Palavras do editor
O respeitável Abbas Ali Khan é um dos maiores pensadores islâmicos de Bangladesh. Sua contribuição aos esforços de divulgação e estabelecimento do Islã é especialmente notável. Sua pena também é incansável no campo da redação e tradução de literatura islâmica. Entre as obras que escreveu está «O conflito eterno entre o Islã e a Jāhiliyyah». Nesta obra, o autor retratou com maestria o conflito que o Islã travou e trava com a Jāhiliyyah no passado e no presente. Ao mesmo tempo, indicou de modo admirável os deveres daqueles que aspiram a estabelecer o Islã. Estamos convictos de que sua obra será considerada um valioso recurso para aqueles que aspiram a estabelecer o Islã.
Islã e Jāhiliyyah
O Islã e a Jāhiliyyah são duas crenças, doutrinas e formas de ação diametralmente opostas. Seus caminhos, objetivos e destinos são diferentes — ou melhor, opostos. Portanto, o conflito e o confronto entre ambas são naturais e inevitáveis. Desde o início da humanidade, essa luta tem prosseguido e, enquanto a humanidade existir, esse conflito continuará.
Uma das duas é boa, e a outra é má. Uma é a verdade e a justiça, e a outra é a falsidade e a injustiça. Uma é benéfica, e a outra é prejudicial. Uma é luz, e a outra é escuridão. Uma é criadora, e a outra é destruidora. Uma é o caminho escolhido por Allah, o Criador do universo, e a outra é o caminho que Lhe é indesejado e proibido. Desses dois caminhos e doutrinas, o primeiro é o Islã, e o segundo é a Jāhiliyyah. O que é Islã não é Jāhiliyyah, e o que é Jāhiliyyah não é Islã.
A palavra «Jāhiliyyah» é usada no sentido oposto ao Islã. Todos os métodos e caminhos do Islã baseiam-se no conhecimento. Isso porque o próprio Deus ensinou esse caminho e esse método, e somente Ele possui o conhecimento de todos os mistérios ocultos. Em contrapartida, todo método e caminho diferente do Islã é considerado um método e caminho da Jāhiliyyah. A era pré-islâmica da Arábia era chamada de era da Jāhiliyyah nesse sentido: naquela época, sem conhecimento, as pessoas haviam determinado seu próprio modo de vida baseando-se unicamente em superstições, conjecturas e desejos. Onde quer que e em qualquer época que as pessoas adotem esse método, ele necessariamente será chamado de método de ação da Jāhiliyyah.
Em suma, na terminologia islâmica, Jāhiliyyah refere-se aos métodos de ação contrários à civilização e cultura islâmicas, aos princípios éticos, à moralidade, às boas maneiras e à mentalidade islâmica. — «Ele é Aquele que vos criou. Então, entre vós, há quem seja incrédulo e quem seja crente; e Allah observa tudo o que fazeis» — (At-Taghābun: 2).
Os exegetas apresentaram quatro interpretações, e as quatro estão corretas.
Primeiro — Ele é o vosso Criador. Contudo, alguns negam que Ele seja o Criador, enquanto outros aceitam esta grande verdade. Por isso, os primeiros são chamados, respectivamente, de kafir e os segundos, de mu’min.
Segundo — Ele criou-vos, mostrou-vos os caminhos do bem e do mal e também vos informou sobre as consequências de ambos. Depois, concedeu-vos plena liberdade para escolher qualquer um desses dois caminhos e segui-lo. Se quiserdes adotar o kufr, isto é, se quiserdes recusar seguir o caminho de Allah, podeis fazê-lo; e, se quiserdes trazer a iman e seguir o Seu caminho, também podeis fazê-lo. Ele não vos obriga a adotar nem a iman nem o kufr. Portanto, sois vós mesmos responsáveis tanto pela iman quanto pelo kufr — isto é, por aceitar ou não a soberania, a autoridade e o governo de Allah. Ao conceder-vos a liberdade de escolha entre essas duas opções, Ele submeteu-vos a uma terrível prova. Ele observa como utilizais a vossa liberdade de escolha. A frase “Ele observa o que fazeis” contém uma indicação de advertência. Assim como tendes liberdade para seguir dois caminhos opostos, também tereis inevitavelmente de sofrer consequências opostas. O resultado do caminho do bem jamais pode ser igual ao do caminho do mal. Não é necessário dizer que, para desfrutar de um bom resultado, é preciso seguir o caminho do bem. É nisso que consiste a prova do ser humano. A prova é realizada para conceder recompensa ou aplicar castigo; caso contrário, ela seria sem sentido.
Terceiro — Ele criou-vos sobre uma natureza sã e correta, e a exigência dessa natureza é que adoteis o caminho da iman. Contudo, depois de terdes sido criados sobre uma natureza sã e correta, alguns de vós adotastes o kufr, o que é contrário à Sua criação. Outros, porém, adotastes o caminho da iman, que é compatível com a vossa natureza.
É preciso lembrar que o ser humano foi criado com uma disposição mental e espiritual natural, livre da inclinação para o pecado. Depois, ele adota o caminho reto ou o caminho desviado.
É importante observar que nenhum dos profetas e mensageiros que vieram ao mundo, nem nenhum dos Livros celestiais que lhes foram concedidos, mencionou o ser humano como pecador por nascimento. No entanto, há um século e meio o mundo cristão vem mantendo a crença religiosa de que o ser humano é pecador por natureza. Segundo a sua crença, como consequência do pecado de Adão e Eva, uma inclinação hereditária para o pecado passou a existir nos seres humanos. Em vez de pensar e esforçar-se para controlar essa inclinação pecaminosa, atribuíram toda a responsabilidade a Adão e à senhora Eva e passaram a procurar pretextos para levar uma vida imersa no pecado. Esta é uma concepção e uma filosofia gravemente equivocadas, e isto é precisamente a jahiliyyah.
Entretanto, atualmente, estudiosos católicos começaram a afirmar que essa concepção e essa crença não têm fundamento na Bíblia. O renomado estudioso da Bíblia, Reverend Habat Hag, afirma em seu livro ‘Is Original Sin in Scripture?’ que, até o século III, não existia entre os cristãos a crença de que o ser humano era pecador por nascimento. Quando esse tipo de concepção e crença começou a espalhar-se devido à propaganda de algumas pessoas, os estudiosos cristãos continuaram a protestar contra ela durante dois séculos. Mas, finalmente, no século V, Santo Agostinho, mediante a sua rede de argumentos falaciosos, incluiu na crença fundamental do cristianismo a ideia de que a humanidade herdou a maldição do pecado de Adão. E, como Jesus Cristo deu a vida na cruz e ofereceu a expiação, foi estabelecido um meio de libertação para os seres humanos — não existe outro caminho além desse. Esta é uma crença cega, equivocada, inventada e irracional, e uma arma gravíssima da jahiliyyah.
Quarto — Allah Todo-Poderoso concedeu-vos existência depois da inexistência. Vós não existíeis; depois passastes a existir. Se refletísseis sobre isso com uma mente simples, sincera e imparcial, certamente compreenderíeis que a vossa própria existência é um dom especial de Deus, graças ao qual podeis desfrutar das incontáveis bênçãos criadas para vós. Contudo, muitos dentre vós não refletem sobre isso. Por consequência, adotaram o caminho da rebelião e do pecado. Alguns outros adotaram o caminho da iman e demonstraram um pensamento correto e preciso.
Também merece especial atenção o que foi dito na surata Ar-Rum do Alcorão Sagrado: “Portanto, (ó Profeta e seguidores do Profeta) concentrai todos os vossos objetivos nesta religião, voltando-vos inteiramente para ela. Mantende-vos firmes sobre a natureza segundo a qual Allah criou os seres humanos. Não se pode alterar a estrutura criada por Allah. Esta é a religião ou o sistema de vida absolutamente verdadeiro e correto” — (Ar-Rum: 30).
No versículo acima, dirigindo-se ao Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) e aos muçulmanos, afirma-se: quando é evidente para vós esta realidade — que não há outro criador e proprietário do universo além de Allah — então, necessariamente, o vosso modo de agir deve consistir em orientar exclusivamente o vosso objetivo para esta religião. Esta religião é precisamente aquela apresentada pelo Alcorão. Segundo esta religião, ninguém além de Allah, o Único e sem associados, tem o direito de receber culto, servidão e obediência. Não vos afasteis desta religião para vos voltardes para qualquer outra direção. Depois de adotardes este caminho para a vida, não olheis para nenhum outro caminho. Toda a humanidade foi criada com a natureza primordial de que, além do Deus Único, não possui outro criador, senhor, divindade ou ser cuja obediência possa ser prestada legitimamente. O ser humano deve firmar-se sobre essa natureza primordial.
A frase “a estrutura criada por Allah não pode ser alterada” significa que Deus criou o ser humano como Seu servo, para que o ser humano adore somente a Ele. Ninguém pode alterar o curso e a natureza próprios da criação. Não é possível passar desse estado para o estado de “não ser servo de Deus”. Se alguém considerar como deus quem não é Deus, essa pessoa não pode tornar-se verdadeiramente Deus. Por mais divindades que o ser humano fabrique para si, ele não é nem pode ser servo de ninguém além do Deus Único.
O resumo desta discussão é que, por um lado, Allah concedeu ao ser humano plena liberdade para escolher independentemente o seu próprio caminho de vida e agir de acordo com ele. Por outro lado, Ele torna claramente manifesta diante dele a verdade real e o convida a aceitá-la.
Allah ama muito o ser humano porque foi Ele quem o criou. Para satisfazer todas as necessidades da sua vida, espalhou ao seu redor, na Terra, incontáveis objetos e provisões. A Lua, o Sol e as estrelas, o dia e a noite, a luz e o ar, as nuvens do céu e a chuva, as colinas e montanhas, os rios, as plantas, os animais e as aves, além de diversos tipos de alimento — tudo isso Ele criou para o ser humano. Essas coisas são sinais do Seu amor pelo ser humano. E precisamente porque ama o ser humano, Ele certamente lhe mostrará o caminho correto para a sua vida. Isso é perfeitamente natural. É inconcebível que Ele não lhe explique as leis, regras e orientações pelas quais a breve vida terrena do ser humano pode tornar-se feliz e bela, e pelas quais a vida eterna do além, depois da vida terrena, também pode alcançar a verdadeira realização. Na realidade, Ele de fato as explicou. Por meio dos profetas e mensageiros, Ele transmitiu ao ser humano o sistema completo de vida. É isso que se chama a religião conforme a natureza primordial, mencionada anteriormente.
Ao conceder ao ser humano conhecimento, razão e consciência, Allah deixou-o livre para ser testado, dando-lhe a oportunidade de escolher qualquer caminho para a sua vida e agir livremente de acordo com ele. Se quiser, ele pode seguir o caminho indicado por Deus e obter os seus benefícios; ou pode abandonar esse caminho e seguir alguma senda equivocada inventada por ele próprio. Pode considerar Allah o seu único Criador, Sustentador, Senhor e Governante, e obedecer-Lhe plenamente; ou pode adorar muitos deuses falsos imaginados por ele. Embora tenha liberdade para adotar qualquer um desses dois caminhos, Allah enviou, em todas as épocas, profetas e mensageiros a cada povo e comunidade, recordando repetidamente ao ser humano o caminho correto para a sua vida. Ele não quis restringir a liberdade que lhe foi concedida para seguir o caminho correto; ao contrário, procurou persuadi-lo e incentivá-lo descrevendo os benefícios de seguir esse caminho. Por outro lado, também procurou impedi-lo de seguir o caminho equivocado, informando-o sobre as suas terríveis consequências.
Não houve, em toda a história da humanidade, nenhuma época ou período em que não existisse um profeta, ou alguém que o sucedesse, para convocar as pessoas ao caminho de Deus. Essa sucessão e continuidade ininterrupta do convite ao caminho de Deus eram especialmente necessárias no passado e continuam sendo necessárias hoje. Isso ocorre porque abandonar o caminho de Deus e adotar qualquer outro caminho nada mais é que lutar contra a natureza. Como resultado, diversas calamidades e desastres recaem sobre a vida humana. O domínio e a autoridade de uns seres humanos sobre outros se estabelecem. O forte passa a agir como deus do fraco. Incontáveis pessoas ficam presas às correntes da escravidão humana. O céu e a terra enchem-se dos gritos e lamentos dos seres humanos, submetidos à perseguição e à opressão de governantes cruéis e tirânicos. Para pôr fim a essa perseguição e opressão, e garantir às pessoas liberdade, felicidade, tranquilidade e segurança para suas vidas e seus bens, era necessário no passado, é necessário hoje e continuará sendo necessário no futuro convocá-las ao caminho de Deus. Essa é a imutável lei de Allah, o Altíssimo. Seguir essa lei é o Islam; tudo o que se lhe opõe, em conjunto, chama-se jahiliyyah. O que é verdadeiro é Islam, e o que é falso e equivocado é jahiliyyah.
A verdade e a falsidade: forças opostas
A discussão acima esclareceu que, assim como a fé e a incredulidade são opostas, o Islam e a jahiliyyah também são opostos. O Islam é o caminho e o método indicados por Allah, o Altíssimo, e um programa de vida orientado para o bem. A fonte e o centro de sua orientação é o conhecimento infalível concedido por Deus. O conhecimento, a razão e a consciência do ser humano também o apoiam, e ele é igualmente compatível com a natureza primordial. Por outro lado, a jahiliyyah nasce das trevas da incredulidade, da ignorância, de conjecturas e de fantasias ilusórias. Portanto, a primeira é verdadeira e bela, enquanto a segunda é falsa e feia. A primeira é luz; a segunda, escuridão. Nenhuma delas pode jamais tolerar a outra. Assim, cada uma é força rival da outra. O conflito e o confronto entre ambas são eternos.
Conhecimento–Intelecto–Consciência
É graças ao conhecimento, ao intelecto e à consciência que Deus, o Altíssimo, concedeu ao ser humano que ele é reconhecido como a melhor das criaturas. Essa qualidade especial estabeleceu uma enorme diferença entre o ser humano e os demais seres vivos. O intelecto cria no ser humano a consciência de que ele próprio é responsável por cada um de seus atos. Por outro lado, esse princípio não se aplica àquele a quem não foi concedido intelecto. Suponhamos, por exemplo, que uma pesada pedra se desprenda repentinamente de cima, caia e mate alguém; de modo algum se poderá considerar a pedra culpada. Isso porque ela é apenas uma matéria inanimada e inconsciente. Do mesmo modo, se um animal entrar no campo de alguém, comer a plantação e destruí-la, tampouco se poderá chamá-lo de culpado. Pois, embora possua consciência e sensibilidade, é desprovido de intelecto. Mas, se o ser humano cometer qualquer ato desse tipo, deverá necessariamente ser considerado culpado e, segundo a lei, terá de ser punido. Isso porque, além de consciência e sensibilidade, ele foi dotado das qualidades do conhecimento, do intelecto e da consciência moral. Por meio delas, pode compreender o que é justo e injusto. As matérias inanimadas e inorgânicas, inconscientes, e os demais animais, exceto o ser humano, estão privados das qualidades mencionadas e da capacidade de distinguir o bem do mal; por isso, não têm de prestar contas por nenhum de seus atos. O ser humano é pessoalmente responsável por seus atos porque foi dotado de conhecimento e intelecto.
Conhecimento–Uso apropriado do intelecto
Embora o ser humano tenha recebido a mais elevada dignidade por ter sido dotado de conhecimento e intelecto, ele faz mau uso desse conhecimento. Mesmo depois de lhe terem sido concedidos intelecto e consciência, tornando-o capaz de conhecer o bem e o mal, o justo e o injusto, não se pode dizer que cada um de seus atos será consciente. Não faltam exemplos disso. Pelo contrário, vemos inúmeros exemplos ao nosso redor. Tomemos, por exemplo, o caso dos estudantes. Os responsáveis enviam seus filhos a instituições de ensino para que adquiram conhecimento e qualidades humanas. Para isso, arcam com todas as despesas de sua educação. A exigência da consciência seria que cada estudante estudasse regularmente, obtivesse, tanto quanto possível, bons resultados nos exames de acordo com sua capacidade e talento, e conquistasse o reconhecimento de ser um bom aluno. Apesar de esse conhecimento, essa convicção e esse sentimento existirem em cada estudante, o que vemos? Alguns estudantes tentam cumprir plenamente suas responsabilidades. Outros, porém, negligenciam suas responsabilidades e deveres, desperdiçando o tempo em atividades tão reprováveis que, sob nenhum aspecto, são desejáveis. Como seres humanos, os estudantes de ambos os tipos possuem conhecimento, intelecto e consciência. No entanto, não se vê que os estudantes dos dois tipos utilizem seu intelecto e sua consciência da mesma maneira. Disso se pode saber que nem todos conseguem fazer bom uso de sua consciência.
Além disso, um grupo de pessoas ávidas por poder não hesita em adotar qualquer meio vil para conquistar o poder. Muitos entre elas possuem elevada instrução e até diplomas superiores. No entanto, tomando o poder por meio de corrupção, uso da força, assassinatos, terrorismo e coisas semelhantes, tornam-se senhores das pessoas. Depois, em vez de cumprir os direitos básicos do povo, aprisionam-no nos grilhões da escravidão e obrigam-no a viver uma vida desumana. Essa situação já foi vista em muitos lugares do mundo no passado e continua sendo vista atualmente. Saques, assassinatos, apropriação dos recursos do Estado, furtos, roubos e acontecimentos semelhantes ocorrem continuamente na sociedade. Todos aqueles que cometem esses atos são seres humanos e são conhecidos como pessoas instruídas. É claro que também deveriam possuir conhecimento, intelecto e consciência. Mas onde está o uso apropriado que fazem deles?
Ainda existem no mundo alguns países chamados subdesenvolvidos: atrasados na educação e atingidos pela pobreza. Em alguns desses países, certas pessoas não consideram uma situação desse tipo tão censurável. Embora não haja razão para concordar com elas, o que está acontecendo nos países conhecidos por serem desenvolvidos e altamente civilizados em todos os aspectos? Atualmente, a Inglaterra e os Estados Unidos são considerados países que alcançaram o auge do progresso e da civilização. Há um fluxo constante de pessoas para esses dois países a fim de receber instrução em conhecimento e civilização. Embora ocupem posições de liderança na ciência e na tecnologia, esses dois países demonstraram completo fracasso no uso apropriado do conhecimento, do intelecto e da consciência. São peritos em oprimir e cometer injustiças contra outras nações. Também estão mergulhados no abismo da decadência moral em suas próprias sociedades. Uma notícia publicada na edição de 27 de junho de 1988 da Newsweek permite conhecer sua extrema degradação moral e sua crescente inclinação para o crime. A notícia afirmava que, na cidade de Londres, com sete milhões de habitantes, no ano anterior (1987), haviam sido cometidos 194 assassinatos e 22.626 crimes violentos graves. Por outro lado, na cidade de Nova York haviam sido cometidos 1.672 assassinatos e 148.313 crimes violentos. Esse é apenas o estado de duas cidades de dois países. Onde foi parar o conhecimento, o intelecto e a consciência desses criminosos?
Não basta possuir conhecimento, intelecto e consciência; fazer bom uso deles é a tarefa do verdadeiro ser humano. Pelos exemplos acima, ficou claro que nem todos conseguem fazer bom uso de seu conhecimento e de sua consciência. Alguns são capazes de fazer bom uso deles, enquanto outros demonstram fracasso.
Qual é a causa desse fracasso??
Por que o ser humano comete um erro tão grave e fatal? Por que inflige tamanha injustiça ao seu precioso patrimônio, o conhecimento e a razão? Antes de avançarmos, precisamos necessariamente obter a resposta para isso.
A primeira questão é que o ser humano possui duas tendências inatas e opostas. Uma é a tendência à piedade e à prática do bem, e a outra é a tendência à prática do mal. Entre as duas há sempre conflito e confronto. Ambas incentivam, excitam e instigam o ser humano a satisfazer suas exigências. Quando a tendência ao bem vence, o ser humano utiliza corretamente seu conhecimento e sua razão e pratica boas ações. Mas, quando a tendência ao mal vence, ela o envolve em diversos pecados.
A tendência ao mal vence por várias razões. Suas causas fundamentais são as seguintes.
A primeira é a forte inclinação perversa do ser humano e seus desejos e paixões. Esses desejos e paixões são tão poderosos que, em geral, o ser humano se torna impotente diante deles. Quando perde a força para reprimi-los, torna-se escravo de seus impulsos. Então não hesita nem um pouco em cometer qualquer injustiça, transgressão, pecado ou ato bestial. Ele transforma seus próprios impulsos em seu ‘ilāh’ e passa a ser completamente escravo deles. Depois de se tornar escravo de seus impulsos, perde a noção do bem e do mal. Muitas vezes, mesmo acreditando que o pecado é pecado, não tem força para se afastar dele. Assim, embora considere más coisas como roubo, assalto, homicídio, adultério e outras semelhantes, o ser humano, ao se submeter aos seus impulsos, não consegue evitar esses pecados.
A inclinação perversa avança e transforma o ser humano em adorador do mundo. O prazer e o luxo mundanos tornam-se então o objetivo de sua vida. Diz-se que as três coisas às quais o ser humano é mais apegado são o dinheiro, as mulheres e as drogas. A história está repleta de exemplos das inúmeras calamidades provocadas no mundo por causa dessas três coisas. Os escravos de seus impulsos entregam-se a uma competição para ver quem pode tornar-se maior e mais poderoso no mundo, quem pode erguer a maior montanha de riquezas, quem pode transformar mais pessoas em seus escravos e quem pode desfrutar a juventude e a beleza de mais mulheres. Para que o temor de Deus e da vida futura não perturbe suas mentes nem por um instante, foram criadas filosofias e doutrinas inventadas. Não existe nenhuma força chamada Deus ou Criador. A vida futura é fruto de um pensamento irreal e delirante. Este mundo e a vida neste mundo são tudo. A vida é uma luta para existir e sobreviver — STRUGGLE FOR EXISTENCE.
Aqui, somente aquele que é forte tem o direito de sobreviver, exercer autoridade e domínio e desfrutar plenamente da vida. O fraco não tem direito de viver — SURVIVAL OF THE FITTEST.
Depois de acreditar nessa filosofia, não deveria surgir na mente nenhuma questão sobre justiça e injustiça, lícito e ilícito, bem e mal, misericórdia e crueldade. Para alcançar o objetivo, faz-se tudo o que for necessário. Recorre-se à mentira, à fraude, à traição, à quebra de promessas, ao assassinato, à pilhagem, ao terrorismo, ao uso da força e a acusações falsas e forjadas, entre outros meios. Nada disso é uma história fictícia. São acontecimentos reais da história passada e presente. Esta é uma forma terrível da jahiliyyah.
A segunda causa fundamental é o orgulho e a arrogância nacionais, partidários e de linhagem, bem como o apego cego a eles. A imitação cega dos antepassados e líderes religiosos, dos pensamentos e costumes herdados e de várias superstições. Esse apego e essa imitação cegos privam o ser humano da capacidade de discernir entre o bem e o mal, e entre a justiça e a injustiça. Por aquilo que é bom e proveitoso para sua própria nação, partido e linhagem — por mais prejudicial que seja para os outros — o ser humano emprega todas as suas forças e envolve-se em guerras. A história da Inglaterra menciona guerras que duraram sete, trinta e cem anos. Esse é o resultado nefasto do orgulho e da arrogância nacionais e de linhagem, e do apego cego. Na era pré-islâmica, guerras sangrentas desse tipo também foram travadas durante gerações na terra árabe. Para satisfazer os desejos e as paixões das pessoas, rios de sangue humano foram derramados.
A ambição insaciável de conquistar à força o território alheio e subjugar nações fracas provocou duas guerras mundiais. Pelas mãos dos demônios da Jahiliyyah, a Primeira Guerra Mundial estendeu suas garras violentas e devastadoras sobre vinte e oito países e seis continentes. Nessa guerra, dez milhões de soldados e dez milhões de civis perderam a vida. Devido à fome, às epidemias e à instabilidade política causadas pela guerra, outros vinte milhões de pessoas partiram para sempre da face da Terra.
Vinte e um anos depois, a Segunda Guerra Mundial trouxe ainda mais violência, mortes e destruição para satisfazer a ambição insaciável de poder dos demônios da Jahiliyyah. Essa grande guerra envolveu todos os países e todas as nações do mundo, de uma forma ou de outra, no conflito. Dezessete milhões de soldados e quarenta e um milhões de civis sucumbiram às garras da morte. As bombas atômicas desumanas utilizadas pelos Estados Unidos mataram milhões de pessoas em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, e deixaram milhões de pessoas aleijadas e incapacitadas. Milhões de pessoas morreram lentamente, em agonia. Nunca, nem mesmo na era passada da Jahiliyyah, se testemunharam tamanha barbárie e bestialidade. A ciência e a tecnologia tornaram a Jahiliyyah moderna mais violenta do que a Jahiliyyah do passado.
As crenças, costumes e tradições herdados, bem como a imitação cega dos líderes religiosos, constituem uma grave doença mental, por trás da qual atuam os fortes impulsos das paixões. A história do Islã testemunha que, quando os profetas e mensageiros apresentaram o convite ao Islã às pessoas, elas o rejeitaram, dizendo que o Profeta pregava o oposto da crença religiosa que elas e seus antepassados mantinham por herança, dos costumes e tradições que observavam desde tempos imemoriais e de tudo o que seus líderes religiosos diziam. Portanto, isso não poderia de modo algum ser aceito. Essas questões serão discutidas no momento apropriado.
A devoção e o respeito ilimitados pelos líderes religiosos, pirs e sacerdotes os colocam no lugar de Deus. Eles são considerados inocentes, e tudo o que sai de suas bocas é aceito como uma verdade irrefutável, sem que se examine sua veracidade, como se fosse uma escritura védica ou a revelação de Deus. O próprio Allah diz:
‘Essas pessoas tomaram seus ulemás, pirs e dervixes como deuses, além de Allah’ — (At-Tawbah: 31).
Consta no hadith que Hazrat Adi ibn Hatim era cristão. Mais tarde, ele compareceu perante o Profeta e aceitou o Islã. Ele perguntou ao Profeta (s.a.w.) sobre o versículo acima e disse: qual é o significado da acusação feita contra nós, de que tomamos os ulemás, pirs e dervixes como deuses? O Profeta (s.a.w.) disse: não é verdade que tudo o que essas pessoas consideravam haram vocês aceitavam como haram, e tudo o que elas consideravam halal vocês aceitavam como halal? Hazrat Adi (r.a.) respondeu: sim, certamente fazíamos isso.
O Profeta (s.a.w.) disse: é assim que eles são tomados como deuses.
Disso se soube que aqueles que, sem autorização de Allah, estabelecem os limites do lícito e do ilícito para a vida humana, na verdade se sentam no trono da divindade. Aqueles que aceitam essa elaboração de leis religiosas feita por eles fazem deles seus deuses.
Por maior que seja uma pessoa, Allah e Seu Mensageiro são o critério para avaliar qualquer palavra ou decisão sua. Qualquer palavra que contradiga as palavras de Allah e de Seu Mensageiro, ou que não esteja de acordo com o sentido fundamental dessas palavras, deve ser rejeitada. Essa crença e concepção dividiram a sociedade humana em numerosos grupos e subgrupos e criaram fitna e corrupção.
A terceira causa fundamental é um ambiente extremamente contrário ao Islã. Se o ambiente de um país, de uma localidade, ou até mesmo de uma instituição de ensino ou residência estudantil for tal que todos ali sejam contrários ao Islã, que ali sejam distribuídos somente literatura e jornais e revistas contrários ao Islã, e que se ofereça treinamento para criar uma mentalidade contrária ao Islã, ninguém poderá permanecer firme no Islã em tal ambiente. Nesse ambiente, para enfraquecer na mente dos jovens a fé na religião, em Deus e na Vida Futura, fornecem-se todos os tipos de meios para a convivência livre com o sexo oposto, para abraços e intimidades. Assim, numa etapa inicial, sua espinha moral é quebrada e reduzida a pedaços. Como resultado, eles podem aceitar facilmente e com entusiasmo as atividades posteriores. Essas palavras não são uma história imaginária de algum mundo da fantasia. É justamente esse tipo de atividade que é adotado em países comunistas como a Rússia.
Depois, nos países não comunistas fora da Rússia para os quais são exportadas as ideias e o movimento do comunismo, as mesmas atividades são iniciadas, ainda que em escala limitada. Em alguns lugares, abertamente; em outros, secretamente. Contudo, as técnicas de trabalho, o recrutamento e o treinamento dos militantes prosseguem normalmente. Tenta-se conquistar a juventude por diversos meios, artifícios e estratégias. Para isso, a Rússia oferece todo tipo de ajuda e cooperação. Desse modo, o regime comunista é gradualmente estabelecido em novos países. A mais recente vítima de sua armadilha é o Afeganistão.
Quando o regime comunista é estabelecido em algum lugar, desaparecem a liberdade de expressão e a liberdade de pensamento. O conhecimento, a razão e a consciência ficam paralisados. Mesmo que alguém queira usar corretamente a razão, não tem meios para fazê-lo. Voluntária ou involuntariamente, é preciso aceitar a escravidão mental dos governantes comunistas.
Profetashonradose seu chamado
A discussão acima deixou claro que nem todos fazem bom uso do conhecimento, da razão e da consciência que Allah, o Altíssimo, concedeu ao ser humano, e que nem todos sabem fazê-lo. Por isso, o ser humano tem de sofrer as terríveis consequências. O ser humano também possui naturalmente várias fraquezas. O Deus Supremo e Magnífico não pode permanecer em silêncio ao ver o ser humano em estado de desamparo. A questão não é que, na luta entre o Islã e a jahiliyyah, toda responsabilidade por tentar e tomar as medidas possíveis para que a verdade triunfe tenha sido deixada unicamente à razão, à consciência e às capacidades naturais do ser humano. O ser humano não consegue sempre chegar à decisão correta por meio de seu pensamento racional. Isso porque o mundo de seu conhecimento e pensamento é muito pequeno e limitado. Em certo ponto do pensamento, seu caminho fica bloqueado. Então ele sente-se desamparado e toma decisões erradas. Muitos pensadores da humanidade, apesar de suas boas intenções, chegaram a decisões equivocadas e inventaram novas filosofias e doutrinas que não puderam trazer à vida humana nada além de malefícios, e não benefícios. Por isso, o Misericordioso Allah, movido por extrema compaixão para com os seres humanos, providenciou da Sua parte a transmissão de um conhecimento infalível. A isso se chama conhecimento da revelação ou conhecimento divino. Ele não transmite esse conhecimento diretamente às pessoas; escolhe a melhor pessoa da sociedade e, por meio da revelação, concede-lhe todo o conhecimento necessário. Depois de conceder ao ser humano uma natureza sã e conhecimento e razão, este é um conhecimento adicional. Quando muitos pensamentos e ideias, medos e intimidações, tentações e a influência de suas seis paixões interiores tentam desviá-lo do caminho, esse conhecimento adicional vem em seu auxílio e lhe mostra o caminho correto. Embora rejeitar esse conhecimento adicional seja extremamente desafortunado para ele, também lhe foi dada a liberdade de fazê-lo. Allah, o Altíssimo, submete o ser humano a essa prova e também lhe concede os meios e recursos para ser aprovado nela, para que possa alcançar a mais elevada dignidade humana.
Esse conhecimento adicional descrito acima foi chamado de conhecimento da revelação. Junto com ele, Ele também enviou o portador dessa revelação, que é um ser humano como os demais. Ele transmitirá o conhecimento da revelação às pessoas, explicá-lo-á e analisá-lo-á, e demonstrará sua aplicação por meio de sua própria vida prática. A essa pessoa, portadora da revelação, chama-se profeta ou mensageiro. Para guiar as pessoas, formar seu verdadeiro caráter humano e tornar sua vida feliz e bela, profetas e mensageiros foram enviados ao mundo em todas as épocas.
O chamado dos profetas e o conflito com a Jahiliyyah
O Islã e a Jahiliyyah foram comparados à verdade e à falsidade, e à luz e às trevas. Assim como a verdade e a falsidade, a luz e as trevas não podem coexistir nem por um instante, do mesmo modo o Islã e a Jahiliyyah jamais podem coexistir. Por isso, sempre que, ao longo dos tempos, o chamado do Islã, o chamado da verdade, chegou às pessoas por meio dos profetas, a Jahiliyyah não pôde tolerá-lo. Assim, toda a história da humanidade é a história do conflito entre o Islã e a Jahiliyyah, isto é, entre a verdade e a falsidade.
Foram os gloriosos profetas de Allah que trouxeram o farol do caminho verdadeiro e correto para a humanidade, perdida e desviada, imersa nas trevas da ignorância. Por isso, a Jahiliyyah criou enormes obstáculos em seu caminho. Não apenas isso: os profetas foram brutalmente perseguidos pelos porta-bandeiras da Jahiliyyah, e muitos deles também perderam a vida. A seguir, apresenta-se brevemente um relato de alguns aspectos do conflito entre o chamado dos profetas, isto é, o Islã, e a Jahiliyyah.
Hazrat Noé (A.S.)
É a partir da época de Hazrat Noé (A.S.) que podemos conhecer um pouco da história da humanidade. Não existe uma história escrita por seres humanos sobre o longo período inicial da humanidade. Esse longo período é chamado de período pré-histórico. Contudo, a história dos profetas dessa época foi narrada nos Livros Celestiais, e um relato extremamente confiável foi apresentado no Alcorão. Hazrat Noé (A.S.), dirigindo-se ao seu povo, disse:
“Ele (Noé) disse: Ó meu povo! Sou, para vós, um admoestador que fala claramente. (Advirto-vos dizendo:) Adorai Allah, temei-O e segui-me. Allah perdoará os vossos pecados e vos concederá vida até um prazo determinado. Na verdade, quando chega o prazo determinado por Allah, ele não pode mais ser adiado. (Se) soubésseis disso, quão bom seria para vós!” — (Noé: 2–4).
Seu chamado era claro e justo. É perfeitamente natural e justo obedecer ao comando e ao governo do Allah que criou o ser humano e provê cada uma de suas necessidades desde o início de sua existência até o momento que antecede sua morte. Contudo, os líderes e o povo comum de sua nação rejeitaram esse chamado. Mas Hazrat Noé (A.S.) continuou seu trabalho de pregação com extraordinária paciência. Durante um período muito longo, isto é, por novecentos e cinquenta anos, ele continuou a convidá-los para a verdade.
Ele não lhes garantiu apenas o bem-estar numa vida futura e distante, isto é, a vida após a morte; também lhes falou do bem-estar na vida terrena.
‘Eu disse: Pedi perdão ao vosso Senhor. Com certeza, Ele é o que mais perdoa. Ele fará descer sobre vós chuva do céu, conceder-vos-á riquezas e filhos, fará jardins para vós e fará correr rios’ — (Nuh: 10–14).
Para que alcanceis o bem-estar neste mundo e no Além, ele disse: Abandonai os vossos falsos deuses, inventados por vós, e adorai o Deus único. Os chefes da sociedade do povo rejeitaram o seu convite e deram uma ordem severa ao povo:
‘Jamais abandonareis os vossos deuses. Não abandonareis Wadd, Suwa, Yaghuth, Ya’uq e Nasr’ — (Nuh: 23).
Em resposta, disseram ao profeta Nuh:
‘Vemos que estás claramente mergulhado no erro’ — (Al-A’raf: 60).
Aos olhos dos chamados intelectuais do povo, aceitar um único Deus era um erro grave e um desvio. Eles diziam:
Embora este universo tenha sido criado por um único Deus, ele é governado por muitos deuses. Por isso, os outros deuses também têm o direito de ser adorados e venerados. Os intelectuais e chefes da sociedade — que se recusavam a aceitar as palavras de Nuh — disseram: ‘Aos nossos olhos, tu não és nada além de um ser humano como nós. Vemos também que aqueles entre nós que são absolutamente inferiores e desprezíveis seguiram o teu caminho sem qualquer reflexão. Não vemos em vós nada que vos torne melhores ou superiores a nós. Pelo contrário, consideramos-vos mentirosos’ — (Hud: 22).
Naquela época, eram esses chefes e líderes sociais que governavam e exploravam o povo. As chaves do sustento e dos meios de subsistência das pessoas também estavam em suas mãos. Eram igualmente donos dos jardins, das terras agrícolas e do comércio. Estavam imersos nos prazeres e luxos deste mundo. Ninguém ousava aceitar o convite do profeta por causa de seu poder. Quem o fizesse sofreria toda sorte de opressão e perseguição. Alguns poucos seres humanos oprimidos e injustiçados — muito reduzidos em número — aceitaram o convite de Nuh. Os chefes da sociedade olhavam-nos com desprezo. De qualquer modo, o profeta Nuh continuou tentando convencê-los de várias maneiras, com palavras amáveis e argumentos.
‘Ele disse: Ó meu povo! Refleti um pouco: se eu me mantenho firme sobre uma prova clara da parte do meu Senhor, e depois Ele me agraciou com uma misericórdia especial, mas vós não a conseguis ver, que recurso tenho eu para obrigar-vos a aceitá-la e impô-la sobre vós à força? Ó meus irmãos do meu povo! Não vos peço riqueza alguma por este trabalho. Minha recompensa cabe a Allah. Não estou disposto a afastar aqueles que aceitaram minhas palavras. Eles próprios comparecerão diante do seu Senhor. Mas vejo que estais imersos na Jahiliyyah’ (Hud: 28–29).
Mesmo depois de apresentar-lhes repetidamente, de diversas maneiras e durante um longo período, o convite à verdade, a obstinação deles, o orgulho de sua posição e sua influência e autoridade sobre a sociedade não conseguiram de modo algum atraí-los para a verdade. Quando o Profeta Noé os convidou a aceitar sua missão profética, eles a rejeitaram, demonstrando grande espanto. Disseram: bem, se aceitarmos que há um único Senhor e admitirmos que Ele deseja enviar um profeta para a humanidade, como pode ser que Ele envie como profeta justamente um ser humano semelhante a nós? Se quisesse enviar alguém, poderia ter enviado como profeta um anjo próximo d’Ele.
Os líderes de seu povo que se recusaram a aceitar seu convite disseram: ‘Este homem não passa de um ser humano como vós. Seu objetivo é estabelecer autoridade sobre vós. Se Allah quisesse enviar alguém, teria enviado um anjo. Jamais ouvimos isso no tempo de nossos antepassados — que um ser humano se tornasse mensageiro. Nada mais: este homem foi acometido por alguma loucura. Esperai mais algum tempo; talvez sua loucura passe’ (Al-Mu’minun: 23–24).
Com base nesse argumento, eles não negaram apenas a profecia do Profeta Noé, mas rejeitaram toda a sucessão dos profetas. Pois todos os profetas e mensageiros enviados por Allah eram seres humanos.
Em certo momento, eles fizeram uma terrível ameaça ao Profeta Noé (que a paz esteja com ele).
‘Ó Noé! Se não desistires dessas atividades, apedrejar-te-emos até à morte’ (Ash-Shu’ara: 116).
Depois disso, é fácil imaginar a perseguição que começou contra o Profeta Noé (que a paz esteja com ele) e seus poucos seguidores. Pois, em toda uma nação, nem sequer cinquenta pessoas aceitaram o convite ao Islam.
