Nota do tradutor
Naquela época, no Egito, estava em curso o infame esforço para reviver a civilização faraônica. Em todos os setores, prosseguia a tentativa de apagar os sinais do Islã. Foi nesse momento crítico que a Irmandade Muçulmana surgiu, em 1928. Empunhando a bandeira do movimento, avançou o maior pregador do século, o imã Hassan al-Banna.
É extremamente importante que os dedicados trabalhadores do movimento pelo estabelecimento da religião conheçam a história do programa e da estratégia de ação com os quais a Irmandade Muçulmana iniciou sua trajetória para estabelecer o Islã na era moderna. Em nenhum outro movimento islâmico da era moderna se encontrará um exemplo semelhante ao rolo compressor de opressão e perseguição imposto à Irmandade Muçulmana. Além dos homens, suas líderes mulheres também foram submetidas à mais abominável perseguição e brutalidade da história. Milhares de pessoas foram submetidas a punições severas sem terem cometido qualquer crime, apenas por serem parentes de membros da Irmandade. Ainda assim, foram aprovadas na prova de fogo da fé. Essa história da opressão e perseguição contra a Irmandade nos inspirará a renovar e fortalecer também a nossa fé.
Acima de tudo, a razão pela qual sinto a necessidade de traduzir este livreto é encontrar uma análise comparativa entre as atividades e o papel da Irmandade no objetivo de estabelecer a religião e o nosso movimento. As medidas que a Irmandade adotou e implementou com vistas à reforma social realmente nos surpreenderão.
Também é necessário refletir sobre o quanto avançamos — ou se ficamos muito para trás — em relação ao ritmo e à aceitação que o movimento da Irmandade tinha na primeira metade do século XX, isto é, há cerca de setenta anos. Além disso, precisamos estar plenamente informados sobre os tipos de obstáculos, adversidades, opressão e perseguição que um movimento islâmico pode enfrentar na era moderna, bem como sobre os recursos necessários para enfrentá-los, a solidez da fé e o discernimento exigidos.
O falecido Khalil Ahmad Hamidi apresentou, em um espaço extremamente conciso, um quadro claro do movimento da Irmandade. Foi necessário alterar ligeiramente o título original do livreto, por razões justificáveis. Se os leitores obtiverem algum benefício dele, nosso esforço terá valido a pena. Que ele seja uma fonte de inspiração para todos os envolvidos no movimento pelo estabelecimento da religião. Amém.
–O tradutor
Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso
A situação antes do movimento
Logo após o fim da Primeira Guerra Mundial, o Egito mergulhou numa grave crise política. Diversos problemas nacionais e tribais começaram a emergir no interior do país. Quando os turcos, portadores da bandeira do nacionalismo turco, anunciaram a abolição do sistema do califado, o nacionalismo e o patriotismo ganharam grande força entre os árabes em decorrência dessa reforma. Por causa de sua própria história, de sua importância política, da posição nacional de Al-Azhar, além de vários outros fatores, o Egito havia conquistado a liderança do mundo árabe. Por isso, quando os slogans do nacionalismo e do patriotismo se levantaram no Egito, seu eco foi imediatamente ouvido em todos os países árabes. Vários movimentos nacionalistas começaram a abrir as asas. O slogan de Saad Zaghlul (falecido em 1927)—
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(A religião pertence a Deus e o país pertence a todos nós) ganhou destaque. Sob a liderança de Mustafa al-Nahhas Paxá (falecido em 1964), o Partido Wafd iniciou sua trajetória. O movimento nacionalista, sob o disfarce do culto à pátria e usando como pretexto a abolição do califado pelos turcos, deu início a um conflito ideológico de consequências longas e abrangentes, ao promover o ateísmo, o zoroastrismo, ideias obscenas e a adoração do Ocidente. A posição dos reformistas era bastante sólida, pois eles controlavam o poder e os meios de comunicação e divulgação. Em oposição a isso, os porta-bandeiras do ideal islâmico não eram apenas fracos, mas, na medida em que existiam, também estavam privados de autossuficiência. Além disso, as disputas e hostilidades mútuas entre os partidos políticos corromperam o ambiente do país. Quando o Partido Wafd chegava ao poder, empenhava-se em prejudicar a imagem do Partido Dustur. Por outro lado, quando o Partido Dustur chegava ao poder, criava a questão de purificar o país das mãos do Partido Wafd.
Naquela época, foi publicada a obra humilhante de Ali Abd al-Raziq, Al-Islam wa Usul al-Hukm (O Islã e os princípios do sistema de governo). O tema central dessa obra era que a religião não tinha qualquer relação com os assuntos políticos e estatais e que o Islã não oferecia nenhuma possibilidade de conceder direitos políticos ao sistema do califado. A obra de Taha Hussein, Fi al-Shi’r al-Jahili, também foi produto dessa época repleta de conflitos, na qual eram suscitadas dúvidas e suspeitas acerca do próprio Alcorão. Em Tahrir al-Mar’a, de Qasim Amin, reivindicava-se uma liberdade feminina como aquela desfrutada livremente pelas mulheres ocidentais. Em nome da liberdade de pensamento e de expressão, lançavam-se ataques contra o Islã e, de modo geral, contra todas as religiões. O semanário Al-Siyasa era o porta-voz dos reformistas. Promovia, de maneira ostensivamente imparcial, a reforma, o renascimento da civilização faraônica e o estabelecimento de relações com o Ocidente. Os influentes líderes do Partido Dustur, Adli Yakan, Abd al-Khaliq Tharwat, Ismail Sidqi, Muhammad Mahmud e Lutfi al-Sayyid, eram seus patrocinadores e estimulavam seus ataques ao Islã. Porém, após a morte de seu poderoso editor, em 1926, também deixou de circular para sempre. Depois disso, no mundo dos jornais, sobreviveu apenas o semanário Al-Fatah, de Muhibb al-Din al-Khatib. Mas sua situação era tal que, quem poderia ouvir a voz de um pássaro canoro dentro de uma sala de música?
Como mencionei, a posição da religião era fraca e negativa. Nessas circunstâncias, depois de Sayyid Jamal al-Din al-Afghani (1897), Muhammad Abduh consolidou sua missão. Entretanto, o xeique Muhammad Abduh foi completamente malsucedido no campo político. Do mesmo modo, ao contrário de seu mestre Jamal al-Din al-Afghani, ele tinha medo da Europa. Entre seus discípulos, com exceção de Sayyid Rashid Rida (1933), não surgiu nenhum homem combatente. Embora o campo de atuação de Rashid Rida fosse limitado, ele apoiava o nacionalismo árabe no conflito entre turcos e árabes. Depois dele, porém, até a voz necessária silenciou-se, e, exceto Mustafa Sadiq al-Rafi’i, não havia ninguém capaz de avançar com autossuficiência para enfrentar a tempestade do materialismo e da depravação.
A situação tornou-se tão deplorável que, não apenas no Egito, mas na maioria dos países árabes, começaram a ser ensinados os lemas faraônicos e nimrodianos. A mais eminente personalidade da linhagem profética, Faisal bin Hussein, diz:
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Isto é, os árabes haviam se tornado os árabes anteriores a Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e a Moisés, que a paz esteja com ele.
Na Universidade de Damasco, chegou-se a realizar publicamente o funeral de Deus. Nas faculdades e universidades, continuaram impunemente as zombarias e o escárnio contra o Islã e Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Nas reuniões políticas, mencionar o nome do Islã passou a ser motivo de humilhação. Nos parques e jardins, os muçulmanos devotos chegaram a sentir vergonha de rezar. Depois que a situação chegou a esse ponto, certo dia o senso da dignidade da verdade se ergueu em toda a sua glória, e Allah fez, por intermédio de um jovem de Mahmudiyya, aquilo que nem os grandes ulemás e xeques haviam conseguido fazer. E ele era o fundador da Irmandade Muçulmana, o imame Hasan al-Banna.
Hasan al-Banna: personalidade e natureza
Hasan al-Banna nasceu em 1906, em Mahmudiyya, no seio de uma família islâmica. Embora seu pai, o xeque Ahmad Abd al-Rahman al-Banna, tivesse como profissão a fabricação de relógios, ele era um grande erudito. Possuía profundo conhecimento das ciências do hadith e do fiqh, além de ser um hafiz do Alcorão. O xeque Ahmad Abd al-Rahman al-Banna escreveu numerosas obras contendo comentários sobre os hadiths. Publicou muitas obras antigas depois de revisá-las e corrigi-las sob uma nova perspectiva. Editou o Musnad do imame Ahmad ibn Hanbal, que Allah esteja satisfeito com ele, à luz dos capítulos de fiqh. Mencionou a fonte, os narradores e a cadeia de transmissão de cada hadith, além de escrever notas de rodapé explicativas sobre os hadiths. O nome dessa obra é Al-Fath al-Rabbani fi Tartib Musnad al-Imam Ahmad al-Shaybani, e o nome de seu comentário é Bulugh al-Amadi min Asrar al-Fath al-Rabbani. De modo semelhante, escreveu uma obra de classificação e comentário sobre o Musnad de Abu Dawud al-Tayalisi, intitulada Minhaj al-Ma’bud. Tornou acessíveis, por meio de uma compilação e edição sob uma nova perspectiva, o Musnad do imame al-Shafi’i, que Allah esteja satisfeito com ele, e o Sunan Bada’i al-Musnad. Abd al-Rahman al-Banna realizou sozinho e por esforço inteiramente pessoal um trabalho acadêmico. Faleceu em 1960.
Abd al-Rahman al-Banna fez com que seu promissor filho memorizasse o Alcorão ainda na infância e despertou nele o interesse pelo estudo do conhecimento religioso. Além da educação doméstica, Hasan al-Banna matriculou-se na escola al-Diniyya, dirigida em Ismailia. Embora essa escola funcionasse sob supervisão estatal, dava especial importância ao ensino e à formação religiosa. Aos quatorze anos de idade, em 1920, Hasan al-Banna matriculou-se na Escola de Formação de Professores de Manhur e, ao contrário de seus colegas, era extremamente dedicado a viver uma vida islâmica. Depois, foi-lhe confiada a responsabilidade de lecionar em um centro educacional. Contudo, viajou para o Cairo a fim de prosseguir os estudos e matriculou-se em Dar al-Ulum, atualmente a Universidade do Cairo. Naquela época, Dar al-Ulum era chamada de “pequeno Azhar”. Além das ciências e dos conhecimentos modernos, da psicologia, da filosofia, da lógica, da ciência política, da sociologia e da matemática, deu especial atenção à linguística. Seu método de aprendizagem era inovador. Em 1927, Hasan al-Banna obteve o diploma de graduação em Dar al-Ulum. Em seguida, foi nomeado pelo Ministério da Educação como professor da madrasa Amiriyya de Ismailia, uma escola pública, e ali começou a trabalhar. Naquele momento, tinha vinte e um anos. Em 1933, foi transferido de Ismailia para o Cairo. A partir de então, passou a residir no Cairo. Em 1946, demitiu-se do Ministério da Educação e dedicou-se concentradamente à expansão da dawah e à construção de uma organização.
Hasan al-Banna era um pregador maior do que um erudito. O ambiente familiar e a educação que recebeu ajudaram-no a se formar exatamente da maneira que Allah desejava para que, por meio dele, fosse prestado um serviço. Além da educação do Azhar, o sistema educacional de Dar al-Ulum foi especialmente útil para iluminar suas características próprias de um pregador. O ambiente corrompido, a tempestade do ateísmo e as tentativas fracassadas dos intelectuais azharitas provocaram nele ondas de intensa angústia e preocupação. Allah lhe concedera uma personalidade extremamente forte e destemida, capaz de manter a serenidade mesmo em tempos difíceis. Ele não era dotado de excelência apenas no campo da perspicácia política e social; possuía também todas as características e aptidões de um pregador completo. Embora tenha iniciado sua jornada sozinho, em pouco tempo transformou o jardim desfolhado do Islã em uma terra verdejante, tornando-se a força vital de uma nação. Em vez de fertilizar esse jardim com água, reavivou a sunnah de fertilizá-lo com sangue. Além disso, fundou, com pessoas devotadas à pureza de caráter, uma jamaat que se movimentava com todo o vigor no rah-e junun que ele havia proposto.
A inspiração para a dawah, a reforma, o jihad e o bem-estar com que Allah agraciou Hasan al-Banna manifestou-se em todos os aspectos de sua vida. Uma estrutura organizacional formal, sob o nome de Irmandade Muçulmana, foi estabelecida em Ismailia, em março de 1928. Mas, antes disso, a vida de Hasan al-Banna já havia provado que essa personalidade exerceria influência não apenas sobre o Egito, mas sobre todo o mundo árabe.
Relação com a dawah islâmica
Quando Hasan al-Banna era aluno da escola Ar-Rashad ad-Diniyya, certo dia, ao passar pela margem do rio de Mahmudiyya, viu um veleiro parado junto à margem, sobre o qual estava pendurada uma estátua de madeira nua. Ao ver aquela cena, Hasan al-Banna ficou extremamente insatisfeito. Imediatamente, dirigiu-se ao posto policial local e apresentou uma queixa contra a estátua ao oficial de polícia. Impressionado pela consciência de fé do jovem estudante, o oficial foi imediatamente até o barqueiro e mandou retirar do mastro a estátua nua. Naquela época, os alunos da madrasa Ar-Rashad ad-Diniyya fundaram uma organização chamada Associação de Ética e Educação, e Hasan al-Banna foi eleito seu presidente. Mas como poderia este conselho satisfazer as elevadas aspirações desse jovem pregador? Ele fundou outra organização fora da madrasa, chamada Associação de Prevenção das Proibições (Associação de Combate às Injustiças). Essa organização ensinava às pessoas a prática do bem por meio de cartas. Quando chegava à organização a notícia de que alguém estava envolvido em atos proibidos e injustos ou negligenciava alguma obrigação religiosa, ela lhe enviava anonimamente uma carta, na qual o advertia e incutia nele o temor de Deus e do Além.
Quando Hasan al-Banna chegou à Escola de Formação de Professores de Damanhur, conheceu o xeique da Tariqa Hisafiyya. Os discípulos da Tariqa Hisafiyya realizavam uma sessão de dhikr após a oração do isha. Hasan al-Banna foi influenciado por aquela reunião espiritual, e seu entusiasmo pelo incentivo ao bem e pela proibição do mal recebeu novo vigor. Assim, a Providência providenciou especialmente sua formação espiritual. Embora a Tariqa Hisafiyya fosse uma irmandade do sufismo, Hasan al-Banna retirou desse método apenas o alimento para a alma. Pois, em sua visão, o chamado à religião precisava ser amplo e abrangente, em vez de ficar limitado a um método específico. Era necessário transformar esse chamado em fundamento da aquisição de conhecimento, da formação e do jihad. Naquela época, também se estreitou sua relação com outro comerciante sufi. Esse comerciante levava os alunos da escola uma vez a cada dez dias para visitar os túmulos e, ali, contava-lhes as histórias da vida dos homens virtuosos. Com isso, seus corações se enterneciam e seus olhos se enchiam de lágrimas. Dentro deles transbordavam o fervor e a inspiração para obedecer a Deus e ao Mensageiro. A relação de Hasan al-Banna com os irmãos Hisafis foi-se aprofundando gradualmente. Hasan al-Banna reuniu-os e fundou uma associação, chamada Associação Beneficente dos Hisafis (Associação de Serviço aos Irmãos Hisafis). Hasan al-Banna foi eleito secretário dessa associação. Ela tinha dois objetivos: primeiro, convocar à formação de um caráter moral elevado e criar resistência contra atividades proibidas e reprováveis; segundo, resistir aos missionários cristãos, que promoviam o cristianismo sob o disfarce de serviços médicos, treinamento para o desenvolvimento e orfanatos. Naquela época, Hasan al-Banna tinha apenas catorze anos.
Primeiros esforços no Cairo
Depois de ingressar em Dar al-Ulum, no Cairo, Hasan al-Banna ficou inquieto, por um lado, devido ao ambiente externo e, por outro, devido aos sentimentos interiores. Em seguida, ingressou como membro da Associação das Virtudes Morais, que era a única organização reformista no desastroso ambiente do Cairo daquela época. Participava regularmente das reuniões dessa organização. Contudo, na visão de Hasan al-Banna, o remédio para o Cairo, que avançava pelo caminho do desvio e mergulhava rapidamente na decadência moral e na ocidentalização, não podia limitar-se aos sermões nas mesquitas. Ele pensou que, na realidade, aqueles que não iam à mesquita eram os que mais necessitavam de exortação e aconselhamento. Era preciso criar neles pensamentos e ideias de reforma religiosa e moral. Para esse fim, Hasan al-Banna formou um grupo com alunos de Dar al-Ulum e de Al-Azhar, incentivando-os a interessar-se por aulas, treinamento e sermões de aconselhamento nos cafés e nas reuniões públicas. Como membro desse grupo, o próprio Hasan al-Banna também ia aos cafés para apresentar aulas do Alcorão e dos hadiths, e foi repetidamente alvo de zombaria e acusações por parte dos xeiques por causa dos jogos de azar, do vício em várias bebidas e das conversas frívolas. Contudo, a iniciativa atravessou com êxito cidades e portos e começou também a ser aplicada nas aldeias. Do próprio grupo foi formado um comitê, que assumiu a responsabilidade de supervisionar a divulgação e a expansão do chamado ao Islã. Durante as férias de verão, esse grupo tornava-se excepcionalmente ativo. Cidades e aldeias transformavam-se em seus campos de atuação. Hasan al-Banna e seus companheiros obtiveram duas coisas por meio desse método de pregação: autossuficiência e prática de falar em público.
Contudo, depois da revolução final, a onda de ateísmo que começou no Egito e a maneira como todo jovem influenciável se atraía por ela fizeram com que aquele choro limitado e débil se tornasse ineficaz. Sob o pretexto de liberdade e democracia, começaram a ser importados jornais, revistas, obras literárias e livros de tal natureza que seu objetivo era enfraquecer a consciência religiosa e eliminar do coração do povo o respeito e o amor pela religião. Assim, de acordo com as exigências dos defensores da liberdade, o país parecia tornar-se verdadeiramente repleto de liberdade de pensamento e de ação. Na visão de Hasan al-Banna, a situação exigia uma grande obra abrangente. Por isso, convocou os ulemás e os xeiques a dedicarem atenção a essa tarefa e incentivou-os a entrar no campo de forma organizada e coletiva. Encontrou-se com Sayyid Rashid Rida, editor do jornal Al-Manar, e estabeleceu relações com Muhibbuddin al-Khatib, proprietário da Al-Maktaba as-Salafiyya. Expressou ao ilustre sábio religioso de Al-Azhar, o xeique Uzayri, a dor e a angústia que trazia no coração. O xeique Muhammad Khadr Husayn apresentou ao xeique de Al-Azhar uma queixa sobre a situação. Hasan al-Banna trocou ideias com Fardi Wajdi, que naquela época era um dos principais eruditos do Egito. Hasan al-Banna encontrou-se com cada um deles e exortou-os a trabalhar pelo Islã com profunda dedicação e sinceridade. Como resultado de seus esforços, houve grande agitação nesse círculo; primeiro foi publicado o semanário Al-Fath e, depois, fundada a Associação dos Jovens Muçulmanos. Sob a direção de Muhibbuddin al-Khatib, Al-Fath elevou o grito do jihad no templo do pensamento ateísta, enquanto a Associação dos Jovens Muçulmanos, sob a liderança do Dr. Abd al-Hamid Sa’id, proclamou a firme determinação de resgatar a nova geração do desvio. Hasan al-Banna não apenas ingressou na Associação dos Jovens Muçulmanos, mas também foi considerado um de seus fundadores. Naquela época, Hasan al-Banna era aluno do último ano de Dar al-Ulum. O tema de sua tese, definido por Dar al-Ulum, tinha como título: “O que ele deseja fazer depois de concluir sua vida escolar e que medidas tomará para isso?”. Em resposta, Hasan al-Banna escreveu:
Quero ser um pregador e educador. Durante a maior parte do ano, durante o dia, treinarei a nova geração do Egito e, à noite e nos dias de folga, tentarei explicar aos seus responsáveis o propósito do Din. Informar-lhes-ei onde se encontram as fontes da paz e da felicidade e como alcançar a satisfação e a alegria na vida. Para esse fim, seguirei apenas os caminhos que estão ao meu alcance: por meio de palestras, discussões e conversas pessoais; escrevendo livros e folhetos; percorrendo estradas e lugares. Em suma, utilizarei todos os meios atrativos que puder.
Este é o fervor daquele jovem que, em meio ao mar profundo, não apenas desejava firmemente salvar a própria roupa, mas também se preocupava, ao mesmo tempo, em proteger a roupa dos outros.
Estadia em Ismailia e fundação da organização
Em 1927, Hassan al-Banna obteve o diploma de Darul Ulum. Em seguida, foi nomeado professor na Madrasa Amiriya de Ismailia. Ismailia era uma base dos ingleses, e o Canal de Suez estava sob o controle das forças inglesas. A Companhia do Canal de Suez, sobre a qual se havia estabelecido a concessão inglesa e francesa, mantinha subjugado o fluxo vital da economia egípcia. Os muçulmanos estavam divididos em grupos religiosos. Descontentes com as disputas e controvérsias religiosas, as pessoas passaram a frequentar as tabernas em vez das mesquitas. Diante dessa situação, Hassan al-Banna escolheu três cafés de Ismailia e, por meio de palestras e conversas, reanimou as pessoas. Também despertou nelas o senso de responsabilidade pela iqamat al-din.
Em março de 1928, um grupo de pessoas ilustres e conscientes de Ismailia reuniu-se na casa de Hassan al-Banna. Os seis membros do grupo chamavam-se, respectivamente, Hafiz Abdul Hamid, Ahmad al-Hasri, Fuad Ibrahim, Abdur Rahman Hasabullah, Ismail Izz e Zaki al-Maghribi. Essas pessoas vieram com a firme determinação de trabalhar. Após conversarem e trocarem opiniões, confiaram a Hassan al-Banna a supervisão do trabalho, a liderança e a orientação. Além disso, prestaram bay’ah, comprometendo-se a aceitar todos os sacrifícios possíveis para proteger os muçulmanos. Quando surgiu a questão de qual seria o nome daquela pequena organização, Hassan al-Banna disse imediatamente: “Somos todos Ikhwanul Muslimun (irmãos muçulmanos).” Esse nome simplesmente lhe saiu da boca. E foi assim que a organização passou a ser conhecida como Ikhwanul Muslimun.
Após a fundação da organização, Hassan al-Banna permaneceu em Ismailia durante cinco anos. Em seguida, em 1933, transferiu-se para o Cairo. Durante esses cinco anos em Ismailia, a organização atuou de maneira muito discreta e cautelosa. A mesquita era o centro principal da organização, e sua missão era: “Colorir toda a vida com a cor do Islã”.
Além de Ismailia, Hassan al-Banna e seus companheiros também saíam para levar a da’wah aos habitantes das regiões vizinhas. Nos dias de descanso semanal, tinham como alvo as áreas próximas. Além disso, durante as férias anuais, espalhavam-se por várias regiões distantes. Aulas, formação, discussões e palestras eram os meios de propagação da da’wah. Alguns mashayekh e pessoas invejosas fizeram de Hassan al-Banna alvo de censuras e críticas. Ainda assim, mesmo em meio a essa situação adversa, essa inundação silenciosa continuou a avançar. Os membros da organização apresentavam aulas em reuniões públicas. O tawhid e a akhirah eram seus temas. A partir das questões controversas, analisava-se a situação geral do país. As pessoas eram conscientizadas sobre os males internos e externos. A maioria daqueles que respondiam à sua da’wah pertencia à classe trabalhadora. Nas palavras de Hassan al-Banna, não havia aldeia ou bairro ao qual os membros da organização não tivessem chegado. Eles difundiram a da’wah de mesquita em mesquita, de casa em casa e nas casas de repouso.
O resultado do trabalho desses cinco anos foi o seguinte: em dois anos, foram estabelecidas filiais nas áreas de Abu Sobeir, Port Said e Bilah. No terceiro ano, uma filial sólida também foi estabelecida em Suez. No quarto ano, foram estabelecidas dez filiais. Em Ismailia, foi aberta uma escola para meninas.
