declarado livre de responsabilidade; isto é, terá cumprido o dever que lhe cabia. O Alcorão Sagrado menciona a resposta de um grupo de chamadores da verdade. Eles haviam sido impedidos de apresentar seu chamado a um grupo de pessoas que, de modo algum, o aceitariam. Essa resposta esclarece perfeitamente a natureza da responsabilidade do chamador da verdade: quer as pessoas aceitem ou não o seu chamado, sua responsabilidade é continuar chamando. Se o aceitarem, alcançarão a orientação; se não o aceitarem, ele será considerado livre de responsabilidade diante de Allah.وَإِذْ قَالَتْ أُمَّةٌ مِنْهُمْ لِمَ تَعِظُونَ قَوْمًا اللَّهُ مُهْلِكُهُمْ أَوْ مُعَذِّبُهُمْ عَذَابًا شَدِيدًا قَالُوا مَعْذِرَةً إِلَى رَبِّكُمْ وَلَعَلَّهُمْ يَتَّقُونَ“Quando um grupo deles disse a outro: ‘Por que admoestais um povo que Allah destruirá ou castigará com severo castigo?’, responderam: ‘Para que tenhamos uma justificativa perante o vosso Senhor e para que talvez adotem a consciência de Allah.’” — (Surata Al-A’raf: 164)
Quanto à ajuda e ao apoio de Allah, basta dizer que, quando Allah torna clara para uma pessoa a verdade, isso cria em seu coração a certeza de que, se ela avançar com a determinação de transmitir essa verdade, chamar as pessoas a aceitá-la e disseminá-la no mundo, Allah certamente a ajudará nessa tarefa. Ela jamais pode suspeitar de um Senhor misericordioso e benevolente, pensando que o caminho que Ele declarou ser o caminho reto e fácil é impossível de seguir, ou que o sistema de vida que Ele chamou de natural é tão complexo e tão impossível de praticar que as pessoas jamais o aceitarão. Do mesmo modo, um chamador justo não pode suspeitar de seu Senhor bondoso, imaginando que Ele lhe imporá uma responsabilidade, dirá que nela estão seu dever, sua salvação e a graça de Allah, mas, quando ele começar a cumpri-la e surgirem dificuldades, o abandonará indefeso e não o ajudará de maneira alguma.
Todo chamador possui esta boa opinião e confiança em Allah: seguir o caminho que Ele indicou não é difícil, o sistema de vida que Ele concedeu não é complexo, praticá-lo não é impossível; Ele não o abandonará indefeso, e ele certamente receberá Sua ajuda. Quando os opositores começam a criar obstáculos em seu caminho e parece, exteriormente, que já não será possível levar o trabalho adiante, essa confiança lhe dá firmeza e entusiasmo: se Allah apontou com o próprio dedo o caminho e disse que ele é o caminho da verdade, aquele que o percorre certamente chegará ao destino desejado. Por maiores que sejam os obstáculos nesse caminho, a ajuda de Allah finalmente chegará. Essa é a relação dos chamadores da verdade com Allah e essa é a sua confiança n’Ele. O seguinte versículo da Surata Ibrahim expressa isso:وَمَا لَنَا أَلَّا نَتَوَكَّلَ عَلَى اللَّهِ وَقَدْ هَدَانَا سُبُلَنَا وَلَنَصْبِرَنَّ عَلَى مَا آذَيْتُمُونَا وَعَلَى اللَّهِ فَلْيَتَوَكَّلِ الْمُتَوَكِّلُونَ“Por que não confiaríamos em Allah, quando Ele nos guiou pelos nossos caminhos? Certamente suportaremos com paciência tudo o que nos infligirdes. E que os que confiam depositem sua confiança somente em Allah.” — (Versículo 12)
Às vezes, o chamador comete o erro de definir incorretamente os limites de sua responsabilidade. Ele passa a pensar que sua responsabilidade não se limita a transmitir corretamente a verdade às pessoas, mas inclui fazê-las aceitá-la. Uma consequência inevitável desse erro é que, em vez de apresentar a verdade pura, surge nele uma tendência a fazer concessões às crenças e ideias falsas dos opositores. Em segundo lugar, ao assumir uma responsabilidade equivocada, lança sua vida em pensamentos difíceis e complicações. Para proteger as pessoas desse tipo de erro, o Alcorão Sagrado oferece orientações detalhadas. Por exemplo:وَمَا عَلَى الَّذِينَ يَتَّقُونَ مِنْ حِسَابِهِمْ مِنْ شَيْءٍ وَلَكِنْ ذِكْرَى لَعَلَّهُمْ يَتَّقُونَ“Os que têm consciência de Allah não serão responsabilizados por suas obras, mas devem admoestá-los, para que talvez se abstenham de suas políticas e condutas erradas.” — (Surata Al-An’am: 69)اتَّبِعْ مَا أُوحِيَ إِلَيْكَ مِنْ رَبِّكَ لَا إِلَهَ إِلَّا هُوَ وَأَعْرِضْ عَنِ الْمُشْرِكِينَ(106)وَلَوْ شَاءَ اللَّهُ مَا أَشْرَكُوا وَمَا جَعَلْنَاكَ عَلَيْهِمْ حَفِيظًا وَمَا أَنْتَ عَلَيْهِمْ بِوَكِيلٍ“Segue aquilo que te foi revelado por teu Senhor. Não há divindade além d’Ele. E afasta-te dos idólatras. Se Allah quisesse, poderia ter feito de ti um guardião deles, para que não cometessem erros. Mas tu não és responsável por eles, nem ficarás encarregado de fazê-los crer.” — (Surata Al-An’am: 107, 107)فَإِنَّمَا عَلَيْكَ الْبَلَاغُ وَعَلَيْنَا الْحِسَابُ“Tua responsabilidade é apenas transmitir plenamente; cabe a Mim prestar contas.” — (Surata Ar-Ra’d: 40)طه () مَا أَنْزَلْنَا عَلَيْكَ الْقُرْآنَ لِتَشْقَى () إِلَّا تَذْكِرَةً لِمَنْ يَخْشَى“Ta-Ha. Não te revelamos o Alcorão para que te atormentes; ele é apenas uma admoestação para aqueles que temem a Allah.” — (Surata Ta-Ha: 1–3)
Na época atual, aqueles que, ao verem a vitória mundial das forças rebeldes contra Allah, permanecem de braços cruzados e não veem qualquer oportunidade para fazer o chamado, ou que, não vendo possibilidade de expansão do chamado, passam a promover a falsidade, estão imersos no erro mencionado anteriormente. Se lhes estivesse claro que transmitir ou não essa verdade às pessoas, e ela alcançar ou não ampla difusão, não depende deles, mas está relacionado a Allah, não se envolveriam na complexidade das possibilidades e impossibilidades, nem assumiriam sobre os próprios ombros a responsabilidade de promover a falsidade. Em vez disso, promoveriam a verdade conforme sua capacidade e esperariam de Allah, que ama a verdade e o bem, que certamente a espalharia.
Mas quiseram assumir sobre os próprios ombros, juntamente com seu fardo, a responsabilidade de Allah. Quando perceberam que esse era um fardo extremamente pesado e impossível de carregar, foram obrigados a declarar que, embora o sistema repleto de benefício e bênção seja aquele apresentado pelo Islã, como é impossível estabelecê-lo amplamente na época atual, não há alternativa senão promover e aceitar um sistema não islâmico.
É precisamente nessa ideia que se esconde o desvio. Não é necessário, nem há oportunidade aqui, de expor tudo isso. Contudo, desejamos indicar um ponto: essas pessoas abandonaram conscientemente o caminho da verdade e adotaram o caminho da falsidade, vítimas da ideia de que, seguindo este último, poderiam facilmente alcançar seu objetivo. Entretanto, mesmo que obtenham sucesso nesse caminho — aquilo que consideram sucesso — isso só poderá ocorrer por ordem de Allah, não por seus próprios esforços e estratégias. Em vez de seguir um caminho errado e esperar que Allah lhes concedesse uma oportunidade, não teria sido melhor que elas próprias seguissem o caminho da verdade, convidassem os outros a segui-lo e esperassem de Allah capacidade e sucesso?
Elas não conseguiram definir corretamente os limites de sua responsabilidade e dever como chamadoras da verdade. Esse erro grave direcionou todos os seus esforços para um caminho completamente equivocado. Não se limitaram a considerar seu dever transmitir às pessoas, sem qualquer alteração, acréscimo ou redução, a verdade para a qual Allah as guiou; passaram também a considerar sua responsabilidade transformar as pessoas em seguidoras da verdade. Quando essa tarefa lhes pareceu difícil, abandonaram a verdade e adotaram a falsidade. Esse passo equivocado inevitavelmente desvia o chamador do caminho do Allah Misericordioso e o coloca no caminho de Satanás. Então ele deixa de ser apenas um chamador e aparece como um reivindicador que interfere nos direitos de Allah e apresenta uma nova doutrina.
Se um chamador conhecesse bem sua posição, não se poderia esperar que permanecesse desesperado e cheio de dúvidas, nem que começasse a promover a falsidade em lugar da verdade. Contudo, para que a ideia de que sua responsabilidade se limita apenas à pregação não produza nele descuido ou leviandade, deve manter uma vigilância constante sobre si mesmo. Para proteger-se disso, deve manter sempre diante dos olhos a responsabilidade e o dever do chamador. Se não prestar atenção a esse aspecto, corre o risco de ser detido perante Allah sob a acusação de não ter cumprido o dever de transmitir ou testemunhar da maneira prescrita.
Sobre os nobres profetas, pode-se dizer que o senso de responsabilidade pela missão profética era tão forte neles que muitas vezes esqueciam até mesmo o descanso necessário. Chegavam a esquecer a própria dignidade e a grandeza de seu chamado. Sua ocupação extraordinária fazia parecer que se consideravam responsáveis pela descrença e pela fé das pessoas. Allah repreendeu Seus profetas por esse tipo de preocupação excessiva, numa atitude própria de Seu amor por eles. Já mencionamos anteriormente alguns exemplos disso. Evitar esse tipo de excesso e de preocupação deve ser uma característica de todo chamador da verdade.
13

Os adversários do convite à verdade

Todo chamado à verdade depara-se com três tipos de adversários:
1. O inimigo inflexível
2. O grupo dos que aguardam
3. Os inconscientes
As qualidades e o estado mental de cada uma dessas classes diferem entre si. Por isso, um médico experiente precisa tratar cada uma delas de modo completamente distinto. O sucesso do chamado depende em grande medida dessa diferença de tratamento. Se um pregador não souber identificar essas diferentes classes nem conhecer seu comportamento e suas inclinações particulares, não se pode esperar que seu chamado seja bem-sucedido. Considerando a importância do assunto, discutiremos detalhadamente as características próprias e as inclinações de todas essas classes de inimigos.