Por fim, o conflito entre o Islam e a Jahiliyyah chegou a tal ponto que o Profeta Noé se viu obrigado a pedir refúgio a Deus.
‘E Noé disse: Ó meu Senhor! Não deixes na terra nenhum dos incrédulos que nela habitam. Se os deixares, eles desviarão Teus servos e gerarão apenas incrédulos obstinados e pecadores’- (Noé: 26-27).
Allah, o Altíssimo, aceitou a súplica de Seu querido e perseguido profeta e, por meio de um dilúvio terrível, afogou e destruiu toda a nação.
‘Finalmente, quando chegou a Minha ordem e o forno transbordou, Eu disse: Embarca na arca um casal de cada espécie de animal. Leva também nela os membros da tua família, exceto aqueles cuja exclusão já foi determinada. Embarca também os que creram. Mas eram muito poucos os crentes que estavam com Noé’- (Hud: 40).
A história do grande dilúvio de Noé é universalmente conhecida. Diz-se que, ao todo, quarenta pessoas — com ou sem os membros de sua família — foram salvas dessa punição de Allah. Após quase mil anos de conflito entre o Islã e a jahiliyyah, a jahiliyyah foi extirpada.
O Sagrado Alcorão apresenta um relato detalhado do movimento do profeta Noé (A.S.). Aqui, é apresentado apenas um resumo.
O povo de ‘Ad
Os historiadores dizem que o profeta Noé (A.S.) desenvolveu seu trabalho de الدعوة numa região que hoje é chamada Iraque. Após seu falecimento, o número de pessoas continuou a crescer e elas se espalharam por toda parte. Esqueceram os ensinamentos do profeta e voltaram a se envolver no desvio. Depois do povo de Noé, a nação que se tornou muito poderosa e influente foi o povo de ‘Ad. Todos os árabes, jovens e velhos, homens e mulheres, conheciam o povo de ‘Ad. Assim como os árabes conheciam sua bravura e seu poder, também conheciam o relato de sua destruição. Depois de alcançar o auge do progresso, foram novamente lançados no abismo da destruição, juntamente com sua civilização e cultura. Viviam na região de Al-Ahqaf, situada a sudoeste do Rub‘ al-Khali, entre o Hijaz, o Iêmen e Iamama. O relato do Alcorão sobre eles é o seguinte.
Allah, o Altíssimo, enviou o profeta Hud (A.S.) para guiar o povo de ‘Ad. Essa nação estava mergulhada na negra escuridão da jahiliyyah. Quando o profeta Hud (A.S.) apresentou o convite islâmico, iniciou-se um conflito entre ambos; tudo o que lhes era dito sobre a religião da verdade era rejeitado com zombaria e escárnio. Assim como o povo de Noé levantou objeções, teceu uma rede de argumentos falaciosos e rejeitou o convite do profeta, também o povo de ‘Ad fez o mesmo.
‘Vieste até nós para que adoremos um único Deus e abandonemos todos esses deuses que nossos antepassados adoravam?’ — (Al-A‘raf: 70).
O conflito e o confronto entre o povo de Ad e o profeta Hud (que a paz esteja com ele) continuaram. O profeta de Allah, Hud (que a paz esteja com ele), continuou a convidá-los, com extrema compaixão, para o bem duradouro. Por fim, eles exigiram uma prova de que o amado profeta de Allah era realmente um profeta verdadeiro.
‘Muito bem, se és veraz, então traz-nos o castigo com que nos ameaças.’ — (Al-Ahqaf: 22).
Como insistiam repetidamente em exigir o castigo, foi justamente isso que lhes coube em destino.
‘Ad foi destruído por um ciclone violento, ou por um vento tempestuoso. Allah fez com que ele se abatesse sobre eles continuamente durante sete noites e oito dias. Se estivesses ali, verias como jaziam espalhados e prostrados, como os troncos de palmeiras velhas e secas. Vês acaso algum deles que tenha restado?’ — (Al-Haqqah: 6–8).
Assim, a existência do povo de Ad foi eliminada da face da Terra. Contudo, havia certamente alguns homens virtuosos junto de Hud (que a paz esteja com ele), que aceitaram o seu chamado e viviam como servos justos de Allah. Allah os salvou dessa terrível calamidade natural de maneiras extraordinárias.
‘E enviamos a Ad o seu irmão Hud. Ele disse: Ó povo meu! Adorai Allah; não tendes outra divindade além d’Ele. Vós não fazeis senão inventar mentiras. Ó povo meu! Não vos peço recompensa alguma por isso. Minha recompensa compete Àquele que me criou. Não usareis um pouco de razão? Ó povo meu! Pedi perdão ao vosso Senhor! Depois, voltai-vos para Ele; Ele fará descer sobre vós do céu uma chuva abundante e acrescentará força à vossa força atual. Não vos afasteis da adoração como criminosos.’
‘Eles responderam: Ó Hud! Não trouxeste até nós nenhuma prova clara; não podemos abandonar os nossos deuses conforme dizes, nem acreditaremos em vós. Pensamos, na verdade, que algum dos nossos deuses te atingiu com uma maldição.’
‘Hud disse: Tomo Allah como testemunha e vós também testemunhai: estou isento do fato de considerardes como associados na divindade, além de Allah, outros que adorais. Não deixeis de fazer contra mim tudo o que puderdes, todos juntos, e não me deis sequer um breve prazo. Minha confiança está em Allah, que é meu Senhor e também o vosso. Não há criatura alguma cuja cabeça não esteja em Sua mão. Certamente, meu Deus está no caminho reto. Se quereis virar as costas, então virai-as. Já vos transmiti a mensagem com a qual fui enviado até vós. Agora, meu Senhor fará surgir outra nação em vosso lugar. E vós não podereis causar-Lhe dano algum. Meu Deus certamente tem poder sobre todas as coisas. Então, quando chegou Nossa ordem, salvamos, por Nossa misericórdia, a ele e aos que haviam crido com ele, e os livramos do severo castigo.’
‘Este era o povo de Ad. Eles rejeitaram os versículos de seu Senhor e desobedeceram às palavras dos profetas e mensageiros. E seguiram todo inimigo poderoso da verdadeira religião. Por fim, a maldição caiu sobre eles neste mundo e também no Dia da Ressurreição. Sabei que o povo de Ad desobedeceu ao seu Senhor, e que foram lançados para longe os homens de Ad, isto é, o povo de Hud’ — (Hud: 54–60).
Após a destruição do povo de Noé (a.s.), Allah Todo-Poderoso deu ao povo de Hud a oportunidade de alcançar os mais altos cumes do progresso. Naquela época, ninguém se igualava a eles em força e bravura. Somente pelo crime de se rebelarem contra Deus, foram completamente eliminados da face da terra.
O povo de Tamud
Após a destruição do povo de Ad, aqueles que Allah Todo-Poderoso havia poupado por causa de suas boas ações continuaram a viver de acordo com os ensinamentos de Hud (a.s.). Porém, depois de algum tempo, caíram nas garras da jahiliyyah e se desviaram. Para guiá-los, Allah Todo-Poderoso enviou Salih (a.s.). Mais uma vez começou o conflito entre o Islã e a jahiliyyah.
Entre as mais antigas nações da Arábia, Tamud era a segunda e, depois do povo de Ad, a mais famosa de todas. Antes da revelação do Alcorão, suas histórias eram contadas por árabes de todas as idades e condições. Eram mencionados na poesia e nos discursos da época da jahiliyyah. Há referências a eles nas inscrições assírias e nas histórias antigas da Grécia, de Alexandria e de Roma. Os descendentes daqueles que sobreviveram à destruição do povo de Ad continuaram a existir até pouco antes do nascimento de Jesus (a.s.). Historiadores romanos dizem que, quando essas pessoas se alistaram no exército romano, lutaram contra os nabateus, com os quais tinham uma antiga inimizade. Sua morada ficava nas regiões do noroeste da Arábia que ainda hoje são famosas como Al-Hijr. Atualmente, existe uma estação da ferrovia do Hejaz entre Medina e Tabuk chamada Mada’in Salih. Esse lugar era o centro de habitação do povo de Tamud. Ainda hoje podem ser vistos ali, por milhares de acres, os vestígios de edifícios montanhosos que eles construíram escavando as montanhas. Ao contemplá-los, parece que a população dessa cidade não era inferior a quatrocentos ou quinhentos mil habitantes. Na época da revelação do Alcorão, as caravanas comerciais do Hejaz passavam junto a essas ruínas. Durante a expedição a Tabuk, o Nobre Profeta (s.a.w.), ao passar por essa região, mostrou esses vestígios instrutivos e exortou as pessoas a tirar uma lição deles. Ao identificar um poço em determinado lugar, disse: ‘Deste poço bebia água a camela de Salih (a.s.).’ Ordenou aos muçulmanos que não bebessem água de outros poços, mas somente daquele. O Profeta (s.a.w.) apontou para um vale e disse que a camela vinha beber água dali. Esse lugar ainda é conhecido pelo nome de Fajj an-Naqah.
Salih (a.s.) apresentou-lhes a mesma mensagem que constituía a mensagem fundamental de todos os profetas e mensageiros.
‘E enviamos ao povo de Tamud seu irmão Salih. Ele disse: “Ó meu povo! Adorai somente a Allah; não tendes outra divindade além d’Ele”’ — (Al-A‘raf: 73).
É importante observar que, antes de sua missão profética, o profeta Saleh (que a paz esteja sobre ele) era extremamente querido por seu povo, e todos haviam depositado nele todas as suas esperanças e aspirações. Depois que apresentou o chamado ao Islam, tornou-se objeto de seu ódio. Em resposta ao seu chamado, disseram:
‘Ó Saleh! Até ontem depositávamos grandes esperanças em ti. (Mas o que aconteceu hoje para que) nos proíbas de adorar aquelas divindades que nossos antepassados adoravam?’ — (Hud: 63).
Eles também consideraram o convite ao tawhid uma fraude e comentaram a esse respeito:
‘Tu não passas de um homem afetado pela magia. Não és senão um ser humano como nós’ — (Ash-Shu’ara: 154).
Apresentaram as mesmas desculpas e acusações que haviam sido apresentadas pelo povo de Nuh e pelo povo de Hud. O profeta Saleh (que a paz esteja sobre ele) aconselhou-os de muitas maneiras e advertiu-os sobre um terrível destino. Mas eles rejeitaram cada uma de suas palavras. Por fim, depararam-se com um terrível destino:
‘O povo de Thamud desmentiu a advertência. Disseram: “Seguiremos um homem, que é apenas um ser humano como nós? Se o seguirmos, isso significará que nos desviamos e perdemos o juízo. Entre nós, somente este homem recebeu a revelação da lembrança de Deus? Não; ele é, na verdade, um mentiroso inveterado e um desorientado.” (Dissemos ao nosso profeta:) “Amanhã eles saberão quem é o mentiroso inveterado e o desorientado. Enviaremos a camela como uma provação para eles. Espera pacientemente e observa qual será o seu destino. Informa-os e adverte-os de que a água será dividida entre eles e a camela, e cada um deverá ir beber no seu dia determinado.” Por fim, chamaram um de seus homens perversos. Ele assumiu a responsabilidade pela tarefa e matou a camela. Então observa quão terrível foi o Meu castigo e a Minha advertência. Enviamos contra eles um único bramido terrível, e eles se tornaram como palha triturada e reduzida a pó pelo dono do curral’ — (Al-Qasas: 23–31).
Em outra passagem do Alcorão Sagrado, é dito:
‘Então mataram a camela e, com plena arrogância, transgrediram a ordem de seu Senhor. Depois disseram a Saleh: “Traz-nos o castigo com que nos ameaças, se realmente és um dos profetas.” Por fim, uma calamidade devastadora os dominou, e eles permaneceram mortos, prostrados em suas próprias casas. Saleh saiu de sua cidade dizendo: “Ó meu povo! Transmiti-vos a mensagem do meu Senhor e desejei sinceramente o vosso bem. Mas que posso fazer? Não gostastes deste meu conselho e da minha sincera preocupação”’ — (Al-A’raf: 77–78).
O povo de Ló
Depois de Hazrat Saleh (A.), vieram ainda vários outros profetas, e o povo de cada um deles agiu da mesma maneira para com eles. Ou seja, rejeitaram o convite à verdade. Humilharam e desonraram os profetas, e não hesitaram em persegui-los de diversas formas. Por fim, chegou Hazrat Ló (A.). Assim como os profetas anteriores tiveram de enfrentar obstáculos, impedimentos, oposição, zombaria, escárnio e outras dificuldades, Hazrat Ló (A.) também teve de enfrentar tudo isso. Além disso, ele teve de confrontar uma doutrina moral inédita, surpreendente e abominável. Tratava-se da homossexualidade amplamente praticada naquela sociedade. A essência da sua doutrina era que a liberdade de ação não podia ser submetida a restrições morais. O povo de Ló abraçou firmemente essa doutrina bestial da liberdade, e, por isso, mergulhou na repugnante imoralidade. Além de refutar o politeísmo e a descrença, Hazrat Ló (A.) também criticou severamente esse gosto abominável. Mas eles não deram a menor atenção às suas palavras.
“E enviamos Ló como profeta. Recorda quando ele disse ao seu povo: ‘Chegastes a tal ponto de indecência que praticais atos indecentes que ninguém antes de vós havia praticado no mundo? Satisfazeis vossas paixões sexuais com homens, em vez de mulheres. Sois realmente um povo transgressor.’ Mas a resposta do seu povo não foi outra senão: ‘Expulsai estas pessoas da vossa cidade; são gente que se considera pura demais’ — (Al-A‘raf: 80–82).
Era como se dissessem: se Ló e seus seguidores não gostam do que fazemos, que não gostem. Mas que direito têm eles de impedir-nos de fazer o que queremos?
Eles não conseguiam de modo algum suportar o conselho que Hazrat Ló (A.) lhes dava: viver com caráter e levar uma vida digna e decorosa; por isso, decidiram expulsá-lo da cidade. As ideias e doutrinas equivocadas da jahiliyyah haviam lançado aquela infeliz nação tão longe da luz da verdade e haviam debilitado e deformado tanto sua razão, inteligência e consciência que, como poderiam responder ao convite ao tawhid, à risalat e à akhirat? Pelo contrário, consideraram o pregador da verdade inimigo de suas vidas. Depois que todos os esforços não produziram qualquer mudança em sua atitude, Allah Todo-Poderoso, de acordo com Sua lei eterna, puniu-os e eliminou-os da face da Terra.
O relato da destruição desse povo foi incluído no Sagrado Alcorão.
“(Ó Profeta Muhammad!) Chegou-te o relato dos honrados hóspedes de Abraão? Eles foram até ele e disseram: ‘A paz esteja contigo.’ Ele respondeu: ‘E sobre vós também esteja a paz.’ Pareceram-lhe pessoas desconhecidas. Então foi discretamente até sua esposa, trouxe um bezerro assado, gordo e tenro, e colocou-o diante dos hóspedes (para que comessem). Depois disse: ‘Não comeis?’ (Ao vê-los não comer,) sentiu medo deles em seu íntimo. Eles disseram: ‘Não tenhas medo’, e anunciaram-lhe a boa-nova de um filho sábio. Ao ouvir isso, sua esposa veio à frente gritando e batendo no próprio rosto, dizendo: ‘Um filho desta velha estéril?’
Eles disseram: “Assim o teu Senhor determinou. Ele é Sábio e conhece todas as coisas.”
Ibrahim disse: Ó anjos enviados por Deus, em que missão viestes?
Eles disseram: Fomos enviados contra um povo criminoso, para fazer chover sobre eles pedras de argila endurecida, marcadas por teu Senhor para os transgressores.” — (Adh-Dhariyat: 24–34).
Em outra passagem do Alcorão, é dito:
“E enviamos Lot, quando ele disse ao seu povo: Cometeis uma ação tão indecente e abominável como ninguém jamais cometeu antes de vós no mundo. Vossa condição é tal que vos aproximais dos homens (para relações sexuais), assaltais as estradas e praticais atos perversos em vossas reuniões (publicamente).
A resposta de seu povo não foi outra senão: ‘Fazei vir sobre nós o castigo de Deus, se sois veraz’.
Lot disse: Ó meu Senhor! Ajuda-me contra esse povo criminoso.
Então, quando os anjos que Eu havia enviado chegaram a Ibrahim com boas-novas, disseram: Destruiremos os habitantes desta cidade. Eles se tornaram grandes transgressores.
Ibrahim disse: Mas Lot também está lá. Eles disseram: Sabemos muito bem quem está lá. Salvaremos a ele e aos demais membros de sua família, exceto sua esposa. Ela estava entre os que ficaram para trás (por isso). Depois, quando Meus anjos chegaram até Lot, ele ficou extremamente angustiado e abatido com a chegada deles. Eles disseram: Não temas, não te aflijas nem te entristeças; salvaremos a ti e aos membros de tua família, exceto tua esposa, que será contada entre os que ficaram para trás. Faremos descer sobre esse povo um castigo do céu, por todas as perversidades que praticam.” — (Al-‘Ankabut: 28–30).
Os anjos de Allah hospedaram-se na casa de Hazrat Lut assumindo a forma de jovens belos e formosos. Hazrat Lut (A) não percebeu que eles eram anjos. Os pecadores da cidade ficaram exultantes com a notícia da chegada de belos jovens e começaram a aglomerar-se na casa de Hazrat Lut. O Alcorão descreve o episódio da seguinte maneira:
“Enquanto isso, os habitantes da cidade, transbordando de alegria, invadiram a casa de Lut. Lut disse: ‘Meus irmãos, estes são meus hóspedes; não me desonrem. Temam a Allah e não me humilhem.’ Eles disseram: ‘Acaso não te proibimos repetidamente de te tornares o protetor de todo o mundo?’ Finalmente, ao amanhecer, uma terrível explosão os atingiu. Fizemos a cidade inteira em pedaços e a viramos de cabeça para baixo. Fizemos chover sobre eles pedras de argila endurecida” — (Al-Hijr: 67–74).
É possível que essas pedras tenham sido lançadas do subsolo pela erupção de um vulcão e destruído a cidade. Ou pode ser que uma violenta tempestade tenha feito chover pedras.
O campo de atuação de Hazrat Lut
Hazrat Lut (A) era sobrinho de Ibrahim (A). A região onde se situava seu campo de atuação é hoje chamada Transjordânia (Trans Jordan), localizada entre o Iraque e a Palestina. Na Bíblia, o nome da principal cidade e centro dessa região é mencionado como Sodoma (SODOM). Como o povo de Lut, habitante de Sodoma, estava envolvido no pecado da homossexualidade, ainda hoje a relação sexual entre homens é chamada de sodomia. Essa cidade situava-se em algum ponto próximo ao Mar de Lut (MAR MORTO) e acabou submersa nele.
As pessoas sem caráter ainda não abandonaram o ato vil e vergonhoso pelo qual o povo de Lut se tornou infame. Os filósofos gregos chamaram esse crime abominável de virtude moral, e ele foi legalizado em vários países ocidentais, incluindo a Alemanha. O crime abominável da era da ignorância passada, que as pessoas não consideravam crime, está sendo proclamado como justo na civilização ocidental contemporânea, isto é, na era da ignorância moderna.
A homossexualidade é um ato contrário à natureza. Não se observa homossexualidade em nenhum outro animal além do ser humano. Ao ser humano foi concedida liberdade de ação como prova. O ser humano abusou dessa liberdade e passou a lutar contra a natureza.
Allah Todo-Poderoso estabeleceu a distinção entre fêmeas e machos em todos os seres vivos com o propósito de reprodução. No caso dos seres humanos, há por trás disso um propósito adicional e grandioso: marido e mulher formarão uma família, da qual surgirão a sociedade e a civilização. Para esse fim, os sexos dos dois foram feitos diferentes. Sua forma e aparência, constituição, respectivas capacidades e modos de agir também foram diferenciados. A um foi dada a capacidade de agir, e ao outro foi atribuída a responsabilidade de receber os efeitos dessa ação. Na união e no coito entre eles foi colocado um prazer extraordinário, que os atrai mutuamente. O ser humano que satisfaz sua luxúria sexual por meio da homossexualidade contrária à natureza — ato que nenhum outro animal além do ser humano pratica — comete simultaneamente vários tipos de crimes.
Um — ele próprio luta contra a natureza e a estrutura de seus atos e contra sua natureza psicológica, criando assim uma extrema deformação e desordem, que exerce um enorme impacto sobre seu corpo, sua mente e sua moralidade.
Dois — ele comete também uma extrema traição contra a natureza. Pois deseja obter, sem cumprir qualquer responsabilidade ou dever, o prazer sexual que foi considerado a recompensa por servir à sociedade e à civilização, e para cuja obtenção certas responsabilidades e deveres lhe foram impostos.
Três — ele trai também a sociedade. Beneficia-se das diversas instituições civilizacionais estabelecidas na sociedade. Porém, sem prestar qualquer serviço a elas, gasta, de modo totalmente egoísta, sua força física e seu tempo em atividades que são extremamente prejudiciais à sociedade, à civilização e à moralidade. Torna-se completamente incapaz de servir à sua linhagem e à sua família. Envolve consigo pelo menos um homem em práticas anormais e efeminadas e abre, para pelo menos duas mulheres, as portas da desordem sexual, da decadência moral e da ruína. Foi por essa razão que Allah, o Altíssimo, eliminou o povo de Lot da face da Terra, para que as pessoas dotadas de consciência pudessem tirar uma lição disso.
O povo de Shuayb
Os habitantes de Madian e de Aykah foram chamados de povo de Shuayb. Para guiá-los, Allah, o Altíssimo, enviou o profeta Shuayb (que a paz esteja com ele). Há divergência quanto a saber se os habitantes de Madian e os de Aykah eram um único povo ou dois povos distintos. Alguns afirmaram que eram dois povos separados. Outros opinaram que ambos eram o mesmo povo. A investigação mostra que ambas as opiniões estão corretas. Embora os habitantes de Madian e os de Aykah fossem dois povos distintos, eram dois ramos da mesma linhagem. Os descendentes de Ibrahim (que a paz esteja com ele) nascidos de sua esposa Qatura são conhecidos como Banu Qatura. Entre eles, a tribo mais famosa é conhecida como os Companheiros de Madian, em referência a Madian ibn Ibrahim. Seu território estendia-se desde o norte do Hijaz, passando pelo sul da Palestina e daí até o extremo do vale do Sinai, alcançando as margens do Mar Vermelho e do golfo de Aqaba. Sua principal cidade e centro administrativo era a cidade de Madian. Entre as demais tribos de Banu Qatura, os dedanitas (Dedanites) eram relativamente os mais famosos. Viviam na região entre Tayma, no norte da Arábia, e Tabuk e Al-Ula. Sua cidade central era Tabuk, que antigamente era chamada de Aykah. A razão provável para o envio do mesmo profeta aos habitantes de Madian e aos de Aykah era que ambos descendiam da mesma linhagem e falavam a mesma língua. Seus territórios eram contíguos. Talvez também houvesse casamentos entre eles, e a atividade profissional de ambos fosse o comércio. Sua condição moral e religiosa era semelhante. Eram extremamente corruptos nos negócios. Também estavam imersos no shirk e na incredulidade.
“E enviamos aos habitantes de Madian seu irmão Shuayb. Ele disse: ‘Ó meu povo! Adorai e obedecei a Allah. Não tendes outro deus além d’Ele. E não diminuais o peso nem a medida. Hoje vejo-vos em boa situação. Mas temo que amanhã vos sobrevenha um dia cujo castigo envolva todos vós. Ó meu povo! Dai o peso e a medida completos, com exatidão e justiça. E não causeis nenhum prejuízo aos bens das pessoas, fornecendo mercadorias adulteradas ou de má qualidade. E não espalheis a corrupção pela Terra’” — (Hud: 84–85).
Por terem esquecido os ensinamentos e a orientação dos profetas anteriores, tornaram-se escravos da natureza. Em vez de Deus, adoravam divindades inventadas por eles mesmos. Negavam o tawhid, a risala e a akhira. Como consequência, tornaram-se corruptos, injustos e pecadores. Assim como o povo de Lot, além do desvio na crença, tornaram-se notórios pela decadência moral, pela desonestidade nos negócios e pela corrupção. O profeta Shuayb, ao convidá-los ao Islã, também os exortou à oração para a correção de seu caráter. Eles, porém, de modo algum estavam dispostos a aceitar isso.
O povo de Shuayb respondeu:
“Ó Shuaib! É a tua oração que te ordena que abandonemos os deuses que nossos antepassados adoravam?” — (Hud: 87).
Na expressão “que nossos antepassados adoravam” está oculto um argumento capcioso da política de imitação cega própria da jahiliyyah. O que eles querem dizer é: que valor têm as tuas palavras em comparação com as de nossos sábios, virtuosos e grandes pensadores? O fato de eles considerarem este e aquele como deuses estava errado, e somente tu estás certo?
Zombando de sua reivindicação de profecia, disseram: é mentira que tu sejas enviado por Allah. Como podes, sendo um ser humano como nós, ser enviado pelo Senhor do universo? Tu és apenas um louco. A magia tornou tua razão e teu discernimento debilitados e distorcidos.
“Tu és um homem enfeitiçado e nada mais que um ser humano como nós. Nós te consideramos realmente um mentiroso” — (Ash-Shu’ara: 186).
Não havia nada de novo na maneira como rejeitavam os pontos fundamentais da pregação, nem nos argumentos absurdos que apresentavam. O povo de Shuaib fez o mesmo que os escravos da jahiliyyah e das paixões haviam feito ao rejeitar a pregação dos profetas anteriores, levantando as mesmas desculpas e objeções capciosas. Quando o profeta Shuaib (que a paz esteja com ele) criticou severamente a corrupção, a fraude e a desonestidade em seus negócios e comércio, uma nova perspectiva da jahiliyyah veio à tona. Seu argumento era: que relação existe entre a subsistência e a moralidade? Disseram diretamente ao profeta: vamos sacrificar nossos interesses econômicos por causa dessas tuas palavras tolas? Vamos abandonar as vantagens que obtemos nos negócios ao adulterar as medidas porque sofreremos prejuízo na Última Vida? E, afinal, o que é essa Última Vida? Não conseguimos compreendê-la. E, mesmo que algum dia ela venha a existir, vamos arruinar nossa vida mundana por causa dela? Consideramos extrema tolice abandonar o ganho imediato na esperança de algo futuro. Faz o que quiseres. Por que estás tentando impor isso a nós?
Os notáveis da comunidade conversavam entre si e advertiam uns aos outros.
“Os chefes que se recusaram a seguir suas palavras começaram a dizer uns aos outros: se seguirdes Shuaib, certamente estareis arruinados (financeiramente)” — (Al-A’raf: 90).
O significado dessa breve afirmação é muito profundo. A posição dos notáveis e líderes de Madyan era a seguinte: como poderíamos aceitar as palavras que o honorável Shuaib (que a paz esteja com ele) está proferindo, a pregação de fé e honestidade que está transmitindo e os princípios permanentes de moralidade aos quais quer nos vincular? Nós controlamos as duas maiores rotas comerciais do mundo. Vivemos junto às fronteiras de dois Estados desenvolvidos como o Egito e o Iraque. Se não exercermos nossa influência e pressão sobre as caravanas comerciais e não nos comportarmos como pessoas honestas e corretas, todas as vantagens que obtemos graças à nossa posição geográfica serão destruídas. Além disso, terminará também a influência e o prestígio que exercemos sobre as nações vizinhas.
Esse temor de sofrer prejuízos nos interesses mundanos não se limitava apenas aos líderes da sociedade do povo de Shuayb; em todas as épocas, as pessoas de mente e caráter corrompidos sentiram esse mesmo temor diante de uma conduta de honestidade e fidelidade. Os causadores de desordem de todas as épocas tinham a convicção de que o comércio, a política e os demais assuntos mundanos não poderiam funcionar sem mentira, desonestidade, astúcia e fraude. Em todas as épocas e lugares, entre as terríveis desculpas e objeções apresentadas contra o chamado da verdade, estava também esta: se a pessoa abandonasse os caminhos e métodos correntes no mundo e aceitasse esse chamado, a destruição da nação seria inevitável. Os adeptos da jahiliyyah da época atual também sustentam essa mesma convicção.
O povo de Madyan não apenas rejeitou o chamado do profeta, mas também ameaçou expulsá-lo, juntamente com seus seguidores, do país.
“Os líderes e notáveis de seu povo, tomados de orgulho e arrogância, disseram: ‘Ó Shuayb! Certamente expulsaremos você e aqueles que creram com você de nossa cidade, ou então vocês terão de retornar à nossa religião’” — (Al-A’raf: 88).
Quando já não restava nenhuma possibilidade de que retornassem ao caminho reto, Allah, o Todo-Poderoso, destruiu-os.
“Então, um flagelo devastador abateu-se sobre eles. Depois, permaneceram mortos, prostrados em suas próprias casas” — (Al-A’raf: 91).
A destruição deles foi descrita da seguinte maneira:
“Aqueles que rejeitaram o chamado de Shuayb, considerando-o uma mentira, foram aniquilados de tal modo que parecia que jamais haviam habitado aqueles lugares” — (Al-A’raf: 92).
A destruição do povo de Madyan permaneceu por muito tempo como uma lição memorável para os habitantes das regiões vizinhas. É assim que ocorre a destruição dos seguidores da falsidade.
O povo do Faraó
A roda do tempo continua a girar, e o conflito entre o Islã e a jahiliyyah também continua. Finalmente, várias centenas de anos após o falecimento do amado profeta de Allah, Hazrat Yusuf (A.S.), na terra do Egito, o povo copta alcançou o auge do progresso e estabeleceu-se o governo da família faraônica. Durante o domínio faraônico, toda a nação estava submersa nas trevas da jahiliyyah. Começou uma extrema perseguição e opressão contra os Filhos de Israel, que professavam fé no Islã. Sob a influência da civilização e cultura equivocadas dos coptas, os Filhos de Israel também foram vítimas da corrupção. Quando Hazrat Musa (A.S.) foi enviado àquele país com o objetivo de reformá-los, corrigi-los, orientá-los e libertá-los dos tentáculos do governo faraônico, a responsabilidade de transmitir a pregação islâmica também lhe foi confiada entre o povo copta. De acordo com o método da pregação dos profetas, Hazrat Musa (A.S.) escolheu o Faraó e seus cortesãos, como governantes da nação, como o primeiro alvo (objetivo) de sua pregação. Essa foi precisamente a ordem que recebeu de Allah.
“Vai até o Faraó. Ele se tornou rebelde. Dize-lhe: ‘Estás disposto a purificar-te e a permitir que eu te guie até o teu Senhor, para que o temor d’Ele surja em ti?’” — (An-Nazi’at: 17-19).
“Vai até o povo dos opressores — o povo do Faraó. Será que eles não desejam salvar-se de um terrível destino?” — (Ash-Shu’ara: 11).
Em muitos lugares do Alcorão Sagrado, Hazrat Musa (A.S.) e o Faraó são mencionados no contexto. Reunir essas passagens daria origem a uma longa história. Em vez de narrar aqui essa história em sequência, serão apresentados os aspectos fundamentais dos argumentos capciosos, da obstinação, da imitação cega e das superstições tradicionais da jahiliyyah. Primeiro, será feita uma breve discussão sobre suas superstições e crenças cegas.
O significado do nome Faraó
A palavra Faraó significa filho do deus Sol. Para os antigos egípcios, o grande deus era o Sol, e eles chamavam o Sol de Rá. Faraó designava precisamente seus filhos. Os egípcios acreditavam que só poderia obter o poder de governar o país aquele que assumisse a forma do deus Rá e viesse como sua encarnação. De acordo com essa crença, qualquer dinastia estabelecida no Egito era divulgada como descendente do deus Sol. Todo aquele que se sentava no trono do poder governante intitulava-se Faraó. Na realidade, esse não era um nome próprio, mas apenas um título real. Com isso, também se difundia a ideia de que, sendo ele a encarnação de um deus, era, portanto, o senhor supremo ou o grande deus dos habitantes daquele país.
Convém mencionar que, no relato da história de Hazrat Musa (A.S.), o Alcorão Sagrado faz referência a dois faraós. Um deles foi aquele durante cujo reinado Hazrat Musa (A.S.) nasceu e por quem foi criado. Segundo os pesquisadores, seu nome era Amés II. Aquele a quem Hazrat Musa (A.S.) foi enviado com a pregação do Islã e a exigência da libertação dos Filhos de Israel era o segundo Faraó, chamado “Mernptá” ou “Mineptá”.
Allah Todo-Poderoso chama pessoalmente o povo do Faraó de um povo injusto. Todo o povo era injusto, e o Faraó era o líder desses injustos. Pode-se, assim, imaginar quão cruéis, demoníacos e aterrorizantes eram sua opressão e perseguição. Por isso, em resposta ao convite islâmico, eles se comportaram como os antigos rebeldes contra Deus. Eles disseram:
“Jamais ouvimos algo assim no tempo de nossos antepassados” — (Al-Qasas: 36).
A razão por trás da rejeição do convite do Profeta era exatamente a mesma: a imitação cega dos antepassados. Em suma, diziam: nossos antepassados certamente eram sábios e virtuosos; se eles não reconheciam Deus como Um e sem associados, não tinham qualquer concepção da Vida Futura e tampouco acreditavam que um simples ser humano pudesse ser enviado por Deus, como podemos então acreditar nas palavras deste homem?
Sobre essa mentalidade, existente em todas as épocas, o Alcorão declara claramente:
“Quando lhes é dito: ‘Segui as determinações que Allah revelou’, eles respondem: ‘Nós seguiremos as mesmas tradições que vimos nossos antepassados seguirem.’”
“E se seus antepassados não tivessem usado a razão em coisa alguma e não tivessem encontrado o caminho reto e correto? Ainda assim eles continuariam a segui-los?” — (Al-Baqara: 170).
“A condição daqueles que se recusaram a seguir o caminho de Allah é semelhante à de alguém que chama os animais, mas eles não ouvem nada além do som desse chamado. São surdos, mudos e cegos. Por isso, não compreendem palavra alguma” — (Al-Baqara: 171).
O temor de Deus e da Vida Futura, a prática de boas obras e a concepção das elevadas virtudes morais são objetos do desejo de uma consciência sã. Por meio disso, pode-se alcançar a paz suprema da alma. Contudo, a maioria das pessoas rejeita isso. Em todas as épocas, as causas desse comportamento insensato são do mesmo tipo. O esquecimento de si mesmas, o esquecimento da própria mente, estado psicológico e consciência, a adoração dos desejos, a inclinação para imitar cegamente os antepassados e o orgulho e a arrogância embriagados pelo poder funcionam como uma cortina tão espessa — ou como uma muralha de ferro — que a luz da orientação não consegue atravessá-la e penetrar no coração humano. Por isso, essas pessoas foram comparadas aos surdos, mudos e cegos.
Em todas as épocas, tanto nas passadas quanto na moderna, observa-se a mesma situação. Foi isso que se viu entre o Faraó e seus cortesãos. Embriagado pelo poder, o Faraó negou a unicidade, o senhorio, a autoridade, a soberania e o domínio absoluto de Allah sobre toda a criação. O honorável profeta Moisés (que a paz esteja com ele) e seu irmão, o honorável profeta Aarão (que a paz esteja com ele), por ordem de Deus, declararam diante de todos, na reunião do conselho ministerial do Faraó, em termos inequívocos:
“Sem dúvida, fomos enviados pelo Senhor dos mundos” — (Ash-Shu’ara: 16).
“Eles imediatamente exclamaram: ‘E que coisa é esse Senhor dos mundos?’” — (Ash-Shu’ara: 23).
Havia espanto nessa pergunta, e também certa dose de zombaria. Isso não significa que fossem completamente ateus ou que negassem a existência de Deus. Pelo contrário, acreditavam em Allah, o Criador do universo, e até na existência de Seus anjos.
“Certo dia, o Faraó convocou o seu povo e disse: ‘Ó meu povo! Por acaso não me pertence o reino do Egito? E estes rios não correm sob o meu domínio? Não vedes isso? Acaso não sou melhor do que este homem desprezível e humilhado, que mal consegue expressar-se claramente? Por que não lhe foram lançados braceletes de ouro? Ou, se fosse enviado por Allah, por que não veio com ele um exército de anjos para guardá-lo pela frente e por trás?’” — (Az-Zukhruf: 51–53).
Sua concepção e visão de mundo eram equivocadas e estreitas: Allah é o Criador do universo, e Seu domínio e governo vigoram — que continuem vigorando — no vasto reino da natureza. Porém, como eu sou o rei da terra do Egito e o proprietário das montanhas, rios, árvores, seres humanos e animais deste país, ninguém pode exercer em meu país qualquer governo além do meu. Ele era extremamente orgulhoso de seu poder. Por isso, considerava toda a nação seus escravos submissos, meros servos de seus servos. Considerava todos desprezíveis, insignificantes, abjetos e humilhados. Seu poder, arrogância e orgulho não lhe permitiram aceitar a profecia do honorável Moisés (que a paz esteja com ele). Além disso, estava firmemente convencido de que um ser humano jamais poderia ser um mensageiro enviado por Allah. E, se Allah quisesse enviar alguém como mensageiro, seria apropriado escolher aquele que, na sociedade, possuísse riqueza, prestígio e poder. O honorável Moisés (que a paz esteja com ele) não era um homem influente, respeitado e rico na sociedade; não tinha sequer braceletes de ouro nas mãos. Se fosse realmente um representante enviado por Allah, certamente teria à sua frente e atrás de si uma grande hoste de anjos e se moveria com o esplendor e a pompa dos reis. Como nada disso existia, todas as suas alegações eram falsas.
Mesmo depois de apresentar numerosos argumentos irrefutáveis, sinais claros e feitos miraculosos, ele não abandonou sua obstinação cega, arrogância e teimosia; ao contrário, tornou-se ainda mais severo com o profeta de Allah. Em tom de dura reprimenda, disse a Moisés (que a paz esteja com ele):
“O Faraó disse: ‘Se tomares qualquer outro por deus além de mim, certamente estarás entre aqueles que definham e morrem nas celas escuras da prisão’” — (Ash-Shu’ara: 29).
“Enviamos Moisés a Faraó, Hamã e Qarun, com os Nossos sinais e um claro testemunho de sua nomeação como profeta. Mas eles disseram: ‘Ele é um feiticeiro, um mentiroso’. Então, quando ele lhes apresentou a verdade da Nossa parte, disseram: ‘Matai-o e matai também os filhos daqueles que creram com ele, mas deixai vivas as mulheres’. Porém, seus ardis fracassaram. E Faraó disse: ‘Deixai-me; eu o matarei. Que ele invoque o seu Senhor. Temo que ele mude a vossa religião ou espalhe a corrupção no país’. Moisés disse: ‘Busco refúgio no meu Senhor e no vosso Senhor contra todo arrogante orgulhoso que não crê no Dia da Prestação de Contas’” — (Al-Mu’min: 23–27).