Com a transferência do Imam Hasan al-Banna para o Cairo, as atividades de da‘wa entraram numa nova fase. Até então, tratava-se de um esforço inicial. Depois, porém, elevou-se à condição de uma organização mais ampla no país. Em outras palavras, no Cairo, a Irmandade Muçulmana assumiu a forma de um movimento plenamente estruturado.
As diversas fases do movimento
A primeira fase estendeu-se de 1933 a 1939. Nessa fase, o movimento surgiu em sua forma plena. A segunda fase prolongou-se de 1939 a 1945. Nessa fase, a da‘wa entrou abertamente na arena política. Como força organizada e coesa, tornou-se, aos olhos do governo, uma fonte de problemas. Assim, as nuvens das provações se abateram sobre ela. A terceira fase compreendeu nove anos, de 1945 a julho de 1954. Nessa fase, por um lado, o movimento da Irmandade se expandiu por todos os cantos do Egito; por outro, foi submetido a uma política de repressão extrema. Foi nessa fase que ocorreu o martírio do Imam Hasan al-Banna. O professor Hasan al-Hudaybi foi eleito o novo Guia-Geral do movimento. Em seguida, ocorreu uma revolução militar no país. Posteriormente, essa fase chegou ao fim quando o governo revolucionário declarou a Irmandade ilegal e condenou seus líderes à pena de morte. O breve relato das atividades dessas três fases é o seguinte:
Primeira fase:: 1933 – – 1939 d.C.
Reforma silenciosa
Nos primeiros anos no Cairo, esta da‘wah prosseguiu, como antes, de modo silencioso e discreto. Realizavam-se palestras e discussões de mesquita em mesquita; organizavam-se apoiadores e colaboradores; estabeleciam-se várias filiais e realizavam-se viagens às cidades e aldeias. Um ano depois, em 1934, o Imam Hasan al-Banna, ao apresentar num artigo o relatório das atividades anuais, declarou: “A da‘wah, os objetivos e as finalidades da Irmandade expandiram-se para mais de cinquenta cidades e aldeias do Egito. Em cada uma delas foi implementado algum projeto beneficente. Por exemplo, em Ismailia, a Irmandade construiu uma mesquita e fundou um clube. Foram abertas uma escola chamada Hira para a formação de meninos e outra chamada Umm al-Mu’minin para meninas. Em Shubrakhiyya, foram estabelecidos uma mesquita e um clube, uma escola para crianças e uma instituição técnica. Os meninos que não concluírem os estudos serão matriculados nela. Da mesma forma, em Mahmudiyya foi aberta uma fábrica de tecidos e tapetes. Além disso, foram fundadas escolas para a memorização e o ensino da recitação do Sagrado Alcorão. Em Kahlia também foi aberta uma madrasa para a memorização e a recitação. Em suma, cada filial, de Awfu a Alexandria, pôs em funcionamento algum projeto beneficente.”
Contribuição da educação no campo e exigências de reformas ao governo
A própria natureza da da‘wah e os novos problemas do país ampliaram o âmbito do movimento. Questões culturais e políticas também foram incorporadas aos seus objetivos. No campo cultural, os programas educacionais e de formação implementados pela Irmandade não conquistaram aceitação apenas entre o povo; o próprio governo, no âmbito estatal, não pôde deixar de se sentir atraído por eles. O primeiro-ministro Muhammad Mahmud Pasha aconselhou a Irmandade a abrir escolas também nas regiões onde o governo não possuía escolas. Hasan al-Banna chamou sua atenção para isso numa longa carta:
A moralidade da sociedade egípcia está diante da destruição. A grandeza moral, a beleza e a dignidade foram lamentavelmente despedaçadas. De todos os lados, fazem-se tentativas para enfraquecer seus fundamentos. Os jovens e a juventude, os indivíduos e as famílias — em suma, todos — tornaram-se alvos da destruição e passaram a necessitar de reformas urgentes. Para a reforma, também é indispensável adotar diversos meios. O método fundamental e básico consiste em corrigir o sistema educacional, introduzir as mudanças necessárias no sistema estatal, criar para os jovens boas oportunidades e meios de utilizar seu tempo livre e reprimir as injustiças com mão firme.
Desde Mahmud Pasha até o início da Segunda Guerra Mundial, o Imam Hasan al-Banna escreveu, em nome do grupo, a todos os ministros cujos gabinetes foram estabelecidos no país. Nessas cartas, eram apresentadas propostas de reformas internas. Recomendava-se melhorar a situação do país nos aspectos social, econômico e cultural. Além disso, exigia-se a aplicação da Sharia islâmica. Na carta que escreveu a Mahmud Pasha, descreveu detalhadamente a situação da nação egípcia e mencionou que o Egito se encontrava atrasado em termos de ignorância, pobreza, enfermidade, decadência moral e educação. Na carta enviada por sua parte ao primeiro-ministro para chamar sua atenção, escreveu:
A solução e o remédio para tudo isso encontram-se nos ensinamentos do Livro de Allah. Se for apresentada a desculpa de que os ingleses estão no poder no país, será uma desculpa completamente infundada. Os ingleses não têm qualquer relação com os nossos assuntos internos. E, se for alegado que aqui vivem milhões de estrangeiros, isso também se mostrará irrelevante. Podemos esclarecê-los por meio do diálogo. Eles próprios verão como as leis e os ensinamentos do Islã protegem os seus direitos e garantem a segurança das suas vidas e dos seus bens. Diremos o mesmo aos não muçulmanos. Eles deveriam estudar a nossa história para saber como mantivemos a justiça e a equidade nas relações com eles. O problema principal é a própria liderança egípcia. Ela desconhece a missão e o espírito do Islã. É necessário que os próprios líderes retornem à crença islâmica e à Sharia. A doença do ateísmo chegou ao Egito vinda da Turquia. Por isso, aconselhamos o governo de Muhammad Mahmud Paxá a erguer a palavra do Islã em oposição a ela e a transformá-la em seu próprio modo de vida.
O convite aos líderes do mundo muçulmano à pregação
A carta mais importante da Irmandade Muçulmana foi aquela que eles escreveram, em 1936, ao presidente do Egito, Faruk, ao primeiro-ministro Mustafa Nahas Paxá e aos líderes dos países árabes e muçulmanos. O título dessa carta era O Chamado da Luz. A carta ainda existe diante de nós, sob a forma de um pequeno livreto de trinta e cinco páginas. Nela, de modo extremamente conciso, porém com grande beleza de linguagem, eles começam lançando luz sobre os conceitos fundamentais e básicos do Islã e sobre a civilização islâmica. Além disso, afirmam claramente que, apesar da presença de uma filosofia de vida tão superior, a adoção do modo de vida, da cultura e do sistema social ocidentais é extremamente prejudicial. Depois dessa discussão inicial, apresentam uma análise comparativa entre a filosofia de vida islâmica e a filosofia de vida ocidental. Descrevem as características de ambos os sistemas. Assim, chega-se à conclusão de que o Islã, em todos os campos — seja na administração militar, na educação e na saúde, nas reformas econômicas e sociais ou nas leis e normas do Estado — garante o desenvolvimento da Ummah muçulmana e um ambiente pacífico. Por fim, são apresentadas propostas de reforma em cinquenta áreas. Dez delas dizem respeito à política, à justiça e aos métodos e princípios do Estado; trinta, às questões sociais e educacionais; e dez, às questões econômicas. Na realidade, essas propostas foram elaboradas com enorme esforço. Basta examiná-las uma vez para compreender que seus autores não eram apenas pessoas dotadas de conhecimento livresco, mas também possuíam experiência prática, estando diretamente envolvidos nos problemas do país. Embora tenham passado trinta anos desde então, as propostas ainda parecem igualmente úteis e atuais. As palavras finais da carta eram as seguintes:
Estamos prontos para dedicar todo o nosso esforço, capacidade e recursos a qualquer governo que esteja firmemente decidido a consagrar-se ao progresso e ao bem-estar da Ummah muçulmana. Responderemos espontaneamente a cada um de seus chamados e estaremos prontos para fazer todo sacrifício e oferecer toda abnegação.
Em 1938, foi enviada uma carta ao presidente do Egito. Nela, mencionava-se a queixa de que os partidos políticos haviam provocado desordem no país. O príncipe Umar Tusun e o príncipe Muhammad Ali Tawfiq também receberam uma carta sobre o mesmo assunto.
A Irmandade considerava que todos os partidos políticos existentes naquela época eram formados por iniciativa própria e não representavam o povo. E aquele era o momento de ouro para que todas as pessoas patriotas se unissem em torno do objetivo islâmico correto e o implementassem com todas as suas forças e com esforços sinceros. Em 1938, também foi apresentado um longo memorando ao ministro da Justiça, Ahmad Khasaba Paxá, no qual se exigia que, depois de cinquenta anos de experimentação de leis e normas não islâmicas, que haviam se revelado um completo fracasso, se experimentasse agora a Sharia islâmica. Nessa carta, foram também apresentadas declarações reconhecidas dos próprios ocidentais sobre a utilidade e a superioridade da lei islâmica.
Em 1938, quando Mustafa Nahas Pasha assumiu o cargo de primeiro-ministro, a Irmandade também lhe apresentou um memorando. Foi-lhe exigido que a política externa do Egito se consolidasse sobre o princípio fundamental da amizade com os países islâmicos, tendo como objetivo a construção da unidade islâmica. Em 1939, foi enviada outra carta a Nahas Pasha, recomendando que a vida dos membros do Partido Wafd, sob sua liderança, fosse animada pelos verdadeiros ideais do Islã. Além disso, propunha-se que o Partido Wafd formulasse seus objetivos e propósitos à luz dos princípios islâmicos. Essa declaração incluía propostas de reforma dos princípios dos legisladores, eliminação da diferença entre os tribunais ordinários e os tribunais da Sharia e aplicação da Sharia islâmica em todos os tribunais. Também foi apresentado um plano de reformas no sistema educacional. Entre as propostas estavam oferecer treinamento militar a todo cidadão saudável, combater a injustiça, modificar a política econômica, impedir a tendência de imitar a Europa e corrigir a deterioração dos costumes e normas governamentais. O tema central de todas essas cartas era estabelecer no Egito uma sociedade islâmica e um governo islâmico. Nos países árabes, essas cartas foram extremamente úteis para despertar os sentimentos das pessoas de orientação islâmica.
A Irmandade não se limitou a escrever cartas. Pelo contrário, utilizou todos os melhores meios e métodos disponíveis para aconselhar e convencer o grupo governante egípcio. Em 1963, Hasan al-Banna encontrou-se com Nahas Pasha. Naquela época, Nasim Pasha era o primeiro-ministro. A Irmandade havia exigido do governo de Nasim Pasha a introdução da educação religiosa entre os professores egípcios. Hasan al-Banna também informou Nahas Pasha detalhadamente sobre essa exigência e, por ser um dos políticos proeminentes do país, obteve seu apoio à causa. Nahas Pasha ficou tão influenciado por Hasan al-Banna que, segundo as próprias palavras de Hasan al-Banna, considerava-o, isto é, considerava Hasan al-Banna, um conselheiro orientador do Partido Wafd.
Não muçulmano Estado acerca do da Irmandade princípios posição
De acordo com os esforços empreendidos pela Irmandade para conduzir o Estado pelo caminho correto, é necessário saber que, até então, qualquer que fosse o governo que chegasse ao poder no Egito, fosse ele do Partido Dastur, do Partido Wafd ou dos Livres, a Irmandade não apoiou nenhum deles; ao contrário, manteve-se sempre afastada deles. O objetivo dessa política da Irmandade era:
“Um governo estabelecido diretamente sobre princípios não islâmicos jamais pode oferecer qualquer bem. Eles não são dignos de qualquer cooperação ou patrocínio.”
Embora o grupo governante seja muçulmano e não negue abertamente o Islã, a Irmandade, por isso, exige de todos os governos reformas e correções, e continua apelando à implementação de uma legislação islâmica completa no país. Ao mesmo tempo, eles próprios se tornam seus seguidores. Nunca adotaram o caminho do terrorismo ou do uso da força. Pelo contrário, observa-se que, sempre que um governo reconhece sinceramente que aceita suas reivindicações e demandas, eles também não hesitam em oferecer-lhe apoio.
Convocação islâmica coletiva
Nesta etapa, a última e mais importante atividade foi que a missão da Irmandade Muçulmana se manifestou como uma da‘wa abrangente, completa e de longo alcance. Em 1938, realizou-se no Cairo a Quinta Conferência, na qual o Imam Hasan al-Banna proferiu um longo discurso. Nele, apresentou detalhadamente, com plena explicação e análise, os objetivos e o programa da Irmandade. Aludindo à amplitude de sua da‘wa, ele disse:
A Irmandade Muçulmana é uma antiga da‘wa. Isso porque a Irmandade convoca ao retorno às raízes do Islã e chama às fontes originais do Livro de Allah e da Sunnah do Mensageiro. Ela é um caminho sunita, pois a Irmandade procura seguir a Sunnah purificada em todos os costumes, condutas e atos de adoração. Ela é tasawwuf, porque, no pensamento da Irmandade, a base da piedade é a purificação da alma, a pureza do coração, a prática incessante, a independência em relação às criaturas, o amor a Allah e a cooperação no caminho do bem. Ela é um partido político, porque, por um lado, a Irmandade exige do governo reformas nos assuntos internos e externos e, por outro, educa a nação para a identidade própria e o senso de dignidade. Ela é uma organização militar, porque a Irmandade dá grande importância ao treinamento físico e forma equipes esportivas. Ela é uma associação cultural, pois os clubes da Irmandade são, na prática, escolas de ensino e refinamento, bem como instituições para iluminar a consciência, a razão e o espírito. Ela é uma empresa econômica, porque o Islã orienta a aquisição de riqueza sob uma perspectiva específica, e a Irmandade estabelece empresas comerciais e econômicas para fortalecer a economia nacional de acordo com os ensinamentos do Islã. Ela é uma filosofia social, porque a Irmandade se concentra em todas as enfermidades da sociedade, busca sua cura e trabalha para libertar a nação delas. (Resumo)
O Islã sobre o pensamento da Irmandade a respeito
Nesse discurso, Hasan al-Banna expôs detalhadamente os objetivos, princípios e programa de seu partido, a visão do partido sobre as questões nacionais e sua política em relação aos demais Estados muçulmanos. Posteriormente, esse discurso foi adotado como os princípios fundamentais do partido. Por isso, considero necessário descrever alguns de seus aspectos importantes.
“Algumas pessoas consideram o Islã limitado apenas aos atos externos de adoração. Se elas próprias os praticam ou se outra pessoa os realiza, sentem-se satisfeitas com isso. Algumas não consideram o Islã nada além de uma moral elevada e de uma espiritualidade completa. Para elas, o Islã consiste em manter-se totalmente afastado de toda a sordidez da vida material. Algumas pessoas não avançam além de palavras agradáveis sobre o aspecto prático e combativo do Islã. Outras consideram o Islã algo recebido por herança e digno de imitação, embora não haja em sua luta pela vida nem sacrifício nem benefício. Por isso, não se intrometem de modo algum em assuntos relacionados ao Islã. Vocês podem ouvir esse tipo de discurso daqueles que foram tingidos pelas cores da civilização e da cultura ocidentais. Há ainda vários outros grupos da mesma natureza, que mantêm uma visão própria e particular sobre o Islã. Nossa crença é que os ensinamentos e as leis do Islã estão relacionados tanto à vida mundana quanto à vida terrena. Aqueles que pensam que os ensinamentos do Islã se limitam ao aspecto espiritual da vida ou ao âmbito da adoração individual, sem qualquer relação com os demais campos da vida, estão mergulhados num grave erro. O Islã é tanto o nome da crença e da fé quanto o nome da adoração. É o nome da pátria, da nação, da religião, do sistema de governo, da espiritualidade e da ação prática. O Islã é, por um lado, o Alcorão e, por outro, a espada. O Alcorão aborda todos esses assuntos e os reconhece como elementos fundamentais do Islã.” (Resumo)
Ao destacar as características distintivas da da‘wa da Irmandade, Hasan al-Banna mencionou que algumas dessas características não seriam encontradas nos grupos contemporâneos. Entre elas estão:
1. Livre de divergências de fiqh
2. Independência em relação aos grupos influentes
3. Mantendo-se afastados dos partidos políticos
4. Seguindo o princípio da progressão nos métodos de trabalho
5. Trabalho prático, produtivo e avesso à publicidade
6. Rápida expansão da da‘wa nas cidades e aldeias
Objetivos e metodologia de trabalho
Os objetivos e a metodologia de trabalho foram descritos resumidamente da seguinte forma: o objetivo e a reivindicação dos esforços e da luta da Irmandade são apenas tornar a nova geração de muçulmanos tão familiarizada com os ensinamentos verdadeiros e corretos do Islã que ela siga plenamente o Islã em todos os aspectos da vida. Para alcançar esse objetivo, a metodologia de trabalho que adotaram é, em resumo, a seguinte:
Mudar a opinião pública e formar os portadores e apoiadores da da‘wa de acordo com a educação islâmica, para que possam permanecer estreitamente ligados ao Islã e tornar-se um exemplo para os outros na obediência e no seguimento do Islã.
Ao apresentar aos membros da organização as qualidades e características do pregador ideal, Hasan al-Banna disse:
Quando forem formados entre vocês trezentos homens, cada um dos quais seja fortalecido, no aspecto espiritual, pela força da fé e da ‘aqidah; adornado, no campo do pensamento e da consciência, com o conhecimento, a civilização e a cultura; e, fisicamente, alcance a excelência por meio de um corpo saudável e do treinamento militar, então poderão me pedir que atravesse com vocês a vasta extensão do mar, flutue pelo vazio do céu e lute contra todas as forças da falsidade. Então, insha’Allah, não hesitarei de modo algum em realizar essa tarefa.
A acusação de terrorismo e ambição pelo poder, e sua resposta
Ao responder a algumas objeções e dúvidas dos opositores, ele menciona: um grupo nos pergunta: as atividades da Irmandade Muçulmana também incluem o Estado e o poder? Vocês consideram que a Irmandade Muçulmana segue plenamente os limites islâmicos em todas as suas ações e planos. Se ela crê no Islã, reconhece o Estado como algo tão necessário quanto reconhece a pregação e a exortação. O terceiro califa do Islã, Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), disse:
**************Árabe***************
“Allah, por meio do sistema estatal e do poder, impede aquelas coisas que não podem ser impedidas unicamente pelo Alcorão.”
O Profeta, sallallahu alayhi wa sallam, considerou o poder uma das alças do Islã, e nos livros de fiqh o poder também foi incluído entre as crenças e os fundamentos, não entre os ramos.
A maioria das pessoas pergunta se a Irmandade Muçulmana usa a força para alcançar seus objetivos. No entanto, a Irmandade nem sequer deseja pensar naquilo que se entende por revolução terrorista. Em nenhuma circunstância confia nesse método, nem deseja aproveitá-lo ou beneficiar-se dele. É assim que afirma claramente a todos os governos do Egito que, se a situação continuar desse modo e os especialistas não pensarem em nenhum método para remediá-la, sua consequência inevitável se manifestará sob a forma de uma revolução extremista. Isso, porém, não significa que a Irmandade promoverá uma revolução dessa natureza ou que sua pregação produzirá tal resultado. Pelo contrário, ela ocorrerá como consequência da pressão das circunstâncias, das exigências dos acontecimentos e do recuo em relação à reforma. (Resumido)
Nesse período, a Irmandade também publicou vários periódicos semanais e mensais. Os semanais At-Ta’aruf e Ash-Shi‘a, e o mensal Al-Manar, foram publicados nessa época. Pouco tempo depois, no Egito, além do jornalismo islâmico, iniciou-se o envio de equipes de pregação ao exterior e estabeleceram-se contatos com os demais países árabes. Em seguida, nesses países, foram estabelecidas sedes da Irmandade com base nas oportunidades, facilidades e relações mútuas, que adquiriram o status de centros permanentes.
Segunda fase (1939 – 1945)
Início da provação
Esta fase abrangeu seis anos. Durante esses anos, o mundo estava envolto na pólvora da guerra mundial. Nesse período, o movimento dos Ikhwan tornou-se vítima de extrema opressão e perseguição. Antes disso, o movimento era ignorado, por ser considerado um esforço reformista e religioso. Porém, quando sua da‘wah começou a abordar cada campo da vida e, juntamente com uma revolução intelectual e social, passou a exigir também reformas políticas e administrativas, a testa do grupo governante se cobriu de rugas de preocupação. Mesmo em meio às inúmeras provações de fogo desta fase, houve um desenvolvimento extraordinário em ambas as vertentes do movimento.
Na fase seguinte, seu progresso e ascensão deveram-se ao fato de que professores e estudantes universitários, inspirados pelos esforços, pela luta e pelo trabalho construtivo dos Ikhwan, foram influenciados e começaram a participar de suas reuniões. Em particular, pessoas de diversas profissões ligadas às universidades Fuad al-Awwal e Al-Azhar também começaram a ingressar no grupo em grande número. Comerciantes, industriais, engenheiros, médicos, professores, advogados—em suma, pessoas de diferentes classes—aderiram a ele. Por um lado, as atividades econômicas do grupo se ampliaram cada vez mais; por outro, também se alcançaram vários progressos nas áreas da educação, da cultura e do treinamento físico. Filiais foram estabelecidas nas regiões mais remotas do país, e nelas foi implantado um planejamento organizado. Em uma palavra, o grupo surgiu dentro do país com o status de uma organização poderosa e passou a ser um espinho nos olhos de seus opositores.
Aquele era o período da guerra mundial. Os governos locais começaram a seguir os partidos políticos por iniciativa própria e por orientação das potências imperialistas; leis e regulamentos desordenados foram impostos no país, e teve início o conflito entre o governo e os partidos. Nessa fase, oito gabinetes foram formados sucessivamente no país: os gabinetes de Ali Maher, Hussein Sabri, Hussein Sirri, Mustafa al-Nahhas, Ahmad Maher, al-Nuqrashi Pasha, Ismail Sidqi e, novamente, de al-Nuqrashi Pasha. Durante os governos de Ali Maher e Hussein Sabri, os Ikhwan continuaram, como de costume, por meio dos jornais, seu trabalho de da‘wah, de ordenar o bem e proibir o mal. Além disso, quando Ali Maher apresentou a proposta de manter o Egito afastado da guerra, os Ikhwan apoiaram incondicionalmente essa proposta.
Instigador da provação
Depois que Hussein Sirri Pasha assumiu o poder, extrema opressão e perseguição recaíram sobre os Ikhwan. O rápido progresso que a da‘wah dos Ikhwan alcançava da noite para o dia estava prejudicando os privilégios britânicos. A política dos Ikhwan mencionada por Hasan al-Banna na quinta assembleia (que já foi descrita) era suficiente para criar nos ingleses a convicção de que esse movimento se tornaria, para eles, uma montanha de obstáculos em todo o mundo árabe.
O Partido Constitucional de Adli Yakan ou o Partido Wafd de Mustafa Nahhas eram, sem dúvida, desejosos da independência do Egito. Porém, ambos os partidos eram nacionalistas, e seu horizonte atraente limitava-se ao vale do Nilo. Já o chamado da Irmandade estava livre de todos esses vínculos. A Irmandade sempre foi porta-bandeira da unidade nacional. Também apoiava a unidade árabe, e a unidade islâmica era sua missão. Eles não julgavam a unidade nacional ou árabe a partir da perspectiva adotada pelos nacionalistas ou adoradores da nação. Pelo contrário, eram porta-bandeiras dessa unidade unicamente com o objetivo da ascensão e expansão do Islã. Hasan al-Banna declarou na assembleia mencionada que o Islã não defende fronteiras geográficas nem os vínculos de sangue e linhagem. O Islã considera todos os muçulmanos uma única nação e todos os países islâmicos um único país, embora, geograficamente, estejam muito distantes uns dos outros. A unidade dos países islâmicos é indivisível. A opressão de qualquer uma de suas partes provoca uma onda de opressão sobre toda a existência. Por isso, a Irmandade Muçulmana considera a unidade islâmica extremamente sagrada e digna de honra. A respeito do califado, ele descreveu a visão da Irmandade: a Irmandade Muçulmana considera o califado um símbolo da unidade islâmica e um farol de amizade e de relações profundas entre os diversos povos muçulmanos. Além disso, atribui máxima importância à concepção do califado e aos esforços para restabelecê-lo.
