Introdução

O xeique do Islã, o imame Taqi al-Din Ahmad ibn Taymiyya, que a misericórdia de Allah esteja sobre ele, foi um criador de época. Mais de mil anos após a Hégira do Profeta, as impurezas que haviam se misturado à corrente cristalina da fonte da profecia foram purificadas por ele mediante longos esforços, lutas e devoção. A fama de seu conhecimento alcançara desde Kairouan, no extremo Magrebe, até Cantão, na China, a leste. A influência de suas atividades reformadoras também inundara essas regiões.

Nos séculos VII e VIII da Hégira, Ibn Taymiyya foi o nome de uma luta incessante. Lutou contra o shirk e a bid‘ah. Lutou contra a injustiça e a falsidade, contra a opressão e a perseguição. Ao som de sua voz destemida e vigorosa, até o coração do poder real de brilho desmedido tremia. Por conselho dos malvados, o poderoso poder governante lançou-o para trás de portas de ferro. Mesmo sentado na prisão, continuou a escrever com extrema rapidez. As paredes do cárcere não puderam impedir a manifestação de sua verdade cristalina. A parte adversária desejava queimá-lo e reduzi-lo a cinzas no fogo da inveja. Então, por ordem do rei, tiraram-lhe todos os livros, cadernos, canetas, tinta e tinteiro; ainda assim, ele não se deixou abater. Reunia pedaços de papel rasgado e continuava a escrever neles com carvão. Assim, o destemido soldado da verdade continuou lutando contra a falsidade até a morte.

Os sessenta e sete anos de sua vida foram a história da vergonhosa derrota da mentira e da falsidade, da injustiça e do erro. A pena afiada de Ibn Taymiyya ainda hoje continua escrevendo a história da derrota da mentira e da falsidade.

O Alcorão e a Sunnah são as duas fontes fundamentais do conhecimento verdadeiro do Islã. O imame Ibn Taymiyya reconectou todos os ramos e sub-ramos do conhecimento islâmico a essas duas fontes originais. Para isso, utilizou toda a sua capacidade erudita e intelectual. Nesse caminho, não deu a mínima importância ao olhar furioso de nenhum governante tirânico nem de qualquer adversário dotado de poder ilimitado. Sua luta e devoção destemidas pela verdade continuarão a fornecer força vital a esta ummah até o Dia da Ressurreição.

Por isso, um sábio como Ibn Taymiyya nasce uma vez em mil anos e não morre nem mesmo depois de mil anos.

Pode-se dizer que quase não houve uma discussão detalhada, em língua bengali, sobre a vida combativa desse grande sábio. Aqui, apenas reuni os textos que publiquei sob o título História Imortal na Luta dos Soldados, sobre a vida e as atividades desse grande sábio. As atividades de renovação do imame ainda aguardam uma discussão mais detalhada. Porém, por receio de aumentar o volume da obra, abstive-me de avançar nessa direção. Ainda assim, aqui se delineia, em linhas gerais, um retrato da vida do imame e de suas atividades reformadoras. Se a comunidade de leitores obtiver algum pequeno benefício com isso, considero que meu esforço terá valido a pena.

Contudo, faço um apelo à comunidade de leitores: ao analisarem a vida e as atividades de um reformador islâmico, deem plena importância à perspectiva islâmica integral. E, em vez de considerarem isto uma mera análise teórica e informativa, procurem identificar-se com as atividades do imame. Só assim será mais fácil beneficiar-se desta discussão.

Abdul Mannan Talib
180, Shantibag, Daca.

Contexto: o mundo muçulmano devastado pela invasão tártara

O terror tártaro dos muçulmanos

Na primeira metade do século VII da Hégira, a palavra tártaro era, para os muçulmanos, um símbolo de medo e terror. Depois de sofrerem golpe após golpe nas mãos dos tártaros, os muçulmanos haviam se convencido de que os tártaros eram invencíveis. Havia um provérbio em árabe: “Iza qila laka innat-Tatara inh azamu fala tusaddiqu”; se disserem que os tártaros foram derrotados, não acredite.

Na realidade, esse castigo infligido pelos tártaros aos muçulmanos havia sido determinado para eles por Allah. Havia várias centenas de anos que negligenciavam o cumprimento das responsabilidades da religião. Corriam cegamente atrás dos prazeres, do luxo e da cobiça pelos bens mundanos. A desunião, a divisão e os conflitos internos haviam destruído a coesão de sua religião e de sua ummah; especialmente, haviam começado a seguir um caminho completamente oposto à responsabilidade que lhes fora confiada de estabelecer a justiça no mundo e extirpar a injustiça. Portanto, o que mais se poderia esperar de Allah além de um castigo tão terrível?

Esse castigo contra os muçulmanos começou no ano 616 da Hégira. Continuou ininterruptamente por cerca de quarenta anos. Era como se fossem esmagados e reduzidos a pó sob um rolo compressor.

No ano 616 da Hégira, durante o governo do sultão Ala al-Din Shah de Khwarazm, Gengis Khan lançou o primeiro ataque contra as fronteiras do Estado islâmico. A cidade histórica de Bucara foi a primeira vítima do ataque. Bucara foi transformada em ruínas. Nenhuma pessoa da cidade conseguiu escapar com vida. Todas as casas foram queimadas e reduzidas a cinzas. Depois, a cidade de Samarcanda foi incendiada. Todos os seus habitantes foram mortos. Em seguida, cidades grandes e pequenas sofreram o mesmo destino. Hamadã, Qazvin, Rayy, Zanjan, Merv, Nishapur e outras cidades foram se transformando, uma após outra, em montes de ruínas.

Naquela época, Shah de Khwarazm era o único governante poderoso na região oriental do mundo islâmico. Depois que ele perdeu a capacidade de resistência, os demais governantes menores não conseguiram permanecer no campo nem por um breve instante. Ainda assim, depois de Ala al-Din Shah de Khwarazm, seu filho Jalal al-Din Shah de Khwarazm continuou lutando contra os tártaros. Mas sua situação também acabou chegando a um ponto extremo. Após sofrer uma derrota depois da outra nas batalhas, os soldados e os amigos o abandonaram. Os tártaros continuaram a persegui-lo como uma sombra. Por fim, temendo os tártaros, ele morreu numa ilha desconhecida acompanhado de apenas alguns servidores leais.

O terror tártaro havia se espalhado entre os muçulmanos de tal maneira que, ao verem um tártaro, imaginavam que Azrail, o anjo da morte, havia chegado para buscá-los. Muitas vezes, um único tártaro entrava numa viela e matava sozinho cem muçulmanos. Nenhum deles tinha coragem sequer de dizer uma palavra contra aquele tártaro. Certa vez, até uma mulher tártara entrou numa casa disfarçada de homem e começou a matar todos, um após o outro. Parecia que, durante todo aquele tempo, todos haviam se preparado apenas para estender o pescoço e receber a morte. De repente, um deles recobrou o juízo: “Ora, esta é uma moça tártara!” Com um golpe de espada, ele matou a mulher.

Eis outro episódio ocorrido numa cidade. Um tártaro entrou numa casa e prendeu um muçulmano. Não tinha uma espada consigo. Por isso, trouxe uma pedra que estava dentro da casa e apoiou a cabeça do muçulmano sobre ela. Ordenou: “Vou agora mesmo ao mercado buscar uma espada para matar você. Você ficará exatamente assim. Não se atreva a se mexer nem um pouco.” Dito isso, o tártaro foi ao mercado. Mas o muçulmano, quase morto de terror, nem sequer pensou em fugir. Continuou com a cabeça apoiada do mesmo modo sobre o cepo. Assim, depois de algum tempo, o tártaro voltou do mercado com uma arma e, tranquilamente, cortou a garganta do muçulmano.

Esse inacreditável medo dos tártaros entre os muçulmanos era uma realidade vívida daquela época. Os muçulmanos de hoje certamente ficarão admirados ao ouvir isso. E não apenas os de hoje: naquela própria época, depois que o terror tártaro diminuiu, os muçulmanos também refletiram, maravilhados: o que havia acontecido com eles? Por que haviam se tornado mortos-vivos? Na verdade, quando o temor de Allah desaparece do coração dos muçulmanos, eles passam a temer todas as coisas do mundo. Mas, quando estão tomados pelo temor de Allah, mesmo sendo simples mujahid de um pequeno e subdesenvolvido país como o Afeganistão, aprendem a desprezar até uma superpotência do mundo moderno como a Rússia.

 

Os tártaros, símbolo da destruição

Os tártaros não se limitaram a matar muçulmanos e saquear seus bens; também destruíram mesquitas, madraças e bibliotecas. Eram tribos bárbaras da Ásia Central. Não tinham qualquer relação com educação, civilização ou cultura. Por isso, entregaram-se a um frenesi bestial para destruir a civilização e a cultura dos muçulmanos. Em toda a história do Islã, os muçulmanos jamais haviam enfrentado uma situação tão humilhante. Ao narrar a história da opressão, da tirania e da destruição perpetradas pelos tártaros, as penas dos historiadores muçulmanos daquela época tremiam. O historiador Ibn Athir escreveu:
Na história do mundo, não há precedente para uma catástrofe dessa magnitude. Embora esse acontecimento diga respeito a toda a humanidade, sua relação com os muçulmanos é especialmente estreita. Se alguém afirmar que, desde Adão, que a paz esteja com ele, até os dias de hoje, jamais ocorreu no mundo um acontecimento semelhante, não estará de modo algum fazendo uma afirmação falsa. —– Essa barbárie não demonstrou a menor piedade por ninguém. Mataram mulheres, crianças, homens e idosos. Golpearam com espadas o ventre de mulheres grávidas, rasgaram-lhes o abdômen e cortaram em pedaços até mesmo os bebês subdesenvolvidos que saíam de seus ventres.
Naquela época, a sedição tártara tornou-se motivo de temor não apenas para os muçulmanos, mas para todos os povos do mundo. Ao ouvirem na Europa os relatos da opressão e da perseguição infligidas pelos tártaros aos muçulmanos na Ásia, os europeus também estremeceram de pavor. A bárbara campanha dos tártaros começou com Gêngis Khan e continuou com a velocidade de um tufão durante quarenta anos, até seu bisneto, Kublai Khan.

Bagdá, a cidade dos cadáveres

Os inimigos internos, verdadeiros Vibhishanas, sempre foram os responsáveis pela ruína do Islã e dos muçulmanos. Naturalmente, em todos os países são reconhecidos como inimigos da nação. Mas a destruição que trazem ao Islã e aos muçulmanos não tem comparação. Isso porque não há no mundo força capaz de derrotar os muçulmanos. Somente quando sua unidade e coesão são destruídas por conflitos e divergências internas é que algum inimigo externo consegue subjugar os muçulmanos. E esses inimigos internos atiçam o fogo das divergências internas entre os muçulmanos.
Esses Vibhishanas pertencem a três categorias. Um grupo é inimigo do Islã. Outro é inimigo dos muçulmanos. E o terceiro é inimigo do país. Embora pertençam a três categorias, existe entre eles uma afinidade extraordinária. Não se pode dizer que aqueles que são inimigos do Islã sejam tomados de amor pelos muçulmanos e pelo país. O Islã é o centro de seus ataques. Eles atacam o Islã de maneira indiscriminada e com todas as suas forças. Às vezes, porém, também lançam ataques esporádicos contra os outros dois. O mesmo se aplica aos inimigos dos muçulmanos e do país. O poeta Allama Iqbal, formulador filosófico do Islã, também aludiu em um de seus poemas a essas três categorias de inimigos internos. Ele disse: “Jafar de Bengala, Sadiq do Decão / Vergonha da religião, vergonha da comunidade, vergonha da pátria”. O traidor Mir Jafar, de Bengala, e Mir Sadiq, do Decão, são a desonra da religião do Islã, da comunidade islâmica e de sua pátria. Em outras palavras, esses inimigos internos sempre pertencem a uma dessas três categorias. São inimigos do Islã, inimigos da comunidade muçulmana e também inimigos da pátria dos muçulmanos. Como pode alguém que vive em um país muçulmano e entre a comunidade muçulmana, embora nutra extrema hostilidade pelo Islã, ser ao mesmo tempo loucamente apaixonado pela comunidade muçulmana e pela pátria dos muçulmanos? Isso é totalmente incompreensível. Na verdade, se o Islã for excluído, a comunidade muçulmana e a pátria dos muçulmanos não terão existência nem importância independentes.
Na história do Islã, a existência desses inimigos internos jamais desapareceu. Eles surgiram continuamente sob formas novas. E ainda continuam surgindo. Naquela época, foram eles que provocaram a destruição extrema em Bagdá. O acontecimento ocorreu no ano 656 da Hégira.
Quem liderava os traidores de Bagdá — centro do mundo islâmico daquela época — contra o Islã e a comunidade muçulmana era o primeiro-ministro xiita de Bagdá, Ibn al-Alqami, juntamente com Nasiruddin Tusi, conselheiro muçulmano dos governantes tártaros. Esses traidores teceram uma enorme conspiração para destruir Bagdá. Pensavam que os bárbaros tártaros atacariam Bagdá, matariam, saqueiriam e partiriam; depois, eles próprios se tornariam os senhores absolutos da cidade. Além disso, a superioridade do Islã era para eles um espinho nos olhos. Sob o disfarce de muçulmanos, eram na verdade hipócritas. Por isso, a humilhação do Islã, dos muçulmanos e das terras muçulmanas era suficiente para lhes trazer satisfação.
Naquele momento, os bárbaros exércitos tártaros eram invencíveis. Destruindo uma após outra as cidades e povoações muçulmanas, percorriam todo o mundo islâmico espalhando terror. Então, instigados por Ibn al-Alqami e Nasiruddin Tusi, os tártaros avançaram em direção a Bagdá. Hulagu Khan, neto de Gêngis, chegou aos arredores da cidade com seu enorme exército.
Enquanto isso, o primeiro-ministro Ibn al-Alqami aconselhou o califa al-Musta’sim Billah a fazer um acordo com Hulagu. Garantiu que Hulagu partiria se recebesse uma grande quantidade de ouro e presentes. Seguindo o conselho de Alqami, o califa preparou-se para ir ao acampamento de Hulagu e concluir com ele os termos do acordo. A liteira do califa chegou ao acampamento de Hulagu. Em seguida, pressionaram o califa a assinar como testemunha o tratado de paz e providenciaram a chegada de todas as personalidades importantes da cidade ao acampamento dos tártaros. Assim que chegaram, todos foram mortos diante do califa. Desse modo, depois de obter a assinatura do califa, levaram sucessivamente ao acampamento tártaro os homens poderosos e de prestígio da cidade e os assassinaram brutalmente. Entretanto, os tártaros tinham medo de matar o califa, pois eram supersticiosos. Tinham ouvido que, assim que o sangue do califa caísse no chão, ocorreria uma destruição de proporções gigantescas. Por isso, hesitavam. Então Nasiruddin deu-lhes um conselho por meio do qual o califa morreria, mas nem uma gota de seu sangue cairia no chão. Seguindo o conselho de Nasiruddin, enrolaram o califa em um enorme colchão e o amarraram. Depois, acabaram com ele chutando-o e golpeando-o contra o chão.
Depois disso, aconteceu a Bagdá exatamente o que estava escrito em seu destino. O massacre e a pilhagem continuaram por quarenta dias. Ao fim dos quarenta dias, Bagdá — a maior cidade do mundo de então, cidade dos sonhos, centro do conhecimento e da educação, berço da civilização e da cultura — parecia uma cidade de fantasmas. A cidade ficou deserta e silenciosa. Nas ruas, nos caminhos, nas feiras e nos mercados, viam-se apenas duas ou quatro pessoas aqui e ali.
Ao caminhar pelas ruas, viam-se, a certa distância umas das outras, pilhas de cadáveres. Pareciam pequenas montanhas de mortos. Então veio a chuva. Os cadáveres incharam. Começaram a apodrecer. Um mau cheiro espalhou-se por toda a cidade. Os que haviam sobrevivido foram atingidos por epidemias. O fedor ultrapassou Bagdá e chegou até a fronteira da Síria. Segundo os historiadores, cerca de 1,8 milhão de pessoas foram mortas em Bagdá naquele período. Ao entrar em Bagdá, Hulagu ordenou que os cristãos bebessem vinho publicamente e comessem carne de porco. Era o mês do Ramadã. Ainda assim, os muçulmanos foram forçados a beber vinho. Vinho foi derramado dentro das mesquitas. O chamado à oração foi proibido. Bagdá era o centro do mundo islâmico de então. Pela primeira vez desde o início da ocupação da cidade, Bagdá caiu nas mãos dos incrédulos. Uma profunda desesperança espalhou-se por todo o mundo islâmico. Onde quer que chegasse o relato da destruição de Bagdá, os muçulmanos começavam a lamentar. Mas nada podiam fazer. Os traidores não estavam ativos apenas em Bagdá, mas em todos os países do mundo islâmico. Enquanto esses traidores não fossem eliminados, não havia esperança de libertar o mundo islâmico de sua crise.

Os tártaros não são invencíveis

Depois de Bagdá, os tártaros conquistaram a Síria. As estradas e caminhos da Síria foram inundados pelo sangue dos muçulmanos. Montanhas de cadáveres se acumularam nas cidades e aldeias. A situação era a mesma em toda parte: de Tashkent a Bucara, de Bucara a Bagdá e de Bagdá a Damasco. Em lugar algum os muçulmanos encontravam um canto onde pudessem repousar a cabeça. Depois chegou a vez do Egito. Os egípcios compreenderam claramente que seus dias estavam chegando ao fim. A ira de Allah avançava em sua direção.

Mas os egípcios acabaram por surpreender a todos. Decidiram avançar e enfrentar os tártaros. No ano 658 da Hégira, o sultão do Egito, al-Malik al-Muzaffar Saif al-Din Qutuz, confiando em Allah, avançou com seu exército. Depois de atravessar as fronteiras do Egito, eles detiveram os tártaros num lugar da Síria chamado Ain Jalut. Todo o histórico invicto dos tártaros chegou ao fim. Eles sofreram uma derrota. A primeira derrota. Uma derrota humilhante. Por outro lado, a coragem dos muçulmanos cresceu mil vezes. A crença e o medo de que os tártaros fossem invencíveis desapareceram de seus corações. Eles se tornaram extremamente corajosos. Perseguiram os tártaros até as regiões mais distantes da Síria. Os cadáveres tártaros ficaram espalhados pelas estradas e caminhos. Eles começaram a morrer pelas mãos dos muçulmanos como raposas e cães. Além disso, um grande número de tártaros foi feito prisioneiro.

Mesmo depois disso, os tártaros foram derrotados mais algumas vezes pelos egípcios. Contudo, considerando a maneira como a campanha vitoriosa dos tártaros avançava em todas as direções com a velocidade de um furacão, até que ponto a resistência egípcia poderia ter sido capaz de criar um obstáculo? Além disso, naquela época os tártaros eram os atacantes, enquanto os muçulmanos travavam uma guerra defensiva. Nessas condições, não há dúvida de que o atacante estava numa posição mais favorável. Todo o mundo islâmico havia chegado à beira da destruição sob os ataques tempestuosos e a perseguição bárbara dos tártaros. Parecia que a vida dos muçulmanos já não duraria muito. Talvez Allah tivesse decidido punir esta nação por seus pecados ainda neste mundo.

Mas não! Os verdadeiros seguidores da verdadeira religião de Allah ainda estavam presentes em grande número no mundo. Naquela época, os muçulmanos, como um todo, não cumpriam a responsabilidade pela religião de Allah. Por isso, como povo, foram atingidos pelo fogo da ira de Allah. No entanto, como povo, não haviam abandonado a religião de Allah, e uma parte deles ainda continuava cumprindo a responsabilidade pela religião. Além disso, o horror da invasão tártara levou os muçulmanos a refletir novamente sobre suas próprias ações e os incentivou a viver como muçulmanos sinceros e servos obedientes de Allah. Por isso, Allah concedeu à comunidade muçulmana mais uma oportunidade de sobreviver na face da Terra. Caso contrário, até então nenhuma nação que tivesse enfrentado uma destruição desse tipo havia conseguido erguer novamente a cabeça.

Uma nação que certa vez havia dado origem a uma nova civilização e marcado e consolidado sua superioridade sobre a Terra, com o passar do tempo acabou um dia tendo seu nome e seus vestígios apagados. Ela não teve a oportunidade de reaparecer uma segunda vez com a mesma identidade e conquistar novamente a posição de superioridade no mundo. As civilizações dos gregos, romanos e egípcios estão diante de nós. No subcontinente, a expansão e a amplitude da civilização ariana também foram historicamente notáveis. Mas, depois de destruídas uma vez, essas civilizações encontraram abrigo apenas nas páginas do passado. Sua religião, moral e costumes estão hoje todos envelhecidos. Embora os filhos de Israel, depois de milhares de anos, tenham novamente se estabelecido hoje às margens do Mediterrâneo com um novo Estado, não há sequer o menor vestígio da religião de Moisés, que a paz esteja sobre ele, em sua sociedade e civilização atuais. Como seguidores cegos da sociedade e civilização ocidentais, na realidade estão apenas desempenhando o papel de uma imitação da civilização ocidental. O mesmo pode ser dito da Índia moderna.

Mas o Islã é o modo de vida escolhido por Allah. Até o Dia da Ressurreição, sempre que os muçulmanos, em qualquer região do mundo, se apegarem aos elementos de civilização e vida social que esse modo de vida continuará a oferecer, o sucesso e a consolidação virão prostrar-se a seus pés. Eles poderão viver no mundo com dignidade, como a melhor das nações. Os próprios muçulmanos do mundo atual são uma prova disso. Foi precisamente por abandonarem o Islã e tentarem assimilar a sociabilidade e os valores ocidentais que os muçulmanos hoje são humilhados em toda parte do mundo. E isso apesar de os maiores recursos do mundo estarem sob seu domínio. As ideias e os valores ocidentais destruíram sua unidade e incitaram uns contra os outros.

Bem, deixemos de lado a crise moderna dos muçulmanos e voltemos novamente ao século VII da Hégira. Naquela época, foi o retorno ao Islã que salvou os muçulmanos. Isso é uma prova da inesgotável força vital do Islã. Assim que uma nação sem vida e à beira da morte o abraça, uma onda de vida desperta em seu peito. Sua marcha continua até que ela se estabeleça no mundo na posição de superioridade e dignidade.

Os tártaros sob a sombra do Islã

É uma história surpreendente: depois de quase meio século sendo perseguidos e esmagados pelas mãos dos tártaros, como os muçulmanos conseguiram recuperar o vigor. Aqueles que tentavam exterminar os muçulmanos até a última geração acabaram eles próprios entrando nas fileiras dos muçulmanos. Aqueles que haviam jurado apagar o Islã da face da Terra aceitaram, de cabeça baixa, a mensagem do Islã e a tomaram como guia. Sem qualquer condição, aceitaram o Islã como seu único modo de vida. Os tártaros semibárbaros e bárbaros da Ásia Central finalmente curvaram a cabeça diante da superioridade do Islã. Eles aceitaram o Islã.

A destruição do mundo islâmico no século VII da Hégira pelas mãos dos tártaros não foi tão surpreendente quanto o fato de eles terem aceitado o Islã. Pois não há nada de tão extraordinário no fato de as dificuldades internas da sociedade muçulmana e do mundo islâmico daquela época terem assegurado a vitória de uma nação vigorosa e resistente como os tártaros. Mas ser derrotados pelo Islã depois de terem vindo humilhá-lo e destruí-lo foi realmente o acontecimento mais surpreendente da história. O historiador T. W. Arnold, ao descrever esse acontecimento surpreendente em sua famosa obra Preaching of Islam, escreveu:

“Mas o Islã ressurgiu das cinzas de sua antiga glória. Os pregadores e oradores muçulmanos converteram ao Islã os bárbaros mongóis, que haviam submetido os muçulmanos a toda espécie de perseguição. Essa tarefa foi extremamente difícil para os muçulmanos. Isso porque os missionários das outras duas religiões haviam tentado converter os tártaros às suas respectivas religiões. Naquela época, parecia praticamente impossível ao Islã, enfrentando o cristianismo e o budismo, afastar os mongóis dessas duas religiões e torná-los seguidores do Islã. Pois foram os próprios muçulmanos que mais sofreram pelas mãos dos mongóis. As grandes cidades que eram centros de estudo do conhecimento islâmico e onde haviam se estabelecido as moradas de sábios e eruditos muçulmanos tinham sido reduzidas a ruínas pelos golpes das armas dos mongóis tártaros. Os ulemás e faqihs muçulmanos haviam sido transformados em cativos ou escravos. Os cãs mongóis eram tolerantes com todas as religiões, exceto o Islã. Contra o Islã, nutriam um ódio e uma hostilidade imensos. — Apesar de os mongóis manterem uma atitude tão violenta contra o Islã, acabaram por aceitar a religião do próprio povo que haviam subjugado sob seus pés. (Isso foi possível graças aos esforços sinceros de um grupo de ulemás, homens piedosos e comerciantes muçulmanos honestos. Contudo, o papel positivo mais importante nesse processo foi desempenhado pelas mulheres muçulmanas altamente instruídas, que os tártaros haviam saqueado e colocado em seus haréns. Essas mulheres belas, bem-educadas, refinadas e piedosas, permanecendo no interior dos aposentos, tornaram o mundo interior de seus maridos fértil para o Islã e a fé.)”

A face inalterada dos tártaros: os esforços de Ibn Taymiyya

 

Em vários lugares, instituições secretas muçulmanas trabalhavam para propagar o Islã entre os tártaros. Por isso, o processo de conversão dos tártaros ao Islã nunca foi interrompido. Entretanto, às vezes avançava rapidamente e, em outras, tornava-se lento. O primeiro ataque dos tártaros contra os muçulmanos ocorreu no ano 616 da Hégira. O próprio chefe tártaro, Genghis Khan, liderou esse ataque. Já o primeiro imperador tártaro aceitou o Islã no ano 656 da Hégira. Em apenas quarenta anos, os tártaros começaram a abraçar a religião de seus inimigos.

Contudo, a conversão ao Islã não transformou imediatamente os tártaros da cabeça aos pés. Eles não esqueceram de uma só vez toda a inimizade que tinham pelos muçulmanos, abraçando-os ao peito como amigos e irmãos. É claro que houve exceções em alguns lugares. Por exemplo, o primeiro imperador tártaro a aceitar o Islã, Berke Khan, prometeu que, depois de se converter, não voltaria a atacar os muçulmanos. Mas nem todos os imperadores tártaros eram assim. A conversão ao Islã também não provocou imediatamente uma transformação revolucionária entre eles. Por exemplo, Ghazan, rei do Irã e do Iraque, aceitou o Islã no ano 694 da Hégira. Mesmo depois de se converter, continuou sua hostilidade e suas campanhas contra os muçulmanos. No ano 699 da Hégira, preparou-se para atacar a Síria. Na realidade, considerando o estado em que se encontrava seu modo de vida, não seria de modo algum natural esperar uma grande mudança na vida e no caráter deles apenas quatro ou cinco anos depois da conversão ao Islã. Por isso, foi possível a Ghazan preparar-se para atacar a Síria.

Ibn Taymiyyah diante do imperador tártaro Ghazan

Quando a notícia do ataque dos tártaros chegou à Síria, espalhou-se um grande temor pelas diversas cidades sírias. Os muçulmanos conheciam o poder destrutivo dos ataques tártaros. Por isso, as pessoas começaram a sair das várias cidades vizinhas em direção à capital, Damasco. Os muçulmanos de Damasco também foram tomados por grande medo. Mas naquele momento encontrava-se ali um homem de luta pela causa de Allah, cuja força de fé infundia coragem nos corações abatidos dos muçulmanos. Ele era o maior erudito e mujaddid de sua época, o imame Ibn Taymiyyah, que Allah tenha misericórdia dele.

Chegou a notícia de que o rei do Egito avançava com seu enorme exército para ajudar os muçulmanos de Damasco. Foi como se a cidade voltasse à vida. Os muçulmanos começaram a preparar-se para a guerra com novo ânimo. No dia 27 de Rabi al-Awwal do ano 699 da Hégira, ocorreu um confronto entre Ghazan e o sultão do Egito. Apesar de todos os esforços e de lutarem com imensa bravura, os muçulmanos não conseguiram evitar a derrota. Os muçulmanos foram vencidos. O sultão do Egito partiu para o Cairo com o exército derrotado.

Os habitantes de Damasco viram-se diante de uma grande crise. Agora as tropas tártaras entrariam na cidade com a aparência de vencedoras. E somente Allah sabia em que escuridão o futuro dos habitantes da cidade iria mergulhar. Pensando no horror dos tártaros, até os grandes eruditos e as figuras mais importantes começaram a deixar a cidade. O cádi shafiita e o cádi maliquita, outros eruditos conhecidos, funcionários do governo, grandes comerciantes e até o próprio governador da cidade abandonaram Damasco e seguiram rumo ao Egito. Entre os funcionários do governo, somente o responsável pela fortaleza não deixou a cidade. Uma parte da população também havia partido. Enquanto isso, os preços dos produtos tinham subido de maneira anormal. Sobre a calamidade, outra calamidade havia recaído sobre os habitantes de Damasco. Os prisioneiros haviam arrombado a prisão e escapado. Dia e noite, saqueavam continuamente toda a cidade.