Ou seja, o objetivo do chamado dos profetas era romper todas as formas de correntes de obediência e servidão aos seres humanos e submeter-se exclusivamente à servidão a Allah, ou ao Seu comando e governo. Os governantes tirânicos de todas as épocas, como Faraó e Nimrod, desejam permanecer como senhores absolutos de todos os habitantes de seus países. Querem que seu comando e governo prevaleçam sobre todos, e que o povo permaneça submetido às suas leis. Como resultado do chamado islâmico de Moisés (que a paz esteja com ele), Faraó passou a temer precisamente que seu domínio e sua supremacia absolutos deixassem de existir. O chamado de Moisés provocaria nas pessoas uma revolução mental tal que elas se libertariam da servidão aos seres humanos. Alimentando esse temor, Faraó disse aos seus cortesãos: ‘Temo que Moisés provoque uma revolução’. Mesmo que não conseguisse fazer uma revolução, havia pelo menos o temor certo de que sua pregação e propaganda causassem desordem e anarquia no país e perturbassem a paz e a segurança das pessoas. Portanto, ainda que não fosse culpado do crime de homicídio, deveria ser morto simplesmente em nome da segurança pública (Maintenance of Public Order).
Faraó falou de revolução no sentido de que Moisés (que a paz esteja com ele) mudaria a religião vigente.
“Temo que ele mude a vossa religião.”
Aqui, por religião, entende-se o sistema de governo. O sistema religioso, político, econômico e cultural que vigorava no Egito com base na soberania de Faraó e de sua família era a ‘religião’ daquele país. Como resultado do chamado de Moisés (que a paz esteja com ele), surgiu o temor de que essa religião fosse alterada e de que seu próprio reinado, seu domínio e sua autoridade chegassem ao fim. Portanto, era absolutamente necessário matar aquele que mudasse a religião. Em todas as épocas, inclusive na era moderna, quando os Faraós tirânicos perceberam que o movimento islâmico havia abalado os fundamentos de seu governo despótico, levantaram acusações falsas e fabricadas contra os ativistas, encenaram julgamentos e condenaram à morte os líderes do movimento; muitos foram condenados à prisão e muitos sofreram torturas cruéis. Mas, no fim, foram destruídas as próprias forças tirânicas rebeldes contra Allah. Mesmo utilizando todo o poder do Estado, Faraó não conseguiu exterminar Moisés (que a paz esteja com ele), seu movimento islâmico e sua força. Ele próprio foi eliminado e apagado da face da terra.
Quando Faraó tomou todas as providências para matar Moisés (que a paz esteja com ele), veio-lhe da parte de Allah a ordem de sair do território egípcio levando toda a força do povo islâmico.
“Parte durante a noite levando os Meus servos. Certamente sereis perseguidos. Deixa o mar em seu estado natural (fluente). Todo esse exército será submerso e morrerá. Quantos jardins, nascentes, campos cultivados e magníficos palácios eles deixaram para trás! E quantos bens luxuosos que desfrutavam ficaram para trás! Assim foi o seu destino, e fizemos de outras pessoas herdeiras dessas coisas. Depois, nem o céu nem a terra derramaram lágrimas por eles, e não lhes foi concedido sequer um prazo” — (Ad-Dukhan: 23–29).
Assim que Moisés (que a paz esteja com ele), por ordem de Allah, golpeou o Mar Vermelho com seu bastão milagroso, formou-se uma bela estrada seca de uma margem à outra. Todo o povo islâmico atravessou o mar em segurança. Depois, quando Faraó começou a avançar pela estrada com seu enorme exército, o mar subitamente retomou sua forma natural, e todo o exército foi submerso e morreu. Por mais que esses governantes tirânicos rufem seus tambores de vitória, e por mais que seus bajuladores se mostrem pródigos em elogios, depois de sua morte ninguém lamenta por eles nem derrama lágrimas. Pelo contrário, todos respiram aliviados.
Em cada capítulo da história, vemos esse conflito entre o Islã e a Jahiliyyah, entre a verdade e a falsidade. Embora os portadores da bandeira da verdade tenham sido perseguidos e oprimidos pelas forças que se opõem ao Islã e se rebelam contra Deus, por fim foram as forças da falsidade que foram destruídas.
A chegada do Profetauniversal
Em determinado momento do conflito entre o Islã e a Jahiliyyah, no início do século VII, o Profeta universal Muhammad Mustafa, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, surgiu na cidade de Meca com a mensagem do Islã. Naquele tempo, o mundo inteiro, incluindo a Arábia, estava mergulhado na densa escuridão da Jahiliyyah.
Allah, o Altíssimo, enviou o Profeta Mustafa, que a paz esteja sobre ele, como o último profeta para a humanidade e enviou, para a humanidade, sua orientação definitiva, isto é, sua orientação final. O último profeta e a orientação definitiva provam que, para o bem-estar integral dos seres humanos, foi apresentado um sistema de vida completo, ou Din. Por isso, o Din recebeu o nome de “Al-Islam”, cuja uma das características mais importantes é a forma simples e compreensível de apresentar a mensagem do grandioso Livro revelado para ele, o Alcorão.
Embora o Alcorão utilize, ao apresentar sua mensagem, uma linguagem de aconselhamento em vez de uma linguagem imperativa, ele também apresenta argumentos e provas sólidos. Para demonstrar a veracidade da crença que deseja estabelecer no coração das pessoas, o Alcorão a apresenta, com argumentos sólidos, em uma linguagem tocante. Esses argumentos e provas são de vários tipos: intelectuais, naturais, intuitivos e históricos. Apresentar a mensagem acompanhada de argumentos e provas sólidos demonstra que o Alcorão dirige seu apelo à razão e à consciência das pessoas. Por exemplo:
“Certamente, na criação dos céus e da terra e na alternância da noite e do dia há inúmeros sinais para os dotados de entendimento” — (Al Imran: 190).
Há muitos versículos desse tipo no Sagrado Alcorão, pelos quais fica claro que o ser humano foi considerado apto a aceitar a mensagem justamente por ser uma criatura dotada de razão e consciência. Em outras palavras, para qualquer pessoa que utilize corretamente seu conhecimento, sua razão e sua consciência, a veracidade dessa mensagem se tornará evidente. Se alguém refletir com espírito de busca da verdade e sinceridade, não poderá permanecer privado da luz dessa verdade.
O ambiente envolto pela escuridão da Jahiliyyah
Apesar de a mensagem islâmica ter sido apresentada em linguagem convincente, acompanhada de argumentos, testemunhos históricos e diversos sinais, a ignorância da Arábia também rejeitou essa mensagem, como no passado. Isso ocorreu porque faltavam à sociedade conhecimento, inteligência, consciência e discernimento. Quando o sol nasce, sua luz se espalha por todos os lados. Somente aqueles que têm visão podem beneficiar-se dessa luz. Para o cego, ou para aquele que perdeu a visão, tudo parece estar envolto em profunda escuridão. O mesmo ocorre com o discernimento interior. Se o olho do coração perde a capacidade de enxergar, ou se uma espessa cortina, semelhante à catarata, cobre-o, a pessoa não consegue ver a verdade. Na época da chegada do último Profeta, a sociedade estava cheia de pessoas desse tipo: cegas e surdas. O Alcorão descreveu a situação daquela época com as seguintes palavras:
“Eles têm corações, mas não compreendem com eles. Têm olhos, mas não veem com eles. Têm ouvidos, mas não ouvem com eles. São como o gado; na verdade, são ainda mais desviados e extraviados. Estão imersos na mais extrema negligência” — (Al-A‘raf: 179).
O significado disso é que essas pessoas — diante das quais o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apresentou a mensagem islâmica — haviam perdido completamente a capacidade de refletir sobre a mensagem da verdade. Allah, o Altíssimo, concedeu-lhes meios e recursos para alcançar a verdade e compreender corretamente todas as coisas; por meio deles, fazem tudo o mais, mas não realizam a verdadeira tarefa que deveriam realizar: compreender a verdade. Eles receberam olhos, isto é, a faculdade da visão, para observar, por meio deles, as realidades do universo. Receberam a faculdade da audição para ouvir atentamente a mensagem da verdade e refletir sobre ela. Receberam a mente, ou a capacidade de compreensão, para avaliar corretamente, com senso de responsabilidade, aquilo que observaram com os olhos e ouviram com os ouvidos, e chegar à decisão correta. Mas desempenharam apenas o papel de animais quadrúpedes. Assim como o animal obtém conhecimento por meio dos olhos e dos ouvidos, eles também fazem somente isso. A situação desses quadrúpedes é tal que, quando o pastor ou seu dono grita algo para eles, não conseguem compreender o que está sendo dito; apenas percebem que alguém está fazendo um som. Essa era exatamente a situação dos politeístas e descrentes árabes diante da mensagem islâmica. Eles haviam perdido completamente a capacidade de observar e refletir sobre suas provas. O significado das palavras do mensageiro desaparecia no ar. O Alcorão Sagrado retratou assim seu estado mental:
“A situação daqueles que se recusaram a seguir o caminho de Deus é como a de alguém que chama animais, os quais não ouvem desse chamado senão o som. São surdos, mudos e cegos; por isso, não compreendem coisa alguma” — (Al-Baqarah: 171).
Em outro lugar, foi dito:
“Acaso não refletem sobre o Alcorão? Ou seus corações estão trancados?” — (Muhammad: 24).
O significado do versículo acima é que eles não refletem de modo algum sobre o Alcorão. E, mesmo que às vezes reflitam, seu sentido e significado não penetram no fundo de seus corações. A razão é que eles não querem aceitar a verdade de maneira alguma. As entradas de seus corações permanecem trancadas. Depois disso, já não têm capacidade alguma de distinguir o bem do mal. E isso é a cegueira do coração.
As causas da cegueira
A primeira causa dessa cegueira era o fanatismo nacional e familiar. O que diziam era: corretas são as crenças religiosas, os costumes e as tradições que lhes haviam sido transmitidos por seus antepassados. Afinal, não era possível que eles tivessem cometido erros. Portanto, se rejeitássemos o convite à nova religião do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), isso seria a causa da nossa boa fortuna, e, sem abandonar a religião de nossos antepassados, também escaparíamos de sua maldição.
“Encontramos nossos pais e antepassados seguindo uma determinada tradição, e seguimos os passos deles” — (Az-Zukhruf: 23).
Eles não tinham, em apoio à sua posição, nenhuma autoridade divina contida em qualquer Livro. Sua única prova era que tudo aquilo vinha sendo praticado desde o tempo de seus pais e antepassados. Portanto, faríamos tudo o que eles haviam feito. É digno de nota que, em todas as épocas, por que eram precisamente os ricos da sociedade que, enfrentando os profetas, erguiam a bandeira da imitação cega dos antepassados? Uma das razões era que estavam tão mergulhados nos prazeres e deleites mundanos que não estavam de modo algum dispostos a refletir sobre a disputa entre a verdade e a falsidade, para que sua vida luxuosa não sofresse qualquer interrupção. A segunda razão era que seus interesses estavam intimamente ligados ao sistema vigente na sociedade. Assim que viram o sistema apresentado pelos profetas, compreenderam que, sob esse sistema, sua liderança, influência e autoridade chegariam ao fim, e que todos os caminhos pelos quais desfrutavam injustamente de seus privilégios seriam bloqueados.
Não foi apenas a obediência cega aos antepassados que os impediu de aceitar a verdade; o fanatismo de linhagem e os interesses familiares também os impediram de aceitar o convite islâmico. A família do Profeta estava ligada ao ramo Banu Qusay da tribo dos coraixitas. Por isso, instigaram os outros contra os Banu Qusay. Os demais recusaram-se a reconhecer a profecia de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) porque isso estabeleceria a supremacia dos Banu Qusay.
Durante a Batalha de Badr, Akhnas ibn Shurayq, um companheiro de Abu Jahl, perguntou-lhe em particular: “Diga-me com sinceridade: você considera Muhammad verdadeiro ou mentiroso?”
Em resposta, ele disse claramente: “Juro por Deus, Muhammad é um homem veraz, que jamais mentiu em toda a sua vida. Mas, se a guarda do estandarte (1), o fornecimento de água (2), a administração da Caaba (3) e a profecia forem todos concedidos aos Banu Qusay, diga-me você: o que restará aos demais coraixitas?”
Até mesmo um homem como Abu Talib, tio do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não pôde aceitar o Islã apenas porque sua crença cega na religião de seus pais e antepassados não lhe permitiu fazê-lo. No entanto, seu carinho e amor pelo Profeta eram incomparáveis. Diante dos inimigos, ele era como um escudo para ele. Mas, apesar dos repetidos pedidos do nobre Profeta, não pronunciou a profissão de fé. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhe, com grande reverência e ternura: “Meu querido tio, diga apenas uma vez: não há divindade além de Allah. Então, no Dia da Ressurreição, testemunharei em seu favor e suplicarei pelo seu perdão.”
Abu Jahl e outros líderes politeístas estavam presentes. Eles disseram: “Abu Talib, por medo da morte, você abandonará a religião de seu venerável pai, Abd al-Muttalib?”
A flecha da jahiliyyah deles atingiu o seu alvo. Um intenso sentimento de veneração aos antepassados despertou em Abu Talib, e ele disse: “Morrerei seguindo a religião de Abdul Mutalib.” Ibn Hisham relatou esse acontecimento em sua história.
A partir dos dois acontecimentos mencionados acima, fica evidente quão arraigados eram o fanatismo e a imitação cega — nacionais, partidários, tribais e familiares — na sociedade árabe, e como, para preservar seus interesses estabelecidos, eles rejeitaram sem hesitação a verdade, o chamado do Profeta e o caminho do bem.
A segunda causa era a cegueira intelectual e a adoração dos desejos. A tendência de adorar os próprios desejos havia se espalhado por todas as suas veias. Para satisfazer os desejos e impulsos de suas paixões, eles inventavam diversos métodos, procedimentos e costumes, revestindo-os de uma aparência encantadora. Forneciam-se argumentos e provas para legitimá-los. Ao consumo de álcool, aos jogos de azar, à usura, à nudez, à obscenidade, à dança e ao canto, à anarquia sexual, aos assassinatos, ao infanticídio e a outras práticas semelhantes eram dados, ora, o manto de uma exigência natural; ora, o de um benefício econômico; ora, o das belas-artes; e ora, o da santidade religiosa. Assim, sob o peso dos desejos satânicos e das ações abomináveis, a natureza humana havia sido esmagada de tal maneira que não conseguia sequer emitir uma palavra de protesto contra essas práticas. Como o Islam não podia conceder licença para nada disso, mas se levantava contra tudo isso, eles o consideravam um perigo para si mesmos. Consideravam-no uma terrível opressão e injustiça contra eles. Isso acontecia porque, na realidade, haviam feito de seus próprios desejos o seu deus. Quando o Profeta da misericórdia começou a sentir dor no coração diante dessa mentalidade e desse comportamento, Allah, o Altíssimo, disse:
“Por acaso já viste aquele que tomou seus próprios desejos como seu deus? Poderias assumir a responsabilidade de guiá-lo ao caminho reto?” — (Al-Furqan: 43).
Fazer dos próprios desejos um deus significa servi-los e submeter-se a eles; e, na realidade, isso também é shirk, tal como a idolatria. No hadith narrado por Abu Umama (r.a.), o Profeta (s.a.w.) disse: “Entre todos os deuses adorados sob este céu além de Allah, o pior deus é o desejo ao qual se obedece” — (At-Tabarani).
A pessoa que mantém seus desejos sob o controle da consciência e toma decisões de acordo com a razão, mesmo que caia em alguma forma de shirk ou kufr, pode ser conduzida ao caminho correto por meio de explicações e aconselhamento. Mas o escravo dos desejos é como um camelo sem rédeas e não pode ser corrigido de modo algum. Ele segue na direção para a qual seus desejos o conduzem.
A terceira causa são os costumes e tradições herdados do passado. Eles não estão dispostos a ouvir qualquer palavra contra essas práticas, nem preparados sequer para pensar em abandonar os costumes que vêm sendo seguidos há tanto tempo.
Essas três coisas mantêm suas mentes e seus corações afetados como por uma doença incurável. Eles não apenas rejeitam o chamado da verdade; a voz da verdade também aumenta sua ira.
“Nós explicamos de várias maneiras, neste Alcorão, a essência da religião, para que eles compreendessem e se tornassem conscientes; mas eles estão fugindo cada vez mais para longe da verdade.” — (Bani Israil: 41).
Pessoas desse tipo, filhos espirituais da Jahiliah, serão encontradas em todas as épocas.
A reação dos adeptos da Jahiliah
Com o anúncio da missão profética de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a reação dos idólatras e descrentes de Meca foi se tornando gradualmente cada vez mais intensa. A princípio, esse anúncio lhes pareceu algo extremamente surpreendente. Aos olhos deles, aquele homem era o melhor da sociedade, veraz, absolutamente digno de confiança e possuidor de um caráter incomparável; então, por que palavras tão irreais e absurdas saíam de sua boca?
“Será que Allah enviou um ser humano como Seu Mensageiro?” — (Bani Israil: 14).
“Era algo surpreendente para eles que um admoestador tivesse vindo de seu próprio meio (do meio dos seres humanos). Então os descrentes disseram: ‘Isto é realmente algo espantoso.’” — (Qaf: 2).
Como pessoas desprovidas de conhecimento e discernimento, começaram por toda parte a espalhar este comentário sensacional: por acaso Deus jamais envia um ser humano como Seu Mensageiro? Diziam: “Se estamos ouvindo palavras tão absurdas da boca de nosso homem, tão amado por todos, veraz e digno de confiança, então certamente sua mente está perturbada. Ou ele foi possuído por um jinn.” Assim teve início uma campanha para provocar nas pessoas aversão ao Profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
Depois, veio a questão da vida após a morte, a questão da Akhirah. Para eles, isso era ainda mais ridículo e inacreditável.
A declaração deles era algo assim: “Quereis que vos falemos de um homem que vos dá esta notícia absurda: quando estiverdes reduzidos a pedaços (depois de apodrecerdes e vos decompordes após a morte), sereis então recriados?” — (Sabá: 7).
Assim, os porta-bandeiras da Jahiliyyah rejeitam inicialmente o chamado do Islã com zombaria, sarcasmo e escárnio. Depois, rejeitam também o tawhid e a vida futura como absurdos, porque jamais ouviram falar de coisas tão irreais de seus antepassados. Em seguida, começa a oposição ao Profeta (s.a.) e ela gradualmente assume a forma de perseguição e opressão. Assim que alguém aceitava o Islã, uma montanha de calamidades desabava sobre ele. Quando, durante a permanência em Meca, a vida dos muçulmanos se tornou insuportável, Allah advertiu os inimigos do Profeta e do Islã, dizendo: “Acaso os que praticam o mal pensam que poderão escapar de Nós? Que péssimo julgamento fizeram!” — (Al-Ankabut: 4).
Isso pode ter dois significados. Primeiro: eles pensavam que o movimento islâmico que Allah queria tornar vitorioso não triunfaria; pelo contrário, aconteceria justamente aquilo que eles desejavam: eliminá-lo. Segundo: pensavam que escapariam do castigo com que Allah queria puni-los por sua transgressão.
Os inimigos do Islã sempre alimentam a ideia de que eliminarão da face da Terra o movimento islâmico e seus ativistas. Eles de modo algum acreditam que o Todo-Poderoso Allah possa aplicar-lhes uma punição adequada por sua oposição ao Islã e pela opressão e perseguição que infligem aos muçulmanos.
Mas, apesar de toda a oposição, violência e perseguição deles, o número de muçulmanos continuava a crescer. A principal razão era o Alcorão, a palavra de Allah revelada em língua árabe. O Alcorão possui diversas qualidades gerais. Primeiro: é uma obra literária de altíssimo nível, cuja produção de apenas duas ou três linhas equivalentes está além da capacidade humana. Segundo: sua linguagem é clara, compreensível, extremamente atraente e tocante. Ela exerce uma influência enorme sobre a mente do ouvinte. Seu significado e sua essência interior penetram profundamente no coração do ouvinte e provocam uma revolução no pensamento. Cada palavra do Alcorão é, ao mesmo tempo, extremamente verdadeira e irrefutavelmente lógica. A verdade tem um sabor próprio, que facilmente atrai e encanta os que buscam a verdade. As palavras do Alcorão são compatíveis e coerentes com a natureza humana, a inteligência e o mundo natural, bem como com sua ordem. Por isso, ocorre uma revolução no mundo interior daqueles que escutam o Alcorão atentamente e refletem sobre ele, e eles respondem espontaneamente ao chamado do Alcorão.
Impedindo a audição do Alcorão
Quando os portadores e defensores da Jahiliyyah, isto é, os inimigos do Islã, perceberam que as pessoas estavam ouvindo da boca de um homem que era o melhor da sociedade e respeitado por todos palavras que as influenciavam a abandonar a religião de seus antepassados e a sentir aversão pela sociedade vigente e por sua liderança, ficaram desnorteados e se uniram contra a palavra de Allah, o Alcorão. Então decretaram uma proibição contra a audição do Alcorão. A respeito deles, o Alcorão diz:
“Os que negam a verdade dizem: ‘Não escuteis o Alcorão. E, quando ele for recitado, fazei algazarra para criar resistência. Assim, triunfareis nesta tarefa.’”
Alá diz:
“Faremos os que negam esta verdade provar o castigo severo. E lhes daremos a plena retribuição pelo pior que praticaram. A retribuição dos inimigos de Alá é o Inferno. Nele permanecerão eternamente. Esse castigo é porque negaram os Meus versículos.
Esses incrédulos que negaram a verdade dirão, ao chegar ao Inferno: ‘Ó nosso Senhor, mostra-nos aqueles jinn e humanos que nos desviaram do caminho. Nós os esmagaremos sob nossos pés, para que sejam devidamente humilhados e desonrados’” — (Surata Ha-Mim as-Sajdah: 27–29).
Assim como os portadores e propagadores da antiga Jahiliyyah não puderam tolerar a divulgação e a expansão do Alcorão e não deixaram de tentar nem de recorrer a qualquer artifício e conspiração para impedi-las, também os portadores e propagadores da Jahiliyyah moderna, isto é, os inimigos do Islã, não puderam de modo algum olhar favoravelmente para o Alcorão. Mas as tentativas de interromper a divulgação do Alcorão jamais tiveram êxito; pelo contrário, produziram o efeito oposto. Omar, outrora um dos mais ferrenhos inimigos do Islã, avançou com a espada desembainhada, decidido a matar o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Alá estejam sobre ele), mas, por acaso, leu no caminho alguns versículos do Alcorão e sentiu-se atraído por ele; a verdade revelou-se em seu coração. Assim, o inimigo do Profeta enlouqueceu de amor por ele. O imperador cristão da Abissínia não conseguiu conter as lágrimas de alegria ao ouvir a recitação do Alcorão. Os representantes cristãos de Najran, ao ouvirem a recitação do Alcorão dos lábios sagrados do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Alá estejam sobre ele), ficaram maravilhados e buscaram refúgio sob a sombra acolhedora do Islã. O governo britânico ameaçou interromper a divulgação e a expansão do Alcorão. Mas o resultado foi justamente o contrário. A tradução inglesa do Sagrado Alcorão espalhou-se por todo o mundo em incontáveis exemplares, e muitas personalidades renomadas da própria Inglaterra aceitaram o Islã após lerem o Alcorão, e continuam a fazê-lo. A mesma situação pode ser observada em toda parte do mundo. Também houve uma tentativa na Índia de declarar o Alcorão ilegal. Mas essa tentativa fracassou. O Alcorão foi traduzido para várias línguas da Índia. O interesse pela leitura do Alcorão continua crescendo também entre os não muçulmanos. Muitos indianos altamente instruídos e eruditos estão abandonando o hinduísmo e aceitando o Islã. Entretanto, os muçulmanos falsos, que usam nomes muçulmanos, também vêm tentando, seguindo os incrédulos, impedir a divulgação e a expansão do Alcorão. Essa ação começou primeiro na Turquia, durante o governo de Kemal Paxá. O alfabeto árabe foi proibido na Turquia. O objetivo era interromper a divulgação do Alcorão, revelado em língua árabe. Mas esse objetivo não foi alcançado.
Quando alguém, depois de adotar um nome muçulmano, se torna um muçulmano falso, passa a erguer a voz contra o Islã mais do que um incrédulo não muçulmano. Por isso, ao examinar a história, vemos que os falsos muçulmanos e os falsos ulemás causaram ao Islã muito mais prejuízo do que aquele causado pelos incrédulos não muçulmanos.
Contudo, seja ele um incrédulo que não acredita no Islã ou um muçulmano falso, escravo mental dos incrédulos, deve saber que o Alcorão é a mensagem eterna de Alá, e que o próprio Alá assumiu a responsabilidade de preservá-lo para sempre em sua forma original. Ninguém é capaz de interromper sua divulgação e expansão, nem de distorcê-lo minimamente. Quero recordar aos que ordenam que se interrompa a divulgação do Alcorão e aos que, ao obedecer cegamente a essa ordem, dançam e saltam nas ruas e nos campos, falam à maneira fascista e criam resistência, os versículos do Alcorão mencionados acima. Será benéfico para eles aprenderem com o destino, na Outra Vida, desses líderes muçulmanos falsos e fascistas e de seus seguidores cegos, e retornarem sinceramente ao Alcorão.
Jahiliyyahdiante dapermanecer firme— formas defazê-lo
A seguir, mencionamos alguns dos métodos e meios mais importantes que o Profeta universal Muhammad Mustafa (que a paz, as bênçãos e a misericórdia de Alá estejam sobre ele) ensinou para permanecer firme no caminho do Islã diante da Jahiliyyah.
Um: A verdadeira inteligência
A inteligência é indispensável para desempenhar corretamente, segundo a perspectiva do Islã, o papel em cada aspecto da vida humana e alcançar o sucesso na vida. E essa inteligência deve resultar de um pensamento sadio e correto. No Islã, o que se entende por verdadeira inteligência é que a atenção do ser humano permaneça, a cada momento, voltada para obter a satisfação de Allah. O ser humano não deve adotar qualquer conduta que o torne desatento e afastado da busca pela satisfação de Allah, nem que cause a Sua insatisfação. É por isso que Allah Ta‘ala repetidamente chamou a atenção das pessoas, dizendo:
“Ó vós que sois dotados de inteligência e consciência! Temei-Me e agi com temor de Mim” — (Al-Baqarah: 197).
Deve-se temê-Lo para que Ele não fique insatisfeito. Manter sempre presente na mente que Ele jamais deve ficar insatisfeito e agradá-Lo por meio da própria conduta: isso é a verdadeira inteligência.
“Na criação dos céus e da Terra e na alternância da noite e do dia há inúmeros sinais para os dotados de inteligência, que se lembram de Allah enquanto caminham, estão sentados e se encontram deitados” — (Al ‘Imran: 190).
Quando alguém, dotado de razão e consciência, reflete corretamente sobre os mistérios da criação dos céus e da Terra e, ao mesmo tempo, mantém viva no coração a lembrança de Allah, não contempla os sinais do universo como os animais, mas os observa e os examina com reflexão; então declara espontaneamente que todo este reino da criação está submetido a uma administração repleta de sabedoria.
O Profeta Sagrado (que a paz esteja com ele) descreve com suas próprias palavras esse modo de pensar e agir da seguinte forma: “Inteligente é aquele que mantém seus desejos sob controle e trabalha para a vida após a morte” — (At-Tirmidhi, Ibn Majah).
Se permanecer sempre viva no coração a intensa consciência de que será necessário prestar contas a Allah Ta‘ala por cada ato na آخِرة, será possível evitar ações e comportamentos que provoquem a insatisfação de Allah. É isso que se chama inteligência. O Profeta Mustafa (que a paz esteja com ele) esclareceu plenamente o conceito de inteligência. Trabalhar para a vida após a morte significa que, se a exigência da religião e da fé for rejeitar os ganhos imediatos, os interesses e as comodidades deste mundo, essa exigência deve ser necessariamente cumprida; e, se a satisfação de Allah exigir o sacrifício da própria vida, dos bens e do conforto, isso deve ser feito com o coração inteiramente resoluto.
Dois: A perspectiva correta sobre riqueza e status
O Islã ensina que possuir riqueza, alcançar uma posição elevada e ser amado por Deus não são a mesma coisa. Não é correto afirmar que Allah está satisfeito com aqueles que possuem essas duas coisas. A satisfação de Allah depende inteiramente da fé e das boas ações. Mesmo privado de riqueza e posição, alguém pode, graças à sua fé e às suas ações, ser considerado honrado aos olhos de Deus e tornar-se amado por Ele. Por outro lado, alguém pode obter riquezas abundantes e uma posição elevada e, ainda assim, tornar-se amaldiçoado por Ele. Isso porque o mundo é um campo de ação para o ser humano, não um campo de recompensa. Aqui, ele deve continuar realizando suas obras; sua recompensa completa será recebida na vida futura. O fato de alguém ser próspero neste mundo não prova que Allah esteja satisfeito com suas ações e que, por isso, seja amado por Ele. Da mesma forma, a pobreza e o sofrimento de alguém não provam que Deus esteja insatisfeito com essa pessoa. Seja abundância ou pobreza, elevada posição política e social ou humilhação e desonra: essas duas condições estão relacionadas à lei divina de testar os seres humanos com um propósito específico. Testar as pessoas de diversas maneiras durante a vida mundana é o objetivo principal de sua criação. Toda a organização do universo testemunha essa verdade. Por ser este o assunto mais importante e fundamental da vida humana, o Alcorão Sagrado o recordou repetidamente. O propósito da criação humana e a lei divina de submetê-la a provas foram esclarecidos detalhadamente e de várias formas. Mas a mentalidade criada pela jahiliyyah não conseguiu aceitar isso. Nessa perspectiva da jahiliyyah permanece firme a ideia de que riqueza e posição, por um lado, e a satisfação e o amor de Deus, por outro, estão intimamente ligados. Quanto maior for a riqueza e a posição de uma pessoa, mais querida ela será por Deus. A pobreza e a falta de status seriam sinais de privação da graça divina. Com base nessa perspectiva, em vez de julgar a verdade pelo critério da verdade, ela será julgada pelo critério da riqueza e da posição. Quando o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) anunciou sua missão profética, os filhos da mentalidade da jahiliyyah demonstraram espanto, dizendo que sua posição não correspondia aos critérios que eles próprios haviam estabelecido. Repetiam várias vezes o seguinte: em primeiro lugar, o mensageiro de Deus deveria necessariamente ser um anjo. E, se um ser humano tivesse de ser mensageiro, de modo algum poderia ser uma pessoa comum. Pelo contrário, deveria possuir uma posição tão extraordinária que fosse compatível com sua grandiosa relação com Allah. Assim, se um ser humano fosse mensageiro, um anjo deveria descer publicamente sobre ele (Surata Al-An’am: 8); no mínimo, um tesouro deveria ser enviado do céu para ele, ou ele deveria possuir um jardim de onde pudesse obter abundante sustento (Al-Furqan: 8). E, se nem mesmo fosse um homem tão extraordinário, deveria ao menos ser um homem rico, o chefe de algum povo, o líder de uma tribo famosa e possuidor de riqueza e posição. Mas aqui a situação era diferente. Um homem extremamente comum afirmava ser enviado pelo Deus Majestoso, embora não possuísse nenhuma das qualidades necessárias para fazer tal afirmação. Por um lado, dizia ser uma misericórdia para todos os mundos; por outro, ele mesmo ia ao mercado comprar provisões. Não tinha sequer criados, razão pela qual precisava fazer tudo por conta própria.
Eles também diziam: por que este Alcorão não foi revelado a um homem ilustre e influente de uma das duas cidades famosas — Meca e Taife? (Az-Zukhruf: 31).
Quantas palavras absurdas desse tipo continuavam dizendo a respeito do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele). Estavam firmemente convencidos de que, para ser amado por Allah, era indispensável possuir todos os meios de subsistência, riqueza e uma posição elevada. Então, a revolução ocorrida naquele dia auspicioso da conquista de Meca dissipou o erro de seu pensamento e de sua perspectiva.
Três: Seguir o Islã ao longo de toda a vida
O Islã lembrou ao mundo que o Criador do universo não criou o ser humano sem propósito. Pelo contrário, criou-o para que O servisse e Lhe obedecesse, o que, na terminologia islâmica, se chama ibadah e adoração. Essa servidão significa conduzir toda a vida de acordo com a orientação e a vontade de Allah. Essa servidão não consiste simplesmente em realizar alguma adoração a Allah e certos ritos religiosos em um local de culto e, depois, passar o restante da vida como bem se quiser. Essa servidão parcial não é compatível com a essência de pertencer à obediência total e irrestrita de Allah. Tampouco é compatível com a religião e o guia que Ele revelou. Por isso, quando o Islã passou a exigir a manifestação concreta da devoção a Deus em todos os campos da vida e começou a impor os vínculos da verdade e da honestidade sobre todos os pensamentos e ações humanas, os defensores da jahiliyyah começaram a expressar espanto e a lançar flechas de escárnio. Em contraste com a concepção jahil da religião que havia tomado suas mentes e corações e com a maneira como consideravam a religião uma parte adicional da vida, eles viram que essa nova religião colocava guardas nos cruzamentos da liberdade de pensamento, anunciava a cada passo recompensa e punição, vinculava os vários problemas da vida a um sistema organizado e sólido e não deixava campo algum da vida que não quisesse controlar. Por isso, tudo isso lhes parecia barbaridade. Durante gerações, suas práticas religiosas consistiam em prostrar-se ocasionalmente diante dos ídolos que haviam feito com as próprias mãos, sacrificar camelos, ovelhas e cabras em sua honra, untar as paredes dos templos com o sangue dos animais sacrificados, assobiar e bater palmas junto à Caaba, e realizar feiras religiosas, festividades e diversões. Tudo isso constituía suas cerimônias religiosas. Depois, no tempo restante de suas vidas, entregavam-se a atos abomináveis como pilhagem, assassinato, adultério, embriaguez e transações com juros.
Essa era a concepção corrente sobre a religião da jahiliyyah. Dentro do âmbito extremamente restrito da vida, havia alguns ritos e cerimônias religiosas (embora não fossem baseados em pensamento sólido e refinado nem na razão); já no âmbito mais amplo da vida, havia ausência de religião e liberdade irrestrita para a desordem e o pecado. É isso que, na terminologia moderna, se chama secularismo, ou seja, a doutrina da separação entre religião e Estado; essa concepção e filosofia pertencem à jahiliyyah, não ao Islã. A declaração revolucionária de Muhammad Mustafa (s.a.), o último dos profetas e o Profeta de toda a humanidade, foi que o Islã é um sistema de vida completo para a humanidade. Isto é, em todos os aspectos e a cada momento da vida, devemos nos submeter à obediência a Allah. A sociedade, o Estado, a educação, a civilização, a cultura, as artes e tudo o mais devem ser construídos sob a obediência absoluta a Allah Ta’ala, Criador e Senhor dos seres humanos. Os adoradores cegos da jahiliyyah não puderam aceitar isso. Tampouco isso pode agradar a Iblis, o Satanás. Pois, ainda que não espere obter a obediência humana em todos os aspectos da vida, ele a deseja em alguns deles. Nos aspectos em que a obediência a Allah for negada, não haverá alternativa senão obedecer a Satanás, ou então obedecer a alguém em lugar de Allah. E a obediência a outro que não Allah é chamada de o maior pecado (shirk). A jahiliyyah não permite que o ser humano se mantenha afastado do shirk.
Quatro: A unidade da humanidade
O Islã ensina que todos os seres humanos são filhos dos mesmos pais. Allah diz: “Ó humanidade! Temei vosso Senhor, que vos criou de uma só ‘alma’. Dela criou sua companheira e, de ambos, espalhou pelo mundo numerosos homens e mulheres” — (Surata An-Nisa: 3).
Como a origem de todos os seres humanos é a mesma e todos são como membros de uma única família, ninguém pode ser superior ou inferior, nobre ou plebeu, com base na linhagem, tribo, raça ou língua. Sendo essa a realidade, ninguém pode ter superioridade sobre outro com base na raça, linhagem, país ou nacionalidade. Nenhuma dessas coisas pode ser motivo de orgulho ou arrogância. Refutando essa concepção equivocada, o Profeta Muhammad (s.a.) declarou: “Todos os seres humanos são filhos de Adão, e Adão foi criado do barro” — (Tirmidhi).
Ele também disse: “Ó humanidade! O vosso Senhor é um só. Nenhum árabe é superior a um não árabe, nem um não árabe é superior a um árabe, exceto pela piedade. Tampouco um negro é superior a um branco, nem um branco é superior a um negro” — (Bayhaqi).
Essa declaração revolucionária do Profeta não era uma doutrina fantasiosa nem fruto do oportunismo. Pelo contrário, era uma declaração de fé e de crença, proferida com voz firme. Foi feita numa época em que as pessoas, árabes e não árabes sem distinção, haviam sido divididas em diferentes classes com base na raça, linhagem e tribo. Muitos entre elas se consideravam muito superiores e nobres em relação aos demais, e a vida e os bens dos outros não tinham para eles valor algum. Como poderiam aceitar essa declaração revolucionária aqueles que se orgulhavam da nobreza de sua linhagem e construíam sua própria fortuna à custa do trabalho, exaurido até o sangue, daqueles que mantinham como escravos? Mas aqueles que não viviam sempre desorientados pela paixão cega da jahiliyyah, aqueles que possuíam um pouco de consciência e inteligência, perceberam nessa declaração revolucionária a unidade da humanidade e a verdadeira dignidade humana. E o Islã é o único guardião e portador dessa dignidade da humanidade.
Bilal, da Abissínia, estava preso às correntes da escravidão de um certo incrédulo coraixita. Ele aceitou de coração e alma o kalima revolucionário do Islã e tornou-se muçulmano. Seu senhor, Umayya, submeteu-o dia após dia a torturas desumanas e horrendas. Abu Bakr (r.a.), de uma nobre linhagem coraixita, comprou Bilal por um preço inesperadamente elevado e concedeu-lhe a liberdade. Um homem sem nobreza de linhagem, um escravo, um pária, alcançou a grande dignidade da humanidade; rompeu o muro da desigualdade erguido ao longo de muitos anos e tornou-se igual a todos em dignidade e direitos. O honrado Bilal (r.a.) não foi apenas um dos pilares da força do Islã; pelo contrário, ele é e continuará sendo eternamente uma figura profundamente lembrada e honrada pela ummah muçulmana. Muitos outros também ultrapassaram as correntes da escravidão e alcançaram, na presença do Santo Profeta (s.a.), dignidade igual à dos demais.
Cinco: Todos são iguais perante a lei
A exigência natural da unidade e da igualdade da humanidade é que todos tenham também igual status perante a lei. Aos olhos da lei, ninguém é superior nem inferior. O anúncio do Islã é que a vida, os bens, a honra e a dignidade de todos são igualmente dignos de respeito. A lei de Deus aplica-se igualmente a todos. Essa lei elimina os longos lamentos e clamores da humanidade oprimida e assegura seus direitos humanos. Mas os filhos da Jahiliyyah ficaram desorientados diante desse sistema revolucionário. Pois seus interesses adquiridos foram prejudicados, e o palácio de seu orgulho e arrogância, baseado numa falsa nobreza, foi reduzido a pedaços. O costume que prevalecera por muitos séculos era medir a dignidade das pessoas por sua linhagem e tribo, riqueza e posição. A vida de um indivíduo de uma tribo nobre equivalia à vida de vinte pessoas de uma tribo inferior. Quando uma pessoa nobre era assassinada, toda a sua família era morta juntamente com o assassino, em retaliação. Esse sistema injusto não vigorava apenas entre as sociedades de incrédulos e idólatras; também era amplamente praticado entre os Ahl al-Kitab, que reivindicavam seguir a Sharia de Deus. Uma de suas normas era que, se uma pessoa nobre roubasse, ela seria deixada livre. Mas, se uma pessoa comum roubasse, a norma da Sharia seria aplicada contra ela (Bukhari, volume II; Kitab al-Hudud).