Dirigindo-se aos Estados europeus, ele disse: a Irmandade Muçulmana considera injustos os governos que oprimem ou têm oprimido os Estados islâmicos; é necessário repelir pela força essas potências agressoras.
Com base nisso, a Irmandade ergueu a voz pela independência da Palestina, pela independência da Argélia e pela independência de todos os países islâmicos sobre os quais se estende a abominável sombra do imperialismo. E, com esse objetivo, incita a nação muçulmana à jihad.
Essa visão da Irmandade Muçulmana era insuportável para os ingleses. A embaixada britânica e o comandante do exército britânico pressionaram Hussein Sirri Pasha. Como resultado, o governo de Hussein Sirri primeiro fechou os semanários da Irmandade, Al-Ta’aruf e Al-Shi’a, e a revista mensal Al-Manar. Em seguida, proibiu a publicação de qualquer tipo de literatura. A gráfica da Irmandade foi selada. Os líderes do movimento foram enviados para diferentes lugares. O Imam Hasan al-Banna foi enviado do Cairo para Qena, e seu assistente, Ahmad al-Sukkari, para Damietta. Quando se estabeleceu contato no Parlamento egípcio a respeito dessa medida abominável do governo, este foi obrigado a autorizar o retorno desses dois ilustres homens. Porém, lançando novamente, pela segunda vez, um violento ataque, o governo prendeu o Imam Hasan al-Banna e o secretário da Irmandade, e depois os libertou. Essa perseguição e opressão despertaram o interesse do povo pelo movimento, e o número de seus membros e apoiadores aumentou de maneira extraordinária.
Nahhas Pasha política dupla
Após Hussein Sirri Pasha, foi formado o gabinete de Mustafa Nahhas Pasha. Mustafa Nahhas Pasha adotou uma política dupla em relação à Irmandade. O Imam Hasan al-Banna desejava participar das eleições parlamentares pelo distrito eleitoral de Ismailia. Porém, vendo a situação se deteriorar, Nahhas Pasha pediu a Hasan al-Banna que se abstivesse dessas eleições. O Imam al-Banna atendeu ao pedido de Nahhas Pasha e, adotando uma política de conciliação com a Irmandade, ele lhe concedeu autorização para realizar a assembleia. Restabeleceu os jornais e suspendeu a proibição imposta à gráfica. Mas isso foi apenas uma manobra temporária. Pouco tempo depois, Nahhas Pasha também, deixando de lado as reivindicações dos democratas, adotou como objetivo reprimir a Irmandade. Todas as suas filiais e subfiliais, exceto a sede central da Irmandade, foram fechadas. Foram impostas restrições às assembleias, reuniões, atividades de divulgação e a todo tipo de atividade. Nas palavras do historiador da Irmandade, Muhammad Shawqi Zaki:
A Irmandade enfrentou a perseguição e a opressão do governo com extrema paciência e firmeza. Até mesmo o governo de Nahhas Pasha se viu diante de uma situação difícil. Mal as relações entre a Irmandade e o governo de Nahhas começavam a se normalizar, o governo os libertava, e eles voltavam a ficar ativos. Porém, depois disso, o governo privou-os da liberdade de expressão. Então, fizeram da paciência, da tolerância e da esperança um hábito.
Em suma, apesar desses grandes obstáculos e adversidades, a Irmandade continuou cumprindo, de várias maneiras, o dever de aconselhar e instruir o governo. Finalmente, em 1944, o gabinete de Nahhas foi dissolvido.
Participação da Irmandade nas eleições
Depois de Nahas Pasha, veio Ahmed Maher. À luz de suas próprias ideias e perspectivas, ele também adotou a repressão como política. Na assembleia de 1941, a Irmandade decidiu participar das eleições e apresentar seus membros mais qualificados para estabelecer a supremacia dos ideais islâmicos.
Durante o período do governo de Nahas, Hasan al-Banna quis participar das eleições, mas a política dúbia de Nahas Pasha tornou-se um obstáculo, e o Imam al-Banna também se absteve das eleições por razões justificadas. Durante o governo de Ahmed Maher, a Irmandade anunciou que participaria das eleições a qualquer custo. Contudo, nem o governo de Ahmed Maher nem os comandantes do exército inglês estavam satisfeitos com isso.
Hasan al-Banna foi indicado como candidato pelo distrito eleitoral de Ismailia. Com isso, pela primeira vez na história das eleições egípcias, o povo comum teve a oportunidade de trabalhar em favor de um candidato que correspondia às suas aspirações. Cerca de sessenta centros de campanha eleitoral foram estabelecidos na cidade. Cartazes nas paredes, procissões populares e estudantes de escolas e faculdades — todos portadores da bandeira do renascimento islâmico — faziam intensa campanha para votar em Hasan al-Banna. Sua vitória era certa. Entretanto, para satisfazer os ingleses e fazer o candidato do Partido Dustur vencer, o governo egípcio empregou todas as armas contra Hasan al-Banna, e os veículos das forças inglesas atuaram abertamente em favor do candidato adversário. Os oficiais do exército transferiram em massa os funcionários egípcios dos acampamentos militares para diversos lugares fora do distrito eleitoral. Foram adotadas todas as táticas de fraude, engano, pressão, desmoralização e terror. Ainda assim, Hasan al-Banna obteve uma vitória esmagadora.
Por fim, com base em objeções e acusações forjadas, a eleição foi declarada anulada e uma segunda eleição foi organizada. Dessa vez, o exército intensificou suas atividades várias vezes. O governador inglês do Sinai, Pasha Hamrasyli, expulsou os membros de Hasan al-Banna dos distritos eleitorais do Sinai e de Arish e trouxe trabalhadores de outros acampamentos, que depositaram votos falsos em quantidade suficiente para transformar a vitória certa de Hasan al-Banna em derrota. Embora isso tenha ocorrido no caso de Hasan al-Banna, o mesmo tratamento foi dado aos demais candidatos da Irmandade. Nenhum candidato teve permissão para conhecer a vitória.
Nakrashi Pasha do primeiro ministério período
Ahmad Maher Paxá juntou-se às potências aliadas e declarou guerra contra a Alemanha e a Itália. A Irmandade opôs-se firmemente a essa decisão e apresentou por escrito a Ahmad Maher os argumentos contra ela. O povo egípcio também manifestou intensa indignação contra essa declaração, e a situação do país tornou-se cada vez mais turbulenta. Nessa conjuntura, quando Ahmad Maher foi morto pelo disparo de um cristão, Mahmud Fahmi al-Naqrashi Paxá foi nomeado primeiro-ministro. Hasan al-Banna, o secretário-geral da Irmandade e alguns líderes centrais, porém, foram presos sob a acusação de envolvimento no assassinato de Ahmad Maher. Como prova dessa acusação, foi apresentado o fato de que o assassino cristão mencionara, durante a investigação, que Ahmad Maher deveria ter consultado os intelectuais e pensadores do país antes de declarar guerra. Entre eles, o cristão também pronunciou o nome de Hasan al-Banna. A Irmandade contestou as prisões no tribunal, e este ordenou a libertação. Assim que foi libertado, Hasan al-Banna encontrou-se com al-Naqrashi Paxá e expressou profundo pesar pelo assassinato de Ahmad Maher. Pediu também a al-Naqrashi Paxá permissão para trabalhar livremente, mas ele rejeitou o pedido. Até o fim da Segunda Guerra Mundial (1945), a política de al-Naqrashi Paxá em relação à Irmandade era ambígua: havia rigor, mas muitas coisas também eram vistas com tolerância. Quando se concedia autorização para uma assembleia, no dia seguinte ela era cobrada de volta com juros. Em meio a essa tensão, a guerra mundial terminou subitamente, e a situação assumiu uma forma diferente.
Terceira fase(1945–1948)
O surgimento do movimento e seu desfecho
Esta foi a fase mais significativa do movimento da Irmandade. Durante esse período, o movimento surgiu plenamente e deparou-se com um desfecho que passou a ser considerado motivo de reflexão ilimitada para todos os movimentos islâmicos do mundo. Primeiro, apresentaremos um breve panorama das atividades realizadas nessa época pelo movimento da Irmandade em diversos campos.
Em 8 de setembro de 1945, realizou-se a sessão do Conselho Geral da Irmandade, da qual participaram todos os seus membros. Nessa sessão, foram introduzidas amplas emendas à constituição da Irmandade, que recebeu uma forma completa e ampliada quanto aos seus objetivos e à sua política de ação. A maioria dessas emendas refletia o conteúdo do discurso proferido pelo Imam Hasan al-Banna na quinta sessão, em 1938. Por meio da bay’ah (juramento), foi renovado o compromisso de obediência ao amir da organização e às ordens do murshid. A escuta e a obediência nas boas ações foram consideradas indispensáveis em todas as circunstâncias. Foi reafirmada uma dependência integral de Hasan al-Banna. Ele foi eleito murshid geral vitalício. O direito de destituí-lo e de realizar mudanças foi concedido exclusivamente ao Conselho Fundador.
A solidez interna e o firme moral ampliaram ainda mais a influência do movimento. Em um ano, esse movimento alcançou o auge do desenvolvimento nos campos do treinamento espiritual, material e militar. Segundo um relatório do Time of London, somente entre os trabalhadores o número de membros da Irmandade cresceu de trezentos mil para seiscentos mil. Segundo o relato de Hasan al-Banna, os quinhentos mil mencionados no relatório do Times representavam a Irmandade. Esses quinhentos mil representantes refletiam os pensamentos, as esperanças e as aspirações de setenta milhões de árabes e de trezentos milhões de muçulmanos em todo o mundo. De acordo com o memorando do amir do vice-murshid da Irmandade, apresentado ao Conselho de Estado, em 1948 o número de membros ativos da Irmandade era de quinhentos mil somente no Egito. Além disso, o número de simpatizantes era várias vezes maior. Somente no Egito, havia cerca de seis mil filiais.
Também foram estabelecidas filiais da Irmandade fora do Egito. Na Síria, uma filial da Irmandade foi estabelecida em 1937 sob a liderança de Mustafa al-Sibai (falecido). Filiais também foram estabelecidas em outros países sob a autoridade da sede. Em 1946, realizaram-se conferências da Irmandade na Palestina, quase ao mesmo tempo na Jordânia e, naquele mesmo ano, no Sudão, das quais participaram representantes do Líbano, da Jordânia e da Palestina. Em outubro de 1946, durante a temporada do hajj, uma delegação foi a Meca sob a liderança de Hasan al-Banna e encontrou-se com ilustres peregrinos e pensadores islâmicos de todo o mundo. Em 1947, as sementes desta dawah também foram plantadas no Iraque, onde ela se manifestou sob vários nomes. Sua corrente principal era liderada pelo xeique Muhammad Mahmud al-Sawwaf. Delegações da Irmandade também participaram de conferências em países ocidentais e de conferências internacionais.
Jornal diário lançado
Em 5 de maio de 1946, a Irmandade lançou um jornal diário chamado Ikhwan al-Muslimun. Foi o primeiro jornal islâmico corajoso a surgir no mundo da imprensa. Até então, durante vinte anos, a jahiliyyah havia mantido domínio absoluto sobre o jornalismo egípcio. Esse jornal não se espalhou apenas pelo Egito, mas também por outros países árabes, tornando-se gradualmente popular. Com extrema coragem, revelou os segredos do colonialismo inglês e provocou medo entre os círculos coloniais.
Sistema de empresas comerciais
A Irmandade também expandiu o sistema de empresas econômicas para diversos lugares, obtendo com isso lucros extraordinários. Sua aceitação entre a classe trabalhadora aumentou. O treinamento militar foi consolidado sobre uma base sólida. Além disso, foram formados vários grupos militares. Nesse período, a educação e a cultura também prosperaram consideravelmente.
Confronto com os ingleses
Por um lado, a organização se fortaleceu e alcançou esta etapa de progresso, da qual apresentamos acima um quadro geral. Por outro, o grupo entrou corajosamente na arena política. Assim que terminou a Guerra Mundial, a Irmandade exigiu que os ingleses cumprissem a promessa feita aos egípcios durante a guerra. Essa promessa era a concessão da independência. Hassan al-Banna encontrou-se com Mahmoud Fahmi al-Naqrashi Pasha e pediu-lhe que o governo estabelecesse os direitos nacionais e se preparasse para tornar significativo o sonho de estabilidade e unidade do vale do Nilo; caso contrário, deveria deixar a nação livre para realizar suas aspirações por meio do jihad. Naquele momento, a nação egípcia estava mergulhada numa situação delicada. A seu ver, aquele era o momento decisivo para se libertar das correntes do Império Britânico. Hassan al-Banna era o guia da nação. Ele levantou vigorosamente a exigência de independência e liderou o movimento pela independência. Alarmado, al-Naqrashi Pasha enviou um memorando ao governo britânico. Porém, em vez de reconhecer publicamente a exigência de independência, o governo britânico enviou uma resposta diplomática. Essa resposta não conseguiu persuadir a Irmandade a aceitar negociações por escrito. Juntando-se ao movimento da Irmandade, o povo e os estudantes realizaram uma enorme manifestação contra os ingleses, e ocorreu o episódio sangrento conhecido na história do Egito como o Incidente Violento. Por causa dessa manifestação e das consequências dela decorrentes, al-Naqrashi Pasha foi obrigado a renunciar ao cargo ministerial. Ismail Sidqi Pasha assumiu o ministério. A Irmandade continuou exigindo a retirada dos ingleses, e as assembleias e manifestações prosseguiram. Os representantes da Irmandade espalharam-se pelas aldeias e regiões rurais do Egito, elevando a voz da independência. Os jornais da Irmandade alimentaram ainda mais essa chama. De todos os lados, proclamava-se o jihad contra os ingleses. Com a chegada de Ismail Sidqi Pasha, as manifestações se tornaram ainda mais intensas. Todas as forças da Irmandade se lançaram ao movimento pela conquista da independência.
Nessas circunstâncias, Hassan al-Banna convocou uma reunião de todos os partidos, para que se pudesse formar um conselho nacional. Ele unificaria e organizaria o povo, e toda a nação avançaria com uma só voz rumo à conquista da independência. Mas, infelizmente, os partidos políticos fingiram não ouvir. O nacionalismo do Partido Nacional vacilou; nem o slogan de Saad Zaghloul Pasha, “a pátria é de todos”, teve qualquer efeito, nem a reivindicação democrática do Partido Wafd avançou em favor do serviço ao povo.
Ao ver a atitude apática dos adversários políticos, Hassan al-Banna tomou a iniciativa e aconselhou Sidqi Pasha a abandonar as discussões e negociações com o governo britânico e escolher diretamente o caminho do jihad. Porém, ao perceber que o governo era subserviente aos britânicos, a Irmandade o criticou e censurou severamente. Acusou também o governo de trair o país e de manter amizade com os imperialistas. Os jornais da Irmandade escreveram claramente que o governo havia adotado uma política flexível em relação às companhias coloniais, tornara-se incapaz de resolver o problema do desemprego e se afastara do jihad diante da pressão inglesa. Os jornais também condenaram veementemente as negociações com os ingleses; empregaram uma linguagem agressiva contra Sidqi Pasha e publicaram reportagens inflamadas sobre a colonização britânica, fazendo as emoções do povo arderem ainda mais. Nessa época, a Irmandade apresentou um memorando ao rei Faruq. Nele se afirmava que o ministério de Sidqi Pasha era incapaz de atender às reivindicações nacionais. A sede central da Irmandade ordenou a todas as filiais que rompessem todas as relações econômicas, culturais e sociais com os ingleses.
Sidqi Pasha campanha de repressão
Desorientado, Sidqi Pasha lançou-se contra a Irmandade. Inúmeras pessoas foram presas. A publicação do diário Irmãos Muçulmanos foi suspensa. Até o vice-Guia-Geral foi preso. (O Guia-Geral, Hassan al-Banna, havia partido naquela época para o hajj acompanhado de uma delegação.) A Irmandade respondeu a essa política repressiva com protestos e condenações em todo o país. Ocorreram confrontos no Cairo e em Alexandria. Usando isso como pretexto, as casas dos membros da Irmandade foram cercadas e revistadas com extrema crueldade. Nem mesmo as mulheres das casas foram poupadas de humilhações. Houve amplo assédio e intimidação. Alguns membros da Irmandade que trabalhavam em repartições públicas foram demitidos, e muitos foram transferidos para lugares distantes. Toda essa situação provocou profunda lamentação em todo o Egito, e Sidqi Pasha foi obrigado a renunciar ao poder.
Nakrashi Pasha do ministério segundo período
Em 10 de dezembro de 1946, Nakrashi Pasha foi nomeado primeiro-ministro pela segunda vez. As circunstâncias exigiam que, dessa vez, se entregassem as rédeas desse campo de batalha a um homem rico. Mahmoud Fahmi Nakrashi Pasha, presidente do Partido Saad, vinha examinando essa questão e aproveitou-a no momento oportuno. No dia em que Nakrashi Pasha assumiu essa grande responsabilidade, foi publicado nos jornais um artigo do imame Hassan al-Banna. A essência do artigo era que o novo governo deveria escolher o caminho mais curto: respeitar as esperanças e aspirações da nação, pôr fim ao teatro das negociações com os britânicos e resolver a questão da independência do país por meio do jihad. Hassan al-Banna chamou a atenção do governo para suas políticas equivocadas por meio de uma longa série de artigos. Assediar os cidadãos leais do país, fechar suas instituições de ensino, lançá-los nas prisões e persegui-los de várias formas, justamente quando a intensidade da opressão dos inimigos que impunham seu domínio à força sobre o país aumentava várias vezes, era, senão loucura, o quê? Em vez de, por meio dessas críticas, alertar sua consciência, Nakrashi Pasha transformou a questão numa guerra civil contra a Irmandade. A questão da Palestina tornou essa guerra ainda mais amarga. A Irmandade estava intimamente envolvida nessa campanha. Por um lado, essa questão tornou-se a pedra de toque de seu crescimento e influência; por outro, tornou-se causa de sua popularidade e fama dentro e fora do Egito. Em 12 de dezembro de 1947, a Irmandade realizou uma enorme marcha de protesto, que partiu de Al-Azhar. O próprio Hassan al-Banna a liderou. Ele percorria o trajeto de carro, anunciando as instruções por meio de um alto-falante. Em 6 de maio de 1948, realizou-se a sessão do Conselho de Fundação da Irmandade. Nela, exigiu-se do governo egípcio e de todos os Estados árabes que declarassem o jihad contra Israel e empregassem todos os esforços possíveis para defender a Palestina.
Repressão e perseguição ao extremo
Em 15 de maio de 1948, os exércitos árabes desembarcaram na Palestina sob a supervisão da Liga Árabe, e começou a guerra contra os judeus. O exemplo de bravura, coragem e sacrifício oferecido pelos voluntários da Irmandade nessa guerra merece uma descrição detalhada em separado. Os jornais judaicos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha levantaram grande clamor a esse respeito e consideraram isso a ruína do Lar Nacional de Israel.
Diante dessa situação, Nakrashi Pasha recuou. Farouk ficou inquieto com a influência crescente desses mulás. Algumas embaixadas estrangeiras realizaram uma conferência em Fayid (a posição egípcia das forças britânicas) e, por unanimidade, apresentaram a exigência de que Nakrashi Pasha declarasse a Irmandade ilegal. Por outro lado, Nakrashi Pasha estava preocupado com essa questão. Também ele, a fim de obter a satisfação de seus próprios senhores, declarou a Irmandade ilegal em 8 de dezembro de 1948, com base no artigo 63 do decreto militar.
Essa foi uma grande insensatez na vida dele. Depois, criou-se uma situação tão anormal que ele se esqueceu até de se arrepender. A opressão espalhou-se por todo o Egito. Todos os centros e escritórios da organização foram colocados sob controle governamental. Milhares de jovens instruídos foram lançados nas prisões e submetidos a diversas formas de tortura, cuja descrição faz estremecer o corpo. O próprio Paxá al-Naqrashi foi morto pelas mãos de um jovem. Depois disso, Ibrahim Abd al-Hadi Paxá assumiu o cargo de primeiro-ministro. Ele realmente preencheu a lacuna deixada por seu antecessor. Não deixou de fazer aos porta-estandartes da religião nada que até mesmo um não muçulmano teria dificuldade de fazer.
Hassan al- Banna: a profecia
Allah havia abençoado o Imam Hassan al-Banna com uma perspicácia própria dos crentes. Ele era um da’i. Conhecia cada etapa da da’wah. Teve de enfrentar todos os obstáculos desse caminho.
Ele tinha profunda consciência do ensinamento do Profeta: “O caminho do Paraíso é atravessado em meio à dor e ao sofrimento”. Muito antes da Segunda Guerra Mundial, quando não havia sequer o menor indício de perseguição ou provação, ele mencionou em um de seus artigos:
Quero dizer-vos que a vossa da’wah ainda não chegou à maioria das pessoas. Quando essa da’wah, bem como seus objetivos e propósitos, se tornar clara para elas, elas passarão a perseguir-vos e a lançar-se contra vós com intensa hostilidade. Nesse momento, tereis de avançar em meio a grandes dificuldades. Diversos tipos de obstáculos bloquearão o vosso caminho. Só então sereis considerados, no verdadeiro sentido, parte dos porta-estandartes da da’wah. A ignorância do povo acerca do verdadeiro Islã se tornará um espinho em vosso caminho. Os ulemás e xeques alinhados ao governo apontarão o dedo contra o vosso Islã e questionarão o vosso jihad. Os líderes da sociedade e as pessoas de autoridade não vos suportarão. Todos os governos resistirão sem hesitação e imporão restrições às vossas atividades. Os bandidos se oporão a vós com todas as suas lanças. A lâmpada da vossa da’wah será apagada. Governos depravados e fracos ajudarão esses bandidos contra vós, e essa mesma força se apresentará como protetora daqueles que avançarem contra vós para vos oprimir e perseguir. Outro grupo levantará contra vós uma tempestade de dúvidas, suspeitas e falsas acusações, procurando todo tipo de defeito em vosso meio. Além disso, apresentará vossas atividades de forma distorcida perante o povo. Transformará isso em motivo de orgulho por sua própria força e autoridade. Estenderá a mão sobre o poder da riqueza. Sem dúvida, tudo isso surgirá como uma provação para vós. Sereis expulsos de vossas casas e privados do ambiente de vossa terra natal. Vossos escritórios serão confiscados e vossas casas poderão ser revistadas. Contudo, tendes a promessa de Allah de que, no fim, Ele ajudará os mujahidin e honrará os virtuosos, recompensando-os.
O martírio do Imam Banna
Depois que a Irmandade Muçulmana foi declarada ilegal, milhares de seus membros foram presos. Contudo, seu líder, o imã Hassan al-Banna, não foi detido. Os opressores haviam tramado outro plano contra ele. Ele foi administrativamente impedido de deixar o Egito. Até mesmo dentro do país, foram impostas restrições à sua circulação sem autorização do governo. Quando pediu permissão para se transferir para uma fazenda de cana-de-açúcar, o próprio canavial foi colocado sob vigilância. Então, na noite de 12 de fevereiro de 1949, essa personificação da verdade e da beleza, essa montanha de fé e autoconfiança, portador da tocha da religião e pregador no caminho da fé, foi publicamente martirizado diante do escritório central da Sociedade dos Jovens Muçulmanos. Enquanto isso, uma onda de alegria tomou conta das casas dos ingleses. A responsabilidade pelo assassinato foi atribuída ao Partido Saad, portador da bandeira de Al-Watanu lil-Jami. No entanto, testemunhas oculares chegaram a mencionar o número do carro (1979) no qual os atacantes haviam chegado e no qual fugiram depois de disparar. Mais tarde, descobriu-se que esse carro pertencia ao tenente Mahmud Abd al-Majid, chefe da seção de crimes criminais. Embora um assassinato público dessa natureza tivesse ocorrido, durante três anos os responsáveis por esse crime sagrado não foram presos. Após a revolução militar de 23 de julho de 1952, onze acusados envolvidos nessa conspiração foram detidos. Entre eles estava Mahmud Abd al-Majid, que mais tarde passou de tenente a tenente-coronel. O major Muhammad al-Jazzar disse à testemunha que identificara o número do carro que o assassino de Banna estava livre e continuaria livre. Quem quer que criasse obstáculos para ele poderia medir o próprio pescoço. “Vocês têm esposas e famílias; por que estão tão ansiosos para torná-las órfãs?” Entre os envolvidos estavam também Muhammad Hassan, criado pessoal do rei Faruq, e o motorista do sargento-mor Muhammad Mahfuz.