1. O inimigo inflexível

Por inimigos inflexíveis entendem-se aqueles que, assim que percebem a identidade e a influência do chamado, entram em campo decididos a combatê-lo. Embora sua oposição assuma, em geral, diversas formas, três são as principais e fundamentais: (1) a hostilidade bárbara; (2) a arrogância, o ódio e a animosidade; (3) a preocupação com interesses pessoais. Quanto à precedência na oposição à verdade, essas três atitudes pertencem exatamente ao mesmo nível; mas, quanto à sua essência, são completamente diferentes.

A doença da hostilidade bárbara é, em essência, resultado da lealdade e da afeição a um sistema de ignorância. Normalmente são atingidos por essa doença aqueles que são leais ao sistema de ignorância de sua época e seus servidores fiéis. Quando essas pessoas veem surgir um chamado que pretende destruir o sistema sob sua liderança e estabelecer outro em seu lugar, ficam agitadas. Veem nisso a ruína política e econômica de seu povo. Percebem que esse novo chamado está provocando divisões em sua tribo e despedaçando a organização que construíram. Também compreendem que esse chamado é totalmente contrário aos caminhos conhecidos de seus pais, antepassados e à política antiga. Por isso, seus corações se entristecem com ele.

Tudo isso produz neles uma dor intensa e uma agitação violenta contra o pregador e contra o chamado, e eles se preparam com todo o empenho para combatê-lo e até dar a vida. Porém, como sua oposição se baseia em grande parte na lealdade nacional, contém pouca baixeza, vileza ou mesquinhez. É uma oposição viril. Há nela agitação, mas essa agitação não é desprovida de cortesia, educação e nobreza. Nesse tipo de oposição, depois que os mal-entendidos são eliminados, ainda permanece a possibilidade de que a oposição se transforme em amor. E, se isso acontecer, esse amor poderá assumir uma forma tão indomável quanto a oposição apaixonada e irresistível que o precedeu.

Na história do chamado islâmico, o melhor exemplo disso é a oposição de Abu Jahl e de Umar. Todos sabem quão ativo Abu Jahl permaneceu na oposição ao chamado do Islã até o último suspiro. Apesar de sua extrema inimizade, jamais tentou lançar uma acusação vil contra o Mensageiro de Deus. Quando ele saía para realizar o chamado, Abu Jahl o seguia como uma sombra, levado pelo ardor da oposição, para impedir que alguém escutasse suas palavras. Mas, quando se opunha, dizia algo como: “Ó Muhammad! Não estou dizendo que você mente. Mas o seu chamado é contrário ao caminho de nossos pais e antepassados.” O que mais o enfurecia era que o chamado estava desagregando a unidade dos coraixitas. A principal acusação que lançava contra o Mensageiro de Deus era: “Ele separou o filho do pai e o irmão do irmão, tornando-os inimigos uns dos outros.”

Assim, quando, na batalha de Badr, viu que o chamado do Islã havia colocado os coraixitas em fileiras contra os próprios coraixitas, suplicou a Deus com plena emoção:(Árabe**********)
“Ó Deus! Derrota amanhã aquele de nós que mais rompe os laços de parentesco e que inventou esta inovação.”

Embora essa súplica estivesse mergulhada no veneno da inimizade da ignorância, não se pode negar que nela se revelavam a cortesia de Abu Jahl e o aspecto de culto à sua própria nação. Por mais ativos que esses opositores sejam no combate ao chamado, neles se manifesta uma beleza de amor pelo próprio povo. Por isso, aos olhos dos pregadores da verdade, eles possuem uma honra especial. Estes sempre esperam, em seu íntimo, que essa beleza seja empregada a serviço da verdade, em vez de ser usada para apoiar a falsidade. Por essa razão, o Mensageiro de Deus suplicou especialmente pela aceitação do Islã por Abu Jahl e por Umar, entre todos os opositores do chamado islâmico. Com a conversão deles, o chamado do Islã poderia adquirir força e prestígio.

Essa súplica foi atendida no caso de Umar. Todo estudante da história islâmica sabe que, imediatamente após sua conversão, a situação mudou de repente. Antes de aceitar o Islã, ele havia combatido o Islã e os muçulmanos com entusiasmo impetuoso, grande atividade, força e hostilidade; depois de aceitá-lo, passou a dedicar a vida ao Islã com determinação ainda maior e com coragem. Quando sua hostilidade da época da ignorância assumiu a cor do Islã, amigos e inimigos perceberam que um homem crente, possuidor da força de um leão, havia entrado nas fileiras do Islã.

Na conduta de Umar havia uma beleza capaz de servir de fermento para todas as qualidades elevadas do ser humano. Mas essa beleza estava escondida sob inúmeras ideias da ignorância. Quando, pelo contato com o chamado religioso do Profeta, o entulho dessas ideias falsas foi removido, ela surgiu de baixo como ouro puro. Seu brilho acabou ofuscando os olhos do mundo.

A relação de Umar com o sistema de ignorância de sua época não se baseava em egoísmo. Até aceitar o Islã, ele considerava esse sistema verdadeiro. Via nele a herança de seus honrados antepassados e a preservação da honra de seu povo. Por essas razões, considerava seu dever religioso e nacional tomar os seguidores desse sistema como amigos e identificar seus opositores como inimigos. Mas, quando ficou claro para ele que aquilo que havia compreendido não era verdade e que a verdade estava no lado oposto, empregou no serviço e no auxílio do Islã o mesmo entusiasmo que o havia tornado servidor dedicado do sistema de ignorância.

As pessoas dotadas dessas qualidades elevadas, por estarem acima dos interesses mesquinhos, não se empenham em rejeitar uma verdade depois que ela se torna evidente, nem recuam de cumprir as exigências necessárias daquilo que aceitaram. Ao contrário, possuem a coragem de aceitar uma verdade depois que ela é comprovada e conseguem sacrificar por ela qualquer interesse pessoal. Por esse aspecto de seu caráter e moralidade, onde quer que estejam, ocupam posição e dignidade especiais.

Há vários tipos de pessoas dentro desse grupo. A inimizade de algumas ultrapassa seus limites e assume a forma de vaidade e arrogância. Elas não têm a sorte de escapar da armadilha da ignorância até o último suspiro, como Abu Jahl. Outras, depois de um pequeno conflito e de uma breve advertência, despertam, tornam-se cautelosas e encontram o caminho correto, como Umar e Hamzah. Para algumas, demora muito para romper o véu da ignorância, como no caso de Abu Sufyan. Mas uma característica está igualmente presente em todas: quando abandonam a ignorância e aceitam o Islã, imediatamente ocupam a primeira fileira do Islã, assim como, até o dia anterior, estavam na primeira fileira da ignorância.خياركم في الجاهلية خياركم في الاسلام
“Os melhores deles na época da ignorância são também os melhores no Islã, desde que adquiram profundo conhecimento da religião.” (Bukhari — Livro das Virtudes e Livro dos Profetas; Muslim — Livro das Virtudes)

As pessoas que geralmente se opõem ao chamado da verdade por causa da arrogância, do orgulho, da inveja e da animosidade são aquelas que, devido a uma religiosidade artificial e à riqueza herdada, ocupam posições de liderança e autoridade no sistema de ignorância. Estão tão acostumadas a caminhar à frente por sempre terem estado na dianteira que consideram indigno de si seguir a verdade. Por isso, em vez de seguirem a verdade, querem obrigá-la a segui-los.

A mentalidade da religiosidade herdada costuma ser esta: consideram a verdade uma herança dos pais e antepassados e sua propriedade pessoal. Criadas e educadas em ambientes sacerdotais e prestigiosos, não conseguem imaginar que possa existir verdade fora de sua própria pessoa e de seu círculo. A situação daqueles que herdaram abundância é que fazem do luxo e do esplendor mundanos uma prova de que estão do lado da verdade, imaginando que, por possuírem honra e prestígio, seus pensamentos e ações devem necessariamente ser verdadeiros.

Quando um chamado desafia pessoas com essa mentalidade, sendo contrário à sua religiosidade exterior ou atingindo seus desejos, elas se inquietam e se levantam decididamente contra ele. Sobretudo quando o chamado surge de um ambiente diferente do seu, sua oposição atinge o extremo. Permanecem mergulhadas na arrogância de que a verdade está com elas e permanecerá para sempre com elas. Mesmo que se admita que ela tenha desaparecido de seu meio, acreditam que, quando reaparecer no mundo, surgirá novamente entre elas. Por isso, é quase impossível que pessoas dominadas por essa vaidade aceitem uma verdade cujo pregador não sejam elas próprias.

Toda a história do chamado da verdade testemunha, portanto, que são poucos os que, atingidos por essa doença, têm a sorte de crer na verdade. Os líderes de Meca e Taife, que diziam: “Se Deus tivesse de enviar um profeta, teria enviado alguém de nosso meio”, estavam atingidos por essa doença. Negavam que o Islã fosse a verdadeira religião e a religião de Deus porque pensavam: “Se esta fosse realmente a verdade e uma religião revelada por Deus, este homem humilde e pobre não a teria recebido antes de nós.” Os judeus também compartilhavam desse estado. Por trás de sua oposição ao Islã atuava principalmente o sentimento de que, se aceitassem essa verdade, toda a honra e o prestígio de sua liderança religiosa seriam lançados por terra.

Embora pessoas desse tipo apresentem diversas acusações e dúvidas contra o chamado da verdade para provar que sua oposição é legítima e racional, na realidade essas acusações e dúvidas são levantadas apenas para encobrir as verdadeiras causas da oposição, da arrogância e da animosidade. Esses opositores veem, em relação ao pregador da verdade, mais motivos de desespero que de esperança. Poucos entre eles têm a sorte de aceitar a verdade. Dominados pelo orgulho, colocam-se no lugar de Deus e, enquanto não forem obrigados a descer desse lugar, não estão dispostos a abandoná-lo.

O Alcorão Sagrado classifica a arrogância como um dos maiores obstáculos à aceitação da verdadeira religião. Por isso, em vários lugares do Alcorão, o Mensageiro de Deus é impedido de desperdiçar demasiado tempo com essas pessoas. Elas se embriagam de orgulho por causa da abundância de riquezas mundanas ou da liderança religiosa e temporal. Com base na arrogância e na presunção dos sábios e juristas de seu tempo, Jesus disse: “Bem-aventurados os pobres de coração; eles entrarão no reino dos céus.” Também disse: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus.” A passagem do tempo comprovou essa profecia. Sabe-se, tanto pelos Evangelhos quanto pelo Alcorão Sagrado, que nenhum dos sábios e juristas de Jerusalém creu no chamado de Jesus. Desesperado com eles, ele acabou apresentando seu chamado aos pescadores às margens do rio. Entre eles encontrou alguns servos de Deus que assumiram a responsabilidade de propagar o chamado da verdade.