Do mesmo modo, quando uma pessoa influente e poderosa cometia adultério, era punida com açoites e com o escurecimento de seu rosto. Mas, quando uma pessoa comum cometia esse crime, era apedrejada até a morte, conforme a determinação da Sharia. (Tafsir de al-Qurtubi)
Ninguém podia colocar-se acima do Estado de Direito estabelecido pelo Islã. O qadi (juiz) não hesitava sequer em proferir uma sentença contra o próprio califa. Os incrédulos e idólatras seguidores da Jahiliyyah, os Ahl al-Kitab e muitos novos muçulmanos que não haviam conseguido libertar-se da influência da Jahiliyyah não podiam aceitar essa igualdade e essa justiça perante a lei. O orgulho e a arrogância de sua nobreza não lhes permitiam curvar a cabeça diante dessa justa lei divina. Durante o governo do segundo califa, um novo muçulmano rico e influente chamado Jabala ibn Aiham al-Ghassani foi a Meca para o Hajj. Durante o tawaf, o pé de um homem de Taif pisou sobre sua capa. Enfurecido, ele lhe deu uma bofetada tão forte que seu nariz se feriu e começou a sangrar. O desafortunado homem de Taif apresentou uma queixa ao califa Umar (que Deus esteja satisfeito com ele). O califa dirigiu-se a Jabala e disse: “Peça humildemente perdão a esse homem oprimido. Caso contrário, prepare-se para a retaliação.” Jabala ficou extremamente espantado. Seu orgulho de nobreza não lhe permitiu aceitar a igualdade e a justiça do Islã. Ele pensou que uma lei que não fazia distinção entre nobres e plebeus insultava a razão, a consciência e a humanidade. Então abandonou o Islã e tornou-se apóstata.
Seis: O objetivo do jihad é elevar a Palavra de Allah
O mundo não conhecia o grande objetivo que o Islã apresenta para a guerra. Em toda parte, entre árabes e não árabes, as pessoas tinham a ideia de que o objetivo da guerra era estabelecer e expandir um reino e obter espólios de guerra. Mas, com a chegada do Islã, esse objetivo da guerra foi completamente transformado. Em vez de ser travada por interesses pessoais e nacionais, a guerra deveria ser travada pelo bem da humanidade; assim, deixaria de ser o ato abominável de derramar sangue injustamente e alcançaria a dignidade de um ato de adoração. O Islã declarou que usar a espada para conquistar territórios e obter riquezas é opressão, corrupção e um grande pecado. Isso é como veneno mortal para o caráter e a humanidade. Em vez de usar a espada para tais atos abomináveis, ela deveria ser usada pelo bem da humanidade, para sua preservação e expansão. O objetivo de quem empunha a espada deve ser alcançar a satisfação de Deus, que não aprova o mal nem a corrupção. Ele deseja que a fitna e a corrupção, a desordem e a intranquilidade sejam eliminadas da face da Terra. Somente com esse objetivo o uso da espada será legítimo. Seu uso não será legítimo por qualquer interesse mundano. Será correto e justo se não for feito para obter interesses mundanos, mas, ao contrário, para alcançar o bem da Akhirah. Embora na guerra se vejam vidas preciosas sendo destruídas, a guerra travada para estabelecer a verdade faz a humanidade reviver. Em harmonia com esse grande e benéfico objetivo da guerra apresentado pelo Islã, ela foi denominada “jihad fi sabilillah”.
Os Sahabah (que Allah esteja satisfeito com eles) passaram de um ambiente para o ambiente ideológico do Islã e, por meio de uma transformação revolucionária de seus pensamentos e consciência, compreenderam profundamente esse grande objetivo da guerra. Isso pode ser facilmente deduzido de um exemplo. Certa vez, enquanto enfrentava um inimigo do Islã, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) derrubou-o ao chão, sentou-se sobre seu peito e preparou-se para golpeá-lo com a espada. Nesse exato momento, o homem cuspiu no rosto de Ali. Então Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) conteve a mão e levantou-se do peito dele. Surpreso, o homem perguntou a Ali a razão de seu comportamento, e ele respondeu: “Eu queria matar-te pela causa da verdade. Mas, quando cuspiste no meu rosto, provocaste meu interesse pessoal, levando-me a querer vingar-me. Se eu te matasse nessa situação, não seria pela verdade, mas por meu interesse pessoal, e isso traria um mau resultado para mim. Por isso, libertei-te.” Esse único acontecimento esclarece a concepção islâmica da guerra, e, à luz dessa psicologia humana, pode-se facilmente compreender também a mentalidade dos Sahabah em geral. Esse grupo de Sahabah era dotado das mais elevadas qualidades humanas, e cada uma de suas ações estava acima dos interesses pessoais e tinha como objetivo alcançar a satisfação de Allah. Eles eram personificações do altruísmo e da lillahiyyah. Essas qualidades foram criadas neles por meio da convivência com o Profeta e de seu treinamento constante. O Profeta repetidamente lhes dizia que, se alguém participasse da guerra esperando obter espólios, não receberia recompensa alguma de Allah. Portanto, como poderiam esses devotos de Allah privar-se de Sua satisfação por interesses pessoais ou pela esperança de obter espólios?
Em algum país ou em alguma época, no passado ou no presente, já ocorreu uma guerra por algum grande objetivo que não fossem interesses pessoais, de grupo ou nacionais? Somente o Islã apresentou à humanidade esse grande objetivo e essa concepção da guerra.
A perda de vidas e bens no caminho de Allah é um verdadeiro ganho
Segundo a perspectiva e o pensamento da Jahiliyyah, as perdas de vidas e bens na guerra eram consideradas, em sentido real, simples danos e prejuízos. O Islã apresenta sobre isso uma concepção oposta, que surpreende e deixa atônitos os defensores da Jahiliyyah. Aqueles que entregam a vida na guerra ou na luta pelo caminho de Allah não têm sua vida destruída. Pelo contrário, depois que suas almas deixam seus corpos, alcançam uma vida nova e eterna. Embora os bens gastos na guerra pareçam, à primeira vista, desperdiçados, na verdade ficam preservados para a vida após a morte.
Como isso não era algo fácil de compreender, o assunto também permanecia obscuro para alguns Companheiros. Após o martírio de muitos Companheiros na batalha de Uhud, começou entre os muçulmanos um lamento de tristeza. Para consolá-los, foi dito:
“Não considereis mortos aqueles que foram mortos pelo caminho de Allah; ao contrário, eles estão vivos e recebem sustento da parte de Allah” — (Al-i Imran: 169).
A duração da vida não pode ser medida por nenhuma fita deste mundo. A vida não tem um ponto final. Aquilo que é chamado de morte, na realidade, não é o fim da vida; é, antes, um processo de transferência de um estágio da vida para outro. Os crentes devem considerar que, se esse processo de transferência ocorrer no campo do jihād, em vez de acontecer no próprio leito, ele não resultará em destruição, mas concederá uma vida eterna, incomparavelmente bela. Depois disso, a pessoa se torna dona de uma vida e de um sustento tão grandiosos e felizes que estão além da imaginação.
O assunto foi analisado de maneira bela em um hadith do Profeta. Esse hadith foi narrado no Musnad de Ahmad. Seu conteúdo, em resumo, é o seguinte: aquele que deixa este mundo praticando boas ações tem a oportunidade de desfrutar uma vida tão repleta de alegria que não desejará retornar novamente ao mundo. Os mártires, porém, são uma exceção. Eles desejam ser enviados outra vez ao mundo para experimentar novamente a suprema alegria de entregar a vida pelo caminho de Allah. Depois de compreender essa grande verdade com o coração, o verdadeiro crente considera entregar a vida pelo caminho de Allah como o mais elevado e sublime objetivo. Aqueles que não acreditam na vida futura, cujo objetivo na vida é apenas o prazer e o luxo mundanos, e que creem na filosofia EAT, DRINK AND BE MERRY, são os que mais temem a morte. Em contrapartida, os crentes devotados a Allah anseiam constantemente beber a água da vida do martírio, entregando voluntária e satisfeitamente a vida pelo caminho de Allah. A Jahiliyyah e o Islã apresentaram essas duas concepções opostas da vida. Os nobres Companheiros formados pelas próprias mãos do santo Profeta mantinham justamente essa concepção islâmica da vida e da morte. Com exceção de um pequeno grupo de hipócritas, todos os Companheiros ansiavam por beber o néctar do martírio. Um exemplo comprova esse desejo sincero deles.
Após a conquista de Meca, um jovem beduíno analfabeto, vindo de uma aldeia isolada, sentiu-se atraído pelo Islã e abandonou a grande riqueza que seu tio lhe havia dado. Depois, rasgou em duas partes um cobertor que sua mãe lhe dera e, cobrindo como pôde o corpo e as partes íntimas, partiu para Medina com o desejo de encontrar-se com o Profeta do Islã. Após caminhar a noite inteira por caminhos desconhecidos e não familiares, chegou pela manhã à Mesquita do Profeta. Estava exausto, com o corpo inteiro coberto de poeira. Parecia um louco desnorteado. E louco ele realmente era. Enlouquecido pelo Islã e pelo Profeta do Islã, havia chegado a Medina depois de renunciar ao mundo. Pelos campos e desertos, entre montanhas e desfiladeiros, no céu e no vento, os doces sons do Islã haviam derramado mel em seus ouvidos; ao ouvir o nome do Profeta Muhammad, ficara profundamente comovido. Mas jamais havia visto aquele que amava. Por isso, depois de atravessar durante toda a noite o caminho desértico, veio contemplar seu amado.
A voz forte de Bilal — “A oração é melhor que o sono” — ecoou e reverberou pelas casas, árvores, colinas e montanhas de Medina. Também reverberou no recôndito do coração do visitante.
Pouco depois, o Profeta da misericórdia saiu e viu um visitante de pé. Ele parecia ansioso, esperando obter alguma coisa. Em seu rosto e em seus olhos havia uma pergunta inesgotável, e seu coração sofria de sede pela verdade.
O Profeta (que a paz esteja com ele) perguntou com palavras repletas de carinho e compaixão: «Quem és tu e de onde vieste?»
Recém-chegado: O meu nome é Abdul Uzza. Ouvi dizer que surgiu um novo Profeta. Fiquei louco de amor por ele e vim de tão longe. Em seguida, contou toda a sua situação familiar e material.
O Santo Profeta disse: «Muito bem. A partir de agora, és meu convidado especial. És um dos Ahl al-Suffa. Contudo, a partir de hoje, o teu nome será Abdullah.»
O Profeta (que a paz esteja com ele) disse aos nobres companheiros, com especial ênfase: «Eu assumo a responsabilidade pelo seu sustento. Ensinai-lhe o Alcorão e educai-o nos ensinamentos do Islão.»
Certa vez, na mesquita, enquanto algumas pessoas faziam a oração, Abdullah estava a aprender a recitar o Alcorão em voz alta. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) repreendeu-o severamente, dizendo: «Lê mais baixo; não vês que está a ser feita a oração?»
O Profeta da misericórdia (que a paz esteja com ele), ao ouvir a voz de Hazrat Umar, saiu rapidamente de casa e disse: «Umar! Não lhe digas nada. Ele sacrificou tudo por Allah e pelo Seu Mensageiro.»
Pouco tempo depois, começaram os preparativos para a expedição de Tabuk. Em resposta ao apelo do Profeta, os nobres companheiros começaram a competir entre si nas doações pelo caminho de Allah. Hazrat Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) apresentou-se perante o Profeta com todos os seus bens.
Abdullah observava aquela competição nas doações. Mas sofria por não poder participar dela, pois era pobre e estava sob o sustento do Santo Profeta.
Abdullah não conseguiu permanecer em silêncio. Ele disse ao Profeta: “Ó Mensageiro de Allah! O senhor sabe que não tenho nada para oferecer. Possuo apenas este corpo e esta vida. É isso que entrego por Allah. Ore para que eu possa alcançar o martírio.”
O Profeta Muhammad (s.a.w.) partiu em direção a Tabuk com um exército de trinta mil mujahideen. Abdullah também estava com ele. Porém, estava tão inquieto e ansioso, movido pelo desejo de alcançar o martírio, que, em certo lugar do caminho, apresentou-se diante do Profeta e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Levante as mãos e faça uma breve oração para que eu possa alcançar o martírio nesta batalha.”
Compreendendo seu fervor sincero, o Profeta disse: “Veja se consegue trazer a casca de alguma árvore das proximidades.”
Abdullah recolheu a casca de uma árvore e a trouxe. O Profeta (s.a.w.) amarrou-a à mão de Abdullah e orou: “Ó Allah! Torna o sangue de Abdullah inviolável para os incrédulos.”
Ao ouvir essa oração, Abdullah disse com voz angustiada: “Ó Mensageiro de Allah! Eu quero alcançar o martírio; por que fez esta oração?”
O Profeta disse: “Abdullah! Depois disso, mesmo que morras de febre, serás um verdadeiro mártir.”
O exército dos mujahideen chegou ao lugar chamado Tabuk e montou acampamento. De repente, após o anoitecer, espalhou-se a notícia de que Abdullah havia falecido, acometido de febre. Assim que a notícia chegou aos ouvidos do Profeta, ele ordenou que fossem tomadas providências para o sepultamento.
O campo de batalha de Tabuk. Uma noite escura. A sepultura de Hazrat Abdullah já estava preparada. Hazrat Bilal (r.a.) permanecia de pé com uma tocha na mão, iluminando a sepultura e o espaço ao redor. Um homem havia descido à sepultura para segurar o falecido e deitá-lo. Dois homens estavam baixando o falecido à sepultura. A pessoa que estava de pé dentro da sepultura disse aos dois, em tom de repreensão: “Adaban ila akhakuma — baixem seu irmão à sepultura com devoção e respeito.”
No túmulo, estão descendo o falecido os dois homens mais ilustres da ummah depois do Profeta, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). De pé dentro do túmulo, fala em tom de repreensão o próprio Profeta da misericórdia, o carinhoso guardião do mártir companheiro Abdullah, que Allah o abençoe e lhe conceda a paz.
Depois de deixar o falecido deitado como de costume, o Santo Profeta subiu e disse a todos: “Afastem-se todos vocês.”
Os companheiros, assustados e aterrorizados, afastaram-se para todos os lados. O Santo Profeta, com as próprias mãos abençoadas, cobriu o túmulo por todos os lados com areia, pedras e terra. Depois, levantou as mãos e suplicou: “Senhor! Até esta noite, estive satisfeito com Abdullah. Sê também satisfeito com ele.”
O narrador do hadith, Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele), disse: “Estas palavras saíram espontaneamente da minha boca: ‘Ah, se eu estivesse neste túmulo em vez de Abdullah!’”
Foi assim que os companheiros compreenderam, com o coração, a dignidade do martírio. Essa dignidade jamais perdeu o seu brilho. Ao longo das eras, essa inspiração do martírio impeliu os soldados de Allah a oferecerem generosamente a vida por Allah. Há inúmeros exemplos disso na história do Islã.
Mesmo na era moderna, em meio ao extremo declínio dos muçulmanos, os mujahideen da religião do Islã consideram oferecer generosamente a vida no caminho de Allah a maior e mais sublime conquista. Diante das armas ultramodernas da grande superpotência russa, os mujahideen afegãos entregam voluntária e serenamente a vida, na esperança de beber o néctar do martírio. Todos pensam que eles não receberão a recompensa desse martírio apenas na vida após a morte; também aqui, suas perspectivas de vitória parecem promissoras.
Também no que diz respeito ao gasto de dinheiro e riquezas, as concepções do Islã e da jahiliyyah são completamente diferentes. O pensamento, a visão, os esforços, as aspirações e os objetivos da jahiliyyah giram exclusivamente em torno da vida terrena. A jahiliyyah não reconhece que exista outra vida depois da vida terrena. Por isso, mantém as pessoas sempre ocupadas em tornar a vida terrena feliz e bela, desfrutá-la plenamente e obter honra, fama, poder, posição, autoridade e domínio. Naturalmente, não há dúvida de que essas coisas são objetos dos desejos humanos. Contudo, existem coisas mais nobres do que elas, que deveriam ser desejadas pelo ser humano. Assim diz o Alcorão:
“Para as pessoas, foram tornados atraentes e desejáveis as mulheres, os filhos, os montes de ouro e prata, os cavalos de raça, os animais domésticos e as plantações. Mas tudo isso é, na realidade, apenas provisão da vida terrena, temporária e efêmera” — (Al Imran: 14).
Devido ao excessivo apego a esses objetos de desejo deste mundo, os porta-bandeiras da jahiliyyah e seus seguidores esquecem a vida eterna após a morte.
Allah diz: “Na verdade, a promessa de Allah (a respeito da Vida Futura) é absolutamente verdadeira. Portanto, que a vida deste mundo não vos engane, nem o enganador (Satanás) vos iluda acerca de Allah” (Luqman: 33).
Os objetos de desejo mencionados acima, no versículo 14 da surata Aal-e-Imran, foram concedidos como uma prova para todas as pessoas. São apenas instrumentos de engano. Esses objetos envolvem as pessoas de visão superficial em diversos desvios. Como consequência desse desvio, alguns pensam que não existe outra vida depois desta vida mundana. Portanto, desfruta do mundo tanto quanto puderes e da maneira que puderes. Não terás de prestar contas disso a ninguém, em lugar algum. Alguns, embriagados pelo poder, pensam que seu poder, domínio, autoridade, vida luxuosa e gozo irrestrito jamais chegarão ao fim; outros, ignorando os aspectos morais e espirituais, fazem da busca exclusiva de vantagens materiais e de uma vida de prazer e alegria o objetivo de sua existência. Para eles, não resta nenhum outro propósito na vida além de elevar o padrão de vida. Por isso, não se importam nem um pouco, por mais inferior e abjeto que se torne o nível de sua humanidade. Alguns pensam que o conforto e a prosperidade da vida são o verdadeiro critério para distinguir a verdade da falsidade e o haq do batil. Consideram verdadeira qualquer política, princípio ou método por meio do qual possam obter o objeto desejado, e tudo que lhe seja contrário, falso. Outros consideram o conforto, a prosperidade e uma vida feliz sinais de serem queridos por Deus. Acreditam que aquele cuja vida é mais feliz, ainda que sua riqueza provenha de qualquer renda ilícita, é querido por Deus. Já aquele cuja vida neste mundo é cheia de sofrimento e dificuldades — mesmo que isso se deva ao fato de seguir o caminho da justiça e da verdade — estaria sob o desagrado de Allah, e seu destino necessariamente seria mau. Allah mencionou todas essas concepções equivocadas como enganos da vida material.
É importante observar que, no versículo acima da surata Luqman, o engano do qual se ordena às pessoas que se protejam provém da vida brilhante deste mundo e de Satanás. Em segundo lugar, o Alcorão emprega a palavra “gárur”. Por “gárur” não se entende apenas Iblis, o Satanás, mas também os jinn e os seres humanos que o seguem. Refere-se às pessoas, partidos, grupos e tribos que sustentam e propagam a jahiliyyah; ao sistema educacional, à sociedade, às artes, à cultura e ao ambiente da jahiliyyah. Tudo isso arrasta as pessoas do Islã para as trevas da jahiliyyah. As diversas doutrinas e filosofias equivocadas criadas pelos seres humanos desviam as pessoas e apagam de seus corações a crença em Deus e na Vida Futura. A justiça, a honestidade, a veracidade, a compaixão, o afeto, o amor, a solidariedade e a empatia mútuas, a equidade e o respeito pela vida, pelos bens, pela honra e pela dignidade desaparecem da sociedade. Então a sociedade humana deixa de ser uma sociedade humana e se transforma na sociedade de animais ferozes.
As concepções e perspectivas equivocadas sobre o mundo e a vida mencionadas acima mantêm as pessoas envolvidas na competição pelo aumento da riqueza e pela melhoria do padrão de vida. Sua política quanto ao gasto do dinheiro é a seguinte: gastarão dinheiro somente naquilo e pelo caminho que possa proporcionar lucro imediato. Não gostam de gastar no caminho de Allah por duas razões. A primeira é que esse gasto não oferece nenhuma garantia de lucro imediato ou instantâneo. A segunda é que não acreditam de modo algum na Vida Futura. Portanto, consideram tolice e desperdício gastar dinheiro por essa Vida Futura, que julgam inacreditável e irreal. Essa concepção e essa crença são inteiramente fruto do pensamento da jahiliyyah. Naturalmente, mesmo depois de professarem fé no Islã, aqueles cuja fé ainda não se tornou suficientemente firme ou que ainda não conseguiram se libertar completamente da influência do pensamento da jahiliyyah também demonstram relutância em gastar no caminho de Allah. A respeito deles, Allah diz: “Continuai a gastar vossos bens no caminho de Deus e não vos lanceis, com as próprias mãos, à destruição” (Al-Baqarah: 195).
O sentido disso é que, se não gastardes vossa riqueza pela vitória da religião de Allah e a mantiverdes acumulada, considerando-a o bem mais amado da vida, ela será causa de destruição tanto para vossa vida neste mundo quanto para a Vida Futura. Neste mundo vivereis uma vida de escravidão e, na Vida Futura, sofrereis o doloroso castigo do Jahannam.
Sete: Gastar no caminho de Allah
Allah, o Altíssimo, convocou repetidamente as pessoas a gastarem dinheiro e riqueza com o objetivo de estabelecer a religião de Allah como uma força vitoriosa — isto é, a gastarem no caminho de Allah. Não apenas isso: foi apresentada uma nova concepção a respeito desse gasto. Ela é a seguinte: embora, à primeira vista, a riqueza gasta no caminho de Allah para alcançar Sua satisfação pareça ser consumida, na realidade ela não é gasta nem diminuída. Pelo contrário, é depositada na conta de poupança (Saving Account) da vida futura daquele que a gastou e será devolvida multiplicada várias vezes; ou seja, ele receberá uma recompensa equivalente e proporcional a isso. É exatamente isso que foi afirmado em muitos lugares do Alcorão Sagrado.
“E estabelecei a oração, dai o zakat e continuai a conceder a Allah um empréstimo excelente. Tudo de bom e benéfico que enviardes antecipadamente para vós mesmos, encontrá-lo-eis junto de Allah como uma provisão acumulada. Isso é muitíssimo melhor, e sua boa recompensa é imensa” — (Al-Muzzammil: 20).
“E lutai no caminho de Allah e sabei muito bem que Allah ouve tudo e sabe tudo. Quem, dentre vós, está disposto a conceder a Allah um qard hasan (empréstimo excelente)? Então Ele lhe devolverá muitas vezes mais” — (Al-Baqarah: 244–245).
Nos versículos acima, o sentido de conceder um qard hasan, ou empréstimo excelente, é gastar bens e riquezas no caminho de Allah, unicamente para alcançar Sua satisfação. Antes disso, também foi mencionada a luta no caminho de Allah. Para a luta indispensável à implementação da religião de Allah, é necessário reunir os recursos financeiros requeridos. Allah aceita como um empréstimo excelente para Si os gastos daqueles que empregam seus bens e riquezas com esse propósito, e promete devolvê-los multiplicados várias vezes. É certo que Allah, o Altíssimo, não necessita de dinheiro algum. Ele não depende de ninguém para coisa alguma. Pelo contrário, toda criatura depende de Sua misericórdia a cada instante. O propósito de estabelecer a religião de Allah é promover o bem-estar da humanidade. Gastar bens e riquezas para esse grandioso objetivo é, na realidade, fazê-lo pelo bem da humanidade. É justamente para conferir a essa ação a mais elevada dignidade que Allah a denomina um qard hasan para Si.
No Sagrado Alcorão também foi dito:
“Quem concederá a Allah um empréstimo — um qard hasan? Allah poderá aumentá-lo muitas vezes e devolvê-lo, e haverá para ele (o credor) uma recompensa excelente” — (Al-Hadid: 11).
A respeito desse empréstimo, Allah, o Altíssimo, fez duas promessas. A primeira é que Ele o devolverá multiplicado várias vezes. A segunda é que, de Sua parte, concederá também uma recompensa adicional e excelente.
Como é comovente e atraente essa promessa de Allah, o Altíssimo! E todo crente certamente mantém a firme convicção de que Ele cumprirá plenamente Sua promessa.
A esse respeito, há um hadith narrado por Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele). Quando os Companheiros ouviram o versículo acima dos lábios abençoados do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o Companheiro Abu Dahdah al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! Allah nos pede um empréstimo?”
O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Ó Abu ad-Dahdah! Sim, Ele pede um empréstimo.”
Abu ad-Dahdah disse: “Mostre-me, por favor, a sua mão.”
O Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estendeu a mão na direção daquele Companheiro. O Companheiro tomou a mão abençoada do Profeta entre as suas mãos e disse: “Entrego o meu jardim como empréstimo ao meu Senhor.” Hazrat Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que naquele jardim havia seiscentas tamareiras de excelente qualidade. A casa daquele Companheiro ficava dentro do próprio jardim, e ele morava ali com a sua família. Depois de conversar com o Profeta conforme mencionado acima, Hazrat Abu ad-Dahdah (que Allah esteja satisfeito com ele) foi diretamente para casa. Chamou a esposa e disse: “Ó mãe de Dahdah! Saiam de casa. Entreguei este jardim como empréstimo ao meu Senhor.”
A esposa disse: “Ó pai de Dahdah! Ao fazer isso, realizaste um negócio extremamente lucrativo.” Então eles saíram do jardim com todos os seus móveis, pertences e filhos — (Ibn Abi Hatim).
Será possível encontrar, em algum outro lugar além do Islã, um exemplo de alguém doar todos os seus bens dessa maneira pelo caminho de Allah? A jahiliyyah sustenta precisamente a visão oposta. Iblis, o Satanás, principal propagador e comandante supremo da jahiliyyah, e seus seguidores dizem que esse tipo de doação é causa de insensatez e pobreza e aconselham as pessoas a absterem-se dela.
Quando Allah, o Altíssimo, incentiva os servos crentes a esse tipo de sacrifício, Satanás e seus seguidores dizem: “Não desperdiceis vossos bens por esperanças irreais e falsas, atraindo sobre vós a maldição da pobreza. Pelo contrário, gastai vossos recursos para desfrutar a vida, pois, depois da morte, não haverá mais oportunidade alguma de desfrutá-la.”
“Satanás vos ameaça com a pobreza e vos incita a cometer atos obscenos. Mas Allah vos promete perdão e graça” — (Al-Baqarah: 268).
Quando se pede ajuda financeira, para alguma obra nobre, para a elevação do Islã, para reuniões de sermões religiosos, reuniões sobre a vida do Profeta, conferências islâmicas ou para pôr fim à corrupção e às transgressões, àqueles que possuem riquezas abundantes, obtidas por meios lícitos ou ilícitos, eles alegam incapacidade. No entanto, não hesitam em gastar milhões de takas nos casamentos dos filhos, na divulgação e propagação de danças, músicas e diversas formas de contracultura, nem em filmes obscenos e sexualmente estimulantes que destroem a espinha dorsal moral. Tudo isso é fruto do pensamento e da mentalidade da jahiliyyah. Todos os seus esforços, aspirações e desejos estão centrados na vida terrena. Allah concede-lhes muitas das coisas que desejam obter neste mundo, ainda que não todas. Mas, na outra vida, nada lhes caberá. O próprio Allah, o Altíssimo, declarou isso no Alcorão.
Por outro lado, diante da Jahiliyyah, o Islã transforma completamente a concepção e a visão da vida. A vida plena do ser humano é formada pela vida deste mundo e pela vida do Além. A vida deste mundo é o campo de ação para a vida do Além. No Além, a pessoa colherá precisamente os frutos de suas ações neste mundo. Para tornar feliz e bela a vida do Além, o Islã apresentou um programa completo de conduta, e o Além deve receber prioridade em cada ação. Aquele cuja fé nisso está firmemente estabelecida dedicará à vida do Além toda a sua vida neste mundo e todos os seus bens. Entre os Companheiros do Profeta, essa fé, bem como a mentalidade e o caráter baseados nela, havia sido formada. Sempre que algum tipo de sacrifício foi necessário pelo Islã, eles deram exemplos de sacrifício com total desprendimento. No nono ano da Hégira, ao receber a notícia de que mais de cem mil soldados romanos atacariam o recém-estabelecido Estado islâmico, o Profeta (que a paz esteja com ele) preparou-se para a guerra. Decidiu-se enfrentar o inimigo na região de Tabuk.
Era necessário muito dinheiro para a guerra. O Profeta convocou as pessoas a contribuírem. Para intensificar o incentivo ao jihad, foram revelados alguns versículos de uma surata do Alcorão. Começou entre os Companheiros uma competição para fornecer dinheiro e equipamentos de guerra. Umar dividiu todos os seus bens em duas partes e doou uma delas ao fundo do jihad. Abu Bakr Siddiq trouxe tudo o que possuía e o colocou à disposição. Ao ver isso, o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Mā abqayta li-ahlik, yā Abā Bakr?” “Abu Bakr! O que deixaste para tua família?”
“Para minha família não deixei nada além de Allah e de Seu Mensageiro” — respondeu Siddiq al-Akbar (que Allah esteja satisfeito com ele), com o rosto sereno.
Este é o grandioso ensinamento, caráter e sacrifício do Islã. Eles dedicaram integralmente até a vida neste mundo à vida do Além.
A uniformidadedo Islãesua orientação única
A natureza e o temperamento do Islã são absolutamente orientados numa única direção. Voltar as costas para todas as direções, ideais, doutrinas e visões, e dirigir-se a Allah: essa é a exigência do Islã. O Islã deseja ver a mesma cor e a mesma uniformidade nos pensamentos, na consciência e nas ações de seus seguidores, algo que criará entre eles uma identidade e uma singularidade especiais. O Islã não tolera a menor mistura com qualquer crença, doutrina, linha de pensamento ou concepção externa. Considera tão necessário adotar essa cautela que não permite sequer adotar ou praticar os costumes, tradições e cerimônias dos adeptos da Jahiliyyah nos quais não se veja nada de shirk, kufr ou pecado, mas que sejam apenas seguidos por tradição ou costume. Essa cautela não é adotada por se tratar de algo pertencente a outra nação, nem por mera obstinação. Pelo contrário, ela se torna indispensável devido a um significado, objetivo e discernimento especiais da religião. O significado é preservar a tendência dos seguidores do Islã de se orientarem exclusivamente para Allah em seus pensamentos e ações. Não se deve permitir que se imite alguma coisa pequena e aparentemente inofensiva da Jahiliyyah e que, mais tarde, essa inclinação à imitação abra caminho para o desvio ao introduzir a mentalidade da Jahiliyyah. Esse temor não é imaginário, mas real. A psicologia humana e a experiência apresentaram muitos exemplos disso no passado.
Trata-se de uma verdade profunda à qual, em geral, a percepção interior das pessoas não consegue chegar. Há até exemplos de alguns Companheiros do Profeta que adotaram cautela nesse assunto. Abu Waqid al-Laythi (que Allah esteja satisfeito com ele) relata que, quando o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) avançava em direção a Hunayn, o exército muçulmano teve de passar junto a uma árvore especial chamada “Dhat Anwat”. Era corrente a ideia de que os politeístas penduravam suas armas nessa árvore. Ao vê-la, alguns muçulmanos disseram: “Ó Mensageiro de Allah! Assim como os politeístas têm uma ‘Dhat Anwat’, determina também para nós uma ‘Dhat Anwat’.”
Alguns dos nobres Companheiros que acompanhavam o Profeta haviam pensado que, se o Profeta (que a paz esteja com ele) lhes designasse qualquer árvore, eles pendurariam nela seus equipamentos e armas de guerra. Não consideravam isso censurável. Não havia sequer vestígio de shirk ou kufr nesse ato. Foi com base nesses pensamentos que fizeram ao Profeta o pedido mencionado. Não parecia haver qualquer erro em tal raciocínio. Contudo, a sutil percepção do Profeta enxergou a possibilidade de que, desse modo, se criasse entre os muçulmanos uma mentalidade tal que eles já não permanecessem tão livres quanto deveriam das ideias equivocadas da Jahiliyyah. Esse tipo de pedido não tinha qualquer afinidade com a natureza orientada para Allah própria da religião. Por isso, em resposta ao pedido deles, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Subhanallah! Isto é exatamente do mesmo tipo que o povo de Moisés lhe disse: ‘Faz para nós um ídolo, assim como eles têm muitos ídolos.’” Esse acontecimento foi narrado no Tirmidhi Sharif.
Há uma diferença fundamental entre o pedido acima mencionado dos Filhos de Israel e o pedido dos companheiros do Profeta. Contudo, a única razão para considerar semelhantes os pedidos de ambos era que a mentalidade por trás desse pedido poderia, gradualmente, trazer consequências nocivas tanto no âmbito da crença quanto na prática, e que a adoção de um costume aparentemente inocente e simples dos seguidores da jahiliyyah poderia criar uma tendência para seguir o pensamento e as práticas da jahiliyyah. Por isso, o Profeta perspicaz e sagaz, depois de pronunciar as palavras acima, também fez uma profecia, temendo esse perigo. Ele disse:
“Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: certamente seguireis o comportamento dos que vos precederam” — (Tirmidhi).
Na profecia do Profeta, por “vós” não se entendem os nobres Companheiros, mas os muçulmanos das gerações posteriores. Por “os que vos precederam” entendem-se os judeus e os cristãos. O Santo Profeta (que a paz esteja com ele) quis dizer o seguinte: hoje Eu vos protegerei do erro desse pensamento e de suas terríveis consequências. Mas, no futuro, quando o sentimento de iman dos muçulmanos enfraquecer, a influência da jahiliyyah continuará a crescer. Consequentemente, assim como os judeus e os nasara continuam a abrir o caminho para a penetração da jahiliyyah, os muçulmanos também farão o mesmo.
A unidade dos muçulmanos ea unidadeebaseadas em consultaa tomada de decisões
Para se protegerem dos ataques da jahiliyyah e seguirem plenamente o caminho do Islam, a unidade entre os muçulmanos é indispensável. A jahiliyyah deve ser enfrentada de forma unida. É por isso que foi estabelecida como obrigatória a vida congregacional dos muçulmanos. O Alcorão e o Hadith apresentam instruções claras a esse respeito.
Allah diz: “Apegai-vos todos firmemente à corda de Allah e não vos dividais” — (Al Imran: 103).
Aqui, por “corda”, entende-se o Din de Allah. O Din é descrito como semelhante a uma corda porque, por meio da corda desse Din, por um lado, os crentes são atados a Allah, isto é, estabelece-se entre eles e Allah uma relação profunda e íntima; e, por outro lado, ela une todos os crentes uns aos outros e os vincula por um profundo laço de fraternidade. Ela os reúne e os transforma em uma Jamaat. Como o objetivo da vida dos muçulmanos é a Iqamat al-Din, isto é, estabelecer o Din e mantê-lo estabelecido, isso só pode ser realizado por meio de esforços e lutas unidos. E, para realizar essa tarefa, é necessário enfrentar a jahiliyyah e expulsá-la de todos os campos da vida. Portanto, é indispensável uma luta unida em uma Jamaat.
Apegar-se firmemente ao Din, ou à corda do Din, significa que, na visão do muçulmano, a verdadeira importância pertence ao Din. Ele deverá empenhar todos os seus esforços para estabelecê-lo e, depois de estabelecido, preservá-lo intacto e imaculado. Para essa tarefa, os muçulmanos ajudarão uns aos outros. Mas, se o muçulmano se afastar dos ensinamentos fundamentais do Din e do objetivo de seu estabelecimento, criando divergências por questões pequenas e desnecessárias, então, como as comunidades anteriores, depois de se dividirem em grupos e subgrupos, afastar-se-ão do objetivo principal da vida e sofrerão extrema humilhação neste mundo e no Além. Quando a unidade é destruída e as pessoas se dividem em grupos e subgrupos, a jahiliyyah, isto é, as forças do batil, consegue expandir sua influência e autoridade. Por isso, Allah ordenou uma luta unida contra o batil.
Embora o edifício estatal do Islã tenha sido solidamente estabelecido por meio da luta unificada sob a liderança do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), posteriormente ele foi reduzido a fragmentos devido às divergências e discordâncias mútuas entre os muçulmanos — esse assunto será tratado mais adiante.
Nos hadiths encontra-se uma descrição detalhada da formação da comunidade islâmica, dos seus propósitos e objetivos, e das terríveis consequências de abandoná-la.
Para proteger a comunidade islâmica, a sociedade e o Estado da decadência, juntamente com muitas outras qualidades da fé exigidas dos muçulmanos, foi dada especial importância a outro princípio: tomar decisões com base na consulta mútua. O Alcorão Sagrado apresenta instruções claras a esse respeito.
Quando não se tomam decisões mediante consulta nos assuntos da comunidade, da sociedade e do Estado, surge a desconfiança em relação à liderança, e abre-se o caminho para a desunião e as divisões. Por isso, foi dada especial importância à tomada de decisões baseada na consulta.
O Alcorão diz: “Ó Profeta! Perdoa-lhes as faltas, implora perdão por eles e consulta-os nos assuntos da religião” — (Al Imran: 189).
Em outra passagem do Alcorão, é dito: “E aqueles que respondem ao chamado do seu Senhor (obedecem a cada mandamento do Senhor), estabelecem a oração e conduzem seus assuntos com base na consulta mútua” — (Ash-Shura: 38).
Aqui, agir mediante diálogo e consulta mútua foi incluído entre as melhores qualidades da fé. Também foi dada uma instrução nesse sentido na surata Al Imran mencionada anteriormente. Por essa razão, a tomada de decisões baseada na consulta foi descrita como um pilar importante do modo de vida islâmico. Agir, sem consulta, conforme a vontade e o capricho de uma única pessoa ou de um grupo ou facção específica não é apenas um costume da jahiliyya; é também absolutamente contrário ao modo de proceder estabelecido por Allah.
Se refletirmos profundamente sobre por que se deu tanta importância à ação baseada na consulta, três pontos se tornarão claros.
Primeiro, quando os interesses de duas ou mais pessoas estão envolvidos em determinada questão, decidir conforme a vontade de uma única pessoa, sem levar em consideração as demais pessoas relacionadas, é sem dúvida uma injustiça e um excesso indevido. Em atividades coletivas e que envolvem muitas pessoas, ninguém pode ter o direito de agir arbitrariamente. Quando os interesses de muitas pessoas estão envolvidos em uma questão, é desejável ouvir a opinião independente de todas elas, e a justiça assim o exige. Se o número de pessoas relacionadas for muito grande, é desejável incluir na consulta seus representantes dignos de confiança.
Segundo, somente deseja exercer sua arbitrariedade em assuntos gerais e coletivos, sem consultar os demais, aquele que quer apenas alcançar seus próprios interesses. Por trás de sua recusa em consultar os outros está a mentalidade de considerar-se maior e mais inteligente que todos, julgando os demais insignificantes e incapazes de aconselhar. Essa é a mentalidade criada pela jahiliyyah, isto é, a mentalidade de Iblis. Um crente não pode ser tão egoísta a ponto de interferir nos direitos alheios para alcançar seus próprios interesses, nem pode orgulhar-se e vangloriar-se de ser o único inteligente e onisciente. E todos os demais seriam tolos, completos asnos e imbecis. Um mu’min não pode sequer pensar dessa maneira.