Ouçam um breve relato da encenação preparada para martirizar esse homem iluminado pela verdade:
Em 12 de fevereiro de 1949, o professor Nagi, membro do Conselho Executivo da Sociedade dos Jovens Muçulmanos, enviou o professor Muhammad al-Laisi, presidente da seção de jovens da sociedade, a Hassan al-Banna com a mensagem de que Hassan al-Banna deveria encontrar-se comigo naquela noite no escritório da sociedade, onde poderia ser informado de uma nova decisão do governo sobre a Irmandade Muçulmana, uma decisão extremamente importante e satisfatória. A mensagem também dizia que meu parente Ibrahim Abd al-Hadi Pasha, o primeiro-ministro, me havia encarregado de informar Hassan al-Banna sobre essas decisões. Assim, o professor Muhammad al-Laisi foi à casa do imã Hassan al-Banna e apresentou-lhe os detalhes da mensagem. Mas a perspicácia do homem de fé não se deixou enganar nem iludir por essa notícia lisonjeira. Pelo contrário, ele imediatamente alcançou a essência do assunto. Depois de ouvir a notícia, Hassan al-Banna disse:
“A atitude deles é má. Eles não quiseram chegar a nenhum entendimento comigo; pelo contrário, acabo de saber que o homem cuja fazenda agrícola eu pretendia visitar para ficar hospedado também foi preso. Nem sequer demonstraram o mínimo de humanidade para com sua velhice. Ainda assim, comparecerei para agradar ao professor Nagi.”
O imã Hassan al-Banna chegou, no horário marcado, ao escritório da Sociedade dos Jovens Muçulmanos. Enquanto conversava com o professor Nagi, Hassan al-Banna disse que nada de significativo havia sido tratado. Ao terminar a conversa, Hassan al-Banna chamou um táxi. Durante esse encontro, também estava com ele seu genro, o advogado Abd al-Karim Mansur (que atualmente vive na Arábia Saudita). O professor Muhammad al-Laisi saiu para acompanhar Hassan al-Banna até o táxi. Porém, um criado chamou o professor Laisi por trás, dizendo que alguém queria falar com ele ao telefone. Depois que o professor Laisi colocou Hassan al-Banna e seu acompanhante no táxi e voltou, antes mesmo de chegar ao telefone, ouviu-se do lado de fora o som de tiros. Sem atender ao telefone, ele saiu imediatamente para descobrir a origem do som. Viu um jovem parado na rua, diante do escritório. O rapaz era alto e magro. Vestia um casaco comprido, tinha o rosto coberto por um lenço branco e segurava uma pistola. O professor Laisi gritou para que o prendessem. Mas o jovem também disparou contra o professor Laisi. Felizmente, o tiro errou o alvo. Quando Laisi o perseguiu para capturá-lo, ele disparou novamente e, nas duas vezes consecutivas, Laisi escapou por pouco. Enquanto isso, o jovem desceu da rua e afastou-se para o outro lado. Outro homem estava parado à sua espera. Os dois fugiram numa motocicleta preta. Assim que foi atingido pelos tiros, o imã Hassan al-Banna desceu rapidamente do táxi e entrou no escritório da Sociedade dos Jovens Muçulmanos, dizendo: “Fui assassinado, fui assassinado.” Laisi também chegou imediatamente. O telefone ainda o aguardava. O major Muhammad al-Jazzar, oficial da seção política da polícia de investigação, estava falando com ele. Assim que Laisi pegou o telefone, ele lhe informou que acabara de ocorrer um atentado a tiros contra Hassan al-Banna diante do escritório da sociedade. Em seguida, al-Jazzar perguntou se ele havia morrido ou se ainda estava vivo. Naquele exato momento, Hassan al-Banna já havia partido para o hospital. Mais tarde, Laisi também foi ao hospital visitá-lo. Enquanto jazia no leito de morte, Hassan al-Banna pronunciava incessantemente a profissão de fé do martírio. Pouco depois, um jovem chegou ao hospital e disse: “Eu estava perto do local onde o carro dos atacantes estava estacionado. O número do carro é 9979.” Esse era o jovem que mais tarde seria ameaçado de que seus filhos ficariam órfãos.
Depois que Hassan al-Banna alcançou o martírio, a cidade permaneceu em estado de pânico e tensão. Mas o fogo da vingança ainda não havia se acendido. O hospital foi cercado. O idoso pai do mártir solitário, o xeque Abd al-Rahman Ahmad Banna, realizou sozinho a oração fúnebre. As mulheres recatadas de sua casa levaram o corpo ao seu último lugar de repouso, e nenhum servo de Deus recebeu permissão para lamentar ou prantear.
Após o martírio do imã Hassan al-Banna, todo o vale do Nilo foi abalado por tumultos, prisões e desordem. Por toda parte, os membros da Irmandade foram perseguidos e torturados. Montou-se um longo espetáculo de procedimentos judiciais para declará-los rebeldes.
Quarta fase: 1949 –1954 d.C.
Novo Murshid novo ímpeto
A situação mudou novamente. Sete meses depois, em 25 de julho de 1949, Ibrahim Abdul Hadi Paxá foi obrigado a deixar o poder. Hussein Sirri Paxá formou um governo de coalizão. Sua responsabilidade era supervisionar as eleições. Com isso, a Irmandade Muçulmana obteve algum alívio. Nas eleições, o Partido Wafd saiu vitorioso. O apoio da Irmandade também contribuiu para esse êxito. Em 12 de fevereiro de 1950, Nahas Paxá assumiu as rédeas do poder. Nesse período, a Irmandade obteve liberdade parcial. Aqueles sobre os quais se supunha que o capítulo de sua história havia chegado ao fim sacudiram a poeira e novamente se ergueram de cabeça erguida. Suas canetas voltaram a atuar, e seus jornais foram publicados novamente. Hassan ibn Ismail al-Hudaybi foi eleito seu novo Murshid Geral. Antes disso, ele havia sido assessor jurídico da Suprema Corte. Sob a liderança de seu novo Murshid Geral, a Irmandade Muçulmana empenhou-se em estabelecer e fortalecer novas organizações em seus diversos ramos. Em 15 de dezembro de 1950, o governo restaurou plenamente algumas das propriedades da Irmandade. Essa decisão foi tomada com base em uma determinação do Conselho de Estado, que declarou que a decisão de considerar a Irmandade Muçulmana ilegal havia sido completamente equivocada. Essa decisão não estava sujeita à autoridade do administrador da lei marcial. Depois disso, a Irmandade rapidamente restabeleceu sua situação, voltou a ocupar seu lugar no palco da história e transformou-se em uma força importante.
Início da conspiração palaciana
O governo de Mustafa Nahas Paxá permaneceu no poder até outubro de 1951. Depois da destituição de Nahas Paxá, as consultas mútuas entre o Palácio de Abdeen e os ingleses deram origem a uma conspiração palaciana, e, em nove meses, houve quatro mudanças de governo. O povo exigia o rompimento incondicional das relações com os ingleses. Essa exigência se fortalecia dia após dia, mas as forças britânicas não estavam dispostas a partir nem sequer sob condições, quanto mais incondicionalmente. Uma muralha separava o povo, o palácio e as forças britânicas. Sempre que um gabinete formado se inclinava diante das exigências populares, o palácio o derrubava com o poder de seus tanques britânicos. E, se os desejos do palácio fossem satisfeitos, os protestos e manifestações populares se transformavam em um anúncio de sua queda. Assim, entre 23 e 26 de maio de 1952, ocorreu um golpe militar no país, alterando o curso da história nacional. Sua descrição já foi apresentada anteriormente.
Violação do tratado britânico: anúncio
O governo de Mustafa Nahas Paxá permaneceu estabelecido até outubro de 1951. O programa mais importante de seu mandato foi anunciar, por meio do Parlamento e em resposta às exigências populares, a revogação do tratado firmado entre o Egito e a Grã-Bretanha em 1936. Com base nesse tratado, o Egito havia permitido a construção de bases militares britânicas e a Grã-Bretanha e a França haviam estabelecido um monopólio conjunto sobre o Suez. Nahas Paxá declarou no Parlamento que o próprio Egito havia firmado esse tratado com a Grã-Bretanha em 1936 e que agora era o próprio Egito que o declarava anulado. Esse anúncio despertou grande agitação no coração do povo, mas trouxe instabilidade entre o palácio e as forças britânicas.
Participação dos Irmãos na guerra de independência
Nahas Pasha queria discutir com a liderança britânica, para que se pudesse estabelecer um precedente para a retirada das tropas. Mas a liderança britânica evitou fazê-lo. O povo foi compelido, e teve início a guerra de independência. O governo de Nahas também se juntou ao povo. Os mujahidins lançaram-se à luta pela independência da amada pátria. A região do Suez transformou-se em campo de batalha. Os voluntários da Irmandade Muçulmana participaram amplamente dessa guerra e demonstraram feitos extraordinários de bravura e autossacrifício. A Irmandade estabeleceu campos de treinamento militar em suas faculdades, e estudantes de todos os partidos começaram a receber treinamento militar sem impedimentos sob a supervisão da Irmandade. Com isso, as forças inglesas ficaram atônitas. A própria estação de rádio do alto comando das forças inglesas transmitia incessantemente o anúncio de que seria oferecida uma recompensa de cinco mil libras a quem trouxesse a cabeça do xeique Muhammad Farghali. O xeique Farghali era membro do Majlis al-Shura da Irmandade. Nessa guerra, com o auxílio das forças guerrilheiras, ele infligiu uma derrota humilhante às forças inglesas (entre os líderes da Irmandade condenados à forca por Jamal Abdel Nasser no final de 1954 estava também o xeique Muhammad Farghali). O governo Wafd ficou tão impressionado com a coragem, a estratégia, o autossacrifício e o espírito de jihad dos mujahidins da Irmandade que convocou os líderes da Irmandade para discutir a possibilidade de confiar integralmente o comando da guerra aos voluntários da Irmandade. Mas, no dia anterior à apresentação dessa proposta, o palácio destituiu o governo Wafd. O governo Wafd havia firmado um acordo com a Irmandade segundo o qual não imporia restrições às atividades políticas da Irmandade. Embora anteriormente esse mesmo governo tivesse tentado impedir a participação da Irmandade na política, e o ministro do Interior Fuad Sirajuddin (que também era secretário-geral do Wafd) tivesse aprovado no Parlamento, em 1950, uma lei nesse sentido. A Irmandade, porém, recusou-se a aceitar essa lei. Por fim, o próprio governo Wafd teve de ceder.
O objetivo de eliminar o governo Wafd era sufocar o movimento de independência. Em seguida, Ali Maher foi convidado a formar um gabinete. Mas esse gabinete também foi apenas um hóspede de poucos dias. Depois de Ali Maher, trouxeram Najib Hilali. Ele também não conseguiu permanecer por muito tempo. Esses dois aplicaram um método novo, diferente do dos governantes anteriores. Eles se reuniam e consultavam os líderes da Irmandade Muçulmana e de outros partidos políticos. Durante o mandato de Najib Hilali, a Irmandade anunciou temporariamente que não participaria das eleições, diante das circunstâncias anormais. Depois de Najib Hilali, Hussein Sirri e, pela segunda vez, Najib Hilali ocuparam o cargo de primeiro-ministro. A dignidade de todos esses gabinetes não era maior que a de bonecos de madeira. Seu único objetivo era mergulhar a população agitada no encantamento de uma falsa consolação infantil.
1952 do ano militar golpe
Em julho de 1952, o território egípcio testemunhou outro golpe. Deus tomou vingança do rei Farouk do Egito, e, num piscar de olhos, seu esplendor e sua grandeza faraônicos transformaram-se em uma antiga lenda. Como esse golpe ocorreu, quais foram as razões de seu êxito e por que se sentiu a necessidade dele? Não é possível compreender a situação posterior sem investigar as respostas a essas perguntas. Por isso, considero necessário lançar brevemente luz sobre essa questão.
No final do século XIX, o colonialismo britânico começou a ampliar seu domínio sobre o Egito e, em pouco tempo, colocou o Reino do Egito no bolso. Personalidades patrióticas como Ahmad Urabi Paxá e Mustafa Kemal tentaram impedir essa invasão. Mas essa tempestade assumiu proporções cada vez mais intensas. Os que aspiravam à independência fundaram várias organizações, uma após outra, mas nenhuma sobreviveu. Quando, em 18 de dezembro de 1914, foi proclamado oficialmente o domínio colonial britânico sobre o Egito, os egípcios se levantaram contra esse colonialismo. Em 28 de fevereiro de 1922, a Grã-Bretanha foi obrigada a abolir sua colônia. Entretanto, paralelamente, impôs aos pés do Egito, sob o pretexto de tutela, correntes tão pesadas que, embora o colonialismo britânico tivesse terminado, aquele tirano semelhante a um monstro continuava ativo, escondido sob diferentes títulos, como a defesa do Egito e a segurança dos estrangeiros. Em 19 de abril de 1923, uma constituição foi introduzida no Egito pela primeira vez, e o país recebeu o status de Estado independente. O Islã foi declarado religião oficial. Mas como essa submissão do Egito poderia ser aceitável num país onde a invasão imperialista havia ocorrido? Assim, em 26 de agosto de 1936, foi assinado um tratado entre o Egito e a Grã-Bretanha, denominado Tratado de Amizade. Segundo esse tratado, o Egito concedeu à Grã-Bretanha permissão para estabelecer acampamentos das forças inglesas às margens do Suez, o que garantiria a segurança do Canal de Suez. Desse modo, os ingleses desembarcaram habilmente no Egito, preparados para a guerra, e começaram os dias de infortúnio do país. Depois disso, o governo constitucional egípcio caiu, e os ingleses, o rei do Egito e seu conselho de ministros fantoche assumiram o poder no país. Ao tomar para si a segurança do Suez, as forças inglesas apoderaram-se do próprio centro vital da economia egípcia; e, quanto mais crescia a influência inglesa, mais aumentava a subjugação do Egito. Os ingleses ampliavam seu domínio sobre todo o sistema administrativo egípcio. A situação chegou a tal ponto que o sangue da diplomacia inglesa passou a correr por todas as veias do sistema econômico, da educação e da cultura do Egito, bem como de sua política interna e externa. A maioria das escolas e faculdades passou para o controle dos cristãos. Os professores e as professoras eram cristãos. As companhias europeias estabeleceram controle sobre o comércio, e a nação egípcia começou a ser esmagada sob o moinho de sua opressão. Durante a época de Fuad I, o povo egípcio ainda tinha alguma liberdade para expressar sua opinião. Mas a época de Farouk foi, para o povo egípcio, uma época de dupla escravidão: de um lado, o domínio absoluto dos ingleses; de outro, o governo despótico de Farouk.
Após fundar a Irmandade Muçulmana, a primeira coisa que Hasan al-Banna fez foi despertar o fervor pelo jihad entre a nação egípcia, sem vida e desesperada. Seu famoso opúsculo sobre o jihad foi uma poderosa voz dos primeiros tempos da Irmandade. Nessa obra, o Imam Banna, mesclando ornamentos retóricos à linguagem, atraiu o povo egípcio para aquilo que era o verdadeiro remédio contra o atraso e a decadência da nação muçulmana. Primeiro, o Imam Banna mencionou no opúsculo todos os versículos do Alcorão nos quais é indicada claramente a obrigatoriedade do jihad. Em seguida, apresentou detalhadamente suas provas com base nos hadiths. Um capítulo importante de seu livro é a apresentação das opiniões de todos os juristas islâmicos da Ummah muçulmana sobre o jihad. Nesse contexto, ele cita a opinião de Ibn Qudamah: quando um exército de infiéis atacar uma cidade, torna-se uma obrigação individual de seus habitantes lutar contra eles e expulsá-los da cidade. A declaração veemente dos ulemás de Al-Azhar é a seguinte: quem poderia ser um erudito maior que o Imam Badr al-Din al-Ayni, comentarista do Sahih al-Bukhari? Seu hábito era dedicar um ano ao ensino e à instrução e passar o ano seguinte realizando o hajj. Por fim, ele também critica aqueles que classificam a luta como jihad menor e o jihad contra o nafs como jihad maior, tornando os soldados desanimados sob o pretexto da purificação espiritual. Sobre isso, ele escreve:
“Algumas pessoas se esforçam para impedir o público de compreender a importância da guerra e de se preparar para o jihad. Apresentam como prova que foi narrado em um hadith que o jihad maior consiste em o ser humano lutar contra seu próprio nafs. Mas essa prova é infundada. Hafiz Ibn Hajar al-Asqalani escreveu em sua obra Tashdid al-Qaws que isso está entre as declarações difundidas pelo boca a boca e não é uma palavra do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), mas sim de Ibrahim ibn Ablardi.”
Por isso, a Irmandade Muçulmana declarou que seu objetivo fundamental era:
***************Árabe****************
Ou seja, o martírio no caminho de Allah é nossa grande aspiração. Isso não era apenas um slogan verbal; na prática, eles começaram a treinar seus membros para o jihad. Em vez de desperdiçar o tempo em atividades inúteis, os jovens das faculdades e universidades recebiam treinamento militar e infundiam na nação o espírito do jihad. A expressão mais autêntica desse fervor jihadista ocorreu quando, em 1948, o povo árabe lançou-se à guerra contra os judeus. Anwar Sadat — que era o braço direito de Gamal Abdel Nasser e mais tarde se tornou presidente da República — escreveu, na página 177 de seu diário, Páginas Desconhecidas:
“Naqueles dias — isto é, durante a guerra da Palestina de 1948 — o grupo que demonstrava o maior assombro no combate e no jihad, mais que os demais grupos, era a Irmandade Muçulmana. Na noite em que deveriam partir para a Palestina, Hasan al-Banna e o xeique Farghali vieram e proferiram um discurso inflamado diante do grupo de mujahidin, despertando entre eles intensa emoção e entusiasmo.”
Depois de despertar a inspiração para o jihad, a segunda grande tarefa realizada pela Irmandade Muçulmana foi apresentar a exigência do estabelecimento de um governo islâmico no país. Em 1938, Hasan al-Banna escreveu uma longa carta ao ministro da Justiça, Ahmad Khushbu Paxá, na qual afirmava que, durante cinquenta anos, o não islamismo havia sido posto à prova e demonstrara fracasso absoluto. Agora, deveria ser posta à prova a lei islâmica. Nessa carta, o Imam Hasan al-Banna começou destacando a importância da lei islâmica à luz do Alcorão. Em seguida, afirmou que, se o senhor examinar a constituição e as leis deste país, poderá perceber que sua fonte não é o Alcorão e a Sunnah, mas sim as constituições e leis de países europeus como Bélgica, França e Itália.
Nossa Constituição é abertamente conflitante com o Islã, tanto em seus aspectos gerais quanto particulares. Agora reflita: se surgir diante de um muçulmano uma questão cuja decisão, segundo o Islã, seja de uma forma, mas, segundo a lei vigente, seja de outra, que caminho esse muçulmano deverá seguir? Além disso, reflita sobre como poderia ser lícito ao magistrado, ao juiz, ao presidente do tribunal e ao ministro da Justiça deste país contrariar os decretos de Allah, o Soberano dos Juízes.
Após essa severa crítica, o Imam Hassan al-Banna responde às acusações daqueles que consideram impossível legislar segundo a lei islâmica na era moderna e encerra a carta apresentando a seguinte reivindicação:
“A reivindicação da Irmandade Muçulmana é que nosso governo retorne à sharia islâmica e reformule, o quanto antes, o sistema jurídico egípcio sobre os fundamentos da sharia. Somos uma nação muçulmana e nos comprometemos a obedecer somente à lei de Allah e ao governo, às normas e às proibições do Alcorão e da Sunna, ainda que para isso tenhamos de pagar um preço muito alto e oferecer sacrifícios cada vez maiores. Como nação livre e muçulmana, esse é nosso direito natural. Nenhuma outra expressão de dignidade política e social e de paciência pode substituí-lo. O senhor também nos ajudará a conquistar esse direito. Tentará mudar essa situação e não obrigará a nação a seguir um caminho no qual a maioria do povo acabará mergulhada no desespero e na impotência.”
De um lado estava essa reivindicação da Irmandade; de outro, começaram as discussões sobre quem detinha o poder no Egito. O quediva Tawfiq Paxá disse a Arabi Paxá: “Eu obtive este país por herança de meus antepassados.” Esse tipo de pensamento também estava arraigado na mente dos sucessores de Tawfiq Paxá. Ainda assim, o período de Fuad I (1936) foi mais próspero. Já o período de Farouk foi obscurecido pela desordem política e pelas intrigas dos ingleses. Nessa época, Hassan al-Banna era a única pessoa que se mantinha afastada da corte real. Além disso, aquela corte era como um banho público onde foram vistos nus até homens independentes como Nahhas Paxá, livres-pensadores como Taha Hussein, literatos renomados como Ahmad Hasan al-Zayyat e porta-estandartes da Sunna como Muhammad Faqir. O próprio Farouk também odiava Hassan al-Banna. A princípio, ele sequer dava importância ao movimento da Irmandade Muçulmana. Mas, à medida que se fortalecia a reivindicação pela promulgação da sharia islâmica, seus olhos começaram a se abrir. Anwar Sadat relata em sua obra que, em 1944, ele — isto é, Anwar Sadat — se encontrou com Hassan al-Banna. Naquela ocasião, Hassan al-Banna disse, citando alguns observadores, certas coisas preocupantes a respeito do rei Farouk:
“O rei sentiu um grave perigo na pregação da Irmandade. Chegou até seus ouvidos que, com base na pregação da Irmandade, não há no Islã possibilidade de se obter a realeza por herança… Portanto, o rei está pensando em como atacar a Irmandade. (Safahate Majhula, página 19)
O conflito entre a Irmandade e Farouk chegou a tal ponto que, por fim, Farouk e Abd al-Hadi Paxá assassinaram Hassan al-Banna. Posteriormente, a investigação judicial comprovou que um criado pessoal de Farouk também estava envolvido entre os assassinos. Apesar disso, o movimento da Irmandade evidenciou claramente no coração do povo egípcio esta verdade eterna: enquanto não se alterasse a base do sistema monárquico no país, nenhum programa de reforma poderia ser efetivado. Além disso, o essencial não era apenas abolir a monarquia; o objetivo principal era estabelecer um governo islâmico. A política repressiva de Farouk, sua anarquia moral, sua proximidade com os ingleses e a opressão e perseguição indiscriminadas praticadas por seus funcionários contra os camponeses produziram um efeito mágico na pregação da Irmandade, até que chegou o momento em que até as crianças ingênuas do Egito passaram a sentir aversão por Farouk.
Os gabinetes ministeriais formados durante o governo de Farouk ou eram constituídos sob sua vontade, e sua dignidade não passava da de um boneco de madeira. E o exército inglês permanecia de pé sobre suas costas. Foi assim que, em fevereiro de 1942, o governo do Partido Wafd se estabeleceu graças aos tanques britânicos.
Por isso, a Irmandade declarou sua insatisfação e sua não cooperação com todos esses governos.