Quando o Profeta apresentou o chamado da religião, surgiu quase a mesma situação. Apenas um pequeno número de sábios da comunidade do Povo do Livro aceitou o Islã. Todos os demais permaneceram como obstáculos à verdade, dominados pelo orgulho de seu sacerdócio e de sua nobreza. Onde quer que o Alcorão Sagrado mencione as qualidades especiais daqueles que creem, a mais significativa é descrita assim:انهم لا يستكبرون
“E não há arrogância nem presunção entre eles.” (Al-Ma’idah: 82)

Isso mostra que os corações dessas pessoas não haviam sido atingidos pela doença da liderança religiosa e mundana e que não se consideravam superiores à verdade. Outra característica especial dessas pessoas é que, no início, por causa de sua presunção, olham para o chamado com desprezo e não lhe dão importância. Mas, quando o chamado avança e elas veem o chão desaparecer sob seus pés, sua inveja e animosidade tornam-se intensas. Então fazem contra o chamado e contra seu pregador tudo o que pessoas mergulhadas na arrogância e no ódio são capazes de fazer.

Geralmente são as pessoas autocentradas, por causa de seu culto aos próprios interesses, que se opõem ao chamado da verdade. Toda a sua visão moral e social começa com seu próprio ser e continua girando incessantemente em torno de si mesmas. Como não podem viver isoladas, devido à fraqueza natural do ser humano enquanto criatura social, ingressam em algum sistema social; mas, a cada passo dentro dele, procuram seu próprio benefício e nunca estão dispostas a carregar o peso da responsabilidade. Para elas, o padrão entre verdade e falsidade é a própria pessoa. Aquilo que favorece seus interesses é verdade; aquilo que prejudica seus interesses individuais é falsidade.

As pessoas cujas ideias morais e sociais são tão baixas opõem-se a qualquer chamado contrário aos seus interesses. Nelas jamais estão presentes qualidades humanas elevadas. Por isso, para qualquer sistema baseado na verdade, sua existência é naturalmente tão inútil quanto um marido impotente para uma esposa. Por sua baixeza natural e seu egoísmo, essas pessoas se inclinam a qualquer chamado falso ou sistema de vida falso. Mesmo sua relação com ele, porém, é inteiramente hipócrita e egoísta. Não estão dispostas a suportar qualquer golpe por ele com entusiasmo e emoção sincera.

Um exemplo concreto disso na história da propagação do Islã é Abu Lahab. Toda a sua oposição ao chamado do Profeta devia-se apenas ao fato de que a atividade de pregação expunha publicamente todos os defeitos de seu caráter. As riquezas que havia acumulado por egoísmo e avidez estavam todas ameaçadas. Ele ocupava o posto mais elevado no sistema de ignorância estabelecido pelos coraixitas, mas sua ligação com esse sistema existia unicamente porque o cargo honroso e a supervisão da Caaba lhe ofereciam muitas oportunidades de adquirir riquezas. Além disso, não possuía verdadeira compaixão por seu povo, nem se interessava pelo bem ou pelo mal do sistema de ignorância cuja liderança máxima ocupava.

A maior prova disso é que, embora estivesse à frente na oposição ao chamado do Mensageiro de Deus e declarasse diante das pessoas que se tratava de um chamado destinado a destruir o sistema estabelecido pelos pais e antepassados, quando todos os líderes dos coraixitas participaram da batalha de Badr com fervor religioso e entusiasmo, esse homem, que se apresentava como o maior herdeiro da tradição de Abraão, permaneceu ausente e enviou em seu lugar um homem contratado. E, aos olhos dos coraixitas, aquela era uma batalha decisiva.

A relação natural desse tipo de pessoa com qualquer chamado da verdade só pode ser a oposição, e ela de fato se torna opositora. Essas pessoas se tornam tão firmes e hábeis na baixeza e na vileza que um chamado à moralidade elevada, à compaixão, à igualdade e à fraternidade, ou que convoque ao sacrifício, à renúncia dos interesses pessoais e à entrega da vida, não produz nelas qualquer efeito. Seus ouvidos são surdos a esse tipo de chamado e seus corações parecem mortos. Não sentem qualquer atração ou inclinação por ele; ao contrário, sentem ódio e hostilidade. Por causa de sua decadência moral, sua oposição raramente é uma oposição de princípios: recorrem a intrigas, calúnias e difamações comuns, tentando preservar a arrogância de sua liderança por meio de insultos e da divulgação de defeitos.

2. O grupo dos que aguardam

Por “os que aguardam” entendem-se aqueles que reconhecem o chamado da verdade como verdadeiro até certo ponto, mas não possuem força moral suficiente para aceitá-lo por ser verdade e arriscar a vida por ele; tampouco são intelectualmente desenvolvidos o bastante para avaliar, antes que o sistema da verdade seja aplicado na prática, a possibilidade de seu sucesso, embora seus sinais já estejam contidos nele. Por causa dessa fraqueza, em vez de decidir, com base em sua razão e conhecimento, se algo é verdadeiro, entregam a decisão ao futuro e ficam esperando. Se o futuro lhe der a oportunidade de alcançar o sucesso, aceitarão; caso contrário, terminarão a vida tal como ela vem transcorrendo.

Por causa de sua fraqueza moral e intelectual, essas pessoas permanecem em conflito e tensão interiores. Por isso, não são muito ativas na oposição ao chamado da verdade. Contudo, sob a influência do sistema vigente de sua época, juntam-se ao lado que se opõe ao chamado. Durante o conflito entre a verdade e a falsidade, procuram criar algum meio de conciliação para que ambas possam misturar-se e avançar lado a lado. O papel que os hipócritas desempenham entre os apoiadores da verdade é exatamente o papel que essas pessoas desempenham entre os opositores da verdade. Mesmo depois de uma grande vitória da verdade, sua espera não chega ao fim, por causa de sua fraqueza moral.

Na fase inicial do chamado islâmico, as pessoas que se encontravam nesse estado mental diziam, durante a batalha de Badr: “Se Muhammad e seus companheiros vencerem esta batalha, aceitaremos seu chamado como verdade e nos juntaremos a ele.” Mas, quando a batalha terminou e os muçulmanos venceram, adiaram sua decisão para o resultado das batalhas futuras. Quando os resultados dessas batalhas também se voltaram contra os coraixitas e sua força temporária foi efetivamente destruída, passaram a esperar, dizendo: “Vejamos qual será a situação do Islã diante da força organizada dos judeus.” Quando o poder dos judeus também foi derrotado, sua espera deveria ter terminado. Mesmo assim, permaneceu entre eles um grupo que passou a aguardar o resultado do confronto entre os muçulmanos e os romanos. Desse modo, sua espera não teria fim enquanto não se tornasse impossível para eles permanecer sob o sistema da incredulidade.

A fraqueza fundamental dessas pessoas é que não querem verificar a verdade por meio da razão e então crer nela. Desejam vê-la triunfar diante de seus próprios olhos para depois crer. Seu desejo é exatamente igual ao daqueles que queriam ver Deus com os próprios olhos antes de crer n’Ele. Trata-se de um desejo infantil, ao qual Deus e Seu Mensageiro não deram qualquer importância. Ao contrário, deixaram claro que a fé alcançada por meio da compreensão racional é confiável; a fé baseada apenas no que os olhos veem não é fé verdadeira.

Quem aceita algo como verdadeiro somente porque seus bons resultados estão diante dele e porque vê com os próprios olhos o mau destino de seus opositores, na realidade não creu na verdade. É um adorador dos interesses ou alguém aterrorizado pelo medo da perda. Quando uma pessoa desce a esse nível de adoração do exterior, resta entre ela e um animal apenas a diferença de estrutura física. Ela não consegue permanecer fiel a nenhum sistema moral no mundo cujo resultado só se manifestará amanhã, e não hoje.

Este é o verdadeiro segredo pelo qual essas pessoas não têm valor aos olhos dos pregadores da verdade. Sua mentalidade é a de quem prefere seguir cegamente. Estão acostumadas a ser passageiras de um veículo em movimento, qualquer que seja a direção tomada. Seguem a incredulidade porque o sistema da incredulidade está vitorioso. Também se tornarão companheiras do Islã se ele ocupar o lugar do vencedor. Não possuem a virilidade interior que as faria correr espontaneamente para a verdade; correm para ela apenas sob pressão. Por isso, pessoas desse tipo não aumentam a força da organização; antes, diminuem-na.

Na fase inicial do Islã, os crentes possuíam tal coragem e força que um deles bastava para enfrentar dez incrédulos. Mas, depois da conquista de Meca, quando se juntou a eles um grande número de pessoas que aceitaram o Islã, essa força diminuiu, chegando à proporção de um muçulmano para cada dois incrédulos.

Por causa de sua fraqueza intelectual e moral, pessoas com essa mentalidade jamais conseguem crer em um chamado da verdade quando ele avança em meio a conflitos e diversos tipos de provação. É possível que façam secretamente algum comentário favorável ao chamado, que surja no recanto oculto de seu coração o desejo de que ele seja bem-sucedido, que não considerem bons, em seu íntimo, aqueles que se opõem a ele, ou até que esperem obter dele algum auxílio financeiro ou moral. Tudo isso é possível. Mas não têm capacidade para reunir tábuas dispersas, construir com elas um barco, lançá-lo nas ondas agitadas do rio e conduzi-lo até a margem enfrentando o mau tempo.

Seu estado mental muda conforme as diferentes condições favoráveis ou desfavoráveis do chamado. Às vezes, ao perceber sinais de seu sucesso, sentem no coração um estímulo e desejam avançar para aceitá-lo. Outras vezes, ao ver perigos, calamidades e obstáculos, ficam aterrorizadas, silenciam completamente e passam a classificar o chamado como tolice, e o pregador como tolo e louco. Mas raramente se preparam, com o entusiasmo dos opositores, para extirpar o chamado, ou se empenham publicamente, depois de crer nele, em apoiá-lo e auxiliá-lo.

Se desejam a destruição do chamado, não é porque estejam dispostas a correr algum risco para destruí-lo. Querem, antes, que o barco bata por si mesmo contra alguma rocha e se despedace. Da mesma forma, se desejam o sucesso do chamado, não é porque estejam dispostas a suportar qualquer golpe por seu caminho. Querem que outros dediquem riquezas e vidas ao chamado, levando-o ao ápice do sucesso, enquanto elas desfrutam seus frutos.

3. O grupo dos inconscientes

Por “inconscientes” entendem-se as pessoas do povo que, ocupadas em obter o sustento e satisfazer as necessidades diárias, jamais encontram tempo suficiente para participar ativamente da transformação e reconstrução da sociedade. Tanto mental quanto moralmente, são seguidores do sistema de sua época e atuam como seus carregadores e servos. Consideram uma grande bênção viver sob esse sistema e veem como favor e benevolência dos líderes o fato de ele estar em funcionamento.