Terceiro, decidir sobre questões relacionadas aos direitos e interesses de outras pessoas é uma enorme responsabilidade. E o anúncio claro do Islã é que aquele a quem foi confiada determinada responsabilidade terá necessariamente de prestar contas a Deus, na Outra Vida, sobre se cumpriu corretamente seu dever. Portanto, quem teme a Deus e acredita de todo o coração que terá de prestar contas diante d’Ele, uma prestação de contas extremamente rigorosa, não pode ousar voluntariamente assumir o peso de uma responsabilidade tão difícil. Somente pode fazer isso quem não teme a Deus nem se preocupa com a prestação de contas na Outra Vida. Aquele que possui temor de Deus e consciência da prestação de contas na Outra Vida certamente procurará incluir, na discussão para decidir sobre uma questão, todas as pessoas cujos interesses estejam envolvidos ou os representantes por elas escolhidos, para que se chegue a uma decisão correta e justa.
Ao refletir profundamente sobre os três pontos acima, torna-se claro que, para formar o tipo de pessoa virtuosa que o Islã deseja e estabelecer, por meio dela, a justiça na sociedade, tomar decisões com base na consulta mútua é uma exigência absolutamente indispensável. Não cumprir essa exigência é próprio da jahiliyyah. A própria natureza do sistema de vida islâmico exige que toda questão coletiva, pequena ou grande, seja resolvida com base na discussão mútua. Esse princípio deve ser observado em todos os níveis da sociedade. Se for uma questão familiar, marido e esposa devem decidir após consultar-se mutuamente; quando os filhos atingirem a maturidade, também devem ser incluídos na discussão. Se for uma questão tribal ou do bairro, e não for possível consultar todos conjuntamente, ela deverá ser resolvida por meio de um conselho ou de representantes eleitos por um método coletivo e aceitável para todos, e dignos de confiança. Se for uma questão de uma comunidade, a responsabilidade por administrá-la será confiada a alguém com base na opinião livre de todos os membros da comunidade ou de suas pessoas proeminentes. Então essa pessoa tomará decisões após consultar todos ou, se isso não for possível, seus representantes eleitos. A liderança dessa pessoa ou a responsabilidade que lhe foi confiada continuará enquanto as pessoas mantiverem sua confiança nela. Se a confiança for perdida, também poderão removê-la da liderança. Nenhum crente pode tentar tornar-se líder ou permanecer líder pela força. Tampouco pode praticar o tipo de fraude que consiste em tomar pela força a liderança da nação e obter seu apoio por meio da opressão. Também não pode recorrer ao tipo de manobra pela qual o povo é impedido de escolher livremente, conforme sua vontade, os membros do conselho consultivo (shura ou parlamento), sendo eles escolhidos de acordo com a preferência da pessoa que tomou o poder. Somente pode recorrer à força, à fraude e ao engano, abandonando os métodos prescritos pelo Islã, aquele em cujo coração não há temor de Deus nem consciência da prestação de contas na Outra Vida.
O Santo Profeta (que a paz esteja com ele) seguia pessoalmente esse princípio. Recebia instruções claras por meio da revelação de Allah. A instrução clara de Allah é, naturalmente, incontestável. Não há necessidade de consulta ou discussão a seu respeito. Contudo, pode surgir a necessidade de discutir e consultar sobre como, por qual método e em que circunstâncias a instrução será implementada; e, nesses casos, o Profeta Mustafa assim procedeu. Depois do Profeta, esse princípio também foi plenamente observado na época dos Khulafa al-Rashidun.
O ressurgimento da jahiliyyahO ressurgimento da jahiliyyah
Como o conflito e o confronto entre o Islã e a jahiliyyah são permanentes e eternos, depois de ser derrotada e subjugada pelo Islã, a jahiliyyah continua tentando erguer novamente a cabeça pouco a pouco. Allah enviou profetas e mensageiros em todas as épocas para libertar as pessoas da influência da jahiliyyah e conduzi-las pelo caminho correto da vida. Eles purificam e libertam os pensamentos, as crenças, o caráter, a disposição e a conduta das pessoas da influência da jahiliyyah, conduzem-nas pelo caminho escolhido por Allah e tornam a vida feliz e bela. Sob sua liderança, as pessoas passam a viver uma vida purificada. Porém, após seu desaparecimento, as pessoas começam gradualmente a afastar-se de seus ideais e ensinamentos, e a jahiliyyah encontra a oportunidade de aprisioná-las em várias redes de erro e desviá-las. Então toda a sociedade humana fica presa nos tentáculos do polvo da jahiliyyah. Enquanto as pessoas se mantêm firmemente apegadas aos ideais e princípios dos profetas, a jahiliyyah permanece escondida, à espera de uma oportunidade, e continua repetidamente suscitando waswasa (insinuação) nos corações dos sinceros e dos que seguem a verdade. O próprio Iblis, o Satanás, é o instigador dessas insinuações, juntamente com seus incontáveis seguidores entre os gênios e os seres humanos, e também o próprio nafs, ou a má inclinação, da pessoa. As flechas dessas insinuações continuam sendo lançadas repetidas vezes e, depois de errar o alvo várias vezes, acabam atingindo o ponto certo; então começa o ressurgimento da jahiliyyah.
É claro que Allah ordenou às pessoas que buscassem refúgio n’Ele contra as insinuações desses instigadores. Por ignorarem essa ordem e devido a diversos interesses mundanos, as pessoas acabam tornando-se vítimas das insinuações. Assim, a jahiliyyah avança, trazendo consigo todas as armas de seu desvio.
A história testemunha que a primeira vitória abrangente do Islã não começou apenas na primeira metade do século VII. Pelo contrário, antes disso também vieram repetidamente as eras douradas do Islã. Pois é uma verdade histórica que, para guiar os servos de Deus ao caminho da verdade, profetas e mensageiros vieram repetidas vezes ao mundo. Eles deixaram o mundo quando a Jahiliyyah havia se submetido à verdade. Porém, depois de algum tempo, a Jahiliyyah iniciou suas atividades malignas, e as pessoas, tornando-se gradualmente confusas e desviadas, envolveram-se no shirk e na incredulidade. Também se encontram exemplos disso na história dos Filhos de Israel. Depois de Moisés — que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele — durante a vida de seu digno e fiel sucessor Josué, filho de Num, e ainda por algum tempo depois, a religião de Allah esteve estabelecida em todos os aspectos da vida humana; por isso, a superioridade deles sobre os povos do mundo estava estabelecida. Mencionando isso, o Alcorão declara: “Ó Filhos de Israel! Recordai a graça que vos concedemos. E recordai também que vos fiz superiores aos povos do mundo” (Surata Al-Baqara, 47, 122).
Mas, posteriormente, quando sua força espiritual se enfraqueceu e a distorção começou a manifestar-se em seu pensamento, caráter e comportamento, a Jahiliyyah lançou-se contra eles com todas as suas forças. Então a situação chegou a tal ponto que os Filhos de Israel se fundiram completamente com a Jahiliyyah. Não se pode negar que, mesmo quando a Jahiliyyah adota o silêncio diante das circunstâncias, isso é apenas temporário; ela não abandona o campo de batalha — apenas espera uma oportunidade. Como a fonte da Jahiliyyah é o próprio Iblis, o Satanás, e, pela sabedoria e vontade especiais de Allah, o Criador do universo, foi decretado que Satanás permaneceria vivo até o Dia da Ressurreição, o conflito entre a verdade e a falsidade, entre o bem e o mal, continuará eternamente. Na realidade, esse conflito existe para testar o ser humano e é precisamente para isso que ele foi criado.
Portanto, como Iblis, o Satanás, permanecerá vivo até o Dia da Ressurreição, é perfeitamente natural que o comportamento que ele teve com as comunidades de todos os profetas anteriores seja também, posteriormente, o seu comportamento para com o Islã e a comunidade muçulmana.
O Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) também profetizou a esse respeito. Ele disse: “Vós seguireis e imitareis passo a passo os que vos precederam. Até mesmo se eles entrarem no buraco de um lagarto, vós também entrareis nele.” Os Companheiros perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah! Por ‘os que vos precederam’ queres dizer os judeus e os cristãos?” Ele respondeu: “Quem mais poderia ser?” (Bukhari).
O significado da profecia acima do Nobre Profeta era que, naturalmente, vossos vínculos e relações seriam estabelecidos com as nações que se destacassem no cenário religioso e cultural do mundo. Enquanto a firmeza de vossa fé permanecesse intacta, em vez de serdes influenciados por elas, continuaríeis a influenciá-las. Porém, os muçulmanos começariam a segui-las passo a passo. Adotaríeis seus costumes, métodos de pensamento, ritos e cerimônias. Não hesitaríeis em obedecer a nações desviadas e comunidades pecadoras. Depois que tudo isso acontecesse, naturalmente não conseguiriam preservar sua distinção, identidade própria e consciência espiritual. Então, em termos de pensamento, consciência, conduta, comportamento e todas as atividades, a muralha impenetrável que havia sido erguida entre o Islã e a Jahiliyyah — cuja preservação era tão indispensável quanto a preservação da religião e da fé — começaria a desmoronar em vários pontos, e os muçulmanos perderiam sua distinção e identidade nacional.
O ataque da Jahiliyyah por todos os lados
A Jahiliyyah apagou a vergonha de sua derrota e voltou a erguer a cabeça. Mais que isso, lançou um ataque por todos os lados contra o Islã, empregando todas as suas forças. Seu ataque foi dirigido contra a crença e a doutrina religiosas, contra a sharia islâmica, contra os princípios fundamentais e as concepções do Islã e contra a unidade nacional dos muçulmanos. Seu primeiro objetivo foram as crenças e doutrinas fundamentais do Islã. Se fosse possível destruir a fundação sobre a qual está erguido todo o edifício religioso, as demais concepções, a orientação e os mandamentos poderiam ser facilmente eliminados. Ela intensificou seus ataques, um por um, contra os temas fundamentais do Islã.
A crença na profecia
A crença no tawhid era absolutamente intolerável para a jahiliyyah. Porém, de início, ela não tinha nenhum meio de atacá-lo diretamente. Por isso, seu ataque começou pela doutrina da profecia de Muhammad. Ou seja, se a crença na profecia de Muhammad pudesse ser enfraquecida ou destruída, seria fácil apagar da mente as demais crenças fundamentais do Islã. Com esse objetivo, a jahiliyyah criou vários campos de batalha.
O primeiro campo de batalha foi a criação de falsos profetas. Isto é, mesmo depois do último Profeta, Muhammad (que a paz esteja com ele), continuariam surgindo pessoas que alegassem falsamente a profecia. Embora os preparativos já estivessem em curso durante a vida do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), essa atividade se intensificou após sua morte, e dois homens, Musaylima e Aswad al-Ansi, foram apresentados como pretendentes à profecia. Algumas pessoas, incluindo a tribo Banu Hanifa, apoiaram Musaylima, enquanto os habitantes do Iêmen apoiaram Aswad al-Ansi. Mas o primeiro califa, Hazrat Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), extirpou essa fitna com todas as suas forças.
Depois, no final do califado corretamente guiado, surgiu a seita xiita; mais tarde, quando ela se dividiu em numerosas correntes e subcorrentes, começaram a surgir falsos profetas entre seus membros. Por exemplo, Abu Mansur, fundador da seita Mansuriyya, declarou: “Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) era o Mensageiro de Allah e um profeta. Depois dele, Hazrat Hasan (que Allah esteja satisfeito com ele), Husayn, Ali ibn Husayn e Muhammad ibn Ali foram todos mensageiros e profetas. Eu também sou um mensageiro e profeta, e depois de mim a sucessão da profecia continuará por seis gerações.”
Ele também afirma que a sucessão da profecia jamais chegará ao fim — (Al-Milal wa al-Nihal, al-Shahrastani).
Abu Khattab, fundador da seita Khattabiyya, afirma que todos os imãs dos xiitas são profetas. Mughira, fundador da seita Mughiriyya, era ele próprio um pretendente à profecia. Muhammad ibn Nasir al-Nusayri, líder da seita Nusayriyya, também alegou ser profeta — (a obra mencionada acima). Não há qualquer argumento, prova ou autorização divina em apoio a essas alegações. E por que haveria necessidade disso? Assim que se levantasse a questão dos argumentos e das provas, surgiria confusão e tudo estaria fadado a fracassar. Bastava criar um fanatismo religioso entre os muçulmanos de fé fraca e mentalidade deformada. E, por trás de tudo, estariam a intensa instigação e o engano de Satanás.
Embora esses pretendentes à falsa profecia tenham sido geralmente rejeitados, certamente algumas poucas pessoas foram desencaminhadas. Caíram na armadilha preparada pela jahiliyyah, foram confundidas e se desviaram do caminho.
Este é o relato de cem a cento e cinquenta anos da nova campanha da jahiliyyah. Talvez tenham ocorrido acontecimentos semelhantes em alguns lugares do mundo muçulmano. Especialmente durante a época do declínio dos muçulmanos, era muito natural que tais acontecimentos ocorressem — e eles de fato ocorreram. Quando os muçulmanos se afastam um pouco das crenças fundamentais do tawhid, da risalat e da akhirat, abandonam a obediência a Allah e a liderança do Mensageiro em todos os aspectos da vida e se curvam diante das forças taghut, a jahiliyyah desfere, com toda a sua força, um golpe extremo contra a crença e a doutrina dos muçulmanos e obtém uma vitória parcial, ainda que não completa.
A introdução de uma nova religião
O imperador indiano Akbar tentou instituir uma religião absurda chamada ‘Din-i Ilahi’, com o objetivo de eliminar o Islã. Seu desejo era estabelecer essa nova religião precisamente como alternativa ao Islã. A mentalidade que estava por trás da instituição dessa nova religião era a seguinte: para tornar seu domínio permanente e sólido num território tão vasto como a Índia, ele precisava conquistar necessariamente o coração da maioria hindu e das demais comunidades do país. Ele considerava apropriado conquistar-lhes o coração por meio da religião. Por isso, seu empenho consistia em instituir uma nova religião que combinasse todas as religiões. Nessa nova religião, os princípios fundamentais do Islã foram abandonados, e numerosos ritos e cerimônias do hinduísmo foram tornados obrigatórios para os muçulmanos. Assim, os muçulmanos não poderiam manter seus tradicionais nomes muçulmanos, não poderiam circuncidar os filhos, não poderiam deixar crescer a barba nem comer carne bovina. Poderiam estabelecer livremente relações matrimoniais entre muçulmanos e não muçulmanos, sem que, para isso, qualquer não muçulmano tivesse de aceitar o Islã.
O curioso é que, sob essa religião, os adeptos do hinduísmo, do jainismo, do budismo e de todas as demais religiões podiam praticar plenamente suas próprias religiões. Apenas numerosas normas e disposições da sharia islâmica foram abolidas. É absolutamente claro que essa religião foi inventada com o objetivo de eliminar o Islã.
Embora as populações não muçulmanas tivessem ficado extremamente satisfeitas com Akbar, elas também não aceitaram adotar essa religião. Naturalmente, um pequeno número de muçulmanos oportunistas e desviados se sentiu atraído por ela. A maioria dos muçulmanos rejeitou essa religião. O célebre erudito e asceta da época, Shaykh Ahmad Sirhindi Mujaddid Alf-e Sani (que Deus tenha misericórdia dele), declarou jihad contra a propagação dessa nova religião. Após a morte de Akbar, seu filho Jahangir, apresentando-se como guardião e propagador da religião Din-i Ilahi, esforçou-se ao máximo para instituí-la. Mesmo encarcerando Alf-e Sani na fortaleza de Gwalior e empregando todo o poder do Estado, não conseguiu impedir a morte dessa religião absurda. Por fim, unicamente para preservar seu trono, libertou Alf-e Sani, arrependeu-se diante dele e voltou a tornar-se muçulmano. A estratégia adotada por Akbar para tornar permanente e sólida sua própria autoridade e o domínio mogol plantou as sementes da queda do Império Mogol.
O ressurgimento do falso profeta
Durante o domínio britânico na Índia, foi tecida uma rede conspiratória em torno da falsa reivindicação de profecia de Mirza Ghulam Ahmad. O governo britânico ajudou plenamente nessa conspiração. A promessa de altos cargos públicos, promoções e diversos benefícios econômicos enganou e desviou muitos muçulmanos ignorantes acerca do Islã. As amplas atividades dos missionários cristãos, sob a proteção do Estado, conseguiram converter ao cristianismo apenas um pequeno número de muçulmanos. Contudo, mediante a crença na falsa profecia, foi inventado um novo profeta e uma nova comunidade muçulmana; com isso, por um lado, negou-se a autenticidade do Alcorão e, por outro, declarou-se kafir aquele que não acreditasse nesse novo profeta. Não há dúvida de que isso foi uma conquista temporária da jahiliyyah. Porém, embora quase todos os países muçulmanos do mundo tenham se transformado em colônias de potências estrangeiras e não muçulmanas, e embora um grande número de muçulmanos tenha se afastado das práticas islâmicas, a ummah muçulmana como um todo rejeitou com repulsa a reivindicação de falsa profecia de Mirza Ghulam Ahmad Qadiani.
Como Mirza Ghulam Ahmad nasceu num lugar chamado Qadian, no leste do Punjab, seus seguidores são chamados de qadianis. Também são chamados de ahmadis. Já na primeira metade deste século, a comunidade qadiani ou ahmadi foi declarada não muçulmana ou kafir pelos eruditos religiosos de todo o mundo. Também foram escritos numerosos livros fundamentados que demonstraram ser falsa e fraudulenta essa profecia. Depois que, em 1947, na sequência da partição da Índia, foi estabelecido o Estado independente do Paquistão, começou um movimento vigoroso contra essa falsa profecia. A propaganda deles foi proibida nos países árabes. Por fim, em 1974, foi aprovada no Parlamento Nacional do Paquistão uma lei que declarou a comunidade qadiani não muçulmana.
Shirk na profecia
A primeira frente de batalha (WAR FRONT) da jahiliyyah contra o Islã foi formada em torno da reivindicação de falsa profecia. Essa reivindicação foi feita em diferentes épocas. A segunda frente de batalha da jahiliyyah é o shirk na profecia. Isto é, foi inventada uma crença absurda de participação na profecia. Para isso, a pessoa de Ali, que Deus esteja satisfeito com ele, foi usada especialmente como pretexto. Foi um acontecimento extremamente doloroso na história islâmica que uma controvérsia indesejada a respeito do califado dividisse a ummah muçulmana e desse origem a uma seita permanente chamada xiita. Os integrantes dessa seita adotaram como parte de sua fé a crença de que o profeta Muhammad Mustafa, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, havia designado Ali, que Deus esteja satisfeito com ele, como seu representante e califa. Ainda mais doloroso é o fato de acreditarem que seus imãs, incluindo Ali, que Deus esteja satisfeito com ele, eram infalíveis. Até então, a crença fundamental dos muçulmanos era que, entre a humanidade, somente os profetas eram infalíveis, e que essa infalibilidade não era mérito deles próprios. Pelo contrário, como Deus os havia escolhido dentre os seres humanos para a grandiosa missão da profecia, Ele, por Sua graça especial, os manteve infalíveis. Ora, se alguém além de um profeta for considerado infalível, deixa de existir a diferença fundamental entre um profeta e um não profeta.
A crença consolidou-se no coração dos xiitas de que não apenas Hadrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), mas também todos os imames descendentes dele eram tão infalíveis quanto Muhammad, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Este foi um grande triunfo da Jahiliyyah, contrário à crença islâmica relativa à profecia. Pois o exagero na devoção e no respeito pela Ahl al-Bayt, ou família do Profeta, chega ao nível do shirk na profecia. Considerar infalível alguém que não é profeta significa, na realidade, conceder-lhe posição e autoridade equivalentes às da profecia. A partir de então, a crença na missão de Muhammad deixa de ser uma crença islâmica. Consequentemente, não se pode esperar alcançar o grandioso objetivo para o qual Allah, o Senhor dos mundos, estabeleceu a dignidade desta missão universal e eterna e enviou o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como o último profeta. Pois, nessas circunstâncias, ele, o Profeta Mustafa, deixou de ser a única fonte de orientação e o único critério reconhecido da verdade. O direito à obediência incondicional também deixou de ser exclusivo dele. Ao contrário, aqueles que são considerados infalíveis passaram a receber, nessas questões, uma posição equivalente à do Profeta.
Do Califado à monarquia
A abolição do Califado Bem-Guiado e o estabelecimento da monarquia foram uma grande vitória da Jahiliyyah. Após o martírio do quarto califa, Hadrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), o caminho para a monarquia foi facilitado; e, assim que Hadrat Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele) assumiu o poder do Estado Islâmico, o Califado Bem-Guiado entrou em declínio.
A queda do Califado Bem-Guiado é chamada de grande vitória da Jahiliyyah porque o Califado Bem-Guiado não era simplesmente uma força política ou um governo; era, antes, a representação plena da missão profética de Muhammad. Sua função não se limitava a administrar a lei e a ordem do país, estabelecer a paz e a segurança e proteger as fronteiras. Pelo contrário, na vida coletiva dos muçulmanos, desempenhava as responsabilidades de mestre, educador e guia que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) desempenhara durante sua vida. Também era responsabilidade do Califado manter vivo, dentro de Dar al-Islam, todo o sistema da religião da verdade, com sua forma, natureza e força vital genuínas, e manter o poder coletivo dos muçulmanos do mundo empenhado em elevar a palavra de Allah. Não há espaço aqui para narrar a longa história de como, durante o califado de Hadrat Uthman Dhu al-Nurayn, que Allah esteja satisfeito com ele, começou o processo de queda do Califado Bem-Guiado e de como, após o califado de Hadrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), ele se transformou em monarquia. Todo estudante de história deveria conhecê-la. Contudo, depois do fim do Califado Bem-Guiado, tornou-se mais fácil para a Jahiliyyah abrir novas frentes de batalha contra o Islã.
Depois do Califado Bem-Guiado
Depois do fim do Califado Bem-Guiado, estabeleceu-se a monarquia — embora ela continuasse a ser chamada de califado — e os ideais e princípios islâmicos foram abandonados. O sistema social plenamente baseado na justiça que o Profeta Muhammad Mustafa (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia estabelecido permaneceu intacto e imaculado durante a era do Califado Bem-Guiado, mas, sob a monarquia, deixou de ter qualquer existência. Em vez do governo islâmico voltado para o bem-estar público, a obediência passou a ser obtida pela força. Não restou qualquer oportunidade para as pessoas expressarem livremente suas opiniões, e muitos chegaram a perder a vida por expressarem uma opinião independente.
É verdade que, sob a monarquia, país após país foi conquistado e a extensão do Estado aumentou. Contudo, como as decisões passaram a ser tomadas segundo a vontade de uma única pessoa, em vez de se basearem na consulta prescrita pelo Islã, a unidade de pensamento entre os muçulmanos foi destruída, e eles começaram a dividir-se em numerosos grupos e subgrupos. Ideais e correntes de pensamento contrários ao Islã passaram a influenciá-los.
Depois que o governo do Califado Bem-Guiado, isto é, o governo do Alcorão e da Sunna, foi abolido, começaram a surgir distorções na sociedade muçulmana, na mentalidade, no pensamento e no caráter. As pessoas dotadas de conhecimento e caráter islâmicos mostraram relutância em exercer qualquer função oficial sob a monarquia e afastaram-se do cenário social.
É de notar que, assim que o Estado Islâmico pleno foi estabelecido pelo Profeta Mustafa, multidões de pessoas passaram a buscar abrigo sob a bandeira do Islã. Depois disso, muitas delas nem sequer tiveram a oportunidade de purificar suas vidas. Muitos também não tiveram a ventura de encontrar-se com o Santo Profeta.
Após o falecimento do Santo Profeta, durante o califado de Hazrat Abu Bakr e Hazrat Uthman, o convite islâmico e as conquistas prosseguiram. Nesse período, incontáveis pessoas de diferentes países, regiões, nações e classes abandonaram a religião de seus antepassados e buscaram abrigo sob a sombra refrescante do Islã. Em geral, aceitaram o Islã de coração e alma como a verdadeira religião. Contudo, entre elas também havia muitas que não tinham nenhuma boa intenção por trás de sua conversão ao Islã. Em seus corações, sofriam uma profunda angústia por causa do Islã e alimentavam ressentimento e inimizade contra ele. Eram oportunistas à espera de uma ocasião para desferir um golpe devastador contra o Islã. Para alcançar esse objetivo mal-intencionado, incluíram-se no grupo dos muçulmanos. Na realidade, eram hipócritas. Entre eles, destacou-se especialmente um erudito judeu chamado Abdullah ibn Saba. Em nome do Islã, ele conseguiu dividir a comunidade muçulmana em duas e introduzir entre seus membros uma crença, uma linha de pensamento e práticas distintas.
Depois que a monarquia foi estabelecida, as chaves da autoridade passaram das mãos do Islã para as mãos da jahiliyyah. E, depois de perder o poder estatal, o Islã não tinha força para impedir o avanço da jahiliyyah. Além disso, era muito difícil para o Islã enfrentar a jahiliyyah, pois ela não entrou em cena sob sua verdadeira forma; ao contrário, apareceu sob a forma de “muçulmana”. Se a jahiliyyah tivesse atacado o Islã assumindo a forma de ateus, incrédulos ou idólatras, como seus inimigos declarados, toda a comunidade muçulmana teria se unido para combatê-la. Mas, nos lábios da jahiliyyah, havia o reconhecimento do tawhid e da risalah, e tudo o que fazia era feito em nome do próprio Islã. Foi sob o disfarce do Islã que a jahiliyyah começou a fortalecer suas raízes.
A jahiliyyah tomou o Estado e as riquezas e deu-lhes o nome de califado. Mas, na realidade, tratava-se de uma monarquia, cuja eliminação era precisamente o objetivo do Islã. Sob a proteção dessa monarquia, as ideias e a visão de mundo da jahiliyyah espalharam-se pela vida do grupo governante, dos emires e nobres subordinados a ele, dos governadores, do exército e das pessoas influentes da sociedade. Ao mesmo tempo, a filosofia, a literatura e as artes da jahiliyyah também continuaram a se difundir.
Como a jahiliyyah passou a deter o poder estatal, também exerceu influência sobre os ulemás, os sufis e as pessoas tementes a Deus. Assim, na sociedade muçulmana difundiram-se a filosofia de Platão, um ideal de caráter ascético e uma visão pessimista em todos os aspectos da vida.
Em nome da taqwa e da piedade, afastou as pessoas virtuosas da sociedade da autoridade e da liderança social, entregando o poder aos portadores da bandeira da jahiliyyah.
Tasawwuf não islâmico
Foi mencionado acima que a jahiliyyah criou a primeira e a segunda frente de batalha contra o Islã sob as alegações da falsa profecia e da participação na profecia. Embora a jahiliyyah não tenha conseguido triunfar na primeira dessas duas frentes, na segunda ela ampliou seu domínio, destruiu a unidade da comunidade muçulmana e reduziu a escombros o palácio do califado islâmico. Depois disso, sob a proteção da monarquia estabelecida, a jahiliyyah continuou a estender sua mão negra. Mesmo entre as pessoas virtuosas e tementes a Deus que, pressionadas pelas circunstâncias, se retiraram da arena política e se dedicaram ao tasawwuf — isto é, à purificação espiritual, ao dhikr e às súplicas, e ao estudo e ensino do conhecimento religioso —, a jahiliyyah continuou a exercer sua influência. Como resultado, em oposição ao tasawwuf baseado no Islã, surgiu o tasawwuf jahilí. Esta foi a terceira FRENTE DE BATALHA, ou campo de batalha, da jahiliyyah contra o Islã.
Esse tasawwuf jahilí queria apagar do coração a própria crença na profecia. A ideia fundamental desse tasawwuf era que, para a devoção cujo objetivo é alcançar Deus, não há necessidade nem da mediação de um profeta nem de sua obediência. Além disso, uma pessoa pode alcançar esse destino desejado. É provável que esses adeptos do tasawwuf falso tenham adotado essa ideia de uma seita xiita. O fundador da seita xiita chamada Kayyaliyya, Ahmad ibn al-Kayyal, afirmava que somente aqueles que carecem de visão interior seguem cegamente os profetas.
Essa ideia é apresentada, com um pequeno refinamento, da seguinte maneira: assim como é indispensável a mediação de um advogado para apresentar o próprio requerimento perante um governante, também é indispensável a mediação de um pir para apresentar algo em nome do servo perante Deus. Desse modo, rompe-se a relação com o profeta — a mediação entre o servo e Deus, isto é, a obediência a Deus por meio da obediência ao profeta e a estrada simples e direta para alcançar Deus que o profeta mostrou — e considera-se a obediência ao pir o único meio de alcançar Deus. Na realidade, porém, toda a obediência do servo fica limitada ao pir, e a ideia de obediência não consegue elevar-se acima dele. Assim, o único critério para o lícito e o ilícito, o bem e o mal, a devoção e a desobediência passa a ser o pir. Desse modo, rompe-se a relação do servo com Deus e com o profeta.
Se essa linha de pensamento e essa filosofia forem adotadas, então por que a “Profecia de Muhammad” e a própria “fé na missão profética” não se tornariam desnecessárias? Poderia alguém que crê no Islã, no Alcorão e no profeta sustentar semelhante ideia? Mas o extremamente lamentável é que a jahiliyyah inoculou a grave doença dessa ideia equivocada em um grupo de muçulmanos, e, em nome do Islã, algumas pessoas se fizeram portadoras, defensoras e propagadoras dessa ideia.
É importante observar que, embora o tasawwuf conforme ao Islã e seus adeptos existam na sociedade, seu número é muito reduzido. Como, sob os adeptos do tasawwuf falso, não é necessário observar nenhum preceito da sharia, os oportunistas tendem em maior número para esse lado. A propaganda da jahiliyyah também é fortemente favorável a isso.
Da jahiliyyahmortalarma
Não há dúvida de que o tasawwuf jahilí desviou alguns muçulmanos da verdadeira, correta, simples e direta estrada do Islã — a Sirat al-Mustaqim. Mais tarde, porém, três armas extremamente mortais da jahiliyyah abalaram os próprios fundamentos do Islã. São elas: (1) o sistema de vida sem Deus ou rebelde contra Deus (SECULARISMO); (2) a adoração da nação, isto é, o nacionalismo (NACIONALISMO); e (3) a democracia que reivindica a soberania (DEMOCRACIA). Ao discutir essas três armas mortais, compreenderemos até que ponto elas influenciaram a crença e o pensamento islâmicos e quão amplamente se estabeleceram filosofias de vida e doutrinas contrárias ao Islã.
Secularismo
Comecemos discutindo o SECULARISMO (secularismo). Seu significado é viver, em todos os aspectos da vida, segundo leis e orientações criadas pelos próprios seres humanos, rejeitando as leis e orientações do Criador do universo. Contudo, afirma-se com grande astúcia que, se a consciência de alguém testemunhar que existe um Deus e que se deve louvá-Lo, essa pessoa poderá fazê-lo em sua vida particular. Mas Deus e a religião não têm qualquer relação com o mundo, a sociedade e todos os assuntos a eles relacionados. No sistema de vida cujo edifício foi erguido sobre essa teoria, todos os níveis das relações entre as pessoas e entre as pessoas e o mundo são inteiramente independentes de Deus e da religião. Todo o sistema social é independente da religião; o sistema educacional é independente; as leis são independentes; o parlamento do país é independente; a política, a economia, toda a administração do país e as relações internacionais são independentes de Deus e da religião. Em qualquer decisão tomada nesses diversos aspectos e áreas da vida humana, considera-se irrelevante, na verdade sem sentido e fruto de um pensamento cego e supersticioso, perguntar se Deus estabeleceu para nós algum princípio ou orientação a respeito dessas questões. E, mesmo que o tenha feito, afirma-se que não é possível segui-los diante das circunstâncias e das condições existentes. Resta então a vida particular. Mas, sob a influência de um sistema educacional sem religião e dos costumes sociais, também a vida particular se tornou, e continua a tornar-se, em grande parte desprovida de religião. Isso porque hoje a consciência de pouquíssimas pessoas testemunha que existe um Deus e que é preciso obedecer à Sua ordem. Especialmente para aqueles que dirigem a sociedade e a civilização construídas sobre as bases desse secularismo, a religião já não é sequer uma questão da vida particular. Sua relação pessoal com Deus também foi rompida.
O nascimento do secularismo, isto é, da irreligião ou da rebelião contra Deus, ocorreu na Europa, e ele também possui um contexto histórico. Parece difícil compreender o assunto sem discuti-lo, ainda que brevemente.
Os sacerdotes cristãos elaboraram, com base no cristianismo deturpado, uma sharia ou um conjunto de normas religiosas segundo a própria imaginação, e passaram a governar em nome da religião. A Torá continha as normas da sharia adequadas à administração da sociedade. Embora os sábios judeus tenham deturpado a Torá tanto quanto possível, os cristãos rejeitaram a própria Torá original. Nenhuma nova sharia havia sido revelada por meio da Bíblia. Assim, os sacerdotes cristãos passaram a deturpar a religião em benefício dos próprios interesses e a administrar o governo em nome dela. Sob nenhuma circunstância seria possível estabelecer paz, segurança e justiça na sociedade por meio de leis inventadas pelos homens, em vez da lei enviada por Deus. Embora a desordem, a injustiça, a opressão e a perseguição continuassem sob esse governo, o povo comum aceitava tudo silenciosamente e por necessidade, pois isso trazia a marca da religião. Em toda a Europa havia muitos reinos, grandes e pequenos, governados por sacerdotes, que eram chamados de ESTADOS PAPAIS. Sobre todos eles foi estabelecido um império cristão chamado SANTO IMPÉRIO ROMANO.
É importante observar que, no início do século VIII, o domínio muçulmano foi estabelecido na Espanha e permaneceu em vigor por várias centenas de anos (711–1492 d.C.). Durante o domínio muçulmano, foram fundadas em Córdoba e Granada as duas maiores universidades, e pessoas sedentas de conhecimento, vindas de várias partes da Europa, começaram a afluir em grupos a essas elevadas instituições de ensino para adquirir conhecimento. Por meio do ensino superior, essas instituições acenderam na Europa a tocha do conhecimento e da ciência. Naquela época, Bagdá, Córdoba e Constantinopla eram os centros de educação, civilização e cultura de todo o mundo. Porém, Córdoba ocupava o lugar mais elevado entre todas. A fama de Córdoba no estudo do conhecimento e da ciência era mundialmente conhecida. Como resultado do amplo cultivo do conhecimento e da ciência, surgiu na sociedade instruída um pensamento livre e independente. Ao mesmo tempo, novas descobertas científicas continuaram a ocorrer. Começou um intenso conflito entre o pensamento científico e as ideias envelhecidas e supersticiosas dos sacerdotes. Novas leis foram promulgadas para impedir o pensamento e as descobertas científicas. Foram estabelecidas punições severas e aterradoras contra os que violassem as leis. Como tudo isso era feito em nome da religião, a sociedade instruída passou a sentir aversão pela própria religião.
Os eruditos e filósofos cristãos da Antiguidade haviam construído todo o edifício de suas crenças religiosas e de suas concepções sobre o ser humano e a natureza do universo sobre as ideias, doutrinas, argumentos, provas e dados da filosofia e da ciência gregas. Eles também acreditavam que, se qualquer um dos fundamentos sobre os quais seu edifício doutrinário fora construído sofresse um golpe, todo o edifício seria reduzido a pedaços. Junto com ele, o cristianismo também chegaria ao fim. De modo algum estavam dispostos a tolerar qualquer crítica ou pesquisa que suscitasse dúvidas sobre as verdades universalmente aceitas da filosofia e da ciência gregas. Tampouco estavam preparados para aceitar qualquer corrente de pensamento filosófico que, rejeitando essas verdades universalmente aceitas, apresentasse outra forma de pensar e levasse o clero a sentir necessidade de reconsiderar sua filosofia. Também não se podia permitir qualquer pesquisa que pudesse provar estar errada alguma parte das concepções sobre o ser humano e a natureza do universo apresentadas na Bíblia ou das concepções e doutrinas adotadas pelos filósofos. Consideravam cada questão desse tipo um perigo direto para a religião e para todo o sistema cultural, político e econômico nela estabelecido. Por outro lado, a cada passo daqueles que, de acordo com as exigências do movimento renascentista, realizavam críticas, pesquisas e investigações de fatos, tornavam-se claramente visíveis as fraquezas daquelas filosofias e ciências sobre as quais todo o edifício da crença religiosa havia sido construído. Contudo, quanto mais avançavam em suas pesquisas, mais o clero ou a comunidade cristã, utilizando seu poder religioso ou político, tentava bloquear seu caminho com severidade crescente. Muitas coisas contrárias às verdades anteriormente reconhecidas tornavam-se evidentes como a luz do dia. O clero dizia que, em vez de reconsiderar as verdades universalmente aceitas, era preciso arrancar os olhos dos críticos. Aos pesquisadores parecia que havia numerosos erros nas doutrinas consideradas provas documentais irrefutáveis da crença religiosa. O clero dizia que era preciso esmagar o próprio cérebro daqueles em cuja mente surgissem pensamentos desse tipo. O resultado desse conflito foi que, já no primeiro alvorecer do conhecimento, da ciência e do renascimento intelectual, surgiu uma atitude obstinada contra a religião e os religiosos, e a mentalidade de afastamento de Deus e de irreligião foi infundida nas veias e artérias da nova civilização. Depois disso, não se podia esperar que os defensores do pensamento livre distinguissem as outras religiões do cristianismo da Igreja. Por isso, naturalmente, sua obstinação não permaneceu limitada ao cristianismo e à sua Igreja. Pelo contrário, tudo aquilo que se entendia por religião tornou-se vítima de sua obstinação. Quando esse conflito, acompanhado de tal estado psicológico de obstinação contra a religião, passou do campo do conhecimento para os diversos setores da política, da economia e da organização social, após a derrota das autoridades da Igreja, sob a liderança dos porta-estandartes da nova civilização, foi construído um novo edifício religioso da vida, com uma visão permanente de mundo, chamado “secularismo”. Seu princípio fundamental é que a religião não terá direito de intervir em nenhum setor da vida social — na política, na economia, na moralidade, nas leis e regulamentos; em suma, em parte alguma. A religião é uma questão puramente pessoal. Quem quiser reconhecer Deus e os profetas em sua vida privada poderá fazê-lo. Mas, ao elaborar todo o conjunto de normas da vida social, é irrelevante perguntar que orientação Deus oferece a esse respeito.
O fundamento primordial dos sistemas intelectual, social, político e econômico da nova civilização do mundo moderno é o secularismo (SECULARISM). Fascismo, capitalismo, nazismo, socialismo, comunismo, nacionalismo, democracia que reivindica soberania, epicurismo (EPICURIANISM), utilitarismo (UTILITARIANISM), ateísmo, darwinismo (DARWINISM) e outras doutrinas semelhantes são apenas ramificações do secularismo, cuja força vital se difunde por todas elas.
A pedra angular deste sistema de vida é a irreligião, a rebelião contra Deus ou o puro mundanismo. A doutrina segundo a qual a relação entre Deus e a religião se limita apenas à vida pessoal do ser humano é uma doutrina sem sentido e absurda, que não tem a menor relação com o conhecimento e a consciência. É certo que, quanto à relação entre Deus e o ser humano, uma das duas coisas necessariamente será verdadeira: ou Deus é o Criador, Senhor, Governante e Legislador do ser humano e deste universo, ou não é nada disso. Se Ele não é o Criador, Senhor e Governante, então não há necessidade alguma de manter com Ele uma relação pessoal. E adorar uma entidade com a qual não se tem relação é absolutamente sem sentido. É até mesmo sinal de falta de consciência pensar que Deus é de fato o Criador, mas não disse como o ser humano deve viver no mundo, nem como devem ser seus sistemas político, econômico, cultural e social, ou, Deus nos livre, que Ele é incapaz de dizê-lo. Há alguma necessidade de reconhecer um Deus assim? Porém, se Ele é o Criador, Senhor e Governante de nós e do universo, então pensar que Seu governo se limitará apenas à vida pessoal, ou que Seu governo se limitará, em vez de governar, à mera adoração, não passa de extrema tolice. Quando uma pessoa se unir a outra e começarem as relações sociais, dizer que ali já não vigorará o governo e o controle do Criador só pode ser uma afirmação de alguém sem consciência. Se, na vida social, o ser humano, em vez de depender do Criador, tornar-se independente e arbitrário, isso será uma rebelião extrema contra seu Criador, Senhor e Governante. Depois dessa rebelião, quem disser: “Obedeço a Deus na minha vida pessoal” deve ser considerado mentalmente perturbado. Isso não pode ser outra coisa senão engano, fraude e hipocrisia para com o Criador.
Não será uma afirmação de alguém sem consciência dizer que cada indivíduo, separadamente, é servo de Deus e obrigado a obedecer às Suas ordens, mas que, quando essas individualidades separadas se reúnem para formar uma sociedade, deixam de ser servas de Deus? Cada uma das partes é serva, mas o conjunto das partes não é servo. Isso só pode ser a afirmação de um louco desprovido de razão e consciência. Como se pode aceitar que, se não precisamos de Deus e de Sua orientação em nossa vida familiar, em nossas favelas e cidades, em nossas instituições de ensino, em nossos mercados, em nossos parlamentos e casas de governo, na administração, nos tribunais superiores, nos quartéis, nas delegacias, na guerra e na paz, então onde mais precisaremos d’Ele? Se Deus é tão impotente e incapaz — Deus nos livre — que não pode nos orientar em nenhum campo da vida, dizer-nos o que é benéfico e o que é prejudicial para nós, nem oferecer soluções para os problemas de nossa vida, que proveito há em reconhecer um Deus assim? Mas, se Ele é verdadeiramente competente para tudo isso e nos deu um código de vida, então rejeitá-lo significa declarar rebelião contra Ele. Por isso, a tradução adequada da palavra inglesa SECULARISM não pode ser outra senão rebelião contra Deus. Na vida prática, as consequências dessa doutrina são extremamente graves. Privar qualquer setor ou aspecto da vida de Deus ou da religião faz com que ele necessariamente fique sob a influência de Satanás. Não existe algo como uma vida privada do ser humano. A vida social de uma criança começa no instante em que nasce do ventre materno. Ao seu redor, ela vê a mãe, o pai, os irmãos, os avós, os tios maternos, as tias maternas e paternas e muitos outros parentes. Depois que seus olhos do conhecimento se abrem, ela passa a estar ligada a uma sociedade, a um grupo de parentesco, a uma favela, a uma nação e a um sistema cultural, econômico e político. Numerosas relações desse tipo ligam-na a outras pessoas, e ligam outras pessoas a ela. Somente quando essas relações são corretas, belas e justas é possível o bem-estar e a prosperidade de cada ser humano e, de modo geral, de toda a humanidade. A esse respeito, somente Allah, o Altíssimo, é aquela Entidade Onisciente que estabeleceu para os seres humanos princípios e limites justos e permanentes para essas relações. Ao rejeitar a orientação e a direção de Allah, o Altíssimo, em qualquer setor ou campo da vida, e agir conforme a própria vontade e de maneira independente, não resta lugar para qualquer princípio permanente, justiça ou honestidade. Assim, depois de ser privado da orientação de Deus, o ser humano não dispõe de nada a que possa recorrer em busca de orientação, além dos desejos, das superstições, do conhecimento imperfeito e defeituoso e da experiência. As consequências disso podem ser vistas em toda sociedade governada pelo princípio da irreligião ou do puro mundanismo (SECULARISMO). Nesses lugares, novos princípios são formulados e revogados diariamente para satisfazer os desejos das paixões. É evidente para o mundo inteiro o quanto cada aspecto e setor das relações humanas está contaminado por injustiça, opressão, perseguição e desconfiança mútua. Em todos os assuntos humanos, há uma forte influência do egoísmo pessoal, grupal, nacional e de linhagem. Cada nação e cada país, dentro de sua própria jurisdição, elaborou princípios, leis e costumes para satisfazer seus próprios desejos, com todo o egoísmo possível. Não se importam com a reação que isso possa provocar sobre outros indivíduos, grupos e nações. Portanto, pode-se afirmar sem hesitação que a consequência do secularismo, isto é, da rebelião contra Deus ou do mundanismo, é simplesmente que qualquer pessoa que adote esse sistema de conduta segundo essa doutrina se tornará desenfreada, irresponsável e escrava de suas paixões, seja ela um indivíduo, um grupo, um país, uma nação ou o conjunto das nações.
Da discussão acima, ficou claro que o secularismo nasceu na Europa durante o período de decadência extrema do judaísmo e do cristianismo e que expulsou Deus e a religião de todas as áreas da vida humana, permitindo que a religião fosse praticada apenas no âmbito extremamente estreito da vida pessoal. Em suma, o secularismo consiste em decidir todas as questões da vida humana ignorando a soberania e a orientação de Deus, e adotar como objetivo da vida a vida terrena e seu sucesso, em vez do sucesso na Outra Vida (a vida após a morte). Com esse significado e essa interpretação, o “secularismo” estendeu seus tentáculos sobre o mundo inteiro como um polvo. Embora ainda hoje o número de pessoas que acreditam em Deus e na religião seja maior no mundo, essa religiosidade está limitada ao âmbito extremamente estreito da vida pessoal, separada da sociedade; e, mesmo dentro desse âmbito, a maioria dos que se apresentam como crentes na religião não é devotada à religiosidade. Influenciados pelo ambiente externo, estão gradualmente perdendo a confiança na religião e em Deus. Na Europa e na América, vê-se que igrejas e sinagogas estão sendo abandonadas. A juventude judaico-cristã está inclinando-se para o ateísmo. Fora do âmbito extremamente estreito da vida pessoal, o domínio e a autoridade do “secularismo” prevalecem sobre toda a vida, em vez de Deus; em outras palavras, sobre todo o mundo humano reina o “secularismo”, e não a religião. Entre as outras doutrinas que nasceram dele, como o fascismo, o socialismo, o nazismo, o comunismo, o nacionalismo e outras já mencionadas anteriormente, existe como valor universal o fato de que todas estão fundamentadas nos desejos humanos, e não na satisfação de Allah, o Altíssimo. Todas essas doutrinas e sistemas não foram adotados com base na orientação de Allah, o Altíssimo; são, antes, frutos de pensamentos e visões de mundo rebeldes contra Deus. Portanto, pode-se afirmar sem hesitação que o outro nome da irreligião e da rebelião contra Deus é “secularismo”.
O “secularismo” é chamado de arma mortífera da jahiliyyah contra o Islã porque até a nação muçulmana, que crê no Tawhid, na Risalat e na Akhirat, aceitou sem hesitação o “secularismo” como ideologia determinante de sua vida social e estatal. A origem dessa ideologia está na revolta dos pensadores modernos e dos cientistas contra o governo arbitrário e as superstições estabelecidos em nome da religião pelos eruditos religiosos cristãos. A Torá e o Injil (a Bíblia) foram tão distorcidos e alterados que neles só se pode encontrar uma parcela ínfima da mensagem original revelada por Deus. Além disso, a Bíblia não estabeleceu princípios para a política, a economia, o judiciário, a guerra, a paz e outras questões semelhantes. Consequentemente, não era possível adotar princípios equilibrados e justos na administração dos países nem em todas as atividades políticas e econômicas. Os eruditos religiosos, isto é, os sacerdotes, mantiveram, em seu próprio interesse, um governo irreligioso e opressivo em nome da religião, e, como reação a isso, nasceu o “secularismo”. Mas a situação dos muçulmanos é completamente diferente. O Alcorão e a Sunnah estavam e ainda estão diante deles. Diante deles também se encontra o exemplo sem precedentes de um Estado islâmico de bem-estar que existiu intacto durante quase meio século. Apesar disso, rejeitar a soberania de Allah — isto é, Seu senhorio e autoridade em todos os aspectos da vida — e submeter-se às ideologias e leis criadas pelo homem deve ser considerado uma grande realização da jahiliyyah.
É verdade, porém, que, depois de serem afastados do poder político por causa de sua decadência moral, os muçulmanos, ao viverem uma vida de escravidão, foram influenciados pelo pensamento, pela visão de mundo e pelos valores de vida das potências vitoriosas. Por fim, tornaram-se escravos mentais dessas potências a tal ponto que passaram a pensar em tudo com a mente delas e a enxergar tudo com os olhos delas.
O secularismo sob o domínio colonial europeu
Na região oriental do subcontinente, isto é, em Bengala, Bihar e Orissa, o domínio colonial da nação inglesa teve início em 1757. Por meio de astúcia, fraude, suborno e traição, Sirajuddaula, governante independente de Bengala, Bihar e Orissa, foi derrotado e morto sem sequer haver guerra; assim, o domínio inglês foi estabelecido nessa região e, no século seguinte, em todo o subcontinente. Antes do domínio inglês, o governo muçulmano vigorara em todo o subcontinente durante várias centenas de anos. É importante mencionar que, durante o governo muçulmano, a lei islâmica vigorava em todo o país e a justiça plena estava estabelecida entre todas as nações e seguidores de todas as religiões. Depois de destituírem os muçulmanos do poder, os ingleses assumiram o governo e, em seguida, aboliram a lei islâmica vigente no país, substituindo-a por leis criadas pelo homem.
O governo muçulmano chegou ao fim devido à extrema decadência moral, ao luxo e à irresponsabilidade dos governantes muçulmanos. Contudo, os muçulmanos não puderam aceitar o governo de estrangeiros e infiéis por duas razões. Primeiro: tendo sido a nação governante, tiveram de suportar as correntes da subjugação, isto é, da escravidão, algo absolutamente vergonhoso e insuportável para eles. Segundo: em lugar da lei islâmica, foi-lhes imposta uma lei secular, irreligiosa e criada pelo homem. Isso era contrário à sua fé e à sua crença.
Segundo a crença fundamental do Islã, Allah não é apenas o Criador do universo, incluindo a humanidade; Ele é também o provedor, sustentador, Senhor, Rei e Legislador de todos os seres vivos. Na surata “An-Nas” do Alcorão, Allah é chamado de Rei da humanidade, e é ordenado que se busque refúgio Nele. Allah é o Rei da humanidade, e os seres humanos são Seus súditos. Da parte do rei, devem necessariamente ser estabelecidas para os súditos as leis e normas necessárias, que eles têm a obrigação de cumprir. Caso contrário, devem certamente ser passíveis de punição pelo crime de violar a lei.
Para os muçulmanos deste subcontinente, tornou-se evidente a questão: como se pode aceitar a lei criada pelo homem em lugar da lei de Allah? Aqueles que revogam o governo da lei de Allah e querem fazer prevalecer na sociedade humana suas próprias leis são forças usurpadoras que reivindicam a divindade; na linguagem do Alcorão, são chamados de “taghut”. É somente rejeitando o comando, o governo, o senhorio e a autoridade do taghut que se deve crer em Allah. Ao mesmo tempo, obedecer simultaneamente a Allah e ao taghut é irracional e contrário à crença fundamental do Islã. É verdade, naturalmente, que durante os quase duzentos anos de seu domínio neste subcontinente o governo britânico não impediu os muçulmanos de praticar suas atividades religiosas, como a oração, o jejum, o hajj e o zakat. Sua posição era que cada pessoa desfrutaria de plena liberdade para praticar sua própria religião. Contudo, a religião não teria qualquer autoridade normativa sobre as leis e normas do país, o sistema judiciário, a política, a economia, a civilização, a cultura, a educação e o ensino. Na terminologia moderna, isso é chamado de “secularismo”. Com isso, a lei de Allah e Seu senhorio e autoridade são completamente negados em todos os aspectos da vida fora da vida individual. Como se pode chamar isso, senão de extrema rebeldia contra Allah?
Os muçulmanos não puderam aceitar essa ideologia e esse sistema social contrários ao Islã; por isso, Sayyid Ahmad Shahid Barelvi (r.) iniciou, em sentido verdadeiro, um movimento islâmico chamado “Tahrik-i Mujahideen”. Milhares de muçulmanos de todas as regiões do subcontinente aderiram espontaneamente a esse movimento. Depois, travaram uma luta armada pelo caminho de Allah e estabeleceram também um Estado islâmico genuíno. Embora, por várias razões, ele não tenha podido perdurar, os verdadeiros servos de Allah cumpriram seu dever de fé ao derrubar o governo da lei do taghut e estabelecer, ainda que por pouco tempo, o governo da lei de Allah.
Deve-se considerar uma grande façanha da Jahiliyyah, isto é, de Satanás, o fato de ele ter conseguido influenciar e incitar, de modo geral, a nação muçulmana em favor desta filosofia que se rebela contra Deus (secularismo). Aqueles que não acreditam na existência de Deus, ou aqueles que acreditam na existência de três deuses ou de muitos deuses, não têm dificuldade em aceitar essa filosofia. Nas religiões que não são o Islã, não foi anunciado, em nome da religião, nenhum sistema de vida. Além de algumas formas de adoração e cerimônias religiosas, não foram dadas orientações sobre os diversos aspectos e áreas da vida. Nem mesmo no livro celestial, o Evangelho, se encontra algo sobre a organização social e estatal. No último Livro Divino de Allah, o Alcorão, foi estabelecido um código completo para toda a vida humana. Em qualquer área da vida, sempre que for necessário julgar e decidir alguma questão, isso deverá ser feito de acordo com as leis e normas reveladas por Allah. Aqueles que não o fazem são chamados claramente de ‘kafir’, ‘injustos’ e ‘fásicos’. Contudo, pessoas e grupos conhecidos como muçulmanos continuam violando, sem hesitação, essa instrução explícita. Qual outra razão poderia haver, senão o fato de que esses muçulmanos desafortunados vivem uma vida de escravidão política sob o domínio de forças contrárias ao Islã e aceitaram a educação por elas instituída? Isso não é senão sua extrema inferioridade e escravidão mental.
É profundamente lamentável que, entre os países do mundo muçulmano, a Turquia tenha sido a primeira a adotar o secularismo como fundamento da reconstrução da sociedade, do Estado e da civilização e cultura. O arquiteto desse Estado e sistema social que se rebelavam contra Deus foi Mustafa Kemal Pasha.
Kemal Pasha nasceu em 1881, numa cabana em ruínas de Salonica. Seu pai, Ali Riza, trabalhava como escriturário num escritório do governo. Incapaz de suportar a opressão da pobreza, deixou o emprego e iniciou um negócio na esperança de mudar sua sorte. Mas não conseguiu prosperar nos negócios. Pelo contrário, enfrentou uma pobreza cada vez maior. Por fim, a extrema frustração com a vida levou-o à dependência de drogas, e ele morreu de tuberculose. Sua esposa, isto é, a mãe de Mustafa Kemal, era uma muçulmana extremamente temente a Deus e usava o véu. Ela queria transformar o filho num erudito religioso. Desde a infância, porém, Kemal tinha um caráter indisciplinado e turbulento. Era de sua natureza humilhar e insultar publicamente os professores. Por isso, não conseguiu estudar na escola. Mais tarde, seu tio matriculou-o numa escola militar. Assim, surgiu-lhe a oportunidade de ingressar nas forças armadas.
Desde a infância, Kemal Pasha era completamente avesso ao Islã e aos ritos e cerimônias islâmicos. Nessas questões, ele não apenas rejeitava os conselhos e exortações de sua mãe, como também a tratava com extrema rudeza. Sua descrença em Deus, na revelação, na profecia, na vida futura e em outros princípios semelhantes começou a criar raízes, e, na idade adulta, ele se apresentou como ateu.
A Primeira Guerra Mundial
Na Primeira Guerra Mundial, a Turquia, o ‘Homem Doente da Europa’ (The Sick Man of Europe), lutou ao lado da Alemanha contra os ingleses. Até então, o Império Otomano da Turquia era considerado o guardião do Califado. Com o objetivo de desferir um golpe decisivo no adversário e despedaçar a unidade muçulmana, os ingleses enviaram ‘Lawrence da Arábia’ aos países árabes como propagandista do nacionalismo árabe. O então governante de Meca, Sharif Hussein Hashemi, ficou tão influenciado pela propaganda desse nacionalismo que, em meados de 1915, pegou em armas contra os próprios muçulmanos em nome da independência nacional dos árabes, apunhalando a Turquia pelas costas. Na Primeira Guerra Mundial, os ingleses, isto é, as Forças Aliadas (Allied Force), saíram vitoriosos. Já no início da guerra, haviam dividido o Império Otomano entre si por meio de um acordo secreto. Em 1919, após o fim da guerra, o Império Turco foi despedaçado. Sua parte europeia foi-lhe tomada. Embora os países árabes tenham se separado do Império Turco devido ao veneno do nacionalismo árabe, foram distribuídos entre a Inglaterra, a França e a Grécia. Por fim, o Império Otomano ficou reduzido à antiga Anatólia (Istambul). Em maio de 1919, na capital otomana, restava apenas a existência nominal de um sultão. Mas mesmo ali sua independência estava ameaçada.
Enquanto isso, os líderes muçulmanos da Índia britânica, isto é, do subcontinente, haviam criado entre os muçulmanos a convicção de que o Califa dos Muçulmanos e o sistema do Califado eram partes integrantes de sua verdadeira fé. Depois, diante da queda e da fragmentação do Império Otomano, surgiu entre os muçulmanos do subcontinente a suspeita de que os britânicos talvez destruíssem o próprio centro do Califado, que os muçulmanos consideravam seu centro religioso e espiritual.
Em seguida, os líderes muçulmanos encontraram-se com o vice-rei da Índia e expressaram sua posição. O encontro não foi satisfatório. Depois, uma delegação liderada por líderes como Maulana Muhammad Ali Jauhar e Maulana Sayyid Sulayman Nadwi encontrou-se, em Londres, com as autoridades britânicas e apresentou-lhes suas reivindicações. Em resposta, disseram-lhes que, exceto os territórios da própria Turquia, as demais áreas não lhes poderiam ser entregues.
Diante desse comportamento tão hostil aos muçulmanos por parte do governo britânico, os muçulmanos do subcontinente ficaram extremamente indignados e, para preservar a existência do Califado, teve início na Índia um poderoso movimento pelo Califado. Em 10 de agosto daquele ano (1919), o Dia do Califado foi celebrado em todo o subcontinente. A partir desse período, greves passaram a ser realizadas em vários lugares. Em suma, teve início no subcontinente uma poderosa explosão contra os britânicos. Em um mês, cerca de vinte mil muçulmanos apresentaram-se voluntariamente para serem presos. Esse movimento continuou até 1922. Mas, para grande pesar, um movimento tão grandioso e toda a explosão de protestos contra os britânicos acabaram fracassando.
Isso ocorreu porque Mustafa Kemal Paxá aproveitou-se do espírito jihadista dos muçulmanos turcos e conduziu a guerra com extraordinária bravura e discernimento, recuperando dos ingleses muitas áreas. Ele uniu os turcos e conseguiu restaurar sua dignidade e sua glória perdidas. Depois de se tornar detentor de poder absoluto, em novembro de 1922, Kemal Paxá depôs o sultão Muhammad Hashim do Califado Otomano e, em março de 1924, expulsou do país o último sultão, Abdülmecid, um mero fantoche, abolindo o Califado.
Logo após assumir o poder, Kemal Paxá declarou que apagaria todos os vestígios do Islã da vida do povo turco. Somente depois de eliminar a autoridade do Islã os turcos poderiam progredir e transformar-se numa nação moderna e respeitada. Assim, passou a proferir publicamente, uma após outra, discursos contra o Islã e todos os seus aspectos.
Em 3 de março de 1924, ele apresentou ao Conselho um projeto de lei para estabelecer uma nação turca completamente “secular”. Declarou que a religião e o Estado deveriam ser separados. A República Turca deveria ser verdadeiramente transformada em um Estado secular.
Ele declarou que a oposição ao projeto de lei constituía um crime gravíssimo e advertiu a todos sobre suas terríveis consequências. Posteriormente, o projeto foi aprovado sem qualquer debate.
O significado implícito da palavra “secularismo”, isto é, a irreligiosidade ou a rebeldia contra Deus, ficou comprovado pelas atividades do Estado. À imitação da civilização materialista e ocidental sem Deus, o consumo de alimentos e bebidas, as roupas e o vestuário, os modos de comportamento, as danças e músicas obscenas, o consumo de álcool e outras culturas contrárias ao Islã foram declarados símbolos nacionais da Turquia. O ensino islâmico foi eliminado das instituições educacionais islâmicas. Como resultado, numerosas madrassas e maktabs foram destruídas. O antigo alfabeto da língua própria da Turquia foi substituído, e o alfabeto romano foi introduzido. A chamada à oração em árabe foi proibida. Subitamente, apenas pelo poder da autoridade, uma nação muçulmana foi transformada em uma nação afastada do Islã.
Algum tempo depois, uma delegação turca chegou a Délhi. Seus membros orgulhavam-se de se identificar repetidamente como uma nação europeia. Os muçulmanos de Délhi os convidaram para realizar a oração de sexta-feira na Grande Mesquita de Délhi. Mas eles recusaram o convite. Também recusaram o convite da Universidade Muçulmana de Aligarh. No entanto, embora não houvesse qualquer programa previamente estabelecido, visitaram com alegria a Universidade Hindu de Banaras. Em outras palavras, não estavam dispostos a identificar-se como muçulmanos. Este é o resultado prático do secularismo.
Os porta-bandeiras do secularismo dizem que o secularismo não é contrário à religião. Porém, consideram que a religião deve ser separada do Estado. Isso não passa de uma fraude enganosa. O arquiteto do secularismo turco não tinha qualquer crença na religião, e seu desejo era eliminar o Islã. Ele dizia que o Islã era um objeto morto difundido por um árabe sem princípios teológicos. Não há dúvida de que, com isso, ele se referia ao Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele).
Ele também disse que talvez isso fosse adequado às tribos do deserto. Para o atual Estado moderno e progressista, isso não tem grande valor. A revelação de Deus? Não existe Deus algum! Isso são correntes com as quais os mulás e os governantes corruptos obrigam o povo a permanecer de cabeça baixa.
Aquele que não crê em Deus e na religião também possui um caráter desse tipo. Torna-se extremamente autocrático, cruel, sem caráter e vaidoso. Kemal Paxá também tinha esse caráter. Ele se casou com uma bela mulher instruída chamada Latifa. Incentivou essa mulher a vestir roupas masculinas e a exigir igualdade absoluta para as mulheres. Porém, quando ela, dotada de respeito próprio, exigiu ser tratada como uma esposa honrada, Kemal, enfurecido, divorciou-se dela. Depois do divórcio, sua falta de pudor ultrapassou todos os limites. Começou a beber tanto que se tornou um alcoólatra desenfreado e quase sempre ficava embriagado. Rapazes jovens e bonitos passaram a ser o alvo de seus desejos sexuais. Seu comportamento para com as esposas e filhas de seus apoiadores políticos tornou-se tão indecente que eles procuravam manter suas mulheres o mais distante possível dele. Sua saúde foi destruída por doenças venéreas.
Ele não confiava em ninguém. Não dava ouvidos a nenhuma opinião que se opusesse à sua. Avaliava todas as ações pelo critério de seu próprio interesse.
Nenhum governante autocrático consegue de modo algum tolerar seu rival. Kemal Paxá também não deixou escapar nenhuma oportunidade de eliminar seus adversários políticos. Foi criado um tribunal autocrático para julgá-los. Foram condenados à morte sem qualquer procedimento judicial ou prova.
O povo turco não conseguiu aceitar a campanha de reformas ant islâmicas de Kemal. Seus protestos começaram a ganhar força. Em 1926, as tribos curdas das regiões montanhosas declararam abertamente uma rebelião contra a administração de Kemal. Kemal Paxá iniciou uma opressão bárbara no Curdistão turco. Queimou aldeia após aldeia. Destruiu os animais domésticos e as plantações. Mulheres e crianças foram estupradas e assassinadas em massa. Muitos líderes curdos foram enforcados publicamente. Em meio a gritos, lamentos e prantos fúnebres, Kemal consolidou seu governo autocrático e secular, contrário ao Islã.
Mas não foi possível eliminar o Islã da Turquia. A queda do kemalismo começou, e começou também o renascimento do Islã: entre a juventude, nas instituições de ensino e nos quartéis. O kemalismo, arma da jahiliyyah, agora está em decadência. Já não possui força para impedir o renascimento do Islã.
A influência e o prestígio da filosofia de vida elaborada com base no “secularismo”, dos critérios estabelecidos para o certo e o errado, o bom e o mau, o lucro e a perda, a vitória e a derrota, o pecado e a virtude, e do palácio da civilização e da cultura erguido sobre esses fundamentos, espalharam-se gradualmente por todo o mundo. Por meio do progresso científico e tecnológico, essa nova civilização criou nas pessoas uma sensação de deslumbramento e atração. As novas ideias de pensadores eruditos como Francis Bacon, Voltaire, Darwin, Hegel, Karl Marx e Freud transformaram essa civilização e cultura em porta-estandarte do ateísmo e do materialismo. Os países muçulmanos, um após outro, curvaram a cabeça diante dessa civilização e cultura e de sua dominação política. A vida de servidão provocou neles uma transformação mental. Perderam a crença na aqidah islâmica, os padrões de caráter e a coragem indomável, o enorme ânimo e o heroísmo decorrentes da fé no tawhid. Sob o domínio da civilização vitoriosa, o sistema educacional secular, isto é, sem Deus, tornou-os completamente afastados de Deus. Continuaram muçulmanos apenas de nome, mas nenhum sentimento de prestação de contas diante de Deus na آخرت permaneceu em seus corações.
Mas a situação de toda a sociedade muçulmana não era igual. Entre o povo, a maioria era formada por pessoas que, embora tivessem sofrido alguma deformação, ainda possuíam consciência islâmica e força vital. Contudo, não estavam unidas, e havia também grande escassez de pessoas capazes de liderá-las pelo caminho correto. Os ulemás fizeram o possível para manter o Islã vivo: por iniciativa própria, mantiveram madrasas-maktabs e darul ulums para o ensino islâmico e preservaram o estudo do conhecimento do Alcorão e do hadith. Em vários lugares também foram estabelecidas khanqahs para o ensino do conhecimento do tasawwuf. Mas não conseguiram impedir o avanço da jahiliyyah. A jahiliyyah estabeleceu sua autoridade e dominação total em todos os âmbitos da vida humana: das instituições de ensino à administração pública e aos tribunais; dos diversos meios de comunicação às relações e aos contatos internacionais; na alimentação, no lazer, nos esportes, nas diversões e na hospitalidade; nos casamentos, nas diversas cerimônias e festividades. Os governos taghuti continuaram, por meio do sistema educacional que haviam introduzido, a formar pessoas que os ajudariam na administração e às quais, quando chegasse o momento, seria confiado o governo do país. Essas pessoas, privadas do conhecimento e do caráter islâmicos, continuaram a imitá-los cegamente para agradar seus senhores ocidentais. Tinham expulsado o Islã de seus corações, pois acreditavam que o Islã era um grande obstáculo ao progresso e ao desenvolvimento da nação muçulmana.
Certa vez, o governo britânico transmitiu boas-novas a esses deformados e desviados, filhos da civilização e cultura ocidentais. Lord Cromer, em sua obra “History of Modern Egypt”, afirmou, como porta-voz do governo britânico:
A Inglaterra está disposta a conceder, no devido tempo, liberdade política a todas as suas possessões coloniais assim que uma geração de intelectuais e políticos, imbuída, por meio da educação inglesa, de nossos ideais e cultura, estiver pronta para assumir o poder. Mas não toleraremos, nem por um único instante, o estabelecimento de um Estado islâmico independente em qualquer lugar do mundo.
Ou seja, a Inglaterra está preparada para conceder independência política plena aos países sob seu domínio colonial assim que uma geração de políticos e intelectuais, inspirada, por meio da educação inglesa, por nossos ideais e cultura, estiver pronta para assumir o poder. Mas não toleraremos, nem por um instante sequer, qualquer Estado islâmico independente em qualquer lugar do mundo.
Lord Cromer não expressou apenas o que estava no coração dos governantes britânicos; essa era também a convicção de todas as potências imperialistas da Europa. Vemos que, quando os movimentos de independência começaram nos países muçulmanos após a Segunda Guerra Mundial, as populações muçulmanas, inspiradas pelo espírito da jihad islâmica, lançaram-se à luta pela independência. Mas, em toda parte, observou-se a mesma cena. Após a conquista da independência, um círculo específico — seguidores cegos da civilização ocidental — tomou o poder e, destruindo as esperanças e aspirações dos muçulmanos, estabeleceu um regime taghuti em vez do governo islâmico. Assim, a jahiliyyah saiu vitoriosa. A mesma situação podia ser observada em quase todos os países muçulmanos recém-independentes.
O movimento de independência começou neste subcontinente logo após a Primeira Guerra Mundial. Na década de 1930, esse movimento ganhou força. Embora hindus e muçulmanos, duas nações distintas, tenham vivido lado a lado neste subcontinente durante vários séculos, preservaram intactas suas respectivas identidades e particularidades nacionais. Os hindus constituíam a nação majoritária daqui. Eles apresentaram a reivindicação de uma nacionalidade geográfica, afirmando: neste país, todos, independentemente de nação ou religião, formam uma única nação; não existe aqui nenhuma nação distinta chamada “muçulmana”. Essa reivindicação era ridícula, irrealista e contrária à verdade.
Em nome dos cem milhões de muçulmanos do subcontinente, a reivindicação dos hindus foi rejeitada, e declarou-se: os muçulmanos constituem uma nação completamente distinta, fundamentada em suas crenças religiosas. Muçulmanos e não muçulmanos nunca foram uma única nação, nem poderão vir a sê-lo.
A reivindicação da instituição política dos hindus, o Congresso Nacional Indiano, era estabelecer aqui um Estado secular com base em uma única nacionalidade.
A reivindicação dos muçulmanos era a seguinte: como os muçulmanos constituem uma nação distinta e, conforme exigem sua fé e sua aqidah, deve ser estabelecido o governo pleno do Islã, isto é, do Alcorão, é absolutamente necessário que os muçulmanos tenham uma pátria separada para esse governo islâmico. Seria criado um Estado distinto para os muçulmanos, formado pelas regiões de maioria muçulmana do subcontinente, e seu nome seria Paquistão.
Após quase oito anos de intenso movimento e luta, em 14 de agosto de 1947 nasceu um Estado separado para os muçulmanos, chamado Paquistão. Milhões de pessoas do subcontinente deram suas vidas sem hesitação pela criação do Paquistão e pela implantação do governo islâmico ali. A terra ficou tingida com o sangue fresco de milhões de mulheres e crianças; depois de 14 de agosto, milhões de pessoas atravessaram um mar de sangue e pisaram no solo do recém-nascido Paquistão.
Todos estavam cheios de esperança: o tão desejado Estado islâmico, esperado durante tanto tempo, estava prestes a ser estabelecido. Todas as injustiças, opressões, gritos e lamentos seriam reparados. Uma sociedade de verdade plena e justiça seria estabelecida. Os muros da desigualdade e da divisão entre as pessoas seriam destruídos; o saque, a exploração e a privação chegariam ao fim. Sob as leis do Alcorão e da Sunna, uma nova sociedade paradisíaca seria construída na Terra.
Mas aconteceu o oposto. As palavras de Lord Cromer e de seus semelhantes se refletiram literalmente. Para começar, ninguém havia sido preparado para governar um Estado islâmico, nem havia qualquer plano para isso. Muitos alimentavam a grave concepção equivocada de que, para governar um Estado islâmico, bastava ser muçulmano. Nenhuma outra qualidade seria necessária. Essa maneira de pensar provou-se completamente errada.
A razão é que o sistema educacional introduzido pelos britânicos no subcontinente empurrou os muçulmanos numa direção completamente oposta aos mandamentos eternos do Islã. A espinha dorsal moral de um povo cuja política educacional consiste em deixar-se levar pela correnteza jamais pode ser forte. O Islã nos ensina precisamente que, qualquer que seja a direção e o rumo da correnteza, devemos sempre seguir com firmeza apenas o caminho determinado por Allah. Mesmo tendo conquistado a autoridade de um Estado independente, os líderes formados sob um sistema educacional secular ou irreligioso não podem, de modo algum, governá-lo de acordo com os ideais do Islã. Isso porque não foi criado nenhum sistema para formar as pessoas dotadas da mentalidade e da força de caráter necessárias à administração, num Estado islâmico, da polícia, dos tribunais, das forças armadas, dos departamentos administrativos e educacionais, da economia e da política externa. É verdade que o tipo de educação oferecido pelo sistema educacional vigente podia fornecer, para um Estado não islâmico ou taghuti, responsáveis em todos os níveis, desde o chefe de Estado. Mas não pode formar sequer um servente para um Estado islâmico, nem um simples soldado do departamento de polícia islâmica.
É lamentável que houvesse no subcontinente inúmeras madraças, dar ul ulum e instituições semelhantes. Contudo, na era moderna, o antigo sistema educacional das madraças não conseguiu formar sequer uma pessoa do tipo necessário para um Estado islâmico: juízes, secretários de diversos departamentos e embaixadores. Assim, ficou provado quão equivocada era a concepção daqueles que pensavam que o simples fato de o poder estatal passar às mãos de pessoas chamadas “muçulmanas” bastaria para estabelecer um Estado islâmico.
Nas escolas, colégios e universidades do subcontinente, ninguém foi formado com o objetivo de administrar um governo islâmico, e as madraças e dar ul ulum também não fizeram isso. Consequentemente, a responsabilidade de governar o país caiu nas mãos das pessoas formadas pelos senhores Cromer. Com todas as suas forças, elas bloquearam todos os caminhos para a chegada do Islã ao Paquistão, criado em nome do Islã.
O senhor Altaf Gauhar apresentou um excelente relato de como, depois da criação do Paquistão, o governo do país passou às mãos de pessoas locais, nominalmente muçulmanas, formadas pelos ingleses. Ele ingressou no serviço público ainda durante o domínio britânico e, posteriormente, ocupou cargos extremamente importantes no governo do Paquistão até a década de 1960. Ele diz:
Os britânicos ensinaram à nossa classe governante a proteger os interesses coloniais e a administrar instituições de um tipo específico. Os governantes locais (burocratas) haviam se convencido de que a própria existência estava ligada à existência das instituições dos governantes anteriores. A independência os elevou da condição de detentores de uma predominância indireta à posição de governantes diretos. Na opinião deles, não poderia haver sistema melhor para proteger os interesses do país do que as antigas instituições e o antigo sistema (o método britânico de governo).
Altaf Gohar também diz: naquela época, os próprios ingleses eram os juízes e magistrados de nossos tribunais. Vejam a paixão pela imitação cega de nossos novos governantes: embora não houvesse ocasião para casamentos e funerais nas famílias daqueles juízes, eles seguiam cegamente os costumes e métodos deles e dos anglo-saxões (Anglo-saxsons). Do mesmo modo, não estavam dispostos a afastar-se nem um centímetro do sistema administrativo e do sistema econômico estabelecidos pelos britânicos.
O povo sacrificou de bom grado tudo o que possuía para conquistar o Paquistão, a fim de implementar, em sua própria pátria, sua crença e seu modo de vida. Mas ficou revoltado, profundamente ferido e desesperado. Seu ânimo desmoronou completamente quando viu que o Paquistão havia se tornado apenas outro nome para a continuidade do domínio inglês.
Ouvimos da boca de Lord Cromer que os britânicos, isto é, a jahiliyyah, não tolerariam nem por um instante um Estado islâmico independente em qualquer lugar do mundo. Todas as forças anti-islâmicas do mundo são contrárias ao governo islâmico, e aqueles que chegaram ao poder no novo Paquistão também eram contrários ao governo islâmico. Entretanto, o povo do país e os ulemás continuaram a lutar pela elaboração de uma constituição islâmica e pelo estabelecimento do governo islâmico. A liderança desse movimento foi assumida pela Jamaat-e Islami do Paquistão, fundada pelo Maulana Sayyid Abul A’la Maududi. Essa organização foi formada em 1941. Naquela época, a dança devastadora da Segunda Guerra Mundial estava em curso por toda a Ásia e a Europa. No subcontinente, de um lado, o Congresso Nacional Indiano promovia um movimento para tomar o poder dos britânicos, com o objetivo de formar um Estado secular baseado na ideia de uma única nação; de outro, os muçulmanos lutavam para identificar uma pátria separada para si e estabelecer nela o governo divino, ou um Estado islâmico. Em tal momento, muitos se perguntavam qual era a necessidade de formar uma organização chamada Jamaat-e Islami. Para obter a resposta correta a essa pergunta, é necessário compreender corretamente o movimento pelo Paquistão, que estava em curso para estabelecer o governo divino, ou um Estado islâmico.
Toda a estrutura do governo divino, isto é, do Estado islâmico, está estabelecida sobre a base da soberania e autoridade de Allah, o Altíssimo. O Criador, Senhor, Rei e Legislador do universo é unicamente Allah, o Altíssimo. Essa é a concepção fundamental da política islâmica. Nenhum indivíduo, família, grupo ou nação tem o direito de exercer domínio ou governar os seres humanos. Como toda a criação pertence a Allah, somente Ele tem o direito de ordenar e governá-la. E o ser humano atuará como Seu khalifa ou representante. O ser humano deve lembrar sempre que a responsabilidade do califado ou representação de Allah que lhe foi confiada não lhe foi dada para que se torne senhor dos demais seres humanos, faça deles seus escravos submissos, assuma a condição de senhor deles e satisfaça suas cobiças e inclinações bestiais. Pelo contrário, a responsabilidade do califado lhe foi confiada, na realidade, para que todos, juntos, apliquem a lei de Allah sobre os servos de Allah. Eles próprios também deverão obedecer plenamente a essa lei. E deverá permanecer sempre viva neles a convicção de que, se demonstrarem qualquer negligência ou falha ao aplicar a lei de Allah sobre os outros, ou cometerem mesmo um pouco de egoísmo, arbitrariedade, ódio e hostilidade, parcialidade ou traição, certamente serão punidos no Além perante o tribunal de Allah, ainda que nenhum julgamento lhes seja feito nesta vida terrena.
O sistema de governo estabelecido com base nos ideais, crenças e pensamentos acima é chamado de Estado islâmico, e cada um de seus departamentos, desde a base até os ramos e ramificações, é completamente diferente do Estado secular (Secular State). Não pode ser comparado a nenhum outro sistema de governo. Seu exército, sua polícia, seus tribunais, sua política, sua economia, suas políticas e atividades relacionadas à guerra e à paz, entre outras coisas, são completamente diferentes das de um Estado secular. A pessoa mais responsável de um Estado secular sequer pode ser considerada digna de ocupar o mais insignificante cargo em um Estado islâmico. Para cada departamento e cargo do Estado islâmico, são necessárias pessoas altruístas, que não tenham qualquer cobiça por riquezas nem desejo de luxo e prazeres. Elas serão extremamente leais e dignas de confiança. Executarão cada tarefa com pleno senso de responsabilidade. Mesmo tendo acesso a imensos tesouros, não se apropriarão indevidamente de sequer uma moeda. Permanecerá sempre viva em seu coração a consciência de que terão de prestar contas diante de Allah na Outra Vida, para saber se cumpriram suas responsabilidades correta e honestamente. Nenhum pensamento ou concepção da jahiliyyah poderá dominar sua mente.
Mas foi formada, ou existe algum plano para formar, uma força de trabalhadores desse tipo para o Estado islâmico proposto ou desejado?
Antes da formação da Jamaat-e Islami, seu fundador, Maulana Sayyid Abul A’la Maududi, apresentou um retrato da trágica situação moral e religiosa da sociedade muçulmana e disse:
“Pessoas de todos os tipos, boas e más, estão presentes nesta sociedade. Quanto ao caráter, há entre esta nação que se autodenomina muçulmana exatamente tantos tipos de pessoas quantos podem ser encontrados entre as nações não muçulmanas do mundo. No que diz respeito a dar falso testemunho no tribunal, um muçulmano não é de modo algum inferior a um não muçulmano. Os muçulmanos não cometem em nada menos que os não muçulmanos crimes como usura e suborno, furto e roubo, adultério, mentira, fraude e engano, além de todas as outras formas de delito. Para obter vantagens pessoais e ganhar dinheiro, os muçulmanos não hesitam em empregar os mesmos métodos que os kafirs. O advogado muçulmano, sabendo e compreendendo o que faz, defende em juízo algo contrário à verdade real. No momento em que um não muçulmano se esquece de Allah, um advogado muçulmano também se esquece d’Ele na mesma medida. …Se uma grande multidão de pessoas de opiniões e naturezas diversas, pertencentes a uma nação cujo estado moral é tão baixo e degradado, fosse reunida para formar um exército, ou se, por meio de educação e treinamento político, elas fossem tornadas mais astutas que raposas, ou se, sendo treinadas na arte da guerra, lhes fosse incutida a ferocidade dos tigres, talvez fosse fácil dominar o mundo das selvas. Mas, com sua ajuda, de modo algum seria possível estabelecer o governo islâmico. Pois, em tal situação, ninguém reconhecerá sua superioridade moral, nem o olhar de alguém se abaixará diante deles com respeito. Ao vê-los, ninguém sentirá no coração o espírito emotivo e a inspiração do Islã e, por todas essas razões, jamais terão a ventura de contemplar a fascinante cena de pessoas do mundo entrando em grupos, umas após as outras, nos limites do Islã.”
O Maulana acrescenta: «Como consequência de o poder do Estado ser confiado a pessoas desse tipo, mesmo depois de conquistarmos um Estado independente seremos obrigados a viver exatamente na mesma condição em que vivíamos sob o domínio de um Estado não muçulmano antes de alcançarmos a independência. Pelo contrário, poderá surgir uma situação ainda pior e mais perigosa. Pois um Estado que ostente o rótulo de “Estado islâmico” será ainda mais ousado e destemido do que um Estado não muçulmano para bloquear o caminho da revolução islâmica. Assim, pelos crimes pelos quais um Estado não muçulmano imporia uma pena de prisão, esse “Estado nacional muçulmano” imporia a pena de morte ou o exílio.»
Viu-se que essas previsões do perspicaz e previdente Maulana se refletiram no Paquistão letra por letra. Desde 1947 até hoje, ali continua ocorrendo um intenso conflito entre o Islã e a Jahiliyyah. O Islã ainda não conseguiu estabelecer-se como força vitoriosa.
Agora será muito fácil encontrar a resposta à pergunta sobre por que a Jamaat-e-Islami foi criada. Como resultado do movimento, talvez se pudesse conquistar um país chamado Paquistão. Para proteger esse país de se tornar uma segunda Turquia e para proteger os quarenta ou cinquenta milhões de muçulmanos que, inevitavelmente, permaneceriam na Índia após a divisão do país, era indispensável formar uma Jamaat-e-Islami forte e ideológica. Com esse objetivo, o grupo foi criado e, de 1941 a 1947, afastando-se de todas as outras formas de atividade, passou a treinar tranquilamente seu corpo de militantes, para que pudesse enfrentar todas as atividades contrárias ao Islã e lutar com todas as suas forças para transformar o Paquistão desejado em um verdadeiro Estado islâmico.
A história das últimas décadas do Paquistão testemunha que, desde o nascimento do país até hoje, a Jamaat-e-Islami tem lutado — e continua lutando — precisamente pelo objetivo para o qual foi criada.
Depois do nascimento do Estado do Paquistão, a Jahiliyyah começou a manifestar-se em toda a sua forma e configuração. Durante os sete anos anteriores, a Jamaat havia recebido treinamento para uma tarefa que não precisara realizar; agora, dedicou-se a essa tarefa. A Jamaat-e-Islami iniciou, com todas as suas forças, o movimento islâmico para subjugar a cabeça erguida da serpente da Jahiliyyah e impedir seu avanço. Os porta-bandeiras da Jahiliyyah estavam determinados a transformar o Paquistão em um Estado secular ou irreligioso como a Turquia; porém, sob a intensa pressão do movimento islâmico, foram obrigados, em 12 de fevereiro de 1949, a adotar a histórica Resolução de Objetivos como princípio fundamental do governo islâmico. Tiveram de fazê-lo contra a própria vontade, sob a pressão do movimento popular. Por isso, o líder do movimento islâmico, Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi, tornou-se alvo de toda a ira e hostilidade da classe governante. Por meio de uma conspiração, foram formuladas contra ele acusações infundadas; realizou-se uma farsa de julgamento perante um tribunal militar e foi-lhe imposta a pena de morte. A Jahiliyyah pensava que, se conseguisse remover da face da Terra o grande líder do Islã, ninguém mais teria capacidade de deter seu avanço. Mas a Jahiliyyah teve de ser derrotada e humilhada. A sentença de morte do Maulana não pôde ser executada. Pelo contrário, muito antes de sua morte natural, os porta-bandeiras da Jahiliyyah tiveram de morrer em extrema humilhação. Ainda assim, o conflito entre o Islã e a Jahiliyyah, assim como a alternância entre vitória e derrota, continuou e continua até hoje.
Outro quadro doloroso que emerge desse conflito entre o Islã e a Jahiliyyah é o fato de que algumas pessoas conhecidas e reconhecidas como piedosos mestres da religião, por meio de sua conduta, fortaleceram a mão da Jahiliyyah em vez da do Islã. Começaram a ser formuladas várias acusações infundadas e sem base contra o líder do movimento islâmico, enquanto a metralhadora do fatwaísmo disparava repetidamente rajadas de fatwas. Entre as inúmeras acusações, dizia-se também que o líder do movimento islâmico e seu grupo não acreditavam no conhecimento do tasawwuf. Afirmava-se que não havia neles nada chamado espiritualidade e que, além disso, lhes faltava terrivelmente taqwa. Chegou-se ao ponto de chamar o líder do movimento de desviado e pior do que judeus e qadianis. Mas nenhuma palavra contra a Jahiliyyah saiu de suas bocas.
Muitos entre a população de orientação islâmica, especialmente os muçulmanos ligados ao tasawwuf, foram confundidos pela propaganda acima mencionada e passaram a sentir aversão pelo movimento islâmico. Em vários círculos, também se desenvolveram todo tipo de conversas, discussões, conjecturas e especulações a esse respeito. Muitos sentiam que eram necessárias uma explicação e uma análise islâmica e intelectual da questão. Assim, esperava-se que a verdade viesse à luz e que toda a confusão fosse eliminada. Vejamos agora se o líder do movimento islâmico lançou alguma luz sobre esse assunto.
Tazkiyat an-nafs (tasawwuf) e espiritualidade
Um dos maiores pensadores e mujahids islâmicos do século, Sayyid Abul A‘la Maududi, após examinar minuciosamente a questão, expressou uma opinião sábia que, sem dúvida, merece atenção. Ele disse:
“Como resultado de vários séculos de decadência e distorção, muitas mudanças ocorreram entre os muçulmanos; do mesmo modo, sua concepção da tazkiyat al-nafs (purificação espiritual da alma) também se tornou bastante diferente da concepção autenticamente islâmica. Seu objetivo mudou, sua perspectiva tornou-se limitada, e os métodos da ‘tazkiyat al-nafs’ também se tornaram diferentes daqueles adotados na época do Profeta. O resultado foi que, pela bênção das grandes instituições e das cadeias de ensino e formação dos grandes sábios da religião, que existem há muitas gerações, também foram formadas pessoas de grande estatura. Contudo, ainda não surgiram pessoas com qualidades capazes de se colocar diante das grandes forças que dirigem o mundo pelo caminho da jahiliyyah, enfrentá-las numa disputa de poder e tentar estabelecer o Islã no mundo como a religião que lidera e exerce autoridade. Trata-se de uma tarefa imensa. Aqui, pelo menos, não surgiu sequer uma pessoa capaz de fazer tanto quanto impedir o avanço da jahiliyyah no âmbito sob a influência do Islã. Houve, e ainda há, grandes personalidades de caráter puríssimo. Por seu conhecimento e prática, sua probidade, sua piedade e suas vidas imaculadas, elas certamente merecem louvor. Mas, mesmo na presença dessas grandes personalidades, a jahiliyyah, com sua espada, sua escrita, seus conhecimentos, ciências e artes, e sua civilização e cultura, continuava — e ainda continua — subjugando não apenas o mundo, mas também os países e as nações muçulmanas. Naturalmente, deve haver uma razão para essa fraqueza. E, qualquer que seja essa razão, um respeito desmedido e irracional por alguém não deveria impedir sua identificação.”
Entre nós, para certo grupo, o objetivo da ‘tazkiyat al-nafs’ era alcançar, já nesta vida, a ventura de contemplar a Realidade. Ultrapassando o grau da fé no invisível, pretendia-se alcançar a dádiva da fé na testemunha. À primeira vista, esse parece um objetivo muito grandioso e santíssimo. Contudo, em nenhum lugar o Alcorão nos ensinou a considerá-lo um objetivo e a empenhar-nos nesse caminho. Pelo contrário, ainda que o consideremos nosso objetivo, o Alcorão nos garante que, nesta vida, ninguém além dos profetas poderá obter essa dádiva.
O Alcorão diz:
“Ele (Allah) possui o conhecimento do invisível. E não revela Seu invisível a ninguém, exceto ao mensageiro que escolheu (para transmitir algum conhecimento do invisível). Então, Ele envia anjos para vigiá-lo pela frente e por trás, a fim de saber que eles transmitiram as mensagens de seu Senhor.” (Surata al-Jinn, 26–28).
Disso se sabe que tentar observar as realidades ocultas por trás do véu do invisível — em outras palavras, as realidades sobrenaturais — é desnecessário e errado. Não há possibilidade de êxito. Todo o conhecimento dessas realidades de que os seres humanos necessitavam, na medida e na extensão necessárias, Allah concedeu por meio de Seus mensageiros. E é uma grande graça de Allah ter poupado assim os seres humanos do esforço dessas investigações. Agora, a tarefa do ser humano é simplesmente manter a fé no invisível com base no conhecimento transmitido pelos mensageiros e dedicar-se, de coração satisfeito, a cumprir a responsabilidade que lhe foi imposta.
O objetivo da ‘tazkiyat al-nafs’ que se costuma mencionar num nível inferior a esse é o ‘progresso espiritual’. Mas esse ‘progresso espiritual’ é tão ambíguo e misterioso que, mesmo depois de passar a vida inteira correndo atrás da luz ilusória, a pessoa não consegue saber a que grau chegou. Sua terminologia, seus estágios e seus resultados estão todos envoltos em mistério e são incompreensíveis para pessoas comuns como nós. O que podemos observar é que, entre os estágios percorridos nesse caminho, jamais aparece o estágio alcançado por Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele), Ammar (que Allah esteja satisfeito com ele) e Suhaib (que Allah esteja satisfeito com ele). Tampouco se pode esperar que algum dia apareça o estágio alcançado por Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).
Aqueles que desejam alcançar a taqwa por meio da ‘tazkiyat al-nafs’ têm um objetivo que é o mais próximo dos objetivos do Islã. Mas o perigo aqui é que, em geral, a perspectiva das pessoas sobre a taqwa permaneceu muito limitada. Para a maioria dos grandes sábios, taqwa significa moldar a vida segundo um padrão externo em questões como vestimenta, seu estilo específico, maneiras de sentar e levantar, alimentação e bebida, cujos pormenores foram expostos nos hadiths. Além disso, considera-se possível alcançar a perfeição da taqwa mediante a prática regular de certos atos específicos de uma escola jurídica e a realização de mais atos de adoração do que os hábitos tradicionais. O resultado é que aqueles que adotam essa forma e aparência externa da taqwa são chamados e considerados muttaqi. Eles também ficam tranquilos, convencidos de que produziram taqwa em si mesmos. Na realidade, porém, há neles uma grande deficiência de taqwa e, na maioria das vezes, nas diversas provas de fogo da vida prática, cometem comportamentos contrários à taqwa de tal natureza que até a dignidade dessa aparência externa da taqwa é destruída. A concepção mais elevada e abrangente encontrada entre certas pessoas, em comparação com essa concepção comum da taqwa, também não vai além de que, na vida pessoal, a pessoa seja temente a Allah, dedicada à adoração, praticante do dhikr e agradecida; que, em seus negócios e atividades, seja confiável, honesta e siga os limites estabelecidos por Allah; e que, ao mesmo tempo, siga na sociedade métodos de bondade, solidariedade, fraternidade, justiça e garantia dos direitos nas relações com as demais pessoas. Mas essa concepção limitada não oferece qualquer oportunidade para compreender os problemas sociais e coletivos mais amplos. Por isso, mesmo entre nossas pessoas muito devotas, o benefício da ‘tazkiyat al-nafs’ praticada não passa de fornecer aos governos rebeldes contra Allah súditos tementes a Allah e funcionários religiosos. Entre os súditos e funcionários fornecidos pelo próprio treinamento desses governos, há outras qualificações, mas não há fé nem honestidade. Por isso, eles também causam grandes prejuízos ao governo. Essa deficiência é suprida pelas nossas instituições de ‘tazkiyat al-nafs’. Para lutar pelo estabelecimento da supremacia das forças kufr e administrar o governo kufr, essas instituições formam pessoas sinceras e, para o governo kufr, formam súditos que raramente se tornam motivo de preocupação para ele. Assim, mesmo que entre nós alguém se dedique publicamente a estabelecer um sistema sem Deus, ainda assim permanece exatamente um muttaqi. A condição é que os pormenores da taqwa descritos acima estejam presentes em sua vida. Esse é o resultado inevitável da concepção limitada de taqwa e de tazkiyat al-nafs difundida entre todos, sem distinção entre o povo comum e a elite, nos nossos círculos religiosos.” (Tarjuman al-Qur’an, julho–agosto de 1953).
A influência do secularismo sobre a vida humana
Embora o “secularismo” pareça uma conceção doutrinária simples, ele se transformou agora numa visão abrangente da vida, que exerce uma influência de longo alcance sobre a vida humana e molda toda a existência segundo um novo padrão. Analisemos alguns de seus efeitos e repercussões fundamentais. O primeiro mal inevitável do “secularismo”, isto é, da ausência de religião, é que ele concede ao ser humano uma liberdade sem freios e extingue o sentimento de responsabilidade perante qualquer poder superior. Essa mentalidade de irresponsabilidade aplica-se igualmente ao indivíduo e à nação. Se um indivíduo ou uma nação poderosa criar opressão e injustiça na sociedade humana, tornando a vida das pessoas insuportável, que força poderá impedi-los? Alguns indivíduos e nações, embriagados pelo poder, geralmente tingem as mãos com o sangue de pessoas e nações fracas. Isso ocorre porque está arraigada em seus corações a ideia de que não terão de prestar contas a ninguém por isso. Se for necessário aceitar a existência do Deus Todo-Poderoso, que fará um exame minucioso das ações de cada indivíduo ou nação e concederá recompensa ou castigo, então o próprio fundamento da filosofia do “secularismo” desmoronará. A função do “secularismo” é justamente tornar as pessoas indiferentes a Deus e à vida futura. Portanto, o princípio fundamental dessa filosofia é: (MIGHT IS RIGHT, SURVIVAL OF THE FITTEST), isto é, quem tem força, tem o domínio. Apossar-se de algo pela força é considerado justo. Não será preciso prestar contas disso a ninguém. A questão do certo e do errado é irrelevante. E aquele que for mais forte prevalecerá, ainda que injustamente. Já o fraco, por mais que esteja firmado na justiça, não terá direito de sobreviver.
No mundo moderno, é possível ver essa própria filosofia do “secularismo” atuando em toda parte. Apesar do enorme desenvolvimento e progresso da ciência, do conhecimento e da cultura e civilização, o ser humano sem religião (SECULAR MAN) tornou-se sedento de poder e de sangue; como resultado, mantém-se acesa a chama inextinguível das guerras e conflitos entre pessoas, povos e nações, da qual o mundo ainda não conseguiu libertar-se. Tanto a Liga das Nações quanto a ONU (Organização das Nações Unidas) fracassaram completamente em pôr fim à loucura da guerra. Isso ocorre porque as nações envolvidas, especialmente as nações poderosas, estão livres do senso de responsabilidade. Elas não acreditam que terão de prestar contas perante qualquer entidade poderosa. Por isso, os gritos e lamentos dos indivíduos e nações oprimidos jamais poderão cessar do seio do mundo.
O segundo mal do “secularismo” é a escravidão dos desejos instintivos. A escravidão dos desejos instintivos, ou a adoração dos impulsos, é a base da falta de caráter e a causa fundamental de toda má ação. Os desejos e anseios insaciáveis dos impulsos conduzem o ser humano ao caminho desviado, se não houver nesse caminho uma força que lhe ofereça resistência. Então, vários tipos de inquietação e injustiça criam raízes na sociedade.
Esses desejos e anseios insaciáveis dos impulsos empurram o ser humano aos níveis mais baixos da bestialidade e, para satisfazer tais desejos, é preciso tingir as mãos com o sangue de indivíduos e nações; os céus e a terra são abalados pelos gritos de crianças, mulheres e homens. A única força que impede a satisfação dos desejos e anseios dos impulsos é o temor de Deus e o intenso sentimento de que se terá de prestar contas a Ele na vida futura. Esse temor de Deus e esse sentimento de responsabilidade assumem, a cada momento, o papel de um policial incorpóreo, impedindo o ser humano de praticar más ações. Contudo, como o “secularismo” eliminou da mente humana a crença de que Deus está “presente e vigilante” em todos os lugares e a cada instante, consciente diretamente de cada ação secreta e manifesta do ser humano, bem como o temor a Ele e o sentimento de ter de prestar contas perante Ele, não resta qualquer meio de eliminar da sociedade humana a injustiça, a corrupção, o favoritismo, o assassinato, a pilhagem e outros tipos de pecado.
É importante observar que, como resultado da implantação de um sistema educacional secular que rejeita Deus e a religião em todos os níveis da vida, especialmente desde o nível primário até os demais níveis do sistema educacional, a tendência anormal à criminalidade aumentou entre os jovens, e crimes de tal natureza estão sendo cometidos que o corpo se arrepia só de recordá-los. A sociedade humana fica aterrorizada. Ainda em idade muito precoce, moças e rapazes, jovens de ambos os sexos, habituam-se a crimes sexuais e aos assassinatos deles resultantes, a furtos, roubos, assaltos e pilhagens. Pela mesma razão, a doença da tendência a colar nas provas está assumindo entre eles proporções alarmantes. Tudo isso são consequências terríveis do secularismo.
O terceiro mal do secularismo é o egoísmo e o oportunismo. É uma verdade incontestável que o trabalho, o esforço, a diligência e a vida do ser humano devem necessariamente ter um propósito e um objetivo. Para aqueles que creem em Deus e na vida futura, o propósito da vida é obter a satisfação de Allah, e o objetivo de todos os seus esforços é o sucesso e a salvação na vida futura. Toda a sua atenção está concentrada nessas duas coisas: a satisfação de Allah e o sucesso na vida futura. Em vez dos interesses insignificantes e temporários deste mundo, dedicam-se ao grande e eterno sucesso da vida futura. Mantêm com este mundo apenas a relação que é útil para o sucesso na vida futura. Mantêm-se afastados de todo tipo de conflito e luta para obter as vantagens e os interesses deste mundo. Adotam ações para estabelecer a veracidade, a justiça, a paz e a segurança, e aceitam tudo isso como a estrada principal para alcançar o destino.
Exatamente o contrário ocorre com aqueles que não têm convicção firme em Deus e na vida futura: o objetivo de todos os seus esforços na vida é obter os interesses mesquinhos deste mundo. Como resultado, os conflitos, confrontos e guerras tornam-se inevitáveis para alcançar interesses mundanos. No mundo atual, que na realidade é um mundo secular (SECULAR WORLD), vê-se a chama dos conflitos e das guerras acesa entre pessoas, países e nações. De que outra coisa, senão do egoísmo e do oportunismo, isso seria uma manifestação? Hoje, os conflitos e confrontos intermináveis entre os chamados intelectuais que desejam obter vantagens e perseguem interesses próprios têm empurrado, e continuam a empurrar, a humanidade repetidamente para guerras terríveis e sangrentas. Quem são esses intelectuais interesseiros? São os próprios portadores e propagadores do “secularismo”.
O oportunismo também está corrompendo a política e, em alguns países, em vez de estabelecer um sistema político benéfico e estável, está criando anarquia e desordem e abrindo caminho para que os recursos nacionais caiam nas mãos de saqueadores. Está destruindo o respeito das pessoas pela lei e obstruindo o caminho para o estabelecimento do Estado de direito no país. O partido no poder está estabelecendo o oportunismo na vida nacional por meio da compra e venda de líderes e ativistas políticos em troca de dinheiro e cargos, despedaçando a espinha dorsal moral da nação. O interesse pessoal e o oportunismo são dois elementos extremamente atraentes do “secularismo”, dos quais é muito difícil manter-se afastado sem um caráter humano elevado. Somente aqueles que se esforçam para construir a própria vida com base nos ensinamentos do Islã conseguem rejeitar essas duas coisas como se fossem intocáveis.
O quarto mal do “secularismo” é a extrema decadência moral. Como os fundamentos dos valores morais existem na natureza humana, não é de modo algum difícil conhecê-los e compreendê-los. Pelo contrário, seguir efetivamente os valores morais e moldar a vida segundo seu padrão específico é certamente difícil. Esses valores exigem das pessoas, a cada passo, certas restrições e proibições. E não há nada mais difícil para o ser humano do que aceitar essas restrições e proibições. Seguir esses valores torna-se extremamente difícil quando eles entram em conflito com os desejos e ambições insaciáveis do ser humano e com aquilo que ele ama. A própria exigência dos valores morais é que se rejeitem, com aversão, os desejos e ambições dos instintos, os interesses mesquinhos e as vantagens e facilidades mundanas. Por isso, para elevar a humanidade moralmente, não basta simplesmente apresentar-lhe os valores morais. O mais necessário é, antes, um processo de ação fortemente motivador, capaz de preparar a mente humana para aceitar as restrições e proibições morais. O secularismo não satisfez essa necessidade. Pelo contrário, em vez de reduzir as exigências dos desejos e paixões instintivos, multiplicou-as muitas vezes e tornou o ser humano seu escravo. Como consequência natural e inevitável do secularismo, o vazio do senso de responsabilidade, a escravidão aos instintos e os conflitos e confrontos em busca da satisfação dos interesses e da obtenção de vantagens e facilidades trouxeram a decadência moral e espiritual do ser humano. Diante de atos desumanos como a indescritível perseguição demoníaca infligida a homens, mulheres e crianças indistintamente; anos de prisão sem julgamento — em alguns casos, durante a maior parte da vida —; massacres e estupros de mulheres; e a imposição, por meio do imperialismo e do colonialismo, das correntes da escravidão política e econômica a países e nações fracos, parece que a humanidade morreu e que, em todo o mundo, reina uma fera sob forma humana. A humanidade está sofrendo as consequências da extrema decadência que o secularismo trouxe aos campos do pensamento, da moralidade e da espiritualidade. Há apenas uma solução: eliminar o secularismo da mente, do coração e de todos os campos da vida, aceitar humildemente a lei do Misericordioso Criador do universo, concedida à humanidade, e construir toda a vida com base num intenso senso de prestação de contas na vida futura. E o fundamento dessa construção da vida deve ser o sistema nacional de educação.
Nacionalismo
Depois de discutir o “secularismo”, a primeira arma da jahiliyyah, vejamos agora, ao discutir o nacionalismo, a segunda arma, quão devastador ele é para toda a humanidade.
O nacionalismo, isto é, a adoração da nação, teve início com a explosão da reação contra o domínio tirânico mundial dos papas cristãos e dos imperadores romanos. No início, significava apenas que as diferentes nações teriam autoridade absoluta sobre a própria política e sobre seus próprios juízos e decisões. Elas não seriam usadas como peões de nenhuma força espiritual ou política universal. Mas, quando essa ideia avançou a partir de seu início aparentemente inocente, chegou a um ponto em que colocou o nacionalismo no lugar de onde o movimento da irreligião, isto é, do secularismo, havia removido Deus. Gradualmente, o maior valor moral de cada nação passou a ser seu interesse nacional, suas esperanças, aspirações e ambições nacionais. Tornou-se então uma obra virtuosa tudo aquilo que fosse benéfico para a nação — fosse mentira, traição, opressão e tirania ou qualquer outro ato — por maior que fosse considerado pecado aos olhos da antiga religião e da moralidade. E considera-se pecaminoso tudo aquilo que seja prejudicial ao interesse nacional, seja veracidade, justiça, cumprimento de direitos ou qualquer ato que outrora fosse considerado uma virtude de caráter. O critério para avaliar as qualidades, a vida e as atividades dos membros da nação passou a ser este: qualquer sacrifício que o interesse nacional lhes exigisse — fosse o sacrifício da vida e dos bens, ou o sacrifício da moralidade, da humanidade e do autorrespeito — eles não deveriam hesitar em fazê-lo e, unidos, permaneceriam determinados a satisfazer as ambições crescentes da nação. O objetivo de todo o esforço agora é que cada nação crie unidade e disciplina entre seus membros, para que possa erguer sua própria bandeira acima das demais nações.
Certamente, ninguém deveria ter qualquer objeção à nacionalidade (NATIONALITY), pois ela é uma realidade natural. Portanto, não se pode censurar o interesse pelo bem da própria nação, desde que não haja nela sentimentos de inveja, hostilidade e inimizade contra outras nações. O amor e o afeto pela própria nação jamais podem ser condenáveis, desde que esse amor e afeto não sejam causa de favoritismo injusto para com a própria nação nem de inveja e hostilidade para com as demais. A independência de cada nação também deve ser necessariamente apoiada, pois é direito de toda nação resolver por si mesma seus próprios assuntos e questões e administrar internamente seus negócios; e o domínio de uma nação sobre outra jamais pode ser justo. O que é injusto e deve ser evitado é o nacionalismo (NATIONALISM), ou seja, a adoração da nação. O nacionalismo é simplesmente outro nome para o egoísmo nacional cego. Seu princípio é que só é verdadeiro e correto aquilo que favorece o interesse nacional, e só é falso e injusto aquilo que não o favorece. Sob o impulso cego do interesse nacional, beber o sangue de outras nações, ocupar à força outros países, saquear as riquezas de outros países e povos e estabelecer o direito irrestrito de desfrutar de todos os bens e das mulheres dos países conquistados não é considerado injustiça; pelo contrário, é visto como glória nacional. Conquistar território após território para provar que a própria nação é superior e mais poderosa que as outras é uma exigência do nacionalismo. Por isso, o nacionalismo tem sido considerado uma grande maldição para a humanidade no mundo. Se, numa sociedade, é uma maldição a existência de um indivíduo que se tornou escravo de seus desejos e interesses e está disposto a fazer qualquer coisa por seus próprios interesses; se, numa comunidade, é uma maldição uma família cujos membros se tornam adoradores cegos dos interesses familiares e estão determinados a obter os interesses da família por qualquer meio, justo ou injusto; se, num país, é uma maldição uma classe que adora cegamente seus interesses de classe e, sem se importar com o bem ou o mal dos outros, empenha-se apenas em alcançar seus próprios interesses, envolvendo-se em atividades antissociais como furto, roubo, assalto, mercado negro e contrabando, por que, então, em uma esfera vasta e abrangente, não seria uma maldição aquela nação cega pelos interesses próprios cujo comportamento foi descrito acima? O fervor e a paixão dessa adoração cega da nação acenderam o fogo de muitas guerras grandes e pequenas, incluindo duas guerras mundiais, devastaram numerosas nações e países, lançaram milhões e milhões de seres humanos à morte e deixaram milhões e milhões de pessoas mutiladas e incapacitadas.
Não o nacionalismo, mas a fraternidade universal poderia ter salvado a humanidade da destruição, e foi o Islã que fez o generoso apelo à fraternidade universal. Mas, infelizmente, a nação muçulmana, que era portadora da mensagem do Islã, hoje colocou o nacionalismo no lugar de Deus. Atualmente, em todo o mundo, esse nacionalismo — nacionalismo geográfico, nacionalismo baseado na língua ou nacionalismo baseado na linhagem, na tribo e na raça — tornou-se uma grande maldição para a humanidade. O princípio do nacionalismo, isto é, da adoração da nação, é que só é verdadeiro e correto aquilo que serve aos interesses nacionais, e só é falso e injusto aquilo que não serve a esses interesses. A consciência de cada pessoa certamente testemunhará que, assim como todo egoísmo e toda adoração de si mesmo são uma grande maldição, também o egoísmo nacional e a adoração da nação são uma grande maldição. Hoje, o mundo inteiro está afligido por essa maldição.
É profundamente lamentável que os muçulmanos, entre os quais se encontram, completamente preservados e sem qualquer alteração, o Livro Sagrado de Allah e a Sunnah do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e entre os quais existe a mensagem islâmica da fraternidade universal, estejam hoje atormentados pela maldição do nacionalismo geográfico e linguístico; e isso é precisamente uma vitória, ou um mérito, da jahiliah.
Na época da antiga jahiliah, a inimizade mútua, os conflitos e os confrontos que existiam entre linhagens, entre tribos e entre regiões haviam continuado por eras e séculos. O Islã pôs fim a tudo isso, reuniu todos nos laços da fraternidade e tornou todos os grupos e comunidades um só e unificado, com base no ideal islâmico. Essa nacionalidade islâmica e essa fraternidade universal criaram uma história gloriosa para os muçulmanos e fizeram tremular a bandeira vitoriosa do Islã sobre quase metade do mundo. Depois, a jahiliah os incitou à adoração da nação. O único objetivo da vida do muçulmano é alcançar a satisfação de Allah, e para isso ele dedica todos os seus esforços, sua devoção e o sacrifício de sua vida e de seus bens. Agora, porém, todos os seus esforços e sua devoção passaram a visar alcançar a satisfação do deus-nação. Para alcançar essa satisfação, nenhuma injustiça contra outra nação — nem mesmo uma agressão contra um país muçulmano irmão — é considerada de modo algum censurável. Para alcançar os interesses da nação, ocupar à força qualquer país, seja ele muçulmano ou não muçulmano, é considerado uma boa ação. Aqueles que não creem em Deus e na vida futura podem ser iniciados no credo do nacionalismo, podem saquear a vida, os bens, a honra e o pudor de outras nações em nome dos interesses nacionais, e suas ambições e desejos nacionais provocaram duas guerras mundiais. Como não possuem o sentimento de prestar contas diante de nenhum Ser Supremo e Poderoso, adotaram o interesse nacional como objetivo da vida. Mas é preciso dizer que conduzir os muçulmanos por esse caminho foi, sem dúvida, um mérito da jahiliah.
Democracia
A terceira arma mortal da jahiliah é a democracia, isto é, a soberania popular. O conceito de democracia foi apresentado para pôr fim ao domínio exclusivo dos reis e imperadores, detentores de poder absoluto, e de outros governantes autocráticos. Ou seja, o sistema de governo seria conduzido com base na opinião pública, levando em consideração as facilidades, as necessidades e as queixas do povo. É extremamente justo o princípio de que uma pessoa, uma família ou um grupo não pode ter o menor direito de impor seus caprichos e sua vontade sobre milhões e bilhões de pessoas, nem de utilizá-las para satisfazer seus próprios interesses e desejos. Mas, juntamente com esse aspecto negativo, havia um aspecto positivo: os habitantes de cada país e de cada região seriam eles próprios os governantes e os proprietários. À medida que a democracia avançou com base nesse aspecto positivo, assumiu a forma de que cada nação teria o direito absoluto de realizar seus desejos e sua vontade. Ninguém teria o poder de reprimir sua vontade e seus desejos coletivos ou os desejos da maioria. Seja no campo dos princípios morais, da civilização e da cultura, da vida social ou da política, o princípio correto em cada caso seria aquele determinado com base nas aspirações nacionais. O princípio rejeitado pela opinião pública seria falso e injusto. A lei dependeria da vontade da nação. Se quisesse, ela promulgaria qualquer lei; se quisesse, revogaria qualquer lei. O governo seria formado de acordo com a vontade da nação e seria obrigado a satisfazer essa vontade. O governo empregaria todas as suas forças para realizar a vontade da nação.
As três doutrinas mencionadas acima, descobertas pela jahiliah — o secularismo, isto é, a irreligião ou a rebeldia contra Deus; o nacionalismo; e a democracia — rejeitaram o senhorio, a autoridade e a obediência a Deus em todos os setores da vida e em todos os campos da sociedade e do Estado. Colocaram a nação e o povo no lugar de Deus.
A declaração inequívoca do Islã é que somente Allah detém a soberania (SOVEREIGNTY BELONGS TO ALLAH ALONE). E isso faz parte da fé e da aqidah islâmicas. Somente Allah é o Criador dos céus, da terra e de todos os seres vivos e animais, incluindo os seres humanos. Ele é o Senhor e Sustentador de todos. Ele é também o Rei da humanidade. Os seres humanos são Seus súditos. É extremamente natural e justo que, sobre a criação e os súditos, prevaleçam a lei, o governo e a autoridade do Criador e do Rei. Esse direito natural e justo de governar pela lei — chamado soberania — está sendo retirado de Allah e concedido ao povo. O primeiro e fundamental princípio da democracia é: SOVEREIGNTY BELONGS TO THE PEOPLE — a soberania pertence ao povo. Eles elaborarão leis para o país e a nação como bem entenderem e revogarão qualquer lei quando desejarem. Ao conceder ao povo o direito de elaborar leis, vê-se que a mesma coisa é declarada legal em uma ocasião e ilegal em outra. Certa vez, nos Estados Unidos, ao se observarem as consequências desastrosas do consumo de álcool, ele foi proibido por lei. Mas, sob a pressão do próprio povo, que detém o direito de elaborar leis, o consumo de álcool foi novamente declarado legal. O aborto ou a morte do feto é proibido em todas as religiões, e a consciência também o afirma. Porém, quando, em consequência da extrema decadência moral e da imoralidade sexual, a opinião pública exige o aborto, ele é declarado legal por lei. A homossexualidade (HOMO SEXUALITY) é um ato extremamente abominável e vergonhoso. Quando a doença da homossexualidade se espalhou entre o povo em proporções epidêmicas, esse ato pecaminoso e extremamente condenável foi declarado legal por lei. Se for concedida plena liberdade para elaborar leis ao ser humano, que nunca pode estar acima de erros e falhas e cujo conhecimento é extremamente limitado, a sociedade humana poderá ficar repleta de desordem, injustiça e pecaminosidade.
A verdadeira questão é que somente Allah Todo-Poderoso possui o conhecimento completo do que é bom e do que é mau, do que é benéfico e do que é prejudicial. Por isso, aquilo que Ele determinou para os seres humanos como bom e mau, halal e haram — a lei ou os princípios fundamentais da lei que Ele declarou — é infalível e constitui o único bem para a humanidade. Aquele que é o Criador e Administrador do universo está acima de todos os erros. Portanto, Sua lei também necessariamente é perfeita. Nenhum indivíduo, grupo ou parlamento de qualquer país tem o direito de alterar Sua lei ou Sua decisão sobre qualquer questão. Se alguém o fizer, isso será, por um lado, rebelião contra Allah e, por outro, trará apenas prejuízo à humanidade.
“Allah diz: Nenhum homem crente ou mulher crente tem o direito de, quando Allah e Seu Mensageiro tiverem decidido uma questão, exercer ele próprio qualquer autoridade para decidir sobre esse assunto” — (Surata Al-Ahzab: 36).
Como Criador, Senhor e Rei de toda a natureza e da humanidade, somente Allah Todo-Poderoso pode elaborar leis sólidas e benéficas para os seres humanos, e, por ordem Sua, Seu Mensageiro também podia elaborar leis. Mas a Jahiliyyah entregou de modo absoluto o direito de elaborar leis ao povo, isto é, às pessoas que o representam. Isso é contrário à aqidah e à crença islâmicas, contrário à consciência e contrário ao bem-estar da humanidade.
Em resposta às três perigosas doutrinas ou princípios fundamentais da Jahiliyyah discutidos acima, o Islã apresentou três outros princípios fundamentais. Certamente apelaremos à consciência humana para que examine e teste esses três princípios, a fim de verificar em quais três deles reside verdadeiramente o bem-estar da humanidade. Esses três princípios fundamentais do Islã são:
1. Em oposição ao secularismo, isto é, à ausência de religião, servidão e obediência a Allah em todos os aspectos da vida.
2. Em oposição ao culto à nação, a humanidade.
3. Em oposição à soberania do povo, a soberania de Allah e o califado do povo.
O sentido do primeiro princípio é que todos nós reconheceremos como nosso Senhor aquele Deus que é o Criador, Proprietário e Governante de nós e de todo o universo. Não viveremos independentes e despreocupados d’Ele; pelo contrário, viveremos em obediência a Ele e seguindo Sua orientação. Não apenas O adoraremos, mas também Lhe obedeceremos e seremos Seus servos. Não seguiremos Seus mandamentos e Sua orientação apenas em nossa vida individual; pelo contrário, permaneceremos obedientes a Ele em cada esfera e setor de nossa vida coletiva e social. Nossa sociedade, civilização e cultura, política, economia, sistema educacional, nossos sistemas de governo e justiça, nossa guerra e nossa paz, nossas relações internacionais — em suma, tudo estará dentro dos princípios e limites estabelecidos por Deus. Não seremos absolutamente livres para decidir as questões mundanas; pelo contrário, nossa liberdade estará limitada aos limites traçados pelos princípios determinados por Deus. Esses princípios e limites estarão, em todas as circunstâncias, fora de nossa competência.
O sentido do segundo princípio é que, no sistema de vida construído sobre a devoção a Deus, não haverá lugar para qualquer tipo de favoritismo ou egoísmo baseado nas diferenças de nação, linhagem, terra natal, raça ou língua. Em vez de um sistema nacional, é desejável que seja um sistema baseado em princípios, cujas portas estejam abertas a toda pessoa que aceite seus princípios. E qualquer pessoa que os aceite poderá participar dele, com base na igualdade de direitos e sem qualquer discriminação. Sob esse sistema, a cidadania (CITIZENSHIP) não ficará limitada às fronteiras geográficas de um Estado; pelo contrário, será universal, fundamentada nos princípios. Aqueles que não concordarem com esses princípios ou que, por alguma razão, não estiverem dispostos a aceitá-los não poderão ser oprimidos nem eliminados. Pelo contrário, viverão em segurança sob esse sistema, com direitos determinados, e sempre terão a oportunidade de, assim que reconhecerem a veracidade desses princípios e se convencerem deles, assumir autoridade nesse sistema segundo sua livre vontade, com igualdade de direitos.
Chamamos isso de princípio da humanidade, e ele não é contrário ao nacionalismo. Pelo contrário, queremos mantê-lo dentro de seus limites naturais e legítimos. Nele há lugar para o amor à nação, mas não para o favoritismo nacional. Também é permitido desejar o bem da nação, mas o egoísmo nacional é ilícito. A independência nacional é universalmente reconhecida, e tampouco se pode aceitar o domínio de uma nação sobre outra — domínio que divide a humanidade dentro de fronteiras intransponíveis. A exigência do princípio da humanidade é que, embora cada nação administre por si mesma seus assuntos internos e nenhuma nação, enquanto nação, esteja subordinada a outra, entre as nações que concordam com os princípios fundamentais da civilização humana haverá plena cooperação no trabalho pelo bem-estar e pelo progresso da humanidade. Em vez de competição (COMPETETION), haverá cooperação. Não haverá diferenças, hostilidade nem divergências mútuas. Haverá livre intercâmbio de civilização, cultura e meios e recursos da vida. E cada pessoa do mundo que viver sob esse sistema civilizado não será cidadã de uma única nação ou de um único país; será, antes, cidadã do mundo inteiro, de modo que possa dizer: como todos os países pertencem ao meu Deus, cada país também é meu. Atualmente prevalece uma situação indesejável: uma pessoa não pode ser leal a nenhuma nação ou país além de sua própria nação e de seu próprio país. Tampouco uma nação pode confiar nos membros de qualquer outra nação que não sejam os seus próprios compatriotas. Assim que atravessa as fronteiras de seu país, a pessoa sente que, em todos os lugares do mundo de Deus, há para ela apenas obstáculos. Em toda parte é vista com suspeita, como se fosse ladra ou bandida. Em toda parte há interrogatórios e revistas. Há restrições à fala e à circulação. Em lugar algum ela tem liberdade ou direitos. Em oposição a isso, queremos ver um sistema universal no qual, com base na unidade de princípios, se forme uma federação entre as nações, e dentro dessa federação vigorem a igualdade, a cidadania universal (COMMON CITIZENSHIP) e a livre circulação. Que nossos olhos possam contemplar novamente esta cena: algum ‘Ibn Battuta’ dos dias de hoje viajará da costa atlântica até a costa do Mar Negro de tal maneira que em nenhum lugar seja considerado estrangeiro (FOREIGNER).
Consideremos agora o terceiro princípio fundamental. Em vez da soberania do povo ou da monarquia (SOVEREIGNTY), queremos o califado do povo. Opomo-nos à monarquia individual ou à realeza (MONARCHY), ao poder governativo dos emires e nobres e ao monopólio dos direitos por determinadas classes tanto quanto se opõe a isso um democrata radical dos tempos modernos. Assim como os entusiásticos defensores da democracia ocidental, também reivindicamos, na vida social, direitos e oportunidades iguais para todos. Também sustentamos que a administração do governo e a escolha dos governantes devem basear-se na livre opinião do povo. Ao mesmo tempo, somos totalmente contrários a um sistema de vida em que não exista liberdade de reunião e associação, nem liberdade para realizar qualquer movimento ou luta; ou em que direitos especiais sejam reservados a algumas pessoas por nascimento, linhagem ou classe, enquanto obstáculos especiais sejam impostos às demais. Esta é a essência da democracia, e, nesse aspecto, não há divergência entre a nossa democracia e a democracia ocidental. Não há nela sequer um elemento que o Ocidente nos tenha ensinado. Já conhecíamos essa democracia naquela época e havíamos apresentado ao mundo exemplos luminosos dela, muitos séculos antes do surgimento da democracia moderna ocidental. Na realidade, o ponto em que divergimos dessa democracia recém-nascida é que ela apresenta o princípio da soberania absoluta ou monarquia do povo, princípio falso do ponto de vista da realidade e extremamente perigoso em suas consequências. Na realidade, o direito de soberania pertence unicamente Àquele que criou a humanidade, que fornece os meios para sua criação e seu desenvolvimento, por cuja vontade existe a humanidade e todo o universo criado, e pelas poderosas leis de Quem cada coisa da criação está vinculada. Sob a soberania real e verdadeira d’Ele, qualquer soberania que se reivindique — seja a soberania de um indivíduo ou de uma família, seja a de uma nação e de seu povo — não passa, em qualquer circunstância, de uma ilusão. O golpe dessa ilusão não atingirá o Soberano verdadeiro; atingirá, antes, o tolo que reivindica a soberania e desconhece a própria dignidade. À luz dessa verdade, o correto é reconhecer Deus como Deus e estabelecer o sistema de governo da vida humana sobre o conceito e a doutrina do califado. Esse califado deve, sem dúvida, ser democrático. O chefe de governo deve ser escolhido com base na livre opinião pública. Os membros do parlamento (shura) devem ser eleitos com base na opinião do povo. Toda a administração do governo deve funcionar segundo sua consulta. O povo deve ter pleno direito de criticar e questionar o governo. Mas tudo isso deve ocorrer com a consciência de que o país pertence a Deus. Não somos os proprietários; somos, antes, Seus representantes. Teremos de prestar contas de cada ação nossa diante do verdadeiro Proprietário. Os princípios morais, as determinações legais e os limites que Deus estabeleceu para a nossa vida deverão permanecer devidamente vigentes e firmes, cada qual em seu devido lugar. A orientação fundamental do nosso parlamento deve ser que o Alcorão de Deus e a Sunnah de Seu Mensageiro (que a paz esteja com ele) sejam as fontes de todas as leis. Nos assuntos sobre os quais Deus e Seu Mensageiro deram orientação e determinações legais, não se deve elaborar nenhuma lei nova; deve-se, sim, adotar procedimentos detalhados para pôr em prática Suas determinações. Nos assuntos sobre os quais não haja orientação deles, devemos considerar que nos foi concedida liberdade de ação. Portanto, somente nesses assuntos poderemos elaborar leis com base na consulta. Contudo, essas leis deverão necessariamente estar em harmonia com o espírito e a natureza da estrutura geral que a orientação fundamental de Deus estabeleceu para nós.
Depois disso, o que é mais necessário é que a responsabilidade pela condução e administração de todas essas atividades políticas e culturais seja confiada a pessoas que estejam sempre tementes a Deus, que Lhe obedeçam e desejem obter Sua satisfação em cada uma de suas ações. A vida delas testemunha que possuem uma fé firme na prestação de contas diante de Deus, quando comparecerem perante Ele.
Nas páginas anteriores, foram discutidas as três doutrinas e filosofias perigosas da jahiliyyah e, ao mesmo tempo, foram apresentadas a crença e a doutrina islâmicas, bem como sua perspectiva. Cabe a toda pessoa sensata perguntar: o edifício político, econômico e civilizacional-cultural erguido em quase todos os países do mundo com base nessas três doutrinas da jahiliyyah conseguiu estabelecer na vida humana felicidade e tranquilidade, segurança para a vida e os bens, justiça, paz e ordem? As guerras e conflitos entre pessoas e entre nações, as perdas irreparáveis de vidas e bens, a fome, a pobreza e a privação, as epidemias, as incuráveis doenças sexuais, a extrema decadência moral, o ódio e a hostilidade, a violência e a inveja — tudo isso, que constitui a causa fundamental da desordem na sociedade humana — cessou, ou há alguma possibilidade de que cesse? Se não cessou, então chegou o momento de decidir: continuaremos agarrados à doutrina da jahiliyyah, atraindo a nossa própria destruição, ou construiremos toda a nossa vida de acordo com a revelação enviada por Deus Todo-Poderoso, Criador do mundo, e estabeleceremos na Terra um ninho de paz, e, na vida futura, salvação e felicidade eterna?
A jahiliyyahnovaestratégia de guerra
Considero que ficou claro, na longa discussão intitulada «O conflito eterno entre o Islã e a Jahiliyyah», que, em todas as épocas, esse conflito e confronto ocorreu entre a Jahiliyyah e o Islã; isto é, entre as forças contrárias ao Islã e os seguidores e porta-estandartes do Islã. A razão pela qual o Islã e a Jahiliyyah são duas forças opostas é que a existência e a predominância de uma são intoleráveis para a outra. Mesmo empregando todas as suas forças, a Jahiliyyah não conseguiu eliminar o Islã, pois o Islã é a grande verdade e a grande beleza. A atração da mente humana pela verdade e pela beleza é inata e natural. Contudo, como o renascimento do Islã é intolerável para a Jahiliyyah, esta adotou uma nova estratégia ou tática de guerra e obteve, ainda que temporariamente, algum sucesso. Ela recorreu a essa tática em todas as épocas. A história do Islã e dos muçulmanos prova que, quando os muçulmanos permanecem unidos, agarrando-se firmemente à corda do Islã, a Jahiliyyah não consegue sequer aproximar-se deles. Por isso, a Jahiliyyah adotou a estratégia de atacar o Islã por meio dos próprios muçulmanos. Se a Jahiliyyah atacasse o Islã abertamente, usando o próprio nome, haveria a possibilidade de os muçulmanos se unirem para repelir esse ataque. Mas, se algum muçulmano, em nome do Islã, pretendesse prejudicar o Islã, uma fissura na unidade muçulmana seria inevitável. A Jahiliyyah criou secretamente o estímulo e a motivação por trás do fim do sistema do Califado Islâmico, enquanto os chamados muçulmanos atuaram abertamente. Depois que o Califado se transformou em monarquia, aqueles que detinham o poder governamental não puderam dedicar atenção à implantação da justiça islâmica, da equidade e da segurança das vidas e dos bens. Eles, contudo, procuraram manter viva a força vital do Islã e preservar intactos os seus ensinamentos fundamentais.
Em diversas épocas, os seguidores da Jahiliyyah seduziram alguns muçulmanos com dinheiro e cargos de prestígio e utilizaram-nos contra o Islã e os muçulmanos. Chegaram até a conseguir usar contra a comunidade muçulmana e o Islã algumas pessoas que se apresentavam como alim.
O toque de vitória da Jahiliyyah passou a ressoar por todo o mundo quando todos os países muçulmanos, com exceção de dois ou três, se submeteram às potências coloniais europeias. Nos países muçulmanos conquistados, os governantes introduziram uma visão de mundo e um sistema educacional seculares, criando entre os muçulmanos uma geração de políticos e intelectuais avessos ao Islã. Os governantes ocidentais abstiveram-se de interferir diretamente no que restava dos costumes e valores islâmicos. Depois de sua partida, os muçulmanos que os substituíram continuaram a apunhalar o Islã. O domínio colonial ocidental e o sistema educacional por ele introduzido produziram muitos Kemal Atatürk, coronéis Nasser, Ayub Khan e Sukarno, grandes e pequenos.
Esses políticos e intelectuais desorientados da nova geração dedicaram-se a reformar o Islã. Pessoas como o xeique Muhammad Abduh, Sir Sayyid Ahmad e Ghulam Ahmad Parvez fizeram campanha para remodelar o Islã segundo um novo molde, conciliando-o com as correntes de pensamento ocidentais. Mirza Ghulam Ahmad chegou a inventar um novo Islã. Contudo, abandonando os preceitos fundamentais do Islã, as reuniões mistas de homens e mulheres, a coeducação, a música e a dança, o consumo de álcool e o movimento pela liberdade das mulheres atraíram e influenciaram os muçulmanos modernos e instruídos. Sempre que surgia em algum lugar a possibilidade de um renascimento islâmico, ou quando um movimento islâmico estava em curso, os muçulmanos pertencentes à classe acima mencionada eram os primeiros a criar obstáculos. Não apenas isso: empregavam a força, adotavam táticas fascistas e chegavam a fazer todas as tentativas para eliminar o movimento islâmico, inclusive por meio de assassinatos. É por isso que, em nenhum lugar do mundo, o movimento pela implantação do verdadeiro sistema de vida islâmico consegue alcançar o sucesso.
A implantação do sistema de vida islâmico integral em todos os níveis e áreas da vida é o que mais incomoda a Jahiliyyah, isto é, Iblis. No entanto, Iblis não se opõe a algumas formas de louvor e adoração a Deus em âmbitos muito restritos e casos específicos da vida, como a oração, o jejum, a recitação da shahada e algumas esmolas. Nos campos mais amplos da vida — na sociedade, no Estado e no sistema educacional, na civilização e na cultura, na economia e na política —, considera suficiente que se aceite o seu domínio. Assim como Iblis não está disposto a tolerar que o Islã seja implantado em algum lugar como um sistema de vida completo, tampouco estão dispostos a tolerá-lo os porta-estandartes da civilização e da cultura ocidentais, seus servos absolutamente obedientes. Contudo, o aparente sucesso da Jahiliyyah consiste em ter conseguido colocar alguns dos chamados muçulmanos na primeira linha da luta aberta contra o Islã. As forças estatais contrárias ao Islã fornecem apoio financeiro, meios, recursos, motivação e coragem a partir dos bastidores. Apesar de tudo isso, surgiu uma forte possibilidade de renascimento islâmico. Em toda parte, pessoas instruídas e reflexivas estão percebendo esta verdade: somente o Islã contém a solução para todos os problemas da humanidade atormentada por problemas. Fora do Islã, não há outro caminho para o bem-estar integral e a libertação da humanidade.
É necessário também compreender esta verdade: aquilo que se aceita como o único remédio para uma doença deve ser necessariamente puro e livre de adulteração. Um medicamento adulterado não alivia a doença, mesmo quando aplicado repetidamente; pelo contrário, torna-se causa do agravamento da doença. Portanto, deve-se escolher o Islã puro e sem adulteração, transmitido e estabelecido pelo último Profeta. Não se pode aceitar a menor alteração ou acréscimo em seus ensinamentos fundamentais. Nesse assunto, é necessário seguir e imitar plenamente o Profeta Universal, Muhammad Mustafa (que a paz esteja com ele).
O interessante é que a Jahiliyyah ou os opositores do Islã não têm qualquer objeção ao Islã adulterado. Ignorar a explicação do tawhid presente no Alcorão e nos hadiths, praticar atos de shirk como a adoração de túmulos, considerar os seres humanos detentores de soberania e poder, imitar a civilização materialista ocidental, tolerar juros, suborno, adultério, injustiça e iniquidade, e revestir tudo isso com o manto do Islã: é isso que os opositores do Islã desejam. Dividir a humanidade em vários grupos e subgrupos com base no regionalismo, no favoritismo, na parcialidade, na língua, na raça, na tribo e na nobreza é obra da Jahiliyyah. É justamente a tentativa de construir uma sociedade com base na crença no tawhid, na risalah e na vida futura que provoca a oposição extrema das forças contrárias ao Islã. A Jahiliyyah chama isso de fundamentalismo e declarou guerra contra ele. A essa guerra declararam sua solidariedade os governantes muçulmanos e os grupos favorecidos por eles que consideram o Islã puro contrário aos seus interesses. Os verdadeiros soldados do Islã também estão no campo de batalha e entregam suas vidas sem hesitação. Essa guerra não é nova, pois o conflito e o confronto entre o Islã e a Jahiliyyah também não são novos. Esse conflito e confronto se estendeu por longos períodos, de Karbala a Balakot. Continuou depois de Balakot e continuará até que se inicie a vitória completa do Islã puro e autêntico.
O necessário para a vitória final
A primeira coisa necessária é estabelecer, unicamente com o propósito de alcançar a satisfação de Allah, a unidade entre aqueles que desejam ver o renascimento do Islã e querem que, sobre a terra criada por Allah e na sociedade humana, somente a lei e o governo completos de Allah sejam estabelecidos. A fonte da unidade será o Alcorão e a Sunnah, e a relação de fraternidade mútua entre os Companheiros será o ideal e a fonte de inspiração dessa unidade. Que a Jahiliyyah não consiga manter os islamistas divididos em centenas de facções e dispersos sob denominações como Hanafi-Ahl al-Hadith, Shafi’i-Hanbali, Deobandi-Barelvi e outras.
Em segundo lugar, o Islã e seus benefícios devem ser apresentados claramente a pessoas de todas as classes, numa linguagem cativante. Deve-se remover a concepção equivocada sobre o Islã criada pelo moderno sistema educacional ateísta. É necessário promover e expandir amplamente o ensino islâmico.
Em terceiro lugar, deve-se conduzir uma luta abrangente e unificada para remover os regimes despóticos que constituem os principais obstáculos à implantação do Islã. Nesse assunto, deve-se seguir precisamente o programa dos profetas e mensageiros.
Por fim, como essa tarefa de modo algum é possível sem a ajuda de Allah, é necessário estabelecer com Ele uma relação extremamente profunda e estreita. Deve-se cultivar a disposição de dedicar toda a vida à busca de Sua satisfação. Foi assim que, sob a liderança do Profeta universal, foram lançadas em Medina as bases de um Estado islâmico de bem-estar. Se o programa e os métodos então adotados forem seguidos ainda hoje, é perfeitamente natural que se obtenha o mesmo resultado benéfico.
Conclusão
Nesta obra, tentou-se expor a verdade de que o objetivo da Jahiliyyah é eliminar o Islã, distorcê-lo ou estabelecer sua própria predominância sobre ele. Ela jamais se desviou desse objetivo. Por isso, observa-se que, desde o início da humanidade, em todas as épocas, os ataques da Jahiliyyah contra o Islã foram mantidos. Pode-se dizer que toda a história da humanidade é a história dos conflitos, confrontos, vitórias e derrotas entre o Islã e a Jahiliyyah. Em certos períodos, o Islã foi vitorioso; em outros, a Jahiliyyah.
Agora a questão é: o Islã pode ser derrotado? Certamente não. O Islã jamais é algo que possa ser derrotado, aniquilado ou eliminado. O Islã é um sistema de vida completo, eternamente verdadeiro, belo e benéfico, concedido pelo Criador do universo, Allah, à humanidade. Aqueles que creem nele são chamados muçulmanos. Quando o muçulmano segue plenamente as normas islâmicas em cada campo e dimensão da vida, fazendo com que o ideal islâmico se reflita em sua mente, em seu pensamento, em seu gosto e capacidade de reflexão, em seu caráter e comportamento, em sua civilização e cultura; quando as pessoas, em todos os níveis, passam a seguir os preceitos do Islã e se forma uma estrutura social pura, justa e disciplinada, isso é chamado de vitória dos muçulmanos e, portanto, do Islã. Em contrapartida, quando os muçulmanos esquecem ou abandonam o ideal e as normas islâmicas, ou quando o povo de um país ou região rejeita o Islã, não ocorre a derrota do Islã, da verdade e da beleza; derrotados são os muçulmanos que esqueceram o Islã ou as pessoas que o rejeitaram. Agora a questão é: apesar de os laços e a estrutura do Islã serem tão fortes, como a Jahiliyyah consegue penetrar nele? A obra ofereceu algumas indicações a esse respeito. A Jahiliyyah está sempre à espreita, aguardando uma oportunidade para atacar o Islã. Assim, quando encontra uma oportunidade, mesmo durante a vitória do Islã, penetra em seu âmbito: às vezes como costumes e cerimônias aparentemente inocentes e inofensivos, às vezes assumindo a forma do Islã e, às vezes, suscitando uma devoção e veneração excessivas por alguma personalidade. Depois, gradualmente, amplia sua influência no coração das pessoas e começa a desviá-las pouco a pouco do pensamento e da consciência fundamentais do Islã, de seus princípios e do caminho verdadeiro e correto (Sirat al-Mustaqim). Por fim, afastando-as para muito longe do Islã, a Jahiliyyah proclama seu grito de vitória. Foi assim que, no fim do Califado Bem-Guiado, a Jahiliyyah começou a penetrar no âmbito do Islã.
Mais tarde, viu-se a Jahiliyyah penetrar assim, sem que ninguém percebesse, no corpo do Islã, como uma ferida purulenta (CÂNCER). No campo do Tasawwuf, os sufis e ascetas, com boas intenções e com o propósito de alcançar o amor de Deus, adotaram algumas práticas adicionais (amal) que, embora não fossem praticadas pelo Nobre Profeta (s.a.) nem pelos Companheiros (r.a.), não eram consideradas censuráveis do ponto de vista islâmico. Contudo, com o passar do tempo, elas foram vítimas de distorção e assumiram a forma de uma ferida purulenta na estrutura do corpo do Islã.
O comandante da primeira campanha jihadista deste subcontinente tornou-se habitante do Paraíso ao mergulhar no mar da bem-aventurança do martírio em Balakot, enquanto lutava para eliminar toda a imundície da jahiliyyah e estabelecer uma sociedade e um Estado islâmicos verdadeiros e puros.
Convém mencionar que o Islã ensina as pessoas a amarem. Uma vez que o próprio Criador, Allah Todo-Poderoso, ama os seres humanos que criou, também os seres humanos devem amar uns aos outros. Contudo, foi estabelecido um limite para o amor e o respeito das pessoas umas pelas outras, e esse limite jamais pode ser transgredido. O objeto do amor supremo é o próprio Allah Todo-Poderoso. O amor que as pessoas dedicam a Ele deve reger todos os demais amores. É preciso amar Allah mais do que a própria vida e os próprios bens, e amar todos os demais somente por amor a Ele. Depois do amor a Allah, o objeto do amor supremo é o amado Profeta de Allah, Muhammad Mustafa, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O amor a Allah deve ser ilimitado. Entretanto, foi estabelecido um limite para o amor ao Profeta: ele não deve transgredir os limites a ponto de atribuir-lhe os atributos de Allah, isto é, elevá-lo à condição de uluhiyyah, ou divindade. As comunidades anteriores desviaram-se completamente por cometerem o erro de ultrapassar esse limite. Além disso, nenhum ser humano que não seja profeta é digno de receber um amor semelhante ao dedicado ao Profeta. Do mesmo modo, o amor dos filhos por seus pais não pode ser concedido a outra pessoa. Porém, os limites do amor pelas demais pessoas serão determinados pela pedra de toque do amor a Allah.
Quando o amor e o respeito por uma personalidade ultrapassam os limites, entram no âmbito do culto à personalidade, precisamente o que a jahiliyyah deseja. É preciso conceder ao comandante de uma campanha islâmica o respeito, o amor e a consideração que lhe são devidos. Mas o amor excessivo por ele é contrário aos princípios islâmicos e às crenças fundamentais. Sem dúvida, o jihad ou a campanha islâmica é conduzido sob a liderança de um emir ou líder. Contudo, o respeito e o amor excessivos pelo líder podem prejudicar a campanha, algo que de modo algum é desejável.
Embora o comandante da primeira campanha jihadista do subcontinente, Hazrat Saiyid Ahmad Barelvi, e todos os seus companheiros mujahidin seguissem o tasawwuf, seu comportamento no campo de batalha e nos acampamentos militares trazia a marca do comportamento dos Companheiros do Profeta. Contudo, embora fossem poucos entre os mujahidin, havia alguns cuja devoção e reverência pelo emir eram excessivas. Por isso, não conseguiram acreditar no martírio do senhor Saiyid. Acreditavam que ele permanecia oculto dos olhos das pessoas e que certamente se revelaria em algum momento. Aqueles que mantiveram esse tipo de ideia e crença afastaram-se do jihad.
Alguns dos veneráveis sufis do passado introduziram em suas cortes a prática do ‘sama’. ‘Sama’ é uma palavra árabe que significa ouvir, ou algo digno de ser ouvido e contemplado. Com base no tawhid e na risalah, compunham-se poemas de louvor a Allah e ao Seu Mensageiro, os quais eram cantados com voz melodiosa nas cortes dos sufis. Nas cortes onde eram cantados, não havia meninos, meninas ou mulheres. Nenhum instrumento musical era utilizado. Em um ambiente de extrema solenidade, o ‘sama’, impregnado do êxtase do amor a Allah, era cantado com voz doce, e os ouvintes ficavam arrebatados pela emoção. Embora esse ‘sama’ não fosse aparentemente nem em seu significado contrário ao Islã, muitos sufis não puderam aceitá-lo porque não fora aprovado nem instituído pelo último Profeta de Allah. Parece que a forma corrompida do sama é a atual ‘qawwali’.
A qawwali é cantada ao som de instrumentos musicais, em reuniões mistas de homens e mulheres. Essas sessões de qawwali duram a noite inteira. O cantor de qawwali, ou qawwal, é um artista profissional. Tanto os qawwals quanto os ouvintes têm pouca relação com o Islã. Até os limites islâmicos são transgredidos na recepção dos convidados.
Muitos costumes e cerimônias desse tipo vestem a roupagem do Islã e passam a ser incluídos entre os costumes e cerimônias islâmicos. Tudo isso são práticas da jahiliyyah. Para manter o Islã e a cultura islâmica intactos e livres de corrupção, é preciso construir uma muralha sólida entre o Islã e a jahiliyyah e manter sempre um olhar vigilante e consciente, para que a jahiliyyah não possa penetrar nem pela menor fresta da muralha.
Incluem-se entre as práticas da jahiliyyah: o regionalismo; os costumes contrários ao Islã seguidos pelos antepassados; interpretar arbitrariamente as ordens de Allah e de Seu Mensageiro; entristecer-se ao ver a vida feliz e próspera dos não muçulmanos e considerar o Islã um obstáculo a isso; o culto aos túmulos; fazer votos e oferecer oferendas em nome dos túmulos; manter em casa, com reverência, a fotografia de um pir ou de qualquer pessoa; colocar guirlandas em túmulos ou em pilares de tijolo e pedra; dar nomes não islâmicos; considerar algum lugar tão venerável quanto a Casa de Allah; depender de qualquer pessoa para obter a salvação na vida futura, e práticas semelhantes. Não é necessário explicar nenhuma delas.
Os muçulmanos do subcontinente
Com exceção de um breve intervalo, o domínio muçulmano perdurou neste subcontinente durante oitocentos ou novecentos anos, desde a conquista do Sind por Muhammad ibn Qasim, em 711 d.C., até o pleno estabelecimento do domínio britânico, em 1865. Todos os que chegaram a este subcontinente como conquistadores eram forasteiros. Contudo, não vieram com a intenção de retornar a este subcontinente, nem movidos pela obsessão de expandir algum imperialismo, tampouco para estabelecer um governo colonial. Vieram para instaurar neste país um sistema de governo belo e justo, e para garantir plena paz, ordem e segurança. As numerosas pessoas que vieram com eles — militares, comerciantes, poetas, artistas, escritores e eruditos — todas amaram este país, passaram a considerá-lo sua própria terra e deram ali o último suspiro. Seus descendentes também seguiram seus passos. Embora fossem todos muçulmanos e pertencessem à classe governante, jamais tentaram converter à força os habitantes não muçulmanos deste país. Pelo contrário, viveram lado a lado durante centenas de anos, estabelecendo relações cordiais entre si. Mesmo depois de viverem juntos por um longo período, as comunidades muçulmana e não muçulmana não perderam suas respectivas identidades nacionais nem se fundiram numa só.
Mas certamente exerceram influência uns sobre os outros. Muitos não possuíam o conhecimento e a formação islâmicos necessários para viver uma vida plenamente islâmica, nem tinham qualquer programa para formar uma mentalidade, uma mente e um caráter islâmicos. Assim, a influência cultural local atuou sobre muitos deles, e numerosos costumes e ritos pagãos, revestidos de uma aparência islâmica, passaram a ser incluídos na cultura muçulmana. Desse modo, a Jahiliyyah conseguiu, ainda que parcialmente, ampliar seu domínio sobre o corpo da sociedade muçulmana. Como resultado, muitos muçulmanos passaram a viver, durante vários séculos, uma vida meio muçulmana e meio hindu.
A influência do domínio europeu nos países muçulmanos
A partir do século XVIII, por diversos motivos, o domínio colonial europeu começou a se estabelecer sobre os países muçulmanos. A Jahiliyyah estabeleceu sua supremacia sobre os muçulmanos, apoiada pelo poder estatal. O pensamento europeu, sua visão da vida, seus valores e sua filosofia de vida passaram a influenciar a mente e o pensamento dos muçulmanos. O sistema educacional instituído pelos governantes vitoriosos continuou a afastar os muçulmanos derrotados do Islam. Os fundamentos dessa educação eram o materialismo, o ateísmo, a irreligião (SECULARISMO) e o nacionalismo. Foi sobre esses fundamentos que a civilização ocidental se ergueu. A ciência e a tecnologia fortaleceram essa civilização.
A ciência e a tecnologia podem ser utilizadas para qualquer finalidade, boa ou má. Se os muçulmanos do mundo tivessem se dedicado à ciência e à tecnologia permanecendo firmes no ideal islâmico, poderiam tê-las colocado a serviço do bem da humanidade. Mas afastaram-se também do Islam e não deram atenção ao cultivo da ciência e da tecnologia. Aproveitando-se dessa dupla fraqueza, as potências ocidentais portadoras da bandeira da Jahiliyyah tornaram-se seus senhores políticos, econômicos e culturais. Os muçulmanos foram vítimas de um extremo complexo de inferioridade. Os muçulmanos passaram a aceitar a civilização ocidental, sua educação e sua filosofia política (secularismo) como a chave do progresso e do desenvolvimento.
Após a Segunda Guerra Mundial, os países muçulmanos começaram, um após outro, a romper as correntes da escravidão e a conquistar a independência. Infelizmente, depois de conquistarem a independência, o poder governamental caiu nas mãos daqueles que consideravam o Islam um obstáculo ao progresso e ao desenvolvimento. Assim, o domínio da Jahiliyyah foi estabelecido com toda a sua força. Contudo, as populações muçulmanas de nenhum desses países puderam aceitar tal domínio. Com exceção da classe governante, escrava mental da civilização ocidental, a esmagadora maioria da população desses países reivindica um modo de vida islâmico. Por isso, em quase toda parte, o conflito e o confronto entre governantes e governados continuam, e seu fim ainda não chegou.
Felizmente, em toda parte, entre os muçulmanos e, especialmente, entre a juventude instruída, começou uma nova onda de inspiração islâmica. Também está em curso um movimento para estabelecer o Islam como um sistema de vida completo. A onda juvenil da inspiração islâmica e jihadista da juventude fez a força militar russa afundar nas águas da derrota no Afeganistão. Na luta de libertação da Palestina, a “Intifada” ergueu a bandeira do jihad. Os muçulmanos do Caxemira, sedentos de liberdade, também lutam para se libertar de toda a má governança e opressão do Estado indiano. A Jahiliyyah não permanece inativa. Para frustrar essas três lutas, Saddam Hussein, do Iraque, como marionete da Índia, da Rússia e da América, ocupou à força o Estado muçulmano independente do Kuwait; por um lado, destruiu a unidade muçulmana mundial e, por outro, apunhalou pelas costas os movimentos de libertação da Palestina, do Afeganistão e do Caxemira. No conflito eterno entre o Islam e a Jahiliyyah, o chefe de Estado de um país muçulmano desempenhou o papel de marionete da Jahiliyyah. Este é um dos acontecimentos mais vergonhosos da história do Islam.
É motivo de reflexão: como pode o exército muçulmano de um país muçulmano ocupar à força outro Estado muçulmano inocente? Como pode matar inúmeros cidadãos muçulmanos inocentes e saquear suas riquezas? Como pode cometer atrocidades contra mulheres muçulmanas recatadas e devotas, roubando-lhes seus bens inestimáveis, sua honra e sua castidade? Embora se autodenominem muçulmanos, será que essas feras humanas têm alguma fé em Deus e na Outra Vida? Esta é precisamente uma vitória histórica da jahiliyyah, isto é, da incredulidade, sobre os muçulmanos. Será que os seguidores do Islã poderão aprender com isso? Pois os ataques da jahiliyyah contra o Islã continuarão dessa maneira.
A luz da esperança
No subcontinente, no século passado, o Movimento dos Mujahideen de Sayyid Ahmad Shahid Barelvi (que Allah tenha misericórdia dele) infundiu nos muçulmanos um irresistível espírito de jihad. A perseguição e a opressão desumanas e horripilantes dos governantes britânicos não conseguiram extirpar o espírito de jihad dos corações dos muçulmanos. Cem anos após o martírio de Sayyid Ahmad Shahid em Balakot, em 1831, teve início novamente a jihad fi sabilillah, isto é, o movimento islâmico. Em 1941, esse movimento transformou-se numa poderosa organização chamada Jamaat-e-Islami. O fundador e arquiteto desse movimento e organização foi um dos mais destacados pensadores islâmicos e sábios religiosos do mundo contemporâneo, Maulana Sayyid Abul A’la Maududi (que Allah tenha misericórdia dele). Treze anos antes, em 1928, teve início no Egito um movimento islâmico chamado Ikhwan al-Muslimun. Seu fundador foi o xeique Hasan al-Banna Shahid (que Allah tenha misericórdia dele). Atualmente, estas duas são as únicas organizações poderosas, disciplinadas e coesas do mundo que, em sentido verdadeiro, prosseguem o movimento para estabelecer uma sociedade e um Estado islâmicos.
Os governantes egípcios contrários ao Islã não se limitaram a enforcar muitos líderes e membros da Ikhwan al-Muslimun, a obrigá-los a morrer lentamente sob tortura física e mental dentro das prisões e a forçar centenas de líderes e membros a deixar o país; pelo contrário, declararam a organização ilegal — proibição que ainda está em vigor.
Por outro lado, a Jamaat-e-Islami não limitou suas atividades ao Paquistão, à Índia, a Bangladesh, ao Sri Lanka e a Jammu e Caxemira. Muitos de seus obreiros responsáveis espalharam-se por todo o mundo e, em toda parte, conduzem o movimento islâmico sob diferentes nomes.
É motivo de esperança que, atualmente, não exista país algum no mundo onde o movimento islâmico e alguma organização islâmica não estejam atuando de uma forma ou sob algum nome. Obreiros formados pela Ikhwan al-Muslimun e pela Jamaat-e-Islami lideram esses movimentos. Um vasto acervo de literatura islâmica foi produzido nas principais línguas do mundo, e em toda parte o conhecimento islâmico está sendo transmitido a todos, muçulmanos e não muçulmanos indistintamente.
Jovens instruídos e pessoas eruditas de várias religiões, especialmente do cristianismo, do judaísmo e do hinduísmo, estão sendo atraídos pelo Islã e buscando abrigo sob sua sombra refrescante.
Pode-se dizer que o renascimento do Islã começou em toda parte do mundo. Também é perceptível uma mudança na sociedade materialista do Ocidente. A busca desenfreada pelo prazer, o mergulho dia e noite no mar do álcool e do amor pelas mulheres, e a imoralidade sexual — nada disso traz satisfação, alegria ou paz de espírito. O desejo insaciável por prazeres torna a pessoa impaciente e inquieta em busca de prazeres cada vez maiores. Embriagada pelo prazer, ela esquece a meta e o propósito da vida. Em vez de apegar-se a algo permanente e estável, agarra-se ao que é efêmero. Por fim, sua vida se torna, para ela própria, um enorme fardo. A chama ardente da antiga luxúria pelo prazer transforma-se na chama ardente da desesperança e das falsas esperanças. Até a estrutura familiar destinada a proporcionar felicidade e paz à vida se desfaz completamente. Então, em busca de paz mental, ela corre de um lado para outro. Depois de muitas experiências e análises, sua consciência desperta escolhe o Islã como último refúgio. Ela compreende que crer no Islã significa agarrar-se a uma corda firme que jamais poderá ser rompida, na qual não há fracasso nem desespero, mas pleno sucesso e solução para todos os problemas da vida. A declaração inequívoca do Islã é esta: com a morte, tudo não chega ao fim; ao contrário, abre-se a porta para uma nova vida de alegria e felicidade eternas, ou de sofrimento e tormento.
Aqueles em cujas mentes estão arraigados o ódio acumulado há muito tempo contra o Islã e as concepções errôneas a seu respeito não têm senão motivos para o desespero. Mas aqueles que, com espírito imparcial e saudável, fazem algum esforço para conhecer o Islã acabam atraídos por seus ideais e ensinamentos universais. Eles não hesitam em aceitar o Islã como um sistema de vida dinâmico, eterno e plenamente belo. Este é um sinal claro do brilhante futuro do Islã.
O fato de uma grande superpotência como a Rússia ter sido recentemente obrigada a bater em retirada após sofrer uma derrota esmagadora nas mãos de um pequeno grupo de mujahidins no Afeganistão proclama a vitória do próprio Islã. Sob o violento impacto das ondas da consciência e da inspiração islâmicas, a muralha de ferro da Rússia está se enfraquecendo. O renascimento do Islã é hoje o que mais amedronta a Rússia.
O trabalho do movimento islâmico começou em quase todas as cidades dos países ocidentais. Até mesmo na Espanha, de onde os muçulmanos foram outrora eliminados, começou o renascimento do Islã. Nos países europeus, bem como na América, no Canadá, na Austrália, no Japão, em Singapura, na Coreia do Sul, nas Filipinas, na Tailândia e em Taiwan, organizações islâmicas vêm atuando há algum tempo. Recentemente, organizações islâmicas foram devidamente estabelecidas no México, na Costa Rica, no Equador, em El Salvador, na Nicarágua e nas ilhas do Caribe. Centros islâmicos estão sendo estabelecidos em todos esses lugares, e o trabalho da da’wa islâmica está sendo amplamente disseminado. Alhamdulillah. Os responsáveis pela iniciativa desses movimentos são os membros da Irmandade e da Jamaat-e-Islami de vários países. Em toda parte, esses movimentos carregam a indicação do brilhante futuro do Islã.
A jahiliyyah está tentando impedir o avanço do Islã com todas as suas forças e armas. Agora, a vitória do Islã depende da firmeza dos muçulmanos em relação ao Islã; da luta incessante com unidade, sacrifício, oferenda e perseverança. Nenhuma vitória é possível sem a ajuda de Allah, o Altíssimo. Portanto, se conseguirmos alcançar Sua satisfação por meio de plena obediência a cada momento, Sua ajuda será certamente assegurada e a vitória estará muito próxima.
Que Allah, o Altíssimo, desperte a fé e a consciência dos muçulmanos, proteja sua fé e lhes conceda tawfiq para repelir os contra-ataques da jahiliyyah, para que o Islã possa ser restabelecido no mundo como uma força vitoriosa.
।।Fim।।