A quarta característica desta história é o exército egípcio. Sem dúvida, naquela época, o exército egípcio era considerado o mais forte e bem treinado entre os exércitos dos países árabes. Contudo, a presença das forças inglesas mantinha-o derrotado. A maioria dos oficiais do exército egípcio padecia da doença da adoração ao rei. Havia apenas um número limitado de pessoas que, ao testemunhar a grave situação e a calamidade, derramavam lágrimas de sangue. Mas, para que o trabalho de reforma fosse realizado, era necessário que ocorresse uma mudança no mundo das ideias e da consciência daqueles em cujas mãos se encontravam o verdadeiro poder e a força do país. O atual presidente do Egito, Anwar Sadat (na época), fazia parte dos oficiais do exército que foram os primeiros a tomar conhecimento da da’wa de Hasan al-Banna. Por isso, Anwar Sadat escreveu em seu livro:
“Muitos oficiais do exército encontravam-se com Hasan al-Banna. O objetivo de Hasan al-Banna era unicamente fazer, de alguma maneira, nascer a religiosidade entre os oficiais do exército egípcio.” (Safhāt-e Majhūla — página: 349)
A personalidade devotada de Hasan al-Banna e o efeito extraordinário de sua celestial da’wa conquistaram uma aceitação ilimitada no exército. Anwar Sadat escreveu: “A população queria libertar-se da dominação inglesa a qualquer preço. Com base nessa inspiração, formou-se uma relação estreita entre um grupo de oficiais independentistas do exército egípcio e Hasan al-Banna.
“Essa relação tornou-se tão profunda que um grupo do exército egípcio considerava a Irmandade a única esperança para a libertação do Egito.”
Assim, em todas as frentes de batalha, a Irmandade preparava o terreno para libertar a população egípcia da ocupação inglesa e da opressão e tirania da monarquia. Finalmente, em julho de 1952, ocorreu a revolução. A partir de então, o regime monárquico chegou ao fim no Egito. O êxito dessa revolução não se deveu somente ao exército. Afinal, o exército egípcio teve coragem suficiente para empreender uma ousadia na qual seria inevitável enfrentar três terríveis adversários. Um deles era o exército inglês, o segundo era Farouk e o terceiro era o governo dos políticos egípcios em busca de fortuna. Sem dúvida, o primeiro disparo da revolução foi feito pelo exército. Mas a Irmandade havia semeado entre o povo egípcio tamanha insatisfação contra a influência inglesa e Farouk que, assim que se ouviu o estrondo da revolução, toda a nação começou a felicitá-los e a lançar flores. Nas palavras do general Naguib: “Durante muito tempo após a revolução, manteve-se uma profunda relação de cooperação entre a Irmandade e as autoridades revolucionárias.” O assassino de Hasan al-Banna foi preso. Os prisioneiros políticos da Irmandade foram libertados. A Irmandade também não foi menos apoiadora dos revolucionários. Pelo contrário, uma facção avançou tanto em seu apoio que esse comportamento causou estranheza a muitos simpatizantes da Irmandade. Foi também por essa razão que surgiu certa divergência sobre o assunto entre Hasan al-Hudaybi e os jovens emotivos do grupo.
Divergências entre a Irmandade e o Conselho Revolucionário
Por fim, as divergências entre a Irmandade e o governo revolucionário vieram à tona. Em vez de diminuir, elas foram aumentando gradualmente, até que a situação chegou a uma grande tragédia. Em resumo, essas divergências foram as seguintes:
Um: As divergências começaram com a formação do gabinete revolucionário. Em 9 de dezembro de 1952, o Conselho Revolucionário destituiu Ali Maher (que havia sido nomeado primeiro-ministro após a revolução), e Muhammad Naguib formou o gabinete. O Conselho Revolucionário propôs conceder à Irmandade três cargos no gabinete, mas o Maktab al-Irshad (a Majlis al-Shura da Irmandade) não aceitou. Hasan al-Hudaybi não estava de modo algum disposto a incluir o grupo em um governo desse tipo, no qual o governo não teria verdadeira independência; esta seria, ao contrário, alcançada pela liderança revolucionária. Hasan al-Hudaybi disse: “Somos sinceros simpatizantes do governo. Se os responsáveis pela liderança fizerem um bom trabalho, contarão com a nossa cooperação. Mas, se cometerem algum erro, nós os criticaremos a esse respeito.” Um membro da Majlis al-Shura, Ahmad Hasan al-Bakuri, aceitou um cargo ministerial contra a decisão do grupo e teve de renunciar à sua posição na Irmandade.
Dois: O Ikhwan começou novamente a reivindicar o ressurgimento do sistema de vida islâmico. A revista Al Muslimun (agosto de 1951), ao lançar luz sobre a revolução, escreveu: “A tarefa de libertar a nação das mãos do colonialismo e da escravidão foi cumprida pela revolução. Mas a verdadeira tarefa é formar uma nação que seja plenamente muçulmana em termos de pensamento e conhecimento, sentimentos e inspiração, prática e caráter; uma nação sobre a qual se possa confiar a aplicação das normas islâmicas. Essa tarefa só pode ser realizada por aqueles que possuem conhecimento claro do Islã e cujos passos jamais vacilarão na batalha entre a verdade e a falsidade.” O Ikhwan exigiu do Conselho Revolucionário que o consumo de bebidas alcoólicas e os jogos de azar fossem proibidos no país. Contudo, o Conselho estabeleceu apenas algumas poucas restrições básicas, o que não satisfez o Ikhwan.
Três: Em 10 de dezembro, a Constituição do Egito foi declarada abolida. Foi formada uma comissão de cem membros para redigir uma nova Constituição. Observando a inclinação dos membros, Hasanul Huzaibi exigiu que a questão fosse decidida por referendo: se para o Egito deveria ser estabelecida a sharia islâmica ou um sistema ocidental. Mas essa exigência tornou-se dolorosa para o Conselho Revolucionário.
Quatro: Em 16 de janeiro de 1953, o Conselho Revolucionário, por meio de uma lei, declarou proibidos todos os partidos políticos. Naquela época, a experiência e a visão de futuro de Hasanul Huzaibi foram muito úteis. A liderança do Ikhwan queria vincular seu destino ao exército. Mas Hasanul Huzaibi considerou necessário manter sua própria distinção, embora isso significasse afastar-se das pequenas disputas políticas. Assim, enviou um memorando ao Conselho Revolucionário, manifestando sua objeção a que o Ikhwan fosse incluído entre os partidos políticos existentes e afirmando: “O Ikhwan é uma organização religiosa universal; a política é apenas uma parte de seu programa. O Ikhwan não aspira ao poder, nem participará das eleições parlamentares.” Foi assim que o Murshid salvou o grupo de uma grave calamidade.
Cinco:
Seis: Em 22 de fevereiro de 1953, teve início, pela segunda vez, o processo de negociações com a Grã-Bretanha. À luz das experiências anteriores, o Ikhwan considerava as negociações apenas uma forma de ganhar tempo. Além disso, não estava disposto a aceitar qualquer condição que desse aos ingleses, de alguma maneira, a oportunidade de voltar a pisar em solo egípcio.
Sete: Enquanto se discutiam os termos do tratado, foi acordado que o funcionário da embaixada britânica, Sr. Evans, se encontraria com o Amir do Murshid (Hasanul Huzaibi), para conhecer a opinião do Ikhwan sobre os termos do tratado. O Sr. Evans e o Ikhwan estavam ambos de acordo com isso. Nessa entrevista, o Murshid apoiou plenamente a posição do governo e, imediatamente, chamou o major Salah Salem (ministro da Orientação Nacional) e relatou-lhe detalhadamente o conteúdo das conversações. Apesar disso, o Conselho Revolucionário acusou o Ikhwan de conspirar com os ingleses.
Essa foi a principal causa da divergência entre o Ikhwan e o Conselho Revolucionário. Mas, em 12 de janeiro de 1954, ocorreu um incidente em torno do qual o Ikhwan foi declarado ilegal. Naquele dia, os estudantes do Ikhwan celebravam o Dia dos Mártires no campus da universidade. De repente, alguns homens armados chegaram em um jipe da Organização de Libertação e entraram gritando “Allahu Akbar” e “Viva o Egito”. Assim que foram impedidos, começaram a disparar seus revólveres. Os estudantes do Ikhwan responderam imediatamente. Tomando esse incidente como pretexto, o governo revolucionário proibiu o Ikhwan e prendeu numerosos líderes. Por outro lado, o Conselho Revolucionário também destituiu o general Naguib. Isso provocou uma grande desordem no país. Surgiu forte agitação no exército. A liderança oposta acabou sendo obrigada a reconduzir Naguib ao cargo. Chegou até mesmo a anunciar a retirada da proibição imposta ao Ikhwan e aos demais partidos políticos. Três dias depois desse anúncio, a Organização de Libertação iniciou uma intensa agitação, e a situação do país tornou-se tão desfavorável que Naguib teve de renunciar. Todos os partidos políticos, exceto o Ikhwan, foram dissolvidos. E Gamal Abdel Nasser assumiu pessoalmente o cargo de primeiro-ministro.
Em 1º de setembro de 1953, foi assinado o acordo de retirada das tropas britânicas. O Ikhwan rejeitou esse acordo, e começou um acalorado debate entre o Ikhwan e os líderes revolucionários. Em 26 de outubro de 1954, ocorreu um atentado contra a vida de Gamal Abdel Nasser, pelo qual o Ikhwan foi acusado. Assim, essa longa história terminou com a condenação à morte de seis líderes do Ikhwan. Milhares de pessoas foram lançadas nas prisões, e contra elas foi aplicado um rolo compressor de opressão e tortura tão extremo que até os capítulos mais sombrios da história humana estremeceram. De um lado, o governo revolucionário fazia reviver as memórias do Faraó, de Nimrod, de Gengis e de Hulagu Khan; de outro, os prisioneiros do Ikhwan reavivavam os ideais de grandes personalidades do Islã, como Bilal, Khubaib e Sa’id ibn Jubayr, que Allah esteja satisfeito com eles.
O martírio dos líderes da Irmandade
Neste ponto, apresento uma citação da obra “Gamal Abdel Nasser”, escrita por Ahmad Abul Fatah, editor do famoso diário egípcio Al-Misri. A partir dela, pode-se ter uma ideia das condições daquela época, na qual são mencionadas a condenação à forca de seis líderes da Irmandade e a prisão de milhares de seus membros. Ahmad Abul Fatah escreve:
“Os processos contra os membros detidos da Irmandade foram conduzidos no tribunal que Gamal Abdel Nasser chamou de Tribunal Popular (Mahkamat al-Sha‘b). Esse tribunal era composto por três juízes. E os três eram companheiros de Gamal Nasser e membros do Conselho Revolucionário. Deve-se esclarecer que tais procedimentos judiciais não passavam de um espetáculo vergonhoso. Inúmeras acusações foram imputadas aos réus. Contudo, quando entravam na sala do tribunal, os sinais de tortura brutal eram claramente visíveis em seus corpos e rostos. Apesar disso, os juízes jamais mencionaram no tribunal aquela punição e tortura cruel.”
Aqui fica claro que esse tribunal foi criado precisamente para enforcar as personalidades proeminentes da Irmandade e encarcerar o povo comum. Assim, na prática, o tribunal conduzia uma campanha de repressão sob os caprichos de Abdel Nasser. O tribunal ordenou a execução por enforcamento de sete pessoas. Uma delas era o Murshid al-Amm da Irmandade Muçulmana, Hasan al-Hudaybi, e as outras seis eram líderes de primeiro escalão da organização. Seus nomes eram: o advogado Abd al-Qadir [Abd al-Qadir Awda estava entre os líderes proeminentes da Irmandade Muçulmana. Durante o reinado de Faruq, ele era juiz dos tribunais egípcios. Porém, por ser muçulmano, não considerava permitido proferir sentenças sob leis não islâmicas e, por isso, renunciou a esse alto cargo. Depois, ingressou na Irmandade e foi promovido ao posto de vice-Murshid al-Amm. Escreveu várias obras. Entre seus livros, o que causou maior repercussão foi “A Lei Penal do Islã” (al-Tashri‘ al-Jina’i al-Islami), concluído em dois grandes volumes. A obra foi muito apreciada pelos juristas de todo o mundo. Ele a escreveu em 1951. Em reconhecimento à excelência e à contribuição especial da obra, o governo decidiu conceder ao autor o Prêmio Fuad al-Awwal. Contudo, impôs a condição de que duas frases fossem retiradas do livro. Uma delas era: “A sucessão islâmica não é defensora da monarquia.” A outra: “No Islã, nenhum juiz está acima da lei.” O professor Abd al-Qadir Awda (que Allah tenha misericórdia dele) recusou-se a apagar essas frases e também rejeitou o prêmio, cujo valor era de mil libras egípcias. Além disso, caiu na ira do rei Faruq, pois o golpe dessas frases atingia diretamente o próprio rei Faruq. Além dessa obra, Abd al-Qadir Awda (que Allah tenha misericórdia dele) escreveu outros livros, como “O Islã e nosso sistema jurídico”, “O Islã e nossa política” e “Os ensinamentos islâmicos sobre governo”, entre outros.], o secretário-geral da Irmandade Muçulmana, o xeique Muhammad Farghali, Yusuf al-Atat, Ibrahim al-Tayyib e Hindawi Duhayr.”
“Os procedimentos judiciais foram marcados pela opressão, pela tortura, pela vingança, pelo esmagamento da verdade e pela condenação da justiça e da equidade. Os povos do Egito e de outros países árabes expressavam seu repúdio a essa política, e protestos contra tal opressão manifesta foram realizados em várias partes do mundo árabe e islâmico. Grandes marchas de protesto saíram nas principais cidades da Síria, do Líbano, da Líbia, da Jordânia e do Iraque, nas quais se gritavam palavras de ordem pela queda da ditadura militar. Todos os líderes do mundo árabe e islâmico pediram intervenção nesse assunto e apelaram a Gamal Abdel Nasser para que, de qualquer maneira, pusesse fim a esse capítulo doloroso. Os jornais dos países árabes também atacaram, em linguagem extremamente contundente, essa política, as atividades do tribunal e o governo militar. Mas Gamal Abdel Nasser não deu a menor atenção a esses apelos. Pelo contrário, demonstrou uma atividade incomum na execução dos líderes da Irmandade, embora o Murshid al-Amm da Irmandade, Hasan al-Hudaybi, tenha sido poupado dessa pena.”
Representantes das agências de notícias internacionais testemunharam a execução das sentenças de morte e viram com os próprios olhos a extraordinária coragem e o moral dos acusados, que não sofreram a menor alteração mesmo quando estavam sobre o cadafalso. John Lacquotter, representante do mais famoso jornal da França, o diário France-Soir, estava presente. Ele publicou o acontecimento em detalhes em seu jornal, sob o título: “A cena de coragem e audácia dos homens que avançam em direção ao cadafalso”. Ele escreveu que uma bandeira negra tremulava no portão principal da prisão do Cairo, anunciando o acontecimento doloroso do enforcamento dos seis líderes da Irmandade Muçulmana. No momento da execução, eles davam graças a Allah, que lhes concedera a dignidade do martírio.
Esses homens avançaram em direção à morte com uma coragem extraordinária. Às oito horas, uma bandeira negra foi hasteada diante do Tribunal de Apelação, para onde os acusados haviam sido transferidos na noite anterior. Como de costume, soprava um vento frio do lado de fora da prisão. Dentro do recinto central da prisão, dois carrascos de aparência demoníaca permaneciam de pé, como de costume. Tinham bigodes desgrenhados e vestiam roupas negras. Parados junto a uma porta entreaberta, esperavam. Era a porta da câmara de execução. Cinco minutos depois das oito, o primeiro que a polícia de segurança conduziu ao cadafalso foi Abd al-Latif. Ele usava um gorro vermelho, uma camisa preta e uma calça vermelha. Estava descalço. Movendo os lábios, recitava uma súplica. Em seu rosto brilhava a mesma alegria que eu havia observado no dia da audiência no tribunal. Depois da leitura das acusações — para que a Irmandade fosse censurada por ter tentado assassinar o coronel Nasser e organizar uma revolução mediante o uso da força —, dois mulás recitaram uma passagem do Alcorão. Um terceiro mulá, cego e conhecido como xeique Saadi, fazia um discurso no qual testemunhava que Abd al-Latif, tendo como alvo o coronel Nasser, planejara assassinar não apenas uma pessoa, mas todos os vinte e dois milhões de egípcios. Entretanto, Allah protegeu o coronel, para o bem do povo egípcio. O administrador distrital ordenava ao condenado que recitasse a profissão de fé do martírio. Mas ele começou a dizer: “Dou graças a Allah, que me concedeu a dignidade do martírio. O martírio é o precioso desejo da Irmandade Muçulmana.” Abd al-Latif recusou-se até mesmo a aceitar qualquer coisa. Nesse momento, ouvi um grito. A tábua havia sido retirada de sob os pés do condenado. Seu coração continuou batendo por três minutos e meio; depois, ficou imóvel para sempre.
Após cada execução, eu tinha de esperar durante meia hora. Isso porque, segundo a lei egípcia, era obrigatório manter o corpo do condenado suspenso por meia hora, para que não restasse nenhuma dúvida quanto à sua morte.
Em seguida, Yusuf al-At foi trazido. Ele era o secretário de organização da Síria. Assim como o anterior, também vestia roupas vermelhas e pretas. Entre os dois carrascos, que pareciam enormes gigantes, ele parecia bastante pequeno. Seu corpo estava azulado e seu rosto, inchado. Enquanto passava diante de nós, olhava ao redor repetidamente. Ao chegar perto da forca, expressou o desejo de rezar duas rak‘ahs. Mas os carrascos responderam: “Reze em silêncio, dentro de si.” Então ele recitou esta súplica em voz alta —
(*************Árabe*********************)
“Perdoa-me, e perdoa também aqueles que cometeram excessos contra mim.” O coração de Yusuf al-At parou de bater em apenas dois minutos.
O terceiro condenado, Ibrahim Tayyar, era o líder da organização clandestina da zona do Cairo. Ninguém poderá esquecer a coragem que demonstrou naquele momento. Trazia nos lábios um leve sorriso misturado a desprezo. Além disso, em vez de caminhar pelo meio, seguia por um dos lados. Olhava para os presentes com um olhar destemido e dizia, com voz muito clara: “Louvado seja Allah, pois nossos próprios inimigos se fizeram passar por nossos juízes. Mas, no Dia do Juízo, tanto o opressor quanto o oprimido comparecerão diante de um juiz justo, que decidirá entre eles com verdade e justiça.” Em certo momento, disse ao carrasco: “Não aperte tanto; a corrente está rasgando meu braço.” Com seu expressivo sorriso, entrou pela última porta.
O quarto condenado era um advogado. Seu nome era Handabi Dabir. A acusação apresentada contra ele era a de fornecer armas ao assassino e incitá-lo a cometer o homicídio. Quando lhe perguntaram se tinha algum último desejo, respondeu: “Peço clemência a Jamal Abdun Nasser.” O carcereiro respondeu: “Seu desejo já lhe foi transmitido.” Depois disso, também foi levado para a sala escura.
Depois chegou a vez de um belo e majestoso shaykh. Ele era Muhammad Farghali, o famoso pregador do Ikhwan. Aproximou-se com um doce sorriso no rosto. Estas palavras ressoavam em seus lábios: “Allahu Akbar! Estou tendo a ventura de encontrar-me com Allah.” Ele sussurrou alguma coisa em voz baixa ao ouvido de um religioso da prisão e avançou em direção à forca.
O sexto e último condenado, que estava sendo levado para o cadafalso, era o shaykh Abdul Qader Awda. Ele era o líder espiritual do movimento do Ikhwan. Era ele quem fazia a mediação entre Naguib e o Ikhwan. No tribunal, apresentou uma argumentação extremamente sábia sobre a decisão judicial; e, quando lhe foi lida a sentença de morte, recebeu-a com um sorriso e coração agradecido. Vimo-lo passar diante de nós de cabeça erguida e com passos tranquilos; seus olhos brilhavam com um sorriso. Recitava o Alcorão em voz solene. Por fim, recitou alguns poemas árabes, cujo sentido era: “Se eu puder dar a vida no caminho de Allah, nada me importará.” Erguendo bem alto a cabeça, disse: “Meu sangue se transformará numa maldição para o governo atual.” Recusou-se a aceitar qualquer coisa. Ao dirigir-se à forca, deixou para trás os carrascos designados e avançou por conta própria.
(Fonte: jornal France Soir, Paris, 8 de dezembro de 1954)
Essas seis pessoas eram aquelas que Abdun Nasser havia condenado à forca. Havia também muitos outros que tombaram silenciosamente nos braços da morte dentro da prisão, sem que ninguém sequer pudesse saber da sua morte. Nesse contexto, o episódio da prisão de Tarah tornou-se muito famoso. O fato ocorreu em 1º de junho de 1957. Naquele dia, vinte e uma pessoas foram metralhadas e despedaçadas simultaneamente dentro da prisão. Isso aconteceu porque haviam convocado uma greve em protesto contra a ordem governamental que privava os familiares desses prisioneiros de visitá-los.
Abdun Nasser manteve cinquenta mil egípcios detidos nas prisões, tratando-os com uma crueldade sem limites. Até mesmo as famílias e os parentes desses prisioneiros foram tratados de maneira extremamente desumana e brutal. A história desses cinquenta mil presos e de seus familiares é extremamente dolorosa e interminável. Ainda hoje, milhares de membros do Ikhwan passam uma vida insuportável nas prisões, e a maioria deles luta pela vida e pela morte dentro de acampamentos em campos abertos.
Compilei esta longa citação da obra Jamal Abdun Nasser, do destacado amigo de Jamal Nasser e editor de Al-Misri, Ahmad Abu al-Fattah. Até 1956, Ahmad Fattah foi a mão direita de Jamal Abdun Nasser. Mas, por fim, ele também se tornou alvo da ira de Jamal Nasser e teve de escolher o caminho da fuga, abandonando-o.
A maior parte da citação apresentada na obra de Ahmad Abu al-Fattah baseia-se no relato do jornal parisiense France Soir. Mencionei as observações diretas registradas pelo correspondente desse jornal apenas para mostrar, nas palavras de um jornalista estrangeiro, como foi retratado este grandioso acontecimento do martírio dos líderes do Ikhwan. Caso contrário, os acontecimentos ocorridos com os líderes do Ikhwan na prisão, a humilhação que lhes foi infligida por um tribunal que nada mais era que um tribunal nominal e a extraordinária personalidade que demonstraram no cadafalso constituem uma história muito extensa e detalhada.
Contribuições
Anteriormente, apresentei brevemente a história e a da’wa do Ikhwanul Muslimun. Quero deixar claro aos leitores quão pura e imaculada é a história desse movimento, que foi continuamente submetido à opressão e à perseguição e para cuja repressão nenhum outro método além de tiros e execuções foi considerado suficiente; como seus membros permaneceram sinceramente ligados ao Islã em cada capítulo espinhoso; e como demonstraram ser verdadeiramente dedicados ao bem do país e da nação. Daqui em diante, quero mencionar que reação o movimento do Ikhwan provocou na sociedade egípcia e que medidas tomou para a reforma geral da sociedade egípcia.
Mencionei no início que a fundação do Ikhwanul Muslimun ocorreu numa época em que, por um lado, o trono do califado otomano foi derrubado e o nacionalismo turco ergueu a cabeça. Por outro lado, o nacionalismo árabe transformou-se num slogan rival. A comunidade cristã do Líbano e os ateus do Egito, sob o pretexto do nacionalismo árabe, fizeram o ateísmo, sua propaganda e a idolatria do Ocidente ganhar grande brilho no Egito, e os grandes intelectuais muçulmanos deixaram-se levar por essa corrente. O clube de Darul Ulum, fundado sob o patrocínio de Hefni Nasif Bey e ao qual estavam ligados grandes eruditos, para falar abertamente—
Era portador da política de manter abertas as portas do Egito a todas as ideologias e a todas as civilizações e culturas. Um grupo de literatos, estudiosos e acadêmicos considerava o Egito parte da Europa, em vez do Oriente, e se associava ao Mar Mediterrâneo, em vez do Mar Vermelho. Até mesmo pensadores experientes em assuntos complexos, como Musa Salam, afirmavam que, para os egípcios, as literaturas alemã e chinesa eram mais próximas do que a literatura árabe. A situação no campo do jornalismo era tal que, depois de investigar o jornalismo egípcio em 1934, Muhibuddin al-Khatib chegou à conclusão de que “nossos jornais muçulmanos parecem ser meras réplicas de Hollywood”. O comércio não estava apenas completamente sob o domínio dos europeus; os hotéis e os cafés também estavam sob seu controle. Entre esses comerciantes europeus, cerca de cem mil eram italianos. Para se libertarem das mãos desses comerciantes estrangeiros, a única medida tomada pelos pensadores egípcios foi fundar o Banco do Egito. Esse banco foi fundado por Alat Harb Paxá. Além disso, promoveu-se o movimento pela autonomia econômica do Egito mediante o desenvolvimento do cinema e do teatro egípcios. A situação do sistema educacional era ainda mais deplorável. Nesse campo, os estrangeiros haviam estabelecido domínio absoluto.