Embora os opositores da verdade religiosa estejam envolvidos em corrupção moral, essas pessoas geralmente permanecem livres dela. Por isso, não participam ativamente da oposição a um chamado da verdade, nem têm motivo para fazê-lo. Contudo, são seguidoras cegas dos líderes religiosos e políticos de seu tempo e mantêm com eles uma espécie de boa opinião herdada. Assim, qualquer palavra contrária à opinião de seus líderes políticos e religiosos não consegue, inicialmente, atrair seus corações; e, mesmo quando os atrai, a princípio lhes parece estranha. Querem primeiro que seus líderes deem o passo; então os seguirão imediatamente.

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O grupo que apoia o convite à verdade

Assim como os opositores de toda convocação, também os apoiadores dela dividem-se em três classes:
1. O grupo dos pioneiros (os primeiros entre os primeiros).
2. O grupo dos melhores seguidores (os que seguem com excelência).
3. O grupo dos fracos de espírito e dos hipócritas.

O grupo dos pioneiros
Entre os apoiadores da convocação à Verdade, os pioneiros são os melhores e os de mais elevada posição. Aqueles que, assim que surge a convocação à Verdade, a aceitam e se preparam sem hesitação para sacrificar a vida por ela são os pioneiros. São pessoas de natureza sã, que, mesmo antes de receberem a convocação, sentem dentro de si aquilo para o que os convocadores da Verdade chamam as pessoas. São tão desenvolvidos intelectualmente que não se contentam apenas com o aspecto aparente do mundo; também observam e compreendem os indícios de sua dimensão invisível. A seus olhos, os mistérios ocultos têm verdadeiro valor, mais que o aspecto exterior. Não são escravos dos desejos como os quadrúpedes; procuram conhecer as exigências da razão, da consciência e da natureza, dando-lhes prioridade em cada etapa da vida.

Sua inteligência é tão forte e ativa que jamais aceitam permanecer impotentes, presos às correntes dos costumes dos pais, avós e antepassados. Procuram conhecer o lado bom e o mau de cada coisa, submetem-na ao exame crítico e à observação, e aceitam aquilo que encontram compatível com a razão, a consciência e a natureza. Estão livres do fanatismo sectário e organizacional e da imitação cega. Para eles, a verdade não pode ficar presa ao manto de uma pessoa, nem confinada a um grupo ou comunidade, nem ser transferida aos herdeiros como uma propriedade abandonada. Consideram suficiente o testemunho da razão e da natureza para aceitar algo como verdadeiro. Não se importam com quem se opõe ou apoia determinada afirmação. Não são seguidores do passado nem escravos do presente. Além de Deus e de Seu Mensageiro, não concedem a nenhum líder, por maior que seja, a autoridade de prova ou de certificado.

Do mesmo modo, essas pessoas são muito elevadas moralmente e em suas ações. Quando seu conhecimento lhes mostra a verdade de algo, sua coragem moral prepara-as para aceitá-lo e suportar qualquer prejuízo por sua causa. Possuem sentimentos intensos de apoio à Verdade e não conseguem vê-la oprimida. Por isso, seus corações estão sempre pesarosos. Participam de toda atividade de sua época na qual percebem algum aspecto do bem coletivo. Não conseguem suportar assistir silenciosamente, como espectadores, enquanto outros sofrem dificuldades e sacrificam vidas e bens pela Verdade. Pelo contrário, tornam-se ativos na expansão dessa convocação e oferecem-se para realizar sacrifícios cada vez maiores.

Mesmo nos ambientes mais degradados, esforçam-se para viver uma vida pura e excelente e lutam contra a ignorância de sua época. Onde as mãos de todos estão cheias de opressão e injustiça, trabalham para estabelecer justiça e equidade. Onde os direitos dos órfãos são usurpados, as meninas são enterradas vivas e as viúvas são abandonadas sem companhia nem auxílio, entregam aos órfãos seus direitos, assumem com seus próprios recursos o cuidado das filhas de pais injustos e cuidam das viúvas. Onde o jogo, a bebida, o adultério, o banditismo e a pilhagem são considerados habilidades e motivo de orgulho, manifestam caráter elevado por meio da generosidade, da nobreza, do serviço às criaturas, da hospitalidade, do auxílio aos pobres necessitados e dos oprimidos.

Neles aparecem humildade, mansidão e amor sincero em vez de orgulho e arrogância. Em lugar da inveja e do ódio, esforçam-se por viver e se adiantar no caminho da Verdade. Em vez de egocentrismo e egoísmo, estão cheios de abnegação e do espírito de serviço às criaturas. Depois de reconhecerem um sistema como verdadeiro, consideram extremamente vil deixar de apoiá-lo por medo da humilhação ou por receio de perder as oportunidades de conforto. Do mesmo modo, depois de reconhecerem algo como falso, consideram igualmente vil não abandoná-lo apenas porque algum interesse mundano próprio está ligado a ele.

Mesmo quando uma boa ação pode causar prejuízo, quando o erro é muito poderoso, quando parece impossível enfrentá-lo ou quando as circunstâncias são tão adversas que pronunciar o nome da Verdade significa atrair sofrimento e perigos, consideram indigno de sua virilidade deixar de apoiá-la. A ideia de não apoiar a Verdade não pode nascer em seus corações amplos; e, se por acaso nascer, seu elevado ânimo logo a elimina. Então se preparam com novo vigor para realizar o chamado que surge profundamente em seu interior.

Um grupo puro e íntegro desse tipo existe em toda época de ignorância. Assim como os vaga-lumes brilham numa noite escura de chuva, essas pessoas caminham como luz no meio da escuridão de sua época. Em sua respiração permanece um reflexo da luz daquele tempo. Contudo, suas forças permanecem dispersas. Por isso, é indispensável que surja um convocador da Verdade para reuni-las e ligá-las por um vínculo de unidade.

Apesar de reunirem essas qualidades e belezas, precisam de um convocador da Verdade por duas razões. A primeira é que, em sua época, a Verdade não existe em sua forma coletiva; apenas algumas partes dela permanecem separadas. Foi assim nas épocas entre os profetas. Nesse período, esse grupo de virtuosos permanece mergulhado em calamidade e instabilidade. Eles ficam devastados ao ver a disseminação geral da corrupção no mundo, mas não sabem como corrigi-la. Mantêm-se tão livres quanto possível da corrupção de sua época, mas o caminho amplo da virtude e da felicidade não está diante deles; portanto, não podem chamar os outros para ele. Sentem que não conhecem diretamente o método de servidão e obediência a Deus, nem possuem meio de conhecê-lo.

Foi essa classe de pessoas que, antes da chegada do Mensageiro de Deus, rejeitava a religião pagã dos coraixitas, adorava a Deus individualmente e, encostada nas paredes da Caaba, dizia com profundo arrependimento: “Ó Deus! Não sabemos como Te adorar; caso soubéssemos, adorar-Te-íamos dessa maneira.” Entre eles havia também poetas de mentalidade elevada. O estilo de sua poesia era tão diferente da poesia sensual e difundida de sua época que o próprio Profeta louvou seus poemas. Havia também entre eles oradores cujos discursos ainda existem; quem os lê pode perceber que batiam à porta da verdade, embora não tivessem conseguido abri-la. Entre eles estavam homens corajosos como Waraqa ibn Nawfal, Abdullah ibn Jahsh, Uthman ibn Huwairith e Yazid ibn Amr ibn Nufayl. Diziam abertamente: “É absurdo e sem sentido curvarmos a cabeça diante de uma pedra que não ouve, não vê, não pode prejudicar nem beneficiar ninguém.”

Essas pessoas buscavam a verdade, mas em seu tempo a Verdade completa não estava presente. Por isso, precisavam de alguém que viesse com a Verdade e as orientasse. Quando o Profeta apareceu e proclamou a Verdade, todos os buscadores da Verdade daquela época reuniram-se imediatamente ao seu redor. Como já conheciam o sabor da Verdade, não tiveram dificuldade em reconhecê-la. Cada palavra do Profeta pareceu-lhes a própria voz de seus corações. Sabiam distinguir facilmente uma pessoa simples e sincera de um mentiroso. Depois de verem seu caráter puro, nem sequer imaginaram que ele pudesse mentir. Reconheceram sua profecia por seu chamado e por seu rosto, e exclamaram:رَبَّنَا إِنَّنَا سَمِعْنَا مُنَادِيًا يُنَادِي لِلْإِيمَانِ أَنْ آمِنُوا بِرَبِّكُمْ فَآمَنَّا“Ó nosso Senhor! Ouvimos um convocador convocando à fé: ‘Crede em vosso Senhor!’ E cremos.” (Alcorão, Al Imran: 193)

Como essas pessoas aguardavam a Verdade, depois de encontrá-la não se envolveram em discussões. Sua condição, após encontrá-la, foi como a de alguém que reencontra depois de muitos anos um amigo perdido.وَإِذَا سَمِعُوا مَا أُنْزِلَ إِلَى الرَّسُولِ تَرَى أَعْيُنَهُمْ تَفِيضُ مِنَ الدَّمْعِ مِمَّا عَرَفُوا مِنَ الْحَقِّ يَقُولُونَ رَبَّنَا آمَنَّا فَاكْتُبْنَا مَعَ الشَّاهِدِينَ“Quando ouvem o que foi revelado ao Mensageiro, vês seus olhos transbordarem de lágrimas, por reconhecerem a Verdade. Dizem: ‘Ó nosso Senhor! Cremos; inscreve-nos, pois, entre as testemunhas.’” (Alcorão, A Mesa: 83)

Dois: a segunda razão de sua dispersão e desorganização é que a Verdade pode estar presente diante deles; talvez não precisem da chegada de um profeta nem da revelação de um Livro para compreender suas exigências e responsabilidades, mas ainda lhes falta um líder que possa direcionar suas forças dispersas para um único caminho. Numa sociedade coberta pela ignorância como por uma noite profundamente escura, mesmo quem conhece o caminho reto nem sempre possui capacidade para assumir a liderança da caravana e da nação.

Os obcecados por liderança avançam para guiar os outros, embora sejam cegos; já os virtuosos, conscientes dos benefícios e prejuízos da liderança, tentam evitar tanto quanto possível essa grande responsabilidade. Por temor a Deus e senso de responsabilidade, avaliam-se com extrema justiça. Se cometem algum erro ao avaliar-se, não o fazem conscientemente. Nunca tentam inclinar a balança a seu favor; pelo contrário, por precaução, costumam considerar-se menos capazes do que realmente são. Essa modéstia é uma exigência da prudência e do temor a Deus.

Assim como os incompetentes são ávidos por política e liderança, os capazes e aptos sentem grande receio delas. Temos relatos detalhados de como Abu Bakr, o Verídico, e Umar, o Diferenciador, tentaram evitar assumir o califado em Saqifah Banu Sa’idah. Também conhecemos as guerras e derramamentos de sangue provocados, após a época dos Califas Bem-Guiados, por pessoas indignas e ambiciosas.