Enquanto isso, aproximava-se o momento da entrada das tropas de Ghazan em Damasco. O povo, preso entre duas alternativas terríveis, estava completamente desorientado. Nessas circunstâncias, o imame Ibn Taymiyyah e as principais figuras da cidade reuniram-se e tomaram uma decisão urgente. Decidiram que uma delegação dos habitantes, liderada pelo imame Ibn Taymiyyah, compareceria à corte de Ghazan para obter um decreto de paz e segurança para a população. No terceiro dia do mês de Rabi al-Thani, o mensageiro do Islã, o imame Ibn Taymiyyah, chegou com seu grupo diante do poderosíssimo imperador tártaro Ghazan. O imame citava diante de Ghazan versículos do Alcorão e hadiths sobre justiça, equidade e retidão. Sua voz tornava-se gradualmente mais elevada e solene. Enquanto recitava versículos e hadiths, aproximava-se cada vez mais de Ghazan. Por fim, não havia sequer um palmo de distância entre os dois. O mais surpreendente, porém, era que o poderosíssimo Ghazan não demonstrava o menor aborrecimento ou ira. Pelo contrário, ouvia atentamente cada palavra. Parecia que o imame conseguira influenciá-lo profundamente. Ghazan perguntou às pessoas: “Quem é este erudito? Nunca vi antes alguém assim. Jamais encontrei diante de meus olhos uma pessoa mais corajosa e determinada do que ele. Ninguém jamais conseguiu influenciar-me dessa maneira.” As pessoas explicaram-lhe quem era o imame Ibn Taymiyyah e informaram-no sobre o conhecimento, a erudição e as obras do imame.

O imame Ibn Taymiyyah disse a Ghazan: “Tu afirmas ser muçulmano. Fiquei sabendo que contigo estão cádis, xeques e também muézins. Apesar de tudo isso, atacaste os muçulmanos. Embora teus antepassados fossem incrédulos, eles hesitavam em cometer atos desse tipo. Eles cumpriram suas promessas, mas tu quebraste a tua. Não cumpriste nada do que havias dito. Cometeste injustiça contra os servos de Allah.”

O juiz supremo Abu al-Abbas estava com o imame. Ele escreveu: “Na assembleia de Ghazan, colocaram comida diante de Taymiyyah e de seus companheiros. Todos começaram a comer, mas Ibn Taymiyyah recolheu as mãos. Quando lhe perguntaram por que não comia, respondeu com voz firme: ‘Esta comida não é lícita. Ela foi preparada com a carne de ovelhas e cabras saqueadas dos muçulmanos pobres. Além disso, a lenha usada para prepará-la foi tomada à força das árvores de pessoas oprimidas.’ Ghazan pediu-lhe que fizesse uma súplica. Ele começou a suplicar: ‘Ó Allah! Tu sabes melhor: se o objetivo desta guerra de Ghazan é elevar a Tua palavra e combater pela Tua causa, então ajuda-o. Mas, se o seu objetivo é conquistar o domínio mundano e satisfazer a cobiça e os desejos, então Tu mesmo trata com ele.’ O mais extraordinário foi que, enquanto o imame fazia a súplica, Ghazan repetia: ‘Amém’.”

O cádi Abu al-Abbas escreveu ainda que, enquanto o imame fazia seu discurso, eles ficaram aterrorizados e começavam a recolher as próprias roupas, temendo que a espada do carrasco se abatesse a qualquer momento sobre o imame e tingisse suas vestes com o sangue dele. O cádi escreveu: “Ao retornarmos da corte de Ghazan, dissemos ao imame: ‘Não iremos com você. Você quase fez com que todos nós fôssemos mortos.’ O imame respondeu: ‘Eu também não irei com vocês.’ Então todos o deixamos e partimos. O imame seguiu sozinho. Ao ouvirem que o imame estava sozinho, as mulheres saíram de suas casas. Muitos homens importantes acompanharam-no. Ele voltou à cidade com trezentos ou quatrocentos devotos, em grande honra. Nós, porém, perdemos tudo nas mãos de um grupo de salteadores na estrada e voltamos para casa.”

O imame Ibn Taymiyyah retornou da corte de Ghazan com grande honra. Conseguiu obter um salvo-conduto para os habitantes da cidade. Libertou os muçulmanos que os tártaros haviam aprisionado. Ele ouvira muitas histórias sobre a barbárie dos tártaros e também presenciara muitas delas com os próprios olhos. Mas nada disso conseguiu perturbá-lo nem um pouco. Não sentiu o menor medo ao falar frente a frente com o imperador tártaro nem ao circular livremente entre as tropas tártaras. Dizia: “Somente aquele que tem uma doença no coração pode temer alguém além de Allah.”

A quebra da promessa dos tártaros e suas perseguições

Embora o imã tivesse obtido um salvo-conduto, os habitantes da cidade não se sentiam tranquilos. O que temiam acabou realmente acontecendo. Em poucos dias, a paz de espírito dos habitantes desapareceu. É verdade que os tártaros não entraram na cidade, mas permaneceram acampados do lado de fora. Nas áreas além das muralhas da cidade, seus saques e assassinatos desenfreados continuaram. Era um hábito cultivado pelos tártaros durante muitos anos; parecia que, sem matar e pilhar, sua vitória não poderia ser completa. Toda a região externa da cidade parecia, de fato, um campo de batalha. Soldados tártaros armados entravam em grupos nas localidades. Invadiam as casas dos muçulmanos e batiam impiedosamente nos chefes de família, amarrando-lhes as mãos e os pés para obrigá-los a revelar os bens escondidos. Pegavam meninos e meninas pequenos e os arremessavam ao chão. Os gritos ensurdecedores e as súplicas das mulheres, tudo isso fazia parecer que a paz dos muçulmanos de Damasco havia partido para sempre.

Por causa do cerco, da opressão e das perseguições dos tártaros, o fornecimento de artigos de primeira necessidade das áreas vizinhas havia sido interrompido. Como resultado, os preços das mercadorias nos mercados pareciam estar em chamas. Mesmo tendo dinheiro, não se encontrava nada para comprar. Assim, pessoas começaram a morrer de fome. Além disso, os tártaros fizeram uma exigência extraordinária aos habitantes da cidade: todos os cavalos e armas existentes na cidade deveriam ser entregues a eles. Todo o dinheiro em espécie escondido pelos habitantes deveria ser retirado dos esconderijos secretos e colocado em suas mãos.

Eles nomearam como novo governador da cidade um tártaro recém-convertido ao Islã, de origem turca, chamado Saifuddin Kubjuk, e o enviaram para a cidade. Kubjuk continuou impondo uma pressão após outra sobre os habitantes. Enquanto isso, o domínio dos tártaros sobre a cidade havia sido plenamente estabelecido. Somente a fortaleza de Arjawash ainda permanecia altiva e independente. Seu comandante não estava disposto, de maneira alguma, a reconhecer a submissão. O historiador Ibn Anisr escreveu: foi a orientação do imã Ibn Taymiyya que incutiu coragem no coração do comandante da fortaleza. O imã lhe escrevera: enquanto restasse intacto sequer um tijolo da fortaleza, não depusesse as armas. De modo algum abrisse as portas da fortaleza aos tártaros. O comandante seguiu essa orientação até o último momento. Por isso, os tártaros não conseguiram conquistar aquela fortaleza.

A opressão e as perseguições dos soldados tártaros continuaram incessantemente. Eles capturaram milhares de homens e mulheres muçulmanos, transformando-os em escravos e escravas. Somente no bairro de Salihiyya, mataram quatrocentos muçulmanos e prenderam quase quatro mil, convertendo-os em escravos e escravas; entre eles havia também muitas pessoas de famílias nobres. Saquearam muitas grandes bibliotecas e venderam seus livros por preços irrisórios, no valor de milhões em dinheiro.

Ao ver essa situação, Ibn Taymiyya decidiu encontrar-se mais uma vez com Ghazan. Acompanhado de seus homens, foi encontrar-se com o sultão Ghazan no dia 25 do mês de Rabi al-Thani. Contudo, depois de esperar por dois dias, não lhe permitiram encontrar-se com o sultão. Nesse ínterim, espalhou-se por Damasco a notícia de que os tártaros agora queriam entrar na cidade. Até então, os soldados tártaros haviam armado suas tendas do lado de fora das muralhas. Ao ouvirem que desta vez entrariam na cidade, os habitantes ficaram apavorados. Até então, era como se estivessem sentados diante da caça do tigre, assistindo ao espetáculo. Agora parecia que o predador queria saltar sobre a presa. Começou um grande alvoroço na cidade. As pessoas quiseram deixar a cidade e sair para fora. Mas para onde iriam? Os tártaros cercavam-na por todos os lados. Os tártaros começaram a preparar a conquista da fortaleza. Cavaram um fosso ao redor dela. Instalaram manganelas para lançar pedras contra as muralhas e abrir brechas nelas. As pessoas deixaram de sair de casa, pois, assim que os tártaros viam alguém nas ruas, capturavam-no e obrigavam-no a trabalhar sem remuneração. Faziam-nos cavar o fosso. Ibn Kathir escreveu em sua obra Al-Bidaya wa al-Nihaya: as ruas ficaram completamente desertas. Às vezes via-se uma ou duas pessoas nas ruas. O número de fiéis na mesquita congregacional diminuiu drasticamente. Na oração de sexta-feira, na Mesquita Jami Umubi (a mesquita congregacional central), no máximo uma fileira ficava cheia, e talvez houvesse mais duas ou quatro pessoas atrás. Quem precisava sair por extrema necessidade também vestia roupas tártaras. Resolvia rapidamente o que precisava fazer e voltava direto para casa. Ainda assim, permanecia sempre uma apreensão em seu coração: quem sabe talvez não fosse mais possível voltar para casa.

Mas, no fim, os tártaros não atacaram a fortaleza. Ghazan partiu com seu exército em direção ao Iraque. Deixou na Síria seu representante, sob o comando do qual havia sessenta mil soldados tártaros. Ao partir, disse: “Estou deixando meu representante e meu exército; voltarei no inverno do próximo ano. Nessa ocasião, conquistaremos também o Egito, junto com a Síria.”

Depois que Ghazan partiu, o segundo emir tártaro, Bulay Khan, começou a saquear os arredores de Damasco. Em pouco tempo, as áreas densamente povoadas ficaram desoladas. Muitas crianças muçulmanas foram transformadas em escravos e escravas. Ele também extorquiu muito dinheiro da cidade de Damasco. Quando a situação chegou ao extremo, o imã Ibn Taymiyya foi ao acampamento militar de Bulay Khan. Conversou com ele sobre a libertação dos prisioneiros e voltou levando consigo um grande número de cativos libertados. Entre os libertados não havia apenas muçulmanos; havia também muitos não muçulmanos.

Certo dia, foi anunciado em nome do comandante da fortaleza de Damasco que o exército egípcio avançava em direção a Damasco para ajudar a Síria. No dia seguinte, Bulay Khan deixou a cidade com seu exército. Não se via mais um único tártaro na cidade. Naquele momento, Damasco não tinha nenhum governador ou governante responsável. As muralhas da cidade haviam desmoronado em vários pontos devido ao ataque dos tártaros. O comandante da fortaleza de Arjawash ordenou aos habitantes que vigiassem as muralhas durante a noite, sem dormir. Juntamente com o povo, Ibn Taymiyya também passou noite após noite vigiando as muralhas danificadas.

Embora, até o ano 700 da Hégira, uma grande parte dos tártaros tivesse se tornado muçulmana, a série de guerras entre eles e os muçulmanos não havia terminado. E não era natural que tivesse terminado. Pois, setecentos anos após o surgimento do Islã, a sociedade muçulmana havia chegado a uma condição em que os princípios fundamentais do Islã e as qualidades superiores do caráter muçulmano estavam tão amplamente deformados que, para uma sociedade recém-convertida ao Islã, não era nada fácil sentir atração por eles. Por isso, eles se consideravam superiores aos muçulmanos. Pensavam que os atuais governantes dos muçulmanos não tinham nenhum direito de exercer autoridade sobre eles. Ao contrário, a autoridade sobre todo o território muçulmano pertencia exclusivamente aos tártaros. Isso era prova da insuficiência e da imaturidade religiosa e espiritual dos tártaros.

Seu breve governo na Síria também manifestou essa insuficiência e imaturidade religiosa. Naquela época, o tártaro recém-convertido ao Islã Saifuddin Kubjuk era o governante de Damasco. Ele concedeu uma licença irrestrita para o comércio de bebidas alcoólicas na cidade. Essa era a maior fonte de receita do Estado. O consumo de bebidas alcoólicas espalhou-se amplamente pela cidade. Inúmeras novas lojas de bebidas foram abertas. Os habitantes não muçulmanos da cidade desempenharam um papel pioneiro nessa atividade.

 

Ibn Taymiyya na erradicação da irreligião e da fitna

Depois que os tártaros deixaram a cidade, os muçulmanos não viram nenhuma necessidade de manter intactas essas fontes de pecado. Por outro lado, também se ouviam notícias da chegada do exército egípcio para ajudar Damasco. Nessas circunstâncias, a coragem dos muçulmanos aumentava cada vez mais. Eles avançaram e atacaram as lojas de vinho. O imame Ibn Taymiyya liderou essa campanha. À frente de uma grande multidão de seus alunos e simpatizantes, percorreu toda a cidade. Sempre que avistava uma loja de vinho, entrava nela com seus homens. Quebrava e lançava para fora todas as bilhas, jarros, cântaros, copos e barris de vinho. Derramava todo o vinho das lojas nos esgotos. Aos bêbados e arruaceiros que se encontravam nas lojas, explicava as instruções do Islã, fazia-os arrepender-se e, quando necessário, também os punia. Essa campanha do imame despertou enorme animação em toda a cidade.
Na ausência dos tártaros, os sírios empenharam-se em eliminar outra fitna. Essa fitna encontrava-se na região fronteiriça. Havia na fronteira algumas tribos fortemente hostis ao Islã e aos muçulmanos. Eram, em sua maioria, cristãos e integrantes das seitas desviadas dos xiitas, como os batinitas, ismaelitas, drusos e nusairitas. Quando os tártaros entraram na Síria, no ano 699 da Hégira, essas tribos desviadas colaboraram plenamente com eles e conseguiram prejudicar os muçulmanos tanto quanto possível. Quando o exército muçulmano derrotado pelos tártaros atravessava a fronteira em fuga, elas perseguiram os soldados muçulmanos derrotados e desanimados, mataram muitos deles, apoderaram-se de suas armas e capturaram seus cavalos. Até então, jamais haviam se submetido ao exército muçulmano. Não estavam dispostas a aceitar a verdadeira religião de Deus descrita no Alcorão e na Sunna, nem jamais haviam consentido em viver uma vida islâmica.
Depois que a Síria foi libertada dos inimigos, não restou nenhum receio de perigo interno. Nessas circunstâncias, o imame Ibn Taymiyya considerou necessário subjugar essas tribos fronteiriças desviadas, inimigas eternas do Islã e dos muçulmanos, e ensinar-lhes a religião. Na realidade, naquele momento não havia qualquer administração governamental na cidade de Damasco. Por isso, o imame Ibn Taymiyya e seus homens podiam realizar diversas ações conforme sua vontade. Eles ouviram que o auxiliar do sultão do Egito, Jamal al-Din Aqush, avançava com alguns soldados em direção à região montanhosa da fronteira. O imame não considerou prudente deixar passar essa oportunidade. À frente de uma grande força de habitantes guerreiros da região de Huan e de voluntários, juntou-se a Jamal al-Din. Ao ouvirem a notícia da chegada do auxiliar do sultão do Egito, os membros das tribos desviadas começaram a apresentar-se em grupos diante de Ibn Taymiyya. O imame fê-los arrepender-se e ensinou-lhes o verdadeiro Islã. Isso trouxe muitos benefícios. Eles prometeram devolver tudo o que anteriormente haviam tomado dos soldados muçulmanos. Em nome do Bayt al-Mal, foi-lhes imposta uma grande quantia, e eles assumiram a responsabilidade de pagá-la.

O ambiente contemporâneo: conhecimento e prática

O imame Taqi al-Din Ibn Taymiyya havia enriquecido o mundo islâmico dos séculos VII e VIII da Hégira com uma vitalidade extraordinária. Nasceu no ano 661 da Hégira e morreu no ano 728. Sua maior contribuição, ao longo de seus 67 anos de vida, foi ter provocado um revolução bem-sucedida e transformadora no pensamento e na atuação da sociedade muçulmana agonizante. Durante sua vida, embora a natureza dos ataques tártaros tivesse mudado, sua força não diminuíra. O caráter destrutivo desses ataques avançava no mesmo ritmo. A única diferença era que, naquela época, os tártaros haviam se tornado muçulmanos.
Ele nasceu apenas cinco anos depois da destruição de Bagdá e três anos depois da entrada dos tártaros em Damasco. Assim, pode-se dizer naturalmente que, logo após o despertar de sua inteligência e percepção, ele viu ao seu redor famílias oprimidas devastadas pelos ataques tártaros. As imagens dos muçulmanos aflitos e desesperados influenciaram profundamente seu espírito sensível. Aos sete anos de idade, testemunhou com os próprios olhos o horror dos ataques tártaros. Os tártaros atacaram sua própria cidade, Harran. Para escapar das mãos dos tártaros, sua família, como inúmeras outras famílias da cidade, também partiu em direção a Damasco. Ao longo do caminho, ele viu a destruição causada pelos ataques tártaros. Pessoas, árvores e animais queimados pelo fogo. Os povoados estavam incendiados. Em lugar algum havia pessoas capazes de trabalhar, exceto os mutilados. Os campos de cultivo também estavam devastados. Em suma, era um exemplo horrendo de destruição. Sua extraordinária memória conservou essas imagens da infância no recôndito de suas lembranças. Por isso, mais tarde, ele não hesitou de modo algum em protestar contra a opressão dos tártaros. Diante do poderoso imperador tártaro Ghazan, não se perturbou nem um pouco ao narrar os atos de opressão cometidos por ele e seus soldados. Mais ainda: quando necessário, chegou a lançar-se pessoalmente, espada na mão, contra os tártaros tirânicos.
A ampla desordem e impotência que os ataques tártaros haviam provocado na aparência externa da sociedade muçulmana eram extremamente abrangentes. Isso ficou claro nas discussões anteriores. Agora é preciso examinar como estava o estado interno da sociedade muçulmana.

A decadência do Ilm al-Kalam

O Ilm al-Kalam surgiu para enfrentar a filosofia grega. Seu objetivo era eliminar a confusão e a fraqueza que o estudo da filosofia grega havia produzido na fé e na aqida dos muçulmanos, tornando-as novamente vigorosas e fortes. Porém, pouco a pouco, a natureza e o método da filosofia penetraram nele, e o Ilm al-Kalam transformou-se em filosofia religiosa. Seu conteúdo, suas discussões e seus métodos de aplicação da argumentação eram todos semelhantes aos da filosofia. Além disso, continha discussões irrelevantes cuja solução estava além da capacidade da razão humana. Tentava provar, com o auxílio da razão, a essência e os atributos de Deus e muitos outros assuntos inacessíveis à inteligência. Em vez de se contentar com as explicações dos profetas e mensageiros, aplicava a esses assuntos suas próprias faculdades intelectuais fracas e limitadas. Em vez de tornar os temas claros, esse esforço os tornava ainda mais complexos. O Alcorão descreveu a essência e os atributos de Deus em uma linguagem tão simples e clara que não é de modo algum difícil para uma pessoa comum compreendê-los. Esse método de descrição é o mais fácil para qualquer época e qualquer ambiente. Pessoas dotadas de qualquer nível de capacidade intelectual podem conhecer facilmente, por meio desse método de descrição corânica, o verdadeiro conteúdo de sua mensagem.
Entretanto, sob a influência da filosofia, o Ilm al-Kalam havia tornado difícil esse assunto simples. Havia tornado complexo aquilo que era claro. Avançando com o objetivo de eliminar as dúvidas, acabava apenas por aumentá-las. Por isso, uma grande parte da umma muçulmana nunca viu com bons olhos esse esforço do Ilm al-Kalam e sempre se opôs a ele. Assim, para mudar essa situação, era necessária uma explicação correta e clara do Alcorão e da Sunna: uma explicação compreensível para todas as classes de pessoas, tanto comuns quanto intelectuais, e capaz de exercer influência sobre todos. Assim como sua fé no Alcorão e na Sunna era firme como uma montanha, sua explicação e sua argumentação acerca do Alcorão, da Sunna e da essência e dos atributos de Deus seriam cativantes e completas. Desde o primeiro momento, deveriam conquistar o coração dos ouvintes e leitores.

A insolência dos cristãos

Por outro lado, o cristianismo também havia iniciado uma nova campanha contra o Islã. Os cristãos começaram a promover um movimento para provar a superioridade e a veracidade de sua religião e difamar o Islã. Sua ousadia contra os muçulmanos e o Islã era fortalecida por suas sucessivas guerras das Cruzadas e pelas numerosas comunidades cristãs de origem europeia que viviam na Síria, na Palestina e em Chipre. Para enfrentar os muçulmanos no campo teórico, escreveram livros atacando a missão profética de Muhammad a fim de demonstrar a superioridade de sua própria religião.
Também era necessário um erudito poderoso e um escritor racionalista para responder à propaganda anticristã, à insolência e à difamação dos cristãos contra o Islã. Ele precisava ter amplo conhecimento e imensa erudição sobre o cristianismo e as demais religiões. Precisava possuir um conhecimento comparativo claro das religiões e da história e dos processos de alteração dos Livros Celestiais, para que pudesse provar a superioridade e a veracidade do Islã e apresentar seu chamado aos seguidores das outras religiões. Na época em que o Imam Ibn Taymiyya nasceu, os muçulmanos enfrentavam, em todo o mundo, inúmeras crises externas e internas dessa natureza. Não era fácil para uma nação permanecer firme na verdade durante seiscentos ou seiscentos e cinquenta anos. Por isso, até mesmo um período de cem anos é considerado muito longo. Após seiscentos e cinquenta anos, haviam surgido entre os muçulmanos as mesmas condições que, no passado, levavam ao surgimento de profetas e mensageiros entre outros povos. Mas a sucessão da profecia havia chegado ao fim. Nessa situação, os mujaddids, como Ibn Taymiyya, assumem a responsabilidade de revitalizar a religião.

A fitna dos batinitas

Na segunda metade do século VII da Hégira, a atividade dos batinitas entre os muçulmanos ganhou grande amplitude. Essa fitna nasceu sob a influência da filosofia grega no século IV da Hégira. No século V, o Imam al-Ghazali, que Allah tenha misericórdia dele, enfrentou-a com todas as suas forças. Contudo, não lhe foi possível erradicá-la. Em um século e meio, a fitna voltou a agir, com toda a sua terrível magnitude, para causar danos à comunidade islâmica. Nas crenças e nos ensinamentos religiosos dos batinitas ocorreu uma combinação maléfica das crenças dos adoradores do fogo do Irã, das ideias de Platão e de um terrível interesse político egoísta. Seus diversos ramos — ismaelitas, hashashins, drusos, nusairis e outros — permaneciam constantemente ativos contra os muçulmanos. Sempre ajudaram qualquer inimigo externo que atacasse os muçulmanos e os Estados muçulmanos. Na maioria das vezes, foi justamente por causa de suas atividades e conspirações que os inimigos externos encontraram coragem para atacar os muçulmanos.
Durante as guerras das Cruzadas dos cristãos europeus na Síria e na Palestina, eles ajudaram os cruzados. Depois que os cruzados conquistaram a Síria, deram precisamente aos batinitas o lugar de seus fiéis agentes e amigos. Também retribuíram sua ajuda no nível estatal. Mais tarde, durante a reconquista da Síria pelos sultões guerreiros e também na época dos sultões aiúbidas, eles permaneceram continuamente envolvidos em conspirações e rebeliões. Quando os tártaros invadiram a Síria no século VIII, apoiaram-nos abertamente. Como resultado, os muçulmanos sofreram perdas terríveis.
Ao examinar a história do Islã, constata-se que os batinitas sempre se empenharam em criar anarquia e desordem religiosa entre os muçulmanos, enfraquecer sua confiança no Islã, tornar suas mentes rebeldes contra o Islã e disseminar entre eles crenças contrárias ao Islã. Sempre praticaram espionagem para entregar a fortaleza religiosa dos muçulmanos às mãos do inimigo.
No século V da Hégira, o Imam al-Ghazali, que Allah tenha misericórdia dele, enfrentou teoricamente essa fitna. Ao chegar o século VIII, já não bastava enfrentá-la apenas no plano teórico; era necessário, além disso, erradicá-la e eliminá-la na prática, libertando para sempre a comunidade islâmica de seu domínio.

A disseminação do tasawwuf desviado e do shirk

Nessa época, outra fitna havia se espalhado entre os adeptos do tasawwuf. Ao longo das diferentes fases da história, devido ao contato com as ideias e práticas de diversos povos e, ao mesmo tempo, ao afastamento das ideias e práticas do Islã original, as filosofias grega, iluminacionista, vedanta e budista do nirvana penetraram entre os muçulmanos. Como resultado de séculos de divulgação e prática, elas penetraram sutilmente em vários níveis da crença islâmica. Identificar essas crenças não islâmicas e filtrá-las para removê-las de lá não era nada fácil. O neoplatonismo, o ioga, o monismo, o panteísmo, a delimitação dos limites do conhecimento manifesto e oculto, a transmissão secreta do conhecimento do peito de uma pessoa para o peito de outra, a ideia de que um pīr-murshid perfeito e um majzub enlouquecido pelo amor de Allah não precisam observar as formalidades da sharia, e pensamentos e crenças essencialmente politeístas haviam penetrado em uma grande parte dos adeptos do tasawwuf. Uma corrente de tasawwuf puramente islâmico vinha sendo transmitida desde as práticas dos Companheiros e dos tabi’in. Contudo, ao se chegar ao século VIII da Hégira, o lixo havia se misturado de tal maneira à sua prática límpida que até mesmo um grande grupo dos eruditos passou a considerar uma honra beber a água que havia lavado esse lixo. Consequentemente, não há dúvida de que uma grande parte do povo muçulmano também caiu nesse desvio por seguir essas pessoas.
Além disso, devido ao convívio prolongado com não muçulmanos, à influência persa e à negligência dos ulemás, muitos tipos de crenças e práticas politeístas haviam se espalhado entre o povo muçulmano. A pura unicidade de Allah estava prestes a ser encoberta em vários aspectos. Os muçulmanos começaram a cometer excessos em relação aos santos e servos piedosos de Allah, assim como os não muçulmanos. Muitos eruditos, sem falar do povo muçulmano comum, não hesitavam nem um pouco em suplicar aos servos piedosos falecidos de Allah, visitar assiduamente seus túmulos para obter o que desejavam em seus corações e fazer súplicas a eles. Os muçulmanos compareciam às festas e cerimônias religiosas dos não muçulmanos, participavam delas e também realizavam muitas de suas próprias cerimônias.
Para combater todas essas práticas de ignorância politeísta e convocar os muçulmanos com toda a força à pura unicidade de Allah, era necessário um erudito mujāhid, um homem de coragem, que conhecesse claramente a diferença entre o tawhid e o shirk, que estivesse plenamente familiarizado com todas as formas da ignorância, que não demorasse sequer um instante para reconhecer a ignorância, qualquer que fosse sua aparência ou vestimenta, e que tivesse conhecido e adotado o tawhid puro não a partir dos livros dos ulemás, das práticas dos muçulmanos ignorantes ou dos costumes estabelecidos de sua época, mas diretamente do Alcorão e da Sunna, e das práticas e do modo de vida dos Companheiros e dos tabi’in. Depois de conhecer a crença e a prática corretas, ele não se importaria com o olhar ameaçador de nenhum governante nem com a oposição montanhosa de uma grande multidão ao proclamá-las.

A fraqueza dos ulemás

Ao mesmo tempo, por ocasião do surgimento do Imam Ibn Taymiyyah, a maior fraqueza da comunidade islâmica manifestava-se entre os ulemás. Uma espécie de letargia e estagnação havia se instalado entre os ulemás e nas instituições de ensino religioso. Eles consideravam haram fazer qualquer coisa que ultrapassasse seu método de fiqh, seu madhhab e o pensamento jurídico de seu próprio imam. Em vez de avaliar o fiqh à luz do Alcorão e do hadith, analisavam e julgavam o Alcorão e o hadith à luz de seu próprio fiqh. Quando havia divergências jurídicas, em vez de estabelecer o Alcorão e o hadith como árbitros, procurava-se, em todas as circunstâncias, fazer com que o Alcorão e o hadith se ajustassem a ele. (Embora no Alcorão esteja claramente dito: “*******Árabe******isto é, quando divergirdes sobre alguma questão, então recorrei ao Livro de Allah e ???) Muitos problemas novos haviam surgido na sociedade islâmica, e para resolvê-los era necessário um novo ijtihad. Mas eles não voltavam sua atenção para isso. Consideravam-se incapazes. Nesse contexto, era necessário um sábio profundamente versado no Alcorão, no hadith e no fiqh, e dotado da capacidade de praticar o ijtihad.