Programa para realizar uma revolução intelectual
Nessas circunstâncias, a Irmandade iniciou seu movimento de reforma coletiva e começou a trabalhar pela reforma em todos os cantos da sociedade egípcia. Por um lado, transformou os setores instruídos no centro de seus esforços e lutas; por outro, continuou suas atividades entre as classes trabalhadora e camponesa. Os setores instruídos eram arrastados pela poderosa corrente do patriotismo, da idolatria da nação, do nacionalismo e do ateísmo, enquanto as classes trabalhadora e camponesa eram cruelmente esmagadas entre as engrenagens da monarquia e do colonialismo. Elas nem sequer tinham qualquer percepção da vida e de suas necessidades.
Assim, a Irmandade ergueu a voz contra a apostasia, o ateísmo, o nacionalismo estreito e a adoração do Ocidente. Por meio de seus discursos e escritos, os líderes da Irmandade criticaram esses males e apresentaram uma compreensão clara de seus efeitos nocivos. Revelaram o segredo fundamental dos slogans que dividiam a religião e o mundo material, e apresentaram o Islã como um sistema de vida completo. Resistiram à corrente da civilização e cultura ocidentais e criaram o esplendor da civilização islâmica. As instituições de ensino eram grandes centros de propagação da civilização, cultura e pensamento ocidentais. A Irmandade dedicou plena atenção a esse campo, insuflou o espírito do Din do Islã entre estudantes e professores e, em vez de fazê-los desperdiçar o tempo em atividades inúteis, proporcionou-lhes treinamento para o jihad. A Universidade Fuad I (atualmente Universidade do Cairo) era considerada a mais importante instituição de ensino superior do Egito. Houve uma época em que o Islã era ridicularizado nessa universidade. Contudo, como resultado da da‘wa da Irmandade, ocorreu ali uma mudança tão grande que os estudantes apoiados pela Irmandade conquistaram a maioria no grêmio estudantil da universidade. Na verdade, nas palavras do escritor palestino Dr. Ishaq Musa al-Husseini, pode-se dizer que o resultado das eleições do grêmio estudantil da Universidade Fuad foi o seguinte:
Faculdade de Agricultura: a Irmandade venceu em todas as onze cadeiras.
Faculdade de Ciências: o número total de cadeiras era onze. A Irmandade conquistou todas.
Faculdade de Engenharia: a Irmandade venceu em sete das dez cadeiras.
Faculdade de Artes: a Irmandade venceu em sete das dez cadeiras.
Faculdade de Direito: nove entre dez.
Faculdade de Comércio: a Irmandade conquistou nove das treze cadeiras.
A Faculdade de Direito certa vez era um reduto dos estudantes apoiados pelo Partido Wafd. Mas os estudantes da Irmandade conquistaram nove das dez cadeiras. Quando a Irmandade anunciou sua participação na jihad da Palestina, foram esses estudantes que se juntaram às primeiras fileiras dos combatentes e foram eles que frequentaram os acampamentos da Irmandade para receber treinamento militar. Os jornais britânicos também reconheceram que a organização que exercia a maior influência entre os estudantes era a Irmandade Muçulmana.
Quando, dessas instituições de ensino, se elevou a voz do Islã e do sistema de vida islâmico, ela exerceu ampla influência em todos os campos da vida. Acadêmicos e literatos foram influenciados por ela. Seu impacto alcançou o meio jurídico, e, no espaço de vinte ou vinte e cinco anos, a face da sociedade egípcia mudou. Aqueles cujas obras eram dedicadas ao pensamento e à filosofia ocidentais e cuja crítica sempre recaía sobre o Islã mudaram completamente ao perceber a mudança dos tempos; e suas penas hostis a Deus transformaram-se em defensoras da história, da civilização e da cultura islâmicas, bem como do sistema estatal e social islâmico. Muhammad Husayn Haykal, autor de Hayat Muhammad, que Deus tenha misericórdia dele, é um exemplo luminoso dessa mudança. A procura por literatura islâmica cresceu tanto que, até para os escritores profissionais, os temas islâmicos passaram a ser uma necessidade dos tempos.
Das vozes que proclamavam o lema da separação entre a religião e a política, acusavam o Islã de antigo e ultrapassado e não tinham outro objetivo senão adorar os senhores do país, começou a ecoar esta mensagem: o Islã é o nome da crença e da adoração, o nome da pátria e da nação; assim como é o nome da religião, é também o nome do sistema estatal, da espiritualidade e da prática, do Alcorão e da espada. Esta pregação alcançou todas as classes da nação. Sua luz espalhou-se das cidades às aldeias e aos povoados. Cada indivíduo da nação foi influenciado por ela de alguma maneira. O renomado literato egípcio Ahmad Zayyat escreveu sobre esse momento de transição histórica:
Somente a Irmandade Muçulmana representa, no seio dessa sociedade conturbada, a crença islâmica pura e o pensamento islâmico. Eles não consideram a religião um centro de adoração separado, nem imaginam o mundo como um mercado desenfreado e permanente. A seus olhos, a mesquita é o pilar elevado do mercado, e o mercado é uma parte da mesquita. Possuem uma linguagem de pregação e análise. No campo econômico, a realidade de suas intenções torna-se evidente. Eles adquirem treinamento militar para a jihad. No campo político, têm uma visão própria. Há seguidores seus em todas as cidades. Sua influência alcança todos os países árabes. Na onda de despertar nacional hoje observada no Egito, no Sudão, no Iraque e na Síria, no Iêmen e no Hijaz, na Argélia e no Marrocos, eles adquirirão uma importância extraordinária. (Al-Risalah, 7 de janeiro de 1952).
O renomado filósofo palestino Dr. Ishaq Musa al-Husayni escreveu sobre o movimento da Irmandade: Os ulemás oficiais limitavam-se a exibir sua erudição linguística. A comunidade sufista restringia-se à veneração de uma perspectiva espiritual estreita. Cada grupo afetado pela grave doença tratava apenas uma parte dela. Por fim, surgiu a Irmandade Muçulmana, e ela preencheu todas as lacunas.
Para alcançar essa revolução intelectual e prática, que meios e instrumentos a Irmandade escolheu? Em outras palavras, que serviços a Irmandade prestou ao reino egípcio? Segue abaixo uma breve descrição:
Na carta que o imã Hassan al-Banna escreveu a Muhammad Mahmud Paxá, depois de identificar todas as calamidades e imoralidades da sociedade, afirma-se claramente que várias medidas reformistas poderiam ser adotadas para eliminá-las. Entre elas, a medida fundamental seria reorganizar adequadamente as bases do sistema educacional, reformar as leis e regulamentos, combater a injustiça e utilizar o tempo livre em atividades benéficas. Assim, a Irmandade iniciou o trabalho de reforma à luz do plano mencionado na declaração do imã Hassan al-Banna. A primeira manifestação das atividades da Irmandade poderia ser desenvolvida por meio de discursos, debates e reforma intelectual e moral.
Esse trabalho difundiu-se especialmente entre os trabalhadores e os pobres. Eles afluíam em grupos a esse chamado e nele encontravam grande tranquilidade e satisfação. Os discursos de formação da Irmandade baseavam-se em alguns fundamentos, como ensinar a oração e o jejum às pessoas iletradas e fazê-las memorizar algumas suratas do Alcorão; explicar o significado do chamado islâmico, mostrando que o Islã não é apenas o nome da adoração e da devoção, mas também o nome de um sistema completo de normas para a vida islâmica; habituar as pessoas à civilização e à moralidade; explicar-lhes as determinações e proibições da sharia e incentivá-las a cumpri-las; resistir à corrente do materialismo e esclarecer que o Islã do renascimento do Oriente deveria ser estabelecido como guia em todos os aspectos da vida; e apresentar-lhes um modelo incomparável de vida por meio da cooperação prática com as pessoas em todos os assuntos da vida. No início, as atividades de pregação e ensino da Irmandade eram centradas nas mesquitas. Porém, quando filiais foram abertas em várias cidades, eles transformaram cada filial em um centro de formação, onde o público recebia treinamento sobre o modo de vida islâmico. Essa etapa de formação continuou por vários anos.
O chamado do Islã aos governantes
Outro meio escolhido por eles para difundir seu chamado foi enviar cartas de pregação às pessoas responsáveis que ocupavam posições de liderança no país. Foi escrita uma longa carta a Muhammad Mahmud Paxá, convidando-o a reviver o sistema de vida islâmico e chamando sua atenção para algumas medidas reformistas. Entre elas: proibir reuniões ou festas mistas, fossem públicas ou privadas; impedir que ministros e funcionários administrativos participassem de jogos de azar, corridas e eventos recreativos, bem como que publicassem nos jornais fotografias de suas próprias esposas. Os escritórios e tribunais deveriam ser dispensados durante o horário da oração, e todos deveriam realizar a oração. Deveria ser ampliada a predominância da educação islâmica nos lares dos altos funcionários; isto é, eles deveriam usar o árabe nas conversas, em vez do inglês ou do francês, e escolher tutores egípcios para os filhos, em vez de tutores estrangeiros. Deveriam ser adotadas medidas repressivas rigorosas contra os funcionários públicos desonestos.
Nessa carta, Muhammad Mahmud Paxá também foi chamado a promover reformas jurídicas, e exigiu-se que as leis fossem reorganizadas segundo o modelo islâmico. Foi igualmente apresentada a proposta de formar um comitê que refletisse sobre a harmonização das leis vigentes com a lei islâmica. Em uma carta ao rei do Egito, a Nahas Paxá e às autoridades árabes, declarou-se que eles vinculariam a um verdadeiro desenvolvimento islâmico a ummah muçulmana; nós cumpriríamos todas as suas instruções e não hesitaríamos em fazer qualquer sacrifício. Cartas foram enviadas a Omar Toussoun e Muhammad Ali Tawfik, chamando sua atenção para a desordem que os partidos políticos haviam criado no país. A nação foi convocada à união. Foi enviada uma carta ao ministro da Justiça, Ahmad Khashaba Paxá, exigindo que a lei islâmica fosse implementada. Na carta dirigida a Nahas Paxá, falava-se em estabelecer relações amistosas com os países muçulmanos e facilitar o caminho para a criação da fraternidade islâmica e do califado islâmico. Em outra carta, exigia-se de Nahas Paxá que o manifesto do Partido Wafd fosse elaborado à luz dos princípios islâmicos. A visão central de todas essas cartas da Irmandade era transformar o país em um Estado islâmico e promover uma reforma abrangente da sociedade de acordo com os princípios islâmicos. Para divulgar amplamente essas cartas, a Irmandade formou em sua sede central um comitê que organizava sua ampla publicação e distribuição.
No campo do jornalismo
A Irmandade também deu uma contribuição significativa ao campo do jornalismo. Segundo o jornalista egípcio Muhibbuddin al-Khatib, iniciou-se uma transformação no jornalismo hollywoodiano. No início do século XX, encontravam-se alguns jornais que mencionavam o nome do Islã, como o jornal Al-Mu’ayyad, do xeque Ali Yusuf; Al-Liwa, de Mustafa Kamil; Al-Akhbar, de Al-Shafi’i; e Al-Ilm, do xeque Abd al-Aziz Jawish. Ainda assim, o jornalismo egípcio permanecia sob o controle da jahiliyya absoluta. Finalmente, a Irmandade chegou e proferiu o chamado do tawhid no templo. No início, publicou seu conhecido periódico mensal. Mais tarde, em 1946, lançou um diário chamado Irmandade dos Muçulmanos. Ele alcançou enorme popularidade no Egito e em outros países árabes. Com sua edição destemida e suas críticas imparciais, o jornal provocou comoção nos círculos governamentais. A colônia inglesa fervia de raiva e indignação ao ver sua popularidade. Por isso, o jornal foi fechado várias vezes. Além disso, a Irmandade publicou vários semanários: Al-Ta’aruf, Al-Shi’a, Al-Nadhir e Al-Shihab. Após a dura prova de 1948, a Irmandade lançou Al-Mabahith, Al-Da’wa e Al-Muslimun. Em suma, por meio de seu jornalismo vigoroso, a Irmandade realizou uma revolução no campo jornalístico egípcio. Em vez de se satisfazerem com histórias obscenas e notícias sensacionalistas, as pessoas começaram a encontrar satisfação interior em temas profundos e construtivos.
No campo educacional
A contribuição do Ikhwan no campo da educação ocupa posição de destaque entre todas as suas atividades. O Ikhwan, em diversas ocasiões, chamou a atenção do governo para o sistema educacional islâmico. Eles descreveram quatro objetivos da educação:
1. Expressão de uma visão pautada pela verdade.
2. Desenvolvimento de um caráter moral elevado.
3. Utilização das experiências do passado.
4. Formação de pessoas capacitadas em diversas áreas, com base nos fundamentos do conhecimento e da ciência.
A forma detalhada do plano educacional do Ikhwan é a seguinte:
Primeiramente : adotar uma política duradoura e firme que melhore a qualidade da educação e crie unidade entre as classes que são equivalentes quanto aos objetivos e às metas. Aproximar umas das outras as diversas culturas da nação e destinar essas etapas iniciais da educação à formação moral e à criação de uma mentalidade patriótica.
Segundo: dar atenção especial à história do Islã e à história da civilização e cultura islâmicas.
Terceiro: ensinar a educação religiosa como disciplina fundamental em todos os níveis educacionais.
Quarto: reconsiderar o sistema educacional e o currículo das meninas e estabelecer, em cada área, diferenças entre os currículos de meninos e meninas.
Quinto: afastar das instituições de ensino as pessoas imersas em crenças doutrinárias nocivas e na imoralidade.
Sexto: dar plena atenção à ciência e estabelecer a distinção entre a filosofia ocidental e a ciência ocidental.
No início, a Irmandade limitava-se a encaminhar seus planos educacionais ao governo. Mais tarde, porém, passou a se empenhar, dentro de suas possibilidades, para implementá-los. Para esse fim, criou um conselho e fundou escolas primárias, secundárias e técnicas separadas para meninos e meninas. Para eliminar o analfabetismo e difundir a educação religiosa entre o povo, foram fundadas madraças, escolas de memorização do Alcorão e escolas noturnas para agricultores e trabalhadores. Foram abertos alguns centros educacionais para os alunos aprovados nos exames, onde eram oferecidas aulas preparatórias sob a supervisão da universidade. Foram criadas filiais para educar as crianças de várias idades que permaneciam privadas dos estudos por causa do trabalho. Foram abertas escolas particulares para a educação dos meninos. Para as meninas, foi criada uma instituição educacional separada, chamada Escola Umm al-Mu’minin. Além disso, foram estabelecidos centros de educação técnica. Em suma, a Irmandade implementou uma campanha educacional baseada em um amplo planejamento. Em todo o país, não havia nenhuma localidade onde existisse uma filial da Irmandade sem que houvesse alguma instituição educacional sob sua responsabilidade. A prova do apreço do povo por essas instituições educacionais é um centro de educação de adultos onde 173 trabalhadores estudavam ao mesmo tempo. É bastante difícil fornecer um balanço completo dessas instituições educacionais. Somente na cidade do Cairo havia 31 instituições educacionais, das quais 11 eram faculdades.
Bem-estar público
A Irmandade participava de atividades de bem-estar público por meio de programas diversificados. Para executar esses programas, criou um departamento independente chamado Bem-estar Público. A Irmandade iniciou esse trabalho já na fase inicial do movimento. Na época de Naqrashi Paxá, quando a Irmandade foi declarada ilegal, havia no Egito quinhentos centros de bem-estar público fundados pela Irmandade. Em 1945, de acordo com a lei, o Ministério do Bem-Estar Social assumiu a supervisão desses centros. Esses centros ajudavam as pessoas necessitadas com bens e dinheiro. Atendiam às necessidades dos carentes com recursos arrecadados do zakat, da sadaqa e das peles dos animais sacrificados no qurbani. Providenciavam meios de subsistência para os desempregados e, às vezes, empregavam-nos em negócios, fornecendo-lhes capital suficiente. Os doentes recebiam tratamento gratuito. Alimentos eram fornecidos aos pobres a preços baixos. Também ofereciam educação entre os trabalhadores. Para a reforma e o desenvolvimento dos habitantes rurais, a Irmandade criou um comitê especial. Nas áreas rurais, os pobres e necessitados recebiam ajuda de várias formas, e as disputas locais eram resolvidas por meio dos conselhos das aldeias.
Durante o governo de Nahhas Paxá, quando a Irmandade foi plenamente restabelecida, ela adotou amplos planos de assistência pública em conexão com diversos programas. Isso começou com a fundação, no Cairo, de uma mesquita, um centro médico, uma biblioteca e um auditório. No âmbito desse plano, foram tomadas providências para cuidar das mesquitas que permaneciam abandonadas. Somente no Cairo, vinte e cinco mesquitas eram administradas sob a supervisão da Irmandade; em algumas delas, a própria Irmandade arcava com todas as despesas, enquanto, em outras, seus membros desempenhavam apenas as funções de imame e pregador, inteiramente de forma voluntária.
No centro da Irmandade havia um departamento independente voltado ao bem-estar dos agricultores e trabalhadores, que resolvia seus diversos problemas. Foi aberto um centro operário, onde os trabalhadores recebiam formação sobre seus direitos e deveres, além de instrução relativa à legislação trabalhista. Uma equipe de advogados especializados em direito do trabalho atuava nesse departamento. Do mesmo modo, a Irmandade também deu uma grande contribuição no setor agrícola. Seu departamento agrícola informava os agricultores sobre novos métodos de cultivo e ensinava maneiras de proteger as colheitas de todos os perigos provenientes do céu e da terra. A Irmandade precisava realizar todas essas atividades porque o Estado não dava absolutamente nenhuma atenção a essa questão. Além disso, em conjunto com a pregação religiosa, esse movimento religioso estava conquistando uma influência profunda e abrangente que não poderia ser obtida apenas por meio de discursos e palestras.
Também funcionava um conselho independente de assistência social. Esse departamento era composto por especialistas em questões sociais e professores. Eles implementavam e supervisionavam planos de desenvolvimento social. Nos seus últimos dias, a Irmandade trabalhou para transformar em realidade o plano de construir uma cidade-modelo naquela região do Cairo que era chamada de Egito Antigo. Para esse fim, comprou terras e pretendia estabelecer ali um assentamento limpo para pessoas das classes média e baixa.
No campo econômico
A contribuição da Irmandade no campo econômico era abrangente. Para fortalecer a economia nacional, ela fundou várias empresas. Seus lucros eram distribuídos com base na mudaraba, e os trabalhadores também tinham participação nesses lucros.
1. Empresa Islâmica: iniciou suas atividades em 1939, com um capital de quatro mil libras. Muitos membros da Irmandade também demonstraram grande interesse por ela, e seu capital, partindo de quatro mil libras, chegou a vinte mil libras. A empresa colocou em circulação alguns ônibus comuns. Fundou uma fábrica de fogões a óleo combustível, cuja demanda surgiu não apenas no Egito, mas também fora dele. A empresa também fundou uma fábrica de cimento.
2. Empresa Árabe: iniciou suas atividades em 1947, com um capital de seis mil libras. Essa empresa importava modernas máquinas de corte de pedras, avaliadas em milhares de libras. Porém, quando a organização foi declarada ilegal, suas reservas ficaram abandonadas, sem herdeiro, e a empresa sofreu perdas de milhares de libras.
3. Empresa Têxtil: em 1948, essa empresa abriu uma fábrica de tecidos com um investimento de oito mil libras. Sessenta artesãos trabalhavam nessa fábrica. Ela produzia popeline, seda, gabardine e outros tecidos de alta qualidade, que eram vendidos a preços justos.
4. Companhia de Publicações Islâmicas: teve início com um investimento de setenta mil libras.
5. Companhia de Jornais Diários: seu capital inicial era de cinquenta mil libras. Em 5 de maio de 1946, esta companhia lançou um jornal diário, que desempenhou um papel significativo na divulgação da luta pela independência e da civilização e cultura islâmicas.
6. Companhia de Comércio e Engenharia: iniciou suas atividades com um capital de quatorze mil libras. Esta companhia conquistou grande reputação nas áreas de engenharia e construção civil.
7. Companhia Comercial: sua sede ficava no Cairo, e também possuía filiais em várias partes do país. Esta companhia operava com base no princípio fundamental da cooperação mútua. Fornecia móveis e utensílios de primeira necessidade a preços baixos.
Além disso, a contribuição dos Ikhwan no campo médico consistia em que somente no Cairo havia dezessete clínicas beneficentes e um hospital. Os pacientes eram internados nesse hospital. Milhões de pessoas recebiam atendimento médico gratuito nessas clínicas. Médicos especializados em várias doenças trabalhavam nelas sem remuneração ou por uma pequena gratificação.
Esta é uma breve descrição das contribuições do grande movimento religioso do mundo islâmico. Durante doze anos, o presidente do Egito, Nasser, empregou todas as suas forças e recursos para eliminar esse movimento. Além disso, o imperialismo ocidental e capitalista e Israel, diante dos quais ele constituía um grande obstáculo.
O Egito e os Ikhwan
(Este artigo foi escrito em setembro de 1966 por ocasião do martírio de Sayyid Qutb (que Deus tenha misericórdia dele). O retrato do Egito apresentado nele está relacionado àquela época.)
O conflito entre Nasser e a Irmandade, que se prolonga desde 1945, voltou agora a atingir um estágio extremamente lamentável. Em 1954, seis líderes ilustres da Irmandade foram enforcados. Agora, mais três foram novamente enforcados, entre os quais se encontrava a ilustre personalidade Sayyid Qutb. Uma longa lista de acusações foi apresentada contra eles. Porém, a maior e mais terrível acusação era a de que eles haviam tentado assassinar o presidente Nasser. Além disso, estariam planejando realizar uma revolução sangrenta no país por meio de armas. Antes de lançar luz sobre os dois aspectos — qual era o mistério por trás dessas acusações e qual foi a resposta da Irmandade a elas — é necessário investigar as causas que, na realidade, atuaram no âmago desse conflito.
Nos últimos anos, os setores esclarecidos e patrióticos do Egito não estavam satisfeitos com a natureza da política externa conduzida pelo governo egípcio, e essa insatisfação foi gradualmente se transformando em extrema ira, irritação e tensão. A nação egípcia é essencialmente devota do Islã e possui uma relação profundamente enraizada com a história islâmica. Durante séculos, ali se cultivaram as ciências e os conhecimentos islâmicos. Sua ligação com o mundo islâmico sempre foi mantida. No passado recente, muitos reformadores, eruditos e fortes grupos de da‘wah passaram por seu meio. Excetuando-se certos setores dos habitantes das cidades, os residentes comuns, em sua maioria camponeses, estavam profundamente ligados ao Islã, e em sua vida social era evidente a profunda influência do modo de vida e da conduta islâmicos. A forma como essa nação muçulmana se tornou vítima da política internacional foi a seguinte:
A política externa do Egito não encarava os problemas e as crises do mundo islâmico como problemas do Islã ou dos muçulmanos. Pelo contrário, julgava-os através das lentes míopes daqueles grupos cujo servilismo lhes conferia prestígio. Ou então permanecia subordinada aos interesses e à conveniência pessoais dos governantes egípcios. Essa visão equivocada manteve a política externa do Egito sem fundamento e oportunista. Por um lado, o governo egípcio considerava a hostilidade a Israel seu principal e último objetivo; por outro, mantinha vínculos estreitos com países que não apenas apoiavam Israel, mas também se dedicavam ao seu desenvolvimento e progresso. Mantinha relações amistosas com a Iugoslávia. Tinha uma intimidade extrema com Haile Selassie, da Abissínia. No entanto, esse homem era um assassino de muçulmanos e desobstruía o território africano para Israel. Nas áreas de maioria muçulmana da Eritreia, ele permitiu que várias empresas israelenses exercessem atividades comerciais. Certa vez, ao discursar no Congresso dos Estados Unidos, ele disse:
Nos próximos vinte anos, transformarei em cristãos todos esses muçulmanos abissínios que vivem em meu império.
