Apresentação do autor
Nascimento, educação e vida profissional de Sayyid Qutb
O nome de Sayyid Qutb era Sayyid. Qutb era o título de sua linhagem. Seus antepassados vieram da Península Arábica e começaram a viver na região norte do Egito. Seu pai chamava-se Haji Ibrahim Qutb. Ibrahim Qutb tinha cinco filhos: Sayyid Qutb, Muhammad Qutb, Hamid Qutb e Amina Qutb. O nome da quinta filha não é conhecido. Sayyid Qutb era o mais velho entre os irmãos; todos eles receberam educação superior, empenharam-se em jihad para estabelecer o modo de vida islâmico e demonstraram firmeza em duras provas de fogo.
Sayyid Qutb nasceu no ano de 1906, na aldeia de Musha, no distrito de Usyut, Egito. Sua mãe, Fatima Gossain Osman, era uma mulher extremamente devota e temente a Allah. O pai de Sayyid, Haji Ibrahim, trabalhava na agricultura, mas também era um homem extremamente religioso e de caráter íntegro.
Sayyid Qutb começou seus estudos na escola primária da aldeia. Por desejo de sua mãe, memorizou o Alcorão ainda na infância. Mais tarde, seu pai passou a residir em um lugar chamado Helwan, nos arredores da cidade do Cairo. Depois de concluir seus estudos na madrasa Tajhiziyatu Darul Ulum, Sayyid ingressou na famosa madrasa Darul Ulum, no Cairo. Em 1933, obteve o diploma de bacharel nessa madrasa e foi nomeado professor ali mesmo.
Depois de lecionar por algum tempo, foi nomeado inspetor escolar subordinado ao Ministério da Educação. No Egito, esse cargo é considerado extremamente honroso. O próprio Ministério da Educação enviou-o aos Estados Unidos para estudar os métodos modernos de educação. Após concluir um curso de dois anos, retornou ao país vindo do exterior. Durante sua permanência na América, observou a situação deplorável da sociedade materialista. Nasceu nele a firme convicção de que somente o Islã poderia verdadeiramente conduzir a sociedade humana pelo caminho do bem-estar.
Logo após retornar dos Estados Unidos, começou a examinar os ideais, objetivos e programa do grupo Ikhwanul Muslimun. Em 1945, tornou-se membro desse grupo. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico prometeu conceder independência ao Egito ao fim da guerra. Assim que a guerra terminou, o grupo Ikhwan iniciou um movimento exigindo a retirada dos britânicos do Egito. Como resultado, sua popularidade aumentou enormemente. Em apenas dois anos, o número de seus ativistas chegou a dois milhões e quinhentos mil. O número de membros comuns, simpatizantes e apoiadores era várias vezes maior que o número de ativistas. Os britânicos e o governo ditatorial egípcio ficaram assustados ao ver a popularidade do Ikhwan e começaram a conspirar conjuntamente contra o grupo.
Em julho de 1952, ocorreu uma revolução militar no Egito. Nesse mesmo ano, o grupo Ikhwan foi novamente legalizado. O Dr. Hasan al-Hudaybi foi eleito Murshid al-Amm do grupo. O departamento de divulgação dos ideais do grupo e de expansão do movimento continuou avançando sob sua direção. Ele se dedicou inteiramente ao trabalho do movimento.
No ano de 1954, foi eleito editor da revista “Ikhwan al-Muslimun”, dirigida pela Irmandade. Apenas seis meses depois, o governo do coronel Nasser fechou a revista. Isso ocorreu porque, naquele ano, o governo egípcio celebrou um novo tratado com os britânicos, e a revista o criticou. Depois do fechamento da revista, o governo de Nasser iniciou a perseguição contra esse grupo. Sob a acusação de um caso fictício de conspiração para assassinato, a organização Ikhwan al-Muslimun foi declarada ilegal, e seus líderes foram presos.
Prisão e tortura
Entre os líderes da Irmandade presos estava também Sayyid Qutb. Ele foi mantido em diversas prisões do Egito. No momento da prisão, estava sofrendo de uma febre muito alta. Um oficial militar o prendeu nesse estado. Correntes foram colocadas em suas mãos e seus pés. Não apenas isso: Sayyid Qutb foi obrigado a caminhar até a prisão, apesar da febre intensa. No caminho, ele desmaiou várias vezes e caiu no chão. Ao recobrar a consciência, dizia: ———— (الله أكبر و لله الحمد).
Assim que entrou na prisão, os funcionários começaram a espancá-lo, e essa tortura continuou por duas horas. Depois, um cão treinado foi atiçado contra ele. O cão mordeu sua perna e o arrastou pelo pátio da prisão. Após essa recepção inicial, ele foi interrogado continuamente durante sete horas. Sua saúde já não era capaz de suportar tais torturas. Mas, fortalecido por sua fé inabalável, continuava a proclamar como se viesse de uma rocha: —————– (الله أكبر و لله الحمد).
A cela escura da prisão era trancada à noite. Durante o dia, ele era submetido regularmente a exercícios de marcha. Sua saúde se deteriorou gravemente. Sofria de várias doenças, como dores no peito, fraqueza cardíaca e dores nas articulações por todo o corpo. Ainda assim, continuavam a queimar sua pele com fogo. Os cães policiais arranhavam seu corpo com as garras e os dentes. Derramavam sobre sua cabeça água muito quente e, logo em seguida, água extremamente fria. Chutes, socos, murros e insultos com linguagem obscena eram acontecimentos diários.
Em 13 de julho de 1955, após julgamento por um tribunal popular, ele foi condenado a quinze anos de prisão com trabalhos forçados. Por causa de sua doença, não pôde comparecer ao tribunal. Depois de cumprir um ano de prisão, o governo de Nasser propôs que ele poderia ser libertado se pedisse perdão por meio da imprensa. A resposta dada por esse homem de fé permanecerá imortal nas páginas da história. Ele disse:
“Fico extremamente surpreso ao ouvir esta proposta: estão pedindo que o oprimido peça perdão ao opressor. Juro por Deus! Mesmo que algumas palavras de súplica por perdão possam me livrar da forca, ainda assim não estou disposto a pronunciar tais palavras. Quero comparecer perante Deus em uma condição na qual eu esteja satisfeito com Ele e Ele esteja satisfeito comigo.”
Mais tarde, todas as vezes que lhe aconselharam a pedir perdão, ele repetiu as mesmas palavras: “Se fui realmente preso por um crime, estou satisfeito com isso. Mas, se uma força da falsidade me prendeu injustamente, de modo algum pedirei perdão à falsidade.”
Em meados de 1964, o presidente do Iraque, Abdus Salam Arif, foi ao Egito. Por ele ter recomendado a libertação de Sayyid Qutb, o coronel Nasser o libertou e o manteve confinado em sua própria residência.
Nova prisão e condenação
Antes que se completasse um ano (?), ele foi novamente preso, acusado de tentar tomar o poder à força. No entanto, ainda estava sob rigorosa vigilância policial. Não somente ele, mas também seu irmão Muhammad Qutb, suas irmãs Hamida Qutb e Amina Qutb, além de mais de vinte mil pessoas, foram presos. Entre eles, cerca de setecentas eram mulheres.
Em 1965, enquanto o coronel Nasser estava em visita a Moscou, anunciou em uma declaração que a Irmandade Muçulmana havia conspirado para assassiná-lo. Imediatamente após esse anúncio, começou em todo o Egito uma ampla campanha de prisões contra os líderes e membros da Irmandade. Por força de uma nova lei promulgada em 26 de março de 1964, foram conferidos ao presidente poderes punitivos, como prender qualquer pessoa e confiscar seus bens. Também foi declarado que não se poderia contestar em nenhum tribunal a legalidade das medidas tomadas pelo presidente. Algum tempo depois, começou o julgamento deles perante um tribunal militar especial. Inicialmente, anunciou-se que as cenas desse julgamento seriam transmitidas pela televisão. Porém, quando os acusados se recusaram a confessar os crimes e revelaram os relatos das torturas físicas a que haviam sido submetidos, a transmissão televisiva foi suspensa. Depois disso, o julgamento prosseguiu a portas fechadas. Os réus não tinham advogado algum. Advogados de outros países solicitaram autorização para defender os réus, mas o pedido foi rejeitado. William Thorp (Thorp), ex-presidente da Ordem dos Advogados francesa, e dois advogados marroquinos solicitaram formalmente defender os réus. Mas o pedido foi indeferido. Dois advogados sudaneses chegaram ao Cairo, registraram seus nomes na Ordem dos Advogados local e compareceram ao tribunal. A polícia os expulsou do tribunal à força e os obrigou a deixar o Egito. Durante o julgamento, em janeiro e fevereiro de 1966, Sayyid Qutb e os demais réus declararam perante o tribunal que haviam sido submetidos a torturas físicas desumanas para que confessassem os crimes. O presidente do tribunal não deu atenção a nenhuma das declarações dos réus.
Em agosto de 1966, Sayyid Qutb e dois de seus companheiros foram condenados à morte pelo tribunal militar. Uma onda de protestos tomou o mundo inteiro. Porém, em 25 de agosto de 1966, a sentença foi executada.
O conhecimento e a produção literária de Sayyid Qutb
Sayyid Qutb foi um dos mais renomados sábios e literatos do Egito. Sua carreira literária começou com a literatura infantil. Ele demonstrou seu talento ao escrever, em uma linguagem atraente para as crianças, histórias dos profetas. Escrevia histórias para despertar nas crianças o pensamento islâmico e melhorar seu caráter. Mais tarde, escreveu um romance imbuído do pensamento islâmico, intitulado ‘Ashwak’ (Espinhos). Depois, escreveu mais dois romances do mesmo tipo: um, ‘Tifl min al-Qarya’ (O menino da aldeia), e o outro, ‘Madinat al-Mashur’ (A cidade da magia).
A relação de suas obras é a seguinte:
(1) —————– (A cena do Dia do Juízo desenhada pelo Alcorão). Entre as 114 suratas do Sagrado Alcorão, há referências ao Dia do Juízo em 150 passagens de 80 suratas. Sayyid, com grande perícia, desenhou, a partir dessas descrições, o cenário do campo de Hashr, do Inferno e do Paraíso.
(2) ——————- No livro, que contém 200 páginas, Sayyid Qutb discute a linguagem, o ritmo, os recursos retóricos e o estilo cativante do Alcorão.
(3)———————- (O Islã e a justiça social). Até agora, a 7.ª edição do livro foi publicada. O livro foi traduzido para várias línguas do mundo (por exemplo, inglês, persa, turco e urdu).
(4) ———————- Uma contribuição incomparável de Sayyid Qutb. Um oceano de conhecimento, concluído em oito volumes. Não é exatamente um tafsir; antes, ele registrou no papel os pensamentos que lhe surgiram durante o estudo do Alcorão e explicou com maestria os meios de corrigir a da’wah, as advertências, o conhecimento de Allah e outros temas ocultos no interior de cada versículo.
(5)—————(O conflito entre o Islã e o capitalismo).
(6)—————– (A paz mundial e o Islã).
(7)——— (Obras islâmicas).
(8)——————-(Princípios e métodos da crítica literária).
(9)——————— (Crítica do livro intitulado «A cultura do futuro»).
(10) —————– (Obras e personalidades).
(11)————– (A imagem da sociedade islâmica).
(12)————(A América que vi).
(13)—————- (O pensamento de quatro irmãos). Nesta obra, foram reunidos os escritos de Sayyid Qutb, Muhammad Qutb, Amina Qutb e Hamida Qutb.
(14)——— (Coletânea de poemas).
(15)———– (Histórias dos profetas).
(16) ————(Coletânea de poemas).
(17)————-(Coletânea de poemas).
(18) ————- (A verdadeira função do poeta na vida).
(19)————— (O curso da revolução social).
Foi por escrever este livro que o governo egípcio acusou Sayyid Qutb, e por essa acusação ele foi condenado à morte. Na edição nº 446, publicada em 1º de outubro de 1965 no jornal das forças armadas egípcias, foi divulgado um relato das acusações anteriores contra ele, cujo resumo é o seguinte:
“O autor se opôs veementemente tanto à civilização e à sociedade ocidentais quanto à doutrina marxista. Ele afirma que essas doutrinas nada oferecem à humanidade. Segundo ele, o mundo atual está imerso na jahiliyya. O domínio dos seres humanos foi injustamente estabelecido no lugar da soberania de Allah. O autor enfatiza a necessidade de reviver a perspectiva do Alcorão para eliminar essa jahiliyya e, para isso, convoca as pessoas a sacrificarem tudo o que possuem.
Ele chama todos os governantes que não sejam Allah de taghut. O autor afirma que declarar jihad contra o taghut é uma condição da fé para todo muçulmano. Ao considerar falsa a unidade baseada em língua, cor da pele, linhagem, região e assim por diante, ele incita os muçulmanos a construir a unidade com base na aqida islâmica e a travar uma luta intransigente contra essa doutrina.
Por meio desse livro, o autor apresenta um plano para travar jihad contra o governo estabelecido, iniciar ações destrutivas em todo o Egito e derrubar o governo estabelecido.”
Introdução
A situação deplorável da humanidade
A humanidade chegou hoje à beira de um abismo sem fundo. Esta situação não surgiu simplesmente porque a destruição dos tempos atuais se preparou para aniquilá-la por completo. Pelo contrário, essa situação é apenas um sintoma da doença. Essa não é a verdadeira doença. A razão fundamental do perigo que hoje enfrenta a humanidade é que ela perdeu os valores de vida necessários ao seu desenvolvimento integral e ao seu verdadeiro progresso. Até mesmo para o mundo ocidental tornou-se evidente sua bancarrota espiritual, e hoje ele percebe que não possui nenhum valor de vida capaz de orientar a humanidade pelo caminho correto. Sabe que não dispõe de nenhum capital capaz de satisfazer a própria consciência e preservar sua individualidade.
A democracia nos países ocidentais tornou-se ineficaz e terminou em fracasso; por isso, parece que eles estão sendo obrigados a adotar os pensamentos, as doutrinas e os sistemas de vida do Oriente. A prova mais evidente disso é que estão introduzindo no Ocidente o sistema econômico oriental em nome do socialismo. O bloco oriental também se encontra na mesma situação. Seus sistemas sociais, especialmente a doutrina marxista, atraíram inicialmente a atenção de grande número de pessoas no Oriente e no Ocidente. Isso ocorreu porque essa doutrina foi elaborada com base em uma crença fundamental bem definida.
Mas, no campo do pensamento, a doutrina marxista sofreu uma derrota. Hoje não é de modo algum exagero dizer que, no mundo atual, não há um único país verdadeiramente marxista. Essa doutrina é, em todos os aspectos, contrária à natureza inata do ser humano e às suas necessidades fundamentais. O ideal marxista só pode expandir-se em sociedades degeneradas ou em sociedades sem vida, esmagadas durante longo tempo sob o jugo da ditadura. Entretanto, atualmente, até mesmo nessas sociedades seu sistema econômico materialista está fracassando em resolver os problemas. E a economia materialista é justamente a base da doutrina marxista. A própria Rússia, mestra dos países comunistas, enfrenta hoje escassez de alimentos. O mesmo país que, durante o governo do czar, produzia excedentes alimentares, hoje importa alimentos do exterior em troca de seu ouro armazenado. A agricultura baseada em fazendas coletivas é a causa desse fracasso. Em outras palavras, pode-se dizer que a doutrina marxista está enfrentando o fracasso justamente por causa da introdução de um sistema contrário à natureza humana.
A necessidade de uma nova liderança
A humanidade deseja hoje uma nova liderança. A liderança do Ocidente está hoje em declínio. Isso não se deve à pobreza material da cultura ocidental, nem à fraqueza de seu poder financeiro e militar. O mundo ocidental foi obrigado a abandonar o posto de liderança da humanidade porque já não possui as qualidades fundamentais que infundem força vital e que um dia o elevaram à posição de liderança.
A nova liderança dos dias vindouros deverá, juntamente com a preservação e o desenvolvimento das contribuições do gênio criativo da Europa, apresentar à humanidade um ideal grandioso e valores que até hoje permanecem desconhecidos. E a liderança do futuro deverá apresentar à humanidade um sistema de vida positivo, construtivo e realista, plenamente compatível com a natureza humana.
Somente o sistema islâmico é capaz de oferecer os valores e o sistema de vida mencionados.
Até mesmo o poder da ciência chegou ao fim. O movimento renascentista, iniciado no século XVI e que alcançara o auge de sua vitória nos séculos XVIII e XIX, hoje perdeu o brilho e a força de se renovar. Todas as doutrinas nacionalistas e de nacionalismo extremado que nasceram na era moderna, bem como os movimentos e modos de vida construídos com base nelas, hoje se tornaram inertes. Em suma, deve-se dizer que todos os sistemas de vida criados pelo ser humano terminaram em fracasso.
Neste momento crítico, delicado e confuso, chegou a hora de o Islã e a sociedade muçulmana cumprirem sua própria responsabilidade. O Islã jamais impediu a humanidade de descobrir os recursos materiais da criação. Quando Allah Ta’ala enviou o ser humano à Terra com a responsabilidade do khilafah, declarou que cumprir o dever de guiar a humanidade pelo caminho reto, sob certas condições, era adoração a Allah. Não apenas isso: Ele também informou que esse era o propósito da criação do ser humano:
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E quando teu Senhor disse aos anjos: “Estou prestes a enviar à face da Terra o Meu khalifah.” — Al-Baqarah: 30
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E não criei os gênios e a humanidade para nenhum outro propósito senão a Minha adoração. — Adh-Dhariyat: 56
Isso diz respeito à khilafah e à adoração. Mas, ao mesmo tempo, chegou o momento de cumprir também a responsabilidade que Allah Ta’ala confiou a Seus servos para com a humanidade.
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Assim, fizemos de vocês uma comunidade intermediária, para que possam ser testemunhas perante a humanidade e para que o Mensageiro possa ser testemunha sobre vocês. — Al-Baqara: 143
Vocês são a melhor Ummah, suscitada para promover o bem da humanidade. Ordenarão às pessoas a prática do bem, impedirão a prática do mal e terão profunda fé em Allah.
__ Aal Imran: 110
O papel do Islã
O Islã não pode desempenhar seu papel sem se concretizar no seio de uma sociedade, isto é, de uma nação. Especialmente nos tempos atuais, as pessoas não estão dispostas a aceitar uma ideologia apenas por ouvirem elogios a seu respeito. Elas conseguem avaliar facilmente um sistema quando este está concretamente implementado. Sob essa perspectiva, podemos dizer que a nação muçulmana perdeu sua existência ao longo dos últimos séculos. E é justamente por essa razão que, atualmente, não será capaz de mostrar um território onde o Islã esteja presente em sua plenitude. Ao observar os muçulmanos de hoje, torna-se difícil acreditar que seus antepassados do passado recente tenham sido seguidores devotados do Islã. Na realidade, muçulmanos são um grupo de pessoas cujos costumes, pensamentos, leis e valores fundamentais são todos derivados de fontes islâmicas. Desde o momento em que o grupo muçulmano, com suas características próprias, desapareceu da face da Terra.
Para restabelecer o Islã no posto de liderança da humanidade, a Ummah muçulmana terá de recuperar sua forma original. A Ummah muçulmana está soterrada, há séculos, sob o entulho de costumes e tradições criados pelos seres humanos. Hoje, a Ummah muçulmana está esmagada sob o peso de leis e práticas equivocadas que não têm sequer a mais remota relação com os ensinamentos islâmicos. Ainda assim, os muçulmanos sentem satisfação própria ao chamar suas regiões de mundo islâmico.
Sei que se abriu uma enorme distância entre essas duas tarefas: a reconstrução de nós mesmos e a recuperação da liderança da humanidade. Isso porque, durante um longo período, a existência da Ummah muçulmana desapareceu do mundo visível. E a liderança da humanidade já há muito foi tomada por outras ideologias, concepções não islâmicas, diferentes sistemas de vida e nações não muçulmanas.
Durante o período em questão, o gênio europeu alcançou um progresso extraordinário nos campos da ciência, da cultura, das leis e da produção material; como resultado, a sociedade humana avançou muito na capacidade criadora e nas técnicas de fabricação dos meios de conforto material. Não é fácil apontar as falhas e deficiências dessas magníficas invenções. Especialmente quando o mundo islâmico está totalmente privado de talento criativo, torna-se ainda mais difícil criticar os inventores de instrumentos mecânicos dos países ocidentais.
Apesar de todos esses obstáculos e adversidades, a Revolução Islâmica é indispensável. Certamente existe uma enorme distância e inúmeros obstáculos entre o renascimento do ideal islâmico e a recuperação do lugar da liderança mundial. Ainda assim, como primeiro passo, é necessário começar a trabalhar sem perder tempo pelo renascimento do ideal islâmico.
Qualidades necessárias para a liderança mundial
Se quisermos trabalhar com conhecimento e discernimento, devemos necessariamente saber quais qualidades precisamos adquirir para cumprir a responsabilidade da liderança mundial concedida por Allah à Ummah muçulmana. Precisamos adquirir o conhecimento necessário para não tropeçar ao iniciar o trabalho de reforma e reconstrução.
A Ummah muçulmana de hoje é incapaz de demonstrar, diante da humanidade, capacidade para descobertas materiais ou um talento promissor. Esperar que a sociedade humana do mundo atual reconheça a superioridade da Ummah muçulmana e lhe conceda o lugar de liderança, apesar dessa incapacidade, é mera fantasia. Nesse aspecto, o intelecto criativo da Europa está muito mais avançado, e não podemos sequer imaginar que, durante os próximos séculos, derrotaremos a Europa na competição e alcançaremos superioridade no campo do desenvolvimento mecânico. Portanto, devemos adquirir qualidades que são raras na civilização moderna.
Isso não significa que negligenciaremos de modo algum o desenvolvimento material. Pelo contrário, também atribuiremos a devida importância às comodidades e ao bem-estar terrenos. Pois o desenvolvimento material não é necessário apenas para oferecer liderança à humanidade; ele também é indispensável para preservar nossa própria existência e a existência do Islã. O Islã conferiu ao ser humano a condição de khalifa de Allah na Terra e declarou que cumprir a responsabilidade de khalifa e adorar Allah é o propósito da criação humana. Portanto, como khalifas de Allah, é obrigatório para nós promover o desenvolvimento de Seu mundo.
Para liderar a humanidade, além do nosso desenvolvimento material, teremos de oferecer algo mais. Trata-se de uma crença fundamental (iman) sobre a vida humana e de um sistema de vida estabelecido com base nessa crença. Esse sistema preservará todas as contribuições da ciência moderna e do conhecimento técnico. Ao mesmo tempo, será capaz de manter o padrão das extraordinárias iniciativas e realizações que o conhecimento e a ciência modernos criaram para proporcionar conforto e bem-estar e satisfazer as necessidades básicas da humanidade. E essa crença (iman) e esse sistema de vida se manifestarão, assumindo forma concreta, na sociedade humana, isto é, na sociedade muçulmana.
A Jahiliyyah da era moderna
Quando se observa a origem do modo de vida moderno, torna-se claro que o mundo inteiro hoje gira e se debate no turbilhão da Jahiliyyah, e que, ao lado de todos os meios e instrumentos modernos de conforto e bem-estar e do maravilhoso talento inventivo, a ignorância também se mostra claramente. O comportamento rebelde contra a soberania de Allah é a prova da Jahiliyyah. Como resultado, a soberania, uma das maiores qualidades de Allah, foi transferida aos seres humanos, e algumas pessoas passaram a exercer domínio sobre a sociedade humana. Naturalmente, essa Jahiliyyah não nega Allah diretamente, como ocorria nas épocas antigas e primitivas. Pelo contrário, a rebelião é declarada na prática por meio da determinação dos critérios do bem e do mal, da elaboração de leis para a vida coletiva, da formulação de um sistema de vida e da reivindicação do direito de escolhê-lo. Pois ninguém pode realizar essas ações sem rejeitar as orientações dadas por Allah sobre essas questões. A opressão e a perseguição de Sua criação são a consequência inevitável dessa rebelião contra a autoridade de Allah.
Na sociedade comunista, a humanidade é submetida à extrema humilhação; e, devido à ganância econômica e à atitude imperialista da sociedade capitalista, as pessoas comuns e as nações fracas são submetidas a uma exploração e opressão impiedosas. Esta é a consequência inevitável da declaração de rebeldia contra a autoridade de Allah e da negação da dignidade concedida por Allah ao ser humano.
A partir desta perspectiva, ficará evidente que o Islã é o único sistema de vida. Pois, sob os demais sistemas de vida, de uma forma ou de outra, o ser humano é obrigado a aceitar a servidão de outros seres humanos. Somente sob o sistema de vida islâmico o ser humano consegue libertar-se completamente da servidão aos homens, submeter-se somente a Allah conforme os Seus mandamentos e proibições, e adorá-Lo.
A diferença entre o Islã e a Jahiliyyah
É precisamente a partir daqui que o caminho do Islã se separa dos demais sistemas de vida. Podemos apresentar à sociedade humana um sistema de vida elaborado com base nesta nova visão da vida e plenamente adequado à vida prática. A sociedade humana contemporânea desconhece esta mensagem fundamental do Islã. Ela não é uma filosofia de vida concebida pelos descobridores ocidentais, nem pelos pensadores talentosos da Europa ou do Oriente e do Ocidente.
Não há dúvida de que a filosofia de vida na qual acreditamos é completa em todos os aspectos. Esta característica do Islã ainda é desconhecida pelos povos do mundo. E eles não são capazes de apresentar nenhum sistema de vida superior ou equivalente a ele.
Já mencionei que, se o Islã não for concretizado na prática em uma determinada região, não se pode compreender plenamente a beleza deste sistema. Portanto, é absolutamente necessário construir uma sociedade sob este sistema e apresentá-la como modelo ao mundo. Para alcançar esse objetivo, é indispensável restabelecer a sociedade islâmica em algum país muçulmano. Num futuro próximo, o grupo que busca o renascimento da sociedade islâmica conquistará a liderança do mundo.
O renascimento da sociedade islâmica
Como será possível o renascimento da sociedade islâmica? Para isso, um grupo de vanguarda deverá definir seu destino e avançar atravessando o ilimitado oceano da Jahiliyyah que engole o mundo. Ao longo do caminho, os soldados desse grupo deverão proteger-se do contato com a Jahiliyyah onipresente e, ao mesmo tempo, também receber ajuda dela.
Este grupo de vanguarda deve necessariamente conhecer o lugar correto de onde iniciar a jornada, a orientação do caminho geral, suas ruas e vielas, todos os perigos e dificuldades do percurso e o objetivo da longa e árdua viagem. Não apenas isso: deve entrar em campo com uma compreensão completa de onde e em que medida a jahiliyyah de todo o mundo lançou raízes; quando e com quem será necessário cooperar e em que momento será preciso separar-se deles; quais qualidades e características é necessário adquirir; quais são as características da jahiliyyah circundante; em que linguagem se deve falar com os portadores e defensores da jahiliyyah; quais assuntos e problemas deverão entrar na pauta de discussão; e como e de onde obter a orientação necessária.
A fonte da força da nossa fé são os ensinamentos fundamentais do Sagrado Alcorão. Os ensinamentos e as mensagens do Alcorão, dos quais se acenderam tochas de luz nos corações dos porta-bandeiras do Islã na era de ouro, serão o nosso viático. Munidos desse viático, os escolhidos por Allah foram capazes, no passado e sob a orientação do próprio Allah, de mudar o curso da história humana.
Foi para os líderes desta revolução que escrevi este livro, no qual também procurei apresentar os métodos práticos de ação necessários.
Este livro foi elaborado a partir de quatro capítulos de outra obra minha, intitulada “À Sombra do Alcorão”, com pequenas alterações em alguns trechos, a fim de adequá-los ao tema aqui discutido.
Escrevi a introdução e os demais capítulos em diferentes momentos; aqui procurei apresentar as verdades profundas que compreendi ao refletir e pesquisar a visão da vida apresentada pelo Sagrado Alcorão. À primeira vista, esse conjunto de pensamentos pode parecer desordenado e sem ligação entre si. Há, porém, uma verdade: meus pensamentos são o viático do caminho a ser percorrido e um indicador dos caminhos que devem ser abandonados. Estes meus escritos são apenas a primeira parte de uma obra em série. No futuro, com a ajuda de Allah, pretendo escrever mais sobre este tema.
E a misericórdia de Allah é o principal suporte para este trabalho.
O autor
Primeiro capítulo
O grupo portador da mensagem no Alcorão Sagrado
Em todas as épocas e em todos os países, aqueles que propagarem a mensagem do Islã deverão necessariamente conhecer o método de apresentar o chamado aos seres humanos e receber treinamento a esse respeito. Certa vez, o Alcorão formou um grupo de pessoas. Eram os nobres Companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). Não há comparação para essas pessoas memoráveis, não apenas na história do Islã, mas em toda a história da humanidade. Depois daquela era dourada do Islã, nenhum grupo de pessoas dotadas de todas as virtudes como eles nasceu no mundo. É verdade, naturalmente, que em diferentes épocas nasceram alguns sábios desse tipo em várias partes da Terra; contudo, em nenhuma época da história surgiu um grupo organizado de pessoas dotadas das elevadas qualidades mencionadas, como na era dourada.
Esta é uma verdade histórica inegável. Portanto, devemos descobrir o seu segredo por meio de uma profunda reflexão sobre o assunto.
Por que não se encontram pessoas comparáveis aos nobres Companheiros?
A mensagem do Alcorão Sagrado ainda se encontra preservada intacta entre nós. Além disso, os hadiths do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), suas instruções sobre a prática concreta de sua vida e toda a sua biografia estão preservados entre nós. A mensagem do Alcorão e os ensinamentos do Mensageiro (que a paz esteja com ele) estão conosco exatamente como estavam diante da comunidade muçulmana da era dourada. Somente a presença física do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) não está entre nós. Será por isso que, em nenhum país do mundo, a sociedade islâmica está estabelecida em sua plenitude?
Se a presença física do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) fosse indispensável para a implementação e a expansão da lei de Allah, o Deus Altíssimo jamais teria revelado o sistema de vida islâmico como a única religião para todos os seres humanos do mundo, nem o teria declarado a mensagem final revelada aos habitantes do mundo e uma religião adequada a todos os tempos e épocas.
O próprio Allah, o Altíssimo, assumiu a responsabilidade de preservar o Alcorão Sagrado. Pois Ele sabia que, mesmo após a morte do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), o sistema de vida islâmico poderia ser implementado e promover o bem da humanidade. Foi por isso que Allah, o Altíssimo, após os vinte e três anos de sua vida profética, chamou Seu amado Mensageiro (que a paz esteja com ele) para Sua presença e declarou que o Islã permaneceria vigente até o último instante da existência da Terra. A ausência física do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) não é nenhum obstáculo à implementação da lei islâmica.
Primeira razão: Ao buscar a verdadeira causa disso, veremos, antes de tudo, que outras substâncias se misturaram àquela água da límpida fonte da qual os muçulmanos da era dourada saciavam sua sede. Também devemos investigar que treinamento os muçulmanos daquela época receberam. Talvez o próprio método de treinamento tenha sido misturado com impurezas.
A fonte da qual os Sahabah beberam até se saciarem a água da vida era o Sagrado Alcorão. Repito: somente o Alcorão. Pois os hadiths e as demais orientações do Mensageiro (que a paz esteja com ele) são apenas correntes que fluem dessa mesma fonte. Quando Umm al-Mu’minin, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), foi perguntada sobre o caráter do Mensageiro (que a paz esteja com ele), respondeu claramente: “Seu caráter era o próprio Sagrado Alcorão.”
Foi do Sagrado Alcorão que os Sahabah (que Allah esteja satisfeito com eles) saciaram sua sede, e foi unicamente segundo o molde do Alcorão que construíram suas vidas. O fato de o Alcorão ter sido seu único guia não se devia à ausência, naquela época, de civilização, cultura, ciência, literatura ou escolas. Na realidade, a civilização, a cultura e a literatura romanas daquele período, bem como o direito romano, são considerados até hoje a base da civilização europeia. Naquela época, a civilização grega também exercia influência. A lógica, a filosofia, as artes e a ciência gregas ainda são consideradas fontes do pensamento ocidental. A civilização persa — suas artes, sua ciência, sua poesia, suas lendas, sua religião e seu sistema de governo — era poderosa. Também existiam outras civilizações em regiões próximas e distantes. Entre elas, podem ser mencionadas as civilizações indiana e chinesa. Ao norte e ao sul da Península Arábica estavam estabelecidas as civilizações romana e persa. Judeus e cristãos viviam no centro da Península Arábica. Portanto, os muçulmanos daquela época não aceitaram o Livro de Allah como seu único guia de vida por ignorância decorrente da falta de civilização e cultura; chegaram a essa decisão somente após profunda reflexão. Como exemplo, pode-se mencionar a ocasião em que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) compareceu perante o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) levando consigo alguns trechos do Livro da Torá. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), descontente, disse a Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): “Por Allah! Se hoje Hazrat Musa (que a paz esteja com ele) ainda estivesse vivo, também seria obrigatório para ele obedecer-me.”
Este acontecimento deixa claro que, na fase inicial da formação de seus primeiros seguidores, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) determinou que eles buscassem conhecimento somente na palavra de Allah. E a totalidade dessa palavra é o Alcorão. Ele havia decidido que seus companheiros dedicariam suas vidas exclusivamente ao Livro de Allah e construiriam suas vidas unicamente de acordo com os ensinamentos desse Livro. Foi por isso que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) manifestou desagrado assim que viu Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) voltar sua atenção para outro livro.
Na realidade, o Mensageiro de Allah queria formar um grupo de pessoas cujos corações, mentes e intelectos fossem completamente livres de corrupção e de toda espécie de impureza. O próprio Allah Todo-Poderoso, o Legislador do Sagrado Alcorão, ensinou-lhes o método de sua formação.
Essas pessoas beberam até se saciarem da fonte de paz do Alcorão e conquistaram uma posição como detentoras de qualidades incomparáveis. Mais tarde, algumas substâncias adulterantes provenientes de outras fontes misturaram-se à corrente pura do Alcorão. As fontes das quais as gerações posteriores recolheram seus materiais foram a filosofia e a lógica gregas, as antigas lendas e correntes de pensamento persas, os livros e costumes judaicos, o sacerdotalismo cristão e, além disso, fragmentos esparsos de outras religiões e civilizações. Os exegetas do Alcorão incluíram esses elementos em suas discussões eruditas e, assim, eles se entrelaçaram aos princípios fundamentais transmitidos pelo Sagrado Alcorão. As gerações posteriores passaram a adquirir conhecimento dessa fonte adulterada. Por isso, jamais conseguiram possuir as qualidades e o caráter do grupo formado na primeira geração.
Podemos afirmar sem hesitação que a diferença surgida entre os muçulmanos da era de ouro e os muçulmanos posteriores se deve ao fato de que a doutrina formada pela mistura do ideal islâmico puro com outros ideais perdeu suas características islâmicas.
Segundo motivo: É importante mencionar outra razão a esse respeito. O método de aprendizagem dos muçulmanos da era de ouro também era extraordinário. Eles não estudavam o Alcorão para satisfazer a sede de cultura, informação ou conhecimento. Ninguém daquela época estudava o Alcorão para ampliar seu acervo de conhecimentos, encontrar a solução para algum problema científico ou jurídico, ou suprir alguma carência intelectual. Pelo contrário, voltavam-se para o Sagrado Alcorão a fim de conhecer quais mandamentos e proibições o Todo-Poderoso Allah havia revelado para eles e para toda a comunidade. Assim como o soldado empenhado na luta no campo de batalha se apressa em cumprir as instruções militares de cada dia, os crentes daquela época cumpriam as orientações do Alcorão. Eles não estudavam de uma só vez uma grande parte do Alcorão, pois compreendiam muito bem como era difícil carregar o peso de muitos mandamentos e proibições. No máximo, cada um deles lia e memorizava dez versículos de uma vez e vivia de acordo com o significado desses versículos. É por meio de um hadith narrado por Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) que tomamos conhecimento de tudo isso.
“O objetivo da revelação dos mandamentos é cumpri-los.” Essa compreensão abriu para as pessoas daquela época as portas do desenvolvimento espiritual e da expansão do conhecimento; se tivessem estudado o Alcorão apenas com o objetivo de discutir, adquirir erudição e reunir informações, essa porta jamais lhes teria sido aberta. Além disso, foi justamente graças a essa compreensão que se tornou fácil para eles cumprir os mandamentos e as proibições do Alcorão, e o peso da responsabilidade se tornou mais leve. Eles manifestaram o Alcorão em seus modos de sentar e levantar, em sua conduta e em seu comportamento, de tal forma que cada um deles se tornou uma imagem viva da fé. Essa fé não estava escondida em algum livro ou na mente; pelo contrário, tornou-se concreta por meio de um movimento revolucionário que avançava com um programa de ampla transformação da vida humana.
Na verdade, o Alcorão jamais abre o seu tesouro de conhecimento para aqueles que não desejam conhecer os seus mandamentos e viver de acordo com eles. O Alcorão não é simplesmente um tratado erudito, uma obra literária, uma coletânea de histórias ou um livro de história. Contudo, todos esses temas são nele abordados. O Alcorão trouxe um sistema de vida. A essência desse sistema de vida é a submissão a Allah. Por isso, o Deus Altíssimo, Allah Ta‘ala, não revelou todo o Alcorão de uma só vez. Pelo contrário, revelou-o gradualmente, em pequenas porções, de tempos em tempos:———————————————–
Nós revelamos o Alcorão pouco a pouco, para que tu, ó Profeta, pudesses recitá-lo às pessoas em intervalos, e assim o revelamos gradualmente. — Bani Isra’il: 106
O Alcorão inteiro não foi revelado de uma só vez; pelo contrário, diferentes partes do Sagrado Alcorão foram reveladas gradualmente para resolver os novos problemas da sociedade islâmica em expansão, acompanhar o progresso da vida social conforme o curso das atitudes e correntes de pensamento das pessoas e responder às questões que a sociedade muçulmana enfrentava na vida real. Um ou mais versículos eram revelados em função de situações e acontecimentos específicos. Esses versículos respondiam às questões que surgiam na mente das pessoas sobre o assunto em questão, apresentavam o quadro de um acontecimento particular e indicavam tudo o que devia ser feito naquela situação específica. Esses versículos eliminavam os erros existentes no conhecimento, na razão e nas ações das pessoas, conduziam-nas para perto de Allah e explicavam os atributos de Allah Ta‘ala e a natureza da criação. Assim, compreenderam claramente que cada momento de suas vidas estava sob a direção e o controle do Criador Todo-Poderoso e que passavam os dias de suas vidas sob a proteção da misericórdia de Allah Ta‘ala. Foi justamente por perceberem essa profunda relação da vida com Allah Ta‘ala que se esforçavam continuamente para moldar suas vidas de acordo com o sistema de vida concedido por Allah.
Desse modo, os muçulmanos da era áurea haviam se acostumado a transformar em realidade prática todas as orientações relativas à vida. Os muçulmanos das épocas posteriores transformaram o sistema de vida em objeto de discussões eruditas e de deleite. E pode-se afirmar, sem dúvida, que essa é uma das causas da mudança observada entre os muçulmanos das épocas posteriores.
Terceira causa: Na história dos muçulmanos, encontra-se também uma terceira causa, que devemos conhecer. Na época do Mensageiro de Allah, aquele que abraçava a fé rompia todas as relações com a jahiliyyah. Depois de buscar abrigo sob a sombra de paz do Islã, iniciava uma nova vida. Os novos muçulmanos separavam-se completamente da vida anterior, imersa na ignorância acerca dos mandamentos de Allah, e ingressavam na nova sociedade. Arrependidos do modo equivocado como haviam vivido na era da ignorância, viviam sempre apreensivos e acreditavam plenamente que, depois de entrar no Islã, era impróprio manter qualquer relação com os antigos costumes. Se, em algum momento, por causa da fraqueza humana, o antigo modo de vida começasse a influenciá-los, ou os antigos hábitos os atraíssem, fazendo-os incorrer em algum erro ou desvio no cumprimento das orientações do Islã, agitavam-se de arrependimento e remorso e dirigiam-se imediatamente ao Alcorão para se corrigirem.
Assim, depois de abraçarem o Islã, a vida dos muçulmanos seguia um curso completamente diferente da vida anterior da jahiliyyah. Como aquele que abraçava o Islã dava esse passo somente depois de refletir cuidadosamente, aceitava plenamente os mandamentos e proibições do Islã e rompia todas as relações com a jahiliyyah. Naturalmente, rejeitavam a jahiliyyah enquanto mantinham as transações materiais com os politeístas. Pois as transações materiais e o compromisso com uma ideologia são duas coisas inteiramente diferentes.
Na base da rejeição do ambiente, dos costumes, dos modos de agir e dos pensamentos da jahiliyyah estava a adoção de uma visão de vida fundamentada no tawhid, em lugar das concepções equivocadas e politeístas sobre Allah e o mundo; a adesão ao grupo dos muçulmanos, a aceitação da liderança dessa nova sociedade e a demonstração de plena obediência.
Abraçar o Islã significava justamente viver segundo um novo caminho: uma vida nova, livre da influência de todos os valores e concepções da jahiliyyah. Além da perseguição da parte adversária, os muçulmanos não enfrentaram nenhuma outra dificuldade. Porém, antes de dar o primeiro passo no caminho do Islã, haviam decidido, no mais profundo de seus corações, permanecer firmes diante de toda tortura desumana. Por isso, a cruel perseguição dos opressores não conseguiu provocar qualquer perturbação na paciência inabalável dos muçulmanos.
Nosso dever
Atualmente, também estamos confinados no cerco da jahiliyyah, assim como as pessoas daquela época, e a jahiliyyah atual é ainda mais perniciosa do que a daquela época. Todo o nosso ambiente, as crenças e a aqidah do povo, os costumes, o caráter e as tradições são jahiliyyah. Até mesmo aquilo que conhecemos como cultura islâmica, fontes islâmicas, filosofia islâmica e pensamento islâmico é criação da jahiliyyah.
É por isso que os verdadeiros valores islâmicos não encontram lugar em nossos corações. É por isso que nossos corações nunca se iluminam à luz dos conceitos e da fé islâmicos. E é por isso que não surgem entre nós pessoas dotadas das mesmas qualidades dos pioneiros que nasceram na era áurea do Islã.
Por isso, no início do movimento islâmico e nos estágios iniciais de nossa formação, devemos nos separar completamente do ambiente atual influenciado pela jahiliyyah. Devemos adquirir conhecimento daquela fonte pura da qual os Companheiros — que Allah esteja satisfeito com eles — encontraram o caminho. E devemos preservar cuidadosamente essa fonte, mantendo-a livre de toda adulteração e mistura. É dessa fonte que devemos obter conhecimento sobre o curso da criação, sobre a relação entre a criação e a natureza humana e o verdadeiro Allah Ta’ala, a mais elevada e sublime realidade, e sobre a própria natureza humana. Dessas mesmas fontes, devemos estabelecer nossos conceitos fundamentais acerca da administração do governo, da política, da economia e dos demais setores da vida.
Não retornaremos às fontes fundamentais do Islã simplesmente para realizar discussões eruditas e desfrutar de prazer. Ao contrário, seguiremos esse caminho com o objetivo de obedecer a Allah e cumprir os preceitos islâmicos. Formaremos a nós mesmos exatamente como o Islã nos ordena que sejamos. Ao mesmo tempo, continuaremos pesquisando o valor literário do Alcorão, seu estilo incomparável de descrição, a representação do Dia da Ressurreição, a lógica e outros tesouros semelhantes. Certamente tiraremos proveito desses aspectos, mas eles não constituem o objetivo principal do estudo do Alcorão. Queremos saber pelo Alcorão que tipo de sistema de vida ele nos apresenta; que visão sobre a criação ele nos ensina; como apresenta Allah Ta’ala; que tipo de padrões morais e comportamentos nos ensina; e que tipo de leis e sistema de governo ordena estabelecer para a sociedade humana do mundo.
Ao mesmo tempo, devemos nos libertar completamente do domínio da ciência social, dos conceitos, dos costumes e da liderança jahil da jahiliyyah. Não podemos fazer concessões ao sistema social da jahiliyyah. Não nos é possível aceitar esse sistema e viver sob seu domínio. Não é possível estabelecer cordialidade com essa sociedade, pois esse sistema é falso. Portanto, primeiro devemos transformar nossas próprias vidas e, então, transformar essa sociedade.
Nosso principal objetivo será transformar todos os costumes e tradições da sociedade jahil. Essa transformação virá desde as próprias raízes da sociedade. Isso porque a base da sociedade jahil está fundada em uma doutrina falsa; por isso, ela é contrária ao Islã, e esse sistema, apenas por meio da força bruta e da opressão, nos mantém afastados de todos os frutos benéficos do sistema de vida escolhido por Allah.
Primeiramente, devemos nos libertar do laço sufocante do sistema de vida construído sobre os valores e conceitos jahil. Não mudaremos de modo algum nossos valores com o propósito de fazer concessões à sociedade falsa estabelecida. O caminho de nossa sociedade e o da sociedade inválida atualmente vigente são completamente diferentes. Se seguirmos o caminho da jahiliyyah, jamais poderemos chegar ao destino.
Estamos cientes de que, assim que dermos um passo por este caminho, muitas dificuldades e obstáculos se colocarão diante de nós, impedindo nossa passagem, e teremos de aceitar muitos sacrifícios e renúncias. Ainda assim, se quisermos seguir os passos dessas grandes personalidades oprimidas da era áurea, por meio das quais Allah estabeleceu Sua religião na Terra e subjugou a jahiliyyah, não poderemos recuar por causa dessas dificuldades e obstáculos.
Precisamos ter um conhecimento claro do caminho que percorreremos no futuro. Nossa jornada deve começar somente depois de conhecermos bem por qual caminho partiremos, que situações enfrentaremos ao longo da caminhada, quais vielas teremos de atravessar antes de chegar, da profunda escuridão da ignorância, à luminosa estrada principal do Islã e como os grandes Companheiros do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) alcançaram o sucesso.
Segundo capítulo
Lições fundamentais de sacrifício do período de Meca
A parte do Sagrado Alcorão que foi revelada em Meca ao longo de treze anos concentrou-se exclusivamente em um tema. Sem alterar sua mensagem essencial, esse tema foi apresentado em formas sempre novas, no estilo próprio de exposição do Alcorão. Por isso, a cada vez parecia que o assunto estava sendo discutido pela primeira vez. Esse tema era a primeira e principal questão fundamental do novo sistema de vida. E essa questão dizia respeito à crença no Criador, na humanidade e na relação entre ambos.
A questão foi apresentada diante de toda a humanidade. Fossem árabes ou habitantes de qualquer outra região, pertencessem àquela época ou a qualquer época posterior, a questão era a mesma para todas as pessoas, e a resposta também era idêntica.
As questões fundamentais da mente humana nunca mudam. A posição do ser humano no universo, o destino da vida humana, sua dignidade na criação e sua relação com o mundo, bem como a natureza da relação entre o ser humano e seu Criador, entre outras questões, são iguais para as pessoas de todas as épocas e regiões. Não é possível modificar essas questões fundamentais — pois elas estão intimamente ligadas à existência humana.
Durante o período de Meca da revelação do Alcorão, foram explicados os mistérios ocultos no ser humano e no mundo ao seu redor. De onde veio o ser humano, qual é sua identidade, com que propósito veio ao mundo, qual é seu destino, quem lhe deu existência a partir do nada e qual será seu desfecho: foi sobre esses temas que se tratou na primeira etapa da revelação do Alcorão. Há muitas coisas na criação que o ser humano pode ver e tocar. Há também muitas outras cuja existência pode ser sentida, mas que não podem ser vistas nem tocadas. Nessa etapa, o Alcorão concedeu ao ser humano conhecimento dessas duas espécies de coisas e objetos criados. Além disso, também foi discutido, já no período de Meca, quem criou este grandioso universo e quem determinou a forma e a natureza de todas as coisas criadas. Da mesma maneira, o Alcorão ensinou ao ser humano como estabelecer relações recíprocas entre o Criador, o mundo material e a humanidade. Essa é a questão importante da qual depende a existência humana e da qual continuará dependendo até o perecimento da criação.
É por isso que, ao longo dos treze anos do período de Meca, a resposta a essa importante e fundamental questão foi explicada sob diversos ângulos. Isso porque as demais questões relacionadas à vida humana derivam desse problema fundamental.
No período de Meca, o Alcorão estabeleceu a questão da crença fundamental como seu tema principal, e nada foi dito naquela época sobre quaisquer outras questões dela decorrentes. O Onisciente Allah, o Altíssimo, havia decidido que nenhuma outra norma seria apresentada àquele grupo até que a fé estivesse plenamente e firmemente estabelecida em seus corações. Isso porque era indispensável que, antes de tudo, uma fé firme fosse estabelecida no coração daqueles que mais tarde estabeleceriam Sua religião no mundo.
Aqueles que transmitem a mensagem da religião de Allah e os que desejam concretizar o sistema de vida apresentado por essa religião devem lembrar especialmente que, durante treze anos, o Alcorão Sagrado apresentou apenas o convite à fé e adiou a divulgação das leis e normas detalhadas do sistema de vida fundamentado nessa fé.
O início da atividade de pregação
Foi determinado a partir do inesgotável tesouro do conhecimento de Allah, o Altíssimo, que o conteúdo do convite inicial do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) se limitaria à fé e à crença. A primeira mensagem que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) apresentou às pessoas foi o testemunho de que não existe outro senhor nem outra divindade além de Allah. Ao mesmo tempo, ele se dedicou a apresentar às pessoas quem era sua verdadeira divindade e a explicar a razão pela qual somente a Ele se devia prestar adoração.
Segundo o que se pode inferir do conhecimento limitado das pessoas, o pequeno conjunto de palavras do convite não conquistou inicialmente o coração dos árabes. Na realidade, os árabes compreendiam muito bem sua língua materna e, por isso, não tiveram dificuldade alguma para entender o significado das palavras ilāh e “Lā ilāha illallāh”. Eles sabiam que a palavra ulūhiyyah significava poder soberano e também compreendiam que, como consequência de atribuir a soberania unicamente a Allah, toda autoridade seria retirada dos sacerdotes, dos chefes tribais e dos governantes ricos e confiada a Allah. A consequência prática disso seria que, no pensamento das pessoas, nos ritos religiosos, na distribuição da riqueza, na administração da justiça e nos demais campos da vida nacional — em suma, na alma e no corpo humanos —, a proclamação do estabelecimento da autoridade exclusiva de Allah, o Altíssimo, na sociedade constituía um desafio especial a todas as autoridades já estabelecidas. Isso equivalia a uma rebelião contra toda a política e todo o sistema social vigentes naquela época, bem como a uma declaração de guerra contra a autoridade legislativa e governamental de todas as forças além de Allah. Os habitantes da Arábia não ignoravam o significado da declaração “Lā ilāha illallāh”, pronunciada em sua língua materna, nem seus efeitos sobre o modo de vida ao qual estavam acostumados. Por isso, enfureceram-se com essa mensagem revolucionária e ergueram uma forte resistência contra essa declaração. Isso é algo de conhecimento geral.
Por que o convite à religião começou dessa maneira? E por que Allah, o Altíssimo, decidiu submeter a mensagem de Sua religião à prova já em seu estágio inicial?
Nacionalismo e o convite à religião
Quando o Mensageiro de Allah começou a transmitir a mensagem de Allah, as terras e riquezas dos árabes não estavam em suas próprias mãos; pelo contrário, encontravam-se sob o controle de outros. No norte, a Síria estava sob o domínio dos romanos. Do mesmo modo, no sul, o Iêmen fazia parte do Império Persa. Os árabes locais governavam aquela região reconhecendo a soberania do rei persa. Somente nas regiões do Hijaz, de Tihama e de Najd o domínio dos árabes estava estabelecido; contudo, essas regiões eram apenas desertos. Com exceção de alguns oásis, toda a área era uma vasta extensão arenosa e sem água.
É também amplamente conhecido que seus parentes e vizinhos haviam conferido a Hazrat Muhammad os títulos de Al-Amin e As-Sadiq (o confiável e o veraz). Quinze anos antes de receber a profecia, os líderes da tribo dos coraixitas o escolheram como árbitro na disputa sobre a recolocação da Pedra Negra da Kaaba e ficaram extremamente satisfeitos com sua decisão. Ele pertencia à tribo dos Banu Hashim, que era famosa por ser a mais nobre entre os coraixitas. Portanto, pode-se dizer tranquilamente que Hazrat Muhammad poderia ter unido com grande facilidade as pessoas daquela sociedade sob o lema do nacionalismo árabe. Os coraixitas teriam respondido prontamente ao chamado pela unidade árabe, pois estavam exaustos da interminável sequência de guerras tribais e derramamento de sangue. Ele poderia ter reunido os árabes, fragmentados em inúmeras partes, mediante um chamado à unidade baseada na língua, libertado as terras árabes ocupadas pelos impérios Romano e Persa e estabelecido um Estado árabe unificado; nada disso teria sido difícil para ele.
Em vez de convocar as pessoas para a religião em meio a uma intensa oposição, suportando durante treze anos uma perseguição desumana, o Mensageiro de Allah poderia facilmente ter conquistado o apoio popular por meio do chamado ao nacionalismo, e sua liderança sobre todos os árabes teria sido reconhecida.
Também se poderia dizer que, depois de unir e consolidar toda a terra árabe sob sua liderança e autoridade, ele poderia ter preparado o povo para crer na unicidade de Allah, o Altíssimo; e, depois de aceitarem sua própria autoridade, eles facilmente seriam obrigados a aceitar Allah, seu Senhor, segundo seus conselhos e ensinamentos.
Mas Allah, fonte de todo conhecimento e conhecedor de todas as coisas, não permitiu que Seu Profeta seguisse esse caminho. Pelo contrário, ordenou-lhe, por meio de uma proclamação pública, que rejeitasse a autoridade de todos além de Allah, e ordenou ao próprio Mensageiro de Allah e a seus poucos companheiros que enfrentassem pacientemente uma intensa oposição.
A questão é: por quê? O Mensageiro de Allah e seus queridos companheiros não foram transformados em vítimas de perseguição sem motivo. Ele sabia que o objetivo não poderia ser alcançado por nenhum outro meio. O objetivo desse movimento não era libertar a terra árabe da opressão romana e persa para instaurar em seu lugar uma opressão árabe. Toda opressão, seja nacional ou estrangeira, é igual e una. A terra pertence a Allah e deve ser mantida pura para a autoridade de Allah; o mundo não pode ser purificado senão pela mensagem do testemunho “não há divindade além de Allah”. O ser humano é servo somente de Allah, e somente sob a influência desse testemunho ele pode viver como um servo obediente de Allah. O árabe era a língua materna deles. Por isso, compreenderam claramente que essa mensagem significava: “Não há poder soberano além de Allah; ninguém além de Allah tem o direito de elaborar leis, e nenhum ser humano pode exercer autoridade ou domínio sobre outro.” Pois o único dono de toda autoridade é o próprio Allah, o Altíssimo. O Islam declarou que a base da unidade humana seria a fé. E, segundo o critério da fé, árabes, romanos e persas são todos iguais. Foi por isso que o chamado à religião começou tendo como fundamento a mensagem do testemunho.
A revolução econômica e a mensagem da religião
Na época em que o Mensageiro de Allah recebeu a profecia, não havia na Arábia nenhum meio de distribuir equitativamente a riqueza. Por isso, também não havia justiça naquele país. Um pequeno número de pessoas controlava toda a riqueza e o comércio e continuava a aumentá-los por meio de negócios baseados em juros. A grande maioria dos habitantes era pobre e faminta.
Somente os ricos eram considerados nobres e superiores, e as pessoas comuns não eram apenas privadas de riqueza e bens; além disso, sua dignidade humana sequer era reconhecida naquela sociedade.
Também se pode dizer que Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) poderia ter liderado um movimento de revolução social declarando guerra aos ricos e nobres da sociedade, tomando as riquezas dos ricos e distribuindo-as entre os pobres.
Todos também reconhecerão que, se o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tivesse iniciado um movimento desse tipo, a sociedade árabe teria se dividido em duas, e um grande número de pessoas pobres teria participado dele. Isso porque elas estavam oprimidas pelos abusos de um pequeno grupo de indivíduos ricos, nobres e poderosos. Em contrapartida, como resultado da pregação da mensagem do tawhid, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) teve de enfrentar obstáculos e adversidades a cada passo; por isso, ninguém, exceto um número muito pequeno de pessoas nobres de coração, respondeu a esse chamado.
Também é preciso reconhecer que, depois de conquistar o apoio da maioria da sociedade, Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), como seu líder, poderia ter se apropriado da enorme riqueza de um pequeno grupo de ricos e, usando sua influência e autoridade, poderia ter levado os membros da sociedade a acreditar também no tawhid, a fim de cumprir a missão da profecia. Depois de aceitarem a autoridade do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), eles não teriam levantado qualquer objeção a reconhecer a unicidade de Allah Todo-Poderoso de acordo com suas ordens e orientações.
Mas Allah Todo-Poderoso, detentor de conhecimento onisciente e infalível, não conduziu Seu amado Profeta por esse caminho tampouco.
Allah Todo-Poderoso sabe melhor que esse não é o caminho correto. Ele sabe que a verdadeira justiça social só pode ser alcançada por meio da plena submissão a Allah. Toda a sociedade deve estar preparada para aceitar o justo sistema de distribuição concedido por Allah. Todos os membros da sociedade, grandes e pequenos, doadores e beneficiários, devem acreditar sem dúvida que, ao obedecerem à lei de Allah, não apenas alcançarão o bem-estar, mas também serão recompensados na outra vida. Nunca é desejável que alguns membros da sociedade enlouqueçam de cobiça pelas riquezas, enquanto grandes multidões sejam obrigadas a viver em agitação. Numa sociedade estabelecida mediante a rejeição da autoridade de Allah, todas as questões são decididas pela força das armas. Numa sociedade em que o medo e o terror são acontecimentos cotidianos, a maioria da população é obrigada a viver como morta, com o coração despedaçado e sem entusiasmo nem ânimo.
Início do movimento por meio de uma organização moral
Na época em que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) iniciou seu trabalho de da‘wah, a Arábia havia chegado ao nível mais baixo do ponto de vista moral. Além de alguns costumes tribais dos tempos antigos, aquela sociedade não possuía qualquer outro código moral.
A opressão e a perseguição eram acontecimentos cotidianos naquela sociedade. O famoso poeta Zuhayr ibn Abi Sulma relatou:
“Aquele que não se defender armado terá inevitavelmente a morte como destino.”
“E aquele que não oprimir certamente será oprimido.”
Outro provérbio da época da ignorância era o seguinte:
“Ajuda teu irmão em todas as circunstâncias, seja ele opressor ou oprimido.”
O consumo de álcool e os jogos de azar faziam parte dos costumes sociais, e as pessoas se orgulhavam desses hábitos. Toda a poesia daquela época era composta tendo o vinho e os jogos de azar como tema central.
Diversos tipos de adultério eram praticados em todos os lugares daquela sociedade, e as pessoas imersas tanto na ignorância antiga quanto na contemporânea orgulhavam-se disso, conforme seus costumes. Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) descreveu a sociedade daquela época nos seguintes termos:
“Na época da Jahiliyyah, havia quatro tipos de casamento. Um deles era semelhante ao casamento praticado hoje. Isto é, o homem que desejava casar-se apresentava uma proposta de casamento ao pai da noiva ou ao seu responsável e oferecia-lhe alguns presentes nessa ocasião. Um segundo método consistia em um homem dizer à sua esposa que, durante o período entre duas menstruações, ela deveria engravidar mantendo relações com um homem específico que não fosse seu marido. Nesse período, o marido abstinha-se de tocar em sua esposa e não mantinha nenhuma relação sexual com ela antes que surgissem sinais de gravidez. Depois que os sinais de gravidez apareciam, o marido mantinha relações com a esposa quando bem entendesse. O objetivo desse método era obter um filho de uma linhagem nobre. O terceiro método era a poliandria, isto é, um grupo de no máximo dez homens mantinha relações com uma mulher. Alguns dias depois de engravidar e dar à luz, a mulher convocava e reunia os homens que haviam mantido relações com ela. Ninguém tinha o direito de recusar esse chamado. Quando todos se reuniam, a mulher dizia: — Vocês já sabem o resultado. Dei à luz uma criança. Em seguida, apontava um dos homens presentes e declarava: este é o pai da criança. Depois, a criança recebia o nome do homem apontado e era considerada filha dele. Esse homem não tinha o direito de recusar-se a assumir a responsabilidade pela criança.”
O quarto método era o seguinte: “Muitos homens procuravam a mesma mulher, e ela aceitava a todos. Na realidade, eram prostitutas. Havia um tipo especial de bandeira na porta de suas casas. Qualquer pessoa que quisesse podia manter relações sexuais com elas. Depois que uma mulher desse tipo engravidava e dava à luz, muitas pessoas se reuniam e, por meio de um especialista, determinavam a paternidade da criança com base em sua aparência e características físicas. Aquele que as pessoas reunidas declarassem ser o pai da criança era obrigado a assumir a responsabilidade por ela. Não havia maneira de escapar dessa responsabilidade.” (Bukhari, capítulo do casamento)
Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele) também poderia ter iniciado um movimento de reforma moral, com um programa de aprimoramento do caráter, purificação da sociedade e purificação espiritual. Como acontece com todo reformador social, não seria impossível que ele obtivesse a colaboração de algumas pessoas corajosas e ativas daquela sociedade, desejosas de corrigi-la.
Pode-se dizer facilmente que, se o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) tivesse iniciado um movimento desse tipo, poderia ter reunido algumas pessoas. Graças ao seu elevado padrão moral, essas pessoas aceitariam facilmente a mensagem do tawhid e se preparariam para cumprir as responsabilidades posteriores; e, se o trabalho tivesse sido realizado dessa maneira, a mensagem da fórmula “La ilaha illallah” não teria enfrentado uma oposição tão intensa.
Mas Allah, o Onisciente, sabia muito bem que esse não era o caminho correto. Ele sabia que a moralidade só pode ser construída sobre a base da fé. A fé é que aponta para a busca de uma autoridade superior, fonte dos critérios do bem e do mal. Essa autoridade determina a recompensa pela adoção desses valores e a punição por rejeitá-los. Sem conhecer essa autoridade, todos os valores e padrões morais se mostram temporários — não existe nem o sentimento de prestar contas perante qualquer autoridade, nem a esperança de receber recompensa por boas ações.
Uma revolução abrangente
Depois de árduo esforço, quando a fé se fortaleceu; quando a plena obediência ao Senhor em quem se havia acreditado se manifestou por meio das ações concretas; quando as pessoas reconheceram seu verdadeiro Criador — Senhor e Sustentador — e começaram a glorificar somente a Ele; quando se libertaram, em todos os assuntos, da influência dos desejos e vontades dos outros e até dos seus próprios; e quando a fórmula “La ilaha illallah” foi gravada em seus corações, foi então que Allah Todo-Poderoso lhes concedeu auxílio em todos os assuntos. A terra de Allah foi libertada da submissão a Roma e à Pérsia, mas essa libertação não se destinava a estabelecer o domínio dos árabes no lugar do domínio dos não árabes, e sim a estabelecer a soberania de Allah. A eliminação de todas as forças rebeldes contra Allah — romanas, persas, árabes e outras — era o objetivo dessa revolução.
Com o estabelecimento do sistema social islâmico, cessaram todas as formas de opressão e perseguição. Estabeleceu-se uma justiça completamente imparcial, de acordo com os critérios determinados por Allah Todo-Poderoso. Em nome de Allah, o estandarte da justiça foi erguido. Esse estandarte ficou conhecido como Islam. Nele, nada foi escrito além de “La ilaha illallah”.
O caráter se aprimorou, os corações e as mentes se purificaram e, como resultado, excetuando-se alguns casos, não houve necessidade de aplicar em lugar algum as penas máximas determinadas por Allah Todo-Poderoso. Isso ocorreu porque, naquele tempo, a consciência das pessoas se tornou espontaneamente inclinada a obedecer à lei. Em vez da polícia e dos tribunais, o desejo de alcançar a satisfação de Allah, a esperança de receber recompensa Dele e o temor de incorrer em Sua ira passaram a ocupar um lugar no coração das pessoas.
A humanidade elevou-se aos mais altos horizontes quanto aos padrões morais e aos demais valores da vida, dentro de um sistema social livre de corrupção.
Anteriormente, a humanidade jamais havia alcançado um nível de vida tão elevado, e posteriormente não foi possível atingir esse nível por nenhum meio além do Islã.
Como veio a revolução?
Isso foi possível porque aqueles que instituíram o Islã como um sistema de vida, um sistema estatal e um código de leis estabeleceram, antes de tudo, esse sistema em seus próprios corações por meio da fé, do caráter, da adoração e dos métodos de preservação das relações mútuas. Àqueles que lutaram pela instituição desse sistema não foi prometido nenhum benefício mundano, como a vitória na guerra, o poder político ou a instituição da religião por suas próprias mãos. Foi-lhes garantida apenas uma recompensa. E essa recompensa é o Paraíso. “Não há outro senhor além de Allah
” — em meio à feroz oposição dos porta-estandartes da jahiliyyah, defensores de interesses estabelecidos, que se insurgiram contra essa mensagem, os crentes continuaram sua luta com firmeza inabalável e paciência ilimitada; em troca disso, foi-lhes prometida apenas aquela recompensa.
Allah submeteu-os à prova. Eles demonstraram firmeza e esqueceram os prazeres e o conforto pessoais. Allah viu que não cobiçavam as oportunidades e vantagens mundanas. Não trabalhavam com o objetivo limitado de ver, ainda em vida, a vitória e a instituição dessa mensagem. Quando seus corações se libertaram do orgulho da nobreza hereditária, da nacionalidade, da pátria e da tribo, e foram considerados, no julgamento de Allah, corações puros, foi então que Ele lhes confiou uma custódia extremamente sagrada: a responsabilidade do califado. Eles eram possuidores de uma fé pura (khālis). E essa era a necessidade primordial para cumprir a responsabilidade do califado. Pois o principal campo para estabelecer a soberania de Allah é o coração e a consciência, bem como as condutas morais e os métodos adotados nas transações e nas relações sociais. Allah certificou-se de que, depois de obterem o poder político com o objetivo de estabelecer as leis e os costumes de Allah, eles preservariam corretamente esse sistema. Ele comprovou que não usariam o poder político em benefício de seus interesses pessoais, familiares, tribais ou nacionais; ao contrário, aplicariam corretamente, sob a autoridade de Allah e com o objetivo de alcançar Sua satisfação, esse sistema que haviam recebido de Allah como uma custódia. Na verdade, haviam se preparado como porta-estandartes da verdade.
Se a da‘wah islâmica não tivesse começado com a mensagem do tawhid, e se a caravana do movimento não tivesse avançado por um caminho aparentemente difícil e cheio de perigos, esse grandioso ideal de vida jamais poderia ter sido estabelecido no mundo real. Se o movimento tivesse começado em nome dos interesses nacionais, da melhoria do padrão de vida ou da reforma social, e se algum outro slogan tivesse sido misturado à kalima “la ilaha illallah”, esse desejado sistema de vida jamais poderia ter se concretizado.
O período mequense do Sagrado Alcorão realizou esta gloriosa tarefa: gravou profundamente na mente e no coração das pessoas a crença de que não há outro senhor além de Allah e incentivou os muçulmanos a avançarem com passos firmes por um caminho que, exteriormente, parece extremamente difícil.
Na parte do Alcorão que foi revelada naquela época, deu-se importância exclusivamente ao fortalecimento da fé. Naquele momento, foi deixada para depois a exposição detalhada do modo de vida que seria elaborado com base na fé. É muito importante que aqueles que desejam realizar o trabalho de convocação para a religião tenham isso em mente. Na verdade, o modo de vida islâmico exige precisamente esse método. Isso porque esta religião foi inteiramente fundamentada numa profunda crença no tawhid, e todas as normas e leis necessárias à vida são extraídas dessa grande crença. Esta religião pode ser comparada a uma árvore gigantesca. Uma árvore enorme e muito alta estende seus galhos e ramos por uma vasta área, mantendo seu topo elevado em direção ao céu. Uma árvore tão grande naturalmente fincará suas raízes profundamente no solo e, de acordo com sua forma, espalhará essas raízes por uma extensa área ao seu redor. A situação desta religião é exatamente assim. Este modo de vida contém orientações para todas as questões, grandes e pequenas, relacionadas à vida humana. Este sistema não fornece apenas normas para este mundo, mas também para a vida futura. Ele desvenda os mistérios tanto do mundo visível quanto do invisível. Não se limita ao mundo material; também corrige o pensamento e a reflexão. Assim, assemelha-se a uma árvore longa, firme e imensa, cujas raízes penetram profundamente no interior da terra, mantendo proporção com a forma da árvore.
A partir desta característica especial do modo de vida islâmico, podemos compreender que o movimento e o estabelecimento do ideal só são possíveis por meio do plantio da semente da fé no coração. Esse método é extremamente necessário para um desenvolvimento correto. Pois somente por meio dele é possível preservar a ligação entre os galhos e ramos da árvore islâmica, que se estendem até o alto céu, e suas raízes, espalhadas em todas as direções nas profundezas da terra.
Quando a crença em “Lā ilāha illā Allāh” se enraíza firmemente no coração, ela se espalha por todos os aspectos da vida, tornando-se a interpretação prática da shahada. Desse modo, os crentes já estão interiormente preparados para aceitar o sistema islâmico antes da promulgação das leis; e, assim que as leis são promulgadas, precisamente por ser essa a primeira exigência da fé e por causa dessa atitude, os crentes aceitam todas as leis e normas do Islã com interesse e alegria.
Por isso, assim que a ordem é emitida, eles inclinam a cabeça. Para implementar a lei, basta que ouçam a ordem. Foi por esse caminho que abandonaram todos os hábitos e costumes da época da jahiliyyah. Alguns versículos do Alcorão ou algumas palavras proferidas pelo Mensageiro de Allah foram suficientes para realizar essa transformação imensa. Compare isso com o método de promulgação das leis nos Estados seculares da atualidade. Em cada etapa, os Estados seculares precisam depender do parlamento, da constituição, da polícia, da força militar, dos meios de propaganda e da imprensa. Ainda assim, só conseguem reprimir parcialmente as violações públicas da lei. Como resultado, a sociedade continua repleta de atividades ilegais e proibidas.
Um modo de vida realista
Também é preciso observar outro aspecto deste modo de vida. Trata-se, antes de tudo, de um modo de vida voltado para a realidade. O Islã é um modo de vida realista. Seu objetivo é regular os aspectos concretos da vida humana. Por isso, depois de examinar as práticas correntes da sociedade humana, pronuncia-se sobre sua manutenção, correção ou transformação completa. Assim, numa sociedade que reconheceu a soberania de Allah, o Islã só promulga leis depois de considerar as circunstâncias existentes naquele momento.
O Islã não é simplesmente um conjunto de princípios baseados em ideias abstratas. Portanto, antes da implementação deste modo de vida, é indispensável a formação de uma sociedade muçulmana. Essa sociedade acreditará que ninguém pode ser obedecido além de Allah. Uma sociedade dotada de tal fé e crença será obrigada a negar, além de Allah, a autoridade e o poder de legislar de todos os demais.
Depois que uma sociedade desse tipo nasce e se depara com diversos problemas no campo prático da vida, sentindo a necessidade de um método específico para formular leis e normas, é então que o Islã elabora a constituição, promulga as leis e normas e institui os costumes. As normas islâmicas aplicam-se somente à sociedade que, em princípio, reconheceu a autoridade dessas leis e aboliu as leis e normas não islâmicas.
A necessidade de poder para implementar o ideal
Os que creem nesta ideologia precisam ter poder para instaurar o sistema de vida islâmico e aplicar a lei islâmica em sua própria sociedade. É igualmente indispensável que tenham poder para elaborar leis a fim de resolver os problemas cotidianos que surgem na vida diária.
Em Meca, os muçulmanos não tinham poder para formular as leis necessárias para si mesmos. Também não tinham qualquer influência naquela sociedade. Naquela época, ainda não haviam conseguido organizar-se sob a forma de uma organização permanente, apta a viver de acordo com a lei de Allah. Por isso, durante o período de Meca, Allah Ta‘ala não revelou aos muçulmanos nenhuma norma adequada à sua vida coletiva. Naquela etapa, foram ensinados apenas a fé e os princípios morais fundamentais relacionados a ela. Mais tarde, depois do estabelecimento de um Estado autônomo em Medina, formou-se um ambiente capaz de atender às necessidades da sociedade muçulmana, e o poder de instituir leis foi obtido. Somente depois da criação dessa situação começaram a ser reveladas aos muçulmanos as leis gerais.
No período de Meca, Allah Ta‘ala não revelou todas as leis e, depois da transferência para Medina, não concedeu um sistema de vida completo, aplicável na prática. Isso porque tal procedimento não é compatível com o ideal islâmico. O Islam é ainda mais realista e muito mais perspicaz. Esse ideal não se dedica a resolver problemas imaginários. Primeiro, examina a situação existente na sociedade; e, se, segundo seus critérios, a situação social e o ambiente forem característicos de uma sociedade muçulmana e estiverem plenamente submetidos à lei de Allah, então o ideal de vida islâmico estabelece a elaboração de leis em conformidade com as necessidades e as condições daquela sociedade.
Atualmente, não se vê em nenhuma sociedade do mundo a Sharia de Allah estabelecida em lugar de normas elaboradas pelo ser humano, nem existe qualquer força política apta a cumprir uma responsabilidade desse tipo. Mesmo depois de presenciarem essa situação, aqueles que exigem a concretização do ideal islâmico e a elaboração de um sistema completo de governo e de leis de acordo com esse ideal querem alcançar seu objetivo por um caminho curto, sob a influência da mentalidade de derrota que nasceu em suas mentes do confronto entre o ideal de vida islâmico, cujas características, natureza e tradição eles alteraram, e o sistema de vida incompleto elaborado pelo ser humano. Eles também querem ver o sistema de vida islâmico como um conjunto de princípios impraticáveis e de qualidades meramente nominais. Contudo, Allah Ta‘ala deseja que ele seja restabelecido exatamente pelo método mediante o qual o ideal islâmico foi estabelecido no passado. Antes de tudo, uma fé firme em uma questão específica deve estar profundamente enraizada na mente e no coração das pessoas. E essa questão de fé é que o ser humano não se curvará diante de nenhum poder além de Allah e não aceitará as leis e normas de nenhuma outra autoridade. Somente quando um grupo de pessoas, com mentes e corações formados de acordo com essa crença, estiver plenamente preparado e obtiver o controle efetivo de uma sociedade, será possível elaborar leis conforme as necessidades dessa sociedade, preservando a crença fundamental. Allah Ta‘ala determinou esse método para a implementação do sistema de vida islâmico. E nenhum outro método pode ser aceitável se violar aquilo que Ele determinou.
O método correto para estabelecer o Din
Os que convidam as pessoas para o sistema de vida islâmico devem saber que, em primeiro lugar, convidarão as pessoas a ter fé plena nas crenças fundamentais do Islam. Embora afirmem ser muçulmanos e embora sejam registrados como muçulmanos nos documentos oficiais, os que convocam para as normas islâmicas deverão primeiro explicar às pessoas que o significado do Islam é aceitar a declaração «La ilaha illallah» com seu verdadeiro significado. O verdadeiro significado dessa declaração é reconhecer a soberania de Allah Ta‘ala em todos os aspectos e áreas da própria vida e rejeitar a autoridade daqueles que reivindicam soberania para si mesmos, contrariando a soberania de Allah. Depois de aceitar o significado acima mencionado da crença islâmica, é indispensável que essa crença se reflita em suas mentes e corações, em seu modo de vida e em sua conduta.
Quem quer que inicie o movimento para restabelecer o sistema de vida islâmico deve dar importância a essa questão como primeiro passo. O primeiro movimento do Islam foi iniciado dessa maneira. Durante o período de Meca da revelação do Alcorão, treze anos foram dedicados a consolidar essa questão. Somente o conjunto daqueles que, depois de compreenderem o significado acima mencionado do movimento islâmico, aderirem a ele pode ser chamado de verdadeira organização islâmica ou sociedade islâmica, e somente essa Jama‘at ou sociedade estará apta a implementar o ideal islâmico na vida coletiva. Isso porque decidiram voluntariamente aplicar o ideal islâmico a toda a sua vida e não aceitar a soberania de ninguém além de Allah Ta‘ala, o Único e Incomparável.
Assim, quando uma sociedade do tipo acima mencionado surgir e a educação islâmica for adotada como fundamento dessa sociedade, somente então ela avançará para formular normas islâmicas em resposta às suas necessidades circundantes. Este é o método prático e sábio para instituir o modo de vida islâmico.
Uma classe de pessoas devotas que não compreenderam as características do modo de vida islâmico apressa-se nesse assunto. Elas não entendem que o verdadeiro bem-estar reside no método que Allah Ta’ala, Onisciente e Sapientíssimo, determinou para estabelecer o din. Pensam que, assim que informarem as pessoas sobre os princípios fundamentais e as leis do ideal islâmico, elas espontaneamente avançarão para estabelecê-lo. Na realidade, essa é uma concepção imaginária daqueles que têm a atitude de fazer algo às pressas.
Se tal concepção tivesse sido apresentada ao nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) e ele tivesse convocado o povo ao nacionalismo geográfico, à revolução econômica ou a um movimento reformista, sua tarefa teria sido muito mais fácil. Mas ele não adotou esse caminho. Antes de informar as pessoas sobre as leis detalhadas do modo de vida islâmico e atraí-las para ele, era essencial fazer surgir em seus corações uma fé profunda em Allah, abolir todas as demais normas e submeter-se completamente às normas concedidas por Allah. O amor pela Sharia de Allah surgirá como resultado da submissão completa a Allah e da recusa em aceitar qualquer outra forma de servidão humana, e não da consideração da superioridade das normas de Allah em comparação com outras normas. Naturalmente, não há dúvida de que as normas concedidas por Allah são, em todos os aspectos, superiores às normas elaboradas pelos seres humanos. Isso porque essas normas foram elaboradas pelo próprio Criador, e as normas do Criador e as da criatura jamais podem estar no mesmo nível. Contudo, a superioridade das normas não pode ser a base do movimento islâmico. Sua base é aceitar sem hesitação a Sharia divina e rejeitar diretamente todo tipo de norma que esteja fora da Sharia. Esse é o significado do Islam; além disso, nada mais é Islam. Quem se sentir atraído pelo fundamento essencial do Islam não precisará receber uma explicação detalhada, ponto por ponto, das diferenças entre o Islam e as demais normas. Esse é o cerne da fé.
O Islam diante da Jahiliyyah
Vejamos agora como o Alcorão formou a fé e a aqida durante os treze anos da vida em Meca. O Alcorão não apresentou a questão da fé e da aqida como uma mera teoria ou concepção espiritual, nem adotou o método de composição de livros utilizado por eruditos e estudiosos. O Alcorão sempre chamou a atenção para a natureza humana e incentivou o ser humano a observar sua própria essência e os inúmeros sinais do Criador espalhados ao seu redor. O Alcorão libertou o poder de pensamento humano das superstições e do fanatismo, e aguçou sua inteligência adormecida. Desse modo, concedeu ao entendimento humano, coberto de ferrugem, a capacidade de compreender os sutis mecanismos dos mistérios da criação. Esse era um aspecto geral do ensinamento corânico. Seu aspecto revolucionário consistia em iniciar, dentro da sociedade fundada sobre o tawhid, uma luta contra toda a Jahiliyyah e contra as ideologias opressoras. Quando a pesada pedra das ideologias errôneas esmagava a sociedade humana, era inútil simplesmente pregar sermões morais. Por isso, o Alcorão iniciou com firmeza uma luta irreconciliável para rasgar o véu das ideologias errôneas e destruir completamente os muros da falsidade. O ensinamento corânico também não foi transmitido por meio das teorias eruditas, da dialética e da lógica que surgiram posteriormente. O Alcorão iniciou uma luta contra todo o sistema social criado pelo ser humano. Dirigindo-se à humanidade assolada pela corrupção, pela injustiça e pela opressão, o Alcorão apresentou sua mensagem. Pois, embora o Islam seja essencialmente um modo de vida baseado na fé, seu objetivo é governar a vida real. O Alcorão não foi revelado para permanecer limitado a meras discussões normativas e concepções de meditação espiritual.
Por um lado, o Alcorão cuida de semear e desenvolver gradualmente a fé nos corações dos membros da comunidade islâmica; por outro, é por meio desses mesmos membros que lança ataques contra a fortaleza da Jahiliyyah e conduz uma campanha para eliminar completamente a influência da Jahiliyyah dos pensamentos e comportamentos dos muçulmanos. A fé adquire força atravessando tempestades e tormentas em uma sociedade agitada por uma luta em quatro frentes. Discussões teóricas eruditas não podem produzir esse tipo de força. O Islam é um movimento vivo, organizado e permanentemente ativo, e a sociedade muçulmana é sua personificação. Além disso, o pensamento, os padrões morais e a educação da comunidade islâmica desenvolvem-se em harmonia com a perspectiva da fé. O desenvolvimento progressivo do movimento islâmico é a manifestação concreta do desenvolvimento progressivo da fé, e esse é o método correto para implementar o ideal islâmico: o movimento islâmico se expandirá e se difundirá mantendo consonância com a qualidade e o nível da força da fé.
O Islam não é uma mera ideologia
Os membros do movimento islâmico devem lembrar-se do método revolucionário descrito acima. Um pouco de atenção mostrará que, durante o longo período da fase de Meca, não se realizaram separadamente o fortalecimento da fé por meio do método acima mencionado e a criação de uma organização treinada e apta a estabelecer uma sociedade islâmica. Pelo contrário, simultânea e ao mesmo tempo, começou-se a semear a fé e a fundar uma organização sobre a base da educação islâmica. Portanto, sempre que no futuro se tentar promover o renascimento do modo de vida islâmico, não será possível alcançar o objetivo sem adotar esse método abrangente.
É necessário um longo período para fortalecer a fé e a aqida; por isso, ela avança gradualmente, ainda que lentamente, em direção ao objetivo desejado. Cada passo será firme e sólido. Não se deve perder tempo de modo algum em discussões e especulações meramente morais e teóricas. Pelo contrário, o conteúdo da fé deve ser manifestado como um exemplo concreto na vida prática. Primeiro, a fé penetrará no coração das pessoas e dará origem a uma jamaat permanentemente ativa, em todos os aspectos e setores externos e internos da qual a concepção real da fé se expressará e se tornará evidente. É por meio da luta, em palavras e ações, contra a jahiliyyah que essa jamaat revolucionária manifestará a forma viva da fé.
Aqueles que pensam que o desenvolvimento e o estabelecimento do ideal islâmico ocorrerão simplesmente por meio de louvores ao ideal islâmico e de práticas teóricas e culturais, cheias de orgulho intelectual, sobre o Islã precisam estar extremamente atentos às graves consequências.
O Alcorão não foi revelado em um único dia. Pelo contrário, foram necessários treze anos para semear a fé, construir sua estrutura e fortalecer seu poder. Se fosse essa a vontade de Allah, o Altíssimo, Ele poderia ter revelado todo o Alcorão em um só dia. Depois, poderia ter concedido treze anos aos militantes do movimento islâmico para adquirirem conhecimento sobre o Islã e compreenderem bem essa ideologia.
Mas Allah, o Altíssimo, não adotou esse método, pois Sua vontade era diferente. Ele desejava estabelecer na Terra um sistema de vida sem precedentes. Desejava, ao mesmo tempo, formar as crenças fundamentais desse sistema de vida, organizar um movimento que fosse seu portador e propagador e estabelecer uma estrutura social que refletisse o ideal de vida desejado. Ele queria formar uma jamaat e um movimento fortalecidos pela aqida e, simultaneamente, fortalecer gradualmente a fé por meio das atividades da jamaat e do movimento. Para Allah, o Altíssimo, era desejável que o fortalecimento da fé acompanhasse o progresso da jamaat e do movimento, e que as atividades públicas da jamaat e do movimento manifestassem claramente o reflexo da fé. Allah, o Sapientíssimo, sabia muito bem que a reforma das pessoas e a formação de uma sociedade justa não se realizam da noite para o dia. Isso porque, para formar crenças e convicções, é necessário tanto tempo quanto para formar uma jamaat bem organizada.
Esta é a característica do sistema de vida islâmico. O período mecano da revelação do Alcorão apresenta a prova dessa característica. Devemos necessariamente conhecer essa característica do Din mencionada acima e, deslumbrados pelo brilho vazio e sem conteúdo dos ideais absurdos criados pelos seres humanos, abster-nos de tentar modificar as características do Din. Foi precisamente pelo efeito de suas características próprias que o Islã formou, na antiguidade, uma grande e magnífica ummah chamada ummah muçulmana; e, no futuro, sempre que a reconstrução da ummah muçulmana na Terra for considerada necessária, isso só será possível por meio das características do Din e de seu próprio método de ação.
Assim como o sangue circula pelo corpo humano, as crenças fundamentais do Islã fluirão pelas veias e artérias da sociedade e permanecerão luminosas como uma tocha ardente no interior da estrutura corporal de uma organização islâmica ativa. Aqueles que, alterando as características próprias e o curso natural do sistema de vida islâmico, sonham estabelecer o Din simplesmente provando, por meio de discussões teóricas e do cultivo do conhecimento, a superioridade do Islã sobre as ideologias inválidas não apenas cometem um erro grave, mas também pretendem avançar por um caminho perigoso.
A exigência da aqida islâmica é que essa crença ocupe seu lugar no âmago de pessoas vivas, de uma organização ativa e atuante e de uma sociedade promissora, e que dê início a uma luta total contra o ambiente jahili. Ao mesmo tempo que conduz a luta para libertar a sociedade estabelecida da influência da jahiliyyah, a força da fé continuará combatendo para eliminar da mente, do cérebro e do caráter dos que aceitaram o Islã todas as marcas da sociedade jahili. Isso porque os portadores e propagadores do movimento islâmico nasceram justamente em uma sociedade influenciada pela falsidade e pela jahiliyyah, e não é estranho que, mesmo depois de aceitarem o Islã, alguns efeitos da jahiliyyah permaneçam em suas vidas.
Devido às características mencionadas, a aqida islâmica ocupa um espaço vasto e abrangente na mente e no intelecto das pessoas. O esforço de realizar apenas discussões teóricas e exaltar as virtudes do Islã não alcança tão longe. Isso porque o Islã não se limita a influenciar o intelecto humano; pelo contrário, a vida prática e o caráter das pessoas também estão incluídos em seu âmbito.
A explicação oferecida pelo Islã acerca do Criador, da criação, da vida e do ser humano não é apenas abrangente e completa; é também prática e positiva. De acordo com suas características próprias e as exigências de sua natureza, o Islã não se contenta em permanecer limitado a um objeto meramente compreensível pela razão e de estudo intelectual. Isso é contrário à sua natureza e ao seu objetivo supremo. O Islã deseja manifestar-se por meio do modo de vida de pessoas ativas, de uma organização atuante e de um movimento prático. Ele se desenvolve através das atividades de pessoas revolucionárias, de um movimento revolucionário e de uma organização sempre dinâmica, de tal modo que as ideias por ele apresentadas estejam em harmonia com a vida prática. Ele não deseja jamais permanecer como um simples substantivo qualificativo; ao contrário, preserva sempre a harmonia entre os princípios e o programa prático.
Fica claro que a ideia de, em princípio, adquirir primeiro um conhecimento completo do Islã e só depois, numa etapa seguinte, concretizar o ideal islâmico no campo prático não é apenas equivocada, mas extremamente prejudicial. Isso é contrário ao verdadeiro objetivo e às características do Islã.
Allah, o Altíssimo, diz:
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“E fizemos descer o Alcorão gradualmente, para que o recitasses aos homens pausadamente, e o fizemos descer progressivamente.” — Bani Isra’il: 106
De acordo com a palavra de Allah acima mencionada, duas questões foram levadas em consideração simultaneamente. Primeiro, a revelação gradual do Alcorão; segundo, fazer com que as pessoas o ouvissem aos poucos. O objetivo dessa medida era construir, sobre a base da fé, uma organização viva e ativa e conduzi-la gradualmente à etapa da plenitude. Isso porque esse sistema de vida veio para ser implementado, e não para obter reconhecimento meramente como uma ideologia excelente.
O programa concedido por Allah para concretizar o ideal concedido por Allah
Os portadores da mensagem da religião devem compreender plenamente que o Islã é o sistema de vida concedido por Allah, e que o próprio Allah, o Altíssimo, também determinou, por meio da revelação divina, o método para estabelecer essa lei de Allah. Portanto, é absolutamente impossível estabelecer a religião sem adotar esse método. Eles devem compreender ainda que essa religião não tem como objetivo apenas mudar as crenças e o modo de vida. Ela forma crenças de um tipo particular, cria uma comunidade distinta e, ao mesmo tempo, conduz à plenitude, por meio de um desenvolvimento gradual, um tipo especial de pensamento e atuação. Na medida exata em que essa religião consegue produzir mudanças nas crenças e na vida, emprega força para estabelecê-la. Assim, a introdução da linha de pensamento desejada e a formação de crenças determinadas realizam-se lado a lado e simultaneamente. Pode-se até dizer que são como pétalas da mesma flor.
Da discussão acima, soubemos que o método próprio de ação do dīn é definido com precisão. Ao mesmo tempo, também ficou sabido que esse método é autossuficiente e eterno. Esse método não foi elaborado para uma etapa, condição ou ambiente específico da da‘wah islâmica. Tampouco se aplicava especialmente apenas aos Companheiros — que Allah esteja satisfeito com eles. Pelo contrário, esse método está livre das limitações de épocas e tempos. Sempre que começar no mundo o movimento para estabelecer o Islam, será necessário conduzi-lo por esse mesmo método; não é possível estabelecer esta religião adotando qualquer outro meio ou método.
O Islam transforma a crença do ser humano e todas as suas atividades na vida prática, ao mesmo tempo que transforma sua visão de mundo e seu modo de pensar. Seu método de transformação também é inteiramente diferente dos métodos de transformação elaborados pelo ser humano. Isso porque estes últimos são desprovidos de sentido e limitados em sua visão.
Sem adotar o método determinado por Allah, o Altíssimo, jamais poderemos beneficiar-nos da Revelação divina, nem seremos capazes de transformar o pensamento e os hábitos da humanidade.
Quando tentamos estudar o Islam simplesmente como uma ideologia ou transformá-lo em um tema agradável para discussão em círculos de estudo, na realidade o separamos do método revolucionário e do pensamento concedidos por Allah. Desse modo, rebaixamos o sistema de vida de Allah ao nível dos sistemas de vida elaborados pelo ser humano. Por meio de atividades desse tipo, tentamos, na prática, corrigir os métodos elaborados pelo ser humano e elevar o sistema islâmico ao mesmo nível deles. Essa visão é extremamente perigosa e constitui o resultado de uma mentalidade derrotista.
A mensagem da Grande Verdade oferece aos integrantes do movimento islâmico um critério especial para o pensamento e a reflexão. É com a ajuda desse critério que eles podem purificar-se da influência das ideias falsas que, sob o efeito da jاهiliyyah predominante no mundo, penetraram em nossas mentes, confundiram nossa razão e envenenaram nossa educação e cultura. Se tentarmos modificar nosso dīn de acordo com a visão da jاهiliyyah existente, contrária à sua natureza, então esse dīn se tornará desprovido de benefício para a sociedade humana, e a sociedade humana será privada do benefício do dīn verdadeiro. Além disso, nós mesmos não conseguiremos manter-nos afastados dos malefícios das doutrinas jahilī. Sob esse aspecto também, a questão é extremamente prejudicial.
A reflexão e o esforço para estabelecer o ideal islâmico na sociedade humana não são menos importantes que a fé na ‘aqīdah islâmica e no sistema de vida islâmico, nem estão separados deles.
Embora nos pareça muito nobre e agradável empenhar-nos, por meios orais e escritos, na divulgação da ideologia islâmica e na demonstração da superioridade do sistema de vida islâmico, devemos lembrar que o Islam jamais poderá estabelecer-se no mundo como uma verdade concreta por meio de mera divulgação e elogios. Devemos compreender que somente os integrantes do movimento islâmico podem beneficiar-se do método acima, e isso apenas na medida do progresso alcançado pelo movimento. Por isso digo novamente: assim que abraçarmos a fé no Islam, devemos iniciar o movimento para estabelecer esse ideal, e o movimento deverá manifestar-se verdadeira e perfeitamente como um reflexo do Islam.
Quero reiterar também que o método de conduzir o movimento islâmico foi igualmente determinado pela Revelação divina, e que esse método é perfeito, permanente e extremamente eficaz. Mais do que qualquer outro método, ele está profundamente relacionado à natureza humana. Por isso, antes de ingressar no movimento prático, de criar no coração das pessoas uma concepção viva a seu respeito e de seguir esse método passo a passo, o Islam apresentou-o às pessoas como um método definido e completo.
Se o que foi dito acima é verdadeiro a respeito dos princípios fundamentais da aqida islâmica, então a mesma verdade também se aplica à estrutura organizacional da sociedade islâmica e à elaboração de sua legislação detalhada. A jahiliyyah firmemente estabelecida ao nosso redor exerceu tamanha influência sobre alguns trabalhadores altruístas do Islã que, ansiosos por atravessar rapidamente as etapas do progresso natural da revolução islâmica, levantaram as seguintes questões: quais são as disposições detalhadas do ideal que estamos propagando? Quanto pesquisamos para implementá-las? Quantos assuntos conseguimos organizar e quantos artigos conseguimos redigir até agora? Ou foi elaborada uma jurisprudência (fiqh) do ideal adequada à época? Ao ouvir suas perguntas, parece que, além da pesquisa para a elaboração da lei islâmica e da redação de uma jurisprudência (fiqh) detalhada, todo o restante já foi concluído. Parece que todos na sociedade já estão prontos para aceitar as prescrições de Allah e viver de acordo com elas, e que só falta um grupo de mujtahids para redigir uma jurisprudência adequada aos tempos modernos. Isso é uma afronta abominável ao Islã. Toda pessoa que crê no Islã deve estar alerta contra esse tipo de comportamento zombeteiro.
Ao adotar o método acima, a jahiliyyah está apenas procurando pretextos para impedir a implementação da Sharia divina e manter o sistema que estabelece o domínio de seres humanos sobre outros seres humanos. Ela procura afastar a força da fé dos militantes do movimento islâmico da luta revolucionária, fazendo-os contentar-se apenas com a crença na superioridade do ideal. A jahiliyyah quer desviar aqueles que invocam o nome do Islã do caminho correto para a implementação do ideal islâmico. O objetivo das ideologias falsas é manter os crentes afastados do movimento e da luta por meio dos quais a aqida islâmica amadurece, do conflito e do confronto através dos quais o sistema islâmico se desenvolve e das diversas etapas do movimento nas quais são promulgadas leis islâmicas adequadas ao momento para resolver problemas e dificuldades concretos.
É preciso frustrar essas manobras dos que pretendem estabelecer o ideal islâmico e reduzir a falsidade a pó; e, numa sociedade que ainda não está preparada para rejeitar as leis criadas pelos seres humanos e aceitar as prescrições de Allah, é preciso rejeitar as ridículas tentativas de modernizar a jurisprudência do sistema islâmico. Essas declarações são feitas precisamente com o objetivo de desviar os militantes do movimento islâmico de sua meta principal e desperdiçar seu tempo e esforço na construção de castelos no ar. Eles devem necessariamente frustrar todas essas conspirações.
O movimento deve ser conduzido exclusivamente por meio do método de ação que esta religião prescreveu para sua própria implementação. É dentro desse método que está oculto o segredo da força religiosa, e a vitória e o sucesso daqueles que estabelecem o Islã são o resultado inevitável desse mesmo método.
O ideal de vida islâmico e o método para a plena implementação do Islã são igualmente importantes, e não há diferença entre os dois. Por mais atraentes que possam parecer externamente, o ideal islâmico não pode ser estabelecido por nenhum outro meio ou método. Outros métodos podem estabelecer ideais criados pelos seres humanos, mas, no caso do nosso ideal, tais métodos são absolutamente inúteis. Portanto, no caso da revolução islâmica, seguir seu próprio método é tão importante quanto seguir a aqida fundamental e o sistema de vida da religião.
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“Certamente, este Alcorão guia para o caminho mais reto e claro.” — Bani Israel: 9
Terceiro capítulo
Características da sociedade islâmica e meios de sua formação
A mensagem fundamental dos profetas
A mensagem que Hazrat Muhammad (que a paz esteja sobre ele) trouxe ao mundo da parte de Allah era a etapa final da continuidade da mensagem propagada pelos profetas de Allah desde o início da criação. Ao longo de toda a história da humanidade, essa mensagem permaneceu una e inalterada. Ela consiste em reconhecer o Senhor e Sustentador único e incomparável, submeter-se a Ele e declarar o fim de toda forma de domínio humano sobre os homens. A história da humanidade mostra que, salvo por uma ou outra pessoa isolada, a sociedade humana como um todo nunca negou a existência de Allah Ta’ala nem Sua soberania sobre o universo. Entretanto, eles mantiveram concepções errôneas acerca dos atributos de Allah Ta’ala ou imaginaram muitos outros deuses como Seus auxiliares. No campo da crença e da adoração, ou mediante o reconhecimento da soberania de alguma força além de Allah, atribuíram a Allah auxiliares ou associados. Ambas essas formas constituem shirk.* Pois elas afastam as pessoas da religião revelada aos anbiya, que a paz esteja sobre eles. Após o falecimento de cada profeta, seus seguidores vivem por algum tempo de acordo com as orientações da religião. Porém, depois de um longo período, gradualmente avançam pelo caminho do erro. Chegam ao ponto de novamente mergulhar na jahiliyyah e começar a viver uma vida de shirk. Algumas vezes cometem shirk na fé e na crença, bem como na adoração. Outras vezes reconhecem a autoridade soberana de forças além de Allah; e em outras ocasiões envolvem-se em ambos os tipos de shirk.
A dignidade do ser humano no mundo criado
Em todas as etapas da história, a religião de Allah apresenta a mesma mensagem. O objetivo dessa religião é o Islã. O significado do Islã é tornar as pessoas obedientes e submissas a Allah, libertá-las da servidão aos seres humanos e colocá-las exclusivamente sob a servidão de Allah; resgatar a sociedade humana da soberania humana e das algemas dos sistemas de vida e dos valores elaborados pelo homem, estabelecendo a soberania, a autoridade e as leis de Allah Ta’ala em todos os aspectos e setores da vida. Hazrat Muhammad (que a paz esteja sobre ele) veio ao mundo com esse objetivo, e essa também foi a responsabilidade dos profetas anteriores a ele. Todo o universo criado funciona de acordo com o governo e as leis de Allah Ta’ala, e o ser humano, como uma parte minúscula do universo, é obrigado a seguir as leis naturais. Para harmonizar-se com as leis às quais obedecem os órgãos do corpo humano, é indispensável obedecer, também na vida prática, ao governo e às leis de Allah, o Legislador. O ser humano jamais pode rejeitar o governo dessa lei e descobrir para si um sistema separado ou um modo diferente de viver. A nutrição do corpo humano, sua doença e saúde, sua vida e sua morte — tudo é completamente impotente diante da lei de Allah. O ser humano não possui poder algum para alterar as leis de Allah vigentes no universo. Portanto, também na parte da vida em que foi concedido ao ser humano o direito de obedecer ou não às leis de Allah Ta’ala, é necessário reconhecer a soberania e a autoridade de Allah e estabelecer plena harmonia na vida.
O meio de libertar-se das algemas da jahiliyyah
A jahiliyyah é, na realidade, outro nome para o domínio de seres humanos sobre outros seres humanos. Por isso, ela é contrária às leis vigentes no mundo natural. Ao adotar o ideal da jahiliyyah, o ser humano provoca, na vida prática, um conflito com a parte da vida em que é obrigado a seguir as leis naturais. O último profeta, Muhammad (que a paz esteja sobre ele), e todos os profetas anteriores atacaram precisamente essa jahiliyyah mencionada acima, propagando a mensagem de reconhecer a soberania do Allah único e incomparável. A jahiliyyah não é apenas uma doutrina. Pelo contrário, em alguns casos, verifica-se que ela sequer possui uma doutrina. A jahiliyyah assume em toda parte a forma de uma sociedade estabelecida, e um movimento ativo sempre assume a forma de uma sociedade estabelecida e um movimento ativo sempre a apoia. Essa sociedade estabelece sua própria liderança, concepções, valores, costumes, caráter e formas de pensar. A jahiliyyah é bem organizada. Por meio da comunicação mútua, da cooperação, da organização e da disciplina, os membros dessa sociedade se unem de tal maneira que toda a sociedade, consciente ou inconscientemente, permanece igualmente empenhada em preservar esse sistema social; ela remove da face da Terra aqueles que considera prejudiciais à sua existência. Quando a jahiliyyah deixa de ser apenas uma doutrina e assume a forma de um movimento ativo, jamais será possível alcançar o sucesso para derrubá-la e trazer novamente a sociedade humana para a servidão de Allah Ta’ala apresentando o ideal islâmico como uma mera doutrina. A jahiliyyah controla o mundo material, e uma organização ativa permanece sempre em ação sob seu patrocínio. Nessas circunstâncias, não é possível enfrentá-la poderosamente apenas com a ajuda de uma doutrina; muito menos é possível sequer permanecer diante dela. Naturalmente, chega-se à conclusão de que o objetivo do Islã é derrubar o ideal da jahiliyyah estabelecida e estabelecer um ideal dotado de características e costumes completamente diferentes; e, como a jahiliyyah está estabelecida com uma sociedade e uma organização bem estruturadas, a campanha para derrubá-la também entrará no campo de batalha assumindo a forma de um movimento bem organizado. Esse novo movimento deverá ser mais organizado que a jahiliyyah, e as relações mútuas entre seus integrantes deverão ser mais firmes e fortes.
A base ideológica da sociedade islâmica
Em cada etapa da história islâmica, o fundamento ideológico sobre o qual ela construiu sua própria sociedade foi o testemunho da fórmula «لا إله إلا الله». O significado dessa fórmula é que somente Allah é o Senhor; somente Ele é o administrador do universo, o verdadeiro governante e o detentor da soberania. A mente e o coração devem ser iluminados pela luz da Sua unicidade. A prova da Sua unicidade deve ser apresentada na adoração e na devoção. A manifestação da Sua unicidade deve estar presente nas normas, leis e costumes da vida prática. O testemunho de لا إله إلا الله não pode, na prática, ser prestado de nenhuma outra forma que não seja por meio desse método abrangente e completo. Também do ponto de vista da Sharia, somente esse tipo de testemunho será digno de confiança.
Esse método abrangente e completo transforma o testemunho verbal em um sistema eficaz, com base no qual aquele que o professa pode ser considerado muçulmano, e aquele que o rejeita, não muçulmano. Do ponto de vista ideológico, estabelecer esse fundamento significa submeter inteiramente a vida humana à obediência a Allah. Em nenhum âmbito da vida o ser humano tomará decisões por si mesmo; ao contrário, retornará a Allah e obedecerá somente a Ele. Há apenas uma maneira de conhecer as instruções de Allah: por meio do Mensageiro de Allah. Na segunda parte da profissão de fé, esse meio é chamado de segundo pilar do Islã: أشهد أن محمدا رسول الله — testemunho que Muhammad (que a paz esteja sobre ele) é o Mensageiro de Allah.
Este é o fundamento ideológico sobre o qual se ergue o edifício islâmico. E esta é a verdadeira essência do Islã. Esse fundamento formula um sistema completo de vida para o ser humano, que deve ser aplicado em todos os âmbitos da vida. Esse sistema de vida resolve todos os problemas, quer surjam em Dar al-Islam, quer fora dele; quer se trate de relações ligadas à sociedade muçulmana, quer do estabelecimento de relações entre a sociedade muçulmana e a sociedade não muçulmana.
Os habitantes muçulmanos de uma sociedade jahilí
De acordo com a descrição acima, o Islã não é uma doutrina estagnada e sem sentido que alguém possa adotar, se quiser, como uma crença e considerar concluída sua tarefa apenas com orações e rituais, para depois seguir, na prática, os seguidores da sociedade jahilí estabelecida e ativa. Se essa for a condição daqueles que adotam o Islã, sua implantação efetiva será impossível, por maior que seja o número deles. Isso porque os chamados muçulmanos que se tornam membros da sociedade jahilí serão inevitavelmente obrigados a satisfazer as exigências organizacionais dessa própria sociedade. Além disso, passarão a empenhar-se, consciente ou inconscientemente, em satisfazer aquelas necessidades fundamentais indispensáveis à vitalidade e à existência da vida social. Mais ainda: erguer-se-ão como seus guardiões e eliminarão os meios e recursos que considerarem perigosos para sua existência e sua organização. Pois, quando toda a sociedade desempenhar todos esses deveres, será necessário acompanhá-la, como parte inevitável dela, para cumprir esses mesmos deveres, consciente ou inconscientemente.
O método do renascimento islâmico em um ambiente jahilí
No momento em que a fórmula «لا إله إلا الله محمد رسول الله» é pronunciada pela boca de uma pessoa, é preciso decidir, a partir desse exato momento, pela adoção de medidas revolucionárias. Sem essas medidas revolucionárias, a sociedade muçulmana não pode tornar-se uma realidade. Por maior que seja o número dos que, no mundo, creem fundamentalmente no Islã e se dedicam a ele, a sociedade islâmica não poderá ser estabelecida enquanto eles não se tornarem ativos por meio da cooperação mútua, enquanto pessoas de diferentes classes não se organizarem para fortalecer suas forças, como os vários órgãos de um corpo humano vivo, e enquanto não iniciarem um movimento unido, sob uma liderança completamente livre da influência da sociedade jahilí, para se defenderem das forças agressoras. Para estabelecer essa sociedade, a liderança mencionada conduzirá o movimento rumo ao seu destino por meio de esforços unidirecionais e vigorosos, da coordenação das atividades organizacionais, da formação e do desenvolvimento do caráter islâmico e da purificação de todas as influências da sociedade falsa.
Foi assim que o Islã foi estabelecido. Tendo como centro uma crença concisa, o Islã passou a abranger a vida inteira. Junto com a fé nesse sistema de vida, nasceu um movimento vigoroso e ativo. Esse movimento não se limitou a separar-se da jahiliyyah; além disso, declarou rebelião contra o sistema social falso já estabelecido. O Islã não veio ao mundo como uma doutrina fictícia sem existência real. Tampouco poderá, no futuro, manifestar sua existência senão por meio de um sistema real. Se for possível acender novamente o farol da luz islâmica na escuridão existente em cada recanto da sociedade jahilí, então, para qualquer época e país, não haverá outra alternativa senão compreender primeiro, necessariamente, esse temperamento e essa natureza do Islã. E isso significa que sua manifestação e seu desenvolvimento são absolutamente impossíveis sem um movimento e uma estrutura orgânica.
Desenvolvimento da humanidade
De acordo com o método descrito acima, quando o Islã estabelece os fundamentos de uma Ummah muçulmana com base no tawhid e, posteriormente, quando essa Ummah se torna ativa e somente a crença no tawhid determina o vínculo das relações mútuas, seu principal objetivo passa a ser despertar e desenvolver a humanidade do ser humano, fortalecê-la e torná-la apta a prevalecer sobre as demais inclinações humanas. O Islã deseja concretizar esse objetivo. Em alguns aspectos, o ser humano se assemelha aos animais e até mesmo à matéria inanimada. Por isso, os cientistas da jahiliyyah caíram no erro de considerar o ser humano um animal ou, em certos casos, matéria inanimada. Na realidade, embora o ser humano tenha muitas semelhanças com os animais e com a matéria inanimada, possui certas características pelas quais é considerado a melhor das criaturas. Até mesmo os representantes da ciência jahilí foram obrigados, sem alternativa, a reconhecer essa verdade. Contudo, seu reconhecimento não é sincero nem claro. *
A benevolência do modo de vida islâmico é extremamente real e incomparável. Rompendo os frágeis vínculos da raça, da língua, do país, dos interesses materiais, das fronteiras geográficas e de outros fatores semelhantes, o Islã estabeleceu somente a fé como base da sociedade e das relações mútuas. Em vez dos aspectos semelhantes entre o ser humano e o animal, essa sociedade promove apenas o desenvolvimento das qualidades humanas e lhes confere primazia na sociedade humana. O mundo inteiro testemunha os frutos desse grandioso trabalho. A sociedade islâmica transforma-se em uma sociedade aberta e liberal. Suas portas permanecem para sempre abertas a pessoas de todas as raças, línguas e regiões. Nesse grande oceano da sociedade islâmica, os rios de diferentes talentos e qualidades se unem e se fundem. Como resultado dessa grande união, em pouquíssimo tempo uma realidade capaz de maravilhar o mundo deslumbrou os olhos de todos. Apesar de os meios de comunicação e transporte serem extremamente precários naquela época, os melhores talentos da humanidade nas áreas do pensamento, do conhecimento e das ciências passaram a integrar essa realidade.
No oceano da sociedade islâmica reuniram-se pessoas de todas as nações e tribos da Arábia, da Pérsia, da Síria, do Egito, do Marrocos, da Turquia, da China, da Índia, de Roma, da Grécia, da Indonésia, da África e de outros países. Suas diferentes características foram entrelaçadas em um único vínculo, e, por meio da cooperação e da convivência mútuas, participaram da construção da Ummah islâmica e da cultura islâmica. Essa grandiosa civilização nunca foi, nem por um único dia, uma civilização árabe; ao contrário, foi uma civilização puramente islâmica. A civilização islâmica jamais criou uma nação; formou, sim, uma Ummah com base na fé.
Pessoas de todas as línguas, em todos os países, eram participantes iguais na construção dessa civilização. Elas estabeleceram relações profundas entre si, unidas pelos laços do amor e da moralidade. Todas caminhavam pela mesma estrada. Por isso, empregaram todas as suas capacidades para construir a sociedade desejada. Ao oferecerem suas características tribais e suas qualidades pessoais e nacionais, enriqueceram essa sociedade. Isso porque cada uma delas, como membro da sociedade islâmica, tinha igual responsabilidade. A base de suas relações era um profundo amor por Allah. Assim, nessa sociedade, a personalidade de cada pessoa podia desenvolver-se sem obstáculos. As características que se manifestaram entre as pessoas daquela época não encontram paralelo em toda a história da humanidade.
Na história antiga, a sociedade romana era conhecida como a melhor das sociedades. Nela também se reuniam pessoas de diferentes tribos, línguas, raças e temperamentos. Contudo, sua unidade não foi organizada com base nas relações humanas. Nenhum ideal elevado criou entre elas um vínculo de união. Ao contrário, a divisão de classes era a base de sua unidade. Em todo o império, de um lado estava a classe nobre e, de outro, um enorme número de escravos. Essas duas classes mantinham o império dividido em duas classes. Além disso, as características tribais também exerciam grande predominância. Os membros da tribo romana ocupavam em toda parte os postos de liderança, enquanto todos os membros das demais tribos eram seus escravos. Por isso, essa sociedade jamais conseguiu alcançar o elevado nível da sociedade islâmica, nem jamais foi capaz de oferecer à humanidade os benefícios que a sociedade islâmica lhe proporcionou.
Também na época moderna surgiram várias sociedades. O Império Britânico pode ser citado como exemplo. Ele é o herdeiro do próprio Império Romano. A cobiça pelos interesses nacionais é a base desse império, e a nação britânica é sua líder. Seu objetivo é explorar todas as colônias do império. O mesmo se aplica aos demais impérios europeus. Os antigos impérios espanhol e português e a França atual seguiram o mesmo caminho no que diz respeito à exploração e à opressão.
O comunismo surgiu no cenário histórico alegando construir uma nova sociedade ao derrubar as barreiras da raça, da tribo, da língua e da nacionalidade geográfica. Contudo, essa sociedade também deixou de lado as relações humanas e adotou a divisão de classes como base da sociedade. Nesse aspecto, a sociedade comunista é o outro lado da antiga sociedade romana. Na sociedade romana predominavam os nobres; na sociedade comunista predominam os proletários. Cultivar o ódio e a hostilidade contra a outra classe é o lema fundamental dessa sociedade. Uma sociedade tão egoísta e vingativa nada pode fazer além de despertar os instintos animalescos do ser humano. Seu programa consiste em estimular esses instintos e torná-los ainda mais fortes. Na visão do comunismo, as necessidades básicas do ser humano são como as do animal: alimentação, moradia e satisfação do desejo sexual. Por isso, segundo sua visão, toda a história da humanidade não passa da história da busca por alimento.
O Islã é a única legislação de vida de Allah que, ao despertar e desenvolver as nobres qualidades e as refinadas faculdades do ser humano, prepara o terreno para o estabelecimento de uma sociedade humana de elevado padrão. Até hoje, essa característica do Islã permanece única e inigualável. Aqueles que abandonam esse sistema e tentam construir a sociedade com base no nacionalismo, no patriotismo, na raça, na tribo, na língua ou na classe são, na realidade, inimigos da humanidade. Eles não estão dispostos a adornar o ser humano com as qualidades concedidas por Allah. Tampouco desejam que a sociedade humana se beneficie das qualidades e capacidades coletivas de todas as linhagens e tribos, formando uma sociedade harmoniosa e integrada, na qual todos possam viver felizes e confortavelmente. Foi a respeito de pessoas desse tipo que Allah, o Altíssimo, disse:
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“Ó Profeta! Não vos informarei quais pessoas são completamente fracassadas em suas obras? São aquelas que seguem o caminho errado na vida deste mundo, mas pensam que estão seguindo o caminho correto. Elas se recusaram a aceitar os versículos de seu Senhor e não creem no retorno à Sua presença. Por isso, todas as suas obras foram anuladas, e no Dia da Ressurreição não terão importância alguma. Como recompensa pela descrença que praticaram e por terem escarnecido dos Meus versículos e dos Meus mensageiros, sofrerão o castigo do Inferno.” — Al-Kahf: 103–106
Quarto capítulo
O jihad no caminho de Allah
Os diversos níveis do jihad
O Imam Ibn Qayyim escreveu, em sua célebre obra Zad al-Maʿad, um capítulo intitulado “A conduta do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para com os incrédulos e os hipócritas, desde o início da missão profética até o último momento de sua vida”. Nesse capítulo, o erudito autor escreveu sobre a natureza do jihad: a primeira revelação que foi enviada ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi:
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(Leia, em nome do Senhor, seu Criador — etc.).
Este foi o início da profecia. Allah, o Altíssimo, ordenara a Seu Profeta que recitasse sozinho os versículos acima mencionados. Contudo, ainda não lhe fora ordenado transmitir a revelação a outras pessoas. Então Allah, o Altíssimo, disse—
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(Ó tu, envolto em manto! Levanta-te e adverte o povo).
Assim, por meio da ordem “Iqra”, foi-lhe confiada a profecia, e, por meio do chamado “Ó tu, envolto em manto”, foi-lhe atribuída a missão apostólica. Depois, foi-lhe ordenado advertir os parentes próximos. Por isso, o nobre Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, transmitiu primeiro a mensagem de Allah aos seus parentes próximos. Em seguida, dirigiu suas advertências aos vizinhos, depois a todos os árabes e, por fim, à humanidade inteira. Assim, durante cerca de treze anos, esforçou-se, por meio da pregação, para despertar o temor de Allah no coração das pessoas. Nesse período, não combateu ninguém nem exigiu jizya de ninguém. Pelo contrário, foi-lhe ordenado manter as mãos recolhidas, ter paciência e seguir o caminho da tolerância. Depois, recebeu a ordem de realizar a Hégira. Após a Hégira, foi concedida permissão para a luta armada. Em seguida, foi revelada a ordem de combater aqueles que empunhassem armas contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e de não interferir com aqueles que adotassem a neutralidade. Mais tarde, foi ordenado lutar contra os idólatras até que a religião de Allah fosse plenamente implementada. Naquele período, os incrédulos foram divididos em três categorias. A primeira era a dos grupos sob tratado; a segunda, a dos grupos em guerra; e a terceira, a dos dhimmis.
Quanto àqueles com quem o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia firmado anteriormente tratados de paz, também foi ordenado aos muçulmanos que cumprissem os tratados enquanto eles agissem de acordo com seus termos. Se houvesse suspeita de violação do tratado por qualquer das partes, o Profeta de Allah recebia a ordem de anulá-lo mediante uma declaração pública; e, enquanto a outra parte não fosse informada da declaração de rompimento do tratado, era proibido pegar em armas contra ela. Além disso, foi revelada a ordem de combater os violadores do tratado.
Na surata At-Tawbah, foram dadas essas três categorias de instruções. Nela, foi declarado claramente que a guerra contra os membros do Povo do Livro que demonstrassem inimizade a Allah e ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, continuaria até que pagassem a jizya ou aceitassem o sistema de vida islâmico. Nessa mesma surata, foi ordenado travar um jihad rigoroso contra os incrédulos e os hipócritas. O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, empunhou armas contra os incrédulos conforme a ordem de Allah e combateu os hipócritas apresentando argumentos e por meio do diálogo e da discussão. Nessa mesma surata, foi ordenado declarar anulados todos os tratados anteriormente firmados com os incrédulos, e os tratados foram divididos em três categorias. Foi ordenado combater a primeira categoria, cujos integrantes haviam rompido eles próprios os tratados. O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, lutou contra eles e saiu vitorioso. Com os integrantes da segunda categoria, ele firmou tratados de paz por um período determinado. Eles não haviam rompido o tratado nem prestado qualquer tipo de ajuda a nenhum inimigo do Islã. Allah, o Altíssimo, ordenou que os tratados firmados com essas pessoas fossem mantidos até o prazo estabelecido. Com os integrantes da terceira categoria, não havia sido firmado nenhum tratado, mas eles jamais haviam adotado uma atitude hostil contra o Mensageiro de Allah. Também foram incluídos nessa categoria aqueles com quem haviam sido firmados tratados de paz por prazo indeterminado. Foi ordenado conceder a essas pessoas um prazo de quatro meses e, terminado esse prazo, combatê-las.
Por isso, o Profeta de Allah matou os violadores dos tratados e concedeu um prazo de quatro meses àqueles que não haviam violado os tratados ou com quem haviam sido firmados tratados por prazo indeterminado. Quanto aos que cumpriam os tratados, tratou-os de acordo com seus termos até o término do prazo estabelecido. Como resultado, todas as pessoas aceitaram o Islã e, dentro do prazo determinado, abandonaram a incredulidade. Os habitantes não muçulmanos passaram a pagar a jizya e a obedecer ao Estado. Assim, depois da revelação da surata At-Tawbah, os incrédulos passaram a ser vistos divididos em três categorias. A primeira era a dos inimigos que guerreavam contra o Islã; a segunda, a dos grupos sob tratado; e a terceira, a dos dhimmis. O grupo opositor sempre temia o Profeta de Allah. Então, toda a humanidade ficou dividida em três categorias: a primeira, os muçulmanos que tinham fé no Profeta; a segunda, os dhimmis sob proteção; e a terceira, os incrédulos em guerra. Allah, o Altíssimo, ordenou a Seu amado Profeta que aceitasse a obediência exterior dos hipócritas, deixasse sua hipocrisia interior nas mãos de Allah e continuasse tentando corrigi-los por meio de argumentos e diálogo.
Allah, o Altíssimo, proibiu Seu Profeta de realizar a oração fúnebre pelos hipócritas, de permanecer junto aos seus túmulos fazendo súplicas ou de interceder perante Allah para que seus crimes fossem perdoados. Pelo contrário, Allah declarou que, mesmo que o Profeta intercedesse pelo perdão dos hipócritas, eles não obteriam perdão. Essa era a política adotada pelo Profeta de Allah em relação aos inimigos incrédulos e hipócritas.
A discussão mencionada apresentou, de forma extremamente sucinta, todos os estágios do jihad islâmico da melhor maneira. Nela, vislumbra-se a natureza do movimento religioso e seus resultados de amplo alcance. O assunto exige uma análise profundamente atenta. Aqui estamos apenas fazendo referência a alguns pontos.
Primeira característica do jihad:A primeira beleza característica da religião da verdade é que ela constitui um sistema de vida voltado para a realidade. O movimento dessa religião atrai as pessoas para si em todas as circunstâncias e utiliza, em seu trabalho, os meios e recursos compatíveis com cada situação. Desde o início do movimento islâmico começa o confronto com a sociedade da falsidade. As ideias e crenças da sociedade vigente permanecem sob a influência da jahiliyyah. É sobre a base da jahiliyyah que se ergue a estrutura dessa ordem social. Diante da força estabelecida com orgulho na sociedade pela jahiliyyah, sob o patrocínio do poder econômico e político, são indispensáveis meios e recursos de igual proporção. Por isso, o Islã corrige as ideias e as crenças por meio da pregação e da divulgação. E conduz o jihad utilizando forças terrenas para transformar a ordem social estabelecida. Isso porque essa sociedade dirigida pela jahiliyyah impede o trabalho de purificação das crenças e do pensamento. Ela utiliza recursos materiais e programas enganosos para obrigar as pessoas a permanecerem submissas à sociedade jahiliana. Como resultado, a sociedade não encontra outra alternativa senão viver curvada diante dos seres humanos, em vez de se submeter ao Deus Todo-Poderoso. Assim, o movimento islâmico não pode considerar suficiente apenas a da‘wah e o tabligh para eliminar a jahiliyyah apoiada pelo poder terreno. Por outro lado, mudar à força as crenças das pessoas não é um princípio do ideal islâmico. Na condução do movimento dessa religião, ambos os métodos acima são igualmente importantes e igualmente aceitáveis. Pois o objetivo do movimento é libertar as pessoas da servidão aos seres humanos e conduzi-las à adoração do Allah Único e sem parceiros.
Segunda característica do jihad:A segunda característica do Islã é que ele é um movimento voltado para a realidade. Esse movimento avança passo a passo; em cada etapa, reúne os recursos necessários e prepara o terreno para a etapa seguinte. Essa religião não adota nenhum método irrealista de enfrentar problemas concretos apenas com a ajuda de bons princípios, nem depende de alguns procedimentos rígidos e imutáveis para resolver os problemas que surgem nas diversas etapas desse movimento ideal. Aqueles que discutem o jihad islâmico e citam versículos do Alcorão em seu apoio não prestam atenção a esse ponto. Pelo contrário, nem sequer conseguem compreender as etapas que o movimento islâmico precisa atravessar para avançar. Naturalmente, também não conseguem perceber em que etapa do movimento determinado versículo corânico foi revelado e com que significado. Por isso, iniciam a discussão do jihad com ideias vagas, misturam desordenadamente as diversas etapas do movimento, distorcem a verdadeira natureza do jihad e extraem certos princípios gerais dos versículos do Alcorão revelados em diferentes momentos. No entanto, esses versículos não oferecem qualquer margem para descobrir princípios de acordo com seus próprios desejos. Eles consideram cada versículo do Alcorão como o limite final da religião. Aqueles que adotam esse tipo de pensamento nasceram nas atuais sociedades muçulmanas apenas nominais e, pressionados pelas circunstâncias desalentadoras ao seu redor, assumem esse papel como resultado de uma atitude derrotista.
Dominados por uma mentalidade derrotista, eles dizem: “O Islã só permite a guerra defensiva.” O mais lamentável é que acreditam ter promovido o grande bem da religião ao oferecer essa interpretação do jihad. A realidade é que, ao interpretar erroneamente o jihad, estão abandonando justamente a característica distintiva da religião. O objetivo dessa interpretação é desviar a religião de sua finalidade essencial. Depois que essa interpretação é adotada, o Islã perde o objetivo de libertar as pessoas do poder das forças taghut e conduzi-las à adoração de Allah, o Único e sem parceiros. É verdade que o Islã não ordena mudar à força as crenças das pessoas. Pelo contrário, oferece-lhes a oportunidade de escolher livremente seu caminho de vida. E, para libertar o povo da opressão do poder político estabelecido, elimina esse poder governante. Depois disso, ainda lhes oferece a possibilidade de viver como residentes leais do Estado islâmico mediante o pagamento da jizya. Com isso, são removidas todas as forças que impedem coercitivamente a adoção livre da doutrina islâmica, e o povo obtém a oportunidade de decidir voluntariamente se aceitará ou não o Islã.
Terceira característica do jihad:A terceira característica dessa religião é que o movimento religioso, avançando progressivamente por meio de uma luta árdua, jamais se desvia sequer por um fio de cabelo de seu objetivo fundamental, em nenhuma circunstância. Desde o primeiro dia do movimento, sempre que o Profeta de Allah (que a paz esteja com ele) se dirigiu e convocou seus parentes, o clã dos coraixitas ou toda a humanidade, em qualquer etapa, chamou-os precisamente para esse objetivo fundamental. Em todas as circunstâncias, transmitiu a mesma mensagem. Isto é, convocou todos a reconhecerem a servidão a Allah, o Único, e a declararem rebelião contra os demais pretendentes falsos ao senhorio. Nesse assunto, não há o menor espaço para compromisso ou flexibilidade. Para alcançar esse objetivo, o movimento avança de acordo com um plano e atravessa diversas etapas. Em cada etapa, surge a necessidade de utilizar os meios e recursos conforme as exigências do momento. Já mencionamos isso anteriormente.
Quarta característica do jihad:A quarta característica é que o Islã estabeleceu uma norma permanente para regular as relações da comunidade muçulmana com os demais não muçulmanos.
Isso já foi conhecido pela citação acima da obra Zad al-Ma’ad. O ponto central desta lei é que o Islã (aceitar a servidão e a obediência a Allah) é uma verdade universal e absoluta, e aceitá-lo é indispensável e obrigatório para toda a sociedade humana. Aqueles que são incapazes ou não desejam aceitar o Islã devem adotar uma atitude conciliatória para com ele e não criar obstáculos à divulgação da mensagem islâmica e à sua expansão, recorrendo a qualquer força política ou outra. Toda pessoa precisa de um ambiente favorável e livre de pressão para decidir aceitar ou não o Islã. Se alguém desejar aceitar o Islã, os grupos contrários ao Islã não poderão usar a força contra essa pessoa nem oferecer-lhe qualquer tipo de
obstáculo. Se alguém oferecer resistência, é dever do Islã combatê-lo, e essa luta prosseguirá ininterruptamente até que o opositor morra ou se submeta.
Quando escritores de mentalidade fraca e derrotista, ao discutirem o jihad islâmico, tentam, segundo sua própria perspectiva, remover a “mancha” do jihad do corpo do Islã, acabam misturando indevidamente duas questões. A primeira é não obrigar ninguém a aceitar o Islã pela força. O próprio Allah, o Altíssimo, determinou isso claramente no Alcorão Sagrado, ao declarar: ———————- (Não há coação na religião). A segunda é que o Islã ordena a eliminação das forças políticas e mundanas que se colocam como uma barreira entre as pessoas e Allah, impedem-nas de aceitar a servidão a Allah e, assim, fazem delas suas escravas. Esses dois princípios fundamentais são inteiramente distintos. Não há entre eles qualquer contradição ou incompatibilidade. Contudo, devido à mentalidade derrotista de pessoas de espírito fraco, elas misturam essas duas questões e querem classificar o jihad islâmico como uma guerra defensiva. Entretanto, o jihad islâmico é uma luta de natureza completamente diferente. Não tem nenhuma semelhança com as guerras e conflitos correntes na era moderna. Nem nas condições da guerra nem em sua natureza externa se encontrarão os critérios do jihad islâmico; eles devem ser buscados na natureza da lei islâmica, em seu papel no mundo, nos grandes objetivos que Allah, o Altíssimo, estabeleceu para esta religião e pelos quais confiou ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a missão da Mensagem, concedendo-lhe a excelência entre todos os Mensageiros.
Uma proclamação revolucionária universal
A religião da verdade é uma proclamação revolucionária universal. O cerne dessa proclamação é libertar o ser humano da servidão a outros seres humanos e até mesmo da servidão às suas próprias paixões. A consequência inevitável da proclamação da soberania exclusiva de Allah é que todos os seres humanos têm igual participação em Sua misericórdia. Portanto, o Islã consiste em proclamar uma revolta total contra o domínio e a soberania de seres humanos sobre outros seres humanos, qualquer que seja a forma ou o modo em que se estabeleçam. O poder de governar seres humanos é, na realidade, uma reivindicação do poder de Allah. Isto é, em um sistema social no qual a autoridade para decidir definitivamente sobre todas as questões está nas mãos dos seres humanos, onde os seres humanos têm o poder de emitir ordens e proibições finais para outros seres humanos, algumas pessoas reivindicam ilegalmente o próprio poder de Allah. Aqueles que reconhecem sua autoridade, na terminologia corânica, adotam —————— (outros senhores além de Allah). Assim, proclamar a soberania e a autoridade exclusivas de Allah significa arrancar o poder das mãos daqueles que o usurpam ilegalmente e devolvê-lo às mãos de Allah, bem como eliminar aqueles que elaboram leis e normas segundo seus próprios caprichos e estabelecem domínio e autoridade sobre as pessoas. Pois eles se colocaram no lugar de Deus e transformaram a sociedade humana em sua escrava. Em suma, proclamar o senhorio e a soberania de Allah significa pôr fim a toda autoridade e poder de governo de seres humanos sobre outros seres humanos e estabelecer a autoridade do Senhor, Criador e Sustentador de todo o universo.
Allah, o Altíssimo, disse no Alcorão Sagrado:
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“Ele é a divindade tanto no céu quanto na terra.” Az-Zukhruf: 84
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“O direito de ordenar e governar pertence somente a Ele. Sua ordem é que ninguém seja adorado senão Ele. Este é o firme sistema de vida.” — José: 40
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“(Ó Profeta), diga: Ó povo do Livro, venham a uma palavra comum entre nós e vós: não adoraremos senão a Allah, não Lhe associaremos parceiro algum e não tomaremos, em vez de Allah, nenhum outro poder como Senhor. E anuncie àqueles que se recusam a aceitar isso: testemunhai que nos submetemos a Allah.” — آل عمران: 64
Meios para estabelecer o governo de Allah
Estabelecer a soberania de Allah não significa um sistema de governo exercido, à maneira do sistema governamental da Igreja, por um certo número de pessoas “santas” autoproclamadas, nem um sistema de governo arbitrário de um punhado de pessoas que reivindicam representar Allah, como no sacerdotalismo. Estabelecer o governo de Allah significa que a supremacia da lei de Allah será reconhecida e que, para a decisão final sobre todos os assuntos, será necessário considerar definitiva apenas a legislação concedida por Allah. Deve-se ter em mente que estabelecer a soberania de Allah, abolir o reinado dos homens, arrancar o poder governamental das mãos dos opressores e entregá-lo a Allah, e revogar as leis feitas pelos homens para pôr em vigor a lei concedida por Allah não pode ser realizado apenas por meio da pregação e da proclamação. Aqueles que estabeleceram a autoridade divina sobre as pessoas não abandonarão o poder simplesmente por ficarem impressionados com a pregação e a proclamação. Se assim fosse, a tarefa dos profetas de Allah de estabelecer a religião de Allah teria sido muito fácil. Contudo, as histórias dos profetas e a história da religião da verdade ao longo de muitos séculos mostram que, para nenhum profeta, a tarefa de estabelecer a religião foi fácil.
Proclamar que Allah, o Senhor do universo, é o único detentor da soberania, juntamente com a proclamação de uma revolta contra os demais pretendentes ao senhorio além de Allah, não é simplesmente uma doutrina, uma teoria filosófica ou a mera pronúncia de uma frase negativa. Pelo contrário, o objetivo de tal proclamação é estabelecer sobre as pessoas o governo da Sharia divina e, mediante o uso da força, libertá-las da servidão aos seres humanos e conduzi-las para dentro dos limites da servidão ao Allah Único, sem associados. Pode-se compreender facilmente que, para uma transformação revolucionária tão grandiosa, é extremamente necessário iniciar um movimento juntamente com o chamamento e a pregação, e enfrentar as forças do falso que oferecem resistência a cada etapa do movimento em avanço.
O Islã proclama a libertação dos seres humanos da submissão a todos os poderes além de Allah. Por isso, em cada etapa da história humana, crenças e doutrinas falsas, a força bruta e os sistemas político, social, econômico e tribal colocam-se em seu caminho. Foi assim no passado, é assim no presente e não pode ser diferente no futuro. Além disso, quando crenças falsas e superstições misturam-se à fé e conquistam um lugar no coração das pessoas, os obstáculos mencionados acima tornam-se ainda mais fortes.
A tabligh e a pregação purificam os pensamentos e as crenças das pessoas, enquanto o movimento remove os obstáculos mundanos. No topo desses obstáculos mundanos encontra-se o poder político. Esse poder está intimamente ligado às crenças, às distinções de linhagem e classe, e aos costumes coletivos e econômicos. Assim, a tabligh e o movimento, atuando conjuntamente, passam a exercer influência sobre o sistema social estabelecido por todos os lados e ajudam a estabelecer um novo sistema de vida. Para que a sociedade humana que habita a face da Terra possa viver uma vida verdadeiramente livre, é necessário adotar ambos os métodos; isso é uma questão de extrema importância.
O significado da servidão
O Islam não trouxe a mensagem de libertação apenas para os árabes. O objetivo desta din é toda a humanidade, e seu campo de atuação é o mundo inteiro. Allah não é o Sustentador apenas dos árabes ou daqueles que creem no Islam. Pelo contrário, Ele é o Sustentador e o Protetor do universo inteiro. Ele deseja libertar todo o mundo de todas as formas de servidão humana e fazê-lo retornar ao âmbito de Sua profunda proteção. Segundo o Islam, impor a si mesmo leis e regulamentos criados pelos seres humanos é, na realidade, servidão ou ibadat. Por isso, o Islam declara que a ibadat ou servidão é exclusivamente para Allah. Quem aceita a ibadat ou a servidão de outro além de Allah — por mais religioso que se considere — encontra-se, na realidade, fora dos limites da din. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) declarou claramente que obedecer às leis vigentes e ao sistema de governo é outro nome para ibadat. Quando os judeus e os cristãos se afastaram desse significado de ibadat, passaram a ser considerados mushrik.
O Imam Tirmidhi narra, por intermédio de Adi ibn Hatim (que Allah esteja satisfeito com ele), que, depois que a mensagem do Mensageiro (que a paz esteja com ele) chegou até ele, Adi ibn Hatim fugiu para a Síria. Isso ocorreu porque ele havia abraçado o cristianismo ainda na época da jahiliyyah. Entretanto, sua irmã e várias outras pessoas de sua tribo foram capturadas. O Profeta tratou sua irmã com bondade, libertou-a sem exigir resgate e permitiu que ela retornasse aos seus parentes, levando alguns presentes. A mulher encontrou-se com seu irmão, incentivou-o a aceitar o Islam e aconselhou-o a encontrar-se com o Profeta de Allah. Adi aceitou a proposta, e os habitantes de Medina ficaram esperando seu retorno. Quando veio encontrar-se com o Profeta, trazia pendurada no pescoço uma cruz de prata. Naquele momento, o Profeta recitava o seguinte versículo:
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“Eles tomaram seus monges, sacerdotes e líderes religiosos como senhores, em vez de Allah.” — At-Tawbah: 31
Adi disse: “Eu disse ao Profeta (que a paz esteja com ele): ‘Eles não adoram os líderes religiosos.’” O Profeta respondeu: “Eles aceitaram como halal aquilo que os líderes religiosos declararam halal. Da mesma forma, consideraram haram aquilo que os líderes religiosos estabeleceram como haram. É assim que eles adoram seus líderes religiosos.”
Tudo o que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse ao explicar o versículo corânico acima mencionado constitui a forma clara e incontestável da Shariah. Ou seja, aceitar as leis e os regulamentos de qualquer outro além de Allah é uma forma de ibadat. E aquele que se envolve nesse tipo de ibadat sai do Islam. Este hadith também nos ensina que, quando algumas pessoas tomam uma ou mais pessoas como ‘senhores em vez de Deus’, isso também é considerado ibadat. Foi para pôr fim a esse tipo de servidão e obediência ilícitas que a din da verdade foi revelada. E esta mesma din declarou, em termos inequívocos, que as pessoas que vivem na terra de Allah devem viver livres da servidão a qualquer outro além de Allah.
Se, na vida prática das pessoas, for constatada uma situação contrária à declaração acima, o ideal islâmico será obrigado a entrar no campo de ação, empunhando as duas armas: a pregação e o movimento.
O objetivo do movimento islâmico será desferir um golpe contra as forças políticas que desejam estabelecer um domínio injusto sobre as pessoas e governam com total desprezo pela sharia de Allah. Isso porque, por causa dos obstáculos criados por essas forças políticas, aqueles que desejam viver segundo a mensagem do Islã são privados da liberdade de formar e expressar suas opiniões. Por isso, por meio da pregação e do movimento, o Islã elimina as forças que aspiram estabelecer seu domínio. Quer essa força seja política, quer seja porta-estandarte da discriminação entre linhagens, tribos e classes, sem sua eliminação não se pode alcançar a verdadeira liberdade humana. Assim, depois de extirpar essa força ilegítima, o Islã protege a verdadeira liberdade da sociedade humana mediante a implantação de uma nova ordem social, econômica e política, e abre o caminho para o progresso contínuo de uma vida livre.
A liberdade humana à luz do Islã
O objetivo do Islã não é impor à força crenças e convicções à mente das pessoas. Mas também não se deve esquecer que o Islã não é apenas um tipo particular de crença e convicção. Já discutimos anteriormente que o Islã é a proclamação revolucionária da libertação das pessoas da servidão a outras pessoas. Desde o início da propagação da mensagem do Islã, foi claramente proclamado que o Islã deseja extirpar todos os governos e instituições que estabelecem domínio sobre as pessoas. Depois de resgatar a sociedade humana da escravidão política, o Islã se empenha em purificar a mente e a consciência das pessoas da influência corrompedora das forças ilegítimas. Quando esse trabalho é concluído, concede à sua razão e consciência livres plena liberdade para aceitar ou não o Islã. Mas o significado dessa liberdade também não é que a pessoa aceite a servidão à sua própria mentalidade egoísta ou a qualquer outra pessoa, nem que decida manter um sistema que estabelece o domínio de uns seres humanos sobre outros.
Onde quer que e quando quer que se estabeleça um sistema de governo no mundo, ele deverá ser fundado reconhecendo a servidão a Allah Ta’ala. E a soberania de Allah Ta’ala deverá ser reconhecida como a fonte do sistema de vida. Somente sob esse sistema de governo baseado em ideais haverá liberdade para as crenças e convicções pessoais das pessoas. Esse é o único caminho para dedicar a religião, a adoração e a obediência exclusivamente a Allah. O significado da palavra din é muito mais amplo que o de crença e convicção. Submeter todos os aspectos e setores da vida humana a um sistema específico é o que se chama din, e o din islâmico é construído sobre a base do iman, ou fé. Contudo, o âmbito do din é mais amplo que o da crença e da convicção. Portanto, depois de manifestar lealdade ao sistema de governo islâmico, é possível viver nessa sociedade sem adotar, na vida pessoal, a crença e a convicção islâmicas.
Jihad não significa mera autodefesa
A partir do que compreendemos acima sobre o objetivo do din, fica claro que o jihad islâmico deve necessariamente ser iniciado em suas duas formas: isto é, o jihad bis-saif (jihad com armas) e o jihad bil-qawl (jihad pela pregação). Sem os dois tipos de jihad, é impossível estabelecer o din. Também compreendemos que o jihad islâmico não é exatamente aquilo que, na terminologia limitada da época atual, se entende por guerra defensiva. Foram apenas pessoas de mente fraca que, pressionadas pelas circunstâncias e incapazes de dar uma resposta adequada aos ataques astuciosos dos escritores ocidentais, tentaram confinar o jihad islâmico dentro desse estreito limite. O Islã é uma revolução viva. Seu objetivo é fazer com que as pessoas experimentem a verdadeira liberdade. Para alcançar esse objetivo, o Islã conduz uma campanha de reforma em cada aspecto e setor da vida prática das pessoas e avança passo a passo, empregando todos os meios e recursos existentes na sociedade. Em cada etapa, utiliza os meios necessários e toma medidas para alcançar o estágio seguinte.
Se o jihad islâmico for usado no sentido de guerra defensiva, será necessário modificar o significado convencional de autodefesa; pela palavra jihad, deve-se entender a autodefesa da humanidade contra a opressão das forças que lhe usurpam a liberdade. Essas forças opressoras assumem a forma de crenças e convicções equivocadas, bem como de desigualdades econômicas, tribais e de classe, e procuram privar a sociedade humana de sua liberdade. Quando o ideal islâmico chegou ao mundo, esses desviados dominavam a sociedade; e, na jahiliyyah da era moderna, também foram criadas ideias e caminhos equivocados desse tipo.
Depois de adotarmos esse sentido abrangente de autodefesa, somos capazes de compreender a verdadeira natureza do Islã. O significado geral da jihad islâmica, ou autodefesa, é o seguinte:
“A proclamação da plena libertação do ser humano da servidão a outros seres humanos; o estabelecimento da soberania de Allah Ta‘ala em todo o mundo; a eliminação da autoridade de pessoas egoístas e opressoras; e a implementação das leis de Allah em todos os aspectos e esferas da vida humana.”
Um grupo de pessoas apresenta diversos argumentos e debates para provar que a jihad islâmica é nada mais que uma guerra defensiva, e continua pesquisando dia e noite com o propósito de apresentar provas em favor de seus argumentos. Essas pessoas procuram e extraem acontecimentos e relatos históricos de todo tipo, para provar, por meio deles, que a jihad islâmica foi uma luta pela “defesa do país islâmico”. Alguns desse grupo consideram apenas a Península Arábica como país islâmico e afirmam que a necessidade da jihad naquela época surgiu somente porque as terras árabes foram atacadas por grupos inimigos das regiões vizinhas.
Essas pessoas, favoráveis ao Islã, ou não compreenderam o papel do Islã na solução dos problemas do mundo, ou apenas assumiram uma posição débil sob a influência do ambiente adverso e dos ataques astuciosos dos escritores ocidentais.
Quem pode afirmar que, se Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) tivessem recebido a garantia de que não seriam atacados por Roma e pela Pérsia, eles teriam interrompido a expansão do movimento islâmico? A essa pergunta só se pode responder “não”, pois a expansão do Islã teria sido absolutamente impossível sem a jihad. Muitos tipos de obstáculos e adversidades erguiam-se como muralhas no caminho desse movimento. Em especial, o sistema político, a estrutura governamental dos Estados que o apoiavam e tudo o mais eram contrários ao movimento islâmico.
Depois de proclamar uma mensagem revolucionária e anunciar a libertação de toda a humanidade do mundo, imaginar que se poderia avançar, diante dos obstáculos acima mencionados, por meio de mera pregação verbal não passa de insensatez. Naturalmente, o movimento islâmico também recorre à pregação verbal. Mas quando? Quando as pessoas são completamente livres para aceitar ou não uma ideologia. Somente depois de libertar as pessoas de toda forma de pressão e restrição é que o Islã se expande, de acordo com o princípio “não há compulsão na religião”, por meio da mera pregação.
O chamado ao sistema de vida islâmico é uma proclamação revolucionária da plena liberdade da humanidade. Naturalmente, depois dessa proclamação, a liberdade desejada não será alcançada apenas por discussões filosóficas e pela descrição da beleza da religião. Ao contrário, será necessário envolver-se efetivamente em confronto com o ambiente adverso e utilizar todos os meios e recursos necessários para remover os obstáculos e as adversidades que o movimento progressivo encontra em cada etapa. Esse tipo de movimento é a jihad. A terra que serve de lar ao sistema de vida islâmico é chamada, na terminologia islâmica, Dar al-Islam. Quer Dar al-Islam esteja em estado de paz, quer esteja em guerra com inimigos vizinhos, a responsabilidade da jihad não diminui nem aumenta por isso. Estabelecer a paz é o objetivo do Islã, mas o Islã não se satisfaz em manter a paz e a ordem apenas no território limitado de Dar al-Islam, nem deseja essa paz parcial. A paz que o Islã deseja é que a religião de Allah seja plenamente estabelecida em toda a terra de Allah, que todos os seres humanos sirvam unicamente a Allah Ta‘ala e que toda forma de autoridade e domínio de seres humanos sobre outros seres humanos seja completamente eliminada. Na era posterior ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), deve-se avançar tendo diante de si esse estágio final da jihad. Não será necessário estabelecer os estágios inicial e intermediário, pois esses estágios já foram ultrapassados. O Imam Ibn Qayyim diz: depois da revelação da Surata At-Tawbah, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tratou os descrentes de três maneiras. Os descrentes que lutavam contra o Islã eram inimigos declarados. O segundo grupo era formado pelos grupos de descrentes que haviam firmado tratados. O terceiro grupo era constituído pelos dhimmis. Depois que os descrentes pactuados aceitaram o Islã, restaram apenas os dois grupos de descrentes: os combatentes e os dhimmis. Os descrentes combatentes sempre temiam o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); por isso, mantinham continuamente sua hostilidade. Assim, aos olhos do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), as pessoas do mundo inteiro dividiram-se em três grupos. O primeiro grupo era formado pelos muçulmanos crentes. O segundo era composto pelos dhimmis que viviam no Estado islâmico sob um tratado de paz, e o terceiro grupo era formado pelos descrentes combatentes. A própria natureza do ideal islâmico é tal que, desde o início de seu movimento, as pessoas se dividem nesses grupos. Contudo, a explicação da jihad oferecida pelo grupo de mentalidade débil que se rendeu diante dos ataques dos escritores ocidentais está muito distante das características da jihad islâmica. Depois que os muçulmanos emigraram de Meca para Medina, Allah Ta‘ala inicialmente revelou o versículo abaixo, ordenando-lhes que se abstivessem de combater:
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“Contendei-vos de manter as mãos recolhidas, estabelecei a salat e pagai a zakat.” — An-Nissá: 77
Depois de algum tempo, foi dada permissão para lutar contra os inimigos, nas palavras do Alcorão a seguir —
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“É concedida permissão para lutar também àqueles contra os quais se luta, pois foram injustiçados. Allah Ta’ala certamente é capaz de ajudá-los. Eles são aqueles que foram expulsos injustamente de suas próprias casas. Seu único ‘crime’ foi declarar que Allah é seu único ‘Rabb’. Se Allah Ta’ala não contivesse um grupo de pessoas por meio de outro, todos os mosteiros, igrejas, casas de culto e mesquitas seriam destruídos, embora nesses lugares se faça a recordação de Allah. Allah Ta’ala certamente ajudará aqueles que ajudam Allah — Allah é Poderosíssimo. Aqueles a quem concedemos autoridade governamental em alguma terra, se estabelecem nela a salat, instituem o sistema da zakat, ordenam ou promulgam leis para o bem e impedem as pessoas de praticar o mal. E o resultado final de todos os assuntos está nas mãos de Allah Ta’ala.” — Al-Hajj: 39–41
Depois de ultrapassada essa etapa, foi ordenado fazer jihad contra todos os que empunhassem a espada contra os muçulmanos —
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“Empunhai também armas contra aqueles que empunham armas contra vós.” — Al-Baqara: 190
E, por fim, Allah Ta’ala ordenou fazer jihad contra todos os politeístas —
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“E combatei todos juntos os politeístas, assim como eles combatem todos juntos contra vós.” — At-Tawba: 36
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“Iniciai o combate contra aqueles, dentre o Povo do Livro, que não creem em Allah e no Dia Derradeiro, não consideram proibido o que Allah e o Mensageiro proibiram e não adotam a verdadeira religião como sua religião, até que paguem a jizya com as próprias mãos e reconheçam sua submissão (ao Estado Islâmico).” — At-Tawba: 29
Os versículos acima do Alcorão, numerosos hadiths que incentivam o jihad, os relatos das expedições militares do nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e toda a história do Islã estão repletos de acontecimentos relacionados ao jihad. Diante dessas provas claras, o público muçulmano não está disposto a aceitar as novas interpretações do jihad apresentadas por escritores de orientação ocidental. Isso ocorre porque esses escritores foram confundidos por circunstâncias adversas e pela propaganda deliberada de astutos autores ocidentais.
Aqueles que leem as instruções claras de Allah, o Altíssimo, conhecem os hadiths do Profeta (que a paz esteja com ele) e estudam a história do Islã, repleta de relatos de vitórias, jamais podem aceitar que o jihad fosse uma medida temporária, prescrita apenas para a sociedade em transformação daquela época, e que lutar somente para proteger as fronteiras fosse o verdadeiro objetivo permanente do jihad.
Ao conceder a permissão para o jihad, Allah, o Altíssimo, informou aos fiéis que, na administração do mundo, o princípio permanente de Allah, o Altíssimo, é que Ele reprime um grupo por meio de outro, a fim de manter a sociedade humana livre da corrupção. Assim:
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“Se Allah não tivesse contido um grupo por meio de outro, eles teriam destruído mosteiros, igrejas, sinagogas e mesquitas nas quais o nome de Allah é mencionado.” — Al-Hajj: 40. Compreende-se, portanto, que esta luta não é temporária; ao contrário, constitui uma ordem permanente. Pois a verdade e a falsidade não podem coexistir na Terra. Sempre que o Islã anunciou a determinação de estabelecer a soberania de Allah e libertar as pessoas da servidão a outras pessoas, os pretendentes à dominação tirânica levantaram-se contra esse anúncio com espadas desembainhadas e não aceitaram de modo algum esse movimento. O Islã inspirou uma luta intransigente para eliminar esses rebeldes contra Allah e libertar toda a humanidade do sistema de governo opressivo desses tiranos. Por isso, esta luta da verdade contra a falsidade continuará avançando incessantemente até que a religião seja dedicada exclusivamente a Allah.
Razões pelas quais o jihad armado foi proibido durante a etapa de Meca
A orientação dada na etapa de Meca para evitar a guerra e expandir a da‘wah era uma medida temporária dentro de um plano de longo prazo. Essa política continuou em vigor por algum tempo mesmo depois da Hégira. Porém, quando, ao final da etapa inicial, os muçulmanos se decidiram firmemente pelo jihad, este não era apenas uma guerra defensiva para proteger a cidade de Medina. É claro que a segurança de Medina também estava em questão. Mas isso era apenas uma ocasião para alcançar um objetivo. Era necessário defender Medina para manter o centro do movimento livre dos ataques inimigos, prosseguir incessantemente na luta para tornar as pessoas verdadeiramente livres e emancipadas e resistir a todos os obstáculos e impedimentos.
É fácil compreender a lógica por trás da proibição de combater durante a permanência em Meca. O Profeta de Allah contava com a proteção dos Banu Hashim. Assim, podia transmitir a mensagem da religião por meio de uma proclamação pública. Através de encontros pessoais e de pequenas reuniões de discussão, ele procurava influenciar as mentes e os corações das pessoas. Além disso, em Meca não havia nenhum sistema estatal bem organizado que impedisse sua pregação ou a resposta do povo a ela. Portanto, não surgiu necessidade de empregar a força naquela etapa. Havia ainda algumas outras razões pelas quais era apropriado não combater em Meca naquele período. Mencionei essas razões ao explicar os versículos seguintes em meu livro de tafsir intitulado “À Sombra do Alcorão” —
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“Não viste aqueles a quem foi ordenado que contivessem as mãos?” — An-Nisa: 77
A segunda razão principal para a proibição de participar da guerra durante a etapa de Meca era que, naquele período, o movimento islâmico estava formando, por meio de treinamento, um corpo de militantes em um ambiente específico e para alcançar objetivos específicos. Pois era extremamente necessário treinar para esses objetivos as pessoas que estavam aceitando o Islã naquele contexto. Por exemplo, era absolutamente indispensável dar-lhes a força moral necessária para suportar situações às quais os árabes não estavam acostumados. Era necessário transformar, por meio de treinamento sobre temas como suportar pacientemente a opressão e a perseguição contra si mesmos ou contra seus parentes, controlar a arrogância e o sentimento de honra pessoal, refrear o desejo de satisfazer ressentimentos pessoais ou de se vingar, e abandonar a autoadoração e a servidão às paixões, a concepção que os convertidos ao Islã na Arábia daquela época tinham sobre o objetivo da vida. Pois, na época da jahiliyyah, o principal objetivo de suas vidas era garantir a segurança de si mesmos e de seus familiares. Depois de aceitar o Islã, o objetivo de suas vidas mudou. Naturalmente, era muito importante prepará-los para adquirir a capacidade de autocontrole. Eles não deveriam, tomados pela excitação e pela raiva, perder a razão e agir sem direção. Pelo contrário, deveriam ser capazes de tomar decisões equilibradas e dignas com extrema calma e serenidade. Também era necessário treiná-los para trabalhar como membros de uma organização disciplinada, sob a ordem de um grande líder, e para agir em cada questão de acordo com a opinião do líder, depois de conhecê-la. Mesmo quando a ordem do líder não fosse do agrado de um indivíduo, sua atitude estava sendo transformada para que ele a obedecesse em prol da disciplina. Treiná-los nesses assuntos era extremamente necessário para formar a vida dos árabes. Pois o objetivo do movimento islâmico era construir uma sociedade disciplinada, de caráter elevado, civilizada, livre dos instintos animalescos e afastada das disputas e dos conflitos tribais.
Outra razão por trás da ordem de se abster da guerra durante a etapa de Meca pode ter sido o fato de os coraixitas estarem dominados pelo orgulho de sua nobreza de linhagem. Era mais eficaz e proveitoso atraí-los para o caminho da religião por meio de explicações e persuasão. A luta e os conflitos armados contribuiriam para aumentar a hostilidade e a raiva, tornando ainda mais intensa sua sede inata de sangue. Antes disso, as guerras de Dahis, Ghabra e Basus haviam sido travadas durante anos com base na inimizade tribal, e tribo após tribo havia sido exterminada nesses campos de batalha. Se o Islã tivesse se tornado vítima de um tipo semelhante de inimizade tribal, seu apelo ideológico e de da‘wah não teria encontrado eco no coração de ninguém. Em vez disso, teria permanecido apenas como instrumento de uma luta sangrenta e interminável. Nessas circunstâncias, havia o risco de que sua mensagem e seu ensinamento fundamental fossem esmagados sob o peso dos conflitos tribais.
Impedir também a ampla expansão da guerra civil pode ter sido um dos objetivos de evitar a guerra em Meca. Isso porque em Meca não havia nenhum governo legítimo que perseguisse os crentes e impedisse o seu movimento. Pelo contrário, eram os próprios parentes e membros da tribo de cada muçulmano que obstruíam o seu trabalho de pregação e os submetiam a perseguições. Se, nessas circunstâncias, tivesse sido concedida permissão para combater, um campo de batalha teria sido estabelecido em cada família. E essa guerra civil teria prosseguido continuamente. Os opositores também teriam tido a oportunidade de propagar que o Islã provocava conflitos familiares. Na realidade, esse tipo de propaganda já havia começado. Durante a peregrinação, os líderes coraixitas dirigiam-se às pessoas que vinham de lugares distantes a Meca para realizar a peregrinação ou fazer negócios e diziam: “Maomé não se contentou em criar divisão apenas dentro da própria tribo; ele também provocou conflitos entre pais e filhos.” Naquela época, porém, era proibido usar a força contra os inimigos. Se tivesse sido permitido ao filho decepar a cabeça do pai contrário ao Islã, e ao escravo decepar a cabeça do senhor inimigo da religião, seria difícil dizer quanta propaganda difamatória teria sido feita contra o Islã e que tipo de situação teria surgido na prática.
Allah Todo-Poderoso certamente sabia que aqueles que se empenhavam excessivamente contra o movimento islâmico e infligiam cruéis perseguições aos muçulmanos mais tarde abraçariam a fé e se tornariam soldados sinceros do Islã. Acaso Hazrat Omar ibne Al-Khattab (r.a.) não foi um deles? Também por essa razão foi dada a ordem de não combater.
Outra razão para evitar a guerra pode ter sido que, de acordo com os costumes tribais, o caráter dos árabes havia sido formado de tal modo que eles se tornavam solidários com as pessoas que demonstravam firmeza diante da opressão e da perseguição. Essa atitude era ainda mais forte em relação às pessoas nobres e virtuosas da tribo. Numerosos acontecimentos comprovam isso. Quando um homem nobre e gentil como Hazrat Abu Bakr (r.a.) se preparou para emigrar de Meca, Ibn ad-Daghina não pôde tolerá-lo. Por isso, trouxe Hazrat Abu Bakr (r.a.) de volta. Ibn ad-Daghina considerava que a partida de uma pessoa assim seria uma desonra para a sociedade árabe. Por isso, declarou sua decisão de oferecer proteção e patrocínio a Hazrat Abu Bakr (r.a.). Também encontramos essa mesma prova na revogação do pacto pelo qual os Banu Hashim haviam sido confinados no vale de Abu Talib. Quando a fome e o sofrimento da tribo Banu Hashim atingiram proporções extremas, foram os próprios jovens árabes que rasgaram aquele documento do pacto. Uma característica importante da antiga sociedade árabe era que ela nutria simpatia pelos oprimidos. Já na sociedade árabe contemporânea, aqueles que mantinham a paciência diante da opressão eram ridicularizados, enquanto os opressores eram vistos com respeito.
Outra razão era que, naquela época, o número de muçulmanos era muito pequeno, e a pregação islâmica ainda não havia se difundido para além de Meca. Em algumas regiões, haviam chegado apenas notícias vagas sobre isso. Os membros das demais tribos consideravam o assunto uma questão interna dos coraixitas e esperavam para ver qual seria o resultado do conflito. Se naquela época tivesse ocorrido uma guerra, havia o risco de que a pequena comunidade muçulmana fosse completamente exterminada. Embora eles fossem capazes de matar inimigos várias vezes mais numerosos que eles próprios, não havia de modo algum possibilidade de que sobrevivessem. Isso porque eram muito poucos. Se todos eles perdessem a vida como consequência do início prematuro da guerra, o politeísmo permaneceria estabelecido e o objetivo de fundar uma sociedade islâmica jamais poderia ser realizado. Mas o Islã veio ao mundo justamente para se tornar realidade. Portanto, não era adequado iniciar a guerra antes do momento oportuno.
Evitar a guerra armada por algum tempo mesmo após a Hégira
Mesmo depois da transferência do centro do movimento islâmico para Medina, as guerras e os combates permaneceram proibidos por algum tempo. Isso porque o Mensageiro de Allah (s.a.w.) firmou um tratado com os judeus e com os árabes politeístas que viviam dentro de Medina e nas suas proximidades, comprometendo ambas as partes a não se atacarem mutuamente. Nessa etapa do movimento, era extremamente necessário adotar uma medida desse tipo. O contexto desse tratado era o seguinte:
Primeiramente, havia sido estabelecida em Medina plena liberdade para divulgar a mensagem do Islã e expressar opiniões. Como não havia em Medina nenhuma autoridade capaz de interferir na aceitação ou rejeição das opiniões do povo, todos os habitantes de Medina haviam reconhecido o recém-estabelecido Estado islâmico e aceitado a liderança do Profeta de Allah para resolver todos os seus problemas políticos. Por isso, o tratado estipulava que nenhum habitante de Medina poderia, sem a autorização do Profeta de Allah, firmar um tratado de paz, declarar guerra ou estabelecer qualquer outro tipo de relação com alguém de fora. Nessas circunstâncias, o poder político em Medina estava nas mãos da liderança muçulmana, e ali prevalecia plena liberdade de expressão.
Em segundo lugar, nessa etapa o Mensageiro (s.a.w.) desejava concentrar todas as forças e dar uma solução definitiva à oposição dos coraixitas. Isso porque a oposição daquela tribo havia se tornado um obstáculo para que os membros das outras tribos aceitassem a religião; eles aguardavam para ver o resultado desse “conflito interno” dos coraixitas. Por isso, sem perder tempo, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) enviou pequenos destacamentos em várias direções. O comandante do primeiro destacamento que ele enviou foi Hamza ibne Abdul Mutallib (r.a.).
Antes que se completassem seis meses após a Hégira, este exército foi enviado no mês de Ramadan. Depois deste exército, o Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, continuou enviando sucessivamente um destacamento militar após outro: o primeiro após a Hégira, o segundo treze meses depois e o terceiro no início do décimo sexto mês. No início do décimo sétimo mês após a Hégira, foi enviado um destacamento sob o comando de Abdullah ibn Jahsh, e foi nesta expedição que ocorreu derramamento de sangue. Era o mês de Ramadan — segundo as normas reconhecidas pelos árabes, os combates eram proibidos nesse mês. Sobre isso, o Alcorão Sagrado discorre nos seguintes termos:
——————————————————————————————– “Perguntam-te, ó Profeta, sobre combater no mês sagrado. Dize: combater nesse período é grave; porém, impedir as pessoas de seguir o caminho de Allah, negar Allah, impedir os servos de Allah de chegarem à Mesquita Sagrada e expulsar dela os seus habitantes é ainda mais grave aos olhos de Allah. Essas injustiças são mais abomináveis do que o derramamento de sangue.” — Al-Baqara: 217
A batalha de Badr ocorreu no mês abençoado de Ramadan, no segundo ano após a Hégira. Também foi feita uma menção a esse respeito na Surata Al-Anfal.
Ao examinar de modo abrangente esta etapa do movimento islâmico, vê-se que não há razão plausível para chamar o jihad islâmico de luta defensiva. Isso não passa de uma infâmia cometida por pensadores influenciados pelos ataques de escritores ocidentais enganadores. À medida que sua relação com o Islam foi se enfraquecendo, os muçulmanos perderam sua glória e superioridade e assumiram um papel débil; e foi justamente essa oportunidade que o círculo de escritores ocidentais contrários ao Islam aproveitou para lançar ataque após ataque contra o ideal islâmico. Sentindo a intensidade de seus ataques violentos, um grupo de “pesquisadores” muçulmanos de coração fraco esforçou-se para interpretar o jihad islâmico como “guerra defensiva”. Pela grande graça do próprio Allah, um grupo de muçulmanos firmes permaneceu livre da influência dessas calúnias e declarou corajosamente que o objetivo do Islam é libertar completamente a humanidade da servidão a todas as autoridades além de Allah e consagrar o din exclusivamente ao único e incomparável Allah. Porém, excetuando-se esse pequeno número de pessoas, todos os chamados pensadores continuam empenhados em agradar o grupo adversário, apresentando argumentos de ordem moral em favor do jihad islâmico. Mas, depois da declaração feita pelo próprio Allah no Alcorão Sagrado para explicar a legitimidade da política de guerra islâmica, não há absolutamente espaço para apresentar qualquer outro argumento.
——————————————————————————————–“Aqueles que vendem a vida mundana em troca da Vida Futura são os que estão aptos a lutar no caminho de Allah. E quanto àqueles que lutam no caminho de Allah, quer sejam vitoriosos, quer sejam mortos, Nós lhes concederemos uma recompensa abundante em ambos os casos. O que vos acontece, para que não luteis no caminho de Allah, enquanto homens, mulheres e crianças indefesos clamam a Allah, dizendo: ‘Senhor nosso! Retira-nos desta cidade cujos habitantes são injustos e envia-nos, da Tua parte, um protetor e um auxiliador’? Os que creem lutam no caminho de Allah, enquanto os incrédulos lutam no caminho do taghut. Combatei, pois, contra as forças de Satanás. Certamente, a astúcia de Satanás é débil.” — An-Nisa: 74–76
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“Dize aos incrédulos que, se ainda retornarem ao caminho reto, ser-lhes-á perdoado tudo o que já ocorreu. Mas, se repetirem sua conduta anterior, o destino das nações precedentes é conhecido por todos. Ó crentes! Combatei os incrédulos até que a fitna seja completamente eliminada e reste somente o din de Allah, o Altíssimo. Se então se abstiverem da fitna, sabei que Allah observa todas as suas ações. Mas, se desobedecerem, lembra-te, ó Profeta, de que Allah é o teu Protetor e o melhor dos auxiliadores.” — Al-Anfal: 38–40
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“Lutai contra aqueles, dentre o Povo do Livro, que não creem em Allah nem no Último Dia, que não abandonam aquilo que Allah e o Mensageiro declararam haram e que não adotam o dīn da verdade como seu sistema de vida, até que se submetam. Os judeus dizem: ‘Uzair é filho de Allah’, e os cristãos dizem: ‘O Messias é filho de Allah’. Essas são apenas palavras sem fundamento, meras repetições do que diziam seus antecessores desviados. Que Allah os destrua! Como estão sendo desviados! Eles tomaram seus doutores e monges como senhores, em lugar de Allah, e também o Messias, filho de Maria. Contudo, foi-lhes ordenado adorar somente a Allah; não há divindade digna de adoração além d’Ele. Ele está absolutamente acima das afirmações idólatras que proferem. Eles desejam apagar, com seus sopros, a luz de Allah. Mas Allah não deixará de completar a luz de Seu dīn, ainda que isso seja insuportável para os incrédulos.”
— At-Tawbah: 29–32
O resumo do que foi dito nos versículos acima sobre a racionalidade e a importância do jihād é o seguinte:
O objetivo do jihād é estabelecer no mundo o domínio absoluto de Allah, concretizar na vida humana o dīn da verdade enviado por Allah, eliminar toda força satânica e todo sistema de vida criado por Satanás e pôr fim ao domínio dos seres humanos sobre outros seres humanos. O ser humano foi criado unicamente para servir a Allah. Portanto, nenhum ser humano tem o direito de estabelecer seu domínio sobre outro ser humano nem de promulgar leis e normas conforme sua própria vontade. Os assuntos mencionados acima exigem o início do jihād. Ao mesmo tempo, também se deve obedecer à orientação do trecho do versículo ———————— (Não há compulsão na religião). Isto é, depois de libertar-se do domínio e da autoridade dos seres humanos, somente o domínio de Allah permanecerá estabelecido. A religião pertencerá unicamente a Allah. Ninguém poderá ser forçado a aceitar o Islã.
O que se compreende da discussão acima sobre a importância do jihād é que o Islã propôs o caminho do jihād precisamente para garantir ao ser humano uma vida verdadeiramente livre. Ao libertar o ser humano da servidão a outros seres humanos, Allah é Único e Incomparável, e ninguém é igual a Ele. Naturalmente, o ser humano não pode inclinar a cabeça diante de nenhuma força além de Allah. Não será esta única razão suficiente para iniciar o jihād? Por isso, os mujāhidin muçulmanos sempre participavam do jihād movidos pela atitude acima descrita. Quando questionado sobre o objetivo da guerra, nenhum mujāhid dizia: “Meu país está em perigo, por isso estou lutando”, ou: “A Pérsia e Roma nos atacaram, por isso luto em autodefesa”, ou: “Estamos lutando para expandir o reino e apoderar-nos dos despojos de guerra”. Por outro lado, foi exatamente isso que Rabi ibn Amir, Hudhayfa ibn Muhassin e Mugira ibn Shu‘ba responderam às perguntas do comandante persa Rustum. Até três dias antes da batalha de Qadisiyya, o comandante Rustum perguntou separadamente aos três mujāhidin mencionados: “Com que objetivo viestes lutar?” Eles responderam: “Allah nos ordenou que libertássemos as pessoas da servidão a outras pessoas e as conduzíssemos para o domínio do Allah Único; que as retirássemos dos limites da estreiteza e as conduzíssemos ao vasto campo da Terra; e que, libertando-as da opressão das normas religiosas falsas, lhes déssemos lugar à sombra acolhedora da justiça islâmica. Foi para cumprir esse objetivo que Allah enviou o Profeta à sociedade humana com um sistema de vida.”
“Quanto aos que aceitam o sistema de vida que mencionamos, aceitamos sua declaração, retiramo-nos e devolvemos-lhes seu país. Quanto aos que se rebelam contra o dīn de Allah, lutamos contra eles e continuamos essa luta até que alcancemos o martírio e entremos no Paraíso, ou até que nossa vitória sobre o inimigo se concretize.”
Outra razão para o jihād
As razões do jihād mencionadas estão profundamente enraizadas na própria essência do Islã. Do mesmo modo, a proclamação da liberdade universal em relação à servidão aos homens sedentos de poder, o enfrentamento integral da situação real existente na sociedade humana e a utilização dos meios e recursos apropriados em cada etapa do progresso são aspectos incluídos nas exigências práticas deste dīn. Na própria proclamação do chamado deste dīn está implícita a declaração do jihād. Haja ou não possibilidade de ataque contra o Estado Islâmico por parte de forças hostis, seu espírito de jihād não pode sofrer qualquer alteração por causa disso. A situação existente na sociedade não islâmica e o início do movimento islâmico são ambos conflitantes entre si. Portanto, o jihād não é uma atividade limitada apenas à necessidade temporária de defesa do país ou de autodefesa. Nenhum muçulmano participa do jihād sacrificando a própria vida e seus bens para satisfazer interesses pessoais e a ganância.
Antes de entrar no campo do jihad, o mujahid precisa vencer outro grande jihad. Trata-se de superar Satanás, que lhe sussurra más sugestões no coração; seus próprios desejos e paixões; seus interesses pessoais, prazeres e comodidades; a questão dos interesses de sua família e de seu próprio povo; e todas as demais coisas desse gênero que se interpõem no caminho da adoração de Allah e do estabelecimento da soberania de Allah na Terra. Somente depois de superar esses obstáculos é que o homem verdadeiramente crente pode descer ao campo do jihad. E a grande inspiração que constitui o objetivo da vida dos mu’min mujahid consiste em travar uma luta intransigente contra todos os tipos de movimentos, palavras de ordem e doutrinas contrários ao Islã existentes na sociedade, para eliminar o falso domínio e estabelecer o governo de Allah.
O Islã e a defesa da pátria
Aqueles que desejam limitar o jihad islâmico à defesa do país pretendem diminuir a grandeza do modo de vida islâmico. Eles querem dizer que o ideal islâmico não é mais importante que a pátria. O Islã não apoia a perspectiva pela qual um modo de vida não islâmico considera a pátria e outras coisas semelhantes. Essa visão deles nasceu nas condições da era moderna. Essa visão e esse sentimento não são de modo algum compatíveis com o ideal islâmico.
À luz do ideal de vida islâmico, o objetivo do jihad islâmico é preservar a crença e a doutrina do dīn; ou preservar o modo de vida que apresenta a imagem concreta da crença e da doutrina islâmicas; em outras palavras, preservar esse modo de vida ideal. Para o Islã, um território não tem valor algum. Um território só pode adquirir dignidade quando o modo de vida concedido por Allah se estabelece nele, quando nele é erguida uma fortaleza da crença e da doutrina islâmicas. Esse território torna-se a pátria do ideal islâmico (Dār al-Islām) e o centro da vida livre e emancipada da humanidade. Nessas condições, defender o território mencionado significa preservar a crença e a doutrina islâmicas — preservar a estrutura social que representa o modo de vida e o ideal islâmicos. Mas a mera defesa não pode ser o objetivo fundamental e último do jihad islâmico. A defesa de Dār al-Islām tampouco é o objetivo fundamental do jihad islâmico. A defesa de Dār al-Islām é apenas uma oportunidade para estabelecer o sistema de governo de Allah. Além disso, a partir do centro do farol islâmico que é Dār al-Islām, os raios luminosos do ideal de vida islâmico se espalharão por todos os cantos do mundo e garantirão à sociedade humana liberdade e emancipação. Como já mencionei, o objetivo do dīn do Islã é o bem-estar de toda a sociedade humana, e o mundo inteiro é o seu campo de ação.
O jihad como exigência intrínseca do Islã
Da discussão acima, soubemos que existem alguns obstáculos terrenos no caminho do estabelecimento do governo de Allah no mundo. O sistema social vigente, a política antissocial e o ambiente de toda a sociedade humana, entre outros, constituem, cada um deles, um obstáculo no caminho do Islã. Para remover esses obstáculos, o Islã emprega a força. O objetivo desse emprego da força é fazer chegar a mensagem do Islã a cada pessoa, remover os obstáculos que impedem cada indivíduo de examinar a lei islâmica e, assim, criar a oportunidade de transmitir a mensagem imortal do Islã às pessoas em um ambiente livre e independente. O jihad é um meio indispensável para libertar as pessoas dos grilhões dos falsos deuses e oferecer-lhes a oportunidade de avaliar livremente o bem e o mal.
Não devemos ficar confusos ou amedrontados por causa da propaganda que os escritores ocidentais vêm promovendo contra o jihad. De modo algum é correto que, influenciados por um ambiente hostil ou pela oposição das grandes potências, formulemos para o jihad uma interpretação compatível com o modo de vida islâmico. O jihad é uma prescrição eterna. Haja ou não necessidade de defesa e razões militares, a necessidade do jihad jamais desaparecerá. Ao estudar os altos e baixos da história, não se pode ignorar a corrente de pensamento existente entre a natureza desse modo de vida, sua proclamação de libertação universal e seu programa prático de ação. Misturar as razões militares e a necessidade de defesa com o objetivo fundamental do dīn seria um passo extremamente equivocado.
Naturalmente, adotar todas as medidas necessárias para a autodefesa contra os ataques de inimigos externos é uma exigência deste dīn. Declarar a soberania de Allah, divulgar a mensagem para libertar a sociedade humana da servidão a outros além de Allah, lançar, com base nessa declaração e divulgação, um movimento revolucionário, manifestar desconfiança em relação à liderança não islâmica e construir um novo tipo de liderança — tudo isso também constitui o objetivo do dīn. Assim que se proclama o propósito de estabelecer o domínio absoluto do único Allah Ta’ala, rejeitando completamente o domínio humano, a sociedade jāhilī, que reconhece o domínio humano, ataca vigorosamente o Islã para preservar sua própria existência. Naturalmente, o movimento islâmico será obrigado a adotar medidas defensivas para manter sua existência. É perfeitamente natural que uma situação desse tipo surja já no início do movimento islâmico. É irrelevante perguntar se o Islã deseja ou não esse tipo de conflito, pois tal conflito é imposto ao movimento islâmico. Como a coexistência de dois ideais de vida mutuamente opostos não é possível, a necessidade de cada um preservar sua própria existência os leva ao conflito. É justamente por causa dessa verdade concreta que o Islã não tem outra alternativa senão travar uma luta defensiva.
Não há compromisso algum com a Jahiliyyah
Outra característica ainda mais importante do sistema de vida islâmico é que, por sua própria natureza, o Islã está determinado a libertar completamente toda a humanidade da servidão a qualquer outro que não seja Allah. Portanto, esse sistema de vida não pode confinar-se a um círculo limitado, seja geográfico, tribal ou de qualquer outra natureza, e deixar os povos do mundo inteiro submetidos à servidão de outrem. Em determinado momento, os opositores do Islã podem decidir, como estratégia, não adotar medidas agressivas contra o movimento islâmico. Em troca, podem solicitar que lhes seja permitido manter o sistema social jahili em seus territórios e que o empreendimento islâmico de estabelecer, em suas regiões, o certificado de libertação da humanidade seja adiado. O Islã não aceitará um “cessar-fogo” desse tipo. Contudo, se os opositores aceitarem a autoridade do Islã e concordarem em pagar a jizya, sua segurança será assegurada. Isso porque, nesse caso, eles se comprometem a não criar, por meio do poder político, obstáculos à divulgação da mensagem do Islã. Essa é a própria natureza desta religião. Proclamar a soberania de Allah e conduzir o empreendimento de estabelecer, em toda parte do mundo, a adoração somente a Ele: esse é o seu método de ação. O início desse movimento em uma área geográfica e sua limitação a uma nacionalidade geográfica não são a mesma coisa. No primeiro caso, esse território é o centro de um movimento revolucionário dinâmico; no segundo, o Estado nacional é apenas um território inerte, abstido de toda atividade revolucionária.
Para compreender o papel revolucionário do Islã, é necessário lembrar que o Islã é a lei de Allah concedida à humanidade. Nenhum indivíduo, grupo, classe ou tribo elaborou essa lei. Portanto, não há necessidade de buscar causas externas para justificar a legitimidade do jihad islâmico. Ao buscar tais causas, essas pessoas esquecem que a eliminação dos falsos deuses, mediante o estabelecimento no mundo do Estado ordenado por Allah, faz parte do programa desta religião. Para aqueles em cujos corações permanece vivo esse programa revolucionário da ideologia islâmica, não há necessidade alguma de apresentar causas externas em apoio ao jihad.
Duas concepções sobre o jihad islâmico
Desde o primeiro estágio, não é possível perceber a diferença entre duas concepções acerca do jihad islâmico. Uma concepção é que o Islã teve de lutar contra a Jahiliyyah contra a sua própria vontade, pois o seu surgimento obrigou a Jahiliyyah a atacá-lo. E, nessa situação, o Islã foi obrigado a pegar em armas para se defender. A outra concepção é que o próprio Islã avançou e desferiu um golpe contra a Jahiliyyah, envolvendo-se finalmente em uma guerra feroz contra ela. No estágio inicial do pensamento, a diferença entre essas duas concepções não ficará clara, pois ambas obrigam o Islã a entrar no campo de batalha. Mas, ao chegar ao destino, ficará evidente que há uma diferença abissal entre as ideias que os defensores dessas duas correntes sustentam sobre o objetivo e o significado do Islã.
Há uma enorme diferença entre aceitar o Islã como um sistema de vida concedido por Allah e, por outro lado, considerá-lo uma ideologia regional. Segundo a primeira concepção, o objetivo do sistema de vida islâmico é estabelecer a soberania de Allah no mundo, para que as pessoas possam aceitar a servidão a Allah. Nessa sociedade, a Shariah divina é a lei suprema. Essa é a verdadeira natureza do Islã, e é o próprio Islã que ordena a erradicação de todas as forças que obstruem a realização de seu objetivo. Pois somente por esse meio é possível libertar a sociedade humana dos grilhões dos sistemas de governo inventados pelo homem e dos vínculos sociais. Segundo a segunda concepção, por considerar o Islã uma ideologia regional, quando uma potência estrangeira ataca os habitantes daquele território específico, o povo daquela região é obrigado a lutar em legítima defesa. A diferença entre essas duas concepções é extremamente clara. Em ambos os casos, naturalmente, o Islã ordena o jihad. Contudo, se o jihad tiver início em dois contextos distintos, sob a influência das duas concepções mencionadas, suas causas, objetivos e resultados serão necessariamente completamente diferentes, tanto em sua perspectiva fundamental quanto em seu método prático de ação.
É verdade que o Islã toma a iniciativa do jihad, mas o Islã não é propriedade de nenhum país ou nação. Essa ideologia de vida concedida por Allah foi revelada para promover o bem de todo o mundo. Portanto, é extremamente necessário eliminar os sistemas sociais e os costumes que privam as pessoas de sua liberdade e mantêm a humanidade acorrentada à servidão. O Islã não ataca os povos — não deseja impor à força a sua ideologia a ninguém. Sua oposição é contra costumes e ideologias. É por meio da transformação dos costumes e das ideologias que a sociedade humana pode ser libertada da influência venenosa de ideologias equivocadas.
O Islã jamais pode desviar-se do objetivo de libertar o ser humano da servidão ao ser humano e colocá-lo a serviço do único e singular Allah. E é precisamente para alcançar esse objetivo que o Islã, por meio do movimento islâmico, oferece às pessoas a oportunidade de experimentar plenamente a liberdade. Tanto no aspecto das crenças fundamentais quanto no do programa prático da ideologia islâmica, a verdadeira liberdade humana só pode ser alcançada por meio do sistema social islâmico. Para governantes e governados, brancos e negros, ricos e pobres, parentes próximos e não parentes, somente a lei de Allah pode ser imparcial e benéfica. Pessoas de todas as classes devem obedecer igualmente a essa lei. Nos demais sistemas de vida, as pessoas tornam-se servas umas das outras. A elaboração das leis é uma parcela do poder de Allah. Aquele indivíduo ou grupo que reivindica o direito de elaborar leis para as pessoas está, em última instância, reivindicando a autoridade de Allah. Quer isso seja pronunciado verbalmente ou não, na prática, reivindicar o direito de elaborar leis não é outra coisa senão reivindicar a autoridade de Allah.
A concepção equivocada do Ocidente sobre o jihad
Entre nossos escritores muçulmanos, aqueles que se deixaram confundir pelas condições da época atual e pelas críticas enganosas dos escritores ocidentais não estão dispostos a reconhecer esse papel revolucionário do modo de vida islâmico. Os escritores ocidentais retrataram o Islã como uma ideologia sedenta de sangue. Eles procuram convencer os crentes de que o Islã quer impor sua própria ideologia aos outros pela força da espada. Contudo, sabem muito bem que o Islã não é assim. Ainda assim, recorrendo à fraude, tentam distorcer os princípios fundamentais e as causas do jihad islâmico. Influenciados por esse tipo de propaganda dos escritores ocidentais, alguns de nossos escritores muçulmanos também vieram a campo com o propósito de lavar da testa do Islã a “marca de desonra” do jihad e, mediante argumentos complexos, procuram provar que o jihad islâmico é apenas uma guerra defensiva. Entretanto, ignoram a natureza e o objetivo fundamental do modo de vida islâmico. Nem sequer sabem que, como ideologia benéfica para o mundo, dar passos à frente é uma exigência inerente ao Islã. Na mente dos chamados pesquisadores cuja mentalidade foi influenciada por outras nações, é o pensamento ocidental sobre a religião que permanece ativo. A crença ocidental é que religião é o nome de uma crença e que seu lugar é o coração humano; a religião não tem qualquer relação com a vida prática.
Mas o Islã jamais ensinou esse tipo de doutrina religiosa. E jamais se ergueu a bandeira do jihad sob a influência de uma crença semelhante à do Ocidente. O Islã é o sistema estabelecido por Allah para a vida humana. A instituição da soberania exclusiva de Allah por esse sistema de vida é a demonstração de servi-Lo e obedecer-Lhe. Desde os grandes problemas da vida humana até as questões mais pequenas do cotidiano, é o Islã que pode oferecer a solução para todos os problemas. O esforço total para estabelecer no seio da sociedade, como ideologia vitoriosa, esse sistema de Allah constitui o jihad. Contudo, a liberdade de cada pessoa será preservada no âmbito de suas crenças pessoais. O Islã deseja remover os obstáculos impostos por aqueles que não reconhecem a liberdade humana de professar opiniões e de aceitá-las ou rejeitá-las, para realizar plenamente sua própria ideologia. Como indivíduo, cada pessoa tem liberdade para adotar ou rejeitar qualquer crença ou opinião. Pode-se compreender facilmente que existe uma diferença abismal entre o ideal islâmico e a concepção ocidental de religião. Portanto, onde quer que se forme uma sociedade que seja um modelo concreto do sistema de vida islâmico, será dever do povo, por direito concedido por Allah, avançar, assumir o poder político e implementar o sistema de vida islâmico. Naturalmente, já foi mencionado anteriormente que o Islã reconhece a liberdade das pessoas no que diz respeito às crenças pessoais.
No início do Islã, Allah Ta’ala proibiu temporariamente a Ummah muçulmana de empreender o jihad. Isso fazia parte de um plano de longo prazo — não era uma decisão de princípio. É à luz dessa discussão que poderemos compreender o significado dos versículos do Alcorão relacionados ao jihad. Isso porque diferentes versículos foram revelados conforme as necessidades das diversas etapas do movimento islâmico em progressão. Ao analisar esses versículos, devemos lembrar que eles atendiam a dois tipos de necessidades. Para extrair o significado dos versículos revelados em cada etapa do movimento, é necessário recordar essa etapa e seu contexto. O outro aspecto dos versículos é seu ensinamento permanente. Esses ensinamentos permanentes não são mutáveis em nenhuma circunstância. Ao conduzir o movimento islâmico e buscar orientação nas determinações do Alcorão, não se pode confundir essas duas naturezas acima mencionadas dos versículos e das instruções corânicas.
Quinto capítulo
O sistema de vida islâmico
O fundamento do ideal de vida islâmico é “La ilaha illallah”, isto é, não há divindade além de Allah. Essa declaração constitui o primeiro pilar da crença islâmica, ou a primeira parte da kalima da shahada. Essa parte contém o reconhecimento de que ninguém é digno de adoração além de Allah. “Muhammadur Rasulullah” é a segunda parte da crença islâmica, ou da kalima da shahada. Essa parte consiste em aceitar como correta a via demonstrada por Muhammadur Rasulullah (que a paz esteja sobre ele) para adorar Allah Ta’ala.
Essa kalima (declaração), com as duas partes mencionadas, fixa-se profundamente no coração de todo mu’min. Isso porque os demais elementos da fé e os pilares subsequentes do Islã são consequências dessa declaração. Naturalmente, a fé nos anjos, nos Livros celestiais, nos profetas (que a paz esteja sobre eles), na Vida Futura, no bem e no mal do qadar e em outros assuntos, assim como todas as ações — salat, sawm, zakat, hajj, a distinção entre halal e haram, as transações, as leis, os conselhos, o ensino e assim por diante — só podem ser realizadas por meio da adoração a Allah Ta’ala e da obediência ao Rasulullah (que a paz esteja sobre ele).
A sociedade islâmica apresentará a imagem concreta da Kalima da Shahada e de suas exigências. A sociedade na qual a realidade da Kalima da Shahada não se manifesta não é uma sociedade islâmica. Portanto, a Kalima da Shahada é a base de um sistema de vida completo, e é sobre essa base que se ergue o grandioso edifício da comunidade muçulmana. Se essa base não for estabelecida solidamente, não será possível elaborar um modo de vida. A sociedade que se formar mediante a adoção de outra base em lugar desta, ou mediante a combinação parcial de outro sistema com esta base na tentativa de elaborar um código de vida, não poderá, de modo algum, ser chamada de sociedade islâmica. Allah, o Altíssimo, declarou:
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“O direito de ordenar pertence exclusivamente a Allah. Ele ordenou que ninguém, além d’Ele, seja adorado. E este é o sistema de vida firmemente estabelecido.” — Yûsuf: 40
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“Quem obedece ao Mensageiro, na verdade obedece a Allah.” — An-Nisâ’: 80
Esta declaração breve, porém decisiva, orienta-nos na elaboração do programa para conduzir o movimento da religião da verdade e de seu estabelecimento. Primeiro, ela determina a natureza da sociedade islâmica. Segundo, esclarece o método de formação da sociedade islâmica. Terceiro, indica quais medidas devem ser tomadas com o objetivo de transformar a sociedade jahilí. Quarto, explica os meios para mudar as normas e os sistemas vigentes na sociedade humana. Em todas as etapas do movimento islâmico, a necessidade de orientações corretas sobre essas questões existiu no passado, continua existindo no presente e continuará existindo no futuro.
Características da sociedade islâmica
A característica da sociedade islâmica é que todos os seus assuntos são conduzidos exclusivamente com base na servidão a Allah, o Altíssimo. A Kalima da Shahada reconhece precisamente essa servidão e determina seus meios e métodos. As crenças da sociedade, todos os atos de adoração, as leis, os costumes e as normas constituem apenas exemplos concretos dessa servidão. Aquele que não crê na unicidade de Allah, na realidade, não está disposto a servir ao Allah Único e Incomparável.
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“E Allah proibiu que se obedecesse a duas divindades. Há apenas uma divindade. Portanto, temei somente a Mim. Tudo quanto existe nos céus e na terra pertence a Ele, e somente a Sua religião vigora. Ainda assim, temereis outros além de Allah?” — An-Nahl: 51-52
Do mesmo modo, aquele que se submete diante de qualquer outra força além de Allah, ou considera essa força uma associada de Allah, não pode ser servo do Deus Uno e Único.
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“Dize (ó Profeta!): Minha oração, meu sacrifício, minha vida e minha morte pertencem todas a Allah, o Senhor dos mundos. Ele não tem associado algum. Foi-me ordenado isso, e sou o primeiro dos que se submetem.” — Al-An’am: 162-163
Além disso, aquele que abandona as leis estabelecidas pelo Mensageiro (que a paz esteja com ele) e começa a formular leis a partir de outra fonte também fica privado da adoração sincera a Allah.
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“Acaso tomaram como associada, na autoridade, alguma divindade além de Allah? E essa força instituiu para eles um sistema equivalente à religião, sem a permissão de Allah?” — Ash-Shura: 21
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“Aceitai o que o Mensageiro vos concede e abstende-vos daquilo que ele vos proíbe.” — Al-Hashr: 7
Esta é a fonte da autoridade na sociedade islâmica. Na sociedade, a servidão a Allah manifesta-se na crença, na fé e na conduta de cada indivíduo. Da mesma forma, se a servidão a Allah não se refletir em sua adoração e seus rituais, bem como na administração coletiva, nas leis e nos princípios sociais, essa sociedade ficará privada do Islã em sua plenitude. Pois, em razão de tal vazio, não é possível construir uma sociedade sobre a base da kalima da shahada.
Somente assim uma sociedade pode transformar-se em uma sociedade islâmica. Enquanto um grupo não adotar plenamente, com total sinceridade, a atitude de servidão a Allah, não poderá ser reconhecido como um grupo islâmico, nem uma sociedade poderá ser reconhecida como sociedade islâmica. Pois não há possibilidade de uma sociedade islâmica surgir enquanto o primeiro fundamento da sociedade islâmica — a kalima “La ilaha illallah, Muhammadur Rasulullah” — não assumir forma em todos os níveis da sociedade.
Por isso, o primeiro passo para empreender o estabelecimento de uma sociedade islâmica deve ser libertar o coração das pessoas da tendência à servidão e à obediência a todas as forças além de Allah. Somente aqueles cujos corações se libertaram da servidão a outras forças e alcançaram a pureza se reunirão para formar uma ummah. Somente aqueles cuja ummah estiver completamente livre, em todas as questões — crenças, fé, adoração, leis e outras — da obediência a todas as forças além de Allah serão dignos de estabelecer uma sociedade islâmica. Aqueles que desejarem viver uma vida islâmica entrarão voluntariamente nessa sociedade, e suas crenças, sua adoração e servidão, e todos os seus costumes serão consagrados exclusivamente ao Allah Único. Em uma palavra, a vida dessas pessoas dará forma concreta à kalima “La ilaha illallah, Muhammadur Rasulullah”.
A primeira ummah muçulmana foi formada dessa maneira, e, como consequência natural da formação dessa ummah, a sociedade islâmica passou a existir. Este é o único caminho para formar a ummah muçulmana e estabelecer a sociedade islâmica.
O método para formar uma sociedade islâmica
Uma sociedade islâmica só pode ser estabelecida depois que o indivíduo e a coletividade abandonarem conjuntamente, por completo, a servidão a todas as forças além de Allah. É necessário libertar-se de ambos os tipos de submissão: tanto da obediência total a outras forças quanto da obediência misturada à obediência a Allah, o Altíssimo. Pois Allah, o Altíssimo, não tem associado algum. É necessário tomar a resolução de conduzir a vida com base nessa submissão a Allah, o Altíssimo. Dessa resolução nascerá uma nova ummah. No seio da antiga sociedade estabelecida sobre a jahiliyyah surge uma nova sociedade; por meio de novas crenças, de uma nova ideologia e de um novo modo de vida, essa nova sociedade assume a forma plena da kalima “La ilaha illallah, Muhammadur Rasulullah”. A antiga sociedade da jahiliyyah pode dissolver-se nessa nova sociedade, tentar chegar a um acordo com ela ou também lutar contra ela. Sabemos pela história que a sociedade jahili declarou guerra contra os iniciadores do movimento já na primeira iniciativa de estabelecer uma sociedade islâmica. Assim que um pequeno número de pessoas respondeu ao chamado do movimento, a luta começou por parte da jahiliyyah. Quando o movimento ganhou força, sua luta tornou-se mais intensa. Mesmo depois do estabelecimento da sociedade islâmica, os grupos portadores da bandeira da jahiliyyah continuaram lutando. Em resposta ao chamado de todos os profetas, desde Hazrat Nuh (A.S.) até Hazrat Muhammad (S.A.W.), a sociedade do falso seguiu o mesmo procedimento.
Portanto, é evidente que a ummah muçulmana não pode ser formada enquanto não adquirir a força necessária para repelir os ataques da jahiliyyah. E, mesmo que seja formada, de modo algum poderá sobreviver. É necessário adquirir força em todos os campos: a força da fé e da aqidah, a força do treinamento e da moralidade, a força para organizar uma ummah e mantê-la firme e, ainda que não seja para prevalecer sobre a falsidade, a força necessária para repelir os ataques das forças da falsidade é extremamente indispensável.
A jahiliyyah e seu remédio
Vejamos agora o que entendemos por sociedade baseada na jahiliyyah e como o Islã pretende enfrentar essa sociedade:
Todo sistema social que esteja fora da sociedade islâmica é uma sociedade baseada na jahiliyyah. Para defini-la de modo ainda mais claro, devemos dizer que é sociedade da jahiliyyah aquela cujas crenças, concepções, formas de adoração e costumes não são estabelecidos com base na submissão ao Deus Uno e Único.
Segundo essa definição, todas as sociedades existentes no mundo atual são sociedades da jahiliyyah.
A sociedade comunista é uma das sociedades jahilí. A primeira prova de nossa afirmação é que essa sociedade nega a existência de Allah, o Altíssimo, e acredita que todas as atividades humanas e a história humana são controladas pela economia ou pelos meios e fatores de produção. Em segundo lugar, todos os costumes dessa sociedade são estabelecidos com base na submissão ao Partido Comunista — e não a Allah. Em todos os países comunistas do mundo, o controle total e a liderança do país estão nas mãos do Partido Comunista. Além disso, a consequência prática desse sistema social é que as necessidades fundamentais dos seres humanos são consideradas no mesmo nível das necessidades dos animais. Nessa sociedade, não se considera nenhuma necessidade humana além das necessidades de alimento, bebida, vestuário, abrigo e impulso sexual. O sistema comunista abandonou por completo a questão do aperfeiçoamento espiritual do ser humano. Contudo, é precisamente nisso que se manifesta a diferença entre o ser humano e os animais. O primeiro passo do aperfeiçoamento espiritual é crer em Allah e ter liberdade para declarar publicamente essa crença. O mais importante é que esse sistema social priva o ser humano da liberdade de desenvolver sua individualidade. A individualidade humana se desenvolve por meio dos seguintes elementos:
Um: a propriedade de bens particulares.
Dois: a liberdade de escolher uma profissão.
Três: o direito e a oportunidade de adquirir especial habilidade em qualquer profissão.
Quatro: o direito de expressar sua atitude por meio das diversas artes.
É por meio dos aspectos acima mencionados que o ser humano alcança superioridade sobre os animais e as máquinas. Porém, por privar as pessoas desses aspectos, o sistema comunista as obriga a descer ao nível dos animais e das máquinas.
Na sociedade idólatra, a jahiliah também assume a mesma forma. Existem sociedades desse tipo na Índia, no Japão, nas Filipinas e na África. A jahiliah idólatra caracteriza-se da seguinte maneira:
Um: elas adoram, juntamente com Allah, outros deuses imaginários — e, em alguns casos, abandonam Allah e adotam outros deuses.
Dois: elas elaboraram regras e métodos detalhados para a adoração e o culto de vários deuses e deusas.
Da mesma forma, suas leis, normas e costumes — isto é, seu modo de vida — são formulados a partir de outras fontes, abandonando a Sharia concedida por Allah, o Altíssimo. Entre essas fontes estão os sacerdotes, astrólogos, feiticeiros, líderes da sociedade e organizações que assumem plena autoridade para elaborar leis em nome da nação, de um partido ou de qualquer outra coisa, sem atribuir a mínima importância à Sharia concedida por Allah. Contudo, o poder absoluto de legislar pertence a Allah, o Altíssimo, e essas leis só podem ser aplicadas segundo o método seguido pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
Todas as sociedades formadas por judeus e cristãos estão fundamentadas na jahiliah. Eles alteraram suas crenças fundamentais. E atribuíram alguns dos atributos de Allah a outras forças. Imaginam diversos tipos de relações entre Allah e os seres humanos. Creem que certas pessoas são filhos de Allah. Além disso, dividiram o Deus Único em três partes, criando a doutrina da Trindade. Às vezes, descrevem Allah de maneira estranha, embora essa descrição seja completamente diferente da verdadeira descrição de Allah.
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“Os judeus dizem: ‘Uzair é filho de Allah’. E os cristãos dizem: ‘Jesus é filho de Allah’. Imitando seus predecessores, eles repetem essas afirmações infundadas. Que Allah os destrua! Como estão sendo desviados! — At-Tawbah: 30
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“Com efeito, são incrédulos aqueles que dizem que Allah é um dos três. Pois não há divindade além do Deus Único. Se não desistirem dessas afirmações, aqueles dentre eles que são incrédulos serão submetidos a um castigo doloroso.” — Al-Ma’idah: 73
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“Os judeus dizem: ‘A mão de Allah está acorrentada’. Na verdade, são as mãos deles que estão acorrentadas, e eles foram amaldiçoados por suas palavras e ações indecorosas. As mãos de Allah estão livres, e Ele gasta como quer.”
— Al-Ma’idah: 64
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“Os judeus e os cristãos dizem que são filhos de Allah e Seus prediletos. Pergunta-lhes: se é assim, por que então sois punidos pelos vossos pecados? Na verdade, vós sois apenas seres humanos, como os demais servos criados por Allah.”
— Al-Ma’ida: 18
Todos os métodos de adoração, costumes, práticas e comportamentos dessas sociedades são formulados a partir de suas crenças e aqidas equivocadas; por isso, essa sociedade é uma sociedade jahiliah. Ela também é uma sociedade jahiliah porque todas as suas instituições, leis e regulamentos não foram formulados com base na submissão perante Allah, o Único e Incomparável. Eles não seguem a lei de Allah, nem estão dispostos a reconhecer as orientações de Allah como fonte da lei. Pelo contrário, conferiram aos conselhos legislativos compostos por seres humanos plena autoridade para elaborar as leis. Contudo, esse poder pertence exclusivamente a Allah. O Alcorão classificou como mushrik aqueles que, na época da revelação do Alcorão, haviam concedido aos seus líderes religiosos e sacerdotes o poder de elaborar leis.
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“Eles tomaram seus ulamas e sacerdotes como ‘senhores’, em vez de Allah, e também o Messias, filho de Maria. Contudo, não lhes foi ordenado adorar ninguém além do Allah Único. Não há ninguém digno de adoração além d’Ele. Allah está completamente livre das práticas associadas ao shirk por eles.” — At-Tawbah: 31
Essas pessoas não consideravam seus ulamas e sacerdotes como deuses, nem os adoravam. No entanto, seguiam as leis estabelecidas por esses líderes religiosos e sacerdotes. Allah, porém, não lhes havia dado permissão para fazer isso. Por essa razão, o Alcorão classificou os judeus e os cristãos daquela época como mushrik. A situação continua a mesma hoje; a única diferença é que o direito de elaborar leis foi retirado das mãos dos líderes religiosos e sacerdotes e confiado aos conselhos legislativos eleitos. É desnecessário dizer que os membros dos conselhos legislativos são, assim como os líderes religiosos, apenas seres humanos.
Por fim, também é digno de menção que as chamadas sociedades muçulmanas da época atual são igualmente sociedades jahiliah. Elas não professaram fé em quaisquer divindades além de Allah, nem se envolveram em sua adoração. Ainda assim, suas sociedades são sociedades jahiliah, pois não determinaram seu modo de vida com base na submissão a Allah, o Único e Incomparável. Apesar de acreditarem na unicidade de Allah, confiaram a pessoas semelhantes a elas o direito de formular e aplicar as leis e os preceitos de Allah; ao aceitarem os costumes, práticas, leis, regulamentos e valores de vida formulados pelos seres humanos, reconheceram a autoridade humana em quase todos os aspectos e áreas da vida.
Sobre o governo e a elaboração das leis, Allah, o Altíssimo, disse:
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“Aqueles que não julgam conforme o que Allah revelou são incrédulos.”
— Al-Maida: 44
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“(Ó Profeta!) Não viste aqueles que, de tempos em tempos, afirmam acreditar que tudo o que foi revelado a ti e aos que vieram antes de ti é verdadeiro? Contudo, levam suas disputas e questões ao tagute para que sejam julgadas, embora lhes tivesse sido ordenado que o rejeitassem. — An-Nissá: 60
Anteriormente, Allah Ta’ala declarou os judeus e os cristãos culpados desse crime e os acusou de se afastarem da adoração de Allah por meio do shirk e do kufr, bem como de atribuírem direitos divinos aos sacerdotes e monges. Hoje, os que reivindicam o Islã deixaram esses mesmos direitos nas mãos de algumas pessoas semelhantes a eles. Assim como Allah Ta’ala classificou como shirk o fato de os judeus e cristãos transformarem Isa, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele), em “Senhor” e “Deus” e adorá-lo, da mesma forma classificou como shirk conceder aos sacerdotes e monges o direito de elaborar leis e normas. Ele não fez distinção entre esses dois tipos de shirk. Ambos os atos significam abandonar a adoração de Allah Ta’ala, o Único e Incomparável, desviar-se do din de Allah e agir contra o testemunho de “Lá ilaha illallah”.
Mesmo entre os muçulmanos, muitos professam abertamente o secularismo. Eles não têm relação alguma com o din. Outros, depois de declararem verbalmente que creem no din, abandonam-no completamente na prática. Dizem que não creem nas coisas invisíveis. Alegam que querem construir sua vida social com base na ciência. Em sua opinião, a ciência e as coisas invisíveis são mutuamente contraditórias. É evidente que a causa de tais afirmações é a ignorância. Somente os ignorantes podem fazer afirmações desse tipo. Algumas sociedades entregaram a outros, além de Allah, o direito de elaborar leis e normas. Esses legisladores elaboram leis conforme seus próprios caprichos e dizem: “Esta é a Sharia de Allah.” Embora essas sociedades sejam de vários tipos, têm uma característica em comum: não se submeterem a Allah.
A discussão acima esclareceu a perspectiva do Islã sobre todos os tipos de sociedades jahiliyyah. Em uma palavra, o Islã considera essas sociedades não islâmicas. Quaisquer que sejam os rótulos externos das sociedades mencionadas, sua realidade interna é idêntica nesse aspecto. Ou seja, elas não elaboraram seu sistema de vida com base na submissão completa a Allah Ta’ala, o Único e Incomparável. Nesse sentido, seguem o caminho do kufr, conforme o costume das sociedades jahiliyyah.
Agora nos deparamos com a última questão. O assunto foi mencionado logo no início deste capítulo. A questão é: de que maneira o Islã purifica as atividades e ações humanas? Como o fez no passado e que meios empregará para isso no futuro próximo e distante? Na discussão intitulada “A natureza da sociedade muçulmana”, mostramos que essa sociedade toma decisões em todos os assuntos com base na plena submissão a Allah, o Altíssimo.
Depois de estabelecer as características da sociedade muçulmana, torna-se mais fácil para nós encontrar a resposta à seguinte questão: sobre que base será construído o modo de vida das pessoas? Será o dīn e o sistema de vida concedidos por Allah, o Altíssimo, que serão adequados à vida humana, ou um sistema elaborado pelos seres humanos?
Em resposta a essa questão, o Islã nos informa, em linguagem extremamente clara e enfática, que somente o dīn de Allah e o sistema de vida dele derivado constituem o sistema eficaz para a humanidade. Sem aceitar esse dīn, jamais poderá ser estabelecido o primeiro pilar do Islã: “Lā ilāha illā Allāh, Muḥammadun rasūlullāh”. E, em nenhum âmbito da vida, poderá ser percebida qualquer influência da kalimah. Sem adotar esse princípio com convicção e segui-lo fielmente, não pode haver plena submissão a Allah, o Altíssimo, de acordo com o ensinamento do Profeta. Allah, o Altíssimo, declarou:
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“Aceitai o que o Mensageiro vos der e abstende-vos daquilo que ele vos proibir.” — Al-Hashr: 7
Além disso, o Islã também colocou diante das pessoas a seguinte questão —
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Ou seja: “Foi-vos concedido apenas um conhecimento muito limitado.” É perfeitamente natural aceitar que Aquele em cujas mãos está o tesouro do conhecimento, sendo o Criador e Sustentador, é também o Governante dos seres humanos, e que somente o sistema de vida concedido por Ele pode ser o sistema de vida correto para a humanidade. É por Sua ordem que se estabelecerá a fonte das leis e normas. A desintegração e a corrupção surgem dos sistemas de vida e das leis elaborados pelos seres humanos. Pois o ser humano formula leis com conhecimento incompleto e, em alguns casos, com ignorância. Por isso, depois de algum tempo, essas leis tornam-se incompatíveis e inadequadas. Além disso, a ignorância e o conhecimento incompleto dão origem a diversas complicações.
A religião de Allah não é um conjunto de princípios temporários e vacilantes. Por meio da expressão “Muhammad é o Mensageiro de Allah” (s.a.), a segunda metade da declaração de fé, os princípios fundamentais do sistema de vida islâmico foram definidos de modo preciso e imutável. A concepção e os princípios do Islã estabelecidos por Muhammad (s.a.) são permanentes. Em qualquer assunto sobre o qual o Alcorão ou o Mensageiro (s.a.) tenha declarado claramente um princípio, esse princípio declarado será a base da decisão. Somente quando não houver uma instrução clara sobre determinado assunto é que se deverá tomar uma decisão por meio do ijtihad (reflexão e investigação). Contudo, deve-se lembrar que o ijtihad tem de ser exercido dentro dos limites dos princípios estabelecidos por Allah, o Altíssimo, e por Seu amado Mensageiro (s.a.). Não se pode tomar qualquer decisão de acordo com a própria vontade.
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“Se divergirdes sobre qualquer assunto entre vós, então devolvei-o a Allah e ao Mensageiro.” — An-Nisā’: 59
Também foram estabelecidas as regras e os métodos para fazer ijtihad e tomar decisões, por estimativa e analogia, sobre um assunto compatível com outro. Essas regras e métodos são extremamente claros e amplamente conhecidos. Contudo, ninguém tem o direito de declarar que as leis e normas elaboradas por si mesmo são a sharia de Allah. Mas, se se reconhecer a soberania de Allah e aceitar que somente Ele é o legítimo detentor do direito de formular as leis e normas de Allah, e, em vez de colocar qualquer nação, grupo ou indivíduo nessa posição, forem elaboradas leis com sinceridade de acordo com o Livro de Allah e a Sunnah do Mensageiro (s.a.), então tais leis e normas devem ser legitimamente reconhecidas como a sharia de Allah. Porém, ninguém tem o direito de, à maneira da Igreja europeia, usar o nome de Allah para elaborar leis conforme a própria vontade. O Islã não possui clericalismo. Além do Mensageiro de Allah (s.a.), nenhum ser humano recebeu autoridade para promulgar leis em nome de Allah.
O Islã impôs certas condições ao ijtihad e determinou seus limites. Ninguém tem autoridade para transgredir esses limites.
A expressão “o sistema de vida existe para a própria vida” é muitas vezes interpretada de maneira extremamente equivocada e utilizada de forma muito incoerente. Naturalmente, o Islã foi estabelecido para facilitar o caminho da vida humana. Mas que tipo de vida? O ideal de vida islâmico foi estabelecido com o objetivo de que os seres humanos vivam de acordo com o sistema de vida e os costumes formulados com base nos princípios próprios do Islã. Esse ideal de vida é inteiramente compatível com a natureza humana e capaz de satisfazer todas as necessidades das pessoas. Pois o Criador dos seres humanos conhece melhor as necessidades de Sua criação.
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“Aquele que criou não conheceria a criação? Ele é Sutil e perfeitamente informado de todas as coisas.” — Al-Mulk: 14
Não é função do dín permitir que o ser humano viva segundo a própria vontade e continue apoiando todas as suas ações, boas ou más. O dín é o critério do bem e do mal. Aquilo que, à luz desse critério, se comprova bom é aceitável, e aquilo que se comprova mau deve ser rejeitado. Se toda a estrutura da sociedade estabelecida estiver fundamentada em uma ideologia contrária ao dín, então o objetivo do Islã será transformar toda a estrutura social e estabelecer uma nova sociedade. Essa é, portanto, a interpretação correta da expressão “o sistema de vida existe para a própria vida”. Em outras palavras, o objetivo do dín, ou sistema de vida, é moldar a vida de acordo com esse sistema.
Pode-se perguntar aqui: não seria a promoção do bem-estar humano o melhor critério para resolver os problemas? Em resposta a essa pergunta, citamos novamente a questão levantada pelo Islã e a resposta dada pelo Islã. A pergunta é:
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“Vós sois mais conhecedores ou Allah? A resposta é:
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“Allah é o verdadeiro possuidor do conhecimento, e vós sois ignorantes.” — Aal Imran: 66
A Sharia que Allah Ta‘ala estabeleceu e que o Mensageiro (s.a.w.) nos transmitiu foi instituída precisamente para satisfazer as necessidades humanas. Se alguém pensa que não há benefício para os seres humanos em seguir o sistema de vida concedido por Allah, mas que o benefício reside na desobediência, então, antes de tudo, essa pessoa está mergulhada em uma concepção equivocada. Allah Ta‘ala disse sobre eles:
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“Eles seguem conjecturas e os desejos de sua própria alma. Entretanto, de seu Senhor chegou-lhes a orientação para a vida. Farão eles tudo o que desejarem? No entanto, todo o bem deste mundo e do Além está em Suas mãos.” — An-Najm: 23–25
Em segundo lugar, essa pessoa deve compreender que a atitude que adotou em relação à Sharia de Allah não passa de uma forma de kufr. Depois de alguém declarar que o bem e o benefício da humanidade residem na desobediência às determinações e proibições da Sharia, como pode ser reconhecido como seguidor do Din? Depois de violar a Sharia, ninguém tem qualquer possibilidade de ser considerado devoto.
Sexto capítulo
A visão de mundo universal da vida
O Islam estabelece a base da crença e da fé humanas nesta jornada da vida sobre a completa submissão a Allah. A forma dessa submissão a Allah manifesta-se pela manutenção da harmonia entre seu pensamento fundamental, os rituais de adoração e todas as normas e leis elaboradas para a condução da vida. A forma concreta da declaração “Lā ilāha illā Allāh” revela-se justamente na conduta humana própria de um servo. Em segundo lugar, para elaborar leis detalhadas em todos os campos da vida, é necessário seguir o caminho demonstrado por Muhammadur Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
As duas partes da declaração, unidas, determinam o esboço e as características da estrutura social construída sobre a base da visão islâmica da vida. Naturalmente, essa estrutura social dá origem a uma sociedade incomparável, completamente diferente de todas as sociedades criadas pelo ser humano. Essa sociedade nova e distinta instituída pelo Islam torna-se plenamente compatível com as leis naturais vigentes em todo o universo, incluindo o corpo humano.
Segundo a perspectiva islâmica, todo o universo é criação de Allah. Allah, o Altíssimo, deseja criar o universo e, como resultado, o vasto mundo passa a existir. Em seguida, Ele estabelece determinadas leis e normas para a criação, e esta começa a segui-las. É digno de nota que as normas vigentes nas diferentes partes da criação, conhecidas como leis naturais, são inteiramente harmoniosas e coerentes entre si.
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“Quando desejamos criar algo, basta dizer: ‘Sê’ — e isso acontece.” — An-Nahl: 40
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“Ele criou todas as coisas e determinou para cada uma delas o seu lugar exato.” — Al-Furqan:
Uma vontade invisível controla o mundo criado. Uma força imensa dirige cada átomo e molécula da criação. Uma lei firme mantém este vasto universo preso aos laços da ordem. É essa força que preserva o equilíbrio entre as diferentes partes da criação e controla o movimento do mundo em curso. Por isso, nunca ocorre choque entre as diferentes partes da criação. Em nenhum lugar surge desordem, sua marcha natural jamais é subitamente interrompida, e as forças presentes no universo nunca se separam umas das outras. Enquanto o Criador as conduzir dessa maneira, elas seguirão conforme a Sua vontade. Toda a criação é obediente ao Criador. O mundo criado não tem capacidade de violar a lei por Ele estabelecida nem de desobedecer-Lhe. É graças à obediência inabalável ao Criador e à completa submissão diante d’Ele que toda a criação se mantém bem e continua cumprindo incessantemente os seus próprios deveres, sem a menor desordem em parte alguma.
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“Certamente, Allah, o Altíssimo, é o vosso Senhor, que criou os céus e a terra em seis dias. Depois, estabeleceu-Se sobre o Trono. Ele cobre o dia com a escuridão da noite e faz a noite suceder ao dia. Foi Ele quem criou o sol, a lua e as estrelas. Todos são obedientes à Sua ordem. Lembrai-vos: a criação pertence-Lhe; portanto, esta criação seguirá a Sua ordem. Ele é o Altíssimo, o Soberano e Senhor de todo o universo.”
A parte biológica do corpo humano
O ser humano é uma parte deste grandioso universo. Assim como o mundo criado obedece a certas leis e normas, também a parte biológica do corpo humano as observa. Allah Ta’ala é o Criador do universo e do ser humano. O corpo humano foi criado a partir da terra. Contudo, Allah Ta’ala concedeu ao ser humano certas características, graças às quais ele alcançou uma dignidade muito superior à da terra, seu elemento básico de criação. Porém, em sua dimensão biológica, o corpo humano obedece, como o dos demais seres vivos, às leis e normas do mundo criado. O ser humano nasce pela vontade de Allah, e não pela vontade dos pais. Os pais podem unir-se um ao outro, mas não têm poder algum para formar uma figura humana a partir de uma única gota de sêmen. O ser humano nasce mediante o cumprimento das leis e normas estabelecidas por Allah acerca do início da vida humana no ventre materno, do período de permanência nesse ventre, do nascimento e de tudo o mais. Ele respira na atmosfera criada por Allah, segundo o método e a medida determinados por Ele. Em tudo — adquirir sensibilidade e capacidade de compreensão, sentir dor, sofrimento, fome e sede, alimentar-se e beber — é obrigado a seguir as leis determinadas por Allah. Sob esse aspecto, não há diferença entre o ser humano e as demais criaturas animadas ou inanimadas. Todos se submeteram incondicionalmente à vontade e à lei de Allah.
O grandioso Allah Ta’ala, que é o Criador do vasto universo e do ser humano e que criou o corpo biológico humano submetido às leis naturais, foi Ele mesmo quem estabeleceu uma Shariah para a vida prática do ser humano. Se o ser humano seguir essa Shariah, sua vida prática se harmonizará com sua natureza física. Sob esse ponto de vista, compreende-se que a Shariah islâmica é uma parte das leis naturais universais, e que essas leis naturais controlam o corpo e a essência biológica do ser humano. Cada palavra de Allah — seja uma ordem ou uma proibição, uma boa-nova ou uma advertência, uma lei ou uma norma, ou um conselho — é apenas uma das diversas partes da lei universal de Allah. Essas leis e normas são conhecidas como leis naturais, e essa lei sempre ativa é sempre perfeita e eficaz. Desde o início da criação, observamos em todo o universo a predominância de leis firmes e válidas em todos os tempos; como parte delas, a Shariah estabelecida para a vida humana é igualmente firme e eficaz. O objetivo da Shariah concedida por Allah é organizar a vida humana em plena conformidade com as leis naturais gerais existentes no mundo criado.
Por isso, é indispensável que o ser humano siga a Shariah de Allah. Pois é por meio da observância dessa Shariah que o modo de vida humano pode harmonizar-se com o curso do mundo criado. Mais do que isso, somente a Shariah de Allah pode tornar compatíveis as normas morais da vida prática do ser humano com as leis naturais e biológicas que atuam em seu corpo. Somente assim a personalidade interior e exterior do ser humano pode tornar-se integrada.
O ser humano não é capaz de compreender plenamente a exatidão de todas as leis e normas da criação. Também não consegue compreender o princípio unificador dessas leis e normas. Ele tampouco consegue compreender sempre o propósito subjacente às leis e normas que atuam em seu corpo e às leis biológicas que não pode violar nem por um instante. Portanto, o ser humano não tem capacidade para formular, para si mesmo, um modo de vida que preserve a harmonia com o mundo criado. Ele é incapaz até mesmo de elaborar uma regulamentação perfeitamente equilibrada e adequada às necessidades internas e externas de seu próprio corpo. Essa tarefa está inteiramente sob o domínio do Criador do ser humano e do universo. Ele controla não apenas o mundo natural, mas também todos os aspectos da vida prática humana, e, de acordo com Sua vontade, formula e promulga para todos leis e normas imparciais e livres de defeitos.
Por isso, submeter-se à Shariah é extremamente necessário para estabelecer harmonia entre os diversos aspectos e setores da vida e fortalecer a crença e a doutrina islâmicas. Pois não é possível ser um muçulmano verdadeiro sem submeter-se plenamente a Allah Ta’ala segundo o caminho mostrado por Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele). Em outras palavras, se as duas partes do primeiro pilar do Islã — “Não há divindade senão Allah” e “Muhammad é o Mensageiro de Allah” — não forem concretizadas na vida real das pessoas, nenhum âmbito da vida individual ou coletiva poderá iluminar-se à luz do Islã.
Estabelecer harmonia entre a vida humana e as leis naturais é extremamente benéfico para o ser humano. Essa medida é indispensável para proteger a vida humana da desintegração e da calamidade. Para alcançar paz em seu próprio ser e obter os benefícios e a felicidade decorrentes de uma coexistência pacífica com o mundo natural, é indispensável formular uma regulamentação perfeitamente harmonizada com esse mundo. Por esse mesmo meio, o ser humano também sentirá felicidade e paz em sua mente. Pois seu modo de vida será capaz de atender às exigências naturais de seu corpo. Então, as necessidades biológicas do corpo e o modo de vida humano não serão opostos entre si.
A Shariah de Allah Ta’ala estabelece com extrema facilidade harmonia entre a conduta externa e as necessidades internas do ser humano. Quando o ser humano consegue estabelecer com a natureza uma relação de harmonia e cooperação, relações de cooperação e complementaridade surgem naturalmente tanto nas relações entre as pessoas quanto na condução da luta comum da vida. Pois, quando o ser humano se acostuma a viver em harmonia com o mundo natural, seu modo de vida e as leis naturais passam a estar submetidos ao sistema geral de administração do universo. Como resultado, eliminam-se a desarmonia e a oposição mútua no âmbito coletivo da vida humana, e forma-se uma sociedade saudável e perfeita. A humanidade alcança bem-estar, felicidade e paz.
Como resultado desse sistema, os mistérios ocultos do mundo natural revelam-se ao ser humano. Inúmeras forças ocultas do universo em expansão, juntamente com seus recursos, tornam-se acessíveis a ele. Os servos de Allah empregam essas forças e recursos da natureza para o bem da humanidade, de acordo com as instruções da Shariah de Allah. Nenhum conflito surge em parte alguma. Não permanece qualquer oposição entre o ser humano e o mundo natural. A ganância e os desejos egoístas do ser humano não conseguem erguer-se contra a Shariah de Allah. Allah Ta’ala diz —
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“Se a Grande Verdade estivesse empenhada em satisfazer os desejos de suas almas, a ordem de toda a criação nos céus, na Terra e entre ambos seria destruída, e o caos se instalaria.” — Al-Mu’minun: 71
A Grande Verdade é indivisível — Da discussão acima, soube-se que a Grande Verdade é uma unidade perfeita. O fundamento da religião está estabelecido sobre ela. Toda a administração dos céus e da Terra foi estruturada com base na Grande Verdade. Todas as questões deste mundo e do Além serão decididas à luz da Grande Verdade, e o ser humano terá de prestar contas perante Allah precisamente a respeito dessa Grande Verdade. Allah Ta‘ala castigará o transgressor com a balança da justiça da Grande Verdade e avaliará as ações humanas segundo o critério da Grande Verdade. A lei pela qual o vasto universo é dirigido e controlado é outro nome da Grande Verdade. Tudo o que existe na criação — seres vivos ou objetos inanimados — submeteu-se à Grande Verdade, e toda a criação está presa aos seus rigorosos vínculos.
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“No Livro que enviamos a vós, há menção de vós mesmos. Não compreendeis? Quantas cidades injustas destruímos! Depois, fizemos de outro povo seu sucessor. Quando Nosso castigo se abateu sobre eles, começaram a fugir apressadamente. (Foi-lhes dito:) ‘Não fujais! Retornai às vossas casas e aos vossos locais de entretenimento. Lá sereis chamados a prestar contas por vossos atos.’ Eles disseram: ‘Ai de nossa desgraça! Com efeito, fomos criminosos.’ Continuaram a gritar com voz angustiada até que os destruímos e reduzimos a nada. Não criamos os céus, a Terra e tudo o que há entre ambos para diversão. Se tivéssemos pretendido criar brinquedos, teríamos criado instrumentos de diversão (por outro meio). Mas golpeamos a falsidade com a Grande Verdade e esmagamos sua cabeça. Então, a falsidade desaparece; e, nas coisas inventadas que dizeis, estão os meios de vossa destruição. A Allah pertence tudo o que foi criado nos céus e na Terra. E os anjos que estão junto d’Ele jamais deixam de adorar Allah por orgulho, nem se tornam vítimas de humilhação. Glorificam-No noite e dia e jamais se desviam nem um pouco.” — Al-Anbiya: 10–12
A criação está fundamentada na Grande Verdade
No mais profundo da natureza humana existe a percepção plena da Grande Verdade. A constituição e a estrutura do corpo humano, bem como a perfeição da criação e os recursos do vasto universo que o cerca, lembram-lhe que o universo está fundamentado na Grande Verdade. A Grande Verdade é seu elemento fundamental e, assumindo a forma de uma poderosa lei central, confere estabilidade e firmeza à criação. É por isso que não se vê desordem em parte alguma da criação. Uma parte não entra em conflito com outra. Não se vê acontecer nada sem propósito. Tampouco há razão plausível para considerar toda a criação mero resultado de acidentes. Nada na criação é desprovido de planejamento. Nem se percebe nela o menor vestígio das excêntricas ações de seres humanos perturbados. Pelo contrário, vê-se a criação sendo conduzida com extrema facilidade por um caminho definido, em estrita obediência às leis. Quando o ser humano se desvia da Grande Verdade escondida no mais profundo de seu coração, começa a caminhar na direção oposta à sua própria natureza e, pressionado por tendências arbitrárias, dá preferência às suas próprias opiniões em vez da lei de Allah — é então que começa o caos. Em vez de se submeter ao Senhor do universo, mantendo a harmonia com toda a criação, o ser humano proclama sua rebelião; é então que a inquietação surge por toda parte.
As consequências do desvio da Grande Verdade
Quando começam a surgir divergências e conflitos entre o ser humano, sua própria natureza e o mundo natural, eles gradualmente se expandem e provocam separação e hostilidade entre indivíduos, grupos ou coletividades de indivíduos, diferentes nações e tribos. Como resultado, todas as forças e riquezas do universo, em vez de serem empregadas para o progresso e o bem-estar da humanidade, tornam-se causa de sua destruição.
Da discussão acima, sabe-se que o objetivo de estabelecer a lei de Allah no mundo não é apenas o bem-estar na Vida Futura. Este mundo e a Vida Futura não são duas coisas completamente distintas; ao contrário, são complementares entre si. A sharia concedida por Allah estabelece equilíbrio entre ambas e vincula a vida humana às leis e normas firmes vigentes no universo. Como resultado da harmonia entre a vida humana e as leis e normas vigentes no universo, o ser humano adquire a capacidade de alcançar uma felicidade e um bem-estar ilimitados, e esse benefício não fica adiado apenas para a Vida Futura. Pelo contrário, seus frutos também se manifestam na vida terrena. Naturalmente, porém, os benefícios do ideal de vida islâmico alcançarão sua plenitude somente na Vida Futura.
Acima foram discutidos os pontos fundamentais da concepção islâmica sobre o mundo criado e o ser humano como parte dele. Essa concepção é completamente diferente de todas as concepções e crenças difundidas no mundo. Por isso, a concepção islâmica sobre o mundo criado e o ser humano não impõe ao ser humano determinadas responsabilidades e deveres. Segundo a concepção islâmica, deve existir perfeita harmonia entre a vida humana e o mundo criado, bem como entre a natureza humana e as leis vigentes no mundo natural. E ele será capaz de viver como servo de Allah, e nenhum ser humano se empenhará em estabelecer domínio sobre outro.
O assunto que discutimos acima é claramente compreendido a partir do diálogo entre o pai da nação muçulmana, o venerável Ibrahim (que a paz esteja sobre ele), e Nimrod. Nimrod era um governante tirânico. Ele reivindicava a divindade. Contudo, não reivindicava divindade sobre o mundo natural, o espaço celeste, os planetas e as estrelas. Diante dele, o venerável Ibrahim (que a paz esteja sobre ele) apresentou o argumento de que, na vida humana, somente Aquele cujo poder absoluto está estabelecido sobre o mundo natural pode exercer soberania; ninguém mais. Nimrod não pôde responder de modo algum a esse argumento.
No Sagrado Alcorão, Allah descreveu o acontecimento com as seguintes palavras —
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“Não consideraste o caso daquele que discutiu com Ibrahim (que a paz esteja sobre ele) a respeito de seu ‘Senhor’, pelo fato de Allah lhe ter concedido um reino? Quando Ibrahim (que a paz esteja sobre ele) disse: ‘Meu Senhor é Aquele em cuja mão estão a vida e a morte’, o homem respondeu: ‘Eu sou o senhor da vida e da morte’. Então Ibrahim disse: ‘Pois bem, Allah faz o sol nascer todos os dias do leste; faze-o nascer do oeste’. O homem que negava a verdade ficou então sem resposta. Allah não guia os injustos para o caminho reto e simples.”
Allah afirmou novamente com toda a propriedade —
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“Querem eles adotar outro caminho em vez de obedecer a Allah? No entanto, tudo o que há nos céus e na terra obedece a Ele, voluntária ou involuntariamente. E, por fim, todos retornarão a Ele.” — آل عمران: 83
Sétimo capítulo
O Islam é a verdadeira civilização
A diferença fundamental entre a sociedade islâmica e a sociedade jahiliana
O Islam reconhece apenas dois tipos de sociedade: uma é a sociedade islâmica e a outra é a sociedade jahiliana. A sociedade cuja autoridade geral está nas mãos do Islam e na qual a predominância do Islam se manifesta em todos os assuntos — as crenças das pessoas, a adoração, as leis, a administração do Estado, o caráter moral, as transações mútuas e assim por diante — é a sociedade islâmica. Por outro lado, a sociedade que não reconhece a superioridade das suas crenças, leis e costumes, da moralidade islâmica e dos princípios de troca e interação é a sociedade jahiliana.
A sociedade formada por pessoas que se autodenominam “muçulmanas”, mas que não conferiu à Sharia islâmica status legal, não é uma sociedade islâmica. Mesmo que nela existam as instituições da salat, do jejum, do hajj e do zakat, ela não pode ser uma sociedade islâmica. Pelo contrário, seus dirigentes, libertando-se da observância das leis e normas dadas pelo Mensageiro (que a paz esteja com ele), inventaram, segundo os próprios caprichos, uma nova versão do Islam e deram-lhe o nome de “Islam progressista”.
A sociedade jahiliana assume várias formas. Contudo, sua verdadeira essência é permanecer privada do conhecimento concedido por Allah. Às vezes, ela chega a negar a própria existência de Allah e interpreta a história da humanidade como materialismo dialético. A ordem social formada com base nessa doutrina é chamada de “socialismo científico”. Em outras ocasiões, a sociedade jahiliana assume outra forma. Ela não nega a existência de Allah; porém, limita Sua autoridade e Seu domínio aos céus e ao mundo superior, banindo da terra as ordens e proibições dadas por Ele. Nessa sociedade, a Sharia de Allah não é aplicada. Os valores eternos e perenes que o próprio Allah estabeleceu para a vida humana também não são respeitados nessa sociedade. Seus funcionários permitem que as pessoas adorem Allah dentro das quatro paredes de mesquitas, templos e igrejas. Mas não estão dispostos a reconhecer a predominância da Sharia concedida por Allah na vida prática das pessoas. Nesse sentido, opõem-se à soberania de Allah sobre a terra, pois rejeitam a Sharia de Allah em sua vida prática e profissional. No entanto, Allah, o Altíssimo, disse em termos extremamente claros —
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“Ele é Allah, o Soberano Senhor dos céus e também da terra.” A sociedade que Allah Ta‘ala qualificou, no versículo abaixo, como “Dīn al-Qayyim” não é a sociedade pura acima mencionada.
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“O direito de ordenar e promulgar leis pertence exclusivamente a Allah. Ele ordenou que ninguém, além d’Ele, seja adorado. E este é o ‘Dīn al-Qayyim’ (o sistema de vida equilibrado e firme).” —Yusuf: 40
Mesmo que uma sociedade dessa classe proclame mil vezes sua crença na existência de Allah e conceda às pessoas plena liberdade para ir às mesquitas, aos templos e às igrejas prestar culto e adoração, será considerada uma sociedade jahilī, por rejeitar as orientações de Allah Ta‘ala na vida prática.
Somente a sociedade islâmica é uma sociedade civilizada
À luz da definição de sociedade islâmica que mencionamos no início deste capítulo, não será inadequado dizer que somente a sociedade islâmica é uma sociedade verdadeiramente civilizada. Qualquer que seja a forma assumida pela sociedade jahilī, ela é retrógrada e desprovida de civilização já em sua concepção fundamental.
Certa vez, quando entreguei à gráfica, para publicação, uma obra de minha autoria, anunciei que seu título seria “A Sociedade Islâmica Civilizada”. Contudo, num anúncio posterior, retirei a palavra “civilizada” e intitulei simplesmente a obra “A Sociedade Islâmica”. Um escritor argelino de língua francesa percebeu essa mudança no título do meu livro e comentou que tal alteração teria sido feita sob a influência de uma atitude defensiva, ao empunhar a pena em defesa do Islã. Ele lamentou e disse que, por serem imaturas minhas ideias sobre o Islã, eu era incapaz de encarar a realidade. Considero perdoável o referido autor argelino. Eu também anteriormente mantinha uma atitude semelhante à dele e, quando comecei a escrever sobre esse assunto, pensava exatamente como ele pensa hoje. A complexidade que ele enfrenta hoje era precisamente o tipo de complexidade que eu sentia naquela época. A questão é: qual é a definição de civilização? Até aquele momento, apesar de me sentir atraído pelo ideal islâmico, eu não havia sido capaz de eliminar da mente e do coração a influência de uma cultura equivocada. A literatura e o pensamento dos escritores ocidentais, embora contrários à minha ‘aqīdah e à minha fé islâmicas, permaneciam ocupando minha mente. A definição ocidental de civilização era, para mim, o critério de julgamento. Por isso, não conseguia examinar todas as questões com uma visão correta e perspicaz.
Mais tarde, minha visão tornou-se clara e compreendi nitidamente que “sociedade islâmica” significa precisamente sociedade civilizada. Por isso, ao reconsiderar o título deste livro, percebi que a palavra “altamente civilizada” era desnecessária naquele título. Pelo contrário, seu uso faria com que o pensamento dos leitores também caísse na confusão, tal como o pensamento anterior. Vejamos agora qual é o significado da palavra “civilização”.
Se, em uma sociedade, a soberania for confiada unicamente a Allah e, como prova concreta disso, a supremacia da Sharia de Allah for reconhecida em todos os níveis da sociedade, somente nessa sociedade o ser humano alcançará verdadeira e plena liberdade da servidão de outros seres humanos. O outro nome dessa verdadeira e plena liberdade é “civilização humana”. Pois a civilização humana exige um critério sob cujo alcance cada pessoa possa desfrutar plenamente da verdadeira liberdade e seja capaz de obter, sem impedimentos, todos os direitos humanos. Em contrapartida, numa sociedade em que algumas pessoas ocupam os assentos de “senhores” e “legisladores da Sharia”, todos os demais permanecem sujeitos a elas e são privados de todos os direitos humanos fundamentais.
A propósito, é necessário mencionar aqui que a questão da legislação não se limita simplesmente à elaboração de leis. Hoje, muitas pessoas têm uma concepção tão estreita da Sharia. Na realidade, as ideias e concepções, o modo de vida, os valores da vida, os critérios para aceitar e rejeitar, os hábitos e os costumes — tudo é influenciado pela lei. Se um grupo específico separar todas essas questões das instruções de Allah, o Altíssimo, e aprisionar os membros da sociedade nas regras de conduta que ele próprio elaborou, essa sociedade não poderá ser chamada de livre. Numa sociedade desse tipo, algumas pessoas ocupam o trono da rububiyyah ou da soberania e todos os demais são obrigados a servi-las ou a permanecer escravizados por elas. Por isso, essa sociedade será considerada atrasada e, segundo a terminologia islâmica, é precisamente a verdadeira sociedade jahilí.
Somente na sociedade islâmica a soberania de Allah é estabelecida, e os seres humanos rompem as correntes da servidão aos seus semelhantes para se dedicarem à servidão de Allah. É por esse caminho que o ser humano experimenta o sabor da verdadeira liberdade e alcança a dignidade e a honra concedidas por Allah. No mundo, ele é investido no posto de califa de Allah e alcança uma glória ainda maior que a dos anjos.
A diferença fundamental entre a sociedade islâmica e a sociedade jahilí
Na sociedade cujas ideias e concepções, crenças e modo de vida, entre todas as demais questões, são elaborados com base na soberania do Deus único, Allah, o ser humano alcança a mais elevada dignidade e glória. Pois ali nenhum ser humano é escravo de outro, e as ideias, crenças e o modo de vida dessa sociedade não são produto da mente de pessoas que reivindicam para si o senhorio, seja uma ou várias. É somente numa sociedade desse tipo que as capacidades e qualidades ocultas do ser humano, em sua essência e em seu pensamento, se desenvolvem plenamente. Em contrapartida, numa sociedade em que raça, linhagem, língua e região geográfica são adotadas como base das relações mútuas, esses supostos vínculos de unidade colocam nos pés da humanidade correntes de diversas restrições; por isso, as qualidades elevadas do ser humano não encontram oportunidade de se desenvolver. O ser humano pode viver livre dos limites da raça, da língua e da região. Quando o desenvolvimento da alma e do pensamento é bloqueado, o ser humano deixa de conservar sua dignidade humana. Uma pessoa pode mudar voluntariamente suas ideias e concepções, suas crenças e seu modo de vida. Mas não é possível mudar a raça, a linhagem, o sangue e a nacionalidade geográfica. O ser humano é incapaz de decidir voluntariamente nascer em determinada linhagem ou região. Portanto, a sociedade que reconhece o direito de escolher opiniões e caminhos com o auxílio da consciência e da razão livres é uma sociedade civilizada; já aquela em que não há oportunidade de examinar e escolher ou rejeitar o caminho verdadeiro com o auxílio da consciência e da razão é atrasada e desprovida de civilização. Na terminologia islâmica, essa sociedade é chamada de sociedade jahilí.
Somente a sociedade islâmica une os seres humanos em um vínculo inquebrantável de fraternidade com base na crença e, por meio dessa crença, coloca negros e brancos, árabes e gregos, persas e negros, bem como os povos divididos em centenas de grupos existentes no mundo, na mesma fileira e os incorpora à mesma ummah. A autoridade suprema dessa sociedade pertence unicamente a Allah, e o ser humano inclina a cabeça somente diante d’Ele, e não diante de qualquer outro. Quanto mais elevado o caráter de uma pessoa, mais elevada é sua posição nessa sociedade. Aos olhos da lei concedida por Allah, todas as pessoas da sociedade são iguais.
A sociedade em que a humanidade recebe o lugar mais elevado e na qual o aperfeiçoamento moral do ser humano tem primazia sobre o materialismo. Naturalmente, o materialismo manifesta-se sob formas diferentes em diferentes épocas. Como exemplo, pode-se mencionar a atribuição da mais elevada dignidade à matéria segundo a interpretação marxista da história, ou mencionar os Estados Unidos da América, a Europa e outras sociedades, onde a humanidade é sacrificada no matadouro dos bens materiais. Uma sociedade desse tipo é certamente uma sociedade retrógrada e, na terminologia islâmica, uma sociedade jahilí.
A sociedade civilizada, isto é, a sociedade islâmica, não considera os bens materiais algo desprezível. O Islã tampouco se abstém de atribuir às coisas o seu devido valor, nem nega a importância da produção de bens materiais. Pelo contrário, o Islã reconhece que o mundo em que vivemos, pelo qual nossa vida é influenciada e sobre o qual também exercemos influência em muitos aspectos, é constituído de matéria. O Islã reconhece igualmente que a produção de bens materiais é a espinha dorsal da vice-regência terrena de Allah. A diferença é apenas que a sociedade islâmica não está inclinada a adorar os bens materiais, abandonando, em troca do conforto material, características humanas como a liberdade e a dignidade humanas, os costumes recíprocos, a moralidade e os valores. Já a sociedade jahili, em busca da abundância de bens materiais, esmaga os valores e a dignidade humanos.
A sociedade na qual predominam os valores humanos e um caráter humano elevado é uma sociedade civilizada. Os valores humanos e o caráter humano elevado não são algo oculto ou impossível de explicar. Segundo a alegação dos materialistas que interpretam a história e dos chamados socialistas científicos, os valores humanos e o caráter elevado não são ideais mutáveis com os meios de produção, nem ideais desvinculados de qualquer centro. Na realidade, o Islã traça uma linha divisória entre os valores humanos e os animais. Assim, o ser humano avança do nível animal e alcança o nível da humanidade. Diferentemente da sociedade jahili, os valores e padrões morais desta sociedade não rebaixam o ser humano ao nível dos animais.
O verdadeiro critério da civilização
Se julgarmos a questão sob este ponto de vista, uma linha divisória clara se evidencia entre o Islã e a jahiliyyah, e, apesar dos esforços incessantes e vãos dos chamados progressistas e socialistas científicos, a importância dos valores morais não diminui nem um pouco. A perspectiva islâmica é que o ambiente e as condições mutáveis não podem alterar os valores morais. Pelo contrário, os valores morais permanecem eternos, ignorando todas as mudanças do tempo e do ambiente. Portanto, não há justificativa para dividir a moralidade em moralidade agrícola, industrial, capitalista, socialista, burguesa e proletária. Na realidade, os valores morais estão completamente livres da influência do ambiente, das condições econômicas e do nível de desenvolvimento social, entre outros fatores. Essas mudanças são muito temporárias e artificiais. Por outro lado, mediante uma análise extremamente realista, podemos chegar à conclusão de que os valores e os padrões morais se dividem apenas em duas categorias. Uma é a dos valores humanos e dos padrões de caráter humano; a outra é a dos valores e padrões de caráter animalescos. Na terminologia islâmica, podemos chamar os primeiros de “valores islâmicos” e “padrões morais”, e os segundos de “valores jahilis” e “padrões morais jahilis”.
O Islã certamente eleva o ser humano acima da condição animal, aperfeiçoando os valores humanos e os padrões morais. Onde quer que o sistema de vida islâmico seja estabelecido, ele desperta esses padrões morais e valores e cuida de seu aperfeiçoamento e fortalecimento. Essa sociedade desperta os mesmos padrões morais e valores humanos em todos os tipos de sociedade — entre agricultores, trabalhadores, beduínos, criadores de gado, habitantes das cidades e do campo, ricos e pobres, industriais e capitalistas, sem exceção — e desenvolve, em todas as circunstâncias e ambientes, as características e qualidades humanas do ser humano, para que jamais surja nele um caráter animalesco. Os valores humanos e o caráter moral que mencionamos acima elevam o ser humano acima do nível animal; quando essa fronteira entre os valores e os padrões morais desaparece, começa a queda do ser humano, e uma sociedade que decai do nível da humanidade, por mais abundância e desenvolvimento material que possua, não pode ser chamada de civilização. Pelo contrário, será considerada uma sociedade decadente, retrógrada ou jahili.
A importância das relações familiares no desenvolvimento da civilização
Se a família for considerada a base da sociedade, se as responsabilidades familiares forem distribuídas entre marido e mulher segundo suas características inatas e aptidões naturais, e se a criação e a educação dos filhos forem o objetivo da família, então essa sociedade será, sem dúvida, considerada civilizada. Um ambiente familiar desse tipo, conforme o sistema de vida islâmico, oferece o campo necessário para criar valores humanos e um caráter elevado nas gerações seguintes. Por outro lado, se as relações sexuais livres e os filhos ilegítimos constituírem a base da sociedade, e se as necessidades físicas, a fome sexual e a excitação animalesca determinarem as relações entre homens e mulheres; se as responsabilidades familiares não forem distribuídas entre marido e mulher segundo suas características inatas e aptidões naturais; se o papel da mulher consistir em tornar-se atraente para outros homens com o objetivo de despertar o desejo sexual; se as mulheres forem liberadas da responsabilidade de criar os filhos e, voluntariamente ou sob a influência do ambiente social, empregarem suas capacidades no aumento da riqueza, como aeromoças, comissárias de bordo e camareiras de hotel; e se considerarem o aumento da riqueza mais vantajoso e honroso do que a multiplicação da descendência humana, então essa sociedade será uma sociedade jahili.
É possível determinar se uma sociedade é verdadeiramente civilizada pela natureza de seus costumes familiares e de suas relações conjugais. Se, nessa sociedade, essas relações forem reduzidas à mera satisfação das necessidades físicas e das exigências da natureza animal, ela não poderá ser considerada civilizada, por mais que tenha progredido nas artes e nas ciências. A situação familiar de uma sociedade apresenta um retrato fiel para julgar seu progresso ou declínio geral.
Exemplo da civilização ocidental
Em todas as sociedades jahilíes da época atual, foram abandonadas as qualidades morais que estabelecem a distinção entre o ser humano e o animal. Nessas sociedades, relações ilícitas e sexuais, inclusive relações entre pessoas do mesmo sexo, não são consideradas sinais de falta de caráter. A moralidade foi limitada aos campos da economia e da política, pois, nesses dois campos, ela é considerada necessária aos interesses do governo. Como exemplo, pode-se mencionar o escândalo sexual envolvendo Christine Keeler e o ministro britânico Profumo. A sociedade britânica não considerou o caso vergonhoso enquanto crime sexual. Como Christine Keeler, além de manter relações sexuais com o ministro britânico Profumo, também mantinha, simultaneamente, relações com um oficial da Marinha da embaixada russa, o que foi considerado condenável foi a possibilidade de que segredos de Estado fossem revelados. O escândalo sexual em si não foi considerado crime de modo algum. O mais abominável foi que o senhor ministro havia feito uma declaração falsa no Parlamento britânico, e posteriormente sua afirmação mentirosa veio a público. Entre os cidadãos americanos que se envolvem em escândalos de espionagem desse tipo, há aqueles que obtêm asilo político na Rússia. Ali também não se levanta qualquer objeção à concessão de asilo a pessoas envolvidas em crimes sexuais.
Os escritores, jornalistas, literatos e autores de histórias de todas as sociedades jahilíes, próximas ou distantes, sejam solteiros ou casados, todos aconselham abertamente o estabelecimento de relações sexuais livres e expressam a opinião de que isso não constitui um crime moral. Sim, segundo seus critérios, se um jovem ou uma jovem se relacionar com alguém sem amor verdadeiro e sincero, isso será um crime. Se uma esposa, apesar de não sentir amor pelo marido, continuar protegendo sua honra e castidade, essa mulher será condenada por essa sociedade. Pelo contrário, nessa situação, considera-se louvável que ela procure outro amante. Escrevem-se dezenas de histórias em defesa da adoção desse caminho. Por meio de editoriais, artigos gerais, matérias sérias e leves, além de caricaturas nos jornais, faz-se um apelo a um modo de vida sujo e descarado.
Do ponto de vista humano e segundo o critério do desenvolvimento progressivo da humanidade, as sociedades desse tipo são retrógradas e desprovidas de civilização.
A trajetória ascendente do ser humano parte do nível dos instintos animais e dirige-se para valores elevados. Para satisfazer os desejos dos instintos animais existentes na natureza humana, a sociedade em desenvolvimento instituiu a família. Por meio desse sistema, além de satisfazer as necessidades biológicas do corpo, ela passou a dar importância à criação dos futuros descendentes e à sua formação mediante uma educação que lhes desenvolva plenamente as características humanas. A civilização humana só pode sobreviver dessa maneira. Naturalmente, a sociedade que se interessa por manter sob controle os instintos animais do ser humano e, ao mesmo tempo, oferecer-lhe amplas oportunidades e condições para desenvolver suas características humanas deve adotar medidas preventivas adequadas para preservar a pureza, a paz e a ordem da família. É indispensável adotar medidas preventivas para permitir que a família, livre da influência da excitação física, cumpra suas responsabilidades fundamentais. Por outro lado, numa sociedade em que prevalecem uma educação contrária à moralidade e um ambiente circundante venenoso, e onde a licenciosidade sexual é considerada alheia aos valores morais, que oportunidade há para o desenvolvimento da humanidade?
Portanto, somente os valores e a moralidade islâmicos, a educação islâmica e o sistema islâmico de defesa constituem a medida adequada para a sociedade humana. Por meio das medidas permanentes, imutáveis e corretas adotadas para o desenvolvimento da sociedade humana, reconhece-se esta verdade: a civilização islâmica é a verdadeira civilização, e a sociedade islâmica é a verdadeira sociedade civilizada.
A civilização voltada para Allah e o desenvolvimento material
Quando o ser humano estabelece o califado de Allah na Terra, conforme as exigências desse califado, dedica-se exclusivamente à servidão de Allah e liberta-se da servidão a todas as forças além de Allah. Ele implementa o modo de vida concedido por Allah, abandona todos os ideais de vida criados pelo homem, segue a Sharia de Allah e rejeita todas as demais formas de lei. Aceita os valores e os critérios de caráter determinados por Allah e recusa-se a aceitar quaisquer outros critérios. Com o estabelecimento do califado divino, por um lado, ocorre no comportamento humano uma mudança do tipo acima mencionado. Por outro lado, o ser humano dedica-se à reflexão e à pesquisa para desvendar as leis e os princípios que governam o universo criado. Mantendo os resultados dessas pesquisas dentro dos limites das determinações e proibições dadas pelo próprio Allah, ele os emprega para o benefício da humanidade. Como califa de Allah, extrai da criação os alimentos e as matérias-primas para as indústrias e, aplicando seus conhecimentos técnicos e científicos, avança na fundação e no desenvolvimento de diversos tipos de indústrias. Quando o ser humano realiza, com um coração temente a Allah e como representante de Allah, todas as tarefas necessárias ao desenvolvimento material, e quando permanece consciente das determinações e proibições de Allah em todas as suas atividades morais e materiais, somente então se torna plenamente civilizado. Sua sociedade alcança o mais elevado cume da civilização. O Islã não considera o mero desenvolvimento material uma civilização, pois as sociedades jahilíes também alcançam desenvolvimento material. Em muitos lugares do Alcorão, sociedades desse tipo são qualificadas como sociedades jahilíes apesar de seu desenvolvimento material.
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“O que vos acontece, para construirdes, em cada lugar elevado, grandes palácios apenas como monumentos comemorativos? Ao contemplar os enormes palácios que construístes, parece que permanecereis para sempre neste mundo. Sempre que estendeis a mão contra alguém, agis como tiranos. Temei Allah e obedecei-me, a Ele que vos concedeu muitas coisas que conheceis. Vivei temendo-O. Ele vos concedeu rebanhos, filhos, jardins e nascentes. Temo que vos alcance o castigo de um dia terrível.”
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“Pensais que podereis viver eternamente felizes, com todos esses bens mundanos, nestes jardins e nestas nascentes? Nestes campos cultivados e nestes palmeirais repletos de frutos suculentos? Escavais as montanhas para construir casas enormes, símbolos de orgulho. Temei Allah e obedecei. Não vivais obedecendo àqueles que espalham a inquietação e a corrupção na Terra e não estabelecem a paz e a ordem.”
“Quando esqueceram as admoestações que lhes haviam sido feitas, abrimos para eles as portas da prosperidade. Quando estavam absortos na alegria da abundância mundana que lhes havíamos concedido, apanhámo-los de repente. Então perderam toda a esperança. Assim exterminámos o povo injusto. Todos os louvores pertencem a Allah, Senhor dos mundos.” — Al-An’am: 44–45
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“Quando a Terra estava adornada com flores e frutos, quando os campos estavam carregados de colheitas e seus proprietários acreditavam que obteriam proveito delas, justamente nesse momento chegou-lhes inesperadamente a Nossa ordem, durante a noite ou durante o dia. Destruímo-los de tal modo que não restou nenhum vestígio de sua existência.” — Yunus: 24
Já mencionámos que o Islam não se opõe ao desenvolvimento material nem à descoberta e à aquisição de bens materiais; pelo contrário, o desenvolvimento material sob o sistema de vida prescrito por Allah foi chamado uma bênção de Allah. E Allah, o Altíssimo, também anuncia aos seres humanos essas bênçãos como recompensa por sua obediência e submissão a Ele.
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“(Disse o profeta Noé:) Eu disse ao meu povo: ‘Pedi perdão ao vosso Senhor — certamente, Ele é Perdoador. Ele vos enviará chuva abundante e vos fortalecerá com riquezas e filhos. Ele vos concederá jardins e fará correr rios para vós.’” — Noé: 10–12
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“Se os habitantes das cidades tivessem acreditado e temido a Allah, teríamos aberto para eles as portas de todas as bênçãos dos céus e da terra. Mas eles rejeitaram a verdade. Por isso, apanhámo-los como punição pelos seus atos perversos.” Al-A‘raf: 96
O desenvolvimento material, por si só, não determina o nível da sociedade humana. São, na realidade, as conceções sobre as quais se erguem os grandiosos palácios do desenvolvimento material e artístico, os valores da vida que mantêm a sociedade unida e a marca da civilização humana que se manifesta no comportamento e nos costumes de toda a sociedade que determinam o seu verdadeiro nível.
O desenvolvimento gradual da sociedade islâmica
Por existir através de um movimento e por assumir a forma de um sistema de vida superior, a sociedade islâmica possui características sem precedentes. Portanto, a visão, a atitude e o programa necessários para estabelecer uma sociedade jahilí jamais podem ser eficazes no movimento destinado a estabelecer uma sociedade islâmica. A sociedade islâmica nasce como resultado de uma luta árdua e prolongada. Também os métodos que orientam essa luta estão delimitados pelos próprios princípios do Islão. É esse movimento de luta que determina o valor e a dignidade de cada indivíduo na sociedade e, depois de o avaliar devidamente, estabelece as suas responsabilidades e deveres sociais. A corrente de pensamento e o programa do movimento do qual nasce a sociedade islâmica são elaborados a partir de uma fonte situada além do mundo terreno e acima dos limites do poder humano. A fonte desse movimento de luta é a fé, ou crença, revelada por Allah aos seres humanos. Essa fé cria uma conceção específica sobre o mundo criado, a vida humana, a história da humanidade, o valor e o propósito da vida, e oferece também um sistema de vida adequado para viver segundo essa conceção. Em suma, a origem do movimento islâmico não está na mente humana nem no mundo material; ela está acima do conhecimento e da razão humanos e do mundo material. A principal característica da formação da sociedade islâmica é precisamente a fé revelada do mundo superior.
A crença e a doutrina reveladas do mundo superior não surgem como resultado da reflexão e investigação humanas, nem de esforços ou iniciativas humanas. A fé recebida da revelação divina lança a semente do movimento islâmico e, ao mesmo tempo, prepara pessoas para conduzir a luta. Quando a mensagem divina da fé chega a alguém, e essa pessoa acredita que ela foi revelada por Allah, é por seu intermédio que começa o trabalho de semear. Essa pessoa não permanece inativa, guardando a sua fé no coração. Pelo contrário, começa a esforçar-se para transmitir aos outros a mensagem na qual acreditou. Essa é a própria natureza da fé. A natureza de um movimento vigoroso e ativo é dinâmica. A poderosa Entidade que acende a luz da fé no coração humano, a partir do mundo superior, sabe muito bem que a luz da fé não permanece confinada aos limites do coração; ao contrário, espalha os seus raios luminosos por toda a vastidão da Terra.
Quando o número dos crentes chega a três, é a própria fé que lhes diz: “Agora vocês se tornaram uma sociedade, e esta sociedade é uma sociedade islâmica distinta. A sociedade de vocês é de natureza completamente diferente da sociedade jahilí predominante, pois a sociedade jahilí não é conduzida de acordo com a fé de vocês.” Depois que três crentes se organizam, surge uma representação concreta da sociedade islâmica.
O número dos crentes passa de três para dez, de dez para cem, de cem para mil e de mil para vários milhares; e assim a sociedade islâmica se expande e se fortalece gradualmente.
Enquanto isso, começa a luta contra a sociedade jahilí. Entre as duas partes em conflito, de um lado encontra-se a organização islâmica recém-formada. Uma pequena sociedade recém-nascida, com suas concepções, valores, padrões de civilização e estrutura organizacional, separa-se completamente da sociedade jahilí e manifesta-se com características próprias. Do outro lado, a sociedade jahilí bloqueia o caminho dessa sociedade recém-nascida; e, durante o conflito entre ambas, uma ou duas pessoas por vez passam da sociedade jahilí para a sociedade islâmica. Desde o início do movimento até sua consolidação como força vitoriosa, ao longo de um período extenso, a sociedade islâmica examina cada um de seus membros e, por meio de testes e avaliações, concede a cada pessoa o grau e a responsabilidade que, segundo os padrões islâmicos, ela é capaz de assumir. A sociedade islâmica avalia as capacidades, a energia para o trabalho, a posição e outros aspectos das pessoas por necessidade. Ninguém precisa adiantar-se para reivindicar sua própria capacidade ou posição. Pelo contrário, sua crença e seus valores fazem com que permaneça oculto do olhar perscrutador da sociedade, pois sua sociedade está sempre procurando pessoas qualificadas para lhes confiar responsabilidades. Por outro lado, o indivíduo não se considera mais qualificado do que os demais. Por isso, prefere permanecer oculto.
Contudo, na sociedade que nasce como consequência natural da crença islâmica, ninguém consegue ocultar sua capacidade. Cada membro dessa sociedade deve ser ativo. Sua crença demonstrará entusiasmo e fervor. O sangue de seu corpo estará aquecido. Portanto, impulsionado pelo desejo de agir, cada indivíduo lançará tudo o que possui no caminho da luta, para alcançar sempre o limiar da plena atividade. A luta proclamada contra a jahilíyyah que reina ao redor da organização islâmica avançará em pleno ritmo. Essa luta não tem pausa nem descanso, nem admite qualquer compromisso ou acordo com a falsidade. Por isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) declarou: “O jihad continuará até o Dia da Ressurreição.”
No caminho percorrido através de ascensões e quedas, a posição de cada indivíduo é determinada, e, durante a luta, o movimento alcança o sucesso por meio do cumprimento, por cada pessoa, das responsabilidades e deveres correspondentes à sua própria capacidade. Duas características da sociedade islâmica — a origem do movimento e seu método de organização — conferem à estrutura, à forma, à natureza, aos costumes e ao programa dessa sociedade uma posição completamente distinta de todas as demais sociedades não islâmicas. Portanto, não se pode compreender a característica da sociedade islâmica examinando-a segundo a forma de criação de outras ideologias; da mesma maneira, sonhar com o estabelecimento de uma sociedade islâmica tomando emprestados os métodos dos movimentos não islâmicos não passa de insensatez.
A civilização islâmica é patrimônio de toda a humanidade
De acordo com a definição da civilização islâmica que mencionamos acima, o Islã não é a ideologia de uma época específica escrita nas páginas da história passada. Pelo contrário, a civilização islâmica é uma exigência da era moderna e uma luz de esperança para o futuro. Esse ideal veio para todas as épocas. Assim como as pessoas ainda hoje podem obter benefícios ilimitados ao entrar em contato com o ideal islâmico, também poderão fazê-lo no futuro. E somente o ideal islâmico pode hoje salvar o mundo da caverna de escuridão absoluta da jahilíyyah. Assim como as nações desenvolvidas nos campos da indústria, da ciência e da economia podem beneficiar-se do ideal islâmico, também podem fazê-lo as nações fracas e pobres.
Os valores que mencionamos acima só adquiriram forma na sociedade humana durante a era da civilização islâmica; isso não ocorreu em nenhuma outra época. Consideramos islâmica a civilização na qual os valores humanos se desenvolvem plenamente. Porém, a civilização que dá importância apenas ao progresso industrial, científico e econômico, enquanto os valores humanos declinam, não pode ser chamada de civilização islâmica. Os valores islâmicos não são uma questão imaginária, mas algo extremamente real. Somente quando as pessoas se esforçarem corretamente para adquirir valores à luz dos ensinamentos islâmicos obterão esse patrimônio. Qualquer que seja o ambiente, e qualquer que seja o estágio de desenvolvimento em que se encontre uma sociedade em progresso nos campos da indústria e da ciência, o esforço para adquirir esses valores não reduz nem um pouco o ritmo de seu desenvolvimento. Isso ocorre porque os valores humanos não são contrários ao desenvolvimento. Na realidade, o Islã incentiva o esforço pelo progresso material e pelo pensamento e pesquisa científicos, pois o progresso material auxilia no cumprimento da responsabilidade do califado.
Do mesmo modo, nos países atrasados na indústria e na ciência, os valores mencionados não aprovam que as pessoas permaneçam ociosamente sentadas; ao contrário, incentivam-nas a empreender esforços abrangentes com o objetivo de alcançar o progresso nos campos da indústria e da ciência. A civilização islâmica, com seus valores humanos, pode concretizar-se em qualquer tipo de ambiente econômico.
O modo de vida e a forma comercial da sociedade islâmica mudam conforme a época e o ambiente. Contudo, os valores que estão na base da civilização islâmica são permanentes, firmes, imutáveis e estabelecidos sobre uma realidade histórica. Quando chamamos os valores de “realidade histórica”, isso significa que existe, na história, um período que tem conhecimento dos valores islâmicos. Esses valores não são uma criação da história; antes, a história foi influenciada por eles. A verdadeira questão é que, por sua própria natureza, os valores islâmicos não podem estar limitados a uma época ou a um ambiente específicos. Esses critérios e valores não foram elaborados pela mente humana nem pelo mundo natural. Pelo contrário, foram estabelecidos pelo mundo superior com o objetivo de promover o bem-estar humano em todas as épocas e em todos os ambientes.
A civilização islâmica pode assumir diferentes formas externas quanto à sua estrutura material e organizacional. Contudo, seus princípios fundamentais e seus valores são eternos e perenes. Eles consistem na adoração de Allah; no estabelecimento de relações mútuas com base no tawhid; na afirmação da primazia da humanidade sobre os bens materiais; na repressão da animalidade mediante o desenvolvimento dos valores humanos; e na concessão do devido valor à instituição familiar. Consistem também em estabelecer o califado de Allah na Terra segundo as instruções do próprio Allah e conduzir todas as atividades do califado de acordo com a Sua Sharia.
Já foi mencionado que a civilização islâmica utiliza a capacidade e a força de trabalho para a organização científica. Portanto, mesmo mantendo valores permanentes e imutáveis, é perfeitamente natural que a forma externa da civilização islâmica sofra algumas alterações, a fim de manter a harmonia com a indústria, a ciência e o ambiente econômico da sociedade em que está estabelecida. Essa flexibilidade também está contida na própria natureza interna do Islam. Ela não foi tomada de nenhuma ideologia externa. Contudo, uma mudança adequada ao tempo na forma externa da civilização não significa uma mudança na crença ou nos valores. Não há qualquer possibilidade de confundir as alterações externas com uma mudança nos princípios internos.
O Islam entrou na África Central e semeou as sementes da civilização numa sociedade de pessoas nuas. Onde quer que a influência islâmica se tenha expandido, foram seus habitantes que cobriram o corpo nu com roupas, e as pessoas acostumadas a andar nuas passaram a vestir trajes e roupas, ingressando nos limites da civilização. Foi sob a influência dos ensinamentos islâmicos que abandonaram sua vida anterior, isolada da sociedade humana; e, inspirados pelo Islam, aqueles que eram desprovidos de civilização aprenderam a realizar trabalho físico com o objetivo de descobrir os recursos ocultos da natureza. Foi o Islam que os retirou de seus estreitos limites tribais e os lançou no oceano humano da vasta sociedade islâmica; e, em vez de adorar diversos deuses e deusas imaginários sentados no interior de cavernas montanhosas, ensinou-lhes a adoração do único Allah, Criador e Sustentador do universo. Se essa grande transformação não é civilização, então qual é a definição de civilização? Tratava-se da civilização de um ambiente específico, e naquela ocasião foram utilizados os recursos que existiam nesse ambiente. Do mesmo modo, se o Islam entrar em outro ambiente, suas atividades serão estruturadas em harmonia com esse ambiente, e a civilização manifestará sua forma de acordo com as condições daquela sociedade. Assim, segundo o método ensinado pelo Islam, não há um nível específico de indústria, ciência ou economia determinado para o desenvolvimento da civilização islâmica. Onde quer que a civilização islâmica entre, utilizará os recursos materiais existentes nesse lugar e lhes dará uma forma mais refinada. Se numa sociedade esses recursos materiais não existirem, ensinará os meios de obtê-los e conduzirá essa sociedade pelo caminho do progresso.
Contudo, deve-se lembrar que o Islam será estabelecido sobre seus princípios eternos e perenes e, onde quer que e sempre que seja estabelecido, suas características próprias se manifestarão. Também será criada uma organização especial para estabelecê-lo e mantê-lo estabelecido; e, com suas características próprias e sua estrutura organizacional, a civilização islâmica se manifestará numa forma completamente diferente da sociedade jahili.
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“Adotai a cor de Allah. E quem é melhor que Allah em matéria de cor?” — Al-Baqara: 138
O Oitavo Capítulo
O Islã e a cultura
No sexto capítulo, mencionei que a primeira parte do primeiro pilar do ideal de vida islâmico consiste em submeter-se ao Deus Uno e Único. Esse é o significado da fórmula «Lā ilāha illā Allāh». A segunda parte desse pilar consiste em adotar, seguindo o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), os meios e métodos para viver uma vida submissa a Allah. A segunda parte da fórmula do tawhid, isto é, «Muhammad é o Mensageiro de Allah» (que a paz esteja com ele), expressa precisamente esse significado. O exemplo prático da submissão a Allah e de servi-Lo consiste em reconhecê-Lo como o único Ma‘būd — Aquele que deve ser adorado — no campo da crença, na vida prática, na elaboração das leis e na obediência a elas. Nenhum muçulmano pode considerar qualquer outra força, além de Allah, digna da posição de Deus ou merecedora de adoração. Um muçulmano jamais pode sequer imaginar adorar qualquer criatura além de Allah ou reconhecê-la como poder soberano.
No capítulo anterior, explicamos o significado de ‘ibādah, īmān e soberania. Neste capítulo, discutiremos o significado da soberania e sua relação com a cultura.
Os limites da Sharia divina
Segundo a perspectiva islâmica, a soberania de Allah não se limita a aceitá-Lo como fonte da legislação ou a julgar e decidir os casos de acordo apenas com Sua lei. O significado da Sharia islâmica tampouco se restringe a um mero sistema jurídico. Todos os costumes necessários à vida estão incluídos na Sharia. Essa concepção estreita não representa corretamente a Sharia islâmica. Todas as orientações dadas por Allah, o Altíssimo, à humanidade constituem a base da Sharia do Islã. A crença, os princípios de governo, os procedimentos judiciais, os padrões morais, as formas de relacionamento mútuo e os princípios fundamentais do estudo do conhecimento e das ciências — todos esses assuntos estão incluídos na Sharia.
Todas as questões relacionadas à vida humana — as concepções das pessoas sobre o Criador e a criação, seja sobre o mundo visível ou sobre o mundo invisível, sua própria essência e sua posição no mundo criado, entre outras — fazem parte da Sharia islâmica. Do mesmo modo, as questões políticas, sociais e econômicas, bem como os princípios fundamentais desses assuntos, estão abrangidos pela Sharia islâmica. O objetivo da Sharia divina é a submissão plena a Allah, o Altíssimo, em todas essas questões. Além dos assuntos mencionados, o controle das questões sociais regulamentadas por leis também está entre as atribuições da Sharia. Por isso, geralmente entendemos por Sharia apenas as leis ou o sistema jurídico. Na realidade, porém, o alcance da Sharia é muito mais amplo. A conduta moral e os critérios para avaliar os valores e padrões da sociedade também são partes da Sharia. Todos os campos do conhecimento, bem como os princípios fundamentais das ciências e das artes, constituem igualmente parte da Sharia. Isso porque, em todos esses assuntos, dependemos da orientação de Allah, o Altíssimo, assim como dependemos dela nas questões regulamentadas por leis.
Já discutimos anteriormente a aceitação da soberania de Allah nas questões relativas às leis e ao governo. Do mesmo modo, explicamos claramente a necessidade de efetivar a soberania de Allah nas questões da moralidade, das transações, dos valores e dos critérios para aceitar ou rejeitar algo. É importante observar que os valores, os critérios para aceitar ou rejeitar, a moralidade e os costumes são consequências das crenças estabelecidas na sociedade; e, assim como a crença nasce de uma fonte divina, também os assuntos mencionados são extraídos dessa mesma fonte.
No entanto, ao ouvirem falar da aplicação da crença islâmica e do conhecimento divino no campo da literatura e das artes, muitos ficam admirados — não apenas as pessoas comuns, mas também muitos leitores e escritores de literatura islâmica.
Em um livro meu publicado anteriormente sobre as artes, afirmei que todas as formas de arte nada mais são que um reflexo das crenças e concepções do ser humano. As concepções e convicções que a mente humana guarda acerca da vida e do universo manifestam-se, tomando forma no pincel do artista. As concepções islâmicas dão origem à arte. Isso ocorre porque a crença islâmica acerca do mundo criado determina a relação do ser humano com a criação e o Criador. Em particular, o lugar e a dignidade do ser humano no mundo criado, o objetivo e o papel da vida humana, a responsabilidade do ser humano e a correta avaliação de sua vida fazem parte da crença islâmica. Pois a crença islâmica não é algo limitado ao domínio da imaginação e do pensamento; é, antes, uma visão de mundo viva, ativa, influente e constantemente atuante, e é essa crença que influencia as emoções e a inclinação para a ação do ser humano.
Em suma, é necessário discutir detalhadamente a aplicação da palavra de Allah no campo das artes e da literatura. Como já mencionei, não apenas as pessoas instruídas, mas também muitos muçulmanos que creem na soberania de Allah ficam admirados diante da minha posição sobre esse assunto.
Seja no que diz respeito à fé, seja às concepções relativas à vida; sejam os tipos e métodos de adoração; sejam a moral e as relações mútuas; sejam os valores, ou os critérios de aceitação e rejeição; seja o esboço da economia e da política, ou a interpretação da história — em nenhum desses assuntos o muçulmano pode buscar orientação em outra fonte, deixando de lado a palavra revelada por Allah. Portanto, para adquirir conhecimento sobre todos esses assuntos, o muçulmano deve sempre recorrer a um muçulmano sábio. As palavras e os atos daquele que se diz sábio devem estar sempre em harmonia. Só então ele poderá ensinar corretamente o conhecimento islâmico.
É permitido, naturalmente, que o muçulmano aprenda conhecimentos especializados com não muçulmanos. Podem ser mencionados, por exemplo, a química, a física, a astronomia, a medicina, as artes, a agricultura, a administração pública (somente no que diz respeito aos métodos administrativos), as ciências técnicas, a formação militar e as artes e ciências nacionais, entre outros. É verdade, porém, que, depois do estabelecimento da sociedade islâmica, será necessário formar um número suficiente de especialistas em todos esses campos. Isso porque adquirir conhecimento nessas áreas é um fard kifāya para os muçulmanos, isto é, conforme as necessidades da sociedade, um número suficiente de pessoas deve alcançar especialização nesses assuntos. Caso contrário, toda a sociedade islâmica será considerada pecadora. Contudo, enquanto não for formado um número suficiente de pessoas capacitadas nos diversos campos do conhecimento e da ciência, o muçulmano poderá recorrer a especialistas, sejam muçulmanos ou não muçulmanos, para adquirir especialização em determinados conhecimentos e ciências, ou poderá confiar-lhes a responsabilidade por diferentes tarefas.
Foi precisamente a respeito de assuntos desse tipo que o Profeta de Allah (que a paz esteja sobre ele) disse:
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Isto é: “Vós sois mais experientes nas questões mundanas.” Esses assuntos não estão relacionados à vida, ao mundo criado, ao ser humano e ao propósito de sua criação, nem às responsabilidades e deveres do ser humano, ou à relação do ser humano com o mundo criado e com o Criador. Essas ciências também não estão relacionadas aos princípios de elaboração das leis que controlam e determinam a natureza da sociedade, à moralidade, ao modo de vida, aos costumes, às normas, aos hábitos e comportamentos, aos valores e aos critérios de aceitação e rejeição. Portanto, não há risco de que a fé do muçulmano seja corrompida ou de que ele retorne à ignorância por aprender com não muçulmanos os conhecimentos mencionados acima.
Contudo, para explicar a corrente de pensamento subjacente às atividades humanas e seu significado — sejam essas atividades individuais ou coletivas — é necessário analisar a identidade individual do ser humano e a história da humanidade. Do mesmo modo, as questões relacionadas ao início da criação e ao começo da vida humana pertencem à metafísica (Metaphysices), isto é, não estão ligadas à química, à física, à astronomia ou à medicina; por isso, assim como as ciências das leis e dos sistemas, elas regulam a conduta da vida humana. Essas questões influenciam indiretamente as crenças e a aqida das pessoas.
Portanto, um muçulmano não pode tornar-se discípulo de um não muçulmano para adquirir conhecimento sobre os assuntos mencionados. Em todas as questões que influenciam o modo de vida humano, só se pode obter conhecimento junto a muçulmanos religiosos e tementes a Deus; além disso, é necessário acreditar que o professor em questão depende exclusivamente do conhecimento concedido por Allah. Em suma, o muçulmano deve ter firmemente presente que esses assuntos estão relacionados à aqida. Assim, estabelecer opiniões e um caminho de conduta sobre essas questões à luz da revelação divina é parte indispensável da adoração e uma exigência obrigatória do testemunho de fé.
É claro que não há impedimento em estudar e analisar criticamente as opiniões dos escritores que apoiam a jahiliyyah, a fim de saber quanta informação enganosa foi apresentada em suas obras e livros e por quais meios as pessoas podem ser protegidas dessas doutrinas equivocadas. Pelo contrário, isso é necessário para familiarizar corretamente as pessoas com a aqida islâmica.
A filosofia, a interpretação e a análise da história humana, a psicologia — excetuando-se os resultados obtidos por experiência e experimentação, pois estes não são opiniões de ninguém, mas resultados concretos da experiência e da experimentação —, a ética, a teologia e o estudo comparativo das diferentes religiões, as ciências sociais — excetuando-se as estatísticas e os resultados obtidos pela experiência — e outros assuntos semelhantes foram e continuam sendo diretamente influenciados, em diferentes períodos do passado e do presente, por várias doutrinas equivocadas. Na verdade, toda a estrutura dos assuntos mencionados foi construída sobre crenças e doutrinas jahilí. Por isso, a maioria dessas ciências entra em conflito com o dīn e, em geral, é hostil a todas as religiões e, particularmente, ao Islã.
Entre os campos da reflexão e da investigação humana, os assuntos mencionados acima não são como a química, a física, a biologia, a medicina e semelhantes. Se esses assuntos permanecerem limitados aos resultados obtidos por experiência e experimentação e não tentarem formular uma doutrina baseada em conjecturas e suposições, não haverá razão para que prejudiquem a aqida. Mas, se ultrapassarem os limites da experimentação e recorrerem à imaginação, serão certamente enganadores. Pode-se citar como exemplo a biologia de Darwin. Ao realizar experimentos e adquirir experiência sobre a biologia, ele negou, sem prova lógica e sem necessidade alguma, a necessidade de acreditar na existência de uma força exterior ao mundo material ao discutir o surgimento da vida na criação e sua evolução gradual.
Sobre esses assuntos necessários, o conhecimento concedido por Allah aos muçulmanos é suficiente e completo. O conhecimento relacionado à fé firme em Allah e à submissão plena a Ele é um conhecimento de nível extremamente elevado. Todas as doutrinas imaginárias e os argumentos humanos não passam de esforços ridículos quando comparados ao conhecimento concedido por Allah.
Alguns sustentam que a cultura é patrimônio coletivo da humanidade. A cultura não se limita às fronteiras de um país, de uma nação ou de uma religião específica. Essa afirmação é, em grande medida, correta no que diz respeito à ciência, à habilidade técnica e à explicação e análise dessas áreas. A condição, porém, é que se evite ultrapassar os resultados da pesquisa experimental para formular explicações filosóficas metafísicas, analisar o propósito da vida humana e seu papel histórico, ou elaborar doutrinas baseadas em conjecturas e suposições sobre a literatura e as artes. Entretanto, aqueles que chamam a ‘cultura’ e a ‘civilização’ de patrimônio coletivo da humanidade violam essa condição e recorrem à astúcia. Como uma manobra sutil da conspiração judaica mundial, os defensores dessa opinião procuram, em nome da cultura, enfraquecer todos os vínculos morais, especialmente as crenças religiosas. Ao infiltrar-se na política mundial, tentam libertar as pessoas das restrições morais e religiosas para pôr em prática, em todo o mundo, os maus objetivos dos judeus. A primeira etapa da conspiração judaica é o comércio usurário. Por meio desse comércio, eles sugam o sangue da humanidade e continuam enriquecendo os cofres das instituições baseadas na usura e dirigidas por judeus.
Segundo a perspectiva islâmica, deixando de lado os fatos científicos puros e sua aplicação prática, encontramos dois tipos de cultura. Uma é a cultura islâmica, construída sobre a aqida islâmica. A outra é a cultura jahilí. A cultura jahilí manifesta-se por meio de diferentes modos de vida. Contudo, a jahiliyyah aceita todos os modos de vida que criou sem verificar suas doutrinas à luz dos critérios concedidos por Allah. A cultura islâmica influencia todos os tipos de pensamento e métodos de ação humanos e oferece os princípios e os métodos de trabalho adequados para dinamizar e conferir características próprias às atividades culturais.
A ciência experimental da Europa
É preciso lembrar que a força vital da civilização industrial da Europa moderna é o método da investigação e da experimentação científica. E esse método de experimentação não foi uma descoberta da Europa. Esse método nasceu precisamente nas universidades islâmicas da Espanha e do Oriente. O Islam indicou claramente o mundo criado, as leis naturais e as inúmeras forças e riquezas ocultas no mundo criado, e foi justamente essa indicação que incentivou os muçulmanos a pesquisar e experimentar a respeito do mundo criado. Mais tarde, a Europa iniciou um movimento especial de pesquisa e experimentação científica seguindo o caminho mostrado pelos muçulmanos e, gradualmente, alcançou o ápice do progresso. Enquanto isso, o mundo muçulmano começou a afastar-se do Islam e, como resultado, o estudo das ciências em sua sociedade primeiro estagnou e depois cessou completamente. Na raiz dessa inatividade havia várias causas: uma delas era a fraqueza interna da sociedade islâmica daquela época, e outra eram os repetidos ataques armados dos cristãos e dos judeus contra o mundo muçulmano. A Europa aprendeu do mundo islâmico o método da pesquisa científica e rompeu a relação desse método com o Islam. Mais tarde, declarou rebelião contra a Igreja, porque a Igreja oprimia o povo comum em nome do sistema de governo de Allah. Ao opor-se à Igreja, abandonou também o método islâmico de pesquisa científica. Como resultado, na Europa abandonou-se também o método islâmico de reflexão e pesquisa. Como resultado, na Europa abandonou-se também o método islâmico de reflexão e pesquisa. Assim, a corrente do pensamento e da pesquisa na Europa avançou pelo caminho da jahiliyyah e, em sua natureza, não apenas se separou completamente das concepções islâmicas, mas também passou a fluir numa direção contrária ao Islam. Por isso, é dever do muçulmano adotar as concepções islâmicas e a ‘aqidah como base de todo o seu pensamento, pesquisa e atividade. Quando seu conhecimento e sua capacidade estiverem suficientemente consolidados, deverá começar a pensar por si mesmo segundo a perspectiva islâmica ou aprender com um sábio confiável e temente a Allah.
A máxima “Adquire conhecimento de onde quer que possas” não é aplicável a todos os campos segundo a perspectiva do Islam. Não se pode sair correndo de um lado para outro em busca de conhecimento sobre a fé, o modo de vida, a moralidade e os valores, os hábitos e costumes e as questões relativas às relações mútuas entre as pessoas.
Certamente, o Islam permite que, para adquirir conhecimentos de química, física, astronomia, medicina, técnicas, agricultura, administração e todos os conhecimentos de engenharia de natureza semelhante, se aprenda com um não muçulmano ou com um muçulmano desobediente a Allah quando não se encontrar um professor muçulmano temente a Allah e confiável. A situação atual dos muçulmanos é lamentável. Muitos deles afastaram-se bastante de sua religião e de seu modo de vida. Esqueceram que o Islam os nomeou califas na terra de Allah e os exortou, para cumprir a responsabilidade do califado, a adquirir competência em todas as ciências e conhecimentos e a aumentar sua capacidade e eficiência. Portanto, nas circunstâncias atuais, pode-se permitir a aquisição de conhecimentos puramente técnicos e de engenharia junto a eruditos não muçulmanos. Contudo, o Islam não permite aprender com um não muçulmano ou com uma pessoa que, embora se chame muçulmana, seja desobediente a Allah, assuntos como os princípios fundamentais da ‘aqidah, os fundamentos das concepções relativas à vida, o tafsir do Alcorão, o hadith, a explicação e análise da Sirah do Profeta, a filosofia da história, a avaliação filosófica da atividade humana, os costumes sociais, os meios e métodos de formar um governo, os princípios fundamentais da política e assuntos semelhantes.
Antes de apresentar-lhes uma exposição sobre os assuntos acima, durante quarenta anos procurei conhecer os resultados do pensamento e da pesquisa humanos em diversos campos do conhecimento e das ciências. Fiz pesquisas em nível especializado sobre os assuntos pelos quais tinha especial interesse. Depois voltei minha atenção para a fonte e origem da minha fé e, surpreso, constatei que tudo o que havia aprendido anteriormente era extremamente insignificante. Contudo, não lamento ter passado quarenta anos da minha vida estudando esses conhecimentos e ciências. Pois, nesse período, tive a oportunidade de conhecer a natureza da jahiliyyah, seus equívocos, seus desvios e sua ignorância e, ao mesmo tempo, pude ver claramente o vazio oculto por trás de suas ameaças, estrondos e alaridos. Foi nesse período que compreendi plenamente que um muçulmano jamais pode adotar, para adquirir conhecimento, a fonte da jahiliyyah ao lado da fonte divina.
Ainda assim, esta não é apenas a minha opinião pessoal. Isso porque o assunto é muito importante, e em questões tão importantes não se pode tomar uma decisão apoiando-se na opinião pessoal de um indivíduo ou de algumas pessoas. Especialmente quando existe um critério estabelecido pelo próprio Allah, não há sequer questão de dar preferência à opinião de alguns muçulmanos. Devemos tomar nossa decisão de acordo com as orientações que Allah e Seu amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nos deram a esse respeito. É dever de todo muçulmano voltar-se para as orientações de Allah e do Mensageiro em todas as questões controversas. Lembrando esse dever, procuraremos saber o que Allah e o Mensageiro dizem sobre este assunto. Sobre as más intenções dos judeus e dos cristãos contra os muçulmanos, Allah diz—
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“A maioria do Povo do Livro deseja fazer-vos voltar do caminho da fé ao caminho da incredulidade, depois de terdes alcançado a fé, movida apenas pela inveja, mesmo depois de a verdade lhes ter sido esclarecida. Perdoai-os e tolerai-os até que Allah tome uma decisão a respeito deles. Certamente, Allah é Onipotente sobre todas as coisas.”
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“Enquanto não vos juntardes aos judeus e aos cristãos, eles jamais ficarão satisfeitos convosco. Dize: a orientação de Allah, o Altíssimo, é a única orientação. Se, mesmo depois de vos ter chegado o conhecimento, seguirdes as palavras deles, ninguém poderá proteger-vos do castigo de Allah.”
— Al-Baqara: 120
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“Ó crentes! Se seguirdes algum grupo entre os Povos do Livro, eles vos farão retornar ao sistema de vida da descrença.” — Al ‘Imran: 110
A declaração do Mensageiro de Allah, que Hafiz Abu Ali Hazrat Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) citou, transmitida por Hammad e Sha‘bi, é a seguinte —
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“Não pergunteis nada aos Povos do Livro sobre qualquer assunto. Eles jamais vos mostrarão o caminho correto, pois eles próprios estão extraviados. Sob a influência deles, acabareis aceitando uma falsidade como verdade ou a verdade como falsidade. Por Allah! Se Moisés (que a paz esteja sobre ele) ainda estivesse vivo hoje, também não lhe seria permitido seguir outro caminho senão o meu.”
Mesmo depois de o próprio Allah Ta’ala ter advertido os muçulmanos sobre as más conspirações dos judeus e dos cristãos, se acreditarmos que eles nos ensinarão corretamente sobre a crença islâmica e a economia islâmica, isso será extrema insensatez. Pois, nesse caso, parecerá que consideramos os judeus e os cristãos nossos benfeitores, desejosos de nosso bem ou buscadores da verdade. No entanto, Allah Ta’ala revelou a verdadeira natureza deles. Mesmo após uma declaração tão explícita da parte de Allah Ta’ala, se mantivermos semelhante opinião a respeito deles, isso será apenas prova de uma extrema carência de inteligência e de discernimento da nossa parte.
O próprio Allah Ta’ala disse — ——————————— (Dize, ó Profeta! A orientação de Allah é a verdadeira orientação). Por meio dessa declaração, Ele informou que o muçulmano deve tomar decisões em todos os seus assuntos baseando-se unicamente no conhecimento concedido por Allah Ta’ala. Caso contrário, não há conhecimento correto em nenhum outro lugar, salvo o desvio. Portanto, não há esperança alguma de encontrar orientação em outra fonte. No versículo acima, tudo o que está fora da orientação de Allah é estabelecido como falso e mau. O significado desse versículo é extremamente claro, e não se pode atribuir-lhe nenhum outro sentido.
O Alcorão ordenou em linguagem inequívoca que os muçulmanos não devem manter qualquer relação com aqueles que se afastam da lembrança de Allah e cujo objetivo são apenas os interesses mundanos. Revelando a verdadeira natureza dessas pessoas, o Alcorão diz que elas se orientam apenas por conjecturas. E também declarou que elas não possuem conhecimento —
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“Não dês importância àquele que se afastou da Minha lembrança e cujo único objetivo, além do mundo terreno, nada mais é. O limite do conhecimento dessas pessoas é somente esse. Allah Ta’ala sabe muito bem quem se desviou e quem recebeu orientação.”
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“Eles conhecem apenas os aspectos aparentes da vida mundana e são ignorantes acerca da Vida Futura.” — Ar-Rum: 7
Essas pessoas superficiais, que dirigem sua atenção aos aspectos aparentes e estão privadas do verdadeiro conhecimento, são negligentes quanto à lembrança de Allah e estão absortas no desejo pelos interesses temporários da vida mundana. Essa é a condição de todos os cientistas e especialistas da época atual. Nenhum muçulmano pode depender sinceramente do conhecimento que eles adquiriram, e, sem hesitação, pode-se aprender com eles apenas conhecimentos técnicos, não qualquer outra coisa. Não é lícito a nenhum muçulmano confiar neles no que diz respeito à crença relacionada à vida humana e aos mistérios da criação. Esse não é o conhecimento que o Sagrado Alcorão elogia repetidamente. No Sagrado Alcorão, Allah Ta’ala diz —
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“Poderão o conhecedor e o ignorante ser iguais? — Az-Zumar: 9
Estão equivocados aqueles que interpretam este versículo rompendo sua relação com o contexto anterior e posterior! Naquilo que se refere ao conhecimento, encontra-se uma delimitação clara no versículo seguinte—
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“(Será melhor a conduta dos desobedientes mencionados acima ou a daquele) que permanece de pé durante a noite, em obediência, prostra-se, teme a vida futura e espera a misericórdia de Allah? Pergunta-lhes: poderão ser iguais aquele que sabe e aquele que nada sabe? Somente os dotados de entendimento aceitam a exortação.” — Az-Zumar: 9
Aqueles que, na escuridão da noite, permanecem de pé ou prostrados, humildemente suplicando ao seu Senhor perante Allah, e cujos corações tremem de temor pela vida futura, são precisamente os afortunados que possuem a riqueza do conhecimento. No versículo do Alcorão, esse conhecimento é chamado de verdadeiro conhecimento. Em outras palavras, o conhecimento que conduz o ser humano à busca de Allah, que faz nascer em seu coração o temor de Allah e a retidão, é o verdadeiro conhecimento. Já o saber que corrompe a natureza humana e a arrasta pelos caminhos tortuosos do ateísmo e do desvio jamais pode ser chamado de conhecimento.
O âmbito do conhecimento não se limita apenas ao conhecimento da crença, dos deveres religiosos e da Sharia. Pelo contrário, seu âmbito é muito mais amplo. O conhecimento tem, em relação às leis naturais e a todas as questões relacionadas ao estabelecimento e à administração do califado humano sobre o mundo, uma relação exatamente tão estreita quanto a que possui com a crença, os deveres religiosos e a Sharia.
O conhecimento cuja fonte não é a fé — segundo a definição do Alcorão, não pertence à categoria do conhecimento louvado pelo Alcorão. Aqueles que possuem tal conhecimento, mas estão privados do patrimônio da fé, de modo algum pertencem, segundo a perspectiva do Alcorão, à categoria dos conhecedores.
As ciências que estudam o universo criado e as leis naturais — como a astrologia, a biologia, a física, a química e a geologia — geram uma firme convicção acerca da existência. Contudo, naqueles cujas formas de pensar se corromperam, essas ciências os afastam da concepção da existência de Allah. Foi na Europa que surgiu pela primeira vez esse tipo de atitude lamentável. Em certo período da história daquele país, surgiu um intenso conflito entre os cientistas e os opressores clérigos, e, como resultado dessa oposição, todo o movimento de pesquisa científica na Europa iniciou sua marcha com uma atitude contrária a Allah. Esse movimento exerceu uma influência de longo alcance sobre todos os aspectos e setores da vida europeia. Como consequência, mudou-se o curso do pensamento europeu. Portanto, a hostilidade e a oposição não permaneceram limitadas à ciência e à Igreja europeia; pelo contrário, o conhecimento e a ciência ocidentais, em seu conjunto, tornaram-se hostis a todas as religiões, e todos os recursos que a Europa acumulou no campo do conhecimento e da ciência, com o auxílio do pensamento e da pesquisa, foram direcionados para o caminho da heresia. A metafísica, a filosofia, as ciências técnicas e todos os demais campos encontram-se na mesma situação.
Foi assim que o pensamento e a ciência ocidentais se formaram sob a influência venenosa do ódio à religião, especialmente de uma atitude ainda mais hostil em relação ao Islam. Depois desta discussão, não é difícil compreender as causas do intenso ódio e da oposição do mundo ocidental ao Islam. Da parte deles, é conduzida de maneira planejada uma detestável campanha contra o Islam. O objetivo dessa campanha é enfraquecer a crença e a doutrina islâmicas e, numa etapa posterior, destruir toda a estrutura da sociedade islâmica.
Mesmo depois de tomar conhecimento dessas questões, se dependermos do pensamento ocidental para o estudo e o ensino do conhecimento e da ciência islâmicos, isso será um pecado imperdoável de nossa parte. Naturalmente, nos dias atuais não temos alternativa senão recorrer ao conhecimento ocidental para estudar exclusivamente as ciências técnicas. Ainda assim, durante o estudo dessas disciplinas, devemos evitar cuidadosamente os dados especulativos e filosóficos. Isso porque a filosofia e as especulações da ciência ocidental nasceram de uma mentalidade hostil ao Islam. Portanto, existe o risco de que, sob sua influência, a fonte pura do modo de vida islâmico se turve.
Capítulo nono
A nacionalidade dos muçulmanos
Desde o dia em que o Islam apresentou novas concepções sobre a moralidade e os valores, bem como os meios e métodos para adquiri-los, ele também ensinou um novo método para estabelecer as relações entre as pessoas. O Islam veio ao mundo precisamente para estabelecer a relação das pessoas com seu Rabb e para ensinar que o critério de aceitar e rejeitar, assim como o princípio para avaliar todas as coisas, deve ser recebido unicamente de Allah, o Altíssimo. Da mesma forma, o Islam também declarou que os princípios fundamentais das relações entre as pessoas foram estabelecidos pelo próprio Allah, o Altíssimo. Nascemos por Sua vontade e é diante d’Ele que teremos de retornar. O Islam proclamou em voz firme que, aos olhos de Allah, existe um único vínculo que une as pessoas umas às outras; e, quando esse vínculo se fortalece, os laços de sangue e as demais conexões desaparecem.
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“Nunca verás aqueles que creem em Allah e no Além estabelecerem relações de amor com os inimigos de Allah, ainda que estes sejam seus pais, seus filhos, seus irmãos ou seus parentes próximos.” — Al-Mujadalah: 22
No mundo, o partido de Allah é apenas um. Todos os demais partidos, além desse, são os partidos de Satanás e do taghut.
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“Os que creem combatem pela causa de Allah, enquanto os incrédulos combatem pela causa do taghut. Portanto, combatei contra os aliados de Satanás. Na verdade, a conspiração de Satanás é fraca.” — An-Nisā’: 76
Há apenas um caminho para chegar à presença de Allah. Todos os demais caminhos, exceto esse, afastam de Allah.
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“Este é o Meu caminho fácil e reto; portanto, segui este caminho. Não sigais outro caminho; então vos desviareis.” — Al-An‘ām: 153
Para a humanidade, existe apenas um sistema de vida, e ele é o Islã. Todos os sistemas de vida além do Islã são jāhiliyyah.
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“Será que eles querem então adotar o julgamento da jahiliyyah? Na verdade, para aqueles que creem firmemente em Allah, não há julgamento melhor que o julgamento de Allah.” — Al-Ma’idah: 50
Há apenas uma Shariah digna de ser seguida, e ela é a Shariah islâmica. Todas as outras Shariahs, exceto a única Shariah concedida por Allah, foram elaboradas a partir dos desejos do nafs.
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“(Ó Profeta!) Depois, estabeleci-te sobre uma Shariah clara; segue, portanto, esta Shariah que estabeleci e não sigas os desejos dos ignorantes.” — Al-Jathiya: 18
Existe no mundo um único caminho verdadeiro, e ele é indivisível. Todos os caminhos, exceto esse caminho verdadeiro, são caminhos de desvio ou de perdição.
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“O que poderia ser, senão a perdição para além da verdade? Para onde vagueais, tendo perdido o caminho?” —
No mundo, apenas um território merece ser conhecido como Dar al-Islam, e este é um Estado islâmico no qual a soberania de Allah é reconhecida, a Shariah de Allah é observada e todos os assuntos coletivos são administrados com base na consulta mútua entre os muçulmanos. Todos os territórios, exceto esse Estado, são Dar al-Harb (Estado de kufr). Um muçulmano pode manter dois tipos de relação com Dar al-Harb: guerra ou um tratado de paz celebrado sob condições específicas e por um período determinado. Um Estado vinculado por tal tratado jamais será incluído na categoria de Dar al-Islam.
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“Aqueles que creram, emigraram e combateram com seus bens e suas vidas no caminho de Allah, e aqueles que lhes deram abrigo e os ajudaram, são todos aliados uns dos outros. Quanto àqueles que creram, mas não emigraram para vir ao Dar al-Islam, não tendes motivo para estabelecer amizade com eles até que emigrem. Contudo, se vos pedirem ajuda em questões religiosas, é vosso dever ajudá-los. Mas não se pode oferecer ajuda contra os povos com os quais celebrastes um tratado de paz. Allah Altíssimo vê tudo o que fazeis. Se não vos ajudardes mutuamente, a fitna e a corrupção se espalharão pela terra. E aqueles que creram, emigraram e combateram no caminho de Allah, e aqueles que lhes deram abrigo e os ajudaram, são todos verdadeiros mu’mins. Para eles haverá perdão e uma excelente provisão. E aqueles que posteriormente creram, emigraram e vieram participar do jihad convosco, fazem parte do vosso grupo.” — Al-Anfal: 72–75
O Islã veio ao mundo trazendo orientações completas e instruções decisivas desse tipo. Libertou o ser humano dos vínculos da poeira e da carne e o elevou a uma posição elevada. A terra onde a Sharia concedida por Allah foi estabelecida, e onde o critério para avaliar as relações mútuas entre seus habitantes se fundamenta na medida de sua relação com Allah, é a pátria dos muçulmanos. Os muçulmanos não têm outra nacionalidade além da fé e do vínculo da fé. É precisamente pela força dessa fé que podem tornar-se membros do Dar al-Islam — e não por qualquer outro critério. Os muçulmanos não têm outro parentesco ou proximidade além do vínculo da fé e da crença. A fraternidade fundada na fé e na crença se estabelece de modo extremamente profundo e firme. Mães, pais, irmãos, esposas e demais parentes não podem ser considerados familiares dos muçulmanos sem estabelecerem uma relação com Allah.
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“Ó seres humanos! Temei vosso Senhor — Aquele que vos criou de uma única pessoa, dela criou seu par e, de ambos, espalhou numerosos homens e mulheres. Temei a Allah, em cujo nome exigis uns dos outros os vossos direitos, e guardai-vos quanto aos direitos dos parentes.” — An-Nissa: 1
É importante observar que a relação com Allah não proíbe uma pessoa de tratar bondosamente os pais que têm opiniões diferentes e de manter relações sociais com eles, enquanto eles não ocuparem uma posição na primeira linha do lado inimigo do movimento islâmico. Se eles apoiarem abertamente as forças da incredulidade, então rompem-se os laços de parentesco e afeto dos muçulmanos com esses pais. O muçulmano não é obrigado a tratar bondosamente pais que são hostis ao Islã. O senhor Abdallah, filho de Abdallah bin Ubayy, líder dos hipócritas em Medina, deixou para nós um exemplo extremamente luminoso.
Ibn Jarir narrou, citando Ibn Ziyad, que o Profeta de Allah chamou o senhor Abdallah, filho de Abdallah bin Ubayy, e lhe disse: “Sabes o que teu pai tem dito?”
O senhor Abdallah respondeu: “Que meus pais sejam sacrificados por você — o que ele disse?”
O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Ele diz que, depois de retornar a Medina, os nobres expulsarão os humilhados.”
Hazrat Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele)! Juro por Allah que ele disse a verdade. Allah é testemunha! O nobre é o senhor. Os habitantes de Medina sabem que, antes de o senhor chegar a esta cidade, eu era extremamente obediente ao meu pai. Não havia ninguém mais obediente do que eu. Mas, se hoje eu decepar pessoalmente a cabeça de meu pai e Allah e o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) ficarem satisfeitos, estou pronto para fazê-lo agora mesmo.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Não, não faça isso.”
Quando o exército muçulmano estava entrando em Medina, Hazrat Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Abdullah ibn Ubayy, bloqueou o caminho de seu pai com a espada desembainhada e disse: “Você não havia dito que, ao retornar desta vez a Medina, os nobres expulsariam os humilhados? Juro por Allah que você descobrirá imediatamente quem é nobre: o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) é mais honrado do que todos os seres humanos. Juro por Allah que você não poderá entrar em Medina enquanto o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) não der permissão. E você também não escapará das minhas mãos!”
Abdullah ibn Ubayy gritou duas vezes: “Ó membros da tribo de Khazraj! Vejam, meu próprio filho não me deixa retornar à minha casa.” Apesar de seus gritos, Hazrat Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) continuou repetindo: “Juro por Allah que não permitirei de modo algum que você entre em Medina enquanto o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) não der permissão.” Algumas pessoas tentaram dissuadir Hazrat Abdullah. Mas Hazrat Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) continuou repetindo as mesmas palavras. Por fim, algumas pessoas informaram o Profeta (que a paz esteja com ele) sobre o assunto. Depois de ouvir tudo, ele disse aos mensageiros: “Vão dizer a Abdullah que não impeça seu pai de retornar para casa.” Depois que essa notícia chegou a Abdullah, ele disse: “Sim, se o Profeta de Allah deu permissão, ele pode entrar em Medina.”
Depois de se estabelecer o vínculo da fé, as pessoas, embora não tivessem laços de sangue, passaram a estar unidas umas às outras por um profundo vínculo de fraternidade. Essa relação tornou-se tão íntima que todos os muçulmanos passaram a considerar-se semelhantes aos diferentes membros de um mesmo corpo. Allah, o Altíssimo, diz:
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“Todos os crentes são irmãos uns dos outros.” — Al-Hujurat: 10
Embora breve, essa afirmação estabeleceu um critério permanente para determinar as relações. Ele também diz:
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“Aqueles que creram, abandonaram suas casas e seus lares pelo caminho de Allah e combateram com suas vidas e seus bens, e aqueles que lhes deram abrigo e auxílio, são protetores uns dos outros.” — Al-Anfal: 72
O patrocínio mútuo mencionado no versículo acima não se limita apenas aos homens e mulheres contemporâneos; ao contrário, é desejável que ele também se mantenha entre as gerações posteriores. Em suma, os predecessores da ummah muçulmana nutrem amor e sincera afeição pelos que vêm depois, e estes, por sua vez, pelos predecessores.
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“E aqueles que já residiam em Medina e haviam abraçado a fé antes da chegada dos muhajirun — isto é, os ansar — amavam os emigrantes e, quando os bens obtidos como espólio eram distribuídos entre os muhajirun, não sentiam em seus corações desejo algum de receber deles, mas davam preferência a seus irmãos muhajirun, mesmo estando eles próprios em dificuldades financeiras. E aqueles que se preservam da avareza de seus próprios corações são os que alcançarão a prosperidade. E os que vierem depois deles dirão: ‘Ó nosso Senhor, perdoa-nos e perdoa nossos irmãos que nos precederam na fé. Não permitas que surja em nossos corações qualquer ressentimento contra os crentes. Ó nosso Senhor! Tu és, certamente, Compassivo e Misericordioso.’” — Al-Hashr: 9–10
A fé é a base da unidade
Allah, o Altíssimo, narrou em Seu Livro Sagrado as histórias das comunidades sagradas formadas pelos grandes profetas e apresentou alguns exemplos para os crentes. Esses nobres profetas surgiram em diferentes épocas e, em seus respectivos tempos, conduziram a caravana islâmica. Nos exemplos relatados, Allah, o Altíssimo, afirmou que cada profeta considerava a relação de fé e de aqidah como a única relação verdadeira, e que, abandonando essa relação, nenhum outro tipo de vínculo pode ser benéfico ou auspicioso.
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“E Nuh disse ao seu Senhor: Senhor, meu filho certamente faz parte da minha família, e a Tua promessa é verdadeira, e Tu és o mais Sábio. Allah respondeu: Ó Nuh, ele não faz parte da tua família, pois suas ações não são como as dos justos. E não Me peças sobre aquilo cujo significado não conheces. Nuh disse: Senhor, busco refúgio em Ti contra apresentar-Te um pedido sobre aquilo que não conheço. Se não me perdoares e não tiveres misericórdia de mim, estarei entre os perdedores.” Hud: 45–47
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“Lembra-te de quando o seu Senhor pôs Ibrahim à prova com algumas ordens, e ele passou por todas as provas. Allah disse: Eu te nomearei imam para a humanidade. Ele perguntou: E entre os meus descendentes? Foi respondido: Minha promessa não se aplica aos injustos.” — Al-Baqarah: 124
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“E quando Ibrahim suplicou: Ó Senhor, faze desta cidade uma cidade de paz e concede sustento, com bons cereais e frutos, aos seus habitantes que creem em Allah e no Dia Derradeiro. Allah respondeu: E aos que descreem também concederei algum sustento neste mundo por poucos dias. Depois, porém, lançá-los-ei no Inferno; e que péssimo destino é o Inferno.” — Al-Baqarah: 126
Ao ver a atitude de Hadrat Ibrahim (A.S.), que seu pai e seu próprio povo permaneciam no caminho do extravio, ele rompeu relações com eles e disse:
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“Eu me desligo de vós e também me desligo daqueles que invocais em vez de Allah. Continuarei invocando apenas o meu Senhor. Espero não fracassar ao invocar o meu Senhor.” — Maryam: 48
Ao narrar a história de Hazrat Ibrahim (A.S.) e de seu próprio povo, Allah Todo-Poderoso destacou especialmente esses pontos diante dos crentes. É preciso compreendê-los.
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“Tendes um excelente exemplo em Ibrahim e em seus companheiros. Quando disseram ao seu povo: ‘Não temos nenhuma relação convosco nem com aqueles que adorais em vez de Allah. Não cremos de modo algum nessas divindades que adorais, até que creiais no Deus único e incomparável.’”
Quando os jovens corajosos conhecidos como Companheiros da Caverna perceberam que não havia possibilidade de viver em sua própria terra, entre seus parentes, sua tribo e sua família, preservando o tesouro inestimável de sua religião e de sua fé, abandonaram suas famílias e seus próprios parentes. Migraram de sua terra natal e partiram, levando consigo o tesouro da fé, em direção ao seu Senhor, para que pudessem encontrar um lugar onde viver como servos unicamente de Allah, conforme as exigências da fé.
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“Eram alguns jovens. Creram em seu Senhor, e Nós lhes concedemos ainda mais orientação. Levantaram-se no seio da sociedade e declararam: ‘Nosso Senhor é Aquele que possui o domínio absoluto dos céus e da Terra. Jamais invocaremos outra divindade além d’Ele; se o fizermos, estaremos cometendo algo extremamente absurdo.’ Depois, conversavam entre si: ‘Nosso povo adotou outras divindades, abandonando o Senhor dos mundos. Por que não apresentam uma prova clara em defesa de sua crença? E quem é mais injusto do que aquele que profere mentiras sobre Allah? Agora, depois de rompermos as relações com eles e com suas divindades, vamos refugiar-nos na caverna da montanha. Vosso Senhor estenderá sobre vós a mão de Sua misericórdia e vos proporcionará os meios necessários.’” — Al-Kahf: 13–16
O Alcorão também menciona a história das esposas de Hazrat Nuh (A.S.) e de Hazrat Lut (A.S.). As esposas desses dois grandes profetas professavam uma crença diferente e estavam envolvidas no shirk. Por isso, ambos os profetas romperam as relações com suas esposas.
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“Para instruir os incrédulos, Allah, o Altíssimo, apresentou o exemplo das esposas de Noé e de Lot. Essas duas mulheres eram casadas com dois servos justos Meus, mas cometeram traição. Por isso, seus maridos também não puderam salvá-las do castigo de Allah. Foi ordenado a ambas: ‘Entrai no Inferno juntamente com os demais!’” — At-Tahrim: 10
Ao mesmo tempo, a história da esposa de Faraó, o tirânico e rebelde rei do Egito, foi apresentada como exemplo para os crentes.
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“Para aconselhar os crentes, Allah, o Altíssimo, mencionou o caso da esposa de Faraó. Ela suplicou: ‘Ó meu Senhor! Constrói para mim, junto de Ti, uma casa no Paraíso; salva-me de Faraó e das consequências de todas as suas más ações, e protege-me também da maldade dos injustos.’”
— At-Tahrim: 11
Assim, o Alcorão apresentou exemplos de todos os tipos de parentesco. Na história do profeta Noé (que a paz esteja com ele), encontra-se o exemplo da relação paterna. Já na história do profeta Abraão (que a paz esteja com ele), foram apresentados os exemplos da relação entre pai e filho e da relação com a terra natal. Na história dos Companheiros da Caverna, foram apresentados conjuntamente exemplos completos de parentes, tribo e linhagem, família, país e terra natal. Nas histórias dos profetas Noé (que a paz esteja com ele), Lot (que a paz esteja com ele) e Faraó, foi dado o exemplo da relação conjugal. Segundo o Alcorão, mesmo os parentes mais próximos deixam de ser parentes do crente depois de abandonarem o caminho da fé.
A Ummah intermediária
Depois de discutir os grandes profetas e os laços de relacionamento e parentesco entre eles, analisaremos a situação do grupo chamado Ummah intermediária. Também encontramos inúmeros exemplos em nossa Ummah. Esta Ummah intermediária começou a seguir o caminho do sistema de vida que Allah, o Altíssimo, revelou para a humanidade desde os primórdios. Sempre que o vínculo da fé com um parente próximo foi rompido — em outras palavras, quando o próprio elo de união para estabelecer relações com as pessoas foi rompido —, os membros da mesma tribo, da mesma linhagem e da mesma família passaram a separar-se uns dos outros em conformidade com as exigências da fé. Ao descrever a identidade dos crentes, Allah, o Altíssimo, disse:
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“Não verás aqueles que creem em Allah e no Além estabelecer amizade com os inimigos de Allah, ainda que estes sejam seus pais, irmãos, filhos ou parentes próximos. Eles são aqueles em cujo coração Allah Ta’ala implantou a fé e a quem fortaleceu com Sua mão invisível; Ele os fará entrar no Paraíso, sob o qual correm rios, onde permanecerão eternamente. Allah Ta’ala está satisfeito com eles, e eles estão satisfeitos com Allah Ta’ala. Eles pertencem ao partido de Allah. E, certamente, o partido de Allah alcançará o sucesso. — Al-Mujadila: 22”
Vimos que todos os laços de sangue entre Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), seu tio Abu Lahab e seu parente tribal Amr ibn Hisham (Abu Jahl) foram rompidos. Os muhajirun vindos de Meca pegaram em armas contra seus parentes próximos e membros de suas próprias tribos, e foram eles que lutaram na primeira fileira na batalha de Badr. Por outro lado, estabeleceu-se em Medina uma forte relação, baseada na fé, entre os muhajirun e os ansar. A relação entre eles tornou-se semelhante à de irmãos de sangue e provou ser mais sólida que os laços de parentesco sanguíneo e de linhagem. Essa nova relação despertou o sentimento de fraternidade entre os muçulmanos. Todos os muçulmanos, árabes ou não árabes, ficaram unidos pelo vínculo da fraternidade. Suhaib Rumi, Bilal Habashi (habitante da Abissínia) e Salman Farsi (persa) esqueceram as diferenças de sua terra natal, língua materna e tribo ou raça. Seus conflitos tribais, a nobreza de sua linhagem, o orgulho de seu local de nascimento e o apego ao orgulho nacional desapareceram por completo. O amado Profeta de Allah Ta’ala (que a paz esteja com ele) disse-lhes: (Abandonem tudo isso; agora essas coisas se transformaram em cadáveres fétidos). Ele também declarou:
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“Aquele que convoca ao ódio e à divisão da época da jahiliyyah não pertence ao nosso grupo; aquele que luta com base nesse ódio e nessa divisão também não pertence ao nosso grupo; e aquele que morre acreditando no ódio e na divisão também não pertence ao nosso grupo.”
Dar al-Islam e Dar al-Harb
Em suma, com a chegada do Islam, cessam todos os slogans de ódio e divisão. A nacionalidade criada com base na linhagem, na tribo e nos interesses regionais é abandonada como um cadáver fétido. Ao abandonar a estreiteza ligada ao país, à terra, ao sangue e à carne, o olhar humano se volta para o alto. A partir do dia em que a visão dos muçulmanos rompe os limites da estreiteza e amplia a linha do horizonte, sua terra de residência passa a ser reconhecida como tal. Isso ocorre porque ali se estabelece o governo da fé e se reconhece a supremacia da Shariah concedida por Allah. Aqueles que vivem sob essa sombra refrescante do Islam são os que garantem a segurança desse país. Aqueles que sacrificam a vida na defesa desse país e nos esforços para ampliar as fronteiras das áreas sob governo islâmico tornam-se mártires. O Dar al-Islam é o refúgio de todos aqueles que colocam ao pescoço o colar de joias da crença islâmica e aceitam a Shariah islâmica como a norma que deve reger suas vidas. Até mesmo aqueles que, sem aceitar a crença islâmica, se submetem ao sistema de governo da Shariah islâmica podem, como dhimmis, usufruir de todas as comodidades e benefícios desse Estado. Mas o país onde a bandeira do governo islâmico não foi hasteada e onde a Shariah islâmica não é aplicada é Dar al-Harb tanto para os muçulmanos quanto para os dhimmis. O muçulmano estará sempre preparado para lutar contra Dar al-Harb. Mesmo que esse Dar al-Harb seja sua terra natal, que seus parentes vivam ali e que seus bens, propriedades ou outros interesses mundanos estejam de alguma forma ligados a esse Dar al-Harb, o muçulmano jamais recuará, quando necessário, de pegar em armas contra esse país. Hazrat Rasulullah (que a paz esteja com ele) pegou em armas contra os habitantes de Meca. Contudo, Meca era sua sagrada terra natal. Seus parentes e membros de sua própria linhagem viviam ali. Ele e seus amados companheiros tinham suas casas e fazendas em Meca. Ao emigrar para Medina, deixaram para trás essas propriedades. Ainda assim, até que Meca se submetesse ao Islam e aceitasse o governo da Shariah concedida por Allah, nem mesmo uma cidade mundana como Meca se transformou em Dar al-Islam.
Este é o Islam. Islam não significa pronunciar algumas palavras com a boca, cumprir certos rituais específicos ou nascer em determinada linhagem ou país.
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“Não, por teu Senhor, ó Muhammad! Eles jamais poderão ser crentes enquanto não te aceitarem como o único árbitro em todas as questões controversas entre eles, não tiverem qualquer dúvida ou hesitação quanto à tua decisão e, ao contrário, aceitarem de coração satisfeito o veredicto que proferires.” — An-Nisā’: 65
O nome desse ideal é Islã, e o Estado governado por esse ideal é o Dar al-Islam. O Islã ou o Dar al-Islam não é o nome do território de nenhum país, de nenhuma tribo específica, linhagem particular ou família determinada.
O Islã libertou a humanidade das amarras de todas as correntes. Essas correntes mantinham o ser humano preso, arrastando-o para baixo. Como resultado dessa libertação, ele adquiriu a capacidade de ascender acima dos céus. Ao libertar a humanidade dos laços de sangue e dos impulsos dos instintos animais, o Islã conferiu-lhe uma posição superior até mesmo à dos anjos. O Islã ensinou que a pátria que o muçulmano amará e em cuja defesa estará disposto a sacrificar a própria vida não é simplesmente um pedaço de terra. A nacionalidade que proclamará a identidade do muçulmano não é uma nação formada segundo uma definição estabelecida por algum governo. O parentesco e o vínculo de união dos muçulmanos não se fundamentam em relações de sangue. A bandeira cuja elevação fará o muçulmano sentir orgulho até de dar a vida não é o símbolo de um país específico. A vitória pela qual o muçulmano se empenhará constantemente e diante da qual, uma vez alcançada, se prostrará perante Allah não será uma mera vitória temporária; será, ao contrário, a vitória da grande verdade. Allah, o Altíssimo, disse no sagrado Alcorão:
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“Quando chegar o auxílio de Allah e a vitória, verás as pessoas entrarem em multidões na religião de Allah. Então glorifica, com louvor, o teu Senhor e pede-Lhe perdão. Certamente, Ele é o Aceitador do arrependimento.” — An-Nasr
Essa vitória só é alcançada sob a bandeira da fé. Nela não são utilizados os slogans hostis das demais bandeiras. O jihad é empreendido para estabelecer a religião de Allah e implementar a Sua Sharia, e não para alcançar qualquer outro interesse ou objetivo. É necessário travar o jihad para defender precisamente o Dar al-Islam cuja definição foi apresentada acima — não com a intenção de proteger a honra da terra natal ou da nação. Depois da vitória, o exército vitorioso não se agita simplesmente para apoderar-se dos bens do espólio.
A conquista de fama mundana ou a demonstração de bravura também não são objetivos dessa vitória. Pelo contrário, alcançar a satisfação de Allah é o maior desejo do crente. Por isso, o exército vitorioso se torna extremamente ansioso por alcançar a satisfação de Allah, o Misericordioso, por meio do tasbih e do istighfar. O patriotismo ou o nacionalismo não desperta a motivação para o jihad. Garantir a segurança da família e dos filhos também não é o objetivo do jihad. Contudo, o jihad é certamente necessário para libertar o país, a nação, a família e os filhos dos ataques de uma ideologia falsa e para garantir a segurança da sua religião e da sua fé.
Foi narrado por Hazrat Abu Musa al-Ashari (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi questionado: “Um homem luta para demonstrar coragem; outro luta para alcançar prestígio; e outro luta para ser visto pelas pessoas. Diga-nos: qual deles luta no caminho de Allah?” Ele respondeu: “Aquele que luta com o objetivo de estabelecer a palavra de Allah em posição elevada; somente ele luta no caminho de Allah.”
Somente lutando no caminho de Allah é possível alcançar a dignidade do martírio. Não se pode obter essa dignidade lutando por qualquer outro objetivo.
O país que luta contra a fé e a crença dos muçulmanos, impede o cumprimento das ordens e proibições religiosas e no qual a Sharia de Allah foi abandonada é Dar al-Harb.
Mesmo que nesse país vivam os parentes, familiares e membros da linhagem dos muçulmanos, que eles tenham negócios ou propriedades ali e que seus interesses financeiros estejam ligados à segurança desse país, isso não poderá alterar seu caráter de Dar al-Harb. Em contrapartida, o país onde a fé e a crença dos muçulmanos estão livres de toda pressão, onde sua predominância é reconhecida e onde a Sharia islâmica se concretiza na prática receberá a denominação de Dar al-Islam. Ainda que os muçulmanos não vivam nesse país com suas famílias, que nenhum membro de sua linhagem ou tribo esteja ali e que não haja qualquer questão relacionada a negócios, comércio ou outros interesses econômicos dos muçulmanos nesse país, ele continuará sendo Dar al-Islam.
O país onde vigora o governo da crença islâmica, onde o Islam é reconhecido como modo de vida e onde a Sharia de Allah é aplicada é a pátria dos muçulmanos. Esse significado de pátria está em completa harmonia com a humanidade. Do mesmo modo, a nacionalidade islâmica se forma com base na crença e no modo de vida, fazendo ali florescer a própria humanidade do ser humano.
A tentativa de criar unidade com base na família, na tribo, na nação, na linhagem, na raça e na região geográfica era uma concepção da época da ignorância. Quando a espiritualidade humana se encontrava em um nível extremamente baixo, as pessoas consideravam essas coisas como elos de união. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou-as de cadáveres em decomposição e fétidos. A comunidade judaica reivindicava ser especialmente amada por Allah com base em sua nacionalidade hereditária. Allah, o Altíssimo, rejeitou essa reivindicação e a lançou de volta contra seus próprios rostos, declarando que, para todas as épocas, todas as linhagens, todas as tribos e todos os lugares, existe um único critério para alcançar a proximidade, a honra e o respeito de Allah: a fé em Allah. Ele declara: ——————————————————————————————-
“Os judeus e os cristãos dizem: ‘Tornai-vos judeus ou cristãos, e encontrareis a orientação correta.’ Dize-lhes: ‘Não! Segui a religião de Abraão, abandonando tudo o mais; e ele não era um idólatra.’ Dize: ‘Cremos em Allah e no que foi revelado da parte d’Ele para nós, no que foi revelado a Abraão, Ismael, Isaac, Jacó e às tribos, e no que foi concedido a Moisés, Jesus e aos demais profetas. Não fazemos distinção entre nenhum deles e somos submissos a Allah.’ Se eles crerem no mesmo em que vós credes, encontrarão a orientação; mas, se se afastarem, estarão apenas em obstinação. Nesse caso, Allah será suficiente contra eles. Ele é Oniouvinte, Onisciente. Assumi a cor de Allah; e quem pode conferir uma cor melhor que a de Allah? E nós O adoramos.”
Na realidade, a comunidade muçulmana é composta pelos servos amados de Allah, pois seus membros esqueceram as diferenças de tribo, raça, nação e região geográfica e se reuniram sob a bandeira do Deus Único e Incomparável.
“Vós sois a melhor ummah. Fostes constituídos para orientar e liderar a humanidade. Ordenais o bem e a virtude, impedis as pessoas de praticar o mal e o pecado, e credes vós mesmos em Allah.” — Al Imran: 110
Na primeira fileira deste exército revolucionário constituído pelos servos de Allah encontram-se Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), de nobre linhagem árabe; Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele), da Etiópia; Suhaib (que Allah esteja satisfeito com ele), de Roma; e Salman (que Allah esteja satisfeito com ele), da Pérsia. Todos foram incluídos como membros deste grupo com base na igualdade de dignidade e de direitos. Posteriormente, esta ummah também se formou sobre uma fraternidade extraordinária, sem distinção de linhagem, tribo, raça ou região. Sua nacionalidade era o tawhid. Sua pátria era Dar al-Islam. A soberania de Allah era a principal característica do Estado por eles governado, e o Alcorão era sua constituição.
A hostilidade à pátria e às nações é contrária ao tawhid
É muito necessário que os conceitos e as crenças acima mencionados sobre a pátria, a nacionalidade e as relações mútuas estejam profundamente gravados na mente daqueles que convocam as pessoas ao Islam.
Eles devem apagar de seus próprios corações todas as influências da jahiliyyah. A mente e o coração dos membros do grupo que segue a Grande Verdade devem estar completamente livres de todas as formas de influência da jahiliyyah e de todas as formas de shirk difundidas no mundo atual sob a forma do culto à nação, do culto à pátria, do culto aos interesses mundanos e assim por diante. Allah Ta’ala reuniu todos os exemplos significativos de shirk em um mesmo versículo do Alcorão Sagrado; colocou-os em um dos pratos da balança e, no outro, colocou a fé e as exigências da fé, concedendo às pessoas a liberdade de escolher qualquer um dos dois.
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“Ó Profeta! Dize: vossos pais, vossos filhos, vossos irmãos, vossas esposas, vossos parentes, as riquezas que acumulastes, os negócios e as casas aprazíveis que apreciais são acaso mais amados por vós do que Allah, Seu Mensageiro e o jihad no caminho de Allah? Se assim for, então aguardai a decisão de Allah. Allah não guia os transgressores.”
Portanto, não deve haver a menor dúvida no coração daqueles que convocam as pessoas à religião acerca da natureza e da identidade do Islam e da jahiliyyah, de Dar al-Islam e de Dar al-Harb. Pois é pelo caminho da dúvida que surge o desvio. Um país onde o Islam não predomina, onde a Sharia islâmica não foi implementada e cujo sistema jurídico não é o Islam está fora do Islam. Tudo o que está fora da fé é kufr; tudo o que está fora do Islam é apenas jahiliyyah; e tudo o que é contrário à verdade não é senão falsidade.
Décimo capítulo
É necessária uma mudança de longo alcance
Como apresentar o chamado do Islã
Ao convidarmos as pessoas a aceitar o Islã, devemos sempre ter em mente uma questão, seja o interlocutor muçulmano ou não muçulmano. Essa questão está implícita na própria natureza do Islã. Também é possível compreendê-la a partir da história do Islã. Em resumo, é o seguinte: o Islã é completamente diferente, em todos os seus ramos e ramificações, de todas as demais ideologias de vida, pois é um sistema de vida originado da concepção e da crença acerca da relação entre a vida humana e a natureza do universo. A concepção e a crença islâmicas acerca da vida se opõem a todas as formas de jahiliyyah, antigas e modernas. É possível, naturalmente, que, ao se elaborar um sistema detalhado com base no sistema de vida, alguns aspectos da jahiliyyah apresentem semelhança com certos aspectos do Islã. Entretanto, a concepção e a crença fundamentais a partir das quais essas normas detalhadas são elaboradas são sempre completamente opostas à jahiliyyah. Todos os sistemas de vida conhecidos pelo ser humano são, do ponto de vista da visão de vida islâmica, jahiliyyah.
A primeira tarefa do Islã é transformar o modo de vida das pessoas com base em sua própria fé e aqidah, moldando-as segundo seu próprio padrão, e orientar o caminho pelo qual a sociedade humana deve avançar de acordo com um sistema de vida prático concedido por Allah, o Altíssimo. Allah, o Altíssimo, apresentou a ummat muçulmana como um modelo prático para a sociedade humana. Ele diz:
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“Vocês são a melhor ummat — foram suscitados para promover o bem-estar da sociedade humana. Ordenem o bem e impeçam as pessoas de praticar a injustiça. E creiam vocês mesmos em Allah.”
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“(Este é o grupo) que, se lhe concedermos autoridade sobre a terra, estabelecerá a oração, pagará o zakat, ordenará o bem e proibirá o mal.” — Al-Hajj: 41
O Islã não está disposto a adotar qualquer política de compromisso ou de coexistência com a jahiliyyah vigente no mundo. Desde o dia em que surgiu pela primeira vez no mundo, não aceitou fazer qualquer compromisso ou coexistir com a jahiliyyah — não aceita isso no mundo de hoje e jamais aceitará no futuro. Seja qual for a época da jahiliyyah, ela não é outra coisa senão jahiliyyah. E o significado de jahiliyyah é abandonar a adoração de Allah e declarar rebelião contra o modo de vida concedido por Allah. Aceitar, de fontes obscuras e desprovidas do conhecimento de Allah, os costumes de vida, as leis e os sistemas é a religião da jahiliyyah. Por outro lado, convocar as pessoas a se submeterem a Allah e, abandonando a jahiliyyah, correrem em direção ao modo de vida concedido por Allah — essa é a natureza do Islã.
O Islã não está limitado às fronteiras de uma época ou de um período; ao contrário, esse modo de vida é benéfico para a humanidade em todas as épocas e em todos os tempos. Conduzir a humanidade é o objetivo do Islã. E é preciso dizer claramente: aceitar adorar seres humanos segundo a vontade deles mesmos é jahiliyyah. Ou seja, alguns indivíduos poderosos, pela força, abandonam as normas concedidas por Allah, elaboram leis de acordo com seus próprios desejos e as impõem à sociedade; e a sociedade, ao aceitá-las, torna-se serva dos legisladores. O Islã declara que toda a humanidade adorará um único e incomparável Allah e aceitará somente d’Ele todas as crenças, convicções, concepções, leis e critérios para aceitar ou rejeitar as coisas. Libertando-se da submissão às criaturas, viverá em devoção exclusiva, submetida somente a Allah.
Essa é a própria natureza do Islã. Isso fica claramente evidente pelo papel que o Islã desempenha no mundo. No futuro, ele também desempenhará o mesmo papel. A todos diante de quem apresentarmos a mensagem do Islã, sejam muçulmanos ou não muçulmanos, apresentaremos também, em linguagem extremamente clara, o papel do Islã acima mencionado.
Seja no âmbito da crença e da fé, seja no âmbito do modo de vida, o Islã não está disposto a fazer qualquer compromisso com a jahiliyyah. Num mesmo lugar e ao mesmo tempo, ou haverá Islã, ou haverá jahiliyyah. Não há no Islã qualquer sistema em que metade seja Islã e metade seja jahiliyyah, coexistindo e misturando-se. A posição do Islã a esse respeito é absolutamente clara. Ele declara, em termos inequívocos, que a Verdade Suprema é uma unidade indivisível. Onde não houver ninguém que sustente e transmita a Verdade Suprema, haverá falsidade ou jahiliyyah. Não há qualquer espaço para a mistura, o compromisso ou a coexistência entre a verdade e a falsidade, ou entre o haqq e o batil. É preciso obedecer às ordens de Allah ou às da jahiliyyah: ou a sharia de Allah será implementada na sociedade, ou então reinarão os desejos e o arbítrio dos seres humanos. Diversos versículos do Alcorão esclarecem esse assunto.
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“Ó Profeta! Julga entre eles de acordo com o que Allah revelou e não dês importância aos seus desejos. Guarda-te deles, para que não te afastem do que Allah revelou e não te lancem no erro.” — Al-Ma’idah: 49
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“Convoca-os para esta verdade e mantém-te firme conforme te foi ordenado, e não sigas os seus desejos.” — Ash-Shura: 15
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“E, se não responderem ao teu chamado, sabe que seguem apenas os seus próprios desejos. E quem pode estar mais extraviado do que aquele que segue os seus desejos, sem dar importância à orientação de Allah? Allah jamais guia os injustos.” — Al-Qasas: 50
“(Ó Profeta!) Estabeleci-te sobre uma Shariah clara. Portanto, segue essa Shariah e não sigas os desejos dos ignorantes. Eles não te poderão beneficiar em nada diante do desagrado de Allah. Certamente, os injustos são aliados uns dos outros, enquanto Allah é o Protetor dos tementes.” — Al-Jathiyah: 18–19
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“Acaso desejam o julgamento da Jahiliyyah? E quem pode ser melhor juiz do que Allah para aqueles que creem em Allah?” — Al-Ma’idah: 50
Esses versículos deixam claro que existem apenas dois caminhos. Não há um terceiro caminho. Ou se deve aceitar as ordens de Allah e do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ou então se deve viver de acordo com os desejos do nafs. Ou se deve aceitar o julgamento de Allah, ou então curvar a cabeça diante da Jahiliyyah. A consequência inevitável de não aceitar a legislação revelada por Allah como critério para resolver todas as questões será abandonar e desobedecer às ordens de Allah. Como os versículos acima mencionados constam do Livro de Allah, não há absolutamente espaço para qualquer controvérsia sobre este assunto.
O verdadeiro objetivo do Islã
A partir da discussão acima, ficou claramente compreendido que a principal tarefa do Islã no mundo é eliminar a jahiliyyah da liderança da sociedade humana, assumir em suas próprias mãos as rédeas da liderança e, gradualmente, pôr em prática seu próprio sistema de vida, dotado de características e identidade próprias. O objetivo do estabelecimento dessa liderança justa é promover o bem-estar e o desenvolvimento da humanidade. Esse objetivo só pode ser alcançado mediante a submissão ao Criador e o estabelecimento de harmonia entre os seres humanos e a criação. O objetivo desta religião é elevar o ser humano à alta posição desejada por Allah, o Altíssimo, e libertá-lo da servidão ao nafs. Hazrat Rabi ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) mencionou precisamente esse objetivo ao responder à pergunta de Rustum, comandante do exército persa. Rustum perguntou: “Por que vocês vieram aqui?” Rabi (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Allah, o Altíssimo, nos confiou a responsabilidade de libertar as pessoas da servidão a outras pessoas e conduzi-las à adoração de Allah; de tirá-las da escravidão aos interesses estreitos deste mundo e conduzi-las à descoberta dos horizontes amplos deste mundo e da Vida Futura; e de romper os grilhões dos sistemas de vida criados pelos seres humanos, para que elas possam desfrutar dos benefícios da justiça islâmica.”
Em diferentes épocas, o ser humano manifesta os desejos de sua própria natureza sob a forma de várias doutrinas e correntes de pensamento. O Islã não foi revelado para apoiar essas doutrinas e correntes de pensamento nascidas da ignorância. Desde o início da da‘wah islâmica, já existiam doutrinas e perspectivas desse tipo. No mundo de hoje, tanto no Oriente quanto no Ocidente, predominam doutrinas criadas pelos desejos humanos, e elas continuarão a existir no futuro. O Islã veio para extirpar as concepções, leis e costumes criados por pessoas egoístas, estabelecer novas crenças sobre a vida humana e criar um novo mundo fundamentado na rendição completa a Allah, o Altíssimo. Às vezes, alguma parte específica do Islã parece compatível com a jahiliyyah. Na realidade, porém, essas partes não são a jahiliyyah nem parte dela. Semelhanças em questões menores são puramente acidentais. Na verdade, as raízes de ambos os ideais são opostas entre si. A grande árvore do Islã foi semeada, germinou, desenvolveu-se e alcançou sua plenitude a partir da fonte do conhecimento de Allah. Já a jahiliyyah nasceu no lugar imundo da mentalidade egoísta humana.
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“A terra boa produz excelentes frutos, com a permissão de Allah. Já a terra ruim produz pouquíssimo.” — Al-A‘raf: 58
Seja moderna ou antiga, a jahiliyyah é impura e enganosa. Embora sua forma e aparência mudem ao longo das diferentes épocas, sua raiz está sempre fincada no entulho dos caprichos das pessoas egoístas. A jahiliyyah jamais consegue sair dos limites da ignorância e dos interesses individuais. No máximo, é obrigada a girar continuamente em torno da proteção dos interesses de um pequeno grupo de pessoas, de uma classe específica, de uma tribo específica ou de uma nação específica. Consequentemente, o egoísmo prevalece sobre a verdade e os princípios de justiça, a equidade e a benevolência. Contudo, a lei dada por Allah corta as raízes desses egoísmos e estabelece um sistema imparcial. A ignorância, o egoísmo e os desejos da natureza humana não têm acesso a ele. Nenhuma cobiça pelos interesses de partido, classe ou tribo pode sequer aproximar-se da lei islâmica.
É justamente aí que reside a diferença fundamental entre o sistema de vida dado por Allah e os sistemas criados pelos seres humanos. Portanto, é totalmente impossível que esses ideais mutuamente contraditórios coexistam. Assim, tentar criar uma nova doutrina misturando uma parte de Islã com uma parte de jahiliyyah não passa de absurdo. Do mesmo modo que Allah não está disposto a perdoar o pecado de associar parceiros à Sua própria essência, Ele também não aprova a mistura de qualquer sistema criado pelo ser humano com o sistema de vida que Ele concedeu. Aos Seus olhos, ambos os pecados são iguais. E a verdade é que os dois tipos de mentalidade nascem da mesma fonte.
Quando convidarmos as pessoas para o Islã, as concepções e crenças acima mencionadas sobre o Islã deverão estar firmemente arraigadas em nossas mentes e corações. Pois, ao apresentar a da‘wah islâmica, não pode haver espaço para qualquer dúvida em nossas palavras. Pelo contrário, com firmeza de espírito, devemos fazer o interlocutor reconhecer que, depois de adotar o sistema de vida islâmico, a vida humana assumirá uma nova forma. O Islã transforma radicalmente suas crenças, seu modo de viver, seus costumes, sua conduta e sua maneira de pensar. Como resultado dessa mudança, eles alcançarão benefícios incalculáveis. É preciso explicar às pessoas que o Islã aperfeiçoará suas concepções e sua conduta, estabelecendo-as numa posição elevada, digna do ser humano. Depois que o Islã se estabelece, nada da jahiliyyah permanece, salvo uma ou duas questões menores. Apenas aquelas poucas questões insignificantes que, por acaso, são consideradas compatíveis com o ideal islâmico permanecerão. Mas elas também não continuarão exatamente como antes. Ao se vincularem ao ideal islâmico, sua natureza se transformará. Então, essas questões já não ajudarão a disseminar a jahiliyyah na sociedade. O Islã não rejeitará o que o ser humano alcançou nos campos do conhecimento e da ciência por meio da reflexão, da pesquisa e da experimentação. Pelo contrário, procurará promover ainda mais o progresso nessas áreas. Ao falar em público, os portadores da mensagem islâmica devem ter o cuidado de não permitir que as pessoas mergulhem no equívoco de considerar o Islã também um sistema de vida criado pelo ser humano. Elas não devem imaginar que o Islã seja apenas mais um ideal humano, como os sistemas de vida criados pelos seres humanos que se manifestam sob formas diferentes em diferentes épocas. Pelo contrário, deve-se deixar absolutamente claro que o Islã é um sistema de vida distinto, dotado de características permanentes. Esse sistema de vida possui suas próprias crenças e concepções, bem como seu próprio modo de viver. O bem que o Islã deseja conceder à humanidade é muito mais valioso do que aquilo que os sistemas de vida imaginados pelos seres humanos podem oferecer. O Islã é um sistema de vida grandioso, luminoso, puro e fundamentado na justiça. Sua fonte é o tesouro infinito do conhecimento de Allah, o Altíssimo.
Quando compreendermos corretamente a essência do Islã, essa compreensão produzirá em nós plena autoconfiança e paciência. Ao convidarmos as pessoas para o Islã, poderemos demonstrar para com elas plena compaixão. Nossa autoconfiança será a de alguém que tem a firme convicção de que somente o Islã é a verdade e que tudo o que está fora do Islã é falso. Ao vermos as pessoas em estado de desorientação e sofrimento, nascerão em nós compaixão e misericórdia por elas. Ao vê-las vivendo no caminho errado, sentiremos pena delas, pois conhecemos o meio de resgatá-las.
Depois de adquirir uma compreensão correta sobre a natureza do Islã, não há necessidade de alterar qualquer princípio islâmico para estabelecer uma conformidade com os gostos e as concepções das pessoas desviadas. Diremos às pessoas em linguagem muito clara: “A jahiliyyah na qual estais mergulhados é impura. Allah Ta’ala deseja salvar-vos dessa condição. O ambiente no qual respirais é extremamente venenoso; Allah deseja purificá-lo. A vossa vida atual está mergulhada na ânsia pelos prazeres terrenos. É uma vida extremamente degradada. Allah Ta’ala deseja conceder-vos uma posição muito elevada. Passais dia e noite em uma condição de humilhação e desonra. Allah Ta’ala deseja tornar o vosso modo de vida simples, fácil e afortunado. O Islã mudará as vossas doutrinas e concepções, e também introduzirá mudanças na vossa vida real. Em contato com o Islã, adquirireis novos valores. O padrão da vossa vida alcançará um nível tão elevado que vós mesmos podereis perceber a futilidade e a baixeza do vosso modo de vida atual. Depois que ocorrer uma transformação revolucionária na vossa vida cotidiana, surgirá em vossos corações aversão à realidade do mundo. Após conhecerdes a civilização à qual o Islã vos apresentará, considerareis extremamente vergonhoso manter na sociedade humana a estrutura da chamada civilização atualmente predominante no mundo. Por uma razão lamentável, não conseguis ver diante dos olhos a verdadeira forma do Islã. Isso ocorre porque os inimigos do Islã se uniram e estão bloqueando o caminho para a implementação do ideal islâmico na sociedade. Vinde, apresentemo-vos a verdadeira forma do ideal islâmico. Pela graça de Allah Ta’ala, o quadro completo do ideal islâmico está gravado no reino de nossos corações. Através das janelas do Alcorão, da Sharia e da história, vimos o quadro completo do Islã. Não temos qualquer dúvida em nossos corações quanto a um futuro brilhante.”
Ao apresentarmos a mensagem do Islã, devemos falar palavras desse tipo. Essa é a natureza e o curso do Islã. Foi assim que o Islã se apresentou às pessoas em sua primeira época. Na Península Arábica, na Pérsia, em Roma e em todas as regiões nas quais o Islã entrou, sua dawah foi apresentada dessa maneira.
O Islã olha para a sociedade humana a partir de uma posição muito elevada, pois, de fato, seu lugar é elevado. O Islã falou às pessoas com uma voz cheia de compaixão, pois a compaixão pela humanidade faz parte de sua própria natureza. O Islã explicou todas as questões às pessoas em uma linguagem extremamente clara. Não havia ambiguidade na mensagem que apresentou. Ele jamais deu às pessoas a falsa garantia de que suas vidas não mudariam depois de aceitarem o Islã. Nunca se disse que bastaria manter como antes seus modos de agir e de se comportar, seus costumes, suas concepções, suas crenças e seus valores, fazendo apenas pequenas alterações. O Islã jamais propôs adaptar-se às demais doutrinas correntes na sociedade. Atualmente, aqueles que, usando expressões como ‘democracia islâmica’ e ‘socialismo islâmico’, ou mantendo inalterados a economia, a política e as leis vigentes, alardeiam a implantação do Islã estão, na realidade, falando em conciliar o Islã com os caprichos de pessoas que acreditam em ideologias equivocadas.
Na realidade, o Islã é um ideal de natureza completamente diferente. Para estabelecer o Islã, eliminando a jahiliyyah existente em todo o mundo, é necessária uma transformação ampla e de longo alcance. Todas as formas de jahiliyyah predominantes nos tempos antigos e modernos são completamente diferentes do ideal islâmico. Não é uma tarefa fácil salvar as pessoas da situação deplorável em que vivem na época atual. Não será possível alcançar o objetivo por meio de mudanças superficiais no sistema social vigente. Para salvar a humanidade de sua condição humilhante e miserável, é necessária uma revolução ampla e de longo alcance. É preciso extirpar todos os ideais de vida criados pelos seres humanos e aplicar no mundo a lei concedida por Allah. É preciso libertar o ser humano do governo dos seres humanos e submetê-lo ao governo do Criador do universo. Hoje devemos declarar claramente que esse é o caminho correto para a salvação. Não deve restar na mente das pessoas a menor sombra de dúvida ou hesitação a esse respeito.
No início, uma declaração clara desse tipo pode deixar as pessoas um tanto descontentes — não seria estranho que surgisse em suas mentes certo temor em relação ao Islã e que, por isso, elas se mantivessem um pouco afastadas. Na realidade, foi isso que aconteceu na época de Rasulullah (s.a.). As pessoas ficaram assustadas ao ouvir a mensagem do Islã, pois ele criticava suas crenças, opunha-se a seus ídolos, rejeitava seus costumes e, abandonando suas práticas sociais, estabelecia para si e para seus seguidores novos tipos de costumes, condutas e valores, em oposição às práticas correntes na sociedade.
O que aconteceu depois? Aqueles que inicialmente se afastaram ao ouvir a mensagem da grande verdade voltaram e buscaram abrigo no ninho da paz. Sua fuga foi semelhante à fuga dos jumentos diante do leão, mencionada no Alcorão.
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“Como se fossem jumentos assustados, fugindo velozmente do leão.” — Al-Muddaththir: 50–51
Eles empregaram todas as suas forças na oposição a essa da‘wa. Tornaram impossível a permanência em Meca para aqueles que haviam aceitado o Islã. Submeteram-nos a perseguições e atos de crueldade sempre novos, tornando suas vidas insuportáveis; e, depois que fizeram a Hégira para Medina, ao verem os muçulmanos se fortalecerem gradualmente, os grupos opositores lançaram ataque após ataque para atormentá-los.
A chave do sucesso
As condições adversas que o movimento islâmico teve de enfrentar na época do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não eram de modo algum menores que as de hoje. A mensagem do Islã parecia estranha às pessoas daquela época. Por isso, elas rejeitaram imediatamente essa ideologia. O Islã foi confinado aos vales montanhosos de Meca. As pessoas influentes começaram a opor-se intensamente ao movimento. Governantes tirânicos, ferozmente hostis à crença e à fé islâmicas, haviam-se instalado por toda a Arábia. Ainda assim, havia no movimento islâmico uma força atraente. Ela continua tão poderosa hoje quanto antes e assim permanecerá no futuro. A força fundamental dessa da‘wa está oculta na própria fé. É por isso que, mesmo diante de feroz oposição e hostilidade, a da‘wa desta religião avança continuamente. A mensagem simples, clara e luminosa do Islã é a fonte de sua força.
A chave de seu sucesso é a crença plenamente compatível com a natureza humana. Por mais atrasadas que as pessoas estejam nos campos econômico, social, científico e intelectual, o Islã as conduz, a partir de seu próprio nível, pelo caminho do desenvolvimento progressivo até os mais altos cumes do progresso. Graças ao seu poder miraculoso, o Islã rejeita completamente as ideologias enganosas da jahiliyyah e sua força material, e não aceita alterar sequer uma letra de seu modo de vida. Ele jamais faz qualquer concessão à jahiliyyah, nem adota, apoiando-se em argumentos capciosos, uma política de coexistência com a falsidade. Em linguagem inequívoca, apresenta de uma só vez à sociedade sua mensagem completa e informa-lhe que a mensagem desta religião contém bem, misericórdia e bênção.
Allah, o Altíssimo, é o Criador dos seres humanos. Portanto, conhece perfeitamente o funcionamento de suas mentes, cérebros e corações. Ele sabe que, quando essa grandiosa mensagem da verdade é apresentada à sociedade humana sem hesitação, em linguagem clara e de maneira firme, ela conquista diretamente um lugar em seus corações.
O ser humano é uma criatura capaz de abandonar um modo de vida e adotar outro, e, em muitos casos, para ele é mais fácil mudar completamente de modo de vida do que fazer uma mudança parcial. Por isso, avançar em direção a um sistema de vida mais completo e puro que o anterior é plenamente compatível com a natureza humana. Mas, se o Islã se contentasse em mudar apenas uma ou duas coisas triviais dentro da jahiliyyah, não haveria qualquer razão lógica para as pessoas abandonarem a jahiliyyah e correrem em direção ao Islã. Nessa situação, seria mais razoável permanecer satisfeitas com o sistema antigo. Afinal, o sistema antigo está estabelecido na sociedade, e as pessoas o conhecem bem. Se necessário, não é difícil fazer algumas correções nele. Nessas circunstâncias, se não houver uma diferença fundamental entre o antigo e o novo sistema de vida, não haverá qualquer sentido em abandonar o sistema social estabelecido para adotar um novo sistema social.
Não há necessidade de apresentar uma defesa
Ao ouvir os argumentos que alguns simpatizantes do Islã apresentam em apoio à religião, tem-se a impressão de que o Islã está no banco dos réus, enquanto o orador, atuando como advogado, continua fazendo sua defesa. A forma de exposição que adotam para defender o Islã e justificar sua posição é a seguinte:
“Hoje em dia, afirma-se que a ideologia moderna realizou isto e aquilo, enquanto o Islã não fez absolutamente nada em comparação. Meus irmãos! O Islã realizou essas coisas muito antes. A ideologia moderna, surgindo quatorze séculos depois do Islã, apenas repetiu aquelas antigas realizações.”
Que defesa vergonhosa! O Islã jamais pode reivindicar como sua glória o sistema jahilí e suas atividades equivocadas. A chamada civilização da era moderna deixou muitos deslumbrados e obscureceu suas mentes e intelectos. Na realidade, essa jahiliyyah pura é extremamente inferior, vazia e equivocada em comparação com o Islã. O argumento de que o padrão de vida dos que vivem sob a proteção da ideologia moderna é superior ao dos habitantes de certos chamados Estados islâmicos ou do chamado mundo islâmico não é de modo algum razoável. Os habitantes dessas regiões não se encontram em miséria por serem muçulmanos; chegaram a essa situação precisamente por terem se afastado do Islã. O Islã afirma ser superior à jahiliyyah em todos os aspectos. Ele não foi revelado para conservar a jahiliyyah, mas para erradicá-la pela raiz e para libertar a humanidade da condição de ser esmagada pelo moinho da civilização moderna.
De modo algum nos é apropriado adotar a mentalidade derrotista de procurar semelhanças entre o Islã e as ideologias e correntes de pensamento predominantes na era moderna. Seja qual for a região — oriental ou ocidental — de onde venha a ideologia da jahiliyyah, nós a declararemos diretamente inválida. Pois, em comparação com o Islã, essas ideologias são retrógradas e totalmente opostas à dignidade com a qual o Islã deseja honrar o ser humano.
Quando apresentarmos a mensagem do Islã à sociedade humana da maneira acima mencionada e explicarmos a ela a forma integral do Islã, então, do próprio íntimo das pessoas, surgirá uma voz em apoio à legitimidade da ideologia de vida, e elas poderão compreender a validade de abandonar um tipo de crença e adotar outro, bem como de rejeitar um tipo de sistema de vida e aceitar um novo modo de vida. Contudo, jamais conseguiremos atrair as pessoas por meio do seguinte argumento: “Abandonar o sistema antigo estabelecido e adotar um novo sistema. Naturalmente, o novo sistema ainda não tomou forma em nenhum território. Entretanto, o novo sistema apenas fará algumas mudanças necessárias na sociedade estabelecida; vocês não deveriam se opor a essas pequenas mudanças. Continuarão fazendo na nova sociedade tudo o que fazem na sociedade atual. O novo ideal exigirá apenas algumas mudanças banais em seus hábitos, comportamento e gostos.”
À primeira vista, parece fácil trabalhar adotando essa estratégia. Mas ela não possui nenhuma força atrativa. Além disso, o convite mencionado não é verdadeiro. Na realidade, o Islã declarou sem hesitação que não muda apenas as crenças e a visão de mundo relacionadas à vida humana; não muda apenas a vida coletiva, as leis e o sistema judiciário, mas transforma também os sentimentos e as emoções de tal maneira que não resta qualquer semelhança com a jahiliyyah. Em resumo, pode-se dizer que o objetivo do Islã é libertar o ser humano da submissão a outros seres humanos, em todos os assuntos grandes e pequenos da vida, e transferi-lo para a servidão ao Deus único, Allah.
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“Quem quiser, que creia; e quem quiser, que seja incrédulo.” — Al-Kahf: 29
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“Quanto aos que praticam a incredulidade, devem saber que Allah não necessita de nada dos mundos.” Al Imran: 97
É necessário ter uma compreensão clara de que esta é, na realidade, uma questão de iman e kufr, tawhid e shirk, e Islam e jahiliyyah. Aqueles que vivem uma vida de jahiliyyah não são muçulmanos, ainda que mil vezes reivindiquem ser muçulmanos. Se quiserem enganar a si mesmos ou aos outros, alegando que é possível colocar os muçulmanos no mesmo nível da jahiliyyah, nada há que se possa fazer. Mas o autoengano deles, ou o engano dos outros, não pode alterar a verdade real. O Islam deles não é o verdadeiro Islam, e eles próprios não são muçulmanos. Se o movimento islâmico começasse hoje, seria necessário, antes de tudo, convocar esses muçulmanos desviados ao caminho do Islam e torná-los muçulmanos novamente.
Não convocamos as pessoas a adotar o ideal islâmico na esperança de receber uma recompensa delas. Tampouco desejamos tomar o poder ou criar calamidades no país. Não ficamos cegos pela cobiça dos interesses mundanos. O acerto de contas por nossas ações e a recompensa por aquilo que fazemos não nos são devidas pelas pessoas, mas por Allah. Amamos as pessoas e desejamos o seu bem. É por isso que lhes fazemos da’wah para que aceitem o Islam. Mesmo que lancem sobre nós montanhas de opressão, não nos desviaremos de nosso dever. Esta é a característica daqueles que convocam ao caminho do deen — e é justamente essa característica que auxilia o seu trabalho. É necessário que, por meio do nosso modo de vida, se forme na mente do povo uma compreensão correta sobre o Islam. Da mesma forma, por meio de nossa conduta, o povo saberá quais responsabilidades o Islam impõe aos muçulmanos e quais benefícios podem ser esperados como recompensa pelo cumprimento dessas responsabilidades. É preciso explicar ao povo que, do ponto de vista do Islam, o sistema social vigente é jahiliyyah pura, pois resulta dos desejos egoístas e ignorantes dos seres humanos, por não provir da fonte da Shariah. E, por estar desligada de “Al-Haqq”, a Grande Verdade, a jahiliyyah não é nada além de falsidade. ———————————–
“O que pode existir além do desvio, fora da verdade?”
Não há, em nossa fé islâmica, nada pelo qual devamos sentir vergonha ou adotar uma atitude de derrota. Também não há absolutamente necessidade de advogar para encobrir qualquer defeito do Islam, pois não existe tal falha no Islam. Não há necessidade de contrabandear o ideal de vida islâmico para alguma sociedade específica, em vez de apresentá-lo às pessoas. E, em vez de proclamar abertamente o convite completo ao Islam, tentar colocar sobre ele rótulos de vários tipos não passa de um absurdo.
Ao reconhecerem uma derrota espiritual e mental diante da jahiliyyah existente no Oriente e no Ocidente, os corações de alguns “muçulmanos” foram acometidos por diversas doenças desse tipo. Como consequência, com suas mentes enfermas, eles procuram nos sistemas de vida criados pelo homem elementos que possam apoiar o Islam; ou apontam para determinadas realizações da jahiliyyah e dizem: “O Islam também realizou esse tipo de coisa em certa época.” Aquele que sente necessidade de defender o Islam e os ensinamentos islâmicos, ou que advoga em favor do Islam com uma atitude fraca, jamais poderá representar corretamente este deen. Isso porque é um defensor insensato do Islam. Sua mente foi derrotada pela jahiliyyah e está influenciada pelo poder da jahiliyyah. A jahiliyyah, na realidade, não é senão um conjunto de algumas ideias contraditórias entre si e de inúmeros erros e equívocos. No entanto, por causa de sua ignorância, as pessoas mencionadas, ao procurar apoio ao Islam dentro da jahiliyyah, acabam ajudando a própria jahiliyyah. São inimigas do Islam — fazem-lhe mal; por meio delas, o deen não obtém benefício algum. Além disso, confundem as pessoas. Seus argumentos e discussões dão a impressão de que o Islam está no banco dos réus e nomeou esses cavalheiros como advogados para livrá-lo da sentença do juiz.
Durante minha permanência na América, algumas pessoas costumavam envolver-se em debates comigo, apresentando os argumentos acima. Havia também comigo algumas pessoas conhecidas como defensoras do Islam. Durante os debates, elas assumiam uma postura de autodefesa, apresentando argumentos em favor do Islam. Eu, porém, atacava a jahiliyyah ocidental, sua atitude vacilante para com a religião, seus sistemas social e econômico e a sociedade ocidental. Eu lhes dizia: “Observem a doutrina da trindade dos cristãos. Nenhuma das doutrinas sobre a definição do pecado e a expiação do pecado, entre outras, é racional ou aceitável à consciência. A economia capitalista, o arrendamento, a política de cobrar juros e os demais sistemas opressivos do sistema econômico, a política de cobrar juros e os demais sistemas opressivos do sistema econômico são contrários à humanidade. Na chamada liberdade individual desta sociedade não há o menor vestígio de responsabilidade coletiva ou de compaixão mútua. Aqui, nada exerce influência além do chicote da lei. Devido à visão materialista desta sociedade, a morte da alma, o comportamento sexual semelhante ao dos animais sob o nome de livre interação entre homens e mulheres, a profusão de obscenidade e indecência sob o nome de liberdade feminina, as leis irracionais e contrárias à realidade sobre casamento e divórcio, semelhantes a uma brincadeira infantil, o racismo impuro e movido por emoções, entre outras coisas, nada disso é sinal de humanidade. Por outro lado, observem o sistema de vida islâmico. Onde se pode comparar o bem inerente aos seus sistemas práticos, a felicidade, a prosperidade e a elevada visão? O elevado padrão de humanidade que este ideal de vida apresenta é desejado por todos — todos se esforçam para alcançar essa posição elevada, embora não consigam chegar a tal altura. O Islam é o ideal da vida real. Por isso, oferece soluções para os problemas mantendo a harmonia com a natureza integral do ser humano.”
Tivemos a oportunidade de ver com nossos próprios olhos os problemas reais do modo de vida ocidental. Quando analisávamos esse sistema social à luz do Islam, até mesmo os mais ardorosos defensores do ideal de vida ocidental eram obrigados a baixar a cabeça de vergonha. Ainda assim, há alguns simpatizantes do Islam que aceitaram a derrota diante da sociedade corrompida do Ocidente e procuram sem cessar semelhanças entre o ideal islâmico e a pilha de lixo fétido do Ocidente e o materialismo imundo do Oriente.
O papel correto dos que convocam
Após esta discussão, não considero necessário mencionar novamente que, de modo algum, é possível aos que convocam para o Din adotar uma política de adaptação à jahiliyyah. Para nós, é impossível fazer qualquer concessão a qualquer doutrina da jahiliyyah, a qualquer de seus costumes ou a qualquer elemento de sua estrutura social. Por isso, mesmo que os defensores da jahiliyyah passem sobre nós o rolo compressor da opressão, não estamos dispostos a ceder nem um pouco.
Nossa principal responsabilidade é eliminar a jahiliyyah e estabelecer os valores e os costumes islâmicos. Esse objetivo não pode ser alcançado por meio de uma atitude de cooperação com a jahiliyyah ou mantendo, no início, algum grau de paridade com ela. Alguns de nossos simpatizantes pensam em avançar por esse caminho. Mas, se realmente fizermos isso, estaremos apenas reconhecendo nossa derrota já no primeiro passo.
É claro que também é verdade que as ideologias e os costumes predominantes na sociedade atual querem quebrar nossa espinha dorsal exercendo uma forte pressão. Essa pressão se torna ainda mais intensa, especialmente no que diz respeito às mulheres. A desafortunada comunidade de mulheres muçulmanas é obrigada a debater-se diante do violento turbilhão da jahiliyyah. Mas não há como escapar da realidade nua e crua. Esses são obstáculos reais em nosso caminho para avançar. Devemos enfrentar as circunstâncias adversas com firmeza e coragem e vencê-las. Depois, devemos mostrar-lhe, apontando-lhe o dedo, que, em comparação com os elevados valores do Islã, a jahiliyyah está imersa na escuridão de uma profunda ignorância.
Essa grande obra não poderá ser realizada adotando um programa de manter a paridade com a jahiliyyah e percorrer com ela parte do caminho. Tampouco será possível alcançar o objetivo rompendo imediatamente todas as relações com a jahiliyyah e escondendo-nos em uma câmara escura. Devemos conviver com a jahiliyyah, mas preservando nossas características próprias. Devemos negociar com eles, mas mantendo nossa dignidade. Proclamaremos sem hesitação a mensagem da Grande Verdade, mas em tom de amor e afeto. Demonstraremos a superioridade da fé, mas por meio da cortesia. Precisamos lembrar que vivemos no próprio ambiente da jahiliyyah. Nosso caminho é simples e direto em comparação com o da jahiliyyah. Ainda assim, transformar a jahiliyyah e estabelecer o sistema islâmico é uma tarefa de alcance extremamente amplo e de longo prazo. Queremos resgatar a humanidade da escuridão da jahiliyyah e conduzi-la ao caminho luminoso do Islã. Entre a jahiliyyah e o Islã existe um vale amplo e profundo. Não é possível construir uma ponte no meio para unir os dois. Contudo, devemos tentar construir uma ponte para que as pessoas do outro lado possam abandonar a jahiliyyah e buscar refúgio sob a sombra acolhedora do Islã. Seja o recém-chegado um habitante muçulmano de uma região islâmica ou um não muçulmano de uma região não islâmica, devemos abrir para todos o caminho para abandonar a escuridão e chegar ao lugar iluminado, e para escapar do estado de imersão completa no pântano da desgraça e correr em busca dos benefícios prometidos pelo Islã. Aqueles que compreendem bem o Islã e desejam viver sob sua proteção devem romper os laços com a jahiliyyah e correr em direção ao Islã. Se nossa da‘wah não agradar a alguém, então proclamaremos também o que Allah Ta‘ala ordenou que Seu Mensageiro proclamasse —
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“Para vós, a vossa religião, e para mim, a minha religião.” — Al-Kafirun: 6
Décimo primeiro capítulo
A superioridade da fé
A declaração de Allah, o Altíssimo
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“Não desanimeis nem vos entristeçais. Vós sereis superiores, se fordes crentes.”
— Aal Imran: 139
Ao ler o versículo acima, a primeira ideia que surge é a garantia, da parte de Allah, o Altíssimo, de ajuda e vitória no caso do jihad armado. Contudo, o sentido subjacente ao versículo é muito mais abrangente e de alcance muito mais amplo do que o jihad armado. O versículo apresenta um retrato do estado mental do crente. É pela sua maneira de pensar, pelos seus valores, pelo modo como analisa e avalia os acontecimentos que se manifesta a sua consciência sempre desperta. Em todas as circunstâncias, em todos os ambientes e em relação a todos os assuntos, seu coração manterá a superioridade da fé. Diante de todos os acontecimentos e questões que encontrar, ele determinará sua conduta depois de examiná-los à luz da fé. Rejeitará sem hesitação os valores de aceitação e rejeição correntes no mundo que deixam de lado a fonte da fé, dando primazia à fé. Do mesmo modo, aos olhos do crente, não têm importância alguma as forças mundanas que não sejam fortalecidas pela fé. Abandonar sem reservas os costumes, as leis, a educação, a cultura e os sistemas de vida privados dos tesouros da fé, e estabelecer a superioridade da fé: essa será a responsabilidade do crente.
A força da fé é o verdadeiro patrimônio e a força fundamental do crente. Mesmo diante de um governante de poder avassalador, a força da fé não se submete. A fé não se curva diante de quaisquer costumes sociais ou leis falsas. Por maior popularidade que alcance um sistema de governo privado da luz da fé, o crente jamais poderá aceitar esse sistema sem fé. Em suma, a vida do crente é um exemplo vivo de um jihad permanente e total contra a descrença. Enfrentar o inimigo com firmeza e coragem numa guerra armada é apenas um passo prático para estabelecer a superioridade da fé. Quer o crente seja fraco ou forte quanto aos recursos mundanos, quer sejam poucos ou muitos em número, quer sejam pobres ou ricos, em todas as circunstâncias manterão a superioridade da fé.
A força moral criada pela influência da fé não é uma emoção passageira nem uma centelha de fogo efêmera. A percepção da Grande Verdade e a crença firme nessa verdade fazem nascer, no coração do crente, um permanente sentimento de superioridade. Essa percepção da verdade é muito mais forte e duradoura do que os argumentos e debates correntes, as pressões do ambiente, os hábitos sociais e os costumes herdados dos antepassados, porque a fé no Allah Eterno gera, no coração do crente, uma força permanente.
Na sociedade, estabelece-se o predomínio de certas ideias e doutrinas. Os vínculos sociais e a rígida disciplina obrigam cada indivíduo a seguir as ideias e doutrinas vigentes. Sem o apoio de algum grupo poderoso da sociedade ou a ajuda de alguma força externa, ninguém consegue opor-se às doutrinas e ideias estabelecidas. Por outro lado, a influência das doutrinas estabelecidas na sociedade permanece intensa. Somente depois de se sentir atraído por uma doutrina e uma ideia superiores é que o ser humano percebe a futilidade das doutrinas e ideias anteriores e se prepara para abandoná-las. Caso contrário, não há como escapar da influência das ideias e doutrinas vigentes. Também não é possível libertar-se da influência das doutrinas estabelecidas sem o auxílio de forças mais poderosas, maiores e superiores às forças que mantêm as ideias e doutrinas vigentes na sociedade.
Aquele que se ergue contra o curso predominante da sociedade, opõe-se à visão apoiada pelas forças governantes e proclama uma revolta contra as falhas, desvios e malefícios dos costumes, ritos, cerimônias, ideias e doutrinas vigentes precisará de algum apoio mais poderoso que os seres humanos, mais firme que as montanhas e mais querido que a própria vida. Caso contrário, nessa sociedade ele não apenas perceberá a própria impotência, como também não encontrará, em todo o vasto mundo, sequer um pequeno lugar onde possa buscar abrigo. Em tal situação, o Rahman, o Rahim, não pode deixar o mu’min sozinho no seio de uma sociedade opressora, para enfrentar sofrimentos, aflições e perseguições. Por isso, Ele fez descer estas palavras de consolação dirigidas aos mu’mins—
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É natural que, sob a opressão incessante de um ambiente hostil, o entusiasmo das pessoas diminua e sua coragem enfraqueça. É precisamente nesse momento que estas palavras de consolação de Allah Ta’ala infundem força e inspiração no coração do mu’min. O mu’min não triunfa sobre todas as adversidades apenas com a ajuda da paciência e da firmeza; ele as vence mantendo em mente seu senso de superioridade e um grande objetivo. Ele se eleva tanto no campo da fé e do pensamento que, a partir dessa posição, todas as forças taghutianas do mundo, os governantes poderosos, as ideias apoiadas pelo poder governamental, as leis e os costumes são considerados extremamente vis e insignificantes.
O mu’min é verdadeiramente superior. Pois, assim como ele é superior, também é superior a fonte de sua aqidah e crença. Um vasto império é insignificante aos seus olhos. As pessoas dotadas de grande poder são desprezíveis para ele. O mu’min não se deixa atrair por algo simplesmente porque vê um grande número de pessoas populares na sociedade apreciá-lo. Sob esse aspecto, o mu’min ocupa o lugar mais elevado entre todos. Ele recebeu orientação da única fonte de todo o conhecimento: Allah Ta’ala. Em cada questão, deseja conhecer a orientação de Allah, o Altíssimo, e, quando recebe d’Ele a orientação sobre determinado assunto, seja ela qual for, segue-a.
Também no que diz respeito à criação e à estabilidade do universo, a aqidah e a crença do mu’min são superiores e supremas. Isso porque, graças à visão do tawhid que o Islã lhe ensinou por meio da fé em Allah, ele foi capaz de compreender plenamente a verdade. A imagem do universo apresentada pela doutrina do tawhid está muito acima de todas as doutrinas antigas e modernas do mundo. Ao analisar a futilidade, as contradições e a falsidade de todas as doutrinas produzidas pelas religiões baseadas no shirk, pelas crenças dos ahl al-kitab desviados e pelo repugnante materialismo, nasce a firme convicção de que aqueles que possuem uma concepção correta do universo são, sem dúvida, as melhores pessoas da sociedade.
A concepção que o mu’min possui sobre os valores da vida e sobre os critérios para avaliar e distinguir assuntos, coisas, matérias e pessoas é superior e ocupa o mais alto nível em comparação com as concepções dos demais. A capacidade de discernimento gerada pela fé em Allah Ta’ala, que possui as qualidades descritas pelo Islã, não se limita a desvendar os mistérios da Terra finita, mas também revela os mistérios do universo infinito; assim, os valores da vida e os critérios de aceitação e rejeição que ela concede ao coração do mu’min são melhores, puros e realistas em comparação com os critérios geralmente vigentes, desprovidos de coerência e falhos. O conhecimento humano é extremamente limitado. Por isso, as pessoas são obrigadas a mudar repetidamente os critérios do bem e do mal ao longo das épocas. Além disso, mesmo dentro de uma mesma nação vigoram critérios diferentes. Às vezes, vê-se que a mesma pessoa expressa, pela manhã, uma opinião sobre determinado assunto e, à tarde, emite exatamente o veredito oposto.
Como resultado da fé em Allah, o mu’min adquire as melhores qualidades na consciência, na capacidade de discernimento, no caráter e na conduta. Isso porque o próprio Allah Ta’ala possui os melhores nomes e as mais excelentes qualidades. É a aqidah e a crença do mu’min que fazem nascer em seu coração o senso de dignidade, a pureza e a limpeza, a cortesia e a polidez, o desejo de praticar boas ações e a motivação para adquirir a capacidade de cumprir sua responsabilidade como khalifah de Allah na Terra. Além disso, é essa aqidah e essa crença que estabelecem no coração do mu’min a firme convicção de que a Akhirah é o verdadeiro lugar de recebimento da recompensa pelas ações e de que os sofrimentos da vida terrena são insignificantes em comparação com a recompensa que será recebida ali pelas boas ações e por uma vida pura. Como resultado do surgimento desse sentimento, uma profunda tranquilidade desce sobre o coração do mu’min. Assim, mesmo permanecendo privado dos prazeres e das riquezas terrenas durante toda a vida, ele não se queixa.
A lei e o sistema de vida que o crente segue são os melhores e os mais excelentes. Depois de examinar e analisar todas as leis elaboradas pelos seres humanos, desde a Antiguidade até a era moderna, firma-se no coração do crente a convicção de que tudo o que a humanidade alcançou até agora, após muitos esforços e empenho, não passa de uma brincadeira infantil em comparação com o sistema de vida e as leis islâmicas. Ele também se convence de que o esforço empreendido até hoje pelos seres humanos para elaborar leis e normas é comparável ao caminhar de um cego. Assim, quando o crente, a partir de sua posição elevada, vê a aflição, a angústia e o desamparo das pessoas que perderam o caminho, sente compaixão por elas e compreende que é vitorioso sobre a sociedade humana desorientada.
Na era da jahiliyyah, as pessoas estavam embriagadas pelo orgulho de um poder vazio de conteúdo e pelo fascínio e esplendor das riquezas mundanas. Graças à crença e à aqida islâmicas, o crente percebe a futilidade da adoração dessas coisas e se torna possuidor das qualidades e do caráter mencionados acima. A jahiliyyah não está limitada a uma época específica. Sempre que o ser humano abandonar o caminho iluminado do Islã, será cercado pela jahiliyyah. A mesma regra se aplica a todos os tempos e épocas: passado, presente e futuro. Tendo testemunhado as diversas manifestações da jahiliyyah no acampamento luxuoso do famoso comandante persa Rustum, relatarei, nas palavras de Abu Uthman Nahdi, a atitude demonstrada por Hazrat Mugira bin Shabi (r.a.):
“Atravessando a ponte sobre o rio, Mugira bin Shabi (r.a.) chegou ao acampamento dos soldados persas. Eles o deixaram sentado e solicitaram permissão para que ele se encontrasse com Rustum. Apesar de terem sido derrotados na guerra, não haviam diminuído em nada seu esplendor. Depois de obter permissão, Mugira avançou. Todos no acampamento estavam vestidos com roupas específicas. Alguns usavam coroas de ouro na cabeça e vestes adornadas com trabalhos em ouro. Uma área de mais de cem côvados estava coberta por tapetes pesados e valiosos. Mugira entrou na tenda. Subiu diretamente à plataforma elevada e sentou-se ao lado de Rustum. Os cortesãos correram, seguraram-no pela mão e o fizeram descer dali. Hazrat Mugira começou a dizer: ‘Até agora ouvimos muito sobre a vossa inteligência. Mas hoje descobrimos que sois uma nação de tolos. Em nossa sociedade, todas as pessoas são iguais — ninguém é escravo de ninguém. A situação dos prisioneiros de guerra, porém, é diferente. Eu pensava que vós, assim como nós, tratáveis uns aos outros com igual dignidade. Antes de me tratarem como o fizeram, teria sido melhor informar-me de que, em vossa sociedade, algumas pessoas estabeleceram seu domínio divino sobre as demais. Vim aqui a vosso convite — não vim por vontade própria. Portanto, o tratamento que me dispensastes não é de modo algum um bom tratamento. Compreendi que vossa estrutura social é extremamente frágil. Consequentemente, vossa derrota é inevitável. Nenhum império pode sobreviver com esse tipo de caráter e mentalidade.’”
Às vésperas da batalha de Qadisiyyah, Rabi bin Amir (r.a.) também demonstrou a mesma atitude diante de Rustum e de seus cortesãos. O acontecimento foi o seguinte: antes da batalha de Qadisiyyah, Hazrat Sa’d bin Abi Waqqas enviou Rabi bin Amir (r.a.) como emissário à corte de Rustum, comandante do exército do imperador persa. Ao entrar no acampamento, Rabi bin Amir (r.a.) viu que a sala da corte estava adornada com tapetes valiosos. Rustum, vestido com uma roupa adornada com ouro e joias, estava sentado num trono de ouro sobre uma plataforma elevada. Rabi (r.a.) entrou na corte montado num cavalo magro, vestindo roupas rasgadas e levando na mão um pequeno escudo e uma lança. Prendeu o cavalo a uma almofada valiosa e dirigiu-se a Rustum. Ainda vestia suas roupas de guerra. Ao avançar usando um elmo de ferro e uma armadura, os cortesãos lhe disseram que tirasse as roupas de guerra. Rabi bin Amir (r.a.) respondeu: ‘Não vim aqui por vontade própria. Vós me convidastes e me trouxestes. Se esta roupa vos desagrada, então vou embora.’ Rustum disse: ‘Deixai-o entrar.’ Ele avançou apoiando-se na lança que segurava. As estocadas da lança rasgaram o tapete em vários lugares. Rustum perguntou: ‘Por que viestes?’ Ele respondeu: ‘Allah nos enviou para libertar as pessoas da servidão a outras pessoas e conduzi-las à adoração de Allah, o Único e Incomparável. Nosso objetivo é conduzir àquele vasto campo os que desejam libertar-se da estreiteza deste mundo e alcançar os benefícios ilimitados da Outra Vida, libertar as pessoas da opressão das religiões criadas pelos seres humanos e submetê-las à justiça e aos princípios concedidos pelo Islã.’ (Al-Bidaya wa an-Nihaya, de Ibn Kathir)
Com o passar do tempo, uma revolução enfraqueceu a perspectiva dos muçulmanos, e eles passaram a sentir-se atraídos pelas riquezas mundanas. Ainda assim, manteve-se sua concepção de superioridade. Se a lâmpada da fé continuar acesa em seus corações, mesmo sendo derrotados, considerarão a nação vitoriosa inferior e desprezível em comparação consigo mesmos. Têm a firme convicção de que a supremacia mundana é apenas temporária. Hoje ou amanhã, a destruição da nação vitoriosa e desviada será inevitável. Mesmo diante da morte, o crente, apesar da falta de riquezas mundanas, não se ajoelhará perante as forças da falsidade. O crente considera a morte do adversário algo insignificante. Para si, porém, há a honra do martírio. Assim que partir deste mundo, entrará no Paraíso, enquanto o grupo poderoso e vitorioso de hoje será lançado, na Outra Vida, no Inferno, com seus tormentos severos e dolorosos — disso ele tem certeza. Pois o crente ouviu a clara declaração de Allah sobre o destino dele e o de seu adversário. Ele disse:
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“Não vos deixeis enganar pelo domínio dos que negam Allah sobre a terra. Isso não passa de um pequeno benefício por poucos dias. No fim, eles entrarão no Inferno, o pior lugar de retorno. Por outro lado, para aqueles que vivem temendo seu Senhor, haverá jardins sob os quais correm rios, nos quais permanecerão eternamente. Isso é uma hospedagem providenciada por Allah para eles. E o que está junto de Allah é melhor para os virtuosos.” — Al Imran: 196–198
Crenças, valores e padrões contrários à fé, à aqida, aos valores e aos padrões do crente podem tornar-se predominantes na sociedade. Ainda assim, a consciência do crente não consegue, nem por um momento, esquecer sua elevada posição e a inferioridade dos demais. De seu lugar sublime, preservando seu autorrespeito e sua dignidade, ele contempla a sociedade com paciência e compaixão, e em seu coração desperta um desejo irresistível de guiá-los ao caminho correto, retirando-os de sua condição degradada e conduzindo-os ao ápice do progresso.
O batil cria um tumulto extraordinário, fazendo tudo estremecer ao seu redor com rugidos e gritos; ergue o peito, retorce o bigode e reúne à sua volta um vasto exército de bajuladores, confundindo a visão exterior e a percepção interior dos outros. As pessoas da sociedade não conseguem ver a horrenda e disforme face do batil, escondida por trás do brilho que ofusca a visão. O mu’min, sentado num lugar elevado, observa os vãos rugidos e ameaças do batil e vê a condição enganada das pessoas desorientadas, mas nenhuma fraqueza encontra abrigo em seu coração; não sente tristeza, e sua firme crença na Grande Verdade não se enfraquece nem um pouco. Seus pés não se desviam sequer um palmo da Sīrat al-Mustaqīm. Pelo contrário, em seu coração cresce ainda mais o desejo e o estímulo para guiar ao caminho da hidayah as pessoas desorientadas e enganadas.
A sociedade jahilī mergulha nos desejos e paixões. As baixas inclinações são arrastadas pela inundação. Em toda parte, a obscenidade e a imundície, libertas de todas as restrições, desfrutam seguramente de seus prazeres. Por fim, nessa sociedade, um ambiente puro e alimentos halal tornam-se raros — tão raros que praticamente não podem ser encontrados. O mu’min, sentado acima de tudo isso, contempla a sociedade flutuando na corrente de lixo e imundície. Embora esteja sozinho, não se desespera nem se entristece ao observar o curso e a natureza da sociedade. Por nenhum momento surge em sua mente o desejo de lançar para longe a veste da pureza e da modéstia e deixar-se levar pela correnteza da obscenidade. Graças ao sabor do īmān e à satisfação espiritual da ‘aqīdah, ele se vê muito acima daquela sociedade cheia de lixo.
A sociedade que se rebela contra o dīn, que decaiu após perder o senso de honra e dignidade, que carece de elevados valores, que carece de civilidade e boas maneiras — em suma, a sociedade que abandonou todas as qualidades de pureza e modéstia — é aquela na qual o mu’min se apega ao dīn e ao Islã como quem segura na mão um pedaço de carvão em brasa. Aqueles acostumados a deixar-se levar pela corrente da multidão zombam da firmeza do mu’min, classificam seu modo de pensar como loucura e dilaceram seus valores queridos com os golpes da crítica. Mas o mu’min vê e ouve tudo. Ainda assim, nenhuma fraqueza surge em seu coração. Com seu olhar generoso e tolerante, contempla os zombadores e críticos, e de seus lábios saem as mesmas palavras pronunciadas por Hazrat Nūh (a). Ao atravessar um longo caminho cheio de espinhos, Hazrat Nūh (a), personificação da paciência e da firmeza, disse à multidão de zombadores:
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“Hoje zombais de nós. Um dia também zombaremos de vós, assim como hoje zombais de nós.” — Hūd: 38
À luz das sagradas palavras de Allah Ta‘ālā, o mu’min vê claramente o destino de ambos os lados: o seu próprio e o do grupo opositor. Allah, o Puro, disse:
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“Certamente, os criminosos costumavam rir e zombar dos crentes (no mundo). Quando passavam por eles, faziam-lhes sinais com os olhos, zombando. Ao retornarem para suas famílias, voltavam fazendo comentários sobre eles. E, ao verem os muçulmanos, diziam: ‘Estes são realmente os extraviados’. Contudo, eles não foram enviados para serem guardiões dos muçulmanos. Hoje (no Dia do Além), os muçulmanos rirão dos incrédulos e, sentados em seus leitos, olharão para eles. Os incrédulos receberam hoje a recompensa por aquilo que praticaram?” — Al-Muṭaffifīn: 29–36
O Sagrado Alcorão também nos informou, reproduzindo as palavras de escárnio dos incrédulos dirigidas aos crentes:
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“Quando os nossos versículos lhes são recitados claramente, os incrédulos dizem aos crentes: Dizei-nos, entre os dois grupos, qual está em melhor situação e qual deles possui a assembleia mais esplêndida?”
Em outras palavras, qual dos dois grupos é superior? De um lado estavam os chefes tribais, líderes sociais e homens ricos que não haviam acreditado em Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele); do outro, os pobres e desamparados que haviam acreditado. A pergunta deles era: qual dos dois grupos é superior? Nasr ibn Harith, Omar ibn Hisham, Walid ibn Mughirah e Abu Sufyan ibn Harb eram líderes estabelecidos e anciãos respeitados da sociedade. Em contrapartida, Hazrat Bilal, Hazrat Ammar, Hazrat Khabbab (que Allah esteja satisfeito com eles) e outros eram pessoas sem apoio nem recursos. Os incrédulos diziam entre si: se Muhammad (que a paz esteja com ele) fosse realmente o Profeta de Allah, por que essas pessoas das camadas inferiores da tribo dos coraixitas se juntariam ao seu grupo? Não havia na sociedade pessoas mais dignas do que elas? Para se reunirem, eles não tinham sequer um local adequado, além da casa de uma pessoa comum (a casa de Hazrat Ikrimah). Já o grupo contrário ao Islã era senhor de um amplo centro de reunião como an-Nadwah. Eles possuíam esplendor e abundância, e lideravam a nação.
Essa é a visão dos adoradores dos interesses mundanos. Em todos os tempos e épocas, em toda parte do mundo, seu olhar esteve sempre voltado para baixo. Nunca olharam para os altos horizontes.
O Deus Altíssimo determinou que aqueles enriquecidos com a fé e a aqidah permanecerão acima do fascínio do esplendor mundano e do brilho passageiro. Eles não ansiarão pela proximidade dos governantes, pelos favores do governo, pela popularidade barata nem pela satisfação dos desejos e paixões. Ele também determinou que o caminho do crente consiste em prosseguir com rigorosa renúncia e perseverança no jihad até o martírio. Ao ingressar no caminho do Islã, cada pessoa deve compreender plenamente que aceitou a religião somente por causa da superioridade da fé e da aqidah. Fora da satisfação de Allah, não há aqui nenhum interesse mundano. Este caminho está fechado para aqueles que são apegados à cobiça, aos desejos e ao esplendor. Somente aqueles que desejam a satisfação de Allah podem avançar por este caminho; ninguém mais.
O crente não depende de pessoa alguma para determinar seus valores, suas concepções e os critérios de aceitar ou rejeitar algo. Em todas as questões, ele recebe orientação do grandioso Allah, Senhor dos mundos, e o critério concedido por Allah lhe basta. Ele não depende da vontade das pessoas. Por isso, não precisa mudar suas opiniões conforme mudam as vontades humanas. Isso porque o crente acreditou na Verdade Suprema. A verdade é firme e imutável, e jamais permanece vacilante. O crente não recebe inspiração deste mundo limitado e transitório. A fonte de toda a sua inspiração é o Criador, Governante e Sustentador da vasta criação. Por isso, o coração do crente não pode enfraquecer. Ele jamais é vítima do desespero. Depois de se ligar ao Senhor da humanidade, à grandiosa fonte da verdade e ao centro de toda a força, pode haver alguma razão para medo, temor ou apreensão?
O crente está estabelecido sobre a verdade. Ao se desviar da verdade, nada será alcançado além da falsidade e da mentira. Que a falsidade tenha seus tambores e clarins, que multidões se aglomerem ao seu redor; a verdade não pode mudar por causa disso. Ele jamais abandonará o caminho do haqq, ou da verdade, para fazer qualquer concessão à falsidade. Esperar algo assim dele é pura insensatez.
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“Ó Senhor! Não permitas que nossos corações se desviem depois de nos teres guiado pelo caminho da orientação. E derrama sobre nós misericórdia do tesouro da Tua misericórdia. Certamente, Tu és Generoso e Dadivoso. Ó Senhor! Um dia, certamente reunirás todos os seres humanos. E não há a menor dúvida quanto à chegada desse dia. Allah, o Altíssimo, jamais quebra a Sua promessa.” — Al Imran: 8-9
Décimo segundo capítulo
O caminho tingido de sangue
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“Pelo céu firme, repleto de grandes fortalezas, e pelo dia que foi prometido. Pelo observador e pelo observado. Pereceram os que cavaram as fossas, nas quais ardia um fogo intenso. Quando se sentaram à entrada das fossas e se divertiam observando tudo o que era feito aos crentes. A razão de sua inimizade contra os crentes era que eles haviam acreditado em Allah, o Poderoso, o Digno de todo louvor, que é o Senhor dos céus e da terra, e Allah observa todas as coisas. Certamente, para aqueles que perseguiram e torturaram os homens e as mulheres crentes e depois não se arrependeram, haverá o castigo do Inferno, e está reservado para eles o castigo abrasador. Para aqueles que creram e praticaram boas obras, haverá, como recompensa garantida, jardins do Paraíso sob os quais correm rios. Esse é o verdadeiro sucesso. Na verdade, o castigo do teu Senhor é muito severo. Ele é Quem iniciou a criação e a repetirá. E Ele é Perdoador, Amoroso, Senhor do Trono e Magnífico. Ele realiza tudo o que deseja.” — Al Buruj: 1-16
A história dos que cavaram as fossas, narrada no Alcorão, suscita reflexão em todas as pessoas crentes. Esta surata (Surata Al Buruj) é extremamente importante para aqueles que desejam realizar o trabalho de convite à religião no mundo.
Na forma como o Sagrado Alcorão apresentou a introdução, a narrativa, os comentários e as lições da história, delineou-se claramente o caminho da jornada dos que convidam para o caminho de Allah. Foi oferecida uma compreensão clara sobre a natureza do movimento religioso, a reação dos grupos humanos e tudo o que pode acontecer durante a expansão desse convite pelo vasto mundo. Por meio da narrativa, Allah, o Altíssimo, mencionou os obstáculos e as dificuldades que podem surgir no caminho dos crentes e incentivou-os a aceitar todos os tipos possíveis de perigos, adversidades, tristezas e sofrimentos.
Esta é a história de um grupo de crentes. Eles haviam professado fé em seu Senhor e declarado publicamente o conteúdo de sua fé. Mas os inimigos opressores e poderosos da sociedade não estavam dispostos a conceder àquelas pessoas o direito de crer em Allah, o Louvado e Onipotente. Por isso, os crentes foram submetidos a uma perseguição extrema. Num esforço para privá-los da dignidade concedida por Allah e transformá-los em marionetes nas mãos de seus governantes, o grupo inimigo revelou sua natureza perversa ao infligir-lhes cruéis torturas físicas.
Contudo, aquelas pessoas de coração puro, fortalecidas pela fé, foram plenamente aprovadas na prova que lhes foi imposta. A fé triunfou sobre seus corpos mortais. Por isso, não se perturbaram nem um pouco diante das ameaças e do terror dos opressores; pelo contrário, foram lançadas numa fogueira ardente e morreram lentamente. Ainda assim, não aceitaram afastar-se nem sequer a espessura de um fio de seu din. Estavam livres do encanto e da atração da vida terrena. Por isso, embora se preparasse, de modo cruel, o seu assassinato como se fossem animais, não conseguiram abandonar a aqida em troca da vida. Rompendo com o apego às alegrias e riquezas do mundo, partiram para o mundo superior com o coração destemido. Que supremacia magnífica da força da fé sobre a vida de curta duração!
Contra as pessoas plenamente crentes, de caráter elevado, virtuosas e bem-comportadas, estavam os homens rebeldes contra Allah, obstinados, depravados, inclinados ao crime e de natureza perversa. Sentados à beira da cova de fogo ardente, eles desfrutavam do espetáculo da morte dolorosa e lastimável dos mu’mins. Haviam-se reunido junto à cova, movidos pela curiosidade de ver como o fogo ardente devorava pessoas vivas e as queimava até reduzi-las a cinzas.
Quando um jovem ou uma jovem crente, uma criança, uma idosa ou uma pessoa idosa era lançada ao fogo, sua alegria se transformava em frenesi. E, ao verem os jatos de sangue e os pedaços de carne em chamas, dançavam de alegria. Essa história horripilante mostra que o grupo opressor havia perdido completamente a razão e a consciência, descendo a um nível inferior ao dos animais. Pois os animais ferozes caçam para saciar a fome. Eles não matam seres vivos com o objetivo de se divertir.
O mesmo acontecimento permite formar uma ideia clara da elevada posição dos crentes. Eles haviam ascendido ao ápice da espiritualidade. Sua confiança inabalável em Allah havia alcançado a perfeição. Para as pessoas de todas as épocas e de todos os tempos, esse nível de fé sempre foi considerado extremamente desejável.
À primeira vista, parece que a opressão e a perseguição triunfaram sobre a fé e a aqida. Embora a força da fé dessas pessoas virtuosas, pacientes e tementes a Allah tivesse alcançado o auge, o desfecho do acontecimento dá a impressão de que sua força de fé fracassou no confronto de forças com o batil. Não se sabe, pelo Alcorão Sagrado ou por qualquer outro livro, se os que cavaram a cova receberam uma punição semelhante à infligida aos povos de Noé (A), Hud (A), Salih (A), Shuayb (A) e Lot (A) por crimes tão abomináveis. Tampouco há como saber se receberam uma punição tão severa quanto aquela com que Allah, o Altíssimo, castigou o Faraó e seus seguidores. Assim, sob a perspectiva materialista, o destino dos crentes nesse acontecimento foi extremamente trágico.
Mas será que o assunto terminou aqui? Aquele grupo temente a Allah e virtuoso, que havia alcançado um nível elevado de fé, teria simplesmente acabado, queimado e reduzido a cinzas pelo fogo da cova em meio à opressão e à perseguição? E aquelas pessoas opressoras, semelhantes a animais, teriam escapado completamente da punição? Do ponto de vista terreno, muitas perguntas surgem na mente sobre isso. Mas o Alcorão ensina algo diferente aos crentes e abre diante deles a porta de outro mistério. O Alcorão apresenta um novo critério para distinguir o bem do mal, um critério que ajuda a determinar o caminho dos mu’mins no conflito entre a verdade e o batil.
A vida terrena, com seu conforto, prazer, privação e tudo o mais, não é o fator decisivo da vida humana. Somente essas coisas não determinam o cálculo dos ganhos e das perdas. A expansão temporária do domínio não se chama vitória, embora o domínio seja um dos meios e métodos da vitória. Segundo o critério de Allah, somente o peso da fé é decisivo. No mercado de Allah, há procura apenas pelo produto da fé. O melhor exemplo de vitória é a supremacia da fé sobre a matéria. O acontecimento mencionado deixa claro que os espíritos dos crentes triunfaram completamente sobre o medo, o sofrimento, as dificuldades, o conforto da vida terrena e o desejo de desfrutá-la. A vitória e a honra alcançadas pelos crentes diante da perseguição extrema escreveram um capítulo glorioso na história da humanidade. E essa é a verdadeira vitória.
Todas as pessoas morrem. Mas as circunstâncias da morte são variadas. O sucesso alcançado pelos crentes mencionados não cabe no destino de todos. Tampouco é possível para muitos alcançar um grau tão elevado de fé. Nem todos podem desfrutar de uma liberdade tão plena. Allah, o Altíssimo, por Sua ilimitada graça, escolhe um grupo de pessoas que morre como todos os seres humanos, mas cujas circunstâncias são extremamente afortunadas. Ninguém mais pode alcançar essa felicidade. Eles recebem uma posição e uma honra superiores até mesmo às dos grandes anjos. Segundo esse critério de honra e dignidade, tornam-se os detentores da mais elevada posição na história da humanidade.
Os crentes mencionados tinham a possibilidade de abandonar a fé para salvar a vida. Mas, se tivessem feito isso, quanto teriam prejudicado a si mesmos e toda a humanidade? Se a grande verdade — “uma vida sem fé não vale sequer um centavo” — tivesse sido abandonada para preservar a vida, a humanidade teria sofrido um dano extremo. Depois de perder a liberdade de crença e convicção, o ser humano torna-se desprovido de tudo. Se o grupo de governantes opressores, torturando o corpo, conseguir também estabelecer seu domínio sobre a alma, a essência humana degrada-se profundamente. Como os crentes mencionados haviam alcançado um grau tão elevado de fé, permaneceram firmes na grande verdade e na pureza mesmo quando o poder abrasador do fogo começou a atuar sobre seus corpos vivos. Enquanto seus corpos mortais ardiam no fogo, seus grandiosos e elevadíssimos ideais ascendiam pelas etapas do sucesso. Pelo contrário, o fogo conferiu ainda mais brilho à sua fidelidade aos ideais.
Essa luta entre a verdade e a falsidade (entre o haq e o batil) não se limita ao palco deste mundo. A vida terrena tampouco é a vida humana completa. Nessa luta, não participam apenas as pessoas da época contemporânea. Os anjos também tomam parte na guerra do haq contra o batil, observam o curso da batalha e testemunham tudo o que acontece. Mais do que isso, pesam os acontecimentos numa balança. Essa balança é completamente diferente de todas as balanças humanas de todas as épocas e de todos os tipos. Na verdade, a balança dos anjos possui características distintas até mesmo da balança de toda a humanidade. Os anjos são uma magnífica criação de Allah. Em qualquer momento, o número de anjos é várias vezes maior que o número de pessoas que vivem no mundo inteiro. Portanto, pode-se afirmar sem dúvida que o louvor e o respeito dos anjos pelos partidários do haq são muito mais valiosos que o respeito e o louvor dos habitantes deste mundo.
Depois de todos esses níveis vem a Vida Futura. E esse é o verdadeiro lugar onde os resultados se manifestam. Este palco do mundo está ligado à Vida Futura — não está separado dela. Essa é a verdadeira realidade, e essa também é a fé inabalável do crente. A luta entre o haq e o batil não termina no próprio campo de batalha deste mundo. O estágio da verdadeira conclusão ainda não chegou. Não é correto nem justo chegar a qualquer conclusão com base apenas na parte da luta que ocorreu no palco deste mundo. Pois, nesse caso, a conclusão ficaria limitada a alguns embates comuns da guerra.
A visão daqueles que consideram a vida terrena a única vida é muito estreita e limitada. Somente as pessoas de espírito inconstante adotam esse tipo de visão. O segundo tipo de visão — isto é, a visão voltada para a Vida Futura — é de longo alcance, realista e abrangente. O Alcorão forma nos corações dos crentes esse segundo tipo de visão. E essa é a visão voltada para a realidade. É sobre essa visão que se ergue o vasto edifício do pensamento baseado na fé. A recompensa que Allah, o Altíssimo, prometeu aos crentes pela firmeza na fé e na obediência, e pela perseverança inabalável na provação da fé, é a tranquilidade do coração. Foi dito:
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“Os corações daqueles que creram encontram tranquilidade na lembrança de Allah. Sabei que é na lembrança de Allah que os corações encontram tranquilidade.” — Al-Ra’d: 28
Junto com isso, há também a promessa da satisfação e do amor de Allah.
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“Certamente, aqueles que creram e passaram a vida praticando boas obras, Allah fará nascer o amor por eles nos corações das pessoas.” — Maryam: 96
Além disso, há também a promessa de que se falará sobre eles no mundo superior.
O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: “Quando morre o filho de um servo de Allah, Allah chama os anjos e pergunta: ‘Fostes vós que tirastes a alma do filho de tal servo Meu?’
Os anjos respondem: “Sim, certamente!”
Allah pergunta novamente: “Fostes vós que tirastes o pedaço do coração do Meu servo?”
Eles respondem: “Sim, ó Senhor!”
Allah pergunta: “O que disse o Meu servo naquele momento?”
Os anjos dizem: “Ele louvou você” e ————————————– disse: “Certamente, pertencemos a Allah e é para Ele que retornaremos.”
Allah Ta’ala então ordena: “Construam no Paraíso um palácio para aquele Meu servo e deem-lhe o nome de Baitul Hamd (Casa do Louvor).” — (Tirmidhi)
Também foi narrado pelo Honorável Profeta (que a paz esteja com ele) que Allah Ta’ala diz: “Sou exatamente como Meu servo pensa de Mim. Quando ele se lembra de Mim, estou com ele. Se ele se lembra de Mim em seu íntimo, também Me lembro dele em Meu íntimo. Se ele se lembra de Mim diante das pessoas, lembro-Me dele em uma assembleia ainda maior. Se ele se aproxima de Mim um palmo, aproximo-Me dele um côvado. Se ele se aproxima de Mim um côvado, aproximo-Me dele vários côvados. Se ele vem a Mim caminhando, vou a ele correndo.” — (Bukhari e Muslim)
Também há a promessa de que, no mundo superior, são feitas súplicas pelos crentes e que ali existem profundo amor e compaixão por eles.
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“Os anjos que carregam o Trono e os que estão ao redor de Allah, todos glorificam seu Senhor com louvor e creem em Allah. E suplicam a Allah pelo perdão dos crentes, dizendo: ‘Senhor! Nosso Sustentador! Tua misericórdia e Teu conhecimento abrangem todas as coisas. Portanto, perdoa as faltas daqueles que se arrependem e seguem o caminho que Tu mostraste, e livra-os do fogo do Inferno.’” — (Al-Mu’min: 7)
Allah Ta’ala prometeu aos mártires uma vida eterna —
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“Não considereis mortos aqueles que foram mortos no caminho de Allah; ao contrário, estão vivos e recebem provisão junto de seu Senhor. Eles estão muito felizes e satisfeitos com aquilo que Allah, por Sua graça, lhes concedeu. E estão certos de que, quanto aos crentes que ainda permanecem no mundo e ainda não passaram para a Outra Vida, não haverá motivo algum para temor ou preocupação. Satisfeitos por receberem a recompensa e a graça de Allah, compreenderam que Allah não deixa perder a recompensa dos crentes.” — (Surata Al Imran: 169-171)
Da mesma forma, há uma advertência de Allah, o Altíssimo, acerca dos que desmentem a verdade, dos opressores e dos criminosos. Ele diz que, durante algum tempo, na vida terrena, lhes afrouxa a corda e lhes concede certa oportunidade, mas que serão julgados na Outra Vida. Naturalmente, algumas vezes Allah também os castiga neste mundo. Contudo, o castigo verdadeiro está reservado para a Outra Vida.
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“Não vos deixeis enganar ao verdes as atividades dos que se rebelam contra Allah dentro do país. Isso não passa de um bem temporário da vida breve. No fim, sua morada será o Inferno, e esse é o pior dos lugares.”
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“Não penses que Allah está desatento ao que os opressores fazem. Ele apenas lhes concede prazo até um dia em que seus olhos ficarão arregalados e eles correrão com a cabeça erguida. Nesse dia, seus olhares estarão voltados para cima, enquanto suas almas se agitarão, prestes a deixar seus corpos.” — Ibrahim: 42-43
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“Deixa-os entregues às conversas vãs e às diversões até que chegue o dia que lhes foi prometido. Nesse dia, sairão dos túmulos e começarão a correr, como se avançassem rapidamente em direção a algum destino. Seus olhares estarão baixos, e em seus rostos aparecerão as marcas da humilhação e da vergonha. Esse é o dia que lhes foi prometido.”
— Al-Ma’arij: 42–44
Assim, a vida humana está ligada à vida dos anjos, e a vida terrena está ligada à vida do além. A luta entre a verdade e a falsidade, entre o bem e o mal e entre a fé e a rebeldia contra Allah não termina no palco temporário deste mundo, nem seus resultados se manifestam aqui. O conforto e o sofrimento, o desfrute e a privação da vida terrena não são fatores decisivos segundo o critério de Allah. Sob esse aspecto, o campo de prova das forças do bem e do mal é muito mais amplo e prolongado, e os critérios e a extensão do sucesso e do fracasso são muito mais abrangentes. Essa aspiração é muito elevada. Por isso, este mundo e seus adornos, esta vida e seus bens necessários são considerados insignificantes pelo crente. À medida que seu olhar e sua visão se ampliam, o propósito e o objetivo de sua vida também se elevam cada vez mais. A história dos cavadores das valas é muito útil para criar um coração assim generoso e sublime, bem como uma fé pura.
A partir da história dos cavadores das valas e da discussão da surata Al-Buruj, também se lançou luz sobre outro aspecto da natureza da da’wah do dīn e do papel dos pregadores diante das possíveis reações nesse caminho. O movimento da da’wah do dīn, em sua luta contra outros movimentos ao longo da história da humanidade, testemunhou o desfecho dessa luta sob formas variadas.
Esse movimento testemunhou a destruição dos povos do profeta Noé, do profeta Hud, do profeta Shu’ayb e do profeta Lot, bem como a salvação de um pequeno número de crentes. Contudo, o Alcorão não nos informou qual foi posteriormente o papel daqueles que foram salvos da destruição. Esses exemplos mostram que, algumas vezes, Allah faz com que os rebeldes contra Ele provem, ainda durante a vida terrena, parte do castigo, como correção de sua transgressão. O castigo apropriado, após o julgamento completo, será dado somente no além.
O movimento da da’wah islâmica testemunhou a destruição do Faraó com seus exércitos, a salvação do profeta Moisés com seus seguidores e, posteriormente, a conquista de seu reino. Na história daquela época, os Filhos de Israel eram possuidores de um bom caráter. Embora nunca tenham demonstrado firmeza completa e jamais tenham estabelecido plenamente o dīn de Allah como um sistema integral de vida na Terra, seu exemplo era, ainda assim, diferente do dos povos anteriores. A história também viu montes de cadáveres daqueles politeístas que não creram no profeta Muhammad e se afastaram do sistema de vida que ele trouxe. A história viu ainda como, depois que o domínio da fé se estabeleceu plenamente nos corações dos crentes, chegou o auxílio de Allah e lhes colocou ao pescoço o colar do sucesso. E o mundo viu, pela primeira vez, um modelo da implementação plena do sistema de Allah na vida humana. Antes ou depois desse período, algo semelhante jamais foi visto.
A história testemunhou o acontecimento dos cavadores das valas. Nós também o vimos. Além disso, a história viu muitos acontecimentos antigos e recentes. Naturalmente, eles não ocuparam um lugar importante na história. Ainda hoje, a história presencia inúmeros acontecimentos que, de uma forma ou de outra, se assemelham aos acontecimentos antigos de centenas de anos da história islâmica.
É certamente necessário analisar os demais acontecimentos. Contudo, o acontecimento dos cavadores das valas merece especial destaque, pois nele se encontra um exemplo luminoso da prova de fogo da fé. Nessa prova, nenhum auxílio terreno veio em favor dos seguidores da verdade, e nenhum castigo foi aplicado aos seguidores da falsidade durante a vida terrena. Para consolidar no coração dos crentes e dos que convocam ao caminho de Allah essa convicção, pode ocorrer a repetição de acontecimentos desse tipo quando eles avançam pelo caminho que desejam. Em acontecimentos dessa natureza, nenhuma força virá em seu auxílio. Eles e tudo o que diz respeito à sua fé estão inteiramente nas mãos de Allah. Nessas circunstâncias, o dever dos crentes é deixar este mundo mantendo-se firmes no cumprimento de sua obrigação. Seu dever é tomar somente Allah como o seu mais elevado e supremo objetivo, considerar a crença e a convicção mais valiosas que a própria vida e, quando lançados à prova de fogo, fazer com que a força da fé seja aprovada nessa prova. Em tal situação, os crentes testemunharão, com o coração, a palavra e as ações, a veracidade do dīn de Allah. Quanto ao destino dos inimigos do dīn e à maneira como o trabalho da da’wah do dīn avançará, é melhor deixar essas questões nas mãos de Allah. Allah pode conduzi-los a um destino semelhante aos exemplos de destinos encontrados na história passada do Islã, ou pode determinar um novo destino para os porta-estandartes do dīn da verdade e para os seguidores da falsidade.
Os seguidores da verdade são servidores do dīn de Allah. É dever dos crentes cumprir sua obrigação exatamente da maneira pela qual Allah deseja fazê-los trabalhar, no momento, no lugar e pelo método que Ele determina, e então receber a recompensa designada. O futuro do movimento islâmico não está em suas próprias mãos, e eles não têm poder para tomar qualquer decisão a esse respeito. Isso é tarefa exclusiva do Verdadeiro Dono. Os servidores não precisam de modo algum preocupar-se com essa questão.
Os crentes recebem já neste mundo a primeira parcela da recompensa por suas ações. Essa recompensa consiste na paz interior, na elevação do nível de pensamento e compreensão, em conceitos e convicções excelentes e na libertação dos sentimentos de cobiça e ambição mundanas, medo e sofrimento. Eles também recebem neste mundo a segunda parcela. Essa recompensa consiste no aumento de sua honra entre os anjos e nas menções feitas a seu respeito. As pessoas virtuosas da Terra naturalmente os elogiam. As menções feitas entre os anjos são um sinal do aumento de sua posição no mundo superior. A maior parcela da recompensa será concedida na Outra Vida. Lá, seu acerto de contas será fácil e simples, e eles obterão ganhos incomensuráveis. E a melhor de todas as recompensas concedidas por meio dessas parcelas é alcançar a satisfação de Allah em todas elas. Por Sua infinita misericórdia, Ele escolheu os crentes para Sua obra e os selecionou para empregá-los, como soldados de Allah na Terra, em todas as tarefas conforme Sua vontade. Isso também é uma suprema felicidade.
Como resultado dos ensinamentos do Alcorão, o caráter do primeiro grande grupo do movimento islâmico alcançou o nível mencionado. Motivados a agir como soldados de Allah, eles haviam esquecido sua própria individualidade e personalidade, e estavam satisfeitos com a decisão de Allah em todas as circunstâncias e em todos os momentos.
Além do Alcorão, o treinamento do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez com que sua atenção se voltasse para o Paraíso e desenvolveu neles a disposição de cumprir suas responsabilidades com firmeza inabalável até que Allah Todo-Poderoso proferisse uma decisão. A decisão de Allah era, para eles, o objetivo mais desejado e supremo, visando ao bem-estar neste mundo e na Outra Vida. Quando os opressores de Meca submeteram o venerável Ammar (que Allah esteja satisfeito com ele) e seus pais a torturas físicas extremas, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu sua situação com os próprios olhos e pronunciou apenas estas poucas palavras:
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“Ó família de Yassir, tende paciência; a promessa do Paraíso para vós já foi firmemente estabelecida.”
Khattab ibn Arat (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Reclamamos ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), enquanto ele descansava à sombra da parede da Caaba. Perguntamos: ‘Por que não pedis auxílio a Allah? Por que não fazeis uma súplica por nós?’ Ele respondeu: ‘No tempo daqueles que vos precederam, as pessoas eram capturadas e enterradas vivas. Além disso, eram serradas vivas ao meio. Mesmo assim, não conseguiam fazê-las abandonar a verdadeira religião. Juro por Allah! Ele estabelecerá plenamente Sua religião. Chegará um tempo em que um cavaleiro viajará sozinho de Saná a Hadramaut, sem temer no caminho ninguém além de Allah. E não haverá outro perigo a temer, exceto um possível ataque de um lobo ao seu rebanho de ovelhas. Mas vós sois muito impacientes.’”
Em cada obra de Allah há um propósito benéfico oculto. Ele governa todo o universo criado. Do princípio ao fim, está sempre plenamente informado sobre tudo o que ocorre em toda a criação. Tudo o que acontece no mundo ocorre sob Sua administração. Somente Ele conhece o benefício oculto no mundo invisível. O bem oculto escreve a história sob a vontade de Allah Todo-Poderoso, e os mistérios dos acontecimentos acabam sendo revelados conforme Sua vontade.
Às vezes, os mistérios subjacentes a acontecimentos passados só são desvendados depois de vários séculos. Entretanto, as pessoas da época em que esses acontecimentos ocorreram não conseguiram compreender seu significado. Em seu tempo, limitaram-se a perguntar: ‘O que é isto? Ó Senhor! O que está acontecendo e por que está acontecendo?’ e coisas semelhantes. Esse tipo de pergunta é um sinal de ignorância. Por isso, o crente nem sequer faz tais perguntas, pois acredita firmemente que há sabedoria e benefício em todas as obras de Allah Todo-Poderoso. A amplitude da visão do crente, sua percepção dos valores de lugar, tempo e circunstância e sua visão de longo alcance afastam-no desse tipo de pensamento. Com plena satisfação interior e espírito de obediência, ele avança continuamente com a caravana religiosa pelo caminho determinado por Allah Todo-Poderoso.
O Alcorão estava formando corações aptos a assumir a responsabilidade do califado de Allah na terra. Para isso, eram necessários corações fortes, puros e sinceros. Ao avançarem pelo caminho do dīn, esses corações estavam preparados para sacrificar tudo. Eram ávidos por enfrentar corajosamente cada prova. Ao mesmo tempo, em vez dos bens mundanos, mantinham o olhar fixo na felicidade e na prosperidade da vida futura, e o desejo supremo desses corações era somente obter a satisfação de Allah. Em outras palavras, seriam formados corações que demonstrariam sacrifício e firmeza diante da pobreza, do sofrimento e da tortura física durante toda a vida, sem esperar obter resultados favoráveis rapidamente. Não ficariam ansiosos nem mesmo pela expansão da da‘wah do dīn, pela vitória do Islã, pela conquista do poder e da supremacia pelos muçulmanos, ou pela rápida destruição e derrota dos atuais grupos tirânicos e rebeldes contra Allah, tal como Allah havia anteriormente capturado e destruído os inimigos do dīn.
Quando corações desse tipo são formados e continuam cumprindo a responsabilidade do dīn na vida mundana, sem esperar qualquer recompensa terrena, considerando a vida futura como o verdadeiro campo para a decisão entre a verdade e a falsidade, e quando Allah fica satisfeito com sua sinceridade, firmeza, sacrifício e dedicação, então Ele os ajuda ainda neste mundo. Ele confia às suas mãos o sagrado depósito de administrar o califado na terra. Esse depósito lhes é confiado não para atender aos interesses dos crentes, mas pelos interesses do dīn da verdade.
Eles adquiriram a aptidão e o direito de assumir essa grande responsabilidade justamente no dia em que avançaram por esse caminho sem qualquer promessa de possível recompensa neste mundo, mantendo o olhar voltado para os interesses da vida futura em vez dos interesses mundanos. Desde o dia em que abandonaram o desejo de qualquer recompensa além da satisfação de Allah, passaram a integrar o grupo dos servos favorecidos pela graça especial de Allah.
Foram revelados em Medina os versículos do Sagrado Alcorão que prometem a ajuda de Allah aos crentes, mencionam os espólios de guerra, e transmitem o aviso de que os incrédulos seriam destruídos ainda neste mundo.
Depois que todo desejo de interesses mundanos foi expulso dos corações dos crentes, o próprio Allah tomou a iniciativa e lhes anunciou a boa-nova de que os ajudaria. Allah prometeu essa ajuda com o objetivo de estabelecer Seu sagrado dīn como o sistema de vida da sociedade humana. A ajuda concedida aos crentes na vida mundana não desceu como recompensa por seu árduo trabalho, sacrifício e coragem; foi, antes, uma decisão do próprio Allah. Hoje podemos compreender a sabedoria benéfica inerente a essa decisão.
As pessoas de todos os países, povos e linhagens interessadas no trabalho da da‘wah do dīn precisam refletir cuidadosamente sobre esta questão. É precisamente este aspecto sutil que torna claro todo o caminho da da‘wah do dīn, com cada uma de suas etapas e curvas, e concede firme paciência aos corações daqueles que estão determinados a chegar até o fim do caminho sem se importar com o resultado. Eles consideram correta qualquer consequência que Allah tenha determinado para a da‘wah do dīn e para os convocadores desse caminho. Ao avançarem por uma estrada tingida de sangue e cheia de perigos extremos, passando sobre os cadáveres de seus companheiros, não ficarão ávidos pela esperança de uma vitória imediata. Naturalmente, se o próprio Allah decidir completar o movimento da da‘wah do dīn e estabelecer Seu dīn por meio dos esforços dos crentes, isso será algo bom. Mas, se tal decisão ocorrer, ela deverá ser considerada exclusivamente como a vontade de Allah — não como recompensa pela resistência e pelo sacrifício dos crentes. Isso porque este mundo não é o campo onde se recebem os frutos das ações.
Ao comentar a história dos que cavaram as trincheiras, o Alcorão também indicou outro fato. Todos nós devemos prestar atenção a isso. O Alcorão diz—
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“E a única razão de sua hostilidade contra esses crentes era que eles haviam crido em Allah, o Todo-Poderoso e Digno de todo louvor.” — Al-Buruj: 8
Pessoas de todas as épocas e de todas as linhagens deveriam refletir profundamente sobre as informações descritas neste versículo. A luta entre os crentes e o grupo opositor ocorre unicamente devido à diferença de fé, crença e pensamento, e não por qualquer outro interesse mundano. A parte adversária não consegue suportar a fé dos crentes. A raiz de toda a sua ira e hostilidade é a crença dos crentes. Objetivos políticos, interesses econômicos ou a conquista da superioridade de uma linhagem jamais são as metas desta luta. Conflitos desse tipo podem ser facilmente resolvidos ou controlados. Aqui, porém, trava-se uma luta por um ideal puro. A questão em disputa é: “Deve prevalecer o sistema da descrença ou a fé? Deve permanecer a jahiliyyah ou o Islã?”
Em Meca, os idólatras haviam oferecido ao Profeta (que a paz esteja com ele) riqueza, poder de governo e outras vantagens mundanas. Tinham apenas uma condição: que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) pusesse fim ao conflito de crenças e, em troca disso, obtivesse deles outras oportunidades, vantagens e interesses. Se o Profeta (que a paz esteja com ele) tivesse concordado em satisfazer o desejo deles, não haveria qualquer conflito entre ele e os idólatras. Portanto, deve-se permanecer atento à questão central da disputa. Pois a razão da hostilidade e da ira do grupo inimigo é que os crentes creram em Allah, o Todo-Poderoso, e obedecem unicamente a Allah — somente diante d’Ele se prostram.
A parte inimiga pode tentar transformar a luta de crenças em um conflito político, econômico ou tribal, com o objetivo de confundir os crentes quanto ao objetivo central da luta e apagar a chama ardente da fé acesa em seus corações. Por isso, os crentes jamais devem se deixar enganar. Devem compreender que está sendo feita uma tentativa planejada, por meio de conspirações, para afastá-los de sua posição. Aqueles que, nesta guerra, levantam esse tipo de pretexto desejam, na realidade, privar os crentes da preciosa arma da vitória definitiva. Essa vitória também pode ser alcançada sob a forma de superioridade espiritual, independência política ou ganhos materiais decorrentes de uma elevação firme, como a dos crentes dispersos no fosso.
No mundo de hoje, especialmente em meio à propaganda enganosa dos adeptos do cristianismo e às suas tentativas de distorcer a história, testemunhamos esforços para criar confusão. Eles propagam que o objetivo subjacente das Cruzadas era conquistar um império. Essa afirmação é absolutamente falsa! A verdade é que, muito depois das Cruzadas, o grupo cruzado assumiu a máscara do imperialismo. Isso porque a crença da cruz não pode voltar hoje ao campo da mesma forma como foi possível manifestar-se na Idade Média.
Por isso, tiveram de assumir uma nova máscara. Pois a crença da cruz havia sido despedaçada no choque contra a muralha feita de metal fundido, erguida pela força unida de todos os muçulmanos, sem distinção de linhagem, cor ou tribo. Entre esses muçulmanos, figuras como Salahuddin, da tribo curda, e Turan Shah, da tribo mameluca, esqueceram suas diferenças tribais e de linhagem, adotaram somente a força da fé como apoio e alcançaram a vitória empunhando unicamente a bandeira do Islã.
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“A única razão de sua hostilidade contra os crentes era que eles haviam crido em Allah, o Todo-Poderoso e Sempre Louvado.” — Al-Buruj: 8
A palavra de Allah Ta’ala é verdadeira em cada letra, enquanto o grupo enganador, charlatão e opressor é mentiroso e desviado.
— Fim —-