Os que temem a Deus procuram, tanto quanto possível, que outros assumam a liderança em vez de se adiantarem. Esse sentimento é basicamente benéfico, mas possui um limite. Se o ultrapassarem, a prática individual da virtude torna-se dominante e fica impossível conduzir um movimento coletivo para estabelecer a Verdade. Os servos de Deus capazes de compreender a importância da ação coletiva não toleram tal situação. Sabem que práticas individuais e esforços dispersos não podem cumprir as exigências da religião da Verdade. Quando esse sentimento se torna tão forte numa pessoa que ela já não consegue reprimi-lo, levanta-se sozinha com Deus e começa a convocar para a luta pelo estabelecimento da religião.

Essa chamada atrai para si as pessoas que aguardavam a oração em congregação. Elas não discutem com quem a fez, perguntando por que ele chamou, pois sabem que já chegou o momento da chamada. Não morrem de inveja perguntando por que ele fez isso e não elas. Pelo contrário, agradecem-lhe por realizar aquilo que esperavam enquanto permaneciam deitadas, mudando de lado, sem coragem para se levantar.

Também não consideram necessário saber se ele é um asceta perfeito, um devoto que passa a noite em oração. Sabem que todos os ascetas e devotos perfeitos estão dormindo, e que foi ele quem recebeu a inspiração para reconhecer o dever daquele momento. Tampouco pensam se ele conseguirá cumprir amanhã o dever como cumpriu o de hoje. Esperam que Deus lhe conceda êxito novamente; e, se não, Deus fará outro servo levantar-se para a tarefa de amanhã.

De que tribo ele é? Que diploma possui? Como foi seu passado? Essas perguntas são irrelevantes para eles, pois a verdade não é herança de nenhum grupo ou instituição. Quem compreendeu o dever do presente não tem tempo para desatar os nós do passado. As pessoas de mentalidade pura, que há muito desejam elevar a palavra da Verdade, encontram nesta convocação de seu tempo a cura para suas dores. Por isso, aceitam-na imediatamente e empenham-se em levá-la ao sucesso.

Nesse grupo encontram-se ricos e pobres, instruídos e iletrados, moradores da cidade e do campo, jovens e idosos, homens e mulheres. Porém ninguém tem baixo nível moral. Cada um já possui, em seu ambiente, posição distinta por suas qualidades e é reconhecido pelos outros como digno de confiança. O convocador da Verdade não precisa trabalhar excessivamente para reuni-los: eles próprios, atraídos de todos os lugares, reúnem-se ao redor dele. Ele não precisa procurá-los; são eles que o encontram.

São sedentos. Não esperam que o rio venha até eles; atravessam desertos e montanhas para chegar à fonte. O óleo puro de sua natureza está pronto para arder antes mesmo de tocar o fogo; por isso, inflamam-se assim que veem o fósforo. Não exigem milagres, não perguntam nome, linhagem ou genealogia, nem levantam debates sem sentido. Observam apenas se a mensagem para a qual o convocador chama é verdadeira e se ele próprio segue esse caminho. Quando se convencem disso, tornam-se seus seguidores com dedicação total.

Não consideram falsa uma verdade real de hoje por medo de algum perigo futuro. Estão certos de que o conhecimento pelo qual distinguem hoje a Verdade do erro continuará disponível amanhã. Se percebem que, em algum ponto, o caminho do convocador se desviou da estrada da Verdade, rompem sua relação com ele e prosseguem pela estrada da Verdade, sem macular seu objetivo.

2. O grupo dos melhores seguidores

A segunda categoria entre os que aceitam a convocação à Verdade é a dos melhores seguidores: aqueles que avançam em direção à Verdade seguindo o exemplo dos pioneiros. Não estão no mesmo nível dos pioneiros em inteligência, caráter e moralidade. Por isso, não conseguem tomar grandes iniciativas individuais e temem dar o primeiro passo por um caminho novo. Não possuem qualidades de liderança.

Assim, a coragem e o heroísmo dos que aceitaram o Islã antes deles influenciam-nos mais que a força intelectual e probatória da convocação à Verdade. Quando veem uma convocação à Verdade surgir, algumas pessoas avançarem e aceitá-la corajosamente, prosseguirem com ela e arriscarem qualquer perigo para propagá-la, isso toca seus corações. Então começam a testar sua própria coragem e força para apoiá-la.

Suas capacidades e obstáculos variam, e por isso esse conflito interior leva algum tempo. Mas, ao observarem continuamente os esforços dos convocadores da Verdade e sua paciência e firmeza diante dos perigos, finalmente o interior deles se esclarece. Corajosamente, saem do erro um após outro e unem-se à Verdade.

Embora se tornem apoiadores da convocação à Verdade seguindo os pioneiros, quando apoiam, apoiam plenamente; não demonstram fraqueza, dúvida, covardia, debilidade mental ou hipocrisia. Embora não sejam pessoas da primeira fileira em termos intelectuais e morais, são personalidades elevadas da segunda fileira. Devido à fragilidade de seu senso de dignidade, são influenciados pela ignorância de sua época, mas a consciência da Verdade dentro deles jamais morre completamente.

Por isso, enquanto continuam puxando o carro do sistema falso, fazem-no com sofrimento e inquietação, mantendo no fundo do coração respeito pela Verdade. Sua ligação com o sistema falso ora se estreita, ora se amplia, mas nunca é totalmente rompida. Não possuem capacidade suficiente para lutar contra seu ambiente e transformá-lo; por isso, precisam contentar-se com o sistema ignorante de sua época. Porém, sob esse contentamento há uma dor escondida. Quando uma convocação à Verdade chega até eles, essa dor desperta. À medida que cresce e ultrapassa o limite de sua resistência, avançam corajosamente pelo caminho no qual veem alguns verazes caminhando.

Como vêm por vontade própria, não por pressão alheia, e como seu passo resulta de sua coragem, não de algum interesse oculto, possuem uma provisão de sinceridade e discernimento que protege sua fé nas fases seguintes e durante as dificuldades, não permitindo que seus pés escorreguem nem nas maiores provações.

O convocador da Verdade precisa esforçar-se bastante para atraí-los. Como já dissemos, eles não são tão avançados intelectualmente que possam ser conquistados sem ver uma manifestação prática da Verdade, nem tão elevados moralmente que se preparem imediatamente para apoiá-la. Por causa dessas duas fraquezas, o convocador precisa empenhar-se com eles por algum tempo.

Primeiro, é necessário apresentar-lhes a Verdade claramente, sem deixar nenhum aspecto obscuro. Também é preciso remover as dúvidas que surgem em suas mentes e, tanto quanto possível, eliminar as dúvidas que outros possam criar neles, até que seus corações se firmem intelectualmente na verdade da convocação. Depois, para fortalecer sua coragem moral, devem ser apresentados exemplos de determinação e heroísmo. Esses exemplos fortalecem sua mente, afastam suas preocupações e dúvidas e mostram-lhes como seguir a Verdade mesmo em ambientes adversos. Assim, tanto sua inteligência quanto seus corações tornam-se plenamente vivos e despertos. Se o auxílio de Deus os favorecer, estarão preparados para caminhar na estrada da Verdade.

3. O grupo dos fracos de espírito e dos hipócritas

Incluímos os fracos de espírito e os hipócritas numa mesma categoria apenas por sua semelhança exterior. Quanto à intenção e ao propósito, são dois grupos distintos. Por isso, trataremos brevemente de suas características separadamente.

Por fracos de espírito entendem-se aqueles que aceitam conscientemente a Verdade e pretendem viver de acordo com ela, mas possuem vontade e determinação fracas. Assim, apesar de terem uma intenção sincera, avançam vacilantes pelo caminho da Verdade, tropeçando a cada passo. Caem repetidamente e tornam a levantar-se. Porém, cada vez que se levantam, fazem-no para continuar no caminho da Verdade. Não acontece que, depois de cair, deixem de se levantar, ou que, ao se levantar, passem a seguir o caminho do erro em vez do caminho da Verdade.

Reconhecem seus erros, sentem vergonha e arrependimento e tentam remover essa vergonha por meio de constante arrependimento e pedido de perdão. Não são inferiores em mentalidade e intenção. Entre eles encontram-se boas pessoas que têm coragem de aceitar a convocação desde o primeiro momento, mas, durante as provações, sua fraqueza de vontade manifesta-se, e elas permanecem necessitadas de formação e correção do começo ao fim. Sobre pessoas desse tipo foi dito na surata At-Tawbah:وَآخَرُونَ اعْتَرَفُوا بِذُنُوبِهِمْ خَلَطُوا عَمَلًا صَالِحًا وَآخَرَ سَيِّئًا عَسَى اللَّهُ أَنْ يَتُوبَ عَلَيْهِمْ إِنَّ اللَّهَ غَفُورٌ رَحِيمٌ“E há outros que confessaram seus pecados: misturaram uma boa ação com outra má. Talvez Deus aceite seu arrependimento. Certamente Deus é Perdoador, Misericordioso.” (Versículo: 102)

Para criar coragem e firmeza nessas pessoas, é necessário investigar cuidadosamente as causas da fraqueza de sua determinação e vontade e esforçar-se para eliminá-las. Se as causas forem de natureza psicológica ou intelectual, é preciso informá-las sobre os atributos especiais de Deus, Seu poder e capacidade, Sua sabedoria e Suas leis determinadas e firmemente estabelecidas, segundo as quais Ele trata os que avançam com Ele.

Se houver nelas ganância e apego aos bens mundanos, devem ser habituadas a gastar sua riqueza no caminho de Deus; assim, essa doença pode desaparecer. Se o apego à vida e o medo da morte forem muito fortes, deve-se apresentar claramente a certeza da chegada da morte e o bom destino dos que seguem a Verdade.

As pessoas dessa categoria aproveitam as oportunidades de educação e treinamento. Por isso, embora seu progresso seja lento devido à fraqueza da vontade, não permanecem paradas. Pelo contrário, procuram aproveitar as oportunidades de formação e avançar. Sobre pessoas assim foi dito:خُذْ مِنْ أَمْوَالِهِمْ صَدَقَةً تُطَهِّرُهُمْ وَتُزَكِّيهِمْ بِهَا وَصَلِّ عَلَيْهِمْ إِنَّ صَلَاتَكَ سَكَنٌ لَهُمْ وَاللَّهُ سَمِيعٌ عَلِيمٌ“Aceita de seus bens uma caridade pela qual os purifiques e os eleves, e ora por eles; certamente tua oração será tranquilidade para eles. Deus é Onividente, Onisciente.” (Alcorão, At-Tawbah: 103)

O grupo dos hipócritas segue a convocação à Verdade apenas até o limite da confissão verbal, enquanto seus corações permanecem ligados ao erro. Às vezes, unem-se à Verdade apenas sob uma influência temporária; quando começam os obstáculos, dificuldades e provações, arrependem-se do erro de tê-la aceitado e desejam voltar para onde vieram. Contudo, por uma vergonha artificial, permanecem presos à Verdade contra a vontade.

Às vezes, entram no acampamento dos seguidores da Verdade com más intenções, procurando oportunidades para criar conflitos e desordem. Apenas para aparentar, mostram-se compassivos e bem-intencionados em relação à Verdade, mas na realidade trabalham como agentes dos inimigos. Outras vezes, ao verem o crescimento do poder da Verdade, são influenciados por ele e desejam manter com ela alguma relação exterior para preservar seus benefícios mundanos.

Por essas e outras razões, professam a Verdade verbalmente e tentam manter essa aparência tanto quanto possível; porém, a cada passo, seus erros e más ações revelam sua verdadeira face. O trabalho do convocador da Verdade é mais prejudicado por essas pessoas que por qualquer outro grupo. Os hipócritas que, ocultos atrás da aparência de benfeitores da Verdade, permanecem dentro dela são tão perigosos para o movimento da Verdade que nenhum grupo opositor é igualmente perigoso.

Fingem ser íntimos e trabalham para cumprir os objetivos de outros, fazendo-o de modo tão perfeito que ninguém de fora conseguiria agir com igual eficiência. Espalham entre o povo inúmeras concepções erradas contra a convocação e contra o convocador. Como são considerados pessoas do próprio grupo e falam fingindo sinceridade e preocupação, as pessoas tornam-se vítimas de suas confusões.

Tentam constantemente criar divisões na organização e guardam cuidadosamente cada faísca, para que, no momento oportuno, possam soprá-la e incendiar conflitos e desordens. Dentro da organização, desempenham o papel de agentes das forças inimigas. Reúnem pessoas em encontros para alcançar seus objetivos e divulgam que tais encontros foram organizados apenas para servir à Verdade. Conspiram continuamente com os inimigos da Verdade para combatê-la, alegando publicamente que tudo é feito para seu benefício.

Toda palavra capaz de destruir o entusiasmo e a coragem dos seguidores da Verdade agrada-lhes, e sentem prazer especial em espalhá-la. Por outro lado, cada palavra que fortalece a coragem dos seguidores da Verdade causa-lhes preocupação e desespero. No caminho da Verdade, veem perigo a cada passo. Sob o pretexto do bem da organização, esforçam-se sempre para instalar em cada coração o medo desses perigos.

Para esconder sua própria covardia, procuram, por meio de várias conspirações, sufocar os sentimentos, o entusiasmo, a bravura e o espírito de sacrifício dos outros. A vitória da Verdade torna-se para eles motivo de desespero; no abismo do futuro, não veem para ela senão perigo e destruição. No campo das ações, permanecem no nível do zero. Por isso, para preservar sua arrogância dentro da organização, recorrem a alegações infundadas, juramentos falsos e calúnias.

Encaram cada sucesso da Verdade com ódio. Se, Deus não permita, alguma dificuldade atinge os seguidores da Verdade, sentem alívio interior. Como esse grupo espalha deliberadamente desordem, discórdia e corrupção, raramente possui capacidade para aceitar correção.

Entre eles, somente aqueles que cometem atos hipócritas por terem caído, devido a alguma negligência ou desatenção momentânea, nas conspirações enganosas de outros aceitam o processo de correção. Quando a verdade real se torna clara para essas pessoas, envergonham-se e arrependem-se de seus erros e procuram corrigir sua visão.

Mas aqueles demônios que fazem das más ações sua religião e se tornam plenamente experientes e habilidosos nessa profissão frustram toda tentativa de correção e não estão dispostos a introduzir sequer uma pequena mudança em sua perspectiva.

Quanto a essas pessoas, o método do convocador da Verdade consiste em esforçar-se plenamente para proteger a organização de sua corrupção. Sua estratégia é permitir que permaneçam abertamente dentro da organização enquanto sua educação, formação e purificação espiritual puderem ser transformadas em meios de educação, formação e purificação da própria organização. Quando esse objetivo for alcançado, devem ser separadas e afastadas da organização o mais rapidamente possível. Depois disso, não deve restar, de modo algum, qualquer relação entre elas e a organização.

15

As etapas da convocação à Verdade

Em geral, todo chamado à verdade precisa atravessar três etapas para alcançar o estágio final do sucesso: Da‘wah, Hégira e Jihad. A palavra “em geral” deve ser especialmente considerada: nem todo chamado precisa necessariamente passar pelas três etapas; em certas circunstâncias, especialmente na era democrática, a primeira etapa pode bastar. As revoluções conhecidas na Europa, América, Rússia e Turquia não constituem modelo obrigatório para todo movimento. A revolução segundo o método islâmico, sob a orientação dos profetas e daqueles que seguem seu caminho, possui características próprias. Por isso, serão apresentadas brevemente as particularidades e exigências de cada etapa.

Primeira etapa — Da‘wah

A primeira etapa é a da Da‘wah. Inicialmente, o chamado é dirigido aos governantes e líderes da sociedade. Eles costumam sentir-se seguros em sua posição e estar absorvidos pelos prazeres e comodidades. O chamador identifica os defeitos dos sistemas contemporâneos de pensamento, moralidade, política e sociedade, e mostra o destino inevitável do sistema falso. Contudo, como externamente esse sistema parece avançar com rapidez, é difícil convencer as pessoas de que sua estrutura está deteriorada e prestes a cair. Quando as aparências são favoráveis, advertir os desatentos sobre a fraqueza interna de um sistema não é fácil. Eles não apenas ignoram suas próprias fraquezas e males, mas os apresentam como beleza e perfeição, insultando como tolos aqueles que os condenam.

Essas pessoas seguem uma filosofia que não reconhece fundamento moral para nada. Para elas, o mundo é produto do acaso ou gira apenas sobre a força. Por isso, os conselhos e exortações do chamador da verdade parecem sem sentido. A voz de um pobre pregador dificilmente chega aos andares superiores de seus palácios; e, quando chega, fingem não ouvi-la, considerando-a inoportuna, e continuam entregues às suas fantasias. Não percebem defeitos em seu pensamento nem em seu modo de vida. Mesmo quando alguns despertam após muita insistência e se sentem tocados, o orgulho pode impedi-los de aceitar a verdade, ou o egoísmo e o apego aos interesses podem afastá-los.

Entretanto, pessoas de natureza saudável são influenciadas pelo chamado e se descontentam com o sistema falso, ou pelo menos deixam de manter com ele relações de interesse. Elas avançam para aceitar a Da‘wah da religião. Muitas são economicamente frágeis; não estão preocupadas com liderança, privilégios ou proteção de interesses. Não possuem apego cego ao sistema social vigente e estão relativamente afastadas dos meios que conduzem à corrupção. Por isso, seus corações não estão completamente mortos: resta neles algum sopro de vida, que pode despertar com um pequeno estímulo. Entre elas, os primeiros a avançar são geralmente jovens vigorosos.

O Alcorão menciona que, no chamado de Moisés, os primeiros de seu povo a crer foram jovens. Situação semelhante ocorreu no início da missão do Mensageiro de Allah. A maioria dos primeiros crentes era jovem, pois há entusiasmo em seu sangue, bravura e coragem em seu caráter, e seu senso de honra pode ser facilmente despertado. São pouco influenciados pela oposição e dão pouca importância aos interesses pessoais. Quando percebem a verdade de algo, não temem os perigos, a perda de vidas ou bens que possam resultar de aceitá-la. Aceitam a verdade, e as experiências amargas do perigo, em vez de esfriar seu entusiasmo, tornam-no ainda mais intenso.

Nessa fase inicial, as provações dos seguidores da verdade não são criadas primeiramente pelos governantes. Estes, no começo, ignoram tanto a Da‘wah quanto o chamador. Os obstáculos surgem do ambiente próximo: conflitos entre pais e filhos, mães e filhas, irmãos, tios e sobrinhos, esposos e esposas, senhores e servos, professores e alunos. O pai utiliza todos os meios, suaves ou severos, para impedir o filho de aceitar a verdade: lembra seus direitos e experiências, fala de sua pobreza e velhice, destaca os deveres do filho, enumera os perigos, lamenta os prejuízos para a família, anuncia o fim das esperanças e ameaça expulsá-lo de casa e privá-lo de seus bens. Assim começa a perseguição.

Tudo isso é feito para fazer o filho abandonar a decisão de aceitar a verdade, ou recuar depois de tê-la aceitado. Mães, irmãos, tios, esposas, senhores e professores procedem de modo semelhante, usando a autoridade que possuem. Reivindicam seus direitos familiares, legais e morais apenas para exigir que o recém-convertido adore a falsidade que eles seguem e se rebele contra o maior detentor de direitos, Allah.

A Surata al-‘Ankabut descreve essas dificuldades e oferece orientações fundamentais. Allah estabeleceu as provações para distinguir o verdadeiro do mentiroso entre os que afirmam seguir a verdade. Portanto, eles não devem irritar-se nem tornar-se suspeitos durante os testes da fé, mas enfrentá-los com alegria e paciência, certos de que alcançarão o sucesso depois de atravessá-los.الم () أَحَسِبَ النَّاسُ أَنْ يُتْرَكُوا أَنْ يَقُولُوا آمَنَّا وَهُمْ لَا يُفْتَنُونَ () وَلَقَدْ فَتَنَّا الَّذِينَ مِنْ قَبْلِهِمْ فَلَيَعْلَمَنَّ اللَّهُ الَّذِينَ صَدَقُوا وَلَيَعْلَمَنَّ الْكَاذِبِينَ“Alif-Lam-Mim. As pessoas pensam que serão deixadas dizer: ‘Cremos’, sem serem postas à prova? Nós já provamos aqueles que vieram antes delas. Allah certamente distinguirá os verdadeiros dos mentirosos.” (Surata al-‘Ankabut, 1–3)

Em seguida, são dadas orientações fundamentais sobre os obstáculos que os seguidores da verdade enfrentam por parte dos pais. Essa orientação também se aplica quando os opositores possuem posição semelhante à dos pais.وَوَصَّيْنَا الْإِنْسَانَ بِوَالِدَيْهِ حُسْنًا وَإِنْ جَاهَدَاكَ لِتُشْرِكَ بِي مَا لَيْسَ لَكَ بِهِ عِلْمٌ فَلَا تُطِعْهُمَا“Ordenamos ao ser humano que trate bem seus pais. Mas, se eles te pressionarem para associar a Mim aquilo de que não tens conhecimento, não lhes obedeças.” (Surata al-‘Ankabut, 8)

Como o direito de Allah é superior ao direito dos pais, não é permitido levar em conta a oposição deles quando se trata de obedecer a Allah. Também é respondido ao apelo emocional dos pais e dos anciãos: “Seguei nosso conselho; se estiverdes errados, assumiremos a punição e a recompensa, e vós não tereis responsabilidade por isso.”وَقَالَ الَّذِينَ كَفَرُوا لِلَّذِينَ آمَنُوا اتَّبِعُوا سَبِيلَنَا وَلْنَحْمِلْ خَطَايَاكُمْ وَمَا هُمْ بِحَامِلِينَ مِنْ خَطَايَاهُمْ مِنْ شَيْءٍ إِنَّهُمْ لَكَاذِبُونَ(12)وَلَيَحْمِلُنَّ أَثْقَالَهُمْ وَأَثْقَالًا مَعَ أَثْقَالِهِمْ وَلَيُسْأَلُنَّ يَوْمَ الْقِيَامَةِ عَمَّا كَانُوا يَفْتَرُونَ“Os incrédulos dizem aos crentes: ‘Segui nosso caminho, e assumiremos vossos pecados.’ Mas eles não assumirão nada de seus pecados; certamente mentem. Eles carregarão seus próprios fardos e outros fardos além dos seus, e serão questionados no Dia da Ressurreição sobre suas invenções.” (Surata al-‘Ankabut, 12–13)

Depois dessas orientações, são apresentados os exemplos de Noé, Abraão e Ló, que possuíam firme determinação. Por suas ações, compreende-se claramente como o servo da verdade deve enfrentar a oposição dos parentes mais próximos e queridos e libertar-se, pela causa da verdade, do apego familiar. Os vínculos mais queridos são três: com o filho, com os pais e com a esposa. Noé endureceu o coração diante da perda do filho; Abraão rompeu com o pai por causa da verdade; e Ló abandonou a esposa. Se os servos sinceros de Allah não lamentaram romper relações tão próximas quando isso foi exigido pela verdade, com maior razão não se deve hesitar diante de outros vínculos.

Embora romper os laços de sangue possa significar devastar a própria família, Allah restaura a casa daquele que se dispõe a arriscar tudo pelo amor à verdade. Ele dá neste mundo muitas vezes mais do que aquilo que foi perdido e prepara bênçãos inesgotáveis na outra vida. Por isso, Allah menciona a Hégira de Abraão e sua recompensa:وَوَهَبْنَا لَهُ إِسْحَاقَ وَيَعْقُوبَ وَجَعَلْنَا فِي ذُرِّيَّتِهِ النُّبُوَّةَ وَالْكِتَابَ وَآتَيْنَاهُ أَجْرَهُ فِي الدُّنْيَا وَإِنَّهُ فِي الْآخِرَةِ لَمِنَ الصَّالِحِينَ“Concedemos-lhe Isaac e Jacó, estabelecemos em sua descendência a profecia e o Livro, demos-lhe sua recompensa neste mundo, e na outra vida ele estará entre os justos.” (Surata al-‘Ankabut, 27)

A maior coisa que torna uma pessoa covarde diante da luta contra seu ambiente próximo é a dificuldade financeira. Romper relações por amor à verdade já é uma grande demonstração de coragem; mas, mesmo depois disso, afastar-se do ambiente de cuja ajuda material dependeu e entrar num mundo desconhecido não parece fácil. Para eliminar essa dúvida, a Surata al-‘Ankabut ensina que o direito de adorar Allah deve ser cumprido, ainda que seja necessário abandonar casa e bens. Aquele que deixa sua casa por devoção e obediência a Allah não encontrará o mundo amplo de Allah estreito. Se morrer nesse caminho, encontrará bênçãos e benefícios inesgotáveis no Paraíso. Se permanecer vivo, por que preocupar-se com seu sustento? Nenhuma criatura leva consigo seu alimento, mas Allah provê a cada uma onde quer que esteja. O ser humano é mais honrado que os animais; portanto, Allah não o privará de sustento.يَا عِبَادِيَ الَّذِينَ آمَنُوا إِنَّ أَرْضِي وَاسِعَةٌ فَإِيَّايَ فَاعْبُدُونِ () كُلُّ نَفْسٍ ذَائِقَةُ الْمَوْتِ ثُمَّ إِلَيْنَا تُرْجَعُونَ () وَالَّذِينَ آمَنُوا وَعَمِلُوا الصَّالِحَاتِ لَنُبَوِّئَنَّهُمْ مِنَ الْجَنَّةِ غُرَفًا تَجْرِي مِنْ تَحْتِهَا الْأَنْهَارُ خَالِدِينَ فِيهَا نِعْمَ أَجْرُ الْعَامِلِينَ () الَّذِينَ صَبَرُوا وَعَلَى رَبِّهِمْ يَتَوَكَّلُونَ () وَكَأَيِّنْ مِنْ دَابَّةٍ لَا تَحْمِلُ رِزْقَهَا اللَّهُ يَرْزُقُهَا وَإِيَّاكُمْ وَهُوَ السَّمِيعُ الْعَلِيمُ () وَلَئِنْ سَأَلْتَهُمْ مَنْ خَلَقَ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضَ وَسَخَّرَ الشَّمْسَ وَالْقَمَرَ لَيَقُولُنَّ اللَّهُ فَأَنَّى يُؤْفَكُونَ () اللَّهُ يَبْسُطُ الرِّزْقَ لِمَنْ يَشَاءُ مِنْ عِبَادِهِ وَيَقْدِرُ لَهُ إِنَّ اللَّهَ بِكُلِّ شَيْءٍ عَلِيمٌ“Ó Meus servos que creem! Minha terra é ampla; adorai-Me, pois. Toda alma provará a morte, e depois retornareis a Nós. Quanto aos que creem e praticam boas ações, instalá-los-emos nas elevadas moradas do Paraíso, sob as quais correm rios; permanecerão eternamente nelas. Que excelente recompensa para os que praticam o bem, os que perseveram e confiam em seu Senhor! Quantas criaturas não carregam seu sustento; Allah as sustenta, assim como a vós. Ele é o Oniouvinte, o Onisciente. Se lhes perguntares quem criou os céus e a terra e submeteu o sol e a lua, certamente dirão: ‘Allah’. Então, como se desviam? Allah amplia ou restringe o sustento de quem quer entre Seus servos. Allah conhece todas as coisas.” (Surata al-‘Ankabut, 56–62)

Os que permanecem firmes na luta contra seu ambiente e não dão importância aos laços de sangue buscam naturalmente companheiros entre aqueles que, embora não sejam seus parentes, compartilham sua crença e enfrentam o mesmo ambiente pela causa da verdade. O ser humano não pode viver sozinho. Ao abandonar relações antigas, procura formar novas relações; isso é uma necessidade natural. Quanto mais intensa se torna a luta dos seguidores da verdade contra o ambiente próximo, mais fortes se tornam seus vínculos. Por fim, eles passam a constituir uma sociedade e uma família distintas, até que sua existência seja percebida como uma organização e influencie a sociedade vigente.

Quando os governantes percebem que aquilo que consideravam loucura de poucos é uma realidade importante, começam a temer por seu sistema e iniciam perseguições. A história mostra que os seguidores da verdade foram lançados em fogueiras, cortados por espadas e serras, despedaçados por feras, deitados sobre areias escaldantes, presos em masmorras e expulsos de suas terras. Embora o mundo moderno reconheça teoricamente a liberdade de pensamento, a história provavelmente não mudou para os portadores da Da‘wah que deseja libertar todos os aspectos da vida da submissão a Satanás e colocá-los sob a obediência a Allah. Eles devem estar preparados para enfrentar provações semelhantes às do passado.أَمْ حَسِبْتُمْ أَنْ تَدْخُلُوا الْجَنَّةَ وَلَمَّا يَأْتِكُمْ مَثَلُ الَّذِينَ خَلَوْا مِنْ قَبْلِكُمْ مَسَّتْهُمُ الْبَأْسَاءُ وَالضَّرَّاءُ وَزُلْزِلُوا حَتَّى يَقُولَ الرَّسُولُ وَالَّذِينَ آمَنُوا مَعَهُ مَتَى نَصْرُ اللَّهِ أَلَا إِنَّ نَصْرَ اللَّهِ قَرِيبٌ“Pensais que entrareis facilmente no Paraíso, sem que vos alcance o que alcançou os que vos precederam? Foram atingidos por sofrimento e adversidade e foram abalados até que o Mensageiro e os que criam com ele perguntaram: ‘Quando virá o auxílio de Allah?’ Sem dúvida, o auxílio de Allah está próximo.” (Surata al-Baqarah, 214)

Embora essa seja uma época difícil para os seguidores da verdade, se permanecerem firmes apesar da opressão dos governantes, sua força moral penetrará até o coração dos adversários. Seu movimento e sua doutrina criarão possibilidades no pensamento e no sistema contemporâneos, levando até mesmo aqueles que antes não queriam ouvir falar da Da‘wah a procurar um meio-termo e um acordo. Mas não pode haver compromisso nos princípios. Assim, os seguidores da verdade devem rejeitar também essa falsa proposta e demonstrar que não recuarão sequer um centímetro de sua doutrina. Nesse estágio foi revelado:وَإِذَا تُتْلَى عَلَيْهِمْ آيَاتُنَا بَيِّنَاتٍ قَالَ الَّذِينَ لَا يَرْجُونَ لِقَاءَنَا ائْتِ بِقُرْآنٍ غَيْرِ هَذَا أَوْ بَدِّلْهُ قُلْ مَا يَكُونُ لِي أَنْ أُبَدِّلَهُ مِنْ تِلْقَاءِ نَفْسِي إِنْ أَتَّبِعُ إِلَّا مَا يُوحَى إِلَيَّ إِنِّي أَخَافُ إِنْ عَصَيْتُ رَبِّي عَذَابَ يَوْمٍ عَظِيمٍ“Quando lhes são recitados Nossos versículos claros, os que não esperam encontrar-Nos dizem: ‘Traz outro Alcorão em vez deste, ou modifica-o.’ Dize: ‘Não me cabe modificá-lo por iniciativa própria. Sigo apenas aquilo que me é revelado. Temo, se desobedecer ao meu Senhor, o castigo de um Dia terrível.’” (Surata Yunus, 15)

Para cortar pela raiz esse desejo dos seguidores da falsidade, foi novamente apresentada, pela boca do Profeta, uma descrição clara da doutrina da verdade, eliminando toda possibilidade de compromisso:قُلْ يَا أَيُّهَا النَّاسُ إِنْ كُنْتُمْ فِي شَكٍّ مِنْ دِينِي فَلَا أَعْبُدُ الَّذِينَ تَعْبُدُونَ مِنْ دُونِ اللَّهِ وَلَكِنْ أَعْبُدُ اللَّهَ الَّذِي يَتَوَفَّاكُمْ وَأُمِرْتُ أَنْ أَكُونَ مِنَ الْمُؤْمِنِينَ () وَأَنْ أَقِمْ وَجْهَكَ لِلدِّينِ حَنِيفًا وَلَا تَكُونَنَّ مِنَ الْمُشْرِكِينَ“Dize: ‘Ó pessoas! Se estais em dúvida quanto à minha religião, sabei que não adoro aqueles que adorais além de Allah; adoro somente Allah, que vos fará morrer. Foi-me ordenado estar entre os crentes e dirigir meu rosto sinceramente à religião, sem jamais estar entre os associadores.’” (Surata Yunus, 104–105)

Propostas desse tipo de compromisso às vezes influenciam alguns seguidores da verdade. Sob uma ideia equivocada, eles passam a ver benefício num acordo moderado. Para corrigir essa fraqueza, foi dada a seguinte orientação:فَلَعَلَّكَ تَارِكٌ بَعْضَ مَا يُوحَى إِلَيْكَ وَضَائِقٌ بِهِ صَدْرُكَ أَنْ يَقُولُوا لَوْلَا أُنْزِلَ عَلَيْهِ كَنْزٌ أَوْ جَاءَ مَعَهُ مَلَكٌ إِنَّمَا أَنْتَ نَذِيرٌ وَاللَّهُ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ وَكِيلٌ ()أَمْ يَقُولُونَ افْتَرَاهُ قُلْ فَأْتُوا بِعَشْرِ سُوَرٍ مِثْلِهِ مُفْتَرَيَاتٍ وَادْعُوا مَنِ اسْتَطَعْتُمْ مِنْ دُونِ اللَّهِ إِنْ كُنْتُمْ صَادِقِينَ () فَإِلَّمْ يَسْتَجِيبُوا لَكُمْ فَاعْلَمُوا أَنَّمَا أُنْزِلَ بِعِلْمِ اللَّهِ وَأَنْ لَا إِلَهَ إِلَّا هُوَ فَهَلْ أَنْتُمْ مُسْلِمُونَ () مَنْ كَانَ يُرِيدُ الْحَيَاةَ الدُّنْيَا وَزِينَتَهَا نُوَفِّ إِلَيْهِمْ أَعْمَالَهُمْ فِيهَا وَهُمْ فِيهَا لَا يُبْخَسُونَ“Sê firme como te foi ordenado, juntamente com os que se arrependeram contigo, e não transgridais. Ele vê perfeitamente tudo quanto fazeis. Não vos inclineis para os injustos, para que o Fogo não vos alcance; não tereis protetor além de Allah, nem sereis socorridos. Estabelece a oração nas duas extremidades do dia e em algumas horas da noite. As boas ações eliminam as más. Esta é uma admoestação para os que se lembram. Persevera, pois Allah não desperdiça a recompensa dos benfeitores.” (Surata Hud, 112–115)

Quando os seguidores da verdade atravessam essa etapa com êxito, sem alterar sua Da‘wah por medo dos opositores ou por suas propostas de conciliação, os governantes adotam outro plano: tentam capturar os líderes da Da‘wah com seduções, oferecendo riqueza, altos cargos e participação nos interesses do sistema, em troca de pequenas alterações no chamado que perturba sua tranquilidade.

Esse perigo brilhante e sedutor é mais grave que as perseguições anteriores. Quando o Imam Ahmad ibn Hanbal foi cruelmente açoitado por causa da doutrina da criação do Alcorão, não se importou com os golpes. Mas, quando o governante mudou de política e começou a cobri-lo de presentes e honras, ele exclamou: “Por Allah, essas recompensas e presentes me parecem mais difíceis que os açoites.”

A época da Da‘wah é uma época de prova. Muitos líderes que podem romper correntes de ferro sucumbem às correntes de ouro e prata. O exemplo máximo é a vida do Mensageiro de Allah. Quando os coraixitas perceberam que ele e seus companheiros não abandonariam a Da‘wah nem a modificariam, ofereceram-lhe riqueza, casamento com uma nobre e liderança da nação, desde que deixasse seu chamado e o abandono da religião dos antepassados. Ele não respondeu com palavras, mas recitou versículos do Alcorão reafirmando o propósito pelo qual suportava perseguição. Os coraixitas perderam toda esperança.

Quando os chamadores da verdade ultrapassam essa etapa, a apresentação da prova chega ao fim: pessoas de consciência moral aceitam publicamente a verdade ou a reconhecem interiormente, aguardando ocasião para manifestá-la. Os opositores, por outro lado, desesperados de sufocar a Da‘wah, decidem eliminá-la completamente. Foi nesse estágio que Abraão foi lançado ao fogo, Moisés sofreu uma conspiração para ser morto, Jesus foi ameaçado de crucificação e os líderes dos coraixitas se reuniram na Dar al-Nadwah para decidir o destino do Mensageiro. Finalmente concordaram em matá-lo conjuntamente, com um homem de cada tribo, para que os Banu Hashim não pudessem vingar-se.

Quando os chamadores da verdade já não encontram segurança entre seu próprio povo, a Da‘wah entra na etapa da ruptura e da Hégira.

Segunda etapa — Ruptura e Hégira

A Hégira ocorre quando os seguidores da verdade extraem do ambiente tudo o que nele há de capacidade moral, deixando a sociedade como palha sem valor. Os aptos tornam-se seguidores da verdade, enquanto os corações mortos chegam ao extremo da hostilidade. Quando se torna impossível respirar ou trabalhar nesse ambiente, eles rompem com ele e mudam-se para um lugar onde possam viver segundo sua crença, ou ao menos preservar a fé.

No caso dos profetas, o momento e o local da Hégira são determinados por Allah mediante sonho ou revelação. Eles permanecem entre seu povo até cumprir plenamente a missão de transmitir a mensagem e estabelecer a prova final; somente depois recebem permissão para partir. Yunus partiu antes do tempo e foi repreendido, sendo enviado novamente ao seu povo, que então aceitou a fé em grande número.

Para os demais chamadores, o momento da Hégira deve ser determinado por esforço interpretativo. A Hégira não é condição necessária para todo chamado, mas depende da necessidade e da situação. Enquanto puderem transmitir a mensagem sem impedimento, não lhes é permitido partir, mesmo que ninguém aceite sua Da‘wah. Yusuf permaneceu no Egito até o fim da vida porque o governante não impediu efetivamente sua missão.

A oposição comum não basta para justificar a Hégira. Os profetas perseveraram diante da rejeição, pois suportá-la é necessário para completar a prova contra os opositores e testar a sinceridade dos chamadores. Só quando o povo decide eliminar completamente os seguidores da verdade ou expulsá-los é que a ruptura e a Hégira se tornam permitidas.

A Hégira dos profetas e dos chamadores da verdade é diferente da fuga de um povo para outro por medo de perseguição: ela é uma passagem da falsidade para a verdade. Antes de partir, devem avaliar a capacidade do ambiente de receber a verdade e a sinceridade daqueles para quem pretendem migrar. O local da Hégira deve ser adequado à Da‘wah e ao seu objetivo; pode ser um deserto árido, uma terra fértil ou até outra região do próprio país.

A Hégira não serve apenas para escapar da perseguição. Ela realiza objetivos importantes: concretiza a exigência espiritual dos seguidores da verdade, desperta os que ainda possuem vida no coração, purifica os sinceros dos hipócritas e permite organizar e educar os crentes num ambiente livre e puro. Somente nesse ambiente a Da‘wah pode desenvolver toda sua força, estabelecer uma civilização justa e preparar seus seguidores para a liderança do mundo.

Quando a Hégira é realizada sob essas condições, a verdade se espalha e a falsidade desaparece, pois a falsidade não possui raiz na natureza humana nem harmonia com a ordem do mundo. Depois da Hégira dos profetas, Allah tratou seus povos de duas maneiras: destruiu os falsários por castigo terreno ou celestial, ou ordenou aos crentes migrantes que lutassem contra eles até que se submetessem à verdade. Assim, a Hégira conduz à terceira etapa: a Jihad e a guerra.

Terceira etapa — Jihad

A guerra só começa depois das etapas de transmissão da mensagem, apresentação da prova pública e Hégira. A guerra islâmica possui condições indispensáveis; antes de cumpri-las, não é permitido empunhar a espada nem derramar sangue. Agir precipitadamente seria causar corrupção.

A primeira condição é transmitir plenamente a verdade àqueles contra quem se declarará guerra. A guerra defensiva é exceção: qualquer pessoa ou grupo pode resistir a um ataque contra sua vida, propriedade ou honra. Quem morrer defendendo-se é mártir; o agressor que morrer carregará pecado dobrado, por ter iniciado uma agressão e derramado o sangue de um defensor da verdade.

A guerra ofensiva só é permitida depois de cumprida a transmissão da mensagem. Há dois caminhos: a transmissão por um profeta, que apresenta a prova de modo completo, com caráter exemplar, conhecimento, milagres e demonstração prática da mensagem; ou a transmissão por pessoas virtuosas, cuja missão é estabelecer justiça e ordem, retirando o poder político daqueles que recusam a religião e o usam para prejudicar os servos de Allah. Quando o objetivo é alcançado, devem parar.

Na época dos Companheiros, os povos recebiam três opções: aceitar o Islam e tornar-se iguais aos muçulmanos; tornar-se súditos do Estado islâmico, pagando tributo e mantendo sua lei pessoal; ou aceitar a guerra. Isso era possível porque uma ordem social islâmica já estava estabelecida e demonstrava concretamente o que o Islam exige na vida individual e coletiva.

A segunda condição é que a guerra seja liderada por pessoas virtuosas, plenamente comprometidas com a purificação do mundo da corrupção e da desordem. Não se pode formar um exército islâmico com mercenários; ele deve ser composto por pessoas que creem no Islam e lutam por ele. Se a intenção for riqueza, nacionalismo ou qualquer interesse mundano, o derramamento de sangue será considerado corrupção.

A terceira condição é a liderança de um emir que possua autoridade efetiva. Ele deve ter poder legal sobre sua comunidade, aplicar a lei da Shariah e não estar subordinado a nenhuma força além de Allah. Os profetas só declararam guerra depois de migrar, organizar seus seguidores e estabelecer uma autoridade independente. O mesmo princípio foi seguido por líderes posteriores, como Sayyid Ahmad Shahid e Mawlana Isma‘il Shahid.

Não se deve derrubar um sistema falso sem capacidade real de substituí-lo por um sistema justo. A anarquia é contrária à natureza humana e pode ser pior que um sistema injusto. Uma comunidade sem organização, autoridade reconhecida, lealdade testada e força disciplinada não tem direito de iniciar Jihad armada. O simples prestígio moral não basta para controlar uma guerra; sem autoridade efetiva, a espada pode ultrapassar os limites do lícito e ilícito.

A quarta condição é possuir força suficiente. Para uma organização virtuosa, essa força surge naturalmente quando as três condições anteriores são cumpridas. Uma Da‘wah correta reúne pessoas de diferentes capacidades, fornece recursos e desenvolve os meios necessários. Ainda assim, antes de uma guerra ofensiva, a força material adequada é indispensável; quem começa sem ela lança a si mesmo na destruição.

Essas condições mostram por que a guerra só aparece depois da Da‘wah e da Hégira. Somente então os adversários autorizados a ser combatidos se tornam claramente identificáveis e a organização adquire o direito de estabelecer justiça, poder e ordem pela espada. Aqueles que ignoram a sequência do método dos profetas e se deixam influenciar pelos métodos de movimentos revolucionários comuns devem refletir sobre a utilidade e as consequências dessas etapas.

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