Makarios era tão querido aos olhos do governo egípcio que chegou a receber assistência militar, inclusive armamentos, contra a Turquia. Recentemente, foi anunciado de Nicósia que, se a Turquia atacasse Chipre, os foguetes egípcios chegariam ali em resposta para prestar auxílio. Makarios não era uma personalidade desconhecida ou insignificante. Ele massacrou impiedosamente os turcos cipriotas, o que, na realidade, servia ao imperialismo britânico sob o disfarce da Igreja Ortodoxa. Quando Makarios visitou o Egito, ao elogiar o presidente Nasser, disse:
Ele era nosso amigo íntimo; durante as conversas, nem sequer mencionou a questão da Palestina.
O uso arbitrário da força pelo governo egípcio e pelos governantes do Egito lançou a Síria, para sempre, no abismo de um futuro sombrio. A amizade emocional que a Síria havia estabelecido com o Egito exigia que esse grande sacrifício histórico dos sírios fosse honrado e que o Egito os ajudasse a resolver a crise interna que os levara a buscar refúgio sob sua proteção. Todos sabiam que a Síria, amedrontada pelas intrigas dos comunistas, havia se vinculado ao Egito. Porém, devido à onda de pilhagem que as autoridades egípcias promoveram na Síria, esta viu-se obrigada a separar-se do Egito; e a situação chegou ao ponto de eles terem sido lançados do céu e ficado presos numa palmeira. Antes disso, o Egito já havia inutilizado o Sudão. Mal se havia criado a armadilha da unidade do vale do Nilo, ela se rompeu. O comportamento despótico do governo egípcio para com Nagib transformou-se na causa do ódio do povo sudanês pelo Egito. E agora o governo egípcio, em vez de corrigir seus erros anteriores, continua cometendo o crime de incorrer em erros ainda maiores. Como o atual governo sudanês não é favorável à união com o Egito, os governantes egípcios incitaram os comunistas do Sudão do Sul contra o governo sudanês, a fim de difamá-lo e colocá-lo em dificuldades. O governo sudanês também descobriu a origem das armas egípcias que haviam entrado no Sudão do Sul vindas do Egito.
Voltemos agora nossa atenção para o problema do Iêmen. A realidade é que o problema iemenita não se tornou apenas uma causa de má reputação para o Egito em razão da política ilegal do governo egípcio; nas palavras da rádio israelense, ele também manchou a testa de todo o mundo islâmico. Durante três anos, tropas egípcias permaneceram no Iêmen. Os atos de opressão e perseguição que infligiram às tribos iemenitas nesses três anos merecem ser descritos detalhadamente à parte. Nesse período, o Egito gastou um bilhão de libras com suas tropas, e até agora são gastos quinhentas mil libras por dia. Cerca de cem mil pessoas perderam a vida na guerra, entre elas dez mil soldados egípcios, sendo os demais habitantes do Iêmen. De um lado estavam as reivindicações dos nacionalistas árabes; de outro, o massacre de seus irmãos árabes tornou-se motivo de preocupação para todo cidadão patriota. Os egípcios cujos filhos morreram nas montanhas de Sana’a e Taiz expressaram uma insatisfação particularmente intensa com essa guerra. O governo egípcio divulgava que os mortos na guerra do Iêmen eram mártires pela liberdade. Mas como a consciência de um muçulmano poderia aceitar que muçulmanos cortassem a garganta de muçulmanos e, ainda assim, alcançassem a dignidade do martírio? Nessa situação, todo o mundo árabe, o povo iemenita e a nação egípcia ficaram perplexos. Até o próprio exército egípcio se sentia incomodado com isso; além disso, os amigos próximos do presidente Nasser, Abdel Latif Bagdadi e Kamal al-Din Hussein, considerados sua mão direita, expressaram descontentamento com essa guerra. Como recompensa por isso, foram alvo de reprimendas.
A relação do Egito com a questão da Palestina é extremamente estreita. À medida que essa questão avançava até o estágio atual, ela continuava a afastar-se de todas as soluções possíveis, conforme o contexto, e agora o povo árabe é obrigado a pensar que o governo egípcio não deseja empreender esforços sinceros para uma solução adequada do problema, enquanto a influência de Israel cresce dia após dia. Em primeiro lugar, o governo egípcio estabeleceu relações amistosas com países que não apenas apoiam Israel. Além disso, adotou uma política desumana em relação aos países que poderiam cooperar para conter Israel, chegando até mesmo ao estágio de um conflito aberto. As falhas evidentes da política egípcia em relação à questão da Palestina eram as seguintes: ao apoiar a entrada indevida da Força de Emergência das Nações Unidas em Gaza, o governo egípcio abriu, na prática, aquela região à livre circulação de Israel. Era justamente dessa área que voluntários árabes entravam secretamente em Israel para realizar operações de guerrilha. A polícia das Nações Unidas agora não permite mais que os voluntários árabes entrem nessa região, e Israel implementa tranquilamente ali seus objetivos econômicos. Do mesmo modo, ao apoiar o controle das Nações Unidas sobre a Cisjordânia, o governo egípcio entregou-a, na prática, às mãos dos judeus. Antes do estabelecimento do controle das Nações Unidas, os judeus não teriam tido coragem sequer de declarar sua presença nessa região; entretanto, agora construíram um enorme porto na área de Eilat, e seus navios viajam orgulhosamente para os países africanos. Foram eliminadas todas as restrições à abertura deste golfo, motivo pelo qual Israel estava profundamente preocupado e sofria uma situação de extrema depressão econômica. Agora, Israel estabelece tranquilamente seus mercados comerciais nos países africanos, e a maioria desses países está caindo em sua armadilha de engano.
Essas mudanças ocorreram diante dos olhos do governo egípcio, devido aos próprios erros deste. Ao vê-las, o peito do povo árabe inflamou-se. Contudo, em vez de adotar medidas apropriadas para compensá-las, o governo egípcio declarou, ao contrário, que a única solução para o problema palestino era a união dos governos socialistas e revolucionários dos países árabes. Isto é, os muçulmanos do mundo se uniriam em torno daqueles que ostentam a bandeira do socialismo. Em uma sessão da Organização para a Libertação da Palestina, o presidente Nasser, ao discursar, disse:
Declaro claramente que não temos força sequer para a autodefesa, embora estejamos em posição de atacar. A questão de desviar o curso do rio Jordão deve ser adiada neste momento.
Durante sua visita à França, Abdel Hakim Amer, ao proferir um discurso em Paris, disse: A República Árabe Unida não nutre qualquer desejo ou intenção de guerrear contra Israel.
Foi durante essa mesma visita que o governo egípcio recebeu da França dezenas de milhares de dólares. Um oficial do exército egípcio, o brigadeiro Muhammad Fawzi, menciona isso na página 131 de seu livro intitulado Sionismo e Israel.
Alguns reconhecem a guerra como meio de resolver a questão palestina. Isso é algo completamente irracional. Essa solução é contrária ao tratado das Nações Unidas que os países árabes assinaram. Além disso, é também contrária ao princípio da paz permanente, cuja bandeira é empunhada pelo Egito.
Esta obra fazia parte do currículo do Colégio de Treinamento Militar do Cairo. E será que é tão difícil para o povo muçulmano do Egito compreender que o governo egípcio pode gastar um bilhão de libras no Iêmen e empregar sessenta mil soldados, mas não dispõe de meios ou recursos para resolver a questão palestina?
No mundo árabe, ou melhor, no mundo islâmico, o tema atualmente pronunciado por todos é a unidade islâmica. Em sua reunião anterior, a Conferência dos Líderes Árabes aprovou a proposta de que a questão palestina não deveria ser limitada apenas aos árabes, mas reconhecida como uma questão de todos os muçulmanos, sendo necessário, para isso, obter a ajuda e a cooperação dos governos muçulmanos. O líder da Terra Dourada apresentou a proposta de que deveria haver união em torno de algumas das questões dos países muçulmanos. Para esse fim, deveria ser realizada uma conferência dos líderes muçulmanos. O rei Faisal da Arábia Saudita apoiou essa proposta e, na prática, passou a empenhar-se nesse chamado. O que a consciência exigia naquele momento era que o governo egípcio se adiantasse para apoiar esse chamado e, mais que isso, se juntasse à sua vanguarda. Mas, ao contrário, o governo egípcio foi o primeiro a opor-se a esse chamado. Não se preparou para envolver-se ele próprio nesse plano, nem permitiu que os países sob sua influência dele participassem. Em vez de responder a esse plano com argumentos, desceu ao caminho dos insultos. A questão é: se os governos socialistas e revolucionários dos países árabes podem unir-se e estabelecer as ideias do revolucionismo e do socialismo como base da unidade, por que seria proibido unir-se sobre os fundamentos essenciais do Islã? Além disso, a linguagem e o método empregados pelo governo egípcio ao criticar seus adversários — caso se coloquem os líderes árabes na categoria dos adversários — não estavam de acordo nem com o caráter islâmico, nem com a política árabe. Na verdade, nem mesmo a moralidade e a ética demoníacas poderiam tolerá-los. Por exemplo: “Fulano não é da linhagem dos sayyids, mas da linhagem de Satanás”; “Fulano é filho de um judeu”, e assim por diante. Poderia essa ser a linguagem de propaganda difamatória de um governo respeitável e cortês? E o povo egípcio não é tão ingênuo que não se aflija ao ver o porta-voz de seu próprio país empregar a linguagem dessa maneira.
A situação interna do Egito também merece ser mencionada aqui. Como já mencionei no início, a maioria do povo egípcio é composta por camponeses inocentes e simples. A relação dos camponeses com o Islã é tão sólida quanto pode ser firme a fé de uma mulher idosa. Como os muçulmanos de outros países, eles têm um único desejo e aspiração: que o Islã se expanda no Egito, que a educação islâmica prospere, que a lei islâmica seja respeitada e que seus líderes sigam a Sharia islâmica e trilhem as pegadas dos predecessores. Contudo, a situação não apenas frustra os anseios do povo; ela também os esmaga.
A Carta Egípcia, constitucionalmente investida de autoridade, declarou claramente que o sistema socialista seria implantado no país. O presidente Nasser explicou esse sistema socialista nos termos do socialismo ideológico, e a imprensa egípcia o interpretou como marxismo. Até o governo de Farouk, a Constituição continha pelo menos a frase: “A religião do Estado será o Islã.” Mas a Carta Egípcia estava completamente livre desse conservadorismo. O sistema socialista não foi implantado no Egito apenas de palavra, mas também na prática. O partido único do Egito, o Partido Socialista Árabe, assumiu pessoalmente a responsabilidade por sua implementação. O Partido Socialista Egípcio anunciou a dissolução de sua própria existência e sua integração ao Partido Socialista Árabe. Depois da infiltração do socialismo, o modo como o governo egípcio estabeleceu amplamente seu controle sobre propriedades privadas e empresas acendeu entre o povo o medo e o desejo de vingança. A situação econômica do Egito chegou à beira da ruína. Segundo a própria descrição de Al-Ahram, o Cairo transformou-se numa cidade de mendigos. Na realidade, os beneficiados por esse socialismo não foram os camponeses nem os trabalhadores, mas os líderes do Partido Socialista Árabe, dos quais ninguém respeitável escapou das fraudes e dos saques. Do ponto de vista moral, constata-se que as grandes cidades egípcias, Cairo e Alexandria, transformaram-se em centros de obscenidade e depravação. Comunistas e ateus reuniram-se no mundo dos jornais. Eles continuavam a estimular, à vontade, o consumismo e a degradação moral. Aos olhos deles, aqueles que rezavam regularmente, tomavam café e se abstinham do teatro e do cinema eram conservadores, agentes do imperialismo e dignos de pena de morte.
O maior perigo que se abateu sobre o Egito foi o renascimento da civilização faraônica. A Carta Egípcia afirmava: “Tomaremos o esboço do nosso desenvolvimento da civilização da era faraônica.” A estátua arquitetônica de Ramsés (o faraó do Egito) foi transferida da área arquitetônica das estátuas e instalada no centro do Cairo, ao custo de quinhentas mil libras. Em um de seus discursos, o presidente Nasser dirigiu-se ao povo, dizendo: “Ó descendentes de Tahmamut e Ramsés!” Do mesmo modo, em outra ocasião, afirmou: “Após dois mil anos, hoje, pela primeira vez, surgiu no Egito a oportunidade de os próprios egípcios governarem o Estado.” Ou seja, a seus olhos, toda a era dos governantes muçulmanos não egípcios, desde a época de Omar — que Allah esteja satisfeito com ele — até então, havia sido uma era de imperialismo. E, depois da era faraônica, pela primeira vez o Egito havia se libertado das garras do imperialismo. A audácia chegou a tal ponto que a Carta Egípcia mandou sepultar, nas fundações do templo e das estátuas de Abu Simbel, duas cópias da Bíblia e duas cópias do Alcorão Sagrado. Poderíamos esperar que até um muçulmano inculto permanecesse em silêncio diante do ato de colocar o Alcorão sob uma estátua faraônica e que seu senso de dignidade religiosa aceitasse isso?
Tudo isso acontecia numa situação em que as liberdades civis haviam sido abolidas, os jornais estavam sob o controle do governo e a liberdade de imprensa havia desaparecido. O editor do famoso jornal egípcio Al-Misri, Abul Fahat, vivia exilado. O editor de outro jornal famoso, Mustafa Amin, que elogiava efusivamente o governo egípcio, estava preso sob vigilância e, depois, foi acusado de espionagem em favor da América. Jornais comunistas espalhavam-se pelo mercado como água. Muhammad Hasnain Haikal, editor do jornal Al-Ahram, e Asad Ahmad, locutor da Rádio Cairo, explicavam regularmente o socialismo ao povo. Um grupo também cooptou os ulemás de Al-Azhar, que provaram que o Islã era socialista. O ambiente do Egito tremia, e parecia que o céu se rasgava, com o eco dos elogios e da glorificação do socialismo. Segundo os jornais egípcios, todos os dias se tramava o assassinato do presidente Nasser. Considerava-se que por trás disso atuava algum grupo conservador. E a realidade era tal que, quando várias fábricas, escritórios e tribunais do Egito foram nacionalizados — ou, em termos simples, colocados sob o controle do Partido Socialista —, a receita da produção dessas instituições caiu a zero e as despesas quase dobraram em relação ao período anterior.
Esse é um lado do quadro geral. Agora mencionemos o outro: o Partido Socialista Árabe e o grupo governante egípcio não conseguiram fazer o povo engolir o gole amargo que tentavam forçar-lhe garganta abaixo. Milhões de libras foram gastos para tornar aceitáveis ao povo egípcio os méritos e os elogios à Carta Egípcia. Mas o povo se recusou a aceitá-la. Considerava-a, além de uma fraude, uma fina cobertura da Constituição comunista. Todo o aparato estatal estava empenhado em desempenhar um papel ativo no renascimento da civilização faraônica. A imagem do faraó foi impressa na libra egípcia. Seu retrato também foi estampado nos selos postais. Na moeda egípcia foi gravada a águia, símbolo da era faraônica. As ruas receberam nomes como Rua Ramsés; os parques, Jardins Ramsés; e os cinemas, Cinema Ramsés. O automóvel fabricado no Egito recebeu o nome de Ramsés. Mas o povo muçulmano do Egito lança mil maldições sobre essa civilização e vê o faraó da mesma maneira que os seguidores de Moisés — que a paz esteja sobre ele — e de Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — devem vê-lo. Do mesmo modo, foram feitos esforços ilimitados para ocultar os erros e as falhas contínuas do governo no Iêmen. Aos soldados que morreram no Iêmen foi conferido o título de mártires por sua morte. Tentou-se satisfazer seus parentes de várias maneiras. Apesar disso, uma parte do exército egípcio e o povo egípcio ficaram profundamente descontentes com essa adulação.
Por outro lado, as palavras de qualquer pessoa de orientação islâmica, fosse ela simpatizante dos Irmãos ou pertencente ao lado opositor, eram ouvidas por toda parte entre o povo. Os líderes e membros da Irmandade Muçulmana viviam encarcerados desde o final de 1954. Era-lhes impossível sequer imaginar qualquer atividade política. Ainda assim, seus homens instruídos prestaram, na prisão ou fora dela, todo o serviço que lhes foi possível prestar à preservação do Islã no país, no campo do conhecimento e do pensamento. Eles escreveram sobre diversos temas islâmicos. No Egito, durante os dez anos anteriores, foi produzida uma vasta literatura sobre tafsir, hadith, fiqh, história islâmica e o sistema de vida islâmico; era tão abundante e abrangente que o povo não podia deixar de encorajar os autores e elogiar os editores. Hoje, além dos dois volumes da famosa obra do mártir Abd al-Qadir Awda sobre o direito penal islâmico, encontramos seis grandes livros do célebre pesquisador e filósofo egípcio Fathi Vasdhi sobre esse tema. Existe também uma rara compilação sobre o direito internacional islâmico, escrita pelo juiz do Tribunal de Apelação de Lintar. Encontram-se as obras de Muhammad Qutb, Abdullah al-Samman e Muhammad Husayn sobre a discussão filosófica do sistema de vida islâmico. Dispomos de uma longa série de biografias de juristas, exegetas, estudiosos de hadith, líderes, linguistas e historiadores da história islâmica, intitulada Figuras Islâmicas Ilustres, publicada pelos editores egípcios. Em suma, milhares e milhares de livros foram escritos nessa época por sábios e eruditos, que empreenderam esforços para provar a superioridade do Islã nos campos do pensamento e da intelectualidade. Esse material literário conservador alcançou ampla aceitação entre o povo egípcio. As bibliotecas do Egito estavam repletas dessas obras, e era sobretudo essa literatura que se via sob o braço da maioria dos compradores.
Para o Partido Comunista do Egito, atualmente identificado pelo nome de Partido Socialista Árabe, essa situação era de partir o coração. Para transformar a sociedade socialista egípcia — em termos claros, comunista — era extremamente necessário eliminar pela raiz esse pensamento de natureza conservadora e os escritores conservadores. Segundo sabemos, os líderes comunistas prepararam um longo relatório e o enviaram a Moscou, no qual se afirmava claramente que, enquanto existisse no Egito sequer uma pessoa do grupo conservador, o Egito não se transformaria em algo para nós.
A situação política do Egito também pode ser avaliada pelo fato de que, devido aos gastos desmedidos dos governantes egípcios, os sírios se revoltaram em apenas três anos e acabaram por conquistar a independência da Síria. Mas, onde esse procedimento desmedido se manteve por doze anos, é fácil imaginar a que extremo chegaram a amargura e o descontentamento. A manifestação aberta do descontentamento do povo egípcio com os governantes do Egito ocorreu quando, em 1964, Mustafa Nahas Paxá morreu, milhões de pessoas participaram de sua oração fúnebre e irromperam confrontos entre a polícia e a população durante o funeral. Para conter esse descontentamento, foi aprovada uma lei em 11 de outubro de 1965, que concedia ao presidente o poder de prender qualquer pessoa por motivos políticos sem abrir processo contra ela, sem que fosse possível apresentar recurso em lugar algum.
Por outro lado, o problema do Iêmen também chegou a tal ponto que, mesmo que o povo egípcio, tomado pela emoção, arrancasse os próprios cabelos, isso não seria suficiente. Durante três anos, o exército egípcio arruinou o Iêmen. Foram gastos dez milhões de libras. Dez mil jovens egípcios — segundo outro relato, vinte e cinco mil — foram sacrificados nessa guerra. A espinha dorsal da economia egípcia foi quebrada, e até a última força então disponível para enfrentar Israel foi destruída. As diversas partes iemenitas, entre as quais havia apoiadores de Sallal e colaboradores de Badr, acabariam sentando-se juntas para resolver esse problema, fosse hoje ou amanhã, direta e pessoalmente ou por intermédio de outros. Qualquer que fosse o resultado final desse enorme erro, ele acabou provocando instabilidade psicológica e grave agitação no exército egípcio. Para solucionar essa agitação, decidiu-se também instaurar medo, intimidação e terror no país. E, se em algum lugar surgisse crítica ou uma opinião contundente, ela seria eliminada antes do momento adequado.
A reunião dos comunistas realizada no Sudão foi extremamente perigosa. Os comunistas egípcios fizeram esforços desesperados para dar abrigo aos comunistas sudaneses. Os rebeldes do Sudão do Sul foram instigados para criar desordem no interior do Sudão e desviar a atenção dos muçulmanos dos comunistas. Mas, graças aos esforços unidos de todos os orientados pelo Islã da Irmandade Muçulmana no Sudão, os comunistas foram contidos no país. Os comunistas egípcios e o Partido Comunista Russo decidiram vingar-se disso da Irmandade Muçulmana do Egito. Para eles, os Irmãos eram todos iguais, fossem egípcios, sudaneses, jordanianos, sírios, iraquianos ou sauditas; seu da‘wa e sua organização também eram os mesmos.
Com base nessas razões e perspectivas, quando o presidente Nasser visitou Moscou em agosto de 1965, ele discursou em uma conferência e disse: “A Irmandade havia planejado assassinar-me. Mas isso foi descoberto. No passado, perdoei-os, mas agora não os perdoarei mais.”
Por um lado, ele revelou em Moscou o plano de assassinato; por outro, começaram prisões em massa no Egito. Ao atacar a Irmandade, o presidente Nasser conquistou a satisfação de vários círculos e alcançou diversos objetivos: agradou aos russos e ao Partido Comunista do Egito, pró-Rússia. Ao agradar aos russos, a ajuda estrangeira aumentou, e também desapareceu a má reputação do Partido Comunista Egípcio, que estava consolidada no país devido à ampla publicação de pensamentos conservadores a seu respeito. Do mesmo modo, os Estados Unidos também foram agradados. Isso porque, aos olhos da América, reprimir os orientados pelo Islã era mil vezes melhor e mais benéfico do que reprimir os comunistas. Com isso, os judeus também ficaram satisfeitos, pois a Irmandade ajudava os muçulmanos rebeldes da Eritreia, e a boa consideração que estes lhes dedicavam acabou se tornando um problema para os governantes. Surgiu no Egito uma poderosa mão para criar medo e terror. Isso porque, se o demônio tomasse conta da cabeça de qualquer outra pessoa, ela aprenderia com o destino da Irmandade e não faria do socialismo e do problema do Iêmen objeto de crítica.
Após a revelação da chamada conspiração, é impossível descrever até o fim a crueldade com que a polícia de inteligência egípcia prendia os membros da Irmandade e o tratamento bestial que dispensava às mulheres durante as buscas, casa por casa, nas residências dos membros da Irmandade. Há também casos em que marido e mulher foram presos, deixando seus filhos inocentes sozinhos em casa. Os pais insistiam para que até mesmo o bebê de leite fosse preso, para que não morresse de fome e sede sozinho dentro de casa, podendo passar os dias na prisão. Mas a polícia egípcia rejeitava o pedido, e ninguém se dispunha a cuidar da criança, pois quem manifestasse essa intenção passaria a ser visto como suspeito. Essas prisões criaram uma situação aterradora em todo o Egito. Como a influência da Irmandade era maior entre os camponeses, essa população pobre tornou-se o principal alvo da vingança da polícia egípcia. Ocorreram dois incidentes que tornaram a situação extremamente delicada: um foi o incidente de Kardasa e o outro, o de Miyata.
Kardasa é uma aldeia situada à beira-mar. Alguns membros da polícia de inteligência foram à aldeia à procura de membros da Irmandade e, durante essa operação de busca, invadiram uma casa. Quando descobriram que não havia ali nenhum membro da Irmandade, prenderam uma mulher da casa e levaram-na à força, arrastando-a. Ao saberem disso, os camponeses da aldeia abandonaram o trabalho, correram para lá e atacaram o posto policial. Houve troca de paus e pedras entre os dois lados. Um policial foi morto no incidente, e os demais fugiram. O grupo vitorioso de camponeses voltou à aldeia gritando slogans de “morte a”. Mais tarde, ao saberem que a polícia havia solicitado apoio militar e que toda a aldeia estava sendo cercada por canhões, os camponeses também adotaram medidas defensivas nas proximidades. Mas os disparos de artilharia do exército destruíram completamente a aldeia. Inúmeras pessoas morreram; os sobreviventes foram presos e suas casas, saqueadas. O jornal suíço Elibertat publicou a notícia em sua edição de 10 de dezembro de 1965, descrevendo que os habitantes de Kardasa enfrentaram com armas as tropas de Abdun Nasser, que haviam atacado a aldeia para prender um membro da Irmandade Muçulmana.