O estudo do conhecimento e as limitações dos madhhabs

O Islã não se limitou a permitir e incentivar a busca do conhecimento; antes, considerou o cultivo do conhecimento obrigatório para os muçulmanos. Mesmo em meio à ascensão e queda das dinastias, às transformações do poder político, às grandes revoluções políticas e às guerras, a busca do conhecimento entre os muçulmanos jamais cessou. Mesmo durante o período de ampla anarquia e das guerras que se espalharam por todo o mundo islâmico no fim do Califado dos Califas Bem-Guiados e até a estabilização da dinastia omíada, um grupo de pessoas continuou a dedicar-se ao conhecimento. A coleta de hadiths, as aulas de hadith, as discussões de fiqh, a composição de obras de hadith e fiqh, a gramática árabe, a sira, a história e o estudo das ciências naturais, bem como a redação de livros, prosseguiam normalmente.
Ao chegar ao século VIII da Hégira, o cultivo do conhecimento havia alcançado grande amplitude. Os governantes sempre apoiavam a busca do conhecimento. Os sultões aiúbidas e mamelucos estabeleceram grandes jami‘ahs e dar al-hadith no Egito e na Síria. Inúmeros estudantes de diversas regiões do mundo islâmico afluíam a esses centros de ensino e universidades para estudar. Junto com essas instituições, também foram fundadas grandes bibliotecas. Nelas se reuniram vastas quantidades de livros sobre todas as ciências e ramos do conhecimento. Eruditos, fossem estudantes ou professores, podiam beneficiar-se igualmente dessas bibliotecas. Algumas eram tão grandes que se acreditava que nelas estavam reunidos os livros de todo o mundo. Entre elas, a biblioteca da Jami‘ah Kamiliyyah, fundada em 621 da Hégira por al-Kamil Muhammad al-Ayyubi, continha nada menos que cem mil livros.
Durante os séculos VII e VIII da Hégira, surgiram muitos grandes e renomados sábios. O erudito Taqi al-Din Abu ‘Amr Ibn al-Salah (577–634 H.), o Shaykh al-Islam ‘Izz al-Din ibn ‘Abd al-Salam (578–660 H.), o Imam Muhyi al-Din al-Nawawi (631–676 H.), o Shaykh al-Islam Taqi al-Din ibn Daqiq al-‘Id (625–702 H.), o erudito ‘Ala al-Din al-Baji (631–712 H.), o erudito Jamal al-Din Abu al-Hajjaj al-Mizzi (654–742 H.), o hafiz ‘Imad al-Din al-Barzali (665–739 H.) e o erudito Shams al-Din al-Dhahabi (673–748 H.), entre outros célebres sábios, juristas, especialistas em hadith, filósofos e teólogos, deram distinção a essa época. As melhores obras desse período foram escritas por eles e pelos principais eruditos de seu tempo.
Entre as obras mais importantes dessa época, alcançaram maior popularidade a Muqaddimah, de Ibn al-Salah; al-Qawa‘id al-Kubra, de ‘Izz al-Din ibn ‘Abd al-Salam; al-Majmu‘ e o Sharh Muslim, do Imam al-Nawawi; Kitab al-Imam e Ihkam al-Ahkam, comentário de ‘Umdat al-Ahkam, de Ibn Daqiq al-‘Id; Tahdhib al-Kamal, de Abu al-Hajjaj al-Mizzi; e Mizan al-I‘tidal e Tarikh al-Islam, do erudito al-Dhahabi.
Contudo, uma coisa pode ser afirmada claramente sobre o conhecimento dessa época: o cultivo do conhecimento tinha grande amplitude, mas sua profundidade era muito menor em comparação. Em vez de pensamento profundo e pesquisa, havia maior inclinação para compilar o conhecimento dos predecessores e explicá-lo. Eles não tinham capacidade de sair das quatro paredes do poderoso edifício que os madhhabs jurídicos haviam construído até então. Os quatro madhhabs eram aceitos apenas verbalmente como a verdade absoluta, mas, na prática, cada seguidor considerava somente seu próprio madhhab como a verdade infalível. Hesitavam em admitir que pudesse haver verdade pura em outro madhhab. No máximo, pensavam o seguinte: o ijtihad realizado por nosso imam é inteiramente verdadeiro e correto, embora possa conter a possibilidade de erro.
Essa era a visão dos seguidores dos madhhabs acerca de seu próprio madhhab e dos demais. Consideravam seu madhhab superior a todos os outros madhhabs jurídicos e acreditavam que ele contava com o apoio de Allah. Para provar a verdade e a superioridade de seu madhhab, empregavam toda a sua capacidade, competência, inteligência e força literária. A atitude dos seguidores dos madhhabs em relação ao próprio madhhab, a posição elevada que lhe atribuíam e a opinião que dele tinham podem ser facilmente deduzidas de uma reforma administrativa do sultão al-Malik al-Zahir Baybars. De acordo com as normas administrativas anteriores, no Egito e na Síria era nomeado apenas um qadi al-qudat shafi‘i (juiz supremo). O sultão Baybars nomeou, em seu lugar, qadis al-qudat dos outros três madhhabs também, o que deixou os sábios shafi‘is extremamente indignados. Eles expressaram seu descontentamento. Queriam ver o Egito sob a autoridade de um único qadi al-qudat shafi‘i. Consideravam que o madhhab shafi‘i era o mais antigo no Egito e que o túmulo do Imam al-Shafi‘i — que Allah tenha misericórdia dele — também se encontrava naquela terra. Portanto, julgavam que somente o madhhab shafi‘i tinha legitimidade naquele país. Assim, depois da morte de Baybars, quando o poder governamental passou das mãos de sua família, os sábios shafi‘is identificaram esse fato como uma punição divina pela injustiça e pelo tratamento iníquo que ele havia dispensado ao madhhab shafi‘i.
Ao mesmo tempo que ocorria esse exagero no campo dos madhhabs jurídicos, prosseguia também o conflito entre os teólogos. Nesse aspecto, a disputa entre os hanbalis e os asharis estava no auge. Apesar das numerosas divergências entre os seguidores dos madhhabs jurídicos, suas relações sociais e a troca de conhecimentos entre eles não diminuíram. Pelo contrário, muitos mantinham entre si relações de professor e aluno. Havia, portanto, espaço para o respeito mútuo. Eles debatiam uns com os outros, mas esses debates permaneciam limitados à tentativa de provar a superioridade e a verdade de seu próprio madhhab. Já a disputa entre hanbalis e asharis chegava às fronteiras da incredulidade e do Islã. Cada grupo empregava todas as suas forças na tentativa de excluir o outro do Islã. Quando se debate sobre crenças usando a linguagem pomposa da lógica e da teologia, não há outro caminho senão levar a discussão até as fronteiras do Islã e da incredulidade. Gradualmente, governantes e povo começaram a envolver-se nesse debate e passaram a desfrutar bastante dele.
Por outro lado, a situação do tasawwuf era ainda mais grave. Muitas ideias, correntes de pensamento e métodos não islâmicos haviam penetrado nele. Inúmeros sufis profissionais, ignorantes e inovadores haviam se instalado confortavelmente nesse caminho. Junto com as pessoas comuns, uma grande parte da classe instruída também caiu nas garras de sufis hipócritas e não islâmicos. Assim, a religião e a fé dos muçulmanos enfrentaram um enorme perigo. Um grupo de filósofos ultrapassou os ensinamentos e os limites da revelação e da profecia e entregou-se à imitação do pensamento independente. Um grupo chegou a tentar transformar a religião em um apêndice da filosofia. Ambos os grupos de filósofos eram seguidores cegos de Platão e Aristóteles. Foi nesse contexto que o Imam Ibn Taymiyyah avançou, empunhando a luminosa tocha da fé, do conhecimento e das boas ações.

Situação política e social

No oitavo século da Hégira, a comunidade muçulmana estava afligida, interna e externamente, por problemas tão graves que, para salvá-la deles, era necessário um poderoso reformador, um mujaddid e um homem de jihad. Foi com todas as qualificações necessárias para conduzir essa sociedade muçulmana confusa e atormentada por problemas ao caminho do verdadeiro Islã que Allah, o Altíssimo, enviou o Imã Ibn Taymiyya, que Allah tenha misericórdia dele.

Para compreender as atividades de reforma religiosa de Ibn Taymiyya, é absolutamente indispensável examinar a situação política de sua época. A esse respeito, já foi feita alguma descrição dos ataques e da devastação causados pelos tártaros. Agora é necessário conhecer um pouco a situação política da região do mundo islâmico onde ele nasceu e onde se estendia seu campo de atuação. Treze anos antes do nascimento de Ibn Taymiyya, começou o domínio dos sultões mamelucos sobre o Egito e a Síria. Esses sultões mamelucos eram escravos turcos de Al-Malik as-Salih Najmuddin Ayyub (falecido em 647 H.), o último sultão da dinastia do sultão Salahuddin Ayyubi. Depois que o sultão Najmuddin Ayyub os submeteu à prova de sua bravura e lealdade e eles foram aprovados, providenciou para que se estabelecessem no Egito. Após a morte de Al-Malik as-Salih, em 647 H., Turan Shah matou-o, tomou ele próprio o trono e adotou o nome de Al-Malik al-Mu’izz. Em 657 H., Saifuddin Qutuz, escravo de Izzuddin Aybak, tomou o trono. Esse sultão muçulmano foi o primeiro a derrotar os tártaros, considerados invencíveis. No ano seguinte, Ruknuddin Baybars, o segundo escravo do sultão Najmuddin Ayyub, matou Saifuddin Qutuz e tomou o trono. Ele adotou o título de Al-Malik az-Zahir. Baybars era um sultão extremamente poderoso. Lutou simultaneamente contra os tártaros e os cruzados e derrotou ambos. Derrotou-os repetidas vezes. Com isso, sua vitória contra os dois grandes inimigos do mundo islâmico consolidou firmemente sua autoridade entre os muçulmanos.

Foi durante seu governo que o Imã Ibn Taymiyya nasceu na Síria. Quando o Imã tinha quinze anos, Al-Malik az-Zahir Ruknuddin Baybars morreu. O Imã estava então prestes a passar da adolescência para a juventude. Na infância, havia visto por toda parte desespero e a humilhação da derrota; ao chegar à juventude, porém, as nuvens do desespero começaram a se dissipar. Assim como o grande sultão Salahuddin Ayyubi rompeu a apatia de uma comunidade desesperada, lançou os muçulmanos em um jihad total contra os cruzados e criou uma nova onda de vitalidade no mundo islâmico, Al-Malik az-Zahir Baybars infundiu novamente vida no coração de uma comunidade estagnada e abatida. Por toda parte, criou-se um ambiente de jihad contra os tártaros e os cruzados. O historiador Ibn Kathir escreveu sobre o sultão: “Baybars era um rei corajoso, de inteligência aguçada e dotado de elevada e vigorosa determinação. Nunca permanecia desatento em relação aos inimigos. Estava sempre envolvido em combate contra eles. Organizou e uniu os muçulmanos dispersos e desordenados. Na verdade, Allah o havia enviado nesta época final para ajudar e apoiar o Islã e os muçulmanos e fortalecê-los. Ele era como um espinho cravado nos olhos dos francos, dos tártaros e dos politeístas. Proibiu o vinho. Expulsou do país os ímpios, os libertinos, os bandidos e os malfeitores. Se visse qualquer calamidade ou desordem em alguma parte do país, não conseguia ficar tranquilo até eliminá-la.”

O reino de Al-Malik az-Zahir Baybars era bastante extenso. A leste, seu limite ia do rio Eufrates até o Sudão, ao sul. O Egito era a região central desse reino, e Cairo era sua capital. A importância do Cairo havia aumentado ainda mais nessa época devido à presença ali dos califas abássidas expulsos de Bagdá. Bagdá ainda estava sob o domínio dos tártaros. Enquanto o soberano tártaro de Bagdá não aceitasse o Islã, a cidade permaneceria sob o domínio dos não muçulmanos. Por outro lado, embora os califas abássidas tivessem perdido a autoridade estatal, sua autoridade espiritual sobre os muçulmanos permanecia estabelecida. A partir do Cairo, continuaram a exercer essa autoridade espiritual sobre o mundo islâmico.

Não há dúvida de que Baybars era um grande rei. Contudo, apesar de suas inúmeras virtudes e boas ações, era um rei autocrático. Assim, ao devolver o espírito de jihad aos muçulmanos e obrigar os inimigos do Islã a sofrerem uma derrota humilhante, cumpriu, por um lado, uma grande responsabilidade; por outro, devido ao sistema de governo autocrático, também ocorreram em seu reinado alguns episódios de opressão e tirania. Apesar disso, seu período pode ser considerado, em seu conjunto, uma época do despertar dos muçulmanos.

Em 676 H., após reinar por dezoito anos, o rei Baybars morreu. Depois de sua morte, começaram novamente tempos difíceis para os muçulmanos. Nos trinta e três anos seguintes à sua morte, nove sultões ocuparam o trono do Egito. Entre eles, o único que demonstrou alguma força foi Al-Malik al-Mansur Saifuddin Qalawun. Em 678 H., ele atacou os tártaros e obrigou-os a sofrer uma derrota humilhante. Ao mesmo tempo, também conduziu o jihad contra os cruzados. Depois de 185 anos, recuperou Tarabulus das mãos dos cruzados. Reinou durante doze anos com grande esplendor e majestade. Após sua morte, em 689 H., o trono do Egito transformou-se em um fantoche nas mãos dos ambiciosos pelo poder, e os reis passaram a ser substituídos ano após ano, um depois do outro. Por fim, em 709 H., o filho de Al-Malik al-Mansur, Al-Malik an-Nasir Qalawun, tomou o trono pela terceira vez. Dessa vez, sua posição tornou-se permanente. Ele governou com autoridade absoluta durante trinta e dois anos.

O Imã Ibn Taymiyya era, na realidade, contemporâneo desse Al-Malik an-Nasir Qalawun. Foi durante seu reinado que o Imã iniciou suas atividades teóricas e reformadoras. Esse sultão restaurou, em grande medida, a época de Al-Malik az-Zahir Baybars. Assim como Baybars, também possuía muitas qualidades elevadas. Despertou novamente entre os muçulmanos o espírito de jihad. Derrotou os tártaros de forma humilhante e acrescentou uma página gloriosa à história do Islã.

A influência dos turcos e dos tártaros na sociedade

No século VIII da Hégira, a sociedade em que o imame Taqiuddin Ibn Taymiyya, que Allah tenha misericórdia dele, iniciou suas atividades reformadoras havia sofrido muitas mudanças em seu caráter. A classe governante era turca. Os turcos consideravam-se superiores aos árabes. Em todos os aspectos, procuravam apresentar-se como distintos do povo comum. Sua língua era o turco. Usavam o árabe apenas na adoração e ao se comunicarem com os ulemás e o povo em geral.
Contudo, os governantes turcos respeitavam os sábios e os sufis e seguiam suas palavras. Demonstravam entusiasmo pela fundação de mesquitas e madraças. Ao nomear pessoas para cargos governamentais, não davam preferência a nenhuma linhagem ou classe. Entretanto, como a classe governante era turca, naturalmente os turcos eram nomeados para as grandes responsabilidades militares e administrativas. Turcos e tártaros eram os grandes proprietários de terras e concessionários de feudos.
Por outro lado, grande parte dos habitantes das cidades era de origem tártara. Nas guerras travadas contra os tártaros pelos reis turcos, como Saifuddin Tatar, Zahir Baybars e Nasiruddin Qalawun, inúmeros tártaros foram capturados. Mais tarde, esses tártaros aceitaram o Islã e passaram a residir permanentemente na Síria e no Egito. Segundo relatos históricos egípcios, na época de Zahir Baybars havia grande número de tártaros no Egito e na Síria. Seus costumes e práticas espalharam-se por todo o país. Embora tivessem aceitado o Islã, conservaram muitos de seus costumes e práticas. Mantiveram suas características nacionais. Na verdade, é raro na história encontrar o exemplo de novos muçulmanos que, após aceitarem o Islã, tenham abandonado completamente seus costumes passados, suas características culturais e até suas crenças da jahiliyyah, acolhendo o Islã cem por cento e deixando para trás tudo o que pertencia à jahiliyyah. Isso foi, naturalmente, uma característica exclusiva dos Companheiros nobres do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Depois de aceitarem o Islã, eles reconstruíram todo o seu modo de vida, pensamento, crenças e conduta de acordo com as instruções de Allah e do Mensageiro. Não deram a menor importância às características nacionais ou tribais. Fizeram tudo o que Allah e o Mensageiro ordenaram. Viveram da maneira como Allah e o Mensageiro lhes haviam ordenado viver. Em suas vidas não havia coexistência entre o Islã e a jahiliyyah. Ali havia somente Islã. A jahiliyyah havia partido para sempre. Ao observar sua condição, parecia que eles haviam renascido dentro do Islã.
Contudo, não é nosso objetivo culpar esses tártaros e turcos. Isso porque, na época em que entraram no Islã, a sociedade daquele tempo não possuía um Islã completo. Numa sociedade em que não estava estabelecido um sistema completo de educação e prática islâmicas, imaginar que os recém-chegados seriam acolhidos, teriam seu modo de vida completamente transformado, abandonariam todas as suas crenças, convicções, características nacionais e costumes e se tornariam espontaneamente muçulmanos puros era apenas uma possibilidade imaginária. Na realidade, era de modo algum possível encontrar tal exemplo. Por isso, vemos a coexistência do Islã e da jahiliyyah na vida desses muçulmanos de origem turca e tártara. Mais tarde, a influência nociva e os efeitos prejudiciais disso tornaram-se claramente visíveis na história do mundo islâmico. O historiador al-Maqrizi escreveu sobre os muçulmanos tártaros: Esses tártaros haviam sido educados em Dar al-Islam. Tinham aprendido bem o Alcorão e também haviam assimilado solidamente as normas e leis do Islã. Porém, sua vida era uma combinação do verdadeiro e do falso. Nela havia coisas boas e, ao lado delas, também coisas más. Confiavam ao cádi seus assuntos religiosos, como a oração, o jejum, o zakat, o hajj, os awqaf, as questões relativas aos órfãos, as disputas entre marido e mulher, os conflitos relacionados a dívidas e outros assuntos semelhantes. Mas, em seus assuntos pessoais e privados, seguiam os costumes e a tradição gengiscânidas e a al-Siyasa — a lei tártara. Nomeavam para si um governante chamado hajib. Esses hajibs tomavam decisões sobre os acontecimentos cotidianos, mantinham os poderosos submetidos à disciplina e à lei e, segundo a al-Siyasa, concediam aos fracos os seus direitos. Do mesmo modo, as questões dos grandes comerciantes tártaros eram julgadas de acordo com a al-Siyasa. Nas disputas relativas a feudos e terras, eles também decidiam por meio desse tipo de lei. Era perfeitamente natural que o caráter, os costumes, a cultura e o modo de vida desses novos muçulmanos persas e tártaros de origem turca influenciassem as populações muçulmanas de antiga origem árabe e outras comunidades muçulmanas. Assim como, em consequência das Cruzadas, se observa o encontro e a mistura das civilizações e culturas asiática e europeia, também as vitórias e derrotas dos tártaros abriram caminho para a mistura das culturas muçulmana e tártara. Assim como há vitória e derrota no campo de batalha, também há vitória e derrota no campo cultural, e cada lado adota a influência do outro.
A adoção dessa influência tártara não foi de modo algum benéfica para a sociedade muçulmana. Especialmente sua tentativa de manter, por meio da al-Siyasa, os assuntos pessoais fora do alcance das normas islâmicas apenas aumentou os danos sofridos pela sociedade muçulmana daquela época. Pois, após o fim do Califado Ortodoxo, a administração central do Estado passou a buscar libertar-se dos vínculos da religião. Setecentos anos de governo monárquico autocrático haviam levado muito adiante a separação entre a religião e o Estado. Nesse período, o sistema de al-Siyasa dos tártaros acelerou ainda mais essa separação entre a religião e o Estado entre os muçulmanos. Assim, a entrada dos tártaros na sociedade muçulmana, por um lado, aumentou a força política dos muçulmanos, mas, por outro, ampliou seus prejuízos no campo religioso. A quantidade de desvio na sociedade islâmica havia aumentado. Para libertar a sociedade islâmica desse desvio, tornou-se indispensável a necessidade de reformadores como o imame Taqiuddin Ibn Taymiyya.

O primeiro capítulo da vida combativa do imame

A tradição erudita

No século VIII da Hégira, a contribuição da família do imame Taqiuddin Ibn Taymiyya para o papel destacado que ele desempenhou no renascimento islâmico em todo o mundo islâmico não foi pequena. Toda a família pode ser identificada como uma linhagem de erudição. O quarto antepassado de sua família era seu bisavô, Muhammad ibn al-Khidr. A mãe desse Muhammad ibn al-Khidr chamava-se Taymiyya. Ela era uma oradora extraordinária. Em pouco tempo, sua extraordinária fama na eloquência fez com que a família passasse a ser conhecida em toda parte como a família Taymiyya.
O avô do xeique do Islã Taqiuddin Ahmad ibn Taymiyya, o eminente erudito Abu al-Barakat Majduddin ibn Taymiyya, era considerado um dos maiores sábios da escola hanbalita. Alguns chegaram a mencioná-lo como mujtahid. O imame e hafiz al-Dhahabi, perito na ciência dos narradores de hadith, escreveu em sua obra Bila: “Majduddin ibn Taymiyya nasceu em 590 da Hégira. Primeiro estudou com seu próprio tio, o famoso pregador e orador Fakhruddin ibn Taymiyya. Depois, recebeu educação superior com os sábios e muhaddiths de Harran e Bagdá. Adquiriu conhecimento completo de fiqh. Nesse campo, pode-se dizer que alcançou a posição de imame. Sua inteligência extraordinária e seu profundo domínio do fiqh eram conhecidos em toda parte como um provérbio.” Certa vez, um sábio fez-lhe uma pergunta erudita. Ele disse que a pergunta podia receber sessenta respostas. Em seguida, deu as sessenta respostas, uma após outra. Morreu em 652 da Hégira. Sua obra mais importante é Muntaki al-Akhbar. Nessa obra, mencionou os hadiths relacionados a cada capítulo de fiqh, sobre os quais se fundamentou a escola jurídica. O eminente sábio e muhaddith do século XIII da Hégira, Muhammad ibn Ali al-Shawkani, consolidou a profundidade do conteúdo e a excelência dessa obra ao escrever uma explicação em doze volumes, intitulada Nayl al-Awtar.
O pai do xeique do Islã, o imame Ibn Taymiyya, Shihabuddin Abd al-Halim ibn Taymiyya, também era um dos maiores sábios, muhaddiths e especialistas em fiqh hanbalita. Logo após mudar-se de Harran para Damasco, iniciou as aulas na mesquita Jami al-Umari de Damasco. Essa mesquita central de Damasco era o centro de reunião dos maiores ulemás, juristas e muhaddiths do país. Portanto, não era nada fácil ministrar aulas na presença dos maiores sábios do país. A característica de suas aulas era que ele ensinava oralmente. Não havia diante dele uma pilha de livros. Confiando inteiramente na memória, citava grandes obras. Sua confiança na própria memória era extraordinária. Além disso, foi nomeado xeique dos hadiths na Dar al-Hadith al-Sukkariyya de Damasco. Morreu em 682 da Hégira.

Infância e adolescência

A região entre os rios Tigre e Eufrates divide-se em duas partes. As áreas da parte sul são chamadas, em árabe, de Iraque Árabe. Bagdá, Basra e outras cidades estão incluídas nela. Já as áreas da parte norte são mencionadas na literatura árabe antiga pelos nomes de Diyarbakir, Diyar Rabi’a e Diyar Mudar. Os geógrafos árabes chamam essa região de Al-Jazira. Ao norte fica a Armênia; ao sul, o Iraque Árabe; a leste, o Curdistão; e a oeste, a Ásia Menor e o deserto da Síria. Ar-Raqqa está situada nessa região. Após cerca de oito horas de viagem ao sul de Ar-Raqqa, chega-se a uma cidade chamada Harran. Os antepassados do imame Ibn Taymiyya eram habitantes dessa cidade. O imame Ibn Taymiyya nasceu nessa cidade no dia 10 de Rabi al-Awwal de 661 da Hégira. Já relatamos anteriormente o nascimento do imame Taqiuddin Ibn Taymiyya e sua migração para Damasco ainda na infância, para escapar dos ataques dos tártaros. Naquela época, o imame tinha apenas sete anos. Os dias da invasão tártara estavam repletos de terror, apreensão e horror. As pessoas podiam vender tudo o que possuíam, mas não estavam dispostas a vender a biblioteca familiar, a herança intelectual acumulada por várias gerações da família. Conta-se que, mesmo que fosse necessário carregá-la sobre a cabeça, atravessariam o caminho levando aquela enorme biblioteca; essa era a determinação de cada membro da família. Assim, essa linhagem de erudição começou a carregar os livros nos carros, deixando de lado muitos bens necessários da família. Vários carros ficaram cheios exclusivamente de livros. Então surgiu um problema após outro: faltavam burros ou cavalos para puxar os carros. Quase todos estavam deixando o país. Portanto, todos precisavam de burros e cavalos para transportar seus pertences. Não era difícil compreender que haveria uma enorme escassez desses animais.
Por fim, a situação chegou a tal ponto que os jovens da família passaram a puxar muitos dos carros de livros em lugar dos burros e cavalos. Às vezes, homens maduros e idosos também começaram a ajudá-los. A caravana avançava lentamente. Por isso, ficaram para trás de todos. Em certo lugar, ouviram dizer que os tártaros haviam chegado. Era necessário acelerar a caravana. Mas surgiu um novo problema. As rodas dos carros de livros pararam de repente. Não queriam mais se mover. As rodas dos carros eram muito antigas e não tinham capacidade para percorrer uma distância tão grande. Ainda assim, pela misericórdia de Allah, haviam continuado a rodar até então. Mas agora, apesar de milhares de empurrões e centenas de puxões, as rodas não queriam mais girar. Todos os membros da família começaram a suplicar e a orar, chorando, a Allah. Allah aceitou suas orações. O carro voltou a se mover. A caravana avançou rapidamente.
Depois que chegaram a Damasco, os damascenos receberam-nos calorosamente. Os círculos eruditos de Damasco conheciam as atividades intelectuais de Abu al-Barakat Majduddin ibn Taymiyya. A fama do conhecimento e da erudição de Shihabuddin Abd al-Halim ibn Taymiyya também não era pequena em Damasco. Pouco tempo depois, o pai, Abd al-Halim, recebeu a responsabilidade de dar aulas na Jami al-Umariyya e de lecionar na Dar al-Hadith al-Sukkariyya. Assim, a família Taymiyya não se sentiu de modo algum estrangeira no novo ambiente da nova cidade. Logo sua vida voltou ao normal. O jovem Ibn Taymiyya rapidamente completou a memorização do Alcorão Sagrado e dedicou-se ao estudo dos hadiths, do fiqh e da língua árabe. Ao mesmo tempo, começou a participar com o pai de diversos círculos de estudo. Como resultado, juntamente com sua educação, aceleraram-se também seu cultivo do conhecimento e seu desenvolvimento intelectual.
Todos os membros da família do imame possuíam uma memória extraordinária. Já mencionei seu pai e seu avô. Mas, em comparação com eles, a memória do imame Taqiuddin Ibn Taymiyya era extraordinária. Desde a infância, sua memória surpreendente deixava os professores admirados. Também em Damasco, sua memória era comentada por todos.
Certa vez, um famoso sábio de Aleppo chegou a Damasco. Ele ouviu falar da extraordinária memória de um jovem chamado Taqiuddin Ahmad ibn Taymiyya, que vivia ali. Para verificar a veracidade disso, sentou-se na loja de um alfaiate no caminho para a madrasa. Depois de algum tempo, viu muitos meninos vindo pela estrada. O alfaiate mostrou-lhe o menino que carregava uma grande tábua debaixo do braço e disse que era Ibn Taymiyya. Ele chamou o menino. Escreveu na tábua o texto de treze ou catorze hadiths — o relato principal — e disse: “Leia.” O jovem Ibn Taymiyya leu uma vez com profunda atenção. O sábio tomou a tábua e disse: “Recite-os de memória.” Ibn Taymiyya recitou tudo fluentemente. Depois de apagar a tábua, escreveu nela uma grande quantidade de cadeias de transmissão e disse: “Leia.” Quando ele terminou de ler, pediu-lhe que as recitasse de memória. Mais uma vez, Ibn Taymiyya recitou fluentemente também as cadeias de transmissão. O sábio de Aleppo ficou maravilhado. Disse: “Este menino realizará o impossível, pois, na época em que nasceu, uma memória desse tipo é simplesmente inconcebível.”

Aquisição e cultivo do conhecimento

No oitavo século da Hégira, a responsabilidade que o imame Taqiuddin Ahmad ibn Taymiyya assumiu na revitalização islâmica baseava-se em sua vastíssima erudição e extraordinária competência nas ciências religiosas. Nesse aspecto, entre os eruditos e intelectuais de seu tempo, ele pode ser considerado incomparável. Ele adquiriu esse conhecimento inigualável por meio do estudo, do exercício e da prática. Os profetas e mensageiros recebem conhecimento diretamente de Allah. Por isso, não precisaram recorrer a nenhum livro ou professor do mundo. Todos os demais seres humanos, porém, precisam adquirir conhecimento neste mundo por meio do estudo e da prática. A memória e a inteligência concedidas por Allah apenas ajudam a preencher o recipiente do conhecimento.
O imame Ibn Taymiyya ingressou numa instituição de ensino aos sete anos de idade e, aos vinte e dois, já havia completado seu vasto acervo de conhecimentos. Além do Alcorão, do hadith, do fiqh e dos princípios jurídicos, dedicou especial atenção ao domínio da língua e da literatura árabes. Aprendeu hadith com mais de duzentos mestres. Seu maior interesse estava na exegese do Alcorão. Ele próprio afirmou que, para dominar o conhecimento corânico, estudou mais de cem obras de tafsir, grandes e pequenas. Graças ao estudo do Alcorão Sagrado e à intensa reflexão e pesquisa sobre ele, Allah abriu para ele as portas do conhecimento de seus significados profundos. Ele não limitava sua busca de conhecimento à leitura dos livros de tafsir; ia também ao encontro de seus autores e ampliava seu conhecimento por meio de discussões diretas com eles.
Sobre o estudo do Alcorão, ele próprio disse: “Às vezes, para compreender o significado interior de um versículo, estudei até cem obras de tafsir. Depois de estudá-las, eu suplicava a Allah: ‘Ó Allah, concede-me pleno conhecimento do significado deste versículo’. Eu dizia: ‘Ó Mestre de Adão e Abraão, ensina-me!’ Então ia para lugares desolados e mesquitas, colocava a testa no chão e dizia: ‘Ó Doador do conhecimento de Abraão, concede-me conhecimento!’” Além do Alcorão, do hadith e do fiqh, ele também adquiriu profunda erudição na ciência do kalam. Naquela época, o estudo da filosofia e dos princípios teológicos do imame Abul Hasan al-Ashari predominava nessa área. O imame Ibn Taymiyya e sua família seguiam a escola jurídica hanbalita. E havia uma forte controvérsia entre os hanbalitas e os ash’aritas. Na realidade, ele estudou profundamente a ciência do kalam para obter conhecimento correto sobre a filosofia e os métodos de argumentação de seus adversários. Assim, pôde compreender corretamente as fragilidades internas do kalam, os métodos argumentativos deficientes de seus autores e até mesmo os erros dos filósofos gregos. Depois de estudar profundamente a ciência do kalam, passou a escrever contra todos os seus erros e compôs algumas obras nas quais apresentou argumentos e provas fortes, a ponto de os escritores e filósofos contemporâneos não conseguirem respondê-las.
Em suma, afirmamos que Ibn Taymiyya, ao representar autenticamente o Alcorão e a Sunnah em sua época e provar a superioridade e a veracidade da religião de Allah, preparou-se amplamente para proteger as pessoas do desvio no conhecimento e na prática religiosa, tal como era necessário naquela fase da história. Ele adquiriu plena capacidade para enfrentar a anarquia que se instalara no mundo do pensamento e do conhecimento de seu tempo. Não havia rigidez nem adulteração em seu conhecimento ou em suas ações; tudo era claro e puro. Em geral, quando alguém especialmente versado numa ciência debatia com ele sobre essa área, costumava voltar levando consigo algum novo conhecimento a respeito dela. Seu famoso adversário, o erudito Kamaluddin al-Zamalkani, ao comentar sua competência nos diversos ramos do conhecimento, disse: “Nunca se viu que ele perdesse um debate com alguém. Depois de iniciar um debate sobre qualquer assunto, via-se que ele fazia até mesmo os especialistas desse assunto se renderem.”
Depois de dedicar vinte e dois anos à aquisição de conhecimento, ele se entregou à tarefa de disseminá-lo. Quando tinha vinte e dois anos, seu ilustre pai, Shihabuddin Abd al-Halim ibn Taymiyya (682 H.), faleceu. Ele era o principal muhaddith da principal Dar al-Hadith de Damasco, a As-Sukkariyya. Com sua morte, o cargo ficou vago. No ano seguinte, seu capaz filho, o imame Taqiuddin Ibn Taymiyya, ocupou essa posição. Aos vinte e dois anos, ele ministrou sua primeira aula de hadith. Os mais destacados muhaddiths e eruditos do país estiveram presentes nessa aula. O conhecimento e a erudição do jovem sábio deixaram todos encantados e maravilhados. Um mês depois, numa sexta-feira, ele foi encarregado de assumir, no principal templo da cidade, a Mesquita Jami Umavi, o lugar deixado por seu pai na exegese do Alcorão. Um púlpito foi construído especialmente para ele. A popularidade de sua exegese crescia a cada semana. Em sua exegese do Alcorão, ele também apresentava todos os problemas contemporâneos e suas soluções corânicas. Ao mesmo tempo, sua piedade pessoal, sua firmeza na fé e sua retidão influenciavam profundamente o povo. Nessa época, sua fama começou a espalhar-se por todos os lados.

A primeira campanha contra a injustiça

Em 693 H., um incidente desagradável obrigou-o, pela primeira vez, a entrar em ação pública. Nessa ocasião, algumas pessoas testemunharam que um cristão chamado Asaf havia proferido palavras ofensivas contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Depois de cometer esse ato injusto, ele buscara refúgio junto a um árabe. Ao tomar conhecimento disso, o imame Ibn Taymiyya e o xeique Zaynuddin al-Farqi, da Dar al-Hadith, foram ao governador Izzuddin Ayyub, solicitaram uma investigação do incidente e exigiram a punição do culpado. O governador mandou chamar o infrator. Quando as pessoas viram um árabe chegando com Asaf, começaram a insultá-lo. O árabe disse: “Este cristão é melhor do que vocês.” Ao ouvir isso, a multidão enfureceu-se e começou a apedrejá-los. Em poucos instantes, surgiu um grande tumulto. Considerando o imame e seu companheiro responsáveis pelo ocorrido, o governador lançou-os na prisão.
Influenciado pelo caráter repentino do acontecimento e pela dramática mudança da situação, o cristão aceitou o Islã. O governador garantiu sua segurança e, mais tarde, ao reconhecer o próprio erro, libertou o imame e seu companheiro da prisão e pediu-lhes perdão. A popularidade do imame aumentou ainda mais.

A coalizão contra o grupo de interesses

No final do século VII da Hégira, as atividades reformistas iniciadas pelo Imã Taqiuddin Ahmad Ibn Taymiyya começaram gradualmente a provocar oposição entre os grupos interessados em preservar seus privilégios. O Imã convocava as pessoas diretamente ao Alcorão, à Sunna e às práticas dos Companheiros e dos tabi‘in. Entretanto, esses grupos de interesses estabelecidos conduziam as pessoas às suas próprias ideias inventadas e às ações relacionadas aos seus interesses. A popularidade do Imã crescia rapidamente entre o povo e nos círculos eruditos. Aos olhos dos defensores dos interesses estabelecidos, isso era como um espinho cravado. Em 698 da Hégira, esse grupo iniciou a primeira oposição contra o Imã. Os opositores atacaram não apenas suas ideias, mas também sua personalidade.
A família de Ibn Taymiyya não era de modo algum desconhecida na Síria. Já havíamos discutido em detalhes que sua família era bem conhecida nos círculos eruditos da Síria havia três ou quatro gerações. Seu pai havia consolidado sua superioridade em toda a Síria, especialmente em Damasco. O próprio Imã também havia sido reconhecido como uma das maiores personalidades eruditas. Ainda assim, o grupo opositor atacou sua competência acadêmica, seu conhecimento, sua ‘aqida e suas ações. O Imã escreveu um opúsculo intitulado Al-‘Aqida al-Hamawiyya al-Kubra, respondendo a todas as suas questões. Nesse opúsculo de cinquenta páginas, apresentou argumentos e provas diretamente das palavras e práticas do Alcorão, da Sunna, dos Companheiros e dos tabi‘in. Apontou as confusões dos filósofos muçulmanos e dos mutakallimun influenciados pelas filosofias grega, romana e indiana. Examinou devidamente suas ideias e declarações contrárias ao Alcorão e à Sunna. Em linguagem severa, criticou suas afirmações contrárias à sharia.
Esse opúsculo pareceu lançar com força a ira reprimida dos círculos opositores. Eles não puderam tolerar essa manifestação franca da verdade. Os grupos opositores uniram-se e apresentaram acusações contra ele. Exigiram que ele comparecesse à assembleia do cádi hanafita, o xeique Jalaluddin, para se defender a respeito de sua obra. Ibn Taymiyya rejeitou a proposta. Durante essa disputa, o governador da cidade, o emir Saifuddin, tomou o partido do Imã e convocou o grupo opositor. Muitos deles, porém, esconderam-se. Na sexta-feira, depois de concluir normalmente o tafsir na Mesquita de Umubi, o Imã foi à assembleia do cádi Imaduddin, o shafi‘ita. Um grupo dos maiores sábios da cidade também o apoiou. Todos começaram a fazer várias perguntas sobre o opúsculo Al-‘Aqida al-Hamawiyya. O Imã continuou respondendo às suas perguntas. Suas respostas fundamentadas deixaram todos sem palavras. O Imã voltou como um vencedor. Assim, todas as artimanhas do grupo opositor chegaram ao fim, e a oposição cessou por algum tempo.
Contudo, entre aqueles que se levantam contra a verdade e a justiça, poucos são sinceros. Aqueles que, com intenção pura e unicamente pelo interesse da religião, se opõem a algum direito podem, em certo momento, compreender seu erro. Mas os grupos interessados em seus próprios benefícios e obstinados permanecem com os olhos vendados; seus corações e mentes estão mergulhados na lama pútrida de um lago. Deus Altíssimo jamais lhes concede a capacidade de compreender e aceitar a verdade. Por isso, mesmo que a verdade se manifeste mil vezes e, como a luz do dia, dissipe completamente a escuridão ao redor, os grupos interesseiros jamais conseguem percebê-la. Assim, embora a oposição a Ibn Taymiyya tivesse cessado temporariamente, ela continuou a se acumular internamente. Mas justamente nesse período, devido ao surgimento da fitna tártara na Síria, nenhum outro grupo teve oportunidade de avançar contra ele durante muito tempo.

Formação de um grupo para combater a injustiça

Depois que a Síria foi libertada da invasão tártara, em 702 da Hégira, o Imã Ibn Taymiyya retomou suas atividades reformistas. Continuou regularmente seu trabalho de ensino, tafsir e dars. Voltou a conduzir campanhas contra o shirk, a bid‘a e a jahiliyya. Naquela época, devido à convivência com cristãos e judeus, muitas crenças e ensinamentos contrários ao Islã espalharam-se entre os muçulmanos. Os muçulmanos envolveram-se em muitas práticas que reavivavam as lembranças da jahiliyya e eram semelhantes às práticas dos povos incrédulos e idólatras; na realidade, eram derivadas de suas tradições e culturas. À margem do rio Nahr al-Fulat, em Damasco, havia um altar. A respeito desse altar circulavam histórias extraordinárias de milagres. Ele havia se tornado uma fitna para os muçulmanos ignorantes e supersticiosos. Os muçulmanos iam ali para fazer votos. Em 704 da Hégira, Ibn Taymiyya chegou ao local acompanhado por um grupo de trabalhadores e pedreiros. Com a ajuda deles, destruiu esse centro de shirk e bid‘a, quebrando o altar e lançando seus pedaços no rio. Desse modo, os muçulmanos foram libertados de uma grande fitna.
Ele começou a aplicar plenamente o hadith do Mensageiro de Deus ﷺ sobre o combate à injustiça. Esse hadith diz: “Quando algum de vocês vir uma ação contrária à sharia, deverá mudá-la com sua força. Quem não puder fazê-lo pela força deverá opor-se a ela e corrigi-la com a palavra. E quem nem isso puder fazer deverá manter no coração sua reprovação e seu ódio por ela. E isso é o mais fraco dos níveis da fé.” De acordo com esse hadith, sempre que via alguma ação contrária à sharia, ele tomava medidas contra ela conforme sua força e capacidade. Erguia uma forte resistência contra a injustiça. Esforçava-se para corrigi-la e organizá-la de acordo com a sharia.
Os governantes estavam ocupados com suas responsabilidades administrativas. Não sentiam ter qualquer responsabilidade pela reforma e pelo cuidado das práticas e da ‘aqida do povo. Muitas vezes, os sábios hesitavam em se levantar contra ações claramente contrárias à sharia. Assim, Ibn Taymiyya continuou lutando sozinho contra isso. Por essa razão, formou uma jama‘a com seus alunos e apoiadores. Esse grupo permanecia sempre com ele e o ajudava em suas diversas atividades. Com o auxílio dessa jama‘a, ele procurava regular a vida religiosa do povo.
Nessa época, levaram até ele um ancião chamado al-Mujahid Ibrahim ibn al-Qattan. O velho era conhecido como um grande dervixe sufi. Vestia uma ampla túnica de faquir, remendada com retalhos de várias cores. Tinha na cabeça os longos dreadlocks dos ascetas. As unhas de suas mãos mediam vários centímetros. Seu bigode era tão comprido que cobria todo o rosto. Amaldiçoava as pessoas por qualquer motivo. O consumo de bhang havia se tornado seu hábito constante. Por ordem de Ibn Taymiyya, sua túnica foi cortada em pedaços. Seu cabelo foi aparado e seu bigode, cortado. Cortaram-lhe as unhas e fizeram-no arrepender-se, para que nunca mais consumisse drogas. Desse modo, ele reformou pessoalmente muitos outros desviados e os reconduziu ao caminho da religião.

Luta contra duas doutrinas desviadas

No século VIII da Hégira, duas doutrinas filosóficas ganharam força entre os sufis e filósofos muçulmanos. O Imam Ibn Taymiyya teve de travar uma grande luta contra essas duas doutrinas errôneas. Elas eram a Wahdat al-Wujud e o Hulul e Ittihad. Na terminologia filosófica do nosso subcontinente, essas duas doutrinas são chamadas de advaitismo e panteísmo. Mais tarde, essas duas doutrinas também ganharam força entre os sufis do subcontinente. O Mujaddid Alf-e Sani, Hazrat Sayyid Ahmad Sirhindi, teve de se empenhar aqui numa luta intensa contra elas. A esse respeito, o Imam Ibn Taymiyya escreveu, citando a obra Fusus al-Hikam, de Muhyiddin Ibn Arabi, o principal expoente do panteísmo e do advaitismo (falecido em 638 da Hégira), que, segundo Ibn Arabi e seus seguidores, existe neste universo apenas uma única essência. A existência da criação é a própria existência do Criador. Eles não reconhecem, neste mundo, a criação e o Criador como duas entidades distintas. Não estão dispostos a aceitar que um seja o criador do outro. Pelo contrário, segundo eles, o Criador é a criação, e a criação é o Criador. Assim, segundo eles, aqueles dentre os filhos de Israel que adoraram o bezerro, na realidade, adoraram o próprio Allah. Segundo eles, a afirmação do Faraó — “Eu sou vosso senhor supremo” — era correta. Criticando o Hazrat Nuh, que a paz esteja sobre ele, Ibn Arabi afirma que seu povo incrédulo, por meio da adoração de ídolos, na realidade adorava o próprio Allah, e que o dilúvio de sua época era, na verdade, o dilúvio do conhecimento de Deus; eles haviam se afogado nesse dilúvio. Logo depois de Ibn Arabi, surgiram vários outros grandes expoentes dessa filosofia. Entre os mais importantes estavam Ibn Sab’in, Sadruddin al-Qunawi, Balayani e Tilmissani. Tilmissani não se limitava a defender essa posição em palavras; ele também vivia de acordo com esse princípio filosófico. Por isso, ele e seus seguidores bebiam vinho e praticavam atos proibidos. Pois, segundo sua concepção, se a existência reside numa única essência, por que haveria distinção entre o lícito e o ilícito? Disseram a Tilmissani: “A vossa doutrina é totalmente contrária ao Alcorão.” Em resposta, ele disse: “O Alcorão está repleto de shirk genuíno, pois estabelece uma diferença entre o Senhor e os servos. Em oposição a isso, a essência do tawhid está contida na nossa doutrina.” Ele também afirmou que sua doutrina era comprovada por meio do kashf.
O Imam Ibn Taymiyya considerava a oposição aberta a essa doutrina da Wahdat al-Wujud e do Hulul, influenciada pelo vedanta indiano e pelo budismo mahayana, tão importante quanto a guerra armada contra os tártaros. A esse respeito, ele fez uma análise teórica detalhada das doutrinas panteístas de várias comunidades cristãs e de todos os desvios semelhantes das comunidades anteriores. Em seguida, examinou minuciosamente, à luz do Alcorão e dos hadiths, a doutrina de Ibn Arabi e de seus discípulos.
As duras críticas de Ibn Taymiyya a essas doutrinas errôneas difundidas em nome do Islã fizeram dele um espinho nos olhos dos grupos de interesses estabelecidos. Um grupo de teóricos autoproclamados também começou a conspirar contra ele. Em determinado momento, conseguiram obter o apoio do governo. Incitaram o então governante do Egito contra Ibn Taymiyya. Naquela época, a Síria e o Egito faziam parte do mesmo Estado. A capital era o Cairo, no Egito. A Síria era uma província do Egito. A influência do Imam Ibn Taymiyya nos círculos eruditos da Síria era incontestável. O governo provincial também apreciava suas opiniões e suas atividades. Ele era a menina dos olhos da população muçulmana da Síria. Por isso, muitas vezes, quando o governo permanecia inativo e indiferente diante de atos publicamente contrários ao Islã e à Sharia, ele avançava com a ajuda de seus discípulos e das forças populares para impedir tais atos. Ele fazia cessar à força as práticas contrárias à Sharia.

 

Na prisão do Egito

Essa era a sua situação na Síria. Mas esse tipo de influência ainda não havia se difundido entre o povo do Egito. O governo central também não estava plenamente informado a seu respeito. Assim, os conspiradores conseguiram facilmente influenciar esse governo. Em algum mês do ano 705 da Hégira, por meio de um decreto real especial emitido no Egito, foi ordenado ao Imã Ibn Taymiyya que se dirigisse ao Cairo. Os alunos e amigos do Imã ficaram profundamente alarmados. O governador tentou impedi-lo. Ele assumiu a responsabilidade de discutir detalhadamente o assunto com o sultão, por cartas e mensageiros, e de corrigir suas concepções equivocadas. Mas o Imã não queria aceitar o favor de ninguém. Deixando para trás o medo e a apreensão extremos de todos, partiu rumo ao Cairo. Chegou ao Egito na sexta-feira, dia 22 de Ramadã. Depois de realizar a oração na mesquita congregacional da cidadela, quis iniciar uma discussão. Mas não lhe deram permissão. Ali mesmo incitaram a multidão contra ele. Diziam que seus pensamentos e sua aqida eram contrários ao Islã. Por isso, a multidão não estava disposta a ouvir nenhuma de suas palavras. Por ordem do cádi Ibn Makhluf al-Maliki, depois de ser mantido por alguns dias na torre da cidadela, ele foi enviado, na noite do Eid, à famosa prisão de Jubb (o poço), no Egito.
No ano seguinte, na noite do Eid de 706 da Hégira, o governador e alguns cádis e faqihs tentaram libertar o Imã. Alguns deles impuseram como condição que o Imã se arrependesse de sua aqida. Ibn Taymiyya recusou-se completamente a isso. Nesse assunto, ele foi chamado seis vezes para comparecer e conversar diretamente. Mas não respondeu a esses chamados. Em todas as ocasiões, ele disse, à semelhança do Profeta José:*********Árabe**************
“Esta prisão é mais querida para mim do que aquilo para o qual me convidam.”
Estabelecer a própria superioridade e grandeza não era o objetivo do Imã; do mesmo modo, libertar o governo da influência dos ulemás desonestos também era um de seus principais objetivos. Purificar os pensamentos, a aqida, as crenças e as ações dos muçulmanos de toda impureza do shirk, tornando-os luminosos como a luz do sol nascente, e libertar a religião de Allah de toda rigidez e confusão, tornando-a viva e dinâmica: essa era a dedicação de sua vida. Por isso, considerava obter a libertação da prisão depois de manchar-se com qualquer tipo de desonra equivalente a manchar a religião.
Não há dúvida de que essa característica do caráter do Imã Ibn Taymiyya oferece amplo material para reflexão à comunidade dos ulemás de hoje. Para que não surgisse nenhum tipo de confusão a respeito da religião, ele próprio renunciou ao conforto, às facilidades e ao bem-estar pessoal. Esteve disposto a suportar tortura física e psicológica nas celas escuras da prisão, mas não esteve disposto, nem por um instante, a tolerar qualquer agressão contra a religião.
O companheiro do Imã Ibn Taymiyya na prisão era seu irmão de sangue, o shaykh Sharafuddin Ibn Taymiyya. O shaykh Sharafuddin registrou detalhadamente os acontecimentos da prisão em sua obra Majmu’a Ilmiyya. Por meio dela, conhecemos a firmeza, a paciência e a luta inabalável do Imã pela verdade e pela justiça.
Certo dia, o diretor da prisão foi até ele em nome do na’ib al-saltanat do Egito. Queria conversar com o Imã sobre sua libertação. O Imã lhe disse que estava preso havia muito tempo, mas não sabia minimamente quais eram as acusações contra ele nem que crime havia cometido. Portanto, se fosse preciso discutir esse assunto, deveria vir uma delegação composta por pelo menos quatro homens responsáveis, instruídos e notáveis dos altos níveis do governo. Diante deles, apresentaria sua posição. Assim, seria menor a possibilidade de que suas palavras chegassem ao sultão de forma distorcida.
Ao ouvir isso, o diretor foi embora. Mesmo assim, nenhuma delegação veio. O diretor voltou. Desta vez, trouxe consigo um homem chamado Alauddin Tabrizi. Alauddin Tabrizi quis obter do Imã uma confissão de erro. Havia trazido um memorando escrito por sua própria iniciativa e começou a pressionar o Imã para que o assinasse. Nele havia muitas acusações falsas contra o Imã. Continha muitas coisas que ele não havia dito e nas quais não acreditava. Em resposta, o Imã disse: “Não tenho autoridade para tomar uma decisão sobre esse assunto. Isso diz respeito a Allah, ao Mensageiro e a toda a comunidade muçulmana. Não tenho poder para alterar a religião de Allah. Tampouco posso afastar-me da religião de Allah por causa de vocês ou de qualquer outra pessoa. Não sou capaz de cometer o mal de atribuir qualquer falsidade à religião de Allah.”
Vendo a insistência excessiva do representante do governo, o Imã tornou-se ainda mais firme. Advertiu o representante de que não adiantava insistir daquela maneira. Pelo contrário, aconselhou-o a abandonar aquela tarefa inútil e cuidar de algum trabalho necessário que tivesse. Disse: “Não pedi a ninguém que solicitasse minha libertação da prisão.” Naquele momento, a porta superior estava fechada. O Imã pediu que a porta superior fosse aberta. Preparou-se para sair. Ainda assim, disse ao representante do governo: “Eu não tomei a iniciativa de falar sobre nada. Recebi fatwas, as pessoas me fizeram perguntas e eu respondi. Do ponto de vista da religião e da sharia, tenho algum direito de ocultar a verdade? O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:”*************Árabe*************
“Isto é: àquele a quem se pergunta algo da religião que ele conhece, mas que o oculta, Allah colocará uma rédea de fogo na boca no Dia da Ressurreição. Então, por causa das suas palavras, eu não deveria dar uma resposta apropriada à pergunta de quem busca a verdade?”
Depois que Tabrizi saiu, o diretor voltou. Desta vez, disse ao Imã que o na’ib al-saltanat queria saber por escrito a respeito de sua aqida. Pediu ao Imã que escrevesse em uma folha os pontos de sua aqida. Ibn Taymiyya recusou-se a fornecer qualquer coisa por escrito e disse: “Se eu escrever algo agora, as pessoas dirão que Ibn Taymiyya mudou sua aqida anterior. Dessa mesma forma, em Damasco também me pediram por escrito uma declaração sobre minha aqida. Mas lá também não a entreguei. Apresentei ali minhas obras escritas. Meus pensamentos e minhas declarações estão expressos nelas de forma inequívoca. O governador da Síria também enviou essas minhas declarações ao sultão pelo correio. Sei que elas estão com o sultão. Além disso, a aqida não é algo que se inventa por iniciativa própria. Deveria eu criar todos os dias uma aqida nova desse tipo? Minha aqida é aquilo que já declarei e que está presente em minhas obras e escritos. Esses textos estão com vocês. Leiam-nos.”
O diretor voltou novamente e depois tornou a aparecer. Desta vez, disse ao Imã: “Dê ao menos alguma coisa por escrito. Por exemplo, uma carta de perdão ou uma declaração de que não entrará em conflito com ninguém.” O Imã respondeu: “Sim, isso pode ser feito. Não é meu objetivo causar sofrimento a ninguém nem vingar-me de quem quer que seja. Quero escrever uma carta de perdão para aqueles que me oprimiram, cometeram injustiça contra mim e me trataram mal. Mas, na realidade, não existe o costume de entregar essas coisas por escrito. Por isso, considero suficiente dizê-las verbalmente.”
Depois de terminar a conversa com o diretor, o Imã voltou para o interior da prisão. Ali, viu que os prisioneiros estavam entretidos em vários jogos fúteis para se distrair. Alguns jogavam cartas; outros, xadrez. Não prestavam atenção à oração. Levados pelo entusiasmo do jogo, deixavam as orações passar. O Imã manifestou sua reprovação. Incentivou os prisioneiros a orar. Apresentou-lhes os mandamentos claros de Allah. Estimulou-os a praticar boas ações. Alertou-os sobre seus próprios pecados e aconselhou-os a pedir continuamente perdão a Allah por eles. Assim, em pouco tempo, começou entre os prisioneiros um estudo tão intenso do conhecimento religioso que toda a prisão se transformou em uma madrassa. Os funcionários e os prisioneiros passaram a amar sinceramente o Imã Ibn Taymiyya. O ambiente erudito e saudável da prisão abriu os olhos dos prisioneiros para a realidade. A situação chegou a tal ponto que, naquele período, muitos prisioneiros não quiseram deixar a prisão mesmo depois de ouvirem o anúncio de sua libertação. Pediram para permanecer mais alguns dias a serviço do Shaykh al-Islam. Quatro meses depois, no mês de Safar de 707 da Hégira, houve novamente uma tentativa de libertá-lo. O cádi Badruddin Ibn Jama’a encontrou-se com o Imã na prisão. Mesmo após uma longa conversa, não conseguiu fazer com que o Imã concordasse em ser libertado sob as três condições do governo. Finalmente, no mês de Rabi’ al-Awwal, o emir Husamuddin trouxe o Imã, sob sua própria responsabilidade, perante o na’ib do sultão, depois de empenhar sua palavra. O emir Husamuddin pediu-lhe que permanecesse algum tempo no Egito. Assumiu a responsabilidade de fazer todo o possível para que o povo do Egito conhecesse corretamente seu conhecimento e sua taqwa e pudesse tornar sua vida abençoada pelo fluxo de seus benefícios.

Após a libertação da prisão

Depois de ser libertado da prisão, o Imam Ibn Taymiyyah, que Allah tenha misericórdia dele, passou a conviver mais intensamente com o povo comum do Egito. O sultão enviou-lhe valiosos presentes e concedeu-lhe um título para honrá-lo com dignidade real. Mas ele não aceitou nenhuma dessas coisas. Percebeu que estava tendo de entrar em conflito com o governo e a administração em diferentes níveis. De modo algum seria correto vincular-se a qualquer favor deles. Por isso, tanto quanto possível, manteve-se também afastado da influência da máquina administrativa. Em segundo lugar, perdoou todos aqueles que haviam conspirado contra ele até então. Declarou claramente que não tinha queixa alguma contra ninguém.

Naqueles dias, a influência da doutrina monista crescia no Egito. Em particular, o famoso poeta sufi egípcio Abu al-Faraj (falecido em 632 da Hégira) era um vigoroso defensor dessa doutrina. Por meio de seus esforços, a doutrina, adornada pela beleza da poesia, espalhava-se amplamente entre o povo comum e a comunidade sufi. Um grande número de sufis e mashayikh do Egito havia sido influenciado por essa doutrina. O Imam Ibn Taymiyyah começou a opor-se publicamente a ela enquanto estava no Egito. Classificou a corrente da doutrina monista como completamente contrária ao Alcorão e ao hadith, uma inovação dos sufis posteriores e uma imprudência introduzida na religião. Ele elogiou as crenças e as práticas de sufis como o venerável Shaykh Abd al-Qadir al-Jilani, que Allah esteja satisfeito com ele, e o Shaykh Adi ibn Musafir al-Umawi, que Allah esteja satisfeito com ele, mas continuou a criticar severamente os sufis e mashayikh de sua própria época. Segundo ele, esses sufis e mashayikh eram profundamente influenciados por filosofias materialistas e contrárias ao tawhid, gregas, egípcias e indianas.

As vigorosas e extensas críticas do Imam Ibn Taymiyyah, que Allah tenha misericórdia dele, contra esses mashayikh e sufis desviados provocaram grande indignação entre os sufis. O famoso shaykh da tariqa no Egito, Ibn Ata Allah al-Iskandari, foi à cidadela como representante dos sufis e apresentou uma queixa contra o Imam ao sultão. O sultão reuniu todos no Dar al-Adl e ordenou uma investigação adequada da acusação. Ibn Taymiyyah foi convocado para essa assembleia. A força de seus argumentos, sua racionalidade, as provas claras do Alcorão e do hadith e seu discurso cativante deixaram os ouvintes maravilhados. Todos os presentes ficaram sem palavras. Consequentemente, foram suspensas as tentativas de adotar qualquer medida contra ele em nível estatal.

Embora as tentativas de tomar medidas punitivas contra ele em nível estatal tivessem cessado, a propaganda caluniosa e o ressentimento reprimido de seus opositores continuavam a irromper de tempos em tempos. Os opositores passaram então a seguir outro caminho para difamá-lo. Alegaram que o Imam estava pregando: “Não é permitido invocar o nome de ninguém além de Allah. Tudo o que se deseja deve ser pedido somente a Allah. Não se pode sequer suplicar ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.” Em resposta a essa propaganda, alguns sábios comentaram que tal pensamento não constituía propriamente um grande erro, mas seria considerado uma forma de falta de respeito. Contudo, não estavam dispostos a classificar esse pensamento como kufr. Assim, também nessa ocasião o Imam foi poupado.

Mesmo assim, os opositores não se calaram. Todos os dias entregavam-se a novas calúnias. Exasperado por dias seguidos de acusações, queixas e censuras incessantes, o governo apresentou ao Imam três propostas. Ele deveria escolher uma delas e cumprir determinadas condições. Caso contrário, a terceira proposta seria permanecer na prisão. O Imam preferiu permanecer encarcerado. Mas seus alunos e amigos continuaram pressionando-o a retornar a Damasco. Diante de sua insistência, ele finalmente começou a preparar-se para ir a Damasco. No dia 8 de Shawwal de 707 da Hégira, chegou a deixar a cidade acompanhado de seus seguidores. Contudo, naquele mesmo dia foi trazido de volta ao Egito no caminho. Disseram-lhe que o governo considerava melhor mantê-lo na prisão. Entretanto, os cádis e os sábios não conseguiram apresentar dessa vez nenhuma acusação clara contra ele. Por isso, permaneciam indecisos.

Ao perceber o conflito mental dos ulemás e dos cádis, o Imam decidiu que iria voluntariamente para a prisão. Mas os cádis não queriam enviá-lo para lá. Assim, ele foi mantido sob vigilância domiciliar. Alunos e sábios podiam visitá-lo. Continuavam a estudar com ele e a discutir questões importantes. Em assuntos específicos, também lhe solicitavam fatwas. Depois de algum tempo, numa conferência de ulemás e juristas, foi aprovada por unanimidade uma proposta para libertar o Imam. Com base nessa proposta, o governo o libertou. O povo ofereceu-lhe uma recepção grandiosa. Sua popularidade aumentou muito em comparação com o período anterior. À medida que seu reconhecimento entre o povo crescia, sua influência também aumentava. E o aumento de sua influência significava que as crenças contrárias ao Islã e à sharia, as inovações e as práticas contrárias ao Islã desapareceriam do meio do povo. Os muçulmanos poderiam avançar devidamente pelo caminho do Alcorão e da Sunnah. Assim, mesmo num ambiente hostil, o Imam continuou a realizar corretamente seu trabalho.

Nesse período, a súbita mudança no curso da situação política criou ainda mais obstáculos no caminho do Imam Ibn Taymiyyah. Seus opositores tornaram-se agressivos contra ele. Nasir al-Din Qalawun era então o sultão do Egito e da Síria. Ele estava plenamente informado sobre o conhecimento, a erudição, o temor a Allah, a sinceridade e a coragem do Imam Ibn Taymiyyah. Fora o próprio Imam quem o havia incentivado a lutar contra os tártaros. Naquela ocasião, ele havia testemunhado pessoalmente a coragem, a inteligência e a sinceridade do Imam. Portanto, em geral, não era seu opositor. Porém, em 708 da Hégira, afastou-se do governo por diversas razões. Em consequência, Rukn al-Din Baybars assumiu o poder.

O guia espiritual do sultão Baybars e seu conselheiro em assuntos religiosos era o Shaykh Nasr al-Mumbaji. O Imam Ibn Taymiyyah era o principal crítico das crenças, convicções e práticas desse shaykh. Por outro lado, o Imam também era considerado um favorito do sultão anterior. Assim, os opositores tiveram plena oportunidade de agir contra ele. Não hesitaram nem por um momento em aproveitar essa oportunidade. Logo que Baybars assumiu o poder, foi ordenado que o Imam Ibn Taymiyyah fosse enviado a Alexandria e mantido ali sob vigilância. Ele foi enviado a Alexandria no final do mês de Safar de 709 da Hégira. Alexandria era um antigo centro dos sufis e do sufismo. Diz-se que o governo também esperava que, naquele antigo centro dos sufis, algum sufi fanático e impetuoso acabasse com ele, livrando o governo da responsabilidade por seu sangue. Mas essa esperança do governo não se concretizou.

As atividades do Imam em Alexandria

Alexandria, a antiga cidade portuária e antiga capital do Egito, repleta de tradições históricas, situa-se às margens do Mediterrâneo. Era nessa cidade que se encontrava o maior número de sufis, propagadores da filosofia monista. A influência dessa filosofia desviada dos sufis havia se espalhado amplamente entre o povo. Nessa cidade havia grandes propagadores dessa doutrina. Eles não se limitavam a introduzir o shirk e a bid‘ah nas crenças e no pensamento das pessoas; também influenciavam seu caráter e suas ações de modo contrário ao Islã. Como resultado, a aversão e o desprezo do povo em geral pela sharia islâmica e seus preceitos tornaram-se evidentes.
Ao chegar a Alexandria, o imame Ibn Taymiyya decidiu eliminar esses defeitos do pensamento e das ações dos sufis e do povo. Primeiro, por meio de aulas sobre o Alcorão e o hadith, formou um grupo de estudantes e apoiadores. Pouco a pouco, esse grupo foi crescendo. O povo começou a procurá-lo em grupos. O imame dedicou-se com grande entusiasmo à purificação do pensamento das pessoas. Ao mesmo tempo, passou a formar suas ações e seu caráter de acordo com os preceitos da sharia. Ele permaneceu nessa cidade apenas oito meses. Nesse curto período, toda a força do grupo opositor foi despedaçada. Uma grande parte do povo comum e das classes instruídas e influentes saiu das garras dos sufis seguidores de uma filosofia contrária ao Islã. O imame levou-os ao arrependimento. Até mesmo um influente líder sufi arrependeu-se pelas mãos dele.
Sobre esse êxito do imame em Alexandria, seu irmão mais novo, Sharafuddin Ibn Taymiyya, que estava com ele, escreveu numa carta dirigida aos habitantes de Damasco: “Os habitantes de Alexandria ficaram profundamente atraídos pelo irmão e passaram a conceder-lhe grande estima. Ele está sempre ocupado com a divulgação do Alcorão e da Sunnah. No coração de todos, sem distinção entre pessoas comuns e notáveis, o amor e a consideração pelo shaykh estabeleceram-se firmemente. Quase todos os grupos — governantes, juízes, faqihs, muftis, mashayikh e mujahidin — tornaram-se seus admiradores e devotos. Somente os ignorantes e tolos se afastaram dele.”
Enquanto isso, a queda do sultão Ruknuddin aproximava-se. O antigo sultão Nasiruddin Qalawun, que estava voluntariamente exilado, voltou ao cenário político após apenas onze meses. Ruknuddin renunciou ao governo e deixou o país. Com ele, caiu também seu conselheiro, Shaykh Nasr al-Mumbaji. Assim, as nuvens de calamidade que se adensavam no destino do imame Ibn Taymiyya começaram a dissipar-se. Depois de entrar no Egito, o sultão Nasiruddin Qalawun pensou antes de tudo na libertação do imame Ibn Taymiyya. Enviou imediatamente pessoas para providenciar sua vinda de Alexandria. A notícia da partida do imame de Alexandria espalhou-se pela cidade em um instante. As pessoas vieram em grupos para despedir-se dele e prestar-lhe homenagem. Diante dos olhos marejados de milhares de estudantes e pregadores, a caravana do imame partiu em direção ao Cairo. Ao chegar ao Cairo, o sultão e os habitantes jubilosos da cidade ofereceram-lhe uma recepção grandiosa.

Dizer a verdade na corte real

Anteriormente, os sábios do Egito e da Síria haviam promulgado uma disposição especial acerca das vestimentas dos dhimmis não muçulmanos. Sobretudo após as Cruzadas, famílias cristãs vindas da Europa passaram a residir nos países muçulmanos. Muitos deles dedicavam-se à espionagem em favor dos países cristãos da Europa. Certa vez, inclusive, ocorreu um enorme incêndio no Cairo. Muitos muçulmanos morreram e propriedades dos muçulmanos no valor de milhões foram destruídas. Mais tarde, uma investigação revelou que um grupo de cristãos havia planejado cuidadosamente aquela devastação. A partir de então, surgiu a questão de diferenciar as vestimentas dos dhimmis, para que eles não pudessem infiltrar-se entre os muçulmanos e causar-lhes danos. De acordo com a fatwa dos ulama da tradição, o governo ordenou aos dhimmis que usassem turbantes azuis. Até então, os dhimmis vinham obedecendo a essa ordem. Hoje, na corte, o primeiro-ministro apresentou ao sultão uma proposta para aprovar uma nova lei relativa aos dhimmis.
Ibn Taymiyya também estava sentado ao lado do sultão na corte. Os mais eminentes cádis, sábios e faqihs do Egito também estavam presentes. Na realidade, a corte havia sido convocada em homenagem a Ibn Taymiyya. Em sua proposta, o primeiro-ministro declarou que, dali em diante, os dhimmis também usariam turbantes brancos, como os muçulmanos, e acrescentou que, em troca disso, os dhimmis haviam prometido pagar ao governo um imposto anual de setecentos mil dinares. Eles continuariam pagando, como antes, todos os impostos que já pagavam.
Depois de apresentar a proposta, o sultão olhou para os ulama e os faqihs e pediu sua opinião sobre o assunto. Os mais eminentes faqihs, como o allama Jamaluddin al-Malkani, e os demais cádis permaneceram em silêncio. Ao ver aquela situação na corte, o imame Ibn Taymiyya explodiu de raiva. Dirigiu-se ao primeiro-ministro e começou a interrogá-lo. Criticou duramente a política do governo. O sultão pediu-lhe que não se irasse, mas ele não deu importância ao pedido do sultão. Os sábios presentes ficaram aterrorizados diante de sua audácia extraordinária. Quem sabe que desastre poderia ocorrer naquele instante na corte!
O imame deixou o primeiro-ministro e dirigiu-se ao sultão, dizendo: “É profundamente lamentável que as atividades da corte hoje tenham sido iniciadas com um assunto destrutivo para o Islã e para os muçulmanos. É muito doloroso que, em busca do mesquinho ganho temporário deste mundo efêmero, o senhor esteja promovendo os interesses dos dhimmis. Contudo, disso não resultará benefício algum, apenas prejuízo para o Islã e para o povo do Islã. Pense um pouco em quão grande foi o favor que Allah lhe concedeu. Há pouco tempo, o senhor havia perdido o reino. Toda a sua honra e prestígio haviam sido arrasados. Pela misericórdia de Allah, recuperou tudo novamente. Allah humilhou seu inimigo. O senhor triunfou sobre o partido opositor. Agora deve agradecer a Allah.”
O sultão ficou extremamente satisfeito com as palavras verdadeiras do imame e rejeitou a proposta do primeiro-ministro. Assim, os dhimmis continuaram circulando em público com turbantes azuis, como antes.

Perdoou os inimigos

O Imam Taqi al-Din Ahmad ibn Taymiyya jamais se importou com a carranca do poder real por amor à verdade. Ele era a expressão nua e crua da verdade. Ele seguiu ao pé da letra a palavra do Mensageiro: “A melhor jihad é dizer a palavra da verdade diante de um governante injusto” (afḍal al-jihād kalimat ḥaqq ʿinda sulṭān jā’ir). Em seus sessenta e sete anos de vida, jamais curvou a cabeça diante da injustiça. Consagrou a vida a elevar e estabelecer aquilo que reconhecia como verdade. Por isso, não se preocupava nem mesmo em saber quem estava ao seu lado, quem o apoiava e quem não o apoiava. Durante toda a sua vida, teve de lutar quase sozinho pela verdade e pela justiça.

Depois de retornar de Alexandria, ocorreu no palácio do sultão um episódio completamente inesperado. Já mencionei anteriormente esse acontecimento. Naquele dia, o sultão Nasir al-Din Qalawun encontrava-se, moralmente, em uma posição tal que foi obrigado a aceitar a veemente expressão da verdade do Imam. Caso contrário, o sistema de governo não estava em uma situação que lhe permitisse aceitar facilmente qualquer decisão contrária às decisões do governo. Mas, naquele dia, isso foi possível graças à coragem do Imam. Os mais eminentes ʿulamāʾ do país e os principais qāḍīs das quatro escolas jurídicas estavam presentes na corte. Contudo, ninguém abriu a boca. Justamente onde era mais necessário proclamar claramente a verdade, eles permaneceram em silêncio. Não apenas isso: uma grande parte desses eruditos estava envolvida em uma conspiração contra ele. Eles haviam participado da conspiração para expulsá-lo do Cairo e confiná-lo em Alexandria. A conspiração que anteriormente levara à deposição do sultão Nasir al-Din também fora obra deles. O sultão não conseguia esquecer isso. Começou a pensar em adotar medidas punitivas severas contra os eruditos e os qāḍīs.

O sultão quis obter do Imam uma fatwa que legitimasse a execução daqueles qāḍīs e eruditos traidores. O sultão disse: “Eles emitiram uma fatwa em favor do antigo sultão fugitivo e contra mim.” Tirou essa fatwa e a mostrou ao Imam. Ao mesmo tempo, disse: “Foram eles que emitiram fatwas contra o senhor e, tecendo uma rede de conspirações, fizeram o senhor sofrer de muitas maneiras.” A intenção do sultão era provocar o Imam. Porém, compreendendo seu objetivo, o Imam começou a elogiar os qāḍīs e os grandes ʿulamāʾ, mencionando vários aspectos de suas qualidades. Opôs-se firmemente à proposta do sultão. Continuou explicando-lhe que, depois de matar os maiores eruditos do país, ele não seria capaz de encontrar substitutos para eles; então o país e a nação enfrentariam uma crise extremamente grave.

“Eles conspiraram repetidamente para matá-lo. Fizeram o senhor sofrer de muitas maneiras.” O sultão tentou provocar o Imam.

O Imam respondeu com voz firme: “Quanto a mim, só posso dizer isto: não tenho queixa alguma contra aqueles que me fizeram sofrer. Eu os perdoei. Quanto àqueles que pecaram contra Allah e o Mensageiro, Allah é suficiente para retribuir suas ações. Jamais busco vingança em benefício próprio.”

Assim, o Imam continuou explicando repetidamente a situação ao sultão. Por fim, o sultão teve de desistir. Conteve sua ira contra os grandes ʿulamāʾ. Nessa ocasião, o Egito foi poupado de um grande derramamento de sangue.

O historiador Ibn Kathir citou uma declaração de Ibn Makhluf, o maior qāḍī da escola mālikī no Egito. O qāḍī disse: “Nunca havia visto antes uma pessoa de coração tão generoso quanto Ibn Taymiyya. Nós havíamos incitado o governo contra ele. Mas, quando ele obteve poder para nos fazer qualquer coisa, perdoou-nos. Não apenas isso: ainda nos defendeu diante do sultão.”

Ao retornar da corte do sultão, o Imam voltou a dedicar-se às suas antigas atividades. No Cairo, seus trabalhos iniciais consistiam em lecionar, proferir sermões, emitir fatwas e escrever livros. Assim como em Damasco, também ali se formara um grande grupo de alunos e apoiadores seus. Ao saberem da chegada do Imam, reuniram-se novamente ao seu redor. Até mesmo muitas pessoas dos grupos opositores e conspiradores foram procurá-lo para pedir perdão. O Imam disse a todos: “Da minha parte, perdoei a todos. Não tenho queixa alguma contra ninguém.”

Mas todos podem ficar satisfeitos; os inimigos de Allah jamais podem ficar satisfeitos. Um grupo de opositores ferrenhos do Imam não conseguiu de modo algum aceitar o aumento de seu prestígio junto ao sultão e aos renomados eruditos do país. Ardiam interiormente de inveja. Começaram a incitar o povo contra o Imam para humilhá-lo. O Imam ainda não conseguira alcançar no Cairo o prestígio que tinha entre o povo de Damasco. Portanto, não era difícil incitar a população muçulmana local contra ele levantando questões de fé, crenças e escola jurídica. Os opositores lançaram mão dessa arma. Em 4 de Rajab de 711 da Hégira, alguns malfeitores o atacaram. Os agressores o feriram. Os moradores do bairro de Husayniyya imediatamente se prepararam para vingar-se. Mas o Imam os conteve.

Dirigindo-se à multidão presente, o Imam disse: “Primeiro: exigir vingança contra eles é um direito meu. Declaro publicamente que renuncio a esse direito. Não tenho queixa alguma contra eles. Segundo: isso pode ser um direito de vocês. Se quiserem consultar-me sobre o assunto, mas não estiverem dispostos a seguir minhas palavras, então podem fazer o que quiserem. Nada tenho a dizer. Terceiro: este é um direito de Allah. E Allah, se quiser, fará com que ele seja cumprido.” Nesse momento, ouviu-se o chamado para a oração do ʿAṣr. O Imam saiu para dirigir-se à mesquita congregacional Jāmiʿ Husayniyya do bairro. As pessoas tentaram impedi-lo, mas ele não deu ouvidos a nenhum obstáculo. Consequentemente, uma grande multidão também o acompanhou. Ele entrou respeitosamente na mesquita, realizou a oração e voltou.

O capítulo final da vida combativa do Imam

No ano 712 da Hégira, voltou a circular a notícia de um ataque dos tártaros. Eles avançavam em direção a Damasco com um enorme exército. O sultão Nasir al-Din Qalawun decidiu resistir ao ataque tártaro. Partiu com seu exército rumo à Síria, com a intenção de participar da jihad. O Imam Ibn Taymiyya também se juntou ao exército para apoiá-lo. Porém, ao chegarem à Síria, souberam que os tártaros haviam recuado. O exército retornou ao Egito, mas o Imam Ibn Taymiyya permaneceu em Damasco.

A controvérsia sobre o divórcio

Depois de longos sete anos, o imã voltou a Damasco. Os habitantes de Damasco receberam-no calorosamente. Milhares de pessoas saíram para fora da cidade para saudá-lo. Um grande número de mulheres também participou dessa recepção. Não tendo tido a oportunidade de participar do jihad, o imã decidiu visitar Bayt al-Maqdis. Depois de permanecer alguns dias em Bayt al-Maqdis, viajou por várias outras regiões e, por fim, retornou a Damasco. Ali, voltou a dedicar-se ao ensino, ao estudo e às atividades de reforma. Nessa fase, deu atenção especial ao estudo do fiqh e à análise de suas diversas questões jurídicas. O imã e seus antepassados eram seguidores da escola hanbalita. Apesar disso, ele discutia as questões jurídicas de forma independente e, ao formular decisões sobre diferentes questões, dava atenção aos hadiths autênticos. Por isso, em várias questões, entrou em divergência tanto com a escola hanbalita quanto com as demais escolas jurídicas. Uma dessas questões controversas era a de saber se três divórcios pronunciados numa única sessão contavam como três divórcios. Os quatro madhhabs e muitos outros imãs concordavam a esse respeito. O imã, porém, opôs-se a essa posição. Ele contava a seu favor com hadiths autênticos e também com a opinião de alguns Companheiros de primeira categoria. Na realidade, tratava-se de uma divergência de fiqh, e o fiqh islâmico admite esse tipo de divergência. Mas o espírito estreito da parte adversária não estava disposto a tolerá-la nem um pouco. Uma onda de propaganda caluniosa contra o imã levantou-se. O imã, contudo, continuou concentrado em seu trabalho.

O fiqh islâmico é uma instituição dinâmica e em contínuo movimento. O Islã é um sistema de vida completo. Esse sistema de vida continuará, até o Dia da Ressurreição, estabelecido em seu próprio modo de vida. A base dessa permanência eterna é a dinamização do fiqh. O imã Ibn Taymiyya esforçava-se para preservar essa dinâmica do fiqh islâmico. Se o fiqh islâmico chegasse à estagnação, se o processo de ijtihad e istinbat secasse e ele não fosse capaz de oferecer soluções islâmicas apropriadas para os novos problemas, de modo algum seria possível preservar o Islã em sua forma plena até o Dia da Ressurreição. Por isso, a contribuição do imã nesse campo foi extraordinária e incomparável.

Mas como poderiam aqueles acostumados a viver na escuridão suportar a luz resplandecente do meio-dia? Assim, a parte adversária não conseguiu tolerar sua expressão independente de opinião, desde que permanecesse dentro dos limites permitidos. Naquela época, discutia-se intensamente a questão do halaf bi’t-talaq, o juramento feito mediante o divórcio. As pessoas usavam com muita frequência a palavra “divórcio” em diversas situações, sobretudo em transações. Para dar ênfase a alguma questão ou demonstrar a sinceridade de sua firme resolução, boa intenção e compromisso, diziam: “Certamente farei isto; caso contrário, minha esposa estará divorciada.” “Certamente lhe entregarei o dinheiro em tal data; caso contrário, minha esposa estará divorciada.” Ou: “Se eu não tiver comprado esta mercadoria por tal preço, minha esposa estará divorciada.” Embora não tivessem nenhuma intenção de divorciar-se ao proferir essas palavras e fazer esses compromissos, aplicava-se a eles a regra do divórcio, considerando-se tais declarações como divórcio condicionado ou divórcio por juramento. Assim, centenas de lares e famílias estavam sendo destruídos. O uso dessa palavra também se espalhava amplamente no campo político. Desde a época de al-Hajjaj ibn Yusuf, havia se tornado costume usar a palavra “divórcio” junto com a bay’a para consolidar a lealdade ao governo. As pessoas diziam: “Se eu abandonar a lealdade a determinado governante, minha esposa estará divorciada.”

Essa questão havia criado enorme desordem e complexidade na sociedade. O imã Ibn Taymiyya dedicou ampla reflexão e pesquisa a esse assunto. Por fim, considerou aquilo simplesmente um juramento e um compromisso. Declarou que, se o compromisso fosse rompido, seria necessário apenas oferecer a expiação pelo juramento; em consequência, a esposa de modo algum estaria divorciada. Essa fatwa também contrariava a lei vigente. Por isso, os ulemás e os qadis das diversas escolas passaram a opor-se a ele. Exerceram pressão sobre ele para que retirasse essa fatwa. O juiz-chefe Shams al-Din ibn Muslim encontrou-se com ele e pediu-lhe que não emitisse futuramente fatwas sobre o halaf bi’t-talaq. Ele concordou. Enquanto isso, chegou do Egito um decreto do sultão ordenando que ele se abstivesse de emitir essa fatwa. Como havia o risco de surgirem tumultos, conflitos e desordem, ele atendeu ao desejo deles. Porém, em pouco tempo, o imã mudou de decisão. Parece que, posteriormente, lhe ocorreu o pensamento de que, em assuntos da sharia — isto é, aquilo que ele considerava verdadeiro à luz do Alcorão e da Sunnah — não era permitido ocultar sua opinião correta por ordem do governo, e que era impróprio obedecer, nesse assunto, a ordens de um governo que não fosse um califado segundo o método da profecia. Por isso, algum tempo depois, em resposta às perguntas das pessoas, o imã voltou a emitir fatwas sobre essa questão.

Consequentemente, os ulemás e os qadis voltaram a opor-se a ele. Em razão de uma petição conjunta deles, o governador ordenou que ele fosse mantido sob vigilância dentro da fortaleza. De acordo com essa ordem, ele foi encarcerado no ano de 720 da Hégira. Contudo, dessa vez sua prisão durou apenas cinco meses. Quando chegou do Egito a ordem do sultão, ele saiu da prisão cinco meses depois de nela entrar.

Depois disso, durante cerca de cinco anos e meio, não encontrou obstáculos significativos para suas atividades intelectuais. Ao longo desses cinco anos e meio, dedicou-se, por meio do ensino, da redação de livros e dos sermões, à formação da fé, da aqida e do caráter da população muçulmana. Nesse período, escreveu várias obras novas.

Detido na fortaleza de Damasco

O Imam Ibn Taymiyya havia chegado à fase final de sua vida. É verdade que fora libertado da prisão e se ocupava da composição de obras, mas seus inimigos não lhe permitiram viver tranquilamente. Eles voltaram a providenciar seu envio para a prisão. Como poderia alguém cuja vida era plena de lutas e conflitos viver em paz? Como poderia passar tranquilamente os últimos dias de sua vida sob o domínio da injustiça e da falsidade? E, mais importante ainda, a superioridade que ele havia alcançado no campo acadêmico de sua época dera origem a um grupo de inimigos permanentes. Eles conspiravam constantemente contra ele. Seu trabalho consistia em encontrar maneiras de humilhá-lo e difamá-lo, distorcer suas declarações e retratá-lo como alguém que introduzia um novo Islã, se opunha ao caminho seguido pelos grandes homens da religião e oferecia uma interpretação inovadora e distorcida do Islã. Infelizmente, esse tipo de erudito interessado costuma reunir-se em grande número ao redor da máquina governamental. Alguns eruditos vendem sua religião e sua fé em troca dos interesses do governo e, ao tentar adaptar o Islã às exigências governamentais, passam também a mutilar a natureza que Deus lhes concedeu. Assim chega um momento em que já não conseguem permanecer em uma condição humana normal; embora conservem a forma humana, tornam-se desumanos. A inveja, o rancor, a crueldade, a selvageria e a brutalidade passam a refletir-se neles. Eles não se contentam em vomitar sua fúria feroz contra o adversário. Só encontram paz depois de levá-lo ao extremo da humilhação.

Por outro lado, se o adversário, além de oferecer uma interpretação correta do Islã, permanecesse apenas no plano teórico, sua ira não se inflamaria tanto. Eles conseguiam de algum modo tolerar isso. Mas, assim que o adversário ultrapassava o plano teórico e começava a esforçar-se e lutar para estabelecer o Islã correto na prática, ou assumia qualquer programa nesse sentido, eles começavam a arder de raiva. Tornavam-se agressivos. Pois acreditavam que, com esse golpe, o palácio de seus interesses seria o primeiro a desmoronar. Diante das massas muçulmanas, sua falsa piedade e seu Islã adulterado seriam desmascarados. Eles não tinham espaço mental para pensar em algo maior além de seus próprios interesses.

Setecentos anos após o início da profecia, o Imam Ibn Taymiyya, que Deus tenha misericórdia dele, não se limitou a apresentar a forma autêntica do Islã apenas no plano teórico, escrevendo alguns livros e emitindo fatwas. Pelo contrário, ao mesmo tempo, prosseguiu no trabalho de reconstruir a aqida e as crenças do povo muçulmano com base nessa forma autêntica do Islã. Reuniu seus alunos e as massas que o apoiavam e também formou uma poderosa força popular. Com o auxílio dessa força, empenhou-se em libertar a sociedade dos vapores venenosos do shirk, da bid‘a e da corrupção. Por meio dela, chegou inclusive a exercer influência sobre o governo. Contudo, se tivesse algum plano ou programa para mudar o governo, acreditamos que nenhum governo teria demonstrado simpatia por ele nem se deixado influenciar por ele. O governo também teria então se voltado contra ele. Em vez de, seguindo o conselho dos eruditos, lançá-lo na prisão, os eruditos, instigados e instruídos pelo governo, aconselhariam o governo a prendê-lo.

Em essência, nossa afirmação é que a sociedade de eruditos interessados e os governos que se desviaram do ideal do califado islâmico sempre conspiraram contra o Islã correto. Os defensores do Islã correto sempre foram humilhados por eles. O Imam Ibn Taymiyya foi humilhado e derrotado por suas mãos durante toda a vida. Assim, pela última vez, ele foi detido na cidadela de Damasco, em 7 de Sha‘ban de 726 da Hégira. O Imam recebeu a ordem de detenção com um sorriso. Espontaneamente, exclamou: “Ana kuntu muntaziran dhalika, wa ha-dha fihi khayrun kathirun wa masalihatun kabirah.” Isto é: “Eu estava esperando por isso; há nisso um grande bem e uma necessidade imediata.”

Para servir o Imam, seu irmão mais novo, Zayn al-Din Ibn Taymiyya, também passou a permanecer com ele na prisão, com a permissão do governador.

Depois que o Imam foi encarcerado, o grupo adversário também atacou os seguidores do Imam. Eles lançaram ataques em vários lugares. Prenderam alguns de seus apoiadores, colocaram-nos sobre o dorso de jumentos e fizeram-nos desfilar pela cidade. Por fim, obtiveram uma ordem do juiz principal, prenderam outro grupo de apoiadores e lançaram-nos na prisão. Alguns dias depois, eles foram novamente libertados. Entretanto, o mais destacado discípulo do Imam, o erudito e hafiz Ibn al-Qayyim, permaneceu com ele.

Embora a prisão do Imam tenha provocado uma onda de alegria no coração de um grupo de comerciantes do Islã de mente pervertida, a comunidade dos eruditos sinceros e os muçulmanos em geral ficaram profundamente entristecidos e indignados com o acontecimento. Consideraram-no uma vitória da bid‘a contra a Sunna e da falsidade contra a verdade. Os maiores eruditos de várias regiões do país começaram a enviar cartas ao sultão no Cairo. Expressaram sua sincera indignação contra a manutenção na prisão, daquela maneira, do maior erudito de sua época e da voz mais poderosa do Islã.

Aqui citamos uma parte do memorando que os eruditos de Bagdá enviaram coletivamente ao sultão: “Ao ouvirem que o Shaykh al-Islam Taqi al-Din Ahmad Ibn Taymiyya está sendo oprimido, os religiosos piedosos dos países do Oriente e do Iraque ficaram profundamente entristecidos; por outro lado, os inimigos do Islã começaram a dançar de alegria. Os grupos interesseiros e adeptos da bid‘a também se alegraram com isso. Quando os eruditos dessas regiões viram os adeptos da bid‘a e da falsidade aplaudindo alegremente as humilhações e os sofrimentos dos eruditos, consideraram necessário informar o governo sobre esse acontecimento indesejável. Ao mesmo tempo, enviam também suas próprias respostas em apoio à fatwa do Shaykh. Reconhecendo o conhecimento, a erudição e a sabedoria do Shaykh, expressaram aqui sua posição. Na base de tudo isso não há nada além do desejo de ver a religião honrada e de buscar o bem do sultão.”

As atividades do Imam na prisão

Aquele que tomou o estabelecimento da verdade e da justiça como objetivo de sua própria vida não considera nenhum obstáculo do mundo um verdadeiro obstáculo. Em qualquer ambiente, favorável ou desfavorável, continua cumprindo seu dever. Não suspende seu trabalho e seus programas, sentando-se em silêncio à espera de um ambiente favorável. Nenhuma muralha de prisão pode sufocar o entusiasmo pelo trabalho desses homens empenhados no jihad. Quando uma frente de trabalho se fecha, eles abrem a porta para outra.
Na prisão de Damasco, o Imam Ibn Taymiyya também seguiu esse mesmo caminho. Por estar preso, cessaram, é verdade, as responsabilidades que desempenhava fora — a disseminação do conhecimento, a reforma e a formação do caráter —, mas isso de modo algum o desanimou. Na prisão, por um lado, dedicou-se à sua adoração e à recitação do Alcorão e, por outro, passou a dedicar-se ainda mais ao estudo pessoal e à composição de livros. Em especial, empenhou-se em revisar e editar os livros que havia escrito anteriormente. Nessa época, passou a interessar-se mais pela pesquisa do Alcorão e pela elucidação de suas passagens difíceis. É provável que a maturidade que havia alcançado no campo do conhecimento, juntamente com o ambiente tranquilo da prisão e a oportunidade de estudar e pesquisar o Alcorão com concentração, o tenha tornado habilidoso nessa tarefa.
Pouco a pouco, o ambiente da prisão tornou-se para ele suportável e natural. Tudo o que escrevia sentado ali espalhava-se para fora da prisão em pouco tempo. Em poucos dias, espalhava-se por todo o país. Pessoas de fora da prisão escreviam-lhe cartas pedindo fatwas. Sentado dentro da prisão, ele redigia as respostas e as enviava para fora. Assim, nessas circunstâncias, o interior e o exterior da prisão tornaram-se iguais para ele. Mais que isso: sentado dentro da prisão, continuava expressando tranquilamente suas opiniões.
Nessa época, criticou severamente uma opinião do cádi Abdallah ibn al-Akhnāʿī, do madhhab maliquita no Egito. Ao fazer essa crítica, comentou também a insuficiência do conhecimento do cádi sobre a sharia e o fiqh. Esse comentário despertou a ira do cádi. Ele ficou furioso. Apresentou uma queixa à corte do sultão e, expressando sua hostilidade contra o Imam, descarregou sua raiva.

Confiscaram-se os livros e os instrumentos de escrita

O sultão emitiu um decreto: que fossem confiscados do Imam o papel, a caneta, o tinteiro e quaisquer outros instrumentos de escrita que tivesse. Que todos os seus livros também fossem retirados. Que ele não pudesse mais estudar nem escrever. Que suas opiniões não pudessem, de modo algum, ser divulgadas publicamente.
Para um escritor, crítico e reformador social, provavelmente não há castigo maior que esse. Talvez, para ele, a pena de morte fosse cem vezes mais fácil. Conforme o decreto oficial, no dia 9 de Jumada al-Thani de 728 da Hégira, todos os seus papéis e instrumentos de escrita foram confiscados. Eles foram entregues à biblioteca do tribunal. Ali havia manuscritos de cerca de sessenta de suas obras.
O Imam não se deixou abater nem um pouco por essa política repressiva do governo. Tampouco apresentou qualquer queixa ou reclamação às autoridades. Suportou tudo em silêncio. Depois que lhe tomaram o tinteiro, a caneta, os cadernos e o papel, recolheu e juntou pedaços e fragmentos de papel. Começou a escrever neles com carvão. Posteriormente, foram encontradas algumas de suas obras escritas dessa maneira. Elas permaneceram durante muito tempo em seu estado original. Mesmo nessa situação de sua vida, ele se considerava empenhado no jihad. O escritor egípcio Shaykh Abu Zuhra citou, em seu livro Ibn Taymiyya, uma carta escrita pelo Imam nessa época. Nessa carta, ele disse:
“Louvado seja Allah! Estou empenhado em um grande jihad no caminho de Allah. O jihad que travamos aqui não é em nada inferior ao jihad contra o imperador tártaro Qazan, nem aos nossos antigos jihads conduzidos contra os jahmitas e os panteístas. Isso é uma enorme graça de Allah para nós e para o povo. Mas a maioria das pessoas é incapaz de compreender seu significado.”

A partida rumo à Vida Futura

O tempo do Imam também estava chegando ao fim. Quando ele estava em seu leito de morte, o governador de Damasco foi visitá-lo. Com a voz tomada pela tristeza, o governador pediu-lhe perdão. Em resposta, o Imam disse: “Não tenho nenhuma queixa contra você. Eu o perdoei. Também perdoei aqueles que foram hostis comigo. Eles não tinham — e ainda não têm — qualquer dúvida sobre a veracidade de minhas declarações e de minhas ações. Perdoei também o sultão, pois ele não me lançou na prisão por vontade própria, mas por causa da fatwa dos ulemás. Perdoei a todos nesse assunto. Contudo, jamais posso perdoar aquele que é inimigo de Allah e de Seu Mensageiro, que, movido pela hostilidade contra Allah e Seu Mensageiro, se tornou meu inimigo e obteve satisfação ao lançar-me na prisão.”
No dia 22 de Dhu al-Qi’da de 728 da Hégira, aos 67 anos de idade, ele partiu deste mundo. O muezim da cidadela subiu ao minarete da mesquita e anunciou sua morte. A proclamação espalhou-se em uníssono por todos os lados, a partir das altas torres que cercavam a cidadela. Imediatamente, das mesquitas da cidade, as mensagens de luto começaram a ressoar e ecoar por toda parte. Em um instante, todo o ruído alegre da cidade silenciou. A sombra do luto caiu sobre as vielas, as avenidas, os pátios, os recantos das casas e os rostos e olhos das pessoas. Uma multidão de enlutados dirigiu-se à cidadela. Até os inimigos esqueceram sua inimizade. Também eles estavam desolados e feridos pela dor.
Os portões principais da cidadela foram abertos. As pessoas iam em grupos para contemplar por um instante o corpo do Imam e aliviar, ainda que por alguns momentos, a dor em seus corações. Depois do banho funerário, seu corpo para a oração fúnebre foi levado à maior mesquita da cidade, a Mesquita Omíada. A longa avenida entre a cidadela e a Mesquita Omíada ficou apinhada de gente. Para proteger o cortejo da multidão, soldados organizaram seu transporte até a mesquita. Naquela época, a Mesquita Omíada era a maior mesquita do mundo islâmico. Ela ficou lotada, assim como a praça diante dela, as avenidas, as vielas próximas e os mercados. Segundo os historiadores, nunca antes havia sido realizada em nenhum lugar do mundo islâmico uma oração fúnebre tão grandiosa.
Naquele dia, todas as lojas da cidade permaneceram fechadas. Muitas pessoas jejuaram, e muitas outras se esqueceram de comer. Mesmo durante o transporte do cortejo para o cemitério, era difícil avançar por causa da multidão. O cortejo saiu da cidadela depois da oração do fajr. A oração fúnebre foi realizada depois do meio-dia, e, atravessando a multidão até o cemitério próximo, chegou-se ao horário da oração do asr.
Em pouquíssimo tempo, a notícia da morte do Imam espalhou-se por todo o mundo islâmico, e orações fúnebres na ausência do corpo foram realizadas em toda parte.

As atividades renovadoras do Imam

Allah tornou Sua religião conhecida e estabelecida na sociedade humana por meio dos profetas. Por isso, profeta após profeta veio. Cada era foi demarcada por seus limites, e nela veio um profeta. Também houve épocas em que vários profetas vieram simultaneamente. Em diferentes países do mundo, vários profetas continuaram, ao mesmo tempo, o trabalho de divulgar e estabelecer a religião de Allah. Mais ainda: em um mesmo país, Allah enviou simultaneamente mais de um profeta. A um deles, fez auxiliar do outro. Assim, vê-se que, ao longo da história da humanidade, a cadeia dos profetas nunca foi interrompida, nem mesmo por um breve período. Allah, o Altíssimo, não deixou a humanidade na escuridão sem lhes dar qualquer orientação a respeito. Por isso, juntamente com a história humana, a história dos profetas também avançou em uma linha paralela. Pode-se dizer, antes, que foram os profetas que conduziram a história humana adiante.

Contudo, depois do último profeta, Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — não haverá mais nenhum profeta. Por mais longo que seja o tempo e por milhares de anos que passem, Allah declarou que não enviará outro profeta. Nesse período, Ele fará surgir, dentre a ummah de Muhammad, homens sinceros, destemidos e combatentes, dotados de conhecimento correto da religião e da sharia, que cumprirão verdadeiramente a responsabilidade de revivificar a religião. Sobre isso, o Imam Abu Dawud narrou em sua obra um hadith, citando Abu Hurayra — que Allah esteja satisfeito com ele. Nele se diz:
*************Árabe*************
Isto é: no início de cada século, Allah suscitará para esta ummah alguém que fortalecerá e renovará sua religião. É porque esses servos sinceros de Allah trabalham pela renovação ou revivificação da religião e da sharia do Grande Profeta — que a paz esteja sobre ele — que são chamados mujaddids. O Imam Ibn Taymiyyah — que Allah tenha misericórdia dele — foi um desses mujaddids. Nos sétimo e oitavo séculos da Hégira, ele raspou com uma arma afiada a camada de sujeira e detritos que, ao longo dos setecentos ou oitocentos anos desde a profecia, havia se acumulado sobre a religião e a sharia islâmicas. O Islã voltou a brilhar com seu esplendor interior. Antes dele, muitos outros mujaddids haviam libertado o Islã da sujeira exterior dessa maneira. Mas seu trabalho foi, ao que parece, muito mais abrangente, claro e penetrante que o de todos eles.

O trabalho de renovação do Imam Ibn Taymiyyah pode ser dividido, em essência, em quatro partes: (1) a revivificação da crença no tawhid e a criação de resistência contra as crenças, normas, costumes e práticas politeístas; (2) a crítica da filosofia, da lógica e da teologia do kalam, dando prioridade à perspectiva do Alcorão e da Sunnah e ao método de apresentação dos argumentos; (3) a crítica das religiões, seitas, comunidades e grupos contrários ao Islã, e o enfrentamento de seus pensamentos, ações e condutas; (4) a revivificação do conhecimento da sharia e do pensamento islâmico.

Na época do Imam, não eram poucos os ulemás, tanto em sua terra natal quanto no exterior. Havia também um número considerável de grandes sábios de fama mundial. Seus volumosos livros eram provas suficientes da vastidão de sua erudição. Seu conhecimento de hadith, fiqh, tafsir, usul e teologia do kalam era elevado ao céu. É provável que estivessem cientes das tribulações de sua época. Mas não se viu ninguém avançar para enfrentá-las. A história daquele período não registra o nome de nenhum sábio que tenha utilizado ao menos uma dessas três forças: o discurso, a escrita e a organização. Todos pareciam render-se ao curso dos acontecimentos e flutuar na corrente da conformidade. Essa glória pertence exclusivamente ao Imam Ibn Taymiyyah. Ele compreendeu corretamente as tribulações de sua época e, enfrentando-as com todas as suas forças, restabeleceu o Islã em sua forma verdadeira. Livrou a sociedade islâmica do mau cheiro do shirk e da bid’ah, e fez brotar espontaneamente nela o fluxo livre e límpido do verdadeiro tawhid e da risalah. Esse é precisamente o trabalho dos profetas — que a paz esteja sobre eles. Nesse aspecto, ele representou os profetas. Os mujaddids da religião, na realidade, cumprem a mesma responsabilidade dos profetas.

Que tipo de sociedade era aquela cuja reforma o Imam havia assumido? Até que ponto ela tinha relação com a verdadeira sociedade islâmica? Trata-se de algo que precisa ser compreendido adequadamente. O convívio com não muçulmanos e com diferentes povos não árabes, a influência dos governantes ismaelitas e batinitas, e, além disso, os ensinamentos e práticas de um grupo de sufis ignorantes e desviados fizeram com que crenças, pensamentos e ações misturados ao shirk se espalhassem entre os muçulmanos comuns. Assim como os judeus e os cristãos, os muçulmanos também passaram a praticar o shirk abertamente. O que os não muçulmanos faziam ao visitar os túmulos de seus grandes homens, os muçulmanos passaram a repetir ao visitar os mausoléus de seus piedosos. Suplicavam aos que estavam nos túmulos e pediam-lhes ajuda, tal como se pede a Allah. Em sua obra *ar-Radd ‘ala al-Bakri*, Ibn Taymiyyah escreveu sobre as ações dessas pessoas: muitos deles concederam à pessoa enterrada no túmulo uma posição própria de Allah e colocaram o guardião vivo-santo daquele túmulo no lugar de um profeta. Pedem ajuda ao morto para realizar seus próprios objetivos. Colocaram esse guardião vivo-santo em uma posição tão elevada que aquilo que ele declarar lícito se torna lícito, e aquilo que declarar ilícito se torna ilícito. Na realidade, removeram Allah da função de divindade.

Sobre esses partidários do shirk e da bid’ah, ele escreveu em sua obra *ar-Radd ‘ala al-Akhna’i*: muitos acreditam que, pela bênção do mausoléu de algum santo situado em determinado bairro ou povoado, os habitantes da região recebem seu sustento, obtêm ajuda e são protegidos dos ataques dos inimigos. Pela bênção dele, o país também é poupado dos ataques inimigos. Sobre a pessoa em relação à qual mantêm esse tipo de crença, dizem que ela é a protetora de determinada cidade. Por exemplo, Sayyida Nafisa seria a protetora do Egito e do Cairo. Este ou aquele santo seria o protetor de Damasco. Este ou aquele outro santo estaria de guarda em Bagdá e em outras cidades. Sua crença é que, pela bênção dos túmulos desses profetas e homens virtuosos, as cidades e povoados correspondentes são protegidos de calamidades e desgraças.

Quando os inimigos atacavam Bagdá e Damasco, eles iam aos mausoléus dos santos e dos piedosos para implorar, sem sentir necessidade de dirigir-se à corte de Allah.

O esforço para purificar a crença dos muçulmanos do shirk

Allah é o Criador do corpo humano de carne e sangue. Ele também criou todas as qualidades abstratas que existem nele. Portanto, o ser humano não merece nenhum mérito por causa dessas coisas; todo o mérito pertence unicamente a Allah. Por isso, logo no início do Alcorão, Allah é apresentado como o único detentor de todo louvor, como o verdadeiro merecedor de todo mérito em qualquer questão do universo. Foi dito: Alhamdulillah. O ser humano, esteja vivo ou morto, não possui nenhuma superioridade. O único Superior é Allah. Allahu Akbar.

Mas, ao se analisar a história do desvio humano, constata-se que, desde o início dessa história, os seres humanos vêm adorando outros seres humanos. Isso se estabeleceu tanto em relação aos vivos quanto aos mortos. A adoração de heróis, a adoração dos awliya, a adoração dos pirs, a adoração dos túmulos e a adoração dos mausoléus espalharam-se em diferentes formas. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse que os muçulmanos jamais se envolveriam em shirk manifesto ou na adoração de ídolos. De fato, os muçulmanos nunca se envolveram em shirk manifesto. Contudo, práticas misturadas com shirk difundiram-se amplamente entre eles. Em lugar da adoração de ídolos, um grupo de muçulmanos entregou-se à adoração dos awliya e dos túmulos. Entre os túmulos, os mausoléus dos mártires passaram a receber especial importância. Eles são chamados mashhad ou mashahid. Por causa da adoração dos awliya e dos mashahid, a honra e a importância dos mashahid aumentaram em comparação com as mesquitas. As pessoas passaram a dedicar-se à visitação dos mausoléus e dos mashahid. Estes se tornaram a qibla dos muçulmanos comuns e ignorantes. Uma rede desses mausoléus e mashahid espalhou-se pelas cidades e pelos portos de todo o mundo islâmico. Da noite para o dia, milhares de mashahid e mausoléus foram construídos. Sultões, reis e emires gastaram generosamente grandes somas e riquezas com eles. Muitas propriedades foram também legadas como waqf em seu nome. Grandes edifícios e cúpulas foram erguidos sobre eles. Para cuidar deles, formou-se uma enorme classe de guardiões, varredores e funcionários. As pessoas começaram a viajar para visitá-los com grande pompa. Suas caravanas pareciam as caravanas dos peregrinos que visitam a Casa de Allah; às vezes, pareciam até maiores. Assim, a atenção dos muçulmanos comuns desviou-se das mesquitas para os mashahid. Nos séculos VII e VIII da Hégira, os mausoléus e os mashahid, em vez da Caaba, tornaram-se o centro da vida religiosa dos muçulmanos.

Grande parte das obras do Imam Ibn Taymiyya é dedicada à discussão desse desvio dos muçulmanos de sua época. O Imam mostrou que, entre os muçulmanos ignorantes e interesseiros, quem mais contribuiu para estabelecer firmemente essa fitna foram os governantes batinistas, isto é, fatímidas, do Egito. Ele também mostrou que os Rafiditas e os xiitas, desde o início, deram mais importância aos mashahid do que às mesquitas. Seu vínculo espiritual com Najaf e Karbala era maior do que com os Dois Santuários Sagrados — Meca e Medina.

É claro que a era dos governantes fatímidas do Egito havia terminado antes do nascimento do Imam Ibn Taymiyya. No entanto, sua influência mental, cultural e civilizacional ainda estava ativa na sociedade muçulmana. Particularmente na Síria, o número de xiitas e ismaelitas era enorme. Por viverem na mesma sociedade, sua influência recaía sobre os muçulmanos comuns. Além disso, a contribuição da corrente anti-islâmica do sufismo também não era pequena. Nessa filosofia sufi desviada, atribuía-se importância e santidade especiais aos mausoléus e aos mashahid. Eles realizavam reuniões anuais ou urs nesses mausoléus e mashahid. Ao mencionar esses mausoléus e mashahid, o Imam escreveu em sua obra Ar-Radd ‘ala al-Bakri: “Muitas pessoas fazem hajj aos túmulos. Algumas chegaram a escrever livros especiais sobre a etiqueta e as regras dessa viagem. Deram a esses livros nomes como Al-Manasik al-Hajj il-Mashahid, isto é, as regras para realizar o hajj nos mashahid. Um certo sábio xiita, Abu Abd Allah Muhammad ibn al-Nu‘man, também escreveu um livro com esse título. Nessa obra, ele narrou, em nome da Ahl al-Bayt, muitos hadiths que, na realidade, não têm fundamento.” Em outro trecho dessa obra, o Imam escreveu: “Muitas pessoas preferem fazer hajj nesses túmulos e mashahid a fazer hajj na Caaba. Dizem que visitar três vezes o mausoléu de determinado santo equivale a um hajj à Caaba.”

Assim, nos séculos VII e VIII da Hégira, as mesquitas de todo o mundo islâmico começaram a ficar desertas, enquanto o brilho e a pompa dos mausoléus e mashahid aumentavam. Seus pátios permaneciam sempre animados. Muitas vezes, as mesquitas ficavam envoltas em escuridão durante a noite. Nos mausoléus e mashahid, lâmpadas de manteiga clarificada e lanternas pendentes permaneciam acesas durante toda a noite. Às vezes, os muçulmanos pobres dos bairros talvez nem tivessem tempo de voltar sua atenção para as mesquitas. Seus recursos eram gastos com os mausoléus.

Naquele período, grandes e poderosos governos islâmicos estavam estabelecidos em vários países. Grandes faqihs e muhaddiths lecionavam em diversas madrasas e centros de ensino islâmico. Contudo, não sentiram a necessidade de iniciar um movimento de resistência contra o desvio doutrinário e prático desses muçulmanos comuns. Pelo contrário, muitos deles permaneciam em dúvida e hesitação quanto a essas crenças e práticas. O estudo de suas obras e fatwas revelará sinais dessa dúvida. As duas obras que o Imam Ibn Taymiyya escreveu especificamente para criticar as ideias desviadas dos dois maiores sábios daquela época, Ibrahim al-Akhna’i e Yaqub al-Bakri, são prova disso. Na realidade, eles não avançaram no sentido de analisar, diretamente à luz do Alcorão e da Sunna, os pensamentos, as crenças e as práticas correntes. Entretanto, a fonte fundamental do Islã é precisamente o Alcorão e a Sunna. O Imam Ibn Taymiyya convocou os sábios a retornar a essa fonte.

Revelando os erros da filosofia e da ciência do kalam

O imame Ibn Taymiyya, que Allah tenha misericórdia dele, libertou a crença islâmica da influência das crenças politeístas, reconstruindo-a e restabelecendo-a. Esse foi seu primeiro trabalho reformador. Já tratamos disso anteriormente. Agora quero abordar seu segundo trabalho reformador. O segundo trabalho reformador do imame consistiu em criticar a filosofia, a lógica e a ciência do kalam, e, em seu lugar, promover o método de argumentação do Alcorão e da Sunna. Para compreender a importância e a amplitude desse trabalho, é preciso conhecer a posição que a filosofia e a lógica ocupavam, naquela época, na sociedade instruída muçulmana. Antes de tudo, é necessário saber em que alta estima os pensadores e os eruditos muçulmanos colocavam a filosofia e a lógica.
Embora a tradução dos conhecimentos e das ciências gregas para o árabe tenha começado na época dos Banu Umayya, foi durante o período abássida que ela assumiu grandes proporções. A partir do reinado do califa al-Mansur — provavelmente em 136 da Hégira — começou em larga escala a tradução da filosofia e da lógica gregas para o árabe. No entanto, no tempo do califa al-Ma’mun, sua dimensão cresceu tanto que se transformou efetivamente em um movimento. O próprio al-Ma’mun estava tão interessado nisso que pediu ao imperador de Roma que lhe enviasse as melhores obras relacionadas à filosofia grega. O imperador romano enviou também as obras dos filósofos Platão, Aristóteles, Sócrates, Galeno, Euclides, Ptolomeu e outros. Al-Ma’mun mandou traduzi-las com grande pompa. Sua publicação foi organizada sob patrocínio real. As pessoas foram incentivadas a ler essas obras.
Assim, em pouco tempo, as ideias dos filósofos gregos se espalharam pela sociedade muçulmana. Sabe-se, pela leitura da história, que, ao fim do quarto século da Hégira, quase todas as grandes obras dos filósofos gregos já haviam sido traduzidas para o árabe. Entre os filósofos muçulmanos, porém, foram as obras de Aristóteles que alcançaram a maior difusão. Aristóteles tornou-se o centro de tudo. O que se poderia chamar isso, senão uma infelicidade dos muçulmanos: nenhum dos filósofos gregos cujas ideias se espalharam pela sociedade muçulmana, incluindo Aristóteles, tinha qualquer conhecimento da religião da profecia enviada por Allah. Havia uma oposição clara entre suas ideias e a religião enviada por Allah e os Livros celestiais. Em essência, eles sustentavam um pensamento materialista e uma filosofia de vida materialista.
No início, os filósofos e pensadores do mundo islâmico não aceitaram cegamente o pensamento e a filosofia de Aristóteles. Eles os criticaram e não os consideraram livres de erros. Muitos escreveram livros criticando-os. Sempre que percebiam uma fragilidade no pensamento grego, faziam críticas contundentes. Os mutazilitas, que haviam sido os mais influenciados pela filosofia grega, eram também seus maiores críticos. Entre eles, podem ser mencionados em primeiro lugar Nizam e Abu Ali al-Jubba’i. No terceiro século da Hégira, Hasan ibn Musa criticou vários pontos importantes da lógica de Aristóteles em sua obra Kitab al-Ara wa al-Diyanat. No quarto século da Hégira, o imame Abu Bakr al-Baqillani escreveu uma obra chamada Daqa’iq. Nessa obra, criticou severamente a filosofia grega e demonstrou a superioridade da filosofia árabe sobre a filosofia grega. No quinto século da Hégira, o erudito Abd al-Karim al-Shahrastani, autor da obra al-Milal wa al-Nihal, escreveu um livro criticando o pensamento de Aristóteles e de outros filósofos gregos, além de criticar severamente seus argumentos segundo as regras da lógica. No fim desse século, o imame al-Ghazali, por meio de sua obra Tahafut al-Falasifa, tornou tão evidentes os defeitos do pensamento dos filósofos gregos que, durante cem anos, continuaram a ser sentidos tremores no elevado palácio da filosofia grega. No sexto século, Abu al-Barakat al-Baghdadi e o imame Fakhr al-Din al-Razi também empreenderam uma ampla campanha contra essa filosofia grega.
Apesar de tudo isso, a parte da sociedade erudita muçulmana que sustentava a filosofia grega e considerava sua tradução, explicação, análise e divulgação como seu próprio dever era devota da personalidade e da filosofia de Aristóteles. Considerava o pensamento e a filosofia de Aristóteles acima de qualquer crítica. Com o passar do tempo, seu amor, respeito e lealdade a Aristóteles continuavam a crescer. Nesse contexto, podem ser mencionados especialmente o filósofo muçulmano Abu Nasr al-Farabi (339 da Hégira/950 d.C.), Abu Ali ibn Sina (428 da Hégira) e, na Espanha, Ibn Rushd (595 da Hégira). Ibn Sina era tão apaixonado por Aristóteles que, segundo ele, embora centenas de anos tivessem passado desde Aristóteles, ninguém conseguira escrever algo mais amplo ou novo do que aquilo que ele escrevera sobre a lógica, nem colocar um argumento acima dos argumentos dele. Aristóteles parecia ser o único critério da verdade. Ibn Rushd foi ainda mais longe do que Abu Ali ibn Sina. Na terminologia dos sufis, pode-se dizer que, em relação a Aristóteles, ele se encontrava no estágio de fana fi al-shaykh. O famoso escritor Lutfi Jum’a escreveu em sua obra Tarikh Fala-sifat al-Islam fi al-Mashriq wa al-Maghrib, citando um biógrafo de Ibn Rushd: Ibn Rushd chegou ao extremo quanto à superioridade e à santidade de Aristóteles. Estava até mesmo disposto a transformá-lo em deus. Ele acreditava que Aristóteles havia alcançado uma posição muito acima do nível humano em inteligência e excelência. Mais ainda: se Ibn Rushd fosse partidário da doutrina de vários deuses, teria aceitado Aristóteles como Rabb al-Arbab, isto é, o maior deus entre todos os deuses.
No sétimo século da Hégira, o maior defensor da filosofia grega era Nasir al-Din al-Tusi. Ele também era chamado de al-Muhaqqiq al-Tusi. Essa foi a época das invasões tártaras. A maior parte do mundo islâmico estava sendo devastada por essas invasões. Ao mesmo tempo, os muçulmanos encontravam-se em extremo colapso também no campo do conhecimento. Al-Tusi era um fiel servidor do imperador tártaro Hulagu Khan, inimigo dos muçulmanos. Seus alunos começaram, naquela época e posteriormente, a lecionar e a escrever obras em vários lugares. Graças aos seus esforços, foi estabelecido no Irã um sistema educacional cujo centro era ocupado pela filosofia e pelo mantiq, ou lógica. Alguns chegaram a afirmar que, mais tarde, uma versão aperfeiçoada desse sistema foi implantada nas madraças do Hindustão sob o nome de Dars-i Nizami. Nasir al-Din al-Tusi e seus discípulos consideravam Aristóteles o Aql-i Kull, a entidade de conhecimento total ou a entidade plenamente conhecedora, e classificavam suas pesquisas e investigações como definitivas. Em oposição ao imame al-Razi, apoiaram vigorosamente a filosofia de Aristóteles e, desse modo, deram nova vida à filosofia aristotélica.
O imame Ibn Taymiyya nasceu dez anos antes da morte de Nasir al-Din al-Tusi. Quando Ibn Taymiyya entrou no mundo do conhecimento, a filosofia e o mantiq reinavam por toda parte. Nasir al-Din al-Tusi e seus discípulos eram os principais sustentáculos disso. A linguagem do mantiq e da falsafa — filosofia — era então a linguagem do conhecimento. Quanto mais alguém dominasse o mantiq e a falsafa, mais sábio e erudito era considerado. Os muhaddithun e os fuqaha não tinham qualquer importância nesse campo. Quase todos haviam aceitado essa situação. Nos casos em que a filosofia e a lógica negavam claramente a verdade, eles consideravam que baixar a cabeça e seguir adiante era a garantia de preservar sua dignidade. Nessas circunstâncias, tornou-se indispensável uma crítica rigorosa e destemida da filosofia e da lógica. Era extremamente necessário demonstrar que a personalidade de Aristóteles não era sobre-humana e que suas pesquisas e investigações não eram definitivas, mas podiam conter erros.
Essa responsabilidade foi assumida pelo imame Ibn Taymiyya. Ele a cumpriu de maneira tão competente que, setecentos anos depois, sua influência continua intacta em todo o mundo islâmico. A filosofia grega também está na raiz da filosofia ocidental de hoje. Ao revelar os erros dessa filosofia grega, ele abriu igualmente o caminho para apontar as falhas da filosofia ocidental contemporânea. Ao mesmo tempo, mostrou o caminho para compreender a simplicidade, a força de convencimento e a superioridade do racionalismo corânico.

Provar a superioridade do método corânico de argumentação

O conhecimento que os profetas — que a paz esteja com eles — receberam de Allah o ser humano jamais poderá adquirir por seus próprios esforços. Mesmo que a pessoa mais inteligente do mundo inteiro passe cem anos refletindo e pesquisando sobre esse assunto, depois de cem anos ela continuará exatamente onde estava cem anos antes. Não terá conseguido avançar sequer um passo. Isso é tudo o que a filosofia grega ofereceu ao acervo do conhecimento mundial. A ciência, a matemática, a geografia, a astronomia, a literatura e outras áreas da Grécia contribuíram para o progresso da civilização humana mundial. O Imam Ibn Taymiyyah (que Allah tenha misericórdia dele) também reconheceu isso. Ele admitiu que os árabes e o mundo islâmico contribuíram para o desenvolvimento progressivo da civilização ao estudar essas áreas. Contudo, ficou surpreso ao constatar a ignorância colossal dos filósofos gregos a respeito de Allah, dos anjos e da vida após a morte. No livro Ar-Radd ‘ala al-Mantiqiyyin, ele escreveu:

Quando se analisa profundamente a obra de Aristóteles, o Primeiro Mestre, sobre Allah, até uma pessoa comum com educação fica espantada. No fim, ela é obrigada a chegar à conclusão de que talvez não exista, no mundo, alguém mais ignorante sobre o Senhor dos mundos do que esses filósofos gregos. Quando as pessoas comparam os escritos desses filósofos gregos sobre Allah com os ensinamentos dos profetas e mensageiros, realmente parece que estão comparando ferreiros com anjos, e o Proprietário e Senhor de todo o universo com um senhor de terras de uma aldeia. Nesse caso, ainda pode haver algum nível de comparação. Mas aqueles que comparam os filósofos aos profetas são tão injustos quanto ignorantes. Isso porque o senhor de terras de uma aldeia, pelo menos, realiza a tarefa de manter a administração e a ordem da aldeia. Sob esse aspecto, há entre ele e o Grandioso Senhor e Rei de todo o universo uma semelhança parcial. Porém, a questão dos filósofos e dos profetas é completamente incomparável. Os filósofos não conseguem sequer se aproximar do conhecimento que os profetas recebem. Pode-se dizer, inclusive, que os incrédulos, os idólatras e os judeus conhecem muito mais sobre Allah do que esses filósofos.

Qual é a causa dessa ignorância dos filósofos gregos? Para analisar sua causa, é preciso examinar a história antiga da Grécia. Durante a maior parte da história, o povo grego aparece como adorador de ídolos e astros. Naquela época, sua mentalidade nacional estava profundamente dominada pelo imaginismo, pelo idealismo e pelo paganismo mitológico. As análises da história moderna provaram que, em toda a Grécia antiga, era praticada a adoração de ídolos e astros. Templos de deuses e deusas haviam sido construídos por todo o país. Milhares de nomes de divindades circulavam de boca em boca. A filosofia grega que, depois de traduzida, adornou as bibliotecas do mundo islâmico e posteriormente chegou à Europa por meio dos muçulmanos estava, na realidade, completamente impregnada dessa adoração de ídolos e astros. Os filósofos gregos adornaram seus pensamentos idólatras com a linguagem técnica atraente da filosofia. Como os sábios e eruditos muçulmanos não conheciam bem a história antiga da Grécia nem o pensamento religioso dos filósofos gregos, passaram a considerar suas discussões filosóficas como uma profunda sabedoria e dedicaram-se a pesquisá-las. Para provar que essas ideias eram verdadeiras e corretas, empregaram toda a sua força, capacidade e aptidão. O Imam Ibn Taymiyyah, porém, conseguiu alcançar as raízes dessa filosofia grega. Ao comentar a Surata Al-Ikhlas, escreveu:

Tanto quanto se sabe sobre os antigos filósofos da Grécia, eles eram idólatras obstinados. Também tinham uma atração excessiva pela magia. Adoravam os astros e os ídolos. Isso também esteve na origem de seu profundo interesse pela astronomia e pelos corpos celestes.

Mesmo entre os muçulmanos que seguiram a filosofia deles, há aqueles que não impedem as pessoas de cometer shirk nem consideram o tawhid indispensável. Pelo contrário, consideram o shirk permitido.

Segundo o Imam Ibn Taymiyyah, entre os antigos filósofos gregos, os predecessores de Aristóteles conheciam muitas coisas sobre o conhecimento do invisível — como Allah, os anjos e a vida após a morte — e sobre as verdades religiosas; estavam próximos do Islã e da verdadeira religião de Allah. Ao explicar isso, ele disse que filósofos anteriores a Aristóteles, como Pitágoras, Sócrates e Platão, saíram da Grécia e viajaram para países como a Síria e o Egito, onde haviam nascido diversos profetas. Eles encontraram os companheiros e seguidores dos profetas Davi e Salomão — que a paz esteja com eles — e adquiriram deles conhecimento sobre o mundo invisível. Isso, porém, não foi possível no caso de Aristóteles. Ele jamais viajou para aqueles países. Não possuía nenhuma parte dos ensinamentos dos profetas. Seu povo adorava os astros. Ele tinha algum conhecimento relacionado a isso e construiu sobre ele a base de sua reflexão e pesquisa. Mais tarde, seus seguidores seguiram cegamente o seu caminho.

Infelizmente, foi justamente essa filosofia de Aristóteles que se difundiu no mundo islâmico. Filósofos muçulmanos como Al-Farabi, Ibn Sina, Ibn Rushd e Suhrawardi estudaram essa filosofia. Eles deram a Aristóteles o título de Mu‘allim al-Awwal, ou Primeiro Mestre.

Em resposta à confusão dos filósofos muçulmanos, surgiu o ‘ilm al-kalam, mas o Imam Ibn Taymiyyah também não estava satisfeito com seu método de apresentação. Segundo o Imam, para provar as verdades religiosas e invisíveis, os teólogos do kalam adotaram os termos da filosofia e o método filosófico de demonstração. Esse método provou-se amplamente ineficaz. Pelo contrário, em muitos casos ele se voltou contra o Islã e lhe causou danos. Ele mencionou a fraqueza de muitos mutakallimun (teólogos do kalam): em muitos casos, eles levantavam grandes questões contra o Islã e apresentavam com bastante força as dúvidas formuladas contra ele. Suas respostas, porém, eram comparativamente muito mais fracas e brandas. Referindo-se ao Imam Razi, ele escreveu na obra An-Nubuwwat:

O Imam Razi reconheceu claramente, no fim de sua vida, que havia refletido muito sobre o método de al-Karimi e o processo de apresentação filosófica. Por fim, chegou à conclusão de que, por meio disso, nenhum doente é curado e nenhuma pessoa sedenta tem sua sede saciada. Ele disse: “Considerei o método do Alcorão mais próximo.”

O Imam Ibn Taymiyyah escreveu que, em comparação com as provas racionais apresentadas pelos teólogos do kalam e pelos filósofos muçulmanos sobre a existência de Allah, Sua essência e Seus atributos, as provas do Nobre Alcorão são muito mais claras, transparentes, inequívocas e tocantes ao coração. Além disso, as novas complexidades e dúvidas criadas pelos filósofos e pelos teólogos do kalam por meio de suas afirmações não têm espaço no método corânico.

A resposta aos cristãos

O Imam Ibn Taymiyya estava cumprindo, no oitavo século da Hégira, a missão de reviver o Islã. A fraqueza nervosa que se manifestara entre os porta-estandartes do Islã setecentos anos após a profecia não era de modo algum pequena. Duzentos anos de guerras das Cruzadas e, depois, os ataques dos tártaros haviam-nos deixado completamente derrotados. Aproveitando essa oportunidade e esse momento de fraqueza dos muçulmanos, as demais religiões e doutrinas lançaram contra eles um forte ataque. Em particular, o cristianismo e as doutrinas cristãs começaram, nessa época, a apresentar a vitória dos tártaros como se fosse a sua própria vitória. Já mencionamos anteriormente a alegria dos habitantes cristãos de uma cidade quando ela caiu nas mãos dos tártaros, bem como suas atividades contra o Islã e os muçulmanos. Por essas razões, nessa época a doutrina cristã estava sendo apresentada aos muçulmanos com grande força. Como resultado, começaram a surgir fissuras nas muralhas da fé e das práticas religiosas de muitos muçulmanos.
O Imam Ibn Taymiyya iniciou, no momento adequado, uma campanha para curar essa enfermidade dos muçulmanos. Há inúmeras passagens relacionadas a esse tema espalhadas por suas obras. Chegou mesmo a escrever sobre isso um livro de quatro volumes e 1.395 páginas. O livro chama-se Al-Jawab al-Sahih li-man Baddala Din al-Masih (A resposta correta àqueles que corromperam a religião de Jesus, que a paz esteja sobre ele).
Na realidade, naquela época vivia um grande número de cristãos nos países islâmicos, especialmente no Egito e na Síria. E, logo depois da Síria, estendia-se uma cadeia de países cristãos. A fronteira do Império Bizantino ficava junto à Síria. A partir do final do quinto século da Hégira, os europeus iniciaram uma série de ataques contra a Síria e a Palestina, que continuou por duzentos anos; como resultado, uma parte da Síria foi retirada do domínio dos muçulmanos. Além disso, Bayt al-Maqdis permaneceu sob o controle dos cristãos durante noventa anos. Mais tarde, o sultão Salah al-Din Ayubi derrotou amplamente as forças cruzadas na batalha de Hittin e recuperou Bayt al-Maqdis. Mesmo depois disso, porém, após o estabelecimento de um Estado cristão independente no litoral sírio, a coragem dos missionários e governantes cristãos aumentou muito. Eles sonhavam em colocar toda a Síria sob a bandeira do cristianismo e em propagar o cristianismo por toda a região. Exatamente nessa época, começaram a considerar a dolorosa derrota dos muçulmanos nas mãos dos tártaros uma grande oportunidade criada para eles por Deus. Tomando-a como um presságio de sua própria vitória, passaram a proclamar por toda parte que a religião de Jesus era a verdadeira religião e que essa verdadeira religião finalmente havia triunfado.
Nessa época, livros contrários ao Islã começaram a ser importados em grande quantidade do mundo cristão. Por meio desses livros, tentava-se espalhar entre os muçulmanos a confusão a respeito do Islã e provar que o cristianismo era a única religião de Allah. O Imam Ibn Taymiyya enfrentou amplamente essa fitna. Antes dele, muitos sábios, pesquisadores e críticos muçulmanos haviam criticado o cristianismo. A maioria deles, porém, não conhecia adequadamente a história do cristianismo. Consideravam o cristianismo um conjunto das palavras de Jesus, que a paz esteja sobre ele, e dos acontecimentos relacionados a ele, conferindo-lhe assim o status de religião celestial ou divina. Consequentemente, o cristianismo recebeu entre os muçulmanos uma importância muito maior do que aquela a que tinha direito. Esse estado de coisas revelou-se extremamente prejudicial para os muçulmanos afetados por uma enfermidade mental.
O Imam Ibn Taymiyya, contudo, conhecia plenamente a história do cristianismo, as grandes mudanças e operações ocorridas em seus centros religiosos nos países de Roma e da Grécia, bem como seu desenvolvimento inicial nesses lugares. Ele estava completamente ciente de que o cristianismo de seu tempo não era, na realidade, senão uma combinação dos ensinamentos de Jesus, que a paz esteja sobre ele, com as crenças politeístas, os costumes, as tradições e as atividades das divindades míticas dos romanos e dos gregos. No livro Al-Jawab al-Sahih, escreveu:
Os habitantes de Roma, da Grécia e de outros países eram, na realidade, politeístas e adoradores de ídolos. Fabricavam estátuas de templos e divindades e as adoravam. Os cristãos uniram duas religiões e fizeram delas uma só. Uma é a religião dos profetas monoteístas, e a outra é a religião dos politeístas. Uma parte de sua religião consiste nos ensinamentos dos profetas, e a outra é um conjunto de palavras e ações retiradas da religião dos politeístas. Assim, criaram uma nova religião, da qual não se encontra nenhum vestígio nas palavras dos profetas.
Desse modo, ele apontou as diferentes épocas e fases da evolução e da corrupção do cristianismo. Ao mesmo tempo, esclareceu a concepção dos muçulmanos acerca do Injil. Muitos sábios muçulmanos erram ao considerar o Injil um Livro de Allah no mesmo nível do Nobre Alcorão. Por isso, são facilmente influenciados pela propaganda dos pregadores cristãos. Ele também tratou claramente desse assunto. Disse que os próprios cristãos reconhecem, a respeito do Injil que hoje está em suas mãos, que ele não foi escrito no tempo de Jesus, que a paz esteja sobre ele, nem por sua ordem. Depois que Jesus ascendeu ao céu, seus dois discípulos, Mateus e João, e outros dois que não haviam visto Jesus, Marcos e Lucas, todos cristãos, escreveram o livro. (1. Hoje também se questiona se Mateus e João eram discípulos de Jesus, que a paz esteja sobre ele. Ver a obra do francês recém-convertido ao Islã, Dr. Maurice Bucaille, O Alcorão, a Bíblia e a Ciência.) Ele disse ainda que, assim como as palavras, ações, religião e crenças do Mensageiro foram preservadas entre os muçulmanos por meio de cadeias de narradores confiáveis, as palavras do Injil e da Torá não podem ser colocadas no mesmo nível.
Ao explicar a diferença entre o Nobre Alcorão, a Torá e o Injil, ele disse: O texto e o significado do Nobre Alcorão chegaram desde o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, por meio de uma cadeia confiável de transmissão. Houve consenso sobre isso, assim como sobre a Sunnah do Mensageiro, seu estado e seus acontecimentos. A autenticidade dessas coisas foi comprovada de diversas maneiras.
…O Nobre Alcorão está preservado nos peitos dos muçulmanos. Para memorizar o Alcorão, não é necessário ler qualquer livro escrito ou impresso. Mesmo que, Deus nos livre, esses livros fossem um dia destruídos, não haveria dificuldade alguma para memorizar o Alcorão. Em contrapartida, se hoje o livro da Bíblia fosse destruído por qualquer motivo, os cristãos não teriam nenhum estoque alternativo de suas palavras. Por isso, ao longo dos séculos, vários tipos de alterações — textuais e de significado — têm sido introduzidos em livros desse tipo.
Como uma das principais causas da corrupção que os cristãos introduziram em sua religião, o Imam Ibn Taymiyya também mencionou que eles não compreenderam corretamente muitas palavras dos profetas, que a paz esteja sobre eles. Como resultado, corromperam o significado original de muitas palavras. Nesse aspecto, os judeus foram ainda um passo além dos cristãos. Ele enfatizou fortemente que, para compreender corretamente os Livros Celestiais e extrair deles ensinamentos corretos, é absolutamente indispensável compreender as palavras, as alusões e a terminologia dos profetas. Um exemplo é a questão de chamar Jesus, que a paz esteja sobre ele, de filho de Deus. Os discípulos disseram que o Messias lhes havia falado: Certamente Allah é meu Pai e vosso Pai, e meu Senhor e vosso Senhor. Na Torá, todos os Filhos de Israel são chamados filhos de Deus. Os egípcios são chamados filhos do faraó. Indo ainda mais longe, os filhotes dos animais são chamados filhos do dono do animal. Isso significa que eles realmente se tornaram filhos gerados no ventre da esposa do dono do animal? O Imam Ibn Taymiyya mostrou claramente esses erros dos cristãos.

A luta contra a doutrina xiita

Depois dos cristãos, entre os grupos extremistas internos dos muçulmanos contra os quais o Imam Ibn Taymiyya conduziu sua luta, pode-se colocar os xiitas no topo da lista. Ele escreveu um livro separado contra as crenças e as atividades extremistas dos xiitas. Na verdade, em meio à comunidade muçulmana devastada pelas invasões tártaras contemporâneas e pelas Cruzadas, a propaganda agressiva dos xiitas extremistas conseguiu criar uma enorme anarquia. Resgatar a comunidade muçulmana de semelhante anarquia era o objetivo do Imam Ibn Taymiyya.

Antes de discutir aqui as atividades do Imam Ibn Taymiyya a respeito dos xiitas, é necessário informar os leitores um pouco sobre a origem da comunidade xiita e suas crenças. Desde o fim do califado segundo o método da profecia, surgiram entre os muçulmanos divergências, tumultos, guerras e conflitos, cuja repercussão continuou plenamente durante os extensos períodos dos governos dos Banu Umayya e dos Banu Abbas; nesse contexto, surgiram inúmeras fitnas. Na raiz dessas fitnas estavam quatro grandes fitnas: os xiitas, os kharijitas, os murjiitas e os mutazilitas. Todas as fitnas posteriores nasceram dessas quatro fitnas fundamentais.

Xiita significa grupo. O plural de xiita é shia‘an. No início, os apoiadores de Ali eram chamados de Shiat Ali. Mais tarde, passaram a ser chamados de xiitas em sentido técnico. Depois do falecimento do Mensageiro de Allah, alguns membros dos Banu Hashim e alguns outros Companheiros também consideravam Ali o mais qualificado para o califado. Alguns outros o consideravam mais qualificado do que os demais Companheiros, especialmente do que Uthman. Muitos consideravam-no digno do califado apenas por causa de seu parentesco com o Nobre Profeta. Contudo, até o período do califado de Uthman, essas ideias pertenciam apenas ao âmbito de pensamentos e opiniões. Até então, elas não haviam assumido a forma de uma doutrina ou crença.

Todos aqueles que sustentavam esse tipo de pensamento e opinião reconheciam o califado dos três califas anteriores, incluindo Uthman, e também lhes prestaram juramento de lealdade. Não protestaram contra nenhuma de suas ações.

Todos aqueles que sustentavam esse tipo de pensamento e opinião reconheciam o califado dos três califas anteriores, incluindo Uthman, e também lhes prestaram juramento de lealdade. Não protestaram contra nenhuma de suas ações.

Mas essas ideias específicas assumiram a forma de uma doutrina e de uma crença durante e depois da Batalha de Jamal, entre Ali, Talha e Zubayr; da Batalha de Siffin, entre Ali e Muawiya; e da Batalha de Nahrawan, contra os kharijitas. Depois, o martírio doloroso do Imam Husayn no campo de Karbala ajudou os seguidores dessas ideias a se reunirem e a aparecerem como um grupo. Ao mesmo tempo, logo após o califado, a introdução do governo monárquico peculiar e do sistema de tirania dos Banu Umayya fez arder no coração dos muçulmanos comuns o fogo da ira contra eles. Em seguida, durante o governo dos Banu Abbas, a opressão desumana infligida aos descendentes de Ali e aos seus apoiadores despertou no coração dos muçulmanos comuns sentimentos de simpatia e apoio por eles. Tudo isso deu ao grupo mencionado anteriormente a oportunidade de fincar raízes sólidas e fortalecer-se como organização. Kufa era o centro poderoso desse grupo. O resumo do que o erudito Ibn Khaldun descreveu em sua Muqaddima e Abd al-Karim al-Shahrastani em sua obra al-Milal wa al-Nihal sobre as doutrinas particulares dos xiitas é o seguinte:

Primeiro: no assunto do imamato — os xiitas não reconhecem o califado; em seu lugar, adotaram o termo imamato — as pessoas comuns não têm autoridade para tomar decisões. Portanto, a responsabilidade de escolher um imam não pode ser confiada aos muçulmanos comuns. Mesmo que os muçulmanos comuns escolham alguém como imam, ele não se tornará imam. O imamato é um pilar da religião e a verdadeira base do Islã. O Profeta não poderia ser negligente de modo algum nesse assunto. Ele não poderia partir deixando sobre a comunidade a responsabilidade de escolher um imam. Ele não poderia partir deixando sobre a comunidade a responsabilidade de escolher um imam. Pelo contrário, ele próprio deveria nomear um imam antes de partir.

Segundo: o imam será infalível, isto é, livre da mancha do pecado e da transgressão. Estará protegido de todo pecado, grande ou pequeno. Não cometerá nenhum erro. Tudo o que disser ou fizer será expressão da verdade pura e absoluta.

Terceiro: o Mensageiro de Allah nomeou Ali como imam depois de si.

Quarto: depois de cada imam, o imam seguinte será nomeado por uma indicação explícita do imam anterior. Isso porque essa responsabilidade foi retirada de toda a comunidade e colocada unicamente sobre os ombros do imam.

Quinto: todas as seitas xiitas concordavam que os descendentes e a linhagem de Ali eram os únicos legítimos titulares do imamato.

Para formular as doutrinas acima, os xiitas recorreram a um tipo de hadith cujos autores eram eles próprios. Eles mesmos os transmitiram e os interpretaram de acordo com sua própria escola. O povo comum de Ahl al-Sunna wa al-Jama‘a nada sabe, nem sequer o menor detalhe, sobre esses hadiths. Pelo contrário, nas palavras de Ibn Khaldun, pode-se dizer que a maioria desses hadiths é mawdu‘, isto é, falsa, inventada e forjada. Os transmissores desses hadiths não são isentos de falhas. Mas voltemos à nossa discussão anterior. Embora a maioria dos xiitas concordasse com as doutrinas mencionadas acima, por causa de divergências em muitos outros assuntos eles se dividiram novamente em várias seitas. Entre elas, porém, os dois maiores grupos são: os imamitas e os zaiditas. Aqueles que creem no imamato de Ali depois do Mensageiro de Allah e, depois dele, na continuidade do imamato entre seus descendentes pertencem à seita imamita. Já aqueles que restringem o imamato aos descendentes de Fátima são chamados zaiditas. Em outras palavras, eles se vinculam a Zayd ibn Ali ibn Husayn, fundador dessa escola.

As diferentes facções xiitas têm opiniões diferentes sobre os muçulmanos comuns. Segundo a opinião dos xiitas mais equilibrados entre eles, Ali é o melhor de toda a criação. Aqueles que lutaram contra ele e aqueles que nutrem inimizade e ódio contra ele permanecerão eternamente no Inferno. Serão reunidos com os incrédulos e os hipócritas. Antes de Ali, Abu Bakr, Umar e Uthman haviam sido feitos califas. Segundo eles, se Ali tivesse se recusado a reconhecer o califado deles e tivesse expressado sua insatisfação interior com eles, também teriam permanecido no Inferno — que Allah nos proteja. Contudo, como Ali reconheceu sua liderança, prestou-lhes juramento de lealdade e rezou atrás deles quando eram seus comandantes, eles também os aceitaram de acordo com a conduta de Ali. Não estão dispostos a reconhecer entre Ali e o Profeta nenhuma diferença além do grau da profecia. Em todos os demais aspectos, Ali e o Profeta possuem a mesma dignidade.

Essa era a opinião dos xiitas equilibrados. Em contrapartida, a opinião dos xiitas extremistas era que os califas que assumiram o califado antes de Ali eram usurpadores, apropriadores indevidos e traidores. E aqueles que os haviam feito califas eram desviados e injustos, pois haviam negado o testamento do Profeta e privado o imam verdadeiro e legítimo de seu direito. Um grupo entre eles foi ainda mais longe e declarou incrédulos os três primeiros califas e aqueles que os escolheram. Os mais moderados entre eles são os zaiditas. Eles consideram Ali superior. Contudo, segundo eles, na presença do superior, os inferiores também podem tornar-se imams. Além disso, acreditam que não existe nenhuma indicação explícita do Mensageiro de Allah em favor do imamato de Ali. Por isso, reconhecem o califado de Abu Bakr e Umar. Ainda assim, segundo eles, o imam deve ser nomeado entre os descendentes de Fátima.

O Imam Ibn Taymiyya, que Allah tenha misericórdia dele, refutou em vários pontos de suas obras todas essas crenças, convicções e atividades dos xiitas. Por outro lado, assumiu a responsabilidade de defender as crenças da Sunna e de Ahl al-Sunna, bem como os Califas Bem-Guiados e os nobres Companheiros. Mas, à medida que o xiismo se fortalecia em sua época e criava uma tempestade de difamação, insultos contra os Companheiros e protestos vergonhosos contra suas ações — os Companheiros, o grupo mais excelente dos muçulmanos formado pelas mãos do Mensageiro, e as crenças fundamentais dos muçulmanos —, isso perturbava profundamente o Imam. Ele considerava que, se o grupo mais excelente dos muçulmanos, formado pelas mãos do Mensageiro, fosse condenado, então os muçulmanos não teriam mais nenhum modelo diante de si. Consequentemente, chegariam ao extremo da anarquia moral.

Além disso, o erudito xiita Ibn al-Mutahhar, favorecido pelo rei tártaro da época, Oljeitu Khudabanda Khan, escreveu uma grande obra intitulada Minhaj al-Karama fi Ma‘rifat al-Imama em apoio ao xiismo e ao imamato e contra o califado e Ahl al-Sunna; a obra começou a espalhar-se rapidamente entre os muçulmanos. Os xiitas fizeram grande alarde em torno desse livro e afirmavam que não era possível responder aos seus argumentos. A obra apresentava provas do imamato e da isma, isto é, da infalibilidade — significando que as pessoas em questão estariam livres de todo erro e pecado — de Ali e de Ahl al-Bayt, protestava contra o califado dos três califas e difamava os nobres Companheiros, promovendo em torno disso grandes debates. Tentava-se provar tudo isso a partir de versículos do Alcorão e de hadiths. A obra inteira estava tão repleta de discussões teóricas, argumentos e provas que era absolutamente impossível para um leitor comum sustentar uma opinião contrária às suas afirmações.

Assim como os eruditos xiitas do século VIII, o autor dessa obra também pertencia aos mutazilitas no que dizia respeito aos fundamentos e à crença. Consequentemente, seu ataque às crenças de Ahl al-Sunna era conduzido inteiramente à maneira filosófica e teológica dos mutakallimun. Por isso, até a sociedade dos intelectuais muçulmanos foi influenciada por ela.

Não estava ao alcance de um erudito ou escritor comum escrever uma resposta a uma obra desse tipo. Além disso, infelizmente, em geral os eruditos xiitas haviam demonstrado extrema ousadia ao fabricar hadiths e atribuir-lhes referências. Ao mesmo tempo, a ciência do hadith havia alcançado então uma extensão extraordinária. Milhões de hadiths haviam sido registrados em livros. Suas diversas compilações estavam espalhadas pelas bibliotecas de diferentes cidades do mundo islâmico. A ciência de al-Jarh wa al-Ta‘dil e Asma al-Rijal, isto é, o conhecimento para verificar a precisão e a autenticidade dos hadiths, também havia se desenvolvido amplamente. Esses materiais não estavam reunidos em uma única biblioteca de uma única cidade. Por isso, para uma pessoa qualquer, verificar a autenticidade dos hadiths citados na obra mencionada não era de modo algum fácil. Esse trabalho só era possível para alguém que fosse um hafiz das ciências do hadith e dos narradores, que conhecesse como a palma da mão cada livro de hadith e os nomes e as condições dos narradores, e a quem o adversário não pudesse enganar de maneira alguma por meio de falsas referências. Além disso, a história do Islã também estava diante dele como um livro aberto. Não era possível confundi-lo nem exauri-lo lançando-o nos labirintos da história.

Naquela época, como um erudito que reunia conhecimento de todas essas áreas, só se podia mencionar o nome do Imam Ibn Taymiyya. Assim como era um mestre da filosofia e da ciência do kalam e conseguia identificar as falhas nas discussões filosóficas e racionais do adversário, também possuía profunda erudição na ciência do hadith. Naquela época, ele era comparado a uma enorme biblioteca de hadiths. Entre os eruditos, dizia-se correntemente a seu respeito que, se o Imam Ibn Taymiyya dissesse sobre um hadith que não o conhecia, então aquilo, na realidade, não era hadith algum.

Ele demonstrou, por meio da obra de Ibn al-Mutahhar, que, ao insultar os Companheiros do Mensageiro — os melhores de toda a humanidade depois dos profetas, os melhores da criação e superiores a todos os profetas — e ao apresentá-los como as criaturas mais vis de Allah, o erudito xiita Ibn al-Mutahhar havia desferido um golpe contra a própria base do Islã. Com isso, abriu-se a porta para o ataque à profecia de Muhammad, para sua crítica e para o ateísmo. Em certo lugar do primeiro volume dessa obra, ele escreveu: “Esses xiitas retrataram aqueles que, entre todas as comunidades do início e do fim, foram os melhores e mais virtuosos depois dos profetas e mensageiros, como as pessoas mais vis e mais perversas de toda a humanidade. Descreveram seus grandes defeitos e transformaram suas virtudes em defeitos. Em contrapartida, provaram como virtuosos e os melhores da criação aqueles indivíduos interesseiros que se haviam ligado ao Islã apenas para alcançar seus próprios interesses, pessoas das quais não havia ninguém mais perverso, libertino, mentiroso, desonesto, injusto e envolvido em pecados e atos de incredulidade. Assim, declararam incrédula toda a comunidade, ou provaram que ela estava desviada, com exceção apenas de seu pequeno grupo, que, segundo sua crença, era o único grupo seguidor da verdade.”

Em certo lugar do segundo volume dessa obra, ele citou uma declaração do Imam al-Sha‘bi. O Imam al-Sha‘bi disse: “Os judeus e os cristãos honram seus profetas mais do que os xiitas honram os seus. Perguntou-se aos judeus: ‘Quem são os melhores entre o vosso povo?’ Eles responderam: ‘Os companheiros de Moisés’. Perguntou-se aos cristãos: ‘Quem são os melhores entre o vosso povo?’ Eles responderam: ‘Os discípulos de Jesus, isto é, seus companheiros’. E perguntou-se aos xiitas: ‘Quem são os piores entre o vosso povo?’ Eles responderam: ‘Os Companheiros de Muhammad’.” Eles insultaram essas pessoas virtuosas.

Em outro lugar do segundo volume, ao descrever um dos hábitos dos xiitas, escreveu: “O hábito permanente dos xiitas é abandonar a comunidade dos muçulmanos, cooperar sempre com os judeus, os cristãos e os politeístas e manter com eles conversas amistosas. Quem pode ser mais desviado do que aqueles que nutrem inimizade contra os primeiros homens da vanguarda dos Muhajirun e dos Ansar e mantêm amizade com hipócritas e incrédulos?”

Depois, descreveu o papel dos xiitas em diversas questões nacionais. Mencionando especialmente os episódios em que cooperaram com os incrédulos durante crises nacionais, escreveu que a maioria deles, no íntimo, mantinha uma ligação com os incrédulos e cooperava muito mais com eles contra os muçulmanos. Assim, quando os tártaros invadiram o mundo islâmico pelo leste e mataram os muçulmanos, os xiitas que se encontravam em regiões como o Coração, a Síria e Alepo ajudaram os inimigos. Do mesmo modo, quando os cristãos lutaram contra os muçulmanos na Síria, os xiitas eram seus auxiliares. Desse modo, se um governo judaico fosse estabelecido no Iraque ou em qualquer outro lugar, os xiitas provariam ser sua maior força de apoio. Por isso, estão sempre prontos a ajudar os incrédulos, os politeístas, os judeus e os cristãos, e a apoiá-los contra os muçulmanos.

Reconstrução do conhecimento e do pensamento islâmicos

O Imam Ibn Taymiyya, que Allah tenha misericórdia dele, foi a personalidade que mais causou impacto na história do Islã. No curso da história, deixou uma marca resplandecente de verdade, justiça, conhecimento e erudição, que continuará a inspirar a comunidade a seguir o caminho da verdade e da justiça até o Dia da Ressurreição. Seiscentos e cinquenta anos após o fim da profecia e do califado segundo o método profético, ele voltou a enriquecer o Islã e a comunidade islâmica com uma nova vitalidade. Quando o Profeta transmitia o chamado ao Islã, não havia nele qualquer obscuridade ou imperfeição. Após a morte do Profeta, a sujeira e os detritos de todos os lados cercaram o Islã, e ele começou gradualmente a tornar-se obscuro; aparentemente, passou também a surgir a ideia de que havia imperfeições nele. Nesse período, aqueles que removem a sujeira do corpo do Islã, tornam novamente claro o verdadeiro Islã e extirpam pela raiz a ideia de que ele é incompleto são os verdadeiros sábios e renovadores da religião. Para eles, a verdade e a falsidade permanecem claras como o sol do meio-dia. Por isso, não estamos falando de uma relação direta com Allah nem de uma “linha direta” de conhecimento. O Alcorão e a Sunnah são suficientes. No âmbito da verdade e do conhecimento, estes dois são os únicos canais da relação com Allah.
O Imam Ibn Taymiyya foi um desses verdadeiros sábios e renovadores da religião. Setecentos anos após a profecia, ele restabeleceu o Islã em sua verdadeira forma, libertando-o de toda a sujeira interna e externa. Já discutimos anteriormente as três obras renovadoras do Imam. Sua obra de renovação consistiu na reconstrução do conhecimento da Sharia e do pensamento islâmico.
Até a época do Imam, o conhecimento da Sharia havia alcançado grande amplitude. Em especial, haviam sido formadas enormes bibliotecas baseadas no tafsir, hadith, fiqh, usul al-fiqh e ilm al-kalam. Dominar qualquer uma dessas áreas era suficiente para que um estudante comum daquela época alcançasse fama. Ainda assim, não eram poucos os eruditos versados em várias disciplinas. Bastaria ler a obra Tabaqat al-Shafi‘iyya al-Kubra para encontrar inúmeros sábios que dominavam simultaneamente todo o conhecimento da Sharia. Eles poderiam ser chamados de enciclopédias do conhecimento jurídico-religioso de sua época. Contudo, apesar da grande difusão e amplitude desse conhecimento, pouquíssimos sábios possuíam profundidade nele. Entre esses poucos, o nome do Imam Ibn Taymiyya estava no topo.
A memória do Imam era incomparável. Por isso, foi-lhe extremamente fácil dominar todos os tipos de conhecimento. Além disso, graças à inteligência aguçada concedida por Allah, ele penetrou profundamente em cada campo do saber. Sobre qualquer assunto que escrevesse, abria algum novo horizonte. Em particular, abriu um novo caminho para adquirir o conhecimento do Alcorão Sagrado e da Sharia. O tafsir do Alcorão era um de seus temas especiais e preferidos. Não há obra sua que não contenha algum assunto relacionado ao tafsir do Alcorão. Não se encontrará nenhuma obra sua na qual, depois de discutir detalhadamente os versículos, ele não extraia deles argumentos e provas. Segundo seus discípulos, se todas as discussões de tafsir que deixou fossem reunidas, seria possível completar um tafsir do Alcorão em trinta volumes. Porém, por causa de sua vida atribulada, repleta de acontecimentos extraordinários, e de sua existência permanentemente dedicada ao jihad, não foi possível conservar adequadamente todos os seus manuscritos. Mesmo assim, pelos esforços de pessoas virtuosas, várias obras suas sobre tafsir foram preservadas. Entre elas, os tafsirs das suratas An-Nur, Al-Ikhlas e Al-Mu‘awwidhatayn foram impressos no Egito. Recentemente, discussões sobre tafsir extraídas de várias de suas obras foram reunidas e publicadas em Bombaim sob o título Tafsir Ibn Taymiyya. Também se encontra uma obra sua sobre os princípios do tafsir, intitulada Usul at-Tafsir.
Quanto ao hadith, o Imam Ibn Taymiyya era considerado uma referência em sua época. Apesar disso, não possui uma obra independente dedicada exclusivamente ao hadith. Entretanto, os temas de usul al-hadith, asma ar-rijal, jarh wa ta‘dil, crítica do hadith e fiqh al-hadith alcançaram tamanha amplitude em seus escritos que, se fossem reunidos, poderiam constituir uma grande obra em vários volumes. Em especial, não se encontra em outro lugar uma investigação como a existente em seus livros sobre hadiths mawdu‘, falsos, forjados e inventados. Sobre esse assunto, sua obra Minhaj as-Sunnah, escrita contra os xiitas, contém a discussão mais extensa.
Ele também escreveu bastante sobre usul al-fiqh. Nesse campo, possuía a posição de um mujtahid. Embora, em princípio, seguisse o fiqh hanbali, de modo algum foi econômico ao expressar suas opiniões independentes. Entre suas obras sobre esse tema podem ser citadas Fatawa Ibn Taymiyya e Iqtida as-Sirat al-Mustaqim. Sua obra independente sobre usul al-fiqh chama-se Minhaj al-Usul ila Ilm al-Usul.
Se as obras do Imam sobre ilm al-kalam forem reunidas, veremos que ilm al-kalam e aqidah ocupam quarenta por cento de sua produção total. Há uma característica nos títulos de seus livros sobre esse assunto: eles estão ligados a diferentes cidades; isto é, os livros receberam o nome das cidades de onde haviam vindo as perguntas. Assim, temos Sharh Isbahania (Isfahan), Risala Hamawiyya, Tadmuriyya, Wasitiyya, Kailamiyya, Baghdadiyya, Azhariyya e outras. A leitura das obras do Imam sobre ilm al-kalam revela a extensão e a amplitude de seu conhecimento.
No campo do fiqh, sua contribuição não foi inferior à de um mujtahid. Embora, até sua época, a compilação e organização do fiqh de todas as escolas já estivesse inteiramente concluída, ele teve uma contribuição distinta nesse campo. Examinou diversas questões e normas jurídicas com a perspectiva de um mujtahid e, à luz do Livro de Allah, da Sunnah do Mensageiro, do ijma, do qiyas e dos princípios do fiqh, analisou as normas e praticou ijtihad e istinbat. Esforçou-se para harmonizar as opiniões jurídicas e os detalhes das questões do fiqh com os hadiths autênticos. Restaram enormes livros de suas fatwas, publicados em vários volumes. Recentemente, no Egito, foi publicada em quatro volumes, com 1.586 páginas, uma obra intitulada Fatawa Shaykh al-Islam Ibn Taymiyya. Por outro lado, o governo saudita publicou, em trinta volumes, a maior compilação de suas fatwas.
Durante várias centenas de anos posteriores, o conhecimento do Imam exerceu uma influência quase mágica sobre todo o mundo islâmico. Mesmo hoje é difícil encontrar um grande sábio ou pensador islâmico que esteja livre da influência de seu conhecimento.
Há no mundo muitas correntes de pensamento e doutrinas. Elas foram formadas com base em diferentes ideias, imaginações, argumentos, conjecturas, suposições, conhecimentos adquiridos pela experiência e pela investigação, discussões e debates. Em contraste, o pensamento e a doutrina islâmicos foram edificados sobre a revelação e a profecia de Muhammad. Tudo o que o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, informou sobre a essência e os atributos de Allah, Seus atos, o princípio e o fim do universo, a primeira chegada do ser humano ao mundo e seu destino, a Ressurreição, a reunião dos mortos, as consequências das ações humanas e outros assuntos sobrenaturais relacionados à vida religiosa constitui a crença, o pensamento e a doutrina islâmicos. Não existe outro caminho para conhecer essas questões além da revelação de Allah ao Profeta. Não há qualquer possibilidade de conhecê-las por reflexão, investigação, conjectura ou suposição. A razão humana não pode sequer aproximar-se da essência e dos atributos de Allah, e o ser humano não possui experiência a esse respeito. Essas coisas também não podem ser vistas. O Alcorão declara claramente: “Nada é semelhante a Ele.” Portanto, nesse campo, deve-se depender exclusivamente do conhecimento concedido por Allah. E esse conhecimento só é encontrado junto aos profetas. Os corações dos profetas são iluminados por esse conhecimento como se tivessem visto tudo diretamente. Em seu conhecimento não há sequer o menor vestígio de dúvida. Assim, não há espaço para expressar a mínima dúvida acerca do conhecimento dos profetas. O Alcorão menciona claramente esse assunto e diz:*************Árabe*************Ele disse: “Discutis comigo acerca de Allah, embora Ele me tenha guiado nesse assunto?”
Isso é tão verdadeiro e claro quanto o sol do meio-dia. Na presença de uma verdade tão luminosa, não há necessidade de qualquer outra filosofia nem de outro argumento racional para provar a essência e os atributos de Allah. Contudo, ao examinarmos a história da razão humana, veremos que, durante milhares de anos, as pessoas tentaram analisar essas questões por meio da razão. Apesar disso, o próprio ser humano reconheceu sua incapacidade nesse campo. Para discutir esses assuntos, os filósofos criaram, por iniciativa própria, certos termos técnicos e eles mesmos lhes atribuíram significados. Mais tarde, os mutakallimun muçulmanos, ao tentar responder aos desvios desses filósofos, utilizaram os próprios termos deles. Como resultado, em muitos casos também reconheceram os sentidos limitados dessas palavras. Em numerosas ocasiões, chegaram a discutir a essência e os atributos de Allah com tamanha certeza que parecia que esses assuntos provinham de sua experiência direta, de sua visão filosófica e de suas percepções. Saíram empunhando a bandeira do protesto contra a filosofia, mas, sem perceber, juntaram-se ao grupo dos filósofos e repetiram todos os seus debates e disputas. O Alcorão Sagrado dirige-se aos filósofos de maneira admirável, dizendo:*************Árabe*************“Ouvistes? Discutistes sobre coisas acerca das quais possuístes pouco conhecimento. Então, por que agora discutis novamente sobre coisas acerca das quais não tendes conhecimento algum? Allah sabe, mas vós não sabeis.” (Al Imran 3:66)
Na época do Imam Ibn Taymiyya, e como resultado da estagnação que se manifestara no pensamento e na investigação islâmicos durante as várias centenas de anos anteriores, passou-se a considerar a construção de aqidah erguida pelos mutakallimun sobre os fundamentos elaborados pelos filósofos, para provar a essência de Allah, o tawhid, a Outra Vida e outras verdades invisíveis e sobrenaturais, como a verdadeira base da religião. Com exceção de um pequeno grupo de muhaddithun e fuqaha, todos consideravam as conclusões racionais dos mutakallimun o critério da aqidah islâmica. Em vez de transformar o Livro de Allah e a Sunnah do Mensageiro no critério da aqidah, fizeram dos livros dos mutakallimun o seu critério. Para escapar de perguntas e objeções, faziam ta’wil, isto é, interpretações inventadas, dos versículos e hadiths. A influência da filosofia e de ilm al-kalam havia se imposto de tal maneira sobre eles que nem sequer conseguiam imaginar que houvesse algum erro nela; ao contrário, tentavam adaptar o Alcorão e o hadith a ela, recortando-os e alterando-os.
O Imam Ibn Taymiyya criticou severamente essa mentalidade. Em vez da filosofia, de ilm al-kalam e do racionalismo, ele estabeleceu as bases da aqidah, do pensamento e da doutrina islâmicos sobre o Alcorão e o hadith. Recentemente, o egípcio Muhammad al-Ghazali escreveu, segundo essa perspectiva, uma das mais bem-sucedidas obras sobre aqidah islâmica. O título de sua obra é Aqidat al-Muslim. O livro foi publicado em bengali pela Fundação Islâmica de Bangladesh sob o título Aqidah Islâmica.
O Imam Ibn Taymiyya, que Allah tenha misericórdia dele, protestou vigorosamente contra a concessão à razão de poder irrestrito e infinito e contra o reconhecimento dela como autoridade decisiva em assuntos relativos a Allah, ao Mensageiro e à Outra Vida. Em sentido estrito, ele foi o primeiro protestante bem-sucedido nesse campo. Foi o verdadeiro rebelde contra a imprudência da razão.
Antes dele, o Imam al-Ghazali, que Allah tenha misericórdia dele, escreveu contra as ideias sobre Allah apresentadas na filosofia, criticou-as severamente e fez comentários espirituosos sobre os limites da inteligência dos filósofos. Contudo, não levantou uma voz suficientemente forte contra a ideia de que a razão possui poder infinito e contra o ato de aventurar-se em profundas discussões teóricas sobre aquilo que ela não conhece corretamente.
O Imam Ibn Taymiyya utilizou toda a força de sua posição e erudição para tentar provar que a fonte fundamental da crença e das verdades invisíveis é extraída do Livro de Allah e da Sunnah do Profeta. A razão pode ajudar a fortalecer isso e a demonstrar sua veracidade, mas não pode servir de fundamento para sua prova. No primeiro volume de sua obra Dar’ Ta‘arud al-‘Aql wa an-Naql, escreveu:
“A razão, na realidade, não pode servir de fundamento para provar a Sharia. Ela não foi dotada de nenhuma qualidade que antes não possuísse, nem foi adornada com a qualidade da perfeição.”
Segundo ele, a razão só pode desempenhar o papel de revelar e indicar o caminho. Ela pode levar o ser humano apenas até o reconhecimento da veracidade e da infalibilidade do Mensageiro; depois disso, não possui qualquer autoridade. A razão pode provar que aquilo que o Mensageiro informa é verdadeiro e que é obrigatório cumprir os mandamentos que ele transmitiu. Tomemos um exemplo: um visitante chegou a uma cidade e procurou o mufti da cidade. Um habitante comum mostrou-lhe o caminho até a casa do mufti e, apontando-o, disse: “Este é o mufti e sábio da cidade.” Se depois surgir uma divergência entre esse habitante comum e o mufti, o visitante deverá aceitar a palavra e a decisão do mufti. O habitante comum não tem o direito de pressioná-lo, dizendo que, se não o tivesse conduzido até o mufti, o visitante jamais o teria encontrado e, por isso, deveria seguir a decisão dele.
O Imam escreveu que, depois de conhecer a missão profética, a função da razão é crer no Mensageiro, obedecer-lhe e cumprir cada um de seus mandamentos sem envolver-se em redes de questionamentos. Deve considerar suas palavras definitivas. Do mesmo modo, deve considerar definitivas as palavras do Mensageiro sobre assuntos invisíveis e sobrenaturais. Segundo ele, diante do Mensageiro de Allah, o ser humano comum não possui qualquer posição comparável. Os Mensageiros são verazes e sempre recebem informações corretas. Não se pode sequer imaginar que suas informações e conhecimentos sejam contrários à verdade. Já aqueles que, exibindo apenas exercícios intelectuais, confrontam as informações e o conhecimento deles não têm fim para sua ignorância e seus erros.
A estrutura mental das pessoas influenciadas pela filosofia e pelo racionalismo havia chegado a tal ponto que aceitavam facilmente qualquer afirmação da Sharia que parecesse aceitável segundo a razão e a filosofia. Mas não conseguiam aceitar aquilo que parecia contrário aos argumentos e ao racionalismo que haviam elaborado. Os mais ousados entre eles recusavam-se abertamente a aceitá-lo. Diziam publicamente: “A Sharia deve necessariamente seguir a razão. Isto é contrário à razão; portanto, não é aceitável.” Os menos ousados continuavam produzindo interpretação após interpretação das afirmações da Sharia, apresentando explicações sem a menor relação com o que a Sharia realmente dizia. Considerando a mentalidade dessas pessoas, o Imam Ibn Taymiyya declarou que é obrigatório ao muçulmano crer incondicionalmente no Mensageiro. A fé condicional no Mensageiro não pode, de modo algum, ser chamada de fé. Ele escreveu: “Está definitivamente estabelecido no Islã que é obrigatório reconhecer a veracidade do Mensageiro e ter nele uma fé completa e abrangente, sem qualquer condição. Deve-se aceitar como verdadeiras todas as suas informações e obedecer a todos os seus mandamentos. Tudo que se opõe a isso deve ser considerado falso. Aquele que aceita como verdadeiras as palavras do Mensageiro que cabem nos limites de sua razão, rejeita as que contrariam sua opinião e razão, dá preferência à própria razão sobre as informações do Mensageiro e, ao mesmo tempo, afirma crer na veracidade do Mensageiro é, na realidade, contraditório. E aquele que diz: ‘Não estou disposto a considerar verdadeira qualquer palavra do Mensageiro enquanto não a julgar com meu conhecimento e minha razão e compreendê-la’, não há dúvida alguma quanto à sua descrença.”
Ao analisar as afirmações dos defensores da razão, o Imam Ibn Taymiyya provou que as conclusões racionais levantadas contra as palavras dos profetas e mensageiros e contra as verdades luminosas do Alcorão e da Sunnah são, na maioria dos casos, mera imaginação e fantasia; quando examinadas profundamente, revelam-se apenas quimeras da razão. Ele disse que os filósofos deram o nome de “teologia” às grandes conclusões das quais se orgulham e que apresentam contra as palavras dos profetas; porém, julgadas com imparcialidade, não se encontrará diferença entre elas e o delírio de um louco.
Mas o Imam não deixou de conceder à razão sua posição apropriada. Segundo ele, o Alcorão Sagrado aconselha em vários lugares o uso e a aplicação da razão. Para ele, não pode haver contradição entre a razão correta e equilibrada e as palavras corretas dos profetas e mensageiros. Descrevendo o resultado de seu estudo profundo e abrangente, disse: “Não encontrei contradição entre a razão e as palavras do Mensageiro.” A condição, porém, é que a razão seja equilibrada — aquilo que o Alcorão chama de aql salim — e que as palavras do Profeta tenham sido corretamente preservadas, sem qualquer distorção. Sobre esse tema, escreveu uma obra em quatro volumes, intitulada Bayan Muwaffaqat Sarih al-Ma‘qul li-Sahih al-Manqul. Nela, tentou provar que não há contradição entre a razão correta e racionalmente coerente e as palavras não adulteradas dos profetas e mensageiros. A razão correta sempre ajudou a demonstrar a veracidade desse tipo de palavra.
Ele afirmou, com profunda convicção, que nenhum hadith é contrário à razão. Se existir algum hadith assim, verá-se que os especialistas em hadith já o classificaram anteriormente como da‘if (fraco) ou mawdu‘ (forjado). Recusou-se a aceitar a afirmação dos filósofos e dos mutakallimun de que a base do Alcorão consiste apenas em citações e transmissão oral. Provou que o Alcorão contém os melhores argumentos e raciocínios. Seus argumentos são tão irrefutáveis que, mesmo que se apresentassem mil argumentos contra eles, não seria possível refutá-los.
Em suma, o Imam Ibn Taymiyya sempre afirmou que a revelação e a profecia são a base da crença, e não a razão e o argumento racional. Em suas diversas obras, tentou provar isso. Provavelmente não há livro seu em que não tenha apresentado essa afirmação ou, pelo menos, indicado esse princípio. Assim, procurou submeter o racionalismo de sua época ao controle do Alcorão e da Sunnah. Com esse esforço, o pensamento islâmico se fortaleceu e continuou a dar força à comunidade durante várias centenas de anos seguintes.

Palavras finais

Todo talento é excepcional. Ainda assim, entre os talentosos, há alguns que chamamos de transcendentes ao seu tempo. Eles ultrapassaram a própria época. Além disso, sua marca permaneceu indelével também nos períodos posteriores. Um talento assim foi o Imam Ibn Taymiyyah, que Allah tenha misericórdia dele.
Desde o primeiro estremecimento da juventude até a imobilidade da velhice, e até o último momento de sua vida, ele cumpriu seu dever. Nunca admitiu o fracasso nem a incapacidade. Era como um oceano insondável. Onda após onda se chocava contra ele. E outra onda vinha. Em seu peito havia uma força vital inesgotável. É surpreendente pensar que o Imam também era como um mar. Inesgotável era a força de seu coração; parecia não ter fim. Em sua terra natal, no exterior, durante as viagens, enquanto permanecia em algum lugar pelo caminho e até quando estava encarcerado, a inesgotável reserva de força mental e energia de trabalho que possuía havia espantado o mundo de então. O povo comum havia encontrado o caminho para seu coração. Ele era o soberano do reino de seus corações.
Até que ponto ele foi capaz de mudar o curso dos tempos? Qual foi o alcance de seu sucesso em estabelecer o Islã em sua forma correta? Foi ele capaz de realizar alguma mudança na estrutura estatal? Essas perguntas surgem naturalmente no contexto do esforço do Imam pelo reavivamento islâmico. Elas nos ajudarão a determinar o lugar do Imam na história do Islã.
Antes de uma discussão detalhada, desejo citar a esse respeito um hadith do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele disse:*************Árabe*************
Isto é: “Minha ummah é como a chuva; não se pode dizer se sua primeira parte é melhor ou se sua última parte é melhor.” O Imam al-Tirmidhi narrou este hadith de Anas ibn Malik, que Allah esteja satisfeito com ele. À luz desse hadith, pode-se dizer que o mérito de todos os membros da ummah que lideraram o trabalho do reavivamento islâmico é igual. Contudo, devido às circunstâncias e às condições, o trabalho de alguns foi mais difícil que o de outros. Contra que tipo de ambiente e circunstâncias o Imam Ibn Taymiyyah avançou?
Na primeira metade do século VII da Hégira, antes do nascimento do Imam, devido à invasão tártara, todo o território do mundo islâmico, do rio Indo ao rio Eufrates, com exceção do Egito e da Síria, havia sido devastado. Os muçulmanos que sobreviveram nessa região, mudando continuamente de moradia, haviam se tornado praticamente um povo nômade. Junto com o declínio econômico, também haviam declinado sua honra e seu prestígio. Devido à destruição dos centros de conhecimento, educação e cultura, haviam sido verdadeiramente lançados à beira da ruína. O terror, a intranquilidade e a desordem incessantes haviam deixado sua identidade coletiva aturdida e sem saber o que fazer.
Embora, no final, a situação tivesse começado a mudar um pouco — isto é, os tártaros estivessem avançando rumo à aceitação do Islã —, quanto havia diminuído com isso a miséria dos muçulmanos? Esses governantes tártaros recém-convertidos não eram em nada menos ignorantes, no que dizia respeito à jahiliyyah, que os governantes não muçulmanos. Sob seu governo, a degradação moral do povo muçulmano, dos membros da sociedade, dos fuqaha, dos qadis e dos mashayikh havia aumentado consideravelmente. Uma parte dos ulama havia se entregado ao serviço dos opressores. (Contudo, no Alcorão, na surata al-Qasas, Allah expressou pela boca de Moisés, que a paz esteja sobre ele, as seguintes palavras:*************Árabe*************
“Ó meu Senhor! Pela graça que me concedeste, jamais serei um auxiliar de qualquer criminoso, isto é, de qualquer opressor.”) O ijtihad havia sido completamente encerrado; mais que isso, em certo sentido, pode-se dizer que havia se tornado um pecado. As escolas jurídicas baseadas no fiqh haviam se transformado, cada uma, em uma religião independente. Segundo o Allamah Abul Ala Maududi, que Allah tenha misericórdia dele, naquela época a combinação tripla das massas ignorantes e desviadas, dos ulama mundanos e de mente estreita e da classe de governantes opressores e ignorantes tornou-se tão poderosa que não era muito diferente de estender o próprio pescoço sob a faca dessa aliança unida. (Tajdid-e Ihya-e Din, p. 81, sexta edição, 1955, Lahore.) Nesse contexto, podemos avaliar quão grandiosa e difícil era a tarefa que o Imam havia assumido. Ele não apenas fez voltar a fluir a tradição do estudo do conhecimento autêntico e correto derivado do Alcorão e do hadith, como também adotou o caminho do ijtihad para resolver os novos problemas. Podemos dividir seu trabalho reformador em várias partes.
Um. Ele fez uma crítica rigorosa à filosofia grega. Como resultado de sua crítica, a máscara de conhecimento e infalibilidade caiu do rosto da filosofia grega, e todas as suas fraquezas tornaram-se claramente visíveis. Foi sobretudo devido ao impacto de sua crítica que a escuridão começou a desaparecer também do campo de visão dos ocidentais, e eles igualmente se tornaram críticos dessa filosofia, embora muito tempo depois dele.
Dois. Ele apresentou argumentos fortes em defesa da crença, dos preceitos, das normas e das leis islâmicas. Seus argumentos e declarações carregavam a verdadeira força vital do Islã. Rejeitando o método grego, ele estabeleceu as bases da argumentação apoiada no conhecimento comum. Esse era o método mais próximo do Alcorão e da Sunnah.
Três. Ele não se limitou a protestar contra a imitação cega de qualquer Imam; ao mesmo tempo, demonstrou por meio de sua própria prática como realizar o ijtihad. Reuniu diversas provas do Alcorão, da Sunnah e da vida dos Companheiros, e, mediante uma análise independente e justa das divergências entre as várias escolas jurídicas baseadas no fiqh, apresentou inúmeras questões novas. Como resultado, descobriu-se um novo caminho para o ijtihad. Além disso, realizou uma pesquisa minuciosa sobre a sabedoria da Sharia e o método legislativo do Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Suas fatwas são, nesse aspecto, um patrimônio inestimável da ummah. Para os que praticaram o ijtihad depois dele e para os que o praticarão no futuro, sua literatura servirá como guia.
Quatro. Pode-se dizer que ele conduziu um verdadeiro jihad contra as inovações e os costumes politeístas. Por isso, enfrentou perigos terríveis. Mas não lhes deu nenhuma importância. Ao discutir esse assunto, o Allamah Abul Ala Maududi disse de maneira magnífica: até então, todas as correntes turvas que haviam se misturado à corrente límpida da fonte do Islã, o Imam Ibn Taymiyyah não poupou nenhuma delas. Lutou rigorosamente contra cada uma, eliminou-as uma a uma e apresentou ao mundo, separadamente, o método do Islã puro. Seus adversários não deixaram de usar contra ele nenhuma arma. Contra ele foram utilizadas todos os tipos de armas, desde falsas acusações e ataques armados para assassiná-lo até lançá-lo na ira real e enviá-lo à prisão. Mas ele passou com paciência por todas as provações. Postou-se destemidamente sob a espada desembainhada do governante opressor. O olhar irado do governante não pôde impedi-lo nem por um instante de dizer a verdade.
Então, pode-se afirmar sem hesitação que ele não conseguiu mudar o curso dos tempos? De modo algum. Os muçulmanos certamente não caminhavam, na primeira metade do século VIII, da mesma maneira como caminhavam até a primeira metade do século VII. Muitas mudanças haviam ocorrido em sua conduta. Agora haviam aprendido a caminhar de cabeça erguida e com dignidade. Haviam encontrado o propósito de suas vidas. A diferença entre o Islã e a kufr havia se tornado clara diante deles.
Tudo isso foi, em particular, mérito de um servo de Allah, de um homem mujahid. Após sua morte, a realização de orações fúnebres à sua ausência em todo o mundo muçulmano, do Egito à longínqua China, comprova sua enorme popularidade entre os muçulmanos. E ele também não poupou esforços para estabelecer corretamente o Islã. Tentou realizar, na estrutura estatal vigente, todas as reformas possíveis. Para isso, quando necessário, levantou a espada contra o poder real; em outras ocasiões, cooperou com ele. Contudo, não lhe foi possível empreender uma mudança revolucionária na estrutura estatal. Nem sequer pôde tomar qualquer medida que o conduzisse nessa direção.

Bibliografia
1. História da Da’wa e da Determinação, volumes 1 e 2 — Mawlana Abul Hasan Ali Nadwi
2. Imam Ibn Taymiyya — Shaykh Abu Zuhra (Egito)
3. História do Islã — Mawlana Akbar Shah Najibabadi
4. A Pregação do Islã — T. W. Arnold
5. Urdu Digest mensal, Lahore — fevereiro de 1968
6. Tarjuman al-Qur’an mensal, Lahore — abril de 1938
7. Fatwas do Imam Ibn Taymiyya
8. Renovação e Revitalização da Religião — Mawlana Sayyid Abul A’la Mawdudi
9. Califado e Monarquia — Mawlana Sayyid Abul A’la Mawdudi