O outro incidente ocorreu em Miyata, situada à margem do mar Romano, cento e trinta milhas a leste do Cairo. Um grupo de policiais entrou na aldeia à procura de membros da Irmandade. Ali, a polícia quis revistar o barco de um pescador, mas ele continuava a protelar, temendo que os policiais levassem todos os peixes que havia pescado. Essa ousadia do pescador era contrária ao poder e à dignidade da polícia. Por isso, os policiais atiraram nele e o mataram sem hesitação. Seus companheiros pescadores, ao verem aquela cena brutal de tortura, começaram a gritar, e os moradores das redondezas correram para ajudar os pescadores. Em instantes, milhares de pessoas se reuniram. Comovidos pela impotência dos pobres pescadores, iniciaram protestos contra a polícia de Miyata e contra o governo, gritando slogans de “morte ao governante do Egito”. Tomados pela indignação, pisotearam as fotografias do líder sírio penduradas nas lojas. A administração local entrou em contato com as autoridades superiores e solicitou apoio militar para reprimir os protestos. Em seguida, as forças egípcias chegaram e cercaram Miyata. O que aconteceu depois é inimaginável. Os jornais do Cairo noticiaram o caso, em suas edições de 4 de dezembro de 1965, como um confronto entre um contrabandista e a polícia. Contudo, segundo a Joint Press News of America, pelo menos dezesseis pessoas da aldeia foram mortas no incidente, e o marechal Abd al-Hakim Amer o teria desfrutado com absoluta naturalidade. A United Press of America informou que os mortos foram enterrados sem banho ritual nem mortalha. Além disso, os soldados levaram milhares de pessoas presas. A Reuters e a Agence France Presse divulgaram o incidente com grande destaque.
Segundo as últimas notícias, até o fim de dezembro de 1965, mais de quarenta mil membros da Irmandade haviam sido presos. O London Daily Telegraph escreveu, em 11 de outubro de 1965, que até então vinte mil pessoas haviam sido presas e que as detenções continuavam em todo o país.
Entre os presos havia cerca de vinte e oito mulheres. Além disso, as famílias dos presos foram exiladas para regiões remotas do país. Assim, o jornal judaico londrino Jewish Observer anunciou alegremente, em sua edição de 28 de novembro de 1965, a “boa notícia” de que as informações da semana confirmavam que quatro mil e quinhentas famílias dos membros presos da Irmandade haviam sido exiladas para áreas desoladas e muito distantes.
Segundo a avaliação das autoridades egípcias, os presos estavam divididos em dois grupos. Um pequeno número era formado por aqueles contra os quais o governo egípcio havia apresentado acusações; eram menos de quatrocentos. A maioria, porém, era composta por pessoas contra as quais não havia acusação alguma.
Entre os presos, destacavam-se as seguintes pessoas:
1. Hassan Ismail al-Hudaybi: Ele tinha cerca de setenta e quatro anos. Antes de estabelecer uma relação formal com a Irmandade, era consultor jurídico da Suprema Corte do Cairo. Após o martírio do falecido Hassan al-Banna, em 1948, foi eleito murshid geral da Irmandade (presidente central). Como era jurista, durante seu mandato fez grandes esforços para que a organização cumprisse as leis e os regulamentos. Contudo, em alguns círculos da Irmandade, foi criticado por seu rigor jurídico e sua inflexibilidade em questões menores. Em 1954, quando a Irmandade sofreu uma nova calamidade, ele também foi preso e condenado à morte. Mais tarde, porém, a pena foi comutada devido à sua idade. Na prisão, foi submetido a torturas ilimitadas. Como consequência, sua condição física se deteriorou tanto que o governo foi obrigado a libertá-lo. Desde então, passou os dias em sua própria casa, sob prisão domiciliar. Mais tarde, foi novamente preso sob a acusação de planejar um assassinato e condenado a três anos de trabalhos forçados.
2. Mamun al-Hozaybi: Ele era filho de Hasniul Hozaybi e também foi consultor jurídico da Suprema Corte do Cairo. Foi condenado a três anos de prisão.
3. Ismail al-Hozaybi: Ele era outro filho de Hasniul Hozaybi. Era advogado de profissão. Foi condenado a um ano de trabalhos forçados.
4. Sayyid Qutb: Ele tinha cerca de sessenta anos. Antes de ingressar na Irmandade, ocupava o cargo de inspetor escolar no Ministério da Educação do Egito. Em 1953, tornou-se membro da Irmandade. Em 1954, também foi preso, e o Mahkamatush Shaab (Tribunal Popular) decretou sua pena de morte, que foi comutada devido à sua idade. Em agosto de 1964, o governo egípcio o libertou com base na recomendação do falecido Abdus Salam Arif. Porém, apenas um ano depois, em agosto de 1965, ele foi novamente preso e enforcado.
5. Muhammad Qutb: Ele era o irmão mais velho de Sayyid Qutb. Foi autor de vários livros. Não tinha vínculo organizacional com a Irmandade. Suas obras famosas são:
1. O ser humano à luz do materialismo e do Islã,
2. O Islã no cerco do erro,
3. A jahiliyyah do século XX,
A enorme popularidade desses livros acabou se tornando a causa de sua prisão. Ele também fundou uma editora própria, que publicava suas obras, os livros de Sayyid Qutb e os de outros escritores islâmicos. Quando ele foi preso, o governo também confiscou sua editora. Muhammad Qutb foi submetido a torturas desumanas na prisão, e sua irmã, Amina Qutb, também foi submetida a torturas semelhantes.
6. Professor Saleh Abu Raqiq: Ele era o consultor jurídico central da Liga Árabe.
7. Muhammad Farid Abdul Khaleq: Ele era um dos renomados educadores do Egito.
8. Professor Munir Walla: Durante o governo de Farouk, ele foi consultor jurídico do Conselho de Estado.
Entre as mulheres presas, destacam-se as seguintes:
1. Sayyida Zaynab al-Ghazali. Ela tinha mais de sessenta anos. Era líder da organização feminina. Ao prestar depoimento perante o tribunal, disse: «Por que foi necessário fazer falsas acusações contra mim? E, se precisavam da minha vida, ela já está aqui.» Ela foi condenada a dez anos de trabalhos forçados.
2. A esposa de Hasan al-Hudaybi, líder da Irmandade.
3. Sayyida Khaleda, filha de Hasan al-Hudaybi.
4. A esposa de Ismail al-Hudaybi (nora de Hasan al-Hudaybi)
5. Sayyida Hamida Qutb. Irmã de Sayyid Qutb. Foi condenada a três anos de trabalhos forçados.
6. Esposa do professor Abdul Halim Oshahi.
Também é necessário mencionar o tratamento dispensado aos presos nas prisões e o que acontecia com seus familiares. Já descrevi acima que a maioria das famílias dos presos era enviada para regiões remotas e isoladas, para que não pudesse obter qualquer ajuda nem fazer esforços ou diligências em seu favor, e também fosse privada da solidariedade do povo. Não era permitido aos familiares dos presos visitar seus parentes e amigos, nem trocar correspondência com eles. A maioria das pessoas era presa — ou, em outras palavras, sequestrada — em circunstâncias tais que suas famílias nada sabiam sobre elas. Havia milhares de famílias que não tinham nenhum provedor nem alguém que lhes oferecesse abrigo.
Além disso, com base em uma lei governamental, aqueles entre os presos que trabalhavam no serviço público eram privados de seus salários, benefícios e outros direitos legais. Assim, se alguém entre os presos fosse empregado de alguém, também seria demitido, seu salário seria suspenso e nenhum de seus parentes próximos receberia auxílio financeiro. O povo em geral também foi instruído a não oferecer dinheiro nem qualquer outro tipo de ajuda a nenhum dos familiares dos presos. Foi anunciado que quem cometesse esse crime receberia a punição apropriada. Todos os bens móveis e imóveis dos presos eram confiscados. O jornal parisiense Ravmandi publicou, em sua edição de número 65, de 23 de dezembro, a notícia de que, segundo a lei promulgada pelo governo egípcio, o governo tinha o direito de confiscar os bens dos detidos políticos. As famílias que viviam em casas alugadas ou do governo eram expulsas dessas residências por ordem da polícia e deixadas em situação de desamparo ao relento.
Como por trás dessas prisões atuavam os objetivos dos conselheiros comunistas, elas não se limitaram apenas à Irmandade Muçulmana. Na realidade, o objetivo de todas essas ações de perseguição e repressão era duplo: primeiro, a eliminação dos escritores e pregadores conservadores; segundo, do pensamento e da perspectiva conservadores. E é evidente que, enquanto o país não for purificado dessas duas coisas, o comunismo não será abençoado neste país.
Para eliminar os escritores e pregadores conservadores, o primeiro ataque foi lançado contra a Irmandade Muçulmana. Depois, a atenção voltou-se para as demais organizações religiosas do Egito. E cada uma delas foi apresentada como envolvida, de alguma forma, em um plano de assassinato. A Organização da Juventude Muhammad (que a paz esteja com ele), a Jamiat-e Sharia, a Jamaat Tabligh e a Ansar al-Sunnah al-Muhammadiyah mantinham forte divergência com a Irmandade Muçulmana e consideravam a política proibida por princípio. Apesar disso, essas organizações foram perseguidas, seus apoiadores foram presos e foram acusadas de que os membros da Irmandade Muçulmana se aproveitavam das emoções e dos sentimentos religiosos desses jovens e os colocavam sob sua esfera de influência. A maioria dos habitantes de Assiute era cristã. Para a minoria muçulmana dali, a Jamiat-e Sharia havia construído uma mesquita e, junto dela, fora fundado um clube para o entretenimento dos jovens. Isso porque ele frequentava um clube cuja administração estava nas mãos de uma organização religiosa.
Para libertar-se do pensamento conservador, as escolas religiosas foram seladas, e os livros confiscados, nos quais haviam sido encontrados seus germes. Temos em nosso poder uma longa lista de livros que foram declarados ilegais no Egito nos últimos meses. Entre eles estavam, além dos livros dos autores da Irmandade Muçulmana, também livros de outros autores que haviam sido assim designados pelo governo. Foram seladas as gráficas que normalmente imprimiam literatura islâmica. Encontrei-me no Catar com Muhammad al-Madani, proprietário da famosa gráfica Al-Madani, do Cairo. Ao contar-me pessoalmente como sua gráfica fora destruída, ele disse que aquela destruição só ocorrera pelo crime de a gráfica imprimir literatura islâmica em vez de literatura comunista. Por isso, afirmarei sem hesitação que esse conflito é, na realidade, um conflito entre o Islã e o comunismo, entre os crentes e os ateus. Julgá-lo apenas como fruto da loucura de algumas pessoas e imaginar que ele termina com suas condenações à morte não constitui uma observação correta da situação.
Agora serão mencionadas as acusações feitas contra a Irmandade Muçulmana no comunicado oficial à imprensa:
A primeira acusação era que a Irmandade havia fundado uma organização secreta, cujo líder era Sayyid Qutb. A organização reunia ajuda financeira e outros recursos para os acusados. Seus membros treinavam pessoas para planejar o assassinato do presidente Nasser e para destruir trens especiais, tendo também recorrido à colaboração de algumas mulheres nesse treinamento.
Na realidade, essa não era uma acusação nova. Tampouco era uma acusação particularmente nova contra o governo egípcio e a Irmandade Muçulmana. Em todas as épocas, todo governante tem feito acusações desse tipo contra seus opositores; especialmente os países comunistas e os Estados sob sua influência demonstraram grande habilidade na fabricação de acusações dessa natureza. Pode-se apoiar essa acusação simplesmente porque isso foi afirmado em um comunicado oficial? Qualquer pessoa de bom senso perguntará: em 1954, milhares de membros da Irmandade foram presos. Suas famílias viveram em extrema miséria e desamparo. O próprio Sayyid Qutb foi libertado depois de dez anos e, antes que se passasse um ano, foi preso novamente. Mesmo após sua libertação, permaneceu sob rigorosa vigilância. Como pode a consciência aceitar que, em tão pouco tempo, ele tenha elaborado uma conspiração tão grandiosa e reunido uma quantidade tão enorme de armas capaz de derrubar o governo? Diante de uma polícia que era capaz de trazer de Roma para o Cairo, acondicionadas em caixas, pessoas suspeitas, alguém poderia sequer imaginar uma conspiração desse tipo na presença dessa polícia? Também é digno de nota que a acusação afirmava que os acusados continuaram elaborando planos para derrubar o governo até 1959. Então Sayyid Qutb supervisionava esse plano sentado na prisão e, juntamente com sua própria irmã e com outra mulher de sessenta anos, Zaynab al-Ghazali, recebia ajuda para distribuir as instruções destinadas à sua execução? Qual era, então, a prova dessa acusação? A propaganda do rádio e dos jornais não constitui prova alguma, e foi justamente a organização independente e imparcial do mundo, a Anistia Internacional, que revelou o segredo de como e em que tipo de tribunal essa acusação foi apresentada.
Entretanto, a obra importante que a Irmandade realizou nos últimos anos foi prestar ajuda financeira às famílias abandonadas e desamparadas das milhares de pessoas presas em 1954. O governo egípcio derramou sem hesitação recursos financeiros sobre sua polícia secreta, seus meios de propaganda, o Partido Socialista Árabe e outras instituições semelhantes, mas nunca considerou necessário destinar sequer um centavo para a subsistência das famílias dos presos. No entanto, era sua responsabilidade fornecer ajuda financeira para a sobrevivência mínima dos filhos inocentes, das esposas e das mães idosas daqueles que haviam sido encarcerados por longos períodos por motivos políticos. O marxismo não possui ao menos algum princípio básico para proteger da fome as famílias dessas pessoas? No marxismo, somente o partido governante tem permissão para abarrotar seus bolsos com recursos financeiros; ninguém mais tem esse direito? Somente as crianças egípcias do mártir Lumumba, que morreu pelo país, receberão do governo egípcio todas as oportunidades e facilidades de educação? Mas os filhos pobres e desamparados de Abd al-Qadir Awda não terão nenhum direito a isso? Além disso, existe uma longa lista de parentes próximos que vivem nas casas de milhares de presos. Alguém pensou se suas mães, esposas, filhas e bebês de colo conseguem fazer duas refeições por dia?
Mas o Egito não era de modo algum desprovido de pessoas compassivas e solidárias. Um grupo de estudantes de escolas, colégios e universidades ia de casa em casa dos simpatizantes, recolhia contribuições e as entregava, conforme a necessidade, às famílias desamparadas de cada preso. O governo egípcio também considerou esse grupo uma organização secreta. Eles não estavam fora do alcance da polícia secreta egípcia. Tampouco eram membros da Irmandade; muitos jovens realizavam esse trabalho simplesmente movidos pelo sentimento humanitário e por considerá-lo uma obra de interesse público. Além disso, muitas pessoas honestas, que não tinham a menor relação com a Irmandade, contribuíam financeiramente para essa obra beneficente apenas por temor a Deus e compaixão humana. Nenhum homem de bem imaginava que isso também pudesse ser considerado uma atividade política. Por essa razão, eles não sentiram necessidade de ocultá-la nem fundaram qualquer organização secreta para esse fim. Aqueles que compreendiam o temperamento do governo egípcio aconselharam esses jovens de boa índole a abandonar o trabalho, pois sabiam que essa obra de assistência pública um dia se provaria destrutiva para eles. Mas esse conselho não produziu efeito algum em seus corações. Pelo contrário, continuaram incessantemente ocupados com seu trabalho. Por fim, sua coragem provou ser um perigo para eles. Enquanto, de um lado, permaneciam empenhados em sua tarefa, de outro, a polícia secreta egípcia continuava silenciosamente a elaborar sua lista. Em determinado momento, eles próprios foram declarados membros da organização secreta da Irmandade, e muitos desses homens honestos, que lhes forneciam ajuda financeira para socorrer as famílias famintas, foram presos sob a acusação de conspiração.
A segunda acusação era que um arsenal de armas havia sido encontrado com a Irmandade. Com essas armas, eles planejariam derrubar o governo egípcio, assassinar personalidades importantes e demolir grandes edifícios. Contudo, as fotografias das armas publicadas nos jornais mostravam apenas facas e punhais comuns. Se a polícia tivesse realmente encontrado armas, certamente teria organizado uma exposição e a transmitido pela televisão para convencer o mundo inteiro de que eles haviam reunido os recursos necessários para uma revolução armada. Não é absurdo que, ocultando as armas apreendidas, se publicassem nos jornais apenas facas e punhais para mostrar ao mundo? O governo egípcio seria uma criança ingênua a ponto de esconder o arsenal que havia apreendido e apresentar ao mundo, em uma exposição, essas coisas ridículas? Segundo o relato de um jornalista famoso que visitava o Egito, o governo convidou um grupo de jornalistas a ir à aldeia de Karadasa para visitar o arsenal. De um lado, providenciou-se o transporte do grupo de jornalistas até Karadasa; de outro, enviou-se para lá um caminhão do exército carregado de armas. Mas, por acaso, esse caminhão quebrou na estrada por alguma razão e não conseguiu chegar no horário previsto. Com isso, a polícia não teve oportunidade de preparar um depósito de armas. Quando os jornalistas exigiram ver o arsenal, a polícia foi obrigada a exibir o próprio caminhão do exército e declarou que o significado de “arsenal” era aquele caminhão. Embora fotografias de outras armas além desse caminhão do exército também tenham aparecido nos jornais, nenhuma amostra das armas foi apresentada em lugar algum, nem elas foram mostradas ao público. Depois dessas duas acusações fundamentais, o número de acusações foi aumentando dia após dia, e eram as seguintes:
1. Os irmãos e irmãs de Sayyid Qutb, Muhammad Qutb, Amina Qutb e Hamida Qutb eram líderes de uma organização terrorista secreta. Sob a liderança deles, foi elaborado um plano que, se não tivesse sido descoberto, teria causado uma catástrofe no Egito. Que irmãos e irmãs do mesmo núcleo familiar estivessem elaborando um plano tão grandioso só seria possível se pertencessem a uma família de tolos e imbecis; mas não poderia ser a família dos autores de livros sobre a exegese do Alcorão, a justiça social do Islã, o materialismo e o ser humano na perspectiva islâmica. Tampouco poderia ser a família daqueles cujos membros haviam cumprido dez anos de trabalhos forçados e cuja mulher passara dez longos anos contando as horas à espera do marido, condenado à prisão perpétua.
2. A descoberta da conspiração de um homem chamado Hussein Tawfiq. Embora o relatório policial a considerasse diferente da conspiração da Irmandade, as agências de notícias e os jornais egípcios a apresentaram como parte da própria conspiração da Irmandade. O relatório policial apontava Hussein Tawfiq como agente do governo saudita. Porém, se se admitisse que essa conspiração tinha ligação com a Arábia Saudita, haveria o risco de se criar um obstáculo à solução do problema do Iêmen. Naquele momento, entretanto, o governo egípcio desejava ardentemente que esse problema fosse resolvido de forma pacífica. Por isso, sem vincular a conspiração à Arábia Saudita, ela foi atribuída à Irmandade. Afinal, eles eram um bode expiatório de tal natureza que, mais cedo ou mais tarde, seriam inevitavelmente sacrificados.
3. Pouco depois, foi provada a acusação de que a organização terrorista da Irmandade não havia planejado assassinar apenas o presidente Nasser, mas também a cantora e diva Umm Kulthum, o célebre músico Abdel Wahab, o famoso ator de cinema Abdel Halim Hafez e a brilhante estrela do cinema Faiza Shadya. O objetivo da polícia ao divulgar esses nomes era este: se o povo não se agitasse ao ouvir a notícia do plano para assassinar seu querido presidente, seria inevitável que, pelo menos, surgissem entre ele a ira e o ódio contra seus heróis favoritos. E o aspecto interessante desse episódio é que, quando os nomes dos principais artistas da música e da dança mencionados fossem publicados nos jornais, outros artistas da mesma categoria protestariam, perguntando por que não eram incluídos na categoria dos heróis. Em resposta a essa reivindicação, a polícia importaria mais algumas cartas que provariam que, além das pessoas mencionadas, um número ainda maior de pessoas também fazia parte da lista da Irmandade. Esses nomes também seriam publicados nos jornais.
Diz-se que aqueles que são condenados à morte ou a qualquer outra pena severa confessaram voluntariamente seus crimes. Mas, num regime ditatorial, a história das confissões voluntárias de crimes não depende de provas, explicações ou análises independentes. O mundo conhece bem as histórias dos que confessaram crimes na era de Stalin. A capacidade de resistência de cada pessoa tem um limite. Ultrapassando esse limite e submetendo alguém a tortura e perseguição excessivas, é possível fazê-lo confessar qualquer crime que não tenha cometido. Mas que resposta há para o fato de que, quando o julgamento desses acusados se realiza perante o tribunal ao qual são apresentados, os procedimentos são transmitidos pela televisão? E, quando os prisioneiros começam a contar suas histórias de sofrimento, a transmissão é imediatamente interrompida e o prisioneiro é levado para uma sala fechada. Jornalistas egípcios e estrangeiros não recebem permissão para assistir às audiências. Quando um representante da Anistia Internacional quis entrar no tribunal, também foi proibido; depois, nos jornais, só se publica sobre os procedimentos aquilo que é divulgado pelos meios oficiais. Mesmo que se admita que os prisioneiros da Irmandade tenham confessado os crimes, isso não nos surpreende. Diante do tratamento que recebem na prisão, é compreensível que qualquer prisioneiro apoie todas aquelas acusações publicadas nos comunicados oficiais e nos jornais dos países árabes. O escritório da Cruz Vermelha em Genebra tornou isso público. O relatório do representante da Anistia Internacional confirmou esse fato. Além de tudo, a maior prova é que até nas bocas das crianças pequenas dos países árabes ecoava essa verdade.
Aqui descrevo apenas as condições das prisões militares do Egito, onde eram mantidos somente aqueles que estavam sendo interrogados. A descrição a seguir do tratamento dispensado à Irmandade foi publicada no diário Al-Misaq al-Islami, de Cartum, Sudão, nas edições de 2 e 3 de fevereiro de 1966; no diário Al-Ilm, de Rabat, Marrocos, na edição de março de 1966; e no Ukaz, de Jeddah, Arábia Saudita, na edição de 1º de maio de 1966. Esta é a descrição feita por prisioneiros que, de alguma forma, conseguiram fazer chegar ao exterior o que acontecia com seus companheiros; posteriormente, esse relato chegou aos jornais do Sudão, do Marrocos e da Arábia Saudita:
Trouxeram um grupo de cerca de trinta membros da Irmandade. Eles foram divididos em três grupos. As pernas de cada um foram amarradas aos braços de outro, e eles foram deitados de costas no chão. Depois trouxeram dez guindastes. Os dois braços do primeiro homem foram amarrados ao guindaste número um. As pernas do terceiro homem foram amarradas ao guindaste número dois. Assim, os dez guindastes suspenderam os trinta homens no ar. Os guindastes estavam dispostos em cinco fileiras. Dessa maneira, eles eram torturados de várias formas. A tortura que lhes foi infligida supera até mesmo a tortura de Stalin. Aqui termina o relato da tortura infligida à Irmandade.
Hoje, o renascimento islâmico começou em várias partes do mundo, e o papel da Irmandade Muçulmana nesse processo é preeminente. Embora não tenham conseguido estabelecer a sociedade desejada, seus esforços não foram em vão. O sangue dos mártires nunca foi derramado em vão, nem jamais será. Sobre o sangue que derramaram, um dia a sociedade islâmica será estabelecida — isso certamente acontecerá, se Deus quiser.
Não apenas no Egito: o sangue ardente dos povos monoteístas da Palestina, da Bósnia, da Caxemira, do Iraque e do Afeganistão testemunha exatamente isso.